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Deus ajuda?

- Revista Exame 09/08/12 11:50

17/01/2002 00:00

Deus ajuda?
O tema da espiritualidade está tomando conta do mundo corporativo. A questão é: por quê?
E como ele pode transformar as empresas?
David Cohen, de
O mundo corporativo sempre foi conhecido -- fosse isso certo ou errado -- como o reino da racionalidade, da frieza, dos
números e resultados. Desde meados da década passada, porém, mais e mais executivos andam falando de coisas
como "alma da empresa", "missão social", "ecologia dos negócios". É uma mudança e tanto. Ninguém desdenha, é
claro, a mão invisível do mercado. Mas muita gente acha que mais forte que ela deve ser a mão de Deus. Veja alguns
exemplos:

A primeira coisa que o empresário catarinense Albertino Colombo, o Beto Colombo, faz ao chegar à sua fábrica é benzê-
la, percorrendo-a de maneira que o caminho forme uma cruz. Esse ritual é repetido todos os dias, por volta das 9 horas.
Não à toa, sua empresa chama-se Anjo. Em 1986, mesmo com pouquíssimo dinheiro para iniciar seu negócio, ele
comprou a marca, que já estava registrada. A Anjo Química é hoje uma fabricante de solventes e revestimentos
químicos com sede em Criciúma, no sul de Santa Catarina. Colombo teve a idéia de fundá-la quando era balconista de
uma loja de tintas na cidade. Desde o início, a inspiração foi Cristo. "Sou técnico em contabilidade, não entendia nada de
administração", diz. "Então fui buscar os exemplos na vida de Jesus." (Hoje, Colombo tem MBA da Fundação Getúlio
Vargas e curso de administração da Escola Superior de Guerra, mas seu modelo de gestão continua sendo o das
pastorais da Igreja Católica. Sua empresa não tem diretores, mas coordenadores, um dos dois níveis hierárquicos
existentes.)

Ao entrar na fábrica, já dá para sentir algo de diferente: ouve-se música sacra ou clássica nos
corredores. Mas essa não é a única peculiaridade da Anjo. Eis algumas outras:

Cerca de 40% dos 170 funcionários têm nível superior -- a maioria formou-se trabalhando, com metade do curso pago
pela empresa.

Antes de reuniões importantes, coordenadores e gerentes repetem a Oração ao Espírito Santo, pedindo inspiração e
entendimento. Também há correntes de oração quando algum empregado tem um familiar doente.

A filosofia da empresa é de fraternidade (um exemplo foi dado no ano passado, quando colegas fizeram um mutirão para
construir a casa de uma funcionária).

A orientadora profissional Stela Firmino de Oliveira é ex-professora de teologia.

Alguns dos empregados foram contratados em bares, entre alcoólatras e drogados, para ser recuperados com o
trabalho. "Em 15 anos, já recuperamos mais de dez", afirma Colombo.

"Assumi a empresa como um apostolado", diz Colombo. "É uma maneira de construir o reino de Deus."
O empresário leva a sério a evangelização. Ele costuma dar palestras sobre sua gestão na Anjo,
cobrando 4 mil reais, que deposita num fundo para pagar a universidade de pessoas carentes. Algumas
das práticas cristãs adotadas por Colombo são de causar inveja: como Jesus, que passou 40 dias no
deserto para encontrar a si mesmo, costuma tirar 40 dias de férias por ano. Outro hábito que cultiva
religiosamente é tomar um cálice de vinho na hora do almoço. Mas, em geral, seguir os preceitos

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religiosos não é tarefa tão fácil. Uma das frases de Colombo, que se pode ver em cartazes espalhados
pela empresa, é: "Aqui fabricamos bons produtos, sem explorar as pessoas. Com lucro, se possível.
Com prejuízo, se necessário. Mas sempre bons produtos, sem explorar as pessoas".

Não tem sido necessário produzir com prejuízo. O faturamento da Anjo passou de 17,7 milhões de reais,
em 1998, para 40,8 milhões, em 2000, e ultrapassou os 75 milhões de reais no ano passado. "É
possível ser bem-sucedido nos negócios com espírito cristão", diz Colombo, que se diz adepto da
Teologia da Libertação. "Praticando uma gestão cristã, tenho pessoas mais comprometidas e posso
almejar ser a maior empresa de tintas do país."

No Laboratório Canonne, fabricante das pastilhas Valda, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro, costuma
circular um sujeito alto, de pele bronzeada, sempre vestido de branco, com um brinco na orelha e o cabelo grisalho
preso num rabo-de-cavalo. É o presidente da empresa no Brasil, o francês Hugues Ferté, que se considera um carioca
da gema. Há 20 anos, quando tinha 40, seu estilo de vida era frenético como o de um típico executivo estressado. Mas
Ferté não estava feliz e começou a buscar respostas para suas inquietudes no budismo. Foi a partir daí, segundo ele,
que tudo mudou. A primeira decisão foi construir uma sede nova para o Canonne. "Precisava de um lugar onde as
pessoas se sentissem bem", diz. Na nova sede, há uma fonte de água logo depois do portão e o prédio é coberto por
uma densa hera que atrai bandos de passarinhos. A iluminação é toda natural e o teto do depósito de cargas foi
transformado em um jardim suspenso. Nesse ambiente, Ferté costuma reunir-se com os gerentes antes do almoço para
meditar durante 20 minutos. Ele acredita que o clima de tranqüilidade que criou na empresa tenha ajudado a melhorar o
desempenho. Em 1985, o faturamento do Canonne era de 2 milhões de dólares no país. Hoje, está na casa dos 20
milhões. "É o clima de harmonia entre as pessoas, que tem a ver com a espiritualidade, que faz os negócios andar",
afirma.

Todos os dias, às 13h30, dez funcionários judeus se reúnem na sala de Clement Aboulafia, sócio-fundador da Ezconet,
uma empresa que vende telefones celulares e aparelhos eletroeletrônicos pela internet, sediada em São Paulo. Dez é o
número mínimo de judeus para uma reza em grupo, segundo a tradição. Aboulafia, nascido no Egito e trazido pelos pais
ao Brasil quando tinha 2 anos de idade, é físico formado pela Sorbonne, em Paris. Nunca tinha sido um judeu praticante,
mas há 12 anos, quando seu pai morreu, teve de fazer a reza em homenagem a ele e isso o fez se aproximar da
religião. Passou a acreditar que a Torá (o Velho Testamento) tinha resposta para tudo. "O homem tem de vir ao mundo
com um manual. A Torá é o nosso manual", diz.

Em 1999, Aboulafia era dono de uma revendedora tradicional de celulares, a Ezcony, e enfrentava
problemas pela desvalorização do real. Angustiado, ele acessou o site de um rabino que propunha um
exercício: considerar uma situação ruim e imaginar que ela poderia ficar 100 vezes pior. "Foi a partir
desse exercício que concebi a nova empresa", diz. "Vi que a situação que me fazia refém -- a entrada da
internet no negócio de distribuição de celulares -- poderia ser uma grande oportunidade."

Foi mesmo. A Ezconet faturou 6 milhões de reais em 2001, e a previsão dos donos é que as vendas
superem os 15 milhões neste ano. Aboulafia crê que a mão de Deus esteja por trás de seu sucesso.
"Faço tudo que está ao meu alcance, mas, se determinado contrato comercial não for assinado, atribuo
à vontade de Deus", afirma. "Ele não quis, e você pode ter certeza de que era o melhor a ser feito." O
melhor nem sempre é o melhor para a empresa. "O mais importante não é o negócio, e sim saber que
todo trabalho que você faz é para elevar sua espiritualidade." Ele afirma que sua maior missão dentro da
Ezconet, hoje, é convencer o sócio a ser um judeu praticante.

O empresário paulista Ali Hussein El Zoghbi considera-se em falta com Deus. "Um dos cinco pilares do islamismo é a
oração, que deve ser feita cinco vezes ao dia", diz. "Eu não tenho conseguido respeitar esse pilar." El Zoghbi é dono do
colégio 24 de Março, em São Paulo. Não é um colégio islâmico, e ele não admite proselitismo nas salas de aula. Mas
sua religião lhe dá força para a vida profissional. A começar pelo trabalho que escolheu. "De acordo com o Corão, a
primeira ordem de Alá ao homem foi 'leia!' Maomé era analfabeto e, por milagre, começou a ler." Outro predicado
religioso é um rígido código de ética. Num mercado em que as margens de lucro passam facilmente dos 50%, El Zoghbi
diz mantê-las perto dos 20%. Há também a caridade, obrigatória, que consome 2,5% do lucro.

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No campo dos ensinamentos, ele cita que o islamismo prega o respeito aos outros. "Aplico isso ao
trabalho: ouço muito os funcionários." Mais característica parece ser a disciplina. El Zoghbi faz jejum no
mês sagrado de ramadã desde os 9 anos (nesse mês do calendário islâmico, os fiéis só podem fazer
uma refeição por dia, à noite). "Você sabe o que significa para uma criança aprender a resistir à sede?
Aprender o que é passar fome? Acho que o jejum é um ótimo mecanismo de formação do caráter.
Aprendi a ter paciência, disciplina, concentração e perseverança."

Os quatro casos relatados acima são exemplos de como empresários e executivos brasileiros vêm
incorporando a religião e, de forma mais abrangente, a espiritualidade ao mundo do trabalho. Esses
casos não são, é óbvio, a regra do mundo corporativo. Mas são cada vez menos uma exceção. Uma
sondagem feita pelo Portal EXAME da internet teve 589 respostas à pergunta "Vale a pena misturar
Deus e negócios?" A maioria (48%) disse que sim: 31% acham que a fé ajuda os negócios e 17%
acreditam que isso pode aumentar a eficiência no trabalho; outros 16% responderam que a religiosidade
pode melhorar o ambiente, mas constrange alguns funcionários; pelo lado do não, 33% disseram que a
fé deve ser exercida de modo privado e 3% que a religião tira o foco da empresa e atrapalha os
negócios.

"Gradativamente, pessoas-chave nas empresas estão incorporando o interesse na espiritualidade", diz


Ricardo Young, presidente do Instituto de Idiomas Yázigi e presidente do conselho deliberativo do
Instituto Ethos, uma organização que prega a ética no mundo corporativo. Recentemente, o Ethos
promoveu em São Paulo um café da manhã com Mohini Pundjab, representante na ONU da
organização indiana Brahma Kumaris, que difunde espiritualidade e ética. "Pelo horário e pelo tema,
esperávamos 80 pessoas, no máximo. Vieram 270", afirma Young.

Um dos sintomas mais claros do aumento da busca por espiritualidade nas empresas é o mercado de
palestras. Desde o começo dos anos 90, vem crescendo a oferta de especialistas nesse nicho. Estão aí
incluídas desde as mensagens de inspiração abertamente religiosa, como os ensinamentos de Cristo
aplicados à gestão, até o sucesso alcançado por gurus que pregam os hábitos das pessoas bem-
sucedidas, a meditação como forma de combater o estresse etc. "De uns cinco anos para cá é que eu
entendi que existe um mercado ávido por palestras de espiritualidade", afirma o rabino carioca Nilton
Bonder. Desde que escreveu A Cabala do Dinheiro, em 1991, ele tem sido chamado para falar para
públicos corporativos. Sem fazer nenhum esforço específico para atingir o mundo das empresas, Bonder
tem visto a procura por suas palestras aumentar. Ele costuma fazer 15 por ano, em média. No ano
passado, teve de começar a recusar convites.

A demanda por temas espirituais nas empresas reflete uma tendência mais geral. No ano 2000, foram
vendidos no país 46 milhões de livros sobre religião e espiritualidade, quase 20 milhões a mais que em
1990. O total de títulos do mercado brasileiro cresceu 63% na década, mas o número de títulos
religiosos e espirituais aumentou o dobro disso, 120%, pulando de 3,4 mil títulos, em 1992, para 7,5 mil,
em 2000. Mais do que brasileiro, a espiritualização das empresas é um fenômeno mundial. "Foi na
metade da década de 90 que a espiritualidade começou a ser levada a sério no mundo do trabalho", diz
Laura Nash, professora de ética na Escola de Negócios da Universidade Harvard, autora do recém-
lançado livro Church on Sunday, Work on Monday (Igreja no domingo, trabalho na segunda), da editora
Jossey-Bass. Laura aponta três motivos para a entrada da espiritualidade nas empresas. Em primeiro
lugar, o próprio progresso científico, em várias frentes, rompeu com a idéia de controle e mecanicismo.
"A teoria do caos, a física quântica, a ênfase em vários tipos de inteligência, tudo isso passou a legitimar
uma visão mais integrada da realidade", afirma Laura.

Em segundo lugar, ocorreu uma espécie de reação natural aos exageros da década de 80. "O que se
viu no mundo corporativo dos 80 foi uma ambição desmedida, escândalos financeiros e fracassos

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econômicos. A reação foi um movimento pela ética, pelos valores humanos", afirma. Finalmente, Laura
aponta o processo de autonomia dos empregados. Quando começam a funcionar mais como seres
humanos do que como máquinas, as pessoas passam a trazer para o trabalho a sua vida particular. E
isso inclui a espiritualidade. Não é que a espiritualidade tenha invadido o mundo corporativo. "Ela
sempre esteve lá, abafada. O que está acontecendo é que as empresas estão deixando de reprimi-la",
diz ela.

Isso não quer dizer que não haja resistências. "Sou um homem religioso, acredito na troca de fluidos
entre este mundo e o outro", diz Francisco Gracioso, presidente da Escola Superior de Propaganda e
Marketing, de São Paulo. "Mas, se eu tentasse catequizar meus principais executivos, eles achariam
que estava na hora de eu me aposentar." Para Gracioso, o que explica o novo discurso da
espiritualidade é a quebra do contrato social das empresas com seus funcionários. Até a década de 80,
havia um acordo tácito de que os empregados se entregariam à corporação e em troca ela cuidaria
deles a vida inteira. "As empresas romperam esse contrato, e como conseqüência perderam a lealdade
dos seus executivos", diz Gracioso. "Essa onda de espiritualidade e ação social é, consciente ou
inconscientemente, uma tentativa das empresas de voltar a criar laços de identidade com os
executivos."

Funciona? Uma pesquisa feita pela consultora Betania Tanure de Barros, da Fundação Dom Cabral, de
Belo Horizonte, indica que deve funcionar. Foram entrevistados 626 executivos brasileiros, de
presidentes a gerentes de empresas. Betania identificou como uma grande fonte de estresse o que
chamou de "desajuste de orgulho", que está relacionado à divergência entre os valores da empresa e os
valores pessoais. As companhias que conseguirem reduzir essa divergência de valores -- e aí estão
embutidas a espiritualidade e a preocupação social -- terão, em tese, funcionários mais produtivos. É o
que dizem, também, o professor Ian Mitroff, da University of Southern California, e a consultora Elizabeth
Denton no livro A Spiritual Audit of Corporate America (Uma auditoria espiritual da corporação nos
Estados Unidos), para o qual entrevistaram mais de 200 líderes de organizações americanas. Segundo
eles, os funcionários que consideram suas empresas espiritualizadas têm menos receios e se dedicam
mais ao trabalho, com melhores resultados.

Betania adverte, porém, que não basta falar de espiritualidade. "Uma tendência verificada nas
entrevistas é que essa fonte de estresse pela falta de convergência de valores com a empresa é hoje
maior do que no passado, justamente porque o discurso da espiritualidade está mais valorizado", diz.
"Isso faz que a diferença entre o que se fala e o que se faz seja mais perceptível." É algo parecido com
o discurso sobre qualidade de vida, hoje generalizado nas empresas, embora, de acordo com a
pesquisa de Betania, os executivos estejam trabalhando em média 11 horas por dia, mais de 60%
reportem que trabalham no fim de semana com freqüência e 55,2% digam que as tecnologias de
informação aumentaram a pressão no trabalho. Não é de estranhar que, passando tanto tempo em
função de seus papéis profissionais, as pessoas queiram trazer para o trabalho sua espiritualidade e sua
religião (junto com esportes, lazer, vida afetiva...).

"Não há dúvida de que o discurso da espiritualidade é maior que a prática", diz o monsenhor Dario
Bevilacqua, vigário dos Construtores da Sociedade -- o modo como a Arquidiocese de São Paulo se
refere às pessoas influentes, entre elas, é claro, empresários. "Continuamos a falar de paz, mas na
prática vivemos num mundo de guerras", diz. Bevilacqua dá apoio espiritual à Associação de Dirigentes
Cristãos de Empresas, uma entidade que surgiu em 1961 e hoje conta com 1,5 mil associados ativos e
uma rede de mais de 4,5 mil pessoas. O que a ADCE faz é promover a prática de valores cristãos dentro
das empresas. Isso envolve um forte conceito ético, ação social, dignificação do ser humano. São
conceitos de aceitação unânime, mas de aplicação muito difícil. "A fé exige uma forma de vida que
muitas vezes não é fácil", diz o padre Bevilacqua. "As igrejas em geral agem através da transmissão de

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valores, esperando que esses valores sejam postos em prática."

Afinal, vale a pena trazer para as companhias a espiritualidade -- e a idéia de Deus, que a ela tanto se
mistura? No livro Empresa com Alma, da editora Makron, o consultor de empresas e conferencista
Francisco Gomes de Matos diz que, de 520 empresários consultados, apenas 5% afirmaram que
contratariam Jesus Cristo. As dificuldades vividas por inúmeras organizações que seguem preceitos
religiosos parecem comprovar que Deus, se existe, não está lá muito preocupado com a saúde
financeira das corporações. Um bom exemplo é a americana Service Master, que vende produtos e
serviços para cuidados com a casa. A companhia fatura 6 bilhões de dólares por ano, mas é mais
conhecida pela religiosidade, elogiada por vários gurus da administração, como Peter Drucker, para ficar
apenas num (quase todo-poderoso) exemplo. Todos os seus 75 mil funcionários possuem ações da
companhia, são ouvidos e ninguém tem salário superior a 12 vezes o piso da empresa. O problema é:
os lucros vêm caindo, e a unidade de controle de pestes de jardim da Service Master admitiu ter poluído
um rio na Pensilvânia. Ou seja, no mundo real, nem sempre conseguimos controlar todas as nossas
ações e nem sempre boas ações recebem recompensa.

Muita gente vai ainda mais longe. Diz que religião e capitalismo são incompatíveis. Citam a visão
majoritária dos religiosos como estatizante, controladora, constrangida com o lucro. "A religião não pode
ser a base da liberdade e do capitalismo por causa de sua inerente natureza autoritária", diz o
americano Andrew Bernstein, do Instituto Ayn Rand, que promove a filosofia da objetividade. "Ela exige
fé e subordinação dos interesses do indivíduo aos ditados de algum poder superior. No capitalismo, ao
contrário, o indivíduo é supremo." Um interessante exemplo de conflito ideológico é o caso das
demissões. Os defensores da consciência social costumam elogiar empresas que fazem um esforço
para preservar ao máximo seus funcionários, inclusive com reduções coletivas de salários, para manter
o maior número de pessoas empregadas durante uma crise. O economista americano Lester Thurow
gosta de citar que, por mais dolorosas que tenham sido as demissões da IBM no começo dos anos 90,
foram elas que permitiram o nascimento de um sem-número de empresas de tecnologia, incluindo
nomes como Microsoft, Apple e Sun. Elas se beneficiaram de uma mão-de-obra experiente que de outra
forma não estaria disponível. O que, no fim das contas, ajudou a gerar um enorme ciclo de riqueza nos
Estados Unidos.

O consultor político Ney Lima Figueiredo, da Unicamp, também investe contra a religiosidade, citando
um estudo do economista americano Robert Barro, que indica uma relação inversa, nos países da
América Latina, entre desenvolvimento econômico e freqüência à missa. Segundo Barro, os países com
menor porcentagem da população que assiste à missa toda semana são os que têm a maior renda per
capita. (O Brasil está numa posição intermediária no estudo.) Também entre os religiosos há quem se
oponha à mistura entre fé e empresas. Quando a reportagem de EXAME tentou entrevistar alguém
sobre os grupos de oração da Inepar, um dos maiores conglomerados empresariais do Paraná, os
próprios funcionários fizeram pressão para que a atividade não fosse divulgada, porque não queriam
que sua fé fosse usada, ainda que indiretamente, como uma espécie de marketing da companhia.

Em contrapartida, há poderosos testemunhos de como a corporação já não pode viver sem


espiritualidade nos dias de hoje. "As empresas não gostam de ser coisas que vêm e que passam", diz o
consultor de marketing industrial José Carlos Teixeira Moreira, de São Paulo. Isso, por si só, já lhes dá
uma dimensão espiritual. "Para trabalhar por uma causa, a única forma é com alguma crença", afirma
Teixeira Moreira. "A emoção tem a ver com o ritual. E é a emoção que dá valor a um produto, à
companhia. Feliz a empresa que celebra." Em tom um pouco menos poético, Richard LeVitt, diretor de
qualidade da Hewlett-Packard, disse em 1997, num encontro da empresa na Califórnia (relatado por
Claus Otto Scharmer, da Sociedade para Aprendizado Organizacional, SOL): "No estágio inicial,
focávamos a qualidade no desempenho dos produtos. Embora isso seja importante, percebemos que

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poderíamos ter um desempenho melhor se olhássemos o que vem antes, os processos responsáveis
por esses resultados concretos. Esse foi o cerne do movimento de qualidade total dos anos 80. Mas,
uma vez que você e todos os seus concorrentes têm os processos corretos, a questão é saber qual o
próximo passo. Para nós, o novo foco é como os gerentes podem melhorar a qualidade do seu
pensamento -- especialmente o seu pensamento profundo sobre clientes e as experiências que eles
devem ter conosco". Pensamento profundo, você já deve ter percebido, é um eufemismo corporativo
para espiritualidade. Diga-se de passagem, não é necessário ser religioso -- nem mesmo crer em Deus -
- para ter uma espiritualidade desenvolvida. Mas é nesse campo que a religião opera.

Para Laura Nash, de Harvard, há três instâncias de espiritualidade nas empresas. A primeira é o que ela
chama de nível espacial: os ritos, o proselitismo. "Levar esse aspecto da religião para o mundo
corporativo é ir um pouco longe demais", diz Laura. A segunda instância é a "religião catalítica": a ética,
as práticas de meditação, a oração. É o aprendizado das atitudes religiosas, dos objetivos da
espiritualidade, que "podem levar à transformação positiva". É nesse nível, porém, que proliferam os
gurus de discursos tão bonitos quanto vazios, o que de certa forma rebaixa a espiritualidade ao nível de
mais um modismo do mercado de soluções de gestão. (E, conforme indica a pesquisa de Betania
Tanure, já citada, pode elevar o estresse, ao invés de diminuí-lo.) Finalmente, Laura cita o "nível da
fundação", ou seja, a tentativa de compreender a visão de mundo e a sabedoria de religiões milenares.

O rabino Nilton Bonder também enxerga um potencial uso da sabedoria religiosa pelas empresas. "As
religiões são formas de conhecimento da natureza humana, um senso de realidade burilado através dos
séculos." Segundo Bonder, há pelo menos três bons motivos para que as companhias se interessem
pela espiritualidade. O primeiro é fortalecer-se com pedaços dessa sabedoria. O segundo é um motivo
estratégico. A espiritualidade, como a ecologia, faz parte dos valores da sociedade. Respeitá-la é um
investimento em imagem. O terceiro motivo é a corporação em si, a preocupação com seus funcionários.
"Empresas inteligentes dão ao trabalho uma dimensão emocional (seus funcionários gostam do que
fazem) e existencial (eles não acham que estão perdendo tempo na companhia)."

É claro que cada empresa, e cada profissional, aplica a espiritualidade ao trabalho de modo particular.
Veja alguns exemplos:

"Nossa missão é colaborar com a felicidade do maior número possível de pessoas. Tirei isso de uma oração da Seicho-
no-Ie", diz Rogério Rubini, sócio da empresa de cosméticos Contém 1g, de São João da Boa Vista, município do interior
de São Paulo. A Seicho-no-Ie, nascida no Japão, tem um caráter ecumênico. Sua pregação é de atitude proativa,
pensamento positivo, gratidão e harmonia. A própria estratégia da Contém 1g tem a ver com a harmonia. "Não
queremos destruir concorrente nenhum", afirma Rubini. "Por isso apostamos em nichos não atendidos pelo mercado,
como o público de 15 a 25 anos."

Seguir a religião impõe algumas dificuldades. Justo nesse mercado tão ligado à beleza e à
sensualidade, a empresa se recusa a fazer propaganda que explore a sexualidade ou a rebeldia do
jovem. "Nossa visão é de um jovem alegre, saudável, que quer progredir na vida", diz Rubini. Mas a
postura religiosa também traz vantagens: "Nós pregamos a alegria de servir. Se você for à nossa
fábrica, verá que os funcionários são espontâneos e naturais, não dão aquele tratamento decorado,
automático, típico dos 0800. Isso faz diferença". Deve fazer. Em um ano e três meses, a Contém 1g, que
fatura 60 milhões de reais por ano, abriu mais de 200 pontos-de-venda no país por meio de franquias. "A
que eu atribuo isso? A uma equipe extremamente comprometida... orientada por Deus."

Na avenida em frente à ATF Estruturas Metálicas, na cidade de Timóteo, no Vale do Aço mineiro, há sete mangueiras.
Elas foram plantadas em 1997, quando a pequena empresa, que fatura 1 milhão de reais por ano, escreveu seu plano
estratégico. "Quando elas chegarem à idade adulta, com cerca de 5 anos, nossos objetivos deverão ter sido
alcançados", diz Anízio Tavares Filho, presidente e dono da ATF. O código de ética da empresa também tem sete itens,

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assim como o programa de desenvolvimento de pessoal e a política ambiental. "Sete é o número de Cristo, porque Deus
descansou no sétimo dia", afirma Tavares. Ele pertence à União do Vegetal, uma seita religiosa cercada de rituais,
semelhante ao Santo Daime. Tavares garante não fazer pregação na empresa, mas todos os 101 funcionários se
reúnem, das 7h12 às 7h30, para um "momento de reflexão". Além dos rituais, a religiosidade de Anízio também se
reflete em ações beneficentes, como a política de contratação de ex-dependentes químicos, as doações a um projeto de
ensino de judô a crianças carentes e um programa de aulas de circo também para crianças carentes.

O carioca Manoel Amorim, diretor-geral da Telefônica em São Paulo, é mórmon e passou dois anos como missionário da
Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Diz ter aprendido a lidar com a diversidade, a ouvir os outros e a
sair do escritório para descobrir a realidade dos clientes. "Eu não seria o executivo que sou hoje se não tivesse a
formação religiosa", afirma Amorim. É o caso também de Isabel Pedrosa, diretora da área de análise do BankBoston
Asset Management. "Meu dia-a-dia é praticar o budismo a toda hora", afirma. Isso a ajuda a se concentrar, com técnicas
que aprendeu em retiros espirituais. "O budismo ensina que o que importa é o momento. É ter foco." Ao mesmo tempo,
ela diz conseguir, num mercado tipicamente nervoso pelos constantes altos e baixos, aceitar os ciclos e se livrar da
angústia.

A Superbom é uma empresa adventista, como indicam todas as embalagens de seus produtos (mel, sucos, congelados
de carne de soja...). "A vantagem que nós temos é uma imagem de confiabilidade no mercado", diz José Manoel Afonso,
diretor comercial da companhia. "Os contratos de supermercados, que costumam ter condições draconianas, em geral
são feitos conosco na base da palavra." Na Superbom, ninguém ganha menos do que 20% do salário do presidente.
Isso quer dizer que os executivos ganham menos do que o mercado oferece. E como a empresa mantém seus talentos?
"Trabalho para a Igreja, isso me dá satisfação", diz Itamar de Paula Marques, o presidente da Superbom.

"Sou católico e, quando assumi a empresa, em 1991, declarei que a administraria de acordo com os princípios cristãos",
diz Elcio Anibal de Lucca, presidente da Serasa, empresa de gerenciamento de dados bancários. "O que significa isso:
não aceito assédio sexual, corrupção nem comportamentos que possam prejudicar o próximo." A Serasa faz missa de
ação de graças todo fim de ano e costuma convidar um padre para rezar na abertura de seu encontro nacional de
gerentes. "Pedimos a Deus que nos ajude a realizar nossos planos. Não temos vergonha de mostrar nossa fé."

Dos 120 funcionários da Construtora Hábil Engenharia, de Recife, cerca de um terço conseguiu casa própria sem
recorrer a nenhum agente financeiro da habitação. Um dos quatro sócios da construtora, Félix Cantalício Sampaio de
Sá, é que empresta o dinheiro, sem juros, com correção atrelada ao aumento de salário. Cantalício ainda dá orientações
sobre a obra e um arquiteto faz o projeto voluntariamente. "Não realizo nada de extraordinário", diz. "Apenas sigo a
orientação da Bíblia, de ser solidário e fiel."

Senso ético, responsabilidade social, busca de harmonia, rituais de congraçamento, confiança


inabalável. Talvez nenhuma dessas características esteja necessariamente ligada à espiritualidade.
Talvez as vantagens competitivas de empresas espiritualizadas não possam nunca ser medidas. É da
própria natureza do mundo espiritual não se adequar a medições. No fim das contas, talvez os bons
resultados de levar Deus e a espiritualidade ao mundo do trabalho sejam, bem, uma questão de fé. Mas,
como diz o rabino Bonder, "a fé e a espiritualidade lidam com estruturas não comprováveis, não
científicas, de obscuridade -- mas que são o mundo real. O que eu digo às pessoas é para não descartar
o lado da penumbra. A maior contribuição do mundo espiritual é ensinar as pessoas a viver num mundo
sem respostas". Nessa era cheia de incertezas, não é pouca coisa.

Colaboraram Ana Luiza Herzog, Cristiane Correa, Consuelo Dieguez, Fábio Peixoto, Lidia Rebouças,
Marcos Coronato, Suzana Naiditch, Suzana Veríssimo

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