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M inha história com Dragon-

lance começou há muito


tempo. Antes de Tormenta, antes da
emocionante, cheia de reviravoltas
e personagens vivos, como me
fizeram ver que o heroísmo também
Dragão Brasil, antes até dos RPGs. tem tons de cinza. Protagonistas
com dilemas morais, capazes de
Eu era um moleque no meio da
decisões questionáveis? De amores
adolescência quando conheci as
intensos o suficiente para fazê-los ir
aventuras de Caramon, Raistlin,
contra tudo o que acreditam? Até
Taslehoff, Tika e companhia. Em
então, eu não sabia que isso
uma época em que o mercado de
era possível.
fantasia medieval era um sonho
distante no Brasil, eu juntava Estes ensinamentos me tornaram
dinheiro obsessivamente para um aspirante a escritor de fantasia.
comprar as Crônicas que você tem Inspirado pela Guerra da Lança
em mãos agora, cada livro dividido e seus personagens, criei a minha
em dois volumes publicados por uma própria história e meus personagens
editora portuguesa, vendidos em — em um conto chamado O
uma única livraria de importados, Paladino e a Ladra, escrito nos
escondida em um shopping quase intervalos do meu trabalho diário
deserto em São Paulo. na época. O conto foi meu primeiro
texto ficcional publicado, e abriu
Por conta disso, a Guerra da Lança as portas do que viria a ser minha
funcionava como um seriado de carreira nestes últimos 25 anos.
periodicidade incerta: eu sofria
com cada perigo, vibrava com cada Se o garoto que eu fui um dia não
vitória, decorava nomes de lugares, tivesse pego da prateleira o primeiro
fugia dos spoilers na loja em que volume das Crônicas de Dragonlance
eu jogava RPG e depois me juntava e mergulhado com tanto fervor
aos amigos para comentar cada naquelas páginas, minha vida hoje
passagem, em um mundo ainda sem seria bem mais entediante, sem
internet ou redes sociais. Os Heróis graça. Sem aventuras.
da Lança eram meus companheiros Que bom que você não corre
e, mais que isso, minha inspiração. esse risco.
Margaret Weis e Tracy Hickman — J.M. Trevisan
não só me mostraram uma história Editor-executivo da Dragão Brasil
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O Trono Usurpado

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A Lenda de Drizzt, Vol. 1 — Pátria
A Lenda de Drizzt, Vol. 2 — Exílio
A Lenda de Drizzt, Vol. 3 — Refúgio
A Lenda de Drizzt, Vol. 7 — Legado
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O Caçador de Apóstolos
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O Inimigo do Mundo
O Crânio e o Corvo
O Terceiro Deus
A Joia da Alma
A Flecha de Fogo
O Levante Élfico
Crônicas da Tormenta, Vol. 1
Crônicas da Tormenta, Vol. 2

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Espada da Galáxia

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C RÔN IC A S
Volume um

DRAGÕES
c o
repúsculo Do
do

utono
marGaret Weis & tracy hickman

Poesia original por michael Williams


Capa por matt staWicki
Arte interna por Denis BeauVais
Tradução por GilVan GouVêa
CrôniCas Vol. 1 — Dragões Do CrepúsCulo Do outono
©2003 Wizards of the Coast, LLC. Todos os direitos reservados.
Dungeons & Dragons, D&D, Dragonlance, Wizards of the Coast
e seus respectivos logos são marcas registradas de Wizards of the Coast, LLC.

Título Original: Chronicles Vol. 1 — Dragons of Autumn Twilight


Tradução: Gilvan Gouvêa
Revisão: Elisa Guimarães
Editor: Rogerio Saladino
Diagramação: Guilherme Dei Svaldi e Felipe Headley
Editor-Chefe: Guilherme Dei Svaldi
Equipe da Jambô: Álvaro Freitas, André Rotta, Guilherme Dei Svaldi,
Guiomar Lemos Soares, J. M. Trevisan, Karen Soarele, Leonel Caldela, Maurício Feijó,
Rafael Dei Svaldi, Rogerio Saladino, Freddy Mees e Tiago H. Ribeiro.

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Todos os direitos desta edição reservados à Jambô Editora. É proibida a
reprodução total ou parcial, por quaisquer meios existentes ou que venham
a ser criados, sem autorização prévia, por escrito, da editora.
1ª edição: julho de 2019 | ISBN: 978858365108-6
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação

W426d Weis, Margaret


Dragões do crepúsculo do outono / Margaret Weis e Tracy
Hickman; tradução de Gilvan Gouvêa; revisão de Rogerio
Saladino. — Porto Alegre: Jambô, 2019.
480p. il.

1. Literatura norte-americana. I. Tracy, Hickman. II.


Gouvêa, Gilvan. III. Título.

CDU 869.0(81)-311
Para Laura, a verdadeira Laurana.
— Tracy Raye Hickman

Para meus filhos, David e Elizabeth Baldwin,


pela sua coragem e apoio.
— Margaret Weis
Ca^ ntico do Draga~ o
Escutem o sábio enquanto sua música emana
como chuva ou lágrimas do céu,
e lava os anos, a poeira das muitas histórias
da Grande Lenda da Lança do Dragão.
Há muitas eras, memórias e palavras passadas,
no princípio do mundo
quando as três luas se ergueram do meio da floresta,
os dragões, imensos e terríveis,
guerrearam neste mundo de Krynn.

Mas, das trevas dos dragões,


dos nossos pedidos de luz,
na face inexpressiva da lua escura altíssima,
um brilho nascente se acendeu em Solamnia,
um cavaleiro da verdade e do poder,
que convocou as próprias divindades
e forjou a poderosa Lança do Dragão, perfurando a alma
dracônica, tirando a sombra de suas asas
dos litorais brilhantes de Krynn.

Assim, Huma, Cavaleiro de Solamnia,


Portador da Luz, Primeiro Lanceiro,
seguiu sua luz até a base das Montanhas Khalkist,
até os pés pétreos dos deuses,
até o silêncio reverenciado do seu templo,
Ele invocou os Criadores da Lança, assumiu
seus poderes indescritíveis para esmagar o mal indescritível,
para lançar a escuridão espiral
de volta ao túnel da garganta do dragão.

Paladine, o Grande Deus do Bem,


reluziu ao lado de Huma,
fortalecendo a lança em seu forte braço direito,
e Huma, com o brilho de mil luas,
baniu a Rainha das Trevas,
baniu a torrente das suas hostes estridentes
de volta para o reino insensível da morte, onde suas maldições
eram lançadas sobre o nada e mais nada
muito abaixo da terra resplandecente.
E assim, em um estrondo, terminou a Era dos Sonhos
e começou a Era do Poder,
Quando Istar, o reino da luz e da verdade, surgiu no leste,
onde minaretes brancos e dourados
ascendiam até o sol e à glória do sol,
anunciando a partida do mal,
e Istar, que protegeu e embalou
os longos verões do bem,
brilhou como um meteoro
nos céus alvos dos justos.

Mesmo assim, na plenitude da luz do sol


o Rei-Sacerdote de Istar viu as sombras:
À noite, ele via as árvores como coisas com adagas,
os riachos escurecidos e densos sob a lua silenciosa.
Ele procurou livros sobre os caminhos de Huma,
em busca de pergaminhos, símbolos e feitiços
para que ele, também, pudesse invocar os deuses, pudesse encontrar
sua ajuda em seu objetivo sagrado,
pudesse purgar o mundo do pecado.

Então chegou o momento das trevas e da morte


quando os deuses se afastaram do mundo.
Uma montanha de fogo caiu como um cometa em Istar,
a cidade se partiu como um crânio em chamas,
montanhas arderam onde antes havia vales férteis,
os mares invadiram as covas das montanhas,
os desertos lamentaram sobre os leitos abandonados dos mares,
as estradas de Krynn entraram em erupção
e se tornaram os caminhos dos mortos.

E começou a Era do Desespero.


Os caminhos estavam emaranhados.
Os ventos e as tempestades de areia moravam nos escombros das cidades.
As planícies e montanhas se tornaram nossos lares.
Enquanto os deuses antigos perdiam seu poder,
nós clamamos ao céu vazio
no cinza frio e divisor, aos ouvidos dos novos deuses.
O céu está plácido, silencioso, imóvel.
Ainda esperamos sua resposta.
O Velho
ika Waylan endireitou as costas com um suspiro, flexionando os
ombros para aliviar a dor. Jogou o pano ensaboado no balde de
água e olhou ao redor da sala vazia.
Estava cada vez mais difícil manter a velha hospedaria. Havia muito
amor impregnado na mobília de madeira, mas mesmo o amor e o sebo não
podiam esconder as rachaduras e fendas nas mesas usadas, nem impedir que
um cliente sentasse em uma farpa ocasional. A Hospedaria do Lar Derra-
deiro não era extravagante, não como algumas das quais ela tinha ouvido
falar em Refúgio. Era confortável. A árvore viva onde fora construída a
envolvia com seus braços ancestrais e carinho, enquanto as paredes e supor-
tes foram feitos ao redor dos galhos com tanto cuidado que era impossível
saber onde terminava o trabalho da natureza e começava o do homem. O
balcão parecia fluir como uma onda polida ao redor da madeira viva que o
sustentava. Os vitrais nas janelas projetavam brilhos acolhedores em cores
vibrantes por toda a sala.
As sombras diminuíam enquanto o meio-dia se aproximava. A Hos-
pedaria do Lar Derradeiro logo estaria aberta. Tika olhou em volta e sorriu
satisfeita. As mesas estavam limpas e polidas. Tudo o que precisava fazer era
varrer o chão. Ela começou a empurrar os pesados bancos de madeira para
o lado quando Otik saiu da cozinha, envolto em um vapor perfumado.
— Este será outro dia daqueles, tanto para o clima quanto para os ne-
gócios — disse, espremendo seu corpo robusto atrás do balcão. Começou a
colocar as canecas, assobiando alegremente.
— Gostaria de negócios mais calmos e de clima mais quente — disse
Tika, puxando um banco. — Ontem eu trabalhei demais e recebi poucos
obrigados... e menos gorjetas ainda! Que povo triste! Todos nervosos, se
assustando com qualquer barulho. Derrubei uma caneca ontem e, juro,
Retark sacou sua espada!
— Rá! — debochou Otik. — Retark é um Guarda Perscrutador de
Consolação. Eles sempre estão nervosos. Você também estaria se trabalhasse
para Hederick, aquele fraco...
— Cuidado — disse Tika.
Otik deu de ombros.
— A menos que o Sumo Teocrata possa voar, não pode nos escutar.
Eu ouviria suas botas nas escadas antes que ele pudesse me ouvir. — Mas
Tika notou que ele baixou a voz enquanto continuava. — Os moradores de
Consolação não aguentam mais, escreva o que eu digo. Pessoas sumindo,
sendo arrastadas para sabe-se lá onde. São tempos difíceis — ele balançou a
cabeça. Depois se animou. — Mas isso é bom para os negócios.
— Até nos fecharem — disse Tika, triste. Ela pegou a vassoura e
começou a varrer rapidamente.
— Até os teocratas precisam encher a barriga e tirar o gosto do fogo
e do enxofre de suas gargantas — Otik riu. — Deve ser um trabalho duro,
pregar para as pessoas sobre os Novos Deuses, dia sim, dia não... ele vem
aqui toda noite.
Tika parou de varrer e se encostou no balcão.
— Otik, — disse seriamente, sua voz baixa — tem uns outros boatos
também... sobre guerra. Exércitos se reunindo no norte. E tem esses ho-
mens estranhos e encapuzados na cidade, andando com o Sumo Teocrata,
fazendo perguntas.
Otik olhou para a menina de dezenove anos, estendeu a mão e tocou
em sua bochecha. Ele cuidava de Tika como um pai, desde que o dela
desaparecera misteriosamente. Enrolou seus cachos ruivos.

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— Guerra. Bah — ele desdenhou. — Há rumores de guerra desde o
Cataclismo. É só conversa, garota. Talvez o Teocrata tenha inventado isso
apenas para manter o povo na linha.
— Não sei — Tika franziu a testa. — Eu...
A porta se abriu.
Tika e Otik se assustaram e se viraram para a porta. Não tinham escu-
tado passos na escada. A Hospedaria do Lar Derradeiro fora construída no
alto de uma árvore imensa, como todas as outras construções de Consola-
ção, exceto pela ferraria. O povo decidiu morar nas árvores durante o terror
e o caos após o Cataclismo. E assim, Consolação se tornou uma cidade
de árvores, uma das poucas maravilhas realmente belas que sobrou em
Krynn. Pontes robustas de madeira ligavam as casas e o comércio situados
bem acima do solo, onde cerca de quinhentas pessoas tocavam suas vidas.
A Hospedaria do Lar Derradeiro era a maior construção de Consolação
e ficava a uns dez metros do solo. Escadas passavam ao redor do tronco
nodoso da velha árvore. Como Otik dissera, um visitante da Hospedaria
seria ouvido muito antes de ser visto.
Mas nem Tika, nem Otik ouviram o velho.
Ele parou na porta, apoiado em um cajado gasto de carvalho, e passou
os olhos pela Hospedaria. O capuz surrado da sua túnica cinzenta estava
puxado sobre a cabeça, a sombra escondendo as feições do rosto, exceto
pelos olhos brilhantes e aquilinos.
— Posso ajudá-lo, ancião? — Tika perguntou ao estranho, trocando
olhares preocupados com Otik. Seria o velho um espião dos Perscrutadores?
— Hã? — O velho piscou. — Estão abertos?
— Bem... — hesitou Tika.
— Claro, — disse Otik, com um sorriso largo. — entre, Barba Gri-
salha. Tika, uma cadeira para nosso hóspede. Ele deve estar cansado depois
de tanta subida.
— Subida? — Coçando a cabeça, o velho olhou ao redor da varanda,
depois olhou para o chão lá em baixo. — Ah, sim. Subida. Muitos degraus...
— Ele mancou para dentro, depois brincou, apontando seu cajado para
Tika. — Continue trabalhando, menina. Eu consigo achar uma cadeira
para mim.
Tika deu os ombros, pegou a vassoura e começou a varrer, ficando de
olho no velho.

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Ele ficou no centro da Hospedaria, olhando ao redor enquanto
confirmava a localização e posição de cada mesa e cadeira na sala. A sala
comunal era grande, em forma de ferradura, envolvendo o tronco da árvo-
re. Os galhos menores suportavam o chão e o teto. Ele olhou com interesse
para a lareira, que ficava a cerca de três quartos do caminho de volta para
a sala. O único trabalho em pedra na Hospedeira fora obviamente feito
por mãos anãs para parecer parte da árvore, enrolando-se naturalmente
através dos galhos acima. Uma cesta ao lado da lareira estava cheia de lenha
e troncos de pinheiro trazidos das montanhas altas. Nenhum residente
de Consolação pensaria em queimar a madeira das suas grandes árvores.
Havia uma saída por trás, pela cozinha. Era uma queda de doze metros,
mas alguns dos clientes de Otik achavam tal arranjo bem conveniente.
Assim como o velho.
Ele murmurou satisfeito para si mesmo enquanto seus olhos passavam
de uma área para outra. Então, para espanto de Tika, soltou o cajado, arre-
gaçou as mangas da sua túnica e começou a reorganizar os móveis.
Tika parou de varrer e se apoiou na vassoura.
— O que está fazendo? Essa mesa sempre ficou aí!
O velho arrastou pelo chão uma mesa longa e estreita, que ficava no
centro do salão comunal, e a colocou contra o tronco da enorme árvore, de
frente para a lareira. Então, se afastou para admirar seu trabalho.
— Aí — ele resmungou. — Devia ficar mais perto da lareira. Agora,
me traga mais duas cadeiras. Preciso de seis aqui.
Tika virou-se para Otik. Ele parecia prestes a protestar, mas, naquele
momento, houve um brilho na cozinha. Um grito do cozinheiro indicou
que a gordura havia pegado fogo de novo, o que o fez correr em direção às
portas da cozinha.
— Ele é inofensivo — bufou ao passar por Tika. — Deixe-o fazer o
que quiser... dentro dos limites. Talvez queira dar uma festa.
Tika suspirou, levou as duas cadeiras que o velho solicitou e as colocou
conforme indicado.
— Agora — disse o velho, olhando em volta com atenção. — Traga
mais duas cadeiras, das confortáveis, até aqui. Coloque ao lado da lareira,
neste canto escuro.
— Não é escuro, — protestou Tika. — Está bem exposto ao sol!
— Ah — os olhos do velho se estreitaram, — mas vai ficar escuro de
noite, não vai? Quando o fogo estiver aceso...

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— A-acho que sim... — gaguejou Tika.
— Traga as cadeiras. Muito bem, menina. E quero uma bem aqui — o
velho apontou para um lugar na frente da lareira —, para mim.
— Vai dar uma festa, ancião? — perguntou Tika, enquanto carregava
a cadeira mais confortável e batida da Hospedaria.
— Uma festa? — A ideia pareceu engraçada para o velho, e ele riu. —
Sim, menina. Será uma festa que o mundo de Krynn não vê desde antes do
Cataclismo! Esteja preparada, Tika Waylan. Esteja preparada!
Ele deu um tapinha no ombro dela, bagunçou seu cabelo, depois se
virou e sentou, com os ossos rangendo, na cadeira.
— Agora, uma caneca de cerveja — pediu.
Tika foi servir a cerveja. Só depois de trazer a bebida para o velho e
voltar a varrer, percebeu que não havia dito seu nome a ele.

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LIVRO UM
1
O Encontro de Velhos Amigos.
Uma Interrupção Brusca.

lint Forjardente desabou sobre uma rocha coberta de musgo. Seus


velhos ossos anões haviam o sustentado por muito tempo e não
estavam dispostos a continuar sem reclamar.
— Eu nunca deveria ter partido — Flint resmungou, olhando para o
vale abaixo. Falou em voz alta, embora não houvesse sinal de outra pessoa ao
redor. Os muitos anos de viagens solitárias deram ao anão o hábito de falar
sozinho. Ele bateu as duas mãos nos joelhos. — E que eu seja amaldiçoado
se partir de novo! — avisou veementemente.
Aquecida pelo sol da tarde, a rocha parecia confortável para o velho
anão, que havia caminhado o dia todo no ar frio do outono. Flint relaxou
e deixou o calor entrar em seus ossos, o calor do sol e o calor de seus pensa-
mentos. Porque ele estava em casa.
Ele olhou ao redor, seu olhar demorando carinhosamente na paisa-
gem familiar. A encosta abaixo dele formava uma das faces de uma parede
na montanha alta, recoberta no esplendor do outono. As árvores no vale
estavam em iluminadas com as cores da estação, os vermelhos brilhantes e
dourados desaparecendo no púrpura dos picos de Kharolis mais além. O
céu azul impecável entre as árvores era refletido nas águas do lago Cristal-
mir. Colunas finas de fumaça subiam entre as copas das árvores, o único
sinal da presença de Consolação. Uma névoa suave cobria o vale com o
aroma de fogueiras caseiras ardendo.
Enquanto sentava e descansava, ele puxou um bloco de madeira e uma
adaga reluzente do seu alforje, suas mãos se movendo sem um pensamento
consciente. Desde tempos imemoriais, seu povo sempre teve a necessidade
de moldar o disforme ao seu gosto. Ele mesmo havia sido um ferreiro de re-
nome antes de se aposentar, alguns anos atrás. Encostou a faca na madeira,
mas, com sua atenção presa, manteve as mãos ociosas enquanto observava
a fumaça das chaminés escondidas lá em baixo.
— O fogo do meu lar se apagou — disse, suavemente. Ele sacudiu-se,
com raiva de se sentir sentimental, e começou a entalhar a madeira com força.
Continuou resmungando. — Minha casa estava vazia. Goteira no telhado,
arruinou a mobília. Busca estúpida. Coisa mais idiota que já fiz. Depois de
cento e quarenta e oito anos, devia ter aprendido!
— Você nunca vai aprender, anão — respondeu uma voz distante.—
Nem se vivesse duzentos e quarenta e oito anos!
Deixando a madeira cair, a mão do anão moveu-se com calma e se-
gurança do punhal para o cabo do machado enquanto ele olhava caminho
abaixo. A voz lhe parecia familiar, a primeira que ele ouvia em muito tempo.
Mas não conseguia dizer quem era.
Flint olhou na direção do sol poente. Achou ter visto a figura de
um homem andando a passos largos. De pé, o anão voltou à sombra
de um pinheiro alto para enxergar melhor. O caminhar do homem era
marcado por uma graça suave — uma graça élfica, diria. No entanto, o
corpo dele tinha a espessura e os músculos fortes de um humano e os
pelos faciais eram definitivamente humanos. Tudo que o anão podia ver
do rosto do homem debaixo de um capuz verde era a pele bronzeada e a
barba vermelho-acastanhada.
Havia um arco longo pendurado em seu ombro e uma espada presa do
lado esquerdo. Trajava um couro macio, cuidadosamente trabalhado com
os desenhos intrincados que os elfos amavam. Mas nenhum elfo de Krynn
poderia ter barba. Nenhum elfo, exceto...

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— Tanis? — disse Flint, hesitante, enquanto o homem se aproximava.
— O próprio — a face barbada do recém-chegado deu um amplo
sorriso. Ele abriu os braços e, antes que o anão pudesse detê-lo, o envolveu
em um abraço que o levantou do chão. O anão apertou seu velho amigo por
um breve instante e, em seguida, lembrando de sua dignidade, se contorceu
e libertou-se do abraço do meio-elfo.
— Bom, você não aprendeu boas maneiras em cinco anos — resmun-
gou o anão. — Ainda não respeita minha idade ou minha posição. Me
levantando como um saco de batatas — olhou para a estrada. — Espero
que nenhum conhecido tenha nos visto.
— Duvido que existam muitos que se lembrem de nós — disse Tanis,
examinando seu amigo atarracado com afeto. — O tempo não passa para
você e eu, velho anão, como passa para os humanos. Cinco anos é um ciclo
longo para eles, mas um breve instante para nós. — Então, ele sorriu. —
Você não mudou nada.
— Não se pode falar o mesmo dos outros — Flint sentou-se na pedra
e começou a entalhar novamente. Fechou a cara para Tanis. — Por que a
barba? Você já era feio o suficiente.
Tanis coçou o queixo.
— Estive em terras pouco amistosas para aqueles de sangue élfico.
A barba, um presente do meu pai humano — ele disse, com uma ironia
amarga — escondeu bem minha herança.
Flint resmungou. Sabia que o amigo não estava sendo sincero. Embo-
ra o meio-elfo abominasse matança, não era de se esconder da luta atrás de
uma barba. Lascas de madeira voaram.
— Estive em terras pouco amistosas para aqueles com qualquer tipo
de sangue — Flint virou a madeira em sua mão, examinando-a. — Mas
estamos em casa agora. Tudo isso ficou para trás.
— Não pelo o que eu ouvi — disse Tanis, puxando o capuz sobre a
face novamente para proteger os olhos do sol. — Os Altos Perscrutadores
em Refúgio nomearam um homem chamado Hederick para governar como
o Sumo Teocrata em Consolação e ele transformou a cidade em um foco de
fanatismo com sua nova religião.
Tanis e o anão viraram-se e olharam para o vale silencioso. As luzes
começaram a tremeluzir, deixando visíveis as casas nas copas das árvores. O
ar da noite ainda estava calmo e doce, com um toque do cheiro da fumaça

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de madeira das fogueiras caseiras. De vez em quando, ouviam o som fraco
de uma mãe chamando seus filhos para jantar.
— Não ouvi falar de mal algum em Consolação — disse Flint
calmamente.
— Perseguição religiosa, inquisições... — A voz de Tanis soava
ameaçadora vindo das profundezas do seu capuz. Era mais profunda,
mais lúgubre do que Flint se lembrava. O anão franziu a testa. Seu amigo
havia mudado em cinco anos. E elfos nunca mudam! Contudo, Tanis era
apenas meio-elfo, filho da violência, sua mãe tendo sido estuprada por um
guerreiro humano durante uma das muitas guerras que haviam dividido as
diferentes raças de Krynn nos anos caóticos após o Cataclismo.
— Inquisições! Apenas para aqueles que desafiam o novo Sumo
Teocrata, de acordo com os rumores — Flint bufou. — Não acredito
nos deuses dos Perscrutadores, nunca acreditei, mas não divulgo minhas
crenças por aí. Fique quieto e te deixarão em paz, esse é meu lema. Os Altos
Perscrutadores em Refúgio ainda são sábios e virtuosos. É esta maçã podre
em Consolação que está estragando a cesta toda. Falando nisso, encontrou
o que procurava?
— Um sinal dos deuses antigos e verdadeiros? —perguntou Tanis.
— Ou paz de espírito? Estava procurando ambos. De qual estava falando?
— Bem, achava que um vinha com o outro — resmungou Flint.
Ele virou o pedaço de madeira em suas mãos, ainda não satisfeito com
suas proporções. — Vamos ficar aqui a noite toda, sentindo o cheiro das
fogueiras? Ou vamos para a cidade e jantar?
— Vamos — Tanis acenou. Os dois começaram a percorrer o caminho
juntos, com cada passo largo de Tanis forçando o anão a dar dois dos seus.
Embora muitos anos tivessem passado desde que haviam viajado juntos,
Tanis inconscientemente diminuiu o ritmo, enquanto Flint acelerou o seu.
— Então, não achou nada? — continuou Flint.
— Nada — respondeu Tanis. — Como descobrimos há muito tempo,
os únicos clérigos e sacerdotes deste mundo servem a deuses falsos. Ouvi
histórias de cura, mas era tudo truques e magias. Felizmente, nosso amigo
Raistlin me ensinou a observar...
— Raistlin! — Flint bufou. — Aquele mago pálido e magrelo. Ele
próprio é meio charlatão. Sempre reclamando, choramingando e metendo
o nariz onde não é chamado. Se não fosse pelo irmão gêmeo cuidando de
Raistlin, alguém já teria dado um fim à magia dele.

23
Tanis ficou feliz por sua barba esconder o sorriso.
— Acho que o rapaz era um mago melhor do que você quer acreditar
— ele disse. — E, você deve admitir, ele trabalhou duro para ajudar os que
foram enganados pelos falsos clérigos, assim como eu — suspirou.
— Trabalho pelo qual você recebeu poucos agradecimentos, sem
dúvida — o anão murmurou.
— Poucos — disse Tanis. — as pessoas querem acreditar em algo,
mesmo que saibam, lá no fundo, que é falso. Mas e você? Como foi sua
jornada para sua terra natal?
Flint seguiu a passos duros sem responder, de cara fechada. Por
fim, resmungou.
— Eu nunca deveria ter ido — e olhou para Tanis, com seus olhos
quase ocultos pelas sobrancelhas e espessas, deixando claro que tal assunto
não era bem-vindo. Tanis percebeu o olhar, mas perguntou mesmo assim.
— E sobre os clérigos anãos? As histórias que escutamos?
— Tudo mentira. Os clérigos desapareceram há trezentos anos, durante
o Cataclismo. Assim dizem os anciões.
— Como os elfos — refletiu Tanis.
— Eu vi--
— Shhh! — Tanis levantou uma mão como alerta.
Flint parou totalmente.
— O que? — sussurrou.
O meio-elfo apontou.
— Ali, naquele bosque.
O anão olhou em direção das árvores, enquanto pegava o machado de
batalha amarrado em suas costas.
Os raios vermelhos do sol poente brilhavam brevemente em um pe-
daço de metal refletindo-os entre as árvores. Tanis o viu uma vez, o perdeu,
depois viu de novo. Porém, naquele momento, o sol se pôs, deixando o céu
brilhando num tom violeta rico e fazendo as sombras da noite se arrastarem
pelas árvores.
Flint forçou a vista na escuridão. — Não vejo nada.
— Eu vi — Tanis disse. Continuou olhando para o lugar onde havia
visto o metal e, gradualmente, sua visão élfica começou a detectar a aura
vermelha quente projetada por todos os seres vivos, mas visível apenas para
os elfos. — Quem está aí? — Tanis falou.

24
A única resposta por longos momentos foi um som misterioso que
fez os pelos da nuca do meio-elfo arrepiarem. Era um zumbido oco que
começava baixo, depois subia e ficava mais alto e, por fim, atingia um tom
estridente e choroso. Com ele, veio uma voz.
— Elfo andarilho, dê meia volta e deixe o anão para trás. Somos os
espíritos das pobres almas que Flint Forjardente deixou no chão do bar.
Nós morremos em combate?
A voz do espírito subiu para novos níveis, assim como o zumbido de
lamento que a acompanhava.
— Não! Morremos de vergonha, amaldiçoados pelo fantasma da uva,
pois não conseguimos beber mais do que um anão da colina.
A barba de Flint tremia de raiva e Tanis, caindo em gargalhadas, foi
forçado a agarrar o ombro do anão furioso para impedí-lo de investir de
cabeça no mato.
— Malditos sejam os olhos dos elfos! — A voz espectral ficou alegre.
— E malditas sejam as barbas dos anões!
— Você não sabia? — Flint reclamou. — Tasslefoff Burrfoot!
Houve um farfalhar leve na vegetação rasteira, então uma pequena
figura entrou no caminho. Era um kender, uma raça considerada tão
irritante quanto mosquitos por muitos em Krynn. Pequenos, os kenders
tinham pouco mais de um metro de altura. Este em particular era quase
da altura de Flint, mas seu físico leve e seu rosto perpetuamente infantil
o faziam parecer menor. Ele usava perneiras azuis claras que contrastavam
nitidamente com o colete de pele e a túnica simples caseira. Seus olhos
castanhos brilhavam com travessura e diversão e seu sorriso parecia alcançar
as bordas das orelhas pontudas. Ele abaixou a cabeça em uma reverência
falsa, deixando uma longa mecha de cabelo castanho, seu orgulho e alegria,
cair sobre o nariz. Depois se endireitou, rindo. O brilho metálico que os
olhos rápidos de Tanis haviam percebido veio da fivela de uma das inúmeras
bolsas amarradas ao redor de seus ombros e cintura.
Tas sorriu para eles, apoiado em seu cajado hoopak. Foi este cajado
que criou o barulho estranho. Tanis deveria tê-lo reconhecido logo, já tendo
visto o kender espantar muitos atacantes ao girar seu cajado no ar, produzin-
do aquele gemido estranho. Uma invenção kender, a extremidade inferior
do hoopak era revestida de cobre e pontiaguda, enquanto a superior era
bifurcada e tinha uma funda de couro. O próprio cajado era feito de uma
única peça de madeira flexível de salgueiro. Embora desprezado por todas

25
as outras raças em Krynn, o hoopak era mais do que uma ferramenta ou
arma útil para um kender — era o seu símbolo. “Novas estradas exigem um
hoopak”, era um ditado popular entre os kender. Isto era sempre seguido
por outro dos seus ditados: “Nenhuma estrada é velha demais”.
De repente, Tasslehoff correu para frente, com os braços bem abertos.
— Flint! — O kender jogou seus braços ao redor do anão e o abraçou.
Envergonhado, Flint devolveu o abraço relutantemente, então recuou.
Tasslehoff sorriu, então olhou para o meio-elfo.
— Quem é este? — Ele disse. — Tanis! Não o reconheci de barba! —
Ele estendeu seus braços curtos.
— Não, obrigado — disse Tanis, rindo. Acenou para o kender ficar
longe. — Quero manter minha algibeira.
Com um súbito olhar de temor, Flint sentiu sob sua túnica.
— Seu patife! — Ele rosnou e saltou em direção ao kender, que estava
se dobrando de rir. Os dois caíram na poeira.
Rindo, Tanis começou a puxar Flint de cima do kender. Então,
parou e se virou em alerta. Tarde demais, ele ouviu o tilintar de arreios e
rédeas e o relincho de um cavalo. O meio-elfo colocou a mão no punho
da espada, mas já havia perdido qualquer vantagem que poderia ter
obtido com a prontidão.
Praguejando baixinho, Tanis não podia fazer nada além de olhar e
encarar a figura que emergia das sombras. Ele estava sentado em um pônei
de pernas peludas que andava com a cabeça baixa, como se estivesse en-
vergonhado de seu cavaleiro. A pele cinzenta e manchada caía em dobras
no rosto do cavaleiro. Dois olhos rosa suínos olhavam para eles por baixo
de um elmo de aparência militar. Seu corpo gordo e flácido vazava entre
pedaços de uma armadura barata e pretensiosa.
Um odor peculiar chegou a Tanis e ele franziu o nariz em desgosto.
— Hobgoblin! — sua mente registrou. Ele soltou a espada e chutou
Flint, mas, naquele momento, o anão deu um tremendo espirro e sentou-se
sobre o kender.
— Cavalo! — disse Flint, espirrando de novo.
— Atrás de você — Tanis respondeu baixinho.
Flint, ouvindo o tom de alerta na voz de seu amigo, se levantou desa-
jeitado. Tasslehoff fez o mesmo rapidamente.

26
O hobgoblin estava sentado no pônei com uma perna de cada lado,
observando-os com um olhar arrogante em seu rosto achatado. Seus olhos
rosas refletiam os últimos raios do sol.
— Estão vendo, rapazes — declarou o hobgoblin, falando o idioma
comum com um forte sotaque —, com que tipo de tolos estamos lidando
aqui em Consolação.
Houve gargalhadas nas árvores atrás do hobgoblin. Cinco guardas
goblins, vestidos com uniformes mal-feitos, saíram a pé. Eles assumiram
posições nos dois lados do cavalo do seu líder.
— Agora — o hobgoblin se inclinou em sua sela.
Tanis observava com um tipo de fascínio horrível quando a enorme
barriga da criatura engolfou completamente o pomo.
— Sou o Baixo Mestre Toede, líder das forças que mantêm Consola-
ção protegida contra elementos indesejáveis. Vocês não têm direito de estar
andando nos limites da cidade depois do por do sol. Vocês estão presos!
— Baixo Mestre Toede se abaixou para falar com um goblin ao seu lado.
— Pegue o cajado de cristal azul se encontrar com eles — ele disse,
na língua goblin grasnada. Tanis, Flint e Tasslehoff olharam entre si, se
questionando. Cada um falava um pouco de goblin, Tas melhor do que os
outros. Eles tinham ouvido direito? Um cajado de cristal azul?
— Se resistirem — acrescentou o Baixo Mestre Toede, voltando a falar
comum —, mate-os.
Com isso, puxou as rédeas, atiçou a montaria com o chicote e saiu a
galope pelo caminho em direção à cidade.
— Goblins! Em Consolação! Esse novo Teocrata tem muito o que
explicar! — disse Flint. Erguendo a mão, puxou o machado de batalha de
seu suporte nas costas e plantou os pés firmemente no caminho, balançan-
do para frente e para trás até se sentir equilibrado. — Muito bem — ele
anunciou. — Venham.
— É melhor vocês recuarem — disse Tanis, jogando o manto sobre
um ombro e sacando a espada. — Fizemos uma longa viagem. Estamos
com fome, cansados e atrasados para um encontro com amigos que não
vemos há tempos. Não temos a intenção de ser presos.
— Muito menos de morrer — adicionou Tasslehoff. Ele não tinha
sacado uma arma, mas ficou olhando para os goblins com interesse.
Um pouco surpresos, os goblins se entreolharam nervosamente. Um
deles lançou um olhar feio para a estrada onde seu líder havia desaparecido.

27
Os goblins estavam acostumados a ameaçar mascates e fazendeiros que
viajavam para a cidade, não a enfrentar guerreiros armados e obviamente
habilidosos. Mas seu ódio pelas outras raças de Krynn era de longa data.
Eles sacaram suas espadas longas e curvas.
Flint foi para frente, suas mãos agarrando com firmeza o cabo do
machado.
— Só existe uma criatura que eu odeie mais do que um anão tolo —
ele resmungou —, e é um goblin!
O goblin se jogou contra Flint, na esperança de derrubá-lo. Flint girou
o machado com uma precisão letal. A cabeça do goblin rolou na poeira, o
corpo caindo no chão.
— O que vocês, imundos, estão fazendo em Consolação? — Perguntou
Tanis, aparando com habilidade o golpe desajeitado de outro goblin. Suas
espadas cruzaram e pararam por um instante, então o meio-elfo empurrou
o humanoide. — Vocês trabalham para o Sumo Teocrata?
— Teocrata? — o goblin gargalhou. Girando sua arma violentamente,
correu contra Tanis. — Aquele tolo? Nosso Baixo Mestre trabalha para--
uff! — A criatura se empalou na espada de Tanis. Ele gemeu, então deslizou
até o chão.
— Droga! — Tanis praguejou e olhou para o goblin morto. — Idiota
desajeitado! Não queria matá-lo, apenas descobrir quem o contratou.
— Vocês vão descobrir, mais cedo do que gostariam! —rosnou outro
goblin, correndo para o meio-elfo distraído. Tanis virou rapidamente e
desarmou a criatura. Ele chutou-o no estômago e o goblin caiu, curvado.
Outro goblin saltou em Flint antes que o anão tivesse tempo de se
recuperar de seu golpe letal. Ele cambaleou para trás, tentando recuperar
o equilíbrio.
Então, a voz penetrante de Tasslehoff soou.
— Essa escória vai lutar por qualquer um, Tanis. Dê a eles um pouco
de carne de cachorro de vez em quando e eles são seus...
— Carne de cachorro! — O goblin resmungou e se afastou de Flint,
em fúria. — Que tal carne de kender, seu estridente! — O goblin correu na
direção do kender desarmado, com as mãos vermelho-púrpuras tentando
agarrar seu pescoço. Sem perder a expressão inocente e infantil no rosto,
Tas enfiou a mão no colete felpudo, sacou uma adaga e atirou, tudo isso
em um único movimento. O goblin levou as mãos ao peito e caiu com um

28
gemido. Restava o som de pés batendo enquanto o goblin restante fugia. A
batalha havia acabado.
Tanis guardou a espada, fazendo uma careta de nojo para os corpos
fétidos. O cheiro parecia o de peixe podre. Flint limpou o sangue escuro da
lâmina do seu machado. Tas olhava com tristeza para o corpo do goblin que
havia matado. Ele havia caído de barriga para baixo, com sua adaga cravada.
— Eu pego para você — ofereceu Tanis, preparando-se para virar o
corpo.
— Não — Tas fez uma careta. — Não quero mais. Não tem como
tirar esse cheiro, sabe.
Tanis concordou. Flint prendeu o machado no suporte novamente e
os três continuaram seguindo o caminho.
As luzes de Consolação ficaram mais claras conforme a escuridão
aumentava. O cheiro da fumaça de lenha no ar frio da noite trazia pensa-
mentos de comida, calor e segurança. Os companheiros apertaram o passo.
Eles não falaram por um bom tempo, cada um ouvindo as palavras de Flint
ecoando em sua mente: goblins. Em Consolação.
Finalmente, no entanto, o irreprimível kender deu uma risadinha.
— Além do mais — ele disse — aquela adaga era de Flint.

29
2
O Retorno à Hospedaria.
Um choque. O juramento quebrado.

ltimamente, quase todos em Consolação tentavam passar na


Hospedaria do Lar Derradeiro em algum momento da noite. As
pessoas se sentiam mais seguras em grupos.
Consolação sempre fora uma encruzilhada para viajantes. Eles vinham
do nordeste de Refúgio, a capital dos Perscrutadores. Vinham do reino élfico
de Qualinesti, ao sul. Às vezes, vinham do leste, além das áridas Planícies de
Abanassínia. Em todo o mundo civilizado, a Hospedaria do Lar Derradeiro
era conhecida como um ponto de descanso de viajantes e um centro de
notícias. Era para a Hospedaria que os três amigos seguiam.
O tronco enorme e intrincado se destacava das árvores circundantes.
Contra a sombra da copa, as cores dos vitrais da Hospedaria brilhavam in-
tensamente e os sons da vida desciam das janelas. Lanternas penduradas nos
galhos das árvores iluminavam a escada sinuosa. Embora a noite do outono
estivesse esfriando em meio às arvores de Consolação, os viajantes sentiam
o companheirismo e suas memórias aquecerem suas almas e levarem para
longe as dores e as tristezas da estrada.
A Hospedaria estava tão lotada naquela noite que os três precisavam se
encostar em um lado da escada o tempo todo para deixar homens, mulheres
e crianças passarem. Tanis notou que as pessoas olhavam para ele e seus
companheiros com desconfiança, não com o olhar receptivo que teriam
cinco anos atrás.
Tanis ficou sério. Não era a volta para casa com a qual havia sonha-
do. Nos cinquenta anos que havia morado em Consolação, nunca tinha
sentido tanta tensão. Os boatos que havia escutado sobre a corrupção dos
Perscrutadores deviam ser verdadeiros.
Há cinco anos, um grupo de homens que se chamavam de Perscruta-
dores (“nós perscrutamos os novos deuses”) começaram a praticar sua religião
nas cidades de Refúgio, Consolação e Berma. Tanis acreditava que eles
estavam enganados, mas que eram honestos e sinceros. Contudo, nos anos
seguintes, os clérigos foram ganhando cada vez mais poder à medida que
sua religião florescia. Logo, passaram a se preocupar menos com a glória no
pós-vida e mais com o poder em Krynn. Tomaram conta da administração
política das cidades com as bênçaos do povo.
Um toque no braço de Tanis interrompeu seus pensamentos. Ele
virou-se e viu Flint apontando para baixo silenciosamente. Olhando na
direção, Tanis viu guardas marchando, sempre em grupos de quatro. Arma-
dos até os dentes, caminhavam com um ar de ostentação.
— Pelo menos são humanos, não goblins — disse Tas.
— Aquele goblin zombou quando mencionei o Sumo Teocrata —
refletiu Tanis. — Como se trabalhassem para outra pessoa. Imagino o que
esteja acontecendo.
— Talvez nossos amigos saibam — Flint disse.
— Se estiverem aqui — Tasslehoff completou. — Muita coisa pode
ter acontecido em cinco anos.
— Eles estarão... Se estiverem vivos — disse Flint, mais baixo.
— Foi nosso juramento sagrado, nos encontramos depois que cinco
anos tivessem passado, e contar o que descobrirmos sobre o mal que se
espalha no mundo. E pensar que chegaríamos em casa para encontrar o mal
bem às nossas portas!
— Psiu! Fique quieto! — Tantos transeuntes olharam para o anão,
alarmados pelas palavras dele, que Tanis balançou a cabeça.

31
— Melhor não falar sobre isso aqui — o meio-elfo aconselhou.
Chegando ao topo da escada, Tas escancarou a porta.
Uma onda de luz, ruído, calor e o cheiro familiar das batatas tempera-
das de Otik os atingiu em cheio. Ela os envolveu e cobriu de forma recon-
fortante. O estalajadeiro, em pé atrás do balcão, estava como se lembravam
dele, exceto talvez pelo fato de estar mais rechonchudo. A Hospedaria
também parecia não ter mudado muito.
Com seus olhos rápidos de kender examinando o público, Tasslehoff
gritou e apontou para o outro lado do salão. Mais uma coisa não havia mu-
dado, a luz do fogo reluzindo no elmo de um dragão alado, polido e lustroso.
— Quem é? — perguntou Flint, se esforçando para ver.
— Caramon — respondeu Tanis.
— Então Raistlin também está aqui — disse Flint, sem nenhum tipo
de ânimo na voz.
Tasslehoff já havia se jogado no meio daquele monte de gente, seu
corpo pequeno e flexível quase despercebido pelas pessoas por quem pas-
sava. Tanis desejava intensamente que o kender não estivesse “adquirindo”
nenhum objeto dos clientes da hospedaria. Não que ele roubasse. Tasslehoff
ficaria profundamente ofendido se alguém o acusasse de roubo. Mas o
kender tinha uma curiosidade insaciável e vários objetos interessantes que
pertenciam aos outros acabavam parando nas mãos dele. A última coisa que
Tanis queria hoje era confusão. Fez um lembrete mental para conversar em
particular com o kender.
O meio-elfo e o anão tiveram mais dificuldade para atravessar a multi-
dão do que seu pequeno amigo. Quase todas as cadeiras estavam ocupadas,
todas as mesas cheias. Quem não conseguia achar um lugar para sentar
ficava em pé, conversando em voz baixa.
As pessoas olhavam para Tanis e Flint de forma ameaçadora ou
desconfiada. Ninguém cumprimentou Flint, embora muitos ali tivessem
sido fregueses de longa data do anão ferreiro. O povo de Consolação
tinha seus próprios problemas e era óbvio que, agora, Tanis e Flint eram
considerados forasteiros.
Ouviu-se um estrondo do outro lado do salão, da mesa onde o elmo
de dragão refletia a luz da lareira. O rosto sério de Tanis se transformou em
sorriso quando viu o gigante Caramon levantar o pequeno Tas do chão em
um abraço de urso.

32
Flint, movendo-se com dificuldade através de um mar de fivelas de
cinto, podia apenas imaginar a cena quando ouviu a voz retumbante de
Caramon respondendo à saudação de Tasslehoff.
— É melhor Caramon cuidar de sua bolsa — resmungou Flint. — Ou
contar seus dentes.
O anão e o meio-elfo finalmente conseguiram atravessar a multidão
que estava na frente do balcão. A mesa onde Caramon estava sentado ficava
encostada no tronco da árvore. De fato, estava em uma posição estranha.
Tanis imaginou por que Otik havia a movido quando todo o resto estava
exatamente no mesmo lugar. Mas o pensamento foi esquecido, pois havia
chegado sua vez de receber a calorosa saudação do grande guerreiro. Tanis
tirou rapidamente o arco longo e a aljava das costas antes que Caramon o
abraçasse e transformasse tudo em gravetos.
— Meu amigo! — Os olhos de Caramon estavam marejados. Parecia
querer falar mais, mas fora tomado pela emoção. Tanis também não con-
seguiu falar, mas no caso dele foi porque teve o ar arrancado pelos braços
musculosos de Caramon.
— Onde está Raistlin? — perguntou quando conseguiu falar. Os
gêmeos nunca se separavam.
— Ali — Caramon indicou para a outra extremidade da mesa. Então,
franziu a testa. — Ele mudou — o guerreiro avisou Tanis.
O meio-elfo olhou para um canto formado por uma irregularidade na
copa. O canto estava encoberto pela sombra e, durante um momento, ele
não conseguiu ver nada além do brilho do fogo.
Então, viu uma figura frágil sentada, encolhida dentro de um manto
vermelho, mesmo com o calor do fogo próximo. A figura tinha um capuz
sobre o rosto.
Tanis sentiu uma relutância repentina em falar com o jovem mago
sozinho, mas Tasslehoff havia se afastado para procurar a garçonete e Flint
estava sendo levantado do chão por Caramon. Tanis foi para a extremidade
da mesa.
— Raistlin? — disse, tendo um pressentimento estranho.
A figura no manto olhou para cima.
— Tanis? — o homem sussurrou, enquanto puxava lentamente o capuz.
O meio-elfo respirou fundo e deu um passo para trás, horrorizado.
O rosto que se virou para ele de dentro das sombras havia saído de
um pesadelo. “Mudou, Caramon disse!”, Tanis tremeu. “Mudou” não era

33
bem a palavra. A pele branca do mago agora tinha uma cor dourada. Ela
brilhava à luz do fogo, com uma aparência levemente metálica, parecendo
uma máscara horrível.
A carne havia quase sumido do rosto, deixando as maçãs do rosto
desenhadas em sombras terríveis. Os lábios estavam esticados, em uma
linha reta escura. Mas foram os olhos do homem que imobilizaram Tanis,
em seu olhar terrível. Pois não eram mais de um humano normal. Agora, as
pupilas tinham a forma de ampulhetas! As íris azuis pálidas, das quais Tanis
se lembrava, agora tinham um brilho dourado.
— Vejo que minha aparência o assusta — sussurrou Raistlin. Havia
uma leve insinuação de um sorriso nos lábios finos.
Sentando-se de frente para o jovem, Tanis engoliu em seco.
— Em nome dos verdadeiros deuses, Raistlin...
Flint se jogou em um assento ao lado de Tanis.
— Fui levantado no ar mais vezes hoje do que... Reorx! — Flint
arregalou os olhos. — O que diabos aconteceu? Você foi amaldiçoado? —
espantou-se o anão, olhando para Raistlin.
Caramon sentou ao lado do seu irmão. Pegou sua caneca de cerveja e
olhou para o mago.
— Você vai contar, Raist? — disse em voz baixa.
— Sim — disse Raistlin, transformando a palavra em um silvo que
fez Tanis estremecer. O jovem falava em voz baixa e ofegante, pouco acima
de um sussurro, como se mal conseguisse forçar as palavras para fora de seu
corpo. Suas mãos longas e nervosas, com a mesma cor dourada, brincavam
distraidamente com comida em um prato à sua frente.
— Lembram-se de quando nos separamos, cinco anos atrás? — co-
meçou Raistlin. — Meu irmão e eu planejamos uma viagem secreta, cujo
destino não poderia ser revelado nem mesmo a vocês, meus caros amigos.
Havia um leve tom de sarcasmo na voz suave. Tanis se conteve. Em
toda sua vida, Raistlin nunca teve “caros amigos”.
— Eu havia sido selecionado por Par-Salian, o líder da minha ordem,
para fazer o Teste — continuou Raistlin.
— O Teste? — Tanis repetiu, surpreso. — Mas você era muito novo.
Tinha o que, vinte anos? O Teste só é aplicado a magos que estudaram por
muito tempo.
— Sim. Imagine meu orgulho — Raistlin disse friamente, irritado
pela interrupção. — Meu irmão e eu viajamos para o lugar secreto, as

34
fabulosas Torres da Alta Magia. Lá, passei no teste. — A voz do mago quase
sumiu. — E lá, quase morri.
Caramon ficou com um nó na garganta, obviamente tomado por uma
emoção forte.
— Foi terrível — começou o grandão, com a voz trêmula. — Eu o
encontrei naquele lugar horrível, sangue saindo da sua boca, morrendo! Eu
o peguei e...
— Chega, irmão! — A voz suave de Raistlin bateu como um chicote.
Caramon se encolheu. Tanis viu os olhos dourados do jovem mago se es-
treitarem, as mãos finas se apertando. Caramon ficou em silêncio e engoliu
sua cerveja, olhando nervosamente para seu irmão. Havia claramente um
novo problema, uma tensão entre os gêmeos.
Raistlin respirou fundo e continuou.
— Quando acordei, — disse o mago — minha pele estava dessa
cor... uma marca do meu sofrimento. Meu corpo e minha saúde irreme-
diavelmente destruídos. E meus olhos! Vejo através de pupilas na forma de
ampulheta e, portanto, vejo o tempo... como ele afeta tudo. Mesmo agora,
olhando para você, Tanis — sussurrou o mago —, vejo você morrendo,
lentamente, aos poucos. E assim vejo tudo o que está vivo.
A mão fina de Raistlin, como uma garra, segurou o braço de Tanis. O
meio-elfo estremeceu com o toque gelado e começou a se afastar, mas os
olhos dourados e a mão fria o seguraram.
O mago se inclinou para frente, seus olhos brilhando febris.
— Mas agora tenho poder — ele sussurrou. — Par-Salian me disse
que chegaria o dia quando minha força moldaria o mundo! Tenho poder
e — gesticulou — o Cajado de Magius.
Tanis viu um cajado encostado no tronco da copa, ao alcance da mão
de Raistlin. Era um cajado simples de madeira. Uma bola de cristal clara,
presa em uma garra dourada, esculpida para parecer a garra de um dragão,
tremeluzindo na ponta.
— Valeu a pena? — perguntou Tanis em voz baixa.
Raistlin o encarou, então seus lábios se abriram em uma caricatura
de um sorriso. Ele retirou a mão do braço de Tanis e cruzou os braços nas
mangas do manto.
— É claro! — o mago sibilou. — Poder é o que eu buscava há muito
tempo... e ainda busco. — Ele se inclinou para trás e sua figura magra

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se fundiu nas sombras até que tudo que Tanis podia ver eram os olhos
dourados, brilhando com a luz do fogo.
— Cerveja — disse Flint, limpando a garganta e lambendo os lábios
como se estivesse tirando um gosto ruim da boca. — Onde está o kender?
Acho que ele roubou a garçonete...
— Aqui estamos — gritou a voz alegre de Tas. Uma moça alta, jovem
e ruiva apareceu atrás dele, carregando uma bandeja de canecas.
Caramon sorriu.
— Agora, Tanis — ele disse —, adivinhe quem é ela. Você também,
Flint. Se acertarem, eu pago esta rodada.
Feliz por tirar sua mente do conto sombrio de Raistlin, Tanis olhou
para a garota sorridente. Cabelo ruivo encaracolado ao redor do rosto,
olhos verdes que dançavam com diversão, sardas espalhadas pelo nariz e
pelas bochechas. Tanis se lembrava dos olhos, mas só.
— Desisto — ele disse. — Mas também, para os elfos, humanos pa-
recem mudar tão rapidamente que perdemos a noção. Tenho cento e dois
anos, mas não pareço ter mais de trinta para você. E, para mim, esses cem
anos parecem trinta. Essa jovem devia ser uma criança quando partimos.
— Eu tinha quatorze — A garota riu e colocou a bandeja na mesa. —
E Caramon costumava dizer que eu era tão feia que meu pai teria que pagar
alguém para casar comigo.
— Tika! — Flint bateu o punho na mesa. — Você paga, seu grande
idiota! — Ele apontou para Caramon.
— Não é justo! — O gigante riu. — Ela deu uma pista.
— Bem, os anos provaram que ele estava errado — disse Tanis, sor-
rindo —, viajei por muitas estradas e você é uma das moças mais belas que
já vi em Krynn.
Tika ficou corada de satisfação. Depois, sua face ficou séria.
— Aliás, Tanis — ela colocou a mão no bolso e puxou um objeto
cilíndrico —, isso chegou para você hoje. Em circunstâncias estranhas.
Tanis franziu a testa e pegou o objeto. Era um pequeno tubo para
pergaminho feito de madeira negra e polida. Ele removeu lentamente um
pedaço de papel e o desenrolou. Seu coração bateu dolorosamente ao ver a
caligrafia forte e escura.
— É de Kitiara — ele finalmente disse, sabendo que sua voz soava
tensa e anormal. — Ela não virá.
Houve um momento de silêncio.

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— É isso — disse Flint. — O círculo foi partido. O juramento, que-
brado. Má sorte — ele balançou a cabeça. — Má sorte.

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3
Cavaleiro de Solamnia.
A festa do velho.

aistlin inclinou-se para frente. Ele e Caramon trocaram olhares


enquanto trocavam pensamentos sem palavras. Era um momento
raro, pois apenas um perigo ou uma grande dificuldade pessoal
tornava aparente a afinidade dos gêmeos.
Kitiara era a meia-irmã mais velha deles.
— Kitiara não quebraria seu juramento a menos que outro juramento
mais forte a obrigasse — Raistlin pensou em voz alta.
— O que ela disse? — perguntou Caramon.
Tanis hesitou, depois lambeu os lábios secos.
— Seus deveres com o novo senhor a mantêm ocupada. Ela se
desculpa e deseja seus melhores votos a todos nós e seu amor... — Tanis
sentiu sua garganta se contrair. Ele tossiu.
— Seu amor para seus irmãos e para... — Ele parou, depois enrolou o
pergaminho. — Só isso.
— Amor para quem? — Perguntou Tasslehoff. — Ai! — Ele olhou
para Flint, que pisou em seu pé. O kender viu Tanis ficar vermelho. — Oh
— ele disse, sentindo-se estúpido.
— Vocês sabem de quem ela está falando? — Tanis perguntou aos
irmãos. — De que novo senhor ela serve?
— Quem entende a Kitiara? — Raistlin encolheu os ombros ma-
gros. — A última vez que a vimos foi aqui, na Hospedaria, há cinco
anos. Ela estava indo para o norte com Sturm. Não ouvimos falar dela
desde então. Quanto ao novo senhor, diria que agora sabemos porque
ela quebrou o juramento conosco: ela jurou lealdade a outro. Afinal de
contas, ela é uma mercenária.
— Sim — Tanis admitiu. Ele colocou o pergaminho de volta e olhou
para Tika. — Você disse que isto chegou sob circunstâncias estranhas?
Fale mais.
— Um homem trouxe isto no fim desta manhã. Pelo menos, acho que
era um homem — Tika tremeu. — Ele estava enrolado da cabeça aos pés
em todo tipo de roupa. Não conseguia nem ver o rosto dele. Sua voz era
sibilante e ele falava com um sotaque estranho.
— “Entregue isso a um tal Tanis Meio-Elfo”, ele disse. Eu disse que
você não estava, nem esteve aqui por vários anos. “Ele vai estar”, disse o
homem. Depois, partiu — Tika deu de ombros. — Isso é tudo que posso
contar. O velho ali o viu. — Ela indicou um velho sentado em uma cadeira
diante do fogo. — Você pode perguntar-lhe se viu alguma outra coisa.
Tanis virou-se para ver um velho que contava histórias para uma
criança sonhadora que olhava para as chamas. Flint tocou o braço de Tanis.
— Chegou alguém que pode nos dizer mais — disse o anão.
— Sturm! — Tanis disse calorosamente, voltando-se para a porta.
Todos se viraram, exceto Raistlin. O mago recolheu-se nas sombras
mais uma vez.
Na porta, havia uma figura ereta, trajando armadura de placas e cota
de malha, com o símbolo da Ordem da Rosa no peitoral. Muitas pessoas
na hospedaria se viraram para olhar, franzindo a testa. O homem era um
cavaleiro solâmnico e os membros dessa ordem tinham uma reputação ruim
no norte. Rumores de sua corrupção haviam se espalhado até o sul. Os
poucos que reconheceram Sturm como ex-morador de Consolação deram
de ombros e voltaram a beber. Aqueles que não reconheceram continuaram
a olhar. Nestes dias de paz, era bastante incomum ver um cavaleiro de

39
armadura completa entrar na Hospedaria. Mas era ainda mais incomum
ver um cavaleiro numa armadura completa da época do Cataclismo!
Sturm recebeu os olhares como elogios devido a sua posição. Alisou
cuidadosamente seu bigode grande e grosso que, sendo o antigo símbolo
dos Cavaleiros, era tão antiquado quanto a sua armadura. Ele portava os
aparatos dos cavaleiros solâmnicos com orgulho inquestionável, e possuía
a habilidade com espada para defender tal orgulho. Embora as pessoas na
hospedaria olhassem, depois de fitar os olhos calmos e frios do cavaleiro,
ninguém ousou rir ou fazer um comentário depreciativo.
O cavaleiro segurava a porta aberta para um homem alto e uma mu-
lher, cobertos com peles. A mulher deve ter falado um agradecimento a
Sturm, pois ele se curvou para ela de uma maneira cortês e antiga, há muito
esquecida no mundo.
— Vejam só — Caramon balançou a cabeça em admiração. — O
cavaleiro galante ajuda a dama. De onde ele tirou esses dois?
— São bárbaros das Planícies — disse Tas, de pé em uma cadeira,
gesticulando para seu amigo. — São os trajes da tribo Que-shu.
Aparentemente, o casal da Planície recusou a oferta que Sturm fez,
pois o cavaleiro se curvou novamente e os deixou. Ele atravessou a Hos-
pedaria lotada com um ar nobre, como o que deve ter feito ao ser sagrado
pelo rei.
Tanis se levantou. Sturm veio primeiro a ele e lançou seus braços ao
redor de seu amigo. Tanis deu um abraço apertado, sentindo os braços
fortes e musculosos do cavaleiro o agarrarem com afeição. Depois, os dois
se afastaram para olhar um para o outro por um momento. Sturm não
tinha mudado, pensou Tanis, a não ser por haver mais rugas ao redor de
seus olhos tristes e seu cabelo castanho estar mais grisalho.
A capa estava mais gasta, e a antiga armadura, mais amassada. Mas
o bigode esvoaçante do cavaleiro, seu maior orgulho, estava longo como
sempre, seu escudo estava polido a ponto de brilhar e seus olhos castanhos
brilharam suavemente quando viram seus amigos.
— E você tem barba — Sturm disse com agrado.
Então, o cavaleiro virou-se para saudar Caramon e Flint. Tasslehoff
correu atrás de mais cerveja, uma vez que Tika fora atender outras mesas,
na multidão que crescia.
— Saudações, cavaleiro — sussurrou Raistlin de seu canto.

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O rosto de Sturm ficou sério quando ele se virou para cumprimentar
o outro gêmeo.
— Raistlin — disse.
O mago puxou seu capuz, deixando que a luz batesse em seu rosto.
Sturm era educado demais para dar mostras de seu espanto. Mas seus olhos
se arregalaram. Tanis percebeu que o jovem mago estava sentindo um prazer
cínico em ver o desconforto dos seus amigos.
— Quer que eu traga alguma coisa, Raistlin? — perguntou Tanis.
— Não, obrigado — o mago respondeu, recolhendo-se para as som-
bras novamente.
— Ele não come praticamente nada — Caramon disse num tom
preocupado. — Acho que vive de ar.
— Algumas plantas vivem de ar — Tasslehoff afirmou, voltando com a
cerveja de Sturm. — Eu vi. Elas flutuam acima do chão. Suas raízes retiram
alimento e água da atmosfera.
— É mesmo? — os olhos de Caramon se arregalaram.
— Não sei quem é mais idiota — disse Flint, com repulsa. — Bem,
estamos todos aqui. Quais as novidades?
— Todos? — Sturm olhou intrigado para Tanis. — Kitiara?
— Não vem — respondeu Tanis prontamente. — Estávamos esperando
que você talvez pudesse nos contar algo.
— Eu não — o cavaleiro franziu a testa. — Viajamos juntos para o
norte e nos separamos logo depois de cruzarmos o Estreito do Mar em
direção à Velha Solamnia. Ela disse que ia procurar parentes do pai dela.
Foi a última vez que a vi.
— Bem, acho que é isso — Tanis suspirou. — E seus parentes, Sturm?
Você encontrou seu pai?
Sturm começou a falar, mas Tanis só ouvia parcialmente as histórias
das viagens de Sturm a sua terra ancestral, Solamnia. Seus pensamentos
estavam em Kitiara. De todos os amigos, era quem mais desejava ver. Após
cinco anos tentando esquecer os olhos escuros e o sorriso torto, descobriu
que a saudade que sentia dela só crescia. Feroz, impulsiva e cabeça-quente,
a espadachim era tudo que Tanis não era.
Era também humana. Mas, mesmo sabendo que o amor entre huma-
nos e elfos sempre acabava em tragédia, Tanis não conseguia tirar Kitiara de
seu coração, assim como não poderia tirar seu lado humano de seu sangue.
Livrando sua cabeça das memórias, voltou a ouvir Sturm.

41
— Ouvi boatos. Alguns dizem que meu pai está morto. Outros
dizem que está vivo — sua face ficou sombria. — Mas ninguém sabe
onde ele está.
— Sua herança? — perguntou Caramon.
Sturm sorriu, um sorriso melancólico que suavizou as linhas de seu
rosto orgulhoso.
— Estou usando-a — ele respondeu de forma simples. — Minha
armadura e minha arma.
Tanis olhou para baixo e viu que o cavaleiro carregava um montante
antigo, mas esplêndido.
Caramon se levantou para olhar por sobre a mesa.
— Ela é linda — disse. — Já não fazem mais espadas como essa
atualmente. Minha espada quebrou numa luta contra um ogro. Theros
Dobraferro colocou uma lâmina nova hoje, mas saiu caro. Então, agora
você é um cavaleiro?
O sorriso de Sturm sumiu. Ignorando a pergunta, ele acariciou o
punho da espada carinhosamente.
— De acordo com a lenda, esta espada só vai se quebrar se eu quebrar
— ele disse. — Foi tudo o que restou de meu pai--
De repente, Tas, que não estava escutando, interrompeu.
— Quem são aquelas pessoas? — o kender perguntou num sussurro
estridente.
Tanis olhou para cima quando os dois bárbaros passavam pela mesa
deles, na direção de cadeiras vazias que estavam nas sombras, num canto
perto da lareira. O homem era o mais alto que Tanis já tinha visto. Cara-
mon, com um metro e oitenta, batia apenas nos ombros dele. Mas o peito
de Caramon era provavelmente duas vezes mais largo e seus braços, três
vezes mais grosso. Embora o homem estivesse enrolado em peles que os
bárbaros da tribo costumam usar, era óbvio que era magro demais para sua
altura. Apesar da pele bronzeada, o rosto estava pálido como o de alguém
que está doente ou sofreu bastante.
Sua companheira, a mulher para a qual Sturm tinha se curvado, estava
tão enrolada em uma capa de pele com capuz que era difícil notar alguma
coisa sobre ela. Nem ela, nem seu acompanhante alto olharam para Sturm
quando passaram. A mulher carregava um cajado simples adornado com
penas no estilo dos bárbaros. O homem trazia uma mochila gasta. Eles

42
sentaram nas cadeiras, aconchegaram-se em suas capas e conversaram entre
si em voz baixa.
— Eu os encontrei vagando na estrada — disse Sturm. — A mulher
parecia estar perto da exaustão, assim como o homem. Eu os trouxe para
a cidade e disse que podiam comer e descansar esta noite. São pessoas
orgulhosas e acho que teriam recusado minha ajuda, se não estivessem tão
cansados. Além disso — o cavaleiro baixou a voz —, existem coisas na
estrada hoje em dia que é melhor não enfrentar no escuro.
— Encontramos algumas delas. Nos perguntaram sobre um cajado —
Tanis disse, com raiva. Descreveu seu encontro com o Baixo Mestre Toede.
Apesar de ter sorrido com a descrição da batalha, Sturm balançou a
cabeça.
— Um guarda Perscrutador também me perguntou sobre um cajado
— disse. — Cristal azul, não era?
Caramon acenou com a cabeça e colocou a mão no braço fino de
seu irmão.
— Um dos guardas nos parou — disse o guerreiro. — Queriam con-
fiscar o cajado de Raist, dá para acreditar... “para maiores averiguações”, eles
disseram. Lhes mostrei minha espada e eles mudaram de ideia.
Raistlin moveu o braço afastando-o do toque do irmão, com um
sorriso sarcástico nos lábios.
— O que teria acontecido se eles tivessem levado seu cajado? — Tanis
perguntou a Raistlin.
O mago olhou para ele da sombra de seu capuz, seus olhos dourados
brilhando.
— Teriam morrido de forma horrível — o mago sussurrou — e não
pela espada de meu irmão.
O meio-elfo gelou. As palavras que o mago disse de forma suave, eram
mais assustadoras do que a bravata de seu irmão.
— O que é tão importante nesse cajado de cristal azul para que os
goblins queiram matar para pegá-lo? — ponderou Tanis.
— Existem boatos de que o pior está por vir — Sturm disse em voz
baixa.
Seus amigos se aproximaram para ouvi-lo.
— Exércitos estão se reunindo ao norte. Exércitos de criaturas estra-
nhas, não humanas. Estão falando em guerra.
— Ouvi o mesmo — disse Tanis. Mas o que? Quem?

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— Eu também — completou Caramon. — De fato, ouvi que...
Enquanto a conversa continuava Tasslehoff bocejou e se virou para o
outro lado. Entediado, olhou ao redor da Hospedaria à procura de algo que
o distraísse. Seus olhos foram para o velho que ainda contava histórias para
a criança perto do fogo. O velho tinha um público maior agora. Os dois
bárbaros recém-chegados também estavam ouvindo, notou Tas. Então, seu
queixo caiu.
A mulher havia jogado o capuz para trás e a luz do fogo refletia no seu
rosto e cabelo. O kender a olhou com admiração.
O rosto da mulher era como o rosto uma estátua de mármore, es-
culpida à perfeição, pura e fria. Mas foi seu cabelo que chamou a atenção
do kender. Tas nunca tinha visto um cabelo igual aquele, especialmente
no povo da Planície, que normalmente tinha cabelo e pele escuros. Nem
mesmo um mestre ourives, trabalhando com fios derretidos de prata e de
ouro, seria capaz de criar o efeito que o cabelo prateado-dourado da mulher
produzia sob a luz do fogo.
Outra pessoa ouvia o velho. Era um homem vestindo um rico manto
marrom e dourado de um Perscrutador. Ele sentou-se em uma mesa peque-
na e redonda, bebendo vinho quente. Várias canecas vazias estavam a sua
frente e, enquanto o kender o observava, ele pediu outra, irritado.
— Aquele é Hederick — Tika sussurrou quando passava pela mesa
dos companheiros — O Sumo Teocrata.
O homem pediu novamente, encarando Tika. Ela se apressou em
atendê-lo. Ele falou de forma rude, reclamando do mau atendimento. Pa-
recia que ela ia responder alguma coisa, mas mordeu o lábio e ficou calada.
O velho chegou ao fim do seu conto. O menino suspirou.
— Todas as suas histórias de deuses antigos são verdadeiras, senhor?
— ele perguntou, com curiosidade.
Tasslehoff viu Hederick franzir a testa. O kender esperava que ele
não fosse incomodar o velho. Tas tocou no braço de Tanis para chamar a
atenção, acenando com a cabeça na direção do Perscrutador com um olhar
que dizia que poderia haver confusão.
Os amigos se viraram. Todos ficaram estupefatos com a beleza da
mulher da Planície. Eles a vislumbraram em silêncio.
A voz do velho tinha claramente se imposto sobre a monotonia das
outras conversas na sala.

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— Sim, menino. Minhas histórias são verdadeiras — o velho olhou
para a mulher e seu acompanhante alto. — Pergunte a esses dois. Eles
trazem essas histórias em seus corações.
— Trazem? — O garoto virou-se ansiosamente para a mulher. — Você
pode me contar uma história?
A mulher encolheu-se de volta nas sombras, seu rosto amedrontado
quando percebeu que Tanis e seus amigos olhavam para ela.
O homem aproximou-se dela para protegê-la, a mão dele movendo-se
em direção a sua arma. Ele encarou o grupo, principalmente o guerreiro
fortemente armado, Caramon.
— Idiota nervoso — Caramon comentou, suas mãos buscando a
espada.
— Posso entender o porquê — disse Sturm. — Guardando tal tesouro.
Ele é o guarda-costas dela, a propósito. Descobri pela conversa deles que ela
é uma pessoa da família real da tribo deles. Embora, imagino, pelos olhares
que trocaram, que o relacionamento deles vá além disso.
A mulher levantou a mão em um sinal de protesto.
— Sinto muito — os amigos tiveram que se esforçar para ouvir sua
voz baixa. — Não sou uma contadora de histórias. Não domino tal arte —
ela falou na língua comum, com um sotaque pesado.
O rosto ansioso da criança ficou desapontado. O velho bateu nas suas
costas, depois olhou diretamente nos olhos da mulher.
— Você pode não ser uma contadora de histórias — ele disse em um
tom agradável —, mas é uma cantora de canções, não é, filha do chefe?
Cante sua canção para a criança, Lua Dourada. Você sabe qual.
Saído aparentemente do nada, um alaúde apareceu nas mãos do velho.
Ele o deu para a mulher, que o olhou com um ar de medo e espanto.
— Como... você me conhece, senhor? — ela perguntou.
— Isso não importa — o velho sorriu com gentileza. — Cante para
nós, filha do chefe.
A mulher pegou o alaúde com as mãos que tremiam visivelmente.
Seu companheiro deu a impressão de ter sussurrado um protesto, mas ela
não o ouviu. Seus olhos pareciam estar presos aos olhos negros brilhantes
do velho. Lentamente, como se estivesse em transe, ela começou a dedilhar
o alaúde. Quando os acordes melancólicos ecoaram pelo salão principal,
as conversas pararam. Logo, todos estavam a observando, mas ela não
percebeu. Lua Dourada cantou somente para o velho.

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A planície não tem fim,
E o verão segue nobre,
E a princesa Lua Dourada
Ama o filho de um pobre.
Seu pai, o líder,
Cria um abismo entre eles.
A planície não tem fim e o verão segue nobre.

A planície está desigual


O céu está vacilante
O líder envia Vento Ligeiro
Para o leste distante

Em busca da magia forte


No início da manhã
A planície está desigual e o céu está vacilante.

Ó Vento Ligeiro, onde você está?


Ó Vento Ligeiro, o outono vai chegar.
Eu sento perto do rio
E olho o amanhecer,
Mas sozinho sobre as montanhas o sol está.

A planície está desvanecendo,


O vento do verão a parar,
Ele retorna, com a escuridão
Das gemas do seu olhar.

Ele carrega o cajado azul


Tão brilhante quanto uma geleira:
A planície está desvanecendo, o vento do verão a parar.

A planície é frágil,
Tão amarela quanto a chama
O líder desdenha
Do que Vento Ligeiro clama.

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Ele ordena que o povo
Apedreje o jovem guerreiro:
A planície é frágil, tão amarela quanto a chama.

A planície sumiu,
E o outono acabou de chegar.
A garota se junta ao amado,
Enquanto as pedras voam,

O cajado queima com a luz azul


E ambos desaparecem:
A planície sumiu e o outono acabou de chegar.

Um silêncio pesado caiu sobre a sala quando ela dedilhou o acorde


final. Respirando fundo, devolveu o alaúde para o velho e voltou para as
sombras mais uma vez.
— Obrigado, querida — disse o velho, sorrindo.
— Posso ouvir uma história agora? — o menino pediu ansiosamente.
— Claro — o velho respondeu e se recostou em sua cadeira. — Era
uma vez, o grande deus, Paladine...
— Paladine? — o garoto interrompeu. — Nunca ouvi falar de um
deus chamado Paladine.
Uma risada de desdém veio do Sumo Teocrata sentado na mesa pró-
xima. Tanis olhou para Hederick, cuja face estava vermelha e fechada. O
velho pareceu não perceber.
— Paladine é um dos deuses antigos, garoto. Ninguém o adora há
muito tempo.
— Por que ele foi embora? — o menino perguntou.
— Ele não foi embora — respondeu o velho e seu sorriso ficou triste
— Os homens o deixaram depois dos dias escuros do Cataclismo. Eles
culparam os deuses pela destruição do mundo, em vez de culparem a si
mesmos, como deveriam ter feito. Você já ouviu o “Cântico do Dragão?”
— Ah, sim — o menino respondeu com entusiasmo. — Adoro his-
tórias de dragões, embora papai diga que eles não existem. Mas eu acredito
neles. Espero ver um algum dia!
O rosto do velho pareceu envelhecer e ficar triste. Ele acariciou os
cabelos do menino.

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— Cuidado com o deseja, minha criança — disse suavemente.
Depois, ficou em silêncio.
— A história... — o menino insistiu.
— Ah sim. Bem, uma vez, Paladine ouviu a prece de um grande
cavaleiro, Huma--
— Huma do Cântico?
— Sim, esse mesmo. Huma havia se perdido na floresta. Ele vagou e
vagou até se desesperar, porque pensou que nunca mais voltaria a ver sua
terra natal de novo. Ele rezou pedindo ajuda a Paladine e, de repente, um
cervo branco apareceu diante dele.
— Huma atirou uma flecha nele? — o menino perguntou.
— Ele se preparou, mas seu coração o impediu. Não conseguiria
machucar um animal tão magnífico. O cervo saiu correndo. Então, parou e
olhou para Huma, como se estivesse esperando. Huma começou a segui-lo.
Dia e noite, seguiu o cervo até ele levá-lo de volta à sua pátria. Ele agradeceu
ao deus, Paladine--
— Blasfêmia! — reclamou alto uma voz. Uma cadeira caiu para trás.
Tanis colocou sua caneca na mesa e levantou os olhos. Todos na mesa
pararam de beber para observar o Teocrata bêbado.
— Blasfêmia! — balançando-se em pé e sem firmeza, Hederick apon-
tou para o velho. — Herege! Corrompendo nossa juventude! Eu o levarei
diante do conselho, velho — o Perscrutador deu um passo para trás, depois
cambaleou para a frente. Ele olhou à volta do salão com um ar de pompa.
— Chamem os guardash! — ele fez um gesto grandioso. — Prendam
eshe homem e esha mulher por cantar músicas indecentesh. Obviamente
uma bruxa! Vou confiscar esse cajado!
O Perscrutador cambaleou através do salão até a mulher bárbara, que
olhava para ele com desgosto. Tentou pegar o cajado de forma desajeitada.
— Não — a mulher chamada Lua Dourada disse friamente. — Isso é
meu! Você não pode pegá-lo.
— Bruxa! — o Perscrutador proferiu. — Eu sou o Sumo Teocrata! Eu
pego o que quiser.
Ele começou a tentar agarrar o cajado novamente. O acompanhante
alto da mulher se levantou.
— A filha do chefe disse que você não vai pegá-lo — o homem disse
duramente e empurrou o Teocrata para trás.

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O empurrão do homem alto não foi forte, mas desequilibrou o Teo-
crata bêbado. Com os braços girando loucamente, tentou se equilibrar, mas
cambaleou demais para frente, tropeçou em seu manto e caiu de cabeça
dentro do fogo.
Houve um ruído forte, o brilho de uma labareda e, depois, um cheiro
repulsivo de carne queimada. O grito do Teocrata rompeu o silêncio estu-
pefato enquanto o homem enlouquecido ficou de pé e começou a girar em
frenesi. Ele havia se transformado em uma tocha viva!
Tanis e os outros se sentaram, incapazes de se mover, paralisados pelo
choque do incidente. Apenas Tasslehoff foi esperto suficiente para correr
para frente, ansioso para ajudar o homem. Mas o Teocrata estava gritando
e agitando os braços, atiçando as chamas que consumiam suas roupas e seu
corpo. Parecia não haver forma do pequeno kender ajudá-lo.
— Aqui! — o velho agarrou o cajado decorado com penas da bárbara
e o entregou ao kender. — Derrube-o. Depois nós podemos apagar o fogo.
Tasslehoff pegou o cajado. Usando toda sua força, o girou e atingiu o
Teocrata bem no peito. O homem caiu no chão. Todos ficaram espantan-
dos. O próprio Tasslehoff ficou parado, de boca aberta, o cajado firme em
sua mão, observando a cena incrível a seus pés.
As chamas se apagaram instantaneamente. O manto do homem estava
inteiro, sem danos. Sua pele estava rosada e sadia. Ele se sentou, com um
olhar de medo e espanto em seu rosto. Olhou suas mãos e e seu manto.
Não havia nenhuma marca em sua pele. Não havia a menor queimadura
fumegante em suas roupas.
— Ele o curou — o velho proclamou em voz alta. — O cajado! Olhe
o cajado!
Os olhos de Tasslehoff se voltaram para o cajado em suas mãos. Era
feito de cristal azul e estava brilhando com uma luz azul radiante.
O velho começou a gritar.
— Chamem os guardas! Prendam o kender! Prendam os bárbaros!
Prendam seus amigos! Eu os vi entrando com este cavaleiro — ele apontou
para Sturm.
— O que? — Tanis levantou de salto. — Está maluco, velho?
— Chamem os guardas! — a notícia correu. — Você viu...? O cajado
de cristal azul? Nós o encontramos. Agora vão nos deixar em paz. Chamem
os guardas!

49
O Teocrata se levantou com dificuldade, o rosto pálido manchado de
vermelho. A bárbara e seu companheiro ficaram em pé, o medo e o alerta
estampados em seus rostos.
— Maldita bruxa! — a voz de Hederick tremia de raiva. — Você me
curou com o mal! Mesmo que eu queime para purificar minha carne, você
queimará para purificar sua alma!
Com isso, o Perscrutador esticou a mão e, antes que alguém pudesse
impedi-lo, enfiou-a de volta nas chamas. Ele engasgou de dor, mas não
gritou. Depois, segurando a mão queimada e escurecida, se virou e cam-
baleou, atravessando a multidão que murmurava, com um olhar insano de
satisfação em seu rosto contorcido de dor.
— Vocês têm que sair daqui! — Tika veio correndo até Tanis, res-
pirando com dificuldade. — A cidade inteira esteva procurando por este
cajado! Aqueles homens de capuz disseram ao Teocrata que destruiriam
Consolação se pegassem alguém escondendo o cajado. Os moradores os
entregarão aos guardas!
— Mas o cajado não é nosso! — Tanis protestou. Ele olhou para o
velho e o viu reclinado em sua cadeira, com um sorriso de satisfação no
rosto. O velho sorriu para Tanis e piscou o olho.
— Você acha que vão acreditar em você? — Tika apertou as mãos.—
Veja!
Tanis olhou ao redor. As pessoas estavam olhando para eles com ódio.
Alguns apertaram firme suas canecas. Outros levaram suas mãos rumo ao
punho de suas espadas. Gritos de baixo fizeram com que ele voltasse os
olhos para seus amigos.
— Os guardas estão vindo! — exclamou Tika.
Tanis se levantou. — Temos que sair pela cozinha.
— Sim! — ela concordou. — Não vão olhar lá atrás. Mas rápido. Não
vai demorar muito para vasculharem o lugar.
Os anos longe não haviam afetado a capacidade dos companheiros
de reagirem como um grupo diante da ameaça. Caramon havia posto sua
mochila no ombro, colocado seu elmo lustroso, sacado a espada e estava
ajudando seu irmão a se levantar. Após levantar, Raistlin pegou seu cajado
e começou a dar a volta na mesa. Flint empunhava seu machado de guerra
e encarava sombriamente aqueles que estavam olhando, que pareciam he-
sitantes em correr e atacar homens tão bem armados. Apenas Sturm estava
sentado, bebendo calmamente sua cerveja.

50
— Sturm! — disse Tanis com urgência. — Vamos! Temos que sair
daqui!
— Fugir? — O cavaleiro parecia surpreso. — Desta ralé?
— Sim. — Tanis pausou. O código de honra dos cavaleiros proibia
que ele fugisse do perigo. Era preciso convencê-lo. — Aquele homem é um
fanático religioso, Sturm. Provavelmente vai nos queimar na fogueira! E
— um pensamento repentino o ajudou — existe uma dama para proteger.
— A dama, é claro — Sturm se levantou e andou em direção à mu-
lher. — Senhora, seu servo — ele se curvou. O cavaleiro cortês não podia
ser apressado. — Parece que estamos juntos nisso. Seu cajado nos colocou
em um perigo considerável... E a você. Conhecemos a área ao redor daqui:
crescemos aqui. Eu sei que vocês são forasteiros. Ficaríamos honrados de
acompanhar você e seu amigo valente e proteger suas vidas.
— Vamos! — Tika insistiu, puxando o braço de Tanis. Caramon e
Raistlin já estavam na porta da cozinha.
— Pegue o kender — Tanis disse a ela.
Tasslehoff estava parado, imóvel no chão, olhando o cajado. Estava
rapidamente voltando para sua cor marrom comum. Tika pegou Tas pelo
rabo-de-cavalo e o puxou em direção à cozinha. O kender gritou, soltando
o cajado.
Lua Dourada o pegou rapidamente, segurando perto de si. Embora
estivesse assustada, seus olhos continuavam tão claros e firmes quanto
quando olhou para Sturm e Tanis. Aparentemente, ela estava pensando
rápido. Seu acompanhante disse alguma coisa rude em seu idioma. Ela
balançou a cabeça. Ele franziu a testa e fez um gesto de corte com a mão.
Ela deu uma resposta rápida e ele ficou calado, com a face sombria.
— Vamos com vocês — Lua Dourada disse para Sturm na língua
comum. — Obrigada pela ajuda.
— Por aqui! — Tanis os guiou para fora pela porta basculante da
cozinha, seguindo Tika e Tas. Ele olhou rapidamente para trás e viu parte
da multidão avançar, mas sem muita pressa.
O cozinheiro olhou para eles enquanto corriam pela cozinha. Cara-
mon e Raistlin já estavam na saída, que era nada mais do que um buraco
cortado no chão. Uma corda estava pendurada em um galho firme sobre o
buraco, que se estendia por doze metros ate o chão.
— Ah! — exclamou Tas, rindo. — É por aqui que a cerveja sobe e o
lixo desce — ele se jogou na corda e desceu com facilidade.

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— Sinto muito por isso — Tika se desculpou com Lua Dourada —,
mas é a única forma de sair daqui.
— Consigo descer uma corda — depois, a mulher sorriu e acrescen-
tou — embora admita que faz muito tempo que não faço isso.
Ela entregou o cajado a seu companheiro e agarrou a corda robusta.
Começou a descer, movendo as mãos com habilidade. Quando chegou ao
solo, seu companheiro jogou o cajado para baixo, agarrou a corda e desceu
pelo buraco.
— Como você vai descer, Raist? — Caramon perguntou, seu rosto
cheio de preocupação. — Eu posso te carregar nas costas...
Os olhos de Raistlin brilharam com uma fúria que impressionou Tanis.
— Eu consigo descer sozinho — o mago sibilou. Antes que alguém
pudesse impedi-lo, ele pisou na beira do buraco e se jogou no ar. Todos
respiraram fundo e olharam para baixo, esperando ver Raistlin espatifado no
chão. Em vez disso, viram o jovem mago flutuando gentilmente para baixo,
seus trajes esvoaçando ao seu redor. O cristal do seu cajado reluzia brilhante.
— Ele me dá arrepios — Flint resmungou para Tanis.
— Depressa — Tanis empurrou o anão para frente. Flint agarrou a
corda. Caramon foi em seguida, o peso do homem enorme fazendo o galho
onde a corda estava amarrada estalar.
— Eu vou por último — disse Sturm com a espada na mão.
— Muito bem — Tanis sabia que era inútil discutir. Ele pendurou
o arco longo e a aljava nos ombros, agarrou a corda e começou a descer.
Preocupado com o amigo, acabou escorregando. Deslizou corda abaixo,
incapaz de parar, ferindo a pele da palma de suas mãos. Pousou no chão
e, dando um passo atrás, olhou para suas mãos. Suas palmas estavam em
carne viva e sangrando. Mas não havia tempo de pensar nelas. Olhando
para cima, viu Sturm descer.
O rosto de Tika aparecia na abertura.
— Vão para minha casa! — ela disse, apontando para as árvores.
Depois, sumiu.
— Eu sei o caminho — disse Tasslehoff, com os olhos brilhando de
animação. — Sigam-me.
Eles correram atrás do kender, ouvindo os sons dos guardas subindo
pela escadaria da Hospedaria. Tanis, desacostumado a andar no solo de
Consolação, logo estava perdido. Acima de sua cabeça, podia ver as pontes-
calçadas e as lâmpadas das ruas cintilando por entre as folhas das árvores.

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Ele estava completamente desorientado, mas Tas continuou em frente, con-
fiante, costurando para lá e para cá entre os enormes troncos das copadeiras.
Os sons da comoção na Hospedaria desapareceram.
— Ficaremos escondidos na casa de Tika esta noite — Tanis sussurrou
para Sturm enquanto passavam pelos arbustos. — Caso alguém nos reco-
nheça e decida nos procurar em nossas casas. Todos terão esquecido disso
até o amanhecer. Vamos levar o casal da Planície para minha casa e deixá-los
descansar alguns dias. Depois, podemos mandar os bárbaros para Refúgio,
onde o Conselho dos Altos Perscrutadores pode falar com eles. Acho que
vou junto... Estou curioso sobre este cajado.
Sturm concordou. Depois olhou para Tanis e deu seu sorriso raro
e melancólico.
— Bem-vindo ao lar — disse o cavaleiro.
— Você também — o meio-elfo sorriu.
Eles pararam de repente, trombando com Caramon no escuro.
— Acho que chegamos — disse Caramon.
Na luz dos lampiões de rua penduradas nos galhos das árvores, podiam
ver Tasslehoff subindo pelas árvore como um anão tolo. O resto seguiu mais
lentamente, com Caramon ajudando seu irmão. Rangendo os dentes com a
dor em suas mãos, Tanis escalou lentamente pela folhagem de outono cada
vez menos espessa. Tas se colocou em cima da grade do alpendre com a
habilidade de um ladrão. O kender foi para a porta e olhou para cima e para
baixo da ponte-calçada. Sem ver ninguém, sinalizou para os outros. Depois,
estudou a tranca e sorriu satisfeito para si mesmo. Pegou algo em um dos
seus bolsos. Em segundos, a porta da casa de Tika se abriu.
— Entrem — ele disse, brincando de anfitrião.
Eles se amontoaram na pequena casa, o bárbaro alto sendo forçado
a abaixar a cabeça para não bater no teto. Tas fechou as cortinas. Sturm
encontrou uma cadeira para a dama e o bárbaro alto ficou parado atrás dela.
Raistlin acendeu o fogo.
— Fiquem atentos — disse Tanis. Caramon concordou. O guerreiro
já havia se colocado perto de uma janela, olhando para a escuridão. A luz
de um lampião da rua entrava pelas cortinas na sala, projetando sombras
escuras nas paredes. Durante longos momentos, ninguém falou nada,
ficaram apenas um olhando para o outro.
Tanis se sentou. Seus olhos voltaram para a mulher.

53
— O cajado de cristal azul — ele disse baixinho. — Curou aquele
homem. Como?
— Eu não sei — ela hesitou. — Não... não faz muito tempo que estou
com ele.
Tanis olhou para suas mãos. Elas estavam sangrando onde a corda
havia arrancado sua pele. Ele as esticou para ela. Lentamente, com o rosto
pálido, a mulher o tocou com o cajado, que começou a emitir um brilho
azul. Tanis sentiu um leve formigamento pelo seu corpo. Enquanto ob-
servava, o sangue nas palmas de suas mãos sumiu, a pele ficou lisa e sem
marcas, a dor reduziu e logo desapareceu completamente.
— Cura verdadeira — ele disse, admirado.

54
4
A porta aberta.
Fuga na escuridão

aistlin sentou-se perto da lareira, esfregando as mãos finas no calor


do fogo pequeno. Seus olhos dourados pareciam brilhar mais do
que as chamas enquanto ele olhava atentamente para o cajado de
cristal azul que descansava no colo da mulher.
— O que você acha? — perguntou Tanis.
— Se ela for charlatã, é uma das boas — Raistlin comentou pensativo.
— Seu verme! Como ousa chamar a filha do chefe de charlatã! — o
bárbaro alto caminhou na direção de Raistlin, suas sobrancelhas escuras
franzidas. Caramon deu um pigarro baixo e se afastou da janela para se
posicionar atrás de seu irmão.
— Vento Ligeiro... — a mulher colocou a mão no braço do homem
que se aproximava dela. — Por favor. Ele não disse por mal. Está certo que
não confiem em nós. Eles não nos conhecem.
— E nós não os conhecemos — o homem rosnou.
— Posso examiná-lo? — disse Raistlin.
Lua Dourada concordou e entregou o cajado. O mago esticou seu
braço longo e ossudo e suas mãos finas o agarraram avidamente. Contudo,
quando Raistlin tocou o cajado, houve um brilho de luz azul e um som de
estalo. O mago puxou sua mão, gritando de dor e de surpresa. Caramon
pulou para frente, mas seu irmão o parou.
— Não, Caramon — Raistlin sussurrou roucamente, comprimindo a
mão machucada. — A dama não teve nada a ver com isso.
De fato, a mulher estava olhando o cajado, perplexa.
— O que foi então? — perguntou Tanis, irritado. — Um cajado que
cura e fere ao mesmo tempo?
— Ele simplemente sabe quem está com ele — Raistlin passou a lín-
gua pelos lábios, seus olhos reluzindo. — Veja. Caramon, pegue o cajado.
— Eu não! — O guerreiro recuou como se o objeto fosse uma serpente.
— Pegue o cajado! — Raistlin exigiu.
Relutante, Caramon esticou sua mão tremendo. Seu braço estremecia
enquanto seus dedos se aproximavam cada vez mais. Fechando os olhos e
rangendo os dentes, esperando a dor, ele tocou o cajado. Nada aconteceu.
Caramon arregalou os olhos, surpreso. Pegou o cajado, levantou em
suas mãos imensas e sorriu.
— Viu — Raistlin gesticulou como um ilusionista mostrando um
truque para o público. — Apenas os que são puros de coração — seu sar-
casmo era mordaz — podem tocá-lo. Este é realmente um cajado sagrado,
abençoado por algum deus. Não é mágica. Nenhum objeto mágico que já
ouvi falar tem poderes de cura.
— Psiu! — ordenou Tasslehoff, que havia tomado o lugar de Caramon
perto da janela. — Os guardas do Teocrata! — ele avisou baixinho.
Todos se calaram. Agora, podiam ouvir os passos dos goblins batendo
nas pontes-calçadas que passavam pelos galhos das copas.
— Estão procurando de casa em casa — Tanis sussurou, incrédulo,
ouvindo os punhos batendo na porta do vizinho.
— Os Perscrutadores exigem o direito de entrar! — coaxou uma voz.
Houve uma pausa, depois a mesma voz disse — Ninguém em casa, vamos
chutar a porta?
— Nem — disse outra voz. — É melhor só informar o Teocrata, deixe
ele chutar a porta. Agora, se estivesse destrancada, seria diferente, a gente
teria permissão de entrar.

57
Tanis olhou para a porta em sua frente. Sentiu seus pelos da nuca
arrepiarem. Ele poderia jurar que havia fechado e trancado a porta... mas
agora ela estava levemente aberta!
— A porta — ele sussurrou. — Caramon...
Mas o guerreiro já estava atrás da porta, de costas para a parede, flexio-
nando suas mãos enormes.
Os passos pararam em frente a porta lá fora.
— Os Perscrutadores exigem o direito de entrar. Os goblins começa-
ram a bater na porta, mas pararam surpresos quando ela abriu.
— Este lugar está vazio — disse um. — Vamos em frente.
— Você não tem imaginação, Grum — disse o outro. — Essa é nossa
chance de pegar umas peças de prata.
Uma cabeça de goblin apareceu pela porta. Seus olhos se focaram em
Raistlin, sentado calmamente, com o cajado no ombro. O goblin rosnou
assustado, depois começou a gargalhar.
— Olha só! Vejam o que temos aqui! Um cajado! — Os olhos do
goblin brilharam. Ele deu um passo em direção a Raistlin, seu parceiro se
aproximando por trás. — Me entregue esse cajado!
— Claro — o mago sussurrou. Ele ofereceu seu próprio cajado. —
Shirak — ele disse. A bola de cristal se acendeu. Os goblins berraram e fe-
charam os olhos, tentando pegar suas espadas. Naquele instante, Caramon
saltou de trás da porta, agarrou os goblins pelo pescoço e bateu suas cabeças
uma na outra, produzindo um som oco repugnante. Os corpos dos goblins
caíram em uma pilha fedorenta.
— Mortos? — Tanis perguntou, enquanto Caramon se curvava,
examinando os corpos sob a luz do cajado de Raistlin.
— Temo que sim — o grandalhão suspirou. — Bati forte demais.
— Isso é ruim — disse Tanis, soturnamente. — Assassinamos mais
dois guardas do Teocrata. Ele vai deixar a cidade em polvorosa. Agora, não
podemos nos esconder por alguns dias... precisamos partir. E vocês dois —
ele se virou para os bárbaros —, é melhor virem conosco.
— Para onde quer que estejamos indo — resmungou Flint, irritado.
— Para onde estão indo? — Tanis perguntou a Vento Ligeiro.
— Estamos viajando para Refúgio — respondeu o bárbaro, relutante.
— Existem sábios lá — disse Lua Dourada. — Esperamos que eles
possam nos dizer algo sobre este cajado. A canção que cantei... é verdadeira.
O cajado salvou nossas vidas.

58
— Vocês terão que nos contar depois — interrompeu Tanis. — Quan-
do estes guardas não aparecerem, cada goblin em Consolação irá se amontoar
nas árvores. Raistlin, apague essa luz — o mago falou outra palavra:
— Dumak — o cristal foi se apagando e a luz sumiu.
— O que faremos com os corpos? — perguntou Caramon, cutucando
o goblin morto com sua bota. — E quanto à Tika? Ela não terá problemas?
— Deixem os corpos — a mente de Tanis trabalhava rapidamente.
— E derrubem a porta. Sturm, vire algumas mesas. Vamos deixar como se
tivéssemos invadido e lutado contra esses sujeitos. Dessa forma, Tika não
deve ter problemas. Ela é uma garota esperta... vai se virar.
— Precisamos de comida — declarou Tasslehoff. Ele correu para a
cozinha e começou a fuçar nas prateleiras, colocando pães e tudo mais
que parecia comestível em seus bolsos. Jogou para Flint um odre cheio de
vinho. Sturm virou algumas cadeiras. Caramon arrumou os corpos para
parecer que haviam morrido em um combate feroz. O casal da Planície
ficou em frente ao fogo que se apagava, olhando para Tanis com dúvidas.
— Bem? — disse Sturm. — E agora? Para onde vamos?
Tanis hesitou, repassando as opções em sua mente. O casal da Planície
veio do leste e, se sua história era verdadeira e sua tribo havia tentado ma-
tá-los, não gostaríam de voltar para lá. O grupo poderia viajar para o sul,
para o reino élfico, mas Tanis sentia uma relutância estranha em voltar para
sua terra natal. Também sabia que os elfos não ficaram satisfeitos ao verem
estranhos entrando em sua cidade oculta.
— Vamos viajar para o norte — disse finalmente. — Vamos escoltar
estes dois até chegar à encruzilhada, depois podemos decidir o que fazer a
partir daí. Eles podem ir para sudeste, para Refúgio, se quiserem. Eu pre-
tendo ir mais para o norte e ver se os rumores sobre exércitos se reunindo
são verdadeiros.
— E talvez encontrar Kitiara — sussurrou Raistlin, com malícia.
Tanis corou.
— Tudo bem com este plano? — perguntou, olhando ao redor.
— Embora não seja o mais velho entre nós, Tanis, você é o mais sábio
— disse Sturm. — Seguiremos você... como sempre.
Caramon concordou. Raistlin já estava indo para a porta. Flint colo-
cou o odre de vinho no ombro, reclamando. Tanis sentiu um toque suave
em seu braço. Ele se virou e olhou para os olhos azuis claros da bela bárbara.

59
— Somos gratos — disse Lua Dourada lentamente, como se não
tivesse o hábito de expressar o apreço. — Vocês arriscaram suas vidas por
nós, que somos estranhos.
Tanis sorriu e pegou mão dela.
— Eu sou Tanis. Os irmãos são Caramon e Raistlin. O cavaleiro é
Sturm Brightblade. Flint Forjardente carrega o vinho e Tasslehoff Burrfoot
é o nosso chaveiro sagaz. Você é Lua Dourada e ele é Vento Ligeiro.
Pronto... não somos mais estranhos.
Lua Dourada sorriu de forma tímida. Bateu de leve no braço de Tanis e
partiu para a porta, se apoiando no cajado que, novamente, parecia simples
e comum. Tanis a observou, depois olhou para cima para ver Vento Ligeiro
o encarando, a face sombria do bárbaro como uma máscara impenetrável.
— Bem — Tanis corrigiu baixinho — alguns de nós não somos
mais estranhos.
Logo, todos haviam partido, com Tas liderando o caminho. Tanis
ficou sozinho por um momento na sala de estar arruinada, olhando os
corpos dos goblins. Esta devia ser uma volta para casa pacífica, após anos
amargos de viagem solitária. Pensou em sua casa confortável. Pensou em
todas as coisas que tinha planejado fazer... coisas que queria fazer junto
com Kitiara. Pensou nas longas noites de inverno, com histórias ao redor
da lareira na Hospedaria, depois em voltar para casa, rindo juntos entre as
cobertas, dormindo nas manhãs cobertas de neve.
Tanis chutou os carvões em brasa, os espalhando. Kitiara não havia
voltado. Goblins haviam invadido sua cidade tranquila. Ele estava fugindo
de noite para escapar de um bando de fanáticos religiosos, com a chance de
nunca poder voltar.
Elfos não percebem a passagem do tempo. Eles vivem por centenas
de anos. Para eles, as estações passam como chuvas breves. Mas Tanis era
meio humano. Ele sentia a mudança chegando, a agitação inquietante que
os homens sentem antes da tempestade.
Ele suspirou e balançou a cabeça, então passou para porta despedaça-
da, deixando-a pendurada em uma dobradiça.

60
5
O Adeus de Flint. Flechas voam.
Mensagem nas estrelas.

anis foi para o alpendre e desceu pelos galhos da árvore até o chão.
Os outros esperavam juntos na escuridão, afastados da luz proje-
tada pelos lampiões da rua que balançavam nos galhos acima. Um
vento frio havia começado a soprar, vindo do norte. Tanis olhou para trás
e viu outras luzes, as luzes dos grupos de busca. Ele puxou o capuz sobre a
cabeça e correu para frente.
— O vento mudou — disse. — Vai chover de manhã — ele olhou
para o pequeno grupo e os viu cobertos pela estranha luz dos lampiões que
dançavam, jogados pelos ventos.
O rosto de Lua Dourada estava marcado pelo cansaço. O rosto de
Vento Ligeiro era uma máscara estoica de força, mas seus ombros estavam
caídos. Tremendo, Raistlin encostou-se ofegante em uma árvore. Tanis
arqueou os ombros contra o vento.
— Temos que encontrar um abrigo — ele disse. — Um lugar para
descansar.
— Tanis — Tas puxou o manto do meio-elfo. — Podemos ir de barco.
O Lago Cristalmir não fica longe. Existem cavernas do lado de lá e isso vai
reduzir o tempo de caminhada amanhã.
— Boa ideia Tas, mas não temos um barco.
— Sem problema — sorriu o kender. Seu rosto pequeno e suas orelhas
pontudas davam a ele uma aparência particularmente travessa sob aquela
luz estranha. Tas estava adorando tudo isso, Tanis percebeu.
Ele sentiu vontade de chacoalhar o kender e dar um sermão sobre o
quanto estavam em perigo. Mas o meio-elfo sabia que era inútil: os kender
eram imunes ao medo.
— O barco é uma boa ideia — Tanis repetiu, depois de pensar por
um instante. — Você guia. E não conte ao Flint — ele completou. — Eu
cuidarei disso.
— Certo! — Tas riu, depois voltou-se para os outros.— Me sigam —
ele chamou baixinho e começou a andar novamente.
Resmungando, Flint foi atrás do kender. Lua Dourada seguiu o anão.
Vento Ligeiro lançou um rápido olhar penetrante para todos no grupo,
depois seguiu atrás dela.
— Não acho que ele confie em nós — Caramon observou.
— Você confiaria? — perguntou Tanis, olhando para o grandalhão. O
elmo de dragão de Caramon refletia as luzes que piscavam; sua armadura de
cota de malha ficava visível sempre que o vento soprava sua capa para trás.
Uma espada longa retinia contra suas coxas, um arco pequeno e uma aljava
estavam pendurados no ombro, uma adaga se sobressaía do seu cinto. Seu
escudo estava surrado e marcado por muitas lutas. O gigante estava pronto
para tudo.
Tanis olhou para Sturm, que usava orgulhosamente o brasão de
uma ordem de cavalaria que havia caído em desgraça há trezentos anos.
Embora Sturm fosse somente quatro anos mais velho do que Caramon,
a vida disciplinada e rígida do cavaleiro, as dificuldades da pobreza e sua
busca melancólica por seu amado pai haviam envelhecido o cavaleiro. Com
apenas vinte e nove anos, parecia ter quarenta.
“Acho que também não confiaria em nós”, Tanis pensou.
— Qual é o plano? — perguntou Sturm.
— Vamos de barco — respondeu Tanis.

63
— Olha só! — Caramon riu. Já contou pro Flint?
— Não. Deixe comigo.
— Onde vamos conseguir o barco? — perguntou Sturm, desconfiado.
— Você vai ficar mais feliz se não souber — disse o meio-elfo.
O cavaleiro franziu a testa. Seus olhos seguiram o kender, que estava
bem à frente deles, correndo de uma sombra para a outra.
— Não gosto disso, Tanis. Primeiro somos assassinos, agora estamos
prestes a virar ladrões.
— Eu não me considero um assassino — Caramon bufou. — Goblins
não contam.
Tanis viu o cavaleiro olhar para Caramon.
— Também não gosto de nada disso, Sturm — disse rapidamente,
esperando evitar uma discussão. — Mas é uma questão de necessidade.
Olhe o casal da planície... o orgulho é a única coisa que os mantêm em pé.
Olhe Raistlin... — seus olhos foram para o mago que pisoteava as folhas
secas, sempre ficando nas sombras. Ele se apoiava pesadamente em seu
cajado. Ocasionalmente, uma tosse seca assolava seu corpo frágil.
O rosto de Caramon ficou sombrio.
— Tanis está certo — disse baixinho. — Raist não vai aguentar muito
tempo. Tenho que ajudá-lo. — Deixando o cavaleiro e o meio-elfo, ele
correu para alcançar a figura curvada em manto do seu irmão gêmeo.
— Deixe-me ajudá-lo, Raist — eles ouviram Caramon sussurrar.
Raistlin negou com a cabeça encapuzada e se encolheu, esquivando-se
do toque de seu irmão. Caramon deu de ombros e soltou seu braço. Mas
o grande guerreiro ficou perto de seu irmão frágil, pronto para ajudá-lo se
fosse necessário.
— Por que ele tolera isso? — perguntou Tanis em voz baixa.
— Família. Laços de sangue — Sturm soou triste. Parecia que ia dizer
mais alguma coisa, então seus olhos se voltaram para o rosto de elfo de
Tanis com seus pelos humanos e ele calou-se. Tanis viu o olhar, sabendo o
que o cavaleiro estava pensando. Família, laços de sangue... coisas que um
meio-elfo órfão não entenderia.
— Vamos lá — disse Tanis, abruptamente. — Estamos ficando
para trás.
Eles logo deixaram as copadeiras de Consolação e entraram na floresta
de pinheiros ao redor do Lago Cristalmir. Tanis mal conseguia ouvir os
gritos abafados lá atrás.

64
— Eles encontraram os corpos — imaginou. Sturm concordou sotur-
namente. De repente, Tasslehoff pareceu se materializar da escuridão, bem
debaixo do nariz do meio-elfo.
— A trilha tem pouco mais de um quilômetro e meio até o lago —
disse Tas. — Encontro vocês no fim dela. — Gesticulou vagamente, depois
desapareceu antes que Tanis pudesse dizer algo.
O meio-elfo olhou de volta para Consolação. Parecia haver mais luzes
e elas estavam se movendo nesta direção. As estradas provavelmente já
estavam bloqueadas.
— Onde está o kender? — Flint reclamou enquanto atravessavam
a floresta.
— Tas vai nos encontrar no lago — Tanis respondeu.
— Lago? — Os olhos de Flint arregalaram em alerta. — Que lago?
— Só existe um lago por aqui, Flint — disse Tanis, tentando muito
não sorrir para Sturm. — Vamos. É melhor seguirmos em frente — sua
visão élfica mostrou a aura vermelha ampla de Caramon e o formato mais
fino de seu irmão desaparecendo dentro da floresta densa à frente.
— Achei que fossemos ficar escondidos por um tempo na floresta —
Flint abriu caminho por Sturm para reclamar com Tanis.
— Nós vamos de barco — Tanis continuou em frente.
— Nunca! — Flint rosnou. — Não vou entrar em barco algum!
— Aquele acidente aconteceu há dez anos! — disse Tanis, irritado. —
Olha, vou fazer o Caramon ficar sentado e quieto.
— De jeito nenhum! — disse o anão, sem rodeios. — Nada de barcos.
Eu fiz uma promessa.
— Tanis — a voz de Sturm sussurrou atrás dele. — Luzes.
— Droga! — o meio-elfo parou e se virou. Ele teve que esperar um
pouco antes de ver luzes brilhando através das árvores. A busca havia se es-
palhado além de Consolação. Se apressou para alcançar Caramon, Raistlin
e o casal da planície.
— Luzes! — disse em um sussurro penetrante. Caramon olhou para
trás e xingou. Vento Ligeiro levantou a mão, reconhecendo. — Teremos
que andar mais rápido, Caramon — começou Tanis.
— Vamos conseguir — o grandalhão disse, tranquilo. Agora, estava
apoiando seu irmão, com o braço ao redor do corpo fino de Raistlin,
praticamente o carregando. Raistlin tossia suavemente, mas estava se
movendo. Sturm alcançou Tanis. Enquanto forçavam a passagem pela

65
vegetação, eles conseguiam ouvir Flint ofegante logo atrás, resmungando
irritado consigo mesmo.
— Ele não virá, Tanis — disse Sturm. — Flint está com um medo
mortal de barcos desde quando Caramon quase o afogou por acidente.
Você não estava lá. Não o viu depois que o tiramos da água.
— Ele virá — disse Tanis, respirando forte. — Ele não consegue deixar
nós, os jovens, encarar o perigo sem ele.
Sturm balançou a cabeça, sem se convencer.
Tanis olhou para trás novamente. Não viu luzes, mas sabia que agora
eles estavam muito dentro da floresta para vê-las. O Baixo Mestre Toede
pode não impressionar ninguém com seu cérebro, mas não precisava ser
muito inteligente para imaginar que o grupo pudesse tentar escapar pelo
lago. Tanis parou abruptamente para não trombar em alguém.
— O que foi? — ele sussurrou.
— Estamos aqui — respondeu Caramon. Tanis suspirou aliviado
enquanto olhava através da extensão escura do Lago Cristalmir. O vento
frio batia na água, formando ondas espumantes.
— Onde está o Tas? — manteve a voz baixa.
— Lá, eu acho — Caramon apontou para um objeto escuro flutuando
perto da margem. Tanis mal conseguia discernir o contorno vermelho do
kender sentado em um barco grande.
As estrelas cintilavam com um brilho gélido no céu negro-azulado. A
lua vermelha, Lunitari, estava saindo como uma unha sangrenta da água.
Sua parceira no céu noturno, Solinari, já havia se levantado, marcando o
lago como se fosse prata derretida.
— Nós seremos uns belos alvos! — Sturm disse, irritado.
Tanis podia ver Tasslehoff se movendo de um lado para outro, procu-
rando por eles. O meio-elfo se abaixou, procurando uma pedra na escuri-
dão. Encontrou uma e a jogou na água. Ela caiu a alguns metros a frente do
barco. Reagindo ao sinal de Tanis, Tas levou o barco para a margem.
— Você vai colocar todos nós em um barco! — disse Flint, horroriza-
do. — Você é louco, meio-elfo!
— É um barco grande — Tanis disse.
— Não! Eu não vou. Mesmo que fosse um dos lendários barcos de
asas brancas de Tarsis, eu não iria! Prefiro tentar a sorte com o Teocrata!
Tanis ignorou o anão irado e gesticulou para Sturm.
— Faça todos entrarem. Nós vamos daqui a pouco.

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— Não demorem muito — avisou Sturm. — Escutem.
— Eu posso ouvir — Tanis disse, nervosamente. — Vão em frente.
— O que são esses sons? — Lua Dourada perguntou ao cavaleiro que
vinha em sua direção.
— Grupos de busca de goblins — respondeu Sturm. — Aqueles
apitos os mantém em contato quando estão separados. Agora, eles estão
entrando na floresta.
Lua Dourada assentiu que tinha entendido. Ela disse algumas palavras
para Vento Ligeiro em seu próprio idioma, aparentemente continuando
a conversa que Sturm havia interrompido. O grande homem da planície
fechou a cara e gesticulou para a floresta com a mão. “Ele está tentando
convencê-la a se separar de nós”, pensou Sturm. “Talvez ele conheça flores-
tas o suficiente para se esconder dos grupos de busca dos goblins por dias,
mas eu duvido”.
— Vento Ligeiro, gue-lando! — disse Lua Dourada, de forma severa.
Sturm viu Vento Ligeiro bufar de raiva. Sem falar nada, se virou e andou
em direção ao barco. Lua Dourada suspirou e olhou para ele, com um
sofrimento profundo em seu rosto.
— Posso fazer algo para ajudar, senhora? — perguntou Sturm,
gentilmente.
— Não — ela respondeu. Depois, disse, triste, como para si mesma —
Ele tem meu coração, mas eu sou sua governante. Quando éramos jovens,
achamos que poderíamos esquecer disso. Mas eu fui a “filha do chefe” por
tempo demais.
— Por que ele não confia em nós? — perguntou Sturm.
— Ele tem todos os preconceitos do nosso povo — respondeu Lua
Dourada. — O povo da Planície não confia nos que não são humanos.
— Ela olhou para trás. — Tanis não pode esconder seu sangue élfico sob a
barba. Além disso, tem o anão e o kender.
— Mas e você, senhora? — perguntou Sturm. — Você confia em nós?
Não tem esses mesmos preconceitos?
Lua Dourada se virou para ele. Ele podia ver seus olhos, escuros e
reluzentes como o lago atrás dela.
— Quando eu era uma garota — ela disse em uma voz profunda
e baixa —, era a princesa do meu povo. Era uma sacerdotisa. Eles me
veneravam como uma deusa. E acreditei nisso. Eu adorava. Então, algo
aconteceu... — ela ficou quieta, seus olhos cheios de memórias.

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— O que foi? — Sturm perguntou com cuidado.
— Eu me apaixonei por um pastor — Lua Dourada respondeu,
olhando para Vento Ligeiro. Ela suspirou e andou para o barco. Sturm
observou Vento Ligeiro entrar na água para trazer o barco mais perto da
margem enquanto Raistlin e Caramon se aproximavam. Raistlin segurava
seu manto em volta de si, tremendo.
— Não posso molhar meus pés — ele sussurrou, rouco. Caramon não
respondeu. Simplesmente colocou seus braços enormes em volta do irmão,
levantou-o com a facilidade de quem levanta uma criança e o colocou
no barco. O mago se encolheu na parte de trás da embarcação, sem dizer
sequer um obrigado.
— Eu a segurarei firme — Caramon disse a Vento Ligeiro. — Você
entra. — Vento Ligeiro hesitou por um momento, depois subiu rapida-
mente ao lado. Caramon ajudou Lua Dourada a entrar no barco. Vento
Ligeiro a segurou e ajudou a se firmar, pois o barco balançava gentilmente.
O casal da planícies se sentaram na popa, atrás de Tasslehoff.
Caramon virou-se para Sturm enquanto o cavaleiro se aproximava.
— O que está acontecendo lá atrás?
— Flint disse que prefere queimar do que entrar em um barco... pelo
menos assim, ele morrerá aquecido, ao invés de molhado e com frio.
— Vou lá buscá-lo e trazê-lo para cá — Caramon disse.
— Você só pioraria as coisas. Foi você que quase o afogou, lembra?
Deixe Tanis cuidar disso... ele é o diplomata.
Caramon concordou. Os dois ficaram parados, esperando em silêncio.
Sturm viu Lua Dourada olhar para Vento Ligeiro em um apelo silen-
cioso, mas o homem não correspondia ao seu olhar. Tasslehoff, inquieto em
seu assento, começou a fazer uma pergunta estridente, mas um olhar severo
do cavaleiro o calou. Raistlin se encolheu em suas vestes, tentando segurar
uma tosse incontrolável.
— Eu vou até lá — disse Sturm, por fim. — Esses apitos estão se
aproximando. Não podemos nos arriscar a demorar mais. — Mas, naquele
momento, viu Tanis apertar a mão do anão e começar a correr na direção
do barco, sozinho. Flint ficou onde estava, perto da beira da floresta. Sturm
balançou a cabeça. — Eu disse a Tanis que Flint não viria.
— Teimoso como um anão, igual ao ditado — Caramon resmun-
gou. — E aquele ali teve cento e quarenta e oito anos para ficar mais
teimoso. — O grandalhão balançou a cabeça, triste. — Bem, vamos

68
sentir falta dele, com certeza. Ele salvou minha vida mais de uma vez. Me
deixe ir buscá-lo. Um soco no queixo e ele não vai saber se está em um
barco ou na própria cama.
Tanis correu, ofegante, e ouviu o último comentário.
— Não, Caramon — disse. — Flint nunca nos perdoaria. Não se
preocupem com ele. Ele vai voltar para as colinas. Entrem no barco. Exis-
tem mais luzes vindo nesta direção. Deixamos um rastro na floresta que um
anão tolo cego poderia seguir.
— Não faz sentido todos nós ficarmos molhados — disse Caramon,
segurando o lado do barco. — Você e Sturm entram. Eu vou empurrá-lo.
Sturm já estava ao lado. Tanis deu um tapinha no ombro de Caramon,
depois subiu. O guerreiro empurrou o barco no lago. Ele estava com água
pelos joelhos quando ouviram um chamado da margem.
— Ei! Ei! — era Flint, correndo pelas árvores, uma figura escura
vaga movendo contra a margem iluminada pela lua. — Esperem! Estou
chegando!
— Parem! — gritou Tanis. — Caramon! Espere Flint!
— Olhem! — Sturm apontou, meio levantado. Luzes haviam apareci-
do nas árvores, tochas fumegantes nas mãos dos guardas goblins.
— Goblins, Flint! — Tanis gritou. — Atrás de você! Corra! — sem
questionar, o anão abaixou a cabeça e disparou em direção à margem, com
uma mão no elmo para evitar que ele caísse.
— Vou dar cobertura — disse Tanis, tirando o arco. Com sua visão
élfica, era o único que podia ver os goblins atrás das tochas. Colocando uma
flecha no arco, Tanis se levantou enquanto Caramon mantinha o barco
firme e disparou contra o contorno do goblin líder. A flecha o atingiu no
peito, derrubando-o. Os outros goblins reduziram um pouco o passo, pro-
curando seus próprios arcos. Tanis colocou outra flecha no arco, enquanto
Flint chegava à margem.
— Esperem! Estou chegando! — o anão arfou e se jogou na água,
afundando como uma rocha.
— Pegue-o! — Sturm gritou. — Tas, reme para trás. Lá está ele! Viu?
As bolhas... — Caramon jogava água para os lados freneticamente, procu-
rando o anão. Tas tentou remar para trás, mas o peso que havia no barco
era demais para o kender. Tanis atirou novamente, errou o alvo e praguejou
baixinho. Ele pegou outra flecha. Os goblins se amontoavam em um dos
lados da colina.

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— Peguei! — gritou Caramon, puxando o anão que pingava água e
cuspia pela gola da sua túnica de couro. — Pare de se debater — disse para
Flint, cujos braços balançavam em todas as direções. Mas o anão estava em
completo estado de pânico.
Uma flecha de goblin fincou na cota de malha de Caramon e ficou
presa como uma pena esquelética.
— Já chega! — O guerreiro rosnou de irritação e, erguendo seus
braços musculosos, ele colocou o anão para dentro enquanto o barco se
afastava dele. Flint se agarrou em um banco e se segurou, com sua parte de
baixo para fora da beira do barco. Sturm o agarrou pelo cinto e o arrastou
para dentro, enquanto o barco balançava bastante. Tanis quase perdeu o
equilíbrio e foi forçado a soltar o arco e se segurar na borda do barco para
evitar ser jogado para dentro da água. A flecha de um goblin acertou a
amurada, quase atingindo a mão de Tanis.
— Reme para trás até o Caramon, Tas! — Tanis gritou.
— Não consigo! — berrou o kender, se esforçando. O giro de um
remo fora de controle quase derrubou Sturm na água.
O cavaleiro arrancou o kender do seu assento. Pegou os remos e levou
suavemente o barco até onde Caramon podia se segurar no costado.
Tanis ajudou o guerreiro a subir, depois gritou para Sturm.
— Puxe! — O cavaleiro puxou os remos com toda a força, se apoian-
do para trás enquanto impulsionava os remos na água. O barco se afastou
da margem, seguido pelos gritos dos goblins irritados. Mais flechas zum-
biram à volta do barco enquanto Caramon, pingando, sentou-se ao lado
de Tanis.
— Noite de treino de tiro para goblins — Caramon murmurou,
puxando a flecha da sua cota de malha. — Vamos ser um bom alvo na água.
Tanis estava procurando seu arco caído quando percebeu Raistlin
sentado ereto.
— Proteja-se! — Tanis avisou e Caramon tentou alcançar seu irmão,
mas o mago, franzindo a testa para ambos, deslizou sua mão para uma
bolsa em seu cinto. Seus dedos delicados puxaram um punhado de algo
quando uma flecha atingiu o assento ao seu lado. Raistlin não reagiu. Tanis
tentou puxar o mago para baixo, depois percebeu que ele estava perdido
na concentração necessária para conjurar uma magia. Perturbá-lo agora
teria consequências drásticas, fazendo o mago esquecer a magia ou pior...
conjurá-la de forma errada.

70
Tanis cerrou os dentes e observou. Raistlin levantou sua mão fina e
frágil e deixou o componente mágico que havia tirado do seu bolso cair
lentamente dos seus dedos para o convés do barco. Areia, Tanis percebeu.
— Ast tasarak sinuralan krynawi — Raistlin murmurou e, então,
moveu sua mão direita lentamente em um arco paralelo à margem. Tanis
olhou para terra firme. Um a um, os goblins soltaram seus arcos e caíram,
como se Raistlin estivesse tocando um deles de cada vez. As flechas pararam.
Goblins mais longe gritaram de raiva e correram para frente. Mas, nessa
hora, as remadas poderosas de Sturm já haviam tirado o barco do alcance.
— Bom trabalho, irmãozinho! — Caramon disse, com entusiasmo.
Raistlin piscou e pareceu voltar para o mundo, então desabou para frente.
Caramon o pegou e segurou por um instante. Raistlin se sentou e respirou
fundo, o que o fez tossir.
— Vou ficar bem — ele sussurou, se afastando de Caramon.
— O que você fez com eles? — perguntou Tanis, enquanto procurava
flechas inimigas para jogá-las na água. Às vezes, goblins envenenavam as
pontas das flechas.
— Os coloquei para dormir — Raistlin sibilou entre os dentes que
batiam de frio. — E agora eu preciso descansar — Ele se recostou na lateral
do barco.
Tanis olhou para o mago. De fato, Raistlin havia ganho poder e habi-
lidade. “Como queria poder confiar nele”, pensou o meio-elfo.
O barco atravessou o lago cheio de estrelas. Os únicos sons que se
ouviam eram a batida suave e rítmica dos remos na água e a tosse seca e
sofrida de Raistlin. Tasslehoff abriu o odre que Flint, de alguma maneira,
tinha conservado em sua corrida louca e tentou fazer com que o anão gelado
e trêmulo desse um belo gole. Mas Flint, agachado no fundo do barco, só
conseguia tremer e observar as águas.
Lua Dourada se envolveu ainda mais em seu manto de peles. Ela usava
uma calça macia de couro de veado, comum entre seu povo, com uma saia
de franjas por cima e uma túnica com cinto. Suas botas eram feitas de couro
macio. Um pouco de água havia caído dentro do barco quando Caramon
jogou Flint a bordo. A água fez a pele de veado grudar nela e, logo, ela
estava gelada e tremendo.
— Pegue minha capa — disse Vento Ligeiro em seu idioma, começando
a remover sua capa de pele de urso.

71
— Não — ela balançou a cabeça. — Você está sofrendo com febre. Eu
nunca fico doente, você sabe. Mas — olhou para ele e sorriu — você pode
me envolver com seus braços, guerreiro. O calor dos nossos corpos vai nos
esquentar.
— É uma ordem, filha do chefe? — Vento Ligeiro sussurrou em
provocação, a puxando para perto de si.
— É — ela disse, se apoiando em seu corpo forte com um suspiro de
contentamento. Ela olhou para o firmamento estrelado, depois se enrijeceu
e tomou fôlego, em alerta — O que foi? — Vento Ligeiro perguntou,
olhando para cima.
Apesar de não terem entendido a conversa, os outros no barco ouvi-
ram o grito sufocado de Lua Dourada e viram seus olhos petrificados por
alguma coisa no céu.
Caramon cutucou seu irmão e disse,
— Raist, o que foi? Não vejo nada.
Raistlin sentou reto, tirou seu capuz, depois tossiu. Quando o es-
pasmo passou, ele procurou no céu da noite. Ficou tenso e seus olhos se
arregalaram. Esticando sua mão delicada e ossuda, Raistlin apertou o braço
de Tanis, segurando-o de uma forma que o meio-elfo tentou involuntaria-
mente se afastar do aperto esquelético do mago.
— Tanis... — Raistlin suspirou, quase sem fôlego. — As constelações...
— O que? — Tanis ficou realmente assustado com a palidez da pele
dourada metálica do mago e o brilho febril nos seus olhos estranhos. — O
que tem as constelações?
— Sumiram! — Raistlin disse roucamente, tendo outro ataque de
tosse. Caramon colocou os braços ao seu redor, o trazendo para perto, qua-
se como se estivesse tentando manter o corpo do irmão inteiro. Raistlin se
recuperou, limpando a boca com a mão. Tanis viu que seus dedos estavam
escuros com sangue. Raistlin respirou fundo, depois falou.
— A constelação conhecida como Rainha das Trevas e aquela
chamada de Guerreiro Valente, ambas sumiram. Ela veio para Krynn,
Tanis, e ele veio lutar com ela. Todos os boatos malignos que ouvimos
são verdadeiros. Guerra, morte, destruição... — Sua voz desapareceu em
outro ataque de tosse.
Caramon o segurou.
— Calma, Raist — disse para tranquilizar. — Não fique tão agitado.
São só umas estrelas.

72
— Só umas estrelas — Tanis repetiu categoricamente. Sturm voltou a
remar, empurrando suavemente para a outra margem.

73
6
A noite em uma caverna.
Divergência. Tanis decide.

m vento frio começou a soprar sobre o lago. Nuvens de tempestade


rolaram pelo céu vindas do norte, obliterando os espaços negros
deixados pelas estrelas que haviam caído. Os companheiros se
curvaram dentro do barco, apertando seus mantos em volta de si enquanto
a chuva caía. Caramon se juntou a Sturm nos remos. O grande guerreiro
tentou falar com o cavaleiro, mas Sturm o ignorou. Remou em um silêncio
sombrio, resmungando ocasionalmente consigo mesmo em solâmnico.
— Sturm! Ali... entre as rochas grandes à esquerda! — Tanis bradou,
apontando.
Sturm e Caramon puxaram com força. A chuva dificultou que as
rochas de referência fossem vistas e, por um momento, parecia que eles
tinham perdido o caminho na escuridão. Então, de repente, as rochas apa-
receram à frente deles. Sturm e Caramon deram a volta com o barco. Tanis
pulou de um lado e o puxou para a margem.
Chovia torrencialmente. Os companheiros desceram do barco, mo-
lhados e gelados. Tiveram que carregar o anão... Flint estava duro como um
cadáver de goblin por causa do medo. Vento Ligeiro e Caramon esconderam
o barco entre os arbustos espessos. Tanis guiou os outros por uma trilha que
dava em uma pequena abertura na encosta do rochedo.
Lua Dourada olhou para a abertura com dúvida. Parecia ser apenas
uma rachadura grande na parede do rochedo. Lá dentro, contudo, a caver-
na era grande o suficiente para que todos se esticassem confortavelmente.
— Belo abrigo — Tasslehoff olhou ao redor. — Não é grande coisa
com relação a decoração.
Tanis sorriu para o kender.
— Vai servir por esta noite. Acho que nem mesmo o anão vai reclamar
dele. Se reclamar, nós o colocamos de volta para dormir no barco!
Tas sorriu de volta para o meio-elfo. Era bom ver o velho Tanis de
volta. Estava achando seu amigo estranhamente mais temperamental e
indeciso, não o líder forte de quem se lembrava do passado. Mas, agora que
estavam de volta a estrada, o brilho havia voltado aos olhos do meio-elfo.
Ele tinha saído de sua casca taciturna e assumido a liderança, voltando a
fazer o papel que estava acostumado. Precisava desta aventura para distrair
a cabeça dos seus problemas... quaisquer que fossem. O kender, que nunca
foi capaz de compreender a confusão interna de Tanis, estava feliz pelo fato
desta aventura ter surgido.
Caramon carregou seu irmão para fora do barco e o colocou, da forma
mais gentil possível, na areia macia que cobria o chão da caverna, enquanto
Vento Ligeiro acendia a fogueira. A madeira molhada estalou e reclamou,
mas logo pegou fogo. A fumaça rolou na direção do teto e saiu por uma
rachadura. O homem da Planície cobriu a entrada da caverna com arbustos
e galhos de árvore caídos, escondendo a luz da fogueira e mantendo a chuva
do lado de fora.
“Ele sabe se virar”, Tanis pensou enquanto observava o bárbaro traba-
lhar. “Poderia ser um de nós”. Suspirando, o meio-elfo voltou sua atenção
para Raistlin. Ajoelhando-se ao seu lado, olhou para o jovem mago com
preocupação. O rosto pálido de Raistlin refletido na luz trêmula do fogo
lembrou o meio-elfo dos tempos em que ele, Flint e Caramon quase não
conseguiram salvá-lo de uma multidão que queria queimar o mago na esta-
ca. Raistlin havia desmascarado um clérigo charlatão que estava enganando
os moradores, roubando-lhes o dinheiro. Em vez de se voltarem contra o

75
clérigo, os aldeões se voltaram contra Raistlin. Como Tanis havia dito para
Flint, as pessoas querem acreditar em alguma coisa.
Caramon estava ocupado com seu irmão, colocando seu manto pesado
sobre os ombros dele. O corpo de Raistlin estava destruído pelos ataques
de tosse e o sangue escorria da sua boca. Seus olhos brilhavam, febris. Lua
Dourada se ajoelhou ao lado dele, com um copo de vinho na mão.
— Consegue beber isto? — ela perguntou gentilmente.
Raistlin negou com a cabeça, tentou falar, tossiu e empurrou a mão
dela. Lua Dourada olhou para Tanis.
— Talvez... meu cajado? — ela perguntou.
— Não — Raistlin engasgou. Ele moveu sua mão chamando Tanis
para perto. Mesmo sentado ao lado dele, Tanis mal podia ouvir as palavras
do mago. Suas frases eram interrompidas pelo esforço em respirar e os
ataques de tosse
— O cajado não vai me curar, Tanis — ele sussurrou. — Não o
desperdice comigo. Se for um artefato abençoado... seu poder sagrado é
limitado. Meu corpo foi o meu sacrifício... pela minha magia. O dano é
permanente. Nada pode ajudar... — Sua voz sumiu, seus olhos se fecharam.
O fogo subitamente aumentou quando o vento passou pela caverna.
Tanis olhou para cima e viu Sturm puxando os arbustos de lado e entrando
na caverna, meio que carregando Flint, que tropeçava com os pés instáveis.
Sturm o soltou ao lado da fogueira. Ambos estavam ensopados. Sturm
estava visivelmente impaciente com o anão e, pelo que Tanis notou, com
o grupo todo. Tanis o observou preocupado, reconhecendo os sinais de
uma depressão sombria que algumas vezes subjugava o cavaleiro. Sturm
gostava da ordem, das coisas no seu lugar. O desaparecimento das estrelas,
o distúrbio da ordem natural das coisas, haviam o afetado bastante.
Tasslehoff colocou um cobertor sobre o anão, que se sentou encolhido
no chão da caverna, seus dentes batendo tanto que seu elmo chacoalhava
— B-b-b-barco... — era tudo que conseguia dizer. Tas lhe deu uma
caneca de vinho, que o anão bebeu avidamente.
Sturm olhou para Flint com desgosto.
— Eu farei o primeiro turno da vigia — disse, se deslocando para a
entrada da caverna.
Vento Ligeiro se levantou.
— Vou vigiar com você — disse duramente.

76
Sturm parou, depois se virou devagar para encarar o alto homem das
Planícies. Tanis podia ver o rosto do cavaleiro, entalhado em relevo pela
luz da fogueira, linhas escuras esculpidas em volta da boca austera. Embora
fosse mais baixo que Vento Ligeiro, o ar de nobreza do cavaleiro e a rigidez
de sua postura fizeram com que os dois parecessem quase iguais.
— Sou um cavaleiro de Solamnia — disse Sturm. — Minha palavra é
minha honra e minha honra é minha vida. Dei minha palavra, lá atrás na
Hospedaria, que protegeria você e sua dama. Se escolher contestar minha
palavra, você estará contestando minha honra e, portanto, me insultando.
Não posso permitir que esse insulto permaneça entre nós.
— Sturm! — Tanis ficou de pé.
Sem tirar os olhos do homem das Planícies, o cavaleiro levantou a mão.
— Não interfira, Tanis — disse Sturm. — Bem, o que será, espadas,
facas? Como é que vocês bárbaros lutam?
A expressão estoica de Vento Ligeiro não mudou. Ele encarou o
cavaleiro com seus olhos escuros, intensos. Depois falou, escolhendo suas
palavras cuidadosamente.
— Não tive a intenção de questionar sua honra. Não conheço os ho-
mens e suas cidades e digo honestamente que... tenho medo. É o meu medo
que me faz falar assim. Tenho sentido medo desde que recebi o cajado de
cristal azul. Acima de tudo, tenho medo por Lua Dourada — o homem da
planície olhou para a mulher, seus olhos refletindo o fogo brilhante. — Sem
ela, eu morro. Como eu poderia confiar... — sua voz falhou. A máscara
estoica se partiu e esfarelou em dor e cansaço. Seus joelhos cederam e ele
caiu para frente. Sturm o segurou.
— Você não poderia — disse o cavaleiro. — Eu entendo. Você está
cansado e doente — ele ajudou Tanis a deitar o homem das Planícies no
fundo da caverna — Descanse. Eu farei a vigia — o cavaleiro empurrou os
arbustos para o lado e, sem dizer outra palavra, saiu na chuva.
Lua Dourada havia escutado a discussão em silêncio. Ela levou suas
posses escassas para o fundo da caverna e se ajoelhou ao lado de Vento
Ligeiro. Ele a abraçou e a segurou perto de si, enfiando o rosto no cabelo
ouro-prateado dela.
Os dois se acomodaram na sombra da caverna. Enrolados no manto
de peles de Vento Ligeiro, logo adormeceram, a cabeça de Lua Dourada
descansando sobre o peito do seu guerreiro.

77
Tanis deu um suspiro de alívio e se virou para Raistlin. O mago havia
caído em um sono intermitente. Às vezes, murmurava palavras estranhas
na língua da magia, suas mãos se moviam tentando tocar seu cajado. Tanis
olhou para os outros em volta. Tasslehoff estava sentado perto do fogo,
separando seus objetos “adquiridos”. Estava de pernas cruzadas, com os
tesouros no chão da caverna em sua frente. Tanis conseguia discernir anéis
reluzentes, moedas incomuns, uma pena de curiango, pedaços de cordão,
um colar de contas, uma boneca de sabão e um apito. Um dos anéis parecia
familiar. Era um anel de fabricação élfica, dado a Tanis muito tempo atrás
por alguém que ele mantinha no limite da sua memória. Era um anel deli-
cado, de folhas de hera douradas trançadas. Tanis esgueirou até do kender,
sem fazer barulho para não acordar os outros.
— Tas... — Ele tocou o kender no ombro e apontou. — Meu anel...
— Este? — perguntou Tasslehoff, com olhos inocentes arregalados.
— Ele é seu? Que bom que o encontrei, então. Você deve ter deixado cair
na Hospedaria.
Tanis pegou o anel com um sorriso sardônico, depois sentou perto
do kender.
— Tas, você tem um mapa desta área?
Os olhos do kender brilharam.
— Um mapa? Sim, Tanis. Claro — ele pegou todos os seus bens,
os colocou de volta em uma bolsa e puxou um estojo para pergaminhos
de madeira entalhado a mão de outra bolsa. Ele tirou um punhado de
mapas. Tanis já havia visto a coleção do kender antes, mas ela nunca
deixava de surpreendê-lo. Devia haver cerca de cem deles, desenhados
em todo tipo de material, de pergaminhos finos de pelica até uma folha
enorme de palmeira anã.
— Achei que conhecia pessoalmente cada árvore destas redondezas,
Tanis. — Tasslehoff organizava seus mapas, seus olhos ocasionalmente se
fixando em um favorito.
O meio-elfo balançou a cabeça.
— Morei aqui muito tempo — disse. — Mas nunca precisei descobrir
os caminhos obscuros e secretos.
— Não vai encontrar muitos para Refúgio. — Tas puxou um mapa do
seu monte e o abriu no chão da caverna. — A Estrada de Refúgio através do
Vale de Consolação é a mais rápida, com certeza.
Tanis estudou o mapa sob a luz da fogueira que acabava.

78
— Você está certo — ele disse. — A estrada não é somente a mais rá-
pida... parece ser a única rota transitável nos próximos vários quilômetros.
Ao sul e ao norte de nós estão as Montanhas Kharolis... não existe passagem
por lá. — Franzindo a testa, Tanis enrolou o mapa e o devolveu.
— Que é exatamente o que o Teocrata vai pensar.
Tasslehoff bocejou.
— Bem — disse, guardando cuidadosamente o mapa no seu estojo —
é um problema a ser resolvido por mentes mais sábias que a minha. Estou
aqui pela diversão — enfiando o estojo de volta em uma bolsa, o kender
deitou no chão da caverna, puxou as pernas para perto de seu queixo e logo
estava dormindo o sono pacífico das crianças e dos animais.
Tanis olhou pra ele com inveja. Embora exausto, não conseguia relaxar
o suficiente para dormir. A maioria dos outros já havia adormecido, menos o
guerreiro, que cuidava de seu irmão. Tanis andou até Caramon.
— Vá deitar — ele sussurrou. — Eu tomo conta de Raistlin.
— Não — o grandão disse. Se esticando, puxou gentilmente um
manto mais para perto, em volta dos ombros de seu irmão. — Ele pode
precisar de mim.
— Você precisa dormir um pouco.
— Eu vou — Caramon sorriu. — Vá dormir você também, ama-seca.
Suas crianças estão bem. Veja, até o anão está apagado.
— Não preciso olhar — disse Tanis. — Provavelmente o Teocrata
pode ouvir o ronco dele lá em Consolação. Bem, meu amigo, esta reunião
não foi como planejamos há cinco anos.
— E o que é? — Caramon perguntou baixinho, olhando para seu
irmão.
Tanis deu um tapinha no braço do homem, depois se deitou, enrolou-
se em seu próprio manto e finalmente adormeceu.
A noite passou lentamente para quem ficou de vigia e rapidamente
para quem dormiu. Caramon substituiu Sturm. Tanis substituiu Caramon.
A tempestade continuou sem parar a noite toda, o vento transformando o
lago em um mar coberto de espuma branca. Relâmpagos se ramificavam na
escuridão como árvores em chamas. Trovões retumbavam continuamente.
Com o fim da noite, a tempestade também terminou e o meio-elfo
assistiu o dia amanhecer cinza e gelado. Não estava mais chovendo, mas as
nuvens ainda estavam baixas. O sol não aparecia no céu. Tanis teve uma
sensação crescente de urgência. Não conseguia ver o fim das nuvens se

79
amontoando para o norte. Tempestades eram raras no outono, especial-
mente tão ferozes quanto aquela. O vento era cortante, e pareceu estranho
que a tempestade tivesse vindo do norte, quando geralmente vêm do leste,
cruzando as Planícies. Sensível aos hábitos da natureza, o clima estranho
incomodou Tanis quase tanto quanto as estrelas caídas de Raistlin. Ele
sentiu necessidade de continuar a viagem, embora ainda fosse muito cedo.
Entrou para acordar os outros.
A caverna estava fria e sombria naquela manhã cinzenta, apesar da
fogueira acesa. Lua Dourada e Tasslehoff estavam preparando o café da
manhã. Vento Ligeiro estava de pé no fundo da caverna, chacoalhando
o manto de peles de Lua Dourada. Tanis olhou para ele. O homem das
Planícies estava prestes a dizer algo para Lua Dourada quando Tanis estava
entrando, mas ficou calado, contentando-se em olhar sério para ela en-
quanto continuava seu trabalho. Lua Dourada manteve os olhos abaixados,
seu rosto pálido e preocupado. O bárbaro se arrependeu de ter se exposto
na noite anterior, percebeu Tanis.
— Temo que não haja muita comida — disse Lua Dourada, jogando
cereal dentro de uma panela de água fervendo.
— A despensa de Tika não estava bem abastecida — Tasslehoff com-
pletou as desculpas. — Temos um pão, carne seca, meio queijo mofado e a
aveia. Tika deve comer fora de casa.
— Vento Ligeiro e eu não trouxemos provisões — Lua Dourada disse.
— Realmente não esperávamos fazer esta viagem.
Tanis estava quase perguntando mais sobre sua canção e o cajado, mas
os outros começaram a acordar assim que sentiram o cheiro de comida.
Caramon bocejou, se esticou e levantou. Andando para olhar na panela, o
gradalhão reclamou.
— Aveia? Só isso?
— E teremos menos no jantar — Tasslehoff sorriu. — Aperte o seu
cinto. Você está engordando mesmo — o grandalhão suspirou com tristeza.
O café da manha escasso foi desanimado na alvorada fria. Recusando as
ofertas de comida, Sturm saiu para ficar de vigia. Tanis podia ver o cavaleiro
sentado numa rocha, fitando melancolicamente as nuvens escuras refletidas
como dedos nebulosos nas águas paradas do lago. Caramon comeu sua
parte rapidamente, engoliu a parte do seu irmão e depois se apropriou da
porção de Sturm quando o cavaleiro saiu. Depois, sentou-se, esperando
ansiosamente enquanto os outros terminavam.

80
— Você vai comer isso? — perguntou, apontando para o pedaço de
pão de Flint. O anão fechou a cara. Vendo os olhos do guerreiro se diri-
girem para seu prato, Tasslehoff enfiou seu pedaço de pão na boca, quase
engasgando no processo. “Pelo menos, isso vai aquietá-lo”, pensou Tanis,
feliz com a trégua da voz estridente do kender. Tas havia importunado
Flint impiedosamente a manhã toda, o chamando de “Mestre dos Mares” e
“Imediato”, perguntando a ele o preço do peixe e quanto ele cobraria para
levá-los de volta através do lago. Por fim, Flint jogou uma pedra nele e Tanis
pediu para Tas lavar as panelas no lago.
O meio-elfo andou até o fundo da caverna.
— Como você está agora, Raistlin? — perguntou. — Temos que
partir em breve.
— Estou melhor — o mago respondeu com a voz suave e sussurrante.
Estava bebendo uma mistura de ervas que ele mesmo havia feito. Tanis podia
ver pequenas folhas verdes e moles boiando na água quente. Elas produziam
um odor forte e amargo e Raistlin fazia caretas enquanto bebia.
Tasslehoff voltou para a caverna pulando, com as panelas e os pratos
de estanho fazendo muito barulho. Tanis rangeu os dentes por causa do
barulho e começou a censurar o kender, mas mudou de ideia. Sabia que
não adiantaria nada.
Vendo a tensão no rosto de Tanis, Flint pegou as panelas do kender e
começou a guardá-las na mochila.
— Sem gracinhas — o anão rosnou para Tasslehoff. — ou vou pegá-lo
pelo rabo de cavalo e amarrá-lo em uma árvore como um aviso para todos
os kender...
Tas esticou a mão e arrancou alguma coisa da barba do anão.
— Vejam! — o kender levantou a mão alegremente. — Alga!
Urrando, Flint tentou agarrar o kender, mas Tas saiu de seu caminho
com sua agilidade característica.
Houve um som de farfalhar quando Sturm empurrou os arbustos que
cobriam a entrada da caverna. Seu rosto estava sombrio e taciturno.
— Parem com isso! — disse Sturm, encarando Flint e Tas, com seu
bigode tremendo. Seu olhar sério voltou-se para Tanis. — Consegui ouvir
o barulho destes dois lá no lago. Eles vão atrair todos os goblins de Krynn
até nós. Temos que sair daqui. Bem, para onde vamos?
Um silêncio incômodo tomou conta. Todos pararam o que estavam
fazendo e olharam para Tanis, exceto por Raistlin. O mago estava enxu-

81
gando sua caneca com um pano branco, limpando-a meticulosamente. Ele
continuou trabalhando com os olhos voltados para baixo, como se estivesse
totalmente desinteressado.
Tanis suspirou e coçou a barba.
— O Teocrata em Consolação é corrupto. Sabemos disso agora. Está
usando a escória goblin para assumir o controle. Se tivesse o cajado, o usaria
em benefício próprio. Temos procurado um sinal dos deuses verdadeiros há
anos. Parece que encontramos um. Não pretendo entregá-lo para aquela
fraude de Consolação. Tika acredita que os Altos Perscrutadores em Refú-
gio ainda procuram a verdade. Eles podem nos dizer algo sobre o cajado, de
onde ele veio e quais são seus poderes. Tas, me entregue o mapa.
Espalhando o conteúdo de várias bolsas no chão, o kender encontrou
o pergaminho desejado.
— Estamos aqui, na margem oeste do Cristalmir — Tanis continuou.
— Ao norte e ao sul estão as ramificações das Montanhas Kharolis, que
formam os limites do Vale de Consolação. Não há passagens conhecidas
pelos dois lados, exceto pelo Passo de Berma, ao sul de Consolação...
— Quase certamente protegida pelos goblins — resmungou Sturm.
— Existem passagens no nordeste...
— Isso é do outro lado do lago! — disse Flint, horrorizado.
— Sim — Tanis manteve o rosto sério —, do outro lado do lago. Mas
elas levam para as Planícies e acredito que vocês não querem ir para lá. —
Ele olhou para Lua Dourada e Vento Ligeiro. — A estrada do oeste passa
pelos Picos das Sentinelas e o Cânion Sombrio até Refúgio. Essa parece ser
a direção óbvia a seguir.
Sturm franziu a testa.
— E se os Altos Perscrutadores de lá forem tão maus quanto os de
Consolação?
— Então continuaremos para o sul, até Qualinesti.
— Qualinesti? — Vento Ligeiro fechou a expressão. — As Terras
Élficas? Não! Humanos não podem entrar lá. Além disso, o caminho é
escondido e...
Um som sibilante e áspero interrompeu a discussão. Todos se viraram
para olhar Raistlin enquanto ele falava.
— Existe um jeito — sua voz era suave e irônica; seus olhos dourados
brilhavam na luz fria da manhã. — As trilhas da Floresta Sombria. Elas
levam direto para Qualinesti.

82
— Floresta Sombria? — Caramon repetiu, assustado. — Não, Tanis!
— O guerreiro balançou a cabeça. — Lutarei contra os vivos em qualquer
dia da semana... mas não contra os mortos!
— Os mortos? — perguntou Tasslehoff ansiosamente. — Me conte,
Caramon...
— Cale a boca, Tas! — Sturm interrompeu. — A Floresta Sombria
é loucura. Ninguém que entrou nela voltou. Você nos levaria até lá para
tomar tal prêmio, mago?
— Esperem! — Tanis falou com firmeza. Todos se calaram. Até
mesmo Sturm silenciou.
O cavaleiro olhou para o rosto calmo e pensativo de Tanis, os olhos
amendoados que tinham a sabedoria de seus muitos anos de viagens. O ca-
valeiro tinha muitas vezes tentado discutir consigo mesmo por que aceitava
a liderança de Tanis. Afinal, ele não passava de um meio-elfo bastardo, não
tinha sangue nobre. Não usava armadura ou carregava um escudo com um
emblema digno. Ainda assim, Sturm o seguia, amava e respeitava, como a
nenhum outro homem.
A vida era uma mortalha escura para o cavaleiro solâmnico. Ele não
podia fingir que a conhecia ou entendia, exceto através do código dos cava-
leiros pelo qual ele vivia. “Est Sularus oth Mithas”, “minha honra é a vida.”
O código definia honra e era o mais completo, detalhado e rigoroso do que
qualquer outro em Krynn. O código manteve-se verdadeiro por setecentos
anos, mas o medo secreto de Sturm era que, algum dia, na batalha final, o
código não tivesse respostas. Ele sabia que, se esse dia chegasse, Tanis estaria
ao seu lado, mantendo coeso o mundo despedaçado. Pois enquanto Sturm
seguia o código, Tanis o vivia.
A voz de Tanis trouxe os pensamentos do cavaleiro de volta ao presente.
— Lembro a todos que este cajado não é nosso “prêmio”. O cajado
pertence à Lua Dourada por direito... se é que pertence a alguém. Não
tenho mais direito a ele do que o Teocrata em Consolação. — Tanis virou-
se para Lua Dourada. — Qual a sua vontade, senhora? — Lua Dourada
encarou Tanis e Sturm, depois olhou para Vento Ligeiro.
— Você sabe o que penso — ele disse friamente. — Mas... você é a
filha do chefe — ele se levantou. Ignorando o olhar de súplica, ele cami-
nhou para fora.
— O que ele quis dizer? — perguntou Tanis.

83
— Ele quer que a gente deixe vocês e leve o cajado para Refúgio
— respondeu Lua Dourada, com a voz baixa. — Disse que vocês estão
aumentando o perigo. Estaríamos mais seguros sozinhos.
— Aumentando o perigo! — Flint explodiu. — Por que se não
estivéssemos aqui, não teria quase afogado... de novo! Se não fosse por...
por... — o anão começou a esbravejar sua raiva.
Tanis levantou sua mão.
— Chega — Ele coçou a barba. — Vocês estarão mais seguros conos-
co. Vão aceitar nossa ajuda?
— Aceito — respondeu Lua Dourada, séria —, pelo menos por
enquanto.
— Bom — disse Tanis. — Tas, você conhece o caminho pelo Vale de
Consolação. Será nosso guia. E lembre-se, isso não é um piquenique!
— Sim, Tanis — o kender disse, desanimado. Juntou suas muitas bol-
sas, pendurou-as em volta de sua cintura e sobre os ombros. Passando por
Lua Dourada, se ajoelhou rapidamente e bateu de leve na mão dela, depois
saiu da caverna. O resto juntou rapidamente suas coisas e seguiu atrás dele.
— Vai chover outra vez — Flint murmurou, olhando para cima, para
as nuvens baixas. — Devia ter ficado em Consolação. — Resmungando, ele
saiu, ajustando o machado de batalha em suas costas. Esperando por Lua
Dourada e Vento Ligeiro, Tanis sorriu e balançou a cabeça. “Pelo menos
algumas coisas nunca mudam”, pensou. “Como os anões”.
Vento Ligeiro pegou suas mochilas com Lua Dourada e as pendurou
no ombro.
— Me certifiquei de que o barco está bem escondido e preso — disse
a Tanis. A máscara estoica estava no lugar novamente. — Caso precisemos
dele.
— Uma boa ideia — Tanis disse. — Obrig--
— Se você for à frente — Vento Ligeiro gesticulou. — Eu vou atrás
para cobrir nossas pegadas.
Tanis começou a falar para agradecer ao homem das Planícies, mas
Vento Ligeiro já havia virado de costas e começando seu trabalho. Subindo
a trilha, o meio-elfo balançou a cabeça. Atrás dele, podia ouvir Lua Doura-
da falando suavemente em sua própria língua. Vento Ligeiro respondeu...
com uma palavra rude. Tanis ouviu Lua Dourada suspirar, depois todas
as outras palavras se perderam no som das folhagens estalando enquanto
Vento Ligeiro apagava os sinais da passagem deles.

84
7
A história do cajado.
Clérigos estranhos. Sensações sombrias.

s florestas cheias do Vale de Consolação eram uma massa verde


de vida vibrante. Embaixo da cobertura densa das copadeiras,
florescia o cardo e o muro-verde. O chão estava coberto com as
incômodas vinhas agarradoras. Era preciso pisar nelas com muito
cuidado, senão se enrolavam de repente nas canelas, prendendo a vítima
indefesa até ela ser devorada por um dos muitos animais predadores que
espreitavam pelo Vale, assim fornecendo as vinhas o que elas precisa para
viver... sangue.
Demoraram mais de uma hora cortando e quebrando a vegetação para
chegar à Estrada de Refúgio. Todos estavam arranhados, cortados e cansados
e o longo trecho de terra batida que levava os viajantes até Refúgio era uma
visão providencial. Somente quando pararam próximo da estrada foi que
perceberam que não havia som algum. Um silêncio havia tomado conta da
terra, como se cada criatura estivesse prendendo a respiração, esperando.
Agora que haviam chegado à estrada, ninguém estava particularmente
ansioso em sair da proteção da vegetação.
— Você acha que é seguro? — perguntou Caramon, olhando através
de um arbusto.
— Seguro ou não, é o caminho que temos a seguir — Tanis comentou
—, a menos que você possa voar ou queira voltar para a floresta. Gastamos
uma hora para viajar algumas centenas de metros. Nesse ritmo, vamos
chegar à encruzilhada na semana que vem.
O grandalhão enrubesceu, envergonhado.
— Eu não queria...
— Me desculpe — Tanis suspirou. Ele também olhou a estrada. As
copas formavam um corredor escuro na luz cinza. — Não gosto disto mais
do que você.
— Vamos nos separar ou ficar juntos? — Sturm interrompeu o que ele
considerava conversa fiada com uma questão prática.
— Ficaremos juntos — Tanis respondeu. Então, depois de um mo-
mento, ele completou — mas ainda acho que deveríamos ter um batedor...
— Eu vou, Tanis — Tas se ofereceu, surgindo de um arbusto abaixo
do braço de Tas. — Ninguém suspeitaria de um kender viajando sozinho.
Tanis franziu a testa. Tas estava certo, ninguém suspeitaria dele. Todos
os kenders sentiam um desejo por viajar e percorriam toda Krynn em busca
de aventura. Mas Tas tinha o hábito desconcertante de esquecer sua missão
e ficar vagando se algo mais interessante chamasse sua atenção.
— Muito bem — Tanis finalmente disse. — Mas lembre-se, Tasslehoff
Burrfoot, mantenha seus olhos abertos e esteja preparado. Nada de sair da
estrada e, acima de tudo — Tanis olhou nos olhos do kender de forma
severa — mantenha suas mãos longe dos pertences dos outros.
— A menos que eles sejam padeiros — completou Caramon.
Tas riu, abriu caminho pelos poucos metros de arbustos que faltavam
e começou a descer a estrada, seu hoopak abrindo buracos na lama, suas
bolsas sacolejando à medida que ele andava. Eles ouviram sua voz aumentar
numa canção de viagem dos kenders.

Nosso verdadeiro amor é um veleiro


Que ancora em nosso cais.
Levantamos as velas, tripulamos o convés
Lavamos as vigias até não poder mais.

87
E sim, nosso farol brilha por ele,
E sim, nosso litoral esquenta.
Nós o levamos para atracar,
Em qualquer porto em uma tormenta.

Os marinheiros esperam nas docas,


Os marinheiros esperam alinhados,
Tão ansiosos quanto anões por ouro
Ou centauros para ficarem embriagados.

Pois todos os marinheiros o amam,


E correm para onde ele possa ancorar
Cada homem esperando
Com a tripulação viajar.

Sorrindo, Tanis deixou passar alguns minutos depois de ouvir o úl-


timo verso da canção de Tas antes de partirem. Finalmente eles entraram
na estrada, com tanto medo quanto uma trupe de atores inexperientes
enfrentando uma audiência hostil. Parecia que todos os olhos de Krynn
estavam sobre eles.
A sombra escura sob as folhas com cores de chamas impossibilitava
ver qualquer coisa mata adentro, mesmo com ela a apenas alguns metros
da estrada. Sturm caminhava na frente do grupo, sozinho, em um silêncio
amargo. Tanis sabia que, apesar do cavaleiro ter a cabeça erguida pelo orgu-
lho, ele caminhava com dificuldade através da própria escuridão. Caramon
e Raistlin seguiam. Tanis ficava de olho no mago, preocupado com sua
capacidade de acompanhar os outros.
Raistlin teve um pouco de dificuldade para atravessar a mata, mas agora
estava indo bem. Ele se apoiava no seu cajado com uma mão e segurava um
livro aberto com a outra. Primeiro, Tanis ficou imaginando o que o mago
estava estudando, depois percebeu que era o seu grimório. É a maldição
dos magos, eles precisam estudar constantemente e memorizar suas magias
todos os dias. As palavras da magia ardem na mente, depois tremeluzem e se
apagam quando a magia é feita. Cada magia consome um pouco da energia
física e mental do mago até ele ficar completamente exausto e precisar
descansar antes de ser capaz de usar sua mágica novamente.

88
Flint caminhava do outro lado de Caramon. Os dois começaram a
discutir baixinho sobre o acidente de barco de dez anos atrás.
— Tentando pegar um peixe com as mãos — Flint resmungou sua
indignação.
Tanis vinha por último, caminhando próximo a dupla das Planícies.
Ele voltou sua atenção para Lua Dourada. Vendo-a com clareza sob a luz
cinza debaixo das árvores, percebeu rugas ao redor de seus olhos que faziam
com que ela parecesse mais velha do que seus vinte e nove anos.
— Nossas vidas não têm sido fáceis, — Lua Dourada confidenciou
enquanto caminhavam — Vento Ligeiro e eu nos amamos há muitos anos,
mas a lei do meu povo diz que um guerreiro que queira se casar com a filha
do chefe tem de realizar um grande feito para provar que é digno. Conosco,
foi pior. A família de Vento Ligeiro foi expulsa da tribo anos atrás por se
recusar a adorar nossos ancestrais. O avô dele acreditava nos deuses antigos
que existiam antes do Cataclismo, embora fosse incapaz de encontrar muita
evidência da existência deles em Krynn.
— Meu pai tinha certeza que eu não deveria me casar com alguém tão
abaixo do meu nível. Ele mandou Vento Ligeiro em uma missão impossível,
encontrar um objeto com propriedades sagradas que provariam a existência
desses deuses antigos. É claro que meu pai não acreditava que tal objeto
existisse. Ele esperava que Vento Ligeiro morresse ou que eu me apaixonasse
por outro homem — ela olhou para o guerreiro alto que caminhava ao seu
lado e sorriu. Mas o rosto dele estava sério, os olhos fixos na distância. O
sorriso dela sumiu. Suspirando, ela continuou sua história, falando baixi-
nho, mais para si mesma do que para Tanis.
— Vento Ligeiro ficou longe durante muitos anos. E minha vida
estava vazia. Às vezes, pensava que meu coração ia parar. Então, exatamente
há uma semana, ele voltou. Estava meio morto, falava coisas sem nexo e
estava com uma febre altíssima. Cambaleou para dentro do acampamento
e caiu aos meus pés, sua pele queimando ao toque. Ele segurava o cajado na
sua mão. Tivemos que forçar seus dedos para soltá-lo. Mesmo inconsciente,
não o largava.
— Ele delirava sobre um lugar escuro, uma cidade destruída, onde
a morte tinha asas negras. Então, quando estava quase enlouquecido de
medo e horror e com seus braços amarrados na cama, se lembrou de uma
mulher, uma mulher vestida com uma luz azul. Disse que ela apareceu para

89
ele no lugar escuro, curou-o e lhe deu o cajado. Quando se lembrou dela,
ele ficou mais calmo e a febre passou.
— Há dois dias — ela parou para lembrar. “Foram só dois dias atrás?
Parecia uma vida toda!”. Suspirando, continuou. — Ele presenteou meu
pai com o cajado, dizendo a ele que havia o recebido de uma deusa, em-
bora não soubesse o nome dela. Meu pai olhou para este cajado —, Lua
Dourada o levantou — e ordenou que ele fizesse alguma coisa, qualquer
coisa. Nada aconteceu. Ele o jogou de volta para Vento Ligeiro, dizendo
que era uma farsa e mandou que o povo o apedrejasse até a morte como
punição por sua blasfêmia!
O rosto de Lua Dourada ficou mais pálido enquanto falava, o rosto de
Vento Ligeiro continuava sombrio e triste.
— A tribo prendeu Vento Ligeiro e o arrastou para o Muro do La-
mento — ela disse, falando pouco mais alto do que um sussurro. — Eles
começaram a jogar pedras. Ele olhou para mim com tanto amor e gritou
dizendo que nem mesmo a morte nos separaria. Eu não conseguia suportar
a ideia de viver minha vida sozinha, sem ele. Eu corri até ele. As pedras nos
acertaram... — Lua Dourada colocou a mão na testa, franzindo ao lembrar
da dor, e uma cicatriz recente serrilhada em sua pele bronzeada chamou a
atenção de Tanis. — Houve um clarão cegante. Quando Vento Ligeiro e
eu conseguimos ver novamente, estávamos em pé na estrada fora de Con-
solação. O cajado brilhava azul, depois sua luz diminuiu e se apagou, até
ficar do jeito que você o vê agora. Foi então que decidimos ir até Refúgio e
perguntar aos sábios do templo sobre o cajado.
— Vento Ligeiro — Tanis perguntou, incomodado —, o que você se
lembra dessa cidade destruída? Onde era?
Vento Ligeiro não respondeu. Olhou para Tanis do canto dos seus
olhos escuros e era óbvio que seus pensamentos tinham estado bem distan-
tes. Depois, ele fixou os olhos nas árvores escuras.
— Tanis Meio-Elfo — disse, por fim. — É esse o seu nome?
— Entre os humanos, é assim que sou chamado — respondeu Tanis.
— Meu nome élfico é longo e difícil para os humanos pronunciarem.
Vento Ligeiro franziu a testa.
— E por que — ele perguntou — você é chamado meio-elfo e não
meio-humano?
A pergunta atingiu Tanis como um tapa na cara. Ele quase podia se
ver jogado no chão e precisou se esforçar para parar e engolir uma resposta

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mal-educada. Ele sabia que Vento Ligeiro estava perguntando por um
motivo. Não era um insulto. Era um teste, percebeu Tanis. Ele escolheu as
palavras com cuidado.
— De acordo com os humanos, meio-elfo nada mais é do que parte
de um ser completo. Meio-homem é um aleijado.
Vento Ligeiro refletiu, depois acenou abruptamente com a cabeça e
respondeu a pergunta de Tanis.
— Eu vaguei durante muitos anos — ele respondeu. — Geralmente,
não sabia onde estava. Eu seguia o sol, as luas e as estrelas. Minha última
jornada foi como um sonho sombrio — ele ficou quieto por um instante.
Quando voltou, era como se estivesse falando de algum lugar longínquo.
— Era uma cidade que já fora linda, com construções brancas sustentadas
por colunas altas de mármore. Mas agora, parecia que uma mão enorme a
havia erguido e jogado montanha abaixo. Agora, a cidade era muito antiga
e maligna.
— Morte com asas negras — Tanis disse, baixinho.
— Ela se levantava como uma deusa da escuridão, suas criaturas a
adoravam, gritando e uivando — o rosto do homem das Planícies ficou
pálido com sua pele queimada de sol. Ele estava suando no ar frio da ma-
nhã. — Não consigo mais falar disso! — Lua Dourada colocou sua mão no
braço dele e a tensão no rosto dele desapareceu.
— E no meio desse horror veio uma mulher que lhe deu o cajado?
— Tanis continuou.
— Ela me curou — disse Vento Ligeiro, de forma simples. — Eu
estava morrendo.
Tanis olhou atentamente para o cajado que Lua Dourada estava segu-
rando. Era um cajado comum que ele nunca teria percebido até que fosse
falado para olhar para ele. Havia um dispositivo estranho entalhado no
topo do cajado, com penas, daquelas que os bárbaros admiram, amarradas
em volta dele. Mesmo assim, ele havia visto o brilho azul! Havia sentido os
poderes de cura. Era um presente dos deuses antigos, vindo ajudá-los nesse
momento de necessidade? Ou era maligno? E o que ele sabia sobre esses
bárbaros? Tanis pensou na afirmação de Raistlin, que o cajado só poderia
ser tocado pelos puros de coração. Ele balançou a cabeça. Parecia bom. Ele
queria acreditar nisso...
Perdido em pensamentos, Tanis sentiu Lua Dourada tocar seu braço.
Ele levantou a cabeça e viu Sturm e Caramon fazendo sinais. De repente, o

91
meio-elfo percebeu que ele e a dupla das Planícies tinham ficado bem para
atrás dos outros. Ele começou a correr.
— O que foi?
Sturm apontou.
— O batedor voltou — disse indiferente. Tasslehoff vinha correndo
pela estrada na direção deles. Ele acenou com o braço três vezes.
— Para a floresta! — Tanis ordenou. O grupo saiu correndo da
estrada e mergulhou entre os arbustos e árvores ao longo do lado sul,
todos, exceto Sturm.
— Vamos! — Tanis colocou a mão no braço do cavaleiro. Sturm se
afastou do meio-elfo.
— Não me esconderei em uma vala! — o cavaleiro afirmou friamente.
— Sturm... — Tanis começou, lutando para controlar a raiva crescen-
te. Ele segurou as palavras amargas que não ajudariam em nada e poderiam
causar um dano irreparável. Em vez disso, ele se afastou do cavaleiro, sem
falar nada, e esperou pelo kender com um silêncio sinistro.
Tas veio ligeiro, bolsas e mochilas balançando loucamente enquanto
ele corria.
— Clérigos! — ele respirou fundo. — Um grupo de clérigos. Oito.
Sturm torceu o nariz.
— Achei que fosse pelo menos um batalhão de guardas goblins. Acre-
dito que podemos lidar com um grupo de clérigos.
— Não sei — disse Tasslehoff. — Já vi clérigos de todas as partes de
Krynn e nunca vi nada como estes. — Ele observou apreensivo a estrada,
depois olhou para Tanis com uma seriedade incomum em seus olhos casta-
nhos. — Você se lembra do que Tika disse sobre os homens estranhos em
Consolação... andando com Hederick? Como eles eram encapuzados e ves-
tiam mantos pesados? Bem, isso descreve esses clérigos! E Tanis, eu tive uma
sensação sombria com eles — o kender tremeu. — Eles vão aparecer logo.
Tanis olhou para Sturm. O cavaleiro ergueu as sobrancelhas. Ambos
sabiam que os kender não sentiam medo, mas eram extremamente sensíveis
à natureza de outras criaturas. Tanis não conseguiu se lembrar quando a
visão de qualquer ser em Krynn tivesse dado a Tas uma “sensação sombria”
e ele já esteve com o kender em situações difíceis.
— Lá vêm eles — Tanis disse, de repente. Ele, Sturm e Tas voltaram
para a sombra das árvores à esquerda, observando enquanto os clérigos
faziam lentamente uma curva na estrada.

92
Estavam muito longe para que o meio-elfo pudesse perceber muita
coisa sobre eles, exceto que estavam se movendo bem devagar, puxando um
grande carrinho de mão.
— Talvez seja melhor você falar com eles, Sturm — Tanis disse bai-
xinho. — Precisamos de informações sobre a estrada a frente. Mas tenha
cuidado, meu amigo.
— Eu terei cuidado — disse Sturm, sorrindo. — Não pretendo arriscar
minha vida sem necessidade.
O cavaleiro apertou o braço de Tanis por um instante, em uma des-
culpa silenciosa, depois baixou a mão para soltar a espada em sua bainha
antiga. Ele atravessou a estrada e ficou encostado em uma cerca de madeira
quebrada, com a cabeça abaixada, como se estivesse descansando. Tanis
ficou parado, hesitante, depois virou-se e entrou na floresta, com Tasslehoff
logo atrás dele.
— O que foi? — Caramon reclamou quando Tanis e Tas apareceram.
O grande guerreiro mexeu em seu cinturão, fazendo com que seu arsenal
retinisse bem alto. O resto dos companheiros estava amontoado, escondi-
dos atrás de uma massa espessa de vegetação, mas ainda capazes de ver bem
a estrada.
— Silêncio! — Tanis se ajoelhou entre Caramon e Vento Ligeiro, que
estavam agachados no mato alguns passos à esquerda de Tanis — Clérigos
— ele sussurrou. — Um grupo deles vindo pela estrada. Sturm vai fazer
algumas perguntas a eles.
— Clérigos! — Caramon riu com sarcasmo e se acomodou conforta-
velmente no seu lugar. Mas Raistlin estava agitado.
— Clérigos — ele sussurrou, pensativo. — Eu não gosto disso.
— O que você quer dizer? — perguntou Tanis.
Raistlin olhou para o meio-elfo das sombras escuras do seu capuz.
Tudo que Tanis podia ver eram os olhos dourados de ampulheta do mago,
duas fendas estreitas de astúcia e inteligência.
— Clérigos estranhos — Raistlin falou com uma paciência elaborada,
como quem fala com uma criança — o cajado tem poderes de cura. Poderes
clericais... que não são vistos em Krynn desde o Cataclismo. Caramon e eu
vimos alguns destes homens com manto e capuz em Consolação. Você não
acha estranho, meu amigo, que os clérigos e o cajado tenham aparecido no
mesmo lugar e ao mesmo tempo, quando nenhum deles havia sido visto
antes? Talvez este cajado realmente seja deles... por direito.

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Tanis olhou para Lua Dourada. O rosto dela estava coberto de preo-
cupação. Ela devia estar pensando a mesma coisa. Ele olhou de volta para
a estrada. As figuras de manto vinham muito devagar, puxando o carrinho.
Sturm sentou na cerca, acariciando os bigodes.
Os companheiros esperavam em silêncio. Nuvens cinzas se juntavam
acima, o céu se escureceu e logo a água começou a pingar através dos galhos
das árvores.
— Pronto, está chovendo — reclamou Flint. — Como se não bas-
tasse ficar agachado no mato como um sapo, agora vou ficar ensopado até
a alma...
Tanis encarou o anão. Flint resmungou e se calou. Logo, os compa-
nheiros só podiam ouvir a chuva caindo nas folhas já molhadas e batendo
ritmicamente no elmo e no escudo. Era uma chuva fria e constante, do tipo
que penetra até o manto mais grosso. Ela escorria pelo elmo de dragão de
Caramon e pingava em seu pescoço. Raistlin começou a tremer e tossir,
cobrindo a boca com a mão para abafar o som enquanto todos olhavam
para ele, assustados.
Tanis olhou para a estrada. Como Tas, nunca havia visto algo que se
pudesse comparar com estes clérigos em seus cem anos de vida em Krynn.
Eles eram altos, cerca de um metro e oitenta de altura. Mantos longos
envolviam seus corpos e capas com capuz cobriam os mantos. Até mesmo
seus pés e mãos estavam cobertos por panos, como bandagens cobrindo
feridas leprosas. Enquanto se aproximavam de Sturm, eles olhavam em
volta cautelosamente. Um deles olhou diretamente para a parte da floresta
onde os companheiros estavam escondidos. Eles podiam ver apenas olhos
escuros brilhando por uma brecha no pano.
— Salve, Cavaleiro de Solamnia — o clérigo líder disse na língua
comum. Sua voz era vazia, sussurrada, inumana. Tanis tremeu.
— Saudações, irmãos — Sturm respondeu, também no idioma co-
mum. — Viajei muitos quilômetros hoje e vocês são os primeiros viajantes
que encontro. Ouvi boatos estranhos e busco informações sobre a estrada
adiante. De onde vocês vêm?
— Somos do leste — o clérigo respondeu. — Mas, hoje, viemos de
Refúgio. Está um dia frio e triste para viajar, cavaleiro, talvez seja por isso
que a estrada esteja vazia. Nós mesmos não teríamos feito tal jornada, mas
somos motivados pela necessidade. Não passamos por você na estrada,
então você deve ter vindo de Consolação, senhor cavaleiro.

94
Sturm concordou. Vários dos clérigos na parte de trás da carroça
viraram suas cabeças encapuzadas entre si, murmurando. O clérigo líder
falou com eles em um idioma estranho, gutural. Tanis olhou para seus
companheiros. Tasslehoff balançou a cabeça, assim como o resto. Nenhum
deles havia o escutado antes. O clérigo voltou a falar na idioma comum.
— Estou curioso para saber dos boatos que mencionou, cavaleiro.
— Há rumores sobre exércitos no norte — respondeu Sturm. —
Estou viajando nessa direção, para minha terra natal, Solamnia. Não
gostaria de entrar em uma guerra para a qual não fui convidado.
— Não ouvimos tais boatos — o clérigo respondeu. — Até onde
sabemos, a estrada para o norte está livre.
— Ah, isso é o que acontece ao dar atenção a companheiros de bebida.
— Sturm deu de ombros. — Mas qual é essa necessidade que leva os irmãos
a enfrentarem esse clima tão ruim?
— Procuramos um cajado — o clérigo respondeu prontamente. —
Um cajado de cristal azul. Ouvimos dizer que ele foi visto em Consolação.
Você sabe algo a respeito?
— Sim — Sturm respondeu. — Ouvi falar desse cajado em Conso-
lação. Dos mesmos companheiros que me disseram sobre os exércitos ao
norte. Devo acreditar nessas histórias ou não?
Isso pareceu confundir o clérigo por um instante. Ele olhou ao redor,
como se não soubesse como reagir.
— Me diga — disse Sturm, se apoiando sobre a cerca — por que
procuram um cajado de cristal azul? Um cajado simples de madeira robusta
certamente seria mais adequado para os senhores.
— É um cajado sagrado da cura — o clérigo respondeu seriamente.
— Um dos nossos irmãos está muito doente e vai morrer sem o toque
abençoado dessa relíquia sagrada.
— Cura? — Sturm ergueu as sobrancelhas. — Um cajado sagrado
de cura seria de grande valor. Como vocês perderam um objeto tão raro e
maravilhoso?
— Não o perdemos! — O clérigo resmungou. Tanis viu o homem
apertar com raiva as mãos enfaixadas. — Ele foi roubado de nossa ordem
sagrada. Rastreamos o ladrão imundo até uma vila bárbara nas Planícies,
mas perdemos sua pista. Contudo, existem boatos de feitos estranhos em
Consolação e é para lá que vamos. — Ele gesticulou para o fundo do car-

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rinho. — Esta viagem deplorável é apenas um pequeno sacrifício para nós
quando comparada à dor e agonia que nosso irmão está sentindo.
— Temo que não possa ajudar... — começou Sturm.
— Eu posso ajudá-los — disse uma voz clara ao lado de Tanis. Ele
tentou pará-la, mas foi tarde demais. Lua Dourada havia se levantado na
floresta e andou de forma decidida para a estrada, afastando os galhos e os
arbustos. Vento Ligeiro se levantou em um salto e abriu caminho pelo mato
atrás dela.
— Lua Dourada! — Tanis arriscou um sussurro penetrante.
— Eu preciso saber — foi o que ela disse.
Ao ouvirem a voz de Lua Dourada, os clérigos trocaram olhares pro-
positalmente, acenando com as cabeças cobertas. Tanis sentiu o problema,
mas, antes de pudesse dizer algo, Caramon se levantou.
— O povo da Planície não vai me deixar para trás em uma vala en-
quanto se divertem — disse Caramon, partindo através dos arbustos atrás
de Vento Ligeiro.
— Todos ficaram loucos? — Tanis rosnou. Ele pegou Tasslehoff pelo
colarinho, arrastando o kender de volta enquanto ele estava prestes para sair
alegremente atrás de Caramon. — Flint, vigie o kender. Raistlin...
— Não se preocupe comigo, Tanis — sussurrou o mago. — Não
pretendo ir até lá.
— Certo! Bem, fique aqui — Tanis se levantou e seguiu lentamente
para frente, com uma sensação sombria tomando conta dele.

96
8
Em busca da verdade.
Respostas inesperadas.

u posso ajudá-los — a voz limpa de Lua Dourada soou como um


sino de prata puro. A filha do chefe viu o rosto em choque de
Sturm. Ela entendeu o aviso de Tanis.
Mas este não foi o ato de uma mulher tola. Lua Dourada estava longe
disso. Havia governado sua tribo durante dez anos, desde que a enfermida-
de havia atingido seu pai como um relâmpago, deixando-o incapaz de falar
com clareza ou de movimentar o braço e a perna direita. Havia liderado
sua tribo em tempos de paz e em tempos de guerra com as tribos vizinhas.
Havia frustrado tentativas de tirarem o poder dela. Ela sabia que o que
estava fazendo agora era perigoso. Os clérigos estranhos eram repugnantes.
Mas sabiam algo sobre o cajado e ela precisava da resposta.
— Sou a portadora do cajado de cristal azul — disse Lua Dourada,
aproximando-se do líder dos clérigos, com a cabeça erguida. — Mas não o
roubamos, o cajado nos foi dado.
Vento Ligeiro parou ao lado dela, Sturm do outro. Caramon veio
correndo através dos arbustos e parou atrás dela, com a mão no punho da
espada e um sorriso ansioso no rosto.
— É o que você diz — disse o clérigo com uma voz suave de desdém.
Ele olhou o cajado marrom na mão dela com olhos ávidos, negros e bri-
lhantes, depois esticou a mão enfaixada para pegá-lo. Lua Dourada puxou
rapidamente o cajado para junto de si.
— O cajado foi tirado de um lugar de grande mal — disse. — Farei
o que for preciso para ajudar seu irmão agonizante, mas não entregarei o
cajado a você ou a quem quer que seja até ter certeza do seu direito a ele.
O clérigo hesitou e olhou novamente para seus amigos. Tanis os viu
fazerem gestos nervosos e vacilantes em direção aos cintos largos de pano
que usavam amarrados em volta de seus mantos folgados. Cintos largos e
incomuns, Tanis observou, com um volume estranho debaixo deles que,
com certeza, não era dos livros de orações. Ele praguejou frustrado, de-
sejando que Caramon e Sturm estivessem prestando atenção. Mas Sturm
parecia completamente relaxado e Caramon cutucava Sturm, como se esti-
vessem compartilhando uma piada. Tanis levantou o arco cuidadosamente
e posicionou uma flecha.
O clérigo finalmente baixou a cabeça em aceitação, colocando as mãos
nas mangas.
— Nós ficaremos gratos por qualquer ajuda que puder dar ao nosso
pobre irmão — disse, com a voz abafada. — Depois, espero que vocês e
seus companheiros voltem conosco para Refúgio. Prometo que você ficará
convencida de que o cajado chegou às suas mãos por engano.
— Nós vamos para onde decidirmos ir, irmão — Caramon rosnou.
“Tolo!”, pensou Tanis. O meio-elfo pensou em gritar para avisar,
depois decidiu continuar escondido caso seus temores crescentes se
concretizassem.
Lua Dourada e o líder dos homens em mantos passaram pelo carri-
nho, com Vento Ligeiro ao lado dela. Caramon e Sturm permaneceram
perto da frente do carrinho, olhando-o com interesse. Quando Lua Dou-
rada e o clérigo chegaram à traseira, ele estendeu sua mão enfaixada e a
guiou para o carrinho. Ela se esquivou de seu toque e avançou sozinha. O
clérigo curvou-se humildemente, depois levantou um pano que cobria a
traseira do carrinho. Segurando o cajado à sua frente, Lua Dourada olhou
para dentro dele.

99
Tanis viu um turbilhão de movimentos. Lua Dourada gritou. Houve
um brilho de luz azul e um berro. Ela pulou para trás enquanto Vento
Ligeiro saltou para a sua frente. O clérigo levou um berrante aos lábios e
tocou umas notas longas e lamentosas.
— Caramon! Sturm! — Tanis gritou, levantando seu arco. — É uma
armad-- — Um peso grande caiu sobre o meio-elfo vindo do alto, derru-
bando no chão. Mãos fortes tentavam agarrar sua garganta, empurrando seu
rosto contra as folhas molhadas e a lama. As mãos do homem tinham-no
pegado de jeito e começaram a apertar. Tanis lutava para respirar, mas seu
nariz e sua boca estavam cheios de lama. Com a visão turva, batia frenetica-
mente nas mãos que tentavam esmagar sua traqueia. O aperto do homem
era incrivelmente forte. Tanis sentiu que começava a perder a consciência.
Tencionou os músculos para uma última tentativa desesperada, depois
ouviu um grito rouco e o som de osso sendo esmagado. As mãos relaxaram
o aperto e o peso enorme foi tirado de cima dele.
Tanis ficou de joelhos, respirando fundo e com muitas dores. Limpan-
do a lama do rosto, olhou para cima e viu Flint com um pedaço de tronco
na mão. Mas o anão não estava olhando para ele. Olhava para o corpo a
seus pés.
Tanis acompanhou o olhar perplexo do anão e recuou, aterrorizado.
Não era uma pessoa! Asas de couro saiam de suas costas. Tinha a pele esca-
mosa de um réptil, suas mãos e pés eram grandes e tinham garras, mas ele
andava em pé. A criatura usava uma armadura sofisticada que permitia o
uso das suas asas. Entretanto, foi o rosto dela o que o fez estremecer, pois
não era o rosto de qualquer ser vivo que ele já tivesse visto antes, nem em
Krynn, nem em seus piores pesadelos. A criatura tinha o rosto de uma pes-
soa, mas era como se um ser maligno o tivesse deformado e transformado
no rosto de um réptil!
— Por todos os deuses — Raistlin sussurou, arrastando-se até Tanis.
— O que é isso?
Antes que Tanis pudesse responder, viu pelo canto dos olhos um brilho
forte de luz azul e ouviu Lua Dourada chamando.
Por um momento, enquanto Lua Dourada olhava para o carrinho,
tentou imaginar que doença terrível poderia transformar a pele de um
homem em escamas. Avançou para tocar o pobre clérigo com seu cajado,
mas, naquele instante, a criatura saltou sobre ela, tentando agarrar o cajado
com sua mão de garra. Lua Dourada tropeçou para trás, mas a criatura foi

100
rápida e sua mão de garra se fechou ao redor do cajado. Houve um clarão
cegante de luz azul. A criatura gritou de dor e caiu para trás, apertando sua
mão escurecida. De espada em punho, Vento Ligeiro havia se colocado à
frente da filha do chefe.
Mas agora ela o ouvia arfar e viu o braço que empunhava a espada
cair, fraco. Ele cambaleou para trás, sem se esforçar para se defender. Mãos
brutas enfaixadas a agarraram por trás. Uma mão horrível cheia de escamas
tapava sua boca. Lutando para se libertar, ela viu Vento Ligeiro de relance.
Ele olhava com os olhos arregalados de terror a coisa no carrinho, seu rosto
mortalmente pálido, sua respiração rápida e superficial, como um homem
que acorda de um pesadelo e descobre que é de verdade.
Filha forte de uma raça de guerreiros, Lua Dourada chutou para trás
o clérigo que a segurava, tentando atingir o joelho. Seu chute habilidoso
pegou seu oponente de surpresa e esmagou sua rótula. No instante que o
clérigo relaxou a mão, Lua Dourada girou e o acertou com o cajado. Ela fi-
cou surpresa ao ver o clérigo desabar no chão, parecendo ter sido derrubado
com um soco que o poderoso Caramon teria invejado. Ela olhou perplexa
para o cajado que agora emitia uma luz azul brilhante. Mas não havia tempo
para admirar, pois outras criaturas a cercavam. Ela girou o cajado brilhante
em um arco largo, mantendo-os afastados. Mas por quanto tempo?
— Vento Ligeiro!
O grito de Lua Dourada despertou o homem das Planícies do seu
terror. Virando-se, ele a viu andando de costas para a floresta, mantendo os
clérigos à distância com seu cajado. Ele agarrou um dos clérigos por trás e
o jogou com força no chão. Outro pulou nele enquanto um terceiro saltou
em direção a Lua Dourada.
Houve um clarão azul cegante.
Um momento antes do grito de Tanis, Sturm havia percebido que
os clérigos haviam armado uma armadilha e sacou a espada. Tinha visto,
através das ripas do velho carrinho de madeira, uma garra pegando o
cajado. Correndo para a frente, foi dar apoio a Vento Ligeiro. Mas o
cavaleiro estava despreparado para a reação do homem das Planícies
ao ver a criatura no carrinho. Sturm viu Vento Ligeiro cambalear para
trás, indefeso, enquanto a criatura pegava um machado de batalha em
sua mão ilesa e saltava diretamente até o bárbaro. Vento Ligeiro não fez
nenhum movimento para se defender. Ele apenas olhava, com sua arma
balançando na mão.

101
Sturm enfiou a espada nas costas da criatura. A coisa gritou e girou
para atacar, arrancando a espada da mão do cavaleiro. Babando e gorgole-
jando na sua fúria agonizante, a criatura envolveu seus braços ao redor do
cavaleiro assustado e o derrubou na estrada lamacenta. Sturm sabia que a
coisa que o agarrava estava morrendo e lutou para acabar com o terror e
a repulsa que sentia ao toque de sua pele viscosa. Os gritos pararam e ele
sentiu a criatura ficar rígida. O cavaleiro empurrou o corpo e rapidamente
começou a puxar sua espada das costas da criatura. A arma não se mexeu!
Ele olhou para a espada, incrédulo, depois a puxou com toda a sua força,
até mesmo colocando a bota contra o corpo para ter um apoio. A arma
ficou presa rapidamente. Furioso, bateu na criatura com as mãos, depois
recuou com medo e repulsa. A coisa tinha virado pedra!
— Caramon! — Sturm gritou enquanto outro dos clérigos estranhos
saltava sobre ele, brandindo um machado. Sturm se abaixou, sentiu uma
dor forte e foi cegado quando o sangue escorreu para seus olhos. Tropeçou,
incapaz de ver, e um peso esmagador levou-o ao chão.
Parado perto da frente do carrinho, Caramon foi em direção de Lua
Dourada para ajudá-la quando ouviu o grito de Sturm. Então, duas das
criaturas avançaram para cima dele. Brandindo a espada para forçá-las a
manter distância, Caramon sacou a adaga com a mão esquerda. Um clérigo
saltou e Caramon o golpeou, sua lâmina cortando profundamente a carne.
Ele sentiu um fedor podre e sujo e viu uma mancha verde doentia aparecer
nos mantos do clérigo, mas a ferida pareceu apenas enfurecer a criatura. Ela
continuava avançando, com saliva escorrendo das mandíbulas que eram de
um réptil... não de uma pessoa. Por um momento, o pânico tomou conta
de Caramon. Ele havia lutado contra trolls e goblins, mas esses clérigos
horríveis o deixavam nervoso. Ele se sentiu perdido e sozinho, então ouviu
um sussurro reconfortante ao seu lado.
— Estou aqui, irmão — a voz calma de Raistlin encheu sua mente.
— Já era hora — Caramon arfou, ameaçando a criatura com a espada.
— Que tipo de clérigos nojentos são esses?
— Não os esfaqueie — Raistlin avisou rapidamente. — Eles se trans-
formarão em pedra. Não são clérigos. São um tipo de homem-réptil. Por
isso usam mantos e capuzes.
Embora diferentes como a luz e a sombra, os gêmeos formavam um
bom time. Trocavam poucas palavras durante a batalha, seus pensamentos
se fundindo mais rápido do que as línguas poderiam traduzir. Caramon

102
largou a espada e a adaga e flexionou os músculos enormes dos braços.
Vendo Caramon soltar suas armas, as criaturas avançaram. Seus trapos se
soltaram e esvoaçaram ao redor delas grotescamente. Caramon fez uma
careta ao ver os corpos escamosos e as mãos com garras.
— Pronto — ele disse ao irmão.
— Ast tasark simiralan krynawi — disse Raistlin baixinho, jogando
um punhado de areia no ar. As criaturas pararam sua corrida selvagem,
balançaram as cabeças grogues enquanto o sono mágico tomava conta...
mas então piscaram os olhos. Em instantes, recuperaram a consciência e
começaram a avançar de novo!
— Resistentes à magia — Raistlin murmurou admirado.
Mas esse interlúdio breve de quase sono foi o suficiente para Caramon.
Envolvendo seus pescoços magros e reptilianos com as mãos enormes, o
guerreiro bateu as cabeças deles. Os corpos desabaram no chão... como
estátuas sem vida. Caramon olhou para frente, vendo mais dois clérigos
rastejando sobre os corpos pétreos de seus irmãos, com espadas curvas
brilhando em suas mãos enfaixadas.
— Fique atrás de mim — ordenou Raistlin em um sussurro rouco.
Caramon se abaixou e recuperou a espada e o escudo. Passou para trás
do seu irmão, temendo pela segurança do seu gêmeo, mas sabendo que
Raistlin não poderia usar sua magia se ele ficasse no caminho.
Raistlin olhou atentamente para as criaturas que, reconhecendo um
mago, reduziram o passo e olharam entre si, hesitantes em se aproximarem.
Um deles se jogou no chão e rastejou para baixo do carrinho. O outro
saltou para frente, com a espada na mão, esperando impalar o mago antes
da magia ser feita ou pelo menos quebrar a concentração tão necessária para
o conjurador. Caramon berrou. Raistlin parecia não ouvir ou ver nenhum
deles. Ele levantou as mãos lentamente. Colocando os polegares juntos,
ele espalhou seus dedos finos como se fosse um leque e disse “kair tangus
miopiar”. A magia fluiu através do seu corpo frágil e a criatura foi envolvida
em chamas.
Se recuperando do choque inicial, Tanis ouviu o grito de Sturm e
correu através dos arbustos até a estrada. Usou a parte chata da espada
como um porrete e bateu na criatura que Sturm havia prendido no chão.
O clérigo caiu com um grito agudo e Tanis conseguiu arrastar o cavaleiro
ferido para a mata.

103
— Minha espada — Sturm murmurou, atordoado. O sangue banhava
seu rosto. Ele havia tentado limpá-lo, sem sucesso.
— Vamos pegá-la — Tanis prometeu, imaginando como. Olhando
para a estrada, podia ver mais duas criaturas saindo da floresta e indo em
sua direção. A boca de Tanis estava seca. “Temos que sair daqui” ele pensou,
lutando contra o pânico.
Ele se forçou a parar e respirar fundo. Então, virou-se para Flint e
Tasslehoff, que haviam corrido atrás dele.
— Fiquem aqui e protejam Sturm — ele instruiu. — Vou tentar
trazer os outros. Vamos voltar para a floresta.
Sem esperar uma resposta, Tanis correu para a estrada, mas, então, as
chamas da magia de Raistlin explodiram e ele foi forçado e se jogar no chão.
O carrinho começou a fumegar enquanto o leito de palha onde a
criatura estava deitada pegava fogo.
— Fiquem aqui e protejam Sturm. Unf! — Flint resmungou, apertan-
do firme seu machado de batalha. Por enquanto, as criaturas que vinham
pela estrada pareciam não perceber o anão, o kender ou o cavaleiro ferido
deitado nas sombras das árvores. Sua atenção estava nos dois pequenos
grupos de combatentes. Mas Flint sabia que isso era uma questão de tempo.
Ele firmou ainda mais os seus pés.
— Faça alguma coisa pelo Sturm — disse para Tas, irritado. — Seja
útil pelo menos uma vez.
— Estou tentando — respondeu Tasslehoff, magoado. — Mas não
consigo parar o sangramento — Ele limpou os olhos do cavaleiro com
um lenço um tanto limpo. — Pronto, consegue ver agora? — perguntou
ansiosamente.
Sturm gemeu e tentou se sentar, mas a dor pulsou em sua cabeça e ele
voltou a deitar.
— Minha espada — ele disse.
Tasslehoff se esticou para ver a espada de duas mãos de Sturm enfiada
nas costas do clérigo de pedra.
— Isso é fantástico! — disse o kender, de olhos arregalados. — Olha,
Flint! A espada de Sturm...
— Eu sei, seu kender idiota cabeça nas nuvens! — Flint rugiu enquanto
via a criatura correndo em sua direção, com a lâmina em mãos.
— Vou lá pegá-la — disse Tas alegremente para Sturm, que se ajoelhava
ao seu lado. — Volto logo.

104
— Não... — Flint gritou, percebendo que o clérigo atacante estava
fora da linha de visão de Tas. A espada curva e perigosa da criatura passou
em um arco lampejante, voltada para o pescoço do anão. Flint girou o
machado, mas, naquele instante, Tasslehoff, que olhava para a espada de
Sturm, se levantou. O hoopak do kender bateu atrás dos joelhos do anão,
fazendo as pernas de Flint se dobrarem. A espada da criatura passou ino-
fensivamente por cima enquanto o anão dava um berro assustado e caía de
costas sobre Sturm.
Ouvindo o grito do anão, Tasslehoff olhou para trás, espantado
com uma visão estranha: um clérigo atacava Flint e, por algum motivo,
o anão estava deitado de costas, com as pernas balançando, quando
deveria estar lutando.
— O que você está fazendo, Flint? — Tas gritou. Ele despreocupada-
mente acertou a criatura no meio do corpo com o seu hoopak e atingiu-a
novamente na cabeça quando tombou para a frente e a observou cair no
chão, inconsciente.
— Pronto! — ele disse irritado para Flint. — Eu tenho que lutar por
você também? — o kender virou-se e foi rumo à espada de Sturm.
— Lutar! Por mim! — Espumando de raiva, o anão se debatia louca-
mente para levantar. Seu elmo havia escorregado sobre os olhos, o deixando
sem ver. Flint o empurrou para trás bem na hora que outro clérigo se jogou
contra ele, derrubando o anão de novo.
Tanis encontrou Lua Dourada e Vento Ligeiro de costas um para
o outro, Lua Dourada se defendendo das criaturas com seu cajado. Três
delas jaziam mortas aos seus pés, os restos pétreos ainda enegrecidos pela
chama azul do cajado. A espada de Vento Ligeiro ficou presa rapidamente
nas entranhas de outra estátua. O homem das Planícies havia sacado sua
única arma restante, um arco curto, e preparado uma flecha. No momento,
as criaturas estavam recuadas, discutindo sua estratégia em tons baixos e
indecifráveis. Sabendo que eles avançariam sobre o bárbaro a qualquer mo-
mento, Tanis saltou sobre eles e atacou uma das criaturas por trás, usando a
parte chata de sua espada, depois bateu em outra com um golpe invertido.
— Vamos! — ele gritou para a dupla das Planícies. — Por aqui!
Algumas das criaturas avançaram neste novo ataque, outras hesitaram.
Vento Ligeiro disparou uma flecha e derrubou uma, depois pegou a mão
de Lua Dourada e, juntos, correram em direção a Tanis, saltando sobre os
corpos de pedra das suas vítimas.

105
Tanis os deixou passar, combatendo as criaturas com a parte plana
da espada.
— Aqui, pegue esta adaga! — ele gritou para Vento Ligeiro enquanto
o bárbaro corria. Vento Ligeiro a pegou, virou e atingiu uma das criaturas
no queixo. Batendo para cima com o punho, ele quebrou o pescoço dela.
Houve mais um brilho da chama azul quando Lua Dourada usou seu ca-
jado para tirar outra criatura do caminho. Então, eles chegaram à floresta.
O carrinho de madeira estava em chamas. Olhando pela fumaça, Ta-
nis via a estrada de relance. Ele sentiu um arrepio quando viu formas aladas
escuras flutuando acima do chão, a cerca de oitocentos metros de distância
em ambos os lados. A estrada estava cercada nas duas direções. Eles ficariam
presos, a menos que fugissem para a floresta imediatamente.
Ele chegou ao lugar onde havia deixado Sturm. Lua Dourada e Vento
Ligeiro estavam lá, assim como Flint. Onde estavam os outros? Ele olhou
ao redor na fumaça densa, piscando para conter as lágrimas.
— Ajude Sturm — ele disse a Lua Dourada. Depois, virou-se para
Flint, que tentava sem sucesso tirar seu machado do peito de uma criatura
de pedra. — Onde estão Caramon e Raistlin? E onde está o Tas? Eu disse
para ele ficar aqui...
— O maldito kender quase me matou! — Flint explodiu. — Espero
que o tenham levado! Que o usem como ração para cachorrro! Que...
— Pelos deuses! — Tanis esbravejou, exasperado. Abriu caminho na
fumaça até onde havia visto Caramon e Raistlin pela última vez e deu de
frente com o kender, que arrastava a espada de Sturm de volta pela estrada.
A arma era quase do tamanho de Tasslehoff e ele não conseguia levantá-
-la,por isso, estava a arrastando pela lama.
— Como você conseguiu tirá-la? — Tanis perguntou, impressionado,
tossindo na fumaça espessa que os cercava. Tas sorriu, com lágrimas no
rosto por causa da fumaça em seus olhos.
— A criatura virou pó — ele disse, feliz. — Ah, Tanis, foi maravilhoso.
Eu subi nela e puxei a espada e ela não saía, então eu puxei de novo e--
— Agora não! Volte para os outros! — Tanis pegou o kender e o
empurrou para frente. — Você viu Caramon e Raistlin?
Mas, nesse instante, ele ouviu a voz do guerreiro ressoar na fumaça.
— Estamos aqui — Caramon ofegou. Estava com o braço ao redor do
irmão, que tossia incontrolavelmente. — Nós acabamos com todos eles? —
o grandalhão perguntou, animado.

106
— Não, não acabamos. — Tanis respondeu sério. — Aliás, temos que
fugir através da floresta até o sul. — Ele colocou o braço ao redor de Raistlin
e, juntos, correram para onde os outros estavam perto da estrada, engasgando
com a fumaça, ainda que gratos por ela escondê-los.
Sturm estava de pé, com o rosto pálido, mas a dor na cabeça se foi e o
ferimento parou de sangrar.
— O cajado o curou? — Tanis perguntou a Lua Dourada.
Ela tossiu.
— Não totalmente. O suficiente para que possa andar.
— Ele tem... limites — disse Raistlin, respirando com dificuldade.
— Sim... — Tanis interrompeu. Bem, vamos para o sul, para a floresta.
Caramon balançou a cabeça.
— É a Floresta Sombria... — ele começou.
— Eu sei, você prefere lutar contra os vivos — Tanis interrompeu. —
O que acha disso agora?
O guerreiro não respondeu.
— Mais dessas criaturas estão vindo de ambas as direções. Não vamos
aguentar outro ataque desses. Mas só entraremos na Floresta Sombria se for
necessário. Existe uma trilha de caça não muito longe daqui que podemos
usar para chegar ao Pico do Olho do Orador. Lá, podemos ver a estrada
para o norte, assim como para as outras direções.
— Podemos seguir ao norte até a caverna. O barco está escondido
lá. — sugeriu Vento Ligeiro.
— Não! — berrou Flint com a voz sufocada. Sem dizer outra palavra,
o anão se virou e mergulhou na floresta, correndo tão rápido quanto suas
pernas curtas conseguiam.

107
9
Fuga!
O cervo branco.

s companheiros tropeçaram pela floresta densa o mais rápido que


podiam e logo chegaram à trilha de caça. Caramon assumiu a
liderança, com a espada na mão, olhando cada sombra. Seu irmão
o seguia, com a mão no ombro de Caramon, seus lábios em determinação
sinistra. O resto vinha atrás, com as armas desembainhadas.
Mas eles não viram mais as criaturas.
— Por que não estão nos perseguindo? — perguntou Flint depois
deles terem viajado por aproximadamente uma hora.
Tanis coçou a barba... Ele estava pensando a mesma coisa.
— Eles não precisam — disse, por fim. — Estamos cercados. Eles
certamente bloquearam todas as saídas da floresta. Exceto pela Floresta
Sombria...
— Floresta Sombria — Lua Dourada repetiu baixinho. — Precisamos
mesmo seguir nessa direção?
— Talvez não — disse Tanis. — Vamos dar uma olhada ao redor no
Pico do Olho do Orador.
De repente, eles ouviram o grito de Caramon, andando à frente deles.
Correndo para a frente, Tanis viu que Raistlin havia desabado.
— Eu vou ficar bem — o mago sussurrou. — Mas preciso descansar.
— Todos nós precisamos descansar — disse Tanis.
Ninguém respondeu. Todos cederam cansados, recuperando o fôlego
em suspiros rápidos e fortes. Sturm fechou os olhos e se recostou em uma
rocha coberta de musgo. Seu rosto estava com um tom horrível de branco
acinzentado. O sangue havia emaranhado seus longos bigodes e cobria seu
cabelo. A ferida era um corte irregular, lentamente ficando roxa. Tanis sabia
que o cavaleiro morreria antes de reclamar.
— Não se preocupe — disse Sturm, de forma dura. — Apenas me
dê um momento para descansar — Tanis apertou a mão do cavaleiro por
alguns instantes, depois foi se sentar ao lado de Vento Ligeiro.
Nenhum dos dois falou por vários minutos. Então, Tanis perguntou:
— Você já lutou com essas criaturas antes, não?
— Na cidade destruída — Vento Ligeiro estremeceu. — Tudo voltou
quando eu olhei no carrinho e vi aquela coisa me encarando! Pelo menos...
— ele parou, balançando a cabeça. Depois, sorriu um pouco para Tanis.
— Pelo menos sei que não estou ficando louco. Aquelas criaturas horríveis
existem mesmo... Eu duvidava às vezes.
— Posso imaginar — Tanis murmurou. — Então, essas criaturas estão
se espalhando por Krynn, a menos que a cidade destruída seja perto daqui.
— Não. Eu fui para Que-shu vindo do leste. Era bem longe de Con-
solação, além das Planícies da minha terra natal.
— O que você acha que essas criaturas queriam dizer sobre terem
o rastreado até a nossa aldeia? — Lua Dourada perguntou lentamente,
apoiando a bochecha na manga da túnica de couro, deslizando a mão pelo
braço dele.
— Não se preocupe — disse Vento Ligeiro, pegando a mão dela. —
Os guerreiros de lá conseguiriam cuidar deles.
— Vento Ligeiro, você se lembra do que ia dizer? — ela perguntou.
— Sim, você está certa — Vento Ligeiro respondeu, acariciando o ca-
belo prateado dourado dela. Ele olhou para Tanis e sorriu. Por um instante,
a máscara sem expressão desapareceu e Tanis viu a cordialidade profunda
nos olhos castanhos do homem. — Eu o agradeço, meio-elfo, e a todos

109
vocês — seu olhar passou por todos. — Vocês salvaram nossas vidas mais
de uma vez e eu me comportei de forma ingrata. Mas — ele pausou — é
tudo tão estranho!
— Vai ficar ainda mais estranho — era a voz sinistra de Raistlin.
Os companheiros se aproximavam do Pico do Olho do Orador. Con-
seguiram vê-lo da estrada, erguendo-se acima das árvores. Seu pico dividido
parecia duas mãos juntas em oração, por isso o nome. A chuva havia pa-
rado. A floresta estava mortalmente quieta. Os companheiros começaram
a imaginar que os animais e os pássaros da floresta haviam desaparecido,
deixando para trás um silêncio misterioso e vazio. Todos estavam inquietos,
exceto, talvez, Tasslehoff, e ficavam olhando por cima dos ombros ou sacan-
do as espadas para as sombras.
Sturm insistiu em andar na retaguarda, mas começou a ficar para trás
quando a dor em sua cabeça aumentou. Estava ficando tonto e enjoado.
Logo, perdeu toda a noção de onde estava e o que estava fazendo. Sabia
apenas que precisava continuar andando, colocando um pé à frente do
outro, avançando como um dos autômatos de Tas.
Como era a história de Tas? Sturm tentou lembrar-se através da
confusão da dor. Esses autômatos serviam a um mago que havia invocado
um demônio para levar o kender embora. Era um absurdo, como todas
as histórias do kender. Sturm colocou um pé à frente do outro. Absurdo.
Como as histórias do velho... o velho na Hospedaria. Histórias do Cervo
Branco e dos deuses antigos... Paladine. Histórias de Huma. Sturm colo-
cou as mãos nas têmporas latejantes, como se pudesse juntar sua cabeça
rachada. Huma...
Quando criança, Sturm era fascinado pelas histórias de Huma.
Sua mãe, filha de um Cavaleiro de Solamnia, casada com um cavaleiro,
não conhecia outras histórias para contar ao filho. Os pensamentos de
Sturm se voltaram para sua mãe, e sua dor o fez pensar no carinho dela
quando ele estava doente ou machucado. O pai de Sturm havia mandado
a mulher e o filho para o exílio porque o garoto, seu único herdeiro,
era um alvo para aqueles que desejavam ver os Cavaleiros de Solamnia
banidos para sempre da face de Krynn. Sturm e sua mãe se refugiaram
em Consolação. Sturm fez amizades, particularmente com outro menino,
Caramon, que compartilhava o seu interesse por todas as coisas marciais.
Mas a mãe, orgulhosa, se considerava acima dos outros. Assim, quando
a febre a consumiu, ela morreu sozinha, exceto por seu filho adolescente.

110
Ela teria entregado o menino ao pai... se o pai ainda estivesse vivo, o que
Sturm começava a duvidar.
Após a morte da mãe, o jovem tornou-se um guerreiro sob a orienta-
ção de Tanis e Flint, que adotaram Sturm assim como adotaram Caramon
e Raistlin, não oficialmente. Junto com Tasslehoff, o kender que amava
viajar, e ocasionalmente a bela e impulsiva meia-irmã dos gêmeos, Kitiara,
Sturm e seus amigos acompanharam Flint em suas viagens pelas terras de
Abanassínia, trabalhando como ferreiro.
Contudo, há cinco anos, os companheiros decidiram se separar para
investigar relatos de um mal que estava crescendo no mundo. Eles prome-
teram se encontrar novamente na Hospedaria do Lar Derradeiro.
Sturm havia viajado para o norte até Solamnia, determinado a encon-
trar seu pai e sua herança. Ele não o encontrou e mal escapou com vida,
com a espada e a armadura de seu pai. A jornada para sua terra natal fora
uma experiência angustiante. Sturm sabia que os cavaleiros eram odiados,
mas ficara chocado ao perceber o quão profunda era a amargura contra eles.
Huma, Portador da Luz, Cavaleiro de Solamnia, havia expulsado as trevas
anos atrás durante a Era dos Sonhos e, assim, começou a Era do Poder.
Então veio o Cataclismo, quando os deuses abandonaram os homens, de
acordo com a crença popular. As pessoas procuraram os cavaleiros em busca
de ajuda, como haviam procurado Huma no passado. Mas Huma havia
morrido há muito tempo. Os cavaleiros só podiam assistir impotentes en-
quanto o terror caia do céu e Krynn era despedaçada. As pessoas precisaram
dos cavaleiros, mas estes não puderam fazer nada e as pessoas nunca os
perdoaram. Parado em frente ao castelo arruinado de sua família, Sturm
prometeu que restauraria a honra dos Cavaleiros de Solamnia, mesmo que
isso significasse sacrificar sua vida na tentativa.
Mas como poderia fazer isso lutando contra um bando de clérigos,
ele se perguntou amargamente, a trilha desvanecendo diante de seus
olhos. Ele tropeçou e se recuperou rapidamente. Huma lutou contra
dragões. Me dê dragões, Sturm sonhava. Ele levantou os olhos. As folhas
se embaçaram em uma névoa dourada e ele sabia que ia desmaiar. Então,
piscou. Tudo ficou em foco.
Diante dele se erguia o Pico do Olho do Orador. Ele e seus com-
panheiros haviam chegado aos pés da velha montanha glacial. Podia
ver trilhas serpenteando pela encosta arborizada, trilhas usadas pelos
moradores de Consolação para chegar aos locais de piquenique no lado

111
leste do Pico. Ao lado de um dos caminhos desgastados, havia um cervo
branco. Sturm o encarou. O cervo era o animal mais magnífico que o
cavaleiro já havia visto. Era enorme, com várias palmos de altura acima
de qualquer outro cervo que o cavaleiro havia caçado. Erguia sua cabeça
com orgulho, seus chifres esplêndidos brilhando como uma coroa. Seus
olhos eram castanho-escuros contra o pelo branco puro e olhava para o
cavaleiro atentamente, como se o conhecesse. Então, com um movimento
leve de cabeça, o cervo se afastou para o sudoeste.
— Parem! — o cavaleiro disse roucamente.
Os outros se viraram em alerta, sacando as armas.
Tanis voltou correndo para ele.
— O que foi, Sturm?
O cavaleiro colocou involuntariamente a mão na cabeça dolorida.
— Me desculpe, Sturm — disse Tanis. — Não percebi que você estava
tão mal assim. Podemos descansar. Estamos no sopé do Pico do Olho do
Orador. Vou subir a montanha e ver...
— Não! Veja! — o cavaleiro agarrou o ombro de Tanis e o virou. Ele
apontou. — Está vendo? O cervo branco!
— O cervo branco? — Tanis olhou na direção que o cavaleiro indicou.
— Onde? Eu não...
— Ali — disse Sturm, baixinho. Ele deu uns passos para a frente, na
direção do animal que havia parado e parecia estar esperando por ele. O
cervo assentiu com a cabeça grande. Ele se afastou de novo, apenas alguns
passos, depois virou-se para encarar o cavaleiro mais uma vez.
— Ele quer que o sigamos — Sturm arfou. — Como Huma!
Os outros se reuniram em torno do cavaleiro, olhando para ele
com expressões que variavam de preocupação a ceticismo.
— Não vejo cervos de qualquer cor — disse Vento Ligeiro, seus olhos
escuros esquadrinhando a floresta.
— Ferimento na cabeça — Caramon afirmou como um clérigo
charlatão.
— Vamos, Sturm, deite e descanse enquanto...
— Seu grande idiota! — o cavaleiro rosnou para Caramon. — Como
seu cérebro fica no estômago, é melhor que você não veja o cervo. Você
provavelmente o mataria e o cozinharia! Eu digo a vocês... devemos seguir
o cervo branco!

112
— A loucura da ferida na cabeça — Vento Ligeiro sussurrou para
Tanis. — Já a vi muitas vezes.
— Não tenho certeza — Tanis disse. Ele ficou quieto por alguns
instantes. Quando falou, foi com uma relutância óbvia. — Embora não
tenha visto o cervo branco, estive com alguém que o viu e o segui, como na
história do velho — sua mão tocou inconscientemente o anel de folhas de
hera trançadas que usava em sua mão esquerda, seus pensamentos com a
dama élfica de cabelos dourados que chorou quando ele deixou Qualinesti.
— Você está sugerindo que sigamos um animal que não podemos
ver? — Disse Caramon, de queixo caído.
— Não seria a coisa mais estranha que já fizemos — comentou Rais-
tlin, sarcasticamente, em sua voz sussurrada. — Embora, lembrem-se, foi o
velho que contou a história do Cervo Branco que nos colocou nisso...
— Foi a nossa própria escolha que nos colocou nisso — disparou
Tanis. — Poderíamos ter entregado o cajado para o Sumo Teocrata e o
convencido a nos deixar ir. Já saímos de situações piores. Digo que vamos
seguir Sturm. Aparentemente ele foi escolhido, assim como Vento Ligeiro
foi escolhido para receber o cajado...
— Mas não está nos levando nem mesmo na direção certa! — Cara-
mon argumentou. — Você sabe tão bem quanto eu que não há trilhas na
parte oeste da floresta. Ninguém vai lá.
— Melhor ainda — disse Lua Dourada, de repente. — Tanis disse
que aquelas criaturas devem ter bloqueado as trilhas. Talvez isso seja uma
saída. Digo que devemos seguir o cavaleiro — ela virou-se e partiu com
Sturm, nem mesmo olhando para os outros, obviamente acostumada a ser
obedecida. Vento Ligeiro franziu o cenho e balançou a cabeça, mas andou
atrás de Lua Dourada e os outros o seguiram.
O cavaleiro deixou os caminhos bem trilhados do Pico do Olho do
Orador para trás, indo em direção ao sudoeste, subindo a encosta. No
início, parecia que Caramon estava certo, não havia trilhas. Sturm estava
atravessando o mato como um louco. Então, de repente, uma trilha larga e
suave se abriu à frente deles. Tanis olhou para ela, maravilhado.
— O que ou quem abriu essa trilha? — ele perguntou a Vento Ligeiro,
que também a examinava com uma expressão confusa.
— Não sei — disse o homem das Planícies. — É antiga. Aquela árvore
derrubada ficou ali tempo suficiente para afundar até a metade da terra e
está coberta de musgo e vinhas. Mas não há trilhas... além da de Sturm. Não

113
há sinal de que alguém ou algum animal tenha passado por aqui. Então,
por que não está coberta de folhagem?
Tanis não pôde responder e não tinha tempo para pensar sobre isso.
Sturm avançou rapidamente. Tudo que o grupo podia fazer era tentar
mantê-lo à vista.
— Goblins, barcos, homens-lagartos, cervos invisíveis... o que mais?
— Flint reclamou para o kender.
— Bem que eu queria ver o cervo — disse Tas, desejando.
— Tome uma pancada na cabeça — o anão debochou. — Apesar de
que, com você, não conseguiríamos notar a diferença.
Os companheiros seguiram Sturm, que estava escalando com uma
espécie de euforia, esquecendo da sua dor e lesão. Tanis teve dificuldade
em alcançar o cavaleiro. Quando conseguiu, ficou preocupado com brilho
febril nos olhos de Sturm. Mas o cavaleiro estava obviamente sendo guiado
por alguma coisa. A trilha os levou até a encosta do Pico do Olho do Ora-
dor. Tanis viu que ela os levava para o espaço entre as “mãos” de pedra, uma
lacuna onde, até onde ele sabia, ninguém havia entrado antes.
— Espere um pouco — ele arfou, correndo para alcançar Sturm.
Era quase meio-dia, ele imaginou, embora o sol ainda estivesse oculto por
nuvens cinzentas irregulares. — Vamos descansar. Vou dar uma olhada no
terreno a partir dali — ele apontou para uma saliência que se projetava do
lado do pico.
— Descansar... — repetiu Sturm, vagamente, parando e recuperando
o fôlego. Ele olhou para frente por um instante, depois virou-se para Tanis.
— Sim. Vamos descansar — seus olhos brilhavam muito.
— Você está bem?
— Ótimo — Sturm disse distraído e andou pela grama, acariciando
suavemente e alisando os bigodes. Tanis olhou para ele por um momento,
indeciso, depois voltou para os outros que estavam chegando na crista de
uma pequena elevação.
— Vamos descansar aqui — disse o meio-elfo. Raistlin deu um suspiro
de alívio e desabou nas folhas úmidas.
— Vou dar uma olhada no norte, ver o que está se movendo na
estrada para Refúgio — Tanis complementou.
— Eu vou com você — se ofereceu Vento Ligeiro.
Tanis concordou e os dois deixaram a trilha, indo para a saliência de
pedra. Tanis olhou para o alto guerreiro enquanto caminhavam juntos. Ele

114
estava começando a se sentir confortável o homem das Planícies sério e
carrancudo. Uma pessoa profundamente reservada, Vento Ligeiro respei-
tava a privacidade dos outros e nunca pensaria em sondar os limites que
Tanis estabeleceu ao redor da sua alma. Isso era tão relaxante para o meio-
-elfo quanto uma noite de sono ininterrupto. Ele sabia que seus amigos,
simplesmente porque eram seus amigos e o conheciam há anos, estavam
especulando sobre seu relacionamento com Kitiara. Por que ele escolheu
partir tão abruptamente há cinco anos? E por que, então, sua decepção
óbvia quando ela não se uniu a eles? Vento Ligeiro, claro, não sabia nada
sobre Kitiara, mas Tanis tinha a sensação de que, se soubesse, seria a mesma
coisa para o homem das Planícies: era um assunto de Tanis, não dele.
Quando estavam à vista da Estrada de Refúgio, eles rastejaram os úl-
timos metros, avançando ao longo da rocha molhada, até chegarem à beira
da saliência. Olhando para baixo e para o leste, Tanis podia ver os velhos
caminhos de piquenique desaparecendo ao redor do lado da montanha.
Vento Ligeiro apontou e Tanis percebeu que havia criaturas se movendo
pelas trilhas de piquenique! Isso explicava o silêncio estranho na floresta.
Tanis apertou os lábios, com raiva. As criaturas devem estar esperando para
emboscá-los. Sturm e seu cervo branco provavelmente salvaram suas vidas.
Mas não demoraria muito para que as criaturas encontrassem essa nova
trilha. Tanis olhou abaixo dele e piscou... Não havia mais a trilha! Nada
além de floresta espessa e impenetrável. A trilha havia se fechado atrás deles!
“Devo estar imaginando coisas”, pensou, voltando os olhos para a Estrada
de Refúgio e as muitas criaturas que se moviam por dela. “Não demorou
muito tempo para elas se organizarem”. Olhou mais para o norte e viu as
águas calmas e tranquilas do Lago Cristalmir. Então, seu olhar seguiu para
o horizonte.
Ele franziu a testa. Havia algo errado. Não conseguia discernir exa-
tamente o que, então não disse nada a Vento Ligeiro, mas olhou para o
horizonte. Nuvens de tempestade se acumulavam ao norte, mais pesadas do
que nunca, como dedos longos cinzentos varrendo a terra. E se aproximan-
do deles... era isso! Pegando o braço de Vento Ligeiro, Tanis apontou para
o norte. Vento Ligeiro olhou, forçando a vista, sem ver nada a princípio.
Então viu a fumaça negra subindo para o céu. Suas sobrancelhas grossas e
pesadas se contraíram.
— Fogueiras de acampamento — disse Tanis.

115
— Centenas de fogueiras — Vento Ligeiro adicionou em voz baixa.
— As fogueiras da guerra. É um acampamento de exército.
— Então os rumores estão confirmados — disse Sturm quando eles
voltaram. — Existe um exército no norte.
— Mas que exército? De quem? E por quê? O que eles vão atacar?
— Caramon ria, incrédulo. — Ninguém mandaria um exército atrás deste
cajado — o guerreiro fez uma pausa. — Ou mandaria?
— O cajado é só uma parte disso — Raistlin sibilou. — Lembrem-se
das estrelas sumidas!
— Histórias para crianças! — Flint torceu o nariz. Levantou o odre de
vinho vazio, o balançou e suspirou.
— Minhas histórias não são para crianças — disse Raistlin, cruelmen-
te, se levantando das folhas como uma serpente. — E seria melhor se você
ouvisse minhas palavras, anão!
— Lá está ele! Lá está o cervo! — Sturm disse de repente, olhando
diretamente para uma grande pedra... ou assim parecia a seus companhei-
ros. — É hora de partir.
O cavaleiro começou a andar. Os outros recolheram rapidamente
os equipamentos e correram atrás dele. Enquanto subiam cada vez mais
a trilha, que parecia se materializar diante deles à medida que avançavam,
o vento mudou e começou a soprar do sul. Era uma brisa quente, levando
consigo a fragrância de flores silvestres de outono que desabrochavam tarde.
Ela afastou as nuvens de tempestade e, assim que chegaram à fenda entre as
duas metades do Pico, o sol apareceu.
Já passava do meio-dia quando pararam para descansar mais um
pouco, antes de tentarem subir através do espaço estreito entre as paredes
do Pico do Olho do Orador, através das quais Sturm disse que deviam ir. O
cervo havia liderado o caminho, ele insistia.
— Daqui a pouco vai ser a hora da janta — disse Caramon. Ele soltou
um suspiro forte, olhando para os pés. — Eu poderia comer minhas botas!
— Estão começando a parecerem boas para mim também — disse
Flint, irritado. — Queria que esse cervo fosse de carne e osso. Seria útil para
algo além de nos deixar perdidos!
— Cale-se! — Sturm virou-se para o anão em uma fúria repentina,
de punhos cerrados. Tanis se levantou rapidamente, e colocou a mão no
ombro do cavaleiro, o segurando.

116
Sturm ficou encarando o anão, com bigodes trêmulos, e então se
afastou de Tanis.
— Vamos — ele murmurou.
Quando os companheiros entraram no desfiladeiro estreito, puderam
ver o céu azul claro do outro lado. O vento do sul soprava através das pare-
des brancas e íngremes do Pico sobre eles. Caminharam cuidadosamente.
As pedras pequenas faziam seus pés escorregarem mais de uma vez. Feliz-
mente, o caminho era tão estreito que eles podiam recuperar o equilíbrio
facilmente ao se apoiarem nas paredes íngremes.
Após cerca de trinta minutos de caminhada, saíram do outro lado
do Pico do Olho do Orador. Então pararam, olhando para um vale lá
embaixo. Um prado verdejante e exuberante se estendia em ondas verdes,
cobrindo as margens de uma floresta de álamo verde-claro até o sul. As
nuvens de tempestade ficaram para trás e o sol brilhava intensamente em
um céu claro e azul.
Pela primeira vez, sentiram que seus mantos estavam pesados demais,
exceto por Raistlin, que permaneceu encolhido em sua capa vermelha e
encapuzada. Flint passara a manhã reclamando da chuva e agora começara
a falar do brilho do sol, que estava claro demais, ofuscando seus olhos.Que
estava quente demais, afetando seu elmo.
— Digo que devemos jogar o anão montanha abaixo — murmurou
Caramon para Tanis.
Tanis sorriu.
— Ele faria muito barulho até chegar lá embaixo e entregaria nossa
posição.
— Quem está lá embaixo para ouvi-lo? — Caramon disse, gesticulando
para o vale com a mão larga. — Aposto que somos os primeiros seres vivos
a ver este vale.
— Primeiros seres vivos — Raistlin sussurrou. — Você está certo
nisso, meu irmão. Já que está olhando para a Floresta Sombria.
Todos se calaram. Vento Ligeiro se mexeu desconfortavelmente. Lua
Dourada aproximou-se para ficar ao lado dele, olhando para as árvores
verdes com os olhos arregalados. Flint pigarreou e ficou quieto, acarician-
do sua longa barba. Sturm observou a floresta calmamente. Tasslehoff fez
o mesmo.
— Não me parece nada mal — disse o kender, animado. Sentado de
pernas cruzadas no chão, um feixe de pergaminhos aberto sobre os joelhos,

117
ele desenhava um mapa com um pedaço de carvão, tentando traçar o cami-
nho pelo Pico do Olho do Orador.
— Parece tão enganador quanto um kender de dedos leves — Raistlin
sussurrou duramente.
Tasslehoff franziu a testa, começou a retrucar, depois percebeu o olhar
de Tanis e voltou ao desenho. Tanis andou até Sturm. O cavaleiro estava em
pé em uma saliência, o vento sul soprando seus cabelos longos e batendo
sua capa desgastada.
— Sturm, onde está o cervo? Consegue vê-lo agora?
— Sim — respondeu Sturm. Ele apontou para baixo. — Ele andou
pelo prado. Posso ver sua trilha na grama alta. Ele entrou nos álamos ali.
— Entrou na Floresta Sombria — Tanis murmurou.
— Quem disse que é a Floresta Sombria? — Sturm virou-se para
encarar Tanis.
— Raistlin.
— Besteira!
— Ele é um mago — disse Tanis.
— Ele é um louco — respondeu Sturm. Então, deu de ombros.
— Mas fique aí parado ao lado do Pico se quiser, Tanis. Eu vou seguir o
cervo, assim como Huma, mesmo que ele me leve para a Floresta Sombria.
Enrolando o manto em si, Sturm desceu da saliência e começou a andar por
uma trilha sinuosa que descia a encosta da montanha.
Tanis voltou para os outros.
— O cervo está o levando para uma trilha direta para a floresta —
disse. — Você tem certeza que esta é a Floresta Sombria, Raistlin?
— É possível ter certeza de qualquer coisa, meio-elfo? — o mago
respondeu. — Não estou certo nem da minha próxima respiração. Mas siga
em frente. Entre na floresta de onde nenhum homem vivo jamais saiu. A
morte é uma das grandes certezas da vida, Tanis.
O meio-elfo sentiu uma vontade repentina de jogar Raistlin mon-
tanha abaixo. Ele procurou por Sturm, que já estava quase na metade do
caminho no vale.
— Eu vou com Sturm — disse, de repente. — Mas não serei responsá-
vel por ninguém mais nessa decisão. O resto de vocês pode seguir da forma
que escolher.
— Eu vou! — Tasslehoff enrolou seu mapa e o colocou no estojo de
pergaminhos. Ele ficou de pé, deslizando na rocha solta.

118
— Fantasmas! — Flint fez uma carranca para Raistlin, estalou os
dedos com zombaria, depois virou-se para ficar ao lado do meio-elfo. Lua
Dourada seguiu sem hesitar, embora seu rosto estivesse pálido. Vento Ligei-
ro se juntou ao grupo mais lentamente, com o rosto pensativo. Tanis ficou
aliviado. Ele sabia que os bárbaros tinham muitas lendas assustadoras sobre
a Floresta Sombria. E, por fim, Raistlin seguiu adiante tão rapidamente que
pegou seu irmão de surpresa.
Tanis olhou para o mago com um leve sorriso.
— Por que você está vindo? — ele não resistiu à pergunta.
— Porque vocês precisarão de mim — o mago sibilou. — Além disso,
para onde quer que a gente vá? Você permitiu que fossemos levados até
aqui, não há como voltar atrás. Você nos oferece a Escolha do Ogro, Tanis,
“Morra rápido ou morra devagar”. — Ele desceu pela lateral do Pico. —
Você vem, irmão?
Os outros olharam inquietos para Tanis enquanto os irmãos passa-
vam. O meio-elfo se sentia um tolo. Raistlin estava certo. Ele havia deixado
isso ir além de seu controle, então fazia parecer que era uma decisão deles,
não sua, permitindo que ele seguisse em frente com a consciência limpa.
Com raiva, pegou uma pedra e arremessou-a pela encosta. Por que era sua
responsabilidade em primeiro lugar? Por que ele se envolveu nisso, quando
tudo o que queria era encontrar Kitiara e dizer a ela que havia se decidido...
que a amava. Ele podia aceitar fraquezas humanas dela como aprendeu a
aceitar as próprias.
Mas Kit não havia voltado para ele. Ela tinha um “novo senhor”.
Talvez por isso ele estivesse...
— Ei, Tanis! — A voz do kender flutuou até ele.
— Estou indo — murmurou.

O sol estava começando a mergulhar no oeste quando os companhei-


ros chegaram à beira da floresta. Tanis imaginou que eles tinham ainda
pelo menos três ou quatro horas de luz restantes. Se o cervo continuasse a
conduzi-los em trilhas suaves e claras, eles poderiam atravessar essa floresta
antes que a escuridão chegasse.
Sturm esperava por eles sob os álamos, descansando confortavelmente
na sombra verde e frondosa. Os companheiros saíram do prado devagar,
nenhum deles com pressa de entrar na floresta.

119
— O cervo entrou aqui — disse Sturm, levantando-se e apontando
para a grama alta.
Tanis não viu rastros. Ele tomou um gole de água do seu cantil quase
vazio e olhou para a floresta. Como Tasslehoff dissera, a mata não parecia
sinistra. De fato, parecia fresca e convidativa depois do brilho intenso do
sol de outono.
— Talvez haja alguma caça aqui — disse Caramon. — Não cervos,
claro — acrescentou rapidamente. — Coelhos, talvez.
— Não dispare em nada. Não coma nada. Não beba nada na Floresta
Sombria — Raistlin sussurrou.
Tanis olhou para o mago, cujos olhos de ampulhetas estavam dila-
tados. A pele metálica brilhava com uma cor horrível na forte luz do sol.
Raistlin se apoiou em seu cajado, tremendo como se fosse de frio.
— Histórias para crianças — Flint cochichou, mas faltava convicção à
voz do anão. Embora Tanis soubesse da tendência de Raistlin para o drama,
nunca havia visto o mago tão afetado assim antes.
— O que está sentindo, Raistlin? — perguntou, baixinho.
— Existe uma magia grande e poderosa nesta floresta — sussurrou
Raistlin.
— Maligna? — perguntou Tanis.
— Apenas para aqueles que trazem o mal dentro de si — o mago declarou.
— Então você é o único que precisa temer esta floresta — Sturm disse
friamente ao mago.
O rosto de Caramon ficou vermelho de um jeito feio. Sua mão procu-
rou a espada. A mão de Sturm foi para sua lâmina.
Tanis pegou o braço de Sturm enquanto Raistlin tocava seu irmão. O
mago encarou o cavaleiro, com os olhos dourados cintilando.
— Veremos — disse Raistlin, suas palavras sendo pouco mais do que
um sibilo entre os dentes. — Veremos.
Então, se apoiando em seu cajado, Raistlin virou-se para seu irmão.
— Vamos?
Caramon olhou com raiva para Sturm, depois entrou na floresta,
andando ao lado do seu gêmeo. Os outros os seguiram, deixando apenas
Tanis e Flint de pé na grama longa e ondulante.
— Estou ficando velho demais para isso, Tanis — disse o anão, de repente.
— Bobagem — respondeu o meio-elfo, sorrindo. — Você lutou
como um...

120
— Não, não digo os ossos ou os músculos — o anão olhou para as
mãos nodosas — embora eles estejam bem velhos. Digo o espírito. Anos
atrás, antes dos outros terem nascido, você e eu entraríamos em uma floresta
mágica sem pensar duas vezes. Agora...
— Anime-se — disse Tanis. Ele tentava parecer leve, embora estivesse
perturbado com a tristeza incomum do anão. Examinou Flint pela primeira
vez desde que se reuniram fora de Consolação. O anão parecia velho, mas
Flint sempre pareceu velho. Seu rosto, o que podia ser visto através da
massa de barba grisalha e bigodes e sobrancelhas brancas salientes, estava
marrom, enrugado e rachado como couro velho. O anão resmungava e
reclamava, mas Flint sempre resmungou e reclamou. A mudança estava nos
olhos. O brilho flamejante havia desaparecido.
— Não deixe Raistlin o aborrecer — disse Tanis. — Vamos nos sentar
ao redor da fogueira esta noite e rir das histórias de fantasmas.
— Acho que sim — Flint suspirou. Ficou em silêncio por um mo-
mento, então disse — Algum dia eu vou atrasar você, Tanis. Não quero que
você pense “por que eu aguento esse anão velho e resmungão?”.
— Porque eu preciso de você, seu anão velho e resmungão — disse
Tanis, colocando a mão no ombro rechonchudo do amigo. Apontou para a
floresta, rumo aos outros.
— Preciso de você, Flint. Todos eles são tão... jovens. Você é como uma
rocha sólida na qual posso me apoiar enquanto empunho minha espada.
O rosto de Flint ficou vermelho de satisfação. Ele puxou a barba,
então pigarreou bruscamente.
— Sim, bem, você sempre foi sentimental. Vamos. Estamos perdendo
tempo. Quero atravessar esta floresta maldita o mais rápido possível — ele
murmurou — fico feliz de ser de dia.

121
10
Floresta Sombria.
Os mortos caminham. A magia de Raistlin.

única coisa que Tanis sentiu ao entrar na floresta foi o alívio por
sair do brilho do sol do outono. O meio-elfo lembrava todas as
lendas que ouvira sobre a Floresta Sombria, histórias de fantasmas
contadas ao redor da fogueira à noite, e lembrava do pressentimento de
Raistlin. Mas tudo o que Tanis sentia era que a floresta estava muito mais
viva do que qualquer outra que já havia entrado.
Não havia o silêncio mortal que tinham experimentado antes. Peque-
nos animais faziam barulhos no mato. Pássaros esvoaçavam nos galhos altos
acima deles. Insetos com asas bem coloridas passavam voando. As folhas
farfalhavam e se mexiam, flores balançavam, embora nenhuma brisa as
tocasse, como se as plantas se deliciassem em estarem vivas.
Todos os companheiros entraram na floresta com as mãos nas armas,
cautelosos, atentos e desconfiados. Depois de um tempo tentando evitar
o barulho das folhas esmagadas, Tas disse que isso parecia “meio bobo” e
todos relaxaram... exceto Raistlin.
Eles caminharam por quase duas horas, viajando em um ritmo regular
e rápido ao longo de uma trilha suave e clara. As sombras se alongavam
enquanto o sol descia. Tanis se sentiu em paz nesta floresta. Não temia que
as horríveis criaturas aladas pudessem segui-los aqui. O mal parecia não ter
lugar aqui, a menos que, como disse Raistlin, alguém trouxesse seu próprio
mal para a floresta. Tanis olhou para o mago. Raistlin andava sozinho, de
cabeça baixa. As sombras das árvores da floresta pareciam se juntar ao redor
do jovem mago. Tanis estremeceu e percebeu que o ar estava ficando frio
enquanto o sol descia abaixo das copas das árvores. Era hora de começar a
pensar em acampar durante a noite.
Tanis pegou o mapa de Tasslehoff para estudá-lo mais uma vez antes
que a luz sumisse. O mapa tinha o estilo élfico e em toda a floresta, em uma
escrita fluente, havia as palavras “Floresta Sombria”. Mas as florestas em si
estavam delineadas vagamente e Tanis não podia ter certeza se as palavras
pertenciam a essa floresta ou a outra mais ao sul. Raistlin deve estar errado,
decidiu Tanis... esta pode não ser a Floresta Sombria. Ou, se fosse, seu mal
era simplesmente um produto da imaginação do mago. Eles continuaram.
Logo veio o crepúsculo, a hora da noite em que a luz decadente torna
tudo mais vívido e distinto. Os companheiros começaram reduzir o passo.
Raistlin mancava e sua respiração vinha em suspiros ofegantes. O rosto
de Sturm estava cinzento. O meio-elfo estava prestes a parar pela noite,
quando, como se antecipando seus desejos, a trilha os levou diretamente a
uma grande clareira verde. Água límpida borbulhava do subsolo e escorria
de rochas lisas para formar um riacho raso. A clareira estava coberta de
grama grossa e convidativa. Árvores altas ficavam de guarda nos arredores.
Quando viram a clareira, a luz do sol avermelhou, depois desapareceu e os
tons enevoados da noite apareceram em volta das árvores.
— Não saiam da trilha — Raistlin enfatizou enquanto seus compa-
nheiros começavam a entrar na clareira.
Tanis suspirou.
— Raistlin, — ele disse pacientemente — vamos ficar bem. A trilha
está logo ali, a menos de três metros. Vamos. Você precisa descansar. Todos
nós precisamos. Veja — Tanis mostrou o mapa — não acho que aqui seja a
Floresta Sombria. De acordo com...

123
Raistlin ignorou o mapa com desdém. O resto dos companheiros
ignorou o mago e, saindo da trilha, começou a montar o acampamento.
Sturm desabou contra uma árvore, seus olhos fechados de dor, en-
quanto Caramon olhava para as sombras menores e fugazes com um olhar
faminto. Com um aceno de Caramon, Tasslehoff entrou na floresta em
busca de lenha.
Observando-os, o rosto do mago se contorceu em um sorriso sarcástico.
— Vocês são tolos. Esta é a Floresta Sombria, como vocês verão antes
que a noite termine — ele deu de ombros. — Mas, como você disse, preciso
descansar. Contudo, não sairei da trilha — Raistlin sentou-se na trilha, com
o cajado ao seu lado.
Caramon ficou envergonhado ao ver os outros trocando olhares
divertidos.
— Puxa, Raist — disse o grandão — venha para cá. Tas saiu para
pegar lenha e talvez eu consiga pegar um coelho.
— Não mate nada! — Raistlin falou mais do que um sussurro, cha-
mando a atenção de todos. — Não machuque nada na Floresta Sombria!
Nem uma planta ou árvore, pássaro ou animal!
— Concordo com Raistlin — disse Tanis. — Temos que passar a noite
aqui e não quero matar nenhum animal nesta floresta se não for necessário.
— Elfos nunca querem matar, ponto — Flint resmungou. — O mago
quer nos matar de medo e você, de fome. Bem, se algo nos atacar hoje a
noite, espero que seja comestível!
— Você e eu, anão — Caramon soltou um suspiro, foi até o riacho e
começou a tentar aliviar sua fome ao afogá-la.
Tasslehoff voltou com a lenha.
— Eu não cortei — ele garantiu a Raistlin. — Eu apenas peguei do chão.
Mas mesmo Vento Ligeiro não conseguia fazer a madeira pegar fogo.
— A madeira está molhada — disse por fim, e jogou sua pederneira
de volta na mochila.
— Precisamos de luz — disse Flint, desconfortável, enquanto as som-
bras da noite se adensavam. Os sons na floresta que haviam sido inocentes
durante o dia pareciam sinistros e ameaçadores agora.
— Você certamente não tem medo de histórias das crianças —
Raistlin sibilou.
— Não! — retrucou o anão. — Só quero ter certeza que o kender não
esvazie minha mochila no escuro.

124
— Pois bem — disse Raistlin com uma moderação incomum. Profe-
riu sua palavra de comando, “Shirak”, e uma luz branca e pálida emanou
do cristal na ponta de seu cajado. Era uma luz fantasmagórica, que pouco
fazia para iluminar a escuridão. Na verdade, parecia enfatizar a ameaça
da noite.
— Pronto, você tem luz — o mago sussurrou suavemente. Ele enter-
rou o fundo do cajado no chão molhado.
Foi então que Tanis percebeu que sua visão élfica havia desapare-
cido. Normalmente, poderia ver os contornos quentes e vermelhos de
seus companheiros, mas agora eles eram apenas sombras mais escuras na
escuridão estrelada da clareira. O meio-elfo não disse nada para os outros,
mas a sensação de paz de que estava desfrutando foi perfurada por uma
ponta de medo.
— Eu faço a primeira vigia — Sturm ofereceu pesadamente. — Seja
como for, não devo dormir com esse ferimento na cabeça. Uma vez conheci
um homem que fez isso e nunca mais acordou.
— Vamos vigiar em duplas — disse Tanis. — Vou fazer a primeira
vigia com você.
Os outros abriram as mochilas e começaram a se arrumar para dormir
na grama, com exceção de Raistlin. Ele permaneceu sentado na trilha, a
luz do seu cajado brilhando sobre sua cabeça encurvada e encapuzada.
Sturm sentou embaixo de uma árvore. Tanis andou até o riacho e bebeu
avidamente. De repente, ouviu um grito estrangulado atrás dele. Sacou a
espada e se levantou, tudo em um só movimento. Os outros tinham suas
armas desembainhadas. Apenas Raistlin estava sentado, imóvel.
— Guardem as espadas — ele disse. — Elas não ajudarão em nada.
Apenas uma arma com magia poderosa poderia feri-los.
Um exército de guerreiros os cercavam. Embora só isso já bastasse para
gelar o sangue, os companheiros poderiam ter lidado soldados inimigos.
O que eles não poderiam lidar era com o horror que sobrecarregava e
entorpecia seus sentidos. Todos se lembraram do comentário irreverente
de Caramon: “Lutarei contra os vivos em qualquer dia da semana, mas não
contra os mortos”.
Estes guerreiros estavam mortos.
Nada mais do que uma luz branca frágil e efêmera delineava seus
corpos. Era como se o calor humano que tiveram enquanto vivos permane-
cesse terrivelmente após a morte. A carne havia apodrecido, deixando para

125
trás a imagem do corpo como a alma se lembrava. A alma aparentemente
se lembrava de outras coisas também. Cada guerreiro estava vestido com
uma armadura antiga. Cada guerreiro carregava armas lembradas que
poderiam causar uma morte bem lembrada. Mas os mortos-vivos não
precisavam de armas. Eles podiam matar apenas do medo, ou pelo toque
de suas mãos gélidas.
“Como podemos lutar contra essas coisas?” Tanis pensou, sem con-
trole, logo ele que nunca sentira tanto medo diante de inimigos de carne
e sangue. O pânico tomou conta e ele pensou em gritar para os outros se
virarem e fugirem.
Com raiva, o meio-elfo se forçou a se acalmar, a entender a realidade.
Realidade! Ele quase riu da ironia. Correr era inútil, pois eles ficariam per-
didos, separados. Eles precisavam ficar e lidar com isso... de alguma forma.
Ele começou a andar em direção aos guerreiros fantasmagóricos. Os mortos
não disseram nada, nem fizeram movimentos ameaçadores. Eles estavam
simplesmente parados, bloqueando o caminho. Era impossível contá-los, já
que alguns brilhavam enquanto outros desapareciam, apenas para retornar
quando seus camaradas desvaneciam.
Não que isso fizesse diferença, Tanis admitiu para si mesmo, sentindo
o suor gelar seu corpo. Um desses guerreiros mortos-vivos poderia matar
todos nós simplesmente levantando a mão.
Quando o meio-elfo se aproximou dos guerreiros, ele viu um brilho
de luz... o cajado de Raistlin. Apoiado em seu cajado, o mago estava de pé
diante dos companheiros amontoados. Tanis ficou em pé ao lado dele. A
luz pálida do cristal refletia no rosto do mago, o fazendo parecer quase tão
fantasmagórico quanto os rostos dos mortos diante dele.
— Bem-vindo à Floresta Sombria, Tanis — o mago disse.
— Raistlin... — Tanis engasgou. Ele teve que tentar de novo até sua
garganta seca formar um som. — O que são esses...
— Servos espectrais — o mago sussurrou, sem tirar os olhos deles. —
Estamos com sorte.
— Sorte? — Repetiu Tanis, incrédulo. — Por quê?
— Estes são espíritos de homens que prometeram realizar uma tarefa.
Eles falharam nessa tarefa e foram destinados a continuar repetindo-a, até
conseguirem a liberação e encontrarem o descanso na morte.

126
— Em nome do Abismo, como isso pode significar sorte? — Tanis
sussurrou com grosseria, liberando seu medo na raiva. — Talvez tenham
prometido eliminar todos que entrarem na floresta!
— É possível — Raistlin deu um olhar furtivo para o meio-elfo —,
mas improvável. Vamos descobrir.
Antes que Tanis pudesse reagir, o mago se afastou do grupo e encarou
os espectros.
— Raist! — Caramon disse em uma voz abafada, começando a avançar.
— Segure-o, Tanis — Raistlin comandou duramente. — Nossas vidas
dependem disso.
Agarrando o braço do guerreiro, Tanis perguntou para Raistlin.
— O que você vai fazer?
— Vou conjurar uma magia que nos permitirá conversar com eles. Eu
vou perceber seus pensamentos. Eles falarão através de mim.
O mago jogou a cabeça para trás, seu capuz caindo. Ele esticou seus
braços e começou a falar.
— Ast bilak parbilakar. Suh tangus moipar? — ele murmurou, depois
repetindo tal frase três vezes. Enquanto Raistlin falava, a multidão de
guerreiros se afastou e uma figura mais impressionante e terrível do que
o resto apareceu. O espectro era mais alto do que os outros e usava uma
coroa cintilante. Sua armadura pálida estava ricamente decorada com joias
escuras. Seu rosto mostrava a mais terrível das dores e das angústias. Ele
avançou até Raistlin.
Caramon se engasgou e desviou o olhar. Tanis não ousou falar ou
gritar, com medo de perturbar o mago e quebrar a magia. O espectro
levantou uma mão sem carne e a estendeu lentamente para tocar o jovem
conjurador. Tanis estremeceu; o toque do espectro significava morte certa.
Mas Raistlin, em transe, não se mexeu. Tanis se perguntou se ele viu a mão
fria em direção ao seu coração. Então, Raistlin falou.
— Vocês que estão mortos há tempos, usem minha voz viva para nos
contar sua aflição amarga. Depois, deixem-nos atravessar esta floresta, pois
nosso objetivo não é maligno, como verão se olharem nossos corações.
A mão do espectro parou abruptamente. Seus olhos pálidos vascu-
lharam o rosto de Raistlin. Então, brilhando na escuridão, o espectro se
curvou diante do mago. Tanis respirou fundo; já havia visto o poder de
Raistlin, mas isto...!

127
Raistlin retribuiu a reverência, depois se moveu para ficar ao lado do
espectro. Seu rosto estava quase tão pálido quanto o da figura fantasmagó-
rica ao seu lado. O morto-vivo e o vivo-morto, Tanis pensou, tremendo.
Quando Raistlin falou, sua voz não era mais o sussurro difícil do mago
frágil. Era profunda, sombria e dominante, ressoando através da floresta.
— Quem são vocês que invadem a Floresta Sombria?
Tanis tentou responder, mas sua garganta estava totalmente seca. Ao
lado dele, Caramon não conseguia levantar a cabeça. Então, o meio-elfo
sentiu um movimento ao seu lado. O kender! Praguejando para si mesmo,
tentou pegar Tasslehoff, mas era tarde. A pequena figura, com seu rabo de
cavalo balançando, correu para a luz do cajado de Raistlin e ficou diante do
espectro. Tasslehoff se curvou com respeito.
— Sou Tasslehoff Burrfoot — ele disse. — Meus amigos — ele moveu
sua mão pequena para o grupo — me chamam de Tas. Quem são vocês?
— Pouco importa — entoou a voz sepulcral. — Saiba apenas que
somos guerreiros de um tempo há muito esquecido.
— É verdade que vocês quebraram uma promessa e por isso ficaram
aqui? — Tas perguntou com interesse.
— Sim. Prometemos proteger esta terra — a voz era tão fria e vazia que
poderia ter vindo de baixo do solo. — Então veio a montanha ardente dos
céus. Os campos foram destroçados e seres malignos saíram das entranhas
da terra. Abandonamos nossas espadas e fugimos aterrorizadas até a morte
amarga nos tomar. Fomos chamados para cumprir o nosso juramento, pois
o mal caminha pela terra mais uma vez. E aqui ficaremos até que o mal seja
expulso e o equilíbrio seja restaurado novamente.
De repente, Raistlin soltou um grito e jogou a cabeça para trás, seus
olhos rolando para cima até que os companheiros pudessem ver apenas
o branco deles. Sua voz se transformou em mil vozes gritando todas de
uma vez. Isso assustou até o kender, que deu um passo para trás e olhou
procurando Tanis, desconfortável.
O espectro ergueu a mão em um gesto de comando e o tumulto parou
como se fosse engolido pela escuridão.
— Meus homens exigem saber o motivo de vocês entraram na Floresta
Sombria. Se for para o mal, vocês descobrirão que trouxeram o mal sobre si
mesmos, pois não viverão para ver as luas surgirem.
— Não, não para o mal. Certamente não — Tasslehoff disse apressa-
damente. — É uma longa história, sabe, mas nós obviamente não vamos

128
a lugar algum agora e você obviamente não está com pressa, então vou
contá-la.
— Para começar, estávamos na Hospedaria do Lar Derradeiro em
Consolação. Vocês não devem conhecê-la. Não sei há quanto tempo ela
está lá, mas não estava durante o Cataclismo e parece que vocês estavam
nessa época. Bem, estávamos lá, ouvindo o velho falar sobre Huma e ele,
o velho, não Huma, disse para Lua Dourada cantar sua canção e ela disse,
que canção, então ela cantou e um Perscrutador decidiu ser um crítico de
música e Vento Ligeiro, que é o homem alto ali, empurrou o Perscrutador
na lareira. Foi um acidente, ele não queria. Mas o Perscrutador queimou
como uma tocha! Vocês tinham que ter visto! Seja como for, o velho me
entregou o cajado e disse para bater nele e eu fiz isso e o cajado virou um
cristal azul e as chamas sumiram e...
— Cristal azul! — A voz espectral ecoou de forma vazia da garganta de
Raistlin enquanto ele começava a se aproximar. Tanis e Sturm se colocaram
à frente, pegando Tas e o arrastando para fora do caminho. Mas parecia
que o espectro pretendia apenas examinar o grupo. Seus olhos cintilantes
se focaram em Lua Dourada. Erguendo a mão pálida, ele gesticulou para
ela se aproximar.
— Não! — Vento Ligeiro tentou evitar que ela saísse do seu lado,
mas ela o afastou gentilmente e andou até parar diante do espectro, com o
cajado na sua mão. O exército de fantasmas os cercou.
De repente, o espectro sacou sua espada da sua bainha lívida. Ele a
segurou bem alto e a luz branca tingida de chamas azuis cintilou na lâmina.
— Olhem o cajado! — Lua Dourada arfou.
O cajado emitiu um azul pálido, como se respondesse a espada.
O rei fantasmagórico virou-se para Raistlin e estendeu sua mão pálida
em direção ao mago em transe. Caramon deu um grito rouco e se livrou da
mão de Tanis. Sacando sua espada, investiu contra o guerreiro morto-vivo.
A lâmina perfurou o corpo tremulante, mas foi Caramon quem gritou de
dor e caiu, retorcendo-se no chão. Tanis e Sturm se ajoelharam ao lado dele.
Raistlin olhava para frente, sua expressão inalterada, imóvel.
— Caramon, onde... — Tanis o segurou, tentando freneticamente ver
onde o grandalhão estava ferido.
— Minha mão! — Caramon se balançava para a frente e para trás,
soluçando, sua mão esquerda, a mão em espada, enfiada sob o braço direito.

129
— O que foi? — perguntou Tanis. Depois, vendo a espada do guerrei-
ro no chão, ele soube: a lâmina estava coberta de gelo.
Tanis ergueu os olhos horrorizado e viu a mão do espectro se fechar
sobre o pulso de Raistlin. Um tremor sacudiu o corpo frágil do mago. Seu
rosto se contorceu de dor, mas ele não caiu. Os olhos do mago se fecharam,
as linhas de cinismo e amargura foram suavizadas e a paz da morte caiu
sobre ele. Tanis assistia com admiração, apenas parcialmente ciente dos
gritos de Caramon. Ele viu o rosto de Raistlin se transformar de novo, desta
vez cheio de êxtase. A aura de poder do mago se intensificou até emanar ao
redor dele com um brilho quase palpável.
— Nós fomos convocados — disse Raistlin. A voz era dele mesmo e,
mesmo assim, diferente de tudo o que Tanis já o ouviu usar. — Temos que ir.
O mago deu as costas para eles e caminhou para a floresta, a mão sem
carne do rei fantasma ainda segurando seu pulso. O círculo de mortos-vivos
se afastou para deixá-lo passar.
— Parem-nos! — Caramon gemeu. Ele se levantou, cambaleando.
— Não podemos! — Tanis lutou para contê-lo e, finalmente, o gran-
dalhão desabou nos braços do meio-elfo, chorando como uma criança.
— Vamos segui-lo. Ele vai ficar bem. Ele é um mago, Caramon... não
podemos entender. Vamos segui-lo.
Os olhos dos mortos-vivos cintilaram com uma luz profana enquanto
observavam os companheiros passarem por eles e entrarem na floresta.
O exército espectral fechou as fileiras atrás deles.
Os companheiros entraram em uma batalha violenta. O aço ressoava,
homens feridos pediam socorro. O embate dos exércitos na escuridão era
tão real que Sturm sacou sua espada por reflexo. O tumulto o ensurdeceu.
Ele se abaixou e desviou de golpes invisíveis que sabia estarem direcionados
a ele. Ele brandiu a espada no ar escuro, desesperado, sabendo que estava
condenado e não havia escapatória.
Começou a correr e, de repente, saiu cambaleando da floresta para
uma clareira árida e vazia. Raistlin estava parado diante dele, sozinho.
Os olhos do mago estavam fechados. Ele suspirou suavemente, depois
caiu no chão. Sturm correu até ele, depois Caramon apareceu, quase der-
rubando Sturm para alcançar seu irmão e pegá-lo carinhosamente em seus
braços. Um por um, os outros correram como se fossem conduzidos até a
clareira. Raistlin ainda estava murmurando palavras estranhas e desconhecidas.
Os espectros sumiram.

130
— Raist! — Caramon soluçou, despedaçado.
As pálpebras do mago piscaram e se abriram. — A magia... me drenou...
— ele sussurrou. — Preciso descansar...
— E tu descansarás! — ecoou uma voz... uma voz viva.
Tanis soltou um suspiro de alívio, enquanto colocava a mão na espada.
Rapidamente, ele e os outros se adiantaram de forma protetora na frente
de Raistlin, voltados para o lado de fora, olhando para a escuridão. Então a
lua prateada apareceu, de repente, como se alguém a tivesse tirado de baixo
de um lenço preto de seda. Agora eles podiam ver a cabeça e os ombros de
um homem parado entre as árvores. Seus ombros nus eram tão grandes e
pesados quanto os de Caramon. Uma juba de cabelos longos se enrolava
em volta do pescoço. Seus olhos eram claros e brilhavam friamente. Os
companheiros ouviram um farfalhar na floresta e viram o clarão de uma
ponta de lança sendo levantada, apontando para Tanis.
— Abaixai vossas pequenas armas — o homem avisou. — Estais
cercados e não tenhais chance.
— Um truque — resmungou Sturm, mas, enquanto falava, houve um
tremendo estrondo e estalos de galhos de árvores. Mais homens apareceram,
cercando-os, todos armados com lanças que cintilavam ao luar.
O primeiro homem deu um passo à frente e os companheiros olharam
atônitos, com as mãos nas armas afrouxando.
Ele não era um homem, mas um centauro. Humano da cintura para
cima, tinha o corpo de um cavalo da cintura para baixo. Galopou para fren-
te com graça, músculos poderosos fluindo através de seu peito corpulento.
Outros centauros entraram no caminho após seu gesto de comando. Tanis
embainhou a espada. Flint espirrou.
— Vós preciseis vir conosco — o centauro ordenou.
— Meu irmão está doente — Caramon resmungou. — Ele não pode
ir a lugar algum.
— Coloque-o nas minhas costas — disse o centauro friamente. — De
fato, se algum de vós estiver cansado, podereis cavalgar para onde vamos.
— Para onde estão nos levando? — perguntou Tanis.
— Tu não estás em posição de fazer perguntas — o centauro se esticou
e cutucou as costas de Caramon com sua lança.
— Viajaremos longe e rápido. Eu sugiro que cavalguem. Mas nada te-
mam — ele se curvou diante de Lua Dourada, estendendo a perna dianteira

131
e tocando a mão no seu cabelo desgrenhado. — Não sereis machucados
nesta noite.
— Posso subir, Tanis, por favor? — implorou Tasslehoff.
— Não confie neles — Flint espirrou violentamente.
— Não confio neles — Tanis murmurou — mas não temos escolha.
Raistlin não pode andar. Suba, Tas. O resto de vocês, também.
Caramon, fechando a cara para os centauros, ergueu o irmão nos bra-
ços e colocou-o nas costas de um dos meio-homens, meio-animais. Raistlin
caiu para frente fracamente.
— Sobe — o centauro disse a Caramon. — Posso aguentar o peso de
ambos. Teu irmão necessitará do teu apoio, pois cavalgaremos rapidamente
esta noite.
Vermelho de vergonha, o grande guerreiro subiu nas costas largas do
centauro, com as pernas enormes penduradas quase no chão. Ele colocou
um braço ao redor de Raistlin enquanto o centauro galopava caminho abai-
xo. Rindo de felicidade, Tasslehoff pulou em um centauro e imediatamente
deslizou para o outro lado, caindo na lama. Suspirando, Sturm pegou o
kender e colocou-o nas costas do centauro. Então, antes que Flint pudesse
protestar, o cavaleiro pôs o anão atrás de Tas. Flint tentou falar, mas só
conseguiu espirrar quando o centauro se afastava. Tanis cavalgou com o
primeiro centauro, que parecia ser o líder.
— Para onde estão nos levando? — Tanis perguntou novamente.
— Mestre da Floresta — o centauro respondeu.
— O Mestre da Floresta? — Tanis repetiu. — Quem é ele, alguém
como vocês?
— Ela é a Mestre da Floresta — o centauro respondeu e começou a
descer a trilha.
Tanis começou a fazer outra pergunta, mas o ritmo acelerado do
centauro o sacudiu e ele quase mordeu a língua enquanto descia com força
nas costas do centauro. Sentindo que deslizava para trás quando o centauro
trotava mais e mais rápido, Tanis jogou os braços ao redor do torso largo
do centauro.
— Não, tu não precisas me apertar tanto! — O centauro olhou para
trás, os olhos brilhando ao luar. — É meu trabalho mantê-lo aí em cima.
Relaxe. Coloque tuas mãos em meu dorso para se equilibrar. Pronto. Segure
com tuas pernas.

132
Os centauros deixaram a trilha e mergulharam na floresta. A luz do
luar foi imediatamente engolida pelas árvores densas. Tanis sentiu ramos
batendo, passando por sua roupa. No entanto, o centauro não desviou ou
diminuiu o passo e Tanis só podia presumir que conhecia bem o caminho,
um caminho que o meio-elfo não podia ver.
Logo o ritmo começou a diminuir e o centauro finalmente parou.
Tanis não podia ver nada na escuridão sufocante. Ele sabia que seus com-
panheiros estavam perto apenas porque podia ouvir a respiração superficial
de Raistlin, o tilintar da armadura de Caramon e os espirros inesgotáveis de
Flint. Até a luz do cajado de Raistlin havia sumido.
— Uma magia poderosa foi colocada sobre esta floresta — o mago
sussurrou bem fraco quando Tanis perguntou sobre isso. — Esta magia
dissipa todas os outras.
O desconforto de Tanis aumentou.
— Por que estamos parando?
— Porque chegaste aqui. Desçam — o centauro ordenou rispidamente.
— Onde é aqui? — Tanis deslizou das costas largas do centauro de
volta ao chão. Ele olhou ao redor, mas não conseguia ver nada. Aparen-
temente, as árvores evitavam que o menor lampejo de luz da lua ou das
estrelas penetrasse na trilha.
— Vós estais no centro da Floresta Sombria — disse o centauro. — E
agora eu me despeço, talvez para sempre, dependendo de como a Mestre da
Floresta vos julgar.
— Espera um pouco! — Caramon gritou com raiva. — Você não
pode simplesmente nos deixar aqui no meio desta floresta, cegos como
gatinhos recém-nascidos...
— Detenham-nos! — Tanis ordenou, buscando sua espada. Mas
sua arma havia sumido. Um palavrão explosivo de Sturm indicava que o
cavaleiro havia descoberto a mesma coisa.
O centauro gargalhou. Tanis ouviu cascos baterem na terra macia e
galhos de árvore farfalharem. Os centauros se foram.
— Vão com os deuses! — Flint espirrou.
— Estamos todos aqui? — Tanis perguntou, estendendo a mão e
sentindo o aperto forte e reconfortante de Sturm.
— Estou aqui — avisou Tasslehoff. — Ah, Tanis, não foi maravi-
lhoso? Eu--
— Quieto, Tas! — Tanis repreendeu. — O casal da Planície?

133
— Estamos aqui — disse Vento Ligeiro sombriamente. — Sem armas.
— Ninguém está armado? — perguntou Tanis. — Não que fosse nos
ajudar muito nessa maldita escuridão — emendou amargamente.
— Estou com meu cajado — disse suavemente a voz baixa de Lua
Dourada.
— E é uma arma formidável, filha de Que-shu — uma voz profunda
surgiu. — Uma arma para o bem, para combater a doença, as lesões, a
enfermidade — a voz oculta ficou triste. — Nestes tempos, ela também será
usada como uma arma contra as criaturas do mal que procuram encontrá-la
e bani-la do mundo.

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11
A Mestre da Floresta.
Um interlúdio pacífico.

uem é? — Tanis falou. — Apareça!


— Não vamos machucá-la — blefou Caramon.
— É claro que não — agora, a voz profunda estava entretida.
— Vocês não têm armas. Eu as devolverei assim que o momento
for propício. Ninguém traz armas para dentro da Floresta Sombria, nem
mesmo um Cavaleiro de Solamnia. Não tema, nobre cavaleiro. Reconheço
sua lâmina como antiga e muito valiosa. Vou guardá-la em segurança. Per-
doem-me pela aparente falta de confiança, mas até mesmo o grande Huma
colocou a Lança do Dragão aos meus pés.
— Huma! — Sturm engasgou. — Quem é você?
— Eu sou a Mestre da Floresta. — Enquanto a voz profunda falava,
a escuridão se abria. Um suspiro de admiração, gentil como um vento de
primavera, varreu os companheiros enquanto olhavam para frente. O luar
prateado brilhava forte em uma saliência alta de pedra. Parada na saliência
havia uma unicórnio. Ela os olhou friamente, seus olhos inteligentes bri-
lhando com uma sabedoria infinita.
A beleza da unicórnio era penetrante. Lua Dourada sentiu as lágri-
mas caírem dos seus olhos e foi forçada a fechá-los contra o resplendor
magnífico do animal. Seu pelo era prateado como o luar, seu chifre era
perolado e brilhante, sua crina como a espuma do mar. A cabeça poderia
ter sido esculpida em mármore lustroso, mas nenhuma mão humana ou
mesmo anã poderia capturar a elegância e a graça que viviam nas linhas
finas do pescoço poderoso e do tórax musculoso. As pernas eram fortes,
mas delicadas, os cascos pequenos e fendidos como os de uma cabra. Nos
dias posteriores, quando Lua Dourada trilhasse caminhos escuros e seu
coração ficasse triste com desalento e desesperança, ela só precisava fechar
os olhos e lembrar da unicórnio para encontrar conforto.
A unicórnio sacudiu a cabeça e abaixou-a em uma recepção solene.
Sentindo-se desconsertados, desajeitados e confusos, os companheiros
curvaram-se em resposta. A unicórnio girou repentinamente e deixou a
saliência, galopando pelas rochas em direção a eles.
Sentindo uma magia ser retirada, Tanis olhou ao redor. O luar pratea-
do brilhante iluminava a clareira silvestre. Árvores altas os cercavam como
guardiões gigantes e caridosos. O meio-elfo estava ciente de uma profunda
sensação de paz aqui. Mas também pairava uma espera.
— Descansem — disse a Mestre da Floresta, enquanto se aproximava
deles. — Vocês estão cansados e famintos. Receberão comida e água fresca
para se limparem. Podem deixar de lado sua cautela e seus medos por esta
noite. Aqui existe segurança, se é que existe em qualquer lugar.
Com seus olhos se iluminando com a menção de comida, Caramon
colocou seu irmão no chão. Raistlin afundou na grama contra o tronco
de uma árvore. Seu rosto estava mortalmente pálido no luar prateado,
mas sua respiração era fácil. Ele não parecia doente, mas terrivelmente
exausto. Caramon sentou ao lado dele, procurando por comida. Então,
soltou um suspiro.
— Provavelmente mais frutinhas — o guerreiro disse de forma triste
a Tanis. — Como eu queria carne... um cervo assado, um bom pedaço
de coelho...
— Silêncio — Sturm protestou baixinho, olhando para a Mestre da
Floresta. — Ela provavelmente pensaria em assá-lo primeiro!

137
Centauros saíram da floresta carregando um pano branco e limpo, que
foi aberto na grama. Outros colocaram globos transparentes de cristal no
pano, iluminando a floresta.
Tasslehoff olhou para as luzes com curiosidade.
— São luzes de vagalumes!
Os globos de cristal continham milhares de insetos minúsculos, cada
um com duas manchas brilhantes em suas costas. Eles rastejavam dentro
dos globos, aparentemente contentes em explorar os arredores.
Em seguida, os centauros trouxeram tigelas de água fresca e panos
brancos limpos para suas mãos e rostos. A água refrescava seus corpos e
mentes enquanto lavava as manchas da batalha. Outros centauros colo-
caram cadeiras, as quais Caramon encarou com dúvida. Elas eram feitas
de um pedaço de madeira que se curvava ao redor do corpo. Pareciam
confortáveis, exceto que cada cadeira tinha apenas uma perna!
— Por favor, sentem-se — disse a Mestre da Floresta, graciosamente.
— Não posso sentar nisso! — o guerreiro protestou. — Vou cair — ele
ficou parado na beira do pano. — Além disso, o pano está aberto na grama.
Vou sentar na grama com ele.
— Perto da comida — Flint murmurou em sua barba.
Os outros olharam desconfortavelmente para as cadeiras, as estranhas
lâmpadas de cristal com insetos e os centauros. Contudo, a filha do chefe
sabia o que se esperava dos convidados. Embora o mundo exterior consi-
derasse que seu povo como bárbaro, a tribo de Lua Dourada tinha regras
estritas de comportamento que deviam ser observadas religiosamente. Lua
Dourada sabia que manter sua anfitriã esperando era um insulto para a
anfitriã e sua dádiva. Ela se sentou com graça régia. A cadeira de uma perna
balançou ligeiramente, ajustando-se a altura da filha do chefe, moldando-se
para ela.
— Sente-se à minha direita, guerreiro — ela disse formalmente, cons-
ciente dos muitos olhos sobre eles. O rosto de Vento Ligeiro não mostrou
nenhuma emoção, embora fosse uma visão ridícula ele tentando dobrar
seu corpo alto para sentar na cadeira aparentemente frágil. Mas, uma vez
sentado, ele se inclinou para trás confortavelmente, quase sorrindo em
aprovação descrente.
— Obrigado a todos por esperarem até eu estar sentada — disse Lua
Dourada rapidamente, para disfarçar a hesitação dos outros. — Podem se
sentar agora.

138
— Ah, claro — começou Caramon, cruzando os braços sobre o peito.
— Eu não estava esperando. Não vou sentar nessa cadeira maluc... — O
cotovelo de Sturm bateu direto nas costelas do guerreiro.
— Graciosa dama — Sturm se curvou e se sentou com a dignidade
de um cavaleiro.
— Bem, se ele pode, eu também posso — resmungou Caramon, sua
decisão apressada pelo fato de os centauros estarem trazendo comida. Ele
ajudou o irmão a se sentar e depois se sentou com cautela, assegurando-se
de que a cadeira suportasse seu peso.
Quatro centauros se posicionaram em cada um dos quatro cantos do
enorme pano branco estendido no chão. Eles levantaram o pano até a altura
de uma mesa e depois o soltaram. O pano permaneceu flutuando no lugar,
sua superfície delicadamente bordada tão dura e resistente quanto uma das
mesas sólidas da Hospedaria do Lar Derradeiro.
— Que esplêndido! Como eles fazem isso? — Tasslehoff gritou, es-
piando embaixo do pano. — Não tem nada por baixo! — ele relatou, de
olhos arregalados.
Os centauros riram ruidosamente e até a Mestre da Floresta sorriu.
Depois, os centauros colocaram pratos feitos de madeira lindamente corta-
da e polida. Cada convidado recebeu uma faca e um garfo feitos de chifres
de cervo. Bandejas de carne assada quente enchiam o ar com um aroma
tentador e defumado. Pães perfumados e enormes tigelas de madeira com
frutas reluziam à luz suave das lâmpadas.
Sentindo-se seguro em sua cadeira, Caramon esfregou as mãos. De-
pois, deu um sorriso largo e pegou seu garfo.
— Ahhhh! — ele suspirou em apreciação quando um dos centauros
colocou diante dele uma bandeja de carne assada de cervo. Caramon mer-
gulhou seu garfo, aspirando em êxtase o vapor e o caldo que pingou da
carne. De repente, percebeu que todos estavam olhando para ele.
Ele parou e olhou em volta.
— O que...? — ele perguntou, piscando. Então seus olhos pararam na
Mestre da Floresta e ele corou e rapidamente retirou o garfo.
— Eu... peço desculpas. Esse cervo deve ter sido alguém que você
conhecia, quero dizer, um dos seus súditos.
A Mestre da Floresta sorriu gentilmente.
— Fique tranquilo, guerreiro — ela disse. — O cervo cumpre seu
propósito na vida fornecendo sustento para o caçador... seja ele lobo

139
ou homem. Não lamentamos a perda daqueles que morrem cumprindo
seus destinos.
Parecia para Tanis que os olhos escuros da Mestre da Floresta foram
até Sturm enquanto ela falava e neles havia a mais profunda tristeza, algo
que fez o coração do meio-elfo gelar. Mas, quando se voltou para a Mestre
da Floresta, viu o magnífico animal sorrindo mais uma vez. “Imaginação
minha”, pensou.
— Como sabemos, Mestre — perguntou Tanis, hesitante — se a vida
de uma criatura cumpriu seu destino? Conheci muitos velhos que morre-
ram em amargura e desespero. Já vi crianças pequenas morrerem antes do
tempo, mas deixarem para trás um legado de amor e alegria que a tristeza
por sua morte foi abrandada por saber que suas vidas breves haviam dado
muito aos outros.
— Você respondeu a sua própria pergunta, Tanis Meio-Elfo, bem
melhor do que eu poderia — disse a Mestre da Floresta com seriedade.
— Digo que nossas vidas não são medidas pelo que ganhamos, mas pelo
que concedemos.
O meio-elfo começou a responder, mas a Mestre da Floresta interrompeu.
— Deixe suas preocupações de lado por enquanto. Desfrute da paz da
minha floresta enquanto puder. O tempo está passando.
Tanis olhou intensamente para a Mestre da Floresta, mas o grande
animal desviou sua atenção dele e estava olhando para o bosque, com os
olhos nublados pela tristeza. O meio-elfo se perguntou o que ela queria
dizer e se sentou, perdido em pensamentos sombrios, até sentir uma mão
gentil tocar a dele.
— Você deveria comer — disse Lua Dourada. — Suas preocupações
não desaparecerão com a refeição e, se desaparecerem, tanto melhor.
Tanis sorriu para ela e começou a comer com um apetite feroz. Ele
aceitou o conselho da Mestre da Floresta e relegou suas preocupações para o
fundo de sua mente por um tempo. Lua Dourada estava certa: elas provavel-
mente não iriam embora. O resto dos companheiros fez o mesmo, aceitando
a estranheza de seu ambiente com a confiança de viajantes experientes.
Embora não houvesse nada para beber além de água, para a grande
decepção de Flint, o líquido fresco e claro lavava os terrores e as dúvidas de
seus corações, assim como havia limpado o sangue e a sujeira de suas mãos.
Eles riram, conversaram e comeram, desfrutando da companhia uns dos
outros. A Mestre da Floresta não falou mais com eles, mas observou cada um.

140
O rosto pálido de Sturm havia recuperado um pouco de cor. Ele
comeu com graça e dignidade. Sentado ao lado de Tasslehoff, respondeu
às inesgotáveis perguntas do kender sobre sua terra natal. Além disso, sem
chamar atenção indevida ao fato, ele removeu da bolsa de Tasslehoff uma
faca e um garfo que haviam chegado lá inexplicavelmente. O cavaleiro
sentou-se o mais longe possível de Caramom e fez o possível para ignorá-lo.
O guerreiro estava obviamente desfrutando de sua refeição. Ele comeu
três vezes mais do que qualquer outra pessoa, três vezes mais rápido e três
vezes mais alto. Quando não estava comendo, ele descrevia para Flint a
luta com um troll, usando o osso que estava mastigando como espada para
ilustrar suas estocadas e defesas. Flint comia com vontade e dizia a Caramon
que ele era o maior mentiroso em Krynn.
Sentado ao lado de seu irmão, Raistlin comeu muito pouco, pegando
apenas pedaços da carne mais tenra, algumas uvas e um pedaço de pão que
ele embebeu na água primeiro. Ele não disse nada, mas ouviu atentamente
a todos, absorvendo tudo o que foi dito em sua alma, armazenando para
futura referência e uso.
Lua Dourada comeu sua refeição delicadamente, com facilidade
costumeira. A princesa Que-shu estava acostumada a comer em público
e podia conversar facilmente. Ela conversou com Tanis, encorajando-o a
descrever as terras élficas e outros lugares que ele havia visitado. Ao lado
dela, Vento Ligeiro estava muito desconfortável e constrangido. Embora
não fosse um comedor barulhento como Caramon, o homem das Planícies
estava mais acostumado a comer nas fogueiras de acampamento de seus
companheiros de tribo do que nos salões reais. Ele manuseou os talheres de
forma desajeitada e sabia que ele parecia um bruto ao lado de Lua Dourada.
Ele não disse nada, parecendo disposto a desaparecer no segundo plano.
Finalmente, todos começaram a empurrar os pratos para longe e a
recostarem-se nas estranhas cadeiras de madeira, terminando o jantar com
pedaços de bolo. Tas começou a cantar sua canção de viagem kender, para
deleite dos centauros. Então, de repente, Raistlin falou. Sua voz suave e
sussurrante passou pelas risadas e pela conversa alta.
— Mestre da Floresta — o mago sibilou o nome —, hoje lutamos
contra criaturas repugnantes que nunca vimos antes em Krynn. Você pode
nos contar sobre elas?
O clima descontraído e festivo foi sufocado de forma tão eficaz quanto
se fosse coberto por uma mortalha. Todos trocaram olhares sombrios.

141
— Essas criaturas andam como homens — acrescentou Caramon —
mas parecem répteis. Têm garras nas mãos e pés, asas e — sua voz tornou-se
baixa — se tornam pedra quando morrem.
O Mestre da Floresta os olhou com tristeza enquanto se levantou. Ela
parecia estar esperando por essa pergunta.
— Conheço tais criaturas — ela respondeu. — Algumas delas entraram
na Floresta Sombria com um grupo de goblins de Refúgio há uma semana.
Usavam capuzes e capas para disfarçar sua aparência horrível. Os centauros
as seguiram em segredo, para ter certeza de que não machucariam ninguém
antes dos servos espectrais lidarem com eles. Os centauros relataram que as
criaturas chamam a si mesmas de “draconianos” e falam que pertencem à
“Ordem de Draco”.
Raistlin franziu a testa.
— Draco? — ele sussurrou, intrigado. — Mas quem são eles? Que
raça ou espécie?
— Não sei. Só posso dizer isso: não são do mundo animal e não
pertencem a nenhuma das raças de Krynn.
Levou um momento para todos assimilarem. Caramon piscou.
— Eu não... — ele começou.
— O que ela quis dizer, irmão, é que eles não são deste mundo —
Raistlin explicou impacientemente.
— Então, de onde vieram? — perguntou Caramon, surpreso.
— Essa é a pergunta, não é? — Raistlin disse friamente. — De onde
vieram... e por que?
— Não posso responder isso — a Mestre da Floresta balançou a ca-
beça. — Mas, antes dos servos espectrais acabarem com esses draconianos,
eles falaram sobre “exércitos ao norte”.
— Eu os vi — Tanis se levantou. — Fogueiras... — Sua voz ficou
presa na garganta ao perceber o que a Mestre da Floresta estava prestes a
dizer. — Exércitos! Desses draconianos? Deve haver milhares!
Agora, todos estavam de pé e falando ao mesmo tempo.
— Impossível! — disse o cavaleiro, fechando a cara.
— Quem está por trás disso? Os Perscrutadores? Pelos deuses — Ca-
ramon gritou — Eu tenho vontade de ir para Refúgio e bater...
— Vá para Solamnia, não para Refúgio — aconselhou Sturm em
voz alta.
— Devemos ir para Qualinost — Tanis argumentou. — Os elfos...

142
— Os elfos têm seus próprios problemas — interrompeu a Mestre da
Floresta, sua voz fria como uma influência calmante. — Assim como os
Altos Perscrutadores de Refúgio. Nenhum lugar é seguro. Mas posso dizer
para onde vocês devem ir para encontrar respostas para suas perguntas.
— Como assim você vai nos dizer para onde ir? — Raistlin deu um
passo à frente lentamente, seus mantos vermelhos ondulando ao seu redor
enquanto ele andava. — O que você sabe sobre nós? — o mago parou,
estreitando os olhos com um pensamento repentino.
— Sim, eu estava esperando por vocês — respondeu a Mestre da
Floresta em resposta aos pensamentos de Raistlin. — Um ser grande e bri-
lhante apareceu para mim na mata, neste dia. Ele me disse que a portadora
do cajado de cristal azul viria esta noite para a Floresta Sombria. Os servos
espectrais deixariam a portadora do cajado e seus companheiros passarem,
embora não tenham permitido que nenhum humano, elfo, anão ou kender
entrasse na Floresta Sombria desde o Cataclismo. Eu deveria dar à portado-
ra do cajado a seguinte mensagem: “Você deve voar imediatamente através
das Montanhas da Muralha Leste. Em dois dias, a portadora do cajado deve
estar dentro de Xak Tsaroth. Lá, se você se mostrar digna, receberá o maior
presente dado ao mundo”.
— Montanhas da Muralha Leste! — o queixo do anão caiu. — Preci-
samos voar mesmo para chegar a Xak Tsaroth em dois dias. Ser brilhante!
Rá! — ele estalou os dedos.
O resto olhou desconfortavelmente entre si. Por fim, Tanis disse, hesitante.
— Receio que o anão esteja certo, Mestre da Floresta. A jornada para
Xak Tsaroth seria longa e perigosa. Teríamos que voltar por terras que
sabemos que estão habitadas por goblins e esses draconianos.
— E, depois, teríamos que passar pelas Planícies — Vento Ligeiro fa-
lou pela primeira vez desde que encontrou a Mestre da Floresta. — Nossas
vidas estão perdidas — ele apontou para Lua Dourada. — Os Que-shu são
combatentes ferozes e conhecem o terreno. Eles estão esperando. Nunca
passaríamos em segurança — ele olhou para Tanis. — E meu povo não
gosta nada de elfos.
— E por quê ir para Xak Tsaroth? — Caramon resmungou. — O
maior presente... o que poderia ser? Uma espada poderosa? Um baú de
moedas de aço? Isso viria a calhar, mas aparentemente há uma batalha se
preparando para o norte. Eu odiaria perdê-la.
A Mestre da Floresta concordou, séria.

143
— Eu entendo o seu dilema — ela disse. — E ofereço a ajuda que
estiver em meu poder. Garantirei que cheguem a Xak Tsaroth em dois dias.
A pergunta é, vocês vão?
Tanis virou-se para os outros. O rosto de Sturm estava tenso. Ele
encontrou o olhar de Tanis e suspirou.
— O cervo nos trouxe aqui, — ele disse lentamente — talvez para
receber este aviso. Mas meu coração está no norte, minha terra natal. Se
exércitos desses draconianos estiverem preparando um ataque, meu lugar
é com os cavaleiros, que certamente se reunirão para combater este mal.
Mas eu não quero abandoná-lo, Tanis, ou à você, dama — ele acenou
com a cabeça para Lua Dourada, depois se curvou, com a cabeça dolorida
nas mãos.
Caramon deu de ombros.
— Vou a qualquer lugar, luto com o que for, Tanis. Você sabe disso.
O que diz, irmão?
Mas Raistlin, olhando para as trevas, não respondeu.
Lua Dourada e Vento Ligeiro estavam falando juntos, em voz baixa.
Eles concordaram com a cabeça, então Lua Dourada disse para Tanis:
— Nós iremos a Xak Tsaroth. Agradecemos tudo que fizeram por nós--
— Mas não podemos mais pedir ajuda de ninguém — Vento Ligeiro
disse com orgulho. — Esta é a conclusão da nossa busca. Nós começamos
sozinhos, então vamos terminá-la sozinhos.
— E morrerão sozinhos! — Raistlin disse baixinho.
Tanis tremeu.
— Raistlin — ele disse — preciso falar com você.
O mago se virou obedientemente e caminhou com o meio-elfo para um
pequeno emaranhado de árvores retorcidas e raquíticas. A escuridão os cercou.
— Como nos velhos tempos — disse Caramon, seus olhos seguindo
seu irmão com constrangimento.
— E veja todos os problemas que tivemos de lá pra cá — lembrou
Flint, caindo na grama.
— Imagino sobre o que estão conversando — disse Tasslehoff. Há
muito tempo, o kender tentara espionar essas conversas particulares entre o
mago e o meio-elfo, mas Tanis sempre o pegava e o espantava. — E por quê
eles não podem discutir isso com a gente?
— Porque provavelmente arrancaríamos o coração de Raistlin —
Sturm respondeu, com uma voz baixa e cheia de dor. — Eu não ligo para o

144
que você diz, Caramon, seu irmão tem um lado sombrio e Tanis já viu isso.
Pelo que sou grato. Ele pode lidar com isso. Eu não conseguiria.
Estranhamente, Caramon não disse nada. Sturm olhou para o guerrei-
ro, espantado. Antigamente, o guerreiro teria partido para defender o seu
irmão. Agora, estava em silêncio, preocupado, seu rosto perturbado.
Então Raistlin tinha um lado sombrio e agora Caramon sabia, também,
o que era. Sturm estremeceu, imaginando o que acontecera naqueles últimos
cinco anos, que lançou uma sombra tão escura sobre o alegre guerreiro.
Raistlin se aproximou de Tanis. Os braços do mago estavam cruzados
nas mangas de seus mantos, a cabeça inclinada em pensamentos. Tanis
podia sentir o calor do corpo de Raistlin irradiar através dos mantos verme-
lhos, como se ele estivesse sendo consumido por um fogo interno. Como
de costume, Tanis se sentiu desconfortável na presença do jovem mago. No
entanto, ele não sabia de mais ninguém a quem pudesse pedir conselhos.
— O que você sabe sobre Xak Tsaroth? — perguntou Tanis.
— Havia um templo lá... um templo para os deuses antigos — Raistlin
sussurrou. Seus olhos brilhavam na luz misteriosa da lua vermelha. — Foi
destruído no Cataclismo e seu povo fugiu, certo de que os deuses os haviam
abandonado. Sumiu da memória. Eu não sabia que ainda existia.
— O que você viu, Raistlin? — perguntou Tanis em voz baixa, após
uma longa pausa. — Você olhou para longe... o que viu?
— Eu sou mago, Tanis, não um vidente.
— Deixe de conversa — Tanis se irritou. — Faz muito tempo, mas não
tanto. Eu sei que você não tem o dom da vidência. Você estava pensando,
não adivinhando. E chegou a uma resposta. Eu quero essa resposta. Você
tem mais cérebro que todos nós juntos, mesmo que... — ele parou.
— Mesmo que eu seja distorcido e deturpado — a voz de Raistlin
aumentou com arrogância. — Sim, sou mais esperto do que vocês, todos
vocês. E provarei isso um dia! Um dia, você... com toda sua força, charme
e boa aparência... você, todos vocês, me chamarão de mestre! — ele cerrou
seus punhos dentro de suas mantos, os seus olhos brilhando vermelhos no
luar escarlate. Acostumado com tal afirmação, Tanis esperou com paciência.
O mago relaxou, com suas mãos soltas. — Mas, por enquanto, vou dar o
meu conselho. O que eu vi? Esses exércitos, Tanis, exércitos de draconianos,
tomarão Consolação, Refúgio e todas as terras dos nossos pais. Este é o
motivo de chegarmos a Xak Tsaroth. Encontraremos o que será a perdição
desse exército.

145
— Mas por que esses exércitos existem? — perguntou Tanis. — O que
alguém desejaria com o controle de Consolação, Refúgio e das Planícies ao
leste? São os Perscrutadores?
— Perscrutadores! Rá! — Raistlin debochou. — Abra os olhos,
Meio-Elfo. Alguém ou algo poderoso criou essas criaturas... esses draco-
nianos. Não os Perscrutadores idiotas. E ninguém se esforçaria tanto para
tomar duas cidades do interior, nem para procurar um cajado de cristal
azul. Esta é uma guerra de conquista, Tanis. Alguém deseja conquistar
Ansalon! Em dois dias, a vida em Krynn como a conhecemos chegará ao
fim. Este é o presságio das estrelas cadentes. A Rainha das Trevas voltou.
Enfrentamos uma inimiga que deseja, pelo menos, nos escravizar ou
talvez nos destruir totalmente.
— Seu conselho? — Tanis perguntou, relutante. Ele sentia a mudança
vindo e, como todos os elfos, detestava e odiava a mudança.
Raistlin deu seu sorriso torto e amargo, deleitando-se com seu mo-
mento de superioridade.
— Que devemos ir para Xak Tsaroth imediatamente. Que saiamos
hoje a noite, se possível, pelo meio que a Mestre da Floresta tiver planejado.
Se não conseguirmos este presente em dois dias... os exércitos de draconia-
nos o terão.
— O que você acha que pode ser o presente? — Tanis imaginou em
voz alta. — Uma espada ou moedas, como Caramon disse?
— Meu irmão é um tolo — Raistlin disse friamente. — Você não
acredita nisso, nem eu.
— Então o que? — Tanis continuou.
Os olhos de Raistlin se estreitaram.
— Eu dei o meu conselho. Aja da forma que quiser. Eu tenho meus
motivos para ir. Vamos manter dessa forma, Meio-Elfo. Mas será perigoso.
Xak Tsaroth foi abandonada há trezentos anos. Não acho que ela tenha
ficado abandonada por muito tempo.
“Isso é verdade”, Tanis pensou. Ele ficou em silêncio por um longo
momento. O mago tossiu uma vez, baixo.
— Você acredita que fomos escolhidos, Raistlin? — perguntou Tanis.
O mago não hesitou.
— Sim. Pois assim fui informado nas Torres da Magia. Foi o que
Par-Salian me disse.

146
— Mas por quê? — Tanis questionou, impaciente. — Não temos
nada de heróis... bem, talvez Sturm...
— Ah! — disse Raistlin. — Mas quem nos escolheu? E com qual
objetivo? Pense nisso, Tanis Meio-Elfo.
O mago se curvou para Tanis, em zombaria, e virou-se para andar de
volta para a mata, para o resto do grupo.

147
12
Sono alado. Fumaça no leste.
Memórias sombrias.

ak Tsaroth — Tanis disse — esta é a minha decisão.


— É isto que o mago aconselha? — Sturm perguntou, mal-hu-
morado.
— Sim — Tanis respondeu — e acredito que o conselho dele é correto.
Se não chegarmos a Xak Tsaroth em dois dias, outros chegarão e o “maior
presente” pode ser perdido para sempre.
— O maior presente! — Tasslehoff disse, com os olhos brilhando. —
Imagine, Flint! Joias de valor inestimável! Ou talvez...
— Um barril de cerveja e as batatas fritas de Otik — o anão murmurou.
— E uma bela fogueira. Mas não... Xak Tsaroth!
— Acho que todos concordamos, então — disse Tanis. — Se você
acha que precisa ir para o norte, Sturm, claro que você--
— Vou com vocês para Xak Tsaroth — Sturm suspirou. — Não há
nada para mim no norte. Eu estive me iludindo. Os cavaleiros da minha
ordem estão espalhados, escondidos em fortalezas decadentes, afastando os
coletores de dívidas.
O rosto do cavaleiro se contorceu em agonia e ele baixou a cabeça. De
repente, Tanis sentiu-se cansado. Seu pescoço doía, seus ombros e costas
doíam, os músculos da perna se contraíam. Ele começou a falar algo mais,
então sentiu um toque gentil em seu ombro. Ele olhou para cima para ver
o rosto de Lua Dourada, frio e calmo no luar.
— Você está cansado, meu amigo — ela disse. — Todos estamos. Mas
estamos felizes por vocês irem, Vento Ligeiro e eu — a mão dela era forte.
Ela olhou para cima, seu olhar claro cobrindo todo o grupo. — Estamos
felizes de todos irem conosco.
Olhando de relance para Vento Ligeiro, Tanis não tinha certeza se o
alto homem da Planície concordava com ela.
— Apenas outra aventura — disse Caramon, corado de constrangi-
mento. — Não é, Raist? — ele cutucou seu irmão. Ignorando seu gêmeo,
Raistlin olhou para a Mestre da Floresta.
— Precisamos partir imediatamente — o mago disse friamente. —
Você disse algo sobre nos ajudar a atravessar as montanhas.
— De fato — a Mestre da Floresta respondeu de forma séria. — Eu
também fico feliz de terem tomado esta decisão. Espero que minha ajuda
seja bem recebida.
A Mestre da Floresta levantou a cabeça, olhando para o céu. Os com-
panheiros seguiram o olhar dela. O céu noturno, visto através das copas das
árvores altas, brilhava com as estrelas. Logo os companheiros perceberam
algo voando acima, encobrindo as estrelas momentaneamente.
— Que eu seja um anão tolo — disse Flint solenemente. — Cavalos
voadores. O que mais?
— Uau! — Tasslehoff respirou fundo. O kender ficou fascinado ao
observar os lindos animais circulando acima deles, descendo mais e mais
a cada curva, com o pelo irradiando azul-branco ao luar. Tas juntou suas
mãos. Nem em suas fantasias mais loucas o kender sonhou em voar. Valia a
pena lutar contra todos os draconianos em Krynn.
Os pégasos mergulharam no chão, suas asas emplumadas criando um
vento que dobrou os galhos das árvores e achatou a grama no chão. Um
grande pégaso com asas que tocavam o chão enquanto caminhava inclinou-
se com reverência para a Mestre da Floresta. Seu porte era orgulhoso e
nobre. Por sua vez, cada uma das outras belas criaturas se curvou.

149
— Você nos convocou? — o líder perguntou à Mestre da Floresta.
— Meus convidados têm negócios urgentes ao leste. Eu peço que
vocês os carreguem com a rapidez dos ventos através das Montanhas da
Muralha Leste.
O pégaso olhou para os companheiros com espanto. Ele trotou com
um ar majestoso para olhar primeiro para um, depois outro. Quando
Tas levantou a mão para acariciar o nariz do corcel, ambas as orelhas do
animal giraram para a frente e ele ergueu a grande cabeça para trás. Mas
quando chegou a Flint, ele bufou de desgosto e se virou para a Mestre
da Floresta.
— Um kender? Humanos? E um anão!
— Não fala assim comigo, cavalo! — Flint espirrou.
A Mestre da Floresta apenas assentiu e sorriu. O pégaso fez uma
reverência relutante.
— Muito bem, Mestre — respondeu. Com uma graça poderosa,
caminhou até Lua Dourada e começou a dobrar sua pata dianteira, incli-
nando-se diante dela para ajudá-la a montar.
— Não se ajoelhe, nobre animal — ela disse. — Tenho montado
desde antes de saber andar. Não preciso de ajuda — entregando seu cajado
a Vento Ligeiro, Lua Dourada jogou o braço em volta do pescoço do
pégaso e montou em suas costas largas. Seus cabelos dourados e prateados
voaram como uma plumagem branca ao luar, seu rosto puro e frio como
o mármore. Mais do que nunca, parecia a princesa de uma tribo bárbara.
Ela pegou seu cajado com Vento Ligeiro. Erguendo-o no ar, ela levan-
tou sua voz em uma canção. Com os olhos brilhando de admiração, Vento
Ligeiro saltou atrás dela nas costas do cavalo alado. Colocando os braços ao
redor dela, ele adicionou sua voz profunda de barítono à dela.
Tanis não tinha ideia do que estavam cantando, mas parecia uma
canção de vitória e triunfo. Mexia com seu sangue e ele teria se juntado de
bom grado. Um dos pégasos chegou até ele. Ele subiu e acomodou-se nas
costas largas, sentando diante das poderosas asas.
Agora todos os companheiros, apanhados na alegria do momento,
montaram, com a canção de Lua Dourada dando asas às suas almas en-
quanto os pégasos abriam suas enormes asas e pegavam as correntes de
vento. Eles subiram cada vez mais alto, circulando acima da floresta. A
lua prateada e o vermelho banhavam o vale abaixo e as nuvens acima em
um brilho estranho, lindo e púrpura que recuava em uma noite púrpura

150
mais profunda. Enquanto se afastavam da floresta, a última coisa que os
companheiros viram foi a Mestre da Floresta, brilhando como uma estrela
caída do céu, perdida e sozinha em uma terra escura.
Um a um, os companheiros sentiram a sonolência abatê-los.
Tasslehoff resistiu a esse sono magicamente induzido por mais tempo.
Encantado pela rajada de vento contra seu rosto, enfeitiçado pela visão das
árvores altas que normalmente se elevavam sobre ele reduzidas a brinque-
dos infantis, Tas lutava para permanecer acordado muito tempo depois de
todos. A cabeça de Flint descansava em suas costas, com o anão roncando
alto. Lua Dourada estava aninhada nos braços de Vento Ligeiro. A cabeça
dele estava caída sobre o ombro dela. Mesmo em seu sono, ele a segurava de
forma protetora. Caramon caiu sobre o pescoço de seu pégaso, respirando
sonoramente. Seu irmão descansava contra as costas largas do seu gêmeo.
Sturm dormia pacificamente, as linhas de dor sumidas do seu rosto. Até o
rosto barbado de Tanis estava sem preocupações e responsabilidades.
Tas bocejou.
— Não — ele murmurou, piscando rapidamente e se beliscando.
— Descanse, pequeno kender — seu pégaso disse, impressionado. —
Mortais não foram feitos para voar. Este sono é para a sua proteção. Não
queremos que você entre em pânico e caia.
— Eu não vou! — Tas protestou, bocejando novamente. Sua cabeça
desabou para a frente. O pescoço do pégaso era quente e confortável, o pelo
era perfumado e macio. — Não vou entrar em pânico — Tas sussurrou
sonolento. — Nunca entro em pâni... — e ele dormiu.

O meio-elfo acordou de sobressalto ao descobrir que estava deitado


em um prado coberto de grama. O líder dos pégasos estava acima dele,
olhando para o leste. Tanis se sentou.
— Onde estamos? — ele começou. — Isto não é uma cidade — ele
olhou em volta. — Por que... nem atravessamos a montanha ainda!
— Sinto muito — o pégaso virou-se para ele. — Não podemos levá-los
até as Montanhas da Muralha Leste. Há um grande problema acontecendo
no leste. As trevas estão no ar, trevas que não sentia em Krynn por incontá-
veis... — ele parou, abaixou a cabeça e bateu a pata o chão, agitado. — Não
ouso viajar mais.
— Onde estamos? — o meio-elfo confuso repetiu. — E onde estão os
outros pégasos?

151
— Eu os mandei para casa. Fiquei para proteger o seu sono. Agora que
está acordado, também devo voltar — o pégaso olhou com severidade para
Tanis. — Não sei o que despertou esse grande mal em Krynn. Acredito que
não foi você e seus companheiros.
Ele abriu suas grandes asas.
— Espere! — Tanis tentou se levantar. — Que...
O pégaso saltou no ar, circulou duas vezes, depois partiu, voando
rapidamente de volta para o oeste.
— Que mal? — perguntou Tanis com tristeza. Ele suspirou e olhou
em volta. Seus companheiros estavam dormindo profundamente, dei-
tados no chão ao redor dele em várias poses. Ele estudou o horizonte,
tentando se orientar. Era quase amanhecer, ele percebeu. A luz do sol
estava começando a iluminar o leste. Ele estava em uma pradaria plana.
Não havia uma árvore à vista, nada além de campos ondulantes de grama
alta até onde ele podia ver.
Perguntando-se o que o pégaso queria dizer com problemas ao leste,
Tanis sentou-se para observar o nascer do sol e esperar que seus amigos
acordassem. Ele não estava especialmente preocupado sobre onde estava,
pois supôs que Vento Ligeiro conhecia esta terra até a última folha de
grama. Então se esticou no chão, de frente para o leste, sentindo-se mais
relaxado depois daquele sono estranho do que em muitas noites.
De repente, se sentou. Sua sensação de relaxamento deu lugar a um
aperto na garganta, como se uma mão invisível a esganasse. Naquela direção,
serpenteando para encontrar o brilhante sol da manhã, havia três colunas
grossas e tortuosas de fumaça escura e oleosa. Tanis se levantou, correu
até Vento Ligeiro e o sacudiu suavemente, tentando acordar o homem das
Planícies sem perturbar Lua Dourada.
— Shhh — Tanis sussurrou, colocando um dedo em seus lábios e
apontando para a mulher adormecida enquanto Vento Ligeiro piscava
para o meio-elfo. Vendo a expressão sombria de Tanis, o bárbaro acordou
instantaneamente.Levantou-se em silêncio e se afastou com o meio-elfo,
olhando ao redor.
— O que é isso? — sussurrou. — Estamos nas Planícies de Abanassí-
nia. Ainda a quase meio dia de viagem das Montanhas da Muralha Leste.
Minha vila fica para o leste...
Ele parou quando Tanis apontou silenciosamente para o leste. Então,
deu um grito superficial e irregular quando viu a fumaça se curvando no

152
céu. Lua Dourada acordou em um sobresssalto. Ela se sentou e olhou para
Vento Ligeiro com sono, depois com temor crescente. Virando-se, ela
seguiu seu olhar horrorizado.
— Não... — ela lamentou. — Não! — gritou novamente. Levantando
rapidamente, ela começou a reunir seus pertences. Os outros acordaram
com o grito dela.
— O que foi? — Caramon se levantou.
— A vila deles... — Tanis disse baixinho, apontando. — Está quei-
mando. Aparentemente, os exércitos estão se movendo mais rápido do
que pensamos.
— Não — disse Raistlin. — Lembre-se... os clérigos draconianos
mencionaram que rastrearam o cajado até uma vila nas Planícies.
— Meu povo — Lua Dourada murmurou, com sua energia drenada.
Ela caiu nos braços de Vento Ligeiro, olhando para a fumaça. — Meu pai...
— É melhor continuarmos — Caramon olhou ao redor, desconfor-
tável. — Estamos mais a vista aqui do que uma joia no umbigo de uma
dançarina cigana.
— Sim — Tanis disse. — Temos realmente que sair daqui. Mas para
onde vamos? — ele perguntou a Vento Ligeiro.
— Que-shu — o tom de Lua Dourada não permitia contradições.
— É no nosso caminho. As Montanhas da Muralha Leste ficam além da
minha vila. Ela começou a atravessar a grama alta.
Tanis olhou para Vento Ligeiro.
— Marulina! — o homem das Planícies gritou por ela. Correndo para
frente, pegou no braço de Lua Dourada. — Nikh pat-takh merilar! — ele
disse firmemente.
Ela olhou para ele, com olhos azuis e frios como o céu da manhã.
— Não — ela disse, decidida. — Estou indo para a nossa vila. É nossa
culpa se algo tiver acontecido. Não me importo se há monstros esperando.
Vou morrer com nosso povo, como deveria ter feito — sua voz falhou.
Observando, Tanis sentiu seu coração doer de pena.
Vento Ligeiro colocou o braço ao redor dela e juntos começaram a
caminhar em direção ao sol nascente.
Caramon limpou a garganta.
— Espero encontrar mil daquelas coisas — resmungou, levantando
sua mochila e a do seu irmão.

153
— Ei! — ele disse, espantado. — Elas estão cheias. — ele olhou na
sua mochila. — Provisões. Para vários dias. E minha espada está de volta
na bainha!
— Pelo menos é uma coisa com a qual não precisamos nos preocupar
— Tanis disse com seriedade. — Você está bem, Sturm?
— Sim — o cavaleiro respondeu. — Me sinto muito melhor depois
desse sono.
— Muito bem. Vamos lá. Flint, onde está Tas? — virando-se, Tanis
quase caiu sobre o kender que estava parado logo atrás dele.
— Pobre Lua Dourada — Tas disse baixinho. Tanis deu um tapinha
em seu ombro.
— Talvez não seja tão ruim quanto tememos — disse o meio-elfo,
seguindo o casal da Planície pela grama. — Talvez os guerreiros tenham
vencido e essas sejam as fogueiras da vitória.
Tasslehoff suspirou e olhou para Tanis, com os olhos castanhos
arregalados.
— Você mente muito mal, Tanis — o kender disse. Teve a sensação
que este seria um dia muito longo.

Crepúsculo. O sol pálido se pôs. Raios de amarelo e laranja listravam


o céu do oeste, depois se desvaneciam na noite sombria. Os companheiros
estavam sentados em volta de uma fogueira que não oferecia calor, pois
não existia nenhuma chama em Krynn que pudesse afastar o frio de suas
almas. Eles não falavam entre si, mas cada um estava sentado olhando
para o fogo, tentando entender o que tinham visto, tentando entender o
que não tinha sentido.
Tanis passou por muitas coisas horríveis em sua vida. Mas a cidade de-
vastada de Que-shu sempre se destacaria em sua mente como um símbolo
dos horrores da guerra.
Mesmo assim, lembrando-se de Que-shu, ele só conseguia captar ima-
gens fugazes, sua mente recusando-se a abranger a visão total e terrível. Por
mais estranho que pareça, ele se lembrou das pedras derretidas de Que-shu.
Lembrava-se delas claramente. Apenas em seus sonhos ele se lembrava dos
corpos retorcidos e enegrecidos que jaziam entre as pedras fumegantes.
As grandes paredes de pedra, os enormes templos e edifícios de pedra,
os prédios espaçosos de pedra com seus pátios e estátuas de pedra, a grande
arena de pedra... tudo derretido, como manteiga em um dia quente de

154
verão. A rocha ainda ardia, embora fosse óbvio que a vila devia ter sido
atacada bem antes do que um nascer do sol atrás. Era como se uma chama
incandescente tivesse engolido a vila inteira. Mas que fogo havia em Krynn
que poderia derreter rocha?
Lembrou-se de um som de rangido, lembrou-se de ouvi-lo e de ficar
intrigado com isso, imaginando o que seria, até que localizar a fonte do
único som na cidade sinistramente quieta tornou-se uma obsessão. Ele
correu pela vila em ruínas até localizar a fonte. Lembrou-se que gritou para
os outros até chegarem. Eles ficaram olhando para a arena derretida.
Blocos de pedra enormes haviam caído do lado da depressão em forma
de tigela, formando ondas de rocha derretida em volta do fundo da arena.
No centro, na grama que estava enegrecida e carbonizada, havia uma forca
grosseira. Dois postes robustos foram colocados no chão queimado por
uma força indizível, suas bases estilhaçadas pelo impacto. Três metros acima
do chão, um poste cruzado estava amarrado aos outros dois. A madeira
estava carbonizada e empolada. Aves carniceiras estavam empoleiradas no
topo. Três correntes, feitas do que parecia ser de ferro, antes de derreterem
e se juntarem, balançavam para a frente e para trás. Esta era a causa do som
do rangido. Suspenso de cada corrente, aparentemente pelos pés, havia um
cadáver. Os cadáveres não eram humanos, eram de hobgoblins. No topo
da estrutura horrível, havia um escudo preso ao poste atravessado com uma
espada quebrada. Mal arranhado no escudo surrado, havia palavras escritas
numa forma grosseira do idioma comum.
“Isto é o que acontece com quem faz prisioneiros contra as minhas ordens.
Mate ou seja morto”. Estava assinado: Verminaard.
Verminaard. O nome não significava nada para Tanis.
Outras imagens. Ele se lembrou de Lua Dourada em pé no centro da
casa arruinada de seu pai, tentando juntar as peças de um vaso quebrado.
Lembrou-se de um cachorro, a única coisa viva que encontraram em toda
a vila, enrolado em volta do corpo de uma criança morta. Caramon parou
para acariciar o cachorrinho. O animal se encolheu, depois lambeu a mão
do homem grande. Depois, lambeu o rosto frio da criança, olhando para
o guerreiro esperançoso, esperando que aquele humano arrumasse tudo,
fizesse seu amiguinho correr e rir de novo. Ele se lembrou de Caramon
acariciando o pelo macio do cachorro com suas mãos enormes.
Ele se lembrou de Vento Ligeiro pegando uma pedra, segurando-a,
sem se importar, enquanto olhava sua vila queimada e destruída.

155
Lembrou-se de Sturm, paralisado diante da forca, olhando para o le-
treiro, e lembrou-se dos lábios do cavaleiro se moverem como se estivessem
rezando ou proferindo um voto silencioso.
Lembrou-se do rosto cheio de tristeza do anão, que havia visto tanta
tragédia em sua longa vida, quando estava no centro da aldeia arruinada,
dando tapinhas nas costas de Tasslehoff depois de encontrar o kender cho-
rando em um canto.
Ele se lembrou da busca frenética de Lua Dourada por sobreviventes.
Ela rastejou através dos escombros enegrecidos, gritando nomes, ouvindo
respostas fracas para suas chamadas até que ficar rouca e Vento Ligeiro
finalmente convencê-la de que não havia jeito. Se houvesse sobreviventes,
eles teriam fugido há muito tempo.
Lembrou-se de estar sozinho no centro da cidade, olhando para pilhas
de poeira com pontas de flechas nelas e as reconhecendo como corpos de
draconianos.
Lembrou-se de uma mão fria tocando seu braço e da voz sussurrante
do mago.
— Tanis, precisamos partir. Não há nada a fazer e precisamos chegar a
Xak Tsaroth. Depois, teremos nossa vingança.
E, assim, eles saíram de Que-shu. Viajaram até tarde da noite, ne-
nhum deles querendo parar, cada um querendo forçar seu corpo ao ponto
de exaustão para que, quando eles finalmente dormissem, os sonhos ruins
não aparecessem.
Mas os sonhos vieram mesmo assim.

156
13
Alvorada fria. Pontes de videiras.
Água escura.

anis sentiu as garras pegando sua garganta. Ele se debateu e lutou,


então acordou para encontrar Vento Ligeiro curvado sobre ele na
escuridão, sacudindo-o com força.
— O que...? — Tanis se sentou.
— Você estava sonhando — disse o homem das Planícies, sério. — Eu
precisei acordá-lo. Seus gritos poderiam atrair um exército até nós.
— Sim, obrigado — Tanis murmurou. — Me desculpe — sentado,
ele tentou livrar-se do pesadelo. — Que horas são?
— Ainda faltam várias horas para o amanhecer — Vento Ligeiro disse
com cansaço.
Ele voltou para onde estava sentado, as costas contra o tronco de
uma árvore retorcida. Lua Dourada estava deitada no chão ao lado dele.
Ela começou a murmurar e sacudir a cabeça, fazendo gemidos pequenos e
suaves como um animal ferido. Vento Ligeiro acariciou seu cabelo prateado
dourado e ela se acalmou.
— Você deveria ter me acordado antes — disse Tanis. Ele se levantou,
esfregando os ombros e o pescoço. — É o meu turno.
— Você acha que eu conseguiria dormir? — perguntou Vento Ligeiro
com amargor.
— Você precisa — Tanis respondeu. — Você vai nos atrasar se não
dormir.
— Os homens da minha tribo podem viajar por muitos dias sem
dormir — disse Vento Ligeiro. Seus olhos estavam opacos e vidrados e ele
parecia olhar para o nada.
Tanis tentou argumentar, depois suspirou e ficou quieto. Ele sabia que
jamais poderia entender realmente a agonia que o homem das Planícies
estava sofrendo. Ter amigos e família, uma vida inteira, totalmente destruí-
dos deve ser tão devastador que o coração aperta só de imaginar. Tanis o
deixou e caminhou até onde Flint estava sentado, esculpindo um pedaço
de madeira.
— Você também precisa dormir — disse Tanis ao anão. — Eu fico de
vigia por um tempo.
Flint anuiu.
— Ouvi você gritando dali — ele guardou a adaga e enfiou o pedaço
de madeira em uma bolsa. — Defendendo Que-shu?
Tanis fechou a cara com a lembrança. Tremendo na noite fria, ele se
envolveu com seu manto e puxou seu capuz.
— Alguma ideia sobre onde estamos? — ele perguntou a Flint.
— O bárbaro disse que estamos em uma estrada conhecida como
Caminho Leste do Sábio, — o anão respondeu. Ele se esticou no chão frio,
arrastando um cobertor sobre os ombros — uma estrada velha. Ela existe
desde antes do Cataclismo.
— Não acho que teríamos sorte o suficiente para que essa estrada nos
levasse diretamente para Xak Tsaroth.
— Vento Ligeiro também acha que não — murmurou o anão,
sonolento. — Disse que só percorreu um trecho curto dela. Mas, pelo
menos, ela atravessa as montanhas. — Ele deu um grande bocejo e se virou,
acomodando a cabeça em seu manto.
Tanis respirou fundo. A noite parecia tranquila o suficiente. Eles não
encontraram draconianos ou goblins em sua retirada de Que-shu. Como

159
Raistlin disse, aparentemente os draconianos atacaram Que-shu em busca
do cajado, não como parte de uma preparação para a batalha. Eles ataca-
ram, depois se retiraram. O limite de tempo da Mestre da Floresta ainda
estava valendo, Tanis imaginou... Xak Tsaroth em até dois dias. E um dia
já havia passado.
Tremendo, o meio-elfo andou de volta até Vento Ligeiro.
— Você tem alguma ideia da distância que temos que seguir e em que
direção? — Tanis se agachou ao lado do homem das Planícies.
— Sim — Vento Ligeiro concordou, esfregando os olhos. — Temos
que seguir para o nordeste, em direção ao Novo Mar. É lá que a cidade
supostamente está. Eu nunca estive lá... — Ele franziu a testa, depois ba-
lançou a cabeça. — Nunca estive lá — repetiu.
— Podemos chegar lá até amanhã? perguntou Tanis.
— Dizem que o Novo Mar fica a dois dias de viagem de Que-shu — o
bárbaro suspirou. — Se Xak Tsaroth existir, conseguiríamos chegar lá em
um dia, embora eu saiba que o terreno daqui até o Novo Mar é pantanoso
e difícil de atravessar.
Ele fechou os olhos, sua mão acariciando inconscientemente o cabelo
de Lua Dourada. Tanis ficou quieto, esperando que o homem da Planície
dormisse. O meio-elfo se moveu silenciosamente para sentar embaixo da
árvore, olhando para a noite. Fez uma anotação mental para perguntar a
Tasslehoff pela manhã se ele tinha um mapa.
O kender tinha um mapa, mas que não ajudava muito, pois datava
de antes do Cataclismo. O Novo Mar não estava no mapa, uma vez que
ele apareceu depois da terra ser dividida e as águas do Oceano Turvo a
preencherem rapidamente. Mesmo assim, o mapa mostrava Xak Tsaroth
não muito longe da estrada marcada como Caminho Leste do Sábio. Eles
chegariam lá em algum momento naquela tarde, se o território que tivessem
que atravessar não fosse intransitável.
Os companheiros comeram um café da manhã desanimado, a maioria
forçando a alimentação sem apetite. Raistlin preparou sua bebida malchei-
rosa de ervas sobre a pequena fogueira, seus olhos estranhos se demorando
no cajado de Lua Dourada.
— Como ele se tornou precioso — ele comentou baixinho — agora
que foi pago com o sangue de inocentes.

160
— Vale a pena? Ele vale as vidas do meu povo? — Lua Dourada
perguntou, fitando o cajado marrom comum. Ela parecia ter envelhecido
durante a noite. Grandes manchas cinzas surgiram na pele sob seus olhos.
Nenhum dos companheiros respondeu, cada um desviando o olhar
para um silêncio embaraçoso. Vento Ligeiro levantou-se abruptamente
e saiu para a mata sozinho. Lua Dourada ergueu os olhos e o observou,
depois baixou sua cabeça em sua mão e começou a chorar silenciosamente.
— Ele se sente culpado — ela balançou a cabeça. — E eu não estou
ajudando. Não foi culpa dele.
— Não foi culpa de ninguém — Tanis disse lentamente, andando até
ela. Ele colocou a mão no ombro dela, massageando para eliminar a tensão
que sentia nos músculos do pescoço.
— Não podemos entender. Temos apenas que seguir em frente e
esperar que a resposta esteja em Xak Tsaroth.
Ela assentiu, enxugou os olhos, respirou fundo e limpou o nariz em
um lenço que Tasslehoff lhe entregou.
— Você está certo — ela disse, engolindo o choro. — Meu pai teria
vergonha de mim. Tenho que me lembrar... sou a filha do chefe.
— Não — veio a voz profunda de Vento Ligeiro de onde ele estava
atrás dela, nas sombras das árvores. — Você é a Chefe.
Lua Dourada ofegou. Ela virou-se para ficar de frente, de olhos arre-
galados, para Vento Ligeiro.
— Talvez eu seja — ela vacilou. — Mas isso não significa nada. Nosso
povo está morto...
— Eu vi rastros — Vento Ligeiro respondeu. — Alguns conseguiram
escapar. Eles provavelmente foram para as montanhas. Eles voltarão e você
será a líder deles.
— Nosso povo... ainda vivo! — O rosto de Lua Dourada ficou radiante.
— Não muitos. Talvez nenhum agora. Depende dos draconianos
terem os seguido ou não até as montanhas — Vento Ligeiro deu de ombros.
— Mesmo assim, você é a governante deles — o amargor insinuou-se em
sua voz — e eu serei o marido da Líder.
Lua Dourada se encolheu, como se ele tivesse batido nela. Ela piscou,
depois balançou a cabeça.
— Não, Vento Ligeiro — ela disse baixinho. — Eu... nós conversamos...
— Conversamos? — ele interrompeu. — Estava pensando nisso noite
passada. Estive longe por muitos anos. Meus pensamentos estavam em

161
você, como mulher. Eu não percebi... — ele engoliu o seco, depois suspirou
fundo. — Eu deixei Lua Dourada. Voltei para encontrar a filha do chefe.
— Que escolha eu tinha? — Lua Dourada gritou, com raiva. — Meu
pai não estava bem. Eu precisava liderar ou o Sábio teria tomado controle
da tribo. Você sabe como é... ser a filha do chefe? Imaginando, em cada
refeição se ela estava com veneno? Lutando todos os dias para encontrar
o dinheiro no tesouro para pagar os soldados para que o Sábio não tivesse
desculpas para assumir o comando! E, o tempo todo, eu precisei agir como
a filha do chefe, enquanto meu pai ficava sentado, babando e murmurando.
— sua voz estava embargada de lágrimas.
Vento Ligeiro escutou, seu rosto austero e imóvel. Ele olhou para um
ponto acima da cabeça dela.
— É melhor partirmos — disse ele friamente. — Está quase de manhã.
Os companheiros viajaram apenas alguns quilômetros na estrada
velha e quebrada quando ela os levou para um pântano. Eles notaram que
o chão estava ficando mais esponjoso e que as árvores altas e robustas das
florestas de cânion da montanha diminuíam. Árvores estranhas e retorcidas
erguiam-se diante deles. Um miasma obscurecia o sol e o ar ficou ruim
de respirar. Raistlin começou a tossir e cobriu a boca com um lenço. Eles
ficaram nas pedras quebradas da estrada velha, evitando o chão úmido e
pantanoso ao lado dela.
Flint andava na frente com Tasslehoff quando, de repente, o anão
soltou um grande grito e desapareceu na lama. Eles só conseguiam ver
sua cabeça.
— Socorro! O anão! — Tas gritou e os outros correram.
— Está me puxando! — Flint se debatia na lama escura e pegajosa
em pânico.
— Fique parado — Vento Ligeiro avisou. — Você caiu na lama da
morte. Não vá até ele! — avisou para Sturm, que saltara para frente. —
Vocês dois morrerão. Pegue um galho.
Caramon pegou uma árvore jovem, respirou fundo, grunhiu e puxou.
Eles podiam ouvir suas raízes estalando e quebrando enquanto o enorme
guerreiro a arrastava para fora do chão. Vento Ligeiro se esticou, estendendo
o galho até o anão. Flint, quase até o nariz na lama viscosa, se debateu e
finalmente conseguiu pegá-lo. O guerreiro tirou a árvore da lama da morte,
com o anão agarrado nela.

162
— Tanis! — O kender se agarrou ao meio-elfo e apontou. Uma cobra,
tão grande quanto o braço de Caramon, deslizou na lama bem onde o anão
estava se debatendo.
— Não podemos atravessar isso! — Tanis indicou o pântano. — Tal-
vez devamos voltar.
— Não há tempo — Raistlin sussurrou, com os olhos de ampu-
lheta brilhando.
— E não há outro caminho — disse Vento Ligeiro. Sua voz parecia
estranha. — E podemos atravessar... eu conheço um caminho.
— O que? — Tanis virou-se para ele. — Achei que tinha dito...
— Eu estive aqui — o homem das Planícies disse em uma voz abafada.
— Não consigo lembrar quando, mas estive aqui. Eu conheço o caminho
através do pântano. E ele leva a... — ele lambeu os lábios.
— Leva à cidade destruída do mal? — Tanis perguntou seriamente
quando o bárbaro não terminou sua frase.
— Xak Tsaroth! — Raistlin sibilou.
— É claro — Tanis disse baixinho. — Faz sentido. Onde iríamos
encontrar respostas sobre o cajado... se não no local onde você o recebeu?
— E precisamos ir agora! — disse Raistlin, insistindo. — Precisamos
estar lá até a meia-noite de hoje!
O homem das Planícies assumiu a dianteira. Ele encontrou terra firme
ao redor da água escura e, fazendo com que todos caminhassem em fila,
os levou para longe da estrada e mais para dentro do pântano. Árvores
que ele chamava de “garras de ferro” saíam da água, suas raízes expostas,
retorcidas na lama. Videiras caíam dos seus galhos e se arrastavam pelo
caminho fraco. A neblina adensou e logo ninguém podia ver além de alguns
metros. Eles foram forçados a se mover lentamente, testando cada passo.
Um movimento em falso e eles mergulhariam no pântano fedorento, sujo
e estagnado ao redor deles.
De repente, a trilha chegou ao fim na água escura do pântano.
— E agora? — Caramon perguntou com tristeza.
— Isto — Vento Ligeiro disse, apontando para uma ponte rústica,
feita de cipós trançados em cordas, presa a uma árvore. Ela atravessava a
água como uma teia de aranha.
— Quem a construiu? — perguntou Tanis.
— Eu não sei — Vento Ligeiro disse. — Mas você vai encontrá-las ao
longo do caminho sempre que ele ficar intransitável.

163
— Eu disse que Xak Tsaroth não continuaria abandonada — Rais-
tlin sussurrou.
— Sim, bem... Acho que não devemos desprezar um presente dos
deuses — respondeu Tanis. — Pelo menos não precisamos nadar!
A viagem através da ponte de cipós não foi agradável. Os cipós es-
tavam cobertos de musgo viscoso, o que tornava a caminhada instável. A
estrutura balançava de forma alarmante quando tocada e seu movimento
ficava errático quando alguém atravessava. Eles chegaram em segurança ao
outro lado, mas andaram apenas um pouco antes de serem forçados a usar
outra ponte. E, embaixo e ao redor deles, sempre havia a água sombria,
onde olhos estranhos os observavam com fome. Então, eles chegaram a um
ponto onde o chão firme terminava e não havia pontes de cipó. Não havia
nada a frente além de água lamacenta.
— Não é muito fundo — Vento Ligeiro murmurou. — Me sigam.
Pisem apenas onde eu pisar.
Vento Ligeiro deu um passo, depois outro, sentindo o seu caminho,
e o resto se mantinha bem atrás dele, observando a água. Eles olhavam
com desgosto e alarme enquanto coisas desconhecidas e ocultas passavam
pelas suas pernas. Quando chegaram a terra firme novamente, suas pernas
estavam cobertas de lama. Todos se engasgaram com o cheiro. Mas essa
última jornada parecia, talvez, ter sido a pior. A selva não era tão densa e até
podiam ver o sol brilhando fracamente através de uma névoa verde.
Quanto mais ao norte eles viajavam, mais firme o terreno ficava. Ao
meio-dia, Tanis parou quando encontrou um pedaço de terra seca sob um
velho carvalho. Os companheiros sentaram para almoçar e falaram com
esperança sobre deixar o pântano para atrás. Todos, exceto Lua Dourada e
Vento Ligeiro. Eles não falaram nada.
As roupas de Flint estavam encharcadas. Ele tremia de frio e come-
çou a reclamar de dores nas articulações. Tanis ficou preocupado. Ele
sabia que o anão estava sujeito ao reumatismo e lembrou-se do que Flint
dissera sobre temer retardá-los. Tanis cutucou o kender e fez um sinal
para chamá-lo para o lado.
— Eu sei que você tem algo em uma de suas bolsas que tiraria o frio
dos ossos do anão, se entende o que quero dizer — Tanis disse baixinho.
— Ah, claro, Tanis — Tas disse, animado. Ele revirou primeiro uma
bolsa, depois outra, e finalmente veio com um frasco de prata reluzente. —
Conhaque. O melhor de Otik.

164
— Você pagou por isso? — Tanis perguntou, sorrindo.
— Eu vou pagar — o kender respondeu, magoado. — Da próxima
vez que passar por lá.
— Claro — Tanis deu um tapinha em seu ombro. — Divida um
pouco com Flint. Não muito — ele avisou. — Só para aquecê-lo.
— Tudo bem. E nós iremos na frente... nós, guerreiros poderosos —
Tas riu e foi até o anão enquanto Tanis voltou para os outros. Eles estavam
em silêncio, arrumando os restos do almoço e se preparando para partir.
“Todos nós podíamos tomar um pouco do melhor de Otik”, ele pensou.
Lua Dourada e Vento Ligeiro não se falaram durante toda a manhã. Seu
humor espalhava uma atmosfera sombria em todos. Tanis não conseguia
pensar em nada que acabasse com a tortura que esses dois estavam experi-
mentando. Ele só podia esperar que o tempo aliviasse as feridas.
Os companheiros continuaram pela trilha por cerca de uma hora
depois do almoço, movendo-se mais rapidamente, já que a parte mais densa
da mata tinha ficado para trás. Quando imaginavam que tinham deixado
o pântano, a terra firme chegou abruptamente ao fim. Cansados, enjoados
do cheiro e desanimados, os companheiros se encontraram atravessando a
lama novamente.
Apenas Flint e Tasslehoff não foram afetados pelo retorno ao pânta-
no. Esses dois haviam se adiantando bastante dos outros. Tasslehoff logo
“esqueceu” do aviso de Tanis sobre beber apenas um pouco do conhaque.
O líquido esquentou o sangue e tirou a pressão da atmosfera sombria, de
modo que o kender e o anão passaram e repassaram o frasco entre eles
muitas vezes até esvaziá-lo e, agora, estavam perambulando juntos, fazendo
piadas sobre o que fariam se encontrassem um draconiano.
— Eu o transformaria em pedra, na hora — o anão disse, balançando
um machado de batalha imaginário. — Bam! Bem no papo do lagarto.
— Aposto que Raistlin poderia transformar um em pedra com um
olhar! — Tas imitou o rosto sombrio e o olhar severo do mago. Os dois
riram alto, depois se calaram, riram, olhando para trás desequilibrados para
ver se Tanis os ouvira.
— Aposto que Caramon enfiaria um garfo em um deles para comê-lo!
— Flint disse.
Tas engasgou de tanto rir e enxugou as lágrimas dos olhos. O anão
urrou. De repente, os dois chegaram ao final do solo esponjoso. Tasslehoff
agarrou o anão quando Flint quase mergulhou de cabeça em uma poça

165
de água do pântano tão larga que uma ponte de cipós não a atravessaria.
Uma imensa árvore garra de ferro estava sobre a água, o tronco grosso ser-
vindo como uma ponte larga o suficiente para duas pessoas caminharem
lado a lado.
— É isso o que eu chamo de ponte! — Flint disse, recuando um
passo e tentando colocar o tronco em foco. — Chega de rastejar como uma
aranha nessas teias verdes estúpidas. Vamos lá.
— Não é melhor esperar pelos outros? — Perguntou Tasslehoff suave-
mente. — Tanis não gostaria que a gente se separasse.
— Tanis? Unf! — O anão bufou. — Vamos mostrar para ele.
— Tudo bem — Tasslehoff concordou alegremente. Ele saltou para
cima da árvore caída. — Cuidado — disse ele, escorregando um pouco,
depois recuperando facilmente o equilíbrio. — Está escorregadia. — Ele
deu alguns passos, braços estendidos, os pés em linha como um trapezista
que vira uma vez em uma feira de verão.
O anão subiu atrás do kender, as botas grossas de Flint batendo desa-
jeitadamente no tronco. Uma voz na parte sem conhaque da mente de Flint
dizia que ele nunca poderia ter feito isso sóbrio. Ela disse, também, que era
um tolo por atravessar a ponte sem esperar pelos outros, mas ele ignorou.
Estava se sentindo positivamente jovem novamente.
Tasslehoff, encantado ao fingir ser Mirgo, o Magnífico, olhou para
cima e descobriu que, de fato, tinha uma plateia... uma daquelas coisas
draconianas saltou para o tronco em frente dele. A visão deixou Tas sóbrio
rapidamente. O kender não era dado ao medo, mas certamente ficou sur-
preso. Ele teve presença de espírito suficiente para fazer duas coisas.
Primeiro, ele gritou bem alto:
— Tanis, emboscada!
Depois, ele ergueu seu hoopak e o girou em um arco amplo. O
movimento pegou o draconiano de surpresa. A criatura respirou fundo
e saltou do tronco para a margem abaixo. Desequilibrado por instante,
Tas recuperou o equilíbrio rapidamente e imaginou o que fazer a seguir.
Olhou ao redor de relance e viu outro draconiano na margem. Eles não
estavam armados, o que o deixou intrigado. Antes que pudesse considerar
tal esquisitice, ouviu um rugido atrás dele. Esquecera do anão.
— O que foi? — Flint gritou.
— Draco-sei-lá-como-chamam — disse Tas, agarrando seu hoopak e
olhando pela névoa. — Dois à frente! Lá vêm eles!

166
— Bem, saia do meu caminho! — Flint rosnou.
Esticando o braço para trás, ele tateou em busca do machado.
— Para onde eu devo ir? — Tas gritou, descontrolado.
— Abaixe-se! — gritou o anão.
O kender se abaixou, atirando-se no tronco quando um dos draco-
nianos se aproximou dele, com as garras estendidas. Flint brandiu o ma-
chado em um golpe poderoso que teria decapitado o draconiano se tivesse
chegado perto dele. Infelizmente, o anão calculou mal e a lâmina zuniu
inofensivamente diante do draconiano, que agitava as mãos no ar e entoava
palavras estranhas.
O ímpeto do golpe de Flint fez o anão girar. Seus pés escorregaram no
tronco viscoso e, com um grito, o anão caiu para trás na água.
Tendo passado anos ao lado de Raistlin, Tasslehoff reconheceu que
o draconiano estava lançando uma magia. Deitado de bruços no tronco,
com o hoopak na mão, o kender imaginou que tinha cerca de um segundo
e meio para pensar no que fazer. O anão estava ofegando e esbravejando
na água abaixo dele. A poucos centímetros de distância, o draconiano
estava claramente chegando à conclusão impressionante da sua conjuração.
Decidindo que qualquer coisa era melhor que receber a magia, Tas respirou
fundo e mergulhou para fora tronco.

— Tanis! Emboscada!
— Droga! — xingou Caramon enquanto a voz do kender flutuava até
eles vinda da névoa à frente.
Todos começaram a correr em direção ao som, amaldiçoando as vinhas
e os galhos das árvores que bloqueavam seu caminho. Abrindo caminho
pela mata, eles viram a ponte da garra de ferro caída. Quatro draconianos
saíram das sombras, bloqueando o caminho.
De repente, os companheiros foram jogados em uma escuridão tão pro-
funda que não conseguiam ver as próprias mãos, quanto mais seus colegas.
— Magia! — Tanis ouviu o sibilo de Raistlin. — Esses são magos.
Afastem-se. Vocês não podem combatê-los.
Então, Tanis ouviu o mago gritar em agonia.
— Raist! — Caramon gritou. — Onde... uff... — Houve um gemido
e o som de um corpo pesado batendo no chão.
Tanis ouviu os draconianos entoando algo. Enquanto tentava pegar
a espada, ele foi coberto repentinamente, da cabeça aos pés, por uma

167
substância grossa e pegajosa que entupia o nariz e a boca. Lutando para
se libertar, apenas conseguiu se prender ainda mais. Ele ouviu Sturm
blasfemando ao seu lado, Lua Dourada gritava,a voz de Vento Ligeiro
foi sufocada, então a sonolência o dominou. Tanis caiu de joelhos, ainda
lutando para libertar-se da substância parecida com uma teia que colava
suas mãos aos lados do corpo. Então, ele caiu para a frente e afundou em
um sono artificial.

168
14
Prisioneiros dos draconianos

eitado no chão, ofegante, Tasslehoff observou os draconianos se


prepararem para carregar seus amigos inconscientes. O kender es-
tava bem escondido debaixo de um arbusto perto do pântano. O
anão estava estirado ao lado dele, apagado. Tas olhou para ele com remorso.
Ele não teve escolha. Em seu pânico, Flint arrastara o kender para baixo na
água fria. Se não tivesse batido na cabeça do anão com o hoopak, nenhum
deles teria emergido vivo. Ele havia puxado o anão desmaiado para fora
d’água e o escondido embaixo de um arbusto.
Então, Tasslehoff assistiu impotente enquanto os draconianos pren-
diam magicamente seus amigos no que pareciam teias fortes de aranha. Tas
viu que todos estavam aparentemente inconscientes, ou mortos, porque
não lutavam, nem revidavam.
O kender se divertiu um pouco ao ver os draconianos tentarem pe-
gar o cajado de Lua Dourada. Eles evidentemente o reconheceram, pois
grasnaram em seu idioma gutural e fizeram gestos de alegria. Um deles,
supostamente o líder, abaixou-se para pegá-lo. Houve um brilho de luz
azul. Com um grito estridente, o draconiano largou o cajado e saltou para
cima e para baixo na margem, proferindo palavras que Tas imaginava
serem indelicadas. O líder finalmente teve uma ideia engenhosa. Puxando
uma manta de peles da mochila de Lua Dourada, o draconiano a colocou
no chão. A criatura pegou um graveto e usou-o para enrolar o cajado na
manta. Em seguida, enrolou cautelosamente o cajado nas peles e o ergueu,
triunfante. Os draconianos levantaram os corpos dos amigos do kender
presos nas teias e os levaram embora. Outros draconianos foram atrás,
carregando as mochilas e as armas dos companheiros.
Enquanto os draconianos marchavam por um caminho muito perto
do kender escondido, Flint gemeu e se mexeu de repente. Tas colocou
sua mão sobre a boca do anão. Os draconianos pareceram não escutar e
seguiram em frente. Tas podia ver claramente seus amigos na luz fraca da
tarde enquanto os draconianos passavam. Eles pareciam estar dormindo.
Caramon estava até roncando. O kender lembrou-se da magia de sono de
Raistlin e percebeu que era isso que os draconianos usaram em seus amigos.
Flint resmungou novamente. Um dos draconianos perto do fim da
fila parou e olhou para o arbusto. Tas pegou seu hoopak e o manteve acima
da cabeça do anão... caso fosse necessário. Mas não foi. O draconiano deu
de ombros e murmurou para si mesmo, depois correu para alcançar seu
esquadrão. Suspirando de alívio, Tas tirou a mão da boca do anão. Flint
piscou e abriu os olhos.
— O que aconteceu? — o anão gemeu, com a mão na cabeça.
— Você caiu da ponte e bateu a cabeça em um tronco — Tas disse de
forma loquaz.
— Caí?— Flint parecia desconfiado. — Não me lembro disso. Lem-
bro de uma daquelas coisas draconianas vindo para mim e lembro de ter
caído na água...
— Bem, você caiu, então não discuta — Tas disse com pressa, se
levantando.— Consegue andar?
— Claro que consigo — o anão retrucou. Ele se levantou, um pouco
vacilante, mas ereto. — Onde estão todos?
— Os draconianos os capturaram e os levaram.
— Todos eles? — O queixo de Flint caiu. — Simples assim?
— Esses draconianos eram magos — disse Tas, impaciente, ansioso
para partir.— Eles lançam magias, acho. Eles não os machucaram, exceto

171
por Raistlin. Eu acho que fizeram algo terrível com ele. Eu o vi quando eles
passaram. Ele estava terrível. Mas era o único — o kender puxou a manga
molhada do anão. — Vamos lá... temos que segui-los.
— Sim, claro — Flint murmurou, olhando ao redor. Depois colocou
sua mão na cabeça de novo.— Onde está meu elmo?
— No fundo do pântano — Tas disse, irritado. — Quer ir atrás dele?
O anão deu um olhar horrorizado para a água turva, estremeceu e
virou-se apressadamente. Colocou a mão na cabeça novamente e sentiu um
grande calombo.
— Tenho certeza que não lembro de bater a cabeça — ele resmungou.
Então, um pensamento repentino veio à mente. Ele passou as mãos pelas
costas descontroladamente. — Meu machado!— ele gritou.
— Shhh! — Tas repreendeu.— Pelo menos você está vivo. Agora,
temos que resgatar os outros.
— E como você propõe fazer isso sem nenhuma arma, fora o seu
estilingue gigante? — Flint reclamou, dando passos duros ao lado do
rápido kender.
— Vamos pensar em alguma coisa — Tas disse com confiança, embora
sentisse como se seu coração estivesse enroscado em seus pés, tamanho era
o seu desânimo.
O kender encontrou a trilha dos draconianos sem dificuldade. Era
obviamente uma trilha velha e bem usada. Parecia que centenas de pés
draconianos haviam passado por dela. Examinando os rastros, Tasslehoff
percebeu repentinamente que eles poderiam estar caminhando para um
grande acampamento dos monstros. Ele deu de ombros. Para que se impor-
tar com detalhes tão pequenos.
Infelizmente, Flint não compartilhava da mesma filosofia.
— Tem um exército inteiro lá na frente! — o anão arfou, agarrando o
kender pelo ombro.
— Sim, bem... — Tas fez uma pausa para considerar a situação. Ele
se animou. — Melhor ainda. Quanto mais deles houver, menor a chance
deles verem a gente — ele partiu novamente.
Flint fechou a cara. Havia algo errado com essa lógica. mas ele não
conseguia dizer o que era e estava muito molhado e com frio para discutir.
Além disso, ele estava pensando a mesma coisa que o kender: a outra esco-
lha que eles tinham era fugir para o pântano e deixar seus amigos nas mãos
dos draconianos. Então, não havia outra escolha.

172
Eles andaram por outra meia hora. O sol sumiu na névoa, dando
a ele uma coloração vermelho-sangue, e a noite caiu rapidamente no
pântano turvo.
Logo, viram uma luz ardente à frente deles. Eles saíram da trilha e
entraram furtivamente no mato. O kender se movia tão silenciosamente
quanto um rato; o anão pisava em gravetos que se estalavam sob o seu pé,
corria para as árvores e tropeçava no mato. Felizmente o acampamento
dos draconianos estava em festa e provavelmente não teria escutado um
exército de anões se aproximando. Flint e Tas se agacharam logo além da luz
da fogueira e observaram. De repente, o anão agarrou o kender com tanta
violência que quase o puxou para trás.
— Grande Reorx! — Flint praguejou, apontando.— Um dragão!
Tas estava muito atordoado para dizer alguma coisa. Ele e o anão as-
sistiram com um espanto horrorizado enquanto os draconianos dançavam
e se prostravam diante de um dragão negro gigante. A criatura espreitava
dentro da meia concha restante da ruína de uma cúpula. Sua cabeça era
mais alta que as copas das árvores, a extensão da suas asas era enorme. Um
dos draconianos, usando mantos, curvou-se diante do dragão, gesticulando
para o cajado enquanto estava colocado no chão com as armas capturadas.
— Tem algo estranho sobre esse dragão — Tas sussurrou, depois de
observá-lo por alguns instantes.
— Tipo, eles não deveriam existir?
— Exatamente isso — disse Tas.— Olhe direito. A criatura não está
se movendo ou reagindo a nada. Só está parada lá. Sempre achei que os
dragões seriam mais animados, sabe?
— Vai lá fazer cócegas no pé dele! — Flint debochou. — Aí você vai
ver a animação!
— Acho que vou fazer mesmo — disse o kender. Antes que o anão
pudesse dizer uma palavra, Tasslehoff saiu do mato, passando de sombra
em sombra enquanto se aproximava do acampamento. Flint poderia ter
arrancado a barba de frustração, mas teria sido desastroso tentar impedi-lo
agora. O anão não podia fazer nada além de segui-lo.

— Tanis!
O meio-elfo ouviu alguém o chamando do outro lado de um abismo
enorme. Ele tentou responder, mas sua boca estava cheia de algo grudento
Ele balançou a cabeça. Depois, sentiu um braço em seus ombros, o ajudando

173
a se sentar. Ele abriu os olhos. Estava de noite. A julgar pela luz bruxuleante,
um fogueira imensa ardia em algum lugar. O rosto preocupado de Sturm
estava perto do dele. Tanis suspirou e estendeu a mão para segurar o ombro
do cavaleiro. Ele tentou falar e foi forçado a retirar pedaços da substância
pegajosa que se agarrava a seu rosto e boca como teias de aranha.
— Estou bem — disse Tanis, quando conseguiu falar. — Onde
estamos? — ele olhou em volta. — Todos estão aqui? Alguém ferido?
— Estamos em um acampamento draconiano — disse Sturm, aju-
dando o meio-elfo a se levantar. — Tasslehoff e Flint estão desaparecidos e
Raistlin está ferido.
— Muito? — Tanis perguntou, preocupado com a expressão séria no
rosto de Sturm.
— Não está nada bem— respondeu o cavaleiro.
— Dardo envenenado — disse Vento Ligeiro. Tanis virou-se para o
homem da Planície e deu a primeira boa olhada em sua prisão. Eles estavam
dentro de uma jaula feita de bambu. Guardas draconianos estavam do lado
de fora, suas espadas longas e curvas desembainhadas e prontas. Além da
jaula, centenas de draconianos se amontoavam ao redor de uma fogueira.
E acima da fogueira...
— Sim — Sturm disse, vendo a expressão surpresa de Tanis.— Um
dragão. Mais histórias para crianças. Raistlin tripudiaria.
— Raistlin... — Tanis foi até o mago, que estava deitado em um canto
da jaula, coberto com seu manto. O jovem mago estava febril e tremendo
com calafrios. Lua Dourada estava ajoelhada ao seu lado, com a mão na
testa dele, jogando o cabelo branco para trás. Ele estava inconsciente. Sua
cabeça balançava irregularmente e ele murmurava palavras estranhas, às
vezes gritando ordens confusas. Caramon, com o rosto quase tão pálido
quanto o do irmão, estava sentado ao lado dele. Lua Dourada encontrou o
olhar interrogativo de Tanis e balançou a cabeça tristemente, os olhos gran-
des e brilhantes na luz refletida da fogueira. Vento Ligeiro se aproximou e
ficou parado ao lado de Tanis.
— Ela encontrou isso no pescoço dele — ele disse, segurando com
cuidado um dardo emplumado entre o polegar e o indicador. Olhou para
o mago sem amor, mas com uma certa dose de pena. — Quem pode dizer
qual veneno queima no seu sangue?
— Se tivéssemos o cajado... — disse Lua Dourada.
— Certo — Tanis disse.— Onde ele está?

174
— Lá — disse Sturm, sua boca com um sorriso irônico. Ele apontou.
Tanis observou através de centenas de draconianos e viu o cajado colocado
no cobertor de peles de Lua Dourada em frente ao dragão negro.
Esticando a mão, Tanis agarrou uma barra da jaula.
— Nós poderíamos fugir — ele disse a Sturm. — Caramon poderia
quebrar isso como se fosse um graveto.
— Tasslehoff poderia quebrar isso como se fosse um graveto se estives-
se aqui — Sturm disse. — Claro, depois só teríamos que lidar com algumas
centenas dessas criaturas... sem falar do dragão.
— Tudo bem. Não precisa jogar na minha cara — Tanis suspirou. —
Alguma ideia do que aconteceu com Flint e Tas?
— Vento Ligeiro disse que ouviu um barulho na água logo depois de
Tas gritar sobre a emboscada. Se eles tiveram sorte, mergulharam para fora
do tronco e escaparam para o pântano. Caso contrário... — Sturm não
completou.
Tanis fechou os olhos para esconder a luz do fogo. Estava cansado...
cansado de lutar, cansado de matar, cansado de se arrastar pela lama. Pensou
ansiosamente em se deitar e voltar a dormir. Em vez disso, abriu os olhos,
foi até a jaula e sacudiu as barras. Um guarda draconiano se virou com a
espada erguida.
— Você fala comum? — Tanis perguntou na forma mais simples e
bruta do idioma comum usado em Krynn.
— Eu falo comum. Aparentemente melhor do que você, lixo élfico —
o draconiano desprezou. — O que você quer?
— Uma pessoa do nosso grupo está ferida. Estamos pedindo o trata-
mento. Dê a ele o antídoto do dardo venenoso.
— Veneno? — o draconiano olhou para dentro da jaula. — Ah sim, o
mago — a criatura gorgolejou fundo na sua garganta, um som que devia ser
uma risada. — Doente é? Sim, o veneno age rápido. Não podemos ter um
mago por aqui. Mesmo na gaiola, eles são mortais. Mas não se preocupe.
Ele não vai ficar sozinho... vocês todos se juntarão a ele em breve. De fato,
deveriam ter inveja dele. Suas mortes não serão tão rápidas.
O draconiano virou-se de costas e disse algo ao seu companheiro,
gesticulando com o polegar com garra na direção da jaula. Os dois soltaram
uma risada gorgolejante. Tanis, sentindo o desgosto e a raiva crescendo
dentro de si, olhou de volta para Raistlin.

175
O mago estava piorando rapidamente. Lua Dourada colocou a mão
no pescoço de Raistlin, sentindo seus batimentos, depois balançou a cabeça.
Caramon fez um som de lamento. Então, seu olhar voltou-se para os dois
draconianos, rindo e conversando do lado de fora.
— Pare... Caramon! — Tanis gritou, mas era tarde demais.
Com um rugido de um animal ferido, o enorme guerreiro saltou
em direção aos draconianos. O bambu cedeu diante dele, os pedaços
estilhaçando e cortando sua pele. Louco com o desejo de matar, Caramon
nem percebeu. Tanis saltou nas suas costas quando o guerreiro passou por
ele, mas Caramon o afastou tão facilmente quanto um urso espanta uma
mosca irritante.
— Caramon, seu tolo... — Sturm resmungou enquanto ele e Vento
Ligeiro se jogavam sobre o guerreiro. Mas a fúria de Caramon o fazia
seguir em frente.
Virando, um draconiano ergueu sua espada, mas Caramon mandou a
arma para longe. A criatura foi ao chão, sendo nocauteada por um golpe do
punho do homem enorme. Em segundos, havia seis draconianos, com ar-
cos e flechas em mãos, cercando o guerreiro. Sturm e Vento Ligeiro lutavam
para manter Caramon no chão. Sentado por cima, Sturm enfiou o rosto
dele na lama até sentir Caramon relaxar e ouvir o seu lamento abafado.
Naquele instante, uma voz estridente e aguda guinchou pelo
acampamento.
— Tragam o guerreiro a mim! — disse o dragão.
Tanis sentiu seus cabelos arrepiarem no pescoço. Os draconianos
abaixaram as armas e se viraram para ver o dragão, olhando espantados e
murmurando entre si. Vento Ligeiro e Sturm se levantaram. Caramon es-
tava deitado no chão, engasgando de tanto chorar. Os guardas draconianos
se olharam desconfortavelmente, enquanto os que estavam perto do dragão
recuaram apressadamente formando um imenso semicírculo ao redor do
mostro reptiliano.
Uma das criaturas, que Tanis supunha ser uma espécie de capitão, pela
insígnia em sua armadura, aproximou-se de um draconiano de túnica que
olhava boquiaberto para o dragão negro.
— O que está acontecendo? — o capitão demandou. O draconiano
falou no idioma comum. Prestando atenção, Tanis percebeu que eles eram
de espécies diferentes. Os draconianos em mantos aparentemente eram os

176
magos e os sacerdotes. Supostamente, os dois não podiam se comunicar
em seus próprios idiomas. O draconiano militar estava claramente irritado.
— Onde está aquele seu sacerdote bozak? Ele deve nos dizer o que
fazer!
— O mais alto da minha ordem não está aqui. — O draconiano em
mantos recuperou rapidamente a compostura. — Um deles voou até aqui e
o levou para conversar com Lorde Verminaard sobre o cajado.
— Mas o dragão nunca fala quando o sacerdote não está aqui — o
capitão abaixou sua voz. — Meus rapazes não gostaram. É melhor você
fazer algo rápido!
— Por que esta demora? — a voz do dragão era estridente como um
vento lamentoso. — Tragam o guerreiro a mim!
— Façam o que o dragão diz — o draconiano de túnica gesticulou
rapidamente com a mão com garras. Vários draconianos correram, em-
purraram Tanis, Vento Ligeiro e Sturm de volta para a jaula quebrada e
ergueram o Caramon ensanguentado pelos braços. Eles o arrastaram até
diante do dragão, de costas para o fogo ardente. Perto dele estava o cajado
de cristal azul, o cajado de Raistlin, suas armas e suas mochilas.
Caramon levantou a cabeça para confrontar o monstro, seus olhos
borrados com lágrimas e sangue dos muitos cortes que o bambu causou em
seu rosto. O dragão se avultou acima dele, sendo visível vagamente através
da fumaça que subia da fogueira.
— Fazemos justiça de forma rápida e segura, escória humana — o
dragão sibilou. Enquanto falava, ele batia suas enormes asas, mexendo-as len-
tamente. Os draconianos arfaram e começaram a recuar, alguns tropeçando
entre si enquanto corriam para sair do caminho do monstro. Eles obviamente
sabiam que estava para vir. Caramon encarava a criatura sem medo.
— Meu irmão está morrendo — ele gritou. — Faça o que quiser
comigo. Só peço uma coisa. Me entregue a minha espada para que eu possa
morrer lutando!
O dragão riu estridente. Os draconianos se juntaram a ele, gorgolejan-
do e coaxando de forma horrível. Quando as asas do dragão bateram no ar,
ele começou a balançar para a frente e para trás,aparentemente preparando-
se para saltar sobre o guerreiro e devorá-lo.
— Isso será divertido. Entreguem a arma dele — o dragão ordenou. O
bater das asas faziam o vento soprar através do acampamento, espalhando
fagulhas da fogueira.

177
Caramon empurrou os guardas draconianos para o lado. Passando a
mão sobre olhos, foi até a pilha de armas e tirou a espada. Então, virou-se
para encarar o dragão, com resignação e tristeza marcadas em seu rosto. Ele
ergueu sua espada.
— Não podemos deixá-lo morrer lá sozinho! — disse Sturm dura-
mente e dando um passo a frente, se preparando para sair.
De repente, uma voz veio das sombras atrás deles.
— Psiu... Tanis!
O meio-elfo se virou.
— Flint! — ele exclamou, depois olhou apreensivo para os guardas
draconianos, mas eles estavam absortos ao assistir ao espetáculo de Cara-
mon e do dragão. Tanis correu para a parte de trás da jaula de bambu onde
o anão estava.
— Saia daqui! — o meio-elfo ordenou. — Não há nada que você
possa fazer. Raistlin está morrendo e o dragão...
— É Tasslehoff — Flint disse de forma suscinta.
— O que? — Tanis encarou o anão.— Explique.
— O dragão é Tasslehoff — Flint repetiu com paciência.
Dessa vez, Tanis ficou sem palavras. Ele ficou olhando para o anão.
— O dragão é feito de vime — o anão sussurrou com pressa. — O
kender se esgueirou por trás dele e olhou para dentro. Ele foi montado!
Qualquer um sentado dentro do dragão pode fazer as asas baterem e falar
através de um tubo oco. Acho que é assim que os sacerdotes mantêm a
ordem aqui. De qualquer jeito, é Tasslehoff que está batendo as assas e
ameaçando devorar Caramon.
Tanis arfou.
— Mas o que vamos fazer? Ainda há centenas de draconianos por
aqui. Cedo ou tarde eles vão perceber o que está acontecendo.
— Vão até Caramon, você, Vento Ligeiro e Sturm. Peguem suas ar-
mas, mochilas e o cajado. Vou ajudar Lua Dourada a arrastar Raistlin para
a mata. Tasslehoff já tem um plano. Apenas esteja pronto.
Tanis resmungou.
— Não gosto disto mais do que você — o anão retrucou. — Con-
fiar nossas vidas a um kender cabeça-oca. Mas, bem, ele é a porcaria do
dragão, agora.
— De fato — disse Tanis, olhando o dragão que gritava, urrava e
batia suas asas, balançando para trás e para frente. Os draconianos estavam

178
maravilhados, de boca aberta. Tanis pegou Sturm e Vento Ligeiro e eles se
abaixaram perto de Lua Dourada, que não havia saído do lado de Raistlin.
O meio-elfo explicou o que estava acontecendo. Sturm olhou para ele como
se estivesse tão louco quanto Raistlin. Vento Ligeiro balançou a cabeça.
— Bem, vocês têm um plano melhor? — perguntou Tanis.
Ambos olharam para o dragão, depois de volta para Tanis, e cederam.
— Lua Dourada vai com o anão — disse Vento Ligeiro. Ela começou
a protestar. Ele a fitou, seus olhos sem expressão, e ela engoliu em seco e
ficou em silêncio.
— Sim — Tanis disse. — Fique com Raistlin, por favor. Vamos trazer
o cajado até você.
— Então corram — ela disse com os lábios brancos. — Ele está
quase partindo.
— Vamos correr — Tanis disse com seriedade. — Tenho a impressão
que, assim que as coisas começarem a acontecer, vamos estar em um movi-
mento muito rápido!— ele deu um toque na mão dela. — Vamos — ele se
levantou e respirou fundo.
Os olhos de Vento Ligeiro ainda estavam em Lua Dourada. Ele come-
çou a falar, mas balançou a cabeça irritado e se virou, sem dizer nada, para
ficar ao lado de Tanis. Sturm se juntou a eles. Os três se esgueiraram atrás
dos guardas draconianos.
Caramon ergueu sua espada. Ela brilhava com a luz da fogueira. O
dragão entrou em um frenesi selvagem e todos os draconianos recuaram,
zurrando e batendo suas espadas contra seus escudos. O vento das asas do
dragão soprava as cinzas e as fagulhas da fogueira, incendiando algumas
cabanas de bambu próximas. Os draconianos nem perceberam, do tanto
que estavam ávidos pela matança. O dragão gritou e uivou e Caramon
sentiu sua boca ficar seca e os músculos do seu estômago se apertarem. Era
a primeira vez que entraria em batalha sem o irmão. O pensamento fez seu
coração bater dolorosamente. Ele estavas prestes a saltar e atacar quando
Tanis, Sturm e Vento Ligeiro apareceram do nada para ficar ao seu lado.
— Não vamos deixar nosso amigo morrer sozinho! — o meio-elfo gritou
de forma desafiadora ao dragão. Os draconianos se animaram avidamente.
— Saia daqui, Tanis! — Caramon rosnou, com seu rosto vermelho e
traçado por lágrimas. — Esta luta é minha.
— Cale a boca e escute! — Tanis ordenou. — Pegue a sua espada e
a minha, Sturm. Vento Ligeiro, pegue suas armas, as mochilas e qualquer

179
arma draconiana que puder para substituir as que perdemos. Caramon,
pegue os dois cajados.
Caramon ficou olhando.
— O que...
— Tasslehoff é o dragão — disse Tanis. — Não tenho tempo para
explicar. Apenas faça o que eu digo! Pegue o cajado e entre na mata. Lua
Dourada está esperando — ele colocou a mão no ombro do guerreiro. Tanis
o empurrou. — Vai! Raistlin está quase morto! Você é a única chance.
A frase chegou à mente de Caramon. Ele correu até a pilha de armas e
pegou o cajado de cristal azul e o Cajado de Magius de Raistlin, enquanto
os draconianos gritavam. Sturm e Vento Ligeiro se armaram, com Sturm
levando a espada de Tanis para ele.
— E agora, preparem-se para morrer, humanos! — gritou o dragão.
Suas asas deram uma grande guinada e, de repente, a criatura voou, pairan-
do no ar. Os draconianos grasnaram e gritaram assustados, alguns fugindo
para a floresta, outros atirando-se no chão.
— Agora! — Tanis gritou. — Corra, Caramon!
O grande guerreiro partiu para a mata, correndo rapidamente até
onde podia ver Lua Dourada e Flint esperando por ele. Um draconiano
apareceu na frente dele, mas Caramon o arremessou para fora do caminho
com um golpe de seu braço enorme. Ele podia ouvir uma comoção selva-
gem atrás dele, Sturm entoando um grito de guerra solâmnico, draconianos
gritando. Outros draconianos saltaram em direção a Caramon. Ele usou
o cajado de cristal azul como vira Lua Dourada usá-lo, brandindo-o em
um arco amplo com sua enorme mão direita. Ele emitiu a chama azul e os
draconianos recuaram.
Caramon alcançou a floresta e encontrou Raistlin deitado aos pés de
Lua Dourada, mal respirando. Ela pegou o cajado com Caramon e colocou-
-o no corpo inerte do mago. Flint observou, balançando a cabeça.
— Não vai funcionar — resmungou o anão. — Já foi consumido.
— Tem que funcionar — disse Lua Dourada, com firmeza. — Por
favor — ela murmurou — quem quer que seja o mestre deste cajado, cure
este homem. Por favor — inconscientemente, ela repetiu isso várias vezes.
Caramon observou por um instante, piscando os olhos. Então, a floresta ao
seu redor foi iluminada por um clarão gigantesco de chamas.
— Em nome do Abismo! — Flint suspirou. — Olha isso!

180
Caramon se virou bem a tempo de ver o grande dragão negro de vime
bater de cabeça na fogueira ardente. Troncos flamejantes voaram no ar,
lançando fagulhas sobre o acampamento. As cabanas de bambu dos dra-
conianos, algumas já em chamas, começaram a queimar ferozmente. O
dragão de vime deu um grito final e horripilante e também pegou fogo.
— Tasslehoff! — Flint praguejou. — Aquele maldito kender... está
lá dentro! — antes que Caramon pudesse impedi-lo, o anão correu até o
acampamento draconiano em chamas.
— Caramon... — Raistlin murmurou. O guerreiro ajoelhou ao lado
do seu irmão. Raistlin ainda estava pálido, mas seus olhos estavam abertos.
Ele se sentou, fraco, apoiando-se me seu irmão e observou o fogo. — O que
está acontecendo?
— Não tenho certeza — Caramon disse.— Tasslehoff se transformou
em um dragão e, depois disso, tudo ficou muito confuso. Descanse — o
guerreiro olhou para dentro da fumaça, com a espada em mãos e pronta
caso os draconianos viessem atrás deles.
Mas, agora, os draconianos estavam pouco interessados nos prisionei-
ros. A raça menor, em pânico, estava fugindo para a floresta enquanto seu
grande dragão-deus pegava fogo. Os poucos draconianos em mantos, maio-
res e aparentemente mais inteligentes do que as outras espécies, estavam
tentando desesperadamente trazer ordem ao terrível caos que se alastrava
ao redor deles.
Sturm lutava e abria caminho através dos draconianos sem encontrar
uma resistência organizada. Ele tinha acabado de chegar à beira da clareira,
perto da jaula de bambu, quando Flint passou por ele, correndo de volta
para o acampamento!
— Ei! Para onde... — Sturm gritou para o anão.
— Tas, no dragão! — O anão continuou em frente.
Sturm se virou e viu o dragão negro de vime queimando com chamas
subiam no ar. Uma fumaça espessa emanava, cobrindo o acampamento,
e o ar úmido do pântano impedia que ela subisse e se afastasse. Fagulhas
choviam enquanto parte do dragão em chamas explodia no acampamento.
Sturm se abaixou e bateu faíscas que caíram em sua capa, depois correu
atrás do anão, alcançando facilmente o Flint de pernas curtas.
— Flint — ele disse ofegante, pegando o braço do anão. — É inútil.
Nada poderia sobreviver naquele forno! Temos que voltar para os outros...

181
— Me solta! — Flint rugiu tão furiosamente que Sturm o soltou, es-
pantado. O anão correu novamente até o dragão flamejante. Sturm deu um
suspiro e correu atrás dele, seus olhos começando a lacrimejar na fumaça.
— Tasslehoff Burrfoot! — Flint chamou. — Seu kender idiota! Onde
você está?
Não houve resposta.
— Tasslehoff!— Flint berrou. — Se você estragar esta fuga, eu te
mato. Então me ajuda...— lágrimas de frustração, remorso, raiva e fumaça
marcavam as bochechas do anão.
O calor era avassalador. Ela queimava os pulmões de Sturm e o cavalei-
ro sabia que eles não poderiam continuar respirando assim ou morreriam.
Ele segurou o anão com firmeza, pretendendo nocauteá-lo se necessário,
quando, de repente, viu um movimento na beira da chama. Ele esfregou os
olhos e viu mais de perto.
O dragão estava deitado no chão, a cabeça ainda presa ao corpo em
chamas por um longo pescoço de vime. A cabeça ainda não havia pegado
fogo, mas as chamas estavam começando a consumir o pescoço de vime.
Logo a cabeça também estaria queimando. Sturm viu o movimento de novo.
— Flint! Veja! — Sturm correu em direção à cabeça, o anão seguindo
ao seu lado. Duas perninhas dentro de calças azuis claras estavam saindo da
boca do dragão, chutando debilmente.
— Tas! — Sturm gritou. — Saia daí! A cabeça vai queimar!
— Não posso! Estou preso! — veio uma voz abafada.
Sturm olhou para a cabeça, tentando freneticamente encontrar uma
forma de libertar o kender, enquanto Flint pegou as pernas de Tas e puxou.
— Ai! Pare!— gritou Tas.
— Isso é ruim — o anão bufou. — Ele está bem preso.
O inferno subia pelo pescoço do dragão.
Sturm sacou sua espada.
— Eu posso cortar a cabeça — ele murmurou para Flint — mas é a
única chance — estimando o tamanho do kender, imaginando onde sua
cabeça estaria e esperando que suas mãos não estivessem esticadas acima da
cabeça, Sturm ergueu a espada acima do pescoço do dragão.
Flint fechou os olhos.
O cavaleiro respirou fundo e desceu a espada no dragão, separando a
cabeça do pescoço. Houve um grito do kender lá dentro, mas Sturm não
conseguia dizer se era de dor ou de surpresa.

182
— Puxe! — ele gritou para o anão.
Flint agarrou a cabeça de vime e puxou-a para longe do pescoço em
chamas. De repente, uma forma alta e escura emergiu da fumaça. Sturm se
virou rapidamente, com a espada pronta, e então viu que era Vento Ligeiro.
— O que você está... — O homem das Planícies olhou para a cabeça
do dragão. Talvez Flint e Sturm tivessem enlouquecido.
— O kender está preso lá dentro! — Sturm gritou.— Não podemos
abrir a cabeça aqui, cercados pelos draconianos! Temos que...
Suas palavras se perderam em um estrondo das chamas, mas Vento
Ligeiro finalmente viu as pernas azuis saindo da boca do dragão. Ele pegou
um lado da cabeça do dragão, enfiando as mãos em um dos olhos. Sturm
pegou o outro e, juntos, eles levantaram a cabeça, com o kender dentro,
e começaram a correr pelo acampamento. Os poucos draconianos que
encontraram deram uma olhada na visão apavorante e fugiram.
— Vamos, Raist — Caramon disse, prestativo, com o braço ao redor
dos ombros do irmão. — Você precisa se levantar. Temos que estar prontos
para sair daqui. Como você se sente?
— Como eu sempre me sinto? — sussurrou Raistlin, amargamente.
— Me ajude a levantar. Pronto! Agora, me deixe em paz por um instante
— ele se apoiou em uma árvore, tremendo, mas em pé.
— Claro, Raist — disse Caramon, magoado, se afastando. Lua Doura-
da fitou Raistlin com nojo, lembrando-se do remorso de Caramon quando
este achou que o irmão estava morrendo. Ela se afastou para observar os
outros, olhando através da fumaça acumulada.
Tanis apareceu primeiro, correndo tão rápido que trombou em Ca-
ramon. O guerreiro o pegou em seus braços enormes, interrompendo o
movimento do meio-elfo e o mantendo em pé.
— Obrigado! — Tanis arfou. Ele se curvou, com as mãos nos joelhos,
recuperando o fôlego. — Onde estão os outros?
— Não estavam com você?— Caramon estranhou.
— Nós nos separamos — Tanis puxava grandes quantidades de ar,
depois tossia quando a fumaça chegava aos seus pulmões.
— SuTorakh! — interrompeu Lua Dourada, com uma voz temerosa.
Tanis e Caramon se viraram juntos, alertas, observando o acampamento
cheio de fumaça para verem uma visão grotesca emergindo. Uma cabeça
de dragão com uma língua azul fendida avançava até eles. Tanis piscou

183
incrédulo, depois ouviu um som atrás dele que quase o fez pular em uma
árvore em pânico. Ele se virou, com o coração na boca e a espada na mão.
Raistlin estava rindo.
Tanis nunca ouvira o mago rir antes, mesmo quando Raistlin era
criança, e ele esperava que nunca mais o ouvisse. Era uma risada estranha,
estridente e zombeteira. Caramon olhou para o irmão com espanto, Lua
Dourada com horror. Finalmente, o som da risada de Raistlin foi sumindo
até que o mago estivesse rindo silenciosamente, seus olhos dourados refle-
tindo o brilho do acampamento draconiano ardendo em chamas.
Tanis estremeceu e virou-se para ver que, na verdade, a cabeça do
dragão era carregada por Sturm e Vento Ligeiro. Flint corria na frente, com
um elmo draconiano na cabeça. Tanis avançou para encontrá-los.
— Mas em nome dos--
— O kender está preso aqui dentro! — disse Sturm. Ele e Vento
Ligeiro soltaram a cabeça no chão, ambos respirando pesadamente.
— Temos que tirá-lo daí — Sturm olhou para o risonho Raistlin,
desconfiado. — O que ele tem? Ainda está envenenado?
— Não, está melhor — disse Tanis, examinando a cabeça do dragão.
— Que pena — Sturm murmurou enquanto se abaixava ao lado do
meio-elfo.
— Tas, você está bem? — Tanis falou, levantando a boca enorme para
ver lá dentro.
— Acho que Sturm cortou meu cabelo! — o kender lamentou.
— Sorte não ter sido sua cabeça! — Flint debochou.
— O que está o prendendo? — Vento Ligeiro se abaixou para espiar
dentro da boca do dragão.
— Não tenho certeza — Tanis disse, praguejando baixinho. — Só
consigo ver esta maldita fumaça — ele levantou, suspirando de frustração.
— E temos que sair daqui! Os draconianos vão se organizar em breve.
Caramon, venha aqui. Veja se consegue arrancar o topo.
O grande guerreiro ficou parado na frente da cabeça do dragão de
vime. Se preparando, pegou nos dois espaços dos olhos, se concentrou,
respirou fundo, depois grunhiu e soltou o ar. Por um minuto, nada acon-
teceu. Tanis viu os músculos incharem nos braços do grandalhão, viu os
músculos da coxa absorverem a tensão. O sangue correu para o rosto de
Caramon. Então, o som rasgado e estalante da madeira se despedaçando. O
topo da cabeça do dragão cedeu com uma rachadura acentuada. Caramon

184
cambaleou para trás quando a metade superior da cabeça saiu de repente
em suas mãos.
Tanis se esticou, pegou a mão de Tas e o libertou.
— Você está bem? — ele perguntou. O kender parecia estar vacilante,
mas seu sorriso estava largo como sempre.
— Estou bem — disse Tas, vividamente. — Apenas um pouco quei-
mado — então, sua face ficou sombria. — Tanis — ele disse, seu rosto
com uma preocupação incomum. Ele tocou seu longo rabo-de-cavalo.
— Meu cabelo?
— Está tudo aí — disse Tanis, sorrindo.
Tas deu um suspiro de alívio. Depois, começou a falar.
— Tanis, foi a coisa mais maravilhosa, voar daquele jeito. E o olhar o
rosto de Caramon...
— A história terá que esperar — disse Tanis com firmeza. — Temos
que sair daqui. Caramon? Você e seu irmão vão conseguir?
— Sim, vamos lá — disse Caramon.
Raistlin cambeteou para frente, aceitando o apoio do braço forte do
seu irmão. O mago olhou para trás, para a cabeça do dragão partida e
ofegou, os ombros tremendo em uma alegria silenciosa e sombria.

185
15
Fuga. O poço.
Morte em asas negras.

fumaça do acampamento draconiano em chamas pairava sobre


os pântanos sombrios, protegendo os companheiros dos olhos
das estranhas criaturas malignas. A fumaça pairava como um
fantasma pelos pântanos, flutuando em frente da lua prateada e obscu-
recendo as estrelas. Os companheiros não se atreviam a acender uma luz
— nem mesmo a do cajado de Raistlin —, pois podiam ouvir berrantes
soprando ao redor deles enquanto os líderes draconianos tentavam resta-
belecer a ordem.
Vento Ligeiro os liderava. Embora Tanis sempre tivesse se orgulhado
de suas habilidades na floresta, ele perdeu todo o senso de direção na lama
enevoada e escura. Um vislumbre ocasional das estrelas, sempre que a
fumaça subia, mostrava que eles estavam indo para o norte.
Eles não tinham andado muito quando Vento Ligeiro errou um passo
e afundou até os joelhos na lama. Depois que Tanis e Caramon tiraram o
homem das Planícies da água, Tasslehoff passou para a frente, testando o
chão com o seu hoopak. Ele afundou todas as vezes.
— Não temos escolha além de entrar na água — disse Vento Li-
geiro, sério.
Escolhendo um caminho onde a água parecia mais rasa, os compa-
nheiros deixaram o chão firme e mergulharam na lama. No início estava
apenas na altura dos tornozelos, depois eles afundaram até os joelhos.
Logo, afundaram ainda mais. Tanis foi forçado a carregar Tasslehoff, com o
kender risonho segurando em seu pescoço. Flint recusava firmemente todas
as ofertas de ajuda, mesmo quando a ponta da barba ficou molhada. Então,
ele sumiu. Caramon, atrás dele, pescou o anão para fora da água e jogou-o
no ombro como um saco molhado, o anão muito cansado e com medo para
resmungar. Raistlin tropeçava através da água, tossindo, com seus mantos
o puxando para baixo. Cansado e ainda fraco por causa do veneno, o mago
finalmente desabou. Sturm o pegou e meio arrastou, meio carregou o mago
através do pântano.
Depois de uma hora de dificuldade na água gelada, eles finalmente
chegaram à terra firme e pararam para descansar, tremendo de frio.
As árvores começaram a ranger e chiar, seus galhos se dobrando
enquanto um vento forte surgia do norte. O vento soprava a névoa em far-
rapos finos. Raistlin, deitado no chão, olhou para cima. O mago recuperou
o seu fôlego e se sentou, preocupado.
— Nuvens de tempestade — ele engasgou, tossindo e se esforçando
para falar. — Elas vêm do norte. Estamos sem tempo. Sem tempo! Temos
que chegar a Xak Tsaroth. Depressa! Antes da lua se pôr!
Todos olharam para cima. Uma escuridão crescente se movia do norte,
engolindo as estrelas. Tanis podia sentir a mesma urgência que estava impe-
lindo o mago. Cansado, ele se levantou. Sem uma palavra, o resto do grupo
se levantou e seguiu em frente, com Vento Ligeiro assumindo a liderança.
Mas a água escura do pântano bloqueava novamente o seu caminho.
— De novo não! — Flint lastimou.
— Não, nada de entrar na água de novo. Venham ver — disse Vento
Ligeiro. Ele liderou o caminho até a margem da água. Lá, em meio a
muitas outras ruínas projetando-se do chão úmido, havia um obelisco
que caíra ou fora empurrado formando uma ponte que cruzava para a
outra margem do pântano.

187
— Eu vou primeiro — Tas se ofereceu, saltando animado sobre a
pedra comprida. — Ei, tem uns escritos nesta coisa. Runas de algum tipo.
— Eu tenho que ver! — Raistlin sussurrou, se apressando. Ele disse a
palavra de comando Shirak, e o cristal na ponta do seu cajado emitiu a luz.
— Depressa! — Sturm resmungou. — Você acabou de mostrar a
todos em um raio de trinta quilômetros que estamos aqui.
Mas Raistlin não seria apressado. Ele colocou a luz sobre as runas ara-
nhosas, estudando-as com atenção. Tanis e os outros subiram no obelisco e
se juntaram ao mago.
O kender se curvou, traçando as runas com sua mão pequena.
— O que elas dizem, Raistlin? Você consegue ler? O idioma parece
bem antigo.
— É antigo — o mago sussurrou. — É datado de antes do Cataclismo.
As runas dizem “a Grande Cidade de Xak Tsaroth, cuja beleza o cerca, fala da
bondade do seu povo e dos seus feitos generosos. Os deuses nos recompensaram
na benevolência do nosso lar”.
— Que terrível! — Lua Dourada estremeceu, olhando as ruínas e a
desolação ao seu redor.
— De fato, os deuses os recompensaram — disse Raistlin, seus lábios
esboçando um sorriso cínico. Ninguém falou. Então, Raistlin sussurou
Dulak e apagou a luz. De repente, a noite parecia bem mais escura.
— Precisamos seguir em frente — o mago disse. — Com certeza existe
mais do que um monumento caído para marcar o que este lugar já foi.
Eles cruzaram o obelisco para a mata densa. A princípio, parecia não
haver uma trilha, então Vento Ligeiro, procurando diligentemente, encon-
trou uma atravessando as videiras e as árvores. Ele se curvou para estudá-la.
Seu rosto estava sério quando se levantou.
— Draconianos? — perguntou Tanis.
— Sim — ele disse, pesaroso. — Rastros de muitos pés com garras. E
eles vão para o norte, direto para a cidade.
Tanis perguntou em voz baixa.
— Esta é a cidade destruída onde você recebeu o cajado?
— E onde a morte tinha asas negras — Vento Ligeiro acrescentou.
Ele fechou os olhos, passando a mão sobre o rosto. Depois, deu um suspiro
longo e irregular. — Não sei. Não consigo me lembrar... mas tenho medo,
sem saber o porquê.
Tanis colocou a mão no braço de Vento Ligeiro.

188
— Os elfos têm um provérbio: “Apenas os mortos não têm medo”.
Vento Ligeiro o surpreendeu ao apertar de repente a mão do meio-elfo
com a dele.
— Eu nunca conheci um elfo — disse o homem das Planícies. —
Meu povo não confiava neles, dizendo que os elfos não se importavam com
Krynn ou os humanos. Acho que meu povo estava enganado. Fico feliz em
conhecê-lo, Tanis de Qualinost. Eu o considero como um amigo.
Tanis sabia o suficiente sobre as Planícies para perceber que, com esta
afirmação, Vento Ligeiro havia declarado que estava disposto a sacrificar
tudo pelo meio-elfo... até mesmo sua vida. Um voto de amizade era um
voto solene entre o povo da Planície.
— Você também é meu amigo, Vento Ligeiro — Tanis disse. — Você
e Lua Dourada são meus amigos.
Vento Ligeiro voltou os olhos para Lua Dourada, que estava perto
deles, apoiando-se em seu cajado, de olhos fechados, o rosto marcado pela
dor e exaustão. O rosto de Vento Ligeiro abrandou-se com compaixão
quando olhou para ela. Depois, endureceu novamente, com a máscara séria
do orgulho colocada novamente.
— Xak Tsaroth não está longe — disse friamente. — E esses rastros
são velhos. — Ele liderou o caminho pela mata. Após uma curta caminha-
da, a trilha do norte subitamente passou a ser de paralelepípedos.
— Uma rua! — Tasslehoff exclamou.
— Os arredores de Xak Tsaroth! — Raistlin suspirou.
— Já era hora! — Flint olhou ao redor, em desgosto. — Que bagunça!
Se o maior presente dado aos homens estiver aqui, deve estar bem escondido!
Tanis concordou. Ele nunca vira um lugar mais deplorável. Enquanto
caminhavam, a rua larga os levou a um pátio aberto e pavimentado. Ao
leste, havia quatro colunas altas e independentes que não sustentavam
nada. Uma construção em ruínas estava ao redor delas. Um grande muro
de pedra circular e intacto se erguia a aproximadamente um metro e meio
do solo. Andando ao redor para inspecioná-lo, Caramon anunciou que era
um poço.
— Bem fundo — disse. Ele se apoiou e olhou dentro dele. — Também
cheira mal.
Ao norte do poço, estava o que parecia ser a única construção que
escapou da destruição do Cataclismo. Era cuidadosamente construída em

189
pedra branca pura, sustentada por colunas altas e delgadas. Grandes portas
duplas douradas reluziam no luar.
— Isto era um templo para os deuses antigos — disse Raistlin, mais
para si mesmo do que para os outros. Mas Lua Dourada, parada perto dele,
ouviu o sussurro suave.
— Um templo? — ela repetiu, contemplando a construção. — Como
é bonito — ela andou em direção a ele, estranhamente fascinada.
Tanis e os outros vasculharam o terreno e não encontraram outras
construções intactas. Colunas estriadas estavam no chão, suas partes
quebradas alinhadas para mostrar sua beleza anterior. Estátuas estavam
quebradas e, em alguns casos, desfiguradas grotescamente. Tudo era antigo,
mas tão antigo, que fazia o anão se sentir jovem.
Flint se sentou em uma coluna.
— Bem, estamos aqui — ele piscou para Raistlin e bocejou. — E
agora, mago?
Os lábios finos de Raistlin se abriram, mas, antes que pudesse respon-
der, Tasslehoff berrou:
— Draconiano!
Todos se viraram, com as armas em mãos. Um draconiano, pronto
para se mover, estava olhando para eles na beira do poço
— Parem! — Tanis gritou. — Isso alertará os outros!
Mas antes que alguém pudesse alcançá-lo, o draconiano abriu suas
asas e voou para dentro do poço. Raistlin, com os olhos dourados brilhando
no luar, correu até o poço e olhou sobre a borda. Levantando a mão como
se fosse conjurar uma magia, ele hesitou, depois baixou a mão fracamente
ao seu lado.
— Não consigo — ele disse. — Não consigo pensar. Não consigo me
concentrar. Preciso descansar!
— Estamos todos cansados — Tanis disse, desgastado. — Se houver
algo lá em baixo, foi alertado. Não há nada que possamos fazer agora.
Temos que descansar.
— Ele foi avisar alguma coisa — Raistlin sussurrou. Ele se envolveu
em seu manto e olhou ao redor, com olhos arregalados. — Não conseguem
sentir? Ninguém? Meio-elfo? O mal prestes a despertar e aparecer.
O silêncio tomou conta.
Então, Tasslehoff subiu na parede de pedra e olhou para baixo.

190
— Vejam! O draconiano está flutuando para baixo, como uma folha.
Suas asas não batem...
— Silêncio! — Tanis repreendeu.
Tasslehoff olhou para o meio-elfo com surpresa. A voz de Tanis
parecia tensa e anormal. O meio-elfo olhava fixo para o poço, com os
punhos cerrados nervosamente. Tudo estava quieto. Quieto demais. As
nuvens de tempestade se acumulavam ao norte, mas não havia vento. Ne-
nhum galho rangia, nenhuma folha se movia. A lua prateada e a vermelha
projetavam sombras gêmeas que deixavam as coisas vistas pelo canto do
olho irreais e distorcidas.
Então, lentamente, Raistlin se afastou do poço, levantando as mãos
diante de si, como se estivesse se protegendo de um perigo terrível.
— Eu também senti — Tanis engoliu o seco. — O que foi?
— Sim, o que foi? — se inclinando para frente, Tasslehoff olhava
avidamente para o poço. Ele parecia tão profundo e escuro quanto os olhos
de ampulheta do mago.
— Tirem ele dali! — Raistlin gritou.
Infectado pelo medo do mago e sua própria sensação crescente de que
algo estava muito errado, Tanis começou a correr até Tas. Ao começar a se
mover, contudo, ele sentiu o chão tremendo sob seus pés. O kender deu um
grito assustado enquanto a antiga parede de pedra do poço rachava e cedia
embaixo dele. Tas sentiu que deslizava para a escuridão terrível abaixo. Ele
debateu freneticamente as mãos e os pés, tentando agarrar as pedras que des-
moronavam. Tanis se jogou de forma desesperada, mas estava muito longe.
Vento Ligeiro começara a se mover quando escutou o grito de Raistlin
e as passadas longas e rápidas do homem alto o levaram rapidamente ao
poço. Pegando Tas pelo colarinho, o homem das Planícies o puxou do
muro assim que as pedras e a argamassa caíram na escuridão abaixo.
O chão tremeu novamente. Tanis tentou forçar sua mente entorpecida
a pensar no que estava acontecendo. Então, uma rajada de ar frio foi expe-
lida do poço. O vento levantou a poeira e as folhas do pátio no ar, batendo
no rosto e nos olhos.
— Corram! — Tanis tentou gritar, mas ficou engasgado com o fedor
imundo que emanava do poço.
As colunas que ficaram em pé depois do Cataclismo começaram a
tremer. Os companheiros contemplaram o poço com medo. Então, Vento
Ligeiro afastou seu olhar.

191
— Lua Dourada... — disse, olhando ao redor. Ele colocou Tas no
chão. — Lua Dourada! — ele parou quando o grito estridente e agudo sur-
giu das profundezas do poço. O som era tão alto e ressoante que penetrava
na cabeça. Vento Ligeiro procurava Lua Dourada, gritando o nome dela.
Tanis ficou atordoado pelo barulho. Incapaz de se mover, viu Sturm,
com a espada na mão, se afastar lentamente do poço. Viu Raistlin, o rosto
apavorante do mago reluzindo o amarelo metálico, seus olhos dourados
na luz da lua vermelha, gritar algo que Tanis não conseguiu ouvir. Viu
Tasslehoff contemplando o poço com os olhos arregalados de admiração.
Sturm correu pelo pátio, pegou o kender em um braço, e correu em direção
às árvores. Caramon foi até seu irmão exausto, o pegou nos braços e partiu
para procurar cobertura. Tanis sabia que um mal monstruoso estava subin-
do pelo poço, mas não conseguia se mover. As palavras “corra, tolo, corra”
berravam em seu cérebro.
Vento Ligeiro também ficou perto do poço, lutando contra o medo
crescente dentro de si: não conseguia encontrar Lua Dourada! Distraído pelo
resgate do kender que caía no poço, não vira a filha do chefe se aproximar
do templo intocado. Ele olhava ao redor loucamente, lutando para manter o
equilíbrio enquanto o chão tremia sob seus pés. O som agudo e estridente,
e a batida e o tremor do solo, traziam memórias horrendas e apavorantes.
“Morte com asas negras”. Ele começou a suar e tremer, então forçou sua
mente a se concentrar em Lua Dourada. Ela precisava dele e ele, somente ele,
sabia que a demonstração de força dela apenas escondia seus medos, dúvidas
e incertezas. Ela estaria com muito medo e ele precisava encontrá-la.
Quando as pedras começaram a deslizar, Vento Ligeiro se afastou
e avistou Tanis. O meio-elfo estava gritando e apontando para além de
Vento Ligeiro, em direção ao templo. Vento Ligeiro sabia que Tanis estava
dizendo algo, mas não conseguia escutar além do som estridente. Então, ele
entendeu! Lua Dourada! Vento Ligeiro virou-se para ir até ela, mas perdeu
o equilíbrio e caiu de joelhos. Ele viu Tanis começar a correr em sua direção.
Então, o horror surgiu do poço, o horror dos seus pesadelos febris.
Vento Ligeiro fechou os olhos e não viu mais nada.
Era uma dragoa.

Nos primeiros instantes, quando o sangue parecia ser drenado do seu


corpo, o deixando mole e sem vida, Tanis olhou para a dragoa enquanto ela
saía o poço e pensou, “Como é linda... como é linda...!”

192
Elegante e negra, a dragoa subia, suas asas reluzentes dobradas nas suas
laterais, as escamas brilhando. Seus olhos brilhavam em vermelho e preto, a
cor da rocha derretida. Sua boca se abria em um grunhido, dentes brilhando
brancos e perversos. Sua língua vermelha e longa se enrolava enquanto ela
respirava o ar da noite. Livre dos limites do poço, a dragoa abriu suas asas,
tampando as estrelas, obliterando o luar. Cada asa tinha na ponta uma garra
branca e pura que brilhava em vermelho-sangue na luz de Lunitari.
Um medo que Tanis jamais sentira fez seu estômago revirar. Seu co-
ração batia dolorosamente, não conseguia recuperar o fôlego. Só conseguia
olhar em terror e espanto e se maravilhar com a beleza letal da criatura. A
dragoa circulava cada vez mais alto no céu noturno. Assim que Tanis sentiu
que o medo paralisante começou a ceder, assim que tentou pegar seu arco
e flechas, a dragoa falou.
Ela disse uma palavra, uma palavra no idioma da magia, e uma escu-
ridão espessa e terrível caiu do céu, cegando a todos. Tanis perdeu instanta-
neamente a noção de onde estava. Só sabia que havia um dragão acima dele,
prestes a atacar, e que ele era incapaz de se defender. Tudo que conseguia
fazer era se abaixar, rastejar pelas ruínas e tentar se esconder, desesperado.
Sem seu sentido da visão, o meio-elfo se concentrou na sua audição.
O ruído estridente havia parado quando a escuridão caiu. Tanis podia ouvir
a batida lenta e suave das asas coriáceas da dragoa e sabia que ela estava
circulando acima deles, subindo cada vez mais. Então, não conseguia mais
ouvir as batidas. As asas haviam parado de se mover. Ele visualizou uma ave
de rapina enorme e sombria, pairando sozinha, esperando.
Então houve um farfalhar muito suave, o som de folhas tremendo
quando o vento aumenta antes de uma tempestade. O som aumentou mais
e mais até virar o vento forte de quando a tempestade começa e, então, veio
o ruído do furacão. Tanis pressionou seu corpo contra o poço destruído e
cobriu sua cabeça com os braços.
A dragoa estava atacando.

Ela não conseguia enxergar através da escuridão que havia lançado,


mas Khisanth sabia que os intrusos ainda estavam no pátio abaixo. Seus
lacaios draconianos a avisaram que um grupo andava pelo terreno carregan-
do o cajado de cristal azul. Lorde Verminaard queria aquele cajado, queria
deixá-lo seguro com ela, para nunca ser visto em terras humanas. Mas ela
havia o perdido e Lorde Verminaard não estava satisfeito. Ela precisava

193
recuperá-lo. Portanto, Khisanth esperara um momento antes de lançar
sua magia de escuridão, estudando os intrusos com cuidado, procurando
o cajado. Sem perceber que ele já havia passado além da sua visão, ficou
satisfeita. Ela só precisava destruir.
A dragoa atacante caiu do céu, suas asas de couro curvas como a
lâmina de uma adaga negra. Ela mergulhou direto para o poço, onde vira
os intrusos correndo para salvarem suas vidas. Sabendo que eles ficariam
paralisados pelo medo dracônico, Khisanth estava certa de que mataria a
todos com uma só passada. Ela abriu sua boca cheia de presas.

Tanis ouviu a dragoa se aproximando. O grande som rápido ficava mais


e mais alto e, então, parou por um instante. Ele podia escutar os tendões
imensos rangendo, levantando e abrindo as asas gigantes. Então, ele ouviu
um som alto de suspiro, como o do ar sendo puxado por uma garganta
imensa, depois o ruído estranho que parecia com o do vapor saindo de uma
chaleira fervente. Alguma coisa líquida caiu perto dele. Conseguia ouvir as
rochas partindo, rachando e borbulhando. Gotas do líquido respingaram em
sua mão e ele engasgou quando uma dor lancinante penetrou em seu ser.
Então, Tanis ouviu um grito. Era um grito de uma voz profunda, de
um homem... Vento Ligeiro. O grito foi tão terrível e agonizante que Tanis
enterrou suas unhas nas palmas das mãos para não adicionar sua voz ao la-
mento horrível e revelar sua posição para a dragoa. O grito parecia continuar,
continuar, até sumir com um gemido. Tanis sentiu a passagem de um corpo
imenso perto dele na escuridão. As pedras nas quais ele pressionava seu corpo
balançaram. Então, o tremor da passagem da dragoa foi diminuindo cada vez
mais nas profundezas do poço. Por fim, o chão ficou inerte.
Havia um silêncio.
Tanis respirou dolorosamente e abriu os olhos. A escuridão desvane-
cera. As estrelas iluminavam, as luas brilhavam no céu. Por um momento,
tudo que o meio-elfo podia fazer era respirar e respirar mais, tentando
acalmar seu corpo trêmulo. Logo ele estava de pé, correndo em direção a
uma forma escura deitada no chão de pedra do pátio.
Tanis foi o primeiro a chegar ao corpo do homem das Planícies. Ele
deu uma olhada, depois se assustou e se virou.
O que restava de Vento Ligeiro não parecia mais com algo humano. A
carne do homem fora dissolvida em seu corpo. O branco dos ossos estava
claramente visível onde pele e músculos derreteram dos seus braços. Seus

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olhos escorriam como geleia pelo seu rosto cadavérico e sem carne. Sua
boca estava aberta em um grito silencioso. Suas costelas estavam expostas,
com pedaços de carne e roupas dissolvidas penduradas nos ossos. Mas, o
mais horrível, era que a carne do seu torso fora dissolvida, deixando os
órgãos expostos, pulsando vermelhos no luar escarlate gritante.
Tanis desabou, vomitando. O meio-elfo havia visto homens mor-
rendo pela sua espada. Visto eles serem destroçados por trolls. Mas isto...
era horrivelmente diferente e Tanis sabia que esta memória o assombraria
para sempre. Um braço forte o pegou pelos ombros, oferecendo conforto,
solidariedade e entendimento silenciosos. A náusea passou. Tanis se sentou
e respirou. Ele limpou a boca e o nariz, depois tentou se forçar a engolir,
puxando dolorosamente.
— Você está bem? — perguntou Caramon, preocupado.
Tanis assentiu, incapaz de falar. Então, virou-se ao ouvir a voz de Sturm.
— Que os deuses verdadeiros tenham piedade! Tanis, ele está vivo! Eu
vi sua mão se mexer! — Sturm engasgou. Não conseguia mais falar.
Tanis se levantou e andou trêmulo em direção ao corpo. Uma das
mãos queimadas e escurecidas havia se levantado das pedras, erguida hor-
rivelmente no ar.
— Acabe com isso — disse Tanis roucamente, sua garganta corroída
pela bile. — Acabe com isso! Sturm...
O cavaleiro já havia sacado sua espada. Beijando o punho, levantou a
lâmina no céu e parou diante do corpo de Vento Ligeiro. Fechou os olhos
e se retirou mentalmente para um mundo antigo, onde a morte em batalha
era gloriosa e bela. Lenta e solenemente, começou a recitar o antigo Cântico
Solâmnico da Morte. Enquanto falava as palavras que tomariam conta da
alma do guerreiro e a levaria para os reinos vindouros da paz, inverteu a
lâmina da espada e se posicionou acima do peito de Vento Ligeiro.

Que no coração de Huma este homem possa entrar


Além do firmamento selvagem viajar;
Que o descanso do guerreiro possa encontrar
E a última faísca dos seus olhos livrar
Das nuvens sufocantes que a guerra produz
Sob as tochas das estrelas, na sua luz.
Que o último suspiro da sua sorte
Se refugie no ar consolador

195
Acima dos sonhos do corvo voador
Onde apenas o falcão se lembra da morte.
Então que sua alma até Huma possa chegar,
Além do firmamento selvagem viajar.

A voz do cavaleiro parou.


Tanis sentiu a paz dos deuses lavá-lo como uma água fresca e purifican-
te, reduzindo seu remorso e escondendo o horror. Ao seu lado, Caramon
chorava em silêncio. Enquanto olhavam, o luar reluzia na lâmina da espada.
Então, uma voz clara falou.
— Pare. Traga-o até mim.
Tanis e Caramon saltaram para ficar na frente do corpo torturado
do homem, sabendo que Lua Dourada deveria ser poupada desta visão
horrenda. Perdido na tradição, Sturm voltou para a realidade com o susto
e desviou seu golpe letal. Lua Dourada parou, uma silhueta alta e esguia
contra as portas douradas do templo iluminadas pelo luar. Tanis tentou
falar, mas sentiu de repente a mão fria do mago pegar seu braço. Tremendo,
ele se afastou do toque de Raistlin.
— Façam o que ela diz — o mago sibilou. — Carreguem-no até ela.
O rosto de Tanis se contorceu de fúria ao ver o rosto sem expressão e
os olhos indiferentes de Raistlin.
— Levem-no até ela — Raistlin disse friamente. — Não cabe a nós
escolher a morte para este homem. Isso cabe aos deuses.

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16
Uma escolha amarga.
O maior presente.

anis encarou Raistlin. Nem o tremor de uma pálpebra traia seus


sentimentos — se o mago tivesse algum sentimento. Seus olhos
se encontraram e, como sempre, Tanis sentiu que o mago via mais
do que estava visível. De repente, Tanis odiou Raistlin, o odiava com uma
paixão que chocava o meio-elfo, o odiava por não sentir essa dor, o odiava
e o invejava ao mesmo tempo.
— Precisamos fazer algo! — disse Sturm, de forma dura. — Ele não
está morto e a dragoa pode voltar!
— Muito bem — disse Tanis, sua voz falhando em seu pescoço. — En-
role-o em um cobertor... Mas me dê um momento a sós com Lua Dourada.
O meio-elfo andou lentamente pelo pátio. Seus passos ecoavam na
quietude da noite enquanto ele subia os degraus de mármore para uma
entrada ampla onde Lua Dourada estava, em frente às portas douradas
cintilantes. Olhando para trás, Tanis podia ver seus amigos enrolando os
cobertores de suas mochilas em galhos de árvores para fazer uma maca
improvisada. O corpo do homem não era nada além de uma massa escura
e disforme no luar.
— Traga-o até mim, Tanis — Lua Dourada repetiu enquanto o meio-
-elfo se aproximava. Ele pegou a mão dela.
— Lua Dourada — disse Tanis — Vento Ligeiro ficou terrivelmen-
te ferido. Ele está morrendo. Não há nada que possa fazer... nem mesmo
o cajado...
— Pare, Tanis — disse Lua Dourada com gentileza.
O meio-elfo ficou em silêncio, a vendo claramente pela primeira vez.
Impressionado, percebeu que a mulher das Planícies estava tranquila, cal-
ma, exaltada. Seu rosto no luar era o de um marinheiro que combatera os
mares tormentosos em um barco frágil e finalmente chegara a águas calmas.
— Entre no templo, meu amigo — disse Lua Dourada, seus belos olhos
fitando atentamente os de Tanis. — Entre e traga Vento Ligeiro até mim.

Lua Dourada não tinha escutado a dragoa se aproximando, nem visto


seu ataque contra Vento Ligeiro. Quando entraram no pátio destruído de
Xak Tsaroth, Lua Dourada sentiu uma força estranha e poderosa a atraindo
para o templo. Ela andou pelas ruínas e subiu a escada, indiferente a tudo,
exceto às portas douradas brilhando no luar prata-avermelhado. Ela se
aproximou e parou diante delas por um instante. Então, ficou ciente da
comoção atrás dela e ouviu Vento Ligeiro chamando o seu nome.
— Lua Dourada... — ela parou, não querendo deixar Vento Ligeiro e
seus amigos, sabendo que um mal terrível estava surgindo do poço.
— Entre, criança — uma voz suave a chamou.
Lua Dourada ergueu a cabeça e olhou para as portas. Seus olhos se en-
cheram de lágrimas. A voz era da sua mãe. Sacerdotisa dos Que-shu, Canção
Triste morrera há muito tempo, quando Lua Dourada era muito nova.
— Canção Triste? — Lua Dourada engasgou. — Mãe...
— Os anos foram muitos e tristes para você, minha filha — a voz
da sua mãe era mais sentida em seu coração do que ouvida — e eu temo
que seu fardo não ficará mais leve tão cedo. De fato, se continuar, você
deixará esta escuridão apenas para entrar em uma escuridão ainda maior. A
verdade iluminará seu caminho, minha filha, embora você possa encontrar
sua luz brilhando fraca na vasta e terrível noite à frente. Ainda assim, sem a

199
verdade, tudo morrerá e será perdido. Entre no templo comigo, filha. Você
encontrará o que procura.
— Mas meus amigos, Vento Ligeiro — Lua Dourada olhou para trás no
poço e viu Vento Ligeiro tropeçar nos paralelepípedos trêmulos. — Eles não
podem lutar contra este mal. Vão morrer sem mim. O cajado pode ajudar!
Não posso deixá-los! — Ela começou a voltar quando a escuridão caiu.
— Não consigo vê-los... Vento Ligeiro... Mãe, me ajude — ela chorou
em agonia.
Mas não houve resposta. Não é justo! Lua Dourada protestou em
silêncio, cerrando os punhos. Nós nunca queríamos isto! Só queríamos nos
amar, e agora... agora podemos perder até isso! Nós sacrificamos tanto e
nada disso fez alguma diferença. Eu tenho trinta anos, mãe! Trinta anos e
sem filhos. Eles tomaram minha juventude, tomaram o meu povo. E eu
não tenho nada para mostrar em troca. Nada... exceto isto! Ela balançou o
cajado. E agora me pedem novamente para ceder ainda mais!
Sua raiva abrandou. Vento Ligeiro... ele ficara nervoso todos aqueles
anos enquanto procurava respostas? Tudo o que ele encontrou foi este caja-
do, que só trouxe mais perguntas. Não, ele não ficara nervoso, ela pensou.
Sua fé é forte. Eu sou a fraca. Vento Ligeiro estava disposto a morrer por
sua fé. Parece que eu devo estar disposta a viver... mesmo que signifique
viver sem ele.
Lua Dourada apoiou sua cabeça nas portas douradas, sua superfície
de metal fria para sua pele. Relutante, ela tomou sua decisão amarga. Vou
seguir em frente mãe... mas, se Vento Ligeiro morrer, meu coração morrerá
também. Só peço uma coisa: se ele morrer, deixe-o saber, de alguma forma,
que eu continuarei sua busca.
Se apoiando no cajado, a Chefe dos Que-shu empurrou as portas
douradas para abrir e entrou no templo. As portas atrás dela se fecharam no
momento exato em que a dragoa negra surgiu do poço.

Lua Dourada entrou na escuridão circundante e suave. Não conseguia


ver nada no início, mas uma memória de se sentir aconchegada no abraço
quente da sua mãe passou pela sua mente. Uma luz pálida começou a
brilhar ao seu redor. Lua Dourada viu que estava sob uma cúpula enorme
que se elevava acima de um piso com um mosaico elaborado. Sob a cúpula,
no centro da sala, havia uma estátua de mármore de graça e beleza ímpares.
A luz na sala emanava desta estátua. Hipnotizada, Lua Dourada se moveu

200
em direção a ela. A estátua era de uma mulher com roupas esvoaçantes. Seu
rosto de mármore tinha uma expressão de esperança radiante, temperada
com tristeza. Um amuleto estranho estava pendurado em seu pescoço.
— Esta é Mishakal, deusa da cura, a quem eu sirvo — disse a voz da
sua mãe. — Ouça as palavras dela, minha filha.
Lua Dourada parou diretamente na frente da estátua, maravilhada
com sua beleza. Mas parecia inacabada, incompleta. Faltava parte da es-
tátua, percebeu Lua Dourada. As mãos da mulher de mármore estavam
curvadas, como se estivessem segurando uma haste longa e fina, mas as
mãos estavam vazias. Sem pensar, apenas pela necessidade de completar tal
beleza, Lua Dourada colocou seu cajado nas mãos da estátua.
Ela começou a emitir um luz azul suave. Assustada, Lua Dourada se
afastou. A luz do cajado aumentou até um esplendor cegante. Ela protegeu
seus olhos e caiu de joelhos. Um poder grande e amoroso preencheu seu
coração e ela se arrependeu amargamente da sua raiva.
— Não tenha vergonha do seu questionamento, amada discípula. Foi seu
questionamento que a trouxe até nós e é a sua raiva que a sustentará durante os
vários desafios no futuro. Você veio em busca da verdade e a receberá.
— Os deuses não se afastaram dos homens... foram os homens que se
afastaram dos deuses verdadeiros. Krynn está prestes a enfrentar seu maior
desafio. Os homens precisarão da verdade mais do que nunca. Você, minha
discípula, deve devolver a verdade e o poder dos deuses verdadeiros aos homens.
É hora de restaurar o equilíbrio do universo. O mal pesou a balança. Pois como
os deuses do bem voltaram aos homens, também voltaram os malignos, lutando
constantemente pelas almas dos homens. A Rainha das Trevas voltou, buscando
o que a permitirá andar livremente nesta terra mais uma vez. Dragões,outrora
banidos para as regiões inferiores, agora caminham pelo mundo.
Dragões, Lua Dourada pensou, sonhadora. Ela tinha dificuldade em
se concentrar e entender as palavras que inundavam sua mente. Só mais
tarde entenderia integralmente a mensagem. Então, se lembraria das pala-
vras para sempre.
— Para ganhar o poder para derrotá-los, você precisará da verdade dos
deuses, este é o maior presente, aquele que disseram para você. Abaixo deste
templo, nas ruínas assombradas pelas glórias de eras passadas, descansam os
Discos de Mishakal; discos circulares feitos de platina brilhante. Encontre os
Discos e poderá invocar o meu poder, pois sou Mishakal, a deusa da cura.

201
— Seu caminho não será fácil. Os deuses malignos sabem e temem o gran-
de poder da verdade. A ancestral e poderosa dragoa negra, Khisanth, conhecida
pelos homens como Ônix, guarda os Discos. Seu lar fica na cidade destruída
de Xak Tsaroth, abaixo de nós. O perigo a aguarda, se você escolher recuperar
os Discos. Portanto, eu abençoo este cajado. Apresente-o corajosamente, nunca
vacile e você prevalecerá.
A voz sumiu. Foi quando Lua Dourada ouviu o grito de morte de
Vento Ligeiro.

Tanis entrou no templo e sentiu como se estivesse numa memória


antiga. O sol estava brilhando através das árvores em Qualinost. Ele, Lau-
rana e o irmão dela, Gilthanas, estavam deitados na beira do rio, rindo e
compartilhando sonhos após algum jogo infantil. Os dias felizes de infância
foram poucos para Tanis, pois o meio-elfo aprendeu cedo que era diferente
dos outros. Mas aquele dia tinha sido um dia de sol dourado e amizade
calorosa. A paz lembrada tomou conta dele, aliviando sua dor e seu horror.
Ele se virou para Lua Dourada, parada em silêncio ao seu lado.
— Que lugar é este?
— Esta é uma história que precisa esperar, respondeu Lua Dourada.
Com uma mão leve no braço de Tanis, ela o levou pelo chão de ladrilhos
cintilantes até que ambos pararam diante da estátua de mármore reluzente
de Mishakal. O cajado de cristal azul lançava seu brilho em toda a câmara.
Mas, quando os lábios de Tanis se abriram, maravilhados, uma sombra
escureceu a sala. Ele e Lua Dourada viraram-se para a porta. Caramon e
Sturm entraram, trazendo o corpo de Vento Ligeiro com eles em uma maca
improvisada. Flint e Tasslehoff, o anão parecendo velho e cansado, o kender
anormalmente quieto, estavam de cada lado da maca, em um tipo estranho
de guarda de honra. A procissão lúgubre entrava lentamente. Atrás deles
veio Raistlin, seu capuz puxado sobre sua cabeça, suas mãos dobradas em
seus mantos, o próprio espectro da morte.
Eles atravessaram o chão de mármore, concentrados no fardo que
carregavam, e pararam diante de Tanis e Lua Dourada. Olhando para o
corpo aos pés de Lua Dourada, Tanis fechou os olhos. O sangue encharcara
o cobertor grosso, espalhando-se em grandes manchas escuras no tecido.
— Removam o cobertor — Lua Dourada ordenou. Caramon olhou
para Tanis, suplicante.
— Lua Dourada... — Tanis começou, em voz baixa.

202
De repente, antes que alguém pudesse impedi-lo, Raistlin se abaixou
e tirou do corpo o cobertor sujo de sangue.
Lua Dourada soltou um suspiro sufocado ao ver o corpo torturado
de Vento Ligeiro, ficando tão pálida que Tanis estendeu a mão, temendo
que ela pudesse desmaiar. Mas Lua Dourada era filha de um povo forte
e orgulhoso. Ela engoliu o seco e respirou fundo, tremendo. Então, se
virou e andou até a estátua de mármore. Tirou o cajado de cristal azul
com cuidado das mãos da deusa, depois voltou a se ajoelhar ao lado do
corpo de Vento Ligeiro.
— Kan-tokah — ela disse baixinho. — Meu amado — estendendo
uma mão trêmula, ela tocou a testa do homem das Planícies agonizante. O
rosto cego se moveu para ela como se a ouvisse. Uma das mãos enegrecidas
se contorceu debilmente, como se quisesse tocá-la. Então, ele se tremeu for-
temente e ficou perfeitamente imóvel. Lágrimas escorriam pelas bochechas
de Lua Dourada enquanto ela colocava o cajado no corpo de Vento Ligeiro.
A luz azul suave preenchia a câmara. Todos os tocados pela luz se sentiam
descansados e revigorados. A dor e a exaustão dos esforços do dia deixaram
seus corpos. O horror do ataque da dragoa sumiu das suas mentes, assim
como o sol dissipa a névoa. Então, a luz do cajado diminuiu e se apagou.
A noite caiu sobre o templo, iluminado novamente apenas pela luz que
emanava da estátua de mármore.
Tanis piscou, tentando mais uma vez voltar a acostumar os olhos ao
escuro. Então, ele ouviu uma voz profunda.
— Kan-tokah neh sirakan.
Ouviu Lua Dourada gritar de alegria. Tanis olhou para baixo para o
que deveria ser o cadáver de Vento Ligeiro. Em vez disso, viu o homem das
Planícies sentado, estendendo os braços para Lua Dourada. Ela o abraçou,
rindo e chorando ao mesmo tempo.

— E assim — Lua Dourada contou tudo a eles, terminando sua his-


tória — temos que encontrar um caminho para a cidade destruída que está
em algum lugar abaixo do templo e remover os discos do covil da dragoa.
Eles estavam comendo um jantar frugal, sentados no chão na câmara prin-
cipal do templo. Uma inspeção rápida na construção revelou que estava vazia,
embora Caramon dissera que encontrou pegadas draconianas na escada, assim
como os rastros de outra criatura que o guerreiro não conseguiu identificar.

203
Não era uma construção grande. Duas salas de culto estavam locali-
zadas em lados opostos do corredor que levavam à câmara principal, onde
ficava a estátua. Duas salas circulares se bifurcavam da câmara principal
para o norte e o sul. Estavam decoradas com afrescos que agora estavam
cobertos de fungos e desbotados além da identificação. Dois conjuntos de
portas duplas douradas levavam ao leste. Caramon relatou ter encontrado
uma escadaria que levava à cidade destruída abaixo. O som fraco das ondas
podia ser ouvido, lembrando-os de que estavam no topo de um grande
penhasco, com vista para o Novo Mar.
Os companheiros sentaram-se, cada um preocupado com seus pró-
prios pensamentos, tentando assimilar as notícias que Lua Dourada dera.
No entanto, Tasslehoff continuava a vasculhar os quartos, espiando em
cantos escuros. Achando pouca coisa interessante, o kender ficou entediado
e voltou ao grupo, segurando um velho elmo na mão. Era grande demais
para ele. De toda forma, os kenders nunca usavam elmos, considerando-os
incômodos e restritivos. Ele o jogou para o anão.
— O que é isto? — Flint perguntou desconfiado, segurando-o na luz
do bastão de Raistlin. Era um elmo de estilo antigo, bem trabalhado por um
ferreiro habilidoso. Sem dúvida, por um anão, decidiu Flint, esfregando as
mãos nele com amor. Uma longa cauda de pelo de animal decorava o topo.
Flint jogou o elmo draconiano que estava usando no chão. Depois, colocou
o elmo recém-encontrado na cabeça. Coube perfeitamente. Sorrindo, ele o
tirou, novamente admirando o acabamento. Tanis o observava com alegria.
— Isso é crina de cavalo — ele disse, apontando para a franja.
— Não é não! — o anão protestou, fechando a cara. Ele o cheirou,
enrugando o nariz. Sem espirrar, ele olhou para Tanis, triunfante. — É pelo
da juba de um grifo.
Caramon gargalhou.
— Grifo! — ele desdenhou. — Existem tantos grifos em Krynn
quanto existem--
— Dragões — Raistlin interrompeu suavemente.
A conversa acabou abruptamente.
Sturm limpou a garganta.
— É melhor dormirmos um pouco — ele disse. — Farei a primeira vigia.
— Ninguém precisa fazer vigia nesta noite — disse Lua Dourada,
suavemente. Ela se sentou perto de Vento Ligeiro. O alto homem das
Planícies não falara muito desde o seu encontro com a morte. Ele ficou

204
contemplando por muito tempo a estátua de Mishakal, reconhecendo a
mulher na luz azul que lhe dera o cajado, mas se recusou a responder a
qualquer pergunta ou a discutir isso.
— Estamos seguros aqui — afirmou Lua Dourada, olhando para a
estátua.
Caramon ergueu as sobrancelhas. Sturm franziu a testa e alisou seus
bigodes. Os dois eram educados demais para questionar a fé de Lua Dou-
rada, mas Tanis sabia que nenhum guerreiro se sentiria seguro se ninguém
ficasse de vigia. Além disso, faltavam poucas horas até o amanhecer e todos
precisavam de descanso. Raistlin já estava dormindo, envolto em seus
mantos em um canto escuro da câmara.
— Acho que Lua Dourada está certa — disse Tasslehoff. — Vamos
confiar nesses deuses antigos, pois parece que nós os encontramos.
— Os elfos nunca os perderam, nem os anões — Flint protestou, com
uma carranca. — Não entendo nada disso! Reorx é um dos deuses antigos,
supostamente. Nós o veneramos desde antes do Cataclismo.
— Veneram? — perguntou Tanis. — Ou se lamentavam para ele
desesperados porque seu povo foi deixado de fora do Reino sob a Mon-
tanha? Não, não fique nervoso... — Tanis levantou a mão, vendo o rosto
do anão ficar vermelho. — Os elfos não fizeram melhor. Choramos para
os deuses quando nossa terra natal foi arrasada. Sabemos sobre os deuses e
honramos suas memórias... como alguém honraria os mortos. Os clérigos
élficos desapareceram há tempos, assim como os clérigos anões. Eu me
lembro de Mishakal, a Curandeira. Lembro de ouvir suas histórias quando
eu era jovem. Também me lembro das histórias sobre dragões. Histórias
para crianças, como Raistlin diria. Parece que nossa infância voltou para
nos assombrar... ou nos salvar, ainda não sei. Eu vi dois milagres hoje, um
do mal e um do bem. Preciso acreditar em ambos, se eu quiser confiar na
evidência dos meus sentidos. Mesmo assim... — o meio-elfo suspirou. —
Acho melhor fazer a vigia hoje a noite. Sinto muito, senhora. Queria que
minha fé fosse tão forte quanto a sua.
Sturm ficou na primeira vigia. O resto se enrolou em seus cobertores
e se deitou no chão de ladrilhos. O cavaleiro andou pelo templo iluminado
pelo luar, verificando as salas silenciosas, mais por força do hábito do que
por sentir uma ameaça. Ele podia ouvir o vento soprar lá fora, frio e feroz,
vindo do norte. Mas lá dentro, tudo estava estranhamente quente e confor-
tável... confortável demais.

205
Sentado na base da estátua, Sturm sentiu uma doce tranquilidade
tomar conta dele. Assustado, ele se endireitou no susto e percebeu,
envergonhado, que quase adormecera na vigia. Isso era indesculpável!
Repreendendo-se severamente, o cavaleiro decidiu que andaria durante
sua vigia, as duas horas inteiras, como punição. Ele começou a se levantar,
depois parou. Escutou uma canção, uma voz feminina. Sturm olhou em
volta descontroladamente, com a mão na espada. Então, sua mão soltou
o punho. Ele reconheceu a voz e a canção. Era a voz da sua mãe. Sturm
estava com ela mais uma vez. Estavam fugindo de Solamnia, viajando
sozinhos, exceto apenas por um servo de confiança, que estaria morto
antes deles chegarem a Consolação. A canção era uma daquelas de ninar
sem palavras que eram mais antigas do que dragões. A mãe de Sturm
abraçava seu filho e tentava afastar o medo dele cantando essa música sua-
ve e reconfortante. Os olhos de Sturm se fecharam. O sono o abençoou,
e abençoou todos os companheiros.
A luz do cajado de Raistlin brilhava forte, afastando a escuridão.

206
17
Os Caminhos dos Mortos.
Os novos amigos de Raistlin.

som de metal batendo contra o piso de ladrilhos sacudiu Tanis


do seu sono profundo. Ele se sentou, preocupado, com a mão
procurando a espada.
— Desculpa — disse Caramon, sorrindo envergonhado. — Deixei
meu peitoral cair.
Tanis deu um longo suspiro que se transformou em um bocejo,
espreguiçou-se e recostou-se no cobertor. A visão de Caramon vestindo
sua armadura, com a ajuda de Tasslehoff, lembrou o meio-elfo do que eles
enfrentaram hoje. Também viu Sturm afivelando sua armadura, enquanto
Vento Ligeiro polia a espada que recolhera. Tanis expulsou firmemente a
ideia do que poderia acontecer com eles hoje.
Não foi uma tarefa fácil, especialmente para a parte élfica de Tanis. Os
elfos reverenciam a vida e, embora acreditem que a morte seja simplesmen-
te um movimento para um plano superior de existência, a morte de uma
criatura é vista como a redução da vida neste plano. Tanis forçou seu lado
humano a tomar posse de sua alma hoje.
Ele precisaria matar e, talvez, tivesse que aceitar a morte de uma
ou mais das pessoas que amava. Lembrou-se de como se sentira ontem,
quando achou que poderia perder Vento Ligeiro. O meio-elfo franziu a
testa e sentou-se subitamente, sentindo como se tivesse despertado de
um pesadelo.
— Todos estão acordados? — ele perguntou, coçando a barba.
Flint veio a ele e entregou um pedaço de pão e algumas tiras secas de
carne de cervo.
— Acordados e alimentados — o anão resmungou. — Você poderia
ter dormido durante o Cataclismo, meio-elfo.
Tanis deu uma mordida na carne sem apetite. Então, franzindo o
nariz, ele fungou.
— Que cheiro estranho é esse?
— Algum preparado do mago — o anão fez uma careta, sentando
ao lado de Tanis. Flint puxou um bloco de madeira e começou a esculpir,
cortando furiosamente, fazendo as lascas voarem. — Ele botou em algum
tipo de pó em um copo e adicionou água. Mexeu e bebeu, mas não antes de
fazer aquele fedor sufocante. Estou feliz em não saber o que era.
Tanis concordou. Ele mastigou a carne de cervo. Raistlin agora estava
lendo seu grimório, murmurando as palavras repetidas vezes até que as
tivesse memorizado. Tanis se perguntou que tipo de magia Raistlin tinha
que poderia ser útil contra um dragão. Pelo pouco que ele se lembrava
de conhecimento dracônico, aprendido há muito tempo com o elfo bar-
do Quivalen Soth, apenas as magias dos maiores magos tinham chance
de afetar os dragões, que podiam fazer sua própria magia, como haviam
testemunhado.
Tanis olhou para o jovem frágil absorto em seu grimório e sacudiu a
cabeça. Raistlin podia ser poderoso para sua idade e certamente era sorratei-
ro e esperto. Mas os dragões eram ancestrais. Eles estiveram em Krynn antes
dos primeiros elfos, a mais velha das raças, andarem pela terra. Claro, se o
plano que os companheiros discutiram na noite passada funcionasse, eles
sequer encontrariam a dragoa. Simplesmente esperavam encontrar o covil e
fugir com os discos. “Era um bom plano”, pensou Tanis, “e provavelmente
valia tanto quanto a fumaça no vento”. O desespero começou tomar conta
dele como um nevoeiro úmido.

209
— Bem, estou pronto — Caramon anunciou, animado. O grande
guerreiro se sentia imensamente melhor em sua armadura. A dragoa parecia
um problema muito pequeno nesta manhã. Ele assobiou desafinadamente
uma velha canção de marcha enquanto enfiava sua roupa suja de lama em
sua mochila. Com a armadura cuidadosamente ajustada, Sturm sentou-se
longe dos companheiros, com os olhos fechados, realizando um ritual se-
creto que os cavaleiros faziam, preparando-se mentalmente para o combate.
Tanis levantou-se, rígido e frio, movimentando-se para ativar a circulação e
aliviar a dor dos músculos. Elfos não faziam nada antes da batalha, exceto
pedir perdão por tirar uma vida.
— Também estamos prontos — disse Lua Dourada. Ela estava vestida
com uma túnica cinza pesada feita de couro macio enfeitada com peles. Seu
longo cabelo prateado dourado estava trançado, passando ao redor de sua
cabeça, uma precaução contra um inimigo que pudesse agarrar seu cabelo.
— Vamos acabar logo com isso — Tanis suspirou enquanto pegava
o arco e a aljava que Vento Ligeiro tinha pegado no acampamento dra-
coniano e as colocava no ombro. Além disso, Tanis estava armado com
uma adaga e sua espada longa. Sturm tinha a sua espada de duas mãos.
Caramon carregava seu escudo, uma espada longa e duas adagas que
Vento Ligeiro tinha coletado. Flint substituíra seu machado de batalha
perdido por um do acampamento draconiano.
Tasslehoff tinha seu hoopak e uma pequena adaga que encontrara.
Ele estava muito orgulhoso dela e ficou profundamente ofendido quando
Caramon disse que ela seria útil caso eles encontrassem coelhos ferozes.
Vento Ligeiro portava sua espada longa amarrada em suas costas e ainda
carregava a adaga de Tanis. Lua Dourada não tinha armas além do cajado.
“Estamos bem armados” pensou Tanis, com tristeza. “Por todo o bem que
nos fará.”
Os companheiros deixaram a câmara de Mishakal, com Lua Dourada
saindo por último. Ela tocou gentilmente a estátua da deusa com a mão
enquanto passava, sussurrando uma oração silenciosa.
Tas liderou o caminho, andando alegremente, seu rabo de cavalo
balançando atrás dele. Ele veria um dragão de verdade, vivo! O kender não
conseguia imaginar algo mais excitante.
Seguindo as orientações de Caramon, eles seguiram para o leste, pas-
sando por mais dois conjuntos de portas duplas douradas, chegando a uma
grande sala circular. Um pedestal alto e coberto de lodo ficava no centro,

210
tão alto que nem mesmo Vento Ligeiro podia ver se havia alguma coisa
nele. Tas parou abaixo dele, olhando para cima avidamente.
— Tentei subir nisso noite passada — ele disse — mas estava muito
escorregadio. O que estará lá em cima?
— Bem, seja o que for, terá que ficar para sempre fora do alcance dos
kenders — Tanis disse, irritado. Ele se aproximou para investigar a escada
que descia em espiral na escuridão. As escadas estavam quebradas e cobertas
de plantas podres e fungos.
— Os Caminhos dos Mortos — Raistlin disse subitamente.
— O que? — Tanis começou.
— Os Caminhos dos Mortos — o mago repetiu. — Este é o nome
desta escadaria.
— Como em nome de Reorx você sabe disso? — Flint reclamou.
— Eu li algo sobre esta cidade — Raistlin respondeu com sua voz
sussurrante.
— É a primeira vez que ouvimos falar dela — disse Sturm, friamente.
— O que mais você sabe que não nos contou?
— Muitas coisas, cavaleiro — retrucou Raistlin, enfezado. — En-
quanto você e meu irmão brincavam com espadas de madeira, eu passava
meu tempo estudando.
— Sim, estudando o que é sombrio e misterioso — o cavaleiro des-
prezou. — O que realmente aconteceu nas Torres da Alta Magia, Raistlin?
Você não ganhou esses seus poderes maravilhosos sem dar algo em troca. O
que você sacrificou naquela Torre? Sua saúde... ou sua alma!
— Eu estava com meu irmão na Torre — disse Caramon, o rosto nor-
malmente animado do guerreiro agora estava abatido. — Eu o vi batalhar
contra magos e feiticeiros poderosos apenas com magias simples. Ele os
derrotou, embora tenham destroçado o seu corpo. Eu o carreguei, morren-
do, para fora daquele lugar terrível. E eu... — O grandalhão hesitou.
Raistlin rapidamente deu um passo a frente e colocou sua mão fria e
fina no braço do seu gêmeo.
— Tome cuidado com o que for dizer — ele sibilou.
Caramon deu um suspiro forçado e engoliu o seco.
— Eu sei o que ele sacrificou — disse o guerreiro em uma voz rouca.
Então, ele levantou a cabeça com orgulho. — Somos proibidos de falar
sobre isso. Mas você me conhece há muitos anos, Sturm Brightblade, e dou
minha palavra de honra que você pode confiar no meu irmão, assim como

211
confia em mim. Se chegar o momento em que isso não for possível, minha
morte, e a dele, não estará muito longe.
Os olhos de Raistlin se estreitaram com este voto. Ele observou seu
irmão com uma expressão pensativa e sombria. Então, Tanis viu o mago
ficar contrariado, a expressão séria apagada pelo cinismo habitual. Foi uma
mudança impressionante. Por um instante, a semelhança entre os gêmeos era
notável. Agora, eles eram tão diferentes quanto lados opostos de uma moeda.
Sturm deu um passo a frente e pegou a mão de Caramon, apertando-a
com força, em silêncio. Depois, ele virou-se para encarar Raistlin, incapaz
de vê-lo sem uma repulsa óbvia.
— Peço desculpas, Raistlin — disse o cavaleiro com rigor. — Você
deveria ser grato de ter um irmão tão leal.
— Ah, eu sou — Raistlin sussurrou.
Tanis olhou para o mago, imaginando se apenas ele imaginara sarcas-
mo na voz sibilante do mago. O meio-elfo lambeu os lábios secos, com um
gosto amargo repentino em sua boca.
— Você pode nos guiar através deste lugar? — ele perguntou
abruptamente.
— Eu poderia — Raistlin respondeu — se estivéssemos aqui antes do
Cataclismo. Os livros que estudei são de centenas de anos atrás. Durante
o Cataclismo, quando a montanha flamejante atingiu Krynn, a cidade de
Xak Tsaroth foi derrubada de um penhasco. Reconheci a escadaria porque
ela ainda estava intacta. Além deste ponto... — ele deu de ombros.
— Para onde as escadas levam?
— Para um local conhecido como Salão dos Ancestrais. Lá, os sacer-
dotes e reis de Xak Tsaroth foram enterrados em criptas.
— Vamos em frente — disse Caramon rispidamente. — Tudo o que
estamos fazendo aqui é ficar com medo.
— Sim — Raistlin concordou. — Precisamos continuar rapidamente.
Temos até o cair da noite. Pela manhã, esta cidade estará tomada pelos
exércitos que vêm do norte.
— Ora! — Sturm franziu a testa. — Você pode saber muitas coisas
como alega, mago, mas não pode saber disso! Contudo, Caramon está
certo, já ficamos aqui por tempo demais. Eu tomarei a frente.
Ele começou a descer a escada, se movendo com cuidado para não
escorregar na superfície enlameada. Tanis viu os olhos de Raistlin, fendas
estreitas e douradas de hostilidade, seguirem Sturm.

212
— Raistlin, vá com ele e ilumine o caminho — Tanis ordenou,
ignorando o olhar nervoso que Sturm deu. — Caramon, ande com Lua
Dourada. Eu e Vento Ligeiro ficaremos na retaguarda.
— E onde a gente vai? — Flint resmungou para o kender enquanto
seguiam atrás de Lua Dourada e Caramon. — No meio, como sempre.
Somente mais bagagens inúteis...
— Pode ter algo lá em cima — disse Tas, olhando para trás para o
pedestal. Ele obviamente não havia escutado uma palavra do que foi dito.
— Uma bola de cristal que tudo vê, um anel mágico como eu já tive. Eu já
te contei sobre meu anel mágico? — Flint suspirou. Tanis ouviu a voz do
kender tagarelando enquanto os dois desapareciam escada a baixo.
O meio-elfo virou-se para Vento Ligeiro.
— Você esteve aqui... ou deve ter estado. Vimos a deusa que entregou
o cajado a você. Você desceu até aqui?
— Eu não sei — Vento Ligeiro disse, cansado. — Não lembro de nada
disso. Nada... exceto a dragoa.
Tanis ficou em silêncio. A dragoa. Tudo se resumia à dragoa. A cria-
tura aparecia muito nos pensamentos de todos. E como o grupo pequeno
parecia fraco contra um monstro que surgira completamente das lendas
mais sombrias de Krynn. “Por que nós?”, Tanis pensou amargamente. Já
existiu um grupo de heróis mais improvável, brigando, reclamando, dis-
cutindo, metade de nós não confiando na outra. “Nós fomos escolhidos”.
Esse pensamento trazia pouco conforto. Tanis lembrou-se das palavras de
Raistlin: “Quem nos escolheu... e por quê!” O meio-elfo estava começando
a imaginar.
Eles deslocaram-se silenciosamente pela escadaria íngreme que ondu-
lava cada vez mais fundo na colina. No início, estava intensamente escuro
enquanto desciam na espiral. Então, o caminho começou a ficar mais claro,
até que Raistlin conseguiu apagar a luz do seu cajado. Logo, Sturm levantou
a mão, parando os outros atrás dele. Além deles havia um corredor curto,
pouco mais do que alguns metros de comprimento. Ele levava a um portal
grande em arco que revelava uma vasta área aberta. Uma luz cinza pálida se
infiltrava no corredor, assim como o odor de umidade e decadência.
Os companheiros ficaram parados por longos momentos, ouvindo
atentamente. O som da água corrente parecia vir de baixo e além da
porta, quase abafando todos os outros sons. Mesmo assim, Tanis pensou
ter ouvido outra coisa, um estalo agudo, e sentiu mais do que ouviu um

213
baque e uma batida no chão. Mas não durou muito e o estalo agudo não
se repetiu. Então, ainda mais intrigante, veio um som de raspagem me-
tálico, marcado por um grito estridente ocasional. Tanis olhou de forma
inquisitiva para Tasslehoff.
O kender deu de ombros.
— Não faço ideia — ele disse, erguendo a cabeça e ouvindo com
atenção. — Nunca ouvi algo assim, Tanis, só uma vez... — ele pausou,
depois balançou a cabeça. — Quer que eu dê uma olhada? — ele pergun-
tou ansiosamente.
— Vá.
Tasslehoff esgueirou pelo corredor curto, pulando de sombra em
sombra. Um rato correndo por um tapete grosso fazia mais barulho que um
kender que não quer ser percebido. Ele chegou até a porta e espiou. À sua
frente, estendia-se o que antes devia ser um vasto salão cerimonial. Salão
dos Ancestrais, era do que Raistlin o havia chamado. Agora, era o Salão
das Ruínas. Parte do piso leste havia caído em um buraco, do qual uma
névoa branca malcheirosa borbulhava. Tas percebeu outros furos enormes
escancarados no chão, enquanto pedaços de grandes ladrilhos de pedra
estavam erguidos como lápides. Cuidadosamente testando o chão sob seus
pés, o kender entrou no salão. Através da neblina, ele percebia vagamente
uma passagem escura na parede sul... e outra na norte. O som estridente
estranho vinha do sul. Tas virou-se e começou a andar naquela direção.
De repente, ouviu o som de baques e batidas novamente ao norte,
atrás dele, e sentiu o chão começar a tremer. O kender correu rapidamente
de volta à escadaria. Seus amigos ouviram o som e se colocaram contra a
parede, com armas em mãos. O som de batida cresceu em uma rajada alta.
Então, dez ou quinze figuras agachadas sombrias passaram pela passagem
em arco. O chão tremeu. Eles ouviram uma respiração pesada e murmúrio
ocasional. Então, as figuras sumiram na névoa, rumo ao sul. Houve outro
som agudo, depois silêncio.
— O que em nome do Abismo foi isso? — Caramon exclamou. —
Aqueles não eram draconianos, a menos que eles tenham um tipo baixo e
gordo. E de onde eles vieram?
— Eles vieram da parte norte do salão — disse Tas. — Existe uma
passagem lá e outra no sul. Os sons estridentes estranhos vêm do sul, para
onde essas coisas estavam indo.
— O que tem para o leste? — perguntou Tanis.

214
— A julgar pelo som da água que eu podia ouvir, uma queda de cerca
de mil metros — respondeu o kender. — O chão desabou. Eu não reco-
mendaria andar até lá.
Flint cheirou.
— Eu senti algo... algo familiar. Não consigo me lembrar.
— Senti o cheiro de morte — disse Lua Dourada, tremendo, abraçan-
do seu cajado.
— Nem, isso era algo pior — Flint resmungou. Então, seus olhos se
arregalaram e seu rosto ficou vermelho de fúria e raiva.
— Lembrei! — ele rugiu. — Anões tolos! — ele desatou seu machado.
— Aquelas coisinhas miseráveis eram isso. Bem, não serão anões tolos por
muito tempo. Serão cadáveres fedidos!
Ele correu para frente. Tanis, Sturm e Caramon saltaram atrás dele
assim que ele chegava ao final do corredor e o arrastaram de volta.
— Fique em silêncio! — Tanis ordenou ao anão em fúria. — Agora, o
quanto tem certeza que são anões tolos?
O anão se livrou com raiva do aperto de Caramon.
— Absoluta! — ele começou a berrar, depois reduziu para um sussurro
alto. — Eles não me mantiveram como prisioneiro durante três anos?
— Mantiveram? — perguntou Tanis, surpreso.
— É por isso que eu nunca respondi por onde estive nos últimos cinco
anos — o anão disse, vermelho de vergonha. Sua face ficou sombria. —
Mas eu jurei me vingar. Vou matar cada anão tolo que eu encontrar.
— Espera um pouco — interrompeu Sturm. — Anões tolos não são
malignos, não como os goblins. O que eles poderiam estar fazendo aqui,
vivendo com draconianos?
— Escravos — Raistlin respondeu friamente. — Sem dúvida, os
anões tolos vivem aqui há muitos anos, provavelmente desde que a cidade
foi abandonada. Quando os draconianos foram mandados, talvez, para
proteger os discos, eles encontraram os anões tolos e os estão usando
como escravos.
— Então eles podem nos ajudar — Tanis murmurou.
— Anões tolos! — Flint explodiu. — Você confiaria nesses seres
imundos...
— Não — Tanis disse. — Não podemos confiar neles, claro. Mas
quase todos os escravos desejam trair seu mestre e os anões tolos, como
a maioria dos anões, são pouco leais a qualquer um que não sejam seus

215
próprios líderes. Se não pedirmos nada que possa colocar suas próprias
peles em risco, podemos convencê-los a nos ajudar.
— Bem, então eu sou um traseiro de ogro! — disse Flint, com indig-
nação. Ele jogou seu machado no chão, soltou sua mochila e se sentou no
chão contra a parede, com os braços cruzados. — Vão em frente. Vão pedir
ajuda aos seus novos amigos. Não vou com vocês! Eles vão ajudá-los, claro.
Ajudá-los a acabar na boca da dragoa!
Tanis e Sturm trocaram olhares preocupados, lembrando do incidente
do barco. Flint podia ser incrivelmente teimoso e Tanis pensou que, desta
vez, o anão estaria irredutível.
— Sei não — Caramon suspirou e balançou a cabeça. — É muito
ruim que o anão fique para trás. Se a gente conseguir a ajuda dos anões
tolos, quem vai colocar a ralé na linha?
Impressionado que Caramon podia ser tão sutil, Tanis sorriu e conti-
nuou de onde o guerreiro deixou.
— Sturm, eu acho.
— Sturm! — o anão se levantou em um salto. — Um cavaleiro que
não atacaria um inimigo pelas costas? Vocês precisam de alguém que conheça
essas criaturas imundas...
— Você está certo, Flint — disse Tanis seriamente. — Acho que você
precisará vir conosco.
— Pode apostar — o anão resmungou. Ele pegou suas coisas e saiu
batendo o pé em direção ao corredor. Então, se virou.
— Vocês vêm?
Escondendo seus sorrisos, os companheiros seguiram o anão para o
Salão dos Ancestrais. Eles ficaram perto da parede, evitando o chão traiçoei-
ro. Foram para o sul, seguindo os anões tolos, e entraram em uma passagem
mal iluminada que ia para o sul em algumas dezenas de metros, depois
virava bruscamente para o leste. Novamente, ouviram o som de estalo. O
som estridente metálico parou. De repente, eles ouviram atrás deles o som
de pés batendo.
— Anões tolos! — rosnou Flint.
— Para trás! — Tanis ordenou. — Estejam prontos para atacar. Não
podemos deixá-los dar o alarme.
Todos se colocaram contra a parede, espadas sacadas e preparadas.
Flint segurava seu machado de batalha, com um olhar de antecipação em

216
seu rosto. Olhando de volta para o salão, eles viram outro grupo de figuras
curtas e gordas correndo na direção deles.
Subitamente, o líder dos anões tolos olhou para cima e os viu. Cara-
mon saltou na frente das figuras pequenas que corriam, seu braço enorme
erguido em comando.
— Parem! — ele disse.
Os anões tolos olharam para ele, se reuniram ao redor dele e desapare-
ceram na esquina a leste. Caramon se virou para olhar para eles, espantado.
— Parem... — ele disse sem muito entusiasmo.
Um anão tolo apareceu na esquina, olhou para Caramon e colocou
um dedo sujo nos lábios.
— Psiu! — então, a figura atarracada sumiu. Eles ouviram o som de
estalo e o estridente começarem novamente.
— O que vocês acham que está acontecendo? — perguntou Tanis em
voz baixa.
— Todos eles parecem assim? — disse Lua Dourada, com os olhos
arregalados. — São tão imundos e esfarrapados, com feridas por todo
o corpo.
— E eles têm o cérebro de uma maçaneta — Flint resmungou.
O grupo virou cautelosamente a esquina, com as mãos nas armas.
Um corredor longo e estreito se estendia para o leste, iluminado por tochas
que tremeluziam e fumegavam no ar sufocante. A luz refletia nas paredes
cobertas de umidade condensada. Passagens em arco revelando apenas a
escuridão se abriam no corredor.
— As criptas — Raistlin sussurrou.
Tanis tremeu. Água pingava do teto sobre ele. O rangido metálico
estava mais alto e mais perto. Lua Dourada tocou o braço do meio-elfo e
apontou. Tanis viu, na extremidade mais distante do corredor, um portal.
Além da abertura havia outra passagem, formando uma interseção em T. O
corredor estava cheio de anões tolos.
— Imagino por que essas criaturinhas estão em fila — Caramon disse.
— Esta é nossa chance de descobrir — Tanis disse. Ele estava come-
çando a avançar quando sentiu a mão do mago em seu braço.
— Deixe isso comigo — Raistlin sussurrou.
— É melhor se nós formos com você — Sturm falou. — Para dar
cobertura, claro.

217
— Claro — Raistlin torceu o nariz. — Muito bem, mas não me
perturbem.
Tanis concordou.
— Flint, você e Vento Ligeiro protejam esta ponta do corredor —
Flint abriu a boca para protestar, depois fechou a cara e voltou para ficar ao
lado do casal da Planície.
— Fiquem bem atrás de mim — Raistlin ordenou, depois se moveu
pelo corredor, seus mantos vermelhos batendo em seus tornozelos, o Cajado
de Magius batendo suavemente no chão com cada passo.
Tanis e Sturm seguiram, andando ao longo das paredes gotejantes.
O ar frio escoava das criptas. Olhando dentro de uma, Tanis pôde ver o
contorno escuro de um sarcófago refletido na luz de tochas crepitantes.
O caixão era esculpido de forma elaborada, decorado com ouro que não
brilhava mais. Uma atmosfera opressiva pairava sobre as criptas. Parecia
que alguns dos túmulos foram invadidos e saqueados. Tanis viu de relance
uma caveira sorrindo na escuridão. Ele imaginou se estes mortos ancestrais
estavam planejando sua vingança por terem seu descanso perturbado. Tanis
forçou-se a voltar para a realidade. Já estava sombrio o suficiente.
Raistlin parou quando se aproximou do final do corredor. Os anões
tolos o observavam com curiosidade, ignorando os outros atrás dele. O
mago não falou. Ele pegou uma bolsa em seu cinto e puxou várias moedas
douradas. Os olhos dos anões tolos brilharam. Um ou dois anões na frente
da fila se inclinaram em direção a Raistlin para verem melhor. O mago
levantou uma moeda para que todos pudessem vê-la. Então, ele a jogou no
ar... e a moeda sumiu!
Os anões tolos se assustaram. Raistlin abriu a mão com um floreio
para revelar a moeda. Houve um aplauso esparso. Os anões tolos se aproxi-
maram, bocas abertas em espanto.
Os anões tolos, ou aghar, como sua raça era conhecida, eram
realmente um povo miserável. A mais baixa casta na sociedade anã, são
encontrados em toda Krynn, vivendo na sujeira e miséria, em lugares que
foram abandonados pela maioria das outras criaturas vivas, incluindo
animais. Como todos os anões, vivem em em clãs, e vários clãs geralmente
moravam juntos, seguindo o domínio de seus chefes ou um líder de clã
especialmente poderoso. Três clãs viviam em Xak Tsaroth: os Esludes, os
Bulpes e os Glupes. Agora, membros dos três clãs cercavam Raistlin. Havia
tanto homens quanto mulheres, embora não fosse fácil diferenciar entre os

218
gêneros. As mulheres não tinham pelos em seus queixos, mas tinham em
suas bochechas. Usavam uma sobressaia esfarrapada em volta da cintura
estendendo-se até os joelhos ossudos. Fora isso, eram tão feias quanto suas
contrapartes masculinas. Apesar de sua aparência miserável, os anões tolos
geralmente levavam uma existência feliz.
Com uma destreza maravilhosa, Raistlin fazia a moeda dançar sobre
os nós dos dedos, girando-a para dentro e fora. Então, ele a fez desaparecer,
apenas para reaparecer dentro da orelha de algum anão tolo assustado que
olhava maravilhado para o mago. Este último truque causou uma interrup-
ção momentânea no espetáculo, quando os amigos do aghar o agarraram
e espiaram atentamente seu ouvido, um deles até mesmo metendo o dedo
para ver se mais moedas poderiam sair. Esta atividade interessante parou,
contudo, quando Raistlin enviou a mão em outro bolso e tirou um peque-
no rolo de pergaminho. Abrindo-o com os dedos longos e finos, o mago
começou a ler, cantando suavemente
— Suh tangus moipar, ast akular kalipad.
Os anões tolos assistiam em total fascinação.
Quando o mago terminou de ler, as palavras aranhosas no pergaminho
começaram a queimar. Elas brilharam, depois sumiram, deixando rastros
de fumaça verde.
— O que foi isso? — perguntou Sturm, desconfiado.
— Agora, eles estão encantados — Raistlin respondeu. — Eu lancei
uma magia de amizade sobre eles.
Os anões tolos estavam fascinados e Tanis percebeu que as expressões
em seus rostos mudaram de interesse para uma afeição aberta e descarada
pelo mago. Eles se esticaram e o acariciaram com suas mãos sujas, tagare-
lando em seu idioma disforme. Sturm olhou alarmado para Tanis, que sabia
o que o cavaleiro estava pensando. Raistlin poderia ter usado a magia neles
a qualquer momento.
Ouvindo o som de pés correndo, Tanis olhou rapidamente para onde
Vento Ligeiro estava de guarda. O homem das Planícies apontou para os anões
tolos, depois ergueu as mãos, com os dedos estendidos. Mais dez estavam indo
na direção deles. Logo, os novos aghar apareceram, passando por Vento Ligeiro
sem sequer olharem. Eles pararam ao ver a comoção ao redor do mago.
— O que está acontecendo? — disse um, olhando para Raistlin. Os
anões tolos enfeitiçados estavam reunidos em volta do mago, puxando seu
manto e o arrastando pelo corredor.

219
— Amigo. Este amigo de nóis — todos falaram desenfreadamente em
uma forma bruta do comum.
— Sim — disse Raistlin em uma voz baixa e gentil, tão suave e ca-
tivante que pegou Tanis momentaneamente de surpresa. — Todos vocês
são meus amigos — o mago continuou. — Agora, digam, meus amigos,
para onde este corredor leva? — Raistlin apontou para o leste. Houve um
confusão imediata de respostas.
— Corredor leva prá lá — disse um, apontando para o leste.
— Não, leva pra lá — disse outro, apontando para o oeste.
Uma briga começou, os anões tolos empurrando e engalfinhando.
Logo, punhos estavam voando e, em seguida, um dos anões tolos estava
chutando outro no chão, gritando:
— Prá lá! Prá lá! — a plenos pulmões.
Sturm virou-se para Tanis.
— Isso é ridículo! Eles trarão todos os draconianos do local até nós!
Não sei o que aquele mago louco fez, mas você precisa impedi-lo.
Contudo, antes que Tanis pudesse intervir, uma anã tola resolveu as
coisas por conta própria. Correndo para a briga, agarrou dois combatentes,
bateu as cabeças deles e os jogou no chão. Os outros, que estavam tor-
cendo para eles, ficaram quietos e a recém-chegada virou-se para Raistlin.
Ela tinha um nariz grosso e bulboso e seu cabelo era desgrenhado. Usava
um vestido remendado e esfarrapado, sapatos grossos e meias caídas em
seus tornozelos. Mas parecia ser uma líder entre os anões tolos, pois todos
olhavam para ela com respeito. Poderia ser porque ela carregava uma bolsa
enorme e pesada pendurada em um dos ombros. A bolsa arrastava pelo
chão enquanto ela andava, ocasionalmente tropeçando nela. Mas a bolsa
aparentemente era muito importante para ela. Quando um dos outros
anões tolos tentou tocá-la, ela virou-se e deu um tapa em seu rosto.
— Corredor leva a chefes grandes — ela disse, indicando para o leste
com a cabeça.
— Obrigado, minha querida — disse Raistlin, esticando o braço para
tocar a bochecha dela. Ele disse algumas palavras — Tan-tago, musalah.
A anã tola observava, fascinada, enquanto ele falava. Então, ela suspirou
e ficou o admirando em adoração.
— Me conte, pequena — Raistlin disse. — Quantos chefes?
A anã tola fechou a cara, se concentrando. Ela levantou uma mão
encardida.

220
— Um — ela disse, levantando um dedo. — E um e um e um —
olhando para Raistlin, triunfante, ela levantou quatro dedos e disse — Dois.
— Estou começando a concordar com Flint — Sturm resmungou.
— Quieto — Tanis disse. Naquela hora, o ruído estridente parou. Os
anões tolos olharam para o corredor, desconfortáveis, enquanto o silêncio
deu lugar ao som de estalos novamente.
— O que é esse barulho? — Raistlin perguntou à sua adoradora.
— Chicote — a anã tola disse, sem emoção. Esticando sua mão
imunda, ela pegou o manto de Raistlin e começou a puxá-lo em direção à
extremidade leste do corredor.
— Chefes ficam bravos. Nós vamos.
— O que vocês fazem para os chefes? — Raistlin perguntou, parando.
— Nós vamos. Você ver — a anã tola o puxou. — Nós baixo. Eles
cima. Baixo. Cima. Baixo. Cima. Vem. Você vai. Nós dar carona baixo.
Sendo levado pela onda dos aghar, Raistlin olhou para trás, para
Tanis, movimentando sua mão. Tanis fez um sinal para Vento Ligeiro e
Flint e todos começaram a atravessar a sala atrás dos anões tolos. Aqueles
que Raistlin havia enfeitiçado continuavam reunidos ao seu redor, tentando
ficar o mais perto possível, enquanto o resto corria pelo corredor quando
o chicote bateu novamente. Os companheiros seguiram Raistlin e os anões
tolos, enquanto o ruído estridente começou de novo, mais alto agora.
A anã tola ficou animada ao escutar isso. Ela e o resto dos anões tolos
pararam. Alguns deles se apoiaram desengonçados nas paredes cobertas de
lodo, outros caíram no chão como sacos. A anã ficava perto de Raistlin,
segurando a bainha da sua manga em sua mãozinha.
— O que foi? — ele perguntou. — Por que paramos?
— Nós espera. Não nossa vez ainda — ela informou.
— O que faremos quando for nossa vez? — ele perguntou com
paciência.
— Desce — ela disse, olhando para ele com veneração.
Raistlin olhou para Tanis, balançando a cabeça. O mago decidiu
tentar uma nova abordagem.
— Qual o seu nome, pequena? — ele perguntou.
— Bupu.
Caramon riu e rapidamente colocou sua mão sobre a boca.
— Então, Bupu — disse Raistlin em um tom doce — você sabe onde
é o covil da dragoa?

221
— Dragoa? — Bupu repetiu, espantada. — Você quer dragoa?
— Não — Raistlin disse rapidamente — não queremos a dragoa...
apenas o covil da dragoa, onde ela mora.
— Ah, não saber isso — Bupu balançou a cabeça. Então, vendo a
decepção no rosto de Raistlin, ela pegou sua mão. — Mas deixa eu levar
você para o grande Altobulpe. Ele sabe tudo.
Raistlin ergueu as sobrancelhas.
— E como chegamos ao Altobulpe?
— Baixo! — ela disse, em um sorriso feliz. O som estridente parou.
Houve um estalo de chicote. — Nossa vez pra baixo agora. Você vir. Você
vir agora. Ver Altobulpe.
— Só um momento — Raistlin se soltou do aperto da anã tola. —
Tenho que falar com meus amigos — ele andou até Tanis e Sturm. — O
Altobulpe é provavelmente o chefe do clã, talvez de vários clãs.
— Se ele for tão inteligente quanto esse povo, não vai saber nem onde
é seu próprio banheiro, quanto mais a dragoa — Sturm retrucou.
— É bem provável que saiba — Flint falou contrariado. — Eles não
são espertos, mas os anões tolos se lembram de tudo que veem ou escutam.
Você só precisa fazê-los falar palavras de mais de uma sílaba.
— É melhor irmos até o Altobulpe então — Tanis disse, com tristeza.
— Agora, se conseguíssemos descobrir o que é esse negócio de cima e baixo
e este som estridente...
— Eu sei! — disse uma voz.
Tanis olhou ao redor. Ele havia se esquecido totalmente de Tasslehoff.
O kender veio correndo de volta da esquina, seu rabo de cavalo balançando,
olhos brilhando de felicidade.
— É um elevador, Tanis — ele disse. — Como nas minas anãs. Eu fui em
uma mina uma vez. Foi a coisa mais maravilhosa. Eles tinham um elevador que
levava rocha para cima e para baixo. E este é igualzinho. Bom, quase. Sabe...
— De repente, ele começou a rir e não conseguiu mais continuar. Com o resto
olhando para ele, o kender fez um esforço violento para se controlar.
— Eles estão usando um pote gigante de banha! Os anões tolos que
estavam na fila aqui correram para fora quando uma das draco-coisas batia
seu chicote grande. Todos eles pulam no pote preso a uma enorme corrente
enrolada em uma roda com dentes que se encaixam nos elos da corrente... É
isso que está rangendo! A roda vira e eles descem, e logo chega outro pote...
— Chefes grandes. Pote cheio de chefes grandes — disse Bupu.

222
— Cheio de draconianos! — Tanis repetiu, assustado.
— Não vir aqui — Bupu disse. — Ir para lá... — Ela acenou com a
mão vagamente.
Tanis continuava desconfortável.
— Então, esses são os chefes. Quantos draconianos cabem no pote?
— Dois — disse Bupu, segurando firmemente a manga de Raistlin.
— Não mais que dois.
— De fato, são quatro — Tas disse, dando um olhar de desculpas
por contradizer a anã tola. — São os pequenos, não os grandes que con-
juram magias.
— Quatro — Caramon flexionou os braços imensos. — Podemos
cuidar dos quatro.
— Sim, mas temos que pensar no tempo para que não cheguem mais
quinze — Tanis reforçou.
O chicote estalou de novo.
— Vem! — Bupu puxou com urgência a manga de Raistlin. — Nós
vamos. Chefes ficam bravos.
— Eu diria que este é um momento tão bom quanto qualquer outro —
falou Sturm, dando os ombros. — Deixem os anões tolos correrem. Vamos
segui-los e surpreender os chefes na confusão. Se um pote está aqui esperando
para ser carregado com anões tolos, o outro tem que estar no piso inferior.
— Imagino que sim — Tanis disse. Ele virou-se para os anões tolos.
— Quando vocês chegarem ao elevador... ahm, pote... não entrem.
Apenas pulem para o lado e saiam do caminho. Tudo bem?
Os anões tolos olharam para Tanis com muita suspeita. O meio-elfo
suspirou e olhou para Raistlin. Sorrindo levemente, o mago repetiu as
instruções de Tanis. Imediatamente, os anões tolos começaram a sorrir e
concordar com entusiasmo.
O chicote estalou de novo e os companheiros ouviram uma voz áspera.
— Parem de enrolar, seus imundos, ou vamos cortar seus pés fora para
dar um motivo para serem lentos!
— Vamos ver quais pés serão cortados — disse Caramon.
— Isso ser bem divertido — disse um dos anões tolos, solenemente.
Os aghar correram pelo corredor.

223
18
Luta no elevador.
Cura de Bupu para a tosse.

névoa quente subia por dois grandes buracos no chão, girando em


torno do que estivesse por perto. Entre os dois buracos havia uma
grande roda, em torno da qual passava uma corrente gigantesca.
Um enorme pote de ferro preto estava suspenso pela corrente sobre um
dos buracos. A outra extremidade da corrente desaparecia através do outro.
Quatro draconianos de armadura, dois deles portando chicotes de couro e
armados com espadas curvas, estavam em volta do pote. Ficaram visíveis
apenas por um instante, então a névoa os escondeu. Tanis podia ouvir o
estalo do chicote e uma voz gutural berrando.
— Seus vermes anões cheios de piolhos! O que estão fazendo parados
aí atrás. Entrem neste pote antes que eu arranque essa carne imunda dos
seus ossos! Eu-- acc!
O draconiano parou no meio da frase, com os olhos esbugalhados na
cabeça reptiliana, enquanto Caramon emergia da névoa, rugindo seu grito
de guerra. O draconiano soltou um grito que mudou em um gorgolejo sufo-
cante quando Caramon agarrou o pescoço magro da criatura, tirou seus pés
com garras do chão e atirou-a contra a parede. Os anões tolos se espalharam
quando o corpo atingiu a parede com o baque de ossos esmagados.
Enquanto Caramon atacava, Sturm, brandindo sua espada de duas
mãos, gritou a saudação do cavaleiro para um inimigo e arrancou a cabeça
de um draconiano que nem viu o que estava por vir. A cabeça decepada
rolou no chão com um som triturante enquanto se transformava em pedra.
Ao contrário dos goblins, que atacavam qualquer coisa que se mova
sem estratégia ou plano, os draconianos são inteligentes e tem raciocínio rá-
pido. Os dois que estavam no pote de ferro não tinham intenção de enfren-
tar cinco guerreiros habilidosos e bem armados. Um deles imediatamente
pulou no pote, gritando instruções para seu companheiro em seu idioma
gutural. O outro draconiano correu para a roda e soltou o mecanismo. O
pote começou a descer pelo buraco.
— Parem! — Tanis gritou. — Ele vai buscar reforços!
— Errado! — gritou Tasslehoff, olhando na borda. — Os reforços já
estão subindo no outro pote. Deve ter uns vinte deles!
Caramon correu para impedir que o draconiano operasse o elevador,
mas já era tarde demais. A criatura deixou o mecanismo girando e correu
em direção ao pote. Com um grande salto, ele foi atrás de seu companheiro.
Com a intenção de não deixar o inimigo escapar, Caramon pulou direto
para o pote depois dele! Os anões tolos aplaudiram e assoviaram, alguns
correndo para a borda para ter uma visão melhor.
— Que idiota! — Sturm esbravejou. Empurrando os anões tolos para
o lado para olhar para baixo, ele viu punhos batendo e a armadura reluzente
enquanto Caramon e os draconianos se digladiavam. O peso adicional de
Caramon fez com que o pote descesse mais rápido.
— Eles vão fatiar o palerma lá embaixo — Sturm murmurou. —
Eu vou atrás dele — gritou para Tanis. Lançando-se no ar, ele agarrou a
corrente e deslizou para dentro do pote.
— Agora perdemos os dois! — Tanis resmungou. — Flint, venha
comigo. Vento Ligeiro, fique aqui com Raistlin e Lua Dourada. Veja se
consegue girar a maldita roda para o outro lado! Não, Tas, você não!
Tarde demais. Gritando entusiasticamente, o kender pulou na corrente
e começou a descer por ela. Tanis e Flint também saltaram no buraco. Tanis
envolveu seus braços e pernas ao redor da corrente, pendurado logo acima

225
do kender, mas o anão não conseguiu segurá-la, aterrissando de capacete no
pote. Caramon imediatamente pisou nele.
Os draconianos no pote prenderam o guerreiro contra a lateral. Ele
socou um, jogando-o para o outro lado, e puxou a adaga para o outro
enquanto tentava pegar sua espada. Caramon apunhalou antes que o
draconiano pudesse pegar a espada, mas a adaga do guerreiro resvalou na
armadura da criatura e foi arrancada da mão de Caramon. O draconiano
atacou o seu rosto, tentando arrancar-lhe os olhos com suas garras. Pegando
os punhos do draconiano em um aperto esmagador, Caramon conseguiu
afastar mãos dele para longe de seu rosto. Os dois seres poderosos, o huma-
no e o draconiano, lutavam apoiados na lateral do pote.
O outro draconiano recuperou-se do golpe de Caramon e pegou sua
espada. Mas seu mergulho até o guerreiro parou abruptamente quando
Sturm, descendo a corrente, chutou-o com força no rosto com a bota
pesada. O draconiano cambaleou para trás, a espada voando da sua mão.
Sturm saltou e tentou acertar a criatura com a parte chata da espada, mas o
draconiano empurrou a lâmina para o lado com as mãos.
— Sai de cima de mim! — Flint rosnou no fundo do pote. Cegado
pelo seu elmo, ele estava sendo lentamente esmagado pelos pés grandes de
Caramon. Em um surto de raiva feroz, o anão endireitou o elmo e depois
se levantou, fazendo Caramon perder o equilíbrio e avançar para cima do
draconiano. A criatura se esquivou enquanto Caramon cambaleava para a
corrente enorme. O draconiano brandia sua espada selvagemente. Caramon
se abaixou e a espada ressoou inutilmente contra a corrente, entalhando a
lâmina. Flint se atirou contra o draconiano, acertando-o diretamente no
estômago com a cabeça. Os dois caíram de lado.
O pote ganhou força, agitando as névoas fétidas ao redor deles.
Mantendo os olhos na ação abaixo, Tanis desceu pela corrente.
— Fique parado! — ele gritou para Tasslehoff. Soltando a corrente,
Tanis caiu e aterrissou no meio da luta. Desapontado, mas relutante em
desobedecer Tanis, Tas agarrou-se à corrente com uma das mãos, enquanto
enfiou a mão na bolsa e tirou uma pedra, pronto para soltá-la... na cabeça
de um inimigo, ele esperava.
O pote começou a balançar enquanto os combatentes se jogavam para
os lados em suas lutas, caindo cada vez mais rápido, fazendo com que o
outro pote, cheio de draconianos gritando e xingando, subisse cada vez
mais rápido também.

226
Parado ao lado do buraco com os anões tolos, Vento Ligeiro podia
ver muito pouco através da névoa. Contudo, ele podia ouvir as pancadas,
palavrões e gemidos do pote onde estavam seus amigos. Então, do meio
da névoa, o outro pote surgiu. Draconianos estavam de pé, com espadas
nas mãos, olhando com suas bocas abertas, as longas línguas vermelhas
ofegantes de antecipação. Em instantes, ele, Lua Dourada, Raistlin e quinze
anões tolos estariam enfrentando cerca de vinte draconianos furiosos!
Ele se virou, tropeçou num anão tolo, recuperou o equilíbrio e correu
até o mecanismo. De alguma forma, ele precisava parar a subida daquele
pote. A roda enorme girava devagar, a corrente rangendo através dos raios.
Vento Ligeiro olhou para ela com a ideia de pegar a corrente em suas próprias
mãos. Uma agitação vermelha o empurrou para o lado. Raistlin observou a
roda por um instante, cronometrando sua rotação, depois enfiou o cajado
de Magius entre a roda e o chão. O cajado tremeu por um momento e
Vento Ligeiro prendeu a respiração, temendo que o cajado se quebrasse.
Mas ele aguentou! O mecanismo estremeceu até parar.
— Vento Ligeiro! — Lua Dourada gritou de onde havia permanecido
no buraco. O homem das Planícies correu para a borda, seguindo por Rais-
tlin. Alinhados ao longo do buraco, os anões tolos estavam se divertindo
bastante, aproveitando com gosto um dos eventos mais interessantes que já
ocorreu em suas vidas. Apenas Bupu se afastou da beirada. Ela caminhava
ao lado de Raistlin, agarrada em seu manto sempre que possível
— Khark-umat! — sussurrou Vento Ligeiro enquanto olhava para a
neblina rodopiante.
Caramon jogou para fora o draconiano com quem estivera lutando.
Ele caiu com um grito dentro da névoa. O grande guerreiro tinha marcas de
garras no rosto e um corte de espada no braço direito. Sturm, Tanis e Flint
ainda lutavam contra o segundo draconiano, que parecia disposto a matar
independentemente das consequências. Quando finalmente ficou claro que
bater não era suficiente, Tanis deu uma estocada com sua adaga. A criatura
caiu, imediatamente se transformando em rocha, prendendo rapidamente
a arma de Tanis em seu corpo pétreo.
Então o pote parou, sacudindo a todos.
— Cuidado! Vizinhos! — gritou Tasslehoff, soltando a corrente.
Tanis olhou para o outro pote, cheio de draconianos, balançando a aproxi-
madamente seis metros de distância. Armados até os dentes, os draconianos
preparavam uma manobra de abordagem. Dois subiram na beirada do pote,

227
prontos para saltar pelo vão enevoado. Caramon se apoiou sobre a borda do
pote e deu golpe um selvagem e brutal com sua espada, em uma tentativa
de cortar um dos invasores. Ele errou e o ímpeto de seu golpe fez o pote
girar em sua corrente.
Caramon perdeu o equilíbrio e caiu para frente, seu grande peso
fazendo o pote tombar perigosamente. Encontrou-se olhando diretamen-
te para o chão muito abaixo. Sturm pegou Caramon pelo colarinho e o
puxou de volta, fazendo o pote balançar erraticamente. Tanis escorregou,
caindo em suas mãos e joelhos no fundo do pote, onde descobriu que o
draconiano de pedra havia se decomposto em pó, permitindo-lhe recu-
perar sua adaga.
— Lá vêm eles! — Flint gritou, ajudando Tanis a se levantar.
Um draconiano se lançou na direção deles e segurou a borda do pote
com as mãos com garras. O pote inclinou-se precariamente mais uma vez.
— Vai para lá! — Tanis empurrou Caramon para o outro lado, espe-
rando que o peso do guerreiro mantivesse o pote estável. Sturm golpeava as
mãos do draconiano, tentando forçá-lo a soltar. Então, outro draconiano
voou por cima, medindo sua distância melhor que o primeiro. Ele pousou
no pote ao lado de Sturm.
— Não se mexa! — Tanis gritou para Caramon quando o guerreiro
instintivamente entrou em combate. O pote se inclinou. O grandalhão logo
voltou para sua posição. O pode se endireitou. O draconiano pendurado na
borda, com os dedos sangrando uma gosma verde, soltou-se, abriu as asas
e flutuou na neblina.
Tanis virou-se para lutar contra o draconiano que pousara no pote e
caíra sobre Flint, derrubando o anão novamente. O meio-elfo cambaleou
para o lado. Enquanto o pote balançava, olhou para baixo. As névoas se
abriram e ele viu a cidade destruída de Xak Tsaroth lá embaixo. Quando
recuou, sentindo-se desorientado, viu Tasslehoff lutando contra o draco-
niano. O kender subiu pelas costas da criatura e bateu na cabeça dela com
uma pedra. No fundo do pote, Flint pegou a adaga caída de Caramon e
apunhalou a mesma criatura na perna. O draconiano gritou enquanto a
lâmina afundava. Sabendo que mais draconianos estavam prestes a voar,
Tanis olhou para cima em desespero. Mas o desespero transformou-se em
esperança quando viu Vento Ligeiro e Lua Dourada através da névoa.
— Puxe-nos de volta! — Tanis gritou, então algo o atingiu na cabeça.
A dor era excruciante. Ele se sentiu caindo, caindo, caindo...

228
Raistlin não ouviu o grito de Tanis. O mago já havia entrado em ação.
— Venham aqui, meus amigos — Raistlin falou rapidamente. Os
anões tolos encantados se reuniram avidamente ao redor dele. — Aqueles
chefes querem me ferir — ele disse baixinho.
Os anões tolos rugiram. Vários fecharam a cara sombriamente. Alguns
balançaram os punhos para o pote cheio de draconianos.
— Mas vocês podem ajudar — disse Raistlin. — Vocês podem detê-los.
Os anões tolos olharam para o mago com dúvida. Até porque a ami-
zade tinha um limite.
— Tudo o que precisam fazer — disse Raistlin com paciência — é
correr e saltar naquela corrente. Ele apontou para a corrente presa ao pote
dos draconianos.
Os rostos dos anões tolos se iluminaram. Não parecia ruim. Na verdade,
era algo que faziam quase todos os dias quando não conseguiam pegar o pote.
Raistlin acenou com o braço.
— Vão! — ele ordenou.
Todos os anões da ravina, exceto Bupu, olharam uns para o outros, depois
correram para a borda do buraco e, berrando loucamente, atiraram-se na cor-
rente acima dos draconianos, agarrando-se a ela com uma destreza maravilhosa.
O mago correu para a roda, com Bupu seguindo atrás dele. Agar-
rando o Cajado de Magius, ele o tirou da corrente. A roda estremeceu
e começou a se mover mais uma vez, girando mais e mais rapidamente
enquanto o peso dos anões tolos fazia com que o pote dos draconianos
voltasse para as névoas.
Vários dos draconianos que estavam parados na borda prestes a saltar
para o outro pote foram pegos de surpresa pelo abalo súbito. Eles perderam
o equilíbrio e caíram. Embora suas asas impedissem a queda, eles berravam
de raiva enquanto pairavam até o chão, com os gritos contrastando estra-
nhamente com os sons alegres dos anões tolos.
Vento Ligeiro inclinou-se sobre a beirada do buraco e segurou o pote
dos companheiros que chegava à roda.
— Vocês estão bem? — Lua Dourada perguntou ansiosamente, incli-
nando-se para ajudar Caramon a sair.
— Tanis está ferido — disse Caramon, apoiando o meio-elfo.
— Foi apenas uma pancada — Tanis protestou fracamente. Ele sentiu
um grande calombo na parte de trás do crânio. — Pensei que estava caindo
dessa coisa.— Tanis tremeu com a lembrança.

229
— Não podemos descer por aqui! — Sturm disse, saindo do pote. —
E não podemos ficar aqui. Não vai demorar muito para que esse elevador
volte a funcionar e eles estarão atrás de nós. Temos que voltar.
— Não! Não vai! — Bupu puxou Raistlin. — Eu sei caminho para
Altobulpe! — ela puxou a manga dele, apontando para o norte. — Cami-
nho bom! Caminho secreto! Sem chefes — disse ela baixinho, acariciando
a mão dele. — Não deixar chefes pegar você. Você bonito.
— Parece que não temos muita escolha. Temos que descer até lá
— disse Tanis, estremecendo quando o cajado de Lua Dourada o tocou.
Então, o poder de cura fluiu através de seu corpo. Ele relaxou enquanto a
dor diminuía e suspirou. — Como você disse, eles moram aqui há anos.
Flint resmungou e balançou a cabeça quando Bupu começou a descer
o corredor, indo para o norte.
— Parem! Escutem! — Tasslehoff falou baixinho. Eles ouviram o som
de pés com garras vindo na sua direção.
— Draconianos! — disse Sturm. — Temos que sair daqui! Voltar
para o oeste.
— Eu sabia — Flint reclamou com uma carranca. — Essa anã tola nos
levou direto para os lagartos!
— Espere! — Lua Dourada pegou o braço de Tanis. — Olhe para ela!
O meio-elfo se virou para ver Bupu tirar alguma coisa flácida e disfor-
me da sacola que levava sobre o ombro. Subindo até a parede, ela acenou a
coisa na frente da placa de pedra e murmurou algumas palavras. A parede
tremeu e, em segundos, uma porta apareceu, levando à escuridão.
Os companheiros trocaram olhares desconfortáveis.
— Sem escolha — Tanis murmurou. O tilintar e o barulho dos dra-
conianos de armadura podiam ser ouvidos claramente, marchando pelo
corredor em direção a eles. — Raistlin, luz — ele ordenou.
O mago falou e o cristal do seu cajado brilhou. Ele, Bupu e Tanis
passaram rapidamente pela porta secreta. O resto seguiu e a outra porta
se fechou atrás deles. O cajado do mago revelou uma pequena sala qua-
drada decorada com entalhes na parede tão cobertos de limo verde que
eram impossíveis de distinguir. Eles ficaram em silêncio enquanto ouviam
draconianos passarem pelo corredor.
— Eles devem ter ouvido a luta — Sturm sussurrou. — Não vai
demorar muito para que façam o elevador se mover, então teremos toda a
força draconiana atrás de nós!

230
— Eu sei caminho para baixo — Bupu acenou com desprezo. —
Não preocupa.
— Como abriu a porta, pequenina? — Raistlin perguntou com curio-
sidade, ajoelhando-se ao lado de Bupu.
— Magia — ela disse com timidez, esticando a mão. Na palma da
mão rechonchuda da anã tola havia um rato morto, seus dentes fixos em
uma sorriso permanente. Raistlin ergueu as sobrancelhas, então Tasslehoff
tocou o seu braço.
— Não é magia, Raistlin — o kender sussurrou. — É só uma trava
simples escondida no chão. Eu vi quando ela apontou para a parede e eu
estava prestes a dizer alguma coisa quando ela começou com essa baboseira
mágica. Ela pisa numa placa quando chega perto da porta e acena aquela
coisa — o kender riu. — Ela provavelmente tropeçou uma vez, por acidente,
enquanto carregava o rato.
Bupu lançou um olhar mordaz ao kender.
— Magia! — ela afirmou, fazendo beicinho e acariciando o rato
carinhosamente. Ela o colocou de volta na bolsa e disse — Vamos, vai
você — ela os levou para o norte passando por salas quebradas e cobertas
de lodo. Finalmente, ela parou em uma sala cheia de poeira e detritos. Parte
do teto tinha desmoronado e o chão estava cheio de ladrilhos quebrados. A
anã tola falou alguma coisa e apontou para algo no canto nordeste da sala.
— Desce! — ela disse.
Tanis e Raistlin se aproximaram para inspecionar. Encontraram um
cano de pouco mais de um metro de largura saindo do chão em ruínas.
Aparentemente ele havia caído pelo teto, desabando a parte nordeste da
sala. Raistlin colocou o cajado dentro do tubo e deu uma olhada.
— Vem, você ir! — Bupu disse, apontando e puxando a manga de
Raistlin com urgência. — Chefes não podem seguir.
— Provavelmente é verdade — disse Tanis. — Não com suas asas.
— Mas não há espaço suficiente para brandir uma espada, — disse
Sturm, franzindo a testa. — Não gosto disso...
De repente, todos pararam de falar. Ouviram a roda mover e a corrente
começar a ranger. Os companheiros olharam entre si.
— Eu primeiro! — Tasslehoff sorriu. Enfiando a cabeça no tubo, ele
rastejou para frente em suas mãos e joelhos.
— Tem certeza que vou caber? — perguntou Caramon, olhando
ansiosamente para a abertura.

231
— Não se preocupe — a voz de Tas ressoava. — Está tão coberto de
limo que você vai passar como um porco engordurado.
Esta afirmação alegre não pareceu impressionar Caramon. Ele con-
tinuou a olhar para o tubo, melancólico, enquanto Raistlin, levado por
Bupu, juntava seu manto ao seu redor e deslizava para dentro, seu cajado
iluminando o caminho. Flint entrou em seguida. Lua Dourada seguiu,
fazendo uma careta de desgosto quando suas mãos deslizaram no lodo
espesso e verde. Vento Ligeiro deslizou logo atrás dela.
— Isso é loucura... espero que saiba disso! — Sturm resmungou em
desgosto.
Tanis não respondeu. Ele bateu nas costas de Caramon.
— Sua vez — ele disse, ouvindo o som da corrente se movendo cada
vez mais rápido.
Caramon lamentou. Se abaixando sobre suas mãos e joelhos, o guer-
reiro rastejou para dentro da abertura do tubo. A bainha da sua espada ficou
presa no canto. Recuando, se atrapalhou ao reajustar a arma, depois tentou
de novo. Desta vez, suas costas ficaram muito altas, raspando ao longo da
parte superior. Tanis firmou o pé na traseira do guerreiro e empurrou.
— Fique esticado! — O meio-elfo ordenou.
Caramon desabou como um saco molhado com outro gemido. Ele
se contorcia, cabeça para frente, empurrando o escudo na sua frente, sua
armadura arrastando pelo tubo de metal com um som estridente e raspante
que deixava Tanis tenso.
O meio-elfo esticou os braços e agarrou o topo do cano. Jogando suas
pernas primeiro, começou a deslizar pelo lodo fétido. Ele virou a cabeça
para ver Sturm, que vinha por último.
— A sanidade acabou quando seguimos Tika para a cozinha na Hos-
pedaria do Lar Derradeiro — ele disse.
— Verdade — o cavaleiro concordou com um suspiro.

Fascinado pela nova experiência de se arrastar pelo cano, Tasslehoff


viu de repente figuras escuras no final. Esticando-se em busca de um
apoio, ele parou de deslizar.
— Raistlin! — o kender sussurrou. — Algo está subindo pelo tubo!
— O que é? — o mago começou a perguntar, mas o ar úmido e imun-
do ficou preso em sua garganta e ele começou a tossir. Tentando recuperar o
fôlego, ele apontou a luz do cajado pelo tubo para ver o que se aproximava.

232
Bupu deu uma olhada e fungou.
— Gulpepulferes! — ela murmurou. Gesticulando, ela gritou. —
Voltar! Voltar!
— Nós subir, pegar elevador! Chefes ficam bravos! — um gritou.
— Nós descer. Ver Altobulpe! — Bupu disse, com arrogância.
Com isso, os outros anões tolos começaram a recuar, resmungando
e xingando.
Mas Raistlin não conseguia se mexer por um instante. Ele apertou o
peito, tossindo seco, o som ecoando de forma alarmante no silêncio do tubo
estreito. Bupu olhou para ele ansiosamente, depois enfiou a mão pequena
na bolsa, ficou procurando e tirou um objeto que segurou contra a luz. Ela
o olhou, então suspirou e balançou a cabeça.
— Não era o que eu queria — resmungou.
Ao ver um lampejo brilhante e colorido, Tasslehoff se aproximou.
— O que é isso? — perguntou, embora já soubesse a resposta. Raistlin
também fitava o objeto com olhos grandes e brilhantes.
Bupu deu de ombros.
— Pedra bonita — ela disse sem interesse, procurando de novo algo
na bolsa.
— Uma esmeralda! — Raistlin ofegou.
Bupu olhou para cima.
— Você gostar? — perguntou a Raistlin.
— Bastante! — o mago arfou.
— Ficar pra você — Bupu colocou a joia na mão do mago. Então,
com um grito de triunfo, ela tirou o que estava procurando. Tas, se apro-
ximando para ver a nova maravilha, recuou em desgosto. Era um lagarto
morto. Bem morto.
Havia um pedaço de cordão de couro mastigado amarrado na cauda
rígida do lagarto. Bupu o mostrou a Raistlin.
— Você usar no pescoço — ela disse. — Curar tosse.
Acostumado a lidar com objetos muito mais desagradáveis do que
isso, o mago sorriu para Bupu e agradeceu, mas recusou a cura, garantindo
que sua tosse melhorara muito. Ela o observou em dúvida, mas ele parecia
melhor, o espasmo havia passado. Depois de um momento, ela deu de
ombros e colocou o lagarto de volta na bolsa. Examinando a esmeralda
com olhos peritos, Raistlin olhou friamente para Tasslehoff. Suspirando, o

233
kender virou as costas e continuou a descer pelo tubo. Raistlin colocou a
pedra em um dos bolsos internos secretos costurados em seu manto.
Quando um tubo secundário se juntou ao deles, Tas olhou de modo
interrogativo para a anã tola. Bupu apontou hesitantemente para o sul, para
o novo tubo. Tas entrou lentamente.
— Este é bem incli... — ele arfou quando começou a deslizar ra-
pidamente. Tentou desacelerar sua descida, mas o lodo era muito grosso.
O palavrão explosivo de Caramon, ecoando pelo cano atrás dele, disse ao
kender que seus companheiros estavam tendo o mesmo problema. De re-
pente, Tas viu uma luz à frente. O túnel estava chegando ao fim, mas onde?
Tas teve uma visão vívida de sair a cento e cinquenta metros acima do nada,
mas não havia nada que pudesse fazer para parar. A luz ficou mais brilhante
e Tasslehoff saiu pela ponta do tubo com um pequeno grito.
Raistlin deslizou para fora do cano, quase caindo sobre Bupu. Olhan-
do em volta, o mago pensou por um instante que ele havia caído no fogo.
Grandes nuvens brancas e ondulantes passavam pela sala. Raistlin começou
a tossir e suspirar.
— Que...? — Flint voou para fora do tubo, caindo sobre as mãos e
joelhos. Ele espiou pela nuvem. — Veneno? — ele ofegou, rastejando até
o mago. Raistlin sacudiu a cabeça, mas não conseguiu responder. Bupu
agarrou o mago, arrastando-o para a porta. Lua Dourada caiu de barriga
para baixo, o que a fez perder o ar. Vento Ligeiro tombou para fora,
torcendo o corpo para não bater em Lua Dourada. Houve um estrondo
quando o escudo de Caramon saiu pelo cano. A armadura com pontas de
Caramon e sua larga circunferência o desaceleraram o suficiente para que
pudesse rastejar para fora. Mas ele estava machucado, batido e coberto
de sujeira verde. Quando Tanis chegou, todos estavam engasgando com
a atmosfera poeirenta.
— Mas em nome do Abismo! — Tanis disse espantado, logo se engas-
gando ao inalar a matéria branca. — Saiam daqui — ele falou. — Onde
está aquela anã tola?
Bupu apareceu na porta. Ela tirara Raistlin da sala e agora estava
gesticulando para os outros. Eles felizmente saíram para o ar sem poeira e
tropeçaram até descansar entre as ruínas de uma rua. Tanis esperava que eles
não estivessem aguardando um exército de draconianos. Repentinamente,
ele levantou a cabeça.
— Onde está o Tas? — perguntou alarmado, se levantando desajeitado.

234
— Estou aqui — disse uma voz sufocada e miserável. Tanis virou-se.
Tasslehoff, pelo menos Tanis presumiu que fosse Tasslehoff, estava
diante dele. O kender estava coberto do rabo-de-cavalo aos pés com uma
substância pastosa, branca e espessa. Tudo o que Tanis podia ver dele eram
os dois olhos castanhos piscando na máscara branca.
— O que aconteceu? — o meio-elfo perguntou. Ele nunca tinha visto
alguém tão infeliz quanto o kender desgrenhado.
Tasslehoff não respondeu. Só apontou de volta para dentro. Temendo
algo desastroso, Tanis correu e olhou cautelosamente pela porta em ruínas.
A nuvem branca se dissipara e ele conseguia ver ao redor da sala agora. Em
um canto, diretamente em frente à abertura do tubo, havia vários sacos
grandes e cheios. Dois deles foram abertos, derramando uma massa branca
no chão.
Então, Tanis entendeu. Ele colocou a mão sobre o rosto para esconder
seu sorriso.
— Farinha — murmurou.

235
19
A cidade destruída.
Altobulpe Caudo I, o Grande.

noite do Cataclismo fora uma noite de horror para a cidade de


Xak Tsaroth. Quando a montanha de fogo atingiu Krynn, a
terra se dividiu. A bela e antiga cidade de Xak Tsaroth caiu pela
abertura até o fundo de uma caverna ampla formada pelas fendas enormes
no chão. Assim, no subterrâneo, ela sumiu da vista dos homens e a maioria
das pessoas acreditava que a cidade havia desaparecido completamente, en-
golida pelo Novo Mar. Mas ela ainda existia, agarrando-se às laterais ásperas
das paredes, espalhada no chão da caverna. Havia edifícios em ruínas em
vários níveis diferentes. O prédio no qual os companheiros entraram, que
Tanis presumiu que fora uma padaria, estava no nível intermediário, preso
por pedras e apoiado contra o penhasco. A água dos rios subterrâneos fluía
pelos lados da rocha e corria para a rua, trançando entre as ruínas.
O olhar de Tanis seguiu o curso da água. Ele corria pelo meio da rua de
pedras rachadas, passando por outras pequenas lojas e casas onde as pessoas
moraram e faziam seus negócios. Quando a cidade caiu, os prédios altos que
uma vez se alinhavam na rua tombaram uns contra os outros, formando uma
arcada de lajes de mármore quebradas acima do pavimento. Portas e vitrines
quebradas estavam caídas na rua. Tudo estava quieto e silencioso, exceto pelo
barulho da água pingando. O ar estava pesado com o cheiro de decadência.
Pesava no espírito. E embora o ar fosse mais quente abaixo do nível do
solo do que acima, a atmosfera sombria gelava o sangue. Ninguém falava.
Eles lavaram o lodo de seus corpos (e a farinha, no caso de Tas) o melhor
que puderam, depois encheram novamente seus cantis. Sturm e Caramon
vasculharam a área, mas não viram draconianos. Após alguns momentos de
descanso, os companheiros se levantaram e seguiram em frente.
Bupu os levou para o sul, descendo a rua, sob a arcada de edifícios
arruinados. A rua se abriu em uma praça. Aqui, a água nas ruas se tornava
um rio, fluindo para o oeste.
— Seguir rio — Bupu indicou.
Tanis franziu a testa, ouvindo acima do barulho do rio outro som,
o rugido de uma grande cachoeira. Mas Bupu insistiu, então os heróis
contornaram o rio da praça, ocasionalmente mergulhando na água até
o tornozelo. Chegando ao final da rua, os companheiros descobriram a
cachoeira. A rua desabara e o rio jorrava por entre colunas quebradas para
cair a quase cento e cinquenta metros, no fundo da caverna. Lá estava o
resto da cidade destruída de Xak Tsaroth.
Eles podiam ver pela luz fraca, que infiltrava através das rachaduras
no teto da caverna lá em acima, o centro da cidade antiga, espalhado pelo
chão da caverna em muitos estados de decadência. Alguns dos edifícios
estavam quase totalmente intactos. Outros, no entanto, não passavam de
escombros. Uma névoa fria, criada pelas muitas cachoeiras que caíam na
caverna, pairava sobre a cidade. A maioria das ruas se transformou em rios,
que se combinavam em um fluxo no profundo abismo ao norte. Obser-
vando através das névoas, os companheiros podiam ver a corrente enorme
pendurada a apenas algumas dezenas de metros de distância, ligeiramente
ao norte de sua posição atual. Perceberam que o elevador levantava e descia
as pessoas a pelo menos trezentos metros.
— Onde o Altobulpe mora? — Tanis perguntou, olhando para a
cidade morta abaixo.
— Bupu disse que ele mora para lá — Raistlin apontou. — Naquelas
construções do lado oeste da caverna.

237
— E quem mora nos prédios reconstruídos bem abaixo de nós? per-
guntou Tanis.
— Chefes — Bupu respondeu, fechando a cara.
— Quantos chefes?
— Um e um e um — Bupu contou até ter usado todos os seus dedos.
— Dois — ela disse. — Não mais que dois.
— O que poderia ser qualquer coisa, de duzentos a dois mil — Sturm
resmungou. — Como conseguiremos ver o Altolupe?
— Altobulpe! — Bupu o encarou. — Altobulpe Caudo I, o Grande.
— Como chegaremos até ele, sem os chefes nos pegarem?
Como resposta, Bupu apontou para cima, para o pote que subia cheio
de draconianos. Tanis ficou sem reação e olhou para Sturm, que virou
os olhos de desgosto. Bupu suspirou exasperada e virou-se para Raistlin,
obviamente considerando os outros incapazes de compreender.
— Chefes subir. Nós descer — ela disse.
Raistlin olhou para o elevador através da névoa. Então, ele assentiu
que tinha entendido.
— Os draconianos provavelmente acreditam que estamos presos lá em
cima, sem poder entrar na cidade. Se a maioria dos draconianos estiver lá
em cima, isso nos permitiria descer com segurança.
— Está certo — disse Sturm. — Mas como em nome de Istar nós
desceremos? A maioria de nós não pode voar!
Bupu espalmou suas mãos.
— Matos! — ela disse. Vendo o olhar de confusão de todos, a anã tola
foi até a beira da cachoeira e apontou para baixo. Vinhas grossas e verdes
pendiam da borda do penhasco rochoso como cobras gigantes. As folhas
das vinhas estavam rasgadas, esfarrapadas e, em alguns lugares, inteiramen-
te arrancadas, mas as próprias vinhas pareciam grossas e resistentes, mesmo
que fossem escorregadias.
Lua Dourada, invulgarmente pálida, aproximou-se da borda, espiou
e recuou apressadamente. Era uma queda de cento e cinquenta metros até
uma rua de paralelepípedos. Vento Ligeiro colocou o braço reconfortante
ao redor dela.
— Já fiz escaladas piores — Caramon disse, complacente.
— Bem, eu não gosto disso — disse Flint. — Mas qualquer coisa é
melhor do que descer pelo esgoto — pegando a vinha, ele se balançou sobre

238
a beirada e começou a descer lentamente, uma mão de cada vez. — Não é
ruim — ele gritou.
Tasslehoff deslizou na vinha depois de Flint, descendo rapidamente
e com tal habilidade que ele recebeu um grunhido de aprovação de Bupu.
A anã tola virou-se para olhar Raistlin, apontando para seu manto
longo e esvoaçante e franzindo a testa. O mago sorriu para ela tranquiliza-
doramente. Parado na beira do penhasco, ele disse baixinho,
— Keddahsssve! — a bola de cristal no topo do seu cajado acendeu e
Raistlin saltou da borda do penhasco, desaparecendo na névoa abaixo. Bupu
gritou. Tanis a segurou, temendo que a adorável anã tola pudesse se jogar.
— Ele vai ficar bem — o meio-elfo a reconfortou, sentindo um lam-
pejo de pena quando viu o olhar de angústia genuína no rosto dela. — Ele
é um mago — disse. — Magia, sabe?
Bupu obviamente não sabia, pois encarou Tanis, desconfiada, jogou
a bolsa no pescoço, agarrou uma vinha e começou a descer pela rocha
escorregadia. O resto dos companheiros estava se preparando para seguir
quando Lua Dourada sussurrou:
— Não consigo.
Vento Ligeiro segurou suas mãos.
— Kan-toka — ele disse suavemente, — tudo vai dar certo. Você
escutou o que o anão disse. Só não olhe para baixo.
Lua Dourada balançou a cabeça, com o queixo tremendo.
— Deve haver outra forma — disse com teimosia. — Vamos procurá-la!
— Qual o problema? — perguntou Tanis. — Temos que correr...
— Ela tem medo de altura — disse Vento Ligeiro.
Lua Dourada o empurrou.
— Como ousa contar pra ele! — ela gritou, com o rosto vermelho
de raiva.
Vento Ligeiro a encarou friamente.
— Por que não? — disse, com sua voz áspera. — Ele não é seu súdito.
Deixe que ele saiba que você é humana, que tem fragilidades humanas.
Você só tem um súdito para impressionar agora, chefe, que sou eu.
Se Vento Ligeiro a tivesse esfaqueado, não causaria uma dor tão ter-
rível. A cor sumiu dos lábios de Lua Dourada. Seus olhos se arregalaram e
ficaram fixos, como os de um cadáver.
— Por favor, prenda o cajado nas minhas costas — ela disse a Tanis.
— Lua Dourada, ele não quis dizer... — ele começou.

239
— Faça o que mandei! — ela ordenou sumariamente, seus olhos
inflamados de fúria.
Suspirando, Tanis amarrou o cajado nas costas dela com um pedaço de
corda. Lua Dourada nem mesmo olhou para Vento Ligeiro. Com o cajado
bem preso, ela começou a andar em direção ao penhasco. Sturm saltou na
frente dela.
— Permita que eu desça na sua frente — ele disse. — Se você
escorregar--
— Se eu escorregar e cair, você cairia comigo. A única coisa que
conseguiríamos seria morrer juntos — ela se irritou. Se abaixando, pegou
firmemente na vinha e se jogou no penhasco. Quase imediatamente, suas
mãos suadas escorregaram. Tanis prendeu a respiração. Sturm se atirou para
frente, embora soubesse que não havia nada que pudesse fazer. Vento Li-
geiro ficou assistindo, sem um sinal de emoção no seu rosto. Lua Dourada
tentava freneticamente agarrar as vinhas e folhas espessas. Ela conseguiu
se agarrar a elas com força, incapaz de respirar, sem vontade de se mover.
Apertou o rosto contra as folhas molhadas, tremendo, os olhos fechados
para bloquear a visão da aterrorizante queda até o chão abaixo. Sturm foi
até a borda e desceu até ela.
— Deixe-me sozinha — Lua Dourada disse a ele pelos dentes fe-
chados. Ela respirou tremendo, lançou um olhar orgulhoso e desafiador a
Vento Ligeiro e, então, começou a descer pela vinha.
Sturm ficou perto dela, ficando de olho, enquanto habilmente descia
a lateral do penhasco. Parado ao lado de Vento Ligeiro, Tanis queria dizer
alguma coisa ao homem das Planícies, mas temia causar mais danos. Por-
tanto, sem dizer nada, foi até a beirada. Vento Ligeiro o seguiu em silêncio.
O meio-elfo achou a escalada fácil, embora tenha escorregado nos
últimos metros, aterrissando em centímetros de água. Ele percebeu que
Raistlin estava tremendo de frio, sua tosse piorando no ar úmido. Vários
anões tolos estavam ao redor do mago, olhando para ele com admiração.
Tanis se perguntou quanto tempo a magia de encanto duraria.
Lua Dourada se apoiou na parede, trêmula. Ela não olhou para
Vento Ligeiro quando ele chegou ao chão e se afastou dela, seu rosto
ainda inexpressivo.
— Onde estamos? — Tanis gritou acima do barulho da cachoeira.
A névoa era tão espessa que ele não conseguia ver nada além de colunas
quebradas, cobertas de vinhas e fungos.

240
— Grande Praça por ali — Bupu apontou com insistência o dedo
sujo para o oeste. — Vem. Vocês seguir. Ver Altobulpe! — ela começou.
Tanis estendeu a mão e a segurou, fazendo-a parar. Ela olhou para ele,
profundamente ofendida.
O meio-elfo retirou a mão.
— Por favor. Apenas escute por um instante! E a dragoa? Onde está
a dragoa?
Bupu arregalou os olhos.
— Você quer dragoa? — ela perguntou.
— Não! — Tanis gritou. — Não queremos a dragoa. Mas precisamos
saber se a dragoa vem até esta parte da cidade... — ele sentiu a mão de
Sturm em seu ombro e desistiu.
— Esqueça. Deixa para lá — ele disse, cansado. — Continue.
Bupu olhou para Raistlin com profunda simpatia por ele ter que aturar
essas pessoas insanas, então pegou a mão do mago e correu pela rua para o
oeste, os outros anões tolos seguindo atrás. Meio ensurdecidos pelo barulho
estrondoso da cachoeira, os companheiros foram atrás deles, olhando ao
redor desconfortáveis, janelas escuras se agigantavam acima deles, portas
escuras os ameaçavam. A cada momento, esperavam que os draconianos
escamosos e blindados aparecessem. Mas os anões tolos não pareciam preo-
cupados. Eles se arrastavam ao longo da rua, ficando tão perto de Raistlin
quanto possível e tagarelando em seu idioma ríspido.
Por fim, os sons da cachoeira se desvaneceram ao longe. No entanto,
a névoa continuava a girar em torno deles e o silêncio da cidade morta
era opressivo. A água escura esguichava e gorgolejava ao longo do leito de
paralelepípedos do rio. De repente, as construções chegaram ao fim e a rua
se abria em uma enorme praça circular. Através da água, eles podiam ver os
resquícios de ladrilhos formando um desenho intricado de raios de sol na
praça. No centro da praça, o rio recebia outro riacho vindo do norte. Eles
formaram um pequeno redemoinho enquanto as águas se encontravam
e giravam antes de se juntarem e prosseguirem para o oeste, entre outro
grupo de construções em ruínas.
Ali, a luz entrava na praça a partir de uma fenda no teto da caverna, a
centenas de metros acima, iluminando as névoas fantasmagóricas, dançan-
do na superfície da água sempre que as névoas se abriam.
— Outro lado Grande Praça — Bupu indicou.

241
Os companheiros pararam nas sombras das construções destruídas.
Todos pensaram na mesma coisa: a praça tinha mais de trinta metros sem ne-
nhum tipo de abrigo. Uma vez que eles saíssem, não haveria mais esconderijo.
Caminhando sem preocupação, Bupu percebeu de repente que ninguém
a seguia, exceto outros anões tolos. Ela olhou para trás, irritada com o atraso.
— Vocês vir, Altobulpe por aqui.
— Veja! — Lua Dourada pegou o braço de Tanis. Do outro lado da
grande praça de ladrilhos, havia grandes colunas de mármore que susten-
tavam uma cobertura de pedra. As colunas estavam rachadas e quebradas,
deixando a cobertura cair. As névoas se abriram e Tanis teve um vislumbre
de um pátio atrás das colunas. Formas escuras de construções altas e abo-
badadas eram visíveis além do pátio. Então, as névoas as cercaram. Embora
estivesse agora degradada e arruinada, essa estrutura possivelmente fora a
mais magnífica de Xak Tsaroth.
— O Palácio Real — Raistlin confirmou, tossindo.
— Psiu! — Lua Dourada balançou o braço de Tanis. — Não consegue
ver? Não, espere...
As névoas escoavam em frente aos pilares. Por um momento, os com-
panheiros não conseguiram ver nada. Então, a neblina se dissipou e eles
recuaram para a passagem escura. Os anões tolos pararam bruscamente na
praça e, se virando, correram para se esconder atrás de Raistlin.
Bupu olhou para Tanis por baixo da manga do mago.
— Aquela dragoa — ela disse. — Você quer?
Era a dragoa.
Esguia, negra e lustrosa, com suas asas de couro dobradas ao seu lado,
Khisanth deslizou para fora por baixo da cobertura, abaixando a cabeça
para caber sob a fachada de pedra caída. Suas patas dianteiras com garras
bateram nas escadas de mármore quando ela parou e olhou para a névoa
flutuante com seus olhos vermelhos brilhantes. Suas pernas traseiras e a
pesada cauda reptiliana não eram visíveis. O corpo da dragoa se estendia
por dez metros ou mais para dentro do pátio. Um draconiano encolhido
caminhava ao seu lado, os dois aparentemente no meio de uma conversa.
Khisanth estava nervosa. O draconiano trouxera notícias perturbado-
ras. Era impossível que qualquer um dos estranhos pudesse ter sobrevivido
ao ataque no poço! Mas, agora, o capitão de sua guarda relatou que havia
estranhos na cidade! Estranhos que atacaram suas forças com habilidade

242
e ousadia, portando um cajado marrom cuja descrição era conhecida por
todos os draconianos que serviam nessa parte do continente de Ansalon.
— Não acredito nesta informação! Ninguém consegue escapar de
mim — a voz de Khisanth era suave, quase um ronronado, mas o draconia-
no tremia ao ouvi-la. — O cajado não estava com eles. Eu teria sentido sua
presença. Você diz que esses intrusos ainda estão lá em cima, nas câmaras
superiores? Tem certeza?
O draconiano engoliu o seco e concordou.
— Não há caminhos para baixo, vossa realeza, exceto o elevador.
— Existem outros caminhos, lagarto — Khisanth o desprezou. —
Aqueles anões tolos miseráveis rastejam por este lugar como pragas. Os
intrusos têm o cajado e estão tentando descer até a cidade. Isso só pode
significar uma coisa... estão atrás dos discos! Como será que eles ficaram sa-
bendo deles? — a dragoa serpenteou sua cabeça ao redor e para cima e para
baixo como se pudesse ver aqueles que ameaçavam seus planos através das
névoas cegantes. Mas as névoas rodopiavam, mais espessas do que nunca.
Khisanth rosnou de irritação.
— O cajado! Aquele cajado miserável! Verminaard deveria ter previsto
isso com os poderes clericais de que tanto se vangloria, então poderia tê-lo
destruído. Mas não, está ocupado com sua guerra, enquanto eu apodreço
aqui nesta cidade morta — Khisanth roia uma garra enquanto pensava.
— Você poderia destruir os discos... — o draconiano sugeriu, com
muita ousadia.
— Tolo, acha que não tentamos? — Khisanth resmungou. Ela levantou
a cabeça. — Não, é perigoso demais ficar aqui mais tempo. Se os intrusos
sabem o segredo, outros também devem saber. Os discos devem ser levados
para um lugar seguro. Informe Lorde Verminaard que estou saindo de Xak
Tsaroth. Me juntarei a ele em Pax Tharkas e levarei os intrusos comigo para
o interrogatório.
— Informar Lorde Verminaard? — o draconiano perguntou, chocado.
— Muito bem — Khisanth respondeu sarcasticamente. — Se você
insiste nessa farça, peça a permissão do meu Lorde. Imagino que você
enviou a maioria das tropas para cima, não é?
— Sim, vossa realeza — o draconiano se curvou.
Khisanth considerou a situação.
“Talvez você não seja tão idiota”, ela pensou. — Posso lidar com as
coisas aqui embaixo. Concentre sua busca nas partes superiores da cidade.

243
Quando encontrar esses intrusos, traga-os diretamente para mim. Não
os machuque mais do que o necessário para subjugá-los. E cuidado com
aquele cajado!
O draconiano caiu de joelhos diante da dragoa, que fungou de escár-
nio e voltou para as sombras escuras das quais havia saído.
A criatura reptiliana desceu desceu correndo as escadas, onde se juntou
a várias outras criaturas que surgiram da neblina. Depois de uma conversa
breve e abafada em seu próprio idioma, os draconianos começaram a subir
a rua norte. Andavam despreocupadamente, rindo de alguma piada parti-
cular, e logo desapareceram na névoa.
— Eles não estão preocupados, não é? — disse Sturm.
— Não — Tanis concordou seriamente. — Eles acham que nos pegaram.
— Vamos encarar os fatos, Tanis. Eles estão certos — disse Sturm. —
O plano que discutimos tem uma grande falha. Se nos esgueirarmos sem
a dragão saber, e se conseguirmos os discos, ainda teremos que sair desta
cidade esquecida pelos deuses com draconianos rastejando por todos os
níveis superiores.
— Eu perguntei antes e pergunto agora — Tanis disse. — Você tem
um plano melhor?
— Eu tenho um plano melhor — disse Caramon rispidamente. —
Sem ofensa, Tanis, mas todos sabemos como os elfos se sentem sobre lutar
— o grandalhão apontou para o palácio. — Ali é obviamente onde a dragoa
mora. Vamos atraí-la como planejamos, só que desta vez vamos lutar contra
ela, não se arrastar no covil como ladrões. Quando a dragoa for eliminada,
então poderemos pegar os Discos.
— Meu caro irmão — Raistlin sussurrou —, sua força reside no seu
braço, não na sua mente. Tanis é sábio, como disse o cavaleiro quando
iniciamos esta aventura. Seria melhor se você prestasse atenção nele. O
que você sabe sobre dragões, meu irmão? Já viu os efeitos do seu sopro
mortal? — Raistlin foi tomado por um ataque de tosse. Ele tirou um
pedaço de pano macio da manga do seu manto. Tanis viu que o pano
estava manchado de sangue.
Depois de um momento, Raistlin continuou.
— Você poderia se defender contra isso, talvez, e contra as garras e
presas afiadas e a cauda cortante, que podem derrubar esses pilares. Mas o
que você usará, querido irmão, contra sua magia? Os dragões são os magos
mais antigos que existem. Ela poderia enfeitiçá-lo como eu enfeiticei minha

244
amiguinha. Ela poderia fazê-lo dormir com uma palavra, depois matá-lo
enquanto sonha.
— Certo — Caramon resmungou, decepcionado. — Não sei nada
disso. Droga, quem é que sabe alguma coisa sobre essas criaturas?
— Existe muito conhecimento sobre dragões em Solamnia — Sturm
disse baixinho.
“Ele também quer lutar contra a dragoa”, Tanis percebeu. “Está pen-
sando em Huma, o cavaleiro perfeito, chamado Ruína dos Dragões”.
Bupu puxou o manto de Raistlin.
— Vem. Vocês ir. Sem mais chefes. Sem mais dragoa — ela e os outros
anões tolos começaram a correr pela praça de ladrilhos.
— Então?— Tanis disse, olhando para os dois guerreiros.
— Parece que não temos escolha — Sturm disse rigidamente. —
Não vamos enfrentar o inimigo, vamos nos esconder atrás de anões tolos!
Cedo ou tarde vai chegar a hora de enfretarmos esses monstros! — ele
girou nos calcanhares e saiu, as costas retas, os bigodes arrepiados. Os
companheiros seguiram.
— Talvez estejamos nos preocupando a toa — Tanis coçou a barba,
olhando para o palácio que agora estava obscurecido pela névoa. —
Talvez esta seja a única dragoa restante em Krynn, uma que sobreviveu
à Era dos Sonhos.
Os lábios de Raistlin se torceram.
— Lembre-se das estrelas, Tanis — ele murmurou. — A Rainha das
Trevas voltou. Lembre-se das palavras do Cântico: “torrente das suas hostes
estridentes”. Suas hostes eram os dragões, de acordo com os antigos. Ela
voltou e suas hostes vieram com ela.
— Por aqui! — Bupu se agarrou a Raistlin, apontando para uma rua
que ramificava para o norte. — Aqui lar!
— Pelo menos está seco — Flint resmungou. Virando à direita, eles
deixaram o rio para trás. A névoa se fechou ao redor dos companheiros
quando eles entraram em outro antro de prédios arruinados. Esta parte da
cidade deve ter sido a mais pobre de Xak Tsaroth, mesmo em seus dias de
glória. As construções estavam nos últimos estágios de decadência e colap-
so. Os anões tolos começaram a brincar e gritar enquanto corriam pela rua.
Sturm olhou para Tanis preocupado com o barulho.
— Você não pode pedir para fazerem mais silêncio? — Tanis pergun-
tou a Bupu. — Assim os draconianos... os chefes não nos acharão.

245
— Bah! — ela deu de ombros. — Sem chefes. Eles não vir aqui. Medo
do grande Altobulpe.
Tanis tinha dúvidas sobre isso, mas, olhando em volta, não via sinal
dos draconianos. Pelo que observara, os homens-lagartos pareciam levar
uma vida bem metódica e militar. Em contraste, as ruas desta parte da
cidade estavam cheias de lixo e sujeira. As construções vergonhosas esta-
vam apinhadas de anões tolos. Anões, anãs e crianças sujas e esfarrapadas
olhavam para eles com curiosidade enquanto caminhavam pela rua. Bupu
e os outros anões tolos enfeitiçados se aglomeravam em torno de Raistlin,
praticamente o carregando.
Os draconianos eram inegavelmente espertos, pensou Tanis. Permi-
tiam que seus escravos levassem suas vidas pessoais em paz, desde que não
causassem problemas. Uma boa ideia, considerando que os anões tolos
superavam os draconianos em dez para um.
Embora eles fossem basicamente covardes, os anões tolos tinham uma
reputação de serem lutadores muito terríveis quando acuados.
Bupu parou o grupo em frente a uma das vielas mais escuras, encardi-
das e imundas que Tanis já vira. Uma névoa suja fluía dele. As construções
estavam inclinadas, apoiando umas às outras como bêbados saindo de uma
taverna. Enquanto ele observava, pequenas criaturas escuras saíram do beco
e as crianças anãs começaram a persegui-las.
— Jantar — disse uma, lambendo os beiços.
— São ratos! — Lua Dourada gritou de horror.
— Temos que entrar aí? — Sturm reclamou, olhando os prédios
cambaleantes.
— Só o cheiro é suficiente para derrubar um troll — acrescentou
Caramon. — E eu prefiro morrer sob a garra da dragoa do que com um
casebre anão desabando em cima de mim.
Bupu apontou para o beco.
— O Altobulpe! — ela disse, indicando o prédio mais dilapidado do
quarteirão.
— Fique aqui de vigia, se quiser — Tanis disse a Sturm. — Vou falar
com o Altobulpe.
— Não — o cavaleiro fechou a expressão, apontando a viela para o
meio-elfo. — Estamos nisso juntos.
A viela seguia várias dezenas de metros a leste, depois virava para o
norte e subitamente chegava a um beco sem saída. À frente deles, havia uma

246
parede de tijolos decadente, sem passagem. O retorno estava bloqueado por
anões tolos que correram atrás deles.
— Emboscada! — Sturm rosnou e sacou sua espada. Caramon co-
meçou a gritar do fundo da garganta. Vendo o brilho do aço frio, os anões
tolos entraram em pânico. Caindo sobre si mesmos e sobre aos outros, eles
se viraram e fugiram pela viela.
Bupu olhou para Sturm e Caramon em profundo desgosto. Ela virou-
se para Raistlin.
— Você faz eles parar! — exigiu, apontando para os guerreiros. — Ou
não levar para Altobulpe.
— Guarde sua espada, cavaleiro — Raistlin sibilou. — A menos que
acredite ter encontrado um oponente que valha sua atenção.
Sturm encarou Raistlin, furioso, e por um momento Tanis pensou que
ele poderia atacar o mago, mas então o cavaleiro embainhou sua espada.
— Como queria saber o seu plano, mago — Sturm disse friamente.
— Você estava tão disposto a vir para esta cidade, mesmo antes que soubés-
semos dos Discos. Por quê? O que está procurando?
Raistlin não respondeu. Encarou o cavaleiro com malevolência, com
seus estranhos olhos dourados, depois virou-se para Bupu.
— Eles não vão incomodar mais, pequenina — sussurrou.
Bupu olhou em volta para ter certeza de que estavam devidamente
intimidados, então andou para frente e bateu duas vezes na parede com o
punho encardido.
— Porta secreta — disse de forma importante.
Duas batidas responderam às de Bupu.
— Esse sinal — ela disse. — Três batidas. Agora eles deixar entrar.
— Mas ela só bateu duas vezes... — começou Tas, rindo.
Bupu o encarou.
— Psiu! — Tanis cutucou o kender.
Nada aconteceu. Estranhando, Bupu bateu mais duas vezes. Duas
batidas responderam. Ela esperou. Com os olhos na abertura do beco,
Caramon começou a se mover inquieto no mesmo lugar. Bupu bateu duas
vezes de novo. Duas batidas responderam.
Por fim, Bupu gritou para a parede.
— Eu bater batida secreta. Você deixar entrar!
— Batida secreta cinco batidas — respondeu uma voz abafada.

247
— Eu bater cinco batidas! — Bupu declarou com raiva. — Você
deixar entrar!
— Você bater seis batidas.
— Eu contar oito batidas — discutiu outra voz.
De repente, Bupu empurrou a parede com as duas mãos, que abriu
facilmente. Ela olhou para dentro.
— Eu bater quatro batidas. Você deixar entrar! — disse, levantando o
punho fechado.
— Tudo bem — a voz resmungou.
Bupu fechou a porta e bateu duas vezes. Tanis, na esperança de evitar
mais incidentes e atrasos, olhou para o kender, que estava se contorcendo
de riso reprimido.
A porta se abriu... de novo.
— Você entrar — o guarda disse amargamente. — Mas isso não qua-
tro batidas — sussurrou para Bupu ruidosamente. Ela o ignorou enquanto
passava com desdém, arrastando sua bolsa pelo chão.
— Nós ver Altobulpe — ela anunciou.
— Você levar estes para Altobulpe? — um dos guardas suspirou, enca-
rando o gigante Caramon e o alto Vento Ligeiro com os olhos arregalados.
Seu companheiro começou a recuar.
— Ver Altobulpe — Bupu disse com orgulho.
O guarda anão tolo, sem desviar os olhos do grupo formidável, recuou
para um corredor fedorento e imundo, depois começou a correr. Ele come-
çou a gritar a plenos pulmões
— Um exército! Um exército invadiu! — Eles podiam ouvir os gritos
ecoando pelo corredor.
— Ora! — Bupu torceu o nariz. — Cria Glupe-funga! Vem ver
Altobulpe.
Ela começou a descer o corredor, segurando a bolsa perto do peito. Os
companheiros ainda podiam ouvir os gritos do anão tolo ecoando pelo corredor.
— Um exército! Um exército de gigantes! Salvar o Altobulpe!

O grande Altobulpe Caudo I era um anão tolo entre os anões tolos. Ele
era quase inteligente, supostamente muito rico e um notório covarde. Os
Bulpes eram o clã de elite de Xak Tsaroth, ou “Xa”, como eles chamavam,
desde que Nulfe Bulpe caiu em um buraco em uma noite de torpor bêbado e
descobriu a cidade. Ao acordar sóbrio na manhã seguinte, ele a reclamou para

248
seu clã. Os Bulpes prontamente se mudaram e, nos últimos anos, graciosa-
mente permitiram que os clãs Eslude e Glupe também ocupassem a cidade.
A vida era boa na cidade destruída... Pelo menos, para os padrões dos
anões tolos. O mundo exterior os deixava em paz (já que o mundo exterior
não tinha a menor noção de que eles estavam lá e não se importaria se
soubesse). Os Bulpes não tinham problemas em manter seu domínio sobre
os outros clãs, principalmente porque foi um Bulpe (Glungu) com uma
mentalidade científica (certos membros invejosos do clã Eslude sussurra-
vam que sua mãe era uma gnoma) que desenvolveu o elevador, usando
os dois enormes potes de ferro usados pelos antigos moradores da cidade
para fazer banha. O elevador permitiu que os anões tolos estendessem suas
atividades de vasculhar para a selva acima da cidade afundada, melhorando
consideravelmente seu padrão de vida. Glungu Bulpe tornou-se um herói
e foi proclamado Altobulpe por decisão unânime. A liderança dos clãs
permaneceu na família Bulpe desde então.
Os anos passaram e, de repente, o mundo exterior se interessou em
Xak Tsaroth. A chegada da dragoa e dos draconianos deu um triste fim ao
estilo de vida dos anões tolos. Inicialmente, os draconianos tinham a inten-
ção de acabar com os pequenos incômodos, mas os anões tolos, liderados
pelo grande Caudo, se renderam, agacharam, choraram e se prostraram de
forma tão humilhante que os draconianos foram misericordiosos e simples-
mente os escravizaram.
Assim, os anões tolos, pela primeira vez em centenas de anos vivendo
em Xak Tsaroth, foram forçados a trabalhar. Os draconianos conserta-
ram as construções, organizaram as coisas de forma militar e geralmente
atormentavam a vida dos anões tolos, que precisavam cozinhar, limpar e
consertar as coisas.
Era desnecessário dizer que o grande Caudo não estava satisfeito com
esta situação. Ele passava várias horas pensando em maneiras de remover a
dragoa. Ele sabia da localização do covil da dragoa, claro, e até descobrira
uma rota secreta que levava até lá. Havia até mesmo se infiltrado uma vez,
quando a dragoa estava fora. Caudo ficara boquiaberto com a enorme
quantidade de pedras bonitas e moedas brilhantes reunidas na imensa sala
subterrânea. O grande Altobulpe viajara durante sua juventude e sabia que
as pessoas do mundo exterior cobiçavam essas pedras bonitas e davam enor-
mes quantidades de tecidos coloridos e berrantes em troca (Caudo tinha
um fraco por roupas finas). No local, o Altobulpe desenhou um mapa para

249
que não se esquecer de como voltar ao tesouro. Ele até teve presença de
espírito para surrupiar algumas das pedras menores.
Caudo sonhou com essa riqueza durante os meses seguintes, mas nunca
encontrou outra oportunidade para voltar. Isso era devido a dois fatores: um,
a dragoa nunca mais saiu e, dois, Caudo não conseguia decifrar o seu mapa.
Se ao menos a dragoa fosse embora para sempre, pensava, ou se algum
herói aparecesse e convenientemente enfiasse uma espada nela! Esses eram
os maiores sonhos do Altobulpe, e essa era a situação quando o grande
Caudo ouviu seus guardas proclamando que um exército estava atacando.
Assim, quando Bupu finalmente tirou o grande Caudo de debaixo da
cama e o convenceu de que não estava prestes a ser atacado por um exército
de gigantes, o Altobulpe Caudo I começou a acreditar que seus sonhos
poderiam se tornar realidade.

— Então, vocês estão aqui para matar a dragoa — falou o grande


Altobulpe Caudo I para Tanis Meio-Elfo.
— Não — Tanis disse pacientemente. — Não estamos.
Os companheiros estavam na Corte dos Aghar diante do trono de
um anão tolo que Bupu apresentara como o grande Altobulpe. Bupu ficou
de olho nos companheiros quando eles entraram na sala do trono, ante-
cipando ansiosamente seus olhares de espanto aturdido. Bupu não ficou
desapontada. Os olhares nos rostos dos companheiros quando entravam
podem ser descritos como aturdidos.
A cidade de Xak Tsaroth tinha sido despojada de suas adornos pelos
primeiros Bulpes, que os usaram para decorar a sala do trono de seu senhor.
Seguindo a filosofia de que se um metro de tecido dourado é bom, quarenta
metros é melhor, e totalmente desinibido pelo bom gosto, os anões tolos
transformaram a sala do trono do grande Altobulpe em uma obra-prima de
confusão. O tecido dourado pesado e desgastado se contorcia e cobria cada
centímetro disponível do espaço da parede. Tapeçarias enormes pendiam do
teto (algumas delas de cabeça para baixo). Outrora, as tapeçarias devem ter
sido lindas, fios de cores delicadas se misturando para mostrar cenas da vida
da cidade ou retratando histórias e lendas do passado. Mas os anões tolos,
querendo avivá-los, pintaram os panos com cores berrantes e conflitantes.
Assim, Sturm ficou chocado no âmago de seu ser quando foi con-
frontado por um Huma vermelho vivo batalhando contra um dragão com
manchas púrpuras sob um céu verde-esmeralda.

250
Estátuas nuas e graciosas, colocadas em todos os lugares errados,
também adornavam a sala. Estas também foram melhoradas pelos anões
tolos, considerando o mármore branco puro monótono e deprimente.
Eles pintaram as estátuas com realismo suficiente e atenção aos detalhes
que Caramon, com um olhar envergonhado para Lua Dourada, ficou bem
corado e se manteve olhando para o chão.
De fato, os companheiros tinham dificuldade em manter sua expres-
são séria quando introduzidos a esta galeria de horrores artísticos. Um deles
falhou totalmente: Tasslehoff foi imediatamente tomado por gargalhadas
tão fortes que Tanis foi forçado a mandar o kender voltar para a Área de
Espera do lado de fora da Corte para tentar se recompor. O resto do grupo
inclinou-se solenemente para o grande Caudo, exceto por Flint, que ficou
de pé, com as mãos tocando o machado de batalha, sem o traço de um
sorriso no rosto envelhecido.
O anão pusera a mão no braço de Tanis antes de entrarem na corte
do Altobulpe.
— Não seja enganado por essa tolice, Tanis — alertou Flint. — Essas
criaturas são traiçoeiras.
O Altobulpe ficou um pouco confuso quando os companheiros
entraram, especialmente vendo os guerreiros altos. Mas Raistlin fez algu-
mas observações bem escolhidas que aliviaram e tranquilizaram (embora
desapontassem) o Altobulpe.
O mago, interrompido por ataques de tosse, explicou que eles não
queriam causar problemas, simplesmente planejavam recuperar um objeto
de valor religioso do covil da dragoa e sair, de preferência sem perturbá-la.
Isso, claro, não se encaixava nos planos de Caudo. Portanto, ele pre-
sumiu que não ouvira corretamente. Envolto em túnicas berrantes, ele se
recostou no trono lascado de folhas de ouro e repetiu com calma.
— Você aí. Tem espadas. Matar dragoa.
— Não — Tanis disse novamente. — Como nosso amigo Raistlin ex-
plicou, a dragoa está guardando um objeto que pertence aos nossos deuses.
Queremos retirar o objeto e escapar da cidade antes que a dragoa perceba
que desapareceu.
O Altobulpe franziu a testa.
— Como eu saber vocês não pegar todo o tesouro, deixar Altobulpe
apenas com uma dragoa brava? Ter muito tesouro, pedras bonitas.

251
Raistlin levantou a cabeça, os olhos brilhando. Mexendo na espada,
Sturm observou o mago com desgosto.
— Traremos as pedras bonitas para você — Tanis garantiu ao Altobul-
pe. — Nos ajude e você terá todo o tesouro. Só queremos encontrar esta
relíquia dos nossos deuses.
Tornara-se óbvio para o Altobulpe que ele estava lidando com ladrões
e mentirosos, não com os heróis que esperava. Este grupo estava aparen-
temente com tanto medo da dragoa quanto ele e isso deu uma ideia ao
Altobulpe.
— O que vocês quer do Altobulpe? — perguntou, tentando subjugar
sua alegria e parecer sutil.
Tanis suspirou aliviado. Finalmente eles pareciam estar chegando a
algum lugar.
— Bupu — ele apontou para a anã tola agarrada na manga de Raistlin
— nos disse que você era o único na cidade que poderia nos levar ao covil
da dragoa.
— Levar! — o grande Caudo perdeu a compostura por um momento
e apertou as túnicas ao seu redor. — Não levar! Grande Altobulpe não
dispensável. Povo precisar de mim!
— Não, não quis dizer levar — Tanis corrigiu rapidamente. — Se
você tiver um mapa ou puder enviar alguém para nos mostrar o caminho.
— Mapa! — Caudo enxugou o suor da testa com a manga da túnica.
— Devia falar isso antes. Mapa. Sim. Eu mandar buscar mapa. Enquanto
isso, vocês comer. Convidados do Altobulpe. Guardas levar para comida.
— Não, obrigado — Tanis disse educadamente, incapaz de olhar para
os outros. Eles haviam passado pelo refeitório dos anões tolos a caminho
do Altobulpe. O cheiro sozinho fora suficiente para arruinar até mesmo o
apetite de Caramon.
— Temos nossa própria comida — Tanis continuou. — Gostaríamos
de um tempo para descansarmos e discutirmos mais nossos planos.
— Certo — o Altobulpe foi para a frente do trono. Dois de seus
guardas vieram ajudá-lo a descer, já que seus pés não tocavam o chão. —
Voltar para Área de Espera. Sentar. Comer. Conversar. Eu mandar mapa.
Talvez vocês contar planos para Caudo?
Tanis encarou rapidamente o anão tolo e viu os olhos estrábicos do
Altobulpe brilharem com astúcia. O meio-elfo sentiu frio, percebendo de

252
repente que esse anão tolo não era um bufão. Tanis começou a desejar ter
conversado mais com Flint.
— Nossos planos ainda mal estão feitos, vossa majestade — disse o
meio-elfo.
O grande Altobulpe sabia das coisas. Há muito tempo ele perfurara
um buraco na parede da sala conhecida como Área de Espera, de modo que
pudesse escutar seus súditos enquanto esperavam por uma audiência com
ele, descobrindo com o que pretendiam incomodá-lo com antecedência.
Assim, ele já sabia muito sobre os planos dos companheiros, então, deixou o
assunto morrer. O uso do termo “vossa majestade” pode ter alguma relação
com isso. O Altobulpe nunca ouvira nada tão adequado.
— Vossa majestade — Caudo repetiu, suspirando de prazer. Ele
cutucou as costas de um de seus guardas. — Você lembrar. Agora, dizer
“Vossa Majestade”.
— S-sim, v-vossa, ahm, majestade — o anão tolo gaguejou. O grande
Caudo acenou graciosamente com a mão imunda e os companheiros curva-
ram-se para sair. Altobulpe Caudo I ficou parado um momento ao lado de
seu trono, sorrindo de uma maneira que considerava encantadora até seus
convidados saírem. Então sua expressão mudou, transformando-se em um
sorriso tão astuto e desonesto que seus guardas se aglomeraram em torno
dele, ansiosos.
— Você — disse para um. — Ir nos alojamentos. Trazer mapa. Dar
para bobos da sala ao lado.
O guarda fez uma saudação e saiu correndo. O outro guarda ficou per-
to, esperando em expectativa boquiaberta. Caudo olhou ao redor, depois se
aproximou ainda mais do guarda, considerando exatamente como pronun-
ciar seu próximo comando. Ele precisava de heróis e, se tivesse que criar os
seus próprios a partir de qualquer escória, então ele o faria. Se morressem,
não seria grande perda. Se tivessem sucesso em matar a dragoa, melhor
ainda. Os anões tolos conseguiriam o que era, para eles, mais precioso do
que todas as pedras bonitas de Krynn: o retorno aos doces e tranquilos dias
da liberdade! E assim, chega dessa bobagem de se esgueirar por aí.
Caudo se inclinou e sussurrou no ouvido do guarda.
— Você vai até dragoa. Dar os melhores cumprimentos de sua majes-
tade, Altobulpe Caudo I, e dizer pra ela...

253
20
O mapa de Altobulpe.
Um grimório de Fistandantilus.

u não confio nesse pequeno bastardo mais do que posso suportar


o cheiro dele — Caramon rosnou.
— Concordo — Tanis disse baixinho. — Mas que escolha temos?
Concordamos em trazer o tesouro. Ele tem tudo a perder a nada a ganhar
se nos trair.
Eles se sentaram no chão da Área de Espera, uma antecâmara imunda
ao lado de fora da sala do trono. As decorações desta sala eram tão vulgares
quanto na Corte. Os companheiros estavam nervosos e tensos, falando
pouco e obrigando-se a comer.
Raistlin recusou a comida. Encolhido no chão, longe dos outros, ele
preparou e bebeu a mistura estranha de ervas que aliviava sua tosse. Então,
se envolveu em seus mantos e se esticou, de olhos fechados, no chão. Bupu
sentou-se encolhida perto dele, mastigando algo da sua bolsa. Indo conferir
seu irmão, Caramon ficou horrorizado ao ver uma cauda desaparecer em
boca dela com um estalo.
Vento Ligeiro sentou sozinho. Ele não participou da conversa baixa
quando os amigos voltaram novamente aos planos. O homem das Planícies
olhou melancólico para o chão. Quando sentiu um toque leve no braço,
nem levantou a cabeça. Com o rosto pálido, Lua Dourada ajoelhou-se ao
lado dele. Ela tentou falar, não conseguiu, depois limpou a garganta.
— Precisamos conversar — disse ela com firmeza em seu idioma.
— Isso é uma ordem? — ele perguntou amargamente.
Ela engoliu o seco.
— Sim — ela respondeu, quase inaudível.
Vento Ligeiro levantou-se e andou até a frente de uma tapeçaria
berrante. Ele não olhava para Lua Dourada, nem falava com ela. Seu rosto
parecia uma máscara severa, mas, por baixo, Lua Dourada podia ver a dor
lancinante em sua alma. Ela colocou sua mão gentilmente no braço dele.
— Me perdoe — ela disse baixinho.
Vento Ligeiro a olhou espantado. Ela estava diante dele, com a cabeça
baixa, com uma vergonha quase infantil no rosto. Ele estendeu a mão
para acariciar o cabelo dourado prateado daquela que amava mais do que
a própria vida. Sentiu Lua Dourada tremer ao seu toque e seu coração
doer de amor. Movendo a mão de sua cabeça para o pescoço, ele gentil
e carinhosamente puxou a cabeça da amada para seu peito e, de repente,
apertou-a em seus braços.
— Eu nunca ouvi você dizer essas palavras antes — disse ele, sorrindo
para si mesmo, sabendo que ela não podia vê-lo.
— Eu nunca disse — ela engoliu em seco, sua bochecha pressionada
contra a camisa de couro. — Ah, meu amado, sinto mais do que posso
dizer por você voltar para a filha do chefe e não para Lua Dourada. Mas
tive tanto medo.
— Não — ele sussurrou. — Sou o único que deveria pedir perdão. Ele
levantou a mão para enxugar as lágrimas dela. — Eu não percebi pelo que
você passou. Tudo o que conseguia pensar era em mim mesmo e nos perigos
que enfrentei. Gostaria que tivesse me dito, mais amada do meu coração.
— Queria que você tivesse perguntado — ela respondeu, olhando
para ele com sinceridade. — Sou a filha do chefe há tanto tempo, é a única
coisa que eu sei ser. É a minha força. Me dá coragem quando estou com
medo. Não consigo me esquecer disso.

255
— Não quero que você esqueça — ele sorriu, alisando os fios de cabelo
do rosto dela. — Eu me apaixonei pela filha do chefe na primeira vez que
te vi. Você se lembra? Nos jogos realizados em sua honra.
— Você se recusou a se curvar para receber minha bênção — ela
disse. — Reconheceu a liderança de meu pai, mas negou que eu fosse uma
deusa. Disse que o homem não poderia transformar outros homens em
deuses — seus olhos voltaram para vários anos atrás. — O quanto você era
alto, orgulhoso e bonito, falando de deuses antigos que não existiam para
mim então.
— E como você ficou furiosa — lembrou ele — e como era linda! Sua
beleza por si só era uma bênção para mim. Não precisava de outra... Você
queria que eu fosse expulso dos jogos.
Lua Dourada sorriu de forma triste.
— Você pensou que eu estava com raiva porque tinha me envergonhado
diante das pessoas, mas não foi isso.
— Não? O que foi então, filha do chefe?
Seu rosto corou em um tom rosa escuro, mas ela ergueu seus claros
olhos azuis para ele.
— Estava com raiva porque sabia, quando vi você ali parado, recu-
sando-se a se ajoelhar diante de mim, que eu havia perdido parte de mim e
que, até que você reivindicasse, eu nunca estaria inteira novamente.
Em resposta, o homem das Planícies pressionou-a contra ele, beijan-
do-lhe o cabelo suavemente.
— Vento Ligeiro — ela disse, se controlando — a filha do chefe
ainda está aqui. Não acho que ela possa partir um dia. Mas você precisa
saber que Lua Dourada está por baixo e, se essa jornada chegar ao fim e
finalmente chegarmos à paz, ela será sua para sempre e baniremos a filha
do chefe para os ventos.
Um baque na porta do Altobulpe fez com que todos ficassem nervosos
enquanto um guarda anão tolo tropeçou para dentro da sala.
— Mapa — ele disse, mostrando um pedaço de papel amassado
para Tanis.
— Obrigado — disse o meio-elfo, sério. — E estenda nossos agrade-
cimentos ao Altobulpe.
— Sua Majestade, o Altobulpe — o guarda corrigiu, com um olhar
nervoso para a parede coberta de tapeçarias. Balançando desajeitadamente,
ele voltou para os aposentos do Altobulpe.

256
Tanis abriu o mapa. Todos se reuniram ao redor dele, até mesmo Flint.
No entanto, depois de uma olhada, o anão bufou ironicamente e caminhou
de volta para o sofá.
Tanis riu com sofrimento.
— Devíamos ter esperado isso. Será que o grande Caudo se lembra de
onde é a “sala muito secreta”?
— Claro que não — Raistlin se sentou, abrindo seus estranhos olhos
dourados e os observando através de pálpebras semicerradas.
— É por isso que ele nunca voltou para o tesouro. Contudo, existe
alguém entre nós que sabe onde o covil da dragoa está localizado. Todos
seguiram o olhar do mago.
Bupu os encarou de volta, desafiadoramente.
— Você certo. Eu saber — ela disse, amuada. — Saber lugar secreto.
Eu ir lá, achar pedras bonitas. Mas não contar Altobulpe!
— Você vai nos contar? — perguntou Tanis. Bupu olhou para Raistlin.
Ele anuiu.
— Eu contar — ela murmurou. — Dar mapa.
Vendo os outros absortos em estudar o mapa, Raistlin acenou para
o irmão.
— O plano ainda é o mesmo? — o mago sussurrou.
— Sim — Caramon fechou o semblante. — E eu não gosto disso. Eu
deveria ir com você.
— Absurdo — Raistlin sibilou. — Você apenas ficaria no meu cami-
nho — então, comentou mais gentilmente. — Não correrei nenhum perigo,
eu asseguro. — Colocou a mão no braço de seu gêmeo e o puxou para
perto. — Além disso — o mago olhou ao redor —, há algo que você deve
fazer por mim, meu irmão. Algo que você deve trazer do covil da dragoa.
O toque de Raistlin estava estranhamente quente e seus olhos queima-
vam. Caramon, inquieto, começou a recuar, vendo algo em seu irmão que
não via desde as Torres da Alta Magia, mas a mão de Raistlin o agarrava.
— O que é? — perguntou Caramon, relutante.
— Um grimório! — Raistlin sussurrou.
— Então, era por isso que você queria vir a Xak Tsaroth! — Caramon
disse. — Você sabia que este grimório estaria aqui.
— Eu li sobre ele há vários anos. Sabia que estava em Xak Tsaroth
antes do Cataclismo, todos da Ordem sabiam disso, mas presumimos que

257
fora destruído com a cidade. Quando descobri que Xak Tsaroth escapara da
destruição, percebi que poderia haver uma chance do livro ter sobrevivido!
— Como sabe que está no covil da dragoa?
— Não sei. Só estou supondo. Para magos, este livro é o maior
tesouro de Xak Tsaroth. Pode estar certo de que, se a dragoa o encontrou,
está o usando!
— E você quer que eu o pegue para você — Caramon disse lentamente.
— Como ele se parece?
— Como o meu grimório, claro, exceto que o pergaminho branco
como o osso está encadernado em couro azul-celeste, com runas de prata
estampadas na frente. Vai sentir que é mortalmente frio ao toque.
— O que as runas dizem?
— Você não quer saber... — Raistlin sussurrou.
— De quem ele era? — Caramon perguntou, com suspeita.
Raistlin ficou em silêncio, seus olhos dourados se abstraindo como se
estivesse procurando em seu interior, tentando se lembrar de algo.
— Você nunca ouviu falar dele, meu irmão — disse finalmente, em
um sussurro que forçou Caramon a se inclinar mais. — Mesmo assim, ele
foi um dos maiores da minha ordem. Seu nome era Fistandantilus.
— O jeito que você descreve o grimório... — Caramon hesitou, te-
mendo o que Raistlin responderia. Ele engoliu o seco e continuou. — Este
Fistandantilus... usava os Mantos Negros? — ele não pôde encontrar o
olhar penetrante de seu irmão.
— Não me pergunte mais! — Raistlin sibilou. — Você é tão ruim
quanto os outros! Como vocês poderiam me entender! — vendo o olhar
de dor do seu gêmeo, o mago suspirou. — Confie em mim, Caramon.
Não é um grimório particularmente poderoso, de fato, é um dos primeiros
livros do mago. Um que ele teve quando era muito, muito jovem mesmo
— Raistlin murmurou, olhando para longe. Então, ele piscou e disse mais
rápido. — Mas será valioso para mim, mesmo assim. Você precisa obtê-lo!
Precisa... — ele começou a tossir.
— Claro, Raist — Caramon prometeu, tranquilizando seu irmão. —
Não fique agitado. Eu vou encontrá-lo.
— Bom Caramon. Excelente Caramon — Raistlin sussurrou quando
conseguiu falar. Ele sentou de volta no canto e fechou os olhos. — Agora,
me deixe descansar. Tenho que estar pronto.

258
Caramon levantou-se, olhou para o irmão por um instante, depois se
virou e quase caiu sobre Bupu, que estava de pé atrás dele, olhando para ele
desconfiado com os olhos arregalados.
— O que foi isso? — Sturm perguntou rispidamente quando Cara-
mon retornou ao grupo.
— Ah, nada — o grandalhão murmurou, ruborizando-se culpado.
Sturm lançou um olhar preocupado para Tanis.
— O que foi, Caramon? — Tanis perguntou, colocando o mapa
enrolado em seu cinto e encarando o guerreiro. — Algo errado?
— N-não... — Caramon gaguejou. — Não é nada. Eu, hmm, tentei
convencer Raistlin a me deixar acompanhá-lo. Ele disse que eu ficaria no
seu caminho.
Tanis estudou Caramon. Ele sabia que o grandalhão estava dizendo a
verdade, mas Tanis também sabia que o guerreiro não estava dizendo toda a
verdade. Caramon alegremente derramaria até a última gota do seu sangue
por qualquer membro do grupo, mas Tanis suspeitou que ele trairia todos
à mando de Raistlin.
O gigante olhou para Tanis, silenciosamente implorando para que não
fizesse mais perguntas.
— Ele está certo, Caramon, você sabe — Tanis disse finalmente,
batendo no braço do homem grande. — Raistlin não estará em perigo.
Bupu estará com ele. Ela o trará de volta para se esconderem. Ele só precisa
conjurar algumas de suas pirotecnias, criar uma distração para tirar a dragoa
de seu esconderijo. Ele já estará muito longe quando ela chegar.
— Claro, eu sei disso — disse Caramon, forçando uma risada. — De
qualquer forma, vocês precisam de mim.
— Precisamos — disse Tanis, sério. — Todos estão prontos?
Silenciosos e soturnos, eles se levantaram. Raistlin levantou-se e
avançou, rosto coberto pelo capuz, mãos cruzadas em seus mantos. Havia
uma aura ao redor do mago, indefinível, mas assustadora: a aura de poder
derivada e criada no âmago. Tanis limpou a garganta.
— Nós contaremos até quinhentos — Tanis disse a Raistlin. — Então,
partiremos. O “lugar secreto” marcado no mapa é um alçapão localizado
em um prédio não muito longe daqui, de acordo com sua amiguinha. Ele
leva abaixo da cidade, para um túnel que sob o covil da dragoa, perto de
onde a vimos hoje. Crie sua distração na praça e depois volte para cá. Nos

259
encontraremos aqui, daremos ao Altobulpe seu tesouro e ficaremos quietos
até a noite. Quando estiver escuro, fugiremos.
— Entendi — Raistlin disse calmamente.
Bem que eu queria, Tanis pensou amargamente. Queria entender o
que está passando na sua mente, mago. Mas o meio-elfo nada disse.
— Nós ir agora? — perguntou Bupu, olhando ansiosamente para Tanis.
— Sim, agora — Tanis disse.
Raistlin seguiu pela viela sombria e avançou pela rua ao sul. Não viu
sinais de vida. Era como se todos os anões tolos tivessem sido engolidos pela
névoa. Ele achou esse pensamento perturbador e manteve-se nas sombras.
O mago frágil podia se mover silenciosamente se necessário. Só esperava
poder controlar sua tosse. A dor em seu peito havia diminuído depois dele
tomar a mistura de ervas cuja receita lhe fora dada por Par-Salian, uma es-
pécie de pedido de desculpas do grande feiticeiro pelo trauma que o jovem
mago sofrera. Mas o efeito da mistura logo passaria.
Bupu espiou por trás dos seus mantos, seus olhos negros redondos
olhando a rua que levava para o leste, até a Grande Praça.
— Ninguém — ela disse e puxou o manto do mago. — Nós ir agora.
Ninguém, pensou Raistlin, preocupado. Não fazia sentido. Onde
estavam as multidões de anões tolos? Ele tinha a sensação de que algo
estava errado, mas não havia tempo para voltar. Tanis e os outros estavam a
caminho da entrada do túnel secreto. O mago deu um sorriso amargo. Que
busca idiota isso estava se tornando. Todos provavelmente morreriam nessa
cidade miserável.
Bupu puxou o manto dele de novo. Encolhendo os ombros, ele jogou
o capuz sobre a cabeça e, juntos, ele e a anã desceram rua envolta em névoa.
Duas figuras de armadura saíram de uma porta escura e se esgueiraram
rapidamente atrás de Raistlin e Bupu.

— Este é o lugar — Tanis disse baixinho. Abrindo uma porta podre,


ele espiou. — Está escuro aqui. Precisaremos de uma luz.
Ouviu-se um som de metal batendo forte e, depois, um clarão de luz
quando Caramon acendeu uma das tochas que pegaram emprestado do
Altobulpe. O guerreiro entregou uma a Tanis e acendeu uma para ele e
Vento Ligeiro. Tanis entrou na construção e imediatamente se viu até os
tornozelos com água. Segurando a tocha no alto, viu a água caindo em
correntes constantes pelas paredes da sala deplorável. Ela girava em torno

260
do centro do chão, depois passava através das rachaduras nas laterais. Tanis
chafurdou até o centro e segurou a tocha perto da água.
— Lá está ele. Eu posso vê-lo — disse, enquanto os outros entravam
na sala. Ele apontou para um alçapão no chão. Um anel de ferro que mal
era visível em seu centro.
— Caramon? — Tanis se afastou.
— Ora! — Flint debochou. — Se um anão tolo pode abrir isso, eu
também posso. Afastem-se. — O anão empurrou todos com os cotovelos,
mergulhou a mão na água e puxou. Houve um momento de silêncio. Flint
grunhiu e seu rosto ficou vermelho. Ele parou, endireitou-se com um
suspiro, depois se abaixou e tentou novamente. Não houve um rangido. O
alçapão continuava fechado.
Tanis colocou a mão no ombro do anão.
— Flint, Bupu diz que só desce durante a estação seca. Você está
tentando levantar metade do Novo Mar junto com a porta.
— Bom — o anão bufava para respirar —, por que não disse isso
antes? Deixe o touro aí tentar a sorte.
Caramon avançou. Ele se abaixou na água e deu um puxão. Seus
músculos do ombro se destacaram e as veias do pescoço saltaram. Houve
um som de escoar, então a sucção foi liberada tão repentinamente que o
grande guerreiro quase caiu para trás. A água foi drenada da sala enquanto
Caramon segurava as tábuas do alçapão. Tanis abaixou sua tocha para ver.
Um poço de um metro e vinte se abria no chão. Uma escada estreita de
ferro descia para dentro do poço.
— Como está a contagem? — Tanis perguntou, de garganta seca.
— Quatrocentos e três — respondeu a voz grave de Sturm. — Qua-
trocentos e quatro.
Os companheiros ficaram em volta do alçapão, tremendo no ar frio,
sem ouvir nada além do som da água caindo no poço.
— Quatrocentos e cinquenta e um — observou o cavaleiro calmamente.
Tanis coçou sua barba. Caramon tossiu duas vezes, como lembrasse
todos do seu irmão ausente. Flint se remexia e deixou o machado cair na
água. Tas mastigava distraidamente a ponta do seu rabo-de-cavalo. Lua
Dourada, pálida mas composta, aproximou-se de Vento Ligeiro, o cajado
marrom comum em sua mão. Ele colocou o braço ao redor dela. Nada era
pior do que a espera.
— Quinhentos — Sturm finalmente disse.

261
— Já era hora! — Tasslehoff se jogou para baixo, em direção à escada.
Tanis foi em seguida, levantando sua tocha para iluminar o caminho para
Lua Dourada, que vinha atrás dele. Os outros seguiram, descendo devagar
em um poço de acesso ao sistema de esgoto da cidade. O poço descia apro-
ximadamente seis metros e depois se abria para um túnel de um metro e
meio de largura que ia para o norte e para o sul.
— Verifique a profundidade da água — Tanis avisou o kender quando
Tas estava prestes a soltar a escada. Pendurado no último degrau com uma
das mãos, o kender baixou o hoopak na água escura e turbulenta abaixo
dele. O objeto afundou até a metade.
— Sessenta centímetros — Tas disse alegremente. Caiu batendo
na água, que ficou na altura das suas coxas, e olhou para Tanis interro-
gativamente.
— Por ali — Tanis apontou. — Sul.
Segurando seu cajado no ar, Tasslehoff deixou a correnteza levá-lo.
— Onde está aquela distração? — perguntou Sturm, sua voz ecoando.
Tanis se perguntava o mesmo.
— Nós provavelmente não conseguiremos escutar nada daqui de
baixo. — Ele esperava que isso fosse verdade.
— Raist vai cumprir o combinado. Não se preocupe — Caramon
disse de forma séria.
— Tanis! — Tasslehoff voltou para o meio-elfo. Tem algo aqui em
baixo! Senti algo passar pelo meu pé.
— Continue em frente — Tanis murmurou — e espere que não esteja
com fome...
Eles continuaram em silêncio, a luz da tocha tremeluzindo nas pa-
redes, criando ilusões no olho da mente. Mais de uma vez, Tanis viu algo
tentando pegá-lo, apenas para perceber que era a sombra projetada pelo
elmo de Caramon ou pelo hoopak de Tas. O túnel seguia direto para o sul
por cerca de sessenta metros, depois virava para o leste. Os companheiros
pararam. Descendo pelo ramal leste do esgoto, brilhava uma coluna de
luz fraca, se infiltrando de cima. De acordo com Bupu, isso marcava o
covil da dragoa.
— Apaguem as tochas! — Tanis sussurrou, enfiando sua tocha na
água. Tocando a parede viscosa, seguiu o kender pelo túnel, o contorno
vermelho de Tas aparecendo vividamente para seus olhos élficos. Atrás dele,
ouviu Flint queixando-se dos efeitos da água em seu reumatismo.

262
— Psiu — Tanis sussurrou enquanto se aproximavam da luz. Tentan-
do ficar em silêncio, apesar das armaduras, eles logo chegaram ao lado de
uma escada estreita que levava a uma grade de ferro.
— Ninguém se incomoda em trancar as grades do chão — Tas puxou
Tanis para sussurrar em seu ouvido. — Mas, se precisar, tenho certeza de
que posso abri-la.
Tanis concordou. Não acrescentou que Bupu também conseguiu
abri-la. A arte de abrir fechaduras era uma questão de orgulho tão grande
para o kender quanto os bigodes de Sturm eram para o cavaleiro. Todos
ficaram observando, com água até os joelhos, enquanto Tas subia a escada.
— Ainda não ouço nada de fora — resmungou Sturm.
— Psiu! — Caramon falou bruscamente.
A grade tinha uma fechadura, uma simples que Tas abriu em instan-
tes. Então, ele levantou a grade silenciosamente e espiou. Uma escuridão
repentina caiu sobre ele, tão espessa e impenetrável que parecia atingi-lo
como um peso de chumbo, quase fazendo-o perder o controle sobre a
grade. Apressadamente, ele colocou a grade de volta no lugar sem emitir
nenhum som, depois deslizou pela escada, esbarrando em Tanis.
— Tas? — o meio-elfo o pegou. — É você? Não consigo ver. O que
está acontecendo?
— Não sei. Tudo ficou escuro de repente.
— Como assim, não consegue ver? — Sturm sussurrou para Tanis. —
E sua visão élfica?
— Sumiu — disse Tanis sombriamente. — Assim como na Floresta
Sombria... e perto do poço...
Ninguém falava enquanto eles estavam encolhidos no túnel. Tudo o
que podiam ouvir era o som da própria respiração e a água pingando pelas
paredes.
A dragoa estava lá em cima... Esperando por eles.

263
21
O sacrifício.
A cidade duplamente morta.

m desespero mais escuro que a escuridão cegou Tanis. “Era o


meu plano, a única chance que tínhamos de sair daqui vivos”,
ele pensou. “Era sólido, devia ter funcionado! O que deu errado?
Raistlin... ele poderia ter nos traído? Não!”. Tanis cerrou o punho. O mago
era distante, desagradável, impossível de entender, sim, mas era leal a eles,
Tanis poderia jurar. Onde estava Raistlin? Morto, talvez. Não que impor-
tasse. Logo, todos estariam mortos.
— Tanis — o meio-elfo sentiu um aperto firme em seu braço e re-
conheceu a voz profunda de Sturm — Sei o que você está pensando. Não
temos escolha. Estamos ficando sem tempo. Esta é nossa única chance de
pegar os discos. Não teremos outra.
— Vou olhar — disse Tanis. Ele subiu, passando pelo kender, e obser-
vou pela grade. Estava escuro, magicamente escuro. Tanis colocou a cabeça
na mão e tentou pensar. Sturm estava certo, o tempo estava acabando.
Contudo, como ele poderia confiar no julgamento do cavaleiro? Sturm
queria lutar contra a dragoa! Tanis desceu a escada.
— Nós vamos — ele disse de repente, tudo o que ele queria era acabar
logo com isso, então poderiam ir para casa. Para Consolação.
— Não, Tas — ele agarrou o kender e o arrastou de volta pela escada.
— Os guerreiros vão primeiro, Sturm e Caramon. Depois, o resto.
Mas o cavaleiro já estava passando por ele ansiosamente, sua espada
batendo contra sua coxa.
— Sempre vamos por último! — Tasslehoff fungou, empurrando o
anão junto. Flint subiu a escada devagar, os joelhos rangendo.
— Rápido! — Tas disse. — Espero que nada aconteça antes de chegar-
mos lá. Nunca conversei com uma dragoa.
— Aposto que a dragoa também nunca falou com um kender! — o
anão debochou. — Você percebe, cérebro de lebre, que provavelmente
vamos morrer. Tanis sabe, consegui entender na voz dele.
Tas parou, agarrando-se à escada enquanto Sturm lentamente empur-
rava a grade.
— Sabe, Flint — disse o kender, sério — meu povo não tem medo da
morte. De certa forma, estamos ansiosos por ela, a última grande aventura.
Mas acho que me sentiria mal por deixar esta vida. Sentiria falta das minhas
coisas, — deu um tapinha nas bolsas — dos meus mapas, de você e Tanis.
A não ser, — acrescentou — que todos nós fôssemos para o mesmo lugar
quando morremos.
Flint teve uma visão repentina do kender despreocupado caído, morto
e frio. Sentiu um nó de dor no peito e ficou grato pela escuridão que o
ocultava. Limpando a garganta, disse roucamente.
— Se você acha que vou passar minha pós-vida com um bando de
kender, você é mais louco que Raistlin. Vamos lá!
Sturm levantou cuidadosamente a grade e empurrou-a para um lado.
Ela raspou no chão, fazendo com que ele cerrasse os dentes. Se levantou
facilmente. Virando-se, ele se inclinou para ajudar Caramon, que estava
tendo problemas para passar seu corpo e seu arsenal através da abertura.
— Em nome de Istar, faça silêncio! — Sturm sussurrou.
— Estou tentando — Caramon murmurou, finalmente subindo pela
borda. Sturm deu a mão para Lua Dourada. Por último veio Tas, contente
por ninguém ter feito nada de excitante em sua ausência.
— Precisamos de luz — Sturm disse.

265
— Luz? — respondeu uma voz tão fria e sombria quanto a meia-noite
de inverno. — Sim, teremos luz.
A escuridão sumiu instantaneamente. Os companheiros viram que
estavam em uma enorme câmara abobadada com dezenas de metros de
altura. A luz cinza e fria infiltrava na sala através de uma rachadura no teto,
brilhando em um grande altar no centro da sala circular. No chão, ao redor
do altar, havia montes de joias, moedas e outros tesouros da cidade morta.
As joias não brilhavam. O ouro não reluzia. A luz fraca não iluminava nada
além de uma dragoa negra empoleirada sobre o pedestal como uma enorme
ave de rapina.
— Sentindo-se traído? — perguntou a dragoa em tom de conversa.
— O mago nos traiu! Onde ele está? Servindo a você? — Sturm gritou
ferozmente, sacando a espada e dando um passo à frente.
— Afaste-se, vil cavaleiro de Solamnia. Afaste-se ou seu mago não
usará mais sua magia! — a dragoa serpenteou seu grande pescoço para
baixo e olhou para eles com olhos vermelhos brilhantes. Então, lenta e
delicadamente, levantou uma pata. Deitado debaixo dela, no pedestal,
estava Raistlin.
— Raist! — Caramon rugiu e se lançou em direção ao altar.
— Pare, seu tolo! — a dragoa sibilou. Ela repousou uma garra pontuda
no abdômen do mago. Com um grande esforço, Raistlin moveu a cabeça
para olhar seu irmão com seus estranhos olhos dourados. Ele fez um gesto
fraco e Caramon parou. Tanis viu algo se mover no chão sob o altar. Era
Bupu, encolhida entre as riquezas, com muito medo até para choramingar.
O Cajado de Magius estava o seu lado.
— Um passo a mais e empalarei este humano murcho sobre o altar
com a minha garra.
O rosto de Caramon ficou muito vermelho.
— Solte-o! — ele gritou. — Sua luta é comigo.
— Minha luta não é com nenhum de vocês — disse a dragoa, moven-
do preguiçosamente as asas. Raistlin se encolheu quando o pata da dragoa
se moveu levemente, enfiando sua garra na carne dele. A pele metálica do
mago brilhava de suor. Ele deu um suspiro longo e irregular.
— Não se mexa, mago — a dragoa zombou. — Nós falamos o mesmo
idioma, se lembra? Uma palavra de magia e as carcaças de seus amigos serão
usadas para alimentar os anões tolos!

266
Os olhos de Raistlin se fecharam de exaustão. Mas Tanis podia ver as
mãos do mago se abrindo e fechando e sabia que Raistlin estava preparando
uma magia final. Seria a última. Quando ela fosse lançada, a dragoa o mata-
ria. Mas podia dar a Vento Ligeiro a chance de alcançar os discos e sair vivo
com Lua Dourada. Tanis se aproximou do homem da Planície.
— Como eu dizia — a dragoa continuou tranquilamente. — Não
pretendo lutar contra nenhum de vocês. Como vocês escaparam da minha
ira até agora, eu não entendo. Ainda sim, vocês estão aqui. E vão me devol-
ver o que foi roubado. Sim, Dama de Que-shu, vejo que segura o cajado de
cristal azul. Traga-o para mim.
Tanis sussurrou uma palavra para Lua Dourada.
— Parada! — mas, olhando para seu rosto de mármore, ele se pergun-
tou se ela o ouviu ou se ouviu a dragoa. Ela parecia estar ouvindo outras
palavras, outras vozes.
— Obedeça — a dragoa abaixou a cabeça ameaçadoramente. —
Obedeça ou o mago morre. E, depois dele, o cavaleiro. E então, o meio-
-elfo. E assim por diante, um após o outro, até você, Dama de Que-shu,
ser a última sobrevivente. Então você trará o cajado e implorará para que
eu seja misericordiosa.
Lua Dourada inclinou a cabeça em submissão. Empurrando sua-
vemente Vento Ligeiro para o lado com a mão, ela virou-se para Tanis e
segurou o meio-elfo em um abraço amoroso.
— Adeus, meu amigo — ela disse em voz alta, colocando seu rosto
contra o dele. Sua voz caiu para um sussurro. — Eu sei o que preciso fazer.
Vou levar o cajado para a dragoa e...
— Não! — Tanis disse ferozmente. — Não vai importar. A dragoa
pretende nos matar de qualquer forma.
— Me escute! — As unhas de Lua Dourada cravaram no braço de
Tanis. — Fique com Vento Ligeiro, Tanis. Não deixe ele tentar me impedir.
— E se eu tentar impedi-la? — Tanis perguntou baixinho, segurando
Lua Dourada em seus braços.
— Não vai — ela disse com um sorriso doce e triste. — Você sabe que
cada um de nós tem um destino a cumprir, como disse a Mestre da Floresta.
Vento Ligeiro precisará de você. Adeus, meu amigo.
Lua Dourada deu um passo para trás, seus olhos azuis claros em Vento
Ligeiro como se ela memorizasse todos os detalhes para guardar consigo

267
por toda a eternidade. Percebendo que estava se despedindo, ele partiu em
direção dela.
— Vento Ligeiro — Tanis disse baixinho. — Confie nela. Ela confiou
em você, todos esses anos. Esperou enquanto você travava as batalhas.
Agora, é você que precisa esperar. Esta é a batalha dela.
Vento Ligeiro tremeu, depois parou. Tanis podia ver as veias saltarem
em seu pescoço, os músculos da mandíbula se contraírem. O meio-elfo
pegou o braço do homem das Planícies. O homem alto nem olhou para o
lado. Seus olhos estavam em Lua Dourada.
— Por que esta demora? — a dragoa perguntou. — Estou ficando
entediada. Se aproxime.
Lua Dourada deu as costas para Vento Ligeiro. Ela passou por Flint
e Tasslehoff. O anão inclinou a cabeça. Tas observava de olhos arregalados
e solenes. De alguma forma, isso não era tão excitante quanto imaginara.
Pela primeira vez na vida, o kender se sentiu pequeno, indefeso e sozinho.
Era um sentimento horrível, desagradável, e ele achava que a morte po-
deria ser melhor.
Lua Dourada parou perto de Caramon, colocou sua mão no braço dele.
— Não se preocupe — disse ao grande guerreiro, que estava olhando
para seu irmão em agonia. — Ele ficará bem — Caramon engoliu em seco
e concordou. Então, Lua Dourada se aproximou de Sturm. De repente,
como se o horror da dragoa fosse demais, ela caiu para frente. O cavaleiro
a pegou e abraçou.
— Venha comigo, Sturm — Lua Dourada sussurrou enquanto ele co-
locava o braço ao seu redor. — Deve me jurar que fará o que eu mandar, não
importa o que aconteça. Jure pela sua honra como Cavaleiro de Solamnia.
Sturm hesitou. Os olhos de Lua Dourada, calmos e claros, encontra-
ram os dele.
— Jure — ela exigiu — ou irei sozinha.
— Eu juro, senhora — ele disse com reverência. — Eu obedecerei.
Lua Dourada suspirou agradecida.
— Ande comigo. Não faça movimentos ameaçadores.
Juntos, a mulher bárbara das Planícies e o cavaleiro andaram em
direção à dragoa.
Raistlin estava deitado sob a garra da dragoa, os olhos fechados,
preparando-se mentalmente para a magia que seria sua última. Mas as

268
palavras da magia não se formariam no tumulto da sua mente. Ele lutava
para recuperar o controle.
“Estou me sacrificando... e para quê?”, Raistlin imaginou amarga-
mente. “Para tirar esses idiotas da confusão em que se meteram. Eles não
atacarão por medo de me machucarem, mesmo que me temam e me des-
prezem. Não faz sentido, assim como o meu sacrifício não faz sentido. Por
que eu estou morrendo por eles quando mereço viver mais do que eles?”.
Não é por eles que você faz isso, uma voz o respondeu. Raistlin tentou
se concentrar, alcançar a voz. Era uma voz real, familiar, mas não conseguia
se lembrar de quem era ou onde a ouvira. Tudo o que sabia era que falava
com ele em momentos de grande dificuldade. Quanto mais perto da morte
ele estivesse, mais alta era a voz.
Não é por eles que você faz esse sacrifício, repetiu a voz. É porque você
não suporta a derrota! Nada jamais o derrotou, nem mesmo a própria morte...
Raistlin respirou fundo e relaxou. Ele não entendeu as palavras com-
pletamente, assim como não conseguia se lembrar da voz. Mas agora, a
magia veio facilmente à sua mente.
— Astol arakhkh um — murmurou, sentindo a mágica começar a fluir
pelo seu corpo frágil. Então, outra voz quebrou sua concentração, uma voz
viva falando em sua mente. Ele abriu os olhos, virou a cabeça lentamente e
olhou para a câmara e seus companheiros.
A voz veio da mulher, a princesa bárbara de uma tribo morta. Rais-
tlin olhou para Lua Dourada enquanto ela caminhava em direção a ele,
apoiando-se no braço de Sturm. As palavras na sua cabeça tocaram a mente
de Raistlin. Ele observou a mulher friamente, com desapego. Sua visão
distorcida matara para sempre qualquer desejo físico que o mago pudesse
ter sentido quando olhava para a carne humana. Não conseguia ver a beleza
que tanto cativou Tanis e seu irmão. Seus olhos de ampulheta a viram mur-
char e morrer. Ele não sentia proximidade ou compaixão por ela. Sabia que
ela tinha pena dele, e ele a odiava por isso, mas também que ela o temia.
Então, por que ela estava falando com ele? Ela dizia para ele esperar.
Raistlin entendeu. Ela sabia o que ele pretendia e estava dizendo que
não era necessário. Ela fora escolhida. Era ela que precisaria fazer o sacrifício.
Ele observou Lua Dourada com seus estranhos olhos dourados en-
quanto ela se aproximava cada vez mais, seus próprios olhos no dragão.
Viu Sturm se movendo solenemente ao lado dela, parecendo tão antigo
e nobre quanto o próprio Huma. Que belo boi de piranha Sturm era, o

269
participante ideal do sacrifício de Lua Dourada. Mas por que Vento Ligeiro
permitira que ela fosse? Não podia ver que isso aconteceria? Raistlin olhou
rapidamente para Vento Ligeiro. Ah, claro! O meio-elfo estava ao seu lado,
parecendo aflito e entristecido, soltando palavras de sabedoria como sangue,
sem dúvida. O bárbaro estava se tornando tão ingênuo quanto Caramon.
Raistlin voltou seu olhar para Lua Dourada.
Ela estava diante da dragoa agora, seu rosto pálido com determinação.
Ao lado dela, Sturm parecia sério e torturado, atormentado por conflitos
internos. Lua Dourada provavelmente tirara dele algum voto de obediência
estrita que o cavaleiro era fadado a cumprir. Os lábios de Raistlin se curva-
ram em escárnio.
A dragoa falou e o mago ficou tenso, pronto para a ação.
— Coloque o cajado com os outros restos da tolice da humanidade —
ordenou a dragoa a Lua Dourada, inclinando a cabeça com escamas luzidias
para a pilha de tesouros abaixo do altar.
Tomada pelo medo dos dragões, Lua Dourada não se moveu. Ela não
podia fazer nada além de encarar a criatura monstruosa, tremendo. Sturm,
ao lado dela, vasculhou o tesouro com os olhos, procurando os Discos de
Mishakal, lutando para controlar seu medo da dragoa. Sturm não sabia
que poderia ter medo de qualquer coisa. Ele falava o código “Honra é a
Vida”repetidamente e sabia que só o orgulho o impedia de fugir.
Lua Dourada viu a mão de Sturm tremer, o rosto do cavaleiro brilhan-
do de suor. “Querida deusa” ela pediu em sua alma, “conceda-me coragem”.
Então, Sturm a cutucou. Ela percebeu que precisava falar alguma coisa.
Estava em silêncio há muito tempo.
— O que você nos dará em troca pelo cajado milagroso? — Lua
Dourada perguntou, forçando-se a falar com calma, embora sua garganta
estivesse seca e sua língua parecesse inchada.
A dragoa riu, com gargalhadas estridentes e feias.
— O que eu darei a vocês? — a dragoa serpenteou a cabeça para en-
carar Lua Dourada. — Nada! Absolutamente nada. Não faço acordo com
ladrões. Mesmo assim... — a dragoa recuou a cabeça, os olhos vermelhos
fechados em fendas. Por provocação, ela enfiou a garra na carne de Raistlin.
O mago se encolheu, mas suportou a dor sem um murmúrio. A dragoa
removeu a garra e segurou-a alta o suficiente para que todos pudessem ver
o sangue escorrer dela. — Mas é possível que Lorde Verminaard, o Alto
Mestre dos Dragões, veja favoravelmente o fato de você renunciar ao caja-

270
do. Pode até estar inclinado a ter misericórdia. Ele é um clérigo e eles têm
valores estranhos. Mas saiba disso, Dama de Que-shu, Lorde Verminaard
não precisa dos seus amigos. Desista do cajado agora e eles serão poupados.
Force-me a pegá-lo... e eles morrerão. O mago primeiro!
Com seu espírito aparentemente quebrado, Lua Dourada caiu derrotada.
Sturm aproximou-se dela, parecendo consolá-la.
— Encontrei os discos — ele sussurrou. Ele pegou o braço dela, sen-
tindo-a tremendo de medo. — Está decidida sobre tal curso de ação, minha
senhora? — perguntou baixinho.
Lua Dourada inclinou a cabeça. Ela estava mortalmente pálida, mas
serena e calma. Fios de seu cabelo prateado dourado escaparam da trança e
caíram ao redor de seu rosto, escondendo sua expressão da dragoa. Embora
parecesse derrotada, ela olhou para Sturm e sorriu. Havia paz e tristeza em
seu sorriso, muito parecido com o sorriso na deusa de mármore. Ela nada
disse, mas Sturm teve sua resposta. Ele se inclinou em submissão.
— Que minha coragem possa ser igual à sua, senhora — ele disse. —
Não a desapontarei.
— Adeus, cavaleiro. Diga a Vento Ligeiro... — Lua Dourada vacilou,
piscando os olhos enquanto as lágrimas surgiam. Temendo que sua deter-
minação ainda pudesse ceder, ela engoliu as palavras e virou-se para encarar
a dragoa enquanto a voz de Mishakal enchia seu ser, respondendo a sua
oração. Mostre o cajado com coragem! Imbuída por uma força interior, Lua
Dourada levanto o cajado de cristal azul.
— Escolhemos não nos render! — Lua Dourada gritou, sua voz
ecoando por toda a câmara. Movendo-se rapidamente, antes que a dragoa
surpresa pudesse reagir, a filha do chefe brandiu seu cajado uma última vez,
golpeando a pata sobre Raistlin.
O cajado ressoou baixo quando atingiu a dragoa e, então, se des-
pedaçou. Uma explosão de luz azul pura e radiante foi emitida do cajado
quebrado. A luz ficou mais brilhante, espalhando-se em ondas concêntricas,
engolfando a dragoa.
Khisanth berrou de fúria. A dragoa estava ferida, terrível e mortal-
mente. Ela batia com sua cauda, jogava a cabeça para o alto e lutava para
escapar da chama azul ardente. Tudo o que ela queria era matar aqueles que
ousaram infligir tanta dor, mas o fogo azul intenso a consumia implacavel-
mente, assim como consumia Lua Dourada.

271
A Filha do chefe não soltou o cajado quando ele se despedaçou. Ela se-
gurou a extremidade fragmentada, observando enquanto a luz aumentava,
mantendo-o tão perto da dragoa quanto podia. Quando a luz azul tocou
suas mãos, ela sentiu uma dor intensa e ardente. Cambaleando, caiu de
joelhos, ainda segurando o cajado. Ouviu a dragoa guinchando e rugindo
acima dela, então não podia ouvir nada além do ressoar do cajado. A dor
tornou-se tão horrível que não era mais parte sua e ela foi tomada por um
grande cansaço. “Vou dormir”, ela pensou. “Vou dormir e, quando acordar,
estarei onde realmente pertenço...”.
Sturm viu a luz azul destruir lentamente a dragoa, depois se espalhar
ao longo do cajado até Lua Dourada. Ouviu o som ressonante ficar cada
vez mais alto até superar os gritos da dragoa moribunda. Sturm deu um
passo em direção a Lua Dourada, pensando em arrancar o cajado partido
da mão dela e arrastá-la para longe da chama azul mortal... mas enquanto
se aproximava, ele sabia que não poderia salvá-la.
Meio cego pela luz e ensurdecido pelo som, o cavaleiro percebeu que
seria preciso toda a sua força e coragem para cumprir seu juramento de
recuperar os discos. Ele desviou o olhar de Lua Dourada, cujo rosto estava
torcido em agonia e cuja carne se desfazia no fogo. Rangendo os dentes
contra a dor em sua cabeça, ele andou em direção à pilha de tesouros onde
vira os discos, centenas de folhas finas de platina presas por um único
anel no topo. Abaixando-se, ele os ergueu, espantado com a leveza deles.
Então seu coração quase parou quando uma mão sangrenta saiu da pilha
de tesouros e agarrou seupulso.
— Me ajude!
Ele não podia ouvir a voz tanto quanto sentir o pensamento. Pegando
a mão de Raistlin, colocou o mago de pé. O sangue era visível através do
vermelho do manto de Raistlin, mas ele não parecia estar seriamente ferido,
pelo menos podia ficar de pé. Mas ele podia andar? Sturm precisava de
ajuda. Ele imaginou onde os outros estavam, pois não podia vê-los no
brilho. De repente, Caramon apareceu ao seu lado, sua armadura reluzindo
na chama azul.
Raistlin se segurou nele.
— Me ajude a encontrar o grimório! — ele sibilou.
— Quem se importa com isso? — Caramon rugiu, pegando o seu
irmão. — Vou tirá-lo daqui!

272
A boca de Raistlin se contorceu com tanta fúria e frustração que ele não
conseguiu falar. Ele caiu de joelhos e começou a procurar freneticamente na
pilha de tesouros. Caramon tentou puxá-lo, mas Raistlin empurrou-o de
volta com sua mão frágil.
E o som ressonante ainda perfurava seus ouvidos. Sturm sentiu lágri-
mas de dor escorrerem pelo seu rosto. De súbito, alguma coisa caiu no chão
na frente do cavaleiro. O teto da câmara estava caindo! A construção inteira
tremeu ao redor deles, o som ressonante fazendo os pilares tremerem e as
paredes racharem.
Então, o ressoar morreu... e, com ele, a dragoa. Khisanth desaparecera,
deixando para trás apenas uma pilha de cinzas fumegantes.
Sturm respirou aliviado, mas não por muito tempo. Assim que o som
ressonante parou, pôde ouvir os sons do palácio desabando, o estalar do
teto e os estrondos quando lajes enormes de pedra atingiram o chão. Então,
do meio do pó e do barulho, Tanis apareceu diante dele. O sangue escorria
de um corte na face do meio-elfo. Sturm pegou seu amigo e o puxou para
o altar quando outro pedaço do teto despencou perto deles.
— A cidade toda está desabando! — Sturm gritou. — Como saire-
mos daqui?
Tanis balançou a cabeça.
— O único caminho que conheço é voltar por onde viemos, através
daquele túnel — gritou. Ele se abaixou quando outro pedaço de teto caiu
no altar vazio.
— É muito perigoso! Deve haver outro caminho!
— Vamos encontrá-lo — Tanis disse com firmeza. Ele olhou através
do pó ondulante. — Onde estão os outros? — perguntou. Então, ao virar-
se, viu Raistlin e Caramon. Tanis olhou horrorizado e em desgosto para o
mago que vasculhava o tesouro. Depois, viu uma figura pequena puxando a
manga de Raistlin. Bupu! Tanis correu até ela, quase matando a anã tola de
medo. Ela se encolheu atrás de Raistlin com um grito assustado.
— Temos que sair daqui! — Tanis urrou. Ele agarrou o manto de
Raistlin e colocou o jovem esguio de pé. — Pare de saquear e faça sua anã
tola nos mostrar a saída ou eu juro que você vai morrer pelas minhas mãos!
Os lábios finos de Raistlin se abriram em um sorriso medonho quando
Tanis o jogou de volta contra o altar. Bupu gritou.
— Vem! Nós ir! Eu saber caminho!

273
— Raist — Caramon implorou — você não o achou! Você vai morrer
se não sairmos daqui!
— Muito bem — o mago resmungou. Ele tirou o Cajado de Magius
do altar e se levantou, buscando o braço do irmão para ajudá-lo. — Bupu,
mostre-nos o caminho — ele mandou.
— Raistlin, acenda seu cajado para que possamos segui-lo — Tanis
ordenou. — Vou encontrar os outros.
— Ali — Caramon disse de forma séria. — Você vai precisar de ajuda
com o bárbaro.
Tanis jogou o braço sobre o rosto quando mais pedras caíram e,
depois, saltou sobre os escombros. Encontrou Vento Ligeiro caído onde
Lua Dourada estava, com Flint e Tasslehoff tentando colocar o homem das
Planícies em pé. Não havia nada lá agora, exceto uma grande área de pedra
enegrecida. Lua Dourada foi totalmente consumida nas chamas.
— Ele está vivo? — Tanis gritou.
— Sim! — respondeu Tas, sua voz mal se destacando acima do ruído.
— Mas não se mexe!
— Vou falar com ele — disse Tanis. — Siga os outros. Estaremos lá
em um instante. Vão em frente!
Tasslehoff hesitou, mas Flint, depois de olhar o rosto de Tanis, colo-
cou a mão no braço do kender. Fungando, Tas virou-se e começou a correr
pelos escombros com o anão.
Tanis se ajoelhou ao lado de Vento Ligeiro, então o meio-elfo olhou
para cima quando Sturm apareceu da escuridão.
— Vão em frente — disse Tanis. — Você está no comando agora.
Sturm hesitou. Uma coluna desabou perto deles, os cobrindo em pó
de pedra. Tanis jogou o corpo sobre o de Vento Ligeiro.
— Vão! — gritou para Sturm. — Estou o colocando como responsá-
vel! — Sturm respirou fundo, colocou a mão no ombro de Tanis e correu
em direção à luz do cajado de Raistlin.
O cavaleiro encontrou os outros amontoados em um corredor estreito.
O teto arqueado acima deles parecia estar aguentando, mas Sturm podia
ouvir sons de batida acima. O chão tremeu sob seus pés e pequenos filetes
de água começaram a infiltrar-se através de novas rachaduras nas paredes.
— Onde Tanis está? — perguntou Caramon.

274
— Ele está vindo — disse Sturm, de forma dura. — Vamos esperar...
pelo menos um pouco — só não mencionou que esperaria até que a espera
se dissolvesse em morte.
Houve um estalo abalador. A água começou a jorrar pela parede,
inundando o chão. Sturm estava prestes a mandar os outros saírem quando
uma figura emergiu da porta desabada. Era Vento Ligeiro, carregando o
corpo inerte de Tanis em seus braços.
— O que aconteceu? — Sturm se adiantou, sua garganta se contraindo.
— Ele não..
— Ele ficou comigo — Vento Ligeiro disse baixinho. — Eu disse para
ele me deixar. Eu queria morrer... lá, com ela. Então... uma laje de pedra.
Ele não a viu...
— Vou carregá-lo — disse Caramon.
— Não! — Vento Ligeiro encarou o grande guerreiro. Seus braços
agarraram o corpo de Tanis com mais força. — Eu vou carregá-lo.
Temos que ir.
— Sim! Por aqui! Nós ir agora! — insistiu a anã tola. Ela os levou para
fora da cidade que estava morrendo pela segunda vez. Eles emergiram do
covil da dragoa para a praça, que estava rapidamente submergindo enquanto
o Novo Mar entrava na caverna desmoronando. Os companheiros atraves-
saram, segurando uns nos outros para não serem arrastados pela correnteza
cruel. Anões tolos barulhentos abundavam por toda parte em um estado de
confusão selvagem, alguns sendo apanhados na correnteza, outros subindo
nos andares das construções abaladas, outros ainda correndo pelas ruas.
Sturm só conseguia pensar em uma saída.
— Para o leste! — ele gritou, apontando para a rua larga que levava à
cachoeira. Olhou ansiosamente para Vento Ligeiro. O bárbaro atordoado
parecia alheio à comoção ao seu redor. Tanis estava inconsciente... talvez
morto. O medo gelava o sangue de Sturm, mas ele suprimiu todas as emo-
ções. O cavaleiro correu para alcançar os gêmeos.
— Nossa única chance é o elevador! — gritou.
Caramon concordou lentamente.
— Isso significa uma luta.
— Sim, droga! — disse Sturm exasperado, prevendo todos os draco-
nianos tentando sair desta cidade destruída. — Isso significa uma luta! Tem
uma ideia melhor?
Caramon balançou a cabeça.

275
Em uma esquina, Sturm esperou para levar seu grupo exausto na
direção certa. Olhando pela poeira e neblina, ele podia ver o elevador à
sua frente. Como havia previsto, ele estava cercado por uma massa escura
e contorcida de draconianos. Felizmente, todos estavam tentando fugir.
Sturm sabia que eles teriam que atacar rapidamente para pegar as criaturas
desprevenidas. O momento era crucial. Ele pegou o kender enquanto Tas
passava correndo.
— Tas! — ele gritou. — Vamos subir de elevador!
Tasslehoff assentiu para mostrar que entendeu, depois fez uma careta
para imitar um draconiano e passou a mão pela garganta.
— Quando nos aproximarmos — gritou Sturm — esgueire até onde
você possa ver o pote descendo. Quando começar a descer, me dê um sinal.
Nós atacaremos quando ele chegar ao chão.
O rabo de cavalo de Tasslehoff balançou.
— Diga ao Flint! — Sturm terminou, sua voz quase desaparecendo
de tanto gritar. Tas assentiu novamente e correu para encontrar o anão.
Sturm endireitou as costas doloridas com um suspiro e continuou descendo
a rua. Ele podia ver de vinte a trinta draconianos no pátio, observando
o pote que os levaria para a segurança para começar sua descida. Sturm
imaginou a confusão no topo, com draconianos chicoteando e intimidando
os anões tolos em pânico, forçando-os a entrar no elevador. Ele esperava
que a confusão durasse.
Sturm viu os irmãos nas sombras à beira do pátio. Ele se juntou a
eles, olhando para cima nervosamente quando uma laje de pedra caiu atrás.
Enquanto Vento Ligeiro caminhava para fora da névoa e da poeira, Sturm
começou a ajudá-lo, mas o homem das Planícies olhou para o cavaleiro
como se nunca o tivesse visto antes na vida.
— Traga Tanis até aqui — disse Sturm. Você pode colocá-lo no chão
e descansar um pouco. Vamos subir no elevador e teremos uma luta em
nossas mãos. Espere aqui. Quando dermos o sinal...
— Faça o que for preciso — Vento Ligeiro interrompeu friamente.
Ele colocou o corpo de Tanis suavemente no chão e desabou ao lado dele,
enterrando o rosto nas mãos.
Sturm hesitou. Ele começou a se ajoelhar perto de Tanis quando Flint
chegou ao seu lado.
— Vão em frente. Eu cuido dele — o anão se ofereceu. Sturm con-
cordou agradecido. Ele viu Tasslehoff atravessar o pátio e entrar por uma

276
passagem. Olhando para o elevador, ele viu os draconianos gritando e
amaldiçoando na névoa, como se pudessem apressar a descida do pote.
Flint cutucou Sturm nas costelas.
— Como nós vamos lutar contra todos eles? — gritou.
— “Nós” não vamos. Você vai ficar aqui com Vento Ligeiro e Tanis
— disse Sturm. — Caramon e eu podemos lidar com isso — acrescentou,
desejando acreditar em si mesmo.
— E eu — sussurrou o mago. — Ainda tenho minhas magias. — O
cavaleiro não respondeu. Não confiava em magia e não confiava em Raistlin.
Entretanto, não tinha escolha. Caramon não entraria em batalha sem seu
irmão ao seu lado. Puxando os bigodes, Sturm afrouxou a espada. Caramon
flexionou os braços, abrindo e fechando as mãos enormes. De olhos fechados,
Raistlin estava perdido em concentração. Escondida em um nicho na parede
atrás dele, Bupu observava com os olhos arregalados e assustados.
O pote apareceu, com anões tolos pendurados nos seus lados. Como
Sturm esperava, os draconianos no chão começaram a lutar entre si, ne-
nhum querendo ficar para trás. O pânico deles aumentou quando grandes
rachaduras atravessaram a calçada em direção a eles. A água subia pelas
fendas. A cidade de Xak Tsaroth logo estaria no fundo do Novo Mar.
Quando o pote tocou o solo, os anões tolos correram pelas laterais e
fugiram. Os draconianos subiram, batendo e empurrando um ao outro.
— Agora! — gritou o cavaleiro.
— Saia do meu caminho! — o mago sibilou. Puxando um punha-
do de areia de uma de suas bolsas, ele a polvilhou no chão e sussurrou
— Ast tasark sinuralan krynaw — movendo a mão direita em um arco
na direção dos draconianos. Primeiro um, depois mais alguns piscaram
os olhos e caíram no chão, mas outros permaneceram de pé, olhando em
volta, alarmados. O mago se abaixou de volta na porta e, não vendo nada,
os draconianos voltaram para o elevador, pisando nos corpos de seus cama-
radas adormecidos em sua corrida frenética. Raistlin se apoiou na parede,
fechando os olhos, cansado.
— Quantos? — ele perguntou.
— Somente seis — Caramon sacou sua espada da sua bainha.
— Entrem no maldito pote! — Sturm gritou. — Vamos buscar Tanis
quando a luta terminar.
Sob a cobertura da neblina, os dois guerreiros, com espadas em pu-
nho, percorreram a distância até os draconianos em alguns segundos, com

277
Raistlin cambaleando atrás. Sturm deu o seu brado de batalha. Com o som,
os draconianos se viraram em alerta.
E Vento Ligeiro levantou a cabeça.
O som da batalha penetrou no seu nevoeiro de desespero. O bárbaro
viu Lua Dourada diante dele, morrendo na chama azul. A expressão morta
deixou seu rosto, substituída por uma ferocidade tão bestial e aterrorizante
que Bupu, ainda se escondendo na porta, gritou assustada. Vento Ligeiro se
levantou. Nem mesmo desembainhou a espada, avançando de mãos vazias.
Rasgou as fileiras dos draconianos como uma pantera faminta e começou
a matar. Matou com as próprias mãos, torcendo, sufocando, arrancando.
Draconianos o apunhalaram com suas espadas. Logo sua túnica de couro
ficou encharcada de sangue. Contudo, nunca parou de avançar entre eles,
nunca parou de matar. Seu rosto era o de um louco. Os draconianos no
caminho de Vento Ligeiro viram a morte nos olhos dele e que suas armas
não tinham efeito. Um se afastou e fugiu e, logo depois, outro.
Acabando com um oponente, Sturm olhou para cima sério, preparado
para encontrar mais seis vindo até ele. Em vez disso, viu o inimigo fugindo
na névoa. Coberto de sangue, Vento Ligeiro desabou no chão.
— O elevador! — O mago apontou. Estava pairando a cerca de ses-
senta centímetros do chão e começando a subir. Havia anões tolos no pote
de cima que descia.
— Pare-o! — Sturm gritou. Tasslehoff saiu correndo de seu esconde-
rijo e saltou para a borda. Ele se agarrou, seus pés balançando, tentando
desesperadamente impedir que o pote vazio subisse.
— Caramon! Segure-o! — Sturm ordenou o guerreiro. — Vou
buscar Tanis!
— Posso segurá-lo, mas não por muito tempo. — O grandalhão
grunhiu, agarrando a borda e enterrando os pés no chão.
Ele puxou o elevador até pará-lo. Tasslehoff subiu para dentro, espe-
rando que seu pequeno corpo pudesse acrescentar lastro.
Sturm voltou rapidamente até Tanis. Flint estava ao lado dele, com o
machado nas mãos.
— Ele está vivo! — o anão falou enquanto o cavaleiro se aproximava.
Sturm fez uma pausa para agradecer a algum deus, em algum lugar,
depois ele e Flint ergueram o meio-elfo inconsciente e o carregaram até
o pote. Eles o colocaram dentro, depois voltaram para pegar Vento Li-
geiro. Foram necessários quatro deles para colocar o corpo ensanguentado

278
de Vento Ligeiro no elevador. Tas tentou, sem muito sucesso, estancar as
feridas com um de seus lenços.
— Depressa! — Caramon arfou. Apesar de todo o seu esforço, o pote
estava subindo lentamente.
— Entre! — Sturm ordenou Raistlin.
O mago olhou para ele friamente e correu de volta para a névoa. Em
instantes, ele reapareceu carregando Bupu em seus braços. O cavaleiro
agarrou a anã tola trêmula e atirou-a no elevador. Choramingando, Bupu
agachou-se no fundo, ainda segurando a bolsa no peito. Raistlin subiu
pela lateral. O pote continuou a subir. Os braços de Caramon foram quase
retirados dos seus encaixes.
— Vá — Sturm mandou Caramon, ficando o cavaleiro por último no
campo de batalha, como de costume. Caramon sabia que era melhor nem
discutir. Ele escalou, quase virando o pote. Flint e Raistlin o arrastaram
para dentro. Sem Caramon segurando, o pote subiu rapidamente. Sturm o
segurou com as duas mãos e agarrou-se na lateral quando se elevou no ar.
Depois de duas ou três tentativas, ele conseguiu passar a perna pela borda e
subir com a ajuda de Caramon.
O cavaleiro se ajoelhou ao lado de Tanis e ficou aliviado ao ver o
meio-elfo se mexer e gemer. Sturm o abraçou.
— Você não tem ideia de como estou feliz por você estar de volta! — o
cavaleiro falou com sua voz rouca.
— Vento Ligeiro... — Tanis murmurou, grogue.
— Está aqui. Salvou a sua vida. Salvou todas as nossas vidas — Sturm
falava rapidamente, quase incoerente. — Estamos no elevador, subindo. A
cidade está destruída. Onde você se machucou?
— Costelas quebradas, parece — Estremecendo de dor, Tanis olhou
para Vento Ligeiro, ainda consciente, apesar de suas feridas. — Pobre ho-
mem — Tanis disse baixinho. — Lua Dourada. Eu a vi morrer, Sturm. E
eu não podia fazer nada.
Sturm ajudou o meio-elfo a se levantar.
— Temos os discos — o cavaleiro falou com firmeza. — Era o que
ela queria, pelo que lutou. Estão na minha mochila. Tem certeza que pode
ficar em pé?
— Sim — Tanis disse. Ele deu um suspiro irregular e doloroso. —
Temos os discos, não importa o bem que ele nos fará.

279
Eles foram interrompidos pelos gritos agudos quando o segundo pote,
com anões tolos voando como estandartes, passou por eles. Os anões tolos
balançaram os punhos e xingaram os companheiros. Bupu riu e então se
levantou, olhando para Raistlin com preocupação. O mago inclinou-se
cansado na lateral do pote, seus lábios se movendo silenciosamente, lem-
brando de outro feitiço.
Sturm observou através da névoa.
— Quantos mais estarão lá em cima? — perguntou.
Tanis também olhou para cima.
— Espero que a maioria tenha fugido — disse.
Ele tomou fôlego rapidamente e agarrou as costelas.
Houve uma guinada repentina. O pote caiu cerca de um palmo, parou
com um solavanco e, lentamente, começou a subir novamente. Os compa-
nheiros olharam entre si, alertas.
— O mecanismo...
— Está começando a desabar ou os draconianos nos reconheceram e
estão tentando destruí-lo — disse Tanis.
— Não há nada que possamos fazer — Sturm falou em uma frustra-
ção amarga. Ele olhou para a mochila contendo os discos, que estava a seus
pés — Exceto orar para esses deuses...
O pote deu outra guinada e caiu novamente. Por um momento ficou
pendurado, suspenso, balançando no ar, envolto na névoa. Então começou
a subir, movendo-se lentamente, estremecendo. Os companheiros podiam
ver a borda da saliência e a abertura acima deles. O pote levantou-se centí-
metro a centímetro, rangendo, cada um deles apoiando mentalmente cada
elo da corrente que os carregava até...
— Draconianos! — gritou Tas, estridente, apontando para cima.
Dois draconianos olhavam para eles. Enquanto o pote se aproximava
cada vez mais, Tanis viu os draconianos se agacharem, prontos para pular.
— Eles vão saltar sobre nós! O pote não vai aguentar! — Flint entendeu.
— Vamos cair!
— Este pode ser o plano deles — Tanis disse. — Eles têm asas.
— Para trás — falou Raistlin, ficando em pé com dificuldade.
— Raist, não! — Seu irmão o pegou. — Você está fraco demais.
— Tenho força para mais uma magia — o mago sussurrou. — Mas
pode não funcionar. Se eles virem que sou um mago, podem resistir à
minha magia.

280
— Esconda-se atrás do escudo de Caramon — Tanis disse rapidamente.
O grandalhão colocou seu corpo e seu escudo na frente do irmão.
A névoa rodopiava ao redor deles, escondendo-os dos olhos draco-
nianos, mas também os impedindo de vê-los. O pote subia centímetro a
centímetro, a corrente rangendo e dando trancos para cima. Raistlin estava
parado atrás do escudo de Caramon, seus olhos estranhos atentos, esperan-
do que a névoa abrisse.
O ar frio tocou a face de Tanis. Uma brisa separou a névoa, só por um
instante. Os draconianos estavam tão perto que quase poderiam tocá-los!
Os draconianos os viram ao mesmo tempo. Um abriu as asas e flutuou em
direção ao pote, com espada na mão, gritando em triunfo.
Raistlin falou. Caramon moveu seu escudo e o mago abriu seus dedos
finos. Uma esfera branca foi disparada de suas mãos, acertando o draconiano
bem no peito. A esfera explodiu, cobrindo a criatura com uma teia pegajosa.
Seu grito de triunfo transformou-se em um berro horripilante quando a teia
emaranhou suas asas. Ele mergulhou na névoa, seu corpo batendo na borda
do pote de ferro ao cair. O pote começou a balançar e gingar.
— Ainda tem mais um! — Raistlin arfou, caindo de joelhos. — Venha,
Caramon, me ajude a levantar — o mago começou a tossir violentamente,
o sangue escorrendo de sua boca.
— Raist! — implorou seu irmão, largando o escudo e pegando seu
gêmeo que desmaiava. — Pare! Não há nada que possa fazer. Você vai
se matar!
Um olhar de comando foi o suficiente. O guerreiro apoiou seu irmão
quando o mago começou a falar novamente o idioma misterioso da magia.
O draconiano restante hesitou, ainda ouvindo os gritos de seu com-
panheiro caído. Sabia que o humano usava magia. Também sabia que pro-
vavelmente resistiria à magia. Mas esse humano era diferente de qualquer
mago humano que ele já havia encontrado. O corpo dele parecia fraco,
praticamente às portas da morte, mas uma forte aura de poder o rodeava.
O mago levantou a mão, apontando para a criatura. O draconiano
lançou um último olhar cruel para os companheiros, depois virou-se e
fugiu. Inconsciente, Raistlin desabou nos braços do seu irmão quando o
pote completou sua jornada até a superfície.

281
22
O presente de Bupu. Uma visão sinistra.

ssim que puxaram Vento Ligeiro para fora do elevador, um tremor


forte sacudiu o chão do Salão dos Ancestrais. Arrastando Vento
Ligeiro com eles, os companheiros recuaram quando o chão se
partiu. O piso cedeu e caiu, levando a grande roda e os potes de ferro para
a névoa abaixo.
— Este lugar todo está desabando! — Caramon gritou alarmado,
segurando seu irmão em seus braços.
— Corram! De volta para o Templo de Mishakal — Tanis arfou com dor.
— Confiando nos deuses, hein? — Flint disse. Tanis não conseguiu
responder.
Sturm pegou os braços de Vento Ligeiro e começou a levantá-lo, mas
o homem das Planícies balançou a cabeça e empurrou-o para longe.
— Meus ferimentos não são graves. Consigo aguentar. Deixe-me — ele
permaneceu caído no chão quebrado. Tanis olhou interrogativamente para
Sturm. O cavaleiro deu de ombros. Os Cavaleiros de Solamnia considera-
vam consideravam o suicídio nobre e honrado. Os elfos o consideravam
uma blasfêmia.
O meio-elfo segurou o longo cabelo escuro do bárbaro e empurrou a
cabeça para trás, de modo que o homem assustado foi forçado a olhar nos
olhos de Tanis.
— Vá em frente. Deite e morra! — Tanis disse com os dentes cerrados.
— Envergonhe sua líder! Ela pelo menos tinha a coragem de lutar!
Os olhos de Vento Ligeiro arderam. Ele segurou o pulso de Tanis e
atirou o meio-elfo para longe com tanta força que Tanis cambaleou contra
a parede, gemendo em agonia. O homem das Planícies se levantou, enca-
rando Tanis com ódio. Então ele virou-se e tropeçou pelo corredor trêmulo,
com a cabeça baixa.
Sturm ajudou Tanis a se levantar, o meio-elfo tonto por causa da dor.
Eles seguiram os outros o mais rápido que podiam. O chão se inclinou,
descontrolado. Quando Sturm escorregou, eles bateram contra a parede.
Um sarcófago deslizou para o corredor, despejando seu conteúdo horrível.
Um crânio rolou pelos pés de Tanis, assustando o meio-elfo que caiu de
joelhos. Ele temia desmaiar por causa da dor.
— Vão — tentou dizer a Sturm, mas não conseguiu falar. O cavaleiro o
pegou e, juntos, cambalearam pelo corredor sufocante de poeira. Ao pé da es-
cadaria chamada Caminhos dos Mortos, encontraram Tasslehoff esperando.
— Os outros? — Sturm engasgou, tossindo na poeira.
— Eles já subiram para o templo — disse Tasslehoff. — Caramon me
disse para esperá-los aqui. Flint falou que o templo é seguro, construção
anã, sabe. Raistlin está consciente. Ele também disse que é seguro. Algo so-
bre estar na palma da mão da deusa. Vento Ligeiro está lá. Ele me encarou.
Acho que poderia ter me matado! Mas conseguiu subir as escadas...
— Tudo bem! — Tanis disse, para fazê-lo parar de tagarelar. — Chega!
Pode me soltar, Sturm. Tenho que descansar um minuto ou vou desmaiar.
Leve Tas e eu os encontrarei lá em cima. Vão, droga!
Sturm agarrou Tasslehoff pelo colarinho e arrastou-o escada acima.
Tanis se sentou. O suor gelou seu corpo. Cada respiração era uma agonia.
De repente, o restante do piso no Salão dos Ancestrais desmoronou com
um som alto. O Templo de Mishakal tremeu e balançou. Tanis se levantou,
cambaleando, depois parou por um instante. Fracamente, atrás dele, podia
ouvir o barulho baixo e trovejante de água subindo. O Novo Mar tomara
Xak Tsaroth. A cidade morta agora estava enterrada.

283
Tanis saiu da escadaria para a sala circular no topo. A subida fora um
pesadelo, cada novo passo um milagre. A câmara estava abençoadamente
quieta, o único som, sendo a respiração pesada de seus amigos que chega-
ram tão longe e desabaram. Ele também não conseguia prosseguir.
O meio-elfo olhou em volta para se certificar de que os outros estavam
bem. Sturm colocara a mochila com os discos no chão e se apoiara em uma
parede. Raistlin deitou em um banco, de olhos fechados, com a respiração
rápida e curta. Claro, Caramon sentou ao lado dele, seu rosto sombrio de
ansiedade. Tasslehoff estava sentado aos pés do pedestal, olhando para o
alto. Flint encostou-se nas portas, cansado demais para resmungar.
— Onde está Vento Ligeiro? — perguntou Tanis. Ele viu Caramon e
Sturm trocarem olhares, depois abaixaram a cabeça. Tanis se levantou com
dificuldade, a raiva vencendo a dor. Sturm se ergueu e bloqueou seu caminho.
— É a decisão dele, Tanis. É o jeito do seu povo assim como é do meu.
Tanis empurrou o cavaleiro para o lado e caminhou em direção às
portas duplas. Flint não se mexeu.
— Saia da minha frente — o meio-elfo disse, sua voz trêmula. Flint
olhou para cima. As linhas de pesar e tristeza gravadas por cem anos
suavizaram a expressão carrancuda do anão. Tanis viu nos olhos de Flint
a sabedoria acumulada que atraíra um rapaz meio-humano e meio-elfo
infeliz a uma estranha e duradoura amizade com um anão.
— Sente-se, rapaz — disse Flint em uma voz suave, como se também
se lembrasse de suas origens. — Se a sua mente élfica não puder entender,
então ouça seu coração humano dessa vez.
Tanis fechou os olhos, com lágrimas ardendo. Então, ouviu um grande
grito de dentro do templo... Vento Ligeiro. Tanis empurrou o anão para o
lado e abriu as enormes portas douradas. Andando rapidamente, ignorando
sua dor, ele abriu o segundo conjunto de portas e entrou na câmara de
Mishakal. Mais uma vez, sentiu paz e tranquilidade inundando-o, mas
agora os sentimentos só aumentavam sua raiva sobre o que acontecera.
— Não acredito em vocês! — gritou Tanis. — Que tipo de deuses
são vocês, que exigem um sacrifício humano? São os mesmos deuses que
causaram o Cataclismo para os homens. Certo... então vocês são poderosos!
Agora nos deixem em paz! Não precisamos de vocês! — o meio-elfo cho-
rou. Através das lágrimas, ele pôde ver que Vento Ligeiro se ajoelhou diante
da estátua, com a espada na mão. Tanis tropeçou para a frente, esperando
impedir o ato de autodestruição. Tanis contornou a base da estátua e pa-

284
rou, atordoado. Por um minuto, ele se recusou a acreditar em seu próprio
sentido de visão; talvez a tristeza e a dor estivessem pregando peças em sua
mente. Ele ergueu os olhos para o rosto bonito e calmo da estátua e firmou
seus sentidos confusos e cambaleantes. Depois, olhou novamente.
Lua Dourada estava lá, dormindo, seu peito subindo e descendo com
o ritmo de sua respiração tranquila. Seus cabelos prateados dourados se
soltaram da trança e flutuaram em torno de seu rosto no vento suave que
enchia a câmara com a fragrância da primavera.
O cajado era mais uma vez parte da estátua de mármore, mas Tanis viu
que Lua Dourada usava em volta do pescoço o colar que outrora adornara
a estátua.
— Sou uma clériga verdadeira agora — Lua Dourada disse baixinho.
— Sou uma discipula de Mishakal e, embora tenha muito a aprender,
tenho o poder da minha fé. Acima de tudo, sou uma curandeira. Trago o
dom da cura de volta para o mundo.
Estendendo a mão, Lua Dourada tocou Tanis na testa, sussurrando
uma prece a Mishakal. O meio-elfo sentiu paz e força fluírem através de seu
corpo, limpando seu espírito e curando suas feridas.
— Temos uma clériga agora — disse Flint —, e isso será útil. Mas,
pelo que ouvimos, esse Lorde Verminaard também é clérigo, e poderoso.
Podemos ter encontrado os antigos deuses do bem, mas ele encontrou os
antigos deuses do mal muito antes. Não vejo como esses discos vão ajudar
contra as hordas de dragões.
— Você está certo — Lua Dourada falou suavemente. — Não sou
guerreira. Sou uma curandeira. Não tenho o poder de unir os povos do
nosso mundo para combater este mal e restaurar o equilíbrio. Meu dever
é encontrar a pessoa com a força e a sabedoria para essa tarefa. Tenho que
entregar os Discos de Mishakal para ela.
Os companheiros ficaram em silêncio por um tempo. Então...
— Temos de sair daqui, Tanis — Raistlin sibilou das sombras do
Templo, onde estava, olhando pela porta para o pátio. — Escutem.
Trombetas. Todos podiam ouvir o estridente zumbido de muitas,
muitas trombetas, carregado pelo vento norte.
— Os exércitos — Tanis falou baixinho. — A guerra começou.

Os companheiros fugiram de Xak Tsaroth no crepúsculo. Viajaram


para o oeste, em direção às montanhas. O ar estava frio com a força do iní-

285
cio do inverno. Folhas mortas, sopradas por ventos frios, passavam por seus
rostos. Eles decidiram ir para Consolação, planejando estocar suprimentos
e coletar informações que pudessem conseguir antes de determinar aonde
ir em busca de um líder. Tanis conseguia prever discussões nesse sentido.
Sturm já estava falando de Solamnia. Lua Dourada mencionou Refúgio,
enquanto o próprio Tanis estava pensando que os Discos de Mishakal
estariam mais seguros no reino élfico.
Discutindo planos vagos, eles viajaram até tarde da noite. Não viram
draconianos e imaginaram que os que escaparam de Xak Tsaroth viajaram
para o norte, para se juntarem aos exércitos desse Lorde Verminaard, o Alto
Mestre dos Dragões.
A lua prateada surgiu, depois a vermelha. Os companheiros subiram
alto, o som das trombetas os conduziram além do ponto de exaustão.
Acamparam no cume da montanha. Depois de um jantar desanimado, sem
ousar acender uma fogueira, prepararam a vigia e, depois, dormiram.

Raistlin acordou na hora fria e cinzenta antes do amanhecer. Ele escutara


algo. Estava sonhando? Não, lá estava novamente... o som de alguém choran-
do. Lua Dourada, o mago pensou irritado, começando a se deitar. Então viu
Bupu, enrolada como uma bola miserável, chorando em um cobertor.
Raistlin olhou em volta. Os outros dormiam, exceto Flint, de vigia do
outro lado do acampamento. O anão aparentemente não ouviu nada e não
estava olhando na direção de Raistlin. O mago levantou-se e caminhou sua-
vemente. Ajoelhando-se ao lado da anã tola, colocou a mão no ombro dela.
— O que foi, pequenina?
Bupu se virou para vê-lo. Seus olhos estavam vermelhos, o nariz in-
chado. Lágrimas escorriam pelo seu rosto sujo. Ela fungou e passou a mão
pelo nariz.
— Não querer deixar você. Eu querer ir com você — ela disse de
forma quebrada — mas, ah, eu sentir falta meu povo! — soluçando, enfiou
o rosto nas mãos.
Um olhar de ternura infinita tocou o rosto de Raistlin, um olhar que
ninguém jamais veria. Ele estendeu a mão e acariciou o cabelo grosso de
Bupu, sabendo como era ser fraco e miserável, objeto de zombaria e pena.
— Bupu — ele disse —, você tem sido uma amiga verdadeira e boa
para mim. Você salvou minha vida e as vidas daqueles com quem me
importo. Agora, você fará uma última coisa por mim, pequenina. Volte.

286
Preciso percorrer estradas que serão escuras e perigosas antes do final da
minha longa jornada. Não posso pedir que vá comigo.
Bupu levantou a cabeça, os olhos brilhando. Então, uma sombra caiu
em seu rosto.
— Mas você vai ficar infeliz sem mim.
— Não — disse Raistlin, sorrindo. — Minha felicidade estará no fato
de saber que você está de volta com o seu povo.
— Certeza? — Bupu perguntou ansiosamente.
— Tenho certeza — respondeu Raistlin.
— Então eu ir — Bupu levantou-se. — Mas primeiro, você ganhar
presente — ela começou a remexer em sua bolsa.
— Não, pequenina — começou Raistlin, lembrando-se do lagarto
morto. — não é necessário... — as palavras ficaram presas na garganta en-
quanto ele observava Bupu tirar da bolsa... um livro! Ele olhou espantado,
vendo a luz pálida da manhã fria iluminar runas de prata em uma capa de
couro azul-escura.
Raistlin esticou sua mão tremendo.
— O grimório de Fistandantilus! — ele suspirou.
— Você gostar? — Bupu disse, tímida.
— Sim, pequenina! — Raistlin pegou o objeto precioso em suas mãos
e segurou-o carinhosamente, acariciando o couro. — Onde...
— Eu pegar da dragoa — disse Bupu —, quando luz azul brilhar.
Ficar feliz você gostar. Agora, eu ir. Encontrar Altobulpe Caudo I, o Grande
— ela jogou a bolsa sobre o ombro. Então, parou e se virou. — Aquela
tosse, certeza não querer lagarto da cura?
— Não, pequenina, obrigado — Raistlin disse, levantando.
Bupu olhou para ele com tristeza, depois, com muita ousadia, segurou
a mão dele e beijou-a rapidamente. Ela se afastou, de cabeça baixa, choran-
do amargamente.
Raistlin deu um passo à frente, colocando a mão na cabeça dela. “Se
eu tiver algum poder, ó Grandioso”, pensou, “poder que ainda não me
foi revelado, permita que esta pequenina passe sua vida em segurança e
felicidade”.
— Adeus, Bupu — ele disse baixinho.
Ela olhou para ele com os olhos arregalados, depois virou-se e correu
o mais rápido que seus sapatos frouxos permitiam.

287
— O que foi isso? — Flint disse, vindo do outro lado do acampamento.
— Ah — acrescentou, vendo Bupu correndo. — Então você se livrou da
sua anã tola de estimação.
Raistlin não respondeu, simplesmente encarou Flint com um olhar
maligno que fez o anão tremer e caminhar apressadamente para longe.
O mago segurava o grimório nas mãos, admirando-o. Ansiava por abri-
-lo e deleitar-se com seus tesouros, mas sabia que longas semanas de estudo
estavam à sua frente antes que ele pudesse ler as novas magias, quanto mais
aprendê-las. E, com as magias, teria mais poder! Ele suspirou em êxtase
e abraçou o livro no seu peito magro. Então, o guardou rapidamente em
sua mochila com seu próprio grimório. Os outros estariam acordados em
breve... que eles imaginem como ele conseguiu o livro.
Raistlin levantou-se, olhando para o oeste, para sua terra natal, onde
o céu estava brilhando com o sol da manhã. Repentinamente, ele se enri-
jeceu. Depois, soltando a mochila, correu pelo acampamento e se ajoelhou
ao lado do meio-elfo.
— Tanis! — Raistlin sibilou. — Acorde!
Tanis acordou e pegou sua adaga.
— O que...
Raistlin apontou para o oeste.
Tanis piscou, tentando focar os olhos cheios de sono. A vista do topo
da montanha onde eles estavam acampados era magnífica. Ele podia ver
as árvores altas dando lugar às Planícies cobertas de grama. E além das
Planícies, serpenteando para o céu...
— Não! — Tanis engasgou. Ele agarrou o mago. — Não, não pode ser!
— Sim — Raistlin sussurrou. — Consolação está queimando.

288
LIVRO DOIS
1
Noite dos dragões.

ika espremeu o pano no balde e observou, entediada, enquan-


to a água ficava preta. Ela jogou o pano no balcão e começou
a levantar o balde para levá-lo de volta para a cozinha e pegar
mais água. Depois pensou, porque se dar ao trabalho! Pegando o pano, ela
começou a esfregar as mesas novamente. Quando pensou que Otik não
estava olhando, ela enxugou os olhos com o avental.
Mas Otik estava olhando. Suas mãos rechonchudas seguraram os om-
bros de Tika e a viraram para ele. Tika deu um soluço de choro e colocou a
cabeça no ombro dele.
— Sinto muito — Tika soluçou. — Mas não consigo limpar!
Otik sabia, claro, que essa não era a verdadeira razão pela qual a garota
estava chorando, mas chegava perto. Ele deu um tapinha leve em suas costas.
— Eu sei, eu sei criança. Não chore. Eu entendo.
— É essa maldita fuligem! — Tika lamentou. — Ela cobre tudo de
preto e todo dia eu esfrego e no dia seguinte está preto. Continuam quei-
mando e queimando!
— Não se preocupe com isso, Tika — Otik disse, acariciando seus
cabelos. — Esteja grata que a Hospedaria está inteira...
— Estar grata! — Tika se afastou dele, com o rosto corado. — Não!
Queria que tivesse queimado como o resto em Consolação, então eles não
viriam para cá! Queria que tivesse queimado! Queria que tivesse queimado!
— Tika se sentou à mesa, chorando sem controle. Otik se aproximou dela.
— Eu sei, minha querida, eu sei — repetiu, alisando as mangas bu-
fantes da blusa que Tika tinha tanto orgulho de manter brancas e limpas.
Agora estavam sujas e cobertas de fuligem, como tudo na cidade devastada.
O ataque em Consolação veio sem aviso. Mesmo quando os primeiros
refugiados deploráveis começaram a chegar à cidade pelo norte, contando
histórias de horror de enormes monstros alados, Hederick, o Sumo Teocra-
ta, garantiu ao povo de Consolação que eles estavam seguros, que sua cidade
seria poupada. E as pessoas acreditaram nele porque queriam acreditar.
E, então, veio a noite dos dragões.
A Hospedaria estava lotada naquela noite, um dos poucos lugares em
que as pessoas podiam ir e não se lembrar das nuvens de tempestade que
pairavam no céu do norte. A lareira ardia intensamente, a cerveja era sabo-
rosa, as batatas temperadas estavam deliciosas. No entanto, mesmo aqui, o
mundo exterior se intrometia: todos falavam alto e com medo da guerra.
As palavras de Hederick acalmavam seus corações temerosos.
— Nós não somos como aqueles idiotas imprudentes do Norte que
cometeram o erro de desafiar o poder dos Senhores dos Dragões — ele
gritou, de pé em uma cadeira para ser ouvido. — Lorde Verminaard ga-
rantiu pessoalmente ao Conselho de Altos Perscrutadores em Refúgio que
quer somente a paz. Ele quer permissão para passar seus exércitos através
de nossa cidade para que possa conquistar as terras élficas ao sul. E eu digo,
mais poder para ele!
Hederick fez uma pausa para aplausos e uma euforia dispersa.
— Já toleramos os elfos de Qualinesti por muito tempo. Digo que
devemos deixar Verminaard expulsá-los para Silvanost ou para onde eles
tiverem saído! Na verdade — Hederick se animou com o assunto — alguns
de vocês, rapazes, poderiam se juntar aos exércitos deste grande lorde. E
ele é um grande lorde! Eu o conheci! Ele é um clérigo verdadeiro! Eu vi os
milagres que ele realizou! Entraremos em uma nova era sob a sua liderança!
Expulsaremos os elfos, anões e todos os forasteiros da nossa terra e...

293
Ouviu-se um rugido baixo e abafado, como o encontro das águas de
um oceano poderoso. O silêncio surgiu abruptamente. Todos ouviram,
intrigados, tentando descobrir o que poderia fazer tanto barulho. Ciente de
que perdera seu público, Hederick olhou ao redor, irritado. O som retum-
bante ficava mais e mais alto, aproximando-se. De repente, a Hospedaria foi
jogada em uma escuridão espessa e sufocante. Algumas pessoas gritaram. A
maioria correu para as janelas, tentando ver pelos poucos painéis espalhados
através do vidro colorido.
— Desça e descubra o que está acontecendo — alguém disse.
— Está tão escuro que não consigo ver as escadas — alguém murmurou.
E então, a escuridão se foi.
Chamas explodiram fora da Hospedaria. Uma onda de calor atin-
giu o prédio com força suficiente para estilhaçar as janelas, cobrindo as
pessoas com vidro. A poderosa copadeira, que nenhuma tempestade em
Krynn conseguira mexer, começou a balançar e tremer com a explosão. A
Hospedaria se inclinou. As mesas caíram de lado. Bancos deslizaram pelo
chão e bateram contra a parede. Hederick perdeu o equilíbrio e caiu da sua
cadeira. Carvões quentes pulavam da lareira enquanto as lamparinas do
teto e velas das mesas começavam pequenos incêndios.
Um grito estridente se elevou acima do barulho e da confusão, o
grito de alguma criatura viva, um grito cheio de ódio e crueldade. O som
estrondoso passou pela Hospedaria. Houve uma rajada de vento, depois a
escuridão se dissipou quando uma parede de chamas surgiu ao sul.
Tika jogou uma bandeja de canecas no chão enquanto se agarrava deses-
peradamente no balcão em busca de apoio. As pessoas ao seu redor gritavam
e berravam, algumas de dor, outras de terror. Consolação estava queimando.
Um brilho laranja apavorante iluminou a sala. Nuvens de fumaça escura
entraram pelas janelas quebradas. Cheiros de madeira em chamas enchiam
as narinas de Tika, junto com um cheiro mais horrível, o de carne queimada.
Tika engasgou e olhou para cima para ver pequenas chamas tocando os
grandes galhos da copadeira que seguravam o teto. Sons de verniz aquecido e
estalando no calor se misturavam com os gritos dos feridos.
— Apaguem esse fogo! — Otik estava gritando loucamente.
— A cozinha! — a cozinheira gritou enquanto voava para fora das
portas oscilantes, as roupas queimando, uma parede sólida de chamas atrás
dela. Tika pegou uma jarra de cerveja do balcão e a jogou no vestido da

294
cozinheira, segurando-a para encharcar as roupas. Rhea se jogou em uma
cadeira, chorando histericamente.
— Saiam! O lugar está pegando fogo! — alguém gritou.
Empurrando pelos feridos, Hederick foi um dos primeiros a chegar
à porta. Ele correu para o patamar da frente da Hospedaria, depois parou,
atordoado, e agarrou o corrimão em busca de apoio. Olhando para o norte,
ele viu a floresta ardendo e, pela luz horrenda das chamas, pôde ver cente-
nas de criaturas marchando, a luz do fogo refletindo em suas asas de couro.
Tropas terrestres draconianas.
Assistiu, horrorizado, quando as fileiras da frente entraram na cidade
de Consolação, sabendo que devia haver milhares mais atrás deles. E, acima
deles, voavam as criaturas saídas das histórias infantis.
Dragões.
Cinco dragões vermelhos giravam no céu iluminado por chamas.
Primeiro um mergulhou, depois outro, incinerando partes da pequena
cidade com seu sopro ardente, lançando a escuridão mágica e espessa. Era
impossível combatê-los, os guerreiros não enxergavam bem o suficiente
para apontar suas flechas ou atacar com suas espadas.
O resto da noite ficou nublado na memória de Tika. Ela ficava dizendo
a si mesma que deveria deixar a Hospedaria em chamas, mas a Hospedaria
era o seu lar, ela se sentia segura ali, e assim ficou, embora o calor da cozinha
em chamas fosse tão intenso que seus pulmões doíam ao respirar. Quando
as chamas se espalharam para o salão comum, a cozinha desabou até o chão.
Otik e as garçonetes jogavam baldes de cerveja nas chamas do salão comum
até que, finalmente, o fogo se extinguiu.
Uma vez que o incêndio acabou, Tika voltou sua atenção para os
feridos. Otik desabou em um canto, tremendo e soluçando. Tika enviou
uma das outras garçonetes para cuidar dele enquanto ela tratava dos feridos.
Ela trabalhou durante horas, recusando-se a olhar pelas janelas, bloqueando
de sua mente os terríveis sons de morte e destruição do lado de fora.
De repente, ela percebeu que não havia fim para os feridos, que
havia mais pessoas deitadas no chão do que na Hospedaria quando esta
foi atacada. Atordoada, ela olhou para cima, vendo as pessoas entrando.
Esposas ajudavam seus maridos. Maridos carregavam suas esposas. Mães
carregavam seus filhos agonizantes.
— O que foi isso? — Tika perguntou a um guarda Perscrutador que
entrou cambaleando, segurando o braço perfurado por uma flecha. Outros

295
vieram atrás dele. — O que está acontecendo? Por que essas pessoas estão
vindo para cá?
O guarda olhou para ela com os olhos embotados, cheios de dor.
— Só sobrou este lugar — ele murmurou. — Todos queimados. Todos...
— Não! — Tika ficou mole com o choque e seus joelhos tremeram.
Naquele instante, o guarda desmaiou em seus braços e ela foi forçada a
se recompor. A última coisa que viu quando o arrastou para dentro foi
Hederick, de pé na varanda, olhando para a cidade em chamas com olhos
vidrados. Lágrimas escorriam pelo seu rosto coberto de fuligem.
— Aconteceu um engano — ele choramingou, torcendo as mãos. —
Foi um engano em algum momento.

Isso foi há uma semana. Como se viu, a Hospedaria não foi a única
construção que ficou em pé. Os draconianos sabiam quais edifícios eram
essenciais para suas necessidades e destruíram todos aqueles que não eram. A
Hospedaria, a forja de Theros Dobraferro e o armazém foram poupados. A
forja sempre estivera no chão, uma vez que não era aconselhável ter uma forja
quente localizada em uma árvore, mas os outros foram baixados até o chão
porque os draconianos tinham dificuldade em subir em entrar nas árvores.
Lorde Verminaard ordenou que os dragões baixassem os edifícios.
Depois de abrir espaço com fogo, um dos monstros vermelhos enormes
enfiou as garras na Hospedaria e a levantou. Os draconianos celebraram
quando o dragão a largou, não suavemente, sobre a grama enegrecida. O
Baixo Mestre Toede, responsável pela cidade, mandou Otik consertar a
Hospedaria imediatamente. Os draconianos tinham uma grande fraqueza,
uma sede por uma bebida forte. Três dias depois da cidade ser tomada, a
Hospedaria foi reaberta.

— Estou bem agora — Tika disse a Otik. Ela se endireitou e enxugou


os olhos, limpando o nariz com o avental. — Não tinha chorado ainda,
desde aquela noite — disse, mais para si mesma do que para ele. Seus lábios
se comprimiram em uma linha fina. — E nunca vou chorar de novo! —
prometeu, levantando-se da mesa.
Otik, sem entender, mas agradecido por Tika ter recuperado a com-
postura antes de os clientes chegarem, voltou para trás do balcão.
— Quase a hora de abrir — ele disse, tentando parecer alegre. —
Talvez tenhamos muitos fregueses hoje.

296
— Como consegue aceitar o dinheiro deles! — Tika explodiu.
Temendo outro ataque, Otik olhou para ela, suplicante.
— O dinheiro deles é bom como os de qualquer um. Melhor que a
maioria hoje em dia — disse.
— Unf! — Tika desdenhou. Seus cachos ruivos grossos estremeceram
quando ela andou furiosamente pelo chão. Conhecendo seu temperamen-
to, Otik recuou. Não adiantou. Ele foi pego. Ela enfiou o dedo em seu
estômago gordo. — Como pode rir das suas piadas grosseiras e atender
aos seus caprichos? — ela exigiu. — Eu odeio o fedor deles! Eu odeio seus
olhares e suas mãos frias e escamosas tocando as minhas! Um dia, eu vou...
— Tika, por favor! — Otik implorou. — Pense um pouco em mim.
Estou muito velho para ser levado para as minas de escravos! E você, eles
a levariam amanhã se você não trabalhasse aqui. Por favor, comporte-se...
seja uma boa menina!
Tika mordeu o lábio de raiva e frustração. Sabia que Otik estava certo.
Ela corria um risco maior do que ser colocada nas caravanas de escravos que
passavam pela cidade quase diariamente. Um draconiano enfurecido ma-
tava rapidamente e sem piedade. Enquanto pensava nisso, a porta se abriu
e seis guardas draconianos entraram. Um deles tirou a placa “Fechado” da
porta e a jogou em um canto.
— Vocês estão abertos — a criatura disse, sentando em uma cadeira.
— Sim, claro. — Otik sorriu debilmente. — Tika...
— Eu entendo — Tika respondeu, sem emoção.

297
2
O estranho. Capturados!

avia poucos clientes na Hospedaria naquela noite. Os fregueses


eram agora draconianos, embora ocasionalmente os residentes de
Consolação entrassem para beber algo. Geralmente não ficavam
muito tempo, considerando a companhia desagradável e as memórias de
tempos antigos difíceis de suportar.
Naquela noite, havia um grupo de hobgoblins que observava cautelo-
samente os draconianos e três humanos do norte, vestidos de forma rústica.
Originalmente pressionados a servirem ao Lorde Verminaard, eles agora
lutavam pelo prazer de matar e saquear. Alguns cidadãos de Consolação es-
tavam reunidos em um canto. Hederick, o Teocrata, não estava em seu local
noturno. Lorde Verminaard recompensou o serviço do Sumo Teocrata ao
colocá-lo entre os primeiros a serem enviados para as minas como escravo.
Perto do crepúsculo, um estranho entrou na Hospedaria, pegando
uma mesa em um canto escuro perto da porta. Tika não conseguiu vê-lo
muito bem. Ele estava com um manto pesado e usava um capuz sobre a
cabeça baixa. Parecia cansado, afundando na cadeira, como se suas pernas
não o suportassem.
— O que vai querer? — Tika perguntou ao estranho.
O homem abaixou a cabeça, puxando um lado do capuz com uma
mão esbelta.
— Nada, obrigado — ele disse com uma voz suave, com sotaque. — É
possível sentar aqui e descansar? Devo encontrar alguém aqui.
— Que tal um copo de cerveja enquanto espera? — Tika sorriu.
O homem olhou para cima e ela viu os olhos castanhos brilharem nas
profundezas do capuz.
— Muito bem — o estranho disse. — Estou com sede. Traga-me
sua cerveja.
Tika seguiu para o balcão. Enquanto colocava a cerveja, ouviu mais
clientes entrarem na Hospedaria.
— Só um segundo — ela disse, incapaz de se virar. — Sentem onde
quiser. Estarei com vocês em breve!— Ela olhou os recém-chegados de
relance sobre os ombros e quase soltou a caneca. Tika engasgou, depois
recuperou o controle. Precisava disfarçar!
— Sentem onde quiserem, estranhos — ela disse em voz alta.
Um dos homens, um sujeito grande, parecia prestes a falar. Tika
fechou a cara para ele e balançou a cabeça. Seus olhos se voltaram para os
draconianos sentados no centro do salão. Um homem de barba conduziu
o grupo passando pelos draconianos, que examinaram os estranhos com
muito interesse.
Eles viram quatro homens e uma mulher, um anão e um kender. Os
homens estavam vestidos com mantos e botas manchados de lama. Um
era bem alto, outro era muito grande. A mulher estava envolta em peles e
caminhava de braços dados com o homem alto. Todos pareciam abatidos e
cansados. Um dos homens tossiu e se apoiou pesadamente em um cajado
de aparência estranha. Atravessaram a sala e sentaram-se a uma mesa no
canto mais distante.
— Mais escória refugiada — desprezou um draconiano. — Mas os
humanos parecem saudáveis e todos sabem que os anões trabalham bastan-
te. Por que será que ainda não foram enviados?
— Logo serão, assim que o Baixo Mestre os vir.
— Talvez devêssemos cuidar do assunto agora — disse um terceiro
olhando com raiva na direção dos oito estranhos.

299
— Nem, estou de folga. Eles não vão muito longe.
Os outros riram e voltaram a beber. Vários copos vazios já estavam
colocados diante de cada um deles.
Tika levou a cerveja ao estranho de olhos castanhos, colocou-a à sua
frente com pressa, depois voltou para os recém-chegados.
— O que vão querer? — perguntou friamente.
O homem alto e barbudo respondeu em voz baixa e rouca.
— Cerveja e comida — disse. — E vinho para ele — indicou o ho-
mem que estava tossindo quase continuamente.
O homem frágil balançou a cabeça.
— Água quente — sussurrou.
Tika anuiu e saiu. Por hábito, ela começou a voltar para onde a velha
cozinha ficava. Então, lembrando-se que ela fora destruída, virou-se e diri-
giu-se para a cozinha improvisada construída pelos goblins sob a supervisão
dos draconianos. Uma vez lá dentro, ela surpreendeu a cozinheira ao pegar
a frigideira inteira com batatas fritas temperadas e levá-la de volta para o
salão comum.
— Cerveja para todos e uma caneca de água quente! — disse para Dezra
atrás do balcão. Tika agradeceu suas estrelas por Otik ter ido para casa cedo.
— Itrum, atenda aquela mesa — ela indicou os hobgoblins enquanto corria
de volta para os recém-chegados. Ela bateu a frigideira na mesa, olhando para
os draconianos. Vendo-os absortos em sua bebida, ela lançou de súbito os
braços ao redor do grandalhão e o deu um beijo que o fez corar.
— Ah, Caramon — sussurrou rapidamente. — Eu sabia que voltaria
para mim! Me leve com você! Por favor, por favor!
— Certo, calma, calma — disse Caramon, batendo nas costas dela
sem jeito e olhando de forma suplicante para Tanis. O meio-elfo interveio
rapidamente, seus olhos nos draconianos.
— Tika, acalme-se — ele falou. — Estamos em público aqui.
— Certo — ela respondeu ligeira e se levantou, arrumando o avental.
Distribuindo os pratos, ela começou a servir as batatas temperadas enquan-
to Dezra trazia a cerveja e a água quente.
— Conte-nos o que aconteceu em Consolação — Tanis disse, com a
voz abafada.
Rapidamente, Tika sussurrou a história enquanto enchia os pratos de
todos, dando uma porção dupla para Caramon. Os companheiros ouviram
em silêncio sombrio.

300
— E assim — Tika concluiu — toda semana, as caravanas de escravos
partem para Pax Tharkas, exceto que agora levaram quase todo mundo,
deixando para trás apenas aqueles com alguma habilidade específica, como
Theros Dobraferro.
— Eu temo por ele — ela baixou a voz. — Ele me jurou noite passada
que não trabalharia mais para eles. Tudo começou com aquele grupo de
elfos presos...
— Elfos? O que os elfos estão fazendo aqui? — Tanis perguntou,
falando alto demais em sua surpresa. Os draconianos se viraram para
olhá-lo. O estranho encapuzado no canto ergueu a cabeça. Tanis se curvou
e esperou até que os draconianos voltassem a atenção para suas bebidas.
Então, começou a perguntar mais à Tika sobre os elfos. Naquele instante,
um draconiano gritou pedindo cerveja.
Tika suspirou.
— É melhor eu ir — ela baixou a frigideira. — Vou deixar isso aqui.
Os companheiros comeram com indiferença, a comida com gosto
de cinzas. Raistlin fez seu estranho preparado de ervas e bebeu. Sua tosse
melhorou quase que imediatamente. Caramon observava Tika enquanto
comia, com uma expressão pensativa. Ainda podia sentir o calor do corpo
dela quando o abraçou e a suavidade de seus lábios. Sensações agradáveis
fluíram por ele, que imaginou se as histórias que ouvira sobre Tika eram
verdadeiras. O pensamento o entristeceu e o deixou furioso.
Um dos draconianos aumentou a voz.
— Podemos não ser homens como você está acostumada, garota —
disse um, bêbado, jogando o braço em volta da cintura de Tika. — Mas não
significa que não possamos encontrar maneiras de fazê-la feliz.
Caramon rosnou, do fundo do peito. Ouvindo, Sturm olhou com
raiva colocou a mão na sua espada. Pegando o braço do cavaleiro, Tanis
disse com urgência,
— Parem, vocês dois! Estamos em uma cidade ocupada. Sejam
sensatos. Não é hora de bravura! Você também, Caramon. Tika pode
cuidar de si.
De fato, Tika escorregou com destreza do aperto do draconiano e se
moveu com raiva para cozinha.
— Bem, o que vamos fazer agora? — Flint resmungou. — Viemos
para Consolação em busca de suprimentos e só encontramos draconianos.
Minha casa é só uma pilha de cinzas. Tanis nem tem mais uma copadeira,

301
quanto mais uma casa. Tudo o que temos são discos de platina de uma
deusa antiga e um mago doente com algumas magias novas — ele ignorou
a encarada de Raistlin. — Não podemos comer os discos e o mago não
aprendeu a conjurar comida, então, mesmo que soubéssemos para onde ir,
morreríamos de fome antes de chegar!
— Ainda devemos ir para Refúgio? — Lua Dourada perguntou,
olhando para Tanis. — E se estiver tão ruim quanto aqui? Como saberemos
se o Conselho dos Altos Perscrutadores ainda existe?
— Não temos respostas — disse Tanis, suspirando. Ele esfregou os
olhos com a mão. — Mas acho que devemos tentar chegar a Qualinesti.
Entediado com a conversa, Tasslehoff bocejou e recostou-se na cadei-
ra. Não importava para onde eles fossem. Examinando a Hospedaria com
interesse intenso, ele queria se levantar e olhar onde a cozinha queimara,
mas Tanis o havia avisado antes de entrarem para ficar longe de problemas.
O kender se contentou em estudar os outros clientes.
Ele imediatamente notou o estranho de manto e capuz na frente da
Hospedaria os observando atentamente enquanto a conversa entre os com-
panheiros esquentava. Tanis levantou a voz e a palavra “Qualinesti” soou
novamente. O estranho baixou sua caneca de cerveja com uma batida. Tas
estava prestes a chamar a atenção de Tanis para isso quando Tika saiu da
cozinha e largou a comida na frente dos draconianos, habilmente evitando
suas mãos. Depois, ela voltou para o grupo.
— Posso pedir mais batatas? — perguntou Caramon.
— Claro — Tika sorriu para ele e pegou a frigideira para voltar para
a cozinha. Caramon sentiu o olhar de Raistlin. Ele corou e começou a
brincar com o garfo.
— Em Qualinesti... — Tanis reiterou, sua voz aumentando enquanto
contestava um argumento de Sturm, que queria ir para o norte.
Tas viu o estranho no canto se levantar e começar a caminhar na
direção deles.
— Tanis, companhia — o kender disse baixinho.
A conversa parou. Com os olhos nas canecas, todos podiam sentir e
ouvir a aproximação do estranho. Tanis se amaldiçoou por não o notar antes.
Contudo, os draconianos perceberam o estranho. Assim que ele chegou
à mesa das criaturas, um dos draconianos esticou o pé com garras. O estranho
tropeçou, caindo de cabeça em uma mesa próxima. As criaturas gargalharam.
Então, um draconiano teve um vislumbre do rosto do estranho.

302
— Elfo! — O draconiano sibilou, tirando o capuz para revelar os
olhos amendoados, as orelhas inclinadas e os traços masculinos delicados
de um elfo nobre.
— Me deixem passar — disse o elfo, recuando de mãos erguidas. —
Eu só ia trocar uma palavra de saudação com esses viajantes.
— Você vai trocar uma palavra de saudação com o Baixo Mestre,
elfo — rosnou o draconiano. Avançando e agarrando a gola do manto
do estranho, a criatura empurrou o elfo contra o balcão. Os outros dois
draconianos riram ruidosamente.
No caminho de volta para a cozinha com a frigideira, Tika espreitou
em direção aos draconianos.
— Parem com isso! — ela gritou, segurando o braço de um dos draco-
nianos. — Deixem-no em paz. Ele está pagando. Igual a vocês.
— Vai cuidar da sua vida, garota! — o draconiano empurrou Tika
para o lado, depois agarrou o elfo com uma mão e bateu duas vezes no
rosto dele. Os golpes tiraram sangue. Quando o draconiano o soltou, o elfo
cambaleou e balançou a cabeça, atordoado.
— Ah, mata ele — gritou um dos humanos do norte. — Faz ele gritar,
igual aos outros!
— Eu vou é arrancar esses olhos inclinados da sua cabeça!
O draconiano sacou sua espada.
— Isso já foi longe demais! — Sturm correu para a frente, os outros
atrás dele, embora todos temessem que houvesse pouca esperança de salvar
o elfo. Eles estavam muito longe. Mas a ajuda estava mais perto. Com um
grito estridente de raiva, Tika Waylan sentou a frigideira pesada de ferro na
cabeça do draconiano.
Houve um som metálico alto. O draconiano olhou de forma estúpida
para Tika por um instante, depois caiu lentamente. O elfo correu para
frente, puxando uma faca, enquanto os outros dois draconianos avançaram
sobre Tika. Sturm chegou ao lado dela e bateu em um dos draconianos com
sua espada. Caramon pegou o outro em seus grandes braços e o jogou além
do balcão.
— Vento Ligeiro! Não deixem que saiam pela porta! — gritou Tanis,
vendo os hobgoblins correndo. O homem das Planícies pegou um hob-
goblin quando este colocou a mão na maçaneta, mas outro fugiu do seu
alcance. Eles podiam ouvi-lo gritando pelos guardas.

303
Ainda empunhando sua frigideira, Tika acertou um hobgoblin na
cabeça. Mas outro hobgoblin, vendo Caramon avançar, saltou pela janela.
Lua Dourada se levantou.
— Use sua magia! — disse para Raistlin, agarrando-o pelo braço. —
Faça alguma coisa!
O mago olhou friamente para a mulher.
— É inútil — ele sussurrou. — Não desperdiçarei minha força.
Lua Dourada o encarou com fúria, mas ele voltou para sua bebida. Mor-
dendo o lábio, ela correu até Vento Ligeiro, a bolsa com os preciosos Discos
de Mishakal em seus braços. Ela podia ouvir as trombetas tocando nas ruas.
— Temos que sair daqui! — Tanis disse, mas, naquele instante, um
dos guerreiros humanos passou os braços pelo pescoço de Tanis, arrastando-
-o para o chão. Com um grito selvagem, Tasslehoff saltou sobre o balcão e
começou a atirar canecas no atacante do meio-elfo, quase atingindo Tanis
no processo.
Flint estava parado no meio do caos, observando o estranho élfico.
— Eu te conheço! — gritou repentinamente. — Tanis, não é o...
Uma caneca atingiu a cabeça do anão, o nocauteando.
— Epa — Tas disse.
Tanis estrangulou o homem do norte e deixou-o inconsciente debaixo
de uma mesa. Ele tirou Tas do balcão, colocou o kender no chão e se ajoe-
lhou ao lado de Flint, que estava gemendo e tentando se sentar.
— Tanis, aquele elfo... — Flint piscou, grogue, então perguntou — o
que me atingiu?
— Aquele grandão, debaixo da mesa! — Tas disse, apontando.
Tanis levantou-se e olhou o elfo que Flint indicara.
— Gilthanas?
O elfo o fitou.
— Tanthalas — ele disse friamente. — Eu jamais teria o reconhecido.
Essa barba...
As trombetas tocaram de novo, agora mais próximas.
— Grande Reorx! — O anão gemeu, se levantando com dificuldade.
— Temos que sair daqui! Vamos! Pelos fundos!
— Não tem mais fundos! — Tika gritou, ainda segurando a frigideira.
— Não — disse uma voz na porta. — Não tem mais fundos. Vocês
são meus prisioneiros.

304
A chama de uma tocha entrou na sala. Os companheiros protegeram
os olhos, distinguindo as formas de hobgoblins atrás de uma figura atarra-
cada na passagem. Os companheiros podiam ouvir os sons de pés batendo
do lado de fora, então o que parecia uma centena de goblins olhou pelas
janelas e espiou pela porta. Os hobgoblins dentro da sala que ainda estavam
vivos ou conscientes se levantaram e sacaram suas armas, examinando os
companheiros avidamente.
— Sturm, não seja tolo! — Tanis gritou, segurando o cavaleiro, en-
quanto este se preparava para investir contra a massa agitada de goblins,
formando lentamente um anel de aço ao redor deles.
— Nós nos rendemos — o meio-elfo exclamou.
Sturm olhou com raiva para o meio-elfo e, por um momento, Tanis
pensou que ele poderia desobedecer.
— Por favor, Sturm — Tanis disse baixinho. — Confie em mim. Não
é nossa hora de morrer.
Sturm hesitou, olhando ao redor os goblins que lotavam a Hospeda-
ria. Eles recuaram, com medo de sua espada e habilidade, mas sabia que o
atacariam de uma vez se fizesse o menor movimento. “Não é nossa hora de
morrer.” Palavras estranhas. Por que Tanis as dissera? O homem tem uma
“hora de morrer”? Se fosse verdade, Sturm percebeu, não era essa, não se ele
pudesse evitar. Não havia glória em morrer em uma hospedaria, pisoteado
por pés goblins fedorentos.
Ao ver o cavaleiro guardando a arma, a figura na porta decidiu que
era seguro entrar, cercado por cerca de uma centena de soldados leais. Os
companheiros viram a pele cinzenta e manchada e os olhos vesgos e aver-
melhados do Baixo Mestre Toede.
Tasslehoff engoliu em seco e correu para ficar ao lado de Tanis.
— Ele certamente não nos reconheceu — Tas sussurrou. — Estava
anoitecendo quando nos pararam, perguntando sobre o cajado.
Aparentemente, Toede não os tinha reconhecido mesmo. Muita coisa
acontecera em uma semana e o Baixo Mestre tinha coisas importantes em
uma mente já sobrecarregada. Seus olhos vermelhos se concentraram nos
emblemas de cavaleiro sob o manto de Sturm.
— Mais escória refugiada de Solamnia — Toede comentou.
— Sim — Tanis mentiu rapidamente. Ele duvidou que Toede sou-
besse sobre a destruição de Xak Tsaroth. Achava altamente improvável que
esse baixo mestre soubesse alguma coisa sobre os Discos de Mishakal. Mas

305
o Lorde Verminaard conhecia os discos e logo ficaria sabendo da morte da
dragoa. Até mesmo um anão tolo chegaria a essa conclusão. Ninguém pode
saber que eles vieram do Leste.
— Viajamos por muitos dias vindos do norte. Não pretendíamos
causar problema. Esses draconianos começaram...
— Sim, sim — Toede falou, impaciente. — Já ouvi isso antes.
— seus olhos vesgos de repente se estreitaram. — Ei, você! — gritou,
apontando para Raistlin — O que está fazendo, escondido aí atrás?
Peguem ele, rapazes! — o Baixo Mestre deu um passo nervoso atrás
da porta, observando Raistlin com cautela. Vários goblins foram para
trás, derrubando bancos e mesas para chegar ao homem frágil. Caramon
rosnou, do fundo do peito. Tanis acenou para o guerreiro, o avisando
para ficar calmo.
— De pé! — um dos goblins gritou, cutucando Raistlin com uma lança.
Raistlin levantou-se lenta e cuidadosamente, pegando suas bolsas.
Quando foi pegar seu cajado, o goblin agarrou o ombro fino do mago.
— Não me toque! — Raistlin sibilou, se afastando. — Sou mago!
O goblin hesitou e olhou de volta para Toede.
— Pegue ele! — gritou o Baixo Mestre, ficando atrás de um goblin
muito grande. — Traga ele até aqui com os outros. Se todo homem com
mantos vermelhos fosse um mago, este país seria tomado por coelhos! Se ele
não vier pacificamente, enfie a lança!
— Talvez eu enfie de qualquer jeito — o goblin grasnou. A criatura
levantou a ponta de sua lança até a garganta do mago, gargalhando.
Novamente, Tanis deteve Caramon.
— Seu irmão pode cuidar de si mesmo — sussurrou rapidamente.
Raistlin levantou as mãos, os dedos abertos, como se fosse se render.
De repente, proferiu as seguintes palavras
— Kalith karan, tobaniskar! — e apontou os dedos para o goblin.
Pequenos dardos brilhantes feitos de pura luz branca saltaram das pontas
dos dedos do mago, cruzaram o ar e penetraram fundo no peito do goblin.
A criatura caiu para frente com um grito e ficou se contorcendo no chão.
Quando o cheiro de carne e pelos queimados encheu o salão, outros
goblins saltaram para a frente, uivando de raiva.
— Não matem ele, idiotas! — Toede gritou. O Baixo Mestre se afastara
da porta, mantendo o goblin grande à sua frente como cobertura. — Lorde
Verminaard paga uma boa recompensa por magos. Mas — Toede estava

306
inspirado — o Lorde não paga recompensa por kenders vivos, só por suas
línguas! Faça isso novamente, mago, e o kender morre!
— E o que esse kender significa para mim? — Raistlin desdenhou.
Houve um longo silêncio no salão. Tanis sentia o suor frio escorrendo.
Raistlin certamente sabia cuidar de si mesmo! Maldito mago!
Essa certamente não era a resposta que Toede esperava e o deixou sem sa-
ber o que fazer exatamente... especialmente por que os guerreiros ainda tinham
suas armas. Ele olhou quase implorando para Raistlin. O mago pareceu ignorar.
— Eu irei pacificamente — sussurrou Raistlin, com os olhos dourados
reluzindo. — Apenas não me toque.
— Não, claro que não — Toede murmurou. — Levem-no.
Os goblins, lançando olhares desconfortáveis para o Baixo Mestre,
permitiram que o mago ficasse ao lado do seu irmão.
— Todos estão aqui? — Toede demandou, irritado. — Então, peguem
suas armas e suas mochilas.
Esperando evitar mais problemas, Tanis tirou o arco do seu ombro
e o colocou, com sua aljava, no chão coberto de fuligem da Hospedaria.
Tasslehoff rapidamente baixou seu hoopak. O anão, resmungando, colocou
seu machado de batalha. Os outros seguiram o exemplo de Tanis, exceto
Sturm, que ficou de braços cruzados sobre o peito, e...
— Por favor, me deixem ficar com a mochila — disse Lua Dourada.
— Ela não tem armas, nem nada de valor para vocês. Eu juro!
Os companheiros viraram-se para vê-la, cada um lembrando dos pre-
ciosos discos que ela carregava. O silêncio tomou conta novamente. Vento
Ligeiro entrou na frente de Lua Dourada. Entregou o seu arco, mas ainda
ficou com sua espada, assim como o cavaleiro.
Repentinamente, Raistlin interveio. O mago deixou seu cajado, suas
bolsas de componentes mágicos e sua preciosa mochila com seus grimórios.
Não estava preocupado com eles, pois magias de proteção foram conjuradas
sobre os livros, qualquer um que não fosse o dono que tentasse os ler ficaria
insano, e o Cajado de Magius era bem capaz de cuidar de si. Raistlin esten-
deu as mãos para Lua Dourada.
— Entregue a mochila — disse gentilmente. — Caso contrário, eles
nos matarão.
— Escute a ele, querida — Toede falou rapidamente. — É um
homem inteligente.
— É um traidor! — gritou Lua Dourada, agarrando a mochila.

307
— Entregue a mochila, — Raistlin repetiu hipnoticamente.
Lua Dourada se sentiu enfraquecida, sentindo seu poder estranho
a dominando.
— Não! — disse abafada. — É a nossa esperança...
— Vai ficar tudo bem — Raistlin sussurrou, olhando intensamente para
os olhos azuis claros dela. — Lembra do cajado? Lembra quando eu o toquei?
Lua Dourada piscou.
— Sim — murmurou — Você tomou um choque...
— Shhh — Raistlin avisou rapidamente. — Entregue a bolsa. Não se
preocupe. Vai ficar tudo bem. Os deuses protegem os seus.
Lua Dourada encarou o mago, depois concordou com relutância.
Raistlin estendeu as mãos magras para pegar a mochila dela. O Baixo
Mestre Toede a observou com ganância, imaginando o seu conteúdo. Logo
descobriria, mas não na frente desses goblins.
Por fim, só havia uma pessoa que não obedecera à ordem. Sturm ficou
imóvel, rosto pálido, seus olhos reluzindo febris. Ele segurava a espada anti-
ga de duas mãos do seu pai com força. De súbito, Sturm virou-se, chocado
em sentir os dedos ardentes de Raistlin em seu braço.
— Isso garantirá a segurança dela — o mago sussurrou.
— Como? — o cavaleiro perguntou, se afastando do toque de Raistlin
como se fosse de uma cobra venenosa.
— Não explicarei meus modos para você — Raistlin sibilou. — Con-
fie em mim ou não, sua escolha.
Sturm hesitou.
— Isso é ridículo! — reclamou Toede. — Matem o cavaleiro! Matem
todos se causarem mais problemas. Estou perdendo minha folga nisso!
— Muito bem! — Sturm disse em uma voz abafada. Se adiantando, ele
colocou a espada com reverência sobre a pilha de armas. Sua bainha antiga de
prata, decorada com o martim-pescador e a rosa, cintilava com a luz.
— Ah, realmente uma bela arma — disse Toede. Ele se via entrando
para uma audiência com Lorde Verminaard, com a espada de um cavaleiro
solâmnico pendurada em sua cintura. — Talvez eu mesmo deva guardá-la.
Traga para...
Antes que ele terminasse, Raistlin deu um passo rápido à frente e se
ajoelhou ao lado da pilha de armas. Um brilho de luz surgiu da mão do
mago. Raistlin fechou os olhos e começou a murmurar palavras estranhas,
mantendo suas mãos abertas acima das armas e mochilas.

308
— Parem ele! — gritou Toede. Mas ninguém ousava.
Por fim, Raistlin parou de falar e sua cabeça pendeu para frente. Seu
irmão correu para ajudá-lo.
Raistlin se levantou.
— Saibam disso — o mago falou, seus olhos dourados passando pelo
salão comum. — Eu conjurei um feitiço sobre nossos pertences. Quem to-
cá-los será lentamente devorado pelo grande verme Catirpelius, que surgirá
do Abismo e sugará o sangue das suas veias até vocês serem nada além do
que uma casca vazia.
— O grande verme Catirpelius! — Tasslehoff suspirou, com os olhos
brilhando. — Isso é incrível. Nunca ouvi falar de--
Tanis colocou a mão sobre a boca do kender.
Os goblins se afastaram da pilha de armas, que parecia quase brilhar
com uma aura verde.
— Alguém pegue essas armas! — ordenou Toede com raiva.
— Pega você! — resmungou um goblin.
Ninguém se mexeu. Toede ficou perplexo. Embora não fosse especial-
mente criativo, uma imagem vívida do grande verme Catirpelius se formou
em sua mente.
— Tá bom — balbuciou. — Levem os prisioneiros! Coloquem eles
nas gaiolas. E tragam essas armas também, ou desejarão que o verme sei-lá-
-o-que tivessem sugado o seu sangue! — Toede saiu pisando forte.
Os goblins começaram a empurrar seus prisioneiros em direção à
porta, cutucando-os nas costas com suas espadas. Contudo, ninguém tocou
em Raistlin.
— Que magia maravilhosa, Raist — Caramon disse em voz baixa.
— Qual o poder dela? Ela pode--
— É tão poderosa quanto sua inteligência! — Raistlin sussurrou e
abriu sua mão direita. Quando Caramon viu os sinais escuros reveladores
da pólvora, ele sorriu com a compreensão repentina.
Tanis foi o último a sair da Hospedaria. Ele deu uma última olhada
ao redor. Apenas uma luz estava pendurada no teto. Mesas estavam viradas,
cadeiras quebradas. As vigas do teto estavam escuras por causa dos incên-
dios, algumas completamente queimadas. As janelas estavam cobertas por
uma fuligem escura.
— Eu quase desejei ter morrido antes de ver isso.

309
A última coisa que ouviu enquanto saía foram os dois capitães
hobgoblins. Estavam em uma discussão acalorada sobre quem levaria as
armas encantadas.

310
3
A caravana de escravos.
O velho e estranho mago.

s companheiros passaram uma noite fria e sem sono numa jaula


de ferro sobre rodas na Praça de Consolação. Três jaulas estavam
acorrentadas a um dos postes fincados no solo, perto da clareira.
Os postes de madeira estavam escuros de fogo e calor, as bases chamuscadas
e lascadas. Nada vivo crescia na clareira. Até mesmo as rochas estavam
pretas e derretidas.
Quando o dia raiou, eles conseguiram ver mais prisioneiros nas outras
jaulas. A última caravana de escravos saindo de Consolação para Pax Thar-
kas seria liderada pessoalmente pelo próprio Baixo Mestre Toede tendo de-
cidido aproveitar esta oportunidade para impressionar Lorde Verminaard,
que estava morando em Pax Tharkas.
Durante a proteção da noite, Caramon tentou dobrar as barras da
jaula uma vez e teve que desistir.
Uma névoa fria surgiu nas primeiras horas da manhã, escondendo
a cidade devastada dos companheiros. Tanis olhou para Lua Dourada e
Vento Ligeiro. “Agora eu os entendo”, pensou Tanis. “Agora conheço o
vazio frio que dói mais do que qualquer espada. Meu lar se foi”.
Ele olhou para Gilthanas, encolhido em um canto. O elfo não falou
com ninguém naquela noite, desculpando-se ao dizer que a cabeça doía e
que estava cansado. Mas Tanis, que ficou de vigia durante toda a noite, viu
que Gilthanas não dormia nem fingia dormir. Ele mordeu o lábio inferior
e olhou para a escuridão. A visão lembrou Tanis que ele tinha, se quisesse
reivindicar, outro lugar que poderia chamar de lar: Qualinesti.
Não, Tanis pensou, apoiado nas barras, Qualinesti nunca foi um lar.
Era simplesmente um lugar onde morei...
O Baixo Mestre Toede surgiu das sombras, esfregando as mãos gordas
com um sorriso amplo enquanto observava a caravana de escravos. Isso
renderia uma promoção. Um belo achado, considerando-se que as escolhas
estavam acabando neste resto de cidade queimada. Lorde Verminaard ficaria
satisfeito com esta última remessa. Em especial com aquele guerreiro gran-
de... um excelente espécime. Provavelmente faria o trabalho de três homens
nas minas. O bárbaro alto também seria bom. Contudo, provavelmente
teria que matar o cavaleiro, pois sabia que os solâmnicos não cooperavam.
Por outro lado, Lorde Verminaard certamente gostaria das duas mulheres...
muito diferentes, mas ambas adoráveis. Ele próprio sempre se sentira atraí-
do pela garçonete ruiva, com seus olhos verdes sedutores, a blusa branca
decotada, revelando apenas o suficiente da sua pele sardenta para tentar um
homem com pensamentos do que estava oculto.
A imaginação do Baixo Mestre foi interrompida pelo som da batida
do aço e os gritos roucos flutuando misteriosamente pela névoa. Os gritos
ficaram cada vez mais altos. Logo, todos na caravana de escravos estavam
acordados e tentando ver através da neblina.
Toede olhou os prisioneiros, desconfortável, e desejou ter mais alguns
guardas disponíveis. Os goblins, vendo os prisioneiros agitados, se levanta-
ram e prepararam seus arcos e flechas contra as carroças.
— O que foi? — Toede reclamou em voz alta. — Esses idiotas não
podem pegar um prisioneiro sem fazer esse tumulto?
De repente, um grito se sobressaiu no barulho. Era o grito de um
homem em sofrimento e dor, mas cuja fúria superava tudo isso. Gilthanas
levantou-se, com o rosto pálido.

313
— Eu conheço essa voz — disse. — Theros Dobraferro. Eu temia
isso. Ele estava ajudando os elfos a escapar desde o massacre. Esse Lorde
Verminaard jurou exterminar os elfos — Gilthanas observou a reação de
Tanis — ou você não sabia?
— Não! — Tanis disse, chocado. — Não sabia. Como eu poderia?
Gilthanas fez silêncio, estudando Tanis por um tempo.
— Me perdoe — disse, por fim. — Parece que eu o julguei mal. Pensei
que talvez fosse por isso que você deixou a barba crescer.
— Nunca! — Tanis levantou de salto. — Como ousa me acusar...
— Tanis — Sturm avisou.
O meio-elfo virou-se para ver os guardas goblins amontoados a frente,
suas flechas miradas no seu peito. Erguendo as mãos, ele se afastou para o
seu lugar enquanto um esquadrão de hobgoblins arrastou para a vista um
homem de constituição robusta.
— Ouvi dizer que Theros foi traído — Gilthanas falou baixinho. —
Voltei para avisá-lo. Se não fosse por ele, jamais teria escapado de Consolação
vivo. Eu deveria encontrá-lo na Hospedaria noite passada. Quando ele não
veio, temi--
O Baixo Mestre Toede abriu a porta da gaiola dos companheiros,
gritando e gesticulando para os hobgoblins se apressarem com o prisionei-
ro. Os goblins mantiveram a cobertura enquanto os hobgoblins jogaram
Theros dentro da jaula.
O Baixo Mestre Toede bateu a porta rapidamente.
— É isso! — gritou. — Preparem as feras. Estamos de partida —
esquadrões de goblins levaram alces enormes para a clareira e começaram a
prendê-los às carroças. Seus gritos e a confusão ficaram registrados apenas
no fundo da mente de Tanis. No momento, sua atenção chocada estava
voltada para o ferreiro.
Theros Dobraferro estava inconsciente no chão coberto de palha
da gaiola. Onde seu forte braço direito deveria estar, havia um membro
mutilado. Seu braço havia sido arrancado, aparentemente por alguma arma
contundente, logo abaixo do ombro. O sangue jorrava pelo ferimento
terrível e se acumulava no piso da gaiola.
— Que isso seja uma lição para todos que ajudam elfos! — o Baixo
Mestre olhou na jaula, seus olhos suínos vermelhos contraindo em seus
bolsões de gordura. — Ele nunca mais vai forjar nada, a menos que arrume

314
um braço novo! Eu, ahm... — um alce imenso foi em direção ao Baixo
Mestre, o forçando a correr por sua vida
Toede virou-se contra a criatura conduzindo o alce.
— Sestun! Seu imbecil! — Toede derrubou a criatura menor no chão.
Tasslehoff olhou para a criatura, pensando ser um goblin muito baixo.
Então, viu que era um anão tolo vestido com uma armadura de goblin. O
anão tolo se levantou, colocou o elmo muito grande de volta e olhou feio
para o Baixo Mestre, que caminhava balançando na frente da caravana.
De cara fechada, o anão tolo começou a chutar lama na direção dele. Isso
aparentemente aliviou sua alma, pois ele logo desistiu e voltou a cutucar o
alce lento para voltar para a fila.
— Meu amigo fiel — Gilthanas murmurou, curvando-se sobre The-
ros e segurando a mão forte e negra do ferreiro. — Você pagou pela sua
lealdade com a vida.
Theros olhou para ele com olhos vazios, claramente sem ouvir a voz do
elfo. Gilthanas tentou estancar a ferida terrível, mas o sangue continuava a jor-
rar no chão da carroça. A vida do ferreiro estava esvaindo diante de seus olhos.
— Não — disse Lua Dourada, se ajoelhando ao lado do ferreiro. —
Ele não precisa morrer. Sou uma curandeira.
— Senhora — Gilthanas disse, impaciente — não há curandeiro em
Krynn que possa ajudar este homem. Ele perdeu mais sangue do que o
anão tem em todo o seu corpo! A batida do seu coração é tão fraca que mal
posso senti-la. O mais gentil a ser feito é deixá-lo morrer em paz, sem seus
rituais bárbaros!
Lua Dourada o ignorou. Colocando a mão sobre a testa de Theros, ela
fechou os olhos.
— Mishakal — ela orou. — Amada deusa da cura, agracie este ho-
mem com sua benção. Se seu destino ainda não foi cumprido, cure-o, que
ele possa viver e servir a causa da fé.
Gilthanas começou a protestar novamente, avançando para puxar Lua
Dourada para longe. Então, ele parou e observou, em assombro. O sangue
parou de sair do ferimento do ferreiro e, mesmo enquanto o elfo olhava,
a carne começou a se fechar ao redor dele. O calor voltou à pele escura do
ferreiro, sua respiração ficou tranquila e confortável e ele pareceu entrar em
um sono saudável, relaxado. Houve suspiros e murmúrios de espanto dos
outros prisioneiros nas jaulas próximas. Tanis olhou em volta, temeroso,
para ver se um dos goblins ou draconianos percebera, mas aparentemente

315
todos estavam preocupados em amarrar o alce rebelde de volta às carro-
ças. Gilthanas voltou para seu canto, seus olhos em Lua Dourada, sua
expressão pensativa.
— Tasslehoff, empilhe um pouco de palha — Tanis instruiu. —
Caramon, você e Sturm me ajudem a levá-lo para um canto.
— Aqui! — Vento Ligeiro ofereceu sua capa. — Coloque isso para
protegê-lo do frio.
Lua Dourada garantiu que Theros estava confortável, depois voltou
para o seu lugar ao lado de Vento Ligeiro. Seu rosto irradiava uma paz e se-
renidade que fazia as criaturas reptilianas do lado de fora da jaula parecerem
os verdadeiros prisioneiros.
Era quase meio-dia antes da caravana partir. Goblins vieram e joga-
ram comida nas gaiolas, pedaços de carne e pão. Ninguém, nem mesmo
Caramon, poderia comer a carne fétida e rançosa, de modo que a jogaram
de volta. Mas devoraram o pão avidamente, estando sem comida desde
o último anoitecer. Logo, Toede tinha tudo preparado e, cavalgando seu
pônei desgrenhado, deu as ordens para saírem. O anão tolo Sestun trotava
atrás de Toede. Ao ver o pedaço de carne caído na lama e na sujeira fora da
gaiola, o anão tolo parou, agarrou-o ansiosamente e enfiou-o na boca.
Cada jaula com rodas era puxada por quatro alces. Dois hobgoblins
sentavam-se no alto de plataformas de madeira, um segurando as rédeas do
alce, o outro um chicote e uma espada. Toede assumiu seu lugar na frente
da fila, seguido por cerca de cinquenta draconianos com armadura e bem
armados. Outra tropa com quase o dobro de hobgoblins seguia a fila atrás
das gaiolas.
Após muita confusão e xingamentos, a caravana finalmente começou
a andar. Alguns dos moradores restantes de Consolação a observaram en-
quanto saíam. Se conheciam alguém entre os prisioneiros, não fizeram um
som ou gesto de despedida. Os rostos, tanto dentro quanto fora das jaulas,
eram daqueles que não mais podiam sentir dor. Como Tika, eles juraram
nunca mais chorar.

A caravana seguiu para o sul de Consolação, descendo a velha estrada


pelo Passo de Berma. Hobgoblins e draconianos resmungavam sobre viajar
no calor do dia, mas se animaram e se moveram mais rápido quando mar-
charam para a sombra das altas paredes do desfiladeiro do Passo. Embora

316
os prisioneiros estivessem com frio no cânion, eles tinham seus próprios
motivos para agradecer... Não precisavam mais olhar para seu lar devastado.
Já era noite quando deixaram as estradas sinuosas do cânion e chega-
ram a Berma. Os prisioneiros se espremeram nas barras para ter um vis-
lumbre da próspera cidade mercantil. Mas agora, apenas dois muros baixos
de pedra, derretidos e enegrecidos, marcavam o local onde a cidade ficara.
Nenhum ser vivo se mexia. Os prisioneiros desabaram em pesar.
Mais uma vez em campo aberto, os draconianos anunciaram sua
preferência por viajar à noite, longe da luz do sol. Consequentemente, a
caravana fez apenas paradas curtas até o amanhecer. Era impossível dormir
nas gaiolas imundas, sacolejando e saltitando sobre cada sulco na estrada.
Os prisioneiros sofriam de sede e fome. Aqueles que conseguiam engolir
a comida que os draconianos jogavam logo a vomitavam. Eles recebiam
apenas doses pequenas de água duas ou três vezes por dia.
Lua Dourada continuava perto do ferreiro ferido. Embora Theros
Dobraferro não estivesse mais às portas da morte, ele ainda estava muito
doente. Desenvolveu uma febre alta e, em seu furor, delirou com o saque de
Consolação. Theros falou sobre draconianos cujos corpos, quando mortos,
se transformavam em poças de ácido, queimando a carne de suas vítimas,
draconianos cujos ossos explodiam após a morte, destruindo tudo dentro de
um raio amplo. Tanis escutou o ferreiro reviver horrores após horrores até
se sentir mal. Pela primeira vez, Tanis percebeu a enormidade da situação.
Como eles poderiam lutar contra dragões cujo sopro poderia matar, cuja
magia superava a de quase todos os magos mais poderosos que já existiram?
Como poderiam derrotar vastos exércitos desses draconianos quando até
mesmo os cadáveres das criaturas tinham o poder de matar?
“Tudo o que temos”, Tanis pensou amargamente, “são os Discos de
Mishakal... e para que servem?”. Ele examinara os Discos durante sua
jornada de Xak Tsaroth para Consolação. Contudo, conseguiu ler pouco
do que estava escrito.
Embora Lua Dourada pudesse entender aquelas palavras que perten-
ciam às artes de cura, não conseguia decifrar muito mais.
— Tudo será esclarecido para o líder do povo — ela dizia com uma fé
inabalável. — Minha missão agora é encontrá-lo.
Tanis desejava compartilhar sua fé, mas enquanto viajavam pelo cam-
po devastado, ele começou a duvidar que algum líder pudesse derrotar o
poder deste Lorde Verminaard.

317
Essas dúvidas apenas agravaram os outros problemas do meio-elfo.
Privado de remédios, Raistlin tossia até quase estar tão ruim quanto Theros,
e Lua Dourada tinha dois pacientes em suas mãos. Felizmente, Tika ajudava
a mulher das Planícies a cuidar do mago. Tika, cujo pai fora um tipo de
mago, admirava qualquer um que pudesse lidar com magia.
Na verdade, foi o pai de Tika que inadvertidamente introduziu Raistlin
a sua vocação. O pai de Raistlin levou os gêmeos e sua enteada, Kitiara, ao
festival local do Fim do Verão, onde as crianças assistiram o Maravilhoso
Waylan realizar suas ilusões. Com oito anos de idade, Caramon logo ficou
entediado e concordou em acompanhar sua meia-irmã adolescente no evento
que a atraia, a luta com espadas. Raistlin, já magro e frágil, não servia para
tais esportes ativos. Ele passou o dia todo assistindo Waylan, o Ilusionista.
Quando a família voltou para casa naquela noite, Raistlin a surpreendeu,
sendo capaz de replicar com perfeição todos os truques. No dia seguinte, seu
pai o levou para estudar com um dos grandes mestres das artes mágicas.
Tika sempre admirou Raistlin e ficava impressionada com as histórias
que ouvia sobre sua jornada misteriosa para as lendárias Torres da Alta Ma-
gia. Agora, ajudava a cuidar do mago por respeito e sua própria necessidade
inata de ajudar os mais fracos do que ela. Também cuidou dele (ela admitiu
em particular para si mesma) porque seus atos renderam um sorriso de
gratidão e aprovação do belo irmão gêmeo de Raistlin.
Tanis não tinha certeza com o que se preocupar mais, com a piora do
estado do mago ou com o crescente romance entre o soldado mais velho
e experiente e a garçonete jovem, acreditava Tanis, apesar dos rumores em
contrário, inexperiente e vulnerável.
Ele também tinha outro problema. Sturm, humilhado por se tornar um
prisioneiro e ser carregado pelo campo como um animal para o abatedouro,
entrou em depressão profunda, da qual Tanis imaginou que ele nunca sairia.
Sturm ficava sentando o dia todo, olhando entre as barras, ou, talvez pior,
caia em períodos de sono profundo dos quais não podia ser acordado
Por fim, Tanis precisava lidar com sua própria confusão interna,
manifestada fisicamente pelo elfo sentado no canto da gaiola. Toda vez
que olhava para Gilthanas, as lembranças de Tanis sobre seu lar em Qua-
linesti o assombravam. Enquanto se aproximavam de sua terra natal, as
lembranças que achava estarem há muito tempo enterradas e esquecidas
invadiram sua mente, seu toque tão frio quanto o toque dos mortos-vivos
na Floresta Sombria.

318
Gilthanas, amigo de infância... mais do que amigo, irmão. Criado na
mesma residência e com quase a mesma idade, os dois brincaram, lutaram
e riram juntos. Quando a irmã mais nova de Gilthanas estava com idade
suficiente, os garotos permitiram que a criança loira cativante se juntasse
a eles. Uma das maiores diversões do trio era implicar com o irmão mais
velho, Porthios, um jovem sério e forte que assumiu as responsabilidades e
dores do seu povo desde cedo. Gilthanas, Laurana e Porthios eram os filhos
do Orador dos Sóis, o líder dos elfos de Qualinesti, um cargo que Porthios
herdaria com a morte de seu pai.
Alguns no reino élfico acharam estranho que o Orador levasse para o
seu lar o filho bastardo da esposa do seu falecido irmão, após ela ter sido
estuprada por um humano. Ela morrera de remorso poucos meses depois
de dar à luz ao filho mestiço. Mas o Orador, que tinha opiniões fortes sobre
responsabilidade, acolheu a criança sem hesitação. Somente anos depois,
quando assistia com um desconforto crescente a relação que se desenvolvia
entre sua amada filha e o meio-elfo bastardo, que começou a se arrepender
da decisão. A situação também confundia Tanis. Sendo meio-humano, o
jovem adquiriu uma maturidade que a elfa não poderia entender. Tanis viu
a infelicidade que sua união deveria causar à família que ele amava. Também
foi tomado pelo tumulto interno que o atormentaria mais tarde na vida: a
constante batalha entre o elfo e o humano dentro dele. Aos oitenta anos,
cerca de vinte anos na idade humana, Tanis deixou Qualinost. O Orador
não lamentou a partida de Tanis. Ele tentou esconder seus sentimentos do
jovem meio-elfo, mas os dois sabiam.
Gilthanas não fora tão diplomático. Ele e Tanis trocaram palavras
ferozes sobre Laurana. Passaram-se anos até que a dor daquelas palavras
desaparecesse e Tanis se perguntou se ele alguma vez realmente as esquecera
ou perdoara. Gilthanas claramente não havia.
A jornada desses dois dias foi muito longa. Tanis fez algumas ten-
tativas de conversas despretensiosas e percebeu que Gilthanas mudara. O
jovem elfo nobre sempre fora franco e honesto, divertido e alegre. Ele não
invejava seu irmão mais velho, as responsabilidades inerentes ao seu papel
como herdeiro do trono. Gilthanas era um estudioso, um praticante das
artes mágicas, embora não as levasse tão a sério quanto Raistlin. Era um
guerreiro excelente, embora não gostasse de lutar, como todos os elfos. Era
profundamente devotado à sua família, especialmente à sua irmã. Mas agora
estava sentado em silêncio e mal-humorado, um traço incomum nos elfos.

319
A única vez que mostrou algum interesse em algo foi quando Cara-
mon começou a planejar uma fuga. Gilthanas disse-lhe claramente para
esquecer, que arruinaria tudo. Quando pressionado para explicar, o elfo
ficou em silêncio, murmurando apenas algo sobre “todas as adversidades”.
Ao nascer do terceiro dia, o exército draconiano estava exausto da lon-
ga marcha noturna e ansiava por um descanso. Os companheiros passaram
outra noite sem dormir e sem esperar nada além de outro dia frio e triste.
Mas, repentinamente, as jaulas pararam de seguir. Tanis olhou para cima,
intrigado com a mudança na rotina. Os outros prisioneiros se levantaram
e olharam pelas barras da jaula. Eles viram um velho, vestido com mantos
longos que outrora foram brancos e um chapéu pontudo e surrado. Ele
parecia estar falando com uma árvore.
— Então, você me escutou? — o velho sacudiu um cajado contra
o carvalho. — Eu falei para sair e falei sério! Eu estava sentado naquela
pedra — ele apontou para uma pedra — aproveitando o sol nascente em
meus velhos ossos quando você teve a coragem fazer sombra sobre ela e me
esfriar! Saia neste instante, ouviu!
A árvore não respondeu. Também não se mexeu.
— Não aguentarei mais sua insolência! — o velho começou a bater na
árvore com o cajado. — Saia ou eu vou, vou...
— Alguém enfie aquele maluco em uma gaiola! — gritou o Baixo
Mestre Toede, galopando de volta para a frente da caravana.
— Tirem suas mãos de mim! — o velho chiou com os draconianos
que correram e o interpelaram. Ele bateu nas criaturas debilmente com seu
cajado até que elas o tomaram. — Prendam a árvore! — ele insistiu. —
Bloqueando o sol! Esta é a acusação!
Os draconianos jogaram o velho de qualquer jeito na gaiola dos com-
panheiros. Tropeçando nos mantos, ele caiu no chão.
— Você está bem, ancião? — Vento Ligeiro perguntou enquanto
ajudava o velho a sentar.
Lua Dourada saiu do lado de Theros.
— Sim, ancião — ela disse suavemente. — Está ferido? Sou uma
clériga de--
— Mishakal! — ele disse, vendo o amuleto no pescoço dela. —
Muito interessante — ele a encarou, espantado. — Você não parece ter
trezentos anos!
Lua Dourada piscou, incerta sobre como reagir.

320
— Como sabia? Você reconheceu..? Não tenho trezentos... — ela
estava cada vez mais confusa.
— Claro que não. Me desculpe, querida — o velho tocou na mão
dela. — Nunca revele a idade de uma dama em público. Não acontecerá
de novo. Nosso segredinho — ele disse em um sussurro penetrante. Tas e
Tika começaram a rir. O velho olhou ao redor. — Que gentileza a de vocês
oferecerem uma carona. O caminho até Qualinost é longo.
— Não estamos indo para Qualinost — Gilthanas disse bruscamente.
— Somos prisioneiros, indo para as minas de escravos de Pax Tharkas.
— Oh? — o velho observou os arredores vagamente. — Outro grupo
vai passar por aqui, então? Poderia jurar que era este.
— Qual o seu nome, ancião? — Tika perguntou.
— Meu nome? — o velho hesitou, ficando sério. — Fizban? Sim, é
isso. Fizban.
— Fizban! — Tasslehoff repetiu enquanto a gaiola começava a andar
novamente. — Isso não é nome!
— Não é? — o velho perguntou, triste. — Que pena. Eu gostava
muito dele.
— Acho que é um nome esplêndido — Tika disse, encarando Tas.
O kender se recolheu em um canto, seus olhos nas bolsas penduradas
no ombro do velho senhor.
De repente, Raistlin começou a tossir e todos voltaram sua atenção
para ele. Seus espasmos de tosse ficaram cada vez mais graves. Ele estava
exausto e com muita dor. Sua pele ardia ao toque. Lua Dourada não podia
ajudá-lo. O que estivesse queimando o mago por dentro, a clériga não podia
curar. Caramon se ajoelhou ao lado dele, limpando a saliva ensanguentada
que salpicava os lábios de seu irmão.
— Ele tem que beber aquele negócio! — Caramon olhou para cima,
angustiado. — Nunca o vi tão mal. Se não derem ouvidos à razão... — o
grandalhão ameaçou — Vou quebrar as cabeças deles! Não me importo
quantos sejam!
— Falaremos com eles quando pararmos a noite — Tanis prome-
teu,embora pudesse imaginar a resposta do Baixo Mestre.
— Com licença — disse o velho. — Posso? — Fizban se sentou ao
lado de Raistlin. Ele colocou a mão na cabeça do mago e falou algumas
palavras com tom sério.

321
Caramon, prestando atenção, ouviu “Fistandan...” e “não é a hora...”.
Certamente não era uma oração de cura, como a que Lua Dourada tentara,
mas o grandalhão viu que seu irmão respondeu! Contudo, a resposta foi
surpreendente. Os olhos de Raistlin se agitaram e se abriram. Ele olhou para
o velho com uma expressão selvagem de terror e segurou o pulso de Fizban
em sua mão fina e frágil. Por um instante, parecia que Raistlin conhecia o
velho, então Fizban passou a mão sobre os olhos do mago. O olhar de terror
deu lugar ao de confusão.
— Olá — Fizban disparou. — O nome é, ahm, Fizban.
Ele deu um olhar fulminante para Tasslehoff, desafiando o kender a rir.
— Você é... magi! — Raistlin sussurrou. Sua tosse sumiu.
— É, sim, acho que sou.
— Eu sou magi! — disse Raistlin, esforçando para se levantar.
— Sério! — Fizban parecia imensamente animado. — Krynn, que
mundo pequeno. Tenho que ensiná-lo algumas das minhas magias. Tenho
uma... uma bola de fogo... deixa eu ver, como era?
O velho continuou falando por um bom tempo depois que a caravana
parou no nascer do sol.

322
323
4
Resgatados! A magia de Fizban.

aistlin sofria no corpo, Sturm sofria na mente, mas quem talvez


teve o maior sofrimento durante a prisão de quatro dias dos
companheiros foi Tasslehoff.
A forma mais cruel de tortura que se pode infligir a um kender é
prendê-lo. Claro, também acredita-se amplamente que a forma mais cruel
de tortura que se pode infligir às outras espécies é prendê-las com um
kender. Depois de três dias de tagarelice, brincadeiras e peças incessantes
de Tasslehoff, os companheiros teriam trocado de bom grado o kender por
uma hora tranquila numa mesa de torturas... pelo menos foi o que Flint
disse. Finalmente, depois de até mesmo Lua Dourada perder a paciência
e quase lhe dar um tapa, Tanis mandou Tasslehoff para a parte de trás da
carroça. Com as pernas penduradas na borda, o kender pressionou o rosto
contra as barras de ferro e pensou que morreria de tristeza. Ele nunca ficou
tão entediado em toda a sua vida.
As coisas ficaram interessantes com a descoberta de Fizban, mas o
valor de diversão do velho diminuiu quando Tanis fez Tas devolver as bolsas
do velho mago. E assim, levado ao desespero, Tasslehoff agarrou-se a uma
nova distração.
Sestun, o anão tolo.
Os companheiros geralmente olhavam para Sestun com um pouco de
pena. O anão tolo era alvo das zombarias e maus-tratos de Toede. Ele seguia
as ordens do Baixo Mestre durante a noite toda, levando mensagens de
Toede na frente da caravana para o capitão hobgoblin na retaguarda, arras-
tando comida da carroça de mantimentos até o Baixo Mestre, dando água e
comida para o pônei do Baixo Mestre e outros trabalhos desagradáveis que
o Baixo Mestre podia conceber. Toede o derrubava pelo menos três vezes
por dia, os draconianos o atormentavam e os hobgoblins roubavam sua
comida. Até mesmo o alce o chutava sempre que ele passava. O anão tolo
suportava tudo com um espírito tão desafiador que lhe rendeu a simpatia
dos companheiros.
Sestun começou a ficar perto dos companheiros quando não estava
ocupado. Ávido para saber informações sobre Pax Tharkas, Tanis o per-
guntou sobre sua terra natal e como ele começou a trabalhar para o Baixo
Mestre. A história levou um dia para Sestun contar e outro dia para os
companheiros a organizarem, pois ela começava no meio e mergulhava de
cabeça no começo.
Finalmente, o que ela contava não era de muita ajuda. Sestun estava
em um grande grupo de anões tolos que viviam nas colinas ao redor de Pax
Tharkas quando Lorde Verminaard e seus draconianos capturaram as minas
de ferro, que ele precisava para fabricar armas de aço para suas tropas.
— Muito fogo... dia todo, noite toda. Cheiro ruim — Sestun franziu o
nariz. — Bater rocha. Dia todo, noite toda. Eu conseguir trabalho cozinha
— seu rosto se alegrou por um instante — preparar sopa quente. Muito
quente — sua alegria sumiu. — Derramar sopa. Sopa quente esquentar
armadura bem rápido. Lorde Verminaard dormir de costas uma semana.
— ele suspirou.
— Eu ir com Baixo Mestre. Eu me oferecer.
— Talvez possamos fechar as minas — Caramon sugeriu.
— É uma ideia — Tanis ponderou. — Quantos draconianos Lorde
Verminaard colocou protegendo as minas?
— Dois! — disse Sestun, mostrando dez dedos sujos.

325
Tanis suspirou, lembrando onde já escutaram isso antes.
Sestun olhou pra ele com esperança.
— Ter só dois dragões também.
— Dois dragões! — disse Tanis, incrédulo.
— Não mais que dois.
Caramon resmungou e recostou-se. O guerreiro estava pensando
muito na luta contra dragões desde Xak Tsaroth. Ele e Sturm revisaram
cada conto sobre Huma, o único conhecido combatente de dragões que o
cavaleiro podia lembrar. Infelizmente, ninguém nunca levara as lendas de
Huma a sério (exceto os de Solamnia, pelo que foram ridicularizados), por
isso, boa parte do conto de Huma fora distorcida pelo tempo ou esquecida.
— Um cavaleiro da verdade e do poder, que convocou as próprias
divindades e forjou a poderosa Lança do Dragão — Caramon agora mur-
murava, olhando para Sturm, que dormia no chão coberto de palha.
— Lança do Dragão? — balbuciou Fizban, acordando com um ronco.
— Lança do Dragão? Quem falou sobre a Lança do Dragão?
— Meu irmão — Raistlin sussurrou, com um sorriso amargo. —
Mencionando o Cântico. Parece que ele e o cavaleiro se interessaram pelas
histórias infantis que vieram os assombrar.
— Boa história, Huma e a Lança do Dragão — disse o velho, passando
a mão na barba.
— História... somente isso — Caramon bocejou e se esticou.— Quem
sabe se é real, se a Lança do Dragão era real ou se até mesmo Huma era real?
— Sabemos que dragões são reais — Raistlin murmurou.
— Huma foi real — Fizban disse baixinho. — Assim como a Lança
do Dragão — o rosto do velho ficou triste.
— Foi? — Caramon se sentou. — Pode descrevê-la?
— Claro! — Fizban fungou com desdém.
Todos estavam ouvindo agora. Fizban ficou, de fato, um pouco des-
concertado com o público para as suas histórias.
— Era uma arma parecida com... não, não era. Na verdade era... não,
também não era assim. Era mais parecida... quase que... meio que, um tipo
de... lança, é isso! Uma lança! — ele assentiu com seriedade. — E era muito
boa contra dragões.
— Vou tirar um cochilo — Caramon resmungou.
Tanis sorriu e balançou a cabeça. Sentando-se contra as barras, ele
fechou os olhos, cansado. Logo todos, exceto Raistlin e Tasslehoff, caíram

326
em um sono intermitente. Bem acordado e entediado, o kender olhou para
Raistlin, esperançoso. Às vezes, quando Raistlin estava de bom humor,
contava histórias sobre os magos de antigamente. Mas o mago, envolto
em seus mantos vermelhos, estava encarando Fizban com curiosidade. O
velho estava sentado e roncava suavemente, a cabeça subindo e descendo
conforme a carroça seguia pela estrada. Os olhos dourados de Raistlin se
estreitaram em fendas reluzentes, como se ele fosse atingido por um pensa-
mento novo e perturbador. Depois de um momento, puxou o capuz sobre
a cabeça e se recostou, com o rosto oculto nas sombras.
Tasslehoff suspirou. Então, olhando ao redor, viu Sestun andando
perto da gaiola. O kender se animou. Ele sabia que ali teria uma audiência
que apreciaria suas histórias.
Chamando-o, Tasslehoff começou a contar uma das suas favoritas. As
duas luas se puseram. Os prisioneiros dormiam. Os hobgoblins seguiam atrás,
meio adormecidos, conversando sobre fazer o acampamento em breve. O
Baixo Mestre Toede seguia em frente, sonhando com uma promoção. Atrás
do Baixo Mestre, os draconianos murmuravam entre si em seu idioma bruto,
olhando ferozmente para Toede quando este não estava observando.
Tasslehoff sentou-se, balançando as pernas na lateral da jaula, con-
versando com Sestun. O kender notou, sem parecer, que Gilthanas estava
apenas fingindo dormir. Tas viu os olhos do elfo se abrirem e olharem
rapidamente ao redor quando achou que ninguém estava observando. Isso
deixou Tas muito intrigado. Era quase como se Gilthanas estivesse vigiando
ou esperando algo. O kender perdeu o fio da sua história.
— E então eu... ahm... peguei uma rocha na minha bolsa, joguei
e... pou! Acertei direto na cabeça do mago — Tas terminou com pressa.
— O demônio agarrou o mago pelo pé e o arrastou para as profundezas
do Abismo.
— Mas primeiro demônio agradecer — interrompeu Sestun, que já
ouvira esta história, com variações, duas vezes. — Você esquecer.
— Mesmo? — Tas perguntou, de olho em Gilthanas. — Bem, sim, o
demônio me agradeceu e tomou o anel mágico que tinha me dado. Se não
estivesse escuro, você veria a marca do anel queimada no meu dedo.
— Sol nascer. Logo manhã. Eu ver então — o anão tolo disse com
entusiasmo.
Ainda estava escuro, mas uma luz fraca no leste sugeria que, em bre-
ve,o sol estaria nascendo no quarto dia de sua jornada.

327
De repente, Tas ouviu o canto de um pássaro na floresta. Vários
responderam. Que pássaros estranhos, Tas pensou. Nunca escutara nada
assim antes. Mas ele nunca esteve tão ao sul antes. Sabia onde eles estavam
por causa de um dos seus muitos mapas Eles passaram pela única ponte
sobre o rio Fúria Branca e seguiam para o sul em direção a Pax Tharkas,
que estava marcada no mapa do kender como o local das famosas minas de
ferro de Thadarkan. A terra começou a subir e densas florestas de álamos
apareceram a oeste. Os draconianos e hobgoblins continuaram vigiando as
florestas e seu ritmo acelerou. Escondida nessas florestas estava Qualinesti,
o antigo lar dos elfos.
Outro pássaro cantou, bem mais perto agora. Então, os pelos no pes-
coço de Tasslehoff arrepiaram quando o mesmo canto soou logo atrás dele.
O kender virou-se para ver Gilthanas em pé, os dedos nos lábios, dando
um assobio sinistro.
— Tanis! — Tas gritou, mas o meio-elfo já estava acordado. Assim
como todos na carroça
Fizban sentou-se, bocejou e olhou ao redor.
— Ah, bom — disse com calma. — Os elfos estão aqui.
— Quais elfos, onde? — Tanis se sentou.
Houve um súbito zumbido, como um bando de codornas voando.
Um grito ecoou da carroça de mantimentos na frente deles, depois ouviu-se
um som de madeira quebrando quando a carroça, agora sem condutor,
vacilou em um vão e tombou. O condutor da jaula deles puxou as rédeas
com força, parando o alce antes que se batesse na carroça de mantimentos
destruída. A jaula inclinou-se precariamente, espalhando os prisioneiros. O
condutor fez o alce voltar e guiou-o pelos destroços.
De súbito, o motorista da jaula gritou e agarrou seu pescoço, onde os
companheiros viram a silhueta de uma flecha emplumada no céu matinal
mal iluminado. O corpo do condutor caiu do assento. O outro guarda
levantou-se, com a espada em punho, depois caiu para a frente com uma
flecha no peito. O alce, sentindo as rédeas se afrouxarem, desacelerou até
a gaiola parar. Gritos e berros ecoaram por todos os lados na caravana
enquanto flechas zuniam pelo ar.
Os companheiros deitaram no chão da jaula, cobrindo o rosto para
proteção.
— O que é isso? O que está acontecendo? — Tanis perguntou a
Gilthanas.

328
Mas o elfo, ignorando-o, olhou através da escuridão da madrugada
para a floresta.
— Porthios! — ele chamou.
— Tanis, o que está acontecendo? — Sturm sentou-se, falando as
primeiras palavras em quatro dias.
— Porthios é o irmão de Gilthanas. Acho que isso é um resgate —
Tanis disse. Uma flecha passou voando e ficou presa na lateral de madeira
da carroça, quase acertando o cavaleiro.
— Não será um resgate muito bom se a gente morrer! — Sturm
jogou-se no chão. — Achei que os elfos fossem arqueiros de elite!
— Fiquem abaixados — Gilthanas ordenou. — As flechas são apenas
para cobrir nossa fuga. É uma investida de ataque e fuga. Meu povo não
pode atacar um grupo tão grande diretamente. Temos que estar prontos
para fugir para a floresta.
— E como saímos dessas gaiolas? — Sturm questionou.
— Não podemos fazer tudo por vocês! — Gilthanas respondeu
friamente. — Tem magos--
— Não posso agir sem meus componentes mágicos! — Raistlin sibi-
lou debaixo de um banco. — Para trás, ancião — disse para Fizban que, de
cabeça erguida, olhava ao redor com interesse.
— Talvez eu possa ajudar — o velho mago disse, com os olhos se
alegrando. — Agora, me deixe pensar...
— O que em nome do Abismo está acontecendo? — rugiu uma voz
no meio da escuridão. O Baixo Mestre Toede apareceu, galopando seu
pônei. — Por que paramos?
— Estar sob ataque! — Sestur gritou, se arrastando debaixo da gaiola
onde procurara cobertura.
— Ataque? Blyxtshok! Ande com essa carroça! — Toede gritou. Uma
flecha acertou a sela do Baixo Mestre. Os olhos vermelhos de Toede se arre-
galaram e ele olhou com medo para a floresta. — Estamos sendo atacados!
Elfos! Tentando libertar os prisioneiros!
— Condutor e guarda mortos! — Sestun gritou, encostado contra a
jaula quando outra flecha quase o atingiu. — O que eu fazer?
Uma flecha zuniu acima da cabeça de Toede. Abaixando, ele teve que
agarrar o pescoço do pônei para não cair.
— Vou arrumar outro condutor — disse correndo. — Fique aqui.
Vigie os prisioneiros com sua vida! Você será responsável se eles fugirem.

329
O Baixo Mestre enfiou as esporas no pônei e o animal cheio de medo
saltou para a frente.
— Minha guarda! Hobgoblins! A mim! — o Baixo Mestre gritava
enquanto galopava para o fim da fila. Seus gritos ecoaram.
— Centenas de elfos! Estamos cercados. Avancem para o norte! Pre-
ciso informar isso a Lorde Verminaard — Toede parou ao ver um capitão
draconiano. — Vocês draconianos cuidem dos prisioneiros! — ele esporou
sua montaria, ainda gritando, e cem hobgoblins avançaram atrás do seu
valente líder, se afastando da batalha. Logo, eles estavam completamente
fora de vista.
— Bem, isso cuida dos hobgoblins — disse Sturm, seu rosto relaxando
em um sorriso. — Agora, só precisamos nos preocupar com cinquenta ou
mais draconianos. Aliás, eu acredito que não existem centenas de elfos ao
redor, não é?
Gilthanas balançou a cabeça.
— Está mais para vinte.
Deitada no chão, Tika levantou cautelosamente a cabeça e olhou
para o sul. Na pálida luz da manhã, ela podia ver as formas volumosas dos
draconianos a pouco mais de um quilômetro e meio, procurando cobertura
em ambos os lados da estrada enquanto os arqueiros élficos se moviam para
atirar em suas fileiras. Ela tocou o braço de Tanis, apontando.
— Temos que sair dessa gaiola — Tanis disse, olhando para trás. — Os
draconianos não tentarão nos levar a Pax Tharkas, agora que o Baixo Mestre
se foi. Vão nos massacrar nessas jaulas! Caramon?
— Vou tentar — o guerreiro rosnou Ele levantou-se e segurou as
barras da gaiola em suas enormes mãos. Fechando os olhos, ele respirou
fundo e tentou dobrá-las. Seu rosto ficou vermelho, os músculos de seus
braços se inflaram, os nós dos dedos de suas mãos enormes ficaram brancos.
Foi inútil. Recuperando o fôlego, Caramon deitou no chão.
— Sestun! — Tasslehoff gritou. — Seu machado! Quebre o cadeado!
Os olhos do anão tolo se arregalaram. Olhou para os companheiros,
então olhou para o caminho que o Baixo Mestre havia tomado. Seu rosto se
contorceu na agonia da indecisão.
— Sestun... — Tasslehoff começou. Uma flecha passou ao lado do
kender. Os draconianos atrás deles estavam avançando, atirando nas jaulas.
Tas se jogou no chão.

330
— Sestun — começou novamente — nos ajude e você poderá vir
com a gente!
Um olhar de determinação firme endureceu as feições de Sestun. Ele
pegou o machado, que ele usava amarrado nas costas. Os companheiros
observaram com uma frustração de roer as unhas enquanto Sestun tocava
seus ombros em busca do machado, que ficava bem no meio das costas. Por
fim, uma mão encontrou o cabo e ele sacou o machado. A lâmina brilhou
na luz cinzenta do amanhecer.
Flint viu e resmungou.
— Esse machado é mais velho do que eu! Deve ser da época do Cata-
clismo! Provavelmente não consegue cortar o cérebro de um kender, quanto
mais a fechadura!
— Silêncio! — Tanis instruiu, embora suas próprias esperanças sumis-
sem ao ver a arma do anão tolo. Nem era um machado de batalha, apenas
um pequeno machado de lenhador enferrujado e desgastado que o anão
tolo aparentemente pegara em algum lugar, achando que era uma arma.
Sestun colocou o machado entre os joelhos e cuspiu nas mãos.
As flechas batiam e resvalavam pelas barras da gaiola. Uma acertou o
escudo de Caramon. Outra prendeu a blusa de Tika na lateral da gaiola,
arranhando seu braço. Tika não conseguia se lembrar de estar mais ater-
rorizada, nem mesmo quando os dragões noturnos atacaram Consolação.
Ela queria gritar, que Caramon colocasse seu braço em volta dela. Mas
Caramon não ousava se mexer.
Tika avistou Lua Dourada protegendo o ferido Theros com o corpo,
o rosto pálido, mas calmo. Tika apertou os lábios e respirou fundo. Séria,
ela arrancou a flecha da madeira e jogou-a no chão, ignorando a dor aguda
em seu braço.
Olhando para o sul, ela viu que os draconianos, momentaneamente
confusos com o ataque repentino e o desaparecimento de Toede, estavam
organizados agora, de pé e correndo em direção às jaulas. Suas flechas toma-
vam conta o ar. Suas armaduras peitorais reluziam na fraca luz cinzenta da
manhã, assim como o aço brilhante de suas espadas longas, que carregavam
presas em suas mandíbulas enquanto corriam.
— Draconianos se aproximando — ela relatou a Tanis, tentando
evitar uma voz trêmula.
— Rápido, Sestun! — Tanis gritou.

331
O anão tolo agarrou o machado, brandiu-o com toda a força e errou a
fechadura, golpeando as barras de ferro com um golpe que quase arrancou
o machado das mãos. Pedindo desculpas, ele golpeou novamente. Desta
vez, atingiu a fechadura.
— Nem mesmo arranhou — Sturm informou.
— Tanis — Tika tremeu, apontando. Vários draconianos estavam a
menos de três metros, imobilizados por alguns instantes pelos arqueiros
élficos, mas toda a esperança do resgate parecia perdida. Sestun bateu na
fechadura novamente.
— Ele a lascou — Sturm disse, exasperado. — Nesse ritmo, vamos
sair daqui a três dias! Aliás, o que esses elfos estão fazendo? Por que eles não
param de se esgueirar e atacam?
— Não temos número suficiente para atacar uma força deste tama-
nho! — Gilthanas respondeu com raiva, agachado ao lado do cavaleiro.
— Eles chegarão a nós quando puderem! Estamos na frente da fila. Vejam,
os outros estão fugindo.
O elfo apontou para as duas carroças atrás. Os elfos quebraram as
fechaduras e os prisioneiros estavam correndo loucamente para a floresta
enquanto os elfos os cobriam, saindo das arvores para disparar sua saraivada
mortal de flechas. Mas, assim que os prisioneiros estavam seguros, os elfos
voltaram para as árvores.
Os draconianos não tinham intenção de perseguir os elfos na floresta.
Seus olhos estavam na última gaiola e na carroça contendo as posses dos
prisioneiros. Os companheiros ouviam os gritos dos capitães draconianos.
O significado era claro:
— Matem os prisioneiros. Dividam os espólios.
Todos podiam ver que os draconianos os alcançariam muito antes
dos elfos. Tanis esbravejou em frustração. Tudo parecia fútil. Ele sentiu um
movimento ao seu lado. O velho mago, Fizban, estava se levantando.
— Não, ancião! — Raistlin agarrou os mantos de Fizban. — Proteja- se!
Uma flecha atravessou o ar e ficou presa no chapéu surrado do velho.
Fizban, resmungando para si mesmo, não pareceu notar. Ele representava
um alvo maravilhoso na luz cinzenta. Flechas draconianas passavam ao
redor dele como vespas e pareciam ter pouco efeito, embora ele ficasse
aborrecido quando uma pegava na bolsa que ele segurava.
— Abaixe-se! — Caramon berrou. — Você está atraindo as flechas!
Fizban se ajoelhou por um instante, mas apenas para falar com Raistlin.

332
— Diga, meu jovem — ele disse, enquanto uma flecha passava bem
onde ele estava em pé. — Você tem um pouco de guano de morcego? O
meu acabou.
— Não, ancião — Raistlin sussurrou freneticamente. — Abaixe-se!
— Não? Que pena. Bem, vou ter que improvisar — o velho mago se
levantou, firmou os pés firmemente no chão e arregaçou as mangas do seu
manto. Ele fechou os olhos, apontou para a porta da jaula e começou a
murmurar palavras estranhas.
— O que ele está conjurando? — Tanis perguntou a Raistlin. — Con-
segue entender?
O jovem mago ouviu atentamente, franzindo a testa de repente, os
olhos de Raistlin se arregalaram.
— NÃO! — berrou, tentando puxar o manto do mago para quebrar
sua concentração. Mas era tarde demais. Fizban disse a palavra final e apon-
tou o dedo para a fechadura da porta dos fundos da gaiola.
— Protejam-se! — Raistlin se jogou embaixo de um banco.
Sestun, vendo o velho mago apontar para a porta da gaiola, e para ele
do outro lado, caiu de cara no chão. Três draconianos, chegando à porta da
gaiola, com as armas pingando com sua saliva, pararam, olhando alarmados.
— O que é? — Tanis gritou.
— Bola de fogo! — Raistlin engasgou e, naquele momento, uma
bola gigantesca de fogo amarelo-alaranjado saiu dos dedos do velho mago
e atingiu a porta da jaula com um estrondo explosivo. Tanis protegeu o
rosto com as mãos enquanto as chamas passavam e estalavam ao seu redor.
Uma onda de calor o cobriu, queimando o ar de seus pulmões. Ele ouviu os
draconianos gritarem de dor e sentiu o cheiro de carne de réptil em chamas.
Então, ele engoliu fumaça.
— O chão está em chamas! — Caramon gritou.
Tanis abriu os olhos e se levantou, cambaleando. Ele esperava ver o
velho mago como um monte de cinzas escuras, como os corpos dos dra-
conianos que se encontravam atrás da carroça. Mas Fizban estava olhando
para a porta de ferro, acariciando sua barba chamuscada em desalento. A
porta ainda estava fechada.
— Isso realmente devia ter funcionado — disse.
— E a fechadura? — Tanis berrou, tentando ver através da fumaça. As
barras de ferro da porta de cela já brilhavam vermelhas de calor.

333
— Não cedeu! — Sturm gritou. Ele tentou se aproximar da porta da
gaiola para chutá-la, mas o calor que irradiava das barras impossibilitou
isso. — A fechadura pode estar quente o suficiente para quebrar! — ele
engasgou com a fumaça.
— Sestun! — a voz estridente de Tasslehoff elevou-se acima das
chamas crepitantes. — Tente de novo! Depressa!
O anão tolo se levantou trôpego, brandiu o machado, errou, brandiu
novamente e atingiu a fechadura. O metal superaquecido quebrou, a fecha-
dura cedeu e a porta da jaula se abriu.
— Tanis, nos ajude! — Lua Dourada gritou enquanto ela e Vento
Ligeiro tentavam tirar o Theros ferido do seu palete fumegante.
— Sturm, os outros! — Tanis bradou, depois tossiu na fumaça. Ele
cambaleou para a frente da carroça enquanto o resto saía, Sturm agarrando
Fizban, que ainda olhava tristemente para a porta.
— Vamos lá, ancião! — gritou, suas ações gentis desmentindo suas
palavras duras quando pegou o braço de Fizban. Caramon, Raistlin e Tika
pegaram Fizban quando ele pulou dos destroços flamejantes. Tanis e Vento
Ligeiro levantaram Theros pelos ombros e o arrastaram para fora, Lua Dou-
rada seguindo atrás deles. Ela e Sturm saltaram do carrinho no momento
em que o teto desabou.
— Caramon! Pegue nossas armas na carroça! — Tanis gritou. — Vá
com ele, Sturm. Flint e Tasslehoff, peguem as mochilas. Raistlin...
— Vou pegar minha mochila — o mago disse, engasgando na fumaça.
— E meu cajado. Ninguém pode tocar neles.
— Certo — Tanis disse, pensando rapidamente. — Gilthanas...
— Eu não sigo suas ordens, Tanthalas — o elfo disse rispidamente e
correu para a floresta sem olhar para trás.
Antes que Tanis pudesse responder, Sturm e Caramon correram de
volta. As mãos de Caramon estavam cortadas e sangrando. Havia dois
draconianos saqueando a carroça de mantimentos.
— Vão em frente! — Sturm gritou. — Mais estão vindo! Onde está
seu amigo elfo? — perguntou a Tanis, com suspeita.
— Ele entrou na floresta — Tanis disse. — Lembre-se, ele e seu povo
nos salvaram.
— Salvaram? — Sturm disse, com os olhos estreitos. — Parece que
entre os elfos e o velho, chegamos mais perto de sermos mortos do que em
qualquer outra situação, exceto a dragoa!

334
Nesse momento, seis draconianos saíram da fumaça, parando ao
ver os guerreiros.
— Corram para a floresta! — Tanis bradou, se abaixando para aju-
dar Vento Ligeiro a levantar Theros. Eles protegeram o ferreiro enquanto
Caramon e Sturm estavam lado a lado, cobrindo sua retirada. Ambos per-
ceberam imediatamente que as criaturas que enfrentavam eram diferentes
dos draconianos de antes. Sua armadura e coloração eram diferentes e eles
carregavam arcos e espadas longas, as últimas gotejando com uma secreção
terrível. Os dois se lembravam de histórias sobre draconianos que se trans-
formavam em ácido e aqueles cujos ossos explodiam. Caramon avançou,
berrando como um animal enfurecido, sua espada cortando em um arco.
Dois draconianos caíram antes de saberem o que estava atacando. Sturm
saudou os outros quatro com sua espada e arrancou a cabeça de um deles no
golpe de retorno. Correu para os outros, mas eles pararam fora de alcance,
sorrindo, aparentemente esperando algo.
Sturm e Caramon observaram inquietos, imaginando o que estava
acontecendo. Então, eles entenderam. Os corpos dos draconianos mortos
perto deles começaram a derreter na estrada. A carne fervia e escorria como
banha numa frigideira. Um vapor amarelado se formou sobre eles, mistu-
rando-se com a fumaça rarefeita da jaula fumegante. Os dois engasgaram
quando o vapor amarelo se elevou ao redor deles. Eles ficaram tontos e
sabiam que estavam sendo envenenados.
— Vamos! Voltem! — Tanis gritou da floresta.
Os dois recuaram, fugindo através de uma tempestade de flechas
enquanto uma força de quarenta ou cinquenta draconianos passava pela
gaiola, gritando de raiva. Os draconianos começaram a segui-los, depois
recuaram quando uma voz clara gritou:
— Hai! Ulsain! — e dez elfos, liderados por Gilthanas, saíram da
floresta. — Quen talas uvenelei! — Gilthanas gritou. Caramon e Sturm
passaram cambaleando por ele, os elfos cobrindo a retirada e, então, os
elfos recuaram.
— Me sigam — Gilthanas disse aos companheiros, voltando a falar
o idioma comum. A um sinal de Gilthanas, quatro dos guerreiros elfos
pegaram Theros e o carregaram para a floresta.
Tanis olhou de volta para a gaiola. Os draconianos pararam, observando
a floresta cautelosamente.
— Depressa! — Gilthanas disse. — Meus homens darão cobertura.

335
Vozes élficas surgiram da floresta, provocando os draconianos que se
aproximavam, tentando atraí-los para o alcance das flechas. Os companhei-
ros olharam entre si, hesitantes.
— Não quero entrar na Floresta Élfica — Vento Ligeiro disse sério.
— Está tudo bem — disse Tanis, colocando a mão no braço de Vento
Ligeiro. — Você tem a minha palavra — Vento Ligeiro o encarou por um
momento, depois mergulhou na floresta, os outros andando ao seu lado.
Por último vieram Caramon e Raistlin, ajudando Fizban. O velho olhou
para a jaula, agora nada mais do que uma pilha de cinzas e ferro retorcido.
— Uma magia maravilhosa. E alguém disse um obrigado? — ele
perguntou, melancólico.

Os elfos os levaram rapidamente pela mata. Sem a sua orientação, o


grupo estaria irremediavelmente perdido. Atrás deles, os sons da batalha
foram perdendo a força.
— Os draconianos sabem que é melhor não nos seguirem na floresta
— disse Gilthanas, com um sorriso sombrio. Vendo guerreiros elfos arma-
dos escondidos entre as folhas das árvores, Tanis tinha pouco receio de um
perseguição. Logo, todos os sons da luta sumiram.
Um tapete espesso de folhas mortas cobria o chão. Os galhos das árvo-
res nuas rangiam com o vento gelado do início da manhã. Após passarem
dias apertados na jaula, os companheiros se moviam devagar e rigidamente,
contentes pelo exercício que aquecia seu sangue. Gilthanas os conduziu até
uma clareira ampla enquanto o sol da manhã iluminava a floresta com uma
luz pálida.
A clareira estava lotada de prisioneiros libertos. Tasslehoff olhou ansio-
so para o grupo, depois balançou a cabeça tristemente.
— Imagino o que aconteceu com Sestun — disse para Tanis. — Acho
que eu o vi fugir.
— Não se preocupe — O meio-elfo deu um tapinha no seu ombro.
— Ele vai ficar bem. Os elfos não gostam de anões tolos, mas não o
matariam.
Tasslehoff balançou a cabeça. Não era com os elfos que estava
preocupado.
Entrando na clareira, os companheiros viram um elfo excepcional-
mente alto e poderoso, falando ao grupo de refugiados. Sua voz era fria, seu
comportamento sério e severo.

336
— Vocês estão livres para ir, se é que existe alguém livre para ir nesta
terra. Ouvimos rumores de que as terras ao sul de Pax Tharkas não estão
sob o controle do Senhor dos Dragões. Portanto, sugiro que sigam para o
sudeste. Sigam o mais longe e mais rápido que puderem neste dia. Temos
comida e suprimentos para a sua jornada, tudo o que podemos ceder. Não
há mais nada que possamos fazer por vocês.
Os refugiados de Consolação, atordoados pela liberdade repentina,
olhavam ao redor desolados e desamparados. Eles eram fazendeiros nos
arredores de Consolação, forçados a assistir enquanto seus lares queima-
vam e suas plantações eram roubadas para alimentar o exército do Senhor
dos Dragões. A maioria deles nunca esteve mais longe de Consolação do
que Refúgio. Dragões e elfos eram criaturas lendárias. Agora, as histórias
infantis vieram assombrá-los.
Os olhos azuis claros de Lua Dourada cintilaram. Sabia como eles
se sentiram.
— Como você pode ser tão cruel? — gritou com raiva com o elfo
alto. — Olhe para esse povo. Eles nunca saíram de Consolação em suas
vidas e você diz calmamente para eles viajarem por uma terra tomada por
forças inimigas...
— E o que queria que eu fizesse, humana? — o elfo a interrompeu.
— Levasse-os pessoalmente para o sul? Já é suficiente tê-los libertado. Meu
povo tem seus próprios problemas. Não posso ficar preocupado com esses
humanos — ele passou a olhar o grupo de refugiados. — Estou os avisando.
O tempo está passando. Sigam o seu caminho!
Lua Dourada virou-se para Tanis, em busca de apoio, mas ele apenas
balançou a cabeça, o rosto escuro e sombrio.
Um dos homens, dando aos elfos um olhar abatido, seguiu pela
trilha que serpenteava para o sul através da mata. Os outros homens
portavam armas rudimentares, as mulheres carregavam seus filhos e as
famílias seguiam lentamente.
Lua Dourada se adiantou para confrontar o elfo.
— Como pode se importar tão pouco com--
— Com humanos? — o elfo a fitou friamente. — Foram os humanos
que causaram o Cataclismo. Foram eles que procuraram os deuses, exigindo
em seu orgulho o poder que foi concedido a Huma em humildade. Foram
os humanos que fizeram os deuses se afastarem de nós ...

337
— Não se afastaram! — Lua Dourada gritou. — Os deuses estão
entre nós!
Os olhos de Porthios arderam de raiva. Ele começou a se afastar
quando Gilthanas se aproximou do irmão e falou rapidamente com ele no
idioma élfico.
— O que eles disseram? — Vento Ligeiro perguntou a Tanis com suspeita.
— Gilthanas está contando como Lua Dourada curou Theros —
Tanis disse lentamente. Fazia muitos, muitos anos desde que ele ouvira ou
falara mais do que algumas palavras na língua élfica. Ele esquecera como
o idioma era lindo, tão belo que parecia cortar sua alma e deixá-lo ferido
e sangrando por dentro.
Ele observou os olhos de Porthios se arregalarem em descrença.
Então, Gilthanas apontou para Tanis. Os irmãos se viraram para en-
cará-lo, suas feições élficas se endurecendo. Vento Ligeiro lançou um olhar
para Tanis e viu o meio-elfo pálido, mas sereno sob esse escrutínio.
— Você voltou para sua terra natal, não? — Vento Ligeiro perguntou.
— Parece que você não é bem-vindo.
— Sim — disse Tanis severamente, ciente do que o bárbaro estava
pensando. Sabia que Vento Ligeiro não se intrometia em assuntos pessoais
por curiosidade. De muitas formas, eles estavam em maior perigo agora do
que com o Baixo Mestre.
— Eles nos levarão para Qualinost — Tanis disse lentamente, as
palavras aparentemente causando muita dor. — Faz anos que eu saí de lá.
Como Flint pode contar, eu não fui expulso, mas poucos lamentaram a
minha partida. Como você já me disse, Vento Ligeiro, para os humanos,
sou meio-elfo. Para os elfos, sou meio-humano.
— Então, deixe-nos sair e ir para o sul com os outros — disse
Vento Ligeiro.
— Você nunca sairia daqui vivo — murmurou Flint.
Tanis concordou.
— Olhe ao redor — ele disse.
Vento Ligeiro olhou ao redor e viu os guerreiros élficos se movendo
como sombras entre as árvores, suas roupas marrom misturando-se com
a mata que era o seu lar. Quando os dois elfos terminaram a conversa,
Porthios voltou seu olhar de Tanis para Lua Dourada.
— Ouvi histórias estranhas do meu irmão que merecem investigação.
Eu ofereço a vocês, portanto, o que os elfos não ofereceram aos humanos

338
em anos, nossa hospitalidade. Vocês serão nossos convidados de honra. Por
favor, me sigam.
Porthios acenou. Quase duas dúzias de guerreiros elfos surgiram da
floresta, cercando os companheiros.
— Parecemos mais prisioneiros de honra. Isso será difícil para você,
rapaz — Flint disse para Tanis em um tom baixo e suave.
— Eu sei, velho amigo — Tanis repousou a mão no ombro do anão.
— Eu sei.

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5
O Orador dos Sóis

unca pensei que tal beleza existisse — Lua Dourada disse baixi-
nho. A marcha do dia tinha sido difícil, mas a recompensa no
final estava além de seus sonhos. Os companheiros estavam em
um penhasco alto sobre a lendária cidade de Qualinost.
Quatro torres finas erguiam-se dos cantos da cidade como fusos relu-
zentes, a pedra branca marmoreada com prata brilhante. Arcos graciosos,
passando de uma torre para outra, subiam pelo ar. Criados por antigos
artíficies anões, eles eram fortes o suficiente para suportar o peso de um
exército, mas pareciam tão delicados que um pássaro pousando sobre eles
poderia lhes tirar o equilíbrio. Esses arcos brilhantes eram os únicos limites
da cidade. Não havia muralha ao redor do Qualinost. A cidade élfica abria
seus braços amorosamente para a mata.
As construções de Qualinost melhoraram a natureza em vez de ocul-
tá-la. As casas e lojas eram entalhadas de quartzo rosa. Altas e delgadas
como os álamos, sobressaiam em espirais de avenidas revestidas pela pedra
cristalina. No centro, havia uma grande torre de ouro polido, captando a
luz do sol e a redirecionando em padrões brilhantes e giratórios que davam
vida à torre. Vislumbrando a cidade, parecia que a paz e a beleza inalteradas
desde eras passadas deveriam habitar em Qualinost, se elas residissem em
algum lugar de Krynn.
— Descansem aqui — Gilthanas disse a eles, os levando a um bosque
de álamos. — A jornada foi longa e peço desculpas por isso. Sei que estão
cansados e com fome...
Caramon olhou para cima com esperança.
— Mas devo pedir sua paciência por mais alguns instantes. Com
licença — Gilthanas se curvou, depois caminhou para ficar ao lado de seu
irmão. Suspirando, Caramon começou a vasculhar sua mochila pela quinta
vez, esperando que talvez tivesse esquecido um pedaço de comida. Raistlin
lia seu grimório, seus lábios repetindo as palavras difíceis, tentando enten-
der seu significado, para encontrar a inflexão e a formulação corretas que
fariam seu sangue queimar e, assim, dizer que a magia era finalmente sua.
Os outros olharam em volta, maravilhados com a beleza da cidade abai-
xo e a aura de tranquilidade antiga que pairava sobre ela. Até mesmo Vento
Ligeiro parecia tocado, seu rosto mais calmo, e ele abraçou Lua Dourada. Por
um breve instante, suas preocupações e tristezas diminuíram e encontraram
conforto na proximidade um do outro. Tika sentou-se longe, observando
com melancolia. Tasslehoff estava tentando mapear o caminho de Berma
para Qualinost, embora Tanis dissera a ele quatro vezes que o caminho era
secreto e os elfos nunca permitiriam que ele carregasse um mapa. O velho
mago, Fizban, estava dormindo. Sturm e Flint observavam Tanis, preocupa-
dos; Flint, porque ele tinha alguma ideia do que o meio-elfo estava sofrendo;
Sturm porque sabia como era voltar para um lar que não o desejava.
O cavaleiro colocou a mão no braço de Tanis.
— Nunca é fácil voltar para casa, meu amigo, não é? — perguntou.
— Não — Tanis respondeu baixinho. — Achei que tinha deixado
isso para trás há muito tempo, mas vejo agora que nunca realmente deixei.
Qualinesti faz parte de mim, não importa o quanto eu negue.
— Psiu, Gilthanas — Flint avisou.
O elfo veio até Tanis.
— Mensageiros foram enviados antes e agora eles voltaram — disse ele
em élfico. — Meu pai pediu para vê-lo, ver todos vocês, agora, na Torre do

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Sol. Não posso dar mais tempo para vocês descansarem. Assim, parecemos
brutos e indelicados...
— Gilthanas — Tanis interrompeu em comum. — Meus amigos e
eu passamos por perigos inimagináveis. Viajamos por estradas onde, literal-
mente, os mortos caminhavam. Não vamos desmaiar de fome — ele olhou
para Caramon. — Pelo menos, alguns de nós não vão.
Ouvindo Tanis, o guerreiro suspirou e ajeitou o seu cinto.
— Obrigado — Gilthanas disse com rigor. — Fico feliz por entende-
rem. Agora, por favor, me sigam o mais rápido que puderem.
Os companheiros reuniram seus itens rapidamente e acordaram Fiz-
ban. Ao se levantar, ele tropeçou em uma raiz de árvore.
— Grande idiota! — ele repreendeu, batendo nela com o cajado. —
Aqui... você viu? Tentou me derrubar! — disse para Raistlin.
O mago colocou seu precioso livro de volta na bolsa.
— Sim, ancião — Raistlin sorriu, ajudando Fizban a ficar de pé. O
velho mago encostou-se no ombro do jovem enquanto caminhavam atrás
dos outros. Tanis os observou, ponderando. O velho mago estava obvia-
mente caduco. No entanto, Tanis lembrou-se do olhar de terror de Raistlin
quando ele acordou e encontrou Fizban inclinado sobre ele. O que o mago
viu? O que ele sabia sobre este velho? Tanis lembrou-se de perguntar de-
pois. Agora, no entanto, tinha outras questões mais urgentes em sua mente.
Avançando, ele alcançou o elfo.
— Diga-me, Gilthanas — Tanis disse em élfico, as palavras estranhas
voltando hesitantemente para ele. — O que está acontecendo? Tenho o
direito de saber.
— Tem? — Gilthanas perguntou duramente, olhando para Tanis pelo
canto de seus olhos amendoados. — Você se preocupa com o que acontece
com os elfos? Mal consegue falar nosso idioma!
— Claro que me preocupo — Tanis respondeu com raiva. — Vocês
também são o meu povo!
— Então porque exibe sua herança humana? — Gilthanas apontou
para o rosto barbado de Tanis. — Achei que teria vergonha... — ele parou,
mordendo o lábio, seu rosto vermelho.
Tanis concordou seriamente.
— Sim, eu tinha vergonha, foi por isso que parti. Mas se eu tinha
vergonha... quem me fez sentir assim?

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— Perdoe-me Tanthalas — disse Gilthanas, balançando a cabeça. —
O que eu disse foi cruel e eu realmente não pretendia. É só que... se você ao
menos entendesse o perigo que enfrentamos!
— Me conte! — Tanis praticamente gritou em sua frustração. — Eu
quero entender!
— Estamos saindo de Qualinesti — disse Gilthanas.
Tanis parou e encarou o elfo.
— Saindo de Qualinesti? — repetiu, trocando para comum em seu
choque. Os companheiros o ouviram e trocaram olhares rápidos entre si. O
rosto do velho mago entristeceu enquanto ele puxava a barba.
— Não pode estar falando sério! — Tanis disse em voz baixa. — Sair
de Qualinesti! Por quê? As coisas não estão tão ruins...
— Estão piores — Gilthanas falou com tristeza. — Olhe ao redor,
Tanthalas. Você vê os últimos dias de Qualinost — eles entraram nas
primeiras ruas da cidade. A princípio, Tanis viu tudo exatamente como
deixara há cinquenta anos. Nem as ruas de rocha cintilante esmagada,
nem os álamos pelos quais passavam mudaram. As ruas limpas brilhavam
intensamente ao sol. Talvez os álamos cresceram, talvez não. Suas folhas
brilhavam no final da manhã, os ramos incrustados de ouro e prata ru-
favam e cantavam. As casas ao longo das ruas não mudaram. Decoradas
com quartzo, elas brilhavam à luz do sol, criando pequenos arco-íris em
todos os lugares que olho via. Tudo parecia como os elfos adoravam...
belo, ordeiro, imutável...
Não, estava errado, Tanis percebeu. O canto das árvores estava agora
triste e lastimoso, não a música tranquila e alegre que Tanis lembrava.
Qualinost havia mudado e a mudança era a própria mudança. Ele tentou
compreendê-la, entendê-la, mesmo quando sentia sua alma murchar com
a perda. A mudança não estava nas construções, nem nas árvores, nem no
sol que brilhava através das folhas. Estava no ar. Ele estalava de tensão,
como antes de uma tempestade. E, enquanto Tanis andava pelas ruas de
Qualinost, ele viu coisas que jamais havia visto em sua terra natal. Ele viu
pressa. Viu confusão. Viu indecisão. Viu pânico, desespero e desalento.
Mulheres, encontrando amigas, abraçavam e choravam, depois se
separavam e corriam para caminhos diferentes. Crianças sentadas, abando-
nadas, sem entender, sabendo apenas que a brincadeira não era adequada.
Homens reunidos em grupos, mãos em suas espadas, mantendo os olhos
atentos em suas famílias. Aqui e ali, fogos ardiam enquanto os elfos

343
destruíam o que amavam e não podiam levar, em vez de permitir que a
escuridão que se aproximava o consumisse.
Tanis lamentou a destruição de Consolação, mas a visão do que acon-
tecia em Qualinost entrava em sua alma como a lâmina cega de uma faca.
Não percebera o quanto isso significava para ele. Ele sabia do fundo do seu
coração que, mesmo que nunca voltasse, Qualinesti estaria sempre lá. Mas
não, ele estava perdendo até mesmo isso. Qualinesti morreria.
Tanis ouviu um som estranho e se virou para ver o velho mago chorando.
— Quais planos vocês fizeram? Para onde vão? Podem fugir? — Tanis
perguntou a Gilthanas, desolado.
— Você descobrirá as respostas para essas perguntas e muito mais,
muito em breve — murmurou Gilthanas.

A Torre do Sol erguia-se acima das outras construções em Qualinost.


A luz do sol refletida na superfície dourada dava a ilusão de movimento
giratório. Os companheiros entraram na Torre em silêncio, maravilhados
com a beleza e a majestade da edificação antiga. Apenas Raistlin olhou em
volta, sem se impressionar. Aos seus olhos, não havia beleza, apenas morte.
Gilthanas levou os companheiros a uma pequena alcova.
— Esta sala é a última antes da câmara principal — disse. — Meu pai
está em reunião com os Chefes das Casas para planejar a evacuação. Meu
irmão foi informá-los sobre a nossa chegada. Quando a reunião terminar,
seremos convocados — com um gesto seu, elfos entraram carregando jarras e
bacias de água fresca. — Por favor, refresquem-se enquanto o tempo permite.
Os companheiros beberam, depois lavaram a sujeira da jornada de seus
rostos e mãos. Sturm tirou o manto e poliu cuidadosamente a armadura da
melhor maneira possível com um dos lenços de Tasslehoff. Lua Dourada
escovou o cabelo brilhante, mantendo a capa presa no pescoço. Ela e Tanis
haviam decidido que o medalhão que ela usava deveria permanecer escon-
dido até o momento adequado para revelá-lo. Alguns o reconheceriam.
Fizban tentou, sem muito sucesso, endireitar o chapéu dobrado e disforme.
Caramon procurou algo para comer. Gilthanas ficou longe de todos eles, o
rosto pálido e tenso.
Em instantes, Porthios apareceu na passagem em arco.
— Vocês foram chamados — disse firmemente.
Os companheiros entraram na câmara d’O Orador dos Sóis. Nenhum
humano havia visto o interior desta construção por centenas de anos.

344
Nenhum kender o havia visto. Os últimos anões que o viram foram os
presentes na sua construção, centenas de anos antes.
— Ah, isso que é habilidade — disse Flint baixinho, com lágrimas
nos olhos.
A câmara era redonda e parecia imensamente maior do que a torre
esguia poderia abranger. Construída inteiramente de mármore branco, não
havia vigas de suporte, nem colunas. A sala subia dezenas de metros para
formar uma cúpula no topo da torre, onde um lindo mosaico de ladrilhos
incrustados e brilhantes retratava o céu azul e o sol em uma metade; a lua
prateada, a lua vermelha e as estrelas na outra e as metades separadas por
um arco-íris.
Não havia lanternas na câmara. Janelas e espelhos dispostos com
astúcia focavam a luz do sol na sala, não importando onde o sol estivesse
no céu. Os raios de luz solar convergiam no centro da câmara, iluminando
uma tribuna.
Não havia assentos na Torre. Os elfos ficavam em pé, homens e mu-
lheres juntos. Somente aqueles designados como Chefes das Casas tinham o
direito de estar nesta reunião. Havia mais mulheres presentes do que Tanis
se lembrava de ter visto; muitas vestidas de roxo escuro, a cor do luto. Elfos
se casam para a vida toda e, se o cônjuge morrer, não casam novamente.
Assim, a viúva mantinha o status de Chefe da Casa até sua morte.
Os companheiros foram levados para a frente da câmara. Os elfos
deram espaço para eles em um silêncio respeitoso, mas lançaram olhares
estranhos e ameaçadores, especialmente para o anão, o kender e os dois
bárbaros, que pareciam grotescos em suas peles estranhas. Houve murmú-
rios atônitos com a visão do orgulhoso e nobre Cavaleiro de Solamnia.
E houve resmungos espalhados pelo aparecimento de Raistlin em seus
mantos vermelhos. Magos elfos usavam os mantos brancos do bem, não os
vermelhos que proclamavam a neutralidade. Os elfos acreditavam que isso
ficava apenas a um passo de distância dos negros. Quando a multidão se
acalmou, o Orador dos Sóis avançou para a tribuna.
Fazia muitos anos desde que Tanis havia visto o Orador, seu pai ado-
tivo, por assim dizer. E aqui, também, viu a mudança. O homem ainda
era alto, mais alto do que seu filho Porthios. Estava vestido com os mantos
amarelos e brilhantes da sua posição. Seu rosto estava sério e inflexível,
seus modos austeros. Ele era o Orador dos Sóis, chamado de Orador. Ele
fora chamado de Orador por mais de um século. Aqueles que sabiam o

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seu nome nunca o pronunciavam, incluindo seus filhos. Mas Tanis viu
toques de cinza em seus cabelos, que não estavam lá antes, e havia rugas
de preocupação e tristeza no rosto, que antes parecia intocado pelo tempo.
Porthios se juntou a seu irmão quando os companheiros, levados pelos
elfos, entraram. O Orador estendeu os braços e chamou-os pelo nome. Eles
caminharam em direção ao abraço do pai.
— Meus filhos — disse o Orador, e Tanis ficou surpreso com essa
demonstração de emoção. — Jamais imaginei que veria vocês nesta vida no-
vamente. Me conte sobre o ataque... — ele disse, virando-se para Gilthanas.
— No devido tempo, Orador — disse Gilthanas. — Primeiro, peço
que receba nossos convidados.
— Sim, sinto muito — o Orador passou a mão trêmula sobre o rosto e
pareceu a Tanis que ele envelheceu ainda mais diante deles. — Me perdoem,
convidados. Eu lhes dou boas-vindas, vocês que entraram neste reino onde
ninguém entrou por muitos anos.
Gilthanas disse algumas palavras e o Orador olhou atentamente para
Tanis, depois chamou o meio-elfo para a frente. Suas palavras eram frias,
seus modos educados, embora forçados.
— É realmente você, Tanthalas, filho da esposa de meu irmão? Os anos
foram longos e todos se perguntaram sobre o seu destino. Nós o recebemos
de volta à sua terra natal, embora temamos que só esteja aqui para ver seus
últimos dias. Minha filha ficará especialmente feliz em vê-lo. Ela sentiu
saudade do seu companheiro de infância.
Gilthanas ficou desconfortável com isso, seu rosto entristecido quando
olhou para Tanis. O meio-elfo sentiu o próprio rosto corar. Ele curvou-se
diante do Orador, incapaz de dizer uma palavra.
— Eu saúdo o resto de vocês e espero saber conhecê-los melhor depois.
Não vamos mantê-los aqui por muito tempo, mas é certo que vocês saibam
nesta sala o que está acontecendo no mundo. Então, poderão descansar
e se refrescar. Agora, meu filho... — o Orador virou-se para Gilthanas,
obviamente grato pelo fim das formalidades. — O ataque em Pax Tharkas?
Gilthanas deu um passo à frente, de cabeça baixa.
— Eu falhei, Orador dos Sóis.
Um murmúrio passou entre os elfos como o vento entre os álamos. O
rosto do Orador não tinha expressão. Ele simplesmente suspirou e olhou
por uma janela alta, sem atenção.
— Conte sua história — ele disse calmamente.

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Gilthanas engoliu em seco, depois falou, sua voz tão baixa que muitos
nos fundos da sala se inclinaram para frente para ouvir.
— Eu viajei para o sul com meus guerreiros em segredo, como plane-
jado. Tudo ocorreu bem. Encontramos um grupo de humanos membros
da resistência, refugiados de Berma, que se uniram a nós, aumentando
nossa quantidade. Então, pelo mais cruel dos infortúnios, encontramos as
patrulhas avançadas do exército dracônico. Lutamos com bravura, elfos e
humanos juntos, mas foi inútil. Eu fui atingido na cabeça e não me lembro
de mais nada. Quando acordei, estava deitado em uma ravina, cercado pelos
corpos de meus companheiros. Aparentemente, os homens-dragões cruéis
jogaram os feridos do penhasco, nos deixando para morrer — Gilthanas
pausou, limpando a garganta.
— Druidas na floresta cuidaram das minhas lesões. Com eles, des-
cobri que muitos dos meus guerreiros ainda estavam vivos, levados como
prisioneiros. Deixando os druidas enterrarem os mortos, segui os rastros do
exército dracônico e, por fim, cheguei a Consolação.
Gilthanas parou. Seu rosto brilhava de suor e suas mãos se contraíam
de nervosismo. Ele limpou a garganta novamente, tentou falar e não conse-
guiu. Seu pai o observou com uma preocupação crescente.
Gilthanas falou.
— Consolação foi destruída.
Todo o público ficou espantado.
— As grandiosas copadeiras foram cortadas e queimadas, poucas
existem agora.
Os elfos se lamentaram e choraram de desânimo e raiva. O Orador
levantou sua mão, pedindo ordem.
— Esta é uma notícia dolorosa — disse com firmeza. — Lamentamos
pela morte de árvores mais velhas do que nós. Mas continue... e quanto ao
nosso povo?
— Encontrei meus homens amarrados a estacas no centro da praça,
juntos aos humanos que nos ajudaram — Gilthanas disse, com sua voz
falhando. — Eles estavam cercados por guardas draconianos. Eu esperava
libertá-los a noite. Então... — sua voz falhou completamente e ele baixou a
cabeça, enquanto seu irmão mais velho se aproximou e colocou a mão em seu
ombro. Gilthanas se endireitou. — Um dragão vermelho apareceu no céu...
Sons de choque e horror vieram dos elfos reunidos. O Orador balan-
çou a cabeça em lamentação.

347
— Sim, Orador — disse Gilthanas. Sua voz era alta, sobrenaturalmen-
te alta e dissonante. — É verdade. Esses monstros voltaram para Krynn.
Um dragão vermelho circulava acima de Consolação e todos que o viram
fugiram aterrorizados. Ele voou cada vez mais baixo e depois aterrissou na
praça da cidade. Seu grande corpo reptiliano, vermelho e brilhante, encheu
a clareira, suas asas espalharam destruição, sua cauda derrubou árvores.
Presas amarelas reluziam, saliva verde escorria de suas enormes mandíbulas,
suas enormes garras rasgavam o chão... e, montando em suas costas, havia
um humano.
— De constituição robusta, ele estava vestido com os mantos negros
de um clérigo da Rainha das Trevas. Uma capa preta e dourada tremulava
ao seu redor. Seu rosto oculto por uma máscara horrenda com chifres,
pintada de preto e dourado para lembrar a face de um dragão. Os homens-
dragões caíram de joelhos em adoração quando o dragão pousou. Goblins,
hobgoblins e os humanos malignos que lutam com os homens-dragão se
encolheram de terror. Muitos fugiram. Apenas o exemplo do meu povo me
deu coragem para ficar.
Agora que estava falando, Gilthanas parecia ansioso para contar a história.
— Alguns dos humanos amarrados às estacas entraram em um frenesi
de terror, gritando de forma lamentável. Mas meus guerreiros permaneceram
calmos e desafiantes, embora todos fossem afetados pelo medo dos dragões
que o monstro gera. O cavaleiro do dragão não parecia estar satisfeito com
isso. Ele os encarou e, então, falou em uma voz que veio das profundezas do
Abismo. Suas palavras ainda queimam em minha mente. “Sou Verminaard,
Senhor dos Dragões do Norte. Lutei para libertar esta terra e essas pessoas
das falsas crenças espalhadas por aqueles que se chamam de Perscrutadores.
Muitos vieram trabalhar para mim, satisfeitos por promover a grande
causa dos Senhores dos Dragões. Mostrei misericórdia e os agraciei com as
bênçãos que minha deusa me concedeu. Magias de cura que possuo, como
nenhum outro nesta terra, e que provam que sou o representante dos deuses
verdadeiros. Mas vocês, humanos, que se colocaram contra mim e agora me
desafiam, vocês escolheram me combater. Portanto, sua punição servirá de
exemplo para outros que escolham a loucura em vez da sabedoria”.
— Então, ele virou-se para os elfos e disse: “Saibam por este ato que
eu, Verminaard, destruirei sua raça totalmente, como decretado por minha
deusa. Os humanos podem aprender a ver os erros dos seus atos, mas elfos...

348
nunca!”. A voz do homem subiu até ficar mais alta que os ventos. “Que este
seja o último aviso... a todos que observam! Ardor, destrua-os!”.
— E, com isso, o grande dragão soprou fogo sobre todos aqueles
amarrados nas estacas. Eles se contorceram impotentes, queimando até a
morte em uma agonia terrível...
Não havia som algum na câmara. O choque e o horror eram demais
para as palavras.
— Uma loucura tomou conta de mim — continuou Gilthanas, com os
olhos ardendo febris, quase como um reflexo do que vira. — Comecei a correr
para frente, para morrer com meu povo, quando uma grande mão me pegou e
arrastou para trás. Era Theros Dobraferro, “Agora não é a hora de morrer, elfo,”
ele me disse. “Agora é a hora de vingar”. Eu... Eu desmaiei e ele me levou para
sua casa, arriscando sua própria vida. E ele teria pago sua bondade com os elfos
com sua própria vida, não fosse esta mulher tê-lo curado!
Gilthanas apontou para Lua Dourada, que estava no fundo do grupo,
o rosto coberto pela sua capa de peles. O Orador virou-se para vê-la, assim
como os outros elfos da câmara, seus murmúrios sombrios e sinistros.
— Theros é o homem que trouxemos hoje, Orador — disse Por-
thios. — O homem sem um braço. Nossos curandeiros dizem que ele
viverá. Mas que apenas um milagre poupou sua vida, de tão terríveis que
eram seus ferimentos.
— Aproxime-se, mulher das Planícies — o Orador ordenou, sério.
Lua Dourada deu um passo em direção à tribuna, com Vento Ligeiro ao
seu lado. Dois guardas elfos se moveram rapidamente para impedi-lo. Ele
os encarou, mas ficou onde estava.
A filha do chefe avançou, mantendo a cabeça erguida com orgulho.
Quando removeu seu capuz, o sol brilhou em seu cabelo prateado dourado
que descia pelas costas. Os elfos ficaram maravilhados com sua beleza.
— Você alega ter curado este homem... Theros Dobraferro? — o
Orador perguntou com desdém.
— Não alego nada — Lua Dourada respondeu friamente. — Seu filho
me viu curá-lo. Você duvida das palavras dele?
— Não, mas ele estava exausto, doente e confuso. Ele pode ter con-
fundido bruxaria com cura.
— Veja isto — Lua Dourada disse suavemente, desamarrando a capa e
deixando-a cair do seu pescoço. O medalhão cintilou na luz do sol.

349
O Orador deixou a tribuna e avançou, arregalando os olhos em des-
crença. Então, seu rosto ficou distorcido de fúria.
— Blasfêmia! — ele gritou. Estendendo a mão, ele a levou a direção
para arrancar o medalhão do pescoço de Lua Dourada.
Houve um brilho de luz azul. O Orador caiu no chão com um grito
de dor. Quando os elfos gritaram em alarme, sacando suas espadas, os
companheiros sacaram as deles. Os guerreiros elfos correram para cercá-los.
— Parem com esta tolice! — disse o velho mago em uma voz forte e
séria. Fizban caminhou até a tribuna, empurrando com calma as lâminas
das espadas como se fossem galhos finos de um álamo. Os elfos olharam
espantados, aparentemente incapazes de detê-lo. Resmungando para si
mesmo, Fizban foi até o Orador que estava caído no chão, atordoado. O
velho ajudou o elfo a se levantar.
— Bem, você pediu por isso, sabe — Fizban repreendeu, tocando
levemente as vestes do Orador enquanto o elfo estava boquiaberto.
— Quem é você? — o Orador se assustou.
— Hmmm... Qual era mesmo o nome? — O velho mago olhou ao
redor, procurando Tasslehoff.
— Fizban — o kender disse para ajudar.
— Sim, Fizban. É esse o meu nome — O mago alisou sua barba
branca. — Agora, Solostaran, sugiro que você peça para seus guardas se
afastarem e para todos se acalmarem. Eu gostaria muito de escutar a história
das aventuras desta jovem e eu acredito que você também gostaria de ouvir.
Também não seria nada mal pedir desculpas.
Enquanto Fizban balançava o dedo para o Orador, seu chapéu surrado
caiu para frente, cobrindo seus olhos.
— Socorro! Fiquei cego!
Raistlin, sob o olhar desconfiado dos guardas elfos, correu para frente.
Ele pegou o braço do velho e arrumou o seu chapéu.
— Ah, graças aos deuses verdadeiros, disse o mago, piscando e andan-
do pela sala. O Orador observou o velho mago, com uma expressão confusa
no rosto. Então, como em um sonho, ele virou-se para Lua Dourada.
— Eu peço desculpas, senhora das Planícies — disse em voz baixa. —
Os clérigos elfos desapareceram há mais de trezentos anos, a última vez que
o símbolo de Mishakal foi visto nesta terra. Meu coração sangrou ao ver o
amuleto profanado, como eu pensei. Me perdoe. Estamos em desespero há

350
tanto tempo que não consegui ver a chegada da esperança. Por favor, se não
estiver cansada, conte-nos a sua história.
Lua Dourada relatou a história do medalhão, contando sobre Vento
Ligeiro e o apedrejamento, o encontro dos companheiros na Hospedaria
e sua viagem para Xak Tsaroth. Ela contou sobre a destruição da dragoa
e como recebeu o medalhão de Mishakal. Mas não mencionou os discos.
Os raios do sol se alongaram enquanto ela falava, mudando de cor
quando o crepúsculo se aproximava. Quando sua história terminou, o
Orador ficou em silêncio por um bom tempo.
— Devo considerar tudo isso e o que isso significa para nós — disse
finalmente. Ele virou-se para os companheiros. — Vocês estão exaustos.
Vejo que alguns estão em pé apenas pela coragem. De fato — ele sorriu,
olhando para Fizban que estava encostado em uma pilastra, roncando bai-
xinho — alguns de vocês estão dormindo em pé. Minha filha, Laurana, os
levará para um lugar onde poderão esquecer dos seus medos. Realizaremos
um banquete em sua honra hoje, por nos darem esperança Que a paz dos
deuses verdadeiros esteja com vocês.
Os elfos abriram caminho e, dentre eles, saiu uma elfa nobre que
andou para ficar ao lado do Orador. Ao vê-la, o queixo de Caramon caiu.
Os olhos de Vento Ligeiro se arregalaram.
Até mesmo Raistlin olhou, seus olhos finalmente vendo a beleza, sem
um sinal de decadência na jovem elfa. Seu cabelo era como mel derramado
de um jarro. Ele escorria por seus braços e pelas costas, passando pela cintu-
ra, tocando seus pulsos enquanto ela ficava com os braços ao lado do corpo.
Sua pele era lisa e castanha como a floresta. Ela tinha os traços delicados e
refinados dos elfos, mas estes eram combinados com lábios cheios e grandes
e olhos fluidos que mudavam de cor como folhas ao brilho do sol.
— Pela minha honra de cavaleiro — disse Sturm com a voz entrecor-
tada — nunca vi uma mulher tão adorável.
— Nem verá neste mundo — Tanis murmurou.
Todos os companheiros olharam de relance para Tanis enquanto
falava, mas o meio-elfo não percebeu. Seus olhos estavam na dama elfa.
Sturm ergueu as sobrancelhas, trocou olhares com Caramon, que cutucou
seu irmão. Flint balançou a cabeça e soltou um suspiro que parecia vir dos
dedos dos pés.
— Agora tudo ficou mais claro — Lua Dourada disse a Vento Ligeiro.

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— Não ficou claro para mim — Tasslehoff falou. — Você sabe o que
está acontecendo, Tika?
Tudo o que Tika sabia era que, ao olhar para Laurana, sentiu-se subi-
tamente atarracada, pouco vestida, sardenta e ruiva. Ela puxou a blusa para
cima em seu peito, desejando que não revelasse tanto ou que tivesse menos
a revelar.
— Me digam o que está acontecendo — Tasslehoff sussurrou, vendo
o olhar de entendimento de todos.
— Eu não sei! — Tika disparou. — Só que Caramon está fazendo
papel de bobo. Olhem esse bezerrão. Parece que ele nunca viu uma mulher
antes.
— Ela é bonita — Tas disse. — Diferente de você, Tika. Ela é magra
e anda como uma árvore que se curva ao vento e--
— Ah, cala a boca! — Tika falou furiosa, dando em Tas um empurrão
que quase o derrubou.
Tasslehoff deu um olhar magoado para ela, depois aproximou-se para
ficar ao lado de Tanis, determinado a ficar perto do meio-elfo até descobrir
o que estava acontecendo.
— Dou as boas vindas de Qualinost, convidados de honra — disse
Laurana timidamente, com uma voz que parecia um vento leve passando
entre as árvores. — Por favor, sigam-me. O caminho não é longo e há
comida, bebida e descanso no final dele.
Movendo-se com graça infantil, ela caminhou entre os companheiros,
que abriram caminho para ela como os elfos o fizeram, todos eles olhan-
do com admiração. Laurana abaixou os olhos em modéstia e timidez de
donzela, suas bochechas corando. Ela só olhou para cima uma vez, quando
passou por Tanis, um olhar fugaz, que apenas Tanis viu. O rosto dele ficou
preocupado, os olhos tristes.
Os companheiros saíram da Torre do Sol, acordando Fizban quando
partiram.

352
6
Tanis e Laurana.

aurana os levou a um bosque de álamos matizados pelo sol no


centro da cidade. Aqui, embora cercados por construções e ruas,
eles pareciam estar no coração de uma floresta. Apenas os murmú-
rios de um riacho próximo quebravam a quietude. Laurana, gesticulando
em direção a árvores frutíferas entre os álamos, disse aos companheiros
para pegarem e comerem. Damas élficas trouxeram cestas de pão fresco e
aromático. Os companheiros lavaram-se no riacho, depois voltaram para
relaxar em leitos de musgos macios para deleitar-se com a tranquilidade
silenciosa ao redor deles.
Todos, exceto Tanis. Recusando a comida, o meio-elfo perambulou
pelo bosque, absorto em seus próprios pensamentos. Tasslehoff observou-o
atentamente, devorado vivo pela curiosidade.
Laurana era uma anfitriã perfeita e charmosa. Ela certificou-se que
todos estavam sentados e confortáveis, falando um pouco com cada um.
— Flint Forjardente, não é? — ela disse. O anão ficou corado de
satisfação. — Ainda tenho alguns dos brinquedos maravilhosos que fez
para mim. Senti sua falta, todos esses anos.
Tão aturdido que não conseguia falar, Flint se jogou na grama e engo-
liu uma enorme caneca de água.
— Você é a Tika? — Laurana perguntou, parando perto da garçonete.
— Tika Waylan — a garota respondeu roucamente.
— Tika, que belo nome. E que belo cabelo você tem — disse Laurana,
estendendo a mão para tocar os cachos ruivos com admiração.
— Você acha? — Tika disse, corada, percebendo o olhar de Caramon
em si.
— Claro! É a cor da chama. Você deve ter uma coragem que combina
com ele. Eu ouvi como você salvou a vida do meu irmão na Hospedaria,
Tika. Eu devo muito a você.
— Obrigada — Tika respondeu baixinho. — Seu cabelo também é
muito bonito.
Laurana sorriu e seguiu em frente. Contudo, Tasslehoff percebeu que
seus olhos vagavam constantemente para Tanis. Quando o meio-elfo jogou
de repente uma maçã e desapareceu entre as árvores, Laurana pediu licença
apressadamente e o seguiu.
— Ah, agora sei o que está acontecendo! — Tas disse para si mesmo.
Olhando ao redor, ele foi atrás de Tanis.
Tas se esgueirou pela trilha sinuosa entre as árvores e, de súbito,
encontrou o meio-elfo parado perto do córrego, sozinho, jogando folhas
mortas na água. Vendo movimento à sua esquerda, Tas rapidamente se
agachou nos arbustos quando Laurana emergiu de outra trilha.
— Tanthalas Quisif nan-Pah! — ela chamou.
Quando Tanis virou ao som do seu nome élfico, ela jogou seus braços
ao seu redor, o beijando.
— Uff... — ela disse, provocante, se afastando. — Tire essa barba
horrível. Ela coça! E você não parece mais com Tanthalas.
Tanis colocou suas mãos na cintura dela, empurrando-a para trás
suavemente.
— Laurana... — ele começou.
— Não, não fique bravo com a barba. Aprenderei a gostar dela, se
você quiser — Laurana implorou, ficando triste. — Me beije. Não? Então

355
vou beijá-lo até você não aguentar mais — ela o beijou novamente até Tanis
se libertar do seu abraço.
— Pare, Laurana — disse de forma áspera, se afastando.
— Por que, qual o problema? — ela perguntou, segurando a mão
dele. — Você esteve longe por muitos anos. E agora você voltou. Não seja
frio e soturno. Você é o meu prometido, lembra? É correto que uma garota
beije o seu prometido.
— Isso foi há muito tempo — disse Tanis. — Éramos crianças então,
brincando em um jogo, nada mais. Era algo romântico, um segredo para
compartilhar. Você sabe o que teria acontecido se seu pai descobrisse. Gil-
thanas descobriu, não foi?
— Claro! Eu disse a ele — Laurana disse, envergonhada, olhando para
Tanis através dos longos cílios. — Eu contei tudo à Gilthanas, você sabe
disso. Não achei que ele reagiria daquele jeito! Sei o que ele disse para você.
Ele me contou depois. Ele se sentiu mal.
— Aposto que sim — Tanis agarrou seus punhos, segurando suas
mãos. — O que ele disse era verdade, Laurana! Sou um mestiço bastardo.
Seu pai teria todo o direito de me matar! Como eu poderia causar essa
desgraça a ele, depois de tudo o que ele fez por minha mãe e por mim? Esse
foi um motivo da minha partida... isso e porque descobri quem eu sou e
onde pertenço.
— Você é Tanthalas, meu amado, e seu lugar é aqui! — Laurana
gritou. Ela se soltou e pegou as mãos deles com as suas. — Veja! Você ainda
usa meu anel. Eu sei porque partiu. Porque você tinha medo de me amar,
mas você não precisa ter medo, não mais. Tudo mudou. Meu pai tem tantas
preocupações, ele não se importará. Além disso, você é um herói agora. Por
favor, vamos nos casar. Não é por isso que você voltou?
— Laurana — Tanis falou suave, mas com firmeza. — meu retorno
foi um acidente...
— Não! — ela gritou, o empurrando. — Não acredito em você.
— Você deve ter ouvido a história de Gilthanas. Se Porthios não nos
resgatasse, estaríamos em Pax Tharkas agora!
— Ele inventou isso! Não quis me contar a verdade. Você voltou
porque me ama. Não vou ouvir nada além disso.
— Eu não queria dizer, mas vejo que preciso — Tanis disse, irritado.
— Laurana, estou apaixonado por outra pessoa... uma humana. O nome

356
dela é Kitiara. Isso não significa que eu também não te ame. Eu amo... —
Tanis vacilou.
Laurana olhou para ele, perdendo todas as cores do seu rosto.
— Eu realmente te amo, Laurana. Mas, veja, não posso me casar com
você, pois eu também amo outra. Meu coração está dividido, como o meu
sangue — ele tirou o anel de folhas de hera douradas e entregou para ela.
— Eu a libero das promessas que fez para mim, Laurana. E peço para
me liberar também.
Laurana pegou o anel, incapaz de falar. Ela olhou para Tanis, implo-
rando. Então, vendo apenas pena em seu rosto, gritou e jogou o anel para
longe. Ele caiu aos pés de Tas, que o pegou e guardou em um bolso.
— Laurana — Tanis disse com tristeza, tomando-a em seus braços en-
quanto ela soluçava descontroladamente. — Sinto muito. Eu nunca quis...
Neste momento, Tasslehoff saiu do arbusto e seguiu o caminho de
volta pela trilha.
— Bom — disse o kender para si mesmo, suspirando de satisfação...
— agora eu sei o que está acontecendo.

Tanis despertou de repente, encontrando Gilthanas parado sobre si.


— Laurana? — ele perguntou, se levantando.
— Ela está bem — Gilthanas disse baixinho. — Suas acompanhantes
a trouxeram para casa. Ela me disse o que você falou. Só quero que saiba que
eu entendo. Era isso o que eu sempre temi. Sua metade humana desejando
outros humanos. Tentei dizer isso a ela, esperando que não se magoasse.
Agora, ela me ouvirá. Obrigado, Tanthalas. Sei que isso não foi fácil.
— Não foi — Tanis disse, engolindo a seco. — Vou ser honesto,
Gilthanas... eu a amo, realmente amo. É só que...
— Por favor, não diga mais nada. Vamos deixar como está e, talvez,
se não pudermos ser amigos, poderemos ao menos respeitar um ao outro
— o rosto de Gilthanas estava tenso e pálido no sol poente. — Você e
seus amigos devem se preparar. Quando a lua prateada nascer, haverá um
banquete e, então, a reunião do Alto Conselho. Agora é o momento de
tomar as decisões.
Ele partiu. Tanis olhou para ele por um instante. Então, suspirando,
foi acordar os outros.

357
7
Adeus. A decisão dos companheiros.

banquete em Qualinost lembrou Lua Dourada do funeral de sua


mãe. Como o banquete, o funeral deveria ser uma ocasião alegre,
afinal, Canção Triste se tornara uma deusa. Mas as pessoas tiveram
dificuldade em aceitar a morte daquela linda mulher. E assim, os Que-shu
lamentaram sua morte com uma dor que se aproximava de blasfêmia.
O banquete-funeral de Canção Triste foi o mais elaborado a ser servi-
do na memória dos Que-shu. Seu marido em luto não poupara despesas.
Como no banquete em Qualinost nesta noite, havia muita comida que
poucos conseguiriam comer. Houve tentativas desanimadas de conversar
quando ninguém queria falar. Ocasionalmente, alguém dominado pela
tristeza era forçado a deixar a mesa.
Essa lembrança era tão vívida que Lua Dourada pouco conseguiu
comer; a comida parecia cinzas em sua boca. Vento Ligeiro a observou,
preocupado. Sua mão encontrou a dela embaixo da mesa e ela a apertou
com força, sorrindo enquanto sua força fluía no corpo dela.
O banquete élfico foi realizado no pátio ao sul da grande torre dourada.
Não havia paredes ao redor da plataforma de cristal e mármore que ficava
no topo da colina mais alta de Qualinost, oferecendo uma visão desobstruí-
da da cidade reluzente abaixo, a floresta escura além e até mesmo da borda
púrpura das Montanhas Tharkadan ao sul. Mas a beleza estava perdida
para os presentes, ou mais comovente pelo conhecimento de que logo ela
desapareceria para sempre. Lua Dourada sentou-se à direita do Orador. Ele
tentou manter uma conversa educada, mas, por fim, suas preocupações e
anseios o dominaram e ele ficou em silêncio.
À esquerda do Orador estava sua filha, Laurana. Ela não fingiu comer,
apenas sentou-se com a cabeça baixa, os longos cabelos soltos ao redor do
rosto. Quando olhou para cima, foi para fitar Tanis, com o coração nos olhos.
O meio-elfo, muito consciente do olhar de coração partido, assim
como de Gilthanas, o observando friamente, comeu sua refeição sem ape-
tite, com a atenção fixa no prato. Ao lado dele, Sturm estava formulando
mentalmente os planos para a defesa de Qualinesti.
Flint sentia-se estranho e fora de lugar, como os anões sempre se
sentiam entre os elfos. De qualquer forma, não gostava de comida élfica
e recusou tudo. Raistlin mordiscou sua comida distraidamente, seus olhos
dourados estudando Fizban. Tika, sentindo-se desajeitada e deslocada entre
as graciosas elfas, não conseguiu comer nada. Caramon decidiu que sabia
porque os elfos eram tão esguios: a comida consistia em frutas e vegetais,
cozidos em molhos delicados, servidos com pão, queijos e um vinho muito
leve e condimentado. Depois de passar fome por quatro dias na jaula, a
comida não fez muito para satisfazer o apetite do guerreiro.
Os únicos em toda a cidade de Qualinost que aproveitavam o banquete
foram Tasslehoff e Fizban. O velho mago travava uma discussão unilateral
com um álamo, enquanto Tasslehoff simplesmente gostava de tudo, desco-
brindo depois, para sua surpresa, que duas colheres de ouro, uma faca de
prata e uma manteigueira feita de concha entraram em uma de suas bolsas.
A lua vermelha não estava visível. Solinari, uma fina faixa de prata no
céu, começou a minguar. Quando as primeiras estrelas surgiram, o Orador
dos Sóis assentiu com tristeza para o filho. Gilthanas levantou-se e ficou ao
lado da cadeira do pai.
Gilthanas começou a cantar. As palavras élficas fluíram em uma me-
lodia delicada e bela. Enquanto cantava, Gilthanas segurava uma pequena
luminária de cristal com as mãos, a luz da vela iluminando suas feições de

359
mármore. Ouvindo a música, Tanis fechou os olhos, baixando a cabeça
entre as mãos.
— O que foi? O que as palavras significam? — Sturm perguntou em
voz baixa.
Tanis levantou a cabeça. Com a voz falhando, sussurrou.

O Sol
O olho imponente
De todo o firmamento
Mergulha do dia

E deixa
O céu dormente,
Decorado com vagalumes,
Na cor cinza sombria.

Os elfos ao redor da mesa estavam em silêncio, pegando próprias


luminárias enquanto se juntavam à canção. Suas vozes se misturaram,
tecendo uma canção assombrosa de tristeza infinita.

Dorme agora,
Mais longevo amigo
Repouse nas árvores
E nos convide
Também.

As folhas
Emanam o fogo frio,
Queimam em cinzas
No final do ano.

E as aves
Velejando aos ventos,
E giram para o Norte
Quando o outono acaba.

360
O dia escurece,
As estações se revelam,
Mas nós
Esperamos o sol
Lançar o fogo verde
Sobre as árvores.

Pontos de luz bruxuleante se espalharam pelo pátio como ondas em


um lago calmo e sereno, pelas ruas, nas florestas e além. E, com cada luz
acesa, outra voz se elevava na canção, até que a própria floresta circundante
parecia cantar com desespero.

O vento
Mergulha pelos dias.
Pela estação, pela lua
Grandes reinos surgem.

O suspiro
Da ave, do vagalume,
Das árvores, do homem
Em uma palavra some.

Dorme agora,
Mais longevo amigo
Repouse nas árvores
E nos convide
Também.

A era,
As mil vidas
Dos homens e suas histórias
Vão para seus túmulos

Mas nós,
Que eternamente vivemos
No poema e na glória
Da canção desapareceremos.

361
A voz de Gilthanas desapareceu. Com um sopro suave, ele apagou a
chama da sua luminária. Um a um, como começaram, os outros ao redor da
mesa terminaram a música e apagaram suas velas. Por toda a Qualinost, as vozes
silenciaram e as chamas se extinguiram até parecer que o silêncio e a escuridão
tomaram conta de tudo. No final, apenas as montanhas distantes devolveram
os acordes finais da canção, como o sussurro de folhas caindo no chão.
O Orador se levantou.
— E agora — ele disse pesadamente — é hora da reunião do Alto
Conselho. Ela será realizada no Salão do Céu. Tanthalas, se puder, leve seus
companheiros até lá.
O Salão do Céu, eles descobriram, era uma praça enorme, iluminada
por tochas. A cúpula gigantesca do firmamento, brilhando com estrelas,
arqueava-se acima dela. Mas estava escuro ao norte, onde raios brilhavam
no horizonte. O Orador fez sinal para que Tanis trouxesse os companheiros
para ficar perto dele, depois toda a população de Qualinost se reuniu ao
redor deles. Não era necessário pedir silêncio. Até o vento parou quando o
Orador começou.
— Aqui está a nossa situação — ele indicou algo no chão.
Os companheiros viram um mapa gigantesco sob seus pés. Tasslehoff,
em pé no meio das Planícies de Abanassínia, deu um suspiro profundo. Ele
não conseguia se lembrar de ter visto algo tão maravilhoso.
— Ali está Consolação! — ele gritou de emoção, apontando.
— Sim, kender — o Orador respondeu. — E ali é onde os exércitos
dracônicos se reúnem. Em Consolação — ele tocou o local no mapa com
um cajado — e em Refúgio. Lorde Verminaard não escondeu seus planos
de invadir Qualinesti. Ele espera apenas reunir suas forças e garantir suas
rotas de suprimento. Não temos chance contra tal horda.
— Certamente é fácil defender Qualinost — Sturm falou. — Não há
uma rota direta por via terrestre. Atravessamos pontes sobre ravinas que
nenhum exército poderia atravessar se as pontes fossem cortadas. Por que
você não resiste a eles?
— Se fosse apenas um exército, poderíamos defender Qualinesti —
o Orador respondeu. — Mas o que podemos fazer contra dragões? — o
Orador abriu os braços, desamparado. — Nada! Segundo as lendas, foi
apenas com a Lança do Dragão que o poderoso Huma os derrotou. Não
há ninguém agora, pelo menos que saibamos, que se lembre do segredo
daquela grande arma.

362
Fizban começou a falar, mas Raistlin o silenciou.
— Não — o Orador continuou — precisamos abandonar esta cidade
e a floresta. Planejamos ir para o oeste, para as terras desconhecidas, na
esperança de encontrar um novo lar para nosso povo, ou talvez até mesmo
retornar a Silvanesti, o lar élfico mais antigo. Até uma semana atrás, nossos
planos estavam avançando bem. Levará três dias de marcha forçada para o
Senhor dos Dragões mover seus soldados para a posição de ataque e espiões
nos informarão quando o exército deixar Consolação. Teremos tempo de
fugir para o oeste. Mas então descobrimos um terceiro exército dracônico
em Pax Tharkas, a menos de um dia de jornada de nós. A menos que esse
exército seja impedido, estamos condenados.
— E você sabe uma forma de impedir tal exército? — perguntou Tanis.
— Sim — o Orador olhou para seu filho mais novo. — Como
sabem, homens de Berma, Consolação e comunidades vizinhas estão
sendo mantidos prisioneiros na fortaleza de Pax Tharkas, trabalhando
como escravos para o Senhor dos Dragões. Verminaard é inteligente.
Para que seus escravos não se revoltem, ele mantém as mulheres e filhos
desses homens como reféns, cobrando o bom comportamento deles como
resgate. Acreditamos que, se esses cativos fossem libertados, os homens
se voltariam contra seus senhores e os destruiriam. Era a missão de Gil-
thanas libertar os reféns e liderar a revolta. Ele levaria os humanos para o
sul, para as montanhas, atraindo este terceiro exército na perseguição, nos
dando tempo para fugir.
— E quanto aos humanos? — Vento Ligeiro perguntou de modo
grosseiro. — Parece que você os joga para os exércitos dracônicos como um
homem desesperado joga pedaços de carne para lobos que o perseguem.
— Tememos que Lorde Verminaard não os manterão vivos por muito
tempo. O minério está quase acabando. Ele está coletando cada pedaço,
então a utilidade dos escravos terminará. Existem vales nas montanhas,
cavernas onde os humanos podem viver e combater os exércitos dracôni-
cos. Eles podem facilmente defender os passos da montanha contra eles,
especialmente agora que o inverno está começando. Admito que alguns
podem morrer, mas é um preço que precisa ser pago. Se você tivesse escolha,
homem das Planícies, preferiria morrer na escravidão ou morrer lutando?
Sem responder, Vento Ligeiro olhou para o mapa de forma misteriosa.
— A missão de Gilthanas falhou — disse Tanis. — E agora você quer
que a gente lidere a revolta?

363
— Sim, Tanthalas — o Orador respondeu. — Gilthanas conhece um
caminho para Pax Tharkas... o Sla Mori. Ele pode levá-lo para dentro da
fortaleza. Você não apenas tem a chance de libertar a sua própria espécie,
mas oferece aos elfos a chance de escapar — a voz do Orador endureceu.
— Uma chance de viver que muitos elfos não tiveram quando os humanos
trouxeram o Cataclismo sobre nós!
Vento Ligeiro olhou para cima, enfezado. Até a expressão de Sturm
fechou. O Orador respirou fundo, depois suspirou.
— Por favor, me perdoem — disse. — Eu não quis açoitá-los com chi-
cotes do passado. Não estamos indiferentes sobre a situação dos humanos.
Eu enviarei meu filho, Gilthanas, com você de bom grado, sabendo que,
se nos separarmos, talvez nunca mais nos vejamos. Faço este sacrifício para
que meu povo e o seu possam viver.
— Precisamos de um tempo para considerar— disse Tanis, embora
soubesse qual deveria ser sua decisão. O Orador assentiu e os guerreiros
elfos abriram caminho através da multidão, levando os companheiros a um
bosque. Lá, foram deixados sozinhos.
Os amigos de Tanis estavam diante dele, suas faces solenes, máscaras
de luz e sombra sob as estrelas. “Todo esse tempo”, ele pensou, “lutei para
nos manter juntos. Agora, vejo que precisamos nos separar. Não podemos
levar os discos para Pax Tharkas e Lua Dourada não os deixará para trás”.
— Eu vou para Pax Tharkas — Tanis disse em voz baixa. — Mas
acredito que chegou o momento de nos separarmos, meus amigos. Antes de
falarem algo, me deixem dizer isto. Eu enviaria Tika, Lua Dourada, Vento
Ligeiro, Caramon e Raistlin, e você, Fizban, com os elfos na esperança de
que pudessem levar os discos em segurança. Os discos são preciosos demais
para se arriscar em um ataque a Pax Tharkas.
— Pode ser, Meio-elfo — Raistlin sussurrou das profundezas de seu
capuz.— Mas não é entre os elfos Qualinesti que Lua Dourada encontrará
quem ela procura.
— Como sabe disso? — perguntou Tanis, surpreso.
— Ele não sabe nada, Tanis — Sturm interrompeu amargamente. —
Apenas mais conversa...
— Raistlin? — Tanis repetiu, ignorando Sturm.
— Você ouviu o cavaleiro! — mago sibilou. — Não sei de nada!
Tanis suspirou, deixando para lá e olhando ao redor.
— Vocês me escolheram como líder...

364
— Sim, escolhemos, rapaz — Flint disse de repente. — Mas esta
decisão vem da sua cabeça, não do coração. Lá no fundo, você não acredita
realmente que devemos nos separar.
— Bem, eu não vou ficar com esses elfos — disse Tika, cruzando os
braços sobre o peito. — Vou com você, Tanis. Vou me tornar uma espada-
chim, como Kitiara.
Tanis estremeceu. Ouvir o nome de Kitiara foi como um golpe físico.
— Não vou me esconder com os elfos — disse Vento Ligeiro — es-
pecialmente se, para isso, tiver que deixar minha raça para lutar por mim.
— Ele e eu somos um — disse Lua Dourada, colocando a mão no
braço dele. — Além disso — disse mais suavemente — de alguma forma
eu sei que o que o mago diz é verdade, o líder não está entre os elfos. Eles
querem fugir do mundo, não lutar por ele.
— Todos nós vamos, Tanis — Flint disse firmemente.
O meio-elfo olhou desamparado para o grupo, depois sorriu e balan-
çou a cabeça.
— Você está certo. Não acredito realmente que devêssemos nos sepa-
rar. É a coisa sensata, lógica a ser feita, claro, e é por isso que não a faremos.
— Talvez agora a gente pudesse dormir — Fizban bocejou.
— Espera um pouco, ancião — Tanis disse com firmeza. — Você não
é um de nós. Você definitivamente vai com os elfos.
— Vou? — o velho mago perguntou em voz baixa enquanto seus
olhos perdiam a aparência vaga e desfocada. Ele encarou Tanis com olhar
tão penetrante, quase ameaçador, que o meio-elfo involuntariamente re-
cuou, sentindo repentinamente uma aura quase tangível de poder ao redor
do velho. Sua voz era suave e forte. — Eu vou onde escolher neste mundo
e eu escolho ir com vocês, Tanis Meio-Elfo.
Raistlin olhou para Tanis, como se dissesse “Agora você entende!”
Indeciso, Tanis retornou o olhar. Ele lamentou adiar a discussão disso com
Raistlin, mas se perguntou como poderiam ceder agora, sabendo que o
velho não iria embora.
— Eu falo só para você, Raistlin — Tanis disse de repente, usando a
língua de campana, uma forma corrompida do comum desenvolvida entre
os mercenários de diversas raças de Krynn. Os gêmeos trabalharam um
pouco como mercenários no passado, assim como a maioria dos compa-
nheiros, para ter o que comer. Tanis sabia que Raistlin entenderia. E estava
seguro que o velho não entenderia.

365
— Nós falamos se quiser — Raistlin respondeu no mesmo idioma,
— mas eu sei pouco.
— Você tem medo. Do quê? — os olhos estranhos de Raistlin obser-
vavam longe enquanto ele respondia lentamente.
— Não sei, Tanis. Mas... você certo. Há poder no ancião. Sinto grande
poder. Eu temo — seus olhos brilharam. — E eu desejo esse poder! — o
mago suspirou e pareceu voltar de onde quer que estivesse. — Mas ele está
certo. Tentar impedi-lo? Muito perigoso.
— Como se não tivéssimos riscos o suficiente — Tanis disse amarga-
mente, voltando para o comum. — Levaremos o nosso próprio conosco na
forma de um velho mago cambaleante.
— Talvez existam outros tão perigosos quanto — disse Raistlin, com
um olhar expressivo para seu irmão. O mago voltou até Caramon. — Estou
cansado. Preciso dormir. Você vai ficar, irmão?
— Sim — Caramon respondeu, trocando olhares com Sturm. — Va-
mos conversar com Tanis.
Raistlin concordou e deu o braço a Fizban. O velho e o novo saíram,
o mago velho batendo em uma árvore com seu cajado, a acusando de tentar
espreitá-lo.
— Como se um mago louco não fosse ruim o bastante — Flint
resmungou. — Eu vou deitar.
Um a um, os outros saíram, deixando Tanis com Caramon e Sturm.
Cansado, Tanis se virou para eles. Ele tinha a sensação de que sabia o que
estava prestes a ocorrer. O rosto de Caramon estava ruborizado e ele olhava
para os pés. Sturm acariciava os bigodes e observava Tanis, pensativo.
— Então? — perguntou Tanis.
— Gilthanas — Sturm respondeu.
Tanis fechou a cara e coçou a barba.
— Isso é um problema meu, não de vocês — disse brevemente.
— É um problema nosso, Tanis — Sturm persistiu —, se ele vai nos
levar para Pax Tharkas. Não queremos nos intrometer, mas é óbvio que existe
uma rixa entre vocês dois. Vi seus olhos quando ele olha para você, Tanis, e,
se eu fosse você, não iria a lugar algum sem um amigo na retaguarda.
Caramon olhou para Tanis sério, com a testa franzida.
— Sei que ele é elfo e tudo mais — disse o grandalhão lentamente.
— Mas, como Sturm disse, ele tem esse olhar estranho de vez em quando.

366
Você não sabe o caminho pra esse Sla Mori? Não podemos encontrá-lo
sozinhos? Não confio nele. Nem Sturm e Raist.
— Ouça Tanis — disse Sturm, vendo o rosto do meio-elfo ficar cober-
to de raiva. — Se Gilthanas estivesse em tanto risco em Consolação como
afirma, por que estava casualmente sentado na Hospedaria? E tem a história
sobre seus guerreiros encontrarem “acidentalmente” um maldito exército
inteiro! Tanis, não balance a cabeça tão rapidamente. Ele pode não ser
maligno, apenas equivocado. E se Verminaard tiver algo para controlá-lo?
Talvez o Senhor dos Dragões o convenceu que pouparia seu povo se, em
troca, ele nos traísse! Talvez seja por isso que estivesse em Consolação, nos
esperando.
— Isso é ridículo! — Tanis repreendeu. — Como ele saberia que
íamos para lá?
— Nossa jornada de Xak Tsaroth para Consolação não foi exatamente
secreta — Sturm respondeu friamente. — Vimos draconianos durante
todo o caminho e aqueles que fugiram de Xak Tsaroth devem ter percebido
que viemos pelos discos. Verminaard provavelmente sabe nossas descrições
melhor do que a da sua própria mãe.
— Não! Eu não acredito! — Tanis disse com raiva, encarando Sturm
e Caramon. — Vocês estão errados! Eu aposto a minha vida! Eu cresci com
Gilthanas, eu o conheço! Sim, existe uma rixa entre nós, mas nós já conver-
samos e o assunto está encerrado. Acreditarei que ele virou um traidor do
seu povo no dia que acreditar que você ou Caramon sejam traidores. E não,
não sei o caminho para Pax Tharkas. Nunca estive lá. E mais uma coisa —
Tanis gritou, em fúria — se há alguém que eu não confie neste grupo é no
seu irmão e naquele velho! — ele olhou para Caramon, acusador.
O grandalhão ficou pálido e baixou a cabeça. Ele começou a se afastar.
Tanis recobrou a razão, percebendo repentinamente o que dissera.
— Me desculpe, Caramon — ele colocou a mão no braço do guerrei-
ro. — Eu não tinha essa intenção. Raistlin salvou nossas vidas mais de uma
vez nessa jornada insana. É só que não consigo acreditar que Gilthanas seja
um traidor!
— Sabemos disso, Tanis — Sturm disse baixinho. — E confiamos
no seu julgamento. Mas, é uma noite muito escura para andar de olhos
fechados, como o meu povo diria.
Tanis suspirou e concordou. Ele colocou a outra mão no braço de
Sturm. O cavaleiro a apertou e os três homens ficaram em silêncio, depois

367
deixaram o bosque e voltaram para o Salão do Céu. Eles ainda podiam
escutar o Orador falando com seus guerreiros.
— O que Sla Mori significa? — perguntou Caramon.
— Caminho Secreto — Tanis respondeu.

Tanis acordou sobressaltado, com a mão na adaga no cinto. Uma


forma escura se agachou sobre ele na noite, bloqueando as estrelas acima.
Erguendo-se rapidamente, ele agarrou e puxou a pessoa para baixo do seu
corpo, colocando sua adaga na garganta exposta.
— Tanthalas! — Houve um pequeno grito ao ver o aço refletindo a
luz das estrelas.
— Laurana! — Tanis arfou.
O corpo dela pressionado contra o seu. Ele podia senti-la tremendo
e, agora que estava totalmente acordado, podia ver os longos cabelos soltos
flutuando sobre ombros dela. Ela estava vestida apenas com uma camisola
delicada. A capa caíra durante a breve luta.
Agindo por impulso, Laurana levantou-se da cama e saiu para a noite,
jogando uma capa para protegê-la do frio. Agora ela estava sob o peito de
Tanis, assustada demais para se mexer. Este era um lado de Tanis que ela
nunca conhecera. Ela percebeu de repente que, se fosse uma inimiga, estaria
morta agora, com a garganta cortada.
— Laurana... — Tanis repetiu, colocando a adaga de volta no cinto
com a mão trêmula. Ele a empurrou para longe e sentou-se, com raiva de
si mesmo por amedrontá-la e com raiva dela por despertar algo profundo
dentro dele. Por um instante, quando ela se deitou em cima, ele estava
extremamente consciente apenas do cheiro do seu cabelo, do calor de seu
corpo esbelto, da ação dos músculos de suas coxas, da suavidade de seus
pequenos seios. Laurana era uma garota quando ele partiu. Ele voltou para
encontrar uma mulher... uma mulher muito bonita e desejável
— O que em nome do Abismo você está fazendo aqui a essa hora
da noite?
— Tanthalas — disse ela, abafada, puxando sua capa bem para jun-
to de si. — Eu vim pedir para que mudasse de ideia. Deixe seus amigos
irem libertar os humanos em Pax Tharkas. Você precisa vir conosco! Não
jogue sua vida fora. Meu pai está desesperado. Ele não acredita que isso
funcionará... sei que não. Mas ele não tem escolha! Já está de luto por
Gilthanas, como se o filho estivesse morto. Eu vou perder meu irmão. Não

368
posso perdê-lo também! — ela começou a chorar. Tanis olhou para ao redor
rapidamente. Era quase certeza que guardas elfos estavam por perto. Se os
elfos o pegassem nessa situação comprometedora...
— Laurana — ele disse, agarrando-a pelos ombros e sacudindo-a. —
Você não é mais uma criança. Você precisa crescer e crescer rápido. Eu não
deixaria meus amigos enfrentarem o perigo sem mim! Sei dos riscos que
estamos correndo. Não sou cego! Mas se pudermos libertar os humanos de
Verminaard e dar a você e ao seu povo tempo para fugir, é uma chance que
precisamos aproveitar! Há um momento, Laurana, quando você precisa
arriscar sua vida por algo em que acredita, algo que signifique mais do que
a própria vida. Você entende?
Ela olhou para ele através de uma massa de cabelos dourados. Seu
choro parou e ela não mais tremia. Ela o encarou com muita atenção.
— Você entende, Laurana? — ele repetiu.
— Sim, Tanthalas — ela respondeu baixinho. — Eu entendo.
— Ótimo! — ele suspirou. — Agora, volte para a cama. Rápido. Você
me colocou em perigo. Se Gilthanas nos visse assim...
Laurana levantou-se e afastou-se rapidamente do bosque, passando
pelas ruas e edifícios como o vento entre os álamos. Passar escondida pelos
guardas para voltar para a casa do seu pai era simples; ela e Gilthanas faziam
isso desde a infância. Voltando silenciosamente para o quarto, ela ficou
parada do lado de fora da porta dos seus pais por um momento, ouvindo.
Havia uma luz acesa. Ela podia ouvir pergaminhos estalando, sentir um
odor cáustico. Seu pai estava queimando papéis. Ela ouviu o suave murmú-
rio da sua mãe, chamando o pai para a cama. Laurana fechou os olhos por
um momento em silenciosa agonia, depois apertou os lábios com firmeza e
desceu pelo corredor escuro e frio até o seu quarto.

369
8
Dúvidas. Emboscada!
Um novo amigo.

s elfos acordaram os companheiros antes do amanhecer. Nuvens


de tempestade desciam do horizonte ao norte, como dedos
esticados em direção a Qualinesti. Gilthanas chegou depois do
desjejum, vestido com uma túnica de tecido azul e uma cota de malha.
— Temos suprimentos — ele disse, mostrando os guerreiros que segura-
vam pacotes nas mãos. — Também podemos fornecer armas, caso precisem.
— Tika precisa de armadura, escudo e espada — disse Caramon.
— Forneceremos o que pudermos — disse Gilthanas —, embora eu
não acho que tenhamos uma armadura pequena assim.
— Como está Theros Dobraferro agora de manhã? — Lua Dourada
perguntou.
— Ele descansa confortavelmente, clériga de Mishakal — Gilthanas
curvou-se respeitosamente para Lua Dourada. — Meu povo o levará quando
partirmos, claro. Vocês podem se despedir dele.
Os elfos logo voltaram com uma armadura de cada tipo e descrição
para Tika e uma espada curta leve, preferida pelas elfas. Os olhos de Tika
brilharam quando ela viu o elmo e o escudo. Ambos eram criações élficas,
talhados e decorados com joias.
Gilthanas pegou o elmo e o escudo com o elfo.
— Ainda tenho que agradecê-la por salvar minha vida na Hospedaria
— disse para Tika. — Aceite estes. São da armadura cerimonial da minha
mãe, da época das Guerras Fratricidas. Ela seria dada à minha irmã, mas
Laurana e eu acreditamos que você é a proprietária adequada.
— Muito bonita — Tika murmurou, corando. Ela aceitou o elmo,
depois olhou para o resto da armadura, confusa. — Não sei onde coloco o
que — ela confessou.
— Eu ajudo! — Caramon se ofereceu avidamente.
— Eu cuido disso — Lua Dourada disse firmemente. Pegando a
armadura, ela levou Tika para um bosque de árvores.
— O que ela sabe sobre armadura? — Caramon resmungou.
Vento Ligeiro olhou para o guerreiro e sorriu, o sorriso raro e inco-
mum que suavizava seu rosto severo.
— Você se esquece — ele disse — que ela é a filha do chefe. Na
ausência do pai, era seu dever liderar a tribo durante a guerra. Ela sabe
bastante sobre armadura, guerreiro... e mais ainda sobre o coração que bate
embaixo dela.
Caramon ruborizou. Nervosamente, ele pegou um pacote de supri-
mentos e olhou para dentro.
— O que é esse lixo? — ele perguntou.
— Quith-pa — disse Gilthanas. — Rações de ferro, no seu idioma.
Vão durar várias semanas, se for necessário.
— Parece com fruta seca! — disse Flint, com desgosto.
— E é isso mesmo — Tanis respondeu, sorrindo.
Caramon lamentou.

A alvorada estava começando a tingir as nuvens de tempestade com uma


luz pálida e fria quando Gilthanas levou o grupo para fora de Qualinesti. Tanis
manteve os olhos para frente, recusando-se a olhar para trás. Ele desejava que
sua última viagem para cá pudesse ter sido mais feliz. Ele não vira Laurana a
manhã inteira e, embora se sentisse aliviado por evitar uma despedida chorosa,
se perguntou secretamente por que ela não viera se despedir dele.

371
A trilha seguia para o sul, descendo gradualmente, mas era constante.
Estava densa e coberta de arbustos, mas o grupo de guerreiros que Gil-
thanas levara antes a limpara enquanto passaram, de modo que andar era
relativamente fácil. Caramon andava ao lado de Tika, resplandecente em
sua armadura mal combinada, instruindo-a sobre o uso da espada. Infeliz-
mente, o professor estava tendo dificuldades.
Lua Dourada cortara a saia vermelha da Tika até as coxas para facilitar
o movimento. Pedaços brancos macios das roupas de baixo cortadas de Tika
espreitavam sedutoramente através das fendas. Suas pernas ficavam visíveis
enquanto andava e as pernas da moça eram exatamente como Caramon
sempre imaginara, roliças e bem formadas. Assim, Caramon achou bastante
difícil se concentrar em sua lição. Absorto com sua aprendiz, ele não perce-
beu que seu irmão desaparecera.
— Onde está o jovem mago? — Gilthanas perguntou bruscamente.
— Talvez algo tenha acontecido com ele — Caramon disse preocupa-
do, amaldiçoando-se por esquecer seu irmão. O guerreiro sacou a espada e
voltou pela trilha.
— Absurdo! — Gilthanas o impediu. — O que poderia ter acontecido
com ele? Não existem inimigos a quilômetros. Ele deve ter ido para algum
lugar... por algum motivo.
— O que quer dizer? — perguntou Caramon, irritado.
— Talvez ele partiu para--
— Coletar o que precisava para fazer minha magia, elfo — Raistlin
sussurrou, emergindo dos arbustos. — E também reabastecer as ervas que
curam minha tosse.
— Raist! — Caramon quase o abraçou, aliviado. — Você não deveria
sair por aí sozinho, é perigoso.
— Meus componentes mágicos são secretos — Raistlin sussurrou
irritado, empurrando seu irmão. Apoiado no Cajado de Magius, o mago se
reuniu a Fizban na fila.
Gilthanas lançou um olhar ríspido a Tanis, que deu de ombros e ba-
lançou a cabeça. Enquanto o grupo continuava, a trilha ficava cada vez mais
íngreme, levando da floresta de álamos para os pinheiros das terras baixas.
Ela era acompanhada por um riacho claro que logo se tornou uma torrente
furiosa enquanto viajavam mais para o sul.
Quando pararam para um almoço apressado, Fizban se aproximou e
se agachou ao lado de Tanis.

372
— Alguém está nos seguindo — ele disse em um sussurro penetrante.
— O que? — Tanis perguntou, sua cabeça subindo rapidamente para
ver o velho, incrédulo.
— Sim, verdade — o velho concordou solenemente. — Eu vi... cor-
rendo por entre as árvores.
Sturm viu o olhar de preocupação de Tanis.
— Qual o problema?
— O ancião disse que alguém está nos seguindo.
— Ora! — Gilthanas jogou fora seu último pedaço de quith-pa em
desgosto e se levantou. — Isso é loucura. Vamos agora. O Sla Mori ainda
está muito longe e precisamos chegar lá até o anoitecer.
— Eu vou na retaguarda — Sturm disse baixinho para Tanis.
Eles andaram pelos pinheiros irregulares por mais algumas horas. O
sol desceu pelo céu, alongando as sombras pela trilha, quando o grupo
subitamente se aproximou de uma clareira.
— Shhh! — Tanis avisou, recuando em alarme.
Caramon, imediatamente alerta, sacou a espada, gesticulando para
Sturm e seu irmão com a mão livre.
— O que foi? — falou Tasslehoff. — Não consigo ver.
— Quieto! — Tanis encarou o kender e Tas colocou a mão sobre a
própria boca para poupar Tanis do problema.
A clareira foi o local de uma luta sangrenta recente. Corpos de homens
e hobgoblins estavam espalhados nas poses obscuras da morte brutal. Os
companheiros olharam com medo e escutaram por longos minutos, mas
não conseguiam ouvir nada além do estrondo da água.
— Sem inimigos a quilômetros! — Sturm encarou Gilthanas e come-
çou a entrar na clareira.
— Espere! — Tanis disse. — Acho que vi algo se mover!
— Talvez um deles ainda esteja vivo — Sturm disse friamente,
avançando. O resto seguiu mais lentamente. Um gemido baixo veio por
entre dois corpos de hobgoblins. Os guerreiros caminharam em direção à
carnificina, espadas em punho.
— Caramon... — Tanis gesticulou.
O guerreiro grande jogou os corpos para o lado. Havia um vulto
gemendo embaixo.
— Humano — Caramon informou. — E coberto de sangue. Incons-
ciente, acho.

373
O resto veio observar o homem no chão. Lua Dourada começou a se
ajoelhar, mas Caramon a deteve.
— Não, senhora — ele disse gentilmente. — Não faria sentido curá-lo
se tivéssemos que matá-lo novamente. Lembre-se... humanos lutaram pelo
Senhor dos Dragões em Consolação.
O grupo se reuniu ao redor para examinar o homem. Ele usava uma
cota de malha de boa qualidade, embora manchada. Suas roupas eram ricas,
embora o tecido tivesse se desgastado em alguns lugares.
Ele parecia ter quase quarenta anos. Seu cabelo era preto e abundante,
seu queixo firme e suas feições regulares. O estranho abriu os olhos e olhou
para os companheiros, ofuscado.
— Graças aos deuses dos Perscrutadores! — ele disse roucamente. —
Meus amigos... estão todos mortos?
— Preocupe-se com si mesmo primeiro — Sturm disse seriamente. —
Diga, quem eram os seus amigos, humanos ou hobgoblins?
— Os humanos... guerreiros contra os homens-dragão. — O homem
parou, arregalando os olhos. — Gilthanas?
— Eben — Gilthanas disse em uma surpresa silenciosa. — Como
sobreviveu à batalha na ravina?
— E como você sobreviveu, falando nisso? — O homem chamado
Eben tentou se levantar. Caramon esticou a mão para ajudá-lo quando, de
repente, Eben apontou. — Cuidado! Drac--
Caramon se virou, deixando Eben cair com um gemido. Os outros se
viraram para ver doze draconianos parados na beira da clareira, com armas
em punho.
— Todos os estranhos nesta terra devem ser levados para o Senhor dos
Dragões para interrogatório — um deles gritou. — Ordenamos que vocês
venham conosco em paz.
— Ninguém deveria saber sobre este caminho para o Sla Mori —
Sturm sussurrou para Tanis com um olhar ameaçador para Gilthanas. —
Quer dizer, de acordo com o elfo!
— Não aceitamos ordens de Lorde Verminaard! — Tanis gritou,
ignorando Sturm.
— Logo aceitarão — o draconiano disse e acenou com o braço. As
criaturas avançaram para atacar.
Parado perto da beira da floresta, Fizban tirou algo da bolsa e começou
a murmurar algumas palavras.

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— Bola de fogo não! — Raistlin sibilou, agarrando o braço do mago.
— Você vai incinerar todo mundo aqui!
— Mesmo? Acho que você está certo — O velho mago suspirou,
desapontado, depois se animou. — Espere, vou pensar em outra coisa.
— Fique aqui e se proteja! — Raistlin ordenou. — Eu vou até meu irmão.
— Agora, como era aquela magia de teia? — O velho ponderou.
Tika, com a espada nova sacada, tremia. Um draconiano correu até
ela, que aplicou um golpe formidável. A lâmina errou o draconiano por um
quilômetro e a cabeça de Caramon por centímetros. Puxando Tika para
trás, ele derrubou o draconiano com a parte chata da sua espada. Antes que
pudesse se levantar, ele pisou no pescoço da criatura, quebrando-o.
— Fique atrás de mim — ele disse para Tika, então olhou para a
espada que ela ainda brandia loucamente. — Pensando bem — Caramon
corrigiu, nervoso — vá até aquelas árvores com o velho e Lua Dourada. Seja
uma boa menina.
— Não vou! — Tika falou, indignada. — Vou mostrar pra ele — ela
resmungou, as palmas suadas escorregando no punho da espada. Mais dois
draconianos investiram contra Caramon, mas agora seu irmão estava ao seu
lado, os dois combinando magia e aço para destruir o inimigo. Tika sabia
que só ficaria no caminho deles e temia a fúria de Raistlin mais do que
temia os draconianos. Ela olhou ao redor para ver se alguém precis