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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO


DOUTORADO EM EDUCAÇÃO

A ELITE SETECENTISTA INSTRUÍDA EM SERGIPE DEL REY


(1725 - 1800)

VOLUME 1

EUGÊNIA ANDRADE VIEIRA DA SILVA

SÃO CRISTÓVÃO (SE)


2013
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
DOUTORADO EM EDUCAÇÃO

A ELITE SETECENTISTA INSTRUÍDA EM SERGIPE DEL REY


(1725 - 1800)

EUGÊNIA ANDRADE VIEIRA DA SILVA

Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação da


Universidade Federal de Sergipe como requisito parcial para
obtenção do título de Doutora em Educação.

Orientador: Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento

SÃO CRISTÓVÃO (SE)


2013
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

Silva, Eugênia Andrade Vieira da

S586e A elite setecentista instruída em Sergipe Del Rey (1725-


1800) / Eugênia Andrade Vieira da Silva; orientador Jorge
Carvalho do Nascimento. – São Cristóvão, 2013.

2v. : il.

Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de


Sergipe, 2013.

1. Alfabetização – Séc. XVIII - Sergipe. 2. Sergipe -


História. 3. Família – Vida religiosa. 4. Casamento. 5. Cultura.
6. Escrita. I. Nascimento, Jorge Carvalho do, orient. II. Título.

CDU 37.014.22(813.7)
Dedicatória

Aos meus pais Edezio e Regina (in


memorian); meus irmãos Antonio (in
memorian), João, Edésio e Heleno; aos
meus sobrinhos Dayse, Regina, Leonardo,
Higor, Larissa e Deborah e à minha
afilhada Tainara, meus amores, alegria da
minha vida.
AGRADECIMENTOS

Em uma tese de doutorado agradecer é um ato público de gratidão aos familiares,


amigos e professores que ajudaram de diversas formas, compreenderam as ausências,
impaciências, o falar repetido acerca do único assunto em pauta durante quatro anos – a tese.
Ao professor Jorge Carvalho, pela sua generosidade intelectual, desde o Mestrado,
acreditando na minha capacidade intelectual, tendo paciência com minhas inseguranças. Tê-lo
como orientador e amigo há mais de uma década enriqueceu minha vida profissional. Ser-lhe-
ei sempre grata.
À professora Maria da Glória Santana de Almeida, pela sua ação de salvaguarda da
documentação secular cartorária sergipana, sem a qual não seria possível essa tese.
Ao professor Justino Pereira de Magalhães, pelo envio do seu livro e sugestões aos
meus questionamentos via e-mail, pois muito contribuiu para a feitura dessa tese.
Às professoras Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento e Anamaria
Gonçalves Bueno de Freitas pelas indicações de leituras e sugestões na banca de qualificação
que deram outra dimensão ao meu trabalho.
Aos membros da banca de defesa dessa tese, às professoras Ester Fraga Vilas-Bôas
Carvalho do Nascimento e Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas, aos professores José Carlos
de Araujo Silva e Luiz Eduardo Menezes Oliveira, pelas contribuições ao corpus dessa tese.
Aos chefes do Arquivo Geral do Judiciário, Ivana Rocha Melo Resende, Yêda Silva
Ribeiro, Lívia Leilah Leite Barros Rodrigues, Bruno Dantas Luduvice Navarro e Mayanna
Barbosa Soares Scharff, pela compreensão, liberando-me para participar da seleção,
frequentar aulas, licença prêmio, férias, eventos e revisão final da tese.
A Kátia Virgínia Santos, diretora da Escola Estadual José Augusto Ferraz, que me
ajudou a superar os entraves burocráticos quando da minha liberação para o doutorado,
sempre eliminando problemas com sua alegria contagiante.
A Raylane, pela amizade, generosidade afetiva, principalmente nos últimos oito meses
de confinamento e angústia, para finalizar uma tese que, em inúmeros momentos parecia uma
tarefa impossível, ouvia-me, aconselhava-me, trazia calmaria para minha mente e alma.
A Vera, parceira nas fontes documentais sergipanas setecentistas, sua tese instigou-me
a ampliar horizontes de investigação.
A Maristela, pela presteza na coleta de informações e pelo valioso banco de dados
sobre os casamentos setecentistas em Sergipe.
A Jocineide Cunha, pelas proveitosas conversas, livros presenteados, documentos
descobertos, trocas generosas de informações num ambiente acadêmico, na maioria das vezes
hostil, mostrando assim que repartir é sempre melhor do que omitir.
Ao Vlademir, pelo livro presenteado, tão importante para o meu trabalho.
Ao Fábio Soares, pela sua ajuda na instalação de programas e ensino de como utilizá-
los, além do companheirismo profissional no Arquivo Judiciário e amizade.
A Maria José e sua irmã Antonia, pelas orações.
A Carla, pelas transcrições dos testamentos e demais documentos.
A Assunção, pela revisão gramatical criteriosa, em cima da hora, final de ano, quando
visitava a família em Fortaleza, no entanto pude contar com sua ajuda profissional e carinhosa
amizade.
Ao Juliano Beck pela formatação e revisão final.
A Ivone pelo apoio e carinho de amiga com quem posso contar sempre.
Ao Salustiano, pelas aulas sobre Estatística que enriqueceram este trabalho.

À minha cunhada Marilene pelo seu zelo e carinho.


À turma do sítio, Dona Helena, Maria das Graças, Francisco, Hortência, Arquimedes,
Aline, Pedro, Wellington, Íris, João, Marlene, Claudi, Hellena, Iara, que com alegria e
companheirismo tornaram os meus feriados e finais de semana em momentos de relaxamento
e alegria.

Ao meu irmão João, sem seu amor de irmão e cuidados de pai e mãe, não seria o que
hoje sou.
Ao meu mano Heleno, que com seu amor carinhoso e sua família alegram e tornam
minha vida mais leve.
Ao meu irmão Edésio, pelo silencioso amor fraterno.
Dedico a minha tese aos meus pais Edezio e Regina (in memorian); meus irmãos
Antonio (in memorian), João, Edésio e Heleno; aos meus sobrinhos Dayse, Regina, Leonardo,
Higor, Larissa e Deborah e à minha afilhada Tainara, meus amores, alegria da minha vida.
RESUMO

A percepção do nível de alfabetismo e letramento da elite do século XVIII em Sergipe deu-se


mediante o estudo das assinaturas e das capacidades alfabéticas (ler e escrever) desta
população, coletados nos testamentos e inventários. As assinaturas, quando utilizadas como
indicadores de alfabetização nos períodos anteriores aos Censos, através do enquadramento
em escalas de níveis de assinaturas, fornecem subsídios, mesmo com lacunas, permitindo
identificar e quantificar quem era alfabetizado ou analfabeto e ainda perceber as relações de
parentesco, amizade e/ou compadrio que interlaçava estes dois grupos. Mostra que assinar o
nome não significava, no século XVIII em Sergipe, saber ler e escrever, embora o método
utilizado no Antigo Regime e nas sociedades coloniais fosse primeiro aprender a ler e depois
a escrever. Traz à luz, no século XXI, a presença da mulher no mundo da cultura escrita
setecentista, seja ela como pessoa alfabetizada, raro na sociedade colonial, seja como
assinante ou quando era analfabeta, recorrendo a quem lhe fizesse a rogo (todas recorreram a
homens), refletindo a realidade educacional setecentista, o fato de a maioria ser analfabeta.
Mas determinar o letramento dessa elite tendo como indicador apenas as assinaturas, sem
cruzar estas informações com outras fontes como biografias, produção escrita por estes
autores, é oferecer resultados equivocados. Com o levantamento das capacidades alfabéticas
(ler e escrever) fica evidente que essa elite era, em maior parcela, formada por pessoas
inclusas na cultura escrita, pois ao juntar os 64 alfabetizados com os 66 assinantes, a
porcentagem é de 95 %, ou seja, a referida elite tinha um alto nível de alfabetização. O estudo
comprova que apesar de Sergipe ser, no século XVIII, uma capitania subalterna à Bahia, e de
não ser de ponta da economia colonial, nem urbana nem mineradora, cuja maioria da
população morava na zona rural, havia uma elite não só econômica, política e social, mas
também instruída, composta por negociantes (sitiantes, donos de engenho, fazendas, casas
comerciais). Pois a elite setecentista, mesmo composta por analfabetos, teve nos mediadores
da cultura escrita, cônjuges, parentes e amigos, fossem eles agentes públicos ou não, o amparo
nas suas questões jurídicas, sendo irrelevante para a justiça ser ou não alfabetizado, uma vez
que a lei assegurava a todos o acesso a ela quando se fazia necessário.

Palavras-chave: Alfabetismo. Cultura Escrita. Elite. Letramento. Século XVIII. Sergipe.


ABSTRACT

The perception on literacy and illiteracy levels of the elite in the XVIII century in Sergipe was
possible through the study on the signature and the alphabetical skills (read and write) of that
population, data which had been collected from the wills and inventories. The signatures,
when used as literacy indicators in previous period to the survey (Censos), by framing them
into signature scales levels, provided means, even with gaps, allowing to both identify and
quantify who was literate or illiterate; as well as realize what sort of family relationship,
friendship and/or collusion used to bind those two groups together. It shows that signing up
your name in the XVIII, in Sergipe, was not an indicator that one knew how to read and write,
however the method used by the Ancient Regime and the colonial societies was first to learn
how to read and only then, write. Bringing to light, in the XXI century, the women’s presence
into the world of the written eighteenth culture, regardless it was a literate person, which was
rare in the colonial society, or if the person was able only to sign up her name or was merely
illiterate, turning to the one who would be able to help her (they would always look for men),
reflecting the educational reality of the eighteenth,-the fact that the great majority was
illiterate. But determining that elite literacy taking as a parameter only the signature, without
crossing those pieces of information with some other sources such as biographies, written
production by those authors, often offers misled results. By coming up with the alphabetical
skills (read and write) it is evident that the great majority of that elite was formed by people
who were inserted in that literacy culture, since when we put together 64 literate and 66
people, that were able to sign up their names, we will get 95%, at any rate, that elite used to
have a high leveled literacy. This study proves that although Sergipe, in the XVIII, was a
subaltern captaincy to Bahia, and also not be of economical, urban nor mining importance
whose population, it vast majority, used to live in a rural area, there used to be an elite not
only economical, political and social, but also instructed consisting of businesspeople (ranch
people, mill, farm and commerce owners). Hence the eighteenth elite, even being composed
by illiterate people, used to lie on its mediators of the written culture, spouses, relatives and
friends, agents whether public or not, but they provided the support in justice issues,
regardless being literate or not, provided the law allowed to everyone to reach it when
necessary,

Key words: Alphabetize. Elite. Literacy. Sergipe. Written culture. XVIII Century.
RESUMEN

La percepción del nivel de alfabetismo e instrucción de la elite del siglo XVIII en Sergipe se
produjo gracias al estudio de las firmantes y de las capacidades alfabéticas (leer y escribir) de
esta población, colectados en los testamentos e inventarios. Las firmas, cuando utilizadas
como indicadores de alfabetización en los períodos anteriores a los Censos, a través del
encuadramiento en escalas de niveles de firmas, fornecen subsidios, aunque con huecos,
permitiendo identificar y cuantificar quien era alfabetizado o analfabeto y aún percibir las
relaciones de parentesco, amistad y/o compadreo que unía estos dos grupos. Muestra que
firmar su nombre no significaba, en el siglo XVIII en Sergipe, saber leer y escribir, aunque el
método utilizado en el Antiguo Régimen y en las sociedades coloniales fuera primero
aprender a leer y después a escribir. Bajo la luz, en el siglo XXI, de la presencia de la mujer
en el mundo de la cultura escrita duodécima, sea como persona alfabetizada, raro en la
sociedad colonial, sea como firmante o cuando era analfabeta, recorriendo a quien le hiciera a
rogo (todas recorrieran a hombres), reflejando la realidad educacional duodécima, el hecho de
la mayoría ser analfabeta. Pero determinar la instrucción de esa elite teniendo como indicador
apenas las firmas, sin comparar estas informaciones con otras fuentes como biografías,
producción escrita por estos autores, es ofrecer resultados equivocados. Con la averiguación
del levantamiento de las capacidades alfabéticas (leer y escribir) resulta evidente que esa elite
era, mayoritariamente, formada por personas inclusas en la cultura escrita, pues, luego de
juntar los 64 alfabetizados con los 66 firmantes, el porcentaje es del 95 %, o sea, la referida
elite tenía un alto nivel de alfabetización. El estudio comprueba que a pesar de Sergipe ser, en
el siglo XVIII, una capitanía bajo el poder de la Bahía, y de no ser de punta de la economía
colonial, tampoco urbana ni de minería, cuya mayoría de la población vivía en la zona rural,
había una elite no sólo económica, política y social, sino también instruida, compuesta por
negociantes (caudillos, latitudinarios de caña de azúcar, haciendas y casas comerciales). Pues
la elite duodécima, aunque compuesta por analfabetos, tuvo en los mediadores de la cultura
escrita, cónyuges, parientes y amigos, fueran ellos agentes públicos o no, el amparo en sus
cuestiones jurídicas, siendo irrelevante para la justicia ser o no alfabetizado, una vez que la
ley aseguraba a todos el acceso a ella cuando necesario.

Palabras-clave: Alfabetismo. Cultura Escrita. Elite. Instrucción. Sergipe. Siglo XVIII.


LISTA DE GRÁFICOS

Volume 1

Gráfico 1 - Área de moradia dos setecentistas de Sergipe Del Rey ................................ 43

Gráfico 2 - Estado civil dos testadores/inventariados ...................................................... 44


LISTA DE FIGURAS

Volume 1

Figura 1 – Capa do inventário do português, Domingos Lopes Ferreira .......................... 85


Figura 2 – Procissão do viático – Debret ........................................................................... 100
Figura 3 – Folha de rosto do manual “Breve aparelho e modo fácil para ensinar a bem
morrer um cristão” – Estevam de Castro – 1627 ............................................................. 101
Figura 4 – Sobrado do Engenho do Retiro ......................................................................... 109
Figura 5 – Cartinha.... - Lisboa : João Pedro Bonhomini de Cremona, ca 1502 ............... 116
Figura 6 – Folha de rosto do livro “Grammatica da lingoagem portuguesa”, de
Fernando Oliveira, 1536 .................................................................................................... 117
Figura 7 – Folha de rosto do livro “Grammatica da lingua Portuguesa”, de João de
Barros, em 1539/1540 ....................................................................................................... 117
Figura 8 – Folha de rosto do livro “Regras qve ensinam a maneira de escrever a
orthographia da lingua Portuguesa”, de Pero de Magalhães de Gandavo, 1574................ 118
Figura 9 – Folha de rosto do livro “Orthographia da lingoa portvgvesa”, de Duarte
Nunes de Leão, 1576 ......................................................................................................... 119
Figura 10 – Folha de rosto do livro “Vocabulário Portuguez e Latino”, de Rafael
Bluteau, em 1789 ............................................................................................................... 120
Figura 11 – Folha de rosto do livro “Nova Escola para aprender a ler, escrever, e
contar”, de Manuel de Andrade de Figueiredo, 1722 ........................................................ 122
Figura 12 – Livro “Nova Escola para aprender a ler, escrever, e contar”, de Manuel de
Andrade de Figueiredo, 1722 ............................................................................................ 123
Figura 13 – Livro “Nova Escola para aprender a ler, escrever, e contar”, de Manuel de
Andrade de Figueiredo, 1722 ............................................................................................ 124
Figura 14 – Livro “Nova Escola para aprender a ler, escrever, e contar”, de Manuel de
Andrade de Figueiredo, 1722 ............................................................................................ 125
Figura 15 – Provisão Régia – Vila Nova Real do Rey do Rio São Francisco.................... 126
Figura 16 – Provisão Régia – Vila de Santo Antonio e Almas de
Itabaiana........................................................................................................................ 127
Figura 17 – Provisão Régia – Povoação da Estância, Termo da Vila Real de Santa
Luzia ............................................................................................................................. 128
Figura 18 – Provisão Régia – São Cristóvão ..................................................................... 129
Figura 19 – Traço caligráfico do Juiz de Órfãos, Capitão Jozé Antonio dos Santos e do
escrivão Joaquim Joze de Souza Silva .............................................................................. 131
Figura 20 – Assinatura do escrivão Joaquim Joze de Souza Silva .................................... 132
Figura 21 – Folha rosto do “Diccionario da lingua geral do Brasil que se falla Em todas
as Villas, Lugares, e Aldeias deste vastissimo Estado” ..................................................... 133
Figura 22 – “Diccionario da lingua geral do Brasil que se falla Em todas as Villas,
Lugares, e Aldeias deste vastissimo Estado” ................................................................ 134
Figura 23 – Exemplo de um sinete e cera vermelha para lacrar documentos ................... 139
Figura 24 – Lacre utilizando cera vermelha, feito com sinete do tabelião Francisco Jozê
do Borral, selando formalmente o testamento do Coronel Manoel Joze Nunes Coelho
de Vasconcellos e Figueiredo, 1777 .................................................................................. 140
Figura 25 – Assinatura de Braz Martins da Costa 141

Volume 2
Figura 26 – Reconhecimento de letra e firma ................................................................... 161
Figura 27 – Sinal costumado ............................................................................................. 163
Figura 28 – Sinal assinatura .............................................................................................. 163
Figura 29 – Palavra “cruz” acima do sinal ........................................................................ 164
Figura 30 – Palavra “sinal” após o nome .......................................................................... 164
Figura 31 – “Sinal” cruz após primeiro nome .................................................................. 165
Figura 32 – Assinatura com o uso de abreviaturas ............................................................ 165
Figura 33 – Assinatura sem o uso de abreviaturas ............................................................ 165
Figura 34 – Cruz antes do primeiro nome ......................................................................... 166
Figura 35 – Cruz depois do primeiro nome ....................................................................... 166
Figura 36 – Assinatura da testadora em cruz, sem rogo .................................................... 166
Figura 37 – Assinatura da testadora em cruz, mas com rogo ............................................ 167
Figura 38 – Assinatura em cruz, com rogo ........................................................................ 167
Figura 39 – Recibo assinado com uma cruz pela escrava Vitoria ..................................... 168
Figura 40 – Assinatura de Joze de Souza Vieira, marido de Thereza da Motta ................ 169
Figura 41 – Assinatura de Antonio Alves da Silveira, assinante a rogo da inventariante
Roza Maria do Sol ............................................................................................................. 170
Figura 42 – Assinatura do Doutor Antonio Josê Pereira Barrozo, Ouvidor Geral do
Crime e Civil Corregedor da Comarca de São Cristóvão em 1766 ................................... 170
Figura 43 – Assinatura do testador no testamento de Domingos Salgado de Araujo ..... 170
Figura 44 – Assinatura do escrivão Joze Caetano da Silveira Nollete .............................. 171
Figura 45 – Declaração de débito de dote de Alexandre Lopes do Valle ....................... 172
Figura 46 – Assinaturas sinais de profissões em Portugal ............................................ 174
Figura 47 – Assinaturas sinais cuja base, em Portugal, era a cruz..................................... 174
Figura 48 – Sinal público do tabelião Antonio Rodrigues Vieira – 1758 ...................... 175
Figura 49 – Sinal público do tabelião Manoel Francisco da Conceição – 1763 ............... 175
Figura 50 – Assinatura sinal (cruz) de Faustino Domingos .............................................. 176
Figura 51 – Assinatura do avaliador Jose Pereira Lima .................................................... 176
Figura 52 – Assinatura de Antonio Teixeira de Souza .................................................. 177
Figura 53 – Assinatura de Joze Joaquim de Souza ............................................................ 177
Figura 54 – Assinatura do Juiz de órfãos Felippe de Mello Pereira .................................. 178
Figura 55 – Arabesco da assinatura do Alferes Joze Cardozo de Vasconsellos ............. 178
Figura 56 – Arabesco da assinatura do Sargento-mor Antonio Gomes Ferrão
Castelobranco ................................................................................................................... 179
Figura 57 – Arabescos na assinatura e rubrica do Juiz de Órfãos trienal Sargento-mor
Manoel Jose Soares ........................................................................................................... 179
Figura 58 – Atesto de dívidas feito por Francisca Catharina Solto Fraga ......................... 180
Figura 59 – D. Francisca Catharina Solto Fraga ............................................................. 180
Figura 60 – Assinatura de Antonio Soares Dias a rogo de sua irmã Jozefa Maria de
Vasconcellos ...................................................................................................................... 183
Figura 61 – Assinatura de D. Jozefa Maria de Vasconcellos ......................................... 184
Figura 62 – Assinaturas de Ignacia Joaquina de Loyola Braque e Anna Cecilia Braque,
filhas de Joaquim Joze Braque .......................................................................................... 184
Figura 63 – O ensino do ofício de sapateiro ...................................................................... 202
Figura 64 – Termo de entrega do menor Antonio ......................................................... 204
Figura 65 – Procuração feita por Maria Francisca de Freitas ............................................ 211
Figura 66 – Assinatura de Maria Francisca de Freitas ...................................................... 212
Figura 67 – Assinatura de Maria Francisca de Freitas ...................................................... 212
Figura 68 – Procuração de Bernardo Nunes da Mota ........................................................ 212
Figura 69 – Assinatura de Bernardo Nunes da Mota ...................................................... 213
Figura 70 – Escrito de dote ................................................................................................ 214
Figura 71 – Carta de Antonia Maria Ramos ...................................................................... 216
Figura 72 – Recibo do enterro de Francisco Cardozo de Souza ........................................ 217
LISTA DE QUADROS

Volume 1
Quadro 1 – População sergipana 1707 - 1888 ..................................................................... 38
Quadro 2 – Freguesias da Capitania de Sergipe Del Rey – 1775 ........................................ 39
Quadro 3 – Naturalidade dos testadores ........................................................................... 40
Quadro 4 – Residência dos testadores quando fizeram testamento ..................................... 41
Quadro 5 – Cargos ocupados pelos inventariantes .............................................................. 45
Quadro 6 – Montante mor .................................................................................................... 47
Quadro 7 – Relação dos portugueses moradores em Sergipe Del Rey ................................ 57
Quadro 8 – Movimento migratório dos 23 portugueses moradores em Sergipe Del Rey ... 59
Quadro 9 – Testadores que eram filhos ilegítimos .......................................................... 73
Quadro 10 – Testadores beneficiadores de expostos/enjeitados .......................................... 79
Quadro 11 – Testadores que tiveram filhos naturais ....................................................... 80
Quadro 12 – Testadores que tiveram filhos ilegítimos ........................................................ 82
Quadro 13 – Nº de filhos legítimos declarados pelos inventariantes e testadores ............... 86
Quadro 14 – Nº de filhos legítimos declarados pela elite setecentista em Sergipe Del Rey 89
Quadro 15 – Nº de filhos legítimos declarados pelos 23 testadores e inventariados
portugueses .......................................................................................................................... 90

Volume 2
Quadro 16 – Testadores assinantes ...................................................................................... 159
Quadro 17 – Uso de tratamento nobiliárquico das mulheres setecentistas de Sergipe ........ 181
Quadro 18 – Ano e nível de assinaturas .......................................................................... 186
Quadro 19 – Escrevente de testamento Joam Alvares do Valle Guimaraens ................... 192
Quadro 20 – Escreventes que redigiram mais de um testamento ........................................ 194
Quadro 21 – Escreventes que redigiram testamentos de casais ........................................... 195
Quadro 22 – Relação dos escreventes de testamento por localidade ................................... 197
Quadro 23 – Testadores possuidores de livros de conta e/ou livros de razão ................... 206
Quadro 24 – Práticas de leituras nos testamentos ................................................................ 208
Quadro 25 – Ocupantes de cargos ....................................................................................... 220
Quadro 26 – Capacidades alfabéticas dos portugueses moradores em Sergipe Del Rey .... 222
Quadro 27 – Agentes judiciários com maior letramento ..................................................... 224
Quadro 28 – Juízes Trienais de Órfãos e Ordinário ............................................................. 225
Quadro 29 – Residência da elite setecentista de Sergipe Del Rey ....................................... 226
Quadro 30 – Maiores fortunas setecentistas de Sergipe Del Rey ........................................ 227
Quadro 31 – Capacidades alfabéticas da elite por localidade .............................................. 228
LISTA DE TABELAS

Volume 1
Tabela 1 – Cargos ocupados pelos inventariados/testadores ............................................. 45
Tabela 2 – Estado civil da elite setecentista ...................................................................... 66
Tabela 3 – Situação jurídica da filiação dos testadores ..................................................... 72
Tabela 4 – Estado físico do testador .................................................................................. 99

Volume 2
Tabela 5 – Tipos de assinaturas da elite setecentista de Sergipe Del Rey ...................... 181
Tabela 6 – Capacidades alfabéticas dos testadores ........................................................ 188
Tabela 7 – Testadores alfabetizados/analfabetos/indefinidos .......................................... 188

Tabela 8 – Inventariantes alfabetizados/analfabetos/indefinidos ..................................... 189


Tabela 9 – Testadores e inventariantes alfabetizados/analfabetos/indefinidos ................ 189
Tabela 10 – Cargo/parentesco dos escreventes de testamento .......................................... 191
MAPA

VOLUME 1

Mapa 1 – Regiões das quais procediam os portugueses residentes em Sergipe Colonial .......56
LISTA DE ABREVIATURAS

AGJ - Arquivo Geral do Judiciário

AGJ-EST/C. 2º OF. - Arquivo Geral do Judiciário – Estância/Cartório. 1º Ofício

AGJ-MAR/C. 2º OF. - Arquivo Geral do Judiciário – Maruim/Cartório. 1º Ofício

AGJ-PFO/C. - Arquivo Geral do Judiciário - Porto da Folha/Cartório

AGJ-SCR/C. 1º OF. - Arquivo Geral do Judiciário - São Cristóvão/Cartório. 1º Ofício

AGJ-SCR/C. 2º OF. - Arquivo Geral do Judiciário - São Cristóvão/Cartório. 2º Ofício

APES - Arquivo Público do Estado de Sergipe

APES - Coleção Sebrão Sobrinho = Arquivo Público do Estado de Sergipe - Coleção Sebrão
Sobrinho.
SUMÁRIO

VOLUME 1 ................................................................................................................... 21-153

1 – INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 21

2 – A PESQUISA .......................................................................................................... 24
2.1 – O PERCURSO DA PESQUISA ......................................................................... 24
2.2 – METODOLOGIA ............................................................................................... 25
2.3 – HIPÓTESE ......................................................................................................... 26
2.4 – FONTES: TESTAMENTOS E INVENTÁRIOS ................................................ 30
2.4.1 – Os testamentos .................................................................................................. 30
2.4.2 – Os inventários ................................................................................................... 33
2.5 – ESTRUTURA DA TESE ..................................................................................... 33

3 – O COTIDIANO FAMILIAR DA ELITE SETECENTISTA EM SERGIPE DEL


REY ..............................................................................................................................
35
3.1 – A COMPOSIÇÃO DA ELITE ............................................................................. 36
3.2 – A FAMÍLIA .......................................................................................................... 60
3.2.1 – Casamento ........................................................................................................ 60
3.2.2 – Filhos legítimos, naturais, expostos/enjeitados ................................................ 69
3.2.3 – Dote .................................................................................................................. 92
3.3 – RELIGIOSIDADE ............................................................................................... 96
3.4 – VIDA DOMÉSTICA ........................................................................................... 107

4 – A CULTURA ESCRITA ......................................................................................... 115


4.1 – A LÍNGUA DO PRÍNCIPE ................................................................................. 115
4.2 – ARTEFATOS DA CULTURA ESCRITA ........................................................ 137
4.3 – ELEMENTOS DA CULTURA ESCRITA ......................................................... 142
4.3.1 – O livro ............................................................................................................... 142
4.3.2 – O texto da lei ..................................................................................................... 146
4.3.3 – A epistolografia ................................................................................................. 147
4.3.4 – As fontes notariais ............................................................................................ 149
4.3.5 – Os registros paroquiais ..................................................................................... 150
4.3.6 – Os registros de foro privado ................................................................... 151

VOLUME 2 ................................................................................................................... 154-379

5 – VESTÍGIOS DE ALFABETISMO E LETRAMENTO NA CAPITANIA DE


SERGIPE DEL REY ................................................................................... 154
5.1 – AS ASSINATURAS COMO VESTÍGIOS DE ALFABETIZAÇÃO .................. 158
5.2 – LER E ESCREVER ............................................................................................. 187
5.3 – OS REDATORES DE TESTAMENTOS: mediadores de um saber específico .. 190
5.4 – INDÍCIOS DE INSTRUÇÃO NOS TESTAMENTOS E INVENTÁRIOS ........ 200
5.5 – LETRAMENTO .................................................................................................. 209

CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 230

REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 234

FONTES JUDICIAIS .................................................................................................... 256

GLOSSÁRIO ................................................................................................................ 263

APÊNDICES................................................................................................................... 267

Apêndice A – Nº de filhos legítimos.......................................................................... 268

Apêndice B – Testadores dotantes.............................................................................. 283

Apêndice C – Escala de níveis de assinaturas da elite setecentista de Sergipe Del Rey... 295

Apêndice D – Análise descritiva das capacidades alfabéticas dos testadores ................. 329

Apêndice E – Análise descritiva das capacidades alfabéticas dos inventariantes............. 351

Apêndice F – Capacidades alfabéticas da elite setecentista de Sergipe Del Rey .............. 361
21

1 – INTRODUÇÃO

Comunicando pela palavra e pela escrita, o ser


humano pensa, faz leitura, interpreta, representa,
(simboliza) e apropria-se do mundo e da realidade.
(MAGALHÃES, 2001, p. 27-28).

A ideia de analisar o nível de alfabetismo e letramento da elite setecentista em Sergipe


é o propósito deste estudo que surgiu a partir das discussões acerca dos intelectuais, que
desenvolvi no trabalho de Dissertação de Mestrado intitulado “A formação intelectual da
elite sergipana (1822-1889)”, defendido no Núcleo de Pós-Graduação em Educação da
Universidade Federal de Sergipe, em 2004, no qual tracei o perfil de 400 intelectuais
sergipanos para mostrar que com o desenvolvimento econômico de Sergipe e a política
educacional do Império, a geração oitocentista sergipana investiu na educação de seus filhos,
formando uma elite intelectualizada. A historiografia sergipana influenciou-me acerca da
educação no século XVIII. Deduzi que a geração setecentista de Sergipe era iletrada, tomando
este termo no sentido de ser analfabeta. Mas como não se escreve a História com dedução e
sim com fatos, resolvi investigar esta questão de forma mais aprofundada, que é o propósito
desta tese.
Mas como apreender um tempo que deixou poucos vestígios escritos de sua história?
Como identificar, “ver”, nas entrelinhas de uma escrita fragmentada, o nível de alfabetismo e
letramento de uma população mais preocupada com a sobrevivência, envolvida ainda no
processo de recolonização da capitania devastada pelas invasões holandesas ocorridas de 1637
a 1645?
Estudar o século XVIII, recorte fora da cronologia política, visa, ao percorrê-lo,
perceber práticas, costumes do século anterior e legados desse no posterior, pois nas longas
durações encontramos vestígios do que antecedeu e do que está surgindo. Para Sirinelli “[...]
uma geração dada extrai dessa gestação uma bagagem genética e desses primeiros anos uma
memória coletiva [...]” (SIRINELLI, 1996, p. 2). Foi com base nesta afirmativa que decidi
estudar a geração anterior desses 400 intelectuais, a fim de entender as similitudes deixadas
ou não, e até que ponto essa geração era alfabetizada.
Dos 400 intelectuais oitocentistas sergipanos com escolarização analisados na minha
dissertação, apenas cinco1 nasceram durante o século XVIII, o que demonstra serem poucos

1
Antonio Moniz de Souza, nascido em 1782, Bento de Melo Pereira, nascido em 1780, Joaquim Martins Fontes,
nascido em 1798 e José Francisco de Menezes Sobral, nascido em 1788 (GUARANÁ, 1925, p. 28-29; 48;
22

os setecentistas sergipanos que receberam uma formação superior, fato esse ratificado por
Maria Thétis Nunes ao afirmar que, até 1822, somente cinco sergipanos2 estavam registrados
nos arquivos da Universidade de Coimbra recebendo diploma de bacharel, devido às precárias
condições socioeconômicas de Sergipe.
No final do século XVII3, Sergipe crescia econômica e socialmente, necessitava de
pessoas com mais instrução para ocupar determinados cargos como o de Ouvidor, fato que
comprova a representação da Câmara de São Cristóvão, em 1694, enviada ao Rei solicitando
um ouvidor letrado “[...] que exercesse o cargo acima dos interesses locais, substituindo os
ouvidores que, sem ciência, nem experiência, ignoravam as leis”. (NUNES, 1996, p. 85),
solicitação a qual foi atendida.
Para Maria Thétis Nunes (1984), as limitações no desenvolvimento da educação em
Sergipe estão relacionadas às condições da população espalhada pelo interior da capitania 4,
gerando assim uma sociedade basicamente rural, por isso não havia alunos a serem moldados
pelos ensinamentos jesuíticos. Afirma a autora que: “Apesar da longa permanência em
Sergipe, os jesuítas nunca haviam enveredado pelo ensino das Humanidades, embora
tentativas houvessem sido feitas pelos habitantes da terra desde 1684 [...]” (NUNES, 1984, p.
22).
Mas onde e com quem alguns destes indivíduos, aqui analisados aprenderam a ler e
escrever5? Com os religiosos missionários? Professores particulares? Muitos deles nascidos
no século XVII, como o caso de Duarte Moniz Barretto 6, cuja naturalidade e filiação assim
declara: “[...] sou natural desta fregeusia de Itabahyanna filho legitimo de Antonio de Oliveira
de Carvalho e de Donna Maria de Barros já defuntos moradores que forão nesta mesma
freguesia da Itabahianna [...]”. A resposta talvez esteja na afirmação que Nunes (1996) faz
sobre a educação em Sergipe no período colonial: “Suprindo a falta da atuação do poder
público, funcionavam as aulas particulares, em sua maioria no interior das casas-grandes dos

166); Estacio Muniz Barreto, nascido em 1792 (SILVA, 2000, p. 349); e Manoel Fernandes da Silveira,
nascido em 1754 (BITENCOURT, 1913, p. 128).
2
Lopo Gomes de Abreu Lima, matriculado em 1732, Francisco Gomes de Abreu Lima, matriculado em 1737,
bacharel em Cânones, Pedro Tomás da Rocha, matriculado em 1751, Antônio Dinis Ribeiro de Siqueira e
Melo, matriculado em 1793, José Nunes Barbosa Madureira Cabral, formado em 1822 ( NUNES, p. 266).
3
Encontrei diversos documentos no Arquivo do Conselho Ultramarino, dos camaristas coloniais sergipanos e
demais autoridades seiscentistas tratando sobre os variados assuntos administrativos da Capitania de Sergipe
Del Rey, desde o século XVII.
4
A Capitania de Sergipe foi criada em 1º de janeiro de 1590 por Cristóvão de Barros. Em 1696 teve sua
autonomia judiciária com a criação da Ouvidoria de Sergipe.
5
Até o momento, não localizei as relações das aulas régias do século XVIII da Capitania de Sergipe Del Rey,
contendo os nomes dos professores e alunos. Identificá-los no século XVII , parece-me uma missão
impossível.
6
APES - Coleção Sebrão Sobrinho - Caixa 32.
23

engenhos e fazendas, responsáveis pela alfabetização dos filhos dos senhores de terra e
agregados à sociedade patriarcal”. Concluindo Nunes que o Alvará de 28 de junho de 1759
que expulsou os jesuítas de Portugal e seus domínios e tirou o monopólio do ensino não
trouxe modificações na vida educacional de Sergipe. (NUNES, 1996, p. 265-266).
Apesar de São Cristóvão ser o centro das decisões político administrativas da
Capitania de Sergipe, no âmbito econômico não era tão próspera, sendo mais uma cidade
administrativa. Entretanto, burocratas e religiosos formavam a elite instruída de Sergipe, uma
vez que para o desempenho destas funções era essencial saber ler e escrever e até mesmo ser
letrado7, como no caso dos ouvidores8.
Este mesmo entendimento acerca da instrução no Brasil tem Diana Gonçalves Vidal e
Luciano Mendes de Faria Filho (2005) ao analisarem as casas-escola dos séculos XVIII e
XIX. Concluem que “O período colonial legou-nos um número muito reduzido de escolas
régias ou de cadeiras públicas de primeiras letras, constituídas, sobretudo, a partir da segunda
metade do século XVIII” (VIDAL e FARIA FILHO, 2005, p. 45) e alertam para o fato de não
serem apenas os alunos, frequentadores de escola, que tinham acesso às primeiras letras:

[...] ao contrário, existem indícios de que a rede de escolarização doméstica,


ou seja, do ensino e da aprendizagem da leitura, da escrita e do cálculo,
principalmente da primeira, atendia a um número de pessoas bem superior
ao da rede pública estatal. Elas eram chamadas de escolas particulares ou
domésticas. Existiam também os colégios masculinos e femininos e a
preceptoria (VIDAL; FARIA FILHO, 2005, p. 45).

Recentes estudos a respeito da educação no Brasil têm lançado outros olhares acerca
de algumas afirmativas cristalizadas pela historiografia tradicional, pois “[...] muitos
historiadores da educação tendem (tendiam) a narrar a História que pesquisa(vam) de um
modo linear, progressivo, apagando as possíveis descontinuidades, retrocessos, ambigüidades
e contradições que caracterizam a História” (LOPES e GALVÃO, 2001, p. 38). Nesta
perspectiva, constatar avanços e retrocessos no método educacional do Brasil e Sergipe em
vários momentos não depõe contra essa memória, apenas demonstra que o processo
civilizatório da humanidade é também feito de percalços.

7
Letrado no século XVIII é o termo utilizado para os indivíduos com formação superior. Ver CAVALCANTE,
Berenice. Os ‘letrados’ da sociedade colonial: as academias e a cultura do Iluminismo no final do século
XVIII. ACERVO, Rio de Janeiro, v. 8, n° 1-2, p. 53-66, jan/dez 1995.
8
Com a criação da Comarca de Sergipe em 1696 ocuparam o cargo de Ouvidor 21 doutores em Direito
(letrados) de 1696 a 1812. (NUNES, 1996, p. 299-300).
24

2 – A PESQUISA

2.1 – O PERCURSO DA PESQUISA

Ao iniciar esta pesquisa estava tudo cronometrado e posto no cronograma que


apresentei no projeto de doutorado. Tinha como fonte principal os testamentos, os quais,
digitalizados no Arquivo Geral do Judiciário, permitir-me-iam trabalhar em casa, facilitando o
processo de transcrição. Depois era só colocar os dados em campos específicos de informação
e escrever a tese. Doce engano. Descobri, juntamente com uma colega de doutorado à época,
Vera Maria dos Santos, que havia dezessete inventários setecentistas no Arquivo Público
Estadual de Sergipe, na Coleção Sebrão Sobrinho. Em conjunto, fotografamos este acervo e o
incluímos em nossas pesquisas, mas devido estarem muito danificados e à falta de tempo para
trabalhar as imagens, ler esses escritos foi bastante difícil, bem diferente dos documentos
digitalizados pelo Arquivo Geral do Judiciário 9, uma vez que todas as imagens receberam
tratamento digital, além de contar com um catálogo que continha os dados principais dos
documentos, como data, comarca, partes identificadas, relação dos bens.
As transcrições previstas para serem concluídas em um ano, adentraram o segundo e
quando tudo parecia contornado, percebi que não havia transcrito os testamentos em sua
íntegra, faltavam os termos de aprovação e de abertura que davam novos dados, supriam
lacunas, confirmavam dúvidas. Sanados estes problemas, transcrição concluída, dados
tabulados e gráficos feitos, uma pesquisadora10 encontrou alguns testamentos setecentistas na
documentação do século XIX. Inventários do início dos oitocentos que tinham anexados
testamentos feitos nos setecentos, prestações de contas de testamenteiros com atraso de 20
anos, livros de registros de testamentos oitocentistas com testamentos setecentistas e, assim,
tive que fazer um novo levantamento nos inventários, prestações de contas de testamenteiros e
livros de testamentos do século XIX indo até a década de 1830. Foram encontrados 17, alguns
com inventários. Os novos testamentos11 foram transcritos e inseridos no banco de dados,
anulando assim toda a tabulação antes feita. As assinaturas coletadas foram trabalhadas no

9
A digitalização dos inventários setecentistas que estão no Arquivo Geral do Judiciário, faz parte do Projeto de
Gestão Documental do Poder Judiciário de Sergipe, o qual tem como subprojeto, A memória judiciária
colonial de Sergipe. Esta documentação vem sendo tratada no laboratório do Arquivo Judiciário, digitalizada e
indexada objetivando torná-la acessível aos pesquisadores sem, contudo, danificá-la devido ao seu estado de
fragilidade física. As séries documentais, inventários, testamentos, livros de testamentos e livros de notas já
foram tratados, digitalizados e indexados, estando disponíveis em DVDs aos pesquisadores.
10
Joceneide da Cunha dos Santos.
11
Os 95 testamentos transcritos totalizaram 229 páginas.
25

fotoshop para, assim, tirar a interferência de outros traços e melhorar a visualização das
mesmas.
Com os novos dados inseridos e analisados fui escrever o capítulo que caracterizava
esta população, a fim de facilitar para o não conhecedor da História de Sergipe, entender a
alfabetização desta sociedade. Surge novo problema: como proceder para não repetir o que os
outros já haviam escrito? Fiz e refiz gráficos, tabelas, quadros, li e reli os testamentos quando
descobri algo a mais que apenas dados, o cotidiano familiar: religiosidade, casamento,
concubinato, legitimação, filhos naturais, expostos, dotes, bens, cargos, disputas familiares,
vestígios da alfabetização via assinaturas, declarações, procurações, petições, tudo entrelaçado
com a legislação civil e religiosa sob o manto da cultura escrita e, assim, comecei a escrever o
capítulo sobre esta elite abordando as facetas do cotidiano destes indivíduos.
Mas só os testamentos não me dariam uma visão mais ampliada dessa população. Não
inserir os inventários cujos inventariados faleceram sem testamento, por uma opção individual
ou por prolatarem e morrerem antes de fazê-los, seria tornar essa elite não representativa de
seu tempo e espaço. Neles há informações sobre educação, postas nas assinaturas dos
inventariantes, parte representante dessa elite, disputas familiares, nos recibos, rol de dotes,
bilhetes, cartas, tutelas. E por isso os 65 inventários de ab intestados12 foram incluídos,
perfazendo assim 88 inventários13.
Assim, completei um conjunto de 160 documentos que retratam a elite setecentista da
Capitania de Sergipe Del Rey, quanto ao cotidiano familiar de seus membros alfabetizados ou
analfabetos inseridos no mundo da cultura escrita.

2.2 – METODOLOGIA

A metodologia utilizada referente às fontes judiciais foi para os testamentos a


transcrição na íntegra de todos encontrados do século XVIII, eliminando os que não
continham dados suficientes a serem analisados, que resultou na seleção de 95 testamentos
que compõem esta pesquisa; e para os inventários com ou sem testamentos a indexação
página a página (assinaturas, bens, sentenças, pareceres, petições, declarações, procurações,
partilha, monte mor, quinhões, dote, tutela, entre outros) de forma a permitir uma rápida
localização dos dados quando necessário.

12
Ab intestados eram denominadas as pessoas que morriam sem testamento, uma vez que nem todos faziam
testamento, como as crianças, os que morriam subitamente e os escravos. Nesta pesquisa, nenhum testamento
de escravos nem de pessoas sem renda no século XVIII foi localizado.
13
No total de 5.910 páginas.
26

Para trabalhar com um grande volume, foram criados dois bancos de dados: um para
os testamentos e autos com testamentos (inventário, apelação, justificação, prestação de
contas de testamenteiro) e outro para os inventários sem testamento. A opção em não juntar os
dois bancos se deu devido às especificidades de informações que ambos fornecem, ficando
mais fácil para escrever com eles separados.
Os dados da documentação judicial (inventários, testamentos, autos judiciais) foram
cruzados, quando se fez necessário, com a do Conselho Ultramarino (requerimentos,
consultas, cartas, representações, despachos, avisos, certidões, provisões e atestados) tendo
como suporte de interpretação das informações documentais a bibliografia pertinente ao
assunto.

2.3 – HIPÓTESE

Considerando as leituras realizadas e o objetivo da pesquisa – analisar a elite do século


XVIII, domiciliada em Sergipe, independente de ser ou não sergipana e de possuir formação
acadêmica ou não, na perspectiva de verificar o nível de alfabetismo e letramento daquele
grupo social – emergiu a seguinte hipótese: apesar de Sergipe ser no século XVIII uma
capitania subalterna administrativamente à Bahia 14, de não ser de ponta da economia colonial,
nem urbana nem mineradora, cuja maioria da população morava na zona rural, havia uma
elite não só econômica, política e social, mas também instruída 15. Tal elite era composta não
só por agentes judiciários (juízes, escrivães, tabeliães, avaliadores, partidores, oficiais de
justiça, dentre outros), agentes administrativos (ouvidores, capitães-mores, sargentos-mores,
camareiros etc.), profissionais liberais (advogados, médicos), religiosos, militares, como
também negociantes, e os despossuídos desta instrução elementar (ler, escrever e contar)
recorriam a eles, aos profissionais da escrita, aos escreventes, parentes e amigos para terem e
fazer valer seus direitos legais, não alterando em muito o seu cotidiano social, jurídico e
religioso pelo fato de não serem instruídos.
Neste estudo irei trabalhar com as seguintes categorias de análise: cultura escrita e
elite. A primeira categoria, cultura escrita, apoia-se no fato de que a percepção do nível de
alfabetismo e letramento de um determinado grupo social, em uma específica época, não
passa somente pela instrução escolar. Podemos captar este universo por meio das habilidades

14
Somente em 08 de julho de 1820, por meio de Carta Régia, D. João VI outorgou à Capitania de Sergipe a sua
autonomia em relação à Capitania da Bahia.
15
Denomino de “instruídas” as pessoas que sabiam ler, escrever e contar no século XVIII, tivessem elas
instrução superior ou não.
27

de ler, escrever e contar, necessárias ao exercício de atividades administrativas e judiciárias,


funções religiosas e escrituração contábil dos negociantes.
Mas como mensurar essas habilidades se os registros deixados fornecem apenas
vestígios do escrever através das assinaturas, declarações e raros registros das práticas do ler?
Vestígios esses merecedores de uma cuidadosa investigação, através de escalas de marcas
autográficas (assinaturas), uma vez que, ao analisar as potencialidades das assinaturas 16,
Chartier diz que uma das dimensões da história da educação reside no

[...] entrecruzamento entre a história do livro e a história da educação do


ponto de vista da história da alfabetização, da transmissão da capacidade de
ler e escrever. O problema para os historiadores é que não é fácil medir o
resultado da transmissão dessas capacidades. A única fonte global que
permite estudos quantitativos de longa duração [sic] é a que oferecem as
assinaturas, principalmente dos arquivos de cartórios ou os registros
paroquiais. (CHARTIER, 2001, p. 74).

O referido questionamento quanto às potencialidades das assinaturas é também


realizado por Magalhães:

Qual o indicador básico sobre o desempenho de tais capacidades? Como


medir o nível de alfabetização? Se os processos de alfabetização variam de
acordo com as circunstâncias históricas, como medir a capacitação alfabética
de determinado grupo social? Como comparar os processos de alfabetização
de grupos sociais diferentes? Qual o nível de capacitação alfabética e quais
as destrezas mentais adequadas a um determinado contexto histórico, ou
mais especificamente adequadas a uma participação consciente e activa em
circunstâncias históricas específicas? A informação sobre práticas de cultura
escrita, nomeadamente sobre as suas funções, pode colher-se numa vasta
panóplia de documentos históricos: testamentos, escrituras, declarações
diversas, assentos de baptismos e de casamento, censos e inventários,
processos diversos. Como aceder ao conhecimento das práticas e níveis de
capacitação pessoal? (MAGALHÃES, 2001, p. 73).

Assim, dentro desta categoria macro, ou seja, cultura escrita, está o seu ponto central
de existir – a alfabetização – e com ela todos os questionamentos acerca dos níveis
apreendidos pelos indivíduos alfabetizados, como também a inserção dos analfabetos neste
universo, através dos mediadores da cultura escrita, os profissionais da escrita, os escreventes
e parentes instruídos. A cultura escrita é entendida:

16
Para Justino Magalhães, “A assinatura é a marca mais universal de alfabetismo, sobretudo para o Antigo
Regime”. (MAGALHÃES, 2001, p. 116).
28

[...] por toda a materialidade construída pelos códigos linguísticos que


permitem representar simbolicamente a realidade de forma inteligível e
transmissível no interior das comunidades humanas (representação), por
outro lado e, por outro, as práticas e capacidades de apropriação, autonomia,
criatividade e sentido crítico, a leitura e a escrita (MAGALHÃES, 2001, p.
43-44).

Acerca da segunda categoria, elite, o conceito aqui estabelecido é o de Barata e Bueno


(1999) que a concebe como “[...] um pequeno grupo que, num conjunto mais vasto –
religioso, cultural, político, militar, econômico, social ou outro – é tido como superior pelas
suas funções de mando, de direção, de orientação ou de simples representação” (BARATA;
BUENO, 1999) e o de Peter Burke (BURKE, 1991) que leva em conta para pertencimento de
uma elite status, poder e riqueza. O termo elite adotado é pertinente, uma vez que o grupo de
indivíduos analisado nesta pesquisa é constituído por aqueles que tinham bens e faziam
testamento17 dispondo de sua terça18 como lhes convinha e os “ab intestados” com bens que
após a morte a justiça processava o inventário para, legalmente, distribuir os bens entre os
herdeiros.
Partindo da concepção de Mills (1975)19 sobre elite – de que existem várias elites que
se ligam intrincadamente, formando um grupo denominado por ele de elite do poder, não
sendo, portanto, nenhuma elite um bloco uniforme – neste trabalho a elite estudada não é
somente a instruída, mas também a não instruída que, detentora do poder econômico, de
representação social ou religiosa, apesar não ter instrução, interage com a instruída,
desenvolvendo estratégias de representação quanto às habilidades de ler, escrever e contar,
quando faziam-se necessário alguma ação jurídica ou comercial, e nos demais aspectos da
vida em comunidade, sem que fosse preciso deixar o poder de mando.
Com base neste aporte teórico e considerando as categorias de análise selecionadas,
avaliarei o nível de alfabetismo e letramento a partir das fontes trabalhadas, numa perspectiva
histórica.
Os métodos utilizados são o prosopográfico e o paradigma indiciário de Carlo
Ginzburg (1989) que possibilitam encontrar nos documentos pistas, indícios dos níveis de
alfabetismo e letramento dessa elite nas entrelinhas da escrita jurídica.
O método prosopográfico busca revelar as similitudes permanentes ou transitórias de
um grupo social, historicamente. Para isso:

17
Na análise de mais de cem testamentos, não encontrei um que apenas tratasse da parte religiosa.
18
A terça parte da meiação do casal, que o cônjuge vivo pode dispor a seu querer.
19
MILLS, 1975. p. 25.
29

[...] define uma população a partir de um ou vários critérios e estabelecer, a


partir dela, um questionário biográfico cujos diferentes critérios e variáveis
servirão à descrição de sua dinâmica social, privada, pública, ou mesmo
cultural, ideológica ou política, segundo a população e o questionário em
análise. [...] Uma vez que reunida a documentação, e esta é a parte mais
longa do trabalho, o exame dos dados pode recorrer a técnicas múltiplas,
quantitativas ou qualitativas, contagem manuais ou informatizadas,
questionários estatísticos ou análises fatoriais, segundo a riqueza ou a
sofisticação do questionário e das fontes (CHARLE, 2006, p. 41).

O método indiciário de Carlo Ginzburg induz a olhar os documentos de forma


microscópica, mas não fantasiosa, recuperando dados embutidos na linguagem de uma época
que traduz a maneira de ser e viver de uma geração. Portanto, utilizarei esse método para
analisar o grupo de 160 moradores que constitui a elite setecentista de Sergipe.
Seguindo o princípio explicitado acima por Christophe Charle, no método
prosopográfico, a população definida para este estudo é a moradora de Sergipe Del Rey no
século XVIII. O questionário biográfico necessário para a análise é um banco de dados
constituído de vários campos20 que permite a percepção individual e coletiva do grupo
estudado e a análise dessa elite do poder,21 com referência ao nível de alfabetismo e
letramento, e às estratégias utilizadas pelos seus membros analfabetos para terem e fazer valer
seus direitos legais dentro do mundo da cultura escrita.
Utilizando o método prosopográfico, os documentos foram desconstruídos e
fragmentados em vários campos. Os dados transformados em estatísticas, gráficos, quadros,
tabelas , permitiram perceber as características do grupo.
Com o método indiciário, os dados foram visualizados nas entrelinhas da escrita
jurídica e neste desconstruir e voltar ao texto (testamento/inventário), o nível de alfabetismo e
letramento será conhecido e entendido dentro do tempo cronológico, geográfico e histórico
desta sociedade.

20
Os campos do banco de dados são os seguintes: ano, nome do testador/inventariado, filiação do
testador/inventariado, estado civil do testador/inventariado, ocupação do testador/inventariado, cargo do
testador/inventariado, nome da propriedade do testador/inventariado, local e data de feitura do testamento,
local e data do falecimento, local e data da aprovação do testamento, local e data de abertura do testamento,
cônjuges, filhos legítimos, filhos naturais, dote, parentes do testador/inventariado, compadres do
testador/inventariado, bens arrolados no testamento e no inventário, escravos declarados no testamento e no
inventário, dívidas ativas declaradas no testamento e no inventário, dívidas passivas declaradas no testamento
e no inventário, estado de saúde do testador, irmandades, ordens terceiras do testador, local de sepultamento
do testador, vontades religiosas do testador, nível de instrução do testador/inventariado, escrevente do
testador, a rogo do testador, sinal costumado do testador, testemunhas no testamento, tipo de testamento,
nacionalidade do testador, naturalidade do testador, procedência do testador/inventariado, cargo e parentesco
do testamenteiro, nome do inventariante, cargo e parentesco do inventariante, monte mor, comarca, data,
instituição, observações e referência arquivística.
21
Formada pelos detentores de cargos e/ou bens.
30

2.4 – AS FONTES: TESTAMENTOS E INVENTÁRIOS

As fontes quando olhadas dentro do seu tempo-espaço vão, aos poucos, descortinando
o véu do esquecimento e expondo cenários e atores, cujas vozes, gravadas nos registros
documentais, dizem um pouco mais do real de suas vidas, do que quando são narradas por
outros que, às vezes, apenas repetem o que ouviram dizer. E foram tantas as cenas, diálogos,
que por alguns momentos me perdi neste borbulhar de vidas, pois, ao serem indagadas, nem
sempre diziam o que eu queria ouvir, nem sempre confirmavam o que os outros historiadores
afirmavam.

2.4.1 – Os testamentos

A opção pelos testamentos como fonte principal deve-se a dois fatores: Primeiro, este
estudo analisa as habilidades de ler e escrever de um grupo específico, a elite, e só deixava
testamento quem tinha bens, fossem eles móveis, imóveis, semoventes (animais e escravos),
dinheiro, joias etc., além do fato de que nos fornecem dados individuais (naturalidade,
filiação, estado civil), como também relações parentais, de compadrio e de amizade. A fortuna
registrada nos testamentos representa apenas uma terça parte da metade dos bens do testador,
que poderia dispor livremente quando era casado e com filhos. Era o sistema de meação, do
qual Almeida (2002) nos dá uma visão parcial dessas fortunas:

A divisão neste sistema era feita em duas partes iguais, uma dividida
igualitariamente entre os herdeiros legítimos, onde também eram retiradas as
despesas do funeral. Mas na existência de um testamento, a partilha era feita
da seguinte maneira: somada a totalidade dos bens do falecido, e [sic]
suprimido as despesas do funeral e dívidas, do restante metade iria para o
cônjuge e a outra metade a terça parte iria para o legatário; e as outras terças
partes, dividiam-se entre os herdeiros do defunto. (ALMEIDA, 2002, p. 9).

O segundo fator é que nos testamentos podemos captar os indícios sobre os níveis de
alfabetismo e letramento, uma vez que o testador sempre informava se sabia ler e escrever,
além de revelar outros dados importantes sobre a educação, como quem eram os agentes
31

intermediários da cultura escrita, parentes e amigos ou os escreventes 22, como fez o português
natural da Freguesia de Escariz, Termo da Vila de Cabeçais, no Bispado do Porto, Manoel da
Rocha Rios, morador em São Cristóvão:

[...] em casa da morada da Manoel da Rocha Rios onde eu Tabeliam por elle
fui chamado e sendo ahi em prezença das testemunhas adiante nomeadas e
assignadas de suas mãos as de mim Tabeliam me foi dado este papel
dobrado dizendo me era ser o seu solenne testamento de ultima e derradeira
vontade e que a seu rogo lhe escreveu Alberto Joam de Jesus Moura elle
testador ditando e o ditto escrevendo e que depois de escrito lhe lera de
verbo adverbum e o achara muito a seu contento na forma em que o havia
ditado o qual assignaram [ilegível] elle o testador mais tambem o dito
escrevente, [...]. (grifo meu 23).

O testador também informava se possuía ou vendia livros, se tinha livro de razão, rol
ou contas24, quando comerciante. Emitia recibos ou bilhetes que funcionavam, por vezes,
como letras de câmbio encontradas no inventário; manifestava preocupação com a educação
dos filhos ou dos netos deixando recursos financeiros e as assinaturas próprias ou a rogo de
alguém com instrução25. Tudo isso são vestígios materiais capazes de fornecer um esboço do
nível de alfabetismo e letramento da sociedade da época.
Assim como foi exposto, os testamentos “[...] apesar de serem relatos individuais,
expressam modos de viver coletivos e informam sobre o comportamento se não de toda a
sociedade, pelo menos de grupos sociais.” (BIVAR, 2000, p. 4). Através desses, podemos
perceber o nível de alfabetismo e letramento da elite setecentista moradora em Sergipe e a
quem outorgava como seus representantes os que não o possuíam.
Os testamentos utilizados neste estudo foram encontrados em livros de registro de
testamento (72, todos traslados) e nos inventários (23, dos quais nove são originais e 14
traslados).

22
Escreventes eram pessoas que desempenhavam as funções inerentes à escrita. O escrevente ou copista de
repartição pública era chamado de amanuense.
23
AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - p. 01-07.
24
Eram livros onde se laçavam as transações comerciais, o que atesta o conhecimento mesmo que elementar da
escrita, leitura e contabilidade. Ver testamento de Jozé Antonio Borge de Figueredo, de 23 de abril de 1786.
p. 02. AGJ-SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos Cx. 62 – Lv 07 – p. 01-09 “Declaro que devo ao meu sogro
o Senhor Tenente Coronel Francisco Xavier de Oliveira Sobral o que consta do seu livro de contas e dos
meos asentos”.
25
No Brasil o Censo de 1872 (primeiro a ser realizado), o índice de pessoas alfabetizadas era de 18% entre
pessoas de cinco anos a mais. (GALVÃO et al., 2007, p. 11). Em Portugal o Censo de 1878, revelava que
cerca de 80% dos residentes em Portugal Continental e Insular, não sabiam ler, nem escrever
(MAGALHÃES, 2001, p. 80). No século XVIII, tanto em Portugal como no Brasil, certamente, o índice de
analfabetos era maior.
32

A origem dos testamentos em Portugal remonta ao século XIV. Regidos pelas


Ordenações Afonsinas regulavam a transmissão de bens e disciplinavam sua produção. No
Brasil os testamentos herdaram as normas de Portugal reformuladas pelas Ordenações
Filipinas26, escritas no período colonial. Havia vários tipos de testamentos e todos eles
disciplinados pelo Código Filipino no século XVIII. Dividiam-se em Ordinários e
Extraordinários. Dos Ordinários faziam parte o testamento público ou aberto, lavrado por
tabelião, em livro próprio, na presença de cinco testemunhas; o homógrafo ou particular 27 que
podia ser escrito pelo testador ou a seu rogo, também diante de cinco testemunhas que
deveriam tomar conhecimento de seu conteúdo e assiná-lo; e o cerrado, quando era escrito
pelo testador ou alguém de sua confiança que o lacrava e o entregava a um tabelião na frente
de cinco testemunhas. Os Extraordinários eram compostos pelos nuncupativos, feitos
oralmente, estando o testador à beira da morte, e que seria invalidado caso ele se salvasse;
havia também o militar; o marítimo; o de mão comum ou conjuntivo 28, realizado por duas ou
mais pessoas num só instrumento; e as cartas de consciência, disposições de última vontade,
confiadas em segredo aos testamenteiros.
O testamento era composto por quatro a cinco partes: preâmbulo ou parte inicial do
testamento que começava com uma invocação a Jesus Cristo ou à Santíssima Trindade, data,
local onde era feito o testamento, nome do testador, naturalidade, estado civil, filiação, filhos,
motivo pelo qual estava fazendo o seu testamento e o estado de saúde do testador; legados
espirituais, encomendação de sua alma às divindades católicas (santos, anjos, Nossa Senhora,
Jesus Cristo e a Deus), o local e a forma do funeral e do enterro, o número de missas por
intenção da própria alma e das outras pessoas; patrimônio, descrição sumária dos bens móveis
e imóveis; alforrias, vendas de escravos, disposição e legados materiais, dívidas ativas e
passivas, doações a instituições religiosas, pobres e doentes; disposições gerais e autenticação,
nas quais havia a assinatura ou sinal do testador, assinaturas do escrivão e do oficial
responsável pelo registro, aprovação e abertura do testamento e o codicilo 29 quando o testador
quisesse mudar alguma determinação, bastando para tal ser validado por quatro testemunhas.
Partindo do pressuposto de que o testamento, apesar de ser um documento jurídico, é
antes de tudo um texto, portanto uma construção social e como produto de uma sociedade
reflete-a em seus pormenores, mesmo quando obedece a certa rigidez de construção

26
No século XVIII, o Império Ultramarino Português era regido pela legislação compilada nas Ordenações
Filipinas (corpo de leis editado em 1603 por Felipe II, de Espanha).
27
Homógrafo ou particular é o testamento escrito, datado e assinado pela mão do testador.
28
Testamento que sendo ou não simultâneo ou conjunto, contém nexo de interdependência com outro.
29
Codicilo é uma alteração feita pelo testador no seu testamento.
33

(preâmbulo, legados espirituais, patrimônio, disposições gerais e autenticação e codicilo) que


o torna igual em formato, mas diferente em conteúdo pois cada testamento representa um
indivíduo, que por sua natureza intrínseca é singular.

2.4.2 – Os inventários

No decorrer da pesquisa foram incluídos 65 inventários sem testamento aos 23


inventários com testamento, totalizando 88 inventários, o que possibilitou ter uma visão
ampla dessa elite quanto a seus membros, suas capacidades alfabéticas e o seu cotidiano,
formando, desta forma, uma elite mais representativa.
Os inventários, verdadeiros “curingas” para os pesquisadores, viabilizam adentrar na
vida familiar em todos os seus aspectos: econômico, religioso, social, educacional. Suprimem
lacunas da vida privada devido à falta de documentos de foro íntimo como diários,
borradores, cartas. Permitem a reconstituição da genealogia século a século. Como são
documentos de guarda permanente por conterem direitos patrimoniais, são preservados no
Brasil e, em Sergipe, estão sob a custódia do Arquivo Judiciário desde os do século XVIII,
uma das fontes desta pesquisa, até os do século atual, formando séries documentais seculares
contínuas.
Neste estudo são investigados 95 testadores e 65 “ab intestados”, totalizando 160
documentos. O enfoque desse estudo é a alfabetização no que se refere ao nível de
alfabetismo e letramento dos moradores de Sergipe, tendo como recorte cronológico o século
XVIII, data limite dos testamentos analisados (1725 a 1800), e recorte espacial a capital da
Capitania, São Cristóvão, além das Vilas Real de Santa Luzia, Nossa Senhora da Piedade do
Lagarto, Santo Amaro das Brotas, Vila Nova Real Del Rey do São Francisco, Nossa Senhora
do Socorro e Santo Antonio e Almas de Itabaiana.
Esta pesquisa não abrange todos os documentos produzidos à época, apenas os de um
grupo, a elite, no entanto uma seleção significativa porque abrange as localidades social e
economicamente importantes da Capitania de Sergipe no século XVIII.

2.5 – ESTRUTURA DA TESE

O presente trabalho é composto por três seções. A primeira, O cotidiano familiar da


elite setecentista de Sergipe Del Rey, tem como objetivo mostrar o cotidiano familiar de
34

seus membros alfabetizados ou analfabetos inseridos no mundo da cultura escrita, uma vez
que a base daquela sociedade que vinha, há pouco mais de um século, se formando e tecendo
suas alianças, que permitiriam perpetuar-se de geração após geração, era a família e nos dados
sobre o seu cotidiano estava algo a mais do que simples dados. Não eram tão somente
informações sobre o estado civil; nelas estavam inclusos o sistema de casamento colonial e,
com ele, a questão do concubinato. Não havia apenas dados sobre a filiação, nas entrelinhas
existia a questão da legitimação, muito importante para aquela sociedade e com ela os filhos
naturais e, ainda, os expostos. Não continha unicamente desejos de como o testador queria ser
velado, mas o que isso significava para uma pessoa setecentista católica. Que a prole não era
apenas número, significava alianças, implicava em dotes. Que o pertencimento a uma elite
advinha não só dos bens que os mesmos possuíam, mas também de seu status social, do
prestígio de seus cargos (nem sempre altamente remunerados, mas passíveis de alianças) de
poder que aquelas famílias tinham estabelecido ou estavam construindo, e por isso eram
respeitadas.
Na segunda seção, A cultura escrita, apresento a normatização da Língua Portuguesa,
a “Língua do Príncipe”, através dos principais registros deixados por seus teóricos que vão dar
sustentação para o surgimento da cultura escrita portuguesa e os elementos/suportes: o livro, o
texto da lei, a epistolografia, registros notariais (testamentos, inventários, autos judiciais
cíveis e criminais), registros paroquiais (livros de batismo, casamento e óbito) e os registros
privados (bilhetes, receituários, borradores, jornais, folhetins, livros de contas, diários etc.) e
seus artefatos (escrivaninha, tinteiros, sinete, tesoura de aparar cartas), vestígios da sua
materialidade. Esses elementos e artefatos expõem um universo de práticas próprias de seu
tempo, dando uma silhueta ao mundo que hoje não mais existe e expondo traços da
alfabetização destes indivíduos.
Na terceira seção, Vestígios do alfabetismo e letramento no século XVIII em
Sergipe Del Rey, busquei dentro da complexidade que envolve o processo de alfabetização
de uma sociedade, elucidar quem detinha este conhecimento, a relação dos que não o
possuíam, o nível de letramento e a relevância deste saber na sociedade setecentista sergipana.
Assim, no final deste trabalho busco construir uma visão mais concisa do nível de
alfabetismo e letramento da elite setecentista em Sergipe Del Rey e sua real relevância, a fim
de contribuir com a História da Educação Colonial em Sergipe.
35

3 – O COTIDIANO FAMILIAR DA ELITE SETECENTISTA EM SERGIPE DEL


REY

Um historiador está autorizado, em sua prática, a fazer


uma suposição provisória de caráter epistemológico: a
de que a evidência que está utilizando tem uma
existência ‘real’ (determinante), independente de sua
existência nas formas de pensamento, que essa
evidência é testemunha de um processo real, e que
esse processo (ou alguma compreensão aproximada
dele) é o objeto do conhecimento histórico
(THOMPSON, 1981, p. 38).

O presente capítulo visa analisar a constituição da elite da Capitania de Sergipe Del


Rey, com objetivo de conhecer os moradores e suas ações cotidianas, através de um olhar
histórico, ao percorrer a escrita judiciária em busca de detalhes que possam trazer à luz no
século XXI o nível de alfabetismo e letramento.
O universo pesquisado permite visualizar um panorama dessa população, identificando
características peculiares que ora a definem e a tornam singular e, em outras situações,
idênticas em todas as capitanias da colônia brasileira. Os dados apontam para um cotidiano
formado por homens e mulheres detentores de bens que em face dos seus falecimentos
deixaram registrados, em inventários/testamentos, seus legados.
O grande desafio foi como apresentar o perfil desses moradores, uma vez que a
pesquisa tem como base 160 documentos (inventários e testamentos) mais a documentação do
Conselho Ultramarino. Analisar cada morador seria, além de cansativo para o leitor,
improdutivo para a pesquisa. Falar deles através da economia, política, seria repetir dados da
historiografia e não contemplaria os que por ventura não se enquadrassem nestas categorias.
Ao estudar o cotidiano individual, que por sua vez espelha o coletivo, aliei ao método
prosopográfico (o qual permite compor perfis biográficos) o paradigma indiciário de Carlo
Ginzburg (que possibilita buscar nos documentos30 pistas, indícios do modo de viver e morrer

30
Poucos são os documentos não oficiais que descrevem a vida cotidiana daqueles moradores dos séculos XVI a
XIX, como o livro do cronista Gabriel Soares de Souza, de 1587, intitulado Tratado Descritivo do Brasil, o
qual relata detalhes da vida dos tupinambás no território que viria a ser, após 1590, a Capitania de Sergipe; os
livros Roteiro de Todos os Sinais da Costa do Brasil, de autor desconhecido, e O livro que dá Razão do
Estado do Brasil, do Sargento Mor Diogo de Campos Moreno, 1612, coligam informações acerca da vida de
Sergipe; o trabalho do Padre Gonçalo Soares da Fonseca, Dissertações da História Eclesiástica no Brasil,
1724, informa sobre as freguesias existentes em solo sergipano; As Relações e Notícias das Freguesias
compostas pelos relatos dos vigários em 1757, acerca dos territórios das freguesias de Sergipe, fornecem
dados mais específicos sobre população, demografia e o meio ambiente; os relatos do Frei Antonio de Santa
Maria Jaboatão, Novo Orbe Seráfico Brasílico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil
36

desses indivíduos), percebi categorias de análises temáticas (sistema de casamento,


legitimação filial, dote, composição familiar, nacionalidade, religiosidade etc.) que,
gradativamente, deram contorno do ser e agir dessa população. Incorporei os estudos de
Michel de Certeau sobre o cotidiano, os quais analisam as maneiras de fazer e sobreviver das
sociedades através de táticas e estratégias, e assim percebi como parte da sociedade
setecentista de Sergipe agia e reagia, permitindo que o leitor tenha uma visão, mesmo que
ínfera, desse passado.
A análise deste grupo de moradores evidencia uma elite em formação desde o século
XVII (alguns deles nasceram e se firmaram como adultos primeiramente como seiscentistas).
Estes colonos vivenciam um tipo de sociedade colonial predominante em toda a colônia
brasileira, uma vez que estavam subordinados às mesmas leis cíveis (Código Filipino) e
normas religiosas (Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia 31).

3.1 – A COMPOSIÇÃO DA ELITE

Torna-se difícil mensurar a população setecentista existente porque não havia censos
demográficos que não fossem eclesiásticos ou militares no período, fator importante, uma vez
que este trabalho se baseia em indícios.
Para Thais de Azevedo (1955), apesar de somente no século XVII em Portugal terem
ocorrido os primeiros censos de adultos com finalidade militar, desde 1527 os portugueses já
computavam o número exato de famílias (fogos) e de indivíduos (almas) em Lisboa e em mais
35 vilas e cidades. Já os cômputos da população no Brasil colonial eram baseados em
registros paroquiais (nascimentos, casamentos e sepultamentos), sendo raros, antes do século
XIX, os de contagem de indivíduos.
No Brasil, só a partir de 1750 o levantamento da população deixou de ter apenas o fim
religioso (o controle de seus paroquianos pela Igreja Católica), para ter objetivos militares
(convocação de pessoas livres e adultas para a defesa da Colônia). Com as reformas realizadas
pelo Marquês de Pombal começaram a serem produzidos os primeiros dados estatísticos
acerca da Colônia brasileira, quantificando sua população através das listas nominativas de
habitantes, relações nas quais os vigários registravam o número de fiéis que se confessavam e
comungavam pela quaresma, também denominados de róis de confissão ou de desobriga.

(1758-1759), e o mais recente Memória sobre a Capitania de Sergipe, 1808, de Dom Marcos Antonio de
Souza, condensa dados sobre o território sergipano e seus habitantes.
31
Conjunto de cinco livros, publicados em 1707, pela Igreja Católica, que normatizava a prática religiosa.
37

Com o Concílio de Trento32 (1545- 1563) a Igreja passou a adotar medidas de controle
da população e uma delas foi instituir e padronizar os registros dos principais sacramentos. No
século XVIII, com a instituição do Rituale Romanum33, definiu-se como fazer esses registros
e os padres foram ensinados a realizar contagens periódicas dos paroquianos, gerando assim
os róis de confessados onde relacionavam as pessoas aptas a se confessar 34. Com a expansão
do Cristianismo a Igreja estendeu esse controle para as populações do Novo Mundo
(NADALIN, 2004).
Na Bahia, desde o século XVIII, existiam os róis de desobriga 35, como também há
registro, desde 1703, da Santa Casa de Misericórdia, dos enterros que realizavam. Em face do
sínodo arquidiocesano de 1707 36 os párocos foram obrigados a irem, pessoalmente e por ano,
realizar os róis por ruas, casas e fazendas da sua freguesia, a fim de registrar nomes,
sobrenomes, local de residência, quais os que ainda não tinham atingindo a puberdade (14
anos para os homens e 12 para as mulheres) e, também, os maiores que eram obrigados pelas
Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia 37 a se confessar e comungar na quaresma,
prática já adotada em Portugal que obedecia à legislação canônica desde 1564.
Thais de Azevedo (1955) alerta para o fato de termos em vista que nesses Censos
demográficos eclesiásticos eram excluídos aqueles que não tinham idade para confissão, os
inocentes (crianças), os párvulos (idiotas) e pagãos (gentios) o que não representam a
população como um todo. Somente no último quartel do século XVIII, surgem estatísticas

32
Concílio convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade da fé e a disciplina eclesiástica, no contexto
da Reforma da Igreja Católica. Realizado de 1545 a 1563.
33
Ritual Romano em latim é um livro litúrgico que contém todos os rituais normalmente administrados por um
padre, incluindo o único ritual formal para exorcismo sancionado pela Igreja Católica Romana até finais do
século XX.
34
As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia determinavam que, aos sete anos, todo cristão deveria se
confessar pelo menos uma vez a cada ano com seu pároco (2010, p. 188, c. 139).
35
Relações nas quais os vigários registravam o número de fiéis que comungavam e confessavam pela quaresma,
também denominados de róis de confissão.
36
As resoluções do Concílio de Trento (1545-1563), aceitas em Portugal desde 1564, determinavam ser
competência das autoridades episcopais adaptarem o projeto reformador às especificidades locais através dos
sínodos diocesanos nos bispados ou arcebispados com o objetivo de elaborar as constituições sinodais. No
Brasil colonial ocorreram duas tentativas de promulgar constituições sinodais. A primeira através do bispo D.
Pedro Leitão que realizou um sínodo com seu clero em Salvador e a segunda com D. Constantino Barradas
que organizou as “Constituições” do bispado da Bahia, mas não as publicou, por isso continuaram em vigor
as Constituições de Lisboa. Somente em 1707 com o sínodo episcopal no Brasil, realizado por D. Sebastião
Monteiro da Vide, as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia foram efetivadas e publicadas numa
carta pastoral em 21 de julho de 1707 e impressas em Lisboa, em 1719. Apesar de abranger apenas a
arquidiocese baiana, suas normas estenderam-se para as demais dioceses sufragâneas da Bahia, tidas como
principal legislação eclesiástica no Brasil Colonial. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Constitui%C3%A7%C3%B5es_sinodais>. Acesso em: 10 nov. 2011.
37
Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. C. 144, [p. 67]. Ed. 2010, p. 190.
38

completas e detalhadas classificando a população, por grupos de idades, cor e estado civil,
número de nascimentos e óbitos38.
Em 1775, o medidor das obras da cidade de Salvador, Manoel de Oliveira Mendes,
com base nos registros paroquiais, elaborou a “Relação topográfica das freguesias
suburbanas”, figurando nela a Capitania de Sergipe39 composta de sete freguesias com 13.994
almas. Cinco anos depois, pelo censo de 1780, a população da Comarca de Sergipe Del Rey
passava para 54.000 almas dispostas em 11 freguesias: Nossa Senhora da Victoria da cidade
de São Cristóvão, Nossa Senhora do Socorro, Santo Amaro das Brotas, Santo Antonio de Vila
Nova, Santo Antonio de Propriá, Nossa Senhora da Piedade da Vila do Lagarto, Santo
Antonio e Almas de Itabaiana, Nossa Senhora do Socorro do Tomar do Geru, Nossa Senhora
dos Campos do Rio Real, Santa Luzia e Divina Pastora – São Gonçalo (AZEVEDO, 1955, p.
343).
Luiz Mott (1986) informa aos pesquisadores da história demográfica sergipana que os
recenseamentos do Império não são dos mais antigos e lista, com base em várias obras, a
população sergipana de 1707 - 1888, aqui reproduzida até o ano de 1802.

Quadro 1 – População sergipana 1707 - 1888


Ano Total
1707 17.169
1775 16.454
1780 54.005
1802 55.668
Fonte: MOTT, Luiz Roberto de Barros. Sergipe Del Rey: população, economia e sociedade. Aracaju, Fudesc,
1986, p. 86.

Porém, os primeiros dados específicos sobre a Capitania de Sergipe 40 surgem em 1757


através dos relatos41 feitos pelos vigários responsáveis pelas freguesias sergipanas, com

38
O Censo de 20 de junho de 1775. Em 21 de maio de 1776 o Ministro da Marinha e Secretário do Estado deram
instruções sobre o recenseamento a ser realizado nas ilhas e capitanias do Brasil (AZEVEDO, 1955).
39
Com a criação da Comarca da Sergipe em 1696, subordinada ao Governo Geral do Estado do Brasil39 e não à
Comarca da Bahia, a cidade de São Cristóvão passa a ser o cabeça da Comarca de Sergipe contando com
todo o aparato existente desde a Ouvidoria (corregedor, tabelião, inquisidor, alcaide, carcereiro etc.), e em
1697 Portugal cria as primeiras vilas em Sergipe: Santo Antonio e Almas de Itabaiana, Nossa Senhora da
Piedade do Lagarto, Santa Luzia do Itanhy e Santo Amaro das Brotas, nomeando em 1700 as pessoas
responsáveis pelo funcionamento burocrático das mesmas, como alcaides, tabeliães, escrivães (NUNES,
1989).
40
A cidade de São Cristóvão, fundada em 1590, por Cristóvão de Barros, próxima à foz do Rio Sergipe,
denominada no século XVIII como cidade de Sergipe e/ou Sergipe d’El Rey, foi capital de Sergipe até 1855.
Com a instalação da Comarca de Sergipe em 1696, por determinações do Governador Geral D. João de
Lancastro, foram criadas as primeiras vilas pelo Ouvidor Diogo Pacheco Pereira: Santo Antonio e Almas de
Itabaiana (freguesia desde 1675); Nossa Senhora da Piedade do Lagarto (freguesia em 1679); Santa
Luzia do Itanhy (freguesia desde 1680), duas léguas acima do sítio Areticuíba, onde estava instalada a Vila
39

informações sobre o povoamento, a demografia, o meio ambiente, relação de igrejas e


capelas, entre outras observações.
É da segunda metade do século XVIII o empreendimento da Coroa portuguesa de
sistematizar e coletar dados sobre a população colonial no Brasil, valendo-se, também, da
ação da Igreja, em sua obra de salvar almas e controlá-las através dos róis de desobriga
efetuados pelo clero letrado, e do Censo realizado pelos militares incumbidos do controle
territorial e do recrutamento, gerando, assim, os dados estatísticos setecentistas do Brasil
colonial que hoje temos e nos permitem a análise demográfica histórica do período. Estas
estatísticas demográficas abrangem as capitanias que incorporavam a Colônia.
Em 1757, por Ordem do Vice Rei Conde dos Arcos, os vigários foram convocados a
fazer um relatório minucioso sobre as suas freguesias 42. É destes relatos que temos os
primeiros dados mais amplos sobre Sergipe colonial, abrangendo as suas sete freguesias que
totalizavam 1.941 famílias e 13.243 pessoas43 assim distribuídas:

Quadro 2 – Freguesias da Capitania de Sergipe Del Rey - 1775


Freguesias da Capitania de Sergipe Del Rey Fogos (famílias) Almas (pessoas)

Nossa Senhora da Victoria da Cidade de São 312 2.247


Cristóvão
Nossa Senhora do Socorro na Cotinguiba 486 3.120
Nossa Senhora Piedade da Vila do Lagarto 317 2.342
Nossa Senhora dos Campos do Rio Real 228 1.722
Santa Luzia da Vila do Rio Real 246 1.786
Santo Amaro da Vila das Brotas 122 1.013
Santo Antonio e Almas da Vila de Itabaiana 230 1.013
Total 1.941 13.243
Fonte: Mappa de todas as Freguesias, que pertencem ao Arcebispado da Bahia44

de Santa Luzia, desenvolveu-se a povoação de Estância em torno da Capela de Nossa Senhora de Guadalupe,
causa que induziu os habitantes reivindicarem a elevação de título de vila que era de Santa Luzia, fato que se
concretizou em 1831, mas desde 1757, por Provisão Régia, foi concedida a povoação autonomia para realizar
atos jurídicos como vereações, audiência, rematações entre outros; Santo Amaro das Brotas (freguesia em
1761) e vila em 1699 devido às disputas políticas. Já Vila Nova do Rio São Francisco era denominada de
vila, mas era uma povoação, que só foi elevada à vila em 1731. (NUNES, 1996, p. 170-215).
41
Documentos do acervo do Arquivo de Marinha e Ultramar de Portugal, cujo Catálogo foi organizado por
Eduardo de Castro e Almeida, e publicado no volume XXXI dos Anais da Biblioteca Nacional, em 1909,
hoje disponibilizado no site http://objdigital.bn.br/acervo_digital/anais/anais.htm.
42
Para Fonseca (2011) as paróquias ou freguesias foram a base da organização eclesiástica colonial, a qual
também auxiliavam à administração civil, especialmente ao fisco no que dizia respeito ao recenseamento e à
cobrança de impostos. Mas também na América portuguesa as designações paróquia e freguesia significavam
a igreja matriz, a povoação, as áreas rurais e até mesmo os sertões residuais (como eram chamados no
período colonial os espaços vazios de ocupação branca).
43
Os vigários só computavam o número de pessoas (almas) que confessavam, ficando as demais fora dessas
relações: os inocentes (crianças), os párvulos (idiotas) e pagãos (gentios).
44
“Mappa de todas as Freguesias, que pertencem ao Arcebispado da Bahia e sujeitos os seus habitantes no
temporal ao governo da mesma Bahia, com a distinçção das comarcas e villas a que pertencem, com o
40

Ao analisar a naturalidade dos 68 testadores sergipanos45, fica evidente ter sido a


maior parte na Freguesia de Nossa Senhora do Socorro do Cotinguiba 46 e na de Santa Luzia,
ambas com percentual de (16%), seguidas pela Freguesia de Nossa Senhora da Victoria da
Cidade de São Cristóvão (15%), Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto (13%),
Freguesia de Santo Amaro (6%), Freguesia de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (4%),
Freguesia de Jesus Maria José e Sam Gonçalo de Pé de Branco (4%), Freguesia de Nossa
Senhora dos Campos do Rio Real e a Freguesia da Barra de Propriá (cada uma com 1%).

Quadro 3 – Naturalidade dos testadores


Freguesia/cidade Nº
Freguesia da Barra da Propihâ (Propriá) 1
Freguesia de Nossa Senhora dos Campos do Rio Real (Tobias Barreto) 1
Freguesia de Santo Antonio e Almas de Itabaiana (Itabaiana) 3
Freguesia de Jesus Maria Jose e Sam Gonçalo de Pé de Branco (Siriri) 3
Documento incompleto/danificado 4
Freguesia de Santo Amaro das Brotas (Santo Amaro das Brotas) 4
Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto (Lagarto) 9
Freguesia de Nossa Senhora da Victoria (São Cristóvão) 10
Freguesia de Nossa Senhora do Socorro do Cotinguiba (Socorro) 11
Freguesia de Santa Luzia (Santa Luzia) 11
Não declara 11
Total 68
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 68 testamentos sergipanos do século XVIII
existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Mas, quando cruzados com os dados relativos à residência, fica exposta a mobilidade
desta população.

numero de fogos e almas, para se saber a gente que se póde tirar de cada uma dellas par o serviço de S.M.,
sem opressão dos povos” de 9 de janeiro de 1775. Annais da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro - Nº
032 – Ano 1910 - p. 289. Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/anais/anais_032_1910.pdf.
Acesso em 10 nov. 2011.
45
A naturalidade de 11 deles não foi declarada, de outros quatro não foi possível recuperar esta informação
devido um registro estar danificado e três incompletos.
46
Dom Marcos Antonio de Souza, em Memórias sobre a Capitania de Sergipe, registra a densidade
populacional dessa freguesia: “Também incluído no termo de Sergipe uma grande parte da populosa
freguesia de Nossa Senhora do Socorro da Cotinguiba” (grifo meu). Em 1775 também este fato é evidenciado
no Mapa de todas as Freguesias que pertencem ao Arcebispado da Bahia. Vide acima no Quadro 2 -
Freguesias da Capitania de Sergipe Del Rey – 1775.
41

Quadro 4 – Residência dos testadores quando fizeram testamento


Cidade/vilas/povoação Nº
Vila Nova Real do Rio de São Francisco/Vila Nova de Santo Antonio do Rio de São
Francisco 3
Não declaram 4
Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 8
Vila de Santo Amaro das Brotas 8
Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto 10
Povoação de Estância (Termo da Vila Real de Santa Luzia) 11
São Cristóvão 11
Vila Real de Santa Luzia 13
Total 68
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 68 testamentos sergipanos do século XVIII
existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Sai do cenário, a exemplo, a Freguesia de Nossa Senhora do Socorro do Cotinguiba,


uma vez que essa não configurava como moradia dos testadores sergipanos setecentistas,
apesar do vigário informar que a Freguesia, em 1757, tinha 4.430 comunhões e 5.950 de
confissões, como também são exclusas as freguesias de Pé do Banco e de Campos do Rio
Real. Estariam eles inseridos em São Cristóvão? Cabe um estudo minucioso que explique
como uma freguesia registra o nascimento de parte desses testadores, mas não os mantém na
sua fase de maior produção.
Quem poderia ter fornecido uma explicação aproximada da realidade da Freguesia de
Nossa Senhora do Socorro do Cotinguiba seria aquele que viveu nesse tempo, Dom Marcos
Antonio de Souza, presbítero47 secular do hábito de São Pedro, que foi vigário do Pé do
Banco (atual Siriri); mas não o fez, relatando o cotidiano populacional de São Cristóvão e das
vilas de Santa Luzia, Tomar, Lagarto, Itabaiana, Santo Amaro das Brotas, Vila Nova e
Propriá, talvez porque Nossa Senhora do Socorro, no século XVIII, fosse apenas uma
povoação.
Afirmar o que causou a emigração da população dessa freguesia e das demais, no
momento, seriam conjecturas. Faz-se necessário um estudo populacional e socioeconômico
aprofundado dessas freguesias do século XVIII para perceber o porquê dessa mobilidade.
Para Thétis Nunes (1996, p. 170), Sergipe colonial era uma sociedade basicamente
rural com seus núcleos urbanos precários. E como prova disso a autora reproduz parte de uma
correspondência enviada a D. Maria I, em 1799, pelo Ouvidor Antônio Pereira de Magalhães
Paços, na qual relata o cotidiano das vilas setecentistas sergipanas:

47
Sacerdote com ordens de missa.
42

As vilas da Comarca de Sergipe são um agregado de casas fechadas: Seus


habitantes que vivem na povoação são pobres, apenas há o Párocho, o
Escrivão e alguns oficiais de Justiça. Estão despovoadas, solitárias, os juízes
ordinários as desamparam, apenas vêm fazer Audiências, as Vereações
raramente se fazem; os Almotacés se retiram e as prisões são arrombadas
publicamente sem oposição, porque a gente que há na ocasião do insulto, se
fecham e não acodem, finalmente em toda Comarca não há casa de prisão
que possa guardar presos. (NUNES, 1996, p. 170-171).

Mas, para Brügger (2007, p. 81): “Não é possível estabelecer-se uma delimitação
rígida entre os universos rural e urbano para a sociedade colonial”. Embora para esta autora
seja evidente que as vilas tinham peculiaridades que as diferenciavam do meio rural como,
por exemplo, diferentes formas de ocupações, as moradias aparentavam ser mais perto uma
das outras e eram sedes do poder político da localidade. Em Sergipe Del Rey isso parece não
ter ocorrido, uma vez que as habitações fora do espaço urbano das vilas eram muito distantes,
como expressa Maria Cardoso de Oliveira, viúva do Coronel Alexandre Gomes
Castelobranco, por estar doente e morar:

[...] diste mais de vinte e tantas Legoas da abitação da supte da Vila,


indica um procurador para agir por ela; de Antonio Jose de Almeida 48, viúvo
de Lucianna Maria, solicita que os avaliadores fossem ao local de moradia
por: [...] o supe mora distante desta villa mais de seis Leguas [...] (grifo
meu49).

Quanto à capital, centro político administrativo, somente a partir da segunda metade


do século XVIII é que prospera: os templos são concluídos, aparecem os primeiros sobrados,
há o aumento da população urbana (em 1757 são de 390 famílias e 1.557 pessoas), passa a ter
11 engenhos na região (NUNES, 1996). Em 1808, D. Marcos Antonio de Souza descreve São
Cristóvão em sua Memória sobre a Capitania de Sergipe:

Dentro da pequena cidade há um magnífico templo de N. S. da Vitória, [...].


Também ali existe um suntuoso convento do Carmo com sua ordem terceira;
outro de S. Francisco que tem anexa a capela dos terceiros Franciscanos;
uma casa de Misericórdias e perto da cidade em um lugar eminente um
devoto santuário de S. Gonçalo: tantos templos indicam um espírito de paz,
porém, contudo, fervem em Sergipe pleitos, intrigas e chicanas forenses.
Dentro da cidade habitam 400 moradores, quando em todos os distritos de
Sergipe se contam 6.000 habitantes. (SOUZA, 2005, p. 24-25).

48
AGJ - MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807. p. 5. Lucianna Maria foi casada duas vezes. No primeiro
casamento teve um filho e no segundo casamento dois filhos. Morreu sem deixar testamento.
49
AGJ - PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. p.5. 1762.
43

Logo que verifiquei o tipo de propriedade onde morava o grupo dos 95 testadores
constatei que 46% deles viviam em sítios, 15% nas vilas, 9% nas povoações, 7% na capital
(São Cristóvão), 6% nos engenhos, 1% em fazendas de gado, 6% não foi possível identificar
devido estarem danificados e/ou incompletos e 9% não declararam. Mas ao analisar o local de
residência e propriedade do grupo dos 65 ab intestados, os dados fornecidos não são precisos
como nos testamentos, quanto ao tipo de propriedade, uma vez que a maioria informa apenas
que mora no termo50 tal, não informando precisamente em que tipo de propriedade. E como
alguns têm porção de terras, mais de um sítio, casa em engenhos, fica difícil, na maioria das
vezes, estabelecer qual a residência oficial.
Quando juntei os dois grupos de análise 51 (testadores e ab intestados) quanto ao termo
onde residiam, ficaram visíveis as áreas de concentração dessa população setecentista aqui
pesquisada, ficando evidente que São Cristóvão detinha maior índice de concentração da
população setecentista, seja ela moradora na área urbana ou rural, como demonstrado no
Gráfico 1, abaixo:

Gráfico 1 – Área de moradia dos setecentistas de Sergipe Del Rey


Vila Nova Real de El Rey do Não foi possível identificar Salvador-Bahia
Rio São Francisco 4% 1%
4%

Vila Nova de Santo Antonio


Real El Rey do Rio São
Francisco
6%
São Cristóvão
22%

Vila de Nossa Senhora da


Piedade do Lagarto
9%

Povoação da Vila da Estância


Vila de Santo Amaro das Termo da Vila Real de Santa
Brotas Luzia
11% 18%

Vila Real de Santa


Luzia
11% Vila de Santo Antonio e
Almas de Itabaiana
14%

Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 160 inventários e testamentos do século XVIII
existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

50
Termo, no século XVIII constituía uma subdivisão da comarca, a qual envolvia várias localidades além das
vilas, povoações e sertões. A primeira comarca sergipana foi criada em 1696, quando Sergipe conseguiu sua
autonomia jurídica e tinha como sede a cidade de São Cristóvão. Em 1698 foram instaladas as primeiras
vilas: Itabaiana, Lagarto, Santa Luzia e Santo Amaro das Brotas; e com elas seus respectivos termos
jurisdicionais.
51
Na análise deste capítulo não estão as residências dos inventariantes, nem dos que assinaram a rogo por eles,
apenas dos testadores e inventariados.
44

Para Cláudia Damasceno Fonseca (2011), algumas formas de organização político-


territorial passaram por modificações quando foram transplantadas ao Novo Mundo sendo,
portanto, necessário entendê-las em Portugal e na América portuguesa, como o significado da
palavra vila, que na Colônia era diferente de Portugal, pois enquanto na Colônia eram “[...] as
localidades que recebiam o título de vila ao mesmo tempo em que adquiririam o direito de se
autogerirem, ou seja, de possuir uma câmara, com seu território de jurisdição (termo) e com
rendas próprias” (FONSECA, 2011, p. 30-31), em Portugal eram sedes de conselho ou meras
aldeias. Já a denominação de cidade era dada tanto no Reino como na Colônia para
localidades “[...] que exerciam papéis importantes do ponto de vista religioso, político ou
militar – não sendo concebido somente às sedes de bispado, mas também, entre outros casos,
a povoações litorâneas ou fronteiriças, dotadas de praças-fortes” (FONSECA, 2011. p. 31).
Entretanto, “A palavra povoação, tanto em Portugal como na colônia brasileira, era um termo
geral para todos os tipos de aglomerações, inclusive as cidades e as vilas”. (FONSECA, 2011,
p. 28). Embora, às vezes mais povoada e rica que algumas vilas, nunca era denominada de
vila se não fosse elevada a esta categoria jurídica e administrativa, como foi o caso da
povoação da Estância que no século XVIII já era um povoado próspero, destacando-se como
centro polarizador da economia da região Centro Sul de Sergipe Del Rey, mas somente em
1831 tornou-se sede da Vila de Santa Luzia, à qual pertencia, com a denominação de Vila
Constitucional de Estância e foi elevada à categoria de cidade em 1848.
A composição da elite em estudo, formada por 160 famílias, em sua maioria por
homens, 58% como inventariados e/ou testadores, com a seguinte situação civil, como
evidencia o Gráfico 2:

Gráfico 2 – Estado civil dos testadores/inventariados

1900ral

1900ral

1900ral
1900ral 1900ral
1900ral
1900ral 1900ral

Divorciada Não Solteiras Solteiros Viúvos Viúvas Casadas Casados


declarou
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora a partir dos 163 indivíduos constantes nos inventários e
testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual
de Sergipe.
45

Ao buscar o pertencimento a cargos52 dessa elite setecentista, referentes aos


testadores/inventariados, no universo de 56 homens, verifiquei que apenas 34% dos
testadores/ inventariados ocupavam cargos, conforme a Tabela 1, abaixo.

Tabela 1 – Cargos ocupados pelos inventariados/testadores


Cargo Nº Porcentagem
Capitão-mor das Entradas 1 2%
Coronel 1 2%
Capitão-mor 2 3%
Capitão 4 7%
Padre 5 9%
Alferes 6 11%
Sem cargos 37 66%
Total 56 100%
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos inventários e testamentos do século XVIII existentes
no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

O mesmo ocorreu quando com os inventariantes, também representantes dessa elite,


como é possível observar no Quadro 5.

Quadro 5 – Cargos ocupados pelos inventariantes


Cargo inventariante Nº
Juiz 1
Tenente Coronel 1
Alferes 2
Capitão-mor 2
Sargento-mor 2
Tenente 2
Capitão 6
Total 16
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos inventários do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

O que não dá para concluir que os membros da elite moradora no século XVIII em
Sergipe Del Rey detinham uma baixa concentração de cargos53. Esses estavam presentes nos
cargos de juízes ordinários e de órfãos trienais 54, testamenteiros e testemunhas que atuavam
nestes documentos.

52
Considerando como cargo a função de padre.
53
A ocupação de cargos públicos era um elemento que os diferenciava dos demais.
54
O Alvará de 2 de maio de 1731 criou os cargos trienais de juízes de órfãos, separados dos juízes ordinários
(SALGADO, 1985. p. 70).
46

Mas qual seria a situação econômica dessa elite se na sociedade colonial o mesmo
indivíduo podia ser, simultaneamente, sitiante, dono de engenho, comerciante e detentor de
cargos? Fica difícil estabelecer a ocupação e patamar econômico do grupo estudado, o que me
levou a investigar o valor das heranças via inventários, uma vez que eles informam o monte
mor55 dos bens desses indivíduos.
Das 160 famílias analisadas apenas 88 possuem inventários, os quais fornecem o
acesso ao monte mor, mas devido ao estado físico dos documentos (incompletos, apagados,
não constando o monte mor, por causa de problemas entre herdeiros) só foi possível levantar,
com precisão, o monte mor de 74 famílias. O valor encontrado nesses 74 inventários vão de
cento e vinte e seis mil réis (126$000) a vinte e oito contos e trinta e um mil e seiscentos e
sessenta réis (28:031$660), mas é preciso verificar o montante líquido destes bens, para saber
o quanto a geração posterior vai herdar. Pelo Quadro 6, é possível ter uma noção mais
aproximada destas heranças, além de onde estavam e a quem pertenciam.

55
Monte mor nos inventários do século XVIII em Sergipe era o termo utilizado para a soma total de todos os
bens.
47

Quadro 6 – Montante mor


Nº Inventariado/testador Valor Ano Localidade
Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio de São
1 Maria Quiteria 126$000 1792 Francisco
2 Joze, Filho de Antonio Joze da Fonseca 137$970 1793 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
3 Estevão Gomes de Moura 152$520 1730 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
4 Gonçallo Gomes Lobato 168$910 1776 São Cristóvão
5 Manoel de Mello e Albuquerque 184$640 1764 Vila Nova Real de El Rey do Rio de Sam Francisco
6 Luciana Maria 190$200 1794 Vila de Santo Amaro das Brotas
7 Arcangello de Barros 193$160 1795 Vila Nova de Santo Antônio Real de El Rey do Rio São Francisco
Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio de São
8 Simplicio de Fontez 196$260 1771 Francisco
9 Gonçalo Moura de Rezende 228$500 1784 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
10 Leonor Rodrigues Fraga 262$000 1766 Vila de Santo Amaro das Brotas
11 Arcangela Maria da Conceição 270$530 1796 Vila de Santo Amaro das Brotas
12 Thomas Domingues da Silva (português) 294$350 1800 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio de São
13 Antonio Teixeira de Souza 354$520 1752 Francisco
14 Eleuterio Joze dos Santos 366$066 1796 Vila de Santo Amaro das Brotas
15 Domingos Ferreira e Cecilia Eugenia 376$648 1793 Vila de Santo Amaro das Brotas
16 Antonio de Souza Benavides 383$444 1783 São Cristóvão
17 Clara Martins de Castro 384$120 1762 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
18 Gonçalo Luis Teles de Menezes 391$640 1796 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
19 Domingos Salgado de Araujo (português) - Padre 4164240 1763 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
20 Francisco Joze de Araujo 452$000 1792 Vila de Santo Amaro das Brotas
21 Francisca Maria da Conceição 459$926 1800 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
22 Quiteria Francisca 562$060 1796 São Cristóvão
23 João da Rocha Rego 576$150 1799 São Cristóvão
48

Nº Inventariado/testador Valor Ano Localidade


1764 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
24 Jozefa Maria da Conceiçam 584$480

25 Antonio Pereira de Vasconcellos 585$120 1793 Vila de Santo Amaro das Brotas
Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio de São
26 Damianna Ribeira 596$475 1794 Francisco
27 Catharina de Vasconcellos 600$090 1751 Vila Nova Real do Rio Sam Francisco
28 Francisco Joze de Mello 618$600 1799 Vila de Santo Amaro das Brotas
29 Anna Jozefa do Sacramento 636$000 1794 Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto
30 Luciano Souza Leal 645$220 1781 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
31 Marianna de Sandes 651$780 1797 São Cristóvão
32 Ignacio da Costa Feijo 686$170 1757 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
33 Micaella Caetana 700$576 1800 Povoação da Estância -Termo de Santa Luzia
1789 Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio de São
34 Maria da Assumpção 708$740 Francisco
35 Luiz Carlos Pereyra 876$570 1777 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
36 Antonio Simoens dos Reis 907$330 1790 São Cristóvão
37 Francisco Rodrigues Ferreira 993$320 1789 São Cristóvão
38 Maria Caetana 1:143$750 1765 São Cristóvão
39 Maria da Graça do Nascimento 1:177$765 1799 Villa Nova de Santo Antônio Real de El Rey do Rio São Francisco
40 Miguel Pereira de Rezendes 1:184$480 1779 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
41 Joze de Goes Teles 1:186$820 1767 Vila de Santo Amaro das Brotas
42 Firmiano de Sá Souto Mayor 1:196$070 1765 São Cristóvão
43 Joze De Souza de Menezes 1:198$116 1794 São Cristóvão
44 Joze Frique do Prado 1:268$440 1764 São Cristóvão
45 Duarte Monis Barreto 1:339$460 1725 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
46 Manoel Nunes Coelho de Vasconcellos e Figueiredo 1:426$266 1755 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
49

Nº Inventariado/testador Valor Ano Localidade


47 Joze de Freitas Brandão 1:447$960 1788 São Cristóvão
48 Antonia Gonçalves 1:466$900 1798 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
49 Francisca de Barros Pantojá 1:530$770 1768 São Cristóvão (Aracaju)
50 Paulo Ribeiro e Maria de Oliveira 1:617$295 1766 Vila de Santo Amaro das Brotas
51 João Bernardo de Macedo 1:707$435 1800 São Cristóvão
52 Antonio Fernandes Beires 1:720$940 1794 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
1792 Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio de São
53 Joze de Souza de Britto 1:792$300 Francisco
54 Jozefa Maria de Serqueira 1:860$676 1794 São Cristóvão
55 Francisco Cardozo de Souza 1:909$843 1753 Vila Nova Real de El Rey do Rio de Sam Francisco
56 Micaella Cardoso de Jesus 1:952$440 1726 Vila Real de Santa Luzia
57 Antonio Correia Dantas (Vigário) 2:361$094 1793 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
58 Francisco de Barros de Almeida 2:519$940 1799 São Cristóvão
59 Domingos Lopes Ferreira (português) 2:784$700 1799 Vila de Santo Amaro das Brotas
60 Thereza Barboza 3:196$320 1762 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
61 Manoel Nunes de Azevedo (português 3:777$292 1755 Vila Real de Santa Luzia
62 Francisca Perpetua de Almeida 4:624$080 1799 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana

63 Francisca Xavier de Menezes 5:101$839 1800 Vila de Santo Amaro das Brotas
64 Antonio Almeida Maciel 6:460$705 1741 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
65 Antonia Ferreira de Jesus 9:879$268 1789 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
66 Bernarda Petronilha de Santa Anna 8:574$230 1800 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
67 Marianna Francisca de Salles 11:301$230 1798 Vila de Santo Amaro das Brotas
68 Manoel Caetano do Lago 12:592$120 1796 São Cristóvão
69 Joze Cardozo de Santa Anna e Cardula Maria de Sam Joze 13:100$615 1788 São Cristóvão
70 Manoel Joze de Vasconcellos e Figueiredo 15:631$547 1777 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
50

Nº Inventariado/testador Valor Ano Localidade


71 Joaquim Joze Braque 15:854$056 1795 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
72 Antonio Carvalho de Oliveira 16:317$032 1800 Povoação da Estância - Termo de Santa Luzia
73 Bernarda de Jesus Maria José 23:096$830 1757 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
74 Joana Maria de Deos 28:031$660 1750 Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos inventários do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.
51

O que significava para esses indivíduos setecentistas terem fortunas? Encontrei


indícios do que pensavam em cinco inventariantes, pois ao darem entrada nos inventários dos
seus cônjuges assim se expressaram:
Josefa Maria da Silva, viúva do Alferes Jose Frique do Prado, com sete filhos (dota
uma filha), moradora no Termo de São Cristóvão, tendo entre outros bens imagens de ouro,
talheres de prata, fivelas de pescoço de ouro, fivelas de liga de ouro, foices, fivelas de prata,
canastra, frasqueiras, tamboretes, gado cavalar, roda de ralar mandioca, armário, caixa,
móveis, sete escravos, brincos de ouro, animais, ferramentas, porção de terras, fazenda (de
canas com casas de vivenda), sítio denominado Siriri, avaliados em um conto, duzentos e
sessenta e oito mil e quatrocentos e quarenta réis (1:268$440). Mesmo assim, classifica seus
bens como fazenda diminuta:

Dis D. Josefa Maria da Silva moradora na Ribra termo desta Cide, que seu
marido o Alfes Jose Frique do prado, falecido da via preste, deyxara d’entre
elle a suppte varios fos, e alguns menores p cuja rasão, quer a suppe fazer
inventro neste Juiso compete dos bens, que ficarão no seu Casal; e porque os
dtos filhos são mtos e a fasenda diminuta, e assim irão ficar os dtos orphaos
prejudicados em suas Ligitimas [...]. (grifo meu 56).

Maria Pereira de Jezus, viúva de Francisco Rodrigues Ferreira, com sete filhos
(também dota uma filha), moradora no termo de São Cristóvão, tendo entre outros bens sítios
de terras (denominados Pau Grande, Santo Antonio, Limoeiro), sobrado, gado, novilho,
garrote, bezerras, pés de coqueiros, carro, enxadas, machados, cavadores, espingarda, serras,
foices, imagem do Senhor Crucificado de marfim, imagem do Santo Antonio, banco de
encosto, mesa, caixa grande sem fechadura, baú de couro, frasqueira, roda de ralar mandioca,
tacho de cobre, casa de telha na cidade, porta, morada de casas na Povoação do Socorro,
colheres de prata, canas, cinco escravos, que apesar de serem avaliados em novecentos e
quarenta e três mil e trezentos e vinte réis (943$320) os considera como limitados bens: “Dis
Maria Pra de Jezus viuva que ficou por falecimto do seo marido Franco Roiz Frra [ilegível]
praticamte ha de fazer em inventro dos limitados bens que ficarão por morte do dto seo marido
pa delles dar partilhas aos orfaons seos filhos”. (grifo meu 57).
Anna Maria da Vitoria, viúva do Capitão Simoens dos Reis, que foi casado duas
vezes, com sete filhos (dota duas filhas), moradora em São Cristóvão, tendo entre outros bens
uma morada de casas de telha e de madeira branca, um oratório grande com telha dourada
56
O testador, Alferes Jose Frique do Prado, assina, mas a viúva não sabe escrever. AGJ - SCR/C.1º OF.
Testamentos. Cx. 01-67. p. 10. 1764.
57
A viúva não sabia escrever, mas o marido assinava. AGJ - SCR/C.1º OF. Inventários. Cx. 01-14. p. 4. 1789.
52

com sete imagens, relicário de ouro, botões de ouro, brincos de ouro, colheres de prata, garfos
de prata, fivelas de prata de sapatos, caixa de breve de prata, bolandeira, caixa, sela, tachos
pequenos de cobre, roda de ralar mandioca, baú, mesas de pau branco 58, bacia e jarro de latão,
bacia de cobre, enxadas, machado, foices, cadeiras de assento, seis escravos, imagem de
Nossa Senhora da Conceição, que foram avaliados em novecentos e sete mil e trezentos e
trinta réis (907$330) que a viúva considerou como limitados:

Dis Anna Maria da Vitoria viuva q’ ficou p r morte de seo marido o Capm
Anto Simoens dos Reis q’ precisamte [ilegível] fazer inventro dos limitados
bens q’ ficaram [pr] morte do [corroído] falecido [corroído]] deles dar
partilhas aos orfáns seos fo e pr evitar maiores despezas e prejuízo dos
mesmos (grifo meu59).

Antonio Jose de Almeida, viúvo de Lucianna Maria, com três filhos, morador no
Termo da Vila de Santo Amaro, tendo entre outros bens brincos de ouro, pente de ouro,
fivelas de prata, uma escrava, tacho, portas, caixa, telhas, machado, sendeiro, potro, é um dos
que realmente tem limitados bens comparados com os demais, pois eles foram avaliados em
cento e noventa mil e duzentos réis (190$200). Ele assim relata na petição: “Dis Antonio Jose
de Almeida deste termo que hê falecida Da vida prezente sua mulher Lucianna Maria e para
que der fazer o Inventario dos limitados bens q ficarão necesita serem avaliados [...]” (grifo
meu60). O mesmo ocorrendo com Leonor Rodrigues, viúva de Antonio Teixeira de Souza,
com quatro filhos, tendo entre outros bens, quatro escravos, caixinha, sela, vacas, novilhos,
garrotes, cavalos, poldra, que foram avaliados em trezentos cinquenta e quatro mil e
quinhentos e vinte reis (354$520), como ela assim peticionou:

Diz Leanor Rodizes Viuva qe ficou de Anto Teixa de Souza Moradora No


sertão de portto da folha ttermo desta Va qe por falecimento do dto seu marido
tem dado os Bens de seu cazal [ilegível] nesta dta Va; por aver ficado erdeiros
orphos e por qe se acha Naquele Lugar humas Limitadas Cabesas de gado
vacum e co mais de trinta Legoas e serem os Benis poucos He de por Juizo
a Supte e esos mesmos orphos tirem avaliadores desta dta Va ao Locar
avaliarem os dtos Benis qe poucos serão pa as custas qe acraserem pa cujo
Remedio//. (grifo meu61).

58
Nome popular de uma árvore da família das Borragináceas, endêmica da caatinga.
59
O Capitão Simoens dos Reis tinha sete filhos: um do primeiro casamento e seis do segundo, este último com
Anna Maria da Vitoria, que não sabia escrever e o escrivão assina por ela. AGJ - SCR/C.1º OF. Inventários.
Cx. 02-15. p. 4. 1790.
60
. O viúvo assina com uma cruz. AGJ - MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807. p. 4. 1794.
61
A viúva não sabe escrever. Seu cunhado assina por ela. AGJ - PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. p. 20. 1752.
53

Para compreender como operavam as relações familiares no Brasil Colônia, é


necessário ir além das determinações norteadas pelo Estado, Igreja e sociedade, pelos
aspectos econômicos e políticos. É preciso ir ao cotidiano, preservado nos documentos da
época como uma cápsula do tempo, que ao ser aberta expõe seu caráter transitório, muitas
vezes se sobrepondo ao que já estava sedimentado; outras vezes adaptando-se, como um
camaleão, ao meio; outras ainda impondo sua forma antiga na ilusão de deter as mudanças,
esquecendo, seus agentes mais conservadores e intransigentes, que: “[...] a mudança é uma
característica normal da Sociedade” (ELIAS, 1994, p. 222).
Não obstante ressaltar o livro “Casa-grande e senzala”, de Gilberto Freyre, como uma
das mais amplas fontes referentes à história social da Colônia, Sheila Faria (1998) adverte que
não só ele, como também Antônio Candido, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior
não analisaram a vida das camadas pobres da população colonial, produzindo desta forma
uma visão generalizada da família colonial a partir da elite dos senhores de engenho; e que a
população pobre colonial tinha, operava, reagia e possuía regras de condutas próprias,
organizava-se em famílias, nem todos eram promíscuos, nem a maioria se sujeitava aos ricos
patriarcas (FARIA, 1998, p. 48).
A análise de Faria (1998), bem como de atuais estudiosos da família, não é
compartilhada por Vainfas (2010, p. 151-154) que vê na discordância do modelo “patriarcal
tradicional” uma visão equivocada dos autores citados, que se apoiando em dois eixos: a
afirmativa da existência de numerosos tipos de família diferente da “casa-grande e senzala” e
a não sujeição absoluta da mulher ao poder masculino, afirmativas essas corretas. O que está
equivocado para Vainfas é a forma como veem a historiografia atual a “família patriarcal” de
Gilberto Freire, Antônio Candido, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior e outros.
Primeiro, porque nenhum desses autores tradicionais rotulou família patriarcal como
sinônimo de família extensa e/ou como modelo único, e sim analisaram as relações do poder
patriarcal, basicamente da elite, opinião essa compartilhada por Brügger: “A caracterização,
feita por Freyre, longe estava de atribuir à família patriarcal um predomínio quantitativo na
população brasileira. O que ele afirma é a existência de uma sociedade na qual os valores
patriarcais são os dominantes, embora não sejam os únicos” (BRÜGGER, 2007, p. 49). Em
segundo lugar, Vainfas concorda que há certo exagero de Freire na rígida clausura da mulher,
mas não quanto aos casamentos arranjados. Raras eram as mulheres que podiam escolher seus
cônjuges, tarefa realizada pelos pais ou familiares, em todas as classes sociais.
54

Quando Sheila Faria conceitua família como um termo “[...] ligado a elementos que
extrapolam os limites da consangüinidade 62 – entremeia-se à parentela63 e à coabitação,
incluindo relações rituais” (FARIA, 1998, p. 21) e que a família (consanguínea ou não)
exerceu um papel basal na instalação e funcionamento das atividades econômicas na Colônia
e nela se originam ou convergem todos os aspectos cotidianos da vida pública ou privada,
também não destoa da visão de Freire.
Assim, a análise da família patriarcal de Gilberto Freire não pertence apenas à
historiografia tradicional, serve ainda hoje como base para os estudos acerca da família
colonial e imperial do Brasil, só que vista sob outros aspectos complementares, mas não
destoante, com novos documentos e novas áreas de estudo do Brasil. (VAINFAS, 2010).
Em Sergipe Del Rey, como estava estruturada a família? A maioria era formada por
portugueses ou por brasileiros de outras capitanias? Por sergipanos? As uniões eram
legalizadas civilmente e/ou no religioso? A prole era legítima em sua maioria? Qual a média
de filhos por família? Dotavam suas filhas? Como estava posta sua religiosidade colonial?
Sergipe divergia muito do restante do futuro país, Brasil? São indagações como essas que nos
levam, quando respondidas, a adentrar no cotidiano dos moradores na Capitania de Sergipe
Del Rey setecentista, e desta forma entender suas escolhas ou falta delas, sejam no âmbito
social, religioso, como no cultural.
Ao investigar os inventários e testamentos setecentistas, esperei encontrar um grupo
maior de portugueses morando em Sergipe, como a historiografia tradicional sergipana vem
dizendo64 ao longo dos anos. Maria Thétis Nunes, maior estudiosa do período, afirma que: “O
grande número de portugueses residentes na Capitania de Sergipe no século XVIII fez parte
da grande emigração que buscou a colônia do Brasil, resultado da crise econômica que
Portugal vivia” (NUNES, 1996, p. 154), afirmativa essa que a presente pesquisa, diante dos
documentos analisados, coloca em dúvida. Creio que a afirmativa de Nunes esteja certa para o
século XVII, quando da efetivação da conquista e distribuição de sesmarias, mas não para o
século XVIII.
Estudos mais recentes são contrários à ideia de que a emigração 65 dos reinóis no
século XVIII foi consequência da crise econômica, a exemplo da análise realizada por Thais

62
Parentesco, relação entre os que procedem do mesmo pai ou da mesma raça.
63
Conjunto de parentes, família.
64
BEZERRA (1965, p. 65-66), NUNES (1996, p. 154), SOUZA (2005, p. 17).
65
A emigração de portugueses sempre esteve presente na sociedade portuguesa desde o início do século XV, e
para o Brasil a partir do século XVI, a qual aumentou durante o século XVIII com a descoberta das minas.
55

Nivia de Lima e Fonseca (2008), a qual entendeu que essa emigração foi movida por outras
razões.
Não obstante as divergências entre os historiadores, no Brasil e em Portugal,
quanto à quantidade de portugueses vindos para a América, não parece haver
dúvidas quanto ao aumento dessa imigração no século XVIII, movida,
principalmente, pela exploração do ouro nas Minas Gerais, e quanto ao fato
de que a maioria dos emigrados provinha do norte de Portugal (FONSECA,
2008, p. 1).

Causou-me surpresa perceber que dos 160 indivíduos aqui estudados apenas 23 eram
portugueses. Foi fácil identificá-los porque havia o registro da nacionalidade desses. Embora
o império português fosse composto por Portugal e todas as suas colônias, os reinóis eram
registrados como portugueses nos documentos judiciários, de modo que, graças a esse
costume, identifiquei 23 portugueses (em 17 testamentos, cinco inventários com testamento e
um ab intestado). Esses portugueses representam nesta pesquisa 14% do grupo dos 160, ou
seja, uma pequena parcela da população.
Quanto aos brasileiros desse grupo, os 65 inventários sem testamento não fornecem a
naturalidade dos inventariados, por isso só foi viável identificar a origem dos 72 brasileiros
que fizeram testamento, assim distribuídos: 68 sergipanos, três baianos, um pernambucano e
apenas um não foi possível identificar. Este resultado leva-me a concluir que a maioria da
elite setecentista era composta por sergipanos (72%).
Acerca da naturalidade dos 23 portugueses que se instalaram em Sergipe, também era
sua maioria proveniente do norte de Portugal (como evidencia o Mapa 1), fato constatado em
toda a colônia brasileira.
56

Mapa 1 – Regiões das quais procediam os portugueses residentes em Sergipe Colonial

4 1

1 1

1 1

1
Fonte: Mapa elaborado pela pesquisadora.

Os reinóis desta análise, que vieram para Sergipe, se estabeleceram na Povoação da


Estância, cinco deles; Termo da Vila Real de Santa Luzia, outros cinco; na Vila Real de Santa
Luzia, seis; em São Cristóvão, dois; na Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, dois;
na Vila de Santo das Santas Almas de Itabaiana, dois; na Vila de Santo Amaro das Brotas,
57

um; na Povoação de Nossa Senhora do Socorro, três; e um não declarou, não sendo possível
recuperar esta informação por outros meios. Estão todos relacionados abaixo, no Quadro 7.

Quadro 7 – Relação dos portugueses moradores em Sergipe Del Rey


Inventário com e sem
Nomes Testamento testamento
Antonio da Costa Rosa 1777 -
Antonio Pereira de Vasconcellos 1799 -
Damiam de Avilla Godinho 1772 -
Domingos Lopes Coelho 1778 -
Domingos Lopes Ferreira 1799 1801
Domingos Peres Duque 1778 -
Domingos Salgado de Araujo (Padre) 1763 1774
Francisco Marques da Silva 1778 -
Joam da Cruz Conrado (Padre) 1786 -
Joaquim da Silva Roque 1798 1798
José Daniel de Carvalho 1773 -
Jozé Francisco Sollojo 1799 -
Joze Pinto Caetano Correa 1777 -
Luis Barroso Pontoja (Capitão mor) 1749 1750
Manoel da Rocha Rios 1773 -
Manoel Francisco de Oliveira 1783 -
Manoel Gomes dos Santos 1795 -
Manoel Gonçalves Praça 1785 -
Manoel Nunes de Azevedo 1755 1777
Manoel Rodrigues de Carvalho (Alferes) 1774 -
Thomas Domingues da Silva 1800 1806
Um português 66, filho de Manoel Pereira Mendes e
Maria Vieyra de Lemos 1770 -
Verissimo Pereira de Lima 1785 -
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos inventários e testamentos do século XVIII existentes
no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Dos 23 portugueses aqui analisados, 18 declararam-se filhos legítimos e quatro apenas


informaram os nomes dos pais. Quanto ao estado civil, 13 eram casados 67, quatro solteiros
(sendo dois padres), quatro viúvos e um não declarou.

66
Devido o testamento estar incompleto, não foi possível identificar o nome, mas a sua nacionalidade e
naturalidade foi declarada: “//Declaro que sou natural da Freguesia de São Cristovão de Nogueira Bispado de
Lamego do Reyno de Portugal, filho de Manoel Pereira Mendes e de sua mulher Maria Vieyra de Lemos ja
defunta//”, assim o denominamos. AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - p. 01-06.
67
Thomas Domingues da Silva, morador na Povoação da Estância, termo da Vila de Santa Luzia, era casado
com uma portuguesa, Francisca da Costa, natural como ele da Freguesia de Feira Arcebispado de Braga, que
ficou em Portugal, que segundo assim ele declarou em seu testamento: “Declaro que feito o Inventário dos
58

Não foi possível, através dos inventários e testamentos, traçar o itinerário 68 desses
portugueses. Para tanto seria necessário recorrer a outras fontes, o que seria desviar do objeto
de pesquisa em questão – o letramento da população, por isso apenas tracei de onde vieram e
para onde passaram a residir em Sergipe, como elucida o Quadro 8.

meus bens o que tocar da meação a minha mulher e herdeira ausente fique em mão de meu testamenteiro para
este [ilegível] da dita fazenda aremeter a seos donos sem interpretação de tempo. [...] Declaro que em
Portugal não deixei bens alguns e por isso se há de repartir os que do presente possuo com minha mulher na
forma de direito”. Eles tinham dois filhos já casados. Declara ter dois sítios, um onde cria gado e outro no
qual mora. O valor de seus bens era de 294$350. Passa carta de liberdade a uma sua escrava, Anaceta, após
ela ter pagado por sua liberdade e alforria, via carta de liberdade, quarenta mil réis a ser deduzido de sua terça
a um filho dessa sua cativa e o institui junto com mais dois outros seus irmãos que nasceram libertos e que
viviam em sua companhia, como herdeiros de sua terça, dando a entender serem seus filhos naturais. Como
não os declarou filhos, deduz-se serem casados com filhos naturais, ver Quadro 8. EST/C. 2º OF. Inventário
Cx. 05-489. As demais mulheres desses portugueses não constam nos documentos referência quanto a suas
naturalidades.
68
Para Maria Beatriz Rocha-Trindade a noção de itinerário, mais do que o caminho geográfico que o emigrante
anda, serve também para designar a sua trajetória social. (ROCHA-TRINDADE, 1986, p. 139-156).
59

Quadro 8 – Movimento migratório dos 23 portugueses moradores em Sergipe Del Rey


PORTUGAL BRASIL
REGIÃO LOCALIDADE RESIDÊNCIA EM SERGIPE
AÇORES Freguesia de Nossa Senhora da Asunção de Langria - Ilha Santa Maria Povoação de Nossa Senhora do Socorro da Cotinguiba
Ilha de Fayal Povoação de Nossa Senhora do Socorro da Cotinguiba
Ilha de Sam Miguel São Cristóvão
ILHA DA MADEIRA Vila de Amorim - Comarca de Santana São Cristóvão

BRAGA Freguesia de Feira - Arcebispado de Braga Povoação da Estância - Termo da Vila Real de Santa Luzia
Freguesia de Sam Pedro [Fernão] - Arcibispado de Braga Vila Real de Santa Luzia
Freguesia de Santa Marta - Arcebispado de Braga Vila Real de Santa Luzia
Freguesia de São Joam do Castanheiro - Arcebispado de Braga Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto
São Salvador da Tiboza - Arcebispado de Braga Vila de Santo Amaro das Brotas
Freguesia de Santiago de Carralcova - Arcebispado de Braga Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
Santa Maria dos Arcos de Esposende do Arcebispado de Braga Não declara
BRAGANÇA [Barcelos do Monte] Bispado da [Miranda do Douro] terra de Bragança Vila Real de Santa Luzia
FARO Vila de Parchal Povoação da Estância - Termo da Vila Real de Santa Luzia
LISBOA Cidade de [Lisboa] Reino de Portugal Vila Real de Santa Luzia
Cidade de Lisboa Vila Real de Santa Luzia
Cidade de Lisboa Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana
PORTO Freguesia de Escariz termo da Vila de Cabesais - Bispado do Porto Vila Real de Santa Luzia
Freguesia de Santa Maria da Feira - Bispado de Porto Povoação da Estância - Termo da Vila Real de Santa Luzia
Freguesia de São João de Afos - Bispado da Cidade do Porto Povoação de Nossa Senhora do Socorro da Cotinguiba
Freguesia do Senhor dos Matosinhos Povoação da Estância - Termo da Vila Real de Santa Luzia
SETÚBAL Freguesia de São Sebastião Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto
VISEU Freguesia de São Cristovão de Nogueira - Bispado de Lamego Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos inventários e testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de
Sergipe.
60

3.2 – A FAMÍLIA

3.2.1 – Casamento

Ao investigar as regras civis e eclesiásticas que compunham o que Campos (2003)


denominou de “aparato organizado” da família, a autora definiu como “[...] um conjunto de
normas codificadas pelo costume ou pela regra jurídica, definindo hierarquias e
comportamentos de maneira estável e cristalizadas” (CAMPOS, 2003, p. 63). Tais normas
não são imutáveis. O tempo as modifica, adaptando-as a novas realidades, mudanças que
apenas são percebidas pelos historiadores quando analisadas em períodos longos, uma vez que
todos os esquemas sociais possuem exceções, pois “O homem é um ser extraordinariamente
maleável e variável” (ELIAS, 1993, p. 230).
Como estava posta a família da elite setecentista em Sergipe Del Rey? Vivendo em
sua maioria no meio rural, em propriedades distantes umas das outras, seriam estas uniões
sedimentadas mediante concubinatos ou eram sobriamente constituídas via casamentos
eclesiásticos ou civis? Para responder estas questões, primeiro é preciso entender o sistema de
casamento e o que era concubinato nesse período. Os homens tinham uma prole numerosa?
Dotavam suas filhas? Tinham filhos naturais, expostos?
No cotidiano familiar português e no colonial brasileiro, o casamento teve um papel
fundamental na construção da família e, por conseguinte, da sociedade da época, constituindo
famílias, legalizando uniões dentro dos preceitos eclesiásticos e, mais tarde, civis. Mas sua
origem remonta ao século XII. Tornou-se um dos sacramentos da Igreja em 1150, passando a
ser considerado nulo quando celebrado fora do controle da Igreja Católica a partir do Concílio
de Trento, no século XVI. Mas, desde o século XII já ocorria em Portugal, muito antes da
sacramentalização do matrimônio como inseparável da procriação 69, através dos casamentos
por contrato denominados de “esponsais70” (BRÜGGER, 2007, p. 134).
O Concílio Tridentino incluiu o casamento na relação de suas reformas, o qual
obedecia a um ritual litúrgico, elevando-o à condição de sacramento, a ser realizado
publicamente, durante o dia, na presença de um sacerdote ou licenciado e perante duas ou três

69
Tanto que a infecundidade nesse período era motivo para o marido repudiar a mulher, pois a procriação
constituía o objetivo do casamento, tanto no casamento-contrato quanto, posteriormente, no casamento
eclesiástico. Para a Igreja só a procriação via casamento era considerada legítima. Por isso, se o casal não
quisesse ter filhos, até as relações sexuais eram censuradas.
70
Eram promessas ou contratos de futuros casamentos, comuns na Europa pré-tridentina, que foram aos poucos
combatidos pela Igreja após o Concílio de Trento. Nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia em
seu título LXIII, parágrafos 262 a 266, ainda havia a regulamentação dos esponsais.
61

testemunhas. Tinha restrições a respeito da idade71 dos nubentes, que era 14 anos para o
homem e 12 para a mulher. Mas às vezes essa idade era contestada, principalmente quando
não sabiam ler nem escrever, como fez, em Sergipe, Francisco Joze da Piedade, a respeito de
seu afilhado, em petição ao Juiz de Órfãos:

Dis Franco Joze da Piede que por falecimento de Anna Jozefa do Sacramto
ficarão tres [filhos] menores em puder de seu pay sendo [ilegível 2 palavras]
entre os quais he hum de nome Antonio afilhado de batismo do supte e o qual
[ilegível] mourou em sua caza e comp a em intregalhe a [ilegível] pay agora
por ter não aproverado [corroído] cazar porque se lastima do dto [corroído]
razão de ser seu afilhado e está com [quatorze] pa quinze annos sem saber
[ilegível] nem ler escrever pello Pay do dto [...]72.

Antes da realização do casamento, fazia-se necessário comunicar o desejo ao pároco


da freguesia à qual pertencia. Dava-se início aos banhos do casamento73 após apresentar
certidão de batismo, atestado de residência e, no caso dos nubentes viúvos, certidão de óbito;
para menores e mulheres, a autorização paterna. A cerimônia tinha hora e dia permitidos pela
Igreja, pois era proibida a realização de matrimônios no período do advento e da quaresma, e
nos dias santos74, salvo com dispensa do bispo. Só podia ser realizada durante o dia e de
portas abertas, em plena missa, para que todos pudessem assistir ao ato.
Mas havia o casamento de consciência ou oculto, regulamentado pela bula Satis
vobis75 de 17 de novembro de 1741, para o qual os banhos eram dispensados. Maria Beatriz

71
Nos testamentos não há informações a respeito das idades das filhas casadas, mas apenas o nome do cônjuge e
o dote, quando dotadas. Também nos inventários não consta registro de idade, uma vez que as casadas são
emancipadas da tutela dos pais passando para a dos maridos. Por isso não é possível estabelecer uma
estimativa da faixa etária delas ao casarem, em Sergipe setecentista. A emancipação adquirida através do
casamento ocorria tanto para as mulheres como para os homens e estava posta no Direito vigente como atesta
Antonio Joze de Araujo em petição ao Juiz de Órfãos: “Diz Antto Je de Aro q. pr este Juizo se procede o
Inventro, e partilhas dos bens q. ficarão pr falecimto de Sua May D. Anna Jozefa do sacramto continuado com
seu marido Simão de Ar o Sandes, e pr q. o supte acha cazado, e na forma do Dirto emancipado, e pa poder
tomar conta de Seos bens, e com elles sustentar asim (grifo meu)”. LAG/C.2º OF. Inventários. Cx.01-1128.
p. 29.
72
LAG/C.2º OF. Inventários. Cx. 01-1128, p. 23.
73
Banho de casamento. Pregão, que o pároco lança na citação, para ver se há quem ponha impedimento ao
casamento; chama-se pregão porque se apregoa. Estes banhos são três, acessíveis ao público durante três dias
santos; neste sentido Banho se deriva de Bann, que em língua Alemã quer dizer Publicação. (BLUTEAU,
1712). Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1/banho. Acesso em: 13 fev. 2012.
74
“Por direito é proibido celebrar-se matrimônio com solenidade em certos tempos do ano, e o sagrado Concílio
de Tridentino restringiu do primeiro domingo do Advento até o dia da Epifania, inclusivamente, e de quarta-
feira de Cinza até a Dominica, in albis, inclusivamente”. Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia.
2010, p. 254.
75
No livro Sistema de casamento no período colonial de Maria Beatriz da Silva (1984), na nota 80, p. 151,
informa acerca do trabalho de pós-graduação em História Social de Maria Luíza Barreto, que não só traduziu
a referida bula Satis vobis como analisou o livro de registro de Casamentos ocultos e batismos de casamentos
ocultos de 1808 a 1869 da Cúria do Rio de Janeiro, no qual só foram encontrados quinze registros de
casamentos ocultos para o período colonial.
62

Nizza da Silva (1984) diferenciou casamento clandestino, como sendo uma prática aceita,
enraizada nos costumes e leis do Reino português, sem a necessidade da presença de um
pároco e de testemunhas, bastante combatida desde o Concílio de Trento, no século XVI; do
oculto, que ocorria para tirar do concubinato casais que viviam secretamente há anos como
casados, mas sem a benção da Igreja (SILVA, 1984, p. 114). Para essa autora, somente no
século XIX, no Rio de Janeiro, a Igreja passou a registrar, de forma sistemática, os
casamentos ocultos não encontrando este tipo de matrimônio nos livros do Arquivo da Cúria
de São Paulo no período anterior.
Alessandra da Silva Silveira (2005), em sua tese de doutorado, analisa o “Livro de
casamentos de consciência ou ocultos de 1818 a 1852” do Arquivo da Cúria Metropolitana do
Rio de Janeiro76, e diz: “Talvez seja o único exemplar existente no Brasil” (SILVEIRA,
2005”. Mas, em Sergipe, no “Livro de Registro de Assento de Matrimônio de 1798 a 1808”,
da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, com 694 registros de casamentos de
pessoas livres, de livres com escravos, de escravos com índios, de índios com livres (os
casamentos mistos), entre escravos, encontrei sete registros de casamento oculto: de Jozê da
Costa com Thomazia, escrava de Antonio Jozê de Souza; de Felix de Oliveira com Silveria
Maria; de Francisco Clemente Brâs com Benedita, livres; de Francisco Gomes, forro, com
Chispiana, escrava de João Baptista de Moura; do Capitão Francisco Marques com sua
escrava Joanna; de Manoel Francisco, forro com Joanna escrava de Francisco Gomes; e de
Agostinho da Silva com Roza Maria, livres. Todos foram casados no dia 06 de março de
1791, pelo Vigário Antônio Correa Dantas77, assim justificados: “[...] dispensados pelo dito
missionario nos banhos por se cazarem ocutamente e lhes deo as bençaos nupiciais na forma
dos sagrados rittos [...]”. O que vem comprovar que esses casamentos talvez fossem mais
comuns do que se pensa, com seus registros também assentados nos livros de registro de
matrimônio, não sendo, portanto, encontrado registrados em livros específicos, e que talvez
fato idêntico tenha ocorrido em todo o Brasil, tanto no século XVIII como no XIX.
A finalidade do matrimônio eclesiástico 78 era o da propagação humana, visando:
expandir a cristandade, não tendo o prazer, portanto, como objetivo; a fé e a lealdade mútua,
que preservaria desta forma tais uniões; e a inseparabilidade dos casados era a manutenção do
vínculo com Cristo e a Igreja, e deveria estar, segundo as normas, dentro dos preceitos
estabelecidos pela Igreja Católica. Foi regulamentado no Brasil pelas “Constituições

76
Talvez o mesmo citado por Maria Beatriz Nizza da Silva, apenas com datas-limite não coincidentes.
77
Livro de Assento de Matrimônio da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Vila do Lagarto (1790-1803),
p. 54-55. Disponível no site: https://www.familysearch.org.
78
Estava posta no Título LXII das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia.
63

Primeiras do Arcebispado da Bahia”, que considerava como impedimento79 ao matrimônio o


erro de pessoa, de condição, de voto solene, de cognação, de crime, de disparidade, de força
ou medo, de ligame, de pública honestidade, de afinidade, de impotência, o de rapto e o de
ausência, além de não permitir contrair matrimônio o doido, ou desassisado 80.
O casamento de mulheres viúvas, especialmente com mais de cinquenta anos, que, em
face da idade, não podiam mais procriar, era regulamentado pelas Ordenações Filipinas 81 com
o objetivo de proteger os filhos do primeiro casamento da dilapidação de sua herança, só
podendo a mesma dispor de sua terça. Em Sergipe, a viúva Dona Catharina Borges Marim,
antes de se casar com Feliciano Cardozo Pereira de Figueiredo, fez uma escritura de contrato
e declaração (1771), salvaguardando seus bens do primeiro casamento como mandava a lei:

Dona Catharina Borges Marim viuva do Capitão mor Estevão de Faria


Delgado e bem assim seu futuro esposo Feliciano Cardozo Pereira de
Figueiredo pessoas que reconheço pellas proprias de que faço menção pela
dita Dona Catharina Borges Marim me foi dito em prezença das testemunhas
ao diante nomeadas e asignadas por ella estava justa contratada para cazar
com seu [ilegível] dito Feliciano Cardozo Pereira de Figueiredo o qual para
se cazar não traz bens de nenhuma qualidade e so ella outorgante os tem e
porque podera do dito Matrimonio não ter filhos que [ilegível] sucedão em
seus bens, que ella outrogante rezervar dos que possui para os dominar reger
sem que delle possa ter mando nem dominio o dito seo futuro marido os
seguintes bens a saber tudo quanto possui na fazenda [ilegível]da legitima do
seo defunto [ilegível]gados e escravos; [...] 82.

Além de Catharina Borges Marim, há Francisca de Serqueira Pacheco 83, que se casa
pela segunda vez após ser quinquagenária e depois se divorcia no Juízo Eclesiástico.
Após o concílio, as uniões nos padrões portugueses pelo uso costumeiro
(clandestinas), nas quais não havia a bênção eclesiástica, mas conviviam dentro dos mesmos
parâmetros, passaram a ser proibidas e consideradas como pecado grave. Em Sergipe elas

79
Erro de pessoa, quando uma pessoa fingia ser outro; de condição, quando um cativo passava por livre; de
voto solene, às ordens sacras e religiosas; de cognação, consanguinidade natural (parentesco) dos cônjuges
e/ou espiritual (batismo, crisma); de crime, quando um dos cônjuges matava para casar novamente; de
disparidade, proibição da igreja de um infiel casar com um fiel católico; de força ou medo, uniões
realizadas sob ameaças; de ligame, as uniões por palavras de presente; de pública honestidade, promessa de
casamento futuro com algum parente de primeiro grau de quem se pretendia casar naquele momento; de
afinidade, cada cônjuge ao casar, passava a ter laços de sangue com os parentes de ambos; com a morte de
algum nubente, era proibida a união; de impotência, quando algum dos noivos, por algum problema não
conseguia gerar; o rapto, furto contra a vontade ou com consentimento feminino sem o consentimento dos
pais; e o de ausência, na falta de alguma testemunha e do pároco, não existia matrimônio.
80
Tolo, idiota.
81
Ordenações Filipinas: Livro 4 Tit. 105: Das mulheres viúvas que casam com mais de cinquenta anos e não
podem ter filhos.
82
AGJ - SCR/C.1ºOF./Livros de Notas. Escritura de Contrato e declaração. 1771. Cx.01-52. Liv.03. p. 59-60.
83
AGJ - SCR/C. 1º OF. Livros de Testamentos. Cx. 62 – Liv. Testamento de Francisca de Serqueira Pacheco p.
02-03. 1784.
64

também ocorriam, como declarou em seu testamento Antonio Gonçalves Colaco 84: “Declaro
que cazei segunda ves nesta dita freguesia com Antonia de [ilegível] com a qual estou
vivendo de portas adentro e deste matrimonio tivemos quatro filhos que se achão vivos de
maiores de vinte e hum annos [...]” (grifo meu). Este tipo de casamento informal não deve ser
confundido com o concubinato85. Para a Igreja o concubinato era:

[...] uma relação intermediária entre a simples fornicação e o adultério, antes


definida pela durabilidade e publicidade do que pela coabitação – só
expressamente referida pelo Concílio no caso de homens casados que
mantivessem amantes na própria casa (VAINFAS, 2010, p. 108).

O casamento eclesiástico e o concubinato tinham funções e objetivos específicos na


sociedade, sendo que: “O casamento era, acima de tudo, um arranjo familiar calcado em
interesses de ordem socioeconômica e/ou política” (BRÜGGER, 2007, p. 122); enquanto que
o concubinato, que era comum em toda a Colônia, segundo Ronaldo Vainfas, era resultante do
colonialismo, da escravidão e do racismo, e não por ser difícil e oneroso casar-se
eclesiasticamente, uma vez que uma das metas da Igreja Tridentina era a difusão do
casamento eclesiástico, não fazendo sentido dificultá-lo (VAINFAS, 2010). Para Alcileide
Cabral do Nascimento, a importância do casamento sob a ótica civil era assegurar a
transmissão do patrimônio da prole legítima, enquanto que para a Igreja era acabar com a
prática do desejo sexual desregrado (NASCIMENTO, 2008).
Pelo Concílio tridentino, o casamento por contrato só podia ser efetivado por carta de
ametade86 ou por dote e arras87. Caso não fosse assinado um pacto pré-nupcial, todo
casamento realizado pela Igreja estava dentro do sistema de comunhão total de bens entre os
cônjuges, denominado de “carta de ametade”, disciplinado nas Ordenações Filipinas 88, prática
essa registrada em Sergipe setecentista no testamento de Serafim Mendes de Souza, natural da
Freguesia de Nossa Senhora do Socorro, na Cotinguiba de Sergipe, e de sua mulher Francisca

84
AGJ - SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos – Cx. 62 – Lv. 1. p. 99-104. 1776.
85
Rangel Netto Cerceau (2008) ao analisar as formas de concubinato na Comarca do Rio das Velhas, em Minas
Gerais, tipificou em: simples, adulterino, incestuoso, clerical, composto, duplo e com promessa de
casamento.
86
Eram aqueles em que os cônjuges se tornavam meeiros. Todos os bens trazidos e adquiridos quando da morte
de um o outro herdava a metade, entrando na partilha todos os bens. O mais comum no reino português.
87
Havia a separação de bens. O dote e a doação das arras pelo marido retornavam para a mulher com a morte
dele. A partilha era feita somente com os bens adquiridos no matrimônio, prática frequente entre a nobreza.
88
“Todo [sic] os casamentos feitos em nossos Reinos e senhorios, entende-se serem feitos por Carta de ametade
(3) salvo quando entre as partes outra cousa for contractada) e porque então se guardará o que entre elles for
contractos”. A nota 3 diz que: “Carta de ametade se diz commuião ou communicação legal. O Legislador usa
de igual sorte das expressões casamento segundo o costume do Reino, e em que os cônjuges são meeiros”.
Livro 4, Título 46, nota 3, p. 832. Ordenações Filipinas. Disponível em:
<http://www.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/ordenacoes.htm>. Acesso em: 15 fev. 2012.
65

Perpetua de Almeida89, natural da Freguesia de São João de Aquinno do Recôncavo da Bahia:


“Declaramos que somos cazados por Carta de ametade de Segundo o uzo comum de nosso
Reino” (grifo meu). Os pactos nupciais feitos eram registrados por tabelião, via escritura
pública, assinada pelos nubentes, seus pais (quando a mãe sabia assinar) e duas testemunhas,
como ocorreu no contrato de casamento feito por Francisco Marques da Silva como
administrador de sua filha Josefa Maria de Sam Jozé com João Lopes Chaves, futuro marido,
com a condição de que se sua filha falecesse primeiro nem seu marido nem herdeiros dele
poderiam requerer nada da meação da “fazenda” 90 nem o que ela trouxesse de dote, e se ele,
genro, falecesse primeiro, deixava sua filha como herdeira de todo seus bens:

Escritura de contrato que fazem entre si Francisco Marques da Silva por si e


como administrador de sua filha Josefa Maria de Sam Jozé e João Lopes
Chaves para contrato de cazamento.
Saibão quantos este publico instrumento de escritura ou contrato ou como
em direito melhor nome e lugar haja virem em que sendo no anno de
Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil setecentos e secenta e seis
annos aos trinta dias do mês de janeiro do dito anno neste citio das
Laranjeiras termo da Cidade de Sergipe de El Rey [ilegível] caza de morada
de João Lopes Chaves donde eu [escrivão] fui [vindo] e sendo ahi prezentes
partes contratados Francisco Marques da Silva por si e como tutor e
administrador de sua filha Josefa Maria de Sam Jozé e João Lopes Chaves e
logo pelo dito Francisco Marques da Silva por sua vez, e como
administrador da dita sua filha me foi dito em prezença das testemunhas ao
diante nomeadas e asignadas que este estava [justo] feito havido contratado
de cazar a dita sua filha Josefa Maria de São Jozé com o dito Joze Lopes
Chaves [...]91.

No grupo dos 95 testadores desta amostra, 83 eram ou foram casados (53 casados(as),
29 viúvos(as) e uma divorciada), o que demonstra uma maior preocupação dos casados em
fazerem testamentos. Doze eram solteiros e cinco testamentos estão incompletos, uma vez que
não contém esta informação. Deste universo que vivenciou o casamento, 33 declararam o tipo
de casamento92, mas 44 disseram apenas ser casados, o que levanta a hipótese de consistirem
casamentos informais. No grupo dos 65 ab intestados também prevalece o dos casados
(embora não conste o tipo de casamento) em detrimento dos solteiros.

89
AGJ - SCR/C. 2º OF. Inventário Cx. 01-159.
90
Fazenda. Riquezas, dinheiro, cabedaes. BLUTEAU. 1728. Disponível em:
<http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1/fazenda>. Acesso em: 13 fev. 2012.
91
AGJ - SCR/C.1ºOF./Livros de Notas. Cx.02-53. Liv. 01. p. 264-266.
92
Carta de ametade (6); Igreja (22) agrupada das seguintes expressões: rito romano, ritos sagrados, forma
canônica, face da Igreja, Santa Madre Igreja, forma do Sagrado Concílio Tridentino, face da Igreja e Concílio
Tridentino; Igreja e carta de ametade (1); legalmente casada e/ou legítimo matrimônio (3); matrimônio e
portas adentro (1).
66

Fica provado, nesta pesquisa, a qual reflete parte significativa da elite setecentista
moradora em Sergipe Del Rey, que a maioria (88%) da população era formada por pessoas
casadas, como é possível observar na Tabela 2.

Tabela 2 – Estado civil da elite setecentista


Estado civil Nº Porcentagem
Casado(as)/viúvo(a) 142 88%
Solteiro(a) 16 10%
Divorciada 1 1%
Não declara 1 1%
Total 160 100%
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos inventários e testamentos do século XVIII existentes no
Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

A indissolubilidade do casamento religioso era usada pela Igreja Católica como


principal argumento para uma seleção cuidadosa dos nubentes, tendo como princípio básico
norteador de escolha a igualdade quanto à idade 93, condição94; fortuna e saúde95, o que nos
leva a pensar que tinham longa duração, como afirmou Ignacio da Costa Feijó 96, em seu
testamento, ser casado há trinta e nove anos.

93
Quanto ao princípio de igualdade de idade Maria Beatriz Nizza da Silva (1984, p. 68) e Gian Carlo de Melo
Silva (2008, p. 119) em seus estudos concluíram que tanto em São Paulo como em Recife, ele não
correspondia às práticas matrimoniais, sendo a diferença de idade entre os casados de nove a dez anos e que a
escolha do futuro cônjuge era do homem e nunca da mulher. Em Sergipe setecentista, apenas em 71 dos 88
inventários foi possível recuperar o número de filhos e algumas das suas idades. Desta pesquisa, 35 famílias
tinham filhos casados e em apenas um documento há a idade (17 a 18 anos), o que parece ser uma prática,
pelo menos em Sergipe nesse período, de não registrar a idade de filhos casados, uma vez que os mesmos ao
casarem são emancipados dos pais e considerados como adultos maiores.
94
Em Sergipe colonial, na pesquisa da elite trabalhada, existe registro de um casamento de condição sociorracial
diferente (pessoa livre com cativo) - o de Bernabe Ferreyra dos Reys, que assim deixa registrado: “Declaro
que sou cazado com Andreza Marques de Sá de cujo cazamento tenho hum filho de nome Joam e huma
menina por nome Anna os quais são meus herdeiros. Declaro que tive no tempo que era solteiro huma filha
natural por nome Anna filha de Maria de Sá a qual instituo por minha herdeira com os mais filhos. Declaro
que tambem tenho um filho por nome Joam tambem filho natural digo que declaro que o meu filho Joam
filho de minha mulher Andreza o forrei por outro escravo que dei por elle o qual ainda não lhe passei carta de
Alforria e me está servindo como captivo e assim por meu falecimento o forro e hei por forro [ilegível] de
toda escravidão e cativeiro e meu testamenteiro lhe passará carta de Alforria cazo em minha vida lhe não
tenha passado”. Se o filho da sua mulher era ainda escravo quando fez seu testamento, isso era decorrente da
mãe ser escrava, e como não é registrado o tipo de casamento, pode ter sido o mesmo não religioso e sim de
portas adentro comum nessa época (AGJ-SCR/1º OF. Livros de testamentos – CX. 62 – Liv. p. 101-103); e
com expostos, como o testador Luiz Carlos Pereyra, casado na Igreja com Angelica Perpetua de Jesus,
registra esse fato em seu testamento em 1777; “Declaro que sou natural desta Itabaiana filho de Josefa
Eugenia de quem fui sempre tido por filho porem exposto em casa do Alferes Antonio Diniz Ribeiro e de sua
mulher Dona Maria Pereira do Lago da Freguesia de Nossa Senhora do Socorro da Cotinguiba onde fui
batizado” (grifo meu). SCR/C.1ºOF. Apelação. Cx. 0103.
95
Quanto ao de fortuna e de saúde não encontrei documentos em Sergipe que fossem evidenciados, o que não
quer dizer que não existiam..
96
APES-Coleção Sebrão Sobrinho - Caixa 32. 1757. p. 5.
67

Apesar de o casamento eclesiástico ser uma união indissolúvel para a Igreja, essa
aceitava o divórcio, no entanto não extinguia o vínculo do matrimônio. As justificativas mais
frequentes eram sevícias ou adultério dos maridos. A ação de divórcio era feita no Juízo
Eclesiástico através de uma petição. As testemunhas eram inquiridas e o vigário geral emitia
um mandato de depósito. Era lavrado o auto de depósito no qual informava em que casa a
divorciante fora depositada (devendo ser uma casa honesta) e a relação dos bens que levava
consigo como a sua cama, roupas, objetos pessoais, joias e uma escrava para servi-la, onde
ficava aguardando a sentença final (SILVA, 1984). Nem sempre as esposas conseguiam o
divórcio, como ocorreu na Capitania de Sergipe Del Rey em 1783 com Arcangela Maria,
casada com Vicente Jose da Silva 97. Ela acusa o marido de concubinato com uma sua escrava,
e por causa disso era maltratada com pancadas e murros, ao ponto de uma vez ser socorrida
pelos escravos e dele ter fugido. O marido ganha a sentença na Relação Metropolitana do
Arcebispado da Bahia contra o Vigário Geral da Capitania de Sergipe ao recorrer à Rainha D.
Maria I. A justiça manda tirar a esposa de onde estiver restituindo-a a seu marido. A outra
menção de divórcio eclesiástico em Sergipe nesse período é o de Francisca de Serqueira
Pacheco98, que o faz em seu testamento:

Declaro que passei a segundas nupcias com Pedro Tavares Pereira depois de
eu ser quinquagenaria e desse matrimonio com o ditto Pedro Tavares me
acho ja devorciada por sentença que alcansei no Juizo ecleziastico do
Reverendo [Doutor] Vigário Geral destta Comarca. (grifo meu99).

A guarda dos filhos de pais divorciados variava dependendo de cada situação: por
sexo – homens com o pai e mulheres com a mãe; por divisão aritmética (nº de filhos) ou
ficava com quem deu a causa da separação (CAMPOS, 2003).
Apesar dos casamentos coloniais serem pautados nas relações de interesses
socioeconômicas, arranjados pelos pais, sacramentados pela Igreja Católica ou via contratos,
o amor não fora excluído dessas relações, estando ligado a dois arquétipos de sexualidade: “o
amor casto de esposas” e o “amor-paixão” (CAMPOS, 2003). O “amor casto de esposas”
idealizado pela Igreja foi evidenciado em Sergipe setecentista no testamento de Maria Jose da

97
Arquivo Ultramarino. Requerimento de Vicente Jose da Silva, morador no Distrito da Capitania de Sergipe
Del Rey, a Rainha [D. Maria I], apelando para o cumprimento da sentença que obteve a seu favor na relação
Metropolitana do Arcebispado da Bahia contra sentença proferida pelo Vigário-Geral de Sergipe Del Rey a
favor de Arcangela Maria, mulher do suplicante, no divórcio por ela requerido. Cx. 8, Doc. 32. 1783.
98
A mesma por não saber ler nem escrever, solicita a seu compadre, o Alferes Antonio Ferreira Dutra, que
escreva seu testamento e é assinado a seu rogo por Manoel Zuarte Homem.
99
AGJ - SCR/C. 1º OF. Livros de Testamentos. Cx. 62 – Lv. 06. p. 2-3.
68

Conceiçam100, casada com Joze de Brito [Callaça] por carta de ametade, sem filhos, que faz
questão de assim registrar:

Declaro que nomeio e instituo por meu herdeiro universal de tudo o que
depois de pagas as minhas dividas e compridos os meus legados, restar de
[corroído] o dito meu marido digo restar da minha fazenda ao dito meu
marido Joze de Brito Callassa não só por não ter herdeiros forsados, mas
também pello grande amor que lhe tenho e fidelidade com que me tem
tratado (grifo meu101).

Há o registro de Maria de Torres mostrando que não só de brigas, de desrespeito, da


convivência forçada pelo casamento viviam os casais setecentistas. Ela deixa expresso em seu
testamento o amor partilhado por ambos:

Declaro que nomeio e instituo por meu Legitimo e universal herdeiro de


tudo o que remanescer depois de pagas as minhas dívidas e cumpridos todos
os meus legados que he o restante da minha terça, a meu marido Joam de
Araújo e Goiz, pello amor que sempre nos tratamos [...] (grifo meu102).

Também os homens expressavam o amor às suas esposas, como o Capitão mor


Barnabé Martins Fontes: “Deixo a minha molher Donna Josefa digo Anna Josefa por muito
amor que lhe tenho hum escravo [...]” (grifo meu103).
Quanto ao mundano, “amor-paixão” obtido fora do casamento também em Sergipe há
vestígios, como no caso de Joze Alvares da Roxa 104, casado na Igreja com Rita Maria da
Rocha, pai de duas filhas casadas e um filho padre, negociante de fazendas secas 105, ele assim
expressa seu amor a outra mulher, que não era sua esposa:

100
Ela assina seu testamento.
101
AGJ - SCR /C. 1º OF. Testamento. Cx 07-73. p. 11.
102
AGJ - SCR/C.1º OF. Cx. 62. (1770-1819) Liv. de testamento 07. p.146.
103
AGJ - SCR/C.1º OF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 07-13.
104
O interessante é que ele faz o testamento em 1798 e o altera via codicilo em 1808; deixa doze mil réis em
fazenda para a filha de Agostinho da Silva Seroa, por ter cuidado dele com zelo e cuidado em sua
enfermidade, ficando a pergunta: onde estava a esposa ou a amada que não cuidaram dele doente? Ele assina
o testamento.
105
Maria Lucília Vivieros Araujo, em seu artigo Lojas e armazéns das casas de morada paulistas, dá a
definição entre fazenda seca e fazenda molhada na instrução para o governo da Capitania de Minas Gerais,
redigida pelo desembargador José João Teixeira Coelho, em 1780, que assim as definiu: "por fazenda seca se
entende o que se não come nem bebe, e serve para vestir, e por fazenda de molhados os comestíveis, ferro,
aço, pólvora e tudo o mais que se não veste". ARAUJO, Maria Lucília Viveiros. Lojas e armazéns das casas
de morada paulistas. Rev. hist., São Paulo, n. 160, jun. 2009. Disponível em:
<http//www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-
83092009000100015&lng=pt&nrm=isso>. Acesso em 20 jun. 2012.
69

Nomeio e instituo por herdeiro do remanescente da minha terça a minha


muito amada mulher a senhora Dona Roza Maria do Rozario, e se ella
falecer primeiro do que eu substituo na mesma herança igualmente a todos
os meus netos e netas que se acharem vivos existirem ao tempo da minha
morte (grifo meu106).

Seja “o amor-casto” vivenciado nos casamentos ou o “amor-paixão” das relações


extraconjugais, o amor é inerente ao ser humano em qualquer época ou tipo de sociedade.

3.2.2 – Filhos legítimos, naturais, expostos/enjeitados

Em uma sociedade patriarcal como era a colonial, onde pouca voz tinha a mulher,
como ficava a questão da legitimação dos filhos advindos dentro ou fora dos casamentos? E
os expostos/enjeitados também existiram em Sergipe?
Tanto em Portugal como na colônia brasileira, com contornos diferenciados entre
nobres e plebeus, a legitimidade dos filhos advinha dos casamentos de seus pais no religioso
ou civil e/ou do reconhecimento jurídico dos ilegítimos, pois a ilegitimidade sobrevinha das
relações sexuais entre pessoas solteiras, adúlteras, incestos, clérigos, de camadas sociais
distintas. Mas a ilegitimidade não foi um fato específico de Portugal e/ou Brasil. Ocorria em
todos os estratos sociais como consequência de uniões sem o aval legal, religioso ou civil.
Ao analisar a questão da ilegitimidade da população colonial do Brasil, a qual tinha a
historiografia brasileira firmada no consenso da primazia desta sobre a legítima, tanto para
pessoas livres/libertos, como para escrava, a historiadora Sheila Faria (1998) ao estudar a
família na Capitania de Paraíba do Sul - Campos dos Goitacases107 chegou a pensar que os
resultados obtidos em sua pesquisa representavam desvio de regra geral no Brasil colonial.
Porém, ao verificar os trabalhos sobre o assunto, família e legitimidade no século XVIII, com
exceção do Recôncavo Baiano108, constatou que eles estavam restritos às áreas de mineração e
alguns centros urbanos, portuários, ou seja, regiões de passagem com populações em
migração contínua109 e não em zonas unicamente agrárias como era a maioria das regiões

106
AGJ - SCR/1º OF. Cx. 04-64. Livro de Registro de testamento. p. 123 v – 131v.
107
Atualmente o Norte Fluminense, no estado do Rio de Janeiro.
108
No qual a capitania de Sergipe Del Rey estava inserida.
109
A autora alerta que são raros os trabalhos que analisam áreas consideradas como sem importância no cenário
econômico colonial e até mesmo no século XIX, o que leva a se ter uma visão generalizada das demais
regiões sobre estas. Estudos sobre a Capitania de Sergipe Del Rey, que também não era de ponta da
economia colonial, nem urbana, nem mineradora, vêm preencher parte desta lacuna na historiografia colonial
sergipana e brasileira. Há teses em andamento como esta e outras já defendidas como a de Edna Maria Matos
do Antonio: “A Independência do solo que habitamos”: poder, autonomia e cultura política na construção
do império brasileiro. Sergipe (1750-1831). Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.
70

coloniais, refletindo portanto uma realidade regional específica e não de toda a colônia
brasileira.
Em Sergipe, a raridade da documentação paroquial colonial (livros de batismo,
casamento e óbito) e os processos de banhos matrimoniais do século XVIII 110 dificultam o
estudo da legitimidade, seja ela de pessoas livres, libertas ou escravas.
Mais uma vez os testamentos e inventários vieram em meu socorro. Neles pude
recuperar parte desta informação, que apesar de não fornecer dados quantitativos e
qualitativos amplos como as fontes paroquiais, dão indícios de como estava posta a questão
no cotidiano da Capitania de Sergipe Del Rey. Os testamentos informam a situação da filiação
(legítimos ou ilegítimos) dos testadores e a de seus filhos. Nos inventários, além da filiação
podemos recuperar a relação dos filhos, algumas com suas idades e estado civil, tanto dos
filhos vivos como dos falecidos111.
Antes de adentrar neste universo com dados que possibilitem compor um esboço do
perfil da legitimação e/ou ilegitimação setecentista em Sergipe, faz-se necessário
compreender o que era ser legítimo ou ilegítimo na sociedade colonial brasileira, de acordo
com as normas regidas pela legislação civil, expressas nas Ordenações Filipinas e religiosas
contidas nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia.
Pelos preceitos das Ordenações Filipinas e das Constituições Primeiras do
Arcebispado da Bahia, filhos legítimos eram aqueles provenientes do casamento legal dos
pais, ou seja: “[...] nascidos na constância do matrimônio, cujos pais mantiveram convivência
notória pelo menos durante 120 dias (período legal da concepção) dos 300 que antecedem o
nascimento” (LOPES, 1998, p. 74); e filhos ilegítimos112 quando gerados fora do casamento,

Franca. 2011; e a de Vera Maria dos Santos: A mulher de posses e a instrução pública elementar na
Capitania de Sergipe Del Rey nos anos setecentos. Universidade Federal de Sergipe. São Cristóvão. 2011.
110
Não encontrei nenhum. Somente um livro de assento de matrimônio do século XVIII da Freguesia de Nossa
Senhora da Piedade do Lagarto (1790-1803) e dois de registro de batismo (1785-1804) foram localizados no
site: <https://www.familysearch.org>. Acesso em: 22 ago. 2012.
111
O que não permite aferir dados de mortalidade familiar, sem as informações concludentes como idade, motivo
do óbito. Nos testamentos também esses dados são fornecidos pelos testadores nos mesmos parâmetros.
Infelizmente nem sempre contêm esses dados por estarem incompletos, danificados ou não foram registrados
no documento.
112
Segundo Brügger (2007), as pesquisas feitas com os registros paroquiais de batismo em São João Del Rey no
século XVIII levam a constatação de que o padre registrava a identificação do pai de filho mesmo sem o
mesmo estar presente, além dos filhos adulterinos, fato esse também observado por Shelila de Castro Faria
(1998) na freguesia de São Gonçalo do Recôncavo da Guanabara no século XVII, o que para esta autora seria
consequência da tentativa de normatização imposta pela Igreja que ainda não ocorria e que a prática
desapareceu dos registros no século XVIII. Para Brügger o caso de São João Del Rey representa resquício
desta prática uma vez que perdura até fins da década de 1840 (BRÜGGER, 2007, p. 73-75). Parte dos
registros paroquiais sergipanos está disponível no site: https://www.familysearch.org. Do século XVIII só há
um livro de registro de assento de matrimônio (maio de 1790 a fevereiro de 1803) oriundo da Freguesia de
Nossa Senhora da Piedade do Lagarto.
71

dividindo-se por sua vez em duas categorias: os naturais e os espúrios. Aos naturais113, filhos
nascidos de ligações consensuais ou concubinato entre pessoas solteiras e sem impedimento
para se unirem a eles, a legislação garantia os mesmos direitos aos bens e à sucessão que
usufruíam os legítimos, desde que não estivessem enquadrados na categoria de insucessíveis
(filhos de pais que mantinham relações sexuais não aceitas pela Igreja com mais de uma
mulher).
A legitimação da prole ilegítima podia ser mediante três meios: testamento 114, carta de
legitimação ou futuro casamento dos pais. Estas medidas legais habilitavam o filho natural a
suceder em herança como os filhos legítimos. Os filhos naturais de pais da nobreza não
legitimados não tinham direito à herança se os pais falecessem ab intestados, herdavam os
parentes mais próximos, o que não ocorria com os naturais de pessoas não pertencentes à
nobreza. Aos espúrios115 advindos de pessoas que possuíam impedimento ao matrimônio
(sacrílegos, adulterinos e incestuosos) não tinham direito à herança, nem sucessão no caso dos
nobres.

113
Devido às Ordenações Filipinas serem um Código de Lei civil que regia a vida das pessoas do Império
Ultramarino português no século XVIII, no Antigo Regime, existia a distinção entre pessoas nobres e
plebeias. Aos descendentes de nobres era necessário parecer Régio para se legitimarem, o que não ocorria
com os não nobres, que bastava declararem em escritura pública ou em testamento o desejo de perfilhar seus
filhos naturais. A perfilhação juridicamente é um ato individual e voluntário de um homem ou uma mulher
que reconhece uma pessoa como filho, só tendo validade se for através de um documento público não tendo
legalidade uma carta ou documento particular, em ambos os casos acima citados.
114
O testamento é um documento jurídico com dados religiosos, materiais e familiares no qual o testador
declarara sua condição de filiação.
115
Nesta pesquisa, os filhos sacrílegos (nascidos de relações sexuais entre um leigo e um eclesiástico): não
foram declarados pelos cinco padres testadores, uma vez que afirmaram não ter filhos, deixando como
herdeiros sobrinhos e afilhados, estratégias adotadas que permitiam, livremente, cuidar de seus filhos-
afilhados, filhos-sobrinhos, até mesmo em suas companhias, além de deixarem bens em seus testamentos
amparando assim sua prole sem, contudo, alardear na sociedade a real situação, ou solicitavam permissão
especial para doarem bens a seus filhos quando declarados e assim, portanto legitimados, mas não podendo
por lei herdarem, como foi o caso do Padre Manoel Francisco da Cruz, Sacerdote do Hábito de São Pedro,
que em 1778, devido à idade avançada de cinquenta e dois anos, solicita à Rainha D. Maria I mercê para
poder fazer uma doação entre vivos de dez mil cruzados a seus dois filhos, pequenos, havidos no estado
sacerdotal, sendo, portanto espúrios, para que os mesmos herdassem. Em 1780, estando com saúde e de pé,
faz seu testamento, no qual beneficia com sítios, gados e escravos o menino João Francisco da Cruz e a
menina Anna Josefa, seus filhos, mas não assim reconhecidos e sim como filhos da parda Lourença Francisca
Nabuco, mulher de Felles Álvares de Freitas, sua comadre. Em 1784 ele, doente de cama, modifica o seu
testamento doando à menina Anna Josefa e ao menino Francisco mais dois sítios. AHU-CTAN: Cx. 8. D. 23
e AGJ - SCR/C. 1º OF. Livros de Testamentos – Cx. 62 – Lv. 04 – pp. 102-122; os adulterinos (ambos ou
um dos pais era casado): dos dez testadores que declaram terem filhos naturais, oito eram casados, mas não
declaram o estado civil quando do nascimento desses filhos, artifício comumente utilizado para os filhos
terem direitos a herdarem; e os incestuosos (advindos de parentes ligados por consanguinidade e/ou
afinidade, até o 4º grau): não foi possível detectar grau de parentesco no universo pesquisado.
72

Acerca de Sergipe setecentista, somente um desses três meios de legitimação (os


testamentos116) foi encontrado nos acervos institucionais sergipanos. Neles recuperei os
registros em relação à legitimidade e/ou ilegitimidade dos moradores setecentistas da
Capitania de Sergipe117, conforme vemos na Tabela 3.

Tabela 3 – Situação jurídica da filiação dos testadores


Situação Nº Porcentagem
Declaram serem legítimos e nomearam os pais 60 63%
Declaram apenas os nomes dos pais 16 17%
Não declaram filiação 8 9%
Declaram serem filhos naturais, nomeando os pais 5 5%
Declarou apenas o nome da mãe 1 1%
Documentos incompletos e/ou danificados 5 5%
Total 95 100%
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 95 testamentos do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Como podemos perceber a maioria sabia quem eram seus pais, e se eram ou não filhos
legítimos. Somados com os que declaram os nomes dos pais, embora não se intitulassem
como legítimos ou ilegítimos, e os que assumiam essa condição de ilegitimidade, teremos
86% dos testadores cientes de suas origens (pai e/ou mãe), para o silêncio de 9%. Isso
demonstra que as famílias coloniais, mesmo de capitanias pequenas e sem projeção
econômica como Sergipe, eram estruturadas familiarmente.
Mas quem eram estes testadores ilegítimos? Tiveram eles também filhos em idêntica
condição, repetindo assim a mesma história? Como podemos observar, a seguir no Quadro 9,
dos 95 testadores apenas cinco declararam ser filhos naturais (o que representa 5% de
ilegítimos para 95 % de legítimos), o que coincide com a conclusão de Sheila de Castro Faria
(1998, p. 52) ao discordar de Mary Del Priore quando essa afirma ser pequena a porcentagem
de maternidades dentro de relações lícitas da elite colonial.

116
Foram selecionados, dentre os mais de 100 testamentos custodiados pelo Arquivo Geral do Judiciário de
Sergipe e o Arquivo Público Estadual de Sergipe, noventa e seis, os demais foram excluídos por estarem
fragmentados, não apresentando dados suficientes para esta pesquisa.
117
A presente pesquisa trabalha com um apanhado significativo da elite setecentista, não levando em conta a
população sem bens. Por não existirem estudos detalhados sobre o assunto, não nos permite afirmar,
discordar ou supor que a ilegitimidade era alta ou não.
73

Quadro 9 – Testadores que eram filhos ilegítimos


Testador Filiação
Filho natural de José Francisco Nunes e Anna Cardosa (crioula
Felix Francisco Nunes forra)

Ignacia Rodrigues de Sá Filha natural de Francisco Ferreira e de Mariana Rodrigues.


Maria Avilar Filha natural de Francisco Simioes de Avilar.
Ignacio Rodrigues Santos Filho de Ignacio Rodrigues com sua escrava.
Filho de Josefa Eugenia, de que sempre foi tido como filho,
porém exposto em casa do Alferes Ribeiro e sua mulher Maria
Luiz Carlos Pereyra Pereyra do Lago, seus padrinhos.
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 95 testamentos do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Apesar de serem filhos naturais, esses cinco testadores constituíram famílias, bens e
prestígio na sociedade, como demonstram os registros de seus testamentos e inventários 118,
fazendo parte de uma realidade social, conforme já mencionada, existente não só em Sergipe,
mas no Brasil, em Portugal e em toda a Europa, situação que, embora tida como ilegal, havia
fortes amparos na legislação portuguesa civil e eclesiástica. Vejamos um pouco de cada um
desses testadores, filhos ilegítimos.
Felix Francisco Nunes119, viúvo, lavrador de canas, filho natural de José Francisco
Nunes e Anna Cardosa (crioula forra120), falecidos. Casou-se com Francisca Caetana da
Conceição e deste matrimônio teve oito filhos, dois homens e seis mulheres, vivos na época
do testamento, com idades de trinta e cinco a dezesseis anos, três já casados. Deixa como bens
um sítio de terras, tarefas de canas plantadas nas terras do Engenho da Canabrava, moradas de
casas no sítio e na vila de Santo Amaro, vários trastes de casa121, um cavalo, sela e freio,
espadim122, 14 escravos, pares de botões de ouro, rosicler 123 de ouro, colar de ouro, imagem
de ouro de Nossa Senhora da Conceição, par de brincos de ouro, pares de brincos de pedra,
anéis com pedra, garfos de prata, pares de fivelas de prata, colheres de prata, cama aparelhada
de prata, espadas, foices, um livrinho, entre outros bens para seus filhos herdeiros legítimos,

118
Somente foram encontrados os inventários com testamentos de Felix Francisco Nunes e Luiz Carlos Pereyra,
dos demais apenas os testamentos.
119
Inventário de Felix Francisco Nunes, Comarca de Maruim, 1798, p. 10.
120
Escrava alforriada nascida no Brasil.
121
Trastes de casa. As alfayas de menos conta. BLUTEAU, 1728. Disponível em:
<http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1%2C2%2C3%2C4/trastes>. Acesso em: 25 jan. 2012. Alfaias. s.f.
Utensílio de adorno, tanto de casas como de pessoas. Disponível em:
<http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=alfaias>. Acesso em: 25 jan. 2012.
122
Espadim. Espada de folha cuta, & de pequenas guarniçoens. BLUTEAU, 1728. Disponível em:
<http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1%2C2%2C3%2C4/espadim > Acesso em: 25 jan. 2012.
123
Rosiclér. s.m. Peça de pedraria, que cinge o pescoço: outros dizem que era de cabeça e composto de
pingentes. (SILVA, 1789. Disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/2/Rosicl%C3%A9r>.
Acesso em: 25 jan. 2012).
74

pois não tivera filhos naturais. Ele só assina o testamento 124, justificando-se por estar muito
doente: “[...] não puder escrever este meu testamento roguei ao Senhor Padre João da Silva
Botelho que este por mim fizesse”. Todas as testemunhas assinaram 125.
Ignacia Rodrigues de Sá 126, viúva, lavradora de mandioca, filha natural de Francisco
Ferreira e de Mariana Rodrigues, falecidos. Casou-se com Graviel Dias Ferreira do qual pariu
doze filhos, só cinco estavam vivos na época do registro do seu testamento, dois homens e
três mulheres. Declara que teve uma filha antes do casamento 127, a qual já era falecida. As três
netas dessa filha herdaram a parte da mãe, uma vez que, legitimada no testamento, seus
descendentes tinham direito à herança como os legítimos. Possuía uma légua de terra onde
morava, localizada na Molununga, uma bolandeira128, dois cavalos, uma morada de casas na
Vila de Santa Luzia, uma caixa de vinhático 129, três escravos, um tacho e lavoura de
mandioca. Não sabia ler nem escrever. O seu testamento foi redigido por Sebastiam Joze da
Silva e assinado a seu rogo por Manoel Nunes Vianna, Tabelião Oficial da Câmara e Órfãos,
mas na aprovação do mesmo quem assina a seu rogo é Luis Ferreira da Rocha. O
testamenteiro foi seu filho, Simeão Dias Ferreira, mas também por não saber ler nem escrever
(assina em cruz, seu sinal costumado) quem assina a seu rogo é Jose Alves Filgueira. Todas as
testemunhas assinaram.
Maria de Avellar130, viúva, filha natural de Francisco Simioes de Avellar, casada na
Igreja com Salvador Coelho da Silva (lavrador de mandiocas), de cujo matrimônio teve oito
filhos (quatro morreram de menor idade e quatro estão vivos quando da confecção do
testamento, dos quais três são casados e um solteiro). Deixa uma escravinha de três anos de
idade para as duas netas e para seu filho Francisco Simoens o que sobrara da terça pela boa
companhia que sempre lhe fez e ser essa sua vontade. Declara os seguintes bens: oito
escravos, uma morada de casas de telha na cidade de São Cristóvão e outra morada de casas

124
Seu testamento está anexado ao inventário, o qual fornece mais dados sobre o testador e sua família.
125
É de praxe dizer se as testemunhas assinaram. Quando alguma assina com uma cruz é informado, como
também quem assinou a seu rogo.
126
AGJ - SCR/C.1º OF. Justificação cível Cx. 01-32 (p. 12-19).
127
Pelas Ordenações Filipinas, a mulher casada ou solteira que tivesse filhos fora do casamento não era obrigada
a criá-los, para não prejudicar sua reputação, sua honra. O conceito de honra da mulher estava atrelado à
condição social da mulher e não a sua virgindade. Era considerada mulher honrada àquela que pertencia a
nobreza e a ela era permitido abandonar filho natural, enquanto que a mulher pobre, sem nobreza, a
legislação a obrigava a cuidar dos filhos naturais mesmo quando solteiras. (LOPES, 1998, p. 83).
128
Bolandeira - s.f. Bras. Nos engenhos de açúcar, grande roda que transmite o movimento às mós. / Máquina
para descaroçar algodão. / Roda puxada por animais, que aciona o rodete de ralar mandioca. / / Tipografia
Bandeja para transportar as composições. (Disponível em: <
http://www.dicionariodoaurelio.com/Bolandeira>. Acesso em: 25 jan. 2012).
129
Vinhático. Pao do Brasil, muito amarello. (BLUTEAU, 1728. Disponível em: <
http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1/vinh%C3%A1tico>. Acesso em: 25 jan. 2012).
130
AGJ - SCR/C.1ºOF. Justificação Cível Cx. 01-32. p.11.
75

de telha em Nossa Senhora do Socorro, um machado, três enxadas, um escavador, uma marca
de marcar gado, uma caixa pequena já usada. No testamento de seu marido há a relação de
treze escravos, pau paraíba 131, duas caixa vinhático, uma roda de ralar mandioca com seus
acessórios, uma arma de fogo, uma sela e freios velhos, uma catre 132 de mão, roças de
mandioca, dois machados, cinco enxadas e que deve a um filho uma tenda de ferreiro com
dois grandes fornos que depois vendeu ao outro filho. Declara não saber escrever, solicitando
a Jose Antonio da Silva e Mello que faça o registro e, após, informe que leu. Todas as
testemunhas assinaram.
Ignacio Rodrigues Campos, filho natural de Ignacio Rodrigues e sua escrava defunta,
liberto pela quantia de cento e vinte mil réis, casado na forma dos “Sagrados Ritos” com
Domingas da Afonseca, declara não ter filhos, mas faz uma ressalva: “Declaro que não tenho
filha nem filho que aja de suceder em meos bens salvo se for algum (sic) adultro”, o que dá a
entender ter tido relações sexuais fora do casamento. Deixa como bens dois poldros, quatro
bestas, três vacas e quatro escravos para seu herdeiro, seu sobrinho, o Capitão Joze Parede de
Vasconcellos. Diz não saber escrever, solicitando ao Alferes Joze Carlos Pereira que redija
seu testamento, mas o assina com uma cruz. Todas as testemunhas assinam.
Luiz Carlos Pereira133, lavrador e criador, tido como filho de Josefa Eugenia, foi
exposto134 em casa do Alferes Antonio Diniz Ribeiro e de sua mulher Maria Pereira do Lago,

131
Faca de ponta.
132
Catre. s. m. 1. Camilha dobradiça. 3. Leito tosco e pobre. (Disponível em:
<http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx>. Acesso em: 25 jan. 2012.
133
AGJ-SCR/C.1ºOF. Apelação. Cx. 0103.
134
Como não foi legitimado pela sua mãe, era considerado pelas leis portuguesas como filho natural. Os expostos
nem sempre tinham sua filiação desconhecida, eram expostos em casas de parentes, amigos e até mesmo na
própria casa como meio de salvar a “honra” da mãe para que a mesma pudesse voltar para o mercado
matrimonial, como talvez seja o caso do exposto Luiz Carlos Pereira que, nascendo em Itabaiana, foi batizado
em outra freguesia, a de Nossa Senhora do Socorro da Cotinguiba, estratégia utilizada por muitos dos pais para
não tornar público o enjeitamento, uma vez que pelas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia o
pároco tinha que registrar no livro de batismo o nome dos pais se fosse notório e não houvesse escândalo.
Embora não forneça pista de onde foi criado, se na casa dos padrinhos na Freguesia de Nossa Senhora do
Socorro da Cotinguiba ou em Itabaiana, local de seu nascimento, informa que casado residia na região de
nascimento, na localidade denominada Pé do Viado. O certo é que nada herdou dos padrinhos ou mãe e que
todos seus bens foram adquiridos por esforço próprio como faz questão de assim afirmar: “Declaro que depois
de cumpridos os meos legados e obras pias declaradas neste meu testamento, por não ter herdeiros forçados,
por ser minha May já morta, e nam ter eu filhos nem Legitimos, e menos mal havidos que hajam de se
me dar na herança e por que os bens que possuo da minha parte nam foram herdados que hajam de se
me suceder Linha Reta por serem por minha industria adquiridos com adjutorio de Deos Nosso Senhor
[...]” (grifo meu). Por não ter tido filhos deixa para seu sobrinho e afilhado, criado como filho, todo o
remanescente da sua herança juntamente com a sua terça, “[...] instituo por meu herdeiro de todo o
remanescente da minha fazenda e terça o meu sobrinho Theodozio Fagundes Pereira filho de meu
Compadre e segundo testamenteiro o Capitam Jozê Custodio da Silva pelo ter criado em minha caza
com amor Paternal, com declaração porem que o que tocar ao dito meu herdeiro e instituido depois de feito
Inventario e partilhas com minha mulher, ficará em poder desta, para entregar ao dito meu herdeiro, quando
este for capaz de dominar seos bens sendo cazado ou Emancipado, ou por outra qualquer razão sem que precise
para esta herança se dê tutor ao meu herdeiro e menos se obrigue a minha mulher a dar contas desta herança
76

seus padrinhos. Casado com Angelica Perpétua de Jesus, de cujo matrimônio não tiveram
filhos, por isso instituiu o seu sobrinho como herdeiro, justificando tê-lo criado em sua casa
com amor paternal, e pede à sua mulher que só entregue sua herança quando o mesmo puder a
reger, casado ou não, o que nos leva a pensar que ainda era de menor idade. Apesar de não
informar em testamento seus bens, no inventário há a relação de dez escravos, três tamboretes
de encosto, um catre de mão, uma espreguiçadeira, duas caixas, uma canastra, dois caixões de
despejo, um tear de tecer panos com seus aviamentos, uma arma de fogo, uma sela bastarda
com estribos de ferro, freios com suas cabeças e rédeas, um par de esporas de ferro, um
machado, duas enxadas, duas cangalhas, vinte e cinco cabras, vinte e uma ovelhas, duas vacas
paridas, cinco novilhos, um bezerro, um cavalo, uma égua, vinte e quatro côvados135 de
camelão 136 azul, roda de moer mandioca, tachos de cobre, espreguiçadeira, duas colheres de
prata, imagem de ouro de Nossa Senhora da Conceição, pares de botões de ouro, jogo de
contas, par de brincos, morada de casas na vila, sítio de terras onde mora com casas, malhada
e mais benfeitorias. Declara que o testamento fora escrito pelo Licenciado 137 Antonio Alvarez
Bastos e que depois ele assinou com “a própria mão”.
Além desse testador que foi uma criança exposta, encontrei cinco (05) testadores138
acolhendo, em suas casas, crianças enjeitadas139.
O abandono de milhares de crianças em toda a Europa ocorria desde o século XVIII.
Mas o amparo aos enjeitados140 existiu como caridade cristã desde o século XII e estava

que só o fará o dito meu herdeiro quando for capaz de o dominar advertindo que quando se lhe entregar a
herança será com os lucros e prejuizos que houverem” (grifo meu), fato esse não respeitado pela sua mulher
que é acusada pelo pai do afilhado de, com a ajuda do repartidor, primo legítimo da mesma, estar demorando
com a partilha com o intuito de prejudicar seu filho, entrando o mesmo com uma apelação. Seus bens foram
avaliados em oitocentos e setenta e seis mil e quinhentos e setenta e seis réis (876$576), que depois de
deduzidas as dívidas e despesas com missas, legados e alforrias ficaram em setecentos e noventa e sete mil e
setecentos e trinta e cinco réis (797$735), cabendo à sua mulher trezentos e noventa e oito mil e oitocentos e
sessenta e sete reis (398$867) e para seu herdeiro duzentos e dois mil e cento e sete reis (202$107), motivo
certamente de toda querela. AGJ - CR/C.1º OF. Apelação. Cx. 0103.
135
Côvado. s.m. Antiga medida de comprimento equivalente a 0,66 m. Disponível em:
<http://www.priberam.pt/DLPO/Default.aspx>. Acesso em: 3 dez. 2011.
136
Camelão. Certo pano, que se fazia de pello de camelo, done lhe veyo o nome. Camelaõ, hoje He panos; que se
faz de pello de cabra om lãa, ou seda. (BLUTEAU, 1728. Disponível em:
<http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1%2C2%2C3%2C4/camel%C3%A3o>. Acesso em: 25 jan. 2012).
137
Licenciado. s.m. Grão de Licenciado; o que nas Universidades se dá ao approvado nos Exames de conclusões
Magnas, e Exame privado. (SILVA, 1789. Disponível em: <
http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1%2C2%2C3%2C4/Licenciado>. Acesso em: 25 jan. 2012).
138
Clara Martins de Castro, Escolastica de Almeyda de Mendonça, Francisco Joze de Santa Rita, Joam da Cruz
Corrado (Padre/português) e Joze Pinheiro Lobo.
139
Maria Luiza Marcilio, estudiosa do assunto, é de opinião que: “Vendo o fenômeno do abandono de crianças
na perspectiva histórica ampla, abrangente, podemos afirmar, sem incorrer em grandes erros, que a maioria
das crianças que os pais abandonaram não foram assistidas por instituições especializadas. Elas foram
acolhidas por famílias substitutas”. (MARCILIO, 2011, p. 55).
140
Enjeitado. Menino enjeitado, he o que desamparado de seus pays, e esposto no adro de huma Igreja, ou
deixado no lumiar da porta de hum Convento, ou de pessoa particular, ou depositado no campo a Deos, e à
77

vinculado à crença no Limbo, uma espécie de purgatório para crianças que morriam sem o
batismo. O fato perturbava o clero e os católicos, por isso levou o ocidente católico a criar
mecanismos de assistência nos séculos XVII e XIX como as Casas da Roda 141 e os expostos
ficavam sob os cuidados das Santas Casas de Misericórdia. A Santa Casa de Misericórdia de
Lisboa foi a primeira de Portugal, fundada em 1498 pelo Rei D. Manuel I e no Brasil, no
período colonial só foram instaladas três Rodas dos Expostos: a primeira foi em Salvador em
1726, a segunda no Rio de Janeiro em 1738 e a terceira em Recife em 1789. Ao Estado cabia,
através das Câmaras142, assisti-los até os sete anos de idade. Estas ações tinham como objetivo
evitar o chamado abandono selvagem143.
Para Izabel Guimarães Sá (1992) nos séculos XVII e XVIII a jurisprudência acerca da
condição jurídica do exposto144 era fragmentada, somente consolidada no século XIX. Porém,
duas questões eram as mais conflitantes: tipificar a filiação – legítimos ou ilegítimos; e a
perda do pátrio poder de seus pais, uma vez que em ambas as questões implicavam em direito
à herança. Quanto à primeira, aceitou-se a legitimidade presumida em caso de dúvida, questão
essencial para a época, uma vez que dela dependia a inserção social do exposto numa
sociedade em que o ingresso em quadros da igreja e da justiça era exigida a comprovação de
legitimidade. A segunda questão dizia respeito aos pais que, conforme estabelecido,
perderiam o pátrio poder por terem abandonado os filhos.

ventura, cruelmente padece o castigo dos illicitos concebidos de seus pays. (BLUTEAU, 1712 – 1728.
Disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1/enjeitado>. Acesso em: 18 dez. 2011). Pessoa que
foi abandonada por seus pais quando nasceu. Disponível em:
<http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=enjeitado>. Acesso em: 19 dez. 2011.
141
As rodas de expostos surgiram na Idade Média, na Itália, com as confrarias de caridade no século XII. Em
Portugal e no Brasil foram as Santas Casas de Misericórdia que instalaram as rodas para o recolhimento dos
enjeitados.
142
Quem encontrasse um recém-nascido na rua ou recebesse diretamente dos pais, deveria recolher e batizá-lo
para que assim, de posse do certificado do pároco, pudesse solicitar ajuda financeira da Câmara. Para
Venâncio “O abandono funcionou na prática como um trágico regulador da demografia urbana da sociedade
brasileira nos séculos XVIII e XIX, diminuindo o número de filhos de miseráveis que perambulavam pelas
vilas e cidades coloniais” (VENÂNCIO, 2009).
143
O abandono selvagem era assim denominado quando o recém-nascido era largado nas ruas, becos e moitas,
ficando a mercê dos animais e das intempéries da natureza, fato que incomodava a consciência dos cristãos
da época e que levou a criação das Rodas dos Expostos, como uma forma de “humanizar” o abandono.
144
Desde o século XV que em Portugal o termo enjeitado ou exposto já era utilizado para denominar recém-
nascidos abandonados pelos pais nas ruas, becos, portas de igrejas, conventos ou de casas. Para Renato Pinto
Venâncio existe uma diferença entre crianças expostas das enjeitadas. As expostas são aquelas abandonadas
pelas mães em lugares a esmo, deixadas para morrer, enquanto que as enjeitadas eram abandonadas em
conventos, hospitais e casas de família, o que demonstrava haver preocupação e cuidado por parte de quem
as enjeitava (VENÂNCIO, 1999). Nos testamentos sergipanos não vejo essa diferença, como demonstra o
Quadro 10 - Testadores beneficiadores de expostos/enjeitados.
78

Outras questões, para a autora supracitada, só foram estabelecidas legalmente no início


do século XIX: a condição jurídica do exposto era transitória 145, pois correspondia apenas aos
primeiros anos de vida; a partir dos sete anos de idade passava a ter o mesmo status de órfãos,
com direito a um tutor designado por juiz que providenciaria o aprendizado de um ofício,
sendo emancipado aos vinte anos146 de idade; a sua naturalidade era considerada a do local em
que foi abandonado; podia herdar qualquer tipo de bens, dentro das disposições legais em
vigor e era uma pessoa livre mesmo sendo filho de escravo.
O auxílio aos expostos147 se dava de três formas: a Roda dos Expostos, gerenciada
pelas Casas de Misericórdia; as Câmaras que pagavam as mães de leite; e o acolhimento pelas
famílias. O enjeitamento148 no meio rural era mais raro e as crianças eram geralmente
adotadas como filhos de criação, agregados e na maioria das vezes como afilhados 149,
integrados desta forma na família que o acolheu, criando laços de parentesco espiritual e
afetivo a ponto de serem incluídos nos testamentos, sendo beneficiados com escravos,
dinheiro ou até nomeados como herdeiros da terça ou universal, como ocorreu com alguns dos
expostos setecentistas sergipanos150, conforme pode ser observado, a seguir, no Quadro 10.

145
Juridicamente sim, mas igual não acontecia no aspecto social nem íntimo. Na Freguesia de Nossa Senhora da
Piedade do Lagarto os expostos tiveram sua condição registrada e permanece por toda a vida ao ponto deles
registrarem em testamento.
146
Os órfãos legítimos eram considerados, pela legislação, menores até os vinte e cinco anos.
147
Em Sergipe colonial os registros dos expostos ou enjeitados se perderam com a destruição dos livros de
registro de batismo do século XVIII, da documentação das Câmaras, além da inexistência de “Roda dos
Expostos”, fontes essas que continham dados sobre o sexo, cor, idade, localidade e até mesmo os motivos do
abandono via bilhetes que essas crianças às vezes traziam, restando apenas os poucos dados encontrados nos
testamentos coloniais sergipanos.
148
Enjeitar um filho não era considerado crime pela legislação portuguesa, apenas provocava a perda do pátrio
poder de forma temporária ou permanente, uma vez que as mães podiam reaver o filho deixado na Roda ou
entregue a uma família, no entanto o infanticídio constituía crime. A mãe pobre ficava desobrigada de pagar
todas as despesas com a criação ou de doar uma esmola às obras pias da Misericórdia, o que não ocorria com
as que tinham bens.
149
O apadrinhamento era reconhecido socialmente como um parentesco espiritual, o que conferia respeito e
obediência por parte do afilhado, assim como proteção e auxílio por parte dos padrinhos e das madrinhas.
(CAVAZZANI, 2005).
150
Clara Martins de Castro, casada com o Capitão Mor Valerio de Moura Homem, com uma filha de cinco
anos, deixa como herdeira de sua terça uma exposta. Em seu inventário foram relacionados escravos, ouro
(cruz, votas, imagem de Nossa Senhora da Conceição, brincos, argolas), talheres de prata, gado, ovelhas,
carneiros, roda de ralar mandioca, ferramentas (enxadas, machados), forno de cobre, duas casas na vila, dois
sítios, entre outros bens. Apesar de ela dizer em seu testamento que não tem herdeiros forçados, na autuação
do seu inventário consta como herdeira uma criança de cinco anos chamada Roza, a qual seu marido é
administrador assinando o termo de tutela da referida órfã. Em momento algum ele refere-se à órfã como
filha, dizendo ser seu administrador, tutor, o que leva a crer ser a exposta herdeira, sua filha. Seu testamento
foi escrito e assinado a seu rogo pelo Alferes José Carlos Pereira por ela não saber ler nem escrever, mas
assina com uma cruz, seu sinal costumado; Joze Pinheiro Lobo, Capitão, casado por carta de ametade com
Margarida Eugenia de Menezes filha do Capitão Mor Antonio Luiz Fialho e de sua mulher Thereza Maria da
Purificação, sem filhos, deixa como herdeiras as irmãs. Proprietário do Engenho das Anhumas da Vila Nova
Real de El Rey do Rio de São Francisco, fazenda de gado, sítio, escravos, cavalos de estribaria, prata
(espadim, espora, fivelas de sapatos, colheres e garfos), deixa todo o ouro que possui para a esposa, tachos
79

Quadro 10 – Testadores beneficiadores de expostos/enjeitados


Nome Tipo de benefício deixado aos expostos/enjeitados
Deixa como herdeira universal a exposta em casa de Gonçalo Tavares da
Clara Martins de Castro Motta.
Escolastica de Almeyda de
Mendonça Deixa um escravinho para seu enjeitado pelo amor que o criou.
Francisco Joze de Santa Declara que deixa ao seu enjeitado, pelo amor a Deus, uma crioulinha, filha
Rita de uma sua escrava.
Joam da Cruz Corrado Deixa a seu afilhado exposto em sua casa uma fazenda de gados com todos
(Padre/português) os animais, escravos e terras.

Joze Pinheiro Lobo Deixa vinte e cinco mil réis para a afilhada enjeitada em sua casa.
Deixam a enjeitada Rosa Maria cem mil réis em dinheiro ou em bens. Ao
enjeitado Domingos de Souza um cavalo selado e enfreiado, esporas de prata,
Serafim Mendes de Souza e espadim de prata, toda a roupa de vestiário e do marido, escravo ou cem mil
sua mulher Francisca réis. A Maria Benedita enjeitada ou exposta em sua casa e hoje casada com
Perpetua de Almeida Joaquim de Souza Campos deixam oitenta mil réis.
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 95 testamentos do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

de cobre, roda de ralar mandioca, dois carros com bois e cangas, roupas. Beneficia a enjeitada, afilhada, em
sua casa com vinte e cinco réis. Deixa o seu cavalo selado e enfreado e um escravo para a sua “companheira
Margarida Eugenia” (concubina?). O testamento é escrito por Joam Lins de Albuquerque e assina “com sua
própria mão” seu sinal costumado; Joam da Cruz Conrado (português), padre da Freguesia de Lagarto,
proprietário das fazendas Matibe e Rio Fundo e mais duas fazendas do Colégio em terras próprias com
animais e escravos, duas casas de sobrado e demais bens; deixa ao seu afilhado exposto em sua casa, Manoel
Joaquim da Cruz, a Fazenda da Matibe com todos os animais e terras, escravas com seus filhos, salva e
colheres de prata, com a condição de que ele se ordene padre. Declara bens de uso pessoal como fivelas de
prata, cordão de ouro com relicário de Cristo em que está o Santo Lenço, uma imagem de Nossa Senhora
Santa Anna, anel de ouro com topázio amarelo e uma boceta de prata e que os demais bens serão adquiridos
pelas suas próprias Ordens. Nomeia por herdeiro universal seu sobrinho, o Padre Manoel Ignacio Dias da
Fonseca. Seu testamento é escrito e assinado a rogo por Joam Rodigues Ferreira. O Padre testador assina com
seu sinal costumado; Escolastica de Almeyda de Mendonça, viúva de Gonçalo da Fonseca Freire, teve dois
filhos que faleceram depois do pai. Moradora no Engenho Junco, possuía escravos, fazenda de gado
arrendada, animais, morada de casas na cidade de São Cristóvão. Deixa para seu enjeitado um escravo. Deixa
por herdeira universal a sobrinha Francysca Perpetua de Almeyda, mulher do seu primeiro testamenteiro, o
Capitão Serafim Mendes de Souza. Seu testamento foi escrito e assinado por seu rogo pelo Doutor Ignacio
Barboza da Franca Corte Real por ela não saber ler nem escrever; Francisco Joze de Santa Rita, casado
duas vezes, teve um filho da segunda esposa, declara que foi homem de negócios, proprietário do Engenho
Jacarecica, três fazendas de canas, gado vacum e cavalar, aparamento de ouro e prata, escravos. Deixa para
seu enjeitado, Joze Thomaz, uma crioula (escrava), um cavalo de estribaria selado e enfreado, um espadim de
prata, um par de fivelas e esporas de prata. Tudo deverá ser entregue ao enjeitado (menino) quando tiver
idade competente para reger e governar seus bens, caso ele morra esses bens ficarão para o seu filho legítimo
e herdeiro João Gomes de Mello. O documento não fornece dados acerca de quem escreveu e se o testador
sabia ler e escrever por estar incompleto; Serafim Mendes de Souza e Francisca Perpetua de Almeida,
casados por carta de ametade, tinham entre outros bens facas com cabo de prata, colheres, garfos, desfiadeira
e salva de prata, tachos de cobre, caixa velha de vinhático, caixa grande com fechadura, enxadas, foices,
machado velho, Imagem de Cristo com remates de prata na cruz, Imagem de Santa Anna com resplendor e
coroa de ouro, mesa com oratório, cinquenta e oito escravos, cabeças de gado, bois mansos, carro velho e
com cangas, sendeiro velho, fazenda de canas, sítio de terras na “Tabua do Certão”. O casal tem em sua casa
quatro enjeitados deixando-os para a enjeitada Rosa Maria, cem mil réis em dinheiro ou bens; para a afilhada
do casal enjeitada Joanna de Almeida, filha do falecido compadre Antonio Lopes de Almeida, uma crioulinha
filha da escrava deles e se ela morrer pede para substituir por outra ou por cem mil réis; ao enjeitado
Domingos de Souza deixa um cavalo selado e enfreado, duas esporas de prata, um espadim de prata, toda a
roupa do testador Serafim e dois escravos, caso um venha a morrer também seria substituído por cem mil réis
e à enjeitada Benedita, casada, deixa oitenta mil réis. Ambos assinaram o testamento de próprio punho.
80

Dos 95 testadores apenas dez tiveram filhos naturais151. Cinco declaram que tiveram
seus filhos quando não eram casados, o que os caracteriza como filhos naturais. Os outros
cinco testadores nada informam, mas denominam esses filhos como naturais.

Quadro 11 – Testadores que tiveram filhos naturais


Estado Nº Estado civil
Nacionalidade civil Nº filhos filhos Total quando teve
Testador testador testador legítimos naturais filhos filho natural
Antonio do Espírito
Santo Brasileira Casado 9 2 11 Não informa
Bernabe Ferreyra dos
Reys Brasileira Casado 2 1 3 Solteiro
Francisco Joze de
Souza Brasileira Casado 1 4 5 Solteiro e viúvo
Ignacia Rodrigues de
Sá Brasileira Casada 12 1 13 Solteira
Vários,
Ignacio da Costa de uma
Feijo Brasileira Casado 12 escrava 12 Solteiro
Antonio Pereira de
Vasconcellos Portuguesa Casado 6 2 8 Não informa
Domingos Lopes
Ferreira Portuguesa Solteiro Não teve 3 3 Solteiro
Manoel Rodrigues de
Carvalho Portuguesa Viúvo 4 1 5 Não informa
Um português, filho
de Manoel Pereira
Mendes e Maria
Vieyra de Lemos Portuguesa Casado 8 3 11 Não informa
Verissimo Pereira de
Lima Portuguesa Solteiro Não teve 4 4 Solteiro
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 95 testamentos do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Para ter uma ideia, mesmo que aproximada da prole legítima dos moradores
setecentistas de Sergipe, utilizei informações dos dois bancos de dados que servem de suporte

151
Eram considerados filhos naturais aqueles nascidos de ligações consensuais ou concubinato entre pessoas
solteiras e sem impedimentos para se unirem. O termo bastardo não foi muito utilizado em Sergipe
setecentista. Nesta pesquisa, dos dez testadores que declaram filhos ilegítimos apenas um, o português
Antonio Pereira de Vasconcellos, proveniente da Freguesia de São Sebastião e residindo na Vila de Nossa
Senhora da Piedade do Lagarto os denominou de bastardos: “Declaro que sou cazado co (sic) D. Anna Maria
da Conceição e tenho seis filhos declaro mais que tenho dous filhos bastardos hú Maxo e hua femia o maxo
pr nome Euzebio Fr co o tal deve pr hú rol e huma obrigação como fica inteirado e cazo que queira entrar repor
o que deve ao cazal e tudo coanto elle ficar devendo deixo lhe pelo amor de deus não entrando no cazal”
(grifos meus). AGJ- MAR/C. 2º OF. Inventário Cx. 02-808. p.03. Segundo as Ordenações Filipinas, no
Livro, Título XCIII, nota 7, p. 943, o termo bastardo era comumente utilizado em Portugal para designar o
filho ilegítimo, o que justifica esse português assim os denominar. Para Alzira Lobo de Arruda Campos, nas
fontes por ela pesquisadas sobre São Paulo colonial, bastardo aponta para um significado puramente étnico -
era como se designavam os mamelucos (filhos de brancos com índios), afirmando que eram “[...]
provavelmente de primeira geração, ainda mal aculturados [...]” (CAMPOS, 2003, p. 252).
81

para este trabalho: o banco de dados dos testamentos, composto por testamentos anexados
nos inventários (22), registrados em livros (68), em justificação cível (1) e prestações de
contas de tutoria (4), perfazendo 95 testamentos; e o banco de dados dos inventários sem
testamento formado por 65 documentos, totalizando ambos os bancos de dados 160
documentos.
Os testamentos são os que fornecem uma radiografia da prole da elite setecentista de
Sergipe, uma vez que informa a legítima e a ilegítima, sendo que sob sigilo segredos são
revelados, suspeitas confirmadas e certezas negadas. Dos 95 testadores, 83 eram ou foram
casados, apenas 21 não tiveram filhos, o que representa um alto índice de fecundidade (75%)
das famílias constituídas via casamento152. Deste universo de casados, 83, somente dez
testadores tiveram filhos fora do casamento153, o que caracteriza baixo índice de concubinato
declarado, da elite estudada. Levando-se em conta o fato de que os solteiros tiveram filhos
ilegítimos, foram apenas dois dentre 12 (Quadro 12).

152
Dos 83 que passaram pelo casamento e tiveram filhos, somente no testamento de Paschoal Mendes Pereira
não foi possível saber se teve filhos, pois o documento estava incompleto.
153
Ou seja, estavam em concubinato, tipo adulterino. Fonte: APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32; AGJ -
SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 01-06; AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de
Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp.100-103; AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 -
pp. 72-80; AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 66-72; AGJ - SCR/C.1ºOF.
Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 177-186; AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx.62 -
Lv. 06 - pp.13-16; AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 01- pp. 43-49; AGJ - SCR/C. 1º
OF. Testamento Cx. 03-69; AGJ - MAR/C. 2º OF. Inventário Cx. 02-808. Não encontrei essa informação nos
inventários sem testamentos.
82

Quadro 12 – Testadores que tiveram filhos ilegítimos


Nº filhos
Testadores Estado Civil naturais Declaração
Antonio do Espírito Santo Casado 3 “[...] hua filha natural casada com Francisco da Conceição a qual hera captiva e hera
viúva do Jordão moradora em Sergipe D’El Rey e eu alforrei dando por ella noventa e
sinco mil Reis e quando a casei lhe dei uma peça de xitta que me custou seis mil Reis e
ao ditto seo marido dei em fazenda quatorze mil reis que impostta tudo sento e dez mil
reis com os quais deve entrar a colação querendo de mim herdar. Declaro que tão bem
tenho hum filho natural de nome Dimecianno Rodrigues do Espirito Santo que tão bem
forrei dando por elle sincoenta mil reis [ilegível] esmolla mais trinta e tres mil reis na
acomodação de hum Crime ou Devaça que se tirou e eu tenho dado mais hum
Mesticinho de nome Gonçallo, e querendo tão bem entrara herança será com tudo isto
que lhe tenho dado e desprendido [...]”
Antonio Pereira de Vasconcellos (português) Casado 2 Euzebio Francisco e uma fêmea.

Filho de Manoel Pereira Mendes e Maria Casado 3 Pascoal, Florência e Maria (defunta ).
Vieyra de Lemos (português)
Francisco Joze de Souza Casado 4 Quintiliano Jozê de Souza, Manoel Vicente, Jozê e Maria.
Ignacia Rodrigues de Sá Casado 1 Lourença, falecida (3 netas: Maria, Angélica e Anna ).

Ignacio da Costa Feijo Casado Vários “Declaro que sendo solteiro tive mais tratos com a mestiça por nome [ilegível] escrava
filhos do Theodozio Ferreira Costa me dava todos filhos que paria por meus o que é natural”.
Manoel Rodrigues de Carvalho (português) Casado 1 Narciso.
Domingos Lopes Ferreira (português) Solteiro 3 “Declaro que não [corroído] e nem nunca fui cazado e a muitos annos moro nesta
Freguesia do Pé do Banco, e nella tive de hua [corroído] escrava de nome Francisca que
[corroído] se acha forro dois filhos, Manoel Lopes e Marianna Lopes cazada com Pedro
Gomes e depois disso tive de outra escrava ao presente falecida outra filha de nome
Maria Francisca que se acha cazada com Manoel [i] e tanto este como os dois asima os
declaro e instituo por meus herdeiros forçados”.
Verissimo Pereira de Lima (português) Solteiro 4 Joze Pereira, Antonio Esteves, Vesuino Pereira e Anna Lucia.
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 95 testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.
83

O número de filhos por casal no Brasil colonial não era alto como constata Alzira
Campos ao estudar as famílias coloniais paulistas: “Com enormes dificuldades, a paulista
punha ‘a lume’ poucos filhos, em intervalos intergenésicos difíceis de precisar” (CAMPOS,
2003. p. 431). Segundo Brügger (2007), apesar de os filhos serem componentes essenciais
para os projetos das famílias, além de constituírem mão-de-obra, não era essencial ter um
número elevado para firmar alianças via compadrio e casamentos. O mesmo ocorreu em
Sergipe Del Rey. Os dados encontrados nos testamentos e inventários evidenciam que a prole
da elite setecentista de Sergipe também não era numerosa e os filhos existentes eram
resultantes de casamentos sucessivos como o de Archangela Pereira de Almeida 154 - que pariu
13 descendentes, seis no primeiro casamento e sete no segundo. Quanto ao intervalo
intergenésico também não pode fazer uma estimativa, devido à pouca quantidade de famílias
com idades sequenciadas dos filhos, relacionadas nos inventários post mortem, uma vez que
quando casados (homens ou mulheres), independentes de serem menores, eram considerados
emancipados, mesmo não constando as idades, e outros apenas informavam serem maiores,
ou seja, de vinte e cinco anos em diante (Apêndice A).
Os inventários sem testamentos só revelam a prole legítima, no entanto a ilegítima
apenas em duas situações: encontrar no decorrer do processo, petições de filhos naturais
reivindicando sua parte na herança, o que não foi o caso dos aqui analisados, e quando o
inventariado só tinha filhos naturais, legitimados como herdeiros. Assim aconteceu com o
português, Domingos Lopes Ferreira, natural de São Salvador da Tiboza, Arcebispado de
Braga, solteiro, mas com três filhos naturais 155 que teve com duas escravas, conforme
declarou em seu testamento:

Declaro que não [sou] e nem nuca fui cazado e a muitos annos moro nesta
Freguesia do Pe do Banco, e nella tive de hua [minha] escrava de nome
Francisca que [ao prezente] se acha forro dois filhos, Manoel Lopes e
Marianna Lopes cazada com Pedro Gomes e depois disso tive de outra
escrava ao presente falecida outra filha de nome Maria Francisca que se
acha cazada com Manoel João e tanto este como os dois asima os declaro e

154
AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 01 - p. 25-33.
155
Manuel Lopes Ferreira, assinante, maior de idade, casado e inventariante de seu pai; Marianna Lopes, casada
com Pedro Gomes de Barros; e Maria Francisca, casada com Manuel de Mello, faleceu deixando um filho,
João, órfão de mãe com três meses, e seu marido é obrigado a fazer o seu inventário, que é anexado (p. 40-
61). Nele (p. 41) há a informação de que ela faleceu sem testamento em 15/04/1801, nove dias após seu pai
(06/04/1801) deixando um filho de três meses, o qual vem, também, a falecer quatro meses depois de sua
morte (inventário p. 40), como consta o atestado de sepultamento passado pelo vigário (p. 61). Ambas as
filhas receberam dotes, herdando no total seiscentos e vinte e dois réis e cinquenta e cinco centavos.
Documentos importantes para um estudo mais aprofundado sobre legitimação de filhos naturais provenientes
de escravas com portugueses.
84

instituo por meus herdeiros forçados tanto pellos ter por filhos e por tais os
habilitar em juízo como por vocabulo do Mundo. (grifo meu156).

O escrivão na autuação 157 (Figura 1, a seguir) arrola os três filhos, informando que são
filhos naturais, confirmando assim a legitimação feita pelo português Domingos Lopes
Ferreira ao declararem em seu testamento.

156
AGJ-MAR/C. 2º OF. Inventário Cx. 02-808. p. 6.
157
Capa do processo no qual vêm os dados principais.
85

Figura 1 – Capa do inventário do português Domingos Lopes Ferreira

Fonte: Inventário do português Domingos Lopes Ferreira. AGJ - MAR/C. 2º OF. Inventário. Cx. 02-80

Em face da maioria dos inventários e testamentos constituir-se de documentos


incompletos, fragmentados, apagados, danificados, só foi possível levantar, com precisão, o
número de filhos legítimos de 71 inventários que somados à prole legítima dos testamentos
86

declarada pelos 47 testadores (Quadro 13), proporcionaram uma visão exata do número de
filhos legítimos de 118 famílias (Apêndice A).

Quadro 13 – Nº de filhos declarados pelos inventariantes e testadores


Nº Inventariados Nº filhos legítimos
1 Aguida Francisca de Goes 2
2 Alexandre Gomes Ferrão Castelobranco 10
3 Anna Jozefa do Sacramento 3
4 Antonia [ilegível] Carvalho 1
5 Antonia Ferreira de Jesus 6
6 Antonia Gonçalves 2
7 Antonio Almeida Maciel 1
8 Antonio Carvalho de Oliveira 9
9 Antonio de Souza Benavides 7
10 Antonio Fernandes Beires 7
11 Antonio Pereira de Vasconcelos 7
12 Antonio Simoens dos Reis 7
13 Antonio Teixeira de Souza 4
14 Arcangella Maria da Conceição 2
15 Arcangello de Barros 6
16 Bernarda de Jesus Maria Jose 1
17 Bernarda Petronilla de Santa Anna 8
18 Catarina de Vasconcellos 7
19 Clara Maria de Almeida 3
20 Clara Martins de Castro 1
21 Damianna Ribeira 7
22 Domingos Ferreira e Cecilia Eugenia 5
23 Duarte Munis Barretto 2
24 Estevão Gomes de Moura 3
25 Euterio Joze dos Santos 6
26 Felix Francisco Nunes 8
27 Firmiano de Sá Souto Mayor 4
28 Francisca de Barros Pantojá 4
29 Francisca Maria da Conceição 1
30 Francisca Xavier de Menezes 8
31 Francisco Cardoso de Souza 10
32 Francisco de Barros de Almeida 1
33 Francisco Jozé de Araujo 4
34 Francisco Joze de Mello 1
35 Francisco Rodrigues Ferreira 7
36 Genoveva Maria das Flores 6
37 Gonçalo Gomes Lobato 3
38 Gonçalo Moura de Rezende 9
39 Ignacio da Costa Feijó 10
87

Nº Inventariados Nº filhos legítimos


40 João da Rocha 3
41 João da Rocha Rego 8
42 Joaquim Joze Braque 6
43 Josefa Maria da Conceiçam 3
44 Josefa Maria de Deos 6
45 Josefa Maria de Serqueira 1
46 Joze Cardoso de Santa Anna e Cardula Maria de Sam Joze 3
47 Jozé de Souza de Britto 12
48 Jozé de Freitas Brandão 4
49 Jozé de Souza de Menezes 9
50 Jozé Frique do Prado 7
51 Leonor Rodrigues Fraga 3
52 Luciana Maria 3
53 Luciano Souza Leal 3
54 Luiz Barroso Pontoja 8
55 Manoel Caetano do Lago 2
56 Manoel de Mello Aburqueque 8
57 Manoel Jozé de Vasconcellos e Figueiredo 1
58 Maria Caetana 1
59 Maria da Assunpção 9
60 Maria da Graça do Nascimento 3
61 Maria Quiteria 1
62 Marianna de Sandes 5
63 Marianna Francisca de Salles 8
64 Micaella Caetana 2
65 Micaella Cardoso de Jezus 1
66 Miguel Pereira de Rezende 9
67 Paulo Ribeiro e Maria de Oliveira 5
68 Quiteria Francisca 3
69 Simplicio de Fontez 3
70 Thereza Barbosa 2
71 Thomas Domingues da Silva 2
Total de filhos 337

Nº Testadores Nº filhos legítimos


1 Antonio da Costa Rosa (português) 5
2 Antonio de Almeida Doria 9
3 Antonio do Espírito Santo 9
4 Antonio Gonçalves Colaco 5
5 Antonio Pereira de Vasconcellos (português) 6
6 Archangela Pereira de Almeida 13
7 Barnabe Martins Fontes 1
8 Benta do Rozario 3
9 Bernabe Ferreyra dos Reys 2
88

Nº Testadores Nº filhos legítimos


10 Damiam de Avilla Godinho (português) 17
11 Domingos Lopes Coelho (português) 1
12 Domingos Peres Duque (português) 3
13 Elena da Silva Ramos 9
14 Eleuterio Gomes de Sá 6
15 Escolastica de Almeyda de Mendonça 2
16 Felles de Andrade Maciel 6
17 Francisca de Serqueira Pacheco 11
18 Francisca dos Santos 3
19 Francisco Dias Correia 1
20 Francisco Joze de Santa Rita 1
21 Francisco Joze de Souza 1
22 Francisco Marques da Silva (português) 2
23 Gonçalo Tavares de Mello 2
24 Hypolita Maria da Conceição 1
25 Ignacia Rodrigues de Sá 12
26 Joam Moreira de Meyrelles 10
27 Joanna Francisca Ramos 6
28 Joanna Veronica do Sacramento 2
29 João da Rocha Codeyro 2
30 Joaquim Gomes Vedas 1
31 José Daniel de Carvalho (português) 7
32 Joze Alvarez da Roxa 3
33 Joze Pinto Caetano Correa (português) 1
34 Lourença Francisca de Andrade 2
35 Luiza Maria de Torres 3
36 Manoel Francisco de Oliveira (português) 2
37 Manoel Gomes dos Santos (português) 2
38 Manoel Gonçalves Praça (português) 2
39 Manoel Rodrigues de Carvalho (português) 4
40 Maria Avilar (casada com Salvador Coelho) 8
41 Maria Madalena de Jesus 2
42 Maria Rodrigues dos Santos 4
43 Marta da Costa Aranha 3
44 Micaella Cardoso de Jesus 1
45 Salvador Coelho da Silva 4
46 Thereza Maria de Jesus 6
Um português, filho de Manoel Pereira Mendes e Maria Vieyra
47 de Lemos (português) 8
Total 214

Total Geral 551


Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos inventários e testamentos do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.
89

Campos (2003) alerta a respeito da imprecisão das médias para mensurar o tamanho
das famílias coloniais paulistas estudadas que, segundo ela, resultam em encobrir
irregularidades importantes. Dentre os grupos analisados, utilizei a média por classe158 que
retrata fielmente os grupos em foco (Quadro 14).
Assim, com base nesta pesquisa, os 551 filhos legítimos declarados pelas 118 famílias,
concluí que, na Capitania de Sergipe Del Rey, as famílias da elite, legalmente constituídas,
não tinham uma prole numerosa159.

Quadro 14 – Nº de filhos legítimos declarados pela elite setecentista em Sergipe Del Rey
Nº filhos (551) Nº famílias (118)
1a5 72
6 a 10 40
11 a 15 5
16 a 20 1
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos inventários e testamentos do século XVIII existentes no
Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

O mesmo fato aconteceu com os quinze dos 23 portugueses160 moradores em Sergipe


setecentista identificados nessa pesquisa, conforme observamos no Quadro 15, a seguir.

158
“Classe de freqüência, ou, simplesmente, classe, é cada um dos grupos, de valores em que se subdivide a
amplitude total do conjunto de valores observados da variável”. (TOLEDO E OVALLE, 1985, p. 55).
159
Alzira Campos ao estudar as famílias coloniais paulistas utilizou como fonte os dados de Pedro Taques em
seu trabalho – Nobiliarquia Paulistana, conclui que a média de filhos por casal da elite paulista colonial era
de cinco por família (CAMPOS, 2003. p. 422).
160
Não encontramos nesta pesquisa nenhuma testadora e/ou inventariada declarando-se portuguesa e sim seus
maridos. Os portugueses Thomas Domingues da Silva e Joze Pinto Caetano informam que são casados com
portuguesas, sendo que Thomas declara que ela é herdeira ausente, mas que seus dois filhos são casados e
moradores em Sergipe; e Joze pede em seu testamento que depois de morto envie a Portugal o que sobrar de
seus bens à sua mulher e filha.
90

Quadro 15 – Nº de filhos legítimos declarados pelos 23 testadores e inventariados


portugueses
Testador/inventariado Nº filhos legítimos Estado civil
Domingos Lopes Coelho 1 Casado
Joze Pinto Caetano Correa 1 Casado
Francisco Marques da Silva 2 Viúvo
Manoel Francisco de Oliveira 2 Casado
Manoel Gomes dos Santos 2 Casado
Manoel Gonçalves Praça 2 Viúvo
Thomas Domingues da Silva 2 Casado
Domingos Peres Duque 3 Casado
Manoel Rodrigues de Carvalho 4 Viúvo
Antonio da Costa Rosa 5 Viúvo
Antonio Pereira de Vasconcellos 6 Casado
José Daniel de Carvalho 7 Casado
Luis Barroso Pontoja 8 Casado
Um português, filho de Manoel Pereira
Mendes e Maria Vieyra de Lemos 8 Casado
Damiam de Avilla Godinho 17 Casado
Jozé Francisco Sollojo Não declara estado civil nem filhos Não declarou
Domingos Lopes Ferreira Não teve filhos legítimos Solteiro
Joaquim da Silva Roque Não tive filhos legítimos Solteiro
Verissimo Pereira de Lima Não teve filhos legítimos Solteiro
Manoel da Rocha Rios Não tive filhos legítimos Casado
Manoel Nunes de Azevedo Não tive filhos legítimos Casado
Domingos Salgado de Araujo Padre Padre
Joam da Cruz Corrado Padre Padre
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos inventários e testamentos do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

A mortalidade é um dado que pouco aparece. Dos 63 testadores com filhos (legítimos
e ilegítimos) apenas sete declaram filhos falecidos e nos 65 inventários sem testamentos
somente 12 declaram filhos falecidos. Talvez devido aos filhos pequenos falecidos serem
considerados anjos161 e não deixarem herdeiros, esses nem sempre eram computados nos
testamentos e inventários, como ocorreu com Antonio Pereira Vasconcellos que informa em
seu testamento (1793) sete filhos, dos quais só vingaram quatro, mas no inventário (1794) não

161
A justificativa desta visão decorreu do alto índice de mortalidade infantil ocorrido até o final do século XIX,
que levou ao imaginário popular a comparar a criança morta aos anjos, minimizando desta forma o
sofrimento da perda, além da crença religiosa católica de que essas crianças, quando batizadas, eram puras e
iam para o céu quando morriam.
91

consta a informação dos três filhos falecidos, só os quatro vivos162. Esta omissão também foi
percebida nos testamentos de marido e mulher, como no caso do casal Salvador Coelho da
Silva e Maria Avilar. Enquanto ela declara em seu testamento que teve oito filhos, dos quais
quatro morreram ainda pequenos, o marido declara em seu testamento somente os quatro
vivos163. Apenas em um testamento, o de Elena da Silva Ramos casada com Bartolomeu
Francisco164, há a informação da morte de todos os seus nove filhos, mas não revela quais
foram os motivos que os vitimaram, deixando como herdeiros seus netos.
Todos esses dados configuram predileção por parte dessa elite de formar famílias
legalmente construídas.
O instrumento utilizado pelos testadores setecentistas moradores da Capitania de
Sergipe para reconhecerem e incluírem sua prole ilegítima foi declará-los em seus
testamentos165. Mas quantos destes 58 testadores que tiveram filhos reconheceram seus
ilegítimos e eram eles naturais166 ou espúrios? Dos 58 testadores apenas sete (homens)
declaram os filhos ilegítimos, ou seja, 88% deste grupo não teve filhos ilegítimos, percentual
também alto de testadores sem filhos ilegítimos declarados. Dos sete declarantes, cinco são
portugueses: Antonio Pereira de Vasconcellos, da Freguesia de São Sebastião do Concelho de
Lagos; Domingos Lopes Ferreira, de São Salvador da Tiboza do Arcebispado de Braga;
Manoel Rodrigues de Carvalho, da Freguesia de São João do Castanheiro do Arcebispado de
Braga; o português167 filho de Manoel Pereira Mendes e Maria Vieyra de Lemos, da Freguesia
de São Cristóvão de Nogueira do Bispado de Lamego; e Veríssimo Pereira de Lima; todos
continentais, dos quais quatro casados e um viúvo.
Assim, a legitimidade em terras sergipanas, tendo como base os testamentos, tanto
para testadores como para seus filhos, leva-me a aceitar o entendimento de Faria (1998, p. 54)
de que grande parte das maternidades era vivenciada no âmbito das relações lícitas e que os

162
AGJ-MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807.
163
AGJ - SCR/C.1ºOF. Justificação Cível. Cx. 01-32.
164
AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 141-150.
165
Não encontrei na documentação do Arquivo Geral do Judiciário nenhuma escritura ou carta de legitimação. A
legitimação em Sergipe Del Rey parece ter ocorrido apenas pós-morte, via testamento, o que protegia os
testadores do reconhecimento legal público enquanto vivos, além de possibilitar a esses o direito de a
qualquer tempo, em vida, revogar o reconhecimento da filiação dos seus ilegítimos.
166
Nos testamentos analisados encontrei um testador, o português Antonio Pereira de Vasconcellos, referindo-se
aos seus filhos ilegítimos como bastardos; os demais testadores denominam seus filhos ilegítimos de naturais.
167
Devido o registro de testamento estar incompleto não consta o nome do testador embora ele declare sua
naturalidade portuguesa e filiação.
92

filhos ilegítimos, quando somados, livres e escravos, só havia maioria nos centros urbanos e
mineradores168.
Tudo leva a crer que os 16 testadores que declararam os nomes dos pais, mas não
deixaram expresso serem legítimos, assim o fizeram por não serem. No entanto, em qual
categoria de naturais estariam inseridos? É improvável descobrir, pois somente quatro não
esconderam a condição de filhos naturais e quem era legítimo (a maioria, 61%) fez questão de
deixar esta informação registrada.

3.2.3 – Dote

O dote, elemento existente nas famílias da elite reinol e colonial brasileira figurava,
em solos sergipanos?
Ao falarmos sobre o dote no século XVIII é preciso ter-se sempre em conta qual o tipo
de dote: o de casamento, concedido não só pelos pais como também por familiares e
amigos169 frequentemente às filhas, embora não houvesse impedimento de dotar os filhos,
nessa pesquisa não encontrei dado a filhos; o religioso, destinado à ordenação de padres170 e a
entrada de mulheres para a vida religiosa (dote divino) 171; e os destinados aos recolhimentos,

168
Para provar sua tese, ela elabora um quadro sobre a legitimidade de crianças em diversas áreas brasileiras no
período colonial com base em inúmeras fontes (FARIA, 1998, p. 55).
169
Como o caso de Manoel Fernandes dos Santos que fez uma escritura de dote e remuneração de serviços em
1785, à filha legítima de Dinizio Coelho de Brito e de sua mulher Antonia Rodrigues de Souza, de uma
escrava com o filho e de uma roda de ralar mandioca, em recompensa por ter cuidado dele quando doente. O
outorgante não sabia ler nem escrever. Escritura de dote e remuneração de serviços AGJ - SCR/C.1ºOF.
Livros de Notas. Cx.02-53. LV. 02 - Fls.74-76.
170
Como o caso do Capitão João de Mello Travassos que fez um dote de uma porção de terras no sítio da Tapera
para efeito de se ordenar sacerdote secular seu filho João Correia Barboza, com a condição de que as terras
retornem aos herdeiros caso ele não se ordenasse padre ou falecesse antes. Ambos assinaram. Escritura de
doação e patrimônio (1704). AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Notas. CX.02-53. Lv. 02 - FLS. 210-212. O
Sargento-mor Antonio Fernandes Bires e sua mulher Francisca Catharina Souto Mayor fizeram seu filho
Francisco Fernandes da Silveira se ordenar presbítero no Hábito de São Pedro de uma sorte de terras, canas, e
mais benfeitorias, matas, pastos e outra sorte de terras, também com a mesma condição de que as terras
retornem aos herdeiros caso ele não se ordenasse padre ou falecesse antes, o que parece ser praxe na época. O
documento está danificado e, por ser um traslado, não foi possível encontrar as assinaturas. EST/C. 2º OF.
Inventários. Cx. 01-481. p. 79-83. AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Notas. CX.02-53. Lv. 02 - FLS. 210-212.
171
Mott (2008, p. 34-37) relaciona vinte “donzelas” recolhidas ao Convento da Soledade, na Bahia, provenientes
da Comarca de Sergipe no século XVIII, das quais cinco foram fundadoras: Arcângela dos Santos (primeira
Regente), Irmã Joana Damasceno, Irmã Jerônima de Santo Jó, Irmã Custódia do Sacramento e Irmã Antônia
Maria de Jesus, embora não foi possível para o autor identificar a ascedênicia nem de que freguesia
procediam; Irmã Beatriz Maria de Jesus (segunda Regente) e suas irmãs de sangue e de fé Antônia Maria de
Jesus e Teresa Maria de Jesus naturais da Freguesia de Nossa Senhora de Abadia do Rio Real, na época
pertencente à Comarca de Sergipe, filhas de João Batista Correia e de Antônia dos Santos Siqueira; Irmã
Teresa de Jesus Maria, natural de São Cristóvão, filha de Máximo Luis da Penha e de Ana Pereira de Matos;
Isabel da Costa de Jesus, natural de Estância de Santa Luzia, filha de Domingos Vieira de Melo e de Maria
Carvalho da Costa; Antônia de Jesus Maria, natural de Estância de Santa Luzia, filha de Domingos Afonso
Lena e de Maria Silva; Irmã Ângela da Encarnação, natural de Santa Luzia, filha de Leandro Vieira de Melo
e de Eugênia [ilegível]; Irmã Bernardina de [ilegível], natural de Santa Luzia, filha de Domingos Rodrigues
93

instituições voltadas para a criação, educação e casamento de meninas órfãs pobres ou como
acolhimento de viúvas e donzelas nobres, como o solicitado ao Rei D. José I por Catharina
Borges Marim, viúva do Coronel Manuel Nunes Coelho, para ser fundado em Sergipe Del
Rey, em 1752, às suas custas:

Diz D. Catharina Borges Marim, Viuva do Coronel Manoel Nunes Coelho, q


pretendendo alcansar de V Magde Licça pa fundar e dotar á sua custa na
Capitania de Serge del Rey a onde a Suppte he moradora, hum Recolhimto
para Viuvas e Donzellas Nobres, com as clauzulas e condições expreçadas
no seu Requerimto, foi V Magde servido, depois de ouvir o V Rey e
Arcebispo daquelle Estado, mdar por seu ultimo despacho, que devia a Suppte
mostrar como podia estabelecer hú conto de Reis de renda annual p a
manutenção do dto Recolhimto; e por q.to a Supte mostra o referido documtos
que apresenta.
P. a V. Magde lhe faça mcer attendendo ao grde bem q Rezulta aquella Terra de
Obra tão pia conceder-lhe a Licença q pede.
ERM (grifo meu172).

O documento que a viúva apresenta é uma petição do filho e da nora no qual eles
doam fazenda, gado e dinheiro necessários para a manutenção do pretendido convento 173:

Dizemos nos o Coronel, Mel Jozé de Vasclos e Figrdo e D. Clara Leite de São
Payo, marido, e mulher qe por este por hú de nós feito, e por ambos
Aignados, mto de nossas Livre Vontades sem constrangimento de peçoa
alguá a doamos deste dia pa todo o sempre, pa o Convento que emtenta
fundar nossa May e Sogra D. Catharina Borges Marim na Cide de
Sergipe Del Rey de recolhidos húa fazenda de gados Vacum, e Cavallar
cituada no Sertão-do-[Pinheiro], qe tem de emtrega entre hú, e outro, duas
mil cabeças, e asim mais a Terra própria em que se acha acituado o dto gado,
como tão bem, ca sobre dto o doador adoo para o mesmo Convento toda a
legitima materna qe me tocar por morte da dta ma May, qe serão feita ba conta
pelo maior nove mil Cruzados, pa todos os ditos bens, asim adoados separem
em rendimto; para ajuda de sostentar os emcargos do referido Convento, sem
qe nós peçoas ou de nossos erdeiros em tempo algum vamos contra esta
adoação qe para melhor retificação delle a tomamos nas terças de nossa
Almas, da quais não temos[ilegível] deposto cauza algua, e nos obrigamos
pellas mesmas e noços bens a tela e mantela, e fazela sempre boa, e [édepos]
de qrer duvidas, ou embargos lhe queira mover, e de fazer della, escritura
publica todas as veze,s qe nela pedirem, e emcoanto a não fizermos

Rodrigues e Isabel da Costa de Jesus; Lourença de Jesus, natural de Estância, filha de [ilegível] e Lourença
Rodrigues de Jesus; Maria de São José, natural da região do rio Cotinguiba, filha de Manuel Suzarte de
Siqueira e Antônia Maria de Melo; as irmãs de sangue e de fé Ana Perpétua, Eustáquia Maria de Santana,
Maria Angélica de São José, Joaquina Perpétua do Coração de Jesus e Emerenciana, naturais da região do rio
Cotinguiba, filhas de Leandro Ribeiro Siqueira e Maria Diniz de Mello.
172
(CT: AHU-ACL-CU-081- Cx. 05 doc. 376 de 08-11-1752).
173
(CT: AHU-ACL-CU-081- Cx. 05 doc. 376 de 08-11-1752).Tudo indica que o pedido foi recusado, pois
encontramos o seguinte despacho: “Escuzado: Lisboa 22 de dezembro de 1752”. Infelizmente o restante do
documento, microfilmado, encontra-se quase que totalmente apagado, sem possibilidade alguma de ser lido,
restando aos interessados pelo tema irem a Portugal consultar o original.
94

queremos q, este tenha a mesma força e Vigor, e pora asim ser verde fizemos
este em qe nos asignamos com as testas abaixo asignadas neste nosso Engo do
Retiro a 12 de 8 bro de 1752
Mel Jozé de Vasclos e Figrdo
D. Clara Leyte São Payo (grifo meu174).

O dote relativo a casamento foi uma instituição europeia que os portugueses,


colonizadores do Brasil no século XVI, trouxeram com eles, juntamente com o Cristianismo e
outros implementos culturais europeus. De acordo com a lei e os costumes portugueses,
conceder um dote a uma filha constituía dever dos pais, análogo ao dever de alimentar e
cuidar dos filhos, e só era limitado pela amplitude dos recursos de que dispunham
(NAZZARI, 2001. p. 15-16).
Apesar deste tipo de dote ser legalmente instituído, não englobava somente a família
legítima, abarcava também os frutos das relações ilícitas, uma vez que os filhos naturais, ao
serem legitimados por carta, casamento dos pais ou em testamento, passavam a ter os mesmos
direitos dos já nascidos legítimos. Portanto, o dote apenas sob a ótica das famílias formadas
via casamento não vai refletir a sociedade da época, mas parte dela.
O dote permitiu que as filhas naturais pudessem obter bons casamentos. Em Sergipe,
Jacinta Gonçalves de Figueiredo, filha natural do Capitão Francisco Gonçalves Filgueiras,
casada pelo sistema de dote com Francisco Joze Gomes, recebeu um sítio de terras de matos e
de criar gado, medido e demarcado com casa de telha na Várzea de São Cristóvão, vinte
vacas, dois garrotes, uma morada de casas novas em chão próprio na Rua de São Francisco
em São Cristóvão, quatro escravos, uma caixa grande de vinhático com guarnições de
jacarandá, uma saia preta de seda e uma peça de bretanha 175, cujos tecidos o pai mandara vir
da Bahia, fornecendo desta forma o meio de produção (sítio e gados) e a mão-de-obra
(escravos) necessários para o casal dar início a uma nova vida, além de peças de enxoval
(móvel e roupa). Outras filhas naturais de Sergipe Del Rey também tiveram amparo paterno
via dote.
Nos testamentos176 estão registrados os bens dotados, o nome da filha e do marido, a
situação jurídica da dotada (filha legítima ou natural) e a condição em que foi doado (com ou
sem colação, com consentimento dos irmãos). Dos 95 testadores arrolados nesta pesquisa, 16

174
(CT: AHU-ACL-CU-081- Cx. 05 doc. 376 de 08-11-1752).
175
Bretanha. Panno de linho, que nos vem da Bretanha. BLUTEAU, 1728. Disponível em:
<http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1/bretanha>. Acesso em: 4 mar. 2012.
176
“Os testamentos são importantes fontes de informações sobre a vida conjugal, os regimes de transmissão de
bens, incluindo as características da prática do dote, a sociedade brasileira, sendo possível acompanhar,
através desses registros, algumas mudanças no costume do dote”. (ABRANTES, 2010, p. 24).
95

concederam dotes em dinheiro, escravos, objetos de prata e de ouro, animais, imóveis,


vestuário (Apêndice B).
Nos inventários177, as informações sobre o dote são encontradas via partilhas nas quais
são inclusos os quinhões, uma vez que pelas leis portuguesas, as Ordenações Filipinas,
quando não havia um contrato pré-nupcial, o dote era integrado ao conjunto de bens do casal:

De acordo com essa legislação, o dote se fundia aos bens do casal e não
havia garantia, para a esposa, de soma alguma fixada em caso de viuvez,
como acontecia na legislação espanhola. Porém, uma vez que ela era dona de
metade dos bens do casal, conservava essa metade, chamada de ‘meação’, no
caso de viuvez e, quando morresse, quer já viúva ou com marido ainda vivo,
sua meação ia para seus herdeiros forçados, seus filhos, ou, caso não tivesse
filhos, seus genitores. (NAZZARI, 2001, p. 19).

Tais informações encontram-se na declaração de bens do inventariante, como ocorreu


com Antonia Maria de Ramos178, viúva de Joze de Souza Britto, que alega que sua
consciência manda informar ao Juiz de Órfãos que seu marido havia dado em vida dotes às
duas filhas casadas; nas petições, onde as disputas entre genros tem seu palco; e nos os róis de
dote, também denominados de escritos de dote, lembrança de dote, anexados nos inventários
como documentos comprovantes e mencionados em testamentos.
O dote promoveu alianças entre famílias, como também foi elemento de discórdias.
Assim ocorreu com a morte de Clara Maria de Almeida, quando seu genro entrou na justiça
alegando não ter recebido todo o dote acordado quando do seu casamento com Thereza
Bibiana de Almeida179:

Diz Francisco de Barros Pimentel mor no termo desta Villa que quando o
Suppte cazou com D.Thereza Bibiana de Almeda fa Legitima do Capitão mor
Jozé Ferreira Passos prometera ante ao Supte de dote pa emcargos do mesmo
Matrimonio 2.400$000 pr conta dos quais recebera o Supte em bens e
[ilegível] 2.0003$160 ficandose-lhe restando 396$840 reis que por este Juizo
se esta procedendo a Invto e Partas dos bens [corroído] seu cazal pr morte de
sua mer D. Clara Ma de Almeda qr o Supte fazer esezer esta divida [ilegível]
invto [ilegível] Partas se lhe separem bens ja [corroído] pagamto // (grifo
meu180).

177
Relação dos 12 ab intestado dotantes: Antonio de Carvalho de Oliveira, Antonio de Souza Benavides,
Antonio Fernandes Beires, Antonio Simoens dos Reis, Catharina de Vasconcellos, Damianna Ribeiro,
Francisco de Barros Pantaja, Francisco Cardoso de Souza, Francisco Rodrigues Ferreira, Genoveva Maria
das Flores, Joze de Freitas Brandão e Joze de Souza Britto.
178
PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. Fls. 15 a 25.
179
Promessa não mencionada no testamento de sua mãe. Como não foi encontrado o testamento do seu pai, não
tem como saber se o mesmo deixou registrado ou se foi um acerto verbal.
180
AGJ-MAR/C. 1º OF. Inventários. Cx.01-807. p. 32-33.
96

O dote representou para a sociedade colonial um forte instrumento de transferência de


riquezas para as mulheres, que recebiam desta forma sua herança antecipada, embora
gerenciada pelos maridos. Este adiantamento de herança para que o novo casal pudesse iniciar
sua vida conjugal, variou de região para região. Segundo Maria Beatriz Nizza da Silva (1984)
o rol de dote, por ser mais simples que a escritura de dote181 e, portanto, mais útil no caso de
dúvidas na colação182, era o mais comum em São Paulo setecentista. Para a autora, o dote na
sociedade paulista do século XVII representou a possibilidade de formação de novas unidades
familiares, mas que no século XVIII isso foi modificado passando a ser mais destinado ao
sustento do casal (NAZZARI, 2001).
Para Sampaio (2003), a principal função do dote não foi a acumulação de bens
patrimoniais nem de formar novas unidades produtivas. Era uma espécie de ‘capital inicial’
para iniciar a vida do casal, além de servir para unir famílias, o que para ele foi o principal
papel do dote na sociedade fluminense. Mas em Sergipe o que o dote representou? Só um
estudo detalhado poderá responder183. Por ora, mostramos que em Sergipe setecentista o dote
fazia parte da vida daqueles que detinham bens e poder.

3.3 – RELIGIOSIDADE

O cotidiano familiar colonial era regulado pela religião católica 184, que a tudo
disciplinava desde a concepção do indivíduo até sua morte. Era o seu começo, o meio e fim,
até a eternidade. Mas, por serem os homens, indivíduos singulares, a padronização total é
impossível de ocorrer, existindo, portanto, em todas as épocas e tipos de sociedades a
exceção, o burlar da norma estabelecida. Assim também ocorreu com os preceitos
eclesiásticos setecentistas no Brasil Colônia, cotidianamente transgredidos, uns vistos e

181
Em Sergipe encontrei três com a denominação de “escripto de dote” dos ab intestados Antonio de Souza
Benvindes (fl. 18), que assina; Francisco Rodrigues Ferreira (fl. 28) assina por ele e por sua mulher;
Genoveva Maria das Flores (fl. 54), no qual diz não saber ler nem escrever, mas assina; e um chamado de
“Lembrança de dote” de Francisco Cardoso de Souza (fl. 21), no qual também assina.
182
Que era a devolução do dote ao espólio, adicionando o respectivo valor ao espólio líquido antes da divisão
entre os herdeiros.
183
Este trabalho é o primeiro a abordar a questão vivida no século XVIII. Foram localizados 25 documentos
(inventários, testamentos e prestação de contas) contendo dados sobre dote, o que não encerra a possibilidade
de mais documentos setecentistas serem encontrados. No que se refere ao século XIX, a quantidade de
documentos sobre o tema aumenta consideravelmente.
184
Regulava, mas não excluía do cotidiano práticas não católicas, africanas e indígenas.
97

sabidos por todos, afrontando a sociedade, outros dissimulados, escondidos, só revelados na


confissão auricular 185 ou, até mesmo, só na agonia da morte.
Com o surgimento das ordens mendicantes no século XIII, os moribundos e os mortos
se tornaram alvos de seus cuidados, reestruturando-se os ritos funerários, expurgando-os das
superstições e difundindo a prática testamentária, cujo objetivo era a reparação dos erros que
podiam ser perdoados através da confissão/arrependimento e/ou amenizados via sufrágios e
legados pios, reafirmando sua fé em Deus e nos preceitos da Igreja Católica. Surge a devoção
à Virgem Maria186, o culto aos santos, ao anjo da guarda, intercessores diante de Deus,
principalmente na hora do julgamento da alma. Exemplo desta prática está no testamento de
Duarte Muniz Barreto, morador da Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana:

[...] peço a glorioza Virgem Maria nossa Senhora e a todos os Santos e


Santas da Corte Celestial e ao anjo da minha guarda e ao Santo do meu nome
que todos juntos queirão interceder por mim diante da divina Majestade por
que tendo tantos e tam grandes perogativas espero seja minha alma salva;
[...]187.

Cláudia Rodrigues (2007), ao analisar a secularização da morte no Rio de Janeiro nos


séculos XVIII e XIX, desvenda, entre outros, este aspecto. Segundo a autora, a formação da
pedagogia católica do “bem morrer” foi resultado de um longo processo no qual dois fatores
foram fundamentais. Primeiro, substituir a administração doméstica e familiar do culto dos
mortos pela gerência pública e administrada pelo clero que proibiu, entre outros, o banquete
fúnebre junto à sepultura. A doação de alimentos aos pobres foi convertida em esmolas, que
com o transcorrer dos séculos passaram a engrandecer os funerais dos ricos como sinal de
ostentação e/ou caridade, distribuída após a missa (REIS, 1991), prática também encontrada
em alguns testamentos setecentistas de Sergipe, como no do português Domingos Lopes
Coelho188: “Declaro que no dia do meu falecimento e no enterro se dara de esmola aos pobres
que acompanharão o meu corpo a Sepultura vinte mil Reis de esmolla a cada hum [...]”. E o
segundo fator consiste na liturgia dos mortos (orações, missas em intenção das almas, legados
pios), item principal dos testamentos, prerrogativa para a salvação da alma.

185
A confissão auricular tornou-se uma prática obrigatória, pelo menos uma vez por ano, para todos os cristãos
adultos a partir do IV Concílio de Latrão (1215).
186
Vários testadores e inventariados setecentistas possuíam imagens de Nossa Senhora da Conceição, em ouro.
187
APES - Coleção Sebrão Sobrinho - Caixa 32. Inventário com testamento de Duarte Muniz Barreto – 1725. fl.
32.
188
Testamento de Domingos Lopes Coelho (português) -1778.p. 44. AGJ - SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos
- Cx. 62 - Lv. 04 - p. 42-52.
98

Com a disseminação da “doutrina do Purgatório”, crença na possibilidade de haver


uma purificação da alma depois da morte através da depuração dos pecados, instala-se o que
Cláudia Rodrigues denominou de a “[...] ‘pedagogia do medo’ que se utilizaria da morte, do
julgamento divino e da possibilidade de condenação transitória ou eterna como elementos de
pressão sobre a consciência e o comportamento dos fiéis” (RODRIGUES, 2007, p. 47), o que
fez surgir, no século XIV, a chamada “arte do bem morrer”, a qual constituía um estilo de
literatura devocional que, se utilizando de textos e imagens, ensinava aos cristãos a se
prepararem para ter uma “boa morte”.
A reflexão sobre a morte ainda em vida, vivenciada através dos manuais de “bem
morrer”, da realização de obras pias 189, sufrágios (missas, orações e esmolas) e do ato de
testar, constituíram-se no caminho para se ter uma “boa morte”. Segundo Rodrigues (2007), a
preparação perante a morte, a doutrina do Purgatório e a prática dos sufrágios faziam parte do
programa de combate posto pela Reforma Tridentina diante da ameaça protestante que a tudo
isso combatia. Após a Reforma Tridentina a preparação para a morte passaria a ser orientada
diariamente (orações de dormir e antes de levantar, confissão em um ou mais dias na semana),
de forma a estar sempre preparado para a morte e não mais só na hora da enfermidade. Mas
entre o que era proposto e o que era feito havia uma grande diferença. Os estudos sobre o
tema mostram que a maioria dos fiéis coloniais do Brasil só se preocupava com a morte
quando doentes, fato constatado nos 95 testamentos do século XVIII de Sergipe aqui
analisados, como se observa na Tabela 4, a seguir.

189
Testadores que deixaram para igrejas, irmandades e confrarias escravos, azeite para lâmpada, ornamentos,
aparamento de altar, caixão para guardar ornamentos na capela, imagem em ouro (Nossa Senhora da
Conceição), dinheiro para ser utilizado em obras das matrizes e capelas das irmandades e confrarias: Anna de
Andrade, Antonio de Almeida Doria, Antonio Martins Ferreira (Padre), Apollonia Soares dos Prazeres,
Domingos Lopes Ferreira (português), Escolastica de Almeyda de Mendonça, Felles de Andrade Maciel
(casado com Antonia Francisca de Jesus), Francisca de Serqueira Pacheco, Francisca dos Santos, Francisca
Perpetua de Almeida (casada com Serafim Mendes de Souza), Francisca Xavier de Menezes, Francisco Joze
de Santa Rita, Hypolita Maria da Conceição, Padre Joam da Cruz Conrado (português), José Antonio Borge
de Figueredo, Manoel da Rocha Rios (português), Padre Manoel de Afonseca de Araújo, Padre Manoel
Francisco da Cruz, Manoel Nunes de Azevedo (português) casado com Thereza Rodrigues de Souza, Maria
Telles da Silva e Menezes, Serafim Mendes de Souza (casado com Francisca Perpetua de Almeida),
Verissimo Pereira de Lima (português).
99

Tabela 4 – Estado físico do testador


Estado físico Nº Porcentagem
Doente 75 79%
Com saúde/estando em perfeito juízo e entendimento 16 17%
Documento incompleto/corroído 3 3%
Não declara 1 1%
Total 95 100%
Fonte: Dados elaborados a partir dos 95 testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do
Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

O manual referente às “artes de bem morrer” que teve grande circulação em Portugal e
nas suas colônias (1621 a 1724) foi o “Breve aparelho e modo fácil para ensinar a bem morrer
um cristão”, escrito pelo jesuíta Estevam de Castro. No capítulo 23 desse manual há as
instruções de como fazer testamentos, certamente apropriadas pelos tabeliães e redatores de
testamentos, como constatou Cláudia Rodrigues (2007) nos testamentos do século XVIII e
início do XIX do Rio de Janeiro por ela analisados. Também percebi nos 95 testamentos
setecentistas desta pesquisa190 que, em Sergipe, nesse período, ele também circulou, levando-
se em conta que, segundo esses manuais, a primeira atitude a ser tomada quando o fiel
adoecia era procurar o sacramento da confissão, em seguida fazer seu testamento para, no
final, na agonia da morte, receber o viático 191.

190
Nas Ordenações Filipinas, Título LXXX ao XC, e nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia,
Título XXXVII a XLIII, há a regulamentação civil e religiosa, mas não contêm o modelo como há no
capítulo 23 do “Breve aparelho e modo fácil para ensinar a bem morrer um cristão” escrito pelo jesuíta
Estevam de Castro.
191
Era o sacramento eucarístico administrado fora da igreja (extrema unção), levado em procissão pelas ruas até
a casa do moribundo pelo pároco, membros das confrarias as quais pertenciam e fiéis.
100

Figura 2 – Procissão do viático – Debret

Fonte: Disponível em: <http://www.google.com.br/search?q=debret+obras&hl>. Acesso em: 22 mai. 213.

Em meados do século XVIII, surge outro manual de grande circulação que superou o
de Estevam de Castro, intitulado “Mestre da vida que ensina a viver e morrer santamente”,
autoria do dominicano João de Castro, que atingiu 20 edições entre 1731 a 1750, mas a
influência do manual de Estevam de Castro na redação dos testamentos é visível pelos vários
pesquisadores do Brasil Colônia.
101

Figura 3 – Folha de rosto do manual “Breve aparelho e modo fácil para ensinar a
bem morrer um cristão” – Estevam de Castro – 1627

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt/17290>. Acesso em: 28 jul. 2012.

A clericalização do culto aos mortos ocorreu a partir dos séculos IV e V. Os velórios


passaram a ser realizados nas igrejas, impostos pelos estatutos sinodais, inicialmente com o
objetivo de impedir os ritos tidos como supersticiosos (banquetes funerários, festas, oferendas
em alimentos deixados para os mortos etc.). O mesmo ocorre com o sepultamento, quando os
corpos dos mártires foram levados pelos bispos para dentro das basílicas como forma de
102

acabar com os banquetes funerários junto a estes túmulos. Também os demais mortos foram
levados para dentro das igrejas, surgindo assim a sepultura eclesiástica que passou a ser
considerada uma das condições para a aquisição da salvação da alma, uma vez que pelo
dogma da ressurreição era necessário existir o corpo e esse agora estava em solo sagrado,
velado por todos cristãos. No Brasil Colônia este costume era disciplinado e exigido pelas
Constituições Primeiras:

É costume pio, antigo e louvável na Igreja Católica enterrarem-se os corpos


dos fiéis cristãos defuntos nas igrejas e cemitérios delas; porque, como são
lugares a que todos os fiéis concorrem para ouvir e assistir às missas e
ofícios divinos e orações tendo à vista as sepulturas, se lembrarão de
encomendar a Deus Nosso Senhor as almas dos ditos defuntos,
especialmente dos seus, para que mais cedo sejam livres das penas do
purgatório, e se não esquecerão da morte, antes lhes será vivos mui
proveitoso ter memória dela nas sepulturas. Portanto, ordenamos e
mandamos que todos os fiéis que nesse nosso arcebispado falecerem sejam
enterrados nas igrejas ou cemitérios, e não em lugares não-sagrados, ainda
que eles assim o mandem, porque esta sua disposição, como torpe e menos
rigorosa, se não deve cumprir (Constituições Primeiras do Arcebispado da
Bahia. c. 843. [p. 315]. 2010. p. 441).

Em Sergipe, a predileção de enterramento era pelas igrejas matrizes, sinal de distinção,


riqueza por parte dos mortos; em segundo lugar nas capelas das ordens terceiras, dos
engenhos, confrarias e irmandades.
Segundo João Reis (1991), a mortalha falava pelo morto, protegendo-o na viagem para
o além, por isso as mortalhas de santos. Era uma espécie de salvo-conduto, de pedido para que
o santo intercedesse pelo defunto. A mortalha de São Francisco era a mais utilizada no Brasil,
fato explicado por Reis (1991) como fruto da herança ibérica, e no caso da Bahia também por
serem os franciscanos donos do comércio de mortalha, negócio praticado em diversas partes
do Brasil; outros conventos também vendiam suas mortalhas, embora prevalecesse a primazia
dos franciscanos. O mesmo ocorreu em Sergipe no século XVIII, a escolha do tipo de
mortalha pelos testadores teve em sua maioria a do hábito de São Francisco 192, seguido pelo
hábito dos Religiosos de Nossa Senhora do Carmo e a branca 193. Dos cinco padres testadores,

192
A preocupação com a mortalha fazia parte do cotidiano religioso dos setecentistas, que os levava a adquiri-la
em vida, como fez o ab intestado Francisco Cardozo de Souza, morador no Sítio Buraco, do Termo da Vila
Nova Real do Rio São Francisco, o qual teve sua mortalha avaliada, em 1753, por quatro mil réis (4$000).
(Inventário de Francisco Cardozo de Souza. 1753, p. 8).
193
João Reis (1991), ao analisar as mortalhas no século XIX, na Bahia, entende que a escolha da cor branca, feita
pelos libertos e escravos, está ligada ao fato de ser a cor mortuária de várias nações africanas e a grande
quantidade de pessoas livres que usavam a cor porque era mais barato. Nos testamentos sergipanos do século
XVIII, outra justificativa foi encontrada, a de ser enterrado como Jesus Cristo, conforme registrou em seu
testamento Ignacio Rodrigues Campos, que apesar dele ser filho natural de uma escrava com uma pessoa
103

três pediram para ser sepultados com as vestes sacerdotais, como estabeleciam as
Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia 194 (c. 827. [p. 310]. 2010. p. 436). Os outros
dois por estarem os documentos danificados, não foi possível recuperar a informação, mas
deduzi que também cumpriam as regras das Constituições Primeiras.
Assim, como o espaço físico no mundo dos vivos era delimitado segundo sua condição
social, o dos mortos também era nas igrejas e capelas. Na parte interna (corpo) ficavam os que
tinham posses e neste espaço quanto mais próximo fosse do altar mor mais prestígio tinha e
também aumentaria a chance de salvação, em face da proximidade com os santos de devoção
e de Cristo. Na área em volta do templo (adro), enterravam-se escravos e pessoas livres
miseráveis. A escolha do templo para a sepultura eclesiástica era um direito de todo
católico195, assegurado nas Constituições Primeiras, não podendo ser induzido por nenhum
religioso sob pena de excomunhão do mesmo.
A morte era anunciada pelos sinos. Três sinais breves para o defunto homem, dois para
a mulher e um para crianças, todos logo após a morte, na saída do funeral e no sepultamento.
A fim de que fosse dado início aos preparativos do funeral, quando o defunto tinha
feito testamento, este documento era de logo levado à presença do Juiz e aberto para saber
como ficaram determinados pelo testador o hábito e local de enterramento de seu corpo, o
cortejo196 (simples ou pomposo), as missas de corpo presente e as demais a serem realizadas
para sua alma. O número de sacerdotes no cortejo era sinal de riqueza. A maioria dos
testadores setecentistas de Sergipe Del Rey solicitava que acompanhassem seu corpo o seu
Reverendo pároco e todos os sacerdotes que se achassem, como assim requereu em seu
testamento o português Thomaz Domingos da Silva, residente na Povoação da Estância,
Termo da Vila Real de Santa Luzia:

livre, liberto, assim expressa seu desejo: “[...] meo corpo sera envolto com a mortalha Branca por ser aquela
em que foi envolto o corpo de meo Senhor Jesus Christo”. AGJ- SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos. Cx.
62. Liv. 06. p. 37-43.
194
Conjunto de cinco livros, publicados em 1707, pela Igreja Católica, que normatizava a prática religiosa.
195
As Constituições Primeiras, no seu Título LVII (c. 857), determinavam que fosse negada sepultura
eclesiástica aos judeus, heréticos, cismáticos, apóstatas, blasfemos, suicidas, duelistas, usuários tidos e
havidos, salvos se na hora da morte se arrependerem e se restituíssem, ladrões ou violadores das igrejas e de
seus bens, religiosos enriquecidos (se tinham profissão de pobreza), aos refratários à confissão e à extrema-
unção, infiéis, crianças e adultos pagãos.
196
Exemplo de enterro pomposo: “[...] meu corpo sera sepultado nesta Matriz de Santa Luzia e na Sepultura em
que se faz enterrada a minha mãe Margarida da Costa de Jesus com habito de Nossa Senhora do Monte
Carmo e me acompanharão todos os Sacerdotes que se poder e humar e a Confraria das Almas com toda
solenidade possivel.” Eleuteria Ramos de Jesus - 1779- SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos – Cx. 62. Lv.
04 – p. 35-36; Exemplo de enterro sem pompa: “Quero eu Serafim Mendes de Souza ser envolto em habito
branco e sem pompa alguma sepultado na Matriz desta Freguesia de Santo Antonio e Almas da Villa de
Itabaiana donde presentemente sou fregues ou em outra qualquer Igreja onde for mais conveniente conforme
o tempo e lugar de meu falecimento o que deixo ao arbitrio de meu testamenteiro” (grifo meu). Serafim
Mendes de Souza - 1799. p. 7. AGJ - SCR/C. 2º OF. Inventário Cx. 01-159.
104

Meu corpo por meo falecimento será amortalhado em habito de São


Francisco havendo e na falta branco acompanhado a sepultura pello meo
Reverendo Parocho e mais Sacerdotes que se acharem que todos me digão
Missa de Corpo presente e juntamente acompanhado a Sepultura pela
Irmandade do Santissimo Sacramento de quem sou irmão// (grifo meu197).

E, deste modo, foi cumprido pela Irmandade do Santíssimo Sacramento198, como


demonstra a declaração do vigário na prestação de contas testamentária:

Certifico eu abaixo assignado, que dei a Sepultura o cadavel do falecido


Thomaz Domingos, acompanhado com mais quatro Sacerdes, envolto em
habito de S. Frco, e importou todo o seu funeral, incluindo cera, armação199, e
o mais, tudo em quinze mil, duzentos e quarenta reis, que pagou o seo t o
Faustino Domingos. E por verdade, esta me ser pedida a passei de minha
letra e signal nesta Povoação da Estância aos 11 de Julho de 1806. O Vig o
Encomdo Antonio Jozé Barba (grifo meu200).

A música201 nos enterros geralmente fazia parte das missas de corpo presente, em face
de ser desejo do defunto, expresso em testamento, ou da família, como também sinal de
distinção social, uma vez que era o componente mais caro do funeral.
A condução do defunto ao local de sepultamento era realizada em tumbas ou esquifes
da irmandade à qual pertencia. Na Bahia, a Santa Casa de Misericórdia detinha, desde o início
do século XVII, o privilégio exclusivo de utilizar e alugar tumbas ou esquifes em que eram,
obrigatoriamente, levados os mortos à sepultura, sendo combatida pelas irmandades negras,
que conseguiram acabar com este monopólio no final do século XVIII. Em Sergipe, dos 95
testadores do século XVIII, apenas sete deixam expresso o desejo de serem levados em
tumba202, os demais assim não o fizeram, talvez por ser obrigatório como na Bahia e, por
conseguinte, algo comum. Apenas quatro expressaram o desejo de serem conduzidos em rede,
sinal de pobreza, porém pelos bens declarados era mais um ato de “humildade cristã” própria
da época, como assim determinou Joze Alvarez da Roxa:
197
AGJ - EST/C. 2º OF. Inventário Cx. 05-489. 1800. p. 8 e 15.
198
A Irmandade do Santíssimo Sacramento no período colonial era uma associação religiosa de leigos composta
pela elite branca, a qual pudesse comprovar “pureza de sangue”. Era responsável pela guarda e promoção do
culto da Eucaristia, a Hóstia Consagrada que representa o Corpo de Cristo.
199
Armação era a decoração da Igreja com panos, cortinados, cadafalsos de madeira (estrado ostentoso sobre que
se colocava o esquife) cobertos por panos fúnebres.
200
AGJ - EST/C. 2º OF. Inventário Cx. 05-489. 1800. p. 8 e 15.
201
“Deixo mais se fazerem missas huma de corpo presente outra no proximo dia ambas com nove lençois e
musica [...]”. Eleuteria Ramos de Jesus. 1779. AGJ - SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos – Cx. 62 – Lv. 04
– p. 36.
202
Na tumba das Santas Almas (3), de Nossa Senhora do Amparo (1), Santa Casa (1), do Santíssimo Sacramento
(2); e quatro pediram para ser conduzidos à sepultura em redes. Os demais não declararam.
105

Quero e he minha vontade ser envolto em habito do meu Patriarca Serafico


Sam Francisco dado a sepultura da minha veneravel Ordem Terceira da
Penitencia, de que sou indigno Irmão, sem pompa, nem fausto algum, muito
grata será a minha alma que os meus amados Irmão da mesma ordem se dão
a obrigação de carregarem o meu corpo para ser conduzido em uma rede por
dois pretos em cujo ato espero que assistam meus testamenteiros, parente e
devotos na certeza de que será a minha alma de grande alivio e consolo
(grifo meu203).

Apesar de ser um ato cotidiano e religioso fazer testamento no século XVIII, somente
os que possuíam bens204 assim procediam, fato constatado por Cláudia Rodrigues (2005) em
seus estudos, quando chegou à conclusão de que é possível afirmar que no século XVIII só
não fazia testamento quem era pobre ou tinha morte súbita. Portanto, na sociedade setecentista
brasileira, morrer sem testamento não excluía o morto do ritual fúnebre, pois estava prescrito
nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, como consta no Livro 4º, Título LI,
que:

[...] morrendo alguma pessoa ab intestado, o pároco donde o tal defunto for
freguês lhe faça seus sufrágios de corpo presente, mês e ano, considerando a
qualidade da pessoa, possibilidade da fazenda e número dos herdeiros que
lhe ficam obrigando-os a que assim o cumpram205.

O funeral eclesiástico, para os ab intestados, imposto pelas Constituições Primeiras ou


desejo da família, apenas não contemplava suas vontades específicas, mas recebiam todos os
sufrágios necessários para a salvação de suas almas. Como o funeral no período colonial
também refletia a posição social e econômica do defunto e de sua família, mesmo não tendo
feito testamento, os familiares, às vezes, faziam-no com toda pompa. Foi o que ocorreu em
1794 com a família de Joze de Souza de Menezes206, morador no Termo de São Cristóvão,
casado que foi com Arcangela, pai de nove filhos, sitiante, dono de seis escravos, com bens
avaliados em um conto cento e noventa e oito mil e cento e dezesseis réis (1:198$116).
Apesar de ele morrer ab intestado teve um funeral bastante religioso (caixão, padres, missas,

203
AGJ-SCR/1º OF. Cx. 04-64. Livro de Registro de testamento, 1798, p. 123.
204
Mesmo sendo uma ex-escrava, Eufemia Rodrigues, ao fazer seu testamento em 1772, tinha como bens uma
escrava angolana, casas de telha na Vila do Lagarto herdada do seu senhor, o padre Antonio Rodrigues
Teixeira, que ao falecer a libertou gratuitamente, além de outras casas em terras de André de Britto, caixa de
guardar roupa, mesa, caixão, quatro cadeiras de pau, tachos de cobre, bacias, velas, oratório com imagens,
frascos de vidro, toalha de algodão e dinheiro que lhes deviam, seis mil e duzentos e oitenta réis. AGJ -
SCR/C. 1º OF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp.33-42. Procedência: Vila de Nossa Senhora da
Piedade do Lagarto.
205
Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. C. 836, [p. 313]. Ed. 2010, p. 439.
206
AGJ - SCR/C.1ºOF. Inventários. Cx.02-15. SCR/C. 1º OF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp.33-
42.
106

cruzes, cera, música e sinos, acompanhamento da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário),


como mostram os vários recibos em seu inventário, no valor de cento e sessenta e três mil e
setecentos e setenta réis.
Assim, seja para aqueles que fizeram testamento ou para os ab intestados, a
preocupação com o “bem morrer” esteve presente no cotidiano dos setecentistas do Brasil e,
por conseguinte, de Sergipe, uma vez que a morte foi utilizada pela Igreja, especialmente via
pedagogia do medo, como veículo de cristianização, mesmo que esta ação só tivesse êxito no
prenúncio da morte. O término deste controle ocorreu mediante processo de secularização 207
da morte, porque vários fatores contribuíram, tais como as medidas ilustradas do governo
pombalino, somados à atitude anticlerical e separatista do liberalismo do século XIX
(RODRIGUES, 2005, p. 335; 350).
Não era só com o funeral que se gastava muito. Os sufrágios 208 e as obras pias
levavam praticamente toda a terça do testador deixando a família de fora, dilapidando o
patrimônio, sobrecarregando os familiares e/ou os testamenteiros com a administração dos
desejos pós morte. Com as medidas pombalinas na década de 1760, que buscavam, entre
outros alvos, acabar com o controle hegemônico da Igreja sobre os homens e as instituições,
foram impostos instrumentos legais 209 com o objetivo de disciplinar a prática testamentária,
dando-lhes uma finalidade civil, que era a garantia patrimonial da família, reduzindo para isso
o valor destinado com o gasto pela salvação da alma. Não podia ultrapassar o valor de
quatrocentos mil réis (400$000) e, com os legados pios, oitocentos mil réis (800$000). Essas
medidas geraram insatisfação, como foi expresso em 1774 no testamento de Apollonia Soares
dos Prazeres, moradora no Sítio da Beriba, Termo da Vila Real de Santa Luzia, em Sergipe.
Ela deixou dois mil réis para as obras da Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Estância, o
pedido de trinta e três missas a vários santos por sua alma, cada uma no valor de esmola de
trezentos e vinte mil réis e uma capela de missas pela sua alma (conjunto de cinquenta missas
celebradas do 1º dia do falecimento ao 50º dia do sepultamento), mas como mandava a nova
lei, deixou o restante da sua terça às suas sobrinhas, porém fez questão de registrar o seu
descontentamento em testamento, escrito pelo Padre Antonio Martins Ferreira, porque não
sabia ler nem escrever, apenas assinar com uma cruz; e pede in solidum (solidariamente) aos
seus testamenteiros:

207
Termo utilizado pela autora para dar conta das modificações das atitudes diante da morte no decorrer dos
séculos XVIII e XIX.
208
Orações para um morto.
209
Leis de agosto de 1761, de 4 de fevereiro de 1765, de 25 de junho de 1766, de 9 de setembro de 1769 e os
alvarás de 01 de agosto de 1774 e de 31 de janeiro de 1775.
107

E por ser esta a minha ultima vontade e em tudo quero me conformar com
a novicima lei de Sua Magestade Fidelicima que Deos guarde para
satisfazer os meos legados ad causas pias aqui declarados, e dar expediente
aos mais que neste meu Testamento ordeno torno a pedir e Rogar a meu
Irman Antonio Ferreyra Soares, Joam Alves do Valle e Jose Rodrigues
Dantas por serviço de Deos Nosso Senhor e por me fazerem merce queiram
ser meus testamenteiros [corroído] como no principio deste meu testamento
pesso aos quais e a cada hum in solidum dou todo o poder que em direito
posso e for necessario para dos meus bens tirarem e vender o que necessario
for para o meu enterramento e tudo o que for precizo para gastas do funeral
de corpo presente, por que lhes não deixo dinheiro nem ouro ou prata// (grifo
meu210).

Em 1778, D. Maria I suspendeu as medidas impostas por Pombal. Cláudia Rodrigues


(2005) verificou em suas pesquisas ter havido mudança de mentalidade no ato de testar,
oriundas de parte do projeto de Ilustração pelo qual Portugal já tinha passado.

3.4 – VIDA DOMÉSTICA

Viver em tempos coloniais era viver em uma sociedade dividida juridicamente entre
pessoas livres e escravas; racialmente entre brancos, negros e indígenas, onde o privado e o
público tinham conotações distintas do que hoje entendemos. Por isso:

É preciso, primeiro, entrar nesses domicílios e buscar fragmentos da


intimidade dos indivíduos e da vida doméstica propriamente dita, muitas
vezes impressos em resquícios da vida material e dos costumes domésticos,
tecendo assim algumas relações entre o domicílio e os indivíduos que ele
abria. (ALGRANTI, 1997, p. 89-90).

Para intuirmos o que era público e privado no período colonial no contexto familiar,
não podemos esquecer das grandes distâncias existentes entre as propriedades coloniais e as
vilas, pois era isso que os configurava. O privado era, para o mundo exterior, espaços
domiciliares reservados à vigília de ataques indígenas, a forasteiros, demarcados pelas
varandas, que antecediam o adentrar no recinto doméstico. Mesmo dentro deles existiam
outros obstáculos aos espaços íntimos da família, as salas de visita, enquanto que
internamente a convivência era pública entre senhores, escravos e agregados, até mesmo pela
dificuldade de assim não ser, devido à própria arquitetura das casas coloniais, as chamadas
moradas de casas, que eram conjuntos de construções compostos pela casa de morar, local de

210
Testamento de Apollonia Soares dos Prazeres, 1774. AGJ - SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos – Cx. 62 -
Lv. 03 – p. 15.
108

beneficiamento e estocagem de produtos, senzalas, casas de agregados, cozinha, casa de


despejo, feitas de material como a palha ou sapé, que as tornavam vazadas, finas, não
preservando a intimidade de atos e falas.
Sheila de Castro Faria (1998) encontrou rara menção nos inventários fluminenses das
primeiras décadas do século XVIII a casas de andar, sobrados, com exceção das residências
das ordens religiosas. Segundo ela, os sobrados só proliferaram nas últimas décadas do século
XVIII, tanto no meio urbano, como no rural. Em solo sergipano, a maioria das moradias
setecentistas também era térrea, as quais aparecem nos inventários e testamentos da época
com a denominação de “morada de casas coberta de telha”211 e nas vilas algumas eram
chamadas de pousadas, geralmente residências de juízes, militares, religiosos, das famílias
abastadas que tinham sempre uma casa na vila. Em alguns sítios as moradas de casa aparecem
conjuntamente com as casas de farinha, a exemplo do sítio de terras com casa de morar, casa
de farinha e benfeitorias, pertencente à Antonia Gonçalves 212.
Os sobrados e as casas de vivenda setecentistas sergipanos não eram somente
construções típicas dos grandes engenhos e casas comerciais, mas também habitações tanto
rurais como urbanas. Foram encontrados em sítios como o de Maria Caetana 213, denominado
de Sítio da Caraíba, do Termo de São Cristóvão, com quinze escravos, mandioca e gado
vacum, possuindo um conjunto de construção composta pela casa de vivenda, senzalas, casa
de farinha, bolandeira com todos seus acessórios e benfeitorias.
Esses sobrados podiam ter parte em tijolos, como o sobrado de taipa com pilares de
tijolos na beirada do Rio São Gonçalo pertencente a Genoveva Maria das Flores 214; de parede
de pedra, como o da cidade de São Cristóvão pertencente a Jozefa Maria de Serqueira e o
Licenciado Antonio Cazimiro Leite215, onde certamente funcionava a livraria. Foram
encontrados nos grandes engenhos216, como no Engenho Lagoa da Penha de Manoel Joze de
Vasconcelos e Figueiredo 217, com todos os seus assessórios de cobre, casas de morar de
sobrado, senzalas e terras anexas com demais benfeitorias, avaliado, no ano de1777, em dez
mil contos de réis; o Engenho Gameleira (com todos os assessórios), pasto, senzalas de
escravos, casa de vivenda de sobrado com uma capela, a da invocação de Nossa Senhora da

211
Era um conjunto de habitações composto por casa de morar do proprietário, casa dos agregados, casa de
farinha, senzala, capela, engenho (moenda, caldeireira, purgador), alambique, tenda de ferreiro, variando esta
composição conforme as posses do dono.
212
AGJ - EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481. 1798.
213
AGJ - SCR/C.1º OF. Inventários. Cx. 01-14. 1765.
214
Idem. 1781.
215
AGJ - SCR/C.1ºOF. Inventários. Cx.02-15.
216
Dauril Alden (2008, p. 557) informa que no final do século XVIII havia 140 engenhos em Sergipe.
217
AGJ - SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14.
109

Guia, com as imagens e mais alfaias, avaliado em 1788, também em dez mil contos de réis,
pertencente ao casal Joze Cardozo de Santa Anna e Cardula Maria de Sam Joze218.
O Sobrado do Engenho do Retiro (Figura 4), primeira habitação dos jesuítas em
Laranjeiras, datado de 1701, é um dos poucos, talvez o único sobrado setecentista sergipano
existente, mesmo com as intervenções ao longo dos séculos e ser inicialmente uma habitação
religiosa, foi vendido e teve depois instalado um engenho no local.

Figura 4 – Sobrado do Engenho do Retiro

Fonte: LOUREIRO, Kátia Afonso Silva. Arquitetura sergipana do açúcar. Aracaju, Unit, 1999. p. 29.

Os elementos da cultura material de uma época muito dizem de seus indivíduos no que
se refere à posição social, religiosidade e refinamento. Através deles percebi a sociedade em
transformação, permitindo traçar um perfil econômico e social e dos modos de ser e viver.
Apesar da pequena capitania sergipana, nos anos setecentos, ser predominante rural,
algumas das suas habitações (casas, engenhos, sítios) possuíam um mobiliário refinado para a
época: leito219de jacarandá com pés de ouro (Jozefa Maria da Conceiçam 220), cama aparelhada
de prata (Feliz Francisco Nunes 221), mesa de jogo222 (Joaquim Joze Braque223), bofetes de

218
AGJ - SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14.
219
Leito - nome dado à cama provida de balaústres e cortinado, chamada hoje cama com baldaquino, cama com
torneados, ruelas ou bolachas, fusos ou bilros, camas com esteios ou lanças com dossel ou céu. (FLEXOR,
2009, p. 152).
220
AGJ - EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.
221
AGJ - EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.
222
Mesa ou banca de jogo – mesmas características das mesas e bancas comuns, distinguindo-se por dispor de
cinzeiros cavados no tampo, esse dobrável e coberto com pano verde. (FLEXOR, 2009, p. 153).
223
AGJ - EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.
110

jacarandá com e sem gavetas (Bernarda de Jesus Maria José 224, Ignacio da Costa Feijo 225,
Jozefa Maria de Serqueira226 e Manoel Joze de Vasconcelos e Figueiredo 227), armários de
guardar roupas, raros na época (Manoel Joze Nunes Coelho de Vasconcelos e Figueiredo 228 e
o português Manoel Nunes de Azevedo 229) e várias camas (da índia, de pau branco, de
jacarandá e de cedro).
Segundo Maria Helena Ochi Flexor, estudiosa do mobiliário baiano, até 1780 os
móveis brasileiros eram feitos do jacarandá, vinhático e de madeira branca, a última mais
utilizada na confecção de móveis populares (FLEXOR, 2009). Em Sergipe setecentista
encontramos a madeira branca, também denominada madeira da terra, em catres, mesas,
caixas, armários, frasqueira, até mesmo empregada na construção de casa230, mas também
havia móveis de cedro e pinho. Faziam parte do mobiliário setecentista sergipano: caixa de
despejo 231, tachos de ferro e/ou cobre, caixas 232 (de pinho, cedro, madeira branca) grandes,
pequenas, com e sem fechaduras, cadeira (de palha, de couro, de madeira), mesas com ou sem
gavetas (de madeira branca ou pau branco, cedro, jacarandá), bofete 233 de jacarandá com
gavetas, relógio grande, baú de couro, tamboretes (de couro, de madeira), banco, armários,
entre outros. O couro foi utilizado nos assentos e encostos das cadeiras, baús, caixas,
tamboretes e catres sergipanos.
As armas de fogo e espingardas eram arroladas e seu uso era disciplinado pelas
Ordenações Filipinas, tanto as armas brancas (espadim, espada, florete) quanto as armas de
fogo. O uso de espadim e de espada era prerrogativa da nobreza, de pertencimento a
determinados cargos e era proibido ao resto da população pela Lei de 24 de maio de 1749,
publicada pelo conde de Atouguia, vice-rei do Brasil (SILVA, 2005). Nos inventários
setecentistas sergipanos foram encontrados vários espadins de prata 234 e um de ouro de posse

224
APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32.
225
Idem.
226
AGJ - SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.02-15.
227
AGJ - SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14.
228
Idem.
229
AGJ - EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.
230
No inventário de Antonio Simoens dos Reis, datado de 1790, de São Cristóvão, há o registro de uma morada
de casas de telha e de madeira branca, arruinada, no valor de vinte e quatro mil réis (24$000), mostrando
assim que havia outros tipos de casas além da de taipa. AGJ - SCR/C.1º OF. Inventários. Cx. 02-15, p. 9.
231
Barris com fezes e urina, que eram jogadas nas praias e valas pelos escravos.
232
As caixas eram utilizadas para guardar roupas, alimentos e demais objetos. As caixas com gavetas são
anteriores às cômodas.
233
Móvel mais alto e encorpado que servia de aparador.
234
Inventários de Antonio Carvalho de Oliveira, Bernarda Petronilha de Santa Anna, Gonçallo Gomes Lobato,
Gonçalo Moura de Rezende, Joana Maria de Deos, Joaquim da Silva Roque (português), Joze de Freitas
Brandão, Jozefa Maria de Serqueira e Marianna de Sandes.
111

de Marianna Francisca de Salles235, como também espadas de prata236 e florete de prata,


pertencentes a militares, juiz e português.
Vários foram os artefatos religiosos descritos nos inventários e testamentos
setecentistas sergipanos que refletem a religiosidade da população em seu cotidiano familiar:
imagens como de Nossa Senhora da Conceição, geralmente em ouro, Nosso Senhor, São
José, Santa Anna, Santo Antonio, São Gonçalo, Santo Cristo, Nossa Senhora da Piedade,
Nosso Senhor Crucificado, Santo Antonio, algumas ornamentadas com prata e ouro como
uma Imagem de Cristo com remates de prata na cruz, a imagem de Santa Anna com
resplendor e coroa de ouro; joias como: cruz de ouro, crucifixo de ouro com três brilhantes,
rosário de ouro, cruz com oito Padre Nossos de ouro, relicários de ouro, corrente de ouro de
São Bento, crucifixo com sua cruz e cordão de ouro, coroas de ouro, resplendores de ouro,
resplendores de prata, coroa de prata, breve de ouro e/ou armas de bentinho de ouro com seu
cordão de ouro, caxilho de breve 237 com seu trancelim; mais de trinta oratórios que iam dos
mais simples feitos de pau-a-pique, aos de cedro, de jacarandá, de pequeno a grande e pintado
como o registrado no inventário de Antonio Fernandes Beires 238, “[...] um oratório grande
pintado com uma imagem de Santo Cristo com perpasso de prata [...]” avaliado em cinquenta
mil réis, e com telha dourada como o existente na residência do Capitão Antonio Simoens dos
Reis239, na cidade de São Cristóvão, avaliado no ano de 1790 em oitenta mil réis. O culto
doméstico perante aos oratórios originou-se na Idade Média, popularizando-se depois no
Brasil no século XVIII. Eram locais da prática religiosa doméstica, muitas vezes elevados a
altares privativos nas casas mais abastadas, denominados de “oratórios de mesa ou de dizer
missa”, os quais continham todos os ornamentos de celebração de missas. Mas para um
oratório doméstico ser elevado a altar era necessário ter autorização da Santa Sé, em Roma,
ou da respectiva nunciatura. Em Sergipe setecentista encontrei no inventário de Manoel Joze
de Vasconcelos e Figueiredo 240, datado de 1777, morador na Vila de Santo Antonio e Almas
de Itabaiana, dono do Engenho Lagoa da Penha, um oratório com 17 imagens e todos os
guizamentos de dizer missa e dos ornamentos, cálices de prata, com um bofete, o que o
caracteriza como um oratório elevado a altar.

235
Casada com Joze Soterio de Sá. No inventário não há informação que o marido ocupava cargo. O espadim de
ouro herdado poderia ser de um membro masculino de sua família ou do marido. SCR/C.1º OF. Inventários.
Cx.02-15.
236
Inventários de Catarina de Vasconcellos, Duarte Monis Barreto, Feliz Francisco Nunes e Joana Maria de
Deos.
237
Escapulário pendente do pescoço. Bentinho.
238
Inventário de Antonio Fernandes Beires p. 15. AGJ - EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.
239
“[...] oratório grande com telha dourada com sete imagens [...]”. SCR/C.1º OF. Inventários. Cx. 02-15, p. 6.
240
AGJ - SCR/C.1º OF. Inventários. Cx. 02-15.
112

As joias eram símbolos de poder financeiro, status social e investimento, tanto as de


caráter religioso como as demais. Eram adereços usados para mostrar riqueza e distinção entre
pessoas. Foram descritas nos inventários e testamentos de Sergipe Del Rey: brincos de ouro
com seus diamantes, pente de ouro, fivelas de sapatos em prata, botões de ouro, anel de
pedras, cordões de ouro, fivelas de ouro de pescoço, laço de ouro, cordões de ouro de braço,
fivelas de ouro de sapatos, brincos de pedra, anéis de ouro, brincos de prata, alfinete de prata,
voltas de contas de ouro, broche de ouro, fivela de prata de pescoço, braceletes de ouro,
rosicler de ouro, brinco de pedras com ouro, botões de punho de ouro, fivelas de ouro, entre
outras, deixadas em testamentos para parentes e afilhados.
A circulação monetária em Sergipe setecentista necessita de um estudo minucioso, a
fim de entender a importância e o papel do crédito241 nesse período. A acumulação de moedas
por parte de indivíduos em Sergipe pode ser constatada no inventário de Francisca Xavier de
Menezes242, no qual seu marido Estacio Munis Barreto, morador no Sítio da Mata, Termo da
Vila de Santo Amaro das Brotas, declara, em 1798, ter o casal oitocentos mil réis 243 em
dinheiro amoedado, tem seus bens avaliados em cinco contos e cento e um mil e oitocentos e
trinta e nove réis.
Outro fator de distinção econômica e social era o vestuário, cuja importância e valor
econômico justificavam ser arrolado no inventário como um bem. Havia um amplo comércio
de roupas usadas na colônia brasileira, uma vez que eram caras, mas um bem durável na
época. Eram qualificadas, em Sergipe, como “usadas”, “novas”, “velhas”. Nos testamentos as
roupas244 eram doadas a parentes, afilhados e escravos. Fazia parte do vestiário colonial:
vêstia245 (de seda, de cetim), calção (de pano, de fustão de veludo, de cetim), saia (de veludo,

241
As ações de juramento d’alma adquiridas sob apenas o emprego da palavra são de relevante importância para
este estudo, como também as petições cobrando dívidas, inventários e demais documentos. Esta
documentação encontra-se disponível no Arquivo Judiciário de Sergipe.
242
Estacio Munis Barreto é assinante, mas sua mulher não sabia ler nem escrever, quem assina seu testamento a
seu rogo é o seu genro Joze Luiz Barrozo. Quem escreve o testamento é Manoel Rodrigues do Nascimento.
MAR/C. 2º OF. Inventário Cx. 02-808.
243
O Real era a unidade monetária de Portugal e foi também utilizada no Brasil até sete de outubro de 1833. No
Brasil colônia era denominada de réis. Em 1694 cria-se a primeira casa da moeda na Bahia, passando depois
a existirem casas da moeda em Pernambuco, na Bahia e no Rio de Janeiro. Entre 1695 e 1698 foram
cunhadas as primeiras moedas para circular especificamente no Brasil e somente em 1703 foram cunhadas as
primeiras moedas na Casa da Moeda no Rio de Janeiro, que eram também válidas em Portugal. Mas, as
primeiras moedas com a palavra Brasil surgiram durante o período do domínio holandês no nordeste (1630-
1654) e eram denominadas de florins e soldos, destinadas ao pagamento de fornecedores e tropas holandesas.
244
Francisca Perpetua deixa para seu enjeitado um cavalo selado e enfreado, esporas de prata, um espadim de
prata, um escravo e toda a roupa de vestiário de seu marido. SCR/C. 2º OF. Inventário Cx. 01-159. p. 11. Já
Thereza Rodrigues de Jesus deixa todas as suas roupas às escravas da casa e pede que sejam repartidas
igualmente. EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481, p. 6.
245
Vêstia. Vestidura de homem até os joelhos e com mangas. Raphael Bluteau - Vocabulario Portuguez &
Latino.Volume . p. 456. Disponível em: < http://www.brasiliana.usp.br/pt-br/dicionario/1/V%C3%AAstia>.
Acesso em: 30 ago. 2012.
113

de seda, de cetim), capote246, cinta de veludo, calças, chambre 247 de chita fina com seus
calções, meias (de algodão, de seda), farda, colete, ceroula, vestido (de veludo, de cetim),
casaca (de pano fino, de chita), camisa (de pano de linho), bolsa de pano, manto, peça de pano
(de linho, de seda), capona, capa, fitas, jalecos, casaco. Nos teares 248, confeccionavam o
tecido mais rústico para a lida da casa e a vestimenta dos escravos. Para termos uma ideia
aproximada do vestuário e objetos de uso masculinos ou femininos dos moradores de Sergipe
Del Rey, faz-se necessário uma investigação nos inventários e testamentos de pessoas
solteiras. A maioria dos inventários e testamentos setecentistas é de casais, no entanto não
evidenciam o seu uso quanto ao sexo.
Tanto as roupas como joias e armas, eram objetos passíveis de serem utilizados como
crédito via penhora, como ficou registrado em 1786, no testamento de Gonçallo Gomes
Lobato, morador em São Cristóvão: “Possuo mais dois vestidos de meu uso, hum espadim de
prata, tres pares de fivellas de prata, hú de çapatos, hú de ligas de calsam, hua de ligas de
meias, hua xaras249 de prata, [4 palavras ilegível] de ouro que se achão empenhados em mão
do Reverendo Padre [Pedro Alvares]”(grifo meu250).
Nas alfaias da casa ou trastes da casa como eram denominados os utensílios
domésticos foram encontrados: colheres de prata, ferro de engomar, espelho grande, jarro e
bacia de louça fina, prato com seu copo de louça fina, sopeira com seu prato, bule de louça,
paletas de vidro, xícaras com pires de louça fina, pratos de mesa ordinários, facas de prata,
jarra funda de vidro, garfos de prata, frascos grandes e pequenos, pratos finos rasos, copo de
vidro dourado, lampião de vidro, lençóis de pano de linho, toalha de mesa (de algodão, de
renda, de linho), guardanapos, rede de varanda, cobertor, frasqueira, bacia, castiçal de latão,
candeeiros de latão, canastra, tigelas finas, colchão de lã, estojos com navalhas, almofreixe
(mala grande), entre outros.
Nos inventários com propriedades (sítios, engenhos, porção de terras) foram descritos
os seguintes instrumentos agrícolas: foices, enxadas, machado, serrote, cavadores, martelo,
serras, compasso, ferro chamado diamante (utilizado para cortar vidros), plaina, serra braçal
(serra com braços manuseada por dois homens), balança de ferro, enxó (instrumento utilizado

246
Capa comprida e larga, com cabeção e capuz.
247
Chambre. S. m. Vestido caseiro, fraldado, abaixo dos joelhos. Antonio de Moraes Silva . Diccionario da
lingua portugueza - volume 1 p. 381. Disponível em <http://www.brasiliana.usp.br/pt-
br/dicionario/2/chambre>. Acesso em: 30 ago. 2012.
248
Encontrados nos inventários de Joana Maria de Deos, João da Rocha Rego, Joze de Freitas Brandão, Eleuterio
Joze dos Santos e Luiz Carlos Pereyra.
249
Seta de pau tostado ao fogo.
250
AGJ - SCR/C.1º OF. Testamentos. Cx.01-67, p. 5.
114

para desbastar tábuas ou pequenas peças de madeira), roda de ralar mandioca, bolandeira
(aparelho para descaroçar algodão), pipa e tenda de ferreiro com todos os assessórios.
Numa sociedade agroescravista e monoexportadora, os escravos foram a principal e
necessária mão-de-obra. Raro era o indivíduo ou família que não possuía escravo. Os escravos
setecentistas de Sergipe Del Rey eram oriundos de vários locais da África (Angola, Guiné,
Banguela, Congo). Dos 88 inventários setecentistas de Sergipe, somente três senzalas foram
arroladas. Duas localizadas em engenhos (o Engenho Lagoa da Penha, corrente e moente com
todos os seus assessórios de cobre, casas de morar, de sobrado, senzalas e terras anexas com
demais benfeitorias de propriedade de Manoel Joze de Vasconcelos e Figueiredo, com 111
escravos e Engenho Gameleira com senzalas de escravos de propriedade do casal Joze
Cardozo de Santa Anna e Cardula Maria de Sam Joze, com 24 escravos) e uma senzala em
um sítio (o Sítio da Caraíba, com casa de vivenda, senzalas, casa de farinha com bolandeira
com todos seus acessórios e benfeitorias pertencente a Maria Caetana, com 15 escravos).
Outras propriedades com mais escravos que as acima citadas, como a do Engenho de Nossa
Senhora da Piedade, com 124 escravos, pertencentes à Bernarda de Jesus Maria José, mas não
há menção a senzalas. Sheila Faria (1998) encontrou idêntica situação nos inventários do
século XVIII por ela pesquisados no norte do estado do Rio de Janeiro, e formulou três
hipóteses para a ausência de senzalas: a primeira que não tinham valor, principal razão para a
autora; a segunda que eram feitas pelos escravos e de propriedade deles; a terceira porque os
escravos dormiam dentro das casas de morar dos senhores (FARIA, 1998, p. 368).
Nos testamentos, alguns escravos foram beneficiados pelos seus senhores com cartas
de liberdade, roupas e esmolas em dinheiro. Nos inventários estão registrados nome,
nacionalidade, preço, idade e, em alguns, a profissão. Um tronco de madeira da terra foi
arrolado como bem no inventário de Manoel Joze de Vasconcelos e Figueiredo, dono do já
citado Engenho da Penha.
Como podemos observar, a vida cotidiana familiar dos moradores de Sergipe, a
pequena e deficitária Capitania de Sergipe Del Rey, tinha os padrões religiosos, sociais e até
mesmo econômicos, com as devidas proporções, como as demais capitanias brasileiras,
principalmente as do litoral açucareiro, pois a sua base geradora, a sociedade, tinha como
alicerce as Ordenações Filipinas e as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. As
suas especificidades serão evidenciadas com o estudo verticalizado dos temas aqui abordados.
115

4 – A CULTURA ESCRITA

[...] a cultura escrita abriga pensamentos complexos


de épocas e sujeitos distintos, cujas idéias prendem-se
a dimensões políticas, históricas, religiosas e
filosóficas. (CAVALCANTE, 2009, p. 4).

4.1 – A LÍNGUA DO PRÍNCIPE

Neste capítulo, discuto a normatização da língua portuguesa, a “Língua do Príncipe”,


através dos principais registros deixados por seus teóricos, que deram sustentação para o
surgimento da cultura escrita portuguesa. Mostro os artefatos daquela cultura e, por último,
analiso os elementos que evidenciam a materialidade da cultura escrita.
Em se tratando da normatização da língua em Portugal, “Os primeiros textos escritos
em língua portuguesa surgem no período histórico compreendido entre os reinados de D.
Afonso Henriques e de D. Dinis. A partir daí, o uso do novo código escrito se expande,
qualitativa e quantitativamente” (QUEIROZ, 2009). Ainda segundo esta autora, a prova de
que o Português era uma língua escrita na segunda metade do século XII está nos textos
notariais e dos trovadores, textos esses também utilizados no aprendizado da língua. Porém a
aprendizagem da escrita e da leitura da língua portuguesa foi apenas valorizada na segunda
metade do século XV e princípios do século XVI. O fato gerou o surgimento de várias obras
como “Cartinhas para o ensino da escrita e da leitura”, dentre elas a Cartinha... – Lisboa: João
Pedro Bonhomini de Cremona, 1502.
116

Figura 5 – Cartinha... - Lisboa: João Pedro Bonhomini de Cremona, 1502

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt>. Acesso em: 28 dez. 2010.

Aparecem as primeiras gramáticas, a “Grammatica da lingoagem portuguesa” (Figura


6), de Fernão de Oliveira, em 1536, e a “Grammatica da lingua Portuguesa” (Figura 7), de
João de Barros, em 1539/1540, o suplemento dessa gramática, “Diálogo em louvor de nossa
linguagem”, torna-o primeiro intelectual português a defender o ensino da gramática da língua
portuguesa nas escolas de ler e escrever (OLIVEIRA, 2010, p. 31).
Para Rosa Virgínia Mattos e Silva 251 (2008) foram essas gramáticas que deram início
ao processo contínuo de normativização da língua portuguesa.

251
Rosa Virgínia Mattos e Silva e seu Grupo de Pesquisa PROHPOR, consideram 1536/1540 como as datas
sociolinguisticamente apontadas para o início dos tempos modernos da Língua Portuguesa, advindas dessas
gramáticas, em seu artigo “Reconfigurações socioculturais e lingüísticas no Portugal de quinhentos em
comparação com o período arcaico”. Disponível em: <http://www.prohpor.ufba.br/reconfigura.html>. Acesso
em: 30 Dez. 2010.
117

Figura 6 – Folha de rosto do livro “Grammatica da lingoagem


portuguesa”, de Fernando Oliveira, 1536

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt/120/1/>. Acesso em: 30 Dez. 2010.

Figura 7 – Folha de rosto do livro “Grammatica da lingua Portuguesa”,


de João de Barros, 1539/1540

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt/120/1/>. Acesso em: 30 dez. 2010.


118

No século XVI, surgem os primeiros livros sobre ortografia. Historiador, ortógrafo252,


cronista, professor de Latim e Português, Pero de Magalhães de Gândavo escreveu o primeiro
manual ortográfico da língua portuguesa, “Regras qve ensinam a maneira de escrever a
orthographia da lingua portuguesa” (1574), seguido do “Diálogo em defesa da nossa
linguagem”, no qual busca uma conscientização da valorização da língua portuguesa em face
ao castelhano (OLIVEIRA, 2010, p. 302). Gândavo foi provedor da Fazenda na Bahia, no
Brasil de 1565 a 1570, e autor da primeira história do Brasil, “História da Província de Santa
Cruz que vulgarmente chamamos Brasil” (1576).

Figura 8 – Folha de rosto do livro “Regras qve ensinam a maneira de escrever a


orthographia da lingua Portuguesa”, Pero de Magalhães de Gandavo, 1574

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt/12144/1/>. Acesso em: 1 jan. 2011.

252
Aquele que é versado em ortografia. ORTÓGRAFO. In: DICIONÁRIO da língua portuguesa. Lisboa:
Priberam Informática, 1998. Disponível em: <http://www.priberam.pt/dlDLPO>. Acesso em: 3 jan. 2011.
119

Em 1590 é publicada a “Orthographia da lingoa portvgvesa” do jurista e historiador


português Duarte Nunes do Leão, que para Queiroz:

Até 1770, data da escolarização da gramática da língua portuguesa, são


elaboradas diversas ortografias, sendo a de Duarte Nunes do Leão,
Orthographia da lingua portuguesa (1590), uma importante referência
para a fixação da norma gráfica como também para a história e do
pensamento metalinguístico português. (QUEIROZ, 2009, p. 88) (grifo da
autora).

Figura 9 – Folha de rosto do livro “Orthographia da lingoa portvgvesa”, de Duarte


Nunes de Leão, 1576

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt/107/1/P2.html>. Acesso em: 1 de jan. 2011.


120

No início do século XVIII, surge o dicionário do Padre Rafael Bluteau (1638-1734),


“Vocabulário Portuguez e Latin” (1712-1728), composto por dez volumes. Apesar de estilo
mais enciclopédico do que escolar, para Souza (2010, p. 288): “A obra de Bluteau serviu, no
entanto, dentro do contexto europeu de produção dicionarística da época, para o
reconhecimento e elevação da língua portuguesa ao status de língua de cultura”. Foi base para
que o brasileiro Antônio de Moraes Silva (1755-1824) elaborasse o “Dicionário da Língua
Portugueza”253 publicado em1789.

Figura 10 – Folha de rosto do livro “Vocabulário Portuguez e Latino”, de


Rafael Bluteau, 1789

Fonte: Disponível em: <http://www.ieb.usp.br/online/index.asp>. Acesso em: 13 fev. 2011.

253
Segundo Álvaro César Pereira de Souza, o lexicógrafo brasileiro retirou toda a parte ilustrada e barroca da
obra de Bluteau e acrescentou cerca de 22.000 verbetes novos (OLIVEIRA, 2010, p. 288).
121

Em Portugal, no processo de escolarização da escrita, o ensino da mesma era exercido


por calígrafos254, por eclesiásticos, ordinandos255 e escreventes, não sendo estes três últimos
necessariamente calígrafos (MAGALHÃES, 2010).
Estas cartilhas ou manuais de caligrafias setecentistas continham, além do ensino de
ler, escrever e contar, princípios religiosos e de civilidade, uma vez que:

Os manuais de caligrafia setecentistas, oriundos da cultura portuguesa e


difundidos como material didático no processo educacional do Brasil
colonial, apresentavam o objetivo explícito de formar para a escrita, a leitura
e a aritmética. A esses três conteúdos, [sic] acrescentava-se o conhecimento
da doutrina cristã e normas da civilidade (SOUZA, 2007, p. 3).

Percebi isso na cartilha “A Nova Escola de aprender a ler, escrever e contar” (1722) de
Manoel Andrade de Figueiredo, quando ele diz que: “O principal cuidado que devem ter os
Mestres, he instruir na doutrina Christã, e bons costumes aos mininos [...]” (FIGUEIREDO,
1722, p. 5).
Em 1722, surge a primeira cartilha escrita e publicada em Portugal, de autoria do
padre jesuíta brasileiro Manoel Andrade de Figueiredo, intitulada “A Nova Escola de
aprender a ler, escrever e contar”, difundindo a caligrafia, a ortografia e a aritmética por meio
de um manual em língua portuguesa. Esta obra foi indicada também para o uso nas aulas
régias de primeiras letras do reino de Portugal, circulando durante e após o período pombalino
em Portugal e no Brasil, como registra Banha de Andrade ao discorrer sobre a reforma
pombalina do ensino no Brasil, ao citar o caso da Capitania de São Paulo, que através do
Estatuto256 enviado pelo Governador e Capitão General de São Paulo, em 1768, indicava a
cartilha do calígrafo Manoel Andrade de Figueiredo.

254
Segundo Justino Magalhães, “Ao calígrafo, a função docente associou o saber ensinar: o mestre era um
calígrafo, medianamente letrado que deveria fazer prova de conhecimento e de saber ensinar. Ele era, afinal,
uma réplica do humanista” (MAGALHÃES, 2010, p. 142).
255
Ordinandas eram pessoas que pretendiam receber ordens sacras.
256
Denominado: Estatuto que hão de observar os mestres das escollas dos meninos nesta capitania de S. Paulo,
remetido pelo governador e Capitão-general de São Paulo, Luís Antônio de Souza ao Conde de Oeiras, em 12
de maio de 1768 (ANDRADE, 1978, p. 155).
122

Figura 11 – Folha de rosto do livro “Nova Escola para aprender a ler, escrever, e
contar”, de Manuel de Andrade de Figueiredo, 1722

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt/107/1/P2.html>. Acesso em: 30 dez. 2010.


123

O aprendizado da caligrafia consistia em uma tarefa muito mais complicada do que a


de aprender a ler. Necessitava de artefatos específicos como papel, tintas e tinteiros,
poedouros257, penas, já advertia um dos melhores calígrafos portugueses de sua época,
Manoel Andrade de Figueiredo: “Não póde o Artifice exercitar com primor as manufaturas da
sua arte sem bons instrumentos, e nesta com mais razão por ser a principal de todas; pelo que
trataremos primeiro dos instrumentos, e adereços, e findos elles das fórmas das letras.”
(FIGUEIREDO, 1722, p. 27), O aprendizado de caligrafia devido à sua complexidade era
caro, pois necessitava de instrumentos específicos como vários tipos de pena para
determinado tipo de escrita (cursiva, bastarda, de linha) como mostra a Figura 12:

Figura 12 – Livro “Nova Escola para aprender a ler, escrever, e contar”, de


Manuel de Andrade de Figueiredo, 1722

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt/107/1/P2.html>. Acesso em: 16 dez. 2012.

Necessitava de tinta, papel e de um mestre calígrafo para exercitar a coordenação


motora a fim de poder escrever com a pena (Figura 13, a seguir).

257
“Fios de seda ou de outra matéria que se embebem com a tinta do tinteiro para communicar à penna”
(BLUTEAU, 1728, p. 566). Disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/pt-br/dicionario/1/poedouros>.
Acesso em: 29 jan. 2011.
124

Figura 13 – Livro “Nova Escola para aprender a ler, escrever, e contar”, de Manuel
de Andrade de Figueiredo, 1722

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt/107/1/P2.html>. Acesso em: 16 dez. 2012.

O método para aprender a caligrafia ou a arte de escrever bem, como Magalhães


citando Barbosa definiu, e Manuel de Andrade de Figueiredo em seu livro expôs, era assim:

A Caligrafia ou Arte de Escrever bem consiste em saber formar os caracteres


do Abecedário da Língua Portuguesa, juntá-los em palavras e estas em
regras de escritura de um modo claro, exacto, distinto, elegante e fácil [...]
Ortografia é a arte de escrever certo, isto é, de representar exactamente aos
olhos por meio dos caracteres literais do Alfabeto Nacional os sons mais
nem menos de qualquer vocábulo, e na mesma ordem, em que se
pronunciam no uso da língua; ou bem assim os que o mesmo vocábulo em
outro tempo teve nas línguas mortas, donde veio (MAGALHÃES, 1994, p.
144-145 apud BARBOSA, 1796, p. 1 e 56).
125

De forma esmerada, milimetricamente calculada, a caligrafia ou, como era também


denominada, “Arte de escrever bem” era ensinada.

Figura 14 – Livro “Nova Escola para aprender a ler, escrever, e contar”, de


Manuel de Andrade de Figueiredo, 1722

Fonte: Disponível em: <http://purl.pt/107/1/P95.html>. Acesso em: 2 abr. 2013.

Em Sergipe setecentista, a presença de mestres calígrafos ainda não foi comprovada.


No entanto, encontrei evidências da existência e atuação destes profissionais da escrita em
São Cristóvão e demais vilas, como exponho nas provisões régias endereçadas ao rei (Figuras
15, 16, 17 e 18).
126

Figura 15 – Provisão Régia – Vila Nova Real do Rey do Rio São Francisco

Fonte: Antonio Teixeira de Souza - 1752. p. 44.


127

Figura 16 – Provisão Régia – Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana

Fonte: Inventário de Miguel Pereira de Rezende, 1779, p. 54.


128

Figura 17 – Provisão Régia – Povoação da Estância, Termo da Vila Real de Santa


Luzia

Fonte: Inventário de Joaquim Joze Braque, 1795, p. 59.


Figura 18 – Provisão Régia – São Cristóvão
129

Fonte: Inventário de Francisco de Barros de Almeida, 1799, p. 37.


130

O manual caligráfico de Manoel Andrade de Figueiredo, “A Nova Escola de aprender


a ler, escrever e contar”, tinha como objetivo didático atingir, não só os alunos e aprendizes de
caligrafia, como também os escrivães. Mas a prática dessa caligrafia pelos escrivães era difícil
devido à necessidade de rapidez que o ofício exigia.
Em Sergipe setecentista, a maioria dos escrivães/tabeliães tinha a caligrafia de difícil
leitura. Contudo existem vestígios de caligrafia desses agentes judiciários, esmerada, artística,
como nos escritos processuais do escrivão de órfãos, Joaquim Joze de Souza Silva, em 1792,
da Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio São Francisco, indicando que,
provavelmente, ele teve acesso a um manual ou a um professor de caligrafia, como se pode
observar, na escrita (Figura 19, a seguir) está a caligrafia do Juiz e abaixo a do escrivão. O
nível na escala de assinatura do escrivão seria o mais alto, nível cinco.
131

Figura 19 – Traço caligráfico do Juiz de Órfãos Capitão Jozé Antonio dos Santos e
do escrivão Joaquim Joze de Souza Silva

Fonte: Inventário de Joze de Souza Brito, 1792, p. 31.


132

Figura 20 – Assinatura do escrivão Joaquim Joze de Souza Silva

Fonte: Inventário de Joze de Souza Brito, 1792, p. 18.

O ensino jesuítico, no início da colonização, tinha como base a catequese, que dava
relevância ao ensino da língua nativa e da língua latina em detrimento do Português. Até
meados do século XVIII, o multilinguismo generalizado caracteriza o território brasileiro. Os
jesuítas faziam uso da “língua geral” e não do Português, pois:

Recebem o nome de língua geral, no Brasil, línguas de base indígena


praticadas amplamente em território brasileiro, no período de colonização. A
língua geral é uma língua franca. No século XVIII havia duas línguas gerais:
língua geral paulista, falada ao sul do país no processo de expansão
bandeirante, e a língua geral amazônica ou nheengatú, usada no processo de
ocupação amazônica. [...] Língua franca é a língua tomada como língua
comum de grupos sociais que falam, cada um, uma língua diferente dos
outros258.

Somente na segunda metade do século XVIII, com “A expulsão dos jesuítas e a


adoção do ensino da língua portuguesa com prioridade sobre o latim, além da proibição, feita
pelo Marquês de Pombal, do uso da Língua Geral, determinou a preponderância do português
já a partir da segunda metade do século XVIII no Brasil” (CAPUANO, 2010, p. 178), é que a
língua portuguesa passou a ser ministrada de forma metódica no Brasil.
A preocupação com o ensino da “Língua do Príncipe”, a língua portuguesa, teve na
Lei do Diretório, expedida em 1757 e confirmada em 1758, um raio de ação que foi ampliado
para todas as colônias de Portugal, antes restrito ao Estado do Grão Pará e Maranhão 259,

258
Disponível em: <http://www.labeurb.unicamp.br/elb/indigenas/lingua_geral.html. Acesso em: 27 nov. 2011.
259
O Estado do Maranhão foi criado em 1621, abrangendo as capitanias do Maranhão, Pará, Piauí e do Ceará. O
Estado do Brasil compreendia o restante da Colônia. Em 1775, o Estado do Maranhão passou a intitular-se
Estado do Grão-Pará e Maranhão, cuja capital foi transferida de São Luís para Belém, sendo incorporado em
1774 ao Estado do Brasil.
133

iniciando assim o processo de sua efetivação como língua nacional, através de sua
gramatização e escolarização.
Mas ao que tudo indica, continuou ainda por um bom tempo a se falar a língua geral,
tanto que em 1771 surge um dicionário escrito na língua geral, lançado na Cidade do Pará, o
“Diccionario da lingua geral do Brasil que se falla Em todas as Villas, Lugares, e Aldeas deste
vastissimo Estado” (Figuras 21 e 22).
134

Figura 21 – Folha rosto do “Diccionario da lingua geral do Brasil que se falla Em


todas as Villas, Lugares, e Aldeias deste vastissimo Estado”

Fonte: <http://bdigital.sib.uc.pt/bg3/UCBG-Ms-81/UCBG-Ms-81_item1/P17.html>. Acesso em: 21 jul.


2012.
135

Figura 22 – “Diccionario da lingua geral do Brasil que se falla Em todas as Villas,


Lugares, e Aldeias deste vastissimo Estado”

Fonte: <http://bdigital.sib.uc.pt/bg3/UCBG-Ms-81/UCBG-Ms-81_item1/P195.html>. Acesso em: 03 abril 2013.


136

Assim, decifrar os meandros da cultura escrita de um específico grupo social, em uma


dada sociedade, recortada dentro de um determinado espaço temporal e geográfico, com
significados distintos e, por vezes, não presumíveis de compreensão ou de dados a serem
encontrados, significa adentrar num universo totalmente diferente da nossa época, o que pode
levar a distorções, comparações anacrônicas daquela realidade. Por isso, lidar com o passado
requer certo estranhamento a ele, para assim o “desconhecido” estar apto a ser “conhecido”, é
o que nos ensina Carlo Ginzburg: “[...] o estranhamento é um meio para superar as aparências
e alcançar uma compreensão mais profunda da realidade” (GINZBURG, 2001, p. 36).
As fontes estão impregnadas pela mentalidade de quem as produziu. Devido a isso é
que a crítica aos documentos deve preceder a concepção ideológica deles, ser o arcabouço
introdutório da pesquisa histórica e o cruzamento das fontes, o leme da subjetividade do
pesquisador.
Mas no Brasil, que ingredientes foram os formadores do alicerce no qual a cultura
escrita seria fincada numa terra em processo de colonização, com uma diversidade cultural
que deixava aturdidos os colonizadores? Como cravar as marcas de identidade cultural
portuguesa nas almas dos colonos do “além-mar”, perdidos nesta terra tão distante da sua, e
nas dos colonos nativos do Brasil senão pela palavra escrita? Pois é pela palavra escrita que os
homens dão forma e conteúdo ao seu pensar, que aprisionam e libertam mentes e corpos, que
fixam e regulam condutas, que registram para a posteridade o seu passar pelo mundo.
Para Justino Magalhães (1994), o livro, o texto da lei, a epistolografia, os testamentos,
autos e sentenças (termos) de diferentes naturezas, assentos diversos, foram os elementos da
cultura escrita usuais nos três séculos do Antigo Regime em Portugal. Já Leila Mezan Algrati
e Ana Paula Torres Megiani (2009), os denominam de meios ou suportes da cultura escrita e
incluem as gazetas, os panfletos, as crônicas, os livros de razão e até os receituários. Para elas,
esses suportes da cultura escrita foram agentes que propiciaram a comunicação no interior do
Império Português e, consequentemente, a transmissão de saberes e práticas políticas,
econômicas e culturais.
Estamos falando da cultura escrita (manuscrita ou impressa) cujo suporte é o papel,
porque a cultura gráfica da qual se utiliza Chartier (2002) tem vários outros suportes além do
papel, como a escrita monumental e a escrita epígrafe funerária, que também fazem parte da
cultura escrita que muito nos dizem de uma época. Ele utiliza-se da noção de cultura gráfica
de Armando Petrucci, que a designa “[...] num determinado tempo e lugar, o conjunto dos
objetos escritos e das práticas de que são provenientes” (PETRUCCI apud CHARTIER, 2002,
p. 78). O que para o mesmo restabelece: “[...] os elos que existem entre as diferentes formas
137

da escrita: manuscrita, epigráfica, pintada ou impressa; e identifica a pluralidade dos usos


(políticos, administrativos, religiosos, literários, privados, etc.) dos quais o escrito, em suas
diversas materialidades, está investido” (CHARTIER, 2002, p. 78).
A escrita monumental ou “exposta”, fosse pública – encontrada em prédios públicos
nominando-os e/ou em placas oficiais comemorativas – ou privada – vista em tabuletas de
lojas, anúncios de serviços –, expunha uma profusão de informações àqueles que detinham na
época o domínio da cultura escrita.
A escrita epígrafe funerária 260 gravada na pedra, destinada a eternizar os mortos,
fornece dados genealógicos, pois, além das datas de nascimento e morte, informa relações
parentais e de amizade e, em alguns casos, até homenagens dos entes queridos via epitáfios,
fornecendo pistas indiciárias de pesquisa.
A Capitania de Sergipe Del Rey era uma capitania subalterna que, no início do século
XVIII, recuperava-se das invasões holandesas, retomando aos poucos o cotidiano. Seus
inventários e testamentos, fontes documentais da cultura escrita, quando comparados aos dos
moradores do Rio de Janeiro, sede da Colônia, e aos dos de Minas Gerais, região
economicamente rica devido à descoberta de metais preciosos, são simples em termos de bens
móveis e imóveis, mas refletem a realidade econômica e social de Sergipe. Tê-la como
incipiente, insignificante, é desconhecer o processo colonizador pelo qual passaram algumas
regiões do Brasil, enquanto colônia de Portugal, situado dentro da expansão do império
Português.

4.2 – ARTEFATOS DA CULTURA ESCRITA

Os artefatos da cultura escrita são objetos que imputam ideias, significados e status aos
seus possuidores, específicos de grupos familiarizados com a escrita como clérigos,
professores, agentes do poder público, indivíduos instruídos e escreventes profissionais.
Dos 88 inventários do século XVIII investigados com datas limites de 1720 a 1800,
que estão sob a custódia do Arquivo Geral do Judiciário (75) e do Arquivo Púbico Estadual de
Sergipe (16), oriundos das comarcas de São Cristóvão, Maruim, Estância, Porto da Folha,
Lagarto e Itabaiana, apenas em cinco foram encontrados artefatos da cultura escrita (livros,

260
A Prof.ª Dr.ª Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento em sua dissertação de Mestrado em Educação
pela Universidade Federal de Sergipe, intitulada: A escola Americana: origens da educação protestante em
Sergipe (1886-1913), defendida em 2000, recorreu-se das lápides do cemitério da Igreja Presbiteriana de
Sergipe para coletar informações sobre os primeiros protestantes de Sergipe, utilizando essa escrita funerária
como fonte indiciária para sua pesquisa.
138

escrivaninha, tinteiros, sinete e tesoura de aparar cartas), fato que evidencia a falta de
familiarização com a cultura escrita por grande parte da população setecentista moradora em
Sergipe Del Rey, o que, contudo, não implica na ausência de acesso à mesma.
Quanto ao livro, elemento e artefato da cultura escrita, identifiquei uma livraria em
São Cristóvão com um acervo de quinhentos livros. É o que nos diz o inventário de Jozefa
Maria de Serqueira, falecida em 1794, no qual seu marido, Antonio Cazimiro Leite, ao dar
contas dos bens do casal, relaciona a livraria: “Item que deo em inventario o inventariante
huma livraria de quinhentos livros de diversas [ilegível] entre meios vistos pequenos e
grandes que foi vistos e avaliados pelos avaliadores por quatrocentos mil reis”261. Sergipano,
o advogado Antonio Cazimiro Leite, que atuava também como Juiz Ordinário em São
Cristóvão, como atestam vários documentos do período, morava na Rua das Flores, em São
Cristóvão, e era o proprietário da livraria. Santos, ao analisar o inventário262, percebeu “[...] a
referida livraria como uma necessidade criada pela própria estrutura daquela cidade que
certamente, tinha um público consumidor dos impressos de Antonio Cazimiro” (SANTOS,
2008, p. 9).
Havia também mais dois possuidores de livros: Feliz Francisco Nunes e o Padre
Antônio Correia Dantas. Feliz Francisco Nunes, da Freguesia de Santo Amaro das Brotas,
filho natural de José Francisco Nunes e de Anna Cardoso, escrava forra, crioula, já falecida,
casado com Francisca Caetana da Conceição, também falecida na época do inventário, teve
oito filhos, desses, três casados. Era possuidor de um sítio de terras, denominado Calumby,
com casas de morada, de outro sítio, onde morava, o sítio Nossa Senhora da Conceição e
também possuía uma casa na Vila de Santo Amaro. Era proprietário de 15 escravos, mas
apesar de ser filho de uma liberta263, deixa em seu inventário vestígios de que fora educado,
ao informar, em seu testamento264, que utiliza um livro de contas265 para registrar suas dívidas
ativas, passivas e contas de sua fazenda. Fica, desta forma, evidente a existência de uma
escrituração contábil e com ela a educação elementar que era ler, escrever e contar. Deixa
também um livro, pequeno, arrolado em seu inventário pelo valor de sessenta réis.
O outro possuidor de livros era o Padre Antônio Correia Dantas 266, que deixa quatro
breviários no valor de cinco mil réis, arrolados em seu inventário, juntamente com um sinete

261
AGJ - SCR/C.1ºOF. Inventários. Cx.02-15.
262
Em seu artigo denominado “A livraria de Antonio Cazemiro Leite” (1794).
263
Ex-escrava.
264
Inventários de Feliz Francisco Nunes, 1798, p. 04-13.
265
O livro de contas também era denominado de livro de razão ou de assento.
266
APES/Coleção Sebrão Sobrinho. Cx. 32. Doc. 1725.
139

com pé de prata no valor de trezentos réis. Não deixa testamento e tem como inventariante o
Sargento-mor, seu irmão, Joze Correa Dantas.
O sinete, um dos vestígios materiais da cultura escrita, era usado como assinatura para
selar e autenticar documentos e cartas, constituindo-se em uma marca particular ou
instituconal. Autenticava documentos privados ou públicos, muito utilizado por pessoas
instruídas tais como escrivães, tabeliães e demais autoridades da época.

Figura 23 – Exemplo de um sinete e cera vermelha para lacrar


documentos

Fonte: Disponível em: <http://www.mercadonegroantiguidades.com.br>.


Acesso em: 10 out. 2010.

Este artefato era indispensável na prática cartorial, pois servia como prova de que o
documento de caráter sigiloso não fora violado, como exemplifica o testamento lacrado com
cera vermelha, autenticado com sinete do Tabelião Francisco Jozê do Borral que selava
formalmente o testamento do Coronel Manoel Joze Nunes Coelho de Vasconcellos e
Figueiredo em 1777 (Figura 24, a seguir).
140

Figura 24 – Lacre utilizando cera vermelha, feito com sinete do tabelião Francisco
Jozê do Borral, selando formalmente o testamento do Coronel Manoel Joze Nunes
Coelho de Vasconcellos e Figueiredo, 1777

Lacre
de cera

Fonte: Inventário de Manoel Jozê Nunes Coelho Vasconcellos e Figueiredo, 1777, p. 9.

Testamento do Coronel Manoel Jozê Nunes Coelho a-


provado por mim escrivam da vara do Juis [podanio] Dan
ta de Sam João Freguesia do Senhor do Bomfim que vai
cizido com cinco Pontos de[Retras] amarello e Lacra-
do com sinco pingos de [Layve]r vermelho por banda
e aprovado em quinze de Janeiro deste prezente anno de
1777 a
Francisco Jozê do Porral
141

Outros artefatos da cultura escrita, como escrivaninha e tinteiro, foram encontrados


nos inventários do Coronel Manoel Joze Nunes Coelho de Vasconcellos e Figueiredo: um
sinete de marfim, uma escrivaninha, um tinteiro de vidro e uma tesoura para aparar papéis; e
no do Tenente Gonçalo Luiz Teles de Menezes, um sinete de fixar cartas.
Quem eram essas pessoas? Por ter deixado testamento o Coronel Manoel Joze Nunes
Coelho de Vasconcellos e Figueiredo, foi possível obter mais dados. Ele era da Freguesia de
Nossa Senhora do Socorro do Cotinguiba, filho legítimo do Coronel Manoel Josepe de
Vasconcellos de Figueiredo e de Clara Leite de Sampaio, casado com Angélica Perpétua de
Jesus, sem filhos, dono do Engenho Lagoa da Penha. Por estar doente pede a Bras Martins da
Costa Ferrão que assine por ele e, pela caligrafia, fica evidente que redigiu o testamento. A
sua assinatura é elaborada, dada a quem tem familiaridade com a escrita.

Figura 25 – Assinatura de Braz Martins da Costa Ferrão

Fonte: Inventário do Coronel Manoel Joze Nunes Coelho de Vasconcellos e Figueiredo, 1777, fl. 06.

A Signo, a Rogo do Sobre dito teztador


Manoel Joze Nunes Coelho
Eu Braz Martins da Costa Ferrão

Quanto a Gonçalo Luiz Teles de Menezes 267, por não ter deixado testamento, só foi
possível recuperar a informação de que ele era tenente e não teve filhos. Seus herdeiros eram
Roza Maria da Cunha, sua avó, e Roza Josefa, irmã, casada com o Sargento-mor Leandro
Bezerra Martins que tinham um filho, Simão, e dois sobrinhos, Antonio e Luiza. A existência
de um sinete entre seus bens certamente era indício da posição de seu cargo, que o inseria no
mundo da cultura escrita oficializando documentos.

267
Deixou os seguintes bens: escravos, sendeiro, fivelas de prata, esporas de prata, selas, sinete de fixar cartas,
chapéu de Braga, meias de algodão, calção de fustão branco, lençol de pano de linho, toalha, camisas,
chinelos, oratório, cruz de ouro, banco, farda de pano fino, mesa, cangalha, tacho, frasco e copo de vidro,
caldeirinha, lenço de tabaco, gamela, bacia, gado cavalar, mala, dívidas, entre outros. Seu inventariante era o
Tenente Vicente Joze de Menezes.
142

4.3 – ELEMENTOS DA CULTURA ESCRITA

Os elementos que evidenciaram a materialidade da cultura escrita através dos séculos


são: os livros (manuscritos ou impressos), os textos da lei (decretos, regulamentos, forais,
regimentos etc.), a epistolografia (oficial ou privada), os registros notariais (testamentos,
inventários, autos judiciais cíveis e criminais), registros paroquiais (de casamento, de óbito e
livros de batismo) e os registros privados (bilhetes, receituários, borradores, jornais, folhetins,
livros de contas, diários etc.).
Para Hérbrard (1990) as técnicas da escrita, “[...] ler em voz alta ou com os olhos,
comparar textos, redigir, glosar ou tomar notas, compor a página, indexar, elaborar listas ou
tabelas, calcular à mão, etc. [...]” (HÉBRARD, 1990, p. 70), estão no cerne da cultura escrita
como conhecimentos específicos de meios profissionais dessa cultura muito antes de se
tornarem disciplinas elementares da escolarização.

4.3.1 – O livro

O livro, inicialmente manuscrito e depois impresso, tornou-se um dos elementos da


cultura escrita de maior difusão em seus vários gêneros (religioso, didático, científico),
editados na língua culta (latim) ou em vernáculo (língua nacional). Circulou no mundo letrado
levando novos conhecimentos, criando novas profissões como: copista, tipógrafo, editor,
vendedor ambulante de livro e livreiro. Foi lido de diversas maneiras (em voz alta, silenciosa),
aglutinava pessoas e diferenciava grupos sociais.
O livro não era o que conhecemos hoje. Em forma de códice, era manuscrito, formado
por um rolo de papiro que variava entre 2,5 e 12 metros de comprimento, com altura média de
16 a 30 centímetros e que se desenrolava com a mão direita e enrolava com a esquerda,
podendo conter um livro ou vários no mesmo rolo. A adoção do livro em forma de códice
surge entre os séculos III e IV com a queda do Império Romano, quando os acervos medievais
passaram a ser, quase exclusivamente, restritos aos conventos e mosteiros. Ele foi se
afirmando perante os rolos de papiro, uma vez que com o novo formato era possível novas
utilizações que facilitavam seu uso, como: emprego dos dois lados, redução do tamanho da
escrita, junção de vários textos em um só tomo, além de permitir conferições com outros
(SCHWARCZ, 2002).
No século XII a escrita sai do circuito religioso. Este processo ocorre: “[...] quando a
escrita deixa de cumprir apenas função de memorização, e passa a ser entendida como
143

trabalho intelectual. Será só com as universidades e escolas que um modelo escolástico


substituirá o antigo formato monástico de escrita” (SCHWARCZ, 2002, p. 127).
Ana Izabel Buescu (1999), ao estudar a cultura manuscrita e a cultura impressa em
Portugal na Época Moderna, afirma que para entender as transformações ocorridas na
transmissão da cultura naquela época a invenção da imprensa é fato indispensável, uma vez
que:

O advento da arte tipográfica, em meados do século XV, vem significar, a


prazo, uma modificação radical na memória e na transmissão da cultura, ao
fazer uma superar em definitivo o monopólio clerical da cultura escrita e ao
multiplicar os objectos escritos, intensificando as trocas culturais,
disseminando a produção intelectual em relação aos seus centros
tradicionais, operando um processo de progressiva laicização da cultura,
criando novos ofícios e novos públicos leitores (BUESCU, 1999, p. 11).

Segundo esta autora, a substituição do livro manuscrito pelo impresso ocorreu de


forma lenta em Portugal. A atividade editorial no século XVI era incipiente e as obras mais
editadas eram de temas religiosos, afirmando que o livro manuscrito, nas quatro primeiras
décadas do século XVI, predominou em Portugal sobre o livro impresso mesmo entre a elite,
tese confirmada pelas livrarias régias portuguesas seiscentistas. Contudo, a autora ressalta
que: “A circulação manuscrita da cultura mantém, com efeito, um espaço importante e por
vezes poderoso na difusão da cultura escrita apesar do aparecimento da imprensa” (BUESCU,
1999, p. 20).
Entretanto, para Chartier (1991), antes da invenção da impressa, que operou uma
revolução ampliando a reprodução de textos e consequentemente o acesso a esses, já havia
ocorrido, no século XV, outra revolução, a da leitura. E para melhor adentrar neste universo
de livros e leituras, seria necessário responder às principais questões como: a nova relação
com o objeto escrito, o livro, manuscrito ou impresso, que permitia uma leitura visual e
silenciosa gerando uma familiarização maior com o mesmo, e a privatização da prática da
leitura com a aquisição de novos livros por pessoas que os possuíam, de novos detentores. O
estudo sobre essas questões só foi possível devido a existência de documentos, apesar deles
serem:

[...] imperfeitos, omissos, muitas vezes criticados: os inventários, geralmente


elaborados após falecimentos, que estimam e descrevem (pelo menos em
parte) os bens de um indivíduo, os livros que eram seus. A fonte não é
infalível, longe disso: em nada implica que os livros possuídos foram lidos
ou mesmo comprados pelo falecido; ignora os impressos sem valor que
144

podiam constituir suas leituras mais freqüentes; omite os livros, preciosos ou


perigosos, subtraídos à sucessão antes do inventário (CHARTIER, 1991, p.
129).

Mesmo com estas ressalvas, foi através dos inventários que soubemos da existência de
uma livraria268, em pleno século XVIII em São Cristóvão, com quinhentos livros, e de dois
possuidores de livros269, nas Vilas de Santo Amaro das Brotas e de Santo Antonio das Almas
de Itabaiana. Um deles certamente leitor assíduo, porque se tratava de um padre e seus livros
arrolados eram breviários, desmistificando que em solos sergipanos, naquele século, não
havia livros, leitores e muito menos livraria.
Márcia Azevedo de Abreu (2001) diz que, ao contrário do que se pensa, os livros eram
objetos baratos ou, muitas vezes, para os avaliadores dos bens, sem valor. Eram arrolados nos
inventários, quase sempre tendo seus títulos e autores não identificados, talvez por
desconhecimento de avaliadores que não sabiam analisar cada uma destas obras. Eles
acabaram por revelar a existência de livrarias e bibliotecas privadas, comprovando que a tão
mencionada falta de livros e leituras, ideia que circulou no Brasil nesse período, não é
consistente. As pesquisas realizadas por esta autora nos últimos anos, com a documentação
produzida pela censura portuguesa270, que buscava controlar a entrada e a circulação de livros
no Brasil, e com os livros de Belas Artes existentes no Rio de Janeiro, cidade onde concentra
seu foco de investigação, localizaram dados da entrada constante de numerosas obras
remetidas da Europa para o Brasil, mostrando uma realidade contrária à ideia da falta de
leituras mencionada anteriormente.
Assim como outros autores, Jorge de Souza Araújo (1999) já havia feito esta
constatação sobre livros e leituras, quando realizou um mapeamento de livros nas bibliotecas
e arquivos existentes nos séculos XVI a XIX no Brasil, mostrando quem lia e o quê se lia
nesse período. Ele percorreu o País buscando dados e incluiu Sergipe no levantamento ao
pesquisar alguns inventários oitocentistas no Arquivo Judiciário, em 1985, mas sem investigar
os inventários do século XVIII271.

268
Inventário de Jozefa Maria de Serqueira, 1794.
269
Coleção Sebrão Sobrinho. Cx. 32. Inventário do Padre Antônio Correia Dantas, 1793.
270
A atividade censória repartia-se entre o Ordinário (juízes eclesiásticos ligados às dioceses, em atuação desde
1517), o Tribunal do Santo Ofício (organismo ligado à Igreja, em funcionamento desde 1536) e o
Desembargo do Paço (órgão censor ligado ao poder régio, atuante a partir de 1576). Este sistema tríplice
esteve em atuação até 1768, quando D. José I julgou ser necessário centralizar a censura em um só
organismo, criando, assim, a Real Mesa Censória (ABREU, 2007, p. 2). A censura manteve-se no período
pombalino, passando para o Estado sem, contudo, excluir os religiosos da Mesa Censória.
271
Como consta no Livro de registro de pesquisa do Arquivo Judiciário de Sergipe, nº 01. Em 2005, os
inventários judiciais do século XVIII de Sergipe foram digitalizados e publicados.
145

Vera Maria dos Santos (2009, p. 2), ao estudar a circulação dos livros em Sergipe
setecentista nos inventários, constata que “Em Sergipe os livreiros e leitores coloniais
deixaram poucos indicativos acerca dos seus livros e das suas leituras. Entretanto, através de
seus inventários post-mortem podemos recuperar os indícios e resíduos marginais dos
mesmos”.
Maria Aparecida de Menezes Borrego (2009), ao analisar a presença de livros
manuscritos e impressos arrolados nos inventários de mercadores paulistas no século XVIII,
conclui que “[...] em meio à população colonial pouco letrada, os agentes mercantis atuantes
em São Paulo setecentista deixaram evidências de que sabiam ler, escrever e, principalmente,
fazer contas” (BORREGO, 2009, p. 242). Os mercadores de Sergipe Del Rey também
deixaram essas evidências. Esse é um dos pontos sobre o letramento a ser investigado no
capítulo 3. O fato é que, em suas diversas modalidades (formas de leitura, público, suportes,
tipos), o livro existia e circulava no Brasil e em Sergipe setecentista, não há mais dúvida.
No Brasil do século XVII, as bibliotecas e livrarias 272 coloniais eram raras e as mais
ricas pertenciam à Companhia de Jesus. As demais, em sua maioria, pertencentes a
particulares cujos acervos eram quase que totalmente de cunho religioso, encontrando-se
também algumas obras na área da moral, do direito canônico e da filosofia (SCHWARCZ,
2002).
Luiz Carlos Villalta (1997), em seu estudo sobre o tema 273, afirma que no século XVII
a posse de livros no Brasil era pouca e que continuava idêntica ao século XVI, havendo uma
mudança no século XVIII, tanto referente ao número de bibliotecas como também à sua
composição, concluindo que:

As bibliotecas na Colônia foram poucas, tendo a propriedade de livros se


concentrado nas mãos de um reduzido número de pessoas e se limitando a
uns poucos títulos, preponderantemente de cunho devocional. Seus donos
eram, em sua maioria, membros das elites, que combinavam a propriedade
(de terras, gado e minas) ou o envolvimento no comércio, a ofícios que
exigiam uma educação mais esmerada ou temática como clérigos,
advogados, navegadores, estudantes e funcionários públicos dos altos
escalões (VILLALTA, 1997, p. 18).

272
Os termos biblioteca e livraria aparecem às vezes na literatura como sinônimos. Em Portugal, até o século
XVIII usou-se o termo livraria para as bibliotecas tanto de caráter privado como público. Esta troca de
terminologia, principalmente no século XVII, refletiu no Brasil colonial. Mas a livraria setecentista sergipana
encontrada na cidade de São Cristóvão, que este texto menciona, é uma livraria no sentido de casa com livros
para serem vendidos, constatação evidenciada no próprio inventário.
273
No seu artigo “Bibliotecas Privadas e Práticas de Leitura no Brasil Colonial”, o autor faz um balanço sobre a
história do livro no Brasil Colonial. Disponível em:
<http://www.caminhosdoromance.iel.unicamp.br/estudos/ensaios/bibliotecas-br.pdf>. Acesso em: 28 dez.
2010.
146

Em Sergipe setecentista, até o presente momento, não foram localizadas pessoas com
acervos que caracterizassem bibliotecas, apenas uma pessoa possuindo um livro e outra
quatro, além da existência de uma livraria. As bibliotecas particulares 274 aparecem nos
inventários sergipanos a partir do século XIX.

4.3.2 – O texto da lei

O Direito Português aplicado no Brasil com a chegada dos primeiros colonizadores era
um direito basicamente escrito. Ordenações, Regimentos, Forais, Cartas Régias e demais
instrumentos jurídicos que regulavam a vida dos portugueses foram transplantados para a
Colônia e assim as regras escritas ficaram acima das regras consuetudinárias. Esses textos da
lei constituíram-se na base da cultura escrita oficial portuguesa, aplicada na colônia brasileira,
transmitindo saberes e práticas jurídicas.
As Ordenações eram coletâneas de leis instituídas pelos monarcas dos séculos XV,
XVI e XVII, que reuniram em um só arcabouço legislativo as diversas leis extravagantes275 e
outras fontes de direito, que, por estarem disjuntas, tornavam difícil a adequada aplicação do
direito. Era nas Ordenações Filipinas que estava a base do direito português. Elas vigoraram
até a promulgação dos sucessivos códigos do século XIX. Entretanto, algumas disposições
tiveram vigência no Brasil até o surgimento do Código Civil de 1916. Constantemente
alterada ou complementada por um conjunto de diplomas legais avulsos, chamado Legislação
Extravagante, norteava a esfera jurídica portuguesa e brasileira.
As cartas de doação e os forais foram instrumentos elaborados pelos monarcas
portugueses para administrar, no Brasil, o seu povoamento e a exploração. Primeiros textos de
lei escritos para reger a Colônia, elas instituíam a legitimidade, os direitos e os privilégios dos
donatários enquanto que os forais complementavam a doação, determinando os impostos que
deveriam ser pagos à coroa portuguesa. Já as cartas de sesmarias276 foram um instrumento
jurídico português que normatizou a distribuição de terras e que durou até 1822, quando

274
Quando pesquisei para o Mestrado em Educação da Universidade Federal de Sergipe sobre a temática “A
formação da elite intelectual sergipana (1822-1889)”, defendida em 2004, arrolei todos os inventários das
comarcas de Aracaju, São Cristóvão, Laranjeiras, Maruim e Estância no período de 1822-1889, totalizando
mais de 2.500 inventários, mapeando não só os livreiros e as bibliotecas particulares, como também os livros
escolares e de outras espécies, solicitados para o estudo dos filhos dessa elite.
275
Legislação Extravagante era chamada toda e qualquer manifestação da vontade soberana destinada a produzir
alterações na ordem jurídica estabelecida.
276
No livro de Felisbelo Freire, “História de Sergipe” (1977), há a transcrição de 220 cartas de sesmarias
concedidas aos primeiros colonos de Sergipe, com datas limites de 1594-1669. As demais não foram ainda
publicadas.
147

foram concedidas mais de 16 mil cartas na América portuguesa. Para Iris Kantor “[...] o
processo de distribuição das sesmarias representava importante instrumento de recompensa do
serviço real, que permitia a expansão da malha jurídica-institucional portuguesa” (KANTOR,
2004, p. 163).
Os regimentos277 eram leis especiais que regulavam os interesses da Metrópole com a
Colônia, destinados a instruir os funcionários em suas áreas específicas de atuação, como
também determinavam atribuições, obrigações e jurisdição dos diversos cargos e órgãos
incumbidos de fazer funcionar a administração colonial. (SALGADO, 1985).
Todos esses diplomas legais eram redigidos na escrita culta representada pela língua
portuguesa, preponderantemente de cunho lusitano, e promoveram a cultura escrita oficial no
Brasil.

4.3.3 – A epistolografia

Segundo Arlete Brasil Deretti Fernandes, “A Epistolografia é constituída de obras


escritas em forma de cartas e conservadas por seu valor histórico, filosófico, literário ou
documental e que foi conservada e publicada” (FERNANDES, 2007, p. 18). A epistolografia
não literária é composta por dois tipos básicos: pessoais e oficiais.
Com esta definição fica mais fácil entendê-la dentro de um contexto histórico,
principalmente no período aqui estudado, o século XVIII, pois foram várias as cartas trocadas
entre os europeus e colonos, fossem elas pessoais ou oficiais, que deixaram registros do
cotidiano nos trópicos.
Mas, Paulo Miguel Fonseca alerta que:

No caso da epistolografia, deve-se procurar não simplesmente a identidade


do autor, mas a identidade que o autor constrói de si; para si mesmo e para o
leitor. Isso se deve ao fato de que a escrita epistolar é uma escrita de
sociabilidade, onde o autor escreve a um destinatário.
Trabalhar com documentação epistolar apresenta ainda uma dificuldade
adicional: cada documento é apenas um fragmento de uma narrativa maior,
não linear e geralmente incompleta enquanto fonte histórica disponível
(FONSECA, 2009, p. 211).

A literatura dos viajantes é composta de cartas, crônicas, relatórios, documentos,


enviados pelos viajantes, religiosos e colonos, que descrevem a flora, a fauna, a geografia, os

277
As primeiras leis elaboradas para o Brasil foram os regimentos dos governadores gerais, dos ouvidores gerais
e dos provedores, que deram início à estrutura administrativa colonial e iniciaram o Direito local.
148

usos e costumes dos índios e os problemas da época. Para José Carlos Gimenez, estas
narrativas estão impregnadas da mentalidade da época, uma vez que:

Uma das características fundamentais das narrativas das viagens do período


medieval, e que também podem ser encontradas nos escritores e nos artistas
que aqui estiveram, é o fato de retratarem as paisagens, os animais e os
povos sem estabelecer uma fronteira intransponível entre o que
consideramos hoje como real ou imaginário (GIMENEZ, 2001, p. 208).

A comunicação oficial entre Portugal e suas colônias tinha como base a cultura escrita
e a carta, como bem percebeu Justino Magalhães, por ser uma das vias de acesso que permitiu
a ação do império português, visto que “A carta tornara-se um instrumento fundamental na
organização do Estado colonial, nomeadamente por parte dos funcionários régios e por parte
dos missionários” (MAGALHÃES, 1994, p. 159). Era um importante elemento de coesão do
império ultramarino português, minimizando as distâncias entre o reino e suas conquistas
ultramarinas. Elas embaralhavam o público e o privado, formando as redes de
intercomunicação, moldando o império no seu vai e vem.
Marilia Nogueira dos Santos (2007) crê que as cartas foram cruciais para o
desenvolvimento não apenas do Estado moderno, mas também do império ultramarino
português, pois através delas esse império se comunicava, vinculava-se e as redes iam se
formando, concluindo que:

[...] as cartas foram o principal dispositivo, instrumento governativo da coroa.


Ou seja, elas foram o principal espaço a viabilizar a comunicação entre
governantes e governados – afinal, recrutamento/remuneração, legislação,
eram alguns dos principais conteúdos que informavam e conectavam as duas
partes do Atlântico (SANTOS, 2007, p. 230).

Sergipe não ficou alheio a esta prática. Na documentação do Arquivo do Conselho


Ultramarino encontram-se, referente à Capitania de Sergipe no século XVIII, 95 cartas, das
quais duas são dos monarcas D. João VI e D. Maria I, oito do Vice Rei e Governador Chanceler
da Relação do Brasil, enviadas para agentes do governo em Sergipe, e 85 de autoridades e
moradores de Sergipe para o Rei. Todas, exceto as dos monarcas, buscavam e garantiam
direitos ou relatavam problemas na Capitania. Através delas podemos recompor as redes de
poder, o cotidiano da Capitania e o perfil de seus agentes.
149

4.3.4 – As fontes notariais

Testamentos278, inventários279, procurações, contratos, processos criminais, entre


outras tipologias documentais notariais registraram, no decorrer dos séculos, o cotidiano
assentado nas leis que regeram os homens e as mulheres agrupados na sociedade civil. Estes
documentos que apesar de serem “[..] por vezes demasiado selectivas e sem que se infira com
rigor com que critério fora elaborada tal seleção” (MAGALHÃES, 1994, 261), deixam
conhecer parte do que foi esta sociedade no passado. Principalmente os inventários com
testamentos, por permitirem vislumbrar a vida familiar, são “[...] uma fonte interessante para
o conhecimento das transformações do modo de vida da população colonial. Individualmente,
mostram determinados momentos do ciclo de vida familiar. Em conjunto, entretanto,
permitem a visualização do movimento” (FARIA, 1998, p. 175).
Mas não se pode esquecer que a oralidade atuava como agente mediador do escrito;
que a inserção de pessoas, famílias e grupos sociais no mundo da cultura escrita não passou
unicamente pela escolarização, pelas práticas da escrita e/ou contato com o impresso
(GALVÃO, 2002).
Prática maior desta intersecção da palavra escrita com a oralidade encontra-se nos
autos judiciais, que são centrados na permutação da oralidade cotidiana dos indivíduos na
cultura escrita forense. Na instrução do processo, o Juiz, representante centralizador do Poder
Judiciário, argui as partes independentemente da posição instituída nos autos (autor, réu,
vítima, testemunha), apanha sua fala cotidiana (letrada ou não) e traduz para a escrita forense,
pois:

No sistema jurídico brasileiro, a construção da prova testemunhal não é mero


registro palavra por palavra do depoimento prestado, como na maioria dos
países que usam sistema de taquigrafia; aqui, há um complexo processo
comunicativo onde o texto oral (depoimento) é mediado pelo juiz
(COLARES, 2001, p. 308).

O fato ocorre, menos incidente, com os outros agentes ativos judiciários (promotor,
curador e advogado de defesa). Todos estes são tradutores do falar (oralidade) das partes para
o mundo da cultura escrita e assim:
278
Em Portugal os testamentos apareceram no século XIV e as Ordenações Afonsinas normatizaram sua
elaboração visando à transmissão de bens. Estas normas foram reafirmadas com as Ordenações Filipinas e o
Brasil, como colônia de Portugal, as herdou. Em Sergipe foram encontrados 81 testamentos do século XVIII,
dos quais 17 estão anexados aos inventários.
279
Os inventários eram feitos para os que tivessem bens a deixar e, abertos pela família ou na falta dela, pelo juiz
de órfão, quando havia filhos. E podiam ou não incluir o testamento.
150

No uso que o sistema jurídico brasileiro faz da linguagem na tomada de


depoimento, há o apagamento dessas marcas da oralidade. A omissão dos
ruptores conversacionais nos autos do processo, ocorre quando a oralidade
é transformada em texto (oral) com estrutura sintática da escrita (COLARES,
2001, p. 315, grifo da autora).

É no suporte da linguística que encontramos embasamento para adentrar e entender as


maneiras de comunicação que abordam as difíceis relações entre a oralidade e a escrita, tidas,
às vezes, como realidades diferentes por si mesmas, mas que estão sempre se permeando. E,
neste sentido, pode-se conceber:

[...] a oralidade como constitutiva do escrito, que se traduz como produto


cultural essencialmente híbrido: o escrito se impõe como instância
fundamentalmente dialógica e textual, a um só tempo, que reflete a fusão de
gêneros orais e escritos, de temas e práticas de apropriação oriundos da
tradição oral e escrita (MAGALHÃES, 2003, p. 15-16).

Marcuschi (2000) defende a tese de que para se estudar a relação do letramento e da


oralidade dentro do contexto das práticas comunicativas entre grupos sociais é necessário ver
o letramento como prática social, posição também adotada, segundo o autor, por Barton e
Hamilton, conceituando-o como “modos culturais de uso de letramento”. Para Marcuschi
“[...] estudar o letramento é estudar os usos de textos escritos em contextos
sociais”(MARCUSCHI, 2000, p. 34), ou seja, a cultura escrita.
Apesar da afirmação de Ana Maria de Oliveira Galvão e de Antônio Augusto Gomes
Batista (2006), de que estejam crescendo os estudos sobre a relação oral/escrita no Brasil, esta
produção diz respeito aos séculos XX e XXI. Pouco encontrei acerca dos séculos XVII e
XVIII.

4.3.5 – Os registros paroquiais

Os registros paroquiais, em decorrência da Contra Reforma na Europa, fizeram com


que surgisse a necessidade urgente de se criar um instrumento que identificasse e mantivesse
sob controle todos os membros da Igreja Católica de forma individualizada. No Concílio de
Trento (1545-1563) ficou aprovado que cada Cúria seria responsável pelo registro de batismo
e matrimônio de seus paroquianos, sendo depois acrescentado os de óbito.
151

O registro obrigatório para batismos, casamentos e óbitos em Portugal foi estabelecido


nas Constituições de Coimbra, em 1591, e estendido ao Brasil até serem regulamentados pela
Constituição Primeira do Arcebispado da Bahia de 1707. Como a religião oficial do Brasil no
período colonial era católica, esses registros atingiram toda a população, inclusive a
escrava280, registrando as características individuais de cada pessoa e de suas famílias.
Infelizmente esses registros foram pouco preservados, restando uma parcela ínfima,
principalmente do século XVIII (MARCÍLIO, 2004).
Os registros de batismos e de óbitos, por serem os únicos documentos no período
colonial que comprovavam filiação e idade, eram, na maioria das vezes, solicitados pela
justiça nos inventários, nas justificações para emancipação e demais tipologias documentais
cartoriais281.
Os registros de casamentos religiosos não aparecem nos registros notariais devido ao
sistema de casamento mais comum, regido pelas Ordenações Filipinas, ser a “carta de
ametade”282 ou na forma do direito comum (por dote283 ou por arras284).

4.3.6 – Os registros de foro privado

Os registros setecentistas de foro privado (livros de contas e/ou de razão, cartas,


bilhetes, diários, borradores etc.), revelam-nos dados não expostos na documentação oficial,
como o borrador de Antonio Gomes Fernão Castelo Branco 285, que deixa transparecer desde
os “[...] sentimentos, dúvidas e perplexidades diante do mundo, dos homens e do tempo [...]”

280
Os senhores proprietários de escravos ao batizarem os nascidos no Brasil, em suas propriedades, garantiam a
sua posse, pois geravam um documento comprobatório, uma vez que a criança nascida de uma escrava não
possuía matrícula como o escravo comprado. Esses registros constituem-se em fonte de pesquisa sobre as
famílias escravas revelando suas relações de parentesco e sociais.
281
No século XIX é recorrente a solicitação desses documentos como comprovação de idade ou filiação, uma
vez que o registro civil no Brasil só surgiu na década de 1870 quando da chegada dos emigrantes de
confissão não católica, sendo opcional até 1890.
282
Era um contrato matrimonial através do qual o cônjuge sobrevivente ficava com a metade do espólio, sendo
esse o mais comum nesse período.
283
O dote no Brasil entrou em declínio no século XIX, deixando de trazer meios de produção para se destinar ao
sustento do casal. (NAZZARI, 2001).
284
Contrato no qual se estabelecia o valor do dote e outras condições, e cada nubente conservava a propriedade
individual dos bens possuídos antes do casamento. Os rendimentos de ambos os cônjuges passavam a ser de
propriedade comum.
285
Para saber mais detalhes sobre esse borrador (caderno de registro de operações comerciais e pessoais), ler:
PRIORE, Mary Del. Ritos da vida privada. In: SOUSA, Laura de Melo e. (Org.) “História da vida privada no
Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa”. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. (História
da vida privada no Brasil; 1) e JANCSÓ, István. “Brasil e brasileiros” - notas sobre modelagem de
significados políticos na crise do Antigo Regime português na América. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142008000100017&script=sci_arttext>. Acesso em: 07 jan.
2011.
152

(JANCSÓ, 2008) a finanças das famílias. Mary Del Priore (1997) descreve esse borrador
como uma “[...] espécie de rascunho em que registrava com caligrafia impecável cartas
pessoais e anotações financeiras [...]” (PRIORE,1997, p. 277).
Os livros de razão ou de contas, Algranti denominou-os de livros de escrituração
doméstica e os descreve como:

[...] uma espécie de memorial que recebia os lançamentos referentes às


transações diárias de compra e venda ou troca de produtos, registros de
alguns eventos familiares, como nascimento, batizado ou morte de filhos, de
dívidas e prejuízos ocorridos. Enfim, uma espécie de protocolo de escritura,
no qual o chefe da casa dirige a ele próprio as informações que considera
importantes, principalmente para o controle de suas finanças (ALGRANTI,
1997, p. 133).

Apesar de não ter encontrado em Sergipe os livros em sua materialidade, presumo a


existência desses por causa dos testamentos deixados pelos comerciantes e fazendeiros, como
o testamento de Feliz Francisco Nunes, em 1798, da Vila de Santo Amaro das Brotas:
“Declaro que as dividas que se me devam ficarão declaradas no meu livro de contas. Declaro
que as dividas que devo também ficam declaradas no meu livro de contas” 286.
Assim, a cultura escrita fixou e registrou o dia a dia dos homens e das mulheres em
épocas que o escrito, em suporte papel, era a forma de registro mais comum destas sociedades
letradas.
Mesmo sendo uma capitania pequena e subalterna à Bahia, Sergipe estava inserida
dentro da máquina administrativa portuguesa, governada por Ouvidores de Capitania, com
aparato judiciário, esfera eclesiástica, que se utilizava da cultura escrita para valer suas
decisões, suas solicitações e garantir direitos.
Analisar a cultura escrita em Sergipe Del Rey é, portanto, analisar seu cotidiano
administrativo, judiciário e eclesiástico. É investigar os meandros pelos quais sua oralidade
foi mediada, contornando, desta forma, o fosso existente entre aqueles privilegiados pelo
domínio da cultura escrita e os desprovidos dela, mas que suprimiam suas deficiências através
das redes de sociabilidade, ou até mesmo contratando profissionais da escrita, os escreventes,
como fizeram os portugueses e brasileiros em Sergipe.
São raros os vestígios dos elementos e artefatos da cultura escrita setecentista de
Sergipe, mas os encontrados nos mostram muito desta população. Ao expô-los, permitem-nos
compreender como a cultura escrita permeava a vida dos moradores de Sergipe e quais seus

286
Inventário de Feliz Francisco Nunes, 1798, p. 04-13.
153

usos, pois são objetos históricos que muito nos dizem do seu tempo, suas funções e seus
proprietários.
5 – VESTÍGIOS DE ALFABETISMO E LETRAMENTO NA CAPITANIA DE
SERGIPE DEL REY

A alfabetização, enquanto construção histórica, tem


continuidades e permanências que cabem ao
historiador compreender e explicar, reintegrando-as na
história das culturas e das sociedades.
(MAGALHÃES, 2001, p. 56).

A análise feita neste capítulo tem como objetivo entender o nível de alfabetismo e
letramento da elite setecentista em Sergipe Del Rey. Não tem como alvo investigar as
questões pertinentes à escolarização destes indivíduos, tampouco tem a pretensão de fazer a
história da alfabetização em Sergipe no século XVIII. A finalidade primordial é saber como
essa elite alfabetizada ou analfabeta transitava pela cultura escrita para fazer valer direitos e
cumprir deveres, tendo como escopo o ambiente jurídico sobre o qual estas ações ocorriam.
Por isso, é importante discorrer acerca dos conceitos de alfabetização, analfabetismo,
alfabetismo, letrado, iletrado e letramento.
Maria do Rosário Longo Mortatti (2004) traça um panorama do surgimento destes
termos no Brasil, utilizando-se de dicionários, como os de língua portuguesa e os técnicos de
alfabetização e linguísticas, até a introdução dos termos no meio acadêmico.
Em primeiro lugar, Mortatti recorreu aos três dicionários gerais da língua portuguesa.
O “Dicionário de língua portuguesa”, de Antonio de Moraes Silva, com dez edições
publicadas de 1789 a 1949; o Novo dicionário da língua portuguesa, de Aurélio Buarque de
Hollanda Ferreira, com três edições que passaram por diversas reimpressões entre 1975 e
1999; e o “Dicionário Houaiss da língua portuguesa”, de Antonio Houaiss, publicado em
2002. Para esta autora, enquanto o termo “analfabeto” configurava, no dicionário de Antonio
de Moraes Silva desde a sua primeira edição em 1789, o termo “iletrado” com a mesma
conotação de analfabeto, o termo “analfabetismo” só passou a existir no Brasil no final do
século XIX para conceituar a condição de analfabeto287, surgindo depois os termos
“alfabetizar” e “alfabetismo”. Quanto aos termos “letramento” e “letrado”, ressurgiram na
área da Pedagogia com novos significados diferentes dos já existentes no dicionário de

2 
Para Mortatti (2004), apesar da maioria da população do Brasil, no período colonial, ser constituída de
pessoas que não sabiam ler e escrever, essas pessoas não se autodenominavam de analfabetas nem de
iletradas. Foi a Lei Saraiva em 1882, que proibia o voto dos analfabetos, que tornou o termo analfabeto de
uso comum, uma vez que o analfabetismo se tornou um problema de ordem política para a nação. O voto do
analfabeto (facultativo) só voltou a ser garantido mais de um século depois com a Constituição de 1988.
Moraes. No dicionário “Houaiss” o termo “letramento” passou a ter dois significados:
processo, o mesmo significado de alfabetização, e literacy, devido à influência da língua
inglesa, também definido como a capacidade do uso do material escrito; enquanto o termo
“letrado” é designado para quem é capaz de utilizar diferentes tipos de materiais escritos.
Em seguida, Mortatti analisou três dicionários técnicos de alfabetização: o “Dicionário
de alfabetização: vocabulário de leitura e escrita”288, organizado por Theodore L. Harris e
Richard E. Hodges. Nele, os significados dos termos: “analfabeto”, “analfabetismo” e
“iletrado” são parecidos com os dos dicionários gerais da língua portuguesa, excetuando o
termo “lectoescrita” que vai ter a mesma tradução de literacy – a capacidade mínima de ler e
escrever em uma língua. Já a palavra “letramento” aparece em outros dois dicionários
técnicos de linguagem e linguística: o “Dicionário de alfabetização: vocabulário de leitura e
escrita”, de Ricardo L. Trask, publicado na Inglaterra em 1977 e traduzido no Brasil e
publicado em 2004, no qual o termo literacy foi traduzido como equivalente a “letramento” e
“iletrado” – pessoa que não tem a capacidade de ler e escrever. E o “Dicionário de análise do
discurso”, de Patrick Charaudeau e Dominique Mainguenau, publicado na França em 2002,
traduzido e publicado no Brasil em 2004, no qual o termo “letramento” é equivalente a
littératie, com três sentidos que remetem-no a um conjunto de conhecimentos elementares
passíveis de mensurar: ler, escrever e contar, e expressa os usos sociais da escrita como
opostos ao oral, não encontrando verbetes para os demais termos aqui expostos.
Mortatti, em sua pesquisa, mostra que o surgimento do termo “letramento” no Brasil
ocorreu na área acadêmica, na década de 1980, como um termo mais amplo do que
“alfabetização”, advindo do livro de Mary Kato (1986), “No mundo da escrita: uma
perspectiva psicolinguística”, no qual Kato diz crer que a língua falada culta era consequência
do letramento. Para a autora o termo “letramento” passa a ser um termo técnico utilizado na
área da Educação e das Ciências Linguísticas com a publicação do livro de Leda Verdiani
Tfouni em 1988, “Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso”, no qual faz diferença entre
alfabetização e letramento.
Magda Soares289, em 1995, utilizava o termo “alfabetismo” com o mesmo sentido de
literacy290 e justificava em nota que a palavra “letramento” era um neologismo desnecessário,

288
Título original em inglês: The Literacy Dictionary: the vocabulary of reading and writing, publicado nos
Estados Unidos em 1995, e traduzido no Brasil em 1999.
289
SOARES, Magda Becker. Língua escrita, sociedade e cultura. Revista Brasileira de Educação, São Paulo,
n. 0, p. 5-16, set./dez. 1995.
290
O termo “letramento” introduzido na década de 1980 no Brasil, surge sob a influência do termo inglês
literacy que até a década de 1990 era traduzido por “alfabetização/alfabetismo (MORTATTI, 2004).
156

mas em entrevista para o Jornal do Brasil, em 26/11/2000, quando indagada por Eliane
Bardanachvili sobre a definição de letramento, assim respondeu:

Letramento é, de certa forma, o contrário de analfabetismo. Aliás, houve um


momento em que as palavras letramento e alfabetismo se alternavam, para
nomear o mesmo conceito. Ainda hoje há quem prefira a palavra alfabetismo
à palavra letramento - eu mesma acho alfabetismo uma palavra mais
vernácula que letramento, que é uma tentativa de tradução da palavra inglesa
literacy, mas curvo-me ao poder das tendências linguísticas, que estão dando
preferência a letramento. Analfabetismo é definido como o estado de
quem não sabe ler e escrever; seu contrário, alfabetismo ou letramento,
é o estado de quem sabe ler e escrever. (SOARES, 2000, grifo meu).

Em 2003, ao fazer uma releitura de seus artigos, Magda Soares diz que passou a
utilizar o termo “letramento”, após 1995, porque foi adotado pelos estudiosos do tema. Mas
em 2004 ela estabeleceu a seguinte distinção entre alfabetização e letramento:

Assim, por um lado, é necessário reconhecer que alfabetização – entendida


como a aquisição do sistema convencional de escrita – distingue-se de
letramento – entendido como o desenvolvimento de comportamentos e
habilidades de uso competente da leitura e da escrita em práticas
sociais: distinguem-se tanto em relação aos objetos de conhecimento quanto
em relação aos processos cognitivos e linguísticos de aprendizagem e,
portanto, também de ensino desses diferentes objetos. Tal fato explica por
que é conveniente a distinção entre os dois processos. Por outro lado,
também é necessário reconhecer que, embora distintos, alfabetização e
letramento são interdependentes e indissociáveis: a alfabetização só tem
sentido quando desenvolvida no contexto de práticas sociais de leitura e de
escrita e por meio dessas práticas, ou seja, em um contexto de letramento e
por meio de atividades de letramento; este, por sua vez, só pode
desenvolver-se na dependência da e por meio da aprendizagem do sistema de
escrita. (SOARES, 2004, p. 97, grifo meu).

Para Mortatti (2004) o termo “letramento” ainda não está solidificado devido às
especificidades da nossa cultura, mas atualmente é a palavra mais utilizada nos textos
acadêmicos e já configura em dicionário da língua portuguesa, embora conviva com o termo
alfabetização, inclusive está nos Parâmetros Curriculares Nacionais – Língua Portuguesa,
onde ambos os termos são utilizados. O mesmo pensamento também tem Magda Soares:

[...] no Brasil os conceitos de alfabetização e letramento se mesclam, se


superpõem, frequentemente se confundem. Esse enraizamento do conceito
de letramento no conceito de alfabetização pode ser detectado tomando-se
para análise fontes como os censos demográficos, a mídia, a produção
acadêmica” (SOARES, 2004, p. 7).
157

A ampla utilização dos termos alfabetização, alfabetizar, analfabetismo e analfabeto


refletia nossa realidade educacional, que atingia alto nível de analfabetismo. Este termo
passou a ser de uso comum, enquanto o termo alfabetismo parecia estranho por não refletir a
então situação educacional, explicação encontrada por Magda Soares, na nota número 2 da
tradução feita por Tomaz Tadeu da Silva do texto de Graff (1990): É curioso que em
português seja amplamente corrente a palavra analfabetismo, mas não a que designa o estado
contrário, alfabetismo. Deve haver alguma ligação entre a semântica e a realidade social
(GRAFF, 1990, p. 64 apud SOARES, 1995, p. 6-7).
Para analisar o nível de alfabetismo e letramento, recorro a Magda Soares nos
conceitos de “alfabetismo” para expressar a condição daquele que aprendeu a ler e escrever; e
“letramento” para designar as habilidades de ler e escrever e seus usos em práticas sociais
(SOARES, 1995; 2004). Primeiro afiro o nível das assinaturas utilizando, para isso, as escalas
de níveis de assinaturas e das capacidades alfabéticas elaboradas por Justino Magalhães,
depois discorro sobre o letramento.
158

5.1 – AS ASSINATURAS COMO VESTÍGIOS DE ALFABETIZAÇÃO

Os estágios da cultura são avaliados, não uns poucos


Inventários, mas, principalmente pela própria grafia,
ortografia, e mesmo pelas assinaturas em cruz, “a
rogo”, grafadas corretamente ou desenhadas,
presentes nos documentos (FLEXOR, 2005).

O indicador geral do nível de alfabetismo é a assinatura, único indício escrito que nos
resta dos períodos anteriores aos Censos. É o vestígio histórico mais comum da alfabetização,
porém não revela a capacidade alfabética (ler, escrever) dos indivíduos que viviam nesses
períodos. No entanto, é a prova que temos da iniciação deles no mundo da cultura escrita.
Assim, a utilização de assinatura como vestígios de alfabetização em períodos
históricos, permite aos estudiosos distinguir dois grupos: analfabetos e os alfabetizados, como
também mensurar o nível de alfabetismo do segundo grupo, através de escalas de níveis de
assinaturas.
Para desvendar os inúmeros significados dos termos utilizados para as assinaturas nos
documentos trabalhados, foi necessário ler e reler os textos dos estudiosos da escrita e da
leitura (alfabetização) do Antigo Regime, como Roger Chartier, Antonio Viñao Frago, Justino
Pereira de Magalhães, a fim de entender o que era ler e escrever em Sergipe no século XVIII.
Os testamentos contidos nos inventários, ou em livros de registro de testamentos, foram as
fontes que mais dados forneceram, porque continham além das “falas” do testador a do
tabelião, sobre a capacidade alfabética do testador, complementando, preenchendo os vazios
na escrita devido os documentos estarem corroídos, ilegíveis ou por ser a grafia difícil de
entendimento. Mas os inventários com e sem testamentos também contribuíram por meio de
petições, procurações, bilhetes e recibos.
O fato de que nas sociedades do Antigo Regime aprendia-se primeiro a ler para depois
aprender a escrever levou Chartier (1991) a deduzir que quem sabia assinar o nome sabia ler,
por ser a escrita a segunda etapa da alfabetização, e que nem todos que liam possuíam a
habilidade de assinar o nome, devido a dois fatores: o de a assinatura ser aprendida por último
ou porque a falta da prática dela levava ao esquecimento, como expressa Chartier:

De fato, nas sociedades do Antigo Regime em que a aprendizagem da escrita


sucede a da leitura e envolve apenas uma parte das crianças, é claro que, se
todos os que assinam o nome sabem ler, nem todos os que leem sabem
assinar o nome. É claro também que entre os que sabem assinar nem todos
escrevem, ou porque a assinatura constitui o último estágio de sua
aprendizagem cultural, ou porque a falta de prática os fez perder o domínio
159

da escrita que aprenderam outrora e cujo resquício é a assinatura.


Paradoxalmente, podemos considerar que nas sociedades antigas a assinatura
identifica uma população que com certeza sabe ler, mas da qual só uma parte
(impossível de numerar) sabe escrever, e que não é a totalidade dos que
sabem ler, pois uma parte destes (também impossível de calcular) nunca
soube assinar (CHARTIER, 1991, p. 114, grifo meu).

Vale ressaltar que o contexto analisado por Chartier é o da França, o que por vezes
pode divergir da realidade brasileira, mesmo o Brasil partilhando da cultura europeia, uma vez
que estava sob a subordinação de Portugal no período colonial. Assim pude constatar ao
analisar 160 inventariantes e inventariados/testadores de Sergipe entre 1725 a 1800. Ao
contrário, na realidade colonial setecentista sergipana, assinar o nome nem sempre significava
saber ler e escrever, fossem homens ou mulheres, como comprova a “fala” obtida dos
testadores assinantes Domingos Lopes Coelho e Lourença Francisca de Andrade (Quadro 16):

Quadro 16 – Testadores assinantes


Ano Testador Fala do testador(a)
1778 Domingos Lopes Coelho Declaro que por não saber ler nem escrever pedi e roguei ao
(português) Senhor Joze Manoel de Oliveira que este testamento meu
escrevesse [...] me asignei ao pe deste com minha propria firma
de que uso [...] p.49
1800 Lourença Francisca de [...] roguei a meu sobrinho Francisco Teles Pacheco que este
Andrade escrevesse o que [ilegível] fez de tudo por eu não saber ler e não
saber escrever bem certo e depois de escrito me leu e achei
muito conforme a minha vontade na forma que havia ditado.
[ilegível] me asignei com o meu signal [...] p.4
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos de Domingos Lopes Coelho e Lourença Francisca
de Andrade existentes no Arquivo Geral do Judiciário.

Justino Magalhães (2001), estudioso da alfabetização em Portugal, também reconhece


que a alfabetização no Antigo Regime era geralmente feita mediante o aprendizado primeiro
da leitura para depois o da escrita. Atribuiu a baixa capacidade de leitura e apenas o
aprendizado do nome da maioria das crianças portuguesas no mundo rural a fatores
econômicos, familiares e às efetivas necessidades de ler:

O método de alfabetização mais usual até finais do Antigo Regime


assentavam numa aprendizagem diferenciada para a leitura e para a escrita.
Regra geral a aprendizagem da leitura era anterior a aprendizagem da
escrita. Por outro lado, para assumir uma atitude informada
“conscientizada” sobre determinados assuntos bastava saber ler. Seja por
debilidade económica, ou por motivo de suficiência, a verdade é que,
numa multiplicidade de casos, os pais retiravam os filhos da
aprendizagem da leitura e da escrita, após um curto período de
frequência que lhes permitira aceder a uma capacidade de leitura
160

rudimentar e à assinatura do nome. Tudo parece indicar no que se refere a


Portugal, que no decurso do Antigo Regime e mesmo ainda no século XIX,
já em período de franca escolarização, a generalidade das crianças
alfabetizadas não fora além de um nível rudimentar de literacia que lhe
permitia decodificar mensagens escritas e “firmar” a sua participação em
determinados actos sociais (MAGALHÃES, 2001, p.73-74, grifo meu).

Frago (1993), em seus estudos, na década de 1990, acerca da alfabetização em Murcia


no século XVIII, na Espanha, distinguiu quatro níveis da qualidade de assinatura e assinalou
que a existência de textos escritos, por esses assinantes, tinha permitido ao autor conhecer as
diferenças que as assinaturas mostram entre os alfabetizados. Para ele, a análise das
assinaturas permite diferenciar as com pouco domínio e prática da caligrafia, mas não
evidencia a capacidade de ler e escrever.
Villalta (2007) adota a mesma linha de raciocínio de Chartier e Magalhães ao afirmar
que:

Na sociedade colonial, como nas sociedades do Antigo Regime europeu que


lhe eram contemporâneas, o aprendizado da leitura antecedia ao da escrita e,
por conseguinte, os registros produzidos pela última partiram daqueles que,
em teoria, já familiarizados com a leitura, eram capazes também de escrever.
Logo, parte dos que não tinham a habilidade de escrever sabiam ler, o
mesmo se dando com aqueles que apenas sabiam registrar o próprio
nome [...] (VILLALTA, 2007, p. 289, grifo meu).

Quanto aos significados de “firma”, “meu sinal” e “meu sinal custumado” registrados,
analisando os testamentos e demais documentos contidos nos inventários, “firma” significa
assinatura, denominação dada até hoje para autenticação de assinatura pelos cartórios, como
observamos na Figura 26.
161

Figura 26 – Reconhecimento de letra e firma

Fonte: Inventário de Antonio Simoens dos Reis, 1791, p. 20.


162

Por esta Portaria temos feita e por todos asignada


fazemos noço bastante procurador ao Sr. Jozé
Pereira Pinto para que por nós [i] nomes poça
asignar hum [ilegível – 3 palavras] que fazemos
5 de tudo que nos pode tocar na erança do defunto
noço avo o Coronel Antonio Simoens dos Reis e eu como
administrador de meus filhos o Coronel Francisco P. Ludu
vici, Antonio Simoens Luduvice e D. Joana Maria Ludu
vici para o que lhe damos todo o poder que em direi
10 to nos ção concedidos. Taboca 17 de se
tembro de 1721.
Francisco P. Luduvici
Francisco Monis Telles
Manoel Joaquim Luduvice
15 Bento Menezes Chaves
Luiz Vieira de Mello

Reconheço a letra firma da procuração aci


ma ser do coronel Francisco Pedro Luduvice
do Reverendo Padre Manoel Joaquim Ludu
20 vici, de Francisco Monis Telles, de Bento
Menezes Chaves e Luiz Vieira de Mello pellas
Cauzas e outro [ilegível 2 palavras] em [ilegível]
[ilegível] prezente que asino em
[ilegível] de que[ilegível] nesta cidade de Sergipe

25 aos 25 de 8bro de 1791


Em to de verde Mel [da Silveira] Nollete

O “meu sinal” significava, no século XVIII, o nome e sobrenome, ou seja, a


assinatura, podendo ser abreviada ou não. Apesar de a palavra constar nos dicionários do
século XVIII, de Raphael Bluteau e de Antonio de Moraes Silva, nunca a encontrei nos
documentos pesquisados, vindo geralmente com a denominação de “meu sinal” e “sinal
custumado”, como os encontrados, a exemplo nos registrados dos testamentos de Manoel
Nunes de Azevedo (1779) e João da Rocha Cadeiro (1766), como constam nas Figuras 27 e
28 a seguir.
163

Figura 27 – Sinal costumado

Fonte: Testamento do português Manoel Nunes de Azevedo, 1779, p. 18.

por esta a [minha] ultima vontade [ilegível]


[corroído] [ilegível] meu [Testamento] o qoal pedi mo escreve ollo
[Manoel] Francisco de [Carvalho] e eu o ditei como nelle [ilegível]
[ilegível] e asignei com o meu signal custumado
5 Sergipe D’El Rey, dia mes anno atras declarados
[ilegível] assignou tambem o dito Manoel Francisco de Carvalho; [ilegível]
Como Ta deste escrevi a Rogo
do Testador M el Nunes de Azevedo
Mel [corroído] [ilegível]
Mel Franco de Carvalho

Figura 28 – Sinal assinatura

Fonte: Testamento de João Rocha Cardeiro, 1766, p. 8.


164

pedi ao Re P. Domos Affonso Lessa que me fizesse e as =


gnace, e eu me asigney com o meu sinal que hé o meu
nome, e com as mais testemunhas abayxo nomeadas//
Francisco Nogra de Souza Angello Nunes de Oliva o Ca=
5 ppam Mauricio do Rego Cruz Domos Pires Duque e
todos asignarão. Hoje Va Real da Luzia, 16 de M.o de 1766.

João da Rocha Cadeiro

Como testemunha que este fiz Domos Affonso Lessa


Angello Nunes de Oliveira
Domingos Peres Duque
[Domos] Pires Duque
Franco Nogra de Souza
Mauricio Cardoso Silva

O “meu sinal custumado” também era utilizado para denominar a assinatura sinal, a
cruz. Às vezes vinha com a palavra “cruz”, outras com a palavra “sinal”, outras vezes apenas
com o símbolo da cruz, como vemos nos documentos abaixo (Figuras 29 a 31).

Figura 29 – Palavra “cruz” acima do sinal

Fonte: Inventário de Arcangela Maria da Conceição, assinatura do inventariante Pedro Antonio de


Oliveira, 1796, p. 3.
crus
de Pedro + Ant o de Oliva a

Figura 30 – Palavra “sinal” após o nome

Fonte: Inventário de Damianna Ribeira, assinatura do inventariante Manoel Felix Pereira, 1794, p. 3.

Signal de Manoel + Felix Pra


165

Figura 31 – “Sinal” cruz após primeiro nome

Fonte: Inventário de Francisca Maria da Conceição, assinatura do inventariante Manoel Joze dos Santos,
1800, p. 2.

Mel + Joze dos Santos

No período aqui estudado, século XVIII, havia três tipos de assinaturas: assinatura
pelo alfabeto, a qual o indivíduo assinava nome e sobrenome, abreviado ou não, utilizando as
letras do alfabeto (Figuras 32 a 34); assinatura sinal, em que a pessoa colocava uma cruz antes
ou depois do seu primeiro nome (Figura 35); e a assinatura a rogo, na qual não havia vestígio
gráfico do não assinante (Figura 36).

Figura 32 – Assinatura com o uso de abreviaturas

Fonte: Inventário de Antonio de Souza Benavides, 1783, p. 6.

Figura 33 – Assinatura sem o uso de abreviaturas

Fonte: Inventário de Marianna Francisca de Salles, 1798, p. 3.


166

Figura 34 – Cruz antes do primeiro nome

Fonte: Inventário de Lucianna Maria, assinatura do inventariante Antonio Jose de Almeida, 1794, p. 3.

Figura 35 – Cruz depois do primeiro nome

Fonte: Inventário de Paulo Ribeiro e Maria de Oliveira, assinatura de Francisco Sergueira Pachequo,
1766, p. 48.

Para Magalhães (1994), a assinatura sinal (cruz) era aceita juridicamente, só que com
parâmetros diferentes entre homens e mulheres portugueses. Isso, segundo este autor, advém
muito mais da discriminação social que a envolve do que uma questão da alfabetização em si,
além de que não existem estudos consistentes da alfabetização da mulher no Antigo Regime
que possam estabelecer hipóteses seguras.
Apesar de também no Brasil não existirem estudos aprofundados sobre a alfabetização
das mulheres no período colonial, a situação jurídica delas enquanto assinantes legalmente
reconhecidas é um pouco diferente de Portugal, ao menos no que se refere a Sergipe. Embora
seja um grupo pequeno, ele existe, ainda que dentro da elite.
Se em Portugal até a segunda metade do século XIX a mulher não firmava “de cruz”
(MAGALHÃES, 2001), em Sergipe, no século XVIII, a mulher assim o fazia em seus
testamentos. Das 38 testadoras, encontrei oito que assinaram em cruz. Infelizmente, apenas
dois são originais (Figuras 36 e 37), o que permite uma análise mais detalhada.

Figura 36 – Assinatura da testadora em cruz, sem rogo

Fonte: Inventario de Micaella Cardozo de Oliveira, 1800, p. 25.

Crus da Testadora Micaella + Cardozo de Jezus.


167

Figura 37 – Assinatura de testadora em cruz, mas com rogo

Fonte: Inventario de Clara Martins de Castro, 1762, p. 9.

Asinno a Rogo
Da testadora [que]
Me pediu a Rogar

de Dona Clara + martinz de Casto


Pascoal Gomes de Mello

O fato de uma delas ter sido validada pelo rogo de um homem não tira sua
importância, uma vez que também na assinatura sinal (cruz) feita por homens isso ocorria
(Figura 38).

Figura 38 – Assinatura em cruz, com rogo

Fonte: Inventário de Arcangela Maria da Conceição. Assinatura do inventariante Pedro Antonio de


Oliveira e cruz com o rogo de Pedro de Avila Pacheco, 1796, p. 3.

Como testemunha
Que este fis a Rogo do tutor Pedro + Anto de Olive
Pedro de Avila Pacheco

E o que dizer de uma escrava assinando com uma cruz, mesmo sendo em 1804? Assim
o fez a escrava Vitoria ao receber, cinco anos depois, os brincos de ouro que sua senhora
168

Thereza da Motta deixou para ela como consta em seu testamento 291 em 1794: “Declaro que
deixo a minha escrava Victoria um par de brincos com uma oitava de peso digo de [corroído]
de duas oitavas”. Apesar de o recibo ser de 1804, aponta situações em que escravas assinavam
em cruz (Figura 39).

Figura 39 – Recibo assinado com uma cruz pela escrava Vitoria

Fonte: Prestação de contas de testamenteiro de Joze de Souza Vieira, marido da testadora Thereza da Motta,
1804, p. 18.

Rzci de meu Snr Joze de Sza vieira hym Par de Brin


cos de ouro [que] me deixou a def.a m. a Sra D. Threza
da Motta no seu testamto que fez com o pezo de duas
oitavas e por eu não saber Ler nem escrever pe
5 di e Rogei a Mario Alff. ca da Costa qe este por mim fi
zeçe e asignaçe e eu me asigei com o meu sinal
costumado qe hé hua cruz. Hoje
[do] agosto 15 de 1804
Sinal + de Vitoria
Como testa qe este fis a rogo da dita escrava
Malario Affca da Costa

A testadora Thereza da Motta declara em seu testamento que não sabe ler nem
escrever, mas seu marido, Joze de Souza Vieira, assinava, embora de forma rudimentar (nível
2).

291
Prestação de contas de testamenteiro em 1804, p. 6. Contém o traslado do testamento de Thereza da Motta,
feito em 1794.
169

Figura 40 – Assinatura de Joze de Souza Vieira, marido de Thereza da Motta

Fonte: Prestação de contas de testamenteiro de Joze de Souza Vieira, marido da testadora Thereza da
Motta, 1804, p. 30.

Diante do exposto, a alfabetização das mulheres setecentistas moradoras de Sergipe


Del Rey, incluindo as escravas, merece um estudo aprofundado que abranja questões mais
amplas sobre o seu trânsito pela cultura escrita.
A utilização da assinatura como uma forma indiciária das capacidades alfabéticas
envolve duas dimensões socioculturais, segundo Justino Magalhães (1994), a social e a
técnica. Social porque ela é uma evidência do pertencimento do indivíduo a um espaço
privilegiado, o da cultura escrita; e técnica pelo desempenho gráfico que requer precisão no
traço, ligação e alinhamento das letras e correção gramatical. Também chama a atenção que
esta destreza técnica e relevância social, que às vezes advém de uma necessidade de
autoafirmação do assinante, demonstra treino, mas não em si a sua capacidade alfabética,
como podemos ver na Figura 41 a seguir, onde em lugar da inventariante Roza Maria do
Sol292 “[...] por ser mulher e não saber ler nem escrever asinou Antonio Alves da Silva [...]”,
não constando no inventário outra informação sobre quem era Antonio Alves da Silveira, o
assinante a rogo, detentor de uma elaborada assinatura, nem algo escrito pelo mesmo, que
possa fornecer indícios acerca da capacidade alfabética; diferentemente da também rebuscada
assinatura do Doutor Antonio Josê Pereira Barrozo, Ouvidor Geral do Crime e Civil
Corregedor da Comarca de São Cristóvão em 1766, que, devido ao cargo, diz muito da sua
capacidade alfabética.

292
Inventário de Simplicio de Fontez, 1771.
170

Figura 41 – Assinatura de Antonio Alves da Silveira, assinante a rogo da


inventariante Roza Maria do Sol

Fonte: Inventário de Simplício de Fontez, 1771, p. 3.

Figura 42 – Assinatura do Doutor Antonio Josê Pereira Barrozo, Ouvidor Geral do


Crime e Civil Corregedor da Comarca de São Cristóvão em 1766

Fonte: Inventário de Antonio Teixeira de Souza, p. 17.

Também o traço mal esboçado e rudimentar, às vezes traduz não em uma proficiência
ruim da cultura escrita, mas na impossibilidade devido à doença, como consta na assinatura
(Figura 43) do Reverendo Padre Domingos Salgado de Araujo, português, que estando
“enfermo, mas de pé”, assina com dificuldade seu testamento em 1773.

Figura 43 – Assinatura do testador no testamento de Domingos Salgado de Araujo

Fonte: Inventário de Domingos Salgado de Araujo, 1763, p. 15.


171

Mensurar níveis de assinatura é uma tarefa muito difícil. Por mais critérios que se
utilize, há sempre margens consideráveis de erros, devido à própria natureza da assinatura,
aqui sempre lembrada, ser um indicador de alfabetismo, principalmente para os períodos
anteriores aos Censos, mas em si não atestar capacidades alfabéticas (ler e escrever), por isso
deve ser analisada no contexto. Exemplo disso é a assinatura de Joze Caetano da Silveira
Nollete (Figura 44) que, vista só sob a ótica do traço caligráfico, assinando a rogo da
inventariante Anna Maria da Victoria, viúva de Antonio Simoens dos Reis, é enquadrada no
nível 3. No entanto, ele é o escrivão293 da Comarca de São Cristóvão, homem alfabetizado,
com conhecimentos prático e teórico do Direito da época.

Figura 44 – Assinatura do escrivão Joze Caetano da Silveira Nollete

Fonte: Inventário de Antonio Simoens dos Reis, 1790, p. 3.

O inverso ocorre com a assinatura de Alexandre Lopes do Valle, que pela escala de
assinaturas está no nível 4 (assinatura caligráfica, todas as letras estão corretamente
desenhadas e ligadas), no entanto ele é analfabeto, não sabe ler nem escrever, apenas assina o
nome, como deixou registrado na declaração de débito do restante do dote de sua filha (Figura
45 a seguir). São documentos como esse que, ao mesmo tempo em que mostram o quanto é
difícil mensurar, através da assinatura, a capacidade alfabética de um(a) setecentista, também
fornecem outros dados sobre a alfabetização: a quem recorriam os analfabetos quando
precisavam redigir um documento (neste caso ao compadre); recuperar a assinatura de um dos
cônjuges que, pela falta do testamento, não tinha firmado sua assinatura (Genoveva Maria das
Flores); o nível de letramento do redator do documento (caligrafia, ortografia, escrita lógica),
pois como venho afirmando, só dentro do contexto a assinatura diz mais do que o fato de ser
assinante ou não assinante, constitui um dado relevante, diante de tão poucos dados
encontrados no século XVIII.

293
Magalhães, ao analisar a escrita dos escrivães portugueses, encontrou, na maioria das vezes, uma escrita
legível com um traço regular, mas muitos tinham dificuldade em escrever algumas expressões e nomes não
cotidianos (MAGALHÃES, 1994, p. 495). O mesmo ocorreu em Sergipe setecentista.
172

Figura 45 – Declaração de débito de dote de Alexandre Lopes do Valle

Fonte: Inventário de Genoveva Maria das Flores, 1781, p. 54.

Devo que pagarei ao Sr. Mel dos Reis Covilhão [ilegível] este [corroído]
moztrar sento e sincoenta e nove mil e sete sentos e corenta
e hu Reis procedidos do Resto de contas que fizemos do seu dote [corroído]
[ilegível] coantes lhe pagarei com duas safras xas de asuqre. pa. se vem
5 Derem nas frotas e se embolçar do do compito de 159$741 Reis
a metade em hua e a outra ametade em outra sem ahiso por
duvida algua e por não Saber Ler nem escrever pedi e roguei
a meu compe João Paez de Azevedo que este por mim fizesse
e eu me asignei com o meo signais com o meu Signal costumado tabua 7 de
10 ma co de 1761.

Genoveva Maria das Flores


São 159$741

Como Testa qe este fiz a Rogo João Paez de |Azevedo


Alexandre Lopes de Salles
173

Assim, não há como correlacionar a escala de assinaturas com a de níveis de leitura e


escrita como Justino Magalhães (1994) fez, pelo menos para este estudo.

Escala de assinaturas Escala de níveis de leitura e escrita

Assinatura personalizada; criativa 5 lê e escreve bem; (formação acadêmica);

Assinatura caligráfica; estilizada 4 lê e escreve; lê e escreve sofrivelmente;

apenas lê e escreve; escreve sofrivelmente; escreve; lê


Assinatura completa; normalizada 3 e escreve alguma coisa;

apenas lê e escreve mal; apenas lê e escreve o nome;


Assinatura incompleta; "mão guiada" 2 apenas lê; apenas escreve ou faz o nome;

Sinal - assinatura 1 não sabe ler, nem escrever; nada.


Fonte: MAGALHÃES, 1994, p. 330.

Diante do exposto analiso as assinaturas dos inventariantes, inventariados e testadores


sob a ótica da caligrafia e não da capacidade alfabética (ler e escrever) de seus assinantes.
Para isso, tenho como base a escala de níveis de assinatura, com cinco indicadores, formulada
por Justino Magalhães294, só que modificada quanto à denominação do primeiro nível, por
expressar mais a realidade de Sergipe setecentista que, diferentemente de Portugal, não tem
assinaturas com sinais que remetam às profissões ou que por si identifiquem os assinantes,
como as aqui reproduzidas do trabalho de Francisco Ribeiro da Silva 295 (Figura 46, a seguir) e
a inclusão de mais um nível.

294
Escalas de níveis de assinaturas: nível 1 - não assinaturas (siglas, sinais-assinaturas); nível 2 - assinatura
imperfeita, rudimentar; nível 3 - assinatura normalizada, completa (podendo ser abreviada); nível 4 -
assinatura caligráfica, todas as letras estão corretamente desenhadas e ligadas; nível 5 - assinatura
pessoalizada, com perfeição e marcas pessoais. (MAGALHÃES, 1994, p. 317-319).
295
Marchante (1), alfaiate (2), fragueiros e lenhadores (3 e 4), carpinteiro e pedreiro (5 e 6), ferreiro (7),
lavradores (8 a 11) e juiz (12). SILVA, Francisco Ribeiro da. A alfabetização no Antigo Regime: o caso do
Porto e de sua região (1580-1650). Disponível em: <http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2044.pdf>.
Acesso em: 20 nov. 2012.
174

Figura 46 – Assinaturas sinais de profissões em Portugal

Fonte: SILVA, Francisco Ribeiro da. A alfabetização no Antigo Regime: o caso do Porto e de sua região
(1580-1650). p. 116. Disponível em: <http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2044.pdf>. Acesso em: 20 nov.
2012.

Havia também as assinaturas sinais não relacionadas com profissões, mas a base era a
cruz que identificava os assinantes, (Figura 47).

Figura 47 – Assinaturas sinais cuja base, em Portugal, era a cruz

Fonte: SILVA, Francisco Ribeiro da. A alfabetização no Antigo Regime: o caso do Porto e de sua região
(1580-1650). p. 116. Disponível em: <http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2044.pdf>. Acesso em: 20 nov.
2012.

Na documentação setecentista pesquisada não encontrei assinaturas, sinais relativos à


profissão específica de um indivíduo, mas os sinais públicos dos tabeliães, os quais na
verdade constituíam assinaturas sinais que davam autenticidade e fé pública, porém só
produzidas por estes agentes judiciais, a exemplos das Figuras 48 e 49, a seguir.
175

Figura 48 – Sinal público do tabelião Antonio Rodrigues Vieira - 1758

Fonte: Inventário de Felix Alvares Vianna, 1758, p. 7.

Figura 49 – Sinal público do tabelião Manoel Francisco da Conceição – 1763

Fonte: Inventário de Domingos Salgado de Araujo, 1763, p. 17.

Adaptei a escala de assinaturas elaborada por Justino Magalhães quanto à


denominação do nível 1: de não assinaturas (siglas, sinais-assinaturas) para nível 1:
assinatura sinal (cruz) com a finalidade de expressar a realidade encontrada na
documentação setecentista sergipana, abaixo detalhada:

Escala de níveis de assinaturas para Sergipe do século XVIII:

Nível 1 - assinatura sinal (cruz);


Nível 2 - assinatura incompleta, imperfeita, rudimentar, tosca;
Nível 3 - assinatura normalizada, completa (podendo ser abreviada);
Nível 4 - assinatura caligráfica, todas as letras estão corretamente desenhadas e ligadas;
Nível 5 - assinatura personalizada, com perfeição e marcas pessoais.
176

O nível 1 representa a não assinatura pelo alfabeto, que neste trabalho, para a realidade
de Sergipe setecentista, denominei de assinatura sinal (cruz). Sua inclusão deve-se ao fato
de que “[...] é o reconhecimento da existência de uma barreira entre aqueles que firmam ‘de
cruz’ e os tão-pouco chegam a pegar num instrumento de escrita [...]” (MAGALHÃES, 2001,
p. 124) a exemplo da Figura 50.

Figura 50 – Assinatura sinal (cruz) de Faustino Domingos

Fonte: Inventário de Thomas Domingues da Silva, 1800, p. 34.

No nível 2, assinatura incompleta, imperfeita, rudimentar, identificada por ter letras


soltas e toscas, sem harmonia, com valorização das preposições, mal uso de letras maiúsculas
e minúsculas, abreviaturas não possível de serem decifradas, existência do traço retilíneo
descendente e uso dos apelidos não comuns. Vinão Frago inclui neste tipo de assinatura o que
ele chama de “mão guiada” e de “traço memorizado”, denominações essas incorporadas na
escala por Magalhães. A Figura 51 é um exemplo.

Figura 51 - Assinatura do avaliador Jose Pereira Lima.

Fonte: Inventário de Francisco Cardozo de Souza, 1753, p. 86.

O nível 3, assinatura normalizada, completa, representada pela assinatura com o uso


correto da grafia do nome, sendo ou não abreviada, mas podendo aparecer a preposição (de,
da, do) maiúscula, como ocorreu na assinatura a seguir (Figura 52).
177

Figura 52 – Assinatura de Antonio Teixeira de Souza

Fonte: Inventário de Maria da Assumpção, 1789, p. 38.

O nível 4 corresponde à assinatura caligráfica. Todas as letras são grafadas de forma


correta e ligadas, tendo ritmo e cadência, com inclinação e sinais de marcas pessoais, parecida
com a caligrafia escolar (Figura 53). O fato de serem poucas as assinaturas encontradas neste
nível, talvez seja porque as aulas de leitura e escrita eram poucas em Sergipe 296 nessa época.
A escolarização padronizava a grafia dos alunos que, ao aprenderem dentro do método da
época, tendiam a reproduzir um tipo de caligrafia. Hébrard, ao falar do método, de como era
ensinada a escrita nos colégios franceses do Antigo Regime, dá-nos uma ideia de como as
crianças aprendiam a ler:

O mestre lhes dá para copiar uma letra. Elas declinam uma sílaba, uma
palavra, um pensamento útil. Elas declinam os nomes e conjugam os verbos,
elas os escrevem à mão em um pequeno pedaço de papel e seja lá o que
tenham escrito, elas o apresentavam imediatamente ao mestre. Este faz ele
próprio o seu exame, ele lhes assinala os erros, as negligências de escrita.
(COMPÈRE; JULIA, 1984, p. 106 apud HÉBRARD, 1990, p. 80).

O dado para distingui-las das do nível 5, devido ao fato de serem parecidas, foi o uso
de abreviações.

Figura 53 – Assinatura de Joze Joaquim de Souza

Fonte: Inventário de Joze de Souza de Britto, 1792, p. 91.

296
Havia apenas uma na cidade de São Cristóvão e outra na Villa de Santa Luzia. (NUNES 1984).
178

No nível 5, assinatura personalizada, é feita com perfeição e marcas pessoais


(arabescos297), com estilo. Algumas de tão rebuscadas parecem uma obra de arte caligráfica,
como a do Juiz de órfãos Felippe de Mello Pereira (Figura 54), mas não comuns no cotidiano
dos homens e mulheres setecentistas de Sergipe.

Figura 54 – Assinatura do Juiz de Órfãos Felippe de Mello Pereira

Fonte: Inventário de Damianna Ribeiro, 1794, p. 3.

As assinaturas com arabescos, tendo abreviaturas no nome ou sobrenome, são as mais


comuns encontradas nos testamentos e inventários pesquisados. Seu traçado é trabalhoso,
difícil de ser imitado e talvez por isso fosse tão utilizada. Os arabescos só foram encontrados
nas assinaturas masculinas. Requeria destreza no manuseio dos instrumentos da escrita e seu
uso frequente (Figuras 55 e 56).

Figura 55 – Arabesco da assinatura do Alferes Joze Cardozo de Vasconsellos

Fonte: Inventário de Manoel Nunes de Azevedo (português), 1755, p. 65.

297
Recurso ornamental para ilustrar a assinatura, imitando ornatos árabes.
179

Figura 56 – Arabesco da assinatura do Sargento-mor Antonio Gomes Ferrão


Castelobranco

Fonte: Inventário de Alexandre Gomes Ferrão Castelobranco, 1762, p. 19.

Os arabescos também faziam parte das rubricas dos juízes, curadores e escrivães
(Figura 57).

Figura 57 – Arabescos na assinatura e rubrica do Juiz de Órfãos trienal Sargento-mor


Manoel Jose Soares
Assinatura Rubrica

Fonte: Inventário de Antonio Teixeira de Souza, 1752, p. 15 e 38.

A rubrica de autoridades era comum no mundo jurídico, mas não a de mulheres.


Contudo, encontrei um caso de uma espécie de rubrica feita por uma mulher. Na petição de
cobrança de dívidas realizada pelo Cônego Jozê de Magalhães Teixeira, referente à dívida de
trinta e um mil cento e setenta réis, feita pelo seu marido o Sargento-mor Antonio Fernandes
Beires, a então viúva Francisca Catharina Solto Fraga atesta a dívida assinando o seu primeiro
nome – Francisca (Figura 58, a seguir), embora ratifique depois na página seguinte com a
assinatura do seu nome por completo (Figura 59, a seguir).
180

Figura 58 – Atesto de dívidas feito por Francisca Catharina Solto Fraga

Fonte: Inventário de Antonio Fernandes Beires, 1794, p. 85.

D. FrnCa

Não tem duvida na saptisfação desta divida


pr ser verdade. Est.a 3 [corroído] 1795
[corroído 4 palavras] Pra Grz da Sila
[corroído 4 palavras] João [ilegível] da Silveira

Figura 59 – D. Francisca Catharina Solto Fraga

Fonte: Inventário de Antonio Fernandes Beires, 1794, p. 86.

Para analisar as assinaturas da elite setecentista de Sergipe Del Rey elaborei escalas de
níveis de assinaturas via inventariantes, inventariados e testadores setecentistas, com o
objetivo de identificar níveis de alfabetismo (Apêndice C).
Dos 172 inventariantes, inventariados e testadores, representantes da elite setecentista
de Sergipe Del Rey, só foi possível recuperar 97 assinaturas298 que dão uma visão dos tipos de
assinaturas deste grupo, refletindo a situação alfabética desta população de homens e
mulheres quanto à capacidade de escrever seu nome.

298
As assinaturas foram trabalhadas no fotoshop, a fim de retirar outros traços caligráficos, carimbos, borrões,
que pudessem interferir na análise das mesmas.
181

Tabela 5 – Tipos de assinaturas da elite setecentista de Sergipe Del Rey


Tipos de assinaturas Níveis Homens Mulheres Total Porcentagem
Assinatura sinal (cruz) 1 4 2 6 6%
Assinatura imperfeita 2 5 2 7 7%
Assinatura normalizada 3 44 5 49 51%
Assinatura caligráfica 4 25 2 27 28%
Assinatura personalizada 5 8 0 8 8%
Total - 86 11 97 100%
Fonte: Elaboração da pesquisadora a partir das 97 assinaturas localizadas nos testamentos do século XVIII e
existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Como a tabela acima atesta, há uma exígua participação da mulher como assinante,
refletindo o tipo de educação a elas permitido. Das 11 assinantes, duas fazem-no de forma
rudimentar, enquanto cinco firmam sua assinatura no mesmo nível da maioria dos homens e
três assinam com uma cruz.
Ao analisar as assinaturas dessas 11 mulheres, percebi que cinco delas utilizavam o
tratamento “Dona” colocando-o antes de seus nomes de forma abreviada (D.). Esse
tratamento era destinado às mulheres cujos maridos tinham título nobiliárquico 299 e usavam o
tratamento “Dom” (SILVA, 2005). Realmente essas cinco mulheres eram casadas com
pessoas detentoras de cargos e, por consequência, tanto elas quanto suas filhas 300 faziam uso
do “dona” como sinal de distinção e prestígio social (Quadro 17).

Quadro 17 – Uso de tratamento nobiliárquico das mulheres setecentistas de Sergipe


Nível das
"DONA" MARIDO CARGO assinaturas
D. Josefa Maria de Vasconsellos Joaquim Joze Braque Capitão 3
Alexandre Gomes Ferrão
D. Maria Cardozo de Oliveira Castelobranco Capitão 3
D. Maria Francisca de Freitas Manoel Caetano do Lago Tenente 3
D. Francisca Catharina Sotto Fraga Antonio Fernandes Beires Capitão-mor 4
Manoel Joze Nunes Coelho de
D. Angelica Perpetua de Jezus Vasconcelos e Figueiredo Coronel 4
Fonte: Elaboração da pesquisadora feita a partir das 12 assinaturas de mulheres, localizadas em inventários e
testamentos do século XVIII. Esses existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de
Sergipe.

299
O uso indiscriminado do tratamento “Dom” levou o governo português no século XVII a regulamentar o seu
uso através do Alvará de 3 de janeiro de 1611, estabelecendo pena de 100 cruzados e o degredo de dois anos
para África se fizessem descaso do título (SILVA, 2005, p. 26). No Brasil Colônia este tipo de tratamento nos
séculos XVII e XVIII não era comum, sendo geralmente aplicado às mulheres de nobres ou detentores de
cargos. No século XIX o tratamento passa a ser comum, atribuído cada vez mais a um maior número de
mulheres que se destacavam pela fortuna ou posição social. No século XX o tratamento "dona" torna-se
corriqueiro, estendido a todas as mulheres casadas, não representando mais nenhum tipo de distinção.
300
Ver Figura 62 – Assinaturas das filhas de Joaquim Joze Braque, Ignacia Joaquina de Loyola Braque e Anna
Cecilia Braque.
182

Todas elas assinaram com uma caligrafia enquadrada nos níveis de domínio da escrita
correspondente à assinatura normalizada de nível 3 (completa, representada pela assinatura
com o uso correto da grafia do nome, podendo ser abreviada ou não) e à assinatura caligráfica
de nível 4 (todas as letras são grafadas de forma correta e ligadas, tendo ritmo e cadência, com
inclinação e sinais de marcas pessoais). Elas casaram com homens alfabetizados, com
domínio da leitura e escrita, pois os cargos assim exigiam, e com cabedais significativos. Vera
Maria dos Santos (2011) fez uma análise detalhada destas famílias, quando abordou a
instrução elementar dada aos filhos menores das mesmas, com exceção a família de Manoel
Joze Nunes Coelho de Vasconcelos e Figueiredo que não teve filhos. Angelica Perpetua de
Jezus, com a morte do marido e do sogro, passou a gerenciar uma fortuna avaliada em
dezessete contos e cinquenta e sete mil e oitocentos e treze réis (17:057$813), atuando como
inventariante nos dois inventários, uma vez que sua sogra era uma mulher bastante idosa e,
segundo ela, “sem inteligência” para administrar.
Porém, há discordância nos registros sobre o analfabetismo de algumas mulheres
setecentistas, pelo menos de algumas moradoras de Sergipe. Só que a contradição na fala dos
agentes históricos não deve desacreditar da fonte e sim permitir ver, sob outro ângulo, uma
dada realidade e é assim que o analfabetismo das mulheres setecentistas de Sergipe deve ser
visto, com um olhar mais apurado, questionado.
Quando o Alferes Antonio Soares Dias, irmão de Jozefa Maria de Vasconcellos, viúva
do Capitão Joaquim Joze Braque, com seis filhos, dos quais cinco eram menores de idade,
moradora na Povoação da Estância, Termo da Vila Real de Santa Luzia, com bens 301
avaliados em quinze contos oitocentos e cinquenta e quatro mil e cinquenta e seis réis
(15:854$056), a quarta maior fortuna encontrada nesta pesquisa, assina a seu rogo ratificando
o que o escrivão registraria: “[...] mandou o ditto Juis fazer este Autto que asignou pella

301
Trinta e dois escravos, fivelas de ouro de sapatos, fivelas de liga antiga de ouro, continhas de ouro, voltas de
ouro com dois pingentes, botões de ouro, cordão de ouro, colares de bentinho de ouro, laços de ouro, brincos
de ouro, laços de pescoço de ouro, relógios de ouro, traçado de ouro, miudezas de ouro, um rosário de ouro,
crucifixo pequeno de ouro, cruz com oito Padre Nossos de ouro, relicários de ouro, uma imagem de ouro de
Nossa Senhora da Conceição, brincos de pedras, botões de pedras brancas, anéis de pedras, anel com um
topázio, colheres de prata, garfos de prata, copo de prata, fivelas de prata, esporas de prata, fivelas de liga de
prata, cabos de facas de prata, bengala com cabo de prata, faqueiro, tachos de cobre, bacia de cobre, traçado
de prata, casaca de pano azul com trancelim de ouro e botões de pedra, vestido de veludo, tecidos (peças de
linho branco e azul; panos de linho; chita; bocetões vermelho, amarelo e azul), lenços, chapéus de baeta, capa
de tafetá, catre de jacarandá, cama, mesas de madeira branca, cômoda, mesa de jogo, cadeiras de couro,
banco de encosto, caixão grande com gavetas, arcas cobertas de couro, baús pequenos e grandes, frasqueiras
de vidro, caixão de despejo, sítio de terras com casas de morar e pés de coqueiros, metade do sítio de terras
de criar gado chamado São Jorge, do sítio de terras de criar na beira do Rio Real, porção de terras junto ao
Engenho, vacas, sendeiro, garrotes, poldros, bestas, cavalos, juros de dívidas, dívidas ativas e passivas.
183

Inventariante não saber ler nem escrever asignou a seo Rogo o Alferes Antonio Soares Dias
[...]” (grifo meu 302).

Figura 60 – Assinatura de Antonio Soares Dias a rogo de sua irmã Jozefa Maria de
Vasconcellos

Fonte: Inventário de Joaquim Joze Braque, 1795, p. 120.

Vas
Asigno a Rogo de
Minha Mana D. Jozefa Ma
Ria de vaslos
o
Ant Soares Dias
1792

Como constatei, “não saber ler e escrever” não tornava um indivíduo setecentista
incapaz de assinar seu nome. Neste sentido chama atenção o fato de que Jozefa Maria de
Vasconcellos assina como tutora, responsável pela educação e gerenciamento dos bens dos
filhos menores, como declara no termo 303 de entrega dos bens, em 1796. E, enquanto
inventariante responsável por declarar os bens existentes do casal, é seu irmão que assume
este papel, como atesta a referida assinatura304 a seguir:

302
Inventário de Joaquim Joze Braque, 1795, p. 1.
303
Inventário de Joaquim Joze Braque, 1795, p. 62.
304
O nível na escala de assinaturas, adotado para esta assinatura a qual se classifica como uma assinatura
normalizada, completa, que pode ser abreviada, é o 3. Inventário de Joaquim Joze Braque, 1795, p. 120.
184

Figura 61 – Assinatura de D. Jozefa Maria de Vasconcellos

Fonte: Inventário de Joaquim Joze Braque, 1795, p. 120.

Outra contradição quanto ao nível de alfabetismo está na declaração de Jozefa Maria


de Vasconcellos, em 1796, de que os filhos estão aprendendo a ler, escrever e contar e as
“fêmeas” a cozer e fazer rendas, assim era a educação das mulheres nesse período. Mas, em
1808, suas filhas Ignacia Joaquina de Loyola e Anna Cecilia Braque, ao solicitarem
emancipações para receber suas legítimas, que segundo elas estavam em mãos de seu irmão, o
padre Manoel Trindade, assinam a petição. Assim podemos constatar que não foi ministrado a
elas, “fêmeas”, só a educação própria do seu sexo: cozer, fazer rendas. Em algum momento de
suas vidas elas aprenderam a assinar, assim como sua mãe (Figura 62).

Figura 62 – Assinaturas de Ignacia Joaquina de Loyola Braque e Anna Cecilia


Braque, filhas de Joaquim Joze Braque

Fonte: Inventário de Joaquim Joze Braque, 1795, p. 126.

Seu irmão, o Alferes Antonio Soares Dias, e seu marido, o Capitão Joaquim Joze
Braque, sabiam ler e escrever, condição exigida para exercer os referidos cargos, como
esclarece Magalhães:
185

Todos os capitães são alfabetizados, como de um [sic] forma geral todos os


alferes e, sobretudo, os sargentos (estes eram encarregados da administração,
controlando o movimento de soldados e os materiais existentes). Os cabos
raramente assinavam. Os soldados eram de uma forma geral analfabetos
(MAGALHÃES, 1994, p. 213).

O filho mais velho de Jozefa Maria, Manoel da Trindade, era padre e, portanto,
também sabia ler e escrever; e os filhos “machos”, como declarou, mandou ensinar-lhes a
Doutrina Cristã, a ler, escrever e contar, estando, deste modo, toda a família inserida no
mundo da cultura escrita.
Também os níveis de assinatura não mostram avanços ou retrocessos mediante a
política educacional de Pombal, reforçando a tese de Thétis Nunes (1996, p. 264) de que o
Alvará de 28 de junho de 1759, que expulsou os jesuítas do reino português, não alterou a
vida educacional de Sergipe, prova de que, segundo a autora, quando a Capitania se tornou
Província, em 1820, só havia 18 aulas de Primeiras Letras espalhadas na cidade, vilas e
povoações. O Quadro 18, a seguir, reforça essa tese.
186

Quadro 18 – Ano e nível de assinaturas


ANO NÍVEIS ANO NÍVEIS ANO NÍVEIS ANO NÍVEIS ANO NÍVEIS
1725 4 1761 3 1776 3 1793 3 1798 3
1725 5 1762 1 1777 3 1793 4 1798 4
1726 1 1762 3 1777 4 1793 5 1798 4
1730 3 1762 3 1780 3 1794 1 1799 3
1730 3 1762 3 1781 3 1794 1 1799 3
1732 3 1762 3 1781 4 1794 3 1799 3
1749 3 1763 2 1783 2 1794 3 1799 4
1749 3 1763 3 1783 3 1794 3 1799 4
1749 4 1764 3 1784 3 1794 4 1799 4
1750 3 1764 4 1788 3 1795 3 1799 3
1751 3 1764 4 1788 4 1795 3 1800 1
1752 3 1764 4 1789 2 1795 5 1800 3
1752 3 1765 3 1789 3 1796 1 1800 3
1753 5 1765 4 1789 4 1796 3 1800 4
1755 4 1766 2 1789 4 1796 3 1800 4
1755 5 1766 3 1790 3 1796 4 1800 4
1757 2 1766 4 1792 3 1797 2
1757 2 1767 4 1792 3 1797 3
1757 3 1768 4 1792 3 1797 3
1758 5 1771 5 1793 3 1798 3
Fonte: Elaboração da pesquisadora a partir das 97 assinaturas localizadas nos testamentos do século XVIII
existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Concluindo, as assinaturas são registros históricos importantes para a compreensão da


História da alfabetização, principalmente em períodos anteriores aos Censos, permitem
identificar os assinantes e os não assinantes, mas não informam as capacidades alfabéticas (ler
e escrever). E a mensuração de seus níveis com base unicamente no traço caligráfico pode
levar a incorrer em erros de julgamento, como demonstrado através das assinaturas de Joze
Caetano da Silveira Nollete (Figura 44) e de Alexandre Lopes do Valle (Figura 45), quando
analisadas fora do seu contexto.
187

5.2 – LER E ESCREVER

A questão ler e escrever, no século XVIII, é muito mais multifacetária do que parece.
Isso porque, como afirmam Chartier, Frago e Magalhães, a alfabetização é um processo
complexo, envolvendo contextos históricos e culturais diversos, portanto não é uniforme, nem
entre as sociedades nem dentro de uma mesma sociedade. Esta afirmação também ficou
visível quando comecei a pesquisar os documentos setecentistas sergipanos.
Muitas são as combinações possíveis destas duas habilidades. Assim, analisando as
capacidades alfabéticas (ler e escrever) via assinaturas dos testadores/inventariados e
inventariantes moradores em Sergipe no século XVIII e contando apenas com as informações
fornecidas pelos documentos, elaborei uma escala com quatro níveis 305 dessas capacidades.

Escalas de capacidades alfabéticas (ler e escrever).


Nível 1 – Não assinante: não sabe ler, escrever e assinar o nome;
Nível 2 – Assina com uma cruz: não sabe ler, escrever, mas assina em forma de cruz;
Nível 3 – Assinante: apenas assina o nome, mas não informa se sabe ler e escrever;
Nível 4 – Leitor, escrevente e assinante: lê, escreve e assina seu nome.

Mediante estas combinações, elaborei dois quadros com informações sobre as


capacidades alfabéticas: um para os inventariados/testadores e outro para os inventariantes. O
quadro dos testadores/inventariados (Apêndice D) oferece uma visão mais detalhada destas
variações para a realidade setecentista sergipana devido à própria natureza do documento que
contém essas informações, enquanto que o quadro dos inventariantes (Apêndice E) propicia
dados mais restritos.
A análise descritiva das capacidades alfabéticas dos testadores (Apêndice D) mostra
como se posicionava este grupo a respeito de si e como esta posição era validada pelos
tabeliães, enquanto os dados quantitativos dão uma visão mais exata do perfil dos mesmos.
Apesar de serem 95 testadores arrolados neste trabalho, só foi possível identificar as
capacidades alfabéticas de 87. Na Tabela 6, a seguir, apresento de forma resumida as
capacidades alfabéticas306 dos mesmos:

305
Justino Magalhães elaborou e trabalhou com uma escala de cinco níveis: nível 1 – não sabe escrever; nível 2 –
não sabe ler nem escrever; nível 3 – lê, mas não sabe escrever; nível 4 – lê e escreve; nível 5 – lê, escreve e
conta. (MAGALHÃES, 2001, p. 23).
306
Vide Apêndice D.
188

Tabela 6 – Capacidades alfabéticas dos testadores


Porcentagem
Denominação Nível Nº
Não assinante 1 26 30%
Assinante com cruz 2 10 11%
Assinante 4 25 29%
Leitor, escrevente e assinante 5 26 30%
Total 87 100%
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do
Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Ao enquadrar esses testadores, rigidamente, dentro de apenas duas categorias:


alfabetizados (para aqueles que sabiam ler e escrever) e analfabetos307 (para aqueles que não
sabem ler e escrever), excluindo vinte e seis indefinidos (os assinantes308), temos uma visão
mais apurada do nível de alfabetismo desses testadores. São 26 alfabetizados para 36
analfabetos, o que em termos de percentual dá 26% para 41%, portanto estando maior o
número de analfabetos. Mas ao verificar este mesmo grupo, levando em conta o sexo (Tabela
7), a compreensão destes dados se altera: dos 36 analfabetos 94% são mulheres (apenas dois
eram homens e assinavam com uma cruz enquanto que das 34 mulheres apenas oito
assinavam com uma cruz) e dos 26 alfabetizados todos eram homens, o que eleva para 93% a
porcentagem da alfabetização geral dos homens, excluindo os indefinidos (20), fato normal
para a época, uma vez que aos homens era ensinado a ler, escrever e a contar, enquanto as
mulheres tinham “a instrução própria do seu sexo”, ou seja, doutrina cristã, bons costumes,
cozer, fiar e fazer renda.

Tabela 7 - Testadores alfabetizados/analfabetos/indefinidos


Categorias Homens Mulheres Total Porcentagem
Alfabetizados 26 0 26 30%
Analfabetos 2 34 36 41%
Indefinidos (assinantes) 20 5 25 29%
Total 48 39 87 100%
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do
Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Partindo para analisar agora o grupo dos inventariantes, composto ao todo por 88, não
foi possível encontrar informações sobre três deles, totalizando o grupo em 83. Só foi possível

307
Considerando analfabetos aqueles que não sabem assinar pelo alfabeto (assinantes com uma cruz).
308
Não é confiável classificar os que apenas assinaram o nome (na sua maioria os inventariantes), mas não
declararam suas capacidades alfabéticas como analfabetos ou alfabetizados, porque, como já comprovei,
podem ser incluídos em outra categoria.
189

identificar os que eram alfabetizados (sabiam ler e escrever) por serem portadores de cargos,
analfabetos (não assinantes) e os indefinidos (assinantes pelo alfabeto), em face dos
documentos não fornecerem outras informações, como consta no Apêndice E.
Na Tabela 8 apresento de forma resumida as capacidades alfabéticas 309 dos 83
inventariantes:

Tabela 8 – Inventariantes alfabetizados/analfabetos/indefinidos


Categorias Homens Mulheres Total Porcentagem
Alfabetizados 12 0 12 14%
Analfabetos 4 29 33 40%
Indefinidos (assinantes) 32 6 38 46%
Total 48 35 83 100%
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos inventários do século XVIII existentes no Arquivo Geral do
Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Ao enquadrar também esses inventariantes dentro de apenas duas categorias,


alfabetizados e analfabetos, temos 50 inventariantes alfabetizados (60%) para 33 analfabetos
(40%), e efetuando a mesma análise feita com os testadores, levando em conta o sexo (Tabela
8), fica mais evidente a alta porcentagem dos homens alfabetizados.
Ao juntar os dois grupos de testadores e inventariantes há a confirmação dos grupos
quando separados, excluindo os indefinidos: os homens são alfabetizados enquanto não há
mulheres alfabetizadas.

Tabela 9 – Testadores e inventariantes alfabetizados/analfabetos/indefinidos


Categorias Homens Mulheres Total Porcentagem
Alfabetizados 38 0 38 22%
Analfabetos 6 63 69 41%
Indefinidos (assinantes) 52 11 63 37%
Total 96 74 170 100%
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos inventários do século XVIII existentes no Arquivo Geral do
Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Ao observar na tabela a categoria “Analfabetos”, vemos que as mulheres eram a


maioria (63), enquanto apenas seis homens não sabiam ler e escrever, o que não destoa da
realidade educacional e social de homens e mulheres coloniais setecentistas do Brasil.

309
Vide Apêndice E.
190

5.3 – OS REDATORES DE TESTAMENTOS: mediadores de um saber específico

Do universo de 95 testadores arrolados nesta pesquisa, apenas um redigiu seu próprio


testamento, o que a primeira vista poderia traduzir um alto índice de analfabetismo por parte
daquela população. Mas redigir um testamento no século XVIII requeria muito mais do que
ter o domínio da língua escrita. Fazia-se necessário ter conhecimento e dominar a “fórmula”
da redação de testamento, instituída pela Igreja, constante no manual “artes de bem morrer”
do jesuíta Estevam de Castro, intitulado “Breve aparelho e modo fácil para ensinar a bem
morrer um cristão”. Esse vigorou amplamente em Portugal e em suas colônias de 1621 a
1724, seguido pelo manual do dominicano João de Castro, denominado “Mestre da vida que
ensina a viver e morrer santamente”, que circulou de 1731 a 1750. Pelas pesquisas de Cláudia
Rodrigues (2005), os escritos de Estevam de Castro tiveram maior influência na redação dos
testamentos até o século XIX. Também era preciso seguir as determinações postas pelas
Ordenações Filipinas, pelas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia e, na década de
sessenta (1765 e 1769), pelas novas leis testamentárias do governo pombalino.
Em sua análise sobre o processo de mudança pelo qual passou a sociedade do Rio de
Janeiro, no século XVIII até a segunda metade do século XIX, com referência à morte,
Cláudia Rodrigues310 (2005), ao investigar os relatores de testamentos311, surpreendeu-se ao
constatar que grande quantidade dos testamentos feitos a rogo dos testadores não foram
realizados pelas pessoas que seriam mais apropriadas para a função, os sacerdotes e os
notários312.
Primeiro os sacerdotes, porque além de saberem ler e escrever, eram orientados pela
Igreja que estivessem sempre atentos aos fiéis para conduzi-los a uma “boa morte”, sendo o
testamento considerado o ato seguinte de um cristão quando adoecia, pois o primeiro era
confessar-se ao seu pároco. A autora creditou esta ausência ao fato de que nem todo o clero
era versado em redigir testamento.
Segundo os notários, por sua própria função, foi a ausência que mais surpreendeu
Cláudia Rodrigues, levando-a a formular duas hipóteses. Uma de que não havia uma
especialização dos notários, pois alguns exerciam outras ocupações como: capitão, alferes ou
arrematador, não sendo vistos, portanto, como aqueles especialistas que os testadores
procuravam para escrever seus testamentos. A outra hipótese era que os redatores de

310
A autora trabalhou com 277 testamentos em sua tese de doutorado.
311
RODRIGUES, 2005, p. 103-112.
312
Que são os tabeliães.
191

testamentos, que não eram sacerdotes ou notários, eram escolhidos por terem relações de
irmanamento religioso, profissional, social ou étnica.
Conclui a supracitada autora que também o receio do testamento ser embargado ou
anulado, devido às imprecisões na redação, levavam os testadores a recorrerem aos
especialistas, os redatores de testamentos.
Em Sergipe setecentista, dos 88313 testamentos que possuem informações sobre seus
escreventes, assim como eram denominados nos testamentos setecentistas sergipanos, a
situação é a mesma encontrada por Claudia Rodrigues: poucos padres, nenhum tabelião
(Tabela 10).

Tabela 10 – Cargo/parentesco dos escreventes de testamento


Cargo/parentesco Nº Porcentagem
Ajudante 1 1%
Capitão 1 1%
Doutor (bacharel em Direito) 1 1%
Sargento-mor 1 1%
Tenente 1 1%
Alferes (compadre) 1 1%
Sobrinho 2 2%
Alferes 4 5%
Licenciado (advogado) 6 7%
Padre 10 12%
Sem especificação de cargo/parentesco 60 68%
Total 88 100%
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários do século XVIII existentes no
Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Tudo leva a crer que esses 60 escreventes, não identificados, eram profissionais da
escrita, versados em redigirem testamentos – os redatores de testamentos – pois só assim
justificaria um morador da Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto chamar um
escrevente em Itaporanga d’Ajuda para fazer seu testamento, como ocorreu com Joam
Moreira Meirelles, viúvo, com dez filhos, proprietário de uma fazenda de gados, dono de
escravos, estando doente e de cama, mas em perfeito juízo e entendimento, por não saber ler e
escrever, em 1775 “[...] mandou chamar para lhe escrever o seu testamento [...] Felipe Pereira
de Araujo”314. Quando se tratava de uma pessoa cega, era exigido ser inclusa no testamento

313
Dos 95 testamentos, em sete não consta esta informação, devido estarem incompletos.
314
Testamento de Joam Moreira Meirelles. 1775. AGJ-SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos – Cx. 62 – Lv. p.
04; p. 94.
192

uma petição de justificação, através da qual pude ter mais dados sobre o escrevente, o que era
raro nos testamentos, mas nestes casos a lei determinava que fosse público e diante de cinco
testemunhas e do tabelião. O escrevente ao ser inquirido acerca das circunstâncias em que se
deu a redação do testamento, o tabelião assim o descreve: “[...] Felipe Pereira homem pardo,
solteiro, morador no termo do [Itaporanga d’ajuda] de idade que deve ser de setenta e cinco
annos pouco mais ou menos [...]315”.
Já Hipolyta Maria da Conceição, moradora na Povoação da Estância, termo da vila
Real de Santa Luzia, mulher idosa, mas sadia, como declara o tabelião “[...] em seo perfeito
juizo e entendimento sem molestia mais com a sua velhice segundo o parecer de mim
Tabelião e das demais testemunhas [...]”316, viúva, com um filho e dois netos, senhora de três
escravos, não sabendo ler e escrever mandou fazer seu testamento por Joam Alvares do Valle
Guimaraens, em 20 de setembro de 1771, e em 12 de dezembro do mesmo ano foi à casa do
escrevente do testamento e mandou chamar o tabelião para fazer o termo de aprovação, para
assim dar legalidade ao mesmo. Joam Alvares do Valle Guimaraens, sem cargo/parentesco
declarado, além do testamento de Hipolyta Maria da Conceição, redigiu mais cinco
testamentos na região da Vila de Santa Luzia (Quadro 19), o que leva a crer ser realmente ele
um redator de testamento.

Quadro 19 – Escrevente de testamento Joam Alvares do Valle Guimaraens


Cargo
Ano Testador testador Residência testador
Povoação da Estância do Termo da
1771 Hypolita Maria da Conceição - Vila Real de Santa Luzia
Povoação da Estância do Termo da
1778 Antonio de Almeida Doria - Vila Real de Santa Luzia
Povoação da Estância do Termo da
1780 Joanna Francisca Ramos - Vila Real de Santa Luzia
Povoação da Estância do Termo da
1781 Quitéria Rodrigues - Vila Real de Santa Luzia
Povoação da Estância do Termo da
1783 Manoel Francisco de Oliveira (português) - Vila Real de Santa Luzia
Povoação da Estância do Termo da
1784 Maria Madalena de Paes - Vila Real de Santa Luzia
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários do século XVIII existentes no
Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Outro escrevente de testamento só teve sua residência revelada pelo testador Duarte
Monis Barreto, natural e morador da Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, casado com

315
Testamento de Joam Moreira Meirelles. 1775. AGJ - SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos – Cx. 62 – Lv. p.
04; p. 94.
316
AGJ - SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos – Cx. 62 – Lv. 03 – pp.39-46.
193

Margarida da Conceição, com dois filhos, dono de dois sítios, um onde morava com casa de
vivenda de telha e o outro onde um dos seus filhos morava, criador de gado vacum, ovelha e
cabras, dono de nove escravos, leitor, escrevente e assinante, quando disse em seu testamento
que “[...] lhe escrevera Baltazar Velho de Afoncequa morador neste termo [...]”317, buscando
assim o escrevente da região.
Quanto aos que redigiram mais de um testamento, foram apenas seis, dos quais dois
eram padres, um alferes, um licenciado (advogado) e dois sem identificação quanto ao cargo
(Quadro 20, a seguir).

317
APES - Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32
194

Quadro 20 – Escreventes que redigiram mais de um testamento


Cargo Cargo
Ano Escrevente escrevente Testador testador Residência testador
Povoação da Estância
Antonio Ferreira Francisca de do Termo da Vila Real
1784 Dutra Alferes Serqueira Pacheco - de Santa Luzia
Antonio Ferreira Alferes Felles de Andrade Vila Real de Santa
1784 Dutra (compadre) Maciel - Luzia

Elena da Silva Vila Real de Santa


1781 Antonio Jose Barboza Padre Ramos - Luzia
Povoação da Estância
Manoel Gonçalves do Termo da Vila Real
1785 Antonio Jose Barboza Padre Praça (português) - de Santa Luzia
Vila Real de Santa
Antonio Martins Apollonia Soares Luzia
1774 Ferreyra Padre dos Prazeres -
Antonio Martins Marta da Costa Vila Real de Santa
1776 Ferreyra Padre Aranha - Luzia

Evaristo Joze de Joze Alvarez da


1798 Amorim Ramos Licenciado Roxa Capitão São Cristóvão
Serafim Mendes
de Souza e
Francisca Perpetua
Evaristo Joze de de Almeida Vila de Santo Antonio
1799 Amorim Ramos Licenciado (marido e mulher) - e Almas de Itabaiana

Povoação da Estância
Joam Alvares do Hypolita Maria da do Termo da Vila Real
1771 Valle Guimaraens - Conceição - de Santa Luzia
Joam Alvares do Antonio de Vila Real de Santa
1778 Valle Guimaraens - Almeida Doria - Luzia
Povoação da Estância
Joam Alvares do Joanna Francisca do Termo da Vila Real
1780 Valle Guimaraens - Ramos - de Santa Luzia
Povoação da Estância
Joam Alvares do do Termo da Vila Real
1781 Valle Guimaraens - Quitéria Rodrigues - de Santa Luzia
Manoel Francisco Povoação da Estância
Joam Alvares do de Oliveira do Termo da Vila Real
1783 Valle Guimaraens - (português) - de Santa Luzia
Povoação da Estância
do Termo da Vila Real
Joam Alvares do Maria Madalena de Santa Luzia
1784 Valle Guimaraens - de Paes -
Francisca dos Vila Real de Santa
1778 Joam Dias [Gaya] - Santos - Luzia
Povoação da Estância
do Termo da Vila Real
1781 Joam Dias [Gaya] - Maria Jozefa - de Santa Luzia
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.
195

Os cinco casais foram identificados e analisados, com exceção dos que fizeram o
testamento de mão-comum318, Serafim Mendes de Souza e Francisca Perpetua de Almeida, e
Manoel Francisco de Oliveira e Maria Madalena de Paes, os demais fizeram seus testamentos
com escreventes diferentes (Quadro 21).

Quadro 21 – Escreventes que redigiram testamentos de casais

Cargo Residência dos Cargos


Ano Testadores casados testador testadores Escreventes escreventes
Felles de Andrade Vila Real de Santa Antonio Ferreira Alferes
1784 Maciel - Luzia Dutra (compadre)
Povoação da Estância
Antonia Ferreira de do Termo da Vila Real Antonio [corroído]
1789 Jesus - de Santa Luzia de Souza Sobrinho

Francisca Perpetua de
Almeida e Serafim Vila de Santo Antonio e Evaristo Joze de
1799 Mendes de Souza - Almas de Itabaiana Amorim Ramos Licenciado

Manoel Nunes de Vila Real de Santa Manoel Francisco


1755 Azevedo (português) - Luzia Carvalho -
Thereza Rodrigues de Vila Real de Santa Jeronimo Borges
1765 Jesus - Luzia de Noronha -

Salvador Coelho da Antonio de


1772 Silva - São Cristóvão Oliveira Carvalho Alferes
Jose Antonio da
1781 Maria Avilar - São Cristóvão Silva e Mello -

Povoação da Estância
Manoel Francisco de do Termo da Vila Real Joam Alvares do
1783 Oliveira (português) de Santa Luzia Valle Guimaraens -
Povoação da Estância
Maria Madalena de do Termo da Vila Real Joam Alvares do
1784 Paes de Santa Luzia Valle Guimaraens -
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Para captar o máximo de dados existentes nas entrelinhas sobre esses escreventes, tive
que analisar todas as variáveis deste grupo quanto ao sexo 319, localidade, testador, cargos e

318
Feito por marido e mulher, com instituição recíproca. Foi proibido pelo Decreto-Lei nº 47 344 de 25 de
novembro de 1966, art. 2181.º, quer em proveito recíproco ou em favor de terceiros, passando a vigorar a
partir de 1º de junho de 1967.
319
Dos 88 testamentos onde foram identificados os nomes dos escreventes, 49 eram de testadores e 39 de
testadoras. Ao olhar os 60 testamentos que não fizeram menção ao cargo/parentesco do escrevente, também
não há grandes mudanças em termos de número: 31 testadores para 29 testadoras, ou seja, não há um padrão
em termos de sexo para escolha do escrevente.
196

relação de parentesco. Percebi que eles atuavam nas várias localidades de Sergipe (São
Cristóvão, Vila Real de Santa Luzia, Povoação da Estância Termo da Vila Real de Santa
Luzia, Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, Vila de Santo Amaro das Brotas, Vila
de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, Vila Nova do Rio de São Francisco), como ocorria
em outras capitanias, a exemplo do testamento de José Antonio Borge de Figueredo, datado
de 1783, incompleto, feito na cidade de Salvador, Bahia, na casa do Sargento João
Nepomuceno, onde estava doente de cama, registrado na Bahia e seu traslado em São
Cristóvão no livro de registro de testamento. Ele possuia várias fazendas de cana e fazia
negócios com vários moradores de Sergipe, os quais foram anotados em seu livro de contas.
Possuia também gado, escravos, moradas de casas e deixou vinte mil réis para a Igreja de
Nossa Senhora da Conceição da Comendaroba ou para algum Altar-mor da mesma. Pediu
para o Tenente Nicolao Alves de Araujo escrever seu testamento e assinou. A sua mulher,
Caetana Baptista de Oliveira, aceitou ser sua testamenteira, mas por não saber ler e escrever
assinou com uma cruz e pediu a seu pai, o Capitão Antonio Borges de Figueredo, que
assinasse a seu rogo. Percebi também que alguns eram escolhidos pelos testadores, por causa
das relações de amizade, de parentesco, padres (11, sendo que um era o próprio testador),
sobrinhos (dois) e por serem, talvez, autoridades que sabiam ler e escrever (ajudante, alferes,
capitão, sargento-mor, tenente, advogados), como evidencia a seguir o Quadro 22.
197

Quadro 22 – Relação dos escreventes de testamento por localidade


Testadores de São Cristóvão
Anos Escreventes Cargos
1773 Alberto Joam de Jesus Moura -
1776 Alberto Joam Tavares Moura -
1772 Antonio de Oliveira Carvalho Alferes
1784 Antonio Dias Coelho e Mello Padre
1799 Antonio Reis -
1775 Dionizio Joze Soares -
1798 Evaristo Joze de Amorim Ramos Licenciado
1794 Francisco Manoel de Salles -
1790 Ignacio Barboza da Franca Corte Real Doutor
1781 Jose Antonio da Silva e Mello -
1764 Jose Dias Coelho -
1795 Lourenço da Rocha Pitta -
1774 Manoel Fernandes Pinheiro -
1777 Manoel Francisco Sauto -
1777 Marcolino de Andrade Torres -
1793 Quintiliano Correa de Caldas -
1788 Thomé Francisco Soutto -
Testadores da Vila Real de Santa Luzia
Anos Escreventes Cargos
1786 Alexandre [corroído] Padre
1800 Alexandre Rodrigues Vieira Licenciado
1789 Antonio [corroído] de Souza Sobrinho
1784 Antonio Ferreira Dutra Alferes
1785 Antonio Jose Barboza Padre
1771 Joam Alvares do Valle Guimaraens -
1780 Joam Alvares do Valle Guimaraens -
1781 Joam Alvares do Valle Guimaraens -
1781 Joam Dias [Gaya] -
1784 José Muniz do Valle Guimaraens -
1777 Jose Ribeiro da Gama -
1785 Jose Vitoriano de Morais -
1774 Joze Fernandes Jacome Coutinho -
1778 Joze Manoel de Oliveira -
1773 Luis Ferreyra Alvares Ajudante
1774 Manoel Dias da Silva -
Testadores da Povoação da Estância do Termo
da Vila Real de Santa Luzia
Anos Escreventes Cargos
1786 Alexandre [corroído] Padre
1800 Alexandre Rodrigues Vieira Licenciado
1789 Antonio [corroído] de Souza Sobrinho
1784 Antonio Ferreira Dutra Alferes
198

Anos Escreventes Cargos


1785 Antonio Jose Barboza Padre
1771 Joam Alvares do Valle Guimaraens -
1780 Joam Alvares do Valle Guimaraens -
1781 Joam Alvares do Valle Guimaraens -
1781 Joam Dias [Gaya] -
1784 José Muniz do Valle Guimaraens -
1777 Jose Ribeiro da Gama -
1785 Jose Vitoriano de Morais -
1774 Joze Fernandes Jacome Coutinho -
1778 Joze Manoel de Oliveira -
1773 Luis Ferreyra Alvares Ajudante
1774 Manoel Dias da Silva -
Testadores da Vila de Nossa Senhora da
Piedade do Lagarto
Anos Escreventes Cargos
1775 Faustino Ferreira de Andrade -
1775 Felipe Pereira de Araujo -
1764 Gabriel Nunes Rodrigues -
1767 Ignacio da Silva Teixeira -
1786 Joam Rodrigues Ferreira -
1799 João Pereira [ilegível] -
1771 João Rodrigues Ferreira -
1767 Manoel de Seabra Lemos -
1771 Manoel Guedes Soares -
1773 Manoel Suterio das Candeias -
1770 Nicolao de Souza Vieira Licenciado (compadre)
Testadores da Vila de Santo Antonio e Almas
de Itabaiana
Anos Escreventes Cargos
1730 Antonio [Falyro] de Mattos -
1777 Antonio Alvarez Bastos Licenciado
1777 Antonio de Souza Padre
1725 Baltazar Velho de Afoncequa -
1799 Evaristo Joze de Amorim Ramos Licenciado
1799 Evaristo Joze de Amorim Ramos Licenciado
1757 Fortuozo Alves Rodrigues -
1762 José Carlos Alferes
1763 Liandro Joze Dias Sargento mor
1796 Maximiano Gil Alvares -
1749 Pedro Antonio de Payva Padre
Testadores da Vila de Santo Amaro das Brotas
Anos Escreventes Cargos
1797 Felix Baptista do Nascimento -
1783 Francisco [Munis] da Cruz -
199

Anos Escreventes Cargos


1774 Francisco da Rocha Bezerra Vasconcellos -
1793 Francisco Fellis de Oliveira -
1799 Francisco José Tavares -
1800 Francisco Teles Pacheco Sobrinho
1798 João da Silva Botelho Padre
1792 Joze Carlos Pereira Alferes
1776 Manoel Gonçalves de Carvalho -
1800 Manoel Rodrigues do Nascimento -
1799 Rafael Barboza de Freitas -
1794 Timotheo Bastos Serqueira -
Testadores da Vila Nova de Santo Antonio/Vila
Nova Real D’El Rey do Rio de São Francisco
Anos Escreventes Cargos
1762 Manoel de Asumpção Rego -
1774 Luis Marques de Oliveira Capitão
1774 Joam Lins de Albuquerque -
Testador de Salvador-Bahia
Anos Escreventes Cargos
1786 Nicolao Alves de Araujo Tenente
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Em uma sociedade composta na sua maioria por analfabetos, a existência destes


profissionais da escrita ou a recorrência a quem sabia ler e escrever para redigir um
testamento não era algo incomum. Tanto que o fato estava disciplinado nas Ordenações
Filipinas:

O qual testamento o Tabelião screverá nas Notas, e será assinado pelas ditas
testemunhas e pelo Testador, se souber e poder assinar; e não sabendo, ou
não podendo, assinará por elle huma das testemunhas, a qual logo dirá ao pé
do sinal, que assina por mandado do Testador, por elle não saber, ou não
poder assinar. E tal testamento será firme e valioso. 320

Era a lei mediando a cultura oral com a escrita.

320
Livro IV. Titulo LXXX. p. 901. Disponível em: <http://www.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l4p901.htm>. Acesso
em: 2 dez. 2012.
200

5.4 – INDÍCIOS DE INSTRUÇÃO NOS TESTAMENTOS E INVENTÁRIOS

A maioria dos testamentos setecentistas de Sergipe são traslados321 dos originais


encontrados em quantidade superior nos livros de registro de testamentos e os originais,
anexados nos inventários, nas prestações de contas de testamenteiro e em justificações cíveis.
São registros de cunho religioso, financeiro, sob o amparo jurídico, mas que trazem
nas entrelinhas, nas verbas testamentárias, desejos, vontades específicas de um indivíduo
singular cujas peculiaridades são únicas, as quais foram apresentadas quando da elaboração
do perfil desses setecentistas a partir de seu cotidiano familiar no capítulo 1.
Muitos testadores envelhecidos322, doentes, com medo da morte, fizeram seus
testamentos e, com raras exceções, referiram-se à educação dos seus filhos, uma vez que a
maioria estava casada ou era maior de idade, tanto que, de 95 testamentos, apenas em cinco há
menção à tutela323. Foi o que ocorreu com Manoel Francisco de Oliveira, português oriundo
da Freguesia de Santa Marta do Arcebispado de Braga, escrevente e assinante. Mandou
redigir seu testamento em 1783 com a seguinte cláusula: “Declaro que deixo a ditta minha
molher Maria Madalena por tutora do meu filho [João]”324. Ele era casado com Maria
Madalena de Paes, sem naturalidade declarada, que também mandou redigir seu testamento
em 1784, com o seguinte teor:

Declaro que os ditos meus dous filhos sam meus herdeiros recebam as partes
que lhe tocaram da minha fazenda em somente as partes da minha terça que
são pucus dispesas do meu testamento a remanescente da dita minha terça o
deixo a meu filho João para se gastar com o ditto em educação de aprender a
ler e escrever se a tempo do meu falecimento não receber educação que a
tempo de meu falecimento saiba ler e escrever sem que não [corroído] ditto
remanescente da dita minha terça.325

321
Dos 95 testamentos apenas 14 são originais, os demais são cópias (traslados).
322
As Ordenações Filipinas disciplinavam o acesso ao patrimônio da família de uma pessoa com cinquenta anos,
visando proteger os filhos do primeiro casamento da dilapidação de sua herança, só podendo dispor de sua
terça, principalmente a mulher, que era considerada, no século XVIII, como velha aos cinquenta anos, uma
vez que não podia mais ter filhos.
323
O casal Manoel Francisco de Oliveira, português, e Maria Madalena de Paes (AGJ - Livros de Testamentos -
Cx. 62 - Lv. 04. p. 98 e p. 153); Maria Rodrigues dos Santos: “Declaro que fuy por morte de meu defunto
marido Tutora de meus filhos e destes esta já inteirado Bazilho e Manoel [ainda se lhe] resta o que fis que
contar de seu quinhão por quanto ja recebeu do que lhe tocou na crioulla Luiza e Jose inda lhe rendeu couza
nenhuma” (AGJ - SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos Cx. 2 - Lv 04. p. 11); Felles de Andrade Maciel:
“Declaro que deixo por tutora de meus filhos a minha mulher Antonia Francisca de Jesus mãe dos mesmos”
(AGJ - SCR/C. 1º OF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - p. 128); e Antonio de Almeida Doria:
“Declaro que nomeio como tutor dos meus filhos a meu compadre Felisberto de Vasconcellos” (AGJ -
SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - p. 18).
324
AGJ - Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04. p. 98 e p. 153.
325
Idem.
201

Educar um filho, mesmo sendo educação elementar (Doutrina Cristã, bons costumes,
ler, escrever e contar) significava pagar a professores, comprar material (papel, penas, tinta,
tinteiro, livros). O órfão ainda era menino quando da feitura do testamento, como podemos
constatar: “Declaro que fui casada com Manoel Francisco de Oliveira e que este já he falecido
e que do ditto Matrimonio nos ficaram dois filhos a saber Maria Francisca casada com Jose
Custodio e João Menino orfão de que sou Tutora” (grifo meu 326). Ambos falecem em 1786,
mas não foram encontrados inventários nem a prestação de contas de testamenteiro dos seus
pais.
Alguns testadores tiveram preocupação não só com os filhos, mas também com alguns
de seus escravos, alforriando-os e propiciando a eles educação própria da época para os não
filhos da elite (Doutrina Cristã, ler e escrever e aprender um ofício). Assim ocorreu com a
testadora Anna Tellis, viúva de Gregório de Araujo Costa, sem filhos, que apenas sabia
assinar com uma cruz, alforria os filhos de sua escrava Lourença. Ao menino, Antonio, manda
aprender a ler e o ofício de sapateiro com Francisco de Araujo, certamente sapateiro, e pede
que o mesmo fique em sua companhia até ter capacidade “de se reger”. Na maioria das vezes,
os ofícios artesanais eram aprendidos oralmente junto com a prática ao longo do convívio
entre mestres e aprendizes e a prova disso está na fala da testadora: “[...] mulatinho Antonio
se acha aprendendo a ler e ao oficio de sapateiro com Francisco de Araujo a qual pesso que o
tenha em seu poder athe o acabar de ensinar e o dito ter capacidade de se reger [...]”327,
assegurando assim o futuro do seu ex-escravinho. Já a menina, Barbara Lucianna, ela
encaminha para uma pessoa de sua confiança e certamente devedora de favores, para que a
mesma tenha a instrução própria do seu sexo (cozer, fiar, fazer renda e bordar), mesmo sendo
uma ex-escrava, e que fique com ela até a mesma ter idade de também se reger: “[...] a
mulatinha pesso a Rosa Maria molher de Manoel Guedes Soares pelo amor de Deos e por me
fazer mercer a queira ter em seu poder dando lhe o ensino e doutrina como costuma fazer a
seos filhos athe a dita a se poder reger”328.

326
AGJ - Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04. p. 98 e p. 153.
327
AGJ - SCR/C. 1º OF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - p. 20.
328
Idem.
202

Figura 63 – O ensino do ofício de sapateiro

Fonte: Disponível em: <http://www.google.com.br/search?q=sapataria+debret&hl=pt>. Acesso em: 15


mar. 2012.

Já Francisco Marques da Silva, português, oriundo de “Agatis”, Freguesia de São


Pedro [Ferrão], da Vila de Barcellos de Braga, viúvo, com dois filhos, leitor e assinante ao
declarar sua dívida com Anaceto Pereira, referente a uma tenda de ferreiro, doa-a ao mulato
Antonio com a obrigação de que o mesmo ensine a um seu escravo o ofício, mas não a
qualquer um e sim a quem tenha aptidão para o dito ofício: “Declaro que devo a Anacleto
Pereira duzentos mil Reis de huma tenda de fereiro a qual tenda deixo de esmolla ao Mulato
Antonio com a obrigaçam de que me asignara o oficio de fereiro a hum dos escravos da caza
que for mais abel para aprender” 329.
Escravos, libertos ou homens livres pobres com um ofício não era algo estranho no
cotidiano colonial brasileiro nem sergipense. Ao contrário, fazia-se necessário ter esta mão de
obra especializada nos engenhos e nos centros urbanos e em alguns destes ofícios era
exigência saber ler, escrever e contar. Conforme Cunha, “A aprendizagem dos ofícios
manufatureiros era realizada, na Colônia segundo padrões dominantes assistemáticos,
consistindo no desempenho por ajudantes/aprendizes, das tarefas integrantes do processo
técnico de trabalho” (CUNHA, 2005, p. 29.) e sua aprendizagem sistemática só tomou a
forma escolar com a vinda da família real para o Brasil, quando foi criada a Escola Real de

329
AGJ-SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - p. 5.
203

Ciências e Ofícios, uma vez que antes o ensino era ministrado nos engenhos, nos colégios
jesuítas, nos arsenais de marinha, nas minas e nas corporações de ofícios. Por isso Cunha
enfatiza a importância do trabalho escravo no processo de desenvolvimento das atividades
manufatureiras no período colonial.
O ensino dos ofícios, mesmo que não escolar, passou, com o crescimento econômico
do Brasil, a ser exigido até mesmo aos órfãos da elite, como constatou Vera Maria dos Santos
(2011)330 ao analisar as prestações de contas de tutoria de 1759 a 1792, feitas pelas mulheres
setecentistas em Sergipe. A autora percebeu mudanças nos conteúdos ensinados aos meninos,
uma delas foi a cobrança por parte do Juiz de Órfãos da aprendizagem de um ofício, em 1776,
e da matéria contar, em 1783. Mas essa cobrança não só ocorreu no âmbito das mulheres,
também passou a ser cobrado aos tutores o aprendizado de um ofício e a matéria contar, como
ficou registrado no termo de entrega de bens do tutor Antonio Joze Correia, viúvo de Maria da
Graça Nascimento, com bens avaliados em um conto e cento e setenta e sete mil e setecentos
e sessenta réis (1:177$760), quando chamado à presença do Juiz de Órfãos, em 1799, este
“mandou asinar a Doutrina Chistam e aos bons Custumes, e aprender algum officio e a Ler
Escrever e Contar e a femia a fiar, cozer fazer rendas e a tecer, e tomou conta de seus bens
pertencentes as suas Legitimas para de tudo dar conta quando por este Juizo lhe for mandado”
331
a seus filhos menores, Antonio Joze Correya (8 anos de idade), João Honorio (3 anos de
idade) e Francisca (1 ano de idade), determinando que os órfãos deveriam aprender assim que
tivessem idade para isso. Ao que tudo indica, via documentação, a partir da segunda metade
do século XVIII a justiça passou a exigir dos tutores (homens e mulheres) o ensino de um
ofício em alguns casos e a matéria contar.
Para a mulher ser tutora era exigida uma autorização via provisão régia, enquanto que
não se fazia necessário o homem pedir para ser tutor de seus filhos menores, somente o termo
de tutela e/ou de entrega de bens332, no qual se comprometia a ensinar aos filhos homens a
Doutrina Cristã, os bons costumes, a ler e escrever e, às vezes, um ofício; às filhas a cozer,
fiar, fazer rendas e a borda, como também cuidar dos bens dos filhos homens e mulheres até a
maior idade, sendo alertado pelo Juiz que a qualquer tempo poderia ser notificado para dar

330
Vera Maria dos Santos (2011) tem como objeto de sua tese de doutoramento a tutoria por parte das mulheres
de Sergipe no século XVIII.
331
Inventário de Maria das Graças Nascimento, 1799. p. 35.
332
Como fizeram os tutores Estacio Munis Barreto (inventário de Francisca Xavier de Menezes, p. 75-76),
Manoel Felix Pereira (inventário de Damianna Ribeiro, p. 38), Valerio de Moura Gomes (Clara Martins de
Castro, p. 44), Manoel Joze dos Santos (inventário de Francisca Maria da Conceiçam, p. 21), Antonio Joze de
Almeida (inventário de Luciana Maria, p. 25), Antonio Joze de Almeida (inventário de Marianna Francisca
de Salles, p. 57), Antonio de Freittas Goes (inventário de Micaella Cardozo, p. 22), Manoel de Jesus Barreto
(inventário de Quiteria Francisco, p. 16-17) entre outros.
204

contas, podendo perder a tutela. Em 1797, Simião de Araujo Sandes 333, assinante, viúvo de
Anna Jozefa do Sacramento, com três filhos 334 menores (Joze, Antonio e Perpetua), com bens
avaliados em seiscentos e trinta e seis mil réis (636$000), morador na Vila de Nossa Senhora
da Piedade do Lagarto, é denunciado por Francisco Joze da Piedade, padrinho do seu filho
Antonio, por seu pai ter retirado o filho de sua casa para casar muito cedo (quatorze a quinze
anos), com o agravante de que ainda não sabia ler e escrever. O Juiz de Órfãos aceita a
denúncia e entrega o referido menor ao seu padrinho para ensinar a ler, escrever, contar e a
Doutrina Cristã (Figura 64).

Figura 64 – Termo de entrega do menor Antonio

Fonte: Inventário de Anna Jozefa do Sacramento, 1794, p. 24.

corroído] ensinar a Rezar, Ler


Escrever e Contar, em Razão
[corroído] pois Ser insoficien
[te] pa [ilegível]fim como me tem
Emformado pessoas Fidedignas
De que asignara tros
Doria

333
Inventário de Anna Jozefa do Sacramento, 1794.
334
Devido ao inventário estar incompleto, não foi possível saber a idade de todos os filhos menores do casal,
apenas do órfão em questão, Antonio, pela petição de seu padrinho Francisco Joze da Piedade. Quando seu
pai iniciou o inventário ele tinha de doze a treze anos de idade, sendo que ficou órfão de mãe dos nove para
onze anos de idade, pois só depois de dois anos de sua morte foi iniciado o inventário. Em 1800 o órfão entra
com uma petição requerendo posse de seus bens, por estar casado e, portanto, perante a lei, emancipado
(mesmo tendo de dezessete a dezoito anos).
205

Termo de Entrega do menor An


tonio a Seu Padrinho Francisco Jozé da Piedade para em
sinar a Ler escrever e contar e a doutrina Christam

Outro indício de instrução em Sergipe dos setecentistas, encontrado nos testamentos e


inventários, diz respeito à escrituração, seja ela comercial ou particular (engenho, sítios,
fazenda de gado), reflexo da reforma educacional de Pombal. Pois dentro do âmbito das
mudanças pombalinas que visavam modernizar Portugal, foi criada a Aula de Comércio em
1755, embora seus estatutos só tiveram aprovação em 1759. No Brasil o Alvará de 23 de
agosto criou a Real Junta de Comércio, após as Juntas de Comércio nas províncias da Bahia,
Pernambuco e Maranhão. A Aula de Comércio da Corte, primeira no Brasil, foi instituída
através do Alvará de 15 de julho de 1809, iniciando-se o curso em 1810, ministrado por José
Antônio Lisboa, com duração de três anos, nos quais se ensinavam no 1º ano: aritmética,
álgebra e regra conjunta; no 2º ano: geometria, geografia e comércio (que compreende
agricultura, mineração, artes mecânicas, fontes, artes liberais, pesca e caça, colônias,
navegação, moedas, câmbios, seguros, leis gerais, usos, máximas, meios); e no 3º ano:
escrituração e economia política. Em Salvador, as aulas de comércio tiveram início no ano de
1815, mas a utilização de livros de contabilidade (livros de razão, de contas) aparece nos
testamentos e inventários335 sergipanos desde 1764, evidenciando sua utilização pelos
sitiantes, donos de engenho, fazendeiros e comerciantes, muito antes da criação das Aulas de
Comércio no Brasil em 1808 (Quadro 23, a seguir).

335
Nos inventários sem testamento há também menção aos livros de razão. No inventário do português Joaquim
da Silva Roque, natural da Vila de Amorim, Comarca de Santana, solteiro, residente em São Cristóvão, dono
de uma casa comercial, falecido em 1798, deixou registrado no seu livro de razão cento e quatorze (114)
devedores; no inventário do casal Joze Cardozo de Santa Anna e Cardula Maria de Sam Joze, datado de
1788, consta toda a contabilidade do Engenho Gameleira.
206

Quadro 23 – Testadores possuidores de livros de contas e/ou livros de razão


Capacidades Nome propriedade
Ano Testador Ocupação testador Cargo testador Indícios letramento
alfabéticas testador
1764 Joze Frique do Prado Assinante Produtor (açúcar) Alferes Fazenda (de canas Declaro que os q me devem são os seguintes = R. P.
com casas de Lourenço Esteves Campos duzentos e quarenta e tantos
vivenda) e sítio do mil reis que me pes [corroído 4 palavras] defunto meo
Siriri tio [Alferes] [corroído2 palavras] que o dirão de
obrigação a sua mão [aceitei]: e [corroído] Madeira tão
bem me deve [corroído] de hum pedaço de terra que lhe
vendi no citio do Siriri, a qual conta ajustarão meos
testamenteiros [corroído 3 palavras] q isto esta asentado
no meo caderno de contas que tenho.
1766 João da Rocha Assinante - - - Declaro que devo eu credito pro dito Senhor João Franco
Codeyro da Silvr a [ilegível 2 palavras] conta de livros a q. elle
diser [ilegível].
1767 Paschoal Mendes Assinante - Alferes Sítio do Coqueiro do Declaro que me deve meu compadre Manoel Fernandes
Pereira Marinho Pinheiro por conta de livro [vinte] sete mil trezentos
reis.
1770 Um português, filho Documento Fazendeiro - - Declaro que me deve Jeronimo devedor por Conta de
de Manoel Pereira incompleto livro onze mil e duzentos reis.
Mendes e Maria
Vieyra de Lemos
1771 Manoel de Afonseca Leitor, Padre, fazendeiro Padre Fazenda da pedra da Declaro que o meu testamenteiro revendo o meu
de Araújo (Padre) escrevente e Rede quaderno donde asento as Missas que me dão para dizer
assinante os que acahar por dizer as mandar dizer de minha
fazenda constando do mesmo quaderno que esta pago
dellas.
Declaro que devo a Vallerio de Araujo o que constar de
seu livro.
Declaro que devo a Aventura da Costa Guimaraens o que
constar de seu livro.
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.
207

Outro indicativo de instrução nos testamentos é referente à ordenação de sacerdotes,


seja o futuro religioso sobrinho ou agregado (exposto, afilhados) como ocorreu com o Padre
Manoel de Afonseca da Araujo 336, morador na Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto,
em 1771, que deixa dois escravos, uma morada de casas na Vila e outras moradas mais de
casas, bens esses deixados em patrimônio a seu sobrinho Manoel de Fraga com a condição
dele se ordenar. O Vigário Joam da Cruz Corrado, da Vila de Nossa Senhora da Piedade do
Lagarto, em 1786, também deixa a seu afilhado, exposto em sua casa, Manoel Joaquim da
Cruz, a Fazenda da Matibe com todos os animais e terras, escravas com seus filhos, salva e
colheres de prata, com a condição que ele se ordene padre, talvez em retribuição à ajuda que
teve do Arcebispo para ordenar-se padre, como fez questão de dizer:

Declaro que todos os bens que possuo sera adquiridos pelas minhas ordens
pois de meus pais não herdei couza alguma e nam concorreram para os meus
estudos por que o Excelentíssimo Senhor Arcebispo Dom Jose Batalha de
Mattos me fez esta esmolla de mim ordenar sem gasto algum da minha
parte e como não tenho herdeiro algum forçado por não ter já Pai e Mãe.
(grifo meu337).

Outro indício de instrução é a percepção de como se lia no cotidiano colonial


sergipano os testamentos. Existe uma produção338 consistente no País acerca de livros e
leituras no Brasil colonial. Mas no cotidiano como se lia fora do âmbito devocional ou
literário? Os testamentos fornecem nuances de como se lia para o outro, seja ele leitor ou não:
lia-se de uma vez só, lia-se muitas vezes o mesmo texto, lia-se calma e distintamente, lia-se
verbo ad verbum339. O quadro 24, a seguir, mostra estas formas de ler.

336
AGJ - SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - p. 45-46.
337
AGJ - SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 05 - p. 05. Ele também declara que possui “duas
fazendas do colégio” em terras próprias com os animais (p. 7).
338
Ver Luiz Carlos Villalta, A história do livro e da leitura no Brasil colonial: balanço historiográfico e
proposição de uma pesquisa sobre o romance. Disponível em:
<http://www.caminhosdoromance.iel.unicamp.br/estudos/ensaios/livroeleitura.pdf>. Acesso em: 3 dez. 2012.
O autor fez um levantamento historiográfico sobre fontes, métodos e produção acadêmica brasileira a
respeito do livro e da leitura no Brasil Colônia.
339
Palavra por palavra.
208

Quadro 24 – Práticas de leituras nos testamentos


Testador Fala do testador e/ou escrivão
Duarte Monis Barreto [...] o qual lhe escrevera Baltazar Velho de Afoncequa morador neste termo
– 1725 e depois de lho haver escrito lho lera huma e muitas vezes e elle também
o lera e achara estava escrito a seu gosto e tudo quanto nelle estava escrito
elle o mandara escrevere hera a sua ultima e derradeira vontade e depois de
o ler o asignara com o seu signal costumado [...] p. 36. (grifo meu)

Bernabe Ferreyra dos [...] por não poder escrever este meu testamento pedi e roguei a Manoel
Reys – 1774 Dias da Silva que por mim o ezcrevesse e eu o ditei, e depois de ezcrito o ly
todo e pelo achar a meu gosto da forma em que o havia ditado me asignei
ao pe delle com a minha propria firma de que uso, e a elle pedi asignasse
como testemunha que o escreveu a meu rogo [...] p. 103. (grifo meu)

Joanna Veronica do [...] o havia mandado escrever por Antonio de Oliveira Carvalho e ele
Sacramento – 1773 testador ditando e o dito escrevendo. Depois de escrito o lera e o achara na
mesma forma em que o havia ditado muito de seu contento no qual so
asignou [...] p. 11. (grifo meu)

Manoel da Rocha Rios [...] a seu rogo lhe escreveu Alberto Joam de Jesus Moura elle testador
(português) – 1773 ditando e o ditto escrevendo e que depois de escrito lhe lera de verbo
adverbum e o achara muito a seu contento na forma em que o havia ditado
o qual assignaram não so elle testador mais tambem o dito escrevente [...] p.
6. (grifo meu)

Gonçalo Tavares de [...] escrevera Manoel de Carvalho Gonçalves a seo rogo e depois de o ter
Mello – 1776 escrito lhe lera calma e distintamente de sorte que elle muito bem o
entendera e por achar a seo gosto assim e da maneira que o tinha ditado o
asignara de sua própria letra e signal [...] p. 27. (grifo meu)

Joze Pinto Caetano [...] por eu não poder escrever pedi e roguei a Jose Ribeiro da Gama que
Correa (português) – este meo testamento escrevesse e depois de escrito o li todo e pelo achar a
1777 meo gosto na forma que o tinha mandado escrever e ditado me asignei ao
pe delle de minha propria firma de que uzo [...] p. 96. (grifo meu)

Luiz Carlos Pereyra – [...] Lhe tinha escrito o Licenciado Antonio Alvarez Bastos e ao depois de
1777 escrito lhe lera huma e muitas vezes e pelo dito testador o achar escrito do
modo que o ditara o asinara com a sua própria mão [...] p. 10. (grifo meu)

Joanna Francisca [...] por eu não saber ler nem escrever pedi e roguei a Joam Alves do Valle
Ramos – 1780 Guimaraens que este meu testamento me escrevesse e eu o ditei fazendo
nelle minhas dispoziçoens o qual depois de escrito o mandei ler todo e
pello achar a meu gosto na forma que o tinha ditado e feito minhas
dispoziçoens pedi ao dito Joam Alves do Valle Guimaraens por mim
asignasse [...] p. 75. (grifo meu)

Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Os que não sabiam ler se tornavam, em seus testamentos, “leitores de oitiva” 340 e isso
ocorria em dois momentos da elaboração do testamento, sendo eles registrados por pessoas

340
Leitores de oitiva era a expressão referente aos que ouvem a leitura feita por outrem.
209

diferentes: na feitura realizada pelo escrevente do testamento e na aprovação feita pelo


tabelião, pois em ambos momentos o testamento era lido perante o testador. Assim, mesmo
entre os testadores leitores, constituídos por homens (alferes, capitães, capitães-mores,
coronel e padres) que não podiam ler o testamento por estarem doentes, tornaram-se “leitores
de oitiva”, a exemplo do português José Daniel de Carvalho que, em 1773, estando doente e
de cama, declarou em seu testamento que:

[...] por nam poder escrever pedi e roguei a Luis Ferreyra Alvares este meu
testamento me escrevesse e eu o ditei e depois de escrito mo leu todo e pelo
achar a meu gosto e na forma que o havia ditado me asignei ao pe delle de
minha propria firma de que uso e lhe pedi o asignasse como testemunha que
o escreveu [...] (grifo meu341).

Embora escassos os registros de instrução nos testamentos, o que por si já constituem


um dado, os existentes possibilitam uma visualização, mesmo que panorâmica, deste
complexo mundo da cultura escrita.

5.5 – LETRAMENTO

Perceber o nível de letramento de uma determinada sociedade no seu tempo e espaço,


utilizando como fontes inventários post-mortem e testamentos, é uma tarefa difícil porque são
poucos os registros de uma escrita particular, como bilhetes, cartas, que revelem um estilo
linguístico de escrever, do que pensavam sobre o cotidiano e principalmente do seu “ver” de
si, permitindo ao pesquisador ter uma aproximação com a escrita daqueles indivíduos, quanto
à sua caligrafia, ortografia e alfabetismo. São raros esses registros, mas os únicos que temos
daquele período em Sergipe.
Passei a analisar as “escritas de si” sob a perspectiva educacional no que diz respeito à
capacidade alfabética daqueles indivíduos e das testemunhas. Capacidades reafirmadas,
ampliadas pelo tabelião na sua missão de averiguar a saúde e entendimento do testador
quando mandou escrever o testamento, se atendia às normas jurídicas e assim receber a
aprovação legal do escrivão no decurso do processo.
Os escritos encontrados nesta pesquisa, anexados nos inventários, em sua maioria
trazem mais dúvidas do que certezas acerca do nível de letramento desses indivíduos, uma vez

341
SCR/C. 1º OF Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - p. 50.
210

que não há outro documento que comprove se eles sabiam ler e escrever. Mesmo quando
existem, não é possível ter certeza porque podem ter sido escritos por outra pessoa, o que era
comum na época. Só com a análise da caligrafia e/ou da declaração da pessoa que escreveu é
que se pode ter essa certeza e, assim, ter um material para analisar. Estas situações foram
evidenciadas nos documentos a seguir apresentados.
Maria Francisca de Freitas, viúva de Manoel Caetano do Lago, dona do Engenho
Comandaroba, com dois filhos menores (Maladias com dez anos de idade e Maria Benta com
dois anos de idade), bens342 avaliados em doze contos e quinhentos e noventa e dois mil cento
e vinte réis (12:592$120), assina em vários documentos no inventário de seu marido, o que
poderia apenas comprovar que é assinante se não fosse por uma procuração feita do seu
próprio punho, dando plenos poderes a seu irmão, Francisco de Paula Cezar, para responder
por ela em todas as demandas do inventário, depois que foi notificada para dar contas dos
órfãos e dos bens do casal. A confirmação de que o texto foi escrito pela mesma se deu por
comparação das assinaturas, letras, neste e nos demais documentos, como é possível observar
nas figuras 65, 66 e 67.

342
Fivela de prata, botões de ouro, anel de pedras, esporas de prata, cabos de faca de prata, colheres de prata,
chapéus, candeeiros, tachos de cobre, frascos, pratos grandes, selas, freios, bride, sendeiros, bois, vacas,
garrotes, machados, martelo, foices, torno de ferreiro, enxadas, cavadores, banco, serras, serrote, compasso,
ferro chamado diamante, plaina, roda de ralar mandioca, trinta e um escravos, engenho de fazer açúcar
moente e corrente, denominado Comandaroba e avaliado em oito contos de réis (com três tachos, um de
cobre, dois de ferros, caldeira de cobre, guia de resfriar de cobre, duas aparadeiras, repartideira, pomba, dois
carros de carrear, dez cangas, as terras que constam da escritura que se comprou o engenho aos religiosos de
Nossa Senhora do Carmo), sortes de terras compradas ao Capitão José Pereira de Oliveira, uma porção de
terras que comprou ao Alferes Joze Ferreira e todas as canas, duzentas formas de receber açúcar, sítio de
terras na Vila de Itabaiana, caixas de açúcar branco e mascavo, pães de açúcar e dívidas.
211

Figura 65 – Procuração feita por Maria Francisca de Freitas

Fonte: Inventário de Manoel Caetano do Lago, 1796, p. 91.

Transcrição:
Faço meo procurador a meo Mano Francisco de Pau
la Cezar a qm dou todo us meus poderes para que
possa pr mim dar contas no Juizo da Procuradoria ou
de orfusno das pessoas [ilegível] homens filhos de q’ sou tu
5 tora e os advogados Evaristo Jose de Aim Ramos
e Jose Batista da Lapa e os requerentes Antonio Joze de
Aim, Manoel Luis de Barros aos qes da mesma
forma dou todos os meos puderes pa que possão pr mim
se necessario for pedir vistas das ditas contas e alegar todo
10 meo direito e de fazer embargar agravar apelar jurar
em minha alma de calunia decizorio supletorio e ou
tro qual quer juramento[ilegível] lansarçe e requerer tudo
mais q necessario for. Engenho da Comandaroba 2 de 7br o
de 1801

D. Maria [Francisca] de Freitas


212

Figura 66 – Assinatura de Maria Francisca de Freitas

Fonte: Inventário de Manoel Caetano do Lago, 1796, p. 40.

Figura 67 – Assinatura de Maria Francisca de Freitas

Fonte: Inventário de Manoel Caetano do Lago, 1796, p. 41.

Bernardo Nunes da Mota, inventariante, viúvo de Francisca de Barros Pantojá,


inicialmente classificado por mim como assinante, tem seu status modificado para escrevente
e assinante ao encontrar uma procuração redigida e assinada por ele (Figuras 68 e 69).

Figura 68 – Procuração de Bernardo Nunes da Mota

Fonte: Inventário de Francisca de Barros Pantojá, 1768, p. 54.

Transcrição:

Passo esta [corroído] de embargos [corroído] Mel [corroído]


[corroído – 5 palavras] com poder de [corroído]
aos adevogados [ilegível – 5 palavras] Joze de Freitas [corroído] mda [ilegível]
213

Anto [corroído] e aos requerentes de cauzas Joze da Cruz


5 [ilegível] de Brito João [ilegível] Joze Roiz de souza pa q todos ju
ntos e cada hum de per sy [ilegível2 palavras] [corroído] legar
r [ilegível] todo o meu direito iustisa com minha alma de ca
lunia e outro coalquer licito juramentto embargar apelar ag
ravar asinar [ilegível] e cois quer termos e tudo mais q [corroído]
10 [ilegível] [corroído] e fazer [ilegível 3 palavras] q pa tudo se [corroído] com
cedo todos os poderes q em direito me são [concedidos] [corroído]
reserva do q [ilegível2 palavras] [corroído] [Sergippe] de agosto [corroído]

Bernardo [Nunes] da Mota

Figura 69 – Assinatura de Bernardo Nunes da Mota

Fonte: Inventário de Francisca de Barros Pantojá, 1768, p. 2.

Em outros documentos, comparando a assinatura com a caligrafia do texto, fica


evidente não serem dos mesmos, além do fato deles deixarem expresso isso no próprio
documento, como ocorreu com o escrito de dote da filha de Antonio de Souza Benavides
(Figura 70, a seguir).
214

Figura 70 – Escrito de dote

Fonte: Inventário de Antonio de Souza Benavides, 1783, p. 18.

Transcrição:

Digo eu Antonio de Souza Benavides que estou justo e contra


tado com o Snro Glo Gomes de Mello para cazar com minha
filha Anna da Nunciação e le dou por dote huma mo
latinha de nome Igca de idade pouco mais ou menos de onze na
5 nos avaliada no Inventario que se fes ma defunta
mer Antonia da Nunciação de Campos falecida em 19 de
215

Julho de [1782] por sincoenta mil Reis e assim mais le dou


hum mulatinho de nome Narcizo de idade da mesma um
latinha avaliado no mesmo Inventro em corenta e
10 cinco mil Reis os quais le dou de minha livre vontade
sem constrangimto de pessoa alguma entrando porem
a legitima que le tocou da defunta sua may no valor
dos ditos mulatinhos e o mais que sobrar le faço graça
como também fico obrigado a dar lhe hum timão
15 de seda de meia conta com seu forro da tafeta [corroído]
da factura deste a hum anno e para ser verda
de pacei este por mim somente asignado que pedi
e Roguei a Manoel Francisco Brandam este por
mim fizesse e como testemunha asignase e me
20 asignei com o meu signal custumado. Cidde de Ser
gipe de El Rey 3 de Março de 1783.

Como testemunha que este fiz Antonio de Souza Benavides


a Rogo de Antonio de Souza Be
navides Como testemunha [ilegível] Ribeiro da Conceição
Franco Br AM

Declaro também prometo dar para a mesma tempo


[ilegível] xita fina e por ser verdade me asigno
[Antonio de Souza Benavides]

Entretanto, há cartas sobre as quais não é possível saber se foi uma mesma pessoa que
as escreveu, por não terem assinatura em outro documento, como a de Antonia Maria Ramos,
viúva de Joze de Souza Britto, com doze filhos e quatro netos, com bens 343 avaliados em um
conto novecentos e dois mil e trezentos réis, moradora na Vila Nova de Santo Antonio Real
de El Rey do Rio de São Francisco. É declarado na apresentação do inventário, que por “[...]
ser mulher e não saber ler nem escrever asignou por Ella seu filho Bartholomeu dos Santos
Linho [...]”344. O mesmo ocorreu no termo de tutela e entrega de bens, em que “[...] mandou o
dito Juis de Orfaos fazer este termo de Tutela em que asignou, pella Tutora se mulher, e não
saber Ler nem escrever asignou a seu Rogo Francisco Luis da Motta [...]” 345, mas foi anexada
ao inventário uma carta endereçada a Gabriel de Lira, certamente escrita por um profissional
da escrita, o escrevente, como era, em Sergipe, denominado nos testamentos (Figura 71, a
seguir).

343
Laços de ouro, ferro, nove escravos, canoa, espingarda, casa de telha no Anyô, caixão de despejo, caixão de
pau de alho sem fechadura, sela, enxadas, machado, vacas, novilhas, garrotes, bezerros, cavalos, bestas,
poldra, cabras, ovelhas, dívidas.
344
AGJ - PFO/C. Inventários. Cx.01-2954.
345
Idem.
216

Figura 71 – Carta de Antonia Maria Ramos

Fonte: Inventário de Joze de Souza de Britto, 1792, p. 74.

Transcrição:

Snro Ldo Jose Gabriel de Lira

Meu Sr R.ci causo o q~. me diz


A Respta de dar conta dos orfañ
não vou [ilegível] Meu Fo Joze
Ramos estar de viaiam pa a cotin
5 guiba porem xegando là sem
dea vou
Estimarei
[healista] vigorosa sau
de e a tudo quanto he [ilegível]
10 pa no prazo da lei me mandar
ocasiam q~. possa mostra

[ilegível 2 palavras]
9 de 8bro
de 1798
15 [ilegível]

D. Antonia Maria Ramos

A escrita dos religiosos, presente nos recibos de missas, enterros e batistérios,


anexados nos inventários, fornece indícios quanto ao alfabetismo/letramento, como o recibo
217

do enterro de Francisco Cardozo de Souza (Figura 72), que demonstra uma caligrafia artística,
uso correto da ortografia da época e redação clara, o que denota um nível de
letramento/alfabetismo elevado para a maioria da população.

Figura 72 – Recibo do enterro de Francisco Cardozo de Souza

Fonte: Inventário de Francisco Cardozo de Souza, 1753, p. 89.

Transcrição:

Rci da Sa Izabel de Barros Lima viuva que ficou


do defunto Francisco Cardozo de Souza quatro mil e oitocentos e oitenta
reis emportancia do funeral e enterro, do dito defunto seu marido; e pelo
haver recebido lhe passei col a quitação por mim feita e asinada. Freg a.
de Santo Antonio do Urubú e de Dezembro 30 de 1753.
O Vigo Jacinto Ferryra de Araujo
218

Os religiosos faziam parte do grupo dessa elite com maior nível de letramento, uma
vez que deles era exigido para ocuparem cargos/funções assim como os militares 346 (ajudante,
alferes, capitão, tenente, sargento-mor, coronel), os agentes judiciários (juiz 347,
tabelião348/escrivão, avaliador349, curador, licenciado350), entre outros.
Alguns dos agentes judiciários de maior letramento foram os ouvidores, provedores
com nível superior em Direito, e os curadores (licenciados/advogados), cujos pareceres são
bem elaborados com citações em latim.
Até agora analisei o alfabetismo/letramento dessa elite em grupos separados:
testadores/inventariados e inventariantes, mas querendo vê-la detalhadamente em suas
capacidades alfabéticas juntei os dois grupos e acrescentei os assinantes a rogo, totalizando
211 indivíduos351 componentes dessa elite setecentista, formada por homens e mulheres
detentores de bens, prestígio e status social. Incluir as mulheres nessa elite, mesmo em uma
época na qual elas desempenhavam um papel secundário, com direitos jurídicos menores do
que os dos homens, vigiadas moralmente pela sociedade, fazendo parte dessa elite não por si
mesmas, mas como legatárias dos parentes homens – maridos, filhos, sobrinhos, genros,
cunhados, sogros – que as amparavam juridicamente, como o caso das tutoras, que para
exercer esta função precisaram ser afiançadas por um homem; e o caso das órfãs, que ao se
emanciparem com o aval dos irmãos e cunhados, das solteironas com seus testamenteiros
parentes, não estavam independentes, desvinculadas da família e muito menos dessa elite.
346
As patentes militares (alferes, sargento, capitão, tenente, coronel) eram concessões permanentes, outorgadas
pelo rei. Os cargos de capitão-mor, sargento-mor e ouvidor eram temporários e seus ocupantes circulavam
por toda a Colônia, apesar da política portuguesa de não permanência de ocupantes desses cargos por muito
tempo em uma determinada região, eles geralmente constituíam famílias e em Sergipe isso não foi diferente.
Neste trabalho foram encontrados 37 inventariantes/inventariados/testadores com patentes militares. A
patente das milícias correspondia a um título de nobreza, que trazia poder e prestígio.
347
Os juízes ordinários e de órfãos não tinham formação em Direito e eram eleitos pelas câmaras municipais,
pelo período de três anos. O cargo de Juiz de Órfãos, antes exercido pelo Juiz Ordinário, só foi
regulamentado no Brasil em 1731. Já as nomeações trienais de corregedores, provedores e juízes de fora
eram feitas pelo Desembargador do Paço. Com a promulgação do Código do Processo Criminal em 1832, os
cargos de ouvidores, juízes de fora e ordinários são extintos, surgindo o Juiz de Direito.
348
Os primeiros tabeliães foram os notários apostólicos ou tabeliães de notas eclesiásticas. Depois, estes agentes,
tanto do paço como de notas, passaram a se encarregar dos atos judiciais do povo e de contratos particulares.
Com o decorrer dos anos o tabelião judicial passou a ser designado escrivão do juízo onde atuava. Nos
processos aparecem com a denominação de tabelião, escrivão ou escrivão do judicial. (MENDES, 2005).
349
Os avaliadores transmitem a impressão de que têm menos letramento, o que nos leva a crer, além das
assinaturas, são algumas petições nos inventários solicitando ao Juiz de Órfãos indicar avaliadores
“inteligentes” e “com consciência” para evitar prejuízos ao patrimônio dos órfãos. Vide inventário de Miguel
Pereira de Rezende, p. 4, e inventário de Firmiano de Sá Souto Mayor, p. 4.
350
Denominado de licenciado era o procurador ou advogado com carta de formatura de oito anos de Coimbra ou
com provisão ou licença do governador da Capitania ou do Ouvidor da Comarca. Em Sergipe eles aparecem
exercendo o cargo de curadores de órfãos, juízes ordinários e procuradores das partes envolvidas nos
processos. Por seu conhecimento jurídico, muitas vezes reafirmado com expressões em latim no final de seus
pareceres, os advogados serviam de mediadores de uma justiça letrada jurídica, assessorando juízes não
letrados e a população.
351
Vide Apêndice F.
219

Assim, os dados quanto ao sexo, posição dentro desse grupo (testador, inventariado,
inventariante), cargo, capacidade alfabética, grau de parentesco e local de residência,
fornecem uma compreensão melhor sobre o alfabetismo/letramento dessa elite.
Quanto ao sexo dos 211 indivíduos, 136 eram de homens (65%) e as mulheres
somavam 75 (35%), ou seja, a maioria dessa elite era formada por homens. Sobre a posição
deles no do grupo: 110 inventariantes (25 a rogo das inventariantes analfabetas), 89 testadores
(50 homens e 39 mulheres), 12 inventariados (11 homens e 1 mulher).
Quanto à vinculação entre o nível de alfabetismo e letramento e o pertencimento a
cargos, ficou comprovado que havia, pois dos 64 indivíduos que sabiam ler e escrever
(alfabetizados), 77% eram portadores de cargos: capitão-mor das entradas (1), escrivão (1),
licenciado (1), tenente coronel (1), juiz (2), sargento-mor (3), capitão-mor (4), coronel (4),
tenente (4), padre (7), alferes (8), capitão (11), todos eles alfabetizados. Dos 14 restantes não
encontrei nenhuma menção a pertencimento de cargos, apenas que cinco eram portugueses. O
Quadro 25, a seguir, relaciona os cargos ocupados.
220

Quadro 25 – Ocupantes de cargos


Nome Cargo
Albano do Prado Pimentel Capitão
Alexandre Gomes Ferrão Castelobranco Coronel
Antonio Almeida Maciel Capitão
Antonio Carvalho de Oliveira Capitão
Antonio Cazimiro Leite Juiz de Órfãos
Antonio Correia Dantas Padre
Antonio do Espírito Santo Capitão-mor das Entradas
Antonio Dultra de Almeida Capitão
Antonio Fernandes Beires Sargento-mor
Antonio Ferreira Dutra Alferes
Antonio Gonçalves Colaco Alferes
Antonio Martins Ferreira Padre
Antonio Simoens dos Reis Capitão
Barnabe Martins Fontes Capitão-mor
Domingos Salgado de Araujo (português) Padre
Felippe de Mello Pereira Juiz
Francisco Cardozo de Souza Capitão
Francisco Joze de Souza Alferes
Francisco Pereira de Miranda Sargento-mor
Francisco Simoens de Avelar Tenente
Francisco Vieira de Mello Capitão
Gonçalo Luis Teles de Menezes Tenente
Gonçalo Tavares de Mello Capitão
Nome Cargo
Inacio da Silveira Licenciado (advogado)
Joam da Cruz Conrado (português) Padre
Joaquim Joze Braque Capitão
Jose Caetano da Silveira Nolete Escrivão
Joseph Correa Dantas Sargento-mor
Joze Alvarez da Roxa Capitão
Joze Cardozo de Vasconsellos Alferes
Joze de Goes Teles Tenente
Joze Ferreira Passos Capitão-mor
Joze Frique do Prado Alferes
Joze Pinheiro Lobo Capitão
Luis Barroso Pontoja (português) Capitão-mor
Luiz Carlos Pereyra Alferes
Manoel Caetano do Lago Coronel
Manoel de Afonseca de Araújo Padre
Manoel de Jesus Barreto Tenente Coronel
Manoel Francisco da Cruz Padre
Manoel Joze de Vasconcelos e Figueiredo Coronel
Manoel Joze Nunes Coelho de Vasconcelos e Figueiredo Coronel
221

Nome Cargo
Manoel Rodrigues de Carvalho (português) Alferes
Paschoal Mendes Pereira Alferes
Pedro Alvares Telles Padre
Valerio de Moura Gomes Capitão-mor
Vicente Joze de Menezes Tenente
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do
Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Quanto ao nível de alfabetismo desses portugueses, foi constatado que era alto,
independente da maioria não exercer cargos, como fica evidenciado no Quadro 26, a seguir.
222

Quadro 26 – Capacidades alfabéticas dos portugueses moradores em Sergipe Del Rey


Nº Ano Nome Capacidade alfabética Cargos
1 1777 Antonio da Costa Rosa Leitor, escrevente e assinante Padre
2 1799 Antonio Pereira de Vasconcellos Leitor, escrevente e assinante -
3 1772 Damiam de Avilla Godinho Documento incompleto -
4 1778 Domingos Lopes Coelho Assinante -
5 1799 Domingos Lopes Ferreira Assinante -
6 1778 Domingos Peres Duque Assinante -
7 1763 Domingos Salgado de Araujo Leitor, escrevente e assinante Padre
8 1778 Francisco Marques da Silva Leitor, escrevente e assinante -
9 1786 Joam da Cruz Conrado Leitor, escrevente e assinante Padre
10 1773 José Daniel de Carvalho Leitor, escrevente e assinante -
11 1799 Jozé Francisco Sollojo Documento incompleto -
12 1777 Joze Pinto Caetano Correa Leitor, escrevente e assinante -
13 1749 Luis Barroso Pontoja Assinante Capitão-mor
14 1773 Manoel da Rocha Rios Assinante -
15 1783 Manoel Francisco de Oliveira Leitor, escrevente e assinante -
16 1783 Manoel Francisco de Oliveira Leitor, escrevente e assinante -
17 1795 Manoel Gomes dos Santos Documento incompleto -
18 1785 Manoel Gonçalves Praça Assinante -
19 1755 Manoel Nunes de Azevedo Assinante -
20 1774 Manoel Rodrigues de Carvalho Leitor, escrevente e assinante Alferes
21 1800 Thomas Domingues da Silva Assinava com uma cruz -
22 1770 Um português, filho de Manoel Pereira Mendes e Maria Vieyra de Lemos Documento incompleto -
23 1785 Verissimo Pereira de Lima Assinante -
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de
Sergipe.
223

Mas quanto ao nível de alfabetismo dos 89 homens sem cargos? 17 eram alfabetizados
enquanto 66 eram assinantes352 e apenas seis eram analfabetos assinando com uma cruz. Ao
juntar os 64 alfabetizados com os 66 assinantes, a porcentagem dos inseridos na cultura
escrita é de 95%, ou seja, essa elite tinha um alto nível de alfabetização.
Quanto às 75 mulheres, 14 eram assinantes e 61 analfabetas (oito assinavam com uma
cruz), refletindo a realidade educacional setecentista.
Quando se fazia necessário juridicamente, como no caso dos inventariantes, eram
escolhidos entre os familiares: cunhados, genros, nora, irmãos ou filhos, porém na maioria
dos casos era o cônjuge sobrevivente, mesmo sendo analfabeto. As 26 mulheres
inventariantes analfabetas buscaram os familiares (8) para o rogo das mesmas se fazerem
presentes juridicamente e a outros não identificados (16), mas certamente eram conhecidos
delas e/ou dos escrivães e juízes, ou seja, faziam parte dessa elite alfabetizada (Quadro 27, a
seguir).

352
Os assinantes são aqueles que os documentos só constam que assinaram, mas não informam suas capacidades
alfabéticas e como já foi exposto o fato de assinarem não os classifica como alfabetizados ou analfabetos,
apenas que foram iniciados no processo de alfabetização.
224

Quadro 27 – Agentes judiciários com maior letramento


Doutores
Antonio Pereira de Magalhães de Paços – Ouvidor Geral e Provedor da Comarca
Antonio Ribeiro Fialho – Ouvidor Geral e Provedor
João Baptista Dacier – Ouvidor e Provedor da Comarca
Manoel Vicente de Carvalho – Curador da Correição
Salvador Rodrigues de Miranda – Curador do Juízo
Sebastam Alvares da Fonseca – Ouvidor da Comarca
Curadores (licenciados/advogados)
Amorim Ramos
Anselmo Vieira e Goes
Antonio Casemiro Leite
Bernardo Jozê da Costa
Evaristo Jose
Francisco Xavier de Oliveira Sobral
João Bapista da Lapa
José da Lapa
José Marques Oliveira
José Pereira Coutinho
Joze Felix Carneiro
Maneol de Jezus
Manuel Ferreira de Asumpção
Rafael Barbosa de Freitas
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários existentes no século XVIII no
Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Já os juízes trienais de órfãos ou ordinários, embora fossem alfabetizados e alguns


terem cargos militares, com exceção dos licenciados (advogados), e outros sem cargos ou
formação jurídica, pelas sentenças não parecem deterem um conhecimento jurídico mais
elaborado, emitindo sentenças padronizadas, sem grandes fundamentações, os juízes que mais
aparecem nestes documentos por mim pesquisados são os citados no Quadro 28, a seguir.
225

Quadro 28 – Juízes Trienais de Órfãos e Ordinário


Nome Cargos
Antonio Correa Mendonça -
Antonio Domingos de Mendonça -
Bras Bernardino de Sâ Solto Mayor -
Domingos da Costa Lima -
Domingos Rodrigues da Costa Lima -
Ignacio Telles Brandão -
João Bapista da Lapa -
João Rodrigues Lima -
Joze Goncalves Lima Guimarães -
Nome Cargos
Maneol Ferreira da Silva -
Manoel Francisco da Costa -
Manoel Nolemberg -
Miguel Pereira dos Anjos -
Antonio Rodrigues Vieira Ajudante (oficial militar)
Antonio Ferreira Dutra Alferes
Antonio Rodrigues Sandes Alferes
José Vieira Dantas Alferes
Machado de Mendonça Alferes
Dionisio [i] de Menezes Capitão
Domingos de Souto Guimarães Capitão
Domingos Joze Dantas Capitão
Felippe de Mello Pereira Capitão
Joaquim Jose Braque Capitão
Jose Alvares da Rocha Capitão
José Antonio dos Santos Capitão
Joze Antonio dos Santos Capitão
Leonardo Freire de Mesquitta Capitão
Domingos de Almeida Branco Capitão-mor
Feliciano Cardozo Pereira de Figueiredo Capitão-mor
Manoel Francisco da Cruz Lima Capitão mor das Ordenanças de Mar
João Quintelliano da Afonseca Doria Capitão-mor
Francisco Xavier de Oliveira Sobral Tenente Coronel/Licenciado
Antonio Casemiro Leite Licenciado
Dionizio Rabelo da Silva Sargento mor
Manoel José Soares Sargento mor
Manoel da Silveira Nollete Tabelião
Ignacio dos Santos Freire Tenente
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários no século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Contudo, em que localidade estava residindo essa elite? O Quadro 29, mostra onde se
concentravam os componentes da elite setecentista sergipana.
226

Quadro 29 – Residência da elite setecentista de Sergipe Del Rey


Localidade Nº
Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto 13
Vila Real de Santa Luzia 22
Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio São Francisco/Vila Nova Real
de El Rey do Rio de São Francisco 23
Vila de Santo Amaro das Brotas 27
Povoação da Estância do Termo da Vila Real de Santa Luzia 39
Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 40
São Cristóvão 47
Total 211
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários no século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.

Diante deste quadro surge um questionamento. Pela narrativa de D. Marcos Antonio


de Souza ao descrever a Capitania de Sergipe, em 1808, mostra, assim a Vila de Santo
Antonio e Almas de Itabaiana353:

Na vila quase deserta e seu termo se contam novecentos e noventa e nove


habitantes, entretanto pessoas de todas as classes. Estes são os mais pobres
de toda a Comarca e apesar de haver quatorze engenhos de açúcar, que
embarcam suas duzentas caixas no porto de S. Ana e um deles no de
Itaporanga, contudo são diminutos os seus produtos. Criam pouca porção
de gado, que não chega para a sustentação dos habitantes, e da mesma forma
a mandioca e legumes que plantam (SOUZA, 2005, p. 59, grifo meu).

Mas não é isso que a documentação setecentista analisada mostra, ao contrário, ela é a
segunda localidade onde havia maior concentração de riquezas acima de 10 mil contos de réis
(Quadro 30, a seguir).

353
No século XVIII alguns senhores de engenho da Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana tinham
engenhos na Povoação de Laranjeiras, divisa com Itabainana, como o caso do Engenho de Nossa Senhora da
Piedade de propriedade de Joana Maria de Deos e do Coronel Albano do Prado Pimentel.
227

Quadro 30 – Maiores fortunas setecentistas de Sergipe Del Rey dos inventários


pesquisados
Localidade Valor Nome
Vila de Santo Amaro das Brotas 11:301$230 Marianna Francisca de Salles
São Cristóvão 12:592$120 Manoel Caetano do Lago
Joze Cardozo de Santa Anna e Cardula
São Cristóvão 13:100$615 Maria de Sam Joze
Manoel Joze de Vasconcellos e
Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 15:631$547 Figueiredo354
Povoação da Estância – Termo de Santa
Luzia 15:854$056 Joaquim Joze Braque
Povoação da Estância – Termo de Santa
Luzia 16:317$032 Antonio de Carvalho de Oliveira
Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 23:096$830 Bernarda de Jesus Maria José
Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 28:031$660 Joana Maria de Deos 355
Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários existentes no século XVIII do
Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe. (grifo meu).

Também é alto o nível de alfabetização de seus moradores. Dos 41 apenas oito são
analfabetos. Essa vila merece um estudo minucioso, para realmente mostrar como ela era no
século XVIII, desmistificando o que a historiografia tradicional afirma.
Mas no geral, quais as capacidades alfabéticas dessa elite aqui estudada, constituída de
211 indivíduos? O Quadro 31, a seguir, fornece uma visão por localidade, enquanto o
Apêndice F detalha.

354
Sogro de Angelica Perpetua de Jezus, que ficou viúva no mesmo ano em que seu sogro faleceu, 1777. Seu
marido, filho único, sem filhos, tinha bens estimados em um conto e quatrocentos e vinte e seis mil e
duzentos e sessenta e seis réis (1: 426$266) que somados com os do pai totalizaram em dezessete contos
cinquenta e sete mil e oitocentos e treze réis (17: 057$813), constituindo-se na terceira maior fortuna quando
somados. Em 1750, o engenho da família, Lagoa da Penha, foi avaliado em dez contos de réis (10: 000$000).
355
Esposa de Albano do Prado Pimentel, proprietária do Engenho Nossa Senhora da Piedade, avaliado, em 1750,
em seis contos e seiscentos mil réis (6: 600$000).
228

Quadro 31 – Capacidades alfabéticas da elite por localidade


Leitor, escrevente e assinante Nº
Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio São Francisco 1
Vila Nova Real de El Rey do Rio de São Francisco 4
Vila de Nossa Senhorada Piedade do Lagarto 6
Vila Real de Santa Luzia 6
Vila de Santo Amaro das Brotas 8
Povoação da Estância do Termo da Vila Real de Santa Luzia 9
São Cristóvão 11
Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 18
Total 63
Assinante
Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto 1
Vila Real de Santa Luzia 2
Vila Nova de Santo Antônio Real de El Rey do Rio São Francisco 5
Vila Nova Real de São Francisco 5
Vila Real de Santa Luzia 6
Vila de Santo Amaro das Brotas 10
Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 14
Povoação da Estância do Termo da Vila Real de Santa Luzia 16
São Cristóvão 22
Total 81
Não assinante
Vila Nova Real de El Rey do Rio de São Francisco 2
Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto 4
Vila Nova de Santo Antônio Real de El Rey do Rio de São Francisco 4
Vila de Santo Amaro das Brotas 6
Vila de Santo Antonio e Almas de Itabayana 7
Vila Real de Santa Luzia 7
Povoação da Estância do Termo da Vila Real de Santa Luzia 10
São Cristóvão 14
Total 54
Assina com uma cruz
Vila de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 1
Vila Nova de Santo Antonio Real de El Rey do Rio de Sam Francisco 1
Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto 2
Vila de Santo Amaro das Brotas 3
Vila Real de Santa Luzia 3
Povoação da Estância do Termo da Vila Real de Santa Luzia 3
Total 13

Total 211
Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos inventários e do século XVIII existentes no Arquivo
Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.
229

Assim, essa elite setecentista mesmo sendo constituída por 66 analfabetos, tem nos
mediadores da cultura escrita (145), sejam eles agentes públicos ou parentes e amigos, o
amparo das suas questões jurídicas.
230

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para estudar o nível de alfabetismo e letramento da elite do século XVIII de Sergipe,


fez-se necessário coletar o máximo de informação acerca daqueles setecentistas. Mas como
fazer isso se são poucos os vestígios deixados por aquela elite? Que documentos poderiam
revelar o cotidiano educacional daquela população mais preocupada em sobreviver do que em
deixar escrita sua história?
Recorri aos documentos judiciais (testamentos, inventários, prestações de contas de
testamenteiros, justificações, apelações e demais autos judiciais) e aos do Arquivo do
Conselho Ultramarino (requerimentos, cartas, provisões). Foram centenas de documentos
repletos em informações pessoais do cotidiano dos homens e mulheres de Sergipe Del Rey.
No primeiro capítulo, procurei saber do cotidiano familiar daquela elite de modo que
conhecendo nos seus meandros ao identificar ou verificar a ausência de instrução, pudesse
entendê-la dentro de um processo histórico e não solto no tempo e espaço.
Assim, pude constatar que aquela população assumia os padrões religiosos, sociais e
até mesmo econômicos, idênticos aos das demais capitanias brasileiras, principalmente as do
litoral açucareiro, posto que a sua base ordenadora, a sociedade, tinha o mesmo alicerce – as
Ordenações Filipinas e as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. A maioria dessa
elite era constituída por filhos legítimos, que, legalmente, formavam famílias, apresentando
baixo índice de filhos ilegítimos e de concubinatos. A prole dessas famílias não era numerosa,
mas isso não impedia que as alianças fossem realizadas via casamentos e os dotes concedidos
às filhas legítimas, como também às ilegítimas. Apesar de Sergipe não ter roda de expostos,
esses existiram e foram abrigados por familiares e amigos.
O cotidiano familiar colonial era regulado pela religião católica que a tudo
disciplinava, mas não conseguia impedir que os preceitos eclesiásticos setecentistas fossem
transgredidos (concubinato, filhos ilegítimos, uniões sem o casamento religioso). Apesar da
religiosidade ser um dos traços mais marcantes da mentalidade do século XVIII, com as
famílias detentoras de oratórios, destacando-se o culto a Nossa Senhora da Conceição, muitos
morreram ab intestados sem que isso resultasse em não terem enterros eclesiásticos, muitos
dos quais com pompa religiosa, às vezes maiores do que os determinados em testamento, com
todo o ritual fúnebre (mortalha, missas, cortejo, música, toque de sinos, esmolas, armação do
esquife, local de sepultamento, doações pias entre outros desejos).
Apesar da sociedade ser dividida entre livres e escravos, em todo o Brasil setecentista,
alguns testadores tiveram preocupação não só com os filhos, mas também com alguns de seus
231

escravos, alforriando-os e propiciando educação própria para os filhos não pertencentes à elite
(Doutrina Cristã, ler, escrever e aprender um ofício).
Os espaços familiares, privado e público, eram locais com contornos diferenciados
dependendo do lugar onde se estava – no exterior ou interior dos mesmos. A moradia
setecentista sergipana era em sua maioria térrea, coberta de telhas, embora existissem
sobrados tanto no meio rural como no urbano. Os setecentistas de Sergipe viviam em sítios,
fazendas, engenhos e pousadas.
A maioria das residências possuía um mobiliário modesto, composto por catres,
tamboretes, bancos, caixas e mesas, embora houvesse algumas exceções como relógio grande,
mesa de jogo, leitos de jacarandá, cômoda, oratório grande com telhas douradas e armários de
roupas.
O vestuário também era modesto e deixado em testamento aos familiares, agregados e
escravos. Roupas e, principalmente, joias, armas e escravos eram objetos de crédito que
podiam ser penhorados, hipotecados, vendidos, e por isso vistos como uma forma de
investimento.
Enfim, o cotidiano da Capitania de Sergipe Del Rey não destoava das demais
capitanias brasileiras.
No segundo capítulo, apresentei a normatização da língua portuguesa, a “Língua do
Príncipe”, através dos principais registros deixados por seus teóricos que deram sustentação
para o surgimento da cultura escrita portuguesa.
Discorri sobre os elementos/suportes da cultura escrita: o livro, o texto da lei, a
epistolografia, registros notariais, registros paroquiais e os registros privados e seus artefatos,
para assim entender os vestígios desta materialidade na cultura escrita em Sergipe
setecentista.
Foram poucos os livros arrolados nos inventários, o que poderia dar a ideia de não
haver interesse por parte dessa população em adquiri-los, denotando pouco caso à cultura
escrita se não fosse a existência de uma livraria com quinhentos títulos em São Cristóvão,
contradizendo assim a historiografia que descreve Sergipe como uma capitania desprovida de
acesso educacional e, portanto, cultural, por não possuir um colégio de ensino de
Humanidades.
Artefatos da cultura escrita também foram encontrados nos inventários: sinete, tesoura
de aparar cartas, tinteiro de vidro, escrivaninha, provas da materialidade dessa cultura escrita.
Apesar de serem poucos os vestígios dos elementos e artefatos da cultura escrita setecentista
de Sergipe, os encontrados mostram-nos muito desta população. Expô-los permite
232

compreender como a cultura escrita permeava a vida dos moradores de Sergipe e quais seus
usos, pois são objetos históricos que muito nos dizem do seu tempo, suas funções e seus
proprietários.
No terceiro capítulo, ao analisar o nível de alfabetismo e letramento, mostrei quem
detinha este conhecimento, a relação com os que não o possuíam e a relevância deste saber na
sociedade setecentista sergipana. Para tal, foi necessário conceituar os termos alfabetização,
analfabetismo, alfabetismo, letrado, iletrado e letramento dentro da historiografia educacional,
para depois entender seus significados em Sergipe no século XVIII.
Como o indicador de alfabetização nos períodos anteriores aos Censos é a assinatura,
busquei as dos membros da elite de Sergipe (testadores, inventariados, inventariantes),
enquadrando-as em uma escala de nível de assinatura (pessoalizada – nível 5, caligráfica –
nível 4, normalizada – nível 3, imperfeita – nível 2 e em forma de cruz – nível 1) e depois
relacionando-as com as capacidades alfabéticas (ler e escrever – nível 4, assinante – nível 3,
assina com uma cruz – nível 2 e não assinante – nível 1) destes indivíduos, resultando na
compreensão de que assinar o nome não significava, no século XVIII, em Sergipe, saber ler e
escrever, embora o método utilizado no Antigo Regime e nas sociedades coloniais fosse
primeiro aprender a ler e depois a escrever.
O levantamento de assinaturas, mesmo com suas lacunas, permite identificar e
quantificar quem eram os alfabetizados e analfabetos e perceber as relações de parentesco,
amizade, compadrio que interlaçavam estes dois grupos. O estudo das assinaturas recupera
também a presença da mulher no mundo da cultura escrita, seja ela como pessoa alfabetizada,
fato raro na sociedade colonial, como assinantes e a quem elas recorriam quando eram
analfabetas (as 26 analfabetas recorreram a homens). Consegui coletar nos testamentos e
inventários, num universo de 172 indivíduos, 97 assinaturas, o que representa 56% dos
indivíduos dessa elite. As demais, não foi possível coletar, devido os documentos serem
traslados. O resultado da análise dessas assinaturas mostrou que, além da maioria dessa elite
estar inserida na cultura escrita através da assinatura de seus nomes, os quais lhes conferiam
autonomia jurídica, prestígio e distinção, na escala de assinaturas 51%, novamente a maioria,
tinha nível 3, que era conferido à assinatura normalizada, ou seja: completa, representada pela
assinatura com o uso correto da grafia do nome, podendo ser abreviada ou não, seguida pela
caligráfica (28%) nível 4, na qual todas as letras são grafadas de forma correta e ligadas,
tendo ritmo e cadência, com inclinação e sinais de marcas pessoais.
Partindo para a análise mais abrangente das capacidades alfabéticas dessa elite, juntei
os dois grupos testadores/inventariados e inventariantes e acrescentei os assinantes a rogo,
233

obtendo assim 211 indivíduos representantes dessa elite, dos quais 136 eram homens e 75
mulheres. Dos 136 homens, 63 eram alfabetizados, sendo que 47 eram detendores de cargos,
66 assinantes e sete analfabetos (seis assinando com uma cruz).
Ao juntar os 64 alfabetizados com os 66 assinantes, a porcentagem dos inseridos na
cultura escrita é de 95 %, ou seja, que eles tinham um alto nível de alfabetização. Quanto à
vinculação entre o nível de alfabetismo e letramento e o pertencimento a cargos ficou
comprovado que existia, dos 64 indivíduos que sabiam ler e escrever (alfabetizados), 77% era
de portadores de cargos. Nos 14 restantes, não encontrei nenhuma menção a pertencimento de
cargos.
Quanto às mulheres, das 75 apenas 14 eram assinantes e 61 analfabetas (oito
assinavam com uma cruz), refletindo a realidade educacional setecentista. Tinham a educação
própria de seu sexo: cozer, fazer rendas, portanto, poucas aprenderam a ler e escrever ou
apenas a assinar os próprios nomes, no máximo, assinavam em cruz.
Também ficou comprovado, quando se fazia necessário juridicamente firmarem suas
assinaturas nos documentos, que os analfabetos recorriam aos familiares, ficando para
segundo plano as relações de amizade.
No que diz respeito ao letramento dessa elite, ficou evidente que apenas as assinaturas
não oferecem condições de aferir níveis de letramento. Foi necessário cruzar esta informação
com outras como: biografias, documentos escritos pelo indivíduo, ser portador de cargo, entre
outros documentos.
Portanto, a hipótese inicialmente levantada nesta pesquisa foi comprovada, pois apesar
de Sergipe ser, no século XVIII, uma capitania subalterna à Bahia, de não ser de ponta da
economia colonial, nem urbana, nem mineradora, cuja maioria da população morava na zona
rural, havia uma elite não só econômica, política e social, mas também instruída, composta
por negociantes (sitiantes, donos de engenho, fazendas, casas comerciais). Pois essa elite
setecentista, mesmo constituída por alguns analfabetos, teve nos mediadores da cultura
escrita, cônjuges, parentes e amigos, sendo eles agentes públicos ou não, o amparo nas suas
questões jurídicas, sendo irrelevante ser ou não alfabetizado, uma vez que a lei assegurava a
todos o acesso a ela quando se fazia imprescindível.
234

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FONTES JUDICIAIS

Inventariado/testador Referência Arquivística


Aguida Francisca de Goes AGJ-SCR/C.1ºOF. Inventários. Cx.02-15. CD-ROM 1.
Alexandre Gomes Ferrão Castelobranco AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. CD-ROM 2.
Anna de Andrade AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 32-39.
Anna Jozefa do Sacramento AGJ-LAG/C.2º OF. Inventários. Cx.01-1128.
Anna Maria Menezes AGJ-SCR/C.1º OF. Livro de Testamentos. Cx. 62. p.105-111
Anna Paes Tellis AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 18-25.
Antonia Ferreira de Jesus AGJ-EST/C. 2º OF. Inventário Cx. 03-489. CD-ROM 2.
Antonia Gonçalves AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481. CD-ROM 2.
Antonia Neto de Sam Joam AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 61-67.
Antonio Almeida Maciel APES-Coleção Sebrão Sobrinho - Caixa 32
Antonio Carvalho de Oliveira AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 02-482. CD-ROM 2.
Antonio Correia Dantas (vigário) APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32
Antonio da Costa Roza (português)-padre AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 54-61.
Antonio de Almeida Doria AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 14-21.
Antonio de Souza Benavides AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14. CD-ROM 1.
Antonio do Espírito Santo AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx.62 - Lv. 06 - pp.13-16.
Antonio Fernandes Beires AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481. CD-ROM 2.
Antonio Gonçalves Colaco AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 99-104.
Antonio Martins Ferreira (Padre) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 161-176.
Antonio Pereira de Vasconcellos AGJ-MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807. CD-ROM 1.
Antonio Pereira de Vasconcellos (português) AGJ-SCR/C. 1º OF. Testamento Cx. 03-69. CD-ROM 1.
Antonio Simoens dos Reis AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx. 02-15. CD-ROM 1.
Antonio Teixeira de Souza AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. CD-ROM 2.
Apollonia Soares dos Prazeres AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 12-18.
257

Inventariado/testador Referência Arquivística


Arcangela Maria da Conceição AGJ-MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807. CD-ROM 1.
Arcangello de Barros AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954.CD-ROM 2.
Archangela Pereira de Almeida AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 01 - pp. 25-33.
Barnabe Martins Fontes AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 07-13.
Benta do Rozario AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 64-72.
Bernabe Ferreyra dos Reys AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp.100-103.
Bernarda de Jesus Maria José APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32
Bernarda Petronilha de Santa Anna AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 02-482. CD-ROM 2.
Catarina de Vasconcellos AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954.CD-ROM 2.
Clara Maria de Almeida AGJ-MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807. CD-ROM 1.
Clara Martins de Castro APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32
Clemente Gonsalves AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481. CD-ROM 2.
Damiam de Avilla Godinho (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 90-91.
Damianna Ribeira AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. CD-ROM 2.
Domingos Ferreira e Cecilia Eugenia AGJ-MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807.CD-ROM 1.
Domingos Lopes Coelho (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 42-52.
Domingos Lopes Ferreira (português) AGJ-MAR/C. 2º OF. Inventário Cx. 02-808. CD-ROM 1.
Domingos Peres Duque (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 28-34.
Domingos Salgado de Araujo (português)-Padre APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32 .
Duarte Monis Barreto APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32.
Elena da Silva Ramos AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 141-150.
Eleuteria Ramos de Jesus AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 34-42.
Eleuterio Gomes de Sá AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 08-11.
Eleuterio Joze dos Santos AGJ-MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807. CD-ROM 1.
Escolastica de Almeyda de Mendonça AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 01 - pp. 33-43.
Estevão Gomes de Moura APES-Coleção Sebrão Sobrinho - Caixa 32.
258

Inventariado/testador Referência Arquivística


Felix Alvares Vianna AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.1759. CD-ROM 2.
Felix Francisco Nunes AGJ-MAR/C.2º OF. Inventários. Cx.01-934.
Felles de Andrade Maciel AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 122-131.
Firmiano de Sá Souto Mayor AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14.CD-ROM 1.
Francisca de Barros Pantojá AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14. CD-ROM 1.
Francisca de Serqueira Pacheco AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx.62 - Lv. 06 - pp. 01-12.
Francisca dos Santos AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 22-28.
Francisca Maria da Conceição AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 02-482.
Francisca Perpetua de Almeida AGJ-SCR/C. 2º OF. Inventário Cx. 01-159
Francisca Xavier de Menezes AGJ-MAR/C. 2º OF. Inventário Cx. 02-808
Francisco Cardozo de Souza AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954.
Francisco de Barros de Almeida AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.02-15.
Francisco Dias Correia AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx.62 - Lv. 07 - pp. 09-18.
Francisco Joze de Araujo AGJ-MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807. CD-ROM 1.
Francisco Joze de Mello AGJ-MAR/C. 2º OF. Inventário Cx. 02-808. CD-ROM 1.
Francisco Joze de Santa Rita AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 01 - pp. 49-58.
Francisco Joze de Souza AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 01- pp. 43-49
Francisco Marques da Silva (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 01-09.
Francisco Rodrigues Ferreira AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx. 01-14. CD-ROM 1.
Frutuoso Joze Machado AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 02-482.CD-ROM 2.
Genoveva Maria das Flores AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14.CD-ROM 1.
Gonçalo Gomes Lobato AGJ-SCR/C.1º OF. Testamentos. Cx.01-67. CD-ROM 1.
Gonçalo Luis Teles de Menezes AGJ-SCR/C.1ºOF. Inventários. Cx.02-15. CD-ROM 1.
Gonçalo Moura de Rezende APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32
Gonçalo Tavares de Mello AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 20-32.
Hypolita Maria da Conceição AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 39-46.
259

Inventariado/testador Referência Arquivística


Ignacia Rodrigues de Sá AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 66-72.
Ignacio da Costa Feijo APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32.
Ignacio Rodrigues Campos AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos. Cx. 62. Liv. 06. p. 37-43.
Joam da Cruz Conrado (português)-Padre AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 05 - pp. 02-15.
Joam Moreira de Meyrelles AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 87-99.
Joana Maria de Deos APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32 A
Joanna Francisca Ramos AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 72-77.
Joanna Veronica do Sacramento AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 57-64.
João Bernardo de Macedo AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.03-16. CD-ROM 1.
João da Rocha Codeyro AGJ-EST/C. 2º OF. Inventário cx. 01-481. CD-ROM 1.
João da Rocha Rego AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.02-15. CD-ROM 1.
Joaquim da Silva Roque (Português) AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.02-15. CD-ROM 1.
Joaquim Gomes Vedas AGJ-SCR/C.1º OF. Livro de Testamento. Cx. 62. p. 6-30.
Joaquim Joze Braque AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.CD-ROM 2.
José Antonio Borge de Figueredo AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx.62 - Lv. 07 - pp. 01-09.
José Daniel de Carvalho (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 46-54.
Joze Alvarez da Roxa AGJ-SCR/1º OF. Livro de testamento. Cx. 04-64. p. 123 v – 131 v.
Joze Cardozo de Santa Anna e Cardula Maria de Sam Joze AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14.CD-ROM 1.
Joze de Freitas Brandão AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14. CD-ROM 1.
Joze de Goes Teles AGJ-MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807. CD-ROM 1.
Joze de Souza de Britto AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. CD-ROM 2.
Joze de Souza de Menezes AGJ-SCR/C.1ºOF. Inventários. Cx.02-15.CD-ROM 1.
Jozé Francisco Sollojo (português) AGJ-SCR/C.1º OF. Livro Testamentos. Cx. 62. p.14-16
Joze Frique do Prado AGJ-SCR/C.1º OF. Testamentos. Cx.01-67.
Joze Pinheiro Lobo AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 74-83.
Joze Pinto Caetano Correa (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 92-99.
260

Inventariado/testador Referência Arquivística


Joze, Filho de Antonio Joze da Fonseca APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32
Jozefa Maria da Conceiçam AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.
Jozefa Maria de Serqueira AGJ-AGJ-SCR/C.1ºOF. Inventários. Cx.02-15.
Leonor Rodrigues Fraga AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954.
Lourença Francisca de Andrade AGJ-SCR/C.1º OF. Livro Testamentos Cx. 62.
Luciana Maria AGJ-MAR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-807. CD-ROM 1.
Luciano Souza Leal AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481. CD-ROM 2.
Luis Barroso Pontoja (português) APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32 A.
Luiz Carlos Pereyra AGJ-SCR/C.1ºOF. Apelação. Cx. 0103.
Luiza Maria de Torres AGJ-SCR/C.1º OF. Cx. 62. Liv. de testamento 07. p.144-150
Manoel Caetano do Lago AGJ-SCR/C.1ºOF. Inventários. Cx.02-15.
Manoel da Rocha Rios (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 01-07.
Manoel de Afonseca de Araújo (Padre) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 42-57.
Manoel de Mello e Albuquerque AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. CD-ROM 2.
Manoel Francisco da Cruz (Padre) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 102-122.
Manoel Francisco de Oliveira (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 96-101.
Manoel Gomes dos Santos (português) AGJ-SCR/C.1º OF. Livro de Testamentos Cx. 62.
Manoel Gonçalves Praça (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 131-137.
Manoel Joze de Vasconcelos e Figueiredo AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14.
Manoel Joze Nunes Coelho de Vasconcelos e Figueiredo AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14.
Manoel Nunes de Azevedo (português) AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481. CD-ROM 2.
Manoel Rodrigues de Carvalho (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 72-80.
Margarida de Rezendes APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32 A
Maria Avilar AGJ-SCR/C.1ºOF. Justificação Cíviel. Cx. 01-32.
Maria Caetana AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14. CD-ROM 1.
Maria da Afonseca AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 25-33.
261

Inventariado/testador Referência Arquivística


Maria da Assumpção AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. CD-ROM 2.
Maria da Graça do Nascimento AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. CD-ROM 2.
Maria de Oliveyra do Sacramento AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 83-89.
Maria Francisca da Silveira AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 01 - pp. 13-25.
Maria Jose da Conceiçam AGJ-SCR/C. 1º OF. Testamento. Cx 07-73. CD-ROM 1.
Maria Jozefa AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 77-84.
Maria Madalena Paes AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 151-160.
Maria Perpetua do Espirito Santo AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 80-86.
Maria Quiteria AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954. CD-ROM 2.
Maria Rodrigues dos Santos AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 10-14.
Maria Telles da Silva e Menezes AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 03 - pp. 67-74.
Marianna de Sandes AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.02-15. CD-ROM 1.
Marianna Francisca de Salles AGJ-MAR/C.2º OF. Inventários. Cx.01-934. CD-ROM 1.
Marta da Costa Aranha AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 59-66.
Micaella Caetana AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 02-482. CD-ROM 2.
Micaella Cardoso de Jesus AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 02-482. CD-ROM 2.
Miguel Pereira de Rezendes APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32
Paschoal Mendes Pereira AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 13-18.
Paulo Ribeiro e Maria de Oliveira AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.01-14.
Quiteria Francisca AGJ-SCR/C.1º OF. Inventários. Cx.02-15.
Quitéria Rodrigues AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx.62 - Lv. 04 - pp. 84-92.
Salvador Coelho da Silva AGJ-SCR/C.1ºOF. Justificação Cível. Cx. 01-32.
Serafim Mendes de Souza e Francisca Perpetua de Almeida AGJ-SCR/C. 2º OF. Inventário Cx. 01-159
Simplicio de Fontez AGJ-PFO/C. Inventários. Cx.01-2954 CD-ROM 2.
Suteria de Vasconcellos APES-Coleção Sebrão Sobrinho -Caixa 32
Thereza da Motta AGJ-SCR/C.1ºOF./Testamento.CX.01-(67). Pag.87-94
262

Inventariado/testador Referência Arquivística


Thereza Barboza AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.
Thereza Maria de Jesus AGJ-SCR/C.1ºOF./Testamento.CX.01-(67)
Thereza Rodrigues de Jesus AGJ-EST/C. 2º OF. Inventários. Cx. 01-481.
Thomas Domingues da Silva (português) AGJ-EST/C. 2º OF. Inventário Cx. 05-489. CD-ROM 2.
Um português, filho de Manoel Pereira Mendes e Maria Vieyra
de Lemos (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 02 - pp. 01-06.
Verissimo Pereira de Lima (português) AGJ-SCR/C.1ºOF. Livros de Testamentos - Cx. 62 - Lv. 04 - pp. 177-186
Fonte: Inventários e testamentos do século XVIII do Arquivo Geral do Judiciário e do Arquivo Público do Estado de Sergipe.
263

GLOSSÁRIO

Ab intestados: eram denominadas as pessoas que morriam sem testamento.

Amanuense: copista, escrevente, escriturário.

Armação: era a decoração da Igreja com panos, cortinados, cadafalsos de madeira (estrado
ostentoso sobre que se colocava o esquife) coberto por panos fúnebres.

Arras: bens que o noivo assegura à esposa no caso de ela lhe sobreviver.

Banho de casamento: pregão, que o pároco lança na citação, para ver se há quem ponha
impedimento ao casamento; chama-se pregão porque se apregoa.

Bofete: móvel mais alto e encorpado que servia de aparador.

Bolandeira: aparelho para descaroçar algodão.

Bretanha: pano de linho, que vem da Bretanha.

Breve: escapulário pendente do pescoço. Bentinho.

Cabra: designava mestiços de predominância negra.

Caixas de despejo: barris com fezes e urina, que eram jogadas nas praias e valas pelos
escravos.

Caixas: utilizadas para guardar roupas, alimentos e demais objetos. As caixas com gavetas
são anteriores às cômodas.

Capote: capa comprida e larga, com cabeção e capuz.

Catre: cama pequena dobradiça. Leito tosco e pobre.

Chambre: vestido caseiro, fraldado, abaixo dos joelhos.

Codicilo: é uma alteração feita pelo testador no seu testamento.

Concílio de Trento: concílio convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade da fé e
a disciplina eclesiástica, no contexto da Reforma da Igreja Católica, realizado de 1545 a 1563.

Confraria: irmandade religiosa, associação religiosa.

Consanguinidade: parentesco, relação entre os que procedem do mesmo pai ou da mesma


raça.
264

Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia: conjunto de cinco livros, publicados em


1707, pela Igreja Católica, que normatizava a prática religiosa.

Côvado: antiga medida de comprimento equivalente a 0,66 m.

Crioulo: negro nascido no Brasil.

Enjeitado: pessoa que foi abandonada por seus pais quando nasceu.

Epistolografia: arte de escrever cartas; estudo relativo a essa arte.

Epitáfios: inscrição sepulcral.

Escreventes: eram pessoas que desempenhavam as funções inerentes à escrita. O escrevente


ou copista de repartição pública era chamado de amanuense.

Espólio: a soma ou a totalidade de bens deixados por uma pessoa, após sua morte.

Esponsais: eram promessas ou contratos de futuros casamentos, comuns na Europa


pretridentina, que foram aos poucos combatidos pela Igreja após o Concílio de Trento.

Espúrios: filhos de pessoas que possuíam impedimento ao matrimônio (sacrílegos,


adulterinos e incestuosos).

Fogos: termo utilizado para designar moradias, famílias.

In solidum: solidariamente.

Inocentes: crianças.

Intergenésico: período entre as gestações.

Inventariado: pessoa falecida, cujo inventário está em andamento.

Inventariante: pessoa a quem se comete o dever de administrar o espólio.

Legados pios: o que, entre os católicos, o testador deixa para bem da sua alma.

Leigame: [Teologia] Impedimento matrimonial.

Leito: nome dado à cama no século XVIII, provida de balaústres e cortinado, chamada hoje
de cama com baldaquino, cama com torneados, ruelas ou bolachas, fusos ou bilros, camas
com esteios ou lanças com dossel ou céu.

Limbo: uma espécie de purgatório para crianças que morriam sem o batismo.

Livro de razão, rol ou contas: eram livros onde se laçavam as transações comerciais, o que
atesta o conhecimento mesmo que elementar da escrita, leitura e contabilidade.
265

Mesa ou banca de jogo: mesmas características das mesas e bancas comuns, distinguindo-se
por dispor de cinzeiros cavados no tampo, este dobrável e coberto com pano verde.

Método prosopográfico: método baseado em dados bibiográficos.

Montante mor: nos inventários do século XVIII em Sergipe, era o termo utilizado para a
soma total de todos os bens.

Morada de casas: era um conjunto de habitações composto por casa de morar do


proprietário, casa dos agregados, casa de farinha, senzala, capela, engenho (moenda,
caldeireira, purgador), alambique, tenda de ferreiro, variando esta composição conforme as
posses do dono.

Nunciatura: representação diplomática do Vaticano noutro país.

Ordinandas: eram pessoas que pretendiam receber ordens sacras.

Pagãos: gentios, os não batizados.

Pardo: indicava que o mestiço tinha predominância branca.

Parentela: conjunto de parentes, família.

Párvulos: idiotas.

Pau branco: nome popular de uma árvore da família das Borragináceas, endêmica da
caatinga.

Pau paraíba: ponta de faca.

Poedouro: lugar onde as galinhas põem os ovos.

Presbítero: sacerdote com ordens de missa.

Reinóis: portugueses.

Relicário: caixa ou cofre, bolsa ou caixilho, onde se guardam relíquias dos santos.

Rituale Romanum (Ritual Romano, em latim): é um livro litúrgico que contém todos os
rituais normalmente administrados por um padre, incluindo o único ritual formal para
exorcismo sancionado pela Igreja Católica Romana até finais do século XX.

Róis de desobriga: Relações nas quais os vigários registravam o número de fiéis que
comungavam e confessavam pela quaresma, também denominados de róis de confissão.
266

Rosiclér: peça de pedraria, que cinge o pescoço; outros dizem que era de cabeça e composto
de pingentes.

Sendeiro: cavalo de carga pequeno, mas robusto.

Sinal costumado/sinal raso/firma: assinatura.

Sinete: instrumento que serve para imprimir no lacre um brasão, divisa ou iniciais; chancela.

Sistema de meiação: A divisão feita em duas partes iguais, uma dividida igualitariamente
entre os herdeiros legítimos, onde também eram retiradas as despesas do funeral.

Sufrágio: orações para um morto.

Terça: a terça parte da meiação do casal, que o cônjuge vivo pode dispor a seu querer.

Termo: no século XVIII constituía uma subdivisão da comarca, a qual envolvia várias
localidades além das vilas, povoações e sertões.

Testador: pessoa que faleceu, deixando testamento.

Testamenteiro: pessoa a quem se cometem os encargos de uma testamentaria, para que


cumpra as disposições de um testamento.

Testamento homógrafo ou particular: é o testamento escrito, datado e assinado pela mão do


testador.

Testamento nuncupativo: feito de viva voz.

Tumba: espécie de maca em que se conduzem cadáveres à sepultura.

Vereação: tempo que dura este cargo; câmara municipal.

Vêstia: Vestidura de homem até os joelhos e com mangas.

Vinhático: Pau do Brasil, muito amarelo.

Xara: seta de pau tostado ao fogo com cabeça em ouro, prata.


267

APÊNDICES
268

APÊNDICE A – Nº de filhos legítimos declarados pelos inventariantes


Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos
1 Aguida Francisca de Goes Francisco Xavier Goveya (de maior) 2
Manoel Francisco de Goveya (casado, falecido)
2 Alexandre Gomes Ferrão Castelobranco Antonio (34 anos) 10
Salvador (32 anos)
Pedro-padre (32)
Damiana [29]
Justina e Rofina gêmeas ambas com 27 anos
Alexandre (22 anos)
Herminioo (20 Anos)
Jozé Thiago (16 anos)
Joel (12 anos)
Leonor (08 anos)
3 Anna Jozefa do Sacramento Joze ( de menor) 3
Antonio Jose de Araujo (de menor)
Perpetua (de menor)
4 Antonia [ilegível] Carvalho Antonia (de 10 a 19 anos) 1
5 Antonia Ferreira de Jesus Felles de Andrade Marcedo (casado) 6
Anna Josefa de Andrade casada com Capitão Jose Luiz Fonseca
Joanna de Andrade Maciel (de maior)
Gertudes de Andrade Maciel (de maior)
Marcia Maria casada com João de Andrade Maciel (falecida)
Antonio josé de Carvalho (casado, falecido)
6 Antonia Gonçalves Maria (1 ano e quatro meses) 2
Francisco (3 meses)
269

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


1
7 Antonio Almeida Maciel Capitão Antonio de Almeida Valladão (de maior)
8 Antonio Carvalho de Oliveira Maria José casada com Capitão Fellis Jose 9
Joanna Angélica casada com Domingos Dias Coelho e Mello
Micaella Caetana casada com Antonio de Freitas Graus
Antonio Carvalho (23 anos) - emancipado
João Nogueira de Carvalho (21 anos)
Maria Micaella (19 anos)
Anna Dantas (17 anos)
Rosa Maria (15 anos)
Francisco Jose (9 anos)
9 Antonio de Souza Benavides Francisco de Souza Campos (casado) 7
Manoel de Souza (22 anos)
Anna Maria casada com Gonçalo Gomes
Joaquim (18 anos)
Ritta (15 anos)
Maria Joze (13 anos)
Leandro (10 anos)
10 Antonio Fernandes Beires Antonio Jozê (casado) 7
Micaella Maria do Sacramento casada com João de Campos
Alferes Manoel Fernandes da Silveira (casado)
Sargento mor Vicente Fernandes da Silveira (casado)
Maria do Sacramento casada com Thomas de Aquino Vieira
Padre Francisco Fernandes da Silveira
João Batista da Silveira (casado)
270

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


11 Antonio Pereira de Vasconcelos Maria Madalena casada com Amaro Pereira da Rocha 7
Francisco Pereira (casado)
Josefa Maria( solteira)
Antonio Telles Oliveira (solteiro)
Duas filhas e um filho falecidos

12 Antonio Simoens dos Reis 1º Matrimônio (1 filhos ) 7


[ilegível] casada que foi com o Coronel Francisco Pedro [[ilegível]
2º Matrimônio (6 filhos)
Anna Joaquina (24 anos)
Rosa Maria casada (23 anos) com Capitão Manoel Paes da [ilegível]
Antonio (17 anos)
Joanna (16 anos)
João (13 anos)
Senhorinha (12 anos)

13 Antonio Teixeira de Souza Antonio (10 anos) 4


Joam (08 anos)
Braz (5 anos) falecido
"Outro filho no ventre tendo por naçer chamaçe Manoel Joze"

14 Arcangella Maria da Conceição Maria Victoria (8 anos) falecida em 1797 2


Joze Ignacio de Oliveira (5 anos)
271

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


15 Arcangello de Barros Francisco Joze (de maior) 6
João Rodrigues (de maior)
Luzia da Graça casada com Fellippe Nery
Jozé Simoens (24 anos)
Anna Thereza (22 anos)
Violante (20 anos)

16 Bernarda de Jesus Maria Jose Sargento mor Braz Bernardino de Sá Souto Maior
1
17 Bernarda Petronilla de Santa Anna Anna (21 anos) 8
David (20 anos)
Ignez (15 anos)
Antonio (11 anos)
Jose (10 anos)
Francisco (7 anos)
Francisca (4 anos)
Joanna (2 anos)
18 Catarina de Vasconcellos Capitão Manoel Ferreyra de Gois (40 anos, solteiro) 7
Josefa casada com Maneol Antonio Lis Boa
Alferes Antonio Gonçalves Tavora (27 anos, solteiro)
Joanna de Vasconcellos casada com o Capitão mor Manoel de Casto
Manoel Gonçalves Tavora (23 anos)
Ignacia de Vasconcllos (22 anos, solteira )
Francisco Leandro de Vasconcellos (18 anos, solteiro)
272

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


Clara Maria de Almeida Thereza Bibiana de Almeida casada com o Tenente Coronel Francisco de Barros 3
19 Pimentel
Maria casada com Jose de Barros Pimentel
Helena casada com o Capitão Mor Felippe Luiz de [ilegível]

Roza (5 anos)
20 Clara Martins de Castro 1
21 Damianna Ribeira Severina Pereira casada com Antonio Quintiliano 7
Leonor Pereira (25 anos)
Syvestre Pereira (24 anos)
Maria da Piedade (21 anos)
Simplicio Pereira dos Santos (16 anos)
Josefa Maria (14 anos)
Luiza Pereira (12 anos)

22 Domingos Ferreira e Cecilia Eugenia Francisco 5


Felis
Clara
Angelica Maria
Igncia Francisca

23 Duarte Munis Barretto Capitão João Telles de Menezes (de maior, casado) 2
Alferes Pedro Duarte e Azevedo (de maior, casado)

24 Estevão Gomes de Moura Gonçallo Gomes de Mello 3


Domingos Gomes
Antonia Bran[ilegível] casada com Tómas da Costa
273

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


25 Euterio Joze dos Santos Maria 6
Francisca
Firmiana
Roberto
Anna Maria da Victoria
Thereza

26 Felix Francisco Nunes Casemira (35 anos) 8


Bento Jose Nunes (32 anos)
Anna Tereza casada com Francisco Rodrigues da Silva
Jose David casado com (i) Ignes
Ancelmo (23 anos)
Valentina (22 anos )
Josefa (17 anos)
Eugenia (16 anos)

27 Firmiano de Sá Souto Mayor Gonçallo [de Sá] Souto Maior (casado) 4


Anna Maria? de Sá (de maior)
João de Sá Souto Maior (casado, falecido)
[Eufemiza] Maria da Conceiçãm (de maior)

28 Francisca de Barros Pantojá Maria Francisca dos Reis casada com Manoel da Silveira Santos - 1º casamento 4
Francisco de Barros de Almeida (emancipado) - 1º casamento
Florentino de Barba que é curador seu padastro- 1º casamento
Manoel Paes da Costa (9 anos) - 2º casamento

Francisca Maria da Conceição Felix (4 anos) 1


29
274

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


30 Francisca Xavier de Menezes Egar Monis Barreto (de maior casado) 8
Roza Maria da Conceição (de maior, viúva)
Barbara Bernardina de Mendonça casada com Capitão Dion Eleuterio de Menezes
Josefa Maria da Graça casada com Alferes Joze Luis Barroso
Joaquim Pedro de Aragão (de maior casado)
João Teles Barreto (de maior casado)
Joanna Maria da Conceição (26 anos)
Marianna Francisca de Sales casada que foi oom Jose Sauterio de Sâ (falecida)

31 Francisco Cardoso de Souza Francisco Cardoso de Souza (de maior, casado) 10


Leonor Rodrigues viúva de Antonio Teixeira de Souza
Maria do Espirito Santo casada com Domingos Goncalves Lima
Maria Cardozo (27 anos))
Antonio Cardoso de Souza (24 anos)
Joaquim de Barros Lima ( 23 anos)
Sebastiam Cardoso (de menor)
Gonçalo de Oliveira Cardoso (17 anos)
Sebastiana Cardozo (9 anos)
Thomazia Cardozo de Souza (8 anosr)

32 Francisco de Barros de Almeida Antonio Joze de Almeida (24 anos) 1


33 Francisco Jozé de Araujo Raimunda Francisca casada com Luiz Manoel 4
Maria Francisca casada com Manoel Jozê
Felis (12 anos)
Quiteria (11 anos)
Joanna de Deos e Mello casada com Joze Sutero de Menezes
34 Francisco Joze de Mello 1
275

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


35 Francisco Rodrigues Ferreira Anna Josefa casada com Francisco Gomes Ribeiro 7
Francisco Ferreira de Goes (casado)
Manoel Rodrigues de Goes (de maior)
Jose de Souza (casado)
Ignacio Jose (23 anos)
Maria Jose (18 anos)
Antonio Francisco (15 anos)
36 Genoveva Maria das Flores Antonio da Trindade Ribeiro por cabeça mulher 6
Alexandre Lopes do Valle (de maior)
Policarpio Jose do Valle (maior)
Manoel Moreira do Sacramento por cabeça mulher
Joze [ilegível] por cabeça de sua mulher
Thereza de Jesus (falecida) casada com Manoel dos Reis Covilhão
37 Gonçalo Gomes Lobato Quiteria casada com Felipe Joze de Vasconcelos 3
Caetana casada com Claudio de Souza Vieira
Anna casada que foi com Antonio Rodrigues das Virgens (falecida)
38 Gonçalo Moura de Rezende Maneol da Costa [Torres] (de maior, casado ) 9
Capitão Francisco Fellix de Rezende (de maior, ausente)
Dionizio da Sylva Leyte (de maior, ausente)
Antonio Jozê de Amaral (de maior, ausente)
Clara Maria de Jesus casada com Antonio Luiz [Fialho]
Anna Thereza de Jesus casada com Manoel Jozê de Almeida
Josefa Maria de Sam Jozê (de maior, solteira)
Quiteria Maria de Jesus que foi casada com Jozê Pereira [ilegível]
Carllos Zacarias (casado, falecido)
276

Inventariados (as) Filhos Nº Filhos



39 Ignacio da Costa Feijó Ignacio da Costa (de maior) 10
João da Costa Feijo (de maior)
Manoel Martins Chaves (de maior)
Marianna Teyxeira casada com Antonio Joze Teyxeira
Vicencia Pimentel casada com Francisco da Costa Feijó
Francisca de Almeida casada com Joam Bautista de [ilegível]
Helena de Almeida casada com Felipe de Souza
Lucio Caetando (18 anos)
Clara Pimentel casada com Joseph Antonio da Silva
Clemencia de Jesus (20 anos)

40 João da Rocha Roza 3


Dois machos( não diz os nomes)

41 João da Rocha Rego Sargento mor Bento Jose 8


Manoel [ilegível]
Jose de [ilegível]
Manoel da Rocha
Thomaz da Rocha Rego
Maria
Jose (menor)
João da Rocha Rego
277

Inventariados (as) Filhos Nº Filhos



42 Joaquim Joze Braque Padre Manoel da Trindade 6
Maria
Ignacia Joaquina de Loyola
Anna Cecilia Braque
Antonio
Joaquim

43 Josefa Maria da Conceiçam Joze (falecido) 3


Francisca (menor)
Marcelino (menor)

44 Josefa Maria de Deos Padre Antonio Coelho do Prado 6


Jose da Trindade
Albano do Prado Pimentel
Francisco Nunes Barretto
Genoveva Emilia de Santa Quiteria
Emerenciana Sufia de Lucene

Josefa Maria de Serqueira [ilegível] falecida casada com Jose de Campos do Lago 1

45
46 Joze Cardoso de Santa Anna e Cardula Maria Maria de Sam Joze (11 anos) 3
de Sam Joze
Benta (7 anos)
Gonçalo Bento (5 anos)
278

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


47 Jozé de Souza de Britto Alexandre Vieira de Souza (falecido) 12
Locadia Maria casada com Felix Francsco Pinto
Joze Ramos (casado)
Bartolomeu (casado)
Farancisca (de maior, solteira)
Jennario Antonio de Jesus por cabeça de sua mulher Ritta Maria
Maria de Britto (de maior)
Manoel de Santa Anna (de maior)
Antonia (25 anos)
Anna Maria Ramos (19 anos)
Barbara (16 anos)
João Salvador (12 anos)
48 Jozé de Freitas Brandão Anna 4
Leandro
Alexandre Lopes do Valle
Clara Maria casada com Jose Telles de Menezes

49 Jozé de Souza de Menezes Angelica Maria casada com Francisco de Barros 9


Josefa Maria casada com Alvaro Nogueira
Maria do Socorro casada com Francisco Esteves [ilegível]
Joze Teles de Meneses (maior)
Joanna da Conceição (de maior)
Anna Maria (de maior)
Alexrandre Jose (de maior)
Arcangela Maria casada com Martinho de tal
Felypa Maria (falecida) casada quem foi com Fernando Correa de [ilegível]
279

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


50 Jozé Frique do Prado Anna do Prado casada com Antonio de Oliveira Carvalho 7
Rosa Maria de Mello casada com Loureço Afonseca Freire
Clara Angelica (25 anos)
Maria Dias de Serqueira (25 anos)
Manoel Joze Frique ( 24 anos)
Francisca Bonifacia (17 anos)
Antonia Perpetua (12 anos)
51 Leonor Rodrigues Fraga Antonio Teixeira de Souza (emancipado) 3
Joam Moreira de Souza (emancipado)
Manoel Joze (de menor)
52 Luciana Maria Manoel - (8 anos)1º casamento 3
Clara Maria 2º casamento (5 anos)
Luciana[?] 2º casamento (3 anos)
53 Luciano Souza Leal Maria Perpetua casada com Raymundo Dias 3
Luiz (17 anos)
Joze (14 anos)
54 Luiz Barroso Pontoja Alexandre Barroso Pontoja (27 anos) 8
Luiz (24)
Jose (18 anos)
Francisca de Barros casada com Alexadre de Souza de Almeida
Izabel de Barros casada com Jose Nunes Sarminso
Custodia casada com Lourenso Corvelho de Souza
Antonia casada com Amaro Pereira de Rezende
Maria casada com o Capitão Simião [ilegível] Oliveira
280

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


55 Manoel Caetano do Lago Maladias (10 anos) 2
Maria Benta (2 anos)

56 Manoel de Mello Aburqueque Maria Quiteia 8


Joze Caetano (de menor)
Jozefa Maria (de menor)
Anna Francisca (de menor)
Francisca Maria (de menor)
Joanna Maria (de menor)
Manoel de Mello (de menor)
Margarida (de menor)

Manoel Jozé de Vasconcellos e Figueiredo Manoel Jozé Nunes Coelho Vasconcelos e Figueiredo (falecido) 1
57
Maria Caetana Rosa (casada, de 17 para 18 anos) 1
58
59 Maria da Assunpção Leonor Rodrigues 9
Antonia Maria
Antonio Teixeira
Francisco Alves
Maria da Conceição
Maria Jozefa casada com Francisco Alvares Feitoza
Maria Alves
Felix Moreira
Joze Alves
281

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


60 Maria da Graça do Nascimento Antonio Joze Correya (08 anos) 3
João Honorio (3 anos)
Francisca (1 ano)

Maria Quiteria Josefa (8 anos) 1

61
62 Marianna de Sandes Joanna (18 anos) 5
Manoel (10 anos)
Maria (8 anos)
Roza (4 anos)
Francisco (18 meses)

63 Marianna Francisca de Salles Francisco Vieira de Mello (14 anos) 8


Maria Jose (12 anos)
Antonio Coelho (9 anos)
Estácio Monis (6 anos)
Manoel Vieira (5 anos)
Gonçalo Vieira (4 anos)
João Vieira (2 anos)
Joze Suterio (2 meses)

64 Micaella Caetana Anna 2


Marianna (5 anos)

Marianna Cardoso (5 anos)


65 Micaella Cardoso de Jezus 1
282

Nº Inventariados (as) Filhos Nº Filhos


66 Miguel Pereira de Rezende Furtuosa Maria (27) 9
Barbara Thereza (20 anos)
Miguel de Rezende (19 anos)
Anna Joaquina (15 anos)
Manoel (14 anos)
Francisca Quiteria (13 anos)
Maria (11 anos)
Josefa (9 anos)
Constantino (7 anos)
67 Paulo Ribeiro e Maria de Oliveira Joze de Mello de Siqueira (maior, casado) 5
Joze de Siqueira Pacheco (maior, solteiro)
João Ribeiro de Afonseca (maior, solteiro)
Anna casada com Francisco Pereira de Rezendes
Elena Vieira viúva de Antonio Soares Pestana
68 Quiteria Francisca Anna (7 anos) 3
Joanna (5 anos)
Jozé (5 meses)
69 Simplicio de Fontez Petronilla 3
Antonia
Maria Roza
70 Thereza Barbosa Sargento mor João Rodrigues Lima 2
Lourença Rodrigues Barboza
71 Thomas Domingues da Silva Faustino Domingues da Silva (casado) 2
Antonia Maria Domingues casada com Jose Ribeiro (ausente moradora em Portugal)

Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 88 inventários do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe.
283

APÊNDICE B – Testadores dotantes


Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

01 Ignacio da Costa Marianna Martins casada com “Declaro que sendo solteiro “Declaro que dotei a meu genro Inventário com testamento
Feijo - casado Antonio Jose Teixeira, Vicencia tive mais tratos com a [ilegível] por casar com minha (1757)
Pimentel casada com Francisco da mestiça por nome [ilegível] filha Thereza [corroído] mil reis
Costa Feijo, Francisca de escrava do Theodozio em dinheiro sua criolla por nome No inventário apenas os dez
Almeida casada com Joam Bautist Ferreira Costa me dava Thomazia [corroído] e dez mil filhos legítimos são relacionados
de [ilegível], Helena de Almeida todos [filhos] que paria por reis e mais doze [ilegível] preço e a mulher, inventariante, diz ser
casada com Felipe de Souza, meus o que e natural”. [corroído] quinhentos e assim quatro machos e seis fêmeas,
Clara Pimentel casada com mais eu [ilegível] com preço de mas no testamento ele diz ter do
Joseph Antonio da Silva e [corroído] mil reis e assim mais casamento doze filhos oito filhas
Clemencia de Jesus de idade de duas colheres de prata em preço e quatro filhos e inclui Thereza
vinte anos mais ou menos. de [corroído] dois cada uma e e a dota em dinheiro, escravos
assim mais um par de botões de mas não diz ser ela filha natural
prata a preço de dez [corroído] e e com quem ela casou e no
uns botões de ouro pequenos com testamento o nome do genro
duas oitavas e uma cruz de ouro está corroído e exclui sua filha
com com outra duas oitavas legítima Vicencia Pimentel
[corroído]. Declaro que dotei a casada com Francisco da Costa
meu genro Antonio Jose por casar Feijó.
com a minha filha Mariana com o
dote seguinte uma [corroído] com
nome Maria em preço de cento e
dez mil reis e assim mais em
dinheiro setenta mil reis [ilegível - Documento muito danificado.
3 palavras] escravo e assim mais
[ilegível] em preço de [ilegível]
mil quinhentos cada uma. E assim
mais duas éguas em preço de
quatro mil cada uma e assim mais
um par de botões de ouro
pequenos com peso [corroído] de
284

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

prata em preço de dois tostões


cada uma [corroído] como dote o
seguinte uma escrava por nome
[corroído] gentio de Guiné e em
preço de cento e dois mil reis e
assim mais uma egua em preço de
quatro mil reis e assim mais duas
[corroído] de prata a preço de dez
tostões cada uma. Declaro que
dotei meu genro [Joam] Bautista
por casar com minha filha
Francisca com o dote seguinte
uma negra por nome Maria em
preço de cem mil reis e assim
mais uma égua em preço de quatro
mil reis e assim mais cinco vacas
em preço [corroído] quinhentos
cada uma. Declaro que dotei a
meu genro [corroído] Felipe de
Souza por casar com minha filha
[Helena] [c] negro por nome
Matheus gentio da Guiné [ilegível
– 2 linha] assim mais dois
[ilegível] mil quinhentos
[corroído] uma égua em peço de
quatro mil reis e mais duas celas
em preço de dez tostões cada uma.
Declaro que dotei o meu genro
Jose Antonio por casar com minha
filha Clara com o dote seguinte
um escravo por nome [corroído]
285

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

mil reis e uma escrava por nome


Thereza em preço de [corroído]
ambos do gentio da Guiné e assim
mais [corroído] quinhentos por
cada uma e assim mais [corroído]
em preço de [corroído] mil reis e
assim mais duas [corroído] em
peço de dez tostões cada uma.
Declaro que tenho mais uma filha
por nome Clemência solteira a
qual lhe tenho dado [ilegível] uma
vaca, uma égua em preço de
[corroído]”.

02 Um português, Joanna, Anna, Thedozia, Florência e Maria (falecida) “Declaro que já casei duas filhas Testamento (1770)
filho de Manoel Antonia, Maria Antonia, Roza e legitimas a saber Joanna com o
Pereira Mendes e Verissima Capitão Vicente Pereira e Anna
Maria Vieyra de com o Capitão Antonio Simois
Lemos (português) Reyes aos quais lhe dei os seos Dota as duas filhas legítimas
- casado dotes a saber ao Capitão Vicente Joanna e Anna e as duas filhas
Pereira Carvalho huma crioula de naturais Florência e Maria.
nome Micaella no valor de um mil
reis, uma negra Maria no valor de
um mil reis, uma mulatinha por
sessenta mil reis, doze bestas no
Rio Real e um potro tudo em
preço de quatro mil reis, cada hua
e huas cabeças de gado na fazenda
Mucambo as quais não estou certo
quantas forao [meus
testamenteiros] estara pela conta
286

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

que me deve e assim mais um


cordão de ouro// Declaro que dei
em dote ao Capitão Antonio
Simoes Reys hua crioula de nome
Quiteria pelo valor de um mil reis,
uma negra [corroído] no valor de
oitenta mil reis, uma mulatinha de
nome Angellica [no valor] de
sessenta mil reis, doze bestas no
Rio Real, um potro por preço de
quatro mil reis, cada huma e euas
cabeças de gados na fazenda
Mucambo as quais não estou certo
quantas são e sera o que me deve e
assim mais um cordão de ouro”//
“Declaro que casei uma filha
natural de nome Maria com João
Pereira Menezes a qual já he
falecida e lhe dei de dote
[corroído] uma crioula de nome
Maria no valor de mil reis, um
moleque Angollano no valor de
sessenta mil reis, um cavallo no
preço de dez mil reis// Declaro
que casei outra filha natural de
nome Florência com Anastácio
Ferreira de Souza e lhe dei de dote
uma crioula por nome Francisca
no valor de um mil reis e um
crioulinho filho da dita de nome
João no valor de trinta mil reis “//
287

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

03 Gonçallo Gomes Quiteria casada com Felipe Joze Não declarou “Declaro que dotei minha filha Inventário com testamento
Lobato - viúvo de Vasconcelos, Caetana casada Josefa que casei com Cláudio (1776)
com Claudio de Souza Vieira e Souza Vieira com cem mil reis,
Anna casada que foi com Antonio valor de [corroído ± 3 palavras]
Rodrigues das Virgens (falecida) minha ordem os cobrar”[...]
No inventário não aparece a filha
legítima chamada Josefa, casada
com Claudio de Souza e sim
com o nome Caetana, casada
com Claudio de Souza.

04 Gonçalo Tavares de - - “Declaro que [deixo] hum escrito Testamento (1776)


Mello - casado passado por Joam da Castro Valle
no qual deixara a menina Narciza
criada em casa de minha tia
Agueda da Castro Valle a A menina dotada não é filha dele
[ilegível] casou em casa de e sim foi criada na casa de sua
Francisco da Costa Vale alem de tia. O escrito deixado por Joam
dois escravos que se lhe de Castro Valle certamente é um
entregarão mais lhe deixo huma escrito de dote.
mesticinha de nome Adriana a
qual so me deo em dote ou a conta
da legitima Paterna de minha
segunda mulher meu
testamenteiro faça entregar a dita
mesticinha a sua legítima Senhora
devendo o valor em que me foi
lançada de quem direito”.
288

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

05 Antonio da Costa Maria casada com Antonio da Não declarou “Declaro que todas dirás minhas Testamento (1777)
Rosa (português) - Costa Meirelles, Rosa casada com filhas digo declaro que todas as
viúvo Leandro Rodrigues, Ignacia ditas minhas filhas quando
casada com Pedro Carlos, Ana cazarão com os bens que
casada com Jose Felis e Angela especifiquei nos escriptos de
casada com Manoel Tristam de dotes que passei a seos maridos
Santa Anna excepto meu genro Antonio da
Costa que lhe não passei escripto,
porem o dotey com hum escravo
de nome Manoel e secenta mil reis
em dinheiro, huma saya preta de
duguete caztor, um manto de
pezo, tres colheres de prata, dois
lençoes de pano de linho, hum
cobertor de papa, huma caixa
grande de pao amarelo, hum catre
de pão parahiba”. //

06 Eleuteria Ramos de Não teve Não declarou “Declaro que todo legado Testamento (1779)
Jesus - solteira [corroído] a dita Anna Clara he
para seu dote com a condiçam se
não poder dispor das couzas
legadas seu pai [ilegível] da Costa A dotada é criada pela testadora.
não ter nelles direito algum”.
289

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

07 Manoel Francisco Francisca casada com José Não declarou “Declaro que a minha filha Maria Testamento (1783)
de Oliveira Custodio Francisca casada com Custodio
(português) - [Carvalho] lhe dei de dotte o
casado crioullo Lourenço e [corroído 2
palavras] mais em dotte huma
egua nova que quero [se lhe dé] [e
na falea dela] huma escrava do
casal”.

08 Francisca de Francisca Thereza da Conceição Não declarou Declaro [corroído] coube Testamento (1784)
Serqueira Pacheco - casada com Vicente Fernandes da [ilegível] dotte que [ilegível]] tem
casada Silveira [corroído] Donna Francisca
Thereza da Conceição sento e
dezacete mil quatrocento e quinze
reis.

09 Verissimo Pereira Não teve Anna Lucia “Declaro que não sou cazado Testamento (1785)
de Lima porem tenho quatro filhos naturais
(português) - a saber Joze Pereira, Antonio
solteiro Esteves, Vesuino Pereira e Anna
Lucia qual a casei com Manoel
Antonio [Fausto] dando lhe de
dotte por consentimento de seus
irmaens quatro escravos a saber
Miguel Damianna Eugenia e
Maria e assim mais huma morada
de cazas de telha e estas caminho
do Porto ficando o ditto Manoel
Antonio [Fausto] a quantia de
vinte mil Reis o que não tem
cumprido antes me hé mais
290

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

devedor de nova quantia a qual he


de mil novecentos reis que huma a
e outra havia”.

10 Antonio Martins O padre dotou uma afilhada e uma Não declarou “Declaro que meu testamenteiro Testamento (1786)
Ferreira (Padre) irmã. dara de esmolla pello [Amor de
Deos] a minha afilhada [corroído]
filha do meu compadre
[Raimundo] Pereira cincoenta mil
Reis para [corroído] de seu dotte
casada que seja =

[...] nomeio somente por meus


erdeiros dos dittos meus bens digo
erdeiros aos dittos meus sobrinhos
João e Manoel filhos do ditto meu
cunhado e irman por serem os
mais grattos e mais nobeus e
juntamente por que dotei a outra
minha irman Mariana
Francisca com oito centos mil
Reis inda em tempo porque eu
principiava a minha vida e em
melhor agradecimento que
comigo; criaram foi fiser em hum
ter [percimo] casamento com hum
[vilissimo] Moanoel Lourenço só
a fim de mil reis [asim] minha
[pesoa] e asi queilarem os meus
parenttes”.
291

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

11 Antonio do Espírito Joanna do Espirito Santo casada Uma. “Declaro que dotei a minha filha Testamento (1792)
Santo - casado com Joaquim Pereira e Theodosia Joanna do Espirito Santo casada
Maria do Espirito Santo casada com Joaquim Pereira com hua
com Miguel Ferreira crioulinha de nome Luzia em
preço de oitenta mil reis, hum Apesar de não mencionar que
Cavallo em preço de dezesseis mil era dote essa declaração sobre a
reis mais hua saya de Droguete filha natural confirma a natureza
pretta que custou dez mil reos, hua do legado como dote uma vez
peça de xitta e, sinco mil reis [...]” que fala em ela levar o que
recebeu do pai para a colação
Declaro que tenho hua filha quando herdar.
natural casada com Francisco da
Conceição a qual hera captiva e
hera viúva do Jordão moradora em
Sergipe D’El Rey e eu alforrei
dando por ella noventa e sinco mil Documento incompleto, por isso
Reis e quando a casei lhe dei uma não tem o restante do dote de
peça de xitta que me custou seis Joanna do Espirito Santo e talvez
mil Reis e ao ditto seo marido dei o da outra filha legítima
em fazenda quatorze mil reis que Theodosia Maria do Espirito
impostta tudo sento e dez mil reis Santo casada com Miguel
com os quais deve entrar a colação Ferreira.
querendo de mim herdar.

12 Manoel Gomes dos Maria [corroído] e outra Não declarou “Declaro que sou cazado a face da Testamento (1795)
Santos (português) Antonia [corroído] de Mello a Igreja com a Senhora Catharina
– casado qual esta casada com o Capitão Caethana do Rozario de cujo
Dionizio Rodrigues Dantas
Matrimonio tivemos duas filhas,
huma de nome Maria [corroído]
outra por nome Dona Antonia
292

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

[corroído] de Mello a qual esta


cazada com o meu [compadre] e
genro o Capitão Dionizio
Rodrigues Dantas lhes dei de dote
[ilegível] e minha mulher deu dois
cruzados moeda corrente [ilegível]
dos quais recebeu o dito meu
compadre e genro com os quais o
descontara no Inventario que se
fizer por minha morte e de minha
mulher como tão bem dei a dita
minha filha dois cordões de ouro
hum com doze oitavas e hum com
quatro, outro com treze ditas e trez
com [ilegível] seis grãos, cujos
dois cordões tão bem [ilegível] a
inventario quando for ocasiam”.

13 Joze Alvarez da Maria Magdalena casada com Não declarou “Declaro que dotei a cada huma Testamento (1798)
Roxa - casado Duarte de Almeida e Silva e Anna das minhas filhas cazadas com
Joaquina casada que foi com dois mil cruzados que lhes por fiz
Domingos Jozé Bastos, já falecido e enterei, e por isso entrarão com
elle [ilegível] na forma de direito”.

14 Antonio Pereira de Duas filhas. Uma, denominada de fêmea “[...] a filha bastada (femea dotei Contas de Testamento
Vasconcellos bastarda. sesenta mil reis para o seu
(português) – cazamento e fica enteirada do seu
casado quinhão para não entrar no cazal),
duas casada //Declaro que tenho O testamento foi feito em 1799 e
293

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

duas filhas cazadas com seus o processo de prestação de


dotes [ilegível]] não estarão contas em 1821. Na Fl. 32 há a
obrigados a entrarem no monte informação dos dotes com os
por quanto neste tempo havia mais nome das filhas legítimas
bens”. dotadas Anna e Ritta.

15 Domingos Lopes - Ele diz: “Declaro que não “Declaro que quando cazei a Inventário com testamento
Ferreira (português) [sou] e nem nuca fui cazado minha filha Marianna com Pedro (1799)
- solteiro e a muitos annos moro nesta Gomes lhe dei dois escravos
Freguesia do Pe do Banco, Maria Ângela e o filho Domingos
e nella tive de hua [minha] crioulinho os quais lhe ficaram em
escrava de nome Francisca conta da sua legitima entrando já No inventário nos quinhões das
que [ao prezente] se acha nelles as meaçoens”. duas filhas há os dotes, embora o
forra dois filhos, Manoel pai só declare em testamento o
Lopes e Marianna Lopes “Quinhão da herdeira Marianna de uma.
cazada com Pedro Gomes e Lopes cazada com Pedro Gomes
depois disso tive de outra de [corroído] que importa a
escrava ao presente falecida quantia de dusentos vinte dous mil
outra filha de nome Maria cento e sincoenta e sinco reis.
Francisca que se acha
cazada com Manoel João e Item que mais lhe derão e tem em
tanto este como os dois [corroído] seo dote conferido a
asima os declaro e instituo quantia de cem mil reis”. Fl. 31.
por meus herdeiros forçados “Quinhão da herdeira Maria
tanto pellos ter por filhos e Francisca ao prezente fallesida
por tais os habilitar em cazada que foi com Maneol João
juízo como por vocabulo do de Mello que importa a quantia de
Mundo”. dusentos vinte dous mil cento e
294

Nº Testador Filhas legítimas Filhas naturais Descrição do dote Observações

sincoenta e sinco reis.

Item que lhe derão, e tem sido seo


dote conferido que importa a
quantia de cento e cincuenta mil
reis”. Fl. 32.

16 Francisco Jose de Joana de Jezus e Mello Não declarou “Declaro que minha filha he Inventário com testamento
Mello - casado cazada com Joze Soterio de (1799)
Menezes e que já a conta do seo
dote recebeu: hum cavallo no
preço de cincoenta mil reis que
com elle entrara a cota com mais
quatro mil reis que por elle paguei
ao [ilegível] Senhor Antonio
Dias”.

Fonte: Dados elaborados pela pesquisadora, a partir dos 95 testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário.
295

APÊNDICE C – Escala de níveis de assinaturas da elite setecentista de Sergipe Del Rey


ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES
1796 Pedro Antonio de Oliveira 1 Assinou com uma cruz

[...] mandou o dito Juis fazer este auto de


inventario em que asignou com o dito
Inventariante o qual por não saber
escrever asignou de huma cruz [...] p.3

p.3

1794 Manoel Felix Pereira 1 Assina com uma cruz.

[...] mandou o ditto Juis fazer este autto de


Inventario em que com elle asignou, e pello
Inventariante não saber Ler nem escrever
o fes de huma crus seu signal custumado
[...] p.3
p.3

1762 1 Assina com uma cruz.

“[...] dita Testadora Dona Clara Martins de


Clara Martins de Castro Castro asignara com huma cruz seu
signal costumado [...]” p.9

p.9
296

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES


1726 1 Assina com uma cruz.

[...] Como testemunha que fiz e escrevi a


rogo da dita Caetano Alz da Torre conforme
Micaella Cardoso de Jesus mandou e asinou de seu sinal costumado o
qual he hua cruz [...] p.8

p.9

1800 Manoel Joze dos Santos 1 Assina com uma cruz.

[...] mandou o ditto Juis fazer este Auto de


inventario que asignou com o Inventariante
que o fes de cruz por declarar não sabia
escrever [...] p.2

p.2

1794 Antonio Joze de Almeida 1 Assina com uma cruz.

[...] mandou o dito Juis fazer este Auto de


Inventario que assignou com o ditto
Inventariante o que por não saber escrever
o fes de cruz [...] p.2

p.2
297

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES


1783 2 Assina.

Joze Ferreira Passos

p.19

1789 2 Assina.

Apesar de no traslado do seu testamento em


1789 dizer que ela assina com uma cruz,
Antonia Ferreira de Jesus existem assinaturas dela em 1801 em seu
inventário. Ela faz o testamento em 1789 e
morre em março 1801. Essa assinatura é de
1801.
p.210

1757 2 Assina.

Ignacio da Costa Feijo

p.8
298

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1763 2 Assina.

Quando assinou seu testamento estava


doente e com as mãos trêmulas. Era padre.
Domingos Salgado de
Araujo (português)

p.15

1797 2 Assina.

Thereza Maria de Jesus

p.7

1766 Assina.

João da Rocha Cordeyro

p.12
299

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1757 2 Não assina, quem assina a seu rogo é Luis


de Andrade da Afonseca. Assina com o
sinal costumado

[...] mandou o dito Juis dos Orphãos fazer


Luis de Andrade da este Auto de inventario em que asignou o
Afonseca a rogo de Inventariante cabeça do casal que não
Joanna Martins saber ler nem escrever pedio e Rogou a
p.3 Luis de Andrade da Afonseca que este por
ella asignase [...] p.. 3

1790 3 Não assina, quem assina a seu rogo é o


escrivão.

[...] que por não saber escrever asignou a


seu rogo Jose Caetano da Silveira Nolete
Jose Caetano da Silveira
Nolete a rogo de Anna [...] p.3
Maria da Victoria
p.3
300

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1761 3 Assina.

Seu marido Alexandre Lopes do Valle, em


Genoveva Maria das 1761 ao declarar que devia o resto do dote
Flores de sua filha diz que ele não sabe ler nem
escrever, por isso pediu para seu compadre
p.54 fazer assinando apenas, juntamente com sua
mulher Genoveva Maria das Flores.

1799 3 Assina.

Antonio Pereira de
Vasconcellos

p.7

1789 3 Assina.

Francisco Rodrigues
Ferreira

p.28
301

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1730 3 Assina.

Estevão Gomes de Moura

p.5

1749 3 Assina.

Luis Barroso Pantajo


(português)

p.9

1762 3 Assina.

Maria Jose da Conceiçam

p.1
302

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1752 3 Não assina, quem assina a seu rogo é seu


cunhado.

Domingos Goncalves [...] assignou a Rogo della dita


Lima a rogo de Leonor inventariante assignou Domingos
Rodrigues Fraga Goncalves Lima seo cunhado por ella dita
dizer não sabia escrever [...] p.3.
p.3

1792 3 Não assina, quem assina a seu rogo é seu


genro Luiz Manoel de Jezus.
Luiz Manoel de Jezus a [...] deferimento do dito Juis fazer este Auto
rogo de Theodosia Gomes em que asignou com Inventariante por não
de Moura saber Ler e nem escrever asinou e asinei
Rogo seu genro Luiz Manoel de Jezus [...]
p.3 p.3

1800 3 Não assina, quem assina a seu rogo é


Manoel Joze [Soutto].
Manoel Joze Soutto a
rogo de Luisa Francisca [...] mandou [o dito Juis fazer este
Barbosa Inventario] em que asinou [com a dita
Inventariante] por não saber [escrever]
p.2 asinou a seu Rogo Manoel Joze [Soutto]
p.2.
303

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1792 3 Não assina, quem assina a seu rogo é seu


filho Bartholomeu dos Santos Lenho.
Bartholomeu dos Santos [...] mandou o dito Juis de Orfaos, fazer este
Lenho a rogo de Antonia Autto em que asignou, e pella Inventariante
Maria de Ramos ser mulher e não saber ler nem escrever
asignou por Ella seu flho Bartholomeu dos
p.3 Santos Lenho [...] p.3

1800 3 Não assina, quem assina a seu rogo é seu


filho Antonio Carvalho de Oliveira.
Antonio Carvalho de
Oliveira a rogo de [...] mandou o dito Juis fazer este autto que
Francisca de Serqueira asignou pella Inventariante não saber
Dantas escrever asignou a seu rogo Antonio
Carvalho de Oliveira [...] p.4
p. 4

1732 3 Não assina, quem assina a seu rogo é


Francisco Miguel da Silveira.

Francisco Miguel da [...] tudo mandou [corroído 5 palavras] auto


Silveira a rogo de Izabel de [corroído 5 palavras] a dita
da Rocha Barboza Inventariante [corroído 4 palavras] [não]
saber ler nem escrever [asignou] [...] p.2.

p.2
304

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1793 3 Não assina, quem assina a seu rogo é seu


irmão Francisco Telles de Jezus.

[...] mandou o diti Juis fazer este Auto de


Incentario em que asignou com a dita
Francisco Telles de Jezus
Inventariante que por não saber ler nem
a rogo de Anna Joze Silva
escrever pedio e rogou a seo Irmão
p.3 Francisco Telles de Jezus que por Ella
asignou elle a seo Rogo [...] p.3.

1730 3 Não assina, quem assina a seu rogo é seu


irmão Diogo Pereira da Silva.

[...] mandou o dito Juis mandou fazer este


auto de inventario a requerimento da dita
Diogo Pereira da Silva a cabeça do casal e o dito Goncalo Gomes de
rogo de Joana Pereira dos Mello filho do dito defunto como consta das
Reis peticoins a diante neste Inventario em que
p.1 asignou a dita cabeça do casal que por não
saber Ler nem escrever pedio e rogou a
seu Irmão Diego Pereira da Silva que este
por Ella asignasse e elle a seu Rogo o fes e
asignou com o ditto Juis [...] p.1.
305

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1795 3 Assina.

Apesar do termo de declaração de


inventariante afirmar que ela não sabe
escrever e por isso quem assina a seu rogo é
seu irmão o Alferes Antonio Soares Dias,
Jozefa Maria de no termo de entrega de dos bens como
Vasconsellos tutora de seus filhos menores (p. 120).
p.120
[...] mandou o ditto Juis fazer este Autto
que asignou pella Inventariante não saber
ler nem escrever asignou a seo Rogo o
Alferes Antonio Soares Dias [...] p.1.

1749 Maria Jozefa de Rezende 3 Assina.

p.3
306

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1751 Joze Gonçalves Tavora 3 Assina.

p.2

1795 Francisco Xavier de 3 Assina.


Gouvea

p.3

1757 Antonio Dultra de 3 Assina.


Almeida

p.2
307

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1766 Francisco Pereira de 3 Assina.


Miranda

p.16

1796 Manoel de Jesus Barreto 3 Assina, mas não assina com o sobrenome
Barreto.

p. 3

1762 João Rodrigues Lima 3 Assina.

p.2
308

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1762 3 Assina.

Valerio de Moura Gomes

p.3

1793 3 Assina.

Antonio Felix de Oliveira

p. 2

1780 Francisco Coelho 3 Assina.

p.4
309

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1799 Antonio Joze Correia 3 Assina.

p.3

1797 Joze Soares Monteiro 3 Assina.


.

p.7

1777 Carlos Francisco de Jezus 3 Assina.

p.2
310

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1750 Albano do Prado Pimentel 3 Assina.

p.80

1798 Manoel Francisco Nunez 3 Assina.

p.17

1788 Luiz Pinto de Rezendes 3 Assina.

p.28
311

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVES OBSERVAÇÕES

1764 Fellipe Joze Vanique 3 Assina.

p.1

1794 Antonio Cazimiro Leite 3 Assina.

p.15

1763 3 Assina.

Manoel Moreira de
Afonseca

p.3
312

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1794 Joze Teles de Menezes 3 Assina.

p.3

1792 Bento Vieira de Britto 3 Assina.

p.4

1776 3 Assina.

Felippe Joze de
Vasconcellos

p.9
313

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1799 3 Assina.

Francisco Vieira de Mello

p.4

1798 Antonio Gonçalves 3 Assina.


Guimaraes

p.2

1794 Simião de Araujo Sandes 3 Assina.

p.1
314

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1797 3 Não assina, quem assina a seu rogo é


Manoel Ferreira da Silveira.
Manoel Ferreira da
Silveira a rogo de Thereza [...] mandou o dito Juis fazer este auto de
Maria de Jesus Inventario que [ilegível] Inventariante não
saber escrever asignei a seu Rogo Manoel
Ferreira da Silveira [...] p.2
p.2

1781 3 Não assina, quem assina a seu rogo é o Juiz


Antonio Ferreira Dutra.

[...] mandou fazer [Juis] de orphaos fazer


Antonio Ferreira Dutra a este auto de [inventario] em que asignou de
rogo de Barbara Maria nome [Inteiro] pella Inventariante não sabe
Ler nem escrever [...] p.2
p.2

1783 Francisco de Souza 3 Assina.


Campos

p.6
315

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1799 3 Assina.

Manoel Lopes Ferreira

p.3

1762 Maria Cardozo de 3 Assina.


Oliveira

p.12

1755 4 Assina.

Joze Cardozo de
Vasconsellos

p.11
316

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1796 Maria Francisca de Freitas 4 Assina.

p.22

1749 4 Não assina, quem assina a seu rogo é seu


filho Alexandre Barrozo Pantojo.

Alexandre Barrozo [...] em que asignou o Inventariante que por


Pantojo a rogo de Jozefa não saber Ler nem escrever pedio e rogou
de Barros a seu filho Alexandre Barrozo Pantoja
[ilegível] que por ella asignasse [...] p.4

p.4

1800 Antonio de Freittas Goes 4 Assina.

p.2
317

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1800 Francisco Simoens de 4 Assina.


Avelar

p.2

1767 5 Não assina, quem assina a seu rogo é o


Reverendo Padre Pedro Alvares Telles.

[...] mandou o dito Juis fazer este termo em


Pedro Alvares Telles a
que asignou com os ditos avaliadores a
rogo de Maria Francisca
Inventariante por ella declara que não sabe
Xavier
escrever asignou a seo rogo o Reverendo
p.6 Padre Pedro Alvares Telles [...] p.6

1799 4 Não assina, quem assina a seu rogo é


Manoel Joze Soutto. Documento muito
Manoel Joze Soutto a
apagado. Por isso a assinatura da página
rogo de Anna Luzia de
Andrade
p.67
318

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1788 4 Não assina, quem assina a seu rogo é Jose


Venanacio da Silveira.
Jose Venanacio da
Silveira a rogo de [...] mandou o dito Juis fazer este termo que
Anacleta Rufina de Santa com Ella asinou que por não saber
Anna escrever asinou a seu rogo Jose Venanacio
da Silveira [...] p.45
p.45

1799 4 Não assina, quem assina a seu rogo é


Licenciado Inacio da Silveira.

Inacio da Silveira a rogo [...] mandou o dito Juis fazer este auto em
de Angelica Maria do que asinou com a dita Inventariante por
Bom Sucesso não saber escrever asinou a seu Rogo o
Licenciado Inacio da Silveira [...] p.2.
p.2

1725 4 Assina.

Duarte Monis Barreto

p.8
319

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1764 4 Assina.

Joze Frique do Prado

p.9

1789 4 Não assina, quem assina a seu rogo é


Ancelmo Ferreira de Gois.

Ancelmo Ferreira de Gois [...] mandou o dito Juis fazer este autos em
a rogo de Maria Pereira de que asinou com a Inventariante que por não
Jesus saber escrever asinou a seu Rogo Ancelmo
Ferreira de Gois [...] p.3
p.3

1796 4 Não assina. quem assina a seu rogo é


Martinho Francisco Leal.
Martinho Francisco Leal [...] mandou fazer este termo e
a rogo de Ignes Maria de encerramento em que asignou com os
Jesus avaliadores com inventariante e que por
[não]saber escrever asignou a seo Rogo
p.6
Martinho Francisco Leal. p.6
320

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1764 4 Não assina, quem assina a seu rogo é seu


filho Joze Caetano.

[...] mandou o ditto Juis fazer este termo em


Joze Caetano de Mello a
que se asignou com a mesma e os
rogo de Margarida da
avaliadores e pella Inventariante não saber
Franca
escrever asignou a seo rogo seo filho Joze
p.9 Caetano [de Mello] p.9

1781 Alexandre Lopes do Valle 4 Assina.

Ele em 1761 ao declarar que devia o resto


do dote de sua filha e diz que não sabe ler
nem escrever, por isso pediu para seu
compadre fazer assinando apenas,
p.3 juntamente com sua mulher Genoveva
Maria das Flores.

1766 Francisco Cardozo de 4 Assina.


Souza

p.6
321

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1794 Francisca Catharina Solto 4 Assina.


Fraga

p.86

1777 Angelica Perpetua de 4 Assina.


Jezus
Ela é inventariante do seu marido Manoel
Joze Nunes Coelho de Vasconcelos e Figueiredo
(1777) e de seu sogro Manoel Joze de
Vasconcelos e Figueiredo (1777)

p.3

1793 Manoel da Conceição de 4 Assina.


Jezus .

p.3
322

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1765 Antonio de Payva Lessa 4 Assina.

p.2

1798 Joze Sotero de Sâ Assina.


4

p.3

1799 4 Assina.

Manoel Joze Puzada

p.3
323

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1768 Bernardo Nunes da Mota 4 Assina.

p.2

1800 4 Assina.

Estacio Munis Barreto

p. 28

1789 4 Assina.

Fellis de Andrade Maciel

p.37
324

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1798 4 Assina.

Bento Joze Nunes

p.3

1764 4 Não assina, quem assina a seu rogo é


Bernardo Dias Pereira.

[...] mandou o Juis fazer este auto em que


asinou o dito inventariante que por não
Bernardo Dias Pereira a
saber escrever asinou a seo Rogo Bernardo
rogo de Jozefa Maria da Dias Pereira[...] p.3
Silva

p.3
325

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1795 5 Não assina, quem assina a seu rogo é o Juiz


era Capitão Felippe de Mello Pereira, Juiz
de órfãos.

[...] mandou o dito Juiz fazer este auto de


Felippe de Mello Pereira
Inventario em que asignou de nome inteiro
a rogo de Januaria
pella inventariante ser mulher, e não saber
Teixeira
ler nem escrever [...] p.3.

p. 7 Devido sua complexidade, mesmo tendo o


autor abreviado o sobrenome Pereira, a
classifiquei como sendo do nível 5.

1755 5 Assina.

Manoel Nunes de
Azevedo

p.20
326

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1758 5 Não assina, quem assina a seu rogo é


Antonio Eustaquio da Silveira.

[...] mandou fazer este termo em que


asignou com a dita Inventariante digo
Antonio Eustaquio da
[ilegível] que por não saber Ler a seo rogo
Silveira a rogo de
asinando Antonio Eustaquio da Silveira [...]
Bernarda do Valle
p.8
Cardozo
p.8

1753 5 Não assina, quem assina a seu rogo é seu


filho Francisco Cardoso de Souza.
Assinatura é da página 123 devido a da
página 15 estar apagada.
Francisco Cardoso de
Souza a rogo de Izabel de [...] mandou o dito Juis fazer este termo em
Barros Lima que asignou com os ditos avaliadores e a
Rogo della Inventriante asignou seu filho
p.123 Francisco Cardozo [...] p. 15
327

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1771 5 Não assina, quem assina a seu rogo é


Antonio Alvares da Silveira.
Antonio Alvares da [...] mandou o dito Juis de Orphãos fazer
Silveira a rogo de Roza este Auto de Inventario em que [ilegível 4
Maria do Sol palavras] dita Inventariante por ser mulher
e não saber ler nem escrever asinou
p.3 Antonio Alves da Silva [...] p.3

1725 5 Não assina, quem assina a seu rogo é o


Alferes Vitorio Fagundes Pereira.

Vitorio Fagundes Pereira [...] inventariante não saber ler nem


a rogo de Margarida da escrever pedio e rogou Alferes Vitorio
Conceiçam Fagundes Pereira que por Ella asinasse [...]
p.29

p.29

1793 Joseph Correa Dantas 5 Assina.

p.3
328

ANO NOMES ASSINATURAS NÍVEIS OBSERVAÇÕES

1800 5 Assina.

Manoel Joze Nogueira da


Costa

p.60
Fonte: Elaboração da pesquisadora a partir dos inventários e testamentos do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de Sergipe
329

APÊNDICE D – Análise descritiva das capacidades alfabéticas dos testadores


Fala testador Fala do tabelião Capacidades
Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1725 Duarte Monis Barreto [...] roguei a Baltazar Velho de [...] o qual lhe escrevera Baltazar Velho de Leitor, escrevente Enfermo de pé
Afoncequa que este por mim fizesse e Afoncequa morador neste termo e depois e assinante
como testemunha asignace com as mais de lho haver escrito lho lera huma e
testemunhas abaixo asignadas nesta muitas vezes e elle também o lera e
Itabahianna dia hora asima. Duarte Monis achara estava escrito a seu gosto e tudo
Barreto. Asino a rogo do testador por quanto nelle estava escrito elle o mandara
assim me pedir. p.35 escrevere hera a sua ultima e derradeira
vontade e depois de o ler o asignara com
o seu signal costumado [...] p.36
1726 Micaella Cardoso de Jesus Documento danificado [...] Como testemunha que fiz e escrevi a Assinava com Estando doente
rogo da dita Caetano Alz da Torre uma cruz
conforme mandou e asinou de seu sinal
costumado o qual he hua cruz [...] p.8

1730 Estevão Gomes de Moura [...] por eu não puder escrever pedi e Não tem Leitor, escrevente Doente
roguei a Antonio [Falyro] de Mattos que e assinante
este meo Testamento por mim escrevesse
e como testemunha assinasse e elle o
escreveu a meu rogo e depois de escrito
me leu em forma que [ilegível] a assim na
forma que eu lhe mandei escrever o [todo]
assinei de meo signal custumado. p.3

1749 Luis Barroso Pontoja [...] por ser esta a minha ultima vontade Não tem Assinante Estando em
(português) do modo que tenho dito me asigno aqui perfeito juízo e
de minha letra e signal. p.3 entendimento.
330

Fala testador Fala do tabelião Estado de Saúde


Capacidades
Ano Testador
alfabéticas
1755 Manoel Nunes de [...] pedi [ilegível][Manoel] Francisco [de Documento danificado Assinante Sem doença
Azevedo (português) Carvalho]e eu o ditei como nelle alguma
casado com Thereza [corroído]e assignei com o meu signal
custumado. p. 18
Rodrigues de Souza

1757 Ignacio da Costa Feijo [...] por não poder escrever pedi e roguei Ilegível Leitor, escrevente Doente de cama
a Fortuozo Alves Rodrigues este por mim e assinante
fizesse como testemunha se assinasse, Eu
me assino com o meu sinal costumado.
p.8

1762 Clara Martins de Castro [...] por eu não saber ler nem escrever [...] dita Testadora Dona Clara Martins de Assinava com Doente, mais de
pedi e roguei ao Alferes José Carlos para Castro asignara com huma cruz seu uma cruz pé
que por meu [ilegível] escrevesse signal costumado [...] p.9
[corroído] e depois de escrito [corroído] [...]em presença de todos e a testadora
mo leo e pelo achar na forma que o ditei asignaram digo com huma cruz por nam
pedi que por mim tambem assinasse por saber ler nem escrever seu signal
Razão de eu não saber ler e nem escrever costumado [...] p.10
[corroído] assinasse ele a meo rogo
[ilegível] junto com as mais [corroído]
assinadas [...] p.7
331

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1762 Maria Jose da Conceiçam E por quanto esta é a minha ultima [...] que mandara escrever por Manoel de Assinante Estando em
vontade me asignei neste meu testamento, Asumpção Rego morador no sitio do perfeito Juízo e
escrito por Manoel de Asumpção Rego o Curral das pedras deste termo o qual entendimento
qual ditei e depois de escrito o mandei ler depois de escrito lho lera e ella o asingara
e em tudo o achei conforme o que tinha com sua própria mão [...] p.12
ditado muito de minha livre vontade sem
constrangimento de pessoa alguma, cujo
testamento também vai asignado pello
ditto Manoel de Asumpção Rego [...] p.11

1763 Domingos Salgado de [...] pedi ao Sargento mor [Liandro Joze [...] qual lhe escreve o Sargento mor Leitor, escrevente Enfermo de pé
Araujo (português) -Padre Dias] que este por mim escrevesse Leandro Joze de Vasconcellos [ilegível] e assinante
[ilegível] me leu depois de feito e pelo por elle dito testador lhe pedir e rogar
achar na forma [ilegível] ditei o assinei. escrever o dito escrito elho lera huma e
p.12 muitas vezes e elle dito testador o ditara e
depois de [ilegível] digo estar escrito a seu
gosto e da mesma forma que elle dito
testador o ditara e também lho pedira que
asignace como testemunha [ilegível 3
palavras] dito testador se asignara com
sua própria mão seu nome inteiro e seu
signal costumado [...] p.14

1764 Joze Frique do Prado [...] tenho dito este testamento por mim Não tem Assinante Estando em
somente assignado sem constrangimento perfeito juízo e
de pessoa alguma se não por ser esta a entendimento
minha ultima vontade e me assigno de
meo signal costumado. p.7
332

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1764 Maria da Afonseca [...] Roguei a Gabriel Nunes Rodrigues [...] mandara escrever por Gabriel Nunes Não assinante Estando
que este testamento me escrevesse e Rodrigues o qual depois de escrito lhe lera molestada, mas de
[corroído] asinasse e como testemunha e pelo achar a seu gosto na forma que o pé
[...] p.29 havia ditado lhe rogara ao dito que por
ella asinasse por não saber ler nem
escrever [...] p.30

1765 Thereza Rodrigues de [...] por não saber ler nem escrever pedi [...] por não saber ler nem escrever Não assinante Gravemente
Jesus (casada com Manoel e roguei a [ilegível] [corroído] por mim [ilegível] [corroído] a seo rogo [corroído] enferma
Nunes de Azevedo) escrevesse [ilegível] e assignace como Jerônimo [Borges] de Noronha [...] p.10
testemunha que este escreveu [ilegível]
Thereza [ilegível] Jeronimo Borges de
Noronha. p.8

1766 João da Rocha Codeyro [...] pedi ao Re P. Domingos Afonso Não tem Assinante Bastantemente
Lessa que me fizesse e asignace e eu me doente e de cama
asignei com o meu sinal que hé o meu
nome [...] p.8
1767 Benta do Rozario [...] por não saber ler nem escrever pedi Não tem Não assinante Com moléstia na
e roguei a Ignácio da Silva Teixeira que saúde
este por mim escrevesse e asinasse como
testemunha [...] p.70

1767 Paschoal Mendes Pereira [...] pedi e roguei a meu compadre Manoel [...] mandara escrever por Manoel de Assinante Estando com
de Seabra Lemos que este por mim fizesse Seabra Lemos e que depois de escrito lho moléstia na saúde,
como testemunha assinasse e eu me lera e por achar a seu gosto e na forma em porém de pé
assinei com o meu sinal costumado. p.15 que havia ditado e asinara de seu sinal
costumado [...] p.16
333

Fala testador Fala do tabelião Estado de Saúde


Capacidades
Ano Testador
alfabéticas
1770 Barnabe Martins Fontes [...] roguei a meu compadre Nicolao de [...] mandara escrever pelo licenciado Assinante Doente de cama
Souza Vieira que este testamento Nicolao de Souza Vieira o qual depois de
escrevesse e eu me asinei de minha letra escrito o lera e por achar a seo gosto na
e sinal costumado [...] p.10 forma que havia ditado assinara de seo
sinal costumado [...] p.10-11

1771 Anna Paes Tellis Falta a página. [...] todos aqui asinarão com a testadora Assinava com Estando molesta,
que o fez de hua cruz por não saber uma cruz porém de pé
escrever e declaro que se achão asinadas
as testemunhas a saber João Rodrigues
Ferreira que escreveo o dito testamento
[...] p.23

1771 Hypolita Maria da [...] por nam saber ler nem escrever [...] esta declarar nam saber ler nem Não assinante Estando em
Conceição pedi e roguei a Joam Alvares Valle escrever [...] p.45 perfeito juízo e
Guimaraens este meo testamento me entendimento
escrevesse [...] p.43

1771 Manoel de Afonseca de [...] testamento pedi e roguei a Manoel [...] o asinara de seu sinal costumado Leitor, escrevente Doente de cama
Araújo (Padre) Guedes Soares que me escrevesse por eu [...] p.55 e assinante
não saber alias não poder escrever [...]
p.50
334

Fala testador Fala do tabelião Estado de Saúde


Capacidades
Ano Testador
alfabéticas
1772 Salvador Coelho da Silva [...] por não poder escrever pedi e roguei [...] o havia mandado escrever por Leitor, escrevente Estando doente
(casado com Maria ao Alferes Antonio de Oliveira Carvalho Antonio de Oliveira Carvalho e ele e assinante
Avilar) este por mim escrevesse e eu so me testador ditando e o dito escrevendo.
assinei o meu nome com a minha mão e Depois de escrito o lera e o achara na
fiz o meu sinal costumado [...] p.9 mesma forma em que o havia ditado
muito de seu contento no qual so asignou
[...] p.11

1773 Joanna Veronica do [...] roguei a Manoel Suterio das Candeias [...] o mandara escrever por Manoel Assinava com Enferma de cama
Sacramento que este testamento por mim fizesse e[c] Suterio das Candeias o qual depois de uma cruz
me asinei com o meu sinal costumado escrito lhe lera e pelo achar a seo gosto na
do que he hua cruz [...] p.61 forma em que o havia ditado assinara de
seu sinal costumado que he hua cruz
[...] p.62

1773 José Daniel de Carvalho [...] por nam poder escrever pedi e [...] se asignara ao pe delle de seo Leitor, escrevente Doente de cama
(português) roguei a Luis Ferreyra Alvares este meu proprio signal [...] p.51 e assinante
testamento me escrevesse e eu o ditei e
depois de escrito mo leu todo e pelo achar
a meu gosto e na forma que o havia ditado
me asignei ao pe delle de minha propria
firma de que uso e lhe pedi o asignasse
como testemunha que o escreveu [...]
p.50
335

Fala testador Fala do tabelião Estado de Saúde


Capacidades
Ano Testador
alfabéticas
1773 Manoel da Rocha Rios [...] [corroído] poder escrever, que so sei [...] a seu rogo lhe escreveu Alberto Joam Assinante Estando em
(português) assignar[meu nome] Rognei a Alberto de Jesus Moura elle testador ditando e o perfeito juízo e
Joam este [corroído 2 palavras] ditto escrevendo e que depois de escrito entendimento
escrevesse e depois de escrito mo lhe lera de verbo adverbum e o achara
leu[corroído 2 palavras] em tudo muito a seu contento na forma em que o
conforme [corroído]que ditei [corroído] havia ditado o qual assignaram não so
de meo signal costumado [...] p. 5 elle testador mais tambem o dito
escrevente [...] p.6

1774 Anna de Andrade Roguei a Joze Fernandes Jacome [...] todos assignarão pela testadora não Não assinante Doente, porém
Coutinho me faça e declare por sua letra saber ler nem escrever a seo rogo não de cama
esta minha ultima vontade e por mim asignou Joze Fernandes Jacome Coutinho
asigne tam bem [...] p.36 [...] p.37

1774 Apollonia Soares dos [...] tornei a pedir e Rogar ao dito Padre [...] testamento lhe havia escrito o Assinava com Doente de cama
Prazeres Antonio Martins Ferreyra que este fez por Reverendo Padre Antonio Martins uma cruz
eu nam saber ler nem escrever por mim Ferreira Sacerdote do abito de Sam Pedro
asignasse e me asigney com huma cruz e que lhe havia ditando e que depois de
p.15 escrito lhe lera todo e pelo achar muito a
sua vontade na forma que havia ditado se
asignara ao pe do dito testamento de
huma cruz [...] p.16
[...] testadora de huma cruz por nam
saber ler nem escrever [...] p. 17
336

Fala testador Fala do tabelião Estado de Saúde


Capacidades
Ano Testador
alfabéticas
1774 Bernabe Ferreyra dos [...] por não poder escrever este meu Documento incompleto Leitor, escrevente Doente
Reys testamento pedi e roguei a Manoel Dias da e assinante
Silva que por mim o ezcrevesse e eu o
ditei, e depois de ezcrito o ly todo e pelo
achar a meu gosto da forma em que o
havia ditado me asignei ao pe delle com
a minha propria firma de que uso, e a
elle pedi asignasse como testemunha que
o escreveu a meu rogo [...] p.103

1774 Eleuterio Gomes de Sá Roguei a Francisco da Rocha Bezerra [...] Francisco da Rocha Bezerra de Assinante Doente de cama
Vasconcellos que este por mim escrevesse Vasconcellos morador no sitio da Mata
em que me assignei [...] p.9 deste mesmo termo da dita villa e que
depois de escrito lhe lera e pelo achar a
seo gosto e na forma que o havia ditado
no fim delle se assignara [...] fiz este
instrumento de approvação em que
assignou o dito testador [...] p.10

1774 Joze Pinheiro Lobo [...] e pedi e roguei a Joam Lins de [...] testamento de ultima e derradeira Assinante Doente de cama
Albuquerque que este por mim fizesse e vontade o qual mandara escrever por Jozé
como testemunha assignasse e me asignei Lins de Albuquerque e que depois de
com o meo signal costumado. p.80 escrito lho lera e como estava a seo gosto
na forma que o havia ditado por cuja razão
assignara de sua propria mão [...] p.81
337

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1774 Manoel Rodrigues de E por nam poder escrever pedi e roguei [...] tinha mandado escrever por Manoel Leitor, escrevente Doente de cama
Carvalho (português) a Manoel Fernandes Pinheiro que este por Fernandes Pinheiro o qual depois de e assinante
mim escrevesse e acinace na forma que escrito lhe lera e pelo achar a seu gosto
eu lhe ditei. [...] e eu me acinei de meu
lhe lera e pelo achar a seo gosto e na
cinal costumado [...] p.75
forma em que o havia ditado asignara
com o seu signal costumado [...] p.76-77

1774 Maria Telles da Silva e [...] roguei ao Capitam Luis Marques de [...] fiz este instrumento de approvação Assinante De pé, porém
Menezes Oliveira que este por mim escrevesse e em que assignou a mesma testadora [...] doente
me asignei do meu signal costuma [...] p.72
p.70
1775 Joam Moreira de [...] por nam saber ler nem escrever [...] asigno a rogo do testador Joam Não assinante Doente de cama
Meyrelles pedi e roguei a Felipe Pereira de Araujo Moreira de Meirelles como testemunha
que este por mim escrevesse e asignace que este escrevi Felipe Pereira de Araujo.
como testemunha [...] Juiz em que asignou P.92
pelo dito testador por ser sego e nam
saber fazer o seu signa que hera huma
cruz. p.92
1775 Maria de Oliveyra do [...] por eu não saber ler nem escrever [i [...] asignou a rogo da testadora por nam Não assinante Doente de
Sacramento 5p] Dionizio Joze Soares que por mim saber escrever Dionizio Jose Soares [...] enfermidade
escrevesse o que com efeito o fez e depois p.88
[ilegível] que tam bem por mim
asignasse [...] p.86-87
1775 Maria Perpetua do [...] por nam saber ler e nem escrever [...] o tinha mandado escrever por Não assinante Doente de cama
Espirito Santo pedi e roguei ao Senhor Faustino Ferreira Faustino Vieira de Andrade o qual depois
de Andrade que este por mim fizesse e de escrito lhe lera pello achar a seu gosto
como testemunha asinace digo que este na forma que o havia ditado asinou o
por mim fizece [ilegível] e asinace [...] mesmo Faustino Vieira por ella nam
p.85 saber escrever [...] p.86.
338

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1776 Gonçalo Gomes Lobato [...] roguei a Alberto João [de Jezus] que Não tem Assinante Andando enfermo
este ordenasse escrever e assignasse, por
eu não [poder asignar] [ilegível] [c] todo
conforme o que ditei [ilegível] [corroído]
supra. p.6
1776 Gonçalo Tavares de Mello [...] por não poder escrever pedi e roguei [...] escrevera Manoel de Carvalho Leitor, escrevente Doente de cama
a Manoel Francisco digo Manoel Gonçalves a seo rogo e depois de o ter e assinante de enfermidade
Gonçalves de Carvalho que este meu escrito lhe lera calma e distintamente de grave
testamento escrevesse e como testemunha sorte que elle muito bem o entendera e por
asignasse com as demais testemunhas achar a seo gosto assim e da maneira que
asignadas o qual meu testamento eu o tinha ditado o asignara de sua própria
asignei com o meu proprio signal [...] letra e signal [...] p.27
p.26
1776 Marta da Costa Aranha [...] não saber ler nem escrever pedi e [...] dito testamento lhe tinha escrevido o Não assinante Doente de cama
roguei ao Padre Antonio Ferreira que este Reverendo Padre Antonio [corroído] e
testamento me escrevesse e eu o ditei e que [corroído] escripto o mandara ler todo
depois de escrito na forma que eu hava e que pello achar a seu gosto na forma e
ditado [ilegível] ler todo e pello achar a maneira que o tinha ditado pedira a elle
meu gosto [ilegível] e asignou por mim dito Padre Antonio [ilegível] asignou por
[...] p.63 Ella [ilegível] testemunha o escrevera a
seu rogo por ella dita testadora nam
saber ler nem escrever [...] p. 64

1777 Antonia Neto de Sam [...] e por nam saber ler nem escrever [...] pella teztadora nam saber ezcrever Não assinante Doente na cama
Joam pedi e roguei [ilegível] Marcolino de asignou a seo rogo o dito Marcolino de
Andrade Torres que este por mim Andrade e Torres e todoos aqui assinaram
escrevesse e como testemunha a meo rogo depois desta ser lida perantes todos por
asignasse [...] p.63-64 mim tabelião [...] p.66
339

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1777 Antonio da Costa Rosa [...] pedi e roguei a Manoel Francisco [...] mandou escrever por Manoel Leitor, escrevente Doente de cama
(português)-padre Sauto este testamento escrevesse e nelle Francisco Santo e depois de escrito lhe e assinante de uma retenção
asignasse como testemunha em que lera e pelo achar a sua vontade e como o de urina
também me asigno de meo nome e signal havia ditado o asignara com seo signal
costumado de que uso [...] p.59 costumado [...] o qual esta escrito em
quatro laudas de papel e vinte e tres regras
da outra lauda tudo da letra e sinal do dito
Manuel Francisco Souto e ao pe de seo
signal está asignado o dito Testador
com seo signal costumado [...] p.60

1777 Joze Pinto Caetano Correa [...] por eu não poder escrever pedi e [...] testamento presenciousse Josê Ribeiro Leitor, escrevente Doente na cama
(português) roguei a Jose Ribeiro da Gama que este da Gama e que elle testador ditara e que e assinante
meo testamento escrevesse e depois de depois de escrito o lera todo e pelo achar
escrito o li todo e pelo achar a meo gosto [ilegível 2 palavras] a sua vontade na
na forma que o tinha mandado escrever e forma que o tinha ditado se assignara no
ditado me asignei ao pe delle de minha pe delle do seu próprio signal [...] p.97
propria firma de que uzo [...] p.96

1777 Luiz Carlos Pereyra [...] pedi e roguei a Antonio Alvarez [...] Lhe tinha escrito o Licenciado Assinante Doente na cama
Bastos este pr mim escrevesse elle Antonio Alvarez Bastos e ao depois de
escrevendo e eu ditando e depois de escrito lho lera huma e muitas vezes e
acabado me leu huma e muitas vezes e o pelo dito testador o achar escrito do modo
achei escrito da forma que o ditara por que o ditara o asinara com a sua própria
cuja razão o hei por meu bom e verdadeiro mão [...] p.10
testamento, ultima e derradeira vontade
por cuja razão o asinei junto com o dito
Escrivam [...] p.8-9
340

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1777 Manoel Joze Nunes [...] este por mim assigne por eu não [...] mandara escrever pello Reverendo Leitor, escrevente Doente na cama
Coelho de Vasconcelos e poder fazer por causa da minha Padre Antonio de Souza e [ilegível] e e assinante
Figueiredo molestia [...] p.6 depois de escreveu se o lera pallavra por
pallavra por pallavra e pello achar a seu
gosto, como forme Elle testador o ditara
pediu a Bras Mizs da Costa ferrão que a
seu gosto digo a seo Rogo por Elle
asignaçe [...] p.7
1778 Antonio de Almeida Doria [...] por nam poder escrever este meu E pello dito testador nam poder asignar Leitor, escrevente Doente na cama
testamento pedi e roguei a Joam Alvares por [ilegível]] a seu rogo assinara o e assinante
do Valle que mandei escrever este meu Alferes Simam de Serqueira de Brito [...]
testamento pedi e roguei a Joam Alvares p.20.
do Valle que mandei escrever [ilegível] o
ditei fazendo nelle as minhas disposiçoens
e depois de escrito o li todo pello estar a
meu gosto me asignei [...] p.18-19

1778 Domingos Lopes Coelho Declaro que por não saber ler nem Documento incompleto Assinante Doente na cama
(português) escrever pedi e roguei ao Senhor Joze
Manoel de Oliveira que este testamento
meu escrevesse [...] me asignei ao pe
deste com minha própria firma de que
uso [...] p.49

1778 Domingos Peres Duque [...] por mim somente assignado asseito Documento danificado Assinante Documento
(português) por Jose da Silva a quem roguei este por danificado
mim fizesse e como testemunha assinace
[...] p.31
341

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1778 Francisca dos Santos [...] por nam saber ler nem escrever [...] asignara pella dita Testadora e como Não assinante Doente na cama
pedi e roguei a Joam Dias [ilegível] que testemunha que o escrevera a seu rogo [...]
este testamento me escrevesse [...] p.25 p.26
[...] dita Testadora nam saber ler nem
escrever [...] p.27

1778 Francisco Marques da [...] pedi e roguei a Mauricio Pereira de [...] que tinha mandado escrever por Leitor, escrevente Doente na cama
Silva (português) Barros [i 2 linhas] estando tudo conforme Mauricio Pereira de Barros e que elle dito e assinante
[ilegível] lhe ditei eu o asignei por minha testador o tinha ditado e nelle feito suas
mão [...] p.6 dispoziçõens e que depois de escrito lho
lera todo e por o achar muito da sua
vontade na forma que tinha ditado se
asignara de sua propria firma de que
usa [...] p.8

1778 Maria Rodrigues dos [...] pedy a Joam Mesias Rego que este me [...] Joam Mesias Rego o asignace por Não assinante doente mas de pé
Santos escreva por eu nam saber ler nem Ella dita Testadora nam saber ler nem
escrever [...] p.11 escrever [...] p.12

1779 Eleuteria Ramos de Jesus Roguei a Francisco de Oliveira este meu [...] fiz a rogo da testadora por me dizer Não assinante Doente na cama
testamento escrevesse e asignace por eu não saber ler nem escrever [...] p.41
não saber ler nem escrever [...] p.39

1779 Ignacia Rodrigues de Sá [...] por nam saber ler nem escrever [...] seu rogo asignasce por [ilegível] não Não assinante Doente mas de pé
rogo ao Senhor Manoel Nunes [Vianna] saber ler nem escrever Luis Ferreira da
por mim assignasse [...] p.69 Rocha [...] p.71
342

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


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1780 Joanna Francisca Ramos [...] por eu não saber ler nem escrever [...] havia mandado escrever por Joam Não assinante Doente na cama
pedi e roguei a Joam Alves do Valle [Meireles?] do Valle Guimarães que
Guimaraens que este meu testamento me depois de escrito lhe lera [...] Asigno a
escrevesse e eu o ditei fazendo nelle rogo da testadora Joanna Francisca
minhas dispoziçoens o qual depois de Ramos o Padre Joam Correa Pimentel.
escrito o mandei ler todo e pello achar a p.76
meu gosto na forma que o tinha ditado e
feito minhas dispoziçoens pedi ao dito
Joam Alves do Valle Guimaraens por
mim asignasse [...] p.75
1780 Manoel Francisco da Cruz [...] foi dado e entregue hum papel aberto [...] lhe havia escrito o Reverendo Padre Leitor, escrevente Estando de saúde
(Padre) dizendo me era o seu solene Testamento Antonio Munis Ferreira [ilegível] e assinante e de pé
que o havia feito sua mam [...] p.115 [corroído] Testador que depois o lera e
pelo achar da mesma vontade digo achar a
sua vontade e da mesma sorte que o havia
ditado o asignara com seu costumado
signal [...] p.120
1781 Elena da Silva Ramos [...] pedi para escrever o Padre Antonio [...] por não saber ler nem escrever Assinava com Doente na cama
Jose [Barbosa] como testemunha asignace pediu ao ditto Reverendo Antonio José uma cruz
e a meu rogo tambem [ilegível] de hum Barbosa escrevesse [...] p.147
juiz. Signal de [Elana] da Silva. Estava
Huma Cruz. p.146

1781 Maria Avilar (casada com [...] por não saber escrever pedir e [...] que o mandara escrever por Jose Não assinante Doente, porém de
Salvador Coelho) roguei a Jose Antonio da Silva e Mello Antonio da Silva e Mello e depois de feito pé
este por mim fizesse assinasse presentes o lera e pelo achar estar muito a seu gosto
as testemunhas assinadas. p.16 e nele por todos assinados [ilegível] ultima
e derradeira vontade lhe pedira a seu
rogo assinasse por ela testadora por não
saber escrever [...] p.17
343

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1781 Maria Jozefa [...] Roguei a João Dias [Gaia] por não [...] o havia dictado e depois deescrito o Assinava com Doente na cama
saber ler nem escrever que por mim havia mandado ler e pelo achar feito uma cruz
escrevesse e me assignei com huma muito a sua vontade na mesma forma que
cruz. [...] p.80 o havia ditado se assignou ao pe delle
com huma cruz por ella não saber
escrever [...] p.81

1781 Quitéria Rodrigues [...] por nam saber ler nem escrever [...] seu solenne testamento que o havia Não assinante Doente na cama
pedi e roguei a João Alvares Valle mandado [ilegível] por João Álvares
Guimaraens que este meo testamento me Guimaraens para desencargo de sua
escrevesse pondo nelle todas as minhas consciência por não saber o que Deos
disposiçõens e declarações e depois de Nosso Senhor della faria e quando seria
escrito servido de a levar para si e que depois de
Mandei ler todo [ilegível] ditto e pello escrito de o mandara ler e pello achar
achar a meo gosto e na forma que o havia conforme sua vontade e na forma que o
ditado lhe pedi asignasse por mim a meu havia ditado a seu rogo o mandou
rogo [...] p.89 assignar pello mesmo que o escreveu ao
pe delle [...] p.90-91

1783 Clara Maria de Almeida [...] não saber ler e nem escrever [...] havia escrito Francisco [Munis] da Não assinante Doente
[ilegível] a Francisco [Munis] da Cruz Cruz o qual depois de escrito lhe lera a
[ilegível] mim fizerem e em meu nome ella testadora [ilegível] tudo achar
[ilegível][corroído] Assigno a rogo da conforme o tinha ditado e a seu rogo o
Testadora D. Clara Maria de Almeida assignou por ella [corroído] nam saber
Francisco [Munis] da Cruz [...] p.17 ler nem escrever [...] p.18
344

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1783 Manoel Francisco de [...] por não poder escrever este meu Não tem Leitor, escrevente Doente na cama
Oliveira (português) Testamento pedi e roguei a João Nunes do e assinante de doença natural
Valle Guimarães por mim escrevesse e eu
o dittei puando nelle todas as disposiçoens
e depois de escrito o mandei ler todo e
pello achar a meu gosto me assignei ao pe
delle da minha propria firma de que
uso [...] p.99

1784 Felles de Andrade Maciel [...] por eu não saber escrever pedi e Não tem Assinante Doente na cama
(casado com Antonia roguei a meu compadre o Alferes Antonio
Ferreira de Jesus) Ferreira Dutra que este escrevesse e como
testemunha o asignace e pelo achar a meu
gosto depois de o ter tido por verdade e
validade me asignei do meu signal
costumado [...] p.130

1784 Francisca de Serqueira [...] por não saber ler nem escrever pedi [...] que o havia mandado escrever pello Não assinante Com pouca saúde
Pacheco e roguei [c] compadre o Alferes Antonio Alferes Antonio Ferreira Dutra e que por moléstia, mas
Ferreira Dutra [...] p.9 depois de lhe ser por elle lido e estar andando de pé
muito a seo gosto na forma que lhe havia
ditado a seo rogo o assignara Manuel
Zuzarte Homem por ella não saber ler e
escrever [...] p.8
1784 Francisco Dias Correia [...] por não poder escrever pedi e roguei [...] o testador asignado com o dito Leitor, escrevente Doente
ao Reverendo Licenciado Antonio Dias escrevente e ao pe do seo signal [...] p.16 e assinante
Coelho e Mello que este por mim fizesse e
como testemunha asignace e eu me
asignei com meu signal costumado.
p.14-15.
345

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1784 Maria Madalena de Paes [...] por não saber ler e nem escrever [...] por não saber ler nem escrever a Não assinante Doente na cama
pedi e roguei a [José Muniz] do Valle seu rogo o [ilegível] José Muniz do Valle
Guimaraens este me escrevesse e depois Guimaraens [ilegível] ella testadora as
[c] mo leu todo [i] [c] disposiçoens [c] suas disposiçõens e depois de feito lhe leu
meu gosto lhe pedi e roguei por por mim e todo e que estava sim da mesma forma
como testemunha que este escreveu a meu que ella havia ditado pediu ao mesmo
rogo [...] p.157 que por ella asignace [...] p.158

1785 Manoel Gonçalves Praça [...] pedi e roguei ao Padre quadjutor Não tem Assinante De cama enfermo
(português) Antonio Jose Barboza que este testamento
por mim escrevesse e depois [escritto] me
leu e pello achar a meu [gosto] na forma
que eu o ditei [corroído] [ilegível] meu
nome inteiro e meu signal costumado o
ditto Padre se asignou como testemunha.
p.136

1785 Verissimo Pereira de [...] que me asignei com meu signal [...] [...] mandou escrever [ilegível 3 Assinante Estando em
Lima (português) p.114 palavras] e que depois de escripto na perfeito juízo e
forma que o havia ditado [...] p.115 entendimento

1786 Antonio Martins Ferreira [...] por não poder escrever este meu [...] o asignou [...] p.174 Leitor, escrevente Doente de cama
(Padre) testamento pedi e roguei ao Padre e assinante
Alexandre [i] para escrever como ditei [...]
p.171
[...] assignei ao pe delle de minha
propria firma [...] p. 172
346

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


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1786 Joam da Cruz Conrado [...] o qual mandei escrever por Joam [...] o mandara escrever pelo Joam Leitor, escrevente Documento
(português)-Padre Rodrigues Ferreira esse todo me leu ao Rodrigues Ferreira [corroído] escrito o e assinante danificado
depois de escrever conforme eu o havia lera e pelo achar a seo gosto conforme o
ditado nelle me asignei [...] p.13 havia ditado o assignara de seu signal
costumado [...] p.13
1786 José Antonio Borge de [...] ser roguei ao Tenente Nicolao Alves [...] mandara se escrever por Nicolao Assinante Doente de cama
Figueredo de Araújo este por mim escrevesse e Alves de Araujo e depois de escrito lho
asignace como testemunha que eu so me lera e pello achar na forma em que o
asignei com minha firma costumada. ditara se asignara [...] p.7
p.7
1788 Luiza Maria de Torres [...] pedi e roguei a Thomé Francisco [...] a dita testadora, que por não saber Não assinante Doente de cama
Soutto, este meu testamento escrevesse e escrever asignou a seu rogo, o mesmo
como testemunha asignace a meu rogo, Thomé Francisco Souto [...] p.148
por eu não saber ler nem escrever [...]
p.147
1789 Antonia Ferreira de Jesus [...] meu sobrinho Antonio [corroído] de Não tem Assinava com Documento
(casada com Felles de Souza este por mim escrevesse como lhe uma cruz danificado
Andrade Maciel) ditei que foi da mesma forma e he a minha
ultima vontade e como testemunha
asignace tudo [...] Antonia Ferreira de
Jesus. Cruz. p.5
1790 Escolastica de Almeyda [...] Roguei ao Doutor Ignacio Barbosa da [...] que lho tinha escrito fora o Doutor Não assinante Doente de gota
de Mendonça Franca Corte Real o escrevesse ditando-o Ignacio Barboza da Franca Corte Real e
eu propria que depois de feito mandei ler e que depois de escrito lhe lera e pello o
pelo achar conforme então lhe pedi que achar conforme o tinha ditado lhe pedira
tambem por mim asignasse feito neste que a seu rogo assignasse por ella por
Engenho do Junco no dia era supra não saber ler nem escrever [...] p.41
asignada a Rogo da Testadora por nam
saber nem escrever [...] p.40
347

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1792 Ignacio Rodrigues [...] o Alferes Joze Carlos Pereira que este [...] depois de assinar o dito Ignacio Assinava com Doente, mas
Campos meo testamento me fizesse e escrevesse ]i] Rodrigues de Campos que o fez de hua uma cruz andando de pé
mandei [ilegível] e eu assinei do meo cruz por dizer não saber escrever [...]
signal costumado que hé hua cruz [...] p.42
p.42

1793 Antonio Pereira de [...] por não querer escrever pedi e Documento incompleto Leitor, escrevente Em perfeito juízo
Vasconcellos roguei a Francisco Fellis[de Oliveira] e assinante e entendimento
[corroído] por mim fizesse e como
testemunha se asignasse e me asignei com
o meu signal [...]

1793 Archangela Pereira de [...] pedi e roguei a Quintiliano Correa de [...] dita testadora que por não saber ler Não assinante Doente de cama
Almeida Caldas este meo testamento escrevesse o nem escrever asignou a rogo o dito
qual o fez sendo por mim ditado e depois Quintiliano Correa de Caldas [...] p.31
de escrito me leo e pelo achar a meo gosto
e conforme lo ditei lhe roguei por mim
asignase por eu não saber ler nem
escrever [...] p.30
1794 Francisco Joze de Souza [...] Francisco Jose de Souza, como [...] testador asignado e ao pe de seu Leitor, escrevente Doente de cama
testemunho que este fiz Francisco Manoel signal [...] p.48 e assinante
de Salles [...] p.46

1794 Thereza da Motta [...] por não saber ler nem escrever pedi [...] mandado escrever por Timotheo Não assinante Estando de pé
e roguei a [Timotheo Bastos] Serqueira Bastos e que depois de escrito lhe lera e o sem doença
este escrevesse e como testemunha achara na forma que o havia ditado muito alguma
assinasse [...] p.7 a seu gosto e contento [...] p.8
348

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alfabéticas
1795 Maria Francisca da [...] e pedi a Lourenço da Rocha Pitta este [...] todos assignarão com a dita Assinante Porse achar
Silveira testamento escrevece sendo ditado pella testadora [...] p.21 molesta
minha vontade e determinação e por estar
como mandei fazer e a meo gosto Roguei
ao dito se asignace e eu tam bem o faço
de meo signal que custumo [...] p.20
1796 Anna Maria Menezes [...] por não saber ler nem escrever Assignaram e pella testadora nam saber Não assinante Doente, porém de
pedir a Maximiano Gil Alvres que este ler e escrever asignou a seu rogo Antonio pé
por mim fizesse asignace [...] p.4 Tavares da Mota [...] p.6
1797 Thereza Maria de Jesus [...] roguei a Felix Baptista do Nascimento [...] tinha mandado escrever por Felix Assinante Sã sem queixa
que este por mim escrevesse e por mim Bapista do Nascimento e depois de escrito alguma
assinasse por eu não saber [ilegível] por lo lera e achou na forma em que o havia
mim e eu nele me assinei de minha mão ditado e muito a seo gosto e contento [...]
como costumo. p.5 p.6

1798 Felix Francisco Nunes [...] que não puder escrever este meu [...] a seu rogo lhe fizera o Reverendo Leitor, escrevente Bastantemente
testamento roguei ao Senhor Padre João Padre João da Silva Botelho elle dito e assinante doente e de cama
da Silva Botelho que este por mim fizesse escrevendo e o testador ditado e que
[corroído 2 linhas] conforme o ditei depois lhe mandou ler [ilegível] mesma
[ilegível] e so me assinei [...] p.10 forma que o havia ditado [ilegível] lhe ler
tudo [...] p.11
1798 Joze Alvarez da Roxa [...] pedi a Evaristo Joze de Amorim Não tem Leitor, escrevente Enfermo de cama
Ramos, que este por mim escrevesse em e assinante
que eu somente me asignei depois de o
ler e achar conforme havia ditado p.127
[...] pedi a Evaristo Joze de Amorim
Ramos, que este por mim escrevesse em
que eu somente me asignei depois de me
ser lido [...] p.13
349

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1799 Antonio Pereira de [...] por não querer escrever pedi e Documento incompleto Leitor, escrevente Doente de cama
Vasconcellos (português) roguei a Francisco Fellis[de Oliveira] e assinante
[corroído] por mim fizesse e como
testemunha se asignasse e me asignei com
o meu signal [...] p.16

1799 Domingos Lopes Ferreira [...] por nam saber escrever pedi e roguei [...] que havia mandado escrever por Assinante Doente, mas de pé
(português) a Francisco Jose Tavares este por mim Francisco Jose Tavares [...] asignou com
fizesse digo por mim escrevesse e como seu signal costumado [...] p.10
testemunha asignasse e eu me asignei
com o meu signal custumado de que
uso, nesta comarca [...] p.9
1799 Francisco Joze de Mello [...] pedi ao Senhor Antonio Reis que o [...] mandado escrever por Antonio Dias Assinante Doente de cama
escrevece e sendo por mim ao diante Coelho e Mello [...] p.9
asignado em presença das testemunhas
[...] p.8

1799 Joaquim Gomes Vedas [...] e por não poder escrever pedi a [...] o testador com o que escreveu ambos Leitor, escrevente Doente de cama
Rafael Barboza de Freitas este por mim asignados [...] p.4 e assinante
fizesse e eu me asigno com meu signal
costumado [...] p.3

1799 Serafim Mendes de Souza [...] pedimos a Evaristo Joze de Amorim [...] declarão e asignarão de seus Assinante Sãos sem moléstia
e Francisca Perpetua de Ramos que por nos escrevesse o que elle próprios punhos [...] p.15 alguma, andando
Almeida fez estando nos ambos prezentes, e a cada de pé
hum aceitando a sua vontade, ambos nos
asignamos. p.14
350

Fala testador Fala do tabelião Capacidades


Ano Testador Estado de Saúde
alfabéticas
1800 Francisca Xavier de [...] roguei a Manoel Rodrigues do [...] asignou a rogo da testadora seu Não assinante Doente de cama
Menezes Nascimento que este por mim fizesse e Genro Joze Luiz Barrozo por nam saber
asignace cujo favor lhe supliquei por nam ler escrever [...] p.12
saber ler nem escrever. p.11

1800 Lourença Francisca de [...] roguei a meu sobrinho Francisco [...] no fim dellas tanto a testadora como Assinante Estando em
Andrade Teles Pacheco que este escrevesse o que quem o escreveu ambos asignados [...] perfeito juízo e
[ilegível] fez de tudo por eu não saber ler p.5 entendimento
e não saber escrever bem certo e depois
de escrito mo ler e achei muito conforme a
minha vontade na forma que havia ditado.
[ilegível] me asignei com o meu signal
[...] p.4

1800 Thomas Domingues da [...] pedi a Alexandre Rodrigues Vieira [...] Testador fes huma cruz [...] p.12 Assinava com Estando com
Silva (português) que por mim o escrevesse conforme o uma cruz saúde
ditei [corroído 1linha [...] p.10
Marquie de huma cruz meo signal
costumado nesta Povoação da Estância
[...] p.11

Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir dos testamentos e inventários do século XVIII existentes no Arquivo Geral do Judiciário e no Arquivo Público Estadual de
Sergipe.
351

APÊNDICE E – Análise descritiva das capacidades alfabéticas dos inventariantes


Ano Inventariante “Fala do escrivão” Capacidades alfabéticas
[...] inventariante não saber ler nem escrever pedio e rogou Alferes
1725 Margarida da Conceiçam Vitorio Fagundes Pereira que por Ella asinasse [...] p.29 Não assinante

[...] mandou o dito Juis mandou fazer este auto de inventario a


requerimento da dita cabeça do casal e o dito Goncalo Gomes de Mello
filho do dito defunto como consta das peticoins a diante neste Inventario
1730 Joana Pereira dos Reis em que asignou a dita cabeça do casal que por não saber Ler nem Não assinante
escrever pedio e rogou a seu Irmão Diego Pereira da Silva que este por
Ella asignasse e elle a seu Rogo o fes e asignou com o ditto Juis [...] p.1

[...] tudo mandou [corroído 5 palavras] auto de [corroído 5 palavras] a


dita Inventariante [corroído 4 palavras] [não] saber ler nem escrever
1732 Izabel da Rocha Barboza Não assinante
[asignou] [...] p.2

[...] em que asignou o Inventariante que por não saber Ler nem escrever
pedio e rogou a seu filho Alexandre Barrozo Pantoja [ilegível] que por ella
1749 Jozefa de Barros Não assinante
asignasse [...] p.4

Albano do Prado Pimentel (Capitão) [...] mandou o dito Juis fazer este termo de encerramento no qual com o
dito Inventariante cabesa do cazal com avaliadores do concelho assinou
1750 Leitor, escrevente e assinante
[...] p.80

Joze Gonçalves Tavora [...] mandou o ditto Juiz fazer este auto em que asignou com o dito
1751 Inventariante [...] p.2 Assinante

[...] assignou a Rogo della dita inventariante assignou Domingos


Goncalves Lima seo cunhado por ella dita dizer não sabia escrever [...]
1752 Leonor Rodrigues Fraga Não assinante
p.3
352

Ano Inventariante “Fala do escrivão” Capacidades alfabéticas


[...] mandou o dito Juis fazer este termo em que asignou com os ditos
1753 Izabel de Barros Lima avaliadores e a Rogo della Inventriante asignou seu filho Francisco Não assinante
Cardozo [...] p. 1
[...] mandou o ditto Juiz fazer este auto em que asignou com o dito
1755 Joze Cardozo de Vasconsellos (Alferes) Inventariante [...] p.2 Leitor, escrevente e assinante

Antonio Dultra de Almeida (Capitão) [...] mandou o ditto Juiz fazer este auto em que asignou com o dito
1757 Inventariante [...] p.2 Leitor, escrevente e assinante

[...] mandou o dito Juis dos Orphãos fazer este Auto de inventario em que
asignou o Inventariante cabeça do casal que não saber ler nem escrever
1757 Joanna Martins pedio e Rogou a Luis de Andrade da Afonseca que este por ella asignase Não assinante
[...] p.. 3

[...] mandou fazer este termo em que asignou com a dita Inventariante
digo [ilegível] que por não saber Ler a seo rogo asinando Antonio
1758 Bernarda do Valle Cardozo Não assinante
Eustaquio da Silveira [...] p.8

João Rodrigues Lima [...] mandou o dito fazer este auto de Inventario em que se asignou com o
1762 dito Inventariante [...] p.2 Assinante

[...] mandou o dito Juis fazer este auto em que asinou com o dito
1762 Valerio de Moura Gomes (Capitão mor) Inventariante [...] p.3 Leitor, escrevente e assinante

Maria Cardozo de Oliveira Rol dos bens feito e assinado por ela do próprio punho. p.12
1762 Assinante

[...] mandou o dito Juis fazer este auto em que se asignou com o dito
Inventariante [...] p.3
1763 Manoel Moreira de Afonseca Assinante
353

Ano Inventariante “Fala do escrivão” Capacidades alfabéticas


Fellipe Joze Vanique [...] o diti Juis mandou fazer este auto que com elle asigna [...] p.1
1764 Assinante

[...] mandou o ditto Juis fazer este termo em que se asignou com a mesma
e os avaliadores e pella Inventariante não saber escrever asignou a seo
1764 Margarida da Franca Não assinante
rogo seo filho Joze Caetano [de Mello] p.9

[...] mandou o Juis fazer este auto em que asinou o dito inventariante que
1764 Jozefa Maria da Silva por não saber escrever asinou a seo Rogo Bernardo Dias Pereira[...] p.3 Não assinante

[...] por não saber escrever [corroído] a seo Rogo seu filho [Goncallo] de
Sâ Souto Maior [...] p.3
1765 Joana Maria de Andrade Não assinante

Antonio de Payva Lessa [...] mandou o dito Juis fazer este auto em que acinou com o dito
1765 Inventariante [...] p.2 Assinante

Francisco Pereira de Miranda (Sargento mor) [...] de tudo fiz este termo em que asignou o dito inventariante com o dito
1766 Ministro [...] p.23 Leitor, escrevente e assinante

Francisco Cardozo de Souza (Capitão) [...] mandou o Juis de orfoans fazer este termo em que asignou com o dito
1766 Tutor [...] p.6 Leitor, escrevente e assinante

[...] mandou o dito Juis fazer este termo em que asignou com os ditos
avaliadores a Inventariante por ella declara que não sabe escrever asignou
1767 Maria Francisca Xavier Não assinante
a seo rogo o Reverendo Padre Pedro Alvares Telles [...] p.6

Bernardo Nunes da Mota [...] mandou o ditto Juis fazer este termo em que asignou com o dito
1768 Inventariante [...] p.2 Assinante
354

Ano Inventariante “Fala do escrivão” Capacidades alfabéticas


[...] que por não saber escrever asignou a seu rogo Jose Caetano da
1770 Anna Maria da Victoria Silveira Nolete [...] p.3 Não assinante

[...] mandou o dito Juis de Orphãos fazer este Auto de Inventario em que
[ilegível 4 palavras] dita Inventariante por ser mulher e não saber ler
1771 Roza Maria do Sol Não assinante
nem escrever asinou Antonio Alves da Silva [...] p.3

[...] mandou o dito Juis fazer este auto em que asinou com o dito
1776 Felippe Joze de Vasconcellos Inventariante [...] p.3 Assinante

Angelica Perpetua de Jezus (casada Manoel Mandou o dito Ministro fazer este auto em que asinou com a dita
1777 Joze Nunes Coelho de Vasconcelos e inventariante [...] p.4 Assinante
Figueiredo)
Angelica Perpetua de Jezus (nora de Manoel Mandou o dito Ministro fazer este auto em que asinou com a dita
1777 Joze de Vasconcelos e Figueiredo ) inventariante [...] p.4 Assinante

Angelica Perpetua de Jezus (casada com Luiz [...] mandou fazer este auto de Inventario em que asinou com o mesmo
1777 Carlos Pereyra) Inventariante [...] p.4 Assinante

Carlos Francisco de Jezus [...] mandou fazer este auto de Inventario em que asinou com o mesmo
1777 Inventariante [...] p.2 Assinante

Maria Jozefa de Rezende [...] mandou o dito Juis fazer este auto de Inventario no que asinou com a
1779 Não assinante
Inventariante [corroído] por rogo com a Inventariante [...] p.3
Francisco Coelho Documento apagado. p.4
1780 Assinante
Alexandre Lopes do Valle [...] mandou o dito Juis fazer este termo em que o mesmo asinou [...] p.3
1781 Assinante
355

Ano Inventariante “Fala do escrivão” Capacidades alfabéticas


[...] mandou fazer [Juis] de orphaos fazer este auto de [inventario] em que
asignou de nome [Inteiro] pella Inventariante não sabe Ler nem escrever
1781 Barbara Maria Não assinante
[...] p.2

[...] mandou o dito fazer este auto de Inventario em que se asignou com o
1783 Joze Ferreira Passos (Capitão mor) dito Inventariante [...] p.2 Leitor, escrevente e assinante

Manoel Joze de Almeida Feyo Nada diz a respeito da assinatura. p.3


1784 Assinante
Francisco de Souza Campos [...] asignou com os ditos avaliadores [...] p.6
1783 Assinante

Luiz Pinto de Rezendes [...] mandou o Juis fazer este termo em que com elle asinou [...] p.28
1788 Assinante

[...] mandou o dito Juis fazer este termo que com Ella asinou que por não
1788 Anacleta Rufina de Santa Anna Não assinante
saber escrever asinou a seu rogo Jose Venanacio da Silveira [...] p.45
Antonio Teixeira de Souza [...] mandou o dito Juis de Orfaos Escrivão digo de Orphans fazer este
termo em que digo fazer este Auto de Inventario em que asignou com o
1789 Assinante
dito Inventariante [...] p.2

[...] mandou fazer este auto de Inventario em que asinou com o mesmo
1789 Fellis de Andrade Maciel Inventariante [...] p.64 Assinante

[...] mandou o dito Juis fazer este autos em que asinou com a Inventariante
1789 Maria Pereira de Jesus que por não saber escrever asinou a seu Rogo Ancelmo Ferreira de Gois Não assinante
[...] p.3
[...] mandou o dito Juis de Orfaos, fazer este Autto em que asignou, e pella
Inventariante ser mulher e não saber ler nem escrever asignou por Ella
1792 Antonia Maria de Ramos Não assinante
seu flho Bartholomeu dos Santos Lenho [...] p.3
356

Ano Inventariante “Fala do escrivão” Capacidades alfabéticas


Bento Vieira de Britto [...] mandou o dito Juis de órfãos fazer este Autto em que com elle asignou
1792 [...] p.4 Assinante

[...] deferimento do dito Juis fazer este Auto em que asignou com
Inventariante por não saber Ler e nem escrever asinou e asinei Rogo seu
1792 Theodosia Gomes de Moura Não assinante
genro Luiz Manoel de Jezus [...] p.3

Manoel da Conceição de Jezus Documento muito danificado. p.2


1793 Assinante
Manoel Felix Pereira [...] mandou o ditto Juis fazer este autto de Inventario em que com elle
asignou, e pello Inventariante não saber Ler nem escrever o fes de huma
1794 Não assinante
crus seu signal custumado [...] p.3

Antonio Joze de Almeida [...] mandou o dito Juis fazer este Auto de Inventario que assignou com o
1794 ditto Inventariante o que por não saber escrever o fes de cruz [...] p.2 Não assinante

[...] mandou o dito Juis fazer este auto em que asinou com o dito
1793 Antonio Fellix de Oliveira Inventariante [...] p.2 Assinante

Joseph Correa Dantas (Sargento mor) [...] mandou o dito Juis de orphaos fazer este auto em que se asignou com
o dito Inventariante [...] p.3
1793 Leitor, escrevente e assinante

[...] mandou o diti Juis fazer este Auto de Incentario em que asignou com
a dita Inventariante que por não saber ler nem escrever pedio e rogou a
1793 Anna Joze Silva Não assinante
seo Irmão Francisco Telles de Jezus que por Ella asignou elle a seo Rogo
[...] p.3
Francisca Catharina Sotto Mayor [...] mandou o ditto Juis fazer estte auto que com a ditta Inventariante
1794 asinou [...] p.4 Assinante
357

Ano Inventariante “Fala do escrivão” Capacidades alfabéticas


Joze Teles de Menezes Assina.
1794 [...] mandou o dito Juis fazer este termo em que com este asinou [...] p.3 Assinante

Simião de Araujo Sandes [...] mandou o dito fazer este auto de Inventario em que se asignou com o
1794 dito Inventariante [...] p.1 Assinante

Antonio Cazimiro Leite (Juiz de Órfãos) [...] mandou fazer este termo com que asinou com o inventariante [...] p.15
1794 Leitor, escrevente e assinante
Francisco Xavier de Gouvea [...] mandou o dito Juis de Orphoans fazer este auto em que com o
1795 Inventariante asignou [...] p.3 Assinante

[...] mandou o dito Juiz fazer este auto de Inventario em que asignou de
nome inteiro pella inventariante ser mulher, e não saber ler nem escrever
1795 Januaria Teixeira Não assinante
[...] p.3

[...]mandou o ditto Juis fazer este Autto que aSignou não Saber Escrever
1795 Josefa Maria de Vasconsellos pella Inventariante asignou a seo Rogo o Alferes Antonio Soares Dias [...] Não assinante
p.1
[...] mandou fazer este termo e encerramento em que asignou com os
avaliadores com inventariante e que por não saber escrever asignou a seo
1796 Ignes Maria de Jesus Não assinante
Rogo Martinho Francisco Leal. p.6

Pedro Antonio de Oliveira [...] mandou o dito Juis fazer este auto de inventario em que asignou com
o dito Inventariante o qual por não saber escrever asignou de huma cruz
1796 [...] p.3 Não assinante

Maria Francisca de Freitas [...]mandou o dito Juis fazer este auto em que asinou com o dito
1796 inventariante [...] p.2 Assinante
358

Ano Inventariante “Fala do escrivão” Capacidades alfabéticas


Manoel de Jesus Barreto (Tenente Coronel) Assina, mas não assina com o sobrenome Barreto.
[...] mandou o dito Juis fazer este auto em que asinou com o dito
1796 Leitor, escrevente e assinante
Inventariante [...] p.2

Joze Soares Monteiro [...]mandou o dito Juis fazer este termo em que com elle asinou [...] p.2
1797 Assinante

Joze Sotero de Sá [...] mandou o dito Juis fazer este auto em que aSignaram o dito
inventariante [...] p.3
1798 Assinante

Manoel Francisco Nunez [...] o dito registro fazer este temo de enserramento em que asigou com o
dito inventariante [...] p.17
1798 Assinante

Antonio Gonçalves Guimaraes [...] mandou o dito fazer este auto de Inventario em que se asignou com o
1798 dito Inventariante [...] p.2 Assinante

[...] mandou o dito Juis fazer este auto a que mandou juntar por traslado
1798 Bento Joze Nunes [ilegível] e asignou o dito Inventriante [...] p.3 Assinante

Francisco Vieira de Mello (Capitão) [...] fiz este Auto em que asignou o Inventariante [...] p.3
Inventariante do casal Serafim Mendes de
1799 Leitor, escrevente e assinante
Souza e Francisca Perpetua de Almeida

[...] mandou o dito Juis fazer este auto em que asinou com a dita
1799 Angelica Maria do Bom Sucesso Inventariante por não saber escrever asinou a seu Rogo o Licenciado Não assinante
Ignacio da Silveira [...] p.43
Não assina, quem assina a seu rogo é Manoel Joze Soutto. Documento
1799 Anna Luzia de Andrade muito apagado. Não assinante
359

Ano Inventariante “Fala do escrivão” Capacidades alfabéticas


[...] mandou o dito Juis fazer este auto em que asinou com o dito
1799 Manoel Joze Puzada Inventariante [...] p.3 Assinante

Antonio Joze Correia [...] mandou o dito Juis de orfans fazer este auto de inventario em que com
1799 o dito Inventariante asignou [...] p.3 Assinante

[...] mandou o dito Juis fazer este auto em que se asignou com o dito
1799 Manoel Lopes Ferreira Inventariante [...] p.2 Assinante

[...] mandou o dito Juis Ordinario fazer este auto em que se asignou com o
1800 Manoel Joze Nogueira da Costa dito Inventariante [...] p.3 Assinante

[...] mandou fazer este auto de Inventario em que asinou com o mesmo
Estacio Munis Barreto Inventariante [...] p.6
1800 Assinante