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DOM BOSCO:

HISTÓRIA E CARISMA
1
ORIGEM: DOS BECCHI A VALDOCCO
(1815-1849)

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Arthur J. Lenti

DOM BOSCO:
HISTÓRIA E CARISMA
1
ORIGEM: DOS BECCHI A VALDOCCO
(1815-1849)

EDB

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Título da obra original: Don Bosco: history and spirit. 1. Don Bosco’s formative years in
historical context. 2. Birth and early development of Don Bosco’s oratory. 3. Don Bosco
educator spiritual master and founder of the salesian society.

©2007. LAS Librería Ateneo Salesiano, Roma. Editor da obra original: Aldo Giraudo.
©2010. Editorial CCS, Madri. Editores da edição espanhola: Juan José Bartolomé e Jesús
Graciliano González.
©2012. Editora Dom Bosco. Brasília.

Traduzido da edição espanhola Don Bosco: historia y carisma. 1. Origen: de i Becchi a


Valdocco (1815-1849) pelo padre José Antenor Velho.

Edição de texto: Luiz Eduardo Pinheiro Baronto


Revisão: Cristina Kapor
Adaptação da capa e diagramação: Tiago Muelas Filú

Impressão e acabamento: Escolas Profissionais Salesianas

LENTI, Arthur J.

L547 Dom Bosco: história e carisma. 1a edição. Brasília-CIB, 2012.


632 p.

Isbn 978-85-7741-246-4

1. Biografia 2. Vida espiritual cristã

CDD 010

Todos os direitos reservados à editora EDB

EDITORA DOM BOSCO


SHCS CR Q. 506 Bl. B Ss. 65/66 Asa Sul
70350-525 Brasília (DF)
Tel.: (61) 3214-2300
Fax: (61) 3242-4797
cisbrasil@salesianosdobrasil.org.br

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Siglas e abreviaturas

ASC Arquivo Salesiano Central


BS Bollettino Salesiano. Edição italiana
BSe Boletín Salesiano. Edição espanhola
Documenti 45 volumes de documentos para escrever a história de
Dom Bosco. Compilados por João Batista Lemoyne.
Epistolario Ceria Epistolário de Dom Bosco. 4 volumes publicados por
Eugênio Ceria. Turim: SEI, 1955-1959.
Epistolario Motto Epistolário: introdução, textos críticos e notas. 4 volumes
editados por Francesco Motto. Roma: LAS, 1999.
FDB Fondo Don Bosco. Microfichas
F. Desramaut, Don Bosco Francis Desramaut, Don Bosco en son temps. Turim:
SEI, 1996.
F. Desramaut, Memorie Francis Desramaut, Les memorie I de Giovanni Bat-
tista Lemoyne: etude d’un auvrage fondamental sur la
jeunesse di saint Jean Bosco. Lyon: Maison d’etudes
Saint Jean Bosco, 1962.
G. Bonetti, Storia Giovanni Bonetti, Storia dell’Oratorio. Publicada em
capítulos no Bollettino Salesiano, entre 1879 e 1886.
Publicada depois em um volume com o título: Cin-
que lustri di Storia Salesiana. Turim: Tipografia Sa-
lesiana, 1892 (há uma tradução em espanhol: Cinco
lustros de historia salesiana. Buenos Aires: Tipografía
e Librería Salesiana, 1897).
MB Memorie Biografiche di Don Bosco. 19 volumes: volu-
mes I-IX editados por João Batista Lemoyne; volume
X editado por Ângelo Amadei; volumes XI-XIX, edi-
tados por Eugênio Ceria.

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MBe Memorias Biográficas de San Juan Bosco. Traduzidas
para o espanhol por Basilio Bustillo. Madri: Editorial
CCS, 1981-1989.
MO São João Bosco, Memórias do Oratório de São Francisco
de Sales 1815-1855. 3ª edição. Tradução: Fausto Santa
Catarina. Edição revista e ampliada, aos cuidados de
Antônio da Silva Ferreira. São Paulo: Salesiana, 2005.
MO Silva Giovanni Bosco, Memorie dell’Oratorio di San Frances-
co di Sales dal 1815 al 1855. Texto crítico editado por
Antônio da Silva Ferreira. Roma: LAS, 1991.
MO Ceria Giovanni Bosco, Memorie dell’Oratorio di San Fran-
cesco di Sales dal 1815 al 1855. Editado por Eugênio
Ceria. Turim: SEI, 1946.
OE Giovanni Bosco, Opere edite. 38 volumes. Roma:
LAS, 1977 e 1988.
P. Stella, Vita Pietro Stella, Don Bosco nella storia della religiosità
cattolica: vita e opere. Roma: LAS, 1979.
P. Stella, Spiritualità Pietro Stella, Don Bosco: mentalità religiosa e spiritua-
lità. Zurich: PAS-Verlag, 1969.
P. Stella, Canonizzazione Pietro Stella, Don Bosco nella storia della religiosità
cattolica: la canonizzazione. Roma: LAS, 1988.
P. Stella, Economia Pietro Stella, Don Bosco nella storia economica e socia-
le. Roma: LAS, 1980.
RSS Ricerche Storiche Salesiane. Revista semestral do Instituto
Histórico Salesiano (ISS). Roma: LAS, a partir de 1982.

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Direção Geral Obras de Dom Bosco
Via della Pisana 1111 - 00163 Roma
O Reitor-Mor

Apresentação do Reitor-Mor

Desde a minha primeira intervenção pública como Reitor-Mor, na Boa-


-Noite de 3 de abril de 2002, dia da minha eleição, não deixo de repetir que
nós salesianos temos, hoje, uma responsabilidade histórica, ou seja: “somos
chamados a encarnar Dom Bosco”, e essa tarefa não será possível sem “co-
nhecer Dom Bosco, até convertê-lo em nossa mens, em nosso ponto de vista,
em nosso modo de trabalhar diante das necessidades dos jovens [...]. É o dom
mais precioso que Deus nos concedeu: Dom Bosco, caminho seguro para a
realização humana e, sobretudo, para o seguimento de Cristo. Esta é a mi-
nha exortação: conhecê-lo, amá-lo, imitá-lo, porque somos todos herdeiros e
transmissores do seu espírito”.1
O CG 26, que se interrogou “sobre a nossa capacidade de ser ‘Dom
Bosco’ em nosso tempo”,2 considerou a estação em que vivemos como tempo
de graça no caminho para o bicentenário do nascimento do nosso Fundador
e oportunidade favorável para “retornar a Dom Bosco”, o que significa “amá-
-lo, estudá-lo, imitá-lo, invocá-lo e torná-lo conhecido, aplicando-se ao co-
nhecimento de sua história e ao estudo das origens da Congregação”. Sendo
certo que estamos em melhores condições de conhecê-lo, pois “a riqueza das
fontes e dos estudos salesianos permite-nos aprofundar as motivações que o
levaram a determinadas opções, metas e projetos que se foram esclarecendo
aos poucos em sua ação, a síntese original de pedagogia e pastoral que ele
alcançou inspirando-se em São Francisco de Sales”,3 não é menos certo que
a sua pessoa, a sua época e o entorno religioso cultural em que viveu estão
ficando sempre mais distantes e menos familiares para nós.
São urgentes, portanto, os estudos sobre Dom Bosco que no-lo restitu-
am sem negligenciar a distância temporal e cultural que nos separa dele, e as
1
CG 25, 179.
2
CG 26, p. 23.
3
CG 26, 1.

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Dom Bosco: história e carisma 1

biografias que conjuguem o apreço fundado pela sua pessoa e sua obra com
uma descrição objetiva da sociedade e da Igreja em que ele surgiu e atuou.
Após anos de estudo e docência, Arthur J. Lenti, biblista hábil conver-
tido em sua maturidade à salesianidade, conseguiu oferecer uma biografia
exemplar de Dom Bosco, na qual soube unir harmoniosamente uma visão
atualizada de Dom Bosco, baseada na própria pesquisa e na melhor e mais
recente historiografia (Stella, Braido, Desramaut, Prellezo etc.), com uma in-
vejável clareza expositiva. O resultado é um amplo e documentado manual,
sete volumes na edição original em inglês, três na edição espanhola, com o
mérito de localizar Dom Bosco em sua época e entre os seus contemporâ-
neos. A originalidade genial do personagem e da sua obra fica assim melhor
enquadrada e exposta.
Ao mesmo tempo em que agradeço de coração ao padre Lenti pelos seus
longos anos de dedicação ao estudo sério e ao ensino entusiasmado de Dom
Bosco e da história da Congregação, felicito os editores, o padre Aldo Girau-
do, pela edição em inglês, e os padres Juan José Bartolomé e Jesús Graciliano
González pela edição espanhola, pelo desejo de colocar esta obra valiosa nas
mãos do maior número de salesianos. Dom Bosco abençoe esta obra e seus
editores. Eu o faço em seu nome.

P. Pascual Chávez
Reitor-Mor
24 de junho de 2010,
onomástico de Dom Bosco.

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Apresentação do autor

Dom Bosco: história e carisma


Uma visão da vida e da obra de São João Bosco (1815-1888)
Os capítulos que compõem esta obra, em três volumes, são uma recons-
trução da vida e da época de São João Bosco, enquadrada e marcada pelos
fatos que introduziram a Igreja e o mundo ocidental nos tempos modernos.
Intitulei-a Dom Bosco: história e carisma. “História”, porque a vida e a
obra de Dom Bosco desenrolaram-se num contexto de acontecimentos inevi-
táveis que criaram um novo mundo religioso e político, conformando assim
seu pensamento e ação. “Carisma”, porque através do seu discernimento,
interpretação e aceitação, ele descobriu o sentido desse novo mundo e res-
pondeu com audácia aos seus desafios: sua vocação.
Esta obra nasceu, por assim dizer, nas aulas. A “história” é fruto de
leituras pessoais e do meu magistério. Contudo, o “carisma” emergiu de
uma intensa reflexão crítica, que precisou da colaboração entre estudantes
e professor.
Para a publicação muitos materiais foram revistos, a redação foi restau-
rada para facilitar a leitura e foram acrescentados alguns apêndices a bom
número de capítulos. Os apêndices oferecem esboços biográficos de figuras
consideradas relevantes para a temática tratada. Contêm, também, textos ne-
cessários ou úteis para maior compreensão da matéria em questão.
Esta obra está em dívida em muitos pontos e, às vezes, de forma consi-
derável, com o trabalho de numerosos estudiosos, muitos para serem mencio-
nados, que trabalharam com muita diligência e espírito crítico no campo dos
estudos salesianos e em outros temas relacionados com eles. A todos, a minha
gratidão e o meu reconhecimento.
Ao padre Aldo Giraudo, do Centro de Estudos Dom Bosco da Universi-
dade Pontifícia Salesiana de Roma, meu mais sincero agradecimento pelo seu
interesse e apoio. Consagrou seu tempo precioso e sua solicitude à leitura e à
edição de meus apontamentos.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Reconheço com gratidão a contribuição do padre Morand Wirth, da


Universidade Pontifícia Salesiana de Roma, que pacientemente revisou o tex-
to em inglês.
Sinto-me muito honrado e agradecido aos que preparam a edição em
espanhol, Juan José Bartolomé e Jesús Graciliano González, que fizeram, com
a liberdade que lhes concedi com prazer, um grande trabalho de redução,
organização e adaptação da obra ao público de língua espanhola.
Mantenho uma grande dívida de gratidão para com o padre Pascual
Chávez, Reitor-Mor, o padre Francesco Cereda, Conselheiro Geral para a
Formação, e o padre Pier Luigi Zuffetti, da Procuradoria Missionária de Tu-
rim, por aprovar e apoiar o projeto.
Fico agradecido, enfim, ao diretor e à equipe de Don Bosco Hall pelo
apoio de tantos anos.

Arthur J. Lenti
Instituto de Espiritualidade Salesiana
Don Bosco Hall
Berkeley, Califórnia (EUA)

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Apresentação dos editores
de língua espanhola

Contar a vida de Dom Bosco e dar a razão da sua genialidade não é uma
empresa fácil. Além de travar conhecimento de forma verdadeira e atualizada
com a sua figura histórica, os atributos característicos da sua personalidade e
os aspectos mais significativos da sua obra, requer-se grande esforço de síntese
para integrar e conjugar os muitos fatores que confluem num personagem tão
complexo. As Memórias Biográficas, fonte inesgotável de informações, pedem
hoje uma leitura crítica que nem todos são capazes de fazer. Os valiosos escri-
tos críticos sobre temas concretos, a edição crítica das fontes e dos escritos de
e sobre Dom Bosco, além de serem parciais, não estão ao alcance de todos;
pressupõem uma preparação que nem sempre se tem e exigem um tempo e
uma concentração não fáceis de encontrar em quem está inserido plenamente
na atividade pastoral ou educativa.
É verdade que são muitas, em espanhol, as biografias populares de Dom
Bosco, laudatórias em geral, e que tampouco faltam estudos científicos de
valor reconhecido, mas até agora não dispomos de uma apresentação funda-
mentada, ampla e documentada sobre a sua pessoa e a sua obra, que recolha
os resultados consolidados da pesquisa historiográfica dos últimos decênios,
enquadrando-os no marco histórico, social e político da Itália do século XIX.
Sente-se, pois, a necessidade de uma biografia, suficientemente ampla e fun-
damentada na mais recente pesquisa crítica, e que seja, por sua vez, de fácil e
agradável leitura, didaticamente bem apresentada e com um conteúdo o mais
atualizado possível.
Pareceu-nos encontrá-lo na recente publicação de Arthur J. Lenti. Por
isso, crendo que valeria a pena colocar esta obra à disposição do público de
língua espanhola, nós assumimos a sua edição.
O Dom Bosco de Lenti não foi escrito para estudiosos, mas é obra de um
bom estudioso. Nascida da docência, embora revista para a sua publicação, a
obra demonstra facilmente a sua origem escolar: clareza na exposição, riqueza

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Dom Bosco: história e carisma 1

informativa e juízos ponderados de valor, ainda que com óbvia dependência


de fontes e interpretações já conhecidas e de estudos feitos por outros. Por
outro lado, a proximidade afetiva do autor com o biografado e uma nem
sempre necessária repetição de temas e esquemas podem dilatar demais a
obra.
Não obstante, é nossa convicção que ela pode converter-se em obra de
referência para os que desejam aproximar-se da figura de Dom Bosco com
rigor e simpatia. A síntese equilibrada de estudos historiográficos mais críti-
cos, o recurso às informações dos primeiros cronistas e compiladores das Me-
mórias, o conhecimento e a utilização de boa parte da literatura sobre Dom
Bosco, podem converter-se em alicerce e guia de leitura para os que desejam
conhecer Dom Bosco a fundo. Esse é o nosso anseio.
Como editores da versão em espanhol, agradecemos ao autor, ao seu edi-
tor e à editora italiana LAS pela liberdade que nos concederam de modificar
a obra segundo o nosso critério, suprimindo repetições ou temas de pouco
interesse para os leitores de língua espanhola, abreviando exposições de me-
nor valor e reorganizando os temas tratados. Isso permitirá tornar mais ágil
a leitura e reduzir a três os sete volumes da edição original, sem perder nada
do essencial. Neles, a biografia de Dom Bosco propriamente dita é precedida
da apresentação das fontes, da sua avaliação e de uma crônica, sucinta, mas
completa, da historiografia. E será completada pelo elenco das obras sobre
Dom Bosco editadas em espanhol até o momento.
Caminhando como estamos para a celebração do bicentenário do nasci-
mento de Dom Bosco, foi nosso desejo colocar nas mãos de todos os Salesia-
nos e membros da grande Família Salesiana de língua espanhola, uma válida
e documentada biografia de Dom Bosco, convencidos de que quanto mais
se conhece Dom Bosco mais se pode amá-lo. E sendo amado de verdade ele
será mais bem imitado.

Juan José Bartolomé


Jesús Graciliano González
Roma, 24 de junho de 2010

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Apresentação do Primeiro volume
Origem: dos Becchi a Valdocco (1815-1849)

Este primeiro volume da obra Dom Bosco: história e carisma abarca os


trinta e quatro primeiros anos da vida do santo, ou seja, do seu nascimento nos
Becchi (1815) até a consolidação da sua obra, o Oratório de Valdocco (1849).
Antes de iniciar a narração da vida, são introduzidas e avaliadas as fontes
e a documentação que se tem à disposição. Dom Bosco, caso notável entre
os santos do século XIX, dispõe de uma amplíssima e constante historiogra-
fia, de insólita riqueza documental, embora de valor crítico desigual. Sua
apresentação e uma primeira avaliação crítica formam o conteúdo dos três
primeiros capítulos da Primeira Parte da obra.
O quarto capítulo dá início à Segunda Parte, com a narração biográ-
fica da vida e obra de Dom Bosco. Após uma rápida descrição do contexto
político, o período da Restauração na Itália e, em especial, no reino da
Sardenha e do Piemonte, que se seguiu à queda do império napoleônico,
e do entorno geográfico, Castelnuovo d’Asti e os Becchi, no qual João
Melquior Bosco nasceu, narram-se as origens da família Bosco, a infância
de João e os primeiros passos da sua formação, profundamente marcada
pela religiosidade de sua mãe viúva e pela proximidade de um pequeno
grupo de sacerdotes mestres-escola.
A infância (1815-1824) e a adolescência (1824-1830) de João transcor-
rem em tempos difíceis, de grande inquietação social e instabilidade política.
Seu esforço para continuar os estudos, fruto de uma prematura decisão vo-
cacional, leva-o a deixar a família e a completar os estudos secundários, pri-
meiro em Castelnuovo (1830) e depois em Chieri (1831-1835), cuja escola
pública estava sob a tutela da Igreja.
Em Chieri, novamente tem um sonho e inicia um doloroso processo de
discernimento vocacional (1834-1835) que o leva a preferir o seminário ao
noviciado. O seminário de Chieri, pertencente à diocese de Turim, será sua
casa durante seis longos anos, não isentos de provas e tribulações. Nele, João

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Dom Bosco: história e carisma 1

Bosco recebe uma formação teológica básica, embora, talvez, não totalmente
completa, que o prepara para a ordenação sacerdotal (1841).
Recém-ordenado padre, Dom Bosco entra no Colégio Eclesiástico de
Turim, seguindo o conselho do padre Cafasso; ali aprenderá a ser padre de
verdade. Durante esse tempo de exercício e aprendizagem pastoral (1841-
1844) amadurecerá a opção preferencial pelos jovens em situação de risco
e a concretizará escolhendo o Oratório como campo ordinário de trabalho
apostólico.
Saber quem eram os meninos “pobres e abandonados” na Turim da dé-
cada de 1840 e qual fosse a situação política vivida pela região do Piemonte
após a Revolução Liberal de 1848, ajuda a contextualizar melhor o período
em que Dom Bosco, primeiramente residente e estudante no Colégio Ecle-
siástico (1841-1844) e, depois, capelão a serviço das instituições caritativas
da marquesa Barolo (1844), faz a opção definitiva de trabalhar pelos jovens e
começa a se ver como padre para os jovens na direção de oratórios.
Depois de uma penosa peregrinação (1844-1846), o Oratório de Dom
Bosco encontra residência permanente na casa Pinardi, onde ao pequeno local
em que se estabelece o Oratório festivo, logo será acrescentada uma pequena
casa de acolhida para órfãos (1847), uma igreja, a capela de São Francisco de
Sales (1852), a casa de Dom Bosco e as primeiras oficinas (1853) que, uma
vez demolido o telheiro inicial e aumentada a casa Pinardi (1856), acolherá
uma escola secundária e um pensionato para estudantes (1855-1856).
Enquanto o Oratório de Valdocco expandia-se com rapidez, Dom Bos-
co foi-se responsabilizando de outros dois Oratórios diocesanos de Turim,
São Luís, de Porta Nova (1847), e Anjo da Guarda, no bairro Vanchiglia
(1849), dos quais em 1852 será nomeado oficialmente diretor espiritual por
dom Fransoni. Encerra-se assim um período de buscas e incertezas, com um
Dom Bosco totalmente consagrado a realizar a sua vocação.
Tão logo consolidada a obra dos Oratórios, Dom Bosco sentiu a urgên-
cia de contar com colaboradores e organizar a vida diária dos jovens. Embora
o trabalho crescesse sob a sua responsabilidade direta, ele encontrou tempo
para um novo e eficaz apostolado, a boa imprensa (1844-1849), que lhe dará
muitas satisfações como também dificuldades, e que maravilha ainda hoje
pela variedade dos temas tratados e o sucesso obtido. Dom Bosco escritor é
uma das facetas mais “modernas” de sua personalidade.

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Parte I

Fontes

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Capítulo I

As fontes: uma apresentação

A reconstrução crítica da biografia de Dom Bosco supõe a individuali-


zação prévia e a avaliação adequada das fontes documentais em que se baseia.
As fontes normalmente são: (1) os arquivos oficiais e pessoais; (2) as informa-
ções de arquivos, transmitidas por testemunhas presenciais, tais como crôni-
cas, memórias etc.; (3) a correspondência pessoal; (4) os escritos autorizados
pela pessoa em questão; (5) o corpus biográfico, tradição que no caso de Dom
Bosco surgiu e se manteve durante a sua vida e culminou na obra monumen-
tal das Memórias Biográficas; (6) os arquivos históricos contemporâneos; (7) a
literatura sobre a vida e o tempo do biografado.

1. Visão global das fontes


Omitindo a discussão teórica do método, neste e nos demais capítulos,
fazemos uma breve análise de três áreas importantes do material documental:
as crônicas, os Documenti, as Memórias Biográficas e as Memórias do Oratório,
do próprio Dom Bosco. Antes, porém, de falar especificamente das crônicas
dos arquivos, apresentamos uma rápida visão das diversas fontes.

Arquivos
São de interesse fundamental (1) os arquivos centrais salesianos, na Casa
Geral de Roma (ASC);1 (2) os arquivos do Oratório de São Francisco de
Sales, em Valdocco, Turim (AV); (3) os arquivos centrais do Instituto das
Filhas de Maria Auxiliadora, em sua Casa Geral de Roma; (4) vários arquivos
vaticanos; (5) os arquivos de algumas congregações surgidas no século XIX;

1
As seções sobre Dom Bosco, sobre o padre Rua e uma parte das seções de Mazzarello-FMA em ASC
estão disponíveis em microfichas. As de Dom Bosco têm a denominação de Fundo Dom Bosco (FDB).

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Dom Bosco: história e carisma 1

(6) os arquivos de várias cúrias diocesanas; e (7) vários arquivos estatais e


municipais, em primeiro lugar, os da cidade de Turim.

Dom Bosco como fonte


Quando as fontes, publicadas ou não, estão organizadas em uma ordem
lógica, deve-se considerar como fonte primeira o próprio Dom Bosco: suas
palavras, seus escritos, seus documentos etc.
Sob este ponto de vista, devem-se mencionar, em primeiro lugar, as co-
municações orais de Dom Bosco, feitas a Salesianos ou outras pessoas, em
conversações formais ou informais. Estas comunicações são encontradas fa-
cilmente nos relatos feitos pelos cronistas e primeiros biógrafos. Obviamen-
te, os manuscritos de Dom Bosco e suas inúmeras cartas são sobremaneira
importantes.2 A volumosa produção literária de Dom Bosco é também uma
fonte de importância fundamental.3
Dom Bosco foi autor de uma série de escritos que tratavam da origem
e natureza da obra do Oratório e da Sociedade Salesiana, tais como vários
resumos e memorandos históricos. A obra mais importante nesta categoria é,
sem dúvida, as Memórias do Oratório.
Embora Dom Bosco não tenha sido seu autor, a História do Oratório,
de João Bonetti, é uma obra considerada como continuação das Memórias
do Oratório.

2
Encontra-se uma primeira coleção das cartas de Dom Bosco em Eugenio Ceria, Epistolario di
San Giovanni Bosco, 4 volumes, Turim: SEI, Vol. I, 1955; Vol. II, 1956; Vol. III, 1958; Vol. IV, 1959.
Está em andamento a edição crítica, mais extensa, a cargo de Francesco Motto, Giovanni Bosco, Epistola-
rio: introduzione, testi critici e note. Roma: LAS, Vol. I, 1991; Vol. II, 1996; Vol. III, 1999; Vol. IV, 2003.
3
O elenco bibliográfico das obras de Dom Bosco encontra-se em Pietro Stella, Gli scritti a stampa
di San Giovanni Bosco. Roma: LAS, 1977, e em Francis Desramaut, Don Bosco en son temps (1815-1888).
Turim: SEI, 1996, 1369-1377.
Coleção de textos: Centro Studi Don Bosco. Opere edite. Ristampa anastatica. Série primeira:
Libri e Opuscoli, 37 volumes, Roma: LAS, 1977; Série segunda, Vol. 38: Contributi [...] Roma: LAS,
1987. Alberto Caviglia, Opere e scritti editi e inediti di Don Bosco nuovamente pubblicati e riveduti
secondo le edizioni originali e manoscritti superstiti, 6 volumes. Turim: SEI, 1929 a 1943, e póstumos,
1965. Estes volumes contêm o texto de seis obras importantes e um extenso estudo sobre cada uma de-
las. Pietro Braido (ed.), Don Bosco educatore. Scritti e testimonianze. Roma: LAS, 1992. Joseph Aubry,
Scritti spirituali di San Giovanni Bosco. Roma: Nuova Editrice, 1976.
Textos independentes: parte das obras importantes de Dom Bosco apareceu separadamente em
edições críticas de professores do Istituto Storico Salesiano em Ricerche Storiche Salesiane. Em espanhol
foram publicadas algumas obras de Dom Bosco. Ver o elenco completo em Jesús-Graciliano Gonzá-
lez, Bibliografía general de Don Bosco y de otros temas salesianos. Roma: Aracne, 2008, títulos 1-120.

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As fontes: uma apresentação

Primeiras fontes salesianas


Por volta de 1860, aproximadamente, alguns Salesianos que viviam com
Dom Bosco, convictos de que entre eles estava acontecendo algo de total-
mente extraordinário, começaram a anotar o que viam e ouviam. Esses re-
pórteres recebem o nome genérico de “cronistas”. Suas anotações são de dois
gêneros: crônicas e memórias. Crônica é um relato redigido no momento em
que o fato se deu ou muito próximo dele, normalmente num caderno, na for-
ma de registros datados. Memória é um relato recolhido por uma testemunha
presencial num momento muito posterior ao acontecimento.
Cerca de duas dezenas desses escritos (crônicas e memórias) que, em
sua extensão, vão de algumas a centenas de páginas, estão em ASC.4 Os mais
importantes entre os cronistas são: Júlio Barberis (1847-1927), Joaquim Ber-
to (1847-1914), João Bonetti (1838-1891), João Batista Lemoyne (1839-
1916), Domingos Ruffino (1840-1865) e Carlos Viglietti (1864-1915).
Também oferecem informações importantes as Atas do Capítulo Supe-
rior (hoje, Conselho Geral), as Atas das Assembleias dos Capítulos Gerais da
Congregação Salesiana e as crônicas locais.5

Depoimentos de testemunhas no Processo de


Beatificação e Canonização
A Congregação dos Ritos publicou entre 1899 e 1932 a cópia pública das
Atas do Processo de Beatificação e Canonização.6 Elas contêm as seguintes partes:

1. Processo ordinário, ou diocesano (1890-1896). Das 28 testemunhas regula-


res ouvidas, 13 eram Salesianos; os demais eram, em geral, simpatizantes da
causa. Foram convocadas ex officio 17 testemunhas adicionais.7
2. Nunca foi objeto de veneração (1907). Das 12 testemunhas ouvidas, 6
eram Salesianos.8

4
ASC A000-A011: Cronachette, FDB 792-1,294.
5
As atas são, em princípio, obra dos secretários, Júlio Barberis e João Batista Lemoyne: ASC
04: Conferenze Generali, FDB 1,869-1,873; ASC 04: Capitoli generali presieduti da Don Bosco, FDB
1,831-1,868; ASC 0592: Consiglio Superiore, Verbali, FDB 1,873-1,880.
6
Copia Publica transumpti Processus Ordinaria auctoritate constructi in Curia Ecclesiastica Tauri-
nensi super fama sanctitatis vitae, virtutum et miraculorum Servi Dei Joannis Bosco Sacerdotis Fundatoris
Piae Societatis Salesianae. FDB 2,323-2,430.
7
FDB 2,330 E3 - 2,430 A12.
8
FDB 2,435 E7 - 2,438 B8.

19

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Dom Bosco: história e carisma 1

3. Processo Apostólico, Parte 1 (1909-1913). Das 13 testemunhas ouvidas, 8


eram Salesianos; os demais, adidos à causa.9
4. Notoriedade da santidade de vida. Virtudes e Milagres (1913). Das 9 testemu-
nhas ouvidas, 3 eram Salesianos; os demais, simpatizantes da causa.10
5. Processo Apostólico, Parte 2 (1916-1918). Foram ouvidas 19 testemunhas, das quais
2 eram Salesianos e um grupo de religiosas e leigos relacionados com os milagres.11
6. Pequeno Processo (1916ss.) para anexar ao processo sobre as virtudes e os mi-
lagres do Venerável Servo de Deus, João Bosco, sacerdote e fundador da Pia
Sociedade Salesiana. Trata-se de uma investigação realizada contra Dom Bos-
co pelo cônego Manoel Colomiatti, da Cúria de Turim, concluída em 1922.12
7. Sobre os milagres (1927-1932). Foi decretada uma investigação em cinco
dioceses nas quais ocorreram os milagres para a beatificação e canonização.13

A tradição biográfica de Dom Bosco


A partir de 1880, Dom Bosco teve a honra de contar, ainda em vida,
com narrações biográficas, algumas bastante extensas. Em certa ocasião, o
próprio Dom Bosco pôs-se a escrever uma autobiografia.
Em 1881, o doutor Carlos d’Espiney publicou em francês uma curta
biografia episódica de Dom Bosco, primeiro ensaio biográfico “sério” escrito
em forma de livro.14 Obteve sucesso imediato e notável, e chegou a numerosas
edições no tempo do Santo. A trigésima e última edição apareceu em 1924.
A obra contribuiu significativamente para a popularidade de Dom Bosco,
sobretudo na França. Traduções e adaptações apareceram em diversas línguas.
Em 1884, o escritor católico, Alberto Du Boÿs, com a aprovação dos Sa-
lesianos, escreveu uma vida popular de Dom Bosco, cujo rascunho o próprio
Santo leu, editando-a em parte.15
Em 1888, foi publicada na França por Jacques-Melchior Villefranche a
primeira biografia completa de Dom Bosco.16

9
FDB 2,444 C10 - 2,481 C1.
10
FDB 2,487 A1 - 2,494 D1.
11
FDB 2,498 A10 - 2,525 C3.
12
FDB 2,520 D6 - 2,523 D1.
13
FDB 2,523 D2 - 2,564 E12.
14
Charles d’Espiney, Dom Bosco. Nice: Typographie et lithografie Malvano-Mignon, 1881, 180 p.
15
Albert Du Boÿs, Dom Bosco et la pieuse Societé des Salésiens. Paris: Jules Gervais Libraire-Editeur,
1884, VI-378 p.
16
Jacques-Melchior Villefranche, Vie de Dom Bosco fondateur de la Société salésienne. Paris: Bloud
et Barral, 1888, XII-356 p.

20

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As fontes: uma apresentação

Desde meados dos anos oitenta do século XIX, João Batista Lemoyne,
secretário geral da Congregação, trabalhou intensamente recolhendo material
para escrever uma biografia. Começou a recolher as fontes disponíveis numa
antologia impressa para uso pessoal, que chegaria a 45 volumes, com o título
de Documenti. Os Documenti foram a principal fonte das monumentais Me-
mórias Biográficas, cujos autores foram o próprio Lemoyne e seus sucessores,
os padres Ângelo Amadei e Eugênio Ceria.

2. Cronistas e crônicas
Ao dizer “crônicas” referimo-nos aqui aos documentos escritos, con-
temporâneos, redigidos por Salesianos próximos de Dom Bosco, que foram
testemunhas do que ele disse e realizou. Esta iniciativa não foi uma ativida-
de ocasional de alguém, mas nasceu da consciência comum e do trabalho
de um grupo.

O período Ruffino-Bonetti (1861-1864)


Criação de um Comitê
Há em ASC alguns breves relatos anteriores a 1860. O exemplar mais
antigo é uma anotação de João Bonetti, datado em 17 de outubro de 1858.17
Depois de 1860, um grupo de discípulos de Dom Bosco criou, provavelmen-
te por sugestão do padre Miguel Rua, um “comitê” permanente, cuja tarefa
era conservar e transmitir o que tinham ouvido e visto de Dom Bosco, espe-
cialmente se lhes parecesse “extraordinário”.
Temos o relato de Ruffino sobre algumas reuniões desse Comitê. A pri-
meira delas se deu provavelmente nos primeiros dias de março de 1861. As
atas iniciam com uma solene declaração de objetivos que reflete a noção e a
convicção compartilhada de que Deus agia na vida de Dom Bosco:

Os fascinantes e magníficos dons de Dom Bosco, as coisas extraordinárias que


realizou e o seu estilo único de conduzir os jovens pelos complexos caminhos da
virtude são realmente admiráveis e surpreendentes. Os grandes planos que tinha

Praticamente, não consta nenhum relato contemporâneo em ASC com data anterior a 1860.
17

Uma razão pode estar no fato de serem poucos os Salesianos dispostos a aceitar essa tarefa, por estarem
muito ocupados e, provavelment e, por não perceberem sua importância. Outra razão pode ter sido a
desconfiança e hostilidade das autoridades civis contra a Igreja e suas instituições nos tempos da uni-
ficação da Itália (1859-1861). A polícia fez perquisições internas no Oratório e, para evitar qualquer
problema, Dom Bosco pode ter decidido destruir “papéis comprometedores”. Pode-se ler um relato das
perquisições internas em MB VI, 537-551.

21

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Dom Bosco: história e carisma 1

em mente e atuou para o futuro [da Sociedade] são sinais claros da assistência so-
brenatural e predizem um futuro glorioso para ele e para o Oratório. Isso faz com
que recaia sobre nós o grave dever da gratidão. Temos a obrigação de não relegar
ao esquecimento nada do que se refira a Dom Bosco. Portanto, devemos fazer o
possível a fim de conservar esses fatos para a posteridade, de modo que algum dia,
quais tochas reluzentes, possam iluminar o mundo todo para a salvação dos jovens.
Essa é a finalidade pela qual instituímos este comitê. Seguem os nomes dos
membros fundadores: padre [Vitório] Alasonatti, padre [Miguel] Rua, padre
[Ângelo] Sávio, padre [João] Turchi, cavalheiro Frederico Oreglia di Santo
Stefano, clérigo [João] Cagliero, professor [João Batista] Francesia, professor
[Celestino] Durando, professor [Francisco] Cerruti, professor [João Batista]
Anfossi, professor [Francisco] Provera, clérigo [João] Bonetti, clérigo [Carlos]
Ghivarello e clérigo [Domingos] Ruffino.18
Ruffino continua:
Na primeira reunião [não há data], nomearam-se três membros que atuassem
como principais repórteres: Ghivarello, Bonetti e Ruffino. Na segunda reu-
nião, realizada em 30 de março de 1861 (estando ausentes Cagliero, Anfossi e
Durando), os membros procederam à eleição do presidente, do vice-presiden-
te e do secretário do Comitê. Foram eleitos respectivamente para esses cargos
padre Rua, padre Turchi e Ruffino.19

Ruffino continua a informar sobre as reuniões posteriores, realizadas


nos dias 1o de abril e 1o e 7 de maio de 1861.20 Aos poucos, porém, a
iniciativa foi perdendo o entusiasmo, provavelmente porque os membros
do comitê estavam muito ocupados em outros trabalhos. Assim, um ano
depois, em 1862, Bonetti lamenta-se dessa omissão e propõe remediar a si-
tuação.21 A situação, sem dúvida, tornou-se pior quando os membros mais
ativos do comitê passaram a ser nomeados para algum cargo fora de Turim.
Bonetti, por exemplo, foi enviado ao colégio de Mirabello em 1863, e Ru-
ffino, recém-ordenado, foi nomeado diretor do colégio de Lanzo em 1864;
morreria um ano depois.
Durante este primeiro período (1861-1864), dos catorze membros do Co-
mitê apenas Ruffino e Bonetti redigiram crônicas importantes que chegaram

18
Croniche III, Ruffino, 1, em ASC A008s: Cronachette, Ruffino, FDB 1,211 A10. Cf. MB VI, 862.
19
Ibid., 1-2, FDB 1,211 A10-11.
20
Ibid., 2-3, FDB 1,211 A11-12.
21
Cf. Bonetti, Annali II, 59, abril 21, 1862, em ASC A004-5: Cronachette, Bonetti; FDB, 922 C5-6.

22

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As fontes: uma apresentação

até nós. Temos também alguns breves relatos de Provera.22 A “breve crônica” de
Turchi, mencionada por Lemoyne nas Memórias Biográficas,23 não chegou até
nós, como também os relatos possivelmente feitos por Ghivarello.

As crônicas de Ruffino
Durante sua breve vida como Salesiano, Ruffino esforçou-se por anotar
os fatos e as palavras de Dom Bosco, e, em vários cadernos, deixou-nos cinco
Crônicas do Oratório e dois Livros de experiência sobre sua permanência em
Lanzo em 1864. Conservados em ASC (A008-13), estão no FDB, aparente-
mente em não perfeita ordem:
1. Caderno 1: Crônica do Oratório [...] N° 1, [1859]-1860.24
2. Caderno 2: Crônica do Oratório [...] N° 2, 1861.25
3. Caderno 3: Oratório de São Francisco de Sales, Nº 3. Crônica, Ruffino, 1861.26
4. Caderno 4: padre Ruffino, Crônica de 1861, 1862, 1863.27
5. Caderno 5: padre Ruffino, 1861, 1862, 1863, 1864.28
6. Livro de experiência: 1864, padre Ruffino.29
7. Livro de experiência: 1865, padre Ruffino, em Lanzo.30

As reservas críticas sobre as crônicas de Ruffino referem-se à cronologia, ou


seja, à sequência dos registros, uma vez que nem sempre são seguros, e à forma
e o estilo desses registros. Foram esses os problemas enfrentados por Lemoyne,
nem sempre solucionados, ao transcrever e organizar as informações de Ruffino.

As crônicas de Bonetti
Como principal membro do “Comitê histórico” de 1861, Bonetti con-
tinuou bastante sistematicamente o que iniciara já em 1858, ou seja, recolher
as palavras e os feitos de Dom Bosco. Suas crônicas preenchem cinco cadernos
que chegaram até nós. Podem ser vistos em ASC-FDB como segue:

ASC A008-013: Cronachette, Provera, FDB 1, 205 C2-II.


22

MB VI, 453.
23

24
ASC A008-013: Cronachette, Ruffino, FDB 1,206 A5-E1.
25
FDB 1,210 D1 - 1,211 A8.
26
FDB 1,209 B2 -1,210 C12.
27
FDB 1,206 E2 -1,209 B1.
28
FDB 1,211 A9-1,212 A10.
29
FDB 1,212 A11, 213 C1.
30
FDB 1,213 C2-D7: Esta é mais curta por causa da morte inesperada do autor; está em ASC-FDB.
Transcrição reorganizada pelo padre Lemoyne das crônicas de Ruffino em três cadernos (FDB 1,213 D8-
1,217 A3) e também 20 páginas sem título, separadas, manuscritas, de Ruffino (FDB 1,217 A4-B11).

23

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Dom Bosco: história e carisma 1

1. Caderno 1 (contém os primeiros registros de Bonetti, antes do comitê): 17


de outubro, 1858, Informações sobre vários fatos.31
2. Caderno 2: Anais I [1860, 1861].32
3. Caderno 3: Anais II [1861, 1862).33
4. Caderno 4: Anais III [1863].34
5. Caderno 5: Crônica de 1864. Este caderno conserva apenas uma homilia
e uma conferência de Dom Bosco. Recorde-se que em 1864 Bonetti era
professor no colégio de Mirabello.35

O Arquivo Central possui outros relatos de Bonetti. Ao mesmo tempo em


que é o autor das crônicas, também o é de artigos, opúsculos e livros. Entre estes
escritos, merece interesse especial a História do Oratório, publicada em capítulos
no Boletim Salesiano; foi publicada mais tarde na forma de livro com o título
Cinco lustros de história do Oratório Salesiano fundado pelo padre João Bosco.36
A obra principal de Bonetti como cronista cobre, portanto, o período
1858-1863. Como no caso de Ruffino, as questões críticas referem-se à cro-
nologia e, também, porque a crônica parece ser uma transcrição de anotações
originais, com critérios editoriais.
Apesar de seus defeitos, tanto as crônicas de Bonetti como as de Ruffino
são de importância fundamental para o conhecimento de Dom Bosco na
década de 1860.

O período Barberis-Berto (1875-1879)


O despertar da consciência e o esforço renovado de informar
Em 1864, o padre Lemoyne uniu-se ao Comitê, mas o grupo pratica-
mente desapareceu quando, em 1864, ele sucedeu ao padre Ruffino como
diretor em Lanzo; à morte de Ruffino em 1865, Lemoyne encorajou o padre
Rua a tomar alguma iniciativa:

Reúna novamente o antigo Comitê, pois se não me engano, ninguém está


recolhendo informações dos feitos de Dom Bosco. Essas coisas são demasiado

31
ASC A008-012: Cronachette, Bonetti, FDB 919 A2 - 920 A12.
32
FDB 920 B1 - 921 C6: Annali I.
33
FDB 921 C7 - 922 E7: Annali II.
34
FDB 922 E8 - 924 B2: Annali III.
35
FDB 924 B3-D1: Cronaca 1864.
36
Cf. p. 11 nota 55.

24

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As fontes: uma apresentação

preciosas para se perderem [...]. Nomeie secretários com a tarefa específica de


registrar detalhadamente o ocorrido.37

O Arquivo Central conserva relatos esporádicos do próprio padre Rua


sobre os anos 1867-1869 dos quais Lemoyne se serviu nas Memórias Biográfi-
cas.38 Entretanto, parece que não se tomou qualquer decisão até 1875 quando,
segundo Amadei, biógrafo do padre Rua, se criou um novo comitê:
O Servo de Deus [padre Rua] decidiu nomear um comitê que continuasse
a recolher as lembranças [sobre Dom Bosco] e que se reunisse regularmente
para examiná-las conjuntamente e publicá-las com a maior fidelidade pos-
sível. O comitê era formado pelo padre Ghivarello, padre Barberis, padre
Berto, padre Cibrario, sob a presidência do padre Rua. Temos um dever de
gratidão para com [o padre Rua], por terem chegado até nós as lembranças
daqueles anos, muitas do padre Barberis e algumas do padre Berto.39

Até 1875, padre Rua encarregara-se na prática da administração dos as-


suntos da Congregação e começava a ser reconhecido como alter ego de Dom
Bosco. Seus compromissos logicamente não lhe deixavam tempo para mais
nada. E novamente não nos ficaram relatos de Ghivarello ou de Cibrario.
Devemos a Barberis e a Berto os amplos relatos das palavras e dos feitos de
Dom Bosco desse período que chegaram até nós.

Barberis e suas crônicas


Em ASC podem-se encontrar quatro coleções principais de Barberis.
1. A “Pequena crônica” (Cronachetta),40 autógrafa, é o relato mais importante
de Barberis. Trata-se de uma coleção de informações datadas de 10 de
maio de 1875 a 7 de junho de 1879. São de Barberis em sua totalidade,
com exceção de algumas matérias aí inseridas (de várias origens). Sem dú-
vida, como ele mesmo afirma, e é evidenciado no texto, trata-se de uma
cópia das notas originais passada a limpo (não mais existente), anotada de
memória ou talvez também por informações de outras pessoas.
2. A “Pequena crônica das conversações de Dom Bosco” (Cronachetta
discorsi)41 consta de 20 cadernos numerados e 14 cadernos não numerados,
em parte de Barberis e em parte de outros.

37
Lemoyne a Rua, Lanzo, Novembro 23, 1868, in ASC Rua V, 1, FDB 3,758 E3-4.
38
ASC 110: Cronachette, Rua, FDB 1,205 E6-1,206 A4. Cf. MB VIII, 204-205.
39
A. Amadei, Il Servo di Dio I, 253-254.
40
ASC A000-003: Cronachette, Barberis, FDB 833-849.
41
FDB 849-871.

25

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Dom Bosco: história e carisma 1

3. “Crônica de vários autores” (Cronachetta varie mani).42 Com a ajuda dos


seus noviços, mas sem dúvida sob a sua supervisão, Barberis publicou e au-
mentou a Pequena crônica de vários modos e com critérios não totalmente
claros. Este relato é formado por várias séries de folhas soltas, numeradas
com números romanos de I a XXXVIII. Algumas séries, todas ou em par-
te, foram perdidas e não estão em ASC.
4. Barberis também é autor de uma Cronachetta anteriore ou Cenni sulla vita
del M. R. Sac. Giovanni Bosco […] (“Pequena crônica dos primeiros tem-
pos” ou “Notas sobre a vida do Reverendíssimo padre João Bosco”). Este
relato procedente de várias fontes antigas consta de 12 cadernos com ma-
terial dos anos 1815 a 1875.

Berto e seus relatos


Berto também redigiu a crônica de diversos eventos e colecionou me-
mórias ao longo de muitos anos; sua colaboração resulta mais valiosa, sem
dúvida, por ter sido secretário de Dom Bosco. Nessa tarefa, era sua primeira
obrigação distribuir a grande quantidade de trabalho que chegava diariamen-
te à sua mesa de secretário. Ao mesmo tempo, ele também era designado para
acompanhar Dom Bosco em muitas viagens a Roma, quando o Fundador
estava inteiramente empenhado nos assuntos da Congregação, da Igreja e do
Estado. Os relatos dessas viagens, especialmente sobre a atividade de Dom
Bosco durante as prolongadas permanências na Cidade Eterna, cobrem a
década 1873-1882 e se encontram em ASC-FDB como segue:
1. Resumo da viagem de Dom Bosco a Roma, 18 de fevereiro de 1873, acom-
panhado de um padre do Oratório [padre Berto].
2. Anotações sobre a viagem de Dom Bosco a Roma, 1873.
3. Breves anotações sobre a viagem de Dom Bosco a Roma em 1873-1874:
Comentários com atenção especial ao tema dos emolumentos para os bis-
pos italianos e a aprovação definitiva da Sociedade Salesiana e das Cons-
tituições.
4. Memória da viagem a Roma, iniciada em 18 de fevereiro de 1875.
5. Breve anotação sobre a viagem a Roma, 1876.
6. Anotações sobre a viagem a Roma, 1877, com referência especial à Refor-
ma das Concepcionistas, confiada pelo Papa a Dom Bosco.
7. Uma crônica, sem título, das atividades de Dom Bosco em Roma, que
iniciava assim: “Hoje, 29 de janeiro de 1878, em que se teve a primeira
assembleia dos Salesianos Cooperadores”.

42
FDB 792-831.

26

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As fontes: uma apresentação

8. Anotações da viagem de Dom Bosco a Roma, 1879-1880.


9. Memória de 1882. Algumas notícias sobre a viagem a Roma, 1882, com
outros assuntos de 1882-1883-1884.43

O segundo comitê histórico deixou de cumprir seus objetivos pratica-


mente quando o padre Barberis deixou Turim em 1880, por causa da mu-
dança do noviciado para San Benigno, e também pelo serviço do padre Berto
como secretário de Dom Bosco, unido à gradual deterioração da sua saúde
mental, que levou ao seu afastamento.

O período Lemoyne - Viglietti (1884-1888)


As crônicas dos últimos anos de Dom Bosco
Embora Barberis, Berto, Bonetti e outros continuassem a recolher os
acontecimentos e as palavras de Dom Bosco, o trabalho sistemático de regis-
trá-las sofreu um declínio no início da década de 1880. Seu ressurgimento
vigoroso só se deu quando foram nomeados padre João Batista Lemoyne e
o seminarista Carlos Maria Viglietti, respectivamente como secretário-geral
da Congregação e secretário pessoal de Dom Bosco. Sempre ao lado de Dom
Bosco, com a ajuda de outros Salesianos, os dois deixaram-nos um relato
continuado das atividades de Dom Bosco durante os anos 1884-1888.

Lemoyne e suas crônicas


João Batista Lemoyne (1839-1916), recém-ordenado padre, viera de
Gênova em 1864 para ficar com Dom Bosco no Oratório. Ficou tão apai-
xonado pela santidade e a extraordinária personalidade de Dom Bosco que,
independente do histórico comitê, começou a anotar o que via e ouvia. São
estes os seus principais e importantes relatos:

1. Um Caderno sem título, com registros que vão da sua chegada ao Oratório,
em 18 de outubro de 1864, até abril de 1865, testemunha o compromisso
imediato de Lemoyne à causa.44 À morte de Ruffino, em julho de 1865,
Lemoyne foi escolhido para sucedê-lo como diretor do vizinho colégio de
Lanzo, visitado com frequência por Dom Bosco. Ali, ele continuou sua
atividade de cronista.

ASC A004-013: Cronachette, Berto, FDB respectivamente: (1) 906 C8-907 D7; (2) 907 D8
43

-908 B4; (3) 908 B5-911 A8; (4) 911 A9 - D3; (5) 911 D4 - 912 A9; (6) 912 A10 - C11; (7) 912
C12 - 913 B12; (8) 913 C1 - 916 B9; (9) 916 B10 - 918 C12.
44
ASC A006-007: Cronachette, FDB 1,219 A7 - 1,221 B4 (está erroneamente sob o nome de Sala).

27

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Dom Bosco: história e carisma 1

2. Um segundo caderno intitulado Memórias 1868 contém a narração de


alguns sonhos e palavras de Dom Bosco, dos anos 1867-1868.45
Em 1877, Lemoyne foi nomeado diretor espiritual das Filhas de Ma-
ria Auxiliadora na casa-mãe de Mornese e, desde 1879, em Nizza,
cidades muito menos acessíveis, que estavam a considerável distância
de Turim. Naqueles anos de “exílio”, ele teve, inclusive, a oportuni-
dade ocasional de aumentar suas crônicas. Em 1883, ele retornou ao
Oratório como secretário do Capítulo Superior, podendo dedicar-se
pessoalmente a reunir a documentação histórica sobre Dom Bosco.
Sua nomeação inaugura um período fértil de sua atividade de reunir
relatos colhidos até a morte do Fundador, em 1888. Lemoyne foi um
incansável coletor de material, anotado por ele em numerosos cader-
nos.46 Um deles merece menção especial.
3. Caderno de Lemoyne intitulado Ricordi di gabinetto (Lembranças de escri-
tório). É basicamente um rascunho da crônica de 1884.47
Além disso, depois de 1885, provavelmente por ordem do padre Rua, come-
çou a reunir e obter todos os antigos relatos já pensando numa grande obra.
4. Os Documenti,48 que ele havia mandado imprimir para uso pessoal.
Esta compilação lhe serviria mais tarde de base para sua obra monu-
mental, ou seja,
5. As Memórias Biográficas,49 das quais publicou os nove primeiros volumes.

45
FDB 1,221 C8 - 1,222 B6 (também referido erroneamente a Sala).
46
Cf. FDB 860-963.
47
Ricordi di gabinetto é uma agenda iniciada em 1846, utilizada em parte por Lemoyne durante
seus anos de seminário e, novamente, para pequenos acontecimentos, quase quarenta anos depois! É
um caderno de formato pequeno com 402 páginas. Como acompanhava Dom Bosco nas pequenas
caminhadas pelos pátios do Oratório, ele conservou na memória, anotando mais tarde em seu caderno,
as lembranças dessas caminhadas com o Santo. As anotações originais conservam, entre outras coisas, o
último encontro de Dom Bosco com o cão Grigio [Cinzento] em Bordighera em 1883 (!), detalhes dos
problemas com o arcebispo Gastaldi, seu horário de dormir durantes os anos de atividade, a orientação
que desejava dar aos Salesianos Cooperadores etc., dados que não se encontram em outros lugares. O ca-
derno está em ASC A006-7: Lemoyne 4, mas pelo seu estado lamentável, não foi reproduzido no FDB.
48
Documenti per scrivere la storia di D. Giovanni Bosco, dell’Oratorio di San Francesco di Sales e
della Congregazione Salesiana, 45 volumes, impressos em cópia única para uso pessoal, em San Benigno
Canavese ou em Turim, Valdocco, desde 1885 (é citado como Documenti). Foi reproduzido em ASC
110: Cronachette, Lemoyne-Doc, e em FDB 966 A8 - 1,201 C12.
49
Memorie Biografiche di Don Giovanni Bosco, San Benigno Canavese e Turim: I-IX (1898-1917)
por João Batista Lemoyne; X (1939), por Ângelo Amadei; XI-XIX (1930-1939), por Eugenio Ceria.
Edição espanhola: Memorias Biográficas de San Juan Bosco (MBe), Volumes I-XX, Madri: Editorial
CCS, 1981-1998; traduzido do original por Basilio Bustillo.

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As fontes: uma apresentação

As crônicas de Viglietti
O colaborador mais fiel de Lemoyne, a quem devemos o conhecimento
de Dom Bosco nos últimos anos, é Carlos Maria Viglietti (1864-1915). O
jovem Carlos sentiu-se cativado por Dom Bosco quando ainda era aluno
no colégio de Lanzo. Mais tarde, em 1884, Dom Bosco escolheu-o como
secretário e companheiro de viagem. Tanto por amor ao seu mestre como
por sugestão de Lemoyne, ele escreveu e conservou ciosamente os relatos do
que via e ouvia.
Viglietti foi responsável, sobretudo, pela anotação dos acontecimentos
das várias longas viagens feitas pelo Fundador em seus últimos anos, mas não
se esqueceu de anotar as coisas “de casa”, embora outros também o fizessem.

1. Sua obra fundamental é a Crônica de Dom Bosco, em sua forma original em


8 cadernos, com registros que vão de 20 de maio de 1884 a 31 de janeiro
de 1888, dia da morte de Dom Bosco.50
2. Em seguida, Viglietti transcreveu a obra original com acréscimos, reprodu-
zindo a Crônica de Dom Bosco, apresentando-a em duas partes e chegando
a 5 grandes cadernos, que abrangem o mesmo período.51 Ele também pre-
parou outras edições posteriores parciais de sua crônica.
3. Viglietti ainda escreveu um Diário, que é uma grande coleção de episódios,
sonhos etc., abrangendo vários períodos da vida de Dom Bosco.52

Comentário conclusivo
Apresentamos, resumidamente, as linhas mais importantes e os princi-
pais períodos dos relatos de testemunhas, voltando nossa atenção a personali-
dades relevantes. Deve-se levar em conta que chegaram até nós muitos outros
relatos de testemunhas, breves, mas significativos, sobre fatos relativos a Dom
Bosco. Em parte, eles preenchem os vazios de períodos importantes.
As numerosas recordações pessoais e as memórias, algumas bastante ex-
tensas, conservadas em ASC, também não foram detalhadas aqui. Elas pro-
porcionam um considerável conhecimento do Fundador, embora não tenham
o estatuto de testemunhas contemporâneas. A mais ampla delas é a memória
do coadjutor José Enria, ajudante de quarto de Dom Bosco enfermo.53

50
ASC A010-011: Cronachette, Viglietti, FDB 1,222-1,227.
51
ASC A010-011: Cronachette, Viglietti, FDB 1,232-1,240.
52
ASC A010-011: Cronachette, Viglietti, FDB 1,231 D5 – 1,232 C4.
53
ASC A013: Cronachette, “Enria Pietro Giuseppe nato il [...]”, FDB 932 D12 - 937 C8.

29

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Apêndice

NOTAS BIOGRÁFICAS DOS CRONISTAS SALESIANOS

Domingos Ruffino (1840-1865)


Domingos Ruffino era um jovem cordial e afetuoso, cuja “piedade e vida
angélica emulavam as de São Luís”.54 Nascera em Giaveno (Turim) no dia 17
de setembro de 1840. Em contato com Dom Bosco, ainda estudante secun-
dário, entrou no Oratório em meados de outubro de 1859, depois de residir
no seminário diocesano por pouco tempo. Em seguida, completou os estudos
teológicos enquanto dava aulas em período integral. Foi ordenado em 15 de
novembro de 1863 e Dom Bosco nomeou-o diretor espiritual (catequista)
da Pia Sociedade, uma escolha notável que o elevou, aos 22 anos, ao tercei-
ro lugar na hierarquia da Congregação. Em outubro de 1864, foi nomeado
diretor do recém-fundado colégio salesiano de Lanzo. Morreu menos de um
ano depois, em 16 de julho de 1865, aos 24 anos de idade, provavelmente
por causa de uma broncopneumonia.
Em sua breve vida salesiana, Ruffino dedicou-se a redigir a crônica dos
acontecimentos e das palavras de Dom Bosco; como membro do primei-
ro “Comitê Histórico” de 1860, deixou-nos alguns cadernos: 5 crônicas do
Oratório de Turim e 2 livros de experiências da sua permanência em Lanzo.
Lemoyne, que sucedeu a Ruffino como diretor do colégio de Lanzo, copiou e
organizou as crônicas, afortunadamente, sem destruir os originais.55

João Bonetti (1838-1891)


João Bonetti, Salesiano de grande valor e inteligência, nasceu em Ca-
ramagna no dia 5 de novembro de 1838. Entrou no Oratório em 1855 aos

54
Palavras de Dom Bosco, como foram recolhidas pelo padre Viglietti em sua crônica sobre
Dom Bosco, dos anos 1884-1885, em ASC A 010-011: Cronachette, Viglietti, FDB 1,229 A10; cf.
MB VIII, 147s.
55
Os sete livros de Ruffino estão em ASC A010-011: Cronachette, Ruffino: [I] FDB 1,206 A5 –
E1; [II] FDB 1,210 D1 - 1,211 A8; [III] FDB 1,209 B2 -1,210 C12; [IV] FDB 1,206 E2 -1,209 B1;
[V] FDB 1,211 A9 -1,212 A10; [VI] FDB 1,212 A11 -1,213 C1; [VII] FDB 1,213 C2 - D7. Os livros
de Ruffino são acompanhados imediatamente da transcrição de Lemoyne: FDB 1,213 D8 - 1,217 A3.

30

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As fontes: uma apresentação

17 anos. Permaneceu ali por dois anos, deixando-o para receber o hábito
clerical em sua cidade natal e entrar no seminário diocesano de Chieri. Em
1858, no entanto, uma espécie de saudade fê-lo retornar ao Oratório. Ali
começou a redigir uma crônica de fatos notáveis. Em 18 de dezembro de
1859 participou da primeira reunião da Sociedade Salesiana e foi eleito se-
gundo Conselheiro. Fez a profissão religiosa trienal em 14 de maio de 1862;
ficou ao lado do Fundador até a abertura do colégio de Mirabello, em 20 de
outubro de 1863, quando Dom Bosco o destinou para lá como professor,
tendo padre Rua como diretor. Foi ordenado em 21 de maio de 1864 e fez a
profissão perpétua em 15 de novembro de 1865. Já padre, substituiu padre
Rua como diretor do colégio de Mirabello em outubro de 1864, cargo que
ocupou até 1877, quando o colégio foi transferido para o próximo Borgo
San Martino.
Chamado novamente a Turim, ele exerceu cargos de responsabilidade na
Sociedade Salesiana: diretor do Boletim Salesiano (1877); diretor do Oratório
das Filhas de Maria Auxiliadora, em Chieri, de 1878 a 1883; comprometido
pessoalmente na controvérsia com o arcebispo Lourenço Gastaldi. Em 1886
foi eleito pelo Capítulo Geral IV para suceder ao bispo João Cagliero como
Diretor Espiritual da Sociedade Salesiana e das Filhas de Maria Auxiliadora.
Além de escrever importantes relatos e crônicas, foi autor de artigos, opúscu-
los e livros. De especial interesse para os Salesianos é a sua História do Orató-
rio, publicada em capítulos no Boletim Salesiano.56
Após a morte de Dom Bosco em 1888, foi nomeado postulador das
causas de beatificação e de canonização do Fundador. Como tal, recebeu do
padre Rua o encargo de reunir testemunhos e lembranças dos Salesianos so-
bre Dom Bosco. Morreu repentinamente em 5 de junho de 1891, aos 53
anos de idade.
Membro principal do “Comitê Histórico” de 1861, Bonetti continuou
de forma bastante sistemática o que iniciara em 1858. Suas crônicas preen-
chem cinco cadernos que chegaram até nós e abrangem os anos 1858-1863.
Apesar das questões de crítica que possam suscitar, as crônicas de Bo-
netti e de Ruffino são de fundamental importância para o conhecimento de
Dom Bosco na década de 1860.

56
G. Bonetti, La storia dell’Oratorio di San Francesco di Sales, publicada em capítulos no Boletim
Salesiano entre 1878 e 1886. Após a morte de Bonetti em 1891, foi publicada em forma de livro com o
título Cinque lustri di storia dell’Oratorio salesiano fondato dal sacerdote D. Giovanni Bosco. Turim: Tip.
Salesiana, 1892. A obra abrange os anos 1841-1865. O livro foi traduzido em espanhol como Cinco
lustros de historia del Oratorio Salesiano, Buenos Aires, 1897. O texto está em parte nas Memórias do
Oratório, de Dom Bosco, e em outros documentos de arquivo e de testemunhos.

31

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Dom Bosco: história e carisma 1

Júlio Barberis (1847-1927)


Nascido em Mathi, nas proximidades de Turim, no dia 7 de junho de
1847, entrou no Oratório em 1861. Sua mãe apresentou-o a Dom Bosco. Ele
assim relembra o seu encontro com o Santo: “Bendito seja aquele dia de mar-
ço de 1861, quando minha mãe me levou até Dom Bosco. Foi o momento
decisivo da minha vida, porque marcou o primeiro passo da minha vocação.
O bom pai colocou sua mão sobre a minha cabeça e, com palavras cujo som
permaneceu indelevelmente impresso em minha mente e no meu coração,
disse-me: ‘Nós seremos sempre amigos; e tu serás meu assistente’”.57
O que mais o impressionava na vida do Oratório era o espírito de família
ali reinante, a solicitude paterna e a presença pessoal de Dom Bosco entre os
meninos; e, também, os sonhos e as experiências extraordinárias do Santo. A
grande igreja de Maria Auxiliadora estava sendo construída e a Congregação
Salesiana, em processo de aprovação.58 Não é de estranhar que Júlio decidisse
“ficar com Dom Bosco”. Fez o noviciado “em família”, isto é, de maneira
informal, e a sua primeira profissão religiosa, em 1865. Como presente es-
pecial, Dom Bosco entregou-lhe uma “regra de vida”, que terminava com as
palavras: “Faze todo o possível e suporta com gosto todas as penas para salvar
almas para o Senhor”.59
Enquanto trabalhava em tempo integral no colégio e no Oratório de
Valdocco, completou os estudos de teologia e conseguiu laurear-se na Facul-
dade de Teologia da Universidade de Turim em 1873. Depois da aprovação
das Constituições Salesianas em 1874, foi nomeado diretor dos noviços,
cargo que, naqueles tempos, fazia dele um membro do Capítulo Superior.
Manteve o cargo por quase vinte e cinco anos, até 1901, formando gerações
de Salesianos durante a vida de Dom Bosco. Sob sua direção, o noviciado
evoluiu e consolidou-se, primeiro no Oratório e, depois de 1879, na casa de
San Benigno, nas proximidades de Turim.
Mais tarde, foi Inspetor (Provincial). Em 1910 foi eleito Diretor Es-
piritual da Congregação. Como tal, viajou por toda a Europa em visita aos
Irmãos, antes e depois da Primeira Guerra Mundial. Essas viagens eram can-
sativas, e nos últimos anos sua saúde se deteriorara. Morreu em 24 de novem-
bro de 1927, com 80 anos de idade.

E. Ceria, Profili, 306.


57

A igreja de Maria Auxiliadora começou a ser construída em 1863 e foi inaugurada em 1868. A
58

Sociedade Salesiana, fundada em 1859, recebeu o decreto de louvor em 1864 e foi aprovada em 1869.
Suas Constituições foram aprovadas definitivamente em 1874.
59
E. Ceria, Profili, 308.

32

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As fontes: uma apresentação

Em sua crônica, padre Barberis recolhe as palavras ditas por Dom Bosco
em certa ocasião:
Ele me disse: “Serás sempre o meu melhor amigo”. “Assim o espero certa-
mente”, respondi-lhe. “Serás o báculo da minha velhice (baculus senectutis
meae)”, insistiu Dom Bosco. Garanti-lhe: “Farei de muito boa vontade tudo
o que puder para ajudar”. Em seguida, Dom Bosco continuou: “Caberá a vós
concluir a obra que eu iniciei; eu fiz o desenho, vós terminareis o quadro”.
Respondi-lhe: “Espero que não destruamos a obra”. “Não, vós não a mutila-
reis”. “Eu estou fazendo simplesmente o rascunho da Congregação; a cópia
definitiva será tarefa dos que persistirem”.60

Padre Barberis contribuiu muito na consolidação da obra do Fundador.


Seu trabalho de organizar o programa do noviciado, a influência espiritual
que exerceu sobre a geração dos jovens Salesianos foi o seu grande triunfo.
Ele é recordado como alguém extremamente afável e comunicativo,
com um “coração de ouro”. Sua simplicidade e bonomia, que chegava à
elegância, eram proverbiais. Tinha, também, outros recursos que o torna-
vam apreciado por todos. Embora não brilhante, era dotado de inteligência
prática e vontade que o capacitaram para ir bem longe. Foi um trabalhador
incansável e perseverante.
Padre Barberis foi autor de muitos livros, alguns dos quais implicaram
considerável pesquisa. Além de manuais para religiosos e de formação sale-
siana, obras de devoção e muitas vidas de santos, publicou algumas obras de
história e geografia, temas que lhe agradavam.61
Os Salesianos têm para com ele talvez uma dívida de gratidão pela sua
atividade de secretário e cronista, com que enriqueceu os arquivos salesianos
de uma enorme quantidade de documentação testemunhal sobre Dom Bosco
e o Oratório, além da sua atividade de mestre dos noviços.

60
J. Barberis, Crônica autógrafa, 19 de maio de 1875, Caderno I, 15, FDB 833 C1 . “Serás o
báculo da minha velhice”, são palavras de encorajamento ditas por Dom Bosco também a outros Sale-
sianos, por exemplo, ao padre Lemoyne e ao seminarista Viglietti, conforme seu testemunho pessoal.
61
Entre outras, pode-se mencionar: Storia antica orientale e greca [História do Antigo Oriente
Médio e Grécia]. Turim: Tipografia Salesiana, 1877, 18ª ed. 1908; La terra e i suoi abitanti [A terra e
seus habitantes]. Turim: Libreria Salesiana, 1890. É especialmente notável o livro sobre a Pagatônia,
escrito para ser apresentado por Dom Bosco às autoridades eclesiásticas em Roma, em defesa das
missões salesianas, e publicado criticamente: La Patagonia e le terre australi del continente americano
[A Patagônia e as terras do sul do continente americano]. Introdução e texto crítico de Jesús Borrego,
Piccola Biblioteca dell’Istituto Storico Salesiano, 11. Roma: LAS, 1988.

33

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Dom Bosco: história e carisma 1

Joaquim Berto (1847-1914)


Joaquim Berto nasceu no dia 29 de janeiro de 1847 em Villar Alme-
se (Turim) e entrou no Oratório em 16 de setembro de 1862. Formou-se
professor em 1865. Antes de ser ordenado em 1871, foi escolhido por Dom
Bosco como secretário, cargo que conservou até quando, em 1884, sua saúde
o obrigou a retirar-se. Depois, trabalhou como arquivista da Sociedade; ani-
mado pelo padre Lemoyne, recolheu cuidadosamente e conservou qualquer
retalho de informação que lhe chegasse sobre o Fundador. Ele também é
autor de inúmeros livros de devoção.
Sua contribuição mais valiosa deu-se como secretário de Dom Bosco.
Além de desobrigar-se da enorme e cansativa quantidade de trabalho que
chegava à sua mesa, anotava diversos fatos sobre Dom Bosco e o Oratório.
Mais decisivo ainda foi acompanhar Dom Bosco nas viagens a Roma e outros
lugares, no tempo em que o Santo estava envolvido em numerosos assuntos
de Estado. Como membro ativo do segundo “Comitê Histórico”, seus valio-
sos relatos dessas viagens, em especial da atividade de Dom Bosco durante
as longas permanências na Cidade Eterna, abrangem a década 1873-1882.
Nove desses relatos são conservados em ASC.62
Depois que padre Barberis deixou Turim em 1880, e com o crescente
envolvimento de Berto como secretário de Dom Bosco, junto com a deterio-
ração da sua saúde mental que o levou à inatividade, o “Comitê histórico” da
década de 1870 deixou de funcionar, sendo restaurado pelo padre Lemoyne
apenas na década de 1880.
Padre Berto morreu no Oratório em 21 de fevereiro de 1914.

Carlos Viglietti (1864-1915)


Carlos Viglietti nasceu em Susa (província de Turim) no dia 18 de
maio de 1864. Em 1882, o próprio Dom Bosco impôs-lhe o hábito cleri-
cal e, desde então, o teve em grande estima. Escolheu-o como secretário
pessoal quando ainda era clérigo e quis que o acompanhasse durante sua
viagem triunfal à Espanha; sobre isso, ele escreveu uma crônica detalhada.
Foi ordenado padre em 18 de dezembro de 1886. Assistiu Dom Bosco em
sua última enfermidade. Era profundamente piedoso, otimista e trabalha-
dor incansável.

ASC A004-5: Cronachette, Berto, FDB respectivamente: [I] 906 C8 - 907 D7; [I] 907 D8 -
62

908 B4; [III] 908 B5 - 911 A8; [IV] 911 A9 - D3; [V] 911 D4 - 912 A9; [VI] 912 A10 - C11; [VII]
912 C12 -913 B12; [VIII] 913 C1 - 916 B9; [IX] 916 B10 - 918 C12.

34

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As fontes: uma apresentação

Após a morte de Dom Bosco, foi enviado a fundar a casa de Bolonha,


onde foi diretor de 1896 a 1904. Ergueu ali o Santuário do Sagrado Coração
e deu vida ao periódico do Santuário. Em seguida, foi diretor em Savona
(1904-1906) e, finalmente, em Varazze (1906-1912). Ali aconteceram, du-
rante o seu diretorado, os lamentáveis “fatos de Varazze”. Padre Viglietti sou-
be manter-se sereno e com grande dignidade em meio à tempestade, até que
os fatos fossem esclarecidos: tudo não passara de uma trama caluniosa urdida
por anticlericais que se opunham à escola católica na Itália. Passou os últimos
anos no Oratório de Turim, afetado por uma dolorosa enfermidade. Morreu
em 8 de novembro de 1915.
Viglietti escreveu vários livros, quase todos sobre temas salesianos. Sua
obra fundamental, como se disse, é a Crônica de Dom Bosco, original em 8
cadernos, que vai de 20 de maio de 1884 a 31 de janeiro de 1888, dia da
morte de Dom Bosco.63

63
Cf. Carlos Maria Viglietti, Cronaca di Don Bosco, Prima redazione (1885-1888). Introdução,
texto crítico e notas por Pablo Marín Sánchez. Roma: LAS, 2009.

35

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Capítulo II

A TRADIÇÃO BIOGRÁFICA DE DOM BOSCO

A segunda fonte importante para o conhecimento de Dom Bosco é a


tradição biográfica. Iniciada nos ensaios biográficos publicados durante sua
vida, ela chegou ao seu apogeu com o monumental trabalho das Memórias
Biográficas, de João Batista Lemoyne.

1. As primeiras biografias
A tradição biográfica de Dom Bosco teve início na década anterior à sua
morte, em 1888. O que caracteriza essa tradição, talvez caso único no gênero
hagiográfico, é que o mesmo Dom Bosco, ainda em vida, não só tivesse sido
motivo de várias biografias, como também, em ao menos um caso, fosse seu
próprio editor.

Os primeiros esboços biográficos de Dom Bosco


Padre Pedro Ricaldone, quarto sucessor de Dom Bosco, estudou em
sua obra Dom Bosco educador, a literatura biográfica sobre o Santo e enu-
merou nela uma lista de 100 títulos em diversas línguas. Entre estes, estão
alguns esboços biográficos, precoces e modestos, de Dom Bosco e do seu
trabalho, pensados para alcançar — ou parece que só tenham realmente
alcançado — uma audiência limitada. Podem-se mencionar, entre eles, as
breves biografias de Bardessono dei Conti di Nigra (1871), de Carlos Co-
nestabile (1878), de monsenhor Antônio Belásio (1879), de Luís Mendre
(1879), de Luís Biginelli (1883) e de Johannes Jansen (1885).1
Os primeiros trabalhos que podem ser qualificados como biográficos
foram escritos em francês. Dois deles, de León Aubineau e de um “antigo

1
Pedro Ricaldone, Don Bosco educador, 2 vols. Buenos Aires: Edit. Don Bosco, 1954.

36

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A tradição biográfica de Dom Bosco

magistrado”, anônimo, foram apresentados após a bem-sucedida viagem de


Dom Bosco a Paris em 1883.2 Outras duas biografias, de Carlos d’Espiney
(1881) e de Alberto Du Boÿs (1883), foram escritas igualmente em francês e
tiveram maior repercussão.

“Don Bosco”, de Carlos d’Espiney


Em 1881, o doutor Carlos d’Espiney3 publicou, em francês, uma bio-
grafia episódica de Dom Bosco. É o primeiro ensaio biográfico “sério” publi-
cado em forma de livro.4 A obra, de pequenas dimensões, com 180 páginas,
era uma biografia de orientação taumatúrgica e hagiográfica, embora pusesse
em relevo uma importante introdução histórica da vida de Dom Bosco e da
sua obra. Seguiam-na dois breves capítulos que tratavam, respectivamente,
dos Cooperadores Salesianos e de Maria Auxiliadora dos Cristãos, que cor-
respondiam à dupla intenção do livro. O livro, de fato, pretendia obter ajudas
para Dom Bosco e a sua obra na França e mostrar que, através da intervenção

2
León Aubineau, Dom Bosco, sa biographie, ses oeuvres et son séjour à Paris. Paris: Josse, 1883. Un
Ancien Magistrat, Dom Bosco à Paris, sa vie et ses oeuvres. Paris: Libraire Ressaire, 1883.
3
O autor, Charles d’Espiney, nasceu em Bourg-en-Bresse (Ain) em 1824, estudou medicina em
Avinhão, Montpellier e Marselha e estabelecera-se em Nice, onde exerceu durante muitos anos a profis-
são de médico, mantendo excelentes relações profissionais e humanas. Seus contatos com Dom Bosco
datam ao menos de 1869. Em sua obra, ele narra o caso de um médico incrédulo que se apresentou a
Dom Bosco para que o curasse da epilepsia. D’Espiney conta com detalhes a conversa de Dom Bosco
com o médico e conclui com estas palavras sublinhadas no texto: “Nunca mais se repetiu o menor sinto-
ma daquela doença; e veio com frequência agradecer a Maria Auxiliadora, que o curou de corpo e alma”
(p. 101). As Memórias Biográficas repetem o fato, tomando-o, porém, da obra de d’Espiney, única tes-
temunha, parece, do que acontecera. Isto levou alguns a suspeitarem que se tratasse dele mesmo, apesar
das declarações de incredulidade do médico (“Eu não creio em Deus, nem na Virgem, nem na oração,
nem nos milagres”) não serem atinentes em absoluto à mentalidade do doutor d’Espiney, que naquele
momento já era um homem maduro, com 45 anos de idade. De qualquer forma, se não se tratava dele,
tudo leva a crer que ele estivesse presente no momento do fato e que, desde então, sua admiração e de-
voção por Dom Bosco foram constantes, tendo sido ele a introduzir Dom Bosco no círculo da nobreza
de Nice. Em 1879, acompanhou-o na visita ao conde Villeneuve, a quem Dom Bosco curou de uma
lesão recebida na cabeça ao cair de um cavalo. Poucos dias depois, também esteve presente à cura “mi-
raculosa” da condessa Villeneuve, deixando um atestado médico a testemunhar o fato. Em 16 de março
de 1881, organizou uma reunião de Salesianos Cooperadores, tendo lido uma poesia sua em que pedia
ajuda econômica para as obras salesianas. Em 6 de março de 1884, em Nice, atendeu a Dom Bosco que
se sentira enfermo, diagnosticando-lhe uma congestão hepática, e, por isso, os Salesianos chamaram o
doutor Combal, professor da Universidade de Montpellier, que nos deixou um detalhado diagnóstico
sobre o estado de saúde de Dom Bosco naquele momento. Por proposta de Dom Bosco, o Papa conce-
deu a d’Espiney a Ordem dos Cavaleiros de São Gregório Magno. Morreu em 13 de abril de 1891. Este
resumo da vida de d’Espiney foi tomado do artigo de Jesús-Graciliano González, publicado no Peru na
primeira tradução do “Dom Bosco” de Charles d’Espiney, em RSS 49 (2006) 397-413.
4
Charles d’Espiney, Dom Bosco. Nice: Tipografia e litografia Malvano-Mignon, 1881, 180
p. [citado como d’Espiney].

37

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Dom Bosco: história e carisma 1

miraculosa de Maria Auxiliadora, era Deus que agia na vida de Dom Bosco.
Em consonância, a maior parte do livro, cerca de 100 páginas, era uma com-
pilação de “fatos miraculosos”, curas e outros feitos extraordinários.
A obra de d’Espiney tinha um atrativo autenticamente popular e ob-
teve grande sucesso. O livro foi impresso várias vezes, com não menos de
dez edições durante a vida de Dom Bosco; a décima terceira e última surgiu
em 1924. Ao rever a décima edição desta obra (1888), o padre salesiano
Luís Cartier realçou as credenciais do seu autor: “O relacionamento íntimo
e constante de d’Espiney com Dom Bosco, com o padre Rua [...] e com o
Patronato de São Pedro em Nice, dão a seu relato uma autoridade na qual o
leitor pode confiar com toda segurança”.5
Juízo excessivamente generoso, uma vez que a obra criou dificulda-
des para Dom Bosco e os Salesianos por causa das muitas inexatidões. Por
exemplo, um episódio narrava o fato de Dom Bosco ter recebido inespe-
radamente de presente uma grande soma em dinheiro num momento de
extrema necessidade. O nome do doador e os fatos relativos ao caso foram
totalmente alterados, produzindo o protesto do doador.6 Também grave era
o tom demasiado laudatório e a constante referência aos milagres. O episó-
dio da ressurreição do jovem Carlos também enfrentou objeções do próprio
Dom Bosco, que lançou sobre o doutor d’Espiney a responsabilidade da sua
narração, embora nunca tenha negado a veracidade do fato. A história não
apareceu mais na edição revista do livro em 1883; apesar de suas objeções,
Dom Bosco nunca desautorizou o livro. A décima edição, de 1888, comple-
tamente revista e reestruturada cronologicamente, obteve enfim a aprovação
dos Salesianos.

O “Don Bosco” de d’Espiney traduzido para o espanhol e adaptado


O livro do doutor d’Espiney foi a primeira biografia de Dom Bosco a
circular amplamente pelo mundo. Na França, as edições do Don Bosco de
d’Espiney, antes e depois da morte do Santo, multiplicaram-se, ampliando-
-se sempre mais com novos e inéditos episódios e milagres. Em 1888, ano
da morte de Dom Bosco, foi publicada a 10ª edição, com 507 páginas; a

Bulletin Salésiene 10 (1888) 97.


5

O doador era Francisco Viancini, de Viancino, “destacado cavalheiro do Piemonte” e generoso


6

benfeitor do Oratório (MB IX, 762). Como resposta, Dom Bosco pediu ao conde que deixasse os bo-
atos de d’Espiney, garantindo-lhe que ele mesmo falaria com o médico na próxima visita a Nice [carta
de 18 de dezembro de 1881, em Epistolario Ceria IV, 99-100]. O relato da ressurreição do jovem Carlos
também não agradou a Dom Bosco. Este chamou a atenção de d’Espiney por ter falado do aconteci-
mento, embora nunca tenha negado que tivesse acontecido.

38

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A tradição biográfica de Dom Bosco

primeira edição possuía 180 páginas. Na Espanha, a “vida” foi conhecida e


lida no original francês e, logo depois, em 1884, traduzida para o espanhol
por um missionário franciscano do convento dos descalços de Lima (Peru).7
Nesse mesmo ano, 1884, o então bispo de Milo e auxiliar de Sevilha,
dom Marcelo Spínola, recolhendo dados do Boletin Salesiano e da obra de
d’Espiney, compôs uma nova biografia em espanhol com o título Dom Bosco
e sua obra, que circulou por toda parte e deu a conhecer a obra de Dom Bosco
na Espanha. Morrendo Dom Bosco, o salesiano chileno Camilo Ortúzar fez
uma nova tradução para o espanhol do livro Don Bosco de d’Espiney, tendo
como base não mais a quarta, mas a décima segunda edição francesa, notavel-
mente corrigida e aumentada. A obra foi publicada em 1889 em Turim, aon-
de também veio à luz em 1891 uma segunda edição.8 Em 1894, foi publicada
a terceira edição da tradução de Camilo Ortúzar, mas desta vez na Tipografia
de Barcelona-Sarriá, onde se publicaram depois outras edições.9

“Don Bosco” de Alberto Du Boÿs


Uma nova e significativa biografia surgiu em 1885. O escritor francês
Alberto Du Boÿs é o autor de uma vida de Dom Bosco de caráter popular
que, dada a sua qualidade e o seu caráter quase oficial, destinava-se a su-
plantar, embora sem removê-los, todos os ensaios anteriores.10 A obra, ape-

7
Trata-se do padre Luís Torra, nascido em Manresa (Barcelona) em 20 de novembro de 1851,
que ainda muito jovem foi para o Peru. Exerceu sua atividade sacerdotal na capital e em outros lugares
do Peru, pregando missões populares. Depois de alguns anos passados na Espanha, onde foi superior
do Convento de Loreto, perto de Sevilha, retornou ao Peru. Esteve também no Equador e trabalhou
nas missões mantidas pelos franciscanos entre os jívaros de Zamora. Era superior em Guayaquil quan-
do adoeceu e morreu santamente em 20 de setembro de 1900 aos 49 anos de idade. A circunstância
que, como ele mesmo disse, o levou e até o obrigou a imprimir a sua “deficiente” tradução foi uma
intervenção miraculosa em um naufrágio, no qual ele e seus companheiros imploraram os auxílios do
céu, formulando o voto de que, se saíssem com vida e sem lesões, fariam uma novena a Maria Auxilia-
dora e trabalhariam em favor da obra de Dom Bosco. Saindo indenes, cumpriram o voto e publicaram
em espanhol a obra de d’Espiney, que muito contribuiu para tornar conhecido Dom Bosco e sua obra
no Peru. Outros dados sobre essa tradução, cf. artigo citado de J. G. González, publicado no Peru...
(cf. capítulo 1, nota 3).
8
Don Bosco, pelo doutor Charles d’Espiney, Cavalheiro da Grande Cruz da Ordem Pontifícia
de São Gregório Magno; obra aprovada pela Congregação Salesiana. Segunda edição em espanhol,
traduzida da décima segunda edição francesa pelo presbítero da mesma Congregação, Camilo Ortúzar,
Turim: Tipografia e Livraria Salesiana, 1891; a obra foi publicada em português com o título Dom
Bosco pelo Dr. Charles d’Espiney. Niterói: Escolas Profissionais Salesianas, 2ª ed., 1928, 307 p.
9
Charles d’Espiney, Don Bosco. Barcelona: Tipografia e Livraria Salesiana, 1894.
10
Albert Du Boÿs, Dom Bosco et la pieuse Societé des Salésiens. Paris, Jules Gervais Libraire-
-Éditeur, 1884. O trabalho conciso de VI-378 páginas, formato médio, foi imediatamente traduzido
para o italiano por Giuseppe Novelli como Don Bosco e la Pia Società Salesiana. San Benigno Canavese:

39

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Dom Bosco: história e carisma 1

sar de importante, ainda não se enquadra no modelo atual de biografia, mas


seu autor dava passos nessa direção. Du Boÿs escreveu a pedido dos Salesia-
nos e sob a orientação do próprio Dom Bosco. Este já se tinha convertido
em lenda, mas Du Boÿs queria a todo custo aproximar-se do personagem
como “historiador”. Sendo este seu objetivo, passou algum tempo no Ora-
tório de Turim para conhecer pessoalmente o personagem. Obteve assim
informações de primeira mão e adquiriu algum conhecimento do mundo
espiritual e educativo dos Salesianos.11 Valeu-se também de fontes escritas;
utilizou os artigos do padre Bonetti (Storia dell’Oratorio), publicados no
Boletim Salesiano; serviu-se dos Regulamentos das Casas e, em relação ao
método educativo de Dom Bosco, tomou abundantes notas da “Biografia”
de Luís Colle, publicada por Dom Bosco (1882).12 Du Boÿs havia captado
a intenção básica da obra de Dom Bosco e os aspectos característicos do seu
método educativo.
A obra de Du Boÿs foi imediatamente traduzida para o italiano e as pro-
vas tipográficas foram remetidas a Dom Bosco para sua revisão e correção. A
cópia corrigida foi conservada e podem-se contar espalhados ao longo de 256
páginas, não menos de 89 acréscimos e correções da mão de Dom Bosco.13
O relato sobre Dom Bosco e sua obra é uniforme e sério; contudo, o
trabalho ainda permanece na tradição taumatúrgica e laudatória de suas fon-
tes. Du Boÿs, é certo, absteve-se de alardear episódios miraculosos, mas deixa
perceber um fascínio pelo “extraordinário”. Além disso, dado que era católico

Tipografia e Libreria Salesiana, 1884. Para a crítica da obra de Du Boÿs, veja-se Piera Cavaglià, Don
Bosco lettore della sua biografia: osservazioni al volume di A. Du Boÿs, Don Bosco e la Pia Società Sale-
siana (1884). RSS 22 (1984) 193-206. Albert Du Boÿs (1804-1889) nasceu em Metz numa família
monarquista conservadora, estudou em Paris e foi em seguida nomeado magistrado de Grenoble. Com
a queda da monarquia em 1830, abandonou a profissão legal e dedicou-se ao estudo das artes. É autor
de muitos livros jurídicos e históricos e vidas de santos. Foi amigo íntimo do bispo Dupanloup de
Orleáns, com quem compartilhou interesses histórico-literários e com ele assistiu ao Concílio Vaticano
I, momento culminante da sua carreira. Expressou, do ponto de vista conservador, as preocupações
políticas, religiosas e culturais do século XIX.
11
Esta visita é recordada pelo biógrafo Du Boÿs, mas aparentemente não foi registrada nos cír-
culos salesianos, cf. P. Cavaglià, Don Bosco, 200.
12
Cf. MB XV, 74-78, 90ss.
13
Cf. P. Cavaglià, Don Bosco, 200-203. Algumas revisões de Dom Bosco são muito pessoais.
Assim, onde Du Boÿs escrevera “santo padre”, Dom Bosco corrigiu para “pobre padre”. Na primeira
parte, Capítulo 6, “A preocupação caridosa de Dom Bosco pelos aprendizes do Oratório”, Du Boÿs
escrevera que quando os aprendizes retornavam para o almoço, punham-se em fila “enquanto Mamãe
Margarida servia a sopa de uma grande panela”. A adição lê “[Mamãe Margarida] e o próprio Dom
Bosco”. Onde o autor descreve os recreios e as atividades do Oratório, uma nota à margem explica:
“Dom Bosco interessou-se pessoalmente em aprender a tocar cada instrumento musical, para assim ser
capaz de instruir pessoalmente os jovens nos rudimentos desta arte”.

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A tradição biográfica de Dom Bosco

conservador, tinha uma tese a provar: a caridade cristã ainda não desaparece-
ra, mas brilhava radiosa na vida extraordinária de Dom Bosco.14

“Vida de Dom Bosco” de Villefranche


A primeira biografia depois da morte de Dom Bosco surgiu em 1888,
publicada em francês. Era uma obra de Jacques-Melchior Villefranche.15
Villefranche interessou-se por Dom Bosco durante a visita do Santo a
Paris e Lille em 1883, levado inicialmente pela curiosidade e logo conquis-
tado pela admiração diante das realizações e da santidade de Dom Bosco.
Mais tarde, Villefranche pôs-se a trabalhar numa biografia “completa” de
Dom Bosco, com a intenção de aperfeiçoar biografias já existentes e ilustrar
aspectos da atividade do Santo que ainda não tinham sido explicitados ao
público. É provável que desejasse publicar sua obra enquanto ainda vivia o
herói, como fizera com a biografia de Pio IX. Contudo, Dom Bosco morreu
quando Villefranche ainda trabalhava nos últimos capítulos. O prefácio traz
a data de 29 de maio de 1888.
14
Albert Du Boÿs era um escritor católico muito mais sensível do que d’Espiney em relação aos
aspectos sociais e educacionais que se davam no mundo. Dividiu a sua obra em três partes, apresentan-
do clara e distintamente a figura e a obra de Dom Bosco na Europa (I parte), nas missões da América
(II parte), completando-a com uma visão sintética da organização salesiana, do Sistema Preventivo, do
espírito dos ensinamentos dos salesianos (III parte). Du Boÿs atenuava os episódios extraordinários,
deixando de lado os fatos miraculosos e as profecias, mas sublinhando as injustiças, as dificuldades e os
atentados devidos aos “revolucionários” anticlericais de Turim. Em vez de um taumaturgo, esta nova
biografia apresentava Dom Bosco como um homem genial, sensível às questões sociais e extraordinário
mestre da juventude. A nova vida agradou em Valdocco. Conta-se que Dom Bosco chegou a dizer que
a vida escrita por d’Espiney servia bem para conseguir dinheiro, mas que, para tornar conhecida a obra
salesiana como ela é, a de Du Boÿs era muito melhor. Narram as Memórias Biográficas que, quando
ofereceram a Dom Bosco o Reformatório de Santa Rita, de Madri, planejado segundo o estilo das
conhecidas casas correcionais, o senador Lastres e seu secretário foram falar com padre João Branda,
que lhes respondeu que a obra não entrava na finalidade dos Salesianos e deu-lhes de presente o livro
de d’Espiney, para que se inteirassem do sistema de Dom Bosco. Teria preferido dar-lhes a obra de Du
Boÿs, mas não tinha nenhum exemplar dela. Mais tarde, ao referir a Dom Bosco o detalhe dos livros,
o Santo lhe disse: “Nesses casos, é melhor oferecer o de Du Boÿs. O doutor d’Espiney é bom para as
pessoas piedosas e leva a abrir as bolsas, enquanto o outro permite conhecer melhor o nosso sistema e
acertou ao interpretar o espírito da nossa Sociedade”. Cf. MB XVII, 596 [Nota dos editores].
15
Jacques-Melchior Villefranche, Vie de Dom Bosco fondateur de la Societé salésienne, Paris:
Bloud et Banal, 1888, XII-356. Jacques Melchior Villefranche (1829-1904) nasceu em Couzon (Rhô-
ne, França). Depois de uma boa educação, pensava fazer-se jesuíta. Entretanto, chegou a ser admi-
nistrador de uma agência dos correios e telégrafos. Depois de participar da guerra da Crimeia (1854-
1856), iniciou a carreira de escritor e repórter gráfico. Em 1870, adquiriu um periódico, o Journal de
l’Ain, de cujas páginas combateu nas batalhas conservadoras e antirrepublicanas. Depois de escrever
uma história da telegrafia na França, seus escritos se dedicaram a temas religiosos: vidas de mártires,
biografias de grandes católicos do século XIX. Uma biografia de Pio IX (1876) granjeou-lhe o reconhe-
cimento do clero e dos católicos conservadores. Depois disso tudo, conheceu Dom Bosco.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Como biografia, a obra de Villefranche é formada por 28 capítulos e


cobre a vida e as obras de Dom Bosco. Depois de uma breve visão de con-
junto dos primeiros anos até o sacerdócio (capítulos 1 e 2), uma ampla seção
central do livro é dedicada à descrição da obra do Fundador. Em seguida,
sua atenção concentra-se em Domingos Sávio, Miguel Magone e Francisco
Besucco (capítulo 12); na atividade de Dom Bosco como educador (capítu-
los 14, 15 e 17); nos Salesianos Cooperadores (capítulo 21); e nas Missões
Salesianas (capítulos 20 e 23). O livro todo é bem sortido de episódios; im-
portantes seções são dedicadas aos ataques sofridos por Dom Bosco contra a
sua vida, aos episódios do Grigio e às curas “extraordinárias”.
Ao receber cópias da obra do autor, padre Rua respondeu com uma car-
ta de louvor e estímulo. Contudo, a biografia de Villefranche, infelizmente
e sem razão, não obteve a aceitação dos Salesianos franceses. Acusaram-no
de copiar documentos salesianos franceses sobre Dom Bosco e causou-lhes
espécie a presunção de uma pessoa estranha ao círculo dos Salesianos poder
interpretar o espírito de Dom Bosco.16
A obra de Villefranche, sem dúvida, supera em amplidão e profundi-
dade as biografias produzidas até então. A extensão, a variedade e a apresen-
tação geral são, em seu conjunto, de ordem superior à obra de d’Espiney e,
inclusive, a de Du Boÿs. Villefranche acertou no que seria, num tempo ainda
por chegar, o modelo biográfico de muitas vidas de Dom Bosco que viriam
depois; modelo reforçado pela famosa biografia do padre Agostinho Auffray,
escrita para a beatificação em 1929. Apresenta aos leitores o escritor, o editor,
o milagreiro, o construtor de igrejas, o educador, o fundador de Congrega-
ções religiosas etc.; e tudo é generosamente temperado com muitas histórias
extraordinárias pelas quais Dom Bosco se tinha transformado em lenda.
O nível alcançado — deve-se ressaltar — é o de uma biografia
“informativa”, não o de uma biografia “crítica”. Villefranche e praticamente
todos os que o seguiram mantiveram-se dentro da tradição hagiográfica.

A atitude ambivalente de Dom Bosco perante a sua própria biografia


É insólito exaltar com relatos biográficos alguém ainda vivo, mesmo
em se tratando de santos. O que Dom Bosco pensava sobre isso? Ele estava
plenamente convencido de que, por intervenção de Nossa Senhora, Deus

Os ataques provinham, em grande parte, do padre Cartier e do diácono Luís Roussin, diretor
16

do Boletim Salesiano francês em Turim. A obra foi praticamente condenada ao ostracismo pelos Salesia-
nos franceses; contudo, Villefranche viveu para ver sua obra publicada em inglês (1890) e em alemão
(1894). Para a crítica detalhada do curioso incidente, veja-se F. Desramaut, Mise à l’index, 72-82.

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A tradição biográfica de Dom Bosco

trabalhava nele com resultados “extraordinários”. Nada do que fazia era seu.
Como é lógico, devia sentir-se em situação difícil diante do que se dizia dele
ao público em geral, sobretudo com escritos extremamente laudatórios e que
encantavam narrando “milagres” e outros fatos “extraordinários”.
Dom Bosco não viveu para ler a obra de Villefranche. Podemos apenas
especular sobre o que poderia ter pensado dela. Sabemos, todavia, o que pensa-
va do livro do doutor d’Espiney e a atitude ambivalente diante daquela obra.17
Os sentimentos contrastantes de Dom Bosco são evidenciados nas cartas
escritas a Du Boÿs ao responder-lhe depois da publicação do livro. Numa
delas, depois de agradecer-lhe pelo “nobre, culto e importante trabalho” que
realizara, acrescentava: “Através da leitura do livro, senti-me muitas vezes
confundido, pois não mereço de modo algum esses louvores. Devem-se à sua
bondade, comprovada de muitas maneiras no passado, que o senhor queira
honrar a nossa humilde Congregação com este eminente trabalho”.18
Com o tempo, Dom Bosco aceitou a publicidade; talvez até lhe agra-
dasse, desde que ela contribuísse para promover a glória de Deus. Em 1885,
ao expressar sua preferência pela obra de Du Boÿs, Dom Bosco disse ao pa-
dre João Branda, diretor da obra salesiana de Barcelona-Sarriá: “Inicialmente
Dom Bosco sentia repugnância ao deixar publicar as coisas que se referiam
a ele; agora, porém, que a sorte foi lançada, é preciso ir adiante. O Du Boÿs
deve ser difundido o quanto mais se puder, vendê-lo, presenteá-lo, se for pre-
ciso, para que se faça conhecer a nossa verdadeira aparência”.19
Mencionou-se anteriormente a preferência pelo realce do miraculoso
nas antigas biografias de Dom Bosco. Ao apresentar agora o padre João Batis-
ta Lemoyne, o biógrafo que contribuiu, mais do que nenhum outro, para a
tradição biográfica de Dom Bosco, será preciso discorrer sobre uma forma de
fazer biografia que recorda a hagiografia medieval. Embora produto do século
XIX, esse modo de fazer biografia encerra uma mentalidade que conserva o
fascínio pelo sobrenatural, embora se sirva, em diversos graus, dos modernos
instrumentos de trabalho. Apesar de recorrer às fontes e à documentação,
esses escritos biográficos ainda prevalecem na tradição hagiográfica.
No caso de Dom Bosco, o propósito básico de Lemoyne consistia em
demonstrar que as graças extraordinárias do céu, além ou até mesmo em con-
tradição com as leis da natureza, atuavam continuamente. Essa era, inclusive,

Cf. P. Cavaglià, Don Bosco, 196-199.


17

Carta de 2 de outubro de 1884, nos arquivos da família Du Boÿs, citada por P. Cavaglià,
18

Don Bosco, 198.


19
MB XVII, 223.596.

43

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Dom Bosco: história e carisma 1

a convicção pessoal de Dom Bosco, igual à dos Salesianos e jovens que o rode-
avam, já que ele pertencia a esse entorno cultural e vivia e trabalhava com essa
mentalidade. Mentalidade que se pode qualificar de “pré-científica”. Há que
se aproximar, então, de todas as primeiras biografias de Dom Bosco, inclusive
a do padre Lemoyne e seus sucessores, com a compreensão exata de suas raízes
medievais, populares e religiosas.20

2. João Batista Lemoyne, biógrafo de Dom Bosco


O projeto de uma biografia e a opção de Lemoyne para o trabalho
Os trabalhos biográficos que acabamos de descrever, embora dignos de elo-
gio, não se comparam ao novo e gigantesco empenho de João Batista Lemoyne.
Lemoyne encontrara-se com Dom Bosco em 1864 quando recém-orde-
nado. Seu trabalho de cronista foi constante, apesar de ter sido nomeado di-
retor do colégio de Lanzo, em 1865, e mais tarde capelão das irmãs Salesianas
em Mornese e Nizza Monferrato (1877-1882). Quando Lemoyne retornou
a Turim em 1883, como secretário geral, Dom Bosco e os Salesianos que o
rodeavam já tinham pensado cuidadosamente na história da Obra Salesiana.
O próprio Dom Bosco dera o exemplo com as Memórias do Oratório, que
descreviam brevemente o processo da sua ação até 1854. Padre João Bonet-
ti seguira-lhe o exemplo, com uma publicação em capítulos da História do
Oratório de São Francisco de Sales no Boletim Salesiano, cobrindo o período
1841-1856.
Ao mesmo tempo, padre Miguel Rua, braço direito de Dom Bosco, que
seria depois seu Vigário com direito de sucessão (1884), percebeu a necessidade
de um trabalho mais amplo e sistemático. A quem confiar o empreendimen-
to? Lemoyne parecia ter qualidades e tempo para ocupar esse lugar. Ele gozava
da reputação bem-merecida de incansável coletor de informação histórica e de
testemunhos sobre Dom Bosco e sua Obra. O serviço de secretário deixava-lhe
“tempo livre”. Era ortodoxo, conservador, digno de confiança, esmerado, e esta-
va devotamente apegado a Dom Bosco. Seus trabalhos anteriores como escritor
constituíam um mérito a mais. Era o homem certo para essa tarefa.21

Cf. P. Stella, Le ricerche, 383.387-388.


20

Em alusão à iniciativa do padre Rua, no prefácio do primeiro volume das Memórias Biográfi-
21

cas, padre Lemoyne escreveu: “Por outro lado, eu tinha ordem do nosso venerando Reitor-Mor padre
Miguel Rua de não omitir nada de quanto viesse ao meu conhecimento porquanto pudesse ser julgado
neste momento de alguma importância” (MB I, p. X).

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Recolhendo a documentação
Padre Lemoyne pôs-se imediatamente a recolher a documentação que,
de algum modo, pudesse contribuir para contar a história de Dom Bosco.
Buscou todos os documentos existentes e acessíveis; para ele, o valor supre-
mo era a “história” narrativa. Estava especialmente interessado em tudo que
favorecesse a finalidade do seu trabalho: ressaltar a grandeza de Dom Bosco.
Como parte da história, tinham precedência as cartas, os relatos de sonhos,
as boas-noites e outras palavras de Dom Bosco. Além disso, para aproveitar
as fontes disponíveis, e com a finalidade de colecionar a maior quantida-
de possível de material, Lemoyne começou a interrogar sistematicamente as
testemunhas; primeira delas, o próprio Dom Bosco. Dessas pesquisas, por
exemplo, chegaram-nos os relatos sobre a mãe de Dom Bosco, Margarida
Occhiena, cuja biografia ele publicou em 1886, e uma considerável quantida-
de de materiais incluídos no primeiro volume dos Documenti e nas Memórias
Biográficas (MB).
Foram levadas também na devida consideração as atas do Capítulo Su-
perior (desde 1859), as atas das reuniões gerais dos diretores salesianos (desde
1864) e as atas dos Capítulos Gerais celebrados durante a vida de Dom Bosco
(1877, 1880, 1883 e 1886). Lemoyne fora o autor dessas atas desde 1883.
Lemoyne utilizou muitas crônicas e muitos memorandos feitos pelos
primeiros Salesianos. Serviu-se também dos relatos de muitas testemunhas
ouvidas no Processo de beatificação de Dom Bosco recolhidos no processo
Ordinário (1890-1897), que estiveram à sua disposição, apesar da natureza
restrita dessa informação.22

Os Documenti de Lemoyne
Após um período de pesquisa e coleta de material biográfico, ainda nas
primeiras etapas do projeto, Lemoyne decidiu organizar a obra em ordem
cronológica, distribuindo-a pelos anos da vida de Dom Bosco e imprimindo-
-as, para sua maior legibilidade. O resultado foi uma série de grandes e grossos
volumes — chegaram a 45 — que trazem o título Documenti (documentos).23

22
Cf. F. Desramaut, Memorie, 218-219; P. Stella, Canonizzazione, 111-112. Os clérigos salesianos
do Colégio de Valsalice dedicaram-se à transcrição das declarações sob a supervisão do padre Barberis.
23
Documenti per scrivere la storia di don Giovanni Bosco, dell’Oratorio di San Francesco de Sales
e della Congregazione Salesiana. Impressos para uso pessoal em San Benigno Canavese ou em Turim-

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Dom Bosco: história e carisma 1

Os 40 primeiros volumes dos Documenti contêm material distribuído cronolo-


gicamente ao longo dos anos 1815-1890. A eles acrescentaram-se outros qua-
tro volumes que recolhiam material adicional abrangendo o mesmo período.
O último volume contém material relativo ao conflito entre Dom Bosco e o
arcebispo de Turim, dom Gastaldi.
Ao longo do tempo foram acrescentados outros materiais, pois cada pá-
gina contém apenas uma coluna, impressa separadamente e unida à página
em branco da folha de registro. Esta coluna, com apenas seis centímetros de
largura, deixa grande espaço para acréscimos posteriores, anotações, recortes
de periódicos, artigos de revistas etc. Com o tempo, alguns destes volumes
assumiram o aspecto de um álbum de recortes.
Lemoyne afirmava no prefácio dos Documenti:

Escrevi a história do nosso amantíssimo pai Dom Bosco. Não creio que
tenha existido homem algum que mais amou a juventude e fosse amado
por ela. Reuni, não só tesouros admiráveis de fatos, palavras, trabalhos e
dons sobrenaturais como também incluí pequenos episódios que pode-
riam parecer sem importância, mas que, sem dúvida, ajudarão a formar
um juízo historicamente favorável sobre Dom Bosco e seu caráter. Não
omiti nada que me tenha chamado a atenção, já que tudo o que tivesse a
ver com ele era-me carinhosamente querido. São recortes de um álbum,
talvez desordenado; contudo, um índice ajudará sua consulta. Algumas
notícias são repetidas. As provas tipográficas não foram corrigidas ade-
quadamente. Isso se deve ao enorme trabalho de buscar e organizar os
documentos e atende, ao mesmo tempo, às ocupações que a obediência
ou a necessidade me impuseram. O tempo era essencial. Algumas passa-
gens careciam de correção crítica, especialmente aquelas que se referem
aos sonhos de Dom Bosco ou às predições sobre o futuro; porque se tem
a impressão de que a sua modéstia lhes deu certo relevo, ou talvez porque
não tenham sido corretamente entendidos por aqueles que conservaram
o relato ou a memória dos fatos. De minha parte, fiz constar com exa-
tidão o que muitos jovens, padres e seminaristas do Oratório deram-me
por escrito e o que eu mesmo vi e ouvi dos lábios de Dom Bosco. Acres-
centaria uma palavra de advertência. Estas provas tipográficas não são
mais do que um manuscrito, uma lembrança pessoal. Nelas, refiro-me a
muitas pessoas pelo nome, com a finalidade de estabelecer o caráter efe-

-Valdocco, a partir de 1885: ASC A 006-007: Chronachette-Lemoyne-Doc, FDB 966 A8 - 1.201 C12.
Os volumes estão encadernados com tecido preto, com o título em dourado no dorso.

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A tradição biográfica de Dom Bosco

tivo dos fatos da história. Entretanto, proíbo absolutamente a publicação


desses nomes [...]. Trabalhei nesta obra por amor a Dom Bosco, aos meus
irmãos e aos nossos jovens. Estes volumes contêm o próprio espírito de
Dom Bosco, o seu coração, o seu método de educação, e só Deus sabe o
que me custou. Por conseguinte, peço aos meus irmãos que lerem estas
páginas que se lembrem de mim diante do altar de Maria Auxiliadora dos
cristãos e peçam pelo descanso eterno de minha alma.24

Destas palavras, como do título, brota a conclusão de que Lemoyne pre-


parava este trabalho como passagem intermédia que servisse de base, a ele e
aos seus eventuais sucessores, para uma biografia de Dom Bosco que tomaria
a forma das Memórias Biográficas.

As Memórias Biográficas: a etapa de Lemoyne


Lemoyne começou a impressão reservada dos Documenti por volta de
1885. À sua morte, em 1916, a série inteira de 45 volumes estava completa.
Após a morte de Dom Bosco, em 31 de janeiro de 1888, Lemoyne exa-
minou os papéis do Santo, descobrindo mais documentos originais. Fizeram-
-se pesquisas, não exaustivas, em diversos lugares relacionados à vida de Dom
Bosco e de sua obra. Padre Rua pediu aos irmãos que enviassem qualquer
material sobre Dom Bosco que pudessem obter diretamente ou de testemu-
nhas oculares.
Para reunir todo o material adicional à disposição, os Documenti pre-
cisariam ser reeditados ou, então, acrescentar novos volumes. Além disso,
aconteciam mudanças sociais e institucionais no interior da Congregação
Salesiana. Com a morte do Fundador, a conservação e a transmissão do seu
espírito converteram-se na prioridade mais importante da primeira década
do reitorado do padre Rua (1888-1910). Lemoyne não demorou a perceber
essa alteração e adequar-se a ela. Nesse contexto, ele passou do seu propó-
sito original de criar um depósito de documentos para os futuros biógrafos
(os seus Documenti) ao projeto das Memórias Biográficas, certamente com
o consentimento do padre Rua. Reelaborando o trabalho e acrescentando
novos materiais aos Documenti, começou a trabalhar numa ampla narrativa
biográfica escrita em ordem cronológica e amplamente documentada. O tra-
balho é, na verdade, um repertório, uma compilação organizada em forma
de narração continuada que apresenta uma “interpretação” coerente da vida,
obra e espírito do Fundador.

24
Documenti I, 1, FDB 966 A 10.

47

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Dom Bosco: história e carisma 1

Os primeiros 8 volumes das Memórias Biográficas apareceram entre 1892


e 1912. Apesar da saúde precária, Lemoyne continuou a trabalhar no seu
projeto até a morte, em 1916. O volume IX foi publicado depois da sua mor-
te, em 1917. Por sua vez, o volume X, que recebera de Lemoyne sua forma
original, foi confiado ao padre Ângelo Amadei, mas a publicação foi adiada
por muitos anos.

As Memórias Biográficas: a etapa Amadei-Ceria


São muitas as razões que explicam o pouco êxito e a demora dessa
publicação: o trabalho de Amadei no Boletim Salesiano, sua pesquisa para
escrever uma biografia do padre Rua, seus numerosos trabalhos sacerdo-
tais, seu modo de trabalhar reflexivo e meticuloso e, de modo especial, o
fato de o volume X abranger os anos mais difíceis e controvertidos da vida
e da obra de Dom Bosco (1871-1874).25 Além disso, Amadei serve-se de
materiais de arquivo e outros documentos de maior alcance que os Docu-
menti de Lemoyne e o projeto inicial. O material de Lemoyne foi comple-
tamente refundido e dotado de uma reorganização temática. Decorre daí
que o volume perdesse sua organização cronológica linear e o encanto da
“história” de Lemoyne.
A publicação das Memórias Biográficas, então, foi descontínua após
a morte de Lemoyne, para grande decepção dos Salesianos do mundo
todo. Nos dias da beatificação de Dom Bosco (1929) essa decepção con-
verteu-se em impaciência, e os pedidos de continuação do trabalho não
podiam ser desatendidos por mais tempo. Por isso, o Reitor-Mor, padre
Felipe Rinaldi, nomeou padre Eugênio Ceria para continuar a obra. Ce-
ria trabalhou com diligência ao longo da década de 1930 e completou
um volume a cada ano, de 1930 a 1939 (volumes XI-XIX). Ampliou,
também, o material dos Documenti com muita documentação. E voltou
ao formato “histórico” cronológico de Lemoyne, com um estilo ameno
e fácil de ler.26
Mais tarde, em 1939, foi publicado o volume X, último a ser editado
dentro da série. Assim, a monumental empresa chegou à sua conclusão.

25
Cf. prefácio de Amadei: MB X, p. IV-VI.
26
Cf. Eugenio Valentini, “Don Ceria scrittore”, Salesianum 19 (1957), 325.

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A tradição biográfica de Dom Bosco

ESQUEMA DA PUBLICAÇÃO HISTÓRICA DAS


MEMÓRIAS BIOGRÁFICAS NA EDIÇÃO ORIGINAL ITALIANA

Autor Volume - Páginas Anos tratados Ano da publicação


Lemoyne I - 547 1815 - 1841 1898
Lemoyne II - 597 1841 - 1847 1901
Lemoyne III - 663 1847 - 1850 1903
Lemoyne IV - 766 1850 - 1853 1904
Lemoyne V - 953 1854 - 1857 1905
Lemoyne VI -1.102 1858 - 1861 1907
Lemoyne VII - 931 1862 - 1864 1909
Lemoyne VIII - 1.110 1865 - 1867 1912
Lemoyne IX -1.032 1868 - 1871 1917 (póstumo)
Amadei X - 1.387 1871 - 1874 1939
Ceria XI - 617 1875 1930
Ceria XII - 706 1876 1931
Ceria XIII – 1.010 1877 - 1878 1932
Ceria XIV - 849 1879 - 1880 1933
Ceria XV - 867 1881 - 1882 1934
Ceria XVI - 724 1883 1935
Ceria XVII - 902 1884 - 1885 1936
Ceria XVIII - 879 1886 - 1888 1937
Ceria XIX - 452 1888 - 1938 1939 (janeiro)
Total 16.094 páginas

Conclusão
O método dos biógrafos de Dom Bosco e o valor histórico das Memórias
Biográficas serão comentados a seguir. Aqui, basta dizer, como conclusão, que
Lemoyne e seus sucessores deram à luz uma história edificante e fiel para a
Família Salesiana. Foi assim que, sem exceção, os Salesianos que conheceram
Dom Bosco perceberam e reconheceram o trabalho de Lemoyne. Padre Albe-
ra, Reitor-Mor de 1910 a 1921, revisou pessoalmente as provas tipográficas
de Lemoyne antes da publicação, com exceção do volume VIII, que foi exa-
minado pelo padre Júlio Barberis.
A obra não é, absolutamente, uma biografia crítica. Por conseguinte,
uma nova geração de historiadores salesianos ocupou-se em colocar as ba-
ses dos conhecimentos críticos. Uma das finalidades dos estudos salesianos

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Dom Bosco: história e carisma 1

contemporâneos consiste em construir uma biografia completa de Dom


Bosco, de modo crítico e com rigor. A condição prévia é o exame crítico
consciencioso das fontes e dos escritos que nos foram legados pela tradição,
incluídas, com certeza, também as Memórias Biográficas.27
O Centro de Estudos Dom Bosco, criado pelo padre Pedro Stella na
Universidade Pontifícia Salesiana de Roma, e o Instituto Histórico Salesia-
no, fundado na Casa Geral de Roma, sob a direção de estudiosos salesianos,
deram significativas contribuições a este projeto. O Instituto Histórico Sale-
siano dedica-se, como indicado em seus estatutos, à edição crítica e ao estudo
de outros materiais de arquivo que no futuro possam servir como base para
uma biografia crítica completa. Francis Desramaut, do Centro de Estudos
Salesianos de Lyon, França, publicou sua mais importante pesquisa crítica
numa substanciosa biografia com cerca de 1.500 páginas.28 O melhor estudo,
porém, realizado até hoje sobre bases críticas foi feito por Pietro Braido em
sua magnífica obra: Dom Bosco padre dos jovens no século da liberdade, em dois
volumes respectivamente de 616 e 743 páginas.29
Embora tenha havido e haja opiniões diversas sobre a confiabilidade
histórica das Memórias Biográficas, esta obra, em seu conjunto, permanece
como ponto indispensável de referência.30

27
Cf. P. Braido, Perspectivas, 537-546.
28
Francis Desramaut, Don Bosco en son temps (1815-1888). Turim: Società Editrice Interna-
zionale, 1996.
29
Pietro Braido, Dom Bosco padre dos jovens no século da liberdade. São Paulo: Salesiana, 2008.
30
Notem-se os títulos seguintes sobre o tema. Em defesa de Lemoyne, veja-se Ceria, Prefácio a MB
XV, 5-12; Prefacio a MB XVIII, 8-10; e em “Carta ao Diretor do Estudantado Teológico de Bollengo sobre
o Valor das Memórias Biográficas”, Turim, 9 de março de 1953. Na mesma categoria está a mais extensa apo-
logia, de Guido Favini, Don G. B. Lemoyne, Salesiano di Don Bosco: biografo onesto (Primo grande biografo
di Don Bosco), Turim: Scuola Grafica Salesiana, 1874. Um breve estudo erudito sobre a mesma questão
serve de introdução à edição crítica do texto de 20 cartas de Lemoyne: Pietro Braido - Rogelio Arenal
Llata, “Don Giovanni Battista Lemoyne attraverso 20 lettere a don Michele Rua”, RSS 7 (1988), 87-170.

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Apêndice

BREVE CRÔNICA DA Historiografia DE DOM BOSCO31

Como qualquer outra literatura, é natural que também a que se refere a


Dom Bosco precisou submeter-se às leis da história e da vida, especialmente
à lei da evolução. Ao se querer fazer brevemente uma crônica da historiografia
salesiana devem-se assinalar três períodos.

1. O primeiro, e mais longo, é o período inicial (1860-1960), que


chegou ao seu apogeu com os escritos que apareceram na época da
beatificação e da canonização, tendo as Memórias Biográficas como
ponto de referência.
2. O segundo período, mais breve (1960-1982), surgido, pode-se
dizer, durante o imediato pós-Concílio Vaticano II, serviu para o
estudo e a reflexão da história salesiana dos critérios científicos
próprios do momento histórico. A produção do padre Pedro Stella
é, sem dúvida, o principal ponto de referência.
3. O último período (mais ou menos a partir de 1983) que, sem aban-
donar o critério científico da fase anterior, caracteriza-se pela gran-
de atenção dada à pesquisa e à edição crítica das fontes, realizadas
principalmente pelo Instituto Histórico Salesiano (ISS), de Roma.

1. A historiografia antiga, uma “narração histórica” (1860-1960)


Inspirada na leitura teológico-episódica e taumatúrgica da vida e da obra
de Dom Bosco, esta historiografia que se poderia definir como historiografia
analítica, narrativa, comemorativa, brotou da convicção, respeitável e funda-
mental, da importância decisiva da experiência salesiana, surgida e consolida-
da durante a vida do Fundador.

31
Este resumo foi tomado do artigo de F. Motto, Una breve introducción, 57-82.

51

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Dom Bosco: história e carisma 1

Viu a luz no mesmo ambiente de Valdocco, quando alguns jovens Sale-


sianos, convencidos de que “algo extraordinário” estava acontecendo diante
de seus olhos, constituíram-se, em 1860, numa “sociedade” para recolher e
controlar colegialmente tudo que se relacionasse com a vida e a atividade
de Dom Bosco: “Os grandes e luminosos dotes que resplandecem em Dom
Bosco, os fatos extraordinários que aconteceram e que todos nós admiramos,
seu modo singular de dirigir a juventude pelo árduo caminho da virtude, os
grandes projetos futuros que ele demonstra estar cogitando revelam-nos que
há algo de sobrenatural nele e nos fazem pressagiar dias mais gloriosos para
ele e para o Oratório. Isso nos impõe como dever de gratidão a obrigação de
impedir que venha a cair no esquecimento tudo o que se relacione com Dom
Bosco, e fazer o que estiver ao nosso alcance para conservar sua memória, de
forma que resplandeça como raio de luz e ilumine o mundo todo para o bem
da juventude. Esse é o objetivo da sociedade que nós criamos”.32 Eles também
queriam documentar-se o mais possível sobre os acontecimentos do passado,
dos quais, evidentemente, não podiam ser testemunhas presenciais.
A sociedade, embora iniciada sob a direção do padre Rua, teve vida
curta. Sob sua orientação, porém, surgiram crônicas, memorandos, anais,
recordações, declarações redigidas pelas próprias “testemunhas”. São as “cro-
nachette” (pequenas crônicas), conservadas no Arquivo Salesiano Central, e
que confluíram depois nas Memórias Biográficas; nelas, o aspecto do “extraor-
dinário” incidiu muito na seleção e na coleta do material documental, acom-
panhando Dom Bosco, que também acentuava este aspecto nas Memórias do
Oratório escritas por ele na década de 1870.
Ao lado desses manuscritos, vivendo ainda Dom Bosco, surgiram outras
publicações, das quais se falará mais adiante, como as de Carlo d’Espiney,
Alberto Du Boÿs, João Bonetti, Jacques-Melchior Villefranche, João Batista
Lemoyne etc. Seguiram-se depois os Documenti recolhidos por Lemoyne e
as Memórias Biográficas, a cargo de três conhecidos compiladores: Lemoyne,
Amadei e Ceria.
Enquanto isso, o Boletim Salesiano, publicado em várias línguas, conti-
nuava a apresentar de forma entusiasta a atividade de Dom Bosco e dos Sa-
lesianos. Dom Bosco era sempre proclamado “um prodígio do século XIX”,
“um dos raros homens que a Providência dá à Igreja ao longo dos séculos”...
Admirava-se seu poder de iniciador de um movimento que, em todas as
partes e situações, em todos os contextos e sob todos os céus, continuava a
expandir-se a serviço da obra juvenil ou popular. Os Salesianos do mundo
inteiro sentiam-se instrumentos de um vasto programa concebido por Dom
32
ASC A008: Cronaca Ruffino 1861-1864, 1-3.

52

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Bosco e abençoado pelo Céu. Dom Bosco era celebrado, admirado e amado
nos passos de Salesianos simpáticos, competentes, dotados para o trabalho
missionário com os mais humildes.
Estudiosos de sociologia, pedagogia e ciências históricas foram se inte-
ressando, embora lentamente, pelo fenômeno Dom Bosco durante os anos
entre as duas grandes guerras. O educador de Turim era admirado por reno-
mados estudiosos como Salvemini,33 como apóstolo da caridade, expressão da
“Itália mística”. Por ocasião da canonização em pleno período fascista, a figu-
ra do “mais italiano dos santos e o mais santo dos italianos” foi instrumen-
talizada politicamente. Com a inserção de Dom Bosco entre os pedagogos
católicos propostos na escola, iniciou-se nessa época uma notável literatura
histórica e pedagógica, mas que durou apenas cerca de trinta anos. Ao mesmo
tempo, pedagogos estrangeiros, sobretudo na Alemanha, interessaram-se pela
pedagogia salesiana e contribuíram com exposições teóricas independentes,
que nada tinham a ver com as contingências nacionais, com as leituras con-
fessionais ou com as instrumentalizações fascistas.

Um juízo de valor
Até a década de 1950, os esquemas históricos mais comuns na menta-
lidade dos Salesianos eram os que dependiam do documento, valioso sem
dúvida, das Memórias do Oratório. Dom Bosco era apresentado como “ins-
trumento do Senhor, segundo as necessidades do seu tempo”, em favor da
juventude pobre e abandonada. “Desígnios da Providência, caminhos do
Senhor, sonhos proféticos”: tudo era visto a partir dessa ótica. Na trilha dos
documentos de Valdocco, cheios de pathos, particularmente sensíveis ao fas-
cínio do personagem, embora preocupados com a objetividade histórica, a
maior parte dos escritos sobre Dom Bosco e as “vidas” de outros Salesianos
(Rua, Cagliero, Albera etc.) colocou-se entre a crônica pormenorizada e as
intervenções miraculosas, entre os dons da graça e sua correspondência. A
expansão da obra salesiana pelo mundo era sinal evidente da bênção de Deus
sobre a Congregação.
A figura de Dom Bosco teve enorme ressonância no mundo inteiro a par-
tir da década de 1920 e, sobretudo, depois da apoteose da canonização na
basílica de São Pedro, em 1934. Dado o tom dominante de aclamação do per-
sonagem, caiu-se em ilusões óticas que converteram Dom Bosco no inicia-
dor dos Oratórios de Turim, inventor da escola noturna, primeiro divulgador
do sistema métrico decimal, primeiro autor de contratos para aprendizes etc.

33
G. Salvemini, Lezioni di Harvard. Milão: Feltrinelli, 1966.

53

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Dom Bosco: história e carisma 1

Chegou-se a criar o mito de Dom Bosco precursor de tudo, que soubera “criar”
tudo do nada.
Por outro lado, convertido em “figura legendária”, Dom Bosco foi con-
siderado, com justiça, um santo popular; aumentaram as práticas de devoção
entre as classes populares, pois ele era recebido como personagem e aconteci-
mento significativos. Em meio ao otimismo dos últimos decênios do século
XIX e os primeiros do século XX, os católicos, conscientes de suas forças e
da eficácia de suas intervenções, viram em Dom Bosco um precursor de suas
atuações. Além disso, a literatura “dombosquiana” do tempo oferecia docu-
mentos históricos de notável valor, embora não só porque alimentada pelo
conhecimento direto de Dom Bosco.
Há que se reconhecer a honestidade a toda prova dos primeiros bió-
grafos ou compiladores de memórias, pelo rigor e o cuidado que tiveram de
transmitir à geração seguinte tudo o que tinham como “verdadeira” história
de Dom Bosco.
Dito isto, deve-se acrescentar ainda que não se tratava de uma “história”,
nem como esta era entendida no final do século XIX, historiografia positi-
vista e historicista, nem, muito menos, como se entende hoje. O fascínio
do personagem levara a negligenciar a realidade do ambiente em que vivera
Dom Bosco, as forças vivas e operantes do seu tempo, o contexto em que
estivera inserido como iniciador, organizador e gerador de obras, muitas vezes
já existentes ou em vias de realização também por outros.
Única voz fora do compasso foi a de um estudioso salesiano, padre
Borino que, poucos anos depois da canonização de Dom Bosco, criticou
a apresentação do Santo em chave exclusivamente episódica, taumatúrgica,
teológica, edificante, como “colcha de retalhos de memórias” ou, pior ainda,
predominantemente retórica. Ansiava-se pelo surgimento de um “afortunado
autor” que pudesse ter a tríplice fortuna de “uma completa informação, uma
plena liberdade para escrever e certa sensibilidade artística: a arte de saber
imaginar bem e saber escrever bem”.34

2. A nova historiografia salesiana (1960...)


As gerações de novos Salesianos começaram a manifestar na década de 1950
uma viva inquietação quanto à literatura hagiográfica do passado. Ressentia-se da
falta de um estudo do Fundador que não pretendesse tanto a edificação do leitor,
quanto a veracidade da figura de um homem santo em todos os seus múltiplos
34
G. B. Borino, Don Bosco, sei scritti e un modo di vedere. Turim, 1938.

54

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A tradição biográfica de Dom Bosco

aspectos. Ou seja, sentia-se a necessidade de promover a revisão da história de Dom


Bosco, que fosse filologicamente atenta, endossada pelas fontes e feita historica-
mente segundo uma metodologia atualizada. Os estudantes salesianos de Bollengo
começaram a questionar o valor histórico das Memórias Biográficas. Perguntava-se
se o padre Lemoyne não teria sido mais um novelista histórico do que um bió-
grafo; se muitos fatos poderiam resistir a uma crítica rigorosa; se Dom Bosco, em
suas Memórias, não teria acrescentado ou modificado alguns acontecimentos com
motivação pedagógica; se os volumes das Memórias Biográficas, escritos pelo padre
Lemoyne, também os preparados pelo padre Ceria, eram plenamente históricos e
não só encomiásticos e laudatórios. O velho padre Ceria precisou empenhar-se a
fundo para responder em seu nome e no de seus “colegas”, mas sem pleno sucesso.
Estudiosos sérios e bem formados nas ciências históricas se perguntavam
que sentido tiveram algumas ideias de Dom Bosco no contexto em que surgi-
ram e qual o significado delas nos anos do Concílio. Como qualquer conceito
histórico, também as ideias e realizações de Dom Bosco relacionavam-se com
o ambiente sociocultural em que surgiram e, embora mantivessem para os
Salesianos um “núcleo” válido constante, era preciso “interpretá-las”, expres-
sando-as em linguagem nova, “moderna”.
Os espíritos mais críticos dos inícios da década de 1960 começaram a
ver clara uma dualidade de elementos: o elemento substancial/permanente e
o elemento relativo/variável, ambos necessariamente presentes no “carisma”
de Dom Bosco. Ao longo de décadas, os Salesianos e também seus historia-
dores, conservaram mesclados o relativo e o essencial. Seria preciso rever a
leitura de Dom Bosco em sintonia com a acelerada evolução dos ambientes
socioculturais, pois a distância cultural em relação aos tempos de Dom Bosco
aumentava sempre mais.
Impunha-se a consciência de se ter uma melhor definição da própria
figura histórica de Dom Bosco segundo os novos critérios historiográficos.
Já não era aceitável um Dom Bosco “ilha” no “mar” do seu tempo; a fim de
entendê-lo em profundidade, seria preciso examinar com atenção a maneira
como ele vivera concretamente suas convicções, seus valores, sob quais in-
fluências ele trabalhara, quais as reações coletivas e pessoais produzidas com
sua atuação. Em outras palavras, seria preciso conferir suas ideias e estruturas
mentais em relação aos diversos níveis da sua vida e ação.
A leitura teológica das fontes devia ser completada com a social, eco-
nômica e política, e conduzida com métodos adequados. Não era possível
explicar Dom Bosco por inteiro só com a intervenção sobrenatural; seria pre-
ciso levar em conta também os elementos e fatores naturais, como a explosão
demográfica, a industrialização incipiente, a mortalidade precoce que deixava

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Dom Bosco: história e carisma 1

muitos órfãos, o abandono dos filhos pelos pais devido ao trabalho, as classes
emergentes, o aumento do clero, a demanda do emprego juvenil..., todos “fa-
tos” que não podiam ser levados adequadamente em consideração até então.
Enfim, a historiografia devia situar Dom Bosco num quadro complexo, mais
amplo daquele no qual havia sido proposto até o momento.
O novo clima cultural do final da década de 1960, mediante avaliações,
orientações e instrumentos modernos de pesquisa, compartilhados com a
mais séria ciência historiográfica, levou ao aprofundamento do conhecimen-
to de Dom Bosco e do patrimônio herdado, individualizou-se o significado
histórico do personagem e da sua mensagem e foram identificados os inevitá-
veis limites pessoais, culturais, institucionais que, de forma quase paradoxal,
simbolizaram (e ainda simbolizam) as condições de vitalidade no presente e
no futuro.
Uma nova historiografia veio a surgir, então, graças a alguns estudos
decisivos, sobretudo de Francis Desramaut, para a pesquisa filológica e lite-
rária das Memórias Biográficas, de Pietro Braido, para a dimensão educativa
(Roma, 1964), e de Pietro Stella, para a reinterpretação global do persona-
gem.35 A historiografia precedente, fruto delicado de um momento histórico,
a ser respeitada e utilizada, era considerada como um entre muitos outros
materiais à disposição do historiador para voltar a repensar os fatos e inter-
pretá-los segundo os métodos em voga no mundo científico daqueles anos.36

Um juízo de valor
A “nova historiografia”, superando brilhantemente os limites da histo-
riografia anterior, libertou Dom Bosco dos angustos limites da esfera salesiana
de referência introduzindo-o no circuito da comunidade dos pesquisadores,
eclesiásticos e civis. A reconstrução histórica do personagem Dom Bosco, da
sua atuação entre os homens do seu tempo, com as qualidades e limitações
pessoais e no interior das coordenadas socioculturais e políticas do tempo,
reproduziram suas dimensões humanas e cristãs, oferecendo uma imagem
mais completa e mais verossímil: um santo, filho do seu tempo, ao qual deu
muito, mas do qual também recebeu muito.

35
P. Stella, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica, 3 vols. Roma: LAS, 1969-1988; id.
Don Bosco nella storia economica e sociale 1815-1870. Roma: LAS, 1980.
36
É sintomático que os estudos pioneiros de P. Stella, incluído no título, tenham preferido não
apresentar o protagonista como “poderoso e solitário”, mas em seu contexto preciso, colocando-se
assim nos antípodas dos critérios adotados pelo padre Ceria, que escrevia: “Antes de tudo, renunciei a
qualquer veleidade de enquadrar a vida do Beato no cenário dos tempos que foram os seus” (MB XI, 7).

56

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Entretanto, os resultados da nova historiografia encontraram e continu-


am a encontrar não poucos obstáculos para serem aceitos dentro do ambiente
salesiano e fora dele. Não faltou quem falasse de demitização do santo educa-
dor, de um perigoso questionamento dos episódios com maior carga de sim-
bolismo salesiano, de reducionismo da “nova historiografia”, uma vez que, a
seu juízo, prescinde da santidade de Dom Bosco e do seu carisma fundacio-
nal. Não é fácil, certamente, mudar de mentalidade quem cresceu à sombra
das míticas Memórias Biográficas, ou, o que é pior, de uma hagiografia adoci-
cada e de sensacionalismo milagreiro, de biografias edificantes carregadas de
sagrados malefícios e excessivamente indulgentes com o extraordinário.
Tratava-se, porém, de um caminho sem volta. Por isso, na década de
1980, o Capítulo Geral decidiu pela fundação do Instituto Histórico Sale-
siano que, continuando os passos da historiografia precedente, continuasse a
disponibilizar os documentos do rico patrimônio espiritual deixado por Dom
Bosco e ampliado pelos seus continuadores de forma ideal e tecnicamente vá-
lida, e promovesse de forma mais congruente o seu estudo, comprovação e
difusão, mediante várias coleções: Fontes, Estudos, Bibliografia.

3. As edições críticas das fontes e da história da


Congregação (1982...)
Ponto de partida e exigência inevitável de qualquer estudo crítico é, sem
dúvida, a disponibilidade de fontes, apresentadas na maneira mais correta e
confiável possível, depuradas de erros de interpretação e distorções involun-
tárias que, concretamente, são frequentes em obras narrativas hagiográficas.
A partir de 1960, a melhor historiografia conseguira superar o que, à
primeira vista, as fontes ofereciam à leitura superficial, mas não pudera fazer
a revisão dos documentos, ainda não disponíveis em edições críticas. Não é
casual que os estudos históricos mais consistentes e válidos dos últimos vinte
anos sejam obra de pesquisadores que trabalharam longamente sobre docu-
mentos originais conservados nos arquivos de Turim e de Roma.
Nesse sentido, havia muito a caminhar. Tratava-se de recuperar o maior
número possível de fontes, não só conservadas no Arquivo Salesiano Cen-
tral de Roma, como em muitos outros arquivos. Atualmente, a classificação
e reorganização dos arquivos periféricos salesianos, a consulta aos arquivos
públicos e privados, que se tornou possível pela colocação à disposição de in-
ventários e repertórios impressos ou digitalizados, a maior disponibilidade de
pessoal, salesiano ou não, para trabalhar no setor das edições críticas permitiu

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Dom Bosco: história e carisma 1

um notável enriquecimento das fontes para a pesquisa historiográfica; esta,


graças também aos modernos instrumentos de comunicação e reprodução,
tornou-se mais acessível hoje do que no passado, mesmo recente.
Já estão à disposição de todos na forma impressa, e muitos também
on-line, quase todos os principais escritos pedagógicos e espirituais de Dom
Bosco em edições críticas, garantidos em sua autenticidade e valor, permi-
tindo a indispensável e, às vezes, também sofisticada análise filológica. Esse
material todo, recuperado há pouco ou muito tempo, e escrupulosamente
apresentado agora, permite pesquisas de grande valor e originalidade.
A historiografia salesiana não se deteve em Dom Bosco, mas estendeu-
-se ao estudo do ambiente, dos Salesianos que trabalharam com ele, da sua
formação, da sua correspondência epistolar com o Fundador. Foram publi-
cados os epistolários de Dom Bosco, do arcebispo Fransoni, dos missionários
padres Francisco Bodrato, Domingos Tomatis e Luís Lasagna, dos visitadores
na América, padres Paulo Albera e Calógero Gusmano, além das circulares e
dos programas do padre Francisco Cerrutti.
Deve-se assinalar, juntamente com o Instituto Histórico Salesiano de
Roma, a importância da ACSSA (Associação dos Cultores de História Sa-
lesiana), que atua no mundo todo e, com sensibilidade histórica, tem pro-
movido interessantes estudos através de congressos e seminários celebrados
periodicamente, cujas atas são recolhidas em volumes e nas coleções mantidas
por essa Associação.

Sem retorno..., para o futuro


Mais de quarenta anos depois do Concílio, deve-se aceitar, em primeiro
lugar, que a pesquisa histórica e crítica da experiência humana e espiritual
de Dom Bosco, embora com limites, fez progressos notáveis no intento de
mostrar a verdadeira face de Dom Bosco e sua real grandeza de homem, de
educador, de promotor de inúmeras obras a serviço dos jovens e das classes
populares, de santo.
É também lógico não ter sentido conferencistas, hagiógrafos, pregadores,
escritores, periodistas, superiores, capítulos gerais e inspetoriais continuarem
a se servir de textos não comprovados criticamente, às vezes inseguros, muitas
vezes retocados e interpolados. Quem o faz cai em leviandades, enganos ou
falsas atribuições que se acreditava já superadas há tempo.
À luz dos estudos dos últimos cinquenta anos, deveria ser evidente a
todos que a fidelidade a Dom Bosco é algo muito diferente da constan-
te citação de episódios das Memórias Biográficas, sem diligências culturais

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A tradição biográfica de Dom Bosco

intensas e preventivas. As legendas áureas de Dom Bosco devem dar lugar


à pesquisa científica, que não só não é um obstáculo ao conhecimento de
Dom Bosco, mas, muito mais, ajuda a descobrir, para fazê-la nossa, a tensão
que ele viveu entre o ideal e a realização, entre o sentido do moderno que
ele intuiu e a encarnação dessa intuição no tecido social em que precisou
trabalhar. O próprio Reitor-Mor, padre Pascual Chávez, percebeu o perigo
da difusão de uma imagem de Dom Bosco na Congregação segundo lugares
comuns, episódicos, e pediu repetidamente aos Salesianos que o conheçam
como mestre de vida, fundador, educador, legislador.37
A figura poliédrica de Dom Bosco deve ser repensada e, sobretudo, ree-
laborada segundo os modelos cognoscitivos utilizados atualmente; há que se
revisitá-la continuamente, mediante metodologias sempre mais perspicazes e
atualizadas no contexto da história, recorrendo também às ciências hoje dispo-
níveis, como a antropologia cultural, a pedagogia, a sociologia, a economia etc.
A história caminha, e o mesmo acontece com a historiografia. Cabe à
Família Salesiana atualizar seus membros no desenvolvimento da historiogra-
fia “dombosquiana” e contribuir, dessa forma, para ampliar os horizontes de
compreensão com o estudo dos personagens de primeiro plano que o ajuda-
ram em sua ação fundacional ou estenderam a sua obra nos diversos países
ou ambientes; diga-se o mesmo da história das obras salesianas surgidas sob o
impulso do carisma salesiano.
Cabe aos estudantes de “salesianidade” preparar-se com instrumentos
novos e adequados para a compreensão correta do patrimônio documental
que herdaram e oferecer a todos uma rigorosa imagem histórica de Dom
Bosco e da sua obra e, principalmente, uma versão carregada de propostas e
questionamentos, que correspondam à nossa bagagem científica e, em espe-
cial, às interpelações da cultura emergente em cada momento histórico.

NOTAS BIOGRÁFICAS DOS AUTORES DAS


MEMÓRIAS BIOGRÁFICAS

João Batista Lemoyne (1839-1916)38

37
Pascual Chávez, “‘Da mihi animas, cetera tolle’: Identidade carismática e paixão apostólica”,
ACG 394 (2006).
38
Ainda não foi escrita uma crítica biográfica séria sobre Lemoyne. Podem-se ver: Eugenio Ceria,
Don G. B. Lemoyne, em Profili dei Capitolari Salesiani morti dal 1865 al 1950, Colle Don Bosco (Asti):
LDC, 1952, 382-400; Lemoyne, Giovanni Battista, em Dizionario Biografico dei Salesiani, 166ss.; P.
Braido; R. Arenal Llata, Lemoyne, 87-170 (resumo crítico); F. Desramaut, Memorie, 29-46.

59

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Dom Bosco: história e carisma 1

Primeiros anos
João Batista Lemoyne nasceu em Gênova, Itália, em 2 de fevereiro de
1839; era o mais velho dos seis filhos de Luís, médico de certo nível, e da
condessa Ângela Prasca. A família provinha de Châlons-sur-Marne, França,
de onde fugira havia duas gerações, antes do início do Reino do Terror, e
vivia em situação tranquila. Luís Lemoyne, além de manter uma rica clien-
tela, ocupava posições importantes na medicina, primeiramente na cidade e,
depois, no restante da província de Gênova.
Não se sabe muito da infância e juventude de João Batista ou de sua vida
familiar e educação dos primeiros anos. O pouco que se sabe encontra-se, so-
bretudo, em cartas familiares que chegaram até nós entre seus documentos pes-
soais. Parece que manteve estreita relação com os irmãos Vicente e Inácio, e que
gostava muito da irmã, Maria Bianca. Contudo, três pessoas teriam exercido, de
maneira particular, uma influência maior em sua infância: a avó, a mãe e o pai.
O ambiente cultural do entorno da família Lemoyne serviu de estímulo a
João Batista através dos estudos primários e secundários. Em 1856-1857, aos 17 e
18 anos, concluiu brilhantemente o Bacharelado e o Magistério (o que equivalia,
aproximadamente, ao grau universitário e ao diploma de professor). Não demorou
muito para vestir o hábito clerical e pedir para entrar no seminário de Gênova.

A formação do seminário e a ordenação sacerdotal


Parece que os cinco anos de teologia no seminário (1857-1862) foram
uma experiência ambígua para ele. Diversamente dos seminários do Piemon-
te, o de Gênova mantinha-se mais na tradição benigna em relação à teologia
e à prática pastoral. Presumimos, por isso, que João Lemoyne, ao contrário de
Dom Bosco, não precisou superar grandes preconceitos rigoristas. Não obs-
tante, parece ter sentido a disciplina do seminário excessivamente restritiva.
Numa anotação do diário de 18 de outubro de 1860, ele fala de pequenas
regras sem importância “promulgadas” pelo Reitor.
Recém-ordenado padre, pensava ingressar numa congregação religiosa,
do que desistira. Escreve numa memória pessoal: “Agora que deixei o semi-
nário e consegui minha liberdade (embora admita ter passado alguns anos
felizes) acreditas que vou encerrar-me outra vez entre quatro paredes?”.39
Como seminarista, João Batista Lemoyne foi modelo exemplar de di-
ligência e piedade, e viveu sua vida espiritual de maneira profunda, embora

39
ASC A006-A007 Cronachette, Lemoyne, “Nell’autunno del 1864”, 1, em FDB 947 B5. Contudo,
depois de se unir a Dom Bosco, suas cartas tornaram-se líricas sobre a vida do Oratório.

60

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A tradição biográfica de Dom Bosco

com certa acentuação peculiar. Testemunham-no os propósitos tomados an-


tes da ordenação do subdiaconato, em 16 de março de 1862:

Viva Maria! Querida mãe, rogo-te que abençoes estes propósitos. (1) Prometo
manter-me casto até meu último respiro. (2) Recitarei o ofício divino pro-
nunciando as palavras com clareza e distinção. (3) Aplicar-me-ei ao estudo e
não ocuparei o tempo com coisas inúteis. (4) Cumprirei com fidelidade todos
os meus deveres de subdiácono. (5) Amarei a Jesus como o meu amigo mais
íntimo. (6) Farei tudo para a glória de Deus. (7) Trabalharei intensamente
na vinha do Senhor. (8) Testemunharei que sou servo do meu Senhor Jesus
Cristo pelo modo de vestir, atuar, falar e caminhar.
Ó Maria, Vós me concedestes muitas graças, Vós vistes claramente minhas
batalhas! Ó, se pudesse levar adiante uma vida santa e jamais consentir num
pecado venial! Ó Maria, peço-vos que me obtenhais de Deus esta graça. Sei
que a obtereis para mim, porque fostes uma mãe para mim. Viva Maria! Viva
Jesus! Viva Pio IX! Teu humilde filho J. B. Lemoyne, que está para ser ordena-
do subdiácono, e pede que lhe alcances todas as graças de Deus.40

Sem dúvida, estas palavras revelam uma profunda vida espiritual, com
intensa orientação mariana. Entende-se sua devoção ao Papa e ao papado
particularmente no contexto da unificação da Itália (1861), obtida, em parte,
pela invasão e anexação dos Estados Pontifícios.
Reflete, de forma geral, a mentalidade conservadora que adquirira da
tradição e educação familiar. A família de Lemoyne era conservadora, o que
se compreende pela sua história e situação social. Desde a infância, porém,
João Batista também vivera as experiências da revolução liberal; e a rigorosa
educação católica devia ter contribuído para o sentimento de solidariedade
com o Papa, a quem os liberais, especialmente os republicanos, atacavam com
particular virulência. Os pontos de vista conservadores de Lemoyne foram se
arraigando mais profundamente com a evolução inexorável da revolução e,
em última instância, manifestam-se em sua obra de biógrafo e historiador.
Em comentários espalhados cá e acolá nos 9 volumes das Memórias Biográfi-
cas escritos por ele, encontram-se repetidamente censuras não só aos excessos
como também ao próprio fato da revolução liberal e do seu programa.
Lemoyne foi ordenado padre em 14 de junho de 1862. Não nos restou
nenhuma recordação de como passou os primeiros anos de padre antes de

40
Documento de arquivo citado em F. Desramaut, Memorie, 32, nota 19. [Nota do tradutor: a
mudança de tratamento consta do original].

61

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Dom Bosco: história e carisma 1

se encontrar com Dom Bosco em fins de 1864. Normalmente, os padres


novos passavam os dois primeiros anos de sacerdócio assistindo conferências
morais e de teologia pastoral para preparar-se ao ministério, especialmente das
confissões, enquanto ajudavam em alguma paróquia. Não há razão para supor
que o padre Lemoyne fosse uma exceção. Tem maior relevância o fato de ele ter
considerado nesse período a entrada em alguma ordem religiosa, embora não
soubesse por qual decidir-se. Durante esse tempo, ele estava em pleno discerni-
mento vocacional: para o que Deus o estava chamando, agora que já era padre?

Encontro com Dom Bosco. Decisão vocacional


Temos o testemunho pessoal de Lemoyne sobre seu encontro com Dom
Bosco e como ficou com ele; nesse encontro, ele se refere a si mesmo em
terceira pessoa, como um “jovem padre”. Dom Bosco percorria o sul do Pie-
monte e a Ligúria com um grupo numeroso de meninos, naquele que parecia
ser o último passeio de outono. As Memórias Biográficas apresentam uma
narração detalhada das várias etapas da excursão que levou Dom Bosco e seus
meninos a Gênova.41 Retornando a casa, foram de Gênova a Mornese, onde
Dom Bosco se encontrou pela primeira vez com as Filhas de Maria Imacu-
lada e com Maria Mazzarello, sendo hóspede do padre Domingos Pestarino,
diretor espiritual das futuras irmãs.

No outono de 1864, um jovem padre procurava discernir a vontade de Deus


sobre o próprio futuro. Certo domingo à tarde, enquanto visitava a vila de
Belforte, foi rezar diante do altar de Nossa Senhora do Santo Rosário na igreja
do lugar. Pediu a Nossa Senhora que o fizesse conhecer sua vocação. No dia da
ordenação sacerdotal, um colega da turma de diaconato tinha-lhe perguntado
confidencialmente:
— Estás realmente feliz?
— Estou muito feliz —, respondeu o neossacerdote.
— Contudo, teu coração não está totalmente satisfeito, não é verdade?
— E por que não? Como sabes o que há em minha mente?
— Eu apenas sei que não nasceste para ser padre diocesano — replicou o amigo.
— Que diabos estás a dizer?
— Sê sincero contigo mesmo. No fundo, sentes que deves ser religioso, não
é verdade?

41
Sobre a excursão de outono de 1864, veja-se MB VII, 749-783.

62

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A tradição biográfica de Dom Bosco

— De fato, mas agora que recuperei minha liberdade, embora admita ter pas-
sado alguns anos felizes no seminário, crês que vou encerrar-me novamente
entre quatro paredes? Por outro lado, para ser inteiramente sincero contigo,
não é uma ordem religiosa que eu quero [...].
— Pois bem! Nossa Senhora gosta tanto de ti que, se nenhuma das ordens
religiosas chamar a tua atenção, ela haverá de te apresentar uma que te seja
adequada, uma com que te comprometerás; verás logo.
Passaram-se dois anos desde aquela conversa. E eis que pela manhã, depois
de rezar o Rosário para obter luzes de Nossa Senhora, um pouco adormecido
[aquele jovem padre], ouviu uma voz que sussurrava aos seus ouvidos:
— Vai a Lerma, e ali encontrarás Dom Bosco.
Quando despertou totalmente, aquelas mesmas palavras ressoavam em sua
mente. Ele jamais ouvira falar de Dom Bosco, exceto uma vez. Não conhecia
nenhum amigo de Dom Bosco naquela parte do país. Se o Papa visitasse aqueles
lugares, seria seguramente mais aguardado do que Dom Bosco, pois aqueles lu-
garejos eram muito afastados do caminho normal. Por isso, chamou três amigos
e relatou-lhes a estranha experiência. Eles responderam:
— Lerma está a apenas uma hora de caminho; podes ceder à tua vontade.
Foi então a Lerma com um de seus amigos, mas não se atrevendo a perguntar por
receio de parecer ridículo, indagou a um padre seu amigo se tinha ouvido algo re-
lacionado com Dom Bosco, de Turim. O padre respondeu-lhe que, recentemente,
não tinha ouvido nada, mas poderia perguntar ao pároco, que estava em contato
pessoal com o fundador do Oratório. Perguntaram, então, na casa do pároco e,
para surpresa, disseram-lhes que Dom Bosco visitaria Lerma dentro de oito dias. O
jovem padre pulou de alegria ao ouvir notícia tão admirável. Voltou para casa [em
Belforte] onde os outros amigos o esperavam no pátio do grande castelo. Rindo do
que acreditavam ser uma pilhéria muito engraçada, gritavam lá de cima:
— Então, Dom Bosco vem ou não vem?
— Vem, sim — ressoou a resposta lá de baixo.
Desceram correndo ao encontro dos amigos e não podiam acreditar que o so-
nho fosse realidade. No domingo seguinte, Dom Bosco chegou a Mornese. No
outro dia, depois da cerimônia religiosa da tarde, o pároco de Lerma, arcipreste
[Raimundo] Olivieri, e o jovem padre, que tinha sido seu hóspede naquela
ocasião durante alguns dias, foram a Mornese. O padre Pestarino pediu-lhes
que ficassem para o jantar. Antes que Dom Bosco pusesse os olhos sobre aquele
padre que o olhava com ansiedade, perguntou-lhe:
— Como te chamas?
O padre disse o seu nome.
— De onde vens?

63

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Dom Bosco: história e carisma 1

Disse-lhe de onde vinha.


— Bem, vem comigo a Turim — acrescentou Dom Bosco.
— Não me seria difícil, respondeu o jovem padre. Depois de conversar sobre
mais alguma coisa, puseram-se a jantar.
No dia seguinte, o grupo todo [Dom Bosco e seus meninos] apresentou-se
em Lerma, onde o arcipreste Olivieri organizara uma esplêndida recepção a
Dom Bosco. O jovem padre pôs-se a caminhar com Dom Bosco e, na hora
do almoço, o padre Olivieri colocou-o perto do homem de Deus. Com isso,
ele pôde falar do seu futuro e do Oratório de Turim, mas sem chegar a enten-
dimentos concretos, já que a conversa versou sobre os meios de salvaguardar
a juventude dos muitos perigos que a assediavam.
— Eu me sentiria muito feliz de ir a Turim com o senhor — disse o jovem
padre a Dom Bosco.
— E qual é o motivo para querer vir comigo?
— Para ajudá-lo em tudo o que puder.
— Não — respondeu Dom Bosco com firmeza —, a obra de Deus não
precisa da ajuda de nenhum homem.
— Eu irei e ajudarei no que o senhor mandar.
— Vem apenas com vistas ao bem da tua alma.
— Irei com essa condição — respondeu o padre.
De volta a Mornese, o padre fez novamente todo o trajeto a sós com Dom Bosco.
Pôde, assim, contar toda a sua vida passada e tudo o que tinha feito e pensado até
o momento presente. Foi o retorno mais satisfatório. No dia seguinte, pelo meio
do almoço, aproveitando um respiro na conversa, Dom Bosco falou de repente,
elevando a voz, de modo que todos o ouvissem. Disse ao jovem padre:
— Escreve ao teu pai e à tua mãe, informa-os da tua partida para Turim e da
tua decisão de ficar com Dom Bosco.
— Eu deveria comunicá-lo aos meus pais, evidentemente. Tenho por certo
que minha mãe daria o seu consentimento.
Dom Bosco não falou mais sobre o assunto. Na quarta-feira, contudo, an-
tes de partir para Capriata com seus jovens, despediu-se do jovem padre e
perguntou-lhe:
— Quando irás a Turim?
— Dentro de uma semana. Na próxima quarta-feira estarei lá — respondeu.
E cumpriu a sua promessa.42

ASC A006-007 Cronachette, Lemoyne, “Nell’autunno del 1864”, em FDB 947 B5 e 3. Este resu-
42

mo é correlato (com mais detalhes) com o testemunho em primeira pessoa dado no Processo. Há uma tercei-
ra narração do acontecimento nas Memórias Biográficas, mais curta, porém comovedora (MB VII, 768-769).

64

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Em 18 de outubro de 1864, padre Lemoyne chegou ao Oratório de


Valdocco, em Turim. E assim começou sua vida salesiana e sua profunda
devoção a Dom Bosco.

Um ano com Dom Bosco e a profissão perpétua


Quando Lemoyne entrou no Oratório, aos 25 anos de idade, os Sa-
lesianos eram cerca de 80, dos quais 11 padres e alguns irmãos. Os demais
eram “clérigos”, ou seja, seminaristas que estudavam para serem ordenados,
enquanto trabalhavam o dia todo na obra salesiana. Com exceção de Dom
Bosco, que tinha 49 anos, e do padre Vitório Alasonatti, que tinha 52 e en-
trara na Congregação cerca de dez anos antes, todos eles tinham menos de
30 anos. A Sociedade Salesiana, oficialmente fundada em 1859, obtivera o
decretum laudis [decreto de louvor da Santa Sé] em julho de 1864 e já tinha
fundado suas duas primeiras escolas fora de Turim: Mirabello (1863) e Lanzo
(1864). Em Valdocco, a igreja de Maria Auxiliadora dos cristãos estava co-
meçando a surgir de suas fundações. Dom Bosco já começara a ser uma “le-
genda”. Aumentava sempre mais a crença de que ele fosse dotado de poderes
extraordinários, não só entre seus filhos, mas também entre o povo. Jovens
Salesianos, como Domingos Ruffino e João Bonetti, uniram-se para fazer a
crônica das palavras admiráveis e dos feitos de Dom Bosco. Padre Lemoyne
ficou totalmente cativado.
Ainda não havia um lugar apropriado e nem um programa para o novi-
ciado. Padre Lemoyne fez sua formação, sua “prova”, trabalhando o dia todo
com os demais. A chamada década heroica tinha chegado ao fim nos anos de
1860, mas a vida no Oratório ainda era cheia de heroísmo no grau mais ele-
vado. Nenhum dos padres diocesanos que ocasionalmente se tinham unido
a Dom Bosco conseguiu suportar o difícil desenrolar da vida do Oratório.
Padre Alasonatti fora o primeiro; padre Lemoyne seria a segunda notável
exceção. Em seguida, ele foi enlaçado pelo lema “trabalho e temperança”.
Sentiu-se feliz e jamais olhou para trás.43
Pouco mais de um ano depois da sua entrada no Oratório, em 10 de
novembro de 1865, Lemoyne fez a profissão perpétua. Foi o primeiro a emi-
tir os votos perpétuos na Congregação, cinco dias antes dos Salesianos da
primeira hora, como Miguel Rua (1837-1910), João Cagliero (1838-1926),
João Batista Francesia (1838-1934), Carlos Ghivarello (1835-1913) e João

Em uma carta aos pais, de 24 de dezembro de 1864, escreve: “Sinto-me sempre mais feliz em
43

minha nova situação [...]. Estou extremamente ocupado e não tenho um só minuto para perder tempo;
trabalhamos e trabalhamos com todas as nossas energias [...]” [Carta de 24 de dezembro de 1864, ASC
B538: Lemoyne, citado em F. Desramaut, Memorie, 35, nota 37].

65

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Dom Bosco: história e carisma 1

Bonetti (1838-1891), que foram os membros fundadores da Congregação


em 1859 e estavam no grupo dos primeiros vinte e dois que fizeram votos
temporários em 1862.44

Diretor do colégio salesiano de Lanzo (1865-1877)


O motivo pelo qual padre Lemoyne professou antes dos demais se de-
veu à urgente necessidade de preencher o cargo de diretor do colégio sale-
siano de Lanzo, vacante pela morte improvisa do padre Domingos Ruffino,
primeiro diretor daquela obra. Lemoyne ocupou o cargo por doze anos, até
1877; o colégio prosperou sob a sua direção. A começar dos cursos elemen-
tares e de um modesto número de alunos, o programa do colégio foi-se am-
pliando até a escola média em 1868, com um aumento crescente dos alunos
nos anos sucessivos.
Até essa data — deve-se adverti-lo — Lemoyne passara apenas um ano
com Dom Bosco. Lanzo distava poucos quilômetros de Turim, por isso ele
costumava visitar Dom Bosco com frequência e, embora não fosse alvo de
qualquer censura ao tomar sozinho alguma decisão, sempre consultava Dom
Bosco sobre os problemas que surgiam. Este, por sua vez, não o perdia de
vista, atento à escola e à comunidade salesiana, e visitava-os com frequência.
Dessa forma, o padre Lemoyne pôde em sua permanência em Lanzo con-
tinuar a observar em primeira mão as palavras e os feitos de Dom Bosco,
atividade em que, com a colaboração dos outros Salesianos do Oratório, ele
se tinha envolvido desde o início.

Diretor espiritual local das Filhas de Maria Auxiliadora em Mornese


e em Nizza (1877-1883)
Em 1874, padre Tiago Costamagna foi nomeado diretor espiritual das
Filhas de Maria Auxiliadora em Mornese permanecendo três anos no cargo.45
Como pedira para ser missionário, convenceu o padre Lemoyne a apresentar-
-se como voluntário para aquele serviço. De fato, este foi nomeado diretor
espiritual local das Irmãs da Comunidade de Mornese, cargo que exerceu

44
Cf. MB VIII, 241, e MB VII, 160.
45
À morte do padre Pestarino (1874), Dom Bosco nomeou o padre José Cagliero (1847-1874)
para sucedê-lo como diretor espiritual local das Irmãs, mas este faleceu dois meses depois. Padre Tiago
Costamagna (1846-1921) foi, então, nomeado para substituí-lo. Em 1877, porém, ele foi chamado
a dirigir a terceira expedição missionária à América do Sul, onde se distinguiu como missionário e
superior salesiano e, enfim, como Vigário Apostólico de Méndez y Gualaquiza, no Equador. O cargo
de diretor espiritual local (na realidade, capelão) das Irmãs distinguia-se do de diretor espiritual geral.

66

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A tradição biográfica de Dom Bosco

até 1883. Após a difícil direção do padre Costamagna, chegou-se a grande


progresso espiritual e institucional sob o padre Lemoyne, devido ao seu trato
amável. Em princípios de 1879, ele dirigiu a transferência da Casa Mãe das
Filhas de Maria Auxiliadora para Nizza e, em 1881, assistiu Madre Mazza-
rello em sua última enfermidade e morte.
Padre Lemoyne, contudo, não se sentia feliz nesse cargo, pois estava
profundamente ligado aos meninos de Lanzo e agradava-lhe muitíssimo a
vida cheia de atividades do colégio. A dificuldade que tinha com a presença
feminina fez da longa permanência com as Irmãs uma espécie de tormento.
Ainda mais porque, sendo Mornese e Nizza mais distantes de Turim do
que Lanzo, ele se sentia “desterrado” de Dom Bosco e do Oratório. Como
consequência, as atividades de Lemoyne como cronista também sofreram
algum contratempo.

Secretário de Dom Bosco e do Capítulo Superior (1883-1916)


Em 1883, padre Luís Bussi foi nomeado diretor espiritual local das Ir-
mãs de Nizza, e Lemoyne, livre de suas muitas ocupações,46 foi chamado a
Valdocco como editor chefe do Boletim Salesiano e secretário do Capítulo
Superior. Conservou este último cargo com os sucessores de Dom Bosco pra-
ticamente até sua morte. Passará, então, quatro anos ao lado de Dom Bosco
como seu confidente. Foram anos de pura alegria profunda e de crescimento
humano, anos da sua maturidade cristã e salesiana.
Sua única preocupação era servir ao pai e mestre, e reunir para a pos-
teridade tudo que se relacionasse com ele. Seu apego pessoal a Dom Bosco
era lendário, não muito menos do que o do seu jovem extraordinário cola-
borador, o “clérigo”, logo padre, Carlos Viglietti, que foi secretário pessoal e
companheiro de viagem do Santo, de 1884 até sua morte em 1888.
Dom Bosco apreciava a devoção e confiança do padre Lemoyne e corres-
pondia com a mesma moeda. Ceria informa sobre as palavras de Dom Bosco
a Lemoyne, quando este regressou ao Oratório, em 1883.

“Quanto tempo pretendes permanecer com Dom Bosco no Oratório?”, per-


guntou Dom Bosco. “Até o fim do mundo”, respondeu padre Lemoyne. “Pois

46
Padre Lemoyne escreve à sua mãe: “Fui transferido a Turim [...]. Dom Bosco deseja que eu es-
teja perto dele, como seu ajudante especial e colaborador. Nosso Senhor não poderia designar-me para
um lugar mais desejável. Eu estarei em contato diário também com Maria Auxiliadora dos Cristãos, de
quem também serei secretário [...]. No que me cabe, não seria mais feliz, se fosse um rei [...]” [Carta de
18 de dezembro de 1883 em ASC B538ss, Lemoyne, citado em F. Desramaut, Memorie, 40, nota 65].

67

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Dom Bosco: história e carisma 1

bem, eu te confio meu pobre ser. Cuida de mim com carinho, especialmente
quando se tratar de ouvir-me. Não guardarei nenhum segredo de ti, nem os
do meu coração nem os da Congregação. Quando chegar a minha última
hora, sentirei necessidade de um amigo íntimo com quem possa falar minhas
últimas palavras com plena confiança”.47

O relacionamento de Lemoyne com Dom Bosco era tão íntimo, que


mantiveram um perfeito entendimento e afeto e uma profunda e mútua co-
municação como duas almas gêmeas. Escreve Desramaut: “Esse padre [Le-
moyne] sentia grande necessidade de ternura, e essa necessidade foi satisfeita
pelo seu Pai espiritual. Seria difícil imaginar um afeto íntimo maior, compar-
tilhado por dois seres”.48
A familiaridade de Lemoyne com Dom Bosco capacitou-o a adquirir o
verdadeiro conhecimento do mestre, do seu método, do seu espírito, a ponto
que conseguir fazer seu o estilo de Dom Bosco. Converteu-se em intérprete
perfeito do Santo. Quando Dom Bosco precisava escrever uma carta aos me-
ninos ou aos Salesianos, encarregava muitas vezes o padre Lemoyne para que
o fizesse por ele, com a certeza de que o seu amor e a sua preocupação seriam
expressos à perfeição. Nos últimos anos, o padre Lemoyne viveu em contato
íntimo com Dom Bosco e gozou do privilégio de acompanhá-lo em algumas
viagens. Digna de menção é a viagem à Cidade Eterna em 1884, fato mais
memorável ainda porque deu ocasião para escrever a carta [de Roma] que
Lemoyne redigiu em nome de Dom Bosco.49
Através dos anos de profundo relacionamento com Dom Bosco, Lemoy-
ne tantas vezes quantas podia acompanhava-o em amigável conversação. Em
um desses entardeceres, como escreve Ceria:

Dom Bosco parou de repente, voltou-se e disse-lhe confidencialmente: “Um


glorioso futuro te espera”. E, depois de uma pausa, continuou: “O que sofres-
te até agora não é nada comparado aos sofrimentos que te esperam no futuro.
Entretanto, coragem, nada neste mundo dura para sempre, e afinal... depois
de tudo... há o Paraíso!”.50

MB XVI, 419.
47

F. Desramaut, Memorie, 45.


48

49
Em abril de 1884, padre Lemoyne acompanhou Dom Bosco em sua viagem a Roma [cf. MB
XVII, 73-123]. Pelo final de sua permanência na Cidade Eterna, Dom Bosco teve um sonho sobre o
Oratório, e padre Lemoyne o redigiu e enviou por carta ao padre Rua, em Turim. Trata-se da famosa
“Carta de Roma”. Talvez, seja o exemplo mais excelente de que o padre Lemoyne entendeu perfeita-
mente o espírito de Dom Bosco.
50
E. Ceria, Profili, 398.

68

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A tradição biográfica de Dom Bosco

À medida que nesses anos aumentava o compromisso pessoal de Lemoy-


ne com o Fundador e a Sociedade Salesiana, ele assumiu o compromisso de
reunir a documentação sobre Dom Bosco num projeto que acabou por ser
a sua obra monumental, as Memórias Biográficas, trabalho de amor e, certa-
mente, de ingente esforço.
Após a morte de Dom Bosco, parecia que Lemoyne, em certo sentido,
também morria. Entendido e apreciado por uns, mas mal compreendido e
criticado por outros, atormentado por dores físicas e sofrimentos espirituais
e emocionais, viveu praticamente como recluso o resto da vida. Levantava-se
infalivelmente às quatro da manhã e trabalhava até altas horas da noite, orga-
nizando e editando a incalculável mole de material biográfico que acumulara
sobre Dom Bosco através dos anos e trabalhando incansavelmente no projeto
das Memórias Biográficas.51
Com incrível tenacidade e dedicação, perseverou no seu trabalho de
amor por mais de trinta anos, até a morte, em 14 de setembro de 1916, aos
77 anos de idade.

Ângelo Amadei (1868-1945)


Ângelo Amadei nasceu em Chiaravalle, província de Ancona, Itália, em
22 de maio de 1868. Após cursar a escola primária e a faculdade (ginásio e
liceu) e estudar teologia no Seminário Diocesano de Senigaglia, entrou no
colégio salesiano de Faenza em 1887. Visitou o Oratório de Turim e encon-
trou-se com Dom Bosco, momento decisivo em sua vida.
Professou em 1888 e continuou seus estudos de teologia, enquanto ensi-
nava em tempo integral no colégio salesiano de Borgo San Martino, de 1888
a 1892, ano de sua ordenação sacerdotal.
Depois de desempenhar várias atribuições em diversos colégios, foi
nomeado em 1908 pelo padre Rua para suceder ao padre Domingos Mingu-
zzi como editor do Boletim Salesiano, cargo que ocupou por vinte anos com
grande distinção enquanto, ao mesmo tempo, se ocupava do ministério das
confissões e era diretor espiritual.

51
O trabalho monumental de Lemoyne como cronista e autor de biografias é explicado à parte.
Lemoyne escreveu a dom Cagliero em 7 de dezembro [1886]: “Trabalho dia e noite, não tenho descan-
so, jamais deixo meu quarto, recuso qualquer outro trabalho, estou quase sempre sozinho. Contudo,
confio que meus irmãos rezarão do fundo do coração uma oração por mim quando eu morrer. Creio
que precisarei disso, pois compreenderás que esta vida é totalmente contrária à minha inclinação natu-
ral”. Cf. F. Desramaut, Memorie, 42, nota 73.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Após a morte do padre Rua em 1910, padre Amadei começou a compilar


as memórias biográficas do Superior falecido que, mais tarde [1931-1934],
publicaria em três volumes. Quando padre Lemoyne faleceu em 1916, Ama-
dei surgiu como o legítimo candidato à sua sucessão na obra das Memórias
Biográficas; foi, então, que o Reitor-Mor, padre Paulo Albera, confiou-lhe este
encargo. Ele supervisionou a publicação do volume IX e compilou o volume
X, que só apareceu em 1939, último da série.
No caminhar das coisas, viu-se que Amadei não era o autêntico sucessor
de Lemoyne. Afastado dessa responsabilidade, ficou livre para trabalhar na
biografia do padre Rua. O padre Eugênio Ceria foi, então, nomeado pelo
Reitor-Mor, padre Felipe Rinaldi, para continuar as Memórias Biográficas.
Padre Ângelo Amadei morreu em Turim em 1945, aos 76 anos de idade.

Eugênio Ceria (1870-1957)


Eugênio Ceria nasceu no dia 4 de dezembro de 1870 em Vercelli, Itá-
lia; recebeu sua primeira educação com os Irmãos das Escolas Cristãs e os
Padres do Oratório. Entrou no noviciado em 1885. Professou em 1886 e foi
ordenado em 1893. Desde então e até 1929 foi destinado, ao menos, a dez
colégios salesianos, dedicado ao ensino na escola secundária, como professor
e escritor. Obteve títulos e adquiriu certa notoriedade no estudo dos clássicos.
Mais tarde, já como erudito, dedicou-se ao estudo de autores cristãos, campo
no qual muitas publicações levaram o seu nome.
Embora padre Ceria não tenha tido preparação como historiador, em
1929, padre Felipe Rinaldi chamou-o de Roma a Turim para continuar a
obra das Memórias Biográficas. De 1939 até sua morte em 1957, maduro,
erudito e cortês dedicou seu talento exclusivamente aos estudos salesianos e
à sua publicação.
De 1930 a 1939, a começar pelos Documenti de Lemoyne e procedendo
com esmerado exame de todo o material de arquivo então acessível publicou
os volumes XI a XIX das Memórias Biográficas. O volume XIX é a história do
Processo de Beatificação (1929) e Canonização (1934) de Dom Bosco. Seu
estilo caracteriza-se pela beleza simples e pela clareza dos clássicos latinos.
Embora o padre Ângelo Amadei tenha editado o volume X das Memórias Bio-
gráficas, publicado em 1939, o padre Ceria é considerado como o verdadeiro
e digno sucessor do padre Lemoyne.
Padre Ceria é autor, também, de numerosos e importantes escritos
“salesianos”; podemos mencionar, primeiramente, um relato da história da

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Sociedade Salesiana, os Anais, em quatro volumes,52 abrangendo o reito-


rado de Dom Bosco, do padre Miguel Rua e do padre Paulo Albera. Em
seguida, pôs em circulação a primeira edição das Memórias do Oratório,
de Dom Bosco, transcrita dos manuscritos de arquivo, com introdução e
comentário.53 Além disso, publicou a partir dos manuscritos de arquivo,
uma coleção de cartas de Dom Bosco em quatro volumes.54 Publicou ainda
várias biografias e notas biográficas de Salesianos, sem esquecer o célebre
livro Dom Bosco com Deus.55
Morreu em 21 de janeiro de 1957.

AS MEMÓRIAS BIOGRÁFICAS E SUA


CONFIABILIDADE HISTÓRICA

Depois de apresentar a tradição biográfica de Dom Bosco, descrever o pro-


cesso pelo qual se formaram as Memórias Biográficas e oferecer um resumo da
vida de seus redatores, parece oportuno expor o método historiográfico adotado
por Lemoyne ao escrever os seus volumes das Memórias Biográficas (I ao IX),
método que será, basicamente, da obra toda em seu conjunto.56

Coleta e organização dos documentos


A coleta, interpretação e utilização dos documentos são as três etapas crí-
ticas das obras históricas e, portanto, de qualquer biografia. Estas atividades
revelam o profissionalismo do biógrafo de Dom Bosco.
Lemoyne buscou e recolheu todo tipo de documentos, por mínimos que
fossem, mas que pudessem servir para enriquecer seu relato sobre Dom Bosco
e sua obra. Apesar da amplidão da obra (19 volumes) e do considerável uso
dos documentos, o interesse principal de Lemoyne era a “história-narração”
de Dom Bosco. Sua primeira, senão única preocupação, foi recolher tudo que
pudesse ter algum interesse narrativo. Tendia a ignorar, por exemplo, projetos
edilícios, fotografias, livros de contabilidade, atas escolares e o que fosse de

52
E. Ceria, Annali della Società Salesiana. Turim: SEI, 1941, 1943, 1946, 1951.
53
San Giovanni Bosco, Memorie dell’Oratorio di San Francesco di Sales dal 1815 al 1855 [...].
Turim: SEI, 1946. Em português: São João Bosco, Memórias do Oratório de São Francisco de Sales,
1815-1855, Tradução: Fausto Santa Catarina, 3ª. ed., revista e ampliada, aos cuidados de Antônio da
Silva Ferreira. São Paulo: Salesiana, 2005.
54
Epistolario di San Giovanni Bosco […]. Turim: SEI, 1955, 1956 e, póstumo, 1958, 1959.
55
Lisboa: Editora SDB, 1962.
56
F. Desramaut, Cómo trabajaron, 37-65.

71

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Dom Bosco: história e carisma 1

interesse mais específico. Preferia, primordialmente, os relatos de testemu-


nhas oculares, que testemunhavam o que Dom Bosco tinha dito e realizado.
Uma avaliação crítica exige a análise da grande quantidade de documentos
sobre Dom Bosco recolhidos por Lemoyne. As principais fontes documentais são:

1. Grande quantidade de escritos do próprio Dom Bosco: as Memórias do


Oratório, o Testamento Espiritual, cartas e circulares pessoais, as biografias
de Luís Comollo, Domingos Sávio, Miguel Magone, Francisco Besucco e
José Cafasso. De Dom Bosco já se tinham publicado ou estavam ainda para
publicar relatórios do trabalho dos Salesianos, dos registros policiais, da sua
viagem a Roma em 1858, da consagração da igreja de Maria Auxiliado-
ra, dos “prodígios” e “graças” atribuídos à sua intercessão. Assim como os
regulamentos e constituições do Oratório, da Congregação Salesiana, das
Filhas de Maria Auxiliadora e da União dos Salesianos Cooperadores. Esses
e outros escritos autênticos, ainda que breves, recolhidos pelo padre Berto
(1847-1914), encontraram seu lugar na coleção do padre Lemoyne.
2. Os escritos daqueles que tinham vivido com Dom Bosco e o ouviram, que
tiveram contato com ele e escreveram o que tinham visto ou ouvido. O
primeiro é, provavelmente, a História do Oratório, de João Bonetti (1838-
1891), publicada em capítulos no Boletim Salesiano durante a vida de Dom
Bosco. Seguiu-se depois no mesmo Boletim Salesiano, nos últimos anos de
Dom Bosco, uma série sobre os Passeios outonais (1848-1864).
3. As Atas das reuniões dos diretores salesianos, do Capítulo Superior (Conse-
lho Geral) e dos Capítulos Gerais (1877, 1880, 1883 e 1886).
4. Lemoyne dava muita importância às “crônicas” ou cadernos de recordações dos
Salesianos que foram testemunhas oculares das palavras e atividades de Dom
Bosco, e cujos relatórios estão no arquivo central: Domingos Ruffino (1840-
1865), João Bonetti (1838-1891), Antonio Sala (1836-1895), Joaquim Ber-
to (1847-1914), Júlio Barberis (1847-1927), Francisco Cerruti (1844-1917),
João Garino (1845-1908), José Lazzero (1837-1910), Francisco Provera (1836-
1874), Carlos Maria Viglietti (1864-1915), Pedro Enria (1841-1898), João
Batista Francesia (1838-1930) e Segundo Marchisio (1857-1914). Deve-se
colocar nessa lista o próprio Lemoyne.57 Padre Rua também havia compilado
um pequeno Livro de experiência e um Necrológio, além de frequentes notas em
pequenos pedaços de papel. Dever-se-ia acrescentar a esta lista as crônicas locais
das casas e a coleção de episódios e “sonhos”.

57
Contra uma persistente e falsa opinião, Lemoyne não se desfez de suas anotações pessoais nem
das de outras pessoas depois de utilizá-las.

72

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Essas testemunhas e seus relatos não são necessariamente fiéis pelo fato
de terem estado com “a fonte”, como se a proximidade com Dom Bosco
devesse garantir de modo absoluto a objetividade, lucidez ou exatidão de
suas afirmações. Isso deve ser comprovado em cada caso. As testemunhas
levantam problemas interessantes; devem-se distinguir, por exemplo, relatos
de primeira mão e outros de referências mais ou menos distantes; as teste-
munhas diretas, das indiretas; a ata, da testemunha posterior; o sonho, da
parábola onírica; os testemunhos autênticos, dos comentários sobre eles; uma
afirmação original, de uma elaboração posterior da mesma.
Poder-se-iam aduzir centenas, milhares quem sabe, de erros de Lemoy-
ne ao tratar dessas questões.58 Quando Bonetti (entre 1861 e 1863) ou Vi-
glietti (entre 1884 e 1885) recolhiam dos lábios de Dom Bosco lembranças
de sua vida pessoal, que se apressavam a escrever em seus cadernos, eram
testemunhas diretas, embora muito posteriores aos fatos referidos e, por-
tanto, expostos a todas as reconstruções não seguras da memória. Contudo,
as mesmas testemunhas puderam anotar também histórias que circulavam
no ambiente, que outros, talvez, teriam negado se chegassem a conhecê-las.
Eram coisas que “se contavam”, como escreve Ruffino, no início de alguns
episódios sobre Dom Bosco. Bonetti recapitulou seis relatos extraordiná-
rios num de seus cadernos: a admirável conversão de um ateu, o jovem
[Carlos] ressuscitado dos mortos, Dom Bosco e seus canários, o cão Grigio,
a multiplicação das castanhas e a multiplicação das hóstias consagradas.59
São episódios de veracidade incerta, mas gravadas na tradição salesiana e
contadas, quem sabe, como apoio à santidade do Fundador e que devem
ser devidamente avaliadas.
O mesmo se poderia dizer das deposições de muitas testemunhas ocula-
res (em sua maioria, simpatizantes de Dom Bosco), chamadas a testemunhar

58
Desramaut, ao comentar a nota escrita pelo padre Rua sobre o primeiro uso do título “Sale-
siano”, afirma que não se trata em absoluto de uma espécie de ata da reunião do “grupo dos quatro”,
de 26 de janeiro de 1854, “mas de uma anotação do padre Rua, provavelmente pedida pelo biógrafo
quarenta ou cinquenta anos depois do fato”. Segundo Desramaut, Lemoyne dá uma impressão equivo-
cada quando escreve: “O clérigo Rua recorda-se dela [da ata] em um escrito seu que ainda se conserva
em nossos arquivos” (MB V, 9). Entretanto, a única razão dada pelo crítico, é que ela não aparece nos
Documenti. Não parece uma razão suficiente, pois há muitas outras hipóteses que explicariam a exis-
tência da anotação, embora Lemoyne não a tivesse recolhido nos Documenti. Por exemplo, o padre Rua
pode tê-la escrito e retido como recordação pessoal. A anotação em questão está hoje no ACS. Isso nos
adverte de que é preciso acolher com cuidado as afirmações dos críticos, pois também eles correm o
risco de converter suas hipóteses em teses o que, sem provas convincentes, não é lícito a um historiador
sério [Nota dos editores da edição em espanhol].
59
MB IV, 156 [admirável conversão de um ateu]; III, 442 [multiplicação das hóstias]; IV, 710 [his-
tória do cão Grigio]; IV, 291 ss.; III, 575 [ multiplicação das castanhas]; III, 672 [o jovem ressuscitado].

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Dom Bosco: história e carisma 1

no processo de canonização e usadas nas Memórias Biográficas. Seria preciso


seguir a gênese de cada elemento dessas deposições, esforçando-se para buscar
a fonte de informação e levando em conta as atitudes mentais de cada teste-
munha. As afirmações mais notáveis sobre a vida ascética de Dom Bosco — e
é um exemplo — provêm do padre Berto, pessoa escrupulosa e um pouco
obsessiva. Os padres Berto e Barberis fizeram amplas deposições juramenta-
das a partir dos Documenti do padre Lemoyne, que podiam consultar e copiar
facilmente em Valdocco. Às vezes, utilizavam-nos de maneira subserviente.
Por isso as abordagens e até mesmo os erros de suas fontes reapareciam em
suas deposições, mais alargadas do que corrigidas. Fizeram-no, sem dúvida,
com a maior boa fé do mundo; isso, porém, indica que algumas testemunhas
tinham uma história complexa que deve ser corretamente avaliada.
Quanto às crônicas e atas de Lemoyne, usadas por ele de maneira exa-
gerada nas Memórias Biográficas, é preciso uma observação. Dessas atas temos
provas seguras — textos transcritos e editados — que diferem da redação ori-
ginal. Em relação às crônicas, o caso mais interessante é o de Carlos Maria
Viglietti em seu relatório sobre os últimos anos de vida de Dom Bosco (1884-
1888). Distribuído em vários cadernos, revisado e copiado várias vezes, o rela-
to apresenta ao biógrafo historiador muitos problemas específicos. A “versão”
primitiva parece mais confiável. Sem dúvida, há algumas passagens que foram
acrescentadas mais tarde e servem para o conhecimento de Dom Bosco.
Quanto às atas, em geral, o secretário designado toma nota do que ouve
ou compreende na medida em que a reunião se realiza; em seguida, compõe
um texto oficialmente aceitável. Impõem-se normalmente acréscimos, modi-
ficações, supressões. As atas do Conselho Geral ou dos Capítulos Gerais, ano-
tadas depois de tê-las ouvido pela primeira vez, foram transcritas e editadas
várias vezes com a ajuda da memória, para torná-las mais legíveis e completas.
As atas da primeira sessão do Capítulo Geral de 1877, editadas pelo padre
Barberis, são uma prova disso. No primeiro rascunho aparecem muitas frases
riscadas ou acrescentadas, o que revelaria o processo da discussão. O valor das
correções, algumas feitas pelo próprio Dom Bosco, por muito preciosas que
possam ser, precisam de um cuidadoso exame.

Compreensão e utilização dos documentos


Nem Lemoyne nem seus sucessores Amadei e Ceria foram sensíveis a
esta problemática. Bastava-lhes que a testemunha fosse “honesta”, qualidade
valorizada em função de critérios morais. Lemoyne assumia a versão em sua
forma mais acabada, glosava-a, alinhando todos os detalhes no mesmo pla-
no, destacava, comparava passagens paralelas, recolhia todas as informações

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A tradição biográfica de Dom Bosco

e detalhes que lhe eram novos e distribuía-os em função da trama geral da


obra que era, possivelmente, cronológica. Para ele, a melhor história de Dom
Bosco seria a que reunisse o maior número de informações sobre ele, ates-
tadas por testemunhas honestas. Julgava que não podia esquecer nada, nem
sequer uma palavra ou frase. A obsessão pela mera quantidade que pudesse
dar “solidez” à sua obra era uma tendência que, com outros aspectos, revela o
seu critério pré-científico.60 Isso também vale, em geral, para Amadei e Ceria,
que utilizaram os Documenti de Lemoyne e se serviram deles como base para
os seus respectivos volumes. Lemoyne colecionou tudo o que pôde assimilar
de suas fontes e incorporou todos os dados no interior de sua obra, mesmo
quando isso pudesse supor o risco de repetir um fato várias vezes, já que este
lhe chegara de diversas formas. De aí encontrarmos duplicados e triplicados
relatos do mesmo acontecimento.61
Alguns poucos exemplos podem ser ilustrativos. Nas Memórias do Ora-
tório, Dom Bosco, por alguma razão, não quis mencionar que sendo adoles-
cente de 13-14 anos (1828-1829) passara dezoito meses trabalhando como
ajudante no estábulo do sítio dos Moglia, em Moncucco. Os Moglia, em
1888, foram questionados pelo Salesiano padre Segundo Marchisio e, mais
tarde, pelos examinadores no processo informativo dos anos de 1890. Es-
ses camponeses (Doroteia, João e Gregório Moglia) ficaram impressionados,
entre outras coisas, pelo extraordinário perfil [moral] do jovem adolescente.
João recusara-se a cuidar da filha pequena da senhora Moglia, embora lhe
tenha sido determinado com firmeza. Ao narrar o fato, o padre Lemoyne de-
frontou-se com ao menos sete relatos, sem contar outros dois que falam dessa
negativa em termos muito mais gerais.62 Uma das testemunhas expressou a
negativa de modo diferente, e Lemoyne fez dela outra ocorrência, ficando o
acontecimento duplicado nas Memórias Biográficas.63 Todas as testemunhas,

60
Cf. G. Bachelard, La formation de l’esprit scientifique: contribution à une psychoanalyse de la
connaisance objective, 13ª ed., Paris, 1986; 1ª ed., 1938, 131-133. Quanto ao “obstáculo substancia-
lista”, este autor escreve: “Por instinto natural, a mente reúne pré-cientificamente num determinado
objeto tudo aquilo que o objeto realizou num determinado papel, ignorando qualquer jerarquia de
importância nesses papéis. Une assim, diretamente, a substância com as diversas qualidades, o superfi-
cial com o profundo, o óbvio com o oculto”. A pessoa preocupa-se “com a experiência externa óbvia,
evitando instintivamente qualquer exame crítico” [Ibid., 99].
61
Veja-se F. Desramaut, Memorie, 213-266, no capítulo, “La lecture et l’ordonnance de
la matiere”.
62
O Salesiano coadjutor José Rossi, por exemplo, testemunhou: “As mães confiavam-lhe o cuidado
de seus filhos, e Dom Bosco fazia-o com muita alegria, exceto quando se tratasse de meninas pequenas” [G.
Rossi. Proceso ordinario della Curia di Torino, 2511] (A Sra. Doroteia era a única “mãe” no sítio!).
63
Esta deposição, provavelmente oferecida por Gregório Moglia, foi incluída por Lemoyne nos
Documenti XLIII, 3.

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Dom Bosco: história e carisma 1

menos uma, estão de acordo com o que disse Doroteia [ao referir a resposta
de Joãozinho]: “Dá-me os meninos que quiseres, e eu cuidarei deles, mas não
posso cuidar das meninas”. O relato da variante diz: “Eu não estou destinado
para isso”, respondeu tranquilamente Dom Bosco.64
A vontade de ser exaustivo levou-o, por exemplo, a duplicar o diálogo de
Joãozinho Bosco com padre Calosso em novembro de 1829, enquanto cami-
nhavam de Buttigliera aos Becchi. Padre Calosso pedira que o menino falasse
do assunto do sermão que fizera sobre o jubileu, e João respondeu-lhe. Padre
Lemoyne tem três narrações à disposição: uma de Dom Bosco nas Memórias
do Oratório, outra da crônica de Ruffino e outra ainda dos Annali I de Bonetti,
sendo as duas últimas praticamente idênticas. Cada uma delas conhecia apenas
um diálogo sobre um único sermão escutado. Mas, posto que a versão de Ruffi-
no-Bonetti (João falava durante dez minutos) diferia das Memórias do Oratório
de Dom Bosco (João falava durante meia hora), Lemoyne, acreditando que isso
serviria à causa da verdade, fez constar as duas versões. Apresenta Dom Bosco
discorrendo sobre um sermão “durante mais de meia hora” e, pouco depois,
mostra-o falando dez minutos sobre um segundo sermão.65
Duas curas em tudo semelhantes, de uma senhora paralítica, durante a
consagração da igreja de Maria Auxiliadora de Turim, em 1868, têm origem
semelhante. A primeira procede de um relato feito por Dom Bosco ao padre
Lemoyne em 1884.66 A segunda está três páginas adiante, no volume IX das Me-
mórias Biográficas, e provém de um folheto impresso no ano da consagração.67
Há outras duplicações, talvez não tão evidentes, mas quase igualmente
certas. Um exemplo está no episódio dos meninos que se ensoparam com a
chuva durante um passeio e foram atendidos pelo cavalheiro Marcos Gonella.
O episódio aparece no volume VI das Memórias Biográficas, tomado da versão
de Dom Bosco na vida de Miguel Magone. Em seguida, aparece no volume
VII, em ano diferente, baseado num episódio recolhido em 1884.68

Falta de conhecimentos de crítica na interpretação


Lemoyne parece confundir dois planos: o plano da vida ou da história
como ela foi vivida e o plano da narração ou da vida narrada, que inclui a
documentação que atesta a história. Ele julgou que os dois planos coincidem.
64
MB I, 199.
65
Cf. MB IX, 258-259.
66
Veja-se o caderno de Lemoyne, Ricordi di gabinetto, anotação de 22 de fevereiro de 1884,
incluído em MB IX, 257.
67
Cf. G. Bosco, Remembranza di una solennità in onore di Maria Ausiliatrice, Turim, 1868, 49-
50, incluído em MB IX, 258-259.
68
Provavelmente duplicado: MB VI, 54, tendo por base a Vida de Miguel Magone (1861), cap. XII;
MB VII, 278.531, baseado em G. B. Lemoyne, Ricordi di gabinetto, anotação de 22 de fevereiro de 1884.

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Um reflete o outro. Supõe que as mediações dos documentos são transpa-


rentes e as suas mensagens, óbvias. Entretanto, “não é fácil compreender um
documento, saber o que ele é, o que diz e o que significa”.69
O biógrafo de Dom Bosco esquece que suas fontes documentais se li-
gam a indivíduos ou grupos de pessoas que falaram ou escreveram num de-
terminado momento, expressaram o próprio ponto de vista, passaram por
alto sobre alguns detalhes ou alteraram outros para que fossem mais bem en-
tendidos. Com boa fé, às vezes, os biógrafos imaginaram coisas e permitiram
que suas emoções e desejos pessoais colorissem o quadro.
Quem está familiarizado com textos históricos prevê as consequências
de preocupar-se com detalhes na interpretação sistemática das narrações des-
ses textos. Na verdade, o texto é um produto acabado; deve ser calibrado
como objeto “manufaturado”. Jamais pode ser tratado como se fosse uma
janela transparente aberta à realidade tratada. Se, por exemplo, esse método
ingênuo fosse aplicado à Bíblia, poder-se-ia arriscar a confundir passagens
didáticas com narrações históricas, lendas com acontecimentos reais, e assim
por diante.
Tomemos por exemplo a história do barbeiro de Castelnuovo; nele se
conta que Dom Bosco não permitiu que uma mulher lhe cortasse os cabelos.
O episódio está num dos cadernos do padre Bonetti, que escreve:

Há dez dias [fevereiro de 1862], duas pessoas da cidade de Dom Bosco, Ânge-
lo Sávio e o subdiácono Cagliero, contaram-me esta história sobre ele. Certo
dia, em Castelnuovo, Dom Bosco percebeu que precisava cortar os cabelos e
entrou na barbearia [...]. Notando [que a empregada era uma mulher], levan-
tou-se logo, pegou o chapéu e saindo disse-lhe: “Jamais permitirei que uma
mulher me pegue pelo nariz”.70

Trata-se de uma historieta amena, contada pela gente do lugar, mas con-
vém ser cauto em considerar a cena isoladamente e as palavras pronunciadas
realmente por Dom Bosco, e, para mim, muito menos chegar à conclusão de
que foi uma prova da “castidade selvagem” de Dom Bosco. Lemoyne assumiu
a história de Bonetti; este, porém, ouvira-a de duas pessoas de Castelnuovo,
que, por sua vez, contavam uma historieta que corria entre o povo. Lemoyne
assumiu-a como lhe chegou.
69
Henri I. Marrou, De la connaissance historique, Paris: Èditions du Seuil, 1954, 101.
70
G. Bonetti, Annali II, 36s. A passagem aparece em MB V, 161-162.

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Dom Bosco: história e carisma 1

As consequências de um erro como esse podem ser sérias. Assim, por


exemplo, Lemoyne e, mais tarde, Ceria, deveriam ter submetido a um exame
crítico os relatos de “bilocação” de Dom Bosco em 1878 e 1886. Enquanto
estava em Turim nas duas datas, as Memórias Biográficas fazem-no aparecer,
no primeiro caso, em Saint-Rambert d’Albon (França) em 14 de setembro
de 1878; no segundo, em Sarriá, nas proximidades de Barcelona (Espanha),
na noite de 5 de fevereiro de 1886. No primeiro caso, o biógrafo deu crédi-
to à carta de uma senhora de nome Adèle Clément. No segundo, aceitou o
testemunho do padre João Branda, o diretor salesiano envolvido na questão.
O testemunho de madame Clément é mera suposição, sem qualquer funda-
mento sério. O testemunho do padre Branda pode ser apenas sinal de uma
visão, não de uma bilocação propriamente dita de Dom Bosco.71
Os biógrafos de Dom Bosco erraram, portanto, na avaliação adequa-
da dos testemunhos. Trabalharam com mentalidade pré-científica e com
forte aceitação da tradição; foram incapazes de apurar criticamente suas
fontes e recusar os relatos duvidosos, por receio de atenuar o esplendor
do Santo. Alegar que os autores das Memórias Biográficas eram “homens
do seu tempo” seria uma defesa inadequada. No campo da hagiografia,
os bolandistas tinham vivido e atuado mais de 250 anos antes de o pa-
dre Lemoyne publicar o primeiro volume das Memórias Biográficas. Eles
tinham aperfeiçoado constantemente seus métodos ao tratar das fontes
relativas às vidas dos santos. Nos séculos XVII e XVIII, os historiadores
jansenistas de Port-Royal tinham ajudado a transformar a hagiografia em
verdadeira história.
Sem dúvida, os piedosos hagiógrafos dos séculos XVIII e XIX escreveram
com mentalidade pré-científica, preocupados que estavam em proporcionar a
edificação mais do que apresentar a verdade histórica. Entretanto, curiosamente,
o retorno a técnicas mais rigorosas em textos históricos coincidiu com o surgi-
mento das Memórias Biográficas. Nesse momento Luís Duchesne (1843-1922)
e Hipólito Delehaye (1859-1941) atacavam com virulência as “lendas piedosas”
no Bulletin Critique e em suas publicações acadêmicas. O magnífico estudo in-
trodutório do bolandista Charles de Smedt, Principes de la critique historique, foi
publicado em 1833. Contudo, esse método científico, que não se impôs nem
mesmo na França, parece não ter chegado à Itália. Os antimodernistas dos iní-
cios do século XX consideraram-no muito pouco ortodoxo.

Para o fato de Saint-Rambert, veja-se Documenti XLIII, 335-336, que foi editado tendo por
71

base uma carta de madame Adèle Clément, de 13 de abril de 1891. A informação foi posteriormente
confirmada pela sua filha (Lyon, 13 de abril de 1932). A história foi editada em MB XIV, 681-682.
Para o fato de Sarriá, veja-se Documenti XXXI, 86-89.

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Pietro Scoppola escreve sobre o tema:

Atendo-nos aos relatos e observações feitas no século XIX pelos eruditos, [...]
o nível da cultura eclesiástica [nos seminários italianos] era medíocre [...]. A
qualidade da formação dos seminaristas, com suas sérias deficiências, foi de-
nunciada por Rosmini nas Cinque piaghe della santa Chiesa [As cinco chagas
da Santa Igreja], continuou a ser muito pobre, apesar de algumas evoluções.
Em geral, os professores não eram escolhidos pela competência e, com raras
exceções, descuidavam-se dos estudos empíricos [...].72

Os biógrafos de Dom Bosco da segunda metade do século XIX e da pri-


meira do século XX compartilharam a mentalidade pré-científica. Lemoyne
acreditava ter posto os fundamentos para um trabalho realmente “racional”;
ele escrevia no prólogo do volume I das Memórias Biográficas:

Não foi a fantasia que ditou estas páginas, mas o coração guiado pela fria ra-
zão, depois de longas pesquisas, correspondências, comparações [dos textos].
As narrações, os diálogos, tudo aquilo que acreditei digno de memória, não
são senão a fiel exposição literal do que os textos nos expuseram.73

Lamentavelmente, ele confundia perfeição “racional” com acúmulo da


quantidade ou dos conteúdos. Em outras palavras, ele reuniu relatos docu-
mentais sem qualquer análise de crítica sistemática.

O emprego dos documentos


Para a primeira geração de biógrafos salesianos, o importante era reco-
lher documentos e apresentá-los de forma legível. Foi o que fizeram Lemoy-
ne, Ceria e Amadei ao redigirem as Memórias Biográficas. A dimensão do
trabalho indica a abundância dos documentos convertidos numa espécie de
enciclopédia histórica salesiana dos primeiros tempos.
Temos uma dívida de gratidão com Lemoyne, notadamente por ter reu-
nido diligentemente e editado nos Documenti cartas pessoais e circulares, arti-
gos de periódicos e folhetos. Prestou um inestimável serviço aos historiadores
de Dom Bosco. Por sua vez, seus continuadores, Amadei e Ceria, incluíram
uma grande quantidade de material original em seus volumes (X-XIX) das
Memórias Biográficas.

72
P. Scoppola, “Italie: periode contemporaine”, Dictionnaire de spiritualité, VII, Parte 2, Paris,
1971, colunas 2296-2297.
73
MB I, IX ss.

79

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Dom Bosco: história e carisma 1

Os documentos reunidos com letra pequena por Ceria nos apêndices de


seus volumes (XI-XIX), sempre mais abundantes na medida em que a vida do
Santo continuava, foram de grande ajuda para os pesquisadores através dos anos.
Por exemplo, o itinerário da longa viagem de Dom Bosco pela França, na pri-
mavera de 1883, é descrito cuidadosamente com informações de primeira mão
em mais de 70 itens (cartas, artigos, relatos de reuniões, artigos de periódicos),
reunidos por Ceria no apêndice ao volume XVI das Memórias Biográficas.
Entretanto, no texto compilado, o material válido mescla-se confusamente
com informações de menor valor e mais questionáveis. Isso se deve ao método
editorial que agora começamos a entender. Para Lemoyne, de modo particular,
o texto histórico consistia em recolher todos os relatos disponíveis, organizando-
-os e inserindo-os para enriquecer a narração. A ideia de Ceria e Amadei quanto
ao modo de compor um relato histórico era não menos pré-científica do que a
de Lemoyne. Em sua opinião, os documentos simplesmente abalizavam a his-
tória, e sua forma específica não supunha qualquer diferença entre eles. Tudo o
acreditavam ser necessário era organizá-los e apresentá-los de maneira coerente;
estavam obcecados com os detalhes do conteúdo.
Um método realmente científico está atento à forma, e aceita com hu-
mildade o provável e o verossímil, especialmente em campo histórico. É um
procedimento errôneo, porém, tratar determinado documento como se não im-
portasse o seu gênero literário. Por isso, o testemunho devidamente atribuído a
uma pessoa indicada pelo nome pode ser enriquecido com informações paralelas.
O relato de um sonho narrado tardiamente pode ser modificado e completado
com a recordação de outras pessoas; um discurso pronunciado em determinada
circunstância pode ser corrigido e complementado com a ajuda, não só de lem-
branças complementares sobre o discurso como também com aspectos que se
referem a fatos nele apresentados, e assumir formas de proporções extraordinárias
que teriam causado admiração em pessoas não prevenidas. Ou, se o gênero dos
testemunhos for revestido de relativa pouca importância, construir-se-á um relato
em primeira pessoa e, se necessário, este será colocado nos lábios ou na pena de
Dom Bosco para dar colorido ou dramatizar um capítulo ou um parágrafo.
Desde que os detalhes sejam exatos e estejam todos ali, a escolha de
um subgênero literário (citação de texto, testemunho pessoal, discurso etc.)
importa muito pouco. Será só uma questão de estética. Às vezes, para efeito
estilístico, um relato pode ser convertido numa narração em primeira pessoa
ou em forma de diálogo. Lemoyne, sem adverti-lo, fará Dom Bosco falar em
primeira pessoa. E o faz através de textos autorizados por Dom Bosco ou de
relatos de suas falas anotadas rapidamente pelos ouvintes. Assim, de maneira

80

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A tradição biográfica de Dom Bosco

totalmente involuntária, converte o estilo simples e direto de Dom Bosco em


estilo de falar e escrever que lhe era bastante alheio.
Nas Memórias Biográficas, Lemoyne introduz a narração da ordenação
de Dom Bosco e da primeira missa em 6 de junho de 1841 referindo-se di-
retamente às Memórias do Oratório: “Em conhecido manuscrito, Dom Bosco
ainda escreve o que segue [...]”. Em seguida, cita a breve narração autobiográ-
fica do Santo, ampliada com material adicional de várias fontes, mas que ele
atribui a Dom Bosco. (Os acréscimos estão em cursivo.)7475

Memórias do Oratório, de Dom Bosco74 Memórias Biográficas, de Lemoyne75


Celebrei minha primeira Missa na igreja Em conhecido manuscrito, Dom Bosco ainda
de São Francisco de Assis, onde o padre escreve o que segue:
Cafasso era diretor de estudos. Esperavam- “O dia da minha ordenação era a vigília da
-me ansiosamente em minha terra natal: Santíssima Trindade, 5 de junho, e foi realizada
havia anos que não se celebrava aí uma pelo arcebispo dom Luís Fransoni na residên-
Missa nova. Preferi, todavia, celebrá-la em cia episcopal. Celebrei a minha primeira missa
Turim, sem alarde, e posso dizer que foi na igreja de São Francisco de Assis, [anexa ao
esse o dia mais belo da minha vida. No me- Colégio Eclesiástico], do qual era diretor o pa-
mento daquela Missa inolvidável procurei dre José Cafasso, meu insigne benfeitor e diretor.
recordar devotamente todos os meus pro- Era ansiosamente esperado em minha terra na-
fessores, benfeitores espirituais e tempo- tal onde há vários anos não se celebrava mais
rais, e de modo especial o pranteado padre uma Missa nova; preferi, todavia, celebrá-la em
Calosso, que lembrei sempre como grande Turim, sem rumores, no altar do Santo Anjo da
insigne benfeitor. Guarda, que está nessa igreja do lado do Evange-
lho. Nesse dia a Igreja universal celebrava a festa
da Santíssima Trindade, a arquidiocese de Turim,
a do milagre do Santíssimo Sacramento, e a igreja
de São Francisco de Assis, a festa de Nossa Senhora
das Graças, ali honrada desde tempos muito anti-
gos, e posso chamá-lo o dia mais belo da minha
vida. No memento daquela Missa memoranda
procurei recordar devotamente todos os meus
professores, benfeitores espirituais e temporais,
e de modo especial o pranteado padre Calos-
so, que sempre recordei como grande e insigne
benfeitor. É uma piedosa crença que o Senhor
conceda infalivelmente a graça que o neossacerdo-
te lhe peça ao celebrar a primeira Missa: eu pedi
fervorosamente a eficácia da palavra para poder
fazer o bem às almas. Parece-me que o Senhor ou-
viu minha humilde oração”.

74
MO, 111.
75
MB I, 519; MB I, 518.

81

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Dom Bosco: história e carisma 1

O fragmento autobiográfico de Dom Bosco foi gradualmente amplia-


do por etapas, desde os Documenti II (1885) até as Memórias Biográficas I
(1898). Nos Documenti, Lemoyne citava as linhas trazidas sobre a primeira
missa nas Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e acrescentava em seguida a
parte sobre o dom da eloquência.76 Este acréscimo, que parece provir de um
testemunho escrito desconhecido, sobrecarregava a narração simples de Dom
Bosco. Mais tarde, Lemoyne retocou as linhas de Dom Bosco acrescentando
o nome (José) do padre Cafasso e a frase “meu insigne benfeitor e diretor”.
Estes pequenos acréscimos provêm do Testamento Espiritual de Dom Bosco
(1884-1886).77 A declaração do padre Ascânio Sávio (1895) no processo de
beatificação proporcionou a inclusão “para poder fazer o bem às almas”, ago-
ra unida à frase sobre “a eficácia da palavra”.78 O texto de Dom Bosco foi de-
pois ampliado com uma informação obtida do padre Lourenço Romano, que
escreveu a Lemoyne em nome do reitor da igreja de São Francisco de Assis,
padre Luís Dadesso. A carta, com data de 11 de dezembro de 1891, especifi-
cava o altar em que se celebrou a missa e os vários acontecimentos litúrgicos
que ocorriam nesse dia, 6 de junho de 1841.79
A explicação dessa surpreendente compilação de testemunhos de fon-
tes variadas, todas anexadas ao “conhecido manuscrito” de Dom Bosco, está
no método de recompilação de Lemoyne. Indiferente à natureza e origem
dos fragmentos heterogêneos à sua disposição, ele serviu-se deles na forma
adequada ao seu estilo narrativo. Os testemunhos são informativos, mas a
recompilação de Lemoyne não é fiel ao caráter, estilo, memória, e nem aos
bem conhecidos sentimentos de Dom Bosco. Não é preciso inventar algum
manuscrito perdido de Dom Bosco sobre o período. A passagem, como apa-
rece nas Memórias Biográficas, é criação de Lemoyne, procedimento adotado
por ele em numerosas ocasiões.
As citações, mesmo procedentes de Dom Bosco, são raramente fiéis
e nunca seguras. Quando havia narrações paralelas de um acontecimen-
to, o texto era retocado e interpolado com detalhes de outro. Como
os outros dois biógrafos, Ceria e Amadei, se apoiaram basicamente nos
76
Documenti II, 6.
77
Ver a edição crítica, Memorie dal 1841 al 1884-5-6 pel sac. Gio. Bosco a’ suoi figliuoli Salesiani [Tes-
tamento Espiritual], preparada por Francesco Motto, RSS 4 (1985), 73-130. Também MB I, 518-519.
78
Este acréscimo provém, sem dúvida, do testemunho de Ascânio Savio, que também propor-
cionou a continuação do texto, sem citação, presente em MB I, 519. Sávio testemunhou: “Eu só posso
testemunhar que, como ele me disse, na ocasião de sua ordenação, entre as graças que tinha pedido
estava o dom da palavra para ser capaz de fazer o bem às almas. Segundo meu modo de ver, ele obteve
essa graça abundantemente” (Ascânio Sávio, Processo ordinário da Cúria de Turim, 4552).
79
Lorenzo Romano a G. B. Lemoyne, Turim, 11 de dezembro de 1891; narrado em Documenti XLIII.

82

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Documenti de Lemoyne, as citações que fazem devem ser tidas do mesmo


modo “contaminadas”.
A história do Santuário de São Miguel (Sagra di San Michele) é outro
exemplo. Lemoyne conta, nas Memórias Biográficas, a história do passeio de
Dom Bosco e seus meninos a esse santuário em 1850. Diz-se nessa ocasião, que
Dom Bosco apresentou aos meninos uma erudita e detalhada história do famo-
so lugar. Sua “conferência” ocupa uma página inteira: começa com a primeira
ermida pelo ano 990 d.C. e continua com a construção de uma magnífica igre-
ja gótica e um mosteiro beneditino no século XIV. A abadia passou ao controle
e proteção dos duques de Saboia até a invasão napoleônica nos inícios do século
XIX. Em sua exposição erudita, o narrador inclui a história do Vale de Susa e
um relato da vitória de Carlos Magno contra os lombardos. Lemoyne coloca
toda a história entre aspas, como se fossem palavras de Dom Bosco.80
O leitor fica impressionado com a notável erudição e memória de Dom
Bosco. Contudo, de fato, é efeito da técnica narrativa de Lemoyne. A narrativa
do passeio é tomada da História do Oratório, de Bonetti, e a história do santuário
aparece em nota de rodapé, provavelmente tirada por Bonetti de alguma enci-
clopédia.81 Lemoyne, que se serviu da História de Bonetti como fonte para as
Memórias Biográficas, transcreveu a nota como palavras de Dom Bosco.
Em outro exemplo, Lemoyne descreve como “testamento” de Dom Bos-
co aos Cooperadores uma composição, diz ele, encontrada entre os papéis
do Santo, e etiquetada “para se enviar depois da minha morte”. Lemoyne
imprimiu-a nos Documenti com as palavras: “Este é o precioso documento”.82
Ceria transcreveu-o nas Memórias Biográficas, introduzindo-o com as pala-
vras: “Dom Bosco dizia”.83 Mais tarde, Ceria reconhecerá que o documento
foi na verdade composto pelo padre Bonetti.84
Em outras ocasiões, Lemoyne unia vários fragmentos, justapondo-os ou
intercalando-os, segundo o interesse daquilo que ele pensava ser a verdade to-
tal. Em outros casos, esse procedimento ocasionou uma falsa caracterização,
devido à forma totalmente nova que dava à sua fonte.
Um dos exemplos mais enganosos é a história da audiência, inteira-
mente imaginada, que Pio IX supostamente concedeu a Dom Bosco em 10
de fevereiro de 1870. Cada um dos trechos reunidos é “substancialmente”

80
MB IV, 119-120.
81
G. Bonetti, “Storia dell’Oratorio” [...], BS (abril 1881) 15, nota 1.
82
Documenti XL, 324-332.
83
MB XVIII, 621-623; MB XVIII, 569.
84
Cf. Epistolario Ceria IV, 393, nota.

83

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Dom Bosco: história e carisma 1

autêntico, mas o quadro geral resultante é completamente fictício. Esta au-


diência nunca aconteceu.85
Apesar das deficiências do método, Lemoyne tentou ser um narrador
fiel. Sua compilação recolhia, com frequência, as mesmíssimas palavras de
Dom Bosco refletindo o espírito do Fundador.

A fisionomia “carismática” de Dom Bosco


Lemoyne teve por finalidade descrever, com a ajuda de uma multidão de
testemunhas, a vida de um homem extraordinário. Movido pela admiração
por esse homem, ele procurou examinar a vida interior do Santo de modo
que suas descrições se converteram em “explicações”. Ao trabalhar com mo-
delos conceituais, Lemoyne sobrepôs ao sujeito a imagem idealizada da sua
concepção pessoal. Ele, provavelmente, não estava ciente disso; acreditava ser
tão objetivo, que não sentiu qualquer necessidade de analisá-la criticamente.
O exame crítico da fisionomia idealizada ajudaria o historiador a entender a
mentalidade refletida nas Memórias Biográficas, mentalidade que configurou
profundamente a “psique” salesiana.
Refiro-me aqui a um aspecto relevante da questão. Lemoyne viu Dom
Bosco como um carismático, no sentido weberiano da palavra. Desde seu pri-
meiro encontro — a experiência de Lerma —, ele atribuiu poderes sobrena-
turais a Dom Bosco e, mais tarde, essa atitude influenciou a sua interpretação
do Santo. Xavier Thévenot, referindo-se a Dom Bosco, escreveu:

A força carismática é considerada como dom extraordinário de Deus e sobrena-


tural quando aquele que a possui é um crente. Quem possui essa força afirma
acreditar que lhe foi confiada uma missão que se transforma numa espécie de
urgência interior e sinal da vontade de Deus [...]. A partir desse ponto de vista
psicanalítico, pode-se dizer que um líder carismático se considera alguém dota-
do de conhecimento e poder especiais. Como seus discípulos o idealizaram, ele
aparece diante deles perfeito e capaz de triunfar onde os outros fracassam. Como
consequência, creem-no infalível e onipotente e, com frequência, também al-
guém que conseguiu um controle extraordinário sobre seus desejos agressivos e
sexuais. Admitir que, de fato, o líder está sujeito a esses desejos seria uma negação
dolorosa da necessidade infantil de onipotência que está na raiz da idealização.86

F. Desramaut, “Le récit de l’áudience pontificale du 12 février 1870 dans les Memorie biografiche
85

de Don Bosco”, RSS 6 (1987) 81-104. Esta audiência imaginária é descrita em MB IX, 815, 826-827.
86
Xavier Thévenot, Don Bosco éducateur et le système préventif (Colloque universitaire de Lyon,
1988). Esta apresentação também está em Orientamenti Pedagogici 25 (1988), 704-705.

84

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Quando Dom Bosco refletia sobre sua vida passada, sentia certamente
que Deus e a Virgem Maria o tinham guiado, iluminado e sustentado em
suas difíceis empreitadas, enfim coroadas de sucesso. Segue-se disso que o
biógrafo o visse como objeto de uma espécie de “predeterminação” divina.
Além disso, Dom Bosco afirmava ter visto num sonho Nossa Senhora que
lhe indicava um local de Valdocco e uma grande igreja que ali surgiria, com a
frase: “Esta é a minha casa, de aqui sairá a minha glória”. Ele, porém, nunca
afirmou que recebera desde o início instruções divinas ou uma vocação tão
clara ou como entendê-la e depois segui-la ao longo da sua vida. Essa inter-
pretação ignora as forças históricas e as causas secundárias, outro aspecto
típico da mentalidade pré-científica. Priva-se assim a vida do Santo do seu
significado histórico real. Essa é precisamente a imagem de Dom Bosco que
Lemoyne projeta nas Memórias Biográficas. Confirma-o um estudo recente
de Braido e Arenal sobre Lemoyne historiador, citando um pequeno trabalho
feito por ele a respeito do papel de Maria na vida de Dom Bosco. Tudo se
resume numa simples regra: “Sempre que Dom Bosco projetava um novo
empreendimento, costumava falar como se visse claramente todas as suas
etapas mais ou menos triunfantes [...], como o capitão de um barco [...] que
conhece antecipadamente toda a travessia, mesmo antes de o barco deixar o
porto. Ó, quão boa é a Virgem!”.87
Lemoyne escreveu isso em 1889. Quatro anos antes, ele expressara quase
a mesma ideia nos Documenti, em relação à visita de Dom Bosco ao padre
Antonio Rosmimi, em cuja congregação pensava entrar. Lemoyne escreve:

Ele, por sua vez, estava disposto a total obediência a alguém que lhe dissesse
o que fazer, e teria preferido continuar seu projeto sob a autoridade de algum
outro; em outras palavras, guiado pela obediência a um superior. Entretanto,
a Virgem Maria, numa visão, indicara-lhe o campo do seu trabalho. Ele tinha
um plano predisposto e preordenado do qual não podia e não devia desviar-se
livremente; era inteiramente responsável pelo seu resultado; e tinha uma visão
clara do caminho a seguir e dos meios a empregar para o empreendimento ter
sucesso. Não podia, portanto, pô-lo em perigo confiando-o ao julgamento e
aos desejos de outros. Naquele ano, ele simplesmente queria estudar se pode-
ria levar a cabo a sua obra em algum instituto existente, mas logo percebeu
que não [...].88

87
G. B. Lemoyne, La Madonna di Don Bosco: ossia Relazioni di alcune grazie concesse da Maria
Ausiliatrice ai suoi devoti. Turim: Tipografia Salesiana, 1889, 17-19, em Pietro Braido - Rogélio Are-
nal Llata, Lemoyne, 113.
88
Documenti III, 151.

85

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Dom Bosco: história e carisma 1

Cresce, nas Memórias Biográficas, o poder persuasivo dessas conside-


rações, atribuindo-as diretamente ao próprio Dom Bosco. Para tanto, ser-
ve-se de uma passagem da crônica de Barberis de 1º de janeiro de 1876,
em que o cronista conta a explicação de Dom Bosco sobre o motivo pelo
qual tinha considerado entrar entre os rosminianos. Ele cita Dom Bosco
em primeira pessoa explicando a questão a alguns Salesianos, incluído o
padre Barberis:

“É verdade, reverendo Dom Bosco, que [o senhor] esteve alguns dias como
noviço entre os dominicanos?” “Não [com os dominicanos], mas eu tinha
pensado em unir-me aos oblatos aqui em Turim, aos rosminianos [...].
Quanto ao que me dizia respeito, creio que poderia ter vivido em harmo-
nia, sob a obediência, em qualquer comunidade religiosa. De fato, teria
sido feliz por tê-lo feito. Entretanto, já tinha criado um plano bem elabo-
rado, ao qual não podia e não devia renunciar. Considerei a possibilidade
de colocar aquele plano em execução numa congregação já existente, mas
percebi que isso não se podia concretizar. Por conseguinte, não me uni a
nenhuma congregação, mas decidi-me a reunir pessoalmente um grupo de
irmãos ao meu redor, de modo que lhes pudesse comunicar o espírito que
eu sentia tão profundamente [...], porque tinha uma clara compreensão da
direção a tomar e dos meios a usar para chegar à meta”.

Em seguida, Barberis acrescenta a própria interpretação carismática,


“sobrenatural”, das palavras de Dom Bosco, fazendo o Fundador falar no-
vamente em primeira pessoa:

A esta altura, Dom Bosco parecia confuso, como que incapaz de encontrar
palavras adequadas para explicar o que queria dizer, mas também sem reve-
lar muito. Para expressá-lo com palavras simples, creio que ele queria dizer
isto: “A Virgem Maria mostrara-me numa visão o campo em que fora cha-
mado a trabalhar, assim como os meios a usar para chegar à meta. Como
estava sozinho e não tinha ninguém para ajudar-me, pensei em unir-me a
alguma congregação em que pudesse levar adiante o plano que a Virgem
me havia confiado e conseguisse colaboradores para aquele fim. Descobri,
porém, que o espírito daquelas congregações, por mais santo que fosse, não
se adequava ao que eu tinha em mente. Assim, preferi trabalhar sozinho, e
abandonando a ideia de servir-me de colaboradores já formados, recrutei
meus próprios operários”. Não precisamos demonstrar tudo isso. Sabemos
que, ao menos desde 1843-1844 Dom Bosco criara planos bem elaborados,
isto é, planos que lhe tinham sido confiados pela Virgem Maria. Esse foi o

86

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A tradição biográfica de Dom Bosco

ano da famosa visão em que lhe foi dada a faixa (da obediência) com que
amarrar a cabeça de seus colaboradores.89

Dom Bosco falou do “seu plano”. Interpretando, Barberis falou de “pla-


nos que lhe tinham sido confiados pela Virgem Maria”. Nas Memórias Biográ-
ficas, Lemoyne acompanha ou imita Barberis e refunde o texto dos Documen-
ti pondo-o na primeira pessoa: “A Virgem Maria”, dizia-nos Dom Bosco mais
tarde, “tinha-me indicado numa visão o campo em que eu devia trabalhar. Eu
tinha, portanto, um plano concreto, preordenado, completo”.90 Dessa forma,
o plano “humano” converteu-se em plano “revelado”.
As Memórias Biográficas também registram outras declarações do preor-
denamento divino, que atribuem a Deus ou a Maria os planos concebidos
e realizados por Dom Bosco em determinadas circunstâncias da vida. Por
exemplo, quanto à pretendida nova edição do sonho vocacional de Sussam-
brino em 1837, Lemoyne escreve:

A esta altura não podemos deixar de fixar o olhar no progressivo e racional


suceder-se dos vários sonhos surpreendentes. Aos 9 anos, João Bosco veio a
conhecer a grandiosa missão que lhe será confiada; aos 16, escuta a promessa
de meios materiais, indispensáveis para acolher e nutrir inúmeros jovens; aos
19, uma ordem imperiosa faz com que entenda não ser livre de recusar a
missão que lhe foi confiada; aos 21, é-lhe revelada a classe de jovens cujo bem
espiritual deverá ter em especial cuidado; aos 22, é-lhe indicada uma grande
cidade, Turim, onde deverá dar início aos seus trabalhos apostólicos e às suas
fundações. E, como veremos, essas misteriosas indicações não acabarão aqui,
mas continuarão em intervalos até que seja realizada a obra de Deus. Poder-
-se-ia dizer, então, que estes sonhos são meras combinações da fantasia?91
A “progressão lógica” dos surpreendentes sonhos aos 16, 19, 21 anos etc. é
certamente inventada, uma conclusão à qual o biógrafo chega segundo os
diversos textos do sonho da vocação concatenados de forma acrítica.92

Estas interpretações, mais ou menos gratuitas, da vida de Dom Bosco como


“sobrenaturais” diminuem ou destroem o verdadeiro alcance da autêntica história

89
J. Barberis, Crônica autógrafa, Caderno III, janeiro 1, 1876, 55 FDB 835 E6 e 55-56, FDB
835 E6-7. A “faixa da obediência” refere-se ao sonho de 1844, como referido por Barberis a partir da
narração de Dom Bosco, em 1876.
90
MB III, 247.
91
MB I, 426.
92
Desramaut explicou profusamente a duplicação do sonho da vocação de Dom Bosco aos 9
anos, em Memorie, 250-256.

87

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Dom Bosco: história e carisma 1

de Dom Bosco. A busca, as incertezas, as lutas, os erros e descobertas, os contra-


tempos transitórios diante do êxito final parecem encenações. Dom Bosco confiou
certamente na graça de Deus e na intercessão de Maria, e acreditou na orientação
divina das circunstâncias de sua vida terrena, mas não do tipo que Lemoyne relata
em sua vida. Esses prejulgamentos impedem o conhecimento genuíno de Dom
Bosco, pois criam uma falsa imagem dele. O que aconteceu com o autêntico
Dom Bosco, que constantemente buscava e constantemente se adaptava?
A idealização permitiu a Lemoyne ressaltar outros aspectos do caráter
de Dom Bosco, especialmente as virtudes como a humildade, a doçura, a
amabilidade etc., como parte do legado carismático do herói. Essas qualida-
des influíram tanto no biógrafo, talvez inconscientemente, que encobriram
a apresentação das palavras e ações do seu herói. Qualquer impulso agressi-
vo foi sistematicamente minimizado. Por exemplo, Lemoyne nunca admitiu
que Dom Bosco ficasse ressentido alguma vez. Substituía sistematicamente a
palavra raiva por indignação. Nem jamais admitiu que tivesse demonstrado
alguma vez aspereza em relação a um aluno, inclusive nos sonhos.
Essa idealização é uma das muitas graves deficiências de um trabalho,
em muitos aspectos, gigantesco.

O método de Amadei e de Ceria


A forma de narrar e interpretar adotada por Ângelo Amadei no volume
X das Memórias Biográficas é semelhante ao de Lemoyne. Em geral, não difere
muito na sensibilidade e no estilo da narração.
Depois, com o volume XI, muda o tom. Os nove volumes (XI-XIX),
compilados pelo padre Ceria seguem o mesmo padrão; são interessantes e
bem escritos; essas qualidades, porém, são insuficientes para satisfazer a de-
manda de um enfoque mais crítico. Poder-se-ia esperar que em sua obra bio-
gráfica, o método de Ceria tivesse evoluído para algo mais conforme às atuais
legítimas expectativas.
Ele trabalhou em tempo recorde o que tinha de historiar (os anos 1875-
1888). Apesar da grande quantidade de documentos, conseguiu publicar um
volume por ano. Essa façanha foi possível porque seguiu fielmente os Docu-
menti de Lemoyne, que já eram uma razoavelmente bem articulada história
de Dom Bosco, exposta ano por ano em cerca de 30 volumes infólio. O mate-
rial relativo a 1875 estava em Documenti XV. Ele fez algumas, poucas, pesqui-
sas extras. Modificou o texto de Lemoyne de várias maneiras, embora nunca
tenha recusado, e nem sequer comprovado, as construções particulares do
seu predecessor; jamais quis identificar as fontes das quais Lemoyne se serviu.

88

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Bastará um exemplo entre muitos. No volume XVIII das Memórias Bio-


gráficas, ele copiou o diálogo e os comentários originais, mas sem qualquer re-
ferência à fonte, da história de uma inesperada visita de um advogado francês a
Dom Bosco em 3 de fevereiro de 1886. O advogado fez-lhe algumas perguntas
bastante indiscretas sobre os reis da casa Bourbon. O relato conclui assim:

Alguém suspeitou que fosse um agente da polícia francesa enviado para in-
vestigar as ideias políticas de Dom Bosco [em especial, sobre a possibilidade
de restaurar a monarquia francesa]. Em todo caso, as respostas do Santo não
podiam levantar suspeitas ou dar motivo para uma acusação. Fora sempre sua
diretriz não se imiscuir em política.

As palavras dessa conclusão são transcritas quase literalmente dos Documenti.93


Sem dúvida, diversamente de Lemoyne, Ceria não achou oportuno
incluir os pequenos detalhes em sua história. De fato, aos poucos, tomou
a liberdade de resumir passagens ou frases importantes. Tratava-se de uma
liberdade editorial que Lemoyne jamais havia tomado. Seja como for, os
princípios de interpretação que regeram os dois biógrafos eram semelhantes.
Ceria, como Lemoyne, sustentava que todos os testemunhos constituem uma
reflexão sobre a vida e que, assumidos como se apresentam, podem servir para
reconstruir a vida. Por conseguinte, falhou em analisar a vida de Dom Bosco
como ela se desenrolava no mundo real, sem examinar criticamente o espírito
e a substância do que as testemunhas escreveram.
A familiaridade de Ceria com a literatura greco-romana, porém, incli-
nava-o a desconfiar de Lemoyne, quando este narrava diálogos e relatos em
primeira pessoa. Ceria alterava-os, com frequência, para uma narração em
terceira pessoa.
Quando se comparam as Memórias Biográficas de Ceria com as suas fon-
tes nos Documenti, percebe-se que, diversamente de Berto e Lemoyne (os
outros redatores dos Documenti), Ceria dava menos importância às predições
e profecias de Dom Bosco.
Pode-se dizer que, em geral, Ceria introduziu os testemunhos originais
(dos Documenti) em sua narração sem qualquer alteração. Por isso, nem todas
as inexatidões, algumas certamente lamentáveis, devam ser-lhe atribuídas.94

A fonte é Documenti XXXI, 44-45, usada em MB XVIII, 28-29.


93

Por exemplo, Ceria, ao citar os Documenti, faz Dom Bosco dizer no Capítulo Geral III (1883)
94

que o Bolletino Salesiano deveria ser difundido “como um periódico público” (MB XVI, 412). As atas
do capítulo, redigidas sem dúvida por Marenco, que Ceria teve diante dos olhos, assinalavam justa-
mente o oposto: “Não devia ser promovido como um periódico” [ASC 046, CG 1883, 6].

89

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Dom Bosco: história e carisma 1

Ele foi mais moderno do que Lemoyne no enfoque, pois normalmente não
insistia muito nos prodígios. Havia algum progresso entre a geração de Le-
moyne e a seguinte. Não obstante, embora Ceria tenha sido mais prudente e
cauteloso na leitura de suas fontes, não pôde livrar-se totalmente da qualifi-
cação de “pré-científico” que se aplicou ao seu predecessor.
O texto dos volumes IX-XIX das Memórias Biográficas demonstra a ha-
bilidade literária de Ceria. O material relativo aos diversos anos da vida de
Dom Bosco está bem organizado, não agrupado aleatoriamente pelo gosto
da cronologia. Cada capítulo tem seu próprio título, que corresponde ao
conteúdo. O estilo é claro e a história desenvolve-se com fluidez. Para apre-
ciar essa qualidade literária bastaria retroceder e ler (pelo gosto de comparar)
algumas páginas do volume X, de Amadei. É como passar de um jardim
regular e ordenado a um bosque inculto. Para qualquer leitor das Memórias
Biográficas, os anos 1871-1874 da vida de Dom Bosco são incompreensíveis
na forma como Amadei os narrou no volume X.
Diversamente, o relato de Ceria dos anos 1875-1888 recolhe os aconte-
cimentos característicos de cada ano, que incluem a expedição dos primeiros
missionários, as fundações na França, que obtiveram sucesso ou não, os es-
forços de Dom Bosco para resolver os problemas com o arcebispo Gastaldi,
o assunto da Concórdia imposta por Leão XIII, as grandes viagens a Paris em
1883 e à Espanha em 1886, e os dolorosos últimos meses da vida de Dom
Bosco. Ceria apresenta estes acontecimentos de forma clara e cuidadosa.
Sem dúvida, algumas das decisões de Ceria como compilador das Me-
mórias Biográficas são questionáveis. Ele atenuou alguns episódios difíceis,
suavizou algumas conversas e, ocasionalmente, suprimiu os aspectos menos
agradáveis de alguns personagens. Era basicamente uma questão de diploma-
cia! Em 12 de agosto de 1952, padre Ceria disse-me pessoalmente [Desra-
maut] que em 1930 um cônego da cúria de Turim lhe negou o imprimatur
para o volume XI das Memórias Biográficas (o primeiro volume de autoria de
Ceria), porque o livro apresentava o arcebispo Gastaldi de um ponto de vista
desfavorável. Ceria pedira conselho ao jesuíta padre Rosa, da Civiltà Cattoli-
ca, que lhe aconselhara a publicar o trabalho pro manuscripto [privadamente],
instrumento jurídico que o dispensava de qualquer revisão da chancelaria
turinense. Assim, ele pôde publicar a obra, e o fato serviu-lhe de lição: padre
Ceria levou em consideração as reações de alguns eclesiásticos, o que pode
explicar seu silêncio sobre alguns temas em várias ocasiões.95

95
No mesmo dia ele me falou [Desramaut] sobre um incidente similar que foi de grande impor-
tância. Em 1930, um “revisor oficial” (um cardeal, se bem me recordo) disse ao padre Ceria que ele devia

90

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A tradição biográfica de Dom Bosco

A versão de Ceria sobre os acontecimentos é sempre moderada. Por


exemplo, ele não se detém na emocionante cerimônia de despedida dos mis-
sionários para Quito, quando as fontes falam dos suspiros e soluços de Dom
Bosco e da multidão reunida na igreja de Maria Auxiliadora;96 suaviza as pro-
postas de Dom Bosco ao Capítulo Superior sobre os internos em Valdocco.97
As palavras “muitos Salesianos não têm espírito salesiano para nada”, que
Dom Bosco disse numa reunião do Capítulo Superior em 5 de novembro de
1883, foram alteradas por Ceria nas Memórias Biográficas por “alguns Salesia-
nos [...]”.98 Consequentemente, a fisionomia resultante carece do vigor que
agradaria hoje.
Apresentar a visão de Ceria sobre a vida de Dom Bosco exigiria muitos
outros exemplos e um estudo comparado mais cuidadoso do que aqui é possí-
vel. Contudo, parece-me que se possa fazer este comentário. Em sua interpre-
tação habitual da vida de Dom Bosco, apesar da dependência em relação aos
relatos e comentários dos Documenti, Ceria evitou os excessos de Lemoyne e
uma sistematização a priori.99 Ele, sem dúvida, esforçou-se por se livrar das
explicações piedosas e “sobrenaturais” das quais Lemoyne era partidário. Em
geral, seguiu suas fontes e ofereceu, embora mais brevemente, uma versão de
Dom Bosco idêntica à que fora dada por Lemoyne.

Comentário final
Concluindo estas observações sobre o método de trabalho dos três au-
tores das Memórias Biográficas, é oportuno considerar as duas categorias de
pessoas que se aproximam deste trabalho, com intenções muito diversas. De
um lado, estão os que buscam alimento espiritual na leitura contínua das

suprimir o capítulo inteiro sobre o arcebispo Gastaldi no primeiro rascunho do seu magnífico livro, San
Giovanni Bosco nella vita e nelle opere. Ele o fez com grande reticência. De fato, na página 283 (no final
do capítulo XXXIV sobre a igreja de São João Evangelista), ele acrescentou estas palavras: “Este foi ape-
nas um dos episódios muito dolorosos, uma pequena parte da grande história de sofrimento que, devido
à sua duração e consequências, foi a provação mais severa que o Santo precisou suportar”. A passagem
conclui simplesmente: “Contudo, outras considerações de maior peso sugerem que a narração destes
assuntos deve ser postergada para um momento e lugar mais oportunos”.
96
Cf. Documenti XXXVI, 77 (da crônica de Viglietti), e MB XVIII, 430.
97
Cf. Documenti XXX, 521-523, e MB XVII, 197 ss.
98
Cf. Documenti XXX, 571 e MB XVII, 586.
99
Ele omite, por exemplo, a comparação inapropriada feita nos Documenti entre os intercâmbios
epistolares de Dom Bosco e a condessa Parisina Cessac e o relacionamento de São Francisco de Sales com
Chantal. Lê-se nos Documenti XLIV, 461: “Eram como os de São Francisco de Sales e Chantal […]”.
Veja-se também MB XVI, 231, onde Ceria escreve: “...e parece que tenha recebido dele muitas cartas de
direção espiritual. É o que se diz, mas até agora nós não conhecemos nem sequer uma delas”. Ceria está
certamente falando do que se narra nos Documenti que ele tinha diante dos olhos enquanto escrevia.

91

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Dom Bosco: história e carisma 1

Memórias Biográficas, usadas como livro de devoção. Depois, os que exami-


nam detidamente esses grossos volumes para encontrar material-fonte para o
estudo de Dom Bosco.
O primeiro grupo encontrará nas Memórias Biográficas, excluído o vo-
lume X, de Amadei, uma narração da vida de Dom Bosco que não é nem
mais nem menos “autêntica” do que todas as histórias, no sentido popular do
termo: história atraente, edificante, cheia de colorido e rica de episódios. A
história é pensada para enriquecer o espírito. A leitura ingênua das Memórias
Biográficas suportou a prova de um século, e seus benefícios, de muitas for-
mas, são óbvios. Este modo de ler a obra não é, em absoluto, uma perda de
tempo; ao contrário. Embora admitindo que, mesmo neste nível, possa haver
quem prefira leituras mais “verdadeiras” e documentadas sobre Dom Bosco.
Dirijo-me, agora, principalmente à segunda categoria, aos leitores que se
dedicam em maior ou menor medida ao estudo de Dom Bosco. Para eles, o
meu conselho é outro. Verão que os volumes das Memórias Biográficas cons-
tituem uma coleção útil de documentos relativos a Dom Bosco. Desramaut
cita, mais ou menos literalmente, um comentário que o padre Ceria em sua
velhice fez a ele e a muitos outros: “Aconselho a quem estiver pensando em
elaborar uma tese sobre Dom Bosco que escolha outro tema. Quem sabe, isso
possa ser possível mais tarde, quando as cartas de Dom Bosco tiverem sido pu-
blicadas”. Segundo Desramaut, Ceria reconhecia que as suas Memórias Biográ-
ficas, que muitos viam como fonte definitiva para um sério estudo sobre Dom
Bosco, não podiam servir de base para um rigoroso estudo sobre o Santo.
À exceção dos apêndices de documentos publicados sem avaliação crítica de
Ceria e Amadei no final de seus volumes, elas continuam válidas ainda hoje.100
Os volumes de Lemoyne e seus sucessores foram redigidos segundo as
normas de composição e interpretação pré-científicas. Por conseguinte, não
se garante a autenticidade de episódios que costumam gozar da preferência
dos leitores, como são as palavras do Santo ou os relatos das testemunhas
mais imediatas da sua vida, como as crônicas, por exemplo.
A partir disso é que seria preciso fazer mais pesquisas, sobretudo em re-
lação às fontes da vida e obra de Dom Bosco. Os pesquisadores deveriam
recorrer aos escritos e publicações pessoais de Dom Bosco, às suas cartas, às
crônicas e atas, publicadas ou não. Seriam evitados então os escolhos aos quais
se sujeitaram muitos dos que se serviram apenas das Memórias Biográficas.
Desramaut cita, por exemplo, o Capítulo Geral Salesiano de 1984, quan-
do foi renovado o texto das Constituições Salesianas. No primeiro artigo das
100
O artigo de Desramaut é de 1990, mas seu raciocínio ainda é válido [Nota dos editores].

92

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A tradição biográfica de Dom Bosco

Constituições renovadas, os Salesianos fizeram uso de uma fórmula atribuída


a Dom Bosco nas Memórias Biográficas, citando-a textualmente. O artigo diz
assim: O Espírito Santo, com a maternal intervenção de Maria, suscitou São
João Bosco. Formou nele um coração de pai e mestre, capaz de doação total:
“Prometi a Deus que até meu último alento seria para meus pobres jovens” (MB
XVIII, 258). Na verdade, a fonte dessa expressão é a crônica de Carlos Vi-
glietti (inalterada na transcrição da sua crônica). Nela se diz que Dom Bosco
prometera a Deus que “até seu último alento” ele dedicaria a própria vida “para
seus pobres órfãos”, não para seus “pobres jovens”. Em outras palavras, ele ti-
nha prometido empregar toda a sua vida para os jovens abandonados em cujo
pai se tinha convertido. Há uma grande diferença entre “viver para os pobres
jovens” e “viver para os jovens abandonados”.

93

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Capítulo III

AS MEMÓRIAS DO ORATÓRIO, DE DOM


BOSCO, E A HISTÓRIA DO ORATÓRIO,
DO PADRE BONETTI

Nossa reflexão sobre a historiografia de Dom Bosco deve incluir o exame


da narrativa de Dom Bosco sobre a origem e o primeiro desenvolvimento do
Oratório, as Memórias do Oratório, escritas entre 1873 e 1875. Acrescentaremos
a esta obra fundamental, como complemento, uma breve descrição da História
do Oratório, do padre João Bonetti, escrita nos anos 1879-1886 sob a supervi-
são do próprio Dom Bosco e publicada em capítulos no Boletim Salesiano.

I. MEMÓRIAS DO ORATÓRIO DE SÃO


FRANCISCO DE SALES
1. Origem e publicação
O texto das Memórias do Oratório foi composto por Dom Bosco no
arco de tempo que se estende de 1873 a 1875.1 Foi passado a limpo com
boa caligrafia pelo seu secretário, padre Joaquim Berto, e revisado, corrigido
e completado pelo próprio Dom Bosco em diversos momentos, até 1879. O
exame dos manuscritos evidencia que a maior parte do rascunho de Dom
Bosco foi feito nos anos 1873-1875. O restante, talvez, nos anos seguintes,
principalmente em 1877. Padre Bonetti, para escrever sua História do Ora-
tório, a partir de janeiro de 1879, serviu-se da cópia corrigida das Memórias
do Oratório; isso significa que padre Berto copiou o original de Dom Bosco
pouco depois de ele o ter escrito.

1
Para tratar das Memórias do Oratório, de Dom Bosco, usaremos o ensaio de Pietro Braido,
“Memorie del futuro”, RSS 20 (1992), 92-127. Cf. também a introdução feita por Aldo Giraudo à
edição das Memorias del Oratorio. Madri: Editorial CCS, 2010. Pode-se consultar também o tratado
de F. Desramaut, Memoire, 115-134, e id., Don Bosco, 1005-1008. Veja-se ainda a Introdução de
Antônio Ferreira da Silva, Memórias do Oratório de São Francisco de Sales 1815-1855. 3ª edição, São
Paulo: Salesiana, 2005.

94

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

Reservado inicialmente — como adverte na apresentação — aos seus


“muito amados filhos Salesianos, proibindo que, assim antes como depois
da minha morte, se dê publicidade aos assuntos aqui apresentados”, Dom
Bosco, sem dúvida, percebeu que, se os Salesianos iam ter acesso ao texto,
logicamente, a obra impressa acabaria por circular na Congregação.
De fato, permitiu ao padre Bonetti que utilizasse seu texto no Boletim
Salesiano. Lemoyne também se serviu dele, como documento de arquivo, nos
Documenti e nas Memórias Biográficas. Contudo, a obra só apareceu impressa
em 1946, quando padre Ceria publicou uma esplêndida, embora não crítica,
edição do manuscrito do padre Berto corrigido por Dom Bosco. Recente-
mente, foram publicadas, pelos Salesianos do Instituto Histórico Salesiano,
algumas edições críticas do texto e edições em várias línguas.2

Intenção expressa de Dom Bosco e propósito implícito


Dom Bosco enumera no prefácio três intenções da obra:

Servirá de norma para superar as dificuldades futuras, aprendendo as lições


do passado; servirá para dar a conhecer como o próprio Deus conduziu todas
as coisas a cada momento; servirá de ameno entretenimento para meus filhos
quando lerem as aventuras em que andou metido seu pai.3

Estes propósitos são vistos ao longo de toda a narração, que em muitos


pontos é divertida ou didática, consagrada totalmente a demonstrar que o
Oratório foi fruto da ação direta de Deus.
A obra, entretanto, tem uma finalidade mais ampla e fundamental, não
indicada no prefácio e que parece ter dado inspiração e estímulo à história.

2
O manuscrito original de Dom Bosco é conservado em ASC A220ss: Autografi-Oratorio, “Memo-
rie dell’Oratorio”. FDB 57-60. A cópia de Berto com as correções de Dom Bosco e os acréscimos: ibid.,
FDB 60-63. A obra foi publicada pela primeira vez com notas dos manuscritos de Berto sob o título de
San Giovanni Bosco, Memorie dell’Oratorio di S. Francesco di Sales dal 1815 al 1855, edição de Eugenio
Ceria. Turim: SEI, 1946 [MO Ceria]. A edição crítica foi publicada pelo Instituto Histórico Salesiano
com o título G. Bosco, Memorie dell’Oratorio di S. Francesco di Sales dal 1815-1855. Introduzione, note
e testo critico a cura di Antonio da Silva Ferreira. Roma: LAS, 1991 [MO Silva]. Em espanhol, foi
traduzida e publicada em Quito, por F. Peraza, e, em Madri, com introdução de Aldo Giraudo, em
edição preparada por José Manuel Prellezo. Madri: Editorial CCS, 2003, com o título de Memorias del
Oratorio de San Francisco de Sales de 1815 a 1855. O mesmo José Manuel Prellezo cuidou também da
edição da obra em Juan Bosco, El sistema preventivo en la educación: memorias y ensayos. Madri: Biblioteca
Nueva, 2004, 97-248. Em português, foi traduzida por Fausto Santa Catarina, revista e ampliada por
Antônio da Silva Ferreira, Memórias do Oratório de São Francisco de Sales 1815-1855. 3ª edição. São
Paulo: Salesiana, 2005. As citações neste trabalho com a sigla MO são desta edição em português.
3
MO 23.

95

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Dom Bosco: história e carisma 1

Trata-se da preocupação de descrever a origem e o desenvolvimento gradual


de uma “experiência espiritual-educativa”, que assumindo a forma de Orató-
rio, tornou-se meio muito eficaz para enfrentar as necessidades de uma nova
geração de jovens. Parece que foi esta a prioridade absoluta do autor, como a
narração o revela. Trata-se da “intenção oculta” de Dom Bosco. Os objetivos
fixados no prefácio, especialmente o segundo (a orientação divina), estariam
em relação com a finalidade implícita.
A prioridade de Dom Bosco era, pois, apresentar aos seus seguidores
a experiência espiritual-educativa representada pelo Oratório, e que deveria
servir de programa normativo da vida e da atividade salesiana no futuro.
Esta história do Oratório, tão deliciosa, poética e, às vezes, também divertida
parece ter sido entendida como o contexto vital das páginas do tratado sobre
o Sistema Preventivo na educação da juventude, escrito por Dom Bosco em
1877, pouco depois das Memórias, para a abertura do Orfanato de São Pedro
em Nizza; por isso, leva em consideração, sobretudo o internato.
Esse propósito, entretanto, parece mais claro quando se percebe que
Dom Bosco se desdisse quanto à decisão de manter as Memórias em família,
permitindo ao padre Bonetti a publicação no Boletim Salesiano da maior par-
te do material abrangendo os anos 1841-1845. Um dos objetivos da História
de Bonetti é, com efeito, recomendar a todos (à Família Salesiana) o método
educativo de Dom Bosco para a educação da juventude. Em 1880, o mé-
todo já era conhecido dos seguidores de Dom Bosco e considerado como
uma criação da experiência educativa de Dom Bosco e do seu compromisso
de colocar a vida a serviço da juventude e vivido através do Oratório. Padre
Bonetti escreve:

Pode-se entender com facilidade o exemplo aqui relatado [o modo de Dom


Bosco tratar os jovens], como também pelos casos mencionados aqui e
alhures em capítulos anteriores, qual era e é o método de Dom Bosco de
educar os jovens. Ele os educa não com o sistema repressivo, mas com o
preventivo. Ele provou que este sistema é efetivo para a educação moral da
juventude, e tentou inculcá-lo praticamente nos colaboradores, catequistas,
professores e assistentes.4

As Memórias do Oratório devem ser lidas tendo presente a intenção do


autor ao contar a história do Oratório. É também o caso da História do Ora-
tório, de Bonetti.
4
Storia dell’Oratorio di S. Francesco di Sales, cap. XXI, BS 4 (1880) 9. Cf. G. Bonetti, Cinque
lustri, 136-137.

96

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

As circunstâncias da redação
Em sua introdução, Dom Bosco diz que escrevia por obediência “à auto-
ridade de quem me aconselhava”,5 referindo-se às palavras de Pio IX em 1858
e, novamente, em 1869. O motivo da obra deve ser buscado na sugestão de
Pio IX a Dom Bosco durante a histórica audiência de 1858, quando Dom
Bosco falou pela primeira vez ao Papa sobre a sua ideia de fundar uma con-
gregação religiosa. Como se lê nas Memórias Biográficas, a conversa versara
sobre Domingos Sávio, falecido recentemente, e os dons “sobrenaturais” com
que o jovem fora agraciado:

Esta revelação [a visão de Domingos Sávio sobre a conversão da Inglater-


ra] fez surgir uma dúvida na mente de Pio IX que, olhando fixamente para
Dom Bosco, perguntou-lhe se também ele, por acaso, teve alguma indicação
celeste para continuar na obra que tinha fundado; e, como lhe pareceu que
Dom Bosco titubeasse um pouco, insistiu que lhe contasse minuciosamente
todas as coisas que tivesse apenas aparência de sobrenatural. Dom Bosco,
com abandono filial, contou-lhe o que se apresentou à sua fantasia em sonhos
extraordinários, que em parte já se tinham verificado, a começar do primeiro,
quando ele tinha cerca de 9 anos. O Papa ouviu-o com viva atenção, e muito
comovido, não escondendo que lhe dava muita atenção; e recomendou-lhe:
“Ao voltar a Turim, escrevei estes sonhos e todas essas coisas que me expu-
sestes agora, minuciosamente e no seu sentido natural; conservai-as como
patrimônio para a vossa Congregação; deixai-as para encorajamento e norma
aos vossos filhos”.6

Em 1869, Pio IX transformou o primeiro convite numa ordem.7 A “or-


dem de uma pessoa de alta autoridade” pode ter sido um incentivo, mas não
deve ter sido o único, e nem sequer o principal, pois, em seguida, Dom Bosco
enumera as motivações que podem ser resumidas na “bondade” ou “necessi-
dade” da Congregação, em tempos de sua consolidação jurídica e espiritual
(a década de 1870). De qualquer forma, não as escreveu quando em 1858
recebeu pela primeira vez a sugestão ou, em 1869, a “ordem”. Por que retar-
dou a redação até meados da década de 1870? A referência de Dom Bosco à
alta autoridade pode ser uma argúcia para valorizar o texto, utilizada também
em outros escritos, por exemplo, na introdução ao pequeno tratado sobre o
Sistema Preventivo e na introdução da memória das Perquisições internas.
5
MO, 5.
6
MB V, 882.
7
MB VIII, 587.

97

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Dom Bosco: história e carisma 1

A época dos escritos intencionais de Dom Bosco


As Memórias devem ser entendidas como o resultado da preocupação do
Fundador numa época de consolidação da sua obra e de reflexão sobre ela.
Dom Bosco, com frequência, falava das “grandes coisas” que Deus realiza-
ra com a primitiva obra do Oratório e da Congregação Salesiana. Também
escreveu sobre elas; seus escritos sobre o tema se concentram sobretudo em
duas épocas.
A primeira época vai de 1854 a 1864 e coincide com o período da cria-
ção e da primeira estruturação da Congregação, que obteve o decretum laudis
em 23 de julho de 1864. O segundo período, de 1873 a 1878, é o da conso-
lidação da Congregação como entidade jurídica, com organização institucio-
nal e estruturas disciplinares e educativas.
Entram no primeiro período, muitos dos escritos que se referem à ins-
tituição e não foram publicados no tempo de Dom Bosco: a “Introdução”
ao esboço de Regulamento do Oratório de 1854 (Piano di Regolamento), as
Notas históricas (Cenno storico) de 1854 dos mesmos regulamentos e das No-
tas históricas (Cenni storici), de 1862.8 Acrescentem-se ainda as palavras de
Dom Bosco nas primeiras crônicas de Domingos Ruffino e João Bonetti, que
representam os ensinamentos formativos do Fundador e sua preocupação
de apresentar a experiência do Oratório. As três biografias (Sávio, Magone,
Besucco) publicadas por Dom Bosco entre 1859 e 1864, tomadas em seu
conjunto, mostram os resultados educativos do método de Dom Bosco.
Entra no segundo período, de profunda reflexão do Fundador, uma sé-
rie importante de escritos: primeiramente, as Memórias do Oratório (1873-
1875), o Sistema Preventivo na educação da juventude (1877) e outro texto
com o mesmo título, embora com conteúdo diverso (1878).9 Seria preciso
acrescentar também a memória das Perquisições internas (1875).10 Nessa épo-
ca, em 1877, começou-se a publicar o Boletim Salesiano e, em setembro-
-outubro do mesmo ano, celebrou-se o Primeiro Capítulo Geral. Enfim, em

8
O texto crítico destes três documentos foi publicado por Pietro Braido. Don Bosco per i giova-
ni: “l’oratorio” - una “congregazione degli oratori”. Documenti. Roma: LAS, 1988, 7-77. Tradução em
espanhol: Pietro Braido (ed.), Juan Bosco, el arte de educar: escritos y testimonios. Madri: Editorial CCS,
1994. As duas Notas históricas sobre o Oratório foram reproduzidas por J. M. Prellezo em Juan Bosco,
El sistema preventivo, 74-95.
9
Os dois textos foram editados criticamente: G. Bosco, Il sistema preventivo nella educazione
della gioventù. Introdução e textos críticos de P. Braido. Roma: LAS, 1985. Publicados na Espanha em
Pietro Braido (ed.), Juan Bosco, el arte de educar: escritos e testimonios. Madri: Editorial CCS, 1994, e
reproduzidos por J. M. Prellezo, Juan Bosco: el sistema preventivo, 249-260.
10
Cf. P. Braido - F. Motto, Don Bosco, 111-200.

98

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

1879, Bonetti, certamente por insinuação de Dom Bosco, começou a publi-


car no Boletim Salesiano a “apologia” do Oratório e da Congregação Salesiana
para a Família Salesiana e o público em geral.11
Entre os escritos do segundo período, as Memórias do Oratório são da
máxima importância. Não foi por acaso que Dom Bosco trabalhara com
grande sacrifício durante vários anos em sua composição: de 1873 a 1875,
para o primeiro rascunho e, até 1877, numa cuidadosa revisão, que supôs
muitas correções e acréscimos. Esta obra é importante por várias razões: (1)
pelo sujeito do seu argumento, o Oratório; (2) pela sua finalidade, a trans-
missão da experiência do Oratório; (3) pela sua forma e estilo literários.
O exame da forma e do estilo não é irrelevante. A forma e o estilo lite-
rários das Memórias fazem com que sejam únicas: um estilo muito distinto
daquele dos documentos que tratam do mesmo sujeito, ou seja, a origem e
a finalidade do Oratório e da Congregação Salesiana. Nesses documentos,
Dom Bosco delineia a história da sua instituição. E, embora essa história seja,
às vezes, ampliada e organizada com a finalidade de defender determinadas
ideias e experiências, o estilo é sério e concreto. As Memórias, ao contrário,
têm a forma literária de uma “saga”; seu estilo é narrativo e repleto de histó-
rias e aventuras.

Forma literária das Memórias: autobiografia?


Como a obra trata do Oratório de São Francisco de Sales, Dom Bosco
deveria ter iniciado a história a partir de 1841, quando começou a reunir os
jovens em situação de risco. Também poderia ter tomado 1844 como ponto
de partida, quando um grupo de jovens chegou ao Oratório de São Francisco
de Sales. Não obstante, iniciou a narrativa em 1815, ano do seu nascimento,
a indicar que, em sua reflexão de meados da década de 1870, ele identifica-
va o Oratório (com tudo o que significasse: missão, espiritualidade, método
educativo etc.) com a sua própria vida. Afinal, ele já estava “fazendo oratório”
e teve o sonho vocacional aos 9 anos de idade.
Dom Bosco estava convencido de que, por disposição de Deus e sob sua
guia desde o início, a vida dele estava inseparavelmente unida ao Oratório e à
Congregação Salesiana. Isso faz das Memórias uma autobiografia, mas só mate-
rialmente, pois ele percebeu que, se quisesse escrever sobre o Oratório, deveria
falar necessariamente de si mesmo.12 Aceitou o “risco”, embora, formalmente,
11
Conhecida como História do Oratório. Dom Bosco enfatiza repetidamente que o Boletim
Salesiano ia ser o seu instrumento pessoal para que os Salesianos Cooperadores pudessem receber os
ensinamentos e diretrizes do Fundador.
12
Cf. MO, 23.

99

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Dom Bosco: história e carisma 1

não pretendesse escrever uma autobiografia. O título do livro não nos deixa
qualquer dúvida a respeito; por isso, não se pode interpretar como “memórias
pessoais” ou “memórias autobiográficas”, mas com o que querem ser: “memó-
rias do Oratório”.13
O Oratório estava intimamente ligado à sua pessoa; isso, porém, não
significa que as realidades sejam intercambiáveis. A história da obra não é
idêntica à história de quem a realiza, e menos ainda quando, como neste caso,
o agente humano sempre se apresenta em segundo plano em relação ao Agen-
te Divino. Nas Memórias, a missão do Oratório não é considerada assunto
pessoal. Isso seria confundir o “ideal” inspirado por Deus (que possivelmente
vai assumindo formas históricas progressivas) com o indivíduo concreto, cha-
mado a trabalhar pelo ideal em circunstâncias históricas particulares.
Na introdução ao Esboço de Regulamento do Oratório (1854), Dom Bos-
co apresenta o Oratório como uma instituição sagrada, no sentido de ser
obra da Divina Providência. O Oratório era destinado a ser um instrumento
a partir do qual, nas novas circunstâncias históricas, a “santa religião do Filho
de Deus” iria trabalhar a favor da juventude.14 Por essa razão, Dom Bosco fala
sem rodeios do Oratório, porque em sua mente é o novo modo inspirado por
Deus para ajudar a juventude, como o “exigem os novos tempos”. Ao fazê-lo,
deve falar também de si mesmo, mas só enquanto sua vida se liga à obra do
Oratório, e pouco mais.
Dom Bosco fizera do Oratório, assim concebido, o tema de escritos
e discursos muito antes de escrever as Memórias. Por exemplo, nos docu-
mentos de 1854 e 1862 e nas conferências e conversas familiares com que
ia formando seus Salesianos nos anos de 1860, falava do Oratório com
os mesmos termos “carismáticos”. O tema do Oratório também funciona
como leitmotiv na “carta-declaração” do Comitê histórico em sua fundação

13
As Memórias na edição inglesa trazem o subtítulo de Autobiografia de São João Bosco. Na edição
francesa, de Francis Desramaut, intitula-se Souvenirs autobiographiques. Desramaut trata de esclarecê-
-lo. Escrevendo Memórias, 120-121.131-133, ele usa o termo “autobiographie”, mas só aparentemente
relacionado com a segunda finalidade (para entretenimento) e com os elementos históricos pessoais,
não necessariamente relacionados com o principal propósito educativo. Ademais, “esta autobiografia
é um pequeno tratado sobre o método educativo em vigor” (p. 121). O mesmo autor escreve em Don
Bosco, 1005-1008: “Para começar [Dom Bosco] não escrevia suas memórias pessoais como seria apre-
ciado pelos franceses; não presumia [...] escrever uma história do Oratório” (p. 105). Especula dizendo:
“Terá Dom Bosco nos deixado em suas Memórias uma autobiografia dissimulada no estilo de Gil Blas?
[O caráter autobiográfico das Memórias] poderá ser discutido por muito tempo no futuro” (p. 107)
[Gil Blas é uma novela picaresca talvez com base autobiográfica]. Sem dúvida, é obrigatório conceder
à obra de Dom Bosco o título de “autobiografia”. Isso colocaria Dom Bosco entre as grandes figuras
históricas que legaram uma “autobiografia” à posteridade.
14
Cf. P. Braido, Don Bosco I, 30-31.

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

de março de 1861. Nela, o Oratório é considerado como obra da Divina


Providência, que atua de maneira nova e extraordinária mediante Dom
Bosco a favor da juventude.15
Do ponto de vista da história do pensamento religioso, a concepção
“teológica” do Oratório deve ser entendida desde a religiosidade popular.
Tende a ver a mão de Deus atuando nos acontecimentos ordinários e ex-
traordinários, levando o plano da salvação de Deus além das expectativas
humanas. Dom Bosco fala assim sobre a queda de Napoleão, o retorno de
Pio VII a Roma, as perquisições internas e o castigo de seus autores. Essa é a
mentalidade religiosa que preside a história do Oratório e da ação de Dom
Bosco nele. Não se diz uma só palavra sobre as forças sociais e históricas que
influíram no surgimento e desenvolvimento do Oratório.

Plano narrativo
A narrativa da história apresenta-se dividida em décadas. A divisão é
deliberada e cuidadosamente elaborada, criando um paralelo entre os mo-
mentos significativos da vida de Dom Bosco e o desenvolvimento crucial da
experiência do Oratório. Contudo, os momentos biográficos só têm relevân-
cia enquanto servem de base da experiência do Oratório, que é o interesse
central das Memórias. Dom Bosco deixa-o claro: “Apresento estas memórias
divididas em décadas, ou períodos de dez anos, porque em cada uma delas
se produziu um notável e sensível desenvolvimento de nossa instituição”.16
Na prática, a divisão é determinada por acontecimentos reais ou simbóli-
cos que, embora façam parte da história pessoal do autor, têm significado en-
quanto demarcam um cenário no desenvolvimento da experiência do Oratório.
Os dez anos do período da infância (1815-1824/1825) são tratados tão
brevemente, que nem sequer os considera como décadas, mas situam o “apa-
recimento” do Oratório.
A primeira década (1824/1825-1834/1835) abre-se com o primeiro
sonho vocacional. Olhando para trás, Dom Bosco interpreta e apresenta o
sonho intencionalmente como uma investidura divina da missão oratoriana.
O compromisso imediato de João Bosco com os meninos do seu ambiente
acompanha aquilo que o sonho sugere. Durante os estudos secundários em
Chieri (1831-1835), seu compromisso floresce no apostolado entre os com-
panheiros. Aqui, o Oratório assume o lugar central.

15
Cf. Croniche, Ruffino.
16
MO, 23.

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Dom Bosco: história e carisma 1

A segunda década (1834/1835-1844/1845) tem uma nota introdutória


afirmando que o sonho se repetiu, embora não se diga que se repetisse nesse
momento. Essa menção relaciona-se com a decisão vocacional que eleva sua
vocação oratoriana a outro nível: “Deixei de fazer-me de saltimbanco [...].
Continuei, porém, a ocupar-me com os meninos, entretendo-os com contos,
agradáveis distrações, cantos sacros. [...] Era uma espécie de oratório”.17 A
década começa quando Dom Bosco recebe o hábito clerical ao entrar no se-
minário; alcança o seu auge, em Turim, com a ordenação e a “descoberta” dos
“pobres e abandonados” no inverno de 1841-1842. Entrara naquele tempo
no Colégio Eclesiástico. O encontro simbólico com Bartolomeu Garelli em
8 de dezembro de 1841 assinala o início do “verdadeiro” Oratório: “Essa é a
origem do nosso Oratório”,18 que prospera gradualmente em São Francisco
de Assis até 1844.
A terceira e última década (1844/1845-1854/1855) tem uma introdução
que repete o sonho e a opção de Dom Bosco pelos jovens ao trocar o Colé-
gio Eclesiástico pelo Refúgio da marquesa Barolo. A década começa com o
estabelecimento da “primeira igreja do Oratório” em 8 de dezembro de 1844
no Pequeno Hospital [de Santa Filomena] da marquesa Barolo, e o Oratório
transforma-se em Oratório de São Francisco de Sales.19 A mão de Deus faz-se,
então, mais evidente: conduz o Oratório itinerante ao lugar do seu destino.20
Nesse tempo, a opção de Dom Bosco pelos jovens torna-se exclusiva e irre-
vogável, quando decide abandonar a “segurança” do emprego da marquesa
Barolo para viver somente para os seus meninos. Ele diz à marquesa:

Deixarei oficialmente o cargo [que me oferece] e me dedicarei inteiramente


ao cuidado dos meninos abandonados [...]. A minha vida está consagrada ao
bem da juventude. Agradeço-lhe as ofertas que me fez, mas não posso afastar-
-me do caminho que a Providência me traçou.21

17
MO, 81.
18
MO, 125.
19
MO, 135.
20
Sobre os vários locais do Oratório, cf. MO, 135-159. Dom Bosco estava firmemente conven-
cido de que Deus estava na obra do Oratório tanto para levar à salvação dos jovens por meio do Ora-
tório como para castigar a quem se opusesse à obra. Ao falar na primeira profissão em 14 de maio de
1862, Dom Bosco disse: “A tarde toda não bastaria para enumerar os dons especiais da proteção divina
demonstrada ao nosso Oratório desde seus inícios. Nisso está a nossa certeza de que Deus está conosco.
Portanto, podemos ir adiante com a certeza de que estamos realizando a santa vontade de Deus” (G.
Bonetti, Annali III, 4, em ASC A004s, 922 E12].
21
MO, 158. Há um problema real quanto ao início da terceira década. Nos manuscritos origi-
nais da edição crítica de 1991, dão-se dois limites cronológicos da terceira década. O primeiro diz: “3º
Memórias do Oratório de 1845 a 1855” [MO Silva, 134], seguido da história dos diversos lugares onde

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

1854 como terminus ad quem da narração


Apesar do título, Memórias do Oratório [...] 1815-1855, a obra termina
de fato em 1854 quando, de acordo com as palavras de Dom Bosco, iniciava
uma nova história que, ao ser escrita, poderia se chamar de Memórias da So-
ciedade de São Francisco de Sales. Deste modo, quando descreve (em 1848!)
os esforços para cuidar de “algumas pessoas com inclinação à vida de comu-
nidade”, acrescenta: “Desse assunto se haverá de falar à parte na História da
Sociedade Salesiana”.22
Temos confirmação posterior de que Dom Bosco pensou o ano de 1854
como divisor de águas na saga da sua fundação. Em 1852, Dom Bosco obteve
do arcebispo Luís Fransoni, exilado em Lyon, um decreto em que o nomeava
diretor único dos três oratórios. Começou imediatamente a criar uma série
de regulamentos para a obra do Oratório (1852-1854). Em 26 de janeiro de
1854, reuniu as quatro primeiras pessoas que se propuseram a “fazer [...] uma
experiência de exercício prático de caridade com o próximo”, e, de acordo
com uma anotação posterior do padre Rua, e do padre Lemoyne que assim o
interpreta, assumiram pela primeira vez o nome de “Salesianos”.23 Olhando
para trás, esse acontecimento representaria a primeira experiência significati-
va que levaria à fundação da Congregação em 1859. A importância do ano
1854 surge da passagem da crônica de Barberis redigida precisamente quan-
do Dom Bosco concluiu o rascunho das Memórias:

Esta tarde, o Reverendo Dom Bosco ouviu algumas confissões [...]. Após
o jantar, entreteve-se a conversar sobre os primeiros anos do Oratório [...].
“Quando os oratórios tiveram início, aconteceram muitos fatos importantes

o Oratório se foi estabelecendo (1845-1846). A segunda diz: “Memórias do Oratório de São Francisco
de Sales de 1846 a 1856” [MO Silva, 157]. A segunda revisão é feita depois da localização no terreno
do senhor Pinardi (março-abril, 1846) e vem seguida da história da bênção da capela da casa Pinardi
(“uma nova igreja”). A dupla informação da terceira década pode ser explicada pelo fato de Dom Bosco
ter a intenção de estabelecer um ponto adequado para o próximo passo. Poderia estar refletindo se isso
aconteceu quando deixou o Pequeno Hospital Barolo em 1845 (tempo do Oratório itinerante) ou
quando do assentamento na propriedade Pinardi (1º de abril de 1846). Deve-se levar em consideração
que o compromisso vocacional definitivo de Dom Bosco com os “pobres e abandonados” aconteceu
durante o terrível inverno de 1845 (portanto, antes do seu assentamento na casa Pinardi), quando,
apesar da doença e da oposição, optou por continuar com o Oratório.
22
Cf. MO, 205.
23
Cf. MB V, 9. A anotação do padre Rua sobre o uso do termo “Salesiano” pela primeira vez
não era realmente um original da reunião acontecida em fevereiro de 1854, mas uma nota mais tardia
que o padre Rua escreveu provavelmente a pedido de Lemoyne por volta de 1891. Lemoyne dá uma
impressão errada quando escreve: “O clérigo Rua guardou memória disso num escrito pessoal, que
ainda se conserva nos arquivos” (MB V, 9).

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Dom Bosco: história e carisma 1

e poéticos que me levaram a sentir o desejo de reunir um grupo [de Salesia-


nos] e contar-lhes a história com detalhe. Entretanto, já naquele tempo, tinha
escrito algumas dessas coisas [nas Memórias]. Será preciso que nos reunamos
algum dia para decidir o que se devesse publicar e o que manter em privado.
Há, de fato, muitas coisas que seriam muito instrutivas para nós, mas que não
se podem publicar, ao menos no momento [...]. Até agora, porém, já escrevi
as coisas mais importantes e levei a história até o ano de 1854. Porque foi ao
redor desses anos que o Oratório conseguiu estabilidade e, aos poucos, foi
assumindo a forma atual. Poder-se-ia dizer que naquele ano acabou o período
poético e teve início o [período] ordinário”.24
Naqueles dias, Dom Bosco estava continuamente rodeado pelos diretores
[reunidos para as Conferências anuais de São Francisco de Sales] e por nós
[...]. Numa das conversas familiares após o jantar [...] concordamos que era
importante para a nossa congregação contar com um historiador. [Dom Bos-
co disse:] “A necessidade mais urgente é que cada diretor escreva um resumo
da história da própria casa desde a fundação até agora [...], e isso deve ser feito
o quanto antes. Em seguida, essa crônica deverá continuar ano após ano e ser
transcrita num grande livro conservado nos arquivos da casa. Além disso, uma
cópia da crônica deverá ser enviada a Turim, caderno por caderno, para nos
inteirarmos do que acontece nas casas e servir de fonte para a história geral
da congregação [...]. Quanto a mim, já deixei um resumo dos fatos relacionados
com o Oratório, desde os inícios até o presente; e, até 1854 [nas Memórias], em
muitos casos, a narração entra em detalhes. A partir de 1854, o tratado começa
a ser sobre a congregação, e os assuntos começam a ser mais amplos e tomam um
aspecto diferente. Eu creio que uma história será muito útil para os que virão
depois de nós e redundará na maior glória de Deus; portanto, eu tentarei
escrevê-la. Já não se trata de levar Dom Bosco ou qualquer outra coisa em
consideração. Percebo agora que a vida de Dom Bosco está totalmente ligada
à vida da Congregação e, por isso, nós devemos falar de tudo. A maior glória
de Deus, a salvação das almas e o desenvolvimento da Congregação exigem
que as coisas sejam conhecidas [...]”.25

24
Julio Barberis, Croniche autobiografiche, Caderno III A, 46-47 (sábado, 1º de janeiro de
1876), FDB 835 D9-10.
25
Julio Barberis, Croniche autobiografiche, Caderno IV A, 38-41 (quarta-feira, 2 de fevereiro de
1876), FDB 837 C12 - D1 (os cursivos são meus). Nunca se escreveu nem sequer se tentou escrever
uma História da Sociedade Salesiana, a não ser que se creia que o Testamento Espiritual de Dom Bosco
que traz o título de Memórias do Oratório de 1841 a 1884-5-6 seja a continuação das primeiras Memó-
rias do Oratório, o que é improvável. Dom Bosco começou a unir “testamento e memória” nos inícios
de 1886. As páginas iniciais têm o aspecto de memória e oferecem pequenos dados e acontecimentos

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

É historicamente acertado tomar o ano de 1854 como ponto de chegada


e de partida do desenvolvimento da obra de Dom Bosco. Entretanto, nem
tudo o que Dom Bosco escreve nas Memórias está de acordo com a realidade,
inclusive no sentido puramente cronológico. De fato, foram introduzidos
elementos que já são parte da “mensagem meta-histórica”, destinada a ante-
cipar acontecimentos futuros.26 Seria possível citar como exemplo os dados
do sonho de 1844 ou a afirmação de Dom Bosco segundo a qual já nos anos
1841-1848 ele estava formando alguns jovens para que fossem seus colabora-
dores.27 O que levanta a questão da historicidade das Memórias.

2. A intenção de Dom Bosco e sua base histórica


O caráter histórico dos escritos de Dom Bosco sobre a origem e o de-
senvolvimento de sua obra ressente-se das preocupações declaradas por ele
no prefácio das Memórias e pela sua não revelada “intenção”. Isso já está
claro nas Notas históricas de 1854 a 1862 e nas anotações de diversas épo-
cas para “explicar” a Congregação. É certo, especialmente, nas Memórias do
Oratório. Como escreve na época crucial da Congregação Salesiana (tempo
da sua aprovação oficial, da luta pelos privilégios, da oposição declarada do
arcebispo Gastaldi etc.),28 o Fundador queria apresentar uma “apologia” do
carisma original e uma norma “ideal” para o futuro. Essa determinação tem
consequências sobre a historicidade do relato.

As Memórias, parábola e meta-história29


As Memórias oferecem-nos sua mensagem, sobretudo como parábola e
meta-história; seu objetivo, moral e “edificante” é oferecido mediante uma
deliberada e sistemática introdução de conceitos espirituais e educativos.
Aproximar-se das Memórias do ponto de vista puramente histórico cria difi-
culdade em relação à datação, à cronologia e, principalmente, à forma original
e ao alcance dos acontecimentos narrados. Não nos referimos apenas a falhas

pessoais, iniciando com a ordenação sacerdotal. Logo depois, apesar disso, o escrito transforma-se em
exortação e advertência em estilo de testamento. De aí o título de “Testamento espiritual”. Cf. Fran-
cesco Motto, Memorie dal 1841 al 1884-5-6 pel Sac. Gio. Bosco a’ suoi figliuoli salesiani (Testamento
Spirituale). Piccola Biblioteca dell’ISS 4. Roma: LAS, 1985.
26
Por esta razão, Braido, paradoxalmente, intitula seu ensaio como Memórias do futuro.
27
MO, 126 e 204.
28
Considere-se que Lourenço Gastaldi, um dos primeiros benfeitores e colaboradores do Orató-
rio, não é mencionado nas Memórias, embora o seja sua mãe, Margarida Gastaldi (MO, 191).
29
O termo “meta-história” refere-se aqui a uma narração cujo alcance “transcende” os fatos his-
tóricos e interpreta o espírito ou o caráter simbólico dos acontecimentos.

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Dom Bosco: história e carisma 1

de memória (muitas datas estão incorretas) ou a “exageros” e “ênfases” com


que se narram certos episódios. Indicamos algumas partes essenciais da nar-
ração assumidas pelo escritor, preocupado como estava em apresentar a obra
do Oratório de modo que instruísse, fortalecesse e desse segurança aos seus
seguidores. As Memórias são uma “meta-história” a serviço de uma mensagem
para o futuro dos Salesianos, o que cria problemas ao historiador e ao biógrafo.

Episódios convertidos em categorias


Episódios narrados com determinada intenção convertem-se em fatos
exemplares que aparecerão em biografias sucessivas e se transformaram em
lugares-comuns. Logicamente, precisam ser avaliados criticamente e, às vezes,
também corrigidos. Como exemplo, oferecemos um breve comentário sobre
alguns dos estereótipos mais frequentes.

Oposição dos párocos a Dom Bosco


Os obstáculos dos párocos locais são relatados com certa “impaciência”,
como exemplos de má vontade, de obstrução deliberada. Dom Bosco, de
fato, encontrou-se com essa oposição, especialmente nos inícios, embora isso
não se devesse ser exagerado. Não parece que faltassem razões aos párocos
levando-se em conta a determinação e a busca de autonomia total da parte de
Dom Bosco em seu trabalho no Oratório. Ele apresentava-se como um “es-
tranho” que reunia os jovens nas periferias da cidade, à margem da estrutura
paroquial. Fazia parte de um programa pastoral (o Colégio Eclesiástico), que
ainda estava tentando encontrar aceitação entre o clero de Turim.

Perseguido como “revolucionário” pelas autoridades civis


Nas Memórias, como nas Notas históricas, de 1854, o vigário da cidade
de Turim, marquês Miguel de Cavour, é retratado com dureza como contrá-
rio à obra de Dom Bosco.30 Não obstante, sua intransigência parece menos
crível quando se olha com atenção a documentada e leal defesa e a deferên-
cia de Cavour pela autoridade constituída. Dom Bosco ensinava catecismo
30
MO, 152, 178, e as Notas históricas de 1854. Talvez as Notas Históricas servissem de fonte
para essas passagens das Memórias [1874-1875]. O marquês Miguel de Cavour [1781-1850] era pai
do [marquês] Gustavo e do [conde] Camilo [futuro primeiro-ministro e líder político da unificação da
Itália]. O marquês exerceu o cargo de Vigário real (Vigário e superintendente de política e polícia), ma-
gistrado que governava a cidade em nome do Rei de 1835 a 1847. Antes de 1848, ano das revoluções
e constituições, a cidade era governada pelo Vigário, nomeado pelo Rei, ajudado por dois “síndicos” e
um Conselho da cidade de cinquenta e sete oficiais. Depois de 1848, a cidade foi governada por um
prefeito (sindaco) nomeado também pelo Rei, e um Conselho de cidade.

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

aos jovens com a permissão e ajuda dessa autoridade: o respeitado arcebispo


Fransoni e o rei Carlos Alberto, para nomear apenas as mais altas autorida-
des. Além disso, Dom Bosco trabalhava com a colaboração de leigos e padres
de comprovada linha conservadora, relacionados com a Casa Real: o conde
José Provana di Colegno, os padres José Cafasso, João Borel e Sebastião Pac-
chiotti; os dois últimos foram os auxiliares mais próximos de Dom Bosco no
ministério do Oratório, quase desde o início.31 A descoberta de uma carta di-
rigida por Dom Bosco ao marquês em 13 de março de 1846, tendo no verso
uma breve nota deste, torna menos crível a hostilidade de Cavour.32

Abandonado e sozinho
Apresenta-se ainda mais duvidoso o retrato dramático de um Dom Bos-
co abandonado e sozinho com seus jovens no prado Filippi. É certo que Dom
Bosco passou por dificuldades e esteve em desacordo com os colaboradores,
primeiramente ao criar o Oratório e, depois, pelo modo de agir, como com o
padre Pedro Ponte. Nestes casos, o arcebispo Fransoni colocou-se a favor de
Dom Bosco com o Decreto de 31 de março de 1852. Contudo, não se devem
generalizar as dificuldades. A presença contínua, ao lado de Dom Bosco, de
colaboradores de confiança, tanto padres como leigos, é documentada duran-
te os primeiros quinze anos do Oratório. Essas pessoas ajudaram-no em seu
trabalho e prestaram-lhe ajuda moral e econômica. Escreve Bracco:

“Pareceu-me óbvio desde o momento em que comecei a buscar nos arquivos da


cidade documentos relativos a Dom Bosco: ele nunca esteve sozinho. Trabalha-
va com um grupo de padres que pareciam compartilhar o mesmo objetivo, ou
seja, fazer alguma coisa pelos não privilegiados e em relação ao mal-estar social,
usando métodos que, anteriormente, já tinham sido tentados com sucesso”.33

Em conversas familiares, como recorda Barberis em sua crônica autógra-


fa, Dom Bosco falou várias vezes do último domingo no prado Filippi e da
oferta do senhor Pinardi. Sua história, contada sempre com novos detalhes,
difere, em geral, da narração melodramática das Memórias, e confirma as
afirmações de Bracco e a carta de 1846 ao marquês Cavour.

31
Cf. G. Bracco, Don Bosco y la sociedad civil, 231-236; id. Don Bosco e le istituzioni, 123-126
(Dom Bosco e o padre Borel).
32
G. Bracco, Don Bosco y la sociedad civil, 241; com maior detalhe, Don Bosco e le istituzioni,
126-128 (texto da carta), 128-130 (comentários). A carta, cuja edição crítica pode ser vista no Episto-
lario Motto I, 66-68, revela, entre outras coisas, que Cavour fora simpatizante no passado e que Dom
Bosco tinha razão em crer que o magistrado mostraria sua boa vontade quando o Oratório estava para
se assentar na casa Pinardi.
33
G. Bracco, Don Bosco y la sociedad civil, 241.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Memórias do Oratório34 Crônica de Barberis35


Enquanto acontecia o que acima expus, che- A casa [do senhor Pinardi] era uma casa
gou o último domingo em que ainda me per- de mulheres [de má fama]. O proprietário
mitiam organizar o Oratório no prado (15 de colocara-a à venda em várias ocasiões. [...]
março de 1846). Eu calava, mas todos sabiam Contudo, pedia uma soma exorbitante.
de minhas dificuldades e espinhos. Na tarde Era o último domingo em que podia
desse dia contemplei a multidão de meninos usar o prado [dos Filippi] e então, ele
a brincar, e pensava na messe abundante que [Pinardi] apresenta-se novamente. Eu
se ia preparando para o sagrado ministério. estava passeando pelos limites do cam-
Vendo-me agora tão só, falto de colaborado- po, absorto em meus pensamentos,
res, forças esgotadas, saúde em estado deplo- quando o teólogo Borel estava fazendo
rável, sem saber onde no futuro reunir meus uma pregação.
meninos, senti-me profundamente comovido.
Afastando-me um pouco, pus-me a passe- Acontecia uma terrível briga na casa e,
ar sozinho, e pela primeira vez quiçá senti- nesse momento, um oficial da polícia,
-me comovido até as lágrimas. Caminhando com a cabeça quebrada, jazia numa poça
e erguendo os olhos ao céu, exclamei: “Meu de sangue, a curta distância da rua abaixo.
Deus, por que não me mostrais o lugar em O proprietário aproximou-se de mim
que desejais que reúna esses meninos? Dai-mo muito angustiado. “Assim não posso
a conhecer ou dizei-me o que devo fazer”. aguentar mais”, disse-me. “Eu não posso
Nem bem terminei esse desabafo, chegou um aguentar mais. Estas brigas precisam aca-
homem chamado Pancrácio Soave [...]. bar. Quero vender” [...].36

O não envolvimento político de Dom Bosco


Nos anos anteriores à revolução liberal, Dom Bosco — segundo se lê
nas Memórias — foi perseguido como revolucionário. Mais tarde, nos anos
da Revolução Liberal (1848-1850), a imprensa marcou Dom Bosco como
padre intolerante e reacionário (e o era em alguns aspectos).37 As páginas das
Memórias que tratam desse tempo têm uma clara finalidade didática em vista
dos Salesianos da década de 1870. É o caso da resposta ao marquês Roberto
D’Azeglio, com palavras que encontram confirmação na crônica das Perqui-
sições internas. Quando D’Azeglio insistiu que Dom Bosco participasse das
celebrações da Constituição de 1848, Dom Bosco respondeu-lhe:
34
MO, 160.
35
Croniche III: FDB 835 D12-E1.
36
Nessa passagem da crônica de Barberis, Dom Bosco amplia claramente os acontecimentos,
pois a compra da casa Pinardi aconteceu em 1851, e não em 1846, quando só se tinha alugado o
telheiro. O importante a notar é que Dom Bosco (como ele mesmo afirma) não estava sozinho no
prado Filippi naquele domingo. O teólogo Borel estava fazendo um sermão e, possivelmente outros
colaboradores do Oratório também estavam com os meninos.
37
Dom Bosco, nas Memórias, qualifica o periódico moderadamente liberal L’Opinione, assim
como todos os que estiveram relacionados com a Revolução, de “imorais”, no sentido de “política,
social e religiosamente corruptos” (cf. MO, 200-201).

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

Senhor marquês, é meu firme propósito conservar-me afastado de tudo quanto


se refere à política. Nem a favor, nem contra [...]. Convide-me para qualquer
coisa em que o padre possa exercer a caridade, e me verá pronto a sacrificar vida
e haveres; quero, porém, manter-me agora e sempre à margem da política.38

Está comprovado que Dom Bosco considerava a “retórica” da Revolução


(“emancipação”, “liberdades civis”, “democracia” etc.), como também os seus
“princípios”, maus em si mesmos e em suas consequências, sendo o resultado
da perversão do pensamento e da ação. Parecia pensar que a Revolução Libe-
ral de 1848 e as mudanças introduzidas por ela arruinaram a vida política e
social em toda a Europa.
Apesar disso, na prática, a postura política de Dom Bosco, tanto nos
anos 1848-1850 como nos anos de 1870 não é tão clara como ele declarava
ao marquês. De um lado, ele adotou uma proximidade pragmática dos acon-
tecimentos sociais e políticos; de outro, é improvável que, à medida que o
tempo passava, persistisse na total recusa da Revolução Liberal.
Seja como for, tinha a peito uma solução prática exemplar: a “política das
obras de caridade” com a juventude. Essa obra ia mais além do catecismo;
incluía um componente essencial, o exercício prático da caridade, tanto espi-
ritual como material. Quanto a isso, Dom Bosco queria estar na vanguarda,
sempre o primeiro. Para insistir nesse compromisso, Dom Bosco não duvi-
dou em reclamar várias e duvidosas “primazias”: o caso das aulas noturnas e
da música.39

Ataques contra a vida de Dom Bosco por parte dos “protestantes”


Os últimos capítulos das Memórias relatam vários episódios nos quais se
narram “a fúria dos protestantes” (valdenses) diante do sucesso das Leituras
Católicas e os atentados contra a vida de Dom Bosco, organizados por eles
e pelos maçons.40 Esse material também precisa ser examinado e avaliado.41

38
MO, 215-216.
39
Sobre as “primazias”, Dom Bosco as declara com tonalidades mais modestas nas Notas histó-
ricas, de 1862. Do mesmo modo, no rascunho original das Memórias não se atribui essas primazias;
apesar disso, ele o faz nas correções e acréscimos. Padre Bonetti, na História publicada no Boletim
Salesiano, dá-lhes mais ênfase. Talvez nos anos de 1870 e 1880, quando a administração de Turim era
menos favorável ao Oratório, fosse necessário fazer essas atribuições.
40
MO, 235-238; 239-246. Episódios da “miraculosa” intervenção do Grigio enquadram-se nes-
te contexto, MO, 247-250.
41
Desramaut, em sua biografia crítica de Dom Bosco, claramente e com alguns detalhes, qualifica
esse estereótipo tradicional considerando-o em seu contexto: F. Desramaut, Don Bosco, 302-309, 353-374.

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Dom Bosco: história e carisma 1

As Memórias, uma história que garante a Providência de Deus


e ratifica o caráter carismático do Oratório
As Memórias também são uma narrativa que recorda experiências passadas
para instruir e garantir aos Salesianos que a Providência de Deus garante a vitória
final do bem. Esta concepção de história estava enraizada no meio cultural de
Dom Bosco; inspirava-se em Bossuet e em Santo Agostinho. A história humana,
particular e geral, “orienta-se” para Deus e “será julgada” por Ele. Stella escreve:

É Deus quem domina os acontecimentos humanos, embora os humanos se-


jam seus atores. Prova clara e indiscutível é dada pelas intervenções extraordi-
nárias [de Deus], revelações, predições e milagres [...]. Outra prova do poder
divino é o fato que [...] apesar de todos os erros e conflitos [postos pelo mal]
o bem sempre obtém sucesso.42

Constata-se um ponto de vista similar no relato de Dom Bosco sobre


as Perquisições internas, apesar da afirmada objetividade.43 Contudo, todo o
relato é uma constante “acusação” que culmina, na parte final, num julga-
mento divino mediante aquele Deus que “derruba os poderosos de seus tro-
nos e levanta os humildes”. O último capítulo traz por título: “Resultado das
perquisições: triste fim de alguns investigadores”.44 Depois disso tudo, como
Dom Bosco poderia permanecer neutro e objetivo num mundo que, segundo
diz o Evangelho, tudo está sob o maligno?45
Esse é também o ponto de vista das Memórias do Oratório; essa é a
percepção religiosa da realidade que Dom Bosco quer criar em seus leitores
Salesianos. A sucessão de acontecimentos e aventuras, felizes e tristes, com
que Deus conduz Dom Bosco a um destino, que vai além do alcançável pelo
poder humano, é a garantia de que o projeto do Oratório (e da Congregação
Salesiana) é desejado, sustentado e desenvolvido por Deus. Portanto, não
existe ser humano malvado capaz de detê-lo. Dez anos antes, confidenciara
aos Salesianos:

Foi Deus quem nos revelou estes projetos e eu fui sempre adiante com essa cer-
teza. Esta é a fé que me deu a motivação de tudo que fiz. Esta é também a razão

42
P. Stella, Vita, 67.
43
Dom Bosco escreve: “É minha intenção compor uma narração dos fatos simplesmente como
ocorreram naqueles tempos de prova; eu os descreverei como aconteceram e segundo a verdade, sem
tentar desculpá-los ou acusar alguém” (P. Braido - F. Motto, Don Bosco tra storia, 143).
44
P. Braido - F. Motto, Don Bosco tra storia, 187-192. Note-se que no título do capítulo Dom
Bosco chama as perquisições internas da casa ou investigações de “perseguições”.
45
P. Braido - F. Motto, Don Bosco tra storia, 144.
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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

pela qual entre oposições e perseguições, e apesar dos mais graves obstáculos,
nunca tive medo. O Senhor sempre esteve conosco.46

Dom Bosco assinala, nas Memórias do Oratório, três aspectos da especial


guia providencial: (1) Dom Bosco é “ensinado” e guiado pelo céu através de
sonhos, (2) Dom Bosco é protegido dos que lhe querem fazer mal; seus ini-
migos são castigados e (3) Dom Bosco, como um “vidente” entre profecia e
realidade, antecipa o futuro do Oratório e da Congregação.

Instruído e guiado através dos sonhos


O sonho de Dom Bosco aos 9 anos de idade é narrado com finalidade
claramente educativa.47 As imagens que vê e as palavras que ouve no sonho
são outras tantas lições com que Dom Bosco é “instruído” e se dá aos Sale-
sianos uma norma para sua atividade educativo-pastoral. Assim, também se
demonstra que a vocação salesiana teve origem sobrenatural.
É difícil definir o exato impacto histórico do sonho. Nas Memórias, Dom
Bosco parece aceitar seu caráter de revelação, embora com reservas. Por isso,
não é possível determinar que influência exercesse em seu pensamento e em
suas decisões vocacionais. Ele está de acordo com sua avó que acha que não se
deve fazer caso dos sonhos, mas a partir de então, não mais poderá tirá-lo do
pensamento.48 Posteriormente, escreverá que o sonho ficara profundamente
impresso em sua mente e que se repetiria outras vezes em termos mais claros,
aludindo à sua vocação ao sacerdócio, mas continuou sem lhe dar grande
crédito.49 O fato é que nunca falou dele, nem sequer na evocação frequente
da sua infância, antes de 1858, quando o mencionou a Pio IX (e a alguns
Salesianos). Escreveu sobre ele pela primeira vez nas Memórias, em 1873.
Dom Bosco manifesta a mesma reserva em relação ao sonho de 1844,
um “apêndice” do seu primeiro sonho, que também narra pela primeira vez
nas Memórias e ao padre Barberis em 1875. Escreve: “Por então pouco com-
preendi o significado, porque não lhe dava crédito”. Aos poucos, percebeu
sua importância. “Posteriormente, junto com outro sonho, serviu-me de pro-
grama em minhas decisões”.50 Quando escreveu as Memórias (1873-1875),
Dom Bosco chegou a ver estes sonhos como guia sobrenatural.
46
Ruffino, Croniche 5, 53 [Assembleia geral dos membros da Sociedade de São Francisco de
Sales, 38-53] e (quase idêntica) Bonetti, Crônica do ano 1864, 2-22, em ASC A004s, FDB 924 B5 -
D3 (conferência de Dom Bosco).
47
Os textos do sonho vocacional serão comentados nos capítulos seguintes.
48
MO, 30.
49
MO, 79.
50
MO, 134.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Proteção e retribuição divina


Quanto às intervenções extraordinárias de Deus para proteger Dom
Bosco e castigar os que a ele se opunham, as Memórias do Oratório são menos
drásticas do que a descrição das Perquisições internas. Apesar disso, o conceito
reaparece; os fatos são narrados com este propósito. Fala da morte infeliz do
“secretário” no episódio dos Moinhos Dora, e do capelão e sua criada em São
Pedro in vinculis. Inclusive na entrevista com o marquês Miguel de Cavour,
mantém a afirmação de que o Oratório é obra de Deus e que se cuidem aque-
les que a ele se opõem!51 Os episódios do Grígio manifestam as atuações da
Divina Providência que intervém para proteger Dom Bosco e a sua obra.52

Profecia e realidade
Dom Bosco, às vezes, apresenta como predições ou premonições os pla-
nos normais para o estabelecimento do Oratório e o seu desenvolvimento.
Ao contestar o teólogo Borel, que lhe sugerira a conveniência de esperar uma
oportunidade, Dom Bosco diz: “Não é preciso aguardar novas oportunida-
des. O lugar está preparado. Temos um pátio espaçoso, uma casa com muitos
meninos, pórticos, igreja, padres e clérigos. Tudo à nossa disposição”. Quan-
do o teólogo Borel o interrompe: “Mas onde está isso tudo?”, Dom Bosco
responde: “Não sei dizer onde, mas certamente existe e é nosso”.53

As Memórias, relato divertido e estimulante


O caráter histórico das Memórias torna-se problemático também quando
a narrativa de Dom Bosco se converte em literatura imaginativa, quase atrevida
em sua liberdade. Nesses casos, deve-se levar em consideração que a finalidade
do escritor é entreter e, ao mesmo tempo, fazer que o leitor sorria e chore. Os
mesmos episódios em que Dom Bosco narra o castigo aos opositores, ele faz
com que pareçam divertidos enquanto corroboram o que afirmou. Ele tem
uma inventiva livre e imaginação nas caricaturas da mãe do pequeno Jonas,
a maga Lili;54 a perplexidade do cônego Burzio; o desafortunado charlatão; a
criada do padre Tésio; a astuta “loucura” de Dom Bosco.55 Nestas passagens, o
pai recorre ao estilo das narrações populares para entreter os seus filhos.

MO, 137, 141, 143, 145.


51

MO, 247-250.
52

53
MO, 156. Estes elementos fazem parte do sonho de 1844, tal como narrado nas Memórias e
na Crônica de Barberis.
54
MO, 69. O nome da mãe de Jonas é Bella Pavia. Não podia ter mais do que 45 anos, e nos
perguntamos como uma mulher tão feia podia ser mãe de um jovem que, nas palavras não usuais de
Dom Bosco, era de “bonito aspecto” (um verdadeiro Apolo!).
55
MO, 73-75, 75-77, 145, 159-160.

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

3. Intenção educativa: as Memórias, prelúdio narrativo


do tratado sobre o Sistema Preventivo
Os aspectos que, para o historiador, se apresentam como problemáticos
servem para enaltecer a carga ideal da mensagem que Dom Bosco quer trans-
mitir. O resultado final é que as Memórias podem muito bem ser o livro mais
importante e enriquecedor de Dom Bosco. Deve ser assim entendido em
relação com o seu método educativo: as Memórias são um manual educativo,
algo como um programa espiritual, escrito em forma narrativa. As Memórias
são uma história educativa imaginativa e brilhante, completamente diferente
de um normal tratado escolar para um internato como é o Sistema Preventi-
vo, ou dos artigos gerais do Regulamento das Casas. A narrativa inspira-se no
carisma “original” (o Oratório), dando atenção apenas secundária à residên-
cia (a casa) ou ao internato.
Em seguida, resumimos a força educativa da narração das Memórias.

“Educar” a juventude, vocação de Deus


Educar, em sentido cristão, é uma vocação dada por Deus, vocação que
exige uma inclinação inata e a possibilidade de alguém dedicar-se à juventu-
de, especialmente se for pobre e abandonada. A origem divina, no caso de
Dom Bosco, é expressa em forma de sonho-visão. A inclinação e a capacidade
inatas são percebidas na força relevante da dedicação aos jovens desde seus
primeiros anos.56

O Oratório, primeiro veículo da vocação a serviço dos jovens


O Oratório é apresentado como o primeiro veículo pelo qual se realiza
a vocação a serviço dos jovens. É descrito como uma instituição abrangente e
versátil, desenhada para os jovens, com uma mescla atrativa de “devoções, jo-
gos e excursões”.57 Contudo, mais do que uma instituição, é uma experiência
de e com os jovens. Isso se percebe na descrição beatífica feita por Dom Bosco
de um dia no Oratório.58 Do ponto de vista pastoral, o Oratório é descrito
como uma paróquia da juventude sem paróquia.59 Entretanto, também é uma

56
MO, 28-30, 48, 131: “Minha propensão é para cuidar da juventude [...]. Neste momento
parece-me estar no meio de uma multidão de jovens que me pedem ajuda”.
57
MO, 174, 181: “O fato de dispormos de local estável, os sinais de aprovação do arcebispo, as fun-
ções solenes, a música, a notícia da existência de um pátio para jogos, atraíam meninos de todos os cantos”.
58
MO, 173-178.
59
MO, 147.

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Dom Bosco: história e carisma 1

escola, uma oportunidade onde os jovens podem passar o tempo livre, um


centro a partir do qual apoiar e assistir os jovens em seu local de trabalho.60

A “casa anexa ao Oratório”: casa e refúgio como segundo


instrumento educativo
As Memórias também dão a motivação e a descrição de um segundo ins-
trumento de educação: a casa anexa ao Oratório, criada em 1847 como amplia-
ção da primeira.61 Com sua criação, desenvolveu-se a aplicação mais especiali-
zada e concreta do método educativo, no qual o caráter protetor e defensivo do
método vai além de uma finalidade simplesmente promocional e de apoio.62
Após a primeira experiência, encontrou nela hospedagem um grupo
sempre mais numeroso de jovens “entre os mais abandonados e em perigo”.
Depois de voltarem do trabalho à tarde, Dom Bosco fazia-lhes um sermãozi-
nho familiar, que tendia a eliminar as más influências do dia. Finalmente, fo-
ram criadas algumas oficinas em casa, a fim de proteger os jovens da crescente
“confusão de ideias e pensamentos” da cidade. Surgiu ainda uma residência
escolar para proteger dos mesmos perigos os estudantes alojados na casa.63
Como Dom Bosco escreve nos anos em que os internos passaram de
700, ele ressalta cá e acolá, sem identificá-los, vários aspectos da prática
educativa da residência. Como, por exemplo, a estrita vigilância em rela-
ção aos maus companheiros e às más conversas, o juízo crítico negativo
sobre as férias, as motivações para expulsar os alunos (blasfêmia, escânda-
lo dado por atitudes ou conversas imorais, conduta irreligiosa, infrações
disciplinares sérias).

Assistência: atividade integral de caridade em favor dos jovens


A atividade caritativa em favor dos jovens é chamada de “assistência”.
A palavra e o conceito estão espalhados pelas Memórias; é o termo anterior
60
MO, 181-186; 144-147; 149, 152. As palavras “casa, igreja, escola e pátio” reúnem com pre-
cisão a ideia de Dom Bosco sobre o Oratório.
61
MO, 195-198, 200-206. O nome preferido por Dom Bosco para o internato era “Casa anexa
ao Oratório de São Francisco de Sales”.
62
MO, 195-198-146: “Muitos rapazes [...] mostravam-se cheios de boa vontade de se dedicarem
a uma vida honesta e laboriosa; todavia, convidados a fazê-lo, costumavam responder que não tinham
pão, nem roupa, nem casa onde morar por pouco tempo que fosse. [...] Percebendo que para muitos
meninos era inútil qualquer apostolado caso não se lhes desse abrigo, apressei-me em alugar outros
quartos, ainda que a preço exorbitante. Assim, além do internato, pôde-se iniciar a aula de canto gre-
goriano e de música vocal”.
63
MO, 203. Gradualmente, nos anos 1853-1862 e 1855-1859, foram sendo criadas oficinas e
escola para os internos.

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

ao de Sistema Preventivo, adotado por Dom Bosco em 1877 para descrever


o seu método educativo. Os dois termos, “método de assistência” e “sistema
preventivo”, compartilham um significado em dois níveis fundamentais: no
conteúdo e na finalidade; os dois indicam o que se faz para “resolver as ca-
rências espirituais e materiais dos jovens”; e, em nível de método educativo
e estratégia disciplinar, ambos fazem referência à “vigilância e presença” do
educador entre os jovens.
A palavra e o significado de “assistência” aparecem logo nas Memórias.
Dom Bosco fala da “assistência” de sua mãe quando vivenciou o sacramento
da confissão e recebeu o da comunhão e da sua própria “assistência” a outros
estudantes de Chieri.64 Contudo, o sistema é especialmente apropriado para
a “nova” geração dos jovens de Turim. As primeiras tentativas de Dom Bosco
para ajudar os jovens em perigo assumiu a forma de “assistência” no mais
amplo sentido possível:

Pude então constatar que os rapazes que saem de lugares de castigo, caso en-
contrem mão bondosa que deles cuide, os assista nos domingos, procure arran-
jar-lhes emprego com bons patrões e vão visitá-los de quando em quando ao
longo da semana, tais rapazes dão-se a uma vida honrada, esquecem o passado,
tornam-se bons cristãos e honestos cidadãos. Essa é a origem do nosso Orató-
rio [...] Consagrava o domingo inteiro à assistência dos meus meninos; duran-
te a semana ia visitá-los em seus trabalhos nas oficinas e fábricas. Isso muito
consolava os rapazes, que viam um amigo interessar-se por eles; e agradava aos
patrões, que ficavam satisfeitos por terem sob sua dependência rapazes assis-
tidos durante a semana e sobretudo nos domingos, os dias mais perigosos.65

Fica claro, portanto, que a “assistência” no sentido estrito de “super-


visão” não faz justiça ao conceito de Dom Bosco. Com essa palavra, Dom
Bosco queria indicar “presença” e “disponibilidade” aos jovens, a todos que
o precisassem. Logicamente, isso inclui a “supervisão”, de modo especial nas
obras residenciais.

Cuidar dos jovens em perigo implica satisfazer todas as suas


verdadeiras necessidades
Junto da assistência ideal e até certo ponto real, as Memórias mostram
que, para Dom Bosco, cuidar dos jovens em situação de risco significava satis-
fazer todas as suas carências: alimento, roupa, refúgio e alojamento, trabalho,

64
MO, 51, 56, 93. Em todos estes casos, Dom Bosco usa intencionalmente a palavra “assistir”.
65
MO, 125, 128, referidas de acordo com o original.

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Dom Bosco: história e carisma 1

oportunidade de educação e estudo, emprego útil do “tempo livre” e, como


prioridades, a “moralidade” e a “religião”. Ou seja, a promoção ou desenvolvi-
mento humano em sua totalidade, o que define o programa educativo que, no
pensamento de Dom Bosco, levaria à maturidade dos seres humanos, “bons
cristãos e honestos cidadãos”.

Religião como fundamento ou prioridade


As Memórias mostram que, na prática real de Dom Bosco e mais tarde na
“teoria” do tratado do Sistema Preventivo, a religião é considerada o fundamento.
Ele tinha grande apreço pelo sistema educativo e disciplinar de Chieri, embora
se baseasse na reforma reacionária de 1822 do rei Carlos Félix; eram abundantes
as práticas religiosas, as mesmas que, mais tarde, seriam encontradas nas insti-
tuições de Dom Bosco.66 Entre essas práticas, dava-se lugar proeminente aos
“santos sacramentos”, isto é, além da “Santa Missa”, a confissão e a comunhão,
que são “o elemento fundamental da nossa instituição” [o Oratório].67
Dom Bosco dá um lugar preferencial à Virgem na vida religiosa do Ora-
tório; sua presença e auxílio são experimentados em todas as situações do
desenvolvimento do Oratório.
Ainda no programa religioso do Oratório, o “catecismo” é de suma im-
portância, a razão de ser da obra educativa de Dom Bosco. O termo refere-se
tanto à instrução progressiva do catecismo em sentido estrito, com seus livros
habituais, incluindo a História Bíblica, quanto à educação cristã em sua to-
talidade. As Memórias também mencionam a criação da Companhia de São
Luís, protótipo de várias outras associações juvenis religiosas.68
Considere-se que as práticas religiosas não eram separadas da vida real,
mas caminhavam de mãos dadas com o cumprimento dos deveres de cada
um e com a “moralidade”. O termo “moralidade” designa não só a “conduta
casta”, mas também a “boa conduta” em geral, sobretudo a obediência e a
disciplina. Dom Bosco escreve, por exemplo: “Todos queriam entrar nela [na
Companhia de São Luís]. Para isso exigiam-se duas condições: bom proce-
dimento na Igreja e fora dela; evitar as más conversas e frequentar os santos
sacramentos. Notou-se logo sensível melhora nos costumes”.69

MO, 57-60. Para as práticas religiosas similares no Oratório (capela Pinardi), cf. MO, 175. O
66

documento da reforma escolar do rei Carlos Félix será comentado adiante.


67
MO, 142. Segundo a teoria sacramental do tempo, a “comunhão” era pensada separadamente
do “sacrifício da missa”.
68
MO, 192-193.
69
MO, 193.

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

O método ou estilo da caridade pastoral (embora não se lhe dê


esse nome) é evidente nas Memórias
Desde o início, o Oratório foi realmente uma missão educativa. O
modo de dirigir-se aos meninos, cumprimentando-os, estando com eles e
solucionando suas carências reais com perspicácia humana e cristã, construiu
o “método educativo” das Memórias, embora nelas não se dê uma formulação
teórica. Dom Bosco tentará dar essa formulação no tratado sobre o Sistema
Preventivo. Contudo, é claro o propósito do autor de apresentar sua descri-
ção. Esse propósito está tão disseminado em toda a obra que constitui sua
essência. É o método da caridade pastoral, do amor demonstrado no cuidado
e afeto inspirado e sustentado pelo amor cristão.
Esta é, provavelmente, a razão pela qual Dom Bosco situa o sonho dos
9-10 anos no início do relato. Mais do que em função de uma premonição do
futuro, o sonho expressa a alma de uma experiência que, em meados de 1870,
ele acreditava já estar madura para ser transmitida aos seus seguidores. Diz-
-se no sonho: “Não é com pancadas, mas com a mansidão e a caridade que
deverás ganhar esses teus amigos. Põe-te imediatamente a instruí-los sobre a
fealdade do pecado e a preciosidade da virtude”.70
Os “estereótipos” do relato das Memórias e o método aí descrito devem ser
revestidos de um novo e importante significado pela “experiência de oratório”.
Assim acontece quando o jovem João foi ao encontro dos jovens, antes em sua
aldeia natal e, mais tarde, na escola de Chieri; já padre, Dom Bosco, com uma
nova consciência, foi ao encontro dos jovens em perigo pelas ruas de Turim.
Nas Memórias, o termo “amabilidade” [amorevolezza, carinho, amor de-
monstrado], pedra angular do método, é usado apenas uma vez, no episódio
de Garelli.71 Dom Bosco prefere exemplificá-la em sua narração por meio
de fatos e pessoas. Em sua narração, os métodos e a linguagem afetiva são,
às vezes, exuberantes. O jovem João Bosco, ao ser privado da sua infância,
mostra-se carente de amizade e de afeto. Lamenta, sobretudo, o fato de não
ter podido aproximar-se dos seus “superiores”. Sobre essa desilusão em sua
juventude e mais tarde no seminário, ele escreve:
Via alguns bons padres trabalhar no sagrado ministério, mas não podia con-
trair com eles nenhuma familiaridade. Aconteceu encontrar-me muitas vezes
pelo caminho com o pároco e seu coadjutor. Cumprimentava-os de longe,
e quando mais de perto fazia também uma inclinação. Eles, contudo, retri-
buíam sérios e corteses a saudação e continuavam andando. Repetidas vezes,

70
MO, 29.
71
MO, 123. “Já ouviste missa? — disse-lhe com a maior amabilidade que pude”.

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Dom Bosco: história e carisma 1

chorando, disse de mim para mim e também a outros: “Se eu fosse padre,
agiria de outro jeito. Gostaria de aproximar-me dos meninos, dizer-lhes uma
boa palavra, dar-lhes bons conselhos”. [...] Quantas vezes queria falar, pedir-
-lhes conselho ou solução de dúvidas, e não podia fazê-lo. [...] Isso avivava
em meu coração o desejo de ser quanto antes padre, para ficar no meio dos
jovens, assisti-los e ajudá-los no que fosse preciso.72

Nas Memórias, a descrição do final de um “dia no Oratório” mostra, sem ne-


nhuma formulação téorica, mas com claro realismo, o amor com que a educação
deveria estar presente entre os jovens e o amor com que eles podem retribuir.73

Viver para os jovens e deixá-los “ser jovens”


“Viver para os jovens” inclui não só estar disponível para eles e oferecer-
-lhes o que é importante na vida, mas também satisfazer suas necessidades
de distrações e diversões agradáveis. O Oratório é “catecismo”, mas é tam-
bém “pátio”. As funções religiosas e as diversões são mencionadas no mesmo
nível. Neste assunto, Dom Bosco não faz referência, nem de passagem, ao
exemplo de São Felipe Neri, como o faz no Sistema Preventivo. Nas Me-
mórias, o pátio com o estilo das brincadeiras que ele proporciona aparece
como uma invenção de Dom Bosco. Os gritos de alegria dos jovens, suas
risadas, correrias e cantos ecoam em muitas páginas das Memórias. Além dis-
so, mencionam-se caminhadas e excursões fora da cidade e pelas montanhas
dos arredores. O memorável e ruidoso passeio pela colina do santuário de
Superga é apresentado como exemplo.74

A relação educativa
Mediante o envolvimento afetivo na vida dos jovens e a participação em
suas brincadeiras, cria-se uma particular relação educativa. O educador toma
a iniciativa e assume a responsabilidade; os jovens correspondem espontane-
amente com o afeto, que os leva à obediência e aceitação voluntária. Dom
Bosco escreve:

Impossível descrever o entusiasmo que esses passeios despertavam nos rapa-


zes. Contentes com essa mistura de devoções, brinquedos e passeios, afeiço-
avam-se tanto a mim, que não só obedeciam fielmente às minhas ordens,

72
MO, 48; 93.
73
MO, 149-152.
74
MO, 145-146.

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

mas desejavam vivamente que lhes desse alguma incumbência. [...] De fato, a
obediência e o afeto dos meus alunos raiava pela loucura.75

O surgir dessa forma de relação de camaradagem, brotada da amizade,


da familiaridade e da confiança recíproca, permitia a Dom Bosco dizer “pala-
vrinhas” muito pessoais aos jovens, especialmente quando estavam brincan-
do. Ele escreveu:

Servia-me daqueles agitados recreios para insinuar aos meus alunos pensa-
mentos religiosos e convidá-los a frequentar os santos sacramentos. Com uma
palavrinha ao ouvido recomendava a uns maior obediência ou maior pon-
tualidade nos deveres do próprio estado; a outros, que tomassem parte no
catecismo, viessem confessar-se e coisas que tais.76

Essas citações revelam claramente a existência de uma relação edu-


cativa em cujos elementos incidem, com equilíbrio e tensão, o carisma
pessoal e o método. Os elementos mais importantes e evidentes são os
valores inegociáveis e o objetivo desta vida e da futura. Depois, o edu-
cador situa-se como alguém comprometido com esses valores e com a
sua transmissão. O estilo educativo também demonstra ser isso o que faz
do Oratório uma “família”, na qual a alegria e o afeto recíprocos estão
em toda parte. Enfim, os jovens aparecem como membros obedientes e
responsáveis dessa família.
Dom Bosco descreve essa relação educativa dinâmica com alguns modelos.
Encontramo-los no padre Calosso, com quem João Bosco contrai um estreitís-
simo relacionamento.77 O professor padre Pedro Banaudi, em Chieri, aparece
como modelo de professor que praticava o sistema preventivo (!);78 o padre José
Cafasso é modelo de diretor espiritual.79 O teólogo João Borel é o constante,
heroico colaborador de Dom Bosco no trabalho do primeiro Oratório.80
Coerente com a finalidade educativa das Memórias, Dom Bosco em
1844 escolheu como modelo de educador e patrono do Oratório, São Fran-
cisco de Sales, o santo da amabilidade e do amor.

MO, 152. Literalmente, beirava à loucura. Note-se a palavra “alunos”.


75

MO, 176. Note-se novamente a palavra “alunos”.


76

77
Cf. MO, 40-43.
78
Cf. MO, 64-65.
79
Cf. MO, 46-47, 116, 120-121.
80
Cf. MO, 106, 132, 135ss. Considere-se que, apesar disso, Dom Bosco, às vezes, ignora total-
mente o teólogo Borel (ou Borrelli, como ele o chama).

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Dom Bosco: história e carisma 1

Havíamo-nos colocado sob a proteção deste santo [São Francisco de Sales]


para que nos alcançasse de Deus a graça de imitá-lo em sua extraordinária
mansidão e na conquista das almas.81

Conclusão
Procuramos oferecer uma interpretação das Memórias do Oratório de São
Francisco de Sales tal como emerge da mesma narrativa. Ressaltamos, especial-
mente, a ampla presença de uma finalidade “educativa”; vimos que, em essência,
a narração trata o “Oratório” como a raiz e o instrumento original do serviço
dos Salesianos para a educação dos jovens. O Oratório é uma obra educativa,
cujo caráter específico se manifesta num método educativo todo especial.
É verdade que nas Memórias aparecem elementos narrativos de todo
tipo como também dados históricos e outros acontecimentos. Apesar disso,
a narrativa em seu conjunto, tanto quantitativa quanto qualitativamente, é
valiosa, mais para compreender a mentalidade, a espiritualidade e o estilo
educativo de Dom Bosco, do que pelos seus outros aspectos.
Temos, portanto, basicamente diante de nós uma declaração valiosa,
não teórica, mas descritiva do método educativo que, mais tarde, Dom Bos-
co descreverá como Sistema Preventivo para a educação da juventude. Dessa
forma, está afirmando que, na verdade, o sistema nasceu da experiência “do
Oratório”. Foi “método oratoriano” antes de ser “Sistema Preventivo”.

II. A HISTÓRIA DO ORATÓRIO, DO PADRE BONETTI


Pouco depois de padre Berto passar a limpo as Memórias do Oratório de
Dom Bosco, entre 1879 e 1886, padre João Bonetti (1838-1891) publicou um
relato da obra de Dom Bosco no Boletim Salesiano, do qual era editor-chefe,
com o título de História do Oratório de São Francisco de Sales.82
Padre Bonetti estava particularmente qualificado para essa tarefa. Além
de ter vivido “no centro” e em contato com o Fundador desde 1855, atuara
como principal cronista e desempenhara altos cargos na jovem Congregação.

81
MO, 137. É possível pensar que, historicamente, deram-se outras razões para essa escolha, e
que os motivos aduzidos reflitam uma reflexão posterior.
82
Bollettino Salesiano 3:1 (janeiro de 1879) 6-8, e, em capítulos, até 1886. A série também apa-
receu nas edições francesa e espanhola do Boletim, segundo a estratégia estabelecida por Dom Bosco, a
fim de manter a seção principal idêntica em todas as edições. Como se sabe, essa história foi publicada
no volume Cinque lustri di storia dell’Oratorio salesiano, traduzido em espanhol com o título de Cinco
lustros de historia del Oratorio salesiano, Buenos Aires, 1897.

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As Memórias do Oratório, de Dom Bosco, e a História do Oratório, do padre Bonetti

Mais decisivo ainda, ele estava escrevendo sob a supervisão de Dom Bosco e
tinha as próprias Memórias do Oratório à sua disposição.
A História do Oratório pode ser dividida em duas partes. A primeira, ca-
pítulos 1-40, quase inteiramente baseada nas Memórias, apresenta a história
do Oratório desde seus inícios, em 1841, até sua consolidação em 1854. A
segunda parte, capítulos 41-58, trata do desenvolvimento do Oratório e da
sua continuação na Congregação Salesiana, fundada em 1859 e confirmada
com o Decreto de Recomendação em 1864.
Advirta-se que a segunda parte inicia com uma discussão sobre o mé-
todo educativo salesiano, a partir da visita do ministro Urbano Ratazzi ao
Oratório, em 1854; menciona-se aí, anacronicamente, o método educativo
como Sistema Preventivo; em seguida, fala da sua eficácia e narra o episódio
da Generala.
Não resta dúvida de que a intenção direta da História, como publicada
no Boletim Salesiano, era oferecer aos Cooperadores e ao público em geral
uma exposição substancial e confiável da obra de Dom Bosco: o Oratório
tinha continuidade na Congregação Salesiana. Entretanto, como elemento
irmão e continuação das mesmas Memórias de Dom Bosco, a obra comparti-
lha as preocupações e finalidades das Memórias.
A autoridade pessoal de padre Bonetti, assim como das suas fontes, dão
à sua obra um lugar privilegiado, de modo que a História serviu como fonte
importante para os trabalhos biográficos que a seguiram.

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Parte II

vida

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Capítulo IV

DA REVOLUÇÃO FRANCESA AO
CONGRESSO DE VIENA

Quando João Melquior Bosco nasceu em 16 de agosto de 1815, acabara


de encerrar-se o Congresso de Viena. Nessa reunião histórica, após a queda
do imperador Napoleão, os monarcas das principais nações da Europa e seus
ministros elaboraram um novo acordo político para a Europa.
Caminhava-se, então, para o período da Restauração em que os po-
deres legítimos depostos por Napoleão foram restabelecidos em seus do-
mínios, voltando ao antigo regime (Ancien Régime). A Restauração, sem
dúvida, teve vida efêmera; não pôde deter as forças de mudança, e os acon-
tecimentos que a precederam estavam destinados a mudar para sempre a
face da Europa ocidental.

1. A Itália sob Napoleão


Durante o período napoleônico (1812), a Itália apresenta-se dividida
política e administrativamente em três partes.
Ao norte, havia o Reino da Itália, que compreendia inicialmente a Lom-
bardia, a Emília, os Estados Pontifícios e as Marcas. Depois da batalha de
Austerlitz (1805), acrescentaram-se Veneza e o Vêneto. O soberano era o
mesmo Napoleão, que governava por meio de um vice-rei, o general Eugênio
de Beauharnais, filho do primeiro casamento de Josefina.
Ao sul, havia o Reino de Nápoles, com José Bonaparte como regente.
O marechal Joaquim Murat substituiu-o quando José foi nomeado rei da
Espanha em 1808.1
Havia, enfim, a parte da Itália diretamente anexada à França, incluindo o
Piemonte, a Ligúria (Gênova), a Toscana e Roma com o Patrimônio de São Pedro,

A ilha da Sicília fizera parte desse Reino, mas estava sob a ocupação britânica. Os reis da
1

Casa de Saboia, Carlos Emanuel IV e Vítor Emanuel I, permaneceram na ilha da Sardenha durante
o período napoleônico.

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Dom Bosco: história e carisma 1

isto é, os territórios papais ao redor de Roma (Lácio), que não faziam parte do
Reino da Itália. Eram governados como províncias do Império francês.
A Revolução Francesa, cujas ideias básicas foram transmitidas por Napo-
leão ao resto da Europa ocidental, junto com a experiência da Itália sob o go-
verno de Napoleão no campo político, social, militar, econômico e ideológico,
influenciaram o pensamento italiano e a evolução futura do Ressurgimento.

O legado napoleônico
Há que se reconhecer que o papel de Napoleão na Itália teve conse-
quências danosas. A imposição a muitos italianos que se arrolassem no seu
exército, levou à perda de dezenas de milhares de vidas. A carga de pesados
impostos foi um peso intolerável para a população e provocou aflições e in-
tranquilidade. O saque dos tesouros de arte, só em parte devolvidos pelos
acordos do Tratado de Paris, depois da sua queda, causou um profundo furor.
A forma brutal com que tratou Pio VII revelou-o um déspota cruel.
Deve-se conceder-lhe, sem dúvida, o mérito de ter introduzido medidas
positivas. Por exemplo, a obtenção dos ofícios dependeu mais do talento pes-
soal do que das influências, os administradores nomeados eram competentes,
eficientes e não corruptos, a bandidagem foi punida.
Essas reformas começaram a transformar a sociedade italiana. Em geral,
a vitalidade do governo foi uma experiência nova em contraste com o papel
absolutista que prevalecera antes de Napoleão e que continuaria depois, du-
rante o período da Restauração.
Embora em 1812 o conjunto da península italiana dependesse da Fran-
ça, as reformas napoleônicas não foram concluídas do mesmo modo em to-
das as partes: o sul continuou à margem das reformas, na forma de imobili-
dade; em contrapartida, o norte, ou seja, o Reino da Itália, que ia de Milão
a Veneza e Bolonha foi cenário de reformas importantes e duradouras. Nessa
região, o povo, sobretudo os intelectuais, preferiu o governo de Napoleão,
apesar do seu despotismo, à Áustria ou ao Papa, e as forças políticas puderam
desenvolver o que Napoleão iniciara. O vale do rio Pó converteu-se numa
zona econômica extraordinária e prosperou comercialmente. Milão, a capital
napoleônica, foi o centro financeiro do vale e, ao mesmo tempo, converteu-se
em capital cultural e intelectual não só da região, mas de toda a península.
A partir de Milão, Napoleão fez uma revolução econômica e social que teve
sucesso permanente na vida italiana.
Essas realizações serão devidas, em primeiro lugar, ao novo modo de
administrar. Procedeu-se, em todas as partes, à reforma administrativa, com

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Da Revolução Francesa ao Congresso de Viena

critérios lógicos, deixando de lado as motivações históricas. Introduziram-se


novos sistemas de contabilidade e exerceu-se um controle escrupuloso dos
funcionários. Houve também melhorias no desenvolvimento urbano. Cria-
ram-se novas escolas e construíram-se novas estradas. Eliminaram-se territó-
rios pantanosos, convertidos em áreas de cultivo; a agricultura e a indústria
viram-se estimuladas.
Decreto após decreto, sempre com o apoio das armas francesas, Napo-
leão transformou a vida italiana. As leis feudais, sobretudo as da propriedade,
foram suprimidas; aboliram-se as leis restritivas contra os judeus e o uso da
tortura; separaram-se as jurisdições civil e criminal. O sistema judicial foi
reorganizado, de modo que fossem introduzidos os julgamentos públicos en-
quanto os advogados defendiam suas causas no tribunal, e não só enviando
documentos escritos.
O Código Civil (Code Napoleón, de 1804 a 1810) foi um marco histó-
rico. As leis civis e criminais na Itália e em toda a Europa eram até então um
acúmulo desordenado de costumes vindos de antigas tradições e códigos,
“resquícios dos tempos bárbaros”. O Código era severo, detalhado e claro,
promoveu a ordem, a unidade e a igualdade legal, sem levar em conta posição
ou linhagem. Entre outras novidades, o Código permitiu o casamento civil
e o divórcio.
A consequência mais importante do domínio francês foi ter semeado na
mente do povo a ideia de que uma revolução liberal poderia ter sucesso e que
a Itália poderia converter-se numa nação unida. Isso foi importante, porque
o principal obstáculo para o movimento patriótico era a impossibilidade de
imaginar a “Itália”, mesmo entre os intelectuais, como um estado e uma na-
ção. Cada região tinha, desde tempos imemoráveis, a própria idiossincrasia
(língua, tradições, características etc.), como também cada uma delas manti-
nha uma vida política, social e cultural distinta. A reorganização política e ad-
ministrativa da península feita por Napoleão reduziu a fragmentação regional
e alimentou a ideia da unidade.

A política eclesiástica de Napoleão


Os acontecimentos que se precipitaram durante a Revolução Francesa e
o período napoleônico mostram que subjazia neles o desejo de romper total e
radicalmente com a tradição, tanto política quanto religiosa.
Ao menos no início, pode-se notar o desejo de romper com as raízes cris-
tãs, também com o próprio cristianismo. Por exemplo, em 1792 o calendário
cristão foi abolido na França, e, em 1793, estabeleceu-se, para ser adorada,

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Dom Bosco: história e carisma 1

a “deusa Razão”. O projeto não obteve êxito, mas foi uma tentativa séria de
enfraquecer a Igreja a fim de convertê-la em instrumento do Estado e sem
força na sociedade.
Ao eliminar a Igreja na França, os revolucionários pensavam que a fa-
riam entrar em colapso e, com ela, o cristianismo. À morte de Pio VI no
exílio (1799), celebraram-se funções públicas “pela morte da Igreja”. Esta,
na verdade, despojada do poder temporal, sobreviveu graças à força do seu
poder espiritual.
Apesar dos laços iniciais com os revolucionários franceses, Napoleão se-
guiu um caminho diferente em sua política eclesiástica. Na Itália, seguiu a
linha da concordata francesa, com toda sua rigidez galicana. Mediante uma
série de decretos emanados em Milão, no tempo da sua coroação, ele reor-
ganizou a estrutura eclesiástica no norte da Itália, sem qualquer referência a
Roma. Os limites paroquiais foram redefinidos e muitas paróquias foram su-
primidas como desnecessárias. As Ordens religiosas ou aceitavam as reformas
ou eram completamente suprimidas. Sob o Código Civil, introduziram-se
medidas sobre o casamento civil e o divórcio, que supuseram a libertação da
vida familiar do controle da Igreja.
Algumas vezes, Pio VII protestou, mas Napoleão nem sempre lhe res-
pondeu de modo adequado. Numa carta ao tio, cardeal José Fesch, que o
representava em Roma, expressou-lhe com nitidez a sua atitude despótica e
galicana: “Espero que o Papa se adapte às minhas exigências. Se tudo correr
bem, não farei mudanças externas; caso contrário, eu o rebaixarei à condição
de Bispo de Roma”.2

2. O Congresso de Viena
Depois da prisão de Napoleão na ilha de Elba (1814), os governantes das
principais potências europeias e seus ministros reuniram-se em Viena (Áustria)
com a finalidade de restaurar, na medida do possível, a antiga ordem política
da Europa. O Congresso de Viena foi celebrado de 1º de setembro de 1814 a
9 de junho de 1815. Foi interrompido devido à volta de Napoleão ao poder
dos Cem Dias e reuniu-se novamente depois da sua prisão em Santa Helena.
Os acordos mais importantes foram recolhidos nas Atas do Congresso e
podem ser assim resumidos:

2
George Martin, The red shirt and the house of Savoy: the story of Italy’s “Risorgimento” (1748-1871).
New York: Dodd, Mead & Co., 1969, 154.

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Da Revolução Francesa ao Congresso de Viena

1. As monarquias da Áustria e Prússia foram restauradas com nume-


rosas adições e ajustes. Por exemplo, na Itália, com o domínio sobre
Milão (Lombardia), a Áustria recebeu a região de Veneza, formando
o Reino Lombardo-Vêneto.
2. O Reino dos Países Baixos, integrado por Holanda e Bélgica, foi
formado no quadro do antigo governo hereditário, reinando en-
tão Guilherme I.
3. Uma Confederação alemã foi criada para substituir a Confedera-
ção do Rin (Rheinbund) do tempo de Napoleão e o antigo Impé-
rio que compreendia 39 estados soberanos.
4. A Rússia recebeu a maior parte do Grão-Ducado de Varsóvia (Rei-
no da Polônia), enquanto Cracóvia, ao sul, tornou-se um estado
independente.
5. O Reino Unido manteve Malta, Helgoland (pequena ilha no mar
do Norte), uma parte das colônias da França e dos Países Baixos e a
República das Sete Ilhas Jônicas, posteriormente cedidas à Grécia.
6. A Suécia manteve a Noruega, adquirida anteriormente por força de
um tratado.
7. Os 19 cantões da Suíça passaram a 22 mediante a adição de Gene-
bra, Neuchâtel e Wallis.
8. As dinastias da Espanha e dos estados regionais italianos foram
restauradas.
9. A Grã-Bretanha, Alemanha, Áustria, Prússia e Rússia mantiveram
a fórmula congressual na “Quádrupla Aliança”.

A Restauração na Itália
A península italiana, então com uma população de quase 20 milhões
de habitantes, era um mosaico de 10 estados regionais. A nova organização
política ficava assim estabelecida:
1. O Reino da Sardenha, com uma população de 3.814 milhões de
habitantes, foi formado pelo Piemonte, Saboia, Nice, Sardenha
e Ligúria, recém-adquiridos, ficando sob o domínio do rei Vítor
Manuel I, da Casa de Saboia.
2. O Reino Lombardo-Vêneto, com uma população de 4.065.000
habitantes, ficou sob o domínio do imperador da Áustria, que go-
vernava através de um vice-rei residente em Milão.
3. O Ducado de Parma e Piacenza, com uma população de 383 mil
habitantes, foi colocado temporariamente sob o domínio de Maria
Luísa da Áustria, filha do imperador da Áustria e segunda esposa

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Dom Bosco: história e carisma 1

de Napoleão. À sua morte, o ducado voltaria aos Bourbon de Par-


ma, a quem pertencia legitimamente.
4. O Ducado de Lucca, com uma população de 131 mil habitantes,
foi entregue temporariamente aos Bourbon de Parma. À morte de
Maria Luísa da Áustria, os Bourbon de Parma recuperariam seu
ducado enquanto Lucca se uniria à Toscana.
5. O Grão-Ducado da Toscana, com uma população de 1.264 mi-
lhões de habitantes, foi entregue a Fernando III de Habsburgo-
-Lorena, irmão do imperador da Áustria.
6. O Ducado de Módena e Réggio, com uma população de 375 mil
habitantes, foi dado ao arquiduque austríaco, Francisco IV de Ha-
bsburgo-Este.
7. O Ducado de Massa e de Carrara, com uma população de 20 mil
habitantes, foi posto sob o domínio de Maria Beatriz Cybo, também
de Habsburgo-Este.
8. Os Estados Pontifícios, com uma população de 2.425 milhões de
habitantes, foram devolvidos a Pio VII. Compreendiam, além de
Roma e o patrimônio de São Pedro (Úmbria e Lácio), Benevento e
Pontecorvo, as Marcas e as Legações (Bolonha, Ferrara e Ravena).
A Áustria continuou com o direito de proteção e manutenção de
guarnições em algumas localidades.
9. A República de San Marino, com uma população de 7 mil habi-
tantes, foi restaurada em sua tradicional situação pré-napoleônica.
10. O Reino das Duas Sicílias, com uma população total de 6.766 mi-
lhões de habitantes, que compreendia o conjunto dos reinos de Ná-
poles e da Sicília, ou seja, o sul da Itália, foi entregue ao domínio de
Fernando I, dos Bourbon espanhóis, relacionados com o imperador
da Áustria e a ele vinculados politicamente.
O extremo norte e o noroeste da Itália (Trento, Tirol do Sul e Veneza Jú-
lia) mantiveram-se sob a Áustria. O Reino da Sardenha (Saboia e Piemonte)
era o único Estado verdadeiramente independente na Itália. Todos os outros,
direta ou indiretamente, estavam sob o domínio dos Habsburgo da Áustria
ou dos Bourbon, aliados da Áustria.

O reino da Sardenha e a Casa de Saboia


O Reino da Sardenha, também chamado Reino de Saboia, ou do Pie-
monte-Sardenha ou do Piemonte, era domínio da Casa de Saboia. Além do
Piemonte e da Sardenha, o reino incluía a Saboia, terra original da dinastia,
Nice e a Ligúria, e a antiga República de Gênova, que a ele se uniu em 1815.

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Da Revolução Francesa ao Congresso de Viena

A Casa de Saboia adquirira o título real em 1720. A chegada do duque Ví-


tor Amadeu II (1666-1732) marcou a maioridade do Ducado de Saboia. A Paz
de Utrecht, em 1713,3 acrescentou ao ducado a região central, o Monferrato, e
o sudeste da região do Piemonte, e também fixou a fronteira franco-piemontesa
(ao norte de Nice) na divisão de bacias hidrográficas dos Alpes. Mais importan-
te, ainda, concedeu o Reino da Sicília a Amadeu, sendo-lhe transferido o título
de rei. Entretanto, pelo Tratado de Londres de 1718, as grandes potências obri-
garam-no a ceder a Sicília aos Habsburgo da Áustria. Em contrapartida, rece-
beu a Sardenha, até então sob o domínio espanhol. A partir desse momento, e
até 1861, data da proclamação do reino unificado da Itália, ele e seus sucessores
foram reconhecidos como reis da Sardenha, embora a sede do poder, a riqueza
e a residência habitual estivessem no Piemonte, com sua capital em Turim.
Embora a Sardenha proporcionasse o título de rei, era uma região po-
bre e atrasada. Por outro lado, as terras ao norte dos Alpes (França e Suíça),
que já tinham chegado à organização política, não ofereciam perspectivas de
expansão para a Saboia. Por isso, o Piemonte, tendo Turim como a capital
do reino, converteu-se na verdadeira sede dos “reis da Sardenha”. O Piemon-
te transformou-se em poder real, núcleo a partir do qual podia acontecer a
maior expansão ao sul e a leste, e finalmente a unificação da Itália.
A Revolução Francesa e as guerras napoleônicas foram catastróficas para
a Casa de Saboia. Embora Vítor Amadeu III (1726-1796) tenha obtido al-
gum sucesso inicial contra os franceses no início dos anos noventa do século
XVIII, a campanha de Napoleão de 1796 obrigou-o a ceder a Saboia e Nice
à França e a permitir ao francês a livre passagem através do Piemonte. Seu
filho e sucessor, Carlos Emanuel IV (1751-1819), viu-se obrigado a aceitar
uma guarnição francesa em Turim, teve que abdicar e retirou-se na Sarde-
nha (1798). Seu sucessor Vítor Emanuel I (1759-1824) precisou enfrentar
as guerras napoleônicas. Em 1806, ele também se retirou para a Sardenha,
com toda a casa real, retornando à península depois da primeira queda de
Napoleão. O Congresso de Viena devolveu aos governantes legítimos os seus
domínios e restaurou a velha ordem política, que não tardaria a entrar em
colapso devido à pressão das ideias liberais e à revolução.
No recentemente restaurado Reino da Sardenha, a pouca distância de
sua capital, Turim, João Melquior Bosco veio à luz em 16 de agosto de 1815.
3
A Paz de Utrecht (1713) consistiu numa série de tratados que puseram fim à Guerra de Sucessão
da Espanha. O disputado trono da Espanha foi entregue ao contendor Filipe V, francês, embora estivesse
proibido que os reinos da Espanha e da França fossem regidos pela mesma pessoa. A Grã-Bretanha con-
servava Maiorca e Gibraltar, ocupadas durante a guerra (mais tarde, porém, Maiorca passaria novamente
à Espanha). À Casa de Saboia foram devolvidas a Saboia e Nice, ocupadas pela França durante a guerra;
além disso, recebeu a Sicília, cedida pela Espanha.

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Apêndice

NOTA BIOGRÁFICA DO PAPA PIO VII (1742-1823)

Luís Barnabé Chiaramonte nasceu em 14 de abril de 1742. Beneditino,


professor de teologia e bispo de Tívoli, foi eleito cardeal em 1785. Eleito Papa
em 14 de março de 1800, faleceu em 20 de julho de 1823.
Devido à agitação das guerras napoleônicas, o Conclave que o elegeu
Papa foi celebrado em Veneza, com a presença de 35 cardeais, tendo durado
três meses e meio. O cardeal Chiaramonte foi o candidato de consenso. Após
a sua eleição, nomeou o brilhante diplomata de 34 anos Hércules Consalvi
como cardeal secretário de Estado.
Pio VII firmou concordatas com vários países (como com a França, Rús-
sia e Prússia), quase sempre com desvantagens para a Igreja. A concordata
entre Napoleão e a Santa Sé, assinada em 16 de julho de 1801, vigorou por
mais de cem anos apesar das mudanças introduzidas unilateralmente por Na-
poleão em 1802 (os assim chamados Artigos Orgânicos), totalmente galica-
nas, às quais se seguiram outras alterações em 1817.
Contra o conselho dos cardeais, Pio VII assistiu a coroação de Napoleão
em Paris no dia 2 de dezembro de 1804, reduzindo-se a um espectador a
mais. A invasão francesa e a anexação dos Estados Pontifícios em 1808 foi
uma nova humilhação, como o foi a insistência de Napoleão em 1806, para
que Consalvi fosse afastado do seu cargo.
A inútil excomunhão dos invasores franceses levou à prisão do Papa no
mês seguinte. Ele permaneceu prisioneiro durante cinco anos. Enfim liberta-
do por Napoleão, Pio VII restaurou Consalvi em seu cargo, que interveio no
Congresso de Viena de 1814 para que se restaurassem os Estados Pontifícios
e os enclaves papais na França (exceto Avinhão e o Condado Venaissino).
Ao regressar a Roma após o desterro, Pio VII deteve-se em Savona (Ligúria)
e, em ação de graças, coroou a imagem da Virgem Maria. No ano seguinte, insti-
tuiu a festa de Maria Auxiliadora dos Cristãos.

132

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Da Revolução Francesa ao Congresso de Viena

Numa época dominada pela política, a postura vigorosa de Pio VII foi
eclipsada pelo turbilhão das guerras e pela revolução. Sem dúvida, apesar da
sua oposição política, do seu substrato pessoal rigorista e das influências an-
tijesuíticas, restaurou a Companhia de Jesus em 7 de agosto de 1814. Desde
então, os jesuítas converteram-se numa força importante no crescimento do
ultramontanismo durante o século XIX.4

Mapa 1: Apogeu do Império napoleônico

4
“Ultramontanismo” (além das montanhas, em referência aos Alpes que separavam a Itália e Roma
do resto da Europa) é um termo ambíguo: para os italianos eram ultramontanos os nascidos além do seu
território; para os franceses, alemães e qualquer outro povo situado ao norte dos Alpes, são ultramonta-
nos os romanos e os italianos. Num sentido mais eclesiástico, o termo passou a designar o catolicismo
integrista, partidário de uma eclesiologia conservadora. No século XIX, aplicava-se aos partidários do
pensamento predominante em Roma, seguidores do Papa, defensores da sua infalibilidade e contrários a
toda forma de regalismo e à excessiva autonomia dos bispos à margem da autoridade papal.

133

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Dom Bosco: história e carisma 1

Os sentimentos cristãos de Pio VII podem ser medidos pelo fato de ter
enviado seu capelão para conceder a absolvição geral a Napoleão antes que
morresse prisioneiro em Santa Helena, em 1821. Provavelmente o fez tam-
bém em reconhecimento porque Napoleão, apesar de tudo, restabeleceu a
Igreja na França mediante a Concordata de 1801.
Mecenas das artes e das ciências, Pio VII desejou sinceramente a recon-
ciliação do catolicismo com as aspirações liberais, mas a reação da Restau-
ração e a pressão conservadora que prevaleceram nos últimos anos do seu
pontificado evitaram qualquer abertura nessa direção.
A intenção de enfrentar os problemas da Igreja diante do colapso do
Ancien Régime, como também a coragem e paciência diante das dificuldades
e humilhações sofridas, dá a impressão, sem dúvida, de que Pio VII foi um
grande homem e o seu pontificado, construtivo.

METTERNICH E A DOMINAÇÃO AUSTRÍACA DA


ITÁLIA (1815-1848)
Klemens Wenzel Nepomuk Lothar von Fürst Metternich-Winneburg
(1773-1859) foi, provavelmente, o homem de estado mais influente na Eu-
ropa nos anos que vão do Congresso de Viena (1815) às revoluções liberais
(1848), quando foi forçado a abandonar o poder e exilar-se. Como ministro
dos Assuntos Exteriores da Áustria, desempenhou papel-chave na reorganiza-
ção da Europa central durante o Congresso.
Na primeira fase do Ressurgimento italiano foi o “cão de guarda” dos Es-
tados regionais italianos, pois a influência da Áustria dominava a península.
Sua estratégia conservadora destinava-se a prevenir qualquer ressurgimento
dos movimentos revolucionários, intervindo na Itália em numerosas ocasiões
contra os revolucionários. Assim, quando a revolução estourou em Nápoles
em 1820, Metternich enviou imediatamente um exército para enfrentar os
revolucionários e abolir a constituição que o rei Fernando I concedera de-
baixo de coação. A revolução de Nápoles expandira-se até o Piemonte, onde
Carlos Alberto, regente do rei Carlos Félix, também aceitara uma constitui-
ção em 1821. O poderio militar de Metternich sufocou a rebelião e foram
restabelecidos a ordem e o domínio absolutista.
Ao longo da sua carreira, lutou contra o liberalismo e a revolução para
garantir a sobrevivência dos legítimos monarcas absolutistas. Entretanto,
Metternich, como muitos outros, não soube discernir os sinais dos tempos e
as forças que emergiam para criar uma nova Europa.

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Da Revolução Francesa ao Congresso de Viena

Significado de alguns termos políticos


Muitos termos políticos desse período comportavam, em tempos de
Restauração e Ressurgimento, um significado especificamente diverso do que
lhes atribuímos em nossos dias.

Política liberal
Liberal é o mais fundamental desses termos. Político liberal era a pessoa
que defendia a abolição do Antigo Regime absolutista. Os liberais opunham-
-se à “origem divina” da realeza. Como consequência, recusavam “o princípio
da legitimidade”, princípio que defendia a ideia de que somente um membro
da dinastia podia exercer a autoridade de modo legítimo.
A Revolução Liberal era um ato de força dos liberais com o objetivo de
pôr fim ao regime absolutista e estabelecer uma nova ordem política. A cons-
tituição e o estabelecimento de um parlamento (em geral, com duas câmaras)
que representasse os cidadãos, foram a primeira e fundamental expressão da
ordem política liberal.
A monarquia constitucional era uma ordem política que mantinha o
monarca como chefe do Estado. A autoridade era compartilhada ou exercida
por um parlamento e um gabinete presidido pelo primeiro-ministro, segun-
do os termos da Constituição liberal adotada por esse Estado. Na verdade, o
poder do monarca era limitado pela Constituição.

República
A República era o sistema político que acabava com a monarquia e suas
reivindicações.
A República federativa era uma federação ou união de regiões mais ou
menos independentes ou de Estados de uma região sob a presidência de uma
autoridade central, como fosse definido na Constituição. Para a unificação da
Itália, alguns filósofos políticos liberais propugnavam uma união federativa
dos Estados italianos presidida pelo Papa ou pelo rei do Piemonte.
A República unitária era aquela em que o Governo central (parlamento e
gabinete) representava diretamente o povo (não os estados da região). Os go-
vernantes absolutistas regionais eram suprimidos e a Constituição da República
era uma criação do povo mediante a Assembleia constituinte eleita pelo povo.
No período da Restauração e das revoluções liberais, este era o único sentido
atribuído ao termo república. Seu modelo era a ordem política idealizada e cria-
da pela Revolução Francesa. A França foi, porém, a única nação que conservou

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Dom Bosco: história e carisma 1

essa ordem republicana. A Itália conseguiu a unidade através da sua Revolução


Liberal, não como uma república federativa (como a Alemanha), nem como uma
república unitária (como a França), mas pela anexação (por conquista ou plebisci-
to) dos estados regionais. A unificação da Itália por anexação nos anos 1859-1861
significava que o rei do Piemonte convertia-se em rei da Itália e a Constituição do
Piemonte tornava-se (basicamente) a Constituição da Itália.
Na Itália, a monarquia dos Saboia acabou em 1946, mediante um re-
ferendo. A Itália converteu-se, então, em república unitária centralizada, de
estilo francês.

“Ressurgimento”
Na Itália, de modo particular, a Revolução Liberal não só tendia a acabar
com o governo absolutista e estabelecer uma ordem parlamentar constitucio-
nal. Tinha, também, como objetivo pôr fim à dominação estrangeira, como
requisito prévio para a unificação nacional. De fato, no período da Restau-
ração e das revoluções liberais, a Itália estava dividida em estados regionais,
dominados em sua maior parte pela Áustria. O movimento liberal com vistas
à libertação da Áustria e a unificação da Itália como estado-nação recebe o
nome de “Risorgimento” (ou Ressurgimento, isto é, o “ressurgir” da nação).
Não havia unanimidade sobre o modo de se chegar a esse objetivo. Um
dos projetos, o mais extremo, pretendia uma rebelião do povo em toda a
Itália para expulsar os austríacos, libertar a Itália dos governantes regionais
absolutistas (incluído o papado) e estabelecer uma república democrática no
estilo da Revolução Francesa. Era o objetivo perseguido por Mazzini e sua
sociedade secreta, por Garibaldi e outros. Embora parecesse nobre, esse pro-
grama não era realista. Os estados regionais italianos jamais poderiam unir-se
num levante único, pois eram tão diversos culturalmente que não comparti-
lhavam do mesmo sentido de nação.
Outro plano propunha a formação de um estado federativo com a união
dos diversos estados regionais sob a autoridade do Papa ou de outro dirigente.
Outro plano ainda buscava a união de todos os estados sob a autoridade do Rei-
no da Sardenha-Piemonte. A Casa de Saboia era considerada como o único líder
possível no momento de libertação e unificação. Depois da Revolução Liberal de
1848, o rei Carlos Alberto comprometeu-se a lutar contra os austríacos, com a
ajuda de levantes nas regiões dominadas pela Áustria no norte da Itália (Primeira
Guerra da Independência), acabando, porém, em catástrofe.
A guerra, contudo, uniu as regiões e permitiu o que evidentemente o
Piemonte não podia conseguir sozinho: o governo piemontês, do primeiro-
-ministro Cavour, aceitou a ajuda da França por mais que o seu soberano,

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Da Revolução Francesa ao Congresso de Viena

Napoleão III, tivesse finalidades pessoais. Foi essa a forma pela qual se obteve
a libertação e unificação em 1861. A unificação foi obtida, em parte, pela
anexação voluntária dos estados regionais do norte ao Piemonte e, em parte,
pela conquista do centro e do sul da Itália.
Dom Bosco nasceu e cresceu no Piemonte e recebeu toda a sua educação
e formação no período da Restauração, antes da Revolução Liberal de 1848.
Ele teve de aceitar a realidade da Revolução Liberal (constituição, parlamen-
to, gabinete de ministros etc.), mas nunca se solidarizou com os movimentos
liberais e o Ressurgimento; principalmente, porque os liberais começaram a
atacar a Igreja e o papado. Manteve-se até o fim como um piemontês da “an-
tiga ordem”, uma questão de lealdade ao seu rei, cuja autoridade, assim pen-
sava, estava sendo corroída pelas perversas instituições da Revolução Liberal.

Mapa 2: A Itália em 1815, após o Congresso de Viena

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Capítulo V

A TERRA NATAL E A FAMÍLIA DE


DOM BOSCO

1. O Piemonte e a capital Turim


A grande região do Piemonte estende-se pelo semicírculo dos Alpes do
norte e noroeste numa área de 29.356 quilômetros quadrados, ocupando
a parte mais elevada do vale do rio Pó. Piemonte, em italiano, sugere uma
posição ao pé do monte. A maior parte da região (50%) é montanhosa,
incluindo a zona elevada do Monte Bianco, com 4.810 metros de altura. A
região baixa (23%) tem a forma de uma grande ferradura, situada no semi-
círculo dos Alpes. Envolvido pelos Alpes e no centro da ferradura localiza-se
o país das colinas (27%), formado em grande parte pelas regiões do Mon-
ferrato e das Langhe.
Turim, capital do Piemonte e do reino da Sardenha, está no centro da
ferradura, nos limites entre a planície e as colinas centrais, e pouco mais
para o sudoeste do centro do Piemonte. O rio Pó, com um par de afluentes,
determinou em tempos antigos a localização da aldeia. Em 1790, ao estalar
da Revolução Francesa, Turim contava com pouco mais de 92 mil habitan-
tes, número que baixou a aproximadamente 81 mil em 1800, durante as
guerras napoleônicas. Com o advento da Restauração, a população voltou a
recuperar-se. Por volta de 1821, chegara até ao redor de 130 mil habitantes.1
A situação demográfica, portanto, tinha se alterado drasticamente.
Embora sua história remonte aos tempos de Roma, Turim nunca foi
uma cidade comparável às grandes urbes do Renascimento da Itália, como
Florença, Roma, Veneza etc. Adquiriu, porém, uma considerável beleza
como sede da mais antiga dinastia da Europa: os condes, depois duques e
reis de Saboia.

Harry Hearder, Italy in the age of the Risorgimento 1790-1870. London-NovaYork: Longman,
1

1983, 43. Cf. o verbete “Torino”, na Enciclopedia italiana di scienze, lettere ed arti. Vol. XXXIV. Roma:
Treccani, 1949, 31.

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A terra natal e a família de Dom Bosco

Turim. Vista do Monte dos Capuchinos, 1837 (Centro de Estudos Dom Bosco, Roma).

Chieri e Castelnuovo
A 12 quilômetros a sudeste de Turim está Chieri, bela cidade que re-
monta também à época romana, com uma população ao redor de 9 mil habi-
tantes no tempo da Restauração. Em Chieri, João Bosco fez o antigo ginásio
e cursou os estudos eclesiásticos no seminário local.
Conforme o primeiro testemunho que temos, nos primeiros anos do
século XVII, os membros da família Bosco viviam como camponeses em par-
ceria perto de Chieri. Nos inícios do século XVIII, um ramo deles emigrou
para Castelnuovo, povoado e paróquia com uns 3 mil habitantes, situada a
pouco mais de 10 quilômetros a leste de Chieri. Este grupo, porém, embora
pertencendo a Castelnuovo, não vivia na sede do município. O território de
Castelnuovo, cujo município era o distrito central, estava dividido em quatro
agrupamentos menores, cada qual com um povoado como centro: Bardella e
Nevissano ao norte, Ranello a oeste e Murialdo ao sul, a quase 4 quilômetros
da sede municipal. A população dessas povoações nunca chegou a mais de
200 habitantes. Cada uma tinha a própria igreja ou capela, sem ser paróquia.
Todas as gestões oficiais eclesiásticas e civis (como a administração dos sacra-
mentos) aconteciam na sede municipal e paróquia de Castelnuovo. Murialdo
tinha uma igreja dedicada a São Pedro, onde se celebrava a missa nos fins de
semana e se oficiavam diversas celebrações piedosas.
A família Bosco pertencia ao povoado de Murialdo, mas não residiam
nele. Viviam e trabalhavam perto de uma das aldeias de Murialdo chamada

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Dom Bosco: história e carisma 1

de Becchi, pequeno agrupamento de casas de camponeses situadas 1,5 qui-


lômetro ao sul de Murialdo. A aldeia dos Becchi estava aglomerada ao sopé
de uma colina oblonga que se elevava a uns 70 metros em direção ao sul,
conhecida hoje como Colle Don Bosco.
No cimo da colina elevava-se uma aldeia maior, uma cascina ou sítio
pertencente ao senhor Jacinto Biglione. Ali, Francisco e sua família viviam
e trabalhavam como agricultores arrendatários e onde, acredita-se, nasceram
seus filhos.
Pela metade do caminho, subindo a colina, havia uma aldeia chamada
Canton Cavallo, que tinha anexo, um galpão que, depois da morte de Fran-
cisco Bosco, seria convertido numa pequena casa para Margarida, a esposa de
Francisco, e sua família.

A “cascina” e o sistema de parceria no Piemonte no século XIX


A “cascina” (sítio) não era o sistema mais comum de propriedade da terra
e da agricultura. A terra era dividida em pequenas parcelas, em sua maior
parte nas mãos de pequenos agricultores que viviam na sede do município,
em suas povoações e aldeias. Os pequenos agricultores possuíam normalmen-
te um determinado número de pedaços de terra espalhados para usá-los em
diversos cultivos. Essa distribuição possibilitava ao camponês diversificar os
plantios, de acordo com a situação do campo e a natureza do solo de cada
pedaço de terra. As grandes propriedades eram exceção.
A cascina faz referência à aldeia, maior, e às suas terras circundantes. Era
uma unidade social-agrícola, normalmente de dimensões moderadas (mais
ou menos 49,5 hectares), com uma casa central que em sua origem acomo-
dava uma numerosa família. O nome original, que podia ser do primeiro
proprietário, mantinha-se, geralmente, embora fosse outro o dono do sítio. A
quem administrava o sítio e vivia com sua família em algum lugar da aldeia
ou em alguma casa adjacente, dava-se o nome de administrador. Em muitos
casos, os donos nem dirigiam nem viviam na propriedade. Neste caso, os
Biglione eram profissionais que viviam em Turim e tinham contratado um
arrendatário que residia na cascina com sua família. Os sítios deste tipo ser-
viam para muitas utilidades. Parte da casa acomodava as pessoas; outra parte
era predisposta para estábulo, celeiro e depósito.
O camponês arrendatário era meeiro, porque trabalhava as terras, com-
partilhando a colheita. Segundo a lei não escrita do Piemonte, a quem tra-
balhasse pela metade do produto dava-se o nome de mezzadro (meeiro), pois
produzia meio a meio com o proprietário. Os antepassados de Dom Bosco,

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A terra natal e a família de Dom Bosco

segundo consta na primeira notícia que se tem sobre eles e que remonta ao
século XVII, viviam e trabalhavam em grande parte como meeiros.
Felipe Antônio Bosco, avô de Dom Bosco, mudara-se para a região de
Murialdo-Becchi como agricultor arrendatário da Cascina Biglione na segun-
da metade do século XVIII. Depois da sua morte, seu filho Francisco Luís,
pai de Dom Bosco, continuou na mesma situação.

A terra e os cultivos
A região Turim-Chieri-Castelnuovo situa-se no extremo noroeste da
zona central das colinas. Turim fica na fronteira entre as zonas da planície
baixa e das colinas. As colinas começam a leste de Turim, do outro lado do
rio Pó, e estendem-se a leste, até a cidade de Asti e mais além (o Monferrato)
e ao sul, até as cidades de Alba e Acqui (as Langhe). Em sua maior parte são
baixas, com outeiros deliciosamente arredondados que favorecem o habitat
humano e a agricultura.2
O clima da zona das colinas é mais continental do que mediterrâneo.
Os Alpes oferecem proteção ao norte, mas ao sul os Apeninos cortam a costa
marítima. O inverno é intenso e nevado; o verão é quente e úmido. A média
de chuva por estação é de mais ou menos 442 centímetros cúbicos; a falta de
irrigação diminuía o uso da terra e reduzia a variedade de possíveis cultivos.
O granizo e outras tormentas de verão e as secas periódicas aumentavam a
incerteza e a vida dos agricultores.
Os Bosco viviam e trabalhavam nas terras das colinas. Colheitas de
produtos de primeira necessidade absorviam elevados percentuais das ter-
ras de cultivo: cereais (23%), leguminosas (24%), uva (22%), forragem
de feno e pastos permanentes (22%) e outros (20%). Entre os cereais, o
trigo era o mais importante. Contudo, desde sua introdução sistemática, o
milho teve um papel sempre mais decisivo, chegando a ser praticamente o
único produto básico na dieta dos agricultores durante o inverno. É preciso
destacar as uvas, cujas muitas variedades eram cultivadas para a produção
de vinhos excelentes.
A região onde Dom Bosco nasceu era e é uma bonita terra. As suaves co-
linas onduladas, os pequenos vales férteis e as planícies cobertas por cultivos
intensivos sustentam uma população robusta, de princípios claros, endureci-
da no trabalho, enraizada em sua tradição e de profunda fé.

2
Pietro Landini, “Piemonte”, em Enciclopedia italiana. Vol. XXVII. Roma: Treccani, 1949, 179-181.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Mapa 3: A terra de Dom Bosco.

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A terra natal e a família de Dom Bosco

2. A família Bosco
Os Bosco trabalharam como camponeses, arrendatários ou meeiros, em
dois sítios localizados perto de Chieri, primeiramente na Cascina Croce di
Pane e mais tarde na Cascina San Silvestro. O primeiro antepassado de Dom
Bosco do qual se tem memória é um personagem chamado João Bosco, que
se casou na catedral de Chieri em 1627.
Três gerações depois, os irmãos João Francisco Bosco (1699-1763) e
Felipe Antônio Bosco [I] (1704-1735) viviam como meeiros na Cascina San
Silvestro perto de Chieri. Felipe Antônio Bosco [I] casou-se com Cecília
Dassano em 1733, mas morreu antes do nascimento do filho, que também
se chamava Felipe Antônio Bosco [II]. Poucos anos depois, a viúva, Cecília
Dassano casou-se com Mateus Berruto, viúvo com filhos, tendo ido com o
novo marido e seus 2 filhos para outro lugar, deixando Felipe Antônio aos
cuidados do tio e padrinho, João Francisco Bosco, que se casou em 1748 com
Maria Masera. Felipe Antônio foi adotado pelos tios como filho. Em 1751, a
família mudou-se para Castelnuovo, nas proximidades de Chieri, para serem
agricultores independentes.
Felipe Antônio Bosco [II] (1735-1802), que virá a ser o avô de Dom
Bosco, casou-se com Domingas Barosso, em Castelnuovo, em 1758; dela
teve 6 filhos. Depois da morte de Domingas em 1777, casou-se pela segunda
vez com Margarida Zucca, também em Castelnuovo. O quarto dos seis filhos
desse segundo matrimônio, Francisco Luís Bosco, será o pai de Dom Bosco.
Os tempos difíceis e a grande família forçaram Felipe Antônio a deixar
a pequena atividade agrícola iniciada em Castelnuovo pelo tio João Francisco
e buscar uma nova vida. Em 1793 trabalhou como meeiro num sítio que
arrendou, situado a 1,85 quilômetro ao sul de Castelnuovo, na região de
Murialdo-Becchi, que pertencia ao senhor Jacinto Biglione.
O avô de Dom Bosco, Felipe Antônio [II], morreu em 1802, mas a fa-
mília, à frente da qual estava então seu filho mais velho Paulo (1764-1838),
continuou cuidando da terra e vivendo numa parte do grande sítio ou em
algum local adjacente. Pouco depois, Paulo e os outros irmãos deixaram o
sítio Biglione para trabalhar como autônomos. Restou Francisco Luís Bosco,
pai de Dom Bosco, que aos 20 anos encarregou-se da exploração do sítio.3
A propriedade pertencia à família Biglione. Era administrada pelo senhor
Jacinto Alberto Biglione, advogado de profissão, que residia em Turim. A terra
3
Sobre os antepassados de Dom Bosco, consulte-se Secondo Caselle, Cascinali e contadini in Mon-
ferrato: I Bosco di Chieri nel sec. XVIII. Roma: LAS, 1975; Michele Molineris, Don Bosco inedito: quello che
le Memorie di San Giovanni Bosco non dicono. Castelnuovo Don Bosco: Istituto Salesiano, 1974, 19-31.

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Dom Bosco: história e carisma 1

cultivável (vinhedos, pastos e campos de cultivo) media 12 hectares. A casa, que


estava na parte mais elevada da colina dos Becchi, era um grande edifício (30 x
7 metros) em três níveis. A parte inferior servia de depósito. O primeiro andar
tinha a cozinha e a sala de estar, com um estábulo contíguo, provavelmente, sob
um mezanino que servia de celeiro. O segundo andar da casa tinha vários quar-
tos. O terceiro andar servia de depósito de grãos. Como arrendatários, os Bosco
viviam certamente numa parte dessa casa, ou talvez em algum local próximo.

Francisco Bosco e sua família


Em 1805, aos 21 anos, Francisco Luís Bosco casou-se em primeiras núpcias
com Margarida Cagliero. Desse casamento nasceram Antônio José (2 de fevereiro
de 1808) e Teresa Maria (16 de fevereiro de 1810), que morreu dois dias depois.4
Margarida Cagliero morreu em 28 de fevereiro de 1811, deixando viúvo
Francisco de 27 anos e um filho de 3 anos, Antônio José. Nesse mesmo ano,
ele conheceu Margarida Occhiena, de Capriglio,5 com quem se casou em 6
de junho de 1812. Desse casamento nasceram José Luís (17 de abril de 1813)
e João Melquior, ambos, como anteriormente Antônio José, no sítio Biglione.

Data de nascimento e batismo de João Melquior Bosco


A quarta-feira, 16 de agosto de 1815, foi o dia feliz em que nasceu o
segundo filho de Francisco Luís e Margarida Occhiena Bosco. O menino foi
batizado no dia seguinte na igreja paroquial de Castelnuovo, sua cidade natal,
recebendo o nome de João Melquior.6
Dom Bosco afirma nas Memórias do Oratório7 ter nascido no dia 15
de agosto, festa da Assunção da Virgem. Foi o que pensaram os primeiros
Salesianos até 1889: padre Bonetti indica 15 de agosto como data do nasci-
mento de Dom Bosco na História do Oratório, publicada no Boletim Salesiano
(1879);8 fazem o mesmo padre Rua no pergaminho colocado no sarcófago
de Dom Bosco (1888)9 e os Ex-Alunos salesianos na placa comemorativa que
lhe dedicaram em 11 de agosto de 1889.10

4
Segundo o recenseamento de 1808, a família Bosco era composta no sítio Biglione pelos se-
guintes membros: Francisco Luís Bosco (de 24 anos), Margarida Cagliero Bosco (de 24 anos), Marga-
rida Zucca Bosco (mãe de Francisco, de 55 anos), Teresa Maria (irmã de Francisco, de 17 anos).
5
Capriglio era um pequeno município situado a cerca de 3 quilômetros ao sul dos Becchi.
6
João era um nome comum entre os antepassados do ramo paterno de Dom Bosco. Melquior
também o era no ramo materno.
7
MO, 24.
8
Bollettino Salesiano, 7 de janeiro de 1879 e 31 de março de 1887.
9
MB XVIII, 836.
10
Bollettino Salesiano, outubro de 1889, 132.

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A terra natal e a família de Dom Bosco

Em 1889, padre Miguel Rua enviou dois salesianos, padres Segundo


Marchisio e João Batista Francesia, para indagarem sobre os primeiros anos
de permanência de Dom Bosco em Castelnuovo. Houve, então, a descoberta
de que, nos registros paroquiais, constava 16 de agosto como a data do nasci-
mento de Dom Bosco. A anotação do batismo, escrita em latim, conservada
nos arquivos da igreja de Santo André de Castelnuovo é clara: João Melquior,
nascido na tarde do dia 16, foi batizado na tarde de 17 de agosto.

17 de agosto de 1815. – João Melquior Bosco, filho de Francisco Luís e de


Margarida Occhiena Bosco, casados segundo a lei, nasceu ontem à tarde e foi
solenemente batizado nesta tarde pelo Reverendo Padre José Festa, Assistente.
Os padrinhos foram Melquior Occhiena, de Capriglio, e Margarida Bosco,
viúva do senhor Segundo Occhiena, desta cidade [Castelnuovo]. – José Segis-
mundo, Pároco, Vigário Forâneo.11

Sítio Biglione.

11
A partir de 1866, no Piemonte, e depois na unificação da Itália, as anotações civis começaram a
ser registradas nos órgãos municipais das cidades. Antes dessa data, nascimentos, falecimentos etc. eram
anotados pelos párocos num registro paroquial especial. Até 1838, fazia-se em latim, sem um padrão
formal e de acordo com algumas normas que, em parte, datavam do concílio de Trento. As datas do
nascimento de João Melquior Bosco e o seu batismo registrados nos livros paroquiais devem ser aceitas
como definitivas. O padrinho de João, Melquior Marcos Occhiena (1752-1844), era o pai de Margari-
da. A madrinha, Maria Madalena Bosco (1773-1861), era a tia viúva de João pelo ramo paterno.

145

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Dom Bosco: história e carisma 1

Morte de Francisco Luís Bosco


Francisco e Margarida Bosco, com o trabalho duro e a ajuda dos empre-
gados diaristas, continuaram a cumprir as obrigações do contrato feito com
os patrões. A mãe de Francisco, Margarida Zucca, embora com deficiência
física, estava apta para cuidar dos meninos. Entretanto, Francisco e Margari-
da pensavam no futuro e em melhorar a situação presente. De fato, Francisco
tinha comprado dois pedaços de terra nas proximidades e aumentado a sua
área de cultivo.
Pouco depois, houve uma tremenda seca, no tempo em que as relações
entre Francisco e o proprietário começaram a se deteriorar, sobretudo por-
que o senhor Biglione encerrara com Francisco o arrendamento de boa parte
das terras, obrigando-o a pensar mais em si mesmo e em sua família. Como
aspirasse a uma eventual independência, adquiriu por 100 liras, em 17 de
fevereiro de 1817, do senhor Francisco Graglia, uma pequena casa, na zona
conhecida como Canton Cavallo (Propriedade Cavallo); ela estava a certa
distância da casa Biglione, colina abaixo para quem olha em direção ao norte,
e a um tiro de pedra da pequena aldeia dos Becchi, mais ao norte ainda, no
início do declive.
A pequena casa era, na realidade, um galpão malconservado, que se
apoiava na parede de trás da casa grande; constava, no momento da compra,
de um ambiente mais baixo e um pequeno estábulo contíguo, com um depó-
sito de feno, também pequeno, sobre ele.
O galpão carecia, logicamente, de reformas e ampliação, pois devia con-
verter-se em moradia da numerosa família de Francisco, o que era, sem dúvida,
desejado por ele. Entretanto houve a tragédia. Francisco Bosco morreu em 11
de maio de 1817, aos 33 anos de idade. Dom Bosco, que ainda não tinha 2
anos, recorda o triste fato numa comovedora página das Memórias do Oratório:

Lembro apenas, e é o primeiro fato de minha vida que guardo na memória,


que todos saíam do quarto do falecido e eu queria ficar lá a todo o custo.
– Vem, João, vem comigo – insistia minha aflita mãe.
– Se papai não vem, eu também não vou – retorqui.
– Pobre filho – continuou mamãe –, vem comigo, já não tens pai.
Ditas essas palavras, prorrompeu em soluços, tomou-me pela mão e levou-me
para fora, ao passo que eu chorava porque a via chorar. Naquela idade não po-
dia evidentemente compreender a grande desgraça que é a perda de um pai.12

12
MO, 25. Parece que o texto não recolha aqui uma lembrança pessoal de Dom Bosco, mas o
que mais tarde chegou a ser informado por sua mãe ou por outro membro da família.

146

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A terra natal e a família de Dom Bosco

O lugar do nascimento de Dom Bosco


Os filhos de Francisco Bosco – Antônio, José e João – não nasceram
naquela que hoje se chama pequena casa de Dom Bosco [casetta di Don Bosco]
porque foi adquirida quando João Melquior já tinha mais de um ano; eles
nasceram no sítio do senhor Biglione, onde vivia a família Bosco.
Se até pouco tempo atrás se pensava que Dom Bosco tivesse nascido na
pequena casa dos Becchi (Canton Cavallo), isso se deve a Dom Bosco que
sempre falava da pequena casa como a “sua” casa, embora nunca, parece, te-
nha usado a expressão “a casa em que eu nasci”. Pode ser que, na experiência
e subconsciente de Dom Bosco, a pequena casa de Margarida ocupasse o lugar
central e a casa Biglione perdesse logo o seu significado.
Depois de 1817, a sorte dos Biglione declinou. A propriedade passou
às mãos do senhor José Chiardi em 1818 e, mais tarde, em 1845, ao senhor
Damevino. Permaneceu como propriedade da família Damevino até que os
salesianos a adquiriram em 1929, ano da beatificação de Dom Bosco.
As pequenas propriedades do entorno da pequena casa foram passando
às mãos dos salesianos. Padre Felipe Rinaldi, então Reitor-Mor, pensara em
adquirir toda a colina para os salesianos. Foi essa a razão pela qual se adquiriu
a casa Biglione e a propriedade, não porque se acreditasse que Dom Bosco
tivesse nascido nela. Já como propriedade dos salesianos, a casa veio a fazer
parte da Escola Salesiana – Istituto Bernardi – Semeria –, edificada na ladeira
sul da colina, tendo sofrido desde então sucessivas modificações e ampliações.
A casa foi demolida em 1958, para dar lugar à nova igreja de São João
Bosco no alto da colina. Não se sabia ainda que essa era a casa em que Dom
Bosco tinha nascido! Uma ampla e cuidadosa pesquisa nos arquivos locais,
levada a termo pelo prefeito de Chieri, senhor Segundo Caselle, nos anos
1960-1970, deu a conhecer a realidade dos fatos. Pôde-se, assim, seguir a pis-
ta dos antepassados de Dom Bosco e dos lugares onde viveram e trabalharam.
Pôde-se afirmar, também, que Dom Bosco nascera na casa Biglione, onde seu
pai era administrador e meeiro, e que sua família mudara para a pequena casa
apenas depois da morte do pai em 1817.13

A pequena casa dos Becchi


Após a morte do esposo, Margarida Bosco precisou batalhar para con-
cluir a colheita e, em seguida, preparar a mudança do sítio Biglione. Come-
çou logo a preparar o galpão que seu esposo comprara e transformou-o numa
13
Cf. S. Caselle, Cascinali, 30-41.

147

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Dom Bosco: história e carisma 1

pequena casa adequada para ser habitada. O andar térreo tornou-se uma sala
multiúso e cozinha. O estábulo contíguo, capaz de alojar apenas uma vaca e
sua cria, não sofreu alteração. O depósito de feno sobre o estábulo foi trans-
formado em dois pequenos quartos, aos quais se subia por uma escada exter-
na ou, por dentro, por uma abertura no teto. Ao lado do estábulo ficava um
espaço que podia ser usado como depósito de feno ou celeiro.
A família Bosco instalou-se na pequena casa em novembro de 1817.
Formavam a família Margarida Occhiena Bosco, 29 anos, seu enteado An-
tônio José, 9 anos, seus filhos José Luís, 4 anos, e João Melquior, 2 anos, e a
sogra semi-inválida, Margarida Zucca Bosco, de 65 anos.
Em 1826, morreu a avó, mas mesmo sem a sua presença, a casa era
incômoda, já que os meninos estavam crescendo. Em fevereiro de 1828,
Margarida comprou uma parte adicional contígua ao edifício unindo-a à
pequena casa. Consistia num pórtico adjacente à cozinha com um quarto
sobre ele. Com essa remodelação, a casa chegou quase plenamente à sua
forma definitiva.
Assim, a pequena casa dos Becchi, como será conhecida mais tarde, pas-
sou a ser a casa onde João encontraria carinho e alimentação em sua infância
e adolescência. Aqui, sob a firme, mas amável orientação de Margarida, João
recebeu a primeira educação e também a iniciação espiritual e cristã. A ora-
ção, o trabalho proporcional às forças e capacidades de cada um, o estilo duro
de vida, que excluía mimos e complacências, e a atitude aberta aos demais
converteram João numa pessoa confiante em si mesma, cheia de iniciativas e
criativa desde seus primeiros anos.

A situação de Francisco Luís Bosco14


Francisco Bosco viveu no sítio Biglione de 1793 a 1817, e trabalhou
a terra como arrendatário. Como a maioria de seus antepassados, não era
proprietário autônomo, mas simples trabalhador contratado como mão de
obra agrícola, que ganhava um escasso salário para ele e sua família. Não era,
pois, um pobre reconhecido publicamente como tal e, por isso, não recebia o
subsídio com que a municipalidade ajudava os que possuíssem o “atestado de
pobreza” fornecido pelos seus párocos.
O arrendamento era um modo comum e aceito de ganhar a vida. Era
também o caminho para chegar a ser proprietário. De fato, como se disse

14
Cf. P. Stella, Economia, 15ss. Ver documentos públicos em S. Caselle, Cascinali, 96ss.

148

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A terra natal e a família de Dom Bosco

anteriormente, Francisco Bosco tinha a intenção de ser independente e já


adquirira algumas terras próprias.
O inventário dos bens, feito depois de sua morte por um notário local,
mostra que era dono de nove pequenos pedaços de terra nas proximidades dos
Becchi, nos quais cultivava uva, trigo, milho e feno; o total era de uns 1.117
metros quadrados, avaliados em 686 liras. Possuía também alguns animais
avaliados em 445 liras. Calculando o preço de diversas ferramentas agrícolas,
utensílios domésticos, móveis etc., o valor total, oficialmente calculado, era
de aproximadamente 1.331 liras. Tudo parece indicar que Francisco estivesse
cuidando da própria independência.15
À sua morte, Francisco deixou dívidas que chegavam a 446 liras, en-
quanto a pequena casa, avaliada em 100 liras, ainda não fora paga.16

A pequena casa dos Becchi.

15
Francisco era proprietário de uma junta de bois (avaliados em 200 liras); 2 bezerros (avaliados
em 120 liras); 1 vaca (avaliada em 30 liras); 1 vaca com cria (avaliada em 60 liras) e 1 égua (avaliada
em 35 liras).
16
As grandes dívidas de Francisco podem ser devidas, não à insolvência, mas ao costume de
saldar dívidas por temporadas com mercadorias e serviços, mais do que com dinheiro. Foi assim, pro-
vavelmente, que pagou o dote de Margarida. Era costume entre os camponeses no Piemonte estipular
um dote para o casamento da noiva. Os Occhiena tinham aceitado que a noiva entregasse 150 liras
a Francisco Bosco. Contudo, eles pagaram apenas 22 liras em dinheiro enquanto o restante foi pago
com o trabalho de um dos irmãos de Margarida durante duas temporadas de 1815-1816; os Occhiena
seriam demasiadamente pobres para pagar em dinheiro vivo.

149

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Dom Bosco: história e carisma 1

A situação de Margarida Bosco após a morte do esposo


Após a morte de Francisco Bosco, a situação econômica da família en-
cabeçada por Margarida deteriorou-se consideravelmente, sem contar os dois
anos de estiagem e carestia. De fato, havia no estábulo da pequena casa apenas
uma vaca e um bezerro. As dívidas de Margarida chegavam ao valor de todos
os animais de Francisco. Além disso, Margarida sofreu outras cobranças.17
As primeiras páginas das Memórias são uma listagem de pobreza e difi-
culdades. Dom Bosco emprega bastante espaço para falar da grande estiagem
e carestia que assolou a região nos anos 1816-1818.18 Essas calamidades eram
um fato na vida real do país, mas esta parece que foi especialmente dura.
Encontraram-se pessoas mortas pelas estradas com a boca cheia de capim.
Dom Bosco escreve:

Mamãe contou-me várias vezes que alimentou a família enquanto pôde. De-
pois deu dinheiro a um vizinho chamado Bernardo Cavallo, para que fosse
à procura de comestíveis. O amigo percorreu diversos mercados e nada en-
controu, mesmo a preços exorbitantes. Voltou dois dias depois, pelo anoite-
cer, ansiosamente aguardado por todos. Quando comunicou que só trazia
o dinheiro de volta, o medo se apoderou de todos porque como se haviam
alimentado muito mal nesse dia, eram de temer as funestas consequências da
fome naquela noite.

Ele acrescenta que, depois de pôr a família toda de joelhos e ter rezado,
sua mãe disse: “Em casos extremos deve-se empregar meios extremos”. Em
seguida, com a ajuda do mencionado senhor Cavallo, foi ao estábulo, matou
um bezerro, coisa arriscada, pois este era o seguro da família.19
Dom Bosco conta, também, que nessa ocasião sua mãe recebeu uma
proposta muito vantajosa de um senhor que ele não nomeia; a oferta, porém,
não incluía os filhos. “Insistiram que os filhos seriam confiados a um bom
tutor, que havia de cuidar muito bem deles”, mas ela replicou logo em segui-
da: “Um tutor é um amigo, ao passo que eu sou a mãe dos meus filhos. Não
os abandonarei jamais, ainda que me oferecessem todo o ouro do mundo”.20

17
Certa senhora Lúcia Pennaro, reclamava o pagamento de uma pensão estabelecida a seu favor
pelos Biglione, como retenção preventiva pelos ganhos do sítio, e o senhor Biglione iniciou ações legais.
O caso, que finalmente foi impugnado, trouxe mais gastos às exíguas reservas de Margarida.
18
MO, 25-26.
19
MO, 26.
20
MO, 27.

150

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A terra natal e a família de Dom Bosco

Não resta dúvida de que a proposta era de casamento, fato normal para
uma jovem viúva, embora Dom Bosco não o diga expressamente. As teste-
munhas que se apresentaram no processo diocesano de beatificação de Dom
Bosco corroboram que sua mãe, viúva aos cinco anos de casamento, recusou
uma proposta de voltar a casar-se, para ficar livre e poder dedicar-se exclusi-
vamente à educação dos filhos, José e João, e do enteado Antônio.

Ela mesma me disse que, sendo viúva aos 29 anos, recusou várias propostas
vantajosas de casamento para dedicar-se inteiramente à educação de seus fi-
lhos. Isso exigiu dela um trabalho duro e ininterrupto, renúncias diárias e
sacrifícios sem conta.21

Foi uma decisão corajosa de Margarida. As viúvas, como os órfãos, no


século XIX ainda eram, como na antiguidade, a parcela mais frágil da socie-
dade. Muitas viúvas teriam aceitado a oferta. Sua decisão foi heroica e foram
afortunados os filhos de Francisco Bosco. Na mesma situação, três gerações
antes, Felipe Antônio Bosco, o avô já mencionado, não fora tão feliz; sua mãe
viúva casou-se novamente, deixando-o aos cuidados do tio.
Margarida sabia o que a esperava: em sua situação de real pobreza, deve-
ria ser ela a ganhar o pão de cada dia. Ela só conseguiria ter uma saída honrosa
para que as contas quadrassem e pudesse dar de comer a uma família de cinco
pessoas por meio do trabalho mais duro e a custo de imensos sacrifícios pes-
soais. Antes de seis anos, não podia esperar que Antônio desse qualquer ajuda
relevante. José precisaria de mais dez anos e João, ainda uma dúzia de anos.
Além da menção de Dom Bosco sobre a dificuldade pela qual a sua família
passou durante os dois anos de estiagem e carestia, não temos outra documenta-
ção para aquilatar o que a família atravessou exatamente. Os pequenos pedaços
de terra que possuíam eram escassamente suficientes para dar-lhes de comer.
Mesmo nos anos de boa colheita, o rendimento da terra nunca era elevado. O
solo estava esgotado pelos muitos anos de aridez; os métodos de cultivo eram
antiquados. Os preços de mercado dos cereais e do vinho mantinham-se baixos
devido à política protecionista da agricultura, desenhada para alijar do mercado
a produção de outros países mediterrâneos e da Rússia. Dessa forma, mesmo
havendo um aumento na produção de trigo, milho e centeio para venda, estes
só eram aceitos em quantidades insignificantes.
Realmente, não havia salvação. Além de tudo, a maior parte do dinheiro
disponível deveria ser empregada na compra de roupas e, ocasionalmente,

21
Processus Ordinarius Curiae Taurinensis (POCT), bispo João Cagliero, Sessão 143, 1893, e
padre Félix Reviglio, Sessão 79, 1892.

151

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Dom Bosco: história e carisma 1

num par de sapatos, e em ferramentas para a agricultura. Era preciso guardar


um pouco de dinheiro para alguns artigos necessários, tais como azeite, sal e
açúcar, monopólios do Estado, e para o queijo ou as conservas, que eram o
complemento diário usual do pão de cada dia.
Por outro lado, toda a comida, um prato básico pobre, era tirada da
terra: pão de cevada e milho no inverno e pão de trigo no verão, sopa, ver-
duras da horta e frutas do tempo plantadas entre as lavouras e os vinhedos.
A vaca do estábulo proporcionava leite; as galinhas, alguns ovos. As aves do
galinheiro acrescentavam ocasionalmente um suplemento à dieta. Carne de
vaca ou bezerro era acessível poucas vezes no ano. Os vinhedos produziam
uva suficiente para que o vinho durasse toda a temporada a ser bebido pelos
adultos, normalmente misturado com água, e se conservasse um pouco para
vender ou envelhecer para ocasiões especiais.
A família precisou batalhar durante a década de 1820. Antônio e José
iam se tornando aos poucos capazes de dar uma mão no trabalho, à medida
que cresciam, dando assim algum descanso a Margarida. Eles, de fato, ajuda-
vam-na a cultivar os pequenos pedaços de terra e proporcionavam à família
ajudas extras com trabalhos temporários. A repartição dos bens do pai (a pe-
quena casa, terras e equipamentos), estabelecida em 1830, entre Antônio de
um lado e José - João juntos, de outro, acentuou a dureza da vida; sobretudo
quando Antônio e José se casaram e formaram família.22

Conclusão
Os Bosco, até a chegada de Francisco Luís Bosco, pai de Dom Bosco, não
foram proprietários, mas meeiros que trabalhavam terras alheias e recebiam
a metade da produção. Embora pobres, não passavam grandes necessidades.

22
Antônio casou-se em 1831. Construiu uma casa com um só quarto para sua família, na
parte norte do curral, acrescentada aos quartos em uso na pequena casa. Pôde ampliar um pequeno
suplemento aos seus pobres ganhos, trabalhando como empregado contratado, mas parece que vivia
em pobreza extrema. José trabalhou como meeiro num sítio próximo, em 1830-1831. Margarida e
João foram viver com ele. Casou-se em 1833 e retornou aos Becchi em 1839. Parece que teve mais
sucesso; começou a construir uma casa aceitável, que foi aumentando aos poucos com a ajuda de Dom
Bosco. Apesar disso, quando em 1840 a propriedade conjunta de José e João foi inventariada em vista
do subsídio eclesiástico necessário para sua ordenação, esta não cobria a quantia exigida. O valor total
do capital chegava a 2.510 liras, com uma renda anual de 125 liras. Para cobrir a soma requerida para
o dote eclesiástico de João, que chegava a 250 liras, o sócio anterior de José, João Febbraro, deu como
garantia 1 prado e 4 pequenas vinhas no valor de 3.156 liras e uma renda anual de 67 liras.

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A terra natal e a família de Dom Bosco

Contudo, não tinham casa própria, seus filhos nasceram em casas alheias, emi-
graram de um lado a outro, conforme encontravam sítios para arrendar. Ape-
sar disso, tiveram a oportunidade de se tornarem independentes.
Após a morte de Francisco Bosco, a família presidida por Margarida
ficou numa situação de imensa pobreza, mas nunca recebeu subsídio do mu-
nicípio. Os pequenos pedaços de terra que possuíam e trabalhavam, uma
vaca e um bezerro etc. serviram-lhes para sobreviver. A melhor medida da
pobreza de Margarida está no fato de que não pôde contribuir em nada para
a educação de João. Ele precisou pedir e obter ajuda de benfeitores, competir
por prêmios e servir-se de suas habilidades para sobreviver como estudante.
Dom Bosco, em 1883, corrigiu as provas tipográficas da sua biografia es-
crita por Alberto Du Boÿs; quando o autor falou sobre os familiares de Dom
Bosco, dizendo que “eram camponeses de posição bastante boa”, o Santo
corrigiu, anotando: “eram camponeses pobres”.23 A experiência pessoal de
pobreza estava destinada a ser um elemento do seu compromisso vocacional
pelos pobres, assim como da sua espiritualidade.

23
MB XV, 72.

153

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Apêndice

DISCUSSÃO SOBRE O LUGAR DE NASCIMENTO DE


DOM BOSCO

Surgiu recentemente uma discussão sobre o lugar exato do nascimento


de Dom Bosco no sítio Biglione.
Francis Desramaut sustentou que Francisco Bosco viveu e trabalhou até
a sua morte, não na casa principal de Biglione, mas num “anexo” situado
pouco mais adiante, para o sul, numa localidade chamada Monastero, na
ladeira de Meinito (Mainito). Aí seria o lugar em que Dom Bosco nascera.
A casa provavelmente foi demolida durante o século XIX. Os argumentos
aduzidos em apoio a essa teoria foram logo recusados. Em geral, os demais
estudiosos salesianos, especialmente padre Natale Cerrato, creem sem dúvida
que a casa Biglione foi o lugar do nascimento de Dom Bosco.24
Francis Desramaut apresenta duas “provas” principais:
1. Uma lápide que os Alunos Salesianos colocaram à porta da casa de
José, nos Becchi, em 11 de agosto de 1889. A inscrição da lápide menciona
como “demolida” a casa onde Dom Bosco tinha nascido. Contudo, em 1889,
nem a casa Biglione nem a pequena casa tinham sido demolidas.
Cerrato contradiz o primeiro argumento de Desramaut mostrando
que a inscrição inteira – Desramaut cita apenas uma parte dela – refere-se,
na realidade, à pequena casa que está nas proximidades, que se pensava fosse
a casa natal de Dom Bosco. Esta casa, embora não tivesse sido demolida,
podia ser dada como tal, pois ficara quase em total ruína; seria restaurada
pelo padre Rua em 1891. A inscrição inteira diz:

24
Cf. Francis Desramaut, “Études I”, Cahiers Salésiens, 32-33 (abril de 1994), 23 e 52-53, nota
23. Id., Don Bosco, 12, 16 e 34, nota 23; 35, nota 43. Criticado por Natale Cerrato, Critica di una
nuova ipotesi [...] (tipografado). Id., “Dov’è nato Don Bosco?”, Il Tempio di Don Bosco, 49.1 (1995),
8-9; 49.2 (1995), 6-7; 49.3 (1995), 4-5. Cerrato reuniu todos os elementos de discussão num opúscu-
lo, id., Dove è nato Don Bosco. Monte Oliveto: Salesiani, 1996.

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A terra natal e a família de Dom Bosco

Nascido numa casa próxima, agora destruída / em 15 de agosto de 1815, / o


padre João Bosco / passou aqui seus primeiros anos, / em admirável pobreza.
/ Aqui, entre seus amigos, aos 15 anos de idade / iniciou a sua obra educativa
/ pela qual seu nome / iria alcançar renome por toda a Europa e por todo o
mundo. / Ele faleceu em Turim no dia 31 de janeiro de 1888 / Esta placa foi
colocada em sua memória pelos seus alunos / 11 de agosto de 1889.25

A segunda parte da inscrição refere-se seguramente à pequena casa, o que


se confirma pelas palavras que o professor A. Fabre em nome dos alunos dissera
ao padre Rua (24 de junho). Ele falava da intenção dos alunos dedicarem uma
lápide a Dom Bosco na “casa onde tinha nascido e vivido muitos anos”. Quan-
do a lápide colocada na casa de José foi inaugurada em 11 de agosto, padre Félix
Reviglio falou em nome dos alunos, indicou a “pequena casa” no meio do pá-
tio, e disse: “Esta mesma casa, tão pobre e sem brilho, que agora está quase em
ruína, (é a casa) em que [Dom Bosco] nasceu e viveu”.26 (A crença generalizada
na época era que Dom Bosco nascera na pequena casa dos Becchi.)
2. Como segunda “prova” de que Dom Bosco nascera na zona de Monaste-
ro, aldeia de Meinito, e não na casa principal de Biglione, Desramaut menciona
dois documentos oficiais: o testamento de Francisco Bosco e o inventário dos
bens depois da sua morte. Ambos estabelecem que Francisco Bosco e, depois da
sua morte, seus filhos pequenos viveram “na casa do senhor Biglione, situada
na zona de Monastero, aldeia de Meinito”.27 Um inventário oficial do sítio de
Biglione na região, com data de 1773, demonstra que este senhor possuía terras
em diversas localidades, mas somente uma casa, localizada em Sbaconatto.28
Cerrato demonstra que, nos documentos, os nomes das localidades (como
Castellero, Sbaconatto, Sbarüau, Monastero, Meinito, Valgongone etc.) são fre-
quentemente permutados, porque muito próximos uns dos outros. Por exem-
plo, no testamento e inventário de Francisco Bosco diz-se que a casa Biglione
está situada em Monastero, mas no inventário do senhor Biglione situa-se em
Sbaconatto. Nesses momentos, a localização que se indica é Castellero. No in-
ventário de Francisco Bosco diz-se que a pequena casa está situada na “região
de Cavallo, em Monastero”. Atualmente, estes nomes abrangem menos e estão
muito mais localizados do que antigamente, naquilo que eles designavam áreas
mais amplas. Meinito, por exemplo, restringe-se agora ao sítio do seu nome, mas
antes era uma aldeia, hoje inexistente; em tempos medievais era um território
feudal bastante amplo. Cerrato apresenta um formidável conjunto de provas do
uso dos nomes locais que se sobrepõem, se entrecruzam e se permutam.

25
Bollettino Salesiano, outubro de 1889, 132.
26
Bollettino Salesiano, novembro de 1889, 146-148.
27
Cf. S. Caselle, Cascinali, 94-96.
28
Cf. S. Caselle, Cascinali, 62.

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Dom Bosco: história e carisma 1

A conclusão deve ser, sem dúvida, que Dom Bosco nasceu em 16 de


agosto de 1815, na única casa que trazia o nome de Biglione. Estava situada
no que agora restritivamente se conhece como região de Castellero ao sul da
colina da aldeia dos Becchi, e ao norte, mais além do que a aldeia de Meinito
costumava abranger.
A FAMÍLIA DE FRANCISCO LUÍS BOSCO DURANTE O PERÍODO
NAPOLEÔNICO E DA 1a RESTAURAÇÃO

4 de fevereiro. Francisco Luís Bosco casa-se com sua primeira esposa,


1805
Margarida Cagliero.
3 de fevereiro. Nascimento de Antônio José Bosco (1808-1849), meio-irmão
1808
de Dom Bosco, no sítio Biglione.
16 de fevereiro. Nascimento de Teresa Maria Bosco, falecida em 18 de
1810
fevereiro, no sítio Biglione.
28 de fevereiro. Falecimento de Margarida Cagliero, primeira esposa de
1811
Francisco Luís Bosco, no sítio Biglione.
6 de junho. Francisco Luís Bosco casa-se com sua segunda esposa, Margarida
1812 Occhiena, em Capriglio, depois de apresentar-se para o consentimento ao
magistrado francês de Castelnuovo.
18 de abril. Nascimento de José Luís Bosco (1813-1862), irmão mais
1813
velho de Dom Bosco, no sítio Biglione.
1815 16 de agosto. Nascimento de João Melquior Bosco, no sítio Biglione.
17 de agosto. João Melquior Bosco é batizado pelo padre José Festa na
igreja paroquial de Castelnuovo; o pároco é padre José Sigismundo.
1817 17 de fevereiro. Francisco Luís Bosco compra “a pequena casa” no cantón
Cavallo, Becchi.
8 de maio. Francisco Bosco, gravemente enfermo, transmite seu último
desejo e testamento em favor dos 3 filhos.
11 de maio. Morte de Francisco Luís Bosco; vivem em família: sua mãe
Margarida Zucca, sua viúva, Margarida Occhiena, e seus 3 filhos: José
Antônio, 9 anos, José Luís, 4 anos, e João Melquior, de 2 anos.
17 de maio. Inventário das propriedades de Francisco Bosco pelo notário
público Carlos José Montalenti.
11 de novembro. Margarida Occhiena e João Zucca (tutor legal dos 3
meninos Bosco) rescindem o contrato de arrendamento com Biglione;
transferência da família para a “pequena casa”.
1816 - Dois anos de seca e colheitas ruins, com a fome, o escorbuto e o tifo. Em
1818 1818 (outubro-novembro), o senhor Biglione leva aos tribunais Margari-
da e João Zucca (como tutores dos meninos) por falta do cumprimento
de honra (direito de posse de propriedade alheia até que a dívida seja paga)
ligado ao sítio; depois, desistiu da ação.

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Capítulo VI

UMA INFÂNCIA ESPERANÇOSA EM


TEMPOS DE COMOÇÃO POLÍTICA
(1815-1824)

Após a declaração final do Congresso de Viena, a Casa de Saboia man-


teve sua independência no reino subalpino. A Áustria, contudo, dominou a
Itália, seja diretamente, no reino Lombardo-Vêneto, seja através de parentes
próximos, nos ducados centrais, seja por acordos diplomáticos, como em
Nápoles, com Fernando I, rei vassalo. Apesar do triunfo de Metternich e
a restauração das dinastias dos Absburgo e Bourbon, anteriormente derru-
badas pelo sistema napoleônico, o espírito revolucionário e as reformas de
Napoleão estenderam-se pela Itália inteira. Grupos patrióticos revolucio-
nários promoveram o chamado movimento do Risorgimento, que levaria
à Revolução Liberal de 1848 e, finalmente, à unificação da Itália em 1861,
com a conquista de Roma como capital do novo reino, em 1870.

1. As revoluções abortadas em Nápoles e no Piemonte


(1820-1821)
Entre as sociedades secretas patrióticas que promoviam a revolução na-
quele momento, estão em primeiro lugar os Carbonari (carbonários, equiva-
lente a vendedores de carvão), dos quais ainda se discute a origem e natureza.
A partir de Nápoles, os carbonários e outras sociedades revolucionárias alia-
das estenderam-se ao norte da Itália, inclusive à Lombardia e ao Piemonte.
Seus objetivos principais eram a independência da Itália e as liberdades cons-
titucionais para os diversos Estados, defendendo uma nova ordem política
e social baseada nos princípios da revolução. Animava-os e inspirava-os o
sucesso da revolução na Espanha, que em 1812 tinha proclamado em Cádiz
uma constituição liberal.1 Portugal e Sicília seguiram-na em 1813, embora
a constituição siciliana tenha fracassado com a deflagração da Restauração.

A constituição básica foi escrita quando o rei Fernando VII da Espanha era prisioneiro de Na-
1

poleão na França. Declarava a soberania do povo, afirmava os princípios da igualdade e liberdade legais,
desenhava um sistema político segundo o modelo francês de 1791, colocava o executivo na Coroa e em
seus ministros, embora subordinados à única câmara parlamentar eleita por sufrágio universal.

157

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Dom Bosco: história e carisma 1

Em 2 de julho de 1820, oficiais no comando de um contingente ar-


mado, ao qual rapidamente se uniram os carbonários e outras sociedades
secretas, insurgiram-se em Nápoles e proclamaram a Constituição espanhola.
Fernando I, rei da Sicília, acedeu aos postulados dos revoltosos. O pipocar re-
volucionário alarmou Metternich, que convocou a conferência dos Cinco Po-
deres em Troppau.2 A Grã-Bretanha não aderiu. A Áustria, a Rússia e a Prús-
sia condenaram qualquer alteração política que se desviasse dos princípios
da Restauração e aprovaram a intervenção armada para sufocar as revoluções
que surgissem. Metternich mandou 50 mil soldados a Nápoles e conseguiu
restabelecer o rei Fernando I e a constituição abolida, ali permanecendo o
exército austríaco até 1827.
O Piemonte, embora fora da esfera de influência de Metternich, estava
ligado à Áustria pelo casamento do rei Vítor Manuel I de Saboia com a prin-
cesa austríaca Maria Teresa e, por isso, comprometeu-se firmemente a restau-
rar o Ancien Régime.3 Foram restaurados os privilégios e direitos da Igreja e
das Ordens religiosas; os jesuítas retornaram, encarregando-se da educação.
Foi abolido o eficiente sistema administrativo napoleônico. Retornou-se ao
velho sistema de corrupção, privilégios e vigilância policial.
Situação semelhante fez com que a revolução de Nápoles encontrasse
eco no Piemonte, onde eram fortes os carbonários e outros revolucionários,
que provinham principalmente da nobreza, da classe intelectual e dos co-
mandos militares mais jovens. O movimento revolucionário no Piemonte
voltava-se contra a dominação austríaca e era liberal, nem republicano nem
hostil à monarquia dos Saboia. Pedia apenas uma constituição como a conce-
dida na Espanha e a guerra contra o domínio da Áustria na Itália.
O príncipe Carlos Alberto, da linhagem lateral dos Saboia-Carignano,
era o herdeiro presumido da coroa; tanto Vítor Manuel I como seu irmão
Carlos Félix, da antiga linhagem dos Saboia, não tinham filhos. Os revolucio-
nários proclamaram a Constituição espanhola, ergueram a bandeira tricolor,
declararam Vítor Manuel I “rei da Itália” e exigiram a guerra contra a Áustria.
Vítor Manuel abdicou não querendo, de um lado, combater a revolução com

Os Cinco Poderes eram Áustria, Rússia, Prússia (a Santa Aliança), França e Inglaterra.
2

Vítor Manuel I (1759-1824) da antiga linhagem Saboia sucedeu, em 1802, ao irmão Carlos
3

Manuel, que se retirou para a Sardenha durante o período napoleônico; ele foi restabelecido em 1814
pelo Congresso de Viena, mas abdicou em 1821, durante a revolta dos carbonários. Sucedeu-lhe o
irmão Carlos Félix (1765-1831), último rei da antiga linhagem. Durante a revolução, Carlos Alberto
I (1798-1849), da linhagem lateral dos Saboia-Carignano, foi eleito regente. Os revolucionários espe-
ravam sua ajuda.

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

a força e, de outro, temendo a ira de Metternich. Sucedeu-lhe Carlos Fé-


lix que, estando muito ocupado em Módena, nomeou Carlos Alberto como
regente,4 enquanto os revolucionários planejavam atacar a Áustria. Carlos
Alberto estava pessoalmente convencido da inutilidade do desafio à Áustria,
mas aceitou metade das exigências revolucionárias e aprovou a Constituição
espanhola em 13 de março, jurando-lhe fidelidade dois dias depois. Carlos
Félix chamou Carlos Alberto para pedir-lhe contas, mas o regente preferiu o
exílio antes de defrontar-se com o rei, seu irmão.
Com a ajuda da Áustria, a revolução foi domada com facilidade e, depois
de um confronto entre os revolucionários e as forças reais, em 8 de abril de
1821, em Novara, o movimento cedeu. A Universidade foi fechada e as forças
revolucionárias, dissolvidas. Os carbonários e as sociedades secretas aliadas
perderam assim relevância e poder. Dez anos depois retornaram apoiados
pela Revolução Francesa de 1830 e o movimento republicano democrático de
José Mazzini, La Giovane Italia (A Jovem Itália). Desta vez, o Risorgimento
recomeçou com força irreprimível.
João Bosco tinha 6 anos nessa época. Não pôde inteirar-se desses acon-
tecimentos e do seu significado. Margarida Occhiena Bosco estava provavel-
mente muito ocupada no campo a cuidar dos filhos. Entretanto, a notícia da
revolução, da abdicação e do enfrentamento armado na região e as execuções
certamente teriam chegado à pequena casa dos Becchi.

2. Margarida Bosco e sua família na casa dos Becchi


O primeiro volume das Memórias Biográficas traz informação abundante
sobre a mãe de Dom Bosco – capítulos 2 a 25 – dando-lhe mais espaço do
que ao próprio João. Onde Lemoyne obteve essa informação?
Lemoyne não conhecera Mamãe Margarida pessoalmente. Ela viveu no
Oratório de 1846 até sua morte em 1856; Lemoyne uniu-se a Dom Bosco
oito anos depois, em 1864. Apesar disso, apaixonado como era em recolher e
conservar tudo que se relacionasse com Dom Bosco e sua obra, não descuidou
de reunir informações sobre sua mãe.
Lemoyne tinha acesso às ainda não publicadas Memórias do Orató-
rio. Nelas, Dom Bosco inclui numerosas passagens relacionadas com a mãe
4
Educado em Paris, servira no exército de Napoleão e identificava-se com a opinião liberal. Em 6 de
março de 1821, expuseram-lhe um plano para que o rei garantisse a Constituição. Contudo, depois de re-
fletir, comunicou aos conspiradores que não contassem com ele. Os líderes decidiram adiar a conspiração,
programada para 8 de março, mas os conspiradores que estavam fora de Turim não foram informados e,
em 8 de março, estourou a revolução no quartel de Alessândria, que se estendeu ao forte militar de Turim.

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Dom Bosco: história e carisma 1

durante o período da infância e nos anos sucessivos. Lemoyne também


contava com o testemunho de muitos Salesianos da primeira hora e de ou-
tras pessoas que conheceram Margarida. Alguns deles, sendo meninos no
Oratório, experimentaram seus cuidados maternos. Muitos deles também
testemunharam no processo diocesano para a beatificação de Dom Bosco nos
primeiros anos de 1890. Lemoyne teve acesso a esses testemunhos, apesar de
estarem “lacrados”, pois as autoridades diocesanas se serviram de seminaristas
salesianos para transcreverem os relatos oficiais do processo.
Essas fontes representam, sem dúvida, apenas uma pequena parte
do material reunido por Lemoyne sobre Margarida. Pode-se supor que
Lemoyne tenha contado com uma fonte maior, da qual não se conserva
notícia ou que ele mesmo tenha recolhido a informação. Parece que co-
meçou a recolher esse material sistematicamente depois de voltar para Tu-
rim como secretário no final de 1883; Dom Bosco deve ter sido sua fonte
principal através das longas e regulares conversas de família que manteve
com o Fundador.
Em 1885, quando Lemoyne começou a reunir e imprimir os Documenti
para uso pessoal, esse material foi incluído, embora de forma não definitiva.
Parece que Lemoyne, certamente com o conhecimento e incentivo de
Dom Bosco, planejava escrever uma pequena biografia de Margarida para
publicá-la nas Leituras Católicas. Quando Dom Bosco, de passagem pela
França a caminho da Espanha em 1886, foi hóspede do conde Luís Colle, em
Toulon, falou sobre a biografia; o conde ofereceu-se para financiar os custos
da publicação. Carlos Viglietti, secretário que acompanhava Dom Bosco na
viagem, escreveu a Lemoyne transmitindo-lhe o “mandato” de Dom Bosco.
Lemoyne corrigiu o material recolhido nos Documenti e escreveu uma bio-
grafia popular conhecida como Cenas morais de família,5 que apresentaria em
homenagem a Dom Bosco no dia do seu onomástico.6
Posteriormente, quando outros episódios chegaram ao conhecimento
de Lemoyne, foram incluídos nos acréscimos aos Documenti. Enfim, todo o
material foi reunido nas Memórias Biográficas.

Scene morali di famiglia esposte nella vita di Margherita Bosco: racconto edificante ed ameno
5

[Cenas morais de família expostas na vida de Margarida Bosco: uma história edificante e amena]. Turim:
Scuola Tipografica Salesiana, 1886.
6
MB XVIII, 57.

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

A pequena casa dos Becchi.

Margarida, mãe e educadora


A família, estabelecida na pequena casa em 1817, era formada por Margarida
Bosco (29 anos), a sogra inválida Margarida Zucca (65 anos), o enteado Antônio
José (9 anos) e os dois filhos José Luís e João Melquior (4 e 2 anos, respectivamen-
te). Viviam em verdadeira pobreza, que se fez mais cruel com a estiagem e a ca-
restia de 1816-1818. Foi quando Margarida, heroicamente, recusou as propostas
de casamento, oportunidade de refazer a sua vida, para garantir a sobrevivência
da família e atender à educação dos filhos.
Os três irmãos não podiam ser mais diferentes um do outro. João era
vivo, espontâneo, imaginativo, empreendedor, com enorme desejo de des-
cobrir e aprender. Nascera para ser líder. José era mais propenso a se deixar
guiar; embora caprichoso e cabeçudo às vezes, em geral era educado, de boas
maneiras, de disposição paciente e retraído. Por contraste, Antônio parece ter
sido sempre um problema, desde o início; órfão aos 9 anos, sentia-se estranho
nessa casa, embora como filho mais velho dos Bosco, conforme o costume do
Piemonte, seria o chefe da família quando chegasse à maioridade. À medida
que crescia, foi se tornando um jovem “inconveniente”. Ele é descrito como
desobediente e desrespeitoso com a madrasta, apesar da sua incansável ama-
bilidade e dos seus cuidados. Com o tempo, as brigas em família foram tão
intensas que obrigaram Margarida a mandar João trabalhar fora de casa, como

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Dom Bosco: história e carisma 1

empregado num sítio dos arredores, até que o assunto pudesse ser resolvido
legalmente com a divisão dos bens entre os filhos. Foi mérito de Margarida se
a família se conservou unida, sem precisar desfazer-se de Antônio.7
Margarida é lembrada como uma mulher santa. Sua biografia conserva
alguns exemplos de espiritualidade e devoção. Era mulher de caráter, profun-
damente cristã, totalmente dedicada aos filhos e ao serviço de Deus e do pró-
ximo. O biógrafo dá atenção especial à sua ação de educadora cristã. Fazem-no
o mesmo as testemunhas do processo diocesano para a beatificação de Dom
Bosco. Era mãe consagrada totalmente à educação dos filhos, aos quais ensina
o catecismo, leva à igreja, prepara para os sacramentos etc. Ela dedicou seus
maiores esforços, sobretudo, no desenvolvimento pessoal deles. Margarida
queria dotar seus filhos de caráter moral e força espiritual interior para a vida e
para o compromisso com a vida. Educou-os no sentido da presença de Deus,
na confiança na Providência divina, na honestidade e integridade, no amor ao
trabalho e na fidelidade aos deveres, na sensibilidade diante das necessidades
dos outros, expressa em atitudes de serviço concreto, no otimismo cristão e na
viva esperança do prêmio final de Deus. Eram estes os valores básicos com os
quais ela vivia e que transmitiu aos filhos, de modo especial a João.
Vários elementos concorreram para o crescimento moral, religioso e es-
piritual de João. Não se pode ignorar o caráter da gente do Piemonte. O
piemontês, em especial o agricultor, era industrioso, grande trabalhador e
empreendedor perseverante; não era, de modo algum, uma pessoa insensí-
vel e insociável. Assim, como os antepassados da família Bosco, João tinha
paixão pelo trabalho, paixão que, sem dúvida, não afetava em absoluto seu
temperamento nem seu sorriso espontâneo.
O catolicismo configurara a história do Piemonte desde a remota an-
tiguidade. A tradição religiosa católica estava profundamente arraigada no
povo, alimentada pela paróquia como centro da religião e da vida social. As
novas ideias que chegavam da França revolucionária eram consideradas glo-
balmente suspeitas e perigosas e, na verdade, anticristãs. Só com dificuldade
João podia conceber a vida social, religiosa e espiritual fora do tronco tradi-
cional do catolicismo romano.
Margarida educou seus filhos para a vida de penúria e mortificação: des-
pesas extremamente simples, colchões duros de palha e que não deixavam
dormir muito. Esforçou-se, principalmente, por ensinar-lhes a doutrina cris-
tã, educá-los à obediência e confiar-lhes trabalhos compatíveis com a idade.

7
Na tradição biográfica salesiana, incluindo as próprias Memórias, Antônio foi alvo da “má
imprensa”, talvez não totalmente justificada.

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

A família Bosco reunia-se para rezar de manhã e à noite. Dom Bosco


escreve nas Memórias do Oratório:
Quando eu era pequenino, ela mesma me ensinou as orações; quando
pude juntar-me aos meus irmãos, fazia-me ajoelhar com eles de manhã e de
noite, e juntos rezávamos as orações e o terço.8
Naqueles tempos, rezar de manhã e à noite, assim como rezar o terço
à tarde, era norma nas famílias do Piemonte. Três vezes ao dia, rezava-se o
Ângelus em honra de Maria. Embora analfabeta, Margarida sabia de cor as
principais lições do catecismo diocesano:
Margarida sabia quão poderosa é a força da educação cristã na vida de
uma criança; sabia que o ensinamento da lei de Deus com o catecismo todas
as tardes e rememorá-lo com frequência durante o dia é o melhor meio de
tornar as crianças obedientes às suas mães. Ela, então, ensaiava várias vezes as
perguntas e respostas do catecismo, até que os meninos as memorizassem.9
Dom Bosco confirma tudo isso e escreve, referindo-se ao tempo da sua
primeira comunhão: “Sabia todo o pequeno catecismo [...]. Como eu morava
longe da igreja, o pároco não me conhecia, e assim devia limitar-me exclusi-
vamente à instrução religiosa de minha boa mãe”.10
Foi dessa forma que Margarida imprimiu na mente dos filhos a ideia
de um Deus pessoal, sempre presente diante deles. A presença constante e
pessoal de Deus seria uma convicção arraigada em Dom Bosco. Desde então,
começou a viver sob o olhar do Deus da oração do Pai-nosso, um Deus de
infinita majestade, mas também um Deus infinitamente amoroso que nos dá
nosso “pão cotidiano”, perdoa os nossos pecados e livra os pobres pecadores
da recaída.
Quando João tinha 7-8 anos, Margarida preparou-o cuidadosamente
para a primeira comunhão. O “pecado” assumiu um sentido horrível e amea-
çador para ele. Durante a Páscoa de 1827, a preparação foi muito mais cuida-
dosa. Ao longo da Quaresma, ela acompanhou-o três vezes para a confissão.
Em casa, fez com que rezasse e lesse um livro espiritual e encheu-o de con-
selhos maternos. Quando chegou o grande dia, manteve-o afastado de todos
para que conservasse o recolhimento. Na igreja, assistiu-o na “preparação” e
“ação de graças” e ajudou-o a repetir as orações que o padre lia em voz alta
no altar.11
8
MO, 27.
9
G. B. Lemoyne, Scene morali, 18-19.
10
MO, 38.
11
Cf. F. Desramaut, Don Bosco, 18-19, 25-26.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Assim, com a orientação de sua mãe, Joãozinho experimentou pessoal-


mente a qualidade de uma vida sacramental que mais adiante, como padre,
não se cansaria de inculcar nos seus seguidores.
A educação pessoal, religiosa e moral de Margarida era estritamente tra-
dicional; o estilo severo das relações pais-filhos, característico das famílias do
Piemonte, tornou-a ainda mais exigente. Tudo, porém, era temperado com
o apelo constante à razão e à religião, com grande número de gestos de afeto
e carinho. O sucesso de Margarida pode ser atribuído à sua sabedoria e ao
seu estilo educativo iluminado que neutralizava toda severidade tradicional.12
Referindo-se ao carinho especial por João, em quem a mãe descobria
qualidades excepcionais, o biógrafo escreve:

Margarida, com suas santas indústrias e sua antevisão, não contrariava, mas
corrigia e dirigia para Deus as inclinações e os dotes naturais com que João
fora enriquecido. Ele manifestava grande abertura de espírito, apego aos
próprios julgamentos, tenacidade nos propósitos; e a boa mãe habituou-o
à perfeita obediência, sem favorecer o amor próprio, mas persuadindo-o a
submeter-se às humilhações inerentes à sua situação; ao mesmo tempo, po-
rém, não deixou de buscar todos os meios para que pudesse entregar-se aos
estudos sem cansar-se excessivamente e deixando que a divina Providência
determinasse o momento oportuno. O coração de João, que um dia deveria
acumular riquezas imensas de afeto por todos os homens, estava cheio de uma
exuberante sensibilidade que, se satisfeita, poderia ser perigosa. Margarida
jamais rebaixou sua condição de mãe com carícias exageradas, nem tolerando
ou simpatizando com algo que pudesse ter sombra de anormalidade; mas
nem por isso usou de modos ásperos com ele ou atitudes violentas que o irri-
tassem ou pudessem motivar arrefecimento em seu amor filial.
João tinha inato aquele sentimento de segurança no agir, pelo qual o homem
se sente levado naturalmente a dominar, necessário para quem está destinado
a presidir a muitos, mas que também com muita facilidade pode degenerar
em soberba; e Margarida não vacilou em reprimir os pequenos caprichos,
desde o início, quando ainda ele não era capaz de responsabilidade moral.
Quando, porém, mais tarde o vir sobressair-se entre os companheiros dese-
jando fazer-lhes o bem, observará a sua conduta em silêncio, não se oporá
aos seus projetos naturais e não só o deixará agir a seu gosto, como também

As mesmas Memórias de Dom Bosco (seguida por Lemoyne) insistem no estilo educativo de
12

Margarida como antecipação do método educativo de Dom Bosco. Esta interpretação está em linha
com a “intenção” das Memórias.

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

lhe proporcionará os meios necessários, embora a custa de privações. Dessa


forma, com doçura e suavidade se insinuará em seu espírito e o levará a fazer
sempre o que ela queria.13

A afirmação de que Margarida “jamais rebaixou a sua condição de mãe


com carícias exageradas, nem tolerando ou simpatizando com algo que pu-
desse ter sombra de anormalidade” pode causar perplexidade. Contudo, no
contexto cultural agrícola, soa verdadeiro o retrato que Lemoyne traça de
Margarida educadora.
Lemoyne oferece muitos exemplos da firmeza, amabilidade e sabedoria
de educadora cristã de Margarida, tanto na biografia como nas Memórias Bio-
gráficas. Entretanto, ele interessa-se mais em mostrar o apoio de Margarida a
João, quando o acompanha passo a passo em sua caminhada vocacional. João
aprendera a ler e escrever aos 9 anos, graças a alguém do lugar, e Margarida já
estava pensando na continuação da sua educação.

João Bosco no ensino fundamental de Capriglio


(1824-1825; 1825-1826?)
Sobre o sonho vocacional de 1824-1825, é oportuno expor, embora bre-
vemente, a primeira não “oficial” escolarização “formal” de João com o padre
José Lacqua, na vizinha Capriglio, aldeia natal de sua mãe. O curto período
de tempo que passou frequentando aquela escola foi um ponto crucial na
vida de João. Primeiramente, porque padre Lacqua lhe deu orientação para a
vida cristã, que pode ter sido um estímulo para o sonho vocacional; depois,
porque o breve período dos primeiros estudos formais estimulou sua ânsia
pela verdadeira educação.
Antes do período napoleônico, não existira educação obrigatória no rei-
no da Sardenha-Piemonte. As crianças que tiveram a sorte de receber uma
educação primária faziam-no em escolas particulares locais, ordinariamente
dirigidas por um padre. As demais crianças só aprendiam a ler e escrever com
alguma pessoa mais velha com capacidade para isso. O analfabetismo era co-
mum; só o clero e uma elite de profissionais eram “educados”.
Napoleão tinha organizado o sistema educativo e tornado obrigatória a
educação elementar. Na Restauração, o rei Carlos Félix aboliu o sistema de
Napoleão, mas, como parte da sua reforma escolar geral de 1822,14 decretou

MB I, 41-42.
13

O documento da reforma educacional intitulado Regie Patenti (Carta Real) será comentado
14

mais adiante.

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Dom Bosco: história e carisma 1

que deviam ser criadas escolas obrigatórias de ensino fundamental em todos


os municípios. Elas eram de ensino livre e financiadas pelo município.
Embora a assistência fosse obrigatória para todas as crianças a partir dos
7 anos, na prática os filhos das famílias camponesas só iam à escola durante
a “estação sem trabalho”, de novembro a março, quando paravam as ativida-
des agrícolas. De abril a outubro deviam ficar à disposição para ajudar no
trabalho do campo. O ensino fundamental constava de um programa de dois
anos. O currículo era formado de leitura, escrita e catecismo no primeiro ano,
e italiano, aritmética e doutrina cristã, no segundo. Não havia professor for-
mado em escolas de magistério ou colégios de formação de professores, que
só começaram a existir a partir de 1860. Os professores eram ordinariamente
clérigos habilitados pelo bispo para essa função e, com frequência, eram bem
preparados; muitas vezes os padres optavam pela carreira de professor em vez
de exercer o ministério.
Como a escola era financiada pelas autoridades locais, parecia razoá-
vel que só fossem admitidas as crianças que viviam na jurisdição municipal.
Becchi localizava-se na jurisdição de Castelnuovo, não de Capriglio. João
fora matriculado em Castelnuovo, por isso tinha de caminhar 5 quilômetros
4 vezes por dia.15 Margarida tentou inscrevê-lo em sua cidade natal, Capri-
glio, que ficava 2,5 quilômetros mais perto. Padre Lacqua [ou Delacqua],
inicialmente, opôs-se a admiti-lo, mesmo a escola não estando cheia, nem ele
sobrecarregado de trabalhos.16 Como Margarida provavelmente se vira obri-
gada a estabelecer-se em Castelnuovo, padre Lacqua, fazendo uma exceção
à regra, admitiu Joãozinho Bosco, possivelmente a pedido de Maria Joana
(Mariana) Occhiena, irmã de Margarida, que era empregada doméstica na
casa do padre.17
João frequentou a escola em Capriglio durante o inverno de 1824-1825,
talvez também durante e depois do inverno seguinte. Contudo, as fortes ob-
jeções de Antônio, já com 17 anos, provavelmente impediram a frequenta-
ção posterior. Os dias de João na escola de Capriglio foram uma experiência
útil e feliz em todos os aspectos. Padre Lacqua “foi muito atencioso comigo,
interessando-se de bom grado pela minha instrução e mais ainda pela minha

15
A distância foi o motivo pelo qual Dom Bosco não fosse matriculado em Castelnuovo (MO,
27), pois deveria caminhar mais de 5 quilômetros quatro vezes por dia por estradas rurais no bom e mal
tempo: de casa à escola, voltar para o almoço do meio-dia (pão e sopa) e ir novamente a Castelnuovo
para as aulas da tarde.
16
As cartas escritas pelo padre José Lacqua a Dom Bosco demonstram que foi fácil dedicar-se a
essas pequenas escolas locais. Cf. MB I, 483-484 e II, 29-30.
17
MB I, 97-98.

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

educação cristã”.18 Foi também o início de uma amizade duradoura entre mes-
tre e discípulo. Nesse tempo, João entre 8 e 10 anos, fez a primeira confissão
e a primeira comunhão na Páscoa, 26 de março de 1826.19 Pode-se imaginar
que o ensino do padre Lacqua foi importante pelo seu significado vocacional;
foi nessa época que João teve o sonho profético.

Margarida e a vocação de João


Aos 9 anos João ia transformando-se em líder das crianças das vizinhan-
ças. Começara a reuni-las para entretê-las com brincadeiras e histórias, e en-
sinar-lhes o catecismo. Margarida não só lhe permitiu essa atividade, como
também o animou e ajudou; talvez, adivinhando os sinais do seu futuro esta-
do, decidiu que fosse à escola.
De fato, Margarida interpretou o sonho daqueles anos em sentido voca-
cional. O sonho aconteceu, acreditamos, num contexto histórico específico,
favorecido por dois elementos concorrentes: o ensino e a orientação do padre
Lacqua, de um lado, e, de outro, a intuição da verdadeira vocação de João por
Margarida. Isso exigia posterior escolarização e uma educação sistemática, ao
que Antônio se opôs obstinadamente.
A luta que se seguiu obrigou Margarida a mandar João embora, tanto
para a paz em casa quanto para protegê-lo; isso fez com que a escolarização
fosse adiada por dois anos até que se chegou ao acerto da divisão dos bens
com Antônio.

O sonho vocacional
Naqueles anos, tive um sonho que me ficou profundamente impresso na mi-
nha mente por toda a vida.
Pareceu-me estar perto de casa, numa área bastante espaçosa, onde uma mul-
tidão de meninos estava a brincar. Alguns riam, outros divertiam-se, não pou-
cos blasfemavam. Ao ouvir as blasfêmias, lancei-me de pronto no meio deles,
tentando, com socos e palavras, fazê-los calar.
Nesse momento apareceu um homem venerando, de aspecto varonil, nobre-
mente vestido. Um manto branco cobria-lhe o corpo; seu rosto, porém, era
tão luminoso que eu não conseguia fitá-lo. Chamou-me pelo nome e mandou
que me pusesse à frente daqueles meninos, acrescentando estas palavras:

18
MO, 27.
19
P. Stella, Vita, 7.

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Dom Bosco: história e carisma 1

– Não é com pancadas mas com a mansidão e a caridade que deverás ganhar
esses teus amigos. Põe-te imediatamente a instruí-los sobre a fealdade do pe-
cado e a preciosidade da virtude.
Confuso e assustado repliquei que eu era um menino pobre e ignorante, inca-
paz de lhes falar de religião. Senão quando aqueles meninos, parando de brigar,
de gritar e blasfemar, juntaram-se ao redor do personagem que estava a falar.
Quase sem saber o que dizer, acrescentei:
– Quem sois vós que me ordenais coisas impossíveis?
– Justamente porque te parecem impossíveis, deves torná-las possíveis com a
obediência e a aquisição da ciência.
– Onde, com que meios poderei adquirir a ciência?
– Eu te darei a mestra, sob cuja orientação poderás tornar-te sábio, e sem a
qual toda sabedoria se converte em estultice.
– Mas quem sois vós que assim falais?
– Sou o filho daquela que tua mãe te ensinou a saudar três vezes ao dia.
– Minha mãe diz que sem sua licença não devo estar com gente que não co-
nheço; dizei-me, pois, vosso nome.
– Pergunta-o a minha mãe.
Nesse momento vi a seu lado uma senhora de aspecto majestoso, vestida de
um manto todo resplandecente, como se cada uma de suas partes fosse fulgi-
díssima estrela.
Percebendo-me cada vez mais confuso em minhas perguntas e respostas, ace-
nou para que me aproximasse d’Ela e, tomando-me com bondade pela mão,
disse:
– Olha.
Vi então que todos os meninos haviam fugido, e em lugar deles estava uma
multidão de cabritos, cães, gatos, ursos e outros animais.
– Eis o teu campo, onde deves trabalhar. Torna-te humilde, forte, robusto; e o
que agora vês acontecer a esses animais, deves fazê-lo aos meus filhos.
Tornei então a olhar, e em vez de animais ferozes apareceram mansos cordei-
rinhos que, saltitando e balindo, corriam ao redor daquele homem e daquela
senhora, como a fazer-lhes festa.
Neste ponto, sempre no sonho, desatei a chorar, e pedi ao homem que falasse
de maneira que pudesse compreender, porque não sabia o que significava
tudo aquilo.
Ela, então, descansou a mão em minha cabeça, dizendo:
– A seu tempo tudo compreenderás.
Após essas palavras, um ruído me acordou.

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

Fiquei transtornado. Parecia-me ter as mãos doloridas pelos socos que desfe-
rira e doer-me o rosto pelos tapas recebidos. Depois, o personagem, aquela
mulher, as coisas ditas e as coisas ouvidas de tal modo me encheram a mente,
que já não pude conciliar o sono durante a noite.
De manhã contei logo o sonho. Primeiro aos meus irmãos, que se puseram
a rir, depois à mamãe e à vovó. Cada um interpretava-o à sua maneira. Meu
irmão José dizia: “Vais ser pastor de cabras, de ovelhas ou de outros animais”.
Mamãe: “Quem sabe se um dia não chegarás a ser padre”. Antônio, seca-
mente: “Talvez termines sendo chefe de bandoleiros”. Mas vovó que, de todo
analfabeta, entendia muito de teologia, deu a sentença definitiva exclamando:
“Não se deve fazer caso dos sonhos”.
Eu era do parecer de minha avó, todavia nunca pude esquecer aquele sonho.
Os fatos que exporei em seguida conferem-lhe algum sentido.
Não falei mais do assunto, e meus familiares não lhe deram maior impor-
tância. Mas quando, em 1858, fui a Roma para falar com o Papa sobre a
Congregação Salesiana, ele me fez contar pormenorizadamente tudo quanto
tivesse algo de sobrenatural, mesmo que só na aparência. Contei então pela
primeira vez o sonho que tive na idade de 9 a 10 anos. O Papa mandou-me
escrevê-lo literalmente e com pormenores, e deixá-lo para animar os filhos da
Congregação, pela qual fizera essa viagem a Roma.20

Baste aqui uma anotação inicial, pois mais adiante será oferecido um co-
mentário do sonho e do seu papel no discernimento vocacional de João Bosco.

Contexto, estímulos e imagens do sonho


Dom Bosco relata o sonho nas Memórias do Oratório em conexão
com sua escolarização precoce e com seus esforços para entreter as crian-
ças do lugar. De fato, no parágrafo anterior, diz que sua mãe decidira
mandá-lo à escola e que conseguira inscrevê-lo em Capriglio com o padre
José Lacqua.21
Imediatamente depois, narra-se a atividade de João com as crianças da
aldeia. Contudo, pela sua descrição, parece que ele já fora um pequeno líder
durante algum tempo.22 O próprio padre Lacqua pôde ajudar a dar ao sonho

O texto é aquele que o padre Joaquim Berto transcreveu do rascunho corrigido por Dom
20

Bosco: Memórias do Oratório: um sonho: MO-Berto, 5-8; FDB 60 A9-12. Cf. FDB 57 A6-9. Cf. MO,
10, 11, 12. Outros relatos do sonho vocacional surgirão depois.
21
MO, 27.
22
MO, 35-36.

169

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Dom Bosco: história e carisma 1

a ideia de vocação sacerdotal em ligação com o sucesso que João tinha com as
crianças da aldeia e com o desejo de “estudar”, expressado por João.23
Deve-se levar em conta, de fato, que “estudo”, diferente de alfabetização
(aprender a ler, escrever e contar), estava na maioria dos casos associado ao
sacerdócio.24 Margarida também pôde reforçar a insinuação do sacerdócio,
ao perceber as aptidões especiais de João. Talvez fosse o que tinha em mente
quando, primeiramente, decidiu mandar João à “escola”. Seu comentário so-
bre o significado do sonho teria então um significado específico. Estamos no
campo da conjectura, mas de uma coisa podemos estar certos: o sonho não
aconteceu sem precedentes, vindo do nada.
O sonho deve ter acontecido em fins de junho de 1825, perto da festa de
São Pedro e São Paulo, a cujos santos era dedicada a igreja da aldeia, quando
alguns textos litúrgicos, como “apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cor-
deiros”, podiam ter-lhe proporcionado as imagens. Ou pode ter ocorrido na
festa da Anunciação, 25 de março, dada a menção do Ângelus, que pode ser
uma alusão a essa festa. As imagens pastorais também podem ter sido sugeridas
pela pregação em preparação ao jubileu de 1825, instituído pelo papa Leão XII.

A atitude do próprio Dom Bosco


Dom Bosco afirma que o sonho ficou profundamente impresso em sua
mente ao longo da vida. De fato, será um sonho recorrente, como afirma ex-
pressamente ao falar da sua decisão vocacional, quando cursava o ginásio em
Chieri. Ele afirma: “O sonho de Murialdo […] renovara-se até de maneira
muito mais clara, e assim, se lhe quisesse dar fé, devia optar pelo estado ecle-
siástico, ao qual justamente me sentia inclinado”.25
Não deixa de ser estranho que, apesar do mandato do Papa, não tivesse
escrito sobre o sonho até 1873-1874, quando o fez nas Memórias do Oratório,
com a nota de que o tinha narrado a Pio IX em 1858, e que o sonho se tinha
repetido em outras ocasiões.26

23
A influência do padre José Lacqua sobre João deve ter sido significativa. Ambos mantiveram
contato e correspondência: Dom Bosco ao padre José Lacqua, Chieri, abril de 1840 e Chieri, maio de
1841, em Epistolário Motto, I, 48. Para as respostas do padre Lacqua, ver MB I, 483-484, MB II, 29-
30. Apresenta-se num apêndice posterior um seu breve perfil biográfico.
24
Deve-se levar em consideração que as objeções de Antônio eram contra o “estudo” de João,
não contra o ensino elementar. Segundo demonstram os documentos de arquivo, Antônio sabia ler e
escrever, já que sabia assinar; José, porém, parece que era analfabeto.
25
MO, 79.
26
Dom João Cagliero testemunhou no processo de beatificação que ouvira de Dom Bosco a
narração do sonho quando retornou de Roma “em 1858 ou 1859”.

170

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

Quando Dom Bosco decidiu colocá-lo por escrito, já se passara muito


tempo. E o fez depois de ter passado pelo discernimento, feito as mais im-
portantes opções vocacionais e contemplado os resultados extraordinários da
obra de sua vida, obra de Deus, como ele a entendia. De aqui que o sonho
fosse escrito com uma interpretação adicional através de palavras e imagens
referindo-se a tudo isso.
Que, com o passar do tempo, o sonho tivesse adquirido importância
sempre maior, que fosse interpretado baseando-se na experiência de Dom
Bosco, pode-se deduzir de um episódio interessante. Em 1887, o Santo, ve-
lho e muito doente, assistiu à consagração da igreja do Sagrado Coração em
Roma. Enquanto celebrava a missa, emocionou-se e repetidamente irrompeu
em lágrimas com grandes suspiros. Mais tarde, explicou ao seu secretário, pa-
dre Viglietti: “Eu repassava com a mente as cenas da minha infância, quando
pelos 10 anos tive um sonho sobre a Congregação. Eu podia ver e escutar
minha mãe e meus irmãos discutirem sobre o sonho”.27

27
Crônica, VII, Viglietti, 4, 16 de maio de 1887, FDB 1, 226 D8. Cf. MB XVIII, 341.

171

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Apêndice

MARGARIDA OCCHIENA BOSCO (1788-1856):


ÁRVORE GENEALÓGICA E REPERTÓRIO BIOGRÁFICO

ÁRVORE GENEALÓGICA ATÉ A QUARTA GERAÇÃO28

Melquior Occhiena
casado com Francisca [?]
3 filhos

(João) Miguel Occhiena (1727-1798)


casado com Maria Occhiena
7 filhos

Melquior Marcos Occhiena (1752-1844)


casado com Maria Bossone, 1775
10 filhos28

Joana Maria MARGARIDA Miguel


(1785-1857) (1788-1856) (1795-1867)
(conhecida como Mariana) casado com
(solteira) casada com Ana Josefina Quirico, 1826
Francisco Luís Bosco
6 de junho de 1812
2 filhos

José Luís João Melquior

Dos 10 filhos de Melquior Marcos Occhiena, 5 chegaram à idade adulta. Dos 5 adultos, 3
28

figuram com importância na vida de Dom Bosco: Mamãe Margarida, sua irmã mais velha Joana Maria,
tia e madrinha de Dom Bosco, apelidada de Mariana, e o tio Miguel. Lemoyne fala apenas de 5 filhos
de Melquior Marcos Occhiena porque dele só conheceu os 5 que chegaram à idade adulta.

172

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

COMPARAÇÃO DOS DADOS QUE APARECEM NAS MEMÓRIAS


BIOGRÁFICAS E NAS MEMÓRIAS DO ORATÓRIO

Dados biográficos de Mamãe Margarida reunidos por MO


MB
Lemoyne nas Memórias Biográficas comparados São Paulo,
Volume e
com as Memórias do Oratório de Dom Bosco 2005
página
(com algum material citado ou entre [-]) página

31 de janeiro de 1775: Melquior Occhiena (1752) casa-se com


Domingas Bossone na paróquia de Piea.
1º de abril de 1788: Margarida, sexta de seis filhos, nasce e é
I, 13 batizada no mesmo dia em Capriglio [sua irmã, Joana Maria 24
(Mariana) nasceu em 1785 e seu irmão Miguel em 1795].
I, 14 Anos 1790: educação moral e religiosa de Margarida —
Margarida e o homem alto e bonito.
[1796-1815: período napoleônico – campanhas de Napoleão
I, 16 —
no Piemonte – 1799: o exército da Áustria invade o norte da
Itália e o Piemonte contra Napoleão].
1799: Margarida enfrenta soldados da cavalaria austríaca em
I, 17-18 —
Capriglio.
1805: Margarida com sua família, em Turim, vê o Papa Pio VII
I, 20 —
quando retornava de Paris a Roma.
A virtude e o caráter de Margarida: ela declina do convite de
I, 22 —
suas amigas para passear e dançar.
Margarida evita os jovens.
[28 de fevereiro de 1811: Francisco Bosco no sítio Biglione
I, 22-23 enviuvava de sua esposa Margarida Cagliero aos 27 anos. Dei- —
xa-lhe o filho Antônio (nascido em 1808) e a mãe inválida,
Margarida Zucca].
6 de junho de 1812: Margarida casa-se com Francisco Bosco,
aos 24 anos, na igreja de Capriglio, depois da cerimônia civil
I, 29 —
na sede municipal da cidade de Castelnuovo, administrado por
um oficial do governo francês.
1, 30 Margarida e o jovem Antônio. —
I, 30-31 Margarida e a sogra, Margarida Zucca. —
8 de abril de 1813: nasce o filho de Francisco e Margarida, José
Luís Bosco [no sítio Biglione].
I, 31 [1815: depois dos danos causados pela guerra de Napoleão e —
do início da Restauração, o Papa Pio VII retorna do exílio na
França, passando por Turim, MB I, 20].
16 de agosto de 1815: nasce o filho João Melquior, de Francis-
I, 32-33 co e Margarida Bosco; é batizado no dia seguinte na igreja de 24
Santo André, em Castelnuovo.

173

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Dom Bosco: história e carisma 1

O pacífico lar dos Bosco.


[8 de fevereiro de 1817: Francisco Bosco compra, por 100 liras,
I, 33 —
a “pequena casa”, anexa aos fundos da casa Graglia no Canton
Cavallo (Becchi).]
11 de maio de 1817: Francisco Bosco morre de pneumonia aos
33 anos de idade, e é sepultado no dia seguinte no cemitério da
igreja de São Pedro em Castelnuovo.
[Margarida oferece as costumeiras 30 missas em sufrágio.]
I, 34-35 [A propriedade e as finanças de Francisco Bosco são inventariadas. 25
Há uma dívida de 445 liras.]
13 de novembro de 1817: Margarida vai para a pequena casa
(depois de reformá-la) com sua família: a sogra, o enteado An-
tônio (de 9 anos) e os filhos José (4 anos) e João (2 anos).
1817-1818: durante um período de estiagem e carestia, Mar-
garida faz o que pode para alimentar sua família, inclusive ma-
I, 37 tando uma novilha. 25-26
[22 de março de 1818: morre a mãe de Margarida, Domingas
Bossone, MB I,39].
Margarida recusa uma proposta vantajosa (de casamento) e
I, 40 27
continua com seus filhos
[1818-1924]: comentários de Lemoyne sobre a dedicação de
I, 40-41 —
Margarida como mãe e educadora cristã.
Margarida dá educação religiosa aos filhos: catecismo; “Deus te
I, 43-46 27
vê”; Deus na natureza; Providência; oração; sacramentos.
I, 48 Margarida e o valor educativo do trabalho. —
I, 48 Margarida permite que João brinque com os meninos difíceis. —
I, 51 Margarida supervisiona seus filhos e brinca com eles. —
Margarida conta aos filhos exemplos morais da Bíblia e da vida
I, 52 —
dos santos.
Margarida obtém a obediência dos filhos de maneira amável
I, 53 (especialmente em relação ao contato com estranhos que vi- —
vem por ali ou estão de passagem).
Margarida faz compras na feira de Castelnuovo; às quintas-fei-
I, 53-54 —
ras traz alimentos para casa e pequenas coisas para os meninos.
I, 54 Margarida faz perguntas aos filhos quando retornam para casa,

mesmo depois de uma pequena ausência, e dá-lhes conselhos.
I, 57 Margarida corrige os filhos com firmeza, mas com amabilida-

de.
I, 58 Margarida e os caprichos de José. —
I, 60-64 Margarida e o seu trato com o descuidado Antônio, depois
de uma briga com seus irmãos; insiste em ter razão e perde o

controle.
[Palavras de Lemoyne sobre Antônio, em MB I, 60.]

174

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

I, 65-66 Margarida e a sogra, Margarida Zucca: obediência e o devido



respeito dos meninos à avó, como a rainha da casa.
I, 67-70 A avó cuida da casa e dos filhos, pois Margarida trabalha no
campo (às vezes com a ajuda de seu irmão Miguel). João, An- —
tônio e a fruta desaparecida.
I, 71-73 Margarida e os filhos, asseados, com roupa de domingo. —
I, 73-74 Margarida espera que os filhos pensem antes de agir; João e a

jarra de azeite; a vara enfeitada.
I, 75 Margarida habitua os filhos a trabalharem e terem uma vida es-

partana: só pão pela manhã; o “colchão de seminário” de João.
I, 76 Margarida habitua os filhos a dormirem pouco. —
I, 78 Margarida e a venda do peru por 5 soldos. Recolhe os outros

perus, enquanto os meninos perseguem o ladrão.
I, 78-79 João enfrenta um estranho ao perder um peru para ele. Adver-

tência de Margarida.
I, 83-84 Margarida e os meninos vigiam a vinha contra ladrões. —
I, 85-87 A família vindima em Capriglio e o “demônio no sótão”. —
I, 90 João adquire de Margarida o hábito da oração; orações en-

quanto cuidam dos animais.
I, 96-98 Inverno de 1823-1824: Margarida, adivinhando a vocação de
João, planeja enviá-lo à escola, mas desiste por algum tempo

por causa das objeções de Antônio. João começa a ler com um
camponês do lugar.
I, 97-99 18 de novembro de 1824 - março de 1825: Margarida matri-
cula João na escola do padre José Lacqua em Capriglio, cuja 27
governanta é a irmã de Margarida, Mariana.
I, 110 Margarida faz advertências a João em relação aos charlatões

da feira.
I, 112-113 Margarida ajuda e instrui João quando, em busca de ninhos, 37
seu braço fica preso no ramo de uma árvore. (ninhos de
pássaros)
I, 112-113 Margarida tira lições morais da morte do cuco de João e da

ninhada de rouxinóis.
I, 123-126 1825 [verão?]: João tem o sonho vocacional. Margarida aven-
28
(cf. MO) tura-se: “Talvez, chegarás a ser padre”.
I, 137 Reflexão de Margarida sobre os primeiros esforços de João no

trabalho do “Oratório”.
I, 139 Reação de Margarida e valorização do apostolado juvenil de
38
João.
I, 149 Margarida ajuda generosamente os vizinhos que vêm pedir ali-

mentos emprestados.

175

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Dom Bosco: história e carisma 1

I, 150-151 Margarida, com a ajuda de João, dá comida e alojamento a



delinquentes. A polícia vem logo investigar.
I, 153 Hospitalidade de Margarida a vagabundos e mendigos. Dom

Bosco é citado como exemplo.
I, 155 Margarida e o vizinho, Cecco. —
I, 156-157 Os Veglio, comovidos pela caridade de Margarida pelos po-

bres, ajudam com algumas contribuições.
I, 157 Margarida visita os doentes e prepara-os para os sacramentos. —
I, 158 Margarida, mulher de oração, convida os hóspedes a rezarem

com ela.
I, 159-160 Margarida assegura-se da inocência das diversões locais antes
de permitir que seus filhos as assistam; caso contrário, entre- —
tém-nos com histórias.
I, 160 Margarida preocupa-se com o comportamento espiritual das

jovens; proporciona-lhes vestidos modestos.
I, 160 Margarida ajuda as meninas pobres a preservarem a virtude;

desencoraja os namoros.
I, 161-162 Margarida e a modéstia no vestir. —
I, 162 Margarida retira dos vendedores ambulantes pinturas indecen-

tes e livros não apropriados à leitura.
I, 162-164 Margarida enfrenta um homem que tem conversas escandalo-

sas: avisa seus filhos.
I, 164 Margarida manda embora de sua propriedade dois meninos

mais velhos que têm conversas más.
I, 166-168 Margarida intervém para terminar uma relação escandalosa en-
tre um velho doente e uma mulher de má reputação; comenta- —
-o com o padre Campora, que administra o viático.
I, 168 Margarida recusa uma sugestão ruim.
[Lemoyne declara que Dom Bosco foi testemunha de “todas —
essas coisas” e “no-las contou”, MB I, 168.]
I, 170-171 Cuidados de Margarida com a avó Zucca. —
I, 171 11 de fevereiro de 1826, a avó morre cristãmente, assistida por
49
Margarida e os filhos.
I, 172-173 Margarida prepara João para a primeira comunhão e confissão. 38
I, 173-174 26 de março de 1826 [?]: Domingo da Ressurreição, primeira co-
39
munhão de João; Margarida ajuda João na preparação imediata.

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

I, 174 Palavras de Margarida a João no dia da sua primeira comu-


nhão. As reflexões do próprio Dom Bosco, citadas por Lemoy-
ne das MO.
[Nota: neste ponto (1826), a cronologia das MO (Dom Bosco)
39
apresenta um erro ao colocar o encontro de João com padre Calos-
so em 1826 e omitir o período dos anos em Câmpora-Moglia (ver
o comentário à frente). Aqui, embora nos refiramos aos materiais
das MB e MO, seguimos a cronologia reconstituída.]
I, 181 1826-1827: ano de luta na casa dos Bosco sobre a continuida-
de da aprendizagem de João. Margarida, ajudada pelos irmãos,
Miguel e Francisco, tenta (em vão) conseguir a aprendizagem —
para João, primeiramente com padre Dassano em Castelnuovo
e, depois, com o pároco de Buttigliera.
I, 191-192 Inverno de 1827-1828: para evitar novas brigas com Antônio,
Margarida envia João a trabalhar fora de casa como empregado

no sítio Câmpora em Serra di Buttigliera. Ali ele permanece
algum tempo.
I, 192-193 Fevereiro de 1828: Margarida manda João procurar trabalho
fora. Encontra-o no sítio dos Moglia perto de Moncucco. [Pe- —
ríodo Moglia: MB I, 192-198.]
I, 194 O senhor Moglia manda João pedir a Margarida que venha vê-

-lo em Castelnuovo para discutir sobre o salário.
I, 205 O senhor Moglia dá a Margarida 30 liras (acerto para 1828) e

50 liras (para 1829, à sua apreciação).
I, 205-206 Novembro de 1829: tio Miguel visita o sítio Moglia e prepara

o retorno de João à casa dos Becchi.
I, 208-209 Margarida repreende João (em benefício de Antônio?) por dei-
xar os Moglia, e João esconde-se até a volta do tio Miguel.
[Inícios de novembro de 1829: João encontra padre Calosso —
por ocasião dos exercícios do Ano Santo: ver MB I, 176, MO,
40-43, com datas e estrutura diferentes.]
I, 179 Margarida e João visitam padre Calosso em Murialdo para falar
42
dos estudos de João.
I, 181-183 Margarida se defronta com as objeções de Antônio sobre a con-
tinuação dos estudos de João. Antônio persiste.
[Novembro 1829-novembro 1830, ano de estudos de João
com padre Calosso, MB I, 178-180 e MO, 40, com datas e

estruturas diferentes].
[Verão de 1830 (mais provável): João encontra o seminarista
José Cafasso por ocasião das festas patronais de Murialdo, MB
I, 186-187, e MO 47].

177

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Dom Bosco: história e carisma 1

I, 187 Comentário de Margarida ao escutar o relato de João sobre


padre Cafasso.
[João começa a frequentar o padre Calosso como auxiliar e es- —
tudante em tempo pleno, MB I, 187-188, citando as palavras
de Dom Bosco MO, 45].
— Setembro de 1830: Margarida compra um depósito de feno,
com cobertura, acrescentado à pequena casa.

[21 de novembro de 1830: padre Calosso morre de embolia.
MB I, 216-218, não em abril de 1828 como em MO, 45.]
I, 218 Margarida, preocupada com a saúde de João por ter sentido
muito a morte do padre Calosso, envia-o à sua família em Ca- 48
priglio.
I, 215 Margarida faz a divisão da herança Bosco entre José/João e An-
49
tônio, que tem 21 anos de idade (não 26 como em MB).
I, 237 Novembro de 1830: Margarida e José (perto dos 18 anos de
idade) assumem o sítio Matta na região chamada Sussambrino

como meeiros de José Febbraro, até 1839 (ano em que o sítio
foi vendido ao senhor Pescamona, de Castelnuovo).
I, 219 Dezembro de 1830: Margarida inscreve João na escola funda-
mental de Castelnuovo e procura alojamento para ele com o 49
alfaiate João Roberto.
I, 224 Margarida visita João todas as semanas para levar-lhe uma pro-
visão de pão e saber da sua conduta.
[21 de março de 1831: Antônio se casa com Ana Rosso e co- —
meça a construir uma casa (7 filhos) enquanto usa uma parte
da pequena casa].
I, 237-238 Verão de 1831: João passa as férias “em casa” (Sussambrino). —
I, 245 Novembro de 1831: João matricula-se no Real Colégio (escola
pública secundária) em Chieri e Margarida encontra alojamen- 51
to para ele com Lúcia Pianta Matta.
I, 249-250 Margarida entrega a João uma quantidade de trigo para pagar
o quarto e moradia, acompanha-o a Castelnuovo e mais tarde —
encontra-se com ele em Chieri.
I, 272-274 Verão de 1832: de Sussambrino, Margarida leva João ao padre
Dassano em Castelnuovo, que se tinha oferecido para dar aulas
de latim ao jovem, enquanto este cuida de seu cavalo. —
[9 de maio de 1833: José casa-se com Maria Calosso, MB I,
279 (10 filhos).
I, 279 Verão de 1833: Margarida e João passam algum tempo nos
Becchi (compartilhando a pequena casa com Antônio). João
dedica-se ao trabalho de “oratório”. —
[4 de agosto de 1833: João recebe a confirmação na igreja pa-
roquial, MB I, 277].

178

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

I, 288-289 Outubro de 1833: Margarida encontra alojamento e trabalho


64
para João em Chieri na casa e no café do senhor Pianta.
I, 287, 1834-1835: Margarida apoia a decisão vocacional de João com
295-296 os franciscanos, deixando-o plenamente livre, e aconselha-o [Cf. 92]
com palavras memoráveis.
I, 305 1835: Margarida aceita a decisão de João de entrar no seminá-
rio, se for da vontade de Deus [ver o comentário mais adiante].
[Outubro de 1834: João em Chieri aloja-se com o alfaiate se-

nhor Cumino, MB I, 344; cf. MO 72].
[25 de outubro de 1835: João recebe a batina em Castelnuovo,
MB I, 369, MO, 89].
I, 373 30 de outubro de 1835: palavras memoráveis de Margarida
na tarde anterior à partida de João para o seminário: “Não o 92
hábito, mas a prática das virtudes”.
— Outubro de 1839: Margarida e José passam a viver nos Becchi,
na casa que este começara a construir (Antônio também cons- —
truiu uma pequena casa para sua família).
I, 481-482 1839-1840: João fica doente durante muito tempo no seminá-
rio. Margarida (que não ficou sabendo) leva-lhe pão e vinho.
Ele come e bebe, e se sente bem. —
[Verão de 1840: João convalesce nos Becchi e obtém a permis-
são de pular o quarto ano de teologia, MB I, 488, MO 110.]
I, 514-515 Abril (?) de 1841: Margarida cai de uma amoreira, fica incons-
ciente e se corta com um galho que cai sobre ela.

[5 de junho de 1841: João é ordenado padre em Turim, MB I,
519, “citando” MO, 111.]
I, 521 10 de junho de 1841: Dom Bosco celebra sua missa solene em
112
Castelnuovo.
I, 521 Memoráveis palavras de Margarida a João: “Ser sacerdote”. —
I, 521-522 Amor de Margarida pela pobreza e mortificação, e palavras so-

bre o argumento.
II, 38 Margarida recusa-se a pressionar Dom Bosco para aceitar um
cargo lucrativo, e palavras sobre o tema.
[3 de novembro de 1841: Dom Bosco entra no Colégio Ecle-
siástico. 1841-1844: Dom Bosco inicia a obra do Oratório.
1844-1846: enquanto está empregado com a marquesa Barolo,

Dom Bosco cuida do Oratório ambulante de São Francisco de
Sales e o localiza no telheiro Pinardi, MB e MO.]
[Verão de 1846: depois de um decisivo enfrentamento com a
marquesa Barolo, Dom Bosco cai gravemente enfermo, MB II,
492-498, MO, 188.]
II, 492 Margarida com o filho José, ao lado de Dom Bosco no peque-

no hospital de Turim.

179

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Dom Bosco: história e carisma 1

II, 500 Agosto-outubro de 1846: Dom Bosco convalesce nos Becchi


189
sob os cuidados de Margarida.
II, 519-522 3 de novembro de 1846: Dom Bosco retorna a Turim com
Margarida, que se ofereceu generosamente para acompanhá-
190
-lo. Ela vive no Oratório, como a mãe dos meninos (Mamãe
Margarida) durante dez anos, até sua morte em 1856.
II, 534 Dezembro de 1846: Mamãe Margarida utiliza seus vestidos e ou-
tros tecidos e vende suas joias para preparar as vestes da igreja e —
as roupas de cama (a senhora Margarida Gastaldi é outra “mãe”).
II, 555 Paciência de Mamãe Margarida com os meninos do Oratório. —
II, 571 Mamãe Margarida acolhe e consola um menino perseguido

pelo pai.
III, 44 1847: Mamãe Margarida estranha um menino sujo trazido por

Dom Bosco, mas o recebe amavelmente.
III, 79-80 Mamãe Margarida faz uma batina nova para Dom Bosco, que

é roubada da varanda.
III, 202 Mamãe Margarida cuida dos pobres meninos de Dom Bosco e

remenda suas roupas.
III, 207-208 Maio de 1847: o primeiro órfão recebe abrigo na casa Pinardi;
“boas-noites” de Mamãe Margarida.
196
[1848-1849: Revolução Liberal, Constituição e Primeira
Guerra de Independência da Itália.]
III, 364-365 1848: Mamãe Margarida é a mãe carinhosa dos meninos de
Dom Bosco, cuidando de todas as suas necessidades, corrigin-

do-os, animando-os, assistindo-os. Ela pratica o sistema educa-
tivo de Dom Bosco.
III, 440 Mamãe Margarida incomoda-se quando a “tropa” de Brósio se
enfrenta em guerras fictícias e os meninos pisoteiam sua horta.
[8 de outubro de 1848: padre Cinzano benze a capela de Nossa
Senhora do Rosário na casa de José nos Becchi. Dom Bosco e —
os meninos do Oratório (com Mamãe Margarida?) celebram
a festa da Virgem (considerado o primeiro passeio outonal!),
MB III, 443-446.]
III, 473-474 [18 de janeiro de 1849: Antônio Bosco morre aos 41 anos de

idade.]
IV, 22-23 1850: Mamãe Margarida entretém em sua cozinha um comitê

de investigação do Governo.
IV, 146-154 Mamãe Margarida respeitada e amada por Dom Bosco e seus me-

ninos. Seu modo de acolhida, simplicidade, honestidade e trato.
IV, 232-234 Episódios sobre a solicitude de Mamãe Margarida, seu sacrifí-

cio (Dom Bosco indica-lhe o crucifixo).
IV, 342-345 1852: o estudo de piano de Cagliero e a sensibilidade de Ma-

mãe Margarida pelo menino.

180

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

IV, 482 22 de setembro de 1852: o jovem Rua entra no Oratório. No


dia seguinte, vai aos Becchi com Dom Bosco, Mamãe Marga-

rida e um grupo de meninos. Mamãe Margarida é amada por
todos em sua cidade natal.
IV, 508-511 2 de dezembro de 1852: solicitude de Mamãe Margarida e co-
232
ragem quando a construção desmorona.
IV, 672 1853: o cônego Anfossi ressalta a doação de Mamãe Marga-

rida.
IV, 694 Outubro de 1853: Mamãe Margarida ao retornar de Castel-

nuovo é cumprimentada pelos seus meninos e suas galinhas.
IV, 701 Mamãe Margarida chama a polícia quando um “doido” tenta

entrar no Oratório.
IV, 706-708 Mamãe Margarida angustia-se com a segurança de Dom Bosco

depois dos muitos atentados contra ele.
V, 90 Verão de 1854: a generosidade de Mamãe Margarida durante

o surto de cólera.
V, 128 A solicitude de Mamãe Margarida pelos meninos e sua santa

vida são recordadas pelos alunos.
V, 298 1855: um aluno recorda a amabilidade e a santa vida de Ma-
__
mãe Margarida.
V, 560 Meados de novembro de 1856: Mamãe Margarida contrai

pneumonia, que acaba sendo mortal.
V, 561 Últimos conselhos de Mamãe Margarida a Dom Bosco e a José. —
V, 563 Mamãe Margarida recebe os últimos sacramentos. —
V, 564-565 25 de novembro de 1856: Mamãe Margarida pede a João que

se retire do seu quarto; ela morre em total pobreza.
V, 567 Dom Bosco vê Mamãe Margarida em sonhos. —

ÚLTIMOS ANOS DE MARGARIDA BOSCO (1846-1856)


Lemoyne, ao falar da volta de Dom Bosco ao Oratório em 1846, depois
da grave enfermidade e dos meses de convalescência nos Becchi, escreve:
“Ela foi a primeira a erguer a bandeira da caridade em favor dos pobres, dos
meninos abandonados e eles, com toda a razão, chamavam-na de sua mãe”.29
Certamente, ao acompanhar o filho em cada passo da sua caminhada voca-
cional, Margarida não teve dúvidas em doar-se: foi viver com ele em Turim
e fez-se mãe dos meninos do Oratório.

29
MB II.

181

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Dom Bosco: história e carisma 1

A década de Mamãe Margarida


A instalação na casa Pinardi é apresentada em duas décadas, que Dom
Bosco e os Salesianos depois dele consideraram como “etapa heroica” do Ora-
tório e da Congregação Salesiana. A primeira década (1846-1856) abrange os
últimos anos da vida de Mamãe Margarida. Foi o período do compromisso
pessoal e direto de Dom Bosco na grande experiência educativa na qual o
método salesiano foi elaborado e posto à prova.
Dom Bosco baseou o seu método educativo nas relações afetivas, tal
como deveriam ser numa boa família cristã. O “espírito de família” unia a
todos com vínculos de verdadeiro afeto. Nessa família, Dom Bosco era o pai
e Mamãe Margarida, a mãe. Ela cuidava dos meninos do Oratório como se
fossem seus e eles, por sua vez, aceitavam-na e queriam-na como a própria
mãe. Assim a chamavam, como Dom Bosco.
Os dois filhos mais ilustres do Fundador, o padre Rua, seu primeiro
sucessor, e dom Cagliero, fundador e guia da obra salesiana na América do
Sul, testemunham-no:

Eu a conheci durante oito anos e convivi com ela durante quatro. Era uma mu-
lher cristã e devota, dotada de coração generoso, assim como também de grande
coragem e prudência. Dedicou-se à nossa educação, a nós que éramos os seus
filhos, a sua família de adoção. Surpreendia-me admiravelmente, e também a
todos os meus companheiros, pela sua grande generosidade e sacrifício pessoal
que fizeram com que abandonasse sua casa e se entregasse à tarefa difícil e árdua
de cuidar de tantos orfãozinhos. Todos nós a chamávamos de “mamãe”, porque
todos nós a respeitávamos e queríamos de verdade como a uma mãe.
Eu conheci a mãe de Dom Bosco pessoalmente no Oratório de Turim. Foi
minha mãe durante cinco anos, isto é, até o dia de sua morte. A boa Mamãe
Margarida, como a chamávamos, era uma mulher admirável, dotada de todas
as virtudes de uma mãe realmente cristã. Era educada, próxima, paciente e
cheia de carinho por todos nós, os pobres orfãozinhos.30

Padre Rua e dom Cagliero moraram na Casa do Oratório. O senhor


Villa, leigo que só se tinha ocupado das atividades juvenis nos fins de semana
no Oratório, coincide no testemunho:
Conheci a mãe de Dom Bosco, a quem nós, meninos, chamávamos com afeto
de Mamãe Margarida. Era a típica mamãe camponesa, uma mulher imbuída

30
POCT (Processus Ordinarius Curiae Taurinensis): Rua, Sessão 358 (1895), e Cagliero, Sessão
145 (1893).

182

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

do genuíno espírito cristão. Quando retornou à terra natal em Castelnuovo,


gozou da estima e do respeito de todos. Quando se estabeleceu no Oratório
de Turim, assumiu de verdade o papel de mãe boa e cuidadosa para todos nós.
Nós a amávamos e confiávamos nela completamente e éramos muitíssimo
edificados pela sua virtude.31

Margarida dedicou os últimos anos da sua vida a cuidar dos jovens de


Dom Bosco. À medida que o tempo passava, outras mulheres uniram-se a ela
nesse trabalho, incluindo sua própria irmã Mariana Occhiena e a mãe do pa-
dre Rua, Joana Maria Ferrero Rua. Margarida foi, por excelência, a primeira
mãe dos meninos, e continuou a sê-lo até o dia de sua morte.

Palavras de Mamãe Margarida a Dom Bosco no dia de sua morte


Quando caiu fatalmente enferma com pneumonia, as últimas palavras
ao filho foram: “Deus sabe o quanto te amei durante toda a minha vida.
Espero poder amar-te ainda mais no céu [...]. Dize aos nossos queridos me-
ninos que eu trabalhei por eles e que tenho por eles uma afeição materna.
Recomendo-te que rezem muito por mim”.32
Dom Bosco saiu do quarto chorando e suspirando. Margarida morreu
em paz, nos braços do filho mais velho, José.
O processo diocesano para a beatificação de Mamãe Margarida foi con-
cluído em abril de 1996, cem anos depois da conclusão do processo dioce-
sano de Dom Bosco e 150 anos desde que deixou a aldeia dos Becchi para
acompanhar o filho à cidade de Turim. Em 23 de outubro de 2006, foi de-
clarada Venerável.

NOTA BIOGRÁFICA DE PADRE JOSÉ ANTÔNIO LACQUA


(1764-1847)
Sabemos pouco sobre a vida e a obra do padre José Lacqua. Deambro-
gio, baseando-se nos dados dos arquivos da cúria, escreve:
Padre José Lacqua nasceu em Montabone (província de Alessândria, diocese
de Acqui) em 18 de janeiro de 1764 e morreu em Castelletto Merli (província
de Alessândria, diocese de Casale) em 3 de janeiro de 1847, aos 83 anos de
idade [...]. Em 1824, quando João Bosco começou a participar da escola de
Capriglio, ele tinha 60 anos.33

31
POCT, Villa, Sessão 211 (1894).
32
MB V, 560-563.
33
L. Deambrogio, Le passeggiate autunnali, 186. P. Stella, Economia, 633.

183

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Dom Bosco: história e carisma 1

As pesquisas de Miguel Molineris em Montabone, de onde o nome La-


cqua era originário, revelam três possíveis candidatos: Carlos José, batizado
em 16 de fevereiro de 1762; José Vítor, batizado em 23 de julho de 1762;
e José Antônio, batizado em 18 de janeiro de 1764. Este último deve ser o
padre José Lacqua.34 Lemoyne afirma que, em 1841, padre Lacqua tinha mais
de 86 anos, e vivia retirado em Ponzano. Isso elimina os demais candidatos;
nascera em 1755 e teria 69 anos em 1824. A idade de 86 anos não combina
com o que Dom Bosco escreveu em 1840-1841, quando fala do desejo do
padre Lacqua de entrar num mosteiro, mas como optou por não se retirar,
prefere permanecer como professor em Ponzano em vez de aceitar outro lugar
de professor ou uma capelania.35
Não existem documentos de quando ou por que veio a Capriglio como
professor. O salário de um professor era certamente escasso.36 Contudo, ena-
morado da solidão, como afirma nas cartas mencionadas, o ensino lhe parece-
ria preferível ao ministério paroquial, porque assim teria metade do ano para
si mesmo, e Capriglio era um povoado retirado.
Além disso, parece que era economicamente independente, porque vivia
em sua própria casa e empregava uma doméstica; a madrinha de Dom Bosco,
tia Mariana, foi sua governanta desde 1824 até sua morte.
Em Capriglio, padre José Lacqua dava as aulas numa sala de sua casa,
que ainda hoje pode ser visitada. Dava aulas a mais ou menos uma dúzia de
meninos durante o outono-inverno; o número diminuía praticamente a zero
na primavera e no verão.
Em Capriglio, o pároco era padre José Carmagnola; padre José Lacqua
não era nem coadjutor, mas quando o pároco morreu em 1827, exerceu por
breve tempo o cargo de administrador; foi substituído em seguida pelo padre
Carlos José Gino. Logo depois seria nomeado pároco padre João Batista Bósio.
Não se sabe quando ou por que o padre Lacqua deixou Capriglio,
nem para onde foi. Pode ter ido diretamente a Ponzano, onde o encontra-
mos em 1840. Molineris não encontrou nenhuma notícia sobre ele nessa
localidade. Provavelmente não se ocupava de serviços paroquiais, mas vivia
retirado como professor. Aonde quer que tenha ido, tia Mariana acompa-
nhou-o como governanta.
Morreu provavelmente em 1847. Em 1850 já não vivia, pois, nos inícios
de 1851, tia Mariana já trabalhava com Mamãe Margarida e a senhora Rua
34
M. Molineris, Don Bosco inedito, 57-59.
35
Para a afirmação de Lemoyne, cf. MB II, 28; para as cartas, cf. MB I, 483-484; II, 29-30.
36
Cf. P. Stella, Economia, 35, nota 18.

184

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Uma infância esperançosa em tempos de comoção política (1815-1824)

em Valdocco, como mais uma das “mães”. O episódio em que aparece cozi-
nhando carne no café aconteceu em 2 de fevereiro de 1851.37

MARIANA, OU JOANA MARIA OCCHIENA (1785-1857),


IRMÃ MAIS VELHA DE MAMÃE MARGARIDA
O nome de Mariana não aparece entre os nomes dos filhos de Melquior
Marcos Occhiena, nem em qualquer outra parte da árvore genealógica da
família Occhiena. Contudo, era certamente o nome, ou apelido com que
Joana Maria, a irmã mais velha de Margarida, era familiarmente conhecida.
Nascida em 1785 na casa da família em Cecca, Serra de Capriglio, era
três anos mais velha de Margarida (1788-1856), seis a mais de Francisco
(1791-1874) e onze a mais de Miguel (1795-1867). Nunca se casou, e man-
teve a família com a ajuda de Margarida.
Mariana não gozava de boa saúde, nem foi empreendedora como Mar-
garida. Era, porém, generosa e devota. Quando Margarida recebeu a proposta
de casamento com Francisco Bosco em 1812, o pai, Melquior Occhiena,
objetou que não poderia cobrir os gastos. Mariana, então com 17 anos, ofe-
receu-se para cuidar da casa, tarefa que pouco depois, em 1813, seria desem-
penhada pela noiva do irmão Francisco.
A governanta do padre José Lacqua, professor em Capriglio, morreu
em 1824; Maria entrou ao seu serviço pouco depois. Foi ela provavelmente
que recomendou o sobrinho João Bosco para ser aceito na escola do padre
Lacqua, que o tomou sob os seus cuidados, quando João foi para Capriglio.
Quando a propriedade de Francisco Bosco foi repartida (1830) para
facilitar os estudos de João, Mariana colocou os seus bens à disposição de
Margarida, para que chegasse mais facilmente a um acordo com Antônio.
Acompanhou o padre Lacqua quando este deixou Capriglio, permanecendo
como sua governanta até a morte dele.
Após a morte do padre Lacqua (talvez em 1847, mas certamente não
depois de 1850), Mariana não pôde ou não quis voltar para Capriglio, uma
vez que a casa paterna já não era da família do seu irmão Francisco, e foi para
Valdocco com sua irmã Margarida.
Em 12 de fevereiro de 1851, já estabelecida em Valdocco, por ocasião
da imposição da batina aos “quatro primeiros” jovens que Dom Bosco estava
“cultivando”, foi ela quem, por engano, cozinhou a carne no café.

37
MB IV, 230-231.

185

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Dom Bosco: história e carisma 1

Como Margarida, e muito mais ainda, sofreria com o comportamento


difícil e relaxado dos meninos. Esteve no leito de morte de Mamãe Margari-
da em 1858. Ela é mencionada como uma das mães que se encarregaram da
lavanderia junto com a mãe do padre Rua, que substituirá Mamãe Margarida
como responsável do grupo de “mães”.38
Após uma longa enfermidade, Mariana morreu santamente em 22 de
junho de 1857.39

38
Para as quatro referências deste parágrafo, ver MB IV, 233s; IV, 185s; V, 548; V, 560.
39
MB V, 657.

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Capítulo VII

AS PROVAÇÕES DE UM ADOLESCENTE
(1824-1830)

Após o início da aprendizagem com padre José Lacqua em Capriglio,


João Bosco defrontou-se com as grandes dificuldades criadas por seu irmão
Antônio para continuar sua educação.

1. O relacionamento com Antônio


As dificuldades com Antônio surgiram depois do primeiro ano escolar
em Capriglio (1825) e transformaram-se em problema sério no segundo ano
(1826). Foi um desentendimento amargo, acompanhado de insultos violen-
tos que ameaçavam dissolver o lar, prejudicar o relacionamento entre os ir-
mãos Bosco e pôr intensamente à prova a capacidade de Margarida de manter
a situação sob controle.
A causa do problema não estava na oposição de Antônio para que João
aprendesse as primeiras letras, porque ele mesmo tinha aprendido a ler e
escrever. Não era nem mesmo uma necessidade urgente de ajuda no campo.
O motivo parece ter sido mais pelo fato de João, depois das primeiras letras,
querer continuar seus estudos secundários, possivelmente, em vista do sa-
cerdócio. Nesse caso, Antônio mostrava-se incapaz de compreender por que
devia permitir que João “estudasse” à custa do dinheiro da família. Posição
compreensível, levando-se em conta o ambiente sociocultural e a mentalida-
de camponesa de Antônio.
Lemoyne não trata adequadamente da questão, nem do modo como
ela afetava Margarida, os meninos e João, de modo particular. Em certo mo-
mento, acusa Antônio de prepotente,1 mas o faz erroneamente, acreditando
que Antônio era doze e não sete anos mais velho do que João. Por causa desse
1
Cf. MB I, 61.

187

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Dom Bosco: história e carisma 1

mal-entendido, equivocou-se também ao não dar valor ao problema do órfão


de 9 anos que, à morte do pai, viu-se sozinho, um entre três. Cabe perguntar-
-se, também, se Margarida entendeu plenamente as dificuldades de Antônio
que, sem dúvida, considerava como seu filho.
Quanto à continuação dos estudos de João, Margarida tinha, de fato,
uma opinião diversa da opinião de Antônio, certamente porque chegara à
conclusão de que um dia João poderia ser padre.

As opções de Margarida
É provável, como conta Lemoyne, que por causa da intemperança do ca-
ráter, Antônio ameaçasse João – pode até ser que chegasse a mais do que isso
– e perdesse o respeito por Margarida.2 Lemoyne pôde obter essa informação
do próprio Dom Bosco, que não se sabe ter desculpado o comportamento
de Antônio.
O que Margarida iria fazer? A tradição biográfica apresenta a divisão da
propriedade dos Bosco (1830) como o auge da luta contínua entre Margarida
e Antônio. Diz-se, com efeito, que Margarida, de acordo com seus irmãos
Miguel e Mariana e, talvez, também com o tutor dos meninos, João Zucca,3
estava querendo libertar João das pressões de Antônio, mas para isso seria
preciso esperar que este chegasse à maioridade (fevereiro de 1829). Há quem
tenha interpretado a situação como dramática, mas deve-se recordar que João
Zucca era o tutor legal dos órfãos Bosco, tanto de José e João quanto de An-
tônio, e que defenderia os direitos de todos. Além disso, como assinala Stella,
o fato de Antônio estar chegando à maioridade e pensar em se casar lança
nova luz sobre o assunto da divisão da herança, que não precisou ser neces-
sariamente dramática, mas inteiramente normal.4 Deve ter acontecido uma
reunião familiar e um plano, provavelmente concordado pelo tutor legal; a
repartição da herança, embora não fosse do agrado de Antônio, foi pactuada
como necessidade prática, também em vista do futuro casamento de Antô-
nio, que logicamente resistiria, pois o plano era desvantajoso para ele, mas,

2
Em um acréscimo aos Documenti I, 26, escrito à mão pelo padre Lemoyne, afirma-se que An-
tônio insultou Margarida chamando-a de “madrasta do diabo”, cf. ASC A0006: Lemoyne-Doc, FDB
966 C11. O fato é suavizado em MB I, 61.
3
Juan Zucca era aparentado com Francisco Bosco e sobrinho da mãe de Francisco (Margarida Zuc-
ca). Conforme o costume piemontês, o tutor passava a participar da linhagem do primogênito (de Antônio).
4
Trata-se de um comentário de P. Stella em Vita, 21, nota 41. Nos demais lugares, apesar disso,
Stella acredita que houve algum tipo de reunião familiar e que se adotou um plano para suavizar a
situação problemática (cf. P. Stella, Vita, 13, 21). O plano incluiria tanto afastar João de casa durante
algum tempo, como dividir a herança quando Antônio chegasse à maioridade. João Zucca, como re-
presentante legal, teria sido encarregado de intermediar o assunto com Antônio.

188

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As provações de um adolescente (1824-1830)

em última análise, seria obrigado a aceitá-lo, se os filhos menores, José e João,


o exigissem por meio do seu tutor legal.

João Bosco trabalha como empregado (1827-1829)


Entretanto, em 1827, dois anos antes da maioridade de Antônio, foi
preciso fazer alguma coisa para acalmar a tensa situação em casa. A solu-
ção foi tirar João do perigo, colocando-o como empregado. João foi enviado
primeiramente a um sítio chamado Câmpora, próximo à aldeia de Serra de
Buttigliera; isso não deu certo e ele precisou buscar outro lugar. Foi admitido
no sítio que os Moglia tinham no município de Moncucco, 5 quilômetros a
noroeste de Castelnuovo.
As datas deste período, 1827-1829, estão certas, mas os detalhes não
parecem tão certos.5 Dom Bosco não menciona esse episódio em suas Memó-
rias, e Lemoyne, não podendo obter informações sobre ele, oferece-nos uma
reconstrução errônea.
Sobre a primeira tentativa, no sítio Câmpora, Lemoyne escreve:

Parece que [antes de fevereiro de 1828] ele tivesse ido para a aldeia de Serra,
na localidade Buttigliera d’Asti, e que fosse acolhido e hospedado com muita
cordialidade pelos amigos de sua mãe; contudo, ao perceber que era de peso,
pois não sendo uma estação em que pudesse ser útil com seu trabalho, tenha
retornado a Murialdo.6

As palavras de Lemoyne, como Molineris evidenciou, referem-se a


um sítio chamado Câmpora, em Serra de Buttigliera. Era propriedade do
senhor Turco, de Castelnuovo, que, pode ser, fosse o amigo de Margari-
da mencionado por Lemoyne. O sítio era administrado por um meeiro;

5
Stella suprime, em um lugar, a fase Câmpora e situa o período fora de casa (como período
Moglia) de fevereiro de 1827 a novembro de 1829. Em outro lugar; ele distingue as duas fases, situan-
do a fase Câmpora no inverno de 1827 e a fase Moglia de fevereiro de 1828 a novembro de 1829 (P.
Stella, Vita, 13-17; id., Economia, 23. 29). Desramaut também anota a fase Câmpora e situa o período
Moglia de fevereiro de 1828 a 1º de novembro de 1829 (F. Desramaut, Don Bosco, 27). As pesquisas
de Molineris revelaram que João, no outono de 1827, estivera durante algum tempo num sítio iden-
tificado como o de Câmpora, em Serra di Buttigliera. Por outro lado, ele propõe de fevereiro de 1828
a novembro de 1829 o período Moglia e situa o primeiro tempo de serviço em Serra di Buttigliera
em 1827, sem especular sobre outras especificações (M. Molineris, Don Bosco inédito, 143-152). Tudo
considerado, pode-se adotar estes dados: (1) escola em Capriglio, 1824-1825 seguida de alguns anos de
brigas em casa; (2) Câmpora em Serra di Buttigliera, no início do inverno de 1827-1828; (3) Moglia
no território de Moncucco, fevereiro de 1828 a novembro de 1829.
6
MB I, 192.

189

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Dom Bosco: história e carisma 1

o gado estava aos cuidados de certo Antônio Bosco, simpático de caráter,


que mais tarde se alistou como soldado e acabou como vendedor de azeite
de oliva. Embora o trabalho não fosse pouco, a julgar pelo tamanho do
estábulo e do depósito de palha, não precisava de ajuda no inverno; assim
sendo, João precisou voltar para casa. Entretanto, a situação problemática
em casa não mudara. Por isso, em fevereiro de 1828, Margarida mandou
João procurar outro trabalho, primeiramente na aldeia de Baussone, onde
vivia certa família Zucca; caso falhasse ali, deveria ir adiante e perguntar na
casa dos Moglia, próxima de Moncucco. É interessante a história de como
João foi contratado pelos Moglia.7
Luís Moglia não tinha intenção de contratar o menino. Era comum
dar trabalho a meninos e adolescentes, como pastores ou mão de obra no
campo, mas, normalmente, os contratos eram feitos em 25 de março, festa
da Anunciação, ou depois, quando iniciava a estação do plantio. Isso se
fazia mediante negociações com a família do menino na feira de Castel-
nuovo. João pediu trabalho diretamente em fevereiro, ao menos um mês
antes do habitual. Essa circunstância, unida ao mau tempo, foi o principal
motivo pelo qual o senhor Moglia não se sentiu inclinado a contratá-lo,
fazendo-o só quando sua mulher interveio. A senhora Moglia, Doroteia
Filippello, era de Castelnuovo, certamente conhecida, e talvez amiga de
Margarida, diferente do que Lemoyne afirma.8 Os Moglia jamais tiveram
do que se arrepender.
Molineris apresenta uma relação da família do senhor Moglia no mo-
mento do contrato de João: constava de Luís Nicolau Moglia, proprietário
e capataz, de 29 anos; Doroteia, sua esposa, de 26 anos; Ana Francisca Ca-
tarina, a filha mais velha de 5 anos; Jorge Lourenço Maria, o menor, de 3
anos. Os Moglia tiveram outros filhos: um nascido durante a permanência
de João e outros quatro, nascidos mais tarde. Parece que já tinham morrido
o pai e a mãe do senhor Moglia. Outros membros da família também mo-
ravam com eles.9

7
MB I, 192-193.
8
MB I, 191.
9
Molineris menciona os seguintes: Ana, confundida às vezes com a filha Ana, e Teresa, irmãs
de Luís, de 18 e 15 anos, respectivamente, e João e José, tios de Luís. O padre Nicolau Moglia (talvez
também tio de Luís e professor ativo na região) vivia no sítio provavelmente apenas durante as férias
de verão. Esse padre deu algumas aulas a João e, em 1831, quando João ia à escola de Castelnuovo,
substituiu padre Virano como professor. Em Castelnuovo não gostou nada de João e tornou-lhe a vida
impossível. Cf. MO, 51.

190

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As provações de um adolescente (1824-1830)

Os filhos de Luís, Ana e Jorge, são nossas fontes principais para o


período Moglia. Padre Segundo Marchisio, enviado pelo padre Lemoyne,
entrevistou-os depois da morte de Dom Bosco em 1888.10 Em 1892, Jorge
Moglia testemunhou no processo diocesano de beatificação.11 É impro-
vável que o testemunho dessas pessoas, ainda crianças na época em que
João vivia na casa dos Moglia, trouxessem recordações diretas; contudo,
certamente ouviram os mais velhos falarem daquele estupendo rapaz pelo
qual se cativaram.
O período da permanência com os Moglia foi, externamente, livre
de preocupações. As obrigações de João, como auxiliar na estrebaria e en-
carregado das vacas, consistiam em manter o estábulo limpo e fazer com
que os animais tivessem comida, água e pasto. Fazia, também, pequenos
trabalhos no sítio, como cuidar das videiras. Não é provável que lhe fosse
pedido para fazer serviços pesados. Recebeu o salário costumeiro e, tam-
bém, uma bonificação.12 As refeições, o quarto e a cama eram certamente
melhores do que os de sua casa. Era querido e gozava de considerável liber-
dade e descanso para suas leituras e devoções. Tinha liberdade para assistir
a primeira missa na igreja paroquial de Moncucco e reunir alguns meninos
numa espécie de oratório.13
Sem dúvida, o período dos Moglia pode ter sido uma dura prova para
João. Embora não se tenha certeza, parece que ficou afastado da família. Al-
guém se pergunta se ele foi ocasionalmente à sua casa ou se a mãe o visitava.
Apesar disso, a julgar pelas informações dos filhos dos Moglia, esse período
parece ter sido para João um momento de crescimento na “maturidade, sa-
bedoria e graça”.

O retorno de João
A permanência com os Moglia terminou inesperadamente para João
– presumivelmente, porém, de acordo com o “plano” que se mencionou
– com a intervenção de seu tio, Miguel Occhiena. Aconteceu em 3 de no-
vembro, depois da festa de Todos os Santos, quando terminava o segundo

10
O relato do padre Marchisio encontra-se em ASC A008s: Cronachette, Marchisio; FDB 1,203
D1-E4. Estes testemunhos facilitaram a Lemoyne “reconstruir” de alguma forma este período. Cf. MB
I, 191-196. O relato afirma que as meninas Moglia também participavam das aulas de catecismo de
João. Lemoyne cuidadosamente “expurga” a informação.
11
O testemunho de Jorge Moglia dá-se em POTC, Sessão 93, 10 de julho de 1892; está em ASC
A 265s: Deposizioni dei testi; FDB 2, 135 E2-9. Tinha 67 anos na época. Morreu em 1923 aos 98 anos.
12
MB I, 206.
13
MB I, 200-202.

191

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Dom Bosco: história e carisma 1

ano do contrato. Entretanto, Antônio chegara aos 21 anos em fevereiro do


mesmo ano.
Parece que tio Miguel foi escolhido como “mediador”. De passagem
por Chieri, pode ter acertado o fim do contrato de João com Luís e Doro-
teia Moglia; como resultado, João foi embora naquele mesmo dia. À tarde
já estava em casa, mas Margarida repreendeu-o por abandonar seus pa-
trões, presumivelmente apenas para contentar Antônio como pensa tam-
bém Lemoyne.14
Quando o tio Miguel chegou, a família precisava informar Antônio so-
bre o que se pensava fazer. Que ele se tenha oposto à proposta de dividir a
herança pode-se afirmar pelo fato de que, no ano seguinte, continuou a ser
o problemático contendor (1829-1830), enquanto João estudava com pa-
dre João Calosso. Enfim, talvez pela intervenção de João Zucca, ele se tenha
convencido. Antônio deixou de ser um fator a levar em conta depois da re-
partição da herança em 1831. O período das tensões com Antônio abrangeu,
portanto, os anos 1826-1830.
Poucos dias depois de retornar do sítio Moglia, João encontrou-se com
o padre João Calosso, que o tomou sob a sua proteção como professor e
diretor espiritual.

Sítio dos Moglia.

14
MB I, 202.

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As provações de um adolescente (1824-1830)

O silêncio de Dom Bosco sobre esse período


Dom Bosco fala, nas Memórias do Oratório, sobre o conflito com Antô-
nio e do encontro com o padre Calosso e do ano que se seguiu. Contudo, não
faz referência ao período intermédio, os dois anos que viveu como emprega-
do; omissão que não pode ser um lapso de memória.
Os historiadores salesianos ofereceram diversas explicações. Ceria pensa
que Dom Bosco omitiu o episódio em respeito à memória de sua mãe.15
Klein, que comenta este ponto de vista, acredita que a omissão foi devida
mais ao engano na datação do encontro com padre Calosso, não dando es-
paço para inserir o período Moglia.16 Desramaut coloca a razão da reticência
de Dom Bosco na penosa experiência, por vergonha de ter sido ajudante de
estrebaria ou para evitar a exposição de sua mãe numa situação delicada.17
João, talvez, visse a si mesmo como vítima de uma situação injusta, sentindo
a ação de sua mãe como uma rejeição; a experiência pode ter sido incômoda
para ele durante anos. As Memórias, embora escritas quando Dom Bosco
já tinha 60 anos, mostram tensão emocional em muitas páginas.18 Todavia,
talvez, a omissão, mais uma vez, foi simplesmente pelo fato de o episódio
não se encaixar bem no programa traçado por Dom Bosco ao escrever as
Memórias, que não era outro senão fazer uma apologia do Oratório e do seu
método educativo.19

15
MO Ceria, 38-40, nota 40.
16
J. Klein - E. Valentini, Una rettificazione, 581-610.
17
F. Desramaut, Don Bosco, 38, nota 88, citando seu trabalho anterior, MB I, 179, nota 10, e 421-425.
18
Convém recordar que uma das objeções contra a heroicidade das virtudes de Mamãe Margari-
da foi o fato de ter afastado João da família para trabalhar no sítio dos Moglia. Os objetores assinalam
quatro aspectos: 1) parece estranho que Mamãe Margarida se decidisse a dar um passo radical, levando
em conta que a situação não era tão dramática; 2) a decisão da mãe seria justificada no caso de ser diri-
gida a garantir a possibilidade de estudo do filho, mas neste caso só serviu para afastar João do irmão,
não para que estudasse; 3) Joãozinho não ficou nada entusiasmado com a decisão de sua mãe; 4) a pe-
nosa questão terminou graças à intervenção de Miguel, mas chama atenção a dureza da mãe quando o
filho retornou à casa depois de quase dois anos de ausência: em vez de mostrar-lhe afeto “repreendeu-o
e não quis aceitar as justificativas” e, coisa estranha, “ordenou-lhe que retornasse ao lugar de onde tinha
vindo para continuar fazendo o seu trabalho”. A atitude da mãe diante de um menino de 12 anos não
parece um exercício de prudência heroica. Por outro lado, neste caso, nem mesmo se garante a justiça.
Margarida defendeu o enteado em detrimento do filho. Defender o mais forte e pôr em dificuldade o
mais fraco não parece ser um ato de justiça heroica. A resposta dos promotores da Causa foi que inicia-
tivas desse tipo eram normais na práxis do século XIX por questões de trabalho ou economia familiar;
que a distância entre os Moglia e os Becchi era relativamente pequena e que, portanto, não supunha
nem uma imprudência nem uma crueldade por parte da mãe (Votos dos Consultores Teólogos). Cf. J.
G. González, Don Bosco: un apunte, 87.
19
Lemoyne fala da atividade oratoriana de João enquanto estava com os Moglia e na aldeia de

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Dom Bosco: história e carisma 1

Lemoyne não pôde obter nenhuma informação de Dom Bosco sobre o


tema, e a entrevista do padre Marchisio com os filhos de Moglia em 1888 só
acrescentou alguns episódios que eram insuficientes para a reconstrução bio-
gráfica do período. Lemoyne, então, fez o que pôde: colocou a reunião com
o padre Calosso em 1826, seguindo as Memórias de Dom Bosco, e as aulas,
três anos mais tarde (!), com o período de serviço de ajudante de estrebaria
entre as duas situações. Abstém-se de fazer especulações.

Encontro de João Bosco com padre João Calosso


Cada aldeia de Castelnuovo, e Murialdo era uma delas, tinha sua capela
em funcionamento com um pequeno benefício de terra. A de Murialdo, de-
dicada a São Pedro, era simplesmente um templo, não igreja paroquial. Essas
capelas ofereciam serviços religiosos ou ficavam vacantes durante algum tem-
po, dependendo de algum padre aceitar o cargo. Em 1825, essas capelanias
estavam vacantes, mas há documentos que informam que, de 1825 a 1828,
trabalhando em Buttigliera, certo padre Franco, encarregava-se das funções
da capela de Murialdo.
No verão de 1829, padre Calosso, com quase 70 anos, veio para Mu-
rialdo como capelão quando João Bosco ainda trabalhava no sítio Moglia.
O benefício da capela tinha sido aumentado pelo generoso donativo de um
senhor do lugar, Espírito Sartoris, cuja família vivia em Turim. João retornou
aos Becchi em 13 de novembro de 1829.
Como informa nas Memórias, encontrou-se com padre Calosso quando
este era capelão havia apenas alguns meses.20 Dom Bosco afirma que o en-
contro aconteceu por ocasião de uma “missão” paroquial, pregada em Butti-
gliera. Na realidade, o encontro se deu por ocasião da pregação de um jubi-
leu. Em 31 de março de 1829, o Papa Pio VII sucedia ao Papa Leão XII, que
morrera em 10 de fevereiro.21 A fim de implorar a proteção divina, o novo
Papa proclamou um jubileu especial.22

Moncucco. Onde ele obteve essa informação? Deve ser idêntica à finalidade das Memórias. Sobre as
razões da omissão, ver as observações de P. Stella, em Vita, 16, nota 30.
20
MO, 43.
21
Leão XII, Aníbal della Genga, nasceu em 22 de agosto de 1760; foi eleito papa em 28 de setem-
bro de 1823; morreu em 10 de fevereiro de 1829. Pio VII, nascido Francisco Xavier Castiglioni em 20
de novembro de 1761, foi eleito papa em 31 de março de 1829; morreu em 30 de novembro de 1830.
22
Deve-se distinguir este jubileu especial do jubileu ordinário que fora celebrado quatro anos
antes no Ano Santo de 1825 e que, em seguida, Leão XII ampliou até o ano de 1826.

194

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As provações de um adolescente (1824-1830)

Nas Memórias, Dom Bosco, além de não mencionar o período Mo-


glia, eliminando assim os anos 1827-1829, situa o encontro com padre
Calosso em 1826. Pode ser que a lembrança do jubileu regular, ampliado
por Leão XII (1825-1826), o tenha induzido ao erro. Dom Bosco não
faz menção das celebrações do Ano Santo; ele fala simplesmente de uma
“missão”.23
Em 1829, Pio VIII decretou a celebração de um jubileu especial e
a obtenção de indulgências de acordo com as disposições dos ordinários
locais. O arcebispo de Turim, dom Columbano Chiaveroti, fixou as datas
8-22 de novembro para a sua diocese. O tríduo foi celebrado na igreja
paroquial de Buttigliera como preparação para cumprir as condições do
jubileu, nos dias 5 a 7, quinta-feira a sábado.24 Devido à ocasião especial,
o povo dos arredores também participou. Foi assim que padre Calos-
so, da aldeia de Murialdo, e o jovem João Bosco, da aldeia dos Becchi,
encontraram-se pelo caminho, depois da celebração, na tarde do dia 5 de
novembro de 1829.
Padre Calosso, admirado pelo espírito e inteligência de João, convidou
Margarida e seu filho para uma conversa: João começou a participar das au-
las na reitoria quase imediatamente. De início, ele ia às aulas pela manhã,
bem cedo, voltando para trabalhar no campo o resto do dia. Esse acerto
satisfez Antônio só por pouco tempo. Como Antônio não se acalmava, João
começou a estudar com padre Calosso em tempo integral, sendo também seu
ajudante. Quando, porém, parecia que o futuro do menino estava garantido,
pois o bom padre decidira assumir sua educação, aconteceu a tragédia. Padre
Calosso morreu repentinamente de uma hemorragia cerebral em 21 de no-
vembro de 1830.
Eis a seguir, resumida, a reconstrução dos anos 1826-1830.

MO, 40. A identificação dos jubileus foi feita por Klein-Valentini, citados na nota 16.
23

Buttigliera, município com cerca de 2 mil habitantes na época, situa-se a uns 4 quilômetros a
24

oeste dos Becchi e 3 quilômetros a sudeste de Castelnuovo. João Bosco recebeu ali a Confirmação, em
14 de agosto de 1833.

195

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Dom Bosco: história e carisma 1

Memórias do Oratório Reconstrução Reconstrução


de Dom Bosco de Lemoyne crítica
Problemas com Antônio Problemas com Antônio (an-
Problemas com Antônio
(antes e depois de 1826).25 tes e depois de 1826)29. (1826-1827, 1829-1830).
[Período Câmpora - Mo- Período Câmpora-Moglia Período Câmpora-Moglia
glia, omitido.] [subentendido]. (1827-1829).
Encontro com padre João Encontro com padre João Tio Miguel faz João sair
Calosso por ocasião do Calosso na “missão” (1826) do sítio Moglia e voltar
sermão na missão em de Buttigliera. 30 para casa (3 de novembro
Buttigliera (1826).26 Aulas iniciais com padre João de 1829).
Ano com padre João Calosso.
Calosso com oposição Aulas descontínuas, porque Encontro com padre João
contínua de Antônio (pre- Antônio “proíbe estudos pos- Calosso por ocasião do
sumivelmente de acordo teriores” (1826-1827).31 Jubileu, em Buttigliera
com as datas de cima, Período Câmpora-Moglia (6 de novembro de
1826-1827).27 (1827-1829). 32
1829).
[Menção do Jubileu conce-
dido por Pio VIII em 1829 Ano com padre João Ca-
e os sucessos religiosos (sem losso (oposição contínua
qualquer conexão com a histó- de Antônio) novembro de
ria de João]).33 1829-novembro de 1830.
Tio Miguel faz com que
João deixe o sítio dos Moglia
e volte para casa. Miguel e
Margarida pedem ao pároco
Dassano (não Calosso!) que
dê aulas a João, mas o pároco
se recusa.34
Padre João Calosso se oferece
para acolher João novamente
como aluno. Ano com padre
João Calosso.35
Morte do padre João Ca- Morte do padre João Calosso Morte do padre João Ca-
losso (abril de 1828!) e as (novembro de 1830) e as losso (11 de novembro de
consequências.28 consequências.36 1830) e as consequências.

25
MO, 27, 42-43, 44, 49.
26
MO, 40-43.
27
MO, 44-45.
28
MO, 45-46.
29
MB I, 24, 30, 69s, 94, 99-100.
30
MB I, 176-180.
31
MB I, 181-183.
32
MB I, 191s.
33
MB I, 177.
34
MB I, 181-189.
35
MB I, 185-188.
36
MB I, 187-188.

196

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As provações de um adolescente (1824-1830)

A divisão da herança Bosco


No outono-inverno de 1830, depois da morte do padre Calosso, segun-
do as Memórias de Dom Bosco e Lemoyne, Margarida decidiu realizar seu
projeto. O “plano” era dividir a herança Bosco, que dizia respeito aos três
filhos Bosco.37 A questão deve ser compreendida como normal, não como um
complô.38 Parece que a repartição da herança foi feita pacificamente. Marga-
rida e sua irmã Mariana empenharam seus modestos bens a fim de que fosse
menos doloroso para Antônio.39
Os bens mais importantes na herança eram a pequena casa e a terra. A
pequena casa foi assim dividida: a metade leste, que compreendia o quarto
principal, a pequena escada, o estábulo e o depósito de lenha, substituído
atualmente pela escada que leva aos quartos, couberam a Antônio. Para os
pequenos José e João, Margarida ficou com a outra metade, que compreendia
a cozinha e a sala, o pequeno quarto do sonho, ao qual se chega da cozinha
por uma escada interior, o pequeno galpão e o depósito de feno.
Quanto à terra, o patrimônio compreendia nove pequenas parcelas de
terra, quatro vinhedos e quatro campos de cultivo ou prados; uma área me-
nor, a nona, não foi identificada.40 Não se sabe como essas parcelas foram
divididas entre Antônio e José-João juntos. Sabemos que em 1840, quando
as partes de José e de João foram inventariadas para cobrir o dote eclesiástico
de João Bosco, somente três das oito parcelas entraram na lista: um vinhedo,
uma terra de cultivo e um prado. No total, com a pequena casa, a avaliação
não chegou nem de longe ao necessário para o dote.41
Como João e José optaram por manter em comum o que lhes coube,
deduzimos que a terra foi dividida em três porções, das quais Antônio fi-
cou com um terço. Essas porções, talvez apenas suficientes para uma pessoa,
eram claramente insuficientes para uma família, como no caso de Antônio,
que estava para se casar. Segue-se que, além de trabalhar suas próprias terras,
provavelmente ele se viu forçado a também trabalhar como empregado. José,
que manteve as porções de João e as suas, teve mais sucesso. Ele tinha como
ajudantes Margarida e João. Meses depois, tornou-se meeiro no sítio de certo

37
Sobre a repartição da herança dos Bosco ver: M. Molineris, Don Bosco inedito, 121-122, e
artigos em Il Tempio di Don Bosco 17 (1963), 120-121; 19 (1965), 134-138; F. Desramaut, Don Bosco,
32. Sobre a propriedade Bosco ver P. Stella, Economia, 15-22.
38
MB I, 215-216.
39
MB I, 215.
40
P. Stella, Economia, 15.
41
P. Stella, Economia, 19-21.

197

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Dom Bosco: história e carisma 1

senhor Matta, em Sussambrino, ao sul, não distante de Castelnuovo; foi uma


necessidade e uma oportunidade.
Antônio viveu sozinho por pouco tempo na sua parte da pequena casa.
Em 22 de outubro de 1831, casou-se com Ana Rosso, de Castelnuovo; de-
pois construiu no pátio uma casa com um quarto, que seria demolida em
1915 para dar lugar à capela de Maria Auxiliadora (o pequeno santuário).
Continuou a usar o quarto da pequena casa e, quando sua família aumentou,
Margarida permitiu-lhe usar também outros quartos.
Margarida, José e João viveram na sua parte da casa até que José foi para o
sítio de Sussambrino em março de 1831. Margarida e João foram viver com ele.42
A divisão da herança, depois da trágica perda do padre Calosso, foi um
ponto de partida significativo. Como Antônio já não contava, João pôde sen-
tir-se livre para continuar sua formação na escola elementar de Castelnuovo.

2. A adolescência problemática de João Bosco


A história das tensões em casa e do trabalho longe dela demonstraria
que, para João, os anos 1825-1829 foram cheios de dores de cabeça e incer-
tezas. É certo que aquelas experiências dolorosas não destruíram seu espírito,
mas ele não saiu totalmente ileso dessas tribulações.
O ano de João com o bondoso padre Calosso foi feliz e memorável, até
que a morte repentina rompeu o relacionamento. O bom padre chegara a ser
uma figura importante, tão satisfatória que João sofreu sua perda a ponto de
ficar doente e ser repreendido em sonho.43
Antes de comentar a experiência de João com padre Calosso, parece
apropriado um comentário geral.

42
Mesmo depois da morte de José (1862), as propriedades de João e de José continuaram in-
divisas. Alguns meses antes de sua morte (31 de janeiro de 1888), Dom Bosco pensou em colocar em
ordem todos os seus assuntos legais e chegou a um acordo com os filhos de José. Um deles, sobrinho de
Dom Bosco, Luís, que tinha levado vida “escandalosa” e, por isso, foi proibido de entrar no Oratório,
moveu uma ação contra Dom Bosco. Mas também ele morreu em 6 de fevereiro de 1888.
43
MO, 48.

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As provações de um adolescente (1824-1830)

Capela de São Pedro, de Murialdo, onde padre João Calosso era capelão.

A ausência de um pai e a presença de uma mãe


Como a perda do pai na infância afetou o desenvolvimento psicológico
de João? A ausência do pai na infância e adolescência é considerada um sé-
rio obstáculo no desenvolvimento psicológico da criança. Para João, a perda
foi agravada por causa da situação em que se encontrou a família chefiada
por Margarida. A mãe precisou entregar-se a longas jornadas de trabalho no
campo, distante de casa para pôr comida na mesa de uma família que incluía
a sogra doente. Durante dois anos ela lutou contra a estiagem e a carestia,
e depois, com mais dias de pobreza e dificuldades, sem mencionar todos os
outros problemas e pressões. A avó Margarida Zucca vigiava os meninos, mas
uma avó não pode substituir uma mãe.
Além disso, diz-se, a perda do pai nunca pode ser compensada com a
presença da mãe, não importa o quanto seja dedicada e capaz. Não resta
dúvida de que Margarida conseguiu dar apoio sereno e orientação segura
pela compreensão instintiva da situação, a robusta fé religiosa, os sólidos

199

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Dom Bosco: história e carisma 1

princípios e as opções corajosas. Por outro lado, a imagem positiva que a


mãe tenha do pai e que repasse à criança, pode proporcionar uma com-
pensação substancial. Que era esse o caso pode-se deduzir do fato de João
demonstrar, desde a infância, coragem incomum e autodomínio acom-
panhado do sentido de realidade, dever e sacrifício pessoal. Esses traços
evidenciam a presença construtiva da mãe. Lemoyne o atribui à sabedoria
e ao estilo educativo de Margarida.44
Margarida teve um papel-chave como mãe também em outra área im-
portante. Na primeira infância, assim dizem os psicólogos, a criança precisa
de uma pessoa adulta com quem relacionar-se. Normalmente, é a mãe. Dessa
forma, as relações da criança com sua mãe determinam o sentido de si mesmo
e suas relações com o mundo exterior.
Há sinais claros de que as relações de João com sua mãe na infância
foram “construtivas”; o instinto materno de Margarida ajudou João a pro-
gredir até o próprio desenvolvimento normal e a própria maturidade. João
desenvolveu um forte ego, autoconfiança e capacidade de relacionar-se com
os outros. Jamais aparece deprimido ou retraído, mas dotado de uma perso-
nalidade forte, reflexiva, ativa e feliz. Testemunham-no algumas passagens
das Memórias, como quando fala da sua ascendência entre os companheiros,
inclusive entre os adultos, ou da sua habilidade de divertir como saltimbanco
ou atleta.45

A figura do pai
A vida de família no Piemonte, embora não matriarcal, fundamentava-
-se principalmente na figura materna. A relação pai-filho era secundária. Os
psicólogos, dizem-nos hoje, que uma relação muito exclusiva é danosa para
a criança; por isso, aconselha-se aos pais que abandonem seus papéis fixos
(a mãe cria e educa, o pai trabalha e ganha). A perda do pai na primeira
infância de João deixou um vazio que precisava ser preenchido, ao menos
parcialmente.
Não havia nenhuma figura paterna que o ajudasse a regularizar a vida?
João vivia numa família restrita; mas a família ampliada não se tinha afastado
muito; de modo que, presumivelmente, os homens, como os tios Francisco
e Miguel Occhiena além do tutor legal João Zucca – os Bosco não se con-
tam nesse aspecto – puderam preencher o vazio, ao menos, até certo ponto.

44
MB I, 38-39.
45
Cf. MO, 35-37, 54-56.

200

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As provações de um adolescente (1824-1830)

A presença construtiva da mãe uniu-se à presença da imagem paterna numa


situação em que se estabelece uma relação emocional recíproca. No caso de
João, Antônio fica logo desqualificado e os homens da família alargada conti-
nuavam apegados ao papel tradicional, muito significativo, mas rígido. Lon-
ge de estar presentes numa relação pessoal significativa, eles estavam com
toda probabilidade ordinariamente ausentes.46
João, porém, teve a fortuna, à medida que crescia, de encontrar padres
que podem ser qualificados de imagem paterna. Padre João Calosso foi, na
verdade, uma das figuras de pai, e tão destacado, que entrou na vida de João.

Padre João Calosso e o jovem João Bosco: uma relação de pai e filho
João, agora adolescente de 15 anos, encontrou no padre Calosso o “bom
pai” de que precisava e desejava havia muito tempo. Padre Calosso tinha ex-
periência psicológica suficiente para compreender o problema de João que,
nessa idade, se encontrava em meio à crise da adolescência. Por outro lado, o
bom, mas provavelmente desencantado padre, viu-se carente de um filho de
quem pudesse ser pai e viu a oportunidade de fazer alguma coisa de valor e
que preenchesse sua velhice. Uma relação profunda e recíproca floresceu de
imediato. Dom Bosco expressa-se em termos muito enfáticos:

O padre Calosso tornou-se um ídolo para mim. Queria-o mais que a um


pai, rezava por ele. Era um prazer imenso trabalhar para ele e até dar a vida
por algo que fosse do seu agrado [...]. O homem de Deus afeiçoara-se tanto
a mim que chegou a dizer-me por diversas vezes: “Não te preocupes com o
teu futuro. Enquanto eu estiver vivo, nada te faltará. Se morrer haverei de
providenciar da mesma forma”.47

Padre Calosso estava claramente decidido a prover a educação de João e


pretendia tomar as medidas oportunas no caso de sua morte. Foi ainda mais
decisivo ter iniciado João na vida espiritual. Dom Bosco escreve: “Fiquei sa-
bendo assim quanto vale um guia estável, um fiel amigo da alma, que até en-
tão não tivera”.48 Não admira, portanto, que a morte do padre Calosso fosse
tão traumática para ele. Escreve:
A morte do padre Calosso foi para mim um desastre irreparável. Eu chora-
va desconsolado o benfeitor falecido. Acordado, pensava nele, dormindo, com

46
Cf. G. Dacquino, Psicologia di Don Bosco, 19-32.
47
MO, 45.
48
MO, 43.

201

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Dom Bosco: história e carisma 1

ele sonhava; as coisas chegaram a tal ponto que mamãe, temendo pela minha
saúde, mandou-me passar uma temporada com meu avô em Capriglio.49
O relacionamento de João com padre Calosso foi truncado tragicamente.
A ânsia com que João buscava a figura de um pai e a verdadeira direção espi-
ritual não se satisfez enquanto não passou à influência do padre José Cafasso.

Conclusão
Muitos e importantes valores espirituais emergem das experiências de
Dom Bosco em seus primeiros anos. Ele não só superou sérias dificuldades,
não só passou por muitas provações penosas. O modo com que encarou essas
desventuras configurou o seu caráter e tornou-o muito mais firme em busca
de seus objetivos. Longe de dilacerar-se por elas, aprendeu a paciência e a
confiança em Deus; adquiriu a percepção da proximidade de Deus e da sua
realidade, o sentido da oração.
Entretanto, as experiências da infância de Dom Bosco foram também
formativas do ponto de vista vocacional. Desde os inícios e durante a vida
toda, ele se considerou chamado a ocupar-se dos jovens abandonados e ór-
fãos. A partir da sua experiência pessoal, sentiu-se irresistivelmente atraído
por eles e conservou uma profunda compreensão pela desventura deles. Sua
resposta emocional às necessidades dos jovens era imediata e imperativa. Seu
desejo pessoal de um pai ou da figura de um pai, fez com que se sentisse cha-
mado por vocação ao papel de pai dos jovens necessitados.

49
MO, 48. 202

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Apêndice

CRONOLOGIA CORRIGIDA ATÉ 183150

1820 Janeiro: a Revolução na Espanha restaura a Constituição de 1812.


Julho: revolução, fomentada pelos carbonários e outras sociedades
secretas, na Sicília e em Nápoles, obrigando Fernando I a conceder
a Constituição.
1821 10 de março: a Revolução estoura no Piemonte (Alessândria) obri-
gando o príncipe Carlos Alberto, regente, a conceder a Consti-
tuição. A Revolução é aniquilada com a intervenção da Áustria.
A Constituição é abolida. Carlos Alberto renuncia à regência e
exila-se voluntariamente.
1822 23 de julho: o rei Carlos Félix publica um decreto para a reforma
escolar. Elimina o sistema napoleônico e reorganiza as escolas públi-
cas do reino. O ensino fundamental, de dois anos, torna-se obriga-
tório para as crianças a partir de 7 anos, em sua própria localidade.
1823 João aprende os rudimentos da leitura e da escrita com um agri-
cultor de sua aldeia. Antônio parece que aprendera, ou aprenderia
mais tarde, os rudimentos, o que não aconteceu com José.
Quaresma? Margarida prepara João, que completou 7 anos, para a
primeira confissão, e o acompanha.
1824 Novembro de 1824 – março de 1825: João vai à escola do padre
Lacqua, em Capriglio, nesse inverno e talvez, ocasionalmente, no
seguinte. Vê-se obrigado a interrompê-lo, porque Antônio se opõe.
Começa o enfrentamento com Antônio pelos estudos.
1825 Entre 9 e 10 anos, João tem o “sonho da vocação”. Ele começa a
reunir seus companheiros nos campos para o catecismo e a diversão.
1826 11 de fevereiro: morte da avó de João, Margarida Zucca.

50
As datas que seguem refletem a cronologia estabelecida no comentário anterior.

203

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Dom Bosco: história e carisma 1

1827 28 de fevereiro: João inicia as aulas diárias de catecismo da Quares-


ma, preparando-se para a primeira Comunhão na igreja paroquial
de Castelnuovo.
15 de abril (na Páscoa ou durante o tempo pascal): João, aos 11 anos,
recebe a primeira Comunhão na igreja paroquial de Castelnuovo.
Inverno: depois de um período de duro “enfrentamento” com Antô-
nio, João é enviado a trabalhar como ajudante de estrebaria no sítio
Câmpora de Serra di Buttigliera.
1828 Fevereiro: João é contratado como ajudante no sítio Moglia, em
Moncucco, onde trabalha até novembro de 1829.
Inverno: o senhor Moglia permite que João vá às aulas do padre
Francisco Cottino, pároco de Moncucco.
1829 Verão: padre Calosso, aos 70 anos, é nomeado capelão da igreja de São
Pedro de Murialdo.
31 de outubro: o tio de João, Miguel Occhiena, vai ao sítio Moglia e
organiza o retorno de João à sua casa nos Becchi (3 de novembro).
5-7 de novembro: tríduo em Buttigliera em preparação ao Jubileu pro-
clamado por Pio VIII, ao suceder Leão XII.
5 de novembro, quinta-feira: ao voltar de Buttigliera, João encontra-se
com padre Calosso, capelão de Murialdo, e conversa com ele.
8 de novembro, domingo: Margarida leva João em visita ao padre Calos-
so, e começa a estudar italiano com ele; e, pelo natal, também latim.
1830 Março: pressionado por Antonio, João, depois de passar a parte da
manhã com padre Calosso, trabalha o resto do dia no campo.
11 de abril, Páscoa: João começa a traduzir textos do latim e fica o
dia todo com padre Calosso.
29 de junho ou 26 de julho ou 10 de outubro: João, em Murialdo, en-
contra-se com o seminarista José Cafasso, de Castelnuovo. A capela
de Murialdo era dedicada a São Pedro (29 de junho); Sant’Ana (26
de julho) era uma das patronas do lugar. As duas festas são celebra-
das com uma feira. Dom Bosco escreve que foi na maternidade de
Maria (10 de outubro de 1830), “para eles a solenidade principal”.
Setembro: João começa a morar na casa do padre Calosso.
21 de novembro: morre padre Calosso aos 71 anos de idade. João
declina do dinheiro do padre Calosso, entregando a chave do cofre
aos seus parentes.
Dezembro: deprimido e abatido pela perda, João é mandado à casa
de parentes em Capriglio e é censurado em sonhos.
Fim do ano: repartição da herança Bosco (casa, terras, animais,
ferramentas, pertences, dinheiro) entre os três irmãos: José e João
mantêm em comum o que lhes coube.

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As provações de um adolescente (1824-1830)

1831 Primavera: José Bosco, com o colega José Febbraro, torna-se ad-
ministrador-meeiro no sítio Matta, em Sussambrino. Margarida e
João também vivem ali.

NOTA BIOGRÁFICA DE ANTÔNIO JOSÉ BOSCO,


MEIO-IRMÃO DE DOM BOSCO (1808-1849)

Francisco Luís Bosco (1784-1817), residindo no sítio Biglione, casou-se


aos 21 anos com Margarida Cagliero (1783-1811) em 4 de fevereiro de 1805.
Seu primeiro filho, Antonio José, nasceu em 3 de fevereiro de 1808; Maria
Teresa nasceu em 16 de fevereiro de 1810, mas morreu dois dias depois. Mar-
garida Cagliero também morreu um ano depois, em 28 de fevereiro de 1811.
Em 6 de junho de 1812, Francisco Bosco casou-se em segundas núpcias com
Margarida Occhiena e teve dois filhos (José Luís e João Melquior), vindo a
falecer em 11 de maio de 1817, deixando também órfão Antônio com 9 anos
de idade.
Antônio nasceu em 1808, e não em 1803 como dizem Lemoyne e todos
os biógrafos depois dele.51 O engano pode vir de uma carta de 1885 de Fran-
cisco Bosco, um dos filhos de José, ao padre Bonetti, em que equivocadamen-
te dá a data de 3 de fevereiro de 1803.52 Isso corrige a imagem de um jovem
de 22 anos, que briga e acusa um adolescente de 10. Em 1825, quando João
tinha 10, Antônio era um jovem de 17 anos desajustado e, provavelmente
um tanto desequilibrado, que tentava entender o que se passava ao seu redor.
Antônio aprendera a ler e escrever. As certidões de nascimento de últi-
mos filhos trazem a sua assinatura; esses documentos começaram a ser exi-
gidos depois de 1842. O irmão de Dom Bosco, José, porém, assinava os
documentos sempre com uma cruz diante de testemunhas. Suscita, então,
perplexidade que Dom Bosco afirme que seu irmão era um rude analfabeto.53
Depois da divisão da herança de Francisco Bosco entre os filhos (1830),
Antônio casou-se com Ana Rosso, de Castelnuovo, em 22 de março de 1831.
Tiveram sete filhos: Francisco (1832), Margarida (1834), Teresa (1837), João
(1840), Francisca (1843), Nicolau (1845), Catarina (1848), sobrinhos e so-
brinhas de Dom Bosco na linha de seu meio-irmão. Dos homens que so-
breviveram, Francisco (1832-1920) não deixou descendentes homens. João

51
MO, 47
52
Cf. MB I, 25. Essa também é a data que Lemoyne apresenta na biografia de Margarida Bosco.
53
Cf. P. Stella, Vita, 10, nota 16 referida ao texto.

205

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Dom Bosco: história e carisma 1

(1840-1878) teve 4 filhos, dos quais apenas Antônio (II) (1879-1956) conti-
nuou a linhagem da família Bosco.
Antônio construiu uma casa com um só quarto alguns metros a noroeste
da “pequena casa”. Conserva-se um desenho nos arquivos. O lugar servia de
cozinha durante o dia e dormitório das crianças durante a noite, enquanto
os pais dormiam no “quarto principal” da pequena casa, o que foi permitido
por Mamãe Margarida.
Não se sabe como Antônio conseguiu manter uma família tão grande,
com as parcelas de terra que lhe corresponderam na divisão da herança. É
provável que também trabalhasse como emprego assalariado. Em todo caso,
a família viveu em extrema pobreza.
Aos poucos, os descendentes dos Bosco, tanto os de Antônio como os
de José, deixaram os Becchi e foram para outros lugares. Entre 1891 e 1926
suas propriedades foram doadas aos salesianos ou compradas por eles: a parte
da pequena casa correspondente a Antônio foi doada pelos descendentes, em
1919; os de José fizeram o mesmo, em 1926. Em 1929, o histórico centro,
incluindo a casa Cavallo-Graglia e a maior parte da colina, com a proprieda-
de Biglione, já estavam nas mãos dos salesianos.
O Reitor-Mor padre Felipe Rinaldi projetava fazer de toda a colina um
santuário salesiano em vista da beatificação de Dom Bosco (1929). A casa de
Antônio foi demolida em 1915, para dar lugar ao pequeno Santuário de Ma-
ria Auxiliadora, construído entre 1915 e 1918, para comemorar o centenário
do nascimento de Dom Bosco e a instituição da festa de Maria Auxiliadora.54
Antônio morreu quase repentinamente em 18 de janeiro de 1849 aos
41 anos, depois de breve enfermidade. Antônio já não figura na história de
Dom Bosco desde 1831; pode-se ter a impressão de que os dois irmãos conti-
nuaram sempre separados, mas não foi essa a realidade. É provável que tenha
havido algum tipo de reconciliação. As afirmações de Lemoyne nas Memórias
Biográficas devem ser mitigadas:

Seu meio-irmão Antônio que, às vezes, vinha ao Oratório para visitar Mamãe
Margarida e Dom Bosco, morria em 18 de janeiro [de 1849]. Depois de al-
guns dias de mal-estar, que não parecia grave, morreu quase repentinamente
[...]. [Dom Bosco], que não deixara fugir qualquer ocasião para demonstrar
o seu afeto sincero pelo irmão Antônio, seu opositor, assumiu solicitamente
o cuidado de seus 2 filhos. A um deles, Francisco, acolheu no Oratório para

54
A festa de Maria Auxiliadora dos Cristãos foi estabelecida pelo Papa Pio VII em 1815, depois
da derrota de Napoleão, em ação de graças pela sua libertação da prisão.

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As provações de um adolescente (1824-1830)

aprender o ofício de marceneiro e o formou como um bom cristão. O outro,


que continuou nos Becchi, recebeu ajudas de Dom Bosco nos casos de neces-
sidade. Assim se vingam os santos.55

Corrigindo a informação, ao descrever a diáspora dos Bosco, os descen-


dentes de Antônio e José, Stella escreve:

Como o pai, Antônio e José casaram-se logo, aos 23 e 21 anos, respecti-


vamente. Antônio teve 11 filhos e 11 sobrinhos e sobrinhas. José teve 10
filhos e 30 sobrinhos e sobrinhas [...]. Dos filhos de Antônio, 2 meninos
e 2 meninas chegaram à idade adulta [...]. Dos filhos de José, 2 meninos e
2 meninas chegaram à idade adulta [...]. Um dos filhos de José [Francisco,
1841-1911] foi admitido no Oratório como aprendiz [de marcenaria] e
exerceu esse ofício até a morte, em Turim. O outro filho [de José], Luís
(1846-1888), entrou no Oratório como estudante e, depois de alguns estu-
dos, trabalhou num serviço administrativo na carreira jurídica. [Nunca se
casou, mas] conviveu com uma mulher casada, separando-se, por isso, do
restante da família e de Dom Bosco.56

Ao comentar que José, e o colega de José de Sussambrino, mas não An-


tônio, deram suas terras para ajudar o seminarista Bosco a reunir o dote para
sua ordenação, Stella acrescenta:

Dom Bosco, por sua vez, nunca esqueceu a generosidade de seu irmão José,
que diversamente de seu meio-irmão Antônio, se ofereceu para ajudar na co-
leta da quantia requerida para que João se encaminhasse ao sacerdócio. Como
se indicou, 2 dos filhos de José foram aceitos mais tarde em Valdocco pelo tio,
um como estudante e outro como aprendiz. Nenhum dos filhos de Antônio,
porém, foi tão favorecido.57

Dom Bosco teve 2 sonhos sobre Antônio, um em 1831-1832 e outro

55
MB III, 474; cf. I, 237.
56
P. Stella, Economia, 25-26.
57
P. Stella, Economia, 38. Em uma nota (38, n. 26) Stella acrescenta: “Em sua Última vontade,
manuscrito redigido em Varazze em 29 de dezembro de 1871, Dom Bosco não se esqueceu de especi-
ficar os legados a seus sobrinhos e sobrinhas, tanto da família de Antônio como da família de José”. Cf.
ASC A220ss: Testamenti, 3-5 [FDB 73 B7ss]. Deve-se levar em conta, ainda, que pareceria improvável
e bastante contrário ao costume penalizar numa “família hostil” os descendentes inocentes, muito
depois de o chefe da família ter morrido.

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Dom Bosco: história e carisma 1

em 1876.58 Isso parece demonstrar que Dom Bosco se lembrasse do irmão e


não lhe guardasse rancor, embora não fosse visto com simpatia na tradição
biográfica salesiana.

NOTA BIOGRÁFICA DE JOSÉ LUÍS BOSCO,


IRMÃO MAIS VELHO DE DOM BOSCO (1813-1862)

José Luís, o filho mais velho que Francisco Luís Bosco teve com a segunda
esposa, Margarida Occhiena, nasceu em 18 de abril de 1813, não em 8 de abril
como dizem as Memórias Biográficas e todos os demais biógrafos que as seguiram.59
José, nas Memórias Biográficas, é o sujeito de vários episódios e conside-
rações. Aparece como um menino tímido, educado, mas às vezes teimoso.60
“José era de temperamento educado e sereno, bom, paciente e prudente; era
parecido com o pai, e inclinado a servir-se de tudo para tirar vantagem, in-
clusive das coisas que parecem de pouca utilidade. Dessa maneira, se não
gostasse da vida tranquila do campo, poderia ter chegado a ser um negociante
de sucesso”.61
Ele participa com João no episódio da venda do peru.62 José e João
entendiam-se bem.63 Interpretou o sonho de João dizendo que seu irmão
chegaria a ser pastor.64 Para permitir que João estudasse com padre Calosso,
José comprometeu-se a fazer a parte dele no trabalho do sítio.65 No assunto
da divisão da herança familiar, José optou por unir-se a João e Mamãe Mar-
garida.66 Quando João foi para a escola em Castelnuovo e Chieri, José acom-
panhou Mamãe Margarida em suas visitas, “para ver seu irmão”. Nada se diz
sobre o aprendizado de José, que, aparentemente, não teve nenhum. Sabe-se
agora que assinava os documentos com uma cruz diante de testemunhas.67
Após a divisão da herança familiar (1830-1831), José, aos 18 anos, ar-
rendou o sítio Matta, na colina de Sussambrino, perto de Castelnuovo, como

58
MB XII, 187.
59
MB I, 25.
60
MB I, 58.
61
MB I, 94.
62
MB I, 78-79.
63
MB I, 95-96.
64
MB I, 126.
65
MB I, 184.
66
MB I, 214-215.
67
MB I, 224.

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As provações de um adolescente (1824-1830)

meeiro com um amigo, José Febbraro. Margarida foi viver com ele, e João
também esteve em Sussambrino durante as férias de verão.68
Em 18 de março de 1833, aos 20 anos,69 José casou-se com Maria Calos-
so (1813-1874), de quem se fala às vezes como Maria Febbraro (nome de sua
mãe). Sobre o casamento, fala-se de passagem nas Memórias Biográficas.70 Ti-
veram 10 filhos: Margarida (1834-1834), Filomena (1835-1926), Rosa Do-
mingas (1838-1878), Francisco (1841-1911), Félix João (1843-1844), Luís
(1846-1888), Lúcia Teresa (1848-1926), Margarida (1851-1860), Afonso
João (1854-1860) e Miguel Antônio (1856-1857). Das meninas, apenas
Rosa Domingas e Lúcia Teresa chegaram à idade adulta, casaram-se e tiveram
muitos filhos. Dos meninos que chegaram à idade adulta, Francisco Luís
causou desgostos a Dom Bosco devido à vida pouco edificante.71
Em 1839, José deixou a parceria no sítio Matta, quando este foi com-
prado por Alexandre Pescarmona, e retornou aos Becchi.72 Com suas econo-
mias e algum empréstimo, e mais tarde com a ajuda de Dom Bosco, depois
de alguns anos conseguiu construir uma casa perto da pequena casa. Dom
Bosco, ordenado subdiácono no outono de 1840, não tinha dote que, por lei
eclesiástica, era necessário aos candidatos às Ordens Sacras. José ofereceu sua
propriedade para que Dom Bosco pudesse cumprir esse requisito.73 Ao longo
da vida, José ajudou Dom Bosco de todas as maneiras possíveis, enviando-lhe
produtos do sítio para o Oratório e dando ao irmão inclusive algum dinheiro
que tinha guardado para melhorar o sítio.74
Durante a época do Oratório itinerante (1844-1846), Dom Bosco foi
ocasionalmente aos Becchi para um pequeno descanso. José reservara um
quarto para ele na casa, a oeste, no segundo andar; os quartos da família
ocupavam o restante da casa. Em 1846, depois de instalar-se em Valdocco,
Dom Bosco passou cerca de três meses nos Becchi, recuperando-se da grave
enfermidade que quase o levou à sepultura.75 Quando a pequena casa ficou
vazia, depois de Antônio construir a sua própria casa muito próxima, Dom
Bosco continuava a ir à “sua casa”, ou seja, a casa de José.

MB I, 237.
68

Não aos 21 anos, como Stella sugeriu anteriormente [Nota dos editores].
69

70
MB I, 328.
71
MB XVIII, 532.
72
MB II, 18.
73
MB I, 367. Lemoyne cita as Memorias de Don Bosco, mas as Memorias del Oratorio não
mencionam tal coisa.
74
MB IV, 485. Cf. também MB III, 52; IV, 150.
75
MO, 189; MB II, 408-409.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Em 1848 foi aberta uma porta na parede oeste da casa de José. Um dos
quartos foi remodelado e preparado como capela, benzida em 12 de outu-
bro pelo padre Pedro Antônio Cinzano, pároco de Castelnuovo, depois de o
Vigário de Turim emitir o decreto de aprovação. A capela dedicada a Nossa
Senhora do Santo Rosário foi o primeiro santuário religioso na história da
aldeia dos Becchi. Ela tinha como objetivo servir de centro local de devoção,
assim como lugar de peregrinação para os meninos do Oratório. Aqui, o clé-
rigo Rua recebeu a batina em 1852,76 e aqui Domingos Sávio encontrou-se
com Dom Bosco pela primeira vez em 1854.77
Para a inauguração da capela, Dom Bosco trouxe 16 meninos de Turim,
numa das primeiras excursões que se repetiriam anualmente durante o outo-
no até 1864. Quando chegavam aos Becchi, os meninos costumavam dormir
no celeiro-sótão que Dom Bosco construíra como um terceiro andar.78 Caso
o número dos participantes fosse maior, às vezes chegaram a mais de 100, os
que não cabiam, dormiam no celeiro situado sobre o estábulo a leste da casa.
José esteve ao lado de Mamãe Margarida quando ela ficou doente e
morreu no Oratório de Turim, no dia 25 de novembro de 1856. Ouviu suas
últimas palavras de recomendação e comunicou sua morte a Dom Bosco,
que saíra do quarto a pedido da mãe.79 Um mês após a morte de Mamãe
Margarida, quando visitava Dom Bosco no Oratório, José foi acometido
de pneumonia. Dom Bosco rezou e fez com que rezassem à Virgem; José
recuperou-se e pôde retornar aos Becchi.80
Lemoyne afirma que José teve premonição da morte quando visitou o
Oratório para confessar-se e falar de “um problema” com Dom Bosco. Retor-
nou logo para casa e “colocou todas as coisas em ordem, como se estivesse cer-
to da morte, embora se sentisse em perfeita condições”. Uma semana depois,
ficou doente. Dom Bosco alugou um coche e correu para estar ao seu lado. No
dia seguinte, 12 de dezembro de 1862, José morreria nos braços do irmão.81
Lemoyne recorda o bom caráter e as virtudes cristãs de José: “Em
Castelnuovo e nas aldeias próximas, era muito conhecido como pessoa de
talento singular, honrado e generoso [...]. Suas muitas virtudes procediam
da educação cristã que lhe fora dada por sua mãe Margarida”.82

76
MB IV, 487-485.
77
MB V, 122-123.
78
MB IV, 482-484.
79
MB V, 560-565.
80
MB V, 602-603.
81
MB VII, 340.
82
Ibid.

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As provações de um adolescente (1824-1830)

NOTA BIOGRÁFICA DO PADRE JOÃO


MELQUIOR CALOSSO (1760-1830)

João Melquior Calosso nasceu em Chieri em 1760, segundo consta


no registro da Catedral. Um tio padre foi provavelmente o responsável de
que João e seu irmão Carlos Vicente entrassem no seminário de Turim em
1775-1776. Os relatos situam-no no terceiro ano de teologia em 1779-1780.
Não se tem informação sobre os anos seguintes, podendo-se presumir que
completou o quarto e o quinto ano com regularidade; obteve a licença em
teologia na Universidade de Turim e foi ordenado em 1782. Em 1791 foi no-
meado pároco de Bruíno, na arquidiocese de Turim. Em 1807 foi acusado de
atividades contra a administração francesa; graças à diplomacia do arcebispo
Jacinto Della Torre, livrou-se das consequências.
Foram muito mais sérias as acusações apresentadas contra ele em de-
zembro de 1812 da parte de um grupo de notáveis jacobinos anticlericais da
cidade. Esses indivíduos subornaram alguns de seus paroquianos para que
o acusassem de “imoralidade abominável”. Contudo, numa carta de 13 de
janeiro de 1813, uma senhora de nome Henriqueta de Malines testemunhava
sobre o caráter moral, bom exemplo e zelo pastoral do padre Calosso e insis-
tia que as acusações caluniosas contra ele foram perpetradas por pessoas que
desejavam sua saída da paróquia. Diante de tantas acusações injustas, padre
Calosso renunciou à paróquia e retirou-se à vida privada.
O irmão do padre Calosso, Carlos Vicente, nesse mesmo ano (1813)
foi nomeado administrador da paróquia de Mezzenile, cargo que ocupou até
1819. Em seguida ganhou a paróquia de Berzano São Pedro, onde ficou de
1819 a 1824. Acredita-se que o padre Calosso tenha auxiliado seu irmão. Os
registros paroquiais de Berzano mostram que administrou alguns batismos
ali. Pode ter sido hóspede do irmão. Contudo, não foi capelão em nenhuma
das aldeias de Berzano, porque os registros mostram que nessa época as cape-
lanias estavam vacantes. Em 1823, padre Calosso era vigário substituto em
Carignano; enfim, no verão de 1829, assumiu o cargo de capelão da Capela
de São Pedro em Murialdo.
João Bosco encontrou-se com padre Calosso nos inícios de novembro
desse mesmo ano, pouco depois de retornar do sítio Moglia, por ocasião da
pregação do Jubileu de 1829, tornando-se, depois, seu aluno e protegido. O
bom padre morreu pouco depois, em 21 de novembro de 1830.

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Capítulo VIII

JOÃO BOSCO NA ESCOLA DE


CASTELNUOVO E OS MOVIMENTOS
REVOLUCIONÁRIOS DOS INÍCIOS DE 1830

1. O primeiro encontro com José Cafasso, seminarista


Após relatar a morte do padre Calosso e antes de mencionar seu sofri-
mento, sua doença e o sonho da repreensão, Dom Bosco fala do encontro com
o seminarista José Cafasso, assinalando a data do fato em outubro de 1827.
Também aqui as datas nas Memórias estão defasadas, ao menos dois
anos, em vista da omissão do período Moglia e o erro em datar o encontro
com padre Calosso. É muito mais provável que o encontro de João com o
seminarista Cafasso tenha acontecido nas férias do verão de 1830. João estu-
dava então com o padre Calosso, e Cafasso, estava em Castelnuovo, passando
as férias de verão, depois de terminar o segundo ano de teologia no seminário
de Chieri. Tinha 19 anos de idade.1
Dom Bosco afirma que o encontro se deu no segundo domingo de
outubro, festa da Maternidade de Maria, festa principal de Murialdo que,
em 1830, caiu no dia 12 de outubro. A capela, porém, era dedicada a
São Pedro (29 de junho); o patrono da aldeia era Santo André. As duas
festas eram celebradas na aldeia com uma feira. Enquanto as celebrações
estavam em todo o seu esplendor, João Bosco viu um jovem seminaris-
ta à porta da igreja. Às palavras de João: “Senhor cura, quer ver algum
espetáculo da nossa festa? Eu o levo com muito gosto aonde desejar”,2 o
seminarista replicou que as funções da igreja eram a diversão apropriada
para um padre. João soube mais tarde que o nome do seminarista era José
1
José Cafasso (1811-1860) frequentou a escola secundária de Chieri. Como ainda não havia
seminário em Chieri, foi para o curso de filosofia dirigido pelos dominicanos nessa cidade. Concluída a
filosofia, iniciou a teologia como seminarista externo sob a direção do pároco de Castelnuovo. Quando
foi aberto o seminário de Chieri em outubro de 1829, entrou no segundo ano de teologia e foi ordenado
padre em 1833.
2
MO, 47.

212

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João Bosco na escola de Castelnuovo e os movimentos revolucionários dos inícios de 1830

Cafasso. O primeiro encontro iniciou um importante relacionamento.


Padre Cafasso será mais tarde um protagonista significativo no itinerário
vocacional de Dom Bosco.

José Bosco, meeiro


A divisão da herança Bosco, em fins de 1830, havia liberado João do
controle de Antônio. Margarida decidiu matriculá-lo na escola de Castelnuo-
vo, à custa de enormes sacrifícios. José, aos 18 anos, decidiu fazer parceria
com um colega no sítio Matta, em Sussambrino,3 situado a meio caminho
entre os Becchi e Castelnuovo. Era uma opção imposta pela pouca terra que
possuíam e dava apenas para sustentar Margarida, João e a família de José
quando contraísse matrimônio, algo inevitável num futuro próximo. Mar-
garida foi viver com José em Sussambrino, mas a pequena casa dos Becchi
continuou aberta. A ida para Sussambrino deve ter acontecido no inverno
de 1830-1831, já que o tempo válido para contratos agrícolas terminava em
25 de março. O inverno de 1830-1831 também foi o tempo em que João se
inscreveu na escola de Castelnuovo.

João Bosco na escola de Castelnuovo


João Bosco começou a participar da escola fundamental de Castelnuovo
em dezembro de 1830. O motivo da apresentação tão tardia foi a morte do
padre Calosso em 21 de novembro; as aulas tinham iniciado em 3 de no-
vembro, depois do dia de Todos os Santos, mas João esteve adoentado algum
tempo depois da morte do benfeitor.4
Dom Bosco escreve nas Memórias que ele precisava caminhar 5 qui-
lômetros quatro vezes por dia para ir e voltar da escola.5 Ia dos Becchi a
Castelnuovo, pela manhã, e retornava depois das aulas para o almoço; em
seguida, voltava a Castelnuovo e, à tarde, retornava aos Becchi. Se José e
Margarida já estavam estabelecidos no sítio de Sussambrino, situado a não
mais de 2 quilômetros de Castelnuovo, João devia percorrer uma distância
muito mais curta para frequentar a escola.
Pouco tempo depois, o tio Miguel Occhiena encontrou um lugar para
João em Castelnuovo com certo João Roberto, alfaiate e músico. Inicialmente,

3
Este nome não se refere à aldeia, mas a uma pequena colina isolada e junto ao vale, a pouco
mais de uma milha ao sul de Castelnuovo.
4
MO, 48.
5
MO, 49.

213

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Dom Bosco: história e carisma 1

João só se servia do local para o almoço, que trazia de casa todos os dias. De-
pois, no tempo do frio e das borrascas noturnas, dormiria ali, talvez, sem jantar.
Enfim, tornou-se residente fixo. Por uma quantia razoável, que se podia pagar
em espécie, com milho e vinho, o senhor Roberto concordou em dar uma sopa
quente ao meio-dia e à noite, e um lugar para dormir, um pequeno desvão de-
baixo da escada. Margarida fornecia-lhe comida para a semana inteira.
João, com mais de 15 anos, unia-se nas aulas a meninos muito mais
jovens. Sua escolaridade até então e seu desenvolvimento cultural tinham
sido intermitentes. A roupa e os sapatos que usava eram de um “vaqueiro
dos Becchi”. Apesar disso, os quatro primeiros meses foram uma grata
experiência para ele. Isso se deveu, em grande parte, ao professor padre
Manoel Virano, um dos coadjutores da paróquia, pessoa muito capaz e
dedicada, que deu a João a oportunidade de demonstrar o próprio caráter,
inteligência e memória. Nos últimos meses do ano escolar, as coisas piora-
ram. Em abril de 1831, padre Virano foi nomeado pároco de Mondônio,
sendo sucedido como professor pelo padre Nicolau Moglia, de 75 anos,
recebendo dele algumas aulas de latim. Parece que este padre era incapaz
de manter a disciplina; cheio de preconceitos, ele desprezava o “vaqueiro
dos Becchi” como caso perdido, humilhava-o quando podia e permitiu
aos demais que o atormentassem nas aulas. Nas Memórias, Dom Bosco
não o menciona pelo nome, mas diz que o substituto era “incapaz de
manter a disciplina, quase deitou a perder quanto eu havia aprendido nos
meses anteriores”.6
Durante sua permanência em Castelnuovo, João experimentou as pri-
meiras sérias tentações sob a forma de “más companhias”: convidavam-no
para gazetear as aulas, jogar e roubar.7 Poderia parecer estranho, mas não
impossível, embora levando em conta a finalidade educativa das Memórias.8
Em todo caso, as visitas semanais de Margarida, sua precoce preparação mo-
ral, a oração, a devoção a Nossa Senhora do Castelo, os sacramentos, que
continuou praticando fielmente e não só para cumprir as normas da escola,
permitiram que ele superasse tudo.

6
MO, 51.
7
MO, 50.
8
Ao ler as passagens relativas aos professores e aos “maus companheiros”, deve-se recordar “a
finalidade educativa” das Memórias, como já se comentou.

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João Bosco na escola de Castelnuovo e os movimentos revolucionários dos inícios de 1830

Igreja paroquial de Castelnuovo.

2. Importância do ano em Castelnuovo


O ano em Castelnuovo não foi uma perda total, embora o progresso
tenha sido escasso.

A aprendizagem de João com o padre Lacqua, em Capriglio, deve situar-se


como um episódio normal na vida de um camponês [não se espera mais dele].
O ano na escola municipal de Castelnuovo, por outro lado, é considerado
como ligação inicial do conjunto [educativo] estabelecido relacionado com
Chieri e Turim.9

A decepção vivida em suas intenções falidas de aproximação do clero lo-


cal, visto como frio e distante, em contraste com a disponibilidade dos padres
Calosso e Virano, mostraram-lhe a necessidade de um contato completamente
diferente com os jovens, se chegasse algum dia a ser padre. Stella faz um comen-
tário sobre a incapacidade de João de “romper o gelo” e sobre seus julgamentos
pejorativos, nascidos certamente do carinho pelos padres do lugar.10

9
P. Stella, Economia, 29.
10
P. Stella, Vita, 20-21. Sua avaliação sobre os professores e o clero em termos educativo-pasto-
rais no tempo de escola e de formação está em consonância com a finalidade educativa das Memórias.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Em seu tempo livre, João começou a ocupar-se de coisas úteis. Do se-


nhor Roberto, músico e alfaiate, aprendeu música, a tocar o clavicórdio e
o órgão, a costurar e cortar roupas. Depois de consultar sua mãe, começou
a empregar algumas horas do dia como aprendiz de Evásio Sávio, ferreiro
local. Não adivinhava, então, que um dia precisaria desses ofícios. Contudo,
levando-se em conta a finalidade educativa das Memórias, não se deve dar
excessiva importância a essas atividades extracurriculares.
Entretanto, sem dúvida desiludido e desmoralizado pela vileza de seu
segundo professor, a João cabia apenas esperar as férias de verão-outono no
sítio de Sussambrino.

Férias de verão no sítio Matta, de Sussambrino


Depois do ano escolar de Castelnuovo, João uniu-se a sua mãe e ao ir-
mão José em Sussambrino, para passar com eles os meses das férias de verão
de 1831. Rosa Febbraro, filha de José Febbraro, recordou que ele empre-
gava o tempo estudando e, às vezes, descuidando-se de cuidar dos animais
enquanto pastavam. Mas ela não se importava de cuidar das vacas de João,
enquanto ele se dedicava às suas outras coisas.
Quando frequentava a escola em Castelnuovo, João fez amizade com
José Turco, um menino mais velho, cuja família era proprietária de terras e de
uma vinha limítrofe com o sítio Matta em Sussambrino, na parte chamada
Renenta, nome de uma fonte natural da região. O velho senhor Turco, pai do
jovem, incentivava João sempre que o encontrava. José Turco testemunharia
no processo de beatificação, em 1892, que João contou para ele e sua irmã
Lúcia um sonho que o confirmava em sua vocação.11
Durante as férias, na tranquila solidão do sítio, João, seu irmão José e
Margarida, e, sem dúvida, seu tio Miguel e, possivelmente, sua tia Mariana,
puderam avaliar com calma a experiência de Castelnuovo. A decisão foi que
João pedisse uma vaga na escola secundária de Chieri.

3. As revoluções de 1830-1831 e o avanço do Ressurgimento


Os anos 1830-1831, enquanto João Bosco se esforçava em Castelnuovo,
preparando-se para a escola secundária de Chieri, foram novamente mar-
cados pelas revoltas revolucionárias e outros acontecimentos políticos que
contribuíram para o avanço do Ressurgimento italiano.12

POCT, Sessão 89, 4 de julho de 1892, ASC A265-A273: Deposizione dei testi; FDB 2,135 C2-11.
11

12
J. A. R. MARRIOTT, The makers of modern Italy: from Napoleon to Mussolini. Oxford Univer-
sity Press, London: Humphrey Milford, 1931, 52-55, 56-68.

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João Bosco na escola de Castelnuovo e os movimentos revolucionários dos inícios de 1830

A intensa retomada do espírito liberal teve origem na França, onde os


“legítimos” reis, os Bourbon, tinham liderado a Restauração. A chamada re-
volução de julho de 1830 apressou o fim da Restauração na França e exerceu
influência considerável no movimento liberal italiano.
Em fevereiro de 1831 estourou a revolução nos Estados Pontifícios; des-
de Bolonha, o movimento estendeu-se rapidamente a Forlí, Ravena e outras
cidades da Romanha, que estavam sob o governo do Papa. Em Ferrara, a
despeito da presença do quartel austríaco, os Legados papais foram expulsos
e instalou-se um governo provisório. Em poucos dias, toda a Úmbria e as
Marcas, territórios dos estados papais, seguiram o exemplo. Apenas no Pa-
trimônio de São Pedro (Roma, o Lácio e o território limítrofe) a autoridade
papal enfrentou a situação. O novo Papa Gregório XVI, apenas eleito em 1º
de fevereiro, permitiu concedeu algumas concessões pouco relevantes para os
desejos do povo e precisou buscar a ajuda da Áustria.13
As tropas da Áustria entraram nos distritos rebeldes e, até o final de
março, restauraram a autoridade do duque de Módena e a do Papa em
todos os seus domínios. O Papa Gregório XVI prometeu reformas aos súdi-
tos, mas não as realizou. Por isso, assim que as tropas austríacas deixaram os
Estados Pontifícios em julho de 1831, voltaram as revoltas. As tropas aus-
tríacas retornaram somente para comprovar que uma força militar francesa
se lhes antecipara. França e Áustria rivalizavam, dessa forma, para “prote-
ger” o Papa e obter influência na Itália, o que só serviu para complicar os
problemas na Itália.14

Mazzini e a Jovem Itália


Não obstante a intervenção militar austríaca, o movimento patriótico
continuava a progredir. Teve grande mérito o novo impulso dado pela políti-
ca italiana à organização fundada por José Mazzini (1805-1872).

13
Em Módena, deu-se uma insurreição em 5 de fevereiro, e o duque Francisco IV, a fim de se
salvar, fugiu para o território da Áustria levando consigo Ciro Menotti, chefe dos liberais de Módena,
que ali foi enforcado. Parma seguiu o exemplo da vizinha Módena, e a imperatriz Maria Luísa, apesar
da sua popularidade pessoal, se retirou para Piacenza, nos domínios da Áustria. Foi reconduzida mais
tarde pelas tropas austríacas e a paz reinou novamente no seu território.
14
Luís Felipe, em sua ascensão ao trono, optara pela não intervenção, mas as repetidas intro-
missões das tropas austríacas nos Estados Pontifícios levantaram os franceses. Antes de os austríacos
chegarem a Ancona, uma força francesa os precedeu em fevereiro de 1832. Metternich recusou-se a
deixar o seu papel de protetor do Papa, enquanto Luís Felipe se manteria ali até que os austríacos fos-
sem embora. Dessa forma, durante seis anos (1832-1838), os dois exércitos se enfrentaram nos Estados
Pontifícios. Evitou-se a guerra, mas o patronato das Grandes Potências criou uma nova situação para o
movimento patriótico na Itália.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Nascido em Gênova e educado na Universidade local, ele captou ra-


pidamente o espírito revolucionário; atraído ao princípio dos carbonários,
desiludiu-se pela sua falta de direção. Em 1831, enquanto vivia no exílio em
Marselha, fundou uma sociedade secreta revolucionária, La Giovane Italia [A
Jovem Itália], que tinha como finalidade libertar a Itália do governo estran-
geiro e estabelecer uma república democrática.
Em 1831, Carlos Alberto de Saboia-Carignani sucedeu a Carlos Félix,
que morrera sem deixar herdeiro homem. Mazzini, ao enviar-lhe a famosa
“carta aberta ao novo Rei”, estimulava-o a tomar as armas e livrar a Itália do
domínio austríaco. Como a carta vinha de um republicano declarado, não
surtiu efeito; ao contrário, o rei ordenou a prisão de Mazzini caso tentasse
cruzar a fronteira e entrasse na Itália.
Mazzini e seus companheiros planejaram estender as insurreições com
o falido complô para matar o rei em 1832, a insurreição no Piemonte em
1833, prontamente reprimida, e a “desafortunada” expedição à Saboia em
1834. Expulso da França e da Suíça, Mazzini viveu exilado na Inglaterra, mas
nunca deixou de promover complôs para fazer avançar seu programa político.
Era essa a situação política predominante enquanto João Bosco fre-
quentava a escola de Castelnuovo em 1831 e pouco mais tarde em Chieri.
Dom Bosco não se refere a ela em suas Memórias. Provavelmente, quando
as escrevia, nos anos de 1870, os acontecimentos já não eram significativos.
Entretanto, como jovem estudante, conheceu e viveu tempos difíceis. Polícia
armada e espiões do governo eram destacados para as cidades e localidades
maiores, incluindo Chieri. Os estudantes foram proibidos de usar distintivos
e eram vigiados. É improvável que João vivesse essas experiências sem conhe-
cimento ou preocupação.

218

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Apêndice

A REFORMA ESCOLAR DO REI CARLOS FÉLIX

Quando João Bosco se matriculou na escola primária de Castelnuovo,


o sistema escolar era regido pela reforma educativa realizada pelo rei Carlos
Félix em 1822.15 A intenção da reforma era restaurar no reino da Sardenha
o sistema de educação fundamental e secundária, retornando à forma pré-
-napoleônica e pré-revolucionária.
O sistema contemplava três tipos de escola nos níveis fundamental e se-
cundário. A escola municipal era uma escola de nível fundamental com dois
anos de instrução básica. Criada em todas as cidades, como Castelnuovo, era
financiada pelo município e gratuita para os estudantes. A escola pública era
uma escola de nível secundário, com um programa de instrução de seis anos,
estabelecida nas principais cidades, como Chieri. Embora financiada pelo mu-
nicípio, devia-se pagar uma pequena taxa de matrícula. A escola régia ou colégio
real também era uma escola de nível secundário, com um programa de seis
anos; estabelecida na capital provincial e em outras cidades importantes, era
financiada pelo tesouro real. Apesar do nome, o colégio real de Chieri frequen-
tado por João Bosco era apenas uma escola secundária pública.
Para supervisionar a reforma, foram instituídas algumas autoridades: um
magistrado central da Reforma e, sob a sua dependência, um administrador e
um delegado local. A determinação mais importante e inovadora, que se teve do
sistema de Napoleão, foi tornar obrigatória a escola fundamental de dois anos
para os meninos com 7 anos ou mais. As principais normas da escola funda-
mental impunham o ensino da leitura, da escrita e do catecismo diocesano no
primeiro ano; da língua italiana, da aritmética e da doutrina cristã, no segundo.16
15
A reforma escolar de 1822 é importante, porque João Bosco recebe sua educação básica dentro
dessas leis. Sublinhamos aqui apenas as determinações básicas que se referem à escola fundamental
(mais tarde comentaremos as da secundária). O documento da reforma foi redigido pelo jesuíta padre
Luís Tapparelli D’Azeglio, irmão do estadista liberal Máximo D’Azeglio.
16
A instrução do catecismo no primeiro ano consistia em aprender as perguntas e respostas do
catecismo diocesano, das quais o professor oferecia uma simples explicação das palavras do texto. A

219

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Dom Bosco: história e carisma 1

Nas pequenas localidades, em geral um professor dava as aulas dos dois


anos numa mesma sala. Nas cidades maiores, nas quais o número dos alunos
superasse os 70, empregavam-se dois professores e usavam-se duas salas. Um
professor ensinava o primeiro ano e o outro, o segundo em outra sala.
O ano escolar começava em 3 de novembro e durava até o final de se-
tembro. As aulas eram dadas em seis dias por semana e seis horas por dia: três
pela manhã e três à tarde. O delegado da Reforma, de acordo com o prefeito,
o pároco ou os párocos, estabeleciam o horário do dia escolar, cuidando para
que todas as crianças, inclusive as das famílias camponesas, ficassem livres de
participar conforme as estações do ano. Os meninos e as meninas tinham
aulas em separado, também em outro edifício.17
O crucifixo era colocado em todas as escolas fundamentais locais. O pe-
ríodo da manhã começava com as orações e terminava com a ação de graças
(o Agimus). O período da tarde começava com o Actiones e terminava com
as orações da tarde. A primeira meia hora de cada manhã era empregada no
estudo do catecismo diocesano. O período de três horas da tarde dos sábados
devia ser dedicado à instrução na doutrina cristã. As ladainhas da Santíssima
Virgem Maria encerravam as aulas diárias.
Professores e párocos deviam elaborar um sistema que permitisse aos
alunos ir à missa na escola ou na igreja paroquial antes do início das aulas e
confessar-se uma vez por mês. Os estudantes deviam apresentar um certifi-
cado bimensal de confissão e, nos domingos e dias santos, deviam assistir ao
catecismo e às funções de igreja em suas respectivas paróquias.
Todos os professores deviam obter um certificado do bispo sobre a sua
preparação moral e religiosa e um certificado de capacitação, expedido depois
de fazerem os exames de qualificação perante as autoridades da Reforma. Os
professores que não conseguissem esse certificado dentro de um ano a partir
da publicação das normas, não podiam cobrar seu salário.
As escolas primárias deviam ser financiadas pela prefeitura local, como
também os edifícios e salários dos professores. Apesar da obrigatoriedade da
escola e sua gratuidade, apenas um pequeno número de crianças se matriculava.
Eram essas, em resumo, as disposições da Reforma relativas à escola fun-
damental, segundo as quais funcionava a escola municipal de Castelnuovo.

instrução da doutrina cristã do segundo ano também era fundamentada no mero texto e consistia num
resumo básico da Bíblia, da história da Igreja e de alguns de seus ensinamentos.
17
São criadas escolas separadas para meninos e meninas. Não existia coeducação nem coinstru-
ção nem mesmo no nível fundamental.

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Capítulo IX

JOÃO BOSCO NA ESCOLA SECUNDÁRIA


PÚBLICA DE CHIERI (1831-1835)

1. A cidade de Chieri
“Depois de tanto tempo perdido – recordava Dom Bosco –, ficou re-
solvido que eu iria para Chieri, a fim de aplicar-me com seriedade ao estudo.
[...] Para quem foi criado na roça e só conheceu um ou outro povoado do
interior, qualquer novidadezinha causa grande impressão”.1
Chieri situa-se 12 quilômetros a sudeste de Turim, no centro do Pie-
monte.2 Naqueles anos, era uma cidade com cerca de 9 mil habitantes. A
cidade, pelo lado nordeste, era flanqueada pelas últimas colinas cobertas de
vinhedos, que produziam vinho de alta qualidade. Estabelecida em parte na
planície e em parte no declive, a cidade gozava de uma posição saudável.
João Bosco passou dez anos nessa bela cidade provinciana, quatro na es-
cola secundária e seis no seminário, antes de ser ordenado, em 1841. Os anos
passados na escola secundária (real colégio) e no seminário foram decisivos
para sua educação e formação.
Enquanto a Revolução Industrial transformara a Inglaterra e a maioria dos
países do norte europeu, no norte da Itália, a maior parte do povo ocupava-se

MO, 51.
1

Fundada no tempo da República Romana (século II a.C.), provavelmente como posto militar,
2

Chieri dependia, na Idade Média, do bispo de Turim, que a repartia como feudo entre várias famílias,
que formavam a comuna senhorial de Carrium. Viu-se envolvida mais tarde em lutas sangrentas contra
Turim e contra o vizinho Ducado do Monferrato, obrigando sua fortificação para defender-se. Nos
períodos de liberdade, Chieri foi uma “república” governada por um senado democrático. Nos séculos
XIV-XV esteve sob a proteção dos duques de Saboia. Durante muitos anos, porém, a cidade foi dila-
cerada pelos contínuos conflitos entre famílias nobres. Era conhecida como Carrium Turritum (Chieri
das Torres), por causa das inúmeras torres edificadas como sinal de prestígio de uma casa nobre. No
século XVI foi ocupada em diversas épocas por franceses e espanhóis envolvidos em suas guerras contra
os Saboia. No período seguinte, sob o domínio Saboia, fazia parte da província e diocese de Turim. Em
1785, vésperas da Revolução Francesa, o rei Vítor Amadeu de Saboia entregou-a como herança ao seu
filho Vítor Emanuel, duque de Aosta, com o título de Príncipe.

221

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Dom Bosco: história e carisma 1

na agricultura. Lentamente, surgia uma classe média de comerciantes e indus-


triais; sob sua liderança teve início o desenvolvimento econômico que conti-
nuou com sempre maior intensidade de 1840 a 1850. Chieri era famosa pela
indústria têxtil. Cerca de 30 oficinas produziam tecido de linho, algodão, seda
e lã. Foi crescente a produção do linho, o cultivo das amoreiras para o bicho-
-da-seda e a criação de ovelhas merinas.
A atmosfera religiosa penetrava todos os aspectos da vida na cidade.
Chieri, que pertencia à diocese de Turim, possuía duas paróquias. A maior e
mais importante era a Colegiada de Santa Maria della Scala, conhecida como
Duomo, ou catedral, por ter sido sede diocesana em outros tempos. Um
colégio de quinze cônegos desempenhava conjuntamente o cargo de reitor
e mantinha dois coadjutores que governavam a paróquia. A igreja paroquial
menor, dedicada a São Jorge, elevava-se na parte mais alta da cidade. Todas
as funções litúrgicas “paroquiais”, exceto o batismo e a extrema-unção, eram
realizadas no Duomo. No século XVIII houve uma terceira igreja, menor,
a paróquia de São Pedro. Os párocos das igrejas menores eram eleitos pelos
paroquianos. Os benefícios, anexos às paróquias, eram consideráveis, parti-
cularmente os do Duomo.
Um relatório de 1753 anota a presença adicional de clero secular na cidade
de Chieri: 17 padres e 10 seminaristas, todos do lugar, e outros 10 seculares de
fora. Contava, também, com um bom número de mosteiros e conventos.3 Em
Chieri também atuavam várias confrarias, cada uma com sua base numa igreja
ou capela dotada de benefícios. Instituições de caridade (hospitais) proviam à
saúde básica e outras prestavam serviços sociais (casa para órfãs).

A escola secundária pública


Chieri gloriava-se de possuir uma florescente escola secundária para me-
ninos. Inscreviam-se nela também meninos das proximidades e de cidades

3
Segundo o relatório, havia 26 dominicanos no mosteiro de São Domingos (15 padres, 5 leigos e 6
noviços); no de São Francisco, 11 franciscanos conventuais (6 padres, 2 professos escolásticos, 2 leigos e um
terciário); na igreja de Santo Agostinho, 12 agostinianos (6 padres, 3 escolásticos e 3 leigos); no de Santo
Antônio Abade, 27 jesuítas (6 padres, 5 irmãos e 16 noviços), na Igreja da Consolata, 3 barnabitas (2 padres
e 1 irmão); no Oratório de São Felipe, 17 oratorianos (12 padres e 5 irmãos); na paróquia de São Jorge, 14
frades menores (8 padres, 2 seminaristas e 4 leigos); no convento de São Maurício, 22 frades capuchinhos
(9 padres, 4 leigos e 9 noviços); no de Nossa Senhora Rainha da Paz, 26 franciscanos reformados (16
padres, 5 leigos e 5 noviços). Era nesta comunidade que João Bosco, durante um tempo de discernimento
em 1834-1835, pensava entrar. Havia, também, comunidades de religiosas: monjas cistercienses, clarissas e
dominicanas, cada uma com mais de 40 irmãs professas e outro pessoal. As comunidades, masculinas e fe-
mininas, tinham sido suprimidas por Napoleão e seus mosteiros e conventos transferidos à cidade. Depois
de sua derrota, a Restauração devolveu-os às comunidades e muitas delas tinham retornado. João Bosco
conheceu esse ressurgimento da vida religiosa em Chieri durante sua permanência na cidade.

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João Bosco na escola secundária pública de Chieri (1831-1835)

distantes. Fora fundada em 1820 segundo o antigo sistema escolar pré-napo-


leônico. Inicialmente situava-se no mosteiro dos padres do Oratório de São
Felipe Neri. Essa comunidade, que regressara após a supressão de Napoleão,
deixou de existir pouco depois por falta de pessoal.
Em 1822, os programas acadêmicos e educativos da escola foram re-
organizados de acordo com a reforma decretada pelo rei Carlos Félix. A
escola voltou a localizar-se nos edifícios adquiridos do orfanato de meni-
nas na rua principal.4

A antiga escola pública de Chieri.

Em 1831-1832, primeiros anos de João Bosco em Chieri, os alunos


chegavam a 159. Relatórios do arquivo local confirmam o que Dom Bosco
afirma nas Memórias: a direção era dos dominicanos. Seu diretor, o decano,
era padre Pio Eusébio Sibilla. A escola regia-se segundo a observância estrita

4
Afirmações de Lemoyne corrigidas, cf. MB I, 250.

223

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Dom Bosco: história e carisma 1

do programa de reformas imposto pelo rei Carlos Félix5 em tudo que se re-
ferisse à administração, formação religiosa, educação, programa de estudo e
disciplina. O documento que promulgou a Reforma define, pois, muito bem
o tipo de educação recebida por João Bosco na escola secundária durante
uma etapa particularmente sensível de sua vida: dos 16 aos 20 anos.

2. João Bosco na escola de Chieri (1831-1835)


Durante as férias de verão-outono em Sussambrino em 1831, a famí-
lia de João decidira que ele se matriculasse na escola secundária pública de
Chieri. João começou, então, a ajuntar dinheiro e pertences para sua manu-
tenção e alojamento. Em certa ocasião foi ao festival do patrono na cidade de
Montafia e subiu no pau-de-sebo, ganhando o prêmio de 20 liras. Dedicou-
-se também a pedir ajudas e até o final de outubro tinha quase superado
sua natural repugnância. Padre Dassano, pároco de Castelnuovo, e um leigo,
animaram-no e ajudaram-no economicamente.6
Em fins de outubro, João obteve do pároco a permissão de admissão.
Em 4 de novembro de 1831 caminhou 5 quilômetros até Chieri com um
companheiro estudante, João Filippello, que também seria seu companheiro
no seminário e seu amigo para sempre. No caminho – contou Filippello no
processo de Beatificação em 1892 – João Bosco disse ao companheiro que
seria padre, mas não padre de paróquia.7

Enquadramento e acontecimentos significativos


Dom Bosco não fornece muita informação nas Memórias sobre o tem-
po de estudante. Não revela praticamente nada da sua vida interior, exceto
quando fala do discernimento vocacional. Igualmente, só muito brevemente,
refere-se à prática religiosa e seus exercícios espirituais, embora essa brevidade
possa ser compensada com as normas do rei Carlos Félix. Elas oferecem al-
guma reflexão de natureza educativa, enquanto descreve com certa extensão
sua “experiência de oratório”, “seu nobre ministério” e atividades sociais. En-
tretém-se consideravelmente ao falar da sua bravura como estudante e atleta
nos jogos após as aulas.8

S. Caselle, Giovanni Bosco, 40-43.


5

Parece que a família de João, Mamãe Margarida e seu irmão José, não podiam contribuir de
6

maneira significativa.
7
POCT, Sessão 91, julho 8, 1892, ASC A265ss: Deposizione dei testi; FDB 2,135 C12-D11.
8
Este exame pode servir de guia para uma leitura crítica de MO e MB: MO, 51-66 e MB I,
247-285.

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João Bosco na escola secundária pública de Chieri (1831-1835)

Basicamente, a imagem projetada é a de um jovem exuberante que expe-


rimenta pela primeira vez uma relativa liberdade, e percebe seus perigos e suas
possibilidades. É um extrovertido que encontra seu espaço e, depois, ganha
ascendência moral e se torna líder entre seus colegas. Animado no trabalho
escolar e nos estudos com a ajuda de uma prodigiosa memória, dedica a maior
parte do tempo a Exercícios Espirituais, leituras, trabalhos e divertimentos.
Em Chieri, João amadureceu; poderíamos pensar que tivessem acabado
todas as suas dificuldades. Isso, certamente, não foi verdade.

O sexto, o quinto e o quarto anos de Gramática em um só ano


[1831-1832]
Margarida Bosco conhecia, ou foi-lhe recomendada, uma mulher cha-
mada Lúcia Pianta, viúva de José Matta, de Murialdo. Após a morte do ma-
rido, Lúcia foi para Chieri com o filho João Batista, que estudava na cidade.
Alugara alguns cômodos na casa de Santiago Marchisio e tinha um pequeno
negócio subalugando alguns quartos por 21 liras ao mês. A senhora Marchi-
sio, também viúva, alugava por sua vez alguns quartos para estudantes. O
registro da escola anota que a senhora Lúcia tinha outro residente, além de
João e do seu filho, e a senhora Marchisio tinha quatro residentes. João Bosco
esteve na residência de Lúcia neste primeiro ano e no seguinte.9
O registro escolar de 1831-1832 apresenta a lista dos estudantes por
classes, datada em 12 de maio de 1832,10 com uma descrição pormenorizada
sobre cada um com o nome do pai, a profissão e o lugar de residência, o alo-
jamento do aluno e as mensalidades pagas. João Bosco é indicado no quarto
ano de Gramática como residente na casa de Lúcia Matta; tinha pagado todas
as mensalidades da escola.
A escolarização de João, embora descontínua, teve sucesso devido ao seu
insaciável desejo de aprender. No primeiro ano pôde completar o sexto (pre-
paratório), quinto e quarto, ou seja, três anos em um. Por três quartas partes
do tempo do primeiro ano, ele dedicou-se ao quarto ano de Gramática. En-
contrava-se nesse momento “livre e progredindo”, e sempre se lembrou dos
seus professores com grande respeito: os professores padre Valeriano Pugnetti
[Pignetti], padre Plácido Valimberti, muito “querido”, e o “clérigo” Vicente
Cima, “severo na disciplina”.

Registro dos anos 1831-1832 e outros informes são citados em S. Caselle, Don Bosco studente, 40-44.
9

Os estudantes do sexto ano eram 21; no quinto, 36; no quarto, 27; em Humanidades, 15;
10

em Retórica, 16; em Filosofia, 18. Total: 159. Cf. S. Caselle, Giovanni Bosco, 40-43. Os dominicanos
também criaram um curso de filosofia em dois anos, semelhante ao que se oferecia nos seminários.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Página de um caderno de João Bosco estudante.

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João Bosco na escola secundária pública de Chieri (1831-1835)

João tem 17 anos de idade; fisicamente, sobressai numa sala de colegas


menores.11 Surpreende a classe e o professor Cima ao recitar de memória a li-
ção do dia sem ter o livro diante dos olhos, pois o havia esquecido. Tendo fei-
to três anos em um, passou com boas qualificações ao terceiro de Gramática.

Terceiro ano de gramática [1832-1833]


Após as férias com a mãe e o irmão no sítio de Sussambrino, de volta a
Chieri nos inícios de novembro, continuou morando com a senhora Lúcia na
casa de Marchisio. Ao perceber a “obediência” de João, Lúcia pediu-lhe que
cuidasse do seu filho, João Batista Matta, em troca de casa e alojamento grátis.12
O professor de gramática da terceira série era o dominicano padre Jacin-
to Giusiana [Giussiana]. Dom Bosco não dá detalhes sobre suas atividades es-
colares nesse ano. Entretanto, fala de vários outros temas que não se referem
exclusivamente a esse ano. Por isso são difíceis de localizar no tempo. Baste
um breve comentário.

A Sociedade da Alegria. Vida social e amizades


A Sociedade da Alegria era constituída em sua maioria por um grupo de
meninos. Sua fundação deve situar-se em 1833, embora Dom Bosco fale de
1832 nas Memórias.
Como foi formada a Sociedade? Dom Bosco diz que se colocou em
contato com os meninos de Murialdo (nos Becchi, onde também a intro-
duziu). Em Chieri, porém, João estava num ambiente social novo e diferen-
te, no qual ele entrou com receio e vontade. Quer ter amigos e ser popular,
mas não a qualquer preço. E “quem nasceu na roça sabe como arranjar-se”,
como ele mesmo dissera. Reconhece que seus colegas estudantes se dividem
entre “bons, indiferentes ou maus” e aprende como tratá-los. Recusa os
convites para ir ao teatro, disputar partidas, nadar e roubar. Já tinha supe-
rado insinuações semelhantes em Castelnuovo.
Nesse contexto, escolhendo seus amigos, fundou a Sociedade. João aju-
dava os colegas em suas lições de casa; viu-se logo rodeado de um grupo de

11
Recordemos, porém, que Dom Bosco como seus dois irmãos, era pouco corpulento e baixo
de estatura. Por outro lado, a maioria dos meninos da escola secundária era muito mais jovem, alguns
com apenas 9-10 anos.
12
Dom Bosco diz que João Matta cursava a escola numa série anterior à sua (cf. MO, 51, MO
Ceria, 51: “Passei a ser do curso superior”). O registro mencionado anteriormente coloca-o um ano
atrás de João. Contudo, tudo isso é estranho porque João Matta nascera em 1809 (S. Caselle, Giovanni
Bosco, 24) e, nesse tempo, já teria 23 anos).

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Dom Bosco: história e carisma 1

jovens que se sentia atraído por ele, “como os de Murialdo e Castelnuovo”.


A Sociedade surgiu a partir desse grupo. Duas regras básicas determinam a
conduta moral cristã e o cumprimento exemplar dos deveres escolares e re-
ligiosos. Havia lugar para diversões alegres, mas não era uma “sociedade de
boas-vidas”.13 João era aceito como “o capitão de um pequeno exército”; sua
popularidade era tal, que por toda parte era convidado para organizar entre-
tenimentos e dar aulas de repetição a outros estudantes.
As Memórias apresentam a imagem de um adolescente de convicções
cristãs, seriamente comprometido com uma vida religiosa e moral. A partir
disso, é errônea e carece de correção a versão de um menino extrovertido e
superficial, que se poderia deduzir da narração que Dom Bosco faz de suas
aventuras esportivas nas quais insistem alguns biógrafos.
Dom Bosco não menciona explicitamente problemas de adolescente.
Sua determinação de evitar os “maus” colegas não pode ser vista como “fragi-
lidade”, medo ou atividade negativa; mas deve ser entendida no contexto da
conduta moral de um adolescente exemplar, que então prevalecia e era ofe-
recida na escola. Apesar de alguma reticência, supunha-se que para se juntar
com “más” companhias sem sofrer dano moral, o adolescente devia ter alcan-
çado um considerável domínio de suas forças instintivas, paixões e agressões.
Tal domínio pede um nível de maturidade emocional que não se espera que
tenha alcançado um adolescente de 16 anos. Para João, essa determinação
precisou ser também uma estratégia deliberada de defesa, a fim de resolver
seus problemas de adolescência.
Podemos estar certos de que João, durante algum tempo, precisou repri-
mir seus impulsos sexuais, que considerava pecaminosos. Contudo, além do
freio moral, João sublimou esses impulsos em sentido muito mais positivo,
entregando-se a atividades de serviço e praticando o amor do próximo. Isso já
demonstra uma considerável maturidade moral. Suas atividades na Sociedade
da Alegria e como atleta e cômico devem ser vistas nessa perspectiva.
Além disso, enfrentando seus problemas de adolescente, João contava
com a ajuda e o apoio de bons padres, figuras paternas, como Jacinto Gius-
siana e Pedro Banaudi, e a direção espiritual de seu confessor, padre José
Malória, assim como com a ajuda e o exemplo de amigos especiais. Sobre
padre Malória, Dom Bosco escreverá: “Devo ao meu confessor não ter sido
arrastado pelos colegas a certas desordens, que os jovens inexperientes têm
infelizmente que lamentar nos grandes colégios”.14

13
MO, 54-56.
14
MO, 60.

228

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João Bosco na escola secundária pública de Chieri (1831-1835)

Deve-se notar, embora de passagem, que em nenhum lugar das Me-


mórias que tratam dessa etapa, Dom Bosco é mencionado com meninas. É
compreensível. Não havia meninas no colégio real. Se elas recebiam alguma
instrução secundária, faziam-no separadas, conforme a Reforma educacional
de 1822. Ele encontraria as meninas pela cidade, na igreja etc., mas em geral
elas se mantinam à parte e sob vigilância. Além disso, João não buscaria a
companhia das meninas por razões morais, dado o seu compromisso precoce
com a vocação sacerdotal. Acrescente-se, ainda, que quando escreveu suas
Memórias na década de 1870, já fizera algumas opções educativas que, en-
quanto Congregação Salesiana, não contemplavam as jovens.15
A reunião dos amigos na Sociedade da Alegria, por melhor que fosse,
não preenchia inteiramente suas ânsias de intimidade. Uma indicação da vida
íntima de João Bosco aparece ao tentar estabelecer relações pessoais com dois
membros da Sociedade, Guilherme Garigliano e Paulo Braia [Braja], que
sobressaíam pelo “recolhimento, piedade e bons conselhos”. Juntos, eles se
envolveram em atividades de natureza religiosa e recreativa. Braja, “querido
e íntimo amigo”, morreu pouco depois e foi “juntar-se a São Luís, do qual
se mostrou em toda a sua vida fiel seguidor”.16 O amigo mais próximo de
João Bosco foi Luís Comollo, que se inscreveu pela primeira vez na escola em
1834-1835, durante o ano de Retórica de João.

Vida espiritual e prática religiosa


Dom Bosco reconhecerá que a vida escolar era saturada de práticas re-
ligiosas: “Naqueles tempos a religião formava parte fundamental da educa-
ção”. E descreve a prática religiosa, imposta pela normativa da escola, como
geradora de resultados educativos estupendos. Contudo, João e seus amigos
faziam mais do que mandavam as normas da escola, especialmente no que se
referia à oração e aos sacramentos.
João escolheu o cônego José Malória, padre diocesano, como confessor
regular e diretor espiritual; foi um passo importante em sua vida espiritual.

15
Ao longo da vida, Dom Bosco abstém-se quase sistematicamente de falar das meninas em suas
conversas ou escritos. Além da opção vocacional, pode ser que haja uma razão pessoal. Ele, porém,
escreveu um livro (de pouco sucesso) de orientações e devoções para meninas, semelhante ao Jovem
instruído (para os jovens). Em 1872, ele fundou com Maria Mazzarello o Instituto das Filhas de Maria
Auxiliadora, para a educação das meninas.
16
MO, 57-61. Guilherme Garigliano (1819-1902) tinha quatro anos a menos de João, e Paulo
Braia (1820-1832), cinco anos a menos, tendo morrido em 10 de julho de 1832, aos 12 anos, quando
João tinha 17. Enquanto não se pode localizar com segurança a fundação da Sociedade da Alegria, a
disparidade de idade deixa-nos alguma dúvida sobre as lembranças de Dom Bosco.

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Dom Bosco: história e carisma 1

Será, depois, o padre que se recusará a ajudar João em seu discernimento


vocacional. Enquanto isso, animou-o a frequentar com mais assiduidade a
confissão e a comunhão, contrariamente ao uso do tempo, por mais que se
aconselhasse a comunhão na escola. Dom Bosco reconhece sua dívida com
o padre Malória ao afirmar não ter sido arrastado a certas desordens. Nada
acrescenta sobre a natureza dessas “desordens”.

A Confirmação
Dom Bosco também não fala nas Memórias do que deve ter sido um
acontecimento significativo em sua vida espiritual. Os relatos, todavia, men-
cionam que em 4 de agosto de 1833, aos 18 anos de idade, João recebeu a
Confirmação na igreja paroquial de Buttigliera, das mãos do arcebispo João
Antonio Gianotti, de Sassari (Sardenha). O arcebispo Luís Fransoni, de Tu-
rim, estava adoentado na ocasião. A Confirmação nas pequenas localidades
não acontecia nem frequente nem regularmente.

Exame da segunda série de Humanidades


Para passar da seção superior, isto é, da terceira série de Gramática à
segunda de Humanidades, devia-se fazer um exame geral. A classe de João
fez a prova exigida com o respeitado e temido padre José Gazzani (Gozzan).
Todos, menos João, foram aprovados. Ele foi suspenso por ter repassado o
seu exame a outros estudantes. Dom Bosco parece não ter dado importância
ao assunto, embora os documentos da Reforma o considerassem como falta
grave. Seu professor, padre Giussiana, intercedeu em seu favor e foi-lhe con-
cedido um novo exame. Foi aprovado com destaque e obteve que lhe fosse
perdoado o pagamento da matrícula.17

Segunda s