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2º DECÊNDIO FEVEREIRO / 2008 – ANO XXVIII – Nº 5

I MOBILIÁRIO Mun. São Paulo – Edificações devem dispor


de Sistema de Aquecimento Solar (p. 3)

A transferência da posição de devedor


fiduciante – Cessão ou compra e venda.
Autor: Maury Rouède Bernardes (p. 6)

O preço nas escrituras definitivas


de compra e venda. Parte I.
Autor: Jorge Tarcha (p. 10)

Da possibilidade de retificação de
partilha judicial por escritura pública.
Autor: Marco Antonio de O. Camargo (p. 27)

O ISS em relação aos serviços cartorários


– Julgamento de ADI pelo STF.
Autor: Bernardo Motta Moreira (p. 7)

Certidão positiva de impostos


com efeitos de negativa (p. 33)

Personalidade jurídica do condomínio:


Necessidade de solução.
Autor: Daphnis Citti de Lauro (p. 35)

ISSN 1982 - 4599

38 ANOS 9 771982 459001 BDI - Boletim do Direito Imobiliário


Direção:
Dominique Pierre Faga ÍNDICE
LEGISLAÇÃO ESTADUAL E MUNICIPAL
Conselho Editorial:
MUNICÍPIO SÃO PAULO – EDIFICAÇÕES – OBRIGATORIEDADE DE INSTALAÇÃO DE
Dominique Pierre Faga
Alberto Prates dos Santos SISTEMA DE AQUECIMENTO SOLAR (Decr. nº 49.148) ........................................................ 03
Antonio Albergaria Pereira
Heronides Dantas de Figueiredo COMENTÁRIOS E DOUTRINA
E-mail: redacao@diariodasleis.com.br A TRANSFERÊNCIA DA POSIÇÃO DE DEVEDOR FIDUCIANTE – CESSÃO OU COMPRA
Jornalista Responsável: E VENDA (Maury Rouède Bernardes) ........................................................................................ 06
Julio Cesar Borges, MTB nº 42073 O ISS EM RELAÇÃO AOS SERVIÇOS CARTORÁRIOS E A CONSTITUIÇÃO FEDERAL
ISSN: 1982-4599 (Bernardo Motta Moreira) ............................................................................................................ 07

Colaboradores:
Adriano Erbolato Melo PRÁTICA DE DIREITO IMOBILIÁRIO
Amaro Moraes e Silva Neto O PREÇO NAS ESCRITURAS DEFINITIVAS DE COMPRA E VENDA – PARTE I
Américo Isidoro Angélico (Prof. Jorge Tarcha) ..................................................................................................................... 10
Arthur Edmundo de Souza Rios
Bianca Castelar de Faria JURISPRUDÊNCIA
Carlos Alberto Dabus Maluf
EXECUÇÃO FISCAL – EMBARGOS DE TERCEIRO – IMÓVEL ALIENADO E NÃO TRANS-
Daniel Alcântara Nastri Cerveira
Dilvanir José da Costa CRITO NO REGISTRO IMOBILIÁRIO (STJ) ............................................................................. 12
Felipe Leonardo Rodrigues FRAUDE À EXECUÇÃO – EMBARGOS DE TERCEIRO – PENHORA NÃO LEVADA A RE-
Fernanda Souza Rabello GISTRO – PRESUNÇÃO DE BOA-FÉ (TJSP) .......................................................................... 13
Geraldo Beire Simões DESPESAS CONDOMINIAIS – EXECUÇÃO – CREDOR HIPOTECÁRIO (STJ) ...................... 14
Guilherme Fanti POSSESSÓRIA – MANUTENÇÃO DE POSSE – CONVERSÃO EM AÇÃO DE NUNCIAÇÃO
Iuli Ratzka Formiga DE OBRA NOVA (TJSP) ............................................................................................................. 15
Jaques Bushatsky
CONDOMÍNIO – AÇÃO RESCISÓRIA – ERRO DE FATO – PRESTAÇÃO DE CONTAS (STJ) .... 17
Jorge Tarcha
José Hildor Leal COMPRA E VENDA – ADJUDICAÇÃO COMPULSÓRIA – GRAVAME HIPOTECÁRIO –
Kênio de Souza Pereira INEFICÁCIA (TJSP) .................................................................................................................... 19
Leonardo Henrique M. Moraes Oliveira LOTEAMENTO – REPASSE DO CUSTO DAS OBRAS DE INFRA-ESTRUTURA (TJSP) ........ 21
Luis Camargo Pinto de Carvalho CONDOMÍNIO – COTAS EM ATRASO – COBRANÇA – NOVO CONDÔMINO – CONTRATO
Luiz Antonio Scavone Jr. NÃO REGISTRADO (STJ) .......................................................................................................... 22
Marcelo Manhães de Almeida
Márcio Flávio Lima
Marco Aurélio Bicalho de A. Chagas JURISPRUDÊNCIA CARTORÁRIA
Marco Aurélio Leite da Silva REGISTRO DE IMÓVEIS – FORMAL DE PARTILHA – EXCLUSÃO DA MEAÇÃO DO CÔN-
Mário Cerveira Filho JUGE FALECIDO (CSM/SP) ....................................................................................................... 23
Michel Rosenthal Wagner REGISTRO DE IMÓVEIS – ESCRITURA DE VENDA E COMPRA – CESSÃO DE DIREITOS
Narciso Orlandi Neto DESNECESSIDADE DOS REGISTROS (CSM/SP) .................................................................. 25
Regnoberto Marques de Melo Jr.
Ricardo Amin Abrahão Nacle
BOLETIM CARTORÁRIO
Valestan Milhomem da Costa
PARTILHA JUDICIAL – RETIFICAÇÃO POR ESCRITURA PÚBLICA (Marco A. de O. Camargo) . 27
Wilson Bueno Alves
SPPREV EM SUBSTITUIÇÃO AO IPESP .................................................................................... 29
Gerência Comercial:
SERVENTUÁRIO PADRÃO DO ANO 2007 ................................................................................... 31
Telefone e fax: (11) 3673-3155 (PABX)
E-mail: comercial@diariodasleis.com.br
Foto de Capa: PERGUNTAS & RESPOSTAS
www.sxc.hu ESCRITURA DE DIVISÃO AMIGÁVEL EM GLEBA RURAL ........................................................ 33
Impressão e Acabamento: ALUGUEL – AÇÃO DE COBRANÇA – EXISTÊNCIA DE 2 CONTRATOS .................................. 33
Gráfica Josemar CERTIDÃO POSITIVA DE IMPOSTOS COM EFEITOS DE NEGATIVA ..................................... 33
Editora: COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA – EFEITOS JURÍDICOS APÓS A LAVRATURA
DIÁRIO DAS LEIS LTDA. DA ESCRITURA PÚBLICA .......................................................................................................... 33
CNPJ(MF) 47.381.850/0001-40 USUCAPIÃO – REGISTRO DA SENTENÇA – SATISFAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES FISCAIS ... 34
Rua Bocaina, 54 - Perdizes
CONDOMÍNIO – IDENTIFICAÇÃO DA UNIDADE AUTÔNOMA .................................................. 34
CEP: 05013-901 - São Paulo - SP
Telefone e Fax: (11) 3673-3155 (PABX)
Site: www.diariodasleis.com.br NOTÍCIAS
E-mail: dl@diariodasleis.com.br PERSONALIDADE JURÍDICA DO CONDOMÍNIO: NECESSIDADE DE SOLUÇÃO
(Daphnis Citti Lauro) .................................................................................................................... 35
Obs.: Proibida a reprodução total ou par-
cial. Os artigos assinados não refletem ne-
cessariamente
2 DIÁRIO DAS a LEIS
opinião do DLI. ÍNDICES DE CORREÇÃO MONETÁRIA .......................................................
da direção(DLI)
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MUNICÍPIO SÃO PAULO – EDIFICAÇÕES RESIDENCIAIS E NÃO-RESI-
DENCIAIS DEVEM DISPOR DE SISTEMA DE AQUECIMENTO SOLAR

Decreto nº 49.148, de 21 de janeiro de 2008 (DOM-SP 22.01.2008)

Regulamenta a Lei n° 14.459, de suas interligações hidráulicas que isoladas ou agrupadas horizontal ou
3 de julho de 2007, que acrescenta o funcionam por circulação natural ou verticalmente ou superpostas, da ca-
item 9.3.5 à Seção 9.3 - Instalações forçada. tegoria de uso residencial, ou inte-
Prediais do Anexo I da Lei nº 11.228, Art. 2º. É obrigatória a instala- grantes de conjunto de instalações de
de 25 de junho de 1992 (Código de ção do SAS nas novas edificações do usos não-residenciais, que incluam a
Obras e Edificações), e dispõe sobre Município de São Paulo destinadas construção de piscina de água
a instalação de sistema de aqueci- às categorias de uso residencial e aquecida.
mento de água por energia solar nas não-residencial. § 1º. Para os fins deste decreto,
novas edificações do Município de consideram-se piscinas todos os re-
São Paulo. Art. 3º. A obrigatoriedade esta-
belecida no artigo 2º deste decreto servatórios de água para finalidades
Gilberto Kassab, Prefeito do aplica-se, na categoria de uso não- de lazer, terapêuticas e de práticas
Município de São Paulo, no uso das residencial, às seguintes atividades esportivas, com capacidade superior
atribuições que lhe são conferidas por de comércio, de prestação de servi- a 5m3 (cinco metros cúbicos).
lei, ços públicos e privados, e industriais: § 2º. O SAS específico para a
Considerando as conclusões I - hotéis, motéis e similares; piscina é composto por coletor solar,
alcançadas pelo Grupo de Trabalho aquecimento auxiliar, acessório e
constituído pela Portaria nº 1.050 - II - clubes esportivos, casas de suas interligações hidráulicas que
PREF, de 10 de outubro de 2.007, banho e sauna, academias de ginás- funcionem por circulação natural ou
tica e lutas marciais, escolas de es- forçada.
Decreta: portes e estabelecimentos de locação
Art. 1º. Este decreto regulamen- de quadras esportivas; § 3º. O disposto neste artigo apli-
ta a Lei nº 14.459, de 3 de julho de ca-se somente às piscinas, novas ou
III - clínicas de estética, institu- existentes, que venham a receber um
2007, que acrescenta o item 9.3.5 à tos de beleza, cabeleireiros e simila-
Seção 9.3 - Instalações Prediais do sistema de aquecimento.
res;
Anexo I da Lei nº 11.228, de 25 de Art. 5º. Nas novas edificações
junho de 1992 (Código de Obras e IV - hospitais, unidades de saú- destinadas ao uso residencial,
Edificações), e dispõe sobre a insta- de com leitos e casas de repouso; unifamiliar ou multifamiliar, que te-
lação de sistema de aquecimento de V - escolas, creches, abrigos, nham um número de banheiros igual
água por energia solar nas novas asilos e albergues; ou superior a 4 (quatro) por unidade
edificações do Município de São Pau- VI - quartéis; habitacional deverá ser instalado o
lo. sistema de aquecimento solar com-
VII - indústrias, se a atividade
§ 1º. A instalação a que se refe- pleto.
setorial específica demandar água
re o “caput” deste artigo deverá ser aquecida no processo de industriali- Parágrafo único. Para efeito de
projetada e executada conforme as zação ou, ainda, quando disponi- aplicação deste decreto, define-se:
Normas Técnicas Oficiais vigentes, bilizar vestiários para seus funcioná- I - banheiro, o aposento dotado
que estabelecem os requisitos para rios;
de vaso sanitário, possuindo ou não,
o Sistema de Aquecimento Solar -
VIII - lavanderias industriais, de em suas instalações, aquecimento de
SAS, considerando os aspectos de
prestação de serviço ou coletivas, em água sanitária por alguma fonte de
concepção, dimensionamento, arran-
edificações de qualquer uso, que uti- energia;
jo hidráulico, especificação de com-
lizem em seu processo água aque-
ponentes, instalação e manutenção, II - água sanitária, a água potá-
cida.
onde o fluido de transporte é a água. vel utilizada para consumo humano;
Art. 4º. Sem prejuízo do estabe-
§ 2º. O SAS é composto por lecido no artigo 2º deste decreto, é III - água de piscina, a água tra-
coletor solar, reservatório térmico, igualmente obrigatória a instalação do tada para uso exclusivo de abasteci-
aquecimento auxiliar, acessórios e SAS nas edificações, novas ou não, mento da piscina.

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Art. 6º. Nas novas edificações coeficiente de aproveitamento bási- Anexo Único integrante deste decre-
destinadas ao uso residencial co e máximo previsto na Legislação to.
unifamiliar ou multifamiliar, que pos- de Parcelamento, Uso e Ocupação § 2º. A documentação prevista
suam até 3 (três) banheiros por uni- do Solo - LPUOS. no § 1º deste artigo deverá ser apre-
dade habitacional, deverá ser execu- Parágrafo único. A área de pro- sentada à Prefeitura no momento da
tada toda a infra-estrutura (sistema jeção mencionada no “caput” deste solicitação das licenças, devendo ser
de instalação hidráulica, prumadas, artigo refere-se ao resultado da apli- juntada ao processo administrativo
respectiva rede de distribuição e su- cação dos parâmetros contidos no pertinente.
porte estrutural adequado) que per- Anexo Único deste decreto.
mita a instalação do reservatório tér- § 3º. Os estudos técnicos deve-
mico e das placas coletoras de ener- Art. 9º. Para a obtenção de rão considerar o emprego da melhor
gia solar. Alvará de Aprovação e/ou Execução, tecnologia disponível, nos termos das
deverá constar, nas peças gráficas, recomendações técnicas do
Parágrafo único. O disposto no nota técnica declarando o atendimen- INMETRO e das normas técnicas vi-
“caput” deste artigo não se aplica à to à Lei nº 14.459, de 2007, e a este gentes, e deverão apresentar pare-
hipótese em que o uso do SAS for decreto, bem como indicação da im- cer definitivo, com conclusões obje-
tecnicamente inviável, nos termos do plantação e dimensões dos equipa- tivas, bem como identificar claramen-
artigo 12 deste decreto. mentos a serem instalados (altura te a obra a que se referem.
Art. 7º. As instalações hidráuli- para efeito de gabarito, largura e in- § 4º. Quando dos pedidos de li-
cas e os equipamentos de aqueci- clinação). cenças, o responsável técnico deve-
mento de água por energia solar de- Art. 10. Na relação de documen- rá apresentar declaração quanto à
verão ser dimensionados para aten- tos exigidos para a obtenção de licen- inviabilidade de implantação do SAS,
der, no mínimo, a 40% (quarenta por ças perante a Prefeitura, que não acompanhada do recolhimento de
cento) de toda a demanda anual de necessitem da entrega de peças grá- ART específica para o referido estu-
energia necessária para o aqueci- ficas, deverá constar declaração por do de inviabilidade.
mento de água sanitária e água de parte do engenheiro responsável pela
piscinas, de acordo com a § 5º. Para efeitos deste decreto,
obra atestando o atendimento das consideram-se critérios técnicos que
Metodologia de Avaliação da Contri- disposições previstas na Lei nº
buição Solar constante do Anexo tornem inviável a implantação do SAS
14.459, de 2007, e neste decreto. os fatores que reduzam a fração so-
Único deste decreto, atendendo às
Normas Técnicas Oficiais. Art. 11. Em qualquer das hipó- lar a valores inferiores aos exigidos
teses a que se referem os artigos 9º para contribuição solar, na conformi-
§ 1º. Para efeito de comprova- e 10, deverá, ainda, ser apresenta- dade do disposto no artigo 7º deste
ção das exigências da Lei n°14.459, da, pelo responsável técnico da obra, decreto, decorrentes de:
de 2007, e deste decreto, os equipa- a respectiva Anotação de Responsa-
mentos solares devem apresentar I - sombreamento do local de
bilidade Técnica - ART do Sistema de implantação dos coletores solares por
obrigatoriamente a etiqueta do Insti- Aquecimento Solar projetado e/ou
tuto Nacional de Metrologia, Norma- edificações e/ou obstáculos externos
instalado. existentes que não fazem parte da
lização e Qualidade Industrial - Art. 12. A obrigatoriedade da ins-
INMETRO, de acordo com os regu- edificação;
talação de Sistema de Aquecimento
lamentos específicos aplicáveis do II - sombreamento sobre a área
Solar não se aplica a edificações
Programa Brasileiro de Etiquetagem coletora, obtido por meio do método
onde se comprove ser tecnicamente
- PBE. de carta solar, avaliado no dia 6 (seis)
inviável alcançar as condições para
§ 2º. A Prefeitura do Município de abril nos horários de 9h (nove ho-
aquecimento de água por energia
de São Paulo poderá exigir o cumpri- ras), 12h (doze horas) e 15h (quinze
solar.
mento de outras normas técnicas ou horas), nas seguintes condições:
§ 1º. O enquadramento na situ-
recomendações normativas de pro- a) se for maior do que 60% (ses-
ação prevista no “caput” deste artigo
jeto e instalação de sistemas relacio- senta por cento), em pelo menos um
deverá ser comprovado mediante
nados com o SAS. desses horários, não será possível a
Parecer Técnico, acompanhado de
Art. 8º. O somatório das áreas utilização do SAS;
estudos técnicos conclusivos elabo-
de projeção dos equipamentos, cons- rados por profissional habilitado, de- b) se estiver entre 30% (trinta por
tituídos pelas placas coletoras e re- monstrando a inviabilidade de aten- cento) e 60% (sessenta por cento),
servatórios térmicos, não será dimento à exigência legal, consoan- em pelo menos um desses horários,
computável para efeito do cálculo do te os parâmetros estabelecidos no o SAS deve ser instalado, mas com

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ajuste das baterias de coletores e E - demanda de energia por dia em m²
acionamento independente do siste- em kwh/mês Fcd - Fator de correção para des-
ma de circulação de água; V - volume diário de água quen- vio do Norte Geográfico indicado na
c) se estiver abaixo de 30% (trin- te a ser aquecida em litros tabela 1
ta por cento), em pelo menos um des- Cp - calor específico da água CS - Contribuição Solar (fração
ses horários, o SAS deve ser instala- constante de 4,18 kJ/kgºC solar)
do;
t2 - temperatura da água quente E - demanda de energia mensal
III - limitações derivadas da apli- requerida para o uso específico, em em kwh/mês
cação da Legislação de Uso e Ocu- ºC
pação do Solo e do Código de Obras Pme (sp) - Produção Média Men-
e Edificações, que evidenciem a im- t1 - temperatura de água fria igual sal de Energia Específica do coletor
possibilidade de dispor de toda a su- a 20, 2ºC (média histórica da tempe- solar no Município de São Paulo em
perfície de coletores solares neces- ratura média do município de São kwh/mês.m²
sária ao atendimento das disposições Paulo) Os coletores solares devem ser
da Lei n° 14.459, de 2007, e deste Passo 3: determinar a produ- orientados para o Norte Geográfico.
decreto. ção de energia dos coletores sola- Quando não for possível a orientação
Art. 13. Decreto específico, a ser res no município de São Paulo ideal, deve-se aplicar um fator de
editado no prazo de 180 (cento e oi- A produção de energia dos co- correção para desvios do Norte Geo-
tenta) dias, definirá, para as novas letores solares será determinada a gráfico de acordo com a tabela 1 abai-
edificações destinadas às Habitações partir da consulta à tabela vigente de xo.
de Interesse Social - HIS, as normas Sistemas e Equipamentos para Aque- Tabela 1 - Fator de correção para
de implantação, os procedimentos cimento Solar de Água do INMETRO desvio do Norte Geográfico
pertinentes e os prazos para atendi- - Instituto Nacional de Metrologia, Desvio do Norte Geográfico Fcd
mento às disposições da Lei n° Normalização e Qualidade Industrial. (para Leste ou Oeste)
14.459, de 2007. Esta tabela é atualizada constante-
mente e lista todos os produtos bra- Até 30º 1
Art. 14. Aplicam-se as disposi-
ções da Lei nº 14.459, de 2007, e sileiros etiquetados. De 31 a 60º 1,13
deste decreto aos projetos de novas Para calcular a Produção Média De 61 a 90º 1,16
edificações protocolizados a partir de Mensal de Energia em kwh de qual- Exemplo: Um edifício residen-
180 (cento e oitenta) dias da data de quer coletor solar no Município de cial possui 10 andares com 4 aparta-
publicação deste decreto. São Paulo: mentos por andar e a água quente
Art. 15. Este decreto entrará em Pme (sp)
= 0,65 x Pme (tabela do INMETRO) (2) será utilizada somente para o banho.
vigor na data de sua publicação. Onde: Considerando um consumo de água
quente por pessoa de 70 litros a 45º
Prefeitura do Município de São Pme (sp) - Produção Média Men- C e uma média de 3 moradores por
Paulo, aos 21 de janeiro de 2008. sal de Energia Específica no municí- apartamento temos:
Gilberto Kassab, Prefeito pio de São Paulo, em kwh/mês.m²;
V = 40 apartamentos * 3 pesso-
Anexo Único integrante do De- Pme(tabela do INMETRO) - Produção as/apartamento * 70 litros por pessoa
creto nº 49.148, de 21 de Janeiro Média Mensal de Energia Específica = 8400 litros a 45ºC
de 2008 dos coletores solares publicados na
tabela de sistemas e equipamentos Utilizando a equação (1):
Metodologia de Avaliação da para aquecimento solar de água do E = 8400 x 4,18 x (45 - 20,2) x 30 /
Contribuição Solar (fração Solar) INMETRO, em kwh/mês.m² 3600 = 7256,48 kwh/mês
Passo 1 : estimar o volume di- Passo 4: determinação da área Considerando um coletor com
ário de água quente a ser consu- de coletores solares necessária Pme de 80,7kwh/mês.m², segundo a
mida pela edificação; para atendimento da Constribui- tabela de sistema e equipamentos
Passo 2 : calcular a quantida- ção Solar (fração solar) segundo para aquecimento solar de água do
de de energia necessária para requisito desta lei: INMETRO, determinamos sua produ-
aquecer o volume diário; AC = Fcd x CS x E/Pme (3)
ção Média Mensal de Energia Espe-
(sp)
cífica do coletor solar na cidade de
E = V.Cp*(t 2-t1)*30/3600 (1) Onde: São Paulo utilizando a equação (2),
Onde: AC - área de coletores solares sendo:

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Pme (sp) = 0,65 x 80,7 = 52,45 kwh/mês.m² AC = 1,13 x 0,7 x 7256,48 / 52,45 55 coletores
Para determinação da área AC = 109,43m² Conclusão: para atendimento da
coletora necessária para atender
70% da demanda de energia mensal, Supondo que o coletor possua demanda de 8.400 litros de água por
considerando um desvio de 45º do uma área de 2 m²: dia seriam necessários 118,26m² de
Norte Geográfico aplicamos a equa- Quantidade de coletores = 109,43 / 2 = determinado coletor solar para aten-
ção (3), sendo: 54,7 coletores dimento a contribuição solar de 70%.

COMENTÁRIOS E DOUTRIN
DOUTRINA
A
A TRANSFERÊNCIA DA POSIÇÃO DE DEVEDOR FIDUCIANTE
CESSÃO OU COMPRA E VENDA?
Maury Rouède Bernardes (*)

Por força das disposições do art. gado, de pleno direito, no crédito e Cumpre sublinhar também que,
28 da Lei 9.514/1997, quando o cre- na propriedade fiduciária.” (subli- com o registro da alienação fiduciária
dor-fiduciário cede seu crédito a ter- nhamos) em garantia, o devedor-fiduciante
ceiros está, também, transferindo ao Assim como nos casos da ces- transferiu ao credor-fiduciário, a pro-
cessionário “todos os direitos e obri- são do crédito pelo credor-fiduciário priedade sob condição resolutiva (ela
gações inerentes à propriedade e do pagamento da dívida por fiador se resolverá com a quitação do sal-
fiduciária em garantia”. (sublinha- ou terceiro, por igual se dá na hipóte- do do preço, objeto da garantia
mos) se de cessão e transferência da po- fiduciária), permanecendo com a pro-

Vale dizer, a simples cessão do sição de devedor-fiduciante. Ou seja, priedade sob condição suspensiva

crédito correspondente à parte do a cessão da posição de devedor- (ela se efetivará com a satisfação do

saldo do preço representada pelas fiduciante transfere ao cessionário, pagamento da dívida que garante).

prestações do parcelamento contra- todos os direitos e obrigações ineren- Segundo a lição de Melhim
tado, objeto da garantia constituída tes à propriedade fiduciária, antes Chalhub,
pela alienação fiduciária do imóvel fi- afetos ao cedente, investindo-se, as- “Na dinâmica do contrato de ali-
nanciado, conduz à transferência, ao sim, o cessionário, no direito real enação fiduciária de bens imóveis,
cessionário, de todos os menciona- (expectativo) de aquisição da propri- torna-se o alienante-fiduciante titular
dos direitos e obrigações, inclusive edade plena e na posição de deve- de um direito sob condição
sobre a propriedade (sob condição dor-fiduciante perante o credor- suspensiva, que se consubstancia
resolutiva) do imóvel objeto da alie- fiduciário. “numa expectativa real que encerra,
nação fiduciária em garantia. Aliás, não é outro o caminho condicionalmente, uma pretensão
Também na hipótese de paga- apontado pelo art. 29 da Lei 9.514/ restituitória.” A implementação desse
mento da dívida por fiador ou tercei- 1997: direito decorrerá do cumprimento das
ro interessado, ocorre a sub-rogação “O fiduciante, com anuência ex- obrigações do fiduciante e do cance-
de pleno direito no crédito e na pro- pressa do fiduciário, poderá transmi- lamento da propriedade fiduciária,
priedade fiduciária, a teor das dispo- tir os direitos de que seja titular so- nos termos do art. 25 (“com o paga-
sições do art. 31 da Lei 9.514/1997, bre o imóvel objeto da alienação mento .... resolve-se a propriedade
verbis: fiduciária em garantia, assumindo o fiduciária”). Sendo assim, titular de
“O fiador ou terceiro interessa- adquirente as respectivas obriga- um direito expectativo, pode o

do que pagar a dívida ficará sub-ro- ções.” fiduciante transmiti-lo da mesma for-

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DOUTRINA
COMENTÁRIOS E DOUTRINA

ma como são transmissíveis quais- tanto pode ser público quanto parti- FIDUCIÁRIA), sob o argumento de
quer direitos expectativos.” (Negócio cular, segundo a previsão legal do que o art. 29 atribui ao cessionário a
Fiduciário – Renovar – 3ª Edição – art. 38 da Lei 9.514/1997, com a re- condição de “adquirente”. Discorda-
pg. 272) dação que lhe foi dada pela Lei mos, pelas razões acima expostas.

O Código Civil, tratando da pro- 11.076/2004: Em que pesem os dispositivos

priedade resolúvel estatui em seu art. “Os atos e contratos referidos da lei especial apontarem para a ces-

1.359, que: nesta Lei ou resultantes da sua apli- são de direitos e as evidentes vanta-

cação, mesmo aqueles que visem à gens da padronização dos instrumen-


“Resolvida a propriedade pelo
constituição, transferência, modifica- tos para as operações no regime da
implemento da condição ou pelo ad-
ção ou renúncia de direitos reais so- alienação fiduciária, a reclamar um
vento do termo, entendem-se tam-
bre imóveis, poderão ser celebrados entendimento único a respeito desta
bém resolvidos os direitos reais
por escritura pública ou por instru- matéria observa-se, de um ponto de
concedidos na sua pendência, e o
mento particular com efeitos de es- vista eminentemente prático, que a
proprietário, em cujo favor se opera
critura pública.” “Compra e Venda”, ainda que impro-
a resolução, pode reivindicar a coisa
priamente celebrada, também trans-
do poder de quem a possua ou dete- Como em todos os casos de
fere ao “adquirente” os direitos e obri-
nha.” (grifamos) transmissão de direito real sobre imó-
gações vinculados à propriedade
Tratando-se, portanto, da titula- vel, incide o imposto de transmissão
fiduciária.
ridade sobre um direito real de aqui- (ITBI) e sua plena eficácia somente
sição da propriedade sob condição se alcança com o registro do título. A anuência expressa do credor-

suspensiva, entendemos que o título Há, todavia, quem entenda que fiduciário, em qualquer caso, é con-
adequado para a transferência da a transferência da posição de deve- dição essencial para a transmissão
posição de devedor-fiduciante é o ins- dor-fiduciante deve ser efetivada de direitos sobre imóvel objeto de ali-
trumento de cessão e sub-rogação mediante a celebração de um con- enação fiduciária em garantia, bem
(no caso, CESSÃO DE DIREITOS trato de compra e venda de imóvel, assim para viabilizar o seu registro
AQUISITIVOS DA PROPRIEDADE entre o devedor-fiduciante, como imobiliário e sem o que o contrato
RESOLÚVEL, SUB-ROGAÇÃO DE transmitente e o “cessionário”, como somente obrigará as partes contra-
OBRIGAÇÕES E RATIFICAÇÃO DE adquirente (COMPRA E VENDA tantes.
PACTO ADJETO DE ALIENAÇÃO COM ASSUNÇÃO DE DÍVIDA DE (*) O autor é Advogado e Con-
FIDUCIÁRIA EM GARANTIA), que PACTO ADJETO DE ALIENAÇÃO sultor Jurídico da ADEMI RJ.

O ISS EM RELAÇÃO AOS SERVIÇOS CARTORÁRIOS:


O JULGAMENTO DA ADI Nº 3089 PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Bernardo Motta Moreira (*)

A polêmica questão acerca da e Registradores do Brasil), contra os go 236 da Constituição da Repúbli-


incidência do ISS (imposto sobre ser- itens 21 e 21.1 da lista anexa à Lei ca², que dispõe que os serviços
viços) sobre os serviços cartorários, Complementar nº 116, de 31 de julho notariais e de registro serão exerci-
notariais e de registro público chegou de 2003. dos em caráter privado, por delega-
ao Supremo Tribunal Federal através Conforme expusemos em estu- ção do Poder Público. Vale dizer, uma
da Ação Direta de Inconstitucio- do anterior¹, a inclusão de tais servi- vez que esses serviços são públicos
nalidade nº 3.089, ajuizada pela ços como hipótese de incidência do (conforme entendimento do próprio
ANOREG (Associação dos Notários ISS implica em clara ofensa ao arti- STF³), derivados da delegação da

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 7


DOUTRINA
COMENTÁRIOS E DOUTRIN A

atividade estatal, e que os valores ação desvinculada de qualquer ativi- outros (imunidade recíproca), haja
cobrados para a sua prestação têm dade estatal, voltada para o contribu- vista que o parágrafo 3º do mesmo
a natureza jurídica de taxa4, os Muni- inte, salvo se a própria Constituição artigo, preleciona que a imunidade
cípios não podem pretender tal tribu- admitisse, explicitamente, o contrá- recíproca não se aplica ao patrimônio,
tação, eis que, assim agindo, estari- rio. renda e serviços relacionados com a
am ofendendo o Princípio da Imuni- Por outro lado, na mesma ses- exploração de atividades econômi-
dade Recíproca, previsto no art. 150, são de julgamento, o Ministro cas, regidas pelas normas aplicáveis
VI, a, da Constituição5. Não bastas- Sepúlveda Pertence antecipou seu a empreendimentos privados, ou em
se, é inviável que uma taxa e um im- voto, para julgar improcedente a que haja contraprestação ou paga-
posto possuam a mesma base de ação. Para o Ministro Pertence, ha- mento de preços ou tarifas pelo usu-
cálculo, ex vi do art. 145, §2º, da vendo a incidência do imposto de ren- ário.
Constituição (“as taxas não poderão da sobre a renda dos cartórios, não Nas palavras do Ministro, não
ter base de cálculo própria de impos- é razoável negar a incidência do ISS haveria como se conciliar a função a
tos”). sobre os serviços prestados por eles. que se destina a imunidade recípro-
Por tais razões, concluímos que Aduziu, ainda, que o serviço notarial ca com o efeito jurídico de declara-
não haveria como as atividades e de registro “é atividade estatal de- ção de inconstitucionalidade preten-
cartorárias serem tributadas pelo ISS: legada tal como exploração de servi- dido, pois “a imunidade recíproca
a uma, porque os valores pagos a tí- ços públicos essenciais, mas enquan- opera como mecanismo de pondera-
tulo de taxa não podem integrar a to atividade privada, é um serviço ção e calibração do pacto federativo,
base de cálculo de imposto; a duas, sobre o qual nada impede a incidên- destinado a assegurar que entes des-
porque a mesma atividade não pode cia do ISS”. providos de capacidade contributiva
ser tributada duas vezes, sob pena Na sessão do dia 26 de abril de vejam diminuída a eficiência na con-
de bitributação, prática vedada no 2007, o Ministro Joaquim Barbosa, secução de seus objetivos defendi-
ordenamento jurídico brasileiro. em seu voto-vista, comungando do dos pelo sistema jurídico. Ela também
O julgamento da ADI nº 3.089 entendimento do Ministro Sepúlveda é uma salvaguarda contra o risco de
teve seu início na sessão plenária de Pertence, julgou improcedente a ADI, utilização de tributos como instrumen-
20 de setembro de 2006, e, após o para declarar a constitucionalidade to de pressão econômica entre os
parecer do Ministério Público Fede- dos itens 21 e 21.1 da lista anexa LC membros do pacto federativo”.
ral pela inconstitucionalidade dos 116/2003, ao argumento de que a tri- Em suma, no entendimento do
itens 21 e 21.1 da lista anexa à LC butação do ISS cobrado de particu- Ministro Joaquim Barbosa, a imuni-
116/2003, o Ministro Relator Carlos lar, como contraprestação pelo exer- dade recíproca é garantia ou prerro-
Ayres Britto, votou pela procedência cício delegado de serviços notariais gativa imediata de entidades políticas
da ação, justamente com base na e de registro, não viola a imunidade federativas, e não de particulares que
natureza jurídica dos serviços recíproca. executam, com inequívoco intuito lu-
cartoriais e de registro. Segundo o Segundo o Ministro, de acordo crativo, serviços públicos mediante
Ministro6, o Supremo tem entendido com o artigo 236 da Constituição, a concessão ou delegação devidamen-
que o serviço notarial e de registro é atividade notarial é exercida por en- te remunerados. E concluiu: “não há
uma atividade estatal, porém, da tes privados, mediante contrapres- diferenciação que justifique a tributa-
modalidade serviço público, assim tação com viés lucrativo, posto que ção dos serviços públicos concedidos
não se poderia pressupor que têm de índole estatal, submetido ao po- e a não tributação das atividades de-
caráter tributário, como decorrentes der de polícia do Judiciário. Assim, legadas, elas se justificam pela ca-
do desempenho de atividade econô- não haveria falar na incidência do ar- pacidade contributiva dos agentes
mica. Para o Ministro, isto significa tigo 150 da Constituição, que veda a que as exploram com objetivo eco-
excluir a incidência do ISS, uma vez instituição e a cobrança, pelos entes nômico, pois a Constituição autoriza
que a natureza desse tributo só po- federados, de impostos sobre aos municípios e ao Distrito Federal
deria ter como fato gerador uma situ- patrimônio, renda ou serviços uns dos a instituição do ISS, ainda que públi-

8 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


DOUTRINA
COMENTÁRIOS E DOUTRINA

cos, quando desempenhados por criminal dos notários, dos oficiais de blicos. Doutrina e Jurisprudência.”
particulares”. registro e de seus prepostos, e defi- 4. Vide ADIn nº 1.378/ES, Rel.
Na esteira da divergência aber- nirá a fiscalização de seus atos pelo Min. Celso de Mello, DJ 30.05.1997:
ta pelo Ministro Sepúlveda Pertence, Poder Judiciário. “A jurisprudência do Supremo Tribu-
bem como do entendimento do mi- § 2º Lei federal estabelecerá nal Federal firmou orientação no sen-
nistro Joaquim Barbosa, a Ministra normas gerais para fixação de tido de que as custas judiciais e os
Cármen Lúcia e os Ministros Ricardo emolumentos relativos aos atos pra- emolumentos concernentes aos ser-
Lewandowski, Eros Grau, Cezar ticados pelos serviços notariais e de viços notariais e registrais possuem
Peluso e Gilmar Mendes votaram registro. natureza tributária, qualificando-se
pela constitucionalidade dos itens 21 § 3º O ingresso na atividade como taxas remuneratórias de servi-
e 21.1 da lista anexa LC 116/2003 e notarial e de registro depende de con- ços públicos, sujeitando-se, em con-
pela improcedência da ADI. curso público de provas e títulos, não seqüência, quer no que concerne à
Ou seja, do total de 11 (onze) se permitindo que qualquer serventia sua instituição ou majoração, quer no
Ministros que votarão na ADI ajuiza- fique vaga, sem abertura de concur- que se refere à sua exigibilidade, ao
da pela ANOREG, 7 (sete) já votaram so de provimento ou de remoção, por regime jurídico-constitucional perti-
pela sua improcedência, e apenas o mais de seis meses. nente a essa especial modalidade de
Ministro Carlos Ayres Britto votou pela tributo vinculado, notadamente aos
3. Vide ADI nº 1.378/ES, Rel.
inconstitucionalidade da incidência do princípios fundamentais que procla-
Min. Celso de Mello, DJ 30.05.1997:
ISS sobre os serviços cartorários. mam, dentre outras, as garantias es-
“A atividade notarial e registral, ainda
senciais (a) da reserva de competên-
O julgamento da ADI nº 3.089 se que executada no âmbito de
cia impositiva, (b) da legalidade, (c)
encontra suspenso em virtude do serventias extrajudiciais não oficiali-
da isonomia, (d) da anterioridade.
pedido de vista do Ministro Marco zadas, constitui, em decorrência de
Precedentes. Doutrina.”
Aurélio. Faltam votar, ainda, o Minis- sua própria natureza, função
tro Celso de Mello e a Ministra Ellen revestida de estatalidade, sujeitando- 5. “Art. 150. Sem prejuízo de
Gracie. se, por isso mesmo a um regime es- outras garantias asseguradas ao con-
trito de direito público. tribuinte, é vedado à União, aos Es-
A menos que algum dos Minis-
tados, ao Distrito Federal e aos Mu-
tros altere seu posicionamento, o re- A possibilidade constitucional de
nicípios: (...)
sultado da ADI representará relevan- a execução dos serviços notariais e
te derrota dos cartórios, que se ve- de registro ser efetivada ‘em caráter VI – instituir impostos sobre:
rão obrigados (se já não o são) ao privado, por delegação do poder pú- a) patrimônio, renda ou serviços,
recolhimento do ISS sobre suas ati- blico’ (CF, art. 236), não uns dos outros; (...)”.
vidades. descaracteriza a natureza essencial- 6. Todas as informações referen-
Notas mente estatal dessas atividades de tes aos votos da ADI nº 3.089 foram
índole administrativa.
1. Vide MOREIRA, Bernardo retiradas de notícias veiculadas no
Motta. “O ISS em relação aos servi- As serventias extrajudiciais, ins- site oficial do Supremo Tribunal Fe-
ços cartorários, notariais e de regis- tituídas pelo Poder Público para o de- deral (www.stf.gov.br). Até a data da
tro público”. Diário das Leis. Boletim sempenho de funções técnico-admi- elaboração do presente estudo
nistrativas destinadas a ‘garantir a
Cartorário. Revista nº 11 de 2007. (21.09.2007), nenhum dos Ministros
publicidade, a autenticidade, a segu-
2. Art. 236. Os serviços notariais havia liberado seus votos.
rança, e eficácia dos atos jurídicos’
e de registro são exercidos em cará- (*) O autor é Advogado em Belo
(Lei 8.935/94, art. 1º), constituem ór-
ter privado, por delegação do Poder gãos públicos titularizados por agen- Horizonte/MG. Graduado em direito
Público. tes que se qualificam, na perspecti- pela Universidade Federal de Minas
§ 1º Lei regulará as atividades, va das relações que mantêm com o Gerais. Pós-Graduando em Direito
disciplinará a responsabilidade civil e Estado, como típicos servidores pú- Tributário pela PUC-MG.

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 9


PRÁTICA DE DIREITO IMOBILIÁRIO
DIREITO
O PREÇO NAS ESCRITURAS DEFINITIVAS
DE COMPRA E VENDA – PARTE I

Prof. Jorge Tarcha

Como já vimos, o preço de um de promessa - não uma compra e cheque.


imóvel é um dos três elementos es- venda. Algumas observações
senciais do contrato de compra e ven- Substitutos do dinheiro
da. Se o pagamento foi efetuado
Porém, atenção: o dinheiro tem com cheques pré-datados, incidirão
Antes de iniciar o estudo do pre- sucedâneos, ou substitutos, que as regras da nota promissória pro sol-
ço, seja-nos permitido esclarecer a poderão ser usados em seu lugar. vendo.
diferença entre preço e valor.
Por exemplo, cheques entre- A jurisprudência considera que
Valor é a expressão de uma ne- gues em caráter pro soluto equiva- o pagamento com cheque sem fun-
cessidade, de um desejo ou de um lem a dinheiro, para todos os efeitos dos, em caráter pro solvendo, equi-
capricho. jurídicos. vale ao pagamento com moeda fal-
A idéia de valor está ligada à Problema: em uma escritura sa.
idéia de utilidade e de necessida- pública definitiva de compra e venda O preço deve ser determinado
de. o comprador pagou com um cheque ou, pelo menos, determinável
Por exemplo: quanto vale um comum, não administrativo. O preço deverá ser certo e de-
copo de água? O tabelião inseriu os dados do terminado, para que o comprador
Em condições normais, em um cheque, mencionando o seu valor, em possa cumprir devidamente sua obri-
botequim, valerá 1 real, ou menos. algarismos e por extenso, qual foi o gação.
Mas se, em um deserto, uma banco sacado, a agência etc. Portanto, será nula uma cláusu-
pessoa estiver morrendo de sede, e Porém, o vendedor, cauteloso, la estipulando que o comprador pa-
alguém lhe oferecer um copo de não permitiu que se declarasse que gará o que quiser.
água, pagará uma fortuna por ele. aquele cheque havia sido entregue Porém, é aceitável que o preço,
Já o preço é a expressão mo- em caráter pro soluto. Pelo contrá- embora não seja conhecido desde
netária de um determinado bem. rio, exigiu que fosse declarado o ca- logo, seja determinável, podendo ser
ráter pro solvendo do cheque. fixado a posteriori.
Ou seja, é uma quantia em di-
nheiro, pelo qual uma determinada (Em artigo anterior foi dada a Para determinar o preço, o Có-
mercadoria pode ser vendida. explicação sobre títulos de crédito em digo Civil oferece três possibilida-
caráter pro soluto e pro solvendo.) des lícitas.
Por exemplo, dois imóveis po-
dem ter o mesmo valor de merca- Pois bem. O cheque foi deposi- Alternativas permitidas para a
do, mas é possível que sejam nego- tado e voltou, por falta de fundos. determinação do preço
ciados por preços diferentes. Nesse caso, não houve paga- – por um terceiro arbitrador (art.
Nos contratos de compra e venda mento. Portanto, o contrato de com- 485)
o preço é em dinheiro pra e venda, vale dizer, a escritura, é
nulo. – pelos preços de mercado ou
Note-se que os termos do art. da bolsa (art. 486)
482 do Código Civil são bastante cla- Então, anote-se que o vendedor
deverá ter o cuidado de somente en- – por índices ou parâmetros (art.
ros – na compra e venda o preço é 487)
em dinheiro. tregar as chaves do imóvel (ou seja,
Pode-se dispor que o pagamen- a posse), após a compensação do Textos legais
to será efetuado pela entrega de ou- cheque. Art. 485. A fixação do preço pode
tro bem, que não seja dinheiro. Por O que acontecerá se for decla- ser deixada ao arbítrio de terceiro,
exemplo, pela entrega de um carro. rado que o cheque foi dado em cará- que os contratantes logo designarem
Teremos uma troca (que tem ter pro soluto? ou prometerem designar. Se o tercei-
como sinônimos permuta, escambo). Nesse caso, houve pagamen- ro não aceitar a incumbência, ficará
Mas não será compra e venda. to. sem efeito o contrato, salvo quando
Ou pode-se contratar o paga- Não ocorrerá nulidade da es- acordarem os contratantes designar
mento em várias parcelas. Teremos critura.. Ao vendedor restará, ape- outra pessoa.
um contrato de compromisso ou nas, a possibilidade de executar o Art. 486. Também se poderá
10 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5
DIREITO
PRÁTICA DE DIREITO IMOBILIÁRIO
deixar a fixação do preço à taxa de Ou: é correspondente a tantas tária dos valores.
mercado ou de bolsa, em certo e de- arrobas de boi etc. etc. É de se notar que esses índices
terminado dia e lugar. A possibilidade de se determinar o de variação não se aplicam ao contra-
Art. 487. É lícito às partes fixar o preço por meio de parâmetros é antiga. to de compra e venda, que é instantâ-
preço em função de índices ou Sempre foi possível contratar fixando- neo, livre de desvalorização monetária.
parâmetros, desde que suscetíveis se o preço como equivalente a tantas Contudo eles têm plena aplica-
de objetiva determinação. sacas de café ou arrobas de gado. ção nos contratos de duração, como
A determinação do preço por De qualquer forma, será neces- o de compromisso de compra e ven-
árbitros (art. 485) sário estabelecer o tipo, a qualida- da, de locação etc.
O árbitro deverá ser, obrigatori- de, o local e a data da indicação 2. De outro lado, há índices que
amente, um terceiro. O preço não dos parâmetros, vale dizer, os ele- correspondem ao valor do bem em
pode ser deixado ao arbítrio de um mentos necessários para que se ob- uma certa data, não à sua variação.
dos contratantes. Nesse sentido, a tenha o valor em moeda corrente:.
Tais índices, é claro, variam com
norma do art. 489: Observe-se cuidadosamente que o tempo. Mas não utilizamos essa
Art. 489. Nulo é o contrato de não se está a dizer que o pagamento variação temporal e, sim, seu valor
compra e venda, quando se deixa ao será efetuado por meio de tantas sacas em determinada data.
arbítrio exclusivo de uma das partes de café ou quantas arrobas de gado.
Exemplo: o preço do imóvel
a fixação do preço. Os parâmetros são, apenas e tão corresponderá ao valor de 3.000
Considera-se que a posição ju- somente, um critério de negociação UFESPs na data da assinatura da es-
rídica desse terceiro é a de um peri- para a determinação do preço. critura.
to, auxiliar das partes. O pagamento deverá ser efetu- Pertencem a essa segunda ca-
Não havendo irregularidade fla- ado, forçosamente, em moeda cor- tegoria o salário mínimo, o dólar, o
grante no laudo desse avaliador e na rente, conforme a norma do art. 315 CUB do Sinduscon, a ORTN, o BTN,
medida em que foi escolhido por do Código Civil: a UFESP etc.
ambas as partes, estas não poderão Art. 315. As dívidas em dinheiro Nos tempos em que grassava
contestar o preço por ele fixado. deverão ser pagas no vencimento, uma violenta inflação de até 80%
Todavia, no caso de evidente em moeda corrente... mensais, era comum estipular, em
disparidade com relação aos preços A determinação do preço por contrato, que o valor de um bem
do mercado, sua opinião poderá ser meio de índices corresponderia a tantas ORTNs.
revisada judicialmente. Exemplo de índices: ORTN, URV, Havia até notas promissórias
A determinação do preço por UFESP, preços unitários de construção indexadas (ou seja, emitidas por um
taxas de mercado ou de bolsa fixados pelos Sinduscon etc. etc. índice, digamos, mil ORTNs), que
(art. 486) podiam perfeitamente ser protesta-
Há dois tipos de índices
Não existe a possibilidade de se das ou executadas..
determinar o preço de imóveis pela 1. Há índices que não têm valor
Bastava uma simples operação
sua cotação em bolsa. Esta só funci- absoluto – refletem apenas variações.
aritmética para se fixar o valor daquele
ona para bens móveis (mercadorias). Tome-se como exemplo o IGPM. título de crédito, desde que fosse co-
Também não se pode utilizar os Não se pode dizer que um aluguel nhecido o valor da ORTN naquela data.
preços de mercado para a determi- vale, digamos, mil IGPMs. Ou que o
O Código Civil de 1916 não con-
nação do preço de imóveis. preço de um imóvel corresponde a
tinha norma equivalente à do atual
dez mil INPCs.
De fato, não existe uma cotação 487. Os tempos eram outros.
de mercado suficientemente segura, Mas, pode-se ajustar, em um Já o Código atual admite, nos
que possa servir de critério para a contrato de locação, que um valor contratos de compra e venda, a esti-
determinação do preço, em um con- locativo inicial de R$ 1.500,00 será pulação do preço, por meio não só
trato de compra e venda de imóveis. corrigido ou reajustado anualmen- de parâmetros (sacas de café,
A determinação do preço por te, conforme a variação do IGPM. arrobas de gado etc.), mas também
meio de parâmetros (art. 487) Como exemplos desses índices de índices, desde que suscetíveis de
Exemplo de fixação do preço por de variação ou de reajuste temos: objetiva determinação.
meio de parâmetros: “O valor do imó- o IGPM, o IPC , o INPC etc. Ou seja, desde que o valor pos-
vel é correspondente a tantas sacas A função dos índices de varia- sa ser determinado com certeza.
de café na assinatura do contrato.” ção é a de efetuar a correção mone- (Continua no próximo número)

(*) O autor é Advogado, Professor de Direito Imobiliário. Autor dos livros: Direito Imobiliário, Uma Abordagem
Didática, edição particular; Títulos de Crédito, Editora Plêiade; Contratos Mercantis, Editora Graph Press; Despesas
Ordinárias e Extraordinárias de Condomínio, Editora Juarez de Oliveira. Autor do curso a distância, por correspondên-
cia, sobre locação de imóveis, da empresa Diário das Leis. E-mail: jorgetarcha@jorgetarcha.com.br

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 11


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA
EXECUÇÃO FISCAL – EMBARGOS DE TERCEIRO – IMÓVEL ALIENA-
DO E NÃO TRANSCRITO NO REGISTRO IMOBILIÁRIO – DEFESA DO
POSSUIDOR DE BOA-FÉ – DISCUSSÃO ACERCA DA POSSE (STJ)
Recurso Especial nº 582.932 - PR (2003/0113243-2) Os contratos de promessa de compra e venda, acom-
Relator: Ministro Teori Albino Zavascki panhados da transmissão da posse e de pagamento de
parcela expressiva do preço, geram, para o
Recorrente: Caixa Econômica Federal – Cef
compromissário, direito à transmissão, independentemen-
Recorrido: Paulo Ademir Farina e Cônjuge te de registro.” (fl. 61)
EMENTA No recurso especial, a recorrente aponta violação
Execução fiscal. Embargos de Terceiro. Imóvel ali- aos artigos 530, I, 531 e 533 do Código Civil de 1916,
enado e não Transcrito no registro Imobiliário. Defe- aduzindo, em síntese, que (I) a inexistência do registro do
sa do possuidor de boa-fé. Súmula 84/STJ. Discus- compromisso de compra e venda no Cartório de Imóveis
são acerca da posse. afasta a oponibilidade do direito de propriedade a tercei-
ros; (II) “no direito brasileiro, é dono quem como tal figura
1. Nos termos da Súmula 84/STJ: “É admissível a
na transcrição imobiliária” (fl. 68); (III) não há o que ampa-
oposição de embargos de terceiro fundados em ale-
rar, no caso concreto, a invocação ao enunciado da
gação de posse, advinda do compromisso de compra
Súmula 84/STJ, que “não transformou direito obrigacional
e venda de imóvel, ainda que desprovido de registro”.
em direito real” (fl. 68); e (IV) a promessa de compra e
2. Recurso especial a que se nega provimento. venda somente se caracteriza como direito real quando
ACÓRDÃO levada à registro.
Vistos e relatados estes autos em que são partes as Não foram apresentadas contra-razões (fl. 74)
acima indicadas, decide a Egrégia Primeira Turma do É o relatório.
Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, negar pro-
VOTO
vimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr.
Ministro Relator. Os Srs. Ministros Denise Arruda, Fran- O Exmo. Sr. Ministro Teori Albino Zavascki (Relator):
cisco Falcão e Luiz Fux votaram com o Sr. Ministro Relator. 1.A jurisprudência deste Tribunal prestigia o terceiro
Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro José Del- possuidor e adquirente de boa-fé na hipótese de a penho-
gado. ra recair sobre imóvel que, muito embora sem o respeito
às formalidades legais - não tendo sido a inscrição do tí-
Brasília, 10 de outubro de 2006 .
tulo translativo efetuada no registro de imóveis - não mais
Ministro Teori Albino Zavascki, Relator pertença de fato ao patrimônio do devedor. Este o enten-
RELATÓRIO dimento consolidado pela Súmula 84, que estabelece: “É
admissível a oposição de embargos de terceiro fundados
O Exmo. Sr. Ministro Teori Albino Zavascki:
em alegação de posse, advinda do compromisso de com-
Trata-se de recurso especial (fls. 63-69) interposto pra e venda de imóvel, ainda que desprovido de registro”.
com fundamento na alínea a do permissivo constitucional
No mesmo sentido, à guisa de exemplo, estão os
em face de acórdão do Tribunal Regional Federal da 4a
seguintes precedentes: REsp 638.664/PR, Min. Luiz Fux,
Região que, em embargos de terceiro visando à
1ª T., DJ 02.05.2005; REsp 762.521/RS, Min. José Delga-
desconstituição de penhora sobre bem objeto de contrato
do, 1ª T., DJ 12.09.2005; REsp 641.032/PR, Min. Luiz Fux,
de compra e venda não registrado, e firmado em momen-
1ª T., DJ 13.12.2004; e REsp 311.871/PB, Min. Aldir Passa-
to anterior ao ajuizamento da ação executiva, negou pro-
rinho Júnior, 4ª T., DJ 13.08.2001.
vimento à apelação, mantendo a sentença de procedên-
cia do pedido. O aresto foi assim ementado: 2.Ante o exposto, nego provimento ao recurso espe-
“Tributário. Processo Civil. Embargos de Terceiro. Con- cial. É o voto.
trato de Promessa de Compra e Venda não Registrado. Brasília, 10 de outubro de 2006

12 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA

FRAUDE À EXECUÇÃO – EMBARGOS DE TERCEIRO – PENHORA NÃO


LEVADA A REGISTRO À ÉPOCA DA AQUISIÇÃO – NÃO COMPROVA-
ÇÃO DE QUE A ADQUIRENTE TINHA CIÊNCIA DA CONSTRIÇÃO – PRE-
SUNÇÃO DE BOA-FÉ (TJSP)
Apelação com revisão nº 916.431-0/9 - Comarca de do imóvel, foi expressamente atestada pelo digno magis-
São Paulo - 6ª Vara Cível - Turma Julgadora da 26ª Câ- trado prolator da r. sentença recorrida, nos seguintes ter-
mara - Data do julgamento: 29.05.2006 - Relator: Des. mos, verbis:
Renato Sartorelli - Apelante: Waldemar Valiente - Apela- “... a embargante Sandra não adquiriu o imóvel dire-
da: Sandra Berenice Santos tamente da executada Marcia, de modo que incabível exi-
ACÓRDÃO gir que ela (Sandra) diligenciasse nos diversos ofícios ju-
“Embargos de terceiro - Penhora não levada a re- diciais a existência de demanda contra esta última (Mar-
gistro à época da aquisição do bem - Fraude à execu- cia). Referida diligência era necessária unicamente em
ção afastada - Recurso improvido. relação ao vendedor Ricardo.

Para a caracterização da fraude à execução de que Tanto assim que o imóvel foi inclusive objeto de fi-
trata o art. 593, II, do CPC, é necessária a presença nanciamento firmado pelo embargante junto à CEF (cf.
concomitante dos seguintes elementos: a) que a ação já contrato de fls. 21/29).
tenha sido aforada; b) que o adquirente saiba da existên- Irrelevante, outrossim, que ambas as alienações te-
cia da ação - ou por já constar no cartório imobiliário al- nham ocorrido após o ajuizamento da ação de conheci-
gum registro dando conta de sua existência (presunção mento originária (autos nº 99.096185-0). A própria segu-
juris et de jure contra o adquirente), ou porque o exeqüente, rança jurídica, que deve nortear o Registro de Imóveis,
por outros meios, provou que do aforamento da ação o estaria sendo abalada, a se permitir a tese alegada pelo
adquirente tinha ciência; e, c) que a alienação ou a requerido. Não se olvida, ainda, que além da proteção ao
oneração dos bens seja capaz de reduzir o devedor à in- credor, com o reconhecimento da fraude à execução, o
solvência, militando em favor do exeqüente a presunção ordenamento jurídico também ampara o terceiro de boa-
juris tantum”. fé, como no presente caso” (cf. fls. 118/119).
Vistos, relatados e discutidos estes autos, os Segundo entendimento mais recente sufragado pelo
desembargadores desta turma julgadora da Seção de Di- Colendo Superior Tribunal de Justiça, prestigiando o prin-
reito Privado do Tribunal de Justiça, de conformidade com cípio da boa-fé, se não registrada a penhora, a ineficácia
o relatório e o voto do relator, que ficam fazendo parte da venda em relação à execução depende de se demons-
integrante deste julgado, nesta data, negaram provimen- trar que o adquirente tinha ciência da constrição (REsp.
to ao recurso, por votação unânime. nº 145.371-MG - Rel. Min. Sálvio de Figueiredo; REsp. nº
214.990-SP, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo).
Renato Sartorelli, Relator
O art. 659 do CPC, em seu parágrafo 4º, introduzido
VOTO
pela Lei nº 8.952/94, passou a exigir o registro da penho-
Embargos de terceiro julgados procedentes pela r. ra junto ao cartório imobiliário para garantia da eficácia do
sentença de fls. 117/120, cujo relatório adoto. ato e de sua oponibilidade contra terceiros de boa-fé.
Inconformado, apela o embargado insistindo na re- Ausente o registro, ao exeqüente era debitado o en-
forma. Sustenta, em síntese, que a alienação do imóvel cargo de provar a má-fé da adquirente, evidenciando que
penhorado se deu em 22/10/2001, ou seja, em data pos- sabia da existência da demanda, tarefa da qual não se
terior ao julgamento do processo que desencadeou a desincumbiu satisfatoriamente em que pese a anteriori-
constrição, configurando-se, deste modo, a fraude à exe- dade do ato citatório.
cução que tornou nula a venda. Pleiteia, por isso, a sub- É sabido que a boa-fé se presume e a má-fé se pro-
sistência da penhora efetivada. va. E aqui não há evidência alguma de má-fé por parte da
Houve resposta e isenção de preparo em face da adquirente, que tomou as cautelas necessárias para a
gratuidade processual. realização do negócio, inclusive com a utilização do FGTS,
atuando dentro dos limites da normalidade, procedendo
É o relatório. às devidas pesquisas cartorárias, tanto que a Caixa Eco-
Na verdade a transparência da aquisição, aliada à nômica Federal aceitou a hipoteca do imóvel como ga-
cautela e à boa-fé com que a apelada conduziu a compra rantia do pagamento das prestações relativas ao crédito

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 13


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA

concedido para aquisição do bem. solvência, militando em favor do exeqüente a presunção


É oportuno lembrar, conforme orientação jurispru- juris tantum.
dencial emanada do E. Superior Tribunal de Justiça, que O que se impõe ao adquirente de um imóvel é agir
para a caracterização da fraude à execução de que trata com diligência e cautela, adotando as precauções nor-
o art. 593, II, do CPC, é necessária a presença mais à concretização do negócio, que não pode ser con-
concomitante dos seguintes elementos: a) que a ação já fundido com um trabalho policialesco de investigação em
tenha sido aforada; b) que o adquirente saiba da existên- relação ao vendedor; e ao que os autos detalham essas
cia da ação - ou por já constar no cartório imobiliário al- precauções não foram ignoradas pela embargante.
gum registro dando conta de sua existência (presunção Assim, porque não tipificados, em concurso, os pres-
juris et de jure contra o adquirente), ou porque o exeqüente, supostos exigidos à caracterização da fraude à execu-
por outros meios, provou que do aforamento da ação o ção, era mesmo de rigor a procedência dos embargos de
adquirente tinha ciência; e, c) que a alienação ou a terceiro a fim de livrar o bem da constrição judicial.
oneração dos bens seja capaz de reduzir o devedor à in- Ante o exposto, nego provimento ao recurso.

DESPESAS CONDOMINIAIS – EXECUÇÃO – CREDOR HIPOTECÁRIO –


LEVANTAMENTO DO PRODUTO DE ARREMATAÇÃO APÓS O PAGA-
MENTO DAS DESPESAS DE CONDOMÍNIO (STJ)
Agrg no Agravo de Instrumento nº 858.238 - MG “Trata-se de agravo de instrumento interposto pela
(2007/0012456-7) Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Bra-
Relator: Ministro Aldir Passarinho Junior sil - Previ contra decisão que negou seguimento a recur-
so especial, interposto pelas alíneas ‘a’ e ‘c’, do dispositi-
Agravante: Caixa de Previdência dos Funcionários vo constitucional, em que se aponta violação aos arts. 535,
do Banco do Brasil Previ do CPC e 83 da Lei n. 11.101/2005 e dissídio, sob o fun-
Agravado: Condomínio Residencial Groelândia e damento de que o crédito hipotecário é preferencial em
outro(s) relação a outros créditos e que o acórdão está omisso.
EMENTA O acórdão recorrido traz a seguinte ementa (fls. 08):
Civil e Processual. Embargos de declaração re- ‘Agravo de instrumento - Execução - Condomínio -
cebidos como agravo regimental. Condomínio. Des- Despesas condominiais - Preferência - Credor hipotecá-
pesas. Execução. Credor hipotecário. Preferência. rio - Não reconhecimento.
Inexistência. Agravo regimental improvido. O crédito por despesas condominiais em favor do
ACÓRDÃO Condomínio prefere a qualquer outro, inclusive ao crédito
Vistos e relatados estes autos, em que são partes as hipotecário. As despesas condominiais configuram encar-
acima indicadas, decide a Quarta Turma do Superior Tri- gos da própria coisa pois destinam-se à manutenção e
bunal de Justiça, à unanimidade, receber os embargos subsistência do imóvel, de natureza ‘propter rem’. Por isso,
de declaração como agravo regimental e negar-lhe provi- credor hipotecário não tem preferência para levantar pro-
mento, na forma do relatório e notas taquigráficas cons- duto de arrematação da unidade condominial hipotecada,
antes de, primeiramente, ser efetuado o pagamento das
tantes dos autos, que ficam fazendo parte integrante do
despesas condominiais.’
presente julgado. Participaram do julgamento os Srs. Mi-
nistros Hélio Quaglia Barbosa, Massami Uyeda e Cesar Inexiste ofensa ao art. 535 do CPC, pois ausente
Asfor Rocha. omissão, contradição ou obscuridade no acórdão a quo.
Brasília (DF), 03 de maio de 2007 O acórdão deu solução à demanda em consonância
com o entendimento do STJ, conforme mencionado na
Ministro Aldir Passarinho Junior, Relator
decisão agravada (3ª Turma: REsp n. 577.547/RS, Rel.
RELATÓRIO Min. Carlos Alberto Menezes Direito, unânime, DJU de
O Exmo. Sr. Ministro Aldir Passarinho Junior: Caixa 25.10.2004 e REsp n. 208.896/RS, Rel. Min. Ari Pargendler,
de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil - Previ unânime, DJU de 19.12.2002). Aplica-se na espécie a
propõe embargos de declaração em face de decisão do Súmula n. 83 desta Corte.
seguinte teor (fls. 90/91): Quanto ao dissídio, necessária a identidade fática

14 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA

entre os julgados, inexistente no presente caso, ou seja, E nesse aspecto, a “Turma Julgadora se manifestou de
enquanto o acórdão recorrido menciona que as cotas de forma lógica, coerente e fundamentada no que diz respei-
condomínio têm preferência sobre o crédito hipotecário, o to à preferência do crédito, conforme trechos do acórdão:
paradigma afirma que o crédito relativo a honorários ‘o crédito por despesas condominiais em favor do Condo-
advocatícios tem privilégio geral, mas não prefere os cré- mínio prefere a qualquer outro, inclusive ao crédito hipo-
ditos fiscais (fl. 40). tecário’” (fls. 26).
Ante o exposto, nego provimento ao agravo.” Conforme os precedentes do STJ, o crédito hipote-
Sustenta que a discussão não é sobre a preferência cário não prefere aos honorários advocatícios, como en-
do crédito condominial em face do hipotecário, mas sim a tende o recorrente. Nesse sentido:
preferência do crédito hipotecário sobre os honorários de “Direito civil e processual civil. Ação de execução.
sucumbência. Penhora de imóvel gravado de hipoteca. Honorários
Aduz que o acórdão é omisso por esse motivo, por advocatícios. Natureza.
não falar nada sobre os honorários de sucumbência. Crédito real. Preferência. Ônus sucumbenciais. Va-
Entende, então, o recorrente que o crédito hipotecá- lor fixado. Reexame de prova.
rio prefere aos honorários advocatícios. - Os honorários advocatícios inserem-se na catego-
Requer, assim, o provimento do recurso. ria de crédito privilegiado, dada a sua natureza alimentar,
sobrepondo-se, portanto, ao crédito real hipotecário.
É o relatório.
- Inviável o reexame de provas em sede de recurso
VOTO especial.
O Exmo. Sr. Ministro Aldir Passarinho Junior (Relator): Recurso especial não conhecido.”
Inicialmente, recebo os embargos de declaração como
agravo regimental, por sua pretensão meramente (3ª Turma, REsp 598243/RJ, Rel. Min. Nancy
infringente. O acórdão não manteve-se omisso, pois pe- Andrighi, unânime, DJ de 28.08.2006)
diu a recorrente que o julgador se pronunciasse quanto à Ante o exposto, nego provimento ao agravo.
preferência do crédito hipotecário frente aos honorários É como voto.
sucumbenciais, por possuírem os mesmos garantia real. Brasília, 03 de maio de 2007

POSSESSÓRIA – MANUTENÇÃO DE POSSE – CONVERSÃO EM AÇÃO


DE NUNCIAÇÃO DE OBRA NOVA – INADMISSIBILIDADE – INDENIZA-
ÇÃO PELA FAIXA DE TERRENO INVADIDA (TJSP)
ACÓRDÃO terreno invadido – Recurso provido em parte.
Possessória – Bem imóvel – Construção do réu Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo
adentrando parte da propriedade do autor – de Instrumento nº 7.080.226-5, da Comarca de Indaiatuba,
Propositura de ação de manutenção de posse c/c pe- sendo agravante Sylvio Alberto Ballerini e agravado Anto-
dido alternativo de desfazimento da obra ou indeniza- nio Spozito: (Voto nº 8.381)
ção pela faixa de terreno invadida – Superveniente
Acordam, em Vigésima Terceira Câmara de Direito
conversão, pelo Juiz, desta ação em ação de
Privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo,
nunciação de obra nova – Descabimento – Hipótese
por votação unânime, dar provimento em parte ao recur-
que não diz nem com uma nem com outra ação – Ação
so.
no caso que é de reintegração de posse c/c com pedi-
do alternativo de desfazimento da obra ou indeniza- Trata-se de agravo de instrumento interposto contra
ção da faixa de terreno alegada invadida – Réu que a r. decisão de fls. 97/98, que converteu ação de manu-
praticou esbulho, excluindo totalmente a posse do tenção de posse c/c com pedido alternativo de
autor, embora somente de parte do imóvel – Ação que, desfazimento da obra ou indenização pela área invadida,
no caso, portanto, ante o princípio da fungibilidade em ação de nunciação de obra nova, por entender que
das ações possessórias, cabe prosseguir como rein- esta é a ação própria para obstar a obra que estava sen-
tegração de posse c/c pedido alternativo de do erigida pelo vizinho do autor, invadindo o terreno vizi-
desfazimento da obra ou indenização pela faixa de nho.

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 15


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA

O efeito suspensivo postulado foi deferido à fl. 103. No caso, a situação descrita na inicial é outra, qual
Informações do MM. Juiz às fls. 117/119. seja, o réu invadiu parte do terreno do autor, praticando,
pois, esbulho.
Contraminuta às fls. 107/111.
A propósito a doutrina que segue, do citado Vicente
É o relatório. Grecco Filho, na mesma obra já referida:
Ingressou o aqui agravante com ação de manuten- “Omissis...
ção de posse c/c pedido de indenização, sustentando que
o réu ao dar início a uma construção, adentrou em parte O esbulho é a tomada da posse com a exclusão total
de seu terreno, em 90 m2 (sic), ultrapassando a divisa da posse do possuidor anterior; a turbação é a violação
entre a propriedade de ambos, e que teve que construir da posse sem que se exclua totalmente a posse do pos-
um muro de arrimo, às suas expensas, para sustentar a suidor anterior. Omissis...
obra edificada pelo réu. Se o agente, sem invadir totalmente uma proprieda-
Ofertada contestação e replicada esta, após a de, altera a cerca e passa a exercer posse exclusiva so-
especificação de provas, entendeu o MM. Juiz que a ação bre a área parcial do imóvel, cometeu esbulho dessa par-
em questão se trata de nunciação de obra nova, e não de te e não turbação, porque, nessa parte, excluiu totalmen-
manutenção de posse, tendo então convertido esta na- te a posse do outro. Comete turbação aquele que, sem
quela, pela decisão que segue: excluir a posse do outro, faz, por exemplo, plantações in-
tercaladas no terreno vizinho, abre a cerca para que o
“Sylvio Alberto Ballerini ajuizou a presente ação de gado vá pastar no terreno vizinho e depois o recolhe, etc.”
manutenção de posse em face de Antonio Spózito ale- (pág. 223)
gando ser proprietário do imóvel localizado na Rua
Turqueza, 546 e que o réu, proprietário do imóvel contí- Assim, a hipótese não é nem de manutenção de pos-
guo ao seu, procedeu à construção de um muro de divisa se, como proposta a ação pelo autor e nem de nunciação
invadindo sua propriedade. de obra nova, como determinado pelo juiz, e sim de rein-
tegração de posse, que o autor cumulou com o pedido
Ocorre que a ação cabível é outra e não a alternativo de indenização do valor da faixa de terreno in-
possessória. É que pode exercer a ação de nunciação de vadida e da despesa de construção do muro de arrimo
obra nova o proprietário, ainda que sem posse, para obter que diz ter sido necessário ser construído no caso.
a demolição de obra que invada seu terreno. De fato, esta
é a ação do autor, no caso – A ação de nunciação de obra E considerando o princípio da fungibilidade que rege
nova – que é própria para obstar a obra com que (sic) o as ações possessórias, a propositura de uma ação
vizinho invada a propriedade do nunciante. possessória quando a hipótese seria de outra, não impe-
de que o juiz conheça do pedido, dando a adequada pro-
Todavia, tenho que por questão de economia pro- teção legal correspondente aos fatos descritos, quando
cessual o processo deve ser aproveitado, até pelo princí- comprovados, sem levar em conta o nome dado à de-
pio da fungibilidade, considerando ainda que as duas manda.
ações não guardam ritos incompatíveis, mas ao contrá-
rio. A propósito a jurisprudência do E. Tribunal de Justiça
de Rondônia: “Omissis...
Desta forma, converto a presente ação em ação de
nunciação de obra nova, anotando-se e comunicando-se Tendo em vista o princípio da fungibilidade aplicável
no distribuidor. Omissis...” às ações possessórias, não há impedimento para que o
juiz conheça o pedido e outorgue a proteção legal corres-
Contra esta decisão insurge-se o autor, requerendo pondente à ação adequada que o caso requer (art. 920,
que seja mantida a ação em causa como manutenção de CPC). Omissis....”
posse.
(Apelação Cível nº 100.009.2003.003372-0, de Pi-
E razão lhe assiste, mas somente em parte. menta Bueno-RO, relator Desembargador Sansão
Não se houve com acerto o MM. Juiz ao transformar Saldanha, julgada em 08/06/2005)
a ação de manutenção de posse em ação de nunciação
de obra nova, pois que esta ação “protege o exercício dos Por fim, registre-se que o autor cumulou a ação
poderes regulares sobre a coisa, prejudicados por ato possessória com pedido de desfazimento da obra e, al-
abusivo do vizinho. Não há invasão, esbulho ou turbação, ternativamente, sua conversão em indenização.
mas a posse regular fica prejudicada porque a conduta Em situações como a da presente reintegração de
do vizinho, em seu próprio imóvel, vai atingir, por ser noci- posse, em que o réu invadiu, inadvertidamente e mesmo
va, o prédio vizinho.” (Vicente Grecco Filho, “Direito Pro- de boa-fé, pequena área do terreno vizinho, e que pouco
cessual Civil Brasileiro”, 3º vol., 6ª ed., Saraiva, pág. 226) prejudica a este, mesmo não havendo norma expressa

16 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA

no Código Civil de 1916, consoante construção doutriná- a desvalorização da área remanescente.”


ria e jurisprudencial, já se entendia que a adequada e Nessas condições, cabe ser reformada a r. decisão
equânime solução legal era resolver-se a questão em in- recorrida, para que a ação proposta pelo aqui agravante
denização do valor da área esbulhada e a facilitação da prossiga como reintegração de posse c/c pedido alterna-
convivência dos vizinhos. tivo de desfazimento da obra ou indenização do valor da
Atualmente, mais do que nunca, tal solução cabe ser faixa de terreno invadido e do muro de arrimo que alega
dada para a situação retratada e que parece ser a ques- ter tido de construir.
tão aqui em comento, ante a norma expressa do artigo Ante o exposto, dá-se provimento em parte ao recurso.
1.258 do Código Civil vigente, que prevê:
Presidiu o julgamento o Desembargador J. B. Fran-
“Art. 1.258. Se a construção, feita parcialmente em co de Godoi e dele participaram os Desembargadores
solo próprio, invade solo alheio em proporção não superi- Rizzato Nunes (2º Des.) e Paulo Roberto Santana (3º
or à vigésima parte deste, adquire o construtor de boa-fé Des.).
a propriedade da parte do solo invadido, se o valor da
construção exceder o dessa parte, e responde por indeni- São Paulo, 08 de novembro de 2006.
zação que represente, também, o valor da área perdida e Oséas Davi Viana, Relator

CONDOMÍNIO–AÇÃO RESCISÓRIA – ERRO DE FATO – VIOLAÇÃO LI-


TERAL À LEI – PRESTAÇÃO DE CONTAS – LEGITIMIDADE DO CONDÔ-
MINO (STJ)
Recurso Especial nº 535.696 - SP (2003/0087587-6) RELATÓRIO
Relator: Ministro Humberto Gomes de Barros Ministro Humberto Gomes de Barros: O recorrente
Recorrente: Diógenes Pires da Silva ajuizou ação rescisória, buscando desconstituir julgado
formado em ação de prestação de contas.
Recorrido: Espiritualino José de Souza Davila e Outro
A Décima Câmara Direito Privado do Tribunal de Jus-
Processo Civil - Ação Rescisória - Erro de Fato - tiça do Estado de São Paulo, por maioria, julgou improce-
Violação Literal à Lei - Condomínio - Prestação de dente o pedido rescisório.
Contas - Legitimidade do Condômino.
Vieram embargos infringentes, que não foram aco-
- Se o suposto erro de fato foi objeto de contro- lhidos. Eis a ementa do julgado:
vérsia na formação da sentença rescindenda, não cabe
ação rescisória. “Ação rescisória - Prestação de contas - Ajuizamento
de parte de condômino contra ex-síndico - Admissão e
- Não viola literalmente a lei, a outorga de legitimi- acolhimento por sentença, que se pretendeu rescindir, di-
dade para, em nome próprio, pedir prestação de con- tos ocorrentes violação de literal disposição de lei e erro
tas ao síndico quando este não as tenha prestado por de fato - Rescisória julgada improcedente, por maioria de
ausência de convocação de Assembléia de condôminos votos - Insurgência do autor, a partir do art. 22, § 1º, ‘f’, da
e impossibilidade de obtenção de quorum para convo- Lei nº 4.591/64 - Não configuração dos propalados vícios
cação de Assembléia extraordinária. na sentença rescindenda, como também deixou de
ACÓRDÃO reconhecê-los a maioria julgadora da pretensão rescisória
Vistos, relatados e discutidos os autos em que são - Inteligência do art. 485, V e IX, do Código de Processo
partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Ter- Civil - Súmula 343, do Supremo Tribunal Federal - Em-
ceira Turma do Superior Tribunal de Justiça na confor- bargos infringentes rejeitados.” (fl. 728).
midade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por Opostos embargos declaratórios, foram rejeitados.
unanimidade, não conhecer do recurso especial, nos ter- O recorrente reclama de negativa de vigência aos
mos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Ari Arts. 485, V e IX, e 914 do CPC, 22, § 1º, “f”, da Lei 4.591/
Pargendler, Carlos Alberto Menezes Direito, Nancy 64. Também aponta divergência jurisprudencial. Em sín-
Andrighi e Castro Filho votaram com o Sr. Ministro Relator. tese, alega que:
Brasília (DF), 13 de março de 2007 (Data do Julgamento). - houve erro de fato, considerando-se existente fato
Ministro Humberto Gomes de Barros, Relator inexistente, pois não foi convocada Assembléia de

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 17


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA

condôminos, ral disposição de lei ou a erro de fato perpetrado.


- o julgado rescindendo condenou o recorrente (ex- No tocante ao primeiro aspecto, persiste sobrancei-
síndico) a prestar contas diretamente a condômino, em ro o enunciado da Súmula 343, do Excelso Pretório, na
ofensa ao Art. 22, § 1º, “f”, da Lei 4.591/64, linha de que ação rescisória por ofensa a literal disposi-
- “o objeto da divergência está na questão da legiti- ção de lei só se justifica quando a lei tida por ofendida o
midade ativa para promover a ação de prestação de con- tiver sido em sua literalidade, consoante expressão textu-
tas contra síndico ou ex-síndico de condomínio edilício, al do art. 485, V, do Código de Processo Civil, não porém
que, nos termos da alínea ‘f’ do § 1º, do art. 22 da Lei quando, dentre as interpretações cabíveis, uma tenha sido
4.591/64, tal legitimidade é dada ao condomínio e não aos eleita, sem destoar, de modo aberrante, da literalidade do
condôminos de forma direita e individualizada.” (fl. 780). texto legal (R.S.T.J. 40/17, 93/416; R.T. 733/154).

Contra-razões às fls. 839/846. De outra parte, tampouco se esboçava propalado erro


de fato, sob a ótica do art. 485, IX, do Código de Processo
Juízo de admissibilidade positivo (fls. 860/862). Civil, pois, afinal, ‘o erro autorizador da rescisória é aque-
O Ministério Público Federal, em parecer da lavra do le decorrente da desatenção ou omissão do julgador à
e. Subprocurador Pedro Henrique Távora Niess, opinou prova, não, pois, o decorrente do acerto ou desacerto do
pelo improvimento do recurso (fls. 891/895). julgado em decorrência da apreciação dela’ (Bol. AASP
- Se o suposto erro de fato foi objeto de controvérsia 1.678/supl. p. 6, apud THEOTÔNIO NEGRÃO, ‘Código
na formação da sentença rescindenda, não cabe ação de Processo Civil e Legislação Processual em Vigor’, ed.
rescisória. Saraiva, São Paulo, 1999, nota 43 ao art. 485, p. 479), ou
da interpretação razoável, neste ou naquele sentido, de
- Não viola literalmente a lei, a outorga de legitimida- disposição legal.” (fl. 733).
de para, em nome próprio, pedir prestação de contas ao
síndico quando este não as tenha prestado por ausência Diz o Código Buzaid que há erro de fato “quando a
de convocação de Assembléia de condôminos e impossi- sentença admitir um fato inexistente, ou quando conside-
bilidade de obtenção de quorum para convocação de As- rar inexistente um fato efetivamente ocorrido.”.
sembléia extraordinária. Ocorre que, no caso, a sentença rescindenda deci-
VOTO diu pela viabilidade da ação de prestação de contas, con-
siderando a excepcionalidade do caso e com a finalidade
Ministro Humberto Gomes de Barros (Relator): Des- de obviar o enriquecimento sem causa. Vide trecho da r.
taco, no que interessa, a fundamentação do acórdão re- sentença rescindenda:
corrido:
“Não se pode negar que, como regra geral, se torna
“A ementa do v. acórdão embargado é suficientemen- impossível ao síndico cumprir com a prestação de contas
te esclarecedora, enfatizando a admissibilidade de ação individualmente a cada condômino. Tanto isto é verídico
de prestação de contas, de iniciativa de condômino, con- que existe a assembléia específica, ao final da vigência
tra ex-síndico, ‘diante da ausência de convocação de as- do mandato outorgado pela maioria dos condôminos, para
sembléia e impossibilidade de obtenção de quorum para o fim de aprovação das contas da gestão do síndico ante-
convocação de assembléia extraordinária’ (fls. 378), não rior.
deixando de considerar, àquele propósito, alvitrado em-
baraço normativo, emergente da regra do art. 22, § 1º, ‘f’, Entretanto, tal regra geral comporta exceção justa-
da Lei nº 4.591/64, para não enxergá-lo, todavia, de cará- mente quando o síndico, seja por circunstâncias especi-
ter absoluto, na medida em que deparadas situações ex- ais do condomínio (presença de diversos familiares), seja
cepcionais, como a que entreviu nestes autos, objeto de por ausência de observância do dever de prestar contas
realce no corpo do próprio julgado (fls. 379/380). ao final da gestão, se omite em cumprir com o exigido em
Lei.
Poder-se-ia, eventualmente, discordar da posição
perfilhada pela douta maioria, sabido que a matéria em Inconcebível que os autores se vejam impedidos de
causa não é estreme de peleja na jurisprudência, conso- analisar a forma e controle das despesas com a manu-
ante se extrai de J. Nascimento Franco e Nisske Gondo tenção da coisa comum apenas pelo fato dos demais
(‘Condomínio em Edifícios’, ed. R.T., São Paulo, 1984, nº condôminos pouco se importarem com o seu dinheiro,
199, p. 243, nota de rodapé 395): o que não permite é fazendo vistas grossas a uma gestão sem controle ao seu
asserir que, julgando como o julgaram, fosse o magistra- final.
do de primeiro grau, fossem os subscritores do pronunci- Os documentos juntados aos autos demonstram a
amento vencedor, já na apreciação da rescisória, tenham ausência de prestação de contas do ex-síndico, mesmo
afrontado ou fechado os olhos a suposta violação de lite- tendo ocorrido já a eleição do novo administrador da coi-

18 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA

sa comum. Ora, se a lei civil exige do réu a prestação de A meu ver, não se pode dizer que o acórdão recorri-
contas para a coletividade em momento certo e esta dei- do violou a literalidade dos Arts. 22, § 1º, “f”, da Lei 4.591/
xa de acontecer, sabe lá por que razão, surge a possibili- 64 e 914 do CPC, porque, se as contas não foram presta-
dade jurídica do condômino postulá-la individualmente.” das à Assembléia dos condôminos, é razoável a interpre-
(fls. 177/178). tação de que surge legitimidade para que algum
Portanto, está claro que o Juiz admitiu a ação de pres- condômino, em nome próprio, reclame a prestação de
tação de contas mesmo sem a Assembléia dos contas ao síndico (no período da respectiva gestão). O
condôminos. Em resumo: houve pronunciamento sobre que não se poderia admitir é que o condômino, individual-
da inexistência da convocação da Assembléia dos mente, pleiteasse prestação de contas já aprovadas pela
condôminos. Assembléia dos condôminos.

A sentença de mérito pode ser rescindida com fun- Nossa jurisprudência diz que a interpretação razoá-
damento em erro de fato, resultante de atos ou de docu- vel não enseja rescisória por violação à literal disposição
mentos da causa, desde que não tenha havido controvér- de Lei, porque a ofensa deve ser tamanha que contrarie a
sia, nem pronunciamento judicial sobre o fato (CPC; Art. própria letra do dispositivo legal. Confira-se: Ar 1.910/
485, IX c/c § 2º). Essa é a toada de nossa jurisprudência: Arnaldo Esteves, Resp 595.874/Direito, Ar 467/Pádua, e
Ar 720/Nancy, Ar 464/Barros Monteiro, Dentre Outros.
Processual - Ação Rescisória - Suposto erro de Fato
- Tema Controvertido. Em suma: é razoável a interpretação de que o
condômino tem legitimidade para, em nome próprio, pe-
- Se o suposto erro foi objeto de controvérsia na for- dir prestação de contas ao síndico quando este não as
mação do acórdão, não cabe ação rescisória. (Resp tenha prestado por ausência de convocação de Assem-
210.028/Humberto). bléia de condôminos e impossibilidade de obtenção de
No mesmo sentido: Ar 246/Humberto, Ar 878/Fischer, quorum para convocação de Assembléia extraordinária,
Ar 834/Dipp, Resp 284.546/Pádua, Resp 147.796/Sálvio, por isso, não tem procedência pedido rescisório louvado
Resp 515.279/Nancy, Dentre Outros. em violação literal aos Arts. 22, § 1º, “f”, da Lei 4.591/64 e
O recorrente alegou violação literal à alínea “f” do § 914 do CPC.
1º do Art. 22 da Lei 4.591/64, que diz: Por fim, a divergência jurisprudencial não está de-
“§ 1º Compete ao síndico: monstrada com as formalidades exigidas pelo Art. 541,
(...) parágrafo único, do CPC. Não houve confronto analítico
f) prestar contas à Assembléia dos condôminos;” entre os paradigmas e o julgado recorrido para demons-
tração de semelhança entre os casos, que, na hipótese,
Note-se que o dispositivo apenas define competên- efetivamente, não existe. Simples transcrições de emen-
cia do síndico para prestação de contas à Assembléia dos tas e trechos não bastam. Veja-se: Eag 430.169/Humberto,
condôminos. No entanto, o artigo não atribui exclusivida- AgRg no Ag 552.760/Gonçalves, AgRg no Ag 569.369/
de à Assembléia e nem exclui literalmente a possibilidade Pádua, AgRg no Ag 376.957/Sálvio, dentre outros.
de algum condômino pedir prestação de contas ao Síndi-
co, inda mais quando presente a peculiaridade do caso Nego provimento ao recurso ou, na terminologia da
em que as contas não foram prestadas à Assembléia de Turma, não conheço do recurso.
condôminos. Brasília, 13 de março de 2007

COMPRA E VENDA – ADJUDICAÇÃO COMPULSÓRIA – INCIDÊNCIA DE


GRAVAME HIPOTECÁRIO – INEFICÁCIA EM RELAÇÃO AOS ADQUI-
RENTES – PREÇO QUITADO – LIBERAÇÃO DA HIPOTECA – ADMISSI-
BILIDADE (TJSP)
ACÓRDÃO mara. Baixa do ônus determinada. Improcedência da de-
Ação de adjudicação compulsória, cumulada com manda afastada. Apelo provido. Vistos, relatados e discu-
libertação de hipoteca. Ineficácia do ônus hipotecário tidos estes autos de Apelação Cível com Revisão nº
em relação aos adquirentes. 367.702-4/6-00, da Comarca de São Paulo, em que são
Aplicação do enunciado pela Súmula nº 308 do Su- apelantes Mário Luiz Oki e Outra, sendo apelado Banco
perior Tribunal de Justiça. Precedentes do STJ e da Câ- Bradesco S/A:

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 19


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA

Acordam, em Terceira Câmara de Direito Privado do “A questão não é nova e os temas discutidos já fo-
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, proferir a ram objeto de análise e decisão no Colendo Superior Tri-
seguinte decisão: “Deram Provimento ao Recurso, V.U.”, bunal de Justiça, que concluiu pela aplicação do Código
de conformidade com o voto do Relator, que integra este de Defesa do Consumidor e pela abusividade da cláusula
acórdão. instituidora de hipoteca dada pela construtora quando o
O julgamento teve a participação dos Desembargadores adquirente compra o imóvel à vista, ainda que ciente da
Caetano Lagrasta (Presidente, sem voto), Beratta da hipoteca.
Silveira e Adilson de Andrade. São Paulo, 17 de outubro Isso porque a hipoteca não impede a venda e com-
de 2006. Donegá Morandini, Relator. pra e é presumida a boa-fé de quem adquire na certeza
VOTO de que o ônus será liberado para outorga e registro da
escritura definitiva do imóvel (REsp 462.469/PR)”
1. Ação de adjudicação compulsória, cumulada com
liberação de hipoteca, promovida por Mário Luiz Oki e sua (Apelação Cível nº 431.755.4/8-00, de Jundiaí, Relator
mulher Maria Elisa André Oki contra Basic Engenharia Beretta da Silveira).
Ltda. e Banco Bradesco S/A. No mesmo sentido: “Civil e consumidor. Imóvel. In-
Houve composição amigável entre os autores e a ré corporação. Financiamento. SFH.
Basic, homologada às fls. 181. Hipoteca. Terceiro adquirente. Boa-fé. Não
Em relação ao Bradesco, pela r. sentença de fls. 180/ prevalência do gravame. 1. O entendimento pacificado no
183, a ação foi julgada Improcedente. Recorrem os auto- âmbito da Segunda Seção deste STJ é no sentido de que,
res. Insistem, pelas razões expostas às fls. 190/198, no em contratos de financiamento para construção de imó-
afastamento da hipoteca que recai sobre o imóvel. veis pelo SFH, a hipoteca concedida pela incorporadora
em favor do Banco credor, ainda que anterior, não preva-
Contra-razões às fls. 204/211. É o Relatório.
lece sobre a boa-fé do terceiro que adquire, em momento
2. Respeitado o entendimento esposado pelo I. Ma- posterior, a unidade imobiliária. Súmula 308 do Superior
gistrado (fls. 181/182), procede o apelo dos autos, impon- Tribunal de Justiça.
do-se o afastamento da hipoteca que recai sobre o imóvel
2. Recurso especial conhecido, mas não provido” (STJ,
descrito pela inicial.
REsp 625.045-GO, Terceira Turma, Relator Ministro
Com efeito. Fernando Gonçalves, julgamento em 17.05.05). Em suma,
Inquestionável, à vista do conteúdo da composição a dívida assumida pelos apelantes já está quitada, inexistindo
amigável de fls. 176/175, a quitação do preço do imóvel qualquer responsabilidade dos mesmos pelo débito da cons-
adquirido pelos recorrentes (fls. 177), inexistindo qualquer trutora em relação ao banco financiador, devendo a questão
pendência perante a vendedora Basic. ser equacionada somente entre essas partes.

Também inquestionável que pesa sobre a unidade Do contrário, estar-se-ia obrigando os apelantes ao
adquirida e quitada pelos apelantes uma hipoteca institu- pagamento de duas dívidas, ou seja, aquela relacionada
ída pela vendedora Basic em prol do Banco Bradesco, com a aquisição da unidade e outra relacionada com a
ora apelado, derivada do financiamento da construção do hipoteca.
edifício. Entretanto, a unidade adquirida pelos apelantes Impõe-se, dessa forma, o reconhecimento da inefi-
está imune ao ônus hipotecário acima referido. cácia do ônus hipotecário que recai sobre a unidade ad-
quirida pelos recorrentes, devendo o apelado, no prazo
É nessa linha, inclusive, o enunciado pela Súmula
de 30 (trinta) dias, a partir da publicação deste Acórdão,
308 do Superior Tribunal de Justiça:
providenciar a baixa do gravame, sob pena de multa diá-
“A hipoteca firmada entre a construtora e o agente ria de R$ 1.000,00 (um mil reais), ressalvando-se, no en-
financeiro, anterior ou posterior à celebração da promes- tanto, o direito do recorrido em exigir a substituição da
sa de compra e venda, não tem eficácia perante os referida garantia junto à construtora.
adquirentes do imóvel”. Acolhida a pretensão dos apelantes, fica invertido o
Esta Colenda Câmara, por sua vez, sobre a matéria, ônus da sucumbência (fls. 183). Isto posto, dá-se provi-
deixou assentado: mento ao apelo.

20 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA

LOTEAMENTO – REPASSE DO CUSTO DAS OBRAS DE INFRA-ESTRU-


TURA PARA OS ADQUIRENTES – VALIDADE – COBRANÇA DE ACOR-
DO COM OS ARTS. 18 E 26 DA LEI 6766/1979 (TJSP)
ACÓRDÃO buição de água, sistema de esgoto, galerias de escoamen-
Loteamento. Arts. 18 e 26 da Lei nº 6.766/79. Re- to de águas pluviais, etc.), não podem a eles ser repassa-
passe da cobrança das obras aos adquirentes que não dos ante o disposto no artigo 18, V, da Lei nº 6.766/1979. A
é vedada e pode ser feita tanto embutida no preço empresa de empreendimentos imobiliários aduz que, ao
como em contratos distintos do lote e do repasse, ser acolhida parcialmente a pretensão, o acórdão contra-
constituindo a soma de ambos o valor do lote adqui- riou o referido dispositivo legal, pois ele apenas prevê o
rido. Jurisprudência pacífica do STJ e deste TJSP. Ile- encargo ao loteador de realizar tais obras, não vedando o
galidade inexistente. Procedência acertada. Recurso seu repasse aos adquirentes. O Min. Relator entendeu que
improvido. a única obrigação imposta ao loteador é a realização das
aludidas obras. Nada impede o repasse dos custos aos
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apela- adquirentes, se assim for estabelecido nos contratos. Com
ção Cível nº 441.873.4/4, da Comarca de Suzano, em que esse entendimento, a Turma conheceu do recurso e deu-
são Apelantes José Bento e Oliveira (e outra) (AJ), sendo lhe provimento, para julgar improcedente a ação, conde-
apelados Rafrei Ltda. (e outro). nando os autores ao pagamento das custas e honorários.
Acordam, em Quarta Câmara de Direito Privado do Precedentes citados: REsp 43.735-SP, DJ 14/4/1997, e
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, por votação REsp 191.907-SP, DJ 24/5/2005” (STJ - REsp nº 176.013 -
unânime, negar provimento ao apelo. SP - Rel. Min. Aldir Passarinho Junior - J. 13.12.2005).
Trata-se de apelação interposta contra a r. sentença, O entendimento que prevaleceu e predomina no
cujo relatório se adota, que julgou procedente a ação de Colendo Superior Tribunal de Justiça, acerca da Lei nº 6.766/
cobrança, sustentando os réus apelantes, em síntese, além 79, é o de que os arts. 18 e 26 não vedam o repasse dos
de cerceamento de defesa, que não pode subsistir o con- custos de construção das obras necessárias, as quais po-
trato pelo qual há o repasse aos compradores das obras dem ser diretamente embutidas no preço ou desmembradas
para a construção de benfeitorias que deveriam ser feitas em dois contratos (STJ - REsp. nº 209.819 - SP - 3ª T. - Rel.
pelo loteador nos termos da Lei nº 6.766/79, e, ainda, que Min. Carlos Alberto Menezes Direito - J. 04.12.2003 - DJ
as prestações foram cobradas de modo equivocado. 15.03.2004; STJ - RESp. nº 191.907 - SP - 4ª T. - Rel. Min.
Aldir Passarinho Júnior - J. 06.04.2004 - DJ 24.05.2004).
Este é o relatório.
Assim decidiu o digno Magistrado sentenciante.
O recurso não merece provimento.
E, como dito, acertadamente.
O digno Magistrado sentenciante concluiu pela legali-
dade do contrato firmado simultaneamente com o da com- Este Egrégio Tribunal de Justiça há muito tempo vem
pra do lote e pelo qual se repassa ao comprador o custo decidindo da mesma maneira, por considerar ausente ile-
das benfeitorias a fazer no loteamento, visto que, se ficas- galidade no repasse dos custos das obras aos adquirentes,
sem a cargo do loteador, a compra se daria por valor maior inclusive quando feito em contrato distinto daquele refe-
pela inclusão do custo. E agiu acertadamente. rente à compra do lote (Apelação nº 790.146-2, da Comarca
de Campinas, extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil, Rel.
O contrato de pagamento das obras de água Juiz Hélio Lobo, em 18.08.98, LEXJTAC 175/204).
encanada, luz elétrica, guias e sarjetas, sarjetões e
cascalhamento, feitas pelo loteador segundo a cláusula Confira-se, mais recentemente: “Loteamento - Re-
2ª não contém ilegalidade porque o que a Lei nº 6.766/79 passe do custo das obras de infra-estrutura para os
veda é a construção das benfeitorias pelo comprador, mas adquirentes - Validade - Obrigação também assumida
não a cobrança do seu custo. O que se tem no caso dos pelos adquirentes no ato de aquisição quanto ao custeio
autos é o preço do lote dividido em duas obrigações, o da manutenção e conservação das obras do loteamento,
seu valor e o que se lhe foi acrescido para ressarcimento e do serviço de fornecimento particular de água, na inér-
das obras realizadas, constituindo a soma de ambos o cia da Administração Pública Municipal - Inaplicabilidade
preço do lote adquirido pelos autores (fls. 56). Não há ile- do Código de Defesa do Consumidor que não tem eficá-
galidade no mero desdobro da cobrança do preço do lote cia retroativa - Ação de nulidade de cláusula contratual
porque a soma equivale ao valor do lote, e assim se tem improcedente - Não padece de nulidade cláusula contratual
decidido tranqüilamente neste Egrégio Tribunal de Justi- que prevê o repasse do custo de obras de infra-estrutura
ça e no Colendo Superior Tribunal de Justiça. para o próprios adquirentes, não proibida pela Lei nº 6.766/
Transcreva-se, pela clareza da ementa, recente julga- 79, uma vez que são despesas que repercutem no preço
do do Colendo Superior Tribunal de Justiça: “Loteamento - do lote” (Apelação Cível n. 166.208-4 - Itatiba - 9ª Câmara
Infra-estrutura - Repasse - Adquirentes - Os autores pe- de Direito Privado - Relator: Ruiter Oliva - 10.09.02 - v. u.).
dem que seja declarada a nulidade de cláusula que prevê Resta salientar que não houve cerceamento de de-
que os custos das obras de infra-estrutura (redes de distri- fesa por uma razão essencialmente importante não hou-

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 21


JURISPRUDÊNCIA
JURISPRUDÊNCIA
ve específica contrariedade aos valores cobrados, a per- tados e bem deduzidos fundamentos.
mitir que se realizasse dispendiosa e demorada prova Pelo exposto é que o meu voto nega provimento ao
pericial para o fim de conferir os valores cobrados e gene- recurso e mantém, na íntegra, a r. sentença apelada.
ricamente impugnados.
Presidiu o julgamento o Desembargador Ênio Zuliani
Nesse contexto, adotados expressamente os funda- e dele participaram os Desembargadores Natan Zelinschi
mentos constantes das ementas transcritas, pela similari- (Revisor) e Francisco Loureiro (3º Juiz).
dade com o caso em julgamento, forçoso convir que mais
não é necessário aduzir para a integral confirmação da r. São Paulo, 28 de setembro de 2006
sentença apelada, em especial pelos seus próprios, acer- Maia da Cunha, Relator

CONDOMÍNIO – COTAS EM ATRASO – COBRANÇA AO NOVO


CONDÔMINO ATRAVÉS DE CONTRATO NÃO REGISTRADO – LEGITI-
MIDADE DA COBRANÇA (STJ)
AgRg no Recurso Esp. nº 921.446 - SP (2007/0020540-5) da posse, pois esta não se deu. Assere, ainda, acerca da
Relator: Ministro Aldir Passarinho Junior inexistência de óbice da Súmula n. 7, para a resolução do
Agravante: Anacleto Francisco Dall’igna pólo passivo da demanda, que não lhe caberia, e sim ao
Agravado: Condomínio Edifício Twin Towers Center proprietário.
EMENTA Requer a reconsideração da decisão ou sua reforma
Civil. Recurso especial. Agravo regimental. Condo- pelo Colegiado.
mínio. Cotas em atraso. Cobrança feita ao novo É o relatório.
condômino. Imóvel alienado mediante contrato não re- VOTO
gistrado. Valores relativos a período posterior. Conheci- Exmo. Sr. Ministro Aldir Passarinho Junior (Relator):
mento pelo condomínio. Responsabilidade do adquirente. Não merece respaldo o recurso.
I. A controvérsia acerca do pólo passivo para a Ratifico os fundamentos da decisão impugnada (fl. 277):
demanda encontra-se dirimida e pacificada no âmbito
de ambas as Turmas da Egrégia Segunda Seção, no “Trata-se de recurso especial interposto contra
sentido de que o promissário comprador é parte pas- acórdão do Colendo Tribunal de Justiça do Estado de São
siva legítima, desde quando perfeitamente identifica- Paulo, que entendeu legitimado passivamente o
do pelo condomínio, ainda que não registrado o título promissário comprador de imóvel para responder por ação
no cartório respectivo. Nesse sentido: 4ª Turma, REsp de cobrança de cotas condominiais, haja vista ter o con-
n. 136.562/DF, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, domínio tomado conhecimento do negócio jurídico.
unânime, DJU de 01.03.1999, 3ª Turma, REsp n. Preliminarmente, inadmissível o recurso quanto ao tema
122.924/RJ, Rel. Min. Waldemar Zveiter, unânime, DJU do momento da posse, haja vista que demandaria revolvimento
de 30.03.1998, 4ª Turma, REsp n. 58.165/RJ, Rel. Min. de matéria fática, com óbice na Súmula n. 7/STJ.
Aldir Passarinho Junior, unânime, DJU de 04.10.1999 A controvérsia acerca do pólo passivo para a deman-
e 4ª Turma, REsp n. 333.059/MG, Rel. Min. Aldir Passa- da encontra-se dirimida e pacificada no âmbito de ambas
rinho Junior, unânime, DJU de 11.03.2002. as Turmas da Egrégia Segunda Seção, em sentido idênti-
II. Agravo desprovido. co ao do aresto estadual, ou seja, promissário comprador
é parte passiva legítima, desde quando perfeitamente iden-
ACÓRDÃO
tificado pelo condomínio, ainda que não registrado o título
Vistos e relatados estes autos, em que são partes as no cartório respectivo. Nesse sentido: 4ª Turma, REsp n.
acima indicadas, decide a Quarta Turma do Superior Tri- 136.562/DF, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, unâ-
bunal de Justiça, à unanimidade, negar provimento ao nime, DJU de 01.03.1999, 3ª Turma, REsp n. 122.924/
agravo regimental, na forma do relatório e notas RJ, Rel. Min. Waldemar Zveiter, unânime, DJU de
taquigráficas constantes dos autos, que ficam fazendo 30.03.1998, 4ª Turma, REsp n. 58.165/RJ, Rel. Min. Aldir
parte integrante do presente julgado. Participaram do jul- Passarinho Junior, unânime, DJU de 04.10.1999 e 4ª
gamento os Srs. Ministros Hélio Quaglia Barbosa, Turma, REsp n. 333.059/MG, Rel. Min. Aldir Passarinho
Massami Uyeda e Cesar Asfor Rocha. Junior, unânime, DJU de 11.03.2002.
RELATÓRIO Pelo exposto, com respaldo no art. 557, caput, do
Exmo. Sr. Ministro Aldir Passarinho Junior: Anacleto Código de Processo Civil, nego seguimento ao recurso.”
Francisco Dall’Igna interpõe agravo regimental contra de- Ante o exposto, nego provimento ao agravo.
cisão de fl. 277. É como voto.
Alega que não se deve perquirir quanto ao momento Brasília, 12 de junho de 2007

22 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


JURISPRUDÊNCIA CAR
JURISPRUDÊNCIA CART
TORÁRIA
REGISTRO DE IMÓVEIS – FORMAL DE PARTILHA REFERENTE A ME-
TADE IDEAL DE BEM IMÓVEL DEIXADO POR CÔNJUGE FALECIDO –
EXCLUSÃO DA MEAÇÃO DO CÔNJUGE FALECIDO – INADMISSIBI-
LIDADE (CSM/SP)
ACÓRDÃO interessado Marcos Issomoto, tempestivamente, o pre-
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apela- sente recurso.
ção Cível nº 670-6/9, da comarca de São José dos Cam- Sustenta o Apelante que o formal de partilha expedi-
pos, em que são apelantes o Ministério Público do Estado do nos autos do inventário dos bens deixados pelo faleci-
de São Paulo e Marcos Issomoto e Apelados Marcos mento de Ângelo Caggegi não carece de retificação, para
Issomoto e o Ministério Público do Estado de São Paulo. fins de registro, já que metade ideal do imóvel inventariado
Acordam os Desembargadores do Conselho Superi- pertencia ao cônjuge, circunstância que dispensava fos-
or da Magistratura, por votação unânime, em negar provi- se arrolada a totalidade do bem. Referido formal de parti-
mento ao recurso, com alteração do dispositivo da sen- lha, inclusive, acrescenta, foi homologado por sentença
tença, de conformidade com o voto do relator que fica transitada em julgado, não se podendo, agora, na fase de
fazendo parte integrante do presente julgado. registro do título, reapreciar matéria já objeto de exame
pelo magistrado do feito.
Participaram do julgamento, com votos vencedores,
os Desembargadores Celso Luiz Limongi, Presidente do Por fim, aduz que houve ilegalidade na cobrança de
Tribunal de Justiça e Caio Eduardo Canguçu de Almeida, valores díspares para o depósito prévio exigido pelo ofici-
Vice-Presidente do Tribunal de Justiça. al registrador, questão atualmente sob investigação do
Meritíssimo Juiz Corregedor Permanente (fls. 56 a 61).
São Paulo, 08 de março de 2007.
O Ministério Público, de sua parte, igualmente apre-
Gilberto Passos de Freitas, sentou recurso, sustentando a nulidade da sentença pro-
Corregedor Geral da Justiça e Relator ferida às fls. 26 a 28, a qual não se coaduna com a hipó-
VOTO tese dos autos (fls. 63 a 68).
Registro de Imóveis. Dúvida inversa. Formal de As contra-razões a ambos os recursos vieram às fls.
partilha referente a metade ideal de bem imóvel deixa- 74 a 77 e 78.
do por cônjuge falecido. Exclusão da meação do côn-
juge falecido. Inadmissibilidade. Violação ao dispos- A Douta Procuradoria Geral de Justiça manifestou-
to no art. 993, VI, do CPC. Ingresso do título no fólio se, no sentido de considerar-se prejudicado o recurso do
real impossível sem que nele se faça menção à totali- Ministério Público, e, quanto à apelação do interessado
dade do bem. Recurso não provido, retificado o dis- Marcos Issomoto, pelo improvimento (fls. 84 a 88).
positivo da sentença. É o relatório.
1. Cuidam os autos de dúvida de registro de imóveis, 2. De início, cumpre observar que, como bem anali-
inversamente suscitada por Marcos Issomoto, referente sado pela Douta Procuradoria Geral de Justiça, o recurso
ao ingresso no 1º Registro de Imóveis de São José dos do Ministério Público deve ser tido como prejudicado, ten-
Campos de formal de partilha expedido pelo Juízo de Di- do em vista os embargos de declaração interpostos pelo
reito da 5ª Vara Cível de São José dos Campos, nos au- interessado Marcos Issomoto, que deram ensejo à
tos do inventário dos bens deixados pelo falecimento de prolação de nova decisão (fls. 52 a 54), a qual sanou as
Ângelo Caggegi. omissões e contradições da decisão inicialmente proferi-
Após regular processamento, com manifestação por da (fls. 26 a 28), apontadas no apelo do “Parquet”, com
parte do oficial e do representante do Ministério Público, a enfrentamento, ao final, do tema de fundo da controvér-
dúvida foi julgada procedente (por equívoco mencionou- sia.
se “improcedente” na sentença) para o fim de manter a Quanto ao recurso do interessado Marcos Issomoto,
recusa do registro do título, devido à inclusão no inventá- tem-se que não comporta provimento, como decidido pela
rio de apenas metade ideal do bem imóvel deixado pelo respeitável decisão recorrida, nos termos, ainda, do pare-
falecido, excluída a meação do cônjuge sobrevivo (fls. 52 cer da Douta Procuradoria Geral de Justiça.
a 54). Com efeito, o inventário dos bens deixados pelo fale-
Inconformado com a respeitável decisão, interpôs o cimento de Ângelo Caggegi, deveria ter abrangido, ne-

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 23


JURISPRUDÊNCIA
JURISPR CART
UDÊNCIA CAR TORÁRIA

cessariamente, a totalidade do imóvel aqui discutido e não tilha, posto que indivisível antes dela.
apenas a metade ideal pertencente ao falecido, ante o Ensina Afrânio de Carvalho que ‘não importa que, em
disposto no art. 993, IV, do Código de Processo Civil, se- se tratando de cônjuge sobrevivente casado no regime
gundo o qual do inventário deve constar “a relação com- da comunhão de bens, metade ideal do imóvel já lhe per-
pleta e individualizada de todos os bens do espólio e dos tença desde o casamento, porque o título reúne essa par-
alheios que nele forem encontrados”. te ideal, societária, com a outra, a sucessória, para re-
Efetivamente, com a morte, o patrimônio do casal, compor a unidade real do ‘de cujus’.
existente na data do óbito de um dos cônjuges, assume o A partilha abrange todo o patrimônio do morto e to-
estado de indivisão, a qual somente se resolve com a dos os interessados, desdobrando-se em duas partes, a
partilha. societária e a sucessória, embora o seu sentido se res-
Daí por que, na hipótese em discussão, mostra-se trinja por vezes à segunda. Por isso, dá em pagamento
indispensável a partilha da totalidade do imóvel objeto do ao cônjuge sobrevivente ambas as metades que lhe cai-
título que se pretende registrar, sem o que permanece o bam, observando dessa maneira o sentido global da ope-
estado de indivisão. ração, expressa na ordem de pagamento preceituado para
Não se diga que, no caso, a metade do imóvel já o seu esboço, a qual enumera, em segundo lugar, depois
pertencia ao cônjuge sobrevivente desde o casamento, das dívidas, a meação do cônjuge e, em seguida, a
pois a comunhão decorrente deste último, como sabido, meação do falecido que, na hipótese, passa também ao
é pro indiviso, não podendo a parte ideal pertencente a cônjuge’ (Registro de Imóveis, Forense, 3ª Ed., RJ 1982,
cada um dos consortes ser destacada, a não ser no mo- pág. 281).
mento em que dissolvida a sociedade conjugal e realiza- A propósito do tema, o Colendo Conselho Superior
da a partilha. da Magistratura do Estado, apreciando caso em que o
Por essa razão, precisamente, a necessidade de o Sexto Cartório de Registro de Imóveis da Capital recusa-
formal de partilha fazer menção à totalidade do bem para ra registro de carta de adjudicação exibida por viúva
ter ingresso no registro predial. meeira, decidiu na mesma direção:

Não tem sido outro, aliás, o entendimento deste Con- Com o falecimento do marido, procedeu ela (cônju-
selho Superior da Magistratura, conforme se verifica no ge sobrevivente) ao inventário.
seguinte julgado, relatado pelo eminente Desembargador Fê-lo, todavia, indicando somente a metade ideal do
José Mário Antonio Cardinale, então Corregedor Geral da imóvel.
Justiça, com ampla referência à jurisprudência do Ora, nos termos do art. 923, IV, do Código de Pro-
colegiado: cesso Civil, o inventário deve conter a relação completa e
“Registro de Imóveis. Dúvida. Registro de carta de individuada de todos os bens do espólio e dos alheios que
adjudicação expedida em autos de inventário. nele forem encontrados.
Necessidade de se arrolar a totalidade dos bens. O imóvel, no seu todo, era bem comum ao falecido e
Recurso provido para reformar a sentença que autorizou à apelante. Devia, pois, figurar no inventário’ (ap. cível
o registro da adjudicação da metade ideal. 146-0, Capital, 29.12.80, Rel. Des. Adriano Marrey; apud
(...) se é certo que o direito do cônjuge supérstite à Narciso Orlandi Neto, Registro de Imóveis, ed. 1982, pp.
meação deriva do regime matrimonial de bens e não 30-32).
‘sucessionis causa’ (cfr. Caio Mário da Silva Pereira, Ins- O espólio é uma universalidade de bens que reúne
tituições de Direito Civil, v. VI, n. 446), não menos correto todos aqueles que integravam o patrimônio do casal, em
é que dessa premissa não se infere a divisão dos bens comum até a data do óbito de um dos cônjuges.
em frações ideais. Por isso que se forma uma comunida- Com a morte, esse patrimônio assume inteiramente
de hereditária (cfr. Theodor Kipp, Derecho de Sucesiones, o estado de indivisão já referido, sendo indispensável a
t. V, v. II, § 114), que se ultima com o desfecho do proces- partilha do todo, para resolver essa situação’ (Apelação
so sucessório. Cível n. 62.986-0/2, Araraquara).
A comunhão decorrente do casamento é “pro No mesmo sentido decidiu-se nas apelações cíveis
indiviso”. Ou seja, a parcela ideal pertencente a cada côn- 5.054-0, Capital, 27.1.86, e 5.444-0, 5.446-0, 5.818-0 to-
juge não pode ser destacada, o que somente ocorre quan- das de Taquaritinga, e 017289-0/7 de Campinas.
do dissolvida a sociedade conjugal.
Para permitir o ingresso do título no fólio real, a carta
Em sendo a morte a causa da extinção do casamen- de adjudicação deverá fazer menção à totalidade do bem.”
to e da comunhão, a metade só se extremará com a par- (Ap. Cív. n. 458-6/1 - j. 06.12.2005).

24 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


JURISPRUDÊNCIA
JURISPR CART
UDÊNCIA CAR TORÁRIA

Lembre-se, por fim, que o fato de se tratar de título Portanto, o registro do formal de partilha pretendido
oriundo de processo judicial não o exime da qualificação não pode ser admitido, merecendo ser confirmada a deci-
registral, realizada pelo oficial registrador, à luz dos prin- são recorrida, com retificação do dispositivo para que cons-
cípios e normas registrais e da legislação em vigor à épo- te o julgamento de procedência da dúvida.
ca do registro pretendido. Nesses termos, pelo meu voto, à vista do exposto,
Assim, adequada, na espécie, a conduta do registra- nego provimento ao recurso, retificado o dispositivo da
dor, de recusar o registro do formal de partilha em discus- sentença proferida para o de procedência da dúvida.
são, por não satisfazer os requisitos exigidos em lei para Gilberto Passos de Freitas,
o ingresso no fólio real. Corregedor Geral da Justiça e Relator

REGISTRO DE IMÓVEIS – ESCRITURA DE VENDA E COMPRA, COM


CESSÃO DE DIREITOS DE COMPROMISSÁRIOS ADQUIRENTES AOS
COMPRADORES – DESNECESSIDADE DOS REGISTROS DO COMPRO-
MISSO E DA CESSÃO, PARA O REGISTRO DA VENDA (CSM/SP)
ACÓRDÃO Imóveis, Títulos e Documentos e Civil de Pessoa Jurídica
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apela- da Comarca de Ourinhos, determinando o registro de es-
ção Cível nº 653-6/1, da Comarca de Ourinhos, em que é critura pública de venda e compra, prenotada sob nº 21.512
apelante o Ministério Público do Estado de São Paulo, na mencionada Serventia Predial, referente ao imóvel
apelado o Oficial de Registro de Imóveis, Títulos e Docu- matriculado sob nº 39.906, por entender dispensável o
mentos e Civil de Pessoa Jurídica da mesma Comarca. prévio registro de compromisso de venda e compra men-
cionado no título e de sua cessão constante na mesma
Acordam os Desembargadores do Conselho Superi- escritura pública.
or da Magistratura, por votação unânime, em negar provi-
mento ao recurso, de conformidade com o voto do relator Sustenta o apelante, em suma, que é necessário o
que fica fazendo parte integrante do presente julgado. registro do compromisso de venda e compra e da respec-
tiva cessão, por estarem vinculados à escritura de venda
Participaram do julgamento, com votos vencedores, e compra apresentada a registro, bem como pelo caráter
os Desembargadores Celso Luiz Limongi, Presidente do real (não meramente obrigacional) que têm. Pede, assim,
Tribunal de Justiça e Caio Eduardo Canguçu de Almeida, o provimento do recurso. A Procuradoria Geral de Justiça
Vice-Presidente do Tribunal de Justiça. opina pelo provimento da apelação.
São Paulo, 1º de fevereiro de 2007. É o relatório.
Gilberto Passos de Freitas, 2. Pretende-se, em dúvida, o registro de escritura
Corregedor Geral da Justiça e Relator pública de venda e compra prenotada, pela qual José
VOTO Inácio Fontes e sua mulher Neide Marqueti Fontes e Isra-
Registro de Imóveis. Dúvida improcedente. Es- el Rodrigues e sua mulher Aparecida Ferreira Rodrigues
critura pública de venda e compra, com cessão de di- vendem a João Batista e sua esposa Ana Laura Maimone
reitos de compromissários adquirentes aos compra- Nicastro Albano o imóvel objeto da matrícula nº 39.906 do
dores da metade ideal do imóvel. Compromisso de Registro de Imóveis de Ourinhos, observando-se, quanto
venda e compra não registrado. Fólio real no qual fi- à fração ideal de 50% de Israel e sua mulher Aparecida,
guram como proprietários os disponentes (vendedo- que a venda se fez em cumprimento de compromisso de
res). Desnecessidade dos registros do compromisso venda e compra, não inscrito, datado de 10 de julho de
e da cessão, para o registro da venda e compra. Prin- 1991, pelo preço já pago de CR$ 1.250.000,00, cujos di-
cípios registrários de inscrição (artigos 1.227 e 1.245 reitos também foram cedidos, naquela mesma escritura
do Código Civil) e de continuidade (artigo 195 da Lei pública, a João e sua esposa Ana Laura, bem como, quan-
nº 6.015/73) respeitados. Recurso não provido. to à fração ideal de 50% de José Inácio e sua mulher Nei-
1. Trata-se de apelação interposta pelo Ministério de, que o preço pago foi de R$ 19.000,00.
Público do Estado de São Paulo, representado pelo 2º Sustenta o apelante, em parcial concordância com a
Promotor de Justiça de Ourinhos, contra r. sentença que registradora, que os registros do compromisso de venda
julgou improcedente a dúvida da Oficiala de Registro de e compra e da respectiva cessão são necessários, ao

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 25


JURISPRUDÊNCIA
JURISPR CART
UDÊNCIA CAR TORÁRIA

passo que o MM. Juiz Corregedor Permanente os dispen- desse título também se reportar ao compromisso de ven-
sa. da e compra e nele também constar a cessão dos direitos
Sem razão o recorrente, merecendo subsistir a bem decorrentes desse contrato preliminar não induz à
fundamentada decisão recorrida. obrigatoriedade alguma de registro desses negócios, con-
soante sólidos precedentes do Conselho Superior da
Consigne-se, de início, que a questão reside apenas
Magistratura:
na necessidade, ou não, dos registros do compromisso e
da cessão, observando que estão superados os demais “Nesse caso, o registro da escritura pública de com-
entraves antes levantados, quer porque atendidos ao tem- pra e venda é possível sem o prévio registro do compro-
po do reingresso do título na serventia predial (fls. 09 e misso de venda e compra e de sua cessão pelos
14), quer porque não há que se falar em falta de preço na compromissários adquirentes.
venda e compra (o que se verifica no próprio título) nem Não há aí qualquer afronta ao princípio registrário da
há amparo legal para exigir retificação da escritura para continuidade, entendimento, aliás, já acolhido por este
constar a totalidade do preço na moeda atual (pois nela já Conselho Superior da Magistratura no julgamento da Ap.
consta quitação integral do preço pago no passado se- Cív. nº 43.481-0/9, da Comarca de São Vicente, relatada
gundo a moeda vigente ao tempo de cada pagamento, pelo eminente Des. Nigro Conceição” (Apelação Cível nº
parte [CR$ 1.250.000,00] recebida por alguns condôminos, 81.307-0/4, da Comarca de São Caetano do Sul, j. 27 de
parte [R$ 19.000,00] recebida por outros), como bem apon- dezembro de 2001, relator Desembargador Luis de
tado pelo MM. Juiz sentenciante (fls. 35/36), que, neste, Macedo, DOE de 18.02.2002, página 04);
ponto tem a concordância do apelante (fls. 40). “Está assentado que nesta hipótese não se registra-
Outrossim, registro de compromisso de venda e com- rá a cessão já que outorga da escritura pública de compra
pra, em si, é ônus, não dever, e, por isso, não se pode e venda diretamente ao terceiro cessionário dispensa o
impor a inscrição do contrato, sem razão legal ou registro das cessões intermediárias, porque não haverá
principiológica do sistema registral imobiliário, observan- ofensa ao princípio da continuidade” (Apelação Cível nº
do-se que sua falta não resulta estado de sujeição algum, 20.436-0/6, da Comarca da Capital, j. 11 de maio de 1995,
mas apenas deixa de agregar ao interessado a tutela in re relator Desembargador Antônio Carlos Alves Braga, DOE
do próprio interesse, que continua limitada à tutela ad rem. de 22.06.1995, página 46).
Em outras palavras, ausente o registro imobiliário do As referências jurisprudenciais do apelante, para sus-
compromisso de venda e compra, o contrato não tem efei- tentar quebra ao trato sucessivo (fls. 44), por fim, não se
tos erga omnes nem há constituição de direito real, res- amoldam à situação deste feito, pois nelas as hipóteses
tringindo o negócio ao universo dos direitos obrigacionais. eram de registro de promessas de venda de compra de

O registro, pois, é causa, não conseqüência, do di- disponentes (promitentes vendedores) que não figuravam

reito real (incluso o de aquisição, em sede de compromis- nas tábuas registrais, não de venda e compra cujos
disponentes (vendedores) figuram no fólio real, como é
so de venda e compra), como informa o princípio de ins-
este caso.
crição de nosso sistema jurídico (artigos 1.227 e 1.245,
ambos do novo Código Civil), e, assim, carece de Deste modo, sem razão a registradora e o apelante,
congruência lógico-jurídica a assertiva de que o registro é bem como viável o registro da venda e compra pretendi-
necessário por ter o contrato natureza de direito real. do, o recurso deve ser desprovido, mantendo-se a boa
sentença proferida pelo MM. Juiz Corregedor Permanen-
Ademais, não há ofensa alguma ao princípio de con-
te, Doutor José Carlos Hernandes Holgado.
tinuidade (artigo 195 da Lei nº 6.015, de 31 de dezembro
de 1973), pois no fólio real constam como proprietários Pelo exposto, conheço e nego provimento ao recur-
do imóvel em foco aqueles que são disponentes (vende- so.
dores) no título de venda e compra apresentado para re- Gilberto Passos de Freitas,
gistro (fls. 18), observando-se que a mera circunstância Corregedor Geral da Justiça e Relator

26 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


BOLETIM CARTORÁRIO
O Boletim Cartorário foi criado em março de 1990. O seu idealizador e
5/1

redator é o Dr. Antonio Albergaria Pereira, que possui uma experiência de


mais de cinqüenta anos em cartórios, sendo ainda um dos mais premiados na
área cartorária.

A redação do Boletim Cartorário e a seleção das matérias estão a cargo de


seu redator.
Antonio Albergaria Pereira

DA POSSIBILIDADE DE RETIFICAÇÃO
DE PARTILHA JUDICIAL POR ESCRITURA PÚBLICA
Marco Antonio de Oliveira Camargo (*)
A Lei n° 11.441/07 representa tam a solução célere e segura para para a correção dos erros ou omis-
efetivamente uma revolução, uma suas necessidades. sões verificados tardiamente.
mudança de paradigmas. A partir de As novas atribuições recebidas Uma escritura pública, a partir da
sua vigência a responsabilidade do pelo tabelião estão a exigir dele, como vigência da Lei 11441/07, quando,
tabelião de notas tornou-se ainda nunca antes aconteceu, o estudo do evidentemente, todas as partes inte-
maior e mais relevante para a socie- Direito Processual Civil. Como con- ressadas forem maiores e capazes e
dade. A atual geração deste profissi- tribuição ao estudo e debate o pre- entre elas existir consenso, parece
onal de direito, que vive e constrói sente texto compartilha com os even- ser um meio adequado para a neces-
este momento novidadeiro e de tualmente interessados algumas con- sária retificação da partilha efetivada
pioneirismo, tem uma grande respon- clusões sobre retificação de partilhas. com erro ou imperfeição.
sabilidade histórica. Será através dos
resultados que forem alcançados no É possível, e de ocorrência co- Trata-se de uma solução eficaz
momento presente que o tabelião e mum, uma situação de erro, omissão, e muito mais célere que a retificação
a nova lei serão julgados pelos usuári- ou imperfeição presente em partilha judicial nos autos originais.
os e pela história. homologada em processo de inven- As imperfeições a demandar re-
tário ou arrolamento. Por evidente, a tificação da partilha podem ser, e ge-
A cautela dos operadores do di- falha existente não obstou a senten- ralmente são, efetivamente, pouco
reito e de todos os envolvidos no ça por ter estado oculta e não ter sido significativas e facilmente sanáveis
complexo procedimento da realiza- levada a conhecimento do juiz ou dos pelas partes, sem a participação di-
ção de inventários e partilhas é real- interessados. Em tal situação, quan- reta do Estado-Juiz, bastando para
mente louvável, mas, neste novo mi- do o respectivo Formal de Partilha ou isso a apresentação de documentos
lênio, no mundo verdadeiramente Carta de Sentença for efetivamente ou comprovação de fatos que eram
globalizado de hoje, não existe lugar apresentado ao oficial de registro de inexistentes, encontravam-se ocultos
para acomodação. A sociedade exi- imóveis, no processo de qualificação à época do processo ou ainda que
ge mudanças e para mudar é neces- registrária, a imperfeição pode vir a tenham sido objeto de alteração de
sária certa dose de audácia. ser percebida e, diante de tal situa- substância ou forma, de modo a im-
A celeridade, eficácia e eficiên- ção, enquanto não superada, não pedir o necessário acesso ao servi-
cia dos processos é uma exigência será permitido o acesso ao registro ço de registro de imóveis.
geral que atinge todas as espécies imobiliário e a efetiva transmissão da O Conselho Nacional de Justi-
de rotinas e processos, sejam eco- propriedade de bem imóvel partilha- ça, na Resolução n° 35 (1) definiu cla-
nômicos, industriais, produtivos e do. ramente a competência do tabelião
também o Processo Judicial. Nesse A situação assume maior gravi- para realizar sobrepartilhas. O grupo
contexto não se deve fazer uma in- dade quando, por desídia do interes- de estudos criado pela Corregedoria
terpretação excessivamente restritiva sado, o registro do título somente for Geral de Justiça do Estado de São
do alcance da nova lei. A Lei n° buscado muito tempo depois da Paulo, antes da edição de tal resolu-
11.441/07, que foi editada no bojo de conclusão do processo judicial. Nes- ção, já havia se manifestado pela
uma Reforma do Judiciário, atende ta ocasião o processo poderá estar possibilidade da realização de
ao anseio da sociedade que está a arquivado o que dificulta ainda mais sobrepartilhas(2) e, em uma conclu-
exigir respostas rápidas que garan- o movimentar da máquina judiciária são especialmente esclarecedora,

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 27


CART
BOLETIM CARTORÁRIO 5/2

reconheceu explicitamente o caráter Assim como se apresenta pos- dade do tabelião de notas, que aco-
procedimental do referido diploma sível a rescisão, igualmente viável lhe e formaliza a vontade livremente
legal(3), estendendo sua aplicação será a retificação, ou seja, a corre- manifestada pelas partes, é forma
aos óbitos ocorridos antes de sua vi- ção e alteração, do mesmo modo apta para rescindir atos jurídicos em
gência. como se procede com todos os de- que as mesmas pessoas são os úni-
Sobrepartilha, entretanto, não se mais atos jurídicos. Sendo possível cos interessados. Aplicável, na espé-
confunde com retificação. Inegavel- cancelar e rescindir, inquestiona- cie, o princípio de atração da forma,
mente existe diferença substancial e velmente, igualmente possível será que exige para o desfazimento do ato
gramatical entre os verbos sobre-par- retificar e corrigir. A garantia de po- a mesma forma pelo qual ele se fez,
tilhar e retificar ; grosso modo, der realizar mais, confere a seu titu- ou, no dizer do artigo 472 do Código
sobrepartilha se define pelo caráter lar a faculdade de realizar menos, Civil: O distrato se faz pela mesma
de acréscimo, adição, complemen- conforme assevera conhecido aforis- forma exigida para o contrato.
tação com elemento faltante. Diferen- mo jurídico. Na medida em que a Lei n°
temente, retificação tem significado Inexistindo dúvida sobre a pos- 11.441/07 conferiu ao tabelião, por
de correção, arrumação, tornar reto sibilidade de retificação de partilha meio da realização de escritura pú-
e íntegro aquilo que continha defeito homologada por sentença judicial, blica, capacidade para praticar atos
ou era inexato. resta analisar a forma como esta de- tipicamente processuais, conferindo-
O legislador previu no artigo verá ocorrer para adquirir a eficácia lhe competência para a realização de
1.040 do Código de Processo Civil a necessária. Trata-se de uma questão Inventários e separações, exigindo,
possibilidade da realização de fundamental, pois o respeito à forma entretanto, em exceção à regra geral
sobrepartilha para o acréscimo de prescrita para o ato é requisito de da atividade notarial, como condição
bens ou direitos ao inventário, mas, validade do mesmo. de validade do ato e para maior se-
no mesmo dispositivo, nada previu Por analogia à possibilidade da gurança jurídica, a assistência de
sobre correção de erros ou alteração sobrepartilha por escritura pública, é advogado, implicitamente atribuiu
de dados. razoável, a partir do início da vigên- à escritura pública capacidade de res-
cia da Lei n° 11.441, de 04 de janei- cindir e, evidentemente, de alterar e
Para retificação dos erros verifi- retificar partilhas e atos em que a
cados na descrição dos bens, previ- ro de 2007, admitir-se a possibilida-
de de retificação da partilha do mes- sentença existente seja meramente
são do artigo 1028 do CPC (4), o ins- homologatória da vontade dos inte-
trumento adequado é o aditamento mo modo que se faz a própria parti-
lha, ou seja, por escritura pública ressados.
retificativo, que sempre se fez no seio
do processo, sob a exclusiva depen- que, em caso de retificação, será de Contrariamente a tais argumen-
dência da tutela do juiz do feito. aditamento retificativo à partilha re- tos, seria possível argumentar que, a
alizada. teor do disposto no artigo 1028 do
A sentença judicial, que no in- CPC, toda e qualquer emenda deve
ventário é meramente homologatória, Se, a partir da vigência da Lei n°
ser feita, necessariamente, nos mes-
pode ser rescindida do mesmo modo 11.441/07, que inegavelmente tem
mos autos de inventário e que, por-
que os demais atos jurídicos em ge- caráter procedimental, a escritura
tanto, não seria possível o uso de
ral. Assim dispõe o artigo 486 do pública lavrada em tabelionato é for-
escritura pública para qualquer espé-
CPC, verbis: Os atos judiciais, que ma capaz de efetivar partilha entre
cie de retificação de inventário ou
não dependem de sentença, ou em maiores e capazes, quando entre to-
partilha. Este dispositivo, entretanto,
que esta for meramente homolo- dos os interessados existir consen-
deve ser interpretado de maneira fle-
gatória, podem ser rescindidos, como so, ela também será apta à realiza-
xível e em consonância com os obje-
os atos jurídicos em geral, nos ter- ção de sobrepartilhas, como, expres-
tivos da Lei n° 11.441/07 e de todo
mos da lei civil. samente afirma o Conselho Nacional
esforço que se realiza na atualidade
de Justiça (art. 25 da Resolução 35)
A rescisão da sentença para tornar a justiça mais ágil e aces-
homologatória, portanto, é possível e e também para retificações de parti-
sível ao cidadão. Esta foi a interpre-
está apenas condicionada às prescri- lhas, embora não exista, até a pre-
tação do Conselho Nacional de Jus-
ções do artigo 104 do Código Civil, sente data, decisão em caráter ad- tiça, e do Grupo de Estudos criado
regra aplicável aos negócios jurídicos ministrativo, jurisprudência firmada, pela C. G. J. de São Paulo, ao fazer
em geral, a saber: existência de con- ou doutrina conhecida afirmando ex- constar expressamente que sobre-
senso e de capacidade das partes, pressamente tal possibilidade. partilha é possível ser realizada por
ausência de ilicitude do objeto e uso Inequivocamente escritura públi- meio de escritura pública. Se, dife-
da forma adequada. ca, lavrada sob a fé e responsabili- rentemente, existisse o apego incon-

28 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


CART
BOLETIM CARTORÁRIO 5/3

dicional aos velhos paradigmas, po- qualquer interessado através de link 4.26. A Lei n° 11.441/07, de caráter
der-se-ia, com base no mesmo dis- específico no Website: www.notarial procedimental, aplica-se também em
positivo, negar também a possibilida- net.org.br. caso de óbitos ocorridos antes de sua
de de realização de sobrepartilhas por Eventualmente poderá se mostrar vigência.
meio de escritura pública. necessário ainda, em complementação (4) CPC artigo 1028. A partilha,
O Conselho Nacional de Justi- à citada Central, a criação de norma ainda depois de passar em julgado a
ça, na referida Resolução n°35 que obrigue todo tabelião que realize sentença (Art. 1026), pode ser emen-
(art.10, parte final) determinou que os retificação de partilha (ou sobrepartilha) dada nos mesmos autos do inventá-
Tribunais de Justiça dos diferentes a comunicar diretamente o juízo que rio, convindo todas as partes, quan-
Estados promoverão as medidas processou o inventário da existência de do tenha havido erro de fato na des-
adequadas para a unificação e con- tal escritura. Desta forma, eventuais in- crição dos bens; o juiz, de ofício, ou
centração de dados e informações teressados, em buscas futuras, pode- a requerimento da parte, poderá, a
sobre as escrituras de inventário e rão facilmente vir a conhecer das alte- qualquer tempo, corrigir-lhe as inexa-
partilhas, separações e conversões rações extrajudiciais sofridas em parti- tidões materiais.
em divórcio que forem realizadas nos lha inicialmente homologada por Juiz (*) O autor é 2°Tabelião de No-
diversos tabelionatos existentes. de Direito. tas de Matão, SP.
A criação deste banco de dados Bibliografia NOTA DO REDATOR DO
unificado é realmente necessária, (1) Resolução n° 35, de 24/04/ BOLETIM CARTORÁRIO
considerando-se que a realização de 2007, editada pelo Conselho Nacio-
escrituras não sofre limitações nal de Justiça - Art. 25. É admissível Para mim, inegavelmente a Lei
territoriais e que já se admitiu expres- a sobrepartilha por escritura pública, 11.441/2007 tem este grande mérito:
samente a realização de sobrepar- ainda que referente a inventário e valorizou o notariado brasileiro, dada
tilhas que, de fato, representam alte- partilha judiciais já findos, mesmo que sua qualidade de “profissional do di-
ração de partilhas já realizadas e de o herdeiro, hoje maior e capaz, fosse reito”. Antes da lei, um inventário, ain-
processos judiciais já encerrados. menor ou incapaz ao tempo do óbito da que maiores e capazes fossem os
ou do processo judicial. herdeiros, eternizava-se nos escani-
Em atendimento à determinação nhos dos cartórios judiciais. A Lei que
do CNJ o Corregedor Geral da Justi- (2) Conclusões do grupo de es- o articulista aprecia com segurança,
ça do Estado de São Paulo, pelo Pro- tudos criados pela CGJ-SP para aná- simplificou a partilha de bens deixa-
vimento CG n° 19/2007, de 12/07/ lise da Lei n°11.441/2007(1): Item das por um falecido aos seus herdei-
2007, determinou a criação de uma 4.23. É admissível escritura pública ros se maiores. Essa lei, para mim,
Central de Escrituras de Separações, de sobrepartilha referente a inventá- teve este mérito: deu à atividade
Divórcios e Inventários – CESDI, sob rio e partilha judiciais já findos. Isto notarial um sentido de valor, pois é
a gestão do Colégio Notarial do Bra- ainda que o herdeiro, hoje maior e ele identificado por lei como “profis-
sil – Seção de São Paulo. Efetiva- capaz, fosse menor ou incapaz ao sional do direito”. O “BOLETIM
mente, desde o início do mês de tempo do óbito e do processo judicial. CARTORÁRIO” orgulha-se em divul-
agosto, a CESDI paulista está em ple- (3) Conclusões do grupo de es- gar trabalhos como o do articulista,
no funcionamento e pode ser tudos criados pela CGJ-SP para aná- que revela ser ele estudioso e dedi-
acessada, fácil e gratuitamente, por lise da Lei n°11.441/2007(1): Item cado notário.

ESCLARECENDO UM PREOCUPADO LEITOR DO BOLETIM CARTORÁRIO


(SPPrev em substituição ao IPESP)
Conforme o prometido ao leitor a Associação dos Advogados de São al nº 10.394, de 16/12/1970, e sem-
SIBÉLIUS OLIVÉRIO, transcrevo o Paulo (AASP) e o Instituto dos Advo- pre foi administrada pelo Ipesp (Insti-
que a O.A.B. divulgou sobre o assun- gados de São Paulo (IASP) vêm a tuto de Previdência do Estado de São
to em sua págiaa 6 do nº. 323 do Jor- público prestar os seguintes esclare- Paulo);
nal do Advogado. cimentos: 2 - Em 29 de dezembro de 2003,
ESCLARECIMENTOS SOBRE A 1 - A Carteira de Previdência dos foi promulgada a Lei Estadual nº
CARTEIRA DO IPESP Advogados de São Paulo foi criada 11.608 que, ao dispor sobre a taxa
A Seccional Paulista da Ordem pela Lei Estadual nº 5.174, de 7/1/ judiciária incidente sobre os serviços
dos Advogados do Brasil (OAB-SP), 1959, reorganizada pela Lei Estadu- públicos de natureza forense, acabou

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 29


CART
BOLETIM CARTORÁRIO 5/4

com o repasse de custas que cons- e a obrigação de adotar as medidas e outros ingressos. Em nenhuma hi-
tituía a principal receita da Carteira necessárias para tanto; pótese o Estado poderá apropriar-se
de Previdência dos Advogados admi- c) Tanto o Ipesp quanto a dos recursos da Carteira dos Advo-
nistrada pelo Ipesp; SPPrev são prolongamentos perso- gados;
3 - Em 1º de junho de 2007, foi nalizados e instrumentos da atuação h) O Ipesp, até sua extinção, e a
promulgada a Lei Complementar nº do Estado de São Paulo no campo SPPrev como sua sucessora, respon-
1.010, que criou a São Paulo Previ- da previdência, sendo assim indiscu- dem diretamente perante os
dência (SPPrev), estabelecendo, em tível a responsabilidade subsidiária beneficiários da Carteira e, na hipó-
seu artigo 40, o prazo de 2 (dois) deste último; tese destas entidades por ele criadas
anos, a contar de sua publicação, d) Verificada, atuarialmente, a não poderem arcar com os pagamen-
para instalação e funcionamento da inviabilidade da Carteira dos Advoga- tos devidos, responderá o Estado
SPPrev, e consignando, no parágra- dos, caberá à SPPrev, na condição subsidiariamente.
fo único do citado artigo, que “con- de sucessora do Ipesp, se for total- 6 - Baseadas em tais premissas,
cluída a instalação da SPPrev fica mente inviável sua revitalização, pro- a OAB-SP, a AASP e o IASP
extinto o Ipesp, sendo suas funções mover a sua liquidação nos termos agendarão audiência com o governa-
não-previdenciárias realocadas em da lei estadual que vier a disciplinar dor do Estado de São Paulo, visando
outras unidades administrativas con- essa matéria; encontrar uma solução para os des-
forme regulamento”; tinos da Carteira dos Advogados;
e) Em qualquer hipótese deve-
4 - Não obstante o notório im- rão ser respeitados os direitos adqui- 7 - Em paralelo, está sendo ana-
pacto de tais alterações legislativas ridos, que são intangíveis, e deverão lisada a viabilidade da propositura de
na Carteira de Previdência dos Ad- eventual medida judicial de caráter
ser também amparados os direitos
vogados, não houve qualquer altera- coletivo, que ampare os interesses de
decorrentes dos atos jurídicos perfei-
ção na sua lei de regência, muito todos os contribuintes ativos e inati-
tos, praticados durante o pleno fun-
menos a adoção de providências pelo vos da Carteira;
cionamento da Carteira dos Advoga-
seu administrador, o Ipesp;
dos; 8 - Por fim, cumpre alertar que é
5 - Preocupadas com as altera-
f) Os participantes inativos, que absolutamente pessoal a decisão do
ções legislativas e estruturais da Car-
já recebem os benefícios para os contribuinte da Carteira em continu-
teira de Previdência dos Advogados
quais contribuíram e aqueles que, ar ou não recolhendo as contribui-
de São Paulo, a OAB/SP, a AASP e o
embora não estejam recebendo be- ções, lembrando que, a teor do dis-
IASP solicitaram a elaboração de
pareceres de renomados juristas, nefícios, já implementaram as condi- posto no artigo 7º da Lei nº 10.394/

cujas conclusões vão a seguir resu- ções de sua fruição, são titulares de 1970, será automaticamente excluí-
midas: direitos adquiridos e deverão conti- do da Carteira o segurado que dei-
nuar a recebê-los; xar de recolher seis contribuições,
a) A Lei Complementar nº 1.010/
sendo que o artigo 45 da referida Lei
2007 é perfeitamente clara ao confe- g) Os contribuintes ativos, deten-
consigna que, “salvo caso de erro,
rir à SPPrev a condição de sucesso- tores de expectativas de direitos, de-
não haverá restituição de contribui-
ra do Ipesp, atribuindo-lhe o encargo vem ser indenizados com base na
ção do segurado”.
de continuar zelando pela boa ges- “reserva individual” de cada partici-
tão da Carteira dos Advogados; pante, a ser calculada tomando-se Assim,continuaremos a empre-

b) O dever do Ipesp ultrapassa como referências a soma das contri- ender todos os esforços na defesa

a simples contabilização dos recur- buições efetuadas e a participação dos interesses dos colegas que es-
sos da Carteira dos Advogados, proporcional ao tempo de contribui- tão na Carteira de Previdência dos
abrangendo, indubitavelmente, o de- ção nos ingressos referentes às cus- Advogados do Ipesp.
ver de zelar por sua sustentabilidade tas, aos rendimentos das aplicações (Jornal do Advogado, Nov./2007)

30 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


CART
BOLETIM CARTORÁRIO 5/5

SERVENTUÁRIO PADRÃO DO ANO 2007


1. Paciente e atentamente pas- do IRIB, a atuação do registrador Sér- te, em seus trabalhos, não terá de-
sei uma vista d’ olhos no BOLETIM gio Jacomini, pelo avanço do Regis- sejado apresentar novidades e por
Nº 331 do IRIB., que por gentileza da tro Imobiliário no Brasil e sua proje- isso afirmou estar repetindo opiniões
direção do INSTITUTO DE REGIS- ção Internacional. O avanço tecno- de mestres. Contudo, para fazê-lo,
TRO IMOBILIÁRIO recebo regular- lógico dos serviços cartorários em estudou a questão, concatenou idéi-
mente e que me é enviado gratuita- suas várias esferas, que tais publi- as e buscou os princípios pacíficos
mente, como também recebo “O Jor- cações revelam, convenceram-me da na doutrina, fêz uma exposição útil à
nal do Notário”, “O Boletim da Arpen” segurança da minha decisão de, ao compreensão do ofício dos cartórios
e o “Breve Relato”, sendo este último completar oitenta e nove anos de ida- para os quais concorreu: Não se
periódico dos advogados integrantes de, em abril deste ano, deixar de ser pode exigir dos modestos serventuá-
do Escritório de Advocacia, Duarte o “redator do Boletim Cartorário”, de- rios que escrevem obras de fundo
Garcia, Caselli Guimarães e Terra, cisão que tomo conscientemente, e que versem os temas de modo origi-
registro que faço nesta oportunidade, não vejo melhor oportunidade para nal, para merecer os pontos, que a
porque sou grato às gentilezas que INDICAR o Serventuário Padrão do lei confere a quem haja simplesmen-
me dispensam, e também porque, ano que se findou. A escolha, REGIS- te apresentado trabalhos sobre ma-
nesta oportunidade, decido deixar de TRO e DESTACO, é escolha pesso- téria pertinente ao oficio em concur-
ser o redator do BOLETIM CARTO- al, e esta última a faço de forma cons- so, sem exigir que se revistam de
RÁRIO, que anualmente identifica o ciente e responsável, tal como foram cunho especial ou laureados em con-
cartorário padrão do ano que se fin- as anteriores, no ano em que deixo a curso de obras jurídicas. O que pre-
dou. Creio eu, O IRIB, remete-me redação do BOLETIM CARTORÁ- tende a lei 819, é premiar o esfôrço
suas publicações por ter-me agraci- RIO. dos que se elevam pelo estudo, aci-
ado com a medalha ”JULIO CHA- 3. Iniciei minha colaboração no ma da mera condição de burocratas
GAS”, talvez, o único notário agraci- DIÁRIO DAS LEIS em fevereiro do rotineiros e revelam conhecimentos
ado com tal comenda, e o Colégio ano de 1983, como ousado e simples do ofício, através de trabalhos escri-
Notarial indentificou-me como “Tabe- colaborador, como no passado cola- tos e divulgados. E a circunstância de
lião Honorário” paulistano, quando na borei com trabalhos no BOLETIM DA constituirem “artigos de colaboração
sua presidência estava o Dr. Túlio ASSOCIAÇÃO DOS SERVEN- em revista de orgão de classe dos
Formícola, títulos esses que me fo- TUÁRIOS DA JUSTIÇA, que divulgou serventuários,” conforme se diz no
ram conferidos em solenidade públi- vários trabalhos de minha autoria, al- respeitável acórdão, em nada os des-
ca. Também, publicamente, identifi- guns merecedores da aprovação dos merece em si, pois, o serventuário,
co o CARTORÁRIO PADRÃO do ano saudosos doutores Neto Armando e escrevendo sobre assunto atinente
que se findou, escolha que faço con- Firmo. Confesso, quando tais publi- ao seu ofício, será mais últil ao divul-
siderando particularidades do agra- cação foram apresentadas a um con- gar seu trabalho em revista destina-
ciado, objetivas e subjetivas, estas curso para provimento de um cartó- da a circular entre os de sua classe,
eminentemente pessoais. rio, nelas o Juiz encarregado de do que se tiver de instruir, por exem-
2. Com referência às publica- apreciá-las, não viu valor para a con- plo, os magistrados, de nível cultural
ções do IRIB, mencionadas neste tagem dos pontos, por uma afirmati- mais elevado...
preâmbulo, sem demérito algum às va por mim registrada. Não me con- Outrossim, o fato de haver o ora
outras publicações mencionadas, ine- formei com a recusa da contagem recorrente, modestamente, afirmado
gável, indiscutível e até mesmo dos pontos pretendidos e levei o as- num dos seus trabalhos, que nada
elogiável é a apresentação do BOLE- sunto até o Tribunal de Justiça, e nele trazia de seu, mas, sim, a opinião de
TIM DO IRIB., não só pelos assun- um ilustre e culto Desembargador, o mestres jurisconsultos, consultados,
tos abordados, como também pelo Doutor Adriano Marrey, no seu voto, não pode ocorrer em seu detrimen-
valor e autoridade de seus colabora- deixou expresso o valor do cartorario to. Sabido é que, declarações dessa
dores. Por um sentimento pessoal de que divulga publicamente trabalhos natureza é praxe no prefácio de cu-
admiração, destaco nas publicações de sua lavra: Disse ele: “O recorren- nho didático. Numa das obras de ju-

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 31


CART
BOLETIM CARTORÁRIO 5/6

ristas dos mais acatados e queri- de ter criado no BOLETIM CAR- para provimento de um cartorio.
dos entre nós, freqüentemente TORÁRIO “OS ROUXINÓIS DA Efetivamente, depois, os trabalhos
consultado pelos Srs. Desembar- CLASSE”. Eles efetivamente exis- que publiquei receberam os pontos
gadores e magistrados, citado em tem e sabem conscientemente e que a lei me conferia. Já aposen-
sentenças e acórdãos, lê-se, no com responsabilidade executar tado tive a oportunidade de publi-
respectivo prefácio, o seguinte: “A seus serviços. Fiz do “BOLETIM camente debater com um desem-
presente publicação não tem outro CARTORÁRIO” um veículo divul- bargador contrário à existência dos
escopo senão o de servir aos es- gador desses cartorários, que não cartórios e sua efetiva utilidade, no
tudantes, oferecendo-lhes, em for- é um órgão reivindicador de direi-
auditorio da faculdade, lotado de
ma os ensinamentos dos tratadis- tos, mas sim, unicamente sim,
seus alunos, fato que tenho como
tas, ao lado da jurisprudência que divulgador de VALORES EXISTEN-
lamentável, quando vi somente,
é a verdadeira fonte da vida jurídi- TES NA CLASSE. Efetivamente,
não mais do que quatro cartorários
ca...“ (cf. WASHINGTON DE BAR- nas razões do meu recurso fui con-
paulistanos. Concluí e conformei-
ROS MONTEIRO, “Direito de famí- tundente para com o magistrado,
me; não importa, vim aqui para de-
lia”, 1ª Ed., prefácio). Ninguém dirá, que lançou o seu parecer contrário
ao valor dos trabalhos que apre- fender o valor e a importância dos
em vista de tal prefácio, e que com
sentei, e a eles não deu valor al- serviços cartorários. Hoje, aqui em
tal modéstia, não haja o douto es-
gum. A mim, pouco me importou. São Paulo, os cartórios são dispu-
critor produzido obra de alto méri-
to... A adotar-se, contudo, o crité- Alegrei-me com o VOTO DO DR. tados por inúmeros magistrados e
rio que prevaleceu neste concur- MARREY. É este sentimento que promotores. A despeito dessa
so para os cartórios do Registro ci- procurei transmitir aos meus leito- “nova força intelectual”, a classe
v i l d a s Pe s s o a s N a t u r a i s , d o res ...ousados leitores, valorosos ainda continua com os mesmos
interland (sic) paulista, a obra cujo leitores que têm a coragem de defeitos, agora, comprometida pe-
prefácio foi mencionado, teria, pos- transmitir o que sabem sobre as- los títulos pretéritos daqueles que
sivelmente, sido rejeitada, por ha- suntos cartorários, atividade essa lograram a obtenção de um cartó-
ver o seu autor dito que resumira que hoje atrai não só cartorários rio. Este preâmbulo extenso para
apenas os dos antigos mestres... como também advogados, magis- indicar o SERVENTUÁRIO PA-
e o seu crítico haver se contenta- trados, promotores, entre outros. DRÃO – o último que indico, tem
do com essa declaração, sem lhe Ser cartorário, hoje é o desejo de uma justificativa que deixo expres-
examinar o conteúdo, de alto valor muitos... e foi com o desejo des- sa: foi ele indicado por um seu
jurídico”... ses muitos que criei o BOLETIM preposto, já agraciado com tal Tí-
CARTORÁRIO, para valorizar os tulo – Valestan Milhomem da Cos-
O acórdão é longo. Deu-me
cartorários efetivamente estudio-
ele a convicção de que o cartorário ta – é o DR. VALMIR GONÇALVES
sos e que valorizam a classe... e
estudioso (não digo os cultos, e DA SILVA, notário e oficial do 1º
esqueçam o que foram e conscien-
eles existem na classe), recebe de Serviço Notarial e Registral de
tizem-se do que hoje são: CARTO-
alguns magistrados um tratamen- Cabo Frio, Estado do Rio de Janei-
RÁRIOS. Se sabem, revelem o que
to inexpressivo pelo trabalho que ro, que possui estas expressivas
sabem. Sejam Rouxinóis da Clas-
realiza,... mas HOJE, muitos ma- virtudes, destadas por quem há
se.
gistrados estão deixando a magis- mais de um ano o indicou:
tratura para serem cartorários. Re- 4. Quando em atividade, fui
socio fundador de uma entidade, ESTUDIOSO – DILIGENTE –
gistro, efetivamente fui contunden-
sendo o único cartorário a fazer HUMILDE – CORTÊS – ALTRUÍS-
te nas razões do meu recurso, por-
que defendia um direito legítimo parte dela; os demais eram magis- TA – ÉTICO E HONESTO.
meu, não acolhido pelo magistra- trados, promotores, advogados, e O Diploma lhe será entregue
do apreciador dos trabalhos apre- dos assuntos debatidos deles par- por uma destas duas formas: aqui
sentados. Não importa a opinião do ticipei e no orgão de tal entidade em São Paulo, na sede do DIÁRIO
magistrado. Importo-me sim, com divulguei trabalho de minha auto- DAS LEIS IMOBILIÁRIO, ou em
o teor do voto do Desembargado ria, e não sofri a contundência do sua comarca, por quem o indicou,
Dr. Adriano Marrey, de cultura jurí- entendimento daquele juiz que Valestam Milhomem da Costa. O
dica tão respeitosa como a do seu apreciou os meus trabalhos apre- preâmbulo extenso é a minha ho-
saudoso pai. Esse voto foi a razão sentados num “concurso de titulos” menagem pessoal ao indicado.

32 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


PERGUNT
PERGUNTAS & RESPOST
GUNTAS AS
RESPOSTAS
ESCRITURA DE DIVISÃO AMIGÁVEL EM GLEBA RURAL
Pergunta: Estou assessorando um cliente que é proprietário de uma sítio localizado em Mogi das Cruzes,
com aproximadamente 3 alqueires. Gostaria de saber se para desmembrar a área, com a abertura de 3 novas
matrículas, é suficiente escritura pública de divisão amigável. É necessário título de transmissão para a lavratura
da escritura? É necessário aprovação de projeto na prefeitura? É necessário fazer georreferenciamento? Há
também uma servidão de passagem; como proceder? É necessário aprovação do INCRA e do DPRN? (R.B. –
São Paulo, SP)

Resposta: A escritura de divisão amigável somente pode ser feita entre as pessoas cujos nomes constem na
matrícula como sendo proprietários. Nenhum dos quinhões resultantes da divisão poderá ser menor do que a “fração
mínima de parcelamento” constante do CCIR emitido pelo INCRA. Será necessário efetuar levantamento topográfico
com memoriais descritivos. Não é necessário o georreferenciamento, por ter menos de 500 hectares. A servidão de
passagem constará dos memoriais e das novas escrituras. Feita a divisão nessas condições, em glebas não inferiores
à fração mínima de parcelamento, não haverá necessidade de aprovação da Prefeitura, INCRA, DPRN, etc. Após
realizadas as escrituras e devidamente registradas no Registro de Imóveis, as áreas deverão ser atualizadas no cadas-
tro do INCRA.

ALUGUEL – AÇÃO DE COBRANÇA – EXISTÊNCIA DE 2 CONTRATOS


FIRMADOS PELAS PARTES E DIFERENTES FIADORES
Pergunta: Ao verificar os documentos para ingressar com uma ação de cobrança, percebi que foram feitos
dois contratos de locação, no mesmo dia, com as mesmas partes, tanto o locador como o locatário. Porém, em
cada um desses contratos existe um fiador diferente. Nesta situação, o que fazer? Posso ingressar com a ação
contra os dois? (K.B.R. – Presidente Epitácio, SP)

Resposta: Sim. A ação de cobrança deverá ser instruída com os dois contratos, contra os dois fiadores.

COMPRA E VENDA – CERTIDÃO POSITIVA DE IMPOSTOS COM EFEI-


TOS DE NEGATIVA
Pergunta: Uma certidão positiva com efeitos de negativa, onde há uma alienação de imóvel, pode, no
futuro, com o não pagamento do imposto a que se refere a certidão, trazer problemas ao comprador? (D.J.B. –
São Paulo, SP)

Resposta: O comprador correrá risco com este tipo de certidão, sendo o único imóvel da empresa perseguido
pelos credores ou pelo Poder Público, pelas dívidas tributárias, etc., pois poderá haver fraude contra credores (art. 158
e segts do CC) e não fraude à execução, pois não existe, ainda, processo judicial, com a conseqüente anulação do
negócio. Se o comprador, mesmo assim, quer o imóvel, sabendo de todas as conseqüências que poderão advir, pelas
dívidas da vendedora, isto deverá ser consignado no instrumento de compra e venda.

COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA - EFEITOS JURÍDICOS APÓS A


LAVRATURA DA ESCRITURA PÚBLICA DE VENDA E COMPRA
Pergunta: Após a outorga da escritura definitiva de compra e venda, o compromisso anteriormente cele-
brado continua a ter alguma validade? (D.J.B. – São Paulo, SP)

2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 33


PERGUNT
PERGUNTAS
GUNT RESPOSTAS
AS & RESPOSTAS

Resposta: A escritura de compra e venda é consequência da quitação do compromisso de compra e venda, sem
a qual não haveria a sua outorga. A escritura de compra e venda, estando registrada no Cartório de Imóveis, confere ao
seu titular o domínio sobre a coisa, quando, antes, somente tinha a posse com o compromisso. O compromisso de
compra e venda poderá ser útil caso haja uma ação de anulação de escritura, onde se poderá comprovar todos os
passos retratados no compromisso de compra e venda, como a quitação, testemunhas do compromisso, etc. Nos
termos do art. 1417 do Código Civil, “mediante promessa de compra e venda, em que não se pactuou arrependimento,
celebrada por instrumento público ou particular, e registrada no Cartório de Registro de Imóveis, adquire o promitente
comprador direito real à aquisição do imóvel.

USUCAPIÃO – REGISTRO DA SENTENÇA E A SATISFAÇÃO DAS OBRI-


GAÇÕES FISCAIS
Pergunta: O art. 945 do CPC, que prevê o registro da sentença de usucapião fala em “satisfeitas as obriga-
ções fiscais”. Qual a intenção do legislador? É possível usucapir imóvel com dívida tributária municipal (IPTU),
inclusive penhorado? (H.P.A. – Praia Grande, SP)

Resposta: O Termo “satisfeitas as obrigações fiscais”, do art. 945 do Código de Processo Civil, refere-se a dívidas
tributárias referentes ao imóvel, não entrando neste rol o ITBI por se tratar de aquisição originária, embora existem leis
de certos municípios que cobram este imposto indevidamente. Será possível usucapir imóvel penhorado com dívida
pelo IPTU; entretanto, o usucapiente deverá pagar a dívida se não quiser que o imóvel seja arrematado em hasta
pública.

CONDOMÍNIO – IDENTIFICAÇÃO DA UNIDADE AUTÔNOMA


Pergunta: Estou com uma certa dificuldade em definir se, para a descrição das unidades autônomas no
condomínio edilício é necessário ou não mencionar as extensões de suas confrontações? (V.L.B. - Toledo, PR)

Resposta: Conforme entendimento do Dr. José Hildor Leal, na descrição das unidades autônomas para o registro
na Serventia Predial, continua sendo realizada como sempre foi, conforme o art. 7º da Lei 4.591/91, e o art. 1.332 do
Código Civil em nada alterou a sistemática, quando diz: “extremadas umas das outras” que já faz parte das especificações
registradas quando da incorporação imobiliária, sendo o art. 225 da Lei de Registros Públicos utilizado fora destas
situações. O entendimento de Mario Pazutti Mezzari, em seu livro “Condomínio e Incorporação no Registro de Imóveis”,
Editora do advogado, continua válido. Pág. 31/32: “Identificação da Unidade Autônoma (...). A identificação da unidade
autônoma, no entanto, é formalizada complementarmente com outros elementos igualmente exigidos em lei (art. 7º)
Tem-se por suficiente que a perfeita identificação de uma unidade se faça mediante a indicação dos seguintes elemen-
tos: A designação numérica ou alfabética, a localização por pavimento (1º, 2º, 3º etc.), a situação dentro do pavimento
(frente, fundos, meio etc), sua área privativa, a correspondente área de uso comum, sendo normalmente indicada a
área total, que é o somatório das duas primeiras. Indica-se igualmente a fração ideal que lhe é correspondente, dispen-
sada a descrição interna da unidade. A boa técnica registral exige que qualquer imóvel que se pretenda individuar, seja
identificado também com suas confrontações externas (art. 225 da Lei de Registros Públicos). A Lei n.º 4.591/64 dispen-
sa a descrição interna da unidade. (...) Usualmente, na propriedade horizontal instituída sobre prédios de pequeno e
médio porte, a perfeita identificação da unidade não exige a indicação de suas confrontações. Inobstante, casos há em
que, dada a magnitude do prédio, com inúmeras economias num mesmo pavimento, somente mediante a indicação das
confrontações é que se logrará atingir a individualização descrita necessária. Fica aqui o registro de que a melhor
orientação para a questão é a casuística, até mesmo pela falta de orientação objetiva sobre a matéria.”

34 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5


NOTÍCIAS
NOTÍCIAS
PERSONALIDADE JURÍDICA DO CONDOMÍNIO:
NECESSIDADE DE SOLUÇÃO

Daphnis Citti de Lauro (*)

O condomínio edilício, também conhecido por especial, ou condomínio em planos horizontais,


não tem personalidade jurídica: não é pessoa física, nem jurídica. Essa impessoalidade acarreta
inúmeros problemas. Não sendo pessoa jurídica, não pode comprar nem registrar no Cartório de
Registro de Imóveis, em seu nome, um terreno ao lado, por exemplo, para aumentar o número de
vagas de automóveis. Não pode aceitar doação do apartamento de condômino inadimplente, como
pagamento de despesas condominiais em atraso. Não pode, também, comprar um dos apartamen-
tos do prédio, para transformá-lo em residência de zelador, apesar de aprovação em assembléia
geral.
Essas dificuldades, até agora intransponíveis, levaram o falecido Biasi Ruggiero a escrever, em
1995, na “Tribuna do Direito”, que era “necessário simplificar algumas situações em que o condomí-
nio deveria ser equiparado a ente dotado de personalidade jurídica...contudo, há de se convir que
certas leis, sem qualquer demérito do legislador que as concebeu, depois de sentidas suas lacunas,
que só o tempo e a experimentação demonstram, devem ser complementadas por legislação que
as atualize. Na falta delas, cabe ao jurista encontrar meios para conseguir uma interpretação que
atenda aos reclamos da sociedade. Enquanto não for reconhecida personalidade jurídica ao condo-
mínio, ainda que personalidade jurídica especial, o Judiciário deveria reconhecê-la, pois reconhece
capacidade postulatória”.
Só existe uma hipótese, na qual o condomínio pode adquirir bens. É a prevista na lei 4.591/64
(que permaneceu intocável no que diz respeito às incorporações imobiliárias), artigo 63, parágrafo
3º que ao tratar, na fase de construção do prédio, do leilão da unidade inadimplente, autoriza que a
assembléia use da preferência para adquirir os bens leiloados, caso em que serão adjudicados ao
condomínio. Mesmo sem ter personalidade jurídica.
A inexistência da personalidade jurídica do condomínio é um problema que não deve ser esque-
cido, deixado de lado. Esperava-se que o novo Código Civil, Lei 10.406 de 10/01/2002, enfrentasse
a questão, mas silenciou a respeito.
Resta-nos então voltar ao tema e insistir para que problemas como os aqui relatados, possam
ser resolvidos. Independentemente do fato do condomínio não ter personalidade jurídica, é imperi-
oso que possa ele registrar em seu nome unidades adjudicadas ou compradas (tanto para resolver
uma pendência jurídica como para servir de residência de zelador, ou para aumento do número de
vagas na garagem, ou como dação em pagamento de despesas condominiais em atraso etc.).
Falta legislação que preencha a lacuna, ainda que através de norma excepcional, até mesmo
para que o Judiciário tenha condições de aplicar o previsto no artigo 5º da Lei de Introdução ao
Código Civil, que consiste em atender aos fins sociais a que a lei se dirige e às exigências do bem
comum.
(*) O autor é advogado, formado pela Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie e Mestre
em Direito Comercial pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC e sócio da Advoca-
cia Daphnis Citti de Lauro (e-mail: dclauro@aasp.org.br).
2º DECÊNDIO FEVEREIRO/2008 – Nº 5 DIÁRIO DAS LEIS IMOBILIÁRIO (DLI) 35
ÍNDICES DE CORREÇÃO MONETÁRIA
TR POUPANÇA FGV - % IBGE - % FIPE - %
MESES
% % I G P- M IGP/D I IPC-D I IPA-D I INCC -DI INPC IPC-A IPC
Jan./2006 0,2326 0,7338 0,92 0,72 0,65 0,81 0,34 0,38 0,59 0,50
Fev. 0,0725 0,5729 0,01 (-) 0,06 0,01 (-) 0,12 0,19 0,23 0,41 (-) 0,03
Mar. 0,2073 0,7083 (-) 0,23 (-) 0,45 0,22 (-) 0,82 0,20 0,27 0,43 0,14
Abr. 0,0855 0,5859 (-) 0,42 0,02 0,34 (-) 0,15 0,36 0,12 0,21 0,01
Mai. 0,1888 0,6897 0,38 0,38 (-) 0,19 0,46 1,32 0,13 0,10 (-) 0,22
Jun. 0,1937 0,6947 0,75 0,67 (-) 0,40 1,06 0,90 (-) 0,07 (-) 0,21 (-) 0,31
Jul. 0,1751 0,6760 0,18 0,17 0,06 0,17 0,47 0,11 0,19 0,21
Ago. 0,2436 0,7448 0,37 0,41 0,16 0,53 0,24 (-) 0,02 0,05 0,12
Set. 0,1521 0,6529 0,29 0,24 0,19 0,28 0,11 0,16 0,21 0,25
Out. 0,1875 0,6884 0,47 0,81 0,14 1,16 0,21 0,43 0,33 0,39
Nov. 0,1282 0,6288 0,75 0,57 0,24 0,75 0,23 0,42 0,31 0,42
Dez. 0,1522 0,6530 0,32 0,26 0,63 0,11 0,36 0,62 0,48 1,04
Ano 2006 2,12% 8,33% 3,83% 3,79% 2,05% 4,29% 5,04% 2,81% 3,14% 2,55%
Jan./2007 0,2189 0,7200 0,50 0,43 0,69 0,32 0,45 0,49 0,44 0,66
Fev. 0,0721 0,5725 0,27 0,23 0,34 0,19 0,21 0,42 0,44 0,33
Mar. 0,1876 0,6885 0,34 0,22 0,48 0,11 0,27 0,44 0,37 0,11
Abr. 0,1272 0,6278 0,04 0,14 0,31 0,02 0,45 0,26 0,25 0,33
Mai. 0,1689 0,6697 0,04 0,16 0,25 (-) 0,04 1,15 0,26 0,28 0,36
Jun. 0,0954 0,5959 0,26 0,26 0,42 0,09 0,92 0,31 0,28 0,55
Jul. 0,1469 0,6476 0,28 0,37 0,28 0,42 0,31 0,32 0,24 0,27
Ago. 0,1466 0,6473 0,98 1,39 0,42 1,96 0,26 0,59 0,47 0,07
Set. 0,0352 0,5354 1,29 1,17 0,23 1,64 0,51 0,25 0,18 0,24
Out. 0,1142 0,6148 1,05 0,75 0,13 1,02 0,51 0,30 0,30 0,08
Nov. 0,0590 0,5593 0,69 1,05 0,27 1,45 0,36 0,43 0,38 0,47
Dez. 0,0640 0,5643 1,76 1,47 0,70 1,90 0,59 0,97 0,74 0,82
Ano 2007 1,45% 7,70% 7,75% 7,89% 4,60% 9,44% 6,15% 5,16% 4,46% 4,38%
Jan./2008 0,1010 0,6015 1,09

SINDUSC ON/CUB - % (**) DÓLAR - R$


MESES IMPOSTO DE R ENDA RETIDO NA FONTE
MG RJ RS SC SP COMERCIAL PARALELO
Jan./2006 0,83 0,31 0,41 0,37 0,16 2,216 2,450 Base de A l íq u o ta ( % ) Parcela a
Fev. 0,19 0,03 (-) 0,10 (-) 0,12 0,32 2,140 2,277 Cálculo (R$) Deduzir (R$)
Mar. 0,06 4,30 (-) 0,02 (-) 0,39 (-) 0,18 2,165 2,280 Até 1.372,81 Isento -
Abr. 0,49 (-) 0,48 0,02 0,26 0,05 2,089 2,300 De 1.372,82 A
Mai. 0,55 0,07 0,81 2,91 2,77 2,324 2,400 2.743,25 15,0 205,92
Jun. 0,24 0,14 1,70 0,70 0,25 2,165 2,393 Acima 2.743,25 27,5 548,82
Jul. 0,19 0,26 0,39 (-) 0,004 0,17 2,176 2,400 DEDUÇÕES:
Ago. 0,16 0,35 (-) 0,09 0,23 0,05 2,133 2,350 a) R$ 137 ,99 por de pende nte; b) Pensãoalimen-
Set. 0,16 0,02 0,09 (-) 0,12 0,07 2,174 2,350 tar integral; c) R$ 1.372,81 para aposentados,
Out. 0,12 0,74 (-) 0,04 (-) 0,04 0,00 2,143 2,370 pensionistas e transferidos para a reserva re-
Nov. 0,07 0,16 (-) 0,19 (-) 0,86 0,06 2,166 2,400 munerada que tenham 65 anos de idade ou
Dez. 2,96 0,03 0,36 0,20 0,51 2,135 2,370 mais; d) contrib uição à Prev idênc ia Soc ial.
Ano 2006 6,15% 6,01% 3,38% 3,13% 4,28% (-) 8,76% (-) 6,32%
Jan./2007 0,69 0,02 0,36 0,067 0,21 2,124 2,350 UPC (R$) - Jan. / Mar. - 2008 = 21,31
Fev. 0,19 0,10 0,08 0,32 0,16 2,121 2,300 Salário-Mínimo - Jan. - 2008 = 380,00
Mar. 0,22 2,44 0,28 0,17 0,15 2,050 2,250 UFESP(SP) (R$) - 2007 = 14,23 - 2008 = 14,88
Abr. 0,31 0,13 0,82 0,56 0,71 2,033 2,200 UFM/SP (R$) - 2007 = 83,48 - 2008 = 86,56 (*)
Mai. 0,36 0,02 0,22 3,17 1,21 1,9289 2,100
Jun. 0,23 0,45 2,06 0,16 1,43 1,926 2,100 OBSERVAÇÕES:
Jul. 0,35 0,05 0,22 0,75 0,58 1,877 2,090 TR e P oupan ça - Perc entual co rrespond ente
Ago. 0,24 0,29 0,08 (-) 0,02 0,50 1,962 2,150 ao primeiro dia útil do mês, a ser creditado
Set. 0,40 0,23 0,27 0,26 0,26 1,838 2,100 t r in t a d ia s a p ó s; ( *) t ri b u to s l a nç a d o s em U F M ,
Out. 0,68 0,63 0,45 0,72 0,78 1,744 2,050 exceto IPTU. Multiplique a quantid ade de UFM
Nov. 0,52 0,12 0,23 0,31 0,68 1,783 2,000 (extinta em 01.01.1996) correspondente por
Dez. 4,19 0,10 0,08 0,55 0,59 1,771 1,990 R$ 76,58; Dólar - Cotações do último dia útil do
Ano 2007 8,64% 4,65% 5,26% 7,20% 7,50% (-) 17,05% (-) 16,03% mês. (**) Até 02/2007, conf. NBR 12.721/1999;
Jan./2008 a partir de março/2007, conf. NBR 12.721/2006.

COEFICIENTES ACUMULADOS ATÉ O MÊS ANTERIOR


REAJUSTE EM N OVEMB RO/2007 REAJUSTE EM D EZEMBR O/2007
Indexador B i m. T r im . Q u ad r im . Sem. Anual B i m. T r im . Q u ad r im . Sem. Anual
I G P -M / F G V 1,0235 1,0335 1,0364 1,0396 1,0629 1,0175 1,0306 1,0407 1,0463 1,0623
I G P -D I /F G V 1,0192 1,0334 1,0373 1,0416 1,0610 1,0180 1,0299 1,0443 1,0509 1,0660
I P C /F G V 1,0036 1,0078 1,0106 1,0174 1,0450 1,0040 1,0062 1,0105 1,0175 1,0453
I N P C /I B G E 1,0055 1,0114 1,0147 1,0205 1,0478 1,0073 1,0098 1,0158 1,0222 1,0479
I P C -A / IB G E 1,0048 1,0095 1,0120 1,0176 1,0412 1,0068 1,0086 1,0134 1,0186 1,0419
I P C / FI P E 1,0032 1,0039 1,0066 1,0158 1,0456 1,0055 1,0079 1,0086 1,0169 1,0461

REAJUSTE EM JANEIRO /2008 REAJUSTE EM F EVEREIRO/2008


Indexador B i m. T r im . Q u ad r im . Sem. Anual B i m. T r im . Q u ad r im . Sem. Anual
I G P -M / F G V 1,0247 1,0354 1,0487 1,0620 1,0775 1,0287 1,0358 1,0467 1,0706 1,0838
I G P -D I /F G V 1,0254 1,0330 1,0451 1,0636 1,0789
I P C -D I /F G V 1,0097 1,0110 1,0133 1,0204 1,0460
I N P C /I B G E 1,0140 1,0171 1,0196 1,0289 1,0516
I P C -A / IB G E 1,0112 1,0143 1,0161 1,0233 1,0446
I P C / FI P E 1,0130 1,0138 1,0162 1,0197 1,0438

OBS .: Para reajuste anual de aluguel: multiplique o valor pelo indexador contratado.
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