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Ghosting, a arte do não compromisso (ou as regras modernas para

brincar ao amor)

"Fazer ghosting, que é uma forma de tortura silenciosa, diz mais sobre quem a exerce
do que sobre as suas vítimas."

Numa era de redes sociais e aplicações para encontros, o amor tornou-se num lugar
mais banal e confuso. Desconfio sempre dos que dizem que dantes é que era,
esquecendo que a memória é seletiva e prega partidas, mas nem tudo o que é novo é
bom só porque é novo. Às vezes perdem-se coisas pelo caminho. A vida online, por
exemplo, tornou-se de tal forma obrigatória, rápida e impositiva que se esqueceu que
a maioria do mundo nasceu antes dos anos 80. O tempo também devia servir as
pessoas.

O primeiro prémio para o pior da modernidade é o ghosting, isto é, o abandono


inesperado de uma conversa, combinação, vida, sem dar explicações. Puff! E, como se
foge de um lugar do crime, a velocidade é sempre maior à saída do que à chegada. O
toca e foge, que não tem qualquer interesse, passou a fazer parte de muitas equações.
Dantes gerava escândalo e ódios de morte, pelo menos espanto e na melhor das
hipóteses os amigos tomavam o nosso partido, e as nossas dores. Hoje encolhem-nos
os ombros. Ainda mais se o assunto for amor e fores rapariga hétero: os romances são
bons balões de ensaio para todo o tipo de patifarias, e os rapazes, já se sabe. Nos
tempos modernos, já nem tem género, ou seja, piorou, porque os maus exemplos
aprenderam-se depressa.

O ghosting irrita-me sempre, e julgo que assim sempre será, e mesmo quando não é
comigo. É vulgar e rasteiro: o que pode levar uma pessoa a deixar outra sem aviso?
Cobardia? Egoísmo? Imaturidade? Não há desculpa que cole, nem a superficialidade
dos tempos modernos. Nada justifica o abandono gratuito do outro diminuindo-o ao
ponto de não ser merecedor de uma palavra. Nem a possibilidade de a devolver. O
ghosting é um golpe baixo e cruel, e o pior é que nunca foi tão popular e aceite. E se te
queixas estás armado em maricas, ou seja, ainda se arma em herói depois. Sou só eu
ou isto soa a palermice de liceu?
O mais desconcertante para mim é o ghosting dos amigos. Caramba, o amor dos
amigos é muito mais livre, mas todos já tivemos amigas que nos trocaram por um
namorado. Faz sentido nos primeiros tempos? Claro, paixão e loucura. Mas e depois?
Depois voltam quando se zangam ou se separam. Nos rapazes, o clássico é
abandonarem-te quando arranjam uma namorada espaçosa ou controladora que não
"deixam" o namorado ter amigas. São muitas ainda – e eles deixam, os bananas. Aceito
melhor quando a razão são os filhos, embora tenha bons amigos que nunca fizeram
grupinho à parte. Imagino que se fique à toa quando se tem um menino nos braços,
mas muitos nem percebem que começam a esquecer-se de si próprios, o que é bem
pior do que se esquecerem de nós. Mas cá estaremos, ou não, quando os putos forem
à sua vida.

O ghosting também já chegou ao trabalho, inesperadamente num mundo que se torna


freelancing onde a resposta e o acordo e a palavra têm de ser fundamentais e a boa
educação requisito básico. Mas quantas vezes te contactam para um trabalho e nunca
mais dizem nada? É muito fora. Normalmente aparece um amigo de um amigo que dá
um jeito e fica com o teu trabalho, mas, mais uma vez, não custa nada avisar. Só
naquela.

Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar. E ‘não querer saber’
nem egoísmo é que se apresente. Todos temos direito às nossas dúvidas, até à nossa
pequena dose de egoísmo, mas o ghosting é uma infra atitude que se tornou comum.
Com as redes sociais, a cobardia passou a ser permitida como um hábito. Pois bem,
sabemos que os corajosos são sempre menos, mas se calhar agora nota-se mais. Tudo
se nota mais. O ghosting vive feliz na sociedade líquida, como descreveu Zigmunt
Bauman, onde estamos todos mais acessíveis, na verdade todos mais inacessíveis,
além de dispersos. É fácil inventar desculpas na net, estamos todos conectados, mas
poucos estão mesmo ligados.

O lado bom é que a Psicologia nos diz que o problema "não é meu, é teu": fazer
ghosting, que é uma forma de tortura silenciosa, diz mais sobre quem a exerce do que
sobre as suas vítimas. Normalmente são personalidades hesitantes e ambíguas, que
evitam lidar com situações desconfortáveis, muitos têm problemas de confiança e/ou
de dependência, alguns foram eles próprios rejeitados. Da mesma forma, os que
acreditam em relações construídas saem mais airosamente destes embustes. Um vez
um psicólogo que entrevistei disse-me uma frase que guardo comigo desde então: "O
medo é o contrário do amor".

Entretanto nasceram outros termos a partir do ghosting, todos admiráveis, como o


caspering, o fantasma bonzinho e honesto que diz o que sente e sai de mansinho; o
hauting, quando o fantasma reaparece como uma assombração nas redes sociais, num
like ou numa referência, para ver se ainda cola. O que é rodar a faca depois da facada.
Também existe o ghostbusting, quando se tenta forçar o fantasma a responder. E o
breadcrumbing, que é levar alguém na conversa, mas sem qualquer intenção "séria"
(até sabe bem dizer isto agora); o benching, deixar a pessoa no banco, como um
suplente num jogo de bola, a quem se vai lançando perfume, às vezes combina-se, às
vezes desmarca-se. É um ghosting mais inconsequente, superficial e consentido. Na
mesma linha, temos ainda o submarining, que é aparecer semanas depois de fazer
ghosting, como se nada tivesse acontecido, a chamada grandessíssima lata. O mais
básico é o sidebarring, olhar para o telefone e enviar mensagens aos amigos durante
um date; o mais comum, já muitos adolescentes o fazem, é o phubbing, phone e
snubbing, isto é ignorar uma pessoa ou uma conversa olhando para o telefone. Para
mim tudo se resume a gente mal educada. Mas se o tivesse dito logo, não tínhamos
crónica este mês. Claro que bate com esta era de individualismo narcísico, é coisa de
gente sem grande interesse ou empatia, mas se pensarmos bem é só infantilóide. É
nestas alturas que gosto de ser velha guarda, uma romântica nascida nos sexy anos 70
para quem o sexo, paixão e amor são crescendos para viver ao vivo e a cores, em
encontros reais e sem apps, de preferência com o vinho e as canções certas e
abandonando o telefone horas e horas a fio.