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Percepções indígenas sobre ambiente e educação ambiental:

Experiência etnográfica em uma aldeia Guarani


Beatriz Osório Stumpf1
Resumo
Este artigo apresenta reflexões desenvolvidas a partir da experiência etnográfica
realizada na aldeia Guarani Tekoá Anhetenguá, durante um processo de Educação
Ambiental que vem sendo implementado pelo IECAM - Instituto de Estudos Ambientais
e Culturais. O estudo etnográfico possibilitou o conhecimento de percepções indígenas
com relação a questões como ambiente, saúde, resíduos e educação ambiental,
destacando-se a visão unificada que caracteriza as conexões entre estes temas, a qual
tem como base a cosmologia Guarani, fundamentada em uma dimensão espiritual e
manifestada em um modo de ser que integra cultura e ambiente. O trabalho
proporciona ainda uma reflexão sobre a importância da relação entre Antropologia,
Educação e Educação Ambiental.

Palavras Chave: Educação Ambiental Indígena, Cultura, Ambiente, Saúde, Resíduos.

Indigenous perceptions about environment and environmental education:


Ethnographic experience in a Guarani village
Abstract
This article presents reflections developed from the ethnographic experience held in
the Guarani village Tekoa Anhetenguá during a process of environmental education
that is being implemented by IECAM - Instituto de Estudos Ambientais e Culturais. The
ethnographic study enabled the knowledge of indigenous perceptions on issues such as
environment, waste, health and environmental education, with emphasis on a unified
vision that characterizes the connections between these issues, based on the Guarani
cosmology, well-grounded on a spiritual dimension and expressed in a way of being
that integrates culture and environment. The work also offers a reflection on the
importance of the relationship between anthropology, education and environmental
education.
Keywords: Indigenous Environmental Education, Culture, Environment, Health,
Garbage.

1
Mestre em Psicobiologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia (UFRN). Educadora
Ambiental do IECAM - Instituto de Estudos Culturais e Ambientais.
Introdução:
Este artigo apresenta reflexões desenvolvidas a partir de uma experiência
etnográfica realizada na Tekoá Anhetenguá, aldeia Guarani localizada na Lomba do
Pinheiro - Porto Alegre / RS. A etnografia ocorreu desde março de 2011, durante um
processo de Educação Ambiental (EA), através do projeto "Ar Água e Terra: Vida e
Cultura Guarani", o qual vem sendo realizado pelo IECAM - Instituto de Estudos
Ambientais e Culturais, com o patrocínio do Programa Petrobras Ambiental. O projeto
contempla programas de Educação Ambiental em oito aldeias do Rio Grande do Sul,
envolvendo o reflorestamento destas áreas com espécies de uso indígena medicinal,
alimentício e artesanal, bem como o destino adequado dos resíduos, buscando
contribuir para a recuperação ambiental e o etnodesenvolvimento.
Esta etnografia é efetuada durante uma atuação específica do projeto, o
processo educativo ambiental efetuado na Tekoá Anhetenguá uma aldeia de 12 ha,
onde vivem 28 famílias Guarani. O projeto foi construído junto com a liderança
indígena local e o programa de Educação Ambiental também está ocorrendo em
contínua construção com os indígenas, envolvendo a busca mútua de soluções.
O trabalho tem possibilitado uma reflexão sobre algumas percepções indígenas
com relação a temas como ambiente, resíduos, saúde e educação ambiental, os quais
foram surgindo espontaneamente ao longo da atuação. Angrosino (2009:36) propõe o
uso do método etnográfico para situações nas quais seja interessante conhecer a
perspectiva de um público sobre questões específicas, de modo a contribuir para que
as visões do grupo pesquisado não sejam determinadas pelas opiniões do pesquisador.
No caso desta pesquisa, desde o início da concepção de um projeto de Educação
Ambiental para indígenas, surgiu a necessidade de se conhecer e compreender mais as
percepções ameríndias sobre os problemas ambientais e sobre como seria um processo
educativo ambiental indígena, para que o trabalho fosse desenvolvido com profundo
respeito a estas visões.
O artigo expõe inicialmente uma reflexão sobre o contexto vivido pela
pesquisadora, em um processo simultaneamente etnográfico e educacional; e
apresenta a proposta educativa ambiental que está sendo desenvolvida. Ambas
exposições visam proporcionar elementos para a compreensão de como são
vislumbradas as percepções indígenas e como são elaboradas as reflexões.
Posteriormente são colocadas algumas representações ameríndias observadas durante
o trabalho, com interpretações delineadas principalmente a partir do diálogo com o
pensamento de Tim Ingold. Com relação às percepções sobre os resíduos, a visão
etnográfica possibilitou ainda uma problematização no que diz respeito à naturalização
desta questão em aldeias indígenas. A parte final do artigo se propõe a uma discussão
sobre a relação entre Antropologia, Educação e Educação Ambiental.

O lugar da pesquisadora:
Silva (2009:179) aborda a influência mútua estabelecida na interação entre o
etnógrafo e o grupo estudado, a qual incide não só sobre a condição atual das pessoas,
mas sobre a sua identidade e desenvolvimento. No contexto desta investigação, a
circunstância que levou a etnógrafa à aldeia e proporcionou este convívio e observação
é a própria atuação em Educação Ambiental, sendo a relação com os indígenas e o
deslocamento em seu território, proporcionada pelas reflexões e construções coletivas
do trabalho educativo ambiental. Neste caso, o envolvimento e a influência não são
negados, mas há o cuidado de uma reflexão sobre o próprio envolvimento, em direção
a um envolvimento reflexivo, com sentido, observando como as perspectivas vão
mudando, através dos encontros e desencontros, entusiasmos e frustrações,
identificações e estranhamentos.
A pesquisadora, ocupando simultaneamente o papel de etnógrafa e de
educadora ambiental, é ao mesmo tempo observadora de si mesma e do outro. É
consciente de sua bagagem em termos de formações, experiências e vivências
ambientais; observadora de suas expectativas com relação a possíveis transformações,
relacionadas com os resultados esperados na execução do projeto; sendo também
atenta a como os indígenas expressam suas idéias ou silenciam diante de questões
ambientais; como participam ou não da construção de uma proposta educativa; como
recebem a proposição de mudanças de hábitos e como percebem este processo. É um
exercício constante de auto-observação, não só das falas e acontecimentos indígenas,
mas de suas próprias percepções, reflexões, emoções e expectativas. A aprendizagem
ocorre em todos os momentos, desde as tentativas de aproximação até o alcance ou
não de resultados, em um processo de contínua auto-educação do olhar, do escutar,
do pensar e do escrever.
Como indica Silva (2009:181), ver implica em um constante rever, um olhar
que se organiza e se reorganiza, possibilitando que as situações adquiram sentido,
significados que possam ser decifrados a partir do diálogo entre observação e
introspecção. Ao desenvolver o trabalho de EA, a pesquisadora convive com os
indígenas em exercício contínuo de observação participante, exercitando o olhar e o
ouvir descritos por Rocha & Tosta (2009:73): ver as coisas como elas se apresentam
aos olhos, sem julgar ou desejar que fossem diferentes, buscando a compreensão
daquilo que se apresenta; e ouvir diferentes pontos de vista, conferindo legitimidade,
com uma escuta de abertura e acolhimento, não discriminadora. O caderno de campo
está se constituindo em um instrumento de grande relevância na clareza deste duplo
papel vivido pela pesquisadora, através do contínuo registro dos diálogos, emoções e
inquietações, buscando decifrar as representações do outro e de si mesma.

O processo de Educação Ambiental:


O IECAM - Instituto de Estudos Culturais e Ambientais tem criado um espaço de
aproximação e de envolvimento com os povos Guarani, desde 2004, tendo
desenvolvido diversos projetos relacionados com o etnodesenvolvimento, em uma
perspectiva de construção em conjunto com os indígenas. A relação da pesquisadora
com o cacique e com alguns membros de sua família iniciou em um projeto anterior,
nos quais foram introduzidas atividades de viveirismo e de reflorestamento com
espécies nativas. Um viveiro foi construído na aldeia, decisão tomada após um logo
período de diálogo com os indígenas, sendo que atualmente eles valorizam muito este
local, onde as sementes são plantadas e recebem um cuidado especial até o momento
em que possam ser inseridas em locais da aldeia escolhidos por eles.
A novidade do atual projeto foi a temática do lixo, a qual foi introduzida a partir
do interesse do cacique em mudar a forma como são descartados os resíduos na
aldeia. No entanto, a questão do lixo nas aldeias indígenas é bastante complexa, por
lidar com hábitos muito antigos e bem arraigados de jogar o lixo no chão ao redor das
casas, desde a época em que consumiam apenas produtos orgânicos.
A observação participante se apresentou como um instrumento fundamental na
construção de um processo educativo ambiental indígena, permitindo à pesquisadora
um aumento gradativo da aproximação com os indígenas, observando seus hábitos,
concepções, percepções e dificuldades com relação às questões trabalhadas. Esta é
desenvolvida durante todo o tempo de convívio, nas conversas ao redor do fogo, nas
visitas às casas, nos encontros e oficinas, percorrendo juntos as trilhas da aldeia,
trabalhando coletivamente no viveiro, na compostagem, nas roças, no plantio de
mudas. Nestas ocasiões surgem naturalmente conversas sobre as plantas, a paisagem,
o lixo, a cultura, a saúde. Por meio destes diálogos informais e do convívio cotidiano
com os moradores, vão sendo trocados exemplos e mensagens, provenientes de
ambas as culturas, sobre diferentes tipos de atitudes e modos de se lidar com o
consumo e com a geração e destinação de resíduos, ao mesmo tempo em que vai se
lançando reflexões sobre problemas ambientais da aldeia e sobre a relação humana
com a natureza, de uma forma que valoriza a visão da cultura Guarani.
As construções do trabalho iniciaram com conversas com o cacique, o agente
de saúde e os dois professores da aldeia. Ao longo da atuação, vão sendo
desenvolvidas conversas informais, principalmente na casa do cacique, ao redor do
fogo, tomando chimarrão, envolvendo também outras pessoas que freqüentam a casa.
Muitas vezes eles conversam em Guarani, sendo as falas na língua portuguesa
principalmente expressadas pelo cacique. Estas ocasiões são aproveitadas pela
Educadora Ambiental para estimular a troca de idéias sobre atividades e ações para a
resolução da questão do lixo e de outras questões ambientais da aldeia. Ocorre, por
exemplo, um planejamento coletivo de quais as espécies que vão ser plantadas e de
quais os locais de plantio, proporcionando a troca de conhecimentos e o fortalecimento
de uma relação de confiança. Como geralmente são as mesmas pessoas que
participam destas conversas, foi se formando um grupo que está mais envolvido com
estas questões, colocando suas idéias e contribuindo nas decisões coletivas, sendo
incentivado a difundir estes saberes. A partir destas reflexões vão sendo organizados
elementos estruturais para a melhoria da situação ambiental do local e vão sendo
construídas algumas atividades educativas, de acordo com as concepções indígenas.
Aos poucos foi ocorrendo um aprofundamento da relação com estas pessoas e o
conhecimento dos outros habitantes da aldeia. As visitas às famílias são realizadas
geralmente junto com algum indígena, para fazer a aproximação e a tradução. Durante
as visitas transcorrem conversas informais sobre assuntos como a aldeia, os cultivos,
as sementes e as mudas que estão sendo plantadas. As conversas eram mais difíceis
no início, com longos silêncios e muitas falas entre eles, em Guarani, das quais nem
tudo recebe tradução. O tema do lixo foi sendo introduzido gradualmente e foi
observado que muitos deles queriam resolver o problema, mas não sabiam como e não
tinham uma estrutura adequada, como sacos e latas de lixo.
A partir destes diálogos, observações e constatações, foram realizadas
atividades, como oficinas e encontros, direcionadas para adultos, jovens e crianças,
contemplando dinâmicas peculiares para cada faixa etária, envolvendo reflexão e ação
com relação à questão do lixo. Cada casa recebeu duas latas e um balde, onde foram
colocados adesivos para identificação do tipo de lixo, em Português e em Guarani. As
latas estão sendo usadas para o lixo seco e comum, e o balde para o lixo orgânico, o
qual é levado até uma composteira comunitária. Além das atividades desenvolvidas
especificamente com as crianças, estas vão continuamente observando e
acompanhando as atividades, procurando ajudar, ouvindo o que os adultos falam sobre
o projeto e participando das mudanças que estão ocorrendo na aldeia.
O interesse por parte de alguns indígenas em resolver o problema do lixo ficou
mais claro através de iniciativas espontâneas como a construção de composteira e a
identificação das latas com os nomes lixo seco e lixo orgânico por parte de uma
família; a elaboração de cartazes com os termos: "Não jogue lixo no chão"; e a
solicitação da confecção de placas com estes mesmos dizeres. Além disso, durante a
realização de atividade de Educação Ambiental na escola, foi constatado que o
professor vinha trabalhando estas questões com os alunos e que as crianças já tinham
conhecimento sobre os diferentes tipos de lixo.

Percepções, interpretações, construções, significados...

Relação entre ambiente e cultura:

"Nós vamos fortalecer mais a nossa cultura através


do resgate das plantas, das matas, das aldeias mais
parecidas com o que eram antes". (Cacique Cirilo,
11/05/2011)

O convívio com os indígenas durante esta atuação tem permitido grande


riqueza de informações e de observações que podem contribuir para reflexões sobre
percepções ambientais indígenas. Como contribuição na busca de uma compreensão
de como os indígenas percebem o ambiente, é trazida a abordagem ecológica de Tim
Ingold (2000:09), na qual é questionada a separação entre natureza e cultura, sendo
sugerida uma superação desta dicotomia a partir da premissa de que o ser humano é
cultural e biológico, e o seu modo de agir no ambiente é também o modo de o
perceber, estando as características culturais em relação com as habilidades de
engajamento ativo com o ambiente, no que ele considera uma autêntica ecologia da
vida.
Esta profunda conexão entre a cultura Guarani e o ambiente em que vivem é
observada cotidianamente, no seu modo de ser (Nhande Reko) e em muitas das suas
falas, refletindo uma relação viva entre seus hábitos/saberes e as plantas, os animais,
a água, o sol, o fogo, a natureza como um todo. Este modo de ser e de se relacionar
com o outro (incluindo outras pessoas e outros seres e elementos da natureza) está
fundamentado na sua cosmologia, a qual se manifesta até nas mais simples atitudes
cotidianas, onde cada gesto apresenta profundo significado, ilustrando essa relação
entre percepção ambiental e engajamento.
Conforme Ingold (2000:19), não se trata da soma entre o organismo e o seu
ambiente, uma composição entre duas coisas, mas uma sinergia dinâmica, formando
uma totalidade indivisível, sendo necessária uma ecologia da vida para lidar com a
dinâmica destes sistemas evolutivos. As diversas conexões que compõem esta
totalidade aparecem repetidamente nas falas indígenas:

"O índio não tem mais o mato, mas quer reconstruir


na aldeia o que tinha no mato: frutas, flores,
animais, porque tudo isso faz parte da vida do índio.
A gente não vive sem a terra, o sol, a planta, a água,
o peixe, a gente faz parte de tudo isso; nós não
somos separados da terra. É tudo uma mesma
família". (Cacique Cirilo, 31/05/2011).

"Se tem plantas vem passarinhos e a gente fica mais


feliz com o canto dos pássaros". (Professor Jerônimo,
09/05/2011).

"Se tem fruta tem macaco". (Paulo, 03/06/2011).

Garnelo (2007:194) se refere a esse modo indígena de perceber as relações


entre os seres como um campo intersubjetivo que integra humanos e animais, o qual
não apresenta uma oposição entre cultura/sujeito e natureza/objeto. Nesta visão o
universo é organizado em um modelo sociocêntrico, permitindo atribuir sentido a um
conjunto de relações sociais que vai além dos limites da sociedade humana e a envolve
com outras formas de vida, não-humanas.
Este estado original de indiferenciação entre os humanos e os animais é
apresentado por Viveiros de Castro (1996:118) como uma noção universal no
pensamento ameríndio, a qual é descrita pela mitologia. Viveiros de Castro (1996:
119) descreve a relação fundamental entre esta visão e o xamanismo, do qual é ao
mesmo tempo o fundamento teórico e o campo de operação. De modo semelhante, em
outras dimensões de atuação e de integração na aldeia, se manifesta esta relação
entre percepção e engajamento, entre o modo de apreender uma situação e de
expressar esta internalização, atuando no ambiente.
Esta experiência de engajamento no ambiente, segundo Ingold (2000:107), não
se dá através de uma mediação entre mente e natureza, pois estas não estão
separadas. É uma experiência inerente ao processo de estar vivo e de fazer parte de
um mundo. Nesta visão um ser é visto como intrínseco ao desdobramento das relações
que se apresentam a partir do seu posicionamento no ambiente.
Desta forma, não há uma divisão entre o estado interno de um ser e suas
manifestações externas; entre razão, linguagem, emoção e ação. Esta não-divisão é
bem clara no modo de ser Guarani, sendo ilustrada na forma como Menezes &
Bergamaschi (2009:72) abordam a importância das emoções e sentimentos como
mediadores na construção do conhecimento destes povos. Na cosmologia Guarani a
espiritualidade é o eixo central que dá sentido a tudo e atua como um tipo de "cola"
que permite as conexões/entrelaçamentos entre corpo, mente, fala, sentimento,
relação e atuação no ambiente; entre todos os seres e elementos da natureza; e
também entre todas as dimensões culturais da aldeia, fortalecendo as conexões entre
saúde, educação, cultura, política, organização social, etc.

"Está tudo conectado espiritualmente, isto é o mais


importante" (Cacique Cirilo, 11/05/2011).

É com esta perspectiva que muitos dizeres indígenas mostram um


questionamento com relação às divisões e compartimentações da sociedade dos
brancos (Juruá). O cacique Cirilo manifesta repetidamente suas inquietações e críticas
com relação às instituições e à sociedade dos não índios, na qual é tudo dividido,
havendo uma separação e um distanciamento entre a palavra e a ação. Estas
constatações também aparecem no trabalho de Bergamaschi (2007:204, 205), que
revela como a visão e o modo de ser Guarani, com um entendimento global da
sociedade e do mundo, estranha a setorização e a disciplinarização que identificam as
instituições ocidentais da modernidade, com suas formas de conhecimento e de
pensamento.
Esta percepção unificadora que integra a paisagem interna e externa, a
subjetividade humana e a relação com o outro, incluindo as conexões entre todos os
seres e elementos da natureza, se reflete também nas questões de bem estar, saúde,
ética e valores humanos.
"Quando a comunidade está bem vem borboleta, flor
pássaro. Quando tem flor o espírito fica bom, isto
ajuda a curar as pessoas". (Cacique Cirilo,
17/05/2011).

Com este entendimento, o pensamento Guarani mostra ainda como a saúde e a


doença estão fortemente relacionadas com a natureza.

"Todas as plantas são medicinais, mas o branco acha


que apenas algumas plantas são medicinais". "A cura
vem da terra, das plantas. Tem que ter terra pra
poder buscar o remédio que vem da terra". (Cacique
Cirilo, 11/04/2011).

"Se a pessoa não trata as plantas com respeito, ela


fica doente". (Ariel, 16/08/2011).

"Antigamente não se cortava as árvores, só o cheiro


já protegia contra a doença. Depois o branco veio e
cortou tudo. Aí a doença vem". (Cacique Cirilo,
07/04/2011).

No entanto, a saúde também é vista na sua relação com a estrutura básica que
permite as necessidades físicas humanas, o que chamamos de qualidade de vida.

"Saúde também é dormir bem, ter casa, colchão".


(Cacique Cirilo, 29/04/2011).

A conexão entre a saúde e um bom alimento é outro fator freqüente nas falas
do cacique, o qual, inclusive solicita à educadora para falar com os índios sobre os
malefícios da "comida dos brancos". A alimentação tem grande importância na cultura
e no modo de ser Guarani, estando fortemente relacionada com saúde, espiritualidade
e valores humanos. Tempass (2005:67) aponta, por exemplo, para a importância do
milho no modo de ser Guarani, pelo fato de ser um alimento espiritual, além de físico,
e sendo o seu cultivo relacionado com rituais religiosos. Esta relação entre alimentação
e espiritualidade foi também evidenciada neste trabalho, durante as conversas para a
escolha dos alimentos para evento a ser realizado na aldeia, em que o cacique se
manifestou contra a presença de refrigerantes e alimentos industrializados e se referiu
à importância do milho, das frutas e do peixe; expressando a relação entre as
dimensões física e espiritual:

"Tendo a força do alimento é que a gente vai receber


a luz". (Cacique Cirilo, 21/12/2011).

A relação entre o hábito indígena de partilha do alimento e os valores humanos


é evidenciada por Garnelo (2007:207), que relata o momento de alimentação coletiva
como um ritual moral, que reafirma cotidianamente os bons propósitos e a
generosidade. Muitos valores morais que costumam ser trabalhados pela EA também
estão presentes no cotidiano Guarani, no seu jeito de ser e nas suas falas, em que
predominam a simplicidade, a sinceridade e a cooperação, como frutos desta
cosmologia, desta visão unificada, que reúne emoção, pensamento e ação.

"Abraçar não é só o amigo, é abraçar a causa. Não


podem ser só palavras vazias, tem que falar como
coração, tem que caminhar junto". (Cacique Cirilo,
29/04/2011).

"Não tem nada que se faz com uma pessoa só. Tudo
se faz junto, cada um faz um pouco". (Professor
Jerônimo, 21/12/2011).

Concepções sobre os resíduos:

Dauster (1997:4) aborda o potencial etnográfico de desnaturalização dos


fenômenos, mostrando como práticas, concepções e valores são socialmente
construídos e, portanto, simbólicos. A autora se refere ainda à capacidade de transpor
idéias preconcebidas (DAUSTER, 1997:46), as quais muitas vezes se cristalizam sem
que se dedique a observações e questionamentos mais profundos sobre a veracidade e
o real significado. No caso desta atuação, como o lixo é uma das temáticas
importantes a serem trabalhadas, a percepção indígena sobre este tema é de grande
relevância, constituindo um problema constantemente retomado, não só pela
educadora ambiental, mas também de um modo espontâneo, pelos indígenas, e por
indigenistas que convivem na aldeia através de outros projetos. Por meio deste
processo, a visão etnográfica tem possibilitado uma problematização com relação à
naturalização desta questão em aldeias indígenas.
Através da convivência com indigenistas, de diversas áreas de conhecimento, a
pesquisadora entra em contato com pensamentos que consideram o lixo como algo
comum e normal nas aldeias indígenas, inclusive sendo relatado como "parte da
cultura indígena" algo que não se pode interferir. Em evento realizado na aldeia, foi
observado que algumas pessoas (não indígenas) jogavam tocos de cigarro no chão,
algo que provavelmente não fariam em visitas a áreas particulares. Esta "normalização
do lixo" causou uma inquietação na pesquisadora, e um desejo de perceber mais
profundamente a visão indígena com relação a este tema.
Se conclusões fossem tiradas apenas a partir da observação dos indígenas,
provavelmente se consideraria o lixo como algo que não os afeta, pois é comum entre
eles o hábito de jogar no chão e de conviver com o lixo jogado. Tempass (2005:94),
em estudo sobre a alimentação Guarani, considera que as percepções indígenas sobre
o que é "lixeira" e "lixo" são bastante diferenciadas em relação à nossa sociedade. Esta
constatação ocorre com base no que é observado quanto ao descarte de qualquer tipo
de lixo no chão, em qualquer lugar, não havendo um local específico para a disposição
dos materiais que não são mais usados.
No entanto, através do processo de EA, foram constatadas noções ameríndias
sobre o lixo como um problema que eles queriam que fosse resolvido, mas não sabiam
como solucionar e esperavam uns pelos outros.

"A gente sabe que o lixo no chão é ruim, que não é


da gente. A gente se preocupa, conversa sobre isso
todo o dia, pensa no pátio que antigamente era
limpo, pra não ter moscas, mosquitos. Todo mundo
sabe disso, mas fica acostumado a jogar no chão. É
difícil pra nós, mas vamos tocar nisso, vamos falar
do lixo, vamos lutar pra mudar isso". (Cacique Cirilo,
29/03/2011).

As atividades de Educação Ambiental na aldeia costumam começar com alguma


indagação que busca abrir um espaço de reflexão, estimulando as expressões dos
participantes com relação ao tema proposto. Desta forma, é um momento importante
para o levantamento de percepções. Neste caso poderiam ser palavras influenciadas
pela presença da educadora ambiental, mas como são manifestados mesmo antes de
se apresentar qualquer perspectiva externa, revelam conhecimentos e idéias que eles
já possuem. As seguintes falas de alunos, registradas em atividade realizada na escola,
podem ilustrar a riqueza destes conhecimentos:

"O lixo é ruim pra saúde da gente e dos animais. Os


animais podem comer, sem saber que é lixo, podem
ficar doentes e morrer".
"O lixo causa doença".
(Alunos da escola, 11/04/2011).

Também foi constatada uma inquietação com relação ao lixo que pessoas de
fora trazem pra aldeia. Isto ficou claro quando o cacique indicou os dizeres para as
placas que eles queriam para a aldeia: "Não jogue lixo no chão", "Peity rive eme yty".

"Tem que escrever em português e em guarani,


porque a placa é pros brancos também, eles também
jogam lixo aqui no chão da aldeia". (Cacique Cirilo,
27/05/2011).

Outro elemento importante que surgiu na pesquisa foi uma percepção de


mudança do ambiente com relação à presença ou ausência de lixo. A fala do cacique,
surgida espontaneamente em uma caminhada na aldeia após a realização de mutirão
de limpeza, mostra a satisfação na percepção de que um ambiente sem lixo faz uma
diferença, inclusive com relação a uma mudança no ambiente interno das pessoas,
afetando a dimensão mental e emocional:

"O lixo muda o que a gente vê. Quando tem lixo a


gente só enxerga o lixo, mas quando a gente tira o
lixo, enxerga o verde. Aí muda o que a pessoa
pensa, o que ela sente. O verde inspira outros
pensamentos". (Cacique Cirilo, 16/05/2011).
Ao se perguntar sobre a dificuldade de parar de jogar o lixo no chão e de juntar
o lixo jogado, a resposta costuma se referir ao fato dos outros continuarem jogando.
Portanto, este hábito parece se repetir não por terem uma percepção do lixo que seja
diferenciada da visão do branco, mas devido à espontaneidade do cotidiano Guarani, o
qual não segue a mesma rigidez da cultura ocidental, em termos de regras, hierarquias
e dominações, de modo que fica muito difícil para o próprio índio dizer para o outro
índio o que ele deveria fazer. Além disso, a vida na aldeia segue um ritmo que é
próprio deles e qualquer mudança de hábito precisa seguir também este ritmo:

"Faz uns trinta anos que nós vivemos assim. Ás


vezes tem muito lixo, aí todos juntamos. Os brancos
também não falavam do lixo, agora é que estão
falando". (Cacique Cirilo, 29/03/2011).

Concepções e construções sobre Educação Ambiental:

"Como fazer educação ambiental se não tem terra,


não tem floresta? Como o branco que destruiu vem
plantar e querer que a gente plante?" (Cacique Cirilo,
29/04/2011).

"Índio não gosta que o branco venha dizer o que tem


que fazer". (Cacique Cirilo, 29/03/2011).

A educação ambiental indígena traz a tona uma série de inquietações,


indagações, contradições, por parte de indígenas, indigenistas, pesquisadores e
educadores ambientais, podendo se constituir em campo fértil para profundas
reflexões.
Viveiros de Castro (2002:124), citando Reichel-Dolmatoff (1976), reflete sobre
o pensamento de que a concepção indígena de mundo e de sociedade antecipa lições
essenciais da ecologia, que apenas agora estamos em condições de assimilar; e aborda
a visão de Arhem (1993) de que os ameríndios apresentam uma sabedoria “ecosófica”
que ultrapassa os limites da espécie, abrangendo as relações com seres das outras
espécies. Guimarães (1995:11) se refere à cosmologia indígena, com sua cultura e seu
modo de ser, como um exemplo de um prática de sobrevivência em interação
harmônica com o ambiente, que respeita a capacidade de suporte dos sistemas
naturais e o e o equilíbrio dinâmico da natureza.
Mas existe uma visão por parte de muitos indigenistas, de que pelo fato dos
índios terem esta visão unificada, em profunda comunhão com a natureza, eles não
precisariam de educação ambiental, e que qualquer tipo de EA estaria interferindo na
sua cultura, o que não deveria ocorrer. Há um questionamento com relação a todo o
tipo de interferência, mesmo com relação a técnicas ecológicas, como a compostagem,
o viveirismo, a adubação verde.
No entanto, é preciso refletir sobre o fato de que a interferência da civilização
ocidental na cultura indígena já ocorreu e ocorre a cada momento. Wernck (2008:416)
constata uma impossibilidade de frear o processo histórico de interação e fusão das
produções culturais, não havendo possibilidade nem sentido em se preservar certas
culturas em estados “puros” e "intocados”. De modo semelhante, Paula (1999:77)
chama a atenção para a interculturalidade como constitutiva da educação indígena,
devido a uma situação já existente de relacionamento desses povos com a sociedade
não-indígena e de consequentes influências que se refletem no cotidiano da escola.
Paula (1999:88) afirma que as características interculturais e bilíngues estão presentes
na escola indígena porque as relações entre as duas sociedades estão permeando
efetivamente a vida dos grupos indígenas, fato exemplificado pela própria existência
da instituição escolar, sendo, no entanto, fundamental a autonomia indígena nas
decisões dos projetos educacionais que lhes dizem respeito.
Estes pensamentos podem ser trazidos para a Educação Ambiental, pois na
realidade, apesar da visão indígena de grande respeito e comunhão com o ambiente
em que vivem, existem problemas ambientais nas aldeias, provavelmente devido às
transformações do seu modo de vida devido à pressão da cultura ocidental, com o
forte estímulo ao consumo de produtos industrializados, com seu excesso de
embalagens; além de fatores como a deficiência de infraestrutura adequada e a
elevada concentração populacional.
Giatti et al (2007:1711), Toledo et al (2008:174) e Gonçalves (2004:32),
através de pesquisas em aldeias indígenas, apontam a existência de problemas
sanitários, ambientais e de saúde, incluindo a disposição de dejetos humanos e de
resíduos sólidos em locais inadequados, com a presença de coliformes fecais na água e
o consumo de água contaminada. A disposição de resíduos costuma apresentar-se de
modo disperso ao redor das casas, amontoada nos matos ou em outros locais,
podendo estar próxima a corpos de água; e sendo ainda muito comum o hábito de
enterrar ou queimar. Os autores concluem sobre a importância do desenvolvimento de
ações conjuntas nas áreas de infra-estrutura e educação, incentivando a participação
da comunidade local para discutir soluções sobre estas questões.
Portanto, destacam-se evidências da relevância e da necessidade de atuações
em Educação Ambiental nas aldeias, sendo importante se começar com uma reflexão
sobre o que seria e como seria uma EA na concepção dos indígenas. Conversas sobre
estes temas foram realizadas durante este trabalho, em diversos momentos,
levantando aspectos importantes que são aqui relatados.
Uma percepção interessante que foi identificada é a da EA não como algo que
vem de fora, mas como um fator que possa despertar o que já está dentro de cada um
e da comunidade como um todo, podendo se constituir em um elemento de
envolvimento e de integração de todos em torno de questões importantes da aldeia,
pois a maior dificuldade colocada para resolver o problema do lixo foi a de envolver
todas as pessoas. Neste caso o educador ambiental seria como um motivador, que em
primeiro lugar teria que perceber quais são as necessidades dos índios, ver o que está
faltando, para possibilitar uma estrutura adequada, propiciando espaços para que as
pessoas manifestem suas visões sobre estas questões.
Foi ainda observada e manifestada a importância do papel das lideranças,
principalmente do cacique, para qualquer mudança de hábito na aldeia. Em visita
inicial às casas para convidar as famílias para um encontro pra conversar sobre a
questão do lixo, alguns indígenas se manifestaram desta forma:

"Se o cacique quiser a gente apóia". (Santiago,


04/04/2011)

No entanto, o próprio cacique se refere à importância dele não mandar, mas


falar com cuidado, respeito, atenção:

"Se eu chegar mandando juntar o lixo, a pessoa fica


ofendida, tem que chegar e cumprimentar,
conversar, perguntar como está a saúde, como estão
as crianças. Se não quiserem conversar, por que
faltou comida, a gente não fala". (Cacique Cirilo,
29/03/2011).
As idéias levantadas pelos indígenas para o trabalho de EA também refletem a
sua cosmologia, com seus valores e suas conexões, como a relação entre educação,
saúde e valores humanos. Como exemplo pode ser citada a ideia do cacique de
abordar a questão do lixo a partir da relação com a saúde.
A relevância da troca foi trazida com bastante ênfase, como sugestão para
abordar e envolver as pessoas. Por exemplo, o indígena Ariel, que ajuda no trabalho
do viveiro e do plantio de mudas, deu a sugestão de falar sobre o lixo durante as
visitas às famílias para oferecer mudas de árvores frutíferas.

"Tem que ter troca pra falar, se não índio não aceita.
Antigamente levava fumo. Porque levou presente
tem liberdade pra falar. Só chegar falando índio não
aceita". (Cacique Cirilo, 11/05/2011).

Além da troca, o exemplo também é muito importante na educação indígena.


Neste sentido, outra ideia levantada pelo cacique foi deste grupo que estava se
reunindo começar a passar nas casas e juntar o lixo sem dizer nada, apenas dando o
exemplo.
Também foi nítido o aspecto artístico e histórico, dos desenhos, da cultura oral
e da valorização do conhecimento dos mais velhos. Após as primeiras conversas com
os educadores e o primeiro encontro em que foi lançada coletivamente a questão do
lixo, um dos professores espontaneamente começou a desenvolver este tema com os
alunos e depois veio contar para a pesquisadora sobre os métodos utilizados:

"Nós conversamos sobre como o lixo era


antigamente e atualmente. Os alunos fizeram
pesquisa, conversando com os mais velhos. Era só
orgânico, só cascas de alimentos. Não tinha papel,
lata. Quem trouxe pra aldeia foi a gente, por isso
temos que saber como tratar. Na visão Guarani
queimar lixo não é problema. Então fizemos o
desenho do planeta. O ar tem uma camada. É
importante ver que quando queima a fumaça vai pro
ar, mas não some". (Professor Jerônimo,
07/04/2011).
Reflexões sobre a relação entre Antropologia, Educação e Educação Ambiental

Através deste trabalho estão sendo nutridas reflexões mais amplas e profundas
sobre a antropologia da educação e, mais especificamente, sobre uma antropologia da
Educação Ambiental. A etnografia está se constituindo como um elemento de grande
importância, como uma estratégia metodológica em Educação Ambiental, para um
maior conhecimento das percepções ambientais indígenas e para a internalização
destas como eixo básico da construção coletiva de uma proposta educacional. Do
mesmo modo, a Educação Ambiental tem sido um instrumento do estudo etnográfico,
norteando questões e oferecendo contextos de observação para determinados temas.
Esta visão de reciprocidade, em que ambas as áreas trazem contribuições mútuas é
apresentada por Rocha & Tosta (2009:17), autoras que consideram a antropologia
como uma forma de educação, e destacam a importância da prática antropológica para
um bom processo pedagógico.
No entanto, existem também diversas problematizações sobre a relação entre
estes saberes. Valente (1996:54) desenvolve um resgate histórico do processo de
construção dos métodos de pesquisa antropológica, manifestando a preocupação sobre
a popularidade do uso destes instrumentos em outras áreas de conhecimento,
principalmente a educacional. Dauster (2003:21) se refere às distâncias existentes
entre estas duas áreas de conhecimento, com relação a referenciais, métodos e
objetivos; mas também valoriza as proximidades, como o objeto de estudo em
comum, no que diz respeito à existência humana, com seus valores, modos de vida,
interações e socializações. A autora aposta na construção de pontes como um modo de
enriquecer ambas as disciplinas.
Para Dauster (2003:24), os contatos com referenciais antropológicos
possibilitam ao educador a apreensão de outra linguagem, com um modo diverso de
olhar, se posicionar e se relacionar, proporcionando ainda o levantamento de outros
tipos de questões e de interpretações a cerca dos fenômenos educacionais formais e
não formais. Fonseca (1999:59) também considera o uso de elementos do método
etnográfico como instrumentos que podem ser enriquecedores para a atuação
pedagógica, principalmente no que se refere à área de comunicação, ao processo
dialógico; além de propiciar a desconstrução de estereótipos e a abertura de novas
maneiras de conhecer e de interagir com as pessoas.
Nesta pesquisa foram evidenciadas estas contribuições do método etnográfico
para um processo educativo, ao oferecer um tipo de atitude pedagógica que tem
propiciado elementos importantes, como o conhecimento mais profundo das pessoas, o
estabelecimento de diálogos apropriados, a abertura para outras visões da realidade e
a quebra de visões cristalizadas, como no caso do lixo. Mas também surgiram questões
problemáticas entre estes campos de conhecimento que precisam ser consideradas, as
quais terminam enriquecendo esta integração. Um dos aspectos que mereceu grande
cuidado foi uma necessidade de conciliação entre o respeito pela especificidade da
cultura com a qual se estava trabalhando e a necessidade de se estar levando
"novidades", quando constituíam elementos importantes para o processo educativo
ambiental, mas que não estavam surgindo espontaneamente.
A este respeito, Gusmão (2008:73) e Dauster (2003:21) refletem sobre o modo
de integrar, na área educacional, os valores que são considerados universais e as
singularidades culturais; e de adequar projetos antropológicos de conhecimento de
diferentes modalidades culturais com propostas pedagógicas de intervenção e
transformação da realidade. Estas questões introduzem a importância da flexibilidade
do educador, de abertura para outras lógicas cognitivas, e de prontidão para
questionar suas próprias crenças e valores e para incorporar outras idéias, visões e
conhecimentos. Para Wernck (2008:417), este é um desafio importante do educador:
a conciliação entre o acolhimento das especificidades culturais e o papel da área
educacional, relativo ao comprometido com a transformação da sociedade em direção
a melhorias na condição humana, abrangendo as suas diversas dimensões, como a
física, mental, emocional, social e econômica, incluindo aspectos como qualidade de
vida, saúde e justiça social. O respeito às diversidades culturais não precisa implicar
em um relativismo e uma demagogia que possam se contrapor a estas metas
educacionais.
Com este pensamento se delineia também a relação entre a antropologia e a
educação ambiental. Neste sentido, Foladori & Taks (2004: 323) discutem a questão
do relativismo cultural, como um possível obstáculo às ações ambientais e sociais,
podendo ser paralisante à proposição de metas para um melhor desenvolvimento
humano. Esta corrente teórica/método de abordagem antropológica transformou-se
em argumentação através da qual não há critérios para avaliar questões como
sustentabilidade, limpeza e ordem, pois dependem de sistemas de valores definidos
por cada cultura e que não se podem ser impostos.
Conforme Foladori & Taks (2004: 336), para superar o paradoxo do relativismo
cultural, a antropologia precisou passar a analisar a cultura como um processo, em sua
trajetória histórica, em sua relação singularizada com os diferentes grupos e como
resultado de interesses contraditórios. Este reconhecimento traz importantes
conclusões para a discussão da problemática ambiental, como a importância de
considerar as diferenças entre os grupos sociais e no interior destes; e a relevância de
processos participativos de tomada de decisões e de avaliação, de modo a levantar as
diferentes percepções dos grupos envolvidos.
Esta visão antropológica da cultura como um processo contínuo de formação e
transformação, no qual há influências das diferenças individuais e grupais, também é
citada por Espíndola et allli (2008:07) e Guanaes (2009:8) como grande contribuição
da antropologia para a área ambiental, inclusive na formulação de políticas sócio-
ambientais. A relação entre cultura e meio ambiente pode ser valorizada, através de
investigações de determinadas culturas que incluam uma compreensão mais profunda
de suas formas de relação com o ambiente, seus simbolismos, seu imaginário sobre
natureza, como vivem e reagem frente às imposições do capitalismo, como
transformam o ambiente em que vivem e como isso os afeta. Guanaes (2009:60)
pensa esta relação como a busca de uma forma de sustentabilidade sócio-ambiental
que tenha como fundamento o reconhecimento e a valorização da autonomia dos
diversos grupos sociais, com seus conhecimentos tradicionais, o que significa aceitar
outros padrões de racionalidade, além do pensamento científico, outras formas de se
relacionar com a natureza, outros interesses e níveis de sustentabilidade.
Esta questão é colocada por Branquinho e Santos (2007:120), através do
enfoque da Antropologia da Ciência, ressaltando a sua contribuição para a
sustentabilidade, no sentido de uma critica à concepção hegemônica que dá maior
poder aos conhecimentos técnicos e científicos. Conforme a Antropologia da Ciência, os
objetos científicos são híbridos de natureza e cultura, da mesma forma que os saberes
e produções de sociedades que utilizam outras formas de leitura da realidade. As
autoras propõem a consideração de que existem diferentes maneiras de percepção,
compreensão e ação sobre a natureza, sendo indicada a socialização dessas diversas
visões, de modo a aproveitar elementos dos diferentes pontos de vista. Com base
neste pensamento, Branquinho (2004:08) manifesta uma proposta alternativa de
educação em ciência no sentido da elaboração de programas com base na valorização
e na integração entre os conhecimentos científicos e os produzidos por outras
sociedades, através da noção de redes.
A experiência etnográfica e educativa ambiental que está sendo vivenciada na
Tekoá Anhetenguá evidencia e ilustra estas reflexões, pois tem reunido representações
indígenas sobre aspectos como ambiente, saúde, resíduos e educação, de modo
integrado a elementos trazidos de conhecimentos técnicos e científicos, formando uma
rede de saberes, idéias e ações, a qual tem se manifestado em ações transformadoras
e em construções de grande riqueza e criatividade. Nesta dinâmica são acolhidas as
singularidades da cultura com a qual se está trabalhando, e também as diferenças
individuais, mas é respeitado o desejo e o potencial transformador de cada indivíduo e
do grupo, sendo oferecido um contexto de mudança da situação atual, incluído uma
estrutura propícia a esta renovação, mas com a devida consideração à vontade e ao
ritmo das pessoas envolvidas. Deste modo, a cultura é vista como um processo
dinâmico e não como um produto finalizado.

Considerações Finais

A complexidade das questões ambientais e sociais da atualidade exige visões e


métodos que integrem conhecimentos das diferentes áreas acadêmicas com saberes
tradicionais e populares; e que considerem as ligações entre as diversas dimensões de
uma sociedade, como a ambiental, social, econômica, educacional e da saúde.
Percepções indígenas Guarani mostram uma visão integradora, que reúne estes temas
e estabelece um crítica às divisões que predominam no pensamento ocidental; além de
conectar aspectos que costumam ser considerados dicotômicos, como cultura e
ambiente, individualidade e coletividade, objetividade e subjetividade, mente e
emoção. O conhecimento destas visões, além de auxiliar em atuações que melhorem
efetivamente as condições de vida destes povos, pode oferecer contribuições para a
sociedade como um todo, no processo de superação da crise multidimensional que a
atinge na atualidade.
A integração entre saberes e métodos antropológicos e educacionais, como o
devido cuidado e o conhecimento de ambas as áreas, pode ser fonte de contribuição
para o levantamento de percepções de diferentes culturas e inclusão destas visões em
processos transformadores. Para alcançar este objetivo, torna-se importante a
realização de pesquisas cuja investigação não se direcione somente para os povos
como eles são no momento em que estão sendo estudados, mas também como se
transformam, se movimentam em processos dinâmicos, e como percebem e se
percebem neste movimento; como recebem, pensam e desejam ou não as
transformações.
Neste sentido, Menezes & Bergamaschi (2009:87), ao refletir sobre a questão
da introdução de escolas em aldeias indígenas, se referem ao fato da cosmologia
Guarani não ser estática, e dos índios também se modificarem, como todas as
sociedades, estando sempre se movimentando e se recriando. A complexidade cultural
indígena precisa ser considerada, conforme Canen (2007:95), com seus múltiplos
significados, superando posturas que congelam identidades e diferenças, e que as
tratam como algo acabado e homogêneo. Estes pensamentos são trazidos aqui como
referências para a construção de processos educativos ambientais em aldeias
indígenas, destacando-se a necessidade de romper com visões da cultura ameríndia
como algo estático, que não aceita e não precisa de interferências.
O estudo etnográfico sobre a questão dos resíduos funcionou como um exemplo
de algo que, a partir de olhares externos, estava sendo considerado como um
elemento cultural das aldeias sobre o qual não se deveria interferir, mas cujas
percepções indígenas mostraram que estes resíduos, da forma como estão atualmente,
com a compra de produtos industrializados e o conseqüente excesso de embalagens,
não faz parte da cultura ameríndia e que há indivíduos indígenas que consideram a
importância de mudar este hábito, sendo que a transformação precisa seguir o ritmo, a
espontaneidade e as relações respeitosas que permeiam o seu modo de vida.
A partir deste reconhecimento da existência de diferenças individuais e grupais,
e de mudanças ao longo do tempo, esta pesquisa gera reflexões sobre a importância
de atuações educativas ambientais nas aldeias, que tenham como base percepções dos
próprios indígenas sobre estas trajetórias, manifestadas através de um processo
contínuo de diálogo, construção coletiva e troca de experiências, idéias e saberes; mas
também integrando, quando necessário, conhecimentos, técnicas e estruturas
provenientes de outras culturas.
Da mesma forma como a educação indígena, de acordo com Testa (2008:291),
é concebida num sentido amplo que não se reduz à escolarização, a EA também deve
ser pensada como algo que possa ser, com o tempo, profundamente envolvido no
modo se ser indígena, em um processo mais amplo de vivência e de construção de
conhecimento. Para que isto ocorra, os elementos que são relevantes na cultura
ameríndia precisam se trazidos para a atuação educativa ambiental, como a troca, a
partilha do alimento, a arte; e a visão de mundo unificada, de integração entre
humanidade e natureza, entre razão e emoção, e entre as diversas questões da aldeia.
É necessária uma valorização dos saberes próprios da cultura indígena, os
conhecimentos sobre as plantas, os animais, a natureza como um todo, com todas as
suas conexões, aproveitando os acontecimentos e as vivências cotidianas. É
importante um trabalho continuado, que envolva toda a comunidade e que respeite o
ritmo destes povos, mas que possa, ao longo do tempo estar internalizado no cotidiano
da aldeia.

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