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ESTUDOS MARICAENSES

O município de Maricá em debate


Organização:
Instituto Municipal de Informação
e Pesquisa Darcy Ribeiro (IDR)

ESTUDOS
MARICAENSES
O município de Maricá em debate

Maricá
2021
2021 © Instituto Municipal de Informação e Pesquisa Darcy Ribeiro (IDR).

Prefeitura Municipal de Maricá

PREFEITO PRESIDENTE DO IDR


Fabiano Horta Alan Novais

VICE-PREFEITO DIRETORES DO IDR


Diego Zeidan Adyr Motta
Daniel Vieira
SECRETÁRIO GERAL DE GOVERNO Romário Galvão
João Maurício de Freitas

SECRETÁRIO DE PLANEJAMENTO
Leonardo de Oliveira Alves

Expediente

COORDENAÇÃO EDITORIAL DIAGRAMAÇÃO


Aline Rocha de Oliveira Alex Viana Pinheiro
Guilherme Borges
COMISSÃO DE AVALIAÇÃO DE TRABALHOS ACADÊMICOS Marina Jaimovich
André Hacl Castro
Diego Moreira Maggi CAPA
Leonardo Gonçalves Gomes Alex Viana Pinheiro
Luciano Chaves Leal Guilherme Borges
Ludmila Caetano dos Santos Marina Jaimovich
Magnun de Souza Assumpção Amado
Mônica Maria Campos REVISÃO E PREPARAÇÃO DE TEXTO
Renata Toledo Pereira Aline Rocha de Oliveira
Will Robson Coelho Isabela Talarico

COMISSÃO DE ORGANIZAÇÃO EDITORIAL ASSESSORIA JURÍDICA


Alex Viana Pinheiro Adriana Serrão
Diego Moreira Maggi
Marina Jaimovich ASSESSORIA TÉCNICA
Thamires Bittencourt do Amaral
PROJETO GRÁFICO
Alex Viana Pinheiro

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)


(CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO, SP, BRASIL)

Estudos maricaenses : o município de Maricá em


debate / organização Instituto Municipal de Informação e
Pesquisa Darcy Ribeiro (IDR). -- 1. ed. -- Maricá, RJ : Editora
Instituto Darcy Ribeiro, 2021.

ISBN 978-65-993419-1-5

1. Ciências sociais 2. Cultura 3. Economia 4.


Desenvolvimento - Aspectos sociais 5. Geografia - Aspectos
sociais I. Instituto Municipal de Informação e Pesquisa
Darcy Ribeiro.

20-53307 CDD-300

Índices para catálogo sistemático:


1. Ciências sociais 300
Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129

[2021]
EDITORA INSTITUTO DARCY RIBEIRO
Rua Pedro Afonso Ferreira, 72, Quadra 05
- Lote 46 - CEP: 24900-765 Maricá - RJ
editora.idr@marica.rj.gov.br
Sumário
Apresentação 7

1. Desenvolvimento socioeconômico

Como construir um arcabouço institucional eficiente 11


para gestão de recursos finitos: recomendações para o
desenvolvimento econômico de Maricá
Fernando Amorim Teixeira; Carmem Feijo; Milford Bateman

Dependência ou autonomia fiscal-financeira? 31


Análise das transferências dos royalties do
petróleo para o município de Maricá
Marcelo Gomes Ribeiro; Vitor Vieira Fonseca Boa Nova; Igor Ribeiro Roboredo

Exemplo de Maricá: características e limitações 51


de experiências de renda básica no Brasil
Jimmy Medeiros; Yuri Teixeira Pires

Alcances e limites das ações de combate à pobreza 69


da prefeitura de Maricá em resposta à crise da Covid-19
Fábio Domingues Waltenberg

Economia solidária e educação popular: a experiência 91


do Mumbuca Futuro nas escolas municipais de Maricá
Rayanne de Medeiros Gonçalves; Thais Cristina Souza de Oliveira

2. Planejamento urbano

Cidades sustentáveis frente às mudanças globais: um resgate 107


da expansão urbana de Maricá para pensar o futuro
Kevin Campos Martins; Leonardo Amora Nogueira; Rodrigo Coutinho Abuchacra;
Carla Regina Alves Carvalho; Humberto Marotta

Perspectivas para Maricá em 2030: modelo da 133


expansão urbana utilizando autômatos celulares
Elizabeth Maria Feitosa da Rocha de Souza; Vandré Soares Viégas
Mapeamento de uso e cobertura da terra 155
no município de Maricá
Evelyn de Castro Porto Costa; Vinicius da Silva Seabra

Transporte e política pública: os “vermelhinhos” 171


e o direito social ao transporte
Marcelo da Silva Araújo

Maricá, uma cidade ativa? Resultados e possibilidades 189


dos investimentos na infraestrutura de transportes
para melhoria da mobilidade
Camila de Almeida Teixeira; Fátima Priscila Morela Edra

3. História e cultura

Programa Cultura de Direitos: a cultura como instrumento 207


de inclusão social, cidadania e promoção do desenvolvimento
no município de Maricá
Luciana Gonzaga Bittencourt

Ancestralidades: o povo de Maricá 225


Josefa Jandira Neto Ferreira Dias; Ondemar Ferreira Dias Jr

A trajetória do evento turístico Espraiado de 245


Portas Abertas em Maricá
Tatiana Macedo da Costa; Sérgio Domingos de Oliveira

O patrimônio como instrumento de salvaguarda do saber-fazer 265


das Tapeceiras do Espraiado: identidade e memória
Tatiana Macedo da Costa; Raquel Alvitos Pereira

A aldeia Ka’Aguy Hovy Porã entre prefeitura, multinacional 287


e população local: o processo de territorialização Guarani
Mbya na cidade de Maricá
Monique Rodrigues de Carvalho

Sobre as autoras e os autores 307


APRESENTAÇÃO

O Instituto Municipal de Informação e Pesquisa Darcy Ribeiro (IDR) foi


criado em dezembro de 2018 como uma autarquia multidisciplinar para ge-
rar, reunir e organizar indicadores e estudos de acompanhamento do desen-
volvimento do município de Maricá e de seu entorno. O empenho ocorre com
a finalidade de oferecer à estrutura governamental subsídios para a cons-
trução de políticas públicas mais efetivas, elaboradas de acordo com o perfil
da população e da realidade maricaenses. Além de atuar como guardião de
uma rica base de informações sobre Maricá, o IDR se destaca como um centro
de inteligência municipal, uma vez que seu conjunto de estudos e pesquisas
oferece não apenas dados, mas uma análise crítica sobre cada demanda.
Neste viés, e reconhecendo a fundamental importância da articulação
entre a academia brasileira e o poder público, os textos reunidos em Estu-
dos Maricaenses debatem aspectos socioeconômicos, geográficos, urbanos,
históricos e culturais do município de Maricá. Com o intuito de estimular
reflexões nas mais diversas áreas do saber, os artigos estão divididos em três
eixos temáticos: “Desenvolvimento socioeconômico”, “Planejamento urba-
no” e “História e cultura”.
O município de Maricá foi fundado em 1833 e está localizado na porção
leste da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Com uma população atual-
mente estimada em 161 mil habitantes, Maricá apresenta um Índice de De-
senvolvimento Humano (IDH) de 0,765, superior aos índices estadual e na-
cional. Segundo o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), Maricá possuía 127 mil habitantes em 2010. Em compa-
ração com o que fora registrado no censo de 2000, a população do município
cresceu 66,1%, sendo o segundo maior crescimento municipal do estado no
período. Os dados do censo indicam que esse crescimento populacional se
deu, principalmente, em virtude da migração.
A paisagem de Maricá é variada, indo do mar à serra. Seu território,
marcado por um dos maiores sistemas lagunares do estado do Rio de Janei-
ro, possui uma extensa planície costeira rodeada por maciços montanhosos
e banhada por uma orla ininterrupta de quase 33 km. Maricá se encontra ain-
da na zona de confrontação de campos da Bacia de Santos, onde o petróleo
é extraído da camada pré-sal. Por esse motivo, o município é, atualmente,
o maior beneficiário de royalties do país. Considerando o potencial de de-

7
senvolvimento de Maricá e as recentes transformações de seu panorama so-
cioeconômico, torna-se relevante a organização de estudos que se debrucem
sobre os mais diversos aspectos do município.
A variedade de abordagens e a riqueza temática dos artigos apresen-
tados neste livro evidenciam que a gestão do município de Maricá vem se
destacando na atual conjuntura nacional. Reafirmamos, por fim, com esta
primeira publicação da Editora IDR, nosso compromisso com o pensamento
científico produzido pelas universidades brasileiras.

Alan Novais
Presidente do Instituto Municipal de Informação
e Pesquisa Darcy Ribeiro (IDR)

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Desenvolvimento
socioeconômico
COMO CONSTRUIR UM ARCABOUÇO INSTITUCIONAL EFICIENTE
PARA A GESTÃO DE RECURSOS FINITOS: RECOMENDAÇÕES
PARA O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DE MARICÁ

Fernando Amorim Teixeira1 • Carmem Feijo2 • Milford Bateman3

INTRODUÇÃO

Nas economias modernas, para que o desenvolvimento econômico4 se


viabilize, a relação entre Estado e mercado encontra mecanismos consti-
tutivos próprios em cada país, que incluem marcos legais, abordagens de
governança corporativa, regimes tributários, relações empresa-governo,
instituições públicas e privadas, entre outros. O arranjo institucional bem-
-sucedido entre Estado e mercado favorece decisões de investimento por
longos períodos. Isso porque, para que os investimentos ocorram, há de-
pendência de acesso a financiamentos apropriados de curto, médio e longo
prazo e, para tanto, é necessário que haja funding, liquidez e uma institucio-
nalidade que organize as expectativas dos diversos agentes.
A descoberta de grandes reservas de recursos naturais oferece uma
oportunidade única para que países e economias locais ganhem autono-
mia para desenhar seu próprio caminho de desenvolvimento. É por essa
perspectiva que buscaremos discutir como a literatura oferece ferramentas
para entender formas institucionais como entes nacionais e subnacionais

1 Fernando Amorim Teixeira é doutorando em Economia pela Universidade Federal Fluminense, em


Niterói (RJ), Brasil. E-mail: fernando_tx@yahoo.com.br.

2 Carmem Aparecida do Valle Costa Feijo é PhD em Economia pela Universidade de Londres, no
Reino Unido, com pós-doutorado pela Universidade de Columbia, em Nova York, EUA. E-mail:
cbfeijo@gmail.com.

3 Milford Bateman é PhD em Economia pelo Departamento de Estudos Sociais e Econômicos da


Universidade de Bradford, no Reino Unido. E-mail: milfordbateman@yahoo.com.

4 Entendido como crescimento com mudança estrutural.

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

podem se organizar para oferecer “condições” para não só financiar o in-


vestimento de longo prazo a partir das rendas geradas por recursos naturais
finitos, mas também dar sustentabilidade ao crescimento com melhoria no
padrão de vida da população.
As receitas oriundas desses recursos colocam governos de países, esta-
dos e municípios diante do crucial dilema de como gastar uma receita finita
– e, nesses casos, para que o esforço não seja em vão, é necessário haver pla-
nejamento e coordenação entre instituições e políticas públicas que sejam
capazes de estabelecer os encadeamentos dentro da atividade econômica: os
chamados backward e forward linkages.
De forma geral, para pensar o desenvolvimento local e a melhoria do
padrão de vida da população é preciso considerar os financiamentos com di-
ferentes prazos e a diversidade de atores envolvidos – ou seja, é necessário
que as ações de política envolvam o melhor uso de rendas finitas e que sejam
concebidas de forma articulada. Sendo assim, o arcabouço institucional do
Estado é fundamental, seja em nível nacional, seja em nível regional ou local.
A literatura que preconiza a importância do Estado, por sua vez, ge-
ralmente aborda como governos nacionais conseguem construir caminhos
de desenvolvimento de cima para baixo (top-down). Não obstante, existem
diversos casos em que entes subnacionais conseguiram criar e desenvolver
um Estado de Desenvolvimento Local5 (EDL), numa estratégia “de baixo para
cima” (bottom-up), estando ou não o governo central em conjunção com a
construção do arcabouço regional ou municipal. A implementação de políti-
cas voltadas ao desenvolvimento, nesses casos, depende da disponibilidade
de uma série de instrumentos, como fundos, agências de desenvolvimento,
bancos direcionadores de crédito, empresas públicas, incubadoras, univer-
sidades, entre outros expedientes de coordenação.6
Para discutir elementos importantes de uma institucionalidade voltada
para o desenvolvimento local, em especial aqueles relacionados à gestão de re-
cursos finitos, o artigo trará três seções, além desta introdução e das conside-
rações finais. Na primeira, apresentaremos as interações necessárias de curto,
médio e longo prazo, a partir das diferentes proposições teóricas sobre o finan-
ciamento do desenvolvimento. Na seção seguinte, a ideia é trazer uma releitura

5 Local Developmental State, em inglês.

6 É importante salientar que a tarefa de financiar o desenvolvimento não se restringe apenas ao


crédito, sendo necessário que se reconheça o envolvimento de um leque de participantes públicos e
privados, de modo que eventuais riscos necessitam ser mitigados e alocados entre as partes.

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FERNANDO AMORIM TEIXEIRA • CARMEM FEIJO • MILFORD BATEMAN

teórica da importância da institucionalidade e do desenvolvimento de burocra-


cias para o processo. Por fim, a terceira seção apresenta o caso da Noruega, que
criou e desenvolveu a própria institucionalidade, revelando como seu exemplo
pode inspirar a construção institucional do município de Maricá.

1. INTERAÇÕES ESTADO-MERCADO E O FINANCIAMENTO AO


DESENVOLVIMENTO: A FUNCIONALIDADE DO SISTEMA FINANCEIRO

O financiamento ao desenvolvimento, por envolver um horizonte de


tempo longo, carrega consigo incertezas não probabilísticas e especificida-
des que dependem de alguma forma da capacidade do sistema de fomento
estatal adiantar recursos para que os investimentos ocorram. Nesse sentido,
os diferentes entendimentos teóricos acerca do papel do sistema financeiro
acabam por definir as institucionalidades e possíveis intervenções. Se, por
um lado, são atores passivos que pouco se diferenciam dos demais agentes
econômicos ou se, por outro, têm características próprias e podem contri-
buir ativamente para o desenvolvimento, é de se esperar que mereçam aten-
ção também diferenciada por parte do aparato estatal.
O modelo de arquitetura do sistema financeiro presente em grande par-
te dos países é composto por bancos e mercado de capitais. A funcionalidade
desse arranjo para o financiamento do desenvolvimento é testada pelas di-
ferentes estratégias de financiamento dos agentes ao longo dos ciclos de in-
vestimento. Atender formalmente a determinados requisitos, portanto, não
é suficiente para que se gerem resultados similares em todas as jurisdições.
Não obstante, desde os anos 1970 e até – pelo menos – a crise de 2008,
o pensamento dominante na teoria econômica não reconhecia o sistema fi-
nanceiro como distinto em relação a outros agentes. A hipótese de que ban-
cos e agentes financeiros seriam meros intermediadores entre poupadores
e demandantes de recursos diferenciou esses teóricos daqueles de vertentes
mais heterodoxas, que tratam o sistema fornecedor de crédito como funda-
mental para a aceleração do investimento (ARESTIS; SAWYER, 2005).
Considerando tais perspectivas, as possíveis intervenções do Estado ou se
direcionam às chamadas “falhas de mercado” ou se dedicam a corrigir inefi-
ciências e riscos intrínsecos a cada mercado. Dito de outra forma, a principal
diferenciação teórica sobre o entendimento do papel do setor financeiro no
financiamento do desenvolvimento residiria entre uma intervenção possível
apenas do ponto de vista micro e uma intervenção necessária no âmbito macro.

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Desde a década de 1980, quando se inicia a consolidação do “novo con-


senso macroeconômico”, tem-se como crença a não possibilidade de rompi-
mento abrupto do estado de expectativas vigente. Os instrumentos de polí-
tica monetária (estabilidade de preços e déficit público controlado) seriam,
assim, suficientes para a coordenação de expectativas e a consequente sus-
tentação de taxas de crescimento elevadas. Dentro desse guarda-chuva teó-
rico, o curto, o médio e o longo prazo seriam equilibrados pelas interações
privadas dos agentes, dado que estariam constantemente precificados.7
Por trás dessa visão, estaria a chamada Hipótese de Mercados Eficien-
tes, segundo a qual qualquer intervenção do Estado diante do descrito se-
ria inócua ou geraria ineficiências. Por essa abordagem, no entanto, existe
a possibilidade de ocorrência de algumas falhas de mercado, que se dariam
basicamente por quatro vias: externalidades, bens públicos, informação as-
simétrica e poder de mercado.
Ao considerarem agentes financeiros como meros intermediadores, no
entanto, as correntes de pensamento convencional deixam de compreender
que a funcionalidade de um sistema financeiro apropriado para promover
o desenvolvimento também poderia ser considerada um bem público, uma
vez que traz mais benefícios à população geral no longo prazo. Nessa linha,
Stiglitz (1993) sustenta que, para o mesmo nível de renda, um sistema finan-
ceiro menos desenvolvido pode gerar má alocação de recursos, impedindo
que determinados setores se desenvolvam (Stiglitz, 1993, p. 25 apud CASTRO,
2009). A existência de um mercado financeiro bastante eficiente do ponto de
vista microeconômico, como no Brasil, porém não apto a financiar em longo
prazo, pode ser ilustrativa de uma não funcionalidade.
Já a partir de uma perspectiva keynesiana e minskyana, alternativa ao
pensamento convencional, entre as características do sistema financeiro – e
que o diferencia dos demais –, poderíamos destacar a maior capacidade de
alocar riscos e de promover transformações de maturidades. A forma de li-
dar com o problema da liquidez distingue essencialmente esse setor das fir-

7 Ao não diferenciarem setores financeiros e não financeiros, esses teóricos, através de diversas
premissas, abrem margem para que se construam modelos de mercados eficientes. As incertezas,
ainda que existam, acabam sendo solucionadas por meio do chamado Equilíbrio de Radner, o qual
preconiza que, diante de consumidores maximizadores de utilidade com restrições orçamentarias
(de bens e ativos financeiros), existe um vetor de preços para o momento inicial (t=0) para cada
estado da natureza. Isso ocorrendo para cada consumidor, criam-se planos de portfólio e planos
de consumo individuais, sendo que a soma destes (o agregado), geraria automaticamente um
equilíbrio (MAS-COLELL et al, 1995 apud CASTRO, 2009).

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FERNANDO AMORIM TEIXEIRA • CARMEM FEIJO • MILFORD BATEMAN

mas não financeiras (STUDART, 2003; CASTRO, 2009). No que concerne a sua
funcionalidade, esta deve ser capaz cumprir basicamente três funções (STU-
DART; ALVES JUNIOR, 2019): 1) atender às demandas por liquidez dos demais
agentes econômicos; 2) reduzir as incertezas relacionadas aos diferentes ti-
pos de financiamento; 3) mitigar os riscos de uma instabilidade financeira.
Considerando projetos de investimento com amplo horizonte de tem-
po, diante dos riscos inerentes ao descasamento de vencimentos e tendo em
vista as temporalidades de captação e de retorno, o financiamento demanda
qualidades diferenciadas. A necessidade de acomodar o curto e o longo prazo
lida com um problema de fluxo (money in-money out), relacionando-se com o
que Minsky denominou de “Restrição de Sobrevivência” (TORRES, 2019), ao
se referir à relevância dos fluxos de caixa para os diferentes agentes econô-
micos nos diferentes ciclos de negócios. Administrar tal restrição, segundo
essa perspectiva, dependeria da possibilidade de mobilização de ativos lí-
quidos próprios e da busca por capital de terceiros. A capacidade de mobilizar
recursos depende das garantias a serem oferecidas; por isso, Minsky chama
a atenção para o que denominou de cushions of safety, ou seja, as diferenças
entre as potenciais receitas e compromissos futuros, sendo que os empres-
tadores, para financiar projetos de grande envergadura e prazo estendido,
calculariam uma margem de segurança contra possíveis frustrações de re-
ceitas (KREGEL, 2008, p. 7).
Assim, o conceito de funcionalidade do sistema financeiro implica sua
capacidade de sustentar decisões de financiamento ao longo do ciclo de ne-
gócios. O conceito de funcionalidade, se ampliado, pode servir como guia
para políticas econômicas, regulatórias e de construção institucional, prin-
cipalmente quanto à capacidade de fornecer o crédito de mais longo prazo
(STUDART; ALVES JUNIOR, 2019). O funding, nesses casos, é peça central da
viabilização do financiamento e depende de arranjos institucionais capazes
de influenciar a preferência pela liquidez dos agentes financeiros, para que
eles se inclinem a atender prazos maiores no fornecimento de crédito.
Outra opção de intervenção estatal, na ausência de iniciativa do mer-
cado, seria criar mecanismos estatais mais diretos, o que estaria na alçada
de entes que têm recursos extras de royalties e compensações. Dessa feita, a
existência de mercados e/ou instituições apropriadas, criadas e desenvol-
vidas dentro de cada jurisdição nacional e dialogando com particularidades
locais, pode gerar (ou não) os alicerces para um crescimento financeiramen-
te mais sólido, além de dar mais segurança aos agentes emprestadores em

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

assumir riscos. Tal aspecto é de especial interesse para a discussão sobre fi-
nanciamento do desenvolvimento local.
Portanto, criar uma institucionalidade e mecanismos próprios deman-
da compreender a complexidade dos investimentos e dos diferentes setores
que se queira desenvolver, não bastando que o mercado precifique os riscos,
tendo em vista que, por essa via, muitos setores podem não ser atrativos no
primeiro momento. Dito de outra forma, é preciso que se tenha em mente que
a lógica do ofertante não atende, necessariamente, às necessidades intrín-
secas de um projeto de desenvolvimento consequente.

2. O DEBATE INSTITUCIONAL NO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

As instituições no Estado moderno têm se comportado de forma evo-


lutiva historicamente, modificando-se pari passu ao desenvolvimento do
sistema financeiro, ainda que sem causalidade direta. Essa perspectiva da
relação agente-estrutura acaba por encontrar ecos nas diferentes corren-
tes institucionalistas na busca por contemplar, complementar e enriquecer
abordagens strictu sensu econômicas acerca do funcionamento da economia.
O termo instituições, por sinal, segue sendo um dos pontos nevrálgicos
para seus teóricos, uma vez que permanece a dificuldade de se definir o que
são instituições de fato. Ademais, instituições não são uniformes e, via de
regra, atendem a objetivos distintos nos diferentes lugares, com hierarquias
que acabam por condicionar a efetividade das políticas.
Essas hierarquias, formadas por subsistemas institucionais com fron-
teiras delineadas, trazem mecanismos que apresentam dinâmica própria
(SIMON, 1962 apud PONDE, 2005), existindo basicamente três subsistemas
que se retroalimentam: o primeiro configura o chamado ambiente insti-
tucional (“regras do jogo”); o segundo, tipos diferentes de organizações e
mercados (empresas e estruturas ou mecanismos de governança); e o tercei-
ro constitui as disposições comportamentais (PONDE, 2005).
Nas últimas décadas, a Nova Economia Institucional (NEI), a partir dos
trabalhos seminais de Douglass North, vem buscando incorporar as insti-
tuições no conjunto do arcabouço neoclássico. A aproximação entre elas dar-
-se-ia por três pressupostos básicos: 1) a racionalidade instrumental; 2) a
escassez; 3) a competição.
A metáfora das “regras do jogo” – sejam elas econômicas, políticas, so-
ciais, morais ou legais – tem ainda o advento de estabelecer as bases para

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FERNANDO AMORIM TEIXEIRA • CARMEM FEIJO • MILFORD BATEMAN

a produção, a troca e a distribuição em uma economia capitalista (PONDE,


2005). Em última instância, defendem que o regramento produzido pela ins-
titucionalidade serve para reduzir custos de interação, o que torna o com-
portamento dos agentes mais previsíveis.
Para os teóricos da NEI, houve certa negligência por parte dos econo-
mistas neoclássicos sobre aspectos temporais e históricos em suas cons-
truções teóricas. Para complementar essa importante lacuna, tratam como
fundamental que se incluam elementos dinâmicos, através do “correto” en-
tendimento do papel das instituições, trazendo mais realismo ao processo
de desenvolvimento dos diferentes países (CAVALCANTE, 2017).
Do ponto de vista ontológico, essa corrente considera que os indivíduos
precedem as instituições e, sendo assim, a adoção do individualismo me-
todológico se torna válida. Ao mesmo tempo, esse indivíduo (como unidade
de análise) encontra obstáculos do ponto de vista informacional, o que gera
uma série de incertezas. A existência do pressuposto maximizador por trás
das tomadas de decisão torna-se, assim, um pressuposto teórico elementar.
É importante salientar que a Economia Institucional ficou
praticamente abolida da discussão econômica mainstream entre Bretton
Woods (1944) e a década de 1970, sendo retomada desde então. Segundo
Rutherford (2001), a variável responsável pela retomada do debate foram
os chamados “custos de transação”. Desenvolvida incialmente por Wil-
liamson (1998), a Teoria dos Custos de Transação trabalha com a hipóte-
se de que contratos são incompletos em razão da racionalidade limitada
e que os riscos oriundos (principalmente por causa do comportamento
oportunista dos agentes) precisam ser mitigados.
Sua estrutura teórica-analítica é eminentemente microeconômica, ins-
titucional e comparativa, e visa permitir a contraposição dos chamados cus-
tos ex-ante (de elaboração e negociação) e dos custos ex-post (de manutenção
de um acordo). Ainda que se discorde teoricamente do novo institucionalis-
mo, a “força” da revolução da NEI, por meio da teoria do custo de transação,
deve ser reconhecida, dado que pode ser verificada mesmo em trabalhos de
viés mais heterodoxo.
Uma das explicações para isso deriva da ânsia de transformar a econo-
mia numa ciência dura, capaz de fazer previsões certeiras e que, para tanto,
precisa partir de padrões regulares de comportamentos para realizar análi-
ses. Não obstante, ao não diferenciar agentes financeiros e não financeiros
e prazos diferenciados de financiamentos, os modelos simplificados acabam

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

por extrapolar os aspectos microeconômicos da teoria comportamental,


sem ponderar constrangimentos macroeconômicos.
Na direção contrária, desenvolveram-se correntes teóricas que enten-
dem que instituições são necessariamente fruto de processos sociais e in-
fluenciam o funcionamento dos processos econômicos, sendo que os dife-
rentes mercados se inserem dentro de condições específicas, com limites e
possibilidades definidos domesticamente (CHANG, 2002).
Tendo sido contemporâneo da experiência inglesa clássica do século
XIX, Thorstein Veblen8 enxergou uma janela para a introdução de uma teoria
sobre as instituições, através da proposição de uma economia evolucioná-
ria e interdisciplinar. Para o autor, instituições seriam fundamentais para
o desenvolvimento econômico e, entre suas contribuições, merece destaque
a crítica aos preceitos teleológicos da economia clássica, para em seu lugar
desenvolver uma teoria marcada pela importância das interações, conflitos e
adaptações na conformação institucional (RUTHERFORD, 2001).
Uma definição pertinente formulada por Chang (2002) postula que ins-
tituições se relacionariam a padrões sistemáticos em que as expectativas
compartilhadas entre os agentes, assim como pressupostos, normas e ro-
tinas, têm efeitos sobre motivações e comportamento de atores sociais in-
terconectados. Quanto à padronização institucional, Chang (2005) é crítico
do caráter das propostas que visam exportar modelos ideais de instituições
e, em linha com essa perspectiva da form-fetish institucional, Evans (2003)
defende que não seria possível transmutar instituições “boas” de um país a
outro, uma vez que:

Estratégias institucionais muito simplificadas são


um problema mais provável do que a negligência do
papel do investimento. A “monocultura institucional”
não somente tem poucas possibilidades de resolver
os problemas locais de governança; também tem
possibilidades de tornar os empréstimos financeiros
menos eficazes (EVANS, 2003, p. 50).

No chamado money market capitalism,9 a coordenação das intervenções


ganha ainda mais importância, ao passo que as formas como os mercados
se ajustam, com períodos de booms e fases recessivas bruscas, eleva o nível

8 Considerado por muitos o pai do institucionalismo.

9 Termo cunhado por Hyman Minsky.

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FERNANDO AMORIM TEIXEIRA • CARMEM FEIJO • MILFORD BATEMAN

de incertezas dos agentes. Segundo Conceição e Gabriani (2019), essa incer-


teza é o conceito que liga velhos institucionalistas e pós-keynesianos – e o
processo de “causação” provocada pela evolução, tanto das instituições eco-
nômicas e sociais como de suas relações com os indivíduos, é que demanda
ações coordenadas de intervenções para que as expectativas se “encontrem”.
De acordo com Whalen (2001), para Minsky, uma preocupação básica
que demanda coordenação é a relação entre o setor produtivo e o setor fi-
nanceiro. Sendo assim, três perguntas fundamentais precisam ser respon-
didas para se aferir o estágio de desenvolvimento de determinada economia
e trazer pistas sobre a importância dos investimentos a serem incentivados
em cada jurisdição:
1) Qual seria a atividade distintiva com potencial para o desenvolvimento
econômico que está sendo financiada?
2) Qual a principal fonte de financiamento?
3) Qual o equilíbrio do poder econômico entre os empresários e o sistema financeiro?
Responder a essas três perguntas seria o primeiro passo da discussão
sobre o financiamento ao desenvolvimento. Antes, no entanto, traremos
uma breve discussão a respeito da importância de se ter uma burocracia
apropriada e do desenvolvimento de expertise a partir de uma dimensão de
“capacidades estatais”. Esse tema é de particular interesse para o debate so-
bre o uso de Fundos Soberanos na seção 3.

2.1. Burocracia e expertise

Para além da existência e evolução institucional. é necessária uma


burocracia apropriada para que as políticas tenham o efeito que se espera.
A literatura mais recente sobre burocracia e expertise trabalha com o ter-
mo “capacidades estatais”, tratando-o como um arcabouço institucional
voltado para o crescimento econômico, a infraestrutura, a diversificação
da matriz produtiva, a desigualdade social, a democracia, a sustentabili-
dade e outros fatores.
Um dos elementos cruciais para transformação local seria a forma e a
governança de cada burocracia. Tais burocracias estão relacionadas a com-
ponentes político-culturais de cada país, sendo ancoradas e designadas a
partir de criações sociais e históricas. Ademais, estão vinculadas, intrinsi-
camente, às características e às decisões de Estado a partir de cada realidade
particular e podem ter distintos fins.

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Pensar uma institucionalidade específica perpassa a necessidade de


uma expertise burocrática para lidar com recursos finitos, materializada
em mecanismos de viabilização de investimentos e pelo âmbito financei-
ro. Demandam um corpo profissional específico capaz de gerar e gerenciar a
expertise local e têm o poder de propiciar aos entes mais autonomia em suas
políticas (COHEN, 2004).
Do ponto de vista da avaliação burocrática das capacidades, o quadro
analítico básico para avaliar uma burocracia estatal deve ter duas dimensões,
sendo uma interna e outra externa (IPEA, 2016). A interna se daria pela forma
organizacional na busca dos objetivos e tem alguns critérios que podem ser
mensurados, como o desenho institucional que permite identificar objetivos,
a coerência na função desempenhada e a própria eficiência do aparato. Já a
externa trata da capacidade relacional com outros atores e passa por crité-
rios como legitimidade e transparência. Algumas variáveis tidas como inde-
pendentes, tal qual a profissionalização dos burocratas, graus de autonomia
e coesão interna, são peças que contribuem para a avaliação das capacidades.

3. GERENCIAMENTO DE RECEITAS FINITAS ORIUNDAS


DE RECURSOS NATURAIS

Nos anos 2000, com a relativa mudança das condições internacionais e o


chamado boom nos preços das matérias-primas, governos de diferentes ma-
tizes tomaram a decisão de centrar esforços no acúmulo de reservas interna-
cionais como colchão anticrise. Países exportadores de matérias-primas viram
seu saldo comercial dar um salto considerável, enquanto países exportadores de
manufaturas baratas se aproveitaram da onda de crescimento econômico mun-
dial para também auferirem superávits. Em todos os casos, foi possível atenuar
restrições de balanço de pagamentos e se precaver de ataques especulativos.
Além das reservas internacionais, outros instrumentos estatais de
gerenciamento de divisas se proliferaram nos últimos vinte anos. Fundos
Soberanos de Riqueza (FSR) formaram parte desse movimento e vão mere-
cer atenção no próximo tópico. No entanto, tendo em vista que FSR podem
contribuir com recursos e funding (respeitando maturidades distintas),
mas não são suficientes para a geração de desenvolvimento, na sequência
buscar-se-á discutir o chamado Estado de Desenvolvimento Local (EDL).
Por essa perspectiva, o que está em jogo é a possibilidade de construção
de um arcabouço institucional que dê suporte à pesquisa e inovação, em

20
FERNANDO AMORIM TEIXEIRA • CARMEM FEIJO • MILFORD BATEMAN

conjunto com Pequenas e Médias Empresas (PMEs), permitindo a transfor-


mação estrutural em âmbito local.

3.1. Fundos Soberanos e Instrumentos de Gestão de Riqueza Intertemporal

Fundos Soberanos de Riqueza (FSR) são mecanismos para reinvesti-


mento de excedentes e se tornaram comuns em países exportadores de com-
modities nas últimas décadas. Quando subordinados a governos nacionais, é
comum que a reciclagem seja feita externamente – em virtude da precifica-
ção em dólar dessas mercadorias –, impedindo inundação de divisas domes-
ticamente. Tais fundos, geralmente, têm caráter defensivo, com o intuito de
proteger países da perda de controle cambial,10 ainda que não seja incomum
a existência de fundos com objetivos mais ofensivos, relacionados a estraté-
gias nacionais (TEIXEIRA, 2017).
Se, por um lado, as crises nos balanços de pagamentos e o boom dos preços
das commodities condicionaram a aparição, o crescimento e a proliferação desses
fundos (GRIFFTH-JONES; OCAMPO, 2008), por outro são também delimitadores
de suas estratégias de investimentos. Sendo assim, a literatura varia entre abor-
dá-los a partir da ótica econômica – como investimentos, portfólios e retornos
(KERN, 2009) – ou sob a perspectiva política, refletindo sobre como atores esta-
tais influenciam o mercado privado e suas implicações (KIRSHNER, 2009).
É importante salientar que FSR são instrumentos híbridos, ou seja,
estatais por definição, mas vivem e se desenvolvem no ambiente do mercado
e, por isso, não podem ser entendidos por meio de uma visão binária que coloca
Política e Economia como universos autônomos. Uma das características
centrais desses aparatos, a capacidade de transformar ativos reais em
ativos financeiros, serve para os mais diversos objetivos – de estabilizador
macroeconômico a poupança intergeracional; de diversificação de portfólios
a estratégias geopolíticas –, demandando uma análise caso a caso para se
extraírem as nuances próprias de cada fundo.
Além disso, outro componente que deve ser levado em consideração são
as relações de tais instrumentos com o lado fiscal das economias, uma vez
que em muitos casos os fundos são utilizados para cobrir eventuais déficits.
Geralmente, essas relações se aplicam a países que taxam pouco seus con-

10 Tal fato não significa que uma parte dos recursos não possa ser alocada para o desenvolvimento
doméstico, podendo ocorrer em parceria com outros aparatos estatais, fornecendo funding ou
investindo diretamente em empresas e setores estratégicos.

21
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

tribuintes e/ou que tenham suas despesas atreladas a essas receitas extraor-
dinárias, que costumam ser voláteis em virtude da variação do preço e do
câmbio local11 (TEIXEIRA, 2017).
Muitos fundos acabam desempenhando mais de uma função (ou ob-
jetivo), e alguns países desmembraram ou criaram mais de um fundo para
se voltar a determinada finalidade. A eficiência em cumprir seus objetivos
e gerir seu portfólio, por seu turno, depende de como lidam com as jurisdi-
ções e as institucionalidades nacionais e locais,12 podendo ser pouco efetivo
transpor modelos de instituições para países onde existem outras normas e
tradições (GERTLER, 2003 apud AL KHARUSI, DIXON, MONK, 2014).
Para além de fundos de gestão nacional, uma parte considerável dos FSR
existentes se relaciona com recursos de compensação (royalties), que já estão
denominados em moeda doméstica. Esses fundos se voltam para a aplica-
ção de tais recursos internamente, o que permite que dialoguem e forneçam
recursos para políticas públicas e investimentos em nível local. Segundo o
Sovereign Wealth Fund Institute (SWFI), em março de 2020 existiam pelo
menos 89 Fundos Soberanos de Riqueza no mundo,13 sendo que quase duas
dezenas desses pertenciam a entes subnacionais.

3.2. O Estado de Desenvolvimento Local como dínamo


para o desenvolvimento

A discussão sobre o papel do Estado no desenvolvimento parte geralmente


de uma perspectiva do poder central e de processos desenhados de cima para
baixo, ou seja, a partir do Estado Nacional. A escolha por olhar unicamente por
essa perspectiva, no entanto, vem sendo contestada a partir do entendimento

11 A necessidade de se criarem estabilizadores macroeconômicos, anticíclicos cambiais, entre


outros, advêm dessas vulnerabilidades e, portanto, são fundamentais usos e objetivos bem
delineados desses instrumentos de gestão.

12 Segundo Dixon e Monk (2011), existem ainda três elementos norteadores da atuação de um
mecanismo de investimento que abarcam a institucionalidade, a burocracia e a geração de expertise,
os chamados 3Ps: Pessoas, Processos e Política. Em relação ao primeiro P, sua importância se deve
ao entendimento de que nem sempre existe um mercado financeiro robusto e, portanto, encontrar,
atrair ou reter pessoal qualificado para atuar no mercado, se torna um desafio. O segundo P trata dos
processos internos e dialoga com a capacidade de desenvolver uma estrutura de tomada de decisão
hábil e capaz de lidar com as complexidades da estrutura financeira. Já o terceiro P, mais delicado,
decorre de uma característica intrínseca habitualmente abordada, ou seja, de que os fundos, por
serem criações de governos, já surgiriam a partir de uma decisão política.

13 Que gerenciavam algo em torno de U$ 8,4 trilhões.

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FERNANDO AMORIM TEIXEIRA • CARMEM FEIJO • MILFORD BATEMAN

de que um Estado de Desenvolvimento Local (EDL) – relacionado a regiões,


estados e municípios – está mais associado ao aspecto democrático e respon-
sivo da localidade do que do aparato nacional e, portanto, detém capacidade
particular para empreender políticas de desenvolvimento (BATEMAN, 2017).
Ao dar preferência ao âmbito nacional, preconiza-se que grandes conglo-
merados podem ser criados com consequentes capacidades de gerar economias
de escala e escopo ao longo da cadeia, tornando-se essa a principal rota da mu-
dança estrutural. Sem embargo, por essa ótica é comum que não se atente para
as chamadas iniciativas “de baixo para cima”, nas quais a institucionalidade
local acaba sendo o grande diferencial. Nesses casos, é necessário um melhor
entendimento de que papel as Micro, Pequenas e Médias empresas (MPMEs) po-
dem cumprir na transformação produtiva, a partir da institucionalidade local.
Segundo essa perspectiva, O EDL é capaz de promover os tipos “corre-
tos” de empreendimentos, mais intimamente ligados à transformação es-
trutural, à diversificação e ao crescimento sustentado. Existiriam duas for-
mas básicas de se construírem EDLs. O caminho mais “fácil” seria fazê-lo
em cooperação com o governo central, criando um “modelo híbrido” (bot-
tom-up – top-down). Já a mais complicada, mas ainda assim viável, dar-se-ia
por uma via mais autônoma (“modelos puros”), demandando estratégias de
resistência contra eventuais boicotes.
A importância dos EDLs se verifica pelo fato de entes subnacionais dete-
rem maior flexibilidade do que governos centrais para realizarem mudanças
de mercado e desenvolverem tecnologias e inovações capazes de atender a
economias de escala com baixos níveis de produção (garantindo alta quali-
dade e especificação). Tais características permitem que o principal fator de
desenvolvimento se dê a partir de PMEs interconectadas vertical e horizon-
talmente, em âmbito local ou regional (BATEMAN, 2017, p. 9).
Essa mudança de paradigma, por sua vez, veio na esteira de outras
transformações políticas importantes ao longo das últimas décadas. Em
muitos países, os entes subnacionais se tornaram mais empoderados para
ofertarem um leque de estruturas de suporte institucional, programas de
sustentação a empresas, além de conectar economias coletivas de escala
e escopo em clusters, redes e cadeias subcontratadas. O principal benefício
de um modelo desse tipo reside em sua capacidade de construir vantagens
comparativas inteiramente novas em nível local, além de explorar aquelas
já existentes.
Os chamados modelos híbridos, inicialmente, foram os alicerces do de-

23
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

senvolvimento em países como Japão e Alemanha, mas também foram im-


plementados, cada um a seu modo, na Coreia do Sul, em Taiwan e no Chile,14
dos anos 1980 em diante. Considerando, porém, a atual conjuntura brasilei-
ra, pode ser mais interessante, para dar base à discussão em Maricá, com-
preender os chamados “modelos puros”, nos quais, por razões de ordem cul-
turais, políticas e religiosas, entre outras, o governo central acaba se opondo
às iniciativas locais.
O exemplo mais emblemático de “modelo puro” talvez seja a região
nordeste da Itália (mais especificamente na Emilia Romagna), que desde
o Pós-Segunda Guerra Mundial teve um papel mais ativo das instituições
locais na busca por uma sociedade mais igualitária. O modelo ali cons-
truído pode ser entendido por diferentes óticas, seja pela construção de
distritos industriais, seja através do conceito de especialização flexível;
mas, como instrumento-chave, é impossível não citar o papel desempe-
nhado pelas cooperativas.15
As Cooperativas Especiais de Crédito e os Fundos Artesãos, ao comple-
mentarem as instituições não financeiras, foram fundamentais para que a
região conseguisse desenvolver um ambiente de confiança e reciprocidade,
mobilizar poupanças e transformá-las em investimentos de longo prazo, o
que permitiu que ali se criasse uma rede de empreendimentos cooperativos
mais amplo, com grande participação na atividade econômica.16
Se isso foi capaz de ocorrer a partir de mecanismos de geração e ges-
tão de poupanças locais, podemos intuir que as localidades que subitamente
se deparam com receitas extraordinárias de recursos naturais têm chances
ainda maiores de criar um EDL bem-sucedido. O caso norueguês talvez seja
o mais emblemático do mundo e pode constituir uma base para a reflexão.

14 O caso chileno é paradigmático, uma vez que não foi a política macroeconômica mainstream do
governo Pinochet, e sim as permissibilidades locais que permitiram que algumas regiões do país
se desenvolvessem. Essa rede descentralizada e estatal a partir de entes subnacionais, de upgrade
tecnológico relacionado à institucionalidade, tem dois vértices fundamentais: 1) A Corporación
de Fomento de la Producción de Chile (CORFO), com escritórios regionais que trabalharam com
os entes subnacionais, permitindo o financiamento a novos empreendimentos, clusters de PMEs e
setores de exportação praticamente do zero e 2) a criação de um fundo de inovação destinado a
PMEs, desenhado e gerido pelas receitas da CODELCO, maior produtora de cobre do mundo.

15 Outro ponto fundamental é a liderança que essa institucionalidade local desempenha através da
sua relação com outros atores, como sindicatos, associações empresariais, cooperativas diversas,
entre outros.

16 Segundo Bateman (2017, p .23), em 2003 as cooperativas representavam cerca de 40% do PIB da região.

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FERNANDO AMORIM TEIXEIRA • CARMEM FEIJO • MILFORD BATEMAN

4. A INSPIRAÇÃO NORUEGUESA E RECOMENDAÇÕES PARA MARICÁ

Com o intuito de explorar como países exportadores de matérias-pri-


mas conseguiram gerar investimentos e encadeamentos em setores estraté-
gicos, exemplos externos podem trazer pistas do que fazer. O caso norueguês
talvez seja o mais importante do mundo no que se refere ao poder, à gestão
e ao caráter social de seus instrumentos criados e desenvolvidos a partir dos
recursos do petróleo. O país criou seu Fundo Soberano para fazer a gestão
de ativos pensando “intertemporalmente” e adotou uma institucionalidade
com mecanismos e engrenagens regionais capazes de transformar a matriz
produtiva do país, nos moldes de um EDL.
Com relação ao seu Fundo Soberano (criado em 1990), o Government
Pension Fund cumpre um papel fundamental para as finanças do país, que
tem no óleo sua grande fonte de riqueza (entre 25% e 40% do PIB, a depender
dos preços internacionais). Essa riqueza, entretanto, deixa o país altamente
vulnerável e foi concebido para ser um instrumento capaz de dar margem
de manobra à política fiscal do país em dois casos: queda das receitas pro-
venientes do preço internacional ou crise econômica de outras naturezas.
A questão do envelhecimento populacional e de como gerenciar as receitas
para as futuras gerações deram o norte para sua formatação inicial, desig-
nando-o a realizar investimentos de longo prazo. Ao longo do tempo, no en-
tanto, o Fundo foi criando múltiplos objetivos (TEIXEIRA, 2017).
Uma de atribuições estratégicas do fundo é desenvolver conhecimento e
pode ser verificada através de diversas criações, como o Norwegian Finance
Initiative (NFI), de 2011. Esse instituto, interno ao fundo, busca basicamente
fortalecer a pesquisa na área de gerenciamento de ativos de maturação es-
tendida e criar uma relação próxima com pesquisadores, a fim de atender aos
desafios e questões de longo prazo do país. Como diretriz interna, parte do
princípio de que o retorno de longo prazo deve dialogar com a sustentabili-
dade econômica, o meio ambiente e o desenvolvimento social.
Sob responsabilidade do Ministério das Finanças, seu gerenciamento
foi delegado ao Norges Bank Investment Management (NBIM), um braço do
Banco Central da Noruega. As decisões estratégicas, por sua vez, ficam a car-
go do próprio ministro das finanças e passam por discussões no parlamen-
to, sendo a responsabilidade final de um auditor geral. Esse modelo de ge-
renciamento é feito de forma a diferenciar os responsáveis pelas diferentes
classes de ativos, tendo um comitê responsável por aconselhar a diretoria.

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Para além do FSR, a Noruega aproveitou a oportunidade histórica para


empreender políticas de diferentes naturezas voltadas para o desenvolvi-
mento. Diferentemente de outros países, “aproveitar a oportunidade” de-
pendeu de escolhas políticas – e o país escolheu aproveitar as capacidades
decadentes da indústria pesqueira e de construção naval e transformá-las
para construir uma nação industrial moderna. Sendo assim, diante do fato
de que tais indústrias tenham seguido em declínio, a escolha política se vol-
tou para investimentos em pessoal, desenvolvendo habilidades e capital que
foram transferidos para outras indústrias (BATEMAN, 2019).
As grandes empresas estatais (Statoil e Norsk Hydro) atuaram fortemen-
te na promoção do desenvolvimento industrial local por meio de compras
deliberadas e colaboração direcionada em áreas-chave de produtos de alta
tecnologia. Um dos pilares dessa transformação foi o alto nível de coordena-
ção e parceria entre indústria e governo e programas de conteúdo local, por
meio dos quais Pequenas e Médias Empresas (PMEs) tiveram papel central.
Essas empresas obtinham a maior parte dos contratos para fornecimento de
insumos e serviços baseados em tecnologia, investimentos em novas insti-
tuições de ensino e aplicações de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Como
resultado, muitas PMEs norueguesas se tornaram líderes mundiais em pro-
dutos de diversos setores a partir de tecnologias learning by doing oriundas
do setor de Óleo e Gás (O&G), antes de diversificar para outras áreas.

4.1. Algumas recomendações para Maricá

O fator que liga as decisões políticas em Maricá com outros governos


que decidiram criar mecanismos de desenvolvimento a partir da gestão de
receitas oriundas de recursos naturais é a temporalidade. O que se quer dizer
com isso é que existe uma janela única (num ínterim de tempo específico)
para que políticas de curto, médio e longo prazo possam ser empreendidas
coordenadamente e que, quando não (ou mal) aproveitadas, tendem a gerar
resultados perversos.
Entre as saídas comuns e que tendem a inviabilizar o desenvolvimen-
to podemos citar a apropriação desses recursos por uma elite local, polí-
ticas populistas que atrelem recursos de royalties a gastos correntes ou
mesmo casos em que as políticas vão no sentido “correto” (como políticas
de microcrédito), mas que, sem coordenação com políticas mais amplas,
se tornam insuficientes.

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FERNANDO AMORIM TEIXEIRA • CARMEM FEIJO • MILFORD BATEMAN

É imperativo que se criem institucionalidades próprias, de forma


mais ou menos independente, mas sabendo que estas vão se cruzar com
as institucionalidades supranacionais, podendo se complementar ou se
boicotar. Para auxiliar na alocação dos recursos, existem ainda diversos
aparatos estatais que podem (e devem) contribuir na alocação geradora
de desenvolvimento, o que coloca bancos públicos, empresas estatais,
universidades, incubadoras, ministérios ou secretarias (e demais aparatos
de vinculação entre requisitos legais e instituições locais), agências de
fornecimento de serviços técnicos, consultorias e outros no rol de atores com
funções importantes. No caso de políticas de financiamento, pela capacidade
de direcionar crédito a taxas subsidiadas, a operação pode ser feita de forma
direta ou indireta, respeitando prazos e maturações diferenciadas.
Como discutido na primeira parte do artigo, transformar recursos em
financiamento e investimento planejado demanda algum tipo de agência
de desenvolvimento voltada para a promoção de PMEs que sustentáveis
dentro da localidade. Há de se pensar que o desenvolvimento de negócios
como esses, que apenas criarão benefícios – e empregos – de médio pra-
zo, não encontrarão no setor privado o apoio necessário (em virtude dos
riscos e dos baixos lucros iniciais) sem que uma institucionalidade balize
expectativas nesse sentido.
Algum tipo de “banco de desenvolvimento” ou algum mecanismo
correlato a partir do Fundo Soberano poderia aproveitar a importante ge-
ração de demanda oriunda de programas de renda básica e microcrédito e
ofertar crédito para a produção local de maior valor agregado para aten-
der a essa demanda. Contribuir para a construção de uma infraestrutura
adequada também seria papel dessa instituição, tendo em vista prazos
mais estendidos de maturação.
Desenvolver empresas-chave de propriedade estatal local ofertando
produtos e serviços diretamente (contratos, treinamento, novos negó-
cios) e indiretamente, fornecendo apoio financeiro para outros projetos
de desenvolvimento, é uma reflexão importante para se fazer. Não obs-
tante, contratos de conteúdo local podem encontrar dificuldades, uma
vez que necessitam de legislação nacional e local e capacidade institu-
cional para monitorar, mas também deveriam estar no cardápio de op-
ções dos policy makers.
Priorizar (o máximo possível) formas de empreendimento cooperativo
para o médio prazo é uma boa maneira de contribuir na geração melhores

27
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

empregos e compartilhar o lucro do petróleo. Isso pode ser feito junto com
organizações públicas locais como instituições “âncoras” para que a de-
manda local seja usada como uma ferramenta de desenvolvimento.
Por fim, é importante ressaltar que existe farta experiência pre-
gressa de outros governos subnacionais ao redor do mundo com casos
bem e malsucedidos na promoção do Desenvolvimento Local. Aprender
e absorver as lições dessa experiência é o trabalho número um dos for-
muladores de políticas em Maricá. Destilar as “melhores práticas” dos
exemplos mais positivos pode revelar uma série de imperativos e pro-
gramas políticos importantes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, objetivou-se discutir como uma institucionalidade volta-


da para o desenvolvimento é fundamental para países e entes subnacionais
com receitas extras de recursos naturais. Do ponto de vista teórico, discu-
tiu-se que tais instituições devem estar atentas ao curto, médio e longo pra-
zo e, para tanto, o funding a financiamentos específicos é peça central. Por
fortuna, esse funding pode ser propiciado por fundos soberanos ou outras
agências capazes de contribuir para os investimentos necessários ocorram,
respeitando maturações e retornos.
No entanto, para que o desenvolvimento ocorra de forma plena, enten-
de-se a necessidade da construção de um arcabouço institucional mais am-
plo, o que localmente pode se materializar no chamado Estado de Desenvol-
vimento Local. O EDL deve se centrar em dar suporte à pesquisa, inovação e
Pequenas e Médias Empresas (PMEs), permitindo que a transformação es-
trutural ocorra, permitindo em médio e longo prazo que melhores empregos
e salários sejam gerados na região.
Para jogar luz no caso de Maricá, elegeu-se levantar pontos em que os
policy makers locais devam atentar para não correrem o risco de desperdiçar
uma oportunidade única, utilizando-se do caso norueguês como inspira-
ção. Salientando-se as diferenciações entre os casos, acredita-se que fundo
soberano pode ser importante instrumento de acomodação de maturidades
e que a construção de ações específicas e políticas públicas direcionadas
podem contribuir para que os gestores públicos de Maricá reflitam sobre
como criar seu próprio EDL.
Em suma, entende-se que o município deve construir e desenvolver uma

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FERNANDO AMORIM TEIXEIRA • CARMEM FEIJO • MILFORD BATEMAN

institucionalidade específica, uma burocracia e uma expertise local, apta a


gerar resultados a serem colhidos no futuro. Nesse sentido, para que o de-
senvolvimento ocorra é necessário capacidade, disposição, financiamento e
paciência, o que demanda um compromisso com o longo prazo.

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30
DEPENDÊNCIA OU AUTONOMIA FISCAL-FINANCEIRA?
ANÁLISE DAS TRANSFERÊNCIAS DOS ROYALTIES DO
PETRÓLEO PARA O MUNICÍPIO DE MARICÁ

Marcelo Gomes Ribeiro1 • Vitor Vieira Fonseca Boa Nova2 • Igor Ribeiro Roboredo3

INTRODUÇÃO

O município de Maricá (RJ) passou a receber, nos últimos anos, um alto


volume de receitas dos royalties do Petróleo, tendo em vista a exploração desse
recurso natural que passou a ser feita em seu território confrontante, desig-
nada como offshore. A obtenção de receitas advindas dessa origem, dada a sua
magnitude, permite aos municípios contemplados com esse tipo de arreca-
dação melhorar sua estrutura fiscal-financeira para fazer frente às despesas
em atividades limitadas tanto pela rigidez dos gastos municipais – folha de
pagamento, previdência, despesas vinculadas etc. – quanto pela exígua recei-
ta oriunda de arrecadação própria ou de devolução ou transferências de outros
níveis de governo (ARRETCHE, 2010). Essa dificuldade tem sido manifestada
por grande parte dos municípios brasileiros há muitos anos.
A análise do efeito de obtenção dos royalties do petróleo para os municípios
que são beneficiados pela legislação competente é relevante para compreensão
mais ampla da estrutura fiscal-financeira dos municípios de modo geral, tendo
em vista que há a generalizada reclamação por parte desses entes federativos
1 Marcelo Gomes Ribeiro é doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo Programa de Pós-
Graduação em Planejamento Urbano e Regional do IPPUR/UFRJ, no Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
E-mail: marceloribeiro@ippur.ufrj.br.

2 Vitor Vieira Fonseca Boa Nova é mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo Programa de
Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ, Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
E-mail: vitorvboanova@gmail.com.

3 Igor Ribeiro Roboredo é gestor público (UFRJ), com especialidade em Gestão Fiscal pela
Universidade Estácio de Sá (UNESA), Rio de Janeiro, (RJ), Brasil. E-mail: igorroboredo@gmail.com.

31
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

de que os recursos obtidos para fazer frente às obrigações constitucionais são


insuficientes, tornando-os dependentes de transferências constitucionais de
outros entes governamentais ou de recursos não vinculados, quando os muni-
cípios conseguem obter receitas por meio de emendas parlamentares. A exis-
tência de royalties do petróleo pode permitir aos municípios receptores maior
autonomia fiscal em relação aos governos de outras esferas federativas e aos
interesses políticos que concorrem para obtenção de apoio local.
A análise será realizada a partir da construção de indicadores de receita
e despesas da gestão do município de Maricá, obtidos na Secretaria do Te-
souro Nacional (STN), do Ministério da Economia, por meio das plataformas
FINBRA e SICONFI. O período de análise compreenderá os anos de 2005 até o
último ano em que os dados estão disponíveis (2018).
Para realização da análise proposta, na próxima seção apresentaremos
uma caracterização demográfica e econômica do município de Maricá, si-
tuando sua localização geográfica, de modo a justificar as razões do rece-
bimento dos royalties do petróleo. Na segunda seção, serão analisados a es-
trutura de receitas do referido município e o peso desses royalties. A análise
será completada pela participação do município de Maricá no Estado do Rio
de Janeiro ao longo do tempo. Na terceira seção, será analisada a estrutura
de despesas segundo as funções de gastos para explorarmos sua qualidade
no período em que o município passou a receber os recursos dos royalties do
petróleo. Por fim, nas considerações finais, procuraremos sumarizar os re-
sultados apresentados e, a partir deles, discutir a situação fiscal-financeira
futura de Maricá, considerando a ausência dos royalties do petróleo.

1. CARACTERIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA E DEMOGRÁFICA


DO MUNICÍPIO DE MARICÁ

No Brasil, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, os mu-


nicípios galgaram o status de entes federativos, obtendo, assim, autonomia
política, administrativa e financeira – a última, decorrente da atribuição de
instituir e arrecadar os tributos de sua competência, bem como de aplicação
de suas rendas para as políticas públicas sob sua responsabilidade (BRA-
SIL, 1988). Algumas das políticas públicas se tornaram exigência exclusiva
do nível de governo municipal, como a política urbana, e outras passaram
a compartilhar a responsabilidade com os demais níveis federativos (Esta-
dos e União), como as políticas de saúde, educação e assistência social, para

32
MARCELO GOMES RIBEIRO • VITOR VIEIRA FONSECA BOA NOVA • IGOR RIBEIRO ROBOREDO

exemplificar. Para que os municípios pudessem assegurar sua autonomia


financeira e a aplicação dos seus recursos nas políticas de sua responsabi-
lidade (exclusiva ou compartilhada), além de transferências intergoverna-
mentais e de devolução tributária, foi designado aos municípios o direito de
arrecadação de impostos, contribuição de melhoria e taxas, sendo o primei-
ro o principal instrumento de arrecadação tributária, o que requer, portanto,
um pouco mais de atenção sobre ele.
Os impostos de competência dos municípios foram o Imposto Predial
e Territorial Urbano (IPTU), o Imposto sobre a Transmissão de Bens Imó-
veis (ITBI) e o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN). As duas
primeiras categorias de impostos são aplicadas sobre bens imóveis, o IPTU
de modo regular no exercício fiscal dos municípios e o ITBI somente quando
houver mudança na titularidade dos bens imóveis. Significa, portanto, que a
principal fonte de receita sobre a propriedade predial e territorial é o IPTU,
tendo em vista que a obtenção do ITBI não é regular em todos os exercícios
fiscais do município. Porém, a efetiva aplicação daquela modalidade de im-
posto encontra obstáculos em municípios pequenos, onde há pouca popula-
ção, e em municípios em que parte expressiva da população apresenta situa-
ção de pobreza ou de vulnerabilidade social.
A aplicação do ISSQN é feita sobre as atividades econômicas caracteriza-
das como atividades de serviços. As demais atividades econômicas são tri-
butadas pelos outros entes federativos, como as atividades de circulação de
mercadorias, que são tributadas pelos Estados, e as atividades de produção
industrial, que são tributadas pela União. A efetividade da aplicação do ISS-
QN também encontra obstáculos em municípios cuja estrutura econômica é
pouco adensada e onde sua população apresenta baixo nível de rendimento,
o que impossibilita o estabelecimento de alíquotas condizentes com a neces-
sidade de arrecadação tributária pelos municípios face as despesas decor-
rentes das políticas públicas de sua competência.
Como os impostos são o principal instrumento de arrecadação tribu-
tária, na medida em que têm dificuldade de aplicação efetiva desses ins-
trumentos, os municípios acabam estabelecendo dependência das transfe-
rências intergovernamentais e das devoluções tributárias dos demais entes
federativos. No Brasil, mesmo os municípios com grande população e ex-
pressivo adensamento econômico precisam dos aportes advindos dos Esta-
dos e da União para assegurar o equilíbrio fiscal.
Para compreendermos a importância que os royalties de petróleo têm

33
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

para o município de Maricá, vamos realizar sua caracterização demográfica


e socioeconômica, na perspectiva de apresentar alguns indícios sobre sua
capacidade de arrecadação tributária.

1.1. Localização e aspectos demográficos

O município de Maricá é integrante da Região Metropolitana do Rio de


Janeiro (RMRJ) e se localiza na parte leste dessa região, estabelecendo limi-
tes com os municípios de Saquarema, a Leste; Tanguá e Itaboraí; ao Norte,
São Gonçalo, a Noroeste; e Niterói, a Oeste. A parte sul do município, como
pode ser visto no mapa abaixo, é banhada pelo Oceano Atlântico, perfazen-
do uma extensão de cerca de 23 km. É em razão da exploração offshore de
petróleo ser feita defronte para o município de Maricá e sua respectiva área
geoeconômica que ele passa a obter direitos sobre compensações financeiras
derivadas dessa exploração, conforme a Lei n. 7.990/89.

Figura 1: Região Metropolitana do Rio de Janeiro, destaque Maricá. Fonte: Observatório das Metrópoles.4

4 Agradecemos a Mariana Dias, pesquisadora do Observatório das Metrópoles, por gentilmente ter
elaborado este cartograma sob nossa encomenda.

34
MARCELO GOMES RIBEIRO • VITOR VIEIRA FONSECA BOA NOVA • IGOR RIBEIRO ROBOREDO

A população do município de Maricá registrada no Censo Demográfico


de 2010 foi de 127.461 pessoas (IBGE, 2010). A estimativa populacional para o
ano de 2019 foi de 161.207 pessoas (IBGE, 2019), o que corresponde a um cres-
cimento de 26,5% entre 2010 e 2019, a uma taxa anual média de 2,6%. Essa
taxa de crescimento anual média é muito superior à verificada em todo o Es-
tado do Rio de Janeiro, que foi, no mesmo período, de 0,9%. Isso quer dizer
que esse município está crescendo de modo mais acelerado que a população
do Estado como um todo, o que aponta no sentido de que esse crescimento
pode advir, principalmente, de migrações originadas em outros municípios
do Estado, motivada por melhor condição de vida esperada nesse município.
em decorrência de maior receita fiscal.
De todo modo, pelos dados obtidos no Censo Demográfico de 2010, so-
mente 283 municípios brasileiros possuíam mais de 100 mil habitantes de
um total de 5.565 municípios (IBGE, 2010). Como apenas 38 municípios na-
quele ano possuíam mais de 500 mil habitantes, podemos considerar que
Maricá apresentava um tamanho populacional de padrão médio. Isso signi-
fica que, do ponto de vista de seu tamanho populacional, esse município tem
grande capacidade de aplicação dos seus instrumentos de tributação, tendo
sido favorecido mais ainda pelo crescimento observado em 2019. Além disso,
seria favorecido também por transferências ou devoluções tributárias dos
outros entes federativos que tomam como critério o tamanho populacional.
Como o IPTU é um dos principais instrumentos de tributação, a quanti-
dade de domicílios existentes no município nos dá um bom indício da pos-
sibilidade de sua efetivação, apesar de o município aplicar esse tributo para
qualquer tipo de edificação (residencial ou não) e para terrenos não cons-
truídos na área urbana. Em 2010, Maricá possuía 42.863 domicílios, cor-
respondente a uma densidade média de três pessoas por domicílio (IBGE,
2010). Se considerarmos que o número de domicílios cresceu à mesma taxa
que o crescimento populacional, então podemos calcular que em 2019 havia
54.211 domicílios. Independente das diferenças de tamanho que deve haver
entre eles, há um considerável estoque de domicílios no município, o que
possibilita ao governo municipal aplicar os impostos de base patrimonial
de sua competência.
Porém, o aumento populacional do município precisa também ser con-
siderado em relação à pressão sobre aumento dos gastos, tendo em vista que
é de competência desse nível de governo a responsabilidade sobre a política
urbana, além de suas competências em outras áreas que podem crescer com

35
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

o aumento populacional, como educação e saúde, por exemplo. Para uma


compreensão mais ampla a respeito, importa também considerar as condi-
ções socioeconômicas da população e do município.

1.2. Condições socioeconômicas de Maricá

A estrutura econômica do município de Maricá apresentava expressi-


va participação da indústria no Valor Adicionado Bruto total, da ordem de
54,3%, no ano de 2017 (IBGE, 2017), como pode ser observado no gráfico 1 –
patamar superior ao somatório das participações dos setores de serviços e
da administração pública, que juntas correspondiam a 45,6%. Ao confrontar
esses dados com o verificado no Estado do Rio de Janeiro (ERJ), observa-se
que neste a maior participação era observada no setor de serviços, corres-
pondente a 59,3%, seguido pela administração pública, com 21,6% e, poste-
riormente, pelo setor industrial, com 18,6%.

Gráfico 1: Valor Adicionado Bruto do Estado do Rio de Janeiro e do município de Maricá (%), 2017.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE. Produto Interno Bruto dos Municípios, 2017.

Apesar de no ERJ o setor industrial ocupar a terceira posição na par-


ticipação do Valor Adicionado Bruto total, o patamar verificado de 18,6%
demonstra que esse setor é expressivo no Estado, podendo-se dizer que se
trata de uma unidade da federação industrializada. Para se ter uma ideia,
no Estado de São Paulo, considerado o mais industrializado do país, o setor
industrial tem participação no VAB total de 21,2%. Portanto, não é possível
dizer que a participação da indústria do ERJ seja insignificante. O que é dis-

36
MARCELO GOMES RIBEIRO • VITOR VIEIRA FONSECA BOA NOVA • IGOR RIBEIRO ROBOREDO

cutível é o tipo de indústria instalada em cada unidade da federação, bem


como os processos de encadeamento que cada tipo de indústria é capaz de
gerar. Porém, o que importa aqui é o reconhecimento de que, apesar de o se-
tor industrial ocupar a terceira posição na participação no VAB total, esse é
um setor significativo para a dinâmica econômica do ERJ.
A constatação anteriormente observada lança luz sobre a estrutura eco-
nômica do município de Maricá, na medida em que o setor industrial não
apenas ocupava a primeira posição na participação do seu VAB total, como
essa participação era de mais de 50%. Ou seja, mais da metade do valor adi-
cionado bruto produzido nesse município advinha do setor industrial. É
evidente, portanto, que a exploração offshore de petróleo em sua área geoe-
conômica, como município confrontante, era o fator que “inflacionava” a
importância do setor industrial.
Como a indústria é o setor de atividade que desempenha o papel dina-
mizador da economia, sua presença pode impulsionar o desenvolvimento de
outras atividades a ela vinculadas. Porém, como a exploração offshore do pe-
tróleo compreende um setor industrial extrativo, em que seu encadeamento
econômico se realiza com outros municípios e regiões do país e, principal-
mente, com outras regiões do mundo, sua presença no município de Maricá
tem mais impacto na arrecadação pública, como veremos na próxima seção,
do que na dinamização econômica do município, como veremos a seguir.
Em 2010, havia no município de Maricá 29.233 pessoas que constituíam
sua força de trabalho, correspondente ao que é denominado de população
economicamente ativa (PEA). Dessa população, 27.943 pessoas eram ocupa-
das (95,6%) e 1.290 eram pessoas desocupadas (desempregadas), de acordo
com dados registrados pelo Censo Demográfico do IBGE (IBGE, 2010). Como
os dados do Censo Demográfico dizem respeito às pessoas que moram em
Maricá, não é possível saber se essa população ocupada exercia seu trabalho
nesse município ou se deslocava para municípios vizinhos. O fato é que, do
total da população do município naquele ano, apenas 22% estavam ocupadas.
Os demais poderiam ser crianças, idosos aposentados etc. Além disso, aquela
população ocupada incorporava tanto as pessoas que estavam em situação
formal quanto as pessoas que estavam em situação informal no mercado de
trabalho. Ou seja, havia um baixo contingente no mercado de trabalho e nem
todas as pessoas estavam em condições de proteção social e, por conseguin-
te, com capacidade de gerar um fluxo dinâmico na economia do município.
Um modo de observar isso mais de perto é por meio da população ocu-

37
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

pada em situação formal a partir de dados obtidos da Relação Anual de In-


formações Sociais (RAIS), um registro administrativo do atual Ministério da
Economia brasileiro. A vantagem de utilização dos dados da RAIS é que ela
registra as pessoas no estabelecimento de atividades econômicas e não no
seu domicílio de residência. Isso, portanto, nos permite ter um panorama
dos postos de trabalho existentes no município, mesmo que sejam apenas os
postos formais de trabalho.
Assim, podemos observar que, em 2010, havia 13.034 vínculos formais
de trabalho no município de Maricá. As atividades de maior concentração
desses vínculos eram administração pública, com 4.308 (33%), comércio e
reparação de veículos, com 3.674 (28,2%), e a indústria de transformação,
com 1.236 (9,5%), como pode ser observado no gráfico 2. Observe que esses
três ramos de atividade econômica concentravam 70,7% dos vínculos for-
mais de trabalho, expressando, portanto, que os 29,3% restantes estavam
espalhados pelos demais ramos de atividade. Entre esses ramos mais ex-
pressivos, nenhum era da indústria extrativa, que na verdade era pouco sig-
nificativa nos vínculos formais do município. Ou seja, do ponto de vista da
geração direta de trabalho, a indústria extrativa do petróleo não contribuiu
para a incorporação de mão de obra local, pelo menos de modo significativo.
No entanto, observamos que em 2018 houve aumento do número de vín-
culos formais de trabalho no município de Maricá, registrando um total de
21.590, o que representa um crescimento de 65,6% desde 2010. Naquele ano,
todavia, os ramos de atividade econômica de maior participação nos vín-
culos formais de trabalho foram administração pública, com 7.438 (34,5%),
seguida de comércio e reparação de veículos, com 5.302 (24,5%), e ativida-
des administrativas e serviços complementares, com 1.834 (8,5%). Essas três
principais atividades concentraram 67,5% dos vínculos formais de trabalho,
índice correspondente a dois terços do total de vínculos.
Se consideramos que os últimos anos foram aqueles em que se elevou
a exploração offshore do petróleo em áreas confrontantes ao município de
Maricá, o seu impacto não se fez sentir no mercado de trabalho desse mu-
nicípio. Apesar do aumento no número de vínculos formais, eles continua-
ram concentrados em atividades pouco dinâmicas. Além do fato de que essa
concentração se dá no ramo da administração pública, observamos a difi-
culdade de aplicação da tributação referente ao ISSQN do município para o
próprio governo. Ou seja, se a atividade econômica mais importante é a da
administração pública, a receita oriunda de impostos sobre as atividades de

38
MARCELO GOMES RIBEIRO • VITOR VIEIRA FONSECA BOA NOVA • IGOR RIBEIRO ROBOREDO

serviços deve ser pequena, tendo em vista que essa atividade por natureza
não paga impostos.

Gráfico 2: Vínculos formais de trabalho no município de Maricá (%), 2010 e 2018. Fonte:
Elaboração própria a partir de dados do Ministério da Economia. Relação Anual de Informações
Sociais (RAIS).

Ao considerarmos que os vínculos formais de trabalho são proxy das ati-


vidades econômicas, podemos perceber, portanto, que o município de Ma-
ricá tem restrição na sua capacidade de aplicação do ISSQN, tendo em vista
que um terço dos vínculos formais são registrados no ramo de administra-
ção pública. Como vimos antes, esse município pode ter maior efetividade
na aplicação dos impostos patrimoniais (IPTU e ITBI), por ser considerado
um município médio. Mesmo assim, como a maioria dos municípios brasi-
leiros, dependendo apenas de sua arrecadação tributária, seria muito difícil
o governo local de Maricá atender a todas as necessidades de sua respon-
sabilidade. Portanto, os royalties do petróleo como recursos extras, para
além da arrecadação própria e das transferências e devolução tributárias
obtidas de modo recorrentes, apresentam-se como um importante recurso
para esse município.

2. ESTRUTURA DE RECEITAS E PESO DOS ROYALTIES DE MARICÁ

O Estado do Rio de Janeiro, composto por 92 municípios, tem uma das maio-
res capacidades arrecadatórias do Brasil, sendo a capital e os demais municípios
que compõem a Região Metropolitana do Rio de Janeiro os principais responsá-
veis por produzirem a receita do Estado. Entre essas cidades, está Maricá.

39
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Nos últimos anos, Maricá se tornou rota do pré-sal e, com o declínio da


produção na Bacia de Campos, as cidades de Campos dos Goytacazes e Macaé
passaram a arrecadar menos. Em contrapartida, o Campo Lula – em área
marítima confrontante ao litoral de Maricá – apresentou avanços na pro-
dução, consolidando a liderança da cidade em recebimentos de royalties do
petróleo a partir de 2017, tornando Maricá um dos municípios que mais ar-
recadam no Estado do Rio de Janeiro.
Em recursos financeiros, o gráfico 3 mostra o montante recebido por
Maricá através dos royalties do petróleo. Em 2005, o município ocupava ape-
nas a 45ª posição entre aqueles que mais recebiam royalties. Em 2013, passou
a figurar em 9º lugar e se consolidou como município que mais recebe recur-
sos dos royalties a partir de 2017.

Gráfico 3: Total de royalties recebidos pelo município de Maricá através de transferências


do Estado do Rio de Janeiro e União, 2005, 2013, 2017 e 2018. Fonte: Elaboração
própria a partir de dados do FINBRA e do SICONFI (STN).

O crescimento da participação de Maricá nas receitas do Estado é no-


tório, como visto no gráfico 4. Em 2005, sua receita representava apenas
0,5% do Estado, ocupando a 28ª colocação das cidades com mais recursos.
Em 2013, a cidade já ocupava a 19ª posição e contribuía com 0,9% da receita
estadual. A partir de 2017, quando se tornou o município que mais recebia

40
MARCELO GOMES RIBEIRO • VITOR VIEIRA FONSECA BOA NOVA • IGOR RIBEIRO ROBOREDO

pelos royalties de petróleo, Maricá começou a figurar entre os dez primeiros


municípios que mais arrecadam no Estado, estando na 7ª colocação em 2017
e na 5ª em 2018 – participando da Receita do Estado do Rio de Janeiro com
2,3% e 3,6%, respectivamente.

Gráfico 4: Participação da Receita de Maricá na Receita Total dos Municípios do Estado do


Rio de Janeiro5 (Municípios do RJ = 100%), 2005, 2013, 2017 e 2018. Fonte: Elaboração
própria a partir de dados do FINBRA e do SICONFI (STN).

Para se desenvolver, pagar suas despesas de custeio para manutenção


das atividades, fazer investimentos em melhorias para a população na in-
fraestrutura municipal e aplicar políticas públicas eficazes, um município
necessita de uma fonte de arrecadação de receitas. A maioria dos municípios
do Brasil enfrenta dificuldades para constituir recursos e, por isso, depende
de transferências intergovernamentais e devoluções tributárias para colocar
as contas em equilíbrio e promover o desenvolvimento territorial.
A maior parte da receita dos municípios advém das Receitas Tributárias,
principalmente através dos impostos – IPTU, ITBI, ISSQN, como foi dito na seção
anterior – e também da devolução tributária da União e Estados – cota-parte de

5 No gráfico apresentado, os seguintes municípios não apresentaram dados fiscais ao Tesouro


Nacional e foram excluídos do gráfico no respectivos anos: 2005, Aperibé, Arraial do Cabo, Cambuci,
Carapebus, Paraíba do Sul e Vassouras; 2013, Aperibé; 2017, Aperibé, Laje do Muriaé e Seropédica;
2018, Aperibé, Araruama, Cabo Frio, Carmo, Laje do Muriaé, Magé, Mangaratiba e Seropédica.

41
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

IPVA, ICMS, ITR, entre outros –, que constituem Transferências Correntes e


colaboram para encorpar a Receita Total dos munícipios.
A Receita Total do município é o somatório da Receita de Capital e a Re-
ceita Corrente. As Receitas de Capital são provenientes da realização de re-
cursos financeiros oriundos de constituição de dívidas e da conversão, em
espécie, de bens e direitos. As Receitas Correntes, por sua vez, são destinadas
a cobrir as despesas orçamentárias que visam à manutenção e continuida-
de das atividades governamentais, compreendendo as receitas tributárias,
contribuições, patrimoniais, agropecuárias, industriais, serviços e trans-
ferências correntes. As transferências correntes são recursos financeiros
recebidos de outras pessoas de direito público ou privado. As transferências
correntes, especificamente dos royalties de petróleo, são fontes dos maiores
recursos financeiros do município de Maricá.

Gráfico 5: Participações das transferências financeiras do Petróleo e Gás (%) no Município de


Maricá, 2005, 2013, 2017 e 2018. Fonte: Elaboração própria a partir de dados do FINBRA e do
SICONFI (STN).

Observando o gráfico 5, percebe-se a importância dos royalties do pe-


tróleo para a arrecadação da receita de Maricá. Em relação à Receita Total,
o ano de 2005 mostra que os royalties de petróleo corresponderam a 7,5%;
no ano de 2013, saltaram para 35%, chegando a 61,9% e 68,7% em 2017 e
2018, respectivamente. Isso mostra também o crescimento proporcional das
transferências provenientes dos royalties do petróleo para a Receita Corrente
e Transferência Corrente do município de Maricá, que demonstram acentua-

42
MARCELO GOMES RIBEIRO • VITOR VIEIRA FONSECA BOA NOVA • IGOR RIBEIRO ROBOREDO

ção da dependência do município em relação aos royalties provenientes da


atividade de exploração do petróleo.

3. ESTRUTURA DE DESPESAS SEGUNDO FUNÇÕES DE GASTO

Esse crescimento considerável, tanto do volume das transferências


financeiras provenientes dos royalties da exploração do petróleo, como da
consequente elevação de sua participação em relação à estrutura de recei-
tas de Maricá nos últimos anos, tem o potencial de alavancar a capacidade
de gastos e investimentos do município, impactando a oferta de serviços de
diferentes áreas.
Com o propósito de investigar esses impactos, procurou-se analisar
a estrutura de despesas de Maricá a partir de dois tipos de gastos em es-
pecial: os gastos vinculados ao que chamaremos aqui de Função Social;
e os gastos que denominaremos de Função Urbana. A primeira função se
refere ao somatório dos gastos municipais nas áreas de Assistência So-
cial, Previdência Social, Saúde e Educação; já a segunda abarca os gastos
municipais com serviços voltados ao Urbanismo, Habitação, Saneamento
e Gestão Ambiental.

Gráfico 6: Gastos municipais de Maricá por função, 2005, 2013, 2017 e 2018.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do FINBRA e do SICONFI (STN).

43
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Logo de início, analisando as duas funções de modo agregado, como


demonstrado no gráfico 6, fica bastante evidente o impacto do crescimento
das transferências dos royalties para a elevação desses gastos ao longo dos
anos. Justamente nos anos em que essas transferências tiveram um for-
te aumento, os gastos municipais com serviços de caráter social e urbano
cresceram abruptamente. Se entre 2013 e 2017 esse crescimento de gastos foi
mais sentido na Função Social, entre 2017 e 2018 a Função Urbana sofreu o
crescimento mais vertiginoso, aproximando-se relativamente aos gastos da
Função Social, ainda que mantendo um nível abaixo em relação a este, algo
verificado durante toda a série analisada.
Entretanto, quando se analisa a participação dos gastos com as funções
urbana e social em relação às Despesas Totais do município de Maricá (grá-
fico 7), o que se percebe é que, embora ambas as funções tenham se elevado
consideravelmente em termos absolutos nos últimos anos, em termos rela-
tivos a Função Social perdeu participação ao longo da série, enquanto a Fun-
ção Urbana experimentou um aumento, embora não muito expressivo perto
de seu aumento absoluto.

Gráfico 7: Participação das funções de gasto nas Despesas Totais do Município


de Maricá (Despesas Totais = 100%), 2005, 2013, 2017 e 2018. Fonte: Elaboração
própria a partir de dados do FINBRA e do SICONFI (STN).

Isso parece demonstrar que o impacto do aumento significativo das


transferências provenientes dos royalties nos últimos anos ao município de
Maricá não se limitou apenas a essas duas funções de gastos tão importan-
tes; antes, ao que parece, se estendeu para os gastos em geral. A despeito de

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MARCELO GOMES RIBEIRO • VITOR VIEIRA FONSECA BOA NOVA • IGOR RIBEIRO ROBOREDO

seu significativo crescimento absoluto entre 2005 e 2013, a participação da


Função Social saiu de 56% para 40% nesse mesmo período, vindo a dimi-
nuir ainda mais em 2018, quando alcançou 33% de participação nas Despe-
sas Totais. Já a Função Urbana, que iniciou com apenas 18,9% de participa-
ção, encerrou 2018 com 28,3%, aproximando-se da participação da Função
Social no mesmo ano. Assim, pode-se afirmar que os gastos com Função
Urbana têm elevado sua importância na estrutura de gastos municipais de
Maricá nesses últimos anos, enquanto a Função Social tem diminuído.
Quando se analisam os gastos segundo suas funções, separadamente,
e considerando suas respectivas subfunções, fica ainda mais evidente os
tipos de gastos que foram diretamente impactados pelo recebimento dos
royalties por parte do município de Maricá. No que se refere aos gastos da
Função Social, o gráfico 8 revela que o forte crescimento dos gastos na
Função Social se deu, principalmente, aos gastos em Saúde e Educação,
num ritmo de crescimento que muito se assemelha ao crescimento do re-
cebimento dos royalties por parte de Maricá – ou seja, especialmente a
partir de 2013 e, de forma mais abrupta, nos anos de 2017 e 2018. Os gastos
com Assistência Social e Previdência Social também cresceram no perío-
do, porém partindo de uma base absoluta menor, ainda que num ritmo
também significativo.

Gráfico 8: Distribuição dos gastos com Função Social, 2005, 2013, 2017 e 2018.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do FINBRA e do SICONFI (STN).

45
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Se no caso da função social o crescimento dos gastos se deu em função


de dois gastos específicos, no caso da Função Urbana (gráfico 9) ocorreu so-
bretudo pelos gastos na subfunção Urbanismo, enquanto as demais – Habi-
tação, Saneamento e Gestão Ambiental – sofreram poucos impactos ao lon-
go do período analisado. Nota-se também que o crescimento dos gastos em
Urbanismo não foi tão significativo entre 2013 e 2017 quanto foi em Educação
e Saúde (na função social) no mesmo período. Porém, entre 2017 e 2018 seu
crescimento se assemelhou em proporção em relação a esses últimos, cres-
cendo vertiginosamente, e, é bom frisar, em termos absolutos ainda mais
consideráveis, atingindo, em 2018, cerca de R$ 386,5 milhões.

Gráfico 9: Distribuição dos gastos com Função Urbana, 2005, 2013, 2017 e 2018.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do FINBRA e do SICONFI (STN).

Esmiuçando ainda mais um pouco os gastos segundo sua função, den-


tro da subfunção Urbanismo, destacamos, conforme o gráfico 10, os gastos
com transportes realizados pela prefeitura de Maricá. Essa análise possibi-
lita investigar os impactos do recebimento dos royalties para o município, em
especial após a implementação de serviços de mobilidade urbana a partir da
Empresa Pública de Transportes, a EPT, fundada em 2014, junto da adoção de
uma política de Tarifa Zero. Fica evidente que o crescimento dos gastos com
Transportes acompanha o movimento de crescimento das transferências de
royalties, sendo, mais uma vez, 2017 e 2018 os anos em que esses gastos mais
se elevaram, atingindo patamares inéditos para o município, que já vinha

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MARCELO GOMES RIBEIRO • VITOR VIEIRA FONSECA BOA NOVA • IGOR RIBEIRO ROBOREDO

aumentando seus gastos nesses serviços a partir de 2013, porém num nível
ainda muito abaixo do que se pôde verificar anos depois.

Gráfico 10: Evolução dos gastos com transporte, 2005, 2013, 2017 e 2018. Fonte: Elaboração
própria a partir de dados do FINBRA e do SICONFI (STN).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao buscar sumarizar os resultados apresentados e, com base neles,


trazer elementos para discutir a situação fiscal-financeira futura de Mari-
cá, considerando as incertezas quanto à continuidade do recebimento das
transferências financeiras dos royalties provenientes da exploração do pe-
tróleo, devemos neste momento reforçar algumas constatações iniciais.
Em primeiro lugar, em que pese o crescimento populacional do muni-
cípio de Maricá verificado nos últimos anos em ritmo mais elevado do que o
observado no estado do Rio de Janeiro como um todo – configurando, pos-
sivelmente, uma capacidade considerável de aplicação de instrumentos de
tributação, especialmente através do IPTU e de transferências e devoluções
tributárias de outros entes federativos que tomam como critério o tamanho
populacional do município receptor –, quando se analisa a base de arrecada-
ção de impostos de competência municipal ligados às atividades econômi-
cas, e, portanto, à sua estrutura econômica, Maricá parece não se destacar.

47
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A elevada participação industrial no Valor Adicionado Bruto Total do


município (54, 3%, em 2017) não se verifica por conta de um dinamismo das
atividades desse município, mas em decorrência da expressiva importância
das atividades extrativas de petróleo realizadas em território confrontante
ao município, adquirindo um caráter de benefício apenas do ponto de vista
fiscal, e não da produção real, nem muito menos em relação à capacidade de
geração de empregos em Maricá, muito dependente do setor de administra-
ção pública. Soma-se a isso o fato de que o setor de serviços, vistos a partir de
sua capacidade de geração de emprego no município, não apresenta grande
destaque, o que parece sinalizar para uma condição de restrição da capaci-
dade municipal na arrecadação de impostos através do ISSQN.
Assim sendo, pode-se afirmar que as transferências financeiras prove-
nientes da exploração do petróleo por meio dos royalties, para além da arre-
cadação própria e das transferências e devoluções tributárias, apresentam-
-se como uma importante fonte de recurso para o município, de modo que
sua ausência poderia trazer impactos significativos para a situação fiscal-
-financeira de Maricá.
Essa hipótese é reforçada a partir da análise realizada na seção 2. O
forte crescimento dos royalties recebidos por Maricá, sobretudo nos anos
2017 e 2018, acentuou e, mais do que isso, afirmou a forte dependência fis-
cal-financeira desse município em relação às atividades extrativas do petróleo
e compensações financeiras provenientes destas em forma de transferências
intergovernamentais. Isso foi evidenciado pela análise das participações
dessas transferências nas transferências correntes do município, assim
como em suas receitas, totais e correntes – estas últimas chegando ao
pico de quase 80% no ano de 2018.
Sendo assim, a fim de dar um passo além e buscar compreender quais
os impactos do aumento em ritmo exponencial das receitas municipais de
Maricá verificado nos últimos anos, no que se refere aos gastos municipais, a
seção 3 procurou se deter no que se denominou, para este trabalho, de função
social e função urbana.
Ficou bastante evidente que o aumento do recebimento de royalties do petróleo
e o consequente aumento da receita foram os fatores responsáveis pelo aumento
dos gastos nessas funções e pela própria elevação das despesas totais do municí-
pio de modo geral. Os anos de 2017 e 2018 demonstraram um crescimento abso-
luto enorme nos gastos, sobretudo nos gastos com Educação, Saúde e Urbanismo
– destacando-se neste último, em termos relativos, os gastos com transporte.

48
MARCELO GOMES RIBEIRO • VITOR VIEIRA FONSECA BOA NOVA • IGOR RIBEIRO ROBOREDO

Portanto, se por um lado o crescimento populacional verificado no mu-


nicípio de Maricá nos últimos anos tendeu a elevar a necessidade de gastos
com, por exemplo, serviços de saúde e educação, bem como com infraestru-
turas urbanas, por outro o forte crescimento das transferências dos royalties
possibilitou as condições para que estes gastos fossem realizados em pro-
porções absolutamente particulares, numa realidade bastante diversa da
grande maioria dos municípios brasileiros, que muitas vezes enfrentam sé-
rias dificuldades nesse sentido, dependendo de iniciativas provenientes dos
governos estaduais e federal.
Porém, embora expresse uma característica positiva – de maior capaci-
dade de investimento e realização por parte do poder público municipal nas
áreas destacadas e de grande importância social –, a evidente dependência
dos recursos provenientes dos royalties acende um sinal de alerta. Tais recur-
sos são suscetíveis a alterações na legislação e podem, porventura, de um dia
para o outro, simplesmente fazer desaparecer essa fonte de receita tão im-
portante para o município. Além disso, o montante das receitas provenientes
das transferências de royalties geralmente apresentam alta volatilidade – em
decorrência tanto da diminuição ou aumento do volume extraído de petró-
leo em determinada área marítima ao longo dos anos como da variação dos
preços internacionais do petróleo –, desenhando para o Município de Maricá
num futuro imediato um cenário de incertezas.
Desse modo, vale o questionamento: esse é um quadro de dependência ou
de aqutonomia financeira do município de Maricá? Independentemente da res-
posta, o fato é que a recente elevação da capacidade de gastos municipais
não se deu em virtude de um dinamismo econômico endógeno do município,
mas sobretudo de alterações que extrapolam seu território, estando, por-
tanto, a reboque de condicionantes externas das quais o poder público mu-
nicipal não tem qualquer controle, cabendo a este apenas procurar promover
suas políticas e seus gastos considerando essa condição e, talvez, utilizando
tais recursos justamente para se antever a uma situação de fragilidade fiscal
que possa se manifestar futuramente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ção em termos? Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 53, n. 3, pp.
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49
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

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na Periferia em tempos de crise do capitalismo, 2017.

50
EXEMPLO DE MARICÁ: CARACTERÍSTICAS
E LIMITAÇÕES DE EXPERIÊNCIAS DE
RENDA BÁSICA NO BRASIL

Jimmy Medeiros1 • Yuri Teixeira Pires2

INTRODUÇÃO

Nas últimas três décadas, foi possível verificar um aumento da insegu-


rança social no mundo, sobretudo com as mudanças na legislação europeia
(OIT, 2011; IMMERVOLL; JENKINS; KÖNIGS, 2015), bem como a retração dos
mecanismos públicos nos sistemas de proteção social da América Latina.
Essa ampliação da insegurança social tem origem em tensões no sistema
econômico, como a precarização do vínculo de trabalho, a permissão do uso
de contratos laborais de zero hora, a ampliação do tempo de contribuição
para ter direito à aposentadoria, a elevação das taxas de desemprego e o
avanço da automação nas cadeias produtivas (com o uso de robôs e sistemas
informáticos) e, por conseguinte, vem restringindo cada vez mais a oferta de
postos de trabalho.
Essas tensões nos distintos regimes de trabalho e nos diferentes sis-
temas de proteção social fundamentam os argumentos pela necessidade de
garantir um fluxo contínuo de renda para atender às necessidades dos indi-
víduos (OIT, 2011; LOWREY, 2018).
Além disso, paulatinamente há um crescimento da pobreza e da concen-
tração de renda, se considerarmos meados da segunda metade do século xx
em diante (PIKETY, 2014). Na América Latina e no Caribe, tem ocorrido um

1 Jimmy Medeiros é doutor em Políticas Públicas pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas


Públicas, Estratégia e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
(RJ), Brasil. E-mail: jimmy.medeiros@fgv.br.

2 Yuri Teixeira Pires é mestrando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da


Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail: yuritp@id.uff.br.

51
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

aumento da desigualdade nos últimos anos, o que é preocupante, em face da


baixa cobertura dos sistemas de proteção social dos países da região, assim
como da Ásia e África (FILGUEIRA, 2014; LAVINAS, 2013; OIT, 2011).
Nesse sentido, desde a última grave crise econômica internacional, em
2008, as políticas de transferência de renda condicionadas receberam desta-
que como mecanismo promotor de maior igualdade social, bem como de um
instrumento promotor de bem-estar (CEPAL, 2011; CEPAL, 2014; CECCHINI;
FILGUEIRAS; ROBLES, 2014). O Programa Bolsa Família, segundo Lavinas
(2013), ganhou notoriedade, de modo a ser considerado uma referência aos
outros países do hemisfério sul. 
Embora em menor medida, a implementação de uma política de impos-
to de renda negativo também tem sido aventada para enfrentar as falhas de
mercado e tentar garantir fluxo de renda para a população pobre. Essa é uma
política de natureza compensatória e de cunho mais liberal, proposta ini-
cialmente por Milton Friedman nos EUA.
Conforme Lowrey (2018), outra opção para enfrentar estas atuais
questões globais de falhas nos sistemas de proteção social e amenizar os
efeitos da pobreza é a política da renda básica universal, ou basic income
em inglês – no Brasil, é mais conhecido sob a alcunha de “Renda Básica
de Cidadania”. Essa política pública tem natureza mais inclusiva, por ser
universal e sem a exigência de condicionalidades. Assim, a seleção dos
beneficiários independe do sexo, idade, renda, cor ou raça dos indivíduos
(STANDING, 2017; SUPLICY, 2007).
Para Van Parijs e Vanderborght (2006), uma política pública típica de
renda básica universal é caracterizada por garantir o fluxo de renda indivi-
dualmente a todos os pertencentes a uma comunidade política. Além disso,
deve ser incondicional, sem que haja a necessidade de pré-requisitos socioe-
conômicos, políticos ou de condição civil para receber o benefício. Portan-
to, não são necessários testes para comprovação de atendimento. Ademais,
também não há a necessidade de realização de monitoramento por parte do
poder público, por ser universal e incondicional. Isso, de certa forma, reduz
a burocracia na condução da política. O valor recebido pelo beneficiário pode
ser utilizado da forma que lhe interessar.
Um dado interessante na conceituação da política feita pelos autores é
que eles configuram certo grau de fluidez em sua composição, não apon-
tando um formato predefinido ou pacote fechado. Em seus textos, deixam
aberta a definição dos detalhes da RBU conforme as condições e contextos

52
JIMMY MEDEIROS • YURI TEIXEIRA PIRES

de cada comunidade. O aspecto positivo dessa abordagem é permitir maior


liberdade a cada comunidade política a modelar os seus sistemas de proteção
social de acordo com as suas particularidades e necessidades próprias.
Atualmente, há o entendimento de que a renda básica possa ser utilizada
de forma complementar aos demais mecanismos e benefícios da segurida-
de social e, por outro lado, há a compreensão de que a RBU possa substi-
tuir todos os demais. Portanto, uma nova institucionalidade dos modelos de
proteção social, com base na renda básica, tem sido proposta. Mais ainda,
ela tem sido executada há anos no Alasca (EUA) e, no período recente, tem
sido testada em várias localidades, como na Finlândia, em Ultrecht (Holan-
da), em Barcelona (Espanha), em Stockton (Califórnia/EUA) e no Quênia, por
exemplo. Ainda nessa linha, 77% dos eleitores residentes na Suíça recusou
a implementação desta política pública, por meio de um referendo em 2016.
No Brasil, embora tenha sido aprovada por Lei Federal em 2004, a Renda
Básica nunca foi implementada e posta em prática. Por isso, analisar e deba-
ter a RBU é urgente, sobretudo se considerarmos o aumento da pobreza e da
desigualdade nos últimos anos (IBGE, 2019).
Apesar de a Lei não ter sido posta em prática em âmbito nacional, é pos-
sível encontrar experiências municipais que se autointitulam como “renda
básica de cidadania”. Assim, o presente trabalho analisa estas experiências3
brasileiras, com ênfase no caso implementado em Maricá, município do es-
tado do Rio de Janeiro. Para aprofundar o debate, o presente artigo está es-
truturado em quatro seções, além da introdução e das considerações finais.
A primeira parte apresenta uma breve discussão da retomada do advocacy da
Basic Income no mundo, seguida por uma seção destinada ao debate reali-
zado no Brasil. Este é seguido por uma apresentação das experiências locais
brasileiras e, por fim, uma análise do caso de Maricá (RJ).

A RECENTE RETOMADA DO ADVOCACY DA RENDA UNIVERSAL

Segundo a Organização Internacional do Trabalho – OIT, cerca de


80% da população do planeta sofre carência de mecanismos adequados de
proteção social para lidar com os riscos econômicos e sociais ao longo do
curso da vida. Por causa disso, novas mudanças nos distintos sistemas de
proteção social têm sido debatidas e propostas, como o Piso de Proteção
3 Os casos analisados estão em Santo Antônio do Pinhal (SP), em Quatinga Velho, distrito de Mogi
das Cruzes (SP), em Apiaí (SP) e no município de Maricá (RJ).

53
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Social (OIT, 2012) e a Renda Básica (VANDERBORGHT; VAN PARIJS, 2006;


SUPLICY, 2003), por exemplo.
Entre as duas opções, a Renda Básica tem recebido cada vez mais aten-
ção por parte da academia e dos stakeholders. Nos anos 1970 e 1980, a ideia
recebeu maior atenção de membros dos governos da Europa, Canadá e Esta-
dos Unidos, vindo a ser experimentada, entre 1974 e 1979, em Manitoba, no
Canadá. Foi avaliada por parlamentares nos Estados Unidos durante os anos
1960 e implementada no Alasca em 1982. Nos anos 1990 e meados dos anos
2000, a política pública passou a ter menor apelo político, até que, na década
atual, ocorreu a retomada do advocacy por sua implementação.
De modo geral, o objetivo dessas novas proposições tem sido am-
pliar o investimento por justiça social, além de promover desenvolvi-
mento equitativo, maior bem-estar e segurança social. Tais proposições
ainda tendem a contribuir para o crescimento econômico, aumentando a
demanda de consumo de bens duráveis e não duráveis, proporcionando
maior estabilidade. Ademais, em tempos de crise, a garantia de um fluxo
contínuo de renda atua como um estabilizador para a economia, mitigan-
do a queda da demanda agregada, assim como o Bolsa Família contribuiu
em 2008 (WORLD BANK, 2017).
Em particular, o argumento central é que a falta de trabalho e ren-
da causará queda no consumo e, por conseguinte, a quebra da economia.
Assim, a renda básica universal tem sido vislumbrada como uma reação
política para amenizar as consequências da automação e, principalmen-
te, garantir a sobrevivência da população, além de estimular a demanda
econômica (YANG, 2018).
Além da academia, importantes agentes do campo do setor econômico
da tecnologia têm apoiado publicamente a ideia, como Elon Musk, empresá-
rio da Tesla (empresa de carros elétricos e autônomos), e Mark Zuckerberg,
fundador do Facebook. No campo político, Barack Obama foi enfático ao sus-
tentar a necessidade de debater essa questão envolvendo a RBU: “It’s not just
money that a job provides. It provides dignity and structure and a sense of
place and a sense of purpose. So we’re gonna have to consider new ways of
thinking about these problems, like a universal income”.4 Além dele, há dois
pré-candidatos democratas à presidência norte-americana que mencionam,

4 “Não é somente dinheiro que um emprego proporciona. Ele proporciona dignidade, estrutura,
senso de pertencimento e de propósito. Portanto, nós teremos de considerar novas maneiras de
pensar sobre esses problemas, como uma renda universal” (OBAMA, Barack, 2018).

54
JIMMY MEDEIROS • YURI TEIXEIRA PIRES

com certa frequência, a institucionalização de uma política de basic income


em âmbito nacional, com o objetivo de promover maior liberdade e melhores
condições de bem-estar social.
Além desses argumentos, alguns autores apontam os efeitos de maior
liberdade e autonomia dos indivíduos. Os cidadãos poderiam evitar traba-
lhos que oferecessem más condições, bem como dedicar seu tempo a ativi-
dades de lazer, convívio familiar e aperfeiçoamento profissional. Esses fato-
res aumentariam o bem-estar e seriam importantes para eliminar a pobreza
(VANDERBORGHT; VAN PARIJS, 2006; SUPLICY, 2007).
Ademais, Lowrey (2018) defende a implementação da renda básica de
cidadania como um ideal para garantir a sobrevivência das pessoas e como
uma lição pela possibilidade de isso ser realizado com base em planos redis-
tributivos igualitários. Já Crocker (2015) aponta que a renda básica pode ser
aplicada para reduzir desigualdades na distribuição de renda de uma popu-
lação. Para tanto, o autor defende concepções distintas do consenso mais ge-
ral: transferir valores diferentes para os indivíduos/famílias, e não o mesmo
valor para todos. Sua proposta está mais próxima da expansão das políticas
de transferência de renda com base em means-test.
Em consonância à argumentação favorável, uma série de experiências
têm sido levadas a cabo ou estão em discussão em países de todo o mundo.
Entre eles, podemos citar Finlândia, Canadá, Estados Unidos, Holanda, Es-
panha, Quênia, Escócia, Reino Unido, Itália, México e Índia. O Brasil aprovou
uma Lei federal a respeito do tema e alguns municípios afirmam ter realiza-
do política semelhante. Um ponto central desses casos aplicados é que não há
uniformidade nos desenhos delineados para as políticas públicas de renda
básica universal. Há distintos critérios de seleção e de valores transferidos,
assim como de combinação com outras políticas sociais.
Por outro lado, os argumentos contrários sustentam que tais progra-
mas poderiam criar uma armadilha para o desemprego: uma vez que a renda
estivesse garantida, as pessoas perderiam o incentivo de trabalhar para sua
sobrevivência. Adicionalmente, apontam ainda que, se as pessoas parassem
de trabalhar, o convívio social e o desenvolvimento de suas capacidades e
potencialidades seriam negativamente afetados. Ainda nessa esfera, a crí-
tica mais dura baseia-se nos custos de financiamento da RBU e na oferta de
dinheiro para a parcela da população que já tem o suficiente para sua sobre-
vivência. Os defensores desses argumentos não entendem a lógica por trás
do universalismo.

55
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Alguns trabalhos têm sido elaborados para esclarecer a questão do fi-


nanciamento. Assim, Painter e Thoung (2015) tentaram demonstrar a via-
bilidade financeira de uma espécie de RBU no Reino Unido, sob o nome de
Basic Rental Income, para pessoas com idade entre 25 e 65 anos, com base
na tributação de empresas do setor tecnológico. Arcarons, Domènech, Ra-
ventós e Torrens (2014) realizaram cálculo para estimar e sustentar a via-
bilidade de instituir uma política de renda básica na Espanha. No Brasil,
a equipe do IPEA tem refletido sobre formas de desenvolver uma política
desse tipo no país.

A RENDA BÁSICA EM DISCUSSÃO NO BRASIL

O debate acadêmico, destinado a um público mais restrito e dissemi-


nado em eventos e periódicos científicos, em conjunto com a discussão po-
lítico-pública, voltada a um espectador mais amplo e realizado em veículos
de massa como rádio, televisão, revistas e jornais de maior circulação, teve
início na década de 1970 no Brasil. O marco principal inicial foi a publicação
do artigo “Redistribuição da renda”, de Antônio Maria da Silveira, em 1975,
quando o autor propôs a implementação desta política com base na modali-
dade do imposto de renda negativo.5
Edmar Bacha e Roberto Mangabeira Unger, em 1978, publicaram “Par-
ticipação, salário e voto: um projeto de democracia para o Brasil”, que per-
passa a discussão da renda básica. Os autores justificam a implementação
de uma política pública de renda mínima – focalizada –, como um meio de
garantir as condições materiais necessárias à sobrevivência, sendo este um
elemento preponderante para a construção e ampliação da cidadania demo-
crático-participativa no país.
Já nesse período, Eduardo Matarazzo Suplicy apresentou uma atuação
dupla em benefício da renda básica no Brasil, publicando artigos e livros
e, ao mesmo tempo, atuando no adocacy da política na esfera político-pú-
blica. A publicação de “O debate sobre o salário-mínimo”, em 1976, inau-
gurou sua estreita participação nesse campo. Nesse trabalho, o autor ain-
da fundamentava suas ideias com base no imposto de renda negativo. Tal
5 Resumidamente, nesta modalidade os indivíduos que recebem acima de um nível de renda devem
pagar impostos de forma a aproximá-los da linha definida. Por outro lado, os indivíduos com renda
inferior ao nível estabelecido devem receber uma transferência de renda para a garantir um nível
mínimo de rendimentos.

56
JIMMY MEDEIROS • YURI TEIXEIRA PIRES

posicionamento mudou em meados da década de 1990 (SILVA, 2009). Além


desse trabalho, o ex-senador e atual vereador6 do município de São Paulo
(SP) pelo Partido dos Trabalhadores (PT) foi autor de diversos livros, arti-
gos em periódicos científicos, papers em congressos, jornais e revistas de
grande circulação. Essa diversidade de tipos de publicações lhe possibilitou
alcançar um público amplo, composto por acadêmicos, gestores públicos e
a população geral, por exemplo.
Uma busca por publicações acadêmicas em português por meio de dois
portais da internet – Google Scholar e Scielo –, com base na palavra-chave
“renda básica, possibilitou encontrar algumas dezenas de resultados. Assim,
além dos autores já mencionados, diversos outros participam do debate aca-
dêmico, como Lena Lavinas (2004; 2010), Renata Bichir (2010), Tatiana Brito
(2010) e Maria Ozanira da Silva e Silva (2010). Ademais, foi possível encontrar
publicações em português de autores desse campo já consagrados na Europa,
como Philippe Van Parijs (1994, 2000, 2002, 2014) e Yannick Vanderborght
(2006), e nos Estados Unidos, como Guy Standing (2010).
O ano de 2010 aparece com destaque ao se considerar a quantidade de
publicações no país, uma vez que, naquele ano, o Brasil sediou o 13º Congres-
so da Basic Income Earth Network (BIEN7), na capital paulista. O evento mo-
bilizou a comunidade acadêmica brasileira – e do mundo – a refletir sobre o
tema, impulsionando as publicações em periódicos nacionais.
Em 2019, parte dessa comunidade epistêmica formalizou a criação da
“Rede brasileira de renda básica de cidadania”, lançada em 2017 por vários
pesquisadores. A rede busca promover os estudos sobre o tema de forma
mais organizada e ampla, bem como estabelecer diálogo com outras redes
do exterior. O advocacy realizado pelos membros da Rede foi importante para
promover a aprovação da nova política de transferência de renda no país.
Na esfera extra-acadêmica, três marcos legais são importantes. Em
1991, o Projeto de Lei n. 80/1991,8 proposto por Eduardo Suplicy, foi aprovado
6 Foi eleito vereador em 2016 na capital paulista com o recorde de votos. Ao todo, foram 301.446
votos, equivalente a 5.62% dos votos válidos, desconsiderando votos brancos e nulos.

7 A BIEN foi fundada em 1986 sob a alcunha de Basic Income European Network (Rede Europeia de
Renda Básica). Em 2004, o European (europeia) mudou para Earth (mundial), mantendo a sigla e o
objetivo, mas tendo um escopo maior. Passou a ser uma rede internacional para agregar indivíduos
e grupos comprometidos com a renda básica, fomentando discussões, informes e publicações em
diversos países. Realiza Congressos a cada dois anos e busca sempre mudar o país-sede.

8 Fonte: Senado Federal. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/


materia/1270.

57
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

pelo plenário do Senado Federal; contudo, não logrou êxito na Câmara dos
Deputados. O projeto consistia na criação de um Programa de Garantia de
Renda Mínima (PGRM) de forma incondicional e focalizada.9 O propósito era
combater a pobreza no país e, para tanto, o autor utilizou como argumento a
“partilha das riquezas da nação”.
Em 1999, em uma nova tentativa, o senador Eduardo Suplicy apre-
sentou o Projeto de Lei n. 82/1999,10 com o objetivo de autorizar o Poder
Executivo a criar o Fundo Brasil de Cidadania e, ao mesmo tempo, insti-
tuir o Conselho Deliberativo desse Fundo. Tal esforço buscava contornar
o fracasso anterior. O projeto foi aprovado em comissão no Senado, mas
nunca foi votado pelo plenário da Casa.
A discussão sobre o tema prosseguiu nas esferas acadêmicas e extra-
-acadêmicas, sobretudo no campo político. Em 2001, um novo projeto de lei
foi apresentado e aprovado pelo Senado, em 2002, e pela Câmara Federal,
em 2003, tendo sido promulgado em 8 de janeiro de 2004, devendo ser ins-
tituído a partir de 2005. Assim, a Lei n. 10.83511 confere benefício monetário
anual a todos os brasileiros e estrangeiros residentes há pelo menos cinco
anos no país. Algumas mudanças textuais em relação às tentativas ante-
riores facilitaram a sua aprovação no Congresso Nacional, como “deverá
ser alcançada em etapa”, “a critério do poder Executivo”, e “priorizando as
camadas mais necessitadas”. A redação da Lei apresentou conteúdo fluido,
nada impositivo e não configurou a criação de uma RBC de fato, deixando
ao poder Executivo o desejo pela sua implementação – o que, como consta-
tado, nunca foi efetuado.
Esta fragilidade ficou tão presente que a manchete estampada no jor-
nal O Globo do dia seguinte à promulgação da nova legislação exclamava:
“Suplicy beija Lula, mas fica sem verba: presidente sanciona Renda Mínima
que senador espera há 13 anos e diz que falta recurso”. A manchete já in-
dicava as dificuldades a serem enfrentadas nos próximos anos. Por causa
9 A política era destinada a “toda pessoa adulta, de 25 anos ou mais, que não alcançasse pelo menos
45 mil cruzeiros mensais”. Esta “teria direito a um complemento da ordem de 30% a 50%, a critério
do Poder Executivo, da diferença entre aquele patamar (na época, de cerca de 150 dólares mensais)
e o nível de renda da pessoa” (SILVA, 2009).

10 Fonte: Senado Federal. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/


materia/1279.

11 Fonte: Governo Federal. Conteúdo da lei disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_


ato2004-2006/2004/lei/l10.835.htm.

58
JIMMY MEDEIROS • YURI TEIXEIRA PIRES

disso, o ex-senador fez diversas cobranças12 públicas para a sua imple-


mentação. Em dado momento, chegou a mencionar que o Programa Bol-
sa Família poderia ser considerado uma etapa de implementação da RBC
no país – o que de fato nunca foi enunciado pelos representantes do Poder
Executivo, nem mesmo durante os governos Lula ou Dilma, membros do
mesmo partido político do ex-senador.
Em 2006, em nova tentativa de viabilizar a RBC no Brasil, a Câmara
(PL n. 7430/06) debateu sobre a criação de um Fundo para financiar a po-
lítica pública. Contudo, a aprovação da nova iniciativa não logrou êxito,
deixando a renda básica sem recursos para a sua plena implementação.
Apesar desse insucesso no âmbito federal, algumas iniciativas locais no
país foram desenvolvidas. A análise destes quatro esforços pode contri-
buir com o debate a respeito do tema.
Por iniciativa do Congresso Nacional, a Renda Básica Emergencial foi
aprovada em 26 de março de 2020 pela Câmara Federal e, quatro dias depois,
pelo Senado. Assim, no mês de abril o Brasil passou a realizar uma política
de renda básica, focalizada e temporária. Afinal, a política pública atendeu a
trabalhadores informais e desempregados, com renda delimitada pelo Pro-
jeto de Lei, de maneira a focalizar um público mais vulnerável aos efeitos
econômicos da pandemia do Covid-19. Ademais, o benefício de 600 reais por
pessoa ou até 1200 reais por família foi pago por três meses.

EXPERIÊNCIAS LOCAIS DE RENDA BÁSICA NO BRASIL

Encontramos na literatura e em sites da internet quatro experiências de


renda básica em âmbito municipal, além de um caso em discussão na atua-
lidade. Os casos mapeados foram realizados no distrito de Quatinga Velho,
em Mogi das Cruzes (SP), em 2008; em Santo Antônio do Pinhal (SP), no ano
de 2009; em Apiaí (SP), em 2013; e em Maricá (RJ), desde 2015. O município de
São Paulo (SP) tem debatido na câmara municipal a sua criação.
A experiência em Quatinga Velho, no distrito de Mogi das Cruzes, é con-
duzida por iniciativa da ReCivitas, uma organização não governamental pri-
vada que objetiva desenvolver e manter projetos e tecnologias sociais apli-
cadas às políticas públicas para promover a cidadania e o empoderamento
12 Fonte: Senado Federal. Disponível em: https://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/
trabalho-escravo/combate-ao-trabalho-escravo/suplicy-cobra-aplicacao-da-lei-que-instituiu-
renda-minima.aspx.

59
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

da população. Essa iniciativa é feita em pequena escala, se considerarmos


o total de beneficiários, e, conforme a ONG, seu desenvolvimento é dividi-
do em duas etapas. A primeira ocorreu entre 2008 e 2015 e foi nomeada por
“Consórcio da Renda Básica”. Ela foi iniciada com a seleção de 27 pessoas que
recebiam 30 reais por mês e, após 6 meses, o projeto ampliou sua cobertura
para cem beneficiários. Todavia, os recursos da ONG para esse projeto foram
esgotados em 2015, e a política cessou.
Em 2016, cerca de um ano após o término da primeira etapa, a ReCivitas
recebeu um novo aporte financeiro e criou um “fundo garantidor” de manei-
ra a avalizar a sustentabilidade financeira do projeto. Buscava-se, dessa for-
ma, evitar o problema ocorrido na etapa anterior e suavizar as inseguranças.
Assim, deu-se início à segunda etapa da RBC, com o nome de Basic Income
Startup. Dessa vez, somente vinte pessoas têm sido contempladas, recebendo
40 reais por mês, oriundos dos rendimentos do fundo financeiro constituído.
Embora o valor seja baixo, ele tem permitido mitigar problemas co-
tidianos e potencializar o bem-estar dos beneficiários. Por exemplo, uma
pesquisa da ReCivitas identificou casos em que o recurso pôde ser utiliza-
do para buscar empregos em localidades distantes de Quatinga Velho. Ve-
rificou-se também a existência de famílias que iniciaram novas ativida-
des econômicas, como a produção e venda de bolos e a compra de galinhas
para comercialização de ovos, ampliando a renda mensal para além do
benefício da RBC. Além disso, constatou-se uma melhora do planejamen-
to do orçamento familiar. No campo da percepção de bem-estar, os bene-
ficiários relataram uma série de melhorias na participação comunitária e
ampliação das oportunidades, que acreditam oferecer perspectivas de um
futuro melhor (BRANCAGLIONE, 2014).
A segunda experiência identificada, seguindo a ordem cronológica de
criação, ocorreu em Santo Antônio do Pinhal, cidade localizada no interior
paulista e próxima da turística Campos do Jordão (SP). Nesse caso, a políti-
ca de renda básica ocorreu por iniciativa do poder público a partir de 2008,
quando o governo municipal era comandado por políticos do PT, e contou
com o apoio do então senador Eduardo Suplicy.
No primeiro ano, foi realizado um projeto de divulgação e conscien-
tização do que seria a renda básica para a população em diversas locali-
dades do município, com o auxílio de ONG, até que, em 2009, foi aprovada
por unanimidade a Lei Municipal n. 1.090. Essa Lei preconizava a imple-
mentação da Renda Básica de Cidadania por etapas, assim como a Lei Fe-

60
JIMMY MEDEIROS • YURI TEIXEIRA PIRES

deral promulgada cinco anos antes. Além disso, previa a criação de um


fundo com receitas da prefeitura como fonte financiadora.
A iniciativa chamou atenção por ter abrangência municipal, embora a
população da cidade não chegasse a oito mil habitantes. Segundo Van Parijs
(2000), foi prevista para ser paga por uma comunidade política, incondicio-
nal e universal. No entanto, a renda básica nunca chegou a ser implementada
de fato, uma vez que nem o Conselho Municipal de Renda Básica de Cida-
dania nem o Fundo Municipal de Renda Básica de Cidadania foram criados,
como preconizava a lei.
Outra experiência local que chamou atenção foi feita em Apiaí (SP), mu-
nicípio com cerca de 25 mil habitantes. Em 2013, a câmara municipal aprovou
a Lei n. 041, com texto muito similar ao da Lei Federal de 2004. Mais uma vez,
era prevista a implementação da renda básica em etapas e, inicialmente, se-
riam priorizadas as camadas mais necessitadas da população, privilegiando
a focalização em detrimento de uma política universal.
Em Apiaí, a legislação previa a criação de um Conselho Municipal de
Renda Básica de Cidadania, que seria responsável por decidir os rumos da
política. O beneficiário deveria residir no município por cinco anos antes de
poder ser contemplado. Também foi prevista a criação de um Fundo Munici-
pal para financiar a RB. Porém, há uma diferença em relação ao caso de Santo
Antônio do Pinhal, pois em Apiaí não era permitido a utilização de recursos
da prefeitura. Dessa forma, foi prevista a doação de pessoas físicas ou jurí-
dicas, públicas ou privadas, nacionais ou internacionais, bem como transfe-
rências realizadas por outros níveis de governo, produtos de aplicação de re-
cursos disponíveis e outros recursos, por exemplo. Principalmente pela falta
de recursos, a renda básica nunca foi realizada no município, performando
mais uma vez a Lei como letra morta.
Por fim, o município de São Paulo (SP) tem debatido na Câmara Munici-
pal a criação de uma política de renda básica. Neste ano, um survey realizado
com a população paulista identificou adesão à política municipal. A pesquisa
do Ibope e em parceria com a ONG Nossa SP, verificou a aprovação de uma
RBC na cidade por parte de 55% dos entrevistados, enquanto 30% rejeitam
a sua adoção. O apoio é maior na zona sul da cidade (59% aprovam) e menor
no centro (somente 46% apoiam). Apesar disso, até o presente momento, não
há apoio político por parte do poder executivo municipal para a aprovação do
Projeto de Lei n. 620/2016, de 21/12/2016, que busca instituir a renda básica de
cidadania e o Fundo Municipal da Renda Básica de Cidadania.

61
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A EXPERIÊNCIA MARICAENSE: EXEMPLO PARA O BRASIL

A quarta experiência mapeada ocorre no município de Maricá, um dos


maiores recebedores de royalties da exploração de petróleo do Brasil. A
prefeitura aprovou em 2013 a Lei Municipal n. 2.24813 e criou o Conselho
Municipal de Economia Solidária, Combate à Pobreza e Desenvolvimento
Econômico e Social de Maricá (ECOSOL-CPDES), assim como o Banco Co-
munitário Popular de Maricá, o Fundo Municipal Banco Comunitário Po-
pular de Maricá e a Moeda Social Mumbuca. Esse conjunto de mecanismos
tem sido fundamental para o sucesso da renda básica municipal, pois o
uso do banco comunitário e da moeda social restringe aos estabelecimen-
tos localizados no território maricaense a utilização da renda transferida.
Isso, de certa forma, tende a estimular a economia local com maior con-
sumo e circulação de riquezas na cidade.
Segundo Cezar, Freitas e Egydio (2014), a partir de um relatório de pes-
quisa14 da FGV EAESP,15 a origem do planejamento da política de transferên-
cia de renda ocorreu quando a prefeitura, sob administração de Quaquá, em
conjunto com um grupo de especialistas, decidiu realizar um diagnóstico na
cidade e, para isso, dividiu o município de Maricá em quatro regiões. O recor-
te permitiu conhecer melhor a realidade do município e, assim, foi possível
identificar o perfil populacional e as características socioeconômicas para
delimitar um contingente de 13 mil habitantes que precisariam receber um
benefício monetário, com base em um programa de transferência de renda.
Famílias que viviam com renda familiar de até um salário mínimo por
mês ou tinham algum membro com qualquer tipo de deficiência puderam se
cadastrar para pleitear e receber o benefício, popularmente conhecido como
Bolsa Mumbuca – que, na verdade, era um programa de renda mínima cha-
mado de Renda Mínima Mumbuca.16 No início, cada família recebia 70 mum-
bucas17 por mês, o equivalente a 70 reais. O valor ficava disponível em um
13 Fonte: Instituto Banco Palmas. Disponível em: http://www.institutobancopalmas.org/wp-
content/uploads/lei-moeda-social-mumbuca.pdf>.

14 Fonte: FGV EASESP. Disponível em: https://pesquisa-eaesp.fgv.br/sites/gvpesquisa.fgv.br/files/


conexao-local/relatorio_conexao_local_final_-_mumbuca_henrique_e_olavo.pdf. Acesso em:
19/11/2019

15 Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas.

16 Focalizado em famílias com renda familiar mensal de até três salários mínimos.

17 Nome atribuído à moeda social do município.

62
JIMMY MEDEIROS • YURI TEIXEIRA PIRES

cartão de débito magnético, que podia ser usado em estabelecimentos comer-


ciais credenciados. Assim, mercados, lojas e comerciantes também tinham de
fazer um cadastramento para receber o leitor do cartão magnético. Todo esse
processo de verificação do usuário e do comerciante é feito pelo Instituto Pal-
mas,18 por meio do Banco Mumbuca (CEZAR; FREITAS; EGYDIO, 2014).
Uma nova mudança ocorreu em 2015, quando foi aprovada a Lei n. 2.641
(e o Decreto n. 124), que instituiu de fato a Renda Básica de Cidadania (RBC),
durante gestão do prefeito Washington Luiz Cardoso Siqueira, popularmen-
te conhecido como Quaquá. Diferentemente do Bolsa Mumbuca, uma política
de renda mínima, a RBC de Maricá é destinada a todas as pessoas do muni-
cípio com ao menos um ano de residência na municipalidade; estrangeiros
devem residir há pelo menos cinco anos no local. Embora na letra da Lei ela
seja “universal”, ao contrário da legislação de 2013, foi adotada de forma fo-
calizada, contrariando o receituário de Van Parijs (2000) e Suplicy (2003).
Segundo a secretaria de economia solidária, a Renda Básica e Cidadania
é considerada um direito básico do ser humano, conforme a Declaração Uni-
versal dos Direitos Humanos. Assim, toda pessoa tem direito a um padrão de
vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, o que inclui
alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços indispen-
sáveis. Desse modo, o poder público se apropria desses argumentos – am-
plamente propagandeados por Eduardo Suplicy (2008) no Brasil e por Van
Parijs (2014) e Guy Standing (2017) no exterior – para sustentar a criação e
manutenção da política pública.
A RBC maricaense conviveu com o Bolsa Mumbuca que, no início, cons-
tituía uma política complementar. Assim, a RBC era responsável pela trans-
ferência de dez mumbucas ao mês para mais de 14 mil famílias, ao passo
que a Renda Mínima transferia 85 mumbucas mensais. Em 2015 esse valor
passou para 100 mumbucas19 e, em 2017, já na gestão do prefeito Fabiano
Horta, o valor dos dois benefícios aumentou, respectivamente, para 20 e 110
mumbucas20 por mês, totalizando 130 mumbucas, ou 130 reais. Em meados
18 O Banco Palmas oferece serviços de tecnologia social para diversas comunidades, criando bancos
comunitários e moedas sociais. Todos eles fazem parte da Rede Brasileira de Bancos Comunitários.
Na verdade, eles operam como uma instituição única, utilizando diferentes “nomes fantasias” em
cada localidade.

19 Fonte: Prefeitura de Maricá. Disponível em: https://marica.rj.leg.br/noticia/vereadores-votam-


alteracoes-do-cartao-mumbuca

20 Fonte: Maricá Info. Disponível em: https://maricainfo.com/2017/06/20/marica-camara-


aprova-reajuste-de-programas-sociais.html

63
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

de 2019, o banco comunitário já tinha emitido 14.370 cartões e estabelecido


convênio com cerca de 2.100 estabelecimentos comerciais, somando pouco
mais de 10.200 contas. Como previsto para a política nacional aprovada em
2004, a RBC em Maricá tem seguido tendência e implementação graduais,
focalizando, no início, os mais pobres e os grupos mais vulneráveis.
Uma nova mudança na política pode ser encontrada em 2019.21 Desde
então, há um entendimento de que se deve privilegiar a expansão da RBC
na cidade e, dessa maneira, as políticas foram reunidas nesta modalidade.
Além disso, o contingente de beneficiários foi ampliado. De início, deixou de
selecionar famílias e passou a selecionar indivíduos. O primeiro movimento
de expansão foi a transferência do benefício da RBC para todas as pessoas
das famílias já atendidas pela política pública, de modo que uma família com
duas pessoas poderia dobrar o valor do benefício, por exemplo. A lógica é que
cada integrante da família passasse a ser beneficiário. O segundo movimen-
to, antes do final de 2019, foi de ampliar o cadastramento de pessoas e famí-
lias no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal. Assim,
a RBC passou a contemplar entre 40 e 50 mil pessoas na cidade, abrangendo
cerca de 1/3 da população local. Ao mesmo tempo, por conta das consequên-
cias da pandemia do Covid-19, a Câmara Municipal aprovou o aumento do
benefício individual de 130 para 300 mumbucas.22
É importante ressaltar que a política maricaense é incondicional, estan-
do de acordo com o recomendado por Van Parijs e Vanderborght (2006). Nes-
se sentido, nenhuma contrapartida ou exigência será imposta, livrando o
cidadão de possíveis arbitrariedades futuras do Estado. Ademais, a transfe-
rência ocorre em dinheiro, permitindo maior liberdade de consumo. Não se
transfere voucher ou um cheque com uso restrito. No caso de políticas como
o Bolsa Família, há maior liberdade de uso, pois o consumo pode ser feito
em qualquer estabelecimento comercial, formal ou informal. Em Maricá, o
uso do dinheiro fica restrito aos estabelecimentos cadastrados no Banco Co-
munitário. Apesar da aparente limitação, a quantidade de estabelecimentos
participantes é elevada, abarcando desde pequenas lojas, mercados e farmá-
21 Fonte: Prefeitura de Maricá. Disponível em: https://www.marica.rj.gov.br/2019/06/28/
programa-cartao-mumbuca-e-aperfeicoado-atraves-do-renda-basica-de-cidadania/ e https://
www.marica.rj.gov.br/2019/05/31/renda-basica-de-cidadania-aumenta-valor-de-beneficio-e-
numero-de-usuarios/

22 Fonte: Prefeitura de Maricá. Disponível em: https://www.marica.rj.gov.br/2020/04/03/


prefeitura-credita-300-mumbucas-para-os-mais-de-40-mil-beneficiarios/

64
JIMMY MEDEIROS • YURI TEIXEIRA PIRES

cias até grandes redes na cidade. Essa amplitude de comércios cadastrados


possibilita um grau elevado de liberdade na escolha do uso do benefício.
Outro aspecto do desenho da política com a literatura especializada é
que o pagamento é efetuado de forma regular, trazendo maior segurança aos
beneficiários, visto que eles sabem que o fluxo de renda será constante, as-
sim como necessidades básicas de consumo mensais, alinhado à constância
do recebimento das suas contas (VAN PARIJS, 2000). Por fim, destacamos o
apontamento feito por Van Parijs e Vanderborght (2006) e Claus Offe (2008)
de que a renda básica universal seria um modelo de política social que dimi-
nuiria a burocracia e facilitaria o acesso ao benefício.
Nesse caso, é interessante analisar a possibilidade de uso dos royalties do
petróleo para financiar a transferência mensal. Pensando na sustentabilida-
de financeira da RBC, a prefeitura já inicia a criação de um fundo soberano
para financiar a transferência mensal no futuro, assim como já ocorre no
Alasca, que possivelmente é experiência mais consolidada e bem-sucedida
do gênero. Afinal, existe uma previsão de que o valor global recebido pela
prefeitura por meio dos royalties cresça até 2036 para, em seguida, iniciar a
tendência de redução no recebimento dessa fonte de recurso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De modo geral, apenas em dois casos ocorreu a implementação de ex-


periências de RBC no Brasil. O caso de Quatinga Velho é bastante restrito, se
considerarmos a cobertura da política e o reduzido valor transferido. Tem
ajudado a estimular a autonomia e a cidadania, porém, dificilmente conse-
guirá transformar as condições de vida das famílias.
O caso de Maricá tem uma cobertura maior, transfere uma quantia con-
siderável e próximo da média paga pelo Bolsa Família. Além disso, passou
a beneficiar indivíduos e não a família, assim como indicado na literatura.
Desde o início, a RBC de Maricá apresenta uma particularidade que é a trans-
ferência de recursos via moeda social. Esta deve ser utilizada apenas em es-
tabelecimentos comerciais da cidade de maneira que promova a economia
local. Ou seja, gera maior bem-estar aos beneficiários e tenta promover a
economia da cidade, repartindo a riqueza da cidade com sua população.
Todavia, sua realização ainda é recente o que dificulta analisar seus re-
sultados.  Isto demanda uma investigação continuada para buscar novos da-
dos a respeito desta política pública, sobretudo, em ganhos para a ampliação

65
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

da cidadania no Brasil. O estudo em curso pela UFF e JFI tende a ampliar o


interesse pelo caso maricaense, dando maior visibilidade a ete tipo de políti-
ca pública e estimulando iniciativas similares em outras cidades brasileiras.
A adoção da política de transferência de renda em âmbito municipal
retoma a o histórico brasileiro na década de 1990. As primeiras Políticas de
Transferência de Renda Condicionada foram conduzidas por prefeituras.
Governos estaduais e federal ingressaram neste campo, posteriormente.
Quem sabe a experiência de Maricá sirva a este propósito para a Renda Bá-
sica. De qualquer forma, a implementação da RB reforço ainda mais a ten-
dência brasileira de ampliação da proteção social por meio de mecanismo de
transferência de renda, assim como orientado pela OIT (2012).

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

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68
ALCANCES E LIMITES DAS AÇÕES DE
COMBATE À POBREZA DA PREFEITURA DE MARICÁ
EM RESPOSTA À CRISE DA COVID-19

Fábio Domingues Waltenberg1

1. INTRODUÇÃO

Entre março e maio de 2020, a exemplo de governos de vários países,


do Brasil e de seus estados e municípios, a prefeitura de Maricá tomou uma
série de ações para tentar mitigar o impacto socioeconômico da Covid-19
sobre a população, sobretudo a mais vulnerável. Este texto faz um balanço,
ainda no calor do momento, dos alcances e dos limites dessas ações, pro-
curando extrair lições para Maricá e, possivelmente, para outras cidades,
estados ou países.
As medidas tomadas nas diversas localidades apoiaram-se em estru-
turas preexistentes de assistência social, seguridade social e regulação de
mercado de trabalho. Em tempos de normalidade, antes da pandemia, assim
como outros países, o Brasil desenvolvera amplo conjunto de instrumentos
para transferências de renda, sobretudo no âmbito federal, mas também em
muitos estados e municípios. Para cada transferência, há uma justificativa
diferente, um critério de elegibilidade diferente, contrapartidas (ou “con-
dicionalidades”) diferentes, um valor diferente. Além disso, cada benefício
tem uma operacionalização específica, apoiada em cadastros próprios, e é
gerido por ministério, secretaria ou subsecretaria diferente.
1 Fábio Waltenberg é professor associado do Departamento de Economia, Universidade Federal
Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail: fdwaltenberg@id.uff.br. O autor agradece, por sua
colaboração fundamental, a Jéssica Lago da Silva e Rodrigo Carvalho da Silva, graduandos em
Economia na Universidade Federal Fluminense (UFF). Jéssica contou com bolsa de iniciação
científica do CNPq, no projeto número IC190760/UFF. O autor agradece também a toda a equipe da
UFF envolvida na avaliação do programa Renda Básica de Cidadania de Maricá.

69
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

O enquadramento conceitual a que recorremos para efetuar nossa


análise apoia-se em um já longo debate sobre o melhor desenho de po-
líticas assistenciais. Todas as variantes de políticas do tipo focalizadas
apresentam dificuldades – conceituais, práticas e financeiras –, envol-
vendo obstáculos na identificação e registro de beneficiários, além de
efeitos colaterais como estigma ou armadilhas (da pobreza, do desem-
prego, da informalidade), ineficiência horizontal (nem todos os pobres
são beneficiados) e vertical (não pobres acabam por ser beneficiados) e
ressentimentos diversos. Como se verá adiante, tais dificuldades inten-
sificam-se diante de uma crise.
Um caminho alternativo, explorado em termos teóricos, mas ainda
pouco testado, são as políticas de transferências universais, que preco-
nizam que os benefícios sejam distribuídos a todos os cidadãos, indivi-
dualmente, sem verificação de renda e sem exigência de contrapartidas.
Com a pandemia do coronavírus, devastadora no plano da saúde e no
plano socioeconômico, e diante das dificuldades que permeiam políticas
focalizadas, as transferências universais ganharam espaço no debate.
Maricá é um excelente estudo de caso, por algumas razões. Primei-
ro, é uma prefeitura com boa dotação orçamentária, o que lhe dá graus
de liberdade para ações emergenciais. Segundo, assim como todos os
governos espalhados pelo mundo, a prefeitura de Maricá foi obrigada
a tomar medidas de forma tempestiva, em meio à crise, mas contan-
do com uma vantagem determinante: a existência de uma estrutura de
transferências de renda já bem azeitada, viabilizada pela ação de um
banco comunitário. Terceiro, Maricá conta com uma política única no
mundo todo, a Renda Básica de Cidadania, distribuída por meio do car-
tão Mumbuca, a qual, embora não seja efetivamente universal – visto
que alcança cerca de 25% da população –, compartilha duas caracte-
rísticas importantes com as propostas de renda básica universal: a in-
condicionalidade e a individualidade. Dessa forma, é uma política sui
generis, por ser híbrida, a meio caminho entre aquelas de tradição fo-
calizadora e as universalistas. Por fim, é interessante observar Maricá
porque, enquanto o sistema da Renda Básica de Cidadania mostrou-se
prático ao viabilizar apoios emergenciais, dificuldades maiores foram
enfrentadas ao se tentar beneficiar outros públicos, como autônomos,
microempreendedores e informais.

70
FÁBIO DOMINGUES WALTENBERG

2. TRANSFERÊNCIAS DE RENDA FOCALIZADAS E


UNIVERSAIS: DESAFIOS E DILEMAS

Focalização e seus dilemas

Em tempos normais – sem pandemia –, transferências de natureza


assistencial costumam destinar-se a certos grupos da população: idosos
sem aposentadoria ou com aposentadoria em valor insuficiente para as-
segurar sua subsistência, indivíduos em idade laboral sem renda ou com
renda inferior à necessária para prover sustento à sua família e famílias
com membros dependentes de cuidados (crianças, enfermos e idosos). A
proporção da população coberta, a modalidade e o valor destinado a cada
domicílio dependem de um sem-número de parâmetros demográficos,
econômicos, sociais, bem como da estrutura de proteção social. As famílias
abrigam muitos dependentes? Qual é a proporção de trabalhadores atuan-
do no mercado formal, cobertos por benefícios previdenciários e auxílios
diversos, com relação aos que estão no informal, desprovidos de tudo isso?
Quão baixos são os salários dos trabalhadores que se encontram na base da
distribuição salarial? Há uma boa oferta de serviços públicos, gratuitos e de
boa qualidade (creches, escolas, saúde, cuidados para idosos)?
Assim como nos estados de bem-estar social do mundo desenvolvi-
do, também no Brasil criou-se um amplo conjunto de instrumentos para
transferências assistenciais, sobretudo, mas não apenas, no âmbito do go-
verno federal: benefícios assistenciais não contributivos a idosos pobres
ou a adultos não aptos ao trabalho (como o BPC), benefícios assistenciais a
adultos em idade laboral, aptos ao trabalho e pobres (como o Bolsa Família),
créditos tributários ou complementos salariais a trabalhadores formais de
baixa renda (como o Abono Salarial), gastos tributários (como deduções no
imposto de renda para despesas com saúde e educação), benefícios com uso
predeterminado (como vales-alimentação), entre outros. Para cada um de-
les, há uma justificativa diferente, um critério de elegibilidade diferente,
contrapartidas (ou “condicionalidades”) diferentes, um valor diferente.
Por essas e outras razões, a imagem escolhida por Soares et al. (2019) para
descrever o sistema assistencial brasileiro é o de uma “colcha de retalhos”.
Mas podemos acrescentar: cada benefício tem uma operacionalização es-
pecífica, apoiada em cadastros próprios, cada um dos quais geridos por mi-
nistério, secretaria ou subsecretaria diferente.

71
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Dentro dessa lógica de benefícios assistenciais focalizados, são três os


principais critérios para avaliar a qualidade de um programa (BARR, 2012):
(1) se o valor do benefício é suficiente para amenizar a pobreza; (2) se o custo
é bem controlado (somando desembolso com os benefícios em si e os custos
de administração e implementação do programa); (3) se é bem focalizado no
público-alvo. Dilemas são inevitáveis. Por exemplo, aumentar o valor se ali-
nha com o primeiro critério, mas prejudica o segundo e o terceiro, pois um
benefício mais interessante atrairá mais gente, inclusive fora do público-al-
vo, e exigirá esforços – isto é, gastos – para obter informações, monitorar,
fiscalizar e implementar.
Esses dilemas conduzem, há décadas, a uma discussão em torno
do melhor desenho de políticas focalizadas, com destaque para três ca-
tegorias (BESLEY; KANBUR, 1993; BARR, 2012): (a) “focalização clássica”,
que consiste em transferir recursos apenas aos comprovadamente pobres;
(b) focalização por indicadores, que beneficia pessoas que apresentam
características sabidamente correlacionadas com a pobreza – ainda que
não perfeitamente correlacionadas –, como a presença ou a quantidade de
crianças no domicílio; e (c) autofocalização, apoiada em valores concedidos
automaticamente, e às vezes até inadvertidamente, como no momento do
consumo (desoneração da cesta básica), do pagamento de impostos (dedu-
ções no imposto de renda), ou pela situação no mercado de trabalho (Abono
Salarial aos formais de baixa renda).
Há desvantagens associadas a cada uma delas. Contra a focaliza-
ção clássica: não é simples nem barato diferenciar pobres de não pobres;
pode ser contraproducente estabelecer fronteira rígida entre elegíveis
e não elegíveis com base na renda, gerando estigma ou armadilhas (da
pobreza, do desemprego, da informalidade). Contra a focalização por
indicadores e a autofocalização: sempre haverá erros, com benefícios
transbordando para fora da população-alvo (ineficiência vertical) e com
exclusão de parte da população-alvo (ineficiência horizontal). Contra
focalização de qualquer tipo: sentimento de injustiça ou de hostilidade
por parte dos não beneficiários.

A alternativa da universalidade

Um caminho alternativo, bastante explorado em termos teóricos há


muitos anos, ainda foi pouco testado na prática: as políticas de transferên-

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FÁBIO DOMINGUES WALTENBERG

cias universais, que preconizam que os benefícios sejam distribuídos a to-


dos os cidadãos, individualmente, sem verificação de renda e sem exigência
de contrapartidas (VAN PARIJS; VANDERBORGHT, 2017). No Brasil, a Lei n.
10.835/2004 criou a Renda Básica de Cidadania, que nunca chegou a ser im-
plementada de fato.
Há diversas razões, de ordem filosófica, normativa, econômica ou
social, entre tantas outras, mobilizadas pelos defensores das transferên-
cias universais frente às focalizadas. Elas incluem distribuição da riqueza
nacional a todos, dinamização da economia, mais segurança econômi-
ca aos cidadãos, maior poder de barganha para trabalhadores, funcionar
como uma remuneração a trabalhos hoje não remunerados (como o do-
méstico ou o de cuidados) e aumento da demanda por serviços de educação,
saúde e cuidados, com consequente aumento da participação de mulheres
no mercado de trabalho.
No terreno das críticas, há temores como inflação, desincentivo ao
trabalho, tendência de redução de salários, se a renda concedida pelo poder
público simplesmente substituir parte do que seria a renda laboral de mer-
cado, e incentivos à transição da formalidade para a informalidade – além,
é claro, dos altos níveis de impostos necessários para a implementação de
uma Renda Básica de Cidadania de valor razoável. Uma discussão completa
de vantagens e desvantagens de transferências universais encontra-se em
Van Parijs e Vanderborght (2017).
Limitando-nos aqui a um contraponto aos limites das políticas fo-
calizadas descritos acima, pode-se dizer que, ao não ser mais necessário
diferenciar elegíveis de não elegíveis (a não ser não residentes), políticas
de transferência universais reduziriam custos de administração, por meio
de esforços e gastos menores com obtenção de informações, monitora-
mento, fiscalização e operacionalização das transferências. Seriam de-
sarmadas as armadilhas da pobreza, do desemprego ou da informalidade
– com benefício universal, não há dilema entre a opção de manter-se po-
bre, desempregado ou informal com benefício, e a opção de tornar-se não
pobre (por quanto tempo?), empregado (por quanto tempo?) e formal (por
quanto tempo?), mas sem benefício. Em outras palavras, deixaria de existir
qualquer desincentivo a que uma pessoa transite para uma faixa de renda
laboral mais elevada, do desemprego ao emprego, ou da informalidade à
formalidade, meramente pelo temor da insegurança econômica associada
à perda de um benefício.

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

3. MEDIDAS DE REAÇÃO À CRISE SOCIOECONÔMICA


PROVOCADA PELA COVID-19

Antes de descrevermos e analisarmos as medidas emergenciais adota-


das em Maricá para proteger seus trabalhadores e sua população mais vul-
nerável, apresenta-se uma seleção de medidas emergenciais tomadas no
Brasil. O já longo debate sobre desenho de políticas focalizadas mencionado
na seção anterior torna-se útil para compreender e avaliar as medidas emer-
genciais tomadas no calor da crise socioeconômica.
As políticas universais têm deixado de ser vistas como tema excêntrico
e deslocado da realidade, passando a ser discutidas em fóruns acadêmicos e
políticos convencionais. Institutos de pesquisa internacionais de vanguarda
posicionam o tema no centro de sua atenção, como, por exemplo, o Jain Fa-
mily Institute, em Nova York. Partidos políticos europeus cada vez mais as
integram a suas agendas. Por exemplo, nas eleições gerais do Reino Unido,
em 2019, dois dos partidos mais importantes o fizeram: o Trabalhista e o
Verde. Nos Estados Unidos, Andrew Yang, candidato nas prévias democratas,
elegeu a Renda Básica Universal como a principal política de sua candidatu-
ra, popularizando o tema de forma inédita.
Entretanto, foi com a pandemia do coronavírus, devastadora não ape-
nas no plano da saúde, mas também no plano socioeconômico, que transfe-
rências universais ganharam definitivamente lugar privilegiado no debate.
Adotadas ou não, propostas de rendas básicas emergenciais foram colocadas
sobre a mesa em diversos países do mundo, ao menos como uma possibili-
dade, deslocando o debate e, em certa medida, a prática da lógica ainda pre-
dominante entre formuladores de políticas, que é a da focalização, para mais
perto da lógica da universalidade.
Por limitações de espaço, não será possível analisar neste texto as rea-
ções tomadas ao redor do mundo. O foco será restrito ao Brasil.

3.1. Medidas tomadas no nível nacional

No Brasil, medidas de garantia de renda e emprego foram tomadas pelo


Congresso e pelos governos federal, estaduais e municipais. A pressão da
sociedade civil foi importante. Um exemplo foi a campanha por uma renda
emergencial, liderada pela Rede Brasileira de Renda Básica, endossada por
cerca de 160 instituições não governamentais e apoiada por mais de meio mi-

74
FÁBIO DOMINGUES WALTENBERG

lhão de pessoas. A campanha colaborou para transformar a proposta anun-


ciada pelo governo federal – um voucher de 200 reais – em uma Renda Básica
Emergencial de pelo menos três meses, de 600 reais por adulto (até dois por
família), visando trabalhadores informais em situação de vulnerabilidade,
acompanhada de ampliação do Programa Bolsa Família para mais 1,2 milhão
de famílias. A pressão também serviu para o aperfeiçoamento no Senado, ao
incluir todos os tipos de famílias monoparentais, retirar empecilhos obser-
vados no início da implementação, como a exigência de CPFs regularizados,
limites de renda defasados ou a possibilidade de bancos deduzirem dívidas
anteriores do valor recebido.
Além da Renda Básica Emergencial, outras medidas de garantia de ren-
da foram implementadas no plano nacional. Abriu-se uma primeira janela,
até 31 de março, para saques de até 998 reais do FGTS por trabalhador que
possuísse saldo. Ação semelhante, a partir de 15 de junho, liberaria novo sa-
que de 1.045 reais do FGTS. Outras medidas anunciadas foram a concessão de
aposentadorias a pessoas que estão na fila há meses e a antecipação do déci-
mo-terceiro de aposentados, pensionistas e beneficiários do auxílio-doença.
A Medida Provisória n. 936/2020 tornou possível uma redução proporcio-
nal da jornada e salários ou a suspensão temporária do contrato de trabalho e
pagamento de benefício emergencial. As reduções poderiam ser de 25%, 50%
ou 70%, por três meses, com possibilidade de outros percentuais em acordos
com os trabalhadores. O governo complementaria a renda dos empregados,
com base no valor do seguro-desemprego a que teriam direito: por exemplo,
diante de um corte salarial de 50%, o governo pagaria ao trabalhador 50% do
seguro-desemprego. Já as suspensões de contratos seriam de dois meses, e o
governo pagaria total ou parcialmente o seguro-desemprego, a depender do
faturamento da empresa, e a renda de reposição não seria menor que um sa-
lário mínimo. A MP tem muitos defeitos, como pouca proteção ao emprego,
fragilização da posição do empregado, não permissão de acordo individual e
redução ou suspensão de recolhimento de contribuição patronal ao INSS.
Demitidos podem solicitar o seguro-desemprego, mas o recebimento do
benefício ocorre, na melhor das hipóteses, cerca de 40 dias após a demissão.
Como o seguro-desemprego varia de 1.045 a R1.813,02 reais, não é certo que
o empregado demitido mantenha sua renda mensal habitual. Nos três casos
– demissão, redução e suspensão –, não são desprezíveis as possíveis redu-
ções de renda desses trabalhadores, cujos rendimentos já são baixos – tais
cortes são particularmente preocupantes no momento em que crianças não

75
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

recebem merenda em escolas fechadas, aumentam os gastos domésticos,


em virtude do maior tempo passado em casa, e surgem despesas extras com
produtos de higiene e saúde.

3.2. Medidas tomadas por estados e municípios selecionados

Entre os estados brasileiros, destacam-se Paraná e Maranhão. O primei-


ro lançou o programa Nossa Gente Paraná para redução de pobreza, benefi-
ciando cerca de 350 mil famílias. Segundo o governo, o programa abrange os
estratos inferiores de renda por um período de dois anos. O programa não é
focado somente em renda, mas proporciona interseção com projetos de ha-
bitação, saúde e educação. O estado alocou em torno de 300 milhões de reais
do Fundo Estadual de Combate à Pobreza (FECOP) a famílias vulneráveis por
um período de cinco meses. Usou-se o Índice de Vulnerabilidade Social das
Famílias do Paraná (IVF-PR) como instrumento para analisar e comparar o
grau de vulnerabilidade entre famílias com perfis socioeconômicos seme-
lhantes. O valor distribuído por meio do Cartão Comida Boa é baixo: 50 reais
mensais. Beneficiários do Programa Bolsa Família (PBF) e do Nossa Gente
têm direito ao benefício, assim como outras famílias inscritas no Cadastro
Único (CadÚnico).
O Maranhão criou a plataforma Maranhão Profissionalizado, cujo foco
é capacitação e qualificação profissional durante a quarentena. O objetivo é
gerar renda e inserção no mercado de trabalho formal para aqueles que hoje
estão desempregados ou na informalidade. O programa oferece dez cursos
on-line gratuitos, tais como os de cuidador de idosos, serigrafia e panifica-
ção. Trata-se de uma política ativa de emprego, o que é importante para um
estado que encerrou o primeiro trimestre de 2020 com taxa de desemprego
de 12,1%, segundo a PNAD Contínua. Contudo, a proposta poderá esbarrar
em obstáculos para sua operacionalização, visto que o estado está empatado
com o Piauí na última colocação nacional na proporção de domicílios com
acesso à internet, registrando índice de apenas 61,4%.
Entre os municípios, além de Maricá, tema da seção seguinte, desta-
cam-se Niterói e Salvador. Niterói criou o programa Busca Ativa, que des-
tina um benefício mensal de R$ 500, por três meses, a trabalhadores infor-
mais como vendedores ambulantes e artesãos. O recurso é transferido por
um cartão pré-pago. Para receber, era necessário cadastrar-se na Secretaria
Municipal de Ordem Pública ou na Secretaria de Cultura até o dia 31 de março.

76
FÁBIO DOMINGUES WALTENBERG

A prefeitura recorreu ao superávit de royalties referente a 2019 como forma de


financiar o programa, com custo aproximado de 3 milhões de reais. Houve
ampliação do grupo de beneficiários a fim de incluir motoristas de transpor-
te remunerado privado individual de passageiros. Outra medida foi a criação
de uma Renda Básica Temporária no valor de 500 reais por família, duran-
te três meses, a famílias inscritas no Cadastro Único federal ou àquelas nas
quais houvesse no mínimo um estudante matriculado na rede municipal.
Em Salvador, a prefeitura criou o programa Salvador para Todos, que
oferece um vale de 270 reais por três meses, dos quais 200 são destinados
a alimentação e 70 a auxílio na compra de gás de cozinha. Ao todo, 20 mil
pessoas estão aptas a receber o auxílio, incluindo informais, após cadastra-
mento na Secretaria de Ordem Pública; contudo, beneficiários do Bolsa Fa-
mília não são elegíveis. Motoristas de táxis e aplicativos com idade entre 40
e 60 anos têm direito ao benefício, em parcela única de 270 reais. O governo
municipal concede ainda cestas básicas para famílias com renda familiar
mensal per capita de até 89 reais; todavia, beneficiários do Programa Bolsa
Família que recebem valor superior a 100 reais não são elegíveis. O benefício
contempla idosos vulneráveis e que constam como único residente no Ca-
dastro Único – medida de cunho assistencial e com focalização restrita a um
grupo social.

4. PROGRAMA RENDA BÁSICA DE CIDADANIA E


RESPOSTAS À CRISE EM MARICÁ

4.1. Desenvolvimento do Renda Básica de Cidadania antes da pandemia

A política aqui estudada é fruto de evoluções graduais no programa de


transferência de renda da prefeitura de Maricá, que, após sua mudança mais
significativa em 2019, se transformou no maior programa de Renda Básica
da América Latina (FERREIRA; KATZ, 2020). Criados em junho de 2013 atra-
vés da Lei n. 2.448/13, a Moeda Social Mumbuca e o Banco Comunitário Po-
pular, denominado Banco Mumbuca, tinham como objetivo o combate a de-
sigualdades sociais e o fomento ao desenvolvimento econômico e social das
comunidades, buscando erradicar a pobreza e gerar emprego e renda para as
camadas carentes do município.
O projeto previa uma política de transferência de renda para a população
mais pobre realizada através de um cartão de débito contendo 70 mumbu-

77
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

cas (70 reais). Para a época, diversas eram as restrições e condicionalidades


a serem seguidas pelas famílias para participar do programa, como com-
provação de vacinação dos dependentes de zero a seis anos e matrícula dos
dependentes nas redes estadual ou municipal do município. Além disso, para
se tornar beneficiária, a família deveria ter renda de até um salário mínimo
(JOM 427, 2013). Bem distante de sua estrutura atual, a política exigia condi-
cionalidades, destinava o benefício a famílias e não a indivíduos e apresen-
tava baixa cobertura populacional.
A fase inicial da política foi marcada por diversas etapas de cadastra-
mento, com postos espalhados pela cidade, onde os possíveis beneficiários
deveriam apresentar sua documentação. Foram realizadas audiências públi-
cas que permitiram divulgação e aperfeiçoamento do programa, colaboran-
do também para a aceitação da moeda. Na primeira semana de setembro de
2013, a nova moeda já contava com a adesão de 1.528 comerciantes (MOEDA
SOCIAL, 2013). Ao final de 2014, foi realizada uma pesquisa de campo a fim
de atualizar informações sobre as famílias cadastradas, e aproveitou-se a
ocasião para serem distribuídos cartões com o novo valor de 85 mumbucas
(BOLSA MUMBUCA, 2014).
Apenas em 2015 foi instituída a Renda Básica de Cidadania de Maricá,
como direito de todos os cidadãos que comprovassem nascimento em Maricá
e residentes há no mínimo um ano; ou brasileiros não nascidos em Maricá e
residentes há no mínimo dois anos; ou ainda estrangeiros residentes há pelo
menos cinco anos. Independentemente de sua situação socioeconômica, es-
ses cidadãos passaram a receber um benefício de 10 mumbucas por mês. A
comprovação se fazia através da certidão de nascimento, conta de luz, do-
micílio eleitoral em Maricá e outros documentos. No início, a implementação
conferiria prioridade aos beneficiários de programas sociais no município, e
a população seria incluída gradativamente. 
Com o Decreto n. 125 de dezembro de 2015, instituindo o Programa So-
cial Renda Mínima Mumbuca, mais pessoas passam a ser atendidas pelas
políticas de proteção social, tanto pela expansão do critério renda, como
pela eliminação de muitas condicionalidades. O programa passou a ser
composto por três modalidades com objetivos e públicos diferentes, aco-
lhendo famílias com renda familiar mensal de até três salários mínimos.
Apesar dos avanços, ainda se encontrava distante do ideário da Renda
Básica, em virtude das condicionalidades exigidas. Cerca de quatro anos
depois, em junho de 2019, os três programas existentes foram absorvidos

78
FÁBIO DOMINGUES WALTENBERG

pelo Programa de Renda Básica de Cidadania, instituída pela Lei n. 2.869. O


benefício no valor de 130 mumbucas (130 reais) mensais destina-se a pes-
soas com renda familiar mensal de até três salários mínimos que morem na
cidade há pelo menos três anos.
Redesenhado diversas vezes, em termos de cobertura, valor e regras, o
benefício se tornou o que é hoje, cumprindo quase plenamente dois dos três
princípios idealizados por uma política de Renda Básica: incondicionali-
dade e individualidade. Desde dezembro de 2019, mais de 42 mil pessoas
recebem o benefício, e a meta é de alcançar todos os habitantes até 2022
(CIDADE DO RJ, 2020).
Apesar de não exigir nenhuma condicionalidade, o programa restringe
o uso do auxílio aos limites territoriais da cidade. O cartão de débito é aceito
por cerca de 3 mil estabelecimentos credenciados (CIDADE DO RJ, 2020) – for-
mais ou informais –, possibilitando que o recurso circule exclusivamente no
município, contribuindo para o desenvolvimento local. A injeção de recursos
via Renda Básica de Cidadania a dezenas de milhares de famílias maricaenses
lhes dá mais espaço orçamentário para gastar outros componentes de sua ren-
da familiar – tais como salários, benefícios previdenciários ou assistenciais
do governo federal, pagos em real e com circulação irrestrita – no município,
mas também fora dele, de modo que não se pode descartar um transborda-
mento dos efeitos positivos do programa para além das fronteiras municipais.
Um avanço advém do fato de o benefício ter se tornado individual em
2019. Antes, com benefício concedido apenas ao responsável familiar, as fa-
mílias beneficiárias tinham direito a 130 mumbucas para serem divididas
entre todos os seus membros, o que tornava o benefício insuficiente para a
devida eliminação da pobreza. Atualmente, cada integrante da família tem
direito ao benefício de 130 mumbucas, possibilitando que uma família com
quatro pessoas e que receba outro benefício governamental como o Bolsa
Família acumule cerca de 700 reais mensais, mais de meio salário mínimo
(FERREIRA; KATZ, 2020). O valor de 130 mumbucas por pessoa é significa-
tivo, levando em consideração que uma linha da pobreza per capita usual é
atualmente de 178 reais por mês (FERREIRA; KATZ, 2020).
A política de Renda Básica de Cidadania de Maricá apresenta elementos
importantes, que a aproximam de uma política de renda básica preconizada
na literatura, além de apresentar elementos pioneiros, como o fato de o pa-
gamento ser feito por meio de um cartão de um banco comunitário, para uso
exclusivo no município.

79
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

4.2. Resposta de Maricá à crise provocada pela pandemia

O cenário pandêmico dos últimos meses exigia respostas rápidas de


países e de seus entes subnacionais, e Maricá foi capaz de mobilizar seu am-
plo sistema de proteção social, construído nos últimos anos, para mitigar os
efeitos negativos da pandemia para seus habitantes.
No dia 29 de março de 2020, a prefeitura de Maricá confirmou o primeiro
caso de coronavírus na cidade. Um mês depois, no dia 29 de abril, a cidade
contava com 60 casos confirmados, 108 suspeitos e oito óbitos. No entanto,
antes mesmo do primeiro caso confirmado no município, a prefeitura passou
a adotar diversas medidas para proteger sua população, como fechamento de
escolas, restrição de funcionamento de comércios e suspensão de atividades
não essenciais (SECRETARIA, 2020; BOLETIM 44, 2020; BOLETIM 1, 2020).
No dia 18 de março, declarou-se estado de emergência em saúde pública
no município de Maricá. O Decreto n. 499 autorizou a antecipação do Abono
Natalino de beneficiários do Programa de Renda Básica de Cidadania. A medi-
da prometia injetar mais de 5,4 milhões de reais na economia local; em ape-
nas uma semana, no dia 25 de março, os créditos já estavam disponíveis para
os beneficiários (BOLETIM 6, 2020). O Decreto garantia ainda o descreden-
ciamento da Rede Mumbuca de estabelecimentos flagrados praticando preços
abusivos. Também seriam distribuídas, por três meses, cestas básicas para
famílias de alunos da rede pública que, diante da suspensão das aulas, ficaram
sem acesso à alimentação oferecida nas escolas (PREFEITURA, 2020).
No dia 21 de março, a prefeitura anunciou um pacote de 80 milhões reais
visando fomentar a economia do município e reduzir os efeitos negativos da
crise. Prevista pelo pacote, a Lei n. 2.921 instituiu o aumento do crédito do
cartão mumbuca de 130 para 300 mumbucas (300 reais) por três meses (BO-
LETIM 18, 2020). A exemplo de algumas experiências internacionais, como a
da Colômbia, o uso de benefícios já existentes, acompanhado do aumento de
seu valor, contribuiu para prover mais recursos à população mais pobre no
contexto de crise. O pacote também contava com uma linha de crédito para
empresários da cidade, que poderia chegar a 50 mil reais, com pagamento
previsto apenas para janeiro de 2021. Por fim, a prefeitura adiou a cobrança
do ISS fixo dos comerciantes e do IPTU dos idosos (acima de 60 anos) até que
a situação fosse normalizada. Além de todas as políticas econômicas ado-
tadas, o governo utilizou o programa Renda Básica de Cidadania como ins-
trumento para reforçar o isolamento social e, em 13/4, através do Decreto n.

80
FÁBIO DOMINGUES WALTENBERG

520, determinou que a desobediência à suspensão das atividades resultaria


na perda dos benefícios por um ano – medida de difícil implementação e que
destoa do elemento de incondicionalidade da Renda Básica de Cidadania.
Pode-se comparar a ampliação do valor da Renda Básica como uma me-
dida emergencial com políticas adotadas em outras cidades, como Salva-
dor, que optou pela distribuição de vales. No caso maricaense, garante-se
liberdade na escolha de qual cesta de bens ou serviços consumir. Os recursos
podem custear a compra de alimentos, evidentemente, mas também de pro-
dutos de higiene e limpeza, vestuário, serviços de barbearia ou de manicure,
entre outros. Dessa forma, permite-se maior circulação monetária na moe-
da mumbuca, beneficiando empreendedores locais, sobretudo os de menor
porte. No modelo soteropolitano, o uso é restrito a determinada cesta de
bens – gás de cozinha e alimentos da cesta básica –, de forma que o impacto
no aumento, ainda que marginal, da demanda é estritamente setorizado.
Em que pesem os acertos propiciados pela estrutura de Renda Básica de
Cidadania, a prefeitura não contava com uma política destinada exclusiva-
mente a trabalhadores informais. O município precisou criar, através da Lei
n. 2.920, de 24 de março, um Programa de Amparo ao Trabalhador (PAT). O
programa previa o pagamento em mumbucas, durante três meses, e passível
de prorrogação por mais três meses, de um salário mínimo (1.045 reais), para
cerca de 6 mil trabalhadores autônomos, profissionais liberais e informais.
Para receber o benefício, o trabalhador teria de morar no município e com-
provar renda familiar mensal de até 5 mil reais. Além disso, deveria compro-
var que suas atividades foram afetadas. Ao se cadastrar on-line, o trabalhador
deveria anexar documentação que comprovasse sua atividade no município,
como autorização de exercício de atividade remuneratória, cadastro do mi-
croempreendedor individual, entre outros. Foi proibida a concessão do bene-
fício para funcionários públicos e profissionais que já possuíssem renda além
da atividade afetada. Além disso, o benefício não seria concedido a mais de um
membro da família ou para aqueles que recebessem seguro-desemprego. O
tempo previsto para análise do cadastro do informal era de aproximadamente
quinze dias, e, em caso de aprovação, uma conta seria automaticamente aber-
ta no Banco Mumbuca. Por fim, o volume de benefícios a serem concedidos
seria de 12 mil, havendo ordem de prioridade na concessão (AUXÍLIO, 2020).
No entanto, esse valor se revelou subestimado, visto que as solicitações su-
peraram a estimativa inicial em mais do que o dobro, levando a prefeitura a
ampliar o programa e adotar o teto de 26 mil benefícios (PROGRAMA, 2020).

81
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

5. ALCANCES E LIMITES DA RESPOSTA DE


MARICÁ, E OBSERVAÇÕES PARA O FUTURO

A pandemia do coronavírus disseminou uma crise sanitária de propor-


ções inéditas. Contudo, também provocou dificuldades socioeconômicas de
dimensão incalculável já no momento em que escrevemos este texto, que
certamente se revelarão muito mais profundas no futuro, senão devastado-
ras. Países e entes subnacionais mundo afora foram levados a adotar medi-
das emergenciais de proteção da renda e do emprego, a fim de amenizar os
efeitos mais dramáticos da crise, sobretudo para as populações mais vul-
neráveis. Maricá não foi exceção; ao contrário, num curto espaço de tempo
tomou uma série de medidas bastante ousadas.
A maioria dos países, estados e municípios valeu-se de estruturas e
programas assistenciais vigentes, cuja lógica é de focalização. Valores de
benefícios pagos aos beneficiários foram elevados, o que está de acordo
com o primeiro critério de avaliação de políticas focalizadas. Quando havia
informação disponível em cadastros, a cobertura foi expandida para in-
cluir no rol de beneficiários pessoas antes não beneficiárias, mas com ca-
racterísticas de vulnerabilidade.
Esse voluntarismo de governos nacionais e subnacionais esbarrou em
dificuldades práticas, decorrentes da própria lógica de focalização. Muita
energia foi gasta – isto é, tempo e dinheiro – para identificar beneficiários e
para separar elegíveis de não elegíveis. Um exemplo disso é a dificuldade en-
frentada pelo governo do Equador, um dos países mais duramente atingidos
pela pandemia, para identificar potenciais beneficiários.
Além disso, critérios muitas vezes arbitrários foram impostos. Por
exemplo, que sentido faz conceder benefícios a famílias com crianças de até
doze anos, mas não a famílias com crianças de treze anos ou mais, como se
observou em Portugal? Decisões como essas podem cultivar ressentimentos
com relação a políticas assistenciais, minar apoio popular a políticas de re-
distribuição de renda e enfraquecer coalizões políticas que as implementam.
Observou-se também uma imensa dificuldade para fazer os benefícios
chegarem à ponta, às mãos dos beneficiários. Exemplo claro disso foram os
inúmeros obstáculos enfrentados por pessoas que cumpriam todos os requi-
sitos para receber a Renda Básica Emergencial do governo federal brasilei-
ro. Houve problemas para acessar o aplicativo, para análise das solicitações,
para transferência do dinheiro aos bancos, negação de pedidos a elegíveis e

82
FÁBIO DOMINGUES WALTENBERG

formação de filas justamente no período em que a Organização Mundial da


Saúde recomendava isolamento.
Por fim, cabe dizer que, apesar de serem louváveis os esforços para pro-
teger os mais vulneráveis mundo afora, é provável que muitas pessoas ine-
legíveis no mês de março, abril ou maio aos programas assistenciais – por
ainda manterem emprego formal, por exemplo – estejam desempregadas já
em junho, julho ou agosto, sem que os beneficiados pelas primeiras medidas
estejam em condições de deixar de ser assistidos. Em tal cenário, bastante
plausível, os governos precisarão pensar numa segunda onda de medidas de
proteção, ampliando a parcela beneficiada e flexibilizando ainda mais a na-
tureza focalizada dessas políticas.
A prefeitura de Maricá fez um bom trabalho ao combinar políticas de
naturezas diferentes, com uma grande rapidez na resposta, alinhando-se às
melhores práticas internacionais. Para isso, contribuíram fatores destaca-
dos na introdução deste trabalho, como uma boa disponibilidade orçamen-
tária. Mas uma vantagem foi determinante e precisa ser novamente desta-
cada: a existência de uma estrutura previamente montada de transferências
de renda, viabilizada pela ação de um banco comunitário. Só foi necessá-
rio tomar a decisão política de incrementar o valor dos benefícios, medida
implementada em poucos dias e sem registro de maiores dificuldades. Essa
facilidade de implementação confirma as impressões de um dos mais im-
portantes proponentes de políticas universais, o filósofo belga Philippe Van
Parijs, que, em entrevista recente, destacou que as dificuldades enfrentadas
na implementação de medidas assistenciais emergenciais:

“[...] aumentam nossa consciência de quão mais bem-


equipadas nossas sociedades e nossas economias
estariam para enfrentar desafios como esse se houvesse
uma renda básica incondicional permanente. Se fosse
esse o caso, não haveria pessoas sem renda, aguardando
a implementação de esquemas ad hoc ou tentando
descobrir como poderiam acessar programas existentes
que nunca sonharam em precisar.”2

A Renda Básica de Cidadania de Maricá compartilha com as propostas


teóricas de renda básica duas características importantes: a incondiciona-

2 Disponível em: https://www.brusselstimes.com/all-news/magazine/104273/five-questions-to-


philosopher-philippe-van-parijs-on-basic-income-and-the-coronavirus/. Acesso em 01 de maio
de 2020. Tradução nossa.

83
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

lidade e a individualidade (embora esta última não seja plena, como vere-
mos adiante). Entretanto, ela não é efetivamente universal, visto que alcan-
ça pouco mais de 42 mil pessoas, ou cerca de 25% da população de Maricá.
Como se trata de pessoas inscritas no Cadastro Único do governo federal, é
quase certo que são todas de baixa renda, socialmente vulneráveis, de modo
que a política proporciona bons resultados na focalização vertical. Contudo,
há limitações. Primeiro, sabe-se que há ineficiência horizontal, uma vez que
há cerca de 60 mil maricaenses no Cadastro Único, mas 30% deles não estão
inscritos no programa Renda Básica de Cidadania – ou seja, uma parte da
população vulnerável não está protegida de modo geral, e não pôde ser di-
retamente beneficiada durante a pandemia. Quanto mais longa e aguda for
a crise, maiores serão as consequências negativas dessa desproteção. Além
disso, pode-se supor que, entre os 100 mil maricaenses não inscritos no ca-
dastro, muitos estejam passando por dificuldades neste momento.
Enquanto o sistema da Renda Básica de Cidadania se mostrou muito
prático para a viabilização de apoio emergencial, dificuldades foram en-
frentadas em outras áreas, como na de políticas destinadas a trabalhadores
informais e microempreendedores. Foi necessário criar cadastros em cima
da hora, o que não é o procedimento ideal de forma geral, e menos ainda no
meio de uma crise sanitária tão grave quanto a que estamos vivendo.
A partir do que foi observado, assim que terminada a fase aguda da cri-
se do coronavírus, seria desejável que a prefeitura expandisse o cadastro
usado para concessão da Renda Básica de Cidadania tanto quanto possível,
de preferência abrangendo toda a população, mesmo que inicialmente nem
todos possam receber o benefício – por exemplo, por limitações de ordem
orçamentária ou por ser ano eleitoral. Essa expansão do cadastramento seria
um passo importante para superar dificuldades associadas a políticas foca-
lizadas. Idealmente, esse Cadastro Único Municipal conteria um painel de
informações bastante completo sobre todos os maricaenses, o qual poderia
ser mobilizado por diferentes secretarias para diferentes fins.
A Renda Básica de Cidadania de Maricá já é incondicional, como pre-
coniza a literatura, e deve se manter assim; mas ainda não é universal nem
plenamente individualizada. Quanto à individualização, assim que possível,
a prefeitura poderia caminhar no sentido de fornecer um cartão individual
a cada beneficiário e não mais disponibilizar os benefícios de uma família
num único cartão – mudança que seria importante para assegurar o maior
grau possível de autonomia e liberdade individual. Recursos destinados a

84
FÁBIO DOMINGUES WALTENBERG

criança, adolescentes e adultos incapazes continuariam sendo pagos a um


membro da família, segundo regras a definir.
No momento em que julgasse adequado, a prefeitura poderia então
avançar na direção da efetiva universalização da Renda Básica de Cidadania,
em razão dos argumentos já desenvolvidos na literatura sobre renda básica
universal e brevemente resumidos na seção 2. Seria outro passo fundamen-
tal para a superação dos limites associados a políticas focalizadas.
O canal aberto por uma concessão regular de uma renda universal,
incondicional e individual tem a vantagem de poder ser acionado em mo-
mentos de crise, numa combinação de elementos da lógica de programas
universais com a de programas focalizados. Quanto melhor a qualidade
do cadastro, mais flexibilidade terá o governo para se valer dele, a fim
de direcionar medidas a grupos específicos da população, em situações e
condições particulares.

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89
ECONOMIA SOLIDÁRIA E EDUCAÇÃO POPULAR:
A EXPERIÊNCIA DO MUMBUCA FUTURO
NAS ESCOLAS MUNICIPAIS DE MARICÁ1

Rayanne de Medeiros Gonçalves2 • Thais Cristina Souza de Oliveira3

1. INTRODUÇÃO

Em 30 de outubro de 2020, foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geo-


grafia e Estatística (IBGE, 2002) o índice mais recente, até o momento da elabo-
ração deste artigo, de desemprego no Brasil. O trimestre encerrado em agosto
registrou uma taxa de 13,8 milhões de pessoas desempregadas no país, o que
equivale a 14,4% da população economicamente ativa. Essa é a maior taxa de
desemprego registrada desde o início, em 2012, da série histórica da Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua), rea-
lizada pelo IBGE. Paralelamente, vem aumentando o número de ocupações
informais, ou seja, sem garantias trabalhistas e em situações precarizadas. A
população mais jovem acumula os maiores índices de desempregados.
O cenário nacional acaba por se refletir no município de Maricá, que acu-
mula altas taxas de desemprego. O Sistema de Indicadores da Cidadania (INCID),
desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE,
2016), em um projeto voltado para 14 municípios do COMLESTE, em parceria
com a Petrobras, mostra, no indicador “Direito ao Trabalho: Situação dos(as)

1 Este artigo recebeu contribuições de Thaiza de Freitas Senna, graduanda em Serviço Social pela
Universidade Federal Fluminense e, atualmente, orientadora educacional do Programa Mumbuca Futuro.

2 Rayanne de Medeiros Gonçalves é mestra em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação


de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ (CPDA/UFRRJ), Rio de
Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: medeirosrayg@gmail.com.

3 Thaís Cristina Souza de Oliveira é mestra em Tecnologia para o Desenvolvimento Social pelo
Programa de Pós-Graduação de Tecnologia para o Desenvolvimento Social pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Maricá (RJ), Brasil. E-mail: thaiscs.oliveira@yahoo.com.br.

91
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Jovens no Acesso ao Emprego Formal”, que em 2014 apenas 18% dos jovens en-
tre 15 e 29 anos estavam formalmente empregados em Maricá, contra 50% de
jovens empregados no mesmo período em Niterói e 39% na vizinha Saquarema.
Entendendo a juventude como o segmento mais importante para o de-
senvolvimento de um país, uma vez que é nessa fase que as experiências ad-
quiridas darão aos cidadãos condições de exercerem seus plenos direitos na
sociedade, o Programa Mumbuca Futuro surge como uma resposta da Secre-
taria de Economia Solidária de Maricá para tratar a questão do desempre-
go e da precarização nas relações de trabalho – uma problemática que vem
assolando a classe trabalhadora nos últimos anos, mais especificamente os
jovens em busca do primeiro emprego.
Iniciado em julho de 2018, o Mumbuca Futuro visa contemplar os es-
tudantes munícipes do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino
médio das redes públicas de ensino, caracterizando-se por unir a concessão
de um benefício social de transferência de renda mediante a formação edu-
cacional emancipatória pautada na temática da Economia Solidária.
O programa investe ainda na formação de Jovens Educadores Populares
maricaenses, entre as idades de 18 e 29 anos, nos temas de Economia So-
lidária e Educação Popular, para serem os responsáveis pela formação das
crianças e adolescentes nas salas de aula. Esses jovens, ao mesmo tempo que
aprendem, ensinam e produzem novos conhecimentos.
O Programa em 2018 e 2019 formou de 22 jovens educadores, que foram
responsáveis pela formação dos estudantes do 6º ano do ensino fundamen-
tal, entre setembro e outubro de 2018, e pelos estudantes do 9º ano do ensino
fundamental, entre agosto e novembro de 2019. Diante disso, este artigo visa
relatar as experiências a partir do percurso formativo do Mumbuca Futuro
nos anos de 2018 e 2019.
O artigo se inicia com uma reflexão teórica sobre Economia e Trabalho,
relacionando o tema ao surgimento e à importância da Economia Solidária
no contexto nacional e municipal. Em seguida, busca aprofundar o Progra-
ma Mumbuca Futuro como projeto que visa debater e trabalhar os princípios
da Economia Solidária com as diferentes juventudes da cidade, demons-
trando o percurso formativo desenvolvido no período, apontando quantos
estudantes participaram, os conteúdos e a metodologia desenvolvida e, por
fim, refletindo sobre o papel que o Mumbuca Futuro vem realizando na vida
desses jovens e no desenvolvimento socioeconômico local.

92
RAYANNE DE MEDEIROS GONÇALVES • THAIS CRISTINA SOUZA DE OLIVEIRA

2. ECONOMIA E TRABALHO

Não podemos ignorar que o mundo enfrenta, hoje, um cenário de crise eco-
nômica e política, sobretudo no aumento latente nos índices de desemprego e
precarização do trabalho. Para compreender melhor esse panorama, é funda-
mental que se observe também o desemprego em âmbito mundial, concebendo-o
como intrinsecamente relacionado às mudanças estruturais presentes na socie-
dade capitalista, sobretudo no que diz respeito à nova morfologia do trabalho.
Tendo início a partir da crise da década de 1970 e espraiando-se até os
dias atuais, ocorre em âmbito global o que se caracteriza como “reestrutu-
ração das forças produtivas”. Alicerçada no avanço tecnológico e no questio-
namento dos padrões econômico-produtivos keynesianos e fordistas, essa
reestruturação teve como intuito central ocasionar o aumento da acumula-
ção capitalista. Para isso, há a substituição da produção em massa pela ideia
de uma produção que atendesse aos anseios individuais dos consumidores.
A partir daí, nota-se também a formulação de novas tendências e cate-
gorias de trabalho para além da figura do trabalhador operário fabril, ge-
rando vínculos empregatícios precarizados e marcados pela flexibilização,
bem como o aumento nos números de desemprego e a substituição da mão
de obra humana pelo uso da tecnologia, de acordo com Antunes:

[…] Praticamente todos os países latino-americanos


dotados de áreas industrializadas implementaram em suas
empresas os processos de downsizing (redução dos níveis
hierárquicos) por meio de uma enorme redução do número
de trabalhadores e do número de exploração da força de
trabalho, o que significa que o processo tecnológico e
informacional também passou por sérias mutações. A
flexibilização, a desregulamentação e as novas formas
de gestão produtiva foram introduzidas com grande
intensidade, mesclando-se aos novos processos produtivos
baseados na acumulação flexível, ou ainda no chamado
toyotismo (o “modelo japonês”), que se expandiu para o
capitalismo ocidental de modo muito vigoroso e ampliado
desde os anos 1970, para a América Latina, especialmente a
partir dos anos 1980 (ANTUNES, 2011, p. 39).

Ao direcionarmos o olhar para o cenário atual, observamos que isso


se caracteriza de forma concreta por meio de uma economia onde os tra-
balhadores são submetidos a relações de alienação e degradação próprias

93
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

dessa lógica hegemônica, em que há a mercantilização profissional e a pre-


carização do trabalho assalariado, identificada por vínculos empregatícios
terceirizados, fragmentados e informais, jornadas de trabalho excessivas,
desproteção trabalhista, entre outros, conforme aborda Racheilis:

Como consequência, aprofunda-se a tendência do capital


de redução do número de trabalhadores contratados,
gerando economia do trabalho vivo, potencializada
pela incorporação em larga escala de tecnologias
microeletrônicas poupadoras de força de trabalho.
Amplia-se o desemprego estrutural além da precarização
e deterioração da qualidade do trabalho, dos salários e das
condições em que ele é exercido, que se agravam ainda
mais considerando recortes de gênero, geração, raça e
etnia, com profundas mudanças nas formas de ser da
classe trabalhadora, com impactos na materialidade e na
subjetividade individual e coletiva (RACHEILIS, 2018, p. 51).

Em contraponto a esse cenário, mas também inseridas nele, as ideias


da Economia Solidária podem ser entendidas como uma resposta dos pró-
prios trabalhadores às transformações ocorridas no mundo do trabalho. De
modo a ir contra as tendências da mercantilização do trabalho e da vida,
configuram-se novas formas de trabalho, a partir do cooperativismo, as-
sociativismo e iniciativas autogestionárias. Pautadas nos princípios de so-
lidariedade, sustentabilidade, equidade e justiça social, criam-se oportu-
nidades de trabalho e outra concepção de mercado. Assim, podemos dizer
que “a economia solidária surge como reação à crise na forma de numero-
sas iniciativas locais” (FRANÇA FILHO, 2006, p. 203).
Tais iniciativas baseiam-se em valores mais solidários, humanitários
e sustentáveis, com o propósito de construir novos estilos de vida, buscan-
do reestruturar o sistema financeiro. Como a produção econômica tende
a se misturar e sobrepor a reprodução da vida, a perspectiva da economia
solidária torna-se uma forma de enfrentar os desafios contemporâneos por
meio de uma economia vinculada diretamente à reprodução da vida de seus
membros, e não a serviço da lei do valor econômico (LISBOA, 2005).
A economia solidária abrange, assim, formas de organização econô-
mica – de produção, prestação de serviços, comercialização, finanças e
consumo – baseadas no trabalho associado, na autogestão, na proprie-
dade coletiva dos meios de produção, na cooperação e na solidariedade

94
RAYANNE DE MEDEIROS GONÇALVES • THAIS CRISTINA SOUZA DE OLIVEIRA

(CONSELHO NACIONAL DE ECONOMIA SOLIDÁRIA, 2015), criando oportu-


nidades de desenvolvimento nas brechas da sociedade hegemônica.
No entanto, para a consolidação das práticas dessa economia, o apoio do
Estado e dos recursos públicos tem sido uma exigência dos atores da econo-
mia solidária para a manutenção e o desenvolvimento das suas ações. Desse
modo, registra-se, nos últimos anos, a participação dos poderes públicos,
com a formulação de políticas públicas, sobretudo no nível das prefeituras
municipais (FRANÇA FILHO, 2007). Tais pontos serão aprofundados a seguir.

3. EDUCAÇÃO POPULAR COMO TEORIA E PRÁTICA COTIDIANA

Ao entender que a educação não pode ser vista como mercadoria, o


Mumbuca Futuro acredita na capacidade de transformação social e eco-
nômica da juventude. Desse modo, nós, membros da equipe do Mumbu-
ca Futuro, embasamo-nos em um processo pedagógico crítico e liberta-
dor, na medida em que privilegiamos as trocas, os saberes e a construção
conjunta de conhecimentos na relação educador-educando. Além disso,
buscamos demonstrar nas aulas e enfrentar no cotidiano uma possível
disputa do processo hegemônico de emancipação humana na educação
formal, com a tarefa de (re)formar e incentivar multiplicadores de uma
cultura própria, solidária e diversificada.
Ao trabalhar com o conceito de práxis na pedagogia de Paulo Freire,
aprofundamo-nos no entendimento de que cada educando tem a capacidade
de refletir, dialogar e atuar para a transformação da realidade social. A partir
do momento em que se reconhece o potencial de cada sujeito, caminha-se
para a libertação. E este é o papel da educação, segundo Freire (1981):

Somente os seres que podem refletir sobre sua própria


limitação são capazes de libertar-se desde, porém, que sua
reflexão não se perca numa vaguidade descomprometida,
mas se dê no exercício da ação transformadora da
realidade condicionante. Desta forma, consciência de
ação sobre a realidade são inseparáveis constituintes do
ato transformador pelo qual homens e mulheres se fazem
seres de relação. A prática consciente dos seres humanos,
envolvendo a reflexão, intencionalidade, temporalidade
e transcendência, é diferente dos meros contatos dos
animais com o mundo (FREIRE, 1981, p. 53).

95
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Em busca de criar estratégias que estimulem os estudantes a se tornarem


críticos da própria realidade, enxergando as relações entre a crise socioeconô-
mica e as relações de produção e consumo da atualidade, refletindo sobre estas
questões à luz da solidariedade, da justiça social e do bem-viver de todos, cons-
truímos nossa metodologia de trabalho a partir do método Ver-Refletir-Agir, ins-
pirado no método de educação da Juventude Operária Católica (ESTEVEZ, 2006).
Por meio desse método, esperamos construir um conhecimento sólido e
genuíno sobre a realidade contemporânea na perspectiva local e global, sobre as
causas e consequências dos problemas enfrentados e sobre o papel do educando
frente a esses problemas como agente transformador da sua realidade. É impor-
tante destacar que as etapas não devem seguir um caminho linear, mas uma cir-
cularidade, em que a informação, a reflexão e a intervenção se retroalimentem
em um processo contínuo de formação, conforme observa o Manual Pedagógico
Entender para intervir (BADUE; TORRES; ZERBINI; PISTELLI; CLECH, 2005).
O primeiro passo do método que construímos teve como objetivo com-
preender a realidade circundante, buscando estabelecer que percepção cada
estudante tem de sua realidade, bem como entender quais problemas são vi-
venciados, suas causas e consequências na vida de cada um. Nesse processo, é
preciso buscar compreender o que acontece localmente – ou seja, o que provoca
a vontade de saber mais, sendo um momento de buscar informação e formação.
No segundo passo, foi importante refletir sobre as informações coletadas
e sistematizadas. Foi preciso identificar o impacto das estruturas econômicas,
políticas, sociais e culturais na realidade local, bem como os principais atores
e a relação com questões macros, que afetam outras realidades no país e no
planeta. Neste passo, envolver a todas(os) num esforço de reflexão sobre o que
vivemos e o que queremos viver é primordial para gerar um momento de cons-
trução coletiva do conhecimento e das possibilidades de ação sobre a realidade.
Com base nos conhecimentos gerados nos passos anteriores, chegou o
momento de definir uma ação coletiva que poderia ser realizada pelo grupo
e que tivesse potencial de transformar a realidade analisada gerando os im-
pactos esperados. Este momento é também um exercício do trabalho coletivo,
em que é preciso planejar e organizar coletivamente a ação que será realizada.
Por fim, acrescentamos como etapa final deste processo formativo o
momento de celebrar, que é reconhecer o que se fez junto. Aqui, não só o es-
tudante reconhece o seu trabalho final no objeto criado, em contraponto à
noção de alienação do trabalho promovida pelo sistema capitalista, como
também partilha esses resultados, a fim de promover uma socialização en-

96
RAYANNE DE MEDEIROS GONÇALVES • THAIS CRISTINA SOUZA DE OLIVEIRA

tre as turmas e provocar o debate sobre a possibilidade de formar redes de


economia solidária entre esses jovens.

4. O PROGRAMA MUMBUCA FUTURO COMO


PRÁTICA EDUCACIONAL DE ECONOMIA SOLIDÁRIA

A Prefeitura de Maricá e a Secretaria de Economia Solidária têm buscado,


nos últimos anos, construir estratégias e políticas públicas que visam ao for-
talecimento e desenvolvimento da economia local, com vistas a diminuir as
desigualdades socioeconômicas, como a Moeda Social, o Programa de Renda
Básica de Cidadania (RBC) e o fomento à criação de hortas e feiras solidárias.
Essas ações têm sido garantidas por lei a partir do Projeto de Lei n. 57/2019.
Dentro dessa perspectiva e com o objetivo de investir na juventude, o
Programa Mumbuca Futuro busca promover a inserção por meio do incen-
tivo ao estudo das(os) munícipes no âmbito do ensino fundamental, médio e
universitário, e o fomento ao empreendedorismo com enfoque na organiza-
ção cooperativa e/ou associativa.
Em 2018 e 2019, foram selecionados e formados 22 jovens moradores do
município de Maricá, com idades entre 18 e 29 anos, que, por sua vez, foram
os responsáveis pela formação de crianças e adolescentes da rede de ensino
pública municipal. A proposta era que esses jovens pudessem desenvolver ha-
bilidades empreendedoras dentro dos princípios da Economia Solidária, in-
centivando a organização coletiva para criação de novos postos de trabalho.
É importante destacar também que, para muitos dos jovens formados, essa
foi a primeira experiência de trabalho formal e que a composição da equipe con-
tou com uma pluralidade de experiências e saberes, pois havia pessoas cursan-
do ou formadas nos seguintes cursos: Geografia, Pedagogia, Letras, Ciências
Sociais, Administração, Serviço Social, Produção Cultural, entre outras. Tama-
nha pluralidade garantiu a troca de saberes entre diferentes pontos de vista e a
diversidade na formulação de dinâmicas e conteúdos aplicados em sala de aula.
A formação, tanto dos jovens educadores como dos estudantes, busca
abordar temas que contribuam para o desenvolvimento da consciência crí-
tica entre crianças, adolescentes e jovens, levando-os a compreender que a
circulação da moeda privilegia os pequenos empreendimentos, contribuin-
do com o desenvolvimento local.

A ideia da educação para o desenvolvimento local está

97
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

diretamente vinculada a essa compreensão e à necessidade


de se formarem pessoas que amanhã possam participar de
forma ativa das iniciativas capazes de transformar o seu
entorno, de gerar dinâmicas construtivas. Hoje, quando se
tenta promover iniciativas desse tipo, constata-se que não
só as crianças, mas mesmo os adultos desconhecem desde
a origem do nome da sua própria rua até os potenciais do
subsolo da região onde se criaram. Para termos cidadania
ativa, temos de ter uma cidadania informada, e isso
começa cedo. A educação não deve servir apenas como
trampolim para uma pessoa escapar da sua região: deve
dar-lhe os conhecimentos necessários para ajudar a
transformá-la (DOWBOR, 2007, p. 76).

Em 2018, o programa iniciou de forma piloto no 6º ano do ensino fundamen-


tal, apenas com a formação, e em 2019 foi executado de forma integral com o 9º
ano, com a formação e o repasse das bolsas. Para os próximos anos, o programa
visa atender às(aos) estudantes de escolas públicas de Maricá do 6º ao 9º ano do
ensino fundamental e do 1º ao 3º ano do ensino médio, que pertençam a famílias
residentes no município de Maricá, independentemente da renda familiar. Na se-
ção seguinte, será descrito o percurso formativo empreendido nessas séries.

5. AS EXPERIÊNCIAS DO MUMBUCA FUTURO NAS


TURMAS DE 6º E 9º ANOS DO ENSINO FUNDAMENTAL

No ano de 2018, o programa atingiu 28 turmas de 6º ano do ensino fun-


damental e 7 turmas do Programa de Aceleração Escolar (PAE), composto por
jovens em distorção idade-série, em onze escolas municipais de Maricá, com
618 estudantes participantes da formação.
Com a finalidade de aplicar, por meio da horizontalidade e partindo da
realidade local de cada estudante, os princípios da economia solidária, tive-
mos como concepção a Educação pela Ação, em que utilizamos os passos Ver,
Refletir, Agir e Celebrar. Além disso, partimos da noção de que a educação
pode ser (re)construída pelos atores inseridos no universo socioespacial da
comunidade escolar, visando ultrapassar os muros escolares.
As atividades em sala de aula tiveram a duração de seis semanas, entre
setembro e outubro de 2018, e a cada semana era desenvolvido um módulo
com carga horária de quatro horas semanais no contraturno do ensino re-
gular. Cada módulo correspondeu a uma aula. A seguir, apresentamos o per-
curso formativo desenvolvido no período:

98
RAYANNE DE MEDEIROS GONÇALVES • THAIS CRISTINA SOUZA DE OLIVEIRA

Quadro 1 – Percurso formativo com o 6º ano do Ensino Fundamental

Módulo Objetivo

• Despertar para a riqueza e a


importância de manter o diá-
logo entre diferentes pontos de
Módulo 1: A diversidade enriquece vista sobre um mesmo tema.
• Sensibilizar para o respeito à
fala do outro, para a importân-
cia do diálogo.

• Sensibilizar para o respeito à


Módulo 2: Onde ConVivemos? fala do outro, para a importân-
cia do diálogo.

• Aprofundar a reflexão sobre


os problemas enfrentados na
escola, com o levantamento
das causas e consequências de
Módulo 3: Que escola queremos
cada questão.
• Contribuir para o alinhamento
de um olhar crítico coletivo dos
estudantes sobre a escola.

Módulo Objetivo

• Definir coletivamente uma


Módulo 4: EducAção Ação Coletiva a ser desenvolvi-
da pelo grupo.

• Apresentar reflexões introdu-


tórias e experiências no campo
Módulo 5: Outra economia
da economia solidária.
é possível?
• Contribuir para despertar um
olhar crítico sobre economia.

• Sensibilizar para o respeito à


Módulo 6: Há Ação fala do outro, para a importân-
cia do diálogo.
Fonte: Elaborado pelas autoras

99
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Com as turmas do 6º ano, optamos por trabalhar com elementos


da própria realidade dos estudantes, elegendo o espaço escolar para em
seguida relacioná-lo com a sociedade e com a economia. Privilegiamos
também, nesse momento, trabalhar o protagonismo juvenil, o trabalho
coletivo e a mudança da própria realidade, visto que são aspectos impor-
tantes ao se pensar no desenvolvimento de uma Economia Solidária.
Por fim, a celebração foi realizada em um grande evento em uma das
escolas, que reuniu todos os estudantes participantes para partilharem
suas experiências de formação no projeto. O processo de avaliação foi rea-
lizado após o desenvolvimento dos seis módulos, em sala de aula com os
estudantes, com os responsáveis e com a equipe escolar (direção, orienta-
ção e funcionários) e, posteriormente, com os jovens educadores popula-
res, as orientadoras educacionais e a coordenação do projeto.
Foi possível identificar que houve uma avaliação positiva do projeto por
todas(os); a metodologia, as dinâmicas e os conteúdos tiveram boa aceita-
ção entre os estudantes, e os educadores conseguiram estabelecer bom re-
lacionamento e diálogo com os alunos. Houve ainda um interesse por parte
da escola e dos educadores em se integrar mais intensamente ao universo
escolar. Foi pedido também que o projeto pudesse se estender, com forma-
ções regulares sobre Economia Solidária, aos pais e responsáveis.
De forma geral, foi possível perceber que a atuação do Mumbuca Fu-
turo nas escolas despertou os estudantes para um protagonismo atento à
realidade circundante e disposto a trabalhar coletivamente, valorizando
os diversos olhares.
No ano de 2019, a Secretaria de Economia Solidária e a Secretaria de
Educação priorizaram a inserção do Mumbuca Futuro com as turmas do
9º ano do ensino fundamental da rede municipal, a fim de que pudessem
ter a experiência do projeto, uma vez que a extensão ainda não estava
valendo para o Ensino Médio. As atividades iniciaram-se no final de ju-
lho, com a divulgação do projeto nas escolas e o cadastro dos estudantes
interessados.
O programa ocorreu em treze escolas do município e foi oferecido a to-
dos os estudantes do 9º ano. Foram formadas 26 turmas de Economia Soli-
dária, com um total de 498 jovens cadastrados. As aulas ocorreram entre os
meses de agosto e novembro de 2019 e tiveram também a carga horária de
quatro horas semanais, exceto nas escolas com período integral, nas quais
a carga horária foi reduzida para 2h30. Nesse período, iniciou-se também a

100
RAYANNE DE MEDEIROS GONÇALVES • THAIS CRISTINA SOUZA DE OLIVEIRA

concessão das bolsas dos programas aos estudantes cadastrados.


Com as turmas do 9º ano de 2019, buscamos desenvolver os temas da
Economia Solidária (consumo responsável, comércio justo e solidário, fi-
nanças solidárias) e a criação de um projeto de empreendimento econômi-
co solidário. Para isso, o percurso formativo também seguiu os passos Ver,
Refletir e Agir, com foco no desenvolvimento de um produto ou serviço que
atendesse às necessidades da comunidade. Nesse processo, utilizamos fer-
ramentas de pesquisa no entorno da escola com os moradores e comercian-
tes para identificar os hábitos de consumo, as necessidades e potencialidades
do território, e construímos coletivamente por turma um Plano Econômico
Solidário (P.E.S) do produto ou serviço escolhido pela turma. A seguir, des-
crevemos em detalhes o percurso:

Quadro 2 – Percurso formativo com o 9º ano do Ensino Fundamental

Aula Aula

Integração entre os educandos


e educadores, apresentação do
Aula 0 – Aula de boas-vindas
Mumbuca Futuro e vivência dos
princípios da Economia Solidária.

Autogestão; Auto-organização da
Aula 1 – Autogestão turma; Mundo do trabalho e suas
relações.

Fetiche do Consumo; Necessidade x


Aula 2 – Consumo
desejo; Necessidades da comunidade.

Aula 3 – Consumo: Fetiche do Consumo; Necessidade x


descobrindo o bairro desejo; Necessidades da comunidade.

Conceito de território; Relações co-


Aula 4 – Território (parte 1) merciais e produtivas do território;
Desenvolvimento Local.
Análise do território; Anúncios e
Aula 5 – Território (parte 2) denúncias do território; Produção
de um sonho coletivo.

101
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Aula Aula
Princípios do Comércio Justo e So-
Aula 6 – Comércio Justo e Solidário lidário; Definição de um produto e/
ou serviço.
Gestão de EES: Missão e objetivo; To-
Aula 7 – Plano Econômico
mada de decisão; Público-alvo; Rela-
Solidário (P.E.S) (Parte 1)
ção com o território; Comunicação.
Relações de equidade na produção;
Aula 8 – Plano Econômico
Contrapartida social; Preservação do
Solidário (P.E.S) (Parte 2)
meio ambiente; Insumos necessários.
Plano Operacional de um empreen-
Aula 9 – Plano Econômico
dimento; Parcerias e Custos do
Solidário (P.E.S) (Parte 3)
Empreendimento
Planejamento da produção; Pre-
paração da apresentação do PES;
Aula 10 – Planejamento
Preparação da produção (Iniciar
tarefas do PES).
Produção; Preparação da apresen-
Aula 11 – Produção
tação do PES.

Aula 12 – Partilha Troca de experiências.

Aula 13 – Avaliação Avaliação do processo e celebração.


Fonte: Elaborado pelas autoras.

Assim como no 6º ano, realizamos a partilha das experiências e dos P.E.S


na quadra de uma das escolas do município, onde cada turma pôde apresen-
tar seu projeto e receber contribuições. Com a finalização do ano letivo e do
contratado, o processo avaliativo do período foi realizado apenas com os es-
tudantes e os jovens educadores.
Com os relatos dos estudantes, percebeu-se que a metodologia utiliza-
da facilitou a compreensão dos conteúdos e contribuiu para que aprendes-
sem a trabalhar coletivamente, a respeitar ao próximo e a valorizar a es-
cuta. Os conteúdos trabalhados também contribuíram para os estudantes
repensarem os hábitos de consumo, conhecerem e refletirem melhor sobre

102
RAYANNE DE MEDEIROS GONÇALVES • THAIS CRISTINA SOUZA DE OLIVEIRA

o território, identificando novas oportunidades de pensar outra sociedade.


A linguagem dos jovens educadores populares também contribuiu para a
aproximação com os estudantes, que relataram terem se sentido respeita-
dos, uma vez que os educadores não se colocaram como “superiores”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo desta exposição, buscamos demonstrar os impactos, mesmo


que de maneira inicial, do Programa Mumbuca Futuro para os estudantes
cadastrados no curso, a instituição escolar, o ambiente familiar e o muni-
cípio. Com as aulas e durante todo o projeto, pudemos ver mudanças signi-
ficativas nas reflexões, visões e atitudes desses jovens, as quais podem ser
encaradas como construtoras de um novo pensar e um novo saber, compar-
tilhadas pelas ações da Economia Solidária, que propõe uma forma de viver
em sociedade mais humana, consciente e emancipatória.
Por isso, vemos a importância do projeto Mumbuca Futuro no município
por duas vias: a educacional e a econômica. Tais vias constituem elemen-
tos teóricos e práticos interligados, desde o momento em que o projeto tem
como público-alvo não só os estudantes das escolas municipais e públicas,
mas também as(os) jovens moradores de Maricá que terminaram o ensino
médio, buscando uma formação de formadores em Economia Solidária por
todo o território do município.
Ao utilizar a moeda social como pagamento desses jovens educado-
res populares e a concessão dos 50 mumbucas mensais para os estudantes,
como bem explicitado ao longo do artigo, pode-se e deve-se refletir sobre os
impactos dessa escolha para o fomento do desenvolvimento local. Como pla-
no-piloto nacional, Maricá segue na contramão nacional, na medida em que
trata a educação reflexiva e protagonista da juventude atrelada ao mercado
de trabalho local. Assim, o Mumbuca Futuro, mesmo que de maneira inicial,
tem contribuído, com métodos pedagógicos e conteúdos voltados ao pensar
e agir, para a construção de uma geração jovem mais solidária, reflexiva, hu-
manitária e sustentável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, Ricardo. O continente do labor. São Paulo: Boitempo, 2011


BADUE, A. F. B.; TORRES, A.; ZERBINI, F.; PISTELLI, R.; CLEC’H, Y. Ma-

103
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

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RAICHELIS, R.; VICENTE, D. P.; ALBUQUERQUE, V. O. (Orgs.). A nova mor-
fologia do trabalho no Serviço Social. 1ª. ed. São Paulo: Cortez Editora, 2018.

104
Planejamento urbano
CIDADES SUSTENTÁVEIS FRENTE ÀS
MUDANÇAS GLOBAIS: UM RESGATE DA EXPANSÃO
URBANA DE MARICÁ PARA PENSAR O FUTURO

Kevin Campos Martins1 • Leonardo Amora Nogueira2


Rodrigo Coutinho Abuchacra3 • Carla Regina Alves Carvalho4 • Humberto Marotta5

INTRODUÇÃO

Um debate cada vez mais premente consiste em avaliar como as práticas


de planejamento podem associar o crescimento econômico e demográfico
das cidades à conservação dos ecossistemas e recursos naturais, que têm se
evidenciado indispensáveis à saúde e aos demais aspectos de bem-estar da
população (HANSEN , 2019). Nesse contexto, emerge a importância das cida-
des sustentáveis, ou seja, daqueles centros urbanos nos quais os componen-
tes ecológicos, culturais, políticos, institucionais, sociais e econômicos são
integrados visando à melhoria da qualidade de vida, de forma a não com-
prometer as gerações futuras e atuando de maneira participativa e inclusiva
(WANG; HO; FU, 2019). O conceito de mudanças globais para se referir aos
processos que alteram o planeta como sistema e cujas causas são, inerente-
mente, relacionadas às transformações humanas (WATSON; VENTER, 2017)

1 Kevin Campos Martins é graduado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense, Niterói
(RJ), Brasil. E-mail: kcampos@id.uff.br.

2 Leonardo Amora Nogueira é doutor em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia


pela Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail: leonardoamora@id.uff.br.

3 Rodrigo Coutinho Abuchacra é doutor em Dinâmica dos Oceanos e da Terra pelo Programa de Pós-
Graduação em Dinâmica dos Oceanos e da Terra pela Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ),
Brasil. E-mail: rodrigo.abuchacra@uerj.br.

4 Carla Carvalho é doutora em Física Nuclear pelo Programa de Pós-Graduação em Física pela
Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail: carlac@id.uff.br.

5 Humberto Marotta é doutor em Ecologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia pela


Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ) Brasil. Investigador principal do estudo.
E-mail: humbertomarotta@id.uff.br.

107
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

torna-se muito útil ao permear o planejamento e a elaboração de políticas


públicas, visando mitigar impactos ambientais negativos à sociedade. Dife-
rentemente do que se pode imaginar a partir de uma leitura desatenta, im-
portantes mudanças globais são de origem local, uma vez que a soma dos
efeitos de pequenas ou grandes intervenções em determinado sítio frequen-
temente alcança as demais escalas regional e global (HERTEL et al., 2019).
Por conseguinte, a mitigação das mudanças globais pode ser entendida como
componente-chave das cidades sustentáveis, abrangendo os mais básicos
direitos sociais entre o acesso à água, a conservação da biodiversidade e a
redução de extremos climáticos, enchentes ou deslizamentos.
Um dos maiores desafios das cidades sustentáveis frente às mudanças
globais é o lançamento de nutrientes pelas atividades humanas, em especial
nitrogênio (N) e fósforo (P), nos solos e cursos d’água associadas às alterações
de uso e cobertura da terra. Esses elementos químicos são indispensáveis à
vida, constituindo a biomassa que é produzida e compõe os organismos, de-
nominada matéria orgânica. No entanto, o excesso de nutrientes significa a
perda de qualidade da água, reduzindo a biodiversidade e os múltiplos usos
dos recursos hídricos. Além de potencial origem natural, como a partir de
metabolismo em florestas ou do intemperismo em rochas, o enriquecimento
de nutrientes (eutrofização) dos ecossistemas também pode ser sensivel-
mente intensificado pela descarga de esgotos, fertilizantes e dejetos orgâ-
nicos da indústria ou da pecuária sem tratamento. A crescente eutrofização
tem causado séria degradação das águas litorâneas (BREITBURG et al., 2018),
pois são o destino preferencial do aporte de bacias de drenagem densamente
povoadas. As lagoas costeiras, em especial nos países em desenvolvimento
como o Brasil, são influenciadas frequentemente pelos rejeitos da expansão
urbana desprovida da adequada infraestrutura de coleta e tratamento de es-
gotos (ESTEVES et al., 2008). Além disso, dragagens (FONSECA et al., 2019),
aberturas artificiais da barra arenosa limítrofe ao mar (SUZUKI; OVALLE;
PEREIRA, 1998), construção de pontes (HABERZETTL et al., 2019) e desmata-
mento na bacia de drenagem também comprometem a qualidade das águas.
Quando há carência de estudos de planejamento, tais intervenções podem
intensificar o assoreamento e a subsequente redução de profundidade, em
virtude do maior aporte de sedimentos, diminuindo as taxas de renovação
hídrica e a capacidade de diluição dos nutrientes que causam a eutrofização.
No âmbito dos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) da agen-
da de 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), a mitigação da eutrofi-

108
KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

zação antrópica é essencial para melhorar os mais relevantes indicadores de


desenvolvimento humano, entre os quais saúde pública, acesso aos recursos
hídricos, geração de renda e valores culturais. Em consequência, torna-se
indispensável à gestão das cidades o imediato desenvolvimento de planos de
mitigação da poluição dos ecossistemas aquáticos, cuja importância é ain-
da mais ressaltada nas áreas costeiras altamente urbanizadas e, portanto,
vulneráveis (DAY; RYBCZYK, 2019). Nesse contexto, o município de Maricá,
na vanguarda do desenvolvimento socioeconômico observado na última dé-
cada, apresenta os desafios comuns às cidades sustentáveis, que estão em
consonância com a busca de melhor qualidade de vida, dependente, inexora-
velmente, da conservação dos ecossistemas e dos recursos hídricos. Na me-
dida em que são influenciadas por processos naturais e antrópicos, as lagoas
costeiras maricaenses não são apenas sítios preferenciais à acumulação de
matéria orgânica e inorgânica proveniente de vastas áreas na bacia de dre-
nagem, mas apresentam significativos valores materiais e imateriais cons-
truídos socialmente, em razão tradicionalmente da subsistência, mais re-
centemente do turismo e, desde sempre, da cultura e da saúde da população.
Sendo assim, são ecossistemas que constituem verdadeiros “arquivos” das
transformações ocorridas no passado, tanto em suas águas como em seu en-
torno, os quais permitem subsidiar a tomada de decisões essenciais à gestão
e ao planejamento, permitindo revelar o passado para que possamos enten-
der o presente e planejar o futuro. No presente capítulo, integramos de for-
ma inédita registros históricos sobre mudanças de uso e cobertura da terra
e crescimento demográfico a dados de composição geoquímica do sedimen-
to lagunar desde o final do século xix, relacionando-os à expansão urbana
verificada a partir de imagens de satélite e fotografias aéreas nos últimos
50 anos. Nosso objetivo foi avaliar a relação entre intervenções antrópicas
na bacia de drenagem e alterações físico-químicas no fundo sedimentar da
Lagoa de Maricá nos últimos 140 anos, subsidiando potenciais práticas de
gestão e planejamento urbanos frente às mudanças globais.

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DE MARICÁ

O município de Maricá apresenta um extenso litoral de 46 km de com-


primento, circundado por vistosa vegetação de restinga e dunas em praias
ainda conservadas, cujo complexo sistema lagunar se conecta com pratica-
mente todos os rios que nascem e desaguam no próprio território. A bacia de

109
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

drenagem do município é composta por vastas áreas verdes incluindo a Serra


da Tiririca, local visitado pelo então jovem naturalista Charles Darwin, que
se surpreendeu com a particular exuberância paisagística, descrevendo-a
em um diário de viagem: “Depois de passarmos por alguns campos culti-
vados, entramos numa floresta cuja magnificência não podia ser superada”
(SELLES; ABREU, 2002). A alta biodiversidade da região foi certamente rele-
vante à construção da teoria da Evolução Biológica, uma vez que constituiu
seu primeiro contato com a Mata Atlântica.
As ocupações iniciais no município de Maricá estão registradas em las-
cas de quartzo, lâminas de machados, conchas e ossos, indicando a presença
de seres humanos de ~4520 a ~3000 anos Antes do Presente (AP), que viviam
da pesca e da coleta de moluscos ou vegetais (KNEIP; ARAUJO; FONSECA,
1995). No século x, grupos da nação Tupi-Guarani, compostos basicamente
de horticultores e aldeões, saíram do interior do continente e ocuparam essa
região até o século xvi, quando colonizadores europeus chegaram. Em mea-
dos desse mesmo século, existiam três povoados europeus: São Lourenço,
São Pedro dos Índios e São Barnabé, onde se localizariam, respectivamen-
te, os futuros municípios de Niterói, São Pedro da Aldeia e Itaboraí. Graças à
participação na luta ao lado dos portugueses, Antônio de Martins Coutinho
recebeu como recompensa da Coroa Portuguesa as terras da região de Maricá
(sesmaria) em 1574 (BRUM, 2004). Esse ponto dá início à exploração agrícola
de cana-de-açúcar em grandes propriedades rurais, que acarretou a forma-
ção de grupos de elevado poder político. O comércio interno em Maricá nesse
período era estruturado a partir de pequenas vendas, onde a população com-
prava ou permutava produtos de subsistência.
No início do século xvii, a ordem Beneditina chega ao Brasil, fundando
em 1635 a Fazenda São Bento no Bairro São José do Imbassaí, onde se inicia a
criação de gado na região. Essa atividade proporcionou o surgimento de uma
série de aglomerados populacionais, que se estenderam até onde atualmente
se localizam os atuais distritos de Inoã e Itaipuaçu. No século xix, com a che-
gada da família Real em 1808 e a transformação da cidade do Rio de Janeiro
em capital da Coroa Portuguesa, aumenta a demanda por alimentos produ-
zida em Maricá. Em 1814, foi criada a Vila de Santa Maria de Maricá e, três
anos mais tarde, inaugurada a Estrada Real de Maricá, que permitia trans-
portar produtos e pessoas. Ainda no início do século xix, começa o plantio
de café e intensifica-se o de cana-de-açúcar com destino à cidade do Rio de
Janeiro e subsequente exportação à Portugal, de forma que a vila em franco

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KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

progresso é elevada à categoria de cidade em 1889. Essa economia baseada na


exportação de gêneros primários (café, açúcar, carne e pescados) aumentou
a demanda de acesso à região, incentivando a melhoria de estradas e a im-
plantação da Estrada de Ferro de Maricá em 1894. Já na segunda metade do
xix, a queda no valor de venda de café e açúcar, as desvalorizações cambiais,
a distância em relação à capital e a redução da mão-de-obra com o fim da
escravidão (Lei Áurea em 1888) culminaram na decadência da economia de
exportação, e a agricultura de subsistência voltou a ser prioridade na região
(MACHADO, 1977). Nesse período, grandes propriedades rurais foram desa-
gregadas em pequenas lavouras, visando abastecer com gêneros alimentí-
cios Niterói e Rio de Janeiro.
Como exemplo do crescimento inicial nos séculos xvii e xviii, seguido de
decadência no final do século xix, Maricá apresentava 4800 habitantes nos
últimos anos do século xvii, alcançando 16.128 em 1872, número reduzido a
10.373 em 1890 (BRUM, 2004). Por sua vez, no início do século xx, a estrada
de ferro de Maricá se estendia por um lado até Iguaba grande e, por outro,
até Neves em São Gonçalo. Posteriormente e até os dias atuais, o número de
habitantes de Maricá cresceu ininterruptamente. Na década de 1930, a po-
pulação ainda era essencialmente rural (SOCHACZEWSKI, 2004), enquanto
o pequeno núcleo urbano contava com avanços muito iniciais de infraestru-
tura, tais como um reservatório de água potável de uso gratuito à população,
de 1937, e um gerador a diesel para fornecimento de energia entre 18h e 22h,
instalado em 1939. Entre as décadas de 1930 e 1940, a economia local, ainda
baseada na pesca e em cultivos de cana-de-açúcar, mandioca, café e outros
cereais (BRUM, 2004), foi fortemente abalada pela derrocada da república
velha pelo Golpe de 1930, pela Revolta Constitucional dos Paulistas de 1932
e pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A nova decadência econômica
contribuiu para a inserção de Maricá no território fluminense, assumindo
o contexto de desenvolvimento urbano-industrial a partir do governo do
presidente Getúlio Vargas (GUICHARD, 2001). Por consequência, há um in-
tenso incremento de atividades imobiliárias relacionadas ao fracionamento
de propriedades rurais a partir de 1946, favorecido pelo alinhamento políti-
co entre a elite local e o governador Amaral Peixoto, que melhorou o acesso
à região pela construção da Rodovia Amaral Peixoto e pelo aterramento de
áreas alagadas. Nesse período, aberturas de canais diminuíram o nível de
base das lagoas, impedindo as cheias periódicas e disponibilizando terras de
planície de inundação para loteamentos, entre os quais se destacam o Jardim

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Balneário (1946), de 2.3 km², e o Balneário Bela Vista (1947), de 0.6 km², am-
bos situados no 1° Distrito do município. As principais justificativas para os
canais artificiais eram o controle de inundações e o extermínio de focos de
mosquitos transmissores da malária. No entanto, a redução de profundida-
de das lagoas não resolveu as enchentes e ainda resultou em significativas
alterações de salinidade e concentrações de nutrientes no sistema lagunar,
representando impactos negativos à economia e à biodiversidade associados
ao desaparecimento de várias espécies de camarão, peixes, siris e moluscos
típicas da região (MELLO; VALPASSOS, 2007; OLIVEIRA et al., 1955).
Em meados do século xx, a base econômica remanescente do século xix,
galgada nas atividades primárias de agricultura, pecuária e pesca, ainda
permanecia. É a partir da década de 1950 que se instala uma infraestrutura
urbana mais ampla, abrangendo a implantação de rede elétrica, o asfalta-
mento da rodovia Amaral Peixoto e o início do transporte coletivo de passa-
geiros entre Maricá e Niterói pela viação Nossa Senhora do Amparo, em 1952.
O município já contava com um cinema, um hospital com 31 leitos, 174 casas
com energia elétrica e 221 com água encanada, dois postos telefônicos, 209
lojas de varejo legalizadas, uma agência bancária e um início de crescimen-
to industrial (BRUM, 2004). Nesse contexto, o período entre 1950 e 1955 é o
de maior parcelamento de terras iniciado em 1946, impulsionado por maior
facilidade de acesso e sistema de transporte ao Rio de Janeiro. A resultante
especulação imobiliária expropriou a população rural e de pescadores de re-
cursos naturais, deslocando-os à construção civil ou a outras atividades na
metrópole (CAPETINI, 2004). Apesar dessa nova onda de crescimento, desde
a posse do presidente Juscelino Kubitschek, em 1956, e a mudança de capital
do país do Rio de Janeiro para Brasília, ocorre uma grande estagnação até a
década seguinte. Em 1967, a prefeitura relatava profunda carência na saúde,
educação e infraestrutura geral, como o abastecimento de água e forneci-
mento de energia elétrica ainda muito precários, afetando principalmente
os mais pobres. A década de 1970 foi marcada pela construção da Ponte Rio-
-Niterói (1974), melhorando o acesso à cidade do Rio de Janeiro e iniciando
grande valorização de Itaipuaçu, Barra, Jaconé e Ponta Negra, já que nesse
período apenas a região central de Maricá era ocupada. Esse cenário favo-
receu a criação de infraestrutura para que a classe média urbana pudesse
investir na especulação imobiliária em Maricá (MONTEIRO, 2006), tornando
o imposto sobre a terra a maior arrecadação municipal. Tal processo acentua
ainda mais o crescimento demográfico, sendo um dos maiores da região me-

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KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

tropolitana na década de 1980, pois Maricá passa a ser ocupada por residen-
tes permanentes e veranistas (GUICHARD, 2001). A sua inserção na Região
Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro (Lei Complementar n. 87/1997),
aliada a crises financeiras e de segurança de cidades mais populosas do en-
torno, também contribuiu para o incremento contínuo de urbanização.
No século xxi, e especialmente na última década, o crescimento eco-
nômico e demográfico maricaense continua a se intensificar. A melhoria
de acesso à capital, completada pela duplicação da Rodovia Amaral Peixo-
to (2002), atrai investidores e proporciona outro ciclo de valorização imo-
biliária, contexto que fundamenta mudanças na legislação urbanística e a
formulação do Plano Diretor de Maricá (2006). Além disso, uma importante
fonte adicional de recursos também foi proveniente do aumento da arreca-
dação em função da descoberta de petróleo na camada pré-sal. Com a des-
coberta do Campo de Lula, em 2006, na bacia de Santos, Maricá se torna o
município com maior receita de da atividade petrolífera do Brasil em 2017 e
2019 (CENP; MPRJ, 2019). Esses recursos têm se revertido em investimentos
em saúde, educação e infraestrutura, em programas especialmente voltados
para a redução da pobreza, os quais resultaram no elevado Índice de Desen-
volvimento Humano (IDHM – 2010) de 0,765 pontos, o que contribuiu para
posicionar Maricá, no século xxi, segundo o último levantamento disponí-
vel, entre os 5% municípios brasileiros mais bem-avaliados nesse indicativo
de qualidade de vida. Em 2019, Maricá apresentou salário médio mensal de
2,3 salários mínimos, contando com 26 unidades de saúde pública, uma taxa
de escolarização entre 6-14 anos de 96.4% e PIB de 74.760,02 reais (valor
estimado em 2017).

UM OLHAR SOBRE CONDICIONANTES FÍSICOS E INTERVENÇÕES


HUMANAS NA LAGOA DE MARICÁ

As lagoas de Maricá (~18 km²), da Barra (~8 km²), do Padre (~2 km²) e de
Guarapina (~6 km²) compõem o sistema lagunar Maricá-Guarapina. Além
de ser a terceira maior do estado do Rio de Janeiro, a Lagoa de Maricá apre-
senta como principais afluentes os rios Ubatiba, Mumbuca e Vigário (PRA-
DEL, 2017). O sistema lagunar Maricá-Guarapina é do tipo barreira-laguna,
composta na superfície por uma barreira interior formada no Pleistoceno
Superior (~120.000 anos AP) e uma exterior adjacente à praia entre o Ho-
loceno Inferior e Médio (de ~8.500 a ~5.000 anos AP), separando as lagoas

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

costeiras e lagunas colmatadas (SILVA et al., 2014). As barreiras pleistocê-


nica e holocênica foram formadas pela elevação (transgressão marinha) de
alguns metros do nível do mar acima do atual, que resultaram no trans-
porte de sedimentos submersos na plataforma continental em direção ao
continente. Esses momentos de transgressão marinha e formação das bar-
reiras foram intercalados por fase de regressão (rebaixamento) de alguns
metros do atual do nível do mar, quando associados a movimentos da cros-
ta continental, e dezenas de metros, quando relacionados a períodos Gla-
ciais. Assim, no Último Máximo Glacial, há aproximadamente 18 mil anos
AP, a retenção da água dos oceanos nos continentes na forma de geleiras
rebaixou em mais de 100 metros o nível médio do mar, expondo a plata-
forma continental e migrando em mais de 50 km todos os sistemas costei-
ros na direção do Oceano Atlântico (REIS et al., 2013). Além dessas barrei-
ras arenosas separando-o do mar, o sistema lagunar Maricá-Guarapina é
circundado pelos maciços da Serra da Tiririca e Ponta Negra, constituídos
por rochas de composição granítica neoproterozoicas, que servem de fonte
da areia quartzosa disponível no sistema costeiro (SILVA et al, 2014). Em
relação ao clima, o entorno desse sistema lagunar é classificado como Aw,
segundo Köppen e Geiger, apresentando uma estação chuvosa (novembro
a abril) e seca (maio a outubro), com temperatura média de 24 °C a 27 °C
e precipitação média entre 66 e 186 mm no Verão e Inverno (CLIMATEM-
PO, 2020). Essa área é ainda influenciada pelo Anticiclone Subtropical do
Atlântico Sul (ASAS), com vento predominante de leste e nordeste, e, em
eventos de frentes frias de ar polar modificado, sopram com maior intensi-
dade pelas direções sul e sudoeste (CPTEC-INPE, 2020).
Além de a bacia de drenagem do sistema Maricá-Guarapina ser o limite
territorial do município de Maricá, a expansão urbana tem apresentado ín-
tima relação com os cursos d’água. O sítio inicial de ocupação foi às margens
do rio Mumbuca, centro histórico, enquanto um relevante eixo de expansão
da cidade ocorre às margens noroeste da Lagoa de Maricá, onde estava lo-
calizada a antiga planície de inundação. Atualmente, a cidade é dividida em
residências de moradores no centro e adjacências, bem como de veranistas
próximas às lagoas e praias (SEABRA; SILVA, 2011). As frequentes enchentes
nas planícies de inundação de lagoas ou outras áreas alagadas justificou a
construção dos dois canais artificiais permanentes entre o sistema lagunar
e o mar na década de 1950, o Canal de Ponta Negra e o Canal da Costa. O re-
gime da Lagoa de Maricá antes da construção desses canais era baseado em

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KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

uma variação natural de área da lagoa de 18,3 a 20,5 e km² entre os períodos
seco e úmido (OLIVEIRA et al., 1955). O aumento de precipitação reduzia a sa-
linidade, sendo acompanhado da presença de espécies típicas de água doce.
Quando a lagoa estava muito cheia, os pescadores abriam a barreira ao ocea-
no, permitindo a entrada de espécies marinhas de camarões e peixes com
condições de maior salinidade propícias ao seu desenvolvimento. O evento
durava de 3 a 4 semanas e a dinâmica costeira fechava a barra naturalmente.
A dinâmica natural de enchimento da lagoa e posterior abertura da barra au-
mentava bastante a produtividade pesqueira da Lagoa de Maricá, que chegou
a alcançar 740 kg ha-1ano-1, uma das mais elevadas do Brasil (OLIVEIRA et
al., 1955). No entanto, com a construção dos canais de Ponta Negra, Cordei-
rinho e da Costa na década de 1950, essa dinâmica natural foi interrompida e
o espelho d’água da lagoa foi reduzido, causando drástica perda de produti-
vidade pesqueira.
Nos dias atuais, o Canal da Costa apresenta, além dos cerca de 15 km
de comprimento, elevada poluição por esgotos e intenso assoreamento, que
reduzem seu papel de escoamento hídrico do sistema lagunar ao mar. Em-
bora ainda diminuam a profundidade das lagoas em comparação a períodos
prístinos, os canais artificiais especialmente assoreados não proporcionam
a renovação eficiente das águas e a subsequente mitigação de enchentes da
planície de inundação cada vez mais urbanizada. No sentido de permitir o
extravasamento de água no cordão de areia mais estreito ao mar, ainda é
essencial, portanto, a abertura emergencial e temporária da barreira da La-
goa da Barra quando a profundidade está acima do limite de segurança para
a cidade, tal como ocorreu em 2010. Sendo assim, desde a década de 1950,
substanciais mudanças no regime de extravasamento ou troca de água em
relação ao mar, bem como aumentos de ocupação em antigas áreas de inun-
dação, aterros ou assoreamento e eutrofização pelo lançamento de esgotos
não tratados, têm comprometido intensamente a biodiversidade aquática e
os múltiplos usos da água no sistema Maricá-Guarapina (CRUZ; CARVALHO,
1996; HOLZER; SANTOS, 2014). A alternância de ciclos imobiliários acentuou
essa degradação por décadas, o que foi direcionado no último plano diretor e
em ações do poder público (HOLZER; SANTOS, 2014).
O diagnóstico realizado para elaboração do Plano Municipal de Saneamento
Básico de Maricá (CONEN, 2015) evidenciou a carência de tratamento de esgotos,
baseado em somente duas estações de tratamento (ETEs). Nesse levantamento,
a de Araçatiba nem funciona como tal, apenas desviando esgotos para Lagoa de

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Maricá, bem como a do Bairro da Pedreira atende a um número muito reduzido,


inferior a 2.000 moradores, sendo comum a existência de ligações clandestinas
de esgoto aos cursos d’água. Com a deficiência do sistema de coleta e tratamento
de esgotos no controle da poluição de rios e lagoas, a melhoria da infraestrutura
sanitária constitui a principal meta do Plano Municipal de Saneamento Básico
Maricá (CONEN, 2015). O plano é construir uma nova ETE, além de outras duas
menores nos distritos de Itaipuaçu e de Inoã, pretendendo abranger 92% dos do-
micílios com coleta e 72% com algum tratamento de esgoto até 2023. Para reduzir
a ocupação de áreas de risco pelo efeito das águas sobre deslizamentos e enchen-
tes, está sendo delineado o Plano Diretor Setorial de Drenagem, visando ao reflo-
restamento e a alertas de cheias. Tais planos ainda preveem atividades de educa-
ção ambiental e divulgação científica, valorizando a interface entre poder público
e instituições de pesquisa/ensino, abrangendo iniciativas como essa obra.

UM RETRATO DO PASSADO E DO PRESENTE: OS INDICADORES DE


EUTROFIZAÇÃO NO SEDIMENTO DE FUNDO DA LAGOA DE MARICÁ

O Carbono (C) constituinte da matéria orgânica (Corg) e as diferentes for-


mas de fósforo (P) – inorgânica (PI), orgânica (PO) e total (PT) – são elementos
químicos altamente relevantes ao planejamento e à gestão, uma vez que seu au-
mento no fundo sedimentar de ambientes deposicionais, como lagoas, é uma
consequência direta do lançamento de esgotos. As mudanças de longo prazo
nas taxas de acumulação desses elementos químicos no fundo sedimentar das
lagoas costeiras podem ser indicadoras de efeitos frequentes da expansão ur-
bana, associados à carência de infraestrutura de saneamento, às intervenções
físicas como canais artificiais e mesmo às alterações no regime de chuvas.
No sentido de integrar mudanças nos aportes de matéria orgânica e nu-
trientes durante mais de um século, apresentamos uma verdadeira fotografia
do passado que alcança o presente, a partir das análises de composição físi-
co-química de uma coluna ~50 cm do fundo sedimentar da porção central da
Lagoa de Maricá (Figura 1). Essa amostra foi coletada por um amostrador de
gravidade, que preserva as camadas depositadas ano a ano no interior de um
tubo de PVC, constituindo um útil instrumento a diagnósticos ambientais de
longo prazo. O material no interior desse tubo é denominado “testemunho se-
dimentar”, pois é possível de ser analisado como se tivesse “testemunhado”,
registrando as condições pretéritas nas partes mais profundas e atuais (rela-
tivas ao momento da coleta) nas mais rasas.

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KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

Figura 1 – Mapa de localização do testemunho amostrado na Lagoa de Maricá 1 – Abertura de


barra do sistema; 2 – Canal de Ponta Negra; 3 – Canal da Costa; e 4 – Canal do Cordeirinho. A linha
vermelha representa o limite da bacia de drenagem e o ponto vermelho a localização do testemunho.

No laboratório de Ecossistemas e Mudanças Globais (LEMG) com supor-


te técnico da Unidade Multiusuário de Gases de Efeito Estufa e Combustíveis
Voláteis (GAS-UFF) da Universidade Federal Fluminense, o testemunho foi
aberto e segmentado em intervalos de 2 cm (Figura 2). Os pesos das amostras
foram obtidos em balança de alta precisão (0,0001 g) para determinar a den-
sidade a partir da razão do peso seco pelo volume (densidade aparente), bem
como a composição química, a granulometria e a datação no perfil do teste-
munho do fundo da Lagoa de Maricá. A partir destes dados, foram calculadas
as taxas de acumulação sedimentar (TAS) e de Corg, PT, PI e PO.

Figura 2 – Coleta no campo (A e B) e abertura em laboratório (C) do testemunho da Lagoa de Maricá.

117
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Como pré-tratamento às análises de Carbono Orgânico (Corg) e P, as


amostras de sedimento foram secas por liofilização e maceradas. O conteúdo
de Corg foi quantificado em sedimentos descarbonatados com ácido clorídrico
(HCl) 10% e pesados em cápsulas de prata, usando um Analisador Elementar
Flash (precisão de 0.1%). O PT foi estimado em amostras submetidas à com-
bustão em forno mufla a 550 ºC (90 min) e PI em amostras secas e maceradas.
As determinações de P foram realizadas após extração dos sedimentos com
HCl 1 M em mesa de agitação orbital por 16 horas, seguida de centrifugação a
2.000 rpm e análise de reação colorimétrica a 880nm do líquido sobrenadante
com solução de ácido ascórbico e reagente composto de antimônio de potás-
sio e heptamolibdtato de amônio (HANSEN; KOROLEFF, 1999). As leituras de
PT e PI foram realizadas em espectrofotômetro UV/VIS Perkin Elmer (modelo
Lambda 25) e o PO calculado pela diferença entre ambas as formas de P.
A granulometria foi mensurada em amostras sedimentares submetidas à
combustão de matéria orgânica em forno mufla a 400 ºC por 16 horas (SCHU-
MACHER, 2002) e remoção do carbonato de cálcio por HCl 10%. Os materiais
mais finos foram analisados após desagregação em mesa de agitação orbi-
tal por 24 horas, com auxílio de defloculante Hexametafosfato de Sódio e ul-
trassom (50%) por 5 minutos, e usando um granulômetro a laser Mastersizer
Hydro 2000G (0,02-2.000 µm), enquanto os mais grossos a partir de amostras
secas em um granulômetro ótico Retsch CAMSIZER P4 (20-30.000 µm).
Finalmente, a datação do sedimento foi estimada pelo decaimento entre as
camadas mais superficiais e profundas do radionuclídeo 210Pb, cuja meia-vida
de ~22,3 anos permite estimar uma escala de tempo de 100 a 150 anos. A partir
dos dados de datação, C e P, foram estimadas as taxas de acumulação de sedi-
mentos e desses nutrientes, assumindo o modelo da taxa constante de forne-
cimento de 210Pb no sedimento (sigla CRS – ), no qual a taxa de sedimentação
é variável com o tempo e o fluxo de 210Pb para os sedimentos remanescentes é
constante (APPLEBY; OLDFIELD, 1992). Essa premissa é especialmente adequa-
da para sítios submetidos a mudanças de diferentes intensidades ao longo das
décadas, como é o caso da Lagoa de Maricá e sua bacia de drenagem.

EVOLUÇÃO DA EXPANSÃO URBANA NA BACIA DE DRENAGEM E


RESPOSTAS NA LAGOA DE MARICÁ

A bacia de drenagem da Lagoa de Maricá foi delimitada a partir do mo-


delo digital de elevação disponibilizado pelo Serviço Geológico dos Estados

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KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

Unidos (USGS). Mapas de uso/cobertura da terra de escala 1:50.000 foram


construídos com uso de fotografias aéreas de 1970, obtidas pelo Departa-
mento Estadual de Mineração e Energia do Rio de Janeiro, e de imagens da
série Landsat de 1985, 1995, 2005 e 2015 (USGS). Os produtos georreferen-
ciados foram segmentados em polígonos e classificados manualmente, as-
sumindo unidades de uso e cobertura do Manual Técnico de Uso da Terra
(IBGE, 2013), com adaptações descritas na Figura 3.

Figura 3 – Uso e cobertura da terra na bacia de drenagem da Lagoa de Maricá a partir de


fotografias aéreas de 1970 e imagens da série LANDSAT de 1985, 1995, 2005 e 2015. A unidade
Urbano englobou níveis de urbanização tanto densos quanto rarefeitos, a unidade campo
englobou áreas sem a presença de vegetação arbórea e a unidade Água correspondeu somente ao
espelho d’água da lagoa.

A partir da análise da expansão urbana na bacia de drenagem e das taxas


de acumulação das formas orgânicas e inorgânicas de C e P no testemunho
sedimentar da Lagoa de Maricá, refletindo o processo de eutrofização, foram
identificados quatro períodos contrastantes ao longo de ~140 anos (Figura 4).

119
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Figura 4 – Perfis de densidade aparente, TAS, Corg, PT, PI e PO, com datação por 210Pb no
testemunho sedimentar da Lagoa de Maricá, área relativa de uso e cobertura da terra na sua
bacia de drenagem (mapa municipal de 1939, fotografia aérea de 1970 (DRMRJ) e imagens da
série LANDSAT de 1985, 1995, 2005 e 2015) e crescimento demográfico municipal (a partir de
dados do IBGE, 2020; 1950 e BRUM, 2004).

O primeiro período entre o final do século XIX e 1951, quando a urbani-


zação é ainda pouco representativa (Figuras 4 e 5) e se finda com uma in-
tervenção que afetou as águas e a profundidade da Lagoa de Maricá: a aber-
tura do canal de Ponta Negra entre o sistema lagunar Maricá-Guarapina e
o mar (Figura 6). A escassez de fotografias aéreas ou imagens de satélite
é compensada por documentos históricos e de artigos científicos, descre-
vendo aterros para loteamentos e subsequentes alterações na lagoa. O in-
cremento sutil mais visível nas taxas de acumulação de sedimentos nesse
período, observado no testemunho da Lagoa de Maricá, pode ser atribuído
ao desmatamento por fazendas e outras ocupações humanas (BRUM, 2004).
A remoção de vegetação favorece a erosão e o aporte de sedimentos grossos
desde a rede de drenagem à lagoa, podendo também ter sido intensificado
pela maior capacidade de transporte pelas retificações fluviais de 1930 a
1950, que já visavam terras para incorporação imobiliária projetando a ex-
pansão urbana consolidada apenas nas décadas seguintes (ROCHA, 2017;
VALPASSOS; MELLO, 2018). Apesar desse aumento inicial na deposição de
sedimentos mais arenosos, não se observa, portanto, a eutrofi zação dos
anos posteriores, representando as mais baixas taxas de acumulação de
nutrientes e matéria orgânica do estudo.

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KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

Figura 5 – Centro de Maricá em (A) 1934 e (B) 2018. Determinadas ruas foram destacadas em
vermelho para facilitar a comparação entre os painéis. Fontes: Fotografia Aérea da Arquivo
Histórico do Museu Aeroespacial e Imagem de Satélite Landsat 8 (USGS), respectivamente.

Na sequência, o segundo período entre 1951 e 1974, antes da inaugura-


ção da ponte Rio-Niterói, representa os efeitos da construção de canais de
ligação do sistema lagunar com o Oceano Atlântico, associado à substancial
redução das áreas alagadas e o parcelamento das terras de grandes fazen-
das em loteamentos urbanos. O loteamento do Jardim Atlântico (Figura 7),
implementado no litoral da bacia de drenagem da Lagoa de Maricá pela em-
preendedora COMINAT em Itaipuaçu, é o maior exemplo de intervenção. Os
principais canais artificiais nesse período foram o de Ponta Negra, no seu
início, bem como o da Costa e Cordeirinho no final da própria década de 1950.
O canal da Costa, construído para reduzir alagamentos, drena a Lagoa de
Maricá ao mar, já que a maior extensão e menor diferença altimétrica difi-
cultam a entrada de água marinha no ecossistema lagunar. Por sua vez, os
canais de Ponta Negra entre o oceano e a Lagoa de Guarapina e o do Cordeiri-
nho entre essa Lagoa e a do Padre, quando dragados, permitem troca de água
com o mar seguindo o regime das marés. Modelagens hidrodinâmicas con-
firmam a menor influência de água do oceano na Lagoa de Maricá a partir de
ambos os canais mesmo quando totalmente desobstruídos (CRUZ, 2010), em
consonância com o relato de pescadores de que tais intervenções não possi-
bilitaram a chegada de organismos marinhos como planejado, causando in-
clusive mortandade e comprometendo substancialmente a pesca antes pu-
jante (VALPASSOS; MELLO, 2018). Esse impacto negativo pode ser atribuído à
diminuição de profundidade na Lagoa de Maricá pelos canais de Ponta Negra
e do Cordeirinho, reduzindo tanto os refúgios à biodiversidade aquática nos
alagadiços marginais, que antes eram inundados periodicamente (OLIVEIRA
et al., 1955), como a pressão de água necessária para aberturas manuais mais
frequentes ao mar na Lagoa da Barra, que eram essenciais para a entrada
de organismos marinhos (VALPASSOS; MELLO, 2018). Uma consequência

121
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

potencial dessa condição mais rasa da lagoa por canais artificiais é o rebai-
xamento do nível de base da bacia de drenagem, podendo acentuar também
a competência/capacidade de transporte de sedimentos, especialmente are-
noso, iniciado pelo desmatamento desde décadas anteriores. Finalmente, o
outro processo marcante desse período, a acentuação da urbanização, é cau-
sado pela perda de renda proveniente da pesca e da competitividade de gê-
neros agropecuários, bem como a melhoria do acesso viário a Niterói e ao Rio
de Janeiro a partir do asfaltamento da Rodovia Amaral Peixoto nos anos de
1950, o que foi descrito previamente. Apesar de ainda apresentar nível muito
baixo de ocupação dos loteamentos e predominância daqueles de veraneio,
observa-se um processo de urbanização inicial dos próprios residentes per-
manentes (HOLZER; SANTOS, 2014), resultando na primeira escalada das ta-
xas de acumulação de matéria orgânica e nutrientes. Como exemplo, as taxas
de acumulação no sedimento da porção central da Lagoa de Maricá de Corg,
PI e PO no início da década de 1970 foram em média duas vezes maiores em
comparação ao período anterior, enquanto as de PT da ordem de três vezes,
confirmando que ocupações humanas desprovidas de infraestrutura sanitá-
ria na bacia de drenagem podem incrementar a eutrofização em sedimentos
aquáticos no curto prazo (HABERZETTL et al., 2019).

Figura 6 – Canal de Ponta Negra, ligando a Lagoa de Guarapina ao Oceano Atlântico, em 1970 e
em 2020. Fontes: DRM-RJ (DEME, 1970); Google Earth (2020).

O terceiro período se inicia em 1974, após a inauguração da ponte Rio-Nite-


rói, que facilitou o acesso de trabalhadores e veranista à cidade do Rio de Janeiro,
seguida pela ponte do Boqueirão (1978), que melhorou substancialmente o acesso
direto aos loteamentos no litoral da bacia de drenagem do sistema lagunar Mari-
cá-Guarapina. Os canais artificiais e as retilinizações da rede drenagem desde as
décadas anteriores, em especial o vazadouro ao mar pelo canal da Costa, resulta-

122
KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

ram na rápida colmatação da Lagoa Brava, a mais interior do sistema estudado. A


partir da interpretação de fotografia aérea (1970) e imagem de satélite (1985), evi-
dencia-se que a Lagoa Brava foi colmatada entre as décadas de 1970 e 1980. Essa
fase apresenta importante expansão da área urbana na bacia de drenagem (Fi-
gura 3) e o maior crescimento demográfico do município entre todos os períodos
(Figura 4), prolongando-se até 2010, quando há a reabertura temporária da barra
da Lagoa da Barra ao mar, fechada desde 1986, em razão de um evento de fortes
chuvas na região, que alagando as áreas próximas à lagoa. A escolha da abertura
de barra de 2010 para limitar o período se justifica pelos substanciais incremen-
tos da área urbana na bacia de drenagem da Lagoa de Maricá (Figura 3) e do ta-
manho populacional, os quais não foram tão marcantes em meados da década de
1980 como no final da primeira década do século xxi (Figura 4). A população do
município representa em imensa parte a da própria bacia de drenagem da Lagoa
de Maricá, pois no ano do último registro sedimentar (2017), aproximadamente
60% da área urbana de Maricá drenava diretamente para a lagoa (COSTA; DOS
SANTOS; SEABRA, 2016). Apesar de a ocupação dos loteamentos ainda não ser
considerada elevada atualmente, em virtude da persistente carência de infraes-
trutura, esse período se apresenta como o de consolidação das infraestruturas
não somente de acesso, mas também de energia elétrica, abastecimento de água,
saúde e educação, acompanhando o crescimento urbano que a torna o impos-
to territorial urbano a maior receita municipal (HOLZER; SANTOS, 2014). Além
disso, a mesma ponte do Boqueirão que melhorou a taxa de ocupação dos lotea-
mentos litorâneos, contribuindo inclusive para a expansão urbana nas porções
mais interiores de bacia de drenagem, em consequência da maior atração pela
facilidade de acesso às praias, também promoveu um maior estrangulamento
das águas entre as lagoas de Maricá e da Barra. Os aterramentos nas margens e a
construção dos pilares de sustentação dessa ponte dificultaram a troca de águas
e acentuaram o assoreamento no entorno (CRUZ, 2010), contribuindo para que a
área de transição entre as lagoas seja uma das que mais acumulem sedimentos
no sistema lagunar (FERNEX et al., 1992; MARQUES et al., 1995). Os resultados do
presente estudo revelam que a expansão de área urbana na bacia de drenagem
da Lagoa de Maricá (~104%) e, sobretudo, de população (~581%) no município
entre 2010 e meados da década de 1970 foram acompanhados de manutenção
de altas taxas de acumulação de sedimentos e de substancial intensificação
daquelas de Corg e de todas as formas de P no sedimento lagunar, indicando
substancial acentuação do processo de assoreamento e aprofundamento da eu-
trofização em relação à fase anterior, entre 1951 e 1974.

123
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Figura 7 – Melhoria do acesso viário às praias e expansão urbana na barreira do sistema


lagunar Maricá-Guarapina. Fotografias à esquerda indicam a área da Ponte do Boqueirão, sendo
(A) antes da construção na década de 1960 e (B) recém-construída no final da década de 1970,
enquanto aquelas à direita mostram a urbanização no Jardim Atlântico em Itaipuaçu em 1954 (C)
e atualmente (D). Fontes: (A) Acervo de Maria Penha de Andrade e Silva, Renata Aymoré Gama
e Renata Toledo Pereira – Sítio “Maricá Antigo” (Facebook); (B) IBGE; (C) DHN – Divisão de
Aerofotogrametria, 1954; (D) Google Earth (2020).

O quarto e mais recente período é iniciado em 2010, após uma abertu-


ra temporária da barreira da Lagoa da Barra (Figura 8), estendendo-se até
a coleta do testemunho sedimentar em 2017. Com a ocupação da planície de
inundação, o sistema lagunar Maricá-Guarapina não pode mais atuar como
na condição prístina, na qual as enchentes naturais eram seguidas da aber-
tura da barra, aumentando inclusive a produtividade pesqueira (OLIVEIRA
et al., 1955). Essa condição é substituída pelo regime de marés propiciado por
canais artificiais de conexão ao mar, quando se encontram dragados, ou pelo
mais frequente regime de cheias, no qual o assoreamento dos canais aumen-
ta as inundações e diminui a influência marinha (CRUZ, 2010).
A abertura de barreira de 2010 foi uma resposta do poder público às en-
chentes de vastas áreas urbanas nas margens mais interiores desse sistema
em evento de chuvas intensas. A precipitação, que ocorreu nos dias 6, 7 e 9
do mês de abril de 2010, somou 300 mm, acarretando a maior enchente dos
últimos 40 anos e elevando em 1,2 m o nível da Lagoa de Maricá. A barreira foi
aberta artificialmente no dia 9 e obstruída pela ação do mar já no dia seguinte.
Uma nova abertura ocorreu somente no dia 2 de março de 2016, também por
causa da intensa precipitação ocorrida em 29 de fevereiro daquele ano (258
mm em um único dia), fechada aproximadamente 24 horas depois (PRADEL,
2017). Na medida em que o testemunho foi coletado em 2017, a presente análise

124
KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

permitiu avaliar somente os efeitos da abertura de barreira de 2010. Em res-


posta à abertura de barreira de 2016, foram nítidos picos de aumento no teor
de areia, densidade e sedimentação, associados a quedas drásticas nas taxas
de acumulação de C e P sob forma orgânica no testemunho estudado, indi-
cando o aumento de competência/capacidade de transporte de sedimentos na
bacia de drenagem e subsequente deposição na lagoa, bem como redução de
matéria orgânica e outros compostos menos densos.
Por sua vez, as taxas de acumulação de nutrientes fosfatados foram mais
variáveis, considerando que as de PI apresentaram decréscimo mais gradual
e as de PT um pico inclusive de aumento seguido de redução. Após as altera-
ções acompanhando a abertura da barreira, todas as variáveis retornaram,
já em 2017, a patamares próximos aos dos últimos anos antes de 2010, apre-
sentando ainda tendência de aumento de matéria orgânica e nutrientes fos-
fatados. Especialmente no contexto de qualidade de vida e belezas naturais,
que atraem residentes fixos e veranistas, associado ao avanço da atividade
petrolífera na Bacia de Santos e refino nas proximidades, Maricá caracteri-
za-se por um peculiar crescimento urbano e demográfico, acompanhado de
aumento de receita. Desponta, assim, a rara oportunidade de aliar desen-
volvimento econômico e social à conservação dos recursos hídricos. Nesse
intuito, têm sido realizados importantes planejamentos governamentais,
como a construção de emissários terrestre e submarino e de três novas ETEs
no entorno da lagoa, incluindo uma rede de esgotamento de cerca de 237,5
km, que atenderá a 59.126 habitantes até 2029 (CONEN, 2015).

Figura 8 – Abertura da Lagoa da Barra (2010 e 2016, respectivamente). Fonte: Prefeitura de


Maricá (2010, 2016).

125
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

UM ENSAIO DE PERSPECTIVAS E PROPOSIÇÕES QUE EMERGEM DO FUNDO


DA LAGOA DE MARICÁ

A História Ambiental, ora tratada a partir dos registros sedimentares na


Lagoa de Maricá, pode ser considerada, em analogia, um jogo de “quebra-
-cabeças”, no qual cada peça constitui uma evidência ou elemento físico-
-químico que aumenta a acurácia de entendimento do passado. Esse resgate
de eventos e efeitos no ecossistema forneceu, além de conhecimento indis-
pensável à identidade maricaense sobre sua história, subsídios para ações do
presente, visando projetar-se no futuro como uma cidade sustentável, alian-
do crescimento econômico e demográfico à conservação de recursos natu-
rais, como premissa à subsistência e subsequente qualidade de vida da popu-
lação. Além de confirmar a intensificação dos processos de assoreamento e
de enriquecimento de nutrientes e matéria orgânica (eutrofização), que com-
prometem a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos do sistema lagunar
Maricá-Guarapina, os resultados revelam uma complexidade de eventos não
antes conhecida a partir da singular possibilidade de analisar os últimos 140
anos. O incremento urbano mais acentuado entre os anos anteriores e pos-
teriores a 1974 (construção da Ponte Rio-Niterói) foi acompanhado da degra-
dação da Lagoa de Maricá, indicada pelo substancial aumento das taxas de
assoreamento em torno de três vezes e de acumulação de matéria orgânica
ou nutrientes em torno de quatro vezes. A redução de profundidade e a po-
luição das águas, componentes mais comuns de degradação de uma lagoa,
foram muito mais variáveis em resposta à abertura da barreira lagunar de
2010, em comparação com aquelas anteriores a 1951, indicando uma redução
da competência/capacidade preditiva do planejamento para mitigar os da-
nos ambientais. Na primeira metade do século xx, tais intervenções aumen-
tavam substancialmente a produtividade pesqueira, mas não desses com-
ponentes de degradação ecossistêmica. Os resultados apresentados revelam
que as aberturas da barreira lagunar podem ser um importante instrumento
para reduzir enchentes em áreas ocupadas na planície de inundação, embora
constituam um remédio que precisa ser dosado para não diminuir dema-
siadamente o volume de água e causar o efeito oposto, ou seja, intensificar
o assoreamento e a eutrofização. O pico de assoreamento, combinado com
a rápida tendência de retorno à degradação ecológica, relacionada aos ele-
vados níveis de eutrofização no sedimento da Lagoa de Maricá, subsidia de
forma robusta a tomada de decisão sobre aberturas da barra ao mar. Sendo

126
KEVIN MARTINS • LEONARDO NOGUEIRA • RODRIGO ABUCHACRA • CARLA CARVALHO • HUMBERTO MAROTTA

assim, a continuidade de ações em curso pela prefeitura para melhorar a co-


leta e o tratamento de esgotos, associadas a práticas de reflorestamento na
bacia de drenagem, em especial nas margens fluviais, bem como de educa-
ção ambiental, torna-se uma estratégia viável, descrita inclusive em planos
oficiais, e indispensável à gestão e ao planejamento de Maricá como cidade
sustentável. A relevância dessas medidas estruturais para acompanhar as
aberturas emergenciais da barra lagunar, desencadeadas por eventos pre-
cipitação extrema, é ainda ressaltada no contexto de chuvas muito intensas,
que tendem a ser cada vez mais frequentes pelas atuais mudanças climáticas
no Sudeste Brasileiro. Como perspectiva, futuros estudos em testemunhos
do sedimento de fundo lagunar podem ser considerados um essencial com-
plemento a ações de monitoramento da qualidade das águas, não somente
de diagnóstico, mas como premente subsídio ao planejamento e à gestão.
A maior quantidade de testemunhos, tanto em distintas regiões da própria
Lagoa de Maricá quanto nos demais ecossistemas que compõem o sistema
lagunar Maricá-Guarapina e bacia de drenagem, além de mais recentes para
viabilizar análises da abertura da barreira lagunar de 2016, podem repre-
sentar um robusto e viável instrumento à tomada de decisão. Portanto, evi-
dencia-se que as águas e o fundo sedimentar da lagoa são dinâmicos e conti-
nuam a “arquivar” atividades humanas ora atuantes. A pulsante Maricá, que
busca orgulhosa seu passado no fundo sedimentar das lagoas, não abdica de
valorizar seu presente como elo ao futuro, como resgate das lições e identi-
dades pretéritas que buscam cada vez mais qualidade de vida equânime so-
cialmente, em inexorável consonância com a conservação dos ecossistemas,
biodiversidade e, por consequência, memória.

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131
PERSPECTIVAS PARA MARICÁ EM 2030:
MODELO DA EXPANSÃO URBANA
UTILIZANDO AUTÔMATOS CELULARES

Elizabeth Maria Feitosa da Rocha de Souza1 • Vandré Soares Viégas2

1. INTRODUÇÃO

Localizado no litoral leste fluminense, o município de Maricá apresen-


tou nas últimas décadas um expressivo crescimento populacional, conforme
destacam os dados do Censos 1991, 2000 e 2010. O município, que integra a
região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, possui expressiva exten-
são costeira e se preocupa com a crescente expansão das edificações sobre
ambientes naturais importantes como restingas, cordões arenosos e frag-
mentos de floresta.
A presente pesquisa nasce da necessidade de se antecipar e prever o
avanço das edificações, permitindo à sociedade e ao poder público definir
novas ações para um planejamento estratégico sustentável para a cidade de
Maricá. Nessa diretriz, é fundamental testar novos mecanismos de análise
do espaço urbano (especificamente as áreas edificadas) e definir possíveis
cenários futuros para o crescimento em curso.
Esse tipo de análise visa apoiar as diferentes políticas públicas e ações da
sociedade civil que buscam o crescimento socioeconômico sustentável. Des-
sa forma, é possível orientar diversas ações e intervenções no espaço urbano,
bem como impedir a ocupação em áreas não propícias. Compreender a direção
de crescimento, sua possível localização e as alterações do tecido urbano pos-

1 Elizabeth Maria Feitosa da Rocha de Souza é doutora em Geografia pelo Programa de Pós-
Graduação em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
E-mail: elizabethmfr@gmail.com.

2 Vandré Soares Viégas é mestre em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: v.vegas18@gmail.com.

133
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

sibilita a reflexão sobre os fenômenos naturais comprometidos e favorece o


surgimento de propostas para dirimir eventuais implicações ambientais.
Cabe destacar, nesse contexto, o uso de ferramentas de análise baseadas
em dados georreferenciados que utilizam imagens de satélite, bancos de da-
dos georreferenciados e outros afins para o mapeamento e a proposição de
cenários futuros.

1.1 Objetivo

O presente trabalho pretendeu aplicar e avaliar um modelo de autôma-


tos celulares para simular as mudanças de uso e cobertura da terra, em es-
pecial a ampliação das áreas urbanas (edificações), vinculadas à expansão
no município de Maricá (RJ). O período da análise diagnóstica compreende o
período de 2010 até 2019, e o prognóstico final foi gerado para o ano de 2030.

1.2. Área de estudo e o adensamento urbano

A área de estudo engloba o município de Maricá, localizado na Região


Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, situado entre Niterói (oeste) e Sa-
quarema (Leste). Com aproximadamente 34 km de extensão e uma área total
de 362,5 km², abriga uma costa importante e cinco unidades de conservação:
Monumento Natural Municipal da Pedra de Inoã, Monumento Natural Mu-
nicipal da Pedra de Itaocaia, Refúgio de Vida Silvestre Municipal das Serras
de Maricá e a Área de Proteção Ambiental Municipal das Serras de Maricá. A
cidade possui quatro distritos e 50 bairros, com destaque para importantes
feições geomorfológicas e lagunares, tais como a Serra da Tiririca e o sis-
tema lagunar (Maricá, Barra, Padre, Guarapina, Jaconé, Brava e Itaipuaçu).
Maricá vem experimentando um forte incremento populacional e, segundo
dados do IBGE, o município apresentou o quarto maior crescimento popula-
cional projetado do país, entre os anos de 2003 e 2013 (NOGUEIRA; BARBOSA,
2019). Sua população total residente no ano de 2010 era de 127.461 habitantes
(IBGE, 2010) e a projeção estimada em 2019 era de 161.207 pessoas. A figura 1
destaca a área de estudo.

134
ELIZABETH MARIA FEITOSA DA ROCHA DE SOUZA • VANDRÉ SOARES VIEGAS

Figura 1 – Área de estudo e limites de bairros.

O crescimento populacional pode ser verificado no gráfico da figura 2


que revela crescimento expressivo já a partir do ano de 1991.

Figura 2 – Crescimento populacional em Maricá entre 1991 e 2019.

O desenvolvimento econômico de Maricá foi ampliado principalmente


pela exploração de Petróleo na Bacia de Campos e pela subsequente extração
das reservas do pré-sal, o que trouxe fortes incrementos financeiros devido
a partilha dos royalties (ALIPRANDI et al., 2016). O aumento populacional em

135
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Maricá também se justifica a partir de iniciativas, igualmente ligadas ao setor


de óleo e gás, como a construção do Complexo Petroquímico do Estado do Rio
de Janeiro (COMPERJ), no município de Itaboraí, limítrofe a Maricá. A cons-
trução do COMPERJ, em seus termos iniciais, previa a instalação de um duto
no litoral de Itaipuaçu para eliminar resíduos produzidos na refinaria, além
da instalação de um gasoduto para receber o gás natural extraído na Bacia de
Santos e a criação de um porto em Jaconé (BAPTISTA, 2014). A atratividade
econômica criou um ambiente propício para novas construções, justificadas
principalmente pela migração de trabalhadores que esperavam ter algum tipo
de vínculo com os empreendimentos previstos para construção.
A ampliação da área urbana de Maricá envolve sua inserção na Re-
gião Metropolitana do Rio de Janeiro, uma vez que as relações de comércio
e transporte se tornaram mais integradas com a capital. Nesse sentido, a
construção de rodovias e a ampliação de infraestrutura também têm cola-
borado com o crescimento urbano verificado na última década. Contudo, a
expansão antrópica também tem causado diferentes pressões locais na flora
e fauna endêmicas e ameaçadas de extinção, sítios arqueológicos e alguns
recursos minerais (FARIA; BOHRER, 2005). O litoral do município ainda dis-
põe de áreas preservadas e remanescentes do ecossistema de restinga que
são representativas no Estado, contendo importante biodiversidade costeira.

2. DISCUSSÃO TEÓRICA

2.1. Modelos e sua importância para representar o espaço e os processos

As Ciências da Terra reconhecem modelos como ferramentas importan-


tes que podem contribuir significativamente para a compreensão do compor-
tamento de um sistema e para auxiliar na tomada de decisões e políticas que
afetam nosso planeta e a sociedade em escalas que variam de local a global
(GOMEZ; JONES, 2010). O mundo real, com suas diversas interconexões de fe-
nômenos complexos, demanda instrumentos cuja capacidade de abstração e
integração de dados seja capaz de apreender a complexidade necessária para
retratar as mais diversas manifestações que ocorrem na superfície da Terra.
Em relação ao termo “modelo”, pode-se entendê-lo como a representação de
um sistema, obtida através de diferentes linguagens – matemática, lógica, fí-
sica, icônica, gráfica – e segundo uma ou mais teorias (NOVAES, 1981).
Um modelo é uma estrutura simplificada do funcionamento de um as-

136
ELIZABETH MARIA FEITOSA DA ROCHA DE SOUZA • VANDRÉ SOARES VIEGAS

pecto do mundo real (CHORLEY, 1967). Contudo, por ser uma estrutura sim-
plificada, modelos são construídos para retratar fenômenos em escalas es-
pecíficas, destacando somente suas características fundamentais – ou seja,
se um modelo é uma abstração e simplificação da realidade, reconhece-se
que ele não é construído para, e nem pretende, espelhar a realidade (INKPEN,
2015). Uma vez que modelos não são retratos espelhados, esse tipo de cons-
trução pode ser modificado à medida que o pesquisador procura, dentro de
seus objetivos, por perguntas críticas, como “Por quê?”, “Quando?”, “Onde?”
e “E se?”. O mundo real é essencialmente dinâmico; suas conexões aconte-
cem em diferentes escalas de espaço e tempo. Um dos grandes desafios da
Ciência da Informação Espacial é o desenvolvimento de técnicas e abstrações
que sejam capazes de representar adequadamente fenômenos espaço-tem-
porais dinâmicos (PEDROSA; CÂMARA, 2002). Enfatizando a importância
de modelos como descrições matemáticas de processos complexos que in-
teragem entre si, Novaes (1981) afirma que modelos podem ser classificados
como descritivos, exploratórios, operacionais e preditivos. Modelos descri-
tivos descrevem apenas o entendimento do funcionamento de um sistema;
modelos exploratórios envolvem a análise paramétrica de vários estados,
por meio de variações nos elementos dos sistemas e nos seus relaciona-
mentos, sem interferências externas; modelos operacionais possibilitam a
inferência do modelador, o qual pode introduzir fatores exógenos nos com-
ponentes do sistema e nos seus relacionamentos, de modo a alterar seu com-
portamento; por fim, modelos preditivos são uma categoria própria de mo-
delos exploratórios que envolve a variável tempo, compreendendo a projeção
temporal dos elementos que se deseja analisar, seja retratando o presente ou
predizendo o futuro.

2.2. Técnicas de simulação por meio de autômatos celulares

O uso de modelos preditivos em Sistemas de Informação Geográfica –


SIGs vem aumentando à medida que os conjuntos de dados também vêm
crescendo. Somado ao crescimento da disponibilização de dados, técnicas
que visam representar a dinâmica espaço-temporal também vêm sendo de-
senvolvidas com o intuito de reproduzir adequadamente fenômenos essen-
cialmente dinâmicos. Embora modelos de simulação espacial sejam comu-
mente classificados em uma categoria única, exceto para fins de aplicação,
sua abordagem geralmente se baseia em três grandes paradigmas: indivi-

137
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

dual, processos e modelo de autômatos celulares orientados ao espaço (SOA-


RES-FILHO et al., 2002). A simulação individual procura retratar processos
exclusivos, como categorização de nascimento, crescimento e morte de es-
pécies, utilizando categorias como genótipo, idade, história e localização.
Simulações baseadas em processos em larga escala modelam o papel dos
processos físicos na modificação dos padrões da paisagem. Tais modelos são
construídos por meio de fluxos que podem ser de energia, material, espécie
e informação, de maneira individual a cada célula ou subunidade (SOARES-
-FILHO et al., 2002).
A terceira categoria, o modelo de autômatos celulares, consiste em uma
matriz n-dimensional regular de células que interagem dentro de determi-
nada vizinhança, de acordo com uma série de regras de transição. No mo-
delo por autômatos celulares, a unidade de observação (geralmente o pixel
de um arquivo matricial) pode ser alterado de acordo com alguma regra de
transição aplicada ao modelo. Esse tipo de regra determina “quando e por
que” o estado de uma célula se altera, utilizando um conjunto de intervalo
temporal para se verificar as alterações. A vantagem do uso dos autômatos
celulares se concentra na possibilidade de predição de mudanças no uso
do solo, por exemplo, baseado em parâmetros do modelo, como corpos hí-
dricos, construções e áreas protegidas. No caso da modelagem dinâmica
de processos urbanos, autômatos celulares são utilizados porque transi-
ções de uso do solo para fins urbanos envolvem diferentes fatores, como a
qualidade do solo, regras de proteção da vegetação, impossibilidades por
barreiras naturais como relevo e declividade, além da própria proximidade
com outros instrumentos urbanos, como a atratividade de grandes centros
urbanizados e estradas conectoras.

2.3. Software de simulação: Dinamica EGO

O modelo de autômatos celulares tem se popularizado também por


sua integração com os SIGs, aliando a facilidade de implementação, a ca-
pacidade de compartilhar códigos computacionais dentro dos próprios
softwares e a possibilidade de unir diversos componentes espaciais em um
único modelo de leitura rápida (WU, 1998). Os autômatos celulares têm
sido utilizados para estudar os vários tipos de fenômenos espaciais dinâ-
micos, como a dinâmica florestal, o crescimento urbano e o uso e cober-
tura da terra (WU, 1998).

138
ELIZABETH MARIA FEITOSA DA ROCHA DE SOUZA • VANDRÉ SOARES VIEGAS

O Dinamica EGO é um software desenvolvido por pesquisadores da Uni-


versidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e se enquadra na categoria de apli-
cações trabalhadas que integram códigos e propriedades de um típico modelo
de autômatos celulares. Foi implementado para simular a dinâmica da paisa-
gem em uma fronteira de colonização da Amazônia e pode ser considerado,
de acordo com a classificação de Kaimowitz e Angelsen (1998), um modelo re-
gional em mesoescala do desmatamento tropical (SOARES-FILHO et al., 2002).
Inicialmente concebido para a simulação dinâmica da paisagem amazônica, o
modelo apresentou avanços capazes de reproduzir as formas e dimensões das
mudanças na paisagem, natural ou produzida, a partir de diferentes agentes
de mudança. Os dados utilizados para a construção de modelos de mudança
são obtidos prioritariamente a partir de imagens de satélite.
Na versão atual (5.0), o Dinamica EGO conta com exemplos de modelos
preconcebidos para fins preditivos do usuário. O modelo de mudanças no uso
e cobertura no uso da terra (LUCC) contém dez passos separados voltados
a cada uma das etapas necessárias para a predição de mudanças futuras. A
partir de classificações de uso e cobertura do solo em duas diferentes datas,
o software calcula as matrizes de transição para as células entre o intervalo
temporal, categorizando as variáveis de mudança (ou condicionantes) por
unidade amostral e seus respectivos pesos ou importância dentro do mode-
lo, estabelecendo uma correlação de atratividade ou repulsão de categorias
como a proximidade com fragmentos florestais, núcleos urbanos, corpos
hídricos, por exemplo. A partir das condições, o Dinamica gera simulações
LUCC entre as datas inseridas a fim de verificar a proximidade e o refino do
modelo com a realidade, também chamado de validação. Com isso, é capaz
de ilustrar em números e arquivos raster a formação e expansão de novas
manchas e a predição para anos futuros.

3. ASPECTOS METODOLÓGICOS

A metodologia para a simulação se divide em três etapas principais,


como destaca a Figura 3.

Figura 3 – Etapas realizadas.

139
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

3.1. Aquisição e preparo dos dados

Para modelar a expansão urbana futura, foi necessário preparar e orga-


nizar um conjunto de dados representativo da extensão das áreas edificadas
na cidade de Maricá. O período da análise foi definido considerando o alto
crescimento populacional e dos domicílios entre 2010 e 2019, agregando ca-
racterísticas relativas às estruturas condicionantes de mudança. Os dados
são considerados condicionantes da análise, sendo necessário gerar, a partir
deles, os níveis de influência na modelagem. Nessa fase, foram construídas
as condições de análise da simulação e gerado um arquivo único com todos
os dados em formato raster, o chamado “cubo raster”.
A pergunta prévia que orientou essa etapa foi: “Que feições são mais in-
fluenciadoras da transformação antrópica presente em Maricá?”, realizan-
do-se uma adaptação de Agterberg et al. (1990). A seleção das variáveis para
alimentar o modelo de expansão urbana foi executada tendo em vista o co-
nhecimento prévio da área e da análise das mudanças ocorridas por meio dos
mapas de cobertura da terra de 2010 a 2017. Assim, observa-se a influência da
BR-101 na condução do crescimento urbano e de outros fatores, como a pro-
ximidade de lagoas, do mar, relevo e declividade. Dessa forma, para simular
a expansão urbana do município de Maricá foram escolhidas seis variáveis
com potencial para atrair ou repelir manchas urbanas, a saber: o uso e co-
bertura do solo para os anos de interesse, os limites de unidades de conser-
vação, o sistema viário principal, os corpos hídricos, o relevo e a declividade.
Esses foram os temas considerados norteadores das mudanças na cidade. As
Figuras 4 e 5 indicam os dados referentes ao uso e à cobertura do solo adota-
dos para a pesquisa, com destaque aos limites das edificações.

140
ELIZABETH MARIA FEITOSA DA ROCHA DE SOUZA • VANDRÉ SOARES VIEGAS

Figura 4 – Uso e cobertura do solo para o ano de 2010, com destaque para as classes edificações,
floresta e hidrografia.

Figura 5 – Uso e cobertura do solo para o ano de 2017 com destaque para as classes edificações,
floresta e hidrografia, já com as atualizações para o ano de 2019.

Os dados de uso e cobertura foram disponibilizados por acesso à pla-


taforma de dados georreferenciados do Ministério Público (inloco.mprj.
mp.br), bem como os dados relativos à hidrografia e ao sistema viário.

141
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Para a geração da declividade, foi obtido Modelo Digital de Elevação –


MDE, no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, que
integra o projeto RJ-25. Esse MDE representa o modelo numérico das ca-
racterísticas altimétricas da superfície, articuladas por folhas segundo o
recorte do mapeamento sistemático brasileiro. A declividade foi gerada
considerando diferenças em graus utilizando a ferramenta 3D Analyst, do
software Arcgis Arcmap 10.5.
Cabe destacar que os dados referentes ao uso e à obertura do solo dis-
ponibilizados de forma gratuita pela plataforma In Loco foram gerados a
partir da classificação de imagens de satélite, atendendo à escala de 1:25
000, para os anos de 2010 e 2017. A classificação de 2017 foi atualizada para
o ano de 2019 por meio de edição manual dos vetores, utilizando uma ima-
gem da plataforma Google Earth do referido ano, corrigida e ajustada aos
sistemas de referência SIRGAS2000. Dessa forma, as classificações refle-
tem (após a edição) a extensão e limites da área antropizada na cidade de
Maricá para os anos de 2010 e 2019. Cabe destacar ainda que as classes de
interesse para a simulação da expansão urbana consideradas na pesqui-
sa foram: edificações, floresta e corpos hídricos. As demais classes foram
consideradas como “outros” e integradas. Para a realização da modelagem,
os dados referentes à classificação de uso e cobertura tiveram de ser re-
presentados por códigos numéricos para a correta execução no o software
Dinamica EGO. Nesse caso, previamente foi realizada a reclassificação das
classes de uso e cobertura por meio do software Arcgis Arcmap 10.5. Como
se desejava avaliar especificamente a transição entre as classes “urbano”
e “floresta”, a atenção foi direcionada a essas classes. Nesse caso, as clas-
ses assumiram os seguintes códigos: água/hidrografia (código 1), floresta
(código 2), outros (código 3), urbano (código 4).
Os dados de unidades de conservação foram obtidos por consulta
à Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Rio de Janeiro e ao Institu-
to Brasileiro de Meio Ambiente – IBAMA. Esses arquivos, bem como os
vetores que indicaram as vias principais e a hidrografia da cidade, não
precisaram de edição. A Figura 6 destaca as etapas realizadas durante o
preparo dos dados:

142
ELIZABETH MARIA FEITOSA DA ROCHA DE SOUZA • VANDRÉ SOARES VIEGAS

Figura 6 – Etapas realizadas para aquisição e preparo dos dados antes da simulação.

Na fase final, todos os arquivos foram ajustados a um mesmo sistema de


projeção (UTM – SIRGAS 2000, fuso 23), e calcularam-se os condicionantes
de cada tema. Nessa etapa, foram gerados múltiplos círculos concêntricos
(buffers) para os arquivos que representam os limites de água, edificações/
urbano, floresta, unidades de conservação e rodovias. Esses círculos repre-
sentam as áreas de influência de cada tema, com maior ou menor relevân-
cia conforme a distância adotada. Utilizou-se a ferramenta Multiple ring, do
software Arcgis/arcmap 10.5. A indicação das distâncias pode ou não ser arbi-
trária. No caso de Maricá, as distâncias adotadas se justificam pela dimensão
total do município e a recorrência de limites observados para outras áreas
com dimensões aproximadas na bibliografia consultada. As distâncias fo-
ram atribuídas visando obter a cobertura completa de toda a área de estudo.
A Tabela 1 resume as distâncias adotadas para cada tema. Os dados de eleva-
ção e declividade não demandam a construção de uma matriz de condições,
uma vez que já recobrem toda a área de estudo.

143
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Condição Distância (m)

Água 500
Edificações 200
Floresta 200
Unidades de conservação 500
Rodovias 300

Finalmente, os arquivos foram convertidos para o formato matricial,


com o mesmo número de linhas e colunas. Essa é uma condição fundamental
para a geração de um arquivo compactado e que integre todos os arquivos
em um mesmo bloco, permitindo a modelagem posterior pelo software Di-
namica EGO.

3.2. Modelagem de cenários futuros

Para realizar a etapa de modelagem foram executadas sete ações de pro-


cessamento dos dados utilizando o software Dinamica EGO 4.0, cuja projeção
e alterações de uso e cobertura da terra para a área de interesse adota o mo-
delo chamado LUCC (land-use e land-cover change). As etapas seguidas estão
em destaque na Figura 7.

Figura 7 – Etapas realizadas para a modelagem e geração de cenário futuro em Maricá.

1. Cálculo de matrizes de transição


Inicialmente foram indicadas as matrizes de transição, que representam
o período de análise prévia das mudanças e constituem uma base importante
para permitir a projeção futura. Nesse caso foram selecionados os mapea-
mentos de 2010 (inicial) e 2019 (final). As matrizes de transição representam

144
ELIZABETH MARIA FEITOSA DA ROCHA DE SOUZA • VANDRÉ SOARES VIEGAS

os valores numéricos com as mudanças ocorridas entre os anos do estudo.


O arquivo “Single Step” representa a mudança global do período, ou seja, de
2010 a 2019, e o “Multiple Step”, o percentual de mudança ano a ano.

2. Cálculo de intervalos para categorizar variáveis


Nessa etapa foram indicadas as transições de interesse para a análise.
É importante verificar o maior número de alterações possíveis para o caso
urbano, já que é a classe naturalmente mais complexa e dinâmica. Então, as
transições e distâncias analisadas se basearam nos códigos atribuídos: 1, 2,
3, 4. O código (1) representou as áreas que se tornaram água, (2) são as áreas
que se tornaram floresta, (3) fragmentos que se tornaram outras classes, e
(4) o que se tornou urbano.

3. Pesos de evidência
Nessa fase, o sistema disponibiliza um gráfico de cada variável relacio-
nando os intervalos de distância em metros (range) com os pesos de evidên-
cia (weight). Quanto maior e mais positivo se torna o valor, maior é a atra-
ção para manchas urbanas; quanto maior e mais negativo o valor, maior é o
efeito repelente. Já os valores próximos de zero não exercem efeito sobre o
modelo. Assim, combinando os pesos de evidência das diferentes variáveis
foi possível calcular para cada célula mapas de probabilidade de transição. O
teste de significância permitiu identificar os intervalos que influenciaram a
transição, viabilizando, assim, a calibração do modelo, retirando os interva-
los que não exerceram efeito sobre as mudanças.

4. Análise da correlação de mapas


Os mapas empregados no cálculo de pesos de evidência devem ser espa-
cialmente independentes. O software realiza nessa etapa inúmeros testes em
pares para mapas que integram do cubo raster. Os métodos estatísticos em-
pregados foram os cálculos de Coeficiente de Cramers, Coeficiente de Con-
tingência e Incerteza das Informações Conjuntas. Nenhuma das variáveis
integradoras do cubo raster apresentou significativa correlação espacial e,
em função desse resultado, todas foram mantidas na modelagem.

5. Execução do modelo e simulação


Nessa fase, o software elaborou um modelo de predição entre os anos de

145
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

2010 e 2018 que possibilitou a validação do modelo, uma vez que é possível
verificar quão mais próximo o cenário construído para o ano de 2019 está da
paisagem real no mesmo ano.

6. Validação da simulação
A validação foi baseada na metodologia Fuzzy, desenvolvida por Hagen
(2003). Essa validação é equivalente à estatística Kappa e à similaridade fu-
zzy, que leva em consideração a incerteza da localização de uma categoria
dentro da vizinhança de uma célula. A partir da análise visual das simula-
ções geradas, nota-se quais as simulações apresentaram os melhores resul-
tados, pois são as mais semelhantes ao mapa de uso e cobertura da terra de
2019. Dessa forma, pode-se afirmar que, com os parâmetros utilizados, as
projeções podem ser construídas com o máximo acerto possível.
Segundo Macedo et al. (2018), trata-se de um teste de comparação de si-
milaridade fuzzy entre dois mapas-diferença, sendo o primeiro resultante
da subtração entre o mapa final real e o mapa inicial real, e o segundo resul-
tante da subtração entre o mapa final simulado e o mapa inicial real. Durante
a validação, dois valores numéricos e dois mapas de concordância são gera-
dos para o índice de similaridade fuzzy. O primeiro resulta da comparação
entre o primeiro mapa-diferença e o segundo mapa-diferença; o segundo,
da comparação inversa. Dessa forma, foi possível obter um índice mínimo e
um máximo, bem como um mapa de concordância mínima e outro de con-
cordância máxima. A partir do melhor resultado quantitativo (por meio dos
índices) e qualitativo (após análise visual), foi determinado o melhor trata-
mento para gerar os mapas prognósticos entre os anos de 2020 e 2030.

7. Execução do modelo de simulação com geraçãode manchas urbanas e expan-


são
O mapa de simulação do cenário futuro de Maricá em relação à expansão
urbana foi calculado para o ano de 2030, considerando os mesmos parâme-
tros da simulação após a análise.

3.3 Análise dos resultados

A análise dos resultados se baseou na avaliação do crescimento da cida-


de, considerando os bairros com maior crescimento acumulado entre 2010 e
a previsão em 2030, por km², com destaque para as áreas mais importantes.

146
ELIZABETH MARIA FEITOSA DA ROCHA DE SOUZA • VANDRÉ SOARES VIEGAS

4. RESULTADOS

4.1. Validação da simulação

A validação da simulação foi realizada comparando-se as simulações


produzidas pelo modelo para o ano de 2019 com o mapa final real de 2019.
A Figura 8 destaca os mapas gerados. Apesar de a simulação não coinci-
dir célula a célula com o mapa de referência gerado, pode-se ponderar que
o resultado apresentou uma aproximação aceitável, considerando que o
crescimento urbano está relacionado a inúmeros outros fatores não consi-
derados no modelo como dados sociais, políticas públicas e economia, por
exemplo. É possível perceber que a orientação de crescimento e localização
das manchas urbanas está coerente.

Figura 8 – Mapa simulado para 2019 com a expansão urbana e mapa de referência.

A previsão para 2019 se aproxima do mapa referência e atende à proposta


da pesquisa, com embasamento para que possa gerar a simulação em 2030.

147
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

4.2 Análise da expansão prevista para a cidade de Maricá em 2030

Maricá apresentou acelerado crescimento de sua área edificada entre


2010 e 2019 e mantém uma previsão de crescimento contínuo para o período
entre 2020 e 2030. Nessa fase, a cidade passou de 55 km² de área edificada em
2010, para 96 km² em 2019, um crescimento de cerca de 73%. A previsão para
o ano de 2030 é chegar a 134 km²,o que resultaria em um novo salto de cres-
cimento de 40% da área existente em 2019. Vale destacar a importância desse
tipo de crescimento diante da necessidade de se realizar um desenvolvimen-
to sustentável para garantir o crescimento social e econômico, e ao mesmo
tempo sustentável, na cidade. A Figura 9 destaca o crescimento acumulado e
a previsão de expansão para o ano de 2030.

Figura 9 – Mapa com crescimento acumulado e previsão de expansão urbana para 2030.

Considerando os bairros com maior crescimento segundo a projeção


para 2030, o bairro de Chácaras do Inoã se destaca entre os demais, com uma
previsão de 8,8 km², seguido por São José do Imbassaí, com 7,5 km². A Figura
10 apresenta um gráfico com os bairros que apresentaram previsão de cres-
cimento acima de 5 km² em 2030. O gráfico mostra a previsão e o valor acu-
mulado. Cabe destacar que, apesar de Chácaras do Inoã apresentar a maior
projeção de crescimento para 2030, São José do Imbassaí possui o maior total
acumulado de crescimento.

148
ELIZABETH MARIA FEITOSA DA ROCHA DE SOUZA • VANDRÉ SOARES VIEGAS

Figura 10 – Bairros com destaque de crescimento acima de 5km², conforme previsão para 2030.

A Figura 11 destaca o crescimento da área urbana para todos os bairros,


bem como a projeção para 2030.

Figura 11 – Bairros de Maricá, área urbana: crescimento acumulado e previsão de expansão para 2030.

149
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A cidade encontra-se em pleno crescimento da área edificada, havendo


basicamente duas classes de densidade: média, com maiores edificações e
comércio (no Centro e seu entorno), e o restante mais rarefeita, com maior
presença de residências. É importante ressaltar algumas áreas na cidade que
merecem destaque, considerando as mudanças previstas para o ano de 2030.
A Figura 12 mostra as áreas de expansão previstas para 2030 e um destaque
para sete subáreas.

Figura 12 – Áreas em destaque.

Na área 1, em destaque na Figura 13, o trecho indicado na simulação co-


bre terrenos ainda vazios nos bairros de Cajueiros e Chacarás de Inoá. É pos-
sível observar ainda áreas livres no bairro de Jardim Atlântico Central, para
o recebimento de novas construções, que deve sofrer um adensamento de
suas ocupações.

Figura 13 – Áreas 3 (esquerda) e 4 (direita).

A área 2 a ser edificada faz parte do bairro de Cassorotiba, próxima a


área de proteção integral Refúgio da Vida Silvestre das Serras de Maricá. Esse
é um padrão de previsão que deve ser monitorado de perto para impedir seu
avanço sobre as UCs, visto que se repete em outras áreas do município e si-
naliza a necessidade de contínua fiscalização.

150
ELIZABETH MARIA FEITOSA DA ROCHA DE SOUZA • VANDRÉ SOARES VIEGAS

Figura 14 – Área 2: Bairro de Cassorotiba.

As figuras 15 a 17 mostram as áreas 3 a 7. Nesses exemplos pode-se ob-


servar uma previsão de crescimento ao redor de condomínios já existentes,
sobre limites de UC`s, próximo as estradas de acesso e ainda em áreas litorâ-
neas. Nesse caso vale destacar a expansão para a restinga de Maricá que é um
importante ecossistema da região e precisa se manter preservado.

Figura 15 – Áreas 3 (esquerda) e 4 (direita).

Figura 16 – Áreas 5 (esquerda) e 6 (direita).

Figura 17 – Áreas 5 (esquerda) e 6 (direita).

151
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Vale ressaltar que todos os casos se referem a previsões de crescimento


e servem como diretrizes para ações de controle, fiscalização e apoio a pre-
feitura e órgãos gestores da cidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Cabe destacar que um modelo é uma representação aproximada e refle-


te uma expectativa futura que pode ser adotada como diretriz em diversas
aplicações. As projeções apresentam uma boa proximidade quando avaliadas
as simulações para o ano de 2019 no caso de Maricá. O estudo mostrou um
possível crescimento sobre áreas com importantes fragmentos de floresta e
próximo às unidades de conservação ambiental. No Centro da cidade, onde se
observa uma média densidade de ocupação, há uma expectativa de aumento
nessa densidade e ainda nos arredores que se expande com dinâmica desi-
gual, com bairros pouco adensados e de pouca infraestrutura. Outrossim, é a
expansão de núcleos urbanos – para o nordeste, dispersos ao longo das vias
principais, vales e encostas e das áreas costeiras – o maior apontamento da
pesquisa. A maioria destes núcleos estende-se de modo informal, próximos
a vias de acesso e cursos d’água, que se transformam em vetores populacio-
nais. Com isso, verifica-se que Maricá cresce de maneira segmentada, uti-
lizando de recursos naturais e paisagísticos para sua consolidação, com di-
versos vazios urbanos que devem ser preenchidos nos próximos anos com a
eclosão de novos loteamentos, em sua maioria destinados a empreendimen-
tos imobiliários e imóveis de segunda residência. O crescimento turístico e
de infraestrutura vem se intensificado no município, gerando conflitos de
ocupação com áreas preservadas. Esse crescimento deve ocorrer com supor-
te de dados para facilitar ações e intervenções no espaço urbano da cidade.

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153
MAPEAMENTO DE USO E
COBERTURA DA TERRA DO
MUNICÍPIO DE MARICÁ

Evelyn de Castro Porto Costa1 • Vinicius da Silva Seabra2

INTRODUÇÃO

O município de Maricá localiza-se a leste da região metropolitana do esta-


do do Rio de Janeiro. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), o município possui uma população estimada de 161.207 habitantes
para o ano de 2019 e população por contagem do Censo de 2010 de 127.461 ha-
bitantes. Entre os anos de 1991 e 2017, Maricá vivenciou um crescimento po-
pulacional de aproximadamente 329%. Ainda segundo o IBGE, o município de
Maricá possui densidade populacional total (2010) de 351,55 habitantes/km².
Devemos ainda levar em consideração que o município de Maricá está
inserido no Litoral Leste do Estado do Rio de Janeiro (LLERJ), que está situa-
do entre um dos polos mais importantes de extração de petróleo do Brasil,
com grande parte de seus municípios, inclusive, recebendo uma expressiva
quantia de recursos proveniente de royalties. Os campos presentes nessa re-
gião estão contidos nas Bacias de Campos e Bacia de Santos, e devemos res-
saltar que o LLERJ abriga em terra boa parte a infraestrutura necessária para
a exploração deste recurso (SEABRA; AUGUSTO, 2018).
O Litoral Leste do Estado do Rio de Janeiro (LLERJ) pode ser descri-
to como o recorte espacial que engloba todas as bacias que drenam para a

1 Evelyn de Castro Porto Costa é mestra em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia
da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo
(RJ), Brasil. E-mail: evelynportocosta@yahoo.com.br.

2 Vinicius da Silva Seabra é doutor em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia


da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ), Brasil, com período sanduíche na
Universidade de Havana, Cuba. E-mail: vinigeobr@yahoo.com.br.

155
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

porção leste da Baía de Guanabara, para as lagoas de Maricá, Saquarema e


Araruama e para o litoral oceânico, compreendido entre as praias oceânicas
de Niterói e o litoral de Casimiro de Abreu. Os municípios abrigados nessa
região podem ser observados no Quadro 1.
Uma das características populacionais atuais do LLERJ é de crescimento
populacional acelerado. Segundo Seabra e Augusto (2018), ao observarmos
o crescimento da população no LLERJ nos últimos 26 anos, perceberemos
que os municípios que fazem parte da região, integralmente ou parcialmen-
te, cresceram juntos em valores percentuais que são superiores ao cresci-
mento médio do Rio de Janeiro. De 1991 até 2017, a população dos municípios
do LLERJ representava 15,67% da população do estado do Rio de Janeiro; em
2017, já representava 18,29% de todo o estado. Nesse período, a população do
LLERJ cresceu em 1 milhão de habitantes, ou seja, quase 50%, saltando de
2.006.530 habitantes para 3.057.4923 habitantes (Quadro 1).

Quadro 1: População dos Municípios do Litoral Leste do Estado do Rio de


Janeiro em 1991, 1996, 2000, 2007, 2010 e 2017.

Municípios 1991 1996* 2000 2007* 2010 2017*


Araruama 59.024 65.691 82.803 98.268 112.008 126.742

Armação de Búzios - - 18.204 24.560 27.560 32.260

Arraial do Cabo 19.866 21.458 23.877 25.248 27.715 29.304

Cabo Frio 84.915 115.020 126.828 162.229 186.227 216.030

Cachoeiras deMacacu 40.208 43.332 48.543 53.037 54.273 57.048

Casimiro de Abreu 33.845 20.058 22.152 27.086 35.347 41.999

Guapimirim - 32.566 37.952 44.692 51.483 57.921

Iguaba Grande - - 15.089 19.716 22.851 26.936

Itaboraí 162.742 183.561 187.479 215.792 218.008 232.394

Magé 191.734 182.624 205.830 232.171 227.322 237.420

Maricá 46.545 60.064 76.737 105.294 127.461 153.008

Niterói 436.155 446.593 459.451 474.002 487.562 499.028

Rio Bonito 45.161 45.579 49.691 51.942 55.551 58.272

Rio das Ostras - 27.842 36.419 74.750 105.676 141.117

Saquarema 37.888 43.847 52.461 62.174 74.234 85.175

3 Este valor corresponde à estimativa da população segundo o IBGE.

156
EVELYN DE CASTRO PORTO COSTA • VINICIUS DA SILVA SEABRA

Silva Jardim 18.141 19.002 21.265 21.362 21.349 21.253

São Gonçalo 779.832 831.467 891.119 960.631 999.728 1.049.826

São Pedro da Aldeia 779.832 779.832 779.832 779.832 779.832 779.832

Tanguá - - 26.057 28.322 30.732 32.970

LLERJ 779.832 779.832 779.832 779.832 779.832 779.832

Percentual da População
do LLERJ no Estado do 2.006.530 2.175.934 2.408.765 2.682.395 2.847.286 3.057.492

Rio de Janeiro
Estado do RJ 12.807.706 13.323.919 14.391.282 15.420.375 15.989.929 16.718.956

Fonte: SEABRA; AUGUSTO (2018). * Estimativas de população do IBGE. Alguns municípios


foram criados após 1991 ou 1996.

Freire (2005) aponta que, a partir dos anos 1980, Maricá (Figura 1) apre-
senta uma intensificação na ocupação, não só de veranistas como de mora-
dores permanentes, originários de Niterói e sobretudo da cidade do Rio de
Janeiro. Segundo o CENSO 2010, o município contava com uma população de
127.461 habitantes, ou seja, houve um crescimento muito significativo, já que
em 1991 eram apenas de 46.545 habitantes. Esse índice representa um ex-
pressivo aumento populacional de 273% no período.

Figura 1 – Mapa de localização do município de Maricá (RJ).

157
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A construção do Complexo Petroquímico do estado do Rio de Janeiro


– COMPERJ em Itaboraí, município vizinho à Maricá, ocasionou gran-
des mudanças nos municípios vizinhos, tal como Maricá. Bezerra (2015)
aponta que o COMPERJ causa impactos não somente diretos, como tam-
bém indiretos nos municípios vizinhos à Itaboraí, provocando também,
em virtude da obra, impactos socioambientais.
Freire (2013) destaca que a instalação do complexo também atraiu
a atenção de investidores internacionais para instalações de megaem-
preendimentos turístico-imobiliários para investir no município. Além
disso, Souza (2016) destaca que, com a instalação do COMPERJ, há novas
dimensões da expansão imobiliária, funcionando logisticamente para
“dormitórios” de massas de mão de obra e mão de obra qualificada para
complexo e demais empresas.
Em aspectos físicos, o município caracteriza-se por abrigar dife-
rentes ambientes (restingas, cordões arenosos, dunas, encostas flores-
tadas, lagoas, praias, brejos), o que lhe confere uma diversidade de am-
bientes relevante e ainda pouco conhecida (SILVA; SEABRA, 2011). Maricá
possui duas unidades de conservação criadas pela esfera estadual (Ins-
tituto Estadual do Ambiente – INEA): a Área de Proteção Ambiental e o
Parque Estadual da Serra da Tiririca.
A APA de Maricá se encontra em parte do litoral do município, sendo
uma das poucas remanescentes do ecossistema de restinga ainda pre-
servada no estado, contendo grande biodiversidade e importância à ca-
racterística costeira da região. Destaca-se também o Parque Estadual
da Serra da Tiririca, que preserva importantes afloramentos rochosos e
florestas de mata atlântica, estando localizado a oeste do município. Já a
Unidade de Conservação (UC) é encontrada parte no município de Maricá
e parte no município de Niterói.
Além dessas, encontram-se outras importantes unidades de con-
servação criadas pelo município, tais como o Refúgio de Vida Silvestre
das Serras de Maricá, a APA das Serras de Maricá e o Monumento Natural
da Pedra de Inoã e da Pedra Itaocaia, todos localizados nas porções mais
continentais do município. Destaca-se ainda a existência da Reserva de
Proteção do Patrimônio Particular (RPPN) Pilar, UC de domínio privado,
localizada na porção norte do município (Figura 2).

158
EVELYN DE CASTRO PORTO COSTA • VINICIUS DA SILVA SEABRA

Figura 2 – Localização das Unidades de Conservação do município de Maricá.

A necessidade da análise espacial nessa área reflete a importância de


geração de dados que possibilitem a quantificação e análise da distribuição
da ocupação urbana e de remanescentes naturais, compreendendo seus con-
flitos e contextualizações no cenário ambiental atual, podendo vir a subsi-
diar planejamentos socioambientais e, principalmente, preservar as áreas
florestadas ou vulneráveis.
A análise do uso e cobertura da terra é indispensável para estudos am-
bientais de qualquer natureza, pois permite a compreensão da distribuição
das atividades humanas no espaço geográfico, assim como apontam os ve-
tores de pressão e impactos sobre os elementos naturais presentes na pai-
sagem. Numa concepção geográfica, a expressão “uso da terra” designa não
somente a tipologia de cobertura da terra existente num determinado local,
como também, fundamentalmente, o conjunto de forças produtivas e rela-
ções sociais de produção que condicionam as formas de ocupação e uso de
um determinado território (IBGE, 1999).
O mapeamento de uso e cobertura da terra é essencial ainda para a aná-
lise das mudanças na superfície terrestre e das interações existentes entre o

159
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

meio biofísico e socioeconômico, sobretudo nas áreas em que esses proces-


sos ocorrem com grande dinamismo.

METODOLOGIA

Com a finalidade de realizar uma melhor análise espacial da área em


estudos, utilizou-se como metodologia o mapeamento de uso e cobertura da
terra, que auxiliará nas discussões da dinâmica espacial, bem como nas dis-
tribuições dos elementos naturais e antrópicos presentes na área de estudos.
O uso da terra é um termo que se refere ao modo como a terra é usada pe-
los seres humanos. A cobertura da terra refere-se à distribuição dos materiais
biofísicos sobre a superfície terrestre (JENSEN, 2007). A metodologia escolhi-
da foi o mapeamento de uso e cobertura da terra, que, segundo o IBGE (2006),
consiste na elaboração de mapas indicativos da distribuição geográfica dos
usos através da identificação de padrões homogêneos da cobertura terrestre.
Segundo Cruz et al., (2007) a classificação baseada em objetos simula, a par-
tir da modelagem do conhecimento, as técnicas de interpretação visual, possi-
bilitando a identificação de feições, baseando-se ainda na descrição de padrões
identificadores, tais como textura, cor, métrica e contexto. Portanto, o uso dessa
metodologia torna possível uma melhor interpretação e manuseio da imagem.
Segundo Blaschke (2010), a emergência da classificação baseada em ob-
jetos surge da necessidade da análise integrada da paisagem através dos seus
objetos espaciais, interpretados a partir das suas respostas espectrais, do
seu contexto espacial e multiescalar e de dados temáticos terrestres.
Para esse trabalho foram utilizadas imagens do satélite Sentinel 2, de
agosto de 2019, obtidas pelo sensor MSI. As imagens são disponibilizadas gra-
tuitamente pela Agência Espacial Europeia (ESA), apresentando resoluções
espaciais que variam entre 10, 20 e 60 metros nas suas 13 bandas e resolução
radiométrica de 12 bits, o que permite realizar mapeamentos em média-alta
resolução. As características das imagens MSI e da metodologia de classifica-
ção utilizada nos possibilitam afirmar que o mapeamento previsto nas aná-
lises aqui descritas pode ser considerado como de escala de 1:50.000 ou maior.
As bandas utilizadas na composição de índices e classificação foram as
do visível (2, 3 e 4), infravermelho próximo (5), Red Edge (6, 7, 8 e 8A), e in-
fravermelho médio (11 e 12). Segundo Santos et al. (2017), uma das principais
vantagens do uso de imagens do Sentinel 2 é a combinação de estreitas faixas
espectrais, proporcionadas por quatro canais Red Edge (borda do vermelho)

160
EVELYN DE CASTRO PORTO COSTA • VINICIUS DA SILVA SEABRA

e o tempo de revisita, que contribui para estudos de identificação e moni-


toramento de coberturas vegetais (Tabela 1). Cabe destacar que as imagens
já foram baixadas com correção atmosférica, não havendo necessidade de
realização de procedimentos matemáticos nas bandas para corrigi-las.

Tabela 1: Especificações das bandas do sensor Sentinel 2.

Resolução Banda Nome

B2 Azul
B3 Verde
10M
B4 Vermelho
B8 Infravermelho Próximo
B5 Red Edge 1
B6 Red Edge 2
B7 Red Edge 3
20 M
B8A Red Edge 4
B11 Infravermelho Distante 1
B12 Infravermelho Distante 2
B1 Aerossol
60 M B9 Vapor d’água
B10 Nuvem

Com o objetivo de auxiliar no projeto de mapeamento de uso e cobertu-


ra da terra, optou-se por empregar o mapa geomorfológico do município de
Maricá como um dos descritores da classificação. Este mapa foi construído
pelo grupo de pesquisa Dinâmicas Ambientais e Geoprocessamento – DA-
GEOP, a partir de adaptações da metodologia do IPT (1981) na elaboração do
mapeamento do Estado de São Paulo.
O processo de segmentação e classificação de imagens para geração
de mapa de uso e cobertura foi realizado pelo software eCognition, que,
segundo Lang e Blaschke (2009), é o mais indicado para esse tipo de
classificação, uma vez que os dados de entrada espectrais e temáticos são
transformados em objetos por meio de um algoritmo de segmentação, o
que corresponde a uma mistura do ponto de vista do conteúdo e espacial.
A classificação foi realizada pela metodologia GEOBIA (classificação de
imagens baseada em objetos), que se diferencia das demais técnicas, pois

161
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

considera muitos tipos de descritores, tratando-os como parâmetros carac-


terizadores dos objetos, tais como cor, textura, tamanho, forma, padrão, lo-
calização, contexto etc. (TRIMBLE, 2013).
No processo de modelagem das classes foram utilizadas as médias das ban-
das espectrais e o mapa geomorfológico. Para a modelagem das classes de areia,
área úmida e restinga, o mapa geomorfológico foi imprescindível, pois foi usa-
do para restringir suas ocorrências a terrenos planos e, no caso das restingas e
cordões arenosos, às áreas próximas das faixas litorâneas. Dessa forma, foram
ponderadas restrições viabilizadas pelo software que facilitaram o acerto dessas
classes. Outro exemplo disso foi a presença da classe de afloramento rochoso, que
foi condicionada às áreas com ocorrência de montanhas, morros e morrotes.
As principais críticas tecidas à mapeamentos temáticos dizem respeito
a falta de padrão nas classes utilizadas no mapa, assim como a clareza em
suas definições. Por esse motivo, é importante ressaltar as classes utilizadas
com as suas respectivas descrições para a classificação das imagens, para
que seja possível uma melhor interpretação das informações obtidas:

1. Água: lagoas, espelho d’água, rios e lagos artificiais;


2. Areia: cordões arenosos e dunas;
3. Áreas úmidas: áreas de inundação temporária (não permanente);
4. Floresta: cobertura arbórea típica de mata atlântica, exceto restingas
e mangues;
5. Mangues: vegetação associada às margens de rios, onde haja encon-
tro de águas de rios com a do mar;
6. Pastagem: áreas de agricultura e solos preparados para cultivos, ou
vegetação rasteira (gramíneas), caracterizada por pequenas colinas;
7. Restinga: cobertura vegetal em depósitos arenosos;
8. Solo Exposto: solos preparados para cultivo ou construção civil e
mineração;
9. Urbano Rarefeito: áreas de menor ocupação, com lotes vazios (não
construídos) intercalando as casas;
10. Urbano Moderado: ocupação dada de forma contínua, com poucas ou
nenhuma interrupção de lotes vazios, podendo haver construções verticais
de baixo porte.

162
EVELYN DE CASTRO PORTO COSTA • VINICIUS DA SILVA SEABRA

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Segundo Altmann et al. (2009), o mapeamento de uso e cobertura das


terras retrata as atividades humanas que podem significar pressão e impac-
to sobre os elementos naturais. Nesse sentido, é importante analisar o con-
teúdo encontrado a partir do mapeamento, fazendo inferências importantes
para o planejamento urbano e ambiental. O resultado do mapeamento de uso
e cobertura da terra de Maricá (Figura 3) aponta a distribuição espacial das
classes no município, o que reflete diretamente em sua dinâmica.
O mapeamento aponta que o município possui a classe de florestas como
a mais representativa, alcançando cerca de 42% da área de estudos (156.601
km²). Nesse sentido, considera-se que Maricá é uma região com relevantes
fragmentos de vegetação nativa de Mata Atlântica. Grande parte dessas flo-
restas encontram-se preservadas por importantes unidades de conservação
já mencionadas anteriormente. Cabe enfatizar que a presença de florestas
apontadas no mapeamento reafirma a importância das áreas protegidas
como cruciais instrumentos de conservação das coberturas naturais e, con-
sequentemente, da preservação de sua biodiversidade.
A água, ou espelhos d’água, se destaca por possuir uma área de 37.224
km², representando 10,21% da área. Os espelhos d’água apresentam essa área
em virtude das lagunas que se encontram no litoral, como a lagoa de Maricá,
importante corpo hídrico do município.

Figura 3 – Mapeamento de uso e cobertura da terra do município de Maricá.

163
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A segunda classe mais frequente no município são as áreas de pastagem,


caracterizadas como vegetação rasteira (gramíneas). As áreas de pastagem
são encontradas em 63.829 km², predominantemente em planícies e colinas,
com uma porcentagem de 17,51% em relação ao total. As florestas são en-
contradas principalmente nas encostas e topos dos maciços litorâneos, com
156.601 km² e 42,96% da área mapeada (Tabela 2).
As áreas úmidas são encontradas em uma extensão de 12.083 km² da co-
bertura total, que corresponde a 3,31%, e estão distribuídas no entorno dos
corpos hídricos, caracterizando-se por serem mais alagadiças ou úmidas em
alguns períodos do ano. Áreas assoreadas para extração de areia, como a La-
goa Brava, também são classificadas como áreas úmidas.

Tabela 2: Resultado do mapeamento de uso e cobertura da terra.

Classes Polígonos Área (km²) Percentual


Afloramento Rochoso 78 3.128,35 0,86
Água 272 37.224,49 10,21
Áreas Úmidas 225 12.083,19 3,31
Areia 225 5.566,73 1,53
Floresta 2067 156.601,59 42,96
Mangue 8 306,50 0,08
Pastagem 1387 63.829,38 17,51
Restinga 119 5.480,56 1,50
Solo Exposto 23 660,90 0,18
Urbano Moderado 528 35.333,78 9,69
Urbano Rarefeito 883 44.335,21 12,16
Total 5815 364.550,69 100,00

Os afloramentos rochosos, que representam 3.128 km² e 0,86% da área


total, aparecem em escarpas de rochas, principalmente na Pedra do Elefan-
te, localizada no Parque Estadual da Serra de Tiririca. O solo exposto, com
660 km² (0,18%), é oriundo da mineração que ocorre em certos pontos da
região, principalmente por ter areia fina apropriada para construções e, so-
bretudo, áreas em construção atualmente.
As áreas urbanas encontram-se distribuídas principalmente na faixa lito-
rânea e nas margens das lagoas costeiras. Na área de estudo, não são encontra-

164
EVELYN DE CASTRO PORTO COSTA • VINICIUS DA SILVA SEABRA

das ocupações verticalizadas em número expressivo. Dessa forma, as classes de


uso urbano foram classificadas somente em duas: a urbanização rarefeita, que
representa 12,16% do município, e a urbanização moderada, que alcança 9,69%.
O urbano moderado caracteriza-se pela concentração de construções. É
encontrado em poucas áreas dos municípios e está concentrado principalmen-
te no litoral de Maricá, representando 35.333 km² da área total do município.
Atualmente, Itaipuaçu e o centro de Maricá (Figura 4) possuem altas concen-
trações de residências, com poucos espaçamentos entre os lotes, o que os ca-
racteriza como áreas de urbano moderado, de maior consolidação. Tais áreas
merecem atenção no planejamento urbano, tendo em vista que possuem eleva-
da densidade populacional.

Figura 4 - Urbano moderado em Iatipuaçu e na região central de Maricá

Já o urbano rarefeito caracteriza-se por ter alguns lotes vazios e apare-


ce distribuído em toda a região, principalmente ao largo de corpos hídricos
e rodovias. Essa classe chega a 44.335 km² do município, estando bastante
presente em áreas que estão em fase inicial de urbanização, com um inci-
piente adensamento urbano.
Cabe destacar que as áreas de urbano rarefeito se situam, em grande
parte, no entorno das áreas de urbano moderado, o que permite concluir
que são as regiões que estão em desenvolvimento e se utilizam das infraes-
truturas já existentes nas áreas de urbano moderado, já consolidadas. Essa
classificação é muito importante para identificar as regiões de crescimento
urbano do município, uma vez que sinaliza as áreas que merecem maior ên-
fase em planejamento urbano e necessitam de maior atenção para a imple-
mentação de infraestruturas urbanas.

165
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Os cordões arenosos, representados pela classe “areia”, têm uma área de


2,64 km², correspondendo a 1,53% do total do município. Essa classe ocorre
na linha de costa, principalmente na praia de Itaipuaçu, onde alcança cerca
de 5.566 km². A áreas de restinga representam 5.480,56 km², corresponden-
do a 1,50% da cobertura total, caracterizada por dunas, brejos e vegetações
nativas de restinga, sejam elas rasteiras ou floresta baixa.
As restingas, distribuídas em grande parte de Itaipuaçu, são legalmente
protegidas pela APA de Maricá, que preserva esse importante remanescen-
te de vegetação nativa, típico da Mata Atlântica. Entre as principais dificul-
dades de preservação das restingas no município, destacam-se a presença
de agentes imobiliários de terrenos e a ocupação irregular de famílias com
pouco poder aquisitivo.
O município de Maricá possui grande diversidade de usos e coberturas
naturais. Nesse sentido, o mapeamento aqui apresentado permitiu obter da-
dos quantitativos e qualitativos sobre essa diversidade de paisagens. Atra-
vés do gráfico (Figura 5), é possível analisar, em termos quantitativos, quais
são as classes de maior e menor extensão no município. Tal síntese permite
compreender a dominância de cada uso e cobertura existente.

Figura 5 – Área de extensão das classes de uso e cobertura da terra (em quilômetros quadrados).

Como já mencionado, a classe de floresta é aquela de maior dominância,


estando muito associada às unidades de conservação existentes e remanescen-
tes de Mata Atlântica. Na segunda posição na classificação de predominância,
encontra-se a classe de pastagem, que remete às áreas de cultivos e pecuária.

166
EVELYN DE CASTRO PORTO COSTA • VINICIUS DA SILVA SEABRA

As classes de uso urbano, classificadas como rarefeito e moderado, apa-


recem como predomínio posterior. Os corpos hídricos, caracterizados pelas
lagoas, também aparecem com quantitativo expressivo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As geotecnologias têm enorme importância para o planejamento terri-


torial e para investigações acerca da paisagem, tendo em vista que permitem
a compreensão da paisagem em cenários pretéritos e atuais, possibilitando a
reflexão de cenários futuros.
O avanço das técnicas de processamento digital de imagens têm facilita-
do a obtenção de informações de forma mais rápida e eficiente. Nesse sentido,
ressalta-se a importância da disponibilização dessas imagens de forma gratui-
ta, ajudando a fomentar a análise espacial de diferentes territórios. As imagens
de satélite auxiliam na interpretação e classificação de imagens de modo mais
específico, possibilitando a compreensão da distribuição dos objetos em seus
diferentes cenários. Especificamente, a imagem de satélite Sentinel 2, utilizada
para realização do mapeamento, foi de suma importância para um maior deta-
lhamento das classes presentes na paisagem do município de Maricá.
A aplicação de técnicas de sensoriamento remoto para a construção do ma-
peamento de uso e cobertura da terra, como a classificação de imagens orientada
ao objeto (GEOBIA), mostrou resultados satisfatórios, o que refletiu em menor
esforço de edição dos mapas finais. O levantamento de dados a partir das ima-
gens e de bibliografias existentes, assim como a inserção destes em um banco de
dados geográficos, tornou possível a geração de informações capazes de indicar
a ocorrência e a localização de alterações relevantes na área de estudo.
A classificação orientada a objeto configura-se como um importante re-
sultado desta pesquisa, uma vez que não só gerou subsídios para a determina-
ção da distribuição do uso e cobertura da terra, como também abriu uma série
de possibilidades de investigação relacionadas à análise e gestão ambiental. É
importante ainda salientar que todos os resultados se encontram disponíveis
em ambiente SIG e poderão ser utilizados em outros estudos na área.
O mapeamento de uso e cobertura da terra do município de Maricá permitiu o
aprofundamento da distribuição espacial dos recursos naturais e humanos exis-
tentes em sua paisagem. Nesse sentido, o mapeamento auxilia o melhor planeja-
mento urbano, bem como a distribuição de recursos para as áreas urbanas em cres-
cimento e as áreas urbanas consolidadas e de maior concentração populacional.

167
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

O crescimento urbano encontra-se concentrado nos centros comerciais e


litorais de Maricá. Na porção litorânea também se encontram áreas de restinga,
preservadas pela APA de Maricá, tornando ecossistemas de restinga protegidos
legalmente; entretanto, recentemente a APA tem sofrido pressões imobiliárias
e econômicas que ameaçam sua perpetuidade, sendo alvo de inúmeros debates.
Além disso, os resultados do mapeamento permitiram compreender como
ocorre a distribuição dos recursos naturais existentes no município. Logo, analisou-
-se que maior parte do município se encontra preservada, com áreas classificadas
como florestas, seguida por áreas de pastagem, utilizadas para agricultura e pecuá-
ria – as quais, mais recentemente, tornaram-se áreas com forte apelo imobiliário.
Portanto, a partir do mapeamento de uso e cobertura da terra é possí-
vel identificar diferentes tipos de informações, obtendo melhor entendi-
mento dos recursos existentes e subsidiando a sociedade civil e os órgãos
públicos para melhor gerenciamento de seu território.
Cabe ressaltar que o crescimento urbano deve levar em conta as ações de
preservação e conservação do meio ambiente. Nesse sentido, o ordenamento ter-
ritorial do município deve considerar a existência das unidades de conservação
e demais pontos de interesse ecológico, a fim de coexistirem harmonicamente.

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168
EVELYN DE CASTRO PORTO COSTA • VINICIUS DA SILVA SEABRA

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169
TRANSPORTE E POLÍTICA PÚBLICA:
OS “VERMELHINHOS” E O
DIREITO SOCIAL AO TRANSPORTE1

Marcelo da Silva Araújo2

INTRODUÇÃO

Este texto resulta, originalmente, de uma pesquisa de Iniciação Cien-


tífica Júnior na área de Sociologia, realizado em uma instituição federal de
ensino, o Colégio Pedro II. Assim, desejo ressaltar a motivação original de
compreender e dar a conhecer os avanços de uma estratégia de mobilida-
de urbana, demarcadora que é de uma política social inclusiva e abrangente,
pelo poder público.
Na condição primeira de relatório de pesquisa, portanto, este artigo en-
volveu, além de mim, três estudantes de 2ª série do ensino médio regular,
todos residentes no munícipio de Maricá. Tal reconhecimento é mais que
necessário, mas falarei, em consonância com uma das regras de composição
do texto, na primeira pessoa, responsabilizando-me integralmente pela ex-
posição das ideias aqui constantes.
O programa de Iniciação Científica Júnior a que me referi é uma impor-
tante ferramenta na introdução de estudantes do Ensino Básico aos mean-
dros da pesquisa. Nele, o desenvolvimento de investigações baseadas em bi-
bliografias teóricas e metodológicas, assim como na discussão e formulação
de modos de captação de dados e de sua análise, aguçam a curiosidade e o
senso de observação.
1 Agradeço imensamente pela parceria de Eddie Felipe de Araujo Nery, Lucas Nascimento Moura e
Nathan Cunha da Silva, pesquisadores, estudantes e coautores da 1ª versão deste trabalho.

2 Marcelo da Silva Araujo é doutor em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia


da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail: msaraujo@cp2.g12.br.

171
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Porém, são, sobretudo, os debates acerca dos resultados obtidos que


proporcionam uma espécie de “liga” por intermédio da qual uma nova dinâ-
mica se constrói. Tal dinâmica se volta, adequadamente, à busca dos resul-
tados de uma investigação, mas pode também incentivar os jovens pesqui-
sadores a lapidarem suas escolhas profissionais, além de fortalecer a relação
interpessoal entre professor e estudantes.
Dessa forma, este trabalho está organizado, em sequência, a partir de um
breve resgate da trajetória do transporte público rodoviário em Maricá e sua
conexão com a inserção da política de “tarifa zero”, bem como uma peque-
na imersão sobre esse serviço público quanto às suas formas e ocorrências.
Parto, em seguida, para uma reflexão sobre a atuação da Empresa Pública de
Transportes (doravante EPT), corporificada pelo funcionamento dos “verme-
lhinhos” (como são popularmente conhecidos os veículos do Tarifa Zero), seu
impacto no cotidiano dos moradores e o desdobramento dos debates, numa
cidade de porte médio, sobre essa modalidade de deslocamento. Finalizo com
o diálogo e os embates acerca dessa política pública, por intermédio de entre-
vistas de campo, entre o setor público e o setor privado municipais.
Ele, o trabalho, não é inédito (apesar de conter atualizações): ao contrá-
rio, e exatamente por sua função social de informação e esclarecimento so-
bre o uso e a implementação de políticas públicas e por sua discussão peda-
gógica no campo da educação, figurou como capítulo de um livro no formato
e-book, organizado por mim.
Partindo da perspectiva original, como disse acima, de um relatório de
pesquisa de iniciação científica escolar, e na esteira da compreensão do trans-
porte como um direito social, pretendo, neste texto, apresentar o cenário que
antecedeu a paralisação das atividades da Viação Costa Leste e a inserção dos
seus antigos itinerários nas rotas dos veículos da EPT. Isto é, apresentarei re-
flexões formuladas entre 2016 (pesquisa) e 2017 (escrita). Logo, os dados estão,
no tocante ao momento atual, desatualizados. Isso, reafirmando o que disse
acima, longe de ser desabonador, permite a alçagem de voos investigativos a
outros pesquisadores que sejam instigados pelo tema.
Acredito, com isso, que outras e qualitativas pesquisas devem ser rea-
lizadas para cobrir não somente as lacunas desta, mas – e sobretudo – o
cenário que ultrapassa o seu escopo, de forma a garantir maior qualificação
à produção de informações à municipalidade e aos cidadãos de Maricá.
Concluo estas palavras introdutórias adiantando que, em razão da
extemporaneidade da construção do texto, equalizarei, sempre que neces-

172
MARCELO DA SILVA ARAÚJO

sário, a temporalidade das falas das personalidades que colaboraram na


pesquisa quanto às funções então desempenhadas. Para tanto, fixarei a pa-
lavra então para situar o lugar de fala desses atores.

POR QUE “TRANSPORTE E POLÍTICA PÚBLICA”?

O tema é a espinha dorsal do funcionamento de qualquer cidade. No mu-


nicípio de Maricá, região metropolitana do estado do Rio de Janeiro, o trans-
porte público é um serviço duplamente importante: no sentido instrumental
(pois a extensão territorial de Maricá é um desafio ao ir e vir) e no sentido
econômico (face à correlação entre os valores da tarifa de transporte e o po-
der aquisitivo dos moradores).
De igual maneira, por ser docente em uma instituição pública, minha
crença de que uma política pública tem valor conceitual e, por isso, preci-
sa apresentar ao menos uma realidade concreta, é inabalável. Com efeito,
apoio-me em Höfling (2001), em Souza, (2006) e em Molina (2012) para fi-
xar uma definição de política pública como um conjunto de decisões, planos,
metas e ações governamentais – seja em nível nacional, estadual ou munici-
pal – voltados para a resolução de problemas de interesse público. Com base
nessa especificação, movi-me a pensar o transporte, nas condições defini-
das pela pesquisa.
Conectado ao conceito acima referido, temos que o transporte é, assim
como a educação, um direito social (Emenda Constitucional n. 90/15), o que
fortalece a noção de que cidadania e reconhecimento de direitos (tal como
estabelecido no Art. 6º da Constituição Federal) andam de mãos dadas.
O conceito de direito social, bem entendido, é aquele que visa garantir aos
indivíduos o exercício e usufruto de direitos fundamentais em condições de
igualdade, por meio da proteção e garantias dadas pelo Estado de direito. Do
ponto de vista da Sociologia, área do saber que me anima aqui, os direitos so-
ciais, de acordo com o pensador inglês T. H. Marshall (1967), figuram como os
últimos, após os direitos civis e políticos, a serem alcançados já no século xx.
Dito isso, parto, portanto, de uma hipótese acerca da oferta pública de
transporte municipal gratuito. Tal hipótese envolvia, pois, o advento dos
movimentos sociais de mobilidade urbana, organizadas pelo Movimento
Passe Livre (MPL), que se projetaram em junho de 2013. Naquele ano ocor-
reram, em todo o Brasil, manifestações com o objetivo inicial de impedir o
aumento de 20 centavos nas tarifas de ônibus.

173
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A pesquisa foi iniciada com a concepção de que as “Jornadas de Junho”


(cf. a obra Cidades Rebeldes, passim, 2013), inspiraram a gestão do município
de Maricá a adotar a política do Tarifa Zero. Na época em que eclodiram as
mobilizações, o então prefeito estava em seu segundo mandato (e foi suce-
dido, nas eleições de 2016, por um correligionário). Porém, constatei – e isto
se tornou um aprendizado muito valioso de pesquisa – que essa chave de
leitura da realidade social era insatisfatória.
Pesquisa em andamento, resta dizer que privilegiei, como parte das ativi-
dades previstas, a metodologia das entrevistas de campo. Desse modo, com-
preendi que seria necessário dialogar com representantes das concessionárias
de ônibus e da gestão municipal do serviço. Entrevistei, assim, o então geren-
te-geral da Viação Costa Leste e o então presidente da autarquia EPT. Não foi
possível, à época, obter posicionamento da Viação Nossa Senhora do Amparo,
a maior em operação no município. Por motivos que desconheço, a empresa
nem retornou meus e-mails, nem recebeu os pesquisadores em sua sede.
Antes, porém, de tratar da situação maricaense, um breve sobrevoo pe-
las questões de financiamento e mobilidade de massa.

MOBILIDADE URBANA E FINANCIAMENTO


DO TRANSPORTE DE MASSA

Com a prevalência do transporte rodoviário, torna-se essencial uma coor-


denação de ações governamentais para assumir a política urbana. Procura-se,
com isso, superar a cultura de fragmentação da gestão, que separa as políticas
habitacionais, de saneamento ambiental e de mobilidade, e gera desperdício de
recursos, ineficiência e reprodução das desigualdades socioespaciais. Assim, as
políticas de mobilidade urbana devem estar integradas às demais, com a fina-
lidade de proporcionar o acesso amplo e democrático ao espaço urbano de ma-
neira sustentável. Vale, pois, uma reflexão de PESCHANSKI (2013, p. 60):

A criação de um sistema de transporte público gratuito


não é viável apenas numa configuração social futura,
hipotética – é, em princípio, funcional ao capitalismo
realmente existente. O caráter realista (ou, mais
especificamente, utópico-realista) da proposta (...)
combina o diagnóstico da irracionalidade da sociedade
dependente de automóveis individuais e uma alternativa
possível nos parâmetros estabelecidos pela própria
economia convencional.

174
MARCELO DA SILVA ARAÚJO

O conceito de mobilidade urbana como direito pode passar a ser de-


finido a partir de um conjunto de políticas embasadas na mobilidade de
pessoas e cargas, visando, prioritariamente, os modos não motorizados e
coletivos de transporte.
Pode resultar, deste modo, em intervenções socialmente inclusivas e am-
bientalmente sustentáveis – por isso, não à toa, a mobilidade urbana é mui-
tas vezes qualificada como a “vedete das políticas públicas”. Apesar disso, ela,
em nosso tempo, pode ser caracterizada como excludente, estando a rede de
transportes intimamente ligada à segregação espacial (MOURA, 2015, p. 6).
A partir de 2001, o Estatuto da Cidade (Lei n. 10.257, de 10 de julho de
2001) passou a regulamentar o capítulo “Política urbana” da Constituição
brasileira, tendo o planejamento participativo e a função social da proprie-
dade como princípios básicos. O Estatuto autoriza, em linhas gerais, a elei-
ção de modelos coletivos de mobilidade urbana como prioritários.
Na esteira destas disposições, a 3ª Conferência Nacional das Cidades, de
2007, confirmando a urgência na elaboração de políticas públicas de desen-
volvimento urbano, recomendou uma política de mobilidade que compor-
tasse as demais políticas urbanas e que democratizasse as relações espaciais,
especialmente através do barateamento das tarifas de transporte público.
No Brasil, o financiamento da operação de transporte público deve ser
feito por Estados e Municípios. Estes o concedem às companhias privadas,
por meio de regulamentação operacional e econômica. Como exemplo, po-
de-se, para tanto, tomar a cidade e a região metropolitana de São Paulo.
Lá, as subvenções são pagas pelo conjunto da sociedade, por meio do orça-
mento geral do município e do estado, e cobrem cerca de 20% dos custos de
operação dos sistemas.
No entanto, a concessão de gratuidades faz parte das formas de acesso à
mobilidade urbana via transporte rodoviário. Vale, assim, lembrar que para
a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (2016, p. 43), o
custeio das gratuidades deve ser “feito pelo Poder Público, e não por meio do
aumento de tarifas aos passageiros pagantes.”

TRANSPORTE EM MARICÁ: ASPECTO


HISTÓRICO E ORGANIZACIONAL

O município de Maricá é a porta de entrada para a Região dos Lagos e


possui atualmente, segundo o IBGE (2020), 161.207 habitantes.

175
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A história do seu transporte coletivo tem início em 1887, quando da


construção da Estrada Férrea Maricá (EFM). Com a decadência desse modal,
investiu-se no transporte rodoviário, dando-se origem, em maio de 1950, à
primeira empresa privada de ônibus, a Viação Nossa Senhora do Amparo (cf.
História de Maricá, p. 1). Bem mais recentemente, em 1997 (cf. Especial Ma-
ricá, Jornal Extra, 26 de maio de 2016), entrou em operação outra das duas
empresas de transporte rodoviário, a Viação Costa Leste.
Em 2004, pela necessidade de licitar linhas de ônibus, foi celebrado um
contrato entre a prefeitura e as empresas concessionárias, cuja vigência se-
gue até 2020. Antes disso, segundo informou, em entrevista, o gerente ge-
ral da Viação Costa Leste, as companhias podiam atuar em qualquer área do
município: “Não existia licitação. A empresa podia ‘rodar’ onde quisesse.
A Viação Nossa Senhora do Amparo [então única existente] poderia ‘rodar’
onde quisesse”.
Com isso, a divisão do itinerário estabeleceu que os bairros da parte les-
te de Maricá seriam assistidos pela Viação Costa Leste e, a oeste, atuaria a
Viação Nossa Senhora do Amparo. Como vimos na seção anterior, o predo-
mínio do transporte terrestre em um município dependente de mercados e
oportunidades de trabalho situadas nas cidades vizinhas exige formas am-
pliadas de financiamento da mobilidade urbana.

A INSERÇÃO DO TARIFA ZERO: DADOS


GERAIS E SUA PRESENÇA EM MARICÁ

Atualmente, é possível identificar oitenta e seis cidades com modalida-


des de Tarifa Zero. Isso demonstra que o problema da centralização de ser-
viços de transporte está em diversas regiões do mundo.
São quarenta e quatro na Europa (como em Tallinn, capital da Estônia,
por motivações sociais, ambientais, econômicas e fiscais), três na Ásia, onze
na América do Sul (todas no Brasil3), vinte e três nos Estados Unidos e cinco
na Oceania (SCHIAFFINO et al., 2015, p. 2).
Em comum, temos que as motivações sociais são indicadas pela garan-
tia da mobilidade para os desempregados e moradores de baixa renda. As
incitações de caráter econômico almejam aumentar a mobilidade dos traba-

3 Um dos mais conhecidos modelos de Tarifa Zero é o de Agudos, em São Paulo. Com uma população
de 34.524 (IBGE, 2010), o município implantou o programa em 2003 para facilitar os deslocamentos
dos trabalhadores, estudantes e demais moradores.

176
MARCELO DA SILVA ARAÚJO

lhadores nos limites da cidade, bem como incentivam a atividade de comér-


cio e consumo: o dinheiro poupado no transporte passou a ser gasto em bens
de consumo e em serviço locais.
Os modelos existentes de Tarifa Zero consistem, em linhas gerais, no
custeio do serviço pelas prefeituras municipais e se apresentam de duas for-
mas: operado integralmente pela prefeitura ou operado por empresas con-
cessionárias e mantido pela prefeitura. No que tange à distribuição territo-
rial, o Tarifa Zero pode ocorrer em todo o espaço do município ou em parte
dele (área central da cidade ou linhas específicas). A partir daí, não há dúvi-
das de que a tarifa gratuita é uma forte motivação para a população escolher
a cidade para residir.
Whitaker, em seu hoje clássico Razões e caminhos para o Tarifa Zero (2016,
p. 4), defende que, ao estabelecermos que os custos de operação do transpor-
te coletivo passarão a ser cobrados de toda a sociedade, “não estamos ino-
vando demais. Só estamos ampliando o alcance do sistema atual”. É o que ele
denomina “políticas de justiça fiscal”.
Para o autor, que se transformou em referência no debate desta política
urbana, existiriam dois conceitos: o de tarifa real e o de tarifa social. Optan-
do-se pela primeira, procura-se “fixar uma tarifa que cubra inteiramente
pelo menos os custos de operação, sem necessidade de subsídios”. Optan-
do-se pela segunda, “fixa-se uma tarifa que esteja ao alcance dos usuários,
especialmente daqueles de baixa renda, e aumenta-se o subsídio” (WHITA-
KER, 2016, p. 5).
O munícipio de Maricá experimentou um crescimento substancial após
um novo campo de extração de óleo e gás entrar em operação comercial, uma
vez que passou a receber royalties da União. De acordo com o Portal da Trans-
parência, disponível no site da Prefeitura Municipal de Maricá,4 o municí-
pio havia recebido o maior volume de recursos provenientes dos royalties
do petróleo (seguido pelos municípios de Campos dos Goytacazes e Macaé,
respectivamente). Com isso, o município reuniu condições para implemen-
tar programas sociais e de desenvolvimento econômico, provocando, prin-
cipalmente a partir de 2012, uma explosão imobiliária.
Dos modelos brasileiros de transporte gratuito, o modelo de Maricá se
destaca. Isso porque houve a implantação do sistema em diversos pontos de

4 Fonte: eCidade. Disponível em: http://ecidadeonline.marica.rj.gov.br/e-cidade_transparencia_


inte/. Acesso em 22/03/2017.

177
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

seu território, tornando-o único com mais de 100 mil habitantes a ter o ser-
viço no Brasil.
Na gestão municipal, o serviço é custeado por meio de impostos (como na
cidade de São Paulo) e funciona de segunda a sexta-feira, das 4h30 até 0h. Aos
sábados, domingos e feriados, das 6h até 0h, sempre com intervalos de uma hora.
Segundo os gestores com quem conversei, com a presença da condu-
ção coletiva não tarifada ampliou-se a quantidade de ônibus e itinerários –
como, por exemplo, a conexão entre Itaipuaçu e Ponta Negra, bairros locali-
zados nas extremidades do município –, qualificando o transporte coletivo.
Alguns dados sobre o serviço:

Deslocamentos diários em cada município Maricá


Trabalho em outros municípios 16.778

Trabalho no município de residência 39.419

Escola ou creche em outro município 5.036

Escola ou creche no município de residência 28.519

Total de deslocamentos dentro do município 67.938

Número de habitantes 127.461


Fonte: SCHIAFFINO et al., 2015, p. 6. Acesso em 20/03/2020. Embora bastante desatualizados
em relação ao tempo atual, os números permitem vislumbrar, já em 2015, a capilar dimensão do
atendimento.

A EMPRESA PÚBLICA DE TRANSPORTE,


SUA HISTÓRIA E SEUS IMPACTOS

Mencionei alhures que as “Jornadas de Junho” inspiraram a implanta-


ção da política de gratuidade do transporte urbano. Em entrevista, o então
presidente da EPT argumentou que a ideia dos “vermelhinhos” já existia
desde 2011. À época, o nome da autarquia era Maricá Transportes Públicos
(MTP), então gerida pela parceria entre governo municipal e iniciativa pri-
vada. Entretanto, ela foi extinta, em razão de problemas jurídicos.
Assim, contando com 13 veículos quando iniciou suas atividades, em
2014, a EPT surge na esteira das necessidades relacionadas à mobilidade
urbana. Sua atribuição primária, tal como consta do Art. 3º do seu Estatuto
(Decreto n. 109), é promover a “organização e prestação do serviço público

178
MARCELO DA SILVA ARAÚJO

de transporte de passageiros intramunicipal [...] nos setores rodoviário, fer-


roviário, aeroviário, hidroviário e turístico”, zelando também pelo dever de
“garantir o direito de ir e vir dos cidadãos no âmbito do Município de Mari-
cá” (Lei Complementar n. 254, de 11 de dezembro de 2014).
A empresa é, portanto, corresponsável pelo que determina o Estatuto
das Cidades: a obrigatoriedade da elaboração de planos diretores em cidades
com mais de 20 mil habitantes. Desse modo, alguns dados sobre suas ativi-
dades podem ser úteis para ofertar uma noção de como ela atua diretamente
com a população.
Nos primeiros tempos, a circulação dos “vermelhinhos” não tinha restri-
ções, mas, com a resistência das concessionárias, surgiram barreiras judiciais.
De acordo com o presidente da EPT, o Sindicato das Empresas de Transporte
Rodoviário do Rio de Janeiro (SETRERJ), então presidido pelo popularmente
conhecido “Francisquinho”, proprietário da Viação Nossa Senhora do Ampa-
ro, negou-se a se filiar à empresa, dizendo: “[Nós não queremos] vocês aqui!”.
Nessa “queda de braço” entre o Sindicato, a Viação Nossa Senhora do Amparo
e a EPT, algumas liminares judiciais foram impetradas, exigindo a alteração
ou mesmo a paralisação dos serviços da empresa pública.
A derradeira liminar responsável por determinar a paralisação surgiu em
outubro de 2016. A ação foi movida pela Nossa Senhora do Amparo, cuja justi-
ficativa era de que o funcionamento da EPT instituía uma “competição preda-
tória”. A liminar permaneceu em vigor até março de 2017 (vale lembrar que ela
foi antecedida por duas outras, cujos efeitos foram derrubados pela EPT, e cuja
exigência, pelo SETRERJ, era a mudança de itinerários dos “vermelhinhos”).
A instalação de uma empresa pública do porte da EPT gera, direta e in-
diretamente, um grande impacto econômico. Utilizando o valor de então da
passagem municipal (2,70 reais), multiplicada pelo número de passageiros
transportados (3.945.287), chega-se à grandeza de 10.652.274,90 reais. Esta é
a poupança do cidadão em um período descontinuado de menos de dois anos
(dezembro de 2014 a outubro de 2016).5
Para além desses dados financeiros, a pesquisa mostrou que houve au-
mento significativo na demanda por serviços paralelos (como entrega de
5 Dados fornecidos, à época, pelo responsável pelas estatísticas de operação do serviço. Ele ressalta
que dever-se-ia, na avaliação deste período, levar em consideração as paralisações do serviço,
decretadas pela Justiça (de 7 de setembro de 2015 a março de 2016, além de outras). Ainda assim, dos
primeiros tempos de circulação dos “vermelhinhos” até a data de encerramento da pesquisa deste
texto, as cifras de transporte foram de 3.945.287 passageiros e 2.004.223 km percorridos.

179
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

alimentos, procura por materiais para manutenção dos ônibus, compra de


combustível etc.), movimentadas pelas atividades da EPT, que incrementa-
ram a economia local.

DIÁLOGO ENTRE O PÚBLICO E PRIVADO:ENTREVISTAS


DE CAMPO E EMBATES ACERCA DE UMA POLÍTICA PÚBLICA

É emblemático que o objetivo declarado da EPT, expresso pelo seu en-


tão presidente, fosse acabar com o que classificava ser um monopólio das
empresas concessionárias. Essa ação, considerada “um marco histórico no
combate ao monopólio que há [mais de] 60 anos controla os transportes pú-
blicos no município” (SCHIAFFINO et al., 2015, p. 3).
Para o referido presidente,

A Constituição [Federal] coloca muito claro que é dever


do Estado promover o transporte público ou concedê-
lo. [Mas] nunca é feito dessa [primeira] forma [pelo
Poder Público]. Sempre concedem. Os defensores das
concessões e privatizações dizem que o Estado já se
encarrega de diversas funções e, por isso, deve acontecer
a concessão, passando, assim, a responsabilidade de
promoção de serviço para a iniciativa privada.

A iniciativa privada não é vista pelos gestores públicos, no caso em


questão, como uma alternativa para ocupar – especialmente, à época, a Via-
ção Costa Leste – a oferta destes novos itinerários abertos pelos “verme-
lhinhos”. Assim, a prefeitura faz valer, de acordo com o presidente, o poder
de regulação da administração pública. Diante disso, é perceptível o embate
entre o que é público e o que é privado, manifestando a existência de uma
tensão entre a administração municipal e as companhias privadas na mobi-
lidade urbana.
Com base na regra constitucional de que é dever do Estado promover o
transporte público, o presidente da EPT defende que é obrigação do Estado
promover não somente o serviço, mas o que chama de “as cinco necessidades
básicas do cidadão”: educação, saúde, lazer, transporte e alimentação.
Em sua concepção estatista, ele argumenta que, no mundo atual, o
transporte público não deveria estar submetido às leis de mercado. Ao con-
trário, deveria ser regulado pelo poder público, que se responsabiliza por es-
tabelecer sua qualidade e os mecanismos de formação de preço.

180
MARCELO DA SILVA ARAÚJO

O cenário do “livre mercado” dificulta, segundo o presidente da EPT, a


mobilidade dos moradores de periferia. Estes, pouco a pouco afastados da
área metropolitana, são, consequentemente, mais afetados, vendo-se obri-
gados a comprometer muito de sua renda com passagens de ônibus. Sendo
o transporte um direito de todos, ele deve ser prestado sem segregação. A
concepção de transporte urbano como um bem fundamental – que, por isso,
deve ser provido gratuitamente pelo Poder Público – reforça, ainda de acor-
do com ele, a tese de que o privado não somente deve ser regulado, mas tam-
bém substituído pelo público.
Nesse cenário em que o público (EPT) e o privado (concessionárias) se
opõem na oferta do transporte, alternativas outras de deslocamento são
anunciadas pela EPT, a fim de garantir sua hegemonia política e administra-
tiva. Para aquele presidente, faz-se necessário “sair dessa caixa que a gente
tem na cabeça [de] que transporte é só ônibus. Transporte é tudo. Sempre
gratuito. Para as pessoas circularem”.
À época, o presidente mencionou outros planos para suprir a adequada
cobertura pública dos sistemas de mobilidade urbana. Quatro destes projetos
de sua Pasta podem ser destacados:6 as bicicletas públicas, os hovercraft (sis-
tema hidroviário, por intermédio de veículos anfíbios), a criação do teleférico
do bairro de Ponta Negra e a implantação de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos).
Estes três últimos não saíram, até o momento, do papel. Contudo, sobre
o teleférico e o VLT, vale comentar adicionalmente que o próprio presidente
assumia que “não há demanda suficiente para tal”. O caso do hovercraft, po-
rém, é um pouco diferente: o presidente acreditava que em “cerca de um ano
a um ano e meio o serviço já [estaria] em fase de testes” e que o veículo faria o
percurso São José de Imbassaí-Centro, por ter a “a vantagem do tempo eco-
nomizado, pois a viagem por terra é mais demorada”.
No tocante às bicicletas, elas teriam por modelo as “bicicletas do Itaú”,
circulantes no centro do município do Rio de Janeiro. A intenção seria me-
lhorar o deslocamento no interior do centro urbano. Diferentemente, no en-
tanto, de sua referência, as bicicletas não cobrariam tarifa pela utilização.
Os projetos divulgados se articulam, como políticas públicas de mobi-
lidade urbana, com o Tarifa Zero, possibilitando a construção de uma noção
acerca do embate de forças que se opõem no cenário local.

6 Além dos mencionados no texto, a presidência da EPT disse ter a intenção de realizar outros
estudos para dinamizar o transporte: a implantação, nos ônibus, de Wi-Fi, televisores e artistas
fazendo stand-up comedy.

181
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

É necessário frisar que a presença de uma nova empresa no município


gera potenciais conflitos com as empresas já detentoras das concessões.
Diante disso, diversos fatores levam a embates – e estes acabam por extra-
polar a área comercial e passam a opor o poder público e o setor privado.
Um fator causador dos tais problemas é, na argumentação de um dos
entrevistados, o gerente da Viação Costa Leste, as dívidas do município com
sua empresa: “Está [em 2016] em 11 milhões de reais, fora juros e correção.
[Este] é um valor atualizado diariamente: a cada momento em que o passa-
geiro passa o vale no validador, esse valor aumenta.”
Mesmo sem responder a essa afirmação (que se relaciona à falta de re-
passe do RioCard estudantil), o então administrador das redes sociais da EPT
argumentou que o embate manifestado pelo presidente não era travado so-
mente contra as empresas do município, mas também contra todo o setor
privado. Como diz:

Esse enfrentamento não dá para pensar que é contra


a [Viação Nossa Senhora do] Amparo e contra a Costa
Leste: é contra todas as empresas de ônibus! [...] Imagina
se o “vermelhinho” dá certo. O que pode acontecer com
as outras? Então, elas se unem contra isso.

É notória a presença de posicionamentos ideologicamente situados nes-


ses embates, pois o programa do Tarifa Zero de Maricá nasce, ao que tudo
indica, como uma política de governo. Isso pode ser facilmente constatado
nos depoimentos dos agentes públicos:

É uma política pública, mas eu considero mais do que


uma política pública. Isso é uma demonstração de
conceito de Estado. Eu dou uma profundidade maior a
isso. A política pública “você” muda ela, mas o conceito
de Estado, não. É aí que eu tô fazendo o enfrentamento
ideológico propositalmente... Se “você” está hoje cada
vez querendo diminuir o Estado, nós queremos dizer que
o Estado, para nós, não tem que ser grande. Ele tem que
ser completo […].

O outro lado da história tem, contudo, argumentos bastante distintos


daqueles dos gestores públicos. Como sustenta o então gerente da Viação
Costa Leste:

182
MARCELO DA SILVA ARAÚJO

Um dos maiores problemas é de ordem política. Nossa


empresa é uma concessão pública. Então, a gente depende
de atitudes do prefeito, de cumprimento de contrato pela
prefeitura. Isso não vem acontecendo nos últimos oito anos.

O transporte irregular é outro grande problema, segundo esse gerente.


Ele expõe o que classifica como “riscos e impactos” dessa prática e reclama
do que chama de “negligência na fiscalização do serviço”:

A falta de fiscalização do transporte clandestino,


do transporte pirata, [é o] que gera muito prejuízo
para a empresa. Hoje, são aproximadamente 70 vans
“rodando” em cima de 25 ônibus. Vans que não têm
compromisso com itinerário, com horário e que
atrapalham o nosso serviço, que é regido por um
contrato. Nós temos a obrigação de andar nos horários
certos, nos itinerários certos, e com a concorrência
desleal das vans, que não têm esses compromissos
regidos por nada [fica difícil].

Há, portanto, problemas entre as vans e os ônibus das linhas intramu-


nicipais. Esses problemas podem ser visualizados no extrato abaixo, retira-
do do meu caderno de campo:

Parei para observar o movimento das vans, ao lado do


terminal rodoviário. O objetivo era confirmar se o que
o [então] gerente geral da Costa Leste havia dito era
real (a saber, que as vans sincronizam sua partida à dos
ônibus, rivalizando diretamente com eles). Percebi que
sim, pois, no momento em que um ônibus dava partida,
uma van adiantou-se em sair. Outras vans, de diversas
linhas, paradas ao lado daquela que saiu, fazem o
mesmo movimento, combinando sua partida à dos
ônibus de igual destino.

Neste extrato, torna-se nítida a concorrência do que foi classificado pelo


informante como desleal. De acordo com o ele, as vans foram autorizadas por
meio de um decreto que “já perdeu a validade”: “Em 2011, foi feita uma lici-
tação (sic)7 para circulação de vans no município. Não foi feita concorrência.
E o prefeito, com o decreto, licitou linhas de vans”, diz.
7 O entrevistado se equivoca ao usar o termo “licitação”, posto que, na realidade, o decreto, que ele
reconhece existir, dispensou este procedimento.

183
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Ou seja, todas as vans que circulavam nas mesmas linhas da concessio-


nária seriam irregulares. Isso é percebido na seguinte fala:

Não há fiscalização. Nós já tentamos resolver isso


administrativamente, não conseguimos e estamos
tentando judicialmente. Então, é um ponto muito
importante no sistema de transporte de Maricá: o
transporte pirata. Esse decreto precisava ter sido
validado pela Câmara dos Vereadores. Ele perdeu a
validade. Então, hoje 100% das vans estão “rodando” em
condição ilegal.

Diante disso, constatou-se, pelas palavras do gerente, uma reação da


Costa Leste quanto ao que consideravam falta de fiscalização do “transpor-
te pirata”. Na sua opinião, a empresa “tem uma proposta clara a respeito”:
os “vermelhinhos” deveriam atuar de forma alimentadora. Ou seja, trariam
passageiros de partes mais remotas dos bairros, por onde não passavam os
veículos das concessionárias, até as linhas onde estas atuam.8
Assim, segundo ele:

Eu acredito muito no Tarifa Zero como linha alimentadora.


Então, como eu disse, os municípios têm bairros carentes
de transporte, [nos quais] a gente acredita que o Tarifa Zero
é importante. Mais uma vez: nossas linhas são regidas
por contrato, contrato este que impede o Tarifa Zero
concorrendo com os nossos ônibus. [...] Como colaborador
da Costa Leste, olhando especificamente o caso de Maricá,
eu acho que pode dar certo.

Na concepção do entrevistado, que identifica as formas alternativa e


complementar de transporte:

O que nós temos hoje, em Maricá, é o transporte


alternativo: ele não é complementar ao ônibus.
Então, só tem van onde há ônibus. Elas “rodam”
exclusivamente nas linhas dos itinerários que foram
concessionados (é o que a gente chama de “transporte

8 É comum entendermos a condução coletiva rodoviária como um corpo único e que opera em
todos os campos. Porém, existem dois modelos, o modal alternativo e o modal complementar.
Compreende-se modal alternativo como aquele que faz rotas iguais, porém com veículos distintos.
Ou seja, fazem o mesmo percurso dos ônibus. Por outro lado, o transporte dito complementar tem o
intuito de fazer linhas que não possuem nenhuma forma de transporte coletivo. Em outras palavras,
elas geralmente levam o passageiro até os locais onde passam o transporte de massa.

184
MARCELO DA SILVA ARAÚJO

alternativo”). O que a gente pensa como ideal seria


o transporte complementar para toda extensão
territorial de Maricá, feito por vans ou por ônibus do
município.

De acordo com o entrevistado, existia espaço para a criação do modelo


do Tarifa Zero, porém essa ideia foi “imposta” e é “equivocada”, pois:

[...] Dá para “você” fazer uma composição do Tarifa


Zero. Agora isso, se for estudado, precisa ser debatido
com a população, debatido com os empresários... A
minha opinião [é de] que a forma que foi feita não foi
correta. Um dos resultados está aí: a Justiça julgou que
foi feita da maneira incorreta e proibiu a circulação dos
“vermelhinhos”.

Este último item teve por objetivo efetuar uma reflexão sobre uma po-
lítica pública de transporte coletivo. Problemas e alternativas de soluções
são apontados por ambos os lados (poder público e iniciativa privada), mas
a instabilidade – fosse, à época, a da continuidade da operação dos “ver-
melhinhos”, face às suas interrupções, fosse, também à época, a cogitada, e
confirmada posteriormente, cassação da concessão pela Viação Costa Leste,
o que fragilizaria empregos e instauraria o monopólio, de fato, da conces-
são pela Nossa Senhora do Amparo – aparenta se perpetuar, a julgar pelos
embates que então se construíam em torno desta nova maneira de dispor o
transporte público urbano: o Tarifa Zero.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma política pública, conceito fundamental que norteou este texto, é


muitas vezes denominada de política social, pelo fato de ser um modo de
atuação do Estado para garantir os direitos sociais. É, assim, necessário di-
ferenciar direito de outras categorias, exaltando o peso e a importância da
construção desse conceito.
De acordo com MOLINA (2012, p. 588), “um direito difere de uma neces-
sidade ou carência e de um interesse. Uma necessidade ou carência é algo
particular e específico”. E necessidades e carências podem ser conflitantes
entre si. Um direito, ao contrário de necessidades, carências e interesses:

185
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Não é particular e específico, mas geral e universal,


válido para todos os indivíduos, grupos e classes sociais,
sendo esta a principal característica da ideia de direito:
ser universal, referir-se a todos os seres humanos,
independentemente da sua condição social.

Assim, uma pesquisa sobre transporte como exemplo de política públi-


ca e como expressão de direitos sociais, como a que pretendi aqui, reafirma
Maricá como um município com grande potencial econômico e social.
Contudo, para além da investigação, revela-se a produção de uma con-
juntura conflituosa em que o governo tentara, em seus dispositivos político-
-administrativos, estabelecer um tipo de monopólio em áreas de interesse
público – apesar dessa afirmação, não se pode, contudo, deixar de citar que,
em depoimento, o então presidente da EPT diz não existir radicalismo em
suas defesas. Para ele, “ você tem espaço para a iniciativa privada, só que tem
que ter o Estado em todas elas [ações de interesse coletivo]. Não pode deixar
de ter o Estado em nenhuma delas”.
De fato, como notam analistas do transporte urbano (SIQUEIRA; LIMA,
2015, p. 12), a política de priorização do transporte individual, apesar da
grande demanda do transporte coletivo pelas classes economicamente me-
nos favorecidas, tem tido, desde os anos 1960, efeitos perniciosos. Por isso,
ações que visem ampliar a mobilidade dos segmentos sociais terão pouca
eficácia se não forem realizadas de modo complementar a políticas mais
amplas como emprego, educação e saúde.
Em Maricá, o transporte público de massa vem se dinamizando, assim
como o debate sobre até onde o Estado deve interferir e quando e onde a ini-
ciativa privada pode ter espaço.
O que começou com a promessa de um ex-prefeito (acabar com o que
chamava abertamente de “coronelismo”), hoje se tornou objeto de constante
disputa judicial, com processos promovidos pelas empresas de ônibus e pelo
sindicato que as representam.
A Tarifa Zero iniciou-se como uma política de governo; porém, com o
passar do tempo, os “vermelhinhos” se popularizaram (inclusive, constan-
do no programa do candidato de oposição nas eleições municipais de 2016).
Assim, ela se consolidou efetivamente como política pública, sendo exigida
pelas camadas menos favorecidas e mais carentes desse direito social.
Em termos de território nacional, a concretização da política pública do
Tarifa Zero ainda sofre com forte componente utópico, posto que as admi-

186
MARCELO DA SILVA ARAÚJO

nistrações públicas seguem na contramão dela, já que aumentam tarifas e/


ou reduzem subsídios (como acontece no estado do Rio de Janeiro), mesmo
sob a constatação de “não se tratar de serviço gratuito, mas pago indireta-
mente pelo conjunto da sociedade.” (WHITAKER, 2016, p. 10).
Finalizo resgatando e reforçando dois dos meus argumentos iniciais: se
há, por um lado e indiscutivelmente, datação neste texto, por outro, é exa-
tamente tal limitação que o faz ser, espero, inspiração para atualizações e
complementos. Ainda, e talvez o mais importante, seu uso original como
objeto de pesquisa científica por estudantes do ensino médio – logo, sua
utilização pedagógica e educacional – fornecerá sugestões para instituições
maricaenses realizarem estudos com semelhante paixão. Assim confio.

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188
MARICÁ, UMA CIDADE ATIVA? RESULTADOS E
POSSIBILIDADES DOS INVESTIMENTOS NA INFRAESTRUTURA
DE TRANSPORTES PARA MELHORIA DA MOBILIDADE

Camila de Almeida Teixeira1 • Fátima Priscila Morela Edra2

INTRODUÇÃO

Este capítulo tratará da cidade de Maricá a partir da perspectiva dos in-


vestimentos na infraestrutura dos transportes para a melhoria da mobili-
dade urbana e consequente desenvolvimento da cidade de Maricá. Antes de
iniciar a discussão e análise da mobilidade, infraestrutura e transporte do
munícipio, será apresentada a importância da mobilidade urbana para uma
cidade e, posteriormente, como Maricá está se transformando para atender
às demandas de deslocamento e segurança viária dos cidadãos.
A mobilidade urbana é fator importante para a população e para o
desenvolvimento da cidade, pois implica deslocamento de pessoas, in-
formação e mercadoria (SILVA, 2014). Em estudo recente, Teixeira e Edra
(2018; 2019) sinalizam a importância de infraestrutura de apoio ade-
quada para o deslocamento e tráfego de pessoas e mercadorias, possi-
bilitando uma eficaz mobilidade urbana. Silva (2014, p. 95) afirma que
a “mobilidade urbana se faz [...] pela disposição no espaço das diversas
funções urbanas, como moradia, trabalho e lazer; depois, pelos modos
usados para chegar aos locais onde essas funções são exercidas”. Há al-
guns meios de transporte dos quais as pessoas podem se utilizar para se
deslocarem pela cidade, tais como carros, ônibus, trem, metrô, bicicleta,

1 Camila de Almeida Teixeira é mestra em Turismo pela Universidade Federal Fluminense de Niterói
(RJ), Brasil. E-mail: camilateixeira@id.uff.br.

2 Fátima Priscila Morela Edra é doutora em Ciência Política pela Universidade Lusófona de
Humanidades e Tecnologias de Lisboa, Portugal. E-mail: fedra@id.uff.br. 

189
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

barcos e avião. Porém, neste capítulo, dar-se-á enfoque aos meios de lo-
comoção presentes na cidade de Maricá, sendo eles o transporte público
(ônibus e vans), bicicleta e caminhada.
Estudos que abordam o espaço urbano explicam a mobilidade urbana
como “a capacidade das pessoas em obter acesso físico ao espaço da cidade
e aos seus equipamentos urbanos, isto é, trata-se da capacidade de circu-
lação humana no espaço”. Assim, o termo mobilidade reduzida se refere às
pessoas com qualquer tipo de deficiência, como idosos e pessoas de baixa
renda (COCCO, 2011, p. 257). Duarte, Libardi e Sánches (2017) afirmam que a
mobilidade urbana é um fator importante para que a cidade possa se desen-
volver e crescer. Portanto, a articulação entre mobilidade e acessibilidade é
capaz de desenvolver a cidade e possibilitar o deslocamento da população,
criando espaços de convivência social; logo, a mobilidade urbana está atre-
lada à capacidade de locomoção do indivíduo pelo tempo e espaço” (TEI-
XEIRA; EDRA, 2018, p. 40)
No que diz respeito ao espaço territorial, o resultado da organização da
cidade é a combinação de agentes e processos no tempo e espaço (DUARTE,
LIBARDI, SÁNCHES, 2017). A organização sócioespacial da cidade, apresen-
tado por Vasconcellos (2012), explica o desenvolvimento urbano a partir de
agentes e fatores (Figura 1).

Figura 1 – Agentes e fatores da organização da cidade. Fonte: Vasconcellos (2012, p. 12).

190
CAMILA DE ALMEIDA TEIXEIRA • FÁTIMA PRISCILA MORELA EDRA

Os agentes e fatores se articulam de maneira complexa, resultando na


produção do espaço urbano. O “sistema existente de transporte e trânsito”
deve possuir “características físicas e de oferta de serviços, que condicio-
nam as decisões das pessoas no modo como usar a cidade” (VASCONCEL-
LOS, 2012, p. 11). Pode-se acrescentar a isso a estruturação de caminhos e
convivência social para a construção da cidade (DUARTE; LIBARDI; SÁN-
CHES, 2017). Os caminhos da cidade (calçadas, trilhos e ruas) “devem ser
vistos como espaços estruturadores da vida urbana”; as calçadas, por
exemplo, “são caminhos que se convertem em espaços de convivência
diária” (DUARTE, LIBARDI, SÁNCHES, 2017, p. 2).
Existem dois padrões que podem se apresentar no sistema de mobi-
lidade: (1) existência da participação do transporte público e da mobili-
dade feita a pé ou de bicicleta, que podem ser percebidas na Europa e no
Japão, e (2) intenso uso de automóveis e menos uso de transporte públi-
co, como acontece nos Estados Unidos da América (EUA) e em países em
desenvolvimento (VASCONCELLOS, 2012).
No que diz respeito ao uso intenso do automóvel, Tobin (1974) expli-
ca que, nos EUA, entre os anos de 1880 e 1900, muitos cidadãos estavam
comprando e utilizando bicicletas, o que ele chama de “o boom da bici-
cleta”. Nesse período, a bicicleta era o principal meio de transporte da
população. Porém, a partir de 1920, quando os automóveis se tornaram
acessíveis à classe média, a bicicleta começou a perder espaço para eles,
acarretando o declínio de seu uso. Por causa da invasão dos automóveis
nos países europeus e norte-americanos, houve “uma piora das condi-
ções de tráfego para pedestres e bicicletas” (GEHL, 2015, p. 92).
Teixeira, Edra e Sá (2019) apresentam duas cidades europeias, Co-
penhague, na Dinamarca, e Barcelona, na Espanha, nas quais o governo
investiu no planejamento urbano priorizando o tráfego de bicicletas e de
pedestres. Entretanto, isso ocorreu após a popularização dos automó-
veis. De maneira geral, na Europa, a partir da década de 1960, os planeja-
dores implantaram novos modelos de ruas e de solução de trânsito, como
ruas somente para pedestres, ruas somente para passagem de veículos,
bulevares, áreas com velocidades de 30km/h e com 15 km/h. Antes de
1960, havia apenas dois modelos de ruas, com circulação de veículos e de
pedestres (GEHL, 2015).
Para tentar atender às necessidades dos automóveis, planejadores
de tráfego e políticos centram suas ações na criação de espaços para sua

191
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

circulação, em detrimento de espaços no meio urbano para ciclistas e


pedestres. Para os pedestres, calçadas estreitas e placas de sinalização
para o trânsito de veículos, por exemplo, tornaram-se obstáculos nas
caminhadas (GEHL, 2015; DUARTE; LIBARDI; SÁNCHEZ, 2017), acarre-
tando “longas paradas em semáforos, difíceis cruzamentos de ruas,
passagens elevadas e túneis subterrâneos desertos”. Em relação aos ci-
clistas, ciclovias foram excluídas e, em seu lugar, foram implantadas ci-
clofaixas junto aos automóveis em vias de rápida velocidade; em outros
casos, houve total eliminação de infraestrutura para o uso da bicicleta
(GEHL, 2015, p. 91).
No tocante às “Políticas de Estado”, Teixeira, Edra e Sá (2019) apre-
sentam a importância de políticas públicas para a melhoria da mobili-
dade urbana no Brasil, embasando-se em leis e decretos federais. As au-
toras apontam duas Leis Federais que abrangem a mobilidade urbana no
Brasil. A primeira é a Constituição Federal de 1988, que garante o direito
à mobilidade urbana de todo cidadão brasileiro, delega aos Municípios
a responsabilidade de garantir esse direito aos seus residentes e obriga
que municípios com mais de 20 mil habitantes elaborem o Plano Diretor
Municipal. O segundo documento ao qual se referem é o Plano Nacional
de Mobilidade Urbana (PMNU), que orienta os municípios no desenvol-
vimento e implementações necessárias para a mobilidade urbana da po-
pulação (BRASIL, 1988).
Assim, observa-se que as condições de vida da população dependem
de diversos fatores que devem estar bem-articulados para maior grau
de satisfação social e melhoria da mobilidade urbana. Entre eles, estão
os meios de transporte urbano e não motorizados, infraestrutura viária
para todos os agentes de trânsito e políticas públicas para efetivação e
melhoria da mobilidade urbana local.

FORMAS DE DESLOCAMENTO NO MUNICÍPIO

Os meios de transporte que podem ser utilizados no Município de


Maricá são: (i) caminhada; (ii) transporte público, considerando ônibus
e vans; (iii) meio de transporte não motorizado, como bicicleta; e (iv)
transporte motorizado individual, tais como carro, moto, quadriciclo
e buggy. No contexto dos transportes na mobilidade urbana, Doblefila
(2015) apresenta uma pirâmide da mobilidade urbana (Figura 2).

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CAMILA DE ALMEIDA TEIXEIRA • FÁTIMA PRISCILA MORELA EDRA

Figura 2 – Pirâmide de Mobilidade Urbana. Fonte: Doblefila (2015).

Na figura, observa-se que os pedestres são os mais vulneráveis e os me-


nos poluentes da pirâmide. Meios de transporte, como os de carga e o par-
ticular motorizado, apresentam-se como menos eficientes na relação qui-
lômetro por passageiro percorrido e maior emissão de ruído. Percebe-se,
também, que pedestres e ciclistas apresentam mais benefícios do que os
veículos individuais motorizados.
Para a boa fluidez de circulação de pedestres, Duarte, Libardi e Sánches
(2017) afirmam a necessidade de calçadas com dimensões de acordo com o
fluxo de pedestres e que acomode o mobiliário urbano e a arborização das
vias. Para os autores, pisos em mau estado de conservação, desnível abrupto
e obstáculos ao longo da calçada são elementos que restringem a mobilidade
do pedestre. Vasconcellos (2012, p. 16) afirma que “andar é a forma mais na-
tural de deslocamento” e que “no Brasil, é elevada a participação dos deslo-
camentos a pé e por bicicleta no total da movimentação da população, mes-
mo nas grandes cidades” (SILVA, 2014, p. 95). Porém, ainda que em algum

193
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

momento todo e qualquer cidadão seja pedestre, mesmo para chegar ao meio
de transporte de escolha, no Brasil ainda existe grande descaso com pedes-
tres, priorizando as vias de tráfego veicular (VASCONCELLOS, 2013).
O ato de caminhar e pedalar devem ser “etapas naturais de atividades
diárias” (GEHL, 2015, p. 7). Gehl (p. 77) argumenta que quando os espaços
são mais atraentes para o pedestre a caminhada torna-se mais “interessan-
te e significativa, o tempo passa mais rápido e as distâncias parecem mais
curtas”. Em espaços menos convidativos à permanência, por outro lado, a
caminhada “parece longa e pobre em termos de experiência”.
Sentir-se seguro é importante para que as pessoas abracem o espaço urba-
no e queiram caminhar, pedalar e permanecer nele (GEHL, 2015). Existem algu-
mas formas de aumentar a segurança viária para o pedestre, como a instalação
de traffic calming, utilizado para reduzir o tráfego motorizado e proporcionar
melhores condições de segurança para os modos não motorizados (ANDRA-
DE; SILVEIRA JUNIOR, 2015). Uma das diferentes formas de traffic calming são as
plataformas, cujos objetivos são voltados à “melhoria da segurança através da
redução da velocidade” e “permitir que pedestres e cadeiras de roda atravessem
a via sem qualquer mudança de nível”. Esse tipo de traffic calming pode ser des-
crito como “porção elevada da via colocada em ângulo reto em relação à direção
do tráfego [...]. São construídas de meio-fio a meio-fio” (BHTRANS, 1999, p. 47).
Este tipo de instalação pode ser percebido em diversos pontos do Municí-
pio de Maricá (Figura 3). A prefeitura fez as instalações em pontos estratégicos
para garantir a segurança dos pedestres, como em orlas e locais próximos a
espaços de convívio social ou com alto índice de acidente (MARICÁ, 2020).

Figura 3 – Instalação de traffic calming no bairro Boqueirão, Maricá (RJ). Fonte: Maricá (2018).

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CAMILA DE ALMEIDA TEIXEIRA • FÁTIMA PRISCILA MORELA EDRA

No exemplo mostrado na Figura 3, a instalação do traffic calming foi


necessária por ser uma via de grande movimento e motoristas trafegavam
em alta velocidade acarretando em acidentes graves (MARICÁ, 2018). Isso
pode ser considerado como uma forma de “continuação da pavimentação
do passeio na via de circulação de veículos”, priorizando assim os pedestres
(DUARTE, LIBARDI, SÁNCHES, 2017, p. 27).
Ainda na Figura 3, pode-se observar outro tipo de infraestrutura, a ci-
clovia, caracterizada por Duarte, Libardi e Sánches (2017, p. 31) como “pistas
exclusivas com separações físicas de outros elementos viários, como calça-
das e ruas”. Os autores caracterizam as ciclofaixas como “áreas partilhadas
com outros sistemas de transporte [...] e dependem apenas de sinalização
adequada” (DUARTE; LIBARDI; SÁNCHES, 2017, p. 32). Deve-se lembrar que
a bicicleta é um meio de transporte assegurado pela Lei n. 9.503, que institui
o Código de Trânsito Brasileiro, sendo considerado um transporte não mo-
torizado e um agente de trânsito frágil, depois dos pedestres (BRASIL, 1997).
Até fevereiro de 2019, a cidade já havia implantado 26 quilômetros de ci-
clovias (MARICÁ, 2019). Ainda serão implantadas mais ciclovias e ciclofaixas
como parte das obras de urbanização em todo município, inclusive em toda a
extensão da orla, que está sendo revitalizada (MARICÁ, 2020). De acordo com
Teixeira e Edra (2018), o planejamento cicloviário contribui de maneira po-
sitiva com a mobilidade urbana, sendo capaz de melhorar a integração com
outros modais e aumentar a segurança do ciclista.
A escolha da bicicleta como meio de transporte está relacionada a três
fatores (VALE, 2016), sendo eles: (1) a forma urbana, que pode ser a partir da
proximidade em relação à distância origem destino; (2) a existência de in-
fraestrutura ciclável, considerando as ciclovias, ciclofaixas e faixa ciclável;
e (3) “os fatores pessoais, como condições físicas e financeira; familiares,
como a cultura local e o ciclo de vida pessoal; e externos, como a oferta de
meios de transporte (VASCONCELLOS, 2012, p. 49).
Algumas cidades europeias são exemplos de mobilidade ciclável, como
Copenhague, na Dinamarca, considerada bike friendly city3 pela Copenhage-
nize (2019), que elabora um índice de melhores cidades para pedalar a cada
dois anos. A cidade tem promovido o uso da bicicleta como meio de trans-
porte a partir de políticas públicas e estabelecimento de metas para melho-
ria das condições para os ciclistas (TEIXEIRA; EDRA, 2018). Por isso, ocupa o

3 Cidades amigas da bicicleta, classificadas a partir de metodologias próprias pela empresa de


consultoria Copenhagenize Co.

195
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

primeiro lugar no ranking nos anos de 2015, 2017 e 2019 (COPENHAGENIZE,


2019). O Quadro 1 apresenta o histórico das três primeiras posições desde a
primeira edição do índice, no ano de 2011.

Quadro 1 – Ranking de bike friendly city

Posição 2011 2013 2015 2017 2019


1º Amsterdam Amsterdam Copenhague Copenhague Copenhague

2º Copenhague Copenhague Amsterdam Utrech Amsterdam

3º Barcelona Utrech Utrech Amsterdam Utrech

Fonte: Copenhagenize (2019).

Nota-se que Copenhague mantém sua posição por três vezes seguidas.
Copenhagenize (2019) explica que, no ano de 2019, as cidades que ocupam
as três primeiras posições possuem margem de pequena de diferença entre
elas. Entretanto, Copenhague continuou com a primeira posição em razão
dos dados a seguir:

• Porcentagem de viagens de bicicleta para o trabalho e escola, que


chega a 62%;
• A população percorre cerca de 1,44 milhão de quilômetros por dia;
• Investimentos em infraestrutura de bicicleta chegam a € 40 per capita;
• Quatro pontes estão em construção ou em já foram construídas;
• 167 quilômetros de novas rodovias regionais para ciclistas foram
implantadas;
• Conectou a cidade com 12 novas pontes para bicicletas e pedestres;
• Aumento do tráfego de bicicleta em 68%.

No município de Maricá, existe um projeto para implantação de compar-


tilhamento público de bicicletas gratuito por toda população e visitantes (EPT,
2020c). O projeto se chama Bike Maricá – Vermelhinhas e se inspira nos mode-
los bem-sucedidos de compartilhamento de bicicleta pública, como os das ci-
dades de Xangai, China, de Paris, França e Londres (EPT, 2020c); porém, a data
para sua implantação depende de licitação (MARICÁINFO, 2019). Os objetivos
desse projeto visam melhorar a qualidade do ar, aumentar a oferta de transpor-
tes não motorizados e incentivar o uso urbano da bicicleta para atividades de

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CAMILA DE ALMEIDA TEIXEIRA • FÁTIMA PRISCILA MORELA EDRA

lazer e como meio de transporte, para reduzir o congestionamento “no centro e


em regiões com alta movimentação de moradores e turistas” (EPT, 2020c).
A Empresa Pública de Transportes (ETP) possui projeto de instalação de
paraciclos na cidade e explica que a bicicleta é um transporte sustentável, além
de ajudar a tornar a vida de seus usuários mais saudável. Assim, reconhece
a importância de se ter “infraestrutura adequada, que ofereça comodidade e
segurança para os usuários”. Dessa forma, os paraciclos contribuem para fo-
mentar o uso da bicicleta como meio de transporte na cidade (EPT, 2020a).
Cabe aqui uma breve informação sobre a EPT. Essa empresa foi criada em
2014 para sanar as necessidades dos cidadãos na questão do transporte público.
Ela começou a operar no mesmo ano com dez ônibus, equipados com ar-condi-
cionado, sensores de portas, elevadores para deficientes físicos, carregadores de
celular e Wi-Fi gratuito (EPT, 2020b). A EPT (2020d) registrou um aumento de 75%
no número de passagens entre os meses de outubro e dezembro (Quadro 2).

Quadro 2: Total de passagens registradas nos últimos três meses de 2019

Mês Número de passagens


Outubro 431.431

Novembro 474.836

Dezembro 755.239
Fonte: EPT (2020c).

O aumento registrado poderia ter relação com as festas de fim de ano,


coincidindo com o calendário do Natal Iluminado, com diversas programa-
ções para a família. Porém, se comparado com os anos anteriores, que tam-
bém tiveram calendário do Natal Iluminado, o aumento de passagens conti-
nua elevado (Quadro 3).

Quadro 3: Total de passagens no mês de dezembro entre 2017 e 2019.

Mês Número de passagens


Dezembro 291.544

Dezembro 424.634

Dezembro 755.239
Fonte: EPT (2020c).

197
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Deve-se considerar que no ano de 2017 havia apenas dois anos de fun-
cionamento da EPT na cidade com a circulação de dez ônibus. E no ano ante-
rior, em 2016, houve diversas suspensões do serviço pelo Ministério Público
(MP) e por decisões judiciais, sendo estas últimas a partir de uma briga judi-
cial entre a prefeitura de Maricá e o Sindicado das Empresas de Transportes
Rodoviários (SETRERJ) (ITAIPUAÇUSITE, 2015; MARICÁ, 2015; 2016; OFLU-
MINENSE, 2016; G1, 2016). Deve-se considerar, que nos primeiros anos a fro-
ta que era de dez ônibus, em 2020 está em 30 (EPT, 2020d) e possui 17 rotas
em todo o município (MOOVIT, 2020).
Além da EPT a cidade de Maricá conta com a circulação de ônibus de em-
presa privada, que circulam tanto dentro da cidade quanto para os centros
da cidade de Niterói e Rio de Janeiro, e com o transporte público alternativo,
as vans, que possuem algumas rotas dentro da cidade, rotas para o centro
de Niterói do Rio de Janeiro, e fazendo a travessia entre Recanto (bairro de
Maricá) e Itaipu pela Serra da Tiririca.
No tocante aos transportes públicos, Vasconcellos (2012) afirma que
dos meios de transportes públicos mais utilizados no mundo são os ôni-
bus, e no Brasil é o meio de deslocamento mais importante. Apesar disso,
há pouca “inovação em tecnologia, em gestão e prestação de serviços aos
usuários” (DUARTE, LIBARDI, SÁNCHES, 2017, p. 57). O transporte público
deve fornecer mobilidade e acessibilidade urbana eficaz e democrática, que
alcance toda cidade e atenda às necessidades de deslocamentos da população
(DUARTE, LIBARDI, SÁNCHES, 2017; SILVA, 2014).
Para que o ônibus cubra toda a extensão da cidade torna-se necessário a
oferta de qualidades básicas, sendo elas: ter ‘capilaridade’ mediante as linhas
locais, a agilidade, capacidade compatível com a demanda, ter pontualidade,
oferecer segurança e informações confiáveis sobre rotas e horários (SILVA,
2014). Deve-se considerar a ‘capilaridade’ como uma forma de abrangência
territorial pelas linhas de ônibus, executando o ato de “recolher ou levar os
passageiros o mais próximo possível ao destino” (SILVA, 2014, p. 169).
Fator importante apontado por Duarte, Libardi, Sánches (2017), está
na relação entre o transporte coletivo e a mobilidade urbana onde deve ser
considerada a integração com outros meios de transporte sendo eles a bi-
cicleta, o veículo particular ou outro meio de transporte público como o
metrô. Os terminais de transporte público são importantes para a integra-
ção, pois é possível a articulação com outras linhas de ônibus (DUARTE,
LIBARDI, SÁNCHES, 2014).

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CAMILA DE ALMEIDA TEIXEIRA • FÁTIMA PRISCILA MORELA EDRA

Gehl (2015, p. 7) afirma que uma cidade é tida como sustentável quan-
do grande parte de “seu sistema de transporte puder ser dar por meio da
‘mobilidade verde’”, isto é, o deslocamento feito a pé, de bicicleta ou por
transporte público.
Antes de seguir, vê-se necessário acrescentar a informação sobre cidade
ativa, pois pelo panorama apresentado sobre a mobilidade dos transportes e
os investimentos que estão sendo feitos pela prefeitura, a cidade parece estar
caminhando para se tornar uma cidade ativa.
O conceito cidade ativa está relacionado às escolhas saudáveis e susten-
táveis, para tal “as cidades devem proporcionar acesso a espaços públicos e
serviços de qualidade a todas as pessoas, garantindo que possam passear,
descansar, brincar e se exercitar em praças, parques e equipamentos” (CIDA-
DE-ATIVA, 2018). As cidades ativas devem ser compactas, isto é, a moradia, “o
trabalho, escola, serviços, lazer” devem estar próximos para que os desloca-
mentos entre eles possam ser feitos a pé, por bicicleta ou público. As “cidades
ativas são, necessariamente, mais caminháveis” (CIDADE-ATIVA, 2018).
O estilo que a população mundial leva no século XXI, acarreta sérios pro-
blemas à saúde, sendo um deles as doenças cardiovasculares. O estilo de vida
que possui pouca ou nenhuma atividade física, as pessoas têm pressa, há a
questão da poluição, e má alimentação. A ornamentação da cidade pode con-
tribuir para a alteração do modo de vida mais saudável (PACHECO, 2014). Para
Cruz, Callejas e Santos (2014) afirmam que as doenças causadoras de óbitos no
Brasil estão relacionadas à obesidade, ao sedentarismo e a diabetes, em de-
corrência da falta de atividade física e maus hábitos alimentares. Para as auto-
ras essas doenças podem ser “prevenidas e controladas por um novo modelo
de planejamento, de desenho urbano e arquitetura que sigam as estratégias
discutidas pelo Active Disign” (CRUZ, CALLEJAS, SANTOS, 2014, p. 69).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este capítulo apresentou as transformações que o município de Mari-


cá vem sofrendo para melhorar a qualidade de vida e a mobilidade na cida-
de. Essas são transformações significativas para a população como praças e
quadras esportivas, melhorias para pedestres e ciclistas.
A cidade tem mostrado preocupação com as duas camadas mais frágeis
da pirâmide de mobilidade urbana, que são pedestres e ciclistas, com a im-
plantação de praças de lazer e vias em que se prioriza a passagem do pedestre

199
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

e reduz a velocidade dos veículos motorizados aumentando a segurança, a


instalação de ciclovias são alguns dos exemplos dessas transformações, e o
transporte público gratuito que permite um alcance maior nos deslocamen-
tos pela cidade.
Em cidades internacionais como Copenhague na Dinamarca, que são
reconhecidas mundialmente por seus investimentos em ciclomobilidade e a
priorização de pedestres e do uso do transporte público, a qualidade de vida
e de mobilidade são elevados. Quando se fomenta o uso de bicicleta, estimu-
la-se a caminhada nos deslocamentos e se oferecem espaços públicos convi-
dativos à permanência e vivência social, as pessoas fazem atividades físicas
mesmo que inconsciente.
Pelas sucessivas transformações que estão ocorrendo no município, a
cidade Maricá parece estar caminhando para ser uma cidade ativa, cujas es-
colhas são mais sustentáveis e a população pode escolher por opções de des-
locamento e lazer mais saudáveis.

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203
História e cultura
PROGRAMA CULTURA DE DIREITOS: A CULTURA COMO
INSTRUMENTO DE INCLUSÃO SOCIAL, CIDADANIA E PROMOÇÃO
DO DESENVOLVIMENTO NO MUNICÍPIO DE MARICÁ

Luciana Gonzaga Bittencourt1

1. INTRODUÇÃO

A noção de governança deve ser capaz de governar para além do aparato


institucional formal, buscando a construção de relações sociais a partir da in-
teração entre diferentes categorias de vivências e de condições alternativas de
governabilidade. Por meio da interação entre governo e sociedade, temos uma
democracia bem mais participativa e integrada às demandas reais da popula-
ção local. Para Pereira (2018, p. 76), “a legitimidade do governo local depende
sempre do atendimento e da capacidade de execução de suas propostas e pla-
nos de gestão, o que demanda a criação de condições para a governabilidade.”
A Região Metropolitana do Rio de Janeiro é composta por dezenove ci-
dades: Rio de Janeiro (capital), São Gonçalo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu,
Niterói, São João de Meriti, Belford Roxo, Magé, Itaboraí, Mesquita, Nilópo-
lis, Maricá, Itaguaí, Queimados, Japeri, Seropédica, Rio Bonito, Guapimirim,
Cachoeiras de Macacu, Paracambi, Tanguá, totalizando cerca de 11.836.707
habitantes,2 em uma área de 5.327 km².
O município de Maricá possui uma área total de 362 km² e divide-se em
quatro distritos: Maricá (Sede), Ponta Negra, Inoã e Itaipuaçu, com um total
de 52 bairros, tendo como limites Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Tanguá, Sa-
quarema e Oceano Atlântico. Segundo estimativa do Instituto Brasileiro de

1 Luciana Gonzaga Bittencourt é doutoranda em Política Social pela UFF, Niterói (RJ), Brasil. E-mail:
lucianagb79@gmail.com.

2 Estimativas de População. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dados retirados


do Plano de Trabalho do Programa Cultura de Direitos. Acesso em 29 de março de 2019.

207
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Geografia e Estatística (IBGE), em 2018, sua população girava em torno de


157.789 habitantes. De acordo com Estudo do Tribunal de Contas do Estado
do Rio de Janeiro de 2016 (TCE/RJ) na última década, população de Maricá
aumentou 66,1%, índice que revela o segundo maior crescimento no Estado
do Rio de Janeiro. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM)
de Maricá ocupa a 289ª posição em relação a 5.565 municípios do Brasil. Em
relação aos outros municípios do Rio de Janeiro, ocupa a 6ª posição.
De acordo com o site Mapa da Cultura do Estado do Rio de Janeiro,3 que
traz informações históricas dos municípios do Estado do Rio de Janeiro, a
cidade vem crescendo em termos de pontos de cultura e de turismo:

Pouca gente sabe, mas as matas do Parque Estadual da


Serra da Tiririca fascinaram no século XIX o naturalista
inglês Charles Darwin em sua viagem exploratória pelo
mundo. Suas águas tranquilas inspiraram a ceramista de
bonecas Milla Minhava, cujos bibelôs foram presenteados
a pessoas ilustres como a cantora Madonna. Corruptela
do termo maraca, que quer dizer chocalho indígena,
Maricá foi refúgio do antropólogo Darcy Ribeiro a casa
em que viveu, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer,
ainda está lá para ser vista. Antes, muito antes, a cidade
acolheu a tapeceira marroquina Madeleine Colaço.
Em seu sítio, na região do Espraiado, embalada pelos
ares de Maricá, Madeleine inventou o famoso ponto
brasileiro. Batizado de samba, porque a agulha parece
dançar na tela, um ponto pra lá e outro pra cá. Como
herança, Madeleine deixou no município as Tapeceiras
do Espraiado, cujos tapetes são conhecidos no Brasil e no
exterior. É no Espraiado ainda que todos os anos artistas,
tapeceiras e produtores rurais abrem as portas de casa
para turistas e moradores apreciarem seus trabalhos
(RIO DE JANEIRO, 2018).

No tocante aos aparelhos culturais e patrimônio histórico, a cidade tem


buscado fomentar, principalmente, atividades turísticas como shows, festi-
vais, além do Carnaval e do Réveillon. A cidade possui aparelhos históricos
e culturais que demonstram a importância da preservação da cultura para
o desenvolvimento socioeconômico local, como a Igreja Nossa Senhora do
Amparo, a Fazenda do Bananal, a Casa de Cultura (que abriga a Academia de

3 Fonte: Site oficial do Governo do Estado do Rio de Janeiro, seção Mapa da Cultura. Disponível em:
http://mapadecultura.rj.gov.br/cidade/marica#prettyPhoto. Acesso em 18 de fevereiro de 2018.

208
LUCIANA GONZAGA BITTENCOURT

Letras de Maricá, a Associação Casa do Artesão de Maricá e o Museu Históri-


co de Maricá), a Biblioteca Leonor Leite Bastos de Souza, o Centro de Cultura
e Artes Canteiro de Obras, o Traças do Bem – Clube de Leitura, a Casa Darcy
Ribeiro, o Grupo de Artistas de Maricá (GAM), o Teatro e Cinema Henfil e as
Tapeceiras do Espraiado. As festas tradicionais incluem o Aniversário da Ci-
dade, em 26 de maio, o dia da Padroeira da Cidade Nossa Senhora do Amparo,
em 15 de agosto, o Espraiado de Portas Abertas, a Bienal da União Municipal
de Estudantes (UMES), o Dia Nacional de Anchieta e o Festival Utopia.
Considerando-se a Lei Orgânica do Município, assinada em 1990, em
seu Art. 246, o município, em sua política urbana, sinaliza que é necessário
“atender o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade com vistas
à garantia e melhoria na qualidade de vida de seus habitantes”. Esse artigo
inclui que as funções sociais da cidade devem englobar a cultura, trazendo
inclusive a Seção II – Cultura:

Art. 405: O Município garantirá a todos o pleno


exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes
de cultura nacional, estadual e municipal, e apoiará e
incentivará a valorização das manifestações culturais,
através de: I – articulações das ações governamentais
no âmbito da cultura, da educação, dos desportos, do
lazer e das comunicações; II – criação e manutenção de
espaços públicos devidamente equipados e acessíveis
à população para as diversas manifestações culturais,
inclusive através do uso de próprios municipais,
vedada a extinção de qualquer espaço cultural público
ou privado sem criação, na mesma área, de espaço
equivalente (MARICÀ, 1990).

Atualmente, a cidade é considerada como produtora de petróleo, já que


o seu litoral está defronte à Bacia de Santos. A exploração do campo de Lula,
pela Petrobras, é o principal responsável por garantir consideráveis receitas
de royalties à prefeitura municipal. Em 2018, dentre todos os municípios do
Estado do Rio de Janeiro foi o que mais recebeu arrecadações provenientes de
petróleo, totalizando 900 milhões de reais. De acordo com a Lei Orçamentá-
ria Anual do Município (LOA), em 2019, Maricá ainda dispõe de mais de 2,6
bilhões de reais para suas despesas.
Na contramão das administrações municipais, estaduais e federal do
Brasil, a cidade, nos últimos dez anos, tem adotado um desenvolvimen-
to econômico articulado às áreas social, cultural e intelectual, ao imple-

209
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

mentar ações voltadas para o respeito das diversidades dos grupos sociais
residentes na cidade. A partir do diálogo entre governo e a sociedade civil,
sobretudo a parcela da população menos assistida e em situação de vul-
nerabilidade, a atual gestão municipal tem investindo no fortalecimento
de ações e programas de caráter transformador que promovam o acesso à
cidadania plena, a participação popular e melhorias na qualidade de vida
dos munícipes. Dessa forma, existe uma preocupação do governo local por
meio de suas secretarias, autarquias e institutos municipais em fomentar
possibilidades que permitam oportunidades de emprego e renda por meio
do turismo, da vinda de recursos de investidores, de empresas e de univer-
sidades, assim como investimentos na indústria e na prestação de serviços
em benefício de todos os seus munícipes.
Nesse sentido, a atual gestão tem estabelecido para si grandes desafios
para um crescimento sustentável, tanto economicamente como socialmente,
em razão do grande investimento que tem recebido por meio da implantação
de políticas de defesa, promoção e garantia dos direitos humanos e sociais.
Assim, tem como meta buscar qualidade de vida para toda a sua população
por meio de investimentos significativos em grandes obras de saneamento
básico e infraestrutura, como o novo hospital e postos de odontologia, es-
colas/bolsas para graduandos e pós-graduados, transporte gratuito, moeda
social, projetos de assentamentos humanos e de agroecologia. Além disso,
propõe a participação ativa de seus moradores na construção de novas de-
mandas públicas e de seu pertencimento local por meio de diferentes ações
realizadas por suas secretarias, como cursos, encontros, seminários e reu-
niões com a sociedade civil, conforme aponta Sodré (2010):

Devemos pensar a democracia para além de técnica


universalista de governo, prática de construção e
reelaboração do sujeito social em sua cotidianidade. É nas
situações miúdas do dia a dia, no vaivém relacional entre
as instituições e a vicissitude existencial da cidadania,
que se pratica o jogo democrático (SODRÉ, 2010, p. 84).

Nessa perspectiva, devemos destacar a Moeda Social Mumbuca, que


foi criada em julho de 2013 pela Lei Municipal n. 2.224/2013 e é gerida pelo
Banco Comunitário de Maricá, o primeiro do país a ter uma moeda social
circulante 100% eletrônica. Tem como objetivos estimular o desenvolvi-
mento da cidade, junto a um programa de renda para a população em maior

210
LUCIANA GONZAGA BITTENCOURT

situação de vulnerabilidade social, e combater às desigualdades econômi-


cas da população local por meio da circulação de recursos para consumo de
bens ou abertura e investimentos em negócios. São quatro os programas
que fazem parte dessa economia popular e solidária: Renda Mínima Mum-
buca (o maior dos quatro), Renda Mínima Jovem Solidária, Renda Mínima
Gestante e o Renda Básica Cidadania4.
Outras políticas públicas importantes: ônibus gratuito (Vermelhinho/
EPT), entrega de kit escolar e uniforme aos alunos da rede municipal de en-
sino, Pré-Enem Popular, programa Bilhete Único Universitário, Programa
Minha Casa, Minha Vida (MCMV) – conjuntos habitacionais nas localidades
de Itaipuaçu e Inoã –, além da implantação de quatro lonas culturais, sendo
que duas já foram inauguradas (Barra e de Itaipuaçu).
Em 2019, houve a criação do Programa Passaporte Universitário como
forma de investimento na qualificação e na formação acadêmico-profissio-
nal dos munícipes. O programa atua na concessão de bolsas de estudos para
expandir e interiorizar a oferta de cursos de graduação e pós-graduação (es-
pecialização, mestrado e doutorado), bem como promover a geração de pes-
quisa e inovação voltadas às demandas locais e regionais. Assim, busca-se
fomentar o desenvolvimento socioeducacional do município, combatendo as
desigualdades sociais, contribuindo para a formação dos sujeitos, em todos
os aspectos, e na geração de emprego e renda. Sua principal contrapartida
é a instalação de unidades educacionais dentro do Campus Educacional ou
em outro espaço destinado ao programa, estimulando a criação de cursos de
graduação e pós-graduação nas diversas áreas do conhecimento, formando
profissionais nas diferentes áreas de conhecimento, aptos à inovação, crian-
do novas práticas e inserção em setores profissionais, para a participação no
desenvolvimento do município, do estado e até do país.5
De acordo com Chauí (1995, p. 71), “a democracia funda-se na igualdade
(contra a hierarquia), no direito à informação (contra o segredo) e na inven-
ção de novos direitos segundo novas circunstâncias (contra a rotina)”. Nesse
sentido, deve-se reconhecer a cultura como parte dos direitos humanos e in-
corporá-la ao cenário político e social, fortalecendo a relação entre a socie-

4 Informações sobre a criação da Lei Moeda Social Social Mumbuca. Fonte: Instituto Banco Palmas.
Disponível em: http://www.institutobancopalmas.org/lei-moeda-social-mumbuca-marica-rj/.
Acesso em 2 de junho de 2019.

5 Fonte: Programa Passaporte Universitário. Disponível em: http://passaporteuniversitario.marica.


rj.gov.br/programa. Acesso em 2 de junho de 2019.

211
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

dade, município e políticas públicas por meio de novos caminhos baseados


na reflexão crítica, na solidariedade, no coletivo e no trabalho colaborativo a
partir dos interesses da sociedade.

2. DEMOCRACIA, CIDADANIA E CULTURA POLÍTICA: FERRAMENTAS PARA


O DESENVOLVIMENTO LOCAL

A democracia, segundo Gramsci (1968), é a direção intelectual e mo-


ral de um sistema político-social, tendo como ponto principal a per-
petuação das relações de classe e prevenção do desenvolvimento da
consciência de classe em um período determinado. Por meio de uma
transformação na visão de homem e do mundo, deve-se construir uma
nova ordem social, cujas condições de valorização da vida estejam acima
do econômico. Este seria o papel da escola e da cultura para a formação
da consciência baseada na participação ativa das classes subalternas nas
novas organizações sociais, a partir de uma função positiva das ideolo-
gias e de uma nova concepção de mundo, superior à classe dominante
burguesa, como ferramentas para uma transformação social efetiva e
real. Para Coutinho (2008, p.151), “a democracia deve ser entendida não
como algo que se esgota em determinada configuração institucional,
mas sim como um processo”.
Gramsci (1968) afirma que, para promover essas mudanças, seria ne-
cessário fomentar uma consciência teórica e cultural dos sujeitos envol-
vidos e a práxis (ação)6. Esta se articula à atividade objetiva do homem, ao
domínio da natureza e à formação da subjetividade humana, não se apre-
sentando como um algo passivo, e sim como parte da luta de reconheci-
mento da liberdade humana a partir do desenvolvimento de uma consciên-
cia histórica da realidade social e de uma ação política voltada a elevar a
condição intelectual e moral das massas.
A cultura é o meio pelo qual o homem legitima sua prática social em
um contexto histórico, cuja construção é estabelecida a partir dos esfor-
ços do grupo social em busca de uma consciência de classe, baseada em
um sistema de forças. Aparece de forma particular em cada grupo social e
se estabelece como um bem universal baseado em sua ação política. Cou-

6 A práxis deve ser entendida como a vinculação íntima entre a teoria e a prática, fundamentada
na relação do processo histórico social. Ela que legitima as práticas produtivas do homem
historicamente. Resulta em um contraste entre o pensar e o agir frente à concepção de mundo.

212
LUCIANA GONZAGA BITTENCOURT

tinho (2011) considera a cultura algo diverso, baseada na apropriação de


sua própria personalidade, em que o homem “(...) compreende seu valor
histórico, sua própria função na vida, seus próprios direitos e seus pró-
prios deveres” (COUTINHO, 2011, p. 54). Devemos pensá-la como algo
comum a um grupo social e não algo individual. Contudo, o modo como
cada pessoa se relaciona com a cultura da sociedade ou grupo em que está
inserida varia. Ela é mutável, não estática – ou seja, uma sociedade pode
ter sua cultura completamente transformada, principalmente em relação
a seus hábitos culturais. Normalmente, compõe-se por elementos como
comportamentos, conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes,
hábitos, valores e instituições.
Devemos considerá-la uma importante ferramenta de desenvolvi-
mento social e obtenção do conhecimento, já que mantém estreita relação
com a educação, servindo como meio para se alcançar melhores e diferen-
tes resultados no desempenho da economia e, inclusive, para diminuir as
desiguais relações entre as classes, à medida que busca promover reflexões
sobre os contextos sociais em que vivemos. Devemos pensá-la para além de
sua expressão simbólica, como forma de construção de comportamentos e
de cidadania que inclui os modos de vida, direitos fundamentais, sistemas
de valores, tradições e crenças.
Nesse sentido, deve-se reconhecer a cultura como parte dos direitos hu-
manos e incorporá-la ao cenário político e social, fortalecendo a relação entre
a sociedade, município e políticas públicas por meio de novos caminhos ba-
seados na reflexão crítica, na solidariedade, no coletivo e no trabalho colabo-
rativo a partir dos interesses da sociedade: “Se esforços e recursos públicos
estão sendo aqui colocados em jogo, a única política cultural que, me parece,
devemos desejar é aquela que cria as condições para o fortalecimento (quando
não o aparecimento) da cultura política” (COELHO, 2000, pp. 118-119).
Assim, as políticas públicas com viés social devem respeitar a diver-
sidade presente em nosso país, de forma a orientar e formar pessoas que
respeitem as leis, fortalecidas por vínculos familiares e comunitários,
gerando solidariedade e compromisso com a preservação do ambiente, da
cultura e da história, além de promover e garantir a proteção social por
meio da participação da população nos espaços de decisão, para criar uma
nova cultura política. Esta compreende o que acontece ao nosso redor, co-
nectando-se a certos valores e a certas formas de ver e viver a vida como
um campo da mediação, inseparável da dimensão política e econômica da

213
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

sociedade. É, por excelência, o campo da transversalidade e da fluidez:


tudo está sempre em movimento e se refaz; convivem práticas tradicio-
nais e novas modalidades, entre elas a busca por uma nova cultura políti-
ca, para que se possa ampliar o acesso à cidadania plena.

A cultura política é a cultura que nos permite conviver


em sociedade, conviver na cidade, na polis. Do ponto
de vista da administração pública é a cultura que se
apresenta como capacidade de regime, instrumento de
governabilidade que se apresenta a muitos de nós como
imprescindível para entrarmos no século XXI e nele nos
mantermos vivos, como indivíduos, países ou blocos
(COELHO, 2000, p. 119).

Partindo-se da ideia do acesso de todos à democracia social, estende-se


o conceito de participação popular efetiva pela reivindicação e pela imple-
mentação de direitos (novos ou ressignificados), em consonância com as po-
líticas públicas voltadas para o social e a minimização da exclusão de grande
parcela da população. Portanto, devemos passar a considerar a construção
de uma democrática baseada em transformação social, a partir dos direitos
humanos, repensando o próprio de cidadania e acesso aos direitos indivi-
duais e coletivos. Nesse campo, Dagnino (2004, p. 103) afirma:

A então chamada nova cidadania ou cidadania ampliada


na sua origem pela luta pelos direitos humanos (e
contribuindo para a progressiva ampliação do seu
significado) como parte da resistência contra a ditadura
buscava implementar um projeto de construção
democrática, de transformação social, que impõe um
laço constitutivo entre cultura e política. Incorporando
características de sociedades contemporâneas, tais
como o papel das subjetividades, o surgimento de
sujeitos sociais de um novo tipo e de direitos também de
novo tipo, bem como a ampliação do espaço da política,
esse projeto reconhece e enfatiza o caráter intrínseco
da transformação cultural com respeito à construção
da democracia. Nesse sentido, a nova cidadania
inclui construções culturais, como as subjacentes ao
autoritarismo social como alvos políticos fundamentais
da democratização. Assim, a redefinição da noção
de cidadania, formulada pelos movimentos sociais,
expressa não somente uma estratégia política, mas
também uma política cultural.

214
LUCIANA GONZAGA BITTENCOURT

A cidadania ampliada deve se preocupar em promover conhecimento


a toda sociedade sob a perspectiva de diferentes hábitos do pensamen-
to e do comportamento, por meio da liberdade e do reconhecimento dos
diferentes modos de produção do homem, entre de diferentes contextos
locais e temporais. Para Pereira (2018, p.76): “A legitimidade do gover-
no local depende sempre do atendimento e da capacidade de execução de
suas propostas e planos de gestão, o que demanda a criação de condições
para a governabilidade.”
Portanto, é primordial refletir como as políticas públicas municipais
devem identificar as demandas locais cada vez mais, no intuito de produzir
ações que garantam os direitos de cada cidadão (civis, políticos e sociais), de
forma a atuar diretamente na diminuição da exclusão social que existe no
Brasil. Para isso, é importante salientar a cidadania e a democracia partici-
pativa como garantias desses direitos, frente à tamanha desigualdade nas
relações que servem o capitalismo. Assim, carece que identifiquemos ações
articuladas em redes locais, estaduais e nacional, comprometidas com a efi-
cácia e eficiência nas demandas da população.

3. PROGRAMA CULTURA DE DIREITOS: A CULTURA COMO INSTRUMENTO


DE INCLUSÃO SOCIAL, CIDADANIA E DESENVOLVIMENTO

O Programa Cultura de Direitos foi criado em 2018 pela Secretaria Mu-


nicipal de Participação Popular, Direitos Humanos e Mulheres (SPPDHM)7
como uma política pública que busca, por meio da cultura, apresentar para
a população local alternativas de acesso a seus diferentes direitos. Busca
fornecer condições capazes de promover mobilidades sociais por meio de
suas ações baseadas nas potencialidades para os sujeitos sociais, ofere-
cendo-lhes participação política ativa e interativa com o governo para que
estes sujeitos estejam conscientes de seus direitos constitucionais. Para
Domingos e Souza (2011, p. 240):

7 A SPPDHM é composta por oito coordenadorias, divididas pelos seguintes eixos: Igualdade Racial,
Juventude, Participação Popular, Direitos Humanos, Conselhos, Mulheres, LGBTI e Comitê em
Defesa do Bairro (CDB). Cabe ressaltar que a Secretaria tem como objetivos a promoção da cidadania,
direitos humanos e democracia participativa popular, a partir de ações que busquem a garantia dos
direitos de igualdade da população de Maricá por meio da formação de líderes, multiplicadores
e cidadãos ativos, a partir de ações integradas aos diversos movimentos sociais e coletivos que
existem na cidade. Fonte: Facebook. Informações sobre a Secretaria. Disponível em: https://www.
facebook.com/dhMarica/. Acesso em 18 de fevereiro de 2019.

215
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A importância do setor público no financiamento da


cultura se justifica de diversas maneiras. Num país
extremamente heterogêneo como o Brasil, com baixo
crescimento econômico nas últimas décadas, estes
fundos (culturais) têm um papel central para a efetivação
material da pluralidade cultural, na criação de postos de
trabalho e no crescimento da participação da cultura
no desenvolvimento econômico do país, a depender da
orientação política que organiza sua aplicação.

O Programa surgiu da preocupação do governo local em fomentar novos


olhares da população maricaense sobre seus direitos constitucionais e para
a promoção de consciência de sua cidadania plena por meio de diferentes
ações. Estas buscam a defesa, a garantia e a proteção dos direitos humanos
inerentes a todos os grupos sociais, a consecução dos anseios sociais, bem
como o desenvolvimento, em defesa da dignidade da pessoa humana.
Tem como objetivos principais o empoderamento popular por meio do
acesso a seus direitos sociais e de cidadania, a qualificação profissional vol-
tada para a comunidade, a ampliação de mercado de trabalho por meio de
diferentes oficinas culturais e o estabelecimento de políticas públicas demo-
cráticas que foquem a participação popular por meio da integração de seus
moradores às transformações econômicas, sociais e culturais que o municí-
pio está vivenciando na última década.

[...] A cultura remete à idéia de uma forma que caracteriza


o modo de vida de uma comunidade em seu aspecto global,
totalizante. Não se caracteriza apenas pela gama de
atividades ou objetos tradicionalmente chamados culturais,
de natureza espiritual ou abstrata, mas apresenta-se sob
a forma de diferentes manifestações que integram um
vasto e intricado sistema de significações. Assim, o termo
cultura continua apontando para atividades determinadas
do ser humano que, no entanto, não se restringem às
tradicionais (literatura, pintura, cinema - em suma, as que
se apresentam sob uma forma estética), mas se abrem para
uma rede de significações ou linguagens incluindo tanto a
cultura popular (carnaval) como a publicidade, a moda, o
comportamento (ou a atitude), a festa, o consumo, o estar-
junto, etc. (COELHO, 1999, p. 103).

A proposta dessa política é desenvolver autonomia e protagonismo no


público, principalmente a partir de sua integração com a educação, tornan-

216
LUCIANA GONZAGA BITTENCOURT

do-se indispensável para uma cultura cidadã e emancipadora como parte


da organização dos modos de sociabilidade e de organização de espaços
que sejam próprios às novas relações com a cidade de Maricá. Para Cancli-
ni (2003, p. 157), “uma política é democrática tanto por construir espaços
para o reconhecimento e o desenvolvimento coletivos quanto por suscitar
as condições reflexivas, críticas, sensíveis para que seja pensado o que põe
obstáculos a esse reconhecimento.”
Por meio de ações socioculturais, propõe ao público beneficiário de suas
atividades reflexões críticas sobre diferentes aspectos sociais, fomentando,
inclusive, novas oportunidades a partir de seus próprios fins no universo da
cultura como meio de comunicação e expressão. Ainda evoca uma democracia
participativa, já que propõe um sistema institucional aberto à experimenta-
ção de uma gestão mais igualitária. Tendo como referência os direitos huma-
nos, sua missão é fomentar a ampliação e o fortalecimento do sujeito, dotado
de direitos constitucionais e de pertencimento sociocultural, estimulando a
participação e um novo olhar para uma sociedade democrática baseada na
cultura da paz, com direito à cidadania plena, respeito à diversidade sexual
e de gênero e sem exclusão social. Conforme Calabre aponta (2005, p. 10): “Os
processos culturais vêm sendo considerados importantes, sejam como fontes
de geração de renda e emprego, sejam como elementos fundamentais da con-
figuração do campo da diversidade cultural e da identidade nacional”.
O Programa iniciou suas ações em outubro de 2018, oferecendo a inscri-
ção para atividades de qualificação e formatação por meio de implementação
de oficinas culturais em diferentes locais da cidade. Estas foram definidas
pela gestão através de indicadores e critérios de exigibilidade em reuniões
de planejamento com agentes sociais que compõem o Comitê de Defesa do
Bairro – CDB. São elas: capoeira, música (instrumentos de corda, sopro, per-
cussão e coral), vídeo-arte (cinema e fotografia) e mídias sociais. As aulas
acontecem de segunda a sábado nas quatro Casas do Programa.
Para atender o programa foram criadas quatro Casas de Cultura/Núcleos, de-
finidas pela gestão através de indicadores e critérios de exigibilidade em reuniões
de planejamento e que buscassem contemplar os quatro distritos de Maricá: Sede
– Pedreiras (Centro); Inoã; Bambui/Ponta Negra; Itaipuaçu. Assim, são oferecidas
diferentes turmas com aulas gratuitas, de segunda a sexta-feira, pela manhã ou à
tarde, sendo que cada aluno pode se inscrever em mais de uma oficina.
1) Oficina de Mídias Sociais – As redes sociais são uma realidade mer-
cadológica da modernidade. Todos querem ter sua empresa ou seus produtos

217
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

sendo visualizados nas redes sociais. Para tanto, se faz necessário entender
a dinâmica e a estrutura de funcionamento dessas mídias. É uma necessi-
dade estratégica ter o domínio das ferramentas que permitem que um em-
preendedor e seus produtos estejam sempre expostos e à disposição. Dessa
forma, esta oficina descreve a fundamentação sobre as mídias sociais e prin-
cipalmente uma maneira de fazer o monitoramento do conteúdo e a troca de
informações que permeiam as redes sociais e que podem ter alguma infor-
mação que poderia causar algum impacto na imagem de uma marca ou pro-
duto. Carga horária: 3 horas, durante o período de dois meses. A oficina será
ofertada quatro vezes ao longo de dez meses e é oferecida em cada núcleo.
Uma turma pode ter até quinze alunos.
2) Oficina de Capoeira – Tem como objetivo difundir no contexto da ci-
dade a manifestação de uma das mais ricas expressões de nossa cultura. A
capoeira proporciona desenvolvimento integral de seus praticantes através
de vários aspectos, como a motricidade, força, resistência, reflexo, flexibi-
lidade, equilíbrio, coordenação e velocidade. Desenvolve habilidades artís-
ticas e ritmos, proporcionando ganhos emocionais como autoconfiança e
autocontrole, além de contribuir para o processo de ensino-aprendizagem. É
oferecida de forma permanente, com a formação de oito turmas, distribuídas
nos quatro núcleos, com pelo menos 25 alunos. Cada aula tem 1h30 de dura-
ção, em três dias da semana, durante dez meses.
3) Oficina de Vídeo-Arte (Cinema e fotografia) – Tem como objetivo
proporcionar formação em vídeo para jovens consumidores de informa-
ções digitais que desejem documentar fatos e dados vinculados à demo-
cratização das tecnologias e da arte contemporânea, inclusive como curso
profissionalizante para quem desejar trabalhar com esse tipo de filmagem.
Acontece nas Casas das Pedreiras e Inoã, por meio da oferta de 17 cursos,
divididos em três módulos:

a) Módulo Básico – Criação de Roteiro I; Sonorização I; Ilumi-


nação I; Fotografia I; Filmagem I; Edição I; Produção Audiovisual I.
Cada curso terá 30 horas de duração, divididas em 26 horas básicas
e 4 horas de empreendedorismo, durante o período de dois meses.
Este módulo será ofertado duas vezes ao longo de dez meses. Os
cursos são oferecidos nas Casas da Pedreira e Inoã. Cada turma
pode ter até quinze alunos.

b) Módulo Intermediário – Criação de Roteiro II; Sonorização II;

218
LUCIANA GONZAGA BITTENCOURT

Iluminação II; Fotografia II; Filmagem II; Edição II; Produção Au-
diovisual II. O pré-requisito para frequentar estes cursos é ter cur-
sado o Módulo Básico. Terá 40 horas de duração, divididas em 34
horas básicas e 6 horas de empreendedorismo, durante o período
de dois meses. Esse módulo será ofertado duas vezes, ao longo de
dez meses. Ainda não começou.

c) Módulo Avançado – Filmagem III; Edição III; Produção Au-


diovisual III. O pré-requisito para frequentar estes cursos será
ter cursado o Módulo Intermediário. São 50 horas de duração,
divididas em 40 hiras básicas e 10 horas de empreendedorismo,
durante o período de dois meses. Esse módulo será ofertado uma
vez. Ainda não começou.

4) Oficina de Música – Busca o desenvolvimento dos alunos em suas re-


ferências culturais, ampliando a inserção no mercado de trabalho na área
musical. Além disso, aprender a tocar um instrumento ou ouvir música é
algo que se constitui como um bem para a pessoa como lazer. É oferecido nos
quatro núcleos através da oferta de doze cursos, divididos em três módulos.

a) Módulo Introdução à Música – Coral I, Percussão I, Flauta


Doce, Gaita. Cada curso tem 40 horas de duração, divididas em
30 horas básicas, 6 horas de introdução à música e 4 horas de
empreendedorismo, durante o período de dois meses. Esse mó-
dulo é ofertado duas vezes ao longo de dez meses. Cada curso
tem ao menos uma turma, com vinte alunos cada, e é ofertado
pelos quatro núcleos.

b) Módulo Avançado I – Coral II, Percussão II, Instrumentos de


Corda I, Instrumentos de Sopro II. A entrada neste módulo se dá
através de análise de desempenho musical feita pelos instrutores
ou conclusão do módulo de Introdução à Música. Os cursos terão
duração total de 40 horas, divididas em 26 horas básicas, 10 horas
especializadas (destinadas aos ensaios) e 4 horas de empreende-
dorismo, durante o período de dois meses. Ainda não começou.

c) Módulo Avançado II – Coral III, Percussão III, Instrumen-


tos de Corda II, Instrumentos de Sopro II. O pré-requisito para fre-
quentar estes cursos será ter cursado o módulo Avançado I. Terão
duração total de 50 horas, divididas em 30 horas básicas, 10 horas

219
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

especializadas (destinadas aos ensaios) e 10 horas de empreende-


dorismo, durante o período de dois meses. Este módulo será ofer-
tado duas vezes ao longo de dez meses e ainda não começou.

Para as quatro oficinas inicialmente oferecidas foram abertas 1.040


vagas e realizadas 1.397 inscrições. Salvo as oficinas de vídeo-arte, que co-
meçaram em janeiro de 2019, as demais (música, capoeira e mídias sociais)
iniciaram-se em outubro de 2018; em maio, tiveram suas primeiras turmas
finalizadas. Atualmente, novas turmas estão abertas.

Casa de Cultura/ Vagas Frequência –


Inscritos
Núcleo oferecidas Fevereiro de 2019
Bambuí/Ponta Negra 240 283 168
Inoã 280 350 104
Itaipuaçu/Recanto 280 317 104
Centro/Pedreiras 240 447 145
Fonte: Relatório Parcial do Programa Cultura de Direitos – 6 meses.8

As oficinas culturais são uma ferramenta para atrair pessoas da cida-


de de diferentes idades para participar de um equipamento cultural – Casa
de Cultura –, a fim de que a Prefeitura acesse não só os alunos inscritos,
mas também suas famílias, divulgando os diferentes serviços que a Pre-
feitura oferece por meio de suas Secretarias e Conselhos de Direitos. Cabe
ressaltar que, desde março de 2019, os agentes sociais ligados ao Comitê
de Defesa do Bairro (CDB) percorrem as casas de todos os matriculados,
avaliando as oficinas e buscando saber por que alguns inscritos não estão
frequentado as aulas, além de realizarem o preenchimento de cadastro
sociocultural com as famílias como forma de monitorar as diferentes se-
cretarias do município com dados e demandas reais da população local. A
partir do primeiro acesso, os agentes retornam constantemente a essas
pessoas, buscando interagir e monitorar essas famílias de acordo com o
que foi respondido no questionário.
Além disso, já está sendo realizada, a partir das reuniões iniciais de avaliação

8 Os dados foram com a coordenação do Programa Cultura de Direitos/SPPDHM e obtidos em


março de 2019 para a submissão do trabalho para o xiv Congreso Nacional de Ciencia Política “La
política en incertidumbre. Reordenamientos globales, realineamientos domésticos y la cuestión de
la transparencia”.

220
LUCIANA GONZAGA BITTENCOURT

com a equipe do programa, uma série de atividades culturais nas Casas para que
estas sejam ocupadas por toda população, como palestras, encontros, sessões de
cinema com debate, exposições artísticas e apresentações dos alunos das oficinas
musicais e de capoeira em diferentes eventos da cidade. O programa ainda buscará
a interação com outras secretarias, como a de Educação e de Ciência e Tecnologia.
Foi realizado, para os envolvidos no Programa, um Curso de Extensão sobre Direi-
tos Humanos, em parceria com a Universidade Federal Fluminense, além de rodas
de conversa com alunos do Programa Cultura de Direitos.
Nesse sentido, podemos apontar que as ações culturais são um cami-
nho para que os beneficiários do programa (alunos/família, coordenadores e
equipe técnica) interajam com a gestão local e tenham acesso a uma políti-
ca pública que divulgue os direitos da população, para, assim, proporcionar
melhores condições de vida aos moradores locais e a ampliação das opor-
tunidades de qualificação/emprego. Portanto, o Programa Cultura de Direi-
tos atua como ação colaborativa na formação dos diferentes sujeitos por ela
atendidos, potencializando-se a partir de uma forte relação entre Estado e a
cultura como ferramenta de pertencimento.
Por isso, ao alinhar o crescimento econômico e populacional à inclusão
social com base na cidadania por meio desse Programa, o município busca
promover o desenvolvimento intelectual, cultural e tecnológico, em benefí-
cio de todos os seus munícipes em seus diversos grupos sociais.
Durante o ano de 2019 foram realizadas apresentações das turmas de
música (sopro, percussão, canto, instrumentos de corda), capoeira (perma-
nente) e exibição de vídeos e de fotografia, produzidos nas aulas de vídeo-
-arte em diferentes eventos da cidade. Essa é uma maneira de a população
conhecer e ter acesso ao programa, além de divulgá-lo para que novos alunos
ingressem nas futuras turmas.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente artigo apresenta a relevância do desenvolvimento socioeco-


nômico por meio de políticas públicas que respeitem a diversidade, de forma
a orientar e formar cidadãos comprometidos com uma visão crítica da socie-
dade. Observa-se que devemos pensar a cultura para além de um sistema de
competência dos mnistérios e das secretarias de cultura, pois a incorporação
de dimensões culturais exige grande responsabilidade de outras políticas
(economia, comunicação, educação, direitos humanos, urbanismo etc.) e a

221
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

participação de atores (privados e associativos) que não se identificam espe-


cificamente como agentes culturais, estendendo o papel do Estado no âmbito
das políticas culturais, a partir de sua dimensão social e importante ferra-
menta para o desenvolvimento local baseada na democracia participativa.
Assim, ao pensar no exercício da cidadania em sua plenitude, oferecendo
à população formas de contestação e de participação na gestão local como um
caminho para a transformação social, a gestão local busca incentivar a parti-
cipação popular como uma demanda política. De acordo com Canclini (2003, p.
157), deve-se “construir sociedades com projetos democráticos compartilhados
por todos sem que igualem todos, em que a desagregação se eleve à diversidade,
e as desigualdades (entre classes, etnias ou grupos) se reduzam a diferenças”.
Nesse sentido, o Programa Cultura de Direitos preocupa-se em promo-
ver e garantir a proteção social, ampliando a participação da população nas
decisões dos rumos da cidade, considerando a ocupação de espaços públicos
para o fortalecimento dos munícipes. Preocupa-se em estimular o acesso da
população a seus diversos direitos sociais por meio do estímulo à participa-
ção popular ativa e consciente por políticas públicas efetivas e eficientes que
visem reduzir desigualdades sociais. A noção de governança como interação
entre governo e sociedade sugere que a capacidade de governar não deve es-
tar ligada unicamente por um aparato institucional e por construções inte-
rativas entre os diferentes sujeitos que a compõem.
Ressaltamos que a Prefeitura de Maricá, por meio desse programa,
promove políticas públicas preocupadas em ampliar o acesso das pessoas
aos bens, conteúdos e serviços socioculturais do município, a partir da
perspectiva de transformação social baseada na redução das desigualdades
territoriais, regionais e locais.
O impacto desse tipo de ação está diretamente ligado à formação de no-
vos processos de relações sociais, por meio do incentivo à formação e ma-
nutenção de redes, coletivos e grupos socioculturais capazes de reduzir as
formas de discriminação e de preconceito, além de fomentar o pensamento
crítico dos envolvidos. Para isso, faz-se necessária a integração com a edu-
cação, motor importante da socialização básica e provedora de conteúdos e
práticas culturais, que tem incentivado a formação de profissionais locais
capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável na cidade. Por-
tanto, dialogar com outros tipos de intervenções sociais relacionadas à vida
local e à estruturação das cidades conota a busca por um espaço de proximi-
dade e convivência de cidadania para a transformação social.

222
LUCIANA GONZAGA BITTENCOURT

A Secretaria Especial da Cultura ligada ao Ministério da Cidadania (BR)9


ressalta que a cultura deve ser pensada em três dimensões: simbólica, cida-
dã e econômica: “A dimensão cidadã considera o aspecto em que a cultura é
entendida como um direito básico do cidadão. Assim, é preciso garantir que
os brasileiros participem mais da vida cultural”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CANCLINI, N. G. Culturas Híbridas. São Paulo: EDUSP, 2003.


CHAUÍ, M. Cultura política e política cultural. Revista Estudos Avança-
dos – Dossiê Cultura Popular. São Paulo, Universidade de São Paulo, v. 9, n.
23, pp. 71-94, 1995. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/eav/article/
view/8848. Acesso em 15 de fevereiro de 2019.
COELHO, T. Dicionário Crítico de Produção Cultural. São Paulo: Ilumi-
nuras, 1999.
COELHO, T. Guerras Culturais. São Paulo: Iluminuras, 2000.
COUTINHO, C. N. Contra a Corrente: Ensaios sobre a democracia e so-
cialismo. São Paulo: Cortez, 2008.
COUTINHO, C. N. O leitor de Gramsci: escritos escolhidos 1916-1935. Rio
de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2011.
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falando?. In: MATO, D. (Coord.). Políticas de ciudadanía y sociedad civil en
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-estamos-falando%3F---plataforma-democr%C3%A1tica. Acesso em 18 de
fevereiro de 2019.
DOMINGUES, J. L. P. D.; SOUZA, V. N. Programa Cultura Viva: a política
cultural como política social? Elementos de análise dos fundos públicos e do
direito à produção da cultura. Cadernos de Estudos Sociais – FUNDAJ, Recife,
v. 26, n. 2, pp. 239-252, julho a dezembro de 2011. Disponível em https://perio-
dicos.fundaj.gov.br/CAD/article/view/1458 Acesso em 15 de fevereiro de 2019.
GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro:
Editora Civilização Brasileira, 1968.
MUNIZ, S. Reinventando @ cultura: a comunicação e seus produtos.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

9 BRASIL, 2019. Secretaria Especial da Cultura/Ministério da Cidadania. Disponível em: http://www.


cultura.gov.br/. Acesso em 18 de fevereiro de 2019.

223
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

PEREIRA, A. L. Dilemas da gestão pública municipal: as políticas de pro-


moção da igualdade racial como objeto de debate. In: GÓIS, J. B. H.; SOUZA, S.
C. (Orgs.). Minorias e os direitos sociais no Brasil contemporâneo. Rio de
Janeiro: Gramma, 2018, pp.69-92.
UNESCO. Relatório Mundial da UNESCO. Investir na diversidade cultu-
ral e no diálogo intercultural. Brasil, 2008. Disponível em http://www.dh-
net.org.br/dados/relatorios/r_edh/relatorio_unesco_cultura.pdf. Acesso
em 22 de fevereiro de 2019.

224
ANCESTRALIDADES:O POVO DE MARICÁ

Josefa Jandira Neto Ferreira Dias1 • Ondemar Ferreira Dias Jr2

INTRODUÇÃO

O Município de Maricá ocupa uma região privilegiada pela variedade


e diversidade de ambientes, situado entre as montanhas litorâneas e as
imensas praias oceânicas de “mar aberto”, potencialidade ampliada pela
lagoa que leva seu nome, de um lado bordejada por falésias e por outro pela
extensa restinga arenosa.
Assim como o restante do litoral fluminense, a paisagem atual resulta
de transformações ambientais dos últimos milhares de anos e desde então
constitui um atrativo poderoso para o povoamento humano, sobretudo ao se
considerar que o ser humano é o mais adaptável dos animais. E isto porque o
homem se adapta, sobretudo, pela cultura. Em outras palavras, a cultura se
constitui o processo de adaptação do homem.
A pesquisa arqueológica, alicerce deste trabalho, documenta justa-
mente esse mecanismo próprio da nossa espécie na sua variedade adap-
tativa, segundo os desafios do meio natural e da concorrência social – ou
seja, as influências das demais sociedades que compartilham o mesmo am-
biente ou suas vizinhanças. E todo esse processo se manifesta nos restos
materiais que constituem o objetivo de estudo da arqueologia.
Estes restos materiais, os artefatos, são preservados nos sítios arqueo-

1 Josefa Jandira Neto Ferreira Dias é doutoranda em História Comparada pelo Programa de Pós-
Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: jandiranetodias@terra.com.br.

2 Ondemar Ferreira Dias Junior é professor titular de História da América aposentado do Curso de
História do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Diretor presidente do
Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB). Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. E-mail: ondemarfdias@terra.com.br.

225
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

lógicos, e é por meio de sua pesquisa que é possível reconstituir a ocupação


humana da área em estudo.
Antes, no entanto, de analisarmos o potencial arqueológico de Maricá, e
partindo do geral para o especial, vamos abordar inicialmente, em seus as-
pectos amplos, a questão do espaço que constitui o litoral fluminense.

O LITORAL DO RIO DE JANEIRO: O POVOAMENTO NA PRÉ-HISTÓRIA

Para localização geográfica dos sítios arqueológicos do litoral flu-


minense e adaptação à divisão adotada pela maioria dos especialistas, os
pesquisadores do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) consideram para
este estudo a área dividia em três partes (Ver Mapa 1).
O Litoral Sul compreende a área entre os limites com o Estado de São
Paulo e a Baía de Guanabara. Trata-se de uma região em que o relevo da
Serra do Mar se aproxima da costa, formando baías e ilhas, sendo uma
delas de grandes proporções além da extensa restinga de Marambaia. In-
clui também uma área embrejada (o “apicum” de Guaratiba) e uma série
de pequenas lagoas, a maioria já desaparecida nas proximidades da cidade
do Rio de Janeiro.

Mapa 1 – Divisão do Litoral Fluminense, referenciado em três segmentos: Sul, Central e Norte,
com vista a facilitar a localização dos sítios arqueológicos em seus contextos. Original: Google
Earth 2020.

226
JOSEFA JANDIRA NETO FERREIRA DIAS • ONDEMAR FERREIRA DIAS JR

O Litoral Central que interessa mais de perto para este texto se estende
entre a Baía da Guanabara e Macaé, até a Ilha de Santana. As montanhas da
Serra do Mar se afastam do litoral, substituídas parcialmente pelas elevações
costeiras, e, ainda que existam praias de mar aberto no litoral sul, aqui elas
predominam. Os cordões arenosos litorâneos aprisionaram uma série de la-
gunas que se estendem beirando a costa. As dunas se sucedem entre elas e as
praias oceânicas, mas podem ser encontradas falésias nas áreas internas das
lagoas (como em Maricá), atestando a antiga linha da costa e a ação das marés.
O Litoral Norte se estende de Macaé à foz do Rio Itabapoana, limite com
o Estado do Espírito Santo. É conformado, sobretudo, por uma sucessão de
cordões litorâneos, formando extensas planícies arenosas, destacando-se a
imensa Lagoa Feia e a foz do Rio Paraíba.

SÍTIOS PRINCIPAIS DO LITORAL CENTRAL

O município de Maricá está situado no litoral central, onde os sítios ar-


queológicos são numerosos. Para melhor sintetizá-los, abordaremos este
espaço dividindo-o, também, em quatro setores.

Primeiro Setor

O litoral compreendido entre Niterói (Camboinhas, Itaipu e Itaipuaçú ) e


Maricá (ver Mapa 2).
Estão registrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) do
Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) dezoito sítios
em áreas do Município de Niterói e 26 sítios no Município de Maricá. Estes se
dividem em sítios pertencentes a povos tradicionais pré-históricos (Samba-
quianos, Itaipus e Tupis) e históricos (Neobrasileiros e Coloniais). Neste Setor,
predominam os Sambaquis3 e os Sítios em Duna4, em praias de mar aberto.
Os sítios mais antigos são os sambaquis, sendo que neste Setor se des-
taca o “Sambaqui de Camboinhas”, cuja datação por C-14 em 60.000 A.P.5 o
coloca ainda hoje como a datação mais recuada para o Estado do Rio de Ja-

3 O sambaqui é preferencialmente um tipo de assentamento relacionado aos primeiros povos que


ocuparam o território nacional; adiante, será descrito de forma mais completa.

4 O sítio em duna, também resultante de ocupações de grupos antigos e contemporâneos dos


sambaquis, caracteriza outro padrão de produção social econômico e também será, adiante,
mais bem-explicitado.

5 A sigla AP, usada para situar cronologicamente as datações arqueológicas, significa “Antes
do Presente”.

227
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

neiro. Além deste, outros quatro sambaquis foram também registrados e a


duna de Itaipu, como o sítio símbolo da cultura dos Itaipu. Em Maricá ainda
não foram localizados sítios sambaquis, mas é aqui que os sítios da Tradição
Itaipu predominam. Oito deles serão detalhados adiante.

Mapa 2 – Localização de sítios do Primeiro Setor – Niterói a Maricá. Original: Google Earth 2020.

Além dos sítios das tradições sambaquieira e da tradição itaipu, neste


setor registra-se ainda a existência de um sítio cerâmico da tradição tupi
localizado, mas nunca escavado, na base do morro aonde se assentou a
antiga Igreja de São Sebastião de Itaipu. Há também evidências da exis-
tência de um segundo sítio tupi em Maricá (Sítio do Seu Bento), mas sem
localização conhecida.
Foram também encontrados sítios com cerâmica neobrasileira deposi-
tada sobre material da Tradição Itaipu localizados na face externa da Lagoa
de Maricá, na restinga que a separa do mar. Contam-se, ainda, outros dois
sítios, um com cerâmica sem filiação cultural identificada (Sítio Lagoa do
Padre) e outro (São Vicente) também não especificado.

Segundo setor

Entre Ponta Negra (Jaconé) e Saquarema, da região dos beachrocks em


diante, os sítios arqueológicos são abundantes e somam 32 registros no CNSA.
Nos nossos arquivos institucionais, no entanto, só possuímos a locali-
zação topográfica de alguns poucos sítios, uma vez que nas fichas do CNSA
não constam os mapas que a possibilitariam. Frente ao baixo índice de geor-
referenciamento, reduzimos as indicações nominadas apenas àqueles do
nosso conhecimento (ver Mapa 3).

228
JOSEFA JANDIRA NETO FERREIRA DIAS • ONDEMAR FERREIRA DIAS JR

Desse total de 32 sítios, dezesseis estão filiados a povos de cultura


sambaquieira.

Mapa 3 – Localização de sítios no segundo setor. Original: Google Earth 2020.

Cinco deles, além de outros artefatos, possuem também cerâmica de


tradição tupi-guarani. São eles o Sítio Mendonça, o Sítio Barroso, o Sítio Bra-
vo, o Sítio Campo e o Sítio Mombaça II.
Sem maiores identificações, temos o Sítio Lego, apontado como lito-ce-
râmico e mais dois com reocupação indefinida. O Sítio Ponta dos Anjos é um
sambaqui sobre o qual foi encontrada a cerâmica de povos da Tradição Una6;
os Sítios Mombaça I e Ilha dos Macacos não possuem identificação da filiação
cultural nem mais especificações.

Terceiro Setor

Situado entre Saquarema e Cabo Frio até o Rio Una, os sítios continuam
sendo abundantes (ver Mapa 4).
Sua distribuição pelos municípios é a seguinte: 19 sítios no Município de
Araruama; 16 sítios no de São Pedro da Aldeia; 10 no de Iguaba Grande, 33 em
Arraial do Cabo e, somente em Cabo Frio, estão registrados 80 sítios arqueo-
lógicos, dos quais 30 são sambaquis. Como podemos avaliar, este setor é de
grande relevância ocupacional para o Estado, já que nele estão concentrados
158 sítios daqueles pesquisados no litoral fluminense.

6 A Tradição Una agrupa sítios dos mais antigos povos ceramistas do país, sendo que o primeiro
grupo de sítios que a identificaram está situado na bacia do Rio Una, em Cabo Frio. Foram
identificados em 1964 e posteriormente outros conjuntos da mesma tradição foram reconhecidos
em outros locais do Estado, e hoje se espalham por todo o território da Região Sudeste, Sul e Norte.

229
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Os numerosos sambaquis se localizam nas proximidades do litoral, em es-


pecial nas margens do canal de Itajuru, que liga a Lagoa de Araruama ao mar.
Um deles foi localizado na Ilha de Cabo Frio e alguns outros na região do Peró.
Tem-se a destacar que as escavações desenvolvidas pela arqueóloga
Dra. Lina Kneip, do Museu Nacional, no sambaqui do Moa e no sambaqui da
Beirada, tiveram grande relevância para a cultura local.
O sambaqui da Beirada em Saquarema, por exemplo, se constituiu como
o primeiro Museu de Sítio arqueológico pré-histórico do Estado do Rio de
Janeiro. Anos depois, essa ação socioeducativa foi acompanhada pela im-
plantação do Museu de Sítio Sambaqui da Tarioba, em Rio das Ostras, em
resultados de escavações feitas pelos autores.
Destacam-se neste setor os dois principais sítios da tradição itaipu da
fase cultural lagunar: o Sítio Corondó, localizado em São Pedro d’Aldeia, e o
Sítio da Malhada, em Cabo Frio, bem como o primeiro da fase praieira a ser
registrado ainda na década de 1960: o Sítio Duna da Boa Vista, na Praia do
Forte, em Cabo Frio.

Mapa 4 – Localização de sítios no terceiro setor. Original: Google Earth 2020.

Quarto Setor – Entre Cabo Frio e Macaé

Neste trecho sucedem-se os Municípios de Búzios, Rio das Ostras e Ma-


caé. No primeiro se encontram cadastrados 13 sítios, no segundo 17 e em Ma-
caé, outros 22. Os sítios identificados como sambaquis são 15, os da tradição
Itaipu são três e sítios com cerâmica tupi-guarani outros seis. Os demais são
sítios históricos ou de contatos interétnicos.

230
JOSEFA JANDIRA NETO FERREIRA DIAS • ONDEMAR FERREIRA DIAS JR

Não acrescentamos mapa relativo à localização dos sítios neste setor


pela distância destes em relação à área focal desse estudo.
Em síntese, temos no litoral do Estado do Rio de Janeiro 305 sítios ar-
queológicos cadastrados no CNSA, dos quais 112 deles (36.72%) foram pes-
quisados pelos autores ou por pesquisadores da instituição que representam.
Com base nesses estudos e em publicações disponibilizadas por outras equi-
pes capacitadas, torna-se possível delinear com alguma precisão a ocupação
humana da área onde se inserem o município e a cidade de Maricá.

ANCESTRALIDADES – O POVOAMENTO DE MARICÁ

História Pré-colonial de Maricá7

Horizonte mais antigo – Povos Sambaquianos – 6.000 AP a 1.600 DC

Constituído pelos sítios identificados como “sambaquis”. Este termo em


sua concepção terminológica significa um tipo de local ondem nas camadas
superpostas de ocupação (estratigrafia), predominam os restos conchíferos
ou malacológicos8. Muitos autores modernos ampliaram o significado para
designar uma tradição cultural específica; outros englobam como tal qual-
quer sítio arqueológico situado no litoral. Neste caso, seu limite identifica-
tório se limitaria pela inexistência da cerâmica no seu contexto material.9
Como os pesquisadores que mais se dedicaram ao tema hoje o definiram
segundo uma série de traços demarcatórios, adotamos esse critério como
forma de marcar os limites científicos da terminologia a ser adotada, pois
sem a qual não se faz ciência.10
O sambaqui seria, então, o resultado de uma construção intencional de
gerações de pessoas organizadas em bandos dependentes da natureza, que
baseavam sua dieta em produtos marinhos, sobretudo moluscos e gastrópo-
des – dieta complementada pela pesca, pela caça e pela coleta de vegetais. No

7 Pré-colonial é um termo relativamente recente utilizado em substituição ao termo “Pré-História”,


tanto por ser tecnicamente mais adequado à nossa realidade, como por também incluir no conceito
o período ou a fase “da conquista” ou a sua quase sinonímia “Proto-História”.

8 Termo técnico utilizado na arqueologia para tratar restos de carapaças de moluscos de


qualquer natureza.

9 Entre os defensores da tese que generaliza o conceito de sambaqui para todo e qualquer sítio costeiro
pré-ceramista, destacamos a contribuição da pesquisadora Dra. Maria Cristina Tenório (2010).

10 Maria Dulce Gaspar e Sheila Mendonça são especialistas em estudos dos sambaquis (2012).

231
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

litoral fluminense, tais montículos variam de tamanho, embora raramen-


te ultrapassem cinco metros acima do nível do entorno, e se distendem por
poucas dezenas de metros.
Contudo, entre esses mesmos especialistas ocorrem divergências. Ha-
bitavam os sambaquianos o sítio assim construído, ou o produziam com o
fim específico de ali enterrarem seus mortos?
Nesse caso, a soma de material ali exumado pelos arqueólogos não
espelharia a vida cotidiana, mas resultaria das oferendas cerimoniais
depositadas como acompanhamento fúnebre. Um detalhe a resolver diz
respeito à seguinte questão: se assim for, que local habitariam enquanto
construíam tais monumentos cerimoniais, uma vez que tais sítios não fo-
ram até hoje encontrados?
Nesse tipo de sociedade, dois outros elementos de importância chamam
a atenção. O primeiro é a longa duração de seu padrão de vida, que permane-
ceu pouco alterado desde cerca de 6.000 anos passados, como atesta o sam-
baqui de Camboinhas, em Niterói, e a localização de outro no século XVII da
nossa era, na Ilha de Santana, em Macaé.11
O segundo se refere à baixa densidade demográfica de tais grupos, uma
vez que, apesar do número avultado de sítios, são relativamente raros os se-
pultamentos. Constituem exceções alguns sambaquis no Sul do país, onde
ficam os maiores sítios da categoria, por possuírem numerosos esqueletos.
No nosso litoral, sítios de tipo com mais de dez enterramentos são raros e,
segundo cálculos recentes, a soma de todos eles aqui localizados não chega-
ria a 400 corpos exumados.
A cultural material sambaquieira foi, de maneira geral, pouco alte-
rada em toda a sua duração, o que se reflete numa padronização ampla
dos artefatos, tradição também confirmada nos padrões repetidos de se-
pultamentos em decúbito dorsal (o rosto voltado para cima). Acontecem
algumas variações na orientação dos corpos e no posicionamento de bra-
ços e pernas, mas são exceções. Tal continuidade tradicional é tão pre-
ponderante que mesmo os mais modernos arqueólogos têm dificuldade
em definir etapas ou fases culturais, como acontece com outros tipos de
sociedades pré-históricas.
Em Maricá, apesar de seu litoral estar situado entre Itaipu, onde são co-

11 Sambaqui de Camboinhas – Lina Kneip (1981). O sambaqui da Ilha de Santana em Macaé pode ser
o último testemunho das comunidades sambaquieiras no Estado, segundo pesquisas de Tania Lima
(1999-2000).

232
JOSEFA JANDIRA NETO FERREIRA DIAS • ONDEMAR FERREIRA DIAS JR

nhecidos os sambaquis mais antigos do país, e Saquarema, onde eles são nu-
merosos, não foi registrado, até o momento, nenhum exemplar desse tipo de
sítio ou de cultura, por razões desconhecidas.

Horizonte intermediário – Povos Itaipus – 4.200 AC a 700 DC

Os grupos humanos que construíram os sítios desta tradição cul-


tural foram contemporâneos dos sambaquianos, e é possível até mes-
mo que tenham se constituído como uma sua variedade de adaptação
“desviante” (grupo dissidente) que seguiu um direcionamento cultural
diferenciado. Seus sítios apontam que também praticavam alguma co-
leta de molusco, mas não de forma tão acentuada quanto os sambaquia-
nos, pesca de mar aberto e caça. Produziram artefatos em concha e osso
e uma tecnologia lítica (em pedra) bem mais aprimorada e apropriada
para essas atividades.
Distanciaram-se dos sambaquieiros quando, ao produzirem alimentos
vegetais baseados na domesticação de plantas, como o aipim, rico em car-
boidratos, tornaram-se os primeiros horticultores do Estado do Rio de Ja-
neiro – prática que deixou marcas indeléveis no aparelho dentário dos seus
consumidores. O alto grau de desgastes, de cáries, de granulomas e outros
problemas nas arcadas dentárias constituem as características que os dis-
tinguem de outras populações da época, pela sua constância excessiva e não
usual de ocorrências.12
Diferenciaram-se, ainda, pelo considerável aumento populacional, es-
pelhado pelo avultado número de sepultamentos registrados nos seus maio-
res sítios. Em unicamente dois deles foram recolhidos e estudados mais de
600 esqueletos – e, como marca cultural, com uma variedade (ainda inigua-
lável em termos arqueológicos) de posições diferenciadas dos corpos nas co-
vas. Em tais sítios, tal variedade levou os autores à suposição da existência
de clãs, ou seja, unidades complexas que reúnem grupos familiares extensos
e compartilham a produção com unidades semelhantes nos mesmos sítios,
mas com rituais diferenciados de tratamento de seus mortos.
A produção de artefatos de pedra espelha, sobretudo, as técnicas de pro-
dução alimentícia baseada no consumo de vegetais, como moedores, almo-

12 Este estudo constituiu a tese da arqueóloga Dra. Lilia Cheuiche (1992). Neste e em outros diversos
trabalhos publicaram-se e discutiram-se as evidências preservadas nos aparelhos dentários dos
esqueletos exumados nos sítios da tradição itaipu, as quais comprovavam o alto consumo de
carboidratos, somente explicado pela domesticação de vegetais, como o aipim.

233
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

farizes e mãos de pilão, além de objetos cortantes para uso, como facas ou
canivetes de quartzo, além de um instrumento exclusivo da tradição. Tra-
ta-se de facas e raspadores elaborados em valvas de conchas duras, como as
das espécies Macrocalista maculata, Lucina pectinata e outras menos usadas.
Pontas, sovelas, furadores de osso de aves, de peixes ou de animais terrestres
são também comuns e indicam variedade e complexidade do aparato técnico
de produção. Soma-se a tudo isso a existência de adornos diversos, de osso,
concha, garras e dentes de felinos, de primatas e de tubarões.
Os sítios da tradição itaipu se dividem em duas fases (ou manifestações
culturais): uma delas denominada Fase Lagunar e a outra, Fase Praiana.
A Fase (ou conjunto) Lagunar está unificada pelos dois sítios localiza-
dos nos “pântanos” da Malhada em Cabo Frio e do Corondó, em São Pedro
d’Aldeia, sítios riquíssimos em restos ocupacionais – sendo o primeiro um
dos poucos do país em que foram encontradas estruturas assentadas em
paliçadas. Outros sítios existiram na região dos Campos Novos de São Pe-
dro d’Aldeia (não sabemos hoje se ainda existem) e no Morro da Cabeça, em
Arraial do Cabo. Outro, muito extenso, jaz (ainda sem pesquisas) na Praia
do Peró, ocupando um longo trecho ao longo da elevação que penetra pelo
Oceano. Também foi registrado um sítio da tradição na “Prainha”, de Arraial
do Cabo, que foi destruído na década de 1970.
A Fase (ou conjunto) Praiana está bem representada pela duna de
Itaipu, em Niterói, e pela duna da Boa Vista, em Cabo Frio (ainda preser-
vadas). Outros sítios da mesma Tradição, de menores dimensões, distri-
buem-se da cidade de Cabo Frio (hoje destruídos) à Restinga da Lagoa de
Araruama, às praias e areais em direção ao Rio das Ostras. Entretanto, a
maior concentração de sítios dessa tradição cultural se encontra, justa-
mente, em Maricá.
Por este constituir o padrão de sítio arqueológico que predomina entre
aqueles registrados na região, vamos nos deter ao estudo e conhecimento
deles. Sem dúvida podemos inferir que sua frequência e constância ao longo
desse ponto do litoral resultaram do constante uso da área em suas ativida-
des de subsistência.
De maneira geral, esses sítios podem ser caracterizados por locais em
que se encontram milhares de lascas de quartzo juncando as areias e bri-
lhando ao sol nas praias, denunciando de longe seus antigos locais de acam-
pamento. Ainda que a areia local seja composta basicamente de grãos de
quartzo predominantemente fino, a jazida de quartzo hialino ou levemen-

234
JOSEFA JANDIRA NETO FERREIRA DIAS • ONDEMAR FERREIRA DIAS JR

te leitoso, explorada para a produção do artesanato por essa gente, até hoje
ainda não foi localizada pela arqueologia.
No caso de Maricá, os sítios se alongam entre a linha do oceano e as du-
nas de dimensões reduzidas que demarcam a praia e se estendem pela res-
tinga até as margens da Lagoa de Maricá, algo mais para o interior.
Num trecho específico, foram descobertos e pesquisados oito sítios su-
cessivos – todos localizados ao longo da estrada que liga a Barra de Maricá
a Itaipuaçu, tendo como limite em direção poente um canal seco transversal
ao mar e um antigo prédio da aeronáutica.
Neste ponto se encontra o entroncamento da estrada que vem de Barra
de Maricá e se bifurca – um ramal segue para Itaipuaçu e outro para o inte-
rior, contornando a lagoa. Destes, sete são sítios superficiais caracterizados
por manchas escuras na areia da praia, com fragmentos de quartzo lascados
e situados entre as dunas cortadas pela estrada (na época da descoberta em
1987 era de barro vermelho) e a linha de arrebentação, ou na beira da mes-
ma estrada, do lado interior. Um único deles permitiu prospecção extensiva,
adiante resumida, e foi registrado como Sítio da Jandira, RJ-JC-79.13

Caracterização das sete outras ocorrências (ver Mapa 5)

O Sítio Barra de Maricá I (RJ-JC-80) é o mais próximo do local onde a es-


trada que liga a praia da barra à cidade desemboca e onde, em direção poen-
te, segue a estrada que leva para Itaipuaçu. Na direção contrária, o caminho
segue para Cordeirinho, Ponta Negra, Jaconé. Ele dista pouco mais de 100
metros desta confluência e se caracterizou pela existência de uma mancha
de areia escura com 25 m2 em uma leve depressão entre as dunas suaves da
praia, a cerca de 30 metros da arrebentação. Material arqueológico com-
posto, sobretudo, por lascas e estilhas de quartzo, se encontram na Reserva
Técnica Cientifica do IAB em Belford Roxo (RJ).
O Sítio Barra de Maricá II (RJ-JC-81) dista do anterior cerca de 1.300 me-
tros em direção a Itaipuaçu, também notado por apresentar uma mancha de
areia escurecida, entre dunas com a altura média de três metros. Medindo 25
por 10 metros, forneceu lascas de quartzo, seixos rolados com marcas de uso
e alguns corantes vermelhos.

13 A sigla RJ-JC- n. se refere a sítios arqueológicos do Rio de Janeiro (RJ), em uma área territorial
especificada, no caso entre o rio Japuíba e a Costa (JC), seguida do número que indica ordem de
descobrimento e pesquisa do sítio referenciado. Este sistema foi estabelecido na década de 1960
pelos integrantes do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas(PRONAPA) do CNPq e
Smithsonian Institution, e ainda permanece em uso pelo Instituto de Arqueologia Brasileira.

235
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Segue-se em ordem o Sítio da Jandira, RJ-JC-79, o primeiro a ser des-


coberto e ao qual voltaremos adiante, distante cerca de 2.000 metros da-
quele entroncamento.
A seguir, distando 250 metros do anterior, foi também localizado o Sítio
Barra de Maricá III (RJ-JC-82), numa outra mancha de areia escura, na praia,
com 10 por 8 metros de poligonal, onde também foram coletadas inúmeras
lascas (artefatos) de quartzo.
O Sítio Barra de Maricá IV (RJ-JC-83) foi localizado a cerca de 3.600 me-
tros do primeiro entroncamento, em um local onde existia um marco de
concreto com uma cruz gravada, em área já impactada, no lado interior da
estrada em direção à Lagoa. Sobre o solo foram identificadas duas ocorrên-
cias de areia escura com intrusão de barro ocre, carvão, alguns cacos de ce-
râmica neobrasileira, blocos e seixos com marcas de uso e as sempre cons-
tantes lascas e estilhas de quartzo.
Aproximadamente a 400 metros do anterior, sempre em direção a Itaipua-
çu, foi registrado o sítio Barra de Maricá V (RJ-JC-84), também no lado interior
da estrada e a cerca de 100 metros da praia. Ocorrência pequena, com pouco
mais de cem metros quadrados, com mancha de areia escura misturada com
barro ocre. Nele foram coletadas as lascas de quartzo diagnósticas de Tradição.
Na mesma direção, e 600 metros distantes, foi observado o sítio Barra
de Maricá VI (RJ-JC-85), em mancha de composição semelhante, desta vez
cortada pela estrada, a cem metros da arrebentação e se alongando por cerca
de cem metros no lado interior do caminho. Na composição da mancha foi
detectado abundante carvão. Mais uma vez, o material coletado foi compos-
to, sobretudo, por lascas e estilhas de quartzo.
Finalmente, o sítio Barra de Maricá VII (RJ-JC-86) se localiza 400 metros
adiante, no entroncamento da estrada para Itaipuaçu, próximo a um prédio
da aeronáutica e sobre as dunas litorâneas. Parte da área apresenta material
oriundo da abertura de um canal, então seco, que vindo do interior desem-
boca na praia. O sítio se localiza sobre dunas mais altas do que as comuns na
área e se alonga por cerca de cinquenta metros de extensão por dez de lar-
gura. Ocupa uma área desbarrancada e tem como característica diferencial
o fato de se localizar nas proximidades de um taboal (Tipha dominguensis),
planta que indica a presença de terrenos alagados.
É importante destacar que os principais e mais complexos sítios
da Tradição Itaipu, da Fase Lagunar, preferencialmente se encontram
localizados em áreas semelhantes. Estudos mais recentes apontam a “taboa”

236
JOSEFA JANDIRA NETO FERREIRA DIAS • ONDEMAR FERREIRA DIAS JR

como provável vegetal consumido por aquelas comunidades e também como


nicho de cavia porcellus (porquinho-da-índia), animal provavelmente do-
mesticado por esse grupo.

Mapa 5 – Localização dos Sítios da Fase Itaipu praiana em Maricá. Google Earth 2020.

Vistos os aspectos gerais do conjunto dos oito sítios, segue a descrição


das pesquisas efetivadas na prospecção feita no sítio da Jandira (RJ-JC-79).

Figura 1 – O meio ambiente dos sítios praianos em Maricá/Sítio Barra de Maricá IV e Sítio da Jandira.

A pesquisa no Sítio da Jandira (ver Figura 1) foi inserida no Programa


Litoral Fluminense que o IAB desenvolveu ao longo das três ultimas déca-
das do século passado. Foi praticada coleta de superfície em dois trechos no
limite sudeste do sítio, onde o material se encontrava concentrado, em área
desnudada por ação do vento.
A prospecção com retirada de níveis de areia se fez em um setor am-
plo em um recôncavo entre as dunas mais altas e uma pequena elevação

237
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

próxima à arrebentação. Foi estabelecida uma linha com 48 metros no


sentido paralelo à estrada (direcionamento 290º-110º) e doze metros em
sentido transversal. Dividida a área em setores de 4 x 4 metros, foram
criados 36 setores de 16m 2. Estes foram identificados com números no
sentido longitudinal (de zero a 12) e alfabetados no sentido transversal,
de “A” a “C”. O desnível entre a parte mais alta das dunas (9 metros de
altitude) e a mais baixa foi de cerca de um metro, sendo que nesta área
foram estabelecidos os setores.
Ainda que todos os setores tenham sido pesquisados, só em dezoito de-
les foi coletado e identificado material de superfície e de mistura com solo no
nível de dez centímetros de espessura superficial. Foram abertos dois cortes
com material restrito da superfície até os 30 cm de profundidade (Setores C2
e C5) na área mais alta das dunas.
O material coletado foi composto pelas lascas, estilhas e blocos de
quartzo tradicionais, mais artefatos de seixo (batedores e alisadores), algum
ocre e carvão. Em dois setores (C3 e C4) foram encontrados ossos de um bo-
vídeo, alguns ainda articulados, provavelmente de animal roubado de algum
sítio local e inserido no sítio em época recente.
A inexistência de estratigrafia nos sítios praianos pode ser explicada
pela ação constante do vento, que retira sistematicamente os grãos de areia
da base dos artefatos, cujo peso os faz afundar no solo. Assim, peças de épo-
cas diferentes se acumulam num mesmo nível, de baixo, onde o solo, por
motivos naturais, permite a sua fixação. Somente nas grandes dunas o pro-
cesso de acúmulo ocorre por fatores naturais e se torna possível observar a
superposição de camadas ocupacionais.
A análise do material em laboratório revelou ter sido aquele ponto uma
oficina ou acampamento de lascamento com permanência algo mais demo-
rada do que aquela dos demais sítios da mesma praia. Este fato pode ser de-
duzido, sobretudo, pela existência de núcleos e blocos de quartzo (utilizados
como matéria prima), evidências de fogueiras e pela maior dimensão e es-
pessura da mancha de areia escura, resultante do acúmulo de húmus.

Ponta Negra: uma jazida de seixos rolados que abastecia populações pré-
históricas do litoral

Estas ocupações mais antigas são compostas por dois sítios caracte-
rizados como Sítios Líticos. Um deles o RJ-JC-27 fica em Ponta Negra, na
barra do canal da Lagoa de Maricá, em Jaconé. Outro sítio do mesmo tipo

238
JOSEFA JANDIRA NETO FERREIRA DIAS • ONDEMAR FERREIRA DIAS JR

foi registrado como Sítio Jaconé, pelo arqueólogo Alfredo Mendonça pelo
INEPAC.14 Mas há a possibilidade de se tratar do mesmo sítio. Para o mesmo
ou para ambos, não há uma datação estabelecida, uma vez que, na verdade,
se trata de uma jazida de seixos rolados de rochas duras, como diabásio e
o gneis. Como fonte de matéria-prima pode ter sido aproveitada desde os
períodos mais antigos até as ultimas ocupações indígenas da região (ver
Figura 2).

Figura 2 – Fotos de 1965. A praia de Maricá em Jaconé e a barra da Lagoa, com a “mina” de seixos
líticos em Ponta Negra. Na foto, um dos autores. Acervo IAB.

Horizonte Recente – Povos Tupis – Século XII (?) a século XVII

No litoral do Estado do Rio (como um todo), muitas áreas eram ocupa-


das por sociedades de caçadores-coletores sambaquianos, que dividiam al-
guns trechos pontuais com grupos da tradição itaipu, menos generalizadas,
quando um novo grupo humano invadiu seu território. Levas de indígenas
vindos do Sul, organizados em um padrão social denominado de sociedade
tribal, se espalharam, fosse compartilhando o ambiente com os ocupantes
anteriores, fosse os expulsando, ou pela prática da antropofagia, processo
até então desconhecido dos povos autóctones.
Segundo o estado atual de conhecimento, os primitivos habitantes des-
conheciam a guerra, ou a conquista territorial, ainda que, pelo menos, em

14 Alfredo Mendonça de Souza, na década de 1980, organizou para o INEPAC um sistema de registro,
cujos dados constam do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) do IPHAN.

239
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

um dos sítios da tradição itaipu lagunar se tenha registro arqueológico da


construção de uma paliçada defensiva e tenha surgido um tipo de ponta de
osso que pode indicar contatos bélicos.
Pelo que se conhece hoje, a sociedade tribal tupi tem sua origem na
Amazônia, de onde, em sucessivas vagas migratórias, atingiu a área do atual
Estado de Rondônia. Ali, muito provavelmente, desenvolveu a técnica de
produção horticultora (sobretudo baseada no consumo do milho) e uma ce-
râmica de formas especificas, ricamente decorada com pinturas e padrões
plásticos – cerâmica tão peculiar que demarca no espaço e no tempo sua
movimentação ao longo do território brasileiro.
Ainda segundo a mesma perspectiva, de Rondônia atingiram terras do
atual Estado de São Paulo, de onde se dividiram: um conjunto em direção ao
Sul, constituindo os grupos etnográficos guarani e outro em direção con-
trária, caracterizando o povo tupi. Foram povos desta segunda etnia que
invadiram em vagas sucessivas as terras fluminenses, pelo menos desde os
primeiros séculos da era corrente, e aqui permaneceram até a expansão da
colonização europeia nos séculos XVI e XVII.
Dois locais foram identificados como sítios tupis em Maricá. Um deles,
chamado Sítio do Seu Bento, tem registro no CNSA; o outro, denominado Sí-
tio Lagoa do Padre, foi registrado pelo INEPAC. Para ambos, no entanto, a
documentação se restringe ao registro, sem mais dados. Assim, confiantes
na capacidade dos pesquisadores que registraram tais ocorrências, incluí-
mos sua presença aqui.
Reforça esta confiança o fato de que nas regiões vizinhas são também
registrados sítios da mesma tradição, em Itaipu e Niterói, além do que são
eles comuns em Saquarema e, sobretudo, em Araruama, Iguaba, São Pedro
d’Aldeia e Cabo Frio. Ademais, cartas antigas registram sua presença na área,
como, por exemplo, o mapa de Van de Claye de 1579.15

NOTÍCIAS DE CONTATOS INTERÉTNICOS: OUTROS SÍTIOS

Está fora do escopo deste texto o estudo da ocupação arqueológica his-


tórica, ou colonial, da região onde hoje se localiza o Município de Maricá.

15 O mapa de Van de Claye é datado de 1579 e focaliza a Baía de Guanabara e, em especial, o território
que se estende em direção Leste até Cabo Frio. Este mapa se destaca pelo fato de representar algumas
aldeias indígenas Tupi no território, sobretudo no entorno de uma grande Lagoa que representa,
quase com certeza, a Lagoa de Araruama (Czajowiky, 2000).

240
JOSEFA JANDIRA NETO FERREIRA DIAS • ONDEMAR FERREIRA DIAS JR

Constam, no entanto, dos registros pelo menos seis sítios históricos cadas-
trados no CNSA, para os quais infelizmente faltam dados.
Todavia, serão vinculados ao texto pelo menos outros três deles em
que perduram marcas de contato, expressas na cerâmica, entre povoadores
europeus e indígenas.
Um deles é o local de um possível acampamento indígena reocupado por
morador histórico; nos outros dois, registra-se também a presença africana.
O Sítio do Seu Bento, já citado, é o primeiro deles, e os dados são muito
exíguos; mas, para os outros dois, pesquisados pelo IAB, possuímos al-
gum detalhamento.
Um deles, denominado Sítio do Lucca, foi descoberto em 1975 (ver Fi-
gura 3). Seu registro nos informa ser o local conhecido à época como bal-
neário Bambuí, no Bairro de Cordeirinho. Estava situado entre dunas das
proximidades da Lagoa de Maricá, ao lado de um restaurante, a cerca de
dois metros de altitude em relação à praia, em área típica de restinga. Sob a
sigla RJ-JC-71, nele foram coletadas também lascas de quartzo, indicando a
presença de um antigo e destruído sítio Itaipu praiano, dois fragmentos de
lâmina de machado de pedra e, sobre tudo isso, cacos de cerâmica de con-
fecção neobrasileira. Essa cerâmica se caracteriza pela técnica de manufa-
tura indígena acordelada, de produção caseira, sem uso do torno de oleiro,
com queima redutora, que dá coloração enegrecida às peças, com formas
simples e decoração plástica (sobretudo pontos, marcas de unha, escovado,
linhas incisas etc.).
Geralmente a decoração é completada com duas, quatro ou até seis asas,
em forma de roletes aplicados ao longo do corpo do vasilhame, nas proxi-
midades das bordas, que por sua vez podem ser decoradas com depressões,
marcas de pontas de dedos e unhas.
Distante cerca de um quilômetro em direção leste do sítio anterior, re-
gistramos o Sítio Cordeirinho, também no Bairro Cordeirinho, que recebeu a
sigla RJ-JC-72. Estava localizado entre a praia e uma área então ressecada da
margem direita da Lagoa de Maricá.
Sítio também de superfície em área de restinga, com vegetação ca-
racterística (“aroeiras” e “pitangueiras”), estava cortado por uma es-
tradinha vicinal. Foi ocupado anteriormente por populações da tradição
itaipu da Fase Praiana, tinha lascas de quartzo em grande quantidade,
variados artefatos de seixo, ossos de peixe e raros fragmentos de ossos
humanos. Entre todos os sítios dessa fase localizados em Maricá, este é o

241
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

único em que foi registrada a ocorrência de restos ósseos humanos, ain-


da que dispersos. Associados a esse material foram também coletados
diversos fragmentos de cerâmica neobrasileira, que sugerem a ocorrên-
cia de contato interétnico.
Aos dois pode-se ainda somar o sítio Barra de Maricá IV, já abordado,
onde foram também evidenciados sinais de reocupação ou contato.

Figura 3 – Vista geral do sítio do Lucca e do Sítio Cordeirinho, em 1975. Acervo IAB.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da análise e da interpretação dos dados expostos, podemos,


com segurança, concluir algo sobre a importância do território hoje ocupado
pelo Município de Maricá.
Inicialmente, estabelecemos que suas terras foram palmilhadas, há
milhares de anos, por populações diversificadas, que se espalharam e ocu-
param o território fluminense – característica também compartilhada pelos
demais municípios fluminenses.
Povos com bagagem cultural variada, no entanto, não só passaram pelo
seu espaço como o elegeram para moradia, fixando-se e explorando a di-
versificada potencialidade do seu ambiente. Após esta análise, o que nos
surpreende? O fato de as mais antigas populações, conhecidas como sam-
baquieiras, ali não terem assentamento, sobretudo ao levar em consideração
que tanto a oeste (Niterói, ou mais especificadamente Itaipu) quanto em sen-
tido contrário (notadamente Saquarema), evidências de sua forte presença
e permanência terem sido reveladas por diversos sítios já pesquisados. Po-
dem-se formular duas hipóteses para explicar o fato: a primeira é que, ape-
sar da citada variedade ecológica, talvez no passado as condições para pro-

242
JOSEFA JANDIRA NETO FERREIRA DIAS • ONDEMAR FERREIRA DIAS JR

liferação de colônias de moluscos não tenham sido tão favoráveis ali quanto
nas duas regiões vizinhas. Também é possível que os sambaquis tenham
sido destruídos ou que, por falta de oportunidade, ainda não tenham sido
encontrados pelos pesquisadores.
Também nos causa surpresa o fato de que em nenhum outro trecho do
litoral central (apesar da constância do mesmo tipo de praias oceânicas) haja
tamanha e maciça presença de sítios da tradição itaipu praiana como aqui.
Deve-se considerar ainda que todas essas regiões já foram exaustivamente
pesquisadas. Sem dúvida, a “aglomeração” de lascadores de quartzo indica
que essa gente ocupou a área sistematicamente e ao longo de muito tempo.
Uma vez que se aceita como muito provável que os povos sambaquieiros ba-
seassem sua dieta também na pesca, o ambiente local sem dúvida os favore-
cia, tanto pela existência de uma lagoa piscosa, quanto por toda a potencia-
lidade do “mar oceano” à sua frente.
Ademais, ainda que passe despercebida a associação de povoadores his-
tóricos reocupando seus sítios, não é ilógico nem improvável supor que essa
antiga população constitua os mais antigos “caiçaras” do litoral fluminense.
Esta continua sendo uma questão a se solucionar, que só passível de ser
respondida pela realização de pesquisas de campo incentivadas por quem
de direito e interesse. Tornar-se-ia realmente significativo, para uma mais
completa reconstituição do passado fluminense, definir as causas da prati-
camente inexistência da presença dos tupis nessas terras. Eles não a teriam
ocupado? Por que razões? Teriam seus sítios sido destruídos em proporção
maior do que nas terras vizinhas, ou simplesmente faltam pesquisas? Se as-
sim for, ficam tais questões aqui recomendadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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243
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

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244
A TRAJETÓRIA DO EVENTO TURÍSTICO ESPRAIADO
DE PORTAS ABERTAS EM MARICÁ

Tatiana Macedo da Costa1 • Sérgio Domingos de Oliveira2

INTRODUÇÃO

O evento turístico Espraiado de Portas Abertas é um projeto criado


originalmente para valorizar a cultura do município de Maricá, sobretudo
quanto à inclusão, participação e alcance dentro da sociedade maricaense
com o advento do turismo.
A base do evento é promover a abertura de propriedades rurais para o
público. Essas propriedades, por sua vez, localizam-se no Espraiado, bairro
do município de Maricá, situado no estado do Rio de Janeiro. No início, em
2008, o projeto era realizado no primeiro domingo de cada mês. Posterior-
mente, foi alterado para cada três meses e, no início de 2013, a Secretaria de
Turismo passou a se envolver e dar continuidade a ele. Desde então, passou a
ocorrer a cada dois meses, sendo que o evento foi incluído no calendário fixo
e oficial do município pela Secretaria de Turismo da cidade.
O evento, realizado em forma de circuito, acontece ao longo dos sete
quilômetros da Estrada do Espraiado, havendo sinalização específica ao lon-
go das vias de acesso contendo informações sobre as atividades oferecidas.
O projeto propõe o engajamento da população para incentivar o desenvolvi-
mento turístico local, pela atuação dos atores sociais do lugar, vivenciando o
contato com a natureza e a prática da educação ambiental e sustentabilidade
na sociedade por meio da diversidade de atrações.

1 Tatiana Macedo da Costa é mestranda em Patrimônio, Cultura e Sociedade da Universidade Federal


Rural do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu (RJ), Brasil. E-mail: tatiana_gnr@hotmail.com.

2 Sérgio Domingos de Oliveira é doutor em Engenharia de Produção e Sistemas, linha de pesquisa


Gestão Ambiental, pelo Programa de Pós Graduação em Engenharia de Produção da Universidade
Federal de Santa Catarina, Florianópolis (SC), Brasil. E-mail: sedoliveira@gmail.com.

245
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Entre os objetivos originais do projeto, destaca-se a preocupação em des-


pertar um conhecimento amplo de preservação de seu patrimônio cultural ma-
terial/imaterial e de suas belezas naturais. Além disso, destina-se a promover
ações sociais e de educação ambiental conjugadas com atividades turísticas di-
retamente ligadas à preservação da natureza, o turismo ecológico e o saber-fa-
zer, resgatando os valores antigos e mostrando a importância da preservação.
Diante desse contexto, este artigo se pautará na análise do projeto Es-
praiado de Portas Abertas, fazendo um comparativo entre o início do projeto,
em 2008, um período intermediário, em 2016, e o ano de 2019. A pesquisa,
que apresenta caráter exploratório, baseou-se em dados primários median-
te coleta de dados no circuito do evento e realização de entrevistas, assim
como dados secundários, que foram coletados em pesquisas bibliográfica e
documental junto ao órgão competente, a Secretaria de Turismo de Maricá e
a Associação de Moradores e Amigos do Espraiado (AMA). Para tanto, adota-
ram-se os princípios do estudo de caso, visto que sua flexibilidade nas fases
iniciais de uma pesquisa exploratória facilita a pesquisa de temas comple-
xos e construção de hipóteses através da análise de evidências de algo que
não possui uma solução predefinida (VENTURA; MAGDA, 2007). Este, por sua
vez, envolve o estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos de ma-
neira que se permita o seu amplo e detalhado conhecimento (SILVA; MENE-
ZES, 2001, p. 21). Meirinhos reforça as informações acerca das características
dos estudos de caso, justificando sua adoção nesta pesquisa:

O estudo de caso como estratégia de investigação é


abordado por vários autores, como Yin (1993 e 2005),
Stake (1999), Rodríguez et al. (1999), entre outros,
para os quais, um caso pode ser algo bem definido
ou concreto, como um indivíduo, um grupo ou uma
organização, mas também pode ser algo menos
definido ou definido num plano mais abstrato como,
decisões, programas, processos de implementação
ou mudanças organizacionais (2010, p.51/52).

Para sua operacionalização, realizou-se entrevista semiestruturada com


a idealizadora do projeto, proprietária do Sítio do Riacho, em 2016, que optou
por falar espontaneamente, sem ater-se ao roteiro previamente estabelecido.
Outra entrevista foi realizada em 2016, com o Secretário de Turismo de Mari-
cá, que confirmou os dados contidos nos relatórios específicos sobre o projeto
pesquisado, obtidos na própria Secretaria e os quais, segundo o entrevistado,

246
TATIANA MACEDO DA COSTA • SÉRGIO DOMINGOS DE OLIVEIRA

não apresentaram modificações entre os anos de 2013 e 2016 – período no qual


a Prefeitura Municipal iniciou sua participação direta no projeto. No período de
2017 a 2019, foi feito levantamento documental pela Secretaria de Cultura.
Adotou-se, também, a pesquisa descritiva, mediante a observação sis-
temática e participante sobre a operacionalidade do evento sob a forma de
levantamento, ou seja, a observação direta de seu cotidiano nas práticas e
fazeres desenvolvidos e demonstrados no projeto, além da captação de ima-
gens. A análise dos dados foi realizada de forma qualitativa.

TURISMO NO ESPAÇO RURAL VERSUS TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA

O comportamento do consumidor de turismo vem mudando e, com isso,


surgem novas motivações de viagens e expectativas que precisam ser aten-
didas. Em um mundo globalizado, onde se diferenciar adquire importância
a cada dia, os turistas exigem cada vez mais roteiros turísticos que se adap-
tem às suas necessidades, sua situação pessoal, seus desejos e preferências.
Como resposta a essa situação, surgem às novas propostas de alternativas
ecologicamente mais benéficas para satisfazer as necessidades do turismo
de massa (BRASIL, 2010).
Para se contrapor aos impactos negativos do turismo e aproveitar os be-
nefícios da atividade, observa-se que em algumas localidades, de diferentes
países, por meio da mobilização e organização da sociedade civil, surgiram
diversas iniciativas diferenciadas, baseadas nos modos de vida locais. Nessas
experiências, as dimensões da sustentabilidade são pré-requisitos para a es-
truturação da oferta das atividades turísticas, como as redes de comércio justo
no turismo, as ações ligadas ao turismo responsável, as ações de desenvolvi-
mento local endógeno e o fomento a práticas de economia solidária na cadeia
produtiva do turismo (SILVA, 2009), especialmente em áreas rurais.
Tal responsabilidade com as experiências dos turistas, por sua vez, deve ser
um ingrediente-base de todos os atores envolvidos quando se desenvolvem ro-
teiros com atividades de turismo em áreas naturais, como afirma Oliveira et al.:

Os atrativos locais devem possuir características


específicas, valorizando a experiência dos turistas. A
infraestrutura, assim como o planejamento público,
é essencial para se lograr êxito. Nestes casos, roteiros
podem auxiliar não apenas turistas, mas planejadores e
prestadores de serviços (2015, p. 2).

247
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A descrição do conceito de turismo rural, definindo-o e conceituando-


-o dentro da literatura existente, ainda é bastante diversificado e está em
fase de expansão no Brasil. No entanto, pode ser explicado, principalmen-
te, por duas razões: 1) a necessidade que o produtor rural tem de diversificar
sua fonte de renda e de agregar valor aos seus produtos e 2) a vontade dos
moradores urbanos de reencontrar suas raízes, conviver com a natureza,
com os modos de vida, tradições, costumes e com as formas de produção
das populações do interior.
Blos (2000) destaca que o turismo no espaço rural é uma forma de conta-
to direto e personalizado entre turistas e proprietários rurais, além de pro-
mover a participação do visitante nas atividades, nos usos e nos costumes
da população local. A relação do rural com o turismo residiria na demanda
das pessoas do meio urbano que, submetidas a um cotidiano frenético, dese-
jam visitar o campo para recuperar suas forças, por fruição ou simplesmente
para mudar de paisagem, em busca de descanso.
No entanto, Ribeiro (2004), em ótica eminentemente cultural, con-
sidera que o turismo no espaço rural se relaciona com o patrimônio cul-
tural como forma de valorizar as tradições, manter o próprio patrimônio
cultural material e imaterial, bem como no uso de técnicas de produção
artesanais que recordam épocas distantes. Ocorre que o turismo necessita
dessa memória ou mesmo, em alguns casos, a reinventa como elemento
do patrimônio cultural.
Diante desses diferentes – mas complementares – conceitos, pode-se
considerar que o turismo rural consolida-se mediante a interação de produ-
tores rurais com pessoas de diferentes meios, principalmente urbanos, em
que estes têm contato com as rotinas tipicamente rurais ao adquirirem os
produtos ou serviços dos primeiros.
O turismo de base comunitária, por sua vez, é uma modalidade do tu-
rismo que surge em contraponto ao turismo convencional, como alterna-
tiva à exploração das potencialidades e valorização das especificidades do
local por meio da inclusão da comunidade no desenvolvimento do turismo,
além de constituir uma importante fonte geradora de renda e qualidade de
vida. Busca a construção de um modelo alternativo de desenvolvimento
turístico baseado na autogestão, no associativismo/cooperativismo, na
valorização da cultura local e, principalmente, no protagonismo das co-
munidades locais, visando à apropriação, por parte destas, dos benefícios
advindos do desenvolvimento do setor.

248
TATIANA MACEDO DA COSTA • SÉRGIO DOMINGOS DE OLIVEIRA

Diferentemente do paradigma convencional, o turismo de base comu-


nitária é uma atividade turística em que as ofertas de serviços, passeios e
entretenimentos estão intrinsecamente ligadas aos valores dos autóctones,
preferindo o rústico e não o luxo, sendo vinculadas a atividades que dizem
respeito à sustentabilidade socioambiental, priorizando os valores culturais.
Nessa atividade, o turismo não está apenas voltado para o consumo, mas
para a troca de experiências, fortalecimento de laços de amizades e valori-
zação cultural (CORIOLANO, 2009).
De forma complementar, Turisol (2010) define o turismo de base co-
munitária como aquele no qual as populações locais possuem controle
efetivo sobre o seu desenvolvimento e gestão. O modelo se baseia na ges-
tão comunitária ou familiar das infraestruturas e serviços turísticos, no
respeito ao meio ambiente, na valorização da cultura local e na economia
solidária. Por sua vez Bartholo, Bursztyn e Sansolo (2009) o consideram
uma atividade que se apresenta como estratégia de sobrevivência, de con-
servação dos modos de vida, de troca de experiências, preservação do meio
ambiente, além de se valer do consumo solidário de bens e serviços, pois
o contato direto dos visitantes com o meio natural e cultural é a principal
característica do turismo de base comunitária.
Desse modo, observa-se que o desenvolvimento do turismo comu-
nitário requer um planejamento ordenado que potencialize os aspectos
positivos da atividade e minimize os impactos negativos. É importan-
te salientar que, diferentemente do turismo rural, a comunidade deve
se apresentar participativamente em toda a cadeia produtiva, de modo
que toda a renda e todo o lucro permaneçam na comunidade e possibi-
litem o desenvolvimento.
Em suma, o desenvolvimento da comunidade em prol do turismo co-
munitário é capaz de alavancar a prosperidade com um estilo de vida que
preserve os valores culturais, as belezas naturais e ainda se torne gerador de
renda e bem-estar dos moradores de cada região.

ESPRAIADO DE PORTAS ABERTAS E O MUNICÍPIO DE MARICÁ

Maricá é um município que pertence à Região Metropolitana do Rio de


Janeiro, no Estado do Rio de Janeiro. O bairro Espraiado, por sua vez, per-
tence ao segundo distrito de Maricá e localiza-se a 17 km do centro da cida-
de. Possui uma área territorial aproximadamente de 920 hectares (Figura

249
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

1), circundada por Mata Atlântica, fazendas e chácaras que criam búfalos,
cavalos de raça e culinária típica. É nesses locais que acontece o evento Es-
praiado de Portas Abertas.
O nome Espraiado, de acordo com os moradores, vem da época das
cheias que alagavam a região, espraiando as águas por toda sua extensão e
pelos riachos que formam o rio Caranguejo (LAMBRAKI, 2005). O acesso ao
município pode ser feito tanto pela RJ-106, que liga o município às cidades de
Niterói, São Gonçalo e Saquarema, quanto pela RJ-114, que faz a conexão com
o município de Itaboraí e as rodovias RJ-104 e BR-101.

Figura 1 – Espraiado de Portas Abertas, Maricá (RJ). Fonte: Google Maps, 2020.

O evento Espraiado de Portas Abertas, por sua vez, foi criado e iniciado
em 2008. Foi idealizado pela proprietária do Sítio do Riacho, a senhora Re-
gina, junto da comunidade, com o objetivo de atrair turistas para a região
e despertar interesse do poder público pela valorização do saber-fazer e da
cultura local, assim como das belezas naturais existentes no local.

(...) Em 2008 e 2009, o projeto aconteceu todo domingo


de cada mês. A partir de 2010 começou (sic) a sentir que
faltava apoio público para melhoria das estradas. Todo
mês pedíamos, através de ofício, que melhorassem as

250
TATIANA MACEDO DA COSTA • SÉRGIO DOMINGOS DE OLIVEIRA

estradas e (lembrávamos) que era preciso pavimenta.


Fizemos (o pedido) junto com outros colaboradores
para providenciar lixeiras (...). Posteriormente, o projeto
foi alterado para acontecer trimestralmente, porque
começou a sobrecarregar (os membros) e algumas
pessoas começaram a desistir, (pois) viram que não
estava acontecendo o apoio esperado do poder público.
A prefeitura tinha prometido estrada, e muitas pessoas
desistiam de participar do turismo local por causa das
estradas ruins, pois não queriam colocar seus carros em
ruas com muitos buracos (Trecho retirado de entrevista
com a idealizadora do projeto, 2016).

O advento do turismo no Espraiado trouxe maior visibilidade para o lo-


cal, atraindo investidores imobiliários. Observa-se que no ano de 2016 ini-
ciou-se a construção de uma pousada para atender à demanda turística no
local, já que até o momento não havia nenhum interesse de investimentos
imobiliários com este porte no bairro de Espraiado. Paralelamente a esse
projeto, surgiu um condomínio para pessoas que estão em busca de uma vida
mais tranquila, promovendo processos de infraestrutura, como a colocação
de paralelepípedo e asfaltamento das vias de acesso.
Entretanto, Oliveira (2005) alerta para essa questão ao esclarecer que
o crescimento do turismo pode incitar a especulação imobiliária local por
meio da ação de empreendedores que adquirem, por baixo custo, terras e
imóveis de moradores locais para a construção de equipamentos turísticos.
Muitos dos moradores do bairro de Espraiado poderão render-se às ofertas
realizadas por não saberem o valor que suas propriedades poderão adquirir
com o crescimento do turismo e por idealizarem na proposta de venda uma
grande oportunidade de vida, sem compreenderem, no entanto, que, além de
acarretar a descaracterização do local, o investimento durará por um curto
prazo e não gerará uma renda estável.

PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE LOCAL E FUNCIONAMENTO DAS


ATIVIDADES REALIZADAS

A atividade turística Espraiado de Portas Abertas, como visto, valoriza


a identidade local e seu saber-fazer, mostrando na prática a tradição e seus
atores sociais, envolvendo-os nas atividades e mostrando aos visitantes sua
identidade por meio de seu patrimônio cultural material e imaterial. Como

251
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

exemplo, citam-se as tapeçarias feitas pelas Tapeceiras do Espraiado, a tra-


dição da debulhação do feijão-guandu e os objetos confeccionados com fibra
de bananeiras, além de propriedades rurais, circuito ecológico e atrativos
naturais que fazem parte do roteiro.
A valorização do patrimônio cultural por um grupo social, bem como
sua identificação e sentido de pertencimento em relação a ele, ocorre quan-
do, de alguma forma, esse patrimônio o representa, e esse processo é gerado
pela memória compartilhada pelo grupo. Podemos compreender a memó-
ria como a capacidade de, no momento presente, recordarmos o passado e
nele reconhecermos nossa história e nosso pertencimento. O passado, evo-
cado pela memória, serve como uma fonte de experiências que demonstra
como devemos proceder no tempo presente para a formação do tempo futuro
(DELGADO, 2005).
Assim, a cada edição o evento busca resgatar o saber-fazer da re-
gião e suas comidas típicas. Nesse quesito, acontece em agosto de cada
ano a debulhação do feijão-guandu como parte do projeto. Tal ativida-
de tem como objetivo a preservação de valores antigos realizados na
região (Figura 2).

Figura 2 – Debulhação de feijão-guandu/Sítio do Alonso. Fonte: COSTA, 2016.

O feijão-guandu é o ingrediente principal no evento, sendo uma comida


típica que marca a tradição local e um dos elementos culturais mais impor-

252
TATIANA MACEDO DA COSTA • SÉRGIO DOMINGOS DE OLIVEIRA

tantes do Espraiado. Dezenas de fazendas, ranchos e estabelecimentos co-


merciais ao longo dos sete quilômetros da Estrada do Espraiado receberão
mais uma vez os visitantes com o melhor das tradições locais.
Essa atividade tem como objetivo a preservação de valores antigos
realizados na região, pois o Bairro Espraiada foi um grande produtor da
vagem do feijão-guandu e reproduz parte do ritual feito pelos antigos
da região. Na época da colheita, o agricultor convidava os vizinhos para
debulhada dessa vagem, o dono da roça marcava dia e hora e oferecia
um lanche (aipim cozido com café, cachacinha etc.). No Sítio do Riacho,
os visitantes participam da colheita, com a finalidade de rememorar a
tradição sob a supervisão da proprietária. Após a atividade, é servido um
lanche com café, bolo de milho e biju, além serem oferecidas informa-
ções e receitas sobre o feijão-guandu.
Os moradores, no final do dia, chegavam com suas peneiras, cum-
primentavam o dono da casa, apanhavam o cesto com a vagem, o ban-
quinho ou caixote e se aproximavam da roda onde se dava a cantoria,
acompanhada da viola. Aproveitavam o evento para atualizar as notícias,
contavam os causos e surgiam os namoros, sendo que, algumas vezes, a
reunião terminava com um forró ao som da sanfona. Muitos casamentos
e histórias surgiram da debulhada do guandu, responsável pela sustenta-
bilidade e união da comunidade do espraiado.
Cultivado até hoje por alguns moradores, na maioria das vezes em
pequenas plantações para uso próprio, o guandu é considerado um feijão
raro, apesar de ser muito utilizado na culinária, e é conhecido também
por sua semelhança com a vagem. A cultura desse tipo de arbusto já foi
muito comum no Espraiado e chegou a ter produção em grande escala.
Os moradores contam que seus pais e avós, por exemplo, plantavam o
guandu nas décadas de 1960 e 1970, então vendiam a produção do grão,
depois de debulhado, para distribuidores que levavam a mercadoria para
revenda no Ceasa, a maior central de abastecimento de alimentos do Es-
tado do Rio de Janeiro.
Outra atividade cultural importante para a identidade do Espraiado
são as tapeçarias, tradição única e antiga da região. As tapeçarias são feitas
com uma técnica trazida do Marrocos pela sra. Madeleine Colaço, nascida
em Tânger, filha de pai francês e mãe americana, que, por ocasião da Se-
gunda Guerra Mundial, saíram de Portugal, chegando no Brasil em 1940. A
família escolheu viver no Espraiado aproximadamente em 1950.

253
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Contatou-se, durante a coleta de dados, que o grupo de tapeceiras do


Espraiado, liderado pela sra. Ilma, se reúne em um ateliê em sua residên-
cia, formado exclusivamente por artesãs moradoras na região. O trabalho de
confecção é todo artesanal e os desenhos são feitos por um artista plástico
e artesão, morador do Espraiado. As tapeçarias são feitas em grupos ou iso-
ladas, e as artesãs vão preenchendo os espaços com vários fios: lã, algodão,
seda e até metálicos, tudo produzido em riqueza de detalhes e cores, num
trabalho com detalhes minuciosos que levam meses, dependendo do tama-
nho da peça. As tapeçarias retratam espécies da fauna e da flora de Mari-
cá, além de árvores de frutas típicas da região, como coqueiros, laranjeiras,
jabuticabas, mangueiras e bananeiras.
As peças confeccionadas pelo grupo já foram expostas em várias feiras
e exposições realizadas no estado do Rio de Janeiro, como Casa Cor, Cor-
covado, Forte de Copacabana, Feira da Providência, entre outras. As obras
mostram e perpetuam a arte da tapeçaria com o ponto brasileiro, legado
deixado na região rural de Maricá pelas alunas da grande tapeceira Made-
leine Colaço, que escolheu o Espraiado para fixar sua moradia e produzir
sua arte em belos tapetes.
Já o artesanato de fibra de bananeira é desenvolvido por meio da reci-
clagem da matéria-prima retirada do tronco da bananeira, que é descartado
após seu abate. O tronco é desfibrado pelas artesãs, preparado e seco para
iniciar o trabalho de confecção, podendo ser tingido ou manter a cor natural.
Retomando os discursos de Bordenave (1994) e Tosun (2000, 2005,
2006) evidenciou-se nos casos estudados que a participação ocorre de di-
ferentes formas, ora mais espontânea, ora mais ativa ou mais passiva; ora
intermediada, ora construída por atores externos. Independentemente
disso, o que se percebe é que há efetivo fortalecimento da participação
dos atores sociais locais no processo de desenvolvimento da atividade
turística, além do empoderamento dos membros locais – ou seja, ocorre
o fortalecimento dessas comunidades para que estas consigam alcançar
seus objetivos e resultados. Assim, a participação dos atores sociais deve
ser encarada como necessária e indispensável para atingir um desenvol-
vimento amplo, justo e descentralizado.
Com base nos dados levantados, realizou-se um comparativo no pe-
ríodo de início do evento em 2008 e seu desenvolvimento nos períodos de
2016 e 2019, apresentado a seguir. Os dados revelam que houve uma signi-
ficativa diminuição no número de participantes do projeto nas três áreas

254
TATIANA MACEDO DA COSTA • SÉRGIO DOMINGOS DE OLIVEIRA

em que se divide o evento até 2016. No entanto, o comparativo mostra que


em 2019 houve maior engajamento da população local, ou seja, expressivo
aumento de integrantes.
Identifica-se ainda que a atual gestão do município de Maricá desen-
volveu maior participação e envolvimento da comunidade local, visto que a
melhoria do projeto é de suma importância não só para a região, como para o
município, que terá como referência o turismo no espaço rural.

Tabela 1: Comparativo de participantes de 2008 a 2019 no Espraiado de Portas Abertas.

ATRAÇÕES 2008 ATRAÇÕES 2016 ATRAÇÕES 2019

Sítio do Riacho – Exposi-


ção no salão de jogos “Arte
Sítio do Riacho
da Tapeçaria no Espraia-
– Trilha até a Ca- Sítio do Riacho – Cami-
do”; Atividades desenvol-
choeira da Concha, nhada Sensorial guiada por
vidas: participação com
e orientação sobre Dauá Purí e orientação sobre
jogos e brincadeiras; Trilha
a importância de a importância de preservar o
até a Cachoeira da Concha,
preservar o meio meio ambiente.
e orientação sobre a im-
ambiente.
portância de preservar o
meio ambiente.

Escola Municipal do Es-


praiado – Serviço de emis-
são de carteira de trabalho; Fazanda IBIACI – Secreta-
Balcão de empregos; Pro- ria de Agricultura, pecuá-
grama de atenção integral ria e pesca – Distribuição de
a saúde da mulher, criança mudas de árvores frutíferas,
e adolescente (PAISMCA) consultoria com agrônomos,
–Distribuição de informa- degustação de chá de capim-
tivos orientando a impor- -limão.
tância de preservação das
DSTs.

Horse Center – Aulas de


Visitação Capela de São Jorge
Equitação

255
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

M3 Maníacos por aeromode-


lismo Maricá – Pista aber-
ta para o público assistir os
voos, bem como disponível
Sitio Esperança – Conhe- para aqueles que quiserem
cido como “sítio do Fran- levar seus aeromodelos/dro-
cês”, demostra aos visi- nes para participar. Explica-
tantes com a atração dos ção de como funciona as ca-
animais que atendem pelo tegorias de aeromodelismo.
nome dos proprietários. esclarecer ao público sobre
legislação, tanto para aero-
modelos quanto pra drones.
Possui simulador de voo e
oficina de aerododelismo.

Feira de produtos da Terra


e Artesanato – Feira com Visitação Capela de Santo
agricultores da região e seus Antônio
artesanatos.

Sítio Cantinho dos MM –


Horse Center – Passeio a cava-
Pesque Pague - Comercia-
lo na pista com instrutor (valor
lização de mel e temperos
R$30,00 por 20 minutos).
de ervas; Pesca Esportiva.

Espaço de eventos Alto Es-


praiado – Parque Infantil,
campo de futebol e piscina
natural com guarda-vidas.

GASTRONOMIA 2008 GASTRONOMIA 2016 GASTRONOMIA – 2019


Armazem Joper – Venda
do sr. João, Bebidas e Cantinho da Dilma – Cantinho da Dilma –
tira-gosto – Armazém Restaurante. Restaurante.
com mais de 150 anos.

Bar e Mercearia do
Padaria Sabor do Bar e Mercearia do Cauby
Cauby – Comidas
Espraiado – Restaurante.
típicas.

Padaria Sabor do
Bar do Hilário – Farinha Padaria Bastos de Primeira
Espraiado – Lanches,
da roça e mel. – Restaurante.
aperitivos, sanduiches

256
TATIANA MACEDO DA COSTA • SÉRGIO DOMINGOS DE OLIVEIRA

Ateliê da Célia – Bar e


Regina – Doces caseiros. Regina – Doces caseiros.
restaurante.

Geleias da Hilma – Pensão Tia Joana –


Ana e Marcio – Tapioca
Geleias caseiras com Restaurante e doces
e pão caseiro.
frutas da região. caseiros em compota.

Bar do Luciano –
Bebidas e tira-gosto.

Bar do Alonso – Bebidas


Bar da Margarida – Bar e Bar do Luciano –
e tira-gosto – Armazém
restaurante. Restaurante.
com mais de 100 anos.

Sítio do Riacho – Boteco


do Sítio do Riacho
Bar do Alonso – Bebidas
– Comidas típicas; Capela de São João –
e tira-gosto – Armazém
sobremesa de doces Restaurante.
com mais de 100 anos.
caseiros, cafezinho,
licores.

Bar do Benedito e Sueli


– Bar e restaurante.

Sítio do Riacho – Boteco


do Sítio do Riacho
Bar e mercearia Sítio do Riacho – Boteco
– Comidas típicas;
da Isabel – Bar e do Sítio do Riacho e
sobremesa de doces
restaurante. restaurante.
caseiros, cafezinho,
licores.

Bar e mercearia
Bar da Joana – Bar e Bar do Benedito e Sueli –
do Cauby – Bar e
restaurante. Restaurante.
restaurante.

Bar Djalma’s – Bar,


Ana e Marcio – Tapioca Bar e mercearia da Isabel –
restaurante e licores
e pão caseiro. Restaurante.
artesanais.

Barraca do Açaí – Bar da Joana – Bar e


Bebidas e tira-gosto. restaurante.

Fazanda IBIACI –
Bar da Joana – Bar e Secretaria de Agricultura,
restaurante. pecuária e pesca –
Restaurante.

257
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Djalma Bar Botafoguense


Bar do Almir – Bebidas,
– Restaurante e vendas de
caldos e tira-gosto.
cachaça artesanal.

Marilda da Cocada –
Barraca da Cida –
Cocada, sacolé, frutas
Bebidas e tira-gosto.
orgânicas e ovos.

Bar da Sueli e Benedito – Restaurante Costela Fogo


Bebidas e tira-gosto. de Chão – Restaurante.

Bar do Luciano – Recanto do Pedregulho –


Bebidas e tira-gosto. Restaurante.

Espaço de eventos Alto


Espraiado – Restaurante e
vendas de doce de banana
orgânica. Parceiros:
Bar e mercearia da Isabel
Sorveteria artesanal
– Bar e restaurante.
Quasar; Rostí de Rua;
Receitas Torta; L&P
Produtos Artesanais;
Massas artesanais da Sassa.

Saloma’s – Bar e Bar do Binho –


Restaurante. Restaurante.

Cantina da Capela de São


João Batista – Galinha
ensopada com aipim
ou batata e bolinho de
aipim.

Sítio Cantinho do MM
– Pesque Pague – Bar e
restaurante.

Regina – Doces caseiros,


biscoitos amanteigados
e bolos em diversos
sabores.

258
TATIANA MACEDO DA COSTA • SÉRGIO DOMINGOS DE OLIVEIRA

ARTESANATO 2008 ARTESANATO 2016 ARTESANATO 2019


Barraca Fibra bananeira Barraca Fibra bananeira
e bijoterias – Diversos e bijoterias – Diversos
Barraca Fibra bananeira
produtos feitos com fibra produtos feitos com fibra
e bijoterias – Diversos
de bananeira; Bijuterias de bananeira; Bijuterias
produtos feitos com fibra
com sementes, madeiras, com sementes, madeiras,
de bananeira.
cascalhos e pedras cascalhos e pedras
naturais. naturais.

FEIRARTE (Feira de
Crochê, Patchwork – Crochê, Patchwork – artesanato da Secretaria
Crochê, tricô, patchwork, Crochê, tricô, patchwork, de Turismo de Maricá) –
reciclagem, etc. reciclagem, etc. Crochê, tricô, patchwork,
reciclagem, feltro etc.

Atelier da Ilma –
Exposição e venda das
tapeceiras do Espraiado.
Tapeçaria – Artesanato Tapeçaria – Artesanato Vendas de quadros com
das tapeceiras. das tapeceiras. pinturas em tela à óleo.

Vasos trabalhados em
pátina e craquelê.

Sítio do Riacho – Sítio do Riacho – Sítio do Riacho –


travesseiros e Produtos travesseiros e Produtos Travesseiros e Produtos
com ervas aromáticas. com ervas aromáticas. com ervas aromáticas.

Fazenda IBIACI –
Taboa – Artesanatos Secretaria de Agricultura,
feitos com taboa. pecuária, pesca e Venda
de artesanato.

Conchas – Artesanatos
feitos com conchas.
Fonte: Elaborado por Costa, 2020.

O ordenamento do espaço turístico, por meio das políticas públicas de tu-


rismo, deveria, ao menos na teoria, equilibrar os diferentes posicionamentos
existentes e atender às particularidades e necessidades de cada um dos seus
agentes, de forma a propiciar a formação, em longo prazo, de um espaço de-

259
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

mocrático e dinâmico. No entanto, esse cenário está longe de se tornar uma


realidade. Grande parte das políticas públicas direcionadas para o turismo
ainda priorizam os interesses e, portanto, as lógicas de apropriação do espaço
pelos agentes privados, na forma de grandes empresas e corporações, deixan-
do de lado as necessidades da população local (FRATUCCI, 2009).
O evento do Espraiado de Portas Abertas acontece no espaço rural e atende
aos fundamentos teóricos de turismo de base comunitária, pois sua principal
característica é a valorização das peculiaridades do local, por meio da inclusão
da comunidade no desenvolvimento do turismo como geradora de renda.
Bartholo, Bursztyn e Sansolo (2009) consideram que o patrimônio co-
munitário é formado por um conjunto de valores e crenças, conhecimentos
e práticas, técnicas e habilidades, instrumentos e artefatos, lugares e repre-
sentações, terras e territórios, assim como todos os tipos de manifestações
tangíveis e intangíveis existentes em um povo. Através disso, ele expressa
seu modo de vida e organização social, sua identidade cultural e suas re-
lações com a natureza. Com apoio nessas premissas, o turismo abre vastas
perspectivas para a valorização do acervo do patrimônio comunitário.
Diversas avaliações têm mostrado que, graças ao turismo, as comuni-
dades estão cada vez mais conscientes do potencial de seus bens patrimo-
niais, ou seja, de seu conjunto de recursos humanos, culturais e naturais,
incluindo formas inovadoras de gestão de seus territórios. Assim, dian-
te do cenário apresentado, percebe-se que o projeto Espraiado de Portas
Abertas constitui um tipo de atividade turística que engloba modalidades
de turismo que não se excluem, mas se complementam; a distinção des-
sas modalidades se dará pelo grau de atratividade e originalidade que elas
detenham no produto final, além, é claro, do grau de participação e per-
tencimento às suas culturas e tradições locais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento regional promovido pelo projeto Espraiado de Por-


tas Abertas traz mais vigor à cultura do Município de Maricá, sobremaneira
para a população local do bairro, que poderá ser estimulada a participar e
refletir sobre o futuro do projeto.
Detectou-se nesta pesquisa o direcionamento adotado pelo muni-
cípio de Maricá quando este aponta que a atividade Espraiado de Portas
Abertas está ligada ao turismo rural, relacionando-o também a atividade

260
TATIANA MACEDO DA COSTA • SÉRGIO DOMINGOS DE OLIVEIRA

nas definições de turismo de base comunitário. Segundo os autores pes-


quisados, o contato direto dos visitantes com o meio natural e cultural é a
principal característica do turismo de base comunitária (SANSOLO; BUR-
SZTYN, 2009). Vale ressaltar que a distinção entre esse modelo e o turismo
convencional reside na dimensão humana e cultural do primeiro, que tem
como objetivo incentivar a comunicação e encontros interculturais entre
visitantes e residentes, buscando conhecer e aprender com os modos de
vida das comunidades (MALDONADO, 2009). Já o turismo rural, segundo
Ruschmann (1999), em documento elaborado para a EMBRATUR (2002),
referindo-se às Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Rural,
conceitua o turismo rural como sendo “o conjunto de atividades turísticas
desenvolvidas no meio rural, comprometido com a produção agropecuá-
ria, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o
patrimônio cultural e natural da comunidade”.
Blos (2000), por sua vez, destaca que o turismo no espaço rural é uma
forma de contato direto e personalizado entre turistas e proprietários ru-
rais, incentivando participação do visitante nas atividades, nos usos e nos
costumes da população local. A relação do rural com o turismo residiria na
demanda das pessoas do meio urbano que, submetidas a um cotidiano fre-
nético, desejam visitar o campo para recuperar suas forças, por fruição ou
simplesmente para mudar de paisagem, em busca de descanso.
Os projetos que têm maior correspondência com os princípios de ino-
vação social apresentados neste trabalho apresentam fragilidades comuns
às iniciativas que objetivam promover um contexto social equânime e justo
a partir de ações vinculantes entre visitantes e anfitriões. Soma-se a isso a
necessidade de serem empreendidas melhorias significativas e permanentes
para a população local, destacando-se a oferta de cursos profissionalizantes
e a melhoria na urbanização, sem ocasionar a descaracterização do ambien-
te, como implantação de redes de água e esgoto, disponibilização de lixeiras
e banheiros durante o evento.
A abordagem adotada sobre as fragilidades reconhecidas nessas inicia-
tivas não despreza a importância dos mecanismos de gestão para a reali-
zação das ações previstas nas propostas, mas procura ressaltar os riscos de
uma instrumentalização e homogeneização que essa gestão pode exercer
sobre a riqueza de aspectos culturais, históricos e políticos da vida comuni-
tária. Ao se pensar o evento promovido por uma organização, faz-se neces-
sário refletir sobre as diferentes possibilidades de diálogo.

261
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Portanto, nessa perspectiva, indica-se o desenvolvimento do turismo


de base comunitária para auxiliar na revitalização do evento Espraiado de
Portas Abertas. Tal indicação fundamenta-se na conduta de pertencimento
daqueles que têm seus interesses voltados para o desenvolvimento ambien-
tal, econômico, cultural e social dos envolvidos, pois estes reconhecem nas
ações no campo do turismo uma possibilidade de realização de um cenário
de vida mais justa, com equidade social e valorização de seus atributos es-
pecíficos, favorecendo, através de sua organização, sua perenidade. Tornar a
atividade turística uma ferramenta de desenvolvimento, em que as respon-
sabilidades e atribuições sejam claras e participativas, pode propiciar a me-
lhoria da qualidade de vida das comunidades e também do meio ambiente,
justificando plenamente os esforços empreendidos nesta pesquisa.
Conclui-se, assim, que o projeto Espraiado de Portas Abertas possui os
atributos necessários para representar à altura a cultura desse importante
bairro de Maricá, o que pode propiciar o desenvolvimento ambiental, eco-
nômico, cultural e social de seus participantes, assim como a valorização
das comunidades locais, promovendo, assim, a possibilidade de manuten-
ção de suas tradições, mediante o sentimento de pertencimento dos en-
volvidos. Ressalta-se, entretanto, que tal meta só poderá ser atingida caso
haja efetiva participação dos cidadãos, não apenas como operadores locais,
mas também mediante seu empoderamento, ou seja, a participação efetiva
na tomada de decisão no que se refere à originalidade do evento, nascido e
desenvolvido no local.
Diante desse contexto, deve-se observar atentamente a emergência e a
construção de um saber que ressignifica as concepções do progresso, do de-
senvolvimento e da inclusão para configurar uma nova racionalidade social,
com repercussões no campo da educação, do conhecimento e das práticas
educativas e políticas – ou seja, a valorização da cultura e do saber-fazer local.

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ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

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264
O PATRIMÔNIO COMO INSTRUMENTO DE SALVAGUARDA
DO SABER-FAZER DAS TAPECEIRAS DO ESPRAIADO:
IDENTIDADE E MEMÓRIA

Tatiana Macedo da Costa1 • Raquel Alvitos Pereira2

INTRODUÇÃO

Pretende-se neste artigo mostrar diferentes dimensões do “saber-fazer”


das Tapeceiras do Espraiado, a partir principalmente do diálogo com o referencial
de memória. Esse saber-fazer vincula-se à trajetória da Madeleine Colaço, que,
ao chegar ao Brasil e se fixar no Espraiado, monta seu ateliê nessa área rural, lo-
calizada em Maricá (RJ), inovando a técnica de bordar com a criação de um novo
ponto, que se torna um marco na história da tapeçaria. É relevante pontuar que
a artista-artesã ensina esta arte de bordar a membros da comunidade local que
dele se apropriam e, por isso, na contemporaneidade, esse saber-fazer torna-se
um emblema identitário que deixa em evidência referências culturais importan-
tes da localidade. Convém destacar que se esse saber-fazer cria, ainda, vínculos de
pertencimento importantes. Vínculos entre a comunidade de artistas-artesãos da
Tapeçaria do Espraiado e vínculos mais profundos que se estabelecem entre aque-
le que contempla e aprecia a tapeçaria com os elementos culturais da localidade.

1. O SABER-FAZER DAS TAPECEIRAS DO ESPRAIADO EM PERSPECTIVA:


HISTÓRIA, MEMÓRIA E IDENTIDADE MARICAENSE

Entende-se que o saber-fazer da arte de bordar das tapeçarias é mais do que


uma manifestação artística que se esgota em si mesma; por isso, compreende-

1 Tatiana Macedo da Costa é mestranda em Patrimônio, Cultura e Sociedade da Universidade Federal


Rural do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu (RJ), Brasil. E-mail: tatiana_gnr@hotmail.com.

2 Raquel Alvitos Pereira é doutora em História Social pelo em Programa de Pós-Graduação da


Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail: raquelalvitospereira@gmail.com.

265
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

-se a necessidade de pensar esse bem cultural como um fenômeno social. Esse
saber-fazer é portador de muitos significados, associados a valores que carac-
terizam as sociedades com suas distintas expressões culturais.
A atividade realizada pelas Tapeceiras do Espraiado valoriza a identidade
local e seu saber-fazer, e, por isso, se constitui como uma importante tradição
do Espraiado, que se liga à memória social coletiva maricaense. Ao desenvol-
ver suas atividades, as artesãs e os artesãos dessa localidade de Maricá difun-
dem uma tradição que remonta à década de 1950, e, dessa forma, instituem
essa técnica de bordar como patrimônio cultural material e imaterial.
Trata-se de um trabalho todo artesanal que utiliza a tela de etamine,
linha e lã. Convém pontuar que, em média, cada bordado leva quatro meses
para ser confeccionado – embora alguns exijam um tempo a mais de pro-
dução. As telas desses bordados retratam principalmente espécies da fauna
e da flora de Maricá e frutas típicas da região, como coqueiros, laranjeiras,
jabuticabas, mangueiras e bananeiras. Tudo é produzido em riqueza de de-
talhes e cores, aplicando-se o ensinamento transmitido por Madeleine Co-
laço, que deixou como legado na comunidade do Espraiado um ponto muito
especial. Deve-se destacar, também, como sublinha Gradim, que cada tra-
balho é iniciado e finalizado pela mesma bordadeira, pois o ritmo do ponto
é um detalhe muito pessoal.
Dona Ilma Macedo é, na contemporaneidade, a líder do grupo das Ta-
peceiras do Espraiado e luta para manter vivo este legado cultural que é o
saber-fazer das tapeceiras. Em sua entrevista, ela nos conta um pouco de sua
história, que desde cedo entrelaçou-se com a arte de bordar. Ela nos conta
que nasceu no ano de 1950 no Espraiado, onde reside até hoje. Enfatiza que
aprendeu a fazer tapeçarias aos nove anos de idade, quando saía da escola,
já na década de 1960, e ia com as amigas até a fazenda de Madeleine para
ver as pessoas no ateliê bordando tapeçarias. Foi ali que ela conheceu esse
saber-fazer. Ficou encantada com a técnica, cores e pontos utilizados, e logo
se interessou em aprender a arte. Foi a própria Madeleine quem lhe ensinou.
Após aprender, ela ensinou a técnica para sua mãe e para as suas irmãs.
Ela ainda lembra com alegria que ali encontrou uma oportunidade de ter
fonte de renda própria e, anos depois, quando se casou, comprou seu vestido
de noiva com o dinheiro que recebeu de seu trabalho. Ilma nos disse também
que seu filho José (in memoriam), aos quatro anos de idade, já se interessava
pelos desenhos e pelas cores das tapeçarias. Ele gostava de observar o bordar
das tapeceiras. Ilma conta que costumava bordar durante a noite e, nesses

266
TATIANA MACEDO DA COSTA • RAQUEL ALVITOS PEREIRA

momentos, insistia para que José fosse dormir, mas ele gostava de vê-la bor-
dando. Assim, ele aprendeu a tecer e a bordar. Aprendeu observando sua mãe,
e anos mais tarde, quando adulto, passou a desenhar as tapeçarias para o
grupo das Tapeceiras do Espraiado. Ele amava a atividade. Além de desenhar,
José também gostava de bordar.
Em 2010, Dona Ilma recebeu convite do Sebrae para dar curso de tape-
çarias, com a finalidade de capacitar outras pessoas com a prática de bordar,
dando continuidade ao ensinamento dessa atividade. Assim, ela inscreveu
na memória de outras mulheres maricaenses o legado desse saber-fazer que
se tornou referência para os moradores de Maricá. Dona Ilma capacitou um
grupo de onze mulheres e, desde então, fortaleceu-se a união das tapeceiras
do Espraiado. O trabalho realizado pelo grupo chegou a ser exposto no Cor-
covado e no Forte de Copacabana, como nos conta a tapeceira.
Em entrevista, a artesã nos disse ainda que, nos dias do evento do Es-
praiado de Portas Abertas, ela recebe a visita, em seu ateliê, de grupos de
escola e turistas. Ela recorda e nos conta que vendeu uma tapeçaria pequena
no Espraiado de Portas Abertas e também outra peça por encomenda para
Minas Gerais em 2014. Diz a artesã que tudo foi tratado por e-mail e que a
peça encomendada era grande, no tamanho de 2 m por 1,40 m. Algumas ta-
peçarias foram vendidas para algumas autoridades municipais. Ilma relata
que, apesar disso, enfrenta dificuldades nas vendas, pois já não se vende em
tanta quantidade como acontecia na época de Madeleine Colaço.
Em virtude do pouco retorno financeiro, algumas pessoas no grupo
optaram por sair e, hoje, o grupo das tapeceiras tem um total de cinco pes-
soas, incluindo o Miranda, que é o atual desenhista. Ilma nos narra com
tristeza o falecimento de seu filho José e diz que não achava correto seguir
copiando os desenhos feitos por ele. Por isso, perguntou ao Miranda se ele
poderia fazer os desenhos da fauna e flora do Espraiado, e ele aceitou. Ela
também falou, com bastante emoção, que Deus levou seu filho, mas deixou
outra pessoa para realizar os desenhos.
Outro entrevistado foi com o sr. Elcilei Miranda, mais conhecido como
Miranda, que tem 49 anos e reside no Espraiado há cerca de dez anos. Ele
é artista plástico e desenhista, nascido em Minas Gerais, e foi no ano 2018
que começou a desenhar as tapeçarias. Muito emocionado, Miranda conta
que nunca imaginou desenhar as tapeçarias, antes desenhadas por José
Macedo (in memoriam), mas que precisava apoiar Dona Ilma, que sofria
com a perda do filho. Assim, ele deu continuidade, com todo o carinho

267
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

merecido, ao trabalho do filho da artesã. Miranda nos disse em entre-


vista: “Quando sentei, o desenho fluiu, e eu, que nunca tinha imaginado
poder fazer os desenhos em tapeçarias, fiz...”.
Outra entrevistada foi a artesã Dona Vera Lucia, nascida no ano de 1951
no Espraiado, local onde reside até os dias de hoje. Ela também aprendeu a
fazer tapeçaria com a Madeleine Colaço na década de 1960 e conta que guarda
na memória ótimas lembranças de quando, ainda criança, pegava escondida
a tapeçaria de sua irmã, Ilma Bastos, e a preenchia a seu modo. Ela conta
que “quando minha irmã via, brigava bastante e desfazia os pontos (risos)”.
Foi aos doze anos que a artesã Vera Lúcia começou a frequentar a fazenda de
Madeleine Colaço. Ela conta: “Fui logo convidada pelo grupo de Madeleine
para fazer um teste e preencher um pedaço da tapeçaria, e os pontos saíram
direitinho”. Então, começou a fazer parte do grupo, “e fazia rápido, pois ti-
nha muita vontade de fazer e queria focar no trabalho pra terminar logo; já
imaginava como preencher o tapete”.
Desde criança, Vera sempre ficou encantada com as cores da tapeçaria
e até hoje mantém a atividade com o grupo das Tapeceiras do Espraiado –
porém, na maioria das vezes, faz a tapeçaria em sua residência e a leva até o
ateliê de Ilma Macedo, quando pronta, para vender. Ela também expõe suas
tapeçarias em eventos como o Espraiado de Portas Abertas. Vera Lúcia re-
corda que muitas pessoas já lhe pediram que ensinasse a bordar a tapeçaria.
Já transmitiu seus conhecimentos à própria neta, a uma advogada aposenta-
da e às sobrinhas, afirmando que ensinaria a quem mais tivesse interesse em
aprender. Sobre a arte do bordado, a artesã diz: “Faço isso com muito gosto”.
Outra entrevistada foi a Dona Maria de Lourdes, nascida em 1956 no Es-
praiado, local onde reside até os dias de hoje. Ela conta que não pôde estudar,
pois precisava trabalhar. Aprendeu aos doze anos de idade a fazer tapeça-
ria com Madeleine Colaço. Menciona que, na década de 1960, foi aprender a
fazer tapeçarias, uma vez que essa era a melhor opção de renda. Na época,
trabalhava na roça ou fazendo tapeçaria. Na segunda atividade, recebia por
produção, então gostava de fazer muitas tapeçarias, para receber cada vez
um salário melhor. Vera Lúcia não esconde o desejo de que a produção das ta-
peçarias rendesse mais para o grupo das Tapeceiras do Espraiado. Ela conta
que as vendas são, hoje, muito difíceis. O material é dispendioso e é preciso
investir muito. O retorno desse investimento está cada vez mais menor.
Outra artesã do Espraiado é a Dona Cecilia Rosa, nascida em 1957. Ela
conta que trabalhava no campo e não teve oportunidade de estudar. Precisa-

268
TATIANA MACEDO DA COSTA • RAQUEL ALVITOS PEREIRA

va trabalhar no campo e se motivou a aprender tapeçaria com sua cunhada


Ilma Macedo. As duas iam até o ateliê da Madeleine Colaço para a produção
da tapeçaria, pois essa era a melhor opção de renda no Espraiado na épo-
ca. Ela destaca que o transporte era precário e a vida no campo, difícil. Diz,
ainda, que tem três filhas, das quais nenhuma quis aprender a bordar ta-
peçarias. Como as oportunidades de trabalho não maiores atualmente, elas
optaram por garantir um emprego fixo – mesmo que o salário não seja alto,
é um valor certo que recebem mensalmente.
Tanto Dona Cecilia quanto Dona Maria de Lourdes questionam a dificul-
dade das vendas que enfrentam na atualidade. Elas se lembram, com sauda-
des, do tempo em que trabalhavam com Madeleine Colaço, quando obtinham
um bom retorno em dinheiro com a produção das tapeçarias.
As histórias rememoradas pelo grupo de tapeceiras do Espraiado, li-
gadas aos tapetes que as encantaram quando crianças e adolescentes, pela
beleza, cores e fonte de renda, trazem maravilhosas lembranças. Ao vincu-
lar a memória individual de cada tapeceira e relacionar as memórias cole-
tivas, podemos perceber que:

(…) A memória individual, ao associar-se com a memória


coletiva, presente na historicidade do espaço social, vai
determinar as identidades individual e coletiva, onde
tempo coletivo e espaço social se associam formando a
cultura histórica com a qual a identidade se consolida e se
reproduz. Desta maneira, ecoando Le Goff (1984) e Nora
(1996), a memória está relacionada à necessidade do ser
humano de definir sua identidade e é contextualizada,
motivo pelo qual não é espontânea e imparcialmente
verdadeira. (…) A memória se produz no presente com
representações do passado (FÉLIX, 1998, p. 39).

Essas narrativas ligadas ao campo da memória podem ser tomadas


como processos socioculturais fundantes das vivências individuais e cole-
tivas, e nos permitem ampliar a reflexão em torno de saberes-fazeres que
se (re)constroem no tempo e no espaço, reforçando as identidades locais. O
ofício das Tapeceiras do Espraiado deve ser tomado como traço essencial da
identidade maricaense, vinculado ao campo da memória que concilia o pas-
sado e o presente.
Ele tem, na contemporaneidade, um significado subjetivo de parte im-
portante do mundo vivido, povoado de representações, expectativas e pers-

269
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

pectivas da localidade de Maricá. Cada artesã tem sua história, mas é por
meio do ofício que se institui uma base de identificação mútua, a partir da
qual se constroem experiências de grupo e significações comuns e coletivas
para a manutenção dos processos culturais (NOGUEIRA, 2000).
É pelo campo da memória que hoje podemos restituir essa referência de
bem cultural ao qual esse saber-fazer se vincula. Muitas são as histórias e
as lembranças que as artesãs e os artesãos carregam consigo. São memórias
dos tempos em que começaram a bordar, em virtude de curiosidade ou de
dificuldades financeiras. São lembranças dos primeiros pontos bordados do
Espraiado, da primeira máquina adquirida, da primeira renda conquistada
com os bordados.
São histórias singulares e tão particulares entre si, mas que, em deter-
minado momento, acabam se entrelaçando. São histórias de artesãs e arte-
sãos que aprenderam a bordar. São histórias de mulheres “prendadas” que
se tornaram artistas empreendedoras e ganharam reconhecimento como
tapeceiras do Espraiado. Entretanto, tais histórias, que pela memória aqui
recuperamos, constituem também um bem cultural que faz referência à his-
tória e à memória maricaense.

2. PERSPECTIVAS DE SALVAGUARDA EM TORNO DA ATIVIDADE ARTESANAL


E ARTÍSTICA DO SABER-FAZER DAS TAPECEIRAS DO ESPRAIADO

Parte-se da premissa que o saber-fazer das Tapeceiras do Espraiado é,


simultaneamente, arte e artesanato. Podemos tomar esse saber-fazer como
arte porque, segundo Tolstoi (2002, p. 73), “(...) com a arte as pessoas trans-
mitem seus sentimentos umas às outras, sendo que o outro, ao receber os
sentimentos expressos através da arte, tem a oportunidade de senti-los da
mesma forma que o artista, ou ainda, de recriá-los”. O saber-fazer das arte-
sãs e dos artesãos do Espraiado mobiliza o sentido das pessoas e as sensibi-
liza para a apreciação de uma gama de elementos da identidade da localidade
de Maricá, que expressam, especialmente, traços da natureza que marcam a
localidade. Tolstoi (2002, p. 74) também afirma que “(…) a atividade da arte
se baseia nesta capacidade que as pessoas têm de ser contagiadas pelos sen-
timentos das pessoas”. Essa dimensão de fruição e contemplação que marca
a arte é uma das muitas dimensões do saber-fazer do Espraiado, e não de-
vemos perdê-la de vista, pois é ela quem reforça e inscreve a tapeçaria do
Espraiado como uma referência cultural.

270
TATIANA MACEDO DA COSTA • RAQUEL ALVITOS PEREIRA

Para sustentar a proposição de que o saber-fazer das tapeceiras do


Espraiado não se restringe apenas ao campo do artesanato, mas também
da arte, destacamos a reflexão de Bourdieu acerca das condições mate-
riais de produção no tempo. Bourdieu assinala que, à medida que as con-
dições materiais de produção foram se modificando, ocorreu uma cisão
entre a arte como mercadoria e o seu sentido espiritual (2007, p. 103). É por
isso que o artesanato só passa a ser valorizado e atrativo para o mercado
de consumo da arte quando passa a ser visto como objeto de arte único e
desassociado da produção massiva.
Deve-se tomar esse saber-fazer também como artesanato, já que
tal se vincula ao campo das tradições populares, podendo, dessa forma,
associar-se ao campo da arte popular. Há na produção do artesão e da ar-
tesã características que pertencem à identidade cultural regional e que
são por ela apropriadas e recriadas, personificando a peça, dialogando
com a realidade e traduzindo o belo. A arte popular também apresenta
elementos estéticos que se vinculam à emoção do artista no momento da
criação; mas, para ser compreendida e valorizada, hoje deve se associar ao
campo do folclore, já que não encontra, muitas vezes, espaço em galerias,
exposições e eventos (VIEIRA, 2014).
É interessante pontuar que, quando uma cidade é reconhecida ou se
faz conhecer pela produção permanente de um artesanato, institui-se
naturalmente um processo de valorização e legitimação dessa referência. Por
isso, o saber-fazer das tapeceiras do Espraiado pode e deve ser tomado como
bem material e imaterial e, portanto, como patrimônio cultural. O próprio
saber-fazer, em sua dimensão mais ampla, é denominado pela UNESCO
como patrimônio não físico ou imaterial (FONSECA, 2005, p. 41).
Todavia, não basta apenas reconhecer esse saber-fazer como bem
cultural: é preciso viabilizar, por meio de múltiplos canais de diálogos,
políticas de salvaguarda para que essas expressões culturais não fiquem
restritas ao campo da memória. Elas precisam se instituir como histó-
ria, mas também como atividades concretas, ligadas e dinamizadas pela
dimensão da cultura. O artesanato produzido no Espraiado tem em si
referências importantes da construção de sentido histórico-cultural da
região de Maricá. Tais referências se combinam à memória afetiva e te-
cem vínculos de pertencimento importantes não só para as artesãs e os
artesãos envolvidos, como também para os moradores e visitantes da
cidade de Maricá.

271
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Essa dimensão de artesanato do qual esse saber-fazer é


portador está ligada à dimensão do folclore. Inúmeros
conceitos foram elaborados para buscar o entendimento
e a dimensão da atividade artesanal, que é de interesse de
diversos campos da ciência, das artes e do setor comercial.
O SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena
Empresa), por exemplo, conceitua como artesanato “toda
atividade produtiva que resulte em objetos e artefatos
acabados, feitos manualmente ou com a utilização de
meios tradicionais ou rudimentares, com habilidade,
destreza, qualidade e criatividade (2010, p. 12).

Diante disso, torna-se importante mencionar que o


artesanato é, antes de tudo, um bem imaterial, pois sua
riqueza se encontra no conhecimento do artesão para
produzi-lo, adquirido por seus semelhantes, cujo legado
é composto de representações e significados próprios
para cada comunidade no âmbito da qual o objeto é
manufaturado. Ao mesmo tempo, a partir do instante
em que o conhecimento é materializado e a peça é
produzida, o bem passa a ser tangível. É por essa razão
que se pode afirmar que o artesanato é um patrimônio
cultural material e imaterial (HORODYSKI, 2006, p. 18).
Nessa perspectiva, é relevante ter por base os estudos
do folclorista brasileiro Luiz da Câmara Cascudo (1971, p.
26), como salienta Horodyski (2006), o qual destaca que,
para Cascudo, artesanato é: “todo objeto utilitário com
características folclóricas, não importando o material
utilizado, (...) cuja técnica acompanha gerações, podendo
sofrer alterações, adaptações, substituição de matéria-
prima, de acordo com o interesse da comunidade que as
produz” (HORODYSKI, 2006, p. 43).

O trabalho executado pelas mãos humanas passa a guardar um valor


simbólico, não apenas pelo resultado final de sua produção, mas pela histó-
ria de seu processo de confecção, que envolve tanto a utilização de materiais
diversificados como a técnica e, ainda, tudo o que remeta ao contexto histó-
rico-cultural no qual foi produzido.
Para reforçar essa perspectiva do saber-fazer do Espraiado como arte-
sanato, ancoramo-nos ainda na reflexão de Cardini (2004), que compreende
o artesanato como algo que é marcado por elementos como a tradição fami-
liar, a continuidade de saberes que se desenvolvem em diferentes tempos e
espaços e a memória tida como ferramenta na transmissão desses saberes e,

272
TATIANA MACEDO DA COSTA • RAQUEL ALVITOS PEREIRA

por fim, pela consagração como instância de validação que configura a cons-
trução de capital artesanal.
Tudo isso é associado, para Cardini (2004), a outras trajetórias bi-
bliográficas, sendo suas atitudes para fazer o artesanato ligadas às esco-
lhas dos outros, aos desejos dos outros, às condições de espaço físico para
expor seus produtos, a incentivos de grupos ligados ao Estado para fo-
mento, às organizações sociais que incentivam o artesanato, à aprovação
dos clientes quanto às suas peças e à disposição dos materiais no mercado
ou na própria natureza para que seja possível a produção de suas peças.
Muitos são, portanto, os diálogos que os artesãos devem empreender com
outros agentes nas estruturas sociais em que se situam. A organização do
trabalho desses artesãos depende de todos esses elementos, bem como de
suas referências identitárias.
Quanto à perpetuação da arte em voga no município, assim como
para a congregação de novos artesãos, verificou-se, no decorrer da pes-
quisa, a preocupação com a manutenção e continuidade do artesanato
local, mesmo com as benesses acerca da tradição local quanto à pro-
dução da tapeçaria. Sugestões como as preconizadas pela Lei n. 13.180,
que estabelece, em seu artigo 2º, a necessidade de criação de políticas
públicas específicas para o artesanato, fundamentadas na “valorização
da identidade e culturas nacionais”, são apontadas como imprescindí-
veis para a manutenção da arte das tapeceiras, como produto cultural à
disposição de um mercado e, acima de tudo, meio de sobrevivência para
membros de uma comunidade.
Mesmo reconhecendo a responsabilidade dos governos no fomen-
to à cultura, os Encontros Municipais de Cultura também ampliaram as
discussões sobre a cultura na dimensão da sociedade civil, revelando
um quadro de potências nas ações e iniciativas de seus agentes culturais
que compõem um primeiro perfil das vocações culturais da região. Essas
ações têm ampliado a atuação do poder público sobre o patrimônio cultu-
ral brasileiro, demonstrando a necessidade de valorização da diversidade
cultural. Com efeito, é crescente o interesse dos estados brasileiros em
incluir o patrimônio imaterial nas políticas públicas de cultura, fato que
também começa a ser percebido entre os municípios: “Segundo dados da
UNESCO, além dos 12 estados que já tem legislação de preservação do pa-
trimônio cultural imaterial, outros já tinham projetos de lei, como, por
exemplo, o Rio de Janeiro e São Paulo” (2007, p. 91).

273
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

É importante destacar aqui que há uma formulação de


propostas que contribuíram para o desenvolvimento
da cultura na cidade de Maricá. Existe, por exemplo,
o Projeto de Lei n.  3635/2017, proposto pela Deputada
Estadual Zeidan, que declara patrimônio imaterial do
Estado do Rio de Janeiro a confecção de tapeçarias do
Espraiado de Maricá (RJ), sendo este no momento o único
registro: “Art. 1º – Fica declarada como patrimônio
imaterial do Estado do Rio de Janeiro a confecção de
tapeçarias do Espraiado de Maricá” e “Art. 2º – Esta Lei
entra em vigor na data de sua publicação”.

Existem cinco fatores que determinam o que pode ser patrimônio:


são os valores cognitivos, estéticos, afetivos, pragmáticos e éticos. Quem
decide o que é patrimônio é o grupo de origem do bem patrimonializado,
baseado no julgamento de valor do próprio grupo. O significado desse bem
a se transmitir é constantemente modificado de acordo com a intencio-
nalidade de gerações futuras e/ou contextos presentes que envolvam as-
pectos econômicos, culturais, políticos ou ideológicos (PAIVA, 2015, p. 23).
Todas as ações estão fundamentadas em critérios, não apenas téc-
nicos, como também políticos, uma vez que a representatividade dos bens
em termos da diversidade social e cultural do país é essencial para que a
função de patrimônio se realize, no sentido de que os diferentes grupos so-
ciais possam se reconhecer nesse repertório. Mas não basta uma revisão dos
critérios adotados pelas instituições que têm o dever de fazer aplicar a lei,
tendo em vista a dinâmica dos valores atribuídos; é necessária também uma
mudança de procedimentos, no sentido de abrir espaços para a participação
da sociedade no processo de construção e de apropriação de seu patrimônio
cultural (FONSECA, 2001, p. 191). Por isso, outro aspecto fundamental para
a compreensão deste estudo é a noção de “salvaguarda”, estabelecida pela
Convenção da UNESCO.

Entende-se por “salvaguarda” as medidas que visam


assegurar a viabilidade de patrimônio cultural imaterial,
que compreendem a identificação, a documentação,
a pesquisa, a preservação, a proteção, a promoção,
a valorização, a transmissão, essencialmente pela
educação formal e não formal, assim como a revitalização
dos diferentes aspectos desse patrimônio (CONVENÇÃO
PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÔNIO CULTURAL
IMATERIAL, 2003).

274
TATIANA MACEDO DA COSTA • RAQUEL ALVITOS PEREIRA

A proposta da convenção como se pode depreender da


leitura do texto acima é no sentido de se “registrar”
essas práticas e representações e de se fazer um
acompanhamento para verificar sua permanência e
transformações. A salvaguarda dos bens de natureza
imaterial deve apresentar ações que não caiam numa
espécie de “congelamento” dessas práticas culturais,
mas que garantam tratar seus valores simbólicos
em meio a múltiplas transformações decorrentes da
contemporaneidade. Nesse sentido, os saberes e fazeres
das manifestações culturais não devem ser vistos como
uma coisa “engessada”, esperando para ser preservados
ou resgatados e, sim, como um processo cultural em
movimento (CARMO, 2009, p. 44).

3. TAPECEIRAS E TAPEÇARIAS DO ESPRAIADO: TESSITURAS DE


REFERÊNCIAS À MEMÓRIA, À IDENTIDADE E À AÇÃO

A relação entre memória e identidade faz com que Halbwachs


(2006) estabeleça também uma associação entre memória e tradição.
Para o autor, a memória não diz respeito simplesmente a uma expe-
riência iniciada e concluída no passado, mas, sim, a algo que perma-
nece vivo, animando os pensamentos e ações dos indivíduos e grupos
no presente. Nesse sentido, construímos a trajetória das Tapeceiras do
Espraiado, que, a partir de suas experiências, deixaram um importante
legado para a população maricaense.
Esse legado remonta à década de 1950; por isso, é importante relatar a
trajetória de vida e chegada da Madeleine Colaço no Espraiado, que ensinou
às artesãs e aos artesãos um ponto de bordado único e singular. Há um saber-
-fazer transmitido à comunidade local, repassado e experimentado até hoje
entre os moradores do Espraiado. Há também memórias e lembranças muito
profundas, cujo registro se faz necessário para que se possa conhecer essa
referência cultural brasileira da localidade de Maricá.
Para Bergson (1999), a lembrança é uma imagem do passado conser-
vada pelo sujeito. Assim, no ato de rememoração, o que é lembrado não
é o objeto ou o acontecimento em si, e sim a impressão desse passado,
a sensação que esse passado faz surgir no sujeito. Esse aspecto da lem-
brança se vincula à história do Espraiado. A lembrança não é uma ima-
gem fiel, uma cópia do passado. As lembranças se reúnem, se justapõem

275
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

e, às vezes, umas recobrem as outras; por isso, a rememoração faz surgir


no presente algo muito distinto do que foi no passado. Daí a união da
memória e das narrativas da memória.
Há muitas lembranças e memórias justapostas que hoje ajudam a pre-
servar o saber-fazer dessa arte-artesanato do Espraiado, cuja materialida-
de está nas tapeçarias. Destacamos aqui as ponderações de Halbwachs para
melhor compreendermos essa dimensão de referência cultural que esse
saber-fazer integra em si. Halbwachs (2006) toma a lembrança como ima-
gem e a define como uma reconstrução do passado, com a ajuda de dados
tomados de empréstimo ao presente e preparados por outras reconstruções
feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora já saiu bastante
alterada (Halbwachs, 2006, p. 91).
A preservação da memória é, assim, essencial para que se mantenha a
identidade e a cultura, tanto do indivíduo isoladamente considerado como
do grupo social. No caso de Maricá, a preservação da memória vinculada a
essa manifestação artístico-artesanal é fundamental para que as tapeçarias
não deixem de ser produzidas e contempladas. A memória e seu resgate se
colocam no caso desse saber-fazer como mecanismo essencial para a manu-
tenção da identidade local maricaense.
As considerações dos teóricos abordadas aqui podem ser sintetizadas
na importância de preservação das memórias e da identidade, que per-
mitem que o passado e o presente, por meio da imagem e das lembranças,
estejam vivos na contemporaneidade. Assim, independentemente da pers-
pectiva coletiva ou individual, a memória pode e deve ser observada como
fonte de referências identitárias e, principalmente, como instrumento
atuante na reconfiguração das identidades. A memória e sua dimensão afe-
tiva permitem que o sujeito se apodere de imagens do passado para conso-
lidar uma nova posição identitária.
Assim abordada, a memória remete à reconstrução e à localização
das lembranças, podendo ser vista como a instância reconstituidora do
passado, como diz Beatriz Sarlo, na obra Tempo passado: cultura da me-
mória e guinada subjetiva (2007). É no bojo dessas reflexões que propo-
mos pensar a construção de memória não como uma construção passiva,
e sim como escolhas, sendo essa uma estratégia para manter práticas e
reafirmar identidades.
De outro lado, tendo em vista que a memória é o instrumento capaz de
trazer o passado para o presente, é inevitável a seletividade da memória, que

276
TATIANA MACEDO DA COSTA • RAQUEL ALVITOS PEREIRA

não pode evocar todas as lembranças do indivíduo, mas opera uma seleção e
faz emergirem as imagens do passado que estão de acordo com as intenções
atuais do sujeito, ou, como diz Candau, “a memória opera escolhas afetivas”
(CANDAU, 2011, p. 69). A memória trabalha, então, na ordenação e na releitu-
ra dos resquícios do passado, o que se consolida numa construção narrativa
do passado e, consequentemente, da identidade.

As “visões do passado” (segundo fórmula de Benveniste)


são construções. Justamente porque o tempo do passado
não pode ser eliminado, e é um perseguidor que escraviza
ou liberta, sua irrupção no presente é compreensível
na medida em que seja organizada por procedimentos
da narrativa, e, através deles, por uma ideologia que
evidencie um continuum significativo e interpretável do
tempo. Fala-se do passado sem suspender o presente e,
muitas vezes, implicando também o futuro. Lembra-se,
narra-se ou se remete ao passado por um tipo de relato
[...] (SARLO, 2007, p. 12).

É em razão da construção discursiva da identidade que se faz


necessário recorrer à memória. É preciso revolver o passado para narrar-
se, para construir uma identidade, para se constituir como sujeito diante
do outro e se posicionar dentro do grupo. Esse, portanto, é o ponto que liga
a identidade à memória e torna possível a afirmação de Candau de que “a
memória é a identidade em ação”.
Rememorar, mais do que trazer o passado para o presente, é um ins-
trumento para reavaliações, revisões, autoanálise e autoconhecimento, e é
por esse caminho que a memória alcança a identidade, sendo fator-chave
em sua (re)construção. Por isso, no caso desse saber-fazer que marca a his-
tória do Espraiado, faz-se necessário resgatar os registros de memória de
Madeleine Colaço, mencionando um pouco de sua biografia, reconstruindo
sua história e mostrando a importância cultural do ensino desse ofício para
a população do Espraiado.
Ninguém põe em dúvida a energia brasileira que a obra de Madeleine
irradia, através de cores e fios que captam com felicidade o espírito na-
cional. Por isso, quem entra em contato com sua biografia se espanta ao
descobrir que aquela que se tornou uma de nossas artistas mais típicas é,
em verdade, francesa de nascimento, cosmopolita por circunstância e bra-
sileira por opção (COLAÇO, 1998).

277
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A sabedoria têxtil desenvolvida pela Madeleine, que era já artista ma-


dura, merece destaque. Trata-se de uma sabedoria que não se aprende nos
livros, mas, sim, na vida. Estamos referenciando aqui um dos nomes mais
importantes da tapeçaria brasileira: Madeleine Ribeiro Colaço. Tendo es-
tudado tapeçaria no Marrocos, na França, na Inglaterra e em Portugal, se-
guiu uma tradição familiar que remontava a seu bisavô, que era tapeceiro
em Lyon, França (ESCRITÓRIO DE ARTE, 2001). É possível recuperar a pró-
pria narrativa e memória dessa artista-artesã, uma vez que ela organizou
e participou de exposições que viraram referência para esse campo. Made-
leine (CAIXA CULTURAL, 2009, p. 58) fala, por exemplo, do projeto realiza-
do com suas bordadeiras que denominou de Tapeçaria das Intuitivas.

Resolvi fazer uma experiência artística especial. Dei


retângulos vazios de tecidos-base e convidei as moças,
com idade entre 17 e 22 anos, e disse-lhes que, apurando
seu ponto e escolhendo com inteira liberdade as cores
que preferissem, criassem uma coisa que achassem
bonitas. O que saísse da ideia e do gosto delas é o que
deviam fazer. Apaixonaram-se por este trabalho. A
Tapeçaria das Intuitivas surgiu, assim, da reunião de 60
dessas pequenas tapeçarias. O trabalho é invulgarmente
interessante como documentação das verdades artísticas
instintivas ou intuitivas. Como elemento comparativo
coloquei na exposição algumas peças, por exemplo, uma
candeia antiga, feita no Marrocos, e que pertence à minha
família há mais de um século. A peça fica no Rio, nunca
foi vista na fazenda. Como é que em 1956 surgem linhas
estéticas tão próximas das que surgiram no Marrocos há
100 anos? (CAIXA CULTURAL, 2009).

O trecho acima, que integra a memória de Madeleine Colaço, mostra


mecanismos importantes de transmissão desse saber-fazer, bem como as
dimensões de apropriação do ofício pelos moradores da localidade do Es-
praiado. Cabe pontuar, ainda, que seus temas preferidos foram fauna e flo-
ra brasileiras, igrejas, fachadas coloniais, festas, paisagens, “sambas” e a
estética barroca em suas várias manifestações. No Espraiado, Madeleine
transformou a busca de mão de obra para executar as suas tapeçarias em
uma bem-sucedida experiência comunitária. O sentido social do seu traba-
lho foi se ampliando, de modo que ela chegou a criar até mesmo uma escola
particular de ensino primário.

278
TATIANA MACEDO DA COSTA • RAQUEL ALVITOS PEREIRA

Nesse contexto, Oliveira (2007) explica que a qualificação “social” não


se delimita a um campo de estudo; ao contrário, amplia-o, visto que pode-
mos considerar como social qualquer processo, organização ou consumo de
informação, desde que aconteça entre grupos, segmentos ou classes. É por
isso que não se pode perder de vista que a apropriação de informações se
dá entre as pessoas. Suas biografias nos contam que Madeleine adotou seu
novo país com entusiasmo e amor, tendo viajado também para estados como
Minas Gerais, Bahia e Maranhão. Conheceu a diversidade da fauna da flora
brasileiras e a arquitetura barroca no Brasil, que a encantaram e se tornaram
o tema principal de sua obra. Conta-nos a artesã:

Minha vida e minha tapeçaria estão contagiadas pelo


Brasil. Seus pássaros, suas flores, suas histórias, sua
gente tão maravilhosa, seus costumes... Estive no
Pantanal para ver os pássaros. Andei num aviãozinho. O
fazendeiro, acostumado, quis me mostrar tudo, todos o
s pássaros, e o céu trocava de lugar com a terra a cada
momento. Vi os pássaros e muita coisa maravilhosa...
Garanto que o que vi foi para a tapeçaria (CAIXA
CULTURAL, 2009, p. 57).

Madeleine Colaço gostava de enfatizar que “a sua tapeçaria” é motivo


de alegria de viver, por emergir a sua história. É uma arte que nos ensina
outras artes, como a de ter paciência e a de pesquisar. Foi por meio de suas
pesquisas que se deu a criação de um ponto original que ficou conhecido,
posteriormente, como “ponto brasileiro”. Com sua criação, ela teve a opor-
tunidade de homenagear o Brasil, que com muita gratidão a acolheu, bem
como a toda a sua família.
“Visão sonhada do trópico, as suas tapeçarias são simultaneamente
singelas e exuberantes.” Foi dessa forma que o crítico de artes Roberto Pon-
tual definiu a obra de Madeleine Colaço (ARDIES, 2003, p. 44). Trata-se de um
trabalho de mãos hábeis sobre a matéria-prima, que vai fazendo brotar um
mundo de cores e fios que fazem de cada tapeçaria um objeto singular. Não é
só a técnica do bordado que marca essa singularidade, mas também a criati-
vidade. A biografia da artista-artesã nos mostra que ela não produz cartões
preparatórios, mas desenha os motivos diretamente na tela e, ainda, escolhe
materiais variados, entre os quais estão a lã (Figura 1), o algodão e fios acrí-
licos e metálicos, que permitem realizar, muitas vezes, misturas ousadas de
cores (FAGUNDES, 1988).

279
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Figura 1 – Lãs coloridas. Fonte: Caixa Cultural, 2009.

O curador da mostra exposta organizada pela Caixa Cultural ressalta


que a artista pinta com a lã e que a agulha é seu pincel. Segundo ele, Ma-
deleine cria relevos e transparências, utilizando a seda e diversos tipos de
fios – e é por isso que seu trabalho artístico possui vida e forma próprias.
Ela rompe, como mostram os críticos, a barreira tradicional que separa a
arte do artesanato e a pintura do bordado (CAIXA CULTURAL, 2009).

Sob o aspecto artesanal, ela se revela inegavelmente


unitária e inventiva. Para isso, a artista criou, inclusive,
um tipo de ponto (internacionalmente batizado como
“brasileiro”) em que os pontos saltam da entretela e
depois voltam, mais de uma vez, sobre si mesmos. O
resultado é uma textura rica de relevos minúsculos,
sabiamente dosada, com o efeito brilhante que certos
fios metálicos, também incorporados por Madeleine ao
seu arsenal, conseguem produzir (CAIXA CULTURAL,
2009, p. 7).

Madeleine, com seu ponto, criou uma tapeçaria original muito viva e
de enorme beleza estética. Ela bordava usando fios e pontos diversos so-
bre uma entretela preexistente e não usava teares e urdimentos. Em sua
busca por algo novo Madeleine criou um novo ponto de bordado (Figura
2), que ficou conhecido primeiro como “Ponto Colaço” e, depois, como
“Ponto brasileiro” (CAIXA CULTURAL, 2009).

280
TATIANA MACEDO DA COSTA • RAQUEL ALVITOS PEREIRA

Figura 2 – Dança do Ponto Brasileiro. Fonte: Caixa Cultural, 2009.

No caso do ponto brasileiro, o ritmo e a cadência do samba são incorpo-


rados à técnica do bordado. Conta-nos a artista: “Eu escutava um samba [...]
quando percebi que o ato de bordar também poderia ter uma cadência, impor
um ritmo à agulha” (CAIXA CULTURAL, 2009).
A obra de Madeleine Colaço ocupa posição de destaque na história da
tapeçaria no Brasil e em sua relação com a natureza e a cultura brasileiras.
Isso porque, da técnica de bordado até os motivos e padrões ornamentais,
as tapeçarias de Colaço (Figura 3) incorporaram aspectos característicos do
país (CAIXA CULTURAL, 2009).

Figura 3 – Tapeçaria Yemanjá. Fonte: Caixa Cultural, 2009.

281
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Em suas viagens ao Brasil, Madeleine ficou admirada com diversidade


cultural e, ao viajar para a Bahia, encantou-se, por exemplo, pelo panteão
afro-brasileiro, traduzindo-o com sua criatividade na tapeçaria Yemanjá.
Destacamos aqui também a tapeçaria “Água Marinha” (Figura 4).

Figura 4 – Tapeçaria Água Marinha. Fonte: Colaço, 1998, p. 112.

Nessa obra, como se pode ver, a artista-artesã usa apenas tons de azul
para bordar. Ela dizia, inclusive, que “a cor é a minha vida e a vida do mundo”,
como seus biógrafos relataram (CAIXA CULTURAL, 2009). Em 1963, pela pri-
meira vez, expôs suas tapeçarias bordadas no Rio de Janeiro e, desde então,
realizou mais de 46 exposições individuais ao redor do mundo, como no Cha-
teau de Lucens, em Lausanne, na Galeria Prinzhorn, de Vienna, no Palais des
Congrès de Bruxelas, na Maison de l´Amérique Latine de Mônaco, no Museu do
Estado de Kansas, nos Estados Unidos, e no Musée d´art Naïf Anatole Jakovsky
de Nice, no sul da França, para citar apenas alguns (ARDIES, 2003).
O reconhecimento internacional de Madeleine começou com a visita ao Bra-
sil, em 1957, de Marie Cuttoli, editora e colecionadora parisiense. Ela ficou im-
pressionada com o trabalho de Madeleine e percebeu que estava diante de uma
proposta inovadora. Como informam seus biógrafos, a colecionadora afirmou:

“Jamais vi essa técnica em qualquer lugar do mundo e


afirmo que esse ponto poderia e deveria ser chamado
ponto brasileiro.” Por suas mãos, ele foi assim registrado

282
TATIANA MACEDO DA COSTA • RAQUEL ALVITOS PEREIRA

no Centre National de Tapisserie Aucienne et Moderne, e


Madeleine passou a ser reconhecida na Europa. Em 1967
a revista L’ Oeil , uma das mais importantes revistas de
arte da época. (CAIXA CULTURAL, 2009)

Em 1976, Madeleine expôs pela primeira vez no Castelo de Lucens, na


Suiça. Sua exposição teve enorme repercussão entre a crítica especializada.
O periódico Le Dauphiné assim descreve sua obra:

Que alegria para os olhos é este espocar de cores,


verdadeiros fogos de artifício de pássaros, árvores
exóticas, cidades inundadas de sol. O que há de marcante
na execução de suas tapeçarias é a harmonia e a aliança
estreitas que reinam entre o material bruto – a lã – e o
motivo, sempre muito próximo de patrimônio artístico e
natural brasileiro (CAIXA CULTURAL, 2009, p. 60).

A mostra lembra, ainda, o ano da França no Brasil. De acordo com Esteta


Belas Artes (2009), a artista, de origem francesa, tem obras suas expostas
em vários museus franceses, em um trabalho que é referência franco-bra-
sileira. O importante projeto social desenvolvido por Madeleine Colaço que
também foi visto nesta exposição e propiciou uma reflexão sobre a possibili-
dade de inclusão social por meio do bordado. Madeleine ensinou essa técnica
por aproximadamente 27 anos e, assim, pouco a pouco, ela foi se tornando
um emblema identitário de referência cultural, não só do Espraiado ou de
Maricá. Para além de constituir como um a técnica artesanal genuinamente
brasileira, ela se tornou internacional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho desenvolvido por Madeleine Colaço junto às artesãs con-


tinua vivo. O grupo conhecido como Tapeceiras do Espraiado realiza re-
gularmente exposições em Maricá e outras cidades, além de manter ex-
posição permanente no ateliê de Dona Ilma. O ateliê, que agrega as obras
dos artesãos e artesãs do Espraiado, também recebe visitação nos dias de
eventos do Espraiado de Portas Abertas. Busca-se manter viva essa ati-
vidade de grande relevância cultural para o município e também para a
cultura brasileira. É de suma importância perpetuar esse legado, para,
assim, preservar e valorizar a técnica de Madeleine, que se institui como

283
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

atividade artística e artesanal desenvolvida na contemporaneidade pelas


Tapeceiras do Espraiado, como uma prática de sustentabilidade social.
Para tanto, é indispensável estabelecer esse saber-fazer como um bem
cultural portador de referência à memória, à identidade e à ação. É preciso to-
má-lo como patrimônio e refletir sobre sua relação com a cultura para, assim,
assegurar sua salvaguarda – salvaguarda que se associa à afirmação da iden-
tidade da localidade do Espraiado e, que, ainda que de forma incipiente hoje,
promove o desenvolvimento cultural e social de seus participantes e a valo-
rização da comunidade local. É tecida no Espraiado uma tradição que cria um
expressivo sentimento de pertencimento, que, (re)elaborando o passado no
presente, preserva a memória coletiva maricaense para as futuras gerações.
Conclui-se, por fim, que a partir das reflexões aqui apresentadas, a com-
preensão das práticas de sociabilidade e de identidade, no caso do Espraiado,
estão intrinsecamente relacionadas ao legado deixado por Madeleine Colaço.
Investir esse saber-fazer de sua perspectiva de bem cultural é fundamental,
inclusive para que se rompa com dilemas atuais que marcam a relação en-
tre o presente e o passado, como bem percebe Paiva (2015). No “horizonte de
expectativas” produzido no tempo presente, formam-se os vínculos iden-
titários, que se conectam ao passado. Para ele, essa “tensão entre ambas as
temporalidades (presente e pretérito) constitui um dos muitos desafios pre-
sentes no campo do patrimônio cultural” (PAIVA, 2015, p. 233). Tais desafios
marcam o saber-fazer das tapeceiras, uma vez que este é um bem cultural
cuja construção se dá no campo social há muitas décadas.

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c0018d839/91468eb505a78517832581df005d02e3?OpenDocument
http://www.ardies.com/madeleine-colaco/
https://www.escritoriodearte.com/artista/madeleine-colaco
https://esteta.com.br/noticia-imprimir.php?intNotID=2365
https://houdelier.com/paginas/artistamadeleinecolaco.html
http://m1newstv.com/tapeceiras-espraiado-madeleine-colaco/

286
A ALDEIA KA’AGUY HOVY PORÃ ENTRE PREFEITURA,
MULTINACIONAL E POPULAÇÃO LOCAL: O PROCESSO DE
TERRITORIALIZAÇÃO GUARANI MBYA NA CIDADE DE MARICÁ

Monique Rodrigues de Carvalho1

INTRODUÇÃO

Minha inserção na aldeia Ka’Aguy Hovy Porã se deu de maneira não tan-
to programada. Grande foi a minha surpresa ao saber que havia aldeias gua-
ranis pelo estado, sendo a de Maricá apenas uma entre tantas outras. Meu
interesse sobre a questão indígena se deu muito a partir de um estudo bási-
co sobre termos como ecossocialismo e sua ligação com algumas premissas
do movimento indígena.2 O fato é que minhas estratégias de luta, sendo eu
uma mulher militante urbana, ativista cultural e universitária, não estavam
sendo suficientes para gerar respostas necessárias ao estabelecimento da
construção de novos caminhos, a meu ver tão necessários para uma nova
tomada de rumo social e político. Tinha em mente neste momento que as
aldeias indígenas, suas formas de organização e pensamento teriam muito
a contribuir na busca dessas novas ferramentas de luta. O intuito foi de fato
buscar dentro do nosso próprio território nacional o que talvez estivésse-
mos sedentos procurando lá fora, em outras realidades mais visibilizadas.
Atrelado a isso, sempre me incomodou ver certa invisibilidade indígena nos
espaços que ocupava. Era como se não existissem.
Conversando com diversas pessoas, é comum a mesma surpresa e a ideia
de que “índio não mora no Rio de Janeiro” e que a região não possui deman-

1 Monique Rodrigues de Carvalho é doutoranda em Antropologia pelo Programa de Pós-


Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ), Brasil. E-mail:
moniquerodriguescto@gmail.com.

2 Fonte: Revista Forum. Disponível em: https://revistaforum.com.br/noticias/ecossocialismo-


bem-viver-como-principios para-um-outro-mundo-possivel/.

287
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

das dessa espécie. Na tentativa de desmistificar em parte essa questão, fiz


uma breve pesquisa e nela descobri que, segundo dados do IBGE, em 2010 o
estado do Rio de Janeiro ocupava o 17o lugar em população indígena do país,
totalizando 15.894 índios na região.3 Mesmo sendo importante estar atento
à dimensão normativa dos dados numéricos mensurados (OLIVEIRA, 2016),
o fato é que a tabela mostra uma precisa população autodeclarada no estado.
Com relação às aldeias indígenas, o Rio de Janeiro conta, segundo dados da
Fundação Nacional do Índio (FUNAI), com três aldeias regularizadas, uma
em fase de delimitação e duas em fase de estudo.4
Além dos processos já em trâmites oficiais, existem outras aldeias com
ocupação mais recente, entre elas a aldeia de um grupo guarani mbya, a
Tekoa Ka’Aguy Hovy Porã (Aldeia Mata Verde Bonita em português), loca-
lizada em São José do Imbassaí em Maricá, região metropolitana do Rio
de Janeiro. A aldeia ocupa 93 hectares em uma área de proteção ambiental
(APA) do município. Sua população constitui cerca de 90 habitantes de 14
famílias e é fruto da imigração ocorrida de Niterói (Camboinhas) para Ma-
ricá no ano de 2013. A convite do prefeito em exercício, Washington Quaquá,
do Partido dos Trabalhadores (PT), o grupo vem para Maricá e passa a ocu-
par a região concedida pela prefeitura. Desde então, diversas questões res-
surgem no que diz respeito aos conflitos inerentes a essa ocupação e serão
a base do trabalho em questão. O objetivo desta pesquisa é analisar os con-
flitos que se apresentam em relação à permanência do grupo na região e os
seus atores envolvidos: os indígenas, a prefeitura, a empresa multinacional
IDB Brasil e a população local, buscando compreender quais as estratégias
lançadas para consolidar o processo de territorialização do grupo.
O caso pode nos auxiliar a refletir sobre questões pungentes na antro-
pologia contemporânea, principalmente no que diz respeito aos processos
de territorialização (OLIVEIRA, 2016) ou territorialidade (ALMEIDA, 2004),
sendo necessário analisar as questões em jogo no processo de legitimação
de reivindicação da área escolhida e como os indígenas se constituem como
atores nesse processo. Parte-se para este entendimento dos pressupostos de
identidade étnica não como um dado a priori, fruto de ideias preconcebidas
e essencializadas de identidade, mas como um aspecto processual e con-

3 Fonte: IBGE. Disponível em: https://ww2.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/


images/2119_3239_085209_30932.gif. Acesso em 16 de abril de 2018.

4 Fonte: FUNAI. Disponível em: http://www.funai.gov.br/index.php/indios-no-brasil/terras-


indigenas. Acesso em 16 de abril de 2018.

288
MONIQUE RODRIGUES DE CARVALHO

tingente, assim como toda e qualquer identidade constituída, que vivem em


constante processo de ressignificação, no qual as identidades passam cons-
tantemente por processos de mudança, conforme apontado por Frederick
Barth (2000) na análise das estratégias contingentes de diferenciação.

A ENTRADA DAS ALDEIAS EM MARICÁ

Hoje, Maricá tem duas aldeias guarani mbya: a Aldeia Ara Hovy, loca-
lizada em Itaipuaçu, formada a partir da doação particular de um terreno
localizado dentro do Parque Estadual da Serra do Tiririca,5 totalizando cerca
de 38 pessoas de oito famílias,6 e a Aldeia Ka’Aguy Hovy Porã, que, pela dis-
tinção de sua ocupação, feita a partir do convite do ex-prefeito Washington
Quaquá, será o foco desta pesquisa. A chegada da aldeia em Maricá foi prece-
dida pela saída da família de Dona Lídia Para de Paraty-Mirim, a atuação do
grupo na ocupação da Aldeia Marakanã, a formação da Aldeia das Sementes
em Camboinhas, área nobre da cidade de Niterói (RJ), até o convite do prefei-
to para que grupo se instalasse em Maricá.
Washington Quaquá (2019) apresenta em seu livro um percurso por todas
as políticas sociais da cidade e as mudanças ocasionadas com a gestão do Parti-
do dos Trabalhadores (PT), dedicando um capítulo à vinda das aldeias indígenas
para o município. Ele inicia o capítulo falando dos problemas enfrentados pela
aldeia ainda em Camboinhas, culminando em um incêndio criminoso que po-
deria ter causado vítimas fatais. Frente a isso, ele e Rosangela Zeidan começa-
ram a articular a vinda do grupo para Maricá. Quaquá promete, então, conceder
uma terra ao grupo para a sua permanência na região. Nas palavras do autor:

Eles, a partir de suas crenças e da consulta aos ancestrais


através da Pagé, identificaram uma área na restinga
como remanescente de sua ancestralidade. A área
escolhida é a mesma que o grupo espanhol IDB escolheu
para desenvolver o projeto de resorts turísticos. Chamei
os proprietários e avisei que eu sempre fui a favor do
projeto, mas que diferentemente do prefeito anterior
que excluiu os pescadores de Zacarias, meu governo

5 O Parque Estadual da Serra da Tiririca é uma Unidade de Conservação da natureza de proteção integral
situado nos municípios de Niterói e Maricá. Fonte: Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro.
Disponível em: http://www.inea.rj.gov.br/Portal/Agendas/BIODIVERSIDADEEAREASPROTEGIDAS/
UnidadesdeConservacao/INEA_008600

6 Para mais informações sobre a aldeia Ara Hovy, ver DIAZ, 2018 e SILVEIRA, 2017.

289
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

só aprovaria o projeto turístico se ele incorporasse os


pescadores de Zacarias, além da Aldeia Indígena Guarani.
Argumentei que um projeto turístico só teria a ganhar
com uma aldeia indígena dentro dele. Turistas de todo
o mundo que vêm ao Rio de Janeiro teriam ali, a 50 km
do aeroporto internacional do Galeão, a oportunidade de
ver as populações originárias do Brasil e conhecer sua
cultura. Maricá só tem a ganhar com a aldeia na cidade e
na área dos resorts (QUAQUÁ, 2019, p. 81).

No ano de 2013, três áreas foram oferecidas aos indígenas nos bairros
de Bambuí, Ponta Negra e Caxito, áreas que não foram aceitas. Diante da ne-
gativa, o grupo passou a ocupar uma área na Restinga de Maricá, local que
faz parte da área de proteção ambiental (APA) criada pelo governo do estado
do Rio de Janeiro em 1984 pelo Decreto n. 7.230, localizada na costa do mu-
nicípio no intuito de preservação do bioma da Mata Atlântica e do sistema
lagunar da região coberto pela restinga, compreendendo o local “integrado
pelas Lagoas de Guarapina, Padre, Barra, Maricá e Brava e pelos canais de
São Bento, Cordeirinho e Ponta Negra”,7 além de “parte da Restinga de Ma-
ricá e a totalidade da Ilha do Cardoso”.8 Na região, ficaram proibidos:
1 – O parcelamento da terra, para fins urbanos;
2 – O desmatamento, a extração de madeira e vegetação característica e a
retirada de espécimes vegetais;
3 – A caça, ainda que amadorística, e o aprisionamento de animais;
4 – A alteração do perfil natural do terreno;
5 – A abertura de logradouros;
6 – A construção de edificações ou edículas.9
A área é marcada por conflitos, já que em 2007 o governo do estado
decretou o plano de manejo da APA, separando a região em três áreas:
“I –Zonas de Preservação da Vida Silvestre, II – Zonas de Conservação
da Vida Silvestre e III – Zonas de Ocupação Controlada”.10 O primeiro é

7 Decreto n. 7.230. Fonte: Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro. Disponível em: http://
www.inea.rj.gov.br/cs/groups/public/documents/document/zwew/mde4/~edisp/inea0018630.pdf.
Acesso em 16 de abril de 2018.

8 Idem.

9 Idem.

10 Decreto n. 41048. Fonte: Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro. Disponível em: http://
www.inea.rj.gov.br/cs/groups/public/documents/document/zwew/mde4/~edisp/inea0018792.pdf.
Acesso em 18 de janeiro de 2018.

290
MONIQUE RODRIGUES DE CARVALHO

destinado à proteção do habitat das espécies residentes, zona cuja ocu-


pação não é permitida. A segunda diz respeito às áreas de preservação
das espécies nativas e em extinção, mas ao mesmo tempo admite o
uso controlado dos recursos nos locais desprovidos de vegetação. Já a
terceira estabelece uma espécie de zona de ocupação controlada, sen-
do ela a área que, “(...) além de apresentar certo nível de degradação
ambiental com menores possibilidades de preservação, fornece con-
dições favoráveis à expansão moderada de áreas urbanas”.11 Com isso,
foi aprovado o uso urbano em metade da restinga. O decreto foi refor-
çado pela Câmara de Vereadores de Maricá em 2010, época de exercício
do então prefeito Washington Quaquá, que aprovou o plano setorial
da Restinga de Maricá,12 incentivando a ocupação da região, sendo um
reforço ao decreto de 2007.
Em 2011, o grupo empresarial IDB Brasil torna-se proprietário de par-
te da área e apresenta um projeto para construção de um resort na região, o
complexo turístico-residencial Fazenda São Bento da Lagoa. Segundo rela-
tório de impacto ambiental produzido pela empresa, o complexo foi conce-
bido tendo por base três componentes:

Componente 1: Habitações para moradia, hotéis, centro


comercial e empresarial, campo de golfe, centro hípico
e equipamentos públicos como escolas de primeiro e
segundo graus, hospitais, postos de saúde e creches.

Componente 2: Implantação de uma unidade de


Conservação do tipo Reserva Particular do Patrimônio
Natural (RPPN) que será a segunda maior do estado do
Rio de Janeiro.

Componente 3: Benefícios à Comunidade de Zacarias


como: (i) regularização fundiária e titularidade dos lotes
em nome dos moradores que os ocupam. (ii) urbanização,
com infraestrutura no mesmo padrão do restante do
empreendimento.13

11 Idem.

12 Plano Setorial. Fonte: Organização Ambiental Para o Desenvolvimento Sustentável (OADS).


Disponível em: http://oads.org.br/leis/1657.pdf. Acesso em 16 de abril de 2018.

13 Fonte: Relatório de Impacto Ambiental. Disponível em: http://www.inea.rj.gov.br/cs/groups/


public/documents/document/zwew/mdi3/~edisp/inea0027546.pdf. Acesso em 16 de abril de 2018.

291
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

A obra, por enquanto, está embargada. A licença ambiental que permi-


tiria a construção foi cancelada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em
2017. Nessa área encontra-se a Aldeia Indígena Mata Verde Bonita. Com a
concessão da prefeitura para a alocação, os guaranis passam a ocupar a re-
gião, o que é visto de maneira bastante positiva pela prefeitura, que pretende
se apoiar no fortalecimento do turismo no local.

A aldeia indígena da restinga em Maricá, no interior do Rio


de Janeiro, será transformada em ponto turístico da cidade.
Em visita à tribo Tupi-Guarani M’Bya, a prefeitura garantiu
a permanência dos índios na região de 93 hectares, entre
São José do Imbassaí e Itaipuaçu, e planeja construir no
local ocas hotéis e um teatro arena para apresentações da
cultura indígena. Os índios deverão construir a estrutura
rústica (feita com argila, bambu e palha) e a Prefeitura
destinará recursos para manutenção do espaço. 14

Os integrantes da aldeia passam a receber incentivos para realização de


eventos, como o “Abril Indígena”15 e o suporte das políticas locais, como o
recebimento da Moeda Social Mumbuca, programa de distribuição de renda
da prefeitura de Maricá, além de apoio para a construção da Escola Munici-
pal Indígena Guarani Para Poty Nhe E Ja, que oferece uma etapa do ensino
fundamental em turma multisseriada. Contudo, após a sua chegada, o grupo
sofre a pressão da empresa IDB Brasil, que passa a reivindicar a região carac-
terizando sua ocupação como invasão. Em nota oficial, a empresa declara:

A IDB Brasil, proprietária do terreno ocupado desde a última


sexta-feira (19/04) pelos índios guaranis Tekoa Mboy-ty,
em Maricá, esclarece que possui toda a documentação
legal de titularidade do imóvel. A empresa jamais foi

14 Fonte: G1. Disponível em: http://g1.globo.com/rj/regiao-dos-lagos/noticia/2014/06/aldeia-


indigena-vai-virar-ponto-turistico-em-marica-no-rj.html. Acesso em 18 de janeiro de 2017.

15 Abril Indígena é uma mobilização anual que ocorre no mês de abril em prol da defesa dos direitos
dos povos originários do Brasil. “Quando em abril de 2003 um pequeno grupo de indígenas do sul
do Brasil, especialmente  Kaingang,  Guarani  e  Xokleng, acampou na Esplanada dos Ministérios,
não imaginavam estar inspirando um importante processo de mobilização do movimento indígena
no Brasil. Somando-se a essa ação, representantes do  Conselho Indígena de Roraima, vieram
manifestar a aliados, como o Cimi, a intenção de realizar anualmente encontros para pressionar a
demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol. No que conseguiram total apoio para uma ampla
mobilização, tendo então surgido a proposta de realização, em abril de cada ano, do Acampamento
Terra Livre.” Fonte: Portal Outras Palavras. Disponível em: https://outraspalavras.net/
outrasmidias/as-raizes-do-abril-indigena/.

292
MONIQUE RODRIGUES DE CARVALHO

notificada sobre a existência de decisão administrativa ou


judicial capaz de conferir legalidade à referida ocupação.
A IDB Brasil respeita todas as manifestações de povos e
culturas tradicionais do país, trabalha pela recuperação da
identidade da pesca artesanal da Lagoa de Maricá e reitera
o compromisso de promover o legítimo desenvolvimento
sustentável de Maricá.16

O grupo teve a permanência garantida pela prefeitura, que ao mesmo


tempo reconhece a propriedade à empresa. Segundo declaração emitida nas
mídias locais, o prefeito se compromete em mediar a questão:

Com relação aos índios tupi-guaranis que ocuparam


uma área na restinga de Maricá onde está sendo
licenciado um grande Complexo Hoteleiro e Turístico, a
prefeitura de Maricá informa:

1 – Os índios serão bem acolhidos no município e terão


todo apoio da prefeitura para organizar em Maricá
sua aldeia, dando a ela, inclusive, uma característica
cultural e turística;

2 – Ao mesmo tempo é prioritária para o desenvolvimento


da cidade a implantação do Complexo Hoteleiro e
Turístico das praias da restinga de Maricá;

3 – Sendo assim, a prefeitura propõe que uma boa solução


seja encontrada, com base em uma negociação com apoio
da Funai, para garantir aos índios a conquista da sua aldeia,
e ao mesmo tempo, a construção do complexo turístico e a
tranquilidade da vila de pescadores de Zacarias;

4 – Para isso, a prefeitura disponibilizará uma área


pública e irá viabilizar, junto aos empreendedores, a
estrutura para o estabelecimento da aldeia indígena com
viés cultural e turístico;

5 – Com isso, a Prefeitura Municipal de Maricá garante uma


vida digna aos índios com a manutenção das suas tradições
e costumes, através de um projeto cultural e turístico.17

16 Fonte: Maricá Info. Disponível em: http://maricainfo.com/2013/04/25/indios-idb-emite-nota-


sobre-ocupacao-na-restinga.html. Acesso em 18 de janeiro de 2017.

17 Fonte: Maricá Info. Disponível em: http://maricainfo.com/2013/04/24/prefeitura-garante-


indios-em-marica.html. Acesso em 7 de novembro de 2017.

293
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

O fragmento deixa evidente o interesse turístico do ex-prefeito na vinda


do grupo para Maricá – algo que, junto ao resort que viria a ser construí-
do, poderia potencializar a economia turística da cidade. A questão ainda
permanece em impasse, pois a área ainda não está efetivamente concedida
aos indígenas para a consolidação da aldeia, ao mesmo tempo que a obra em
questão permanece embargada. De qualquer modo, outras questões subja-
centes se colocam sobre a inserção dos indígenas guaranis na cidade de Ma-
ricá, trazendo importantes pontos sobre a constituição do sujeito indígena
na contemporaneidade, e serão colocadas a seguir.

GUARANIS ENTRE DIFAMAÇÕES E CONFLITOS POLÍTICOS

Durante o desenvolvimento desta pesquisa, presenciei diversos ataques so-


fridos pela aldeia, que retratam tanto a sua relação com o entorno quanto a sua
entrada (mesmo que não intencional) nos conflitos políticos da cidade. Na tenta-
tiva de delinear um mapa do complexo conflito, poderiam-se elencar os seguintes
atores ou grupos envolvidos na questão: os indígenas, a prefeitura e os políticos de
oposição ao governo, a população de Maricá e a imprensa da cidade. Sobre a che-
gada das aldeias e seus subsequentes impactos na região, o que fica evidenciado
nesta exposição e que nos é interessante como atributo para reflexão é perceber
como o discurso que interpõe índios legítimos e índios não legítimos, índios mais
vulneráveis e menos vulneráveis é sentido e que ações desencadeia na aldeia. Essa
disputa de autenticidade e busca de recursos que possam engendrar esse lugar
mais autêntico está inserido em um jogo que reflete e impacta esse processo de
territorialização. A aldeia é amplamente atacada, e muitos desses ataques dizem
respeito ao que se espera do ser indígena expectativa que, em muitos casos, esta-
belece um descolamento do que é consolidado na realidade. Além de proposições
racistas, busca-se estabelecer no outro uma essencialização do índio purificado,
não conseguindo, neste caso, se sobrepor às intensas complexidades que se esta-
belecem nas identidades contemporâneas, sejam elas quais forem.
Como dito anteriormente, a aldeia fica localizada dentro da área de prote-
ção ambiental da cidade. Essa é uma área que, apesar de ter características de
um ambiente rural, em razão de sua natureza relativamente “intacta”, está a um
passo do meio urbano, já que em pouco mais de 500 metros chega-se ao bairro de
São José do Imbassaí, com toda a sua estrutura e acesso aos bens e serviços. Essa
proximidade faz com que a aldeia tenha que negociar o tempo todo com as ques-
tões e conflitos presentes nesta parte da cidade. Como a APA em muitos momen-

294
MONIQUE RODRIGUES DE CARVALHO

tos parece carecer de fiscalização constante, é comum ver ações de desova na


região, que inclusive já geraram conflitos no local, além de algumas operações
policiais, que pela complexidade de desencadeamento trago como exemplo para
esta reflexão. O fato relatado é a operação policial ocorrida na aldeia em 2018,
resultando em posterior reunião com representantes da polícia e da prefeitura. O
acontecimento foi registrado no site Lei Seca,18 provocando diversos comentários
negativos na página do jornal no Facebook. Pela primeira vez pude ler tais opi-
niões e ter uma ideia da imagem que muitos faziam dos indígenas.

Sempre soube desde criança, que os índios sobreviviam


da caça, pesca e plantavam seus próprios alimentos,
só aqui em maricá, que os índios vivem de dinheiro da
prefeitura !!

Essa cambada de vagabundos q se dizem índios, vivem


as custas do povo! N fazem nada na vida e tem carro,
celular, tatuagem e bebem feito gambá! Tem q por eles
pra comerem e beberem, do q conseguir na mata! Indio q
é ìndio n precisa de dinheiro!19

A reportagem, além de retratar o ocorrido, também registrou a presença


de Diego Zeidan, que aproveitou o ensejo da reunião para informar a apro-
vação da lei do Bolsa Mumbuca Indígena20 na Câmara de Vereadores, com
início decretado ainda para o ano de 2018. A aprovação do Projeto de Lei n.
156/201721 ocorreu em meio a conflitos na Câmara, sendo o vereador Chiqui-

18 Fonte: Lei Seca Maricá. Disponível em: https://leisecamarica.com.br/indios-dizem-que-estao-


assustados-com-acoes-da-pm-na-restinga-de-marica/. Acesso em 21 de novembro de 2019.

19 Fonte: Facebook Lei Seca Maricá. Disponível em: https://www.facebook.com/leisecamarica/


posts/1772539712817103 . Acesso em 27 de novembro de 2020.

20 O Bolsa Mumbuca Indígena é um programa de redistribuição e renda desenvolvido pela


Secretaria de Economia Solidária de Maricá. “O Cartão Mumbuca Indígena pagará 300 mumbucas,
correspondente ao valor de R$ 300 aos indígenas residentes no município há pelo menos três anos.
De acordo com a lei que fundamenta o programa, o projeto tem como proposta a recomposição da
dívida social do Estado Brasileiro, de modo a possibilitar a devida reinserção indígena, por meio de
uma compensação mínima mensal.” Fonte: Prefeitura Municipal de Maricá. Disponível em: https://
www.marica.rj.gov.br/2018/03/02/economia-solidaria-faz-cadastro-para-o-cartao-mumbuca-
indigena. Acesso em 7 de maio de 2020.

21 Projeto de Lei n. 156/2017, de autoria do Poder Executivo, através da mensagem 034/2017, que constitui
o Programa de Economia Popular Solidária, Combate à Pobreza e Desenvolvimento Sustentável de Maricá.
Foi atrelado à mesma proposta a bolsa de 50 reais para os estudantes e a bolsa mumbuca de 300 reais para
os indígenas. Relatos obtidos pela sessão da Câmara de Vereadores de Maricá no dia 6 de dezembro de
2017. Disponível em: https://www.facebook.com/leisecamarica/videos/1722741651130243/.

295
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

nho (PP) um dos maiores opositores do projeto. No dia 6 de dezembro de 2017,


data da votação, o vereador questiona sobre a renda de 300 reais destinada
aos 120 índios de Maricá, enquanto os alunos receberiam 50 reais. “Já deu
terra, agora vai dar verba pra eles também? Eu vou botar uma lei também
pra dar a eles enxada, pá, carrinho de mão e roçadeira, que eles trabalhem
na cidade pra ajudar o município em alguma coisa (sic)”.22 Houve nesse mo-
mento protesto das pessoas que assistiam à sessão, o que foi retrucado pelo
vereador: “Eu quero votar a favor dos alunos não a favor dos índios. O índio já
tem terra, já tem onde morar, já tem evento, agora falta o quê? Falta dar tra-
balho então na cidade. Agora eu não posso concordar dar dinheiro pra índio.
Isso não existe! Eu tenho elogiado o trabalho do prefeito, mas eu fico triste
vendo essa matéria vindo pra cá (sic)”.23 Vereadores do PT condenaram a fala
de Chiquinho, a exemplo do Doutor Richard:

Como titular da Comissão de direitos humanos e


minorias nós do PT acreditamos que nós não podemos
ter diferenças étnicas, de cultura (...) Isso é questão
preconceituosa de querer colocar o índio novamente
a escravidão, dar pá, enxada, daqui a pouco está
aprisionando o índio. Então eu, como titular da Comissão
de Direitos Humanos, acompanho o voto do líder do
partido PT. A questão dos valores pode ser discutida,
mas não podemos tratar os índios diferentemente de
outras etnias.24

Chiquinho demonstrou sua preocupação com o “excesso” de assistên-


cia: “Daqui a pouco vai vim mais índios pra cá. Mumbuca 300 contos no bol-
so, terra e vermelhinho de graça, vão vir pra cá. Não tem argumento pra isso
(sic)”.25 Sua fala foi endossada pelo vereador Ricardinho Netuno (PEN):

A maioria dos índios que vieram pra Maricá vieram


de Camboinhas, a especulação imobiliária lá fez com
que o prefeito cedesse à sedução e trouxesse os índios
pra cá. Eu fico muito preocupado com esse projeto

22 Relatos obtidos pela sessão da Câmara de Vereadores de Maricá no dia 6 de dezembro de 2017.
Disponível em: https://www.facebook.com/leisecamarica/videos/1722741651130243/.

23 Relatos obtidos pela sessão da Câmara de Vereadores de Maricá no dia 6 de dezembro de 2017.
Disponível em: https://www.facebook.com/leisecamarica/videos/1722741651130243/.

24 Ibidem.

25 Ibidem.

296
MONIQUE RODRIGUES DE CARVALHO

de lei, de estarem realmente querendo legalizar a


compra de votos na nossa cidade, fazendo com que os
índios e os estudantes fiquem atrelados a uma política
assistencialista, atendidos somente pela manipulação
do voto. Então isso me preocupa muito.26

O vereador já havia ido à aldeia em janeiro de 2017 e denunciado o aban-


dono dos indígenas por parte do antigo prefeito e do atual poder público –
fato também veiculado pelo jornal Lei Seca27 –, adotando uma postura que
se opõe ao seu atual posicionamento, contrário a uma política pública de
favorecimento direto ao grupo. Muitos demonstraram preocupação sobre
a necessidade de cadastro de índios, para que não viessem mais indígenas
pra Maricá atraídos pelos benefícios. Aldair coloca que só 120 índios seriam
contemplados pelo programa do Bolsa Mumbuca Indígena; ou seja, se mais
indígenas viessem para a cidade, a proposta teria de passar na câmara nova-
mente para verificar possibilidade de concessão de benefício especial.
Novamente sobre a repercussão na cidade, trago mais alguns comentá-
rios da divulgação veiculada no Facebook,28 que retratava tanto a operação
policial quanto a inauguração do programa Bolsa Mumbuca Indígena, para a
análise, por considerá-los importantes como retrato de um pensamento que
perpassa esse imaginário do que vem a ser o sujeito indígena e que trazem
elementos racistas e mistificadores dessa constituição.

Ontem estava eu e meu sogro no mercado de São José.


Tinha um índio lá, todo tatuado e pintado, comprando
cerveja entre outras coisas. Não sabia que indio precisava
de itens de mercado. Muito menos cerveja! (sic).Só eu li
até o final? Porra!!! Ainda vão ganhar 300 conto??? Tá de
sacanagem! Índio quer dinheiro pra que? Não vivem da
caça? Nos antepassados deles não existia dinheiro, como
sobreviviam? Coisa de PT mesmo querer dar dinheiro pra
quem não trabalha (sic).

Índios? Que índios? Até onde sei é um bando de


vagabundos cachaceiros que despejados de Itaipu
encontraram guarita em Maricá de Quaquá!!! Querem

26 Ibidem.

27 Fonte: Lei Seca Maricá. Disponível em: https://leisecamarica.com.br/vereador-ricardinho-


netuno-pen-se-reune-com-indios-da-restinga-de-marica/. Acesso em 21 de novembro de 2017.

28 Idem. Disponível em: https://leisecamarica.com.br/indios-dizem-que-estao-assustados-com-


acoes-da-pm-na-restinga-de-marica/. Acesso em 7 de maio de 2018.

297
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

brincar de índio que vá para a fronteira do Amazonas


com o Peru! Índio não tem ligação com terra: é nômade
por natureza. E, longe de ser conservacionista eles são
predadores, acabam os recursos aqui, partem para ali.
Esse negócio de índio ecologista só existe na cabeça
do Sting, Green Peace e na juventude de esquerda
imbeciloide de faculdade pública sustentado pelos pais. É
lindo ser comunista ou índio de iPhone! (sic).29

Foram mais de 600 comentários, dos quais pude constatar que em tor-
no de 90% condenaram a aldeia de alguma forma. Mais de uma vez, alguns
indígenas me relataram terem ficado tristes ao lerem a postagem, e uma
das integrantes disse sentir preocupação com relação à sua filha e ao futuro
dela. Disse que esses pensamentos dificultam a saída de muitos indígenas
das aldeias e que alguns jovens sentem receio em seguir os estudos fora de-
las. Realizei uma entrevista com Miguel Wera Mirim, um dos integrantes do
local. Miguel é nascido no Rio Grande (RS), na Aldeia Flor do Campo, e hoje
trabalha na área audiovisual, tendo realizado diversos cursos e palestras no
estado do Rio de Janeiro. Também trabalha com fotografia, tendo seu ma-
terial participado de uma residência artística no Museu de Arte do Rio na
exposição Jaguata Porã (2017/2018).30 Além disso, foi vice-cacique da aldeia.
Sobre esses comentários, muitos dos quais ainda relacionam os indígenas
com a prefeitura e seu partido, ele respondeu:

Não tem como a gente escapar desse comentário. A gente


não tem isso de partido. A gente não tem, não. Às vezes,
mesmo sem querer, ele está falando sobre ele mesmo
quando ele fala alguma coisa assim. Tudo que ele pensa
sobre os indígenas é fácil falar quando se julga as pessoas
de fora. O que está acontecendo é que o prefeito é do
partido do PT e ele apoiando da gente a gente aceita e ele
está fazendo coisas boas e a gente apoia, mas não quer
dizer que a gente é ligado ao partido. (...) Quem comanda
o município é obrigação fazer as coisas, na minha visão
é isso. Não é porque está comprando indígena, está
comprando pescador, não é porque tá comprando a gente
da comunidade negra. É obrigação dele. Você pensa que
se a gente gosta do PT, a gente estaria com a bandeira na

29 Comentários extraídos de publicação no Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/


leisecamarica/posts/1772539712817103 Acesso em 7 de maio de 2018.

30 Disponível em: https://museudeartedorio.org.br/programacao/dja-guata-pora-rio-de-


janeiro-indigena/. Acesso em 7 de maio de 2019.

298
MONIQUE RODRIGUES DE CARVALHO

mão. A minha bandeira é indígena, sou indígena. Não vou


não vou estar com a bandeira do 13 nem do 17. A minha
bandeira é indígena (sic).31

O fato descrito apresenta um pequeno recorte da situação recorrente na


cidade que traz elementos importantes para esta reflexão. Nos comentários
apresentados está presente a ideia de imemorialidade, já que a todo instan-
te é relembrado o fato de que os guaranis não são originários do município,
o que provoca certa desconfiança de muitos no processo de ocupação. Além
disso, trava-se um estereótipo do imaginário do que é ser indígena, que não
leva em consideração aspectos pungentes da contemporaneidade, trazendo
toda a complexidade para a construção de qualquer identidade, seja ela in-
dígena ou não. O que parece é que eles têm de lidar com essas expectativas
sobre o que é ser indígena o tempo todo – e isso é colocado tanto pelos repre-
sentantes da política, quanto por parte da população da cidade.
Algumas contribuições teóricas são importantes para entender essa re-
lação, que vai perpassar em diversos momentos desta pesquisa em anda-
mento, no que diz respeito às formas e estratégias lançadas pelo grupo para
responder às expectativas do outro, como os estudos de João Pacheco de Oli-
veira (1999), que nos trazem a necessidade de refletir sobre a construção da
etnicidade e como ela se dá em processo, que deve levar em conta tanto a
constituição do grupo como seu percurso histórico. O autor revela em seus
estudos a pressão existente para que os indígenas levantem traços distin-
tivos, pressão distinta da que é colocada em outros grupos que compõem o
mesmo espaço temporal. “Uns estão situados na história e caracterizam-se
pela complexidade; outros são como estátuas, (...), monumentos de pedra que
podem ser destruídos, deformados ou parcialmente danificados – mas que
se não o forem se apresentarão sempre idênticos a como foram concebidos”
(OLIVEIRA, 1999, p. 7).
Para o autor, o conflito do contato europeu-indígena gerou uma pla-
nificação da categoria para a classificação europeia, que colocou no outro
o retrato da simplicidade do passado – e tal visão permanece até hoje no
senso comum. Para dar conta da complexidade de agora, João Pacheco traz
para a sua análise a junção entre antropologia e história, “(...) na intenção
de mostrar que uma compreensão das sociedades e culturas indígenas não
pode passar sem uma reflexão e recuperação críticas de sua dimensão his-

31 Trecho da entrevista concedida por Miguel Vera Mirim, em outubro de 2019.

299
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

tórica” (OLIVEIRA, 1999, p. 8). Trata-se, aqui, de pensar nos indígenas como
sujeitos históricos, e não como resquícios do passado. Falando de dimensão
histórica, o autor busca analisar a interação do grupo em questão com outros
grupos que compõem a mesma sociedade e como essa interação interfere e
atribui valores na própria organização interna do grupo. Esses aspectos são
cruciais para o entendimento da análise.
O que se percebe também, tratando do caso discutido sobre o estabeleci-
mento da aldeia em Maricá, é a invisibilidade dessa discussão sobre a questão
indígena na cidade, que deveria ser mais fomentada e promovida pelos pró-
prios integrantes da aldeia, o que fortalece as múltiplas histórias circulantes.
Muitos eventos e convites já foram realizados pela prefeitura nesse sentido,
mas imagino que ainda haja um longo caminho a se trilhar. Tais questões fo-
ram trazidas em algumas entrevistas realizadas com moradores da cidade.

Eu acho totalmente invisibilizado. Trabalhando no IFF


de Campos, mas estando ainda em Maricá, eu não sabia
da existência da aldeia. As pessoas não sabem da aldeia.
No Festival da Utopia que eu fiquei sabendo da existência
da aldeia, mas muita gente me falou para não ir porque
era muito perigoso. Eu lembro que a minha mãe tinha
muito medo que eu fosse no show na aldeia. Faz parte do
imaginário coletivo imaginar o índio como uma pessoa
violenta. Aquela ideia de que o indígena é selvagem,
que ele vai te atacar. Eu fui a primeira vez na aldeia em
2017 e consegui levar minha mãe. (...) É uma coisa meio
oculta, assim, a maioria das pessoas nem sabe que ela
existe, quando sabe que existe não sabe o que acontece
lá. Também falam que são todos vagabundos, que eles
ganham bolsa do governo, que eles têm celular, carro.
Aquele esteriótipo que ele deixa de ser índio quando ele
começa a usar esses elementos da sociedade (sic).32

Quando morei em São José do Imbassaí eu fiquei sabendo


que existe uma aldeia, quando eu fiz a trilha que vai
dar na praia eu descobri que tinha a aldeia.  Mas não se
escutava falar muito da aldeia. Era a aldeia lá e as pessoas
aqui. (...) Eu passava lá mas não sabia se tinha abertura
para pessoas de fora conhecer. Eu tinha curiosidade mas
eu tinha medo de invadir o espaço dos outros. (...) O que
eu escuto atualmente é uma confirmação do que a gente

32 Entrevista concedida por Irene (nome fictício), professora do Instituto Federal de Maricá, em
maio de 2019.

300
MONIQUE RODRIGUES DE CARVALHO

escuta na internet, que as índias fazem programas. Eu


não sei se as pessoas falam isso porque convivem e veem
ou se estão repetindo coisas que escutam na internet. É a
falta de conhecimento também, porque eles acham que
o índio tem que ser selvagem  e falam que eles ganham
dinheiro do governo, que eles andam de Hilux. Eu não sei
se eles andam de Hilux, eu não fico reparando. Segundo
o pensamento de alguns é um bando de vagabundo
sustentado pelo governo (sic).33

A questão ainda permanece aberta, mas traz dados relevantes para


serem discutidas as novas formas de territorialização, engendradas pela
Constituição de 1988 e os conflitos inerentes sobre o tema. Os pontos apre-
sentados quanto à relação da permanência dos indígenas na região oferecem
aspectos interessantes para refletir sobre as relações entre a territorializa-
ção, com as estratégias pensadas pelos indígenas para se estabelecer no lo-
cal frente à pressão constante que nega a sua legitimidade, principalmente
no que diz respeito à imemorialidade de sua ocupação – ideia promulgada
de que a legitimidade indígena só pode ser possível a partir da apresentação
de traços do índio purificado, originário do local, sob uma perspectiva que
não compreende a complexidade atual dessa relação entre o processo étnico,
mobilização e demanda por terras.
A metáfora da viagem da volta estabelecida por João Pacheco (2016) pode
ser igualmente útil para se pensar essa construção da identidade étnica. O
autor vai estabelecer uma etnologia dos índios misturados, evidenciando
primeiro como se estabeleceu a formação do objeto intitulado “índios do
nordeste”, “mostrando como concretamente se inter-relacionaram mode-
los cognitivos e demandas políticas” (OLIVEIRA, 2016, p. 194). Descreven-
do o processo da viagem da volta, o autor a relaciona não a um retorno es-
sencializado da origem do processo étnico em seu marco zero, mas a uma
perspectiva construtivista que perpassa a metáfora do tronco e da ponta de
rama: os índios contemporâneos são a ponta de rama, com seus aspectos
multissituados, mas vêm do tronco, da estrutura da raiz. Esse aspecto deno-
ta o fortalecimento do sentimento de origem e pertencimento que revigora
a percepção coletiva de identidade. A origem construída é parte da identida-
de que se constrói nesse processo. A viagem de volta é a metáfora realizada
por João para representar a etnicidade indígena. Movimento de um retor-
33 Entrevista concedida por Breno (nome fictício), artista e funcionário da Secretaria Municipal de
Cultura, em maio de 2019.

301
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

no à origem, no sentido do que os grupos consideram o que deixa alguém


próximo ou distante, em uma comunhão de sentidos e valores. As ideologias
produzidas pelo próprio grupo têm de ser consideradas, porque é isso o que
vai impulsionar a ação. João Pacheco denota que todos os sujeitos estão em
etnogênese, em qualquer sociedade e etnia, reforçando a ideia de mudança
constante. Para João, neste aspecto, “índios misturados” não é uma catego-
ria analítica, sendo seu trabalho focado na desconstrução desse conceito. A
origem é produzida culturalmente. A trajetória do grupo é estabelecida pelo
material histórico e geográfico, além das lembranças do próprio grupo. A
outra dimensão é a construção da própria origem, o que o grupo sente como
pertencente à própria história.
Nesse aspecto, pensar em etno-história, investigando-se o marco zero
do contato, é impensável. Na concepção de identidade indígena, o que in-
teressa para a análise em questão é informar o que o grupo entende como
original, e não a comprovação de que o grupo tem um território legítimo.
Nessa perspectiva, a terra indígena é considerada um artefato politico, uma
construção, sendo o Estado parte deste processo, como um ator político. A
dimensão política territorial é constitutiva da identidade indígena. Assim
sendo, o grupo constrói sua identidade no processo de territorialização. A
correlação de forças pode mudar, afetando diretamente o modo como se pro-
mulgam as reivindicações sobre a terra; por isso, torna-se fundamental en-
tender que o grupo responde não de maneira intrínseca, mas na estratégia
de interação. A terra indígena, como artefato político, é uma unidade jurídica
administrativa do Estado brasileiro e um elemento-chave para compreender
as formas de mobilização que estão em seu entorno.

Nesse sentido, a noção de territorialização é definida


como um processo de reorganização social que
implica: 1) a criação de uma nova unidade sociocultural
mediante o estabelecimento de uma identidade étnica
diferenciadora; 2) a constituição de mecanismos políticos
especializados; 3) a redefinição do controle social sobre
os recursos ambientais; e 4) a reelaboração da cultura e
da relação com o passado (OLIVEIRA, 2016, p. 203).

O território, nesse aspecto, é um fator de mediação entre pessoa e gru-


po étnico. Tal perspectiva também está presente em outros autores, como
Alfredo Wagner (2004), que busca apresentar a importância de, a partir da
diversidade do presente, desconstruir a essencialidade do passado, pensan-

302
MONIQUE RODRIGUES DE CARVALHO

do como as definições foram produzidas. Alfredo busca apresentar, a partir


de movimentos sociais pungentes na Amazônia e que associam território e
identidade, a territorialidade como um fator de identificação, defesa e força,
em uma noção de tradicional que não se reduz à história, mas é vista como
unidade de mobilização. Esses são aspectos amplamente fortalecidos pela
Constituição brasileira de 1988, que consolida a relação entre a emergência
desses movimentos sociais e os processos de territorialização existentes.
Nesse sentido, apresenta-se uma nova noção jurídica do Estado: de uma
perspectiva positivista para uma noção pluralista, na qual essas diversida-
des passam a ser reconhecidas juridicamente. É evidente que, do modo como
a prática apresenta, essas são questões conflitantes, e os aspectos positivis-
tas de homogeneização e essencialidades retornam e trazem o conflito para
o campo que se apresenta de forma cada vez mais dinâmica e complexa. Isso
se revela na dificuldade ainda presente e apresentada pelo autor de se reco-
nhecerem as terras tradicionalmente ocupadas. Nesse contexto, surgem e se
fortalecem cada vez mais coletividades nomeadas a partir de suas especifi-
cidades e uso dos recursos naturais.

As terras vão sendo incorporadas segundo uma ideia de


rede de relações sociais cada vez mais fortalecida pelas
autodefinições sucessivas ou pela afirmação étnica (...)
Assim, juntamente com o processo de territorialização
tem-se a construção de uma nova “fisionomia étnica”,
através da autodefinição de recenseado e de um
redesenho da sociedade civil, pelo advento de centenas
de novos movimentos sociais, através da autodefinição
coletiva (ALMEIDA, 2004, p. 29).

Assim, as territorialidades específicas não são naturais, mas se consti-


tuem no processo de territorialização, visto que a determinação do território
interfere nas relações do grupo, no que diz respeito à sua organização eco-
nômica, à relação com o ambiente natural, cultural e à organização de suas
relações de parentesco. A categoria “territorialidade” em Alfredo se apro-
xima em diversos aspectos do termo “territorialização” utilizado por João.
As análises propostas neste trabalho visam ao fortalecimento da dimensão
histórica, que se estabelece no campo, na busca de uma etnografia que se
firme pela prática e pelos desafios que propõe; uma análise feita a partir dos
dados que o campo informa, sendo realizada do campo para a teoria, e não
da teoria para o campo.

303
ESTUDOS MARICAENSES: O MUNICÍPIO DE MARICÁ EM DEBATE

Esses autores são de suma importância no desenvolvimento deste tra-


balho, justamente para reforçar a necessidade de uma análise que evidencie
a formação do grupo em seu processo de territorialização como um processo
dinâmico e não estático, tomando como ponto de partida a ideia de que se
constrói um território quando os sujeitos o ocupam, reproduzindo um modo
de vida no espaço físico, não importando o tempo ou história e imemoriali-
dade da ocupação.
O caso em questão levanta aspectos que se aproximam das perspectivas
apresentadas, justamente por serem fortemente relacionados à sua articula-
ção política com a articulação do Estado em um processo dinâmico de orga-
nização e resposta às demandas produzidas por ele, tendo de responder aos
desafios colocados pela conjuntura local. No caso em questão, a ocupação e a
permanência do grupo em Maricá tiveram relação direta com a interferência
do Estado – a saber, o convite do prefeito e o apoio concedido à ocupação.
Outro dado que se percebe a partir dos dados trazidos pela saída do grupo
de Paraty, sua tentativa de permanência em Camboinhas até a chegada em
Maricá é que a questão da imemorialidade ainda perpassa as argumentações
presentes da população local, que coloca a ilegitimidade da ocupação. Esses
argumentos trazem fortemente a ideia de continuidade histórica e cultural
em contraposição à concepção processualista e diversa que se pretende colo-
car. Essa perspectiva está presente até hoje em um modelo cognitivo que, por
exemplo, considera os indígenas como um grupo que atua em uma “tem-
poralidade” outra, como um primitivo atemporal, não compreendendo esse
grupo como atuante em múltiplas vertentes que influenciam e modelam sua
atuação em um contexto contemporâneo.
Nesse caso, algumas indagações serão norteadoras para estabelecer os
objetivos presentes no trabalho. Pretende-se focar na análise do grupo como
constituição de sujeitos políticos em constante processo de reformulação de
sinais diacríticos, para se estabelecer na arena política do jogo estabelecido
na demanda por terras, sendo indígenas atuantes no jogo da questão agrária
e na constituição do processo de territorialização. Para os autores que con-
cernem o centro deste trabalho, o grupo não é passivo diante disso. O que é
de fato relevante pensar é que o grupo em questão opera com que existe no
jogo. O que se revela importante mostrar é quais são as regras do jogo que
estão em pauta e os argumentos que estão sendo colocados, esmiuçando e
desconstruindo o jogo, para que, assim, se possa analisar a discursividade
presente que revela os conflitos e atores em questão.

304
MONIQUE RODRIGUES DE CARVALHO

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, A. W. Terras tradicionalmente ocupadas: processos de terri-


torialização, movimentos sociais e uso comum. In: Terras de Quilombo, Ter-
ras Indígenas, “Babaçuais Livres”, “Castanhais do Povo”, Faxinais e Fundos
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SILVEIRA, V. L. P. A escola kyringue aranduá: a educação escolar como
alicerce de afirmação da identidade étnica. Monografia apresentada à Fa-
culdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2017.
VALDIVIA DIAZ, E. M. P. A (re)existência do cotidiano: imagens e mulhe-
res guarani mbya. Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Psi-
cologia, Programa de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e
Ecologia Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018.

305
SOBRE AS AUTORAS E OS AUTORES

Camila de Almeida Teixeira é mestra em Turismo na Faculdade de Turismo e


Hotelaria da Universidade Federal Fluminense (PPGTUR/UFF), graduada em Tu-
rismo pela Universidade Federal Fluminense (FTH/UFF) e pós-graduanda em
Tecnologias Digitais e Inovação na Educação pela Universidade Cruzeiro Sul. In-
tegrante do grupo de pesquisa no CNPq “Experiências em Turismo e Transporte
Ativo” (ETTA) nas linhas de pesquisa: (i) cicloviagens e cicloturismo; (ii) mobili-
dade turística, atividade física e saúde.

Carla Carvalho é professora adjunta do departamento de Geoquímica da


Universidade Federal Fluminense (UFF), com pós-doutorado em Física
Atômica e Molecular na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ;
2009-2010). Atualmente, é coordenadora do Laboratório de Radioisótopos
Aplicados ao Meio Ambiente (LARAMAM), do Laboratório de Radiocarbono
(LAC-UFF) e do Laboratório Multiusuário de Criogenia da UFF (CRIO-UFF),
atuando nas pós-graduações em Geociências (Geoquímica) e Física na UFF.
Além disso, é JCNE-FAPERJ e possuiu bolsa de pesquisa do CNPq. As suas
áreas de concentração são geocronologia por 14C-MAS (espectrometria de
massa com aceleradores) e por 210Pb (espectrometria da radiação gama), com
projetos aplicados às temáticas de arqueologia, estudos paleoambientais,
geologia, geografia, contaminação ambiental e biorremediação.

Carmem Aparecida do Valle Costa Feijo é graduada em Economia pela Univer-


sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1974), mestra em Economia da Produção
pela UFRJ (1977), PhD em Economia pela University College London (1988), com
pós-doutorado pela Columbia University (2015). Atualmente é professora titular
da Universidade Federal Fluminense, bolsista de produtividade do Conselho Na-
cional de Pesquisa (CNPq) e editora dos Cadernos do Desenvolvimento do Cen-
tro Celso Furtado (desde 2014). Foi Secretária Executiva da Associação Nacional
de Pós-Graduação em Economia (ANPEC, 2008-2009), representante da área de
Economia na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CA-
PES, 2011-2014). É atualmente Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financei-
rização e Desenvolvimento (FINDE). Atua principalmente nos seguintes temas:
desenvolvimento econômico, macroeconomia estruturalista, indústria. 

Elizabeth Maria Feitosa da Rocha de Souza é geógrafa e professora permanente


do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-graduação em Geografia,

307
na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Integra o laboratório Espaço de Sen-
soriamento Remoto e Estudos Ambientais, dedicando-se à pesquisa na área de
geoinformação, Sensoriamento Remoto, Geoprocessamento e dos Sistemas de
Informação Geográfica. Atualmente desenvolve pesquisas específicas voltadas
à modelagem, simulação e geração de cenários prognósticos, criação de indica-
dores socioambientais, análise espacial e a validação de métodos para o mapea-
mento a partir de diferentes sensores remotos orbitais.

Evelyn de Castro Porto Costa é mestra em Geografia, na área de concentração de


Natureza e Dinâmica da Paisagem, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
É formada em licenciatura em geografia pela Faculdade de Formação de Profes-
sores da UERJ e bacharela em Geografia pela Universidade Federal Fluminense.
Também é membra do grupo de pesquisa Dinâmicas Ambientais e Geoprocessa-
mento da UERJ-FFP. Possui experiências profissionais na área de geotecnologias
e meio ambiente adquiridas em atuações em grupos de pesquisa, órgãos públicos
e ONGs. Suas pesquisas acadêmicas estão relacionadas aos temas de cartografia,
sensoriamento remoto e geoprocessamento aplicados a análises urbano-am-
bientais e uso e cobertura da terra, além de experiências com projetos de exten-
são com uso de geotecnologias no ensino de Geografia.

Fábio Waltenberg é professor associado do departamento de Economia


da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e pesquisador do Centro
de Estudos de Desigualdade e Desenvolvimento (CEDE-UFF). É bacharel e
mestre em Economia pela Universidade de São Paulo e doutor em Economia
pela Université Catholique de Louvain, Bélgica. Atualmente (2020-2021),
realiza pesquisa pós-doutoral na Cátedra de Desigualdades do Colégio
Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob
supervisão de Celia Kerstenetzky, e coordena a equipe brasileira envolvida
na avaliação do programa de Renda Básica de Cidadania em Maricá. Publicou
dezenas de artigos em periódicos nacionais e internacionais, sobretudo de
análise econômica de políticas sociais, especialmente daquelas relacionadas
às áreas de educação e transferências de renda.

Fátima Priscila Morela Edra é doutora em Ciência Política pela Universida-


de Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em Lisboa, Portugal.  Profes-
sora adjunta nos cursos de mestrado e graduação em Turismo na Faculda-
de de Turismo e Hotelaria da Universidade Federal Fluminense (PPGTUR/
FTH/UFF). Líder do grupo de pesquisa no CNPq “Experiências em Turismo

308
e Transporte Ativo” (ETTA), com duas linhas de pesquisa: (i) cicloviagens e
cicloturismo; (ii) mobilidade turística, atividade física e saúde.

Fernando Amorim Teixeira é economista pela Pontifícia Universidade Católica


de São Paulo (PUC/SP), mestre em Economia Política Internacional pela Univer-
sidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ) e doutorando em Economia pela
Universidade Federal Fluminense (PPGE/UFF), onde é Pesquisador do Grupo de
Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE). Foi pesquisador do
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e atualmente é téc-
nico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos
(DIEESE). Atua principalmente nos temas do Crédito, Financiamento de Longo
Prazo e Infraestrutura.

Humberto Marotta é professor associado do departamento de Geografia da Uni-


versidade Federal Fluminense (UFF), com pós-doutorado nas universidades de
Linköping e Uppsala (Suécia, 2010-2011). Atualmente, é coordenador do Labora-
tório de Ecossistemas e Mudanças Globais (LEMG-UFF) e da Unidade Multiusuá-
rio de Gases de Efeito-Estufa e Combustíveis Voláteis (GAS-UFF), atuando como
docente dos programas de pós-graduação em Geografia (POSGEO-UFF) e Geo-
química Ambiental (PPGeoq-UFF). É pesquisador bolsista do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), bem como da Fundação
Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). A
sua linha de pesquisa abrange os efeitos das mudanças globais nos ecossistemas
aquáticos tropicais, visando subsidiar ações de planejamento e gestão.

Igor Ribeiro Roboredo é gestor público pela Universidade Federal do Rio de Janei-
ro (UFRJ), pós-graduado pela Universidade Estácio de Sá (UNESA) e pesquisador
do INCT Observatório das Metrópoles – Núcleo Rio de Janeiro. Atua nos proje-
tos de pesquisa referentes à Economia Metropolitana em âmbito nacional, tendo
como base os Orçamentos Públicos municipais divulgados pelo Tesouro Nacional
e pelos Tribunais de Conta dos Estados e Municípios.

Jimmy Medeiros é doutor em Políticas Públicas, Estratégia e Desenvolvimento


pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Estudos Populacionais e
Pesquisas Sociais (ENCE/IBGE) e bacharel em Ciências Sociais (UFF). Pesquisador
pleno na FGV CPDOC, coordenador de Ensino de Graduação da Escola de Ciências
Sociais FGV CPDOC e professor do Programa de Pós-Graduação em História, Polí-
tica e Bens Culturais da FGV. Coordenou o projeto “Desafios dos 15 anos da Renda

309
Básica de Cidadania no Brasil: perspectivas do debate político-acadêmico e com-
parativos com casos no mundo”, permitindo publicar e apresentar trabalhos em
eventos acadêmicos.

Josefa Jandira Neto Ferreira Dias é doutoranda em História Comparada pelo Pro-
grama de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Fe-
deral do Rio de Janeiro. Arqueóloga Coordenadora do Projeto de Monitoramento,
Prospecção e Resgate das obras de restauração do Antigo Convento do Carmo, RJ.
Publicou O Castelo, que nunca foi, da Marquesa de Santos (2011), A pré-história e a
História da Baixada Fluminense – A ocupação Humana da Bacia do Guandu (2017),
Na Arqueologia, o que é Educação Patrimonial (cartilha em 2017). Atua com criação
e gerenciamento do Projeto de treinamento de jovens aprendizes em Arqueolo-
gia – Projeto Pesquisador Curumim (2003-2020). É diretora vice-presidente do
Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB).

Kevin Campos Martins é geógrafo pela Universidade Federal Fluminense (UFF,


2020), onde atua como pesquisador colaborador do Laboratório de Ecossistemas
e Mudanças Globais (LEMG-UFF) desde 2017. Foi bolsista da Fundação Carlos
Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) entre
2018 e 2019. Apresenta experiência em análises de sedimentologia, biogeoquímica
e geoprocessamento, tendo realizado estudos sobre o município de Maricá e
seus ecossistemas lacustres. Os resultados de suas pesquisas têm possibilitado
uma melhor compreensão dos efeitos das mudanças globais e ações locais,
apresentando subsídios à gestão e ao planejamento urbano-ambientais.

Leonardo Amora Nogueira é geógrafo (bacharel e licenciado) pela


Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi bolsista FAPERJ Nota 10 da
Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de
Janeiro durante o Mestrado (2016) e o Doutorado (2020) em Geografia pela UFF,
bem como da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES) em estágio de intercâmbio na Universidade do Sul da Florida (2019-
2020). Atualmente, é pesquisador colaborador do Laboratório de Ecossistemas
e Mudanças Globais (LEMG-UFF), com experiência em indicadores
sedimentológicos e biogeoquímicos associados a técnicas de geoinformação.
Entre seus temas de interesse, encontra-se a relação das mudanças de uso e
cobertura do solo com a acumulação recente de matéria orgânica e nutrientes
em lagoas costeiras e lagos da Amazônia e do Pantanal.

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Luciana Gonzaga Bittencourt atuou durante nove anos na Pró-Reitoria de Ex-
tensão da Universidade Federal Fluminense (PROEX/UFF), onde elaborou, or-
ganizou e executou diferentes ações de extensão, sendo uma das fundadoras do
Programa UFF Mulher. Atualmente, é colaboradora do Programa de Extensão
Mulherio: tecendo redes de cuidado e resistência, ligado ao Departamento de Psi-
cologia da UFF/Niterói. É uma das organizadoras da coletânea de artigos Gênero,
Diversidade Sexual e Direitos Sociais: debates pré-eliminares, publicada pela EdUFF.
Pesquisadora com interesse nas seguintes áreas: cultura, comunicação, gênero/
feminismo, direitos humanos, trabalho escravo contemporâneo e extensão uni-
versitária. Atua como assessora de projetos da Escola Municipal de Administra-
ção de Maricá (EMAR) no desenvolvimento de cursos de extensão em EAD.

Marcelo Gomes Ribeiro é professor do Instituto de Pesquisa e Planejamen-


to Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Coordenador do INCT Observatório das Metrópoles – Núcleo Rio de Janeiro.
Coordenador dos projetos nacionais de pesquisa “Economia metropolitana e de-
senvolvimento regional” e “Estrutura social das metrópoles brasileiras”, no âm-
bito do INCT Observatório das Metrópoles. É organizador, junto com Luiz César
de Queiroz Ribeiro, dos livros Metrópoles brasileiras: síntese das transformações da
ordem urbana – 1980 a 2010, Análise social do território: fundamentos teóricos e meto-
dológicos e IBEU: índice de bem-estar urbano, publicados pela editora Letra Capital. 

Marcelo da Silva Araújo é docente de Sociologia do Colégio Pedro II e atua, tam-


bém nesta instituição, como coordenador e professor da Licenciatura em Ciências
Sociais. Desempenhou, entre outras, as seguintes atividades: a supervisão do PI-
BID Ciências Sociais (UFF, 2016 a 2019), conteudista e tutor de cursos de extensão
em Ciências Humanas (CECIERJ, 2012 a 2015), coordenação e docência da Espe-
cialização em Ciências Sociais e Educação Básica (Colégio Pedro II, 2017 e 2018)
e supervisão do Programa de Residência Docente (Colégio Pedro II, 2017 e 2018).
Possui experiência de pesquisa relacionados à memória, fotografia e educação
em História Local; juventude, cultura e imagens urbanas contemporâneas; so-
ciabilidade, imigração, identidade e religião na diáspora em Antropologia Urba-
na; e Antropologia na/da Educação Básica.

Milford Bateman é professor visitante de Economia na Juraj Dobrila na Uni-


versidade de Pula, na Croácia, professor adjunto em Estudos de Desenvolvi-
mento na Saint Mary’s University, Halifax, Canadá, pesquisador honorário da
Royal Holloway, Universidade de Londres, Reino Unido, e pesquisador asso-

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ciado da Universidade Federal Fluminense (UFF), Rio de Janeiro, Brasil. Seu
último livro publicado em janeiro de 2019 pela Routledge em cooperação com
a UNCTAD e coeditado com Stephanie Blankenburg e Richard Kozul-Wright é
intitulado The rise and fall of global microcredit: development, debt and disillu-
sion. Atualmente, trabalha na segunda edição atualizada de seu livro de 2010
Why Doesn’t Microfinance Work? The Destructive Rise of Local Neoliberalism, que
deve ser lançado no início de 2021 pela Bloomsbury Publishing.

Monique Rodrigues de Carvalho possui graduação em Ciências Sociais pela


Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2012) e mestrado em Ciências Jurí-
dicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense (2015). É doutoranda do
Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Flu-
minense. Atua principalmente nos seguintes temas: Arte, Movimentos So-
ciais, Conflitos Ambientais e Movimento Indígena. Integra o Lemisti (Labo-
ratório de Estudos de Movimentos Sociais, Trabalho e Identidade) do IFCH/
UFF e o projeto de pesquisa “Regimes nacionais de autoctonia. Situações au-
tóctones e questão nacional nas Américas e na Oceania (século 19 - tempo
presente)” (cooperação Capes/Cofecub). Atualmente pesquisa o processo de
territorialização do grupo guarani mbya que compõe a aldeia Tekoa Ka’Aguy
Hovy Porã em Maricá (RJ).

Ondemar Ferreira Dias Junior é professor titular de História da América aposen-


tado do Curso de História do Instituto de História da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, onde dirigiu o Curso de Mestrado em História entre 1987 e 1989. É pós-
-graduado em Arqueologia (1962-CEPA-UFPR), diretor presidente do Instituto de
Arqueologia Brasileira (IAB) e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro.

Raquel Alvitos Pereira é professora adjunta da área de História Medieval do


Departamento da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Atualmente
é coordenadora institucional do Programa Residência Pedagógica da UFRRJ/
CAPES. Integra atualmente o corpo docente do Programa de Pós-Graduação
em Patrimônio, Cultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro (PPGPACS-UFRRJ). Orientadora de trabalhados na área de patrimô-
nio, especialmente, àqueles que se voltam para o resgate das singularida-
des locais da Baixada Fluminense e ainda estudos sobre festas, expressões
literárias e performances artísticas constitutivas do processo de formação
identitária das sociedades. É membro-fundadora do Pluralitas – Núcleo

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Interdisciplinar de Estudos Históricos (UFRRJ-CNPq), através do qual fun-
de com seus pares, sobretudo das áreas de História Antiga e Medieval, uma
nova perspectiva da Antiguidade e da Idade Média.

Rayanne de Medeiros Gonçalves possui graduação em Ciências Sociais pela Uni-


versidade Federal Fluminense e mestrado em Ciências Sociais pelo Programa de
Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Socie-
dade da UFRRJ. Atualmente trabalha como Orientadora Educacional no Projeto
Mumbuca Futuro, implementado pela Secretaria de Economia Solidária do mu-
nicípio de Maricá. Suas principais experiências são nas áreas de Sociologia dos
Movimentos Sociais Rurais, Economia Solidária e Educação Popular. Entre as
principais produções está o capítulo “Ação sindical e o regime militar: o Sindicato
dos Trabalhadores Rurais de Campos dos Goytacazes entre as décadas de 1960 e
1980” para o livro Ditadura, conflito e repressão no campo: a resistência camponesa
no estado do Rio de Janeiro, organizado pela Doutora Leonilde Servolo de Medeiros
e publicado pela editora Consequência no ano de 2018, e o artigo “Repressão no
campo durante a ditadura civil-militar: reflexões acerca da resistência e memória
do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campos dos Goytacazes”.

Rodrigo Coutinho Abuchacra é professor adjunto do Departamento de Geo-


grafia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Faculdade de Formação de
Professores). Tem pós-doutorado em Geografia (2016), doutorado em Dinâmica
dos Oceanos e da Terra (2015) e mestrado em Geologia e Geofísica Marinha (2010)
pela Universidade Federal Fluminense. Graduado em Geografia pela Universida-
de do Estado do Rio de Janeiro (2008). É docente do Programa de Pós-Graduação
(stricto sensu) em Geografia da UERJ-FFP. Experiência profissional com ênfase em
Geografia Física, Sedimentologia e Mudanças Ambientais. Entre seus principais
interesses, destacam-se variações do nível do mar, mudanças climáticas e inter-
venções humanas em baías, estuários e lagunas.

Sérgio Domingos de Oliveira é bacharel em Turismo e Hotelaria pela Uni-


versidade do Vale do Itajaí, especialista em Administração do Turismo pela
UFSC/FEPESE, mestre e doutor em Engenharia de Produção, linha de pesquisa
Gestão Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente
é membro do Conselho Editorial da Revista de Iniciação Científica CESUMAR,
consultor ad hoc das revistas Turismo: Visão e Ação (Itajaí); Turismo em Análise
(USP), RBTur, Rosa dos Ventos (UCS) e Revista Gestão em Análise. É professor do
curso de Bacharelado em Hotelaria e do Curso de Licenciatura em Turismo da

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UFRRJ, atuando nos seguintes temas: turismo responsável, certificação e sus-
tentabilidade hoteleira, serviço com cervejas artesanais. É pesquisador-líder
do Grupo de Pesquisas TRECHOS e consultor pro bono em meios de hospeda-
gem e serviço com cervejas artesanais. É pesquisador-líder do Grupo de Pes-
quisas TRECHOS e consultor pro bono em meios de hospedagem.

Tatiana Macedo da Costa é licenciada em Turismo pela Universidade Federal Ru-


ral do Rio de Janeiro. Pós-Graduação concluída lato sensu em MBA Meio Ambiente
e Desenvolvimento Sustentável pela Cândido Mendes. Mestrado stricto sensu em
andamento no Programa de Pós-Graduação em Patrimônio, Cultura e Sociedade
(PPGPACS-UFRRJ), com pesquisa em andamento com o tema: Identidade e Me-
mória: A tradição e o Saber-Fazer das Tapeceiras do Espraiado. Desenvolve pes-
quisas nas áreas de Patrimônio, Cultura, Memória e Sociedade, tendo pesquisas já
realizadas e publicadas com ênfase nos temas: Maricá; Turismo Rural; Turismo
de Base Comunitária; Turismo Cultural; Uso-Público; Patrimônio; Ecoturismo;
Educação Ambiental; Unidades de Conservação.

Thaís Cristina Souza de Oliveira é mestra em Tecnologia para o Desenvolvimen-


to Social pelo NIDES/UFRJ e graduada em Administração pela Universidade Fe-
deral do Rio de Janeiro. Atua como orientadora educacional em Educação Popular
e Economia Solidária no Programa Mumbuca Futuro na cidade de Maricá desde
2018, foi vice-coordenadora do Núcleo de Solidariedade Técnica da UFRJ (SOL-
TEC/UFRJ) e trabalhou, em 2015 e 2016, como pesquisadora e gestora financei-
ra no Projeto de Avaliação participativa, qualitativa e quantitativa das ações do
Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares (PRONINC). Tem
experiência em Economia Solidária, Educação Popular, elaboração de materiais
pedagógicos, assessoria a empreendimentos populares, metodologias participa-
tivas e gestão de projetos de extensão universitária e sociais.

Vandré Soares Viégas é bacharel em Ciências Matemáticas e da Terra, mestre em


Geografia e atual doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia, na
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Integra o Laboratório Espaço de Senso-
riamento Remoto e Estudos Ambientais onde desenvolve pesquisas direcionadas
a dinâmica urbana, com foco na modelagem de cenários, utilizando ferramentas
do Sensoriamento Remoto, Geoprocessamento e Sistemas de Informações Geo-
gráficas. Tem desenvolvido trabalhos nos eixos temáticos de detecção de mu-
danças, mapeamento de uso e cobertura do solo, classificação orientada a objetos
geográficos a partir de diferentes sensores remotos orbitais.

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Vinicius da Silva Seabra é professor doutor do Departamento de Geografia da Fa-
culdade de Formação de Professores (DGEO-FFP) da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro, campus São Gonçalo. Também é coordenador adjunto e profes-
sor do Programa de Pós-Graduação em Geografia do DGEO-FFP e coordenador
do grupo de pesquisa Dinâmicas Ambientais e Geoprocessamento, na mesma
instituição. Desenvolve pesquisas em: Análise da Paisagem e Geotecnologias;
Mapeamento de Uso e Cobertura da Terra; e Uso das Geotecnologias no Ensino
de Geografia. Atualmente é bolsista de produtividade da UERJ (prociência) com
execução do projeto “Mapeamento do Uso e Cobertura da Terra e Análise da Pai-
sagem no Litoral Leste do Estado do Rio de Janeiro”.

 Vitor Vieira Fonseca Boa Nova é doutorando e mestre em Planejamento Urbano


e Regional pelo IPPUR/UFRJ, especialista em Política e Planejamento Urbano pelo
IPPUR/UFRJ, graduado em Arquitetura e Urbanismo. Pesquisador do INCT Obser-
vatório das Metrópoles – Núcleo Rio de Janeiro. Participa de projeto de pesquisa
“Economia Metropolitana e Desenvolvimento Regional”, tendo como áreas de
interesse a economia política na escala urbano-regional, com enfoque na estru-
tura produtiva e mercado de trabalho, especialmente no que se refere ao Estado
do Rio de Janeiro e sua Região Metropolitana.

Yuri Teixeira Pires é mestrando em História pelo PPGH/UFF. Graduado em Ciên-


cias Sociais e História pelo CPDOC/FGV. Além disso, é pesquisador integrante do
projeto “Literacia digital: modelando competências digitais para humanistas e
cientistas sociais”, na FGV.

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CARACTERÍSTICAS DESTE LIVRO

Formato: 16 x 23 cm

Mancha: 12,0 x 18,0 cm

Tipografia: Merriweather 9/13,9

Papel: Pólen Soft 80g/m² (miolo)

Cartão Supremo 250g/m² (capa)

1ª edição: 2021