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Resolução hipótese: Direito das Sociedades

Pergunta I
Para resolvemos a presente hipótese, devemos ter em conta certos conceitos de forma a facilitar
a compreensão do presente caso prático.
Primeiramente, uma holding é o termo inglês de sociedade gestora de participações sociais. O
seu conceito afirma que estamos perante holding quando uma empresa detém a maioria das
ações de outras empresas e o controlo das suas políticas empresariais. Esta holding será criada
em Portugal, que por sua vez, deterá as participações nas sociedades espalhadas pelas
jurisdições de países dos Sul da Europa e da América Latina.
Em primeiro lugar, temos de considerar que é uma sociedade comercial. A sociedade comercial
deve hoje ser entendida como um ente jurídico, tendo um substrato essencialmente patrimonial, e
sendo composto por uma ou mais pessoas jurídicas, exercendo com caráter de estabilidade uma
atividade económica lucrativa que se traduz na pratica de atos de comercio. Existem vários tipos
de sociedades comerciais, e neste caso estamos perante uma sociedade por quotas. A sociedade
por quotas é regulada nos art. 197º-270º, sendo-lhe directamente aplicáveis, por remissão
expressa, determinadas normas das sociedades anónimas (título IV), sendo o modelo
predominante das sociedades comerciais da atualidade.
Excluímos desde já a possibilidade de ser uma Sociedade Anónima (SA) visto que é necessário
um número mínimo de cinco sócios para a constituição da mesma, tendo a presente sociedade
apenas 4 sócios.
A Sociedade por Quotas (SQ) é composta por dois ou mais sócios que possuem responsabilidade
limitada. Apesar de haver liberdade quanto ao capital social de uma sociedade deste género, as
quotas não podem ter valor inferir a um euro.
Existe um certo conjunto de características que marcam a SQ tais como a responsabilidade
limitada, a liberdade do capital social, nome comercial e firma, entre outros aspetos.
Na responsabilidade limitada cada sócio que integra a sociedade só é responsável pelo valor da
quota que possui. Assim, quaisquer dividas da sociedade não são pagas pelo património pessoal
dos sócios, mas apenas com o património da sociedade. Esta é uma das razões mais fortes para
a escolha de uma sociedade deste género. O capital social enuncia que o dinheiro com que os
sócios entram na sociedade passa a ser da mesma e em troca o sócio fica com uma quota da
sociedade que lhe dá direito a uma parte dos lucros. Essa quota pode ser vendida, assim haja
consenso entre os restantes sócios. O nome comercial e firma é uma das demais características,
existindo uma separação jurídica entre os sócios que compõem uma Sociedade por Quotas e a
sociedade me si, já que esta é uma entidade jurídica independente. A um nome próprio, deve ser
acrescentada a expressão limitada ou a abreviatura Lda.. Quanto ao nome próprio, este pode ser
constituído pelo nome completo ou pela abreviatura do nome de um ou de mais sócios e pode
temem conter uma expressão ligada com a atividade económica da empresa. A firma da empresa
pode não ser igual ao nome comercial da mesma, já que a existência de nomes próprios na firma
pode não ser algo aperitivo para o publico-alvo da mesma.
E importante referir também outros aspetos como a necessidade de uma SQ necessitar de um ou
mais gerentes que podem ser sócios ou outras pessoas que não possuem uma SQ. Os sócios
tem que escolher a gerência e podem destitui-la também. Os sócios são também solidariamente
responsáveis pelas entradas de outros sócios, pagando o valor em falta caso seja necessário
cumprir a obrigação de entrada de outro.

Pergunta II
Alínea I: Verificamos que o patriarca é o sócio que possui mais quotas supondo que se deve ao
capital de entrada do mesmo. É de tal forma permitido que o patriarca detenha grande parte do
capital social com cerca de 55%, por livre estipulação das partes.

Alínea II: Para resolução da questão em causa, importa analisar certos conceitos para melhor
compreensão dos mesmos. Constata-se que a participação social é definível como o conjunto
unitário de direitos e obrigações atuais e potencias do sócio. O titular de uma participação social
respeitante a determinada sociedade é sócio dessa sociedade.
A aquisição de participação social pode ser originária (efetivada na constituição da Sociedade ou
em aumento do capital) ou derivada (em resultado de transmissão mortis causa, ou entre vivos de
participação social, ou de aquisição em processo de fusão por incorporação ou de cisão-fusão-
incorporação). Vigora entre nos o principio da livre transmissibilidade das quotas, presente nos art.
328º e 329º do CSC.
Quanto à transmissão das participações sociais vigora um principio de livre conformação por parte
dos sócios, podendo, nos estatutos, optar-se por um de três regimes possíveis. Podem sujeitar a
transmissão a consentimento, art. 228º e ss. do CSC e este é, também, o regime supletivo que a
lei oferece no caçoe não existir disposição no contrato social pelos sócios.

Alínea IV: Estamos no âmbito de objeto contratual, consagrado no art. 9º/n1 alínea d) do Código
das Sociedades. Segundo o mesmo, o objeto contratual assenta no conjunto de atividades que a
sociedade pode vir a desenvolver. É diferente do objecto efetivo constante no art. 11º/n3 que
consagra que os sócios é que vão deliberar quais é que são as atividades que o sócio virá,
efetivamente, a desenvolver.
A lei não admite que a sociedade desenvolva uma atividade que não esteja compreendida no seu
objeto contratual: isto é um problema de capacidade. O objecto serve para delimitar a capacidade
da sociedade. Se o ato praticado não se encontrar compreendido no objeto social, a sociedade
está a agir para além dos poderes que tem.

Alínea V: Encontra-se consagrado no art. 9º/n1 alínea f) do Código das Sociedades.


Capital social é a cifra numérica, de valor constante, expressa em euros, correspondente à soma
das entradas dos sócios e ao montante que estes pretendem afetar ao exercício da atividade
economia que prosseguem sob a forma juridical societária e que, sobretudo, equivale ao valor que
os sócios reputam como adequado para prosseguirem uma atividade económica empresarial de
natureza mercantil.
A obrigação de entrada é um dever essencial dos sócios, sem a qual a sociedade não terá meios
para poder desempenhar a sua atividade. O tipo de entrada é definindo no contrato de sociedade,
quantitativa e qualitativamente (art. 9º/h e h). Existem três tipos de entrada: em dinheiro em
espécie, em indústria (mas nas sociedades por quotas estas últimas não são admitidas).
Sendo assim, concluímos que o capital social deveria ser apresentado exclusivamente em euros,
a moeda transacionada em Portugal.

Alínea VI: Principiemos por definir o conceito de orgão e estabelecer a importância de uma
estrutra organizatória numa sociedade. O orgão é um centro institucionalizado de poderes
funcionais que serão encabeçados por uma ou verias pessoas físicas, singulares, de plena
capacidade jurídica, com o objetivo, no caso do orgão deliberativo, de formar a vontade
juridicamente imputarei à sociedade e, no caso do orgão de administração e gestão, executivo, de
exteriorizar essa vontade social já formada.
É importante salientar também que as sociedades gozam de uma liberdade de conformação
orgânica, podendo uma sociedade deter quantos orgãos desejar. Mas, orgãos com poder
deliberativo serão apenas aqueles que a lei prevê ou permite, estando aqui presente um princípio
da tipicidade dos orgãos sociais. Assim sendo, a mesma é composta por uma Assembleia Geral
onde se encontram todos os sócios, a Gerência que pode ser constituída por sócios da sociedade
ou não, que representam a sociedade, onde, quem nela se encontra tem de possuir capacidade
jurídica e por último, caso a sociedade chegue a um determinado volume de negócios é
indispensável ter um revisor oficial de contas.

Alínea VII: Na Lei das Sociedades por Quotas de 1901, decorria do art. 28º que as funções dos
gerentes subsistiam até expressa revogação do mandato, no caso de não se fixarem a duração no
contrato de sociedade. A estabilidade dos sócios nas sociedades por quotas conduz a uma maior
estabilidade na gerência e daqui decorre a possibilidade de estas SQ terem mandatos de duração
indeterminada.

No nosso ordenamento o princípio geral é o de que os membros dos órgãos sociais e os


mandatários são eleitos/constituídos por período certo, cessando automaticamente funções
quando tal prazo terminar.
Detalhando ainda mais, encontramos doutrina relativamente ao assunto: RAÚL VENTURA,
Sociedades por quotas – comentário ao código das sociedades comerciais, vol. III, Almedina,
1991, p. 79 e ss. RICARDO COSTA, «Anotação ao artigo 256.o», em Código das Sociedades
Comerciais em Comentário (coordenação: JORGE COUTINHO DE ABREU), vol. IV, Almedina,
2012, p. 112: “Este acaba por ser mais um reflexo personalístico das sociedades por quotas, pois
depreende que muitas vezes os sócios serão eles próprios a exercer as funções de gerentes ou,
não o sendo dispõem de uma importante participação pessoal na vida e no funcionamento da
sociedade”.

Alínea VIII: De acordo com o art. 9º/n1 alínea c), numa sociedade por quotas é necessário
atender ao art. 200º que consagra que nestas sociedades tem de constar a abreviatura Lda. ou
limitada, o que verificamos que não possui.
No caso concreto, pede-se que a firma da sociedade seja “Farfetch Investment Foundation“.
Ora, isto levanta certas questões visto que já existe uma sociedade internacionalmente
reconhecida com o mesmo nome, o que vai contra os princípios quanto a admissibilidade de
firmas e denominações. Este princípio consagra por sua vez outros três princípios tais como o
principio da verdade, o princípio da novidade e o principio da exclusividade, todos consagrados no
Registo Nacional de Pessoas Coletivas (RNPC) nos seus artigos 32º e 33º, respetivamente.
O princípio da verdade declara que a sociedade não pode induzir em erro quanto a sua atividade,
dimensão desta e dos seus titulares. O principio da novidade enuncia que a lei não quer duas
firmas que se dediquem a mesma atividade num mesmo âmbito geográfico sejam confundidas; se
o âmbito geográfico for diferente mas entretanto começarem a disputar o mesmo mercado (tendo
nomes iguais) estamos face a um acto de concorrência desleal.

Alínea IX: Em conformidade com o exposto na Alínea V, em contraposição das entradas em


dinheiro surgem as entradas de obrigação em espécie que se traduz na transferência para a
sociedade de direitos patrimoniais, suscetíveis de penhora. O valor da entrada deve ser igual ou
superior ao valor comercial da participação (art. 25º,27º/1).
Quanto as entradas em espécie, há que determinar como, por quem e com referência a que
momento é que devem ser valorizadas. De acordo com o art. 27º/6, as entradas em espécie
devem ser objeto de avaliação por um revisor oficial de contas independente, o qual deve certificar
o valor da entrada, em relatório, que faz parte integrante da documentação sujeita a formalidades
de publicidade e que deverá ser objeto de deposito no registo comercial. Na certificação, o reviso
deve atender ao valor intrínseco dos bens em espécie que compõe a entrada, ao prazo de
liquidação de que depende a satisfação dos ativos que a constituem e ao risco da sua liquides
(art. 28º, 29º/1). Nos termos do art. 28º, as entradas em espécie são objecto de um relatório
elaborado por um revisor oficial de contas sem interesse na sociedade, designado por deliberação
dos sócios na qual estão impedidos de votar os sócios que efetuem as entradas. O revisor que
tenha elaborado o relatório não pode, durante os dois anos seguintes contados da data do registo
do contrato de sociedade, exercer qualquer cargos ou funções profissionais nessa sociedade ou
em sociedade que com ela se encontrem em relação de domínio ou de grupo (nº
2º). Nos termos do nº3, existem aspetos que devem constar do relatório. Por estarmos perante
uma entrada em espécie, esta deve ser realizada no momento da data da constituição da
sociedade.
O valor do bem pode superar o valor nominal, mas nunca poderá ser inferior, sob pena de se ter
de pagar o diferencial em dinheiro. Sendo assim, um dos filhos poderá de facto contribuir com um
imóvel para realizar a sua entrada no capital da sociedade a constituir desde que preencha os
requisitos mencionados supra.

Alínea X: Recorrendo ao Acordão Ferreira de Almeida, Sociedade por Quotas de 04/03/2004


retiramos a seguinte informação:
“I. O Código das Sociedades Comerciais aprovado pelo DL 262/86 de 2/9 (CSC86) remete
subsidiariamente, a propósito das sociedades por quotas e no nº 1 do seu artº 248º, em tudo o
que especificamente não contemple, para o "disposto sobre as assembleias gerais das
sociedades anónimas".
II. Ora, por mor do nº 1 do art. 386º do mesmo diploma, a assembleia geral delibera por maioria
dos votos emitidos, seja qual for a percentagem do capital social nela representado, salvo
disposição diversa da lei ou do contrato ", sendo que "as abstenções não são contadas".
III. Nada obstará assim a que uma deliberação seja tomada apenas por um único sócio titular de
uma pequena quota minoritária, observados que sejam todos os restantes pressupostos de
validade formal ou substancial da mesma, formando-se as maiorias deliberativas tão-somente
pelos votos emitidos e validamente expressos.
IV. A não imposição pelo CSC86 de qualquer «quorum» deliberativo para as assembleias gerais
das sociedades por quotas, deve-se a razões de eficácia e funcionalidade do processo
deliberativo social, por um lado, e de fomento do interesse da participação pessoal dos sócios
nesse mesmo processo por outro.“
Concluímos assim que a regra geral será a de votação por maioria simples salvo estipulação
contrária enunciada pelos sócios.

Alínea XI: Nos termos do art. 141º alínea a) e do art. 15º, a sociedade pode ser temporária, ou
seja no contrato de sociedade as partes podem indicar uma duração para a sociedade e, findo o
prazo, a sociedade dissolve-se.

Pergunta III
Para a formação de uma sociedade por quotas temos dois métodos disponíveis: tradicional e a
Empresa na Hora.
O método tradicional comporta os seguintes passos sequenciais, conforme o seguinte
cronograma:
1º Obtenção do certificado de admissibilidade;
2º Solicitação do cartão da empresa e do cartão da pessoa coletiva;
3º Depositar o capital;
4º Realização do pacto ou ato constitutivo da sociedade;
5º Declaração do início de atividade;
6º Fazer o registo criminal;
7º Realizar a inscrição na Segurança Social.
Por outro lado, outro modelo de constituição de empresa será através do Empresa na Hora, sendo
assim possível criar uma empresa de forma bastante rápida em balcões que ofereçam este
serviço, tais como Conservatórias do Registo Comercial e Lojas do Cidadão. Com este método, é
possível escolher um modelo de pacto pré-aprovado, bem como uma das firmas pré-aprovadas, o
que acelera bastante o processo.
Para a criação desta empresa, que parece ser a mais acertada tendo em conta as exigências do
cliente, é necessário dirigir-se a um balcão do serviço Empresa na Hora, onde vai ser necessário:
1º Escolher uma firma da lista pré-aprovada na internet ou da lista no balcão Empresa na Hora, ou
apresentar um certificado de admissibilidade que já tenha sido aprovado pelo Registo Nacional de
Pessoas Coletivas;
2º Escolher um dos modelos de pactos pré-aprovados;
3º Indicar um Técnico Oficial de Contas (TOC), escolher um da Bolsa de TOCs disponibilizada ou
entregar a declaração de inicio de atividade em qualquer serviço de Finanças (até 15 dias depois
da criação da empresa);
4º Que os sócios da empresa tenham depositado o valor do capital social da empresa ou
declarem que o valor será depositado em dinheiro ou entregue nos sofrer da sociedade.
Visto que os sócios são pessoas singulares, deverá seguir-se a apresentação de certos
documentos tais como o documento de identificação (Cartão de Cidadã, Bilhete de Identidade,
passaporte ou autorização de residência) e identificação dos seus números de identificação fiscal
(NIF). É de lembrar que aquando da escolha deste modelo de constituição de empresa, todos os
sócios da empresa a criar têm de estar presentes na altura do pedido de criação da entidade.
De seguida, no balcão Empresa na Hora, vai ser feito o pacto da sociedade e o registo comercial.
Vai receber o pacto social, o código de acesso à certidão permanente comercial, o código de
acesso ao cartão da Empresa/Pessoa Coletiva e o número de Segurança Social da empresa.
Depois, os sócios vão ter de depositar o capital social numa conta bancária em nome da
sociedade até cinco dias úteis depois do registo. Em alternativa, os sócios podem entregar o
capital social os cofres da sociedade até ao final do primeiro exercício económico (normalmente,
até, ate ao final do ano). Pode pedir o Registo Central do Beneficiário Efetivo (RCBE) 30 dias
depois do registo.

Anastasiya Yasinska,
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