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Exercício n.

º 1
Ana está desempregada. Bela gostaria muito de ajudar a amiga.
Um dia, encontrando-a mais desanimada do que o habitual, Bela
oferece-se para lhe pagar € 1.000 se Ana lhe disser quantos candeeiros tem
a Ponte Vasco da Gama. Era algo que sempre tivera curiosidade em saber, e
desse modo veria satisfeito esse seu desejo ao mesmo tempo que
aproveitava para ajudar a amiga. Ana aceita de imediato
.Uns dias depois Ana telefona a Bela e diz-lhe exatamente quantos
candeeiros tem a Ponte Vasco da Gama. Bela agradece, e acrescenta que
esteve a pensar melhor na sua oferta, tendo chegado à conclusão de que
não se justificava pagar os € 1000 a Ana. Quid juris?

Existem duas vias possíveis:


Se analisarmos só os elementos formais e os restantes requisitos
jurídicos para ver se as partes formaram um negócio jurídico, o que estas
determinaram e as suas actuações, respeitamos a autonomia privada e
reconhecemos o vinculo obrigacional constituído. Nesta perspectiva não há
uma violação do n.º 2 do artigo 398.º do CC, sendo o interesse considerado
“digno de protecção legal”. Esta é uma corrente doutrinária liberal quanto
aos interesses que devem ser protegidos pelo ordenamento jurídico.
Se considerarmos à luz da doutrina tradicional o n.º 2 artigo 398.º
do CC, então considerariamos a proposta de Bela um capricho não “digno
de protecção legal”. Logo, não se reconheciria o vinculo obrigacional. Neste
visão, estariamos a considerar o ponto de vista social e as meras relações de
cortesia para determinar que interesses é que são dignos de protecção
legal.

Exercício n.º 2
Carlos e Diana assistem a um jogo de futebol entre o Benfica e o
Sporting. Ao intervalo, com o marcador ainda a zeros, começam a discutir
sobre qual das equipas estaria a jogar melhor. A discussão só acaba quando
ambos decidem apostar sobre o resultado final da partida. A aposta é
ganha por Carlos. Diana paga-lhe os € 100. Quando chega a casa, Eunice,
sua irmã estudante de direito, diz-lhe que a aposta é nula. No dia seguinte,
Diana dirige-se a Carlos e exige-lhe que devolva os € 100. Quid juris?
Diana e Carlos estão, ao apostar. A aposta é, jurídicamente, um
contrato nulo, mas cria obrigações naturais. O cumprimento das obrigações
naturais depende da livre vontade das partes, não podendo ser coagidas
pelo Estado, pois há apenas um dever de justiça a prestá-las (artigo 402.º do
CC) . Ou seja, Diana pode recusar pagar os 100€, violando um dever social e
talvez moral, que não tem consequências jurídicas.
Neste caso há apenas uma obrigação natural, a de entregar a
quantia de 100€ à parte que ganha a aposta.
Porém, tendo Diana já pago a quantia a Carlos, nos termos do
artigo 403.º do CC, ela não pode exigir a quantia de volta. A pessoa que
vence a aposta não pode exigir judicialmente o cumprimento da obrigação
pelo perdedor da aposta, nem esta última pode exigir, depois de ter pago a
quantia, o valor apostado de volta.

Exercício n.º 3
Carlos e Diana decidem comprar a meias uma moto para se
deslocarem mais facilmente ao estádio nos dias de jogo. É Carlos quem vai
tratar do assunto. Dispõe-se a adiantar a totalidade do preço, desde que
Diana se comprometa a entregar-lhe a sua parte, o mais tardar até à
véspera do jogo seguinte.
Diana, que ainda não se conformara com a aposta perdida,
responde-lhe que sim, que promete pagar-lhe, mas acrescenta entredentes
que a promessa valeria o mesmo que uma das suas apostas. Carlos
responde-lhe: «Como queiras!» Chega a véspera do jogo e Carlos pede a
Diana a sua parte do preço. Diana observa que nada lhe deve. Carlos
assevera-lhe que não tem razão. Quid juris?

A Diana, de acordo com a doutrina maioritária, não poderia criar


uma obrigação natural, isto é, nao podia prometer que ia pagar com a
intenção de não o fazer e de afastar o regime das obrigações civis.
Na realidade, esta concordando está a criar uma obrigação civil,
que é judicialmente exigível.

Exercício n.º 4
Vera dirige-se a Xavier, advogado, pedindo-lhe que trate de
despejar um seu inquilino, Zé, que há meses deixara de pagar-lhe a renda
da casa. Xavier põe mãos à obra. Passados alguns dias, Xavier telefona a
Vera para lhe dar conhecimento de que a ação está prestes a dar entrada
em tribunal.
Vera informa-o de que afinal já não precisa dos seus serviços, pois
horas antes Zé devolvera-lhe as chaves de casa, que entretanto desocupara.
Passados mais alguns dias, Vera recebe em casa uma fatura no valor de €
3000, a título de honorários pelos serviços prestados por Xavier. Quid juris?

Este caso comporta uma obrigação de meios: Xavier obriga-se a


empregar os maiores forços possiveis para atingir o resultado – Zé sair da
casa do seu mandante. A obrigação de Xavier tornou-se impossível, devido à
impossibilidade do seu resultado, já que Zé já tinha saído de casa. Por isso,
Xavier pode afirmar que cumpriu a obrigação e tem direito à remuneração.
O artigo 799.º do CC [Presunção de culpa do devedor] só se aplica
às obrigações de resultado. Aí, o autor da acção (devedor) se demonstrar
que o resultado não foi atengido, inverte o ónus da prova e o outro tem que
provar que a culpa não foi sua. Em caso de obrigações de meios, para que o
credor (Vera) invertesse o ónus da prova (artigo 344.º do CC), teria e fazer
muito mais do que apenas provar que não teve culpa.

Exercício n.º 5
É noite alta. João e Ricardo passeiam-se pelas ruas do Bairro Alto.
A certa altura, apercebem-se de que estão a ser seguidos por um bando de
malfeitores. Ricardo apressa-se a enfiar umas quantas notas no bolso das
calças de João. Esclarece: «São os € 150 que te devia!» Quid juris?

Este é um cumprimento violador do princípio da boa fé previsto


no n.º 2 do artigo 762.º do CC, logo não é cumprimento. O vinculo
obrigacional implica deveres acessórios, sendo um deles o dever de
lealdade.
O princípio de boa fé emana do todo. A necessidade de respeitar a
boa fé surge em todos os momentos.
Este incorre em responsabilidade extra-judicial.
Assim, ao dar o dinheiro nessa hora não seria considerado um
cumprimento, pois a nacessidade material não ia ser satisfeita.

Exercício 6
Felícia e Natália são colegas de escola. Sabendo que os seus pais
haviam acordado na compra e venda de uma Bimby, ocorreu-lhes dar-lhes
uma mãozinha.
Numa tarde sem aulas, Felícia foi a casa buscar a dita Bimby e
entregou-a a Natália. Esta foi a casa, deixou a geringonça no balcão da
cozinha, foi à carteira da mãe buscar dinheiro e pagou o montante
acordado a Felícia. Quid juris?

Contrato de compra e venda celebrado por adultos e as


respectivas filhas menores (incapazes de exercício) executam o contrato.
Artigo 879.º do CC [Efeitos essenciais da compra e venda]. Aqui
estão em causa as obrigações das alíneas b) entregar a coisa e c) pagamento
do preço devio. O efeito jurídico da transmissão da propriedade já ocorrera
no momento da celebração do contrato de compra e venda (alínea a)).
As filhas não tinham capacidade de exercício, logo os actos de
execução seriam anuláveis (não o negócio, pois este foi celebrado
validamente). Se o devedor [aquele que pai que deveria entregar a Bimbi]
não for prejudicado pelo facto do credor incapacidade prestar, este pode
opor-se à anulabilidade (n.º 1 do artigo 764.º do CC). O mesmo acontece
(n.º 2) se o devedor for incapaz de receber, podendo o credor opor-se à
anulação do negócio se não ficar prejudicado com este. Aqui, portanto, a
incapacidade podia ser sanada.
As filhas aqui não prejudicaram os pais. Logo os pais não podiam
anular a execução do negócio jurídico por eles celebrado. A doutrina
defende que tanto o credor como o devedor neste caso (ambos os terceiros
serem incapazes) podem opor-se à anulabilidade. Porém, se se demonstrar
que tudo correu bem, eles deixam de poder anular os actos de execução.

Exercício n.º 8
a) Patrícia vendeu algumas joias a Raquel. Porque no dia em que o
acordo fora firmado ambas estavam com pressa, não chegaram a combinar
quando e onde Patrícia entregaria as joias a Raquel e esta pagaria o preço a
Patrícia. Raquel pergunta agora a Sofia, estudante de direito, quando e
onde deve dirigir-se para esse efeito. No lugar de Sofia, o que responderia a
Raquel?
b) E se Patrícia entregasse logo as joias a Raquel, que, por só
dispor de uns trocos na carteira, se comprometera a, quando pudesse,
passar por casa de Patrícia para lhe pagar o preço das joias?

a) Sendo o contrato no exercício de compara e venda de coisa


móvel determinável, aplica-se o artigo 885.º do CC em conjugação com o
artigo 773.º do CC, logo, o local onde se encontravam as jóias no momento
em que se celebrou o negócio é o local onde se irão cumprir as obrigações.
Não se aplica a regra geral, mas sim o regime próprio dos contratos de
compra e venda
Quanto ao tempo de cumprimento, no exercício, as obrigações são puras,
logo são exigíveis a todo o tempo (artigo 402.º do CC).
Sendo o contrato sinalagmático, a parte ao interpelar teria
simultaneamente que se mostrar disponível para cumprir.
No exercício, aplica-se o regime regra constrate no n.º 1 do artigo
777.º do CC.

b) Aqui, segundo o n.º 1 do artigo 778.º do CC, Raquel está a


obrigar-se a prestar cum potuerit – quando puder. Isto é, quando o devedor
patrimonialmente poder pagar e quando tiver dispobilidade física de o fazer
(ex:dirigir-se ou local de pagamento).

Exercício n.º 12
Silvino, produtor de rolhas de cortiça, celebra com Terêncio,
produtor de vinho californiano, um contrato de compra e venda de uma
tonelada de rolhas de cortiça. Estas são transportadas por Ulisses, que as
apanha no porto de Sines e as leva até ao porto de Santa Cruz, na
Califórnia, onde ficam a apodrecer, pois Terêncio, que entretanto descobrira
um novo método de vedar garrafas de vinho, não chega a ir buscá-las.
Terêncio obrigara-se a pagar a Silvino o preço das rolhas na data em que
estas chegassem a Santa Cruz. Quid juris se a compra e venda se
subordinasse:

Aqui referimo-nos a obrigações de entrega da coisa. No exercício


anterior falamos de obrigações de prestação de facto.
Para quem Ulisses (prestador de serviços) trabalha depende da
cláusula.
Estamos aqui a falar de obrigações genéricas, de outro modo, se a
obrigação fosse específica, aplicaria-se-ia o n.º 1 do artigo 796.º do CC,
decorrência do artigo 408.º do CC.

a) Ao Incoterm EXW?
Esta é uma obrigação de vir buscar (E).
O vendedor (devedor) só tem que ter as coisas disponíveis para
entrega no seu armazem. Cabe ao comprador (credor) ir buscar as rolhas de
cortiça ou mandar o transportador Ulisses buscá-las. Aqui Ulisses seria
colaborador de Terêncio.
Silvio cumpriu a sua obrigação no momento da entrega das rolhas
de cortiça a Ulisses no seu armazem. O direito de propriedade e o risco
transferem-se também nesse momento para o comprador, Terêncio, dando
se a concentração da obrigação genérica.
[caso tivessem acordado data - com mora o risco transfere-se para o credor]
É, portanto, irrelevante a deteriorização das rolhas de vinho no
porto de Santa Cruz, tendo Terêncio que entregar o preço a Silvino.

b) Ao Incoterm FOB?
Esta é uma obrigação de envio (F).
O cumprimento ocorre quando as rolhas são entregues por Silvino
(vendedor/ devedor) ao transportador/ com o carregamento do navio pelo
devedor em Sines.
Assim é irrelevante a deteriorização das rolhas de vinho no porto
de Santa Cruz, tendo Terêncio que entregar o preço a Silvino.

c) Ao Incoterm CIF?
Esta é uma obrigação de envio (C).
O cumprimento ocorre no momento em que Silvino carrega o
navio em Sines com as rolhas.
Mas é o devedor, Silvino, que suporta o custo do transporte, do
navio.
Assim é irrelevante a deteriorização das rolhas de vinho no porto de Santa
Cruz, tendo Terêncio que entregar o preço a Silvino.

d) Ao Incoterm DAT?
Esta é uma obrigação de levar (D).
O cumprimento ocorre no porto de santa cruz, quando as rolhas
são descarregadas do navio. Até a esse momento o vendedor suporta tudo.
Neste caso o cumprimento da obrigação de Silvino também já
tinha ocorrido, logo é irrelevante a deteriorização das rolhas de vinho no
porto de Santa Cruz, tendo Terêncio que entregar o preço a Silvino.

Exercício n.º 10
a) Moreno vendeu a Ruivo a totalidade de um de dois anos de
produção de vinho tinto reserva, podendo o negócio incidir, quer sobre a
colheita de 2009, quer sobre a colheita de 2010. O pagamento do preço foi
contemporâneo da celebração do contrato. As partes fixaram no contrato a
data de entrega do vinho. Nessa data, Moreno recusa-se a honrar o seu
compromisso, pois Ruivo gostaria de ficar com a produção de 2009. Pode
exigir a sua entrega a Moreno?

b) Suponha agora que Moreno vendera e se obrigara a entregar a


Ruivo metade da sua produção de vinho tinto reserva das colheitas de 2009
e de 2010, reservando-se a possibilidade de entregar em seu lugar a
totalidade da sua produção de vinho tinto reserva da colheita de 2011. Se
Moreno se escusasse a honrar o seu compromisso, poderia Ruivo exigir-lhe
a entrega desta última?

c) Se entretanto Moreno tivesse vendido a Louro toda a sua


produção de vinho das colheitas de 2009 a 2011, o que poderia Ruivo fazer?
E se Louro soubesse do contrato entre Ruivo e Moreno?

A obrigação incide sobre a totalidade de uma produção de vinho


que pode corresponder à colheira de 2009 ou a de 2010. Aqui existem
obrigações alternativas (não duas, porque cada uma é que é obrigação
alternativa à outra). A prestação é que é alternativa (duas prestações
alternativas).

a) No nosso exercício as prestações alternativas eram, ou a


escolha da totalidade da colheita de 2009 ou a da colheita de 2010. Aqui as
obrigações são específicas – determina-se que é todoa a colheita.
Não tendo sido convencionado a quem cabia a escolha, o devedor
jk(Moreno) poderia escolher quais das colheitas a entregar, segundo o n.º 2
do artigo 543.º do CC, não podendo Ruivo exigir a colheita de 2009. De
acordo com o artigo 548.º do CC, o credor pode estabelecer um prazo para
o devedor escolher, se este o não fizer, a escolha passa a ser do credor.
Aqui não foi estabelecido nenhum prazo. 541 542 não escolheu antes de
entrega estipula prazo e depois 542 e depois escohla ao credor

b) Aqui Moreno fica com a obrigação de entregar metade da


colheita de 2009 e metade da colheita de 2010, reservando-se ainda, em
alternativa, a entregar a totalidade da colheita de 2011.
Estas são obrigações genéricas, o objecto só é determinado
quanto ao gênero e quantidade.
Cabia ao devedor (Moreno) determinar as garrafas que ia entregar
da colheita.
Estas não são obrigações alternativas, pois o devedor aqui não
pode escolher qual prefere. Esta é uma obrigação com faculdade
alternativa. O devedor obriga-se a algo, mas também se reserva a outra
prestação em alternativa. O credor só tem legitimidade para exigir a 1.ª
prestação (entregar metade da colheita de 2010 e metade da colheita de
2011), pois só tem um direito de crédito sobre esta prestação.
Já o devedor tem a faculdade de escolher se realiza a obrigação
principal ou a obrigação subalterna.
Esta é uma construção doutrinária.
Se a prestação princípal se tornar impossível por razão não
imputável ao devedor, então extingue-se a obrigação.
Conhecer o momento do cumprimento é importante para se
saber, caso a caso, a que o devedor se vincula, tendo-se em conta o
princípio da pontualidade ( o cumprimento tem que corresponder à
prestação devida).

Exercício n.º 9
Em janeiro de 2012 Pedro e José celebram um contrato de
arrendamento por cinco anos, o primeiro como senhorio e o segundo como
inquilino. Em simultâneo, Pedro vende a José todo o recheio da casa
arrendada, comprometendo-se José a pagar-lhe o respetivo preço em doze
prestações mensais. Tudo corre bem até agosto de 2012, mês de férias de
José. Mal se vê na praia José esquece-se de todos os seus compromissos,
falhando ambos os pagamentos devidos a Pedro. Ao regressar a casa, José
encontra na caixa do correio uma carta de Pedro, exigindo-lhe o pagamento
integral e imediato das suas dívidas perante Pedro, a saber, cinco
prestações do preço do recheio e cento e quarenta e nove rendas da casa.
Quid juris?

Quanto à falta de pagamento de uma prestação correspondente


ao recheio da casa arrendada, é aplicável o artigo 781.º do CC (obrigação
liquidável em prestações – obrigação fraccionada periódica). Aqui podemos
falar do benefício do prazo. E quando se falha 1 prestação, perde-se o
benefício do prazo. O prazo estava constituido a favor de José. Porém,
sendo este um contrato de compra e venda é aplicável o artigo 934.º do CC,
sendo necessário que o devedor faltasse a 1/8 das prestações para perder o
benefício do prazo. Neste caso, Jose só faltou a 1/12 da prestações, logo
entra em mora quanto a essa prestação, mas as restantes não podem ser
exigidas e, portanto, não se vencem já.
Já quanto à renda, por um lado o senhorio está a facultar o gozo
da casa e em contrapartida, o inquilino está a pagar a renda mensal.
Aqui aplica-se o artigo 1041.º do CC, só se podendo exigir a renda
da casa daquele mês e uma pequena indemnização.
[Quanto ao objecto, segundo o artigo 280.º do CC, este só tem
que ser determinável (não necessita de ser determinado).

Exercício n.º 11
Catarina é contratada por Dália, mãe de Elisa, para cantar o Ave
Maria de Bach/Gounod na cerimónia de casamento de Elisa e de Filipe, a ter
lugar no dia 29 de setembro pelas 12h00. Quid juris se:

a) Quinze dias antes da data marcada os noivos desistem do


casamento?

b) Na manhã do dia 29 de setembro Catarina acorda


completamente sem voz?

c) Ao chegar à igreja na manhã do dia 29 de setembro Catarina


apercebe-se de que, por lapso do sacristão, haviam sido marcadas três
cerimónias de casamento para a mesma data e hora, tendo-se acordado
adiar o casamento de Elisa e Filipe para as 17h00?

d) Suponha que Catarina apenas se comprometera a cantar na


dita cerimónia se passasse com distinção no seu exame de canto, a ter lugar
oito dias antes da cerimónia. Alteraria a sua resposta à alínea a)?

e) Imagine agora que Catarina havia celebrado com a Vitalidade –


Companhia de Seguros, S.A., um contrato de seguro contra o risco de
cancelamento de eventos para os quais Catarina haja sido contratada. Na
hipótese a) acima referida, a quem assistiria o direito de receber a
correspondente indemnização?

f) E se na véspera do casamento Catarina se envolvesse numa


grande discussão com Dália e na manhã do dia 29 de setembro Dália se
plantasse à porta da igreja com vista a impedir Catarina de entrar, dizendo
a todos quantos a quisessem ouvir que Catarina não sabia cantar, mas
sofria de uma anomalia psíquica e se achava uma diva do bel canto?

a) O devedor é a Catarina (considerando a obrigação de cantar).


De outro modo, sendo este um contrato sinalagmático, existem dois
devedores e dois credores (as obrigações não são sinalagmáticas).
A delimitação contratual da obrigação de Catarina é cantar
naquele casamento que tem lugar no dia 29 de setembro pelas 12h. Aqui há
uma obrigação absolutamente temporalizada. E é por isso mesmo que
existe uma impossibilidade (não está previsto pela obrigação que depois
desse preciso momento a Catarina ainda possa cantar).
[A doutrina tradicional consideraria que a obrigação não está
absolutamente temporalizada e então entendiria que este não era um caso
de impossibilidade, já que a Catarina poderia cantar naquele dia e hora
mesmo que aí não se celebrasse um casamento.]
Sabendo que é uma impossibilidade temos que analisar se a
perturbação e imputável a alguma das partes. O artigo 799.º do CC presume
que a culpa é do devedor. Porém, neste caso, a Catarina ilide a presunção,
não lhe sendo imputável a perturbação, já que foram os noivos que
desmarcaram o casamento e logo também des0
0marcaram a actuação.
Aqui aplica-se o regime da impossibilidade não imputável ao
devedor previsto nos artigo 790.º e ss do CC.
Quanto aos efeitos da perturbação:
1 – A obrigação extingue-se de acordo com o artigo
790.º do CC.
2 – De acordo com o artigo 795.º do CC, sendo este um
contrato sinalagmático, aqui à necessidade de distinguir impossibilidades
autónomas ou imposibilidades imputaveis ao credor.
Este seria uma caso em que a impossibilidade é imputável ao
credor. Isto porque, sendo este um contrato a favor de terceiro
(celebrado por Dália, mas a favor dos noivos), aplica-se o regime previsto
nos artigos 443.º e ss., extendendo-se a qualidade de credor aos noivos –
apesar de estes não serem verdadeiros credores, incluem-se na esfera do
credor. Foram os noivos que desistiram do casamento e logo cancelaram a
actuação de Catarina. Sendo a responsabilidade lhes [credores]
aplicável, nos termos do n.º 2 do artigo 795.º do CC, estes não ficam
desobrigados da contra-prestação, neste caso, de pagar à Catarina. Porém,
deve ser descontado desse valor os benefícios (ganhos alternativos), se os
houver, da exoneração.
Aqui aplica-se o regime da mora do credor.
3 – Não gera responsabilidade civil por parte do devedor
(não sendo a perturbação imputável ao devedor), mas também não parece
haver responsabilidade civil do credor, sendo esta uma impossibilidade não
culposa.

b) Esta perturbação não é imputável ao devedor, ilidindo-se a


presunção constante no artigo 799.º do CC.
Neste caso, existe dois caminhos a presseguir que dependem de
se classificamos este prestação como fungível ou infungível. A regra é a
fungibilidade e só através da argumentação é que podemos ir pela via da
obrigação ser infungível.
i. Se a prestação for fungível, a Catarina é obrigada, no
caso de impossibilidade subjectiva, a fazer-se substituir por terceiro que
seja um canto de qualidade equivalente. Isto envolve mais custos para o
credor da obrigação de cantar.
ii. Se, ao invês, afastarmos a regra geral e justificarmos
que a prestação é infungível – ex: sendo esta uma prestação científica não
era possível se substituir o contratado ou se a Dália tivese explicitamente
previsto que, no caso de impossibilidade de Catarina de actuar, a esta lhe
seria retirado o direito a escolher a sua substituto, se entendiria que a
prestação é infungível – então aplica-se o mesmo regime do das
impossibilidades objectivas, extinguindo-se, nos termos do n.º 1 do artigo
790.º do CC a prestação.
Sendo este um contrato sinalagmático e não sendo a perturbação
imputável ao credor, aplica-se o n.º 1 do artigo 795.º do CC, extinguindo-se
também a contraprestação.
Não há lugar a responsabilidade civil sobre nenhuma das partes.

c) Neste caso, a perturbação na obrigação foi criada por terceiro.


Há uma alteração do contrato. Uma alteração substancial da prestação.
Ilide-se a presunção constante no artigo 799.º do CC.
Diriamos que esta era uma perturbação temporária (artigo 792.º
do CC), não gerando esta impossibilidade. Porém, o critério do interesse do
credor é essencial.
Esta é uma obrigação absolutamente temporalizada (e não uma
obrigação pura nem uma obrigação a prazo não essencial). Neste caso, não
há mora, estabelecendo-se se logo que há um incumprimento definitivo da
prestação. Afasta-se a aplicação do regime geral constante no artigo 792.º
do CC, por haver um momento único para o cumprimento e nesse não o
poder ocorrer por motivos não imputáveis ao devedor. Logo, aplica-se o
regime da impossibilidade objectiva, extinguindo-se a obrigação. De acordo
com o n.º 1 do artigo 795.º do CC tambéma contraprestação se extingue.
O regime das perturbações temporárias aplica-se a obrigações a
prazo não essencial ou puras.
Porém, neste caso, aplica-se o regime do abuso de direito (artigo
334.º do CC) com a ratio de um pequeno sacrifício de um lado provoca um
grande dano no outro. Assim, se Catarina tivesse outras compromissos
marcados para o dia, aplicar-se-ia o afastamento do artigo 792.º do CC e o
regime anteriormente descrito. Já se Catarina assim o não tivesse, então ela
continuava obrigada a cantar ás 17:00 horas.
Aqui o interesse do credor é uma contraprestação.

d) O exame de canto seria depois (8 dias antes da cerimónia) do


momento do cancelamento da cerimónia (15 dias antes da cerimónia).
Havia aqui uma condição suspensiva: passar com distinção no exame de
canto. Só a partir desta é que constituem os efeitos do contrato. A regra, se
não houvesse norma a especial, seria considerar como ainda não se tinha
constituido a obrigação e os efeitos da do negócio jurídico ainda não se
produziram, o cancelamento do casamento seria considerado uma
impossibilidade originária.
A esta perturbação que surge num momento posterior à
constituição da obrigação também se aplica o regime superveniente
constante no n.º 2 do artigo 790.º do CC: “Quando o negócio do qual a
obrigação procede houver sido feito sob condição ou a termo, e a prestação
for possível na data da conclusão do negócio, mas se tornar impossível
antes da verificação da condição ou do vencimento do termo, é a
impossibilidade considerada superveniente e não afecta a validade do
negócio.”
Logo, a resposta a alína a) não iria ser alterada, já não
interessando se a Catarina faz ou não o exame, pois a obrigação ter-se-ia
sempre extinguida por impossibilidade. O único aspecto que se deveria
acrescentar é que se a Catarina queria receber a contraprestação que a lei
lhe faculta por a impossibilidade ser imputável ao credor (n.º 2 do artigo
795.º do CC), esta teria que passar com distinção o exame de canto.

e) Existe um instituto que é importante para o regime das


obrigações. Este artigo aplica-se aquando da existência de seguros.
Artigo 794.º CC [«Commudum» de representação]
Se, por virtude do facto que tornou impossível a prestação, o
devedor adquirir algum direito sobre certa coisa, ou contra terceiro, em
substituição do objecto da prestação, pode o credor exigir a prestação
dessa coisa, ou substituir-se ao devedor na titularidade do direito que este
tiver adquirido contra terceiro.
O artigo visa a correcção do enrequecimento sem causa.
O risco que Catarina tinha assegurado era o risco de perder
actuações suas e respectiva remuneração. Por isso, não se aplica o art.
794º. O interesse protegido era o seu próprio interesse em receber a
contraprestação, o que não coincide com o interesse do credor.
Quando os interesses do credor e do devedor coincidem, em vez
de considerar a prestação impossível, o credor poder exercer o direito do
art. 794º.
Explicação: Se o facto que deve ser realizado deixar de ser
possível, mas o devedor receber algo de terceiro pela prestação deixar de
ser possível, o credor pode exigir para si aquilo que o devedor recebe de
terceiro.
Neste caso, o seguro não protege a falta do cumprimento do
casamento, mas a falta de actuações. Mas o credor não recebe nada,
porque quem era a prejudicada era Catarina.
O regime de “commodum” de representação visa evitar o
enriquecimento sem causa. Visa evitar casos em que, aparentemente, o
devedor beneficia da não prestação, obrigando-o a pagar ao credor por isso.
Se o facto devido deixar de ser possível, mas o devedor tiver o
direito de receber em substituição uma indemnização, o credor pode
receber tal.
O problema neste exercicio é que aqui o facto que se tornou
impossivel foi o casamento, e o seguro protege é a falta de rendimento por
cancelar a actuação. Neste caso, como concluimos na alinea a), Catarina
continuava com o direito à contraprestação, pois a impossibilidade é
imputável ao credor (n.º 2 do artigo 795.º do CC). Logo, Catarina não recebe
do seguro.
[Já no caso de alguém fazer um seguro para a colheita, para que
seja indemnizado nos anos de má colheita, o devedor aqui recebe o direito
à indemnização, passando esta para a esfera do credor, que é o verdadeiro
prejudicado. Esta é uma preferência do devedor quanto à extinção das
prestações. Assim ele entrega a colheita mais dinheiro correspondendo ao
que não pode entregar e recebe a contraprestação. O «commudum» não
tem efeito automátivo.]
Neste caso não se aplica o artigo 794.º do CC. Pois o contrato de
seguro aqui visa proteger um bem diferente do que Catarina teria que
prestar.
Aqui um eventual direito contra o seguro não advem do facto que
extinguir a obrigação (cancelamento do casamento).
O interesse protegido pelo seguro era o seu próprio património da
Catarina, não coincidente com o interesse do credor.
[O direito contra terceiro pode ser o direito de indemnização pelo
responsável e o direito contra a seguradora.]
O facto aqui é o cancelamento do casamento
f) Estariamos perante um caso de injurias (artigo 181.º do CC) e
até, também, talvez, difamação.
A Dalila ao impedir Catarina de prestar está a entrar em mora do
credor (artigo 813.º e seguintes). Sendo esta uma obrigação absolutamente
fixa, a mora ocorre num periodo temporal muito reduzido, transformando-
se rapidamente em incumprimento definitivo. Isto é relevante, porque a
acção do credor foi relevante para a perturbação do acto pelo credor.
Há casos em que o credor nem necessita de colaborar, só de se
abster.
Para se exigir indemnização do credor, não se exige ilicitude ou
culpa do credor. O risco recai sobre o credor.
Exemplo: camião é para entregar ao credor. O credor não tem
aceitado a entrega. O devedor está a pagar a garagem onde o camião
permanece. O credor terá que pagar essa renda da garagem.
Aqui ilide-se a presunção constente no artigo 799.º do CC, não
sendo o incumprimento imputável ao devedor. Por outro lado, o
incumprimento é imputável ao credor entrando este em mora.
Não se exige a sua culpa (apesar de neste exercício Dalilia ser
culpada), como por exemplo é o cancelamento de um casamento, exige-se
apenas que o motivo do não cumprimento advenha da esfera do credor.
[A mora não chega para dar azo a incumprimento definitivo/
extinção da obrigação. É preciso que ou ao obrigação seja absolutamente
temporalizada (como no exercicio) ou se cessar o interesse do credor na
prestação (que é analisado através de um critério objectivo, independente
da vontade do credor)]
Neste exercício, apesar de a mora no seu sentido estrito não perdurar,
aplica-se o regime da mora do credor.
1 – Aplica-se o artigo 790.º, n.º1 do CC, extinguindo-se a
obrigação de Catarina cantar.
2 - E recorre-se ainda ao n.º 2 do artigo 815.º do CC,
continuando Catarina com o direito a receber na integra a contraprestação/
o pagamento.
3 – Catarina não era responsável pelo incumprimento. Já
Dália era civilmente responsável pelo incumprimento.
O credor deve indemnizar o devedor pelas despesas que a mora
dá ao devedor. Pois a partir do momento em que o credor entra em mora,
alguns riscos passam para o de credor. O devedor passa só a responder pelo
dolo se a prestação não corresponder à devida.
Exercício n.º 13
Bonifácio era violinista. Não era muito dotado, mas desde que, por
morte de seu avô, herdara um instrumento de raríssima sonoridade e
beleza, choviam os convites para atuar. Um belo dia, ao entrar numa sala
de espetáculos, dá de caras com uma osga a subir a ombreira da porta.
Aterrorizado, pega no seu violino e dá-lhe uma sapatada. A pobre cai ao
chão, inanimada. O instrumento também não sobrevive ao embate.
Bonifácio, cabisbaixo, dá meia volta e vai-se embora, sem emitir uma
palavra. Crispim, que o convidara para tocar naquele dia e que assistira ao
episódio, ainda em estado de choque com a destruição da obra prima,
grita-lhe: «Cretino! Vai-te embora e não voltes!». Quid juris?

Bonifácio foi convidado para tocar com aquele violino, logo a


prestação envolvia um bem infungível. Pelo menos o exercício leva a querer
que seja assim. Logo, quando Bonifácio destruiu o violino torna a prestação
impossível.
Há uma presunção de culpa do devedor quanto ao incrimento,
constante do artigo 799.º do CC. Esta culpa é aferida apartir dos seus
critérios objectivs: tendo em conta a actuação de um bom pai de familia.
Neste caso, não consequimos ilidir a presunção, pois Benifácio claramente
incorreu em culpa quando matou uma osga com o seu violino violoso.
Aqui aplica-se, portanto, o regime da impossibilidade imputável
ao devedor – artigo 801.º do CC [Impossibilidade culposa]. Este parece que
se está a remeter para o regime do incumprimento. Porém, não existe no
código um regime para o incumprimento (devedor não cumpre por que lhe
apetece). Logo, deve remeter-se para o regime da impossibilidade
imputável.
No exercício não é necessário que se remeta para esse regime,
pois ele aplica-se directamente.
1.º efeito: extinção da obrigação (não há regra expressa
que o diga, mas a interpretação sistemática leva a esta conclusão, que se
aplica, portanto, a todos os casos de impossibilidade)
2.º efeito: sendo este um contrato sinalagmácito, o
credor tem direito de extinguir a contraprestação (não é automático),
resolvendo o contrato e recebe o valor da sua prestação já prestada por
inteiro – n.º 2 do artigo 801.º CC.
[≠ao regime das perturbações não imputáveis: artigo 795.º, n.º 1,
da CC]
3,º efeito: o devedor deve indemnizar o credor, mas só
na medida em que haja danos (pressuposto da responsabilidade civil)
O credor tem duas escolhas: a) resolve o contrato e é
indemnizado pelos danos que isso causar e a contrapartida (prestação do
credor) extingue-se; b) não resolve o contrato e recebe uma indemnização
como substituto da contraprestação (é muitas vezes superior ao valor da
prestação anterior do devedor, pois, por exemplo, serve para o credor
contratar um novo músico) não extinguindo-se porem a contraprestação
(prestação do credor).

Exercício n.º 14
Em meados de setembro Albino contratou Branco, pintor, para lhe
pintar de negro as paredes da sala de estar. Na altura não chegaram a
agendar a prestação do serviço. Uns dias depois, Albino telefonou a Branco,
perguntando-lhe quando tencionava lá ir a casa. Branco não se
comprometeu com uma data, afirmando-se muito ocupado. Daí em diante
não mais atendeu o telefone a Albino. Este, agastado, enviou-lhe uma carta
dando-lhe dez dias para fazer o serviço. Nada. No início de novembro,
Branco encontrou Albino na rua e perguntou-lhe se poderia passar lá por
casa já nessa tarde. Albino respondeu-lhe que já não precisava das paredes
pintadas de negro, porque estas, se pintadas a tempo e horas, teriam
servido para surpreender os seus amigos com um jantar de Halloween.
Branco encolheu os ombros, explicando que não se importava de
não fazer a pintura, desde que Albino lhe pagasse a quantia acordada.
Acrescentou que perdera o número de telefone de Albino, mas que durante
o mês de outubro se deslocara por duas vezes a sua casa com vista a fazer o
serviço, tendo-lhe o acesso sido negado por quem «não tinha instruções
para deixar entrar ninguém em casa». Quid juris?

Albino celebra um contrato com Branco, em que as partes não


dicidem quando é que a prestação de Branco deve ser realizada. O contrato
contem, poranto, uma obrigação pura, não sujeita a prazo. De acordo com o
artigo 805.º do CC, as obrigações puras vencem-se com a interpelação.
Branco, no momento imediato à contratação não entra em mora.
O telefonema de Albino uns dias depois pode ser considerada,
tendo em conta a cortesia de uma pessoa normal, como uma interpelação.
Apesar da definição de interpelação ser: acto de comunicação dirigido ao
devedor, cujo contúdo seja o de exigir o cumprimento; tendo em conta os
normais padrões de cortesia, não é necessário que a pessoa diga “exigo que
cumpras”. Saber se um acto de comunicação corresponde a uma
interpelação, depende da interpretação da situação em causa. A
interpelação não está sujeita a forma: podendo a declaração ser expressa
ou tácita. A partir do telefonema Branco entrou, portanto, em mora
(considerando que o telefonema foi uma interpelação).
A mora exige que a prestação continue possível e devida.
Se não considerarmos o telefonema como acto de interpelação,
Branco ao não atender, ao evitar a interpelação, encorra em mora (de
acordo com a alínea c) do n.º 2 do artigo 805.º do CC). Tem, porém, que se
demonstrar que a outra parte (o devedor) impede o contacto (por exemplo,
ver registos do telemóvel).
A argumentação de Branco de como passou pela casa duas vezes
para cumprir não tem fundamento para extinguir a mora, pois o credor não
necessita de estar preparado a todo o tempo, isto seria uma exigência de
deligência excessiva. Assim, Bruno não poderia arguir a porgação.
Para além disso, o incrumprimento é definitivo, já que houve
fixação de um prazo final (moratória) e ainda perda do interesse do credor,
por já não precisar das paredes pintadas.

Exercício n.º 15
Madalena fora contratada em janeiro para passar o mês de
agosto com a família Pipoca, que acompanharia numa viagem à Sardenha
para tomar conta dos filhos pequenos do casal. No início de julho, Madalena
telefonou a Nuno, pai Pipoca, dizendo-lhe que já não podia ir com eles em
agosto pois conhecera um homem deslumbrante com quem planeava
passar o mês de agosto no Algarve. No final de julho, Nuno recebeu novo
telefonema de Madalena, dizendo-se muito arrependida e novamente
desimpedida. Nuno explicou-lhe que tarde falava, pois já a haviam
substituído. Fez bem?
Contrato celebrado em Janeiro de prestação de serviço
decorrente em Agosto. Em Julho Madalena diz que não vai cumprir e em
Agosto volta a dizer que está disponível para cumprir.
I) Esta é uma declaração de não cumprimento
Neste caso, a obrigação ainda não era exigível, pois Madalena
declara em Julho que não vai cumprir o serviço de Agosto. O devedor
informa o credor que não vai cumprir. Há uma violação do contrato, da sua
obrigação.
A declaração produz efeitos. Ela não destroi a obrigação, mas dá a
possibilidade (direito) ao credor de aceitar as palavras do devedor (a
declaração de não cumprimento). Dá também a possibilidade de exigir o
cumprimento – não podendo porém obrigar fisicamente exige uma
indemnização pela violação obrigacional por parte de Madalena.
A atitude do credor, ao aceitar a declaração de não cumprimento,
determina a extinção da obrigação. É uma forma de incrumprimento
definitivo da declaração. A declaração de não cumprimento é antecipada à
ao vencimento da obrigação.
O que acontece quando há incumprimento definitivo?
Artigo 808.º do CC [Perda do interesse do credor ou recusa de
cumprimento]
(n.º1) Se o credor, em consequência da mora, perder o interesse que tinha
na prestação, ou esta não for realizada dentro do prazo que razoavelmente
for fixado pelo credor, considera-se para todos os efeitos não cumprida a
obrigação.
(n.º 2) A perda do interesse na prestação é apreciada objectivamente.
Implicitamente remete para o regime da impossibilidade imputável. [o
reciocinio é: se o artigo remete para o regime que não existe (regime do
incumprimento) aplica-se o regime da impossibilidade imputável]
A obrigação extingue-se e o credor pode resolver o contrato e tem o direito
de receber uma indemnização – artigo 801.º do CC e ss..

Exercício n.º 16
Joaquim foi à loja de Leopoldo comprar uma torradeira. De
regresso a casa, e uma vez que o passeio lhe abrira o apetite, tentou dar-lhe
uso imediato, verificando então que a torradeira não aquecia o suficiente
para torrar o pão que lá introduzira. Voltou à loja e contou a Leopoldo o que
se passara. Este mostrou-se conhecedor do problema.
Explicou a Joaquim que este tivera azar, pois quatro em cada cinco
das torradeiras que vendera até ao momento funcionavam até bastante
bem. Disse-lhe ainda o mesmo que dissera aos clientes a quem o
mesmo problema teria acontecido: que não podia fazer nada, mas que na
loja ao lado, que por acaso era de um irmão seu, tinham imenso jeito para
reparar aquele defeito, que bem conheciam. Como deveria Joaquim reagir a
esta atitude de Leopoldo?

Estamos perante cumprimento defeituoso.


Ter em atenção que se está perante um contrato de compra e
venda.
Artigo 463.º a 466.º do Código comercial.
DL 67/2003, de 8 de Abril – É preciso conhecer, pois afasta o
regime do Código Civil, e que poderíamos pensar que podia ser aplicado
neste caso. O regime do CC aplica-se apenas aos casos em que particulares
vendem uma coisa um ao outro. Nos restantes casos, deve utilizar-se o DL,
conjuntamente com o CC, desde que o utilizemos de forma subsidiária.
O consumidor pode escolher se quer resolver o contrato, reparar
ou substituir o bem. No entanto, há limites a esta escolha: pode haver
impossibilidade (ex.: quando se corta o cabelo e o comprador quiser voltar a
colar o cabelo, existe impossibilidade). Pode haver impossibilidade se o
comprador escolher uma hipótese demasiado onerosa para o vendedor
quando tinha a possibilidade de escolher outra hipótese. Assim, se isto
acontecer, pode alegar-se abuso de direito (artigo 334.º do CC).
No caso concreto, Joaquim, como consumidor, poderá escolher de
entre as possibilidades do artigo 4.º. Na prática, aquilo que seria
complicado, seria convencer Leopoldo a cumprir com aquilo que Joaquim
lhe pedisse.
Cláusulas Contratuais Gerais – artigo 21.º, alínea d) + art. 22.º, n.º 1, alínea
b).

Exercício n.º 17
Ricardo é mestre de obras. Na execução dos trabalhos para os
clientes que o contratam, Ricardo, pedreiro de formação, recorre com
frequência à ajuda de marceneiros, pintores, canalizadores, eletricistas,
ladrilheiros, etc. Por cautela, em todos os contratos que celebra com os seus
clientes faz notar que não se responsabiliza pelos danos que os seus
colaboradores possam vir a causar aos seus clientes. É válida essa
estipulação?”
Este exercício diz respeito a cláusulas de limitação de
responsabilidade.
Tem que se conjugar o artigo 809.º do CC e o n.º 2 do artigo 800.º
do CC  responsabilidade por auxiliares.
Ter também em atenção o regime das Clausulas Contratuais
Gerais – Artigo 18.º, alíneas a) a d).
O artigo 809.º do CC é a regra geral: é alvo de interpretações
muito diferentes pela jurisprudência e doutrina.
A doutrina tradicional defende a nulidade de todas e quaisquer
cláusulas limitativas de responsabilidade, salvo as n.º 2 do artigo 800.º do
CC.
Logo, a resposta para ester exercício, como é o relativamente ao
n.º 2 do artigo 800.º do CC, não existe nulidade da cláusula limitativa de
responsabilidade.

Exercício n.º 18
Ricardo é contratado por Susana, dona de uma série de
perfumarias nos arredores de Lisboa. Ricardo obriga-se a fazer obras de
recuperação e/ou ampliação em todas as lojas de Susana. As partes fixam
no contrato as datas de reabertura de cada uma das lojas.
Ricardo compromete-se a pagar € 1000 a Susana por cada dia de
atraso na execução da obra. Se o atraso for superior a dez dias, para além
desses montantes Ricardo pagará a Susana o montante adicional de €
50.000. Se, passados três meses desde o dia em que a obra deveria
terminar, a obra ainda não estiver pronta, Ricardo cessará nesse momento
todos os trabalhos ainda em curso e pagará a Susana um montante final e
global de € 250.000, valor que as partes entendem corresponder a uma
justa estimativa dos prejuízos que Susana viria a sofrer em resultado do
incumprimento de Ricardo. Se Ricardo faltar ao prometido, e desde que
verificados os respectivos pressupostos, poderia Susana exigir a Ricardo o
pagamento dos montantes acima referidos?

Artigo 810.º do CC [Cláusula penal]


Prof. Pinto Monteiro (tese de doutoramento) – Já existem
decisões do STJ que lhe dão razão. Explica que a definição do artigo 810º é
incompleta. De acordo com ele existem: cláusulas penais a)
compensatórias, b) compulsórias e c) “strictu sensu”.
O prof. entende que a aplicação destas cláusulas é lícita. Aquela
que corresponde ao artigo 810.º é a cláusula penal compensatória,
compensa os danos. As partes calculam quanto é que o credor sofreria em
caso de incumprimento. O credor tem de revelar os danos que sofreu.
Cláusula penal compulsória – é um mecanismo semelhante ao artigo 809.º,
alínea a). É o montante que incentiva o devedor a cumprir porque, se não o
fizer, sabe que terá de pagar muito mais do que, provavelmente, o dano
custa. No caso concreto, corresponde à primeira cláusula (1000€ por
dia).
O n.º 2 do artigo 810.º do CC aplica-se a todos os tipos
de cláusula penais.
Artigo 811.º do CC [Funcionamento da cláusula penal]
As partes podem convencionar que o credor pode exigir uma
indemnização ou um montante mais excessivo, correspondente a uma
cláusula penal. No entanto, se quiser exigir um montante mais excessivo,
terá de provar que houve danos, mesmo que os danos sejam inferiores, a
não ser que sejam significativamente inferiores.
Se a cláusula penal for compensatória, o credor só tem que provar
a exitência de dano e não o seu valor para exigir o seu pagamento. É o
devedor que tem que provar que não houve dano, ou houve mas este não
teve culpa. Mas nunca se prova se os danos forem apenas menores. Apenas
se forem quase eximios.
O n.º 3 só se aplica aos tais casos em que as partes determinam
algo quanto ao dano excedente. Temos que aplicar este n.º relacionando o
com o n.º 3, de outro modo, levaria-nos a excluir a possibilidade de exitirem
cláusulas penais, já que estas costumam ser superiores aos danos.
Interpretamos de acordo com as regras do artigo 9.º do CC.
Este artigo tem de ser interpretado. Este preceito ressalva a
cláusula penal moratória. Não se pode acumular o pagamento da cláusula
com a exigência do cumprimento da obrigação. Proíbe-se, assim, o
enriquecimento de credor às custas do devedor.
Também não se pode, salvo estiuplação em contrário, acumular a
cláusula penal compensatória, com uma indemnização, pois já é esse o
propósito da cláusula.
De acordo com o prof. Pinto Monteiro, temos de distinguir bem o
objecto da cláusula e o objecto da obrigação.
No entanto, em caso de obrigações negativas, o mesmo já não
acontece. Exemplo: A trabalha com B numa mercearia. B despede A,
fazendo-o prometer que não monta nenhum negócio concorrente na
mesma rua. A não respeita esta vontade e monta negócio na mesma rua. B
pode exigir que A feche a sua loja e que pague um montante
correspondente ao prejuízo que sofreu enquanto o estabelecimento
concorrente esteve aberto.
Por isso, se os 250 000 euros do exercício já visam cobrir o
incumprimento, não se poderá exigir esta prestação conjuntamente com a
execução da prestação não cumprida. Logo, as partes estipularam bem.
A cláusula penal compulsória pode ser acumulada com tudo o
resto. Como o seu objectivo é motivar o devedor a prestar, pode ser
cumulada com os 250 000 euros finais.
Serão os 50 000 cumuláveis com os 250 000? Há possibilidade
disso, segundo a prof. Como os 50 000 são uma multa pelo atraso (clausula
penal moratória), os 250 000 são uma multa pelos danos (cláusula penal
(strictu senso).
[Conclui-se, portanto, que todas as cláusulas penais deste
exercício são válidas, segundo o pensamento de Pinto Monteiro, aplicando-
se a todas o regime da cláusula penal. Se partirmos do pressuposto que
todas as cláusulas penais são válidas (ver quanto a forma), temos que ver se
eram comulativas. Como os interesses eram distintos, o credor podia exigi-
las a todas.
Artigo 812.º do CC [Redução equitativa da cláusula penal]
Prof. Pinto Monteiro considera que estes princípios gerais são
aplicáveis a várias outras figuras. Aplica-se o regime extensivamente ou
analogicamente a outras figuras. O prof. aplica esta norma a mais
mecanismos, como o sinal.
Este artigo não se aplica quando estamos no regime das cláusulas
contratuais gerais. Artigo 19.º, alínea c) das CCG – este artigo só se aplica às
cláusulas penais compensatórias. Este artigo determina a nulidade para
estas cláusulas. Logo, como consequência de uma cláusula penal
desproporcionada não se aplica o artigo 812.º do CC.
Art. 812º, alínea c), CC.

Exercício n.º 19
Na segunda-feira João comprou a Paulo, um seu colega de
faculdade, dez pares de sapatos em segunda mão. Pagou-lhe logo uma
parte do preço acordado, tendo ficado de passar por sua casa no dia
seguinte para lhe pagar o remanescente. Nessa noite, João foi descomposto
pela mãe, que o proibiu de gastar mais dinheiro em roupas ou calçado até
ao final do semestre e lhe tirou todo o dinheiro que João tinha no mealheiro.
Na terça-feira, João explicou a Paulo que não tinha dinheiro para lhe pagar.
Não querendo ficar a dever nada a Paulo, João perguntou-lhe se em vez do
dinheiro poderia entregar-lhe umas quantas camisolas praticamente novas
que já não lhe serviam. Paulo não aceitou a troca.
João regressou a casa e, algo envergonhado, explicou à mãe o
sucedido. A mãe, resignada, passou um cheque à ordem de Paulo. Na
quarta-feira, João entrega o cheque a Paulo. Nesse mesmo dia, Paulo
passou pelo banco e depositou o cheque na sua conta bancária. Na quinta-
feira, Paulo consultou online um extracto da sua conta e verificou que a
quantia em causa já estava disponível. Na sexta-feira, Paulo foi ao banco e
levantou o dinheiro. Em que dia se extinguiu a obrigação de João?”

Dação
Se a proposta do João tivesse sido aceite por Paulo:
Existiria uma dação em cumprimento. Ao contrário do
cumprimento, em que a prestação devida é entregue, o credor aceita uma
prestação diferente que tem o mesmo efeito que o cumprimento da
obrigação devida. Implica a extinção da obrigação.
De acordo com o artigo 837.º CC [Quando é admitida],
aqui não houve dação em cumprimento porque só existiria se a proposta de
João tivesse sido aceite.
Artigo 838.º do CC [Vícios da coisa ou do direito]
O credor a quem for feita a dação em cumprimento goza
de garantia pelos vícios da coisa ou do direito transmitido, nos termos
prescritos para a compra e venda; mas pode optar pela prestação primitiva
e reparação dos danos sofridos.
Quando ocorre uma dação em cumprimento, dá-se ao
credor a possibilidade de exigir o cumprimento da prestação original, se se
vier a arrepender.
Tem o mesmo regime do comprimento defeituoso e
ainda se dá a possibilidade ao devedor de se arrepender e exigir a prestação
primitiva e a reparação dos danos sofridos.
Artigo 839.º do CC [Nulidade e anulabilidade da dação]
Sendo a dação declarada nula ou anulada por causa
imputável ao credor, não renascem as garantias prestadas por terceiro,
excepto se este conhecia o vício na data em que teve notícia da dação.
Garantias, como por exemplo, fiança. Destroem-se
retroactivamente as garantias.

Quanto à segunda parte do exercício: em que dia se


extingue a obrigação?
Vai se aplicar, neste caso o artigo 840.º do CC,
relativamente à «Doação pro solvendo»:
É uma figura diferente da dação em cumprimento.
Só se aplica a obrigações pecuniárias.
Quango alguem paga com cheque, não paga
juridicamente falando. A menos que as partes tenham estipulado que esse
seria o cumprimento. Caso contrário, o cheque não é cumprimento nem
dação em cumprimento, porque esta implica execução imediata. Um
cheque é um título de crédito que permite o titular ir ao banco receber a
quantia (logo contra o Banco) – papel que te autoriza a ir a terceiro pedir a
quanita e recebê-la. Quando se aceita um cheque, isso só permite ao
vendedor dirigir-se a um banco e levantar o dinheiro. Assim, a obrigação do
comprador só se extingue quando o vendedor recebe o dinheiro
correspondente ao valor do cheque (a menos que as partes estipulam que
ela se extingue com a entrega do cheque, mas isto é um risco, pois se ele
não tiver cobertura a entrega já se realizou na mesma).
Assim, temos uma dação “pro solvendo” quando Paulo
recebe o cheque. A obrigação extingue-se, não no dia em que Paulo
deposita o cheque no banco, mas a partir do momento em que o dinheiro é
depositado na sua conta e já está disponível na sua esfera.
Quarte dá se a doação por solvente. Ou seja, é na
quinta-feira que a obrigação se extingue. A partir do momento em que se
constitui na esfera de Paulo o direito de crédito sobre o dinheiro, a
obrigação se extingue. Até aí o devedor continua
obrigado.

Exercício n.º 20
Imagine agora que na terça-feira, depois de explicar a Paulo que
já não tinha dinheiro para lhe pagar o remanescente do preço dos sapatos,
João é violentamente agredido por Paulo, que o expulsa de casa ao murro e
ao pontapé, gritando-lhe: «Com que então não tens dinheiro? Toma lá, que
assim ficamos quites!» Quid juris?

Regime da compensação (artigo 847.º e segs.)


Todo o devedor tem direito a uma quitação, comprovativo de
cumprimento passado pelo credor. Com a expressão “estamos quites” quer
se dizer que houve quitação.
A compensação existe quanto temos duas dívidas, em regra
pecuniárias, entre os mesmo intervenientes, mas em sentido contrário. Ela
não é automática, tem que ser pedida pelas partes e que cumprir certos
requisitos. Aqui pode haver uma compensação.
Já vimos que quase qualquer pessoa pode cumprir obrigação
alheia. Na compensação está-se a falar memso dos titulares que têm
créditos contrários e não sobre as pessoas que cumprem.
É raro haver uma correspondência dos montantes. Quando não se
sabe o momente, mas este é determinável, a dívida maior reduz-se. Pode se
sempre deixar para um momento em que o valor já seja determinável.
A ideia de Paulo era que ao bater no João, este último iria ficar
com um direito de indemnização contra Paulo pela agressão. O valor deste
direito compensaria o que João ainda devia a Paulo, compensando-se as
dívidas.
Porém isto não pode ser aceite, devido à alínea a) do n.º 1 do artigo 853.º
do CC.

Exercício n.º 21
Agora suponha que na terça-feira, depois de explicar a Paulo que
já não tinha dinheiro para lhe pagar o remanescente do preço dos sapatos,
João se comprometeu a entregar-lhe no dia seguinte todas as suas
camisolas, quer lhe servissem, quer não lhe servissem. Paulo perguntou-lhe
quantas camisolas seriam, tendo João respondido que seriam para aí umas
quinze. Paulo aceitou a troca. No dia seguinte, ainda na faculdade, Paulo
dirigiu-se a João, dizendo-lhe que pensara melhor na sua situação e que
preferia simplesmente esquecer a dívida, considerando-se satisfeito com o
pagamento da primeira prestação do preço. João aceitou de imediato a
proposta do amigo, feliz e agradecido. Quid júris?
Situação de Novação
Situação muito semelhante à dação em cumprimento.
Na dação em cumprimento, não me obrigo a cumprir nada.
Apenas presto coisa diferente que, se o credor aceitar. O regime aplica-se a
todo o tipo de prestações, coisas ou não. Aqui, eu não me comprometo a
prestar coisa diferente.
Quanto á segunda parte (mudança de ideias de Paulo)
Estamos perante uma remissão. [Este é outro modo de extinção
de obrigações.]
Artigo 863.º do CC.
Artigo 234.º do CC [Dispensa da declaração de aceitação] – não é
preciso existir uma verdadeira declaração de aceitação. Basta que a outra
parte demonstre (expressa, oral ou tacitamente) a sua aceitação.
A remissão é um dos efeitos do contrato.
O contrato não pode ser sinalagmático, se não não há remissão.

Exercício n.º 22
Júlia pedira dinheiro emprestado a Patrício, seu pai.
Comprometera-se a restituir o dinheiro até ao Natal. Subitamente, morre
Patrício. Júlia é a sua única herdeira. O que sucede à sua dívida?

Regime da confusão. – Art. 868º CC..

Exercício n.º 23
Carlos empresta € 10.000 a David. Este compromete-se a
devolver-lhe o dinheiro no prazo de um ano. A certa altura, Carlos precisa de
dinheiro, pelo que vende a Elvira, ao preço de € 8.500, o seu crédito sobre
David. David, que entretanto herdara de uma tia uma quantia avultada,
devolve de imediato os € 10.000 a Carlos. Este aceita o dinheiro, nada
dizendo a David sobre a venda do seu crédito a Elvira. Na data em que o
crédito se venceria, Elvira bate à porta de casa de David, explicando-lhe a
situação e pedindo-lhe os € 10.000. David recusa-se a pagar-lhe o dinheiro,
retorquindo que só a Carlos devera dinheiro, e que a Carlos o devolvera,
nada devendo a Elvira. Quid juris?
Estabelece-se uma relação obrigacional entre Carlos e David.
Carlos fica com um direito de crédito no valor da quantia emprestada sobre
David, e este último fica com o dever de entregar essa quantia no prazo de
um ano. Há, portanto, uma prestação a prazo, devendo ser cumprida dentro
de um ano.
Há um contrato de cessão do crédito entre Carlos e Elvira, nos
termos do artigo 577.º do CC. Este é um contrato, não do mesmo tipo que o
contrato de compra e venda, sendo este um tipo contratual, mas sim um
contrato definido pela função/ efeitos do contrato (ex: contrato a favor de
terceiros).
De acordo com o artigo 578.º, é aplicável o regime do tipo de
negócio que serve de base à cessação. Neste caso, o direito de crédito
decorre de um contrato de múto, entre Carlos e David, mas a cessão do
crédito resulta do contrato de compra e venda do crédito entre Carlos e
Elvira. [Já se Paulo cedesse o crédito, sme exigir uma contraprestação,
Carlos estaria a doar o direito de crédito, aplicando-se o regime da doação].
David, porém, nunca teve conhecimento da cessação do negócio,
logo, nos termos do artigo 583.º do CC, apesar da contrato de cessação do
crédito ser válido inter partes (artigo 406.º do CC), este não podia ser
opinível ao devedor. Logo, o cumprimento de David extingue a sua
obrigação.
David estava protegido, apesar da cessão ter efeitos inter partes
no momento da celebração, os seus efeitos não eram opiníveis a David,
podendo este último pagar ao credor inicial.
Já Elvira poderia invocar contra Carlos o regime do
enrequicimento sem causa.
Também é bastante comum as partes estabelecrem no contrato
que o credor deve agir respeitando o contrato. Podia haver una base
contratual para a violação do contrato de cessação de crédito. Mas tal não
acontece aqui.
Poderiamos ainda discutir se se podia invocar a boa fé em
execução do contrato, decorrente do n.º 2 do artigo 762.º do CC. Aqui
estariamos perante a violação de deveres acessórios do cedente. Isto é
discutível.
Quanto ao valor pelo qual Carlos pagou o crédito a Elvira,
poderia.-se considerar que Elvira estava-se a aproveitar da circunstância de
Carlos precisar de dinheiro para comprar o crédito pro um valor inferior ao
que ele vale. Porém, só se pode conlcui isto com base com base no regime
usurário.
Em regra, vende-se crétidos que se umprem um ano após a
celebração, por preços superiores ao comprado. Aqui a inflacção funciona
ao contrário.
Ter em atenção, que quando não se diz nada, o prazo tem-se
estabelecido a favor do de devedor, não podendo o credor exigir o seu
cumprimento antes do prazo estipulado.. Logo, é normal que quando o
prazo é longo e estes precisem de dinheiro, os titulares de direitos de
rédito vendam esses créditos a um preço superior.
[Tendo em conta que no exercício diz “venda”, entendemos que o
contrato de cessação do crédito era válido. De outro, modo, se o exercício
apenas se refirice que se havia “celebrado um contrato”, aí já se podai
discutir se a forma foi cumprida ou não.

Exercício n.º 24
Felisberto deve € 2.000 a Gustavo. Horácio, vizinho de Gustavo,
deve € 1.500 a Felisberto. Na data aprazada, Gustavo dirige-se a Felisberto,
pedindo-lhe os € 2.000. Felisberto não dispõe daquela quantia em dinheiro,
pelo que paga € 500 a Gustavo em dinheiro e cede-lhe o seu crédito sobre
Horácio. Explica que, uma vez que não dispõe de mais dinheiro, este seria o
único meio de Gustavo ver o seu interesse satisfeito ainda
naquele dia, uma vez que, sendo ele vizinho de Horácio, não lhe custaria
muito bater-lhe à porta e pedir-lhe o dinheiro. Gustavo aceita, na condição
de Horácio lhe pagar ainda nessa data. Se assim não fosse, voltaria a bater
à porta de Felisberto. Quid juris?

Existem aqui duas relações obrigacionais, uma entre Felisberto e


Gustavo e outra entre Horácio e Felisberto.
Felisberto tem um direito de crédito na quantia de 1.500€ sobre
Horácio, enquanto deve 2.00 euros a Gustavo.
Quando Gustava vai interpelar Felisberto, este último paga em
dinheiro parte da obrigação e, não tendo mais dinheiro celebra um contrato
de cessação de crédito. Nos termos do artigo 578.º do CC, o contrato que
está na origem do contrato de cessação de crédito é uma dação «pro
solvendo», prevista no artigo 840.º do CC. Aqui vigora a autonomia das
partes. Segundo o n.º 2 do artigo 840.º do CC, presume-se que a dacção que
tenha por objecto satisfazer um crédito é uma dacção «pro solvendo».
Logo, o crédito só se extingue quando for satisfeito e na medida
do respectivo, isto é, quando Horácio pagar a Gustavo.
Sendo o negócio condicional, pois só é celebrado com a condição
de Horácio pagar a Gustavo naquela data, afasta o regime supletivo previsto
no artigo 587.º do CC. Logo, o cedente expressamente garante a solvência
do devedor.
Aqui não existe um tipo contratual (a dação «pro solvendo» não é
um tipo contratual), aplicando-se dois regimes, o da cessação do crédito e o
da dação «pro solvendo».
Se Horácio não pagasse, Gustava voltaria a Felisberto não se
extinguindo a dívida de Felisberto, entrando Felisberto em mora. O devedor
foi sempre o mesmo.

Exercício n.º 25
Imagine agora que Horácio nega dever o que quer que seja a
Felisberto. No entanto, dispõe-se a pagar os € 1.500 a Gustavo, na condição
de este lhe ceder a faculdade de exigir semelhante pagamento a Felisberto.
Gustavo assim faz, regressando a casa com o seu crédito satisfeito na
íntegra. Horácio dirige-se então a casa de Felisberto, explicandolhe que
agora é ele o credor, e exigindo-lhe os € 1.500. Explica-lhe ainda que, se
Felisberto não lhe der o dinheiro naquele momento, terá de pagar-lho mais
tarde, e com juros. É assim?

Quando Horácio aqui nega dever algo a Felisberto, Horácio e


Gustava podem acordar nisto, tal como acontece neste exercício, mas
Gustavo pderia reagir contra Felisberto.
Sendo esta uma dação em cumprimento, a obrigação de
Felisberto só se extinguiria com a entrega do dinheiro de Horácio a Gustava.
Logo, este poderia voltar a Felisberto e exigir a este que cumpra, já estando
Horácio em mora desde o momento da primeira interpelação em que
Felisberto celebra com Gustavo o contrato de cedência de crédito.
Mesmo que não estivessemos perante uma doação «pro
solvendo», recorreriamos ao n.º 1 do artigo 587.º do CC. Logo, o que
acontece à cessação do crédito depende do tipo – teriamos que decidir
neste caso se o negócio era gratuito ou oneroso.
A cessação do crédito de Felisberto a Gustavo era onerosam já
que ocorrera para extinguir uma dívida cedente. Aqui tinhamos que aplicar
o regime de compra e venda de bens alheios, sendo, segundo o artigo 893.º
do CC o negócio nulo.
Aqui estamos perante a figura da subrogação do credor, prevista
no artigo 589.º do CC.
Horácio cumpriria dívida de Felisberto perante Gustavo e era lhe
subrogado o direito de crédito dessa quantia contra felisberto. Esta
subrogação é feita expressamente. Basta declaração unilateral do credor.
Gustavo vê os seus interesses satisfeitos. Felisberto estava em mora desde
o momento em que a dação em cumprimento foi proposta, já que esta não
se concretizou, não precisando de Horácio de voltar a interpelar Felisberto,
já que este último já tinha sido interpelado anteriormente por Gustavo
(artigo 805.º do CC). De acordo com o n.º 1 do artigo 804.º do CC: A simples
mora constitui o devedor na obrigação de reparar os danos causados ao
credor. Sendo a obrigação pecuniária era verdade que Felisberto depois
teria que pagar a Horácio com juros. O artigo 806.º do CC prevê que na
obrigação pecuniária a indemnização corresponde aos juros a contar do dia
da constituição em mora, sendo esses juros legais. Os juros podiam ser civis
ou comerciais:
a) civis: [actual é de 4 %] – Artigo 559.º do CC – estes são os juros
supletivos, mas só se acietam superiores se foram estipulados por escrito
pelas partes + Portaria 291/ 2003, 8 Abril
b) comerciais: [actual é de 8 %] – artigo 102.º, n.º 3 do Código Comercial +
Portaria 597/2005, 19 de Julho resulta de juros semestralmente fixados
pela Direcção Geral da Tesouraria.
Os requisitos do artigo 589.º do CC foram cumpridos: a subrogação foi feita
expressamente e antes do momento do cumprimento da obrigação.

Exercício n.º 7
Luís sofreu um acidente de viação causado por Tiago, que
conduzia a sua bicicleta a grande velocidade e em contramão. Para não o
atropelar, Luís desviara-se do seu caminho e acabara por chocar contra uma
árvore, danificando muito substancialmente o seu carro novo. Luís não se
dava bem com Tiago, mas era muito amigo do seu primo
Simão. Uma vez que Tiago se recusou a pagar-lhe o que quer que fosse, Luís
dirigiu-se a Simão e contou-lhe o que se passara. Simão logo lhe pagou o
arranjo do carro, pedindo-lhe muita desculpa pelo comportamento do primo
e dizendo-lhe que não pensasse mais no assunto, que este se resolveria em
família. Em seguida, Simão dirigiu-se a Tiago, a quem exigiu o reembolso da
quantia paga a Luís. Tiago recusou-se a pagar-lhe, com o argumento de que
Simão «não tinha nada que se ter metido onde não era chamado». Quid
juris?

Neste exercício, um terceiro não relacionado cumpre a obrigação.


[Problema que daqui surge: se o terceiro pagar, o devedor fica sem poder
contestar a sua culpa e a sua obrigação de pagar]
Esta é uma obrigação de fonte não negocial, mas de
responsabilidade civil.
Regime da sub-rogação
[associado ao regime do cumprimento de obrigações por terceiro]
Artigo 589.º do CC [Sub-rogação pelo credor]
O Simão devia ter pedido ao Luís (credor originário) que lhe sub-
rogasse os seus seus direitos de crédito. Se Luís o tivesse feito, o Simão seria
o novo credor de Tiago.
Artigo 590.º do CC [Sub-rogação pelo devedor]
Artigo 591.º do CC [Sub-rogação em consequência de emprestimo
feito ao devedor]
Tiago queria pagar, mas não tem dinheiro. Então pede um
empréstimo a Simão e paga com esse dinheiro. Neste caso, o devedor pode
subrogar a terceiro o direito de crédito.
 No exercício, não houve subrogação convencionada. E legal?
Artigo 592.º do CC [Subr-rogação legal]
Artigo 593.º do CC [Efeitos da sub-rogação]
O exercício não preenche nenhuma das opções apresentadas.
Em alternativa temos que considerar se preenche uma das
seguintes situações:
Artigo 477.º do CC [Cumprimento de obrigação alheia na
convicção de que é própria]
Artigo 464.º do CC [Gestão de negócios]
Neste exercício concluimos que não se aplica nenhum desses
regimes-
Não há, portanto nenhuma zona do Direito Civil que dá uma
resposta clara.
Pode é, recorrer-se aos artigos 473.º e seguintes – o regime geral
do enrequecimento sem causa.
As pessoas podem sempre cumprir, o que interessa é saber se
podem exigir algo em troca.
Exemplo das consequências disto: contrato com um pintor. Na
hora marcardo ele não chegou. Então o credor diz a um outro pintor que
lhe subroga os seus direitos.

Exercício n.º 26
Felisberto não consegue pagar a sua dívida a Horácio. Gustavo
dirige-se então a Horácio, oferecendo-se para ficar ele com a dívida de
Felisberto, desde que Horácio lhe desse um desconto e aceitasse a redução
do seu montante para € 1.200. Horácio aceita a proposta de Gustavo. Este
paga-lhe os € 1.200 e vai bater à porta de Felisberto, pedindo-lhe os €
1.500. Pode fazê-lo?

Se Gustavo apenas pagasse a dívida, estariamos perante uma


subrogação. Aqui, porém, estamos perante uma cessão de cidívas, pois
Gustavo “oferece-se para ficar ele com a dívida de Felisberto”.
Isto mostra que a mesma situação de facto pode conduzir a uma
outra figura, pois as figuras desempenham funções parecidas.
Este é um caso de assunção de dívidas, já que foi realizado através
de acto voluntário, através de contrato celebrado entre Gustavo e Horácio.
[A expressão “transmissão da dívida” é uma expressão com muitos sentido,
podendo incluir, por exemplo a herança, que é uma transmissão gratuita.]
O Gustavo é assuntor, assume a dívida de outrem.
Aqui não houve consentimento de Felisberto, mas este também
não era necessário.
Para além disso, houve um perdão parcual da dívida (desconto). A
remissão de parte da dívida perante Gustavo. Isto não quer dizer que
Felisberto não ficasse a dever a dívida por inteiro.
Aqui aplica-se a assunção acumulativa da dívida, já que para não
se aplicar este regime, em que existem dois devedores, segundo o n.º2 do
artigo 595.º do CC era necessário que expressamente se tivesse
estabelecido o regime da assunção liberatória, aonde o novo devedor
subsitui o antigo, exonerando-se o devedor anterior.
Quanto a Gustavo ir a casa de Felisberto pedir o dinheiro, temos
que ver se houve subrogação.
Aqui não houve subrogação voluntária. Quanto à subrogação
legal, prevista no artigo 592.º do CC, é necessário verificar se os requisitos
foram cumpriedos.
Poderiamos alegar que Gustavo se vinculou á satisfação daquele
crédito, tornando-se devedor deste e, por isso, teria um interesse relevante
no seu cumprimento. A professora considera que interpretar o artigo deste
modo, dando lhe uma aplicação tão larga, iria contra o seu propósito, logo,
não se poderia invocar este argumento.
Aqui, Gustavo não podia exigir a Felisberto que lhe dess essa
quantia
A única solução de Gustavo era recorrer ao regime do
inrequecimento sem causa.
[Não é normal alguém querer ser assuntor sem mais nem menos.
A assunção acontece na maioria das vezes quando a dívida é vista como
acessória de um bem.

Exercício n.º 27
Joana comprou a Luísa todo o material necessário à renovação e
montagem de diversos pontos de luz na sala de estar de Maria. Joana fê-lo
porque desejava oferecer à amiga uma nova decoração da sua sala de
estar. Maria aceitou a oferta de bom grado, pois confiava no bom gosto
de Joana, mas insistiu em assumir perante Luísa a dívida contraída por
Joana, que na altura da compra do material não chegara a pagar o
respetivo preço a Luísa. Joana aceitou a proposta de Maria. Contudo, Luísa
não viu com bons olhos a troca, insistindo em que era Joana a devedora do
preço do material. Uns dias mais tarde, Joana dirigiu-se a Maria, pedindo-
lhe que pagasse o preço do material a Luísa, que já por diversas vezes lhe
telefonara a exigir o dinheiro. Maria, que não ficara encantada com a nova
decoração da sua sala, explicou-lhe que não devia nada a Luísa, já que, nas
palavras desta, a única devedora do preço do material era Joana. Quid
juris?

Estamos perante uma tentativa de assunção de dívidas.


É possível realizar-se a assunção de dívidas através de contrato
entre antigo e terceiro (antigo devedor), tal como está estipulado na alínea
a) do n.º 1 do artigo 595.º do CC. Este acordo tem, porém que ser ratificado
pelo credor.
Apesar de o devedor não precisar de consentir quando há
assunção, o credor tem conhcer o seu devedor e concordar com quem ele
é.
Porém, Luísa não ratifica o contrato. Assim, enquanto assunção de
dívida o negócio não produz efeitos. O contrato de assunção de dívida é,
portanto, inválido.
Aqui poder-se ia converter, nos termos do artigo 299.º, o
contrato, aproveitando as partes válidas.
Aqui haveria haveria um negócio em que nos podiamos secorrer:
n.º 3 do artigo 444.º do CC - Quando se trate da promessa de exonerar o
promissário de uma dívida para com terceiro, só àquele é lícito exigir o
cumprimento da promessa.
Este não é um verdadeiro contrato a favor de terceiro.
Há portanto um contrato entre Joana e Maria, se se provasse que
ambas teriam a intensão de ser Maria a assumir e satisfazer a dívida
perante Luisa. O compromisso converter-se-ia em promessa de exoneração
da dívida de Joana por Maria perante Luisa.
Embora o negócio tentado fosse nulo, este converte-se-ao na
figura mais prózima válidada.
[Este percuso é normal]
Joana é, portanto credor de Maria, sendo a única que podai exigir
o pagamento. Já Luisa era credora de Joana.
De acordo com o artigo 767.º do CC, Luisa não podia recusar o
cumprimento por Maria.
Aqui há duas obrigações independentes, não havendo assunção
de dívidas.

Exercício n.º 28
Ana dá um passeio pelo parque. Exibe, satisfeita, o vestido de
lantejoulas que a mãe lhe
oferecera por ocasião do seu último aniversário. Na mesma direção segue
Bruno, estudante de direito, que saíra à rua para passear o seu cão.
Distraído, não repara que este, atraído pelo brilho das lantejoulas, se atira
com violência ao vestido de Ana. Mal se apercebe da situação, Bruno corre
a imobilizar o seu cão, mas nessa altura já o vestido estava feito num
farrapo.
Este é um caso evidente de responsabilidade civil (artigos 593.º e
ss).

Ana constitui Crispim seu advogado, conferindo-lhe poderes para


propor uma ação judicial contra Bruno. Crispim conclui do seguinte modo a
sua petição inicial: «Nestes termos, e nos demais de direito aplicáveis, que
V. Ex.ª doutamente suprirá, deve a presente ação ser julgada procedente e,
consequentemente, ser o R. condenado a pagar à Ana o montante de €
250.000,00, a título de indemnização por danos patrimoniais e morais,
acrescido de juros vencidos no montante de € 30.000,00 e ainda de juros
vincendos à taxa supletiva legal em vigor em cada momento, até integral e
efetivo pagamento.» O tribunal julga a ação procedente, condenando o R.
no pedido. No entanto, Bruno recusa-se a pagar, alegando não dispor de
semelhante quantia. Como pode Ana reagir a esta atitude de Bruno?

O tribunal condenou Bruno a pagar o valor do vestido, os juros já


vencidos e ainda os juros civis por vencer (4%). Bruno recusa-se a pagar.
Existe uma sentença condenatória e Bruno, mesmo assim, não
paga.
Aplica-se o artigo 817.º do CC.
Ana teria proposto bem uma uma acção de cumprimento
declarativa condenatória (artigo 4.º do CPC).

Exercício n.º 29
Adolfo é tio de Bernardo. Nos seus tempos de estudante
universitário, Bernardo encheuse de dívidas, pois só pensava em sair à noite
e em divertir-se com os amigos, não olhando a meios para satisfazer tais
fins. A certa altura da vida lá acabou por ganhar juízo. No entanto, os
credores do antigamente continuam a bater-lhe à porta. O tio, que muito o
aprecia, pretende deixar-lhe em testamento a sua casa no Algarve. Mas
quer que esta se mantenha na família, e não que acabe nas mãos dos
credores de Bernardo. O que aconselharia Adolfo a fazer?
Aqui aplica-se o artigo 603.º do CC, quanto á limitação da
responsabilidade patrimonial por terceiro. Adolfo estabelece uma cláusula
de limitação da responsabilidade por dívidas de Bernardo.
O Bernardo é o legatário, e o facto de o bem entrar no seu
património, neste caso, não implica que seja susceptível de execução pelos
credores anteriores ao registo da cláusula.
Outra solução possível seria a consignação de rendimentos,
prevista no artigo 656.º do CC. Esta, porém, não é indicada, já que é um
meio de extinção da obrigação em que os rendimentos da liberdade são
consigados á extinção de um crédito.
Outra possibilidade ainda era Adolfo legar o bem a outrem, mas
reservar o direito a usufruto a Bernardo. Porém, sendo o usufruto um
direito real, este também era penhorável, a menos que se instituisse o
intuito personae.
A alternativa mais viável, ainda melhor do que a aplicação do
artigo 603.º do CC, seria o fedeicomisso, previsto nos artigos 2286.º e ss. do
CC.
Adofo, através desta figura, deixaria os bens aos herdeiros de Bernardo, por
exemplo. O bem, deste modo, teria a limitação, de não entrar no seu
património, pois Bernardo teria apenas uma titularidade provisória, ficando
com o encargo de estimar e conservar o bem para depois o entregar aos
herdeiros. A cláusula de registo fica no nome de Bernardo,
enquanto finduciário.
Isto vale tanto para os credores anteriores quanto posteriores.
A propriedade só se transfere (encontrando-se ela no limbo
entretanto), com a morte do fiduciário, portanto, com a morte de Bernardo.
Não permite que haja execução de credor anterior ou posterior.

Exercício n.º 30
Na segunda-feira, Ricardo encomenda dois tapetes a Sofia, cujo
preço esta fixa em € 400. Na quarta-feira, encomenda a Teresa uma mesa e
duas cadeiras ao preço de € 800. Em ambos os casos, compromete-se a
pagar 50% do preço num prazo de 48 horas a contar da data das
encomendas. Na quinta-feira, Sofia bate-lhe à porta e pede-lhe o dinheiro
que lhe cabe. Ricardo explica-lhe que ainda vive com os pais e que, uma vez
que ainda procura o seu primeiro emprego, não tendo outros rendimentos,
o seu património resume-se às notas e moedas que tem no mealheiro, no
montante total de € 500. Explica-lhe que, não podendo ele pagar a ambas,
entre as duas prefere pagar a Teresa, o que fará no dia seguinte, sexta-
feira. Quid juris?
O Ricardo contraiu dívidas a dois credores e só tem património
para pagar a um. Ricardo escolha pagar a obrigação que se vence por
último, a em que Teresa é credora.
Primeira abordagem: Aqui, Teresa e Sofia são duas credoras
comuns. Logo, estas apenas contam com a garantia geral é aplicado o
princípio par condicio creditorum. Assim, as duas credoras são pagas
proprocionalmente, as duas recebem a mesma percentagem da sua
obrigação (o que depende da quantia do direito de crédito).
Implicíto: aqui estamos perante uma situação de insolvência.
A não satisfação de um dívida é sempre um acto ilícito.
Como ainda não se está num processo de insolvência, Ricardo
pode escolher qual a obrigação que quer pagar primiero ou se apenas quer
pagar uma. Este nem necessita de se justificar.
Esta possibilidade de descriminação é lhe concedida por este ser
um particular. Se este fosse uma empresa aplicar-se-lhe-iam os artigos 3.º,
5.º e 18.º do Código de insolvência e recuperação de empresas. A situação
de insolvência diverge do processo de insolvência, sendo a ligação o
desencadear do processo.
Segundo o artigo 18.º do CIRE os particupares não tem que
apresentar a insolvência, tendo estes o dever de aplicar o princípio par
condicio creditorum.
Sofia não podia exigir que Ricardo lhe pagasse primeiro. Ricardo
continuava a ser devedor de Sofia, podendo esta última invocar um direito
indemnização contra Ricardo. Porém, isto não pesaria, já que Ricardo não
tem bens.
Por isso é que, quando se vê que o devedor não tem dinheiro, o
credor deve instituir outras garantias. O credor tem que verificar que tipo
de património o potencial devedor tem. Tem que se avaliar a garantia geral
do potencial devedor.
O património integral de Ricardo serviria para pagar parcialmente
o crédito para com Teresa.
Aqui, a obrigação de Teresa vencer-se ia no dia seguinte, e só
nesse dia é que Ricardo irá cumprir.
[Estando em causa várias dívidas vencidas, pode o devedor escolher. Se
uma obrigação não for vencida então o devedor não a pode escolher (?).]

Exercício n.º 31
Simão enterrou-se em dívidas. Receando que algum credor se
lembrasse de penhorar os seus bens, forjara um contrato de compra e
venda e de comodato. Da leitura de semelhante documento resultava que
Simão vendera a Teresa, sua amiga de longa data, todo o recheio de sua
casa, recheio esse que Teresa emprestara a Simão, para que dele se
servisse. A seu pedido, o documento fora assinado por Teresa. Com a casa
Simão não teria de preocupar-se, uma vez que era um bem próprio de
Úrsula, sua mulher. Restava-lhe a conta bancária. Para que os
credores não lhe chegassem, esvaziou-a, dando todo o seu dinheiro ao seu
filho Vicente. Zé, credor de Simão, não sabe como reagir a estes atos de
Simão. O que o aconselharia a fazer?

A casa é da mulher – supõe-se que as dívidas entre o casal não era


comunicáveis, sendo os credores apenas de Simão.
Quanto ao recheio, Simão celebra um contrato de compra e venda
em comodato com Teresa. Teresa não paga porém nenhum preço e Simão
continua, para todos os efeitos, proprietário do recheio.
Este é um contrato simulado, que é, nos termos do artigo 240.º do
CC, nulo. Aqui, aplica-se o regime geral da nulidade, previsto no artigo 286.º
do CC: A nulidade é invocável a todo o tempo por qualquer interessado e
pode ser declarada oficiosamente pelo tribunal.
Zé podia, portanto, invocar a nulidade do contrato. Ainda seria
invocável, como reforço do artigo 286.º do CC, o artigo 605.º do CC.
Zé podia i) desencadear um aacção de declaração de nulidade do
contrato simulado ou ii) desencadear uma acção executiva – penhorar
desde logo os bens e depois invocar como defesa a simulação [a declaração
de nulidade não necessidade de ser objecto de um processo independente].
– Isto consoante a fase do preocesso em que este se encontrasse.
Nada impediria Zé de invocar a impugnação pauliana, quanto a
este contrato simulado – artigo 615.º do CC. Esta existe também para regir
a um acto nulo do devedor. Porém, na prática não iria dar muitos
resultados, já que se pode aplicar o regime da nulidade.
Só se recorre á impugnação pauliana quanto o acto em sí é válido.
Quando à doação do dinheiro ao filho
Esta doação é um negócio jurídico válido.
Recorre-se ao mecanismo da impugnação pauliana, prevista no
artigo 610.º e ss. do CC.
A alínea b) do artigo 610.º do CC seria invocável se não se tivesse
provado a nulidade do contrato de compra e venda em comodato, pois
neste caso, a doação a seguir feita com o filho, extinguiria os últimos bens
de Simão o que o levaria a uma situação de insolvência. Mesmo tendo se
provado a nulidade do contrato de compra e venda em comodato é possível
invocar esta alínea, pois com a doação Simão estar-se-ia a colocar numa
situação próxima da insolvência. Neste último caso a prova já seria mais
difícil. Simão poderia contra-argumentar e provar que este teria mais
património de igual ou superior valor, sendo neste caso a impugnação
pauliana inviável – artigo 611.º do CC. Assim, Simão já podia dispor desse
dinheiro e Zé penhoraria estes outros bens.
Tudo o que Zé tem que provar é que Simão tem certas dívidas
(tudo o que conhece das dívidas de Simão) e que não tem património para
as pagar.
A primeira parte da alínea a) do artigo 610.º do CC é invocável, já
que o crédito já existia antes de Simão querer doar o seu dinheiro a Vicente.

Exercício n.º 32
Vitória viu desaparecer a sua casa e todos os seus pertences num
incêndio que, de um dia para o outro, a deixou sem nada. Amargurada com
a vida, Vitória nem participou a ocorrência à seguradora com quem
celebrara um seguro de incêndio. Urânia, a quem Vitória devia € 5.000,
tentou convencê-la a pedir a indemnização à seguradora, tendo-lhe aquela
respondido que não iria dar-se a esse trabalho, visto que todo o dinheiro
que viesse a receber seguiria decerto para as mãos dos seus credores, em
nada a beneficiando. Urânia não se conforma com essa atitude. O que pode
ela fazer?

Aqui estamos uma situação em que o devedor, apesar de dispor


de de mecanismos para fortelecer o património, este não os acciona.
Estamos perante a figura da acção subrogatória.
Aqui, a seguradora é o devedor de Vitória, que por sua vez é
devedora de Urânia. Urânia vai exigir o cumprimento da seguradora
perante Vitória. Mas Urânia não passa a ser o credor, apenas age por conta
do devedor. O pagamento da quantia pela seguradora entra no património
de vitória, beneficiando todos os seus credores (artigo 609.º do CC).
Urânia poderia escrever uma carta á seguradora a exigir o seu
cumprimento a Vitória (meio extrajudicial) ou recorria a tribunal e
justificava, nos temos do n.º 2 do artigo 606.º do CC, a necessidade de usar
a acção de subrogação por o dinheiro da indemnização que a seguradora
iria dar se poder desvalorizar com o decorrer do tempo, pois quanto mais
tempo passasse desde o incendio e o seu acionamento, maior seria a
probabilidade de a seguradora pedir provas relativamente à existência de
um fogo. Não importa que hoje o direito de indemnização ainda valha o
mesmo quanto no momento em que foi instituido.
Isto é, iria provar que o património de Vitória, que neste
momento era constituido, quanto a bens penhoráveis conhecidos, só pelo
crédito sobre a seguradora, não oferecia garantia suficiente.
Para além disso, neste respeito ainda Urânia tem que demonstrar
que Vitória está numa situação de quase insolvência. Urânia tinha que
provar que a acção de subrogação é essencial para satisfazer o seu direito.
Urânia devia também propor uma acção de apreensão junto ao
tribunal, para garantir que com a entrada do montante pago pela
seguradora no património de Vitória, a esta ficasse garantida tal quantia
para pagar o seu crédito (e que a Vitória não fosse dispor dele para outros
fins ou outros credores atacassem primeiro). Após a apreensão dos bens,
decretada pelo tribunal, Urânia já não seria uma credora comum (o que não
implique que existam credores com preferências hierarquicamente
prevalescentes). Isto é util, já que de acordo com o artigo 609.º do CC, a
acção de subrogação aproveita todos os credores daquele devedor. De
outro modo, Urânia estaria em pé de igualdade, como credora comum, com
os restantes credores comuns. Seria, aqui, invocável o artigo 381.º
do CPC. Poderia também recorrer à impugnação pauliana ao invês.
Imaginemos que o direito de Vitória está quase a prescrever –
desaparecer a forte possibilidade de fazer o direito valer. A acção de
subrogação vai permitir o credor exercer pelo devedor um acto que impeça
a prescrição, tal como a notificação judicial avulsa, que interrompe a
prescrição.

Exercício n.º 33
António arrendara uma casa a Benedita. Esta só aceitara
arrendar-lha se António arranjasse um fiador, pois desconfiava da sua
solvabilidade. António fora ter com o amigo Celso, a quem pedira para ser
seu fiador. Celso assim fez. A certa altura, António perdeu o emprego e
deixou de pagar as rendas. Benedita foi bater à porta de Celso e exigiu-lhe
o pagamento das rendas em dívida e de uma indemnização igual a metade
de tais rendas. Quid juris?

Aqui aplicam-se o regime do arrendamento, disposto nos artigos


1403.º e ss. do CC.
Aplica-se também o regime da fiança, prevista nos artigos 627.º e
ss do CC.
António e Benedita celebram um contrato de locação,
precisamente de arrendamento de uma casa. Tendo este uma duração
superior a seis meses este teria que ser celebrado por escrito, e assim,
como prevê o artigo 628.º do CC, também o contrato de fiança.
A fiança foi, em conformidade com o artigo 628.º do CC, declarada
ao credor que a exigiu.
Devido ao carácter da acessoriedade da fiança, Benedita teria
primeiro que esperar que António incumprisse e só depois poderia atingir o
fiador (artigo 638.º do CC).
Assim, o Celso é seu fiador, ficando pessoalmente obrigado
perante o credor quando António incumprisse a sua obrigação (a principal).
O facto de António deixar de pagar rendas, ele entra em mora. De acordo
com o artigo 634.º do CC, a fiança tem o conteúdo da obrigação principal e
cobre as consequências legais e contratuais da mora ou culpa do devedor.
Logo, Benedita podia pedir a Celso as rendas já vencidas e as
próximas rendas, se António não pagar, vencendo-se o prazo e entrando em
mora, e de acordo com o artigo 1041.º do CC, constituindo-se o locatário
em mora, o locador tem o direito de exigir, além das rendas ou alugueres
em atraso, uma indemnização igual a 50% do que for devido.
Imaginemos que o contrato de arrendamento teria uma duração
de cinco anos e logo após o terceiro mês António deixou de poder pagar.
Celso teria que pagar, se a situação não mudasse, a renda mensal durante
os restantes meses dos cinco anos (não tudo de uma vez) [isto porque, isto
não é um pagamento em pagamento em prestações, senão teriamos que
ver se António perdeu o beneficio do prazo].
Porém, Celso poderia em defesa invocar o beneficio da discução
prévia, previsto no artigo 638.º do CC, podendo este recusar o
cumprimento enquanto a benedita não tivesse exctutido todos os bens do
António sem obter a satisfação do seu crédito. A menos que tenha recusado
tal.
Também não esqueçer que, segundo o artigo 644.º do CC, Celso
fica subrogado dos direitos de crédito de Benedita, ficando Anónio obrigado
a cumprir perante este quando tiver bens desponíveis até, pelo menos, o
prazo de prescrição do direito de crédito. Na medida e que o fiador satisfaz
os credores por Celso, Celso passa a ser credor de António.

Exercício n.º 34
Duarte vendeu um livro raro a Emília. Ficou de lho entregar assim
que ele chegasse à loja, vindo do armazém. Filipe, seu vizinho, que ouvira a
conversa, convenceu Duarte a vender-lhe o livro a ele, oferecendo-lhe o
dobro do preço já pago por Emília.
Duarte assim fez e, quando o livro lhe chegou às mãos, entregou-o
de imediato a Filipe. No dia seguinte, Emília veio ter com Duarte e
perguntou-lhe se o livro já tinha chegado. Duarte explicou-lhe que o vendera
a Filipe. O que pode fazer Emília?

O efeito do contrato de compra e venda é, nos termos do artigo


408.º do CC, a transferência do direito de propriedade (efeito real). Porém,
isto só se aplica quando a obrigação é específica. Neste caso, a venda do
livro raro a Filipe seria uma venda de um bem alheio, já que com a venda a
Emília recebera o direito de propriedade sobre o livro raro. A venda de bem
alheio é nula, nos termos do artigos 892.º do CC. Somente não seria nula se
o terceiro (Duarte) estivesse de boa fé, o que neste caso ele não está. Emília
poderia propor uma acção de reivindicação, prevista no artigo 1311.º do CC
e exigir a entrega do livro.
Contudo, neste caso, parece estarmos perante uma obrigação
genérica, pois Duarte vende um livro raro do seu armazem. Aplicamos o
regime previsto nos artigos 539.º e ss. Como no exercício o cumprimento
ainda não ocorrera a obrigação ainda não se tinha concentrado. Logo, o que
Emilia tinha era um direito crédito sobre o livro.
Assim, Filipe teria validamente adquirido o livro.
Porém, ao questão que se coloca é Filipe estar de má fé. Aqui
teriamos aplicar uma das seguintes teorias sobre a eficácia externa das
obrigações.
Os defensores da tese tradicional invocariam o princípio do abuso
de direito, previsto no artigo 334.º do CC, defendendo que o terceiro agiu
com dolo ao incentivar financeiramente e colaborando com o devedor para
ternar inevitável o não cumprimento. Aqui, a única pessoa que poderia
compensar na integra o interesse de Emilia –receber o livro raro – é Filipe.
Assim, através da invocação desta figura, poderia Filipe ser obrigado a
cumpensar Emília através da restituição antural, a entrega do livro raro.
Duarte estaria, nos termos do artigo 540.º do CC, obrigado a
encontrar outro livro do mesmo género e o entregar a Émilia. Este, porém,
estaria, nos termos do artigo 804.º do CC, em mora desde o dia em que
devia ter entregue, porque assim o rinha sido estipulado, o livro.
Quanto a Filipe, o argumento deste, de como era terceiro não
estava vinculado aos efeitos do contrato, não iria proceder. Isto porque
aplicar-se-lhe-ia o abuso de direito na vertente exceptio doli, poruqe Filipe
actuou com dolo, e qualificar-se-ia a sua conduta como ilcícita. Assim, em
conformidade com o artigo 483.º do CC, Filipe perde a possibilidade de se
defender através da alegação a relatividade das obrigações e na sua esfera
jurídica nasce a responsabilidade extra-contratual.
Já os defensores da tese da eficácia externa considerariam a acção
de Filipe geradora de responsabilidade extra-contratual.
Eu defende uma teria intermédia. Assim, o Filipe teria que
indemnizar Émilia, apenas se o Duarte não consequesse fazé-lo ou não
conseque satisfazer o interesse de Emília totalmente. Como Duarte não
conseguia entregar o livro a Émilia, Filipe podia ser obrigado a indemnizar
Emília através da restituição natural, entrega do livro. Para tal, teria que se
provar que Filipe agira em dolo e a sua conduta tinha natureza ilícita. Isto
porque não se consegue retirar do ordenamento jurídico o fundamento do
dever genérico de reseito de direitos de crédito alheios.

Exercício 35
Ana, Bárbara e Catarina são comproprietárias de um veleiro, que
herdaram por morte de sua mãe. Ainda antes da partilha, haviam-se
comprometido perante Duarte a vender-lhe o veleiro ao preço por este
sugerido. A celebração do contrato de compra e venda fora já agendada
para dali a quinze dias. Catarina decide aproveitar ao máximo o veleiro
enquanto este ainda é, ainda que parcialmente, seu. Em virtude da sua
inexperiência, acaba por afundar o veleiro ao largo da baía de Cascais.
a) O que poderia fazer Duarte?
b) Imagine agora que Ana, Bárbara e Catarina, as únicas herdeiras de sua
mãe, haviam explicado a Duarte que o veleiro seria herdado, não pelas três
mas por qualquer uma das três irmãs, comprometendo-se cada uma delas,
isoladamente, a vendê-lo a Duarte na eventualidade de o veleiro vir a ser-
lhe ser distribuído na partilha?

c) Poderiam as três irmãs vender o veleiro a Duarte ainda antes da partilha?


Como qualificaria, quanto aos sujeitos, a obrigação de entrega resultante
da compra e venda?

a) Aqui, as comproprietárias são promitentes vendedoras do


veleiro, pois compormeteram-se a celebrar um contrato com o promitente
comprador, Duarte. Há, aqui, uma obrigação plural do lado passivo, de
devedores.
Esta obrigação plural é indivisível, pois existe três comproprietárias e não
faz sentido cada vender uma parte do veleiro. Assim, o regime a aplicar é o
dos artigos 535.º a 538.º do CC. Do artigo 535.º do CC retira-se a regra da
prestação parciária (parciaridade), não podendo o credor exigir o
cumprimento a uma pessoa mas a todas juntas.
O cumprimento da prestação tornou-se impossivel por facto
imputável à Catarina, logo, nos termos do artigo 537.º do CC, Ana e Barbara
ficam exonerados.
1) Efeito relativo ao dever de prestar
Extingue-se o dever de prestar por impossibilidade,
remetendo-se para o artigo 790.º do CC (apesar de não estarmos num caso
de impossibilidade não imputável) – ver aulas sobre impossibilidade.
2) Contraprestaçao
Estamos perante um caso de impossibilidade imputável,
prevista no artigo 801.º do CC, n.º 1 e n.º 2. A contra prestação se já tivesse
sido realizada teria que ser devolvida.
3) Responsabilidade Civil
Ana e Barbara não tem já o dever de prestar, tendo só
Catarina que indemnizar Duarte pelos prejuidos decorrentes da não
celebração do contrato para Duarte, ex: se ele já tivesse se inscrito numa
competição.
b) O contrato promessa é feito, neste caso, antes da partilha,
antes de se saber quem vai ser titular do veleiro. Este compromisso das
irmãs só terá efeito porque estas são as únicas herdeiras da mãe.
As três irmãs obrigam-se isoladamente a vender o veleiro se se
tornarem seu proprietário. Aqui existem três obrigações. Há, no fundo, uma
obrigação sob docição e esta se vai verificar sobre uma obrigação.
Este é um caso de obrigação disjunta. Aqui a definição de quem
cumprirá a obrigação é escolha, mas disfarçado de facto, pois na realidade a
partilha é feita por escolha dos herdeiros.

c) As irmãs poderia vender o veleiro antes da partilha a Duarte na


qualidade de bem futuro.
Mas também poderia vender o veleiro ainda integrande na
herança jacente. A herança jacente é um património autónomo, isto é, um
conjunto patrimónial, que tem, nos termos do artigo 6.º do CPC
personalidade judiciária. Este conjunto patrimonial mantem-se até à
partilha, não sendo a titularidade entretanto de ninguém especificamente,
só do conjunto de herdeiros (as três irmãs).
Aqui já há uma pluralidade de devedores. Ao celebrarem um
contrato de compra e venda com o Duarte estas transmitiriam a
propriedade sobre o veleiro.
Mas, quanto ao cumrpimento, estamos perante a titularidade de
um obrigação transmitida em conjunto de mão. Esta é uma obrigação em
mão comum. O conjunto de herdeiros funcionam como um só.
Para Duarte obrigar as irmãs a cumprir, teria que propor uma
acção contra a propriedade autónoma. A herança jacente seria
representada pelas irmãs.
É do artigo 2097.º do CC que se retira a natureza de património
autónomo da herança jacente. E é dos artigos 2079.º e ss. do CC que se
retira a admissibilidade da venda de bens na herança jacente. Este artigo diz
que a titularidade pertence a todos os herdeiros, mas a adminsitração da
herança jacente cabe ao cabeça de casal (artigo 2079.º e 2080.º do CC). O
n.º 4 determina que o cabeça de casal seria a irmã mais velha
Porém, a decisão de venda teria que caber em conjunto a todos os
herdeiros, nos termos do artigo 2091.º do CC.
Salvo certas excepções, só em conjunto os herdeiros podem
dispor de bens da herança jacente.
Aqui não se aplica o regime das obrigações plurais.
[Na comunão de bens, em que as obrigações são comunicáveis,
não sendo esta um aptrimónio autónomo, esta não é parte na acção. Mas
aplica-se-lhe o regime das obrigações em mão comum.
[Se uma das irmãs cumprisse sozinha, apesar de na prática
deverem ser todos, aplica-se o regime da legitimidade e do cumprimento,
podendo-se, como vimos, aceitar o cumprimento se nenhum perjuízo
resultar para o credor.]

Exercício 36
Elisa, Filipa e Graça foram admitidas como estudantes da FDUNL.
Como são de fora de Lisboa, arrendaram a Hélio, Inácio e Josué um T3 na
Lapa, comprometendo-se a pagarlhes uma renda mensal de € 900. O
pagamento seria feito por transferência bancária. Uns meses depois, Hélio
consulta o extrato da sua conta bancária e verifica que no mês anterior a
sua conta havia sido creditada apenas com € 100.

a) A quem deve Hélio dirigir-se para cobrar a sua dívida

b) Se, ao ser abordada à porta de casa, Elisa lhe pagar € 200, o


que pode fazer Elisa para reaver esse dinheiro, uma vez que a sua parte da
renda havia sido paga a tempo e horas?

c) Como responderia às perguntas anteriores se as partes


houvessem fixado um regime de solidariedade entre os devedores?

d) E se também tivessem convencionado a solidariedade entre os


credores?

a) Temos três devedores e três credores.


Sendo a obrigação pecuniária, por natureza ela é divisivél,
aplicando se o artigo 534.º do CC.
1) O artigo estabelece como regime supletivo (salvo
estipulação em contrário), que a regra para as obrigações plurais é que a
cada um corresponde uma parte igual, a parciaridade conjunta, aplicando-
se a regra da igualdade.
Assim, cada credor tem o direito de receber 300 euros. Os
devedores, por sua vez, têm cada que pegar 300 euros.
[Porém, apesar de não ser este o caso, no arrendmaento é muito
frequente afastar a parciaridade, sujeitanto-se ao regime da solidariedade]
A parciaridade não carece de um regime específico, pois são uma
subdivisão da obrigação em vários vinculos autónomos.
Quem pode exigir o que a quem?
i) Se a obrigação fosse solidária quanto ao lado passivo
(solidariedade de devedores) – artigos 518.º e ss. do CC.
Todos os devedores podem responder, no limite pelos 900€,
apesar da sua parte ser 300€, tendo sobre os restantes devedores depois o
direito de regresso sobre a parte que pagou por eles respectivamente. Os
credores podem exigir a só um dos devedores a sua parte, os 300€, num
total de 900€.
ii) Se a obrigação fosse solidária quando ao lado activo
(solidariedade de credores) – artigos 528.º e ss. do CC.
Um credor, independentemente da parte que couber, pode exigir
a cada devedor 300€, pelas partes dos outros credores, recebendo um
montante total de 900€. O credor tem, porém, que distribuir pelos
restantes credores ou que cobrou a mais. E o devedor terá direito de
regresso sobre os restantes devedores.
iii) Solidariedade activa e passiva
Quando um credor pode exigir a um devedor a totalidade do
crédito, os 900€.
iv) Regime da parcialidade ou conjunção
É este o regime a plicar neste artigo, pois nos termos do artigo
513.º do CC: A solidariedade de devedores ou credores só existe quando
resulte da lei ou da vontade das partes. Assim, a regra geral é o regime da
parcialidade.
Cada credor só pode cobrar a sua parte a cada devedor e cada
devedor só pode entregar a sua parte a cada credor. Há, neste caso, 9
vinculos autónomos.
Cada devedor tem que entreguar 100€ a cada credor, resultando
para cada credor um montante de 300€ e no total dos três credores o
montante de 900€.
Neste exercício, nada se tendo dito, é este também o regime a
aplicar. Assim, Hélio teria que saber quem já lhe tinha pago os 100€ e exigir
a cada um dos dois restantes devedores a quantia de 100€.
Mas, como o ónus da prova do pagamento cabe ao devedor
(artigo .º do CC), Hélio podia exigir o pagamento restante a qualquer
devedor, tendo este depois que provar que já tinha pago.

b) A devedora abordada pelo credor já tinha pago a sua parte,


mas ela pagou pelas restantes duas devedores, apesar de não ser obrigada
a tal, já que estamos a aplicar o regime da parciaridade. Aqui haveria
subrogação legal, prevista no artigo 592.º do CC, sendo Élisa uma terceira
“deirectamente interessada no cumprimento” para evitar uma acção de
despejo, passando a substituir-se a Hélio.
Aqui, estando-se em parciariedade a Élisa estaria a pagar
obrigações alheias. Pois as obrigações entre as devedoras e credores são
aqui autónomas.
A subrogação existe quando terceiro cumpre obrigações alheias.
Nalguns casos esse terceiro é colocado na posição de credor
originário. É um modo de transmissão das obrigações.
Já no direito de regresso cria-se um novo direito.

c) As partes estariam a afastar a regra supletiva das obrigações


divisiveis da parciaridade. Mas só a estariama afastar de um lado, do lado
passivo, havendo solidariedade de devedores – artigo 519.º do CC. Pois do
lado activo continuava a vigorar o regime da parciaridade.
Na perspectiva dos devedores, estes só se consideram exonerados
da dívida se cada paga a sua parte integral. Na perspectiva dos credores,
qualquer credor tem o direito de exigir o pagamento integral a um devedor.
Mas isto não quer dizer que o credor que exigir o pagamento integral fique
com este, a interpelação geral só exige que o devedor interpelado pague as
devidas quantias a cada credor respectivamente.
Hélio não precisava aqui de descobrir qual dos devedores já tinha
pago, podendo exigir os restantes 200€ que correspondem à sua parte
restante a qualquer um dos devedores. Até podia exigir os restantes 600€
que faltavam pagar aos restantes credores, já que Élia já tinha pago a cada
100€, num total de 300€. Podia exigir o pagamento, aproveitando a
interpelação a todos os credores, mas não tinha legitimidade para os
receber. Se o devedor pagar a quantia integral estará a liberar os outros
devedores.
O devedor que pagar o valor exigir terá depois regresso sobre os
restantes

.
d) Então Hélio podia exigir a um dos devedores que lhe pagasse os
900€, nos termos do artigo 512.º do CC. Os restantes credores teriam
depois direito de regresso sobre a quantia que Helio recebeu e que não
correspondia à sua parte.
Se Hélio exigisse a Elisa tudo, Elisa podia pagar tudo a outro
credor, mesmo que esta não a tivesse interpelado. O artigo 528.º do CC
prevê tal, mas também introduz certas excepções. (Nada se dizendo não se
pode presumir que a solidariedade foi feita em beneficio do devedor.)

Exercício n.º 37
Luís ficara a dever € 150 a Mónica. Esta emprestara-lhe o dinheiro
por um período de três meses. Mesmo no último dia do prazo, vendo-o a
atravessar a rua Mónica chama por ele e pede-lhe os € 150. Luís explica-lhe
que acaba de regressar de Londres e dispõe-se a entregar-lhe £ 125,
pedindo-lhe o troco em euros. Mónica recusa-se a receber o pagamento em
libras.

a) Podia fazê-lo?

b) Imagine agora que um mês depois deste episódio Luís recebe


uma carta de Mónica, em que esta lhe exige o pagamento dos € 150,
acrescidos de juros à taxa legal, contados desde o dia em que Mónica
entregara os € 150 a Luís. A partir da data em que Luís se recusara a fazer o
pagamento em euros, Mónica exige ainda o pagamento de juros sobre
juros, também à taxa legal, argumentando que a partir daí Luís tem de lhe
pagar, não só a justa remuneração do empréstimo, como uma
indemnização pelo atraso no seu pagamento. Terá razão?

a) Nos termos do artigo 550.º do CC, Luis teria que pagar por
euros e uma quantia de 150 euros. Isto porque, a obrigação pecuniária é de
quantidade, derivante de contrato de mútuo (artigo 1142.º do CC). Assim
tem que ser pago em moeda em curso do país e ainda o valor facial da
moeda e não o valor de troca. Se a moeda perder valor não interessa. A
obrigação será sempre cumprida no montante de 150 euros.
Regulamento (CE) nº 974/98 do Conselho de 3 de Maio de 1998 –
que determinam que a moeda em curso nos Estados-Membros da Zona
Euro são o euro.

b) Monica recursou o pagamento em libras e luis continuou a


dever, estando em mora desde o prazo de cumprimento, momento em que
a obrigação se vencera.
Emprestimo de três meses:

150
150 150
+Juros +Juros do múto
+Juros moratórios
Mónica tem aqui três pretenções:
1.ª A restituição do montante emprestado, neste caso os 150 euros, nos
termos do artigo 1142.º do CC. Esta era uma obrigação pecuniária.
2.ª Os juros pela disponibilização do dinheiro, devidos em conformidade
com o artigo 1145.º do CC, que determina que o mútuo é, em regra,
oneroso. Este artigo, porém, não diz que a obrigação vence juros. A
remissão do n.º 2 para o artigo 559.º dá a entender que se vencem juros. É
do n.º 2 do artigo 785.º do CC que se entende que a remuneração faz-se
sobre a forma de juros, remetendo-se para o artigo 559.º do CC.
Os juros são uma obrigação nova que acrescem à obrigação de restituição
de 150 euros (de capital).
Entenda-se que a obrigação de juros é quantificada em percentagem,
podendo, porém ser em montante fixo pecuniário.
Esta obrigação de capital vence juros civis, cujo montante é de 4%, sendo
estável desde 2003 (entrada em vigor da portaria que os estabelece –
Portaria 291/2003).
Neste caso, se por dívida de 100€ se pagava 4% de imposto, então por 150€
pagar-se-ia 6% de imposto.
Mas como as taxas de juro são aplicadas, em regime supletivo, a um ano, e
o periodo da dívida neste exercício é de 3 meses, teriamos que saber
quanto é que era ¼ de 6 = 1,5. Este 1, 5 euros correspondiam à
remuneração.
Estes são juros remuneratórios.
3.ª Refere-se a juros sobre juros e ainda sobre o capital.
A estes juros não se pode aplicar aplicar o artigo 560.º do CC, pois a ratio
deste artigo não visa abranger estes casos. Os juros a que Mónica se refere
são juros moratórios, que visam compensar a mora. Estes juros podem ser
aplicados à quantia total, isto é, ao capital e aos juros compensatórios.
Aceitar os juros moratórios sobre juros remuneratórios devem ser
admitidos, pois de outro modo estaria se a desproteger o credor, pois os
juros moratórios seriam uma espécie de consequência pela perrogação do
contrato.
A jurisprudência, porém, divide-se quanto a saber se estes juros sobre juros
são admitidos: i) admitem juros moratórios sobre capital e juros
remuneratórios, admitindo-se a capitalização e ii) admitem somente os
juros sobre o capital. Não há uma posição uniforme na jurisprduência
actual.
O regime dos juros moratórios retira-se do artigo 806.º do CC. Haveria,
portanto, se adoptarmos a jurisprudência i), capitalização dos juros e capital
anteriores ao prazo de cumprimento, resultando o montante em 151,5. A
paritr deste montante os juros moratórios serão, nos termos do n.º 2 do
artigo 806.º do CC idênticos à taxa legal, portanto, de 4%. Estes não se
capitulam, a menos que tenha passado um ano e “a partir da notificação
judicial feita ao devedor para capitalizar os juros vencidos ou proceder ao
seu pagamento sob pena de capitalização” ou se celebrar acordo sobre tal
(artigo 560.º do CC).

Exercício n.º 38
Retomemos a a história do exercício n.º 28:
Ana dá um passeio pelo parque. Exibe, satisfeita, o vestido de
lantejoulas que a mãe lhe oferecera por ocasião do seu último aniversário.
Na mesma direção segue Bruno, estudante de direito, que saíra à rua para
passear o seu cão. Distraído, não repara que este, atraído pelo brilho das
lantejoulas, se atira com violência ao vestido de Ana. Mal se apercebe da
situação, Bruno corre a imobilizar o seu cão, mas nessa altura já o vestido
estava feito num farrapo.
Imagine agora que Ana, vizinha de Bruno, ouvira a mãe deste
dizer que este havia celebrado com a Companhia de Seguros Felicidade,
S.A., um contrato de seguro de responsabilidade civil para cobertura dos
danos causados a terceiros pelo seu cão. Ana pretende saber se, ao abrigo
desse contrato, terá direito a exigir uma indemnização à seguradora. Para
esse efeito, dirige uma carta à seguradora pedindo-lhe que confirme ou
infirme a existência desse direito e que lhe faculte uma cópia da apólice.
Pode a seguradora recusar-se a aceder aos pedidos de Ana?

Aqui estão literalmente preenchidos os pressupostos do artigo


573.º do CC, pois Ana ouviu a mãe de Burno dizer que este tinha celebrado
um seguro de responsabilidade civil e a seguradora a quem se dirige é a
pessoa indicada para se informar sobre o seu potencial direito.
Aqui, porém, deve se distinguir os:
i) seguros obrigatórios, para aqueles que se encontram numa
determinada situação [obrigatórias com o propósito de proteger possiveis
lesados] (ex: automóvel)
A estes é refere-se o artigo 146.º do Código dos
Contratos de Seguro: (n.º 1) O lesado tem o direito de exigir o pagamento
da indemnização directamente ao segurador.
Neste caso, deve-se aplicar o artigo 573.º do CC
ii) seguros facultativos ou voluntários, constam a maioria. A estes
aplica-se o artigo 140.º do CCS.
Só quando o contrato de seguro permite ao lesado demandar
directamente a seguradora é que se aplica o artigo 573.º do CC.
Neste exercício, portanto, teriamos que ter em atenção que, a
menos que estão cão fosse de uma raça considerada pela lei perigosa, o
seguro feito sobre ele era voluntário Aí aplica-se o artigo 140.º do CCS. A
seguradora teria que ter em atenção se no seu contrato se permite ao
terceiro lesado directamente pedir a indemnização à seguradora. Se sim e
tendo em conta que Ana explicava na carta o direito de informação que
tinha, a seguradora poderia-lhe informar sobre o seguro. Ana teria, neste
caso, um direito potestativo de exigir a informação pretendida e a
seguradora, depois da interpelação, teria uma obrigação verdadeira de
informar.
Já se não estivesse estipulado que o terceiro lesado pode
directamente demandar a seguradora, aí a seguradora teria que responder
à Ana de forma a nem dar a entender que tem Bruno como cliente, tendo
somente que desmentir que Ana tenha um direito perante aquela
seguradora.
Do artigo 575.º do CC retira-se que, se Ana tivesse o direito a
exigir a indemnização nos termos do contrato, a seguradora teria o dever de
entregar a apólica pedida. Porém, este dever tem limites, devendo a
seguradora omitir todas as informações não relevantes ao direito de Ana.
Ex: os prémios que Bruno paga não é relevante.
A seguradora mostrará uma repodução omitindo as partes não
relevantes ao direito de Ana. O artigo fala de um documento original, mas
se Ana tem o direito de exigir este também tem o de exigir uma cópia.
Aqui está presente o princípio da necessidade de equilibrar dois
direitos conflituantes: o direito de confidencialidade e o direito de terceiro
(Ana) em saber em que termos pode execurar o seu direito.

Exercício n.º 39
Anacleto entrara um dia no estabelecimento comercial de
Bonifácio, alfarrabista, pedindo-lhe que fosse buscar ao armazém os livros
constantes da lista que então lhe entregou, pois tinha interesse em comprá-
los. Perguntou ainda a Bonifácio em quanto ficaria a aquisição,
respondendo-lhe este que, no total, se se confirmasse a sua intenção de
comprar os livros, lhe venderia os livros por € 500. Uns dias depois, Anacleto
telefonou a Bonifácio, pedindo-lhe o NIB. Bonifácio deu-lhe de imediato a
informação solicitada, pois sabia-a de cor, e não mais pensou no assunto,.
Mais uns dias passados, Anacleto fez uma transferência bancária para a
conta de Bonifácio, e apareceu na loja com os respetivo comprovativo,
exigindo a entrega dos livros. Bonifácio explicou-lhe que nada lhe devia, pois
entre ambos não chegara a celebrar-se nenhum contrato.
a) Teria razão Bonifácio, ao afirmar que nada devia a Anacleto?

b) E se as partes tivessem chegado a celebrar o contrato, mas


Anacleto mais tarde viesse a anular o contrato com fundamento em erro
sobre o objeto? Teria fundamento para exigir a restituição do preço?

c) E se as partes tivessem chegado a celebrar o contrato, mas


Anacleto, convencido de que a sua contraparte era Clemente, proprietário
da loja ao lado e também ele alfarrabista, tivesse transferido a quantia em
dívida para a conta de Clemente?
a) Até Bonifácio informar Anacleto do preço, ambos estavam em
fase de negociação. Após aquela momento já há uma proposta contratual
emitida por parte de Bonifácio. A esta proposta. Sendo o bem imóvel esta
não precisa de forma, aplicando-se lhe o artigo 219.º do CC.
Esta proprosta contratual é nos termos do artigo 224.º do CC
eficaz. Não tendo sido fixado prazo, nos termos da alínea c) do n.º 1 do
artigo 228.º do CC, o destinatário tem 5 dias para aceitar a proposta
contratual.
Esta transferência bancária pode ser considerada, em
conformidade com o artigo 234.º do CC, como uma aceitação tácita, não
por ter sido transferência bancária, mas porque Anacleto vaio comprovar
perante Bonifacio a sua aceitação.
Se a aceitação tivesse ocorrido neste periodo de 5 dias, haver-se-
ia concluido um contrato e Bonifácio estaria obrigado, nos termos do artigo
8 .º do CC a entregar os livros a Anacleto. Aqui não havia falta de causa.
Porém, deste enunciado entende-se que a aceitação não ocorrera
no prazo. Assim, aplicar-se ia o n.º 1 do artigo 476.º do CC relativo ao
enriquecimento por pretação: o que for prestado com a intenção de
cumprir uma obrigação pode ser repetido, se esta não existia no momento
da prestação
Assim, Analcleto teria o direito de exigir a restituição dos 500€ a
Bonifácio

b) O regime relativo ao erro sobre o objecto, previsto no artigo


251.º do CC, remete para o artigo 247.º do CC e determina que se aplica o
regime da anulação.
Recorre-se ao artigo 289.º do CC quanto aos efeitos da invalidade,
devendo ser restituido tudo o que tiver sido prestado.
A menos que se aplique o regime da cessão do contrato i) com
fundamento em invalidade (nulidade e anulabilidade) e o ii) com
fundamento em resolução, aplica-se a todos os outros casos de cessão
sempre o regime do enriquecimento sem causa.

c) Aqui estamos perante uma das modalidades do enriquecimento


por pretação: indevido subjectivo, enganando-se o devedor quanto ao
accipiens, aplicando-se o n.º 2 do artigo 476.º do CC. Clemente tem que
restituir o montante a Anacleto.

Exercício n.º 40
Retomemos o exercício n.º 7:
Luís sofreu um acidente de viação causado por Tiago, que
conduzia a sua bicicleta a grande velocidade e em contramão. Para não o
atropelar, Luís desviara-se do seu caminho e acabara por chocar contra uma
árvore, danificando muito substancialmente o seu carro novo. Luís não se
dava bem com Tiago, mas era muito amigo do seu primo Simão. Uma vez
que Tiago se recusou a pagar-lhe o que quer que fosse, Luís dirigiu-se a
Simão e contou-lhe o que se passara. Simão logo lhe pagou o arranjo do
carro, pedindolhe muita desculpa pelo comportamento do primo e dizendo-
lhe que não pensasse mais no assunto, que este se resolveria em família. Em
seguida, Simão dirigiu-se a Tiago, a quem exigiu o reembolso da quantia
paga a Luís. Tiago recusou-se a pagar-lhe, com o argumento de que Simão
«não tinha nada que se ter metido onde não era chamado». Quid juris?

Relembrar que anteriormente se analisou se era possível, nos


termos do artigo 589.º e ss, aplicar-se a subrogação convencional ou legal.
Chegando-se à conclusão que Simão não recebe na sua esfera jurídica
direitos de Luis contra Tiago, tentou-se recorrer ao regime do
enriquecimento sem causa.
Porém, a situação de Simão naão corresponde a nenhuma das
alíneas do enriquecimento da prestação, pois todas elas pressupõe que
tenha havido erro e nestes caso todos estavam conscientes do que estavam
a fazer.
Aqui é Tiago que enriquece, sendo este aquele que deve restituir
e não Luis. Luis é aqui inatacável.
Concluimos que o direito de restiuir pode ser direito contra
outrem a quem nem se prestou.
O regime mais próximo é o do indevido subjectivo. Podemos
analisar os artigos 477.º e 478.º do CC e ver se podemos aplicar
analogicamente estes regimes [já que directamente é impossível, pois todos
eles implicam um engando].
O artigo 477.º do CC não se aplica de maneira nenhuma pois não
há engano e não se podia exigir a restiuição por parte de Luis.
Já o artigo 478.º do CC seria o regime mais plausível de ser
analogicamente aplicado, já que apesar de este pressupor um engano,
também se exigiria a terceiro a restiuição. Porém, esta hipótese não
convence muito.
Não há, na verdade, nenhum mecanismo que vá proteger Simão.
Em última instância podia se invocar o abuso de direito, com
exceptio dolis, tendo Tiago agido ilicitamente e por isso não pode invocar a
ausência de dever. Também não convence muito.
Não há suficiente força na parte que originou vantagem para a
pedir de volta.

Exercício n.º 41
Dionísio contratara Elias, designer de interiores, para lhe mobilar
a casa de férias em Sesimbra. Pagara-lhe à cabeça uma parte da
remuneração acordada. No entanto, uns dias depois de celebrado o
contrato, e ainda antes de iniciada a sua execução, deflagra um incêndio em
Sesimbra que, propagando-se à casa de Dionísio, a deixa em ruínas. Dionísio
telefona a Elias, explicando-lhe que em vista do sucedido já não precisa dos
seus serviços e pedindo-lhe a devolução do dinheiro. Elias recusa-se a
devolver-lho, argumentando que os seus serviços haviam sido contratados,
não tendo ele nada a ver com o incêndio em Sesimbra. Terá razão?

Aqui é aplicada a segunda modalidade do enrequecimento por


prestação [artigo 473.º do CC]: o que foi recebido por causa que deixou de
existir.
Aqui, como antes, a ausência de causa é a não obtenção do fim
visado.
Este é um dos casos de cessação – a impossibilidade
superveniente não imputável (artigo 795.º do CC) – em que se aplica o
regime de enriquecimento sem causa.
A obrigação de mobilar a casa constitui-se, mas a casa deseparece,
extinguindo-se a obrigação e contra-prestação.
Assim, na esfera de Dionísio surde o direito à restituição do valor
que já pagara a Elias.
A doutrina mais especializada determina que alguns casos de
impossibilidade não imputável devem ser tratados como mora do credor
(pois esta não depende da culpa do credor). Isto tem como ideia
subjeacente, a intenção de não se querer prejudicar o devedor.
Assim, se este caso fosse o do casamento, anteriormente visto,
era a mora do credor o regime a aplicar.
Mas do enunciado deste exercício entende-se claramente, ao se
dizer que o fogo começara noutro sítio e se propagara à casa, que o risco
não corre de Dionísio.

Exercício n.º 42
Filinto era um adepto ferrenho do S. C. Campomaiorense. Uma vez
que era proprietário de um monovolume com sete lugares, sempre que o
seu clube jogava fora, dispunha-se a dar boleia a quem pretendesse apoiar
o clube. Golias aceitara a sua boleia, tendo-se depois verificado que em vez
de ir assistir ao jogo em causa aproveitara para ir às compras a um
conhecido outlet nas imediações do estádio. O que pode fazer Filinto?

A modalidade do enriquecimento por prestação aqui aplicada é a:


prestação por efeito que não se verificou.
Esta modalidade tem três pressupostos: a) realização de prestação
visando resultados; b) corresponde o resultado ao conteudo do negócio
jurídico; c) resultado não se verifica.
Aqui não se havia celebrado um negócio jurídico, mas ao que as
partes se comprometem corresponde ao conteudo de um negócio jurídico.
Houve, nos termos do artigo 1144.º do CC, uma prestação de serviços
gratuita. É uma prestação com destinação do fim. O objectivo fez parte da
oferta daquele serviço.
Aqui não havia sinalagma.
[ex: alguém doa casa mas com o encargo do donatário cuidar do
gato – aqui também não há sinalagma]
Aqui houve enrequecimento sem causa, pois Golias recebeu um
serviço gratuito. É uma situação de facto onde se verifica que alguem teve
vantagem sem causa, mas esta conduta não é censurável jurídicamente,
mas é censurável socialmente, porem esta censura não é fundamento para
a restituição.
Tendencialmente o regime do enrequecimento sem causa dá
compensação menor do que os outros regimes, ex: alguem parte uma
garrafa, este tem que restituí-la. Se alguém beber uma garraga, este nada
tem que restituir.

Exercício 43:

Higina era produtora de compota de maçã. Higina mantinha relações com


diversos
distribuidores, que fornecia. A certa altura, foi contactada por Ivo, seu
distribuidor no
distrito de Évora, que lhe explicou que devido a uma anormal redução da
procura se via
forçado a devolver uma parte da compota. Podia fazê-lo, ao abrigo do
contrato. No
entanto, Higina recebera na véspera uma encomenda de Jorge, seu
distribuidor no
distrito de Beja, pelo que pediu a Ivo que em vez de lhe devolver a compota
a entregasse
diretamente a Jorge. Ivo assim fez. Uns dias depois, veio a saber que horas
depois da sua
conversa com Higina esta havia cortado relações com Jorge. Quando a
compota lhe foi
entregue, já as partes tinham revogado o contrato de distribuição. Jorge
recusa-se a
devolver a compota. Quem pode reagir à sua conduta, e com que
fundamento poderá
fazê-lo?

- Aqui, pretende-se mostrar que há ESC por atribuições indirectas.

Num dos casos, Ivo tinha chegado à conclusão que tinha encomendado
demasiada compota e tinha direito a fazer alguma coisa quanto a isso. Ivo
pretende proceder à venda em consignação: em vez de o produtor vender
ao distribuidor, como é coisa genérica, entrega a coisa aos distribuidores,
sendo que o risco se mantém na esfera do produtor. Os distribuidores
vendem em nome próprio. Na medida em que conseguem vender, o
dinheiro vai para o produtor. Aquilo que não venderem, voltam a entregar
ao produtor.  Aplica-se o regime do mandato sem representação.

- Por outro lado, Higina estava obrigada a entregar compota. – Art.


770º/alínea a). Ivo tinha de devolver a compota a Higina, mas tinham
também acordado que a obrigação devia ser cumprida perante terceiro. Por
isso, se Ivo entregar a compota ao terceiro (Jorge), a obrigação de Higina
extingue-se. Higina pede este favor a Ivo para evitar ter de fazer maus uma
viagem quando Ivo já andava a distribuir compotas.

- O facto de Jorge receber a compota de Ivo, só revela que estamos perante


uma atribuição indirecta porque, embora a entrega tenha sido feita por Ivo,
juridicamente, foi Higina que entregou.

Ao entregar a compota a Jorge, Ivo está a cumprir uma obrigação perante


Higina, em termos jurídicos. Não há nenhuma atribuição de Ivo para Jorge.
Há, no entanto, uma atribuição indirecta de Higina para Jorge.

Art. 476º CC – Higina vai exigir a aplicação deste regime.

Jorge tem de entregar a compota a Higina, não tendo de passar por Évora.
Vai directamente para Lisboa.

- Isto não seria um contrato a favor de terceiro, mas uma estipulação a


favor de terceiro.

Exercício 44:

Vigário dedica-se à produção de melão numa herdade não muito longe de


Almada.
Cansado de vender a sua fruta à beira de uma estrada nacional, vai à
procura de uma loja
para arrendar numa das principais ruas de Almada. Encontra uma loja
fechada numa
zona pedonal, muito central, e pergunta aos vizinhos se sabem quem é o
proprietário.
Explicam-lhe que Xana, a proprietária, regressara à terra havia mais de um
ano para tratar
de uns assuntos e que nunca mais ninguém a vira por aquelas bandas.
Vigário conclui que
Xana não se importaria decerto se ele fosse dando algum uso à sua loja, na
madrugada
seguinte arromba a porta e dali a uns dias inaugura a sua nova frutaria,
dizendo-se
arrendatário de Xana. Dali por uns meses Xana regressa a Almada. Furiosa,
dirige-se a
Vigário e exige-lhe que abandone de imediato a sua loja. Imaginando que
Vigário se vai
embora deixando a loja exactamente no mesmo estado em que a
encontrara, que mais
poderia exigir-lhe Xana?

- Arrombar a porta é um acto ilícito; por isso, se há danos, também se recai


sobre a responsabilidade civil.

Mas, neste caso concreto, não chegou a haver danos, porque a loja estava
intacta.

- Não havendo danos, o que é que Xana pode exigir a Vigário? R: Vigário
esteve uns meses a aproveitar-se dos bens de Xana. Por isso, existe uma
obrigação de restituição.

Art. 473º CC

- Qual o objecto da obrigação? O que é que vai ser restituído?

R: Qual é o fundamento desta obrigação de restituição? Não será o mesmo


que é apresentado nos casos práticos anteriores.

Há, aqui, um aproveitamento não autorizado de bem alheio.

Xana, por ser proprietária da loja, goza de um direito subjectivo, de um


direito, que só ela pode exercer, perante a loja. Se outra pessoa goza desse
mesmo direito, Xana pode exigir a restituição da coisa ou do direito. 
Teoria do conteúdo de destinação: se as coisas forem alvo de um direito
subjectivo por alguém, esse alguém tem o direito de exclusividade sobre
essa coisa e os terceiros são sempre obrigados a respeitar este direito. O
exemplo mais concreto deste tipo de direitos são os Direitos reais.

- Vigário utilizou a loja nos termos em que só o proprietário poderia usar.


Com isso, violou o direito de propriedade de Xana. Esta violação foi um acto
ilícito que, se resultasse em danos, teríamos de conjugar a restituição com a
responsabilidade civil. Mas, não foi este o caso, porque não houve danos.
Só terá de ser feita a restituição. – Art. 479º/1 CC.

Art. 473º/1 CC – pressupostos do ESC:

1.º. O enriquecimento – é preciso que alguém tenha enriquecido. –


Neste caso, Vigário enriqueceu, não por ter ficado mais rico, mas
porque recebeu uma vantagem. Sendo que esta vantagem tem de
ser sempre patrimonial e convertível em dinheiro.

Inicialmente, também se olhava para o património do


prejudicado, tendo-se em conta aquilo que o sujeito prejudicado
perde no seu património; tinha-se em conta as desvantagens do
prejudicado.

Enriquecimento patrimonial global – quando se faz a diferença


entre o quanto se tem no fim e aquilo que se tinha inicialmente.
Aquilo que constitui a diferença é o património global.

Enriquecimento real individual – não se calcula diferença


nenhuma. Aquilo que se conta como vantagem é apenas o valor
da coisa que se aproveita ou que se recebe.

Exemplo: A tem uma empresa. Pagou 100 000 euros por um


conjunto de máquinas. Mas, A utilizou-as tão bem, de forma tão
produtiva, que as máquinas valorizaram, atingindo um valor muito
mais elevado do que 100 000 euros. Aqui, o enriquecimento real
individual é as próprias máquinas. Quanto ao enriquecimento
patrimonial global, esse será o valor das máquinas uma vez
valorizadas, menos o valor que o A deu por elas no início – 100
000 euros.

Exemplo 2: B compra um relógio por 10 000 euros, porque estava


a fazer uma colecção de relógios. Só faltava esse relógio para
completar a colecção. Assim que a colecção fica completa, ela
valoriza muito. Aqui, o enriquecimento real individual é o próprio
relógio. Quanto ao enriquecimento patrimonial global, esse será a
diferença entre o valor da colecção completa e o valor que B deu
pelo relógio.

- Então, aquilo que Vigário tem de restituir é o valor da renda que


deveria ter pago como arrendatário da loja. Assim, o
enriquecimento sem causa calcula-se com o enriquecimento real
individual.

2.º. O empobrecimento – tradicionalmente, julgava.se que para haver


ESC, tinha de haver empobrecimento da contraparte. Mas, a
Doutrina não considera isto assim. Só se tem em conta o
enriquecimento, aquilo que se considera como
“empobrecimento”, é os danos que se provocam com o
enriquecimento. Assim, a Doutrina mudou o 2º requisito para “À
custa de outrem”!

- Xana não tinha de exercer o seu direito de propriedade sobre a


loja, mas Vigário não podia desrespeitar esse direito, tendo Xana
o direito de exigir a renda.

3.º. Não deve haver causa – Para haver ESC, não pode haver causa
que leve a esse enriquecimento.

- É essencial compreender qual o momento em que o enriquecido toma


consciência de que enriqueceu. – Art. 479º CC + 480º/ alíneas a) e b).
No nosso caso concreto, estando de má-fé, quando há consciência desde
logo, Vigário considera de imediato que enriqueceu. Logo, a obrigação de
restituição é também logo constituída.

No entanto, aquele que se encontra de boa-fé, que julga que aquilo que
está a fazer é um direito seu, só toma consciência do enriquecimento sem
causa mais tarde. Assim, a obrigação de restituição só é constituída quando
o sujeito toma consciência.

Assim, conclui-se da disposição, o ESC só surge quando existe má-fé,


quando a boa-fé termina, quando o sujeito ganha consciência ou quando há
citação judicial. A obrigação de restituição é criada a partir do momento em
que o ESC surge.

A obrigação de restituição pode nunca chegar a existir se o sujeito que


enriqueceu nunca tomar conhecimento desse enriquecimento.

Exercício 45
“Narciso e a sua família passam os meses de agosto na Quarteira, no rés-do-
chão de um
edifício de apartamentos com vista para o enorme jardim que rodeia a
vivenda de Olinda.
Sabendo que Olinda raras vezes lá aparece em agosto, por não gostar de
multidões,
Narciso adquiriu o hábito de saltar da sua janela para o jardim da vizinha,
passando as
tardes na companhia da sua família a tomar banhos de sol e de piscina no
jardim de
Olinda. Esta veio a saber do que se passava e mandou instalar uma sebe de
arame
farpado a passar mesmo por baixo da janela de Narciso. No entanto, quer
saber se pode
exigir uma indemnização a Narciso. Quid juris?”

Resposta:
- Aqui, nãos e trata de responsabilidade civil; constitui ESC. Por isso, não
falamos de indemnização, mas de uma obrigação de restituição.

- Não sendo possível a restituição em espécie, tem de se calcular aquilo que


tem de se restituir.

No caso 4, a utilização da loja por Vigário tinha um preço (o da renda). Mas,


aqui, temos de calcular a utilização que Narciso fez da casa.

Art. 466º/3 CC

Exercício 46:

“Joaquim todas as manhãs se esconde no porta-bagagens de um táxi


pertencente a
Ludovico, seu vizinho, sabendo que este todas as manhãs se desloca até
uma praça de
táxis situada nas imediações do seu próprio local de trabalho. Assim sempre
poupava o
dinheiro do passe. Ludovico vem a descobrir a marosca de Joaquim. Quid
juris?”

Resposta:

- Continuamos a ter um enriquecimento por intervenção, embora seja


semelhante aos casos de enriquecimento por prestação.

Estamos perante uma apropriação de prestação.

Para termos um caso de enriquecimento por prestação, aquele que presta,


apercebe-se que há alguém a beneficiar da sua prestação sem respeitar o
fim da mesma. Neste caso, não temos um caso de enriquecimento por
prestação porque aquele que presta não tem consciência de que está a
prestar algo a alguém. Quem provoca o enriquecimento aqui, é o próprio
enriquecido, que se mete no porta-bagagens. Não há qualquer contrato ou
outro tipo de negócio jurídico.

- O taxista deve prestar o seu serviço a quem o requisita. Mas, aqui, aquele
que beneficia nem dá conta ao taxista de que esta se encontra a prestar
uma boleia sem saber. O sujeito no porta-bagagens está de má-fé desde o
início. Logo, há obrigação de restituição desde o início, tendo de pagar o
valor da prestação, que corresponderá ao valor da viagem de táxi.

[Podíamos argumentar, no sentido de reduzir o valor da restituição, que o


sujeito não tem de pagar o valor tal e qual, correspondente a uma viagem
no táxi, porque não foi sentado confortavelmente no veículo.]

- Aqui, no caso concreto, a vantagem do sujeito que se meteu no porta-


bagagens, não era aquilo que deixou de pagar se fosse de transportes
públicos; a vantagem a ter em conta, e que deve ser restituída, não é, por
isso, o valor do preço do bilhete do transporte. Será a vantagem que retirou
da própria boleia forçada no táxi.

Ex.: A vendeu casa a B. A ainda a vendeu a C, mas foi C o único a registar.


Neste caso, por efeito do negócio, B não pode opor a sua compra a C.
Perdeu o DR que anteriormente tinha adquirido. No entanto, tem o direito
de exigir restituição daquilo que deu pela casa a A!

Este é um caso de ESC porque: A beneficiou/lucrou de duas vendas que faz


do mesmo bem! O valor da restituição a fazer não era o da venda a A (320
000 euros), nem o da venda a B (80 000 euros), mas o verdadeiro valor da
casa (300 000 euros).

Aqui, B tem duas possibilidades: ou resolve o contrato com A, exigindo


aquilo que tinha prestado (os 80 000 euros), ou exigia a restituição do valor
total da casa alegando ESC (os 300 000 euros).

Aqui, há duplo enriquecimento sem causa: os 80 000 e os 300 000 euros.


Aquilo que recebe de C não é enriquecimento, porque constitui o preço
normal de venda da casa.
Exercício 47:

“Alda vai buscar o filho à escola e repara, horrorizada, que o casaco de


cachemira que o
filho traz vestido tem um enorme rasgão numa das mangas. Alda pega no
casaco e leva-o
a uma cerzideira sua conhecida, que lhe cobra os olhos da cara mas lhe
deixa o casaco
como novo. Uns dias depois, Beatriz telefona a Alda, explica-lhe que é mãe
de um colega
de turma do seu filho e pede-lhe que devolva o casaco de cachemira que o
filho de Alda
no outro dia se enganara e vestira, pois o casaco pertence ao filho de
Beatriz. Pode Alda
sujeitar a devolução do casaco à condição de Beatriz lhe reembolsar o
montante que Alda
pagara à cerzideira?”

Resposta:

- Alguém pega no casaco que acha que é do seu filho. Paga bastante por
mandar arranjá-lo e, no final, tem de restituir o casaco arranjado ao
verdadeiro dono. Alda apresenta custos que deviam ter sido pagos por
outra pessoa.

Coloca-se a questão se deve haver restituição por parte de Alda. Quanto à


restituição, aplica-se o art. 473º/1 CC.

- Todos nós temos o nosso dinheiro e estabelecemos prioridades quanto à


sua aplicação. Mas, imaginemos que Beatriz, dona do casaco, não tinha
dinheiro para mandar arranjar o casaco. O enriquecimento forçado só irá
prejudica-la!
Art. 468º/2 CC – quando alguém age sobre bem alheio, beneficiando o dono
do bem (sem sua autorização), o dono do bem, deve indemnizar o sujeito
que agiu sobre o bem.

Art. 1214º CC - Exemplo: A contrata empreiteiro para fazer obras em sua


casa. Se o empreiteiro faz algo a que não estava autorizado, A pode
considerar a situação como cumprimento defeituoso e aceitar a obra não
autorizada ou mandar demolir aquilo que o empreiteiro fez sem
autorização.

Arts. Exemplo: 1334º + 1341º + 1342º/2 + 1273º + 1538º/2 CC

Art. 479º/2 CC – devemos olhar para o património do enriquecimento que,


neste caso, era Beatriz.

Ex.2: prof tinha em casa um leitor de cassetes estragado e, por algum


motivo, arranja-o; apercebe-se do erro e devolve o leitor de VHS. Se a prof
conseguir demonstrar que já não tinha cassetes e que não pretendia fazer o
arranjo nunca, não tem de pagar pelo arranjo porque, concretamente, não
ganhou nada com o arranjo. Mesmo com o arranjo, não iria utilizar o leitor.

Mas, no nosso caso concreto, Beatriz iria utilizar o casaco. Pode dizer que
não ia realizar a despesa, que não estava a pensar fazê-lo, mas esse
argumento não é suficiente para evitar que Beatriz pague.

Provavelmente, as partes terão de recorrer ao tribunal e Beatriz terá, com


certeza, que pagar alguma coisa. No entanto, será considerado que Beatriz
não enriqueceu porque realmente já estava a pensar arranjar o casaco há
muito tempo, mas porque já não terá de comprar um casaco novo.

Portanto, aquilo que se vai discutir em tribunal é o valor que Beatriz terá de
pagar e aquilo que leva à obrigação de pagar (o motivo, o
enriquecimento/vantagem concreta).

Exercício 48:
“Maria, funcionária da padaria Pão-de-Mel, tem por função gerir as relações
com os
fornecedores. A certa altura, ela própria encomenda a título pessoal uns
quantos quilos
de farinha. O fornecedor faz a entrega, em simultâneo, dos seus pacotes de
farinha e dos
pacotes de farinha da padaria. Maria não se apercebe da diferença e, nos
dias seguintes, a
sua própria farinha é consumida na Pão-de-Mel. Uns dias mais tarde, ao
tratar da
papelada relativa àquela entrega, apercebe-se do seu engano. Quid juris?”

Resposta:

- Mais um caso de enriquecimento por dispêndios de outrem.

- Maria recebeu a farinha no seu património, mas não se apercebeu.


Quando gastou a farinha, já estava a utilizar uma matéria-prima sua, sem se
aperceber.

Gera-se uma obrigação de restituição. Mas, qual o objecto de restituição?

- Pão de Mel estava em boa fé. E, quando a farinha foi consumida, o


enriquecimento não desapareceu, porque da farinha, fez-se pão, que ainda
foi vendido.

Aqui, o enriquecimento tem o valor dos pacotes de farinha.

- Pão de Mel não enriqueceu. Aqui (art. 479º CC), a restituição pode ser em
pacotes de farinha, porque não estamos perante coisa infungível, mas
fungível. Podemos recorrer a restituição em espécie e não em valor
pecuniário.

Exercício n.º 49
“Daniel telefona à mãe, Emília, pedindo-lhe que transfira € 200 para a sua
conta bancária, pois já gastou toda a sua mesada e ainda faltam dez dias
para o final do mês. Emília, resignada, lá dá ordem de transferência, mas
engana-se a introduzir o NIB do filho e os € 200 vão parar à conta de Fátima.
Quid juris?”

Resposta:

Este é claramente um caso de enriquecimento sem causa, mas não se


enquadra em nenhuma das modalidades do enriquecimento sem causa.
Nestes casos, com muito cuidado, aplica-se-lhes, mesmo assim, a cláusula
geral do enriquecimento sem causa do n.º 1 do artigo 473.º do CC. Tem-se
em conta a regra da subsidariedade do regime do enriquecimento sem
causa, quando nenhuma outra figura é aplicada ao caso concreto.
Exercício n.º 50
“Gualter vende a Hipólito uma enorme colecção de soldadinhos de chumbo
que herdara do seu avô. Hipólito oferece os soldadinhos de chumbo a Íris,
sua amiga coleccionadora
de soldadinhos de chumbo. Pouco depois o primeiro negócio é anulado,
pois Gualter ainda era menor e não fazia ideia de quanto valia a sua
colecção. Hipólito explica aos pais de Gualter que nada pode fazer, pois a
colecção era agora de Íris. Os pais de Gualter dirigem-se então a Íris,
pedindo-lhe que devolva a colecção a Gualter. Esta recusa-se a fazê-lo, e
acrescenta que ainda que quisesse fazê-lo não poderia devolver toda a
colecção, já que a sua casa fora assaltada na véspera e os ladrões haviam-
lhe levado uns quantos soldadinhos de chumbo. Quid juris?”

Resposta:

Á anulação do contrato com fundamento na menoridade, nos termos do


artigo 125.º do CC, ao qual é aplicado o regime previsto no artigo 287.º do
CC que tem como efeito, nos termos do artigo 289.º do CC, a restituição da
coisa, não é aplicado o regime do enriquecimento sem causa. DO artigo
289.ºdo CC decorre a obrigação de restituição (semelhante com a do artigo
479.º do CC, do regime do enriquecimento sem causa).
Estamos perante um caso em que quem deve restituir alienou
gratuitamente o bem, sendo, por isso, aplicado o n.º 2 do artigo 289.º do
CC.
A * B C
Teríamos que saber se Hipólito tinha património, se tivesse teria que pagar
a Gualter o valor dos soldadinhos de cumbo. O valor a devolver era o
objectivo, não aquele que tinha sido pago, tendo se em conta a ratio da
protecção do menor pela anulação.
Se Hipólito não tivesse património suficiente para pagar o valor objectivo
dos soldadinhos de chumbo, constituía-se na esfera jurídica de Iris a
obrigação da restituição previsto do regime da enriquecimento sem causa.
Ratio: no ordenamento jurídico português, os negócios gratuitos merecem
menos protecção que as aquisições onerosas. Os negócios gratuitos são
causas minor de aquisição.
Logo, Iris, apesar de estar de boa fé, teria que devolver os soldadinhos. Só
teria que devolver os soldadinhos quando cessava a sua boa fé – quando os
pais de Gultar informaram Iris da situação – e só nessa altura surge a
obrigação de restituição.
Esta obrigação de restituição não se transfere de Hipólito para Iris, é
constituída uma nova obrigação e extingue-se a com Hipólito.
Porém, como houve uma assalto, nos termos do n.º 2 do artigo 479.º do CC,
a obrigação de Iris passou a ser a entrega daqueles soldadinhos que esta
ainda tinha na sua esfera jurídica no momento da extinção da boa fé e
surgimento da obrigação de restituição (aquilo que Iris tinha enriquecido).
Estamos aqui perante um caso de enriquecimento através de património
intermédio ou por desconsideração de património.
Se mais tarde se prendesse e ladrão e se devolvesse a Iris os soldadinhos,
esta teria que entregá-los a Gualter.
Exercício n.º 51

Antero ouve dizer que a sua vizinha Berenice sofreu um acidente de viação e
está internada no hospital, com várias costelas partidas, e a partir desse dia
passa a regar o jardim da vizinha ao mesmo tempo que rega o seu e a zelar
pela alimentação do gato de Berenice, que entra e sai livremente de sua
casa por uma portinhola a ele especialmente destinada. Antero fez bem?
Quando a vizinha regressasse a casa Antero poderia pedir-lhe alguma coisa
pelos serviços prestados a Berenice?

Tendo como pressuposto que era impossível Berenice e Antero


comunicarem, pois esta estava impossibilidade de agir e se fazer
representar, a actuação de Antero pode ser considerada por conta de
Bernice. Só deste modo não era responsabilizado por violação do dever de
informar o dono (artigo 465.º do CC). Antero não poderia conhecer a
vontade real de Bernice. Isto porque, os efeitos dos actos materiais que
pratica destinam-se à esfera jurídica de Bernice, não retirando daí
benificios. A actuação era, ainda, necessária a Bernice. É útil que Antero
cuidasse das plantas e gato de Bernice durante a sua ausência impedindo
que estes morram. Os resultados económicos daquela acção destinam-se á
esfera de Bernice. Não sendo Antero autorizado e cumprindo-se os
restantes pressupostos para a aplicação da gestão de negócios, o seu
regime é-lhe aplicado (artigo 464.º do CC).

Do enunciado entende-se que Antero exerceu a gestão de negócios em


conformidade com a vontade real presumida de Bernice e em seu interesse,
pois a sua gestão foi lhe útil. Deste modo, a gestão de negócios de Antero
pode ser considerada regular. Deste modo, Antero tinha o direito de exigir o
reembolso que este teve com a gestão, nomeadamente o preço da comida
do gato e a água que gastou a regar as plantas e ainda, se tivesse tido, mas
não parece o caso, tinha direito a ser indemnizado pelos prejuízos (artigo
468.º do CC).

Quanto a se Antero podia exigir uma remuneração, teria que se adoptar


uma de duas posições doutrinárias sobre o artigo 470.º do CC: a)
(interpretação literal) Antero, não sendo profissional, não tinha direito a ser
remunerada; b) (interpretação extensiva) haveria que se ter em
consideração se se pode prosumir do enunciado que se Bernice pudesse iria
contratar onerosamente com Antero. Isto dependeria, ao meu ver, do
tamanho do jardim. Se o jardim fosse pequeno, seria improvavel que
Bernice pagasse Antero para cuidar dele e do gato. Se o jardim tivesse uma
grande dimensão, era provavel que Antero tivesse o direito de ser
remunerado pela energia e tempo dispensados na gestão, para além de ver
as suas despesas reembolsadas.

Exercício n.º 52

Cristina faz compras na baixa lisboeta. A certa altura vê na montra de um


alfarrabista um livro antigo que sabe ser há muito procurado pela sua
amiga Dália. Tenta telefonar-lhe várias vezes mas a amiga não atende. Com
receio de que alguém o compre antes de a sua amiga ter uma oportunidade
de se deslocar à loja, já que a amiga vive no Porto, Cristina toma a iniciativa
de o comprar. No dia seguinte vai ter com a amiga ao Porto e mostra lhe o
livro, esperando da sua parte uma reação de grande alegria. No entanto,
Dália encolhe os ombros e explica-lhe que já comprara um outro exemplar,
que encontrara à venda na Feira da Ladra. Pode Cristina exigir algum
dinheiro a Dália?

Estamos perante uma gestão de negócio, já que não há autorização por


parte de Dália, é feito por conta da amiga, pois os efeitos económicos e,
consequentemente, jurídicos destinam-se à esfera jurídica de Dália e é de
interesse de deste na perspectiva de Cristina, era lhe útil no momento da
gestão, da compra do livro. Este interesse é avaliado usando critérios
objectivos, mas é considerada a informação disponível ao gestor no
momento em que se realiza o acto.. [Imaginemos que elas eram muito
amigas e Cristina pensava que se Dália tivesse comprado o livro, Dália lhe
teria contado.]

Este negócio é subjectivamente alheio, já que ninguém percebiria, sem uma


explicação por parte dela, que Cristina estava a comprar o livro por Dália.

Esta gestão de negócios é regular porque é execrcida tendo em conta a


vontade presumida de Dália e o interesse para esta. Como a acção que
configura a gestão de negócios foi instantânea, não perlongada, - a compra
do livro – conclui-se que ela é regular.
Porém, se Cristina tivesse aceitado um preço exorbitante para o livro, a
utilidade (interesse) do livro já seria discutível.

Sendo considerada regular, Cristina adquire os direitos do artigo 468.º do


CC, podendo ser reembolsado pelas despesas que teve e indemnizada pelos
prejuízos. Cristina era reembolsada pelo valor do livro. A viagem ao Porto
não pode ser considerada uma despesa, pois nada nos faz presumir que
Dália queria o livro no dia seguinte.

Adoptando-se uma interpretação declarativa do artigo 470.º do CC, não


haveria lugar a remuneração, porque Cristina não era profissional. Por outro
lado, adoptando a interpretação extensiva a este artigo, não considero que
Cristina tivesse direito a uma remuneração, pois não acho que sendo elas
amigas, Dália tivesse a intenção de pagar Cristina pelo serviço de comprar o
livro o lhe dar. De outro modo a presunção não poderia ser considerada
real.

Neste exercicio há uma gestão de negócios não representativa, aplicando-se


a segunda parte do n.º 2 do artigo 471.º do CC, que remete para o regime
do mandato.

[Se a gestão de negócios fosse representativa, aplicava-se a representação


sem poderes, prevista no artigo 268.º do CC).

Exercício 58:

“Martim está no seu local de trabalho, momentaneamente sem nada que


fazer. Vai
ocupando o seu tempo a treinar a assinatura. Nelson, seu colega, aproveita
um momento
de distração do primeiro e tira-lhe uma das folhas de papel assinadas por
Martim. Em
seguida, inscreve no espaço em branco imediatamente acima da assinatura
a seguinte
frase: «Eu, abaixo assinado, obrigo-me a pagar ao meu colega Nelson a
quantia de
€ 1.500.» Passados uns meses, Martim é citado para uma ação executiva
proposta por
Nelson, que lhe exige o pagamento dos € 1.500. Quid juris?”

Resposta:

- Neste papel, o que existe é uma suposta declaração negocial unilateral.


Mas, para constituir uma obrigação, é preciso que haja uma causa.

Art. 378º CC – Ou seja, temos aqui o ponto de partida: se alguém apresenta


um documento assinando por outrem, este papel terá força probatória.
Seria, por isso, mau para Martim, porque considera-se que a declaração
como válida. Mas, esta norma permite ilidir essa prova! Se Martim
conseguir provar que foi Nelson que assinou o papel por ele e lhe subtraiu o
documento, podia afastar a eficácia do documento como declaração
negocial.

Ainda que não conseguisse comprovar a falsidade, Nelson terá de provar a


causa da obrigação de Martim, o que podia não conseguir.

Independentemente disso, quando temos um documento com uma


constituição de uma obrigação, aplicamos o art. 458º CC. Não é bem um
acto unilateral. Os documentos sem causa não podem constituir obrigações
nem negócios jurídicos.

Art. 458º CC – há uma inversão do ónus da prova. Estas declarações não


constituem obrigações, mas são suficientes para inverter o ónus da prova. O
credor não tem de provar a causa, mas tem de alegar uma causa. Nelson,
tinha, por isso, de inventar uma causa, mas não tinha de provar a sua
existência. Cabe a Martim provar que não houve tal causa, o que é difícil.

Este art. regula provas. Se não houver prova escrita da fonte da obrigação
propriamente dita, mas tivermos uma promessa de cumprimento ou um
reconhecimento de dívida, isso servirá como prova de existência de uma
obrigação anterior.
Mas este não é um exemplo de declaração unilateral para fins negociais.

Exercício 59:

“Olga, professora universitária, anuncia no início de uma aula que atribuirá


um prémio de
€ 1.000 ao aluno que tiver o melhor resultado no exame final. Depois de
saírem as notas,
Pedro, o melhor aluno, interpela-a no corredor, pedindo-lhe os € 1.000.
Olga responde:
«Quais € 1.000? Ah! Já me lembro! Ora. Eu não estava a falar a sério, só
queria
incentivar-vos a estudar.» Quid juris?”

Resposta:

- A prof defende-se, alegando que emitiu uma declaração não séria. Mas,
não podemos aplicar o art. 245º CC, porque, para aplicarmos este artigo era
preciso que os alunos tivessem conhecimento de que realmente a prof
estava a brincar com eles, incentivando-os, apenas, a estudar.

Art. 459º CC – a grande questão é saber se a declaração da prof cai neste


regime. O único requisito que aqui é exigido é o anúncio público, cabendo
aqui muitas situações. O que é “público”? É aparecer na TV? R: Não. É um
anúncio ser feito perante um grupo de pessoas, mesmo que fosse um grupo
reduzido.

Podemos, por isso, aplicar este regime.

Princípio da tipicidade lassa – (Meneses Cordeiro) O princípio da tipicidade


pode aplicar-se quando as declarações são feitas no âmbito privado.
Quando, por outro lado, há anúncio público, não se pode aplicar o princípio
da tipicidade, mas o princípio da tipicidade lassa.

Porque, quando há um anúncio público, cria-se confiança e expectativas na


esfera do destinatário do anúncio.
Art. 460º CC + art. 461º CC + Art. 462º CC.

- Situação clássica de promessa pública: anúncio na rua, de recompensa a


quem entregar um cão perdido. Com essas declarações, a pessoa vincula-se,
apesar de não se conhecer à partida quem é que vai ser o credor. Pode até
haver cooperação na busca do cão e o devedor (dono do cão) ter de
entregar recompensa a cada um dos sujeitos.

Concurso público – de Dto Privado e não de Dto. Público. É uma promessa


pública – Art. 463º CC.