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Ficha|Resumo

REQUISITOS DE FUNDO DO CASAMENTO


CAPACIDADE

O consentimento (declaração de vontade) e a capacidade (capacidade para casar) são


os dois requisitos de fundo, substanciais, do casamento.

1. Capacidade: impedimentos matrimoniais


A doutrina civilista adoptou uma técnica especial de análise, centrada na figura dos
impedimentos, significando que, em vez de estudar o que é necessário para que duas pessoas
de sexo diferente contraiam casamento, estudam-se os obstáculos da validade do mesmo,
assim têm capacidade matrimonial os nubentes que não forem atingidos por qualquer
impedimento matrimonial, distinguindo-se claramente da capacidade negocial, pois as
primeiros referem-se directa e exclusivamente aos requisitos que se prendem à constituição
de uma família sã, evitando-se o casamento entre pais e filhos, entre menores,
salvaguardando os interesses morais, sociais e económicos.
Os impedimentos têm uma dupla eficácia: eficácia impeditiva ou preventiva e eficácia
sancionatória, acarretando a sua não celebração ou significando a aplicação das sanções
previstas na lei e classificam-se consoante a intensidade da eficácia sancionatória, sendo
objecto de várias classificações.
A mais importante é aquela que distingue os impedimentos em dirimentes ou
simplesmente impedientes. Outra classificação importante dos impedimentos matrimoniais,
também com consagração legal, é a que distingue os obstáculos à celebração do casamento,
em absolutos e relativos. Uma terceira classificação dos impedimentos distingue os
impedimentos impedientes em dispensáveis ou não dispensáveis; como a designação indica,
os primeiros admitem dispensa, isto é, a possibilidade de autorização do casamento por certas
entidades, que sendo obtida, cessa a incapacidade deles resultante e, os segundos, não
admitem essa dispensa.

2. Impedimentos dirimentes
Dirimentes dizem-se os impedimentos que determinam uma incapacidade
matrimonial susceptível de afectar a validade do casamento.

2.1. Impedimentos dirimentes absolutos


Os impedimentos dirimentes absolutos são os que determinam verdadeiras
incapacidades matrimoniais, isto é, a incapacidade de celebrar o casamento com quem quer
que seja.
a) Idade nupcial (idade inferior a 18 anos)
Em obediência à alínea a) do Art. 32 da LF, a idade mínima para a celebração do
casamento está actualmente fixada nos 18 anos, para ambos os sexos.
Não existe uma correspondência entre a idade núbil e maioridade, visto que a segunda
só se verifica aos 21 anos, e contrariamente ao que previa o Livro IV do CC, a idade núbil é igual
tanto para a mulher como para o homem (resultado do princípio constitucional da igualdade).
Esta idade assenta na ideia da maturidade, quer física como psíquica, considerando a
natural dependência destes e que vai reduzindo com o avançar da idade.
Trata-se de um impedimento absoluto, não se reconhecendo quaisquer efeitos
jurídicos ao casamento de um menor de 18 anos, seja qual for a idade, posição social, situação
económica.
Dá-se nota que a (nova) lei não abre excepção para a autorização para casamento de
menores de 18 anos.
Este impedimento é causa de anulabilidade (Art. 60 da LF).
Tem legitimidade para a acção de anulação os cônjuges, parentes em linha recta,
parentes na linha colateral até ao quarto grau, os herdeiros, adoptantes dos cônjuges e o
Ministério Público.
Estabelece o Art. 67 da LF a legitimidade para a interposição da acção e o prazo para a
acção de anulação é o que resulta do Art. 71 da LF.
Além de ser causa de anulação, resultam para estas situações sanções especiais, do
Art. 73 da LF, continuando estes a serem considerados menores no âmbito da administração
de bens que leve para o casamento ou que advenham, posteriormente, a título gratuito, até à
maioridade ou a emancipação.
b) Demência notória mesmo com intervalos lúcidos e a interdição ou a inabilitação por
anomalia psíquica
Deve-se destacar que nesta alínea somente se refere aos maiores, pois não sendo
maior, mesmo que tenha demência notória, se aplicará a incapacidade por menoridade.
Nos termos da alínea b) do Art. 32 da LF, a demência notória mesmo com intervalos
lúcidos e a interdição ou a inabilitação por anomalia psíquica é um impedimento absoluto, na
medida em que não permite a respectivo membro manter com quem quer que seja uma união
juridicamente relevante, o que significa que, muito embora esta possa existir de facto não
produz qualquer efeito.
Fica claro que são factores de âmbito mental que preocupam o legislador, visto que
sendo diversos os fundamentos para a interdição e inabilitação, ele só se atem a anomalia
psíquica. Assim, não engloba as situações de cegueira, surdez-mudez, prodigalidade,
toxicodependência ou alcoolismo.
Genericamente, a demência consiste numa especial anomalia psíquica caracterizada
por grave ausência de lucidez e consciência da realidade, quer no domínio da inteligência, quer
no da vontade, que impeça o indivíduo de reger convenientemente a sua pessoa e os seus bens.
O impedimento da demência existe nos casos de demência notória, mesmo durante
os intervalos lúcidos e de interdição ou inabilitação por anomalia psíquica. Não basta a
simples verificação factual, é necessário que a interdição ou inabilitação seja decretada por
sentença judicial.
Razões eugénicas são a base desta proibição. Mais do que proteger propriamente o
incapaz, o que se pretende é evitar a “disseminação” das doenças que acompanham este
indivíduo.
Este impedimento é causa de anulabilidade (Art. 60 da LF).
A legitimidade para a proposição da acção de anulação encontra-se no Art. 67 e os
respectivos prazos no Art. 71 da LF.
c) Casamento religioso, tradicional (desde que transcrito) ou civil, anterior não
dissolvido
O impedimento de vínculo matrimonial anterior, de que trata a alínea c) do Art. 32 da
LF, existe quando qualquer dos nubentes esteja na constância de um casamento, em qualquer
das modalidades, conquanto tenham sido convenientemente registadas ou transcritas, com
terceira pessoa, ainda não dissolvido no momento de celebração do novo casamento. Visa
evitar a bigamia.
Excepções encontram-se quando trate da morte presumida, caso em que se considera
o primeiro casamento dissolvido, conforme se pode assumir dos Arts. 114 e 116 do CC.
Este impedimento é causa de nulidade (reflectindo uma mudança profunda) nos
termos do Art. 58 da LF, podendo ser invocada por qualquer pessoa e a todo o tempo.
d) União de facto devidamente atestada
Este impedimento, previsto na alínea d) do Art. 32 da LF, é uma inovação, que resulta
da elevação do seu estatuto a relação jurídico familiar.
Este impedimento é causa de anulabilidade (Art. 60 da LF).
A legitimidade para a proposição da acção de anulação encontra-se no Art. 67 e os
respectivos prazos no Art. 71 da LF.

2.1. Impedimentos dirimentes relativos


Os impedimentos dirimentes relativos são responsáveis por incapacidades relativas,
isto é, incapacidades que funcionam apenas em relação a determinadas pessoas. Estes
impedimentos procedem do direito natural, têm razões de ordem eugénica, moral e social.
Moralmente evitam-se assim relações incestuosas, a concupiscência no ambiente familiar e
no âmbito das razões eugénicas ou biológicas preserva-se a prole de parentes próximos de
defeitos físicos e mentais.
a) Parentesco em linha recta
Será um impedimento dirimente relativo quando um dos parentes descende do outro,
seja pai e filho, neto ou avó, nos termos da alínea a) do Art. 33 da LF e aqui, também, quando
se trate da adopção. Visto que a natureza é dotada de uma ordem lógica, resultam desta
proibição questões eugénicas e morais tais como o incesto que pode provocar na moral
pública, o deturpar da dinâmica das relações familiares ou ainda prejudicar a saúde física dos
descendentes (doenças hereditárias), ou eventualmente, conflitos patrimoniais que poderiam
resultar destas uniões.
O impedimento na linha recta é infinito, atingindo qualquer grau.
Este impedimento é causa de anulabilidade, conforme prescreve o Art. 60 da LF.
A legitimidade e os prazos para a acção de anulação estão previstos nos Arts. 67 e 71
da LF.
b) Parentesco até terceiro grau da linha colateral
A alínea b) do Art. 33 da LF considera um impedimento dirimente relativo a situação
em que se encontram os parentes que descendem de um progenitor comum. Teríamos, assim,
a proibição de casamento de dois irmãos (biológicos ou adoptivos) ou de tios e sobrinhos.
Razões eugénicas e de ética social mantêm-se como razões para a abordagem do
legislador, mas estes casamentos afrontariam também a ética familiar, naturalmente
danoso, moralmente reprovável e psicologicamente traumático.
Este impedimento é causa de anulabilidade, conforme prescreve o Art. 60 da LF.
A legitimidade e os prazos para a acção de anulação estão previstos nos Arts. 67 e 71
da LF.
c) Afinidade em linha recta
Conforme reza a alínea c) do Art. 33 da LF a afinidade entre o cônjuge e os parentes
em linha recta do outro cônjuge é um impedimento dirimente relativo que nunca pode ser
levantado, tendo em consideração que a afinidade não cessa com a dissolução do casamento.
Falamos, aqui, a título exemplificativo dos sogros, sogras, noras e genros, do padrasto,
madrasta e do enteado.
Obviamente, que daqui não resultam questões eugénicas, mas somente de moral
pública e da manutenção de uma dinâmica familiar, que não se extingue com o término do
casamento.
Este impedimento é causa de anulabilidade, conforme prescreve o Art. 60 da LF.
A legitimidade e os prazos para a acção de anulação estão previstos nos Arts. 67 e 71
da LF.
d) O vínculo da união de facto que ligava um dos nubentes ao parente na linha recta do
outro
Este impedimento em tudo se assemelha ao anterior, com a ressalva de não ser
afinidade, porque está só resulta do casamento. O legislador não pretendeu ampliar o alcance
da afinidade, mas garanti eu as regras de moral pública fossem cumpridas.
Este impedimento é causa de anulabilidade, conforme prescreve o Art. 60 da LF.
A legitimidade e os prazos para a acção de anulação estão previstos nos Arts. 67 e 71
da LF.
e) Condenação anterior de um dos nubentes, como autor ou cúmplice, por homicídio
doloso, ainda que não consumado, contra o cônjuge do outro
Este impedimento, nos termos da alínea c) do Art. 33 da LF, pressupõe a condenação
e o carácter doloso do homicídio, ainda que apenas na forma tentada. Resulta daqui a
intenção de não premiação de quem age de má fé, contra o interesse da protecção da família
e dos seus membros.
Nos termos do Art. 60 da LF, este impedimento é causa de anulabilidade e a
legitimidade e os prazos para a acção de anulação estão previstos nos Arts. 67 e 71 da LF.

3. Impedimentos impedientes
Os impedimentos impedientes, ou simplesmente impedientes, são os obstáculos
legais que afectam a capacidade dos nubentes mas não em termos susceptíveis de determinar
a anulabilidade do casamento.
a) Prazo internupcial
Nos termos da lei, mais especificamente nos termos dos Arts. 34 da LF e 169 do CRC,
este impedimento verifica-se no período que deverá decorrer entre a dissolução de um
casamento e a celebração de novo casamento pelo cônjuge ou cônjuges em relação aos quais
a dissolução se verificou.
Esta regra não se funda em razões de convivência, uma espécie de luto legal, mas têm
sim o objectivo de garantir que não há incerteza sobre o verdadeiro pai da criança que pode vir
a nascer após o divórcio.
O prazo internupcial é de 6 meses, cessando nos casos previstos no n.º 3 do Art. 35 da
LF. A sanção prevista para a violação deste preceito legal encontra-se no Art. 78 da LF,
perdendo, a pessoa que contrair o novo casamento, todos os bens que tenha recebido do
primeiro cônjuge por doação ou sucessão.
b) Parentesco até o 4º grau da linha colateral
O parentesco no 4º grau da linha colateral, nos termos do Art. 34 da LF, constitui
apenas um impedimento impediente. A ressalva do legislador é que este impedimento só será
considerado se os vínculos de filiação em que se baseia estiverem legalmente reconhecidos.
Pretende-se aqui evitar casamentos entre parentes muito próximos, considerando em
particular o tipo de família que se mostra mais presente na realidade moçambicana. Apesar
de tudo, este impedimento é susceptível de dispensa, havendo motivos ponderosos,
conforme o formulado no nº 2 e 3 do Art. 39 da LF.
Caso seja efectuado sem dispensa terá como sanção o previsto no n.º 2 do Art 78 da
LF.
c) O vínculo de tutela, curatela ou administração legal de bens
Este impedimento, nos termos do Art. 34 da LF, constitui um simples obstáculo
temporário à celebração do casamento entre os respectivos sujeitos.
O vínculo de tutela, curatela ou administração legal de bens impede o casamento do
incapaz com o tutor, curador ou administrador ou dos parentes ou afins na linha recta, irmãos,
cunhados ou sobrinhos destes, enquanto não tiver decorrido um ano sobre o termo de
incapacidade e não estiverem aprovadas as respectivas contas, se houver lugar a elas.
Pretende evitar que o representante exerça alguma influência sobre o representado,
resultante do temor reverencial e evitar que através deste acto se sanem as irregularidades
nas contas.
Este impedimento é insusceptível de dispensa antes de as contas estarem aprovadas
(alínea c) do n.º 1 do Art. 38). Caso seja efectuado sem respeito pelas medidas estabelecidas
terá como sanção o previsto no n.º 2 do Art 78 da LF.
d) Vínculo que liga o acolhido aos cônjuges ou companheiros da família de acolhimento
Este vínculo, nos termos do Art. 34 da LF determina que a criança seja tratada como
filho, ressalvadas as especificidades quanto a ligação com a família biológica. Nesse caso faz
todo o sentido que exista por parte do legislador alguma protecção, pois poderíamos ter
situações próximas das que resultam do casamento entre pais e filhos.
Mesmo assim, o legislador colocou-o como um impedimento susceptível de dispensa,
havendo motivos ponderosos, conforme o formulado no nº 2 e 3 do Art. 39 da LF.
O desrespeito as medidas protectoras estabelecidas dará lugar à sanção prevista no
n.º 2 do Art 78 da LF.
e) Pronúncia do nubente pelo crime de homicídio doloso, ainda que não consumado, contra
cônjuge ou companheiro do outro, enquanto não houver despronúncia ou absolvição por
decisão transitada em julgado
Para haver impedimento dirimente, de acordo com a alínea e) do Art. 32 da LF tem de
haver condenação, não bastando a simples pronúncia por, embora seja uma situação em que
haja embora indícios sérios, ainda não houve condenação. Diverge do previsto no
impedimento dirimente por se referir a fases diferentes do processo judicial.
Este impedimento não é susceptível de dispensa, visto que podem resultar duas
soluções distintas, despronuncia ou absolvição, podendo este casar ou condenação, situação
em que ser torna um impedimento dirimente relativo conforme previsto pela alínea d) do Art.
32 da LF.
f) A oposição dos pais ou do tutor do nubente menor
Nos termos do Art. 39 da LF o impedimento existe quando não há a autorização dos
pais ou tutores, para os casamentos de menores de 18 anos.
Esta autorização pode ser suprida judicialmente, quando o Tribunal julgue a oposição
injustificada. Casado em respeito pelas regras do LF este é emancipado, logo adquire todos os
direitos e deveres de um maior, mas caso se case irregularmente, este é considerado
emancipado, mas com limitações quanto à administração e disposição dos seus bens (Art. 77
da LF).