Você está na página 1de 8

MOTORES ALIMENTADOS POR INVERSORES DE FREQÜÊNCIA:

O ISOLAMENTO RESISTE?
Mario Célio Contin – marioc@we g.com.br
Depto.Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)
WEG Motores Ltda

RES UMO tecnológicas surgidas, uma das principais


Com o uso cada vez mais difundido de inversores de
preocupações dos grandes fabricantes de motores.
freqüência nas aplicações com variação de velocidade, Para a busca da solução para este problema, é
uma nova preocupação surge para os fabricantes e necessário um grande investimento, abrangendo
usuários de motores elétricos: o isolamento resiste? De desde o entendimento físico mais completo dos
fato, os altos e freqüêntes picos de tensão provocados pelo fenômenos envolvidos, até a concepção de materiais,
inversor podem levar à ruptura do dielétrico isolante, métodos, técnicas de medição e processos que
requerendo o uso de melhores sistemas de isolamento e permitam resolvê-lo, respeitando os princípios
materiais mais resistentes à degradação. Os fenômenos técnico-econômicos.
físicos envolvidos, bem como toda a problemática deste
assunto, estão apresentados neste trabalho.
2. CAUS AS PRINCIPAIS QUE PODEM
1. INTRODUÇÃO LEVAR O IS OLAMENTO À RUPTURA

Nos últimos anos tem sido verificado o que parece ser O sistema de isolamento de um motor de indução,
uma tendência irreversível, em vista das vantagens quando alimentado por inversor de freqüência, fica
oferecidas, o acionamento de máquinas com controle submetido a uma multiplicidade de fatores adversos
de velocidade através do uso de motores de indução que podem levar à ruptura de sua integridade
de gaiola, alimentados por inversores de freqüência dielétrica, ou seja, podem provocar o rompimento do
(retificador + inversor). Este sistema tem adquirido dielétrico isolante, levando a máquina à falha
muita força em função da rápida evolução prematura. A degradação do sistema isolante pode
tecnológica e redução de custos das fontes eletrônicas ocorrer devido a causas térmicas, elétricas ou
chaveadas do tipo PWM (Modulação por Largura de mecânicas, ou por uma combinação de todos este
Pulso). Mas, em função desta evolução, a qual fatores.
permitiu um aumento considerável no rendimento dos
motores, em virtude das melhorias obtidas na forma Atualmente, com o uso generalizado de motores
de onda modulada de saída de stes inversores, criou-se acionados por inversores de freqüência, o foco do
um problema adicional, relativo ao sistema de problema tem se voltado sobretudo para a
isolamento dos motores. Com o aumento da suportabilidade do isolante dos fios, trazendo a tona
velocidade de chaveamento e freqüência de pulsação importantes questões sobre cuidados e melhorias
dos inversores melhorou-se o espectro da onda necessárias, visto que estes ficam submetidos a altos
modulada de saída, reduzindo o conteúdo de picos de tensão, provocados pela rapidez do
harmônicos e incrementando com isto o rendimento crescimento dos pulsos gerados pelo inversor
dos motores. Porém com o chaveamento mais rápido (rise time), bem como pela alta freqüência com que
que com o uso de semicondutores do tipo IGBT já estes picos são produzidos.
atinge tempos para comutação de tensão da ordem de Com isto, atenção especial deve ser dada ao “rise
0.1µs e até menores, originou-se uma nova questão time ” e à “fre qüência de pulsação” dos inversores
vital causada pelos altos gradientes de potencial de freqüência. A fig.1 apresenta as formas de onda da
desenvolvidos nos enrolamentos [1]. tensão sobre o conjunto motor-inversor.

Então devido a isto, o que pode ser classificado como


um “mal necessário”, em virtude da urgência da
rápida evolução tecnológica que o mundo moderno
precisa e exige, ficou o problema relativo ao sistema
de isolamento, onde em alguns casos, para preservar
a vida útil dos motores, pode ser necessário o uso de
sistemas isolantes mais complexos e caros ao invés
dos convencionais praticados até então. Esta tem sido
a partir daí, para fazer frente às necessidades

1
Fig.2 Tempo de crescimento dos pulsos (rise time)

4. PARÂMETROS E GRANDEZAS
EQUIVALENTES

Fig.1 Esquema básico de acionamento de motor de Os pulsos repetitivos (trem de pulsos) mesmo sendo
indução através de inversor PWM, com respectiva cada um individualmente de curta duração, causam
seqüência característica de tensões elétri cas. um efeito cumulativo, o qual dependendo do projeto
do sistema de isolamento do motor pode abreviar
3. INFLUÊNCIA DO RIS E-TIME (dV/dt) substancialmente a vida útil deste. T endo em vista a
significância do assunto, particularmente porque ele
Devido à rapidez do crescimento do pulso de tensão afeta a vida útil do isolamento, há a necessidade de
(dV/dt) emitido pelo conversor ao motor , a(s) um estudo dirigido para as relações entre indutâncias
primeira(s) espira)s) da primeira bobina de uma dada distribuídas, capacitâncias distribuídas, impedâncias
fase fica(m) submetida(s) a um alto valor de tensão. características, e assim por diante, tudo enfim que é
Com isto o “ rise time” tem influência direta no importante para o entendimento das tensões
tempo de vida útil do sistema isolante, ou seja, quanto impulsivas originadas [5].
menor o tempo de crescimento do pulso (rise time
menor) maior será o nível de tensão originado entre O enrolamento estatórico por fase é uma estrutura
espiras (primeiras espiras) e consequentemente mais iterativa, isto é, há uma repetição de elementos
rápida a degradação do sistema de isolamento do similares ao longo de seu comprimento. O
motor. enrolamento é então composto de indutores
distribuídos formando reatâncias em série ao longo
Os fenômenos que interagem são semelhantes aos do comprimento e capacitâncias distribuídas contra a
que ocorrem com os chamados impulsos elétricos, massa (terra) e entre espiras, formando reatâncias em
onde um pulso enviado pelo inversor penetra no paralelo. Adicionalmente existem ainda as
enrolamento do motor. A frente de onda deste pulso resistências elétricas próprias dos enrolamentos
tem uma importância vital, pois sua taxa de distribuídas em série, bem como as resistências
crescimento (dV/dt) determina o valor da d.d.p. elétricas do sistema isolante distribuídas em paralelo.
(diferença de potencial) nas primeiras espiras por Além disso, há as reatâncias mútuas entre as bobinas
onde irá passar. O circuito elétrico equivalente, por componentes deste enrolamento por fase, bem como
onde esta onda penetra, é constituído de indutâncias e entre fases do enrolamento. Um circuito equivalente
capacitâncias distribuídas, formadas por trechos por fase poderá ser conforme o mostrado na fig.3.
respectivamente do enrolamento e sistema isolante do
motor. Esta rapidez no crescimento da frente de onda
se deve à grande velocidade de operação dos
dispositivos de chaveamento dos inversores
(T iristores SCR, T iristores GT O, Transistores IGBT ),
os quais estão se tornando cada vez mais rápidos.

Com tudo isto, em função do “ rise time ”, mostrado


na fig.2, o sistema de isolamento fica submetido a
altos gradientes de potencial elétrico, exigindo dos
isolantes características dielétricas superiores. Fig.3 Circuito equivalente para propagação dos pulsos
no motor

2
onde Os valores de L e C usados na determinação de Zo
L= Indutância de surto, por unidade de devem ser originados de uma ponderação entre as
comprimento, [H/m] partes do enrolamento embebida pelo ferro (ranhuras)
R= Resistência elétrica própria do enrolamento e a das cabeças de bobinas, ou seja, deve ser dado o
por unidade de comprimento, [Ω/m] devido “peso” conforme a parcela de contribuição
Cim= Capacitância de surto contra a massa, que cada uma tem nos parâmetros resultantes.
por unidade de comprimento, [µF/m]
Cie= Capacitância de surto entre espiras, por 5. INFLUÊNCIA DO CABO
unidade de comprimento, [µF/m] ALIMENTADOR ENTRE INVERS OR E
Ri= Resistência elétrica do sistema isolante, MOTOR
por unidade de comprimento, [Ω/m]
a) Refle xão das ondas incidentes:
É importante assinalar que as reatâncias distribuídas
por unidade de comprimento são diferentes nas Cabos suficientemente longos podem apresentar, em
regiões das ranhuras e nas cabeças de bobinas, por função do rise-time (tempo de crescimento do pulso
causa da diferença na configuração destas regiões, tr) e da freqüência de pulsação, um comportamento
bem como devido a que a porção dentro das ranhuras tal como uma linha de transmissão, onde aparecem as
está embebida no ferro, o que lhe confere maior ondas incidentes e refletidas de tensão (ver fig.1) [4].
indutividade. É importante salientar que com os pequeníssimos
rise-times (tempos de crescimento da tensão do
Para efeitos de simplificação seja considerado que a pulso) dos conversores modernos, um comprimento
resistência em série (R ) é pequena comparada com a de cabo relativamente pequeno já pode apresentar
reatância em série (L) e que a resistência elétrica do este comportamento.
sistema isolante em paralelo seja muito maior do que
a reatância capacitiva contra a massa. Ainda para O tempo de crescimento dos pulsos de tensão nos
simplificação seja considerada uma capacitância terminais do motor depende do processo de controle
resultante entre “ Cie” e “ Cim”, do conversor, da velocidade de operação dos
C = 2 . (Cie + Cim) [µF/m] componentes utilizados (chaveamento) e dos
comprimentos dos cabos entre motor e inversor [2].
O circuito equivalente resultante será então conforme Os pulsos (trem de pulsos), na saída do inversor,
a Fig. 4. percorrem como ondas progressivas o comprimento
do cabo com impedância característica Zc e são
refletidos nos bornes do motor por causa da maior
impedância característica Zo deste. Com isso a
amplitude de tensão nos bornes do motor fica
aumentada de um certo valor em função desta
reflexão.

Em função das impedâncias características do motor


e do cabo, o fator de reflexão é dado por
Fig.4 – Circuito equivalente simplificado, para 2 Zo
propagação dos pulsos. r= [pu]
Zo + Zc
Com isto a impedância característica (ou impedância o qual ocorre quando o tempo de crescimento do
de surto) resultante de um grande número de pulso tr de tensão imposto pelo conversor, é menor
impedâncias elementares ligadas consecutivamente que o dobro do tempo de percurso da onda de tensão
em série, pode ser calculada em função de somente através do cabo [2,6].
um elemento. Desta forma T er-se-á a equação Com isto a tensão nos bornes do motor será
L U M = r .Udc [V]
Zo = [OHM S] onde
C
a qual é independente da freqüência. Udc = tensão cc do circuito intermediário
A velocidade de propagação dos pulsos que entram (saída do retificador), [V]
nos terminais do motor, através do enrolamento será Udc ≅ 2 .U N [V]
1 UN = tensão nominal de saída do conversor
V= [m/s]
LC (harmônica fundamental),[V]
Portanto U M = r . 2 .U N [V]

3
A máxima reflexão ocorre quando onde OS = fator de over shoot devido à
indutância própria do cabo.
lc
tr = 2 . [µs] Portanto o pulso de tensão nos terminais do motor,
Vc em função da reflexão da onda incidente e em função
onde
da indutância própria do cabo (over shoot), será:
lc = comprimento do cabo,[m]
Vc = velocidade da onda no cabo,[m/µseg] U M = (r + OS ) ⋅ 2 ⋅U N [V]

Portanto, o valor da reflexão “ r” da onda incidente,


bem como a tensão resultante nos bornes do motor 6. GRADIENTE DE POTENCIAL NOS
UL, depende da impedância característica do cabo e ENRO LAMENTOS
do tempo de crescimento do pulso (rise time)
chaveado pelo conversor. Os rápidos tempos de comutação associados ao trem
de pulsos que ocorre de maneira continuada, fazem
b) O ve r shoot na entrada do motor de vido à com que o esforço sobre o sistema isolante seja muito
indutância do cabo: elevado. Os esforços que o isolamento sofre podem
ser comparados com os produzidos por ondas
Seja considerado que o cabo alimentador entre o progressivas de descargas atmosféricas (raios), com a
inversor e o motor apresenta uma indutância própria diferença fundamental de que neste caso não se
de valor Lc. Pela lei de Lenz poder-se-á ter a seguinte tratam de ocorrências aleatórias e eventuais, mas que
tensão auto induzida no cabo em função da variação acontecem continuadamente na alta freqüência de
da corrente. pulsação (chaveamento) [2, 7].
di Com isto as taxas de crescimento da onda de tensão
∆U = − Lc . [V] relativamente às distâncias de isolamento, ou seja, os
dt
gradientes de potencial nas diversas partes do sistema
isolante assumem uma proporção muito grande,
tornando-se decisivos, visto que os tempos para
ocorrer a degradação dos materiais isolantes e
consequentemente a vida útil, dependem
grandemente destes gradientes.

∆U).
Fig. 5–Tensão auto induzida no cabo (∆ Os gradiente de potencial podem ser separados em
três tipos distintos:
Dependendo do ângulo de defasagem da corrente no
tempo em relação à tensão, T er-se-á um acréscimo
a) Contra a massa (núcleo magnético / carcaça)
resultante nos bornes do motor maior ou menor. Este gradiente ocorre principalmente no interior das
Fasorialmente, tem-se: ranhuras, sendo devido à diferença de potencial entre
& & &
U M = r . 2 .U N + ∆U [V] os condutores e a massa (pacote de chapas ou
carcaça). O sistema de isolamento para este caso é
Supondo um ângulo de defasagem para a onda de composto pelo filme isolante que envolve a parte
π interior da ranhura mais a espessura do isolante em
corrente “ i” de radianos em atraso, quando esta torno dos fios condutores. Na prática e
2 principalmente para um sistema de enrolamentos
estiver decrescendo, a onda de tensão estará randômicos (baixa tensão), pode ser acrescentado
 di  ainda algum trecho do sistema isolante composto
aumentando. Com isto a derivada   será negativa
 dt  também pelo material impregnante, ou até por algum
indesejável espaço de ar.
e o resultado ∆U será positivo e somar-se-á ao valor
total para UM. Para efeito de simplificação,
b) Entre espiras
considerando que ∆U esteja em fase com o pulso
O gradiente de potencial entre as espiras, em função
( r . 2 .U N ), resulta da rapidez do crescimento de cada pulso do trem de
∆U pulsos do inversor, constitui-se num caso vital para o
OS = [pu] sistema de isolamento. Este gradiente depende das
2U N espiras que se encontram colocadas justapostas, ou
U M = r . 2 .U N + OS . 2 .U N [V]

4
seja, de quais sejam as espiras colocadas freqüência, isto é, TL=B/f2 , onde “ B” é outra
imediatamente próximas. constante [3].
É esperado que a primeira (ou primeiras) espira(s) da
primeira bobina tenha(m) a maior ddp relativamente 8. DES CARGAS PARCIAIS
às demais e que dependendo de sua vizinhança
imediatamente próxima poder-se-á ter até o máximo As descargas parciais também conhecidas como
potencial do pulso entre estas espiras. Alguma efeito “ corona” resultam do rompimento da rigidez
incerteza ocorre com os enrolamentos randômicos, dielétrica do ar contido em espaços vazios (Voids)
dada a aleatoriedade nas posições espaciais relativas dentro do sistema de isolamento sólido de um motor.
de cada espira, dentro de uma mesma ranhura. A este tipo de descargas, originárias destes espaços
O sistema de isolamento para este caso é composto vazios (Voids), dá-se o nome de descargas parciais de
pelos isolantes em torno dos fios, o qual para o caso volume. Além disso existem descargas parciais
de duas espiras justapostas corresponde à soma das originadas na superfície dos isolantes, as quais são
espessuras dos isolantes em torno de cada fio. O chamadas de descargas parciais de superfície.
sistema genericamente pode conter ainda, além dos Havendo descargas parciais num sistema isolante não
isolantes dos fios, também o material isolante da significa a falha imediata do isolamento. O
impregnação e até algum indesejável espaço de ar. rompimento da rigidez dielétrica do ar pelo campo
elétrico resulta na formação de ozônio e óxido nítrico.
c) Entre fases Longas exposições às descargas parciais causarão
Neste caso o gradiente de potencial depende da deterioração nos materiais isolantes, sendo que o
diferença de potencial entre os condutores adjacentes tempo necessário para ocorrer uma falha completa é
de cada fase. Ocorre principalmente nas cabeças de uma função de cada material em particular [5].
bobinas onde a proximidade entre as fases é maior,
sendo separadas em algumas posições somente por
um filme isolante específico. O sistema isolante
correspondente é então formado por este filme
isolante específico entre fases mais duas vezes o
isolante em torno de cada fio justaposto, podendo
conter ainda o material de impregnação e algum
espaço de ar.

7. INFLUÊNCIA DA FREQÜÊNCIA D E
PULS AÇÃO

Associada aos efeitos originados pelo rápido


crescimento dos pulsos está a freqüência com que Fig.6 – Descargas parciais contra a massa, medidas
estes pulsos são produzidos. Ao contrário dos através de osciloscópio de alta freqüência e filtro LC
série e paralelo.
impulsos provenientes de manobras de rede, os quais
são eventuais, neste caso trata-se de um trem de Cavidades com ar dentro do volume de um material
pulsos que é mantido numa freqüência determinada. sólido ou nas interfaces das superfícies separadoras,
Esta freqüência nos dias atuais, em função da rápida constituem-se numa importante fonte de problemas
evolução da eletrônica de potência, atinge valores da para um sistema de isolamento. Devido à tensão
ordem de 20kHz. Quanto maior a freqüência de elétrica submetida ao sistema, originar-se-ão campos
pulsação do conversor mais rápida será a degradação elétricos nas cavidades de ar. Se este campo elétrico
do sistema isolante. A dependência do tempo de vida ultrapassar um certo valor limiar, o qual é função das
útil do isolamento em função da freqüência de condições do ar local (temperatura, umidade,
pulsação, não é uma relação simples, conforme pode comprimento do gap,...) dar-se-á início às descargas
ser obtido de pesquisas experimentais. parciais. Estas descargas causam a degradação dos
materiais e podem conduzir a uma falha completa no
Então, de resultados empíricos, obtidos através de sistema isolante.
experiências práticas, pode-se concluir que abaixo de
5 kHz o tempo de vida do isolamento é inversamente A diferença na permissividade elétrica do ar,
proporcional à freqüência, ou seja, TL=A/f, onde “ A” relativamente aos materiais sólidos, facilita a
é uma constante e “ f” a freqüência de pulsação. Já formação de altos gradientes de potencial sobre estes
para freqüências de pulsação acima de 5kHz o tempo espaços de ar, os quais podem ultrapassar os valores
de vida útil é proporcional ao inverso do quadrado da limiares e conduzir às descargas parciais. O resultado
pode ser a erosão com a criação de caminhos

5
condutivos (tracking) na superfície dos materiais contra a massa (núcleo magnético). Para evitar isto é
isolantes. Adicionalmente pode ocorrer, em função da necessário alongar suficientemente o comprimento da
umidade e/ou das impurezas algum efeito de parte reta e ainda para casos mais críticos,
eletrólise, com conseqüente mobilização de cargas particularmente para motores de alta tensão (> 600V),
iônicas. A deterioração surgida, bem como o tempo pode ser necessário evitar curvas bruscas, fazendo-as
necessário, dependerão das características químicas então com adequados valores de raios geométricos.
de cada caso particular de material [8].
Para maiores altitudes (acima de 1000m) o ar torna-se
T anto os cálculos como as medições experimentais mais rarefeito, reduzindo consequentemente as
demonstram que os valores limiares de tensão elétrica tensões limiares para início das descargas parciais. É
para início das descargas parciais tornam-se maiores necessário, portanto, considerar a altitude, visto que a
quanto maiores forem as espessuras dos materiais rigidez dielétrica do ar diminui à medida que a
isolantes sólidos. O tempo para o rompimento do altitude aumenta.
dielétrico de um sistema de isolamento depende da
intensidade das descargas parciais, da tensão limiar 9. INFLUÊNCIA DA TEMPERATURA.
para início das descargas, das espessuras dos
materiais isolantes envolvidos e da resistência à A altas temperaturas a resistência aos esforços entre
erosão de cada material em particular. As tensões espiras é grandemente reduzida [3].Os isolantes dos
limiares e consequentemente a vida útil serão maiores motores são normalmente sujeitos a temperaturas que
também em função da qualidade da impregnação das podem chegar a valores da ordem de 155º C (classe
bobinas do enrolamento. Esta qualidade depende do F). Com o aumento da temperatura a permissividade
material impregnante, bem como da porcentagem de elétrica dos materiais isolantes aumenta, deixando
sólidos retidos preenchendo os espaços entre os fios maiores campos elétricos sobre os espaços de ar entre
condutores. Conforme pesquisa realizada na
as partes isolantes. Ainda com a elevação da
Universidade T écnica de Dresden (Alemanha), não
temperatura cai a rigidez dielétrica do ar devido à
havendo descargas parciais, mesmo para períodos de
redução de sua densidade de massa [1]. Com isto a
funcionamento da ordem de dois anos, sob
tensão limiar para início de descargas parciais
temperaturas normais de trabalho, não se observa
diminui cerca de 15 a 20%, comparada com seu valor
nenhum rompimento do dielétrico do sistema de
à temperatura ambiente.
isolamento [1]. Isto nos conduz a que períodos
Portanto, temperaturas mais altas podem provocar um
satisfatórios de vida útil podem ser atingidos se as
envelhecimento mais rápido do sistema de isolamento
descargas parciais no sistema de isolamento do
dos motores.
enrolamento forem evitadas.

Para uma avaliação experimental que possa conduzir 10. S IS TEMA D E IS OLAMENTO.
a uma previsão da vida útil esperada do motor,
podem ser usados ensaios de descargas parciais. Devido aos efeitos extras originados pela pulsação
Nestes ensaios são medidas as tensões limiares para dos conversores, quando alimentando motores
início e extinção das descargas e é feita a contagem elétricos, o sistema de isolamento convencional, o
do número de cargas (normalmente em pico qual tem sido usado com amplo sucesso em todos os
Coulombs) provenientes destas descargas em função casos de alimentação com fontes senoidais
de diferenças de potencial previamente estabelecidas tradicionais (50/60Hz), pode não atender aos
(1.25, 1.5, 2.0, 2.5 kV), aplicadas no sistema isolante requisitos necessários para este tipo de alimentação.
contra a terra (núcleo magnético e carcaça). O ensaio Neste caso o sistema de isolamento deve ser feito
é feito com cada fase individualmente, onde quando com materiais mais resistentes à degradação (erosão)
uma dada fase estiver sendo ensaiada as demais quando submetidos a elevados campos elétricos e
permanecem aterradas. Desta forma o ensaio verifica terem os espaços entre as espiras (fios) devidamente
também a interação entre as fases, detectando as preenchidos com material impregnante sólido,
cargas correspondentes. evitando a presença de espaços de ar e
consequentemente as descargas parciais. O material
As cabeças de bobinas, particularmente na curva logo de uma das camadas das paredes isolantes dos fios,
após a parte reta que sai das ranhuras (Núcleo), em para os casos mais críticos, pode conter óxidos
função desta configuração diferente, apresentam um metálicos (óxido de T itânio, por exemplo) os quais
ponto de fraqueza por onde pode dar-se início às funcionam como espalhadores de cargas, não
descargas parciais. Isto se deve à rápida variação da deixando que eventuais descargas parciais se
geometria na região da curva, logo após a parte reta, choquem sempre contra o mesmo ponto sobre o
por onde se originam grandes gradientes de potencial material isolante. Desta forma esta camada de óxido

6
metálico torna o fio resistente ao ataque de descargas
parciais e consequentemente protege o sistema de A falha efetiva do sistema isolante significa o
isolamento de degradações prematuras [9]. rompimento da rigidez dielétrica dos isolantes
sólidos, colocando em curto-circuito as partes
Portanto o sistema de isolamento para motores energizadas. A vida útil efetiva pode ser determinada
alimentados por conversores de freqüência medindo o tempo necessário para o rompimento
(retificador + inversor), os quais ficam submetidos a completo do dielétrico do sistema isolante. Fazendo
elevados gradientes de potencial entre espiras, entre isto em tempo real tornar-se-ia muito exaustivo,
fases e contra a massa. Devem ser construídos com considerando que seja esperado uma duração normal
materiais isolantes mais resistentes à degradação em de alguns anos. Por isto, o processo de
função destes campos elétricos e devem ser envelhecimento normalmente é acelerado em
impregnados através de sistemas que depositem uma laboratório de testes, para reduzir o tempo de vida.
grande porcentagem de material sólido para Isto é feito usualmente aumentando a amplitude do
preencher os espaços entre os fios, no interior das tipo de esforço estressante sob estudo. Quando são
ranhuras e cabeças de bobinas, evitando assim a disponíveis dados suficientes de envelhecimento,
formação de descargas parciais. aspectos estatísticos podem ser considerados.
Acelerando o processo de envelhecimento para um
As contaminações tais como óleos, sais, ácidos, dado tipo de esforço (stress) é possível que um outro
graxas, poeiras, detergentes, desinfetantes, pós tipo de esforço que também cause envelhecimento
metálicos, etc, especialmente quando combinados passe a ser dominante, ou ainda que as mudanças no
com a umidade ambiente, reduzem drasticamente a processo de envelhecimento sejam não lineares em
rigidez dilétrica. Isto facilita a formação de caminhos função do aumento da amplitude estressante. Desta
condutores (tracking) provocando a redução nas forma, as extrapolações devem ser feitas com muita
tensões limiares para início de descargas parciais. prudência, visto que podem conduzir a resultados
Com isto o isolamento entre espiras, entre fases e errados.
contra a massa pode ficar grandemente
comprometido. Para evitar este tipo de problema a Os ensaios de envelhecimento, diante das
solução é manter os motores longe das contaminações dificulda des apresentadas, tem sua validade mais
ou usar motores totalmente fechados quando os dirigida para efeitos comparativos, visto que nestes
ambientes forem contaminantes. Para evitar a casos nenhuma extrapolação precisa ser feita e os
formação de água condensada (umidade) é necessário materiais, métodos e processos podem ser
equipar com aquecedores de parada, sobretudo comparados em condições idênticas.
quando o motor permanecer parado por várias horas
seguidas. Os sistemas isolantes, os quais são expostos a
diversos fatores estressantes podem, adicionalmente
11. VID A ÚTIL EFETIVA DOS MOTORES : ao envelhecimento produzido por cada fator,
experimentar o envelhecimento devido aos efeitos da
Conforme mostrado até aqui, as causas e influências sinergia. Os efeitos da sinergia são devidos à
que dão origem ao envelhecimento do sistema interação entre os diferentes fatores estressantes [8].
isolante dos motores de indução, quando alimentados
por conversores de freqüência, são múltiplas e Portanto, a estimativa do tempo de vida útil efetiva de
dependentes também de condições aleatórias ou pelo um dado motor, em função da multiplicidade de
menos estatísticas, sobretudo para o caso dos fatores estressantes, é uma tarefa altamente
enrolamentos randômicos, os quais correspondem à complexa, onde interagem os efeitos devidos às
grande maioria. variações nos processos construtivos, aqueles em
função das reações físico-químicas dos materiais
“ Envelhecimento” significa uma mudança nociva à isolantes envolvidos, a temperatura e todos os fatores
capacidade de isolar do sistema isolante. A natureza ambientais relacionados com as contaminações e
desta mudança pode ser muito variada. As umidade. Além disso, em função das interrelações
propriedades de um sistema isolante, as quais são entre os diversos fatores estressantes, aparece o efeito
influenciadas pelo envelhecimento, dependem do tipo da sinergia. Diversos modelos foram criados para
de esforço (stress) e do tipo de material que está representar o comportamento de cada fator
sendo usado. Os esforços que produzem estressante e permitir avaliar o tempo de vida
envelhecimento, chamados de “ fatores de esperado. O cálculo teórico através da aplicação das
envelhecimento”, podem ser divididos normalmente equações que governam os diversos fatores
em quatro tipos básicos: Elétricos, térmicos, estressantes, em função da complexidade, se não
mecânicos e ambientais [8]. permite exatamente estimar a vida útil esperada de

7
forma absoluta, pelo menos permite tirar conclusões casos, portanto, a eficiência do sistema de
comparativas valiosas, já que pode mostrar as impregnação é fundamental para garantir uma
tendências esperadas para cada caso. suficiente vida útil a estes motores, bem como, nos
casos mais críticos, o uso de fios especiais, mais
12.FILTROS DE AMORTEC IMENTO. resistentes à degradação, pode ser necessário.

Há duas maneiras básicas para reduzir ou aliviar os 13.REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFIC AS :


efeitos estressantes sobre o sistema isolante: a
primeira é aumentando a resistência dos fios aos [1] Failure mechanism of the interturn insulation Low
efeitos dos altos gradientes de potencial, conforme voltage Eletric Machines Fed by pulsecontrolled inverters
comentado no item 10, e a segunda é através do uso M. Kaufhold, F. Börner, M. Eberhardt and J. Speck.
de filtros amortecedores, sobre os quais estar-se-á
abordando em seguida. [2] Beansprunchung der Wicklungsisolie rung von
Drehstrommaschinen etz Bd. 114(1993) Heft 17.
O método mais simples de filtragem é inserir em série [3] Dieletric integrity of magnet wire insulations under
com os cabos, entre inversor e motor, um adequado multi-stresses. Improved magnet wire for inverter fed
valor de reatância indutiva, a qual atua como motors
limitadora de variação de corrente filtrando a onda e Revista APPLIANCE Jan/1996.
reduzindo o ruído. Este método afeta a performance
dos transitórios do conversor além de ser volumoso e [4] Application Issues for PWM Adjustable speed AC
caro. motor drives
Através de filtros passa baixo de primeira ordem R-C, A. Von. Jouanne, P. Enjeti, and W. Gray.
aplicados na entrada do motor, as sobretensões
impulsivas e as taxas dv/dt podem ser [5] Polyphase Induction Motors Analysis, Design, and
Application
significativamente reduzidas. Com isto as
Paul. Cochran
componentes de reflexão serão grandemente
atenuadas, bem como serão reduzidos os gradientes [6] Zulässige Spannungs beanspruchung der
de potencial e conseqüentemente os esforços Wicklumgsisolierung von Drehstrom-Norm-Motoren bei
estressantes causadores de envelhecimento. Speisung durch Pulsumrichter
H. Auinger, Frankfurt.
Juntando os dois tipos de filtros anteriores pode-se Elektrie, Berlin 48 (1994).
formar um filtro RLC, onde a indutância L é colocada
em série e o conjunto R-C em paralelo. Instalando [7] Esforços sobre isolamento do enrolamento alimentado
estes filtros tornam-se permissíveis comprimentos de por conversor.
Melhoramento do isolamento.
cabos bastante aumentados relativamente à condição Obering H. Greiner.
sem filtros. EMA 3/96.

[8] Multifactor Ageing Models – origin and similarities.


Anne Cathrine Gjaerde.
Norwegian Electric Power Researdh Institute (EFI).

[9] A New partial discharges resistant wire enamel


insulation for rotating machines.
A. Björklund, C. Fröling G. Svensson.
The 7th BEAMA international Electrical insulation
Conference.

Fig.7 Filtragem através de indutância L em série e


impedância RC em paralelo.

Devido a condições técnico-econômicas os filtros


ficam normalmente restritos aos projetos para
grandes acionamentos. Para aplicações que utilizam
motores pequenos e médios, além de não usar filtros,
em geral os usuários preferem utilizar motores de
fabricação em série, mantidos em estoque, os quais
tanto podem ser alimentados por fontes senoidais
(50/60Hz) quanto por conversores (PWM). Nestes