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LIGA DE ENSINO DO RIO GRANDE DO NORTE

FACULDADE NATALENSE PARA O DESENVOLVIMENTO DO RIO GRANDE


DO NORTE

LÍNGUA PORTUGUESA APLICADA AO DIREITO


Prof. João Maria de Lima

Gênero e tipologia textuais. Narrativa simples e narrativa valorada.

Objetivos da aula: compreender a importância da tipologia textual para a


redação de textos jurídicos; distinguir a narrativa simples da narrativa
valorada.

No Direito, é de grande relevância o que se denomina tipologia


textual: narração, descrição e dissertação. O que torna essa questão de
natureza textual importante para o direito é a sua utilização na produção de
peças processuais, como a Petição Inicial, a Contestação, o Parecer, a
Sentença, entre outras, podendo cada uma delas apresentar diferentes
estruturas, a um só tempo. Para melhor compreender essa afirmação,
observe o esquema da Petição Inicial e perceba como essa peça pertence a
um gênero híbrido do discurso jurídico, o que exige do profissional do direito
o domínio pleno desses tipos textuais.

LPAD - Prof. João Maria de Lima I


Petição Inicial

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da Vara


da Comarca
Parte descritiva Qualificação das partes

Parte narrativa Dos fatos

Parte Do direito
argumentativa

Parte injuntiva Do pedido 1- ; 2- ; 3- ;

Das provas

Do valor da causa

Assim, ainda que cada gênero textual tenha sua relevância na


estrutura redacional das peças processuais, não se pode desconsiderar que,
se não há o acesso aos fatos, não há como dizer o direito.
Portanto, em um primeiro momento, o operador deve saber contar,
com habilidade, a história a partir da qual se pretende verificar a violação
de um direito subjetivo. Não por outra razão, o primeiro tipo a ser aqui
observado mais atentamente é o da narração.

A presença da narração no discurso jurídico: narrativa simples e


narrativa valorada
Como se percebe pelo esquema anterior, as peças processuais têm
um denominador comum: precisam, em primeiro lugar, narrar os fatos
importantes do caso concreto, tendo em vista que o reconhecimento de um
direito passa pela análise do fato gerador do conflito. Ainda assim, vale
dizer que essa narrativa será imparcial ou parcial, podendo ser tratada
como simples ou valorada, a depender da peça que se pretende redigir.
Pode-se entender, portanto, que valorizar ou não palavras e
expressões merece atenção acurada, pois poderá influenciar na
compreensão e persuasão do auditório1.
Essa valoração das informações depende dos mecanismos de

1BARROS, Orlando Mara. Comunicação & Oratória. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2001. p. 138.
controle social2que influenciam na compreensão do fato jurídico. São
diferentes os objetivos de cada operador do direito; sendo assim, o
representante de uma parte envolvida não poderá narrar os fatos de um
caso concreto sob o mesmo ponto de vista da parte contrária.
Por conta disso, não se poderia dizer que todas as narrativas
presentes no discurso jurídico são idênticas no formato e objetivo, visto que
dependem da intencionalidade de cada um.

Questão
Segue parte de uma Petição Inicial (endereçamento, qualificação das
partes e narrativa dos fatos), em que aparecem sublinhadas algumas
expressões de caráter valorativo. Como se percebeu da breve exposição
anterior, a presença desses elementos valorativos pode ser adequada a
essa peça, mas, se o mesmo caso concreto tivesse de ser relatado em um
Parecer, a imparcialidade deveria ser observada.2
Você deve reconstruir o texto de forma objetiva, retirando ou
substituindo as expressões valoradas, de modo a adequá-las a uma
narrativa simples (imparcial). O objetivo é perceber as diferenças entre a
narrativa valorada (da Petição Inicial, por exemplo) e a narrativa simples
(do Parecer, por exemplo). Faça as alterações necessárias para que a
coesão e a coerência textuais sejam observadas.
TEXTO

EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DAVARA DE.......DE..........- RN

GIL MIPIBU, brasileiro, divorciado, operário, portador da carteira de


identidade n9 12345678-9 e inscrito no CPF sob o n9012345678-90,
residente e domiciliado na Rua Dr. Paulino, n^ 01, São José de Mipibu,RN,
CEP: 59.150-000, por meio de seu advogado, domiciliado na Rua São João
n^ 02, São José de Mipibu, RN, CEP: 59.150000, vem propor a presente

Ação de alimentos
Em nome de GIL MIPIBU JÚNIOR, aqui requerido-alimentante,
brasileiro, solteiro, maior, bancário, domiciliado na Rua José Jorge, n^ 03,
São José de Mipibu,RN, CEP: 59.150-000, pelos seguintes fatos que passa a
expor:

2* Nomenclatura utilizada normalmente em Introdução ao Direito 1.


2 Esta disciplina pretende trabalhar a estrutura e a linguagem do texto da Petição Inicial. Os requisitos processuais
conteúdo do direito material serão ministrados nas disciplinas específicas.

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Dos fatos
O alimentado senhor GIL MIPIBU teve, para sua alegria, o nascimento
de seu filho, em 22 de abril de 1983, contando, atualmente, com 28 (vinte e
oito) anos de vida (doe. em anexo).
Os pais do alimentante permaneceram por quase 22 anos formando
uma família feliz, tendo a ele dispensado toda a atenção e carinho de que
um filho é merecedor, até fins de 2005, quando o alimentante já contava
com mais de 20 (vinte) anos de bela, serena e tranquila convivência com o
alimentado, no seio familiar.
Vale mencionar que o alimentado se separou e formou uma nova
família; desde então, vem passando urgentes necessidades, razão pela qual
pede alimentos, porque, na infeliz data de 08 de janeiro de 2006, sofreu
acidente de trânsito, com traumatismo craniano, ocorrendo, daí, terríveis
sequelas de epilepsia pós-traumática, com parte de quase todo o corpo
comprometido, conforme se comprova em todos os documentos anexados;
ficou, assim, impossibilitado de trabalhar e tentou junto ao INSS alcançar,
sem sucesso, o benefício previdenciário de que tanto necessita. Está, pois,
sem qualquer assistência legal ou financeira.
Em resumo, a situação do alimentado é hoje realmente lamentável
porque necessita de forma urgente da ajuda de amigos e familiares, visto
que seus ganhos se reduziram a zero, pois não pode trabalhar devido à sua
doença, e o INSS resiste ao seu pedido de ajuda.
O autor precisa, constantemente, tomar medicamentos de alto custo;
caso contrário, seu estado poderá causar sua morte, não tendo, assim,
como suportá-lo.
Ressalta-se, inclusive, que o alimentado não é mais pessoa jovem,
mas sim doente, necessitando constantemente de cuidados médico e
farmacêutico. Para supri- los, vive de Posto a Posto de Saúde, Prefeituras,
Prontuário hospitalar, Pronto Socorro etc. a mendigar a gratuidade dos
medicamentos necessários para que possa continuar vivendo; recorre a
vizinhos, parentes e amigos que frequentemente o socorrem. Hoje, vive na
esperança de quaisquer benéficos acontecimentos que possam mudar os
rumos de seu destino.
Também, a carência, verdadeira miséria de recursos do alimentado,
ao contrario da franca disponibilidade financeira do alimentante, obriga o
último, como filho, a pensionar o pai, comparado e provado, de forma
inquestionável, o grau de parentesco que os une, em linha reta (primeiro
grau), na relação descendente-ascendente, bem como a soma de
necessidade/possibilidade.
(...)
Observação
Interdisciplinaridade: Proponho que você estude de maneira interdisciplinar
e recorra aos conteúdos sugeridos para conseguir a melhor solução do
exercício apresentado. Introdução ao Estudo do Direito: juízo de valor e juízo
de realidade; mecanismos de controle social (religião, moral, normas de
trato social e o Direito); influência da Moral sobre o Direito; teoria dos
círculos; Direito objetivo e Direito subjetivo. Fundamentos de Antropologia e
Sociologia: novos padrões morais e culturais na família, religião e estilos de
vida na sociedade brasileira.

Na página seguinte, há espaço para o texto definitivo.

TEXTO

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