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LITERATURA 45

Módulo 6 1ª Série

Gêneros literários: o gênero lírico

Você passaria mais de um ano ouvindo uma


música ininterruptamente?
Pode parecer estranho, mas isso pode ocorrer. “Faroeste Caboclo”,
da banda brasileira Legião Urbana, tem mais de nove minutos. O
“Bolero” de Ravel, mais de 17. Porém, elas não são nada perto de “As
Slow as Possible”, composta por John Cage em 1987. Pelo fato de o autor
não ter especificado o tempo das notas, essa canção é, hoje, objeto de
estudo de filósofos e músicos, que decidiram reduzir o ritmo de forma

©[Link]/Roberto A Sanchez
que ela leve 639 anos para ser finalizada! No dia 5 de setembro de
2001, “As Slow as Possible” começou a ser tocada em uma igreja em
Halberstadt, na Alemanha, e seu término está previsto para 2640. Só
a primeira nota demorou 11 meses para mudar!
Independentemente do tamanho ou do estilo, músicas são muito
presentes na vida das pessoas. Todos temos ao menos uma canção
com a qual nos identificamos. O que hoje entendemos como música Objetivos:
tem uma relação direta e bastante íntima com um gênero literário, o
C5 – Entrar em contato com o conceito de gêneros literários;
gênero lírico. Essa é matéria para este módulo. C6 – aprender as características do gênero lírico.

1. Os gêneros literários
Gênero lírico: você saberia dizer
Para facilitar a compreensão do mundo, é comum separar
os seres e as coisas em categorias, estabelecendo critérios que os
de onde vem esse nome de batismo?
assemelhem ou os diferenciem. Como exemplo segue a sequência O que diferencia o gênero lírico dos demais gêneros lite-
de animais: homem, cachorro, cobra, sapo, tucano, baleia, jacaré, rários? E de onde vem o nome “lírico”?
salamandra e papagaio. Levando em consideração as características
A poesia tem a musica-

©[Link]/koya79
físicas, pode-se facilmente distingui-los, já que cada um deles tem,
lidade na sua origem. Para
nesse sentido, suas singularidades. Contudo, por mais diferentes
exprimir seus sentimentos,
que sejam, eles também apresentam aspectos semelhantes, que os
suas dores e seus afetos, os
aproximam uns dos outros, a depender do critério que é utilizado.
poetas, desde a Antigui-
Dessa forma, pode-se alocar o homem, o cachorro e a baleia no
dade, recitavam seus versos
mesmo grupo, o dos mamíferos; a cobra e o jacaré, no dos répteis;
ao som de instrumentos
o sapo e a salamandra, no dos anfíbios; e o tucano e o papagaio,
musicais – um dos princi-
no grupo das aves.
pais foi a lira, um ancestral
Com os textos literários, não é diferente. É claro que cada instrumento de cordas. A lira contribuiu, então, para “batizar”
um deles tem suas peculiaridades – daí a riqueza da literatura –, esse gênero de expressão das emoções. Quando você vê, por
mas também apresentam semelhanças capazes de agrupá-los em exemplo, a imagem de Nero tangendo a sua lira, a curiosidade
categorias. A esses grupos convencionou-se chamar de gêneros é que esse imperador romano se julgava poeta...
literários. A primeira divisão em gêneros data de um período
Essa ligação direta entre poesia e música vem tendo conti-
muito remoto, a Antiguidade Clássica, e foi feita por Aristóteles,
nuidade ao longo dos tempos, em manifestações artísticas que,
notável filósofo da Grécia Antiga. Tomando como critério a
inclusive, extrapolam a literatura e envolvem criações musicais
questão formal, Aristóteles identificava dois grandes grupos: o dos
dos artistas populares, como Bob Dylan, que jamais precisou
textos dramáticos, nos quais inexistia um narrador, e o dos textos
se intitular poeta para ser reconhecido como tal...
épicos, nos quais o narrador falava, diretamente ou por meio dos
personagens. Com o tempo, houve a necessidade de se criar uma
categoria que agrupasse as produções líricas, e, no Renascimento,
aos gêneros épico e dramático estabelecidos por Aristóteles
2. O gênero lírico
acresceu-se o gênero lírico. Esses gêneros serão estudados neste e Os gêneros épico e narrativo, estão relacionados com o desejo
nos próximos módulos. humano de contar histórias. As epopeias e narrativas, no entanto,
46 LITERATURA
1ª Série Módulo 6

não davam conta da necessidade que o homem tem de expressar fonemas finais de alguns versos em outros, como nos versos que
sua subjetividade, de exteriorizar seu estado de espírito. Os textos terminam com “passar” e “espantar”, caracterizando uma rima regular,
pertencentes ao gênero lírico surgem desse anseio, apresentando, elemento que será estudado de forma mais aprofundada à frente.
pois, alto teor emotivo. Dessa forma, os poemas líricos estão
centrados no mundo interior de um eu, que se utiliza do discurso 2.1 O poeta e seus “eus líricos”
para nos transmitir seus sentimentos ou emoções. Isso ocorre na
A voz que se manifesta nos textos do gênero lírico é conhecida
música “Sozinho”, de Peninha:
como eu lírico. Assim como nos textos narrativos, nos quais a figura
Às vezes no silêncio da noite do narrador distingue-se da figura do autor, o eu lírico também não
pode ser confundido com o poeta. Na verdade, ele é uma “máscara”
Eu fico imaginando nós dois
utilizada pelo poeta para apresentar impressões variadas sobre o
Eu fico ali sonhando acordado
mundo, que não necessariamente condizem com as do eu biográfico.
Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto? 2.2 Musicalidade


Por que você não cola em mim? O termo “lírico” é derivado de

©[Link]/gheatza
Tô me sentindo muito sozinho “lira”, substantivo que nomeia um
Disponível em: <[Link] Acesso em: 25 dez. 2013.
instrumento musical. A relação
entre os dois consiste no fato de que
É importante ressaltar, porém, que os gêneros sofrem modifi- as primeiras produções líricas eram
cações ao longo do tempo, e com o gênero lírico não foi diferente. cantadas, tendo como acompanha-
À possibilidade de expressão sentimental, somaram-se outras, mento musical a lira. Diferentemente
e os textos líricos puderam passar a exprimir reflexões sobre os dos dias de hoje, em que a divulgação
Lira, instrumento que deu origem
mais variados temas: sociais, políticos, filosóficos e até mesmo dos textos se faz majoritariamente ao nome “lírico”
metalinguísticos. Um exemplo disso é o poema a seguir, de Luís por meio da escrita, a modalidade
de Camões. Nele, o eu lírico expressa sua angústia, mas o que fica priorizada antigamente era a oral. Isso se deve à complexidade
em evidência é a visão crítica que lança sobre o mundo: de reprodução dos textos, já que, a imprensa só foi inventada por
Gutemberg na primeira metade do século XV. Além disso, o público
Ao desconcerto do mundo leitor era muito reduzido devido à dificuldade de acesso ao letra-
mento. Logo, fica claro que, desde o início, a musicalidade é uma
Os bons vi sempre passar
característica marcante dos textos líricos, e ela fica evidenciada
No mundo graves tormentos;
por meio de recursos poéticos como o metro e a rima.
E para mais m’espantar,
Os maus vi sempre nadar 2.2.1 Metro
Em mar de contentamentos. Toda poesia é composta por versos, que, quando em conjunto,
formam estrofes. Cada verso tem uma extensão, determinada
Cuidando alcançar assim pelo número de sílabas métricas. A essa extensão da-se o nome de
O bem tão mal ordenado, metro. A separação em sílabas métricas – também chamadas de
Fui mau, mas fui castigado. sílabas poéticas – não segue, porém, a mesma lógica de separação
Assim que só para mim das sílabas gramaticais. A métrica do verso é determinada “pela
Anda o mundo concertado. combinação das sílabas, acentos e pausas, contando-se as sílabas
até a última acentuada”.
Em “Ao desconcerto do mundo”, a voz presente no poema É possível observar como essa separação em sílabas métricas é
revela um mundo desajustado: nele, aqueles que são bons não feita nos versos abaixo, retirados de um soneto de Gregório de Matos:
são recompensados, e sim passam “graves tormentos”; os maus,
por sua vez, conquistam boas recompensas, nadando “em mar de Nasce o Sol e não dura mais que um dia
contentamentos”. Seguindo a lógica de um mundo desconcertado – Depois da Luz se segue a noite escura
o desconcerto do mundo é, aliás, um dos grandes temas camonianos Em tristes sombras morre a formosura
–, o sujeito faz o mal a fim de ser recompensado. Porém, ao contrário Em contínuas tristezas, a alegria
do que ele observa ocorrer com as outras pessoas, ele é punido,
chegando à conclusão de que só para ele “anda o mundo concertado”. Nas/ ceo/ Sol/ e/ não/ du/ ra/ mais/ queum/ di/
Quanto à forma, o poema é organizado em versos. Ao conjunto De/ pois/ da/ Luz/ se/ se/ guea/ noi/ tees/ cu/
de versos, dá-se o nome de estrofe. Nesse caso, o poema é composto Em/ tris/ tes/ som/ bras/ mo/ rrea/ for/ mo/ su/
por apenas uma estrofe. Repare também que há uma repetição dos Em/ con/ tí/ nuas/ tris/ te/ zas/ aa/ le/ gri/
Gêneros literários: o gênero lírico LITERATURA 47
Módulo 6 1ª Série

Após a escansão dos versos, percebe-se que todos eles possuem


dez sílabas métricas. Os versos que apresentam esse número de
Nos poemas, todos os versos apresentam, ao final, uma
sílabas são chamados de versos decassílabos. Existem nomes
pausa. Geralmente, essa pausa final do verso coincide com uma
específicos para os versos de uma a doze sílabas poéticas, como
já prevista na estrutura sintática. No entanto, alguns poetas
pode ser visto na lista abaixo:
“brincam” com essa pausa, fazendo rupturas não esperadas na
sintaxe dos versos, o que cria efeitos estilísticos. A essa repar-
Uma sílaba – monossílabo
tição inesperada dos versos damos o nome de cavalgamento
Duas sílabas – dissílabo
ou enjambement. Para entender melhor como isso ocorre, leia
Três sílabas – trissílabo os versos abaixo, retirados do poema “A flor e a náusea”, de
Quatro sílabas – tetrassílabo Carlos Drummond de Andrade:
Cinco sílabas – pentassílabo, ou redondilha menor
Seis sílabas – hexassílabo “Quarenta anos e nenhum problema
Sete sílabas – heptassílabo, ou redondilha maior resolvido, sequer colocado.”
Oito sílabas – octossílabo
Neles, ao deslocar o termo “resolvido” para o verso
Nove sílabas – eneassílabo
seguinte, o poeta consegue quebrar a expectativa do leitor,
Dez sílabas – decassílabo
mudando radicalmente o sentido do verso anterior. Trata-se,
Onze sílabas – hendecassílabo portanto, de uma quebra voluntária da sintaxe do verso visando
Doze sílabas – dodecassílabo, ou verso alexandrino a criar um efeito de estilo.

Quando todos os versos de um poema apresentam a mesma


extensão, ou seja, tem o mesmo número de sílabas métricas,
2.2.3 Figuras de som
dizemos que se trata de um poema com métrica regular, o que Há certas figuras de linguagem que também contribuem para
costuma reforçar a marcação melódica do texto. Quando, por sua a musicalidade, como a aliteração, a assonância e a onomatopeia.
vez, a métrica é irregular, isto é, os versos não apresentam a mesma • Aliteração
extensão, são denominados versos livres.
A figura de linguagem conhecida como aliteração consiste na
2.2.2 Rima repetição regular de sons consonantais, como ocorre nos versos
abaixo, do poema “O poeta come amendoim”, de Mário de Andrade:
Chama-se de rima a ocorrência de repetições sonoras no final
dos versos. Os versos que não têm rima regular são chamados Brasil...
de versos brancos. Assim como a métrica regular, a presença de
Mastigado na gostosura quente de amendoim...
versos rimados também contribui muito para a musicalidade do
texto lírico. Falado numa língua curimim

Quanto à qualidade, as rimas podem ser classificadas em De palavras incertas remeleixo melado melancólico...
pobres, ricas e preciosas. As rimas consideradas pobres são aquelas Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons...
que apresentam uma terminação muito comum na língua, sendo Molham meus beiços que dão beijos alastrados
feitas principalmente entre palavras da mesma classe gramatical. As
E depois remurmuram sem malícia as rezas bem nascidas...
rimas ricas são aquelas feitas entre palavras de classes gramaticais
diferentes, ou que tinham finais pouco comuns no idioma. Por ANDRADE, Mário de. Clã do Jabuti. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Ed. da USP, 1987.

fim, as rimas preciosas, também chamadas de raras, são rimas


A repetição do fonema [m] confere, aos versos, um jeito de
extraordinárias, provenientes de uma combinação entre palavras
falar que, pela visão do eu lírico de Mário de Andrade, é típico de
muito difícil de ser encontrada (como entre “estrela” e “tê-la”).
nossa língua.
Ainda utilizando da estrofe de Gregório de Matos, há uma
repetição fônica ocorrendo no primeiro e no quarto verso (“dia” e • Assonância
“alegria”), e no segundo e no terceiro verso (“escura” e “formosura”). A figura de linguagem conhecida como assonância consiste na
Trata-se, portanto de um exemplo de rima regular. Além disso, no repetição regular de sons vocálicos, como ocorre nos versos abaixo,
primeiro caso, há uma rima pobre, já que se encontram rimadas retirados da música “Pedro pedreiro”, de Chico Buarque:
duas palavras de mesma classe gramatical (ambas são substan-
tivos); e, no segundo caso, há uma rima rica, sendo rimadas duas Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
palavras de classes gramaticais diferentes (“escura”, um adjetivo, e Manhã parece, carece de esperar também
“formosura”, um substantivo). Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Disponível em: <[Link]>. Acesso em: 25 dez. 2013.
48 LITERATURA
1ª Série Módulo 6

Na estrofe anterior, além da repetição do fonema [p], que b.


constitui uma aliteração, há a repetição da vogal <e>, caracterizando “Na valsa
uma assonância. Cansaste;
• Onomatopeia Ficaste
A onomatopeia é uma figura de linguagem que consiste na criação Prostrada,
de uma palavra para reproduzir um som específico, como ocorre nos
Turbada!
versos abaixo, do poema “A língua de nhem”, de Cecília Meireles:
Pensavas,
Havia uma velhinha Cismavas,
que andava aborrecida E estavas
pois dava a sua vida Tão pálida”
Casimiro de Abreu
para falar com alguém.
c.
E estava sempre em casa “Dorme o pensamento.

a boa da velhinha, Riram-se? Choraram?

resmungava sozinha: Ninguém mais recorda.

nhem-nhem-nhem-nhem-nhem... Na parede lisa,


resta a mariposa
Disponível em: <[Link]>. Acesso em: 25 dez. 2013.
de asas sossegadas.”
Cecília Meireles
01 Qual a diferença mais significativa entre a poesia lírica e a épica: 05 Classifique as rimas destacadas em pobres, ricas ou preciosas:
o tipo de verso empregado ou o conteúdo? Justifique sua resposta.
a.
Texto para as questões 02 e 03. “De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
A um passarinho
Que mesmo em face do maior encanto
Para que vieste
Dele se encante mais meu pensamento.”
Na minha janela Vinicius de Moraes

Meter o nariz?
b.
Se foi por um verso “Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Não sou mais poeta Sentia um não sei quê com aquele chim
Ando tão feliz! De olhos cortados à feição de amêndoa.”
Alberto de Oliveira
Vinicius de Moraes

c.
02 Segundo o texto, qual é a condição fundamental para a criação
“Você bem que podia perdoar
poética?
E só mais uma vez me aceitar
03 A qual gênero literário pertence o texto? Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la”
Caetano Veloso
04 Faça a escansão dos versos abaixo e os classifique quanto ao
número de sílabas métricas:

a.
“Amou daquela vez como se fosse a última
01
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único No poema abaixo, Alberto Caeiro compara o trabalho do poeta
com o do carpinteiro:
E atravessou a rua com seu passo tímido
XXXVI
Subiu a construção como se fosse máquina”
E há poetas que são artistas
Chico Buarque
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas! ...
Gêneros literários: o gênero lírico LITERATURA 49
Módulo 6 1ª Série

Que triste não saber florir! Com base no texto e na temática do poema “Isto”, conclui-se que o autor:
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
(A) revela seu conflito emotivo em relação ao processo de escritura
E ver se está bem, e tirar se não está! ... do texto.
(B) considera fundamental para a poesia a influência dos fatos sociais.
Quando a única casa artística é a Terra toda (C) associa o modo de composição do poema ao estado de alma
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma. do poeta.
(D) apresenta a concepção de que a voz do poeta é a expressão pura
Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira, dos sentimentos.
(E) separa os sentimentos do poeta da voz que fala no texto, ou
E olho para as flores e sorrio... seja, do eu lírico.
Não sei se elas me compreendem
03
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim Texto I
E na nossa comum divindade Chão de esmeralda
De nos deixarmos ir e viver pela Terra Me sinto pisando
E levar ao colo pelas Estações contentes Um chão de esmeraldas
E deixar que o vento cante para adormecermos Quando levo meu coração
E não termos sonhos no nosso sono. À Mangueira

“Poemas completos de Alberto Caeiro”. In: PESSOA, Fernando. Obra poética.


Sob uma chuva de rosas
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, p.156.
Meu sangue jorra das veias
Por que tal comparação é feita? Por que ela é rejeitada pelo eu lírico E tinge um tapete
na segunda estrofe do poema? Pra ela sambar
É a realeza dos bambas
02
Que quer se mostrar
Isto
Dizem que finjo ou minto Soberba, garbosa
Tudo que escrevo. Não. Minha escola é um catavento a girar
Eu simplesmente sinto É verde, é rosa
Com a imaginação. Oh, abre alas pra Mangueira passar
Não uso o coração. BUARQUE, C.; CARVALHO, H. B. Chico Buarque de Mangueira.
Marola Edições Musicais Ltda. BMG. 1997.
Disponível em: <[Link] Acesso em: 30 abr. 2010.
Tudo o que sonho ou passo
O que me falha ou finda, Texto II
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda. Quando a escola de samba entra na Marquês de Sapucaí, a
plateia delira, o coração dos componentes bate mais forte e o que
Essa coisa é que é linda.
vale é a emoção. Mas, para que esse verdadeiro espetáculo entre
Por isso escrevo em meio em cena, por trás da cortina de fumaça dos fogos de artifício, existe
um verdadeiro batalhão de alegria: são costureiras, aderecistas,
Do que não está ao pé,
diretores de ala e de harmonia, pesquisador de enredo e uma
Livre do meu enleio, infinidade de profissionais que garantem que tudo esteja perfeito
Sério do que não é. na hora do desfile.
Sentir? Sinta quem lê! AMORIM, M.; MACEDO, G. O espetáculo dos bastidores. Revista de Carnaval 2010:
Mangueira. Rio de Janeiro: Estação Primeira de Mangueira, 2010.
PESSOA, F. Poemas escolhidos. São Paulo: Globo, 1997.

Ambos os textos exaltam o brilho, a beleza, a tradição e o compro-


Fernando Pessoa é um dos poetas mais extraordinários do século XX. misso dos dirigentes e de todos os componentes com a escola de
Sua obsessão pelo fazer poético não encontrou limites. Pessoa samba Estação Primeira de Mangueira. Uma das diferenças que se
viveu mais no plano criativo do que no plano concreto, e criar foi estabelece entre os textos é que:
a grande finalidade de sua vida. Poeta da “Geração Orfeu”, assumiu
uma atitude irreverente.
50 LITERATURA
1ª Série Módulo 6

(A) o artigo jornalístico cumpre a função de transmitir emoções e 04 O poema “Ainda assim, eu me levanto” é um exemplo de texto
sensações, mais do que a letra da música. lírico, o que se constata principalmente graças a:
(B) a letra da música privilegia a função social de comunicar a seu
público a crítica em relação ao samba e aos sambistas. (A) seu tema, que aborda a questão do preconceito racial.
(C) a linguagem poética, no texto I, valoriza imagens metafóricas (B) sua forma, já que se trata de um texto todo escrito em versos.
e a própria escola, enquanto no texto II a linguagem cumpre a (C) sua subjetividade, deixando clara a manifestação de um eu lírico.
função de informar e envolver o leitor. (D) sua universalidade, podendo qualquer um se identificar com
(D) ao associar esmeraldas e rosas às cores da escola, o texto I seu enredo.
acende a rivalidade entre escolas de samba, enquanto o texto (E) sua grandiosidade, revelando o grande herói que há em cada
II é neutro. indivíduo.
(E) o texto I sugere a riqueza material da Mangueira, enquanto o
texto II destaca o trabalho na escola de samba. 05 Dentre as muitas funções exercidas pela literatura, uma se
destaca no poema “Ainda assim, eu me levanto”: a social. A literatura
Texto para as questões 04 e 05. cumpre, muitas vezes, um importante papel de dar voz ao indivíduo
que se encontra à margem da sociedade, de fazer necessárias
Ainda assim, eu me levanto denúncias sociais. No caso do poema de Maya Angelou, a questão
do preconceito racial é discutida. Os versos que mostram de forma
Você pode me riscar da História
mais clara essa problemática são:
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra, (A)
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar. “Sou um oceano negro, profundo na fé,

(...) Crescendo e expandindo-se como a maré.”


(B)
Pode me atirar palavras afiadas,
“Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Dilacerar-me com seu olhar,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.”
Você pode me matar em nome do ódio, (C)
Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar. “Em direção a um novo dia de intensa claridade
(...) Eu me levanto”
(D)
Da favela, da humilhação imposta pela cor
“Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Eu me levanto”
De um passado enraizado na dor (E)
Eu me levanto “Da favela, da humilhação imposta pela cor
Sou um oceano negro, profundo na fé, Eu me levanto”
Crescendo e expandindo-se como a maré.

Deixando para trás noites de terror e atrocidade


Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade Texto para as questões 01 e 02.

Eu me levanto
Poética I
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
De manhã, escureço
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
De dia, tardo
E assim, eu me levanto
De tarde anoiteço
Eu me levanto
De noite ardo
Eu me levanto.
ANGELOU, Maya. Still I rise. Tradução: Mauro Catopodis. A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Gêneros literários: o gênero lírico LITERATURA 51
Módulo 6 1ª Série

Outros que contem 01 A poesia é um lugar privilegiado para constatarmos que a língua
Passo por passo é muito mais produtiva do que preveem as normas gramaticais.
Isso é particularmente visível no modo como o poema explora os
Eu morro ontem marcadores temporais e espaciais. Comente dois exemplos presentes
no poema que confirmem essa afirmação.
Nasço amanhã
Ando onde há espaço. 02 As duas últimas estrofes apresentam uma oposição entre o eu
lírico e os outros. Explique o sentido dessa oposição.
– Meu tempo é quando.
MORAES, Vinicius de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.272.

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LITERATURA 52

Módulo 7 1ª Série

Gêneros literários: os gêneros épico, clássico e moderno

Você já ouviu alguém dizer que um determinado


jogo de futebol foi tão bom que chegou a ser
“épico”?
“Com esforço heroico, o rubro-negro conquistou um título que
parecia impossível. Foi um jogo épico!”
Imagine o texto acima na primeira página de uma publicação

©[Link]/franckreporter
especializada em esportes. Você sabia que, na mensagem verbal,
há três palavras que constituem um legado do gênero que vamos
estudar neste módulo?
Muitos séculos nos separam do momento histórico em que esse
gênero se fez presente de modo expressivo na literatura universal.
Mas vocábulos como “heroico” e “épico” até hoje frequentam as
frases que construímos para expressar a ideia de grandiosidade, a Objetivos:
mesma que caracterizou as formidáveis epopeias do passado, um C5 – Aprender as características do gênero épico;
dos assuntos do nosso módulo. – diferenciar épico clássico de épico moderno.

1. O gênero épico Nesse poema, o narrador conta a história de Vasco da Gama em


sua viagem rumo às Índias. Embora tenha sido ele o escolhido para
São chamados de épicos ou epopeias os longos poemas narrativos protagonizar o poema épico camoniano, é importante reparar que
que contam, de forma imponente e grandiosa, atos louváveis de um se trata, na verdade, de um herói coletivo. Ou seja: Vasco da Gama é
herói. Geralmente, esses atos estão relacionados a um acontecimento utilizado pelo autor para enaltecer a coragem dos portugueses. Isso
histórico importante para determinado povo ou nação. Um bom pode ser percebido no fragmento a seguir, extraído do canto I da obra,
exemplo de texto épico em língua portuguesa é Os Lusíadas, de Camões. no qual o autor apresenta os feitos dos navegadores portugueses e a
história do bravo povo português.

As armas e os barões assinalados A fama das vitórias que tiveram;


Que, da Ocidental praia lusitana, Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
Por mares nunca de antes navegados A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Passaram ainda além da Taprobana, Cesse tudo o que a musa antiga canta
Em perigos e guerras esforçados Que outro valor mais alto se alevanta.
Mais do que prometia a força humana, CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. São Paulo: abr. 2010.
E entre gente remota edificaram
©[Link]/(c) Paolo Querci

Novo reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas


Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando:
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio grego e do troiano


As navegações grandes que fizeram;
Recorte do Monumento aos descobrimentos, em Lisboa, inaugurado em 1960, que, assim
Cale-se de Alexandro e de Trajano
como os Lusíadas, reverencia os grandes navegadores portugueses e suas conquistas
Gêneros literários: os gêneros épico, clássico e moderno LITERATURA 53
Módulo 7 1ª Série

É muito comum confun- Os gêneros textuais, também chamados de gêneros discursivos,

©[Link]/Balazs Kovacs
dirmos gêneros textuais e consistem justamente nesses modelos textuais, ou formas-padrão,
gêneros literários. Porém, é a que recorremos dependendo de nosso objetivo comunicacional.
importante sabermos que, O bilhete é um exemplo de gênero textual: embora o bilhete que
embora possuam nomes escrevemos possa ser, no que se refere ao conteúdo, diferente de
parecidos, eles não se referem todos os outros bilhetes já produzidos pelo homem, ele apresenta
ao mesmo tipo de classificação. características que o permitem ser colocado na mesma categoria
A nossa vida cotidiana nos faz entrar em contato com os mais dos demais, no mesmo gênero textual. Além do bilhete, há vários
variados tipos de texto. Esses textos se diferenciam entre si porque outros gêneros: e-mail, conto, carta, romance, contrato, notícia,
estão vinculados a interesses distintos. Por exemplo: quando texto publicitário etc.
queremos escrever um texto curto para um interlocutor bem Percebe-se, portanto, que os gêneros textuais são muito
definido, não fazemos um artigo de opinião, e sim um bilhete. numerosos e estão sempre presentes em nossa vida cotidiana.
Essa escolha está ligada à nossa percepção de que as características Dentre esses gêneros discursivos, há aqueles que são próprios
de um bilhete farão com que ele cumpra muito mais facilmente, do âmbito artístico: os gêneros literários. Os gêneros literários
nessa situação, o nosso objetivo comunicacional do que um artigo reúnem os textos literários, conforme vimos, em três categorias
de opinião. Quanto mais distintos forem os textos a que temos (épico/narrativo, lírico e dramático) a depender de suas caracte-
contato, mais numerosas serão as possibilidades de escolha de rísticas formais e temáticas.
modelo que teremos na hora de produzir um texto.

Atualmente, a produção de textos épicos nos moldes das Porém, vale ressaltar que essas obras, apesar de possuírem elementos
epopeias tradicionais tornou-se mais rara. Quando produzidos, o que as aproximam do gênero épico, possuem outras particularidades
são, geralmente, em prosa – ou seja, expressos de forma contínua que as enquadram no gênero dramático, a ser estudado mais adiante.
e divididos em parágrafos. Exemplo disso é a saga O Senhor dos Há, ainda, filmes e jogos de videogame que ganham a atribuição
Anéis ou Harry Potter. de épicos, por, geralmente, abordarem a história em algum período
A feição épica desse gênero também se encontra presente remoto do passado. Além disso, o enredo costuma fazer referência a
em algumas produções cinematográficas atuais, como as sagas elementos da mitologia e os personagens costumam desempenhar
Star Wars, Indiana Jones e Matrix, visto que elas também feitos fantásticos.
apresentam personagens responsáveis por grandes realizações.

Sabe aquele jogo do seu time, valendo o título do campeonato, “Depois de 25 anos, Bruce Springsteen voltou ao Brasil. Ele
em que ele, na casa do time adversário, com um jogador a menos, só tinha se apresentado no país uma vez, em 88, em um show
conseguiu vencer? Pois é, esse jogo pode ser chamado de um jogo da Anistia Internacional, no estádio do Palmeiras, em São Paulo.
épico. No último sábado (21), o cantor fechou a sexta noite do Rock
Os estudos semânticos mostram, como elemento revelador in Rio em um show épico, que teve quase três horas de duração.”
das potencialidades da nossa língua, a capacidade polissêmica que Dispnível em:<[Link]>.

muitas palavras apresentam. O vocábulo “épico” exemplifica isso.


©[Link]/EdStock

Nos dias de hoje, a palavra “épico” assumiu outros sentidos,


podendo fazer referência não apenas a obras literárias. Ela costuma
ser atribuída a eventos que marcaram época, como uma partida
de futebol ou mesmo um show. É o que podemos ver no trecho
abaixo, extraído de uma notícia sobre o show feito pelo cantor Bruce
Springsteen no festival Rock in Rio:
54 LITERATURA
1ª Série Módulo 7

02 Ao narrar o jogo entre brasileiros e mexicanos “à maneira de


Homero”, o autor adota o estilo

01 (A) épico.
Musa, reconta-me os feitos (B) lírico.

©[Link]/MelhemGharazeddine
do herói astucioso que muito (C) satírico.
peregrinou, dês que esfez as (D) técnico.
(E) teatral.
muralhas sagradas de Troia;
muitas cidades dos homens Texto II
viajou, conheceu seus costumes,
como no mar padeceu sofri- Partimo-nos assim do santo templo
mento inúmeros na alma, Que nas praias do mar está assentado,
para que a vida salvasse e de Que o nome tem da terra, para exemplo,
seus companheiros a volta. Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
HOMERO. Odisseia. Tradução: Carlos Alberto Nunes. 5. ed. Certifico-te, ó Rei, que se contemplo
Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. Coleção Universidade. Fragmento.
Como fui destas praias apartado,
O texto acima é parte da cena de abertura do poema épico grego Cheio dentro de dúvida e receio,
Odisseia. A partir da leitura atenta do fragmento e dos conheci-
mentos acumulados sobre o gênero épico, pode-se afirmar que este: Que a penas nos meus olhos ponho o freio.
Camões, Os Lusíadas, Canto 4º - 87.
(A) tem como objetivo principal contar episódios da história antiga.
(B) responde à necessidade humana de expressão da individuali- 03 O trecho faz parte do poema épico Os Lusíadas, escrito por Luís
dade e da subjetividade, a partir da presença marcante de um Vaz de Camões e narra a partida de Vasco da Gama, para a viagem
eu que fala sobre si mesmo. às Índias.
(C) gira em torno, principalmente, do cuidado com a linguagem,
concentrando-se mais na forma do que no conteúdo. a. Em que estilo de época ou época histórica se situa a obra de
(D) celebra, em estilo solene e grandioso, um acontecimento Camões?
histórico protagonizado por um herói. b. Para dizer que o nome do templo é Belém, Camões faz uso de
(E) concentra-se no diálogo como principal fio condutor da uma perífrase: “Que o nome tem da terra, para exemplo,/Donde
história. Deus foi em carne ao mundo dado”. Em que outro trecho dessa
estrofe Camões usa outra perífrase?
Texto I
Texto III
Quando Bauer, o de pés ligeiros, se apoderou da cobiçada
esfera, logo o suspeitoso Naranjo lhe partiu ao encalço, mas já Cartas chilenas
Brandãozinho, semelhante à chama, lhe cortou a avançada. A tarde A lei do teu contrato não faculta
de olhos radiosos se fez mais clara para contemplar aquele combate,
que possas aplicar aos teus negócios
enquanto os agudos gritos e imprecações em redor animavam os
contendores. A uma investida de Cárdenas, o de fera catadura, o os públicos dinheiros. Tu, com eles,
couro inquieto quase se foi depositar no arco de Castilho, que com pagaste aos teus credores grandes somas!
torva face o repeliu. Eis que Djalma, de aladas plantas, rompe entre Ordena a sábia Junta que dês logo
os adversários atônitos, e conduz sua presa até o solerte Julinho,
da tua comissão estreita conta;
que a transfere ao valoroso Didi, e este por sua vez a comunica ao
belicoso Pinga. (...) o chefe não assina a portaria,

Assim gostaria eu de ouvir a descrição do jogo entre brasileiros e não quer que se descubra a ladroeira,
mexicanos, e a de todos os jogos: à maneira de Homero. Mas o estilo porque te favorece, ainda à custa
atual é outro, e o sentimento dramático se orna de termos técnicos. dos régios interesses, quando finge
Carlos Drummond de Andrade, Quando é dia de [Link]: Record, 2002. que os zela muito mais que as próprias rendas.
Por que, meu Silverino? Porque largas,
porque mandas presentes, mais dinheiro.
Gêneros literários: os gêneros épico, clássico e moderno LITERATURA 55
Módulo 7 1ª Série

Agora, Fanfarrão, agora falo Disse-me um negociante meu amigo que por essa luz da cons-
contigo, e só contigo. Por que causa ciência represento eu a antítese de não poucos varões assinalados
que não têm dez por cento de capital da inteligência que ostentam,
ordenas que se faça uma cobrança
e com que negociam na praça das coisas públicas.
tão rápida e tão forte contra aqueles
— Mas esses varões não quebram, negociando assim?...
que ao Erário só devem tênues somas? perguntei-lhe.
Não tens contratadores, que ao rei devem — Qual! são as coisas públicas que andam ou se mostram
de mil cruzados centos e mais centos? quebradas.
Uma só quinta parte que estes dessem, — E eles?...
não matava do Erário o grande empenho? — Continuam sempre a negociar com o crédito dos tolos, e
O pobre, porque é pobre, pague tudo, sempre se apresentam como boas firmas.
e o rico, porque é rico, vai pagando Na cândida inocência da minha miopia moral não pude
sem soldados à porta, com sossego! entender se havia simplicidade ou malícia nas palavras do meu
amigo.
Não era menos torpe, e mais prudente,
ln: MACEDO, Joaquim Manuel de. A luneta mágica. São Paulo: Saraiva, 1961. p.01-02.
que os devedores todos se igualassem?
Que, sem haver respeito ao pobre ou rico, 04 Aludindo ao célebre verso com que o poeta latino Virgílio
metessem no Erário um tanto certo, (70-19 a.C.) inicia a Eneida (“Arma virumque cano...”: “Eu canto
as armas e o herói...”), Luís de Camões inicia o poema épico Os
à proporção das somas que devessem? Lusíadas com o verso “As armas e os barões assinalados”, para
Indigno, indigno chefe! Tu não buscas anunciar que vai celebrar no poema as façanhas militares (“as
o público interesse. Tu só queres armas”) de heroicos varões portugueses (“barões assinalados”).
Tomando como referência esta observação,
mostrar ao sábio augusto um falso zelo,
poupando, ao mesmo tempo, os devedores, a. demonstre que no trecho de A luneta mágica se faz alusão ao
primeiro verso de Os Lusíadas;
os grossos devedores, que repartem
b. explique o efeito irônico obtido pelo narrador com essa refe-
contigo os cabedais, que são do reino. rência ao texto de Camões.
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Poesias - Cartas Chilenas. Edição crítica de M. Rodrigues Lapa. Rio de
Janeiro: INL, 1957. p.264 e 266-267. Texto V
Os Lusíadas, VI, 8
Texto IV
No mais interno fundo das profundas
A luneta mágica
Cavernas altas, onde o mar se esconde,
Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais
Lá donde as ondas saem furibundas,
tristes do que o meu nome.
Quando às iras do vento o mar responde,
Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado
com o selo do infortúnio. Netuno mora e moram as jucundas

Sou míope; pior do que isso, duplamente míope, míope física Nereidas e outros Deuses do mar, onde
e moralmente. As águas campo deixam às cidades
Miopia física: - a duas polegadas de distância dos olhos não Que habitam estas úmidas Deidades.
distingo um girassol de uma violeta. In: CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1971. p.195.

E por isso ando na cidade e não vejo as casas.


Texto VI
Miopia moral: - sou sempre escravo das ideias dos outros;
porque nunca pude ajustar duas ideias minhas. A onda
E por isso quando vou às galerias da câmara temporária ou do a onda anda
senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os aonde anda
oradores que falam pró e contra a matéria em discussão. a onda?
Se ao menos eu não tivesse consciência dessa minha miopia a onda ainda
moral!... mas a convicção profunda de infortúnio tão grande é a
ainda onda
única luz que brilha sem nuvens no meu espírito.
56 LITERATURA
1ª Série Módulo 7

ainda anda Mas esta linda e pura semideia,


aonde? que, como o acidente em seu sujeito,
aonde? assim coa alma minha se conforma,
a onda a onda
Está no pensamento como ideia;
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira.
Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1966. p.286. [e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
05 O poema épico de Camões, entre outros ingredientes da epopeia
clássica, apresenta o chamado ‘maravilhoso’, que consiste na inter- Com base no poema e em seu contexto, afirma-se:
venção de seres sobrenaturais nas ações narradas. Quando tais seres
pertencem ao universo da Mitologia Clássica, diz-se ‘maravilhoso I. Criado no século XVI, o poema apresenta um eu lírico que reflete
pagão’; quando pertencem ao universo do Cristianismo, diz-se sobre o amor e sobre os efeitos desse sentimento no ser apaixonado.
‘maravilhoso cristão’. Com base nesta informação, II. Camões é também o criador de Os Lusíadas, a mais famosa
epopeia produzida em língua portuguesa, que tem como grande
a. identifique o tipo de ‘maravilhoso’ presente na oitava de Os herói o povo português, representado por Vasco da Gama.
Lusíadas; III. Uma das características composicionais do poema é a presença
b. comprove sua resposta com exemplos da própria estrofe. de inversões sintáticas.

A(s) afirmativa(s) correta(s) é/são

(A) I, apenas.
01 (B) III, apenas.
(C) I e II, apenas.
Não mais, musa, não mais, que a lira tenho
(D) II e III, apenas.
Destemperada e a voz enrouquecida, (A) I, II e III.
E não do canto, mas de ver que venho
Texto I
Cantar a gente surda e endurecida.
Os bons vi sempre passar
O favor com que mais se acende o engenho
No Mundo graves tormentos;
Não no dá a pátria, não, que está metida
E pera mais me espantar
No gosto da cobiça e na rudeza
Os maus vi sempre nadar
Duma austera, apagada e vil tristeza.
Em mar de contentamentos.
Luisde Camões. Os Lusíadas.
Cuidando alcançar assim
a. Cite uma característica típica e uma característica atípica da O bem tão mal ordenado,
poesia épica, presentes na estrofe. Justifique. Fui mau, mas fui castigado,
b. Relacione o conteúdo dessa estrofe com o momento vivido pelo
Império Português por volta de 1572, ano da publicação de Os Assim que só pera mim
Lusíadas. Anda o Mundo concertado.
Luís de Camões: Ao desconcerto do Mundo. In: RIMAS. OBRA COMPLETA. Rio de Janeiro: Aguilar
02 Leia o poema a seguir, de Luís de Camões. Editora, 1963, p. 475-6.

Transforma-se o amador na cousa amada, 03 O poema está composto com versos de sete sílabas e na forma
conhecida como “esparsa” que, junto com outras, constituía o
por virtude do muito imaginar;
estoque de formas medievais que muitos poetas clássicos de
não tenho, logo, mais que desejar, Portugal, dentre os quais Camões, continuaram usando no século
pois em mim tenho a parte desejada. XVI e que se denominavam “medida velha”. Além dessas formas,
Camões usou as italianizantes ou clássicas, que se denominavam
Se nela está minha alma transformada, “medida nova”.

que mais deseja o corpo de alcançar? a. Cite outra forma de “medida velha” usada por Camões.
Em si somente pode descansar, b. Cite duas formas de “medida nova”.
pois consigo tal alma está liada.
Gêneros literários: os gêneros épico, clássico e moderno LITERATURA 57
Módulo 7 1ª Série

Texto II 04 A leitura do poema de Bilac revela que sua atitude ante a Língua
Língua Portuguesa Portuguesa é solene e respeitosa. Pelo acúmulo de adjetivos e pelo
recurso a imagens rebuscadas, típicas do Parnasianismo, o poeta
Última flor do Lácio, inculta e bela tenta demonstrar sua admiração ante as riquezas e potencialidades
És, a um tempo, esplendor e sepultura: expressivas do idioma falado em nosso país. Confrontando o poema
de Bilac e o de Caetano, percebemos neste uma atitude em parte
Ouro nativo, que na ganga impura
semelhante à de Bilac, mas com alguns ingredientes próprios. Faça
A bruta mina entre os cascalhos vela... um comentário sucinto a esse respeito.

Amo-te assim desconhecida e obscura, 05 No trecho a seguir transcrito, publicado no Pasquim (18.06.70),
Caetano Veloso realiza, na prática, o que sugere programaticamente
Tuba de alto clangor, lira singela,
em três versos do poema Língua. Depois de ler tal trecho, indique
que tens o trom e o silvo da procela os três versos mencionados e justifique sua resposta.
E o arrolo da saudade e da ternura! “deus, brotas. deus, circuladô de fulô do poeta dos campos.
Amo o teu viço agreste e o teu aroma fulano deus. senhor dos lírios. deus, senhor do medo que tenho
dos hippies e de algumas cores. senhor das flores, dos círculos, dos
De virgens selvas e de oceano largo!
hexágonos. senhor dos circos, dos curto-circuitos, dos coitos, das
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
menstruações. deus do momento em que eu não entendo o nazismo
e os soldados outra coisa do nazismo. do momento em que eu sinto
Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
saudade, do momento em que eu sinto muita saudade porque as
E em que Camões chorou, no exílio amargo, pessoas não se incomodam mais e já não querem senão deus, as
O gênio sem ventura e o amor sem brilho! poucas pessoas. deus dos índios sem história e das praias. deus do
Olavo Bilac. Tarde. 1919. círculo da aldeia, do ciclo da história. da mesa. deus, porque não
aprendi a te invocar: brotas não seja a maldição que minha mãe
Texto III talvêz temeu.”
Língua Em “Alegria, Alegria” (uma caetanave organizada por Waly Salomão).
Rio de Janeiro, Pedra Q Ronca Ed., s/d., pp. 67-68.
Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões.
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
01
A criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Autorretrato falado
Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Que encurtem dores
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da
E furtem cores como camaleões.
Marinha, onde nasci.
Gosto do Pessoa na pessoa
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do
Da rosa no Rosa,
chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.
E sei que a poesia está para a prosa
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de
Assim como o amor está para a amizade.
estar entre pedras e lagartos.
E quem há de negar que esta lhe é superior?
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
E deixa os portugais morrerem à míngua,
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me
“Minha pátria é minha língua”
sinto como que desonrado e fujo para o
- Fala Mangueira!
Pantanal onde sou abençoado a garças.
Flor do Lácio Sambódromo
Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo
Lusamérica latim em pó
que fui salvo.
O que quer
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
O que pode
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de
Esta língua?
gado. Os bois me recriam.
Caetano Veloso (a Violeta Gervaiseau). Velô. 1984.
Agora eu sou tão ocaso!
58 LITERATURA
1ª Série Módulo 7

Estou na categoria de sofrer do moral, porque só Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das
faço coisas inúteis. mães, ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram
cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um
No meu morrer tem uma dor de árvore.
desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não
BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e
começou de rabanar como um peixe em seco. (...)
Uma obra literária pode combinar diferentes gêneros, embora, de
modo geral, um deles se mostre dominante. José de Alencar, Til.

O poema de Manoel de Barros, predominantemente lírico, apresenta


características de um outro gênero. (*) “adumbra-se”: delineia-se, esboça-se.

Identifique esse gênero e cite duas de suas características presentes 02 Considerada no contexto histórico a que se refere Til, a desen-
no poema. voltura com que os escravos, no excerto, se entregam à dança é
representativa do fato de que
Texto I
(A) a escravidão, no Brasil, tal como ocorreu na América do Norte
V – O samba e no Caribe, foi branda.
À direita do terreiro, adumbra-se* na escuridão um maciço de (B) se permitia a eles, em ocasiões especiais e sob vigilância, que
construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos festejassem a seu modo.
vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento. (C) teve início nas fazendas de café o sincretismo das culturas negra
e branca, que viria a caracterizar a cultura brasileira.
(...) (D) o narrador entendia que o samba de terreiro era, em realidade,
É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um um ritual umbandista disfarçado.
grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida (E) foi a generalização, entre eles do alcoolismo, que tornou antie-
em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas. conômica a exploração da mão de obra escrava nos cafezais
paulistas.
Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu
de brasido e cinzas, dançam os pretos o samba com um frenesi que
toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado
saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira,
bamboleia, como se quisesse desgrudar-se.

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LITERATURA 59

Módulo 8 1ª Série

Exercícios

O leitor é um cúmplice secreto que compartilha os segredos,


os desregramentos, as fantasias, os delírios e as ideias do narrador,
o outro que lhe sussurra nos ouvidos. O leitor participa desse ato
01
de busca: sondagem de si mesmo e do outro, numa tentativa de
Texto I elucidação do mundo.
O texto literário é como uma garrafa atirada ao mar. Ele deixa HATOUM, Milton. Revista EntreLivros, Ano I, no 8, p. 26 (adaptado).

o aconchego das mãos que o criaram e mergulha na fria corrente de


indiferença, que é o mundo; é arrastado pela imensidão impassível Analisando a temática desenvolvida nos textos I e II, chegamos à
dos oceanos, perde-se na infindável apatia das calmarias, é castigado conclusão de que eles:
pelas tormentas do implacável desprezo...
(A) têm em comum a percepção de que a leitura do texto literário
Mas, em um dia qualquer, acaba sendo encontrado pelas configura-se como um ato de recriação, um jogo lúdico
mãos de outro ser humano... talvez na praia vizinha, talvez no mediado pelo texto.
outro lado do planeta. E essas mãos recolhem a garrafa, abrem-na, (B) convergem para uma mesma conclusão acerca da leitura do
compreendem-na, decifram-na... e a garrafa e o texto revivem para texto literário: é o momento em que o leitor passivamente
decodifica o código escrito.
a luz... E, assim, toda a viagem, todos os mares, todo o sacrifício...
(C) divergem do ponto de vista temático: enquanto o primeiro
afinal valeram a pena. percebe a relação escritor-leitor como fortuita e imprevisível, o
Na alma que encontrou a garrafa, o texto é recriado... E o texto segundo defende que essa relação é premeditada e mensurável.
se transforma num elo de compreensão entre as almas e os corações (D) assumem posturas opostas no que se refere aos efeitos do
do leitor e do autor. Leitor e escritor são os dois lados de uma texto literário sobre o leitor: o texto I acredita que o leitor é
realidade etérea que somente eles dois compreendem, e que é a Vida influenciado e transformado pela leitura, o texto II defende
que o leitor tem total domínio sobre o texto que lê.
da obra literária. O grito e os sentimentos da alma que escreveu só
(E) concebem o texto literário como um fruto imutável da criativi-
podem ser ouvidos e entendidos pela alma que lê. As emoções, as dade do autor, cabendo ao leitor tentar desvendar seus segredos.
angústias, as ideias, a mensagem... são quase impossíveis de explicar
a uma terceira pessoa. 02
MASINI, André. Jornal O Paraná, 14 abr. 2004 (adaptado). São Paulo – Não é preciso muito para imaginar o dia em que
a moça da rádio nos anunciará, do helicóptero, o colapso final:
Texto II
O leitor, cúmplice secreto A CET1 já não registra a extensão do congestionamento urbano.
Logo na primeira página de um livro de ficção, o leitor faz, Podemos ver daqui que todos os carros em todas as ruas estão
com frequência, um pacto secreto com as palavras: por alguns imobilizados. Ninguém anda, para frente ou para trás. A cidade,
dias ou horas, ele finge que está lendo uma história que realmente enfim, parou.
aconteceu. É como se os personagens e o trançado de eventos que As autoridades pedem calma, muita calma.
aparecem no tempo e no espaço da narrativa existissem, ao menos “A autoestrada do Sul” é um conto extraordinário de Julio
no momento da nossa adesão ao mundo imaginado. (...) Cortázar2. Está em Todos os fogos o fogo, de 1966 (a Civilização
Cada texto cria vários tipos de leitor: do mais ingênuo ao mais Brasileira traduziu). Narra, com monotonia infernal, um conges-
arguto, do que crê em tudo ao que desconfia de tudo. Há os que se tionamento entre Fontainebleau e Paris. É a história que inspirou
interessam apenas pela história ou trama, e nela esgotam outras Weekend à francesa (1967), de Godard3.
possibilidades de interpretação. E há leitores que esquadrinham com O que no início parece um transtorno corriqueiro vai
olhos de lince todos os recantos e ângulos da arquitetura ficcional. assumindo contornos absurdos. Os personagens passam horas,
O leitor que se configura no ato da leitura pode ter a liberdade mais horas, dias inteiros entalados na estrada.
de imaginar situações, traçar relações, preencher lacunas e desvelar Quando, sem explicações, o nó desata, os motoristas aceleram
sentidos ocultos. Pode, enfim, mediar, compreender, interpretar. “sem que já se soubesse para que tanta pressa, por que essa correria
Ao dialogar com o texto, o leitor pode aceitar ou recusar as regras na noite entre automóveis desconhecidos onde ninguém sabia nada
do jogo lúdico de que participa a ficção. De certo modo, o leitor sobre os outros, onde todos olhavam para a frente, exclusivamente
torna-se cúmplice desse espelho deformador da realidade, que para a frente”.
reflete e abre espaço à singularidade da literatura.
60 LITERATURA
1ª Série Módulo 8

Não serve de consolo, mas faz pensar. Seguimos às cegas em semelhante à da fala de Helga no primeiro quadrinho.
frente há quanto tempo? De Prestes Maia aos túneis e viadutos de
Maluf, a cidade foi induzida a andar de carro. Nossa urbanização
se fez contra o transporte público. O símbolo modernizador da era
JK é o pesadelo de agora, mas o fetiche da lata sobre rodas jamais
se abalou.
Será ocasional que os carrões dos endinheirados – essas peruas
high-tech – se pareçam com tanques de guerra? As pessoas saem
BROWNE, Dik. “Hagar”. Folha de S. Paulo, 21 mar. 2005.
de casa dentro de bunkers, literalmente armadas. E, como um dos
tipos do conto de Cortázar, veem no engarrafamento uma “afronta
(A) O país está coalhado de pobreza.
pessoal”. (B) Pobre homem rico!
Alguém acredita em soluções sem que haja antes um colapso? (C) Tudo, para ele, é nada!
Ontem era a crise aérea, amanhã será outra qualquer. A classe média (D) O curso destina-se a pessoas com poucos recursos financeiros.
necessita reciclar suas aflições. E sempre haverá algo a lembrá-la – (E) Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho.
coisa mais chata – de que ainda vivemos no Brasil.
05
SILVA, Fernando de Barros. Folha de S. Paulo, 17 mar. 2008. Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos
precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-
(1)
CET: Companhia de Engenharia de Tráfego.
-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar
(2)
Julio Cortázar (1914-1984), escritor argentino.
(3)
Jean-Luc Godard, cineasta francês, nascido em 1930. contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha
com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente
O autor se vale da obra de Julio Cortázar para: bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente,
pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até
(A) mostrar seu gosto literário ao leitor. parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente de
(B) contextualizar a menção ao filme Weekend à francesa, de Godard. a antes noite cair, porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda
(C) introduzir uma crítica às peruas high-tech.
é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio
(D) sustentar seu ponto de vista em relação ao trânsito de São Paulo.
(E) passar uma imagem de culto e refinado. só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não
faz mal que venha uma pessoa triste, porque a alegria que se dá é
03 O poema abaixo, “Gioconda (da Vinci)”, de Carlos Drummond tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em
de Andrade, refere-se à célebre tela renascentista La Gioconda, de drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade
Leonardo da Vinci. da alegria sem motivo. Em troca oferece-se também uma casa com
todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito
Disponível em: <[Link]>.

O ardiloso sorriso de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa
alonga-se em silêncio de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os
outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo
para contemporâneos e pósteros
divina para dar.
ansiosos, em vão, por decifrá-lo.
Clarice Lispector. Disponível em: <[Link]>.
Não há decifração. Há o sorriso. Acesso em: 30 mai. 2012.

Farewell. Rio de Janeiro: Record, 1996.


Quanto à classificação do gênero textual e à função da linguagem
Não se pode afirmar que o poema: predominante no texto, pode-se dizer que se trata de uma/um:

(A) faz uso de metalinguagem em um sentido amplo, pois é uma (A) carta com função da linguagem apelativa.
obra de arte que fala de outra. (B) anúncio com função da linguagem referencial.
(B) procura se inserir no debate que a tela Gioconda provoca desde (C) poema com função da linguagem poética.
a Renascença. (D) classificados com função da linguagem emotiva.
(C) mostra que são inúmeros os significados do sorriso da Gioconda.
(D) garante não haver razão alguma para a polêmica, como diz o
último verso.
(E) ilustra a polissemia de obras de arte, inclusive do próprio poema.

04 Assinale a opção em que a frase apresenta figura de linguagem


Exercícios LITERATURA 61
Módulo 8 1ª Série

04 Na propaganda abaixo, há uma interessante articulação entre


palavras e imagens.

01 Leia este texto.

O ano nem sempre foi como nós o conhecemos agora. Por


exemplo: no antigo calendário romano, abril era o segundo mês do
ano. E na França, até meados do século XVI, abril era o primeiro
mês. Como havia o hábito de dar presentes no começo de cada ano,
o primeiro dia de abril era, para os franceses da época, o que o Natal
é para nós hoje, um dia de alegrias, salvo para quem ganhava meias
ou uma água-de-colônia barata. Com a introdução do calendário
gregoriano, no século XVI, primeiro de janeiro passou a ser o
primeiro dia do ano e, portanto, o dia dos presentes. E primeiro de
abril passou a ser um falso Natal, o dia de não se ganhar mais nada.
Por extensão, o dia de ser iludido. Por extensão, o Dia da Mentira.
Disponível em: <[Link]>.
VERÍSSIMO, Luís F. As mentiras que os homens contam (adaptado).
a. Explique como as imagens ajudam a estabelecer as relações
Tendo em vista o contexto, é correto afirmar que o trecho “meias metafóricas no enunciado “Mesmo que o globo fosse quadrado,
ou uma água-de-colônia barata” deve ser entendido apenas em seu O GLOBO seria avançado”.
sentido literal? Justifique sua resposta. b. Indique uma característica atribuída pela propaganda ao
produto anunciado. Justifique.
02
05
Sentimental

1 Ponho-me a escrever teu nome


2 Com letras de macarrão.
3 No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
4 e debruçados na mesa todos contemplam
5 esse romântico trabalho.
Vestibular UNICAMP.
6 Desgraçadamente falta uma letra,
a. Nessa tira de Laerte, a graça é produzida por um deslizamento 7 uma letra somente
de sentido. Qual é ele? 8 para acabar teu nome!
b. Descreva esse deslizamento quadro a quadro, mostrando a
relação das imagens com o que é dito. 9 — Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
10 Eu estava sonhando...
03 11 E há em todas as consciências este cartaz amarelo:
12 “Neste país é proibido sonhar.”
ANDRADE, C. D. Seleta em Prosa e Verso. Rio de Janeiro: Record, 1995.

Com base na leitura do poema, a respeito do uso e da predominância


das funções da linguagem no texto de Drummond, pode-se afirmar que:

(A) por meio dos versos “Ponho-me a escrever teu nome” (v. 1) e
“esse romântico trabalho” (v. 5), o poeta faz referências ao seu
Disponível em: <[Link]>. próprio ofício: o gesto de escrever poemas líricos.
(B) a linguagem essencialmente poética que constitui os versos
Nessa propaganda do dicionário Aurélio, a expressão “bom pra “No prato, a sopa esfria, cheia de escamas e debruçados na
burro” é polissêmica, e remete a uma representação de dicionário. mesa todos contemplam” (v. 3 e 4) confere ao poema uma
atmosfera irreal e impede o leitor de reconhecer no texto dados
a. Qual é essa representação? Ela é adequada? Justifique. constitutivos de uma cena realista.
b. Explique como o uso da expressão “bom pra burro” produz
humor nessa propaganda.
62 LITERATURA
1ª Série Módulo 8

(C) na primeira estrofe, o poeta constrói uma linguagem centrada 02


na amada, receptora da mensagem, mas, na segunda, ele deixa Canção do vento e da minha vida
de se dirigir a ela e passa a exprimir o que sente.
(D) em “Eu estava sonhando...” (v. 10), o poeta demonstra que está
O vento varria as folhas,
mais preocupado em responder à pergunta feita anteriormente
e, assim, dar continuidade ao diálogo com seus interlocutores O vento varria os frutos,
do que em expressar algo sobre si mesmo. O vento varria as flores...
(E) no verso “Neste país é proibido sonhar.” (v. 12), o poeta
abandona a linguagem poética para fazer uso da função E a minha vida ficava
referencial, informando sobre o conteúdo do “cartaz amarelo” Cada vez mais cheia
(v. 11) presente no local.
De frutos, de flores, de folhas.

[...]
01 O excerto abaixo foi extraído do poema “Balada Feroz”, de O vento varria os sonhos
Vinícius de Moraes.
E varria as amizades...

(...) Lança o teu poema inocente sobre o rio venéreo engolindo O vento varria as mulheres...
as cidades E a minha vida ficava
Sobre os casebres onde os escorpiões se matam à visão dos Cada vez mais cheia
amores miseráveis De afetos e de mulheres.
Deita a tua alma sobre a podridão das latrinas e das fossas
Por onde passou a miséria da condição dos escravos e dos
O vento varria os meses
gênios. (...)
E varria os teus sorrisos...
Amarra-te aos pés das garças e solta-as para que te levem
E quando a decomposição dos campos de guerra te ferir as O vento varria tudo!
narinas, lança-te sobre a cidade mortuária E a minha vida ficava
Cava a terra por entre as tumefações e se encontrares um velho Cada vez mais cheia
canhão soterrado, volta De tudo.
E vem atirar sobre as borboletas cintilando cores que comem
BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.
as fezes verdes das estradas.
(...) Predomina no texto a função da linguagem:
Suga aos cínicos o cinismo, aos covardes o medo, aos avaros
(A) fática, porque o autor procura testar o canal de comunicação.
o ouro (B) metalinguística, porque há explicação do significado das
E para que apodreçam como porcos, injeta-os de pureza! expressões.
E com todo esse pus, faz um poema puro (C) conativa, uma vez que o leitor é incitado a participar de uma
E deixa-o ir, armado cavaleiro, pela vida ação.
(D) referencial, já que são apresentadas informações sobre aconte-
E ri e canta dos que pasmados o abrigarem cimentos e fatos reais.
E dos que por medo dele te derem em troca a mulher e o pão. (E) poética, pois chama-se a atenção para a elaboração especial e
Canta! canta, porque cantar é a missão do poeta artística da estrutura do texto.
E dança, porque dançar é o destino da pureza
Faz para os cemitérios e para os lares o teu grande gesto obsceno
Carne morta ou carne viva – toma! Agora falo eu que sou um!
MORAES, Vinícius de. Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 51-53.

Qual é o papel da poesia e do poeta diante da realidade representada?


LITERATURA 63

Módulo 9 1ª Série

Gêneros literários: o gênero narrativo

Você já ouviu uma partida de futebol pelo rádio


e conseguiu visualizá-la de forma clara?
Muitas pessoas que não podem ir até o estádio para assistir
a uma partida de futebol e/ou estão impossibilitadas de ligar a
televisão acabam optando pela última alternativa: ouvir a partida
por meio do rádio.
É interessante notar que o locutor cumpre o papel de um
narrador. Certamente, ao narrar o jogo, ele destacará os principais
acontecimentos, os momentos de maior emoção; situará a partida
de futebol em determinado tempo e estabelecerá os cenários, ou

©[Link]/sturti
seja, os espaços nos quais ela se passa. Falará, também, sobre os
jogadores que vivem aqueles fatos. Ou seja, ele priorizará os cinco
principais elementos dos textos narrativos: enredo, tempo, espaço,
personagens.
Neste módulo, iniciaremos um estudo aprofundado sobre o Objetivos:
gênero narrativo, a partir, primeiramente, dos seus cinco elementos C6 – Aprender as características do gênero narrativo;
essenciais. – conhecer os elementos necessários para textos desse tipo.

1. O gênero narrativo Melhor um mágico na mão


A partir do final da Idade Média, apareceram narrativas – como do que dois voando
os romances e as novelas – que se diferenciavam dos poemas épicos, Discretamente maquilado, sorri o pálido rosto do mágico
principalmente pelo fato de a história não necessariamente girar debaixo dos refletores, enquanto no alto a mão volteia, se
em torno de grandes acontecimentos. Logo, também surgiu a espalma e, em gesto de quase dança, mergulha seca na cartola.
necessidade de agrupá-las em uma categoria à parte, mas que guarda Mas algo parece retê-la lá dentro. Esforça-se o mágico,
com o gênero épico muitas semelhanças: a dos gêneros narrativos. puxa, joga para trás o peso do corpo. Tenta sorrir para o público.
A grande proximidade entre os dois grupos faz com que o gênero E já o antebraço afunda na cartola, some o cotovelo. Ainda luta
narrativo seja considerado por muitos uma subcategoria do gênero cravando a outra mão no tampo da mesinha. Depois os pés.
épico, e não um novo gênero. Inútil. O ombro é tragado no vórtice das abas, nem se salvam
Assim como a poesia épica, essas narrativas mantêm os cinco o pescoço esticado, a cabeça. Diante da plateia expectante que
elementos estruturais a elas indispensáveis: enredo (história a ser acredita tratar-se de um novo truque, todo o corpo desaparece
contada), narrador (entidade ou ser que conta a história), perso- pouco a pouco, num último adejar das caudas do fraque.
nagens (seres que executam as ações), tempo (quando a história No fundo de cetim preto, triunfa o coelho. Pela primeira
acontece) e espaço (onde a história se desenvolve). Todos esses vez, conseguiu botar um mágico na cartola.
elementos existem para responder a perguntas que naturalmente
COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgados.
surgem por parte de quem ouve ou lê uma história: “Como?”, 2. edição. Rio de Janeiro: Record, 2010.
“Quem?”, “Quê?”, “Quando?”, “Onde?”, “Por quê?”.
Com o passar do tempo, os textos narrativos se popularizaram, A partir de agora, serão estudados com maior atenção esses
e hoje em dia são muito mais numerosos do que os textos épicos. O cinco elementos que compõem o gênero épico/narrativo.
microconto a seguir, de Marina Colasanti, é um exemplo de texto
desse gênero:
64 LITERATURA
1ª Série Módulo 9

1.1 Enredo da trama (narrador protagonista) quanto um personagem com


menor destaque (narrador coadjuvante). Como o foco narrativo
O enredo é a trama que é apresentada ao leitor ou ouvinte. Ou de 1a pessoa traz uma maior subjetividade, ele coloca em xeque a
seja: é a história que é contada. Ao longo de seu curso, pode-se imparcialidade daquele que narra a história.
perceber, nas narrativas mais convencionais, certa regularidade
Contudo, nem sempre o narrador faz parte da trama. Quando
estrutural. Primeiramente, há a introdução, na qual os personagens
ele não é o personagem, apenas existindo como voz que conta
e os contextos em que estão inseridos são apresentados. Em seguida,
algo, o foco da narrativa é em 3a pessoa. Esse narrador pode ser de
surge algum conflito que vem a perturbar a ordem inicialmente
dois tipos: observador, quando se restringe a contar apenas o que
instaurada. Esse conflito gera a necessidade do desenvolvimento
observa, ou seja, apenas aquilo que está ao alcance de seus sentidos;
de ações que culminam no clímax, geralmente o momento mais
ou onisciente, quando apresenta um grau de conhecimento total
aguardado da história. É nele, ponto de maior tensão da narrativa,
sobre os acontecimentos, emoções e pensamentos dos personagens.
que há a resolução dos impasses surgidos anteriormente, enca-
Como esse narrador não está envolvido direta ou indiretamente com
minhando a trama para o seu desfecho, não necessariamente
a história, o seu relato é mais confiável, mais neutro. Um exemplo
vinculado a um final feliz.
de narrador em 3a pessoa é o do microconto de Marina Colasanti
Uma história também precisa apresentar coerência, por isso a “Melhor um mágico na mão do que dois voando”, apresentado no
necessidade de ser verossímil. Entende-se por verossimilhança a início deste módulo.
característica atribuída às narrativas construídas a partir de uma
lógica estabelecida com o mundo do leitor/ouvinte (verossimi-
lhança externa) ou com o mundo em que os personagens estão
Tipologia do discurso
inseridos (verossimilhança interna). É importante não confundir
verossimilhança com veracidade: uma história verossímil não é, Embora seja o narrador a instância de enunciação da
necessariamente, verdadeira, já que, vale lembrar, a literatura nem narração, na maioria das vezes, a sua voz não é a única a aparecer
sempre se compromete a reproduzir a realidade. na história. Sabemos que o gênero narrativo se concentra na
ação, e entre as ações praticadas pelos personagens estão a
de falar e pensar. Eles também precisam possuir, portanto,
1.2 Narrador voz. A tipologia do discurso diz respeito justamente aos três
O narrador é a entidade ou ser responsável pela apresentação diferentes modos como essas vozes dos personagens podem ser
e desenvolvimento da trama. É por meio dele que se tem acesso à apresentadas ao leitor/ouvinte: por meio do discurso direto,
narrativa. Como é comum confundir, é importante destacar que o do discurso indireto e do discurso indireto livre.
narrador não é o autor da história. O trecho abaixo, do romance A No discurso direto, é o próprio personagem quem fala, e a
hora da estrela, de Clarice Lispector evidencia isso: mudança de voz é indicada, geralmente, pelo uso de travessões
ou aspas.
Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, No discurso indireto, o narrador reproduz a fala dos
embora obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A personagens, não havendo, assim, mudança de voz.
história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns
Por fim, no discurso indireto livre, há uma fusão da fala do
sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é
narrador com a do personagem, não havendo uma delimitação
claro. Eu Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser
clara de quando começa uma e a outra termina. Esse discurso
modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim
costuma ser encontrado em narrativas que apresentam um
é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com
narrador onisciente, visto que nelas o narrador é capaz de “ler”
começo, meio e gran finale seguido de silêncio e chuva caindo.
e reproduzir os pensamentos dos personagens, vivenciando
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. com eles uma verdadeira comunhão.

No fragmento apresentado, é possível identificar o narrador da


história, ou seja, o ser que vai contá-la. Ele se chama Rodrigo S. M. A 2. Personagens
autora do romance é, no entanto, Clarice Lispector. Vê-se, portanto, Não há história sem personagem. Isso porque, se a narração
que narrador e autor não são a mesma pessoa, fato evidenciado pela tem como grande foco a ação, é preciso que haja um ser para
distinção de gênero: a autora é uma mulher, o narrador, um homem. desempenhá-la. No entanto, nem todos os personagens têm a
mesma relevância dentro da trama, e é esse o principal critério
1.2.1 Foco narrativo
para classificá-los.
O narrador pode ser um dos personagens da trama, como
Toda história dá maior ênfase a um ou mais personagens. Logo,
no fragmento acima. Nesse caso, o foco da narrativa é em
eles acabam por desempenhar, nela, papéis principais. A esses perso-
1a pessoa (observe o predomínio dos verbos conjugados na 1a pessoa
nagens se dá o nome de protagonistas ou personagens principais.
do singular). Esse narrador pode ser tanto o principal personagem
Gêneros literários: o gênero narrativo LITERATURA 65
Módulo 9 1ª Série

Há, também, os personagens que, apesar de não receberem tanto 3. Tempo


destaque, são importantes para o desenvolvimento do enredo. Esses
são chamados de coadjuvantes ou personagens secundários. Já Toda história dura um tempo específico e se passa em deter-
os personagens que não apresentam relevância para a narrativa, minada época. Essa duração, no entanto, não é necessariamente
servindo apenas para a composição da cena, são chamados de igual ao tempo utilizado para contá-la. Por exemplo: se voltarmos
figurantes. da nossaao contar sobre uma viagem de 15 dias feita durante as
Há também um outro personagem importantíssimo para a férias um amigo, certamente não se utilizarão, para isso, 15 dias.
criação do conflito e do clímax da narrativa: o antagonista. Ele Haverá cortes, ressaltando os pontos principais e omitindo aqueles
é quem se opõe à trajetória do protagonista, criando-lhe desafios que não interessantes.
e obstáculos a serem superados. Não necessariamente esse anta- O tempo da narração pode ser linear ou não linear. Se segue
gonista é uma pessoa, podendo ser, por exemplo, um fenômeno o fluxo natural do tempo, ordenando cronologicamente as ações, é
da natureza, como um tsunami ou um vulcão em erupção; ou considerado linear. Dessa forma, quando, por exemplo, uma história
entidades, como fantasmas de uma casa assombrada. pretende narrar, de forma linear, as ações realizadas durante um dia
Os personagens também podem ser classificados por sua inteiro, ela deve começar contando as que aconteceram de manhã,
dimensão psicológica. Aqueles que são apresentados ao leitor/ posteriormente, as que aconteceram à tarde, e, por fim, à noite. Se,
ouvinte de forma mais simples ou superficial são conhecidos como ao contrário, a narrativa não segue uma sequência cronológica,
personagens planos. Esses personagens apresentam comporta- apresentando descontinuidades, rupturas ou antecipações, a
mento retilíneo, previsível. Por exemplo: se ele é um personagem narrativa é considerada não linear.
bom, comportar-se-á assim em todos os momentos da história. Além disso, o tempo pode ser cronológico ou psicológico. O
Já os personagens que se mostram mais complexos – fugindo tempo cronológico é aquele que se pauta nos marcadores objetivos
de uma descrição maniqueísta e apresentando comportamento de passagem de tempo, como segundos, minutos, horas, dias,
oscilante – são conhecidos como personagens redondos. Por sua semanas, etc. Já no tempo psicológico, os marcadores de passagem
imprevisibilidade, esse tipo de personagem pode surpreender a do tempo são subjetivos. Nele, uma situação que, no tempo crono-
qualquer momento. lógico, dura alguns minutos pode parecer durar horas para aquele
No que diz respeito que a vivencia. Ou seja: o que está em foco não é tempo que pode ser
©[Link]/GeorgiosArt

ao protagonista, é possível medido pelo relógio, mas o tempo que uma ação parece durar para
identificar três diferentes determinada pessoa. Um bom modo de perceber a diferenciação
tipos de heróis. O primeiro entre tempo cronológico e psicológico é reparar no quanto uma
é o herói clássico, repre- hora gasta com a realização de uma ação prazerosa passa muito
sentante de um heroísmo mais rapidamente do que o mesmo tempo sendo gasto para fazer
tradicional, ou seja, perso- algo que não seja agradável.
nagem que segue um código
de honra socialmente aceito 4. Espaço
e que se apresenta compro-
metido com as virtudes e os O espaço é o lugar onde se passa a ação. Nem sempre ele
bons costumes. Além disso, é apenas o pano de fundo da história, podendo influenciar os
o herói clássico, geralmente, personagens ou mesmo ser por eles transformado. No primeiro
visa ao bem coletivo. O Mário de Andrade, autor de “Macunaíma”, caso, trata-se de um espaço com função contextualizadora; no
segundo tipo é o anti-herói, livro que apresenta o mais famoso segundo, com função simbólica.
que se diferencia radical- “anti-herói” brasileiro Quando o que está em ênfase é a sua função contextualizadora,
mente do herói clássico não pelos fins, mas pelos meios: embora o espaço é utilizado apenas para posicionar em determinado lugar
também busque o bem, costuma seguir um código bastante parti- as personagens e, consequentemente, indicar para o leitor o cenário
cular de conduta. Por fim, há o herói moderno ou problemático. Ele em que transcorre a ação. Quando é a função simbólica que está
se distingue dos outros por, na maior parte das vezes, não apresentar em foco, o cenário estabelece uma relação muito mais forte com os
qualidades especiais que o destaquem perante os demais. É um personagens, influenciando-os em seus hábitos, comportamentos,
protagonista que apresenta diversas limitações e, além de lidar pensamentos, ações, etc. Vale ressaltar que as duas funções não se
com problemas da ordem comum, costuma apresentar dilemas excluem, podendo um mesmo espaço apresentar tanto a função
existenciais. contextualizadora quanto a função simbólica.
66 LITERATURA
1ª Série Módulo 9

Também é importante ressaltar que o espaço pode ser real – o resistia ao menor embate. Em sete anos praticamente assexuados,
que, muitas vezes, colabora para a identificação entre leitor e texto sem ao menos um filho para chorar o silêncio de nossas noites,
–, ou inventado – o que faz com que o leitor explore sua imaginação meu príncipe encantado se desencantou sob a forma de uma gema
e fantasia. arrebentada em cima da clara.
GIUDICE, Victor. Salvador janta no Lamas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

Como vimos, tempo e espaço são dois dos cinco elementos 02 Identifique os personagens do conto anterior.
essenciais de uma narrativa. No texto, eles são marcados
03
por meio de elementos próprios do universo da Gramática.
Dentre esses elementos, os advérbios e as locuções adverbiais “Na última série do curso colegial, antes que eu completasse
assumem um papel de destaque, já que eles pertencem à classe dezoito anos, o professor de Matemática, com mais de trinta, invadiu
gramatical responsável por indicar as circunstâncias em que a sala de aula montado num corcel que pertencera a Sir Percival,
um fato ocorre. metido na armadura que roubara do Rei Artur.”

Para dar ao leitor noções de tempo, são utilizados advérbios Nesse trecho, a representação feita do professor de Matemática o
e locuções adverbiais de tempo, como: “antes”, “depois”, “no dia aproxima de que tipo de herói?
seguinte”, “há alguns anos”, “hoje”, “amanhã”, etc. Se é o espaço
04 A imagem que o personagem tem professor de Matemática no
que está em evidência, os advérbios e locuções adverbiais
início da narrativa é, diferente da que ele tem no final. Relacione
usados são os de lugar, como: “aqui”, “ali”, “lá”, “naquele museu”,
essa mudança brusca na representação do personagem ao foco
“do outro lado da rua”, etc. narrativo apresentado pelo texto.

05 Identifique as marcas temporais presentes no texto.

01 Correlacione:
Texto para as questões 01 e 02.
I. Personagem ( ) Lugar onde a ação transcorre.

II. Herói clássico ( ) Homem comum, com dilemas e Notícias do Brasil


problemas. Uma notícia tá chegando, lá do Maranhão
III. Herói ( ) Ser responsável por executar não deu no rádio, no jornal ou na televisão,
moderno as ações da narrativa. veio no vento que soprava lá no litoral
IV. Anti-herói ( ) Duração da narrativa. de Fortaleza, de Recife e de Natal.
V. Tempo ( ) Herói avesso a regras e leis
A boa-nova foi ouvida em Belém, Manaus,
estipuladas pela sociedade.
João Pessoa, Teresina e Aracaju
VI. Espaço ( ) Herói idealizado física e
moralmente. e lá do norte foi descendo pro Brasil central,
chegou em Minas, já bateu bem lá no sul.
Leia o fragmento a seguir, retirado do conto “Bolívar”, de Victor
Giudice, e responda às questões 02, 03, 04 e 05. Aqui vive um povo que merece mais respeito, sabe?
E belo é o povo como é belo todo o amor.
Na última série do curso colegial, antes que eu completasse
Aqui vive um povo que é mar e que é rio
dezoito anos, o professor de Matemática, com mais de trinta, invadiu
a sala de aula montado num corcel que pertencera a Sir Percival, e seu destino é um dia se juntar.
metido na armadura que roubara do Rei Artur. Ao tirar o elmo,
O canto mais belo será sempre mais sincero, sabe?
percebi que seus cabelos dourados, numa grandiosa revolução
sobre a testa, quase encobriam o azul das íris. Em seguida, saltou E tudo quanto é belo será sempre de espantar.
do cavalo e veio até minha carteira, de espada em punho, apontar Aqui vive um povo que cultiva a qualidade
as duas incógnitas da equação em que eu me transformara: o ser mais sábio que quem o quer governar.
amolecimento dos membros inferiores e a taquicardia de cento e
vinte por minuto. Não houve jeito. Fiquei apaixonada e me casei A novidade é que o Brasil não é só litoral,
no ano seguinte. Mas o casamento foi um teorema que só serviu é muito mais, é muito mais que qualquer Zona Sul.
para demonstrar a inutilidade da espada: era de papelão e não
Gêneros literários: o gênero narrativo LITERATURA 67
Módulo 9 1ª Série

Tem gente boa espalhada por esse Brasil, Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
que vai fazer desse lugar um bom país. Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário
Uma notícia tá chegando lá do interior, aconteceu.
não deu no rádio, no jornal ou na televisão. (...)
Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil A vida foi passando, com novos prêmios.
Não vai fazer desse lugar um bom país. Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do
Milton Nascimento / Fernando Brant inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra,
saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos.
01 “Notícias do Brasil” é um poema que guarda categorias Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos
fundamentais do tipo de texto narrativo. As categorias de tempo, campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de
espaço e a caracterização do personagem que compõem a narração um lençol adquirido havia muito tempo.
estão indicadas, respectivamente, pelos seguintes elementos do
texto: O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao
(A) será sempre / aqui / um bom país. trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi
(B) que soprava / Teresina / um dia se juntar. convocado pela chefia:
(C) uma notícia / litoral / E belo é o povo.
(D) é muito mais/ Zona Sul / cultiva a qualidade. — Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não
(E) será mais sábio / por esse Brasil / gente boa. haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de
limpador de nossos sanitários.
02 Os dois versos finais do texto I apresentam posição crítica com O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um
um alerta. A expressão “Ficar de frente para o mar...” significa ter,
líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado.
prioritariamente, os olhos, os anseios voltados para:
Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
(A) o mar, como destino. — Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo
(B) os aspectos socionacionais. requerer minha aposentadoria.
(C) a praia. O chefe não compreendeu:
(D) a Zona Sul.
(E) o mundo estrangeiro. — Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado?
Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para
Texto para as questões 03, 04 e 05. permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isso? Quarenta anos
de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
O arquivo A emoção impediu qualquer resposta.
No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu,
quinze por cento em seus vencimentos. ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As
joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia
mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contem- duas arestas. Tornou-se cinzento.
plados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. joão transformou-se num arquivo de metal.
Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
GIUDICE, V. In: MORICONI, I. (Org.).Os cem melhores contos brasileiros do século.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel


03 Em “O arquivo”, cria-se um pacto de coerência com o leitor,
menor.
buscando tornar a narrativa verossímil, apesar da apresentação de
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. ideias contraditórias, como as presentes no seguinte fragmento:
No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isso parecia
aumentar-lhe a disposição. “O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa. Dessa vez, a empresa atravessava um período excelente.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial. A redução foi um pouco maior: 17%.
Dessa vez, a empresa atravessava um período excelente. A Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.”
redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança. Explique as ideias paradoxais presentes no fragmento citado.
Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três
conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto.
68 LITERATURA
1ª Série Módulo 9

04 No conto de Victor Giudice, o personagem principal da história 02


chama-se joão. Aponte duas justificativas para a forma particular Paciência. Mais dia, menos dia, fatalmente chegaria a minha
com que se encontra grafado o nome desse personagem ao longo vez. Os senhores, por favor, sejam prudentes ao me deslocar, pois
de todo o texto.
tenho uma fratura no fêmur de calcificação precária. É escusado
05 “joão transformou-se num arquivo de metal.” ameaçar meus colegas de enfermaria, ninguém aqui vai interceder
Reescreva a oração acima eliminando o cunho “fantástico” nela por mim. Meu pai é morto, mas minha mãe tem dinheiro no banco
presente, mas conservando seu valor denotativo. e patrimônio familiar. Seu telefone sei de cor, é o número da minha
infância, peçam à telefonista; SUL 1403. Porém é preciso que
alguém do bando fale francês, em português mamãe se recusará a
atendê-los. Também tenho uma filha, minha herdeira universal, já
me fez passar todos os bens para o seu nome a fim de adiantar o
01 Uma leitura ingênua dos livros de ficção confunde personagens inventário. Mas Maria Eulália não dará um tostão por mim, nem que
e pessoas. Chegaram mesmo a escrever “biografias” de personagens, os senhores lhe mandem minha orelha pelo correio. Mesmo porque
explorando partes de sua vida ausentes do livro (“O que fazia não tem mais de onde tirar, transmitiu sua herança recentemente
Hamlet durante seus anos de estudo?”). Esquece-se que o problema
ao meu tataraneto.
da personagem é antes de tudo linguístico, que não existe fora
das palavras, que a personagem é “um ser de papel”. Entretanto, BUARQUE, Chico. Leite derramado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp.167-8.
recusar toda relação entre personagem e pessoa seria absurdo: as
personagens representam pessoas, segundo modalidades próprias O texto acima, de Chico Buarque, aborda a questão da herança.
da ficção. Levando em consideração o foco narrativo, comente a abordagem
adotada pelo narrador no tratamento do tema.
DUCROT, Oswald; TODOROV, Tzvetan. Dictionnaire encyclopédique des sciences du langage. Paris,
Seuil, 1972.

No Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem, organizado


por Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov, encontra-se uma reflexão
acerca da confusão comum entre personagem e pessoa. Ao discuti-la,
os autores procuram salientar dois aspectos fundamentais. Quais?

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LITERATURA 69

Módulo 10 1ª Série

Gêneros literários: o gênero dramático

Você sabe o significado dessa máscara?


Ela andou muito presente nas ruas do nosso país quando
das manifestações populares de 2013. Entretanto, foi muito antes

©[Link]/leminuit
popularizada nas histórias em quadrinhos e no cinema, pelo
personagem principal do filme V de Vingança, o inglês Guy Fawkes,
que comandou uma revolta em 1605.
Máscaras em geral, porém, estão ligadas a um momento bem
anterior à história da humanidade. Nasceram e ganharam prestígio
Objetivos:
na Grécia Antiga, ajudando a compor personagens – muitos deles
– Aprender as características do gênero dramático;
heroicos, alegóricos ou mitológicos – que, no nascente teatro da
C5 – conhecer os fundamentos desse gênero;
época, encenavam as tragédias e comédias que originaram o gênero – compreender de que forma a estruturação desse gênero é
dramático, cujas características agora vamos estudar. diferente das demais.

1. A origem do gênero dramático exaltar o deus Dionísio. Como, nesses festivais, havia muita bebida
e cantoria, o ambiente era propício para que as pessoas “saíssem
O termo “drama”, do qual deriva o adjetivo dramático, é origi- de si”, abrindo espaço para a representação de diferentes papéis.
nário do grego drân, que significa “agir”. Isso é importante para a Nessas festas em honra a Dionísio, havia, inicialmente, um
caracterização do gênero porque, conforme observa Aristóteles, em coro responsável por contar passagens da vida do deus. Eram os
sua Poética, nos textos dramáticos, a ação tem um lugar de destaque, chamados ditirambos. Posteriormente, o mesmo coro foi dividido
sendo o enredo desenvolvido por meio dela. Diferentemente do em duas partes, responsáveis por fazer perguntas e respostas, sempre
gênero narrativo, em que há uma “voz narrativa” a desenrolar coordenadas por um regente, o corifeu. Por fim, foi introduzido um
a trama, no gênero dramático essa voz é entregue aos próprios ator protagonista, a cujas ações respondiam negativa ou positiva-
personagens. Dessa forma, apreende-se o enredo por meio daquilo mente o coro e o público.
que eles fazem e do que eles dizem. Na Grécia Antiga, os textos dramáticos eram divididos em duas
Se o que está em foco, nesse gênero, são as ações dos persona- modalidades: a tragédia e a comédia. A tragédia era voltada para
gens, que vão construindo por si só a narrativa, os textos dramáticos a encenação de temas sérios, que falavam sobre transgressões da
não são feitos para serem lidos, e sim para serem encenados. ordem da pólis ou da família. Para cometer essas transgressões, os
Assistir a uma peça ou a um filme, são formas de entrar em contato personagens trágicos eram movidos pela paixão (pathos), elemento
com o gênero dramático. Neles, a instância de enunciação são os responsável não só por gerar a irracionalidade que irá possibilitar
próprios personagens, que irão indicar os acontecimentos para os a quebra da ordem, como também o sofrimento decorrente dessa
espectadores por meio de seu discurso. quebra. Nessas tragédias, não havia espaço para o homem comum,
Embora, hoje em dia, o termo “drama” também possa fazer figurando como personagens os nobres e os deuses.
referência a situações problemáticas, ou ainda a algum tipo de
©[Link]/PanosKarapanagiotis
reação exagerada diante de situações, os textos dramáticos não
necessariamente precisam ser tristes ou conflituosos: a peça de
comédia também pertence a esse gênero. Portanto, o que faz um
texto ser do gênero dramático não é seu conteúdo, e sim a forma
como ele se apresenta.
Para alguns especialistas, o gênero dramático tem sua origem
em rituais de sociedades primitivas. Neles, pedidos eram direcio-
nados aos deuses por meio, principalmente, de danças ritualísticas.
A aproximação entre esses rituais e o gênero dramático é feita pelo
fato de que, nessas danças, os participantes muitas vezes represen-
tavam papéis, havendo, portanto, uma espécie de encenação.
É mais comum, porém, que a origem do gênero dramático esteja Anfiteatro de Epidauro, na Grécia
atrelada aos festivais anuais realizados na Grécia Antiga a fim de
70 LITERATURA
1ª Série Módulo 10

Em sua Poética, Aristóteles destaca Édipo Rei, de Sófocles, 2.1 Personagens


como o melhor exemplo de tragédia. A peça conta a história Não há texto dramático se não houver personagens. Os perso-
de Édipo, um jovem que foi abandonado pelos pais e adotado nagens são, nesse gênero, as instâncias da enunciação. Isso significa
pelo rei de outra cidade. Já mais velho, ao consultar um oráculo, dizer que o acesso à história que será contada está diretamente
Édipo é informado que seu destino é matar o pai e casar com vinculado ao seu discurso. Por meio daquilo que eles dizem ou por
sua própria mãe. Para que a profecia não se cumpra, Édipo foge meio daquilo que eles fazem, entra-se em contato com o enredo.
e, em vez de evitá-lo, acaba indo ao encontro de seu destino.
Ao contrário do que é possível no gênero narrativo, o leitor/
A comédia, por sua vez, abordava fatos do cotidiano, em tom espectador não assume uma atitude onisciente: ou seja, tudo aquilo
leve e alegre. Diferentemente das tragédias, em que os personagens que dele é aprendido está baseado na observação do que é mostrado.
centrais eram nobres, deuses e semideuses, as comédias falavam Isso torna mais fácil, por exemplo, um enganado a respeito de
sobre seres humanos simples e reais. Além disso, apresentavam algum personagem: quando, em um filme ou uma peça, o culpado
ação divertida e feição humorística. é a pessoa de quem menos se desconfiava.
Com o passar do tempo, novas modalidades foram incorpo-
radas. Uma delas foi o auto, texto dramático curto, geralmente com 2.2 Espaço cênico
personagens alegóricos (os personagens eram representações de
Ajuda na encenação do texto dramático. O espaço cênico, ou
elementos abstratos, como defeitos, virtudes, pecados ou entidades
cenário, corresponde ao lugar em que as ações ocorrem. Em uma
religiosas). Por seu teor moralizante e sua temática religiosa, os autos
peça de teatro, por exemplo, o espaço cênico é geralmente o palco.
foram muito populares durante a Idade Média, já que se tratava de
Além do lugar em si, o espaço cênico também conta com outros
um período de grande influência da Igreja Católica.
elementos dispostos. Assim, se uma peça se passa em uma floresta,
muito provavelmente o cenário contará com objetos representando
árvores.
©[Link]/DeshaCAM

Porém, é importante observar que nem sempre esse cenário


precisa ser mimético, ou seja, não necessariamente ele deve imitar
a realidade. Muitas vezes, o cenário aparece como elemento apenas
simbólico, cabendo ao espectador dar margens à sua imaginação.
Além do cenário, também costumam ser importantes para o texto
dramático outros elementos, como luz, som, maquiagem e figurino.

2.3 Rubricas
Por fim, as rubricas, ou didascálias, também são muito impor-
tantes para o gênero dramático. Embora não apareçam nas falas
dos personagens, as rubricas compõem o texto dramático escrito.
Graças aos avanços midiáticos, os textos dramáticos É por meio delas que o autor indica para o diretor, para o ator ou
encontram grande espaço na televisão e no cinema. Hoje em para o leitor como algum personagem deve falar ou agir. Dessa
dia, inclusive, entramos mais em contato com essas mídias forma, se o autor faz questão, por exemplo, que um personagem
do que com o teatro, espaço em que, inicialmente, ocorriam diga com raiva alguma de suas falas, ele irá demarcar isso no texto
quase todas as encenações. Alguns filmes, novelas ou mesmo por meio de uma didascália.
minisséries fazem tanto sucesso que chegam a ter seus roteiros Como as rubricas não devem ficar aparentes na linguagem
comercializados em livrarias. verbal dos personagens, elas são escritas de forma diferenciada nos
textos dramáticos. Geralmente, elas aparecem entre parênteses, em
No caso da teledramaturgia brasileira, encontramos um
itálico ou ainda em maiúsculas.
fértil campo de debate sobre questões sociais importantes.
O trecho a seguir, retirado da peça Romeu e Julieta, escrita
Logo, ela tem, em diversas ocasiões, um papel educativo, que
por William Shakespeare, é um bom exemplo de texto dramático.
também estava presente no teatro grego. Por meio das novelas
A tragédia shakespeariana conta a famosa história do amor entre
são discutidos temas polêmicos, como aborto, homossexuali-
dois jovens, membros de famílias rivais. Por conta dessa rivalidade,
dade, opção religiosa, violência contra a mulher etc.
Romeu e Julieta não podem ficar juntos, fato que acaba levando-os
para um fim trágico. Para que os conceitos estudados neste módulo
possam ficar mais claros, repare nas rubricas e no modo como a
2. Estrutura do gênero dramático história é contada por meio do diálogo entre os personagens.
No texto dramático, três elementos podem ser destacados: os
personagens, o espaço cênico e as rubricas.
Gêneros literários: o gênero dramático LITERATURA 71
Módulo 10 1ª Série

Cena II – O jardim de Capuleto de costas só para contemplá-lo quando ele monta em nuvens
[Entra Romeu] vagarosas e desliza sobre o coração do espaço.

Romeu – Só ri de cicatrizes quem nunca sentiu na própria pele Julieta – Ah, Romeu, Romeu! Por que tinhas de ser Romeu?
uma ferida. Renega teu pai, rejeita teu nome; e, se assim não o quiseres, jura
então que me tens amor e deixarei de ser uma Capuleto.
[Julieta aparece mais acima, a uma janela]
Romeu [à parte] – Devo escutar mais, ou devo falar agora?
Mas, calma! Que luz é essa, que brilha através daquela janela?
Vem do leste, é Julieta é o sol! – Levanta, ó belo sol, e acaba com a Julieta – É teu nome que é meu inimigo. Mas tu és tu mesmo,
lua ciumenta, que já se encontra doente e pálida de dores virginais, não um Montéquio. E o que é um Montéquio? Não é mão, nem pé,
porque tu, sua serva, és muito mais bonita que ela. Não aceites ser nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte de um homem.
dela a serva, já que ela é invejosa. (...) Como ela apoia o queixo Ah, se fosses algum outro nome! O que significa um nome? Aquilo
na mão! Ah, se eu fosse uma luva, para vestir aquela mão, para a que chamamos rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo e
tocar aquela face! doce perfume. (...) Romeu, livra-te de teu nome; em troca dele, que
não é parte de ti, toma-me inteira para ti.
Julieta – Ai de mim!
Romeu – Tomo-te por tua palavra: chama-me de teu amor, e
Romeu – Ela disse alguma coisa. Ah, fale outra vez, anjo da
serei assim rebatizado; nunca mais serei Romeu.
luz! Pois tu és tão gloriosa nesta noite, pairando sobre minha
cabeça, como um mensageiro alado do paraíso, para quem se SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. Tradução de Beatriz Viégas-Faria.
Porto Alegre: Editora Nova Cultural, 2003.
elevam os olhares espantados dos simples mortais que caem

02 A prática teatral é fruto direto de um exercício coletivo. Levando


em conta essa informação, correlacione:
Em 2014, o escritor
©[Link]/MarsBars

inglês William Shakespeare


I. Diretor ( ) Pessoa que escreve obras dramáticas.
completaria 450 anos. O
inglês é um dos drama- Responsável pelo trabalho de orientação
II. Atores ( )
dos atores e técnicos.
turgos mais importantes
e influentes de todos os Responsáveis pela encenação de um papel
III. Dramaturgo ( )
fictício.
tempos, sendo conside-
rado, por muitos teóricos, o Responsáveis pela preparação da iluminação,
IV. Técnicos ( )
dos cenários, sonoplastia e indumentárias.
criador do teatro moderno.
Entre tragédias e comédias, 03 Explique a importância das rubricas para os textos do gênero
Shakespeare escreveu 38 dramático.
peças e é o autor mais
encenado da história do teatro. O grande número de encena- 04 Das alternativas abaixo, assinale aquela que não representa um
-ções e adaptações das peças do bardo demonstra que, mesmo exemplo de texto dramático:
alguns séculos depois, sua obra continua sendo moderna. Tal
(A) Telenovela.
modernidade decorre da sua possibilidade de abordar aspectos
(B) Monólogo.
universais, discutindo e revelando, por meio de seus persona- (C) Auto.
gens, o que há de melhor e pior na natureza humana. (D) Documentário.
A consistência de suas peças permite, ainda, a adaptação (E) Tragédia.
de seus textos para os mais diversos meios, como a televisão e o
cinema. Exemplos disso são os filmes Shakespeare apaixonado, 05 No gênero dramático, quem representa a instância de enun-
ciação, ou seja, a voz que se comunica com o público?
de John Madden, Romeu + Julieta, de Baz Luhrmann, Caos, de
Akira Kurosawa, e a série de televisão Som e Fúria, transmitida
pela Rede Globo.

01
Cena V
01 Em que diferem essencialmente o teatro e o romance quanto Dunsinane. Dentro do castelo.
à forma de composição, uma vez que o mesmo assunto pode ser
utilizado por ambos? (Entram, com tambores e bandeiras, Macbeth, Seyton e soldados.)

(...)
72 LITERATURA
1ª Série Módulo 10

Seyton: Considerando o texto acima, assinale a opção correta:


A rainha está morta, senhor.
Macbeth: (A) O título já evidencia a tese do autor: não se deve filmar peça
teatral.
Ela só devia morrer mais tarde; (B) As falas dos personagens em peças de teatro não fazem sentido
Haveria um momento para isso. se filmadas.
(C) Uma peça teatral pode ser filmada se, como faz Mankiewicz,
Amanhã, e amanhã e ainda amanhã
sua origem for indicada na apresentação do filme.
Arrastam nesse passo o dia a dia (D) Henrique V só concorreu ao Oscar porque ignorou a natureza
Até o fim do tempo pré-notado. teatral da obra original.
(E) O Rei da Vela, na sua versão cinematográfica, é um exemplo de
E todo ontem conduziu os tolos teatro filmado.
À via em pó da morte. Apaga, vela!
A vida é só uma sombra: um mau ator 03
“Gênero dramático é aquele em que o artista usa como
Que grita e se debate pelo palco,
intermediária entre si e o público a representação. A palavra
Depois é esquecido; é uma história vem do grego drao (fazer) e quer dizer ‘ação’. A peça teatral
Que conta o idiota, toda som e fúria, é, pois, uma composição literária destinada à apresentação
Sem querer dizer nada. por atores em um palco, atuando e dialogando entre si.
(Entra um mensageiro.) O texto dramático é complementado pela atuação dos atores no
espetáculo teatral e possui uma estrutura específica, caracterizada:
Não tens língua? Depressa, a história.
1) pela presença de personagens que devem estar ligados com lógica
SHAKESPEARE, William. Macbeth. Tradução: Barbara Heliodora. São Paulo: Abril, 2010. uns aos outros e à ação; 2) pela ação dramática (trama, enredo),
que é o conjunto de atos dramáticos, maneiras de ser e de agir dos
O fragmento acima, de Macbeth, é um exemplo de texto dramático,
personagens encadeados à unidade do efeito e segundo uma ordem
já que:
composta de exposição, conflito, complicação, clímax e desfecho; 3)
(A) apresenta uma grande carga dramática, evidenciada pelo tema pela situação ou ambiente, que é o conjunto de circunstâncias físicas,
da morte. sociais e espirituais em que se situa a ação; 4) pelo tema, ou seja, a
(B) a “voz narrativa” foi entregue aos personagens, que contam a ideia que o autor (dramaturgo) deseja expor, ou sua interpretação
história por meio do diálogo. real por meio da representação.
(C) o enredo está em evidência, denunciando a existência de uma
COUTINHO, A. Notas de teoria literária.
intricada trama. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973. (adaptado).
(D) há o foco no narrador, necessário à localização espacial e
temporal dos personagens. Considerando o texto e analisando os elementos que constituem
(E) gira em torno de uma tragédia, tendo o drama de Macbeth um espetáculo teatral, conclui-se que:
como eixo central.
(A) a criação do espetáculo teatral apresenta-se como um fenômeno
02 de ordem individual, pois não é possível sua concepção de
Ao Teatro o que é do teatro forma coletiva.
(B) o cenário onde se desenrola a ação cênica é concebido e cons-
Não há melhor maneira de filmar o teatro do que teatralmente.
truído pelo cenógrafo de modo autônomo e independente do
A expressão “teatro filmado” raramente faz sentido, e nós aqui no
tema da peça e do trabalho interpretativo dos atores.
Brasil só teríamos a ganhar no dia em que pudéssemos assistir ao (C) o texto cênico pode originar-se dos mais variados gêneros
filme de O Rei da Vela do Oficina – que por alguma razão infeliz textuais, como contos, lendas, romances, poesias, crônicas,
nunca passa. notícias, imagens e fragmentos textuais, entre outros.
Kenneth Branagh evitou o teatro filmado em Henrique V (D) o corpo do ator na cena tem pouca importância na comunicação
teatral, visto que o mais importante é a expressão verbal, base
(Eurochannel, 0h) [canal de TV por assinatura], ganhou o direito
da comunicação cênica em toda a trajetória do teatro até os
a concorrer ao Oscar e ficou famoso. Mas, passadas as festas, temos dias atuais.
um resultado para lá de duvidoso. (E) a iluminação e o som de um espetáculo cênico independem
Onde faz sentido a conclamação do rei Henrique a seus soldados do processo de produção/recepção do espetáculo teatral, já
a não ser no teatro? E por que “cinematografizar” a coisa se Joseph que se trata de linguagens artísticas diferentes, agregadas
posteriormente à cena teatral.
Mankiewicz, por exemplo, que era um cineasta, ao filmar Júlio César,
optou por deixar clara a origem teatral de seu filme?
Inácio Araújo. Folha de S. Paulo, 11 mai. 2004.
Gêneros literários: o gênero dramático LITERATURA 73
Módulo 10 1ª Série

Leia o texto e responda às questões 04 e 05. Que belo hotel excepcional


O Grande Hotel da Capital
O capitalismo mais reacionário Federal!
Tragédia em um ato Coro – Que belo hotel excepcional, etc...
Personagens – o patrão e o empregado
Época – atual II
O gerente – Nesta casa não é raro
Ato único
Protestar algum freguês:
Empregado – Patrão, eu queria lhe falar seriamente. Há Acha bom, mas acha caro
quarenta anos que trabalho na empresa e até hoje só cometi um erro. Quando chega o fim do mês.
Patrão – Está bem, meu filho, está bem. Mas de agora em diante Por ser bom precisamente,
tome mais cuidado. Se o freguês é do bom-tom
(Pano bem rápido) Vai dizendo a toda a gente
In: FERNANDES, Millôr. Trinta anos de mim mesmo. Rio de Janeiro: Nórdica, p. 15, 1974. Que isto é caro mas é bom.
Que belo hotel excepcional!
04 Essa tragédia-relâmpago de Millôr Fernandes, denominada O O Grande Hotel da Capital
capitalismo mais reacionário, mobiliza o campo da sugestividade
Federal!
e, num clima de aparente humorismo, libera todo um universo
de conceitos, situações e costumes subentendidos. Releia o texto Coro – Que belo hotel excepcional, etc...
apresentado e, na sua interpretação, responda: O gerente (Aos criados) – Vamos! Vamos! Aviem-se! Tomem
as malas e encaminhem estes senhores!
a. O que está subentendido no discurso direto do patrão?
b. Por que esse texto pode ser entendido como crítica de costumes? Mexam-se! Mexam-se!... (Vozerio. Os hóspedes pedem quarto,
banhos, etc... Os criados respondem. Tomam as malas, saem todos,
05 A tragédia, no sentido clássico, é uma obra fortemente uns pela escadaria, outros pela direita.)
dramática, inspirada na lenda ou na história, e que põe em cena
personagens envolvidos em situações que desencadeiam desgraças.
Em sua função poética, destina-se também a infundir o terror e
Cena II
a piedade. Considerando essa definição, releia o texto de Millôr O gerente, depois, Figueiredo
Fernandes e, a seguir: O gerente (Só.) – Não há mãos a medir! Pudera! Se nunca
houve no Rio de Janeiro um Hotel assim! Serviço elétrico de
a. interprete por que apenas esse diálogo entre os dois personagens primeira ordem! Cozinha esplêndida, música de câmara durante
poderia caracterizar uma tragédia, segundo o autor. as refeições da mesa redonda! Um relógio pneumático em cada
b. interprete um sentido conotativo da expressão “meu filho”, nas
aposento! Banhos frios e quentes, duchas, sala de natação, ginástica
palavras do personagem patrão.
e massagem! Grande salão com um plafond3 pintado pelos nossos
primeiros artistas! Enfim, uma verdadeira novidade! – Antes de nos
estabelecermos aqui, era uma vergonha! Havia hotéis em S. Paulo
superiores aos melhores do Rio de Janeiro! Mas em boa hora foi
organizada a Companhia do Grande Hotel da Capital Federal, que
Leia o texto e responda às questões 01 e 02.
dotou esta cidade com um melhoramento tão reclamado! E o caso
Coplas1 é que a empresa está dando ótimos dividendos e as ações andam
I por empenhos! (Figueiredo aparece no topo da escada e começa a
O gerente – Este hotel está na berra2! descer.) Ali vem o Figueiredo. Aquele é o verdadeiro tipo do carioca:
Coisa é muito natural! nunca está satisfeito. Aposto que vem fazer alguma reclamação.
Jamais houve nesta terra AZEVEDO, Arthur. A Capital federal. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1972.
Um hotel assim mais tal!
Vocabulário:
Toda a gente, meus senhores, 1
espécie de estrofe
Toda a gente ao vê-lo diz: 2
estar na moda
3
teto
Que os não há superiores
Na cidade de Paris!
74 LITERATURA
1ª Série Módulo 10

01 A Capital federal, peça escrita por Arthur Azevedo e encenada 02 A parte I faz parte de uma peça de teatro, forma de expressão
com sucesso até hoje, retrata o Rio de Janeiro no fim do século XIX. que se destacou na captação das imagens de um Rio de Janeiro que
se modernizava no início do século XX.
a. O texto demonstra como já circulavam amplamente no Rio de
Janeiro comparações com modelos estrangeiros de moderni- a. Aponte o gênero de composição em que se enquadra esse texto
dade. Transcreva dois versos que confirmem essa afirmativa. e um aspecto característico desse gênero.
b. Transcreva do texto duas frases completas em que o progresso b. A fala do gerente revela atitudes distintas, quando se dirige aos
técnico e o conforto são apresentados como qualidades simul- criados e quando está só. Identifique o modo verbal e a função
tâneas do Grande Hotel. da linguagem predominantes na fala dirigida aos criados.

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