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A família Bicudo em Indaiatuba e a Fazenda Pau Preto: indícios históricos

- Fazenda como ícone da memória da cidade. (Gustavo) - 3 a 4

É sabido que a família Bicudo é tradicional na cidade de Indaiatuba. Assim


como outras famílias e algumas centenas ou milhares de pessoas "sem sobrenome", os
Bicudos estiveram presente no processo civilizatório do território indaiatubano desde
seus primórdios. Nilson Cardoso de Carvalho aponta em suas pesquisa a presença de
membros dessa família nas esquadras ituanas de exploração e ocupação do sertão
paulista em meados do século XVIII. Nos arrolamentos que faz das esquadras a partir
de documento de 12 de junho de 1768 (CARVALHO, 2009, p.15), encontra-se um Jose
Bicudo da Costa de 36 anos na Sexta Esquadra (responsável pela ocupação de
Indaiatuba) e um João Bicudo de 58 anos na Quinta Esquadra (de Piraí).

Contudo, a relação entre essa família e a fundação da cidade se formaliza de fato


com o tenente Pedro Gonçalves Meira e com Joaquim Gonçalvez Bicudo, filhos de
Francisco Bicudo Chassim e Anna de Godoy, naturais de Itu. Ambos são considerados
pelos pesquisadores locais como um dos primeiros povoadores do então bairro ituano de
Indaiatuba (CARVALHO, 2009; NARDY, 1951). Os documentos de compra e venda
de terras que marcam a presença dos irmãos na cidade datam de 1790, ou seja, cerca de
vinte anos depois das esquadras de exploração e ocupação do sertão citadas acima.

A partir da década de 1790, observa-se um processo de ocupação e exploração


da região denominada nos documentos como Indaiatuba, Indayatuva ou Cocais. A
existência de alguns documentos de compra, venda e doação de terras demonstra a
existência de interesses sociais, políticos e econômicos por parte dos moradores de Itu,
Campinas (então vila de São Carlos) nessa localidade. O surgimento e desenvolvimento
de Indaiatuba esta inserido no contexto histórico de colonização do sertão paulista, dos
tropeiros, do cultivo de gêneros alimentícios e criação de animais para o comércio
interno.

Entre esses documentos cartoriais dos primórdios da história da cidade, Carvalho


(2009) destaca o termo de doação de terras feito por Pedro Gonçalves Meira ao Padre
Joaquim Gomes de Escobar. Tal doação, datada de 1793 (CARVALHO, 2009, p. 19),
iniciou a constituição do patrimônio eclesiástico local. Assim, confere-se ao tenente
Pedro Gonçalves Meira o título de fundador da Igreja Matriz de Indaiatuba, então
Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Cocais - curada apenas em 1819
(CARVALHO, 2009, p.31). A doação dessas terras e construção da capela são os
marcos documentais da fundação da cidade de Indaiatuba.

Contudo, não se pode perder de vista que, já na década de 1770, a região era
povoada e contava com cerca de 50 fogos (casas), escravos e produção de açúcar e
aguardente. Embora incipiente, não podemos negligenciar a existência de um processo
de ocupação e povoamento na região do "rybeirão de Indayatuva" quando Pedro
Gonçalves Meira adquiriu terras que poucos anos depois dariam origem a freguesia, vila
e município de Indaiatuba. Esse processo se intensifica a partir da década de 1820,
quando iniciou-se a abertura do caminho de Jundiaí para Piracicaba que transformou o
antigo picão entre Itu e Campinas em uma estrada e Indaiatuba consolida-se como um
importante ponto de parada e pouso para os tropeiros e viajantes.

Os livros cartoriais da Vila de Itu e da Freguesia de Indaiatuba1 apresentam um


volume documental expressivo de compras, vendas e trocas de terras nesse período. Ao
longo das décadas de 1830 e 1850, Indaiatuba viveu um pujante processo de
desenvolvimento econômico envolvendo pessoas e famílias locais e das vilas vizinhas
(São Carlos, Itu, Jundiaí, Sorocaba) baseado numa intensa dinâmica de divisão e trocas
de posse territorial, com desmembramentos e remembramentos de terras dos
povoadores iniciais. Portanto, observa-se nessa documentação uma grande variedade de
situações envolvendo as terras locais: há troca de terras entre proprietários de famílias
diferentes, há processos de diminuição e de ampliação do território de algumas
propriedades, há famílias com propriedades em lugares diferentes da freguesia2, há o
surgimento de novas propriedades e há uma intensa mudança nos marcos fronteiriços e
limites territoriais das terras. Tal situação traz empecilhos na definição territorial dos
antigos sítio e fazendas da cidade. Um desses casos é a Fazenda Pau Preto e seu casarão,
ícones da história da cidade.

De acordo com pesquisadores locais (CARVALHO, 2009; NARDY, 1951)


Fazenda e casarão do Pau Preto foram da família Bicudo e do Padre Antonio Cassemiro
da Costa Roriz e tem íntima relação com a origem da cidade. Sabe-se que no final do
século XIX, Joaquim Emígdio Bicudo e sua família viveram no antigo casarão e
construíram a tulha para manufatura do café ao seu lado. Contudo, não há indícios
históricos suficientes capazes de reconstruir a trajetória e a origem dessa fazenda (e seus
limites territoriais) e de seu casarão. A ideia desse texto é trazer novos indícios
documentais e reflexões para história desse imóvel e, consequentemente, para a história
da cidade de Indaiatuba.

Uma trajetória documental das propriedades rurais da família Bicudo em


Indaiatuba.

Carvalho (2009) aponta um título de compra de terras de 1791 na qual o Tenente


Pedro Gonçalves3 Meira anexou a sua própria fazenda um trecho de terra que tinha
como uma de suas fronteiras o "Rybeirão chamado Intayatuba" (CARVALHO, 2009,
p.18). Essas ditas terras foram compradas do Capitão Joaquim Duarte do Rego, Abaixo,
segue trecho do documento que discrimina a localização e tamanho das terras adquiridas
e anexadas pelo referido Tenente:

1
O livro cartorial mais antigo de Indaiatuba que existe para ser pesquisado é do 2º Cartório de Notas de
Indaiatuba e foi aberto em 1833. Todo acervo preservado desse Cartório encontra-se sob os cuidados do
Arquivo Municipal de Indaiatuba.
2
Indaiatuba foi elevada a freguesia em 1830.
3
Nos documentos pesquisados o sobrenome Gonçalves apareceu as vezes com S outras com Z. Nesse
texto deu-se preferência a grafia com S, adotada no nome das ruas de Indaiatuba.
sorte de terras que vem a ser hu quarto de legoa de testada e hua legoa de
sertão que principia no fim das terras que se acha hu marco da justiça,
partindo de hu lado com o mesmo comprador e de outro com terras
devolutas, correndo para parte de leste confinando junto ao Ribeyrão
chamado Indayatuba, do termo desta villas. (Folha de Indaiá 14 de fevereiro
de 1953. Arquivo Municipal de Indaiatuba. Fundo José Luiz Bicudo do Vale)

Apesar de apontar alguns marcos territoriais, tal descrição não permite definir
com precisão as fronteiras e a real localização dessa sorte de terras, pois, entre outras
coisas, não foi encontrada nenhuma referência documental da fazenda do Tenente a qual
foi anexada esse quarto de légua de largura por uma légua de comprimento.
Informações de documentos mais recentes comprovam que parte dessas terras
adquiridas em 1791 serviram posteriormente como terreno para o desenvolvimento
urbano de Indaiatuba. Contudo, com essas informações documentais é difícil inferir
com precisão a localização e tamanho das terras daquele que é considerado um dos
fundadores de Indaiatuba.

Em 1795 e 1797, Pedro Gonçalves Meira aparece também em documentos como


morador e parte dos "homens bons" de Campinas, ou seja, como membro da
administração pública local (Casa de Câmara). Não mais em Indaiatuba, o Tenente em
questão realizou algumas vendas de suas terras. No Livro 11 do 1º Ofício da Comarca
de Itu (fls 137 a 139v) constam duas escrituras de compra e venda de terras e engenho
datadas de 1798, uma tendo como comprador Miguel Arruda Justiniano e outra, o
Capitão Ignácio Dias Ferras. Ambas vendas foram feitas através de procuração, por
Joaquim Duarte do Rego. Esses são os primeiros indícios documentais do
desmembramento de suas terras que continuou após sua morte em 1814.

Em 1815, a viúva de Pedro Gonçalves Meira, Dona Ana de Campos Penteado


desmembrou as terras de seu marido e vendeu algumas partes das terras e sítio de
Indaiatuba a João Batista (casado com Efigênia Maria) e a Joaquim Gonçalves Bicudo
(irmão do Tenente). Ao cunhado, foi vendido um sítio e terras com engenho e todos
móveis na paragem de Indaiatuba. De acordo com o documento, escrito no Livro 21 do
1º Ofício da Comarca de Itu (Arquivo do Museu Republicano Convenção de Itu.
fls.131-132), Joaquim Gonçalves Bicudo adquiriu mil cento e cinquenta braças de
largura por meia légua de comprimento de terras do sertão e outra porção onde estava o
sítio e engenho. As terras do sítio, faziam fronteira com os campos da vila de
Indaiatuba, com as terras do já falecido Vicente Ferrer do Amaral e dos herdeiros do
falecido Capitão Francisco Ferreira Mendes. As terras do sertão, por sua vez, também
faziam fronteira com as propriedades de Vicente Ferrer do Amaral, de Francisco Pinto
Gomes e de Alferes Antonio de Godói Penteado. Dentro dessas terras passava o
Ribeirão Indaiatuba.

Esse documento traz indícios relevantes para alimentar a hipótese histórica de


que a fazenda Pau Preto e sua sede à atual Rua Pedro Gonçalves foram de propriedade
da família Bicudo desde os primórdios da vida da cidade. Além disso, vale lembrar que
em 1793, o tenente Pedro Gonçalves Meira havia doado parte de suas terras para a
construção de patrimônio eclesiástico que deu origem a vila de Indaiatuba. Portanto,
embora não haja uma descrição pormenorizada das edificações do sitio, a localização
apontada no documento faz crer que Joaquim Gonçalves Bicudo adquiriu terras e sítio
que faziam fronteira com os limites da freguesia e que provavelmente tratava-se de sua
fronteira sudoeste4.

Contudo, essa não foi sua primeira aquisição de terras no local. Em 1794,
Joaquim Gonçalves Bicudo adquiriu um pedaço de terra "na paragem chamada
Indayatuva no Bairro de Jundiay" (CARVALHO, 2009, p.19) dos herdeiros de Antônio
Nunes de Oliveira5. De acordo com escritura de compra e venda sob a guarda do
Arquivo Municipal de Indaiatuba, ele comprou

um sítio na paragem chamada Indaiatuba bairro de Jundiahy com casas de


dois lanços cobertas de palha paredes de mão com seus arvoredos de
espinhos e seus cultivados a ele pertencentes e as fronteiras pertencentes ao
mesmo sítio, partindo de um lado com o mesmo Ludovico Manoel e do outro
lado com João da Costa Ribeiro até entestar com a sesmaria de José Velho
Moreira, as quais terras e sítio assim confrontados e declarados disseram eles
vendedores que as possuiam como filhos legítimos herdeiros do falecido seu
pai Antonio Nunes de Oliveira. (documento nº4. Arquivo do Museu
Republicano Convenção de Itu. Fundo 1º Ofício da Comarca de Itu)

Portanto, ao comprar as terras de seu falecido irmão em 1815 e tornar-se o


protetor da construção da Capela dos Cocaes que originou a área urbana de Indaiatuba,
Joaquim Gonçalves Bicudo tornou-se também uma referência na história da fundação
dessa cidade. Contudo, há que se realizar ainda uma pesquisa mais aprofundada sobre a
questão pois as fontes documentais levantadas ainda apontam indícios questionáveis
sobre essa narrativa histórica.

Em 1822, ano da independência do Brasil, a segunda esposa de Joaquim


Gonçalves Bicudo, Dona Ana Maria de Campos, faleceu. Consta em seu inventário um
sítio e uma casa na Rua da Palma (atual Rua XV de Novembro). No plano de partilha
dos bens, essa casa não é citada na parte de nenhum filho. É provável que ela tenha sido
incluída no valor da Terça6 de Joaquim Gonçalves Bicudo. Quanto ao sítio, sabe-se que
foi repartido entre os quatro herdeiros homens e o coerdeiro Feliciano Leite Paxeco que
não havia recebido dote do casamento com Maria Tereza (filha do casal). Tal sítio
possuía engenho d'água, alambique, moinho, casa de morada ("hum lanço de sobrado,
com dois puxados terreos, coberta de telha, paredes de pilão huma [?], hum tronco tudo
avaliado na quantia de seis contos de reis = com cuja quantia a margem se faz=
6:000$000" - Joaquim Gonçalves Bicudo; Anna Maria de Campos - Inventário 1822.
Processos do 1º Ofício. Fundo: Arquivo Central da Comarca de Itu. Arquivo do Museu

4
A fronteira sudoeste da então freguesia de Indaiatuba tinha como limites as atuais Rua Dom José (então
Rua São José) e Rua Pedro Gonçalves (então Rua Nova).
5
No escopo dessa pesquisa não foram encontrados documentos que comprovem que Joaquim Gonçalvez
Bicudo possuísse outras terras no local antes dessa propriedade adquirida em 1794.
6
Explicar o que é a Terça.
Republicano Convenção de Itu. cx 27. fl15v). Contudo, esse documento não traz nenhuma
informação sobre sua localização e fronteiras.

Em 1838, por sua vez, faleceu Joaquim Gonçalves Bicudo. Ele deixou como
seus legítimos herdeiros cinco homens e três mulheres: Manoel Gonçalves (o
desmemoriado), Maria de Candelária e Maria do Rosário de seu primeiro matrimônio
com Maria de Campos Penteado, e Antonio de Campos Bicudo, Maria Tereza, José de
Campos Bicudo, João de Campos Bicudo e Elias de Campos Bicudo de seu segundo
matrimônio com Dona Ana de Campos. Em seu inventário, encontra-se, entre "os bens
de raiz" (bens imóveis), "hum sítio com Engenho de Ágoa, formas, coxos, por quatro
contos e quatro centos mil reis, que a margem se sae - 4:400$000" (Joaquim Gonsalves
Bicudo; João de Campos Bicudo - Inventário 1838. Fundo: Arquivo Central da
Comarca de Itu. Arquivo do Museu Republicano Convenção de Itu. cx 47. fl.11).

De acordo com esse documento, esse sítio possuía benfeitorias em seu fundo e
que essa parte das terras ficaram com o herdeiro João de Campos Bicudo. Nos autos de
partilha, essas terras foram assim partilhadas:

 José de Campos Bicudo: "quantia de cento e sete mil e noventa e nove


reis com que se sae - 107$099"
 Antônio de Campos Bicudo: "quantia de secenta e quatro mil oito centos
e cincoenta e nove reis, com que se sae - 64$859"
 João de Campos Bicudo: "quantia de duzentos e vinte e oito mil seis
centos e secenta e nove reis, com que se sae - 228$669"
 Elias de Campos Bicudo: "quantia de quinze mil oito centos e trinta e
nove reis, que sae - 15$839"
 Feliciano Leite Cordeiro (marido de Maria Tereza): "quantia de cento e
cincoenta e seis mil seis centos e quarenta e dois reis - 156$642"
 Manoel Gonçalvez: "quantia de hum conto oito centos quarenta e sete
mil cento e dezoito reis, com que se sae - 1:847$118"7

No próprio ano de 1838, os filhos de Joaquim Gonçalves Bicudo começaram a


desmembrar e vender as terras recebidas da herança de seu pai. Esses documentos
trazem informações importantes sobre a localização e fronteiras das terras desse casal
que nos permitem estabelecer relações importantes entre a família Bicudo e o casarão e
fazenda do Pau Preto. Toda a parte das terras da herança de Manoel Gonçalves foram
adquiridas pelo Capitão José de Almeida Prado pelo valor de um conto oito centos e
quarenta e oito mil cento e vinte reis (1:848$120) em um pregão de venda pública em
27 de abril de 18408. Antonio de Campos Bicudo vendeu parte das terras de sua herança
à João Leite de Sampaio Ferras9. Em 1838, Elias de Campos Bicudo e sua esposa Dona

7
Joaquim Gonsalves Bicudo; João de Campos Bicudo - Inventário 1838. Fundo: Arquivo Central da
Comarca de Itu. Arquivo do Museu Republicano Convenção de Itu. cx 47. fls.29-32v.
8
Joaquim Gonsalves Bicudo; João de Campos Bicudo - Inventário 1838. Fundo: Arquivo Central da
Comarca de Itu. Arquivo do Museu Republicano Convenção de Itu. cx 47. fls.69v-70.
9
Essa informação consta em uma escritura de troca de sítio com fábrica de açúcar e terras entre Manoel
Leite de Sampaio e João Paulo de Camargo. De acordo com esse documento de 1846, Manoel Leite de
Ana Joaquina de Campos venderam as terras herdadas a Francisco Pacheco de Campos
e Silva, e José do Amaral Camargo10, que também adquiriu terras de João de Campos
Bicudo.

O título de compra e venda de terras entre Elias de Campos Bicudo e Francisco


Pacheco de Campos e Silva (Livro 1 - Escrituras 1833 a 1841. Fundo 2º Cartório de
Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fls 66 a 69) traz dados sobre a
localização e tamanho das terras relevantes pois indicam que a propriedade rural de
Joaquim Gonçalves Bicudo fazia fronteira com os limites sudoestes de Indaiatuba. Na
venda, Elias de Campos Bicudo reservou para si uma parte das terras cujo tamanho e
localização seguem a seguinte descrição:

só reservão para si o valor de noventa e tantos mil réis nas terras que se achão
entre meio dos dois córregos e a Freguesia e que destas sede um corte de
Casas dentro da Freguesia que se acha entre Pedro José da Silva e a rua de
Sam José, e que reservão tão bem madeiras que precisar para fazer suas casas
na Freguesia (Livro 1 - Escrituras 1833 a 1841. Fundo 2º Cartório de Notas
de Indaiatuba. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fl.67-68)

De acordo com o Livro do Registro Terras de 1855, Elias de Campos Bicudo


possuia um sítio "dividido por um lado com Bento do Amaral Campos, Elias Baptista,
João Paulo, José de Góes, e os Campos de Indaiatuba". (Livro do Registro de Terras da
Província de São Paulo, volume nº 106, local: Indaiatuba. Arquivo do Estado de São
Paulo. fl.19v)

Com os dados desse trecho do título de compra e venda e do Livro do Registro


de Terras é possível afirmar que as terras de Joaquim Gonçalves Bicudo constituíam, ao

Sampaio e sua mulher Dona Teresa Correa Pacheco trocou "sítio com casas de morada e fabrica de fazer
asucar que possuem no bairro desta Freguesia de Indaiatuba na beira da Estrada que vai para a Agoa
choca" com "sítio com casas de morada e fabrica de fazer asucar no bairro do Pirahy de baicho"
pertencente a João Paulo de Camargo e sua esposa Dona Maria Carolina de Camargo. De acordo com
esse documento, parte das terras trocadas por Manoel Leite de Sampaio foram compradas de João Leite
de Sampaio Ferras que, por sua vez, adquiriu-as de Antonio Bicudo. Tal sítio com fábrica de açucar tinha
como fronteiras "de hum lado com o sitio que foi do Alferes Joaquim Gonçalves Bicudo principiando na
Barroca Vermelha e subir por ella asima the a cabeceira de onde partira orrumo direito the dar no corrego
da Ponte Alta e seguir por ella asima the sua cabeceira de onde seguira orrumo de Norte the entestar com
as terras que o mesmo vendedor vendeo digo que o ante possuidor João Leite de Sampaio Ferras vendeo a
Joaquim de Campos Rego que oje são de Esmeria Lopes e do outro lado no sertão, partindo com Jacinto
de Oliveira Bueno." (Livro 2 - Escritura 1841 a 1852. Fundo 2º Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo
Municipal de Indaiatuba. fl.102v-105)
10
José do Amaral Camargo adquiriu terras do sítio do falecido Joaquim Gonçalves Bicudo oriundas das
heranças de João e Elias de Campos Bicudo. De acordo com o título de compra e vendas de terras datada
de 9 de outubro de 1838, José do Amaral Camargo adquiriu de João de Campos Bicudo e de sua mulher
Dona Anna Gertrudes de Campos, pelo valor de um conto e duzentos mil de reis, "as benfeitorias que tem
em seo sítio que he quatro lanços de casa dois cobertos de telhas e dois cobertos de palha com portas de
ferragem, e fexaduras [?] gramados tanques monjolo e duzentos pés de café" (Livro 1 - Escrituras 1833 a
1841. Fundo 2º Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fl.73). Por sua vez, de
Elias de Campos Bicudo e sua mulher Dona Anna Joaquina de Campos, ele adquiriu um trecho de terras
no valor de noventa e cinco mil setecentos e dezenove reis. Dois anos depois, em 1840, o mesmo José do
Amaral Camargo vendeu as terras compradas dos Bicudos ao Capitão José de Almeida Prado (Livro 1 -
Escrituras 1833 a 1841. Fundo 2º Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fls.
136-139).
menos o limite sudoeste da freguesia (Rua São José) e que esse trecho de suas terras
serviram posteriormente para expansão da malha urbana da cidade de Indaiatuba.
Apesar dessa informação confirmar a tese de que as terras da família Bicudo serviram
para a constituição da malha urbana de Indaiatuba, esse indício ainda não aponta
nenhuma relação dessas terras com o sitio ou fazenda do Pau Preto, cuja referência
aparece pela primeira vez em um documento de 1840. Até 1892, não há nenhuma
menção ao nome Pau Preto em posses da família Bicudo.

João de Campos Bicudo foi o único dos herdeiros que não se desfez de sua parte
das terras herdadas de seu pai. Casado com Anna Gertrudes de Campos e falecido em
1863, João de Campos Bicudo deixou apenas três herdeiros homens: João de Campos
Bicudo, Joaquim Emígdio de Campos Bicudo e Querubim de Campos Bicudo. Desses
três herdeiros, interessa-nos o do meio. Joaquim Emígdio de Campos Bicudo é o
primeiro nome da família Bicudo que aparece em documentos cartoriais como
proprietário de uma terra intitulada Pau Preto em Indaiatuba. Na descrição de seus
imóveis em seu inventário de 1892, constam:

Casa de machina, machinas, tulha e terreiro, avaliados por dezessete contos


de reis, sahi 17:000$000

Vinte casas de colonos, avaliados por três contos de reis, que sahi 3:000$000

A casa de morada na fazenda, avaliada por três contos de reis 3:000$000

Olaria e utensilios, avaliada por duzentos e cincoenta mil reis 250$000

Casas do quintal e ranchos avaliados por duzentos e cincoenta mil reis, que
aqui sahi 250$000

Os terrenos que foram dos finados Padre Antonio Casemiro e de João Bicudo
confrontando com terras da Villa, do pasto de [fl.11] que foi de Francisco
Calisto, de Liduina Leite de Moraes e do Capitão José Manoel da Fonseca
Leite,[?], avaliados por seis contos e quinhentos mil reis 6:5000$000

Uma casa de sobrado na Villa de Indaiatuba, com o respectivo quintal e umas


casa velhas nos fundos, dividindo com José Estanislau do Amaral, Rua da
Candelária e São José, com frente para o Largo da Matriz, avaliados por tres
contos de reis, que sahi 3:000$000

Uma casa terrea no canto da Rua da Candelária e travessa da Igreja,


dividindo com José [?] e José Baptista de Camargo [?], avaliadas por tres
contos de reis, que sahi 3:000$000

Um pasto que foi dos finados Francisco Calisto, confrontando com terras de
Dona [?] Leite de Morais, com Francisco Gonçalves Ribeiro, com terreno da
Villa e com terras desta herança avaliado por dois contos de reis 2:000$000
(Joaquim Emygdio de Campos Bicudo; D. Escolástica da Fonseca Bicudo -
Inventário 1892. Arquivo do Museu Republicano Convenção de Itu. Fundo:
Arquivo Central da Comarca de Itu. Grupo: 1º Ofício da Comarca de Itu.
Série: Processos. Caixa 141. Folha 10v.
A herança de Joaquim Emígdio de Campos Bicudo ficou com sua esposa e
inventariante, Dona Escolástica da Fonseca Bicudo que, de acordo com Carvalho,
assumiu a fazenda e a produção de café do marido. O casal teve oito filhos, cinco
homens e três mulheres. Desses, João da Fonseca Bicudo, o caçula, morou com sua
família no casarão da fazenda Pau Preto.

Para compreender suas posses, faz-se necessário conhecer sua trajetória e a


expansão de suas propriedades ao longo da vida. Comerciante e dono de loja de tecidos,
Joaquim Emígdio de Campos Bicudo e Dona Escolástica da Fonseca Bicudo receberam
como dote de casamento do Capitão José Manuel da Fonseca Leite a fazenda Pau Preto.
Com casa e engenho de fazer açúcar situada na confluência dos córregos Melchior e
Bela Vista, a fazenda se encontrava na época em franca decadência, de acordo com
Carvalho11. Além dessas terras, em 1885, ele arrematou em praça pública chácara nas
imediações da Igreja Matriz que eram do falecido Vigário Antonio Cassemiro da Costa
Roriz e em 1860 recebeu como herança de seus pais (João de Campos Bicudo e Anna
Gertrudes de Campos) uma casa no Pátio da Matriz e cinco alqueires de terra (ciscado)
cuja localização não é descrita no inventário de sua mãe12.

Sobre a chácara do falecido Vigário, consta em seu inventário toda


documentação do leilão em praça pública de sua chácara que, de acordo com seu
inventário, valia três contos de reis e tinha como limites terras de Joaquim Emígdio de
Campos Bicudo, Leduina Leite de Moraes, Theodoro de Araujo Campos e Rua Nova.
As ditas terras de Joaquim Emígdio de Campos Bicudo citada como fronteiriças de sua
chácara foram seu dote de casamento com Dona Escolástica da Fonseca Leite.

Antonio Cassemiro da Costa Roris morreu em 1884 e deixou oito filhos em vida,
mas apenas cinco deles foram contemplados em seu testamento: Laudelina Leite de
Sant'Anna que casou com José Julio de Santa Anna e morava em Indaiatuba; Maria
Carmelina de Almeida que casou com João Paulo de Almeida e morava em Piracicaba;
Zeferino Leite de Moraes, conhecido como Passivino, morava em Indaiatuba; Gertrudes
Leite de Camargo que foi casada com Serafim Rodrigues de Camargo e morava em
Piracicaba; e Antonio Emygdio de Araujo Costa que também morava em Indaiatuba. De
acordo com o Livro de Registro de Terras, escrito sob encomenda pelo próprio Vigário
em 1855, há dois registros de duas chácaras sob sua propriedade:

1. "(...) uma chácara que dividi-se por um lado com terras pertencentes a mesma
Freguesia, por outro com os herdeiros do falecido Firmiano, por outro com os mesmos,
e com os herdeiros do falecido Joaquim Fernandes, com Manoel Leite, Antonio
Marques, João de Arruda, herdeiro do falecido Joaquim do Amaral, Joaquim do [?],
Antonia Maria ou Maria do Nascimento."

Fazenda Pau Preto. Arquivo Municipal de Indaiatuba. Fundo Nilson Cardoso de Carvalho.
11

Anna Gertrudes de Campos; João de Campos Bicudo - Inventário 1860. Arquivo do Museu Republicano
12

Convenção de Itu. Fundo: Arquivo Central da Comarca de Itu. Grupo: 1º Ofício da Comarca de Itu. cx
75.
2. "(...) uma chacara, que divide-se por dois lados com Firmino de Almeida, por
um com João de Campos Bicudo, por outro com Henrique de Araujo Campos, Dona
Gertrudes de Araujo." (Livro do Registro de Terras da Província de São Paulo, volume
nº 106, local: Indaiatuba. Arquivo do Estado de São Paulo. fl.17v)

Devido a dívidas deixadas em vida, o então Juiz de Órphãos da Comarca de Itu,


Doutor Frederico de Avelar Brotero, encaminha um processo de arrematação em praça
pública da chácara do Vigário. Em 23 de maio de 1885, Joaquim Emígdio de Campos
Bicudo arrematou a chácara por dois contos e um mil réis13. Assim, o sitio do Pau Preto
foi ampliado e teve seu perímetro alterado abrangendo a área e as construções da
chácara que tinha como uma de suas fronteiras a Rua Nova de Indaiatuba (atual Rua
Pedro Gonçalves).

Sobre a casa de máquina, a máquina, a tulha e o terreiro é provável que esses


bens imóveis tenham sido construídos pelo próprio Joaquim Emígdio de Campos
Bicudo para o sua produção de café ao longo de sua vida. Vale lembrar que ele foi o
pioneiro do cultivo dessa cultura agrícola na cidade, ainda no século XIX. Sobre as
casas de colonos e a olaria que aparecem descritos em seu inventário, não foram
encontrados outros indícios sobre sua localização e origem. Sobre a casa de morada na
fazenda avaliada em três contos de réis, casas do quintal e ranchos avaliados em
duzentos e cinquenta mil réis é possível que sejam o complexo do casarão do Pau Preto
situado atualmente na Rua Pedro Gonçalves, visto que a família de Joaquim Emígdio
Gonçalves Bicudo morou ali nessa época.

Portanto, a fazenda do Pau Preto, com sede à Rua Pedro Gonçalves e ícone da
história de Indaiatuba só teve a forma e a vida conhecida no imaginário social da cidade
com Joaquim Emígdio de Campos Bicudo, no segundo quartel do século XIX.

13
Arrematação de uma chácara na Villa de Indaiatuba que fas Joaquim Emygdio de Campos Bicudo pela
quantia de = 2:001:000
Aos vinte e três dias do mes de Maio de mil oito centos oitenta e cinco nesta cidade de Itu, em a sala das
audiências onde se achava o Juiz de Direito e de Orphãos Doutor Frederico [?] d'Avelar Brotero, comigo
Escrivão de seu cargo, ahi pelo Juiz foi determinado ao Official José do Amaral Campos que apregoasse e
trouxesse a praça a chacara na Villa de Indaiatuba dividindo com Joaquim Emygdio de Campos Bicudo
com Leduina de Tal, com Theodoro de Araujo Campos e com a rua nova e justamente ao espolio do
finado Padre Antonio Cassemiro da Costa Roriz, avaliada novamente em dois contos de reis, o que
cumprindo o Official, e depois d'apregoar por algum tempo recebendo o laudo que se he offereceu, de
ordem do Juiz affrontou entregando um ramo sigual de arrematação ao arrematante Joaquim Emygdio de
Campos Bicudo, que arrematou a dita chacara pela quantia de dois contos e um mil reis que exhibio [?],
mandando entregar [fl.36v] a referida quantia a Francisco de Almeida Pompeo a quem nomeava
depositario, houve a arrematação fosse boa, firme e valiosa afim de produzir todos os seus efeitos, e
determinou que o arrematante juntasse conhecimento do pagamento da competente seja, o que cumpriu e
a conhecimento é o que se segue. Para constar lavrou este termo de arrematação que assignou com o Juiz
o arrematante e o Official. Eu Francisco Bernardino de Campos Camargo. Escrevião que escrevi. Joaquim
Emygdio de Campos Bicudo. José do Amaral Camargo.
Antonio Cassemiro da Costa Roriz; Zeferino Leite de Moraes - Inventário 1884. Arquivo do Museu
Republicano Convenção de Itu. Fundo: Arquivo Central da Comarca de Itu. Grupo: 1º Ofício da Comarca
de Itu. cx 126. fl.36-36v.
1. Recorte da Planta da Rede de Esgotos. Águas e Esgotos de Indaiatuba. 1925. Nesse trecho é possível
visualizar uma área e uma construção denominadas, respectivamente, Terreiro de Café Fazenda Bicudo e
Sede da Fazenda Bicudo. O local apontado como a sede da Fazenda é onde se encontra o atual Casarão do
Pau Preto. Mapoteca do Arquivo Municipal de Indaiatuba. Registro do autor.

Contudo, entre os desmembramentos das terras de Joaquim Gonçalves Bicudo


em 1840 e a Fazenda Pau Preto sob propriedade de Joaquim Emígdio de Campos
Bicudo, os documentos cartoriais apresentam uma trama histórica maior e bem difusa,
envolvendo muitos desmembramentos e remembramentos de partes de terras
envolvendo vários proprietários e divisões de herança.

Rastros da Fazenda Pau Preto nos documentos cartoriais de Indaiatuba

A primeira referência documental de uma fazenda Pau Preto em Indaiatuba


encontrada nos documentos do 2º Cartório de Notas de Indaiatuba data de 1840 (Livro 1
- Escrituras 1833 a 1841. Fundo 2º Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal
de Indaiatuba. fl. 167-169). Trata-se de um documento de compra e venda em que
Francisco Pacheco de Campos comprou uma parte do sítio Pau Preto de Dona Antonia
de Arruda Leite14. Infelizmente não há nenhuma menção ou descrição do tamanho e da
localização dessa parte do sítio.

Dois anos antes, em 1838, Francisco Pacheco de Campos havia comprado parte
das terras que Elias de Campos Bicudo havia recebido de herança de seu pai Joaquim
Gonçalves Bicudo. Em 1840, por sua vez, ele vendeu as terras do sítio Pau Preto e as
comprada de Elias de Campos Bicudo ao Capitão José de Almeida Prado (Livro 1 -

14
"Pagou o Senhor Francisco Pacheco de Campos Silva a quantia sincoenta e cinco mil reis siza
correspondente a seis centos e cincoenta mi reis preço por que comprou Dona Antonia de Arruda a parte
que ella tinha no sítio Pao preto na Freguesia de Indaiatuba." Livro 1 - Escrituras 1833 a 1841. Fundo 2º
Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fl. 168.
Escrituras 1833 a 1841. Fundo 2º Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal
de Indaiatuba. fl. 139-141). No documento não há descrição da localização e tamanho
das terras vendidas.

Sete anos depois, o mesmo Francisco Pacheco de Campos aparece na


documentação cartorial vendendo outra parte do Sítio denominado Pau Preto à Dona
Veridiana Duarte Novaes. Esse documento, por sua vez, descreve os bens imóveis do
sítio, seu tamanho e localização. De acordo com o bilhete de Sisa:

pelo procurador dos vendedores me foi dito perante as testemunhas ao diante


nomeadas e assinadas que seus constituintes são senhores e possuidores de
um sítio e terras no distrito de Indaiatuba denominado Pau Preto com casas
de morada e engenho, e um estanque, contendo testada duzentas e dezessete
braças e meia, e de fundo de mil a mil e cem braças, confinando de um lado
com a compradora, de outro lado com Firmiano de Almeida Leite, e nos
fundos com o alferes Fernando Paes de Barros, e na frente por um banhado
que divide os campos de Indaiatuba, e que em virtude da procuração vendia o
dito sítio e terras à compradora Dona Veridiana Duarte Novaes por um conto
e seiscentos mil réis. (Arquivo Municipal de Indaiatuba. Fundo Nilson
Cardoso de Carvalho. Fazenda Pau Preto. fl.14)

O sítio do Pau Preto possuía, portanto, casa de morada e engenho e media


duzentos e dezessete braças e meia de largura e mil e cem braças de comprimento.
Estava localizado à frente de um banhado não identificado que dividia os campos de
Indaiatuba e tinha como outros limites as terras de Dona Veridiana Duarte Novaes,
Firmiano de Almeida Leite e Fernando Paes de Barros (ao fundo).

Em 1851, essa senhora vendeu suas propriedades na Vila de Indaiatuba à


Francisco de Paula Almeida Prado.No documento há descrição dos bens imóveis e
móveis do sítio15, mas não há menção à sua localização ou tamanho. Por isso, não é
possível inferir se o sítio e terras vendidas por Dona Veridiana Duarte Novaes são
somente aquilo que ela havia adquirido de Francisco Pacheco de Campos em 1847.

O capitão José de Almeida Prado aparece muitas vezes na documentação


cartorial de compra e venda de terras de Indaiatuba nas décadas de 1830 e 1840. Para a
questão das terras do Sítio do Pau Preto e terras da família Bicudo, há cinco documentos
de compra, um de venda e uma troca. Além daquele que envolve a partilha de seus bens
que, no caso do casamento de sua neta Escolástica da Fonseca Leite com Joaquim
Emígdio de Campos Bicudo, o sítio do Pau Preto serviu como dote. O capitão foi
casado com Dona Escolástica de Almeida Leite com quem teve nove filhos: Antonio
Leite de Almeida Prado, Anna de Almeida Prado (casada com o Capitão Bento Dias

15
De acordo com o documento, Francisco de Paula Almeida Prado adquiriu "hum Sitio e terras, com
casas de morada Engenho de Agoa e fabrica de asucar com três cardeiras rumilhor e esqumadeiras
alambique formas silindors e toda maquina a hela pertencente; asim mais carros porcadas canaviais canas
moveis e madeiras [?] roçados e derruba e derrubadas para milho assim mais outras miudezas e de todos
os bens moveis quatro Bois e assim muito mais miudezas de que me apresentarão a relação. Livro 2 -
Escritura 1841 a 1852. Fundo 2º Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fl.
187v-188)
d'Almeida Prado), Maria de Almeida Prado, Francisca de Almeida Prado (casada com
José Elias de Almeida Prado), João de Almeida Prado, Izabel de Almeida Prado (casada
com Felippe de Campos Almeida), Tereza de Almeida Prado (casada com o Capitão
José Manuel Fonseca, com quem teve quatro filhos, sendo um deles Escolástica da
Fonseca Bicudo), Escolástica de Almeida Leite (casada com Joaquim da Fonseca Leite)
e Leonor de Almeida Prado Berrini, casada com Luiz Berrini. O capitão José de
Almeida Prado é de uma família tradicional da elite de Itu e também esteve presente em
Indaiatuba desde os primórdios da ocupação do local. Ele tinha ainda algumas casas na
freguesia e outras terras na região. De acordo com o Livro de Terras de 1855, possuia
um sítio denominado Cachoeira de duas mil braças de sertão, limitado por "um lado
com o Rio Jundiahi, por outro com Manoel Galvão de França Paxeco, por outro com
João Tibiriçá, e Lourenço Tibiriça" (Livro do Registro de Terras da Província de São
Paulo, volume nº 106, local: Indaiatuba. Arquivo do Estado de São Paulo. fl.12). Esse
sítio Cachoeira é atualmente denominado como Sítio Cachoeira do Jica.

Na década de 1840, enquanto observa-se um desmonte da herança rural de


Joaquim Gonçalves Bicudo, José de Almeida Prado fortalecia o poder econômico de sua
família ampliando suas posses na freguesia de Indaiatuba. Sob a posse desse capitão
José de Almeida Prado, partes das terras de Joaquim Gonçalves Bicudo, do Sítio Pau
Preto e de outras propriedades tem seus perímetros e tamanhos alterados. É possível que
tenham havido desmembramentos e remembramentos dessas terras em vendas
posteriores e divisões de herança após sua morte, em 1890.

Sobre a constituição desse patrimônio rural, foi levantado os seguintes indícios:

1. Em 1838, adquiriu toda a parte de terras da herança de Manoel Gonçalves


(filho desmemoriado de Joaquim Gonçalves Bicudo) em pregão de venda pública
(Joaquim Gonsalves Bicudo; João de Campos Bicudo - Inventário 1838. Fundo:
Arquivo Central da Comarca de Itu. Arquivo do Museu Republicano Convenção de Itu.
cx 47. fls.69v-70).

2. Em 1834, comprou de João Leite de Sampaio Ferraz e de sua mulher Dona


Elena Maria de Souza, uma porção de terras, mais sítio e utensílios que abrange também
terras de Joaquim Gonçalves Bicudo herdadas por seu filho Antônio de Campos Bicudo.
De acordo com os termos do documento, João Leite de Sampaio vendeu pela:

quantia de um conto e quatrocentos mil reis cujas terras partindo de um lado


digo partindo na testada com o sitio que foi do falecido Capitão Vicente do
Amaral Campos no certão de um lado com o Alferes Joaquim Gonçalves
Bicudo principiando na barroca vermelha subir por ella a cima the as
cabeceiras de onde partirá o rumo direito the dar no corrego da Ponte Alta e
seguir por ella acima até sua cabeceira de onde seguira o rumo de Norte the
em testar com as terras que o mesmo vendedor vendeo a Joaquim de Campos
Rego, e de outro lado no sertão partindo com Jacinto de Oliveira Bueno por
esta mesma Escritura fica unida a mesma venda do sítio a parte que o
vendedor João Leite de Sampaio comprou de Antonio de Campos Bicudo que
lhe coube em herança no sítío do Alferes Joaquim Gonçalves Bicudo pela
forma fica vendida [?] de terras que forão do dito Alferes Joaquim Gonçalves
cujas [?] o dito Alferes é obrigado a dar aqui tudo asim. (Livro 1 - Escrituras
1833 a 1841. Fundo 2º Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal
de Indaiatuba. fls. 11-12)

3. Em 1840, como dito acima, comprou de Francisco Pacheco de Campos


trechos do Sítio Pau Preto e trechos de terras que pertenceram à Joaquim Gonçalves
Bicudo (da herança de Elias de Campos Bicudo).

4. Em 1840, adquiriu de José do Amaral Camargo quatro partes das terras de


Joaquim Gonçalves Bicudo que ele havia comprado dos herdeiros João de Campos
Bicudo (cujo documento de 1838 foi mencionado acima), José de Campos Bicudo16 e
Feliciano Leite Pacheco17 (coerdeiro de Joaquim Gonçaves Bicudo). Nesse documento
há uma citação sobre benfeitorias que João de Campos Bicudo havia feito nos fundos
das terras de seu pai: "quatro lanços de casas sendo dois cobertos de telhas dois de
capim com portas de ferragens e fexaduras, [?], gramado, Tanque, monjolo, e duzentos
pés de café". (Livro 1 - Escrituras 1833 a 1841. Fundo 2º Cartório de Notas de
Indaiatuba. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fl.138).

5. Também em 1840, comprou de João Leite de Campos e sua esposa parte do


sítio denominado Pau Preto. No documento há um acordo de que o antigo dono e sua
família habitariam no sítio por mais dois anos. (Livro 1 - Escrituras 1833 a 1841. Fundo
2º Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fls.142-144)

Ainda na década de 1840, o Capitão José de Almeida Prado realizou uma troca
de parte de suas terras com parte das terras do Alferes João Baptista do Amaral(cujas
propriedade e negociação foi feita por seu genro, Firmino de Almeida Leite). Trata-se
de um relevante documento para a questão aqui discutida, visto que os termos dessa
troca envolvem justamente uma parte do sítio Pau Preto e das terras de Joaquim
Gonçalves Bicudo. De acordo com os avaliadores dessas propriedades, Francisco
Chavier de Almeida e José de Sampaio Bueno, as terras de José de Almeida Prado valia
dez contos de reis (incluindo o valor das benfeitorias: engenho de açucar com cilindros
de ferro, moinho e outras), enquanto que as de João Bapstista do Amaral, sete contos
(também com benfeitorias). Os termos dessa troca foram assim estabelecidas:

e logo pelos outorgantes José de Almeida Prado e sua mulher, e Firmino de


Almeida Leite como curador do Alferes João Baptista do Amaral pessoas
ouvidas e contractadas me foi dicto perante as testemunhas ao diante
nomeadas e assignadas que os primeiros nomeados serão senhores e
poçuidores de um sítio denominado Pao Preto e o que foi de Joaquim
Gonçalves com terras a elle pertencentes Cazas de morada Fabrica de asucar
de silindros, [?], muinhos e o mais a elle pertencentes e de tudo fazem troca
com o sítio do Alferes João Baptista do Amaral recebendo de volta tres
contos de reis sendo hum a vista e dois de que passa obrigação particular o

16
No documento de 1838 diz que José do Amaral Camargo havia comprado as partes de João de Campos
Bicudo e um trecho de Elias de Campos Bicudo. É possível que nessa compra ambas as partes tenham
sido consideradas como uma só.
17
Sobre as partes das terras de José de Campos Bicudo e Feliciano Leite Pacheco, não foi encontrado o
documento referente a compra delas.
curador pelo qual foi dicto que asseitava a troca na forma declarada dando o
sítio de seu curado sito no Bairro do Itaicy na forma que o mesmo poçuia em
[?] do despacho do Juiz de Orfãos parecer [fl.38] dos louvados retro lançado
ficando pertencendo ao Almeida o sítio de Baptista e o de Almeida a
Baptista, disserão mais que os carros madeiras e moveis que se levem mais
no anno seguinte não. São trocados Almeida [?] as que tem no sítio do Pao
Preto e o curador as do sítio de seu curado devendo porém ambos fazer as
novas plantações nas terras dos sítios trocados; (Livro 2 - Escritura 1841 a
1852. Fundo 2º Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal de
Indaiatuba. fls. 37v-38)

Com essa troca, José de Almeida Prado ampliou seu sítio Cachoeira no Bairro
do Itaicy enquanto Firmino de Almeida Leite e seu sogro João Baptista do Amaral
mudaram-se para uma propriedade próxima aos campos da freguesia. É preciso lembrar
que esse processo não foi feito com a totalidade das terras do Sítio Pau Preto e terras de
Joaquim Gonçalves Bicudo, pois o mesmo Capitão Almeida Prado havia feito uma parte
delas como dote de casamento de sua neta Escolástica da Fonseca Leite Bicudo.

Esse documento explica, por sua vez, porque no Livro de Registros de Terras de
Indaiatuba de 1855 (Arquivo do Estado de São Paulo. Volume 106) feito pelo Vigário
Antônio Cassemiro da Costa Roriz, José de Almeida Prado aparece como possuidor de
uma terra que tinha como um de seus limites o Rio Jundiaí (na época parte do Bairro
Itaicy). Firmino de Almeida Leite, por sua vez, é citado como possuidor de um sítio que
tinha como divisão as terras de Elias Baptista do Amaral, Francisco de Paula Almeida
Prado (proprietário do Sítio Engenho d´água), Dona Izabel de Campos Penteado e o
Reverendo Vigário Antônio Cassemiro da Costa Roris. De acordo com essa descrição,
em meados do século XIX, o Sítio Pau Preto e as terras de Joaquim Gonçalves Bicudo
não faziam fronteira com a freguesia.

Em 1846, José de Campos Almeida aparece nos documentos cartoriais


vendendo um sítio e terras que faziam parte da propriedade de Joaquim Gonçalves
Bicudo e que pertencia à Firmino de Almeida Leite à Manoel Leite de Sampaio. Não foi
encontrado, por sua vez, o documento em que Firmino de Almeida Leite vendeu, trocou
ou doou essas terras à José de Campos Almeida. De acordo com os termos do
documento em questão, tratava-se de uma terra com casas de morada, pasto e alguns
arvoredos cujos limites são assim descritos:

terras partem na testada com o sítio que foi do falecido Capitão Vicente do
Amaral Campos e de outro lado com Elias de Campos Bicudo, que principia
do canto da terça the huma barroca vermelha e no certão. De hum lado com
Firmino de Almeida Leite principiando vermelha e subir por ella asima the a
cabeceira de onde partira o rumo direito the dar no corrigo da Ponte Alta e
seguir por ella asima the sua cabeceira de onde seguira o rumo de Norte the
entestar com as terras de Esmeria Lopes e de outro lado no sertão partindo
com Jacinto de Oliveira Bueno. (Livro 2 - Escritura 1841 a 1852. Fundo 2º
Cartório de Notas de Indaiatuba. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fls. 101)

Em 1862, por sua vez, Firmino de Almeida Leite e sua esposa Dona Francisca
de Almeida Leite aparecem em documento pertencente ao Fundo Nilson Cardoso de
Carvalho, vendendo parte das terras e sítio herdados de João Baptista do Amaral à José
Sampaio Goés. De acordo com os termos dessa escritura, tratava-se do sítio Pau Preto e
de terras que pertenceram a Joaquim Gonçalves Bicudo que "contém mil braças em
quadra à exceção das terras onde se acham edificadas as propriedades, e nessas mil
braças estão compreendidas duzentas e dezessete braças e meia, que foram do sitio do
finado Joaquim Gonçalves Bicudo" (Documento 11. Fundo Nilson Cardoso de
Carvalho. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fl. 27). Essa escritura traz ainda outras
informações relevantes que ajudam a compreender a localização dessas terras:

os vendedores reservarão um terreno nos fundos onde se acha a pau-a-pique,


que vem até a fronteira da chácara do vigário, digo, seguindo o rumo
divisório das mil braças até entestar com terras do doutor Bento José Labre, e
pelo rumo divisório do mesmo até o ribeirão. Este terreno é dividido pelo
lado do pasto por um pau-a-pique que vem até a fronteira da chácara do
vigário Antonio Casimiro da Costa Roriz. O comprador será obrigado a lhe
dar caminho para vir a esta vila, isto até que os vendedores possam obter
caminho por outro qualquer lugar, ficando esta condição somente para o
vendedor e sua família. (Documento 11. Fundo Nilson Cardoso de Carvalho.
Arquivo Municipal de Indaiatuba. fl. 27)

Com essa condição, entende-se que o vendedor Firmino de Almeida Leite


manteve sob sua propriedade uma parte dessa propriedade herdada de seu sogro e que
antes era do Capitão José de Almeida Prado. Nessa data, 1862, o vigário Antonio
Cassemiro da Costa Roris aparece como proprietário de uma chácara nas cercanias da
então vila de Indaiatuba18. De acordo com o Livro de Registro de terras de 1855, o
vigário possuía duas chácaras em Indaiatuba e a que foi citada nessa escritura de compra
e venda não é a que faz fronteira com os limites da vila (comprada por Joaquim
Emígdio de Campos Bicudo em 1885), mas a segunda que era dividida em dois lado
com Firmino de Almeida Leite, um lado com João de Campos Bicudo e outro com
Henrique de Araújo Campos. (Livro do Registro de Terras da Província de São Paulo,
volume nº 106, local: Indaiatuba. Arquivo do Estado de São Paulo. fl.17)

No mesmo Fundo Nilson Cardoso de Carvalho, há outra escritura de 1867, em


que esse José de Sampaio Góes vende, por sua vez, o denominado Sítio do Pau Preto
com casa de morada, engenho e canavial ao Capitão José Pedro de Siqueira por
quatorze mil contos de réis. Consta nesse documento as seguintes informações sobre
localização e divisas das terras19:

aí faz canto, digo, Taborda e segue até dividir com José Manoel da Fonseca
Leite, faz canto e segue o rumo dividindo com o mesmo José Manoel, até dar
em terras do doutor Paulo José Labre, faz canto e segue dividindo com o
mesmo doutor até as terras de Inácio de Paula Leite , faz canto, segue
dividindo com este até o ribeirão e daí pelo valo que divide com João
Pedroso de Almeida, até dar no valo onde principiou a divisa. (Documento
10. Fundo Nilson Cardoso de Carvalho. Arquivo Municipal de Indaiatuba.
fl.25)

18
Indaiatuba foi elevada a categoria de Vila em 1859.
19
Trata-se de informações incompletas devido ao estado de preservação do documento.
Dois anos depois, em 1869, o capitão José Pedro de Siqueira aparece em um
documento fazendo uma transcrição do título da fazenda para sua mãe, Dona Rosa
Maria de Jesus, única herdeira do próprio filho. Nesse termo, o sítio do Pau Preto é
descrito com casas de morar, engenho, fabrica de açúcar, benfeitorias e canaviais,
confrontando suas terras com as "de José Pedro de Barros; do reverendo vigário
Antônio Casimiro da Costa Roriz; com a viúva de Calixto Afonso Taborda; com José
Manoel da Fonseca; com o dr. Bento José Labre; com Inácio de Paula Leite; e por
útlimo com João Pedroso de Almeida." (Documento nº07. Fundo Nilson Cardoso de
Carvalho. Arquivo Municipal de Indaiatuba. fl.20). Com essa descrição é possível
comparar e complementar a descrição das terras que se encontram incompletas no
trecho do documento de 1867 transcrito acima.

Um detalhe na forma como os registros das compras e vendas das terras foram
feitos nos traz uma pista importante para o caso aqui estudado. Até a década de 1860, as
referências as terras do sítio Pau Preto e da família Bicudo eram feitas de forma
separadas. Embora as indicações de divisas e fronteiras indicarem serem estas terras que
conformaram um mesmo lote de terras, os documentos cartoriais guardaram a memória
de sua transmissão ao longo do tempo. Isso reitera a hipótese de que o sítio do Pau
Preto, ícone da cidade de Indaiatuba só tenha sido conformado de acordo com o
imaginário social com Joaquim Emígdio de Campos Bicudo, já que as terras de sua
família (oriundas das posses de Joaquim Gonçalves Bicudo) não eram as mesmas desse
sítio.

De acordo com a documentação pesquisada, a união dessas terras começou com


o Capitão José de Almeida Prado e continuou posteriormente através de dois percursos:
um iniciado pelo casamento de Dona Escolástica da Fonseca Leite com Joaquim
Emígdio de Campos Bicudo e outro por Firmino de Almeida Leite. No imaginário
social da cidade o Sítio do Pau Preto foi uma propriedade atrás da Igreja Matriz tendo
como sede o casarão do Pau Preto, percurso definido pelas posses de Joaquim Emígdio
Bicudo. Para compreender mais detalhadamente esse percurso é necessário avançar na
pesquisa documental dos livros do 2º Cartório de Notas de Indaiatuba existentes no
Arquivo Municipal da Cidade.

Conclusão:

A ausência de referenciais territoriais nesses documentos trazem algumas


dificuldades na investigação sobre a transmissão da posse das terras de Joaquim
Gonçalves Bicudo ao longo do tempo. Por isso, é ainda muito cedo e difícil afirmar que
o sítio Pau Preto era da família Bicudo desde o início. Os documentos cartoriais até
1869 indicam que o sítio Pau Preto

- Os altos e baixos econômicos da família ao longo do tempo.

- A família Bicudo, seu poder e influência política na cidade.


-> Fazenda Pau Preto, os Bicudos e o tecido urbano de Indaiatuba (Fernando)

- Fazenda como ícone da memória da cidade. (Gustavo) - 3 a 4

- A família Bicudo e sua relação com a formação do tecido urbano da cidade

- Os altos e baixos econômicos da família ao longo do tempo.

- Joaquim Emygdio Bicudo e a constituição da fazenda Pau Preto.

- A família Bicudo, seu poder e influência política na cidade.