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Módulo 1 – Conceitos básicos sobre armas de fogo

Apresentação do Módulo

Muitos séculos já se passaram desde a aparição das armas de fogo. De lá até hoje, esses
instrumentos sofreram significativas mudanças: surgiram novos modelos e novos sistemas de
operações. Evoluíram de uma máquina térmica simples para artefatos bem mais complexos e
precisos. A grande variação de espécies, de modelos, de dimensões, de sistemas operacionais
de maior ou menor “poder lesivo” existente hoje impacta diretamente na tarefa de
classificação.

Há ainda que se considerar as armas atípicas – frutos de combinações de espécies de armas


diferentes, de sistemas operacionais distintos –, que acabam por tornar a tarefa de classificá-
las e descrevê-las mais árdua.

Exemplo:

A arma que aparece na fotografia ao lado


é um revólver de sistema Lefaucheaux,
de armação fixa, tambor fixo e
municiamento por meio de janela lateral.
Seu cano raiado forma uma peça única
com uma faca.
Foto de arquivo.

As tarefas de classificação e descrição tornam-se mais fáceis com a adoção de alguns critérios
que você estudará neste curso. Para compreendê-los, faz-se necessário que você estude neste
primeiro módulo os conceitos básicos relacionados às armas de fogo, à balística – ramo da
ciência que estuda essas armas –, aos aspectos legais descritos no Decreto nº 3.665, de
20/11/2000 e, principalmente, aos critérios de classificação geral das armas de fogo.
Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Definir arma de fogo e balística;

Classificar as armas de acordo com as características que imprimem às lesões;


Analisar os aspectos históricos relacionados à balística e às armas de fogo;

Classificar as armas de fogo considerando alguns critérios, como alma do cano,


carregamento, inflamação, funcionamento, uso e mobilidade;

Identificar os aspectos legais contidos no Decreto nº 3.665, de 20 de novembro de


2000 (R-105), relacionados aos conceitos e às classificações estudadas no módulo.

Estrutura do Módulo

Aula 1 – Balística

Aula 2 – Armas

Aula 3 – Armas de fogo

Aula 1 – Balística

A pólvora1, elemento sem o qual não existiria a arma de fogo, é uma invenção atribuída aos
chineses; no entanto, o seu emprego como agente para impulsionar um projétil através de um
cilindro oco surge muito tempo depois – a utilização e difusão desse invento são atribuídas
aos árabes, os grandes comerciantes da Idade Média.

Para alguns autores, as primeiras armas de fogo aparecem, ainda que de forma precária, nas
cruzadas e na expansão do Império Otomano, quando foi utilizada por algum dos povos
mulçumanos.

No estudo de armas de fogo, torna-se fundamental o estudo da balística, em especial da


balística forense, pois são elas que estabelecem os parâmetros e procedimentos para a
identificação e classificação desses instrumentos.

1
http://www.brasilescola.com/quimica/polvora.htm
1.1. O que é balística e como se divide

Balística, por definição, é a parte da física que estuda o impulso, movimento e impacto dos
projéteis, entendendo-se por projétil qualquer sólido que se move no espaço após haver
recebido um impulso.

A balística estuda o movimento de corpos lançados ao ar livre, como uma pedra lançada no
ar, mas geralmente está relacionada ao estudo dos disparos de projéteis de armas de fogo.

Ao se estudar um projétil disparado por uma arma de fogo, divide-se o seu movimento em
três partes distintas: a balística interior, balística exterior e balística terminal. Logo, a balística
é subdividida em:

Balística interior – A balística interior estuda o que ocorre desde o momento do


disparo até o instante em que o projétil abandona a arma. É a parte da balística relativa
à estrutura, mecanismo e funcionamento das armas, da carga de projeção e dos
fenômenos que ocorrem no processo da propulsão dos projéteis. Compreende,
portanto, o estudo das armas e munições até o momento em que o projétil é expelido
através do cano.

Balística exterior – Estuda o movimento dos projéteis no ar desde o momento em que


ele abandona a boca do cano da arma até o primeiro impacto. Por conseguinte, estuda
a influência, nessa trajetória, do ângulo, da velocidade de saída, da resistência do ar,
da força de gravidade, da velocidade e sentido do vento, entre outros fatores.

Balística terminal – Estuda o movimento do projétil desde o primeiro impacto até a


dissipação total de sua energia cinética, ou seja, até o seu repouso final. Estuda, por
conseguinte, os efeitos dos impactos dos projéteis no alvo (ricochetes, as lesões e as
características deixadas nos suportes pelos impactos dos projéteis). A balística das
lesões é um ramo da balística terminal que estuda os efeitos dos projéteis em tecidos
vivos.
1.2. Balística forense

Nas investigações vinculadas a armas de fogo sempre surgem perguntas cujas respostas têm
como fundamento os princípios da balística. Esses princípios permitem responder questões
sobre o tipo de arma utilizada, a distância do atirador, entre outras dúvidas de interesse da
justiça. Essa é a área de atuação da balística forense2.

Balística forense é a parte da balística de interesse da justiça. O professor e perito criminal


Eraldo Rabello, no livro Balística Forense, a define como:

"[...] aquela parte do conhecimento criminalístico e médico-legal que tem por objeto especial
o estudo das armas de fogo, das munições e dos fenômenos e efeitos próprios dos tiros dessas
armas, no interesse da justiça, tanto penal como civil."

1.3. Aspectos históricos

A balística forense é uma das áreas precursoras da criminalística. Em 1835, na Inglaterra,


Henry Goddard notou um defeito num projétil retirado do cadáver de uma vítima. Nessa
época, como as armas eram de antecarga (carregadas pela boca), os projéteis eram produzidos
artesanalmente em moldes (coquilhas) próprios. Na casa de um dos suspeitos, ele encontrou
um molde para projéteis que fabricava um projétil com um defeito semelhante. Essa prova fez
com que o suspeito fosse condenado por homicídio.

O professor Lacassagne (Lyon – França, 1889) e o químico forense Paul Jeserich (Alemanha
1898) foram experts que conseguiram, por técnicas diferentes, identificar armas pelos exames
de projéteis incriminados.

Balthazard, em 1912, publicou dois artigos que demonstravam as bases científicas do tema,
intitulados “Identificação de projéteis de armas de fogo” e “Identificação de estojos de
pistolas automáticas”.

Outros cientistas no mundo inteiro também apresentaram inovações na balística forense,


como a invenção do microscópio comparador balístico, por Gravelle em 1925. Gravelle,
juntamente com Waite, Fisher e Goddard, fazia parte do Bureau of Forensic Ballistics, e
juntos desenvolveram inúmeros trabalhos e inventos para a balística forense.

2
A palavra “forense” advém do adjetivo latino forenses, que significa “relativo ao fórum”
Em 1929, Goddard fundou o Scientific Crime Detection Laboratory, que em quatro anos
investigou 1400 casos envolvendo armas de fogo.

As armas de fogo e suas munições continuaram a ser aprimoradas, e com elas a área de
balística, principalmente a balística técnica, responsável pelo desenvolvimento dessas armas e
munições, e a balística forense.

Aula 2 – Armas

Desde os primórdios, ainda na pré-história, o homem utilizou-se de instrumentos que


marcaram a evolução das civilizações e das culturas. As armas, desde a sua aparição, têm sido
um desses instrumentos que exerceu e continua exercendo um papel de destaque na história da
evolução humana.

2.1. O que são armas

De forma geral, é possível entender armas como:

“todo instrumento, máquina ou meio utilizado pelo homem para ofender ou defender-se”.
(BARBERA & TUREGANT, 1998)

Na legislação brasileira, o Decreto nº 3.665, de 20 de novembro de 2000 (R-105)3, apresenta a


definição de arma:

“artefato que tem por objetivo causar dano, permanente ou não, a seres vivos e coisas.” (art.
3º, inciso IX, anexo)

2.2. Classificação das armas de acordo com as características que imprimem às lesões

3
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3665.htm
Inúmeros métodos para a classificação de armas têm sido utilizados. Entre eles, aquele que
apresenta maior interesse para a justiça e criminalística é a classificação por força motriz
(energias), principalmente as ocasionadas pelos meios mecânicos de acordo com as
características que imprimem às lesões. Assim, classificam-se as armas, em:

- Perfurantes – A exemplo dos pregos, agulhas, floretes, furadores de gelo;

- Cortantes – Bisturis, navalhas ou mesmo as facas quando agem pela pressão ou


deslizamento do gume;

- Contundentes – As mãos e pés quando desferem socos e chutes, paus, pedras,


bengalas;

- Perfurocortantes – Armas que ao mesmo tempo exercem a ação de perfurar e cortar;

- Perfurocontundentes – Têm-se como exemplo os dentes dos ancinhos e os projéteis de


armas de fogo;

- Corto-contundentes – A exemplo dos machados e facões.

No campo da balística forense, os que apresentam interesse são os instrumentos


perfurocontundentes, ou seja, aqueles instrumentos que apresentam simultaneamente a ação
de perfurar e contundir, ação exercida pelos projéteis das armas de fogo.

Importante!

A ação de perfurar e contundir não é exclusiva dos projéteis de armas de fogo; as chaves de
fenda, projéteis de carabinas de pressão, entre outros, também a realizam. No entanto, os
projéteis de armas de fogo são os principais instrumentos perfurocontundentes.

Aula 3 – Armas de fogo

3.1. O que são armas de fogo e quando surgiram

Conforme o anexo do Decreto nº 3.665, de 20 de novembro de 2000 (R-105), armas de fogo


são:

“armas que arremessam projéteis empregando a força expansiva dos gases gerados pela
combustão de um propelente confinado em uma câmara que, normalmente, está solidária a um
cano que tem a função de propiciar continuidade à combustão do propelente, além de direção
e estabilidade ao projétil.” (art. 3º, inciso XIII, anexo)
Embora a definição acima possa parecer complicada, não é. Acompanhe!

As armas de fogo são aquelas que utilizam a força dos gases gerada pela queima da pólvora
para lançar um projétil. São máquinas térmicas, como os motores dos carros e as caldeiras,
ou seja, utilizam a transformação em gás da pólvora ou do combustível ou, ainda, da água
para realizarem as suas funções. Elas receberam esse nome pelas labaredas que saíam da
boca do cano no momento do disparo.

Não existe consenso entre os historiadores acerca do surgimento das armas de fogo nem do
início da sua utilização. Segundo Barbera & Turegant (1998), existem relatos do emprego de
armas de fogo pelos mouros na defesa de Zaragoza em 1118. Para outros historiadores, o
emprego das armas de fogo começa em 1257, quando os mouros utilizaram na defesa de
Niebla pequenos canhões que empregavam pólvora negra como propelente.

Entre os anos de 1300 e 1400, apareceram


inúmeros relatos, como as crônicas da cidade de
Gant (Bélgica – 1313) e as Armas de Guerra de
Augusto Demmim (1869), da utilização de armas
de fogo (TRUENOS E TRUENOS de mão, na
figura ao lado) pela França, Inglaterra, Alemanha Foto de arquivo.
e Espanha, entre outros.

3.2. Classificação das armas de fogo

A grande variação das armas de fogo nos


projetos e nas características faz com que
existam armas extremamente diferentes,
como a arma dotada de inúmeros canos
(vista na fotografia ao lado). O objetivo
aqui é que você estude os princípios da
classificação geral das armas de fogo
Foto de arquivo.
Classificação é o ato ou a ação de organizar os objetos ou seres por classes, de dividi-los em
grupos com características comuns. Obviamente, para classificar fazem-se necessários um
método e a definição das características a serem observadas.

O interesse de classificar as armas de fogo reside em identificá-las tomando-se por base


critérios que vão do geral para o particular e que contemplam objetivamente as
especificidades de cada uma. Especialmente para armas de fogo, poderiam ser adotados
inúmeros critérios; entretanto, no interesse de melhor identificá-las, esses critérios devem
obedecer a requisitos técnico-científicos e contemplar características intrínsecas da própria
arma. O professor Eraldo Rabello (1995) propôs a classificação das armas de fogo quanto à
alma do cano, conforme você estudará a seguir.

3.2.1 Classificação quanto à alma do cano

Os canos de armas de fogo são uma das principais peças de todo e qualquer armamento.
Assim como as câmaras de combustão, eles são submetidos a pressões elevadas. O processo
produtivo de cada um difere conforme o tipo de arma (revólveres, espingardas, pistolas,
carabinas, etc.) e possui diversas fases, tais como a perfuração de barras de aço, polimento,
além de outras etapas, como a confecção do raiamento ou do choque. As etapas próprias
variam conforme o tipo de arma e o modelo para os quais os canos são produzidos.

Os primeiros canos de armas de fogo tinham o seu interior liso e o diâmetro ligeiramente
maior que os projéteis que admitiam. Esses projéteis eram, na sua maioria, confeccionados
de ligas de chumbo e geralmente apresentavam o formato esférico.

Como o alcance desses projéteis era reduzido por causa da resistência do ar, na tentativa de
se obter maior velocidade inicial e maior alcance, mudou-se o seu formato, de maneira que
com a mesma massa ele passou a ter menor seção transversal.

Para evitar trajetórias erráticas e irregulares, surgiram as armas de alma raiada4, capazes de
imprimir um movimento de rotação ao projétil em torno do seu eixo.

De acordo com o Decreto nº 3.365, de 20/11/2000 (R-105), raias são:


4
Raias são sulcos helicoidais e paralelos produzidos por brocas especiais, de forma que, com a passagem forçada
do projétil através do cano, ele acompanha esses sulcos e adquire o movimento de rotação que lhe garante maior
estabilidade, precisão e alcance.
“sulcos feitos na parte interna (alma) dos canos ou tubos das armas de fogo, geralmente de
forma helicoidal, que têm a finalidade de propiciar o movimento de rotação dos projéteis, ou
granadas, que lhes garante estabilidade na trajetória.” (art. 3º, inciso LXXI, anexo)

Dessa forma, as armas de fogo são classificadas quanto à alma do cano em: canos de alma
lisa ou canos de alma raiada.

Importante!

É extremamente importante observar o número de raias e seu sentido de giro, e entender as


armas mistas ou armas combinadas como aquelas armas que apresentam um ou mais
canos de alma lisa e um cano de alma raiada ou, ao contrário, dois canos de alma raiada e um
ou mais canos de alma lisa, a exemplo da espingarda de dois canos sobrepostos da indústria
Rossi, Apache, que teve o início de produção em 1953, a qual apresentava o cano superior de
calibre .22 L.R. (alma raiada – 6D) e o cano inferior de calibre 36 ou 40 (alma lisa).
(TOCHETTO & WEINGAERTNER, 1981)

Estude a seguir outros critérios.

3.2.2. Classificação quanto ao sistema de carregamento

Para que as primeiras armas de fogo estivessem em condições de efetuar um disparo, era
necessário introduzir, pela extremidade anterior do cano (boca do cano), a pólvora e a carga
de projeção com a utilização de ferramentas para socar a pólvora (vareta de soca) e as
buchas. Embora seja um procedimento obsoleto, ainda se encontram armas obsoletas, ou de
fabricação artesanal, que utilizam esse processo de carregamento. Os exemplos mais
conhecidos no Brasil foram as espingardas Taquari e Lazarina, ambas da indústria Rossi.
Nessas armas o carregamento é feito pela boca do cano (armas de antecarga).

O processo de carregar uma arma de antecarga é lento. Maior celeridade no carregamento foi
obtida com a invenção do cartucho por Clement Pottet e o
Cartucho Lefaucheux
aperfeiçoamento deste por Casemir Lefaucheux. O cartucho
era a unidade de munição completa (continha a espoleta, a
pólvora e o projétil) e era introduzido na câmara localizada na
parte posterior do cano. Dessa forma, surgiram as armas de
retrocarga, que persistem até os dias de hoje.
3.2.3. Classificação quanto ao sistema de inflamação

A classificação quanto aos sistemas de inflamação está apoiada nos diversos sistemas
utilizados pelas as armas de fogo para dar início à queima da pólvora.

Você perceberá que o estudo dessa classificação oferece uma visão da evolução histórica das
armas de fogo, desde os primórdios até os sistemas atuais.

Nas primeiras armas de fogo, ainda na Sistema por haste de ferroma


Idade Média, para realizar o disparo era
necessária a utilização de uma haste de
ferro incandescente, carvão em brasa ou
outros meios de chama direta, que eram
introduzidos em um orifício na câmara
de combustão (ouvido). Como esse
sistema não era prático para as armas
portáteis, ele foi substituído por uma Sistema de mecha
mecha que conduzia a chama para a
câmara de combustão e, assim, iniciava-
se a queima da pólvora. Denominado
sistema de mecha, esse sistema,
totalmente obsoleto, apresentava
enormes dificuldades, tanto em relação
ao controle do tempo de queima da
mecha – e consequentemente do disparo
– quanto às condições de
armazenamento das mechas para Sistema de roda
protegê-las da umidade, além de outros
fatores de ordem prática; e ainda
ofereciam sérios riscos aos atiradores.
Esse sistema foi substituído pelo sistema
de fecho de roda, que utilizava o atrito
como iniciador da queima de propelente.
O sistema de roda é originário dos
relógios de Nüremberg (Alemanha). Sistema Miguelete
Consistia em uma roda na qual se dava
corda e, ao acionar o gatilho, era
produzido o atrito de uma pedra de perita
com o metal, causando chispas, que por
sua vez, incendiavam a pólvora,
produzindo a deflagração da pólvora e o
disparo da arma.
Variações desse sistema de roda surgem
em toda a Europa, como o sistema
Revólver Colt de percussão extrínseca
holandês Snaphause, o sistema Flintlock,
que apareceu no centro da Europa, e, na
Espanha, o sistema Miguelete, em que a
fagulha era obtida por atrito com sílex
(mistura mineral à base de sílica).
A descoberta da espoleta é atribuída ao
reverendo escocês Alexander John
Forsyth. Em 1807, ele obteve a patente
de um engenho de percussão que
utilizava uma mistura detonante
(fulminato de mercúrio, descoberto em
1779 por Haward) que, por sua vez,
iniciava a queima da pólvora
(propelente).
Em 1815, Joshua Shaw desenhou a
espoleta em cápsula, com fulminato
contido em um pequeno cálice de metal –
geralmente de cobre em virtude de sua
maleabilidade –, surgindo assim o
sistema de percussão, que significa
choque violento. Nesse sistema, uma
pequena quantidade de explosivo é
depositada no fundo de um objeto
metálico, de formato semelhante a um
pequeno copo, o qual é colocado sobre a
extremidade de um pequeno tubo que se
comunica com a câmara por meio de um
pequeno orifício (ouvido). O impacto do
percussor comprime a cápsula de
espoletamento contra as paredes do tubo
(chaminé), gerando a detonação do
explosivo e, consequentemente, levando
para o interior da câmara uma quantidade
de gases aquecidos, calor e chama que
geram a deflagração do propelente. Como
essa espoleta é uma peça isolada
(separada do cartucho), as armas que a
utilizam são de percussão extrínseca.

Com o aparecimento do cartucho, surgiu também o sistema de percussão intrínseca. Mesmo


transcorridos muitos anos, esse sistema permanece atual e é largamente utilizado nos nossos
dias. O sistema de percussão intrínseca admite duas subdivisões:

- 1ª subdivisão: armas de percussão radial e armas de percussão central

As armas de percussão radial são armas de retrocarga em que os cartuchos apresentam a


mistura iniciadora depositada por centrifugação na orla do estojo sem a utilização da espoleta
propriamente dita. As armas de percussão central são armas de retrocarga que utilizam
cartuchos em que a espoleta apresenta-se montada no centro da base.

Nota

Na realidade, essa classificação é própria para os cartuchos e, por extensão, é empregada


também para as armas que utilizam esses cartuchos.

- 2ª subdivisão: armas de percussão direta e armas de percussão indireta

Nas armas de percussão direta o percussor está montado no cão ou o percussor é um


prolongamento do cão. Nas armas de percussão indireta, o percussor é uma peça
independente que recebe o impacto do cão ou do martelo para, depois desse impacto, ser
projetado e atingir a espoleta.

Há ainda outros sistemas de inflamação.

O sistema de percussão intrínseca


empregado nos cartuchos Lefauchex é
diferente dos supramencionados; nesses
cartuchos (figura ao lado), o pino lateral é
o percussor, fazendo parte do cartucho e
não da arma.

De emprego restrito às armas militares, existe também o sistema de inflamação elétrico,


empregado nas bazucas e em algumas peças de artilharia.

3.2.4. Classificação quanto ao funcionamento

Podem-se classificar as armas quanto ao sistema de funcionamento em:

- Armas de tiro unitário;

- Armas de repetição;

- Armas semiautomáticas;
- Armas automáticas.

Estude, a seguir, sobre cada uma delas.

- Armas de tiro unitário – São armas de carregamento manual e, conforme o próprio


nome diz, são dotadas de carga para um único tiro. Após o disparo, nas armas de
retrocarga, é necessária a retirada manual do estojo deflagrado e a introdução de um
novo cartucho para um próximo tiro; nas armas de antecarga, um novo carregamento.
Os exemplos mais comuns do nosso dia a dia são as espingardas de um cano e as
pistolas de um cano (Pistolet).

São também classificadas como armas de tiro unitário as armas dotadas de dois ou
mais canos com as câmaras respectivas e com mecanismos de disparos próprios para
cada câmara, independentemente de serem do tipo monogatilho ou não. As armas de
tiro unitário múltiplas como as espingardas de dois canos, paralelos ou sobrepostos,
funcionam como se fossem duas ou mais armas de tiro unitário montadas em uma só
coronha ou que utilizam uma mesma empunhadura.

- Armas de repetição – Segundo o Decreto nº 3.665, artigo 3º, inciso XVI, anexo, são
armas “em que o atirador, após a realização de cada disparo, decorrente da sua ação
sobre o gatilho, necessita empregar sua força física sobre um componente do
mecanismo desta para concretizar as operações prévias e necessárias ao disparo
seguinte, tornando-a pronta para realizá-lo”. Os exemplos mais corriqueiros são os
revólveres, alguns tipos de fuzis e carabinas.

- Armas semiautomáticas – Segundo o artigo 3º, inciso XXIII, anexo, do decreto são
armas “que realizam, automaticamente, todas as operações de funcionamento com
exceção do disparo, o qual, para ocorrer, requer, a cada disparo, um novo
acionamento do gatilho”. Nas armas semiautomáticas, como na maioria das pistolas,
aproveita-se a força de expansão dos gases gerados com a queima do propelente para
a extração e ejeção do estojo e, com o retorno do ferrolho, a introdução de um novo
cartucho na câmara, deixando a arma em condições de efetuar um novo disparo.

- Armas automáticas – Segundo o Decreto nº 3.665, artigo 3º, inciso X, anexo, são
armas “em que o carregamento, o disparo e todas as operações de funcionamento
ocorrem continuamente enquanto o gatilho estiver sendo acionado (é aquela que dá
rajadas)”. O exemplo mais comum das armas automáticas são as metralhadoras.

3.2.5. Classificação quanto ao uso e à mobilidade

Quanto ao uso, as armas podem ser classificadas em armas de uso coletivo e em armas de
uso individual, dependendo, para tanto, da quantidade de pessoas necessárias para o seu
funcionamento regular.

A arma é de uso coletivo quando requer a participação de duas ou mais pessoas para a sua
utilização, a exemplo de algumas peças de artilharia. É de uso individual quando, para a sua
utilização, necessitar de apenas uma pessoa – é o caso das pistolas, fuzis, espingardas, entre
muitos outros exemplos.

Quanto à classificação em relação à mobilidade, existem diferenças conforme a interpretação


dos diferentes autores; entretanto, para os profissionais da área de segurança pública, é
importante que se adotem as definições contidas no Decreto nº 3.665, de 20 de novembro de
2000 (R-105), que é o texto legal sobre esse tema, transcrito a seguir:

- Arma não portátil – “arma que, devido às suas dimensões ou ao seu peso, não pode
ser transportada por um único homem”. Os exemplos mais comuns são as peças de
artilharia. (art. 3º, inciso XX, anexo)

- Arma de porte – “arma de fogo de dimensões e peso reduzidos, que pode ser portada
por um indivíduo em um coldre e disparada, comodamente, com somente uma das
mãos pelo atirador; enquadram-se, nesta definição, pistolas, revólveres e garruchas”.
(art. 3º, inciso XIV, anexo)

- Arma portátil – “arma cujo peso e cujas dimensões permitem que seja transportada
por um único homem, mas não conduzida em um coldre, exigindo, em situações
normais, ambas as mãos para a realização eficiente do disparo” (art. 3º, inciso XXII,
anexo). Nessa definição, enquadram-se os fuzis, carabinas e espingardas, entre outros.

Nota

Em relação ao critério da mobilidade, o professor Eraldo Rabello divide as armas em fixas,


móveis, semiportáteis e portáteis.
Como você estudou anteriormente, seriam inúmeros os critérios que permitiriam classificar
uma arma de fogo: seu calibre, tipo de acabamento, entre outros fatores. Um desses critérios,
usado diariamente pelos policiais, é a legalidade de seu uso. Quanto a isso, as armas são
classificadas como:

- Arma de uso permitido – “arma cuja utilização é permitida a pessoas físicas em


geral, bem como a pessoas jurídicas, de acordo com a legislação normativa do
Exército.” (Decreto nº 3.665, art. 3º, inciso XVII, anexo)

- Arma de uso restrito – “arma que só pode ser utilizada pelas Forças Armadas, por
algumas instituições de segurança e por pessoas físicas e jurídicas habilitadas,
devidamente autorizadas pelo Exército, de acordo com legislação específica.”
(Decreto nº 3.665, art. 3º, inciso XVIII, anexo)

Esse é o critério proposto pela legislação brasileira que apresenta importância extrema para a
tipificação penal e agravamento da pena. As características a serem observadas para essa
classificação estão listadas nos artigos 16 e 17 do Decreto nº 3.665, de 20 de novembro de
2000 (R-105)5.

Finalizando...

Neste módulo, você estudou que:

Balística, por definição, é a parte da física que estuda o impulso, o movimento e


impacto dos projéteis, entendendo-se por projétil qualquer sólido que se move no
espaço após haver recebido um impulso;

A balística pode ser dividida em: balística interior, balística exterior e balística
terminal;

Balística forense é a parte da balística de interesse da justiça;

Conforme o anexo do Decreto nº 3.665, de 20 de novembro de 2000 (R-105), armas


de fogo são: “armas que arremessam projéteis empregando a força expansiva dos
gases gerados pela combustão de um propelente confinado em uma câmara que,

5
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3665.htm
normalmente, está solidária a um cano que tem a função de propiciar continuidade à
combustão do propelente, além de direção e estabilidade ao projétil”;

Dentre os inúmeros critérios para a classificação armas de fogo, podem ser destacados
alguns, como alma do cano, carregamento, inflamação, funcionamento, uso e
mobilidade;

Os aspectos legais relacionados aos conceitos e os aspectos de classificação de arma


de fogo estão descritos no Decreto nº 3.665, de 20 de novembro de 2000 (R-105).
Módulo 2 – Armas de porte

Apresentação do Módulo

Como você estudou no módulo 1, “as armas de porte são armas de fogo de dimensões e peso
reduzidos, que podem ser portadas por um indivíduo em um coldre e disparadas,
comodamente, com somente uma das mãos pelo atirador; enquadram-se, nesta definição,
pistolas, revólveres e garruchas”. (Decreto nº 3.665, art. 3º, inciso XIV, anexo)

As armas de porte, pelas características de peso e dimensões reduzidas e pela facilidade de


manejo e porte, são as armas comumente utilizadas na prática de crimes, e, por conseguinte,
de maior interesse para a polícia, especificamente para a criminalística e para a balística
forense.

A análise preliminar das armas envolvidas em crimes ocorridos no DF e na grande maioria


dos estados brasileiros mostra que elas apresentam, em sua grande maioria, algumas
características comuns, ou seja:

 Trata-se de armas de porte, de origem nacional; são usualmente pistolas e


revólveres produzidos, na sua grande maioria, pelos produtores de armas de nosso
país;

 Em relação aos calibres nominais dessas armas, a maior incidência verifica-se


entre os pertencentes à família .38, com especial destaque ao .38 Special e ao .380
Auto ou .380 ACP (9mm Browning), que, dentro daquelas armas consideradas de
uso permitido, são as que apresentam maior potencial energético e maior alcance
máximo e útil. Logo, são os de maior potencial lesivo;

 Usualmente são armas seminovas (menos de dez anos de uso) que apresentam seus
mecanismos operando de forma satisfatória.

Diante disso, entre as armas de porte, o maior interesse reside no estudo dos revólveres e
pistolas, os quais serão objeto de estudo neste módulo.
Objetivo do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

 Classificar armas de porte;

 Identificar a origem, o histórico, os principais componentes, mecanismos e sistemas de


operação dos revólveres e pistolas;

 Identificar os aspectos legais contidos no Decreto nº 3.665, de 20 de novembro de


2000, relacionados ao conteúdo do módulo.

Nota

Mesmo sendo consideradas armas de porte, não serão estudadas neste curso as garruchas e
derringers, dando prioridade ao revólver e à pistola.

Estrutura do Módulo

Aula 1 – Revólveres

Aula 2 – Pistolas

Aula 1 – Revólveres

1.1. O que é um revólver

O nome revólver origina-se da palavra da língua inglesa revolve, que significa girar, dar
voltas.

O revólver, pela definição encontrada no Decreto nº 3.665, de 20/11/20001, é uma “arma de


fogo de porte, de repetição, dotada de um cilindro giratório posicionado atrás do cano, que
serve de carregador, o qual contém perfurações paralelas e equidistantes do seu eixo e que
recebem a munição, servindo de câmara.” (art. 3º, inciso LXXIV, anexo)

A principal característica de um revólver é a presença de um tambor ou cilindro giratório


com várias câmaras (perfurações paralelas e equidistantes do seu eixo destinadas a receber a

1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3665.htm
munição), o qual executa um arco de revolução, alinhando câmara, percussor e cano em
consequência da ação mecânica de armar o cão, ou de acionar o gatilho.

Outra característica do revólver é possuir um só cano com calibres variados. Embora


houvesse experimentos anteriores, a invenção do revólver é atribuida a Samuel Colt, que em
1835/36 patenteou uma arma com sistema de tambor com várias câmaras que, ao serem
giradas, alinhavam-se com um único cano.

1.2. Principais partes de um revólver

São quatro as partes essencias de um revólver: armação, tambor, cano e mecanismos.

Estude, a seguir, cada uma delas.

1.2.1. Armação

A armação de um revólver apresenta três funções principais. A primeira delas é a de permitir


a empunhadura, fazendo com que o revólver seja comodamente sustentado e com fácil
visada. Em segundo lugar, a armação tem a função de alojar todos os mecanismos de disparo
e segurança e, ainda, de sustentação do tambor e do cano. E, por último, a de possibilitar a
identificação da arma, pois geralmente é nessa peça que são gravados os números de série,
logomarca dos fabricantes, entre outros dados.

As primeiras armações dos revólveres de


retrocarga eram rígidas, ou seja, o acesso ao
tambor era feito por meio de uma janela de
obturação lateral (corte na culatra), por onde
eram introduzidos os cartuchos, câmara a
câmara – com o giro do tambor – e, da mesma
forma, extraíam-se os estojos deflagrados, com
o auxílio de uma vareta de extração situada abaixo e próxima ao cano (a posição exata da
vareta de extração variava conforme o fabricante e modelo do revólver).
Ainda hoje são produzidos revólveres de armação rígida, como alguns modelos dos
revólveres da indústria Ruger.

Em 1870, a indústria Smith & Wesson – fundada por Horacio Smith e Daniel B. Wesson –
criou o revólver basculante, que se caracteriza por possuir um sistema de fechamento e
abertura na parte alta da armação e um eixo no
ponto médio inferior da arma. Uma vez que o
sistema de fechamento estivesse liberado, o cano
e o tambor giravam em torno desse eixo, e uma
peça, em formato semelhante ao de uma estrela
(extrator), era impulsionada pela ação de uma
mola e extraía todos os cartuchos ou estojos
deflagrados de uma única vez. Essa foi a
primeira arma de armação articulada (basculante), e diversas indústrias no mundo passaram a
produzir revólveres com esse tipo de armação.

O outro tipo de armação articulada é a de tambor reversível. Nesse tipo de armação, o


tambor é sustentado por um suporte, peça que
permite o deslocamento dele de sua posição
normal (do espaço retangular onde é encaixado
na armação) para as operações de carregar,
descarregar e retirar estojos deflagrados. De
modo diverso dos revólveres de armação
articulada, para descarregar os cartuchos ou
para retirar os estojos deflagrados, é necessário
apertar a vareta do extrator obtendo-se a
retirada de todos os cartuchos ou estojos das câmaras de uma única vez. Para abrir o tambor,
basta pressionar o dedal serrilhado (chaveta de abertura do tambor), que deslocará o ferrolho,
liberando a haste central do seu encaixe (eixo que fixa o tambor à armação, em torno do qual
o tambor gira.).
1.2.2 Tambor

O tambor é a peça mais característica de um revólver, pois remete ao próprio conceito de


revolver, de girar. Em um revólver, o tambor é a peça dimensionada para resistir às elevadas
pressões geradas pela deflagração do cartucho, e foi desenhada para acondicionar a munição
em câmaras com dimensões compatíveis aos cartuchos de calibre correspondente.

A câmara é uma perfuração que apresenta diâmetros diferentes ao longo do eixo longitudinal
e varia em quantidade conforme o modelo do
revólver, sendo dispostas paralelas ao eixo da arma
e equidistantes do centro do tambor. Essa variação
também pode ser verificada quanto ao sentido de
giro do tambor (como nos revólveres Colt, que
apresentam o giro no sentido horário enquanto a
maioria das marcas, entre elas a Taurus, Rossi e
Smith & Wesson, no sentido anti-horário). Essa
informação muitas vezes é de extrema importância na elucidação da dinâmica dos fatos. As
câmaras apresentam um pequeno estrangulamento em sua parte anterior (headspace) que
trava o estojo, permitindo apenas a passagem do projétil. As câmaras, na sua parte posterior,
são recortadas de modo a permitir o encaixe da orla do estojo e da coroa do extrator.

Nos revólveres de armação articulada – quer basculante, quer de tambor reversível –, no


centro do tambor trabalha o sistema de extração, composto de diversas peças, principalmente
do extrator. A coroa do extrator é uma parte denteada (cremalheira) do extrator, na qual age
o impulsor do tambor fazendo-a girar e permitir o perfeito alinhamento entre cano, câmara e
percussor.

Os tambores apresentam em sua parte posterior externa recortes que permitirão o encaixe do
retém do tambor, peça que tem por função travá-lo, impedindo o giro, de forma a garantir o
alinhamento já mencionado. Os tambores de revólveres podem apresentar em sua parte
anterior recortes chamados de caneluras, que têm por função facilitar a pega e o giro manual
do tambor durante o processo de carregamento. Como essa função não é essencial, existem
também tambores de revólveres sem caneluras – são denominados de tambores lisos.
1.2.3. Cano

Da mesma forma que o tambor, o cano é uma peça sujeita a elevadas pressões e, por isso, foi
dimensionado para resistir a elas. Durante toda a sua extensão, o projétil é acelerado pela
força expansiva dos gases oriundos da queima do propelente e adquire velocidade2. A ação
dos gases sobre a parede do cano é o que acarreta a pressão elevada.

O cano não só é responsável pela energia cinética e velocidade do projétil, mas também – e
principalmente – pela direção que imprime a ele. A ação dos gases sobre o projétil faz com
que ele adquira velocidade e energia cinética; entretanto, a direção e o sentido que o projétil
apresenta é a mesma do local para onde o cano está voltado, tanto que parte do sistema de
pontaria (massa de mira) está montada sobre ele. Os canos geralmente apresentam uma
pequena inclinação para diminuir o efeito da gravidade sobre o projétil nas distâncias para as
quais o sistema de pontaria está aferido.

Eles são responsáveis ainda pela velocidade angular


que o projétil adquire em consequência de sua
passagem forçada através do raiamento do cano.
Esse movimento rotacional do projétil em relação
ao seu eixo longitudinal é extremamente importante
para sua estabilidade e alcance. O número de raias,
a inclinação e sentido de giro delas, profundidade e
outros valores variam conforme o fabricante e até o modelo do revólver.

O cano é ligado à armação geralmente por rosca, podendo apresentar um pino de segurança
que garante o seu travamento.

No processo de produção dos canos dos revólveres, as duas etapas mais conhecidas são a
perfuração e a confecção do raiamento; entretanto, os canos apresentam na sua extremidade
posterior o cone de forçamento ou cone de pressão. Esse cone tem a função de facilitar a
entrada do projétil no cano, uma vez que o diâmetro do cano é menor que o diâmetro do
projétil e, sem ele, as deformações por fricção e impactos que o projétil sofreria seriam
grandes.

2
Para um mesmo cartucho, guardadas as devidas proporções, quanto maior for o comprimento do cano, maior
será a velocidade com que o projétil o abandona, porque permitirá a queima total do propelente.
No pequeno espaço entre o final do tambor e o início do cone de pressão (gap), o projétil
descreve um voo livre. Quanto menor for esse espaço, maiores serão os valores de precisão e
estabilidade do projétil. Na extremidade anterior, verifica-se a coroa ou crista, que tem por
função permitir uma saída uniforme dos gases pelo cano. Sem a uniformização realizada pela
crista, esse escape diferenciado dos gases, que aconteceria em decorrência do raiamento,
poderia gerar um desvio na trajetória do projétil.

Na região externa dos canos dos revólveres é comum encontrar gravações que identificam o
calibre nominal da arma, o fabricante, o país de produção, entre outros dados. O cano pode
apresentar reforços, que geralmente caracterizam o modelo da arma. Em sua parte inferior,
pode haver uma presilha de fixação da vareta do extrator e indiretamente da haste central
(aferrolhamento duplo).

1.2.4. Mecanismos

Os mecanismos dos revólveres são compostos de três sistemas básicos, que funcionam de
forma interligada:

- Sistema de disparo e percussão;

- Sistema de repetição;

- Sistema de segurança.

Sistema de disparo e percussão

Embora funcionando de forma integrada, o sistema de percussão é composto principalmente


pelo gatilho e impulsor do gatilho, cão, percussor, alavanca de armar e mola real, todas essas
peças com as suas respectivas molas e pinos.

Considerando o tambor do revólver carregado, pode-se ter o disparo a partir de duas ações,
que acabam por classificar os mecanismos de disparo em:

- Ação simples – Caracteriza-se por requerer o engatilhamento manual da arma


por meio do recuo do cão até a posição de armado (travado à retaguarda),
momento em que o tambor gira, promovendo o alinhamento da câmara com o
cano para posterior acionamento da tecla do gatilho. Acionando o gatilho,
obtém-se, com o impacto do percussor sobre a espoleta, a detonação desta e a
deflagração do cartucho.

As armas que só funcionam em ação simples, sem o engatilhamento prévio do


cão, não disparam.

Nota

Como curiosidade, vale lembrar que essas armas caracterizaram os filmes sobre a conquista
do oeste americano, onde o cão apresentava um prolongamento bem mais acentuado
(“orelha” do cão maior) com a finalidade de facilitar o engatilhamento. Nesses filmes, o
atirador usa a palma de uma das mãos para chocar-se com o prolongamento do cão,
aumentando a velocidade da sequência de disparos.

- Ação dupla – Caracteriza-se por promover automaticamente o recuo do cão e o


giro do tambor à medida que se pressiona a tecla do gatilho, até a posição em que
o cão é liberado e, ao avançar pela pressão da mola real, gera o impacto do
percussor sobre a espoleta, a detonação desta e a deflagração do cartucho.

Nota

Diversos modelos de revólveres apresentam-se com o cão oculto ou embutido – a exemplo


do revólver Taurus, modelo 85H – ou sem o cão (hammerless).

A maioria dos revólveres atuais pode operar tanto em ação simples quanto em ação dupla,
conforme as definições acima. Dessa forma, para alguns autores essas armas são de ação
dupla, enquanto para outros essas armas são de movimento duplo.

Os revólveres atuais apresentam dois sistemas diferentes de percussão, que consideram,


basicamente, a montagem do percussor: percussão direta e percussão indireta.

- Percussão direta – O percussor é parte integrante do cão, podendo ser um


prolongamento do cão (fixo), ou estar afixado por um pino (oscilante);

- Percussão indireta – O percussor se encontra em espaço próprio, na armação, e


recebe o impacto do cão de forma indireta. Com o desenvolvimento de sistemas
de segurança, como o sistema Irwing Jonhson (em que o cão irá impactar-se
contra a sua alavanca e ela, por sua vez, contra ele), e por causa dessa segurança,
esse tipo de percussão passou a ser adotado por inúmeros fabricantes com as
respectivas modificações.

Nota

Nos modernos revólveres Taurus, o sistema de segurança é semelhante ao mencionado: o


cão irá colidir com a barra de transferência e ela, por sua vez, contra o percussor.

Os primeiros revólveres eram de


percussão extrínseca, uma vez que ainda
não existia a figura do cartucho, como
pode ser observado no tambor do
revólver Remington New Army, na foto
ao lado.

Sistema de repetição

O sistema de repetição é composto principalmente pelo conjunto do extrator (cuja função


principal é a extração dos estojos deflagrados) do impulsor do tambor (que juntamente com a
coroa ou cremalheira do extrator fazem o tambor girar e permitem o alinhamento do cano,
câmara e percussor) e do retém do tambor (peça que encaixa nos recortes próprios do tambor
de forma a garantir o alinhamento supramencionado).

Nota

O sistema de segurança será discutido em item próprio.

1.3. Classificação dos revólveres

Nos Estados Unidos, Espanha, Argentina e outros países, a principal classificação dos
revólveres refere-se ao sistema de municiamento, classificando-os, pelo processo de acesso
ao tambor, em: obturador lateral (armação rígida) e basculantes ou oscilantes (armação
articulada).

No Brasil, classificamos os revólveres quanto à(ao):

- Armação;

- Sistema de Disparo;

- Percussão;

- Extração;

- Funcionamento.

Estude sobre cada um deles!

1.3.1 Quanto à armação

Quanto à armação, os revólveres dividem-se em:

- De armação rígida – Pode ser inteiriça (Ruger Single Six) ou desmontável (caso do
obsoleto revólver Remington New Army).

- De armação articulada – Subdividida em revólveres basculantes ou de tambor


reversível.

1.3.2. Movimento simples

Quanto ao sistema de disparo, os revólveres são de movimento simples quando o revólver


opera somente em ação simples ou somente em ação dupla. Quando opera nos dois sistemas,
são classificados como de movimento duplo.

1.3.3. Percussão

Quanto à percussão, são classificados como:

- Percussão extrínseca (obsoleta);


- Percussão intrínseca – Subclassificada em percussão direta e indireta3.

Nota

Existe ainda o sistema obsoleto de


percussão perpendicular do sistema
Lefaucheux, como o revólver que
pertenceu ao Duque de Caxias (foto
acima).

1.3.4. Extração

Quanto à extração, os revólveres são classificados em:

- De extração simples (armação rígida) e simultânea ou automática (no caso dos


revólveres de tambor basculante);

- Manual (no caso dos revólveres de tambor reversível).

1.3.5. Sistema de funcionamento

Quanto ao sistema de funcionamento,


classificam-se os revólveres em:

- Revólveres de repetição (caso


geral);

- Revólveres semiautomáticos –
raros casos de revólveres (foto
ao lado).

3
As classificações em fogo central ou fogo radial são próprias para os cartuchos utilizados nessas armas.
Embora indiquem a posição de incidência do percussor no cartucho, e por isso sejam também empregadas nas
armas de fogo, são próprias para as munições.
Aula 2 – Pistolas

2.1. O que é pistola

O termo pistola é um termo genérico que já


designou diversos tipos de armas, desde pequenos
punhais ou adagas no século XV – que eram
escondidos entre a roupa –, passando por armas
auxiliares da cavalaria, no século seguinte, até
todas as armas de fogo curtas, que poderiam ser
empunhadas com uma mão no século XVIII.

Normalmente, quando nos referimos a pistolas nos dias de hoje, geralmente estamos nos
referindo a pistolas semiautomáticas, ou seja, a armas de porte, que aproveitam a força
expansiva dos gases para operar o mecanismo que irá extrair da câmara o estojo deflagrado,
ejetá-lo, e, com o retorno do mecanismo à posição de disparo, introduzir um novo cartucho
na câmara, deixando-a em condições de efetuar um novo disparo.

Pistolas são armas em que, enquanto existir munição no carregador, a introdução de um novo
cartucho na câmara é realizada de forma automática após o disparo ter sido efetuado, sendo
necessário acionar a tecla do gatilho para todo o disparo que se deseje fazer – embora
existam pistolas automáticas, como a pistola Glock, modelo G18 C, que realiza rajadas de
três tiros, ou outras capazes de efetuar disparos automáticos.

2.2. Breve histórico

As pistolas semiautomáticas desenvolveram-se a partir da metralhadora criada por Hiram


Maxim em 1883, que usava a ação dos gases no
momento do disparo para retirar o estojo deflagrado
e colocar outro cartucho na câmara. As experiências
de Maxim desenvolveram-se a partir de carabinas
Winchester 1866, calibre .44-40. O primeiro
modelo de pistola semiautomática foi criada pelo
armeiro alemão Hugo Bochardt em 1894. Segundo diversos autores, era uma arma
volumosa, frágil, incômoda, tendo sido produzidos poucos modelos dela. Em 1896 surgiu o
modelo C-96, criada por Paul Mauser, que foi utilizada em diversas revoluções e guerras, a
exemplo da guerra dos bôeres na África do Sul. No mesmo ano, surgiu a pistola Luger,
criada por George Luger e adotada pelo exército alemão em 1908, no calibre 9mm Luger.

O cantor e compositor Lenine, em uma das estrofes da música Candeeiro encantado cita:

“(...) Já foi-se o tempo do fuzil papo amarelo pra se


bater com poder lá do sertão, mas Lampião disse
que contra o flagelo tem que lutar com parabelo na
mão (...)”

Lenine cita duas armas que foram muito populares


no Brasil e muito utilizadas, quer no cangaço, como
relata a música, quer em quase todos os estados.

Sobre o fuzil papo amarelo, que foi uma das armas presentes na história do nosso país, você
estudará mais tarde, mas o termo “parabelo” era a designação da pistola de George Luger,
adotada pelo exército alemão em 1908 com o nome de P08 ParaBellum-Pistole, que vem da
expressão latina “Si vis pacem para bellum” que quer dizer: “Se queres a paz, prepara-te
para a guerra”, para dar a ideia que era uma arma de guerra.

Um dos principais armeiros que trabalharam com pistolas foi John Browning, que, a partir de
1900, desenvolveu pistolas para a Colt e FN – desde a clássica Colt, modelo 1911, até a
Browning High Power, comercializada em 1935, que foi a primeira pistola com carregador
bifilar. Browning foi o responsável pelos cartuchos mais conhecidos de pistola, como o 25
ACP (Automatic Colt Pistol) (6,35 x 16mm), o .32 ACP (7,65 x 17mm) e o .380 ACP (9 x
17mm). A primeira pistola de ação dupla foi a Walter PP, desenhada em 1929 para uso
policial. Assim, como diversas outras melhorias, que vêm aperfeiçoando as pistolas até os
dias de hoje.
2.3. Partes principais de uma pistola

As principais peças de uma pistola são: cano, ferrolho, armação e carregador.

Estude, a seguir, cada uma delas.

2.3.1. Cano

O cano das pistolas tem as mesmas funções e apresenta as mesmas características já


estudadas por você em revólver. Como na maioria das armas, nas pistolas semiautomáticas o
cano e a câmara são uma mesma peça, e a câmara localiza-se na parte posterior do cano.

Como ela destina-se a receber a munição, geralmente apresenta em sua porção inferior uma
rampa que facilita a introdução do cartucho, e, nas pistolas dotadas de extrator, apresenta um
recorte para o encaixe dessa peça, tanto na câmara quanto no aro do estojo. A quantidade e
orientação das raias do cano irão variar conforme o fabricante e o modelo da arma.

Os canos podem ser fixos (presos à armação) ou móveis, dependendo do sistema de


funcionamento da arma. As pistolas com cano fixo normalmente operam pelo sistema de
recuo direto (Blowback simples), em que o recuo do ferrolho é controlado pelo peso, inércia
do ferrolho e resistência da mola recuperadora. É muito usado para os calibres menores,
como o 7,65mm e o .380 ACP.

O termo “Blowback” vem do inglês e significa “sopro à retaguarda” ou “sopro para trás”.
Quando se dispara uma pistola, os gases gerados pela queima da pólvora não só impulsionam
o projétil; impulsionam também o conjunto do ferrolho à retaguarda, permitindo a extração
do estojo percutido e, em consequência do retorno do ferrolho, a introdução de um novo
cartucho na câmara. Como dito, o recuo do ferrolho e a pressão dentro da câmara são
controlados pela massa deste – que é muito maior do que a do projétil – , pela inércia de
movimento do ferrolho – que também é muito maior do que a do projétil – e, ainda, pela
resistência da mola recuperadora, não permitindo que o conjunto do cano/ferrolho se separe
enquanto a pressão é alta, o que poderia causar danos à arma e lesões no atirador. Esse
sistema é chamado de Blowback simples, recuo direto ou massa inercial e é empregado em
armas de calibres menos potentes.
No sistema de operação por recuo curto (Blowback com trancamento), o cano e o ferrolho
são móveis, ficando interligados no momento inicial do disparo e depois recuam juntos por
uma curta distância até que o cano é detido e o ferrolho é liberado, continuando seu
movimento à retaguarda até a expulsão do estojo deflagrado e a introdução de um novo
cartucho na câmara. É o sistema usado para armas de calibre 9mm Luger, .40 S&W e .45
ACP, entre outros, pois, devido à maior potência desses calibres, faz-se necessário esse
trancamento inicial, no qual o cano e o ferrolho recuam juntos até que haja a diminuição da
pressão dos gases no interior da câmara.

Para que você entenda melhor o sistema de operação por recuo curto, veja o exemplo das
pistolas da marca Colt, modelo 1911. A ilustração abaixo foi extraída do livro Herida por
arma de fuego, de Vincent J. M. Di Maio
(ediciones La Rocca, Buenos Aires, 1999).
No momento do disparo, o cano e o ferrolho
estão unidos formando uma única peça, por
meio de saliências e ressaltos que formam
um sistema de engate (culatra aferrolhada).
Após o disparo, no momento em que a
pressão diminui e o projétil praticamente
abandona o cano, o conjunto do ferrolho e
cano começa a se deslocar à retaguarda, em consequência da ação dos gases. Após um
pequeno deslocamento, a parte posterior do cano sofre um pequeno deslocamento vertical
(queda), soltando-se do sistema de engate e sendo detido por uma peça específica. O ferrolho
continua seu deslocamento à retaguarda, extraindo o estojo da câmara, que, ao impactar-se
contra o ejetor, é expelido pela janela de ejeção. O ferrolho, ao regressar pela ação da mola
recuperadora, coleta um novo cartucho no carregador, introduz esse cartucho na câmara,
facilitado pela inclinação da parte posterior do cano e da rampa da câmara, e empurra o cano
até o conjunto ferrolho e cano travarem-se novamente nos engates, o que deixa a arma pronta
para um novo disparo.
Outras formas de operação surgiram, como o sistema a gás das pistolas HK P-7 e da Desert
Eagle. Nesse sistema, parte dos gases oriundos da queima do propelente são conduzidos por
um pequeno orifício situado no cano e trabalham com um êmbolo, de forma a exercer pressão
para que o ferrolho seja
movimentado, de maneira
semelhante aos modernos fuzis.

2.3.2. Ferrolho

O ferrolho é uma peça móvel que


realiza deslocamentos no sentido do
eixo longitudinal da arma, em canaletas ou guias próprias para isso, promovendo a ação de
retirar o estojo deflagrado e carregar um novo cartucho. A placa obturadora, parte do
ferrolho que fica em contato com a base do cartucho, é rebaixada para garantir um melhor
encaixe do cartucho, câmara e ferrolho e a estanqueidade do conjunto. No ferrolho
encontram-se o percussor e o extrator (para os modelos que utilizam essa peça), as
respectivas molas e pinos de fixação, bem como uma série de outras peças que irão variar
conforme o sistema de percussão e o projeto da arma.

2.3.3. Carregador

O carregador tem por função acondicionar a munição. Normalmente, os carregadores são


produzidos em chapas de aço e apresentam o formato de caixa, apresentando a munição
disposta em uma fila (unifilar) ou em duas filas (bifilar). O carregador geralmente é
composto pelo corpo, mesa transportadora, mola e base. Algumas pistolas apresentam
carregadores do tipo caracol, que apresentam maior capacidade, e outras pistolas (a exemplo
da pistola Mauser, modelo C 96, calibre 7,63mm) têm o carregador como parte integrante da
arma.
2.3.4. Armação

A armação, da mesma forma que o revólver, apresenta as funções de:

- Empunhadura;

- Acondicionar o ferrolho (geralmente o cano, quando for uma peça independente) e a


mola recuperadora com a sua guia;

- Conter os mecanismos de disparo;

- Compor o mecanismo de segurança (dependendo do modelo);

- Portar os dados de identificação da arma.

Na armação, verifica-se ainda o ejetor, sendo que na maioria das pistolas é em sua
empunhadura que está alojado o carregador.

As armações são confeccionadas em diversos materiais, como aço, alumínio e suas ligas, e em
polímeros, como a pistola H.K., modelo VP70Z (Heckler & Koch), uma das precursoras em
armação de polímeros.

2.3.5. Mecanismos

Assim como você estudou sobre os revólveres, as pistolas também possuem de três sistemas
básicos de mecanismos:

- Sistema de disparo e percussão;

- Sistema de repetição;

- Sistema de segurança.

Sistema de disparo e percussão

Os mecanismos de disparo são compostos pelo gatilho, tirante do gatilho ou peça semelhante
– responsável por levar os movimentos do gatilho ao cão (percussão indireta) ou ao próprio
percussor (percussão direta) –, armadilha ou peça semelhante que trava e libera o cão da
posição de armado.
Nota

O cão e o próprio percussor, bem como as molas e respectivos pinos, constituem-se nas
principais peças que trabalham de forma interligada.

Sistema de repetição

Da mesma forma que os revólveres, as pistolas podem funcionar em ação simples, o que
requer que o atirador, para efetuar o primeiro disparo, engatilhe manualmente o cão, puxando-
o para trás. Após o primeiro disparo, pela ação do ferrolho (no seu ciclo de extrair o estojo e
alimentar a arma), o cão é armado sem a necessidade de qualquer outra operação manual.

Nas pistolas de ação dupla, como a pistola Taurus 24/7, o tirante do gatilho atua diretamente
sobre o percussor, comprimindo a sua mola. Após pequeno percurso, o percussor é liberado,
incidindo contra a espoleta; obtém-se, então, a consequente deflagração do cartucho.

Nota

Sistemas de funcionamento parecidos são os que operam nas pistolas Glock, HK P7-M8 e
M13, que requerem que o gatilho seja armado previamente pela ação do ferrolho e não podem
ser classificadas como de ação dupla simples.

Nas pistolas de dupla ação (movimento duplo), desde que carregadas, o primeiro disparo pode
ser efetuado apertando o gatilho, não sendo necessário o engatilhamento manual do cão. Os
disparos seguintes são efetuados como nas pistolas de ação simples, com o cão sendo
naturalmente armado pelo movimento do ferrolho após o disparo.

As pistolas de dupla ação modernas, como algumas pistolas Beretta e Taurus, possuem ainda
uma tecla (alavanca), localizada em seu ferrolho ou armação, que, ao ser acionada, permite
que o cão seja desarmado, abaixando-se para sua posição habitual (desarmador do cão). A
grande vantagem desse tipo de trava é a possibilidade de se desarmar o cão após ser colocado
um cartucho na câmara, ou após terem sido efetuados alguns disparos com maior segurança.

Nota

O sistema de segurança será discutido em item próprio.


2.4. Classificação das pistolas semiautomáticas

As pistolas semiautomáticas são classificadas principalmente quanto à (ao):

- Cano;

- Percussão;

- Sistema de disparo;

- Funcionamento.

Estude sobre cada um deles!

2.4.1. Cano

Quanto ao cano, as pistolas são subdivididas em:

- Fixas – (à armação ou ao suporte do ferrolho);

- Móveis – (canos flutuantes).

Nota

Algumas pistolas, como as pistolas Taurus PT 51 e PT 53, apresentam o cano basculante, o


que consiste apenas na variação do sistema de cano fixo.

2.4.2. Percussão

Quanto à percussão, são classificadas em pistolas de percussão direta e de percussão indireta.

2.4.3. Sistema de disparo

Quanto ao sistema de disparo, as pistolas subdividem-se em:

- Movimento simples – Quando opera somente em ação simples;

- Ação dupla.

Quando opera nos dois sistemas, são classificadas como de movimento duplo.
2.4.4. Funcionamento

Quanto ao sistema de funcionamento, as pistolas são classificadas em:

- Recuo direto (Blowback simples);

- Recuo curto ou longo (Blowback com trancamento);

- Sistema a gás.

Nota

Outros sistemas, como o sistema Blow up (sopro para cima), utilizado na pistola Luger, estão
totalmente em desuso.

Finalizando...

 O revólver, pela definição encontrada no Decreto nº 3.665, de 20/11/2000, é uma


“arma de fogo de porte, de repetição, dotada de um cilindro giratório posicionado
atrás do cano, que serve de carregador, o qual contém perfurações paralelas e
equidistantes do seu eixo e que recebem a munição, servindo de câmara.” (art. 3º,
inciso LXXIV, anexo);

 São quatro as partes essencias de um revólver: armação, tambor, cano e mecanismos;

 Pistolas são armas em que, enquanto existir munição no carregador, a introdução de


um novo cartucho na câmara é realizada de forma automática após o disparo ter sido
efetuado, sendo necessário acionar a tecla do gatilho para todo o disparo que se
deseje fazer;

 As principais peças de uma pistola são: cano, ferrolho, armação e carregador.


Exercícios

1) As principais características que definem uma arma como arma de porte são:

a. ( ) Dimensões e peso reduzidos

b. ( ) Facilidade de manejo (Ex.: Pode ser disparada comodamente com uma das
mãos.)

c. ( ) Facilidade de porte (Ex.: Pode ser carregada em um coldre.)

d. ( ) Todas as alternativas anteriores

2) A armação de um revólver pode ser:

a. ( ) Rígida

b. ( ) Articulada do tipo basculante

c. ( ) Articulada com tambor reversível

d. ( ) Todas as alternativas anteriores

3) Podemos atribuir à armação do revólver as funções de:

a. ( ) Empunhadura, a qual permite que o revólver seja facilmente sustentado e facilite


a visada.

b. ( ) Alojar todas as peças e os mecanismos de disparo e segurança.

c. ( ) Portar os sinais identificadores da arma, como o número de série, logomarca e


outros dados.

d. ( ) Todas as alternativas anteriores

4) A peça que tem por função travar o tambor do revólver de modo que fique em
alinhamento o cano, câmara e percussor é o (a):

a. ( ) Impulsor do tambor
b. ( ) Retém do tambor

c. ( ) Haste central

d. ( ) Coroa do extrator

5) Podemos afirmar que a “mola real” e o “impulsor do gatilho” fazem parte do:

a. ( ) Sistema de percussão

b. ( ) Sistema de repetição

c. ( ) Sistema de segurança

d. ( ) Sistema de extração

6) Pode-se afirmar do sistema de operação Blowback com trancamento que:

a. ( ) Nele o cano está totalmente fixo.

b. ( ) O ferrolho recua após vencer a inércia de movimento e a força da mola


recuperadora de forma totalmente independente do cano.

c. ( ) O cano é basculante.

d. ( ) O cano recua juntamente com o ferrolho no qual está acoplado por alguma forma
de trancamento e, após a liberação desse trancamento pela ação de uma ou mais peças ou
encaixes, o cano permanece e o ferrolho continua seu movimento à retaguarda sob a ação
dos gases até a expulsão do estojo deflagrado e a introdução de um novo cartucho na
câmara, onde o cano estará novamente acoplado ao ferrolho.

7) Podemos dizer que nas pistolas de dupla ação (movimento duplo) com o cão externo que:

a. ( ) O primeiro disparo necessariamente é efetuado em ação simples, desde que as


pistolas estejam carregadas.

b. ( ) O primeiro disparo pode ser efetuado tanto em ação simples como em ação dupla
e a arma estará em condições de efetuar os disparos subsequentes em ação simples.

c. ( ) Necessariamente efetuará o primeiro disparo em ação dupla e os demais em ação


simples.
d. ( ) É necessário a ação do atirador em qualquer situação para realizar disparos em
ação simples.

8) O ferrolho exerce diversas funções em uma pistola semiautomática, promovendo a ação


de retirar o estojo deflagrado da câmara geralmente através do extrator e de introduzir um
novo cartucho na câmara. Para exercer suas funções, ele aloja diversas peças. Podemos
dizer que não está inserido no ferrolho:

a. ( ) O percussor

b. ( ) A trava do percussor

c. ( ) O ejetor

d. ( ) A placa obturadora

9) Assinale, entre as afirmativas abaixo, qual delas não é função ou consequência direta do
raiamento do cano de um revólver.

a. ( ) Promover a rotação do projétil, conferindo-lhe uma velocidade angular.

b. ( ) Melhorar o alcance máximo e a direcionabilidade do projétil.

c. ( ) Auxiliar a queima do propelente durante a passagem do projétil através do cano.

d. ( ) Melhorar a estabilidade do projétil em sua trajetória exterior, impedindo que ele


adquira movimentos erráticos como o tombamento e outros.
Módulo 3 – Armas portáteis

Apresentação do Módulo

Neste módulo você estudará as armas portáteis: espingardas, carabinas, fuzis, metralhadoras
e submetralhadoras.

Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Identificar e classificar as armas portáteis;

Analisar o histórico das armas portáteis;

Identificar os principais componentes, peças e sistemas de operação das armas


portáteis.

Nota

Neste módulo não será trabalhado um armamento específico, mas o que é comum a todas as
forças policiais, pois se acredita que assim você estará apto a descrever e melhor entender as
armas portáteis de que dispõe para uso, além de conhecer alguns detalhes de armas
congêneres que serão estudadas aqui.

Estrutura do Módulo

Aula 1 – Armas portáteis

Aula 2 – Espingardas

Aula 3 – Carabinas

Aula 4 – Fuzis, metralhadoras e submetralhadoras


Aula 1 – Armas portáteis

1.1. O que são armas portáteis

Como você já estudou na legislação específica (Decreto nº 3.665, de 20/11/2000), entende-se


por arma portátil a:

“arma cujo peso e cujas dimensões permitem que seja transportada por um único homem,
mas não conduzida em um coldre, exigindo, em situações normais, ambas as mãos para a
realização eficiente do disparo”. (art. 3º, inciso XXII, anexo)

Observe que a definição acima permite depreender que as armas portáteis podem ser
relacionadas às armas longas, tais como as espingardas, carabinas, fuzis, entre outras, que
apresentam a característica de uso individual.

Essas armas permeiam o universo policial, com empregos cada dia mais corriqueiros na
prática de crimes, especificamente os mais violentos, como assaltos a carros-fortes, roubos a
bancos, entre outros exemplos. Por outro lado, o seu emprego nas diversas unidades policiais
vem aumentando a cada dia, sendo extremamente comum a sua presença nas viaturas
policiais. Em quase todas as operações verifica-se a sua utilização pela eficiência e confiança
que esse armamento apresenta. Em função desse crescente uso, você deve mais do que nunca
conhecer sobre essas armas de fogo para melhor estabelecer a dinâmica do fato delituoso e
conhecer, entre os vestígios por elas deixados, os que podem ser encontrados na cena de
crime.

1.2. Classificação geral das armas portáteis

As armas portáteis são classificadas quanto:

À alma do cano;

À percussão;

Ao sistema de funcionamento.

Veja, a seguir, cada uma delas.

Quanto à alma do cano, as armas portáteis são subdivididas em:

- De alma lisa, como todas as espingardas;


- De alma raiada, como as carabinas e fuzis;

- Mistas, caso de armas que apresentam pelo menos um cano de alma lisa e
pelo menos outro de alma raiada.

Quanto à percussão, elas são classificadas em:

- De percussão direta;

- De percussão indireta.

Quanto ao sistema de funcionamento, são classificadas em:

- De tiro unitário ou simples, como as espingardas ou fuzis de um único cano;

- De tiro unitário múltiplo (espingardas ou fuzis de dois canos), de repetição,


semiautomática ou automática.

Aula 2 – Espingardas

2.1. O que é uma espingarda

Espingarda, pela definição da legislação específica (Decreto nº 3.665, de 20/11/20001, art. 3º,
inciso XLIX, anexo), é uma “arma de fogo portátil, de cano longo com alma lisa, isto é, não
raiada”.2

As espingardas são armas de fogo com empregos que variam desde a prática desportiva até a
utilização em combate.

2.2. Peças da espingarda

Basicamente, as principais peças de uma espingarda de modelo simples, como as espingardas


de um só cano e de tiro unitário, são:

1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3665.htm
2
Existem algumas espingardas modernas com alma raiada, a exemplo da espingarda da Mosberg, calibre 12,
modelo Trophy Sluger, com raiamento dextrogiro, pensadas especialmente para disparos com projéteis
singulares ou Slug. Muitas espingardas apresentam, após o calibre, a palavra “Gauge”, que pode ser traduzida
como calibre ou dimensão.
Cano com a câmara e o extrator;

Telha e coronha;

Caixa de mecanismos com gatilho, percussor, cão, molas e os pinos de fixação, bem
como sistema de abertura do cano.

A seguir, você estudará sobre elas.

2.2.1. Cano com câmara e extrator

O comprimento do cano varia com


as características do projeto e com a
Espingarda CBC, monocano, modelo 199-2
destinação que é dada à arma,
apresentando geralmente variações
compreendidas entre 500mm e
800mm.

Nas espingardas de retrocarga, na


parte posterior do cano, encontra-se
a câmara, destinada a alojar os
cartuchos.

As câmaras, nas espingardas modernas, apresentam comprimentos que podem ser de 70mm
ou de 75mm. As câmaras mais extensas são para a utilização de cartuchos Magnum,
naturalmente mais potentes.

Importante!

É importante observar que nas espingardas os cartuchos não ocupam toda a extensão da
câmara, pois os cartuchos com fechamento em estrela – sobre o qual se estudará mais à frente
– necessitam desse espaço para a abertura do estojo.

Junto à parte posterior da câmara trabalha o extrator, peça que promove a retirada do estojo
deflagrado com a abertura do cano. Na parte anterior dos canos, geralmente verifica-se o
choke que é uma pequena diminuição (estrangulamento) do diâmetro interno do cano, com
vistas a melhorar o agrupamento dos projéteis (balins).

2.2.2. A telha e a coronha

Como as espingardas são projetadas para


efetuar disparos utilizando-se as duas mãos e
ficando apoiadas no ombro, a coronha
consiste em uma das peças fundamentais em
todas as espingardas, estudando-se o seu
comprimento, altura e curvatura. Na parte
posterior da coronha, encontra-se a chapa da
soleira que, além de proteger a coronha, pode
dar maior aderência ao ombro e diminuir o
impacto provocado pelo recuo. A telha serve de suporte para uma melhor pegada e posição de
tiro.

2.2.3. Caixa de mecanismos

A caixa de mecanismos contém todos os


mecanismos de disparo e abertura do cano,
sendo que as principais peças nela montadas
são: gatilho, percussor, cão, molas e os pinos
de fixação.

Nota

Alguns modelos de espingardas de um cano e tiro unitário apresentam sistemas de segurança


contra disparo acidental.
Os principais modelos de espingardas de tiro unitário são as espingardas de cano único, de
canos duplos paralelos e de canos duplos sobrepostos.

2.3. Informações sobre outros modelos de espingardas

No Brasil, ainda é comum a utilização de espingardas de antecarga (espingardas de soca) e


percussão extrínseca, a maioria delas de produção artesanal. Nesse modelo de arma, a pólvora
é introduzida pela boca do cano, seguida pela bucha e os balins. A iniciação da pólvora
acontece pela detonação de espoleta colocada em uma peça comumente chamada de
“ouvido”, a qual permite que a chama e os gases aquecidos da detonação da espoleta atinjam
o interior da câmara, iniciando a queima do propelente.

Nos modelos de espingardas de repetição, o sistema mais comum é o sistema Pump Action ou
sistema de corrediça, que foi utilizado nas espingardas da Winchester, modelo 1897. Outro
exemplo desse sistema é o da espingarda Pump CBC 12. Nessa arma, a telha que
naturalmente é o apoio da mão do atirador apresenta também a função de movimentar o
mecanismo do ferrolho pela ação deslizante da telha e das hastes da corrediça, retirando o
estojo vazio ou o cartucho que se encontra na câmara e permitindo a introdução de um novo
cartucho. Nessa arma, os cartuchos são armazenados em um tubo de depósito localizado
abaixo do cano.

Nota

Em outros modelos de diversos fabricantes, os cartuchos são armazenados no carregador do


tipo cofre ou caixa (SPAS 15), ou em depósito localizado no corpo da arma.

Outro sistema de espingarda de repetição é por “ação Mauser”, em que uma alavanca ligada
ao ferrolho promove a extração e introdução de um novo cartucho.

Com as novas tecnologias, surgiram as espingardas semiautomáticas, como a Browning A-5,


e as que operam em sistema de repetição ou semiautomático, como as espingardas Benelli M3
e M4 super 90, as quais apresentam ainda o ferrolho de cabeça rotativa para o trancamento
deste na câmara, tecnologia empregada nos fuzis Colt, modelo M 16, entre outros.
2.4. Classificação das espingardas

Alguns autores classificam as espingardas em:

Espingardas de 1ª geração – Essas são as espingardas de tiro unitário, quer sejam de


um único cano ou de canos duplos dispostos paralelamente um ao outro ou
sobrepostos.

Espingardas de 2ª geração – Nessa categoria classificam-se as espingardas de


repetição como a Pump CBC 12, ou Mosberg 590.

Espingardas de 3ª geração – São as espingardas semiautomáticas, como a espingarda


Browning A-5.

Espingardas de 4.ª geração – São as espingardas que podem atuar tanto no sistema
semiautomático quanto no sistema de repetição, como a Benelli M3 Super 90.

Nota!

Vale relembrar que ainda há as armas mistas ou conjugadas, como aquelas que apresentam
um ou mais canos de alma lisa e um cano de alma raiada, a exemplo das diversas do tipo
drilling, que são armas com três canos onde se combinam geralmente dois canos de alma lisa
paralelos com um cano de alma raiada conectados em um mesmo sistema de disparo.

Entre as armas de dotação das forças armadas de diversos países estão espingardas que
operam em sistema automático, ou seja, que estão aptas para efetuarem rajadas, a exemplo da
espingarda AA-12, que apresenta a opção de usar um carregador do tipo caixa com 8
cartuchos ou um carregador do tipo tambor ou caracol com 20 ou 32 cartuchos (como aqueles
empregados nas primeiras submetralhadoras Thompson de calibre .45 ACP, imortalizado
pelos filmes policiais como Os Intocáveis3. Esta arma, que já aparece em uso em filmes
recentes, possui seletor de tiro com a opção da posição “travado”, tiro intermitente e
automático. A cadência de disparo teórica em sistema automático é da ordem de 360 tiros por
minuto, o que acarreta uma grande dispersão de balins sobre o alvo.

3
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-2770/
2.5. Alcance útil

A distância efetiva de utilização das espingardas é relativamente pequena, em função do


formato desfavorável dos grãos esféricos (balins), o qual causa uma grande diminuição na
velocidade e consequentemente na energia cinética. Dessa forma, o tamanho dos grãos de
chumbo são de fundamental importância na determinação do alcance útil e no grau das lesões
ou danos por eles produzidos.

O alcance útil em armas de alma lisa é determinado pela dispersão dos balins e pelas
possibilidades práticas de sua utilização pelo atirador. Nas espingardas, o diâmetro do círculo
de dispersão ou agrupamento é controlado pelo choque. Assim, o alcance útil teórico (na
prática esses valores são menores) torna o choque pleno (full choke) usado para tiros entre
44,5m e 54,5m (45 e 55 jardas); o choque modificado (modified choke) para tiros entre
24,75m e 44,5m (25 a 45 jardas); o choque cilíndrico modificado (improved cylinder) é usado
para tiros até 34,65m (35 jardas). O choque cilíndrico apresenta alcance útil da ordem de 30
metros. Essas são as distâncias que, de acordo com o choque do cano de uma espingarda, a
mesma ainda possui alcance útil.

Na prática, o alcance útil em tiros produzidos com espingardas é a distância-limite do tiro


eficaz, isto é, a distância além da qual os chumbos não possuem mais energia capaz de causar
lesões consideráveis. Com a utilização de projéteis singulares, o alcance útil é da ordem de
100 a 110 metros.

Aula 3 – Carabinas

3.1. O que é uma carabina

A carabina, pelo Decreto nº 3.665, de 20/11/2000 4(art. 3º, inciso XXXVII, anexo) é uma
“arma de fogo portátil semelhante a um fuzil, de dimensões reduzidas, de cano longo –
embora relativamente menor que o do fuzil – com alma raiada”.

Embora essa definição apresente-se um tanto quanto confusa no que se refere a diferenciar a
carabina do fuzil, é possível tentar entendê-la melhor.

4
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3665.htm
O termo “carabina” apresenta relatos diferentes quanto a sua origem; entretanto, no século
XVII, ele era empregado para designar os arcabuzes e mosquetes de dimensões reduzidas, de
forma a torná-los de mais fácil manejo e
transporte, utilizados pelas tropas montadas.

O comprimento do cano das carabinas é que


as caracterizam como tal. Alguns destacam
que ele mede até 20 polegadas, ou seja, 508
milímetros; para outros devem ser menores
que 22 polegadas, ou seja, 558.8 milímetros.

3.2. Sistemas utilizados pelas carabinas

O maior destaque das carabinas acontece com as carabinas produzidas pela Winchester
(Winchester Repeating Arms Company), calibre .44-40, nos modelos 1866 e 1873, devido ao
papel que desempenharam na colonização americana e ao fato de terem sido imortalizadas
pelo cinema. Essas carabinas eram armas de repetição, com acionamento por alavanca (lever
action) localizada abaixo da caixa de mecanismo, sendo que essa alavanca, graças ao seu
desenho, exercia também a função de guarda-mato. Essas armas apresentavam outra
inovação: a utilização de um sistema de alimentação por depósito tubular. Com o movimento
semicircular da alavanca, indo à frente e retornando à posição de origem, eram realizadas as
seguintes operações:

1. Desbloqueio do ferrolho da câmara;

2. Recuo do ferrolho – Com o movimento à frente da alavanca, recuava-


se o ferrolho, promovia-se a extração do estojo ou do cartucho que se
encontrava na câmara e armava-se o cão;

3. Introdução do cartucho na câmara de forma propícia – Ao final do


curso do ferrolho, a mesa transportadora, juntamente com um cartucho
oriundo do tubo de depósito, inclinava-se, deixando o cartucho em
inclinação propícia para ser introduzido na câmara. Com o retorno da
alavanca, o ferrolho avançava e introduzia na câmara o cartucho que se
encontrava na mesa transportadora;
4. Travamento do ferrolho, cartucho e câmara perfeitamente alinhados,
impedindo a abertura do conjunto no momento do disparo.

Esse sistema permanece atual e ainda hoje é utilizado por diversos fabricantes, a exemplo da
indústria Rossi, que produzia as carabinas Pumas (sistema Lever Action) nos calibres: .38
Special, .357 Magnum e .44 Special, entre outros calibres. Hoje essas carabinas são
produzidas pela indústria Taurus e também por diversos fabricantes no mundo inteiro.

Outro sistema de repetição utilizado nas carabinas é o sistema de corrediça ou sistema Pump
Action (o mesmo sistema já estudado por você anteriormente), no qual a telha, além de ser o
apoio da mão, tem a função de movimentar o mecanismo do ferrolho pela ação das hastes da
corrediça, retirando o estojo vazio ou o cartucho que se encontra na câmara e permitindo a
introdução de um novo cartucho. No nosso país, a indústria Rossi produziu as carabinas
Gallery de calibre. .22, que utilizavam cartuchos .22 Short (curto), .22 Long (longo) e .22
Long Rifle (L.R.), ou no calibre .22 Magnum.

As carabinas da Winchester com acionamento por alavanca tiveram papel importante não só
na colonização americana, mas também na nossa história, pois foram utilizadas no cangaço,
na Coluna Prestes e até em diversas emboscadas feitas na luta por terra. Eram vendidas em
mercearias no interior do Brasil, como lembra a música do Lenine “Já foi-se o tempo do fuzil
papo amarelo (...)”. Um dos primeiros modelos de carabinas da Winchester foi o modelo
1866, cuja caixa de mecanismo apresentava partes de latão (liga metálica5 constituída de
cobre6 e zinco7); por isso, ficou conhecida como Yellow Boy (Rapaz Amarelo). Já o rifle da
Winchester, modelo 1873, calibre .44 – 408, cano octogonal, embora tivesse a caixa de
mecanismo de liga de ferro e tivesse poucas peças e chapa confeccionada em latão ou bronze,
ficou conhecido no Brasil como rifle papo amarelo, por herança do seu antecessor o
Winchester 66.

5
http://pt.wikipedia.org/wiki/Liga_met%C3%A1lica
6
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cobre
7
http://pt.wikipedia.org/wiki/Zinco
8
Como você estudará no módulo sobre calibres mais tarde, o calibre . 44 – 40, significa que o
diâmetro do projétil tinha 44 centésimos de polegada (11.17mm) e 40 grains de pólvora negra
(2,56 gramas).
Nota

O Winchester 73 foi produzido com comprimento de cano de 15, 20, 24 ou 30 polegadas. Por
isso, é correto afirmar que o Brasil teve tanto carabinas como fuzis papo amarelo, com
diferentes capacidades do tubo carregador.

Uma arma semiautomática por ação de gás, com características modernas, que revolucionou a
época pelo sistema de operação, pelo desenho e também pelo projeto do cartucho, foi a
carabina M1, calibre .30 Carbine, que foi desenvolvida nos Estados Unidos em 1941. Essa
carabina foi desenvolvida como uma arma leve para as unidades de comunicação, blindados,
artilharia, oficiais de intendência, entre
outros. Era dotada de cano com comprimento
de 457,2mm (18 polegadas), sendo
posteriormente modificada com o modelo
M2, com carregador com maior capacidade e
principalmente com sistema de tiro
semiautomático e automático através de
seletor. Foi utilizada na Segunda Guerra
Mundial, Guerra da Coréia e Guerra do
Vietnã; essa carabina também foi arma de
dotação das forças armadas e policiais de diversos países.

Entre as armas modernas que podem ser


classificadas como carabinas, destacam-se as
versões M16A1 Carbine e M16A2 Carbine
do fuzil Colt M16, adotadas pelas forças
armadas de muitos países. Essas armas são
produzidas no calibre 5,56 NATO e operam
tanto no sistema semiautomático quanto no
sistema automático por ação de gás. Possuem
cano com comprimento de 14,5 polegadas
(368,3mm) e apresentam a inovação da sua coronha ser retrátil – o que reduz ainda mais o
seu tamanho. O seu comprimento total, com a coronha retraída, é pouco maior que 750mm.
As carabinas permeiam o universo policial desde as antigas carabinas Puma, da Rossi. Nos
dias atuais, surgiram novas armas, a exemplo da indústria Taurus, que produz carabinas
policiais no calibre .40 S&W semiautomática pelo sistema Blowback com cano de 410
milímetros de extensão e a carabina calibre .30 Carbine semiautomática por sistema a gás
com o cano de 260 milímetros de extensão. Ambas apresentam peso na ordem de 3,3
quilogramas e se destinam à utilização policial – são empregadas pelas polícias de diversos
Estados – por serem armas relativamente pequenas (o que permite o uso urbano), leves para
armas de porte e de excelentes características balísticas.

Nota

A carabina MAGAL (Micro Galil), no calibre .30 Carbine, de origem israelense, adotada pela
Secretaria de Segurança do Estado do Pará, e as carabinas da IMBEL Ca MD97LM e Ca
MD97LC, com comprimento de cano da ordem de 330 milímetros, no calibre 5,56 x 45,
regime de tiro semiautomático, ou conforme o modelo semiautomático ou “buster” (rajada
curta) de 3 tiros e automático por sistema a gás e peso, também na ordem de 3,3 quilogramas,
utilizada pela Força Nacional, são outros exemplos da presença dessas armas no nosso dia a
dia.

3.3. As carabinas de pressão

As carabinas de pressão, embora não sejam armas de fogo, pois a impulsão dos projéteis se
dá pelo emprego de gases comprimidos que podem estar armazenados em um reservatório ou
por ação de um êmbolo solidário a uma mola e não pela queima de propelente, são também
objetos de estudo da balística forense, pois se trata de arma e, a ação dos seus projéteis pode
causar lesões graves ou, em determinadas situações, até a morte.
Aula 4 – Fuzis, metralhadoras e submetralhadoras

4.1. Fuzis, rifles e mosquetões

4.1.1. O que é um fuzil

Pela definição do Decreto n.º 3.665 (art. 3º, inciso LIII, anexo), fuzil é uma “arma de fogo
portátil, de cano longo e cuja alma do cano é raiada”.

Nota

Embora os vocábulos fuzil e rifle tenham origens diferentes, nos dias de hoje, ambos são
empregados como sinônimos.

O termo “rifle” tem origem na palavra inglesa rifling, relativo às raias, responsáveis pelo
movimento rotacional do projétil. É utilizado nos países de língua inglesa para designar as
armas longas, portáteis, de uso individual, projetadas para serem usadas apoiadas ao ombro e
com canos de alma raiada, destinadas a uso militar ou desportivo.

O termo fuzil, de origem francesa, apresenta, nos países de línguas de origem latina, o mesmo
significado anteriormente descrito. Como visto, não há padronização entre os países nem de
nomenclatura, nem de definição.

Nota

Nos Estados Unidos, por lei federal, os fuzis (rifles) devem ter, no mínimo, 406,4mm (19
polegadas) de comprimento de cano. (Di Maio, 1999, p. 40). Quando possuem comprimento
de cano inferior a esse valor, os fuzis são classificados como carabinas.

4.1.2. Classificação

Os fuzis são classificados quanto ao funcionamento em: tiro unitário, de repetição,


semiautomáticos e automáticos.

Tiro unitário – As operações de carregar a arma, introduzindo diretamente o cartucho


na câmara e a extração do estojo deflagrado são realizadas de forma manual, após cada
disparo. Os exemplos mais comuns são os fuzis com um único cano ou de canos
paralelos ou sobrepostos, que foram utilizados para caças de animais de grande porte
na África. Entre os principais fabricantes desses fuzis estão a Holland & Holland,
Gibbs, Lancaster, entre outros, em calibres como o .700 Nitro Express, .470 Nitro
Express, .458 Winchester Magnum, .416 Rigby, .375 Holland& Holland Magnum, etc.

De repetição – A arma é recarregada por ação do atirador por intermédio de


mecanismo para esse fim específico, que promove o destravamento do conjunto do
ferrolho, a retirada do estojo deflagrado ou cartucho da câmara, a introdução de um
novo cartucho na câmara e o travamento do ferrolho. Diversos são os mecanismos
para tal fim, como o sistema Pump Action e o sistema de alavanca utilizado pelo
Winchester; entretanto, o mais conhecido é o sistema Mauser, patenteado pelos irmãos
Paul e Wilhem Mauser, em 1898. Nesse sistema, uma alavanca incorporada ao
ferrolho realiza dois movimentos básicos: o de rotação, que promove o destravamento
(giro no sentido anti-horário) e travamento (giro no sentido horário) do ferrolho, e o
deslocamento à retaguarda em relação ao eixo longitudinal da arma, promovendo a
retirada do estojo deflagrado, e à frente, conduzindo o cartucho do depósito para a
câmara, deixando o percussor na posição “armado” com o movimento do ferrolho e
permitindo acionar o sistema de segurança a ele incorporado.

O sistema Mauser, pela segurança e


praticidade, continua a ser utilizado
nos dias de hoje, a exemplo do fuzil
.308 IMBEL AGLC, que é um fuzil de
precisão que utiliza como sistema de
funcionamento a ação Mauser, ou do
fuzil de repetição da Remington (visto
na foto ao lado). Outro exemplo
comum de fuzis de repetição são os
mosquetões.
Nota

De acordo com o Decreto nº 3.665, de 20/11/20009, o termo ”mosquetão” consiste em “fuzil


pequeno, de emprego militar, maior que uma carabina, de repetição por ação de ferrolho
montado no mecanismo da culatra, acionado pelo atirador por meio da sua alavanca de
manejo”.

Semiautomáticos – São fuzis que recarregam automaticamente, aproveitando a


expansão dos gases após o disparo para realizar todo o ciclo de destravar o ferrolho,
extrair o estojo, recarregar a arma e travar novamente o ferrolho, deixando o fuzil
pronto para um novo disparo. O exemplo mais conhecido de fuzil semiautomático é o
fuzil AR-15, da Colt, pela divulgação que a mídia deu a essa arma e, claro, pela
grande utilização dela por narcotraficantes e outros grupos criminosos. Esse fuzil é
uma versão civil do fuzil militar M 16, do mesmo fabricante.

Automático – São fuzis que


além de recarregarem-se
automaticamente –
aproveitando a expansão dos
gases após o disparo –,
realizam disparos contínuos
enquanto o gatilho continuar
pressionado (rajada).
Geralmente são armas de uso
militar, dotadas de seletor de tiro, podendo geralmente optar-se por tiro automático
(rajadas), rajadas curtas de três ou cinco tiros ou ainda tiro intermitente
(semiautomático). Um exemplo comum são os diversos “fuzis de assalto”, utilizados
pelas forças policiais e militares de diversos países. Com o fim da guerra de
trincheiras, surgiram os fuzis de assalto que apresentam as características de poderem
efetuar disparos no sistema automático ou intermitente, de possuírem uma grande
capacidade de armazenar munições, comportando maior número de cartuchos no seu

9
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3665.htm
carregador, de serem de calibres intermediários, o que implica redução de peso e,
principalmente, de grande maneabilidade, inclusive em ambientes de pequenas
dimensões. Exemplos mais conhecidos são o AK 4”7 e o fuzil Colt M 16.

Nota

No sistema a gás – utilizado nos fuzis modernos, sejam semiautomáticos ou automáticos –,


existem diversas variações conforme modelo e geração. De forma simples, funcionam assim:
parte dos gases oriundos da queima do propelente que impulsiona o projétil durante seu
deslocamento pelo interior do cano é desviada para um orifício (geralmente chamado de
evento) próximo à boca do cano – espaço no qual a pressão está ligeiramente menor – e, pela
pressão exercida por essa coluna de gases desviada, movimenta-se um pistão ou êmbolo,
ligado ao ferrolho por uma haste, que, por sua vez, impulsiona o ferrolho para trás,
movimentando o mecanismo e conseguindo a extração e a introdução de novo cartucho na
câmara, realizando o ciclo completo do mecanismo da arma.

4.2. Metralhadoras e submetralhadoras

4.2.1 O que é uma metralhadora

O Decreto nº 3.665, de 20/11/2000 (art. 3º, inciso LXI, anexo), define metralhadora como
“arma de fogo portátil, que realiza tiro automático” e pistola-metralhadora como
“metralhadora de mão, de dimensões reduzidas, que pode ser utilizada com apenas uma das
mãos, tal como uma pistola.” (art. 3º, inciso LXVIII, anexo).

Pistola-metralhadora, submetralhadora ou metralhadora de mão são nomes dados para armas


automáticas que podem ou não atuar também em regime de tiro semiautomático, de tamanho
reduzido para uso de mão e normalmente desenvolvidas nos mesmos calibres10 usados nas
pistolas11, como os calibres 9 x 19mm12 e o .40 S&W13. A utilização mais adequada é em tiro
instintivo a pequenas distâncias, visto que sua precisão é prejudicada pela elevada cadência de
tiros, que variam, teoricamente, de 500 tiros por minuto a 1200 tiros por minuto.

10
http://pt.wikipedia.org/wiki/Calibre
11
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pistola
12
http://pt.wikipedia.org/wiki/9mm_Luger
13
http://pt.wikipedia.org/wiki/.40_S%26W
É possível que você nunca tenha ouvido o termo "pistola-metralhadora", pois ele é mais
empregado na Europa. No Brasil a denominação "submetralhadora" é mais comum. Uma das
submetralhadoras mais empregadas pelas unidades de operações especiais do mundo, como a
SWAT, BOPE COT, DOE, entre outras, é a HK MP5. A MP5 é fabricada pela empresa alemã
Heckler & Koch. As MP5 atuais disparam
basicamente em três tipos de regime de tiro:
automático (rajadas), semiautomático (um tiro
a cada vez que o gatilho é pressionado), bursts
(pequenas rajadas de 2 e 3 tiros a cada vez que
o gatilho é pressionado) e possuem modelos
com diferentes tamanhos e diversos acessórios,
como supressores de ruído, miras e lanternas.
É uma arma muito segura e relativamente leve. Isso faz da MP5 uma arma versátil e
empregada em quase todo o tipo de situação.

4.2.2 Outros exemplos de submetralhadoras

Outros exemplos de submetralhadoras muito utilizadas no meio policial são a Taurus MT 12 e


MT 12 A, que é o mesmo projeto da Beretta 912,
utilizada pelo Exército brasileiro. Elas são dotadas
de carregadores do tipo caixa, bifilar, com
capacidade para 30 cartuchos no calibre 9 x 19mm,
da mesma forma que a HKMP5. Em relação ao
tamanho e peso, também são armas práticas.
Apresentam a característica de ser uma
submetralhadora de ferrolho aberto, como a UZI e
as submetralhadoras mais antigas. Nesse sistema, o ferrolho permanece aberto sem introduzir
o cartucho na câmara; ao acionar o gatilho da arma, o ferrolho coleta o cartucho no
carregador, transporta-o, o introduz na câmara,
efetua o disparo e, com o retorno do estojo,
ejeta o estojo percutido e permace aberto se
estiver trabalhando no regime de tiro
semiautomático ou repete todas as operações anteriores enquanto o gatilho permacer
pressionado ou acabar a munição. Esse sistema é diferente da MP5, que trabalha com o
ferrolho fechado (funciona como uma pistola). No sistema de ferrolho aberto, acontecem com
maior frequência disparos acidentais e involuntários, o que a torna uma arma mais insegura.

A submetralhadora Taurus/FAMAE, que também opera no sistema semiautomático, bursts


(pequenas rajadas de dois tiros a cada vez que o gatilho é pressionado) e automático, de
calibre .40 S&W, Blowback, ferrolho fechado, com carregadores do tipo caixa, bifilar e com
capacidade para 30 cartuchos é outro exemplo de submetralhadora de uso policial.

Nota

A grande maioria das submetralhadoras trabalham no sistema Blowback de massa inercial, ou


seja, sem trancamento; por isso, o ferrolho dessas armas, para resistir à pressão dos calibres
.45 ACP, 9 x 19mm, .40 S&W, são pesados, de grande massa. Utilizam-se ainda molas
reuperadoras, com maiores resistências. As marcas de culatra e do percussor deixadas sobre o
estojo passam a ser extremamente características. Os principais exemplos são: a Beretta 912,
UZI, MAC 10, Taurus MT 12, entre muitas outras.

Finalizando...

Neste módulo, você estudou que:

o De acordo com a legislação específica (Decreto nº 3.665, de 20/11/2000)


entende-se por arma portátil a “arma cujo peso e cujas dimensões permitem
que seja transportada por um único homem, mas não conduzida em um
coldre, exigindo, em situações normais, ambas as mãos para a realização
eficiente do disparo”. (art. 3º, inciso XXII, anexo);

o As armas portáteis são classificadas quanto à alma do cano, à percussão e ao


sistema de funcionamento;

o Espingarda, pela definição da legislação específica, Decreto nº 3.665, de


20/11/2000, (art. 3º, inciso XLIX, anexo), é uma “arma de fogo portátil, de
cano longo com alma lisa, isto é, não raiada”;
o As espingardas são armas de fogo com empregos que variam desde a prática
desportiva até a utilização em combate;

o As principais peças de uma espingarda de modelo simples, como as


espingardas de um só cano e de tiro unitário, são: cano com a câmara e o
extrator; telha e a coronha; caixa de mecanismos com gatilho, percussor, cão,
molas e os pinos de fixação, bem como sistema de abertura do cano;

o A carabina, pelo Decreto nº 3.665, de 20/11/2000 (art. 3º, inciso XXXVII,


anexo), é uma “arma de fogo portátil semelhante a um fuzil, de dimensões
reduzidas, de cano longo – embora relativamente menor que o do fuzil – com
alma raiada”.

o Pela definição do Decreto n.º 3.665 (art. 3º, inciso LIII, anexo), fuzil é uma
“arma de fogo portátil, de cano longo e cuja alma do cano é raiada”.

o Os fuzis são classificados quanto ao funcionamento em: tiro unitário, de


repetição, semiautomáticos e automáticos;

o O Decreto nº 3.665, de 20/11/2000 (art. 3º, inciso LXI, anexo), define


metralhadora como “arma de fogo portátil, que realiza tiro automático” e
pistola-metralhadora como “metralhadora de mão, de dimensões reduzidas,
que pode ser utilizada com apenas uma das mãos, tal como uma pistola.” (art.
3º, inciso LXVIII, anexo).
Módulo 4 – Cartuchos

Apresentação do Módulo

Cartucho é uma palavra de origem italiana (cartoccio) derivada da palavra latina “charta”,
que significa papel.

Um pouco de história...

Embora possa parecer que não há relação para as armas de antecarga, os atiradores dos
séculos XV e XVI, principalmente quando em ação militar, tinham o costume de levar,
envolta em folha de papel, carga de pólvora suficiente para um disparo. Agiam assim com o
objetivo de facilitar a recarga, agilizando o processo e diminuindo os riscos de uma carga
excessiva, pois tinham a certeza de estarem utilizando a quantidade adequada de pólvora.
Com o passar do tempo, esses atiradores não carregavam apenas a pólvora; passaram a
colocar junto os projéteis, todos embrulhados no mesmo papel.

Os princípios de facilitar a recarga, acelerar o intervalo de tempo entre os disparos e de


conter a unidade completa de munição acabaram por dar origem aos cartuchos de armas de
fogo de nossos dias.

Um dos primeiros cartuchos a existir foram os cartuchos para os fuzis de agulha ou fuzil
Dreyse, utilizados na Guerra do Paraguai. Nesse cartucho, embrulhado como num cilindro de
papel, eram depositados o projétil, em contato com a sua base, a espoleta e, por último, a
pólvora. Quando acontecia o disparo, a agulha percussora furava o papel, atravessava a
camada de pólvora, chocava-se contra a espoleta detonando-a e iniciava a queima da
pólvora.

Logicamente, não se pode pensar em arma de fogo sem pensar na munição1 empregada
nessas armas. Existem muitos tipos de cartuchos diferentes, com componentes diferentes e
que se destinam a empregos distintos. Neste módulo, você estudará os cartuchos de armas de
fogo e seus principais componentes.

1
A palavra “munição” é empregada como a designação genérica de um conjunto de cartuchos.
Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Identificar os cartuchos de armas de fogo, seus componentes e emprego;

Compreender a interação dos componentes durante o disparo.

Estrutura do Módulo

Aula 1 – Cartuchos

Aula 2 – Projéteis de armas de fogo raiadas

Aula 3 – Cartuchos de armas de alma lisa

Aula 1 – Cartuchos

1.1. O que é um cartucho

Cartucho é a designação genérica das unidades de munição utilizadas nas armas de fogo de
retrocarga. Segundo o Decreto nº 3.665, de 20/11/2000, pode-se entender munição como:
“artefato completo, pronto para carregamento e disparo de uma arma, cujo efeito desejado
pode ser: destruição, iluminação ou ocultamento do alvo; efeito moral sobre pessoal;
exercício; manejo; outros efeitos especiais” (art. 3º, inciso LXIV, anexo).

1.2. Modelos de cartucho

Como existem diversos modelos de armas de retrocarga, logicamente existem diversos


modelos de cartuchos, que variam no formato, na quantidade e tipo de seus componentes.

Os cartuchos mais conhecidos e empregados hoje em dia são:

Cartuchos para armas raiadas de percussão central;

Cartuchos para armas raiadas de percussão radial;


Cartuchos para armas de alma lisa de percussão central.

1.3. Componentes do cartucho e suas funções

Em quase todas as espécies de


cartuchos, verifica-se a utilização de
estojo
alguns componentes essenciais, como
o estojo, a espoleta, o propelente projétil
(pólvora) e o projétil.
Cartucho

espoleta
pólvora

Nota

As diferenças entre os cartuchos devem-se ao emprego dado a eles, como acontece com os
cartuchos de festim, lançadores de granadas que não têm projéteis e os cartuchos de manejo
que não são dotados de espoleta ativa e pólvora. Especificamente, para os cartuchos
destinados às armas de alma lisa, utilizam-se ainda outros componentes, como a bucha e, em
alguns modelos, discos de papelão com finalidades específicas.

Estude a seguir as principais funções de cada um desses componentes.

1.3.1. Estojo

O estojo é o componente que integra os demais elementos do cartucho. Apesar de algumas


armas de fogo praticamente obsoletas (armas de antecarga) dispensarem o seu uso, trata-se de
um componente indispensável às armas modernas. O estojo possibilita que todos os
componentes necessários ao disparo fiquem unidos em uma peça, facilitando o manejo da
arma e acelerando o intervalo em cada disparo. Além disso, permite a padronização dos
cartuchos e determina as dimensões das câmaras onde esses cartuchos são empregados

Atualmente, a maioria dos estojos é construída em metais não ferrosos, principalmente o latão
(liga de cobre e zinco) – dada a facilidade de ser trabalhado (trabalhabilidade), ou seja, pelas
características de se expandir, não permitir o escape de gases pelas paredes da câmara e de
recuperar em parte a forma original após cessar a pressão, facilitando a extração e permitindo
a recarga de munição – e estojos de alumínio (os cartuchos do tipo BLASER da CCI).

Nota

Também são encontrados estojos semimetálicos construídos com a base metálica


(geralmente latão) e o corpo em diversos tipos de materiais, como plásticos (munição de
treinamento e de espingardas), papelão (espingardas), entre outros.

Forma do estojo

A forma do estojo é muito importante, pois as armas modernas são construídas de forma a
aproveitar as suas características físicas. Classificam-se os estojos, em relação à forma do
corpo, como:

Cilíndrico – O estojo possui diâmetro uniforme por toda sua extensão; é o caso da
maioria dos estojos usados em armas de porte, como os cartuchos de calibre .38 SPL,
.40 S&W e .45 ACP. Alguns fabricantes produzem um ligeiro estreitamento na terça
parte próxima à boca, com o objetivo de garantir a inserção do projétil na altura
correta do estojo. Na prática, não existe estojo totalmente cilíndrico; sempre há uma
pequena inclinação para facilitar a extração.

Cônico ou tronco-cônico – O estojo tem o formato do corpo como um segmento de


cone, com diâmetro menor na boca do que na base. É um formato de estojo em desuso,
próprio para alguns rifles antigos como os calibres 8 x 72Rmm, 9,3 x 48Rmm e 7 x
72Rmm;

Garrafa – O estojo apresenta basicamente dois diâmetros, um de maior dimensão


junto ao aro ou base, o que
permite conter grande
quantidade de pólvora, seguido
de uma redução (estrangulamento) em formato cônico e de um diâmetro menor junto à
boca que facilita a inserção de projéteis de pequeno diâmetro. É comumente utilizado
em cartuchos de fuzis, como o 7,62 x 39mm, 5,56 x 45mm e .308 Winchester.

Formato da base do estojo

Outro aspecto importante sobre os estojos refere-se ao formato da base. Ele determina como
será a ação do extrator sobre o estojo percutido e facilita o carregamento. A sua forma define
algum dos pontos de apoio do cartucho na câmara (headspace), o que garante a percussão. Os
tipos de formato de base mais empregados são:

Com aro – Com ressalto na base (aro ou gola) que permite o travamento do estojo na
arma, caso do .38 SPL e da maioria dos cartuchos destinados a revólveres;

Com semiaro – Com ressalto de pequenas proporções e uma ranhura ou virola para
encaixe do extrator, como o .32 Winchester Self Loading (Self Loading é apenas uma
referência indicando que a arma é semiautomática);

Sem aro – A base apresenta o mesmo diâmetro do corpo do estojo, tem apenas a
ranhura ou virola para encaixe do extrator, como a maioria dos calibres de pistola, a
exemplo do .45 ACP, .40S&W;

Rebatido – A base tem diâmetro menor que o corpo do estojo, como o calibre .41
Action Express.

Cinturado – Apresenta um aro de maior diâmetro que a base, situado logo à frente
dela, e é empregado em cartuchos com maior energia. Este aro tem por finalidade
aumentar os pontos de apoio do cartucho na câmara, como o .300 Winchester
Magnum.

Tipo de iniciação

Outra forma de descrevermos um estojo é quanto ao tipo de iniciação, que pode ser:

Fogo circular – A mistura detonante é colocada no interior do estojo, dentro do aro, e


detona quando este é amassado pelo percursor;

Fogo central – A mistura detonante está disposta em uma espoleta, fixada no centro
da base do estojo.

Nota

Cabe lembrar que alguns tipos de estojos não foram citados por serem obsoletos, como os de
papel dos fuzis Dreyse, utilizados pelo Exército brasileiro durante a Guerra do Paraguai ou
outros muito pouco comuns.

1.3.2 Espoletas

As espoletas têm por função iniciar a queima da pólvora (propelente). Trata-se basicamente
de um explosivo e outros componentes depositados no fundo de um pequeno receptáculo
metálico de latão (liga de cobre “Cu” e zinco “Zn”), cuja iniciação se dá por percussão
(choque violento), o qual gera a detonação desse explosivo. Na detonação, ocorre a
transformação abrupta do explosivo em gases, com extraordinária rapidez (velocidade da
ordem de 5000 m/s), gera calor, chama e elevadas pressões, o que irá agir sobre os grãos do
propelente causando agitação aquecimento e ignição.

Mistura iniciadora

A mistura iniciadora de uma espoleta para cartucho é composta de materiais diversos, com as
funções específicas de:

 Um explosivo iniciador;

 Materiais oxidantes;

 Materiais redutores;

 Atritante;

 Aglomerante.

Diversas composições desses materiais são utilizadas por diferentes fabricantes. A


composição mais comum, utilizada pela Companhia Brasileira de Cartuchos, do início da
década de 70 até a atualidade, tem por base o estifinato de chumbo (trinitroressorcinato de
chumbo).

Composição estifinato de chumbo:


 Trinitroressorcinato de chumbo;

 Tetrazeno;

 Alumínio em pó;

 Trissulfeto de antimônio;

 Nitrato de bário.

A composição do estifinato de chumbo constitui-se em uma mistura estável à umidade e


temperatura. Durante o disparo, a ignição da mistura iniciadora produz 40%2 em peso de
gases e 60% em peso de partículas sólidas quentes, liberando CO, CO2, NO, NO2, N2, SO2,
vapor de água, óxido de chumbo e de bário, vapores de chumbo metálicos, entre outros. A
composição química da mistura iniciadora à base de estifinato de chumbo produz
aproximadamente 300 cm3 de gás por grama de mistura.

Tipos de espoletas

Mistura iniciadora nos cartuchos de fogo circular

Os cartuchos de fogo circular, cujo exemplo mais comum são os cartuchos de calibre .22 LR,
não possuem uma espoleta como elemento distinto do cartucho, sendo essa a grande diferença
entre esses cartuchos e os cartuchos de fogo central. Neles a mistura iniciadora é depositada
por um processo de centrifugação na base (orla do estojo). A percussão ocorre no choque do
percutor contra a orla do estojo, comprimindo-a contra a parede posterior da câmara, na qual o
cartucho se encontra alojado; isso produz a detonação da massa explosiva e
consequentement
e, em função da
chama e calor
gerado, a
deflagração do
propelente.
Fonte: Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC)

(www.cbc.com.br )

2
Pode até parecer pouca a transformação de apenas 40% em gás, mas na queima da pólvora o
percentual é apenas de 25 a 30 % e nos motores a explosão não passa de 12%. Sendo o gás
formado, tem-se o elemento essencial para o funcionamento do motor e aceleração do projétil
Espoletas de fogo central

As espoletas para cartuchos de fogo central são constituídas por um pequeno receptáculo de
latão, semelhante a um copo, denominado de cápsula, com espessura, dureza e tamanho
compatíveis ao tipo de arma e à pressão gerada pela detonação do explosivo. No interior da
cápsula, é depositada determinada quantidade de explosivos (escorva ou mistura iniciadora)
que varia em função das características balísticas do cartucho e conforme a pressão gerada
pela detonação deste, durante a percussão.

A percussão acontece em função do


choque violento entre dois corpos: o 1º, o
percutor, parte integrante da arma, e o 2º,
a bigorna. A bigorna é uma peça metálica,
geralmente confeccionada em latão,
manufaturada através de estamparia, cuja
função é garantir a percussão.
Fonte: CBC

A bigorna, por ser uma peça independente, pode


estar montada na espoleta (espoletas do tipo
Boxer) ou encontrar-se montada no estojo
(espoletas do tipo Berdan). Como a bigorna pode
estar montada quer no estojo, quer na espoleta, a
Fonte: CBC transmissão para o interior do estojo onde se
encontram o propelente, gases, chama e calor
resultantes da detonação da mistura iniciadora se
dá através de orifícios chamados de eventos. Os
eventos nas espoletas do tipo Boxer são um único
orifício central de maior diâmetro e nas espoletas
Berdan os eventos podem ser constituídos em dois
(grande maioria dos casos), 4 ou mais.

As figuras representativas dos tipos de espoletas Boxer e Berdan foram extraídas do site da Companhia
Brasileira de Cartuchos.
Após a transferência do explosivo para o fundo da cápsula da espoleta, é colocada uma fina
lâmina de papel que permite a compressão do explosivo, acarretando uma distribuição
uniforme no fundo da cápsula, sem que haja contato da punção de compressão e o material
explosivo.

1.3.3 Propelentes (pólvora)

Propelentes são substâncias que queimam de forma progressiva. Pela característica de


queimar progressivamente, as pólvoras são chamadas de propelentes.

As pólvoras são misturas ou compostos químicos que, quando queimam, geram em


velocidade muito alta (da ordem de 400m/s) uma grande quantidade de gases. Obviamente, os
gases resultantes dessa queima, pela característica da expansividade (inerente aos gases),
ocupam um volume muito maior que o dos sólidos que o geraram, acarretando um aumento
de pressão.

No estudo da balística e das munições, como a pólvora está acondicionada dentro de um


cartucho, esse aumento de pressão pode até acarretar a explosão da arma, o que só não ocorre
por dois fatores:

Fator 1 – A queima da pólvora não é instantânea. As pólvoras possuem uma


velocidade de queima muito alta, mas o tempo necessário para a sua queima permite um
aumento da pressão de forma gradual. O tempo de queima será um dos principais critérios
para definir em que tipo de arma será empregada determinada pólvora (quanto menor o
comprimento do cano, mais veloz deve ser a sua queima).

Fator 2 – A pressão é exercida em todas as direções (princípio de Pascal) e, à medida


que a pressão aumenta, ela suplanta a força de engastamento do projétil ao estojo, o que
propicia o deslocamento do projétil através do cano. Com o aumento gradual do volume de
confinamento do propelente em combustão, a pressão gerada diminui e mantém-se dentro dos
limites para os quais a arma foi projetada. (A pressão é inversamente proporcional ao
volume.)

O projétil é acelerado durante todo o seu percurso pelo cano por causa da pressão exercida
pela expansividade dos gases resultantes da queima do propelente. A pressão atinge um valor
máximo, chamado de pico de pressão, a partir do qual começa a decair até a pressão
atmosférica local, após a saída do projétil pelo cano.

A figura ao lado representa o gráfico de


disparo de um cartucho de calibre .30
Carbine. Na primeira curva do gráfico,
temos a pressão exercida versus o
comprimento do cano. Note que logo após
o disparo, a pressão na câmara é da ordem
de 45.000 libras por polegada ao
quadrado, ou seja, em torno de 1.500
vezes a pressão mais usada em pneus de
automóveis. Quando o projétil já se
deslocou até a saída do provete de 25
polegadas de comprimento, a pressão é de
cerca de 12.000 libras por polegada ao
quadrado, e a velocidade do projétil (vista
na outra curva do gráfico) de 2.700 pés
por segundo.

Nota

Como os comprimentos dos canos variam de forma significativa das armas curtas raiadas para
as armas longas raiadas, o controle de tempo de queima é demasiadamente importante,
porque, ao possuir maior ou menor espaço de cano para a queima do propelente, a velocidade
de queima é fundamental para fornecer as características balísticas de velocidade e energia
cinética ao projétil, mantendo os valores de pressão de projeto da arma dentro dos limites.

Composição química das pólvoras.

Existem dois tipos básicos de pólvoras:

Tipo 1 – As negras ou com fumaça, que são


basicamente a mistura de 75% de nitrato de

Pólvora negra
potássio, 15% de carvão vegetal e 10% de enxofre.

Nota

A proporção acima apresenta pequenas diferenças dependendo dos fabricantes. O controle da


velocidade de queima nesse tipo de propelente é exercido em função do tamanho dos grãos, e
a sua produção é destinada a armas de antecarga, a fogos de artifícios ou a outros fins
pirotécnicos, não sendo utilizada em cartuchos modernos, dada a necessidade de pressões
estabelecidas pela SAAMI para os calibres e demais características balísticas. No disparo,
esse tipo de pólvora gera uma grande quantidade de fumaça e grande quantidade de resíduos
sólidos, que podem chegar até a 55% do peso de pólvora original.

Tipo 2 – As pólvoras químicas ou pólvoras sem Pólvora de Base

fumaça são assim chamadas dada a pequena Simples

quantidade de fumaça gerada na sua queima


quando comparadas às pólvoras negras. Podem ser
dividas em dois grandes grupos:

Pólvora propelente de base simples – Constituída basicamente por nitrocelulose e


componentes químicos para sua estabilidade e controle de velocidade de deflagração.

Pólvora propelente base dupla – Apresenta como principais compostos ativos a


nitrocelulose e nitroglicerina, além de componentes químicos para sua estabilidade e
controle de velocidade de deflagração.
Aula 2 – Projéteis de armas de fogo raiadas

2.1. O que é um projétil

Projétil, pela conceituação física, consiste em qualquer sólido – que pode ser ou foi lançado –
abandonado ao seu movimento após ter recebido um impulso inicial.

Para a balística forense, o projétil é...

A parte do cartucho que foi ou que pode ser lançada através do cano, sob a ação dos gases
resultantes da queima do propelente.

Em todo o disparo, o trabalho realizado pela munição – entendendo-se por trabalho a


diferença de energia cinética transmitida –, que resulta em destruição ou dano tecidual, é
devido à ação do projétil sobre o suporte do disparo.

Os projéteis modernos, destinados a cartuchos de projéteis únicos para armas raiadas,


apresentam seu diâmetro ligeiramente maior que o diâmetro do cano da arma. Dessa forma,
impedem o escape de gases e, ao se engajarem com o raiamento, adquirem o movimento
rotacional, que lhes garante maior estabilidade, maior alcance máximo e útil e uma melhor
performance aerodinâmica ante a resistência do ar.

Os projéteis podem ser divididos em três grupos distintos:

Os projéteis de chumbo (projéteis nus);

Os projéteis jaquetados ou projéteis encamisados (total ou parcialmente);

Os projéteis especiais.

A seguir, estude sobre cada um deles.

2.1. Projéteis de chumbo

O chumbo, por ser barato, de fácil obtenção, alto peso específico, baixo ponto de fusão, fácil
trabalhabilidade e grande maleabilidade, é o elemento ideal para os projéteis de arma de fogo,
tendo sido o material utilizado desde os primeiros informes de disparos de armas de fogo até
os dias de hoje.

O projétil do tipo esfera foi inicialmente a escolha natural, por ser a forma que apresentava, a
princípio, a menor perda de gases. Porém devido a problemas com o alcance útil 3e a
resistência, eles foram gradativamente sendo substituídos pelos projéteis de formato
pontiagudo, semelhantes às setas, nos cartuchos destinados a armas raiadas. Em sua evolução,
procurou-se resolver problemas quanto a sua trajetória, resistência do ar, movimentos
erráticos dos projéteis e problemas que advinham das características dos materiais, tais como
a vedação correta dos gases da pólvora e a diminuição do atrito com o cano.

O moderno projétil é de liga de chumbo – isto é, chumbo endurecido com antimônio e/ou
estanho – e contém todos os elementos de sua evolução.

Um projétil é fundamentalmente dividido em três partes:

PONTA – CORPO – BASE

Quanto à ponta os projéteis, verificam-se os seguintes formatos mais comuns: ogival, canto
vivo, semicanto vivo, cone truncado e ponta plana – cada um com objetivos específicos.

Os corpos dos projéteis destinados a armas raiadas são sempre cilíndricos e recebem uma
graxa lubrificante colocada em canaletas apropriadas ou em áreas recartilhadas e aplicadas
por pressão, banho ou por spray; a função dessa graxa é diminuir a possibilidade de
“chumbamento” do cano. A parte cilíndrica é a responsável pelo engajamento dos projéteis
com o raiamento do cano.

Embora os principais componentes dos projéteis de chumbo sejam o próprio chumbo, o


antimônio e o estanho, os projéteis de chumbo são fabricados em diversas ligas, de diferentes
durezas e, consequentemente, de diferentes pontos de fusão, podendo ser produzidos através
de dois processos: estampagem ou fusão.

Nota

A estampagem é um processo de fabricação no qual o projétil é produzido através de corte e


deformações em operação de prensagem a frio. Devido às suas características, esse processo
de fabricação apresenta vantagens, tais como: bom acabamento, custo reduzido e alta

3
Os projéteis esféricos utilizados no início apresentavam alcance útil de cerca de 50 metros
produção. Os projéteis frutos desse processo, por causa do encruamento que sofrem, são mais
resistentes.

2.2. Projéteis encamisados

São projéteis construídos por um núcleo recoberto por uma capa externa chamada camisa ou
jaqueta. A camisa é normalmente fabricada com ligas metálicas como:

cobre e níquel;

cobre, níquel e zinco;

cobre e zinco;

cobre, zinco e estanho ou aço.

O núcleo é constituído geralmente de chumbo praticamente puro, conferindo o peso


necessário e um bom desempenho balístico.

Os projéteis encamisados podem ter sua capa externa aberta na base e fechada na ponta
(projéteis sólidos) ou fechada na base e aberta na ponta (projéteis expansivos). Nos projéteis
sólidos, destaca-se sua maior capacidade de penetração e alcance. Os projéteis expansivos
destinam-se à defesa pessoal, pois, ao atingir um alvo, são capazes de se deformar e aumentar
seu diâmetro, obtendo maior dissipação da energia cinética e, logo, maior capacidade lesiva.

Nota

Esse tipo de projétil teve seu uso proibido para fins militares pela Convenção de Haia em
1899.

Os projéteis expansivos podem ser classificados em totalmente encamisados (a camisa


recobre todo o corpo do projétil) e semiencamisados (a camisa recobre parcialmente o corpo,
deixando sua parte posterior exposta). Os tipos de pontas são basicamente os mesmos que os
anteriormente citados para os projéteis de chumbo, com a adição de projéteis de ponta oca e
outras formas de projéteis expansivos.

2.3. Projéteis especiais

São projéteis desenvolvidos com finalidades específicas, como os projéteis traçantes,


incendiários, explosivos, projéteis de borracha para controle de tumultos, entre outros.

Considerando a grande quantidade de projéteis especiais e a impossibilidade prática de


relacionar todos eles, você estudará, a seguir, apenas alguns:

Glaser – Este projétil, além de apresentar reduzida possibilidade de ricochete, possui uma
grande capacidade de transferência de energia cinética e remota possibilidade de transfixação,
o que lhe garante um grande poder traumático. É constituído de camisa metálica, em cujo
interior são colocados um grande número de balins, e selado com teflon.

Nyclad – Trata-se de um núcleo revestido com náilon. A associação do náilon ao chumbo


garante, em primeiro lugar, maior expansão às pontas do que os outros tipos de revestimentos
comumente utilizados nas camisas convencionais. Além desse fato, garante um menor atrito
do projétil com o cano e menor quantidade de partículas de chumbo no ar.

Bat – Este projétil associa uma pequena massa a uma altíssima velocidade e uma grande
deformação com o único intuito de apresentar uma ação traumática instantânea.

Armour Piercing e Metal Piercing – Trata-se de projéteis perfurantes, constituídos com


núcleos especiais para garantir a perfuração, em muitos casos, até dos equipamentos de
proteção balística.

PMC Ultra Mag – Esse projétil é constituído unicamente de um cilindro oco de bronze, o
que, associado à elevada velocidade e energia cinética que apresenta, resulta em uma grande
cavidade temporária e permanente depois de seu impacto contra tecidos biológicos.

Black Talon – Esse projétil, além da expansividade normal de seu núcleo – em forma de
cogumelo –, comum à maioria dos projéteis expansivos, tem a sua jaqueta rompida em locais
preestabelecidos, gerando pontas afiladas e cortantes capazes de causar um grande dano
tecidual e dilacerações.

Compound Plastic – São projéteis com pequena massa, da ordem de 2,92 gramas (45 grains)
para os calibres .38 comuns, resultando em uma munição de alta velocidade, que, a distâncias
menores, apresenta um grande dano tecidual, em função da energia cinética resultante da
elevada velocidade.

Esses, entre muitos outros, se constituem em alguns exemplos de projéteis especiais, com fins
específicos.
Muitos projéteis
apresentam um código de
cores para definir a sua
utilização, principalmente
nos fuzis e metralhadoras.

Fonte: CBC

Esse sistema permite ao atirador o emprego adequado da


munição para o fim esperado. Esse código abrange desde
as munições comuns até o caso das munições perfurantes
(fotografia ao lado), armour piercing (AP), traçante,
incendiária, munição de ponta mais pesada e munições
para disparos de precisão (ETPT Match).

Aula 3 – Cartuchos de armas de alma lisa

3.1. Elementos essenciais dos cartuchos

Os cartuchos destinados a armas de alma lisa


apresentam os seguintes elementos essenciais:
2
1. Estojo;

2. Espoleta; 1
4
3. Pólvora;
5
4. Projéteis (projéteis singulares, balins ou projéteis
3
especiais);

5. Buchas e discos de papelão.

A seguir, estude sobre cada um deles.


3.1.1. Estojo

Os estojos destinados às armas de alma lisa são confeccionados em diversos materiais, como
metal (normalmente latão), plástico ou papelão. Esses dois últimos geralmente apresentam
uma base metálica.

Os estojos em papelão estão em desuso, pois a absorção de umidade gera um aumento de


volume, dificultando a sua introdução na câmara. Os estojos metálicos, devido ao custo de
produção, não são empregados na confecção de cartuchos comerciais, sendo utilizados na
recarga artesanal de munição. Os estojos confeccionados em tubos de plástico, por não
absorverem umidade, por permitirem um considerável número de recargas e um melhor
fechamento, são os mais empregados atualmente.

Normalmente os estojos confeccionados em tubo de plástico ou papelão apresentam uma base


metálica (alta ou baixa), com a função de aumentar a resistência e principalmente de formar o
aro de travamento da câmara (headspace). Nesses estojos, é empregada uma bucha interna,
confeccionada em papel ou plástico para afixar o tubo à base.

Foto1 Foto 2 O fechamento dos estojos


pode ser do tipo orlado (foto
1), ou em estrela de 6 ou 8
pontas (foto 2).

Fonte: CBC

Nos cartuchos dotados de projéteis singulares (balote) o fechamento é orlado. Para a


utilização do fechamento orlado em cartuchos com carga de balins, é necessário o emprego de
um disco de papelão sobre essa carga, o que não acontece para o fechamento em estrela.
3.1.2. Espoletas

As espoletas têm por função a iniciação do propelente (pólvora). Durante o acionamento do


gatilho, o percutor comprime a mistura iniciadora contra a bigorna, causando a sua detonação,
o que gera calor, chama e gases, que passam para o interior do estojo onde se encontra a
pólvora através de orifícios chamados eventos. A ação do calor, chama e gases sobre os grãos
do propelente agitam, aquecem e levam à queima do propelente, o que irá gerar uma grande
quantidade de gases e a expulsão da carga de balins.

As espoletas utilizadas em cartuchos destinados a armas


de alma lisa são do tipo bateria, possuem um copo
externo, no qual se aloja a bigorna, e a mistura iniciadora
contida em um recipiente em formato de copo. A
utilização desse copo externo deve-se à pouca resistência
da base metálica do estojo e da bucha interna; dessa forma
Fonte: CBC
garante-se a percussão e uma montagem adequada.

Nos estojos de cartuchos metálicos utilizados para recarga artesanal, as espoletas empregadas
são do tipo Berdan.

As espingardas apresentam pouquíssima resistência ao deslocamento dos projéteis (singular


ou balins) quando comparadas às armas de alma raiada. A inexistência de raiamento faz com
que os projeteis abandonem o cano rapidamente. Esse fato, associado a maior ou menor
capacidade de expansão das buchas, torna obrigatória a utilização de pólvoras de queima
rápida nos cartuchos para armas de alma lisa, do mesmo modo daquelas utilizadas em armas
curtas.

3.1.3. Pólvoras

As pólvoras utilizadas nos cartuchos comerciais são de base simples (nitrocelulose), em


formato de disco, a exemplo das pólvoras nos 216 e 219 da CBC. Essas mesmas pólvoras são
as utilizadas em revólveres.
Nota

A empresa Condor utiliza pólvora negra na produção de cartuchos dotados de projéteis de


borracha, de carga lacrimogênea e de efeito moral.

As pólvoras utilizadas em espingardas apresentam pequenos valores de densidade


gravimétrica4 e também menor tempo de queima.

Nota

As pólvoras que apresentam maior densidade gravimétrica são as que apresentam maior
tempo de queima (queima mais lenta). São destinadas às armas longas raiadas pela
necessidade de maior espaço para sua queima. Essas armas permitem a colocação de maior
quantidade de propelente (em peso) para um mesmo volume do estojo, de forma que se
possam atingir as altas velocidades previstas para os projéteis dessas armas. Quando, por
exemplo, acontece um disparo de espingarda e a vedação não é boa, faz-se necessário utilizar
pólvoras de queima rápida e, logo, de menor densidade gravimétrica.

3.1.4. Projéteis ou balins

Os projéteis ou balins (chumbos) utilizados para carregar cartuchos variam normalmente de


1,25 a 5,50mm de diâmetro, sendo usados, ainda, balotes: um único projétil de chumbo de
diâmetro equivalente ao calibre da espingarda.

Os balins são designados por números ou letras e cada número ou letra indica um diâmetro
nominal específico. A numeração é arbitrária e não segue o mesmo critério nos diversos
países. O critério adotado pela Companhia Brasileira de Cartuchos é o mostrado a seguir:

4
É o parâmetro que indica qual a quantidade de pólvora em peso que pode ser colocada em uma mesma unidade
de volume
Fonte: CBC

3.1.5. Buchas

As buchas apresentam a função de, ao se


expandirem, selarem o cano, não permitindo o escape
de gases oriundos da queima da pólvora e fazendo,
dessa forma, com que a distribuição da energia seja
uniforme sobre a carga de balins. Realizam ainda a
tarefa de manter a pressão em nível adequado, tanto
na câmara quanto no cano durante o deslocamento da
carga de balins.

As buchas são constituídas de diversos materiais,


como papel, papelão, cortiça, serragem e parafina (prensadas), feltro ou buchas pneumáticas
(plásticas). É comum a utilização de discos de papelão na utilização de buchas prensadas para
separar a bucha dos grãos de pólvora e ainda para separá-la da carga de balins, ou com a
função de tampa nos cartuchos de fechamento orlado.

As buchas e os discos de papelão, quando encontrados em locais de crime ou na área


lesionada, podem definir o calibre da arma utilizada.

3.2. Vida útil dos cartuchos guardados na embalagem original

Segundo a Companhia Brasileira de Cartuchos, a vida útil de cartuchos marca CBC,


armazenados em sua embalagem original, é de cerca de 5 (cinco) anos. Isso se a munição for
estocada em condições adequadas, ou seja, em local bem ventilado, protegido de raios diretos
do sol e à temperatura ambiental normal (20 a 25ºC). Se a temperatura for mantida uniforme,
ao redor de 15ºC, a vida útil dos cartuchos CBC pode ser prolongada de 3 a 4 vezes. A
umidade relativa do ar ideal para a conservação dos cartuchos é de 40 a 60%.

Após os cinco anos, inicia-se um processo lento de decomposição da pólvora, resultando


numa deterioração, também lenta, mas progressiva, das características balísticas da munição.
Na maioria das munições militares, o cartucho é considerado ainda em condições de uso,
mesmo que a velocidade média de uma série de 10 tiros esteja 5% abaixo do valor médio de
fabricação. Esse percentual é aumentado para munições destinadas ao uso civil, cujos critérios
de avaliação não são tão rígidos.

Finalizando...

Neste módulo, você estudou que:

Cartucho é a designação genérica das unidades de munição utilizadas nas armas de


fogo de retrocarga. Segundo o Decreto nº 3.665, de 20/11/2000, pode-se entender
munição como: “artefato completo, pronto para carregamento e disparo de uma arma,
cujo efeito desejado pode ser: destruição, iluminação ou ocultamento do alvo; efeito
moral sobre pessoal; exercício; manejo; outros efeitos especiais” (art. 3º, inciso LXIV,
anexo);

Os cartuchos mais conhecidos e empregados hoje em dia são: cartuchos para armas
raiadas de percussão central, cartuchos para armas raiadas de percussão radial e
cartuchos para armas de alma lisa de percussão central;

Em quase todas as espécies de cartuchos, verifica-se a utilização de alguns


componentes essenciais como o estojo, a espoleta, o propelente (pólvora) e o projétil;

Para a balística forense, o projétil é a parte do cartucho que foi ou que pode ser
lançada através do cano sob a ação dos gases resultantes da queima do propelente;

Os projéteis podem ser divididos em três grupos distintos: os projéteis de chumbo


(projéteis nus), os projéteis jaquetados ou projéteis encamisados (total ou
parcialmente) e os projéteis especiais;

Os cartuchos destinados a armas de alma lisa apresentam os seguintes elementos


essenciais: estojo, espoleta, pólvora, projéteis (projéteis singulares, balins ou projéteis
especiais) e buchas e discos de papelão.

papel, papelão, cortiça, prensadas (serragem e parafina), feltro ou buchas pneumáticas


(plásticas).
Módulo 5 – Calibre das armas

Apresentação do Módulo

Observe a definição a seguir:

“Calibre: medida do diâmetro interno do cano de uma arma, medido entre os fundos do
raiamento; medida do diâmetro externo de um projétil sem cinta; dimensão usada para definir
ou caracterizar um tipo de munição ou de arma.” (Decreto nº 3.665, art. 3º, inciso XXXV,
anexo).

Você percebeu que na definição acima calibre é uma terminologia aplicada tanto às armas de
fogo como à munição empregada nestas armas?

De forma geral, o termo calibre é usado para indicar o diâmetro interno do cano da arma, a ser
medido de acordo com critérios específicos, mas também é empregado para designar um tipo
particular de munição. Nesse caso, não traduz somente o diâmetro do projétil, mas também
detalhes da interação do estojo à câmara da arma, como o seu comprimento e a forma de
extração quando deflagrado.

Normalmente as terminologias sobre os calibres das armas e munições são empregadas


erroneamente, o que pode levar a erros de interpretação, principalmente sobre a
compatibilidade de determinada munição com alguma arma suspeita. Outro fator importante
são as diversas denominações para o mesmo calibre, o que pode levar o policial a pensar que
se trata de calibres diferentes quando são apenas denominações diferentes para o mesmo
calibre.

Determinar o calibre de uma arma de alma raiada ou de uma arma de alma lisa envolve
questões e nomenclaturas próprias. Para melhor compreensão sobre esse assunto, você
estudará, nas aulas deste módulo, os conceitos básicos que permitirão nominar de forma
correta os calibres das armas e munições.
Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Identificar e classificar os diversos calibres das armas raiadas e de alma lisa, bem
como das munições;

Compreender as diversas nomenclaturas e o significado de cada dígito utilizado para


designar os calibres;

Decodificar os dígitos utilizados para designar os calibres e estabelecer a correlação


entre eles com a utilização das tabelas e dados apresentados no módulo;

Identificar os choques utilizados nas armas de alma lisa, a sua importância e emprego.

Aula 1 – Calibre de armas de alma raiada

1.1. Calibre real

A alma do cano de uma arma raiada é formada


por cheios e cavados ou raias. As raias você já
sabe que são sulcos helicoidais que fazem com
que o projétil, ao se engajar a eles (raiamento),
adquira a rotação necessária para a
estabilização de sua trajetória e um maior
alcance máximo e útil.

O calibre real é uma grandeza medida na boca


do cano da arma e corresponde ao diâmetro
interno entre os cheios diametralmente
opostos (land diameter). É sempre uma medida exata, dentro de escassos limites de
tolerância. Nos casos em que o número de raias for par, haverá sempre pares de cheios em
oposição a outro, e o calibre real será a medida entre eles. Entretanto, quando o número de
raias for ímpar, cada cheio fica em oposição a uma raia. Nesse caso, a medida deve ser
tomada entre a superfície de um cheio e a delimitação entre o cheio e a raia, em posição
oposta.

O calibre real é sempre menor que o diâmetro do projétil; dessa forma, não há perda dos gases
que o impulsionam e fazem com que o projétil, ao acompanhar o giro do raiamento, adquira o
movimento rotacional que permite a estabilização de sua trajetória.

O calibre real é expresso em milímetros ou fração de milímetros nos países que adotam o
sistema métrico e em fração de polegada nos que ainda usam o sistema inglês de medidas.

1.2. Calibre nominal

O calibre nominal é usado para designar um tipo particular


de munição e também é utilizado nas armas nas quais esse
tipo de munição é empregado, por isso devemos descrever
com maior detalhe o calibre nominal. A foto ao lado é bem
representativa, pois os dois cartuchos são de calibre .50. O
maior e primeiro cartucho é o .50 BMG (Browning
Machine Gun) e o outro cartucho é o .50 AE (Action
Express), utilizado em pistolas semiautomáticas.
Excetuando-se o diâmetro do corpo cilíndrico do projétil, as
demais características são muito diferentes.

O calibre nominal, de forma diferente do calibre real, não se refere apenas ao diâmetro do
projétil; apresenta também uma série de outras informações, como o comprimento do estojo e
a forma de travamento desse estojo na câmara, indicando assim se esse estojo é com aro ou
sem aro, se é do tipo garrafinha, cinturado ou apresenta outras formas construtivas.

Indica também quanto ao sistema de percussão: se é de fogo central ou de fogo circular. Dessa
forma, quando é citado o calibre nominal, .32 S&WL ou .32 Colt New Police, sabe-se que o
estojo é cilíndrico e com aro, o tipo de iniciação é por fogo central e que o diâmetro do
projétil é de cerca de 7,92mm, podendo apresentar pequenas variações dentro de limites de
tolerância preestabelecidos. O comprimento do estojo é de 23,37mm, entre outras
informações. Esse cartucho foi desenvolvido pela Smith & Wesson e pela Colt, para seus
revólveres, sendo a única diferença a época o formato da ponta do projétil.
1.2.1. Representação do calibre nominal

Para representar o calibre nominal, expresso em frações de polegada, convencionou-se


colocar um ponto na frente do número que representa a fração de polegada, com a supressão
da representação gráfica de polegada. Por exemplo, em vez de escrever 0,38" (trinta e oito
centésimos de polegada), escreve-se .38 , seguido do tipo de arma para o qual se destina o
cartucho: .38 Special, .357 Magnum , .40 S&W.

1.2.2. Nomenclatura dos calibres nominais

Na nomenclatura adotada para os calibres nominais encontram-se designações agrupadas em


três sistemas:

Sistema americano;

Sistema inglês;

Sistema europeu.

A seguir, você estudará cada um deles.

Sistema americano

Os Estados Unidos não só é um dos maiores produtores de arma, como também um dos
maiores mercados consumidores de armas de fogo. No seu sistema, é comum a utilização de
dois números significando o diâmetro do projétil em centésimos de polegada seguido de
letras, palavras ou números com significados como:

1. Uso de letras para designar tipos de arma a que se destinam: .380 ACP (Automatic
Colt Pistol), .45 ACP (Automatic Colt Pistol). (Cartuchos destinados a pistolas, logo o
estojo é sem aro com a virola para encaixe do extrator.)

2. Uso de adjetivos indicando o tamanho do cartucho: .22 Short (pequeno ou curto);


.22 Long (longo); .22 LR - Long rifle (rifle longo)

3. Uso de adjetivos identificando o tamanho e a identificação do fabricante que o


produziu: .41 Long Colt , .38 Long Colt
4. Uso de logomarcas ou dos nomes, identificando os fabricantes: .38 Smith &
Wesson, .223 Remington, .308 Winchester

5. Uso de nomes de marcas indicando as armas a que se destinam: .30 Luger; .30
Mauser

6. Uso de expressões de efeito publicitário: .22 Hornet ; .357 Magnum ; .44 Magnum

7. Uso de expressões de efeito publicitário associado ao nome do fabricante: .38


S&W Special, .44 S&W Russian, .22 Remington Jet

8. Uso de números indicando: .30-03 (calibre oficial dos EUA, adotado em 1903),
.30-06 (alteração do calibre .30-03, adotada em 1906)

9. Uso de números indicando características técnicas: 250-3000 Savage (indica que o


projétil tem uma velocidade de boca de 3000 pés por segundo). É interessante notar a
designação de muitos calibres, como o calibre .45 – 70 Springfield ou .45 – 70 – 405,
adotado pelo governo americano em 1873, em substituição ao calibre .50 – 70 – 450.
Neles o diâmetro do projétil era de 0,45 centésimos de polegada, ou seja, 11,4mm, 70
grains de pólvora negra, equivalente a 4,5 gramas e o peso do projétil de chumbo de
405 grains equivalente a 26,2 gramas. Esse mesmo princípio era seguido pelas
designações dos cartuchos .32 – 20, 38 – 40, etc., comuns nas armas utilizadas na
conquista do oeste americano.

Sistema inglês

O sistema inglês é muito similar ao usado na América do Norte. Nele o calibre é definido a
partir de geralmente três números indicando o diâmetro do projétil em milésimos de
polegadas (algumas vezes em centésimos de polegadas) e acrescenta nomes para facilitar a
identificação de quem o produziu. Exemplos: .280 Jeffery, .375 Holland & Holland, .505
Gibbs e .275 Rigby.

Nota

A palavra "Express" foi muito utilizada pelos fabricantes ingleses para efeito publicitário,
como sinônimo de cartuchos de potências maiores utilizados, no século XIX, para caças nos
continentes: africano, asiático e americano.
Com a substituição da pólvora negra pelas pólvoras de base simples – sem fumaça, de
nitrocelulose – o termo passou a ser “Nitro Express”, como os cartuchos .600 Nitro Express e
.577 Nitro Express. Com o lançamento de cartuchos mais potentes (de maior energia
cinética), surgiu o nome "Magnum Nitro Express".

Importante!

O termo "Magnum" é empregado nos dias atuais para indicar cartuchos com maior quantidade
de pólvora (estojos com maior capacidade volumétrica), do que os normais ou similares, tanto
para armas curtas (.357 Magnum, .22 Magnum, etc.) quanto para armas longas (.300
Winchester Magnum, 7mm Remington Magnum, etc.)

Sistema europeu

Esse sistema é por muitos considerado o melhor sistema, pois permite a maior obtenção de
dados sobre o cartucho sem a consulta de manuais ou outros informativos.

Observe os detalhes do sistema:

As dimensões do projétil e do estojo são dadas em milímetros e são apresentadas em


dois grupos de números, podendo apresentar ou não letras como sufixo;

O primeiro grupo de números identifica o diâmetro do projétil (calibre) e o segundo, o


comprimento do estojo;

A ausência de qualquer letra após o calibre significa que o estojo é sem aro (caso da
grande maioria das pistolas);

Se o estojo não for desse tipo, é usado, após o conjunto de números, algumas letras
como sufixo como: a letra R para estojos com aro, as letras SR para semiaro, B para
cinturado e RB para rebatido.

Exemplos: 5,56 x 45mm, 7,62 x 51mm, 8 x 60mm, 9.3 x 72 R, 9,3 x 80 Rmm.

1.2.3. Observações sobre os vários sistemas dos calibres nominais

Com o passar do tempo, como alguns calibres ficaram muito conhecidos, o segundo grupo de
números foi omitido, a exemplo dos conhecidos 6,35mm e o 7,65mm.
O uso de nomes com ou sem o segundo grupo de números também é comum. Exemplos:
7,65mm Parabellum, 9mm Parabellum, 5,5mm Velodog.

Devido à existência de diferentes sistemas, um cartucho pode ser conhecido ou


comercializado com diferentes nomes, como os listados a seguir:

- 22 Hornet 5,6 x 35 Rmm


- 25 ACP 6,35mm
- 32 ACP 7,65mm
- 30 Luger 7,65mm Parabellum
- 9mm Luger 9mm Parabellum (9 x 19mm)
- 30 Nato 7,62 x 5 1mm Nato 1
- 7mm Mauser 7 x 57mm
- 30-30 WCF 7,62 x 5 1 Rmm
- 30 Mauser 7,63mm Mauser ou 7,63 Militar
- 380 ACP 9 mm Browning Short (Kurtz)
- 30-06 7,62 x 63mm

1.2.4. Calibres nominais X calibres reais

Quando uma arma é destinada a consumir um determinado tipo de munição, deve ser
designada por um calibre nominal específico. A utilização de cartuchos não apropriados pode
ser prejudicial ao rendimento e à conservação da arma, bem como à integridade física do
atirador.

Normalmente, o calibre da arma é designado pelo calibre nominal da munição a ela


correspondente, e esse calibre é gravado no cano dos revólveres e, nas pistolas, em uma das
faces laterais do ferrolho.

NOTA

Na prática, o que determina numa arma o calibre nominal é a configuração interna da câmara
na qual será alojado o cartucho.

Para um mesmo calibre real podem existir vários calibres nominais, como ocorre, por
exemplo, com armas de calibre real 8,9mm, que possuem, entre outros, os seguintes calibres

1
O termo Nato é uma sigla na língua inglesa para OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte
nominais: .38 Short Center Fire, .38 Smith & Wesson (.38 S&W), 38 Smith & Wesson Long
(.38 S&WL), .38 Special e .38 Special Smith & Wesson, entre outros.

NOTA

Na Argentina as pistolas de calibre .45 ACP normalmente são conhecidas pelo seu calibre
real, ou seja, 11,25mm.

Como você já estudou anteriormente, diferentes nomenclaturas podem gerar equívocos.


Sendo assim, pode-se estabelecer, para os calibres nominais americanos das armas raiadas,
expressos em centésimos de polegada, a seguinte relação com seus equivalentes convertidos
em milímetros e os respectivos calibres reais.

Calibres nominais Calibres equivalentes


Calibres reais
americanos convertidos em milímetros
.22 5,59mm 5,6mm
.25 6,35mm 6,35mm
.30 7,62mm 7mm
.32 8,13mm 7,65mm
.38 9,65mm 8,9mm (9mm)
.44 11,18mm 10,8mm (11mm)
.45 11,43mm 11,25mm

Aula 2 – Calibre das armas de alma lisa

Da mesma forma que as armas de alma raiada, as armas de alma lisa também apresentam
calibres reais e calibres nominais e ainda possuem um estrangulamento da boca do cano
chamado choque (choke).

O seu conhecimento é muito importante para que você possa identificar de forma precisa uma
arma de alma lisa.

2.1. Calibre real

O calibre real das armas com canos de alma lisa é a medida que corresponde ao diâmetro
interno do cano, tomada em sua região mediana.
Importante!

Não deve ser tomada essa medida na boca do cano, pois, dependendo do tipo de choque,
podem-se obter medidas diferentes para um mesmo calibre real.

2.2. Calibre nominal

O sistema utilizado para definir os calibres das armas de alma lisa é um sistema arcaico e tem
sua origem, segundo consta, em Londres no ano de 1868. Nesse sistema, o calibre nominal é
um número que indica a quantidade de esferas de chumbo com diâmetro igual ao da alma do
cano da arma (calibre real), necessárias para formar o peso de uma libra (massa de 453,6g).
Assim, o calibre 12 significa que são necessárias 12 esferas de chumbo com diâmetro de
18,5mm para formar 453,6 gramas.

2.3. Calibre nominal X calibre real

Os calibres nominais são expressos por números inteiros, cujos valores variam na razão
inversa dos calibres reais respectivos. Pode-se estabelecer a seguinte relação entre os calibres
reais e os respectivos calibres nominais:

Calibre nominal Calibre real


40 9,1mm
36 10,4mm
32 12,2mm
28 13,0mm
24 14,3mm
20 15,9mm
16 16,2mm
12 18,5mm
10 19,7mm
8 21,2mm
O calibre nominal 36, cujo calibre real é de 0,410 polegadas, 10,4mm, é designado como:
.410, especialmente fora do Brasil. O calibre nominal 40 é também designado como calibre
9,1mm, que é seu calibre real.

A fórmula ao lado permite calcular o


diâmetro do cano em relação ao
calibre:

- A letra d representa o diâmetro;

- A letra n representa o número


significativo do calibre.

Importante!

Para alguns calibres, como o 36 e o 40, a designação não seguiu a regra geral da
denominação dos calibres das espingardas, por isso a fórmula não apresenta, para esses
calibres, resultado correto.

2.4. Choque

Choque (choke) é um estreitamento da alma do cano, junto de sua boca, com a finalidade de
produzir melhor agrupamento dos chumbos (balins), visando a obtenção de maior alcance e
precisão do tiro.

O choque normalmente é precedido de uma rampa de formato cônico, com dimensão que
varia de indústria para indústria, cujo menor diâmetro coincide com a do choque. Esse tipo de
choque é denominado de choque convencional.
2.4.1. Denominações do choque

Cada cano possui um determinado tipo de choque. Os choques recebem as seguintes


denominações:

1. Full (F) ou choque pleno ou cheio

2. Improved Modified (IM) ou modificado melhorado (3/4 de choque)

3. Modified (M) ou modificado (1/2 choque)

4. Improved cylinder (IC) ou cilíndrico melhorado (1/4 de choque)

5. Cylinder (CL) ou cilíndrico (sem choque)

2.4.2. Representação do choque

A representação do choque, segundo a simbologia americana, é feita com o emprego da(s)


letra(s) inicial(is) do nome do respectivo choque (F, IM, M, IC e CL). Na Europa, a indicação
do choque é feita com estrelas ou asteriscos (*), com o seguinte significado: uma estrela para
o choque full; duas estrelas para o modified; três estrelas para o improved cylinder.

O tipo de choque de cada cano é gravado, através do seu símbolo (letra ou estrela), sobre o
cano e na altura da câmara.

As espingardas de um cano possuem como regra geral o choque full (F).

Nas armas de dois canos, a indicação dos choques é feita individualmente, como M/F, por
exemplo. Essa indicação significa que o cano com o qual é dado o primeiro tiro possui o
choque modified (modificado) e o outro tem o choque full (choque pleno).
A figura ao lado mostra
a dispersão dos balins
em relação aos
diferentes choques e à
distância.

Fonte: CBC

O choque pleno (full) é o de menor diâmetro, isto é, o que dá maior estrangulamento da alma
do cano, garantindo, em consequência, menor dispersão, maior e melhor grupamento e a
possibilidade de tiro a maior distância. Por esse motivo, em espingardas de dois canos, o
choque do cano com o qual é dado o segundo tiro é sempre menor, mais estreito do que o
choque do cano usado para o primeiro tiro.

A tabela a seguir apresenta a redução no diâmetro ou o estrangulamento relativo para cada


choque e calibre:

Choque/calibre 12 16 20 28 32 36
Pleno 1,00 mm 0,85 mm 0,75 mm 0,65 mm 0,55 mm 0,45 mm
¾ 0,75 mm 0,65 mm 0,55 mm 0,45 mm 0,45 mm 0,30 mm
½ 0,50 mm 0,45 mm 0,35 mm 0,30 mm 0,20 mm 0,20 mm
¼ 0,25 mm 0,25 mm 0,20 mm 0,15 mm 0,10 mm 0,10 mm
Skeet 0,20 mm 0,17 mm 0,15 mm 0,10 mm 0,10 mm -

Modernamente, adotou-se o uso de choques cambiáveis, o que permite ao atirador usar, num
mesmo cano, mais de um tipo de choque, podendo optar pelo mais adequado para
determinada caça ou esporte. O choque cambiável é constituído de uma peça com rosca
externa, a qual é parafusada na boca do cano da arma. Esse tipo de choque é fabricado e
comercializado pela indústria E.R. Amantino & Cia. Ltda., fabricante das armas da marca
Boito, Era e Gaúcha-IGA, e é usado em vários calibres.

Nota

As espingardas de uso policial, por comportarem projéteis de borracha, lacrimogêneo e


munições explosivas, não podem apresentar estreitamento da boca do cano, ou seja, não
usam choque (choque cilíndrico).

2.4.3. Grupamento

Os choques dos canos controlam o grupamento dos balins de chumbo e são usualmente
determinados pela procentagem de balins que atingem um alvo (placa) de 75 cm de diâmetro,
a uma distância convencional de 35 metros (27 metros para os calibres 28, 32 e 36). Essa
porcentagem pode variar muito pouco com uma mesma arma, dependendo, em linhas gerais,
do tamanho do cartucho, da carga de pólvora e do tamanho e número de balins de chumbo
usados no carregamento do cartucho.

A tabela a seguir mostra a correspondência entre o choque e grupamento.

Estrangulamentos (choques) Grupamento


Total (choke pleno) 70 - 75 %
¾ 60 - 65 %
1/2 (meio choke) 50 - 60 %
¼ 40 - 45 %
Cilíndrico 35 - 40 %
Skeet 60 % (a 20 m)

Os resultados com uma arma de qualidade e cartuchos de boa procedência são normalmente
os assinalados na tabela e devem apresentar uma distribuição (dispersão) uniforme.

Num cano cilíndrico, a dispersão do chumbo inicia-se na saída. No choke pleno, a carga de
chumbo sai comprimida e a dispersão será menor. Como lançam a carga a uma distância um
pouco maior do que as outras formas de estrangulamento do cano para o mesmo calibre,
conclui-se que o grau do choke determina o alcance máximo da arma. O grupamento do cano
de choke pleno a 35 metros também pode ser conseguido com o cano de meio choke a 30
metros e pelo de 1/4 de choke a 25 metros.

Nota

Mais importante do que a porcentagem de chumbos que atingem o alvo é a distribuição


uniforme deles dentro da área de impacto (alvo), chamada de rosada do tiro.

Um cartucho Velox (CBC), calibre 20, carregado com 22,5 g de chumbo no 7 (diâmetro de
2,5mm) comporta aproximadamente 248 balins. Portanto, se disparado de um cano de choke
pleno à distância de 35 metros, de acordo com as normas adotadas, teria que contar de 171 a
186 impactos dentro do círculo de 75 cm de diâmetro. Se o cano usado for de 1/2 choke, serão
aproximadamente 136 impactos (55%). O mesmo deve ocorrer se usados outros tamanhos de
grãos de chumbo.

Esse fato permite explicar por que normalmente não é possível determinar o calibre da
espingarda pelo número de balins que atinge uma superfície suporte.

Finalizando...

Neste módulo, você estudou que:

Calibre é a medida do diâmetro interno do cano de uma arma, medido entre os fundos
do raiamento; medida do diâmetro externo de um projétil sem cinta; dimensão usada
para definir ou caracterizar um tipo de munição ou de arma. (Decreto nº 3.665, art 3º,
inciso XXXV, anexo);

Nas armas de alma raiada, o calibre real é uma grandeza medida na boca do cano da
arma e corresponde ao diâmetro interno entre os cheios diametralmente opostos (land
diameter), e o calibre nominal é usado para designar um tipo particular de munição e
também é utilizado nas armas nas quais esse tipo de munição é empregado – por isso
devemos descrever com maior detalhe o calibre nominal;

O calibre real das armas com canos de alma lisa é a medida que corresponde ao
diâmetro interno do cano, tomada em sua região mediana;
Nas armas de almas lisas, o calibre nominal é designado por um sistema arcaico que
tem sua origem, segundo consta, em Londres no ano de 1868. Nesse sistema, o calibre
nominal é um número que indica a quantidade de esferas de chumbo, com diâmetro
igual ao da alma do cano da arma (calibre real), necessárias para formar o peso de uma
libra (massa de 453,6g). Assim, o calibre 12 significa que são necessárias 12 esferas
de chumbo com diâmetro de 18,5mm para formar 453,6 gramas;

Choque (choke) é um estreitamento da alma do cano, junto de sua boca, com a


finalidade de produzir melhor agrupamento dos chumbos (balins), visando a obtenção
de maior alcance e precisão do tiro;

Os choques dos canos controlam o grupamento dos balins de chumbo e são


usualmente determinados pela porcentagem de balins que atingem um alvo (placa) de
75 cm de diâmetro a uma distância convencional de 35 metros (27 metros para os
calibres 28, 32 e 36).
Módulo 6 – Rastreamento de armas

Apresentação do Módulo

A maioria dos crimes contra a vida e de outros crimes violentos em nosso país ocorre com o
emprego de uma arma de fogo. Conhecer as rotas, as formas, os mecanismos que propiciaram
o emprego desse instrumento em um crime específico permite investigar um crime “sem
rosto”, que é o tráfico de armas.

Na Rede EAD há um curso específico que trata sobre as ações para o controle de armas de
fogo. Contudo, neste módulo você estudará informações sistematizadas que facilitarão a
identificação de uma arma, a sua busca em banco de dados quando necessário, o seu
rastreamento e a investigação policial.

Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Identificar os elementos contidos no registro de armas de fogo;

Compreender o processo de gravação de maneira geral, em especial os números de série


das armas, as marcas de prova, logomarcas e as gravações das bases de munições;

Contribuir para as ações de rastreamento de armas e munições, bem como para a


investigação policial.

Estrutura do Módulo

Aula 1 – Identificação direta: aspectos práticos

Aula 2 – Número de série das armas de fogo

Aula 3 – Outros sinais identificadores

Aula 4 – Rastreamento de munição


Aula 1 – Identificação direta: aspectos práticos

1.1. O que é identificação?

Não importa a função que você desempenhe; de forma mais ou menos corriqueira, boa parte
dos policiais terá que descrever alguma arma de fogo em relatórios, ocorrências ou qualquer
outra forma de registro, com o objetivo de identificar, de forma inequívoca, essa arma. Nessa
descrição devem constar as suas características e detalhes particulares para evitar qualquer
confusão com outra semelhante.

Considerando que o objetivo da aula é identificar, é importante saber o que significa


identidade. Sendo assim, identidade é:

A qualidade de cada ser, ou coisa, de se manifestar como algo único e distinto por
características que lhe são próprias e exclusivas, impedindo a sua confusão com outros.

A identificação é o ato, ou o conjunto de atos, praticado com vistas a estabelecer a


identidade. Qualquer identificação pode se processar de forma direta, ou seja, quando, diante
do próprio objeto, ser ou coisa em geral, estabelece-se a sua identidade através do exame do
conjunto dos elementos que lhe são próprios e exclusivos.

Você já estudou os principais aspectos relacionados às características de classificação das


armas de fogo. Essas informações são as que você utilizará neste curso e no seu dia a dia. A
sistematização desses conhecimentos criará condições para que você esteja atento a simples
detalhes, e isso fará toda diferença.

Mas o que é sistematizar?

Sistematizar é o processo que envolve a utilização de uma metodologia única, evitando que
cada pessoa utilize as informações a sua maneira. A sistematização impede enganos quando
se precisa dessas informações.

Uma mesma metodologia possibilita:

O rastreamento das armas de fogo desde a sua produção até o momento do exame;

A criação de bancos de dados confiáveis e a realização de consultas a eles;


A formulação de políticas públicas baseadas em dados mais reais.

1.2. Registro de armas de fogo

Para se rastrear uma arma de fogo, as convenções entre países estabeleceram algumas
informações básicas, como:

Fabricante, importador, tipo, modelo, calibre, capacidade de cartuchos, tamanho do cano,


acabamento, número de série e país de origem.

A legislação brasileira estabelece por meio da Portaria no 07, de 28 de abril de 2006, do


Departamento Logístico do Exército Brasileiro do Ministério da Defesa, a obrigatoriedade de
inscrições, como transcrito a seguir:

Art. 5º. As armas fabricadas no país deverão apresentar as seguintes marcações:

I - nome ou marca do fabricante;

II - nome ou sigla do país;

III - calibre;

IV - número de série impresso na armação, no cano e na culatra, quando móvel; e

V - o ano de fabricação quando não estiver incluído no sistema de numeração


serial.

Os aspectos legais auxiliam a ordenar as informações e representam um método a ser seguido.


Você deve buscar, sempre que possível, ordenar as informações partindo das características
gerais para as características específicas e, por fim, para as características individuais.

Outra possibilidade é adotar, quando possível, os dados e a ordem seguida nos registros de
arma de fogo, pois esses registros são para as armas o que a identidade civil é para uma
pessoa, o que os transforma na maior fonte de informações sobre elas.
Todas as informações sobre armas de fogo
devem estar contidas no Sistema Nacional
de Armas (SINARM), o maior banco de
dados sobre esse assunto.

1.2.1. Descrição com base nos elementos do registro de armas de fogo

Espécie

A primeira informação é a espécie. Revólver, pistola, espingarda, carabina são espécies de


armas de fogo. Nas aulas anteriores, você estudou as informações necessárias para proceder à
classificação de espécie.

Marca

Outra informação fundamental refere-se à marca do fabricante. A grande maioria das armas
de fogo brasileiras são ou foram produzidas pela
Forjas Taurus S.A., Amadeo Rossi S.A., IMBEL
– Indústria de Material Bélico do Brasil, CBC –
Companhia Brasileira de Cartuchos ou E.R.
Amantino & Cia Ltda. (produtora das espingardas
Boito, Era, etc.). Embora esses sejam os
principais, pode-se encontrar armas da Indústria
Nacional de Armas (INA), Castelo, Beretta,
Chapina, Uru entre outras, sem falar nas centenas
de produtores de armas de origem estrangeira.
Nota

A gravação de informações que permitem a identificação direta, como a marca do fabricante,


logomarca, número de série, calibre nominal, modelo e arsenais de prova onde foram testadas,
geralmente pode ser encontrada na armação, ferrolho, cano ou caixa de mecanismo.

Modelo, calibre e número de série

As informações do modelo, calibre e número de série, quando disponíveis, são dados que
permitem a individualização da arma. O número de série nas armas de fogo apresenta a
sequência cronológica da ordem de produção dessas armas, e também pode demonstrar a data
de produção (mês e ano), calibre, modelo, entre outras informações.

Capacidade de tiros

A quantidade de munições que uma arma comporta e o seu sistema de municiamento são
informações essenciais que devem ser descritas, ou seja, a capacidade de tiros que
comportam os carregadores unifilar ou bifilar das
pistolas, submetralhadoras ou fuzis, a quantidade de
câmaras do tambor de um revólver e a capacidade do
tubo carregador das carabinas e espingardas de
repetição. Mesmo nos casos das armas de tiro
unitário, ou, ainda, daquelas que apresentam um
compartimento de munições como parte integrante,
essas informações são importantes.

Mas não é só a capacidade de munição que deve ser descrita. Deve-se descrever todo o
sistema de municiamento, como “municiamento por tambor reversível com cinco câmaras de
municiamento” ou “municiamento por carregador do tipo caixa, bifilar com capacidade de
onze cartuchos”.

Nota

No caso do registro de arma apresentado anteriormente, o carregador também é dotado de


prolongador que permite a introdução de mais dois cartuchos no carregador, além do limite do
fabricante, passando a comportar não mais onze cartuchos, e sim treze cartuchos.
Sistema de funcionamento

Deverá ser descrito o sistema de funcionamento da arma 1(ou seja, se a arma é de tiro unitário,
de repetição, semiautomática ou automática) e, ainda, como se processa esse funcionamento2.

Acabamento

Outro subitem necessário na descrição de uma arma é o acabamento, que consiste em um


tratamento superficial dado em sua estrutura. De forma simples, o acabamento consiste no
processo de aplicação de compostos químicos – geralmente por banhos – no intuito de
proteger a arma de intempéries, ação abrasiva ou oxidação, além de proporcionar melhor
apresentação. Um dos principais acabamentos é o niquelado, que é um tratamento no qual se
aplica uma fina camada de níquel por meio de banho eletrolítico. Processos semelhantes
formam o acabamento oxidado, cromado, fosfatado ou entintado. Armas confeccionadas em
aço inoxidável não apresentam acabamento (todas as peças da arma são confeccionadas nessa
espécie de aço, que apresenta boa resistência à corrosão e ferrugem).

A arma ao lado teve o acabamento


superficial suprimido.

Quantidade de canos

A quantidade de canos de uma arma,


principalmente nas espingardas e garruchas, é uma
informação essencial, assim como a disposição
deles, ou seja, como os canos se apresentam:

1
Para Recordar 1
2
Para Recordar 2
paralelos ou sobrepostos. É importante lembrar que, no caso de armas mistas (com um cano
de alma lisa e outro com cano de alma raiada), detalhar essas características é fundamental.

Comprimento do cano

Os dados necessários sobre o cano vão além da quantidade; também são essenciais
informações sobre o seu comprimento – ele diferencia de carabina para fuzil, pode
determinar se uma determinada espingarda é de uso restrito ou permitido, além de ser um
fator que determina a velocidade máxima do projétil disparado por aquela arma.

Tipo de alma

O próximo passo é definir o tipo de alma do cano, se raiada ou lisa.

Quantidade de raias

No caso das almas raiadas, é fundamental também relatar a quantidade de raias. Só para
relembrar, raias, de acordo com o R-105, são: “sulcos feitos na parte interna (alma) dos canos
ou tubos das armas de fogo, geralmente de forma helicoidal, que têm a finalidade de propiciar
o movimento de rotação dos projéteis, ou granada, que lhes garante estabilidade na trajetória”.

Não é uma tarefa muito fácil, para alguns, contar o número de raias de um cano; no entanto,
com um pouco de experiência, usando um sistema de iluminação – que pode ser uma lanterna
ou a luz solar – fica mais fácil definir os ressaltos e as raias ou cavados e, uma vez definidas
as raias, basta contá-las.

Sentido das raias

Mas não acaba por aí. É necessário definir o sentido de giro dessas raias, ou seja, se giram
para direita ou dextrogira (quando giram no sentido horário) ou se giram para esquerda ou
sinistrogira (quando o giro das raias acontece no sentido anti-horário). A grande maioria das
armas apresenta o sentido de giro para a direita, caso das armas da Taurus, Smith & Wesson,
Rossi, etc. O sentido de giro à esquerda é usado pela Colt, entre outros fabricantes. Na prática,
o giro do projétil tem fator primordial no alcance máximo, no alcance com precisão, na
estabilidade do projétil e em outras características balísticas, mas o sentido de giro não faz
diferença alguma para os aspectos balísticos acima;
sua importância se dá somente para a identificação
direta e indireta das armas de fogo.
Extensão da câmara

Nas armas de alma lisa, é importante definir a extensão da câmara (comprimento) e choque
(choke)3 que é um estreitamento da alma do cano, junto de sua boca, com a finalidade de
produzir melhor agrupamento dos chumbos, visando a obtenção de maior alcance e precisão
do tiro.

País de produção

Outro subitem refere-se ao país de produção. É importante


lembrar que muitos produtores possuem fábricas em
diversos países e, quando possível, definir o país onde foi
produzida certa arma ajuda a rastreá-la.

1.2.2. Outras informações importantes para a descrição das armas

Embora a descrição realizada com fundamento nas informações contidas no registro de armas
auxilie a sistematização da descrição, outras informações devem ser relatadas em casos
específicos em que essa informação passa a ser essencial, por exemplo, nos casos de armas de
alumínio, titânio, zamack ou outras ligas, pois a grande maioria das armas de fogo é
constituída em aço (liga de ferro e carbono) e, por isso, geralmente não são descritas.

O mesmo procedimento é adotado com as armas que apresentam, por exemplo, ferrolho e
cano em aço e armação em polímeros ou alumínio, como é
o caso das pistolas Glock e Taurus. A grande maioria das
armas é de retrocarga; então, somente se a arma for de
antecarga deve-se mencionar. O mesmo acontece com
dispositivos do sistema de inflamação, pois ainda é muito
comum o uso de espoletas extrínsecas.

Outra informação importante refere-se aos sistemas de segurança, ou seja, se a arma


apresenta alguma tecla externa para acionar esse sistema. A maioria das pistolas possuem
essas teclas. Travas de segurança automáticas, como as que estão presentes na tecla do gatilho

3
Para Recordar 3
das pistolas Glock, na empunhadura da submetralhadora MT12, na empunhadura das pistolas
Colt, modelo 1911 ou similares, também devem ser descritas.

Não é necessário desmontar uma arma para descrever o seu sistema de segurança (como no
caso dos revólveres), basta descrever o externo. Da mesma forma, é usual relatar sobre a
percussão, se direta ou indireta; sobre as placas da coronha, se são confeccionadas de madeira
ou material sintético, lisas ou recartilhadas; sobre chapa da soleira, coronha, telha e tudo mais.

Outro fator fundamental na identificação direta das armas de fogo são os acessórios. Nas
armas modernas é muito comum encontrar a utilização de quebra-chamas, lanternas, miras
especiais (desde miras óticas até miras a laser de diversos tipos), “funis”, gatilhos, supressores
de ruído e compensadores de recuo (por câmaras ou compensadores do tipo mag-na-port,
como o da fotografia acima), entre outros.

1.2.3. Exemplos de descrição de armas de fogo

Veja, a seguir, alguns exemplos de descrição de armas de fogo:

a) Pistola marca Taurus, modelo PT 24/7 PRO, calibre .40 S&W, número de série Sxx
xxxxx, semiautomática, com sistema de operação do tipo Blowback, de dupla ação,
armação inteiriça em material sintético de cor preta (da qual faz parte a empunhadura),
ferrolho e cano oxidados, percussão direta, municiamento realizado por meio de
carregador do tipo bifilar, cano e câmara medindo cento e oito milímetros de
comprimento, de alma raiada (6D), sistema de segurança acionado por alavanca
localizada na lateral esquerda posterior da armação. Apresenta o brasão das “Armas
Nacionais” gravado na lateral esquerda mediana do ferrolho.

b) Pistola marca Glock, modelo 23, calibre .40 S&W, número de série xxx xxx,
semiautomática, sistema de operação do tipo Blowback, de ação simples, armação em
polímero, cano e ferrolho em aço com acabamento oxidado, percussão direta,
municiamento através de carregador bifilar, com capacidade nominal para doze
cartuchos, dotada cano e câmara com cento e quinze milímetros (115mm) de
comprimento, de alma raiada (6D), sistema de segurança acionado por alavanca
localizada no gatilho.

c) Revólver marca Taurus, calibre .38 Special, modelo Ultra-lite, número de série
adulterado, lendo-se na lateral anterior direita da armação os dígitos xxxxx, acabamento
de tonalidade acinzentada (fosco), armação em alumínio, tambor e alma do cano em
aço, percussão indireta, cabo revestido por capa de material sintético de cor preta,
tambor reversível dotado de sete câmaras de municiamento, cano medindo cinquenta e
dois milímetros de comprimento, de alma raiada (5D).

d) Submetralhadora identificada por suas características como sendo da marca Beretta,


modelo 972, calibre 9mm Luger (9 x 19mm), número de série xxxxx, com acabamento
na cor preta (com desgastes), semiautomática/automática através de seletor do tipo
botão, situado na parte superior (região à frente da empunhadura posterior),
funcionamento através do sistema de operação do tipo Blowback e ferrolho aberto,
dotada de coronha metálica retrátil, municiamento realizado por meio de carregador
bifilar, do tipo caixa, cano e câmara medindo duzentos milímetros de comprimento, de
alma raiada (6D), com duas travas de segurança, sendo uma localizada na parte frontal
da empunhadura posterior, acionada através de tecla (trava automática), e a outra
através de botão (trava manual) localizado na região acima da referida empunhadura.
Apresenta gravados em sua lateral esquerda a inscrição “EXÉRCITO BRASILEIRO” e
o brasão das Armas Nacionais.

e) Espingarda de fabricação artesanal, de antecarga e tiro unitário, coronha e telha em


madeira inteiriça, soleira em material sintético de cor preta, percussão extrínseca
desenvolvida através de cão de puxar e travar à retaguarda no prolongamento do gatilho,
o qual incide sobre o ouvido, cano e câmara medindo setecentos e oitenta milímetros de
comprimento, doze milímetros de diâmetro interno (medido na boca do cano), de alma
lisa, com um compartimento na parte inferior da coronha dotado de tampa metálica
basculante (contendo oito espoletas metálicas, do tipo extrínseca), portando vareta de
recarga alojada na região inferior do cano e parte interna da telha, com um segmento de
cordão de tonalidade esverdeada amarrado à guisa de bandoleira. Apresenta fixado na
região inferior do cano um dispositivo de mira a laser.

f) Espingarda marca Boito, modelo Pump, calibre 12, número de série xxxxx, de
repetição, acabamento misto (caixa do mecanismo niquelada, cano e tubo carregador
oxidados, com desgastes), percussão indireta, empunhadura do tipo Pistol Grip em
material sintético de cor preta, telha em madeira, alimentação por meio do sistema
Pump Action (bomba), municiamento através de tubo carregador, cano de alma lisa
medindo juntamente com a câmara quinhentos e trinta milímetros de comprimento, com
dezoito milímetros e quatro décimos de milímetro de diâmetro interno (medido na boca
do cano), sistema de segurança acionado por tecla deslizante localizada na parte
superoposterior da caixa do mecanismo. Repare que o perito que promoveu a descrição
por não encontrar a gravação do choque, utilizou-se da medida da boca do cano, com a
qual se pode, caso seja necessário, inferir sobre o choque.

g) Fuzil marca HK, modelo 33, apresentando os caracteres xxxxxx gravados na lateral
esquerda do alojamento do carregador, calibre 5,56 x 45mm (.223 Remington),
acabamento entintado de preto, semiautomático/automático através de seletor do tipo
alavanca (trava de segurança com acionamento através da alavanca de posição de tiro),
percussão indireta, sistema de operação a gás, alça de mira regulável, massa de mira
fixa do tipo aparelho fechado, coronha retrátil, empunhadura em material sintético
rígido de cor preta, chapa de soleira em material emborrachado de cor preta, dotado de
bandoleira, municiamento por carregador tipo bifilar, cano dotado de quebra-chama
medindo, juntamente com a câmara, quatrocentos e oitenta milímetros de comprimento
(420mm) de comprimento, de alma raiada (6D).

Aula 2 – Número de série das armas de fogo

Nesta aula você terá acesso a mais informações sobre o número de série das armas de fogo; no
entanto, o enfoque não será sobre a posição e a profundidade em que estão gravados, nem o
método de gravação e conformação dos dígitos, muito menos quais são os reagentes
adequados para regenerar uma numeração suprimida. As informações a seguir o auxiliarão a
entender as codificações nele contidas e saber interpretá-las.

2.1. Número de série

O número de série é o principal elemento, é a chave para identificar o comprador e o


movimento da arma em termos de rastreamento.

O número de série nas armas de fogo pode não traduzir apenas a sequência cronológica da
ordem de produção daquele modelo. Em muitos tipos, pode demonstrar também a data de
produção (mês e ano), calibre, modelo, entre outras informações. O número de série pode ser
constituído por dígitos formados apenas por algarismos ou por dígitos compostos de
algarismos e letras.

Nota

Cada indústria adota o seu critério de composição do número de série. A forma, o processo de
gravação e o tamanho dos dígitos que formam os números de série podem mudar com o
passar dos anos dentro de uma mesma fábrica e de uma fábrica para outra.

Atenção especial deve-se ter com o país de produção, pois podem existir armas com o mesmo
número de série. Veja um exemplo:

Exemplo: Os fuzis do modelo AK 47 são produzidos em dezenas de países, como


Afeganistão, China, Rússia, Egito, Líbano, Marrocos, Síria, Hungria, Congo, etc. Por terem
sido produzidos mais de 50 milhões de exemplares dessa arma, então é de se esperar que
possam existir fuzis modelo AK 47, calibre 7,62 x 39, com o mesmo número de série.

2.2. Gravação do número de série

Como você estudou anteriormente, devido à importância do rastreamento das armas de fogo, a
legislação brasileira instituiu por meio da Portaria nº 07, de 28 de abril de 2006, do
Departamento Logístico do Exército Brasileiro/Ministério da Defesa, a obrigatoriedade de
inscrições, conforme descrito a seguir:

Art. 5º As armas fabricadas no país deverão apresentar as seguintes marcações:

IV - número de série impresso na armação, no cano e na culatra, quando móvel; e

V - o ano de fabricação quando


não estiver incluído no sistema de
numeração serial.

Algumas indústrias, antes dessa determinação, já


apresentavam esses dados gravados em suas armas.
Veja algumas a seguir:
2.2.1. Taurus

Nos revólveres Taurus, o número de série inicialmente era composto apenas por algarismos,
indicando apenas a ordem cronológica de produção. A partir do mês de maio de 1981, foi
introduzido o número de série alfanumérico, incorporando na numeração de série, de forma
codificada, a data de produção da arma através de duas letras gravadas no início da
numeração de série. O critério de correspondência das letras com o ano (1ª letra e 1º dígito da
numeração) e mês (2ª letra e 2º dígito da numeração) de fabricação é o apresentado na tabela a
seguir:

A 1981 M 1993 Janeiro A


B 1982 N 1994 Fevereiro B
C 1983 O 1995 Março C
D 1984 P 1996 Abril D
E 1985 Q 1997 Maio E
F 1986 R 1998 Junho F
G 1987 S 1999 Julho G
H 1988 T 2000 Agosto H
I 1989 U 2001 Setembro I
J 1990 V 2002 Outubro J
K 1991 W 2003 Novembro K
L 1992 X 2004 Dezembro L

A sequência acima, representativa do ano, termina no ano de 2006 com a letra Z, iniciando-se
novamente com a gravação da letra A para as armas produzidas no ano de 2007 e continuando
de forma sequencial até o ano de 2032, quando será gravada a letra Z.

A mudança significativa ocorre na codificação representativa do mês de produção. No período


compreendido entre os anos de 2007 e 2009, a letra representativa do mês de janeiro foi a
letra M e assim de forma sequencial até a letra Y para o mês de dezembro, como apresentado
na tabela a seguir:

M Janeiro N Fevereiro O Março


P Abril R Maio S Junho
T Julho U Agosto V Setembro
W Outubro X Novembro Y Dezembro
Nas gravações das letras representativas do mês para o período de 2010 a 2032, nova
mudança foi adotada. Da mesma forma que a letra Q não tinha sido utilizada para não gerar
enganos de interpretação com a letra O, deixou de ser utilizada a letra V pela possibilidade de
erros de interpretação com a letra U, como mostrado na tabela abaixo:
M Janeiro N Fevereiro O Março
P Abril R Maio S Junho
T Julho U Agosto W Setembro
X Outubro Y Novembro Z Dezembro
Outra observação importante é que essa indústria adotou o sistema alfanumérico, composto de
duas letras e cinco números para os revólveres com armação pequena, a exemplo dos
revólveres Taurus, calibre .38 Special, com tambores de cinco câmaras (modelo 85) e seis
algarismos para os de armação média e grande (revólveres Taurus com tambores de seis, sete
ou mais câmaras).

A Forjas Taurus S.A, após ter adquirido a patente dos revólveres Rossi, em junho de 1998,
passou a fabricar revólveres da marca Rossi, tendo adotado neles toda a codificação do
número de série dos revólveres com a marca Taurus, isto é, as mesmas letras de prefixo e duas
letras e cinco algarismos para os revólveres de 5 tiros (tambor com cinco câmaras) e duas
letras e seis algarismos para os revólveres de 6 tiros (tambor com seis câmaras).

Nas carabinas e também nas submetralhadoras Taurus/Famae, calibre .40 S.&W, produzidas a
partir de 2001, a codificação do número de série é a mesma utilizada nos revólveres, no
tocante às letras que são utilizadas como prefixo, sendo utilizados também cinco dígitos
numéricos para ordem cronológica de produção. O mesmo critério de prefixo é o utilizado
para as carabinas de calibre .22 LR ou .22 Magnum da Taurus, sendo utilizados apenas quatro
algarismos para a ordem cronológica de produção.

Nas pistolas Taurus foi introduzido o número de


série alfanumérico a partir do mês de outubro de
1987, composto por três letras e cinco algarismos.
Para as pistolas, a primeira letra indica o calibre da
pistola, e as outras duas indicam o ano e mês de
fabricação seguindo a mesma correspondência das
letras usadas nos revólveres. As letras que indicam calibre são as apresentadas a seguir:
Calibre nominal .400
A Calibre nominal .22 L.R. B
Corbon
Calibre nominal 6,35mm
C Calibre nominal .41 AE D
Browning
Calibre nominal 7,65mm
F J Calibre nominal .357 SIG
Browning
Calibre nominal .38 Super
K Calibre nominal .380 ACP L
Auto
N Calibre nominal .45 ACP S Calibre nominal .40 S&W

T Calibre nominal 9mm Luger

2.2.2. Beretta

Codificação extremamente semelhante é utilizada pela indústria Beretta. Nessa indústria, as


letras que compõem o prefixo indicam o país de produção. Geralmente, são utilizadas duas
letras para compor o prefixo, seguidas de números que fornecem a ordem cronológica de
produção para aquele modelo e calibre e, por fim, de uma letra como sufixo que indica o
calibre da arma, como na tabela abaixo:

Calibre nominal .22


T Calibre nominal .22 Short. U
L.R.
Calibre nominal 6,35mm Calibre nominal .380
V Y
Browning ACP
Calibre nominal 7,65mm Calibre nominal 9mm
W Z
Browning Luger

2.2.3. Rossi

A indústria Rossi foi a primeira das fábricas de armas nacionais a introduzir as numerações de
série alfanumérica, todavia com significado diferente do utilizado pela indústria Taurus. Nas
gravações da Rossi, as letras basicamente referem-se ao modelo. Nas armas mais antigas, o
número de série era apenas numérico, mas, a partir de junho de 1974, foi introduzido o
número de série alfanumérico, composto por uma ou duas letras e cinco ou seis algarismos.
Cada letra que antecede os algarismos corresponde a um modelo de arma. Em janeiro de
1990, iniciou-se, de forma progressiva, o uso de duas letras no início do número de série.
Recebem a(s) mesma(s) letra(s) os revólveres que têm o mesmo acabamento, calibre e
tamanho de armação. Por exemplo, todo revólver em aço inoxidável, calibre .38 Special, e
com armação pequena tem gravada a letra W como primeiro dígito de seu número de série
antecedendo os seis algarismos que compõem o resto da numeração. No caso de revólveres
em aço inoxidável, calibre .38 Special e com armação grande, a letra gravada como seu
primeiro dígito é J.

Para determinar a data de produção nos


revólveres Rossi, pode-se verificar no lado
esquerdo da região inferior da empunhadura,
sob a placa de revestimento, uma gravação,
através da qual é possível identificar o mês e
ano de fabricação. A gravação relativa ao mês
de fabricação é em algarismos romanos e a
relativa ao ano de fabricação é representada
por dois algarismos arábicos que correspondem aos dois dígitos finais do ano. Por exemplo, o
revólver da fotografia acima, que apresenta a gravação V.85, foi fabricado no mês de maio do
ano de 1985. Em dezembro de 1995, o mês de fabricação passou a ser marcado com
algarismos arábicos.

As letras que antecedem os algarismos no número de série dos revólveres da marca Rossi
(indicativas do calibre, acabamento e modelo), das espingardas Rossi (indicativas do modelo)
e dos rifles e carabinas podem ser encontradas em literatura própria ou ser obtidas com a
indústria. A data de produção das espingardas está gravada de forma codificada em seu cano.

2.2.4. CBC

As armas da CBC, a partir do ano de 2001, apresentaram o seu número de série composto de
três letras como prefixo, sendo que a primeira delas é representativa do modelo, como a letra
A para espingarda Pump Action calibre 12, a letra E para os rifles de repetição calibre .22,
modelos 7022, e a letra F para as espingardas modelo 199. Importante observar que, como a
utilização da letra representando o modelo é anterior a 2001, mesmo armas que não são mais
produzidas irão apresentar gravações de letras codificando o modelo. A segunda letra, e
segundo dígito na numeração de série, é sinal representativo do ano, sendo utilizada a letra A
para o ano de 2001, B para 2002, C para 2003 e assim por diante, não sendo utilizada a letra
K. Da mesma forma que outros fabricantes, a terceira letra, e terceiro dígito, codifica o mês de
produção, começando com a letra A para o mês de janeiro, B para fevereiro e assim por
diante, até a letra L para o mês de dezembro. Os demais dígitos eram seis dígitos numéricos e
a partir de 2009 sete algarismos.

2.2.5. Boito, Era, Gaucha da indústria E. R. Amantino & Cia Ltda.

As armas da marca Boito, Era, Gaucha da indústria E. R. Amantino & Cia Ltda. têm, depois
da gravação dos algarismos representativos da produção sequencial, dois algarismos
separados por traço de ligação, que significam os dois últimos algarismos do ano de produção,
a exemplo de 02 para 2002, 03 para 2003 e assim por diante. Esse processo teve início no ano
de 2000 e, pelo menos no número de série, a princípio, não existe nenhum dígito
correspondente ao mês de produção.

2.2.6. IMBEL

No caso da IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil), o número de série é composto


por uma série de letras que identificam o calibre, tipo e data de produção (nesta, as letras
indicam o ano e mês de fabricação). Nesse número de série, a primeira letra indica o tipo de
arma e calibre conforme codificação do produtor; a segunda letra, o modelo e tipo de aço; e a
terceira e quarta letras, a data de produção. Para a terceira letra, a gravação A corresponde ao
ano de 1986 e assim sucessivamente (embora, com exceção da carabina .22 L.R., modelo
MD1, a gravação tenha sido iniciada em 1992 e começado com a letra G). O quarto dígito é
usado para codificar o mês. Para decodificar o mês, a letra A corresponde ao mês de janeiro,
B ao mês de fevereiro e em sequência até a letra M para o mês de dezembro, não sendo
utilizada a letra K.

Essa indústria, a partir do ano de 2010, iniciou um processo de gravação para o ano por
dezenas, a exemplo de 1P = 2010, 1Q = 2011, 1R = 2012, até 1Y para 2019 e 2P para 2020,
quando começa uma nova dezena, e assim por diante.

É importante salientar que existe um grande número de exceções, de letras que são usadas
como sufixos e prefixos de datas comemorativas e outras séries especiais que não estão aqui
contempladas.
Nota

Os dados das indústrias são importantes na identificação e podem ser obtidos junto ao
fabricante de forma rápida.

Aula 3 – Outros sinais identificadores

Na identificação direta de armas de fogo, muitas vezes você se deparará com marcas e
inscrições, principalmente em armas mais antigas. Normalmente essas marcas são apostas por
arsenais que adotaram esses modelos após uma série de ensaios que garantiam a sua
funcionalidade e segurança. A importância dessas marcas nos dias de hoje é que elas
permitem rastrear o país de origem e muitas vezes a data de produção, além de permitir contar
a história daquele modelo. Tais marcas, quando presentes, são de fundamental importância
para a análise e para definir se uma arma é ou não obsoleta.

Os sinais identificadores referem-se às variações no decorrer dos anos das logomarcas de um


fabricante. Essas variações podem determinar o período em que a arma foi produzida e,
muitas vezes, asseverar sobre a originalidade ou não de uma arma de fogo.

3.1. Marcas de prova

As marcas de prova, quando presentes, servem para indicar o país de origem da arma e são
gravações comumente encontradas em armas provenientes de países europeus, como a França,
Alemanha, Espanha, Inglaterra, Checoslováquia, etc. No entanto, em alguns modelos de
armas, encontram-se gravações de marcas de prova de duas ou mais nações diferentes. Isso
acontecia quando uma arma era produzida num país (logo, portava as marcas de prova do seu
país), mas ao mesmo tempo também era adotada como arma de uso militar de outro país, o
qual imprimia sua marca de teste. Nesses casos, a arma acabava por ostentar duas ou mais
marcas de prova.
Na fotografia ao lado, este revólver
Colt, de ação simples, modelo 1850/1,
ostenta a marca de prova da Definitive
Black Power Prof da Hungria,
representada pelo símbolo com as
letras PN.

As marcas de prova eram estampadas em várias partes de sua estrutura, quer durante a sua
produção ou após ela. Com tais marcas, pretendia-se demonstrar aos usuários que a arma era
segura, desde que se empregassem as munições que lhe eram indicadas. A ideia era atestar
que aquele modelo de arma havia passado por rigorosos testes e se tratava de uma arma
segura para uso. Nos tempos atuais, essa ideia pode parecer desnecessária, mas os arsenais
começaram a imprimir suas marcas de testes antes do século XV, quando as armas
apresentavam sérios problemas em termos de projetos, dimensionamento e segurança, em face
da pressão gerada no disparo.

Basicamente, havia três tipos de prova, sendo que, na mais importante delas, se realizava uma
série de disparos, com cartuchos que geravam pressões de 30 a 50% superiores à pressão
prevista para disparos com aquele calibre.

Literatura especializada e sites apresentam as logomarcas e símbolos dessas marcas de prova,


feitas por arsenais ou cidades, como pode ser visto na figura a seguir, que apresenta as marcas
de prova de origem espanhola.
Fonte: Handbook of Firearms and Ballistics, de Brian J. Heard, 2ª ed, Wiley Black Oxford; U. K. 2008.

Para o policial, e mais especificamente para o perito criminal, as marcas de prova fornecem
informações sobre a idade da arma, sobre a sua história e principalmente sobre o país de
origem. Esses aspectos são importantes quando se pretende caracterizar uma arma como
obsoleta, ou seja, armas que, entre outros fatores, têm mais de cem anos. É importante
observar que muitas réplicas reproduzem, ainda hoje, exemplares de armas antigas e obsoletas
(cópias), só que dimensionadas e adaptadas às pressões das munições atuais e aptas para
efetuarem disparos, como algumas réplicas do revólver Colt, de ação simples, modelo 1873.

3.2. Logomarcas

Os logotipos ou logomarcas impressos na estrutura da arma podem constituir-se na única


forma de identificação do fabricante, principalmente no caso de armas mais antigas, e, como
já comentado, são um dos elementos essenciais para o rastreamento de uma arma de fogo. Um
mesmo fabricante pode apresentar diferentes logomarcas no decorrer do tempo. Esse fato
constitui-se numa referência de intervalo de tempo em que uma respectiva arma foi
produzida.

O símbolo do cavalo empinando com uma lança quebrada


entre suas patas dianteiras (fotografia ao lado) é a
logomarca característica da Indústria Colt desde a sua
criação, sendo esse símbolo muito conhecido por todos
aqueles que militam com armas de fogo. O local da
gravação dessa logomarca variou com o tempo, tendo sido
gravado do lado esquerdo e do lado direito da armação dos
revólveres. Essa localização diferente da logomarca serve
de referência sobre a idade de uma arma.
Outra indústria de armas que utiliza figuras simbólicas
em sua logomarca é a indústria Taurus. A indústria
Taurus teve diversas logomarcas ao longo de sua
existência, sempre com a figura simbólica de um touro.
Essa variação da logomarca pode denotar uma
referência da idade da arma.

Apenas como ilustração, a fotografia ao lado mostra uma das logomarcas adotadas pela
Taurus, que foi utilizada no período compreendido entre
1949 e 1973. Essa logo está gravada em superfície circular
de liga metálica, afixada às placas sintéticas de
revestimento da coronha.

Essa gravação é bem distinta da logomarca ostentada pelos


produtos da empresa no período compreendido entre 1981
e 1986, a qual pode ser vista na foto ao lado.

Muitas das indústrias de armas tiveram as logomarcas


constituídas a partir das letras iniciais do nome da empresa, as quais se apresentavam
sobrepostas, como a logomarca da indústria Orbea Hermanos, de origem espanhola, em que a
letra H e a letra O estilizadas apresentavam-se como que entrelaçadas. Caso semelhante é o da
famosa indústria Smith & Wesson, em que as letras se apresentam sobrepostas e entrelaçadas
(na foto abaixo a logo está gravada na caixa de mecanismo, do lado esquerdo). Outras
indústrias apresentavam suas letras separadas, como no caso da INA, cujas letras constituíam-
se na abreviação de Indústria Nacional de Armas, como demonstram as fotos a seguir.
Diversos livros e sites tratam do assunto das logomarcas de armas de fogo, suas variações
com o tempo, a sua localização nos diversos modelos e período de produção, de forma que a
análise dessas gravações pode esclarecer
duvidas sobre a originalidade e idade de
uma arma, sobre se ela pode ser considerada
obsoleta ou não, entre outras informações.
Muitas indústrias usam nomes, ou pelo menos parte deles, na sua identificação e logomarca
(caso da Beretta, Rossi, etc.). Um cuidado a ser tomado são as datas de registro, que não
significam a idade da arma e podem estar gravados em logotipos, como a logomarca da
pistola de bolso (Derringer) da empresa Sharps, na qual a data de 25 de janeiro de 1859
refere-se à data de registro desse modelo. Fato semelhante são as armas registradas com a
marca do fabricante (trade mark), sendo que da tradução do inglês obtemos justamente a
expressão “marca registrada”.
Aula 4 – Rastreamento de munição

A presença de estojos de cartuchos em locais de crime é fato comum. Muitas vezes, esses
estojos de cartuchos deflagrados podem determinar a data de sua produção e sua origem,
passando, dessa forma, a ser indícios fundamentais que apontam para uma linha de
investigação. Normalmente, são vestígios desprezados, pois poucos são aqueles que buscam
interpretar as inscrições de base, na maioria das vezes por desconhecimento. Nesta aula, você
estudará algumas dessas gravações, o seu significado e o grande potencial de informações que
representam.

4.1. Inscrições de base

Na identificação de estojos de cartuchos ou de cartuchos intactos pode-se determinar o


fabricante, o calibre e o ano de produção por meio das inscrições gravadas pelos fabricantes
nas bases dos estojos.

Existe no mercado o registro de mais de 800 tipos de cartuchos militares e cerca de 400 tipos
de cartuchos comerciais de praticamente todos os países do mundo, o que faz com que as
inscrições de base sejam gravadas em diversas línguas. As inscrições de base são compostas
por nomes, letras, números, calibres, logotipos, emblemas, símbolos e suas combinações, que
geralmente estão cunhadas ao redor da base do cartucho no caso de cartuchos de fogo central
ou em seu centro, quando ele for de percussão lateral.

Conforme o fabricante e a utilização da munição, costuma-se gravar de um a cinco elementos


de informações distintas. No entanto, poucos são os fabricantes que costumam gravar os lotes
de produção, que é uma das informações mais importantes para rastreá-la, como é o caso da
INDUMIL colombiana. Esses itens de informação apresentam-se dispostos na base dos
cartuchos, como no mostrador de um relógio analógico. Dessa forma, ao se descrever que a
identificação do fabricante está disposta às seis horas e o calibre às 12 horas, está se
informando que a sigla ou logomarca do fabricante está localizada na parte inferior da base do
estojo de cartucho e o calibre na parte superior.
O cartucho, ao lado, é de calibre .44 – 40,
também conhecido como .44 Winchester,
produzido pela Companhia Brasileira de
Cartuchos (CBC). A letra V gravada na
espoleta tem por função diferenciar essa
munição de munições de recarga,
garantindo ser uma munição original de
fábrica. No caso dos cartuchos de calibres
.357 Magnum, .454 Casul e .500 S&W, a
letra gravada em sua espoleta é a letra C,
conforme informativo número 43 da CBC.

Geralmente as munições comerciais comumente encontradas apresentam apenas a


identificação do fabricante – geralmente por meio de sigla ou emblema e raramente através do
seu nome – e a identificação do calibre do cartucho. A identificação do calibre do cartucho
permite o emprego correto do cartucho na arma que lhe é própria, uma vez que cartuchos que
podem ser intercambiados ou cartuchos de maior potência, como os cartuchos de calibre .38
SPL+P+, quando empregados em armas para as quais não são próprios, podem acarretar
incidentes ou mesmo acidentes de tiro pela explosão da arma, ou de parte dela, e ainda facilita
sua comercialização.

Na fotografia ao lado, o cartucho comercial foi


produzido pela CCI, ou seja, Cascade Cartridge
CO., cuja a origem é os EUA. As letras N e R
significam “no reloadable”, que pode ser traduzido
como “não recarregável” para o calibre .38 SPL
com maior pressão, por isso a sigla + P. Esse
cartucho utilizava espoletas do tipo Berdan em
estojos de alumínio; por isso, a sua recarga pode ser extremamente danosa. É importante
observar que, embora as letras N e R apareçam uma em cada metade da base, referem-se a
uma única informação. Apenas como curiosidade, a fotografia acima é de um cartucho
original da CCI e foi usada para comparar com outro explodido, fruto de recarga de munição,
o que acarretou um acidente de tiro e terminou por lesionar outros policiais na linha de tiro,
pelo desconhecimento do significado das letras NR.

Alguns fabricantes de munições comerciais, além da identificação do fabricante e do calibre


da munição, gravavam ainda o ano de fabricação e, em alguns casos, mês e ano de fabricação,
como pode ser observado na fotografia abaixo.
O cartucho da Arms Corporation of the
Philippines, Manila, de calibre .38 SPL,
apresenta a inscrição 97 referente ao ano de
produção deste cartucho, ou seja, 1997. É
possível encontrar, ainda, cartuchos que
apresentem gravado o mês de produção seguido
do ano, a exemplo de 912 referindo-se ao mês
de setembro de 1912, ou, em uma posição, o número 3 referindo-se ao mês de março e, em
outra posição, o ano, a exemplo de 47.

Na munição destinada ao uso militar, por questão de segurança, a identificação do fabricante


pode estar totalmente oculta, pode se apresentar codificada ou estar estampada de forma clara.
Informação comum nesse tipo de cartucho são as inscrições de base mostrando o ano de
fabricação (ou o mês e o ano), de forma que possa existir um controle que evite o uso de
munições vencidas, podendo ou não apresentar gravações referentes à identificação do calibre
do cartucho.

Na fotografia ao lado, o cartucho é de calibre


9 x 19mm ou o 9mm Luger, produzido pela
Companhia Brasileira de Cartuchos, no ano
de 2002. Note que a seta aponta para uma das
três deformações existentes na base do
estojo; essa deformação tem por função
manter a espoleta fixa no bolão que lhe é
próprio (espoleta crimpada). Esse
procedimento evita que em disparos realizados em sistema automático (rajada), a espoleta se
prenda ao percutor e trave a arma. No caso específico de não portar identificação do calibre, e
o estojo for encontrado na cena de um crime, o calibre pode ser determinado pelas
características da forma do estojo, do seu comprimento e da medida interna da boca do estojo,
tomadas com paquímetro ou micrômetros.

Nota

Diversos manuais e sites apresentam


a disposição e o significado dos
elementos de identificação dos
cartuchos do mundo inteiro, e essas
informações podem ser muito úteis
na solução de crimes, permitindo
restringir hipóteses, como pode ser
visto na figura ao lado. Fonte: Handbook of Firearms and Ballistics, de Brian J.
Heard, 2ª ed, Wiley Black Oxford; U. K. 2008.

Porém, tratando-se de rastreabilidade de munições, um dos maiores avanços em nosso país foi
recepcionado pela Lei no 10.286, de 22 de dezembro de 2003, que estabelece nos parágrafos 1
e 2 do seu artigo 23 o que está abaixo transcrito:

§ 1o Todas as munições comercializadas no país deverão estar acondicionadas em


embalagens com sistema de código de barras, gravado na caixa, visando possibilitar
a identificação do fabricante e do adquirente, entre outras informações definidas
pelo regulamento desta Lei.

§ 2o Para os órgãos referidos no art. 6o, somente serão expedidas autorizações de


compra de munição com identificação do lote e do adquirente no culote dos
projéteis, na forma do regulamento desta Lei.

Os órgãos tratados no artigo são todas as polícias,


forças armadas, guarda municipal, ABIN, enfim,
todos os agentes e agências de segurança. Dessa
forma, é de se esperar que a maioria dos cartuchos
de maior potencial energético, quer para armas de
porte ou armas portáteis, estejam sob controle e
seja restrita a possibilidade de esses cartuchos
serem utilizados pelo crime organizado. No
entanto, quando utilizados, esse processo facilita o
rastreamento da sua origem e a investigação rápida desse crime. Esses dados ajudam a
elucidar os crimes contra a vida. Nas fotografias acima e ao lado, as informações sobre o lote
e sobre o comprador estão codificadas pelos sinais gráficos AAB42 ou SZZ85, e podem ser
obtidas no fabricante.

Finalizando...

A identificação é o ato, ou o conjunto de atos, praticado com vistas a estabelecer a


identidade;

A legislação brasileira, de acordo com o art. 5º da Portaria no 07, de 28 de abril de 2006,


do Departamento Logístico do Exército Brasileiro do Ministério da Defesa, determina a
obrigatoriedade de inscrições dos elementos de identificação;

Todas as informações sobre armas de fogo devem estar contidas no Sistema Nacional de
Armas (SINARM), o maior banco de dados sobre esse assunto;

O número de série é o principal elemento, é a chave para identificar o comprador e o


movimento da arma em termos de rastreamento;

Cada indústria adota o seu critério de composição do número de série. A forma, o


processo de gravação e o tamanho dos dígitos que formam os números de série podem
mudar com o passar dos anos dentro de uma mesma fábrica e de uma fábrica para outra.

As marcas de prova, quando presentes, servem para indicar o país de origem da arma e
são gravações comumente encontradas em armas provenientes de países europeus,
como a França, Alemanha, Espanha, Inglaterra, Checoslováquia, etc. ;

Os logotipos ou logomarcas impressos na estrutura da arma podem constituir-se na


única forma de identificação do fabricante;

Na identificação de estojos de cartuchos ou de cartuchos intactos pode-se determinar o


fabricante, o calibre e o ano de produção por meio das inscrições gravadas pelos
fabricantes nas bases dos estojos.