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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 14: 173-194 JUN.

2000

NOTA SOBRE MARCEL MAUSS


E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

Marcos Lanna
Universidade Federal do Paraná

RESUMO
Este artigo analisa a obra clássica de M. Mauss, Ensaio sobre a dádiva, à luz de desenvolvimentos recentes
da Antropologia. Salienta como contribuição de Mauss o entendimento da dimensão política da troca de
dádivas, assim como a sugestão de sua universalidade, posteriormente demonstrada por Lévi-Strauss,
constituir-se em princípio formal-abstrato, e não num fato empírico-concreto. A partir desse princípio, avalia
a tese segundo a qual a dádiva é fundamento de toda sociabilidade e comunicação humanas, assim como sua
presença e sua diferente institucionalização em várias sociedades analisadas por Mauss, capitalistas e não-
capitalistas.
PALAVRAS-CHAVE: Marcel Mauss; teoria da troca; reciprocidade; hierarquia.

I. SOBRE MARCEL MAUSS língua norueguesa antiga e posteriormente aborda


as mais variadas formas de organização social, de
O Ensaio sobre a dádiva, obra fundamental
grupos e regiões os mais diversos – celtas, Índia,
de Marcel Mauss, é um marco no desenvolvimento
China, Oceania, índios do noroeste americano.
da sociologia durkheimiana. Esse desenvolvi-
mento é no sentido de uma Antropologia. Mauss A obra de Mauss tem recebido a mais favorável
avança, em relação a Durkheim, ao aprofundar aceitação por antropólogos contemporâneos das
uma postura crítica em relação à filosofia, ado- mais diversas inclinações teóricas. Ela presta-se,
tando a etnografia, abrindo-se para as sociedades sem dúvida, a interpretações discrepantes, múlti-
não-ocidentais e assumindo cada vez mais a plas e divergentes, dentro e fora da Antropologia..
comparação. Talvez por isso mesmo, a obra de A inspiração de Mauss é aceita por sociólogos (de
Mauss se caracterize pela dispersão, como ele G. Gurvitch a P. Bourdieu, passando pelo grupo
próprio reconhece1. Mauss interessava-se pelas que se autodenomina “de vanguarda” do Collège
manifestações dos fenômenos humanos em quais- de Sociologie – cf. JAMIN, 1992, p. 457),
quer tempo e espaço do planeta e sua obra aborda escritores ou filósofos (R. Callois, G. Battaille,
uma “variedade vertiginosa de temas”, para usar entre outros), historiadores (F. Braudel e a escola
uma expressão de Gomes Jr. (1999). O Ensaio so- dos Annales) ou mestres da Antropologia inglesa
bre a dádiva reflete de modo evidente esses as- (A. R. Radcliffe-Brown, E. E. Evans-Pritchard,
pectos, presentes também em outros trabalhos de R. Firth). A aceitação de Mauss é geral: Guidieri
Mauss. Inicia-se com menções a questões de (1984, p. 31) notou que Mauss recebe, de modo
bastante freqüente, tratamento “hagiográfico”.
Mais recentemente, a Antropologia norte-
1 “Não estou interessado em desenvolver teorias sis- americana pós Clifford Geertz (seja lá como
temáticas [...] Trabalho somente meus materiais e se, ali rotulemos suas diversas correntes –
ou acolá, aparece uma generalização válida, eu a estabeleço interpretativista, pós-moderna, textualista etc.),
e passo a qualquer outra coisa. Minha preocupação princi- preza em Mauss, de modo surpreendentemente
pal não é elaborar um grande esquema geral que cubra geral, uma suposta aversão à noção de sistema,
todo o campo – tarefa impossível –, mas somente mostrar
“confusão inspirada” e “caráter boêmio” (GOMES
algumas das dimensões do campo do qual apenas tocamos
as margens [...]. Tendo trabalhado assim, minhas teorias JR., 1999). Em The predicament of culture, de
são dispersas e não sistemáticas” (apud FOURNIER, 1993, 1988, James Clifford aproxima a obra de Mauss
p. 106). do que chama de “etnografia surrealista”, notando

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a presença constante de artistas surrealistas em voluntário” (idem, p. 139) e “auto-sacrifício”


suas aulas. (idem, p. 140). Por exemplo, Mauss completou e
publicou alguns estudos iniciados por compa-
Seria possível argumentar que um desenvolvi-
nheiros do grupo que se unia em torno da revista
mento pleno da obra de Mauss foi feito por três
fundada por Durkheim, L´Année Sociologique,
de seus ex-alunos, que vêm a ser os pais funda-
precocemente desaparecidos, como Henri Hubert,
dores do estruturalismo francês em Antropologia:
Robert Hertz (este durante a I Guerra Mundial) e
Georges Dumézil, Claude Lévi-Strauss e Louis
do próprio Durkheim. Após ter recusado um cargo
Dumont. Mas isso seria assunto para um outro
de professor em Bordeaux em 1893, Mauss
trabalho: importa aqui realizar uma leitura do
assume em 1901, em Paris, a cadeira de “História
Ensaio sobre a dádiva. Para tanto, adotarei uma
da religião dos povos não-civilizados” da 5a seção
postura oposta à de alguns apologistas contem-
da École Pratique des Hautes Études. Com a mor-
porâneos de Mauss, como os citados pós-moder-
te de Durkheim em 1917, conta com a ajuda de C.
nistas norte-americanos: não irei correlacionar um
Bouglé, G. Davy, P. Fauconnet e M. Halbwachs
espírito não-dogmático com a aversão à noção de
para retomar a publicação de L’Année Sociolo-
sistema ou com o culto a uma “confusão ins-
gique.
pirada”. Afinal, o próprio Mauss (1983, p. 139)
definia-se como um cientista social “positivista”. Paralelamente, é intensa sua atividade como
militante político. Com Léon Blum, a quem co-
Mauss pautou sua vida por um esforço para
nhece desde a primeira década deste século, é fiel
separar vida pessoal – na qual ele incluía suas
ao socialismo de Jaurés. Mauss e Blum opõem-
atividades como militante socialista – e acadêmica:
se, no período entre guerras, à criação do Partido
“em Mauss, ciência e política não se confundem”
Comunista Francês (cf. FOURNIER, 1993, p.
(FOURNIER, 1993, p. 107). Mauss não deixará
104). Em 1904, Mauss participa da fundação do
de publicar, entretanto, em 1924, uma “Apreciação
L’Humanité, tornando-se posteriormente secre-
sociológica do bolchevismo” na Revue de
tário de redação, mas é bastante crítico em relação
Métaphysique et de Morale e em 1925, na Revue
à revolução bolchevique2 . Escreve ainda para Le
Slave, o artigo “Socialismo e bolchevismo”. Mauss
Populaire a partir de 1920 (cf. JAMIN, 1992, p.
publica ainda em jornais textos que classifica como
456). Simultaneamente, funda em 1925 com L.
“políticos”, o primeiro dos quais sendo “L’action
Lévy-Bruhl e P. Rivet o Institut d’Ethnologie da
socialiste”, em Le Mouvement Socialiste de 15 de
Universidade de Paris, onde a sua carga de aulas
outubro de 1899. Essa dualidade será discutida
se acumula com a que tinha na École. Quase não
no decorrer deste artigo.
tinha tempo para publicar seus próprios trabalhos,
O leitor encontrará em Fournier (1993, entre mas forma toda a primeira geração de antro-
outros) importante análise sobre a biografia e a pólogos de campo franceses (G. Devereux, G.
postura pessoal de Mauss, que tanto marcou seus Dieterlen, M. Griaule, A. G. Haudricourt, M.
alunos, como vários deles já comentaram (LÉVI- Leiris, A. Métraux, D. Paulme, A. Schaeffner, J.
STRAUSS, 1944; DUMONT, 1986). Um interes- Soustelle, entre outros). Chega ao Collège de
sante contraste poderia ser feito, a este respeito, France em 1931.
entre Mauss e o espírito extremamente metódico
Como foi dito, Mauss (1983, p. 142) reconhece
e rigoroso de Durkheim, já descrito como dogmá-
o caráter “descontínuo” de sua obra. A unidade
tico por Lévi-Strauss (1944) ou “cartesiano” pelo
desta deriva de um esforço “para organizar não
próprio Mauss (1983, p. 140). Talvez a postura
meramente idéias, mas antes de tudo fatos [...]
pessoal de cada um explique o sucesso maior que
tomados de civilizações [ainda] não categori-
teve Mauss em deixar “discípulos”, cultuadores
zadas” (idem, p. 143). Ou melhor, seu interesse
de sua memória, enquanto Durkheim nos deixa
não seria tanto pelos fatos em si, mas por “grupos
como legado menos uma memória que a impes-
soalidade de “uma obra”. Mas, cada qual ao seu
modo, sobrinho e tio compartilhavam a mais com-
pleta dedicação aos trabalhos da escola sociológica 2 “Como ‘sociólogos ingênuos’, os bolcheviques acredi-
que fundavam. taram poder construir uma sociedade ‘a golpes de de-
cretos, a golpes de violência’. É um erro, pensa Mauss: ‘a
A contribuição de Mauss se caracteriza ainda, violência é estéril em nossas sociedades modernas”
como ele mesmo notou, por um certo “anonimato (FOURNIER, 1993, p. 111).

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geográficos de fatos”; nesta passagem, Mauss cita antropólogos, alguns dos quais alunos de Mauss.
como exemplo de “grupos geográficos de fatos”
Mas há um fio condutor no Ensaio: a noção de
os “sistemas religiosos africanos – como [eles] se
“aliança”. Como ficará evidente no trabalho de
constituem” (MAUSS, 1983, p. 144). Avança ain-
alunos de Mauss, a preocupação com a aliança
da que se trata de um “estudo global sobre a noção
torna-se uma característica central da Antropologia
de civilização” (idem, p. 151). Mauss parece
francesa (DUMONT, 1971). Mauss demonstra no
consciente de que não era isso o que o público
Ensaio como “toda representação é relação – isto
francês desejava, pois esse “público é ainda por
é, funda-se sobre a união de uma dualidade de
demais apegado à metodologia sociológica e
contrários” (JAMIN, 1992, p. 456). Ora, o argu-
nossos estudantes e colegas por demais entrin-
mento central do Ensaio é de que a dádiva produz
cheirados em reflexões filosóficas” (idem, p. 150).
a aliança, tanto as alianças matrimoniais como as
Ao contrário de Durkheim, Mauss diz “não ter políticas (trocas entre chefes ou diferentes cama-
sido nunca um militante da sociologia” (idem, p. das sociais), religiosas (como nos sacrifícios, en-
142). Por outro lado, não só militava no Partido tendidos como um modo de relacionamento com
Socialista Francês, como doava a este parte de suas os deuses), econômicas, jurídicas e diplomáticas
parcas economias (FOURNIER, 1993). Se Mauss (incluindo-se aqui as relações pessoais de hospita-
separava sua atividade intelectual de sua militância lidade). Posteriormente, as pesquisas de inúmeros
política, a interpretação que farei aqui do Ensaio antropólogos revelaram a amplitude – já intuída
sobre a dádiva não deixará de buscar entender essa por Mauss – das noções de dádiva e de aliança.
aparente ruptura. Mas repito que não analisarei a Entre eles, Lévi-Strauss (1949) fez dessas noções
vida pessoal ou a militância política de Mauss; o fundamento das estruturas elementares do paren-
remeto novamente o leitor interessado nestas tesco; P. Clastres (1978), da sociedade contra o
últimas aos trabalhos de M. Fournier. Estado, e, muito modestamente, Lanna (1995) da
dívida divina, implícita em relações de compadrio
II. A TESE GERAL DO ENSAIO SOBRE A
e patronagem no Brasil.
DÁDIVA
Mas Mauss já definia a dádiva de modo amplo.
Se Mauss assume a descontinuidade de sua
Ela inclui não só presentes como também visitas,
obra, ela também caracteriza o Ensaio sobre a
festas, comunhões, esmolas, heranças, um sem-
dádiva. Um mesmo parágrafo do Ensaio apresenta
número de “prestações” enfim – prestações que
comparações entre várias regiões do globo.
podem ser “totais” ou “agonísticas” (incluindo-
Publicado no tomo I do L’Année Sociologique
se, neste último caso, como veremos, o potlatch
(1923-24), um ano após Os argonautas do
dos índios do noroeste americano – MAUSS,
Pacífico ocidental, neste trabalho Mauss teve de
1983, p. 147). Creio ser fundamental notar como
confrontar-se com o fato de, ao contrário de
Mauss entendia até mesmo os tributos como uma
Malinowski, nunca ter feito pesquisa de campo.
forma de dádiva. Esta é uma de suas proposições
Mauss não pôde aproveitar uma das principais
que aguardam futuros desenvolvimentos.
possibilidades abertas por Malinowski: a realiza-
ção de pesquisas que buscassem uma maior con- Voltando à tese principal do Ensaio: nele se
textualização dos dados, como propunha, na mes- postula um entendimento da constituição da vida
ma época, também A.R. Radcliffe-Brown, cujo social por um constante dar-e-receber. Mostra
Andaman islanders data igualmente de 1922. ainda como, universalmente, dar e retribuir são
Mauss beneficia-se ainda, no Ensaio, das pesqui- obrigações, mas organizadas de modo particular
sas de Franz Boas nos Estados Unidos, que tam- em cada caso. Daí a importância de entendermos
bém demonstravam desde o início do século, a como as trocas são concebidas e praticadas nos
importância do trabalho de campo e da contextua- diferentes tempos e lugares, de fato que elas po-
lização. Boas, Malinowski e Radcliffe-Brown dem tomar formas variadas, da retribuição pessoal
trabalhavam assim contra aquilo que este último à redistribuição de tributos. Mauss dedicava espe-
denominou “história conjetural”. Poder-se-ia mos- cial atenção ao fato de algumas trocas serem prer-
trar que Mauss não se livrou totalmente desta rogativas de chefias: receber tributo, por exemplo.
última. O Ensaio sobre a dádiva arrola uma Essas prerrogativas podem ser socialmente cons-
quantidade impressionante de fatos, que só em um truídas de modo diferente, como privilégios, obri-
momento posterior seriam melhor contextuali- gações etc. A isso Mauss associava o fato de que,
zados pelas pesquisas de campo de inúmeros freqüentemente, da chefia emanam valores que se

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NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

extendem à sociedade como um todo, generali- rosidade, mas não existe a dádiva sem a expecta-
zando-se (um pouco como Marx mostrara ter a tiva de retribuição. O free gift de Malinowski, este
moeda capacidade para generalizar-se como valor sim, é pura ideologia; o altruísmo puro é uma
capitalista). Como foi posteriormente desen- mistificação. Mauss, escrevendo com Hubert o
volvido por P. Clastres (1978), a dádiva de pala- Ensaio sobre a natureza e função do sacrifício, já
vras ou objetos é freqüentemente um dever da mostrara, em 1898, que “esta abnegação e essa
chefia, em um sentido ontológico: mais que con- submissão não deixam de ter um lado egoísta”.
dição necessária da sua existência, são manifes- Para Mauss, a dádiva é um ato simultaneamente
tações particulares da chefia que se criam por espontâneo e obrigatório. O estudo da dádiva
diferentes formas de troca. Citando o tomo II da permitiria à sociologia a superação relativa de
Ethnographie de Madagascar de Grandidier, dualidades profundas do pensamento ocidental,
Mauss (1974, p. 66) nos lembra que “os betsimisa- entre espontaneidade e obrigatoriedade, entre
raka nos contam que de dois chefes, um distribuía interesse e altruísmo, egoísmo e solidariedade,
tudo o que estava em sua possessão e o outro não entre outras3. Este ponto é importante porque a
distribuía nada e guardava tudo. Deus deu fortuna conclusão do Ensaio irá criticar a generalização
ao que era liberal e arruinou o avarento”. Veremos da noção de interesse individual implícita na
a seguir como a chefia se define a partir de uma sociedade burguesa e no pensamento liberal, que
posição privilegiada em relação às trocas, centrali- irão opor radicalmente aquilo que a dádiva une.
zando-as nos sistemas antigos de redistribuição,
Um dos representantes do pensamento liberal
como o dos Incas, impérios africanos ou asiáticos,
no Brasil, Delfim Netto (1999), notou recen-
ou no caso de sociedades socialistas.
temente que tal preocupação em propor alter-
Mas, evidentemente, o aspecto generativo ou nativas à ética do mercado valeu o Prêmio Nobel
criador de sociabilidade da dádiva não se limita à de Economia de 1998 ao indiano Amartya Kumar
política. Já a epígrafe do Ensaio exprime uma dia- Sen4 . Talvez até porque conhece “por dentro”
lética inerente à dádiva: ao receber alguém estou uma “civilização da dádiva”, como a indiana, pôde
me fazendo anfitrião, mas também crio, teórica e Sen reconhecer que o desejo egoísta do lucro não
conceptualmente, a possibilidade de vir a ser hós- só é incapaz de fundar qualquer sociedade, mas
pede deste que hoje é meu hóspede. A mesma troca tende, justo ao contrário, a inviabilizá-las. Como
que me faz anfitrião, faz-me também um hóspede Mauss, os estudos de Sen debruçam-se sobre
potencial. Isto ocorre porque “dar e receber” impli-
ca não só uma troca material mas também uma 3 Um dos pareceristas anôminos da Revista de Sociologia
troca espiritual, uma comunicação entre almas. É
e Política lembra haver distinção entre “superar” e “me-
nesse sentido que a Antropologia de Mauss é uma diar” antinomias, o que me parece rigorosa e filoso-
sociologia do símbolo, da comunicação; é ainda ficamente correto. Para uma argumentação que busca
nesse sentido ontológico que toda troca pressupõe, mostrar que Mauss realmente promoveria uma “supera-
em maior ou menor grau, certa alienabilidade. Ao ção” das mencionadas dualidades, cf. Caillé (1998). A meu
dar, dou sempre algo de mim mesmo. Ao aceitar, ver, a posição de Mauss, como a de Lévi-Strauss, realmente
acena mais para uma “mediação” que para uma “supera-
o recebedor aceita algo do doador. Ele deixa, ainda
ção” dessas antinomias. Por outro lado, eu proporia que
que momentaneamente, de ser um outro; a dádiva Mauss nos ensina ainda que a “mediação” é a “superação”
aproxima-os, torna-os semelhantes. A etnografia possível. Esta parece ser a conclusão de Viveiros de Castro
da troca dá ainda um novo sentido às etiquetas (1996) – um autor que acredito representar bem os desen-
sociais. Por mais que estas variem, elas sempre volvimentos recentes dessa eminente linhagem –, a res-
reiteram que, para dar algo adequadamente, devo peito de outras antinomias, correlatas àquelas que mencio-
nei, como cultura/natureza e razão prática/razão simbóli-
colocar-me um pouco no lugar do outro (por
ca. Quando uso assim “superação relativa”, eu talvez de-
exemplo, de meu hóspede), entender, em maior vesse deixar mais clara minha própria posição, no sentido
ou menor grau, como este, recebendo algo de mim, de que trata-se realmente mais de “mediação” do que de
recebe a mim mesmo (como seu anfitrião). “superação”. Para uma análise a respeito da mediação
entre as categorias de “sujeito” e “objeto” na obra de C.
Tão próximo da ideologia da generosidade e Lévi-Strauss, cf. Lanna (1999).
do altruísmo, o ato de dar, mostra-nos Mauss, não 4 Digo pensamento liberal, mas evidentemente, foi outra
é um ato desinteressado. Isso não se limita à prática
a prática desse que foi um tirano de nossa economia.
dos “chefes”. O ato de dar pode assim se associar Como indica outro parecerista da Revista de Sociologia e
em maior ou menor grau a uma ideologia da gene- Política, é “paradoxal” (e tragicamente irônico, eu

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“tragédias distributivas” e recusam fundamentos conhecidos), nomes, palavras, visitas, títulos,


como a noção de escassez. Entretanto, Sen parece festas. Note-se que as trocas não são só materiais:
estar muito aquém de Mauss, não chegando nem a circulação pode implicar prestações de valores
mesmo a fazer uma crítica ao paradigma utilita- espirituais, assim como maior ou menor alienabili-
rista. Isto é, seus trabalhos revelam uma incorpo- dade do que é trocado. Por exemplo, os sobre-
ração da lógica da dádiva pelo pensamento liberal, nomes na nossa sociedade são pouco alienáveis,
mais do que o contrário. Já Mauss foi o inspirador circulam ainda menos que os prenomes, mas sua
de um “Movimento anti-utilitarista nas Ciências circulação gera considerável valor. Há, entretanto,
Sociais”, que publica há mais de uma década im- outras dádivas que devem necessariamente cir-
portante periódico semestral, La Revue du cular muito, para gerar cada vez mais valor, como
M.A.U.S.S.. Menciono Sen para mostrar a atuali- os objetos kula descritos por Malinowski. A
dade do pensamento de Mauss, cuja preocupação relação entre maior ou menor alienabilidade e cria-
com instituições arcaicas jamais significaram a ção de valor não é, assim, como veremos, simples
postulação de um retorno nostálgico a um passado e direta.
pré-moderno. Seu horizonte é o da defesa de um
III. LENDO A INTRODUÇÃO DO ENSAIO
equilíbrio entre o individualismo e a moralidade,
SOBRE A DÁDIVA
por um lado, e o direito da dádiva, por outro.
Mauss reconhecia o fato básico de que na moder- C. Lefort (1979) notou que a questão “o que é
nidade “somos cidadãos e não santos [...]. O uma sociedade” está sempre subentendida em toda
socialismo é para Mauss ‘um espírito [...] um novo a obra de Mauss. Este fala em “contrato” para
sistema de valores’, um ‘novo sistema moral de exprimir a sociabilidade criada pela dádiva. Para
castigos e recompensas’” (FOURNIER, 1993, p. Mauss, a noção de contrato seria universal, mas,
108). ao contrário dos contratualistas anglo-saxões,
concebe os contratos como não-individuais. Não
Finalmente, eu salientaria como fundamental
se trata assim de acordos entre indivíduos racionais
outra contribuição de Mauss, a de que a vida social
mas de regras da organização social primitiva.
não é só circulação de bens, mas também de
Nela, “os contratos fazem-se sob a forma de pre-
pessoas (mulheres concebidas como dádivas em
sentes” (MAUSS, 1974, p. 41). Mas se há mo-
praticamente todos os sistemas de parentesco
mentos em que Mauss pensa a troca como um
contrato, há outros em que ele, funcionalistica-
mente, supõe a troca como reforçando realidades
acrescentaria) recuperar aqui o pensamento de um homem pré-existentes, ou “também um meio de fortalecer
que deu “expressivo exemplo de falta de ética” e protago- o contrato” (idem, p. 40). Isso indica que, se seu
nizou verdadeira “predação do social”. Isso, entretanto, próprio trabalho permite a superação do funcio-
revela a força do pensamento liberal, mesmo em tempos nalismo e da chamada “razão prática”5 , há mo-
de pós-modernidade e mesmo em uma realidade de cen-
mentos em que ele se contamina por estes proce-
tralização político e econômica como a brasileira. O mes-
mo poderia ser dito para R. Campos, que declarou em dimentos, os quais critica. Esta passagem inicial
recente entrevista algo que resume bem uma das teses da introdução do Ensaio já anuncia como este
principais deste meu artigo, a de que a desigualdade polí- texto é profundamente “descontínuo”.
tica não é exterior à troca: “só tem independência de fato
quem não se endivida [...] a autonomia não é uma opção Para Mauss (1974, p. 41), “este trabalho é um
política, mas está subordinada à condição econômica” fragmento de estudos mais vastos”. A elaboração
(apud LUCENA, 1999). Pretendo aqui oferecer uma desse trabalho exigiu o conhecimento de uma
interpretação maussiana de posições como essa e impli- grande quantidade de fatos de várias civilizações.
citamente, de um modo mais amplo, do próprio pen- Como expressar a universalidade de uma idéia, a
samento liberal. Aliás, é impressionante o contraste entre
importância da troca? Mauss opta por tratar da
pensamento e prática desses ex-ministros da ditadura
militar, o que revela as dificuldades e distorções do pensa-
mento liberal no contexto brasileiro, assim como sua inca-
pacidade para contextualizar-se, na prática, enquanto pen-
samento liberal (caso típico do que alguns entendem como 5 Assumo aqui o entendimento de Sahlins (1976) do que
“idéia fora do lugar”), e, ao modo de Mauss, informar-se seria a “razão prática”, um paradigma das ciências sociais
pelo social concreto. Nos termos deste, a autonomia que se caracteriza por reduzir as relações sociais à relações
desejada por Campos não é nunca plena, sem o seu oposto, entre meios e fins, à maximização de objetivos ilimitados
a dependência. a partir de recursos escassos.

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NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

Polinésia no “Capítulo I”, das Ilhas Andaman, no historicamente em cada indivíduo7;


Oceano Índico, Melanésia e do noroeste americano
3) as trocas são simultaneamente voluntárias
no “Capítulo II”, das chamadas sociedades antigas
e obrigatórias, interessadas e desinteressa-
(Roma, Índia, povos germanos) no “Capítulo III”
das, como eu dizia, mas também simultanea-
e da Europa moderna na “Conclusão”.
mente úteis e simbólicas. Mauss enfraquece
As maiores contribuições do Ensaio talvez a dicotomia símbolo/morfologia presente na
sejam: obra de Durkheim. Desde Formas primi-
tivas de classificação, publicado em 1903 e
1) mostrar que fatos – incluindo-se aqui tanto
escrito em parceria com este último, Mauss
a prática da troca como a reflexão sobre ela
já nos mostrava como a morfologia social
– das mais diferentes civilizações nos re-
também é um fato simbólico;
velam que trocar é mesclar almas, permi-
tindo a comunicação entre os homens, a 4) Mauss propõe um método comparativo que
inter-subjetividade, a sociabilidade. A An- pressupõe uma sociologia. Se não chega a
tropologia é o estudo desta comunicação e realizar trabalho de campo e por vezes re-
das regras que a estabelecem; produza generalizações típicas da chamada
história conjectural, Mauss difere dos evo-
2) essas regras manifestam-se simultanea-
lucionistas da época, como James Frazer,
mente na moral, na literatura, no direito, na
em cuja comparação “tudo se confunde e
religião, na economia, na política, na orga-
na qual as instituições perdem toda cor local
nização do parentesco e na estética de uma
e os documentos seu sabor” (MAUSS, 1974,
sociedade qualquer. Podemos isolar o aspec-
p. 43). Por outro lado, ao contrário da
to econômico de uma troca, mas ela implica
comparação anti-evolucionista de Radcliffe-
sempre também um aspecto religioso (que
Brown, o método de Mauss não exclui a
se evidencia nos sacrifícios, nas dádivas de
história. Esta contribui e enriquece suas
palavras das rezas etc.), político (que se evi-
comparações. Mauss indica no Ensaio,
dencia nas trocas mal-sucedidas – que
assim como no texto sobre a noção de
redundam em guerra –, na troca de violência
pessoa, escrito 15 anos mais tarde, que faz
ou ainda no desequilíbrio entre o que é
“história social”, sem distinguir esta da
trocado6 e na assimetria temporal implícita
“sociologia teórica”, nem das “conclusões
em qualquer redistribuição – cf. BOUR-
de moral [e] de prática política e econômica”
DIEU, 1996), ou mesmo estético (a confec-
(idem, p. 42-43).
ção dos objetos, o modo de oferecimento
etc.). A troca é assim um fato social “total”. Nesse momento do texto, Mauss pergunta-se
Ela o é ainda no sentido de manifestar-se qual a regra que estipula a retribuição, concluindo
que cada sociedade tem a sua. Posteriormente,
Lévi-Strauss (1949), proporá haver algo de
universal por trás da diversidade no nível dos fatos,
6 A última estrofe da epígrafe do Ensaio (de número 145),
formalizando o “princípio de reciprocidade”.
Mauss entenderá a generalidade da retribuição
por exemplo, indica que nunca se dá demais a um superior,
seja ele chefe ou o deus, pois o ato de dar gera sempre “por meio de um número de fatos”, sua análise
certa superioridade, política e religiosa. A epígrafe indica permanecendo assim no nível das instituições
também que o fato de não se retribuir adequadamente, a particulares. Muitos dos críticos atuais da noção
avareza (que pode ser entendida como uma manipulação de troca de Lévi-Strauss “reduzem a troca a uma
da troca), gera o medo. Sugere-se assim algo que será repe- instituição” (VIVEIROS DE CASTRO, 1998), o
tidamente indicado por Mauss: basta haver uma prestação
que revelaria que “eles se acham na mesma situa-
unilateral, um oferecimento e uma aceitação para haver
dádiva e essa prestação unilateral para se gerar valor; isto ção intelectual de um século atrás” (LÉVI-
é, uma ética impõe-se mesmo àqueles que não a retribuem, STRAUSS, 1998).
ainda que isso ocorra diferentemente em cada caso espe-
cífico. Isso é importante porque, a meu ver (LANNA,
1996), quando se fala em dádiva, não é de troca que se
fala; trata-se de uma prestação unilateral, na qual há simul- 7 A noção de indivíduo de Mauss, enquanto unidade
taneamente o ato de dar (por um sujeito A) e o de “rece- “fisiopsicológica”, é apresentada em textos
ber” (por um outro sujeito B). conhecidos de Sociologia e Antropologia.

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 14: 173-194 JUN. 2000

Eu dizia que Mauss generaliza a noção de Vimos ainda que Mauss chama essas presta-
contrato ao mesmo tempo em que a reformula. ções, esses diversos tipos de dádiva, de “totais”.
Ele não a usa no sentido de um contrato entre Uma forma, para ele “evoluída” e “agonística” de
indivíduos, como faziam os filósofos dos séculos “prestação total”, seria o potlatch dos índios da
XVII e XVIII. É exatamente esse contrato maus- costa noroeste da América do Norte (kwakiutl,
siano que Lévi-Strauss substituirá pelo princípio tsimshian, haida, tlingit, chinook etc.). Nesses ca-
de reciprocidade. Mauss também generaliza a no- sos, chefes, representando diferentes “linhagens”
ção de mercado – aliás, como outro grande estu- (ou, mais propriamente, “casas”, como demons-
dioso das trocas arcaicas, da primeira metade deste trou Lévi-Strauss (1979)), competem entre si, ofe-
século, Karl Polanyi (1980). Ambos irão supor recendo-se mutuamente quantidades cada vez
que o mercado sempre existiu, mas a atenção de maiores de bens, especialmente brasões de cobre
Mauss recai na diversidade das formas de troca, esculpidos e peles de animais (posteriormente
buscando uma comparação que procura “atingir substituídas por cobertores industrializados, dado
uma dupla meta”: entender “a natureza das tran- que estes teriam mais “valor” – SAHLINS, 1988).
sações humanas” de um modo geral e traçar a gê- “Ganha” o chefe mais generoso. No potlatch, as
nese de noções como “interesse individual” e do posições políticas, na tribo e nas confederações
próprio sistema de mercado ocidental. Assim, se de tribos, são constituídas pela rivalidade entre
Mauss generaliza a noção de mercado, por outro “casas” (Mauss ainda usa o termo de Boas, “li-
lado ele tem consciência da importância de se nhagens”). A troca também pode aí assumir a for-
pensar a especificidade do mercado ocidental. ma de destruição de riquezas, os escudos braso-
Nisso há uma recuperação de alguns dos objetivos nados de cobre jogados ao mar. No potlatch, a
de Karl Marx, que, apesar de evidente, tem sido troca de certo modo substitui a guerra, mas guar-
pouco notada. Ainda como Polanyi, Mauss assume dando um sentido de rivalidade: vence quem dá
como universais as noções de mercado e contrato, ou destrói mais, a “luta dos nobres” é a luta dos
mas não o homo œconomicus ou as noções de grupos. Em certos potlatch, o chefe deve gastar
“economia natural” e de estado de natureza tudo o que possui e nada guardar.
(MAUSS, 1974, p. 44).
Mauss (1974, p. 47) reserva ao potlatch a
Como notei, a Antropologia maussiana dife- denominação “prestação total de tipo agonístico”.
rencia-se da dos economistas liberais à medida Isto é, implica um desenvolvimento da rivalidade,
que, no primeiro caso, “não são indivíduos mas uma maior institucionalização da competição. Em
coletividades que se obrigam mutuamente, trocam outros lugares, as trocas assumiriam uma “forma
e contratam” (idem). Ou, por outra, as pessoas que mais elementar de prestação total”, sem tanta
trocam são “pessoas morais”, não indivíduos. competição, que seria uma “forma mais antiga da
Nessas trocas, os grupos podem ser representados dádiva” e não seria o objeto de estudo do Ensaio
por seus chefes (idem, p. 45), mas apenas no capi- (MAUSS, 1974, p. 98). Ao mesmo tempo em que
talismo de mercado a troca é antes de mais nada sua comparação é cuidadosa, Mauss por pouco
entre indivíduos, pois esses são as pessoas morais não propõe uma tipologia evolucionista, dado que
no sistema. A gênese desse fato distintivo da mo- a prestação total agonística deriva-se da prestação
dernidade é uma das preocupações de Mauss, total simples. Digo “por pouco” porque o próprio
posteriormente desenvolvida por L. Dumont. Mauss não dá grande importância a esta classifi-
cação (das classificações nativas), importância que
Como vimos, para Mauss as trocas incluem
nós tampouco devemos dar. Fundamental nessa
bens mais ou menos alienáveis, assim como bens
passagem da “Introdução” é a demonstração de
economicamente úteis ou não. Elas podem incluir
como, nos potlatch, os fato da economia não se
“serviços militares, danças, festas, gentilezas, ban-
dissociam dos do direito. Mauss especifica a intui-
quetes, mulheres”; em resumo, qualquer “circula-
ção de Durkheim de que a economia é, em última
ção de riquezas” (incluindo-se aqui as mulheres)
análise, regida pela religião, ou mais exatamente,
é apenas um momento “de um contrato mais geral
por “mecanismos espirituais [...] regras e idéias”
e muito mais permanente” (MAUSS, 1974, p. 65).
(MAUSS, 1974, p. 48) – a mais forte das quais
Ou seja, o objeto do Ensaio não é a economia
sendo a própria obrigação moral de retribuição.
primitiva, mas a circulação de valores como um
momento do estabelecimento do contrato social.

179
NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

IV. POLINÉSIA sacrifício sendo uma doação que implica


destruição e que deve ser retribuída pelos deuses
A Polinésia interessa especialmente a Mauss
(idem, p. 63). O sacrifício também é um contrato
por causa da noção de mana, através da qual inicia
(idem, p. 65). Como no potlatch, os chefes aliados/
seu estudo sobre a obrigação de retribuir. A noção
rivais polinésios se vêem mutuamente como deu-
de mana é também importante em partes da
ses. Esse tema ainda merece mais estudos, assim
Melanésia, mas em um contexto de menor desen-
como o das esmolas, também presentes tanto no
volvimento da chefia como instância centraliza-
contexto polinésio como no do noroeste norte-
dora da vida social. Essa noção permitiria com-
americano, e que podem ser definidas como
parações não só entre essas regiões próximas, mas
“dádivas oferecidas às crianças e aos pobres [que]
também entre outras sem uma história de contatos:
agradam os mortos” e aos deuses (idem, p. 65-
o potlatch da costa noroesta americana apresen-
66). Mauss sugere haver uma relação entre esses
taria noções semelhantes, implicando honra,
temas, o sacrifício e a esmola: esta é um sacrifício
prestígio e autoridade; não retribuir implica perda
feito às crianças e aos pobres8.
do mana.
Mauss (1974, p. 67) nota ainda que a imensa
Mauss inicia a análise da Polinésia por Samoa,
maioria das sociedades polinésias apresentam
salientando a presença de uma classificação de
sistemas monárquicos fundados em hierarquias de
bens e pessoas em:
“clãs” (ou, como hoje sabemos, de “casas” – cf.
tonga (feminino) : oloa (masculino) : : inalie- LANNA, 1998). Essas monarquias seriam mais
nável : alienável : : autóctone : estrangeiro. estáveis, a ponto de não necessitarem de
Essa relação entre gênero e inalienabilidade instituições como o potlatch, cujo sentido seria o
foi posteriormente estudada por A. Weiner (1976, de “fixar por instantes” uma hierarquia9. Assim,
1992). Não só objetos mas também conhecimentos se os índios da costa noroeste evoluíram da
rituais são classificados como tonga; são as estei- prestação total simples à prestação total agonística,
ras de casamento, herdadas pelas filhas, mas tam- os da Polinésia teriam evoluído desta última à
bém os tesouros, talismãs, brasões, tradições, monarquia. Os maori seriam o povo polinésio onde
cultos e rituais. Eles pouco circulam. Proibições as trocas mais se assemelhariam ao potlatch,
impedem-nos de serem repassados a qualquer um; porque lá os clãs estariam mais isolados, havendo
ligam-se assim ao poder, daí serem bens de pres- entre eles maior rivalidade. Na Melanésia, o
tígio, freqüentemente marcas da chefia, carregados sistema de trocas se assemelharia mais ao potlatch
de mana. do que na Polinésia, por não haver rígida e
desenvolvida hierarquia. Esse raciocínio não é
Analisando as noções nativas de mana e de puramente evolucionista, pois concede que uma
hau, Mauss conclui que “o que, no presente rece- sociedade pode se desenvolver em diferentes
bido e trocado, cria uma obrigação, é o fato de sentidos, institucionalizando ora a dádiva, ora a
que a coisa recebida não é inerte”. Nesse sistema, centralização política. Até que ponto há evolu-
“o doador tem uma ascendência sobre o bene- cionismo na suposição da maior centralização
ficiário” (Mauss, 1974, p. 54). A transmissão cria representar um sentido geral é uma questão ainda
um vínculo jurídico, moral, político, econômico, sem resposta na Antropologia de hoje, como revela
religioso e espiritual, um “vínculo de almas. o colóquio que se reuniu para discutir esse tema e
Presentear alguma coisa a alguém é presentear
alguma coisa de si” (idem, p. 56). Tanto a quan-
tidade e a qualidade do que é trocado tem impor-
tância no estabelecimento da superioridade 8 Sobre a associação entre as crianças e os mortos, presente
política e moral como também a iniciativa do ofe- em um grande número de sociedades, cf. Lévi-Strauss
recimento de uma primeira dádiva que irá esta- (1952).
belecer a relação. Há algo de perigoso no ato de 9 Note-se que tanto as sociedades polinésias como as da
dar, há sempre o perigo de não sermos aceitos. A costa noroeste da América vêm sendo interpretadas como
ascendência do doador se relaciona assim também “sociétés à maisons” (LÉVI-STRAUSS, 1979). Mauss
à iniciativa da troca. aponta haver uma maior instabilidade política nessa região
do globo, uma menor centralização da instituição da
Em seguida, Mauss explica a destruição sa- chefia e, logo, a não existência de monarquias, como as
crificial a partir da lógica da reciprocidade, o que encontramos na Polinésia.

180
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 14: 173-194 JUN. 2000

que redundou na coletânea de artigos organizada Mauss repete observações de que as trocas de
por Godelier, Trautman & Tjon Sie Fat (1998). dádivas assumem múltiplas formas e conteúdos.
Elas podem levar à superação de um estado de
V. A EXTENSÃO DESSE SISTEMA
guerra. Ou ainda, como entre os andamaneses, por
Nesta parte do texto, Mauss ambiciona mostrar exemplo, entre outras sociedades, serem associa-
a generalidade da lógica da dádiva, por ele esbo- das não à aproximação mas à interdições, respeito,
çada anteriormente. Comenta que comparar civili- ritos de separação e evitação; isto é, elas criam
zações não implica desvendar as “conexões” entre uma relação e ao mesmo tempo sacramentam uma
elas. Antropólogos hoje concordam com esta po- distância entre os parceiros. As dádivas podem
sição. Por exemplo, a crítica de Lévi-Strauss ainda se relacionar ao contrário da evitação, às
(1958, 1992) a Boas revela de modo definitivo relações jocosas entre afins (Mauss, 1974, p. 70).
que a dificuldade no sentido de estabelecermos
Após passar em revista a descrição dos anda-
conexões históricas não nos impede de buscarmos
maneses de Radcliffe-Brown, Mauss aborda
conexões lógicas entre elas (cf. também os quatro
descrição dos trobriandeses feita por Malinowski.
volumes das Mythologiques). De todo modo, é
Coerentemente com sua suposição de uma
fundamental a demonstração de Mauss de poder
universalidade do mercado, Mauss (idem, p. 88-
a troca gerar valores sociais e que sua associação
89) define como moeda os vaygu´a trobriandeses,
à rivalidade é bastante generalizada nas sociedades
os braceletes e colares que são os valores máximos
humanas – não só porque dar freqüentemente sig-
trocados entre diferentes ilhas no conhecido
nifica obter prestígio, mas também por que a troca
circuito kula. Mauss ainda não percebe a impor-
incorpora nela mesma algo da guerra. Para usar a
tância das esferas distintas de troca implícita na
terminologia da teoria da hierarquia de L. Dumont
classificação trobriandesa, fenômeno caracteris-
(1992), é como se o dar englobasse o receber (o
ticamente ligado à dádiva, como mostraria mais
oposto talvez defina o capitalismo e a troca mer-
tarde a Antropologia econômica (cf. Lanna, 1998,
cantil, tal como definida por Marx, visando ao lu-
ou ainda os capítulos iniciais de Giannotti, 1983).
cro em dinheiro). Em todo caso, trocando, domes-
Isto é, no sentido marxista inclusive, a moeda
tico meu parceiro, e se for bem sucedido, se der
define-se por sua capacidade em generalizar-se,
mais do que recebo, posso fazer dele, segundo uma
permitindo a conversão entre diversas esferas de
metáfora melanésia, “um cachorro que vem lamber
troca. Assim, não se pode associar diretamente,
a mão do dono” (idem, p. 81).
numa sociedade africana que pratique a riqueza
As dádivas perpassam e organizam diferentes da noiva, por exemplo, a dádiva da mulher às
esferas sociais. Mauss dá vários exemplos (ilhas outras prestações materiais que acompanham o
Andaman, China, Polinésia) de como o casamento casamento, o que levou antropólogos como James
pode ser entendido como a dádiva de uma mulher. Frazer a erroneamente falarem em “compra de
Na verdade, o casamento envolve uma série de mulheres”.
dádivas entre grupos aliados, a dádiva da mulher
O próprio Mauss (1974, p. 75) nota que
sendo concebida como a “principal”, aquela que
Malinowski criticou, a meu ver corretamente, a
fundamenta a instituição (como o voto pode ser
sua concepção de moeda, pois esta implicaria
concebido em alguns lugares como a dádiva
apenas a noção de meio de troca e não de padrão
principal, que fundamenta as eleições – cf. Lanna,
geral de valor. Isto é, Mauss não parece ciente da
1995). No casamento, a dádiva da mulher freqüen-
especificidade da moeda capitalista, como um
temente é acompanhada, como na nossa sociedade,
“valor que se generaliza” de modo não hierár-
de outras dádivas, feitas a um dos cônjuges (por
quico. Nas sociedades não-capitalistas, os valores
exemplo, o dote, tão importante na Europa oci-
só se generalizam de modo hierárquico (sempre
dental do século IV até a revolução industrial –
no sentido de Dumont). Isto é, o valor de certos
cf. Goody, 1983) ou à familía de um deles (como
objetos pode não ser no sentido de sua genera-
no caso da riqueza da noiva, tão importante em
lização quantitativa, como padrão ou medida da
toda a África sub-sahariana – cf. Goody, 1973).
troca. Por exemplo, seu valor pode estar em uma
O casamento pode ainda ser uma ocasião propícia
capacidade regenerativa milagrosa (ou “life-
para um potlatch (Mauss, 1974, p. 107), sendo
giver”) ou em uma capacidade emblemática para
neste caso a prestação englobada (Sahlins, 1988),
representar todo um clã ou linhagem (caso das
não a englobante.

181
NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

esteiras polinésias mencionadas por Mauss). Nesse do Norte teriam um significado construído
caso, tratam-se de valores “subjetivos e pessoais”, localmente. Seriam assim “moeda”, a meu ver, não
freqüentemente inalienáveis. O que distingue a por sua forma (cobre), mas por sua capacidade
moeda capitalista das “moedas” hierárquicas é que para representar um todo, ao serem associados ao
estas são menos alienáveis. Claro que elas também chefe. Quanto a esse significado do cobre no
não são totalmente inalienáveis, pois por definição contexto kwakiutl, lembro que para Mauss a chefia
são passíveis de serem trocadas, apesar de essa engloba o cobre. Por outro lado, o chefe não
troca ser sempre cercada de proibições e condições apenas possui um cobre, mas ele mesmo é um
(ocorrer só quando há um casamento real, por cobre quebrado, os cobres são o seu espírito
exemplo). (Mauss, 1974, p. 127-128). O cobre seria uma
moeda personalizada, que inclusive fala e isso,
Já no capitalismo, a moeda destrói as esferas
para Mauss, o diferiria fundamentalmente da nossa
de troca, acabando com a possibilidade de uma
moeda. Mas não tanto: “serve-se do cobre por
dessas esferas vir a ser hierarquicamente superior.
percussão, como no direito romano: cunha-se nele
A divisão fundamental passa a ser entre o que é
o gens ao qual são dados [...] coisas tocadas pelo
ou não é mercadoria, isto é, passível de compra e
cobre são-lhe anexadas, mortas por ele; esse, aliás,
venda, ser trocado por dinheiro; no mercado, a
é um ritual de paz”. Assim, “as coisas têm uma
moeda passa a ser uma medida geral. Como in-
personalidade e as personalidades são, de certa
dicava Malinowski (e mais recentemente, Barraud
maneira, coisas permanentes do clã” (Mauss,
et alii, 1984) a moeda hierárquica também é uma
1974, p. 128).
medida geral, mas não no sentido de poder ser
diretamente trocada por qualquer objeto. No capi- Essa concepção de moeda de Mauss leva-o
talismo, a própria alienabilidade passa a ser um então a tratar a dádiva como comércio. Mas ele
valor; todos desejam a moeda por esta ser aquilo deixa claro que, se a dádiva também é comércio,
que pode, potencialmente, tudo alienar. Assim, se ela não é exclusiva nem principalmente comércio;
a lógica da mercadoria define uma esfera extre- seria apenas um dos seus sentidos, seu “aspecto
mamente ampla de troca –, o mercado –, a da econômico”. O kula, por exemplo, pode ser enten-
dádiva define sempre várias esferas restritas, dido como um comércio intertribal, por implicar
fechadas em si mesmas, mas em relação hierár- uma troca circular que ocorre entre várias ilhas
quica entre elas. Mauss poderia ser criticado por melanésias. Mas, como Malinowski mostra, ele é
não distinguir a generalização de valores hierár- distinguido pelos próprios trobriandeses das trocas
quicos (no sentido dumontiano do termo) da gene- puramente econômicas “de mercadorias úteis”,
ralização capitalista do valor e do valor-moeda (no denominadas gimwali, e que ocorrem paralela-
sentido marxista do termo). mente a ele (idem, p. 74). Mauss nota que os
trobriandeses sempre foram comerciantes. Em
De uma perspectiva marxista, Mauss poderia
resumo, para Mauss, como para Malinowski, as
ainda ser criticado por freqüentemente não
trocas podem ter um caráter mais ou menos
distinguir o que Marx denominava “gênese lógica”
comercial.
da “gênese histórica da moeda”. Nas reflexões
sobre a moeda do Ensaio, fica implícito, a todo Após refletir sobre a noção de moeda, em geral,
momento, que Mauss não deixar de buscar a “ori- a partir do kula e do potlatch, Mauss salienta uma
gem” da nossa moeda. No caso do cobre kwakiutl, semelhança entre essas duas formas de troca:
por exemplo, Mauss impressiona-se com o signi- ambas são “de ordem nobre” (Mauss, 1974, p. 73).
ficado desse bem tão valorizado e ao mesmo tem- Note-se que a comparação não é tanto entre socie-
po tão pouco alienável. Por outro lado, para ele dades, isto é, não é aquela que propunham na
importa também pensar a sua própria forma mesma época Boas, Malinowski e Radcliffe-
(cobre), pois ela poderia representar uma continui- Brown, cada qual ao seu modo. Não há um esforço
dade com a moeda capitalista. para uma contextualização totalizadora da mesma
ordem da que encontramos naqueles grandes
Apesar dessa criticável preocupação com ori-
etnógrafos. Trata-se, no caso de Mauss, de com-
gens históricas, que, ao modo dos evolucionistas
parar formas de troca, ou manifestações especí-
do século XIX, fundamentaria algumas das
ficas de instituições que se revelam fundamentais
comparações de Mauss, o autor está ciente de que
em diferentes sociedades.
os cobres dos índios da costa noroeste da América

182
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 14: 173-194 JUN. 2000

Mauss aponta ainda para outra questão práticas funerárias e a moral (Mauss, 1974, p. 86).
importante, o fato de que cada sociedade faz sua
Fiz alhures (Lanna, 1992) uma discussão sobre
hierarquia entre as esferas sociais. Posteriormente,
este aspecto englobante do kula, apontando para
Godelier (1981), entre outros autores, retoma esta
um fato não salientado por Mauss: a produção e a
tarefa fundamental de entender a hierarquia entre
troca de bens não-kula, aqueles excluídos da esfera
as esferas sociais de cada sociedade. Para Godelier,
de troca dos vaygu´a, são função das relações de
a esfera fundamental, fosse ela qual fosse,
parentesco. Ou mais precisamente, nas Ilhas
“funcionaria” sempre como “relação de produção”
Trobriand, a troca de mulheres funda uma relação
(economia no capitalismo, religião na Índia,
de vassalagem, denominada urigubu, na qual o
política no final do feudalismo europeu, paren-
doador de mulheres recebe prestações de inhames
tesco na Austrália etc.).
– às quais tanto Mauss como Malinowski se
Em um debate que é até hoje retomado entre referem como “tributos”. Os chefes trobriandeses
Marx e Mauss, este último faz outra contribuição arrebanham vassalos “distribuindo” suas filhas
fundamental ao salientar, com base nos dados de como esposas. Mauss (1974, p. 87) lembra como
Malinowski, que a produção dos objetos kula, os é importante a redistribuição, feita pelo chefe, dos
vaygu´a, não parece ser tão relevante quanto sua objetos trazidos por uma expedição kula “aos
troca (Mauss, 1974, p. 86). Ou, por outra, as grupos que prestaram serviços ao chefe ou ao seu
relações de produção são nas Ilhas Trobriand clã”. Se o urigubu é um mecanismo endógeno de
determinadas pela dádiva, assim como a produção criação do poder do chefe, no kula tudo se passa
dos vaygu´a é subsumida na sua condição de como se este poder se fizesse de fora para dentro,
dádiva fundamental. ao trazer valores kula do exterior. É nesse contexto
que deve ser entendida a afirmação de Mauss de
Ainda a partir da etnografia de Malinowski,
que a troca kula organiza todas as relações do
Mauss retoma as diversas formas de dádivas
grupo, inclusive as internas.
trobriandesas (inicial, de fechamento, convite, de
retorno etc.) interpretando-as como “formas Vimos que o kula envolve diversos grupos
primitivas de classificação”10. Corretamente, não melanésios e que Mauss interpreta como “moeda”
dá atenção à (re)classificação malinowskiana desta certos objetos melanésios que são a devida
classificação trobriandesa. Sugere futuras pes- recompensa ao oferecimento de “cantos, mulheres,
quisas sobre o lugar do indivíduo não generoso serviços” (MAUSS, 1974, p. 90). É interessante
no kula, infiel aos seus parceiros, e conclui que que também no potlatch haja a troca de “cantos,
“o kula não passa, ele próprio, de um momento, o mulheres e serviços” pelos cobres e pelas peles
mais solene, de um vasto sistema de prestações e (SAPIR, 1994). Como os objetos melanésios, co-
contra prestações que parece englobar a totalidade bres e peles da costa noroeste americana realmente
da vida econômica e civil dos trobriandeses” pois se assemelham à moeda que representam valores
“ele concretiza e reúne muitas outras instituições” sociais centrais. Sugerem ainda a idéia de casa-
(idem, p. 83). O kula é assim um fato fundamental mento por meio da compra, mas Mauss já indicava
da vida trobriandesa, englobando não só o que ser imprópria essa expressão, pois esse casamento
Mauss chama de “vida civil e econômica” (in- “na verdade compreende prestações em todos os
cluindo aqui a política e a diplomacia intertribal) sentidos, inclusive os da família da mulher”, isto
como também os mitos, a religião, a magia, as é, há uma superposição de diversos circuitos de
troca.
Mauss conclui sua observações sobre os
melanésios negando que eles sejam menos evo-
10 Mauss, entretanto, ora reconhece o “refinamento”
luídos, mas simplesmente “não têm nem a idéia
(1974, p. 89) intelectual das classificações trobriandesas,
ora as toma como “pueril” (idem, p. 88). Mas sua análise
da venda [...] e contudo fazem operações jurídicas
não deixa de relacionar as classificações nativas das trocas e econômicas que tem idêntica função” (idem, p.
à morfologia de cada grupo. A troca pode, assim, envolver 91). Lembra ainda que eles são “uma parte da
em cada caso mais ou menos os chefes, clãs, fratrias e humanidade, relativamente rica, laboriosa e
confrarias (idem, p. 104), ou um potlatch que tem como criadora de excedentes importantes” (idem, p. 92).
causa um funeral pode ser, em um dado grupo, distinguido Diz o mesmo dos índios da costa noroeste da
de outros tipos de potlatch (idem, p. 114), e assim por
diante.
América, que desenvolveram uma rica civilização

183
NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

material e espiritual, como demonstram, por exem- circular).


plo, suas esculturas, mas, curiosamente, não co-
Ao analisar o potlatch Mauss nota ainda a
nheciam nem a agricultura nem a cerâmica. Após
associação entre troca e circulação de nomes11 .
o contato com os brancos, esses índios não só
Dá-se um potlatch para ganhar, manter ou recu-
mantiveram como desenvolveram o potlatch.
perar um nome, geralmente nome de linhagem.
Vimos que, em relação aos sistemas de dádivas
Ganha-se assim reputação. Obviamente os insights
do Pacífico sul, os índios da costa noroeste
de Mauss não se limitam ao potlatch. O estudo
apresentam maior rivalidade e um certo elemento
das trocas permitem-no relacionar o mana poli-
de violência, a “guerra de propriedade”; outra
nésio e melanésio ao “homem largo” da costa no-
diferença relevante, salientada por Mauss, seria a
roeste da América e à autoridade romana. Nos três
de terem elaborado mais “a noção de crédito a
casos trata-se da associação entre honra e magia,
prazo” (idem, p. 96).
prestígio e riqueza. Mauss (1974, p. 102) nota que
O fato de trocas do tipo potlatch obedecerem o mesmo ocorre “nas tribos realmente primitivas,
a um crescendo foi entendido por Boas como uma como as australianas”.
manifestação daquilo que concebemos como
Ao mesmo tempo, perder um potlatch pode
empréstimos a juros: deve-se sempre dar mais do
gerar escravidão (idem, p. 105), ou ainda, dá-se
que se recebeu em um potlatch anterior. Mauss
um potlatch para se “resgatar cativos” (idem, p.
sugere substituir os termos dívidas, pagamento,
107). Em resumo, o potlatch indica como a dádiva
reembolso e empréstimo, mas mantém o de juros
pode se ligar simultaneamente ao sacrifício, ao
– chega a falar em “taxas” (idem, p. 112).
nome e à escravidão. Isso implica, entre outras
Argumentei, ao contrário, a favor de mantermos
coisas, sua relevância para o entendimento das
como universal a noção de dívida, mas não a de
mais variadas sociedades, dos indígenas
juros (LANNA, 1995). Em todo caso, não po-
amazônicos à Roma antiga. A autoridade é assim
demos jamais tomar a noção de crédito como sinal
um conceito romano que não apenas ou não
de uma evolução, como supõem alguns histo-
fortuitamente lembra o de mana: há em torno de
riadores econômicos e o próprio Mauss, na parte
ambos semelhantes “arcabouços institucionais”.
III do Ensaio, como veremos a seguir.
Assim, o nexum (idem, p. 112) é um conceito
O potlatch sugere a Mauss outros insights, romano que lembra a “escravização por dívida”
como o de que o jogo e a aposta, mesmo entre da costa noroeste; em ambas “empenha-se o
nós, são formas de potlatch: neles “empenha-se a nome”.
honra e o crédito [e], não obstante faz-se circular
Mauss está consciente que apenas inicia
a riqueza”. Mauss supõe ainda haver uma
comparações possíveis a partir da noção de dádiva.
associação universal (evidentemente que
As comparações que faz são bastante intuitivas
institucionalizada diferentemente em cada caso)
mas também bastante ousadas. Sugere que o
entre troca e sacrifício (MAUSS, 1974, p. 99); o
potlatch nos permite repensar o feudalismo
dar seria associado à vida e o receber à morte.
europeu. Há entre os tsimchian, por exemplo, dois
Fica a impressão de que essa “tendência” se enfra-
tipos de potlatchs, o dos chefes e os de vassalos
queceria no capitalismo. No potlatch, muito
(idem, p. 107, nota 170). Mas, mais comumente,
claramente, é o receber e não o destruir que é
o potlatch se liga à confederação de tribos,
associado à morte. Destruir seria uma forma de
estabelecendo uma hierarquia entre chefes. Eles
dar, uma forma muito específica exatamente
têm entre si relações vassalo/suserano; perder um
porque evita a retribuição (idem, p. 100). Do ponto
potlatch é tornar-se ora escravo, ora vassalo. Em
de vista do doador, “dar já é destruir”, um sa-
alguns casos, estabelece-se que para vencer um
crifício, logo um modo de dar vida, de regeneração
social. Ao se destruir, tira-se a vida do objeto, mas
recria-se a vida do doador. Freqüentemente, no
noroeste da América a destruição pode ser pelo 11 A análise de Mauss é a meu ver muito mais sugestiva
fogo (queimam-se casas do próprio grupo) ou que certos desenvolvimentos da Antropologia da Mela-
atiram-se os cobres ao mar. Alternativamente, nésia, que associam a circulação de nomes em trocas do
quebram-se os cobres em pedaços (o que, por sinal, tipo kula à noção de fama e não à onomástica ou à
não implica necessariamente que eles deixem de distribuição de títulos (cf. MUNN, 1986; WEINER, 1976,
entre outros).

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potlatch, tornar-se suserano, deve-se antes ter ser tidos como bens inalienáveis. São “coisas da
perdido, ter sido vassalo, recebido bens que seriam família” (idem, p. 119). No caso da costa noroeste
futuramente dados (idem, p. 105). Por outro lado, americana, casas, portas, talheres, mantas, caixas,
o que um chefe recebe no potlatch de outro chefe, pratos, canoas, cachorro seriam, neste sentido,
é necessariamente por ele redistribuído interna- semelhantes às nossas “coisas da família”. Elas
mente (idem, p. 107). O chefe que perde um são, como todas as dádivas, individualizadas;
potlatch não perde totalmente sua autoridade, pois como cada um dos objetos kula, cada uma destas
é um intermediário; ele está então em condições “coisas da família” é identificada por um nome e
de passar adiante algo da alma, da identidade, do tem sua história própria.
ser do vencedor. O perdedor tem assim duas
Exatamente por sua inalienabilidade Mauss
possibilidades: a primeira seria, a partir dos valores
(1974, p. 121-122) também associa os cobertores
que recebe e de outros que pode vir a acumular,
da costa noroeste às esteiras polinésias, por serem
tentar ganhar outro potlatch no futuro; a segunda
“bens essenciais de circulação bastante estrita,
seria passar a ser um representante do vitorioso,
cuidadosamente repartidos entre os clãs e as famí-
ainda que tendo seu prestígio diminuído em re-
lias dos chefes”. Eles seriam ainda semelhantes a
lação a este.
certos objetos kula, também bens de circulação
Neste momento do texto (o sub-item do “Capí- restrita a uma esfera de troca e às ocasiões solenes
tulo I”I, intitulado A força das coisas), Mauss de kula. Mauss nota que um cobre que já foi
adota o conceito de mana para explicar fatos da destruído e depois reconstruído, isto é, já passou
costa noroeste americana. É famosa a crítica de por vários potlatch, tem mais valor (idem, p. 125).
Lévi-Strauss (1974) a esta passagem, que tem sido Mas Mauss nota ainda que os kwakiutl distinguem
entendida como uma censura ao fato de Mauss duas espécies de cobres, distinção feita com base
tomar a teoria nativa como teoria antropológica. na maior ou menor alienabilidade (ibidem). Isto
A meu ver, o problema dessa passagem é não só o é, há cobres que não saem da família e que não
fato de Mauss generalizar uma noção particular, a deixam de ter grande valor, equivalente ao da
de mana, como aponta Lévi-Strauss, mas também família. O valor máximo seria então o de um co-
aproximar categorias nativas muito distantes, bre-de-família-nobilérrima-que-circulou que reali-
romanas, samoanas e kwakiutl. De modo seme- za a síntese entre inalienabilidade e alguma aliena-
lhante, é evidentemente errônea a afirmação de bilidade. Essa interpretação se reforça pelo fato
Mauss de que o potlatch existe na Melanésia. Hoje de que os cobres secundários não podem ser que-
sabemos que o que é geral é o princípio de brados e refundidos; são “satélites dos primeiros”,
reciprocidade, formalizado por Lévi-Strauss exatamente porque são definidos, de antemão,
(1949), a partir do próprio Ensaio sobre a dádiva. como mais alienáveis.
Por outro lado, Mauss (1974, p. 121) encontra na
VI. DIREITOS E ECONOMIAS ANTIGAS
noção de logwa, da costa noroeste, um equivalente
ao mana. Ambas teriam uma “virtude produtora” O título do “Capítulo III” do Ensaio é “Sobre-
(ibidem). É como se houvesse uma funcionalidade vivência desses princípios nos direitos antigos e
(ou efi-cácia?) de uma ideologia, ou melhor, de nas economias antigas”. Como se sabe, a noção
um “prin-cípio mágico e religioso da posição e da de sobrevivência foi cara aos evolucionistas. Tam-
abundân-cia” (idem, p. 121-122), isto é, não bém a noção de antigüidade sugere um estágio
exatamente de um princípio político-econômico. entre a modernidade e o primitivismo. Sugeri
acima que as comparações de Mauss estão de certa
Como já disse, Mauss nota que, em toda parte,
forma entre Boas e Frazer, dirigindo-se para a
distinguem-se bens mais ou menos inalienáveis,
perspectiva mais etnográfica do primeiro sem abrir
e que os segundos são sempre os mais valiosos –
mão da pretensão para encontrar traços universais
mulheres, privilégios que se passam a um genro
do pensamento humano que caracterizava o
ou nomes a um filho. Da mesma forma, distin-
segundo. O título do “Capítulo III” indica que
guem-se, em toda parte, como entre nós, os
Mauss não se livrou totalmente de influências
“alimentos ricos” das “simples provisões”. Para
evolucionistas. No segundo parágrafo deste ter-
Mauss, seria mais correto falarmos não em troca
ceiro capítulo, Mauss fala em comparação (Frazer)
mas sim em “empréstimos” entre bens inaliená-
e explicação histórica (Boas), de certo modo
veis. Os títulos, como o de xamã ou de titular de
confundindo ambos os métodos. A meu ver, como
danças em uma confraria (idem, p. 118) podem

185
NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

seu título indica, este é o capítulo mais evolu- contrário de Marx, Mauss parece confundir
cionista do Ensaio, justamente porque também é evolução lógica com a histórico-factual. De todo
aquele com mais pretensões históricas. A história modo, Mauss (1974, p. 134) mostra que, no nexum
de Mauss difere assim da de Boas por não perder romano, o credor se vincula ao devedor como o
uma obsessão com a noção de origens. Esse evolu- recipiente de uma dádiva ao seu doador: em uma
cionismo não é, entretanto, a característica central relação de empréstimo, “o indivíduo que recebeu
do texto, nem invalida inúmeras de suas con- a coisa é ele mesmo, ainda mais que comprado,
tribuições. aceito pelo empréstimo”; ou ainda, “o mero fato
de ter aceito algo de alguém torna o indivíduo
De um ponto de vista metodológico, o evolu-
obrigado” (ibidem).
cionismo do capítulo expressa-se ainda pelo fato
de Mauss apoiar-se não na lingüística porém sim Em Roma não teríamos ainda, num primeiro
na filologia. Mas o próprio Mauss (1974, p. 147) momento, a compra e a venda, mas sim a entrega
parece consciente dos limites deste procedimento, de um bastão (de cobre) junto com a coisa empres-
quando indica que não irá aprofundar sua tada. Esse bastão foi posteriormente substituído
“tentativa de reconstrução por etimologia”. Tam- pela moeda, representando um título que em-
bém na parte dedicada aos fatos indianos, Mauss penhava o gado das gentes, e que tinha cunhada
mostra-se consciente dos limites de sua preocupa- sua face. A moeda teria sido então antes um pe-
ção com origens (p. 143-144), afirmando a seguir nhor, depois um valor 12. Essa sugestão parece
que “nossa demonstração atual não nos obriga a factível para o caso romano. De qualquer modo,
dosar estas múltiplas origens e a reconstituir ainda que as generalizações históricas de Mauss
hipoteticamente o sistema completo” (idem, p. possam ser criticadas, fica a sugestão genial, ainda
147). Conclui, como faríamos hoje, que “a simples que apoiada na etimologia e na intuição socio-
descrição será bastante demonstrativa” (idem, p. lógica: vendere foi “originariamente venum-dare”
148). Quanto à identificação entre comparação (idem, p. 142).
antropológica e trabalho histórico, está claro que
Mencionamos que a noção de contrato tem,
ela se limita a algumas passagens do texto, pois,
para Mauss, caráter universal. Coerentemente,
como vimos, há no Ensaio inúmeras passagens
para ele o nexum seria, como o potlatch e o kula,
onde a comparação prescinde a abordagem
um contrato, implicando algo mais que um vínculo
histórica, fundamentando-se no próprio fato da
mágico, religioso e jurídico – o que aliás já era
troca de dádivas, pressupondo assim mais a análise
notado pelos romanistas da época. Mauss (1974,
sociológica que a histórica.
p. 136) sugere associarmos esses aspectos do vín-
É ainda no “Capítulo III” que surge a idéia de culo (ou nexum), isto é, sua “semelhança” com o
que “entre nós”, isto é, na sociedade capitalista, a potlatch ou o kula, ao fato de a família romana
dádiva se enfraquece, ao opor-se à obrigação e à incluir os escravos e as coisas. Estas coisas se
prestação não-gratuita (idem, p. 132). Mauss dividiam em res mancipi e res nec mancipi, isto
(1974, p. 143-144) supõe neste capítulo que, do é, alienáveis ou não. Mauss afirma que a pecúnia,
ponto de vista moderno, a moral da dádiva seria o gado, que se tornou moeda, pecúlio, era o bem
“envelhecida e acidental”, e “demasiado dispen- alienável por excelência, isto é, o que menos re-
diosa e suntuária, assoberbada por considerações presentava a família e a casa. Segundo a classifi-
pessoais, incompatível com o desenvolvimento do cação romana, ele estaria, mais do que qualquer
mercado e da produção”. outro bem da família, próximo das “coisas que
passam”, comerciáveis.
Ao mesmo tempo, ao abordar a instituição ro-
mana do nexum, Mauss nota que ela fundaria as Mauss nota a associação entre essas “coisas
noções de crédito e penhor, estando a meio que passam” e a idéia de tradição. A raiz dessa
caminho entre a economia capitalista e a da dádiva. palavra é a mesma da palavra que significa
Mauss não chega a reproduzir o erro dos historia- “comércio” em inglês (trade). A idéia é que as
dores econômicos que critica (Mauss, 1974, p. 98)
por suporem ser o crédito uma conquista da
evolução da humanidade, mas sua abordagem não 12 É interessante notar que a noção de valor não seria
deixa de ser evolucionista. Como já disse a respeito para Mauss universal. Dumont, ao contrário de seu mestre
das interpretações de Mauss sobre a moeda, ao Mauss, generaliza a noção de valor, mas não a de moeda.

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 14: 173-194 JUN. 2000

coisas criam vínculos espirituais: tradição. Neste Índia antiga teria sido um “país de potlatch” (idem,
sentido, a tradição é o que fica daquilo que passa. p. 145), de “prestações totais de clãs e aldeias”,
Mauss nota que “os romanos não tinham outra apesar de já conhecer “o mercado, o mercador, o
palavra além de dare, dar, para designar todos preço, a moeda, a venda”. Mauss fala em rituais
esses fatos que consistem na traditio” (idem, p. da venda, que se associariam aos “princípios de
142). Não há assim novidade na sugestão, feita hospitalidade” (idem, p. 146).
por certos cientistas sociais anglo-saxões, que
Mauss comenta que uma dádiva produz sempre
certamente leram mal Mauss, de que as tradições
sua recompensa. No caso hindu, essa recompensa
são dinâmicas ou “inventadas”.
pode ocorrer nesta ou em outra vida. A dádiva
Por mais que se possa criticar Mauss por fazer “não é perdida, reproduz-se” (idem, p. 148), volta
comparações intuitivas, sem distinguir perfeita- de alguma forma ao doador inicial. Assim, um ava-
mente as conexões lógicas das históricas, sua ro “renasce em uma família pobre” (idem, p. 148).
análise revela claramente a importância do estudo Trata-se assim de uma “teologia jurídico-econô-
da dádiva para entendermos os direitos romano e mica” (idem, p. 149) presente nas leis e na prática
germânico. Por exemplo, Mauss nota que a noção cristã. Entre os brâmanes, como entre os cristãos,
romana de réu, antes de assumir o sentido de prega-se que o “verdadeiro lucro” implica “renún-
“culpado”, indicava o homem possuído pela coisa. cia de si” (idem, p. 149).
A “inferioriedade espiritual” que caracterizaria
Mauss lembra ainda ser bastante geral a crença
aquele que recebe algo seria uma “quase culpa”
de que aquele que consome sem dar (isto é, sem
(idem, p. 140).
ser consumido) é tido como alguém que consome
Em seguida Mauss aborda o direito hindu clás- veneno. Há, assim, também na Índia, a equação
sico, do qual há numerosas fontes escritas, verda- já mencionada acima, entre dar e viver. Associado
deiras “epopéias da dádiva”, até hoje “extrema- ao viver, o dar é pensado no caso indiano como
mente populares na Índia” (idem, p. 144-145). qualidade natural: “tudo que se é dado são seres
Como o direito germânico, o hindu teria conser- vivos, com os quais se dialoga e que tomam parte
vado um sistema moral fundado na dádiva que no contrato” (idem, p. 149). Ou ainda: “é da natu-
representaria uma etapa “anterior” (lógica e histo- reza da comida ser partilhada” (idem, p. 150). Se
ricamente) aos direitos grego e romano. Mauss o entesouramento é associado à morte, o dar é
(1974, p. 145) espera poder revelar, através “da associado à vida e à noção, fundamental na Índia
teoria das dádivas” elaborada pelos próprios hin- (DUMONT, 1992), de pureza.
dus, uma continuidade entre estes direitos e a mo-
Mauss nota que “tal é a interpretação ao mesmo
ralidade cristã.
tempo materialista e idealista que o bramanismo
Havia na Índia a prescrição de se dar aos brâ- deu para a caridade e a hospitalidade” (idem, p.
manes, superiores hierárquicos. Nesse caso, Mauss 150). Do ponto de vista da organização social e
não chega a falar em tributos. Essas prestações política, o sentido da riqueza é ser dada aos
religiosas eram claramente sacrificiais e retribuídas brâmanes. Há dois modos de destruição: um, anti-
pelos brâmanes com serviços religiosos. Os brâ- social, é associado à avareza; o outro, do sacrifício
manes “encarregariam os deuses de retribuir os brâmane, é associado ao seu oposto, a generosi-
presentes feitos a eles”. Mauss fala em uma série dade divina. Ao mesmo tempo em que vivem das
de presentes aos deuses, sem descrevê-la pre- dádivas, os brâmanes fingem recusá-las; são rece-
cisamente, praticada tanto por brâmanes como bedores na prática, mas definidos ideologicamente
pelo “comum dos mortais”. Aparentemente, trata- (num sentido forte) como doadores, encarnando
se de “repastos funerários”. Mauss afirma que os valores máximos daquela sociedade. Receben-
“faltam dados” e que não haveria necessidade de do algo de toda a sociedade, inclusive dos reis (os
esses fatos serem “especificados com precisão em kshatriyas, em relação aos quais são superiores),
um trabalho de comparação” (idem, p. 148). os sacerdotes a encarnam: cada um dá um pouco
Tratar-se-ia de um “direito” que esteve em vigor de si e o todo se representa no brâmane.
na prática do séc. 8 a. C. até o 3 d. C., mas que
Já a civilização germânica, segundo Mauss,
sobrevive até hoje na “lei brâmane” (ibidem). O
não teria teorizado tanto sobre a dádiva como a
“Mahabarata é a história de um gigantesco potlatch
hindu, mas não teria deixado de praticá-la.
[...] torneio e escolha de noivas” (idem, p. 147). A
Diferiria ainda da hindu por ser “essencialmente

187
NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

feudal e camponesa” e “desprovida de mercados” presente na Índia, nas línguas germânicas a palavra
(idem, p. 156). Analisando os germanos, Mauss gift tem o duplo sentido de dádiva e de veneno. O
nega a tese da existência de uma “economia fe- tema da “dádiva funesta” é comum no folclore
chada”, tese esta que viria a se tornar incrivelmente germânico.
comum nas ciências sociais do segundo pós-
Também a civilização chinesa reconhece o
guerra, tanto nos desenvolvimentos dos trabalhos
vínculo entre o doador e o bem dado, “mesmo hoje
do próprio Mauss feitos pela chamada “Antro-
em dia” (idem, p. 161). Também lá “aceitar um
pologia econômica” como, por exemplo, nos
presente é perigoso”. Mauss se aproxima das
chamados “estudos de comunidade”, de inspiração
reflexões de Karl Polanyi (1980) a respeito da
norte-americana. Mauss (1974, p. 156) mostra
mercantilização da terra, quando observa que “na
como toda sociedade tem suas formas de exo-
história humana a venda definitiva da terra é muito
gamia, suas trocas de mulheres, bens, ritos etc.
recente” sendo por isto “normal que a terra escape
Apresentando um argumento posteriormente
ao direito e à economia do capital” (1974, p. 161,
desenvolvido por Lévi-Strauss (1952, entre
nota 125). Isso explicaria em parte, a meu ver, a
outros), Mauss indica que, ainda que possa haver
força do movimento comunista chinês e da nossa
certo isolamento, ele é sempre relativo, restrito,
própria idéia de reforma agrária: nada menos
por exemplo, no caso da civilização germânica, a
capitalista do que uma dádiva do Estado. Dis-
uma certa época do ano. Mauss (1874, p. 157)
tancio-me assim de J. T. Godbout (1998, p. 44),
nota que as famílias, tribos, chefes e reis germâ-
quando este afirma que “entende-se por dádiva
nicos se comunicavam através de festas, alianças,
tudo o que circula na sociedade que não está ligado
penhores, hospedagens e presentes “tão grandes
nem ao mercado nem ao Estado (redistribuição)
quanto possível”. Batismos, comunhões, noivados
nem à violência física”. Quanto à relação entre
e casamentos incluíam banquetes nos quais os
dádiva e violência física, remeto o leitor, entre
convidados poderiam ser “todo um povoado”. Um
tantos outros, ao texto de Carneiro da Cunha &
casamento real germânico lembraria o caso brâ-
Viveiros de Castro (1985). Ao contrário de
mane: o casal real recebe não em nome da avareza
Godbout (1998, p. 47), penso que, para Mauss, a
mas do seu oposto, sua fertilidade sendo aquela
dádiva não seria “fundamentalmente diferente do
de todo o reino; este, por sua vez, é representado
mercado e do Estado” 13 . Quanto a este ponto,
pela soma das dádivas recebidas pelos nobres
Mauss difere significativamente de Polanyi, de
noivos. Como no caso dos tributos, os bens possi-
quem Godbout parece adotar uma tríade cara aos
bilitam ao rei representar o todo.
evolucionistas: dádiva, redistribuição e mercado.
Mas não só em casamentos reais “a genero- Sem chegar, entretanto, a negar a diferença entre
sidade das dádivas é um penhor da fertilidade do a dívida mercantil e a dívida da dádiva, mostrarei
jovem casal”. Por isso mesmo, refletir sobre a a seguir que a redistribuição parece oferecer algo
instituição do casamento nos ajuda a entender o que, por falta de termo melhor, denominarei
significado do penhor. Evitamos assim pensar os “forma geral” dos Estados14.
fatos econômicos como se fossem fatos puramente
VII. SOCIEDADES MODERNAS
econômicos. Mauss (1974, p. 157) fala que casa-
mento e penhor são instituições de mesma “ori- Na “Conclusão” do Ensaio, Mauss estende
gem”, havendo “a necessidade do penhor em todas suas observações para “as nossas sociedades”.
as espécies de contratos germânicos”. Este penhor Para ele, como para Marx, estas se definem pelo
teria dado origem à própria noção de salário papel central das relações de compra e venda. Ao
(wadium, wage): “o penhor aceito permite aos con-
tratantes do direito germânico agir um sobre o
outro, pois um possui algo do outro” (idem, p.
13 Conseqüentemente, discordo das afirmações de
158). O penhor era em geral um objeto pessoal,
Godbout segundo as quais “o mercado e o estado são duas
de pequeno valor, como uma luva, uma moeda ou
instituições neutras, que não alimentam nossas relações
uma faca. Aquele que o entregava empenhava a sociais”, porque são “exteriores aos laços com as pessoas
sua honra, ficando em uma posição inferior até a que nos são caras” (GODBOUT, 1998, p. 48).
quitação do contrato. Há assim um perigo em dar 14 Evito conscientemente a noção lévi-straussiana de
e em receber, seja uma dádiva, seja um penhor. “estrutura”; estamos aqui no nível da instituições e não
Lembrando uma representação que vimos estar de uma forma abstrata universal e intemporal.

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 14: 173-194 JUN. 2000

mesmo tempo, como para Lévi-Strauss (1952), o Mas na “Conclusão” do Ensaio Mauss não
que Mauss denomina “nossas sociedades” também pensa em um paralelismo entre dádiva e merca-
se define, de um ponto de vista quantitativo, pela doria. Sua idéia, cuja importância, a meu ver, ainda
multiplicação das relações de troca. Uma primeira não foi devidamente avaliada, é a de que, na
conclusão: o estudo da circulação de riquezas, modernidade, a dádiva está de certo modo em-
através da dádiva, oferece uma base para uma butida na compra e venda. Isto é, essas lógicas
comparação inicial entre diferentes sociedades e não se excluem porque “as coisas vendidas tem
permite uma passagem entre o estudo da nossa uma alma” (Mauss, 1974, p. 164). Neste momento
sociedade e o das “outras”. Para Mauss, a dádiva, do texto, Mauss faz uma defesa do socialismo.
nas sociedades modernas, estaria “embutida na Haveria para ele um resquício da moralidade da
compra e venda”, e não paralela ou independente dádiva no fato de os trabalhadores –, denominados
desta. Mauss minimiza a importância das relações por ele “produtores” –, terem “vontade de seguir
de “pura dádiva” no capitalismo, eximindo-se de a coisa que produziram” e “a sensação aguda de
uma análise de momentos como o do Natal, o das que seu trabalho é revendido sem que tomem parte
festas e das relações de hospitalidade na moderna no lucro”. Mas Mauss assume algo, a meu ver,
civilização ocidental. falso e não demonstrado em momento algum do
Ensaio: que também os nativos das sociedades não
Nas suas referências à sociedade germânica,
capitalistas tenham esse “desejo” de seguir as dá-
Mauss sugere ter ocorrido, nesta sociedade, um
divas que fazem. Os inúmeros exemplos etnográ-
certo desenvolvimento histórico, da dádiva ao
ficos do Ensaio mostram exatamente o contrário,
mercado. Mas a “Conclusão” do Ensaio nega a
a saber:
existência dessa linha contínua e da passagem
supostamente universal. Mauss é ambígüo quanto a) que os desejos não organizam nem a pro-
a esse ponto: ora a presença do mercado enfra- dução nem a distribuição não capitalista;
quece a dádiva, ora não, o mercado carregando a
b) que, ao contrário do que ocorre no capitalis-
lógica da dádiva dentro de si. Em todo caso, sua
mo, a produção pode ser determinada pela
posição na “Conclusão” deixa de ser aquela, cla-
troca;
ramente evolucionista, implícita no “Capítulo III”,
de que há um contínuo (lógico e histórico) da c) que o fato de o doador “ir”, ele mesmo, com
dádiva ao mercado. Mas, como vimos, mesmo no as dádivas que faz – mesmo que ele não as
decorrer do “Capítulo III”, em suas observações tenha produzido, mas tenha sobre elas algum
sobre a Índia antiga, Mauss indicava haver con- direito (é irmão da esposa do produtor, no
vivência entre dádiva e mercado. caso do urigubu trobriandês, ou é o sobri-
nho uterino do produtor, no caso fijiano etc.)
Parece-me que, mais importante do que avaliar
– é algo profundamente diferente do argu-
a incipiente presença do mercado nas “outras”
mento psicologizante segundo o qual o tra-
civilizações, devemos considerar em profundidade
balhador “quer seguir” as mercadorias que
a presença da dádiva na “nossa”. Isto é, por mais
produz.
que, como Marx e outros nos ensinaram, a socie-
dade ocidental moderna se caracterize por um A sugestão da “Conclusão” do Ensaio é a de
desenvolvimento, sem precedentes na história que o trabalho é sempre uma dádiva, em qualquer
humana, das relações mercantis, por outro lado sociedade, capitalista (onde ele é também uma
Mauss (1974, p. 163) nos lembra que “não temos mercadoria) ou não. Essa tese segue a tradição da
apenas uma moral de comerciantes”. Não é apenas escola de Durkheim de se opor às análises de Marx
o hábito de presentear, oferecer hospitalidade ou da sociedade capitalista, pois, se verdadeira,
dar festas que permanece entre nós, mas toda uma implicaria a possibilidade de o operário ser ele
moral, derivada da intersubjetividade que estas mesmo o agente – simultaneamente voluntário e
relações implicam. Se, em determinados con- involuntário (dada a brilhante e indiscutível ca-
textos, há conflito entre as lógicas da dádiva e da racterização da dádiva pelo próprio Mauss) – da
mercadoria, em outros pode haver complemen- entrega de uma parte de si mesmo ao industrial. A
taridade. Há instâncias onde cada uma dessas posição marxista, quanto a isso, seria a de que
idéias opostas se verificam, a mercadoria ora pres- semelhante entrega não deixa de ocorrer, mas não
supondo ora destruindo a dádiva (Lanna, 1995). se trataria de dádiva e sim de algum tipo de apro-
priação, que talvez merecesse ser tida como

189
NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

extorsão. que essa perspectiva é incompleta por não atentar


para a capacidade burguesa de realização e de
Haveria, assim, conflito entre a posição mar-
controle da dádiva, não atentar aos fatos, notados
xista e a suposição, ao meu ver ingênua, de Mauss,
por T. Veblen (1953), que nos remetem ao “con-
de que a lógica da dádiva permite uma superação
sumo conspícuo burguês”. Este consumo ex-clu-
da alienação, no sentido de que, se pudesse o
dente a meu ver se generaliza na sociedade pós
“produtor” elaborar mais o sentimento de que algo
moderna, pois ele já não é mais prerrogativa dos
dele vai “com o bem dado”, isso implicaria um
proprietários dos meios de produção e caracteriza
maior “controle ou posse” sobre os bens, sobre si
muito mais uma alta classe média “executiva”. Isso
e sobre todo o processo social. Resta, entretanto,
do ponto de vista sociológico. Do ponto de vista
a intuição, a meu ver correta e que mereceria
dos valores, essa alta classe média de assalariados
maiores estudos, de que há realmente um aspecto
que dirigem as “sociedades anônimas” também
de dádiva na lógica da mercadoria, do trabalho e
“faz” a burguesia. Desenvolver essa tese seria per-
de suas representações nas sociedades capitalistas.
seguir um caminho já sugerido pelo próprio Marx
Mauss argumenta que artistas e operários se- quando demonstra, em A ideologia alemã, que a
riam menos contaminados pela lógica burguesa burguesia tem a capacidade de generalizar seus
da compra e venda. Por isso mesmo, Mauss deixa valores, ainda que, evidentemente, não ao modo
de aprofundar algumas de suas próprias reflexões (hierárquico) dos brâmanes ou dos reis germâ-
sobre o fato de a burguesia (ele não usa o termo, nicos, analisados no Ensaio sobre a dádiva.
mas a referência é clara) também praticar a dádiva
Ainda como para Marx, haveria, para Mauss,
(festas, hospitalidade, favores intra-patronais,
uma tendência “para a desumanidade” no desen-
etc.), o que poderia contradizer aquela tese. Seu
volvimento de “nossa sociedade”. Mas a análise
argumento é no sentido de que a burguesia deveria
de Mauss não privilegia a esfera da economia,
se deixar contaminar mais profundamente por esta
como Marx fez, mas sim o que ele denomina
lógica universal que é a da dádiva. Já os operários,
“códigos morais” e “o direito”. Como para o tam-
para Mauss, deveriam tomar maior consciência
bém socialista K. Polanyi, para Mauss (1974, p.
das próprias dádivas que fazem, de como suas
165) um retorno a costumes antigos seria uma
vidas já são permeadas pela dádiva. Isto é, a
“reação sadia e boa”, no sentido da superação de
esperança de Mauss era a de que a burguesia fosse
tendências do capitalismo. Mauss mostra que essas
cada vez menos individualista e os operários e
tendências poderiam ser consideradas nocivas
artistas, cada vez mais. Estes não teriam
segundo uma moral e um direito universais. Para
consciência de sua posição para reivindicar,
Polanyi (1980), esta reação se concretizaria na
defender seus interesses. Assim se resolve a
importância crescente da lógica redistributiva. É
tensão, que mencionei acima, segundo a qual
claro que tanto Polanyi como Mauss não propõem
Mauss ora reconhece a presença da dádiva no
uma volta a instituições do passado, mas sim a
capitalismo, ora nota sua ausência: seriam os
um “fundamento constante do direito, ao princípio
operários os representantes da lógica da dádiva
mesmo da vida social moral” (MAUSS, 1974, p.
neste contexto.
168). Esses seriam re-elaborados nas condições
Ora, foi exatamente nesse sentido que Mauss modernas, possibilitando que se acrescentasse
foi assimilado pela Antropologia urbana brasileira, “outros direitos ao direito brutal da compra e
ou ao menos pela paulista15. Meu argumento é de venda” para “limitar os frutos da especulação e
da usura” (idem, p. 167).
A concepção de socialismo de Mauss impli-
caria então:
15 Estudos como os de Sarti (1996), por exemplo, come-
tem o erro de associar a dádiva a uma “moral dos pobres”,
associando-se assim a uma tradição que trata os “pobres”
como “outros” (CALDEIRA, 1984), dissociando trocas “moral”. Mostrei como a dádiva é fundamento de socia-
e ideologias de cada classe social e não analisando as trocas bilidade tanto no engenho pernambucano como em um
entre as classes. Ora, se a dádiva cria uma moral, isso pequeno município potiguar, mas também como essa
também ocorre em nossa elite. Haveria ainda que se sociabilidade extende-se aos Poderes Legislativo e Exe-
demonstrar até que ponto há uma “moral dos pobres” e cutivo, ainda que essas morais não se baseiem apenas na
uma “moral das elites” ou se não se trata de uma mesma lógica da dádiva (LANNA, 1995).

190
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 14: 173-194 JUN. 2000

1) a defesa dos mecanismos de legislação em particular” (idem, p. 166). Aliás, este ar-
social e de redistribuição estatal, da impor- gumento talvez fosse mais liberal do que
tância da arrecadação de tributos (que, como socialista, mas se liga à percepção de que
tento argumentar alhures – Lanna 1995 –, os trabalhadores merecem mais do que o
não deixam de ser prestações totais, asse- salário.
melhados assim às dádivas);
Mauss enfatiza ainda que o estudo da dádiva
2) um pedido ingênuo para “os ricos” terem importa também para a “gestão” da sociedade mo-
“boa-fé, sensibilidade e generosidade nos derna. Essa gestão administrativa seria importante
contratos de aluguel”, ou “caridade, solida- demais para se informar apenas pelo utilitarismo.
riedade”, reconhecerem “o interesse que Como Polanyi, Mauss indica a importância do
existe no dar” e o fato de que, se recebem estudo comparado das várias formas de economia
dos trabalhadores bens e almas, que “voltem e lamenta que os economistas pouco se dedicaram
a considerar-se como espécies de tesoureiros a essa questão, equivocando-se, aliás, quando
de seus concidadãos”; apela-se inocen- tentaram (idem, p. 171). A meu ver, esse estudo
temente para que “os ricos” voltem às prá- se iniciaria com o reconhecimento da univer-
ticas de “despesa nobre” (MAUSS, 1974, salidade da noção de “valor” (com Dumont) e dos
p. 167). Note-se que há aqui uma visão “signos de riqueza” (Saussure) e da especificidade
aristocrática da burguesia enquanto classe da noção de valor mercantil (Marx).
dominante: ela é, de certo modo, associada
Mauss (1974, p. 171) lembra que seu Ensaio
aos chefes primitivos, enquanto benefi-
segue a sugestão de Durkheim de uma origem
ciários por excelência da dádiva. Mas, como
religiosa da noção de valor econômico, já que nas
para Marx, para Mauss “as massas” teriam
sociedades não-capitalistas “as diversas atividades
“melhor que os dirigentes o sentido do
econômicas são impregnadas de ritos e mitos e
interesse comum”, enquanto os ricos teriam
guardam um caráter cerimonial obrigatório”.
apenas o sentido do seu próprio interesse;
Haveria, nessas atividades, um híbrido entre liber-
3) o argumento de que “os grupos devem agir”, dade e obrigação, interesse e liberalidade. Mauss
isto é, os sindicatos devem, enquanto asso- nos ensina a não associar o econômico à circulação
ciação voluntária, defender “seus interesses” do útil. Há “instituições econômicas”, como “a
(MAUSS, 1974, p. 168), devem participar divisão do trabalho”, mesmo em “sociedades infi-
do progresso, da lógica individualista. Da nitamente menos evoluídas” (idem, p. 173). Mas,
mesma forma, os artistas devem assumir seu como nos ensina Dumont (1977), nem por isso
direito à posse de suas criações, estas não devemos supor a inexistência de uma esfera da
sendo apenas dádivas, mas algo que pode economia com um desenvolvimento caracteristi-
ser vendido. Há uma defesa da arte; ela não camente moderno: o mercado.
perderia seu valor mágico se se tornasse,
Critiquei aqui Mauss por adequar, de modo
cada vez mais, também mercadoria16.
precipitado, “valores” não-capitalistas à “moeda”
4) uma defesa da previdência privada e de que capitalista. Vimos ainda que, em outros momentos,
“o custo da segurança trabalhista fizesse Mauss (1974, p. 174) assimila rápido demais “o
parte das despesas gerais de cada indústria chefe trobriandês ou tsimshian” ao “capitalista”.
Vimos que, se valores, como os cobres do potlatch,
são “signos de riqueza e meios de troca” (ibidem),
eles, ao contrário do dinheiro capitalista, circulam
16 Esse entendimento da arte como dádiva foi desen-
em esferas. Ao contrário do dinheiro, seu valor
volvido por Hyde (1979), que analisa, por exemplo, o
não se generaliza da mesma maneira. Um vaygu´a
“mito” da musa criadora. Permito-me aqui, muito mo-
destamente, divergir de Mauss: o momento (pós-mo- (colares ou braceletes kula) é um valor supremo
derno?) quando a arte ocidental deixa se conceber como não enquanto valor econômico, pois não pode ser
dádiva e se assume como mercadoria é aquele no qual ela trocado por quaisquer outras mercadorias; o que
se revoluciona de tal modo que praticamente deixa de se generaliza é seu significado hierárquico, reli-
existir (penso, por exemplo, no anúncio da morte da tra- gioso inclusive, dada sua imersão específica no
dição musical ocidental, após Stravinsky, com o surgi-
conjunto da gramática da sociedade trobriandesa.
mento do dodecafonismo e da música concreta, feito por
Lévi-Strauss na “Ouverture” das Mythologiques). Quanto à questão dos valores em relação, aliás,

191
NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

Saussure é evidentemente mais sofisticado que seu tipo de troca. Quanto a isso, Lévi-Strauss (1952,
contemporâneo Mauss. 1998, entre outros) é também mais explícito,
argumentando inclusive a favor de um “esfria-
Outro tema fundamental do Ensaio é a indi-
mento” da história do Ocidente. Esta “máquina a
cação de que as noções de interesse e de utilidade
vapor” deveria aprender com as “sociedades frias”
assumem significados específicos em cada caso
a ser menos obstinada, a desejar menos as ino-
concreto17 e de que na nossa sociedade o interesse
vações – que ele mesmo, como Karl Marx já o
assume uma forma “pura”; surge daí a transfor-
fizera, mostrou ser o oxigênio da “civilização
mação do homem em um “animal econômico”
mecânica”.
(idem, p. 176). A noção de interesse seria “uma
categoria da ação” (ibidem); por isso mesmo, “não Mauss, por sua vez, na “Conclusão” do Ensaio,
será no cálculo das necessidades individuais que argumenta a favor de uma intensificação das trocas
se encontrará o método da melhor economia” de dádivas, que para ele conduziria, ao contrário
(idem, p. 177). A análise econômica não pode se do que para Lévi-Strauss, a uma minimização da
limitar apenas à “nossa sociedade”, sob o risco de estratificação entre nações e indivíduos, esta sendo
generalizar noções particulares, como as de “ne- o resultado da intensificação (apenas) das trocas
cessidade” e “interesse individual”. Neste caso, mercantis. Se o Ensaio mostra como a dádiva “es-
ela incentivará “a perseguição brutal dos fins do tabelece a hierarquia”, Mauss (1974, p. 174) não
indivíduo [que, ao contrário do que postulam os deixa de reconhecer haver outros modos de produ-
teóricos liberais] é nociva aos fins e à paz do ção da diferença social: a dádiva “não seria absolu-
conjunto” (ibidem). tamente necessária para tanto”.
Mauss conclui o Ensaio fazendo um elogio do Está implícita no Ensaio a suposição de que a
estudo do concreto. A teoria comparada, econô- diferença estabelecida na troca de dádivas nos
mica ou não, deve antes de mais nada iniciar-se salvaria da constante criação de diferenças
pela etnografia. Nada seria mais urgente e frutífero estabelecida pela troca mercantil. Nesse sentido,
do que encontrar fatos novos para enriquecer o o paralelo entre Mauss e Marx é evidente: para
estudo comparativo. A etnografia desvendaria a este, o capitalismo se autodestruiria, e seria su-
cor local de algo universal, a moral da dádiva. Os cedido por uma sociedade mais igualitária. Para
sociólogos deveriam, como os historiadores e psi- Mauss, trata-se menos de substituir as formas
cólogos, deixar de fazer “abstrações em demasia” capitalistas de produção de desigualdades e muito
(idem, p. 181). mais de se estimular a produção de desigualdades
a partir da dádiva, de tal forma que estas se sobre-
Finalmente, Mauss argumenta que a dádiva
pusessem gradualmente àquelas.
implicaria mais felicidade e menos seriedade
(idem, p. 182). O caminho a seguir seria ainda o Se Mauss é, de certo modo, mais pessimista
de trocar mais e guerrear menos. Se, em certos que Marx, Lévi-Strauss o é ainda mais que ambos:
momentos, a sociedade ocidental se afastou da para o último, quanto mais troca, seja ela de qual
dádiva, Mauss não pensa este afastamento como tipo for, mais exploração. Finalmente, penso ser
definitivo. Como posteriormente fez Lévi-Strauss importantíssimo lembrar que, em sua “Conclusão”
(1952), Mauss (1974, p. 183) não deixa de associar otimista, Mauss nega uma das demonstrações de
a intensificação das trocas à noção de progresso. seu próprio Ensaio, a de que a solidariedade gerada
O progresso, assim como o crescente aumento das pela dádiva não pode ser sem sacrifício. Isto é,
diferenças sociais, se explicaria pela intensificação essa troca de dádivas não exclui o interesse, não
das trocas. Mas se Mauss pensa em um efeito exclui (mas a meu ver pressupõe) a produção de
deletério das trocas mercantis, Lévi-Strauss pensa desigualdades e mais ainda, de sofrimento
em efeito deletério da intensificação de qualquer humano. Mas, ao fim e ao cabo, o tom otimista da
“Conclusão” parece se justificar minimamente
pelo fato de Mauss nos ensinar algo, a meu ver,
17 Esta é uma conclusão que só muito recentemente foi
absolutamente funda-mental: a felicidade humana
assimilada pela Antropologia anglo-saxã (cf. PARRY &
não está em outra parte que não no dar e receber,
BLOCH, 1989). “no respeito mútuo e na generosidade recíproca”.
Recebido para publicação em 11 de março de 1999.

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 14: 173-194 JUN. 2000

Marcos Lanna (mlanna@coruja.humanas.ufpr.br) é Professor Adjunto do Departamento de Antropologia


da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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