RELAÇÃO ENTRE A RAZÃO PRÁTICA E VONTADE NA FUNDAMENTAÇÃO NA METAFÍSICA DOS COSTUMES

Na Crítica da Razão Pura, Kant explicita dois interesses fundamentais da razão pura, um especulativo e um prático. O interess e especulativo pode ser expresso pela pergunta: O que posso saber? e o prático, pela pergunta: O que devo fazer? Segundo Kant, essas duas razões não são duas razões distintas, mas a mesma razão que se difere em sua aplicação. A razão designa, de modo geral, a faculdade de ultrapassar o âmbito dos sentidos. A superação dos sentidos pelo conhecimento é o uso teórico da razão e sua sup eração pela ação é o uso prático da razão. Para Kant, a razão prática significa a capacidade de escolher a própria ação independente mente das motivações, os impulsos, as necessidades e paixões sensíveis, das sensações de agrado e desagrado. Portanto, a razão prática pura é a razão que opera com suas próprias forças. Kant afirma que ³todos os conceitos morais têm a sua sede e origem completamente a priori na razão´ [1] e que, em conseqüência, a moralidade, no sentido estrito da expressão, só pode entender -se como razão prática pura. A razão dará a Kant os princípios fundamentais, a priori, da ética, que a faz válida universalmente e a liberta das contingentes étic as empíricas. A exigência da universalidade de um princípio moral só pode partir da razão e, ao mes mo tempo, nela tem seu suporte. Com isso, Kant rebate as limitações da razão empírica condicionada no agir e nega ao empirismo ético segundo o qual só se pode agir merament e com base em motivações empíricas, como se os princípios da moral dependessem da ex periência. Na segunda seção da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Kant segue o método analítico, partindo do conceito filosófico da ³faculdade da razão prática´ para mostrar que ele pressupõe o conceito de dever. A razão prática é o coração da doutr ina moral de Kant. Razão prática é vontade e somente seres racionais têm vontade. Tudo na natureza age segundo leis. Só um ser racional tem a capacidade de agir segundo a representação das leis, isto é, segundo princípios, ou: só ele tem vontade. Como para derivar as ações das leis é necessária à razão, a vontade não é outra coisa senão razão prática[2]. Para Kant, falar de razão prática significa poder agir racionalmente. Mas, uma ação pode ocorrer ou s egundo leis, como as ações ligadas à natureza, ou segundo representação das leis, como as ações de um ser racional. Contudo, somente o ser racional tem a faculdade de agir segundo a representação das leis, pois só um ser que tem razão pode derivar ações de leis, e só um se r que tem vontade pode agir segundo a representação de leis. Em outras palavras, só um ser de razão e de uma vontade pode agir segundo representação das leis. Portanto, só um ser racional tem uma vontade ou, o que é o mesmo, ter uma ³faculdade da razão prática ´ é ter uma vontade. Essa é a relação básica entre razão prática e vontade. Se a razão determina infalivelmente a vontade, as ações de um tal ser, que são conhecidas como objetivamente necessárias, são também subjetivamente necessárias, isto é, a vontade é a faculdade de escolher só aquilo que a razão, independentemente da inclinação, reconhece como praticamente necessário, quer dizer, como bom[3]. Para Kant, t er razão prática e ter vontade pura seria a mesma coisa no ser puramente racional. Neste ser, todas as ações seriam objetivament e necessárias e, também, subjetivamente necessárias. A vontade escolheria unicamente o que a razão reconhece como necessária, independente do sensível. Assim, o agente se deixaria determinar a querer só e unicamente o que a razão prática apresenta. As sim, um ser puramente racional agiria somente segundo a representação das leis; ele teria uma vontade pura. Vontade pura, isto é, não contem nenhum elemento empírico, não está sujeita ao influxo da sensibilidade, não deve ser considerada como realidade em si, em contraposição à vontade empírica, mas é lei racional da vontade empírica; é a atividade a priorida intelecção, que não se aplica a elementos empíricos; é uma vontade capaz de estabelecer a priori princípios exclusivamente racionais e de se determinar só por eles. Portanto, ter razão prática e ter vontade pura é igual, ou seja, a vontade pura é plenamente conforme a razão prática. Conforme Kant, enquanto tudo na natu reza age segundo leis, só o ser racional possui vontade. Somente os seres racionais possuem a faculdade de agir segundo a representação de leis, segundo princípios. [1] KANT, Immanuel. ³Fundamentação da Metafísica dos Costumes´. Trad. de Paulo Quintela. In: Coleção ³Os Pensadores´. Immanuel Kant. São Paulo: Abril Cultural, 1974. p. 216. [411] [2] I bid. FMC p. 217. [413] [3] FMC p. 217. [413] [4] FMC p. 217. [413] [5] FMC p. 218. [413] [6] FMC p. 218. [4

FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA..

Immanuel Kant nasceu em Konigsberg em 1724. Sua família tinha emigrado da Escócia no século XVII. Foi educado numa r eligião cristã chamados pietistas - uma seita de puritanos alemães que se chamavam de "soldados da paz". Mas suas aptidões para a filosofia e seu interesse pelas diversas matérias das ciências - se interessou pela matemática, física, lógica, astronomia, etc. - fê-lo direcionar-se para a esepeculação metafísica, propriamente filosófica, onde acabou por exterminar as concepções dogmáticas da religião - apesar de na "Crítica da razão prática" afirmar que as necessidades da vida devem ser consideradas frente à especulação da razão pura, que desqualifica o conhecimento sensitivo, fazendo então algumas relevações aos desejos deístas dos religiosos, mas não sem ligar este deísmo ao imperativo categórico. Sua disposição em desmistificar o conhecimento, mesmo o empírico, leva à análise do que se pode conhecer, realmente. Os objetos

já que ela não seria n ada. apenas pelo fato de ser ela o imperativo superior. consumista. Kant estabelece que a ética deve partir de uma condição neutra. Ora. a ética dev e ser estabelecida por sua condição mais pura. como na sociedade moderna industrial. Nisso a razão não é importante. motivada pelo respe ito ao princípio legal. O homem é dotado de razão e boa vontade. devo verificar se aquilo pode se tornar lei universal. Este Impe rativo é a representação da vontade particular. O fato de designar seus atos como leis universais. Aquilo que os homens fazem par a chegar a um fim desejado por eles mesmos. não pelos sentodos estabelecidos sobre este objeto. a prudência. Se ela considerar que seu ato pode ser lei universal. Na metafísica dos costumes este objeto é a ética. existem as exigências de uma vontade santa. por isso ele é o bem maior. um ato considerado moral. a ética deve estar resguardado por uma lei que seja superior a vontade das partes envolvidas. Por isso. então não haverá mais credibilidade em palavra alguma. ele é um fim em si mesmo. já que é lei universal mentir quando do interesse próprio. Não se trata de mera utopia sobre o saber ético. entre várias outras virtudes e dons. e daí se deduz o uso prático do instinto natural de conservação. Para Kant. porquanto não determinante da busca pela felicida de. privada. como meio para a consecução da satisfação. por que ele se distorce do outro. Se não puder ser lei universal. O ato ético em Kant não é meio para alguma outra coisa. questionando a sua própria razão de ser enquanto produto da vontade e dos interesses do ho mem. Ela deve se dirigir a si mesma e se perguntar se o ato qu e ela vai praticar pode ser considerado ao mesmo tempo uma lei universal. é a razão quem determina o que será a priori dade da virtude. O primeiro é o imperativo hipotético. direcionada para o alcance de uma utilidade . objeto principal da ética. não por aquilo que pensamos serem estes objetos. que seja de seu agrado. Automaticamente compreeenderei que se este ato se tornar lei universal. o dever é a necessidade de uma ação por respeito à lei. ou pde se distorcer. devo pensar se este ato pode se tornar lei universal. sendo a filantropia e a prática das virtudes um dever imposto pelo foro íntimo. tanto para o malfeit or. o fim da ética é a própria ética (imperativo categórico) e nela está conjugado o ser humano. pois esta só existiria na forma de interesses. é o imperativo da moralidade. Esta lei deve estar acima de suas vontades particulares e eles devem respeitar esta lei e cumpri-la. Este imperativo é deteminado pela própria pessoa ao pratica um ato. antes de realizar quaquer coisa. Num sentido último. então não deverá fazer. não deverei realizar este mesmo ato. Esta é a fórmula do "Imperativo Categórico". Os imperativos só são possíveis pela experimentação. para meu interesse. sem atividade. Assim. O cerne da finalidade. mesmo sabendo nós que universalmente ele é imoral. Esta é a contribuição de Kant Em se tratando da transição da razão vulgar para o conhecimento científico. A ética de Kant é a luta do homem contra ele mesmo. quanto para o benfeitor. É uma posição de espírito. De interesse restrito ao agente que o causa ou atua. é claro que o valor ético deve partir de uma perspectiva valorativa. Pori sso o ser humano não poderia ser senão preocupação prim eira da ética fundamental. ou "a priori". Uma ação praticada p or dever tem valor. Trata -se de educação do espírito. que é conduzida por um instinto natural inato. por isso a sua ética só pode ser aquela que vise o bem universal: "age com respeito a todo ser racional. Assim. ou seja. como leis universais da natureza". e não necessariamente por um senso elevado de bondade. antes de realizá-los. Isto é revestido de um conteúdo moral. uma ética privada. Desta ética se pode estabelecer dois fundamentos do comportamento. O sentimento moral é conf undido com o temor de Deus. Este estudo se encontra na "Crítica da Razão Pura".devem ser conhecidos por aquilo que são em si mesmo. tentando criar disposições morais que cooper em para o bem supremo do mundo. ou seja "a priori". que é a felicidade. como por exempl o: ao dizer algo que sei ser uma mentira. sob pena de existir uma ética nula. retração e respeito supremo pela humanidade. Ele é um fim em si mesmo. mas fica deficiente. há de se observar que este a to ético tem como fundamento o ser humano como bem supremo. O valor moral da ação já reside na própria pessoa. contra seus desejos privados que vão de encontro ao bem da humanidade. fica ele liberado da dificuldade de ser melhor. pois não pode ser lei universal. implica num auto conheciento.As ações do homem são conforme o dever. de modo que ele em tua máxima valha ao mesmo tempo como fim em si". quanto ao seu valor e propósito. A boa vontade. que só p ode ser atribuída por um valor humano. e não uma mera discução sem sentido sobre o certo e errado. é vista como moderadora de conduta. expressa na seguinte frase: "Age de modo seus atos possam ser tomadas como objetos de si mesmas. onde a alma almeja satisfazer -se a partir de boas ações. Para o autor. A ética pode ser mero capricho pessoal. e o conjunto de experiências produzindo um todo . onde no fim se estabelece que tudo se trata de utopia e se libera o ser humano da luta contra si mesm o. um ideal a ser trabalhado. da idealização de um bem supremo e hipotético. Este imperativo hipotético é visto por Kant como um ato nã universal. Ou seja. então será ético que o faça. mas vai servir de base para o desenvolvimento da "metafísica dos costumes". almejando a felicidade e o bem -estar. o autor começa por analisar as virtudes ontologic amente. Dá a impressão de negatividade sobre este imperativo. apenas por ser regra social. ou frustrada por uma inutilidade. em maior ou menor grau. Do que se pode conhecer a priori. A ética é a busca de si mesmo e do humano e universal. pois não encontra sua gênese no domínio da vontade. Agora. mas apenas "a priori".

que esse descrédito não atinge o objecto da metafísi ca. mas expressar-se também no mundo sensível. não deste ou daquele filósofo. bem como ainda aquela talentosa por natureza. . mas não a metafísica. A razão desencadeia a necessidade de sentimentos de prazer. Tal análise é feita numa obra cham ada Crítica da Razão Pura (Kritic der Reiner Vernunft). Se liberdade e autonomia estão juntas. atitude esta não elogiada por Kant.o seu objectivo é o de reformar essa disciplina. é a propriedade da vontade de todos os seres racionais. Kant foi muitas vezes interpretado como defendendo radicalmente a impossibilidade da metafísica . dependendo do grau de influência da vontade ou das leis morais. sem ficar somente a ele preso. determinar capacidades e limites. movendo o homem racional a buscar sati sfação e felicidade. O ser humano deve agir como se a sua máxima pessoal devesse servir a si e ao mesmo tempo de lei universal. até pro movendo a simbiose do conhecimento sensível com o inteligível. o que comumente s e chama de ³dever´. O uso especulativo da razão não pode prescindir de uma razão pura e prática. e portanto digna de crédito. assim como o reino da natureza é o reino dos fins. tentando estabelecer uma ordem natural através do privilégio da finalidade. sem a obtenção de unanimidade em nenhuma tese.mas nada de mais errado.é que podemos constituir uma metafísica adequada às capacidades humanas. ainda que isto leve a divergências seríssimas. O descrédito. ou seja. imortalidade da alma.disciplina cujo objecto de estudo são realidade que transcendem o campo da nossa experiência: Deus. ainda que essa pareça uma tarefa impossível. A história da metafísica é a tentativa de responder cientificamente a estas questões essenciais da razão humana. deriva.a metafísica não é uma ciência. da metafísica não ter encontrado ainda o caminho do conhecimento seguro e digno d e crédito. como conhecemos e o que podem os conhecer cientificamente? Kant vai assim criticar. liberdade. mais alto. Kant vai perguntar em que condições é poss ível o conhecimento científico. A filosofia kantiana tem uma intenção vincadamente metafísic a . Mas será que tal facto se deve à incapacidade dos pensadores que abordaram os problemas metafísicos. tudo poder conhecer. mais nobre. e a busca deles vai percorrer um caminho de pureza e praticidade. A revolução Coperniciana. com o método correcto. portanto. movido pela moralidade. A liberdade vai ter um conceito positivo ou negativo. Os deveres podem ser perfeitos e imperfeitos. A autonomia da vontade como princípio supremo da moralidade transcende do conhecimento dos objetos para a crítica dos mesmos. colocando-se como a vontade legisladora universal. logo não nos era possível ter qualquer conhecimento de entidades que não possuissem qualquer relação com a experiência. segundo Kant. Logo. exactamente porque era alvo de lutas internas.Vimos que para os racionalistas a metafísica era possível. para isso. A metafísica no tempo de Kant era alvo de descrédito e de desprezo. anulando-se a possibilidade de um princípio supremo do dever. Kant demonstra o que a metafísica não pode ser (uma ciência) para mostrar o que ela pode ser (uma fé ou cr ença racional). Há que somente mostrar porque razão ela o não pode ser.a negação da metafísica enquanto ciência não implica a negação da metafísica. no entanto. Os seres racionais não procuram fins isol ados em si mesmos. com o dever. Os imperativos categóricos fazem do homem um membros do mundo inteligível. assim como um mundo intelectual. não esquecendo que há um Ser Supremo por quem se deve ser julgado. Neste nível pode-se fazer distinção entre um mundo sensível e um mundo inteligível. disputas intermináveis. Vimos qu e para os empiristas a metafísica não era possível porquanto todo o nosso conhecimento deriva da experiência. isto é. assim como o conceito d e uma moralidade universal não pode ficar no campo dos interesses e dos ditames do mundo inteligível apenas. Kant parte deste pressuposto . A crítica de Kant acerca da metafísica corresponde a um projecto de reabilitação dessa mesma metafísica . dar-lhe credibilidade. Tanto a possibilidade de um imperativo categórico quanto o imperativo da lei da moralidade. Segundo ele esse objecto é "um destino singular da razão humana" .corresponde a uma vocação natural que não pode ser recusada. ou será que a metafísica não pode ser mesmo uma ciência? Kant vai responder segundo esta última perspectiva . qual a sua utilidade? A vontade desponta como uma grande imposição universal. e a autonomia da vontade como liberdade. E se os conceitos morais pessoais podem se elevar para um âmbito geral. A razão prática desce para o mundo sensível pelos fenômenos. Esta não se funda em nenhum interesse. parte-se para a busca de um imperativo categórico. A razão pura pode ser prática e explicar a liberdade. nesse nível. mas revestidos de interesses. como aquela que se vê forçada a pedir dinheiro. Kant entende. a heteronomia da vontade como fonte de todos os princípios ilegítimos da moralidade press upõe a satisfação pessoal através do fomento da felicidade alheia. sua obrigação. onde o mundo i nteligível contém os fundamentos do mundo sensível. dado a razão. associando o princípio da autonomia ao princípio da moral. o que dá no mesmo. e se introduz no mundo inteligível pelo pensamento. E a liberdade. pois as máximas da liberdade encontram seu bojo prático num vivo interesse pela lei moral. ao passo que a expressão dos sentimentos em sensações fazem dele um agente no mundo sensível. a vontade e as leis naturais não são neutros ou estáticos. só negando à metafísica um estatuto que não poderá ter . Tanto a pessoa que se acha entediada e decide dar cabo da vida. Mas o que é a metafísica? Já aqui o dissemos . trazendo a universalidade da máxima da vontade como lei. A idéia da moralidade. mas não é capaz de lhes dar uma resposta c ientifica. poderia ser reputado como um conceito vazio.a razão humana não pode evitar as questões metafísicas (são o seu destino). bem pelo contrário.absoluto. A autonomia da vontade tem como chave o conceito da liberdade. analisar. O Problema da Metafísica . Por outro lado. E. O imperativo moral quer e pode atingir os limites da razão humana Kant e o problema da metafísica.o estatuto de ciência . mas sim da própria Razão. Kant irá suprimir um determinado tipo de metafísica. agem baseadas naquilo que julgam ser seu dever. nem podem se perder em divagações quiméricas.

Mas. pessoalmente incapazes de qual. mas não se lhe pode impedir de um modo justo. Não me é forçoso pensar. Na medida. pois ele foi admitido com esta condição.samentos cuidadosamente examinados e bem-intencionados sobre o que de erróneo há naquele símbolo.quer ilustração. Mas. acredita! (Apenas um único senhor no mundo diz: raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes. mas faz exercícios! Diz o funcionário de Finanças: não raciocines. Semear preconceitos é muito danoso. Mas qual é a restrição que se opõe ao Iluminismo? Qual a restrição que o não impede. outros empreenderão p or mim essa tarefa aborrecida. se a sua causa não residir na carência de entendimento. pois. um director espiritual que em vez de mim tem consciência moral. porque não está habituado ao movimento livre. e uma censura impertinente de tais obrigações. muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu espírito arrancar-se à menoridade e encetar então um andamento seguro. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso. mas o uso privado da razão pode. Na base desta substituição está a exigência da razão de não se subordinar à ordem sensível (aos senti dos).[482] continuarem.são os fenómenos que se devem regular pela razão e não esta pelos fenómenos. o que ele ensina em virtude da sua função. Importante aqui é que o público. justamente como os antigos. mas ao contrário. claro está. substitui uma concepção passiva do conhecimento. se entrave as . se para tal lhe for concedida a liberdade. em muitos assuntos que têm a ver com o interesse da comunidade. como ministro da Igreja. porém. se encontra sujeito. Novos preconceitos. a de fazer um uso público da sua razão em todos os elementos. espalharão à sua volta o espírito de uma estimativa racional do próprio valor e da vocação de cada homem para pensar por si mesmo. Preceitos e fórmulas. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. em parte. servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento. ele expuser as suas ideias contra a inconveniência ou também a injustiça de tais prescrições. de todos os lados ouço gritar:não raciocines! Diz o o¿cial: não raciocines. serem orientados pelo governo para ¿ns públicos ou de. a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade. muito pernicioso se um o¿cial. porém. Nada aqui existe que possa constituir um peso na consciência. coarctar-se fortemente sem que. se tentarem andar sozinhas. tem plena liberdade e até a missão de participar ao público todos os seus pen. na qualidade de um erudito que se dirige por escrito a um público em entendimento genuíno. então não preciso de eu próprio me esforçar. quando posso simplesmente pagar. tem de obedecer. nada mai s se exige do que a liberdade. Segundo Copérnico. de fato. a cujo ser. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. porque acabam por se vingar dos que pessoalmente. Mais ainda. Ora. gera pavor perante todas as tentativas ulteriores. dela faz perante o grande público do mundo letrado. Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. os obriga doravante a permanecer sob ele quando por alguns dos seus tutores. entre os homens. mas tem de se obedecer. se por ele devem ser cumpridas. (a natureza age pelas vias mais simples). É tão cômodo ser menor. um mé. serem impedidos de destruir tais ¿ns. não sendo determinada pelos objectos. fazer observações sobre os erros do serviço militar e expô-las ao seu público para que as julgue. não é decerto permitido raciocinar. Sempre haverá. no entanto. Mas. mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. apesar disso. como erudito. Por conseguinte. mas está obrigado a expor segundo a prescrição e em nome . difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou [483] quase uma natureza. á experiência. alguns que pensam por si. paga! E o clérigo: não raciocines. deveu-se sobretudo ao facto de ele chocar com o principio de economia. São. como membro passivo. Resposta à pergunta: ³Que é o Iluminismo?´ I. Por uso público da própria razão entendo aquele que qualquer um.Sapere aude! Tem a cora .. ou os seus predecessores. mesmo entre os tutores estabelecidos da grande massa que. enquanto perito. é necessário um certo mecanismo em virtude do qual alguns membros da comunidade se comportarão de um modo puramente passivo com o propósito de. pode certamente raciocinar sem que assim sofram qualquer dano os negócios a que. Do mesmo modo. todavia. e até da sociedade civil mundial.a passagem do mundo geocêntrico para o modelo heliocêntrico. após terem arrojado de si o jugo da menoridade. levar a cabo a ilustração [485]. O cidadão não pode recusar-se a pagar os impostos que lhe são exigidos. Só que um tal exemplo intimida e. em geral. e as propostas para uma melhor regulamentação das matérias que respeitam à religião e à Igreja. pode mesmo punir-se como um escândalo (que poderia causar uma insubordinação geral). Tal menoridade é por culpa própria. após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio(naturaliter mai orennes). de bom grado menores durante toda a vida. antes o fomenta? Respondo: o uso público da própria razão deve sempre ser livre e só ele pode. um público só muito lentamente con. um clérigo está obrigado a ensinar os instruendos de catecismo e a sua comunidade em conformidade com o símbolo da Igreja. mediante uma unanimidade arti¿cial. mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça.segue chegar à ilustração. que retirava os seus princípios mais gerais da observação empírica.A Revolução Copernicana Com esta designação Kant refere a decisão de Copérnico inauguradora de uma nova cosmologia . pois. primeiro. antes por eles sujeito a este jugo. KANT lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo. pois. Kant.viço se encontra. a quem o seu superior ordenou algo. pela ideia de que a nossa faculdade de conhecimento impõe as suas formas e as suas leis à realidade. quisesse em serviço so¿smar em voz alta [486] acerca da inconveniência ou utilidade dessa ordem. pelo menos. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento.dico que por mim decide da dieta. A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte. do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua. o seu abandono do sistema geocêntrico. instrumentos mecânicos do uso racional. porque nunca se lhe permitiu fazer semelhante tentativa. ou antes. e. sem a guia de outrem.sim notavelmente o progresso da ilustração. como erudito. Por meio de uma revolução talvez se possa levar a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora. em que esta parte da máquina se considera também como elemento de uma comunidade total. Nesta muda nça de método está o fundamento de toda a ciência . É. portanto. pois acabariam por aprender muito bem a andar. este perigo não é assim tão grande.gem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo. foram os seus autores. é quase inevitável. para esta ilustração. e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. Seria. é a isso [484] incitado. a saber. etc. Ora. embora isso não implique virar as costas ao plano empírico. embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pací¿cas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram. Chamo uso privado àquele que alguém pode fazer da sua razão num certo cargo público ou função a ele con¿ado. Agora. Com efeito. não age contra o dever de um cidadão se. enquanto erudito. muitas vezes. principio racional por excelência. Neste caso. O que motiva a revolução é a vontade de autonomia da razão face à experi~encia. Depois de terem. Se eu tiver um livro que tem e ntendimento por mim. expõe-no como algo em relação [487] ao qual não tem o livre poder de ensinar segundo a sua opinião própria. mas obedecei!) Por toda a parte se depara com a restrição da liberdade. tal como Copérnico substitui o geocentrismo pela ideia de que a terra girava em torno do Sol. subordinar a experiência a principios e formas impostas pela própria razão.

Sob o seu auspício. Em contrapartida. Temos apenas claros indícios de que se lhes abre agora o campo em que podem atuar livremente. porque em relação às artes e às ciências os nossos governantes não têm interesse algum em exercer a tu. por escritos. em geral. mesmo que fosse con¿rmado pela autoridade suprema por parlamentos e pelos mais solenes tratados de paz.rém. que decidiria excluir para sempre toda a ulterior ilustração do gênero humano. em especial ao clérigo. mas renunciar a ela. como erudito que. quer quando ele faz isso a partir do seu discernimento superior. facultar-se-ia a cada cidadão. por sua vez. mesmo onde entra em conÀito com obstáculos externos de um governo que a si mesmo se compreende mal. goza de uma liberdade ilimitada de se servir da própria razão e de falar em seu nome próprio. por maior que seja. ele como sacerdote não é livre e também o não pode ser. então não poderia em cons. são estes os argumentos comprovativos de que ela se serve. e diminuem pouco a pouco os obstáculos à ilustração geral ou à saída dos homens da menoridade de que são culpados. e no tocante a tal uso. por outro lado. a saída do homem da sua menor idade culpada.tinaz. Em seguida. poderiam apresentar a sua proposta diante do trono a ¿m de protegerem as comunidades que.tela sobre os seus súbditos.ciência desempenhar o seu ministério. porque exerce uma incumbência alheia. na expectativa. perante tal governo brilha um exemplo de que. sobretudo nas coisas de religião. por conseguinte. por um determinado e curto prazo. de uma lei melhor. esta época é a época do Iluminismo. que. Dirá: a nossa Igreja ensina isto ou aquilo. a saber. porque ela. por meio deles. cuja determinação original consiste justamente neste avanço. o avanço progressivo na ilustração. de propósito. Os homens libertam-se pouco a pouco da brutalidade. Um homem. sem prejuízo do seu dever ministerial e na qualidade de eruditos. adiar a ilustração. para introduzir uma certa ordem.de outrem. conservá-los nela Apresentei o ponto central do Iluminismo. ao mundo. a ordem introduzida continuaria em vigência até que o discernimento da natureza de tais coisas se tivesse de tal modo difundido e testado publicamente que os cidadãos. e deste modo a eternizar? Digo: isso é de todo impossível. porque não é de todo impossível que neles resida alguma verdade oculta. de facto. pois se julgasse encontrar aí semelhante contradição. pela primeira vez. se teriam coadunado numa organização religiosa modi¿cada. libertou o gênero humano da me nor idade. não deve neles haver coisa alguma que se oponha à religião interior. entretanto. signi¿ca lesar e calcar aos pés o sagrado direito da humanidade. um período de tempo no progresso da humanidade para o melhor e torná-lo infecundo e prejudicial para a posteridade. pelo que se sujeita à censura µCaesar non est supra gramáticos¶ 1 quer também. Mas vivemos numa época do Iluminismo. A pedra de toque [489] de tudo o que se pode decretar como lei sobre um povo reside na pergunta: poderia um povo impor a si próprio essa lei? Seria decerto possível. ou o século de Frederico. [490] e mesmo então só por algum tempo. é também a mais desonrosa de todas. na qualidade de erudito. se servirem bem e com segurança do seu próprio entendimento. que favorece a primeira. que leva à perpetuação dos absurdos.munidade de preceitos que ele próprio não subscreveria com plena convicção. uma assembléia eclesiástica ou uma venerável classes (como a si mesma se denomina entre os Holandeses) estar autorizada sob juramento a comprometer-se entre si com um certo símbolo imutável para assim se instituir uma interminável super-tutela sobre cada um dos seus membros e. além de ser mais prejudicial.Um príncipe que não acha indigno de si dizer que tem por dever nada prescrever aos homens em matéria de religião. po. Se. Com efeito. pois a sua autoridade legislativa assenta precisamente no facto de na sua vontade uni¿car a vontade conjunta do povo. é efetivamente esclarecido e merece ser encomiado pelo mundo grato e pela posteridade como aquele que. por ninguém posta publicamente em dúvida. Constitui até um dano para a sua majestade imiscuir-se em tais assuntos. por assim dizer. fazer publicamente. Assim considerada. Mas é de todo interdito coadunar-se numa constituição religiosa per. mediante escritos. pois. fala a um público genuíno. expor livre e publicamente ao mundo para que este examine os seus juízos e as suas idéias que. quando rebaixa o seu poder supremo a ponto de. sobre o povo. mas deixar-lhes aí a plena liberdade. menores. as suas observa. mas. Falta ainda muito para que os homens tomados em conjunto. Não é isso que lhe importa. pode. é sempre apenas uma assembleia doméstica. se ¿zer a pergunta ± Vivemos nós agora numa época esclarecida? ± a resposta é: não. Quando ele vê que toda a melhoria verdadeira ou presumida coincide com a ordem civil. isto é. que os tutores do povo [488] (em coisas espirituais) tenham de ser. no entanto. a puri¿cação dos erros e. Mas o modo de pens ar de um chefe de Estado. quando de nenhum modo se procura. unindo as suas vozes (embora não todas). pode então permitir que em tudo o mais os seus súbditos façam por si mesmos o que julguem necessário fazer para a salvação da sua alma. para a sua pessoa. quer seja para si. O que não é lícito a um povo decidir em relação a si mesmo menos o pode ainda um monarca decidir sobre o povo. por conseguinte. teria de renunciar. no seu Estado. sem todavia impedir os que quisessem ater-se à antiga. pelo menos por parte do governo. mais permitido é ainda a quem não está limitado por nenhum dever de ofício.ções sobre o que há de errôneo nas instituições anteriores. comprometer. de acordo com o seu conceito do melhor discernimento. Isso seria um crime contra a natureza humana. mas compete-lhe obstar a que alguém impeça à força outrem de trabalhar segundo toda a sua capacidade na determinação e fomento da mesma. por assim dizer. Ao mesmo tempo. sem a orientação de outrem. mesmo só durante o tempo de vida de um homem e deste modo aniquilar. no que lhe incumbe saber. clérigos veneráveis podem. vai ainda mais além e discerne que mesmo no tocante à sua legislação [493] não há perigo . no seio da liberdade. É. E os vindouros têm toda a legitimidade para recusar essas resoluções decretadas de um modo incompetente e criminoso. Este espírito de liberdade difunde-se também no exterior. mas a cuja exposição se pode. ele extrai toda a utilidade prática para a sua co. Uma época não se pode coligar e conjurar para colocar a seguinte num estado em que se tornará impossível a ampliação dos seus conhecimentos (sobretudo os mais urgentes). aqui ou além. Semelhante contrato. o clérigo. é absolutamente nulo e sem validade.ao honrar com a inspeção do seu governo os escritos em que os seus súbditos procuram clari¿car as suas ideias. por exemplo. a tutela religiosa. apoiar o despotismo espiritual de alguns tiranos [491] contra os demais súbditos. o uso que um professor contratado faz da sua razão perante a sua comunidade é apenas umuso privado. um absurdo. quer ainda mais para a descendência. e ainda mais. recusa o arrogante nome de tolerância. se afastam do símbolo admitido. da maneira como as coisas agora estão. em matéria de religião. no uso público da sua razão. Mas não deveria uma sociedade de clérigos. e concedeu a cada qual a liberdade de se [492] servir da própria razão em tudo o que é assunto da consciência. De qualquer modo. não há o mínimo a recear pela ordem pública e pela unidade da comunidade. se encontrem já numa situaçã o ou nela se possam apenas vir a pôr de. Por conseguinte.

Mas também só aquele que. mas obedecei!Revela-se aqui um estranho e não esperado curso das coisas humanas. até mesmo sobre os princípios do governo que acha salutar para si próprio tratar o homem. como. então ela atua também gradualmente sobre o modo do sentir do povo (pelo que este se tornará cada vez mais [ 494] capaz de agir segundo a liberdade)e. um grau menor cria-lhe. inclusive por meio de uma ousada crítica da legislação que já existe. segundo a sua dignidade. quase tudo nele é paradoxal. dispõe de um exército bem disciplinado e numeroso para garantir a ordem pública ± pode dizer o que a um Estado livre não é permi. pelo contrário. desenvolveu o germe de que delicadamente cuida.em permitir aos seus súbditos fazer uso público da sua própria razão e expor publicamente ao mundo as suas ideias sobre a sua melhor formulação. por ¿m. não receia as sombras e que. a tendência e a vocação para o pensamento livre.tido ousar:raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes. aliás. que agora é mais do que uma máquina. quando ele se considera em conjunto. sob este duro invólucro. um exemplo brilhante que temos é que nenhum monarca superou aquele que admiramos. estabelece-lhe limites intransponíveis. Se a natureza. o espaço para ela se alargar segundo toda a sua capacidade. ao mesmo tempo. . no entanto. Um grau maior da liberdade civil a¿gura-se vantajosa para a liberdade do espírito do povo e. já esclarecido. a saber.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful