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Skinner: Sobre Ciência e


Comportamento Humano1

Skinner: On science and human behavior

Angelo Augusto
Silva Sampaio

Universidade
Federal da Bahia
Artigo

PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2005, 25 (3), 370-383


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Angelo Augusto Silva Sampaio PSICOLOGIA CIÊNCIA E
PROFISSÃO, 2005, 25 (3), 370-383

Resumo: Atualmente, não se pode pensar no estudo do comportamento


humano sem considerar a abordagem científica a este objeto: o campo da
Psicologia científica. Esse campo é disputado por diversos enfoques teóricos
que divergem quanto ao modo como definem ciência e comportamento
humano. A abordagem de B. F. Skinner foi bastante proeminente no século
XX, mas ainda continua a ser mal-entendida. Partindo do desenvolvimento
histórico de sua obra, o presente texto visa a iluminar alguns aspectos
relacionados às noções de ciência e comportamento humano desse autor
e ressaltar as transformações por que passaram. Analisam-se três tópicos
da obra de Skinner: seu período inicial (de 1930 a cerca de 1938), a obra
“Ciência e Comportamento Humano” de 1953, e as influências da Biologia.
São enfatizados aspectos relevantes da sua teorização sobre o tema: busca
por relações funcionais, ênfase nos dados empíricos, operacionismo,
externalismo, multideterminação do comportamento, experimentalismo,
previsão e controle, ética.
Palavras-chave: Skinner, B. F., comportamentalismo, ciência,
comportamento.

Abstract: No one can think about the study of human behavior nowadays
without considering the scientific approach to this object: the field of scientific
Psychology. This subject is disputed by many theories that diverge on the
way they define science and human behavior. B. F. Skinner’s approach was
very prominent in the 20th century, but still remains misunderstood. Starting
from the historical development of his work, the present paper aims to
shed some light in aspects related to this author’s notions of science and
human behavior and highlight transformations that undertook them. Three
topics of Skinner’s work are analyzed: its initial period (from 1930 to about
1938), the book “Science and Human Behavior”, published in1953, and
the influences from Biology. Relevant aspects of his theorization about the
theme are stressed: the search for functional relations, focus on empirical
data, operationism, externalism, behavior multidetermination,
experimentalism, prediction and control, ethics.
Key words: Skinner, B. F., behaviorism, science, behavior.

Em dezembro de 1879, na Universidade de tratá-lo como um marco – mais simbólico do


Leipzig, Alemanha, Wilhelm Wundt fundou que propriamente histórico – do avanço da
o primeiro laboratório de Psicologia do mundo. ciência sobre um “novo” campo de estudos:
Esse fato é saudado por alguns como o aquele da ação humana. Especificamente, ele
momento de confirmação da independência reflete um processo de aplicação de técnicas 1-O autor agradece
da Psicologia em relação à Filosofia – seria que vinham sendo desenvolvidas pela Fisiologia imensamente a Milena S.
Lisboa, por sua paciência e
mesmo a fundação da Psicologia moderna da época a questões que, por séculos, seu amor, e a Rodrigo P.
Guimarães, por seu
(Schultz; Schultz, 2000). Parece-nos, ocuparam filósofos: a natureza da consciência incentivo e seus
entretanto, mais apropriado (ou mais preciso) e de seus processos, a percepção, a sensação, comentários.
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as emoções – os processos psicológicos, enfim. ter suas proposições ampliadas e revisadas (por
A fundação do primeiro laboratório de ex. Glenn, 1988; Malagodi, 1986 e Malott, 1988).
Psicologia, assim, assinala o início de uma ampla Afora sua importância para a construção da
redefinição do modo de se estudar aqueles Psicologia como a conhecemos hoje, um
fenômenos e do próprio significado de conhecimento mais aprofundado do discurso de
Psicologia. Antes explorados apenas pela Skinner é também fundamental para evitar (ou
especulação e partindo essencialmente de buscar remediar) um conjunto de mal-entendidos
vivências cotidianas, aqueles fenômenos se que cercam seu pensamento. É para os
convertem, agora, em objetos de estudo fundamentos filosóficos do comportamentalismo
científico abordados pelo método radical, assim, que este trabalho se voltará.
experimental. Estaria fundada a Psicologia
científica. De início, “Pode-se dizer que as bases
fundamentais que norteiam a obra de Skinner
Desde fins do século XIX, desse modo, é estão vinculadas a sua pretensão de fazer da
praticamente impossível tratar-se do Psicologia uma ciência e, para compreender
conhecimento sobre as ações humanas sem essas bases filosóficas, precisamos identificar os
considerar a proposta de abordagem científica modelos de ciência que ele adota.” (Micheletto,
a esse objeto. Mesmo que se busque criticá- 2001, p. 31). É assim que, para nos aproximarmos
la, a referência à abordagem científica é da abordagem comportamentalista radical –
onipresente. A própria delimitação/ definida pelo próprio Skinner (1974/1995a),
regulamentação da atuação profissional do inclusive, como a de uma filosofia da ciência –
psicólogo, muitas vezes, se vale da referência buscaremos empreender uma análise da sua
a “critérios científicos” – vide, por exemplo, concepção de ciência, pilar essencial para a
as inúmeras referências a eles no Código de fundamentação de qualquer modo dito científico
Ética Profissional e em resoluções do Conselho de encarar o homem e o seu comportamento.
Federal de Psicologia. Indissociável desse objetivo, aparece como
essencial também a discussão da sua concepção
As noções de comportamento humano e de de comportamento humano. Dessa forma,
ciência, enfim, tornaram-se praticamente buscaremos assinalar algumas influências e
indissociáveis, e é justamente a partir desse transformações por que passaram tais
momento que diversos projetos de conhecer concepções (e outras relacionadas: causalidade,
cientificamente o comportamento humano explicação, etc.) no desenvolvimento da obra
começam a competir e que o que se entende de Skinner.
por ciência e/ou como aplicá-la devidamente
a esse campo passa a ser alvo de disputas Para tanto, trataremos de três tópicos principais:
dentro da nascente Psicologia científica. o período inicial de publicação em Psicologia de
Skinner (compreendendo, aproximadamente, os
Um momento fundamental nessa disputa pelo anos de 1930-38) e as influências da Física; a
projeto dominante de Psicologia científica é a obra Ciência e Comportamento Humano (Skinner,
proposição, por Burrhus Frederic Skinner, do seu 1953/1970), e, por fim, as influências da Biologia
Comportamentalismo Radical. Chegando a ser sobre seu pensamento.
considerado o psicólogo mais eminente do
século XX (Haggbloom et al., 2002), Skinner As transformações do
marcou profundamente toda a Psicologia pensamento de Skinner
americana (e, em conseqüência, a Psicologia
mundial) do século passado e continua ainda Desde suas primeiras publicações, em 1930,
2 “A Psicologia pode ser 2
uma ciência da mente?”. hoje a ser amplamente estudado, discutido e a até “Can Psychology be a science of mind?”

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(Skinner, 1990), artigo completado na véspera desenvolvimento da obra skinneriana: pode-se


de sua morte, Skinner desenvolveu uma perceber a presença de certas concepções do
verdadeira visão de mundo (Michael, 1980), período inicial nos escritos posteriores de Skinner
que aborda as mais diversas questões (ética, e interpretar algumas mudanças de concepção
educação, organização social, cultura etc.) de como um desenvolvimento do próprio
um ponto de vista muito particular. Essa extensa pensamento do autor.
obra, como qualquer outra de seu porte, é
perpassada por aspectos unificadores, mas Essas alterações, em alguns dos fundamentos
também por transformações. filosóficos da sua visão de mundo, podem ser
responsáveis, porém, por parte das interpretações
Por um lado, pode-se afirmar que toda a sua errôneas do comportamentalismo radical. É para
obra é marcada por alguns pontos gerais que uma breve análise dessas transformações no
parecem permanecer inalterados: pensamento de Skinner que agora nos voltamos.

o estabelecimento do objeto de estudo – o 1930-1938: o período inicial e


comportamento; a suposição do comportamento as influências da física
como determinado; a pretensão de fazer uma “o
análise científica do comportamento a partir da A adesão de Skinner ao comportamentalismo estabelecimento
do objeto de
noção de ciência proposta pela ciência natural; e seu conseqüente ingresso na pós-graduação
estudo – o
o estudo realizado a partir do dado empírico; o em Psicologia de Harvard (em 1928) podem comportamento; a
afastamento de toda metafísica do saber ser atribuídos, em grande parte, a sua leitura suposição do
científico; a proposta de previsão e controle do livro “Behaviorism”, de John B. Watson comportamento
como
(Micheletto, 2001, p. 30). (Skinner, 1989/1995b). De fato, podemos determinado; a
admitir, com o próprio Skinner, que, desde o pretensão de fazer
Essas marcas, por outro lado, além de muito início, a sua concepção de Psicologia, de estudo uma análise
científica do
genéricas, tiveram seu sentido alterado ao longo do comportamento, era muito semelhante comportamento a
da obra de Skinner. Como esperamos àquela proposta por Watson em seu famoso partir da noção de
demonstrar no decorrer deste texto, ao menos artigo de 1913: “Segundo o ponto de vista ciência proposta
pela ciência
dois grandes momentos podem ser distinguidos comportamentalista, a Psicologia é um ramo natural; o estudo
nesse processo. Por um lado, um período inicial puramente objetivo e experimental da ciência realizado a partir
englobando aproximadamente os anos de natural. Seu objetivo teórico é a predição e o do dado empírico;
o afastamento de
1930-38, em que o autor, como ele próprio controle do comportamento” (citada por toda metafísica do
admitiria depois (Skinner, 1989/1995b, p. 176), Skinner, 1989/1995b, p. 165). Foram as saber científico; a
ainda “estava comprometido em demasia com aspirações de uma ciência do comportamento proposta de
previsão e
o ‘reflexo’” em termos da sua noção de voltada para a previsão e o controle que o controle”
comportamento (apesar de as suas motivaram a ingressar na Psicologia. Assim,
investigações o terem conduzido à formulação desde o princípio, Skinner pretendia levar a cabo Micheletto
do conceito de operante ainda em 1937) e onde uma análise científica do comportamento a
a influência de uma concepção de ciência partir de uma noção de ciência fortemente
adotada pela Física era proeminente. Por outro inspirada nas ciências naturais (Micheletto,
lado, em um período posterior, em que seu 2001). Cabe assinalar, entretanto, quais seriam,
foco de interesse recai mais sobre o mais especificamente, as principais influências
comportamento operante, suas concepções vão que convergiram para moldar a forma como
gradualmente amadurecendo e sua noção de ele empreenderia essa aspiração.
ciência passa a ser mais marcadamente
influenciada pelas noções da Biologia. Esses dois O modelo de ciência que inicialmente vai
momentos, entretanto, se imbricam no influenciar Skinner é aquele associado às
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transformações por que a Física passava no final esse autor, em conseqüência, a noção de
do século XIX e início do século XX e às críticas explicação (tradicionalmente associada à de
que, nessa época, se levantavam contra o causalidade mecânica) acaba por igualar-se à
modelo mecanicista fundado na Física de descrição de relações ordenadas entre
newtoniana (Micheletto, 2001). O modelo sensações, entre fatos observados. Abandona-
mecanicista explicava os eventos do mundo se a noção de causa e efeito, de causalidade
em termos da ação causal de forças diversas, mecânica. Tudo o que seríamos capazes de
no tempo e no espaço, sobre a matéria. Cada dizer sobre qualquer aspecto do mundo é que
coisa se moveria devido à interação mecânica freqüentemente tivemos certas sensações que
Para Ernst Mach, o com outras coisas, todas sujeitas a um conjunto foram freqüentemente seguidas por outras.
avanço da Física
dependia do de forças. Nesse modelo, além disso,
afastamento de considerava-se que a realidade possuísse As concepções de Ernst Mach têm sido
concepções existência independente do sujeito que a analisadas (de ângulos por vezes um pouco
metafísicas distintos) por diversos comportamentalistas
pressupostas na experiencia e o princípio de explicação dessa
elaboração de realidade deveria ser sempre baseado em um contemporâneos. Baum (1999, cap. 2), por
muitos dos mecanismo. Foram essas noções que acabaram exemplo, ao tratar Mach como um pragmatista,
conceitos dessa ressalta que a amizade desse autor com William
disciplina por levar à elaboração de conceitos
James seria a responsável pela influência do
especulativos, interpretativos ou até metafísicos
Micheletto pragmatismo sobre o comportamentalismo
na busca por tais explicações sempre baseadas
radical. Segundo Baum (1999, cap. 2), a noção
em mecanismos.
de ciência de Skinner (não só no período inicial
Esse modelo começa a ser criticado, já no final de sua obra) e do comportamentalismo radical
do século XIX, por dois importantes autores, como um todo seria a mesma de Mach e James:
a busca por descrições econômicas, eficientes
citados logo nas primeiras obras de Skinner: os
e as mais abrangentes possíveis da experiência
físicos Ernst Mach e Percy Bridgman.
humana com o mundo natural. Os conceitos
científicos nos permitiriam passar adiante, de
Ernst Mach (1838-1916)
uma maneira econômica, nossas experiências
Para Ernst Mach, o avanço da Física dependia com determinados aspectos da natureza. Os
do afastamento de concepções metafísicas conceitos científicos seriam o modo encontrado
pressupostas na elaboração de muitos dos pelos cientistas para falar de maneira breve, e,
conceitos dessa disciplina (Micheletto, 2001). em conseqüência, de maneira mais eficiente,
O caminho para tanto seria a construção de de um grande conjunto de experiências. É nesse
um conhecimento firmemente baseado em sentido que a distinção entre “descoberta” e
observações empíricas. Segundo ele, a “invenção” seria sem sentido. O que
suposição da existência de um mundo “real”, normalmente é chamado de “descoberta de
externo ao sujeito, não poderia ser sustentada, um novo fenômeno” seria mais uma forma
já que só teríamos acesso às nossas sensações criativa e resumida que alguém inventou para
– seria a partir da análise apenas dessas falar sobre nossas experiências do que alguma
sensações, assim, que construiríamos nosso forma de representar um aspecto novo da
conhecimento do mundo. Essas noções realidade.
colocam a questão da existência real das coisas
(tão fundamental para o modelo mecanicista) Mach, por outro lado, pode ser interpretado
simplesmente como algo sem significado – já como um positivista influenciado pelo
que não passível de ser resolvida em definitivo. pensamento darwinista se ressaltarmos como,
“Mach torna sem significado tudo o que não para ele, a ciência seria um discurso privilegiado
produza resultado que possa referir-se à sobre a realidade (Tourinho, 2003). Apesar da
sensibilidade” (Micheletto, 2001, p. 32). Para continuidade entre o conhecimento comum e

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o da ciência – que Mach destaca – esta última científica do comportamento a partir do


ainda incorporaria de maneira mais eficiente conceito de reflexo – um objeto de estudo que
um princípio de economia, organizando, de lhe permitia observar e controlar as variáveis
modo mais produtivo, a experiência. Sua noção ambientais que o determinavam e elaborar
de verdade, entretanto, o distanciaria um pouco previsões (Micheletto, 2001). Na sua tese,
da tradição positivista. Para Mach, a “verdade Skinner empreende uma revisão histórica do
era uma questão de promoção da adaptação conceito (como já haviam feito Mach e
de um indivíduo ou da espécie ao ambiente Bridgman com os conceitos da Física) e acaba
circundante” (Smith, 1989, p. 272, apud por defini-lo (operacionalmente, como
Tourinho, 2003, p. 33), o que descarta qualquer advogado por Bridgman) como uma correlação
concepção de universalidade das afirmações observada entre um estímulo e uma resposta.
científicas. O modo como, em sua tese e nesse período
inicial, Skinner busca estabelecer sua ciência
Percy Bridgman (1882-1961) do comportamento o aproxima bastante das
transformações que vinham ocorrendo na Física
Bridgman também parte de uma crítica às da época. Como Micheletto (2001) ressalta:
noções mecanicistas de realidade e de
causalidade para desenvolver seus conceitos [No conceito de reflexo de Skinner] Essa
sobre a prática científica. Esse autor, na obra delimitação da correlação a eventos observados
que será citada por Skinner em seus trabalhos nos extremos da série estímulo e resposta afasta
(Bridgman, 1928), critica o modo como a análise do comportamento do interesse pela
Newton definia conceitos como os de tempo, mediação de estruturas localizadas no sistema
massa e comprimento a partir de propriedades nervoso. A crítica de Mach e Bridgman aos
não-naturais, não verificáveis empiricamente supostos mecanicistas de um meio necessário
(Tourinho, 1987). Para Bridgman, os conceitos à propagação ou condução de efeitos causais
deveriam resumir-se à descrição dos tipos de pode ser relacionada à não consideração de
procedimento (operações) que foram utilizados estruturas mediadoras na análise do
para o estudo do fenômeno a que se referem comportamento (p. 33).
(Micheleto, 2001). O conceito de
comprimento, por exemplo, não deveria ser Skinner também se aproxima das propostas
entendido como uma propriedade intrínseca críticas ao mecanicismo na Física no que tange
das coisas, mas como sinônimo do conjunto a: 1) sua definição operacional do conceito de
de ações realizadas para chegar-se ao número reflexo; 2) uma noção de explicação que a iguala
que chamamos de comprimento das coisas. à de descrição, e 3) o abandono da noção de
Essas noções, associadas ao movimento causalidade mecânica e a ênfase sobre o
operacionista, tiveram uma grande influência estabelecimento de relações funcionais entre
sobre os psicólogos de Harvard por volta dos eventos observados. Como o próprio Skinner
anos trinta, aí incluído Skinner – que, já em afirmou, referindo-se ao início de sua carreira:
1930, na sua tese de doutorado, tentava aplicá- “meu compromisso era com o empiricismo de
las à análise do conceito de reflexo. Ernst Mach” (Skinner, 1989/1995c, p.149).

Os primeiros trabalhos de A noção de ciência que parece guiar os


Skinner primeiros trabalhos de Skinner, assim, deve
muito a Mach e a Bridgman. A ênfase sobre o
3
Na sua tese de doutorado, defendida em 1930 , empírico e sobre as experiências concretas
3 “The concept of the reflex in
e em alguns trabalhos posteriores (ao menos vivenciadas pelo cientista, a afirmação da the description of behavior”
(“O conceito do reflexo na
até 1937), Skinner busca realizar uma análise indissociabilidade entre as operações descrição do comportamento”)
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empregadas na investigação e o conhecimento qualquer ação, identificar-se um evento


obtido e a sustentação da ciência como discurso antecedente que a provoque. Como o próprio
mais eficiente: todas essas noções presentes Skinner coloca:
no pensamento skinneriano devem muito à
influência dos dois físicos. A ação de um estímulo em ‘eliciar’ uma resposta
era um bom exemplo de controle, e vários
Nesse período inicial, também devem ser comportamentalistas permaneceram
ressaltados ao menos dois aspectos do comprometidos com alguma versão do
pensamento skinneriano que viriam a ser esquema estímulo-resposta por muitos anos;
bastante modificados (Micheletto, 2001). Em mas, de acordo com meus experimentos, o que
primeiro lugar, Skinner ainda supõe que, na acontecia depois que um organismo se
análise do comportamento, deve-se buscar comportava desempenhava um papel muito
estabelecer uma relação do comportamento mais importante do que o que acontecia antes
com algum evento anterior – que provocaria (Skinner, 1989/1995b, p. 176, grifo do autor).
aquela determinada resposta. Isso parece estar
associado, ainda, a um demasiado Por fim, vale ressaltar que, apesar da influência
Por fim, vale comprometimento com o conceito de reflexo da Biologia sobre suas concepções de ciência e
ressaltar que, (reconhecido, mais tarde, pelo próprio Skinner comportamento só aparecer mais
apesar da [Skinner, 1989/1995b]). Em segundo lugar, o marcadamente no período final de sua obra,
influência da
Biologia sobre suas
pensamento de Skinner aparece, nessa época, desde essa época Skinner se refere à
concepções de ainda fortemente associado a um “suposto importância dessa disciplina na sua formação
ciência e atomizador”. As ações humanas, aí incluídas intelectual. O fato de seu doutoramento ter
comportamento
só aparecer mais
as mais complexas, seriam todas constituídas sido associado, além do departamento de
marcadamente no por partes menores (os reflexos); estas deveriam Psicologia, também ao de Fisiologia aponta isso.
período final de ser detectadas e compreendidas, e deveriam A influência das idéias do biofisiologista Jacques
sua obra, desde
essa época Skinner
ser elaboradas leis que descrevessem a Loeb, além do mais, é vastamente reconhecida
se refere à combinação dessas partes. Essa visão molecular (Hackenberg, 1995), inclusive pelo próprio
importância dessa do comportamento, além de acarretar uma Skinner (1989/1995b), que, ao tratar das fontes
disciplina na sua
simplificação, acaba por postergar o estudo de do seu livro The Behavior of Organisms: an
formação 4
intelectual. processos mais complexos do comportamento Experimental Analysis , comenta: “Eu queria
ou por minimizar sua importância. estudar o comportamento de um organismo
absolutamente sem qualquer referência à vida
É fundamental notar, ainda, que muitas mental, e isso era Watson; eu também desejava
concepções ou foram abandonadas ou sofreram evitar referências ao sistema nervoso, e isso era
alterações já durante o decorrer desse período. Jacques Loeb”, e, logo em seguida: “em
Em 1935, por exemplo, Skinner abandona a Harvard eu fui para os laboratórios biológicos
hipótese de que o questionamento da relação de W. J. Crozier – o principal discípulo de Loeb
entre o conhecimento e o real seria sem – para quem Loeb dizia que tinha ‘ojeriza ao
sentido (o que o afasta de Mach e Bridgman) sistema nervoso’” (p. 164).
(Micheletto, 2001). Skinner passa a entender
o processo do conhecer como fruto da relação 1953: “ciência e
entre uma realidade independente e um comportamento humano”
sujeito ativo que opera sobre ela a partir dos
seus procedimentos de investigação (com seus Seguindo o desenvolvimento da obra de Skinner,
respectivos limites e possibilidades). Em 1937, cabe questionar se, em 1953, com a publicação
4 “O Comportamento dos
Organismos: uma Análise
além disso, com a elaboração do conceito de de Ciência e Comportamento Humano, suas
Experimental”. operante, ele descarta a necessidade de, para concepções de ciência e comportamento

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humano teriam se diferenciado das de seu No segundo capítulo do livro (“Uma ciência do
período inicial. Outras influências sobre o seu comportamento”), Skinner passa a discutir, de
pensamento podem ser vislumbradas? Que modo mais prolongado, as características da
outras concepções próprias podem ser aí ciência como ele a entende. Logo no início,
destacadas? por exemplo, o autor comenta: “Como apontou
George Sarton, a ciência é única ao mostrar
Logo nas primeiras páginas do livro, na um progresso acumulativo” (Skinner, 1953/
“Apresentação da edição brasileira”, Skinner 1970, p.15, grifo nosso), isto é, para Skinner,
enfatiza a necessidade de o conhecimento ser os “resultados tangíveis e imediatos” da ciência
útil e ter um significado prático. Para ele, a poderiam ser comparados de modo a se mostrar,
ciência poderia e deveria ser um “corretivo” por exemplo, que a eficácia da ciência moderna
para os problemas humanos (Skinner, 1953/ é muito superior à da ciência grega. Esse caráter
1970, cap. I). Esse argumento é uma constante acumulativo, no entanto, não parece estar
em toda a obra de Skinner. Suas principais necessariamente associado a nenhuma idéia de
justificativas para o empreendimento de uma aproximação inexorável da “verdade” ou de
ciência do comportamento humano são os “desvelamento” de um mundo separado do
resultados práticos para a sociedade – daí a sujeito conhecedor – próximas de uma posição
ênfase na predição e no controle. Essa idéia positivista clássica. De acordo com as
nos serve para, primeiramente, ressaltarmos a concepções de Mach e do pragmatismo – com
importância da ciência para a sociedade no as quais Skinner efetivamente mais se aproxima
pensamento skinneriano. – a invenção de conceitos que tivessem por
base novas experiências apenas equivaleria à
Cabe indagar, porém, a que ciência ele se adoção de ações mais adaptativas em relação a
refere. Como essa ciência se realizaria, para um ambiente historicamente determinado (por
Skinner? Quais seriam suas características? ex. Baum, 1999; Tourinho, 1996), ou seja, se
alguma noção de verdade for atribuída a
Sobre ciência Skinner, a definição mais razoável seria a de
verdade como efetividade no agir sobre o
Inicialmente, já no primeiro capítulo da obra, mundo. De fato, mais para o fim do capítulo, o
Skinner afirma que a ciência seria uma tentativa próprio Skinner, citando Mach, caracteriza a
de descobrir ordem no mundo, de relacionar ciência como a busca de um agir mais eficiente
ordenadamente alguns acontecimentos com no mundo.
outros. A busca de ordem, porém, não seria
apenas o objetivo da ciência, seria também um Em seguida, Skinner comenta que a ciência
pressuposto seu. Para se buscar relacionar produz “acumulações organizadas de
ordenadamente acontecimentos do mundo, informação”. O que lemos, quando estudamos
tem-se que, primeiro, supor que esses física, química ou biologia, seriam bons
acontecimentos já sejam, de alguma forma, exemplos de tais “acumulações”. Ele ressalta,
ordenadamente relacionados entre si. no entanto, que não podemos tomar a presença
desses resultados específicos da ciência
Os objetivos da ciência seriam, assim, a (conceitos, leis e teorias da Física, da Química
descrição, a previsão e o controle. Note-se que ou da Biologia) em outros campos do saber
Skinner não menciona a explicação como um como indicadores fidedignos de que também
dos objetivos da ciência – como muitos autores aí se utilizou o mesmo processo científico de
o fazem. Podemos atribuir essa atitude à noção investigação. “Essas acumulações não são a
machiana da equivalência entre descrição e ciência mesma, mas os produtos da ciência”
explicação. (Skinner, 1953/1970, p. 15), isto é, se a ciência
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deve visar, sim, à produção de tais acumulações continua a enumerar outras características da
organizadas de informação – o que também sua concepção de ciência. Skinner cita o
nos remete à noção de economia conceitual abandono do conceito de “relação de causa e
de Mach – a importação de conceitos de outras efeito” em favor do de “relação funcional”. Para
disciplinas científicas não pode ser tomada ele, a ciência estudaria mudanças nas variáveis
como garantia de cientificidade. independentes e dependentes. Os novos
termos, continua, não sugerem como uma
Logo a seguir, o autor cita alguns outros aspectos causa produz um efeito. Nesse ponto, parece
comuns a diversas ciências e importantes para novamente clara a influência de Mach.
a prática científica, mas que não poderiam ser
tomados como características definidoras, O estudo científico do
essenciais, da ciência: a medida exata, o cálculo comportamento humano
matemático e uso de instrumentos (aparelhos
de pesquisa ou instrumentos matemáticos).
Uma compreensão mais clara da noção de
ciência desenvolvida por Skinner nessa obra
Desses comentários, podemos começar a
pode ser obtida a partir das suas concepções
construir uma imagem da prática científica como
sobre o estudo (científico) do comportamento
um empreendimento singular, acumulativo e
humano.
capaz de dar conta de todos os fenômenos
naturais a partir da mesma abordagem. Essa
Ao tratar do tema, Skinner começa enfatizando
última idéia – a de que uma mesma abordagem
a extrema complexidade desse objeto de estudo.
pode dar conta da totalidade dos fenômenos
Ressalta que essa é uma das objeções
naturais – porém, não deve ser entendida como
normalmente levantadas contra a possibilidade
uma recomendação para o uso dos mesmos
de uma ciência do comportamento e descarta-
métodos – e muito menos dos mesmos
a por considerar que: 1) “da complexidade não
conceitos – em todas as disciplinas. As
se segue a autodeterminação” (Skinner, 1953/
características essenciais da ciência para Skinner,
1970, p. 20); 2) nada se pode afirmar sobre os
e que deveriam, estas sim, ser adotadas para o
limites das investigações desse objeto até que
estudo de qualquer assunto, não são
tenhamos tentado, e, mais importante, 3) pode-
determinados conceitos, instrumentos ou
se simplificar as condições em laboratório ou
métodos rígidos, mas, sim, atitudes. Como o
através de análises estatísticas. A importância
próprio Skinner (1953/1970) comenta: “A
das técnicas experimentais e matemáticas para
ciência é, antes de tudo, um conjunto de
o estudo do comportamento (mesmo sem
atitudes” (p. 15). Estas poderiam ser resumidas
serem consideradas essenciais), aqui novamente
nas três seguintes:
ressaltadas pelo autor, deve ser marcada como
uma das características do seu pensamento. O
● a ênfase nos fatos, nos dados, no empírico
estabelecimento de relações quantitativas entre
– o que deveria levar à rejeição da autoridade
as variáveis em estudo, obtidas após um
e dos desejos do pesquisador quando estes
interferem no contato com a natureza; adequado controle das condições
experimentais, parece ser a via privilegiada de
● a honestidade intelectual – ressaltada descrição científica para Skinner. No estudo das
também por Bridgman (que Skinner cita neste variáveis que controlam o modo como os
ponto); organismos se comportam, assim, “qualquer
condição ou evento que tenha algum efeito
● e o afastamento de conclusões prematuras. demonstrável sobre o comportamento deve ser
Mais à frente, em outros capítulos, o autor considerada” (Skinner, 1953/1970, p. 21). Essas

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PROFISSÃO, 2005, 25 (3), 370-383

condições (ou eventos) deveriam ser tipo de variável é que não temos ainda como
descobertas e analisadas, preferencialmente, de obter dados independentes e confiáveis sobre
forma quantitativa. ela. Daí, que, em geral, infere-se o segundo elo
ou do primeiro ou do terceiro. Para o autor,
Tendo delimitado o tipo de análise que a ciência esse é o método mais censurável, tanto prática
deveria empreender, o autor passa a especificar quanto teoricamente.
mais claramente quais seriam as variáveis das
quais o comportamento é função. As variáveis Mesmo que conseguíssemos contornar tal
a serem consideradas deveriam ser aquelas ao problema e manipular com segurança as
alcance de uma análise científica, aquelas que condições internas que precedem
imediatamente o comportamento, porém,
estão fora do organismo, em seu ambiente “ainda teríamos de lidar diretamente com
imediato e em sua história ambiental. [Aquelas aquelas enormes áreas do comportamento
que] Possuem um status físico para o qual as humano controladas através da manipulação do Em suma, em
Ciência e
técnicas usuais da ciência são adequadas e primeiro elo” (Skinner, 1953/1970, p. 28). Sua
Comportamento
permitem uma explicação do comportamento conclusão é que “A objeção aos estados Humano, delineia-
nos moldes da de outros objetos explicados interiores não é a de que eles não existem, se uma
concepção mais
pelas respectivas ciências (Skinner, 1953/1970, mas a de que não são relevantes para uma
completa de
p. 26, grifo do autor). análise funcional” (p.28). As informações sobre ciência, que
o segundo elo dessa cadeia podem esclarecer apresenta diversas
continuidades
E quanto às variáveis ou condições internas a relação entre os outros dois elos – que é,
com as noções do
(tanto psicológicas quanto fisiológicas)? Qual o esta sim, útil para a previsão e o controle – período inicial.
seu papel numa ciência do comportamento? mas não podem alterar essa relação.
Essa é uma questão fundamental e recorrente
na obra de Skinner. Lembremos que uma de Em suma, em Ciência e Comportamento
suas convicções ao começar a estudar o Humano, delineia-se uma concepção mais
comportamento, já na década de 1930, era completa de ciência, que apresenta diversas
estudar o comportamento do organismo como continuidades com as noções do período inicial.
um todo, sem recorrer a estruturas fisiológicas A adesão a definições operacionais e a uma
ou psicológicas mediadoras. Vamos alongar-nos concepção de explicação que a iguala à de
um pouco nesse ponto, tratando do modo como descrição de relações funcionais entre variáveis
o autor lida com ele em 1953. permanece como uma herança já daquele
período. Skinner também parece manter uma
Seu argumento parte da afirmação de que a concepção da ciência como um modo de
relação do organismo com o ambiente pode produção de conhecimento que não se
restringiria a alguns objetos de estudo, que
ser entendida como o encadeamento causal
abarcaria tanto a Física quanto a Biologia e a
de três elos: uma operação externa ao
Psicologia, por exemplo. O que aparece de
organismo (por ex., privação de água), uma
novo em 1953 é a afirmação mais clara da
condição interna (por ex., sede fisiológica ou
ciência como meio privilegiado de intervenção
psicológica) e uma resposta (por ex., beber
na realidade, de resolução de problemas sociais.
água). Assim, teoricamente, poderíamos prever
Uma ciência do comportamento seria uma
o terceiro elo a partir do segundo. Lidar com as necessidade para a solução dos problemas
condições internas do organismo (que sociais – e tiraria daí uma de suas principais
precedem imediatamente ao comportamento) justificativas.
seria inclusive preferível, do ponto de vista da
previsão e do controle, por ser essa uma variável Aqui, Skinner também aborda mais
temporalmente próxima. O problema com esse especificamente o comportamento humano, e
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Skinner: Sobre Ciência e Comportamento Humano

aí podemos ver todo um campo de discussão claramente as diferenças entre o seu projeto de
que, pelo menos, não era explícito no início ciência e os dos outros comportamentalismos,
da sua carreira. Um conjunto de concepções com a publicação do artigo “The operational
5
próprias utilizadas na abordagem desse objeto analysis of psychological terms”, em 1945
torna-se aqui de grande importância: o conceito (Tourinho, 1987). É aí que fica bem marcada sua
de comportamento operante é amplamente oposição a uma concepção de verdade por
utilizado e chega a ser predominante no livro; consenso público (acatada pelo
as análises que utilizam o conceito de comportamentalismo metodológico). A aceitação
comportamento verbal também são de um fenômeno ou de um conceito por uma
abundantes; a importância do comportamento ciência do comportamento não é mais vinculada
social para as ações humanas é destacada (toda a sua acessibilidade a pelo menos duas pessoas;
uma seção do livro – “O comportamento de o fundamental passa a ser se o cientista pode
pessoas em grupo” – é dedicada ao assunto), operar eficazmente com ele – trata-se de um
e as questões relativas à descrição, evolução e critério mais instrumental, pragmatista (Tourinho,
6
planejamento de culturas ocupam outra grande 1987). A interpretação é postulada como um
parte do livro. Skinner ressalta, além do mais, método legítimo da ciência. É ainda naquele
a extrema complexidade desse objeto de mesmo artigo (de 1945) que Skinner, como uma
estudo – afirmação tantas vezes omitida por derivação dessa sua concepção de verdade, deixa
seus críticos – e sugere, para lidar com isso, a claro que os eventos privados (conjunto de
simplificação experimental das condições eventos e comportamentos que ocorrem sob a
envolvidas. Vale a pena notar que, apesar de a pele do indivíduo) incluem-se como objetos
ciência do comportamento a que Skinner se legítimos de estudo de uma ciência do
refere durante todo o livro ser a Análise comportamento.
Experimental do Comportamento, suas
interpretações e comentários extrapolam Um terceiro momento significativo no processo
grandemente o escopo das investigações de ampliação do seu objeto de estudo envolve
produzidas nesse âmbito. a incorporação do comportamento verbal e da
importância do ambiente social para o estudo
As influências da biologia e os do fazer humano – que pode ser
simbolicamente marcado pelo lançamento do
pontos fundamentais da
livro “O Comportamento Verbal” (Skinner,
proposta skinneriana sobre a 1957/1978), mas que já se encontra presente
ciência e o comportamento ao menos desde 1953 (Skinner, 1953/1970). É
aí que toda uma ampla gama de aspectos da
Podemos perceber, ao longo do ação humana vai ser definitivamente abarcada
5 “A análise operacional desenvolvimento da obra de Skinner, uma pelo pensamento skinneriano: questões relativas
de termos psicológicos”. ampliação da sua concepção de objeto de à cultura, à moral, à dinâmica da própria
6 Entendida como “a estudo (Micheletto, 2001). Um primeiro marco comunidade científica, etc.
aplicação de princípios
cientificamente compro- importante nesse sentido é a elaboração do
vados como efetivos (na conceito de comportamento operante, em 1937. Paralelamente à expansão do objeto de estudo,
investigação de fenômenos
menos complexos) a Com este, o sentido da ação dos organismos vamos assistir também a uma ampliação das
assuntos mais complexos,
sobre os quais o conhe- se amplia para englobar a operação dos determinações do comportamento alegadas por
cimento existente não é
suficiente para tornar a
organismos sobre o mundo e o efeito das suas Skinner. Partindo de uma determinação mais
previsão e o controle possí- conseqüências sobre as ações futuras. restrita e imediata logo no começo de sua obra
veis” (Tourinho, 1987).
(associada à sua ênfase inicial no conceito de
7 Ou descoberta, de acordo Um segundo momento que podemos destacar reflexo), passando por uma ampliação com a
com a discussão de Mach 7
(vide subtópico acima). é aquele em que Skinner explicita mais invenção do conceito de operante (já presente

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em 1953), a concepção da determinação isoladamente do ambiente em que vivem, aí


ambiental do comportamento vai acabar sendo incluídas suas relações com outros membros
definida (no período pós-1953) como resultado da espécie e com outras espécies distintas. São
da interação entre as histórias filogenética esses mesmos supostos básicos que
(seleção natural), ontogenética encontramos na concepção de comportamento
(condicionamentos) e cultural (evolução de Skinner, que o considera um objeto: 1) em
cultural) do indivíduo. constante transformação; 2) essencialmente
variado (cada instância de comportamento, cada
Tais mudanças no modo de encarar a ação resposta particular, é única, não é igual a
humana – expansão do objeto de estudo nenhuma outra); 3) que tem suas unidades
pertinente a uma ciência do comportamento e selecionadas por sua eficiência em lidar com o
ampliação de suas determinações – podem ser mundo, e 4) que não pode ser entendido sem
entendidas como resultado de uma influência referência ao ambiente em que ocorre
crescente da Biologia sobre o pensamento de (genético, físico e social).
Skinner. Segundo Micheletto (2001):
A influência das ciências biológicas também se
Esse novo significado dado ao fazer se vincula estende à noção de causalidade adotada por
às influências das ciências biológicas, Skinner após a elaboração do conceito de
especificamente a teoria da evolução por operante (Micheletto, 2001). A noção de
seleção natural, que trazem para o seleção pelas conseqüências implicou, desde
comportamento um novo conjunto de o início de seu uso por Skinner, um afastamento
pressupostos. As referências aos supostos da ainda maior de uma causalidade mecanicista
teoria da evolução por seleção natural começam do comportamento. Pelo menos dois
a aparecer a partir da distinção entre reflexos importantes aspectos podem ser enumerados
respondentes e operantes. A vinculação com a para confirmar tal assertiva: a seleção pelas
seleção natural vai ficando cada vez mais conseqüências é uma forma de causalidade
explícita e abrangente. Se de início Skinner muito menos visível do que aquela da Física do
busca na seleção natural os princípios que século XIX (e muito mais complexa), e é uma
orientam sua concepção de objeto, forma de combater as noções metafísicas que
gradualmente esses princípios se estendem à se infiltraram na mecânica clássica e que
própria noção de causalidade (p. 38). orientaram concepções mentalistas de uma
mente criadora (Micheletto, 2001). Vale
Seriam ao menos quatro as características das lembrar que essa forma de causalidade foi
espécies propostas por Charles Darwin que estendida por Skinner aos três níveis de
teriam contribuído para a noção skinneriana de determinação do comportamento (filogênese,
comportamento (Micheletto, 2001): 1) elas não ontogênese e cultura) – todos explicados em
são imutáveis – ao contrário, são produtos termos selecionistas (Tourinho, 2003).
momentâneos de um constante processo de
transformação; 2) a variabilidade interna é uma Considerações finais
condição essencial para a evolução, a seleção
(sobrevivência) de variedades mais bem Em suma, podemos perceber que, desde o
adaptadas ao ambiente; 3) essa seleção ocorre início de sua obra, Skinner se alinha a
a partir da utilidade, da eficiência de uma concepções críticas ao mecanicismo. Isso o leva
variação em relação a um dado ambiente; 4) a abandonar desde cedo a necessidade de
os organismos não podem ser entendidos referir-se a mecanismos físicos para dar conta
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Skinner: Sobre Ciência e Comportamento Humano

da relação entre as operações do ambiente um objeto que, dessa forma, só pode ser
e a ação humana (suas críticas vão dirigir-se devidamente compreendido na sua
especialmente a referências ao sistema singularidade e levando-se em consideração
nervoso, real ou hipotético). Seguindo as suas diversas relações e níveis de
concepções de Mach e Bridgman, a determinação.
causalidade mecânica é criticada e
substituída pela busca de relações funcionais Dada a extrema complexidade do
entre variáveis. Também o modo como os comportamento humano, uma ciência que
conceitos são definidos é proposto de forma se volte para ele deve, segundo Skinner, valer-
a evitar os problemas do mecanicismo e a se de algumas “ferramentas” que lhe facilite
promover uma ênfase sobre os dados o contato com esse objeto. Nesse sentido,
empíricos. O operacionismo de Bridgman leva seriam importantes para a sua investigação:
Skinner a elaborar conceitos tendo sempre
como base as operações práticas envolvidas ● uma busca pelo controle e simplificação
na sua mensuração. das condições envolvidas (que poderia ser
entendida como uma preferência pela
Além dos princípios da análise funcional e experimentação);
do operacionismo, é também fundamental
para o seu recorte básico de abordagem à ● uma busca por descrições quantitativas das
realidade, desde o início de sua obra, a relações funcionais, especialmente em termos
adoção do externalismo. Para Skinner, as de freqüência e probabilidade;
variáveis que deveriam ser consideradas nas
relações funcionais envolvidas na ação ● atitudes de honestidade intelectual e cautela
humana seriam aquelas externas ao organismo no estabelecimento de conclusões;
em estudo, aquelas relativas a seu ambiente,
variáveis essas que também deveriam ser ● a adoção da previsão e do controle como
passíveis de descrição pelas ciências naturais. critérios últimos de validação do
conhecimento.
O objeto de estudo para o qual esse modo
de investigação se volta – o comportamento Um último (e fundamental) ponto no que se
ou a ação humana – é visto de modo cada refere à ciência do comportamento proposta
vez mais complexo ao longo da obra de por Skinner parece estritamente relacionado a
Skinner. Começando com estudos restritos um dos dilemas mais prementes de nossos dias:
aos reflexos e associados a uma causalidade o da ética da investigação e da prática científica.
limitada aos eventos anteriores mais Skinner sempre justificou (e lutou) por uma
imediatos, Skinner passa a investigar o ciência do comportamento com base na crença
comportamento operante, o comportamento de que ela poderia ajudar na resolução da
verbal e social e mesmo práticas culturais maioria dos grandes problemas com que nossa
mais amplas, baseando-se numa perspectiva cultura convive. Para ele, o sentido último do
selecionista e na multideterminação do empreendimento de uma análise do
humano. Em última instância, o objeto a que comportamento não era teórico, mas prático:
Skinner atribui a sua ciência do o objetivo final dessa ciência seria o de
comportamento pode ser entendido como promover a sobrevivência da cultura (Dittrich,
o resultado da inter-relação de processos 2004). Os analistas do comportamento, assim,
seletivos operando em três níveis: filogenético deveriam voltar-se sempre para o
(relativo à espécie), ontogenético (relativo desenvolvimento de uma ciência e de uma
ao indivíduo) e cultural (relativo à sociedade), profissão voltados para tal fim.

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Angelo Augusto Silva Sampaio

Graduando de psicologia pela Universidade Federal da Bahia


(UFBA).
Av. Euclydes da cunha, 443, apt. 801, edf. Mansão wimbledon.
Graça. Salvador – ba, brasil. Cep: 40150-120. Tel: (71) 3247-
7150.
E-mail: angsampaio@uol.com.br.

Recebido 27/05/05 Aprovado 29/09/05

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