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EMIR SADER

O ANJO TORTO
ESQUERDA (E DIREITA) NO BRASIL

editora brasiliense
Copyright © by Emir Sader, 1995
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sem autorização prévia da editora.

Primeira edição, 1995


I! reimpressão, 1995

Preparação: Marcos Antonio de Moraes


Revisão: Solange A. Pereira e Henrique S. Neves
Capa: Nelson de Oliveira e Tereza Yamashita (ENTE)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Sader, Ernir
O anjo torto: esquerda (e direita) no Brasil /
Ernir Sader. - São Paulo : Brasiliense, 1995.

ISBN 85-11-14002-6

I. Direita e esquerda (política) 2. Liberalismo


_ Brasil 3. Nacionalismo - Brasil 4. Socialismo
- Brasil l. Titulo.

95-1086 CDD-324.10981

índices para catálogo sistemático:


I. Brasil : Direita e esquerda : Ciência política
324.10981
2. Brasil : Esquerda e direita : Ciência política
324.10981

EDITORA BRASILlENSE S.A.


R. Barão de ltapetininga, 93 - II~ a.
01042-908 - São Paulo - SP Para Cassio,
Fone (alI) 258-7344 - Fax 2'8-7923 Bebel
Filiada àABDR
e Miguel

. '

~
"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida."
(Carlos Drummond de Andrade)
Sumário

Introdução..... ............................................13

DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO
A esquerda fica à esquerda............. 21
As surpresas da toupeira................ 37
A guerra que era fria........ ......................... 47
O assalto ao céu ........................................ 53
A descida aos infernos................... 57

SER DE ESQUERDA NO BRASIL


A primeira geração: ser comunista no
Brasil.......................................... 67
A segunda geração: a luta armada .. 103
A terceira geração: o socialismo
democrático ........................................ 133
Depois da ditadura, antes da
democracia ......................................... 149
NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA?

O que é ser de esquerda (e de


direita) no fim do século ..................183

Introdução

Os seres humanos nunca estiveram tão


próximos uns dos outros e tão distantes
entre si. Dois homens separados por mi-
lhares de quilômetros podem se comuni-
car a um simples toque de uma tecla; uma
notícia corre o mundo em segundos; mas
a distância social entre uma minoria da
humanidade e a maioria restante aumen-
ta cada vez mais, a ponto de parecer di-
vidir os homens em duas espécies dife-
rentes.
Do leite produzido no mundo, 72%
alimenta um quarto da humanidade situa-
da no hemisfério norte, restando 28% pa-
ra os demais. O mesmo acontece com a
carne, 64 % da qual é consumida no nor-
te rico contra 36% no sul subdesenvol-
vido. Cerca de 92 % dos automóveis cir-
culam no hemisfério norte, sendo apenas
8% da frota mundial de carros para três
14 EMIR SADER INTRODUÇÃO 15

quartos da humanidade situ


mundo. Do papel fabricado
81 % é consumido pelos ha
norte, contra 19% pelos do
Isso basta para ilustrar o
Nunca a humanidade se des
to tecnologicamente quanto
cinco décadas; mas, mesmo
der sobre esses meios e os s
tão, ou mais, desigualmente
quanto nos piores momento
da humanidade. A riqueza
cam a vida dos homens no
lênio.
As tendências econômic
ciam o desenvolvimento tec
as mesmas que concentram
cluem a maioria da populaç
to de suas conquistas. Os h
põem de condições tecnoló
tender a vida humana até li
antes imaginados; no entan
inteiras de crianças continu
de desnutrição, de doenças
epidemias originadas pelas
dições em que vivem.
A humanidade parece c
mesmo tempo para a frente
quando seu progresso vai e
oposta à justiça social, à dis
tativa de seus bens e serviç
to comum de suas invençõe
1 EMIR SADER INTRODUÇÃO 1
6 7

vor dos 20% do hemisfério norte e contra as desigualdades são um fatalismo, que é
os 80% do hemisfério sul, que buscam tra- preciso aceitá-Ias, desde que o mundo é
balho porque o capital flui cada vez mais mundo sempre foi assim, não há nada a
do sul para o norte. Para onde vai o capi- fazer - sempre esteve e estará à direita.
tal ,vão os candidatos ao trabalho. Assim como a esquerda nunca deixará de
Nesse quadro, que sentido há em se fa- ser identificada nos que dizem que os ho-
lar de direita e de esquerda? O desmoro- mens são iguais, que é preciso levantar os
namento da URSS e dos países socialistas que estão no chão, lá embaixo."
do leste europeu teria decretado realmen-
te o fim dessas alternativas? As sociedades
pós-modernas, centradas na robótica e na Em outras palavras, os que acreditam
informática, teriam mesmo desqualifica- que o mercado supostamente livre defi-
do o movimento dos trabalhadores, jus- ne o destino de cada um são a direita. Os
tamente aquele em que sempre se apoiou que acreditam, ao contrário, na justiça so-
a esquerda? Estaríamos condenados pelo cial e norteiam suas crenças, sua palavra
"fim da história" ao capitalismo e ao li- e sua ação nesse sentido são a esquerda.
beralismo e, portanto, só no marco des- Nessas condições, nunca como hoje a
tas tendências é que seria possível pensar contraposição mercado x justiça social
no destino da humanidade? foi tão essencial. Jamais esta contradição
Perguntado sobre o sentido que ainda cruzou tanto nossas sociedades, desde os
poderiam ter esses termos; direita e es- 30 milhões de desempregados do próprio
querda, no mundo contemporâneo, o fi- hemisfério norte, junto à discriminação e
lósofo italiano Norberto Bobbio res- segregação de suas dezenas de milhões de
pondeu: imigrantes, até as grandes maiorias do he-.
"No nosso tempo, todos os que defen- rnísférío sul, vivendo em sociedades ca-
dem os povos oprimidos, os movimentos da vez mais apartadas. As minorias ricas
de libertação, as populações esfomeadas se sentem ilhadas e buscam a proteção das
do Terceiro Mundo são a esquerda. Aque- . cercas, dos muros, dos guardas particu-
les que, falando do alto de seu interesse, lares, contra as grandes maiorias expro-
dizem que não vêem por que distribuir priadas e marginalizadas.
um dinheiro que suaram para ganhar são Neste livro buscaremos retomar a tra-
e serão a direita. [ ... ] Quem acredita que jetória do termo esquerda - e, por opo-
18 EMIR SADER

síção, a do termo direita -, desde suas


origens históricas, situando-o, em segui-
da, no Brasil, passando em revista as vá-
rias gerações de forças de esquerda, . até
nos situarmos na atualidade, para voltar-
mos à questão da contemporaneidade
desses problemas. Vamos nos nortear pe-
las definições de Norberto Bobbio e, por-
tanto, nosso caminho estará marcado pe-
las definições do mercado e da justiça so-

cial, definidoras dos campos que quere-
mos abordar. DA SALVAÇÃO
À DANAÇÃO?

A esquerda fica
à esquerda

Esquerda e direita são adjetivos que se


tornaram substantivos, ao passarem para
o feminino. Direita vem do latim, direc-
tu; e esquerda vem do vasconço, ezquer.
Ambos significam localizações geográficas
opostas entre si. O significado político da-
do aos termos veio da França. Original-
mente, na Assembléia Constituinte que se
instalou logo depois da tomada da Bastí-
lha em 1 789, na Revolução Francesa, os
partidários do antigo regime se sentavam
à direita, enquanto os defensores da no-
va ordem ficavam à esquerda.
Assim, hoje a direita se compõe dos
conservadores, daqueles que se interes-
sam pela reprodução e manutenção do
sistema vigente, o capitalismo; e a esquer-
da se caracteriza por integrar aqueles que
desejam a evolução e a superação de tal
sistema.
22 EMIR SADER DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 23

Isso ocorreu pela própria amb


do lema central adotado pela Re
Francesa: liberdade, igualdade e
dade. Para começar, a liberdade
pretada de diferentes maneiras. P
vinha das relações feudais de de
e submissão, a liberdade tinha du
sões simultâneas: a liberdade eco
e a liberdade política. A primeira
cava poder trabalhar independen
te da sujeição ao senhor feudal e
gações que isso impunha. A segu
conquista do direito de cidadania
reito de participar politicamente
os destinos da coletividade.
O liberalismo assumiu a defe
reitos individuais e, dentre eles,
mento diferenciado de outras do
o direito de propriedade. Este, se
seus defensores - tendo o inglês
Locke como o primeiro deles -, s
inerente à natureza humana, aind
preciso salientar, para eles esse d
se estenderia até onde terminasse
cidade de trabalho de cada indiv
sim, a propriedade privada estari
à produtividade de cada homem,
plicando a exploração do trabalh
O liberalismo também tinha u
tente política, que apontava para
tos de cidadania - de organização
pressão, de representação -, cujo
24 EMIR SADER DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 25

que "OS homens nascem e permanecem no bem comum e no interesse coletivo,


livres e iguais em direitos", mas esses por sentirem-se excluídos, subjugados.
direitos incluem o direito à propriedade, A esquerda, na sua primeira versão, co-
que divide os homens em proprietários mo tendência radicalizada da Revolução
e; não-proprietários. A liberdade é definida Francesa, esteve personificada nos jaco-
como o direito de "fazer tudo o que não binos, com Robespierre e Marat como
seja nocivo a outrem", limitando-a então suas expressões mais conhecidas. Sua in-
apenas ao respeito pela liberdade dos fluência entrou pelo século passado,
outros.· A constituição da propriedade cristalizando-se mais diretamente na Re-
privada, ao excluir alguns condenando-os volução de 1848, centrada em Paris, mas
a submeter seu trabalho ao proprietário, que se estendeu por toda a Europa. Essa
choca-se com a liberdade alheia. revolução, que utilizou os métodos das
Não era apenas uma luta de idéias a barricadas de rua, teve nesta forma de lu-
que se travava na Assembléia francesa. De ta uma das marcas características da es-
um lado, à direita, estavam os represen- querda. As barricadas são formas de mo-
tantes da burguesia abastada, comercian- bilização popular que, para barrar as for-
te e industrial, que pretendia defender sua ças repressivas, ergue trincheiras com bar-
propriedade e sua liberdade econômica. ricas, carros, carroças, estacas, paralelepí-
Defendia-se a livre empresa, o livre lucro, pedos; é, portanto, um meio ao alcance
e hostilizava-se qualquer regulamentação de qualquer setor do povo.
ao mercado, assim como todo tipo de ta- Mas essa forma de luta se ligou poste-
xação. De outro, estavam os representan- riormente a um conteúdo concreto radi-
tes da burguesia média e das classes po- calizado. Lutava-se pela instauração da re-
pulares - artesãos, lojistas, consumido- pública, depois que as conquistas básicas
res -, que colocavam o interesse públi- da Revolução Francesa haviam sido bani-
co acima da propriedade privada e do das por um processo contra-revolucíoná-
mercado. Por detrás do debate situava-se, rio, que retrocedeu até a restauração da
então, uma luta de interesses, uma luta so- monarquia. Foram as camadas populares
cial entre os que se beneficiavam com a que lutaram pelo retorno da república,
recentemente surgida propriedade priva- mas, tomando consciência das contradi-
da e os que desejavam fundar a república ções entre a concepção liberal e a liber-
dade, pleitearam uma república social, is-
to é, um sistema político democrático
26 EMIR SADER DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 27

com alma social. Colocar o tema do so- riam trabalhadores, produzindo e consu-
cial intrinsecamente ligado ao político sig- mindo sem usufruir do trabalho alheio.
nificava superar os horizontes do libera- Esta visão se consagrou como a teoria
lismo e iniciar a elaboração de uma con- mais importante da esquerda, aquela que
cepção que não apenas criticava o velho busca a superação do capitalismo pelo so-
regime, mas já apontava para a crítica do cialismo para se chegar a uma sociedade
capitalismo como sistema que reinstaura- sem classes, sem exploração, sem Estado:
va a desigualdade social sob uma capa de a sociedade comunista.
igualdade jurídica. A proliferação de movimentos antica-
O ano de 1848 é também o da publi- pitalistas em vários países, de diferentes
cação do Manifesto Comunista, de Karl ideologias - anarquista, comunista de di-
Marx e Friedrich Engels, e do início da tra- ferentes matizes -, levou à construção de
jetória da teoria comunista como ideolo- uma coordenação internacional dessas lu-
gia das classes trabalhadoras, como refe- tas, que teve o nome de Associação Inter-
rência central para a evolução das várias nacional dos Trabalhadores e ficou co-
correntes de esquerda que se deu ao lon- nhecida posteriormente como a Primei-
go do século passado e deste. ra Internacional. Como os trabalhadores
O Manifesto Comunista fazia uma ra- eram considerados uma classe internacio-
diografia da evolução da história da hu- nal, com traços comuns em todos os paí-
manidade até desembocar no capitalismo, ses, igualmente explorados e subjugados,
concluindo que as contradições entre ex- e como as burguesias se apropriaram do
ploradores e explorados, dominadores e conceito de nação, os trabalhadores de-
dominados caracterizam a história dos ho- veriam se organizar internacionalmente,
mens. O capitalismo teria simplificado es- buscando derrubar o poder do capitalis-
sas contradições, colocando face a face mo, coordenadamente, e construir uma
burgueses e proletários. Estes teriam uma sociedade internacional de auto-emanci-
função histórica especial, dado que sua lo- pação de todos aqueles que respondem
calização estratégica no capitalismo - on- efetivamente pela criação das riquezas do
de produzem toda a riqueza existente - mundo.
lhes possibilita, sendo a classe que vive Alguns anos depois, pela primeira vez
de seu próprio trabalho, destruir o capi- na história, trabalhadores tomaram o po-
talismo e colocar as bases de uma socie- der. Foi em Paris, em 1871, logo depois
dade sem exploração, em que todos se-
DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 29
28 EMIR SADER

A primeira medida do novo governo


que o exército oficial deixou a cidade, - que se chamou Comuna de Paris - foi
junto com o governo, fugindo das tropas a substituição do exército profissional por
alemãs chefiadas por Bismarck. A cidade milícias populares, isto é, a substituição
e a França inteira ficaram abandonadas de um corpo separado da sociedade, pro-
para serem tomadas pelos alemães e, físsíonalízado e detentor do monopólio
diante dessa situação, os trabalhadores se da força armada pelo armamento da pró-
aproveitaram do vazio deixado pela fuga pria sociedade; grupos de trabalhadores
das elites e iniciaram a criação de um armados deveriam atuar conforme os in-
novo poder. teresses da maioria. A polícia, por sua vez,
Como classe com características dif<?- seria substituída pelo auto controle da pró-
rentes na sociedade capitalista, os traba- pria sociedade.
lhadores não iriam governar com os A segunda medida foi a extinção da
mesmos instrumentos de poder da bur- burocracia como corpo permanente. Suas
guesia. Esta, classe minoritária, governava funções deveriam ser executadas rotatí-
para a perpetuação das elites no poder e, vamente por todas as pessoas. Como se
por isso, lançava mão de estruturas de do- dizia naquela época, "todo mundo deve-
minação das minorias sobre as maiorias. ria ser um pouco burocrata na vida, para
Esse era o Estado capitalista. que ninguém seja burocrata a vida intei-
Os trabalhadores se apressaram em ra". Buscava-se assim evitar a cristalização
construir um tipo de poder que não os de interesses específicos na burocracia es-
distanciasse da sociedade. Obedeciam a tatal e direcionar esse corpo para os inte-
uma máxima de praticamente todos os resses da sociedade.
grupos que integravam a Primeira Inter- Além disso, os deputados eleitos pelo
nacional: a libertação da opressão aos tra- povo deveriam ter um mandato revogá-
balhadores será produto de sua auto- vel pelos eleitores a qualquer momento
'emancipação ou, em outras palavras, a em que estes julgassem não estarem seus
emancipação. dos trabalhadores será obra representantes obedecendo à plataforma
dos próprios trabalhadores. Isto signi- pela' qual haviam sido eleitos. Seu man-
ficava que se deveria constituir estruturas dato era imperativo, o que os obrigava a
de poder em que as maiorias governassem atuar conforme os princípios pelos quais
a sociedade. haviam pedido o voto dos eleitores. O sa-
PA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 31
30 EMIR SADER

Depois da experiência da Comuna de


lário dos deputados - assim como o dos
Paris, a nova situação que propiciou um
burocratas - era igual ao de um operá-
paradigma no avanço da esquerda se deu
rio, a fim de não se criarem privilégios
na Alemanha. Se a Inglaterra e a França
econômicos. tinham sido as sedes das maiores expe-
Para demonstrar seu internacionalis-
riências do movimento dos trabalhadores
mo, a Comuna de Paris designou como
até o quarto final do século passado, foi
seu ministro do Trabalho um operário ale-
conseqüência do maior desenvolvimen-
mão, originário justamente do país com
to do capitalismo naqueles países. As rea-
o qual o Estado francês estava em guerra.
ções dos trabalhadores às novas formas
Destruía-se, pela ação da Comuna, a de exploração fizeram o movimento ope-
espinha dorsal do Estado capitalista e seus rário inglês simbolizar a primeira expres-
aparatos repressivos: o exército e a polí- são da classe trabalhadora como força de
cia, por um lado; a burocracia por outro. luta por melhores condições de vida den-
E colocavam-se em seu lugar corpos elei- tro do capitalismo. A França tinha sido o
tos pela própria sociedade, controlados berço da aparição de movimentos que lu- .
por ela, para atuar a seu serviço. Esse era tavam pelo desdobramento da Revolução
o sentido do autogoverno, que passaria Francesa num marco de conquistas sociais
a ser um dos objetivos da luta pelo po- que levassem à superação do capitalismo,
der dos trabalhadores e, portanto, da lu- dando surgimento a movimentos anar-
ta da esquerda. quistas e comunistas.
Dessa primeira experiência de gover- A Alemanha foi o país que mais cres-
no dos trabalhadores - derrubada vio- ceu economicamente entre o final do sé-
lentamente pela ação conjunta dos exér- culo passado e o início deste, transfor-
citos francês e alemão, com massacre de mando-se socialmente de forma acelera-
milhares de pessoas - surgiu o primeiro da, com o surgimento de uma nova clas-
modelo de governo de esquerda na his- se operária poderosa na Europa. A novi-
tória do capitalismo. Suas medidas servi- dade para a esquerda é que o Partido
riam de referência inicial para o que seria Social-Democrata alemão, que represen-
o poder dos trabalhadores, como se trans- tava os trabalhadores, passou a participar
. formaria a sociedade sob a direção da das eleições, do Parlamento e da vida íns-
esquerda. titucional e legal do país. Isso era novo ..
DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO' 33
32 EMIR SADER

sem eleitos para governar dentro do Es-


Como desejavam introduzir uma nova so-
tado capitalista, como deveriam agir os
ciedade, romper com o capitalismo, as
formas de luta dos trabalhadores, até ali, partidos de esquerda, dado que esse Es-
eram apenas de caráter insurrecional, ile- tadO é constituído para o governo das mi-
gal, de derrubada violenta do Estado capi- norias sobre as maiorias, para a reprodu-
talista para se construir a nova sociedade. ção do capitalismo e não para sua supe-
Os socialistas alemães foram crescen- ração?
do muito a cada eleição, por receberem Engels, o companheiro de Marx, dizia
os votos dos setores majoritários da so- ser quase inevitável que, em algum mo-
ciedade - os trabalhadores. Dessa forma, mento, se desse um enfrentamento entre
tendiam a se tornar o partido majoritário os trabalhadores e a burguesia, mesmo
por meio das eleições. Além disso, muita com aqueles atuando dentro da legalida-
. coisa havia mudado para os trabalhado- de. A burguesia, vendo escapar de suas
res desde a Comuna de Paris, em 1871, mãos o controle do Estado, apelaria para
até o final do século. Preocupados com a violência, utilizando o exército, a polí-
as manifestações dos movimentos socia- cia e todos os instrumentos de coerção
listas e anarquistas, os governantes tinham para manter seus privilégios e o próprio
destruído boa parte das velhas ruas dos poder do Estado. Neste caso, dizia Engels,
centros das cidades, propícias para a cons- os trabalhadores protagonizariam o con-
piração e para as barricadas, substituindo- flito em melhores condições - com a le-
as por grandes avenidas macadamizadas, gitimidade de terem sido eleitos majori-
sem paralelepípedo~, favoráveis ao poli- tariamente, com experiência política su-
ciamento à distância e à circulação mais perior e já tendo podido começar a de-
veloz de grandes e pesadas tropas do monstrar como sua forma de governar di-
exército com seus canhões, de outra for- feriria qualitativamente da maneira bur-
ma alvos fáceis. Com isso, a luta insurre- guesa. Modificava-se assim a trajetória de
cional passava a ter novas dificuldades, acesso dos trabalhadores ao poder, mas
com a criação de condições tecnicamen- os objetivos continuavam os mesmos.
te superiores para a ação dos inimigos. Uma discussão começou a se expan-
A mudança de meios de luta - da in- dir entre os partidos de esquerda: refor-
surreição para a via institucional - não ma ou revolução? Transformação gradual
alterava, po entanto, um problema: se fos-
EMIR SADER DA SAL V AÇÃO À DANAÇÃO? 35

do capitalismo em socialismo ou ruptura caráter internacionalista dos trabalhado-


com o Estado capitalista para a constru- res, cuja pátria seria a humanidade, e se
ção da nova sociedade? A maior parte dos propunha a luta pela paz, pela confrater-
dirigentes socialistas alemães escolheu o nização dos trabalhadores dos vários paí-
caminho das transformações graduais e ses nas frentes de guerra e a virada dos
institucionais, enquanto o nascente mo- fuzis que portavam contra suas classes do-
vimento revolucionário russo optava pe- minantes, seguindo o lema: "O inimigo
la via insurrecional. Um novo tipo de di- está em casa".
visão, de debate, passava a ocupar o mo- . A Internacional Socialista - que subs-
vimento de esquerda, agrupando suas for- tituiu a Primeira Internacional, devido ao
ças em torno de duas posições diferen- aprofundamento das divergências entre
ciadas. anarquistas e comunistas, passando a ser
Foi no início da Primeira Guerra Mun- conhecida como Segunda Internacional
dial que essas diferenças se concretizaram - dividiu-se entre os que passaram a ser
numa divisão formal entre duas grandes chamados de social-democratas, que exis-
correntes dentro da esquerda. Decretada tem até hoje, especialmente na Europa
a guerra, colocava-se para os partidos dos com os partidos socialistas, e os comunis-
trabalhadores o problema de tomar posi- tas, que fundaram uma nova internacio-
ção diante dela: participar ao lado do Es- nal, denominada Internacional Comunista
tadoe classes dominantes ou lutar con- ou Terceira Internacional. Dividia-se, as-
tra a guerra. sim, o movimento Internacíonal dos tra-
A primeira atitude priorizava o concei- balhadores entre internacionalistas e na-
to de nação: apoiava a França contra a cionalistas, revolucionários e reformistas ,
Alemanha, a Inglaterra contra o Japão, a comunistas e social-democratas.
Itália contra os Estados Unidos. A segun-
da, considerava que a guerra era pela re-
partição do mundo entre as grandes po-
tências imperialistas, na qual os trabalha-
dores teriam o papel de bucha de canhão,
morrendo nas frentes de batalha para de-
fender os interesses das burguesias de
seus países; nesse caso, privilegiava-se o
As surpresas da toupeira

Marx havia prognosticado que a luta


de classes se tornaria mais aguda nos paí-
ses mais avançados dó capitalismo. Ao
maior desenvolvimento econômico cor-
responderiam classes sociais mais estrati-
ficadas, maiores conflitos entre elas e pos-
sibilidades superiores para a esquerda e
o socialismo. A Inglaterra, a França e a
Alemanha seriam então os países com me-
lhores perspectivas para a esquerda. Além
do nível superior da luta de classes, ali se
dariam as condições de desenvolvimen-
to econômico que tornariam possível pas-
sar da riqueza multiplicada, mas concen-
trada em poucas mãos pelo capitalismo,
a' uma sociedade em que todos viveriam
de seu trabalho, socializando a riqueza e
implantando a justiça social.
Mas as tentativas revolucionárias nos
países mais desenvolvidos do capitalismo
DA SAL V AÇÃO À DANAÇÃO? 39
38 EMIR SADER

revelavam dificuldades que Marx não sus- Nem Marx poderia supor onde seria
peitava no seu tempo. Vivendo em me- a primeira irrupção da velha toupeira. O
lhores condições do que os trabalhado- primeiro país onde os trabalhadores to-
res das outras regiões do mundo, até mes- maram o poder não foi nenhuma das po-
mo porque as burguesias de seus países tências capitalistas, nem estava no cora-
se enriqueciam brutalmente com a explo- ção da Europa desenvolvida; nem foram
ração das colônias e distribuíam uma pe- os Estados Unidos em rápido desenvol-
quena parte dessa riqueza a alguns estra- vimento. Foi a Rússia. País que combina-
tos dos trabalhadores, diminuindo assim va uma estrutura social agrária atrasada
os conflitos de classe, os trabalhadores da com um Estado com pretensões de com-
Inglaterra, da França e da Alemanha se partilhar do butim colonial, a Rússia se
mostraram menos propensos a romper transformou no que o marxista e princi-
com o capitalismo do que os dos países pal dirigente da Terceira Internacional,
periféricos desse sistema. Os partidos so- Lenin, chamou de "elo mais fraco da ca-
cial-democratas tinham mais força que os deia imperialista". Com isso ele estava
comunistas, ao contrário do que aconte- querendo dizer que o capitalismo se ha-
cia nos países da periferia capitalista, on- via transformado num sistema mundial,
de as condições de exploração eram mais que havia integrado à sua cadeia todas as
brutais, as perspectivas de luta legal para regiões do mundo, com os elos mais for-
a esquerda eram quase nulas e as possibi- tes - os países mais desenvolvidos e mais
lidades da luta insurrecional a via mais resistentes à ruptura do capitalismo - e
os mais fracos, onde a luta de classes ha-
possível.
via adquirido um caráter mais tenso.
Marx dizia que a revolução era como
A Rússia, na compreensão de Lenin,
uma' 'velha toupeira", que circula inces-
era um desses elos mais frágeis,
santemente por baixo da terra, sem que
justamen-
se perceba sua trajetória, até que, de re-
pente, irrompe bruscamente na superfí- te porque o Estado desenvolvia uma ex-
cie. Com isso queria dizer que, apesar de ploração mais radical de seu povo, para
períodos de calmaria, a luta de classes - tentar arrecadar recursos e se transformar
considerada por ele como o "motor da numa potência imperialista mundial. Po-
história" - não se detinha e surpreendia rém, isso se fazia calcado na população
a muitos, reiteradamente, pelos lugares e atrasada e pobre de um país que tinha
formas que assumia. apenas umas poucas regiões
industrializa-
40 E
M

das, cercadas por um imenso cordão de "Paz" significava a retirada russa do con-
zonas agrícolas pré-capitalistas. flito, no qual o povo não tinha nenhum
O Estado russo czarista era ditatorial interesse e os trabalhadores russos luta-
e já havia sofrido uma séria derrota mili- vam contra os trabalhadores de outros
tar contra o Japão, no começo do sécu- países. "Pão" era a forma de designar a
lo, na sua tentativa de avançar sobre a necessidade de saciar a fome da popula-
Mandchúria. Aliado às potências ociden- ção, que havia piorado ainda mais com a
tais dirigi das pela Inglaterra e França, o prioridade dada pelo Estado russo aos gas-
czar russo pretendia disputar o despojo tos bélicos. E "Terra" simbolizava uma
dos vencedores da guerra, repartindo os maneira de dar aos milhões de campone-
domínios dos vencidos, e por isso entrou ses o direito de produzirem os alimentos
na guerra contra o Japão e a Alemanha. para matar a fome do povo russo.
A participação da Rússia na guerra só A péssima performance do mal-arma-
piorou as condições sociais internas do do e famélico exército russo diante do po-
país e gerou uma situação favorável para deroso exército alemão agravou os pro-
a esquerda se lançar à conquista do po- blemas internos da Rússia e desarticulou
der. Significou o recrutamento para o a hierarquia do exército, criando as con-
exército de milhões de camponeses, até dições para que o regime czarista caísse,
ali dispersos, incultos, desinformados e em fevereiro de 1917, antes do final da
despolitizados, junto a operários em pro- guerra. Como o governo dirigido pelos
cesso de mobilização e organização polí- mencheviques não mencionava retirar a
tica, colocando-se armas nas suas mãos. Rússia da guerra e, tampouco, resolver os
A intensa propaganda do partido co- dois outros problemas do país - a fome
munista russo - chamado partido bol- e a terra -, isto fez com que o poder fi-
ehevique, por propor um programa de casse com os bolcheviques, em outubro
grandes transformações anticapitalistas, daquele ano.
ao contrário do partido social-democrata, Revelava-se assim que a resistência do
chamado de menchevique, favorável a poder das elites ao ataque dos trabalha-
transformações de menor alcance, dentro dores era menor nos países da periferia
do capitalismo - politizou os campone- capitalista do que nos do centro. Mas, em
ses, forjando a aliança com os operários, compensação, o atraso econômico, social
sob o lema "Paz, pão e terra". O termo e cultural tornava muito mais difícil a
IR
S
A
Dt
:K

DA 41
SALVAÇÃO À
DANAÇÃO?
42 EMIR SADER DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 4
3

construção da nova sociedade. O que fa- triunfaram, contra as de Trotski, as teses


zer, então? Para Lenin se tratava de incen- de Stalin afirmando a possibilidade de se-
tivar a revolução na Europa, nos países guir adiante na construção do socialismo,
mais avançados, especialmente na Alema- mesmo nas condições da Rússia atrasada,
nha. Com a revolução num daqueles paí- sem conexão com nenhuma Outra revo-
ses, a Rússia teria apoio. A Revolução Rus- lução em países avançados.
sa seria apenas a espoleta que detonaria Marx havia escrito que o socialismo su-
a revolução na Europa avançada, que, por punha o desenvolvimento econômico e
sua vez, resgataria a Rússia atrasada e tor- social do capitalismo, que seria superado
naria possível o socialismo pela integração pela socialização dos frutos da produção
internacional de todos os países no cami- e pela apropriação coletiva dos destinos da
nho da construção da nova sociedade. sociedade por todos os trabalhadores. Is-
A revolução na Europa adiantada não so significava redirecionar o desenvolvi-
aconteceu. Por duas vezes, no pós-guerra, mento econômico conforme uma planifi-
ela pareceu ser possível na Alemanha, jus- cação democraticamente estabelecida por
tamente o país perde dor da guerra, para toda a sociedade mas, ao mesmo tempo,
o qual se transferiam as maiores tensões significava também um maior grau de
sociais. Mas, com o apoio da social- liber-
democracia, as tentativas revolucionárias dades políticas e culturais para todos. Em
foram derrotadas após o assassinato da todos os planos o socialismo representaria
principal líder da esquerda alemã, Rosa uma superação do capitalismo na direção
Luxemburgo. Outras ofensivas da esquer- de uma sociedade sem classes e sem Esta-
da tampouco prosperaram na Itália, na do e, portanto, sem exploração e sem do-
Hungria, e assim a revolução ficou isola- minação.
da na Rússia atrasada. O que fazer, então? O máximo que a Rússia atrasada podia
Esta foi a grande discussão entre os re- fazer era redirecionar o seu desenvolvi-
volucionários, em todo o mundo; sabia- mento econômico por um tipo de plane-
se que na Rússia se decidiria o destino da jamento central que, mesmo assim, não
revolução e da esquerda, por ser o único podia ser democrático, porque a maioria
país em que os trabalhadores tinham che- da população era camponesa, não havia
gado ao poder. Depois de um acirrado de- participado diretamente na revolução e
bate, concluído já após a morte de Lenin, pretendia defender a pequena proprieda-
de que havia conquistado, não se identi-
DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 45
44 EMIR SADER

ficando com a socialização da produção havia os que criticavam a URSS pela es-
querda, isto é, considerando que os ca-
e seu planejamento.
minhos escolhidos pelo stalinismo, ao ter-
Como resultado da opção feita por Sta-
minar a democracia no partido e na so-
lin, foi privilegiado o desenvolvimento
ciedade, determinaram o surgimento de
econômico em detrimento da democra-
um regime que havia expropriado a bur-
cia política. A União das Repúblicas So-
guesia - o que devia ser feito -, mas que
cialistas Soviéticas (URSS), nome que pas-
havia colocado no poder, no lugar dos
sou a ter a federação constituída em tor- trabalhadores, uma triste burocracia.
no da Rússia, conseguiu dar um impres-
sionante salto econômico nas décadas de
1930 e 1940, mas isto foi feito mediante
uma socialização militarizada da proprie-
dade agrícola, com a morte maciça de
camponeses que a ela resistiam, com a im-
posição de um regime sem nenhuma li-
berdade interna no partido bolchevique
e com a constituição de um Estado dita-
torial.
Dissociaram-se assim democracia e de-
senvolvimento econômico na primeira
experiência de construção de uma socie-
dade anticapitalista. A esquerda mundial
dividiu-se entre os que apoiavam a URSS
_ especialmente os partidos comunistas
- e os que criticavam o caminho assu-
mido por aquele país sob a direção de Sta-
lin. Dentre estes, os social-democratas
consideravam que os trabalhadores não
deviam ter tomado o poder na Rússia atra-
sada, porquanto o país deveria passar ain-
da por uma etapa de desenvolvimento ca-
pitalista antes de chegar ao socialismo. E
A guerra que era fria

A Revolução Russa de 191 7 marcou


to-
do o século XX. Foi um ponto de refe-
rência obrigatório para a esquerda: para
os que a apoiavam, para os que a critica-
vam e para os que a atacavam frontalmen-
te. Mas ela foi também um marco para as
lutas políticas em escala internacional.
Porém, antes que ela pudesse se con-
solidar, a esquerda teve de enfrentar, nos
anos 30, uma ofensiva da extrema-direita.
Primeiro na Itália, onde uma tentativa re-
volucionária em Turim dirigi da pela es-
querda foi derrotada e a ela sucedeu o fas-
cismo de Mussolini, um regime com
apoio de massas, que disseminava o ter-
ror entre os trabalhadores e suas organi-
zações. Depois, foi a subida de Hitler ao
poder, na Alemanha, aproveitando-se das
divergências entre os partidos social-
democrata e comunista que dividiam a es-
DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 49
48 EMIR SADER

querda. Um novo regime de extrema-di- taram da ocupação nazista com a ajuda di-
reita ascendeu, reprimindo violentamen- reta ou indireta da URSS durante a guer-
te a esquerda, os movimentos populares ra, no leste europeu. Mediante um acor-
e tudo o que representasse obstáculo à do no final da guerra, foram definidas zo-
sua trajetória, com os conhecidos campos nas de influência entre as duas maiores
de concentração e de extermínio. Na Es- potências emergentes: os Estados Unidos
panha, depois de um governo de- esquer- e a União Soviética. Esta ficou com espa-
da eleito democraticamente, o franquis- ço livre para expandir sua influência no
mo ascendeu ao governo; em portugal, o leste europeu, contanto que reconheces-
salazarismo. Ambos regimes estreitamente se a hegemonia norte-americana na Euro-
aparentados e apoiados pelos governos pa ocidental. Com isso, a Tchecoslová-
nazista e fascista da Alemanha e da Itália. quia, a Bulgária, a Albânía, a Polônia, a
A esquerda viu-se na necessidade de Hungria, a Iugoslávia e, mais tarde, a Ale-
se colocar na defensiva. Em lugar de bus- manha Oriental, a China, a Coréia do Nor-
car políticas de luta pelo poder, os parti- te e o Vietnã do Norte se agregaram a es-
dos comunista e social-democrata passa- se campo.
ram a lutar por 'grandes frentes com ou- Os países do leste europeu constituí-
tras forças na defesa das liberdades demo- ram regimes sob o modelo soviético: pla-
cráticas e pela derrubada dos regimes de nejamento econômico centralizado, par-
extrema-direita. Essa conjuntura desem- tido único, sistema político fechado e for-
bocou na Segunda Guerra Mundial, que te presença da própria URSS. Na Ásia, a
marcou uma nova etapa no desenvolvi- China, a Coréia do Norte e o Vietnã do
mento da esquerda no mundo. Norte realizaram revoluções anticapítalis-
A URSS emergiu da Segunda Guerra tas, apoiadas em guerrilhas rurais, defen-
Mundial como uma potência econômica. dendo uma plataforma de revolução agrá-
Ela foi capaz de resistir à ofensiva da Ale- ria e lutando pela expulsão do inimigo
manha nazista, dobrou o poder de Hitler japonês .- no caso da China - e dos fran-
e se constituiu no fator decisivo para a ceses - no caso do Vietnã do Norte.
derrota do eixo nazi-fascista na guerra. Instalaram-se regimes espelhados no so-
Além disso, foi se organizando um gru- viético, sob a direção de partidos comu-
po de países que se denominariam" campo nistas, em países mais atrasados ainda do
socialista" , a partir daqueles que se líber- que tinha sido a Rússia em 1917.
DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 5
1

Com isso, criou-se uma bipolaridade para todos, instituiu a educação e a saú-
no mundo entre as esferas de influência de gratuitas para a população, generalizou
dos Estados Unidos e da União Soviética. o acesso à cultura e ao lazer. Cuba de-
As alternativas para os povos foram se es- monstrou assim que, para ter justiça so-
treitando, especialmente na periferia do cial, um país não necessita ser rico. Bas-
mundo, entre se subordinar ao domínio ta, em princípio, romper com o capitalis-
norte-americano, com todas as desigual- mo e seu sistema seletivo de só atender
dades, mercantilização e falta de sobera- aos que têm recursos financeiros, enquan-
nia nacional que isso significava, ou lutar to, por outro lado, restringe cada vez mais
por um tipo de ruptura com o capitalis- o número dos que podem dispor desses
mo que significasse retomar o modelo so- recursos.
viético _ desenvolvimento econômico e Mas, para poder desenvolver-se eco-
bem-estar social sem democracia política riô~ica e socialmente, Cuba teve que se
nem liberdades pessoais. apoiar no planejamento econômico inter-
No entanto, os países que em seguida nacional do campo socialista, organizado
fizeram revoluções anticapitalistas toma- e~ torno da União Soviética, sem o qual
ram esse caminho sem os partidos comu- nao poderia ter evoluído tanto quanto o
nistas. Esse foi o caso de Cuba. A 140 qui- fez ao longo de três décadas. Produzin-
lômetros do território dos Estados Uni- do açúcar, cítricos, níquel, fumo, para ex-
dos, a pequena ilha do Caribe, acostum~- portação, Cuba não teria conseguido no
da a produzir açúcar para o poderoso Vi- mercado capitalista os recursos para im-
zinho do Norte e dele comprar tudo o portar os produtos necessários a seu de-
que necessitava, servindo como lugar de senvolvimento, a começar pelo petróleo.
turismo, jogos em cassinos, consumo ~e No entanto, a ilha caribenha se trans-
drogas, prostituiçãO, de repente se afir- formou numa referência para a esquerda
mou como país socialista. do Brasil, da América Latina e do Tercei-
Sob a liderança de Fidel Castro e Che ro Mundo, por seus exemplares sistemas
Guevara, Cuba rompeu com a dominação de saúde e educação, pela soberania na-
norte-americana, realizou uma reforma ~ional adquirida, pela justiça social que
agrária que entregou terra aos campone- implantou. Mas, mesmo lá, não foi possí-
ses, uma reforma urbana que fez cessar a vel se construir um regime político de am-
especulação imobiliária e assegurou casa plas liberdades para todo o povo. Um re-
EMIR SADER
50
52 EMIR SADER

gime de partido único impediu a plurali-


dade política, a autonomia sindical, os
amplos debates teóricos e políticos. Isso
aconteceu basicamente porque, durante
as mais de três décadas e meia de sua exis-
tência, o regime revolucionário cubano se
viu bloqueado econômica e militarmen-
te pela maior parte dos países do mundo,
num embargo determinado pelos Estados
o assalto ao céu
Unidos, o que cerceou o livre desenvol-
vimento das opções feitas pelos cubanos.
Dada a proximidade geográfica dos EUA
e a abrangência das relações econômicas ~ Os anos 60 foram muito especiais no
desse país, o bloqueio tem múltiplos efei- s~culo XX. Ocorreram fenômenos bem
tos sobre Cuba e obriga seus habitantes dl~ersos, mas que de alguma forma con-
a viverem num regime assediado, e amea- fluíram para dar a esses anos característí-
çados em sua sobrevivência, o que, por c.as de uma década rebelde libertária an-
sua vez, cria obstáculos ao livre desenvol- tíautoritária. À revolução ~ubana '
to ~ ' que se
vimento da multiplicidade de opiniões rnou slm~olo de resistência ao domínio
existentes numa sociedade já tão evoluí- norte-amerrcano, somou-se a figura de
da quanto a cubana. Che Guevara, como guerrilheiro capaz de
Cuba se mantém como uma enorme l~tar em qualquer lugar do mundo pela
democracia social, mas uma ditadura po- l1b~rt~çã~ dos povos, ao preço de sua
lítica (ditadura da maioria contra a mino- propna v ida. A isso se somou igualmente
ria), na defesa de seu sagrado direito a so- a ~hamada "revolução cultural" chinesa,
breviver dentro de suas alternativas. Mas q e se anunciava como uma radical de-
isso reproduz, de outra maneira, o esque- mocratização cultural e política da socíe-
ma de desenvolvimento econômico e so- da~e chinesa, num processo de caráter
cial sem democracia política. antíburocrátíco e renovador
11
.as:01,.
namua a ocup -
.
sobretudo, a resistência viet-
'1'
açao míutar norte-america-
na que contagiou as novas gerações de to-
DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 55
54 EMIR SADER

cantores como Bob Dylan, joan Baez, ou


do o mundo, pois demonstrava como os da grande manifestação de Woodstock.
mais fracos podem derrotar até mesmo a No mundo inteiro, intelectuais como
maior potência militar, se são portadores
jean-Paul Sartre, músicos como os Beatles
de valores morais. As Imagens de Che
e, no Brasil, Chico Buarque, Caetano Ve-
Guevara ou dos guerrilheiros vietnamitas
loso, Gilberto Gil, Nara Leão, Vinicius de
aproximavam as juventudes da Europa,
Morais, entre tantos outros, apareciam do
dos EUA, do Brasil e de toda a América
lado dos rebeldes, contra os conservado-
Latina, do Japão, da China, na solidarie-
dade com os vietnamitas e na luta contra res. O modelo dos EUA para o Terceiro
o imperialismo norte-americano. Mundo se reduzia às ditaduras militares
Essas lutas políticas tiveram uma gran- do Brasil, da Argentina, da Bolívia, da Ni-
de diversidade e se misturaram a lutas carágua, da República Dominicana, do
contra qualquer forma de opressão. Nos Vietnã do Sul. O socialismo voltava a ser
Estados Unidos assumiram a forma dos pregado por novas gerações na Europa
combates dos negros pela igualdade racial avançada. O mundo parecia à beira de
e dos pacifistas contra a guerra do Viet- uma virada para a esquerda.
não As organizações negras aglutinaram O "maio de 1968" naFrança sinteti-
grande parte dos jovens negros sob o le- zou toda a década. Com as imagens de
ma do "Black power", da valorização da Che Guevara, do líder da Revolução Chi-
cultura negra, da luta contra a discrimi- nesa, Mao Tsé-tung, de Ho Chi Minh, que
nação racial, enquanto os jovens de todas encabeçou a revolução vietnamita, os jo-
. as raças se opunham a servir no Vietnã, vens franceses se rebelaram em uma no-
batalhavam pela deserção e pela retirada va versão das barricadas, inicialmente
das tropas norte-americanas daquele país. contra o autoritarismo do sistema educa-
Nunca a história dos Estados Unidos apre- cional do país, depois contra o autorita-
sentou tantas mobilizações de massa rismo do sistema político e da ideologia
quanto naquela década, apoiadas no es- francesa; finalmente, contagiaram os ope-
pírito rebelde dos jovens, dos estudantes rários, que iniciaram uma greve geral. Tu-
que transformaram os campi universitá- do isso sem o apoio e com a oposição do
rios em territórios livres de pensamento Partido Comunista, que pregava sempre
e de ação. A cultura musical norte-ameri- métodos legais e institucionais de luta.
cana se integrou a essas lutas através de
56 EMIR SADER

Os lemas "é proibido proibir" e "seja


realista: peça o impossível" demonstra-
ram a retomada da utopia como dimen-
são da transformação radical da socieda-
de capitalista numa sociedade libertária,
solidária ,humanista. A generalização .da .
utilização das pílulas anticoncepclO na1s
em todo o mundo criava a base de apoio A descida aos infernos
para libertar as relações amorosas das
pressões religiosas e das famílias conser-
vadoras, possibilitando o flores cimento
da autonomia e da liberdade individual A morte de Che Guevara na Bolívia, a
entre os jovens. derrota das barricadas jovens em Paris,
a extensão das ditaduras no cone sul da
América Latina prenunciaram que duros
tempos viriam para a esquerda. Estes fo-
ram se insinuando aos poucos. Os viet-
namitas triunfaram sobre os Estados Uni-
dos, mas ficaram sozinhos para construir
sua nova sociedade na pobreza e no aban-
dono. A URSS e a China levaram suas di-
vergências até a ruptura entre as duas
maiores potências socialistas do mundo,
a ponto de a China se aproximar dos EUA
contra a URSS. Uma tentativa de demo-
cratizar o socialismo na Tchecoslováquia,
em 1968, foi respondida com a invasão
do país por tropas soviéticas. O governo
socialista de Salvador Allende, no Chile,
foi derrubado por um golpe militar or-
questrado pela direita local em aliança
com o governo dos EUA.
DA SALVAÇÃO À DANAÇÃO? 59
58 EMIR SADER

Os valores da solidariedade, da liber- marcou para a esquerda o fim de uma


dade, da justiça social foram sendo gra- época. Já não se podia afirmar que um ter-
dualmente substituídos, na sociedade, pe- ço da humanidade vivia sob o socialismo
los do individualismo, do egoísmo, da as- ,
censão individual, gerando as condições
que a história caminhava em direção ao
para o aparecimento do neoliberalismo,
socialismo, que a história não retrocedia
ideologia que consagra o mercado como
nesse caminho. O restabelecimento do
definido r do destino dos homens. O neo-
capitalismo nesses países se fez pela via
liberalismo teve nos governos Reagan e
de sua versão mais cruel- um tipo mais
Bush, nos EUA, e Margaret Thatcher, na
extremado ainda do' neoliberalismo, co-
Inglaterra, seus melhores representantes
mo reação ao rígido estatismo que se
no hemisfério norte, mas a ideologia neo-
esboroava.
liberal se propagou por todo o mundo.
A esquerda perdia uma referência na
A própria social-democracia, objeto pri-
URSS e nos países do leste europeu, mas
vilegiado e crítico do neoliberalismo, por
também se desfazia de um modelo que
seus vínculos originais com o Estado de
cindiu desenvolvimento econômico-so-
bem-estar social, foi aderindo a essa ideo-
cial de democracia política e liberdade
logia, primeiro na França e na Espanha, pessoal. Reabria-se um longo caminho de
para depois se estender aos social-demo- reconstrução para a esquerda, depois de
cratas da América Latina, no México, na 1917, como um desafio aberto para os
Bolívia, na Argentina, na Venezuela. que desejam construir uma sociedade de
As derrotas políticas do final dos anos liberdade, justiça e solidariedade.
60 e meados dos 70 só se consolidaram
quando novos valores vieram à tona, for-
talecendo as convicções conservadoras.
A esquerda refluiu, como não poderia dei-
xar de ser, num mundo onde prolifera-
vam os piores valores gerados e reprodu-
zidos pelo capitalismo.
No final da década de 1980, o desapa-
recimento dos países socialistas do leste
europeu e, finalmente, da própria URSS,

SER
DE ESQUERDA
NO BRASIL

o Brasil nunca teve muita tradição de
esquerda. A lista dos políticos mais des-
tacados na história brasileira deste sécu-
lo até recentemente não incluía quase ne-
nhum que pudesse ser caracterizado co-
mo de esquerda. Os presidentes Getúlio
Vargas e Juscelino Kubitschek tiveram
apoio de forças de esquerda - especial-
mente do Partido Comunista -,mas não
foram de esquerda. Outros líderes popu-
listas como ]ânio Quadros e Adhernar de
Barros tinham liderança e popularidade,
mas representavam posições conservado-
ras na política.
A exceção, até recentemente, era re-
presentada por Luís Carlos Prestes, prin-
cipal dirigente do PCB desde os anos 30
até 1980, quando deixou esse partido. A
importância de Prestes veio do fato de ele
ter sido um dos tenentes que, nos anos

••

SER DE ESQUERDA NO BRASIL 65
64 EM IR SADER
e início dos 70. A terceira foi a uela -
20, expressou a rebelião social brasileira
rada .na resistência
. à ditadura n qos anos ge
70
contra a república oligárquica que termi-
e pnmeira metade dos 80
nou caindo em 1930. Como um dos líde- daí se consolid e que a partir
res daquele movimento, Prestes chefiou lid d ou, representando a atua-
l a e da esquerda brasileira.
uma coluna guerrilheira que circulou pe-
lo interior do Brasil fazendo propaganda
dos ideais do movimento dos tenentes.
posteriormente, em meados da década de
30, esteve à frente de uma tentativa de re-
belião, já como dirigente do Partido Co-
munista, contra o regime de Vargas, que
foi rapidamente derrotada. Continuou
sendo o principal dirigente do PCB e nes-
sa qualidade teve papel importante na po-
lítica brasileira, especialmente entre 1945
e 1964.
A figura de Prestes esteve sempre as-
sociada à imagem do revolucionário dos
anoS 20 e 30 e, depois, à de secretário-
geral do Partido Comunista, força de es-
querda mais importante do país até o gol-
pe de 1964. Embora sem larga tradição,
a esquerda já produziu no Brasil três ge-
rações diferentes de movimentos de es-
querda. Os comunistas, os anarquistas e
os socialistas das primeiras décadas do sé-
culo representam a primeira geração, mui-
to vinculada à tradição da esquerda euro-
péia.
A segunda geração é a dos movimen-
tos ligados à luta armada no Brasil, que
se desenvolveram ao longo dos anos 60
A primeira geração:
ser comunista no Brasil

A direita, com sua propaganda impres-


sionista, sempre tratou de associar esquer-
da com comunismo e comunismo com
ditadura e totalitarismo. Na realidade, a
força central do campo da esquerda no
país durante quase meio século foi forma-
da pelo Partido Comunista e por suas po-
líticas. Apesar dessa importância compa-
rativa, o Partido Comunista e a esquerda
em geral não tiveram no Brasil o peso das
esquerdas de outros países docontínen-
te, como o Chile, o Uruguai e a Argentina.
A economia brasileira, até meados des-
te século, teve no café seu principal pro-
duto. Assim, grande parte dos trabalhado-
res estava situada no campo, dispersa em
inúmeras fazendas, com baixo nível de es-
colaridade e consciência, e dificuldades
de organização. É diferente a situação de
um país como o Chile, também primário-
--

SER DE ESQUERDA NO BRASIL 6


6 EM IR SADER
9
8
exportador como o Brasil, mas que vivia Naquela situação, ser de esquerda era,
da exportação de produtos minerais (sa- antes de tudo, lutar por condições sociais
litre, cobre), gerando assim, desde a se- minimamente justas para os trabalhado-
I
gunda metade do século passado, uma res, por democracia política e, portanto,
classe operária. Já a Argentina era um país se opor frontalmente ao Estado domina-
com desenvolvimento industrial antes do do pelas oligarquias rurais ligadas à pro-
final do século XIX, possuindo então uma dução de café. Lutava-se pelo reconheci-
mento do direito de lutar, por espaços de
classe operária industrial várias décadas
ação e de organização para os trabalhado-
antes do surgimento da brasileira.
I
res. Os sindicatos clandestinos, os parti-
Quando se constituíram os primeiros
dos socialista e comunista e os grupos
partidos de esquerda no Brasil, no final
anarquistas eram as principais expressões
da década de 1910 e começo da de 1920,
da esquerda na nossa Belle Époque.
os trabalhadores industriais ainda eram
Outros setores da sociedade reivindi-
minoritários e se concentravam em zonas cavam o fim do regime oligárquico, que
determinadas do país - região centro-sul, restringia enormemente a participação
em particular. Os militantes políticos política dos cidadãos brasileiros, o térmi-
eram, em parte significativa, imigrantes no da política econômica de privilégio ab-
italianos, espanhóis, portugueses. Entre
d soluto da exportação de café e o desen-
1880 e 1902 entraram no Brasil mais de volvimento da industrialização, do mer-
111 2 milhões de imigrantes provenientes da cado interno, da urbanização, da educa-
I1 Europa; cerca de 90 % dos trabalhadores ção e dos sistemas sociais do Estado, em
industriais de São Paulo eram imigrantes. geral. Na década de 20 surgiram movi-
Haviam trazido do velho mundo as ideo- mentos, como o dos tenentes e manífes-
Ill' logias da esquerda finisseculares - o
,.
tações intelectuais, estudantis e de outros
anarquismo, o socialismo e o comunismo. setores, visando a substituição de um Es-
II
L

Atuavam em condições muito difíceis, tado que representava as oligarquias por


porque os sindicatos não eram reconhe- uma representação mais ampla da socie-
cidos legalmente, os direitos sociais pra- dade brasileira, já agora em claro proces-
ticamente não existiam e, como diria o so de urbanização.
presidente Washington Luís, a "questão Em 1922 foi organizada a Semana de
social é caso de polícia". Arte Moderna, como forma de introduzir
SER DE ESQUERDA NO BRASIL 71
70 EMIR SADER

no país as correntes modernistas nas vá- tos básicos de cidadania. Embora não fos-
rias atividades artísticas, surgindo uma no- se dirigido pelos trabalhadores - e até tra-
va geração de escritores, pintores, escul- balhasse para que estes ficassem subordi-
tores, que marcariam por todo o século nados a suas políticas, como se verá mais
as artes no Brasil. Nesse mesmo ano foi adiante -, o movimento, que significava
fundado o Partido Comunista do Brasil e incorporar à cidadania camadas importan-
também se deu o episódio de rebelião mi- tes da sociedade, como os operários urba-
litar conhecido como "Os 18 do Forte", nos e as classes médias, e que modificava
acontecido no Forte de Copacabana, no substantivamente as políticas econômica
Rio de Janeiro. e social do Estado, trazia ganhos reais pa-
O triunfo do movimento dirigido por ra os trabalhadores e para a própria es-
Getúlio Vargas e que levou ao governo querda.
I'! boa parte daqueles que haviam partici- O problema se apresentou porque Ge-
pado das mobilizações da década de 20, túlio Vargas - assim como, mais tarde, Pe-
entre eles a maioria dos tenentes, na cha- rón, na Argentina - copiou esquemas im-
mada Revolução de 30, colocou um gran- portados do fascismo italiano para seu go-
de dilema para a esquerda. Por um lado, verno. Quais eram eles e como era possí-
era apenas uma mudança' de governo. vel que um governo' 'progressista" tives-
Caíam os governantes ligados à chamada se vínculos com um regime radical de di-
Primeira República e uma equipe que pro- reita como o de Mussolini, na Itália?
I1
clamava, explicitamente, "Façamos a re- O fascismo atuava fortemente contra as
volução, antes que o povo a faça", isto instituições democráticas, especialmente
é, caracterizava o movimento como mais as organizações dos trabalhadores e as da
um pacto de elite na história brasileira, esquerda; assumia uma espécie de "antica-
que bloqueava a irrupção direta do povo pitalismo" e antiliberalismo, como tenta-
através de suas representações políticas e tiva de captar as simpatias de setores popu-
o substituía. lares, mas agia em função dos interesses do
Por outro lado, a nova equipe no go- capital financeiro, amparado numa ideolo-
verno representava o fim de um período gia nacionalista que não se opunha à domi-
, nação externa, mas servia, como serve, pa-
de domínio do Estado brasileiro pela oli-
garquia do café e 'de exclusão política da ra afirmar a supremacia de uma nação so-
maioria do povo brasileiro de seus direi- bre a outra. Por isso, essa ideologia é cha-
72 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 7
3

mada de chauvinista, isto é, uma forma lismo político, a Primeira República sig-
xenófoba de privilegiar o seu país em de- nificou o fim da monarquia e o começo
trimento d0S outros, baseada numa su- da república no Brasil, mas os direitos de
posta superioridade racial, cultural e cidadania estavam restritos às elites oligár-
social. quicas, que definiam os governos e suas
No Terceiro Mundo e, em particular na políticas, com a exclusão da maioria es-
América Latina, o antiliberalismo e o es- magadora da população brasileira. Havia
tatismo que daí decorrem tiveram uma uma democracia formal, vazia, que pres-
significação diferente. Na Europa, o libe- cindia da participação efetiva dos homens
ralismo foi a ideologia da burguesia indus- e mulheres, sem direitos de cidadania.
trial ascendente e da democracia política O movimento getulista promoveu a in-
que ela promovia. Ser antiliberal era, por- dustrialização, e teve de impor uma pro-
tanto, se opor à democracia, contrapon- teção ao mercado interno, para defendê-
do a ela o estatismo que, se nos primór- 10 da concorrência de países com econo-
dios do capitalismo significava o Estado mias industriais muito mais desenvolvi-
absolutista, depois passou a estar perso- das, como os do Primeiro Mundo. Essa in-
nificado nos regimes totalitários - o fas- tervenção na economia não se limitava a
cismo, o nazismo. isso, mas promovia políticas sociais, au-
Na América Latina, o liberalismo foi mentava as dimensões do Estado, opon-
apropriado pelas oligarquias tradicionais, do-se concretamente aos princípios do li-
centradas na exportação de produtos pri- beralismo econômico e, mais especifica-
mários e na importação de mercadorias mente, à forma que ele havia assumido no
industriais das metrópoles. Elas se opu- Brasil, no corpo da oligarquia exporta-
nham a qualquer restrição ao comércio, dora.
à ação protetora do Estado em relação ao Mas Getúlio Vargas não foi antiliberal
mercado externo e, nesse sentido, reivin- apenas nesse aspecto. Ele criou uma le-
dicaram o aspecto econômico do libera- gislação trabalhista, importada da Itália
lismo, o laissez-faire, a não ingerência es- fascista, segundo a qual os sindicatos de-
tatal na economia. Para essa oligarquia tra- pendiam estreitamente do Estado: rece-
dicional, interessava manter intocado p biam recursos extraídos da folha de pa-
comércio de exportação e importação e gamentos dos trabalhadores, que não iam
por isso ela era liberal. Quanto ao libera- diretamente aos sindicatos, mas passavam
74 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 75

primeiro pelo Ministério do Trabalho. Es- cional já constituído, a burguesia industrial


te, por sua vez, tinha o direito de inter- se associou ao estatismo e ao antiliberalis-
venção e não reconhecimento legal dos mo de Getúlio, opondo-se ao que repre-
sindicatos, se estes não obedecessem a sentava a oligarquia exportadora. O libe-
uma legislação que, entre outras coisas, ralismo teve assim uma conotação diferen-
proibia a organização de centrais sindi- te do da Europa; aqui, ser antiliberal, se,
cais, assim como acordos entre sindica- por um lado, representava ser ditatorial,
tos de diferentes categorias. implicava, por outro, ser a favor da indus-
Em suma, o populismo de Getúlio re- trialização e, ao lado dela, do reconheci-
conhecia o direito de associação sindical mento dos direitos sociais dos trabalhado-
dos trabalhadores, mas lhes bloqueava res, ainda que de maneira limitada.
qualquer representação política. Ele, Ge- Desde sua fundação, o Partido Comu-
túlio, queria aparecer como o represen- nista lutava para que, no Brasil, se desse
tante político dos trabalhadores e da na- uma revolução como a que havia aconte-
- ção brasileira. Proibiu assim, a partir de cido na Rússia, em 1917: uma aliança
um golpe de Estado em 1937, a existên- operário-camponesa que, armada a partir
cia de partidos políticos. da guerra, chegou ao poder para tentar es-
Seu estatismo e antiliberalismo se re- tender sua influência até a Europa ociden-
velavam assim ditatoriais. Se no plano tal, a fim de provocar uma revolução em
econômico sua política permitia um de- algum dos países industrializados e, assim,
senvolvimento industrial, que por sua vez possibilitar a integração da Rússia revolu-
li! multiplicava os trabalhadores e fomenta- cionária num esquema de economia socia-
va o progresso material, por outro lado lizada centralizado em algum daqueles
impunha uma ditadura férrea contra to- países.
dos os tipos de oposição - dos liberais da O Partido Comunista lutava, portanto,
direita tradicional e da esquerda, princi- por uma tomada do poder mediante uma
palmente representada pelos comunistas. ação violenta por parte dos trabalhadores
Essa ambigüidade caracterizou o mo- e dessa maneira se aproximou dos tenen-
vimento getulista. Como no Terceiro tes, que, embora na sua visão representas-
Mundo a industrialização necessita da pro- sem uma expressão da pequena burgue-
teção do Estado para se desenvolver, por- sia - setor social do qual provinham ma-
que chegou tarde num mercado interna- joritariamente -, poderiam aderir aos

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-

76 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 77

ideais dos trabalhadores e chegar a lutar nos quartéis, onde sobreviviam quadros
pela derrubada do capitalismo no Brasil. sob influência de Prestes. a apelo à luta
Foi assim que os comunistas se aproxima- armada se justificava não somente porque
ram de Luís Carlos Prestes, a partir da no- se pretendia introduzir transformações
tável experiência de sua expedição pelo tão radicais no país que era necessário
interior do país, para tentar convencê-Io derrubar todo o arcabouço institucional
a ingressar no Partido Comunista. existente, mas também porque Getúlio
Prestes acalentava uma crítica radical Vargas já demonstrara claros sinais dita-
contra o movimento liderado por Getú- toriais, fechando os caminhos para sua
lio Vargas, considerado por ele como uma substituição por via eleitoral.
traição aos ideais dos tenentes dos anos a movimento foi descoberto ainda an-
20, e encontrou no marxismo proposto tes de ser deflagrado, sendo violentamen-
pelo PCB um marco mais geral para inse- te reprimido. a episódio ficou conheci-
rir sua visão política. Uma viagem à URSS do como "a Intentona de 35", segundo
consolidou no jovem revolucionário suas versão difundida pelo Exército brasileiro,
concepções socialistas e ele retornou de e serve até hoje às campanhas anti-
Moscou para dirigir um plano revolucio- comunistas como suposto exemplo de
nário de tentativa de tomada do poder no traição à pátria por parte da esquerda, que
Brasil, em 1935. levaria o Brasil à subordinação da União
Aderindo ao PCB e ao modelo socia- Soviética.
lista da URSS, Prestes trazia para o Brasil Prestes e grande parte dos sobreviven-
aquelas concepções, que seriam domi- tes - entre eles o jovem Marighella - fo-
nantes na esquerda até 1964. Naquele mo- ram presos e torturados. A companheira
mento, os comunistas lutavam por um re- de Prestes, alga Benário, alemã que o ha-
gime de "libertação nacional", que signi- via acompanhado desde a URSS, foi en-
ficasse a ruptura da dependência do Bra- viada aos campos de concentração da Ale-
\,
sil em relação à dominação norte-ameri- manha hitlerista. Comunista e judia, grá-
li' vida, alga Benário seria assassinada pelos
cana, a realização de uma transformação
radical da estrutura rural e a democrati- nazistas, com a complacência da ditadu-
zação do país sobre um poder dirigido ra de Getúlio Vargas.
por operários e camponeses. Para isso or- A URSS, apesar da repressão interna
ganizaram uma sublevação que se iniciaria desenvolvida por Stalin, teve de novo sua
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I

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EM IR
SER DE ESQUERDA NO BRASIL 79
78
SADER
I
imagem fortalecida no exterior, pela re- No Brasil, apesar das simpatias de Ge-
sistência que opôs às forças hitleristas. No túlio pelo eixo Alemanha-Itália na Segun-
Brasil, ainda que enfraquecidos pela re- da Guerra, as posições nacionalistas e de
I pressão, os comunistas resistiram na pri- defesa dos interesses dos trabalhadores
são na segunda metade dos anos 30 e co- conquistaram os comunistas. Eles prefe-
meço dos 40, até que, como resultado da riram deixar de lado as questões demo-
cráticas - abertamente violadas por Ge-
virada de orientação da Internacional Co-
túlio - e privilegiar os problemas sociais
munista, o PCB se reconciliaria com Ge-
e de soberania nacional. Isso representa-
túlio Vargas, que havia sido responsável
va uma aplicação ao Brasil dos mesmos
pela prisão, morte e tortura de tantos den-
critérios de prioridade da URSS com Sta-
IJ tre eles. lin: conceder maior importância ao de-
Para a Internacional Comunista -
com o Partido Comunista da URSS à ca-
I senvolvimento econômico e às conquis-
tas sociais do que à democracia.
beça -, nos anos 30 tinham despontado, Os liberais, no Brasil, que eram con-
como forças ameaçadoras em escala mun- servadores e haviam mandado na Primei-
dial, o nazismo e o fascismo, regimes de ra República, se apropriaram assim, du-
extrema-direita. O fascismo na Itália, o na- 1 rante muito tempo, do tema da democra-
zismo na Alemanha, o franquismo na Es- cia, deixado de lado por Getúlio e, com
panha, o salazarismo em Portugal eram as ,ele, pelos comunistas. Assim, durante
principais expressões de um movimento muitas décadas a oposição na política bra-
li' que se fortalecia no mundo e cuja conse- sileira se fazia entre os que reivindicavam
1
qüência direta foi a Segunda Guerra a defesa da liberdade e da democracia -
Mundial. a direita - e os que privilegiavam as con-
Assim, os partidos comunistas decidi- quistas sociais e a defesa da nação brasi-
ram que o mais importante deixava de leira - a esquerda, personificada nos co-
ser, pelo menos durante um tempo, a lu- munistas.
ta pela tomada do poder, para se tornar Reproduzia-se entre nós a mesma se-
!I!
a luta defensiva contra o avanço da paração introduzida pela URSS com Sta-
I
extrema-direita. Essa resistência devia ser lin. Em lugar de defender simultaneamen-
I

feita em aliança com todas as forças que te a liberdade, o bem-estar, a democracia


não fossem nazistas ou fascistas. e os interesses econômico-sociais dos tra-
T

SER DE ESQUERDA NO BRASIL 8


8 EMIR SADER
0

balhadores, a esquerda dos anos 30,40,50 mocráticos, antifeudais e antiimperialistas.


e começo dos anos 60, se alinhou com o Os trabalhadores deveriam se aliar à fra-
populismo de Getúlio Vargas, subestiman- ção industrial da burguesia e apoiá-Ia nes-
do a questão democrática e privilegiando sa luta. Assim, a esquerda subordinou sua
ação à direção da burguesia - conside-
unilateralmente as reivindicações materiais I
rada nacional - contra os interesses es-
do povo. O liberalismo estava separado da
trangeiros e feudais.
justiça social, apropriado pela oligarquia
Segundo essa concepção, a burguesia
exportadora. E a justiça social estatal esta-
industrial estaria bloqueada em seu desen-
va separada da democracia, porque privi-
volvimento por uma estrutura rural que
legiava métodos autoritários de realização produzia poucos produtos e caros, ele-
das conquistas econômico-sociais. vando os salários, sem se constituir toda-
Durante algumas décadas - dos anos via em mercado que absorvesse a produ-
30 à primeira metade dos 60 - ser de es- ção industrial. A reforma agrária alteraria
querda se identificou, em grande medida, substancialmente esse quadro, aceleran-
com ser comunista ou apoiar o Partido do o ritmo da industrialização, ao mesmo
Comunista. A análise prevalecente neste tempo que estenderia as relações capita-
partido afirmava que os problemas do listas no campo.
Brasil residiam nos obstáculos ao seu ple- Por outro lado, o desenvolvimento na-
no desenvolvimento capitalista. Esses cional estaria bloqueado pela dependên-
obstáculos estariam identificados na estru- cia externa, mediante a ação do imperia-
tura feudal do campo e na dominação ex- lismo norte-americano, em primeiro lu-
terna. Assim, o latifúndio e o imperialis- gar. Essa ação se daria na direção da ma-
mo resumiriam os inimigos do povo bra- nutenção da estrutura primário-exporta-
sileiro, de sua democracia, da justiça so- dora do país, em consonância com o lati-
cial e do socialismo. Tratava-se de fazer fúndio e com os setores comerciais cen-
no país uma revolução democrático- trados na exportação e na importação.
burguesa, que desbloqueasse o caminho A industrialização introduziria o país
para o desenvolvimento capitalista. As no caminho da soberania política, da au-
forças que comandariam esse processo te- tonomia econômica e do bem-estar social.
riam na sua liderança a burguesia indus- Seriam solidários a industrialização, a ur- I

trial, a quem se imputavam interesses de- banização, o desenvolvimento tecnológi-


1
EMIR SADER

co, O bem-estar social e a democracia. A Essa virada foi o correspondente bra-


miséria estava basicamente localizada nas sileiro da mudança de linha da Internacio-
8
fronteiras do capitalismo e da urbaniza-
2 nal Comunista - que congregava todos
ção, isto é, no Nordeste. O progresso eco- os partidos comunistas -, da luta pelo
nômico resgataria as populações margina- poder para os trabalhadores para a de
lizadas mediante a reforma agrária e a in- aliança com todos os setores considera-
dustrialização - em outras palavras, o de- dos democráticos na resistência ao fascis-
senvolvimento capitalista. A industrializa- mo e ao nazismo. No Brasil, paradoxal-
ção que substituiria paulatinamente as im- mente, os setores considerados naciona-
portações feitas pelo país encaminharia listas eram, ao mesmo tempo, os mais
paralelamente o processo de democrati- antidemocráticos, pelas razões que apon-
zação social, ao criar possibilidades de in- tamos anteriormente.
tegração e ascensão social, ao mesmo Foi assim que os comunistas se soma-
tempo que ampliaria o bem-estar da po- ram ao nacionalismo, da forma que ele ha-
pulação e promoveria a democratização via surgido no Brasil- desligado das rei-
política. vindicações democráticas. Dessa forma,
Foi por essas razões que o Partido Co- quando se geraram as condições para a
munista, que havia organizado a rebelião derrubada da ditadura de Getúlio, com a
de 1935 contra Getúlio Vargas e tinha si- vitória das forças democráticas na Segun-
do a principal vítima da repressão a esse da Guerra, para o que as próprias forças
movimento, como resultado da instaura- militares brasileiras haviam contribuído,
ção do Estado Novo - uma ditadura com o Partido Comunista se opôs à substitui-
traços fascistas - em 1937, foi mudando ção do ditador. Apoiava a convocação de
paralelamente de posição, até apoiar Ge- uma Assembléia Constituinte, para formu-
túlio. O próprio Luís Carlos Prestes levou lar uma Constituição democrática para o
o Partido Comunista a se aproximar de Brasil, substituindo a legislação ditatorial
Getúlio, alegando que este representava de Getúlio, mas pregava que isso deveria
a resistência nacionalista contra o domí- ser feito com a continuidade do líder tra-
nio dos Estados Unidos e, ao mesmo tem- balhista.
po, a perspectiva de industrialização do Essa tese foi derrotada e abriu-se o pro-
país e de liquidação da estrutura feudal no cesso de redemocratização do país com
campo. a queda de Getúlio e a convocação de
SER DE ESQUERDA NO BRASIL

83
84 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 85

eleições para a Assembléia Constituinte e de várias tendências, da direita olígárqui-


também para a presidência da República ca, ligada à produção e exportação do ca-
e outros cargos estaduais e federais. Nes- fé, desalojada do poder em 1930, até uma
se processo, pela primeira vez, o Partido "esquerda democrática", que incluía so-
Comunista conquistou sua legalidade e cialistas anti-stalinistas.
participou diretamente do processo elei- Estes finalmente abandonaram a UDN,
toral. quando as divergências ficaram claras, e
Como todos os momentos de transfor- fundaram o Partido Socialista Brasileiro,
mação histórica no Brasil, da Independên- agrupamento que nunca chegou a ter
cia à libertação dos escravos, da Procla- maior força, mas que serviu para abrigar
mação da República à Revolução de 30, as forças de esquerda divergentes da
a implantação da democracia em 1945 orientação do Partido Comunista. O PSB
também foi feita mediante um pacto de chegou a lançar candidato à presidência
elite, sem ampla participação popular, da República e a eleger uma bancada par-
mantendo elementos de continuidade lamentar, somando-se assim à esquerda,
com o período anterior. Basta dizer que dominada pelo PCB.
o presidente eleito, o general Eurico Gas- Os comunistas, por sua vez, emergi-
par Dutra, tinha sido o ministro da Guer- ram com uma força insuspeitada. Realiza-
ra de Getúlio até o momento da queda ram comícios de mais de cem mil pessoas
deste, sendo apoiado pelo ditador nas em São Paulo e no Rio de Janeiro, agru-
eleições presidenciais . pando principalmente trabalhadores, in-
. A democratização assumiu um tom li- telectuais e estudantes. Luís Carlos Pres-
beral ,de revanche contra o antiliberalis- tes foi eleito senador e mais doze depu-
mo de Getúlio, inclusive por parte das tados federais, entre eles Carlos Marighella
forças da direita, postergadas pela Revo- e Jorge Amado, foram levados à Câmara
lução de 30. Misturavam-se no movimen- dos Deputados, para um total de 389 de-
to democrático forças antiditatorias de es- putados. O PCB lançou um candidato à
querda e liberais de direita. O melhor presidência da República e conseguiu um
exemplo foi o surgimento do Partido So- total de 4,9% dos votos em escala nacio-
cialista Brasileiro, PSB, oriundo da esquer- nal, votação expressiva se considerarmos
da da União Democrática Nacional, a que, desde 1922, ano de sua fundação, o
UDN. Este partido abrigava antigetulistas partido havia estado na ilegalidade, ten-
8 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 8
6 7

do sido fortemente reprimido desde ram caracterizados como representantes


1935. O PCB participou assim do proces- dos interesses da URSS e, como tais, ca-
so de elaboração da Constituição e, pos- beças-de-ponte das tentativas soviéticas
teriormente, dos trabalhos legislativos no de penetrar no continente. O governo
Brasil durante cerca de dois anos. norte-americano impôs a todos os países
Até que chegou ao Brasil a mudança da América Latina que confinassem à ile-
nas relações de força internacionais co- galidade todos os partidos comunistas,
nhecida como "guerra fria". Depois de sob a acusação de que se utilizariam dos
derrotado o eixo totalitário na Segunda espaços democráticos para impor um re-
Guerra Mundial, para o que se haviam gime totalitário.
aliado os Estados Unidos e a União Sovié- O presidente Eurico Gaspar Dutra,
tica, o quadro internacional do pós-guerra eleito em seguida à queda de Getúlio Var-
passou a ser comandado pelo conflito en- gas, não vacilou em obedecer às orienta-
tre essas duas potências, à cabeça respec- ções de Washington e fez com que o Con-
tivamente dos blocos capitalista e socia- gresso cassasse os mandatos dos deputa-
lista. dos comunistas, colocando ao mesmo
Esse período foi chamado de "guerra tempo o PCB na ilegalidade, em 7 de maio
fria" porque essas duas superpotências de 1947. A Confederação dos Trabalha-
mantinham relações de mútua hostilida- dores Brasileiros (CTB), dirigi da pelos
de, acirrada disputa por influência, ape- co-
sar dos acordos do final da Segunda Guer- munistas, foi igualmente declarada ilegal,
ra, que haviam assegurado a cada uma de- junto com 143 sindicatos sob sua influên-
las suas zonas de influência. Continuava cia, que sofreram intervenção do Minis-
a haver fronteiras que eram objeto de dis- tério do Trabalho. Ao lado disso se desen-
puta mútua, assim como reinava um cli- volveu um processo de repressão sistemá-
ma de competição entre EUA e URSS, tí- tica a qualquer presença considerada co-
pico da "guerra fria". munista, nas áreas sindical, estudantil, ar-
Como reflexo disso, os EUA consoli- tística, profissional ou outras. Uma onda
daram sua influência sobre zonas como anticomunista, paralela ao macarthismo
a América Latina, procurando eliminar nos EUA, varreu o Brasil, deixando o PCB
qualquer sintoma de presença soviética reduzido aos espaços da ilegalidade.
no continente. Os partidos comunistas fo- Em 1950, o Partido Comunista Brasi-
leiro refletiu essa virada na políticanacio-
I
88 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 8
9

nal mediante um documento, conhecido No seu segundo governo, Getúlio Var-


como "Manifesto de Agosto", em que se gas tomou algumas medidas nacionalistas
pregava o voto nulo nas eleições presi- - como a fundação da Petrobrás, depois
denciais e se propunha a luta armada co- de grande campanha nacional de que par-
mo meio de obter as plataformas preco- ticipou a esquerda -, mas, envolvido em
nizadas pelo partido. Era uma forma de acusações de corrupção levadas a cabo es-
reagir à marginalização a que havia sido pecialmente pela direita tradicional, a
relegado o PCB; a institucionalidade já UDN, terminou se suicidando em 24 de
não apresentava possibilidades de con- agosto de 1954 e deixando uma carta-
quistas para os trabalhadores. testamento em que acusava as oligarquias
No espaço deixado vazio pela clandes- e o imperialismo pelas manobras para der-
tinidade do PCB foi se fortalecendo o sin- rubá-lo.
dicalismo ligado a Getúlio Vargas. Lide- O PCB havia compartilhado as acusa-
ranças chamadas de "pelegas" - pelego ções contra Getúlio Vargas e, nessa con-
é um assento que fica entre o cavaleiro dição, também foi alvo da ira popular que
e o cavalo, para amaciar os movimentos se desatou com o suicídio de Vargas. Lo-
deste e, por extensão, passou a designar cais conhecidos como de atuação dos co-
aqueles que, representando os trabalha- munistas foram atacados junto com ins-
dores, no fundo servem para acomodar tituições da direita. Com o golpe, os co-
seus interesses aos dos patrões, através do munistas se deram conta de que estavam
Estado - se haviam aglutinado em tor- do lado errado. De fato, já havia algum
no do PTB. O Partido Trabalhista Brasi- tempo vinha sendo superada a situação de
leiro tinha sido um dos partidos criados marginalidade do PCB e vários de seus
por Getúlio Vargas para agrupar sua ala mi-
populista, especialmente os sindicalistas litantes e dirigentes, particularmente no
e políticos nacionalistas. Com a outra meio sindical, foram emergindo, assim
mão, Vargas havia dado surgimento ao como foram sendo publicados jornais que
Partido Social Democrata (PSD), para reu- indiretamente defendiam as posições dos
nir as oligarquias regionais - as agrárias, comunistas. João Goulart, colocado por
entre elas - e poder dar forma partidá- Getúlio no Ministério do Trabalho como
ria às alianças políticas que fundavam sua seu sucessor na liderança do movimento
força social. trabalhista, funcionava como ligação com
o PCB e setores nacionalistas da esquerda.
9 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL
91
0

As eleições de 1955 serviram para re- Deu-se aqui a primeira cisão de origem
compor, através do PCB, as alianças da es- maoísta de um partido comunista. Diri-
querda com a burguesia industrial. Como gentes e militantes fiéis às orientações de
continuadora da herança getulista se apre- Stalin e às concepções chinesas, segundo
sentou a chapa]uscelino Kubitschek-]oão as quais a URSS estava se conciliando com
Goulart, dando prosseguimento à dobra- o imperialismo norte-americano contra os
dinha PSD-PTB, com um programa que destinos da revolução mundial, tornando-
prometia estender a industrialização subs-
se uma força conservadora e até mesmo
titutiva de importações, acelerando o de-
imperialista, fundaram o Partido Comunis-
senvolvimento capitalista, que, segundo
ta do Brasil (PC do B), valendo-se de que
os comunistas, fazia falta para se impor a
soberania nacional, a reforma agrária e o o PCB, para tentar sua legalização, havia
progresso social. mudado seu nome para Partido Comunís-
Ao contrário de 1950, então, o PCB . ta Brasileiro.
participou ativamente das eleições, O novo partido foi fundado em agosto
apoiando ]K e lançando candidatos pró- de 1960, disputando com o PCB a legíti-
prios na lista do PTB. Na atuação sindical ma herança dos comunistas no Brasil. En-
também se realizava uma aliança com os tre os dirigentes do novo partido encon-
"pelegos" getulistas, em troca dos espa- travam-se]oão Amazonas, Diógenes Arru-
ços cedidos por estes para o PCB. Foi se da Câmara, Maurício Grabois e Pedro Po-
delineando uma atuação semilegal dos co- mar, todos ex-dirigentes do velho PCB.
munistas ao longo dos anos 50, que se Sua força era, naquele momento, clara-
consolidaria até o golpe de 1964. mente menor que a do PCB. Pregava a lu-
Enquanto isso, à medida que a hege- ta armada, porém para buscar uma revo-
monia internacional inquestionável da lução de libertação nacional, em aliança
URSS começava a sofrer abalos - primei- com a burguesia industrial. Suas diferen-
ro com as denúncias de Kruschev sobre ças então com o PCB se centiavam nas
as atrocidades de Stalin, agora reconhe- questões de métodos de luta, porque o no-
cidas pela própria direção do Partido Co- vo partido também acreditava que o Brasil
munista da União Soviética, depois com : deveria ainda passar por uma fase de
as divergências entre a URSS e a China -, desenvolvimento capitalista democrático,
no Brasil também foram surgindo forças
antes de poder superá-Ia pela construção
alternativas ao PCB.
do socialismo.
92 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 9
3
o PC do B se filiava diretamente ao Sua força inicial foi mais de caráter in-
PC telectual e estudantil, com certa penetra-
I
da China, assumia a figura de Mao Tsé- ção nos meios sindical e rural. As análi-
tung como seu expoente máximo e pre- ses da Polop, no entanto, tiveram influên-
gava no Brasil o desenvolvimento de uma cia duradoura e extensa em vários seto-
guerra camponesa de cerco das cidades res da esquerda brasileira, especialmente
pelo campo, à semelhança do processo depois do golpe de Estado de 1964. En-
revolucionário vitorioso na China nos tre seus principais dirigentes estavam o
anos 30 e 40. Sua força centrou-se nos austríaco-alemão Eric Sachs, Rui Mauro
movimentos estudantil e camponês, Marini, Eder Sader e Teotônio dos Santos.
apoiada no que desenvolveu posterior- No campo do pensamento cristão, foi
mente a guerrilha do Araguaia. se firmando, a partir da ascensão do pa-
No mesmo campo de crítica ao PCB pa Ioão XXIII ao Vaticano (com sua encí-
foi fundada uma outra organização - a clica Pacem in terris, de 1958), um pro-
Política Operária, conhecida como Polop. cesso de radicalização política e ideoló-
Ela foi resultado da fusão de grupos so- gica, que mais tarde. desembocaria na teo-
cialistas do Rio de Janeiro, de Minas Ge- logia da libertação. No Brasil isso se re-
rais e de São Paulo, que até ali atuavam fletiu na evolução das posições das enti-
dentro do Partido Socialista, do Partido dades estudantis e de juventude da Igre-
Trabalhista Brasileiro ou de forma inde- ja Católica - Juventude Estudantil Cató-
pendente. Tinha orientação marxista, mas lica aEC), Juventude Universitária Cató-
crítica à URSS e ao stalinismo, diferen- lica aUC), Juventude Operária Católica
ciando-se assim do PC do B. Suas análi- aOC), congregadas na Ação Católica -,
ses caracterizavam o Brasil como um país que deram nascimento a uma organização
já basicamente capitalista, embora perifé- cristã de esquerda: a Ação Popular (AP).
rico e, por isso, com seu desenvolvimen- A Ação Popular herdou a força das
to deformado e bloqueado pela domina- suas entidades originárias e se estendeu
III ção internacional e pela natureza de suas para outros setores dos movimentos po-
classes dominantes internas. Propunha
uma revolução socialista dirigida pelos
l
I
pulares, tornando-se rapidamente a orga-
nização mais importante do movimento
trabalhadores, a ser realizada através de estudantil. Entre seus principais dirigen-
uma insurreição armada. tes encontravam .:>e Herbert de Sousa e
\
Vi-

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9 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 95
4

nicius Caldeira Brandt, além de um de as Ligas Camponesas se constituíram qua-


seus inspiradores, o padre Henrique Vazo se num movimento político, na medida
A Ação Popular terá posteriormente uma em que a realização de seus objetivos de-
evolução ideológica que descaracterizará pendia de uma transformação profunda
essas suas origens, como depois será re- das estruturas de poder no Brasil e à me-
latado ,mas no seu início esteve fortemen- dida que enfrentavam a violência dos la-
te marcada pelo cristianismo de esquerda. tifundiários.
A AP assumiu posições mais radicali- Suas estruturas orgânicas foram se con-
zadas do que o PCB, somando-se ao PC solidando e sua linha de atuação passou
do B e à Polop como forças novas que a integrar elementos como, por exemplo,
questionavam a orientação de aliança su- a solidariedade à Revolução Cubana.
bordinada com a burguesia industrial e de Conscientes de que somente uma mudan-
apoio irrestrito dos comunistas ao gover- ça radical do Estado brasileiro possibili-
no de João Goulart. taria o triunfo da reforma agrária, as Li-
Uma das novidades das mobilizações gas Camponesas, com Iulíão à sua frente,
populares do começo dos anos 60 foi a assumiram posições de luta insurrecional
sua integração com o movimento campo- pelo poder, embora concentradas em
nês. Marginalizado inclusive durante o pe- grande parte no Nordeste brasileiro.
ríodo de criação dos sindicatos getulistas, Com o surgimento dessas organiza-
o movimento camponês teve focos loca- ções políticas e movimentos - PC do B ,
lizados de resistência, em geral armada, Polop, AP, Ligas Camponesas -, o mo-
quase sempre liquidados repressivamen- nopólio do PCB, no campo da esquerda,
te; até que, com o início da sindicaliza- foi rompido. Embora hegemônico, ele ti-
ção rural, abriu-se um espaço ínstítucío- nha que compartilhar campos de atuação,
nal para a organização dos trabalhadores como os movimentos estudantil e campo-
do campo. nês, com outras forças que questionavam
Uma dessas expressões foram as Ligas sua orientação. A luta ideológica dentro
Camponesas, movimento desenvolvido da esquerda também ganhou força, com
no Nordeste brasileiro, mais concentrada- a disputa pela hegemonia no campo inte-
mente em Pernambuco, sob a direção de lectual se intensificando.
um advogado dos camponeses, Francis- No centro dos debates estava a via de
co Julião. Lutando pela reforma agrária, reformas de base propostas pelo governo
I 96 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 97

de João Goulart e apoiada pelos comunis- embora não fosse um nome representati-
I tas, que supunha um setor importante da
burguesia - sua fração industrial - ado-
vo das FFAA. Sua falta de carisma pessoal
contrastava com o apelo popular que ha-
tando uma orientação democrática e de via levado Jânio Quadros a uma carreira
!'Iil contradições com o imperialismo e com fulminante - em sete anos ele havia pas-
os latifundiários. Supunha, também, que sado de prefeito de São Paulo a governa- I

um setor de peso das Forças Armadas dor desse estado e dali à presidência da
(FFAA), adotando o nacionalismo, acom- República. I
panhasse essa frente democrática e desse Jânio ganhou com uma grande diferen-
apoio ao governo. ça de Lott, mas o vice-presidente, eleito
Esse processo encontrou, no entanto, separadamente até aquele momento, foi
vários obstáculos, que desembocaram no João Goulart, da chapa da esquerda. Os
golpe militar de 1964. Já antes disso, a es- comunistas apoiaram Lott e jango, en-
quanto as outras forças esquerdistas ain-
querda havia enfrentado dificuldades, nas
, da eram muito frágeis para ter candidato
II
eleições de 1960. Depois do governo de
Juscelino Kubitschek, apoiado pelos co- alternativo e marcar suas distâncias em re-
munistas, as eleições presidenciais de lação ao PCB e a João Goulart.
1960 foram venci das por Jânio Quadros, Poucos meses após sua posse, em agos-
to de 1961, Jânio renunciou depois de
um populista de direita, apoiado na UDN
uma confusa e nunca provada ingerência I
mas principalmente em seu caris ma pes-
de "forças ocultas" por ele denunciadas.
soal e em sua pregação contra a corrup-
Iniciou-se uma crise nacional. Jango esta-
ção, personificada na construção de Bra-
va viajando pela China, mas -o principal
sília por JK.
problema eram as acusações que pesavam
A esquerda lançou um candidato mi- sobre ele de conivência com os comunis-
litar, o marechal Henrique Lott, que ha- tas, oriundas da direita e especialmente
I

via garantido a posse de JK em 1955,


quando a UDN tentou questionar o resul-
dos militares. Os três ministros militares i
questionaram a entrega do poder ao vice-
tado eleitoral. Da mesma forma, ele ha- presidente, como mandava a ínstítucíona-
via conseguido desarticular mobilizações lidade democrática, e teriam conseguido
militares de direita contra Juscelino ao impor sua posição golpista não fosse a mo-
longo do governo deste. Lott estava iden- bilização levada a cabo pelo governador
tificado com as posições nacionalistas, do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.
I
EMIR SADER

Brizola era do PTB, casado com a ir- exterior, enquanto à direita se pregava
mã de Jango, e decidiu apoiar a posse des- que a democracia e a liberdade estavam
9
te, apelando para mobilizações populares
8 em perigo, pela ação de um Estado con-
e buscando o apoio da Força Pública do trolado pelos nacionalistas, mero disfar-
Rio Grande do Sul, contingente militar ce dos comunistas, de Cuba e da União
sob seu comando. Ofereceu a Iango o re- Soviética.
torno ao país pelo Sul e, mediante a amea- Enquanto as mobilizações sociais dos
ça de uma guerra civil, chegou-se a um trabalhadores da cidade e do campo, dos
acordo: Jango tomaria posse, mas não estudantes, dos artistas apoiavam as refor-
com todos os poderes presidenciais. mas, a direita, incentivada política e finan-
Instaurar-se-ia um parlamentarismo, co- ceiramente pelos grandes empresários e
mo forma de retalhar seus poderes. pelo próprio governo dos Estados Uni-,
O setor nacionalista de Jango e de Bri- dos, promovia um processo de desesta-
zola ganhava assim importância dentro da bilização do país. As "marchas com Deus
esquerda. Chegou ao governo pregando pela família" colocavam em ação amplos
reformas de base que democratizariam o setores de classe média, acentuando a po-
capitalismo, especialmente a reforma larização social.
agrária e o controle das remessas de lu- Um outro setor se integrava à luta da es-
cros das empresas internacionais ao ex- querda, pela primeira vez na história recen-
terior. te do país: os soldados e marinheiros, rei-
O governo de J ango representou um vindicando os direitos políticos de associa-
período de recrudescimento da luta de ção e de representação no Parlamento. Es-
classes, com os interesses das classes po- te fator terminou de consolidar a decisão
pulares e das elites dominantes se polari- da grande maioria da alta oficialidade das
zando acentuadamente. O desenvolvi- FF AA de romper com a legalidade e impor
mento capitalista continuado desde o fi- um golpe militar, em 1 c: de abril de 1964.
nal da Segunda Guerra começava a per- Essa articulação vinha de longe, desde que.
der força e os conflitos entre trabalhado- militares brasileiros se integraram às ações
res e burguesia pela apropriação da ren- da oficialidade norte-americana durante a
da se acentuaram. À esquerda se lutava pe- Segunda Guerra Mundial, de onde surgiu
la reforma agrária e pela reforma urbana, a fundação da Escola Superior de Guerra,
pelo controle das remessas de lucros ao que trabalhou longamente a doutrina de
SER DE ESQUERDA NO BRASIL

99
I

100 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 101

11 segurança nacional, a qual caracterizava Veio o golpe e pegou o povo despreve-


a existência de um "inimigo interno", nido. O golpe surgiu de setores considera-
verdadeiro vírus inoculado pelas potên- dos democráticos. Como resultado, não
cias comunistas a partir do exterior, para houve resistência. A desmoralização da
desagregar a nação. Esse "inimigo" ficou derrota foi pior ainda, sem resistência. À
configurado como sendo precisamente a derrota política se somava a derrota moral.
esquerda.
A grande burguesia brasileira partici-
pou passivamente do golpe, tanto sua fra-
ção industrial como as outras, terminan-
do com as ilusões de seus supostos inte-
resses divergentes em relação ao imperia-
lismo e ao latifúndio. Consolidou-se uma
firme unidade interna das classes domi-
nantes que, .naquele momento, sob pre-
texto da defesa da liberdade e da demo-
cracia, conseguiram levar atrás de si am-
plos setores da classe média. Com os tra-
'balhadores isolados e com uma concep-
ção equivocada a respeito de seus possí-
\
veis aliados, a esquerda ficou na defensi-
va e foi derrotada.
Poucos dias antes do golpe, o secretá-
rio geral do PCB, Luís Carlos Prestes, de-
clarava: "Estamos no governo, nos falta
o poder", revelando falta de cornpreen-
são da real situação em que se encontra-
va o país ~ revelando ainda as ilusões nu-
tridas pela concepção dominante na es-
querda, pela qual todo o movimento po-
pular pagaria um preço alto.
A segunda geração:
a luta armada

A esquerda já havia passado por perío-


dos de repressão. Seu nascimento impli-
cou um longo tempo de luta pelo reco-
nhecimento de espaços para o movimen-
to sindical, para suas próprias organiza-
ções políticas e suas idéias anticapitalistas,
antes de 1930. Depois, com Getúlio no
poder, particularmente o PCB, mas os in-
telectuais de esquerda também, foram ví-
timas da repressão do Estado Novo de
1937.
A partir de 1964 se abriu um novo pe-
ríodo em que a esquerda teve de passar
à defensiva, se reorganizar, sofrer baixas,
retroceder. Só que desta vez o panorama
do que era conhecido como esquerda so-
freria muitas mudanças, a começar pelo
definitivo declínio do PCB e pelo surgi-
mento de forças alternativas no seu lugar.
104 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 105

o golpe militar de 1964 foi central- raso Várias mortes foram registradas logo
~---- mente dirigido contra os trabalhadores e
a esquerda. Aqueles viram a decretação de --------- nos primeiros dias do novo regime.
Diante de tal virada, instaurou-se ine-
----- um arrocho salarial, além da multiplica-
ção do desemprego e da deterioração de --------- vitavelmente na esquerda um processo de
discussão e balanço para serem avaliadas
suas condições de vida. A esquerda foi
----- perseguida desde os primeiros dias do no- --------- as conseqüências do golpe militar e da di-
tadura e para encontrar formas de resis-
vo regime, pois encarnava precisamente
-~~~- o "inimigo interno" que a doutrina de se- --------- tência. Já não se tratava de avançar nas
transformações sociais pregadas antes de
gurança nacional vitoriosa buscava erra- 1964, mas de resistir da melhor forma
----- dicar. --------- possível à contra-revolução que se instau-
O Estado brasileiro, aliado da linha rava.
----- predominante na esquerda, deixava de sê-
10, tornando-se, ao contrário, seu princi-
-------~- Essa era uma situação que a esquerda
em escala mundial conhecia muito bem.
---~ pal inimigo. Desenvolveu-se rapidamen-
te um processo depurador do sistema po-
Cada vez que um processo de transforma-
ções revolucionárias ou graduais não con-
lítico e jurídico: cassações de deputados seguia se concretizar} o movimento po-
e governadores considerados de esquer- pular pagava um preço alto por sua der-
da, junto a outros acusados de corrupção, rota. A revolução era polarizada no outro
prisões e exílio de dirigentes políticos, mi- lado pela contra-revolução. Foi assim na
litantes, simpatizantes da esquerda, em to- Itália antes de Mussolini impor o fascis-
dos os partidos existentes. mo, tinha sido assim na Alemanha dos
Exemplar foi o caso do comunista Gre- anos 20, antes da subida de Hitler ao po-
gório Bezerra. Auxiliar do governador de der, entre outros casos.
Pernambuco, Miguel Arraes - também No Brasil, o debate tinha os holofotes
um dos primeiros detidos pelos militares voltados para o PCB. Afinal, não somen-
-, Bezerra foi preso, despido e arrasta- te era o partido mais importante até ali,
do em cueca pelas ruas de Recife, puxa- como sua orientação tinha prevalecido no
do por um carro. Era o efeito demonstra- período anterior. Foi no seu interior, mes-
ção, para mostrar o que esperava os co- mo sob intensa ação repressiva, que co-
munistas e esquerdistas da parte da dita- meçou a se desenvolver um processo de
dura que se apressava em exibir suas gar- avaliação, busca de responsabilidades e
redefinição de orientação.
106 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 107

Um dos balanços considerava que o massa", enquanto o apoio recebido pe-


problema central que havia conduzido à las ditaduras foi efêmero, quase limitado
derrota vinha da radicalização de esquer- ao processo prévio de desestabilização do
da. Ao exigir maior rapidez nas reformas, regime democrático. Dali para frentesuas
ao estender a mobilização a setores tão bases sociais se distanciaram do novo re-
amplos como os camponeses sem-terra e gime, que descumpriu frontalmente suas
os militares de baixa patente, ao radicali- promessas de defesa da democracia e da
zar formas de luta, utilizando a força nas liberdade.
invasões de terra e outras mobilizações, Diante do fato consumado, o PCB tra-
os setores à esquerda do PCB eram con- taria de aproveitar todos os espaços legais
siderados os responsáveis pela polariza- restantes, de se unir a todos os setores de-
ção da situação política e pela derrota. mocráticos dos partidos tradicionais e de
Eram caracterizados como "pequeno- resistir à ditadura, até que fosse possível
burgueses impacientes", que haviam ten- restabelecer a democracia e retomar o ca-
tado imprimir à história um ritmo de acor- minho interrompido. A linha de ação era
do com suas ansiedades pessoais, sem a da atividade legal; condenava-se qual-
aguardar pacientemente que as condições quer forma de luta armada.
concretas e subjetivas estivessem madu- Esse balanço encontrou sérias resistên-
ras para as transformações que o PCB pre- cias dentro mesmo do PCB, desatando-se
conizava e que estariam em processo de um processo de debate interno que leva-
desenvolvimento, não fossem aqueles ria a sucessivas cisões no partido, até fazê-
apressados esquerdistas. 10 perder completamente sua força. Os
O novo regime era caracterizado pelo opositores acusavam a linha do próprio
PCB como "fascismo", que o assemelha- PCB como a responsável pela derrota.
va aos estabelecidos por Mussolini na Itá- Nessa linha se uniam Carlos Marighella,
lia e por Hitler na Alemanha. Esse era o Ja-
clichê através do qual os partidos comu- cob Gorender, Mário Alves, Apolônio de
nistas analisavam todos os tipos de dita- Carvalho e a grande maioria dos setores
dura. Não importava que o fascismo ita- de juventude, entre os quais se encontra-
liano e o nazismo alemão houvessem ti- vam os líderes estudantis Vladimir Palmei-
do um grande e ativo apoio de massa, ra e José Dirceu.
uma espécie de "contra-revolução de O que unia os opositores era, em pri-
meiro lugar, o diagnóstico do beco sem
108 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 109

saída a que foi levado o movimento po- Guatemala, na Nicarágua. O Vietnã cata-
pular e a esquerda a partir da linha do PCB lisava a solidariedade internacional, de-
de aliança subordinada com a burguesia monstrando que mesmo um dos meno-
nacional e sua caracterização como uma res países do mundo pode resistir e der-
força democrática e antiimperialista. Em rotar a maior potência bélica da história
segundo lugar, todos se opunham à linha se contar com o apoio da população or-
de resistência legal preconizada pelo PCB, ganizada e armada.
dado que os espaços institucionais eram Nesse marco, as posições que prega-
absolutamente inexistentes para a oposi- vam a resistência armada e a luta clandes-
ção à ditadura, que só podia ser combati- tina contra a ditadura tendiam a triunfar.
da pela resistência clandestina. Ainda mais que a via institucional tinha
É preciso recordar que, conforme se I levado ao golpe militar e à ditadura.
mencionou na análise dos anos 60 no Porém as oposições internas foram
I" mundo, o contorno internacional favore- derrotadas pelo controle que a direção do
cia posições radicalizadas e ligadas à luta PCB mantinha sobre os canais organiza-
armada. Na América Latina, o capitalismo tivos, ainda ficando reduzidas à minoria.
se encontrava em crise, enquanto a revo- Medidas de expulsão foram minando a
lução cubana reivindicava o socialismo e oposição, como aquela aplicada contra
dava soluções positivas. aos problemas Marighella, que viajou para comparecer a
educacionais, sanitários, culturais, em uma reunião de movimentos revolucioná-
meio a enormes mobilizações populares rios latino-americanos realizada em Cuba,
de defesa do regime revolucionário, com sem autorização da direção do PCB, e lá
Fidel Castro e Che Guevara à frente. se pronunciou a favor da luta armada.
Enquanto isso, sucediam-se os golpes Os opositores foram assim sendo ex-
no restante do continente. Ao lado das di- pulsos aos poucos, ou abandonaram o
taduras de Trujillo na República Domini- PCB para fundar novas organizações. Ma-
cana, de Somoza na Nicarágua, de Duva- righella e os .que o acompanharam deram
lier no Haiti, entre outras, ocorria um gol- nascimento à Aliança Libertadora Nacio-
pe militar na Bolívia e, pouco depois, em nal (ALN), que pregava a luta armada ru-
1966, também na Argentina. ral como caminho fundamental de ação,
As guerrilhas rurais se estendiam na apoiada em ações urbanas de preparação
Colômbia, na Venezuela, no Peru, na da guerrilha no campo. Tratava-se de der-

I
"L .. ~ ____________________________________________________________________ ~ ________________________________~-- ________________ ~ _______________________________________________________________________~ __ -JJ
11 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 11
0 1

rubar a ditadura para instaurar um gover- luta armada que propunha. Não o preo-
no de libertação nacional, que conduzi- cupava uma análise mais detida da situa-
ria o país em direção ao socialismo. ção econômica e social do país, mas a dis-
Com ele estavam a grande maioria dos posição de não perder muito tempo em
jovens do PCB e setores populares de vá- discussões e abreviar ao máximo o tem-
rias regiões do país. Embora não tivesse po até partir para a ação concreta. O mo-
participado das polêmicas anteriores do delo da revolução cubana, difundido por
PCB de forma muito ativa, Marighella era um francês, Régis Debray, em uma ver-
considerado um dirigente rebelde, ten- são muito simplificada, mas que teve mui-
dente a aceitar posições mais radicaliza- to sucesso na América Latina e, em parti-
das, pelas suas raízes populares. cular, no Brasil, evidentemente atraía Ma-
Mulato baiano, havia participado, mui- righella e os que o seguiam.
to jovem ainda, do movimento do PCB Um outro grupo saiu do PCB com a
em 1935, quando se deslocou da Bahia disposição de fundar um partido, porém
para o Rio de Janeiro. Foi preso, violen- de orientação revolucionária, ao contrá-
tamente torturado, mas conquistou na rio do partido que deixavam, considera-
prisão uma liderança e a fama de dirigen- do reformista. Entre os participantes des-
te solidário e combativo, o que marcou se grupo estavam Mário Alves, jacob Go-
para sempre sua figura. render, Apolônio de Carvalho, que fun-
Em 1964, reagiu à ordem de prisão daram o Partido Comunista Brasileiro Re-
mas terminou preso, apesar de ferido. A volucionário (PCBR). O novo partido pre-
partir dali escreveu um livro ao qual deu gava também a luta armada como forma
o nome Por que resisti à prisão, demons- de combate à ditadura, porém se preocu-
trando a disposição de não dar trégua à pava igualmente com a construção de es-
ditadura e convocando os militantes de truturas partidárias e com o trabalho de
esquerda para uma resistência ativa con- massas.
tra o novo regime. Ainda originário do PCB foi o Movi-
Marighella saía do PCB propondo não mento Revolucionário 8 de Outubro
a formação de um novo partido, mas de (MR-8), data da morte de Che Guevara na
um movimento adaptado às condições da Bolívia, congregando principalmente es-
tudantes do PCB no Rio de Janeiro, que
se somavam à luta armada.
11 EM IR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 11
2 3

Por outro lado, um grupo de militares tos em prosa que, de uma ou outra for-
radicalizados abandonou os quartéis e se ma, canalizavam o espírito de rebeldia de
juntou a marinheiros, sargentos e cabos amplas camadas da população.
expulsos das FFAA com o golpe militar, Logo a Bossa Nova na sua configura-
para, unidos a militantes vindos de outras ção inicial daria lugar à música de protes-
organizações, fundarem um movimento to, com o começo da carreira de Chico
de características similares à ALN, a Van- Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Velo-
guarda Popular Revolucionária (VPR). so, Edu Lobo, Carlos Lira. O Teatro de
Neste grupo estava o principal daqueles Arena, com Augusto Boal à frente, ence-
militares, o capitão Carlos Lamarca, que nava obras que ressaltavam aspectos he-
se tornaria a principal figura da nova or- róicos da nossa história - o episódio de
ganização. A VPR e a ALN viriam a ser as Zumbi dos Palmares, a conjuração de Ti-
principais organizações do período da lu- radentes - a que depois se somaria a ir-
ta armada urbana no Brasil. reverência do Teatro Oficina, de Iosé Cel-
Ao lado delas, estavam organizações so Martinez Correia, com Os pequenos
que já existiam anteriormente ao golpe burgueses, de Máximo Gorki, e O rei da
militar, como a Polop, a AP, o PC do B, vela ,de Oswald de Andrade, assim como
.
às quais se juntaram dezenas de outras or- a encenação de Morte e vida severina, de
ganizações que, de diferentes formas, pre- João Cabral de Mello Neto, pelo Tuca,
gavam também a luta armada, mas que, Teatro da Pontifícia Universidade Católi-
inicialmente ao menos, ficaram num pa- ca de São Paulo. O cinema brasileiro pas-
pelsecundário em relação à ALN e à VPR. sava à sua fase mais criativa, com Glau-
No início a resistência à ditadura se ex- ber Rocha produzindo Terra em transe,
pressou através de manifestações artísti- Ruy Guerra dirigindo Os fuzis e Nelson
cas, das quais a mais importante nesta pri- Pereira dos Santos, seu Vidas secas.
meira fase foi a peça musical Opinião, ini- Artistas e intelectuais protestavam atra-
cialmente interpretada por Nara Leão, Zé vés de manifestos ou declarações à im-
Kéti e João do Vale, e que posteriormen- prensa sobre as prisões, arbitrariedades,
te teve a cantora substituída por Maria Be- censura aos jornais, enquanto um dos jor-
tânia, que assim fazia sua estréia artística. nais que personificava a oposição à dita-
O espetáculo combinava músicas de pro- dura, o Correio da Manhã, era avidamen-
testo com outras, junto a poesias e tex- te disputado nas bancas, por causa de seus
11 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 115
4

colunistas disparando contra o governo colunista Carmen da Silva, da revista


e de suas reportagens refletindo as ações Cláudia, representou muito bem esse an-
repressivas do poder militar. seio dos jovens e de todos os que se so-
Além deles, a revista Civilização Bra- mavam à crítica ao conformismo, ao ma-
sileira aparecia como uma das publica- chismo, aos cânones religiosos tradicio-
ções mais importantes, que aglutinava ar- nais sobre casamento e relações amoro-
tigos de análise sobre o país, ao lado de sas em geral.
traduções de textos sobre a situação in- A introdução da pílula anticoncepcio-
ternacional, de autores de esquerda de nal representou concretamente o ponto
outros países e outras expressões cultu- de apoio fundamental para que os jovens
rais do que já se configurava como a dé- pudessem pôr em prática suas opções de
cada da rebeldia em todos os planos. A relações amorosas livres, sem medo da
seu lado, a revista Brasiliense, dirigi da gravidez e das doenças venéreas. Cada
por Caio Prado]r. e por Elias Chaves Ne- vez mais os rapazes foram deixando de se
to, se caracterizava pelas análises concre- iniciar sexualmente com prostitutas, pa-
tas da realidade nacional numa ótica de ra compartilhar suas primeiras experiên-
renovação do pensamento de esquerda cias sexuais com namoradas. O amor se
no Brasil, com grande poder de influên- unia indissoluvelmente ao sexo. Quanto
cia sobre a intelectualidade do país. às jovens, um número cada vez maior de-
Livros como o de coleção de artigos las começava a ter relações sexuais antes
do Correio da Manhã - do mais famo- do casamento. A partir dessas reivindica-
so colunista daquele período, Carlos Hei- ções organizaram-se as lutas feministas em
tor Cony - ou romances como Quarup, torno da maior atenção sobre seu corpo,
de Antonio Callado, foram os maiores su- o que passou a representar a descrimina-
cessos daqueles anos, juntamente com en- lização do aborto.
saios e ficção de autores como Sartre, Si- Foi uma década de acirramento dos
mone de Beauvoir e publicações sobre a conflitos de geração. Fosse para obter
Revolução Cubana. maior liberdade em suas vidas, fosse pa-
Como símbolo da revolução dos cos- ra estabelecer relações amorosas ou en-
tumes da década de 60, o feminismo co- tão para desenvolver atividades de mili-
meçou a surgir a partir das reivindicações tâncía política, os jovens começaram a
de liberdade sexual da juventude. A deixar a casa dos pais mais cedo, a plei-
116 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 117

tear e a obter maior liberdade mais cedo Recebidos por cargas de cavalaria, os
do que seus pais, que em geral só saíam estudantes reagiam atirando bolinhas de
. de casa para se casar com moças virgens vidro com estilingues, que faziam os ca-
que não trabalhavam. Esse universo co- valos tropeçar. Vinham os jatos de água,
meçou a mudar aceleradamente, coinci- às vezes tiros para o ar, detenções. Mas
dindo com um período de grande repres- a repressão ainda não tinha assumido o
são política, mas que por isso mesmo in- caráter de extermínio que teria depois de
citava à reação, a dar um conteúdo polí- 1968.
tico à rebelião pessoal, a casar liberdade Enquanto isso, o regime ia afirmando
pessoal com militância política. seu poder, demonstrando, para decepção
O começo do acesso às drogas tam- da direita civil, como a UDN de Carlos
bém fazia parte daquele mundo, ainda La-
que de forma marginal. Viver novas ex- cerda, e mesmo o centro, liderado por
periências, ao mesmo tempo que se to- Juscelino Kubitschek, que não teria uma
mava contato com a literatura - de Hux- passagem efêmera pelo Estado, mas que
ley a Kerouac - e com a música - dos vinha, como pregava a doutrina de segu-
Beatles a Roberto Carlos - que incitava rança nacional, para reformá-lo radical-
a novos comportamentos. mente, militarizando-o, assim como todo
Mas foi o movimento estudantil que o sistema político. Derrotada em Minas
primeiro saiu massivamente às ruas con- Gerais e no Rio de Janeiro nas primeiras
tra a ditadura. Depois dos primeiros anos eleições para governador, a ditadura dis-
de protestos relativamente isolados ou solveu todos os partidos políticos, permi-
sem presença de grande número de pes- tindo a criação de apenas um do gover-
li soas nas ruas, foi em 1966 que se deram no, a Aliança Renovadora Nacional (Are-
as primeiras manifestações públicas leva- na), e outro da oposição, o Movimento
das adiante por centros estudantis em São Democrático Brasileiro (MDB).
Paulo e no Rio de Janeiro. As faculdades A oposição legal ao regime ganhava
tinham sido particularmente atingidas pe- as-
los Inquéritos Policiais Militares (IPMs) da sim ares de oposição consentida, aceita
ditadura, que eliminavam dos quadros e nos marcos definidos pelo regime. Com
processavam os professores comprome- grande quantidade de deputados, senado-
tidos com a democracia ou considerados res e governadores cassados, e outros po-
fomentadores da rebelião estudantil. líticos com direitos suspensos por muito
tempo, com a censura à imprensa, com
SER DE ESQUERDA NO BRASIL 119
118 EMIR SADER

a imposição de um regime de força, fazer pelo PCB, sustentava que a queda da di-
tadura não se faria pelo restabelecimento
i oposição dentro dos limites estabelecidos
de um tipo de democracia como a que ha-
pelo sistema de poder era resignar-se à im-
potência. Até mesmo porque era claro via existido antes de 1964, mas por um
que o poder real residia nas instituições poder de outro tipo, de libertação nacio-
dasFFAA e não nos órgãos institucionais. nal ou socialista, conforme a organização
O primeiro presidente da ditadura, o ma- política antiimperialista, contra o latifún-
rechal Castelo Branco, havia sido escolhi- dio, na direção da hegemonia dos traba-
do pelas FF AA e ratificado pelo lhadores, da ruptura com o capitalismo.
Parlamen- Alguns intelectuais chegaram a falar da al-
to, revelando a subordinação deste àque- ternativa "socialismo ou fascismo", extre-
las, assim como a anulação do Judiciário :. mando as opções.
como instância de defesa do Estado de di- A partir de 1967 começaram a ser rea-
reito. I lizadas ações armadas. As primeiras foram
Tudo isso levava à desmoralização dos roubos a bancos, que, como não eram rei-
canais institucionais de oposição à dita- vindicadas por nenhuma organização po-
dura. Um espaço semilegal restante era lítica, passavam por assaltos feitos por
ocupado precisamente pela imprensa marginais. Aos poucos, a organização de-
opositora, . pelo movimento estudantil, monstrada, a multiplicação dos assaltos e
pelos artistas e intelectuais, que não per-
algumas manifestações políticas dos co-
diam uma oportunidade para demonstrar
mandos que atuavam foram revelando o
sua rebeldia. Aos poucos foram aumen-
fundo político das ações. Elas eram deno-
tando os setores descontentes, à medida
minadas "recuperações", no sentido de
que a ditadura ampliava sua lista de cas-
que se trataria de levantamento de recur-
,I sações, incluindo precisamente os políti-
cos burgueses de oposição, como Carlos sos expropriados aos trabalhadores por
Lacerda, Juscelino Kubitschek, Adhemar meio da exploração de seu trabalho ou da
de Barros. própria corrupção e que assim retorna-
Setores crescentes foram aderindo à vam a organizações dos trabalhadores.
idéia da luta armada, da resistência clan- Seu objetivo imediato era recolher fundos
destina à ditadura. Essa linha, comparti- para financiar a preparação da guerrilha
lhada pela quase totalidade dos grupos de rural.
esquerda, com diferenças menores, salvo
I I

120 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 121

Outros tipos de ação armada foram conhecido como Calabouço -, o povo


sendo acrescentados a essa, como os ata- da cidade se mobilizou e realizou-se, com
ques a 'alvos políticos - embaixadas e os líderes estudantis, artistas e intelectuais
consulados norte-americanos, por exem- à frente, a maior manifestação de massa
plo -, vinculando a ação não somente à contra a ditadura militar, que ficou conhe-
dominacão norte-americana sobre o Bra- cida como a "passeata dos 100 mil".
sil e seu apoio explícito ao golpe militar Em seguida se realizaram greves ope-
e aos governos ditatoriais, mas também rárias em duas cidades de grande concen-
à intervenção dos EUA no Vietnã. Um mi- tração de trabalhadores: Contagem, na pe-
litar norte-americano, acusado de perten- riferia de Belo Horizonte, e Osasco, no
cer à CIA e que havia estado no Vietnã, cinturão industrial de São Paulo. Ambas
foi executado por um grupo de esquerda foram organizadas por comitês clandes-
em São Paulo. Outras ações eram realiza- tinos dos trabalhadores, vinculados a or-
das para conseguir armamento para a ganizações de esquerda que pregavam a
guerrilha, como ataques a casas de venda luta armada. Foram reprimidas violenta-
de armas, a quartéis ou, ainda, a depósi- mente, mas demonstraram que na luta
tos de dinamite. dos trabalhadores contra o arrocho sala-
Embora estivesse construindo um só- rial do regime militar havia apoio políti-
lido regime militarizado, a ditadura ain- co da oposição à ditadura, embora sem
da ficava vulnerável a um tipo de ação pa- espaço para se manifestar abertamente.
ra a qual não havia se preparado. Os al- No dia I? de maio de 1968, em São
vos eram frágeis e isso incentivou a guer- Paulo, um comício organizado pelo go-
rilha a multiplicar suas ações nas cidades, vernador nomeado pela ditadura, Rober-
embora mantivesse seu objetivo central to Abreu Sodré, e pelas autoridades mili-
de atuar no campo. tares, junto com interventores nos sindi-
As manifestações estudantis se inten- catos, foi invadido por trabalhadores e or-
sificaram durante 1967, e em 1968 atin- ganizações de esquerda, que tomaram o
giram seu auge. Quando um estudante palanque, organizaram seu próprio comí-
universitário foi assassinado pela repres- cio e depois fizeram uma passeata pelo
são no restaurante da União Nacional dos centro da cidade.
Estudantes (UNE), no Rio de Janeiro - ele A UNE conseguiu se reorganizar nacio-
se chamava Edson Luís e o restaurante era nalmente, eleger suas diretorias e conso-
122 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 123

lidar seu prestígio como vanguarda na luta impuseram um fechamento ainda maior
de massa contra a ditadura. No segundo do sistema político, mediante o decreto
semestre de 1968 a UNE organizou um de um novo Ato Institucional, este de nú-
Congresso Nacional clandestino em Ibiú- mero 5 - que ficou conhecido como
na, próximo da cidade de São Paulo, num AI-5 -, em dezembro de 1968, numa res-
sítio, mas não pôde evitar que os órgãos posta a resistências dentro do Congresso
de repressão localizassem o evento, da- a medidas da ditadura. O Parlamento ha-
da a enorme quantidade de estudantes de via sido depurado e permaneceu aberto,
todos os estados do país que se haviam mas esvaziado de poder e com uma rela-
deslocado para o Congresso. O lugar foi ção de forças favorável à ditadura, porém
invadido por forças repressivas que toma- com setores que resistiam ao regime de
ram presos centenas de estudantes, incluí- força. O AI-5, no entanto, colocava, me-
dos seus principais líderes: Vladimir Pal- diante medidas ditatoriais, todo o poder
meira, José Dirceu, Luís Travassos. político e repressivo, sem contrapesos, na
Os setores extremistas de direita tam- mão do Executivo.
bém se organizavam para apoiar o gover- O AI-5 representou a passagem ao pe-
no e combater a esquerda, através de gru- ríodo de maior repressão da ditadura,
pos paramilitares teledirigidos pelas FF com a intensificação das prisões, o uso sis-
AA. temático da tortura e do assassinato, es-
Organizou-se o Comando de Caça aos Co- tabelecendo um verdadeiro regime de ter-
munistas (CCC), que passou a atacar os ror no país. As organizações armadas de
militantes de oposição à ditadura. Na rua esquerda responderam com ações mais
Maria Antônia, no centro de São Paulo, sofisticadas, como o desvio de aviões pa-
envolveram-se em combate aberto os es- ra Cuba, levando militantes que deseja-
tudantes da Faculdade de Filosofia da Uni- vam sair do Brasil, ou o seqüestro de di-
versidade de São Paulo, de esquerda, e os plomatas estrangeiros para serem troca-
do Mackenzie, de direita, com estes ati- dos por presos políticos que estavam sen-
rando bombas no prédio daquela facul- do torturados nas prisões.
dade. O primeiro e mais famoso desses se-
Quando a ditadura percebeu que co- qüestros foi o do embaixador norte-
meçava a perder o controle da situação, americano, que ainda residia no Rio de Ia-
prevaleceram os setores ligados à chama- neiro, em condições relativamente vulne-
da "linha-dura", de extrema-direita, que
II

124 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 125

ráveis. Um comando do MR-8 apoiado pe- Por detrás do sucesso das ações cor-
la ALN conseguiu sem muita dificuldade ria um processo surdo de corrosão nas fi-
fazer um levantamento sobre a circulação las da guerrilha. Utilizando os mais vio-
do embaixador e, constatando frágeis me- lentos processos, os órgãos de repressão
didas de segurança existentes, pôde se- antecessores do DOI-Codi foram fazendo
qüestrá-Io. prisões e, através destas e de mais tortu-
O comando guerrilheiro colocou uma ra, causando baixas sucessivas nos grupos
série de condições para a libertação do de esquerda. Alguns ex-militantes chega-
embaixador, entre elas a leitura por cadeia ram a ir à televisao, como guerrilheiros ar-
de rádio e televisão de um manifesto ex- rependidos, fazendo apelos a seus ex-
plicando o sentido da ação e a libertação companheiros para que abandonassem
de quinze militantes, entre eles os líderes uma luta que consideravam perdida. Mui-
estudantis presos no Congresso da UNE. to jovens, tinham ingressado fazia pouco
A ditadura ficou numa situação extrema- tempo na militância política e não haviam
mente difícil, porque aceitar as condições resistido à tortura.
dos guerrilheiros era dobrar-se a uma for- Estendeu-se o processo de recolhi-
ça inimiga, negociar em igualdade de con- mento de informações por parte dos ór-
dições, romper a censura à imprensa e dar gãos de repressão, baseado em torturas
liberdade a dirigentes opositores ao regi- dos presos, que entregavam à polícia da-
me. Mas sua resistência a aceitar as con- dos sobre seus companheiros, sob amea-
dições se chocava com a pressão do go- ças de sofrimentos ainda maiores, além do
verno norte-americano, que pugnava pe- risco iminente da morte. Foi possível, as-
la vida de seu embaixador. Aceitar as pres- sim, aos órgãos repressivos das FFAA ir
sões dos EUA significava, também, para infligindo pouco a pouco reveses nos gru-
o regime militar, confessar sua dependên- pos de esquerda, até que chegaram aon-
cia em relação a Washington. de mais queriam: a Carlos Marighella.
O seqüestro teve sucesso, o manifes- Isolado pelo cerco repressivo, Mari-
to dos guerrilheiros foi lido por rádio e ghella buscou refúgio junto a padres do-
televisão, os quinze presos foram liberta- minicanos de esquerda, sem saber que al-
dos e seguiram de avião para Cuba. Foi guns estavam presos e outros sob contro-
o auge da luta guerrilheira urbana no le dos órgãos da repressão. Assim, ao mar-
Brasil.
126 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 127

car um encontro com os dominicanos, dos ministros econômicos do primeiro


numa quarta-feira de novembro de 1969, governo militar, Gouveia de Bulhões e
num dia em que a cidade se encontrava Roberto Campos, havia preparado a eco-
deserta, por causa da transmissão pela te- nomia para voltar a crescer. Um perver-
levisão do jogo Santos e Corinthians, Ma- so crescimento baseado na sofisticação do
righella caiu numa armadilha montada consumo da classe média alta e da burgue-
contra ele, na alameda Casa Branca, en- sia e na exportação, apoiado nos capitais
tre as avenidas Paulista e Nove de Julho, externos e nos subsídios e investimentos
no bairro dos Jardins, em São Paulo. estatais a serviço das elites. A população
Marighella cruzou a rua em direção ao de classes mais baixas se via comprimida
Fusca onde se encontravam os dorninica- pelo arrocho salarial, pelo desemprego e
nos, sem perceber que toda a vizinhança pela repressão a seus órgãos representa-
estava tomada pela polícia, especialmen- tivos.
te um prédio em construção, de onde O ano de 1970 foi paradoxal no Bra-
apareceram os militares e policiais, sob o sil: enquanto se prendia, se torturava, se
comando do delegado Fleury. Os policiais assassinava, um setor da classe média co-
fuzilaram Carlos Marighella sem que ele meçava a se deliciar com o acesso ao con-
pegasse uma arma ou esboçasse qualquer sumo, sem nenhuma solidariedade com
reação. as classes populares. O símbolo deste pe-
A morte foi anunciada no intervalo do ríodo foi a Copa do Mundo de 1970,
jogo. A televisão exibiu imediatamente as quando a festa nas ruas pela conquista do
imagens do corpo grande do guerrilhei- tricampeonato encobria os massacres nos
ro baiano recostado no banco de trás do sórdidos porões, os enterros em cemité-
Fusca, aonde chegou a entrar, mas já mor- rios clandestinos, encobertos pela censura
talmente ferido. O episódio marcaria a vi- de imprensa, que estava em seu auge ..
rada na luta entre grupos de esquerda e O segundo presidente da ditadura,
órgãos de repressão; a partir daquele mo- Costa e Silva, escolhido, como todos os
mento o conflito favoreceu a estes últi- demais, pelas FFAA e formalizado por um
mos. Congresso aviltado, falecera durante a cri-
Na realidade, o momento de maior cri- se do seqüestro do embaixador norte-
se econômica já havia passado também. americano, dando lugar ao terceiro dita-
A aplicação de uma dura política por parte dor de turno, o general Emílio Garrastazu
128 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 129

Médici, que representou a vitória da cha- sucesso para libertar militantes presos.
mada "linha-dura" dos militares, aquela Mas já eram ações defensivas, para dimi-
mais disposta a resolver a fogo e sangue nuir os desgastes impostos pela repressão.
os conflitos para fazer triunfar a "pátria A guerrilha havia ficado confinada nas ci-
grande" prometida pela doutrina de se- dades. Apenas um acampamento de trei-
gurança nacional. Elaborada pela Escola namento guerrilheiro rural se estabelece-
Superior de Guerra ao longo dos anos 50 ra, no Vale do Ribeira, pela VPR de
e 60, sob a influência direta dos EUA, es- Lamar-
ta doutrina caracterizava o corpo social ca, mas foi desbaratado também pela re-
como um órgão vivo, no qual só se ad- pressão. O sucesso nas cidades e as difi-
mite a solidariedade de cada parte com o culdades para a organização da guerrilha
todo. Qualquer divergência ou conflito é rural estenderam o tempo de ação nas ci-
considerado como ação de um corpo ex- dades, enquanto as bases possíveis de
terno - "inimigo externo", no caso, so- apoio para a luta armada eram neutraliza-
viético, chinês ou cubano -, afetando o das ou se distanciavam da oposição.
funcionamento harmônico da totalidade. No começo de 1971 foi feito o último
É uma doutrina totalitária, que deu cober- seqüestro de embaixador, que promoveu
tura ideológica às ditaduras do cone sul a libertação de mais 70 presos políticos.
latino-americano. Essa ação foi realizada pelo capitão
Os movimentos guerrilheiros perde- Lamar-
ram capacidade de ação e de iniciativa. O ca, que, em seguida, discordando da linha
tempo passou a contar favoravelmente à considerada militarista - por privilegiar
ditadura, que conquistava suas bases so- os enfrentamentos armados, deixando pa-
ciais, se não para um apoio ativo, pelo me- ra segundo plano o trabalho político de
nos para se manterem neutras, uma espé- massas -, mudou de organização políti-
cie de apoio passivo, de fechar os olhos ca e foi tentar desenvolver um trabalho
para a repressão, desde que tivessem aces- com os camponeses no interior da Bahia.
so aos privilégios que lhes eram prome- Ali Carlos Lamarca foi descoberto pela re-
tidos. pressão e morto, desaparecendo assim a
Houve ainda o prolongamento herói- segunda grande figura da luta armada da-
co de ações guerrilheiras, entre elas ou- quele período da esquerda brasileira.
tros seqüestras d~ diplomatas, todos com O PC do B havia se preparado direta-
mente para a guerrilha rural e começou
a desenvolver um foco guerrilheiro no
130 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 13
1

Araguaia, em 1972. Descobertos pela re- Berkeley, de Saigon a Berlim, da guerri-


pressão ainda na fase de trabalho políti- lha rural latino-americana às fábricas ita-
co preparatório, os guerrilheiros foram lianas de Turim.
obrigados a entrar em combate com as Foi uma opção que deixou sua marca,
forças do exército antes ainda de estar em mostrando ao país que havia gente dis-
condições de fazê-lo. Apesar de seu en- posta a resistir ao arbítrio, à liquidação da
raizamento social na região, os guerrilhei- liberdade e da democracia, mesmo ao
ros foram cercados por grande quantida- preço de suas vidas. Um gesto que ficou
de de tropas e não puderam resistir. marcado na consciência popular e que
Desapareciam assim os elementos de germinaria depois no desenrolar da opo-
resistência armada ao regime militar, oi- sição à ditadura dos anos 70 e no surgi-
to anos depois de instalado o golpe de mento da terceira geração da esquerda
1964. À derrota militar seguiu-se a derro-
brasileira, herdeira dessas duras lutas de
ta política. Até ali as outras formas de opo-
resistência.
sição não tinham força, mesmo porque a
Derrotados, grande parte dos militan-
própria ditadura se encarregava de evitar
tes da esquerda armada foi dispersada pela
qualquer espaço legal ou semilegal para
repressão, entre o exílio, a prisão e a mor-
seu desenvolvimento. Nas eleições, o vo-
te. Os que sobreviveram foram postos em
to popular se descarregava majoritaria-
liberdade aos poucos, ao longo da déca-
mente nos nulos e brancos, que, somados
da de 70; finalmente, com a anistia de
à abstenção, superavam a votação do
1979, os exilados retornaram ao país. O
MDB, o partido da oposição consentida.
Brasil havia se transformado e eles mes-
A resistência clandestina à ditadura ti-
mos já não eram os de antes. Rebeldes
nha sido o único caminho possível quan-
ainda ou acomodados, militantes ou sim-
do o regime militar fechou qualquer ou-
patizantes, combativos ou alquebrados,
tra alternativa de oposição. Um setor sig-
sobreviviam ao mais dramático momen-
nificativo dos jovens brasileiros fizera
to da história política do país, para teste-
aquela opção não como uma' 'loucura de
munhar ou protagonizar o retorno da de-
juventude", mas como uma afirmação de
mocracia. Não aquela que desejavam, mas
sua capacidade de rebeldia, em consonân-
a que foi historicamente possível e que
cia com o mesmo movimento que se de-
abriria espaço para que a esquerda reto-
senvolvia pelo mundo afora, de Paris a
132 EMIR SADER

masse sua trajetória, sua velha luta pela


justiça social, agora em outros moldes. O
desafio era novo, mas para enfrcntá-lo ela
contava com o acúmulo de forças de suas
experiências anteriores.

A terceira geração:
o socialismo democrático

O ano de 1974 foi chave para dividir


o período ditatorial. Nele coincidiram a
posse do novo presidente, Ernesto Gei-
seí, as eleições parlamentares e as conse-
qüências do novo período no qual ingres-
sava o capitalismo internacional, com
seus reflexos no Brasil.
O novo general-presidente tratou de
diferenciar-se de seu antecessor imediato:
valendo-se da derrota da oposição arma-
da e do novo ciclo de crescimento eco-
nômico, anunciou o início de um proces-
so de "abertura" política, "lenta, gradual,
porém segura", segundo suas palavras. A
ditadura se valia do seu momento de
maior força para tentar construir uma ins-
titucionalidade que congelasse o máximo
possível aquele momento. De qualquer
forma, começavam a mudar as condições
de luta opositora com o anúncio de espa-
ços institucionais para sua inserção.
SER DE ESQUERDA NO BRASIL 135
134 EM IR SADER

Dois fatores vieram mudar a situação bém se multiplicarem seus contingentes.


de força da ditadura. O primeiro foi a vi- Se no período getulista um grande peso
tória eleitoral do MDB nas eleições parla- no movimento operário residia nas em-
mentares, expressando pela primeira vez presas estatais - siderúrgicas, petrolífe-
uma derrota institucional do governo; o ras, de transporte, de serviços públicos
consenso favorável ao governo e a disper- _, a partir da segunda metade dos anos
são do voto em branco, nulo e abstenções 50, com o desenvolvimento da indústria
passaram a ser canalizados para o MDB. automobilística, o eixo do setor industrial
A derrota da oposição armada tornou o foi se deslocando para São Paulo e para
partido opositor o eixo de uma frente an- o setor privado.
tiditatorial, que ele desempenharia dali Grandes empresas multinacionais ocu-

I para a frente.
O outro fator que contribuiu para
acentuar as debilidades do governo foi
param o lugar de vanguarda no setor in-
dustrial, tanto por seu desenvolvimento
tecnológico, quanto pela quantidade de
que o capitalismo internacional concluía trabalhadores empregados. A indústria au-
seu período expansivo começado no pós- tomobilística passou a desempenhar pa-
guerra e entrava num ciclo de caráter re- pel central na nova composição do pro-

I cessivo. Embora isto não significasse pa-


ra o Brasil índices econômicos negativos,
obrigou o país a baixar os ritmos de cres-
letariado brasileiro, que se acelerou com
o tipo de expansão econômica do perío-
do ditatorial.
cimento e, principalmente, a depender de Era um proletariado com experiência
~ empréstimos externos em lugar de inves- de luta, muito diferente daquele que ha-
timentos e de grande demanda estatal, via tido no getulismo sua vivência funda-
com obras faraônicas. Como resultado, a mental. E, como particularidade ainda
I
inflação retornou aos poucos e o auge do mais importante, tinha uma posição de in-
chamado "milagre econômico" foi fican- dependência em relação ao Estado: em
do para trás. primeiro lugar, porque eram empresas de .
O país foi se transformando do ponto capitalismo privado e, em segundo, por-
de vista social conforme o novo ciclo eco- que se desenvolveram, a partir de 1964,
nômico interno intensificava a industria- tendo no Estado um adversário, pela po-
lização. Por um lado se renovou a com- lítica de arrocho salarial, pela intervenção
posição da classe operária, que viu tam- nos sindicatos, pela repressão em geral.
,..

13 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 13


6 7

Isso possibilitou o desenvolvimento em particular as mulheres, os negros, os


de um sindicalismo de base, índependen- homossexuais, despertaram para a reivin-
te do Estado e da estrutura sindical ofi- dicação de seus direitos. A sociedade ci-
cial, dando origem a uma força social de- vil, em seu conjunto, oprimida pelo tota-
terminante no surgimento da nova es- litarismo da ditadura militar, reagiu dan-
querda, como se verá mais adiante. do ensejo ao florescimento de múltiplas
A diversificação social do capitalismo formas de reivindicações de cidadania.
brasileiro deu origem também a uma mul- Desde o golpe militar, a Igreja passou
tiplicidade de movimentos que se desen- por uma transformação significativa em
volveram a partir de contradições sociais suas posições no Brasil, de forma corre-
localizadas em outros lugares e não na lata ao que sucedia em escala mundial,
produção industrial. A crise agrária ace- com o surgimento da teologia da liberta-
lerou a formação do movimento rural dos ção. A Igreja se inseriu no espaço deixa-
sem-terra, enquanto a exploração de ter- do livre pela repressão ditatorial, para
ras indígenas produziu como resposta a abrigar todos os movimentos de base de
I

mobilização das tribos na defesa de suas resistência ao regime militar. Ampliaram-


reservas e de sua civilização. se as Pastorais para que se estendessem
I Nas grandes cidades, incapacitadas pa-
ra acolher um continuado êxodo rural,
a todos os movimentos que surgiam, en-
quanto se constituíam Comunidades Ecle-
deterioravam-se cada vez mais as condi- siais de Base (CEBs) que congregavam os
ções de vida. As aglomerações urbanas do fiéis envolvidos em campanhas de solida-
i
Centro-Sul, especialmente São Paulo e Rio riedade com as vítimas da repressão, as-
de Janeiro, passaram a abrigar metade da sim como com os que lutavam por terra,
miséria nacional, antes concentrada no por casa, por melhores salários e outras
campo e no Nordeste do país. Os movi- reivindicações democráticas e populares.
mentos dos sem-casa agruparam grande Diversas mobilizações voltaram a mar-
quantidade de famílias lutando por con- car a sociedade brasileira, praticamente
dições mínimas de moradia. aprisionada sob o férreo domínio da di-
Por outro lado, as minorias políticas - tadura militar desde 1964: campanhas dos
assim chamadas não por serem necessa- estudantes pela reorganização da UNE;
riamente minoritárias, mas por não serem mobilizações contra a carestia, na medida
respeitadas em sua cidadania -, entre elas
138 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 139

em que se deteriorava a situação econô- cesso de abertura política em condições


mica dos assalariados das classes popula- de máxima força da ditadura, viu essas
res; campanha pela anistia dos presos e condições se transformarem gradualmen-
exilados, que foi se fortalecendo à medi- te. Dentro do próprio regime, ele teve de
da que o governo anunciava o processo administrar as pressões dos setores radi-
de abertura política. calizados de direita, que insistiam em uti-
Esse conjunto de movimentos, por sua lizar os métodos mais drásticos de repres-
vez, encontrava no MDB sua representa- são, indiferentes ao fato de que o inimi-
ção, um arco de forças políticas que, mais go já havia sido derrotado e a ditadura po-
do que um partido, era uma frente de dia baixar seu perfil repressivo.
oposições muito diferenciadas. O Movi- O PCB, como partido não envolvido
mento Democrático Brasileiro abrigava na resistência armada dos anos 60, sobre-
desde políticos remanescentes da oposi- viveu, apesar de seu debilitamento polí-
ção durante o primeiro período do gol- tico desde o golpe militar. Foi depois da
pe militar, até outros que por divergên- derrota dos movimentos armados que os
cias posteriores se distanciaram dos go- órgãos repressivos se dirigiram para os co-
vernos da ditadura; estavam no MDB, munistas restantes. A repressão atingiu o
também, setores sobreviventes da esquer- PCB em meados dos anos 70 e em torno
da mais combativa, que inclusive haviam disso se gestaram crises internas à dita-
participado da luta armada nos anos 60. dura.
Movimentos sociais, como, por exemplo, Primeiro, Vladimir Herzog, jornalista
o sindical, igualmente se faziam represen- ligado ao PCB, foi encontrado suposta-
tar no MDB, na medida em que o único mente enforcado em sua cela, quando to-
espaço de luta política restante era o ins- dos os indícios levavam a que ele havia
morrido sob tortura. Em seguida um líder
titucional, embora as lutas sociais se des-
sindical teve morte similar. Foi a primei-
sem num campo ilegal ou semilegal. Era
ra vez, desde o golpe militar e a utiliza-
impossível o não reconhecimento da exis-
ção em larga escala da prisão arbitrária, da
tência desses movimentos, uma vez que
tortura e do assassinato, que esses crimes
sua força era uma realidade inegável.
sofreram algum tipo de punição. Isso de-
Diante da mudança de situação nos monstrava que os tempos estavam mu-
planos econômico, social e político, o go- dando, sob o peso da alteração das con-
verno Geisel, que havia anunciado o pro- dições políticas internas.
14 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 14
0 1

Geisel agiu contra os militares respon- cessivas greves - em 1978, 1979 e 1980
sáveis por esses atos, classificando-os co- -, obter o atendimento de reivindicações
mo "excessos" que deviam ser punidos. que contrariavam a política econômica do
Embora conivente com seus órgãos re- regime.
pressivos, Geisel se viu obrigado moral- Em segundo lugar, graças ao imenso
mente a agir dessa forma, sob pena de I apoio dos trabalhadores e da solidarieda-
desmoralização completa de seu projeto de da população em geral, os movimen-
de abertura política. tos grevistas conseguiram resistir às ofen-
Em 1977, o governo Geisel teve que sivas repressivas, que incluíram a inter-
retroceder quando, diante de resistências venção no sindicato, a prisão de líderes
do Congresso em aprovar medidas do dos movimentos e a dissolução à força de
Executivo, este foi fechado e os militares assembléias dos trabalhadores.
voltaram a apelar para atos institucionais, Essas assembléias eram realizadas no
que introduziram a figura do senador bió- estádio de futebol de São Bernardo do
nico e determinaram a extensão do man- Campo, com a participação de dezenas de
dato presidencial, entre outras medidas milhares de operários, com helicópteros
1

ar bi trárias. sobrevoando numa tentativa de atemori-


Foi nesse contexto que começaram a zá-los. Foi desses movimentos que emer-
se desenvolver as primeiras greves do no- giu a liderança de Luís Inácio (Lula) da
vo movimento operário. Elas se realiza- Sil-
ram justamente no setor mais avançado va, um torneiro mecânico da indústria
tecnologicamente da indústria brasileira, metalúrgica, imigrante nordestino, chega-
o ABC, na Grande São Paulo, que congre- do de Pernambuco ainda jovem e que se
gava a maior parte da indústria automo- tornara presidente do sindicato dos me-
bilística brasileira. talúrgicos de São Bernardo do Campo.
Foi esse setor que conseguiu infligir Os movimentos se transformaram em
uma derrota de vulto à ditadura. Em pri- um braço-de-ferro entre os trabalhadores
meiro lugar, foi uma derrota econômica, e o regime militar, catalisando o poten-
quando se romperam os rígidos cânones cial de solidariedade na luta contra a di-
da orientação de arrocho salarial impos- tadura. As igrejas recebiam auxílios em
ta pela ditadura desde 1964. Os trabalha- di-
dores conseguiram, ao longo de suas su- nheiro e em comida enviados de todas as
\ partes do país, dando um caráter nacio-
nal às greves.
~ ____ ~----------11~---------------
-~
142 EM IR SADER .SER DE ESQUERDA NO BRASIL 143

Outra prova da oscilação de forças en- periências políticas adquiridas primeiro


tre o regime militar e as oposições se deu no Chile, depois na Europa ocidental ou
em torno do caráter da anistia. Ela era um mesmo em Cuba, que se somavam àque-
elemento essencial na operação de ínstí- las acumuladas na resistência interna à di-
tucionalização política levada a cabo pe- tadura militar.
la ditadura, pois significava levantar as in- Entre as medidas de abertura política
terdições do direito de cidadania aos pu- estava a liquidação da legislação ditatorial
nidos pela ditadura, tanto no exílio, quan- sobre os partidos políticos, que os havia
to nas prisões ou na simples suspensão restringido a dois. Abria-se a possibilida-
dos direitos políticos. de para a renovação partidária e, com ela,
Havia tomado posse um novo general- a perspectiva de que a esquerda ganhas-
presidente, igualmente escolhido pelas se contornos novos e mais definidos.
FFAA, o general João Baptista O velho MDB se manteve como o par-
Figueiredo, tido essencial da transição democrática,
ex-chefe do Serviço Nacional de Informa- onde passaram a conviver desde setores
ções (SNI). Pressionado pela ampla mo- da esquerda - no início da transição o
bilização popular a favor de uma anistia PCB, o PC do B, o MR-8 já transformado
geral e irrestrita, ele foi obrigado a incluí- permaneceram em suas fileiras - até gru-
Ia em seu pacote que buscava dar conti- pos egressos da ditadura e somados à
nuidade à abertura política iniciada pelo oposição. Sua bandeira era a da redemo-
general Geisel. Assim puderam retornar cratização. Esta comportava desde inter-
ao país milhares de exilados, saíram das pretações liberais - como a simples re-
prisões centenas de condenados e volta- composição do Estado de direito - até
ram à vida política muitos dirigentes opo- visões que se faziam acompanhar de pro-
sitores. fundas reformas sociais, com a substitui-
Entre os que retornavam ao país se en- ção do modelo econômico da ditadura.
contravam líderes de antes de 1964, co- Como veremos mais adiante, prevaleceu,
mo Leonel Brizola, o secretário geral do com o Colégio Eleitoral e o governo Sar-
PCB, Luís Carlos Prestes, o político per- ney, a primeira variante, deixando em po-
nambucano Miguel Arraes, assim como lí- sição subalterna os setores de esquerda do
deres do movimento estudantil dos anos MDB, agora rebatizado de PMDB.
60, como José Dirceu e Vladimir Palmei-
ra, entre outros. Uma parte deles trazia ex-
144 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 145

A antiga tradição do getulismo foi ré- da velha esquerda - trotskistas ou maoís-


vivida por meio de um partido dirigido tas. O novo partido assumia o socialismo
por Brizola. Sem conseguir manter o no- desde o começo, embora se distancian-
me de PTB, ele optou por uma variação: do da sua versão soviética, casando-o in-
Partido Democrático Trabalhista (PDT), trinsecamente com a democracia.
com ideclogia nacionalista, pretendendo O PT não surgiu com uma doutrina e
ser uma força à esquerda do PMDB. Leo- uma linha política definidas. Nasceu dos
nel Brizola confiava nos elementos de movimentos sociais dessa oposição à di-
continuidade entre os trabalhadores bra- tadura, que desembocaram na formação
sileiros - que, como vimos, deram lugar de um partido, a partir da constatação do
aos de ruptura e renovação - para se co- caráter político da luta contra a ditadura
locar à sua cabeça, retomando o fio inter- e pela construção de um novo tipo de re-
rompido em 1964 com o golpe contra o gime e de sociedade. Com 'oforte com-
governo de João Goulart. ponente da luta dos trabalhadores pesan-
Então surgiu o PT, Partido dos Traba- do decisivamente, o socialismo foi defi-
lhadores. Como se viu anteriormente, o nido como o objetivo do partido. E, co-
Brasil nunca havia tido uma forte tradição mo já em suas origens as diferentes for-
de esquerda e, quando ela existiu, foi ças que o compuseram tinhám enfrenta-
dentro dos padrões do movimento comu- do a luta contra a ditadura, a democracia
nista internacional. Agora, vinda das for- aparecia como o outro forte componen-
ças de resistência à ditadura, fosse do mo- te do Partido dos Trabalhadores.
vimento sindical, fosse dos movimentos Surgia com o PT uma nova forma de
de resistência civil e dos novos movimen- ser "de esquerda". O partido nascia es-
tos sociais, emergia uma força sui generis treitamente ligado à sociedade civil, às
até mesmo em termos dos padrões conhe- mobilizações de suas organizações, às lu-
cidos de forças de esquerda no mundo. tas das minorias, às rcívíndícações liber-
Liderado por Lula e por seus compa- tárias. Sua estrutura foi desde o começo
nheiros de resistência sindical, o novo aberta; apartícipação no partido não im-
partido agrupava antigos militantes dos plicava deveres e normas rígidas.
anos 60, democratas radicalizados, novos Outros partidos retomaram uma exis-
movimentos cristãos, intelectuais de es- tência independente, saindo do PMDB: o
querda, pequenos grupos remanescentes PC do B, originariamente ligado à China,
Depois da
ditadura) antes
14 EMIR SADER SE
6

depois à Albânia, sempre com um forte Algumas for


componente stalinista, isto é, rígido, com cratização - com
grande peso doutrinário, oscilando entre _ subestimando
,
o radicalismo e a aliança com partidos po- ciais. Umas orie
líticos de centro; o PCB, ligado à URSS, liberal, que priv
enquanto ela existiu, partido que poste- to do Estado de
riormente se transformaria no Partido Po- dar ênfase ao na
pular Socialista (PPS); o Partido Socialis- da soberania nac
da democracia ta Brasileiro (PSB), com feições similares do PDT. O desa
às que havia tido anteriormente a 1964; tentar compatibi
e o Partido Verde (PV), com pouca ex- cia com a busca
As pressão, já que nem sequer conseguiu lizada no sociali
primeiras congregar todos os ecologistas, dispersos ria desse partido
eleições já com por várias organizações. ta desta terceira
os novos É diante desse paradigma que o Brasil brasileira.
partidos, em entra na década de 1980. O país havia per-
pleno processo dido, durante a ditadura, não somente a
de abertura tradição de democracia, mas também
política, qualquer sentido de justiça social. A dita-
consagraram o dura havia exacerbado o capitalismo e a
PMDB como o mercantilização da sociedade. A polariza-
grande partido ção social havia transformado o Brasil no
campeão mundial de desigualdade social,
da transição
com a pior distribuição de renda do mun-
democrática.
do. O ensino público estava em estado de
O PDT teve
falência, o mesmo acontecendo com o
uma vitória
sistema de saúde, enquanto o enriqueci-
importante mento de camadas minoritárias da popu-
com lação fazia com que o mercado interno se
Brizola eleito restringisse ao usufruto de 20% da popu-
governador do lação. A luta da esquerda era, então, si-
Rio de janei- multaneamente por democracia e por jus-
ro, mas ficou, junto com o tiça social.
PT, como
coadjuvante. A questão democrática se
sobrepunha às outras na luta política.
A campanha pelas eleições diretas pa-
ra presidente da República permitiu
que
duas figuras, Ulysses Guimarães e Lula,
aparecessem como os dois maiores líde-
res democráticos, cruzando o país de la-
do a lado na pregação do direito popular
de escolher pelo voto direto o primeiro
presidente democrático desde 1964. A es-
querda, em todas as suas tendências, par-
ticipou ativamente da campanha, de-
monstrando que havia recuperado plena-
150 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 151

mente a dimensão democrática da luta po- em estagnação econômica e retrocessos


lítica, subestimada no getulismo e no na- sociais. No nosso país esses fatores foram
cionalismo de antes do golpe militar. em parte compensados pela volta da de-
Mas a derrota dessa campanha pela sua mocracia e, principalmente, pelo fortale-
inviabilização no Congresso fez com que cimento do movimento sindical e dos no-
a eleição do presidente fosse realizada vos movimentos sociais, que puderam fa-
através de um Colégio Eleitoral, um ór- vorecer a capacidade de reivindicação das
gão espúrio criado pela ditadura, com de- classes populares.
putados e senadores biônicos. Tirava-se Depois de afirmar sua força nas greves
assim do povo o direito de decidir sobre de 1978-80, o movimento sindical con-
seus próprios destinos, imprimindo-se à seguiu se constituir nacionalmente atra-
transição democrática um rumo conser- vés da formação de centrais dos trabalha-
vador. dores, pela primeira vez consideradas le-
Todos os partidos decidiram participar gais no Brasil. A Central Única dos Tra-
do Colégio Eleitoral e votar na chapa Tan- balhadores (CUT), uma vez hegemoniza-
credo N eves-J osé Sarney, alegando que da pelo PT, foi seguida por outras, de ten-
qualquer meio para derrotar a ditadura era dências mais moderadas, como a Central
legítimo, enquanto o PT decidiu abster- Geral dos Trabalhadores (CGT) e a Força
se, por julgar que os fins não justificam Sindical. Os movimentos reivindicatórios
os meios, que um regime nascido de um da sociedade, entre eles os movimentos
instrumento espúrio traria sempre essa das mulheres, dos negros, dos índios, dos
marca. O PT ficou isolado, mas afirmou sem-casa, dos sem-terra, se afirmaram, es-
uma posição que depois lhe permitiria se pecialmente na primeira metade da déca-
constituir no grande crítico da direção as- da, apoiados pela Igreja, pelo PT e por ou-
sumida pela transição democrática. tros partidos de esquerda, assim como
Apesar da evolução positiva da ditadu- por entidades da sociedade civil. Ser" de
ra à democracia, ainda que de forma len- esquerda" era estar, de alguma forma, en-
ta e limitada, os anos 80 foram conside- volvido no processo de democratização
rados uma "década perdida", no sentido da sociedade brasileira, além dos limites
de que, para o Brasil, assim como para to- da sua institucionalização, lutando por
dos os países do hemisfério sul, o peso da uma democracia social, por um direito
multiplicação da dívida externa resultou efetivo de cidadania para todos.
EMIR SADER

Por sua vez, o esgotamento do PMDB cando compensar essa orientação com
como partido dirigente da transição de- políticas sociais. O projeto de moderni-
1
mocrática
5 gerou crises internas, produzin- zação neoliberal os seduziu, a ponto de
2
do, numa delas, o surgimento do Partido a direção do PSDB ter se pronunciado
da Social Democracia Brasileira (PSDB). majoritariamente pela participação no go-
A verno de Fernando Collor, um mês antes
nova formação - que tomou o "tucano" da eclosão dos escândalos que levaram a
como seu símbolo - se propôs a reivin- seu irnpeacbment, A negativa desse par-
dicar entre nós a ideologia social-demo-
tido de dar esse passo não impediu que
crática, de forma diferenciada em relação
vários de seus principais intelectuais (co-
à versão nacionalista de Brizola, em con-
mo Hélio ]aguaribe e Celso Lafer, entre
comitância com os novos perfis exibidos
outros) ingressassem no governo de
pelos partidos da Internacional Socialista
ao longo dos anos 80. Collor.
O PSDB passou a congregar boa parte Expressavam-se aí confluências entre
dos quadros mais prestigiados do PMDB a nova orientação do PSDB e as forças
(como Fernando Henrique Cardoso, Ma- conservadoras brasileiras - especialmen-
rio Covas, Pimenta da Veiga), sem contu- te o PFL - que passaram a fazer da mo-
do conseguir abrigar toda a esquerda do dernização neoliberal do Estado sua prin-
partido do qual se originava. No entanto, cipal bandeira política e ideológica.
passou a figurar como nova alternativa de O PSDB foi redefinindo sua interpre-
centro-esquerda no espectro partidário tação da crise brasileira, passando da crí-
brasileiro, uma novidade para um cená- tica à privatização do Estado feita pelos
rio com poucos partidos com definições setores conservadores para a versão se-
ideológicas claras. gundo a qual reside no déficit público o
Logo, porém, o PSDB passou a viver nó que. bloquearia o desenvolvimento
os mesmos problemas da social-democra- econômico do país. Este, uma vez reto-
cia européia e, posteriormente, latino- mado, após um combate radical à infla-
americana: com o esgotamento do Esta- ção, levaria ao desenvolvimento social.
do de bem-estar social, que havia diferen- O impeacbment de Collor levou à pre-
ciado esses partidos das formações polí- sidência Itamar Franco, um político sem
ticas conservadoras, os social-democratas expressão própria, a ponto de formar um
foram aderindo ao neoliberalismo, bus-
SER DE ESQUERDA NO BRASIL

153
15 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 15
4 5

governo com todas as forças políticas que A atuação de FHC se caracterizou por
se dispusessem a isso, da direita - atacar o déficit público - considerado a
incluindo os partidos que haviam gover- raiz do processo inflacionário - median-
nado com Collor - até os setores de es- te drásticos cortes nas políticas sociais,
querda disponíveis. Após um período de que viram reduzidos em vários bilhões de
indefinições, com ministros da Economia dólares seus recursos no ano em que es-
fracos, que davam continuidade às polí- teve no Ministério da Fazenda e no perío-
ticas gradualistas neoliberaís iniciadas no do em que sua equipe deu continuidade
último ano do governo Sarney, numa das a suas orientações. Enquanto isso, essa
crises geradas pela continuidade e aumen- equipe formulou um plano de combate
to da inflação, foi chamado a assumir o ao elemento inercial da inflação, mediante
Ministério da Fazenda Fernando Henrique a introdução de uma nova moeda, "des-
Cardoso, até então ministro das Relações contaminada" desse elemento inercial.
Exteriores. O PSDB participava do gover- Essa nova moeda, introduzida gradual-
no, revelava-se o partido mais identifica- mente, se lastrearia numa taxa de câmbio
do com a presidência de Itamar Franco, desvalorizada e num controle salarial.
mas somente a partir daquele momento Ao mesmo tempo que esse plano era
é que pôde dispor do controle do cora- formulado, se articulava a candidatura do
ção fundamental de suas políticas, com a próprio FHC para a sucessão de Itamar
nomeação de FHC para o posto econô- Franco, como capitalizador dos efeitos
mico chave. antiinflacionários imediatos do plano e
A partir de maio de 1993, FHC come- como garantia de sua continuidade.
çou a articular um plano econômico que As forças conservadoras brasileiras,
materializaria sua concepção sobre o ca- que já haviam passado por uma situação
ráter da crise brasileira. Como reiterou aflitiva em 1989, com a ameaça de vitó-
tantas vezes o então ministro da Fazenda: ria de Lula nas eleições presidenciais, vol-
"A economia privada vai bem, o Estado tavam a chegar à sucessão sem um candi-
é que vai mal". Esse mote passou a resu- dato forte e sem partidos consistentes que
mir a nova concepção que presidiria a garantissem a reprodução das condições
ação do PSDB e do governo Itamar Fran- de sua dominação.
co, que teve em FHC uma espécie de su- No momento da queda de Collor,
perprimeiro-ministro. atribuiu-se a Roberto Marinho - o pode-
15 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 15
6 7

roso proprietário da Rede Globo -- a afir- mo seus eixos centrais. A superação da


mação de que aquele seria "o último pre- crise -- prolongada ao longo da "década
sidente conservador que conseguiria perdida" -- viria do controle inflacioná-
eleger-se presidente do Brasil". Podia rio que, por sua vez, teria no combate ao
interpretar-se de duas maneiras distintas déficit público sua alavanca básica.
essa afirmação: ou que havia chegado a A recuperação do poder aquisitivo, de-
vez de a esquerda governar o país ou, en- i
corrente da remoção da inércia inflacio-
tão, havia que se buscar na esquerda al- nária, propiciaria a promoção do poder
guém para dar continuidade, ainda que de aquisitivo, especialmente da população
forma distinta, ao sistema de dominação de menor nível de renda, a mais penali-
reinante. zada pela indexação da economia, dado
Até aquele momento, conviviam dois que se defendia mal ou não conseguia se
discursos, quase esquizofrenicamente, no defender da inflação.
país: um, o da modernização neoliberal, O outro discurso, o do PT, repousava
cada vez mais identificado com o gover- no combate à injustiça social, na promo-
no de Itamar Franco e com o PSDB (e seu ção dos direitos de cidadania, na luta con-
ministro da Fazenda, Fernando Henrique tra a desigual distribuição de renda, que
Cardoso, em particular). Esse discurso en- coloca o Brasil na qualidade de socieda-
contrava eco amplificador praticamente de mais injusta do mundo. Seu programa
em todos os órgãos da grande imprensa, se baseava nas reformas estruturais que
impregnando a maioria dos discursos po- possibilitariam a expansão de um merca-
líticos, assumindo praticamente um cará- do interno de massas, o qual requereria
ter de senso comum, como é característi- uma radical redistribuição de renda. Além
co de uma ideologia quando se impõe he- disso, a reforma agrária, a rediscussão dos
gemonicamente. termos do acordo de pagamento da dívi-
Esse discurso se baseia na reforma do da externa, a renegociação da dívida in-
Estado, como seu pilar fundamental, con- terna, alongando seu perfil, somavam-se
siderado como o obstáculo central à mo- ao elenco de medidas básicas pregadas pe-
dernização econômica. Essa reforma do la esquerda para superar a crise brasilei-
Estado se apóia na estabilização monetá- ra, definida antes de tudo como crise so-
ria, na abertura ao mercado externo, na cial e amparada em um modelo econômi-
privatização e na desregulamentação co- co cuja reprodução multiplica exatamente
essa crise social.

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15 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 15
8 9

Se o primeiro discurso galvanizou seus petardos contra a especulação finan-


grande parte dos setores formadores de ceira, a dívida externa, as grandes fortunas,
opinião pública, um sentimento de injus- os latifúndios improdutivos, a privatização
tiça social também logrou disseminar-se, do Estado, a sonegação de impostos. Ago-
até ter suas expressões mais claras na ra os dardos estariam voltados essencial-
"campanha contra a fome" e nas "cara- mente contra o Estado e aqueles que se be-
vanas de cidadania", com as quais o PT neficiariam dele: as empresas estatais e
deu início à sua campanha presidencial. seus
O caráter esquizofrênico vinha de que, funcionários, os monopólios estatais, os
pelo menos uma parte dos que propagam funcionários públicos, os trabalhadores
o primeiro discurso trata de incorporar as sindicalizados e suas organizações, as con-
políticas sociais como resultantes do for- quistas sociais, como as de aposentadoria,
talecimento da moeda; enquanto os por- de igualdade do menor rendimento da pre-
tadores do segundo discurso se rendem vidência com o salário mínimo.
à necessidade de luta contra a desvalori- Em suma, pregava-se um programa po-
zação da moeda. No entanto, os dois ca- lítico pelo qual não seria necessário derro-
minhos não têm o mesmo ponto de par-
tar políticas das elites no poder para refor-
tida, nem conduzem na mesma direção.
I mar e modernizar o país. Ao contrário,
E, antes de tudo, representam dois blo-
diante das dificuldades de derrotá-Ias, se-
cos sociais particularmente diferenciados,
ria preciso somar-se a elas para derrotar a
especialmente em quem detém a hegemo- esquerda e assim abrir caminho para uma
nia em cada um deles. modernização pactuada com as elites, con-
Fernando Henrique Cardoso galvani-
zou o vazio de alternativas com apoio po- '. venci das da necessidade de fazer conces-
sões, dada a própria força da esquerda.
pular no campo conservador no poder, O plano econômico consistiu no com-
para se projetar como uma opção que o
bate ao fator inercial da inflação, que se
incorporaria, com a vantagem de ter um acumulou ao longo do tempo, com a im-
apelo popular, seja por sua origem pes- plantação de uma nova moeda, sem aque-
soal, seja pelo programa que se propunha
le elemento da anterior. O plano foi articu-
a colocar em prática. Este programa se lado de forma coordenada com o proces-
consubstanciaria num plano econômico so eleitoral, de modo que seus inevitáveis
de combate à inflação que já não dirigiria
efeitos imediatos de baixa radical de uma

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16 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 16
0 1

inflação que já beirava os 50% mensais em pequena medida". Por detrás deste ar-
coincidissem com os meses prévios às gumento, está a adesão ao argumento de
eleições. Isso, mais o apoio generalizado que terminou a divisão entre direita e es-
dos grandes meios de comunicação, me- querda.
diante uma campanha que projetava a re- Finalmente, o terceiro discurso foi di-
solução da crise brasileira em todas as suas recionado às classes populares, para quem
dimensões pela introdução da nova moe- a introdução da nova moeda foi decisiva.
da, identificada com o candidato do go- Sua mensagem foi o resgate da esperan-
verno, propiciou que Fernando Henrique ça, a partir da recuperação - real ou su-
Cardoso passasse de 17% a 45% das in- posta - do poder aquisitivo da moeda (e,
tenções de voto em pouco mais de um por meio dela, do salário).
mês. No seu conjunto, muda a própria ideo-
Sua candidatura se apoiou entre dis- logia do que seria a social-democracia bra-
cursos diferentes justapostos. O primei- sileira e, com ela, a análise sobre o poder.
ro dirigiu-se à direita e à própria elite do Este deixa de estar nas mãos das oligar-
poder, e tinha um conteúdo claro: "Só eu, quias tradicionais para desaparecer como
um candidato originário da esquerda, pos- temática direta. Substitui-se pela idéia de
so derrotar a esquerda, que ameaça a sua que é possível, por meio da persuasão, da
continuidade no poder". Será preciso, pa- razão tecnocrática e de uma certa dose de
ra isso, entregar os anéis - alguns, pelo esperteza, não apenas neutralizar a opo-
menos - para preservar os dedos. A for- sição desses setores, como até tê-los so-
ça da candidatura de Lula nas pesquisas mados a um projeto de modernização do
e o fortalecimento do PT desde 1989 ser- Estado.
viram como pano de fundo desse argu- Claro que essa nova ideologia teve de
mento. mudar de natureza, deixando de lado a
O segundo discurso voltou-se para os democratização do Estado, para adequá-
setores médios, aos que desejam transfor- 10 às necessidades da nova etapa do pro-
mações no Brasil sem convulsões sociais, cesso de acumulação de capital baseado
a quem ele disse: "Vamos transformar o na desregulamentação, na prívatízação e
país desde cima, devagar, convencendo na abertura da economia ao exterior, is-
as elites de que isso é necessário, até por- to é, nos postulados centrais do neolibe-
que não afetará seus interesses ou o fará ralismo. Nesse sentido, o programa oficial
16 EMIR SADER
2 SER DE ESQUERDA NO BRASIL 16
3

da candidatura de Fernando Henrique país começa pela estabilização monetária


Cardoso não tem ambigüidades, quando e isso possibilita atrair as oligarquias no
afirma como" condição indispensável [ ... poder para o projeto modernizador. De-
] monstraram, finalmente, para setores das
a manutenção de uma política macroeco- classes populares, que a inflação seria seu
nômica consistente, que compreenda o principal inimigo, e não o desemprego,
controle da inflação e do déficit público, a exploração, o nível salarial, a dívida ex-
a abertura da economia, a desregulamen- terna e interna, a desigualdade social.
tação e a privatízaçâov.! O discurso alternativo da esquerda se
Faz parte dessa mudança até mesmo cristalizou na candidatura de Lula à pre-
uma virada de enfoque: a esquerda e o sidência da República. Congregando os
movimento popular passam a ser classifi- movimentos sociais que resistem à mono-
cados como responsáveis pelo atraso do polização crescente da economia, do po-
país, como obstáculos ao progresso e à der político e dos meios de comunicação,
modernização, por seu "corporativismo", e os setores formadores de opinião que
seu "nacionalismo" e seu "economicis- se somam a essa resistência, o PT desen-
mo". volveu um programa centrado na justiça
Porém ficou claro que o Plano Real e social. O partido elaborou, ao longo de
a estabilização imediata da moeda que ele vários meses, um programa de governo
trouxe, diante dos índices elevados e dcs- (chamado de "revolução democrática"),
controlados da inflação de até então, de- que articulou todas as grandes demandas
sempenharam o papel de costurar todo sociais, políticas e culturais reprimidas pe-
esse esquema, porque demonstraram à di- lo caráter conservador da transição bra-
reita que Fernando Henrique Cardoso po- sileira da ditadura à democracia, apontan-
dia ser um candidato popular, que seu do para a reivindicação do direito de ci-
plano de combate à inflação - como já dadania negado à maioria da população.
havia exibido no Ministério da Fazenda - O PT contava com uma crise prolon-
não afetava os interesses do bloco domi- gada de legimitidade política das elites no
nante e teve efeito formidável sob o pon- poder, afetadas pela corrosão provocada
to de vista eleitoral. Mostraram, também, pela inflação e pelo déficit social multipli-
para as classes médias, que o avanço do cado pelas políticas econômicas neolibe-
1. Fernando Henrique Cardoso. Mãos à obra, Brasil. Pro-
posta de Governo. Brasília, 1994, p. 21.
164 EMIR SADER
SER DE ESQUERDA NO BRASIL 165

rais vigentes desde o final do governo de A subestimação da inflação pela es-


Sarney. As "caravanas da cidadania" le- querda foi resultado das políticas tradicio-
vadas a cabo por Lula revelavam que am- nais (de caráter liberal na economia) que
plos setores sociais marginalizados por es- tomaram sempre a inflação como pretex-
sas políticas estavam disponíveis para uma to para impor políticas recessivas, em que
alternativa de liderança nacional. Isso se o nível de emprego e o poder aquisitivo
refletia nos altos índices de apoio a Lula dos salários sempre pagaram o preço mais
como candidato à presidência. Por outro alto. A idéia de combate à inflação como
lado, nos grandes centros urbanos, o sen- primeira prioridade ficou assim prisionei-
timento insuportável da miséria, da inse- ra dessas artimanhas da ortodoxia liberal.
gurança, da violência, da decadência dos No entanto, ao longo da década de 80,
serviços públicos, somados à incompe- I
quando a hegemonia do capital financei-
tência dos governos para dar combate à ro se impôs, o processo de acumulação
I
inflação, agregava um caudal de apoio por de capital conseguiu conviver com altos
parte de grandes setores da classe média índices inflacionários, pela própria inde-
urbana, o que explicava aqueles altos ín- xação da economia imposta nos tempos
dices de apoio a Lula nas pesquisas elei- da ditadura militar. Os mecanismos de de-
torais. fesa do capital e dos setores da alta esfera
O discurso da justiça social, por sua do consumo - os fundamentais como
vez, embora não desconhecesse o proble- mercado - foram relegando para as clas-
ma inflacionário e a crise fiscal do Estado ses populares os ônus da inflação - des-
que o provocou, centrava-se na reversão gaste mensal e até diário dos salários -
das prioridades, colocando as questões com todas as suas seqüelas.
sociais no posto de comando. Com isso, O PT se defendia alegando que não
tinha dificuldades de ancorar-se na crise poderia propor um plano eleitoral de
material do Estado, instrumento impres- combate à inflação, dado que sua análise
cindível para um eixo fundamental da de- remetia o fenômeno para causas estrutu-
mocratização política - a deslocação da rais que o geraram e o reproduziram. Que
polarização neoliberal entre estatal/priua- o término ou o controle da inflação de-
do para a construção do caráter público pendem não apenas da superação do dé-
do Estado brasileiro. ficit público, mas também de uma rene-
gociação das dívidas externa e interna, de

- --
166 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 167

ações sobre a livre circulação do capital os caminhos para a constituição de um


financeiro, entre outras. O que, eviden- bloco de forças que possa gerar a hege-
temente, dificultaria um plano antiinfla- monia alternativa das classes subalternas,
cionário, porque supõe sua inserção num o que o PT denominou' 'uma revolução
plano econômico de maior dimensão, ao democrática" .
qual estaria umbilicalmente ligado. Esse ponto fraco representou uma su-
Contudo, o PT tampouco se preparou bestimação dos adversários a enfrentar e
para a batalha eleitoral, nem sequer a ausência de estratégias eleitorais e de go-
propondo um plano de emergência, com verno. É como se o PT acreditasse que a
medidas de ataque à inércia inflacionária, acumulação gradualista de apoios sociais
para gerar condições mais favoráveis pa- e éticos possibilitasse chegar a uma maio-
ra o novo presidente. Isso teria tido o efei- ria eleitoral, aritmeticamente e, median-
to de demonstrar a preocupação imedia- te ela, chegar ao governo, confundido
ta com o desgaste salarial imposto pela in- com o poder.
flação de quase 50% ao mês, como tam- O PT, que havia surgido como força
bém poderia ter bloqueado ou dificulta- antiinstitucional, e quase que pedindo
do a operação de marketing eleitoral de desculpas por ter participado no primei-
seu adversário. ro processo eleitoral (o de 1982), foi, sem
Porém, mais que uma debilidade eco- se dar conta conscientemente de seu per-
nômica, o tema aponta para uma debili- curso, se inserindo na institucionalidade,
dade de ordem mais geral na esquerda participando dos processos eleitorais, as-
brasileira: a ausência de estratégia de po- sumindo governos e mandatos parlamen-
der, o que supõe, antes de tudo, uma aná- tares, sem fazer a teoria de sua prática. O
lise da natureza da sociedade e do poder esgotamento rápido da transição demo-
existente, das forças sociais, políticas e crática pelo seu caráter conservador, le-
ideológicas dominantes, de suas estraté- vando de roldão com ela seu partido-
gias e táticas. Em suma, de como se arti- chave - o PMDB -, projetou o PT para
cula a hegemonia das classes dominantes o centro da cena política, sem que a de-
no Brasil na atualidade. Em função des- fasagem entre sua rica prática social e sua
sas análises, é que se deveria partir para ausência de estratégia política tivesse si-
definir uma plataforma de ação da esquer- do superada, ou nem sequer te matizada
da, suas alianças, suas vias de acão: enfim, como tal, para poder ser enfrentada.
16 EMIR SADER SER DE ESQUERDA NO BRASIL 169
8

Com a eleição de Fernando Henrique tar um bloco no poder que conseguiu gal-
Cardoso, a vida política brasileira entrou vanizar a simpatia popular mediante o en-
em uma nova fase, mais complexa e, ao frentamento - ainda que provisório e
mesmo tempo, mais de terminante para os epidérmico - da inflação. Esse bloco pre-
destinos do país nas próximas décadas. tende, a partir da força acumulada, inscre-
Por um lado, o bloco no poder se reno- ver seu triunfo no plano institucional, me-
vou, com um contingente significativo de diante reformas constitucionais que faci-
quadros originários da esquerda, de seus litem ainda mais a livre circulação do ca-
setores mais moderados. O governo de pital, conforme os novos requerimentos
FHC representa uma tentativa de reforma do processo de acumulação capitalista in-
do Estado e da economia em aliança di- ternacionalizado. Assim como pretendem
reta com os representantes dos detento- introduzir as reformas do Estado e de suas
res das principais alavancas de poder no políticas sociais, para consolidar um mo-
país - os banqueiros, os donos dos gran- delo de sociedade apartada, que garante
des meios de comunicação, os proprietá- condições de reprodução melhorada pa-
rios dos grandes monopólios empresa- ra setores minoritários da população, en-
riais, nacionais e estrangeiros, incluídos, quanto relega à falta de cidadania uma
entre estes, os bancos internacionais. maioria crescente da população.
É uma aposta arriscada. A regra - vin- Redefinem-se os termos direita e es-
da de outras experiências históricas, mas querda, em vez de desaparecer. Resta re-
também da nossa - é que a cooptação discutir seu significado neste novo qua-
se faça a favor do bloco conservador, no dro, neste fim de século.
fenômeno conhecido como transformis-
mo, na linguagem de Gramsci, ou de gat-
topardismo, na versão mais populariza-
da, em que a mudança da forma garante
a continuidade do conteúdo das forças
hegemônicas.
De qualquer forma, o enfrentamento
entre direita e esquerda, longe de ser su-
perado, ganha novos contornos, exigin-
do desta uma readequação para se enfren-

NOlM DIREITA?
NOlM ESQUERDA?

Desde que a Revolução Francesa gerou
e as barricadas de 1848 consolidaram os
termos direita e esquerda, nunca como
agora o questionamento dessas categorias
foi tão amplo. Uma periodização que ten-
ta dar conta do fenômeno localiza em
1848 sua primeira expressão organizada:
"Em algum lugar na metade do século de-
zenove - 1848 é uma boa data simbólica -
surgiu uma inovação sociológica de profun-
da significação para a política da economia-
mundo capitalista. Grupos de pessoas envol-
vidas em atividades anti-sistêrnicas começa-
ram a criar uma nova instituição: a organiza-
ção sistemática com membros, funcionários
e objetivos políticos específicos (ambos, de
longo e de curto prazo).,,2

No transcurso do século XIX, duas


principais variedades de movimentos an-
2. Giovanni Arrighi, Terence K. Hopkins, Immanuel Wal-
lerstein. Antystemic movements. Londres, Ed. Verso, 1989.

--
174 EMIR SADER NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA?
175

ti-sistêmicos emergiram: os "movimentos volução de 1 789, negados pela contra-


sociais" e os "movimentos nacionais". revolução de 1815.
Eles se diferenciaram por suas definições A internacionalização econômica, des-
do problema: os "movimentos sociais" locando o poder do Estado nacional pa-
definiram a opressão dos patrões sobre os ra esferas multinacionais, representaria o
trabalhadores, da burguesia sobre o pro- final desse período. Porém, outro movi-
letariado como seu objeto de luta. "Os mento se daria também no interior de ca-
ideais da Revolução Francesa (liberdade, da sociedade, com o surgimento de "no-
igualdade e fraternidade) poderiam ser vos movimentos sociais", formas inova-
realizados, achavam eles, substituindo o doras de construção de um poder alter-
capitalismo pelo socialismo." (Idem, ibi- nativo, de socialização do poder, como
dem, p. 30-31.) Os "movimentos nacio- expressão de construção de um bloco he-
nais", por seu lado, definiram a opressão gemônico alternativo.
de um grupo étnico-nacional sobre o ou- Nesta primeira interpretação, o que de-
tro como seu objeto de combate. Os ve ser redefinido são os termos do pro-
ideais poderiam ser realizados dando aos blema: o poder se revestiu de uma nova
grupos oprimidos igualdade jurídica com roupagem, as formas de reprodução das
o grupo opressor, criando estruturas que relações sociais se diversificaram, as mo-
permitissem esse status. dalidades de hegemonia sofreram mudan-
O ano de 1848 foi um marco, porque ças significativas e, assim, a luta pela trans-
foi uma revolução pela soberania popu- formação da sociedade conforme os
lar - dentro da nação, derrubando a au- ideais que caracterizam a esquerda deve
tocracia - e das nações, pela autodeter- receber as atualizações devidas. Mudan-
minação. Representou assim a constitui- ç~s de estratégia, de formas de organiza-
ção de forças sociais determinadas em or- çao e de ação, de alianças, de temas ideo-
ganizações diferenciadas, colocou-lhes o lógicos e de objetivos.
problema da estratégia de poder e seu ob- Raciocínios como esse amadureciam
jeto direto, o Estado. Esses movimentos quando o fim da URSS recolocou com re-
seriam os intermediários indispensáveis novada força o tema do fim da história
para transformar a sociedade e o mundo. do fim da ideologia e, com eles, o do fim
A esquerda surgia assim para realizar os da dicotomia direita/esquerda. A temáti-
ideais abandonados ou mutilados da re- ca não é inédita. Para nos atermos tão-so-
NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA? 17
EMIR SADER 7
17
6
mente à segunda metade deste século, Da- 1980 a 1993, onde proliferam mais os au-
niel Bell se notabilizou, em 1960, por tores italianos, dado o próprio desenvol-
anunciar o "fim da ideologia".3 A ocupa- vimento privilegiado da teoria política na-
ção e a posição social teriam passado a ser quele país e a crise de identidade de suas
formações de esquerda.
determinadas pela habilidade técnica,
Depois de ter passado pela análise de
acessível a qualquer um por seu caráter
vários critérios diferenciadores dos dois
técnico, e não por condicionantes de clas-
termos - dentre os quais estão aqueles
se. Abordando a década da "guerra fria",
baseados no tempo (progresso/conserva-
por excelência, apoiado em condicionan-
~~o), espaço (igualdade/desigualdade), su-
tes internos - o auge do crescimento ca-
jeíto (autodireção/heterodireção), função
pitalista em toda sua história -, Bell su-
(classes inferiores/classes superiores), mo-
geria a superação da origem das dícoto-
delo de conhecimento (racionalismo/irra-
mias que haviam fundado os embates
cionalismo), Bobbio se detém naquele
ideológicos, na raiz dos quais se encon-
que parece ter mais resistido ao tempo:
travam as determinações de classe e, com
o da oposição igualdade/desigualdade. E
elas, a divisão direita/esquerda.
precisa:
Mais fresca está na memória a opera-
"[ ... ] podem ser chamados correta-
ção "fim da história" de Fukuyama, de-
rr:.ente de igualitários aqueles que, ainda
vidamente destrinchada e qualificada por nao ignorando que os homens são tanto
tantos autores (ver, especialmente, O fim i~ua~s quanto desiguais, dão maior impor-
da história, de r-errv Anderson. Rio de tancía, para julgá-Ios e atribuir-lhes seus
Janeiro, Ed. jorge Zahar, 1983). Em seu direitos e deveres, aos que os tornam
Destra e sinistra, ragioni e significati di iguais antes do que os que os tornam de-
una distinzione política, Norberto Bob- s~guais; desigualitários, aqueles que, par-
bio (Roma, Donzelli Editore, 1994) alinha ~mdo da mesma constatação, dão maior
uma ampla bibliografia que se volta para Importância, com o mesmo objetivo, aos
a questão da atualidade ou da superação que os tornam desiguais antes do que aos
da polarização, num listado que vai de que os tornam iguais."?
3. Daniel Bell. The End of Ideology: on tbe Exhaustion of 4. Idem, ibidem, p. 74.
politicalldeas in tbe Fifties. New York, Free Press, 1962.
EMIR SADER OVA DIREITA? NOVA ESQUERDA? 17
17
9
8

o igualitário, para Bobbio, é aquele tio nada frontalmente. Qualquer que seja
que parte de que as desigualdades t~m ~ri- a característica que se tenha atribuído à
gens sociais e, por isso, sã? su~~r~vels e sociedade instaurada na antiga Rússia a
negativas, enquanto o deslgual1tano par- partir de 191 7 - socialismo, socialismo
te da convicção oposta, ou seja, de seu de Estado, capitalismo de Estado ou ou-
caráter natural, inevitável, e qualquer ação tra -, a ordem capitalista foi centralmen-
para superá-Ia se constitui num ex?e~ien- te quebrada. Um tipo de sociedade "pós-
te negativo. A conclusão de Bobbío e cla- capitalista" passou a existir, sob modali-
ra: "a distinção entre direita e esquerda, dades distintas daquelas contidas na obra
para a qual o ideal da igualdade sempre de Marx e que demonstrou, com sua de-
foi a estrela polar pela qual ela sempre se saparição, tanto o equívoco da idéia de
orientou e continua a se orientar, é mui- que "a roda da história não volta para
to clara". (Id., ib., p. 86.) O aprofunda- trás" quanto a idéia da naturalização do
mento da desigualdade no mundo con- capitalismo.
temporâneo apenas dá a medida do cami- No primeiro caso, a própria idéia do
nho que a esquerda somente começou a que está "atrás" ou na "frente" fica ques-
percorrer. tionada e, com ela, a reivindicação do
Os anos transcorridos desde a queda "progresso" como elemento positivo, em
do muro de Berlim e o fim da URSS per- contraposição aos "reacionários" que se
mitiram refletir com mais clareza sobre o oporiam a ela. Se a história "avança", o
que sobrevive e o que fica superado na que se opõe a esse avanço é negativo. Es-
teoria da história. Em primeiro lugar, o sa concepção se nutria de uma das inter-
próprio fim da URSS coloca uma série de pretações do marxismo, aquela que des-
questões antes "resolvidas" ~u não col?- cansa no desenvolvimento das forças pro-
cadas pela inexistência de parametros hís- dutivas como o "motor da história", aqui-
tóricos para sua compreensão. lo que lhe dá significado e que qualifica
Inicialmente, a idéia de um movimen- cada fenômeno e todo o movimento da
to da história (por vias diretas ou trans- história.
versas) que avançou do comunismo pri- No momento em que o neoliberalismo
mitivo em direção à superação do capita- se apropriou da idéia de "progresso eco-
lismo, para a instauração de uma socieda- nômico", a partir da crise e do esgota-
de sem classes e sem Estado, ficou ques- mento do Estado de bem-estar social, essa
EMIR SADER NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA? 18
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1
0

concepção unilinear da história ficou Inegavelmente as teorias que se


questionada. Livrar as travas do desenvol- apóiam no socialismo tiveram muitas di-
vimento econômico passou a se chocar ficuldades para analisar esse tipo de regi-
com os direitos de cidadania, de justiça me, como quer que se lhe chamassem.
social, de igualdade, na medida em que Sua desaparição, significando a reuniver-
passou a significar libertar o capital para salização das relações capitalistas, recolo-
que circule livremente das travas das re- ca o anticapitalismo como referência cen-
gulamentações, que contêm, entre elas, tral para a esquerda. Que tipo de socie-
direitos sociais das classes subalternas. dade deve se opor ao capitalismo, inques-
Essa concepção de "progresso" pas- tionavelmente gerador das injustiças so-
sou a se chocar frontalmente com a de- ciais crescentes - ao lado da expansão
mocracia, considerada como o sistema econômica - a que se opõe a esquerda?
político e social em que todos têm aces- Na realidade, quem mais se redefiniu
so aos bens essenciais, tanto materiais, neste final de século foi a direita. Tratou
quanto culturais. Entrou em crise a idéia de abandonar seu caráter conservad~r ,
da "inevitabilidade" de qualquer movi- buscando dar um tom evolucionista a
suas teses, conforme se opõe ao Estado
mento histórico. "Progressista" deixa de
de bem-estar social e ao socialismo. Uma
ter sentido como qualificativo de esquer-
nova dirçita surgiu, com o neoliberalis-
da ou então tem de ter outros parâmetros
mo, que não representa uma continuida-
que tem a temporalidade histórica - pa-
de direta com as forças conservadoras do
râmetros morais ou políticos. E com
passado. Estas em parte se reconverteram,
"progressista", "reacionário". gerando uma nova direita, o que signifi-
A própria existência dos chamados ca, do ponto de vista da dualidade dos
"socialismos de Estado", os regimes da conceitos, uma redefinição (necessária e
URSS e dos países do leste europeu, se operada ou a operar) da esquerda.
constituía numa referência inevitável que, A direita sempre se identificou com a
mais do que exemplo histórico, era um hierarquia, acenando com a liberdade co-
peso amarrado nos pés da esquerda. Ser mo sua bandeira central. Essa liberdade
a favor do tipo de regime da URSS era de foi identificada com a liberdade de mer-
esquerda? Apoiar seus setores opositores cado e, nesse sentido, a direita atual man-
era ser de direita? tém uma continuidade com seus ances-
182 EMIR SADER

trais. Seu combate ao "totalitarismo" da


esquerda seguiu esse itinerário, o do mer-
cado.
Nada mais significativo neste fim de sé-
culo do que a declaração de um de seus
teóricos mais em voga, Alan Mine: "O ca-
pitalismo não pode desmoronar, é o es-
tado natural da sociedade. A democracia
não é o estado natural da sociedade. O
o que é ser de esquerda
mercado, sim".5 O mercado é a hierar- (e de direita) no fim do
quia definida pelo mercado. Portanto, é século
a desigualdade gerada pela competição de
um mercado que há tanto tempo se tor- A esquerda e a direita constituem duas
nou oligopolizado. forças em luta ao longo da história con-
Redefinindo-se, a direita tratou tam- temporânea, aquela que se inicia com a
bém de descaracterizar a polarização. A Revolução Francesa, a partir da qual co-
direita passou a não se assumir como tal meça a ganhar sentido político. Fascismo
. '
e, para isso, trata de fazer com que a es- n~zlsmo, social-democracia, comunismo,
ditadura, democracia foram se constituin-
querda tampouco se assuma, como con-
do sob esse pano de fundo como as al-
dição para diluir a dicotomia. Essa pres-
ternativas fundamentais para o mundo
são sobre a esquerda se faz seja pelo con-
atual; ao lado de capitalismo, movimen-
vencimento de que os termos da questão
to operário, Estado de bem-estar social
teriam se alterado, seja pela tentativa de neoliberalismo, socialismo. '
desmoralização do que possa significar es- No Brasil, a direita sempre esteve as-
querda hoje, com o fim de convencer os s?<:.iada às elites no poder. Apesar da
que se sentirem afetados por esse tipo de opo-
argumento. siçao a Getúlio e a João Goulart, os inte-
resses da elite brasileira nunca correram
grande risco. Sucessivos governos tive-
ram ~aior ou menor sucesso em impor
5. Cambio 16. Madri, 5 dez. 1994. In: Le monde diploma- esses interesses, marginalizando as cama-
tique, Paris, jan. 1995, p. 1. das majoritárias da população das deci-
sões fundamentais do país.
18 EM IR SADER NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA? 18
4 5

Durante os governos Sarney, Collor e tre os homens, e a terceira possibilitaria


Itamar Franco, o poder foi assumindo superar a situação de dependência e de
uma nova cara no Brasil. A partir de 1989, inferioridade dentro do sistema econômi-
o último ano do governo Sarney, a ideo- co internacional.
logia predominante no Brasil passou a ser A libertação dos escravos e a procla-
o neoliberalismo. Este é um figurino no- mação da República não foram acompa-
vo para a direita brasileira, que já havia nhadas da ruptura com o modelo econô-
adotado vários modelos. mico primário-exportador. Com isso, a
Desde a constituição do Estado nacio- democratização foi apenas formal. Gran-
nal, na primeira metade do século passa- de parte da população estava excluída dos
processos eleitorais, completamente ma-
do, a ideologia dominante se constituiu
nipulados pelos coronéis do mundo ru-
em torno de uma trilogia: terraltrabalho
ral. Manteve-se de pé a centralidade da
escravo/livre mercado. A direita fazia a
propriedade da terra - da grande pro-
apologia desses termos, porque a econo- priedade rural -, base da primeira forma
mia brasileira se constituía em torno dos da ideologia de direita na história inde-
grandes latifúndios voltados para a pro- pendente do Brasil.
dução agrícola de exportação de café. A Nas primeiras décadas do século, as lu-
economia se baseava na exploração do tas pela democratização efetiva do siste-
trabalho escravo e no livre comércio ex- ma político e pela modernização econô-
portador e importador das metrópoles in- mica do país mobilizaram grandes contin-
dustrializadas. A hegemonia das elites do- gentes da população urbana do Brasil, en-
minantes se fazia então assentada na apo- tre estudantes, intelectuais e artistas, te-
logia da terra e do livre comércio e da de- nentes, profissionais liberais. Elas desem-
gradação do trabalho, considerado ativi- bocaram na Revolução de 30.
dade inferior e, por isso, realizada pelos A industrialização foi incentivada pe-
escravos. lo governo de Getúlio Vargas, mas ao pre-
A atividade opositora se desenvolvia ço da democracia política, com a instau-
na luta pela república, pela libertação dos ração do Estado Novo, uma ditadura, a
escravos e pela industrialização. A primei- partir de 1937. A luta democrática se rea-
ra permitiria a democratização do país, a tivava, ao lado daquela levada a cabo pe-
segunda instauraria, pelo menos do pon- lo governo de Getúlio, pela industrializa-
to de vista legal, uma maior igualdade en- ção e pela soberania nacional.
186 EMIR SADER NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA? 18
7

Durante a hegemonia da ideologia na- grande", do "Brasil potência", aliado es-


cionalista imposta por Getúlio, a direita sencial dos EUA na vigilância ocidental
se refugiou nas reivindicações liberais, pe- contra o comunismo internacional.
la democratização política, mas também A direita defendia que esse caminho
pelo retorno da política de livre comér- era o único possível para o país se livrar
cio, que significava bloquear a industria- do atraso e dos riscos políticos de ideo-
lização e favorecer a política exportado- logias da esquerda. Seu sucesso, ainda que
ra de café. Isso durou até o golpe de 1964, relativo, veio muito mais das conseqüên-
quando se extremou a propaganda libe- cias dos êxitos econômicos do que do
ral, de denúncia de um suposto perigo de convencimento da população, impedida
estatização e comunização do país, com de se pronunciar sobre os destinos do
atentados à liberdade econômica, à liber- país. A censura sobre os meios de comu-
dade de ensino, à família etc. Foi o fim nicação, facilitada pela monopolização
da etapa em que a direita tratava de se destes, completou o círculo sobre o qual
identificar com reivindicações democrá- repousou a doutrina de segurança nacio-
ticas, ainda que de cunho liberal. nal como ideologia triunfante da direita.
A partir da instauração da ditadura mi- O neoliberalismo surgiu, mais recen-
litar, a direita assumiu uma cara que esta- temente, como reação à crise do Estado
va gestando desde o final dos anos 40: a de bem-estar social, que, por sua vez, ha-
doutrina de segurança nacional, para a via se desenvolvido como forma de con-
qual os objetivos fundamentais do país tornar as crises violentas do capitalismo,
deviam estar no binômio desenvolvimen- como aquela de 1929. Este tipo de Esta-
to e segurança. A direita reivindicava ago- .do buscava intervir na economia, geran-
ra o desenvolvimento industrial e até mes- do as condições de um crescimento mais
mo a atividade estatal na economia, asso- estável e prolongado, mediante os crédi-
ciada ao capital estrangeiro. O Estado, tos, as subvenções, os investimentos es-
além disso, assumiu um papel de contro- tatais, as políticas sociais, delimitando ao
le militar sobre a sociedade civil, mesmo tempo as normas de circulação do
impondo-lhe estreitas normas de compor- capital, de maneira a estabelecer certos
tamento, que excluíam os conflitos, as objetivos globais da sociedade. A crise ge-
dissensões, as resistências e as oposições. ral do capitalismo da década de 70 signi-
O objetivo era a construção do "Brasil ficou ao mesmo tempo o esgotamento
18 EMIR SADER NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA? 189

desse tipo de Estado, do qual foram re- do, as empresas estatais passaram a ser
flexos a inflação internacional e a baixa ob-
da produtividade do trabalho nos princi- jeto de interesse por parte deste. Entre es-
pais países capitalistas industrializados. O tas empresas se encontram as de serviço
Estado, de solução para o problema das público, como a eletricidade, a telefonia,
crises, passava a ser parte do problema. as estradas, a telecomunicação, além das
O neoliberalismo foi uma contra- empresas que exploram matérias-primas,
ofensiva dos setores dominantes no capi- como o petróleo, o cobre, o estanho.
talismo, na direção de uma política alter- Quanto ao corte no déficit público,
nativa. Seus fundamentos são a desregu- trata-se precisamente de diminuir os gas-
lamentação da economia, a privatização e tos estatais com pessoal e com políticas
o corte no déficit público. A desregula- sociais, isto é, aquelas que beneficiam as
mentação significa fazer exatamente o ca- camadas médias e populares. O diagnós-
minho oposto ao do Estado do bem-estar: tico neoliberal considera que a inflação e
liberar as travas para a livre. circulação do o descontrole dos gastos estatais viriam
capital, na crença de que as regras do mer- da folha salarial do Estado e de seus gas-
cado tenham a virtude de repartir devida- tos em educação, saúde, habitação, sanea-
mente os recursos na sociedade. É uma mento básico, considerados populistas.
crença clássica do liberalismo do século Uma parte destes seria absorvida pelo
XVIII, retomada no final do século XX, mercado, na medida em que as pessoas
diante do esgotamento das políticas de re- dispusessem de recursos para se associar
gulamentação do mercado, consideradas a planos privados de saúde ou para colo-
como travas para a livre circulação do ca- car seus filhos em escolas particulares.
pital, que teria a virtude de alocar de for- O neoliberalismo acentua assim o ca-
ma equilibrada os recursos da sociedade. ráter mercantilista do capitalismo em de-
A privatização também se dirige no trimento da presença do Estado, com seu
mesmo sentido: diminuir a presença do papel regulador e de correção das defor-
Estado na economia, abrindo simultanea- mações introduzi das na economia e na vi-
mente mais espaço para o capital privado. da social pelas relações de mercado. Além
Em grande parte financiadas pelo Estado disso, ao favorecer a livre circulação de
quando não interessavam ao capital priva- capital em escala nacional e internacional,
8 privilegia a hegemonia do capital interna-
19 EMIR SADER NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA? 19
0 1

cional, que, no período atual do capita- quisa tecnológica, além das desigualdades
lismo, é, em grande medida, o capital fi- sociais que se acentuaram, como a des-
nanceiro. proteção de idosos, negros, mulheres, jo-
Com o domínio neoliberal, ganham os vens, pobres.
setores do grande capital, principalmen- Em seguida o neoliberalismo genera-
te o capital monopolista e o financeiro, lizou-se como modelo hegemônico do ca-
mais ainda aquele internacionalizado. Per- pitalismo, incorporando aos governos
dem os que, via luta política, haviam con- social-democratas, como os de Mitterand
seguido conquistas sociais garantidas pe- na França, de Felipe Gonzalez na Espa-
lo Estado. Com a política neoliberal mul- nha, até estender-se aos ex-regimes do les-
tiplicam-se também o desemprego - tan- te europeu e da ex-URSS.
to estatal, via diminuição dos gastos pú- O neoliberalismo é um remédio amar-
blicos, como privado, através da raciona- go que os países do Primeiro Mundo não
lização da produção - e a economia in- tomam na dosagem que propõem ao Ter-
formal, com o aumento radical das pes- ceiro Mundo ou, se o tomaram, já passa-
soas sem carteira assinada e sem cober- ram a corrigir seus rumos, com a substi-
tura previdenciária, dos quais a terceiri- tuição de seus mandatários neoliberais.
zação é um dos fatores. No Brasil, o neoliberalismo - apoia-
O neoliberalismo foi pregado pelos do por muitos partidos de centro e de di-
países do Primeiro Mundo, mas inicial- reita, e pela maioria da grande imprensa
mente apenas alguns, entre eles os Esta- - aparece como a via de modernização
dos Unidos e a Inglaterra, colocaram-no do país. Seria necessário diminuir o tama-
em prática, ainda assim não de maneira nho do Estado, como forma de comba-
tão radical quanto a que é proposta aos ter a inflação, privatizar para desenvolver
países do Terceiro Mundo. E, mesmo as- tecnologicamente as empresas, abrir a
sim, os EUA de Ronald Reagan e George economia para internacionalizá-Ia e espe-
Bush e a Inglaterra de Margaret Thatcher cialmente desregulamentar a economia,
foram precisamente os países do Primei- para fazer com que as leis do capital (do
ro Mundo que mais se atrasaram econo- grande capital, bem entendido) reinem
micamente. O neoliberalismo, nesses paí- soberanamente.
ses, implicou deterioração do sistema
educacional, do sistema de saúde, da pes-
f)
I

19 EMIR SADER NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA? 19


2 3

Esse caminho é apresentado como ine- Ser de direita hoje no Brasil consiste
vitável e não como uma alternativa de di- nisso. A ação da direita começa por des-
reita, que beneficia o grande capital mo- qualificar suas divergências com a esquer-
nopolista e financeiro privado e interna- da. Faz parte do pensamento de direita di-
cionalizado. A modernidade é concebida zer que direita e esquerda não existem
apenas na sua dimensão econômica. Mes- mais. Porque se sabe que a direita está his-
mo que fosse assim, os países que mais toricamente identificada com o conserva-
se desenvolveram nas últimas décadas - dorismo, com a elite, com a desigualdade
Japão, Alemanha, Coréia do Sul- não o social.
fizeram por essa via. E a verdadeira mo- O neoliberalismo, como proposta de
dernidade significa a superação do atra- reorganização da sociedade em função do
so, a implantação dos direitos de cidada- livre mercado, deixa entregues ao espíri-
nia para todos, e tem assim uma inerente to mercahtilista os direitos à saúde, à edu-
dimensão ética, espírito público e preo- cação, à vida, enfim. Representa a versão
cupação social. moderna das ideologias que alimentaram
Ao representar um sistema excluden- a perpetuação do poder das elites e das
te, que relega ao abandono amplos seto- mentalidades conservadoras e antidemo-
res da população que não têm oportuni- cráticas, desde que os ideais de igualdade
dades para alcançar uma vida digna, o foram levantados com força na Revolução
neoliberalismo traz no seu bojo outro as- Francesa. Representa hoje a consolidação
pecto da ideologia de direita: o aprofun- de uma sociedade de apartação social.
damento do racismo, do chauvinismo, da A esquerda nasceu com a Revolução
discriminação. A quantidade de exceden- Francesa, que deu sentido a essa qualifi-
tes no mercado de trabalho só aumenta. cação. Tratava-se ali de tornar real a liber-
Meninos e jovens de rua, quase sempre dade, a igualdade e a fraternidade. De não
nordestinos, negros e mulatos, passam a permanecer na igualdade e na liberdade
ser vítimas de total abandono, de indife- formais, mas de permeá-las intrinseca-
rença por parte de um sistema social mal- mente da fraternidade. A reivindicação da
thusiano, no qual, em vez de se aumen- justiça social definiu a esquerda desde
tar o número de chapéus, ou se distribui- suas origens.
rem os chapéus que já existem, propõe-se
ignorar as cabeças necessitadas, para se
adequar a procura à oferta.

~~----------~-------------------------------
-~
194 EMIR SADER NOVA DIREITA? NOVA ESQUERDA? 195

Quando a restauração fez retroceder mocracia com conteúdo social, de igual-


os avanços conquistados pela Revolução dade, de liberdade e de fraternidade.
Francesa, a esquerda começou a falar de Esses ideais, nascidos no século XVIII ,
um novo tipo de sociedade. Surgiram não encontraram no capitalismo seu ce-
seus primeiros projetos de sociedades nário de realização. As economias de mer-
utópicas, de caráter comunista, sem clas- cado, se por um lado incentivaram o de-
ses e sem Estado. Surgiu o anarquismo, senvolvimento econômico,· por outro
apareceu o socialismo, que deram novo concentraram a renda, recusaram terra, ca-
sentido à palavra revolução. sa, comida, saúde, educação a milhões de
Da Comuna de Paris de 1871 até a re- pessoas, alojaram o poder político, eco-
volução sandinista de 1979, revolução es- nômico, tecnológico, militar, dos meios
teve identificada com salvação dos mais de
.,
comunicação, no hemisfério norte e
pobres, com afirmação da dignidade hu- ao sul do mundo, nas minoritárias elites
mana, da soberania nacional, da realiza- dominantes. O século XX viu estenderem-
ção da justiça social, como negação do ca- se os regimes democráticos, mas suas
pitalismo. A esses ideais historicamente li- fron-
gados ao socialismo se somou o pensa- teiras mal ultrapassaram os limites da
mento religioso vinculado à teologia da igual-
libertação. Esse caudal de idéias personi- dade jurídica, intensificando a pobreza, a
fica o humanismo no final do século XX. rniséría, o abandono.
No Brasil, a esquerda significa a con- Ser de esquerda no mundo de hoje sig-
traposição ao neoliberalismo. Essa é a nifica participar da reinvenção concreta
atualização da dualidade direita/esquerda de uma nova sociedade, baseada na justi-
aqui e agora. Significa a afirmação dos di- ça social e na solidariedade, na realização
reitos de cidadania para todos, significa prática dos direitos de cidadania sem qual-
a priorização das políticas sociais sobre as quer tipo de exclusão. Significa lutar e
lógicas econômicas privatizantes, signifi- concretizar um mundo de educação, de
ca o desenvolvimento do mercado inter- cultura, de autonomia individual e reali-
no de massas para distribuir renda e ca- zação social. Significa realizar o sonho
pacidade de consumo para as grandes desses anjos tortos que acalentam os de-
massas marginalizadas, significa a sejos de felicidade perseguidos pelos ho-
transfor- mens e mulheres ao longo da história.
mação da democracia política numa de-
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Sobre o Autor

Emir Sader nasceu na cidade de São Paulo, em 1943,


onde se formou na escola pública antes de ingressar no
curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras da Universidade de São Paulo, ainda na época da
rua Maria Antónia, Fez tese de mestrado sobre Estado e
política em Marx, em 1968, e passou a ser professor dos
departamentos de Filosofia e de Ciência Política, tendo
depois vivido no Chile, na Argentina, na Itália e em Cuba,
entre 1970 e 1983. De retorno ao Brasil e à USP, foi pro-
fessor do Departamento de Ciência Política, onde
doutorou-se, e, posteriormente, de Sociologia, onde é
encarregado de um curso sobre a obra de Marx e de um
curso de pós-graduação sobre a América Latina. Publi-
cou, entre outros livros, A Revolução Cubana (Scritta),
Democracia e ditadura no Chile (Brasiliense), A transi-
ção no Brasil: Da ditadura à democracia? (Atual), Cu-
ba, Chile, Nicarágua - O socialismo na Améria Lati-
na (Atual), Chile - Da independência à redemocrati-
zação (Brasiliense), Governar para todos (Scritta),
Estado
e política em Marx (Cortez).