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Prado ML, Gelbcke FL, Reibnitz KS, Ramos FRS, Martins CR

Higiene e Conforto: Percepções e Sensações dos Clientes dos Serviços de Saúde

ARTIGO ORIGINAL

Marta Lenise do Prado 1 Francine Lima Gelbcke 2 Kenya Schimidt Reibnitz 2 Flavia Regina Souza Ramos 2 Cleusa Rios Martins 2

RESUMO Trata-se de pesquisa qualitativa realizada em um Hospital Escola, na qual buscamos identificar como clientes, alunos e trabalhadores de enfermagem, percebem o significado dos cuidados de higiene e conforto. Neste artigo destacamos o que pensam os clientes acerca da higiene e conforto, os quais destacam a importância do banho, mas sentem-se constrangidos durante a realização deste cuidado. Salientam, ainda, a sensação de conforto, sentem-se seguros quando lhes explicam os cuidados e destacam que o banho de aspersão dá uma sensação maior de limpeza.

Palavras-chave: Enfermagem; Higiene; Cuidados de enfermagem.

INTRODUÇÃO

Fundamentos para o Cuidado Profissional de Enfermagem * , mais do que incluir o acadêmico de Enfer- magem em sua profissão, o introduz no mundo do cuidar institucionalizado e neste sentido a preocupação principal dos docentes da disciplina é salientar que o cuidado representa, acima de tudo, um ato de solidariedade. E neste

ato de solidariedade, cuidar do outro significa compartilhar

o cuidado não só do corpo biológico, mas também das

outras dimensões que envolvem o ser humano, dimensões estas que abarcam a subjetividade, expressa pelos desejos, vontades, sonhos, sentimentos e emoções. O ato de ensinar envolve vários aspectos, como o desenvolvimento da curiosidade, da criticidade, do

respeito, da ética, da relação teoria e prática, entre outros.

E envolve também o ato de pesquisar.

Pesquisa e ensino estão sempre articulados, ou seja, “não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que-fazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino, continuo buscando, reprocurando. En- sino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a

novidade” (1:32) .

Buscando entrelaçar o ensinar e pesquisar, e entendendo este como um processo contínuo, os professores da referida disciplina, procuraram, através deste processo, discutir, ensinar, refletir sobre o cuidado de enfermagem desenvolvido na disciplina, no sentido de

motivar os alunos a refletir sobre sua prática diária. Nesta proposta, partimos de um dos procedimentos executados no nosso cotidiano hospitalar, quando cuidamos do outro

e nos cuidamos: a higiene e conforto. Este procedimento

foi escolhido como objeto deste processo reflexivo, por mostrar-se banalizado e, muitas vezes, desvalorizado frente a uma crescente incorporação de avanços da tecnobiomedicina, além de termos identificado a forma desinteressada que os alunos têm mostrado sobre a temática, especialmente do Banho no Leito, manifes- tando certa repulsa e mesmo pouco valor dado a esta técnica como algo próprio do cuidar da enfermeira. Partimos da concepção de que o banho no leito

é uma tecnologia de Enfermagem, ou seja, “um conjunto

de conhecimentos, especialmente princípios científicos, que se aplicam a um determinado ramo de ativida- de/ciência que trata da técnica/vocabulário peculiar de uma ciência” (2:292) , e como tal deve ser encarada, tanto pelos alunos, quanto pelos docentes e trabalhadores de enfermagem. Há, portanto, necessidade de se repensar o cuidado - banho no leito, dando a ele a devida importân-

1 Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Sub-Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC. E-mail: mpradop@nfr.ufsc.br

2 Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

* Disciplina do Currículo em implantação do Curso de Graduação em Enfermagem da UFSC, na qual foram incorporada os conteúdos ministrados na disciplina Fundamentos de Enfermagem, disciplina do currículo em extinção, na qual foi realizado o presente estudo

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cia. Também nos moveu a curiosidade em saber o que realmente pensam os clientes, alunos e trabalhadores de enfermagem sobre os procedimentos de higiene e conforto, tendo também como finalidade instigar os alunos e trabalhadores a refletirem sobre técnicas que constituem o cotidiano da enfermagem. Neste artigo apresentamos os resultados relacionados aos clientes.

REVISÃO DALITERATURA

Dentre os procedimentos e técnicas de enfer- magem hospitalar, aqueles que se referem aos cuidados de higiene talvez sejam os que mais contradições revelam entre o discurso e a prática dos profissionais de enfermagem. Como profissão ligada a uma tradição histórica de justificação por sua ação, disciplinada e embasada cientificamente, sobre o corpo e o ambiente do doente, a enfermagem, desde os tempos de Florence Nightingale, aprendeu a valorizar e a ser rigorosa com tudo que envolve a higiene pessoal e ambiental, o controle de infecções e a manipulação de substâncias e materiais, orgânicos ou não, contaminados ou não, estéreis ou não. No Brasil, o primeiro estudo de uma enfermeira sobre o banho foi desenvolvido por Souza, em 1956, descrevendo a técnica e fundamentando-a a luz da fisiologia, histologia e bioquímica. Muitos anos depois, Wanda Horta propôs um importante referencial para a enfermagem, ao descrever as necessidades de higiene e bem-estar entre as necessidades humanas básicas, para o atendimento das quais se dirigia a assistência de enfermagem. Muitas transformações tecnológicas do cuidado à saúde se sucederam e, décadas depois, tais necessidades continuam a desafiar (3) . Se durante muito tempo a higiene e o conforto do doente foram objeto privilegiado de estudo e prática, a expansão dos campos de trabalho do (a) enfermeiro (a) lhe trouxe novos e mais atrativos interesses. Pouco a pouco foi se evidenciando que, mesmo permanecendo fortemente valorizado em nível do discurso, na prática observa-se um certo desmerecimento ou desqualificação dos cuidados de higiene ao cliente, que se manifestava por meio de uma escassez de estudos, pela irrelevante busca por capacitação ou atualização específica, bem como pela crescente delegação destes cuidados aos outros elementos da equipe de enfermagem. Apesar de todas estas evidências, antes de um não reconhecimento da importância de tais cuidados, a alegação para tal banalização é, quase sempre, a necessidade de prioriza- ção dos atendimentos a múltiplas demandas, a maioria delas de maior complexidade, inclusive a supervisão e administração da assistência de enfermagem. No sentido de destacar a escassez de estudos sobre os cuidados de higiene e conforto, pode-se apontar uma evidência significativa ao se levantar as temáticas de estudo de teses e dissertações em enfermagem,

produzidas de 1979 a 2000 (4) . O tema “HIGIENE” foi localizado em dez produções (duas teses de doutorado e oito dissertações de mestrado), no entanto, os focos se dirigem para interesses e problemáticas bastante diferen- ciadas, nos quais, muitas vezes, a higiene concorre apenas como um dos aspectos ou variáveis do objeto ou problema. Assim, os temas se relacionam a: higiene bucal (5;6) ; educação para a saúde ou auto-cuidado de clientelas com demandas específicas (hipertensos, mulheres em pré-natal ou transplantados renais) (7;8;9) ; crenças e práticas de mulheres relativas à higiene intima (10) ; determinantes relacionados a condições de pele de RN (11) ; estudo microbiológico de limpeza mamilo-areolar (12) ; desenvolvimento de tecnologia - sanitário portátil (13) ; relação entre higiene, sono e conforto (14) . Especificamente sobre a temática "BANHO" foram produzidos seis estudos, sendo uma tese e cinco dissertações. O dado importante é o de que a metade destes estudos (três) foi desenvolvida na década de 70, quando o número de Programas de pós-graduação e de formação de mestres e doutores era ainda muito pequeno. Nesta década foram produzidas cerca de 150 teses e dissertações, enquanto nas duas décadas seguintes foram mais de 2.000 trabalhos. No entanto, o número de estudos sobre o banho foi o mesmo nos dois períodos, o que demonstra o menor interesse pelo tema. Destes três estudos da década de 70, dois trataram da relação entre banho e alterações clínicas do paciente/cliente: efeito do banho de imersão na incidência de germes patogênicos no coto umbilical nas primeiras 24 horas de vida (15) ; influência da técnica de banho sobre a freqüência de pulso e respiração em pacientes cardiopatas (15) . O terceiro estudo (16) , tratou do banho como intrusão física e visual no espaço do paciente acamado, já marcando uma tendência da produção do conhecimento pela enfermagem brasileira, que se definiria na década seguinte e se consolidaria na década de 90: o privilegia- mento de estudos qualitativos e a abordagem de fenômenos que envolvem as experiências, percepções e sentimentos em torno da doença, do cuidado e do trabalho, entre outros. Há também um estudo que explora a percepção de pacientes acamados sobre o banho no leito e aponta para seus efeitos insatisfatórios, ou seja, opiniões de desagra- do e até de rejeição por parte do paciente, de acordo com variáveis de idade, quantidade de água, material utilizado, exposição e resfriamento do corpo e experiências anteriores (17) . As duas dissertações sobre o banho, na década de 90, ilustram dois enfoques diversos e complementares: o desenvolvimento de tecnologia e a experiência de "aprender" esta técnica no processo de formação do enfermeiro. Um deles (18) desenvolveu uma proposta de técnica de banho de imersão para criança em UTI, visando tanto a qualidade do cuidado como a

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exeqüibilidade da técnica para sua sistematização no trabalho de rotina no setor. Outro estudo investigou reações de estudantes do último ano do curso de enfermagem, quando designados para banhar no leito paciente acamado, descrevendo atitude de rejeição por parte dos alunos, apesar do reconhecimento do significa- do e importância do banho para o cliente. A insatisfação foi justificada pela excessiva repetição de tal procedi- mento durante os períodos anteriores de formação, pela idéia de que tal atividade poderia ser delegada e o tempo destinado a prestação de cuidados mais complexos, além de falta de orientação adequada e insegurança (19,20) . Embora reconhecendo a negligência como vêm sendo tratados os cuidados de higiene e, mais especificamente, o banho, cabe apontar experiências de aprofundamento e pesquisa sobre o tema, como a desenvolvida por um grupo de pesquisadoras de quatro Universidades do Rio de Janeiro (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO, Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Universidade Federal Fluminense). Num dos trabalhos produzidos (2) , o banho no leito é tratado como um ritual de iniciação para o enfermeiro. Também nesta linha de pesquisa, uma experiência de banho vivida por paciente internado foi objeto de análise, enfocando o "(DES)cuidado que proporciona (DES)conforto. Neste sentido, as autoras querem alertar para o fato freqüente de que, preocupadas em cumprir ordens de médicos e enfermeiras, a equipe de enfermagem deixa de considerar os desejos, condições e necessidades dos clientes, impondo um cuidado ‘não desejado", desconfortante e desrespeitoso ao sujeito cuidado (21) . Quando confrontados com o estado da arte do conhecimento de enfermagem em relação ao banho e aos cuidados de higiene em geral, fica evidente um espaço ainda em aberto para pesquisas que venham subsidiar mudanças nas formas de cuidar; que não se limitem aos aspectos operativos do procedimento, mas, também, não negligenciem os aspectos mais biológicos de um corpo e de uma ação sobre este corpo. O desenvolvimento de tecnologias apropriadas e sua incorporação como estratégia e requisito de "humanização" das ações terapêuticas não poderá deixar à margem esta importante demanda.

A METODOLOGIA DA PESQUISA

Para atender ao problema norteador e aos objetivos propostos, o estudo foi do tipo exploratório descritivo, numa abordagem quanti-qualitativa. Foi desenvolvido em uma instituição hospitalar de ensino, especificamente em unidades de internação de adultos, tendo se efetivado pela coleta de dados com três grupos distintos de sujeitos informantes: alunos do curso de graduação em Enfermagem, em atividades teórico-prá-

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ticas da disciplina Fundamentos para o Cuidado Profissional de Enfermagem; trabalhadores de enferma- gem; clientes adultos internados, dependentes ou semi- dependentes dos cuidados de enfermagem, em condições de lucidez e orientação alo-psíquica. Destaca-se a coleta de dados com os clientes, foco deste artigo, sendo que participaram dez clientes adultos, sendo oito mulheres e dois homens, a maioria com idade acima de cinqüenta anos (7 respondentes). Parte dos entrevistados era procedente de Florianópolis (4) e os demais de outras cidades do Estado de Santa Catarina. A

maioria declarou-se de religião católica (8) . Seis estavam internados em clínica médica e quatro em clínica cirúrgica. Atendidos os critérios para definição da amostra, a participação dos sujeitos como informantes se fez mediante expressa concordância dos mesmos, respeitados os preceitos éticos da Resolução 196/96, sendo observa- dos os seguintes aspectos: obtenção de consentimento dos sujeitos a serem pesquisados, bem como, autorização institucional para iniciar coleta de dados; esclarecimento quanto aos objetivos do estudo, técnicas a serem utilizadas e os papéis, direitos e deveres do pesquisador e pesquisado; re-leitura das informações registradas, imediatamente após sua obtenção, de modo a validar sua fidedignidade e oportunizar correções e ou novas opiniões por parte dos informantes; manutenção do anonimato dos sujeitos pesquisados, garantindo sigilo quanto a identida- de dos mesmos.

A coleta de dados foi realizada durante as

atividades teórico-práticas, pelos alunos e sob supervisão dos professores da Disciplina, em dezembro de 2000. Para a coleta de dados, o instrumento utilizado foi aplicado por meio de entrevista, contendo questões abertas e fechadas, incluindo dados relacionados à identificação dos entrevistados. As questões fechadas versavam sobre como o cliente avaliava a necessidade de tomar banho, como se sentia ao receber o banho, se satisfeito ou não, os sentimentos positivos e negativos ao receber o banho, as informações que lhe eram repassadas, entre outros, sendo que as questões abertas permitiram aos clientes a apontar seus sentimentos, confirmando, de certa forma, as questões fechadas, possibilitando a manifestação de sua subjetividade acerca do banho. Os alunos entrevistadores foram devidamente orientados quanto ao instrumento e a técnica de coleta dos dados, além de acompanhados durante esta fase. Para maior fidedignidade no registro dos dados, o instrumento foi preenchido pelos acadêmicos e posteriormente lido aos entrevistados, no sentido de sua validação.

A análise transcorreu em etapas não estanques,

iniciando-se com a pré-análise dos dados, que ocorreu imediatamente após a coleta dos dados e representou uma aproximação com os materiais empíricos, incluindo seu prévio registro e ordenação em um corpo documental. Após realizou-se a exploração do material, em que os dados sofreram maior manipulação dos pesquisadores,

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buscando o estabelecimento de códigos e/ou categorias de

CUIDADOS DE HIGIENE E CONFORTO:

A

higiene e o banho são necessários para que o

análise, princípios ou eixos que permitiram classificar e agrupar sub-categorias e categorias em composições temá-

paciente se sinta melhor, dando sensação de alívio e bem-estar (C 8).

ticas relevantes. Finalizou-se a análise com tratamento

A

gente fica cheirosa, cheia de disposição (C 5).

final ou interpretação dos resultados, momento de

O

banho é importante porque dá conforto e a gente se

acirramento da responsabilidade do pesquisador, de maior relacionamento entre categorias empíricas, achados bibliográficos e referenciais dos pesquisadores, onde a

sente satisfeito e melhor (C 6). O banho é importante, porque se fica com boa aparência (C 7).

interpretação surgiu como ato reconhecido da tomada de posição por parte deste.

Quanto à condição de receber o banho, todos disseram estarem satisfeitos ou muito satisfeitos. Receber cuidados de higiene corporal, segundo os clientes, propicia uma sensação de bem-estar e de conforto. Referem também

Mais animada, com melhor astral (C 2).

percepções e sensações dos clientes dos serviços de saúde

que se sentem seguros quando os trabalhadores explicam os cuidados que serão realizados, sendo que mais da

Analisar os resultados desta pesquisa envolveu um re-olhar para uma tecnologia que parece pouco valorizada pela enfermagem, um fazer rotineiro, mas permeado de inquietações, de subjetividades, que necessita ser avaliado constantemente, buscando responder necessidades da clientela, mas também dos trabalhadores. Este procedi- mento, em sua maioria, tem sido relegado aos profis-

metade dos respondentes informaram sentirem seguros ao receber ou ser auxiliado no banho; os demais disseram estar mais ou menos seguros, afirmando que tem informações disponíveis acerca do banho no seu dia-a-dia.

Quando o enfermeiro explica o que vai fazer passa mais segurança; tem uns que nem cumprimentam (C 9).

sionais de nível médio e pouco investigado pelos enfermeiros, mantendo-se como mais um fazer dentre tantos que estão presentes no nosso cotidiano. Há que se destacar o banho como um momento de higiene, mas também de conhecimento do outro, de observação, de espaço para ouvir e não apenas escutar, sem sentir, como um momento de educação, de compartilhar saberes, sim, um momento de intimidade, mas também de interação, de troca, um "momento de

Os clientes destacaram ainda que o banho de aspersão dá uma sensação maior de limpeza e que quando auxiliados, por vezes, sentem-se constrangidos. Afirmam que o banho no leito é superficial, menos higiênico e menos reconfortante que o banho de chuveiro. Mas, todos concordam que qualquer tipo de banho é válido, pois o que importa é realizar a higiene para sentir-se melhor, como afirmou a cliente:

cuidado, momento em que seres humanos estão juntos, cuidando e deixando-se cuidar, numa troca, num movimento que pode contribuir para o fortalecimento do paciente com vistas a sua recuperação" (22:154) . Os clientes entendem que os cuidados de higiene são necessários, bem como, todos consideraram a higiene importante para a sua saúde, reconhecendo que esta interfere na qualidade de vida. Pode-se observar que o significado e a importância da higiene e do banho para os clientes está associado com a idéia de saúde e de doença. Afirmaram que o banho e uma boa higiene corporal auxiliam no alívio de dores e da própria doença ajudando a recuperar ou manter a saúde, como vemos nessas falas:

Acho que qualquer tipo de banho é válido, o que importa é a higiene adequada, não a forma como é realizado (C 7).

Perguntados acerca das facilidades e dificuldades enfrentadas para realizar ou receber o banho, os clientes disseram ter tudo que precisam: água a vontade (quente e fria), sabonete, toalha, ajuda e compreensão da equipe de enfermagem. Não ter ou ter pouco problema ao receber ou ser auxiliado num banho foi manifestado por 6 clientes, entretanto, quatro disseram ter algum problema. Afirmaram que as dificuldades estão relacionadas com o constrangimento e a vergonha, mas que depende muito de

podendo

até aliviar a dor e a própria doença (C 8 3 ).

quem auxilia para sentirem-se a vontade, como se

Maneira de viver mais caprichado; evita micróbios e bactérias (C 4).

expressou o cliente:

Bom para a saúde, refrescante, anima

(C 5).

Os clientes também destacaram a importância deste cuidado, tanto no domicílio, quanto em nível hospitalar, salientando também a sensação de conforto e bem estar proporcionada pelo cuidado de higiene. Alguns relacionaram o cuidado com a manutenção de uma boa aparência. Isso pode ser observado nas seguintes falas:

Depende da pessoa que auxilia é que vai deixar inibida ou a vontade (C 8).

As limitações físicas (cansaço, dores, dificuldade de locomoção) são indicativos para auxílio no banho de aspersão ou no leito, sendo que os clientes sentem-se constrangidos no início dos cuidados, salientando, no entanto, o cuidado de higiene realizado pelos alunos

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como positivo, em função principalmente do carinho e atenção dispensados. De modo geral, os clientes referiram sentir-se satis- feitos quanto a sua higiene; apenas um cliente manifestou- se indiferente ao estado de sua higiene pessoal. Sentimentos positivos, como bom humor, alegria e felicidade, foram relacionados com o fato de receber ou ser auxiliado no banho, bem como sentimentos negativos (mau humor, desespero, ansiedade e depressão), também, foram relacionados ao fato de receber ou ser auxiliado no banho por cinco clientes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Buscar analisar os cuidados de higiene e conforto, a partir da perspectiva do cliente, constitui-se numa primeira aproximação a um cotidiano imerso em contradições, tabus, ritos e rituais. Desvendar este universo, no contexto de uma disciplina que também apresenta suas contradições, já que Fundamentos para o Cuidado de Enfermagem é entendida por muitos apenas como necessária ao desenvolvimento de competência técnica, foi outro desafio. Neste sentido, além de buscar compreender o significado do banho para os clientes, buscou-se aliar teoria e prática, técnica e cuidado, salientando-se o papel da técnica no processo de trabalho, sem deslocá-lo de um contexto mais amplo, que envolve aspectos políticos, éticos e sociais. Os dados apontam que os clientes destacam a importância deste cuidado, tanto no domicílio, quanto em

nível hospitalar, salientando também a sensação de conforto proporcionada pelo cuidado de higiene. Referem, também, que se sentem seguros quando os trabalhadores explicam os cuidados que serão realizados, o que nos reafirma a necessidade de cuidar do outro como ser integral, que precisa saber o que está sendo realizado, permitindo não só cumprir um procedimento, mas estabele- cer uma relação com o outro, em que a comunicação é uma prerrogativa. Destacam, ainda, que o banho de aspersão dá uma sensação maior de limpeza e que quando auxiliados, por vezes, sentem-se constrangidos. Os limites relacionados às condições ambien- tais, que desgastam trabalhadores e alunos de enfer- magem, acabam interferindo na qualidade do cuidado realizado, que pode ser superado, para o cliente, por meio de uma relação de proximidade, de confiança naquele que lhe presta o cuidado. O banho, entre os cuidados de higiene e conforto, é o procedimento que mais interfere na intimidade dos clientes, portanto, a privacidade, o respeito com o corpo do outro, são questões a serem ressaltadas no dia a dia, e que muitas vezes são banalizadas, como que "engolidas" pelo corre- corre do cotidiano de trabalho. Por isso, entendemos há que se repensar estes procedimentos, levando-se em conta o que pensam os clientes. Portanto, novos estudos que discutam os procedimentos de higiene e conforto se fazem necessários, tanto no que se refere ao procedimento técnico em si, quanto à abordagem da clientela e um olhar mais aprofundado às relações que se estabelecem.

HYGIENE AND COMFORT: PERCEPTIONS AND SENSATIONS OF CLIENTS OF HEALTH CARE SERVICES

ABSTRACT This qualitative study was carried out in a University Hospital, and searched to identify how clients, students, and nursing workers perceive the significance of hygiene and comfort as aspects of care. This article points out what clients think concerning hygiene and comfort, which clients detach the importance of bathing, while at the same time relating their embarrassment during the bathing itself. They also bring up the sensation of comfort, noting that they feel more secure when the care is explained to them and highlight that the sprinkling bath offers a sensation of greater cleanliness.

Keywords: Nursing; Hygiene; Nursing Care.

LA HIGIENE Y EL CONFORTO: PERCEPCIONES Y SENSACIONES DE LOS CLIENTES EN LOS SERVICIOS DE LA SALUD

RESUMEN Investigación cualitativa realizada en un Hospital Escuela, donde se interrogan a clientes, alumnos y trabajadores de enfermería, procuró identificarse como éstos perciben los cuidados de higiene y conforto. En este artículo se destaca que piensan los clientes sobre dichos cuidados. Siendo que, ellos reconocen la importancia que tiene el baño, pero manifiestan que aún se sienten avergonzados y cohibidos cuando realizan el mismo. También, señalan la sensación de conforto y de seguridad, así mismo, que el baño de aspersión les ofrece una mayor sensación de limpieza.

Descriptores: Enfermería; Higiene; Atención de Enfermería.

Higiene e Conforto: Percepções e Sensações dos Clientes dos Serviços de Saúde

REFERÊNCIAS

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9 Sampaio FPR. Transplantado renal em acompanhamento ambulatorial: análise do autocuidado higiênico-dietético e medicamentoso. [Dissertação] Fortaleza: Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da Universidade Federal do Ceará, 1999. p. 108.

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11 Praça NS. Determinantes domiciliares das condições de pele da região abrangida pela fralda de recém nascidos que utilizaram o sistema de alojamento conjunto. [Dissertação] São Paulo: Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, 1993. p. 103.

12. Santos JSS. A limpeza da região mamilo-areolar: estudo microbiológico. [Dissertação] Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 1991. p. 78.

13 Shimo AKK. Criando um sanitário portátil: uma contribuição de enfermagem para as varredoras de rua. [Tese] Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 1995. p. 173.

14 Sampaio YAA. O sono como indicativo do conforto propiciado pelo cuidado de enfermagem – toalete da tarde:

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15 Freitas DMV. Efeito do banho de imersão na incidência de germes patogênicos no coto umbilical nas primeiras 24 horas de vida. [Dissertação] Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Néri da UFRJ, 1975.

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17 Carvalho DV. Intrusão física e visual no espaço pessoal do paciente hospitalizado acamado. [Dissertação] São Paulo:

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18 Ogasawara M. Banho no leito: uma contribuição ao enfermeiro na percepção do paciente/cliente. [Dissertação] Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Néri da UFRJ, 1989. p. 116.

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20 Vieira WP. Banho do paciente acamado, cuidado polêmico para o concluinte do curso de graduação em Enfermagem. [Dissertação] Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Néri da UFRJ, 1993. p. 110.

21. Vieira WP. Banho do paciente acamado, cuidado polêmico para o concluinte do curso de graduação em Enfermagem. Livro Resumos do 50 Congresso Brasileiro de Enfermagem, 1998; Salvador, BA. Salvador: ABEn – Seção BA, 1998, p. 39.

22 Figueiredo NMA, et al. A ordem é banhar – um estudo de caso/vivência sobre o (des)conforto do banho: como atender os desejos do cliente? Rio de Janeiro, 2001 (texto digitado).

23 Carraro T, Collet N. Banho de leito – um momento de cuidado. In: Arruda E, Gonçalves L. Aenfermagem e a arte de cuidar. Florianópolis: Ed. UFSC, 1999. Série Enfermagem.

Recebido em 31/03/2006 Aprovado em 31/07/2006

Prado ML, Gelbcke FL, Reibnitz KS, Ramos FRS, Martins CR.Higiene e Conforto: percepções e sensações dos clientes dos serviços de saúde. Rev Paul Enf 2006; 25(2):90-7.

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