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TODA A AUTORIDADE VEM DE DEUS

Outubro 6, 2023

Is 5,1-7; Sl 80; Fl 4,6-9; Mt 21,33-43

1. Como já anotámos no início do Comentário ao


Evangelho do Domingo passado (XXVI do Tempo Comum),
Jesus encontra-se no Templo, no grande Átrio dos Pagãos
(13,5 hectares). Tinha acabado de expulsar daí
vendedores e compradores (Mateus 21,12), tinha curado
cegos e coxos (Mateus 21,14), e tinha sido aclamado pelas
crianças com o hino de colorido messiânico: «Hossana ao
Filho de David!» (Mateus 21,15). Vendo e ouvindo tudo
isto, vieram ao encontro de Jesus as autoridades judaicas,
religiosas e civis, nomeadamente os «chefes dos
sacerdotes» e os «anciãos do povo». Nada de estranho,
pois competia a estas autoridades velar e zelar pela boa
ordem no Templo, sobretudo no vasto Átrio dos Pagãos,
onde era usual surgirem mestres e pregadores de toda a
espécie e feitio. As referidas autoridades judaicas
aproximam-se de Jesus e pedem-lhe, por assim dizer, as
suas credenciais: «Com que autoridade fazes estas coisas,
e quem te deu essa autoridade?» (Mateus 21,23). A estas
perguntas, Jesus não respondeu diretamente, mas
avançou também ele uma pergunta prévia, condicionando
a sua resposta ao facto de os seus interlocutores
responderem à questão que Ele ia pôr, método muito em
voga neste tipo de discussões e disputas. Recuperamos
aqui a pergunta de Jesus aos seus interlocutores: «O
batismo de João de onde (póthen) era? Do céu ou dos
homens?» (Mateus 21,25). Os chefes dos judeus
conversaram entre si, e concluíram que a pergunta de
Jesus era uma armadilha, pois fosse qual fosse a resposta
que dessem, ficavam sempre entalados. Se dissessem que
era do céu, Jesus retorquir-lhes-ia: «Então por que não lhe
destes ouvidos?»; se dissessem que era dos homens, seria
o povo que lhes cairia em cima, pois todos consideravam
João como profeta. Por isso, diplomaticamente
responderam: «Não sabemos», o que levou Jesus a
responder à questão que lhe tinham posto: «Também Eu
não vos digo com que autoridade faço estas coisas»
(Mateus 21,27).

2. Chegados a este ponto, Jesus dispara contra os seus


interlocutores três parábolas seguidas, que formam um
bloco textual maciço (Mateus 21,28-22,14), sem
intervalos e sem tempo para respirar: a «parábola dos dois
filhos» (Mateus 21,28-32), a «parábola dos vinhateiros
homicidas» (Mateus 21,33-46) e a «parábola do banquete
nupcial» (Mateus 22,1-14). No Domingo passado (XXVI)
foi-nos dado escutar a «parábola dos dois filhos» (Mateus
21,28-32). Neste Domingo XXVII, escutaremos a
«parábola dos vinhateiros homicidas» (Mateus 21,33-43),
que começa por descrever os gestos de amor embevecido
de DEUS pela sua vinha, seguindo de perto o cântico da
vinha, de Isaías 5,1-7 que, por sinal, também teremos a
graça de escutar na liturgia deste Domingo. Depois de
descrever os gestos de amor pela sua vinha, o texto
continua de forma incisiva, introduzindo novas
personagens: os VINHATEIROS violentos e assassinos são
os chefes religiosos e civis (chefes dos sacerdotes e
anciãos do povo…), dado que estas parábolas são a eles
dirigidas (Mateus 21,23), e são eles que, no final, reagem
a elas (Mateus 21,45-46). Os SERVOS, sucessivamente
enviados por DEUS e maltratados pelos homens, são os
profetas, todos assassinados, segundo o módulo narrativo
mais breve de toda a Escritura (Mateus 23,34-35; cf. Lucas
11,50-51). O FILHO tem muitas coisas em comum com os
SERVOS: também Ele é enviado, ainda que seja o último
enviado, também vem recolher os frutos, e é igualmente
assassinado de modo violento. Salta à vista que este
FILHO é JESUS, prolepse do que está para lhe acontecer.

3. Os CHEFES DOS SACERDOTES e os ANCIÃOS DO POVO,


a quem a parábola está a ser contada são, neste ponto da
parábola, apanhados na pergunta sem saída de JESUS:
«Quando vier o dono da vinha, que fará com esses
VINHATEIROS?» (Mateus 21,40). Eles respondem fácil e
direto, ao jeito de David, quando ouve a história da
ovelhinha do pobre, roubada e comida à mesa do rico (cf.
2 Samuel 12,5-6): «Mandará matar sem piedade esses
malvados, e arrendará a vinha a OUTROS VINHATEIROS,
que lhe entreguem os frutos a seu tempo» (Mateus 21,41).
E Jesus remata com uma citação do Salmo 118,22: «A
pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra
angular» (Mateus 21,42). E ainda: «O Reino de Deus ser-
vos-á tirado, e confiado a UM POVO que produza os seus
frutos» (Mateus 21,43). Nesta altura, diz-nos o narrador,
que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas
parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e
procuravam prendê-lo…» (Mateus 21,45-46).

4. Descodificando a parábola: o dono da vinha, que a trata


com tanto carinho, é DEUS. A vinha é Israel: sem
equívocos: «A vinha do Senhor é a Casa de ISRAEL»
(Isaías 5,7). Os SERVOS, que são enviados, são os
PROFETAS, como refere com acerto Jeremias 25,4. Os
chefes dos sacerdotes e os anciãos dos judeus, escribas,
fariseus, etc., que não cuidam da vinha e maltratam todos
os enviados veem-se claramente alinhados com os
VINHATEIROS violentos e assassinos. Mas já, entretanto,
se vislumbra no horizonte OUTRO POVO e OUTROS
VINHATEIROS, à imagem do último Profeta e dele
verdadeira transparência. Então, sim, a vinha do Senhor,
novo Israel de Deus (Gálatas 6,16), será devidamente
cuidada e dará os frutos esperados. Não nos esqueçamos
de que é aqui que nos devemos encontrar, deve ser este o
nosso retrato, somos nós a vinha do Senhor, reunida à
volta do último enviado de Deus, que fará frutificar a sua
vinha.

5. Se repararmos bem, esta Parábola faz passar diante de


nós a inteira história da salvação, mostra-nos o amor
permanente e persistente de Deus, e o modo em que esse
amor se manifesta através dos Profetas que nos são
enviados, mas deixa igualmente à vista o modo violento
como os temos tratado. Por fim, depois de uma longa lista
de Profetas, é enviado o próprio Filho de Deus, que terá a
mesma sorte dos Profetas. E a culpa cai sempre sobre nós.
Agora, que tudo vai ficando mais claro, faz-se ver a nós
também a qualidade do amor da resposta que somos hoje
chamados a dar, uma vez que somos informados que a
vinha será entregue a um povo novo, que saberá cuidar
dela. E somos seguramente chamados a tornar a vinha de
Deus uma maravilha deliciosa e apetitosa, jovem, leve e
bela. Mais ou menos como canta um apócrifo de origem
judeo-cristã, de finais do séc. I ou princípios do II d.C.,
o Apocalipse Siríaco de Baruc: «A terra dará fruto, dez mil
por um. Cada videira terá mil ramos, cada ramo mil
cachos, cada cacho mil bagos, cada bago centenas de litros
de vinho!». Alegria a transbordar.

6. O soberbo cântico de Isaías 5,1-7 dá o tom e o aroma


da vinha e do amor a este Domingo XXVII do Tempo
Comum. O Senhor da vinha e do amor, que é Deus, tratou
com infinito desvelo a sua vinha, que é o seu povo, o povo
de Israel e de Judá, e somos nós, como se pode ver neste
belo «cântico da vinha» de Isaías 5,7: plantou-a numa
colina solarenga com castas selecionadas, cavou-a,
limpou-a, amou-a, fê-la crescer ao ritmo de música de
embalar. Todavia, a vinha assim amada e acariciada
produziu agraços, em vez de uvas doces e saborosas. O
Cântico di-lo numa extraordinária aliteração hebraica:
«Deus esperava mishpath [= retidão],/ e eis mispah [=
sangue derramado];/ tsedaqah [= justiça],/ e
eis ts ʽaqah [= gritos de socorro]» (Isaías 5,7). Depois de
e

uma lírica serena e tranquila, eis-nos agora perante o


lamento de um camponês desiludido, de um amante
traído, de um amor dorido, não correspondido. Assim é a
história da vinha do Senhor.

7. O mesmo canto, ao mesmo tempo dorido e belo,


atravessa o Salmo 80,9-17, que canta a videira, e conta a
história da videira, que simboliza Israel. Contando a
história desta videira, o poeta está, na verdade, a fazer
uma autobiografia de Israel. Estava plantada no Egito, de
onde Deus a arrancou para a transplantar para outra terra
(v. 9). Aí lançou raízes, cresceu e atingiu tais dimensões
que a sua folhagem verde cobria todo o mapa de Israel (v.
11 e 12). Mas também aí conheceu o abandono e foi
devastada pelo javali, símbolo de impureza pela sua
semelhança com o porco. Se, em Isaías 5,1-7, era Deus
que se queixava da sua vinha que já não respondia ao
amor primeiro de Deus, agora é a vinha que se sente
abandonada, e chora o estado de desolação em que se
encontra, mas entrecorta o seu lamento com um belo
refrão, pedindo a Deus que se levante e volte atrás, que
lhe faça graça e a salve (v. 4.8.15.20). É o caminho do
Perdão e da Salvação.

8. Outra vez Paulo e as palavras de antologia que nos


dirige na Carta aos Filipenses 4,6-9, que hoje temos a
graça de escutar: «Tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo
o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa
reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que
deveis ter no pensamento» (Filipenses 4,8). E coloca-se
como modelo a imitar: «O que aprendestes, recebestes e
vistes em mim, isso fazei» (Filipenses 4,9). Já se sabe que
por detrás de Paulo está Cristo, que é a sua vida (cf. 1
Coríntios 11,1).

António Couto

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