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RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 368.

888-0, DE MARINGÁ, 4ª
VARA CRIMINAL.
RECORRENTES – 1) MARCOS JESUS DA SILVA
2) LUIZ CAVICCHIOLI FORINI
RECORRIDOS – 1) MINISTÉRIO PÚBLICO DO PARANÁ
2) MILTON CANEVARE COALIO (ASSISTENTE
DE ACUSAÇÃO) E OUTRO
RELATOR – DES. TELMO CHEREM

PRONÚNCIA – HOMICÍDIO - "RACHA" DE VEÍCULOS EM VIA


URBANA MOVIMENTADA.
I – DENÚNCIA: HOMICÍDIO CULPOSO (ART. 302, CTB) -
ADITAMENTO QUE, ANTES DO INTERROGATÓRIO DOS RÉUS,
RECLASSIFICOU O FATO PARA HOMICÍDIO DOLOSO –
POSSIBILIDADE JÁ RECONHECIDA PELO E. SUPERIOR
TRIBUNAL DE JUSTIÇA EM DESFAVOR DE UM DOS
RECORRENTES.
II - INDÍCIOS DA PRESENÇA DE DOLO EVENTUAL NA CONDUTA
DE AMBOS OS MOTORISTAS - COMPETÊNCIA DO JÚRI - DECISÃO
MANTIDA. Havendo sérios indícios de que os acusados agiram com
dolo eventual ao disputarem, em alta velocidade, corrida
automobilística em avenida movimentada – de que resultou o
atropelamento, por um deles, de uma adolescente que se encontrava
parada junto ao meio-fio da calçada –, caso é de pronúncia, a fim de
que o Tribunal do Júri, juiz natural da causa, dirima a controvérsia
sobre a tipicidade subjetiva das suas condutas.
III – VÍTIMA MENOR DE 14 ANOS - CAUSA DE AUMENTO
PREVISTA NO §4º, PARTE FINAL, DO ART. 121, DO CÓDIGO PENAL
– MATÉRIA RELATIVA À APLICAÇÃO DA PENA – EXCLUSÃO.
RECURSO DO RÉU MARCOS JESUS DA SILVA DESPROVIDO.
RECURSO DO RÉU LUIZ CAVICCHIOLI FORINI PARCIALMENTE
PROVIDO.

VISTOS, relatados e discutidos estes autos de RECURSO EM SENTIDO


ESTRITO Nº 368.888-0, DE MARINGÁ, 4ª VARA CRIMINAL, em que são RECORRENTES:
1) MARCOS JESUS DA SILVA e 2) LUIZ CAVICCHIOLI FORINI, sendo RECORRIDOS: 1)
MINISTÉRIO PÚBLICO DO PARANÁ, 2) MILTON CANEVARE COALIO (ASSISTENTE
DE ACUSAÇÃO) E OUTRO.

1. Marcos Jesus da Silva e Luiz Cavicchioli Forini manifestam


recursos em sentido estrito contra a decisão (f. 490/498) do Juízo da 4ª Vara
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Criminal da Comarca de Maringá, que os pronunciou incursos no art. 121-§4º-in


fine c/c o art. 29 do Código Penal, estando os fatos assim descritos no aditamento
(f. 232/235) à denúncia:

"No dia 13 de agosto de 2003, por volta das 19:10 horas, na Av. Colombo,
nesta cidade e Comarca de Maringá, o primeiro denunciado MARCOS
JESUS DA SILVA, conduzindo seu veículo Omega CD, placas LIT-9608, e
o segundo denunciado LUIZ CAVICCHIOLI FIORINI, conduzindo seu
veículo automotor GM/Omega, placas HUI-6421, cônscios da ilicitude e
reprovabilidade de suas condutas, participaram de disputa não autorizada
pela autoridade competente, iniciando-se a disputa no cruzamento da
referida avenida com a Rua Paranaguá, no sentido Maringá - Paranavaí.
Consta que passados cerca de 400m do referido cruzamento, os veículos
atingiram velocidade superior ao dobro da permitida no local e, deste
modo, colocaram em risco a incolumidade pública e a segurança alheia.
No curso do precitado 'racha', defronte ao nº 6.808, o denunciado
MARCOS JESUS DA SILVA ao realizar manobra perigosa e proibida de
ultrapassagem do outro veículo pelo lado direito da via pública atropelou a
pedestre e vítima Fabíula Regina Coalio, de apenas 12 anos de idade (cf.
certidão de nascimento de fl. 69), que buscava cruzar a via pública da
direita para o canteiro central, produzindo-lhe as lesões corporais
descritas pelo laudo de exame cadavérico de fl. 64, que foram a causa de
sua morte por politraumatismo em decorrência de ação contundente, sendo
que o primeiro denunciado deixou de prestar socorro à vítima, evadindo-
se do local, o mesmo sucedendo com o segundo denunciado.
Embora não querendo propriamente o evento final, o primeiro denunciado,
ao imprimir ao seu conduzido excessiva velocidade, absolutamente
incompatível à segurança do trânsito urbano, demonstrando gosto pelo
perigo, previu o resultado como possível e o admitiu como conseqüência
de sua conduta, sendo para ele completamente indiferente viesse, ou não,
atropelar alguém. Ao invés de desistir de sua conduta arriscada e perigosa,
o primeiro denunciado preferiu ver a ocorrência do resultado, aceitando-
o de antemão e assumindo o risco de produzi-lo.
O segundo denunciado, ciente e voluntariamente, concorreu para a
prática do crime de homicídio, pois estava ligado ao primeiro denunciado
pelo mesmo interesse, isto é, a participação em disputa não autorizada pela
autoridade competente, incentivando-o e encorajando-o a prosseguir na
perigosa conduta, sendo para ele indiferente se viesse, ou não, a matar
alguém.”

O primeiro Recorrente alega, em síntese, que o fato imputado


caracterizaria, quando muito, o delito de homicídio culposo tipificado no art. 302
do Código de Trânsito Brasileiro, visto não ter sido demonstrado o dolo na sua
conduta. Postula, então, o provimento do recurso para o fim de ser
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desclassificada a acusação constante do aditamento e, assim, devolvido o


julgamento da causa à competência do Juiz singular (f. 543/548).

O segundo Recorrente argúi, preliminarmente, a nulidade do


feito, porque (i) embora originariamente denunciado incurso no art. 308 do
Código de Trânsito Brasileiro, sequer foi apreciado o seu pedido de suspensão
condicional do processo (art. 89, Lei nº 9.099/95), importando o recebimento do
aditamento à denúncia em violação ao devido processo legal, na medida em que
suprimiu o seu direito de obter o sursis processual; (ii) a decisão recorrida
encampou a majorante prevista no §4º (parte final) do art. 121 do Código Penal
sem a devida fundamentação e sem observar a sua incompatibilidade com o dolo
eventual. No mérito, sustenta que a denúncia foi aditada unicamente em razão de
outro Representante do Ministério Público ter passado a atuar no processo e não
em decorrência do surgimento de novas provas justificadoras da mudança na
acusação inicial. Aduz, ainda, ser inadmissível a imputação deduzida no
aditamento, já que os delitos praticados na condução de veículo automotor são
"crimes de mão própria", podendo-lhe ser somente atribuída a perpetração do
referido “crime de racha”, jamais um concurso no homicídio praticado pelo co-
Réu. Argumentando, por fim, que a sua conduta não revelou a presença do dolo
eventual, pleiteia o provimento do recurso para ser, alternativamente, (i) anulado
o processo, (ii) desclassificada a imputação ou (iii) afastada a mencionada causa
de aumento (f. 511/542).

Ofertadas as contra-razões pelos Assistentes de Acusação (f.


550/578) e pelo Ministério Público (f. 579/599), foi mantida a decisão
impugnada (f. 600), tendo a douta Procuradoria Geral de Justiça, em parecer
subscrito pelo Procurador FRANCISCO VERCESI SOBRINHO, opinado pelo
desprovimento dos recursos (f. 610/615).

2. A nulidade suscitada pelo segundo Recorrente, de que não


teria sido observada “a garantia do devido processo legal para fins de aplicação
da suspensão condicional do processo”, não se verifica.
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Embora fizesse jus – enquanto o processo versava as


classificações da denúncia inicial – a que lhe fosse oportunizada a medida
prevista no art. 89 da Lei nº 9.099/95, quedou órfão desse benefício a partir do
despacho que recebeu o aditamento, pois, daí em diante, a relação processual
passou a ter por objeto a perquirição de accusatio que não comporta a incidência
da aludida suspensão do processo. Correta, portanto, a deliberação de f. 242,
considerando prejudicado, logo que recebida a nova acusação, o pleito do Réu de
se ver beneficiado pela medida suspensiva.

Ademais, se o sursis processual não foi ofertado na denúncia e o


Juízo deixou de valer-se da providência cogitada no art. 28 do Código de
Processo Penal, cumpria ao Recorrente manejar habeas corpus para tentar
remediar a omissão e fazer valer esse seu pretenso direito subjetivo, supondo-se,
por óbvio, a subsistência da acusação originária. Recebida, entretanto, a novatio
libelli (f. 283/292), impetrou-se writ sem qualquer menção ao sursis processual,
então prejudicado.

E se naquela instância constitucional já descabia a aplicação da


medida suspensiva, não será em sede de recurso versando crime doloso contra a
vida que se comportará o benefício.

Rejeita-se, pois, a prefacial.

3. Quanto à questão de fundo, não podem prosperar as


pretensões recursais, salvo aquela dirigida contra o reconhecimento no decisum
da causa especial de aumento estipulada no §4º (parte final) do art. 121 da Lei
Penal.

Observe-se, desde logo, que o argumento no sentido de ter sido a


denúncia aditada sem justificação fático-probatória já passou pelo crivo deste
Colegiado quando do julgamento do Habeas Corpus nº 166.800-4 (Relator: Des.
MIGUEL KFOURI NETO) impetrado em favor do segundo Recorrente, ocasião
em que resultou repelido pelo acórdão nº 17.207 (f. 376/379), assim ementado:
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“HABEAS CORPUS - IMPETRAÇÃO COM PROPÓSITO DE


ANULAR ADITAMENTO À DENÚNCIA - RECONHECIMENTO,
NOS FATOS NARRADOS, DA OCORRÊNCIA DE HOMICÍDIO
DOLOSO (DOLO EVENTUAL) - POSSIBILIDADE - INEXISTÊNCIA
DE ILEGALIDADE - AMPLA DEFESA ASSEGURADA AOS RÉUS,
MEDIANTE RENOVAÇÃO DO ATO CITATÓRIO E
REDESIGNAÇÃO DE INTERROGATÓRIOS - ORDEM
DENEGADA.”

E mesmo que se pudesse alegar não ter o aresto apreciado na


extensão desejada o fundamento da impetração, foi o julgado confirmado pela c.
QUINTA TURMA do e. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA quando da
apreciação do RHC nº 17.197/PR interposto pelo segundo Recorrente:

"PROCESSUAL PENAL. RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS


CORPUS. ADITAMENTO À PEÇA ACUSATÓRIA TÃO SOMENTE
PARA ALTERAR A CAPITULAÇÃO LEGAL DO DELITO DO ART.
302 DO CTB PARA O DO ART. 121, §4º, ÚLTIMA PARTE, DO
CÓDIGO PENAL.
I - Em se tratando de ação penal pública incondicionada, é possível
ao Parquet aditar a peça acusatória para alterar a classificação do
delito (aditamento voluntário próprio legal).
II - Eventual erro na capitulação legal pode ser corrigido no
momento da sentença, ex vi do art. 383 do CPP, sem causar prejuízo
à ampla defesa e ao contraditório, porquanto o réu se defende dos
fatos a ele imputados, e não da classificação do crime feita na
denúncia. (Precedentes).
Recurso desprovido.”
(Relator: Min. FELIX FISCHER, DJU 18.04.2005, p. 353)

Somente resta, pois, considerar prejudicado o exame da alegação


que aqui se pretende reeditar, mesmo porque o decisum da Corte Uniformizadora
deu-lhe resposta cabal, tornando ocioso algum acréscimo. Cabe registrar apenas,
em atenção ao acórdão prolatado pela Segunda Câmara desta Corte no Recurso
em Sentido Estrito nº 110.053-6 lembrado pelo Recorrente, que o precedente não
lhe aproveitaria, porquanto na hipótese lá apreciada cuidou-se de anômala
mutatio actionis, intentada ao desamparo de fato novo e ao desabrigo do art. 384,
parágrafo único, do Código de Processo Penal, enquanto aqui operou-se tão-só
espontânea emendatio subsuntiva, antes mesmo dos interrogatórios dos
Acusados.
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Manifesta, outrossim, a inconsistência da alegação de que os


crimes praticados na condução de veículo automotor seriam de “mão própria”, a
inviabilizarem qualquer hipótese de concursus delinquentium. Primeiro, é no
mínimo discutível essa tese de que os crimes tipificados na Lei nº 9.503/97 são
delitos de mão própria – como se fossem equiparáveis, por exemplo, aos crimes
de falso testemunho (CP, art. 342), infanticídio (CP, art. 123), reingresso de
estrangeiro expulso (CP, art. 338) etc., cuja autoria depende da atuação pessoal
do agente que se enquadra nas especiais condições e características da previsão
do tipo penal –, visto que, tirante algumas infrações (v.g., arts. 306, 307 e 309), o
Código de Trânsito Brasileiro capitula outras que, a princípio, admitem autoria
plurissubjetiva, fungível, por assim dizer. Por outro lado, e agora em caráter
definitivo, a decisão contra qual se dirige o recurso cuida apenas do crime de
homicídio doloso tipificado no art. 121 do Código Penal, que, como se sabe, é
crime comum e de forma livre, comportando qualquer modalidade de concurso
de agentes. O argumento recursal encontra-se, portanto, desfocado da matéria
devolvida a esta Corte, só podendo ser de alguma utilidade ao Recorrente por
ocasião dos debates em plenário do Júri.

Em relação ao núcleo de ambas as insurgências, há que se ter em


conta, antes de tudo, não ser esta a sede adequada a se perquirir com
profundidade, e em caráter exauriente, se o fato imputado no aditamento
configura hipótese de dolo eventual ou de alguma modalidade de culpa stricto
sensu. Aqui, admite-se, como cediço, apenas o controle da presença daqueles
elementos que, por conferirem plausibilidade a uma acusação versando a prática
de crime doloso contra a vida, justificam o encaminhamento do caso à apreciação
do seu Juiz natural, o Tribunal do Júri, onde as questões pertinentes ao meritum
causae alcançarão soberano desfecho.

Examinando-se a decisão de f. 490/498 nessa perspectiva, força


concluir que a pronúncia dos Recorrentes ali se encontra persuasivamente
justificada pela demonstração de uma convergência de circunstâncias que,
embora não elidam taxativamente a hipótese da ocorrência de crime culposo,
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tornam razoável a tese acusatória de que o primeiro Recorrente teria agido com
dolo eventual ao atropelar a Vítima, enquanto que o segundo Recorrente, também
com dolo eventual, teria contribuído à produção do resultado morte emulando o
primeiro a tentar superá-lo na corrida automobilística que empreenderam.

Desnecessário lembrar o quão tormentosa é a destrinça entre


dolo eventual e culpa consciente. Nem esta seria a sede adequada para discutir e
arbitrar as polêmicas doutrinárias que subsistem acesas a propósito do tema.

Basta considerar, in casu, o fato incontroverso de os Recorrentes


haverem disputado, em alta velocidade, corrida automobilística numa avenida
central de uma das maiores cidades do Estado, em horário sujeito a grande
movimento de veículos e pedestres, para se propender pela presença, em ambos,
de uma disposição anímica compatível com as notas do dolo eventual.

Vale registrar, ainda, que o primeiro Recorrente admite nem


haver tentado evitar o atropelamento da Vítima: "… Não acionei os freios do
veículo antes do acidente. No momento do acidente eu estava ultrapassando um
veículo que seguia na pista que fica ao lado do canteiro central.…” (f. 266).
Conjugando-se essa circunstância aos achados periciais (f. 64, 86/102, 103/111 e
156/158) e aos testemunhos reproduzidos na decisão recorrida (f. 495/497), tem-
se um mosaico probatório que satisfaz plenamente os pressupostos erigidos no
art. 408-caput do Código de Processo Penal, a reclamar valoração que ultrapassa
a faixa cognitiva reservada ao Juiz instrutor e que lhe permitiria adotar alguma
das soluções alternativas à pronúncia.

Portanto, o caso é, de direito, do Júri, tal como proclama o


mesmo e. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA:
"PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO ESPECIAL.
HOMICÍDIOS DOLOSOS. PRONÚNCIA. DESCLASSIFICAÇÃO.
DOLO EVENTUAL E CULPA CONSCIENTE. QUAESTIO FACTI E
QUAESTIO IURIS. REEXAME E REVALORAÇÃO DA PROVA. (...)
III – Não se pode generalizar a exclusão do dolo eventual em delitos
praticados no trânsito. Na hipótese de ‘racha’, em se tratando de
pronúncia, a desclassificação da modalidade dolosa de homicídio
para a culposa deve ser calcada em prova por demais sólida. No
iudicium accusationis, inclusive, a eventual dúvida não favorece os
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acusados, incidindo, aí, a regra exposta na velha parêmia in dubio


pro societate.
IV – O dolo eventual, na prática, não é extraído da mente do autor
mas, isto sim, das circunstâncias. Nele, não se exige que resultado
seja aceito como tal, o que seria adequado ao dolo direto, mas isto
sim, que a aceitação se mostre no plano do possível, provável.
V – O tráfego é atividade própria de risco permitido. O ‘racha’, no
entanto, é – em princípio – anomalia que escapa dos limites próprios
da atividade regulamentada.
VI – A revaloração do material cognitivo admitido e delineado no
acórdão reprochado não se identifica com o vedado reexame da prova
na instância incomum. Faz parte da revaloração, inclusive, a
reapreciação de generalização que se considera, de per si,
inadequada para o iudicium acusationis.
Recurso provido, restabelecendo-se a pronúncia de primeiro grau.”
(REsp nº 247.263-MG, 5ª Turma, Relator: Min. FELIX FISCHER,
DJU 20.08.2001, p. 515).

Na esteira dessa orientação, tem reiterado esta Corte:

"RECURSO EM SENTIDO ESTRITO. HOMICÍDIO SIMPLES EM


CO-AUTORIA. PRONÚNCIA. DOLO EVENTUAL. ‘RACHA’.
DECISÃO LASTREADA EM VEEMENTES INDÍCIOS
CONSTANTES DOS AUTOS. ALEGADA IMPOSSIBILIDADE DE
CONFIGURAÇÃO DA CO-AUTORIA E DE AUSÊNCIA DE LIAME
SUBJETIVO NA CONDUTA DOS ACUSADOS. PEDIDOS
RECURSAIS DE IMPRONÚNCIA E DE DESCLASSIFICAÇÃO.
VALORAÇÃO DO ELEMENTO SUBJETIVO. COMPETÊNCIA DO
TRIBUNAL DO JÚRI. RECURSO DESPROVIDO.
1- Conforme preceitua o artigo 408 do Código de Processo Penal,
provada a materialidade e havendo indícios de autoria, deverá o juiz,
motivadamente, pronunciar os acusados.
2- O racha ‘não pode ser cometido por uma só pessoa. Ninguém
pratica 'racha' sozinho. O tipo exige a participação de dois ou mais
motoristas’ - (Damásio E. de Jesus in 'Crimes de Trânsito', Ed.
Saraiva, 1999, p. 175/176).
3- Havendo indícios de que os recorrentes, ao causarem a morte de
uma pessoa, participavam de irracional disputa conhecida como
racha de veículos em via pública, não se deve, nesta fase, afastar o
dolo eventual pelo qual foram os acusados denunciados, não havendo
que se falar em impronúncia ou desclassificação, competindo ao
Tribunal do Júri a valoração do elemento subjetivo” (2ªC.Cr, acórdão
nº 15.824, Relator: Des. JOSÉ MAURÍCIO PINTO DE ALMEIDA).

Note-se, também, que o fato de o veículo conduzido pelo


segundo Recorrente não haver atingido o corpo de Fabíula não basta para afastar,
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em sede de pronúncia, a plausibilidade da tese de que teria contribuído, de


alguma forma, para a causação do resultado juridicamente desaprovado, nos
moldes da teoria monista ou unitária adotada pelo art. 29 do nosso Código Penal,
pois é certo que a morte da Adolescente deu-se em meio ao "racha"
automobilístico que ele disputava com o motorista do veículo atropelador.

Deve prevalecer, assim, a decisão impugnada no que pronunciou


os Recorrentes incursos no art. 121, caput, do Código Penal, mas não quando
se referiu à causa de aumento de pena decorrente da menoridade da Vítima.

A pronúncia, repita-se, é mero juízo de admissibilidade da


acusação, que visa unicamente aferir a razoabilidade da imputação assestada pelo
Ministério Público, para remeter o acusado a julgamento pelo Tribunal Popular.
Nesta decisão, deve o juiz classificar o delito, indicando não só o tipo penal a que
se subsome o fato, como as circunstâncias qualificadoras do crime, sendo-lhe
vedado, ex vi arts. 408-§1º e 416 do Código de Processo Penal, abordar questões
relativas à fixação da pena.

Nossa CORTE DE UNIFORMIZAÇÃO, a propósito, assentou


que a pronúncia é juízo de admissibilidade da denúncia, “com o único propósito
de submeter o acusado a julgamento pelo Tribunal do Júri, daí por que, em sua
motivação, o juiz deve proclamar apenas a existência do crime e de indícios
suficientes de autoria, além das circunstâncias qualificadoras do crime (artigo
416 do Código de Processo Penal), sem, contudo, aprofundar-se no exame das
provas constantes dos autos, sendo-lhe vedado fazer outras referências às
circunstâncias do crime, tais como: as agravantes, as atenuantes, as causas de
aumento e de diminuição de pena e o concurso de crimes (artigo 408 do Código
de Processo Penal).” (HC nº 12.048/RJ, 6ª Turma, Relator: Min. HAMILTON
CARVALHIDO, DJU 25.06.2001, p. 239).

Este Tribunal, do mesmo modo, já decidiu:

“1. PENAL. PROCESSUAL PENAL. SENTENÇA DE PRONÚNCIA.


TENTATIVA DE HOMICÍDIO QUALIFICADO POR ALEGADO
MOTIVO FÚTIL. (...) 2. ADMISSÃO, NA PRONÚNCIA, DA
EXISTÊNCIA DE CONCURSO MATERIAL DE CRIMES E CAUSA
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DE AUMENTO ESPECIAL DE PENA. IMPOSSIBILIDADE.


MATÉRIA PERTINENTE À APLICAÇÃO DA PENA, SE
HOUVER CONDENAÇÃO PELO TRIBUNAL DO JÚRI.
EXCLUSÃO DO CONCURSO MATERIAL DE CRIMES DA
SENTENÇA DE PRONÚNCIA E DE OFÍCIO, EXCLUSÃO DA
CAUSA ESPECIAL DE AUMENTO DE PENA. Não é admissível a
inclusão na decisão de pronúncia de circunstâncias agravantes ou
atenuantes, ou de qualquer matéria relativa à dosimetria da pena, em
consonância com as normas dos arts. 408, § 1º, 416 e 417, do Código
de Processo Penal.” (2ª C.Cr., acórdão nº 17.431, Relator: Juiz Conv.
ESPEDITO REIS DO AMARAL).

In casu, o Dr. Juiz antecipou-se a um eventual veredicto


condenatório, reconhecendo desde logo a causa especial de aumento de pena
prevista no §4º do art. 121 da Lei Penal, quando tal questão, dizendo respeito à
aplicação da pena, não se comporta na fase do iudicium accusationis.

Impõe-se, destarte, acolher parcialmente o recurso interposto


pelo segundo Recorrente, para excluir da decisão censurada a admissão da
indigitada majorante e, de ofício, cancelar a referência ao art. 29 do Código
Penal, cuja parte final, também relacionando-se com a aplicação da pena (HC nº
70.022/RJ, 1ª Turma, Relator: Min. CELSO DE MELLO, DJU
14.05.93, p. 9.003), torna ociosa a menção, tudo sem prejuízo de que essas
questões venham a ser oportunamente articuladas pelo Ministério Público (art.
417, CPP).

ANTE O EXPOSTO:

ACORDAM os integrantes da Primeira Câmara Criminal do


Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em
NEGAR PROVIMENTO ao recurso manifestado pelo réu Marcos Jesus da
Silva, DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso interposto pelo réu Luiz
Cavicchioli Forini para o fim de excluir da pronúncia a referência à causa
especial de aumento de pena e, de ofício, cancelar a menção ao art. 29 do Código
Penal.

Participaram do julgamento os Excelentíssimos


Desembargadores JESUS SARRÃO e CAMPOS MARQUES.
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Curitiba, 18 de janeiro de 2007.

TELMO CHEREM - Presidente e Relator