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CULTURA E ESPECTÂCULOS

CULTURA E ESPECTÂCULOS Baselitz não é de modas Em vez de se escravizar aos anos 80,
CULTURA E ESPECTÂCULOS Baselitz não é de modas Em vez de se escravizar aos anos 80,

Baselitz não é de modas

Em vez de se escravizar aos anos 80, ele regressa às raízes expressionistas

RUTH ROSENGARTEN

O trabalho de Georg

Baselitz tomou-se

amplamente co-

nhecido nos circui-

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A fi~uração-de-cabeça-para-baixo, não é senão a característica

mais espectacular de Baselitz

aguadas aplicadas é sur- preendente, se se tiver ape- nas conhecimento prévio das suas pinturas. Ao mes- mo tempo, o peso puro e o volume das figuras, a sua in- sistente rotundidade, afir- mam a plasticidade tridi- mensional. Muitos dos desenhos, também de meados de 60, revelam uma insatisfação crescente com as implica- ções literais e narrativas da figuração. Continuando es- tas obras a afirmar uma forte

presença figurativa, os hia- tos, deslocações e fracturas no motivo, perturbam de imediato a relação da ima- gem com o espectador. Des- te modo, Baselitz começa a resolver a tensão imanente à

sua primeria obra, entre Ta-

tos internacionais com o surgimento do neo-expres- sionismo, nos anos 80. O seu nome foi, talvez apres- sadamente, identificado com a figuração-de-cabeça- para-baixo, que não é senão a sua característica mais es- pectacular. A actual exposi- ção no CAM (que vem do Forum Ludwig, em Aa- chen) é um acontecimento surpreendente. Trata-se de uma oportunidade insólita para se reavaliar a obra do artista no contexto da sua trajectória pessoal, em vez de o ser em contraponto à dos seus contemporâneos. A mostra consiste numa longa série de desenhos executados entre 1958 e 1976, ao lado de duas pintu- ras e uma escultura. A últi- ma pintura é vigorosa e fes- tiva. A primeira manifesta alguma insegurança no tra- tamento do motivo-de-cabe- ça-para-baixo. Ainda pre- sentes, estão os desenhos li- gados aos dois manifestos Pandemonium (1961-62), nos quais Baselitz define a sua posição artística e lite-

ráfia. Contra este pano de fundo, é possí- Uma série de desenhos de 1965 - fi-

vel ver até que ponto Baselitz soube esca- par à servidão às modas dos anos 80: as raízes do seu vocabulário plástico estão na velha tradição do expressionismo ale- mão, e as figuras de cabeça para baixo são apenas a mais radical da suas ousadas soluções pictórias. Os desenhos privilegiam a presença do corpo humano, quase sempre pairando ex- pansivamente na paisagem. Uma conexão

orgânica entre o corpo e a sua morada <<lla- Como desenhador, Baselitz evidencia

tural» estabelece-se, de um modo muito específico e significativo, pela imagem de um homem a «inseminar» a terra, ejaculan- do sobre ela. Os desenhos dão ênfase ao corpo masculino em momentos de auto-re- velação, quando o falo ganha vida própria,

em parte animal, em parte arquitectónica. Mas a sensibilidade para os tons nas

uma estranha fusão da sensibilidade pic- tórica com a sensibilidade escultórica. O seu estilo gráfico é urgente e directo. As figuras emergem de um gestualismo es- sencialmente háptico e linear: é na reitera- ção dos traços que a figura se manifesta.

guras volumosas, de pequenas cabeças, em trajos esfarrapados - está em rela- ção próxima com as pinturas de «he- róis» do mesmo período. Têm uma res- sonância poética e mítica: os homens hesitam entre serem pedintes, pastores ou agricultores, e evocam uma espécie de inocência que está nos antípodas do cinismo urbano de muitos dos contem- porâneos de Baselitz.

chisme, por um lado, e rea- lismo social, por outro. O passo dado por estas obras no recurso à inversão completa do formato é sim- ples, mas radical. O que co- meça por ser uma desloca- ção do ponto de vista acaba por se tomar numa estraté- gia composicional positiva:

as marcas gráficas indiciam que as imagens foram de facto registadas em posição invertida, em vez de se constituírem numa mera ro-

tação do desenho terminado. O processo despoja as obras da sua inicial implicação mítica e narrativa, situando--as agora mais precariamente entre o figurati- vo e o abstracto. O hedonismo do comen- tário algo elíptico de Baselitz - «traba- lho apenas na invenção de novos orna- mentos» - ou a sua insistência em «ge- rar ornamentos num clima de desarmo- nia» é o possível para ligar o seu trabalho a uma atitude estética, mais do que a uma disposição existencial ou motivação te- mática. Apesar disso, há uma imediatez, uma crueza - e poesia - nas obras, que se impõem sobre qualquer virtude que pudesse ser pensada como meramente «ornamental». ~

GEORG BASEUTZ

Centro de Arte Modema

R. Dr. Nicolau Bettencourt, Lisboa

13 de Maio de 1993

VISÃO

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