Casa Beires
Toshiaki, L. Beaudouin, R. Collova, C. Dupavillon. Casa Carlos Machado de Beires.[Fotografia] ofHouse.
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No passado dia 11 de janeiro, assisti em Serralves, a um “Ciclo de Conversas”
com Álvaro Siza, e por conseguinte, tive a feliz coincidência de conhecer e privar com o
neto da D. Elzira Beires, proprietária da casa Beires, também conhecida por “Casa
Bomba”.
A casa Beires, objeto de estudo do presente ensaio, construção charneira no
percurso profissional de Álvaro Joaquim de Melo Siza Vieira, arquiteto contemporâneo
português mais premiado e com maior reconhecimento internacional, foi projetada
como uma moradia unifamiliar.
No decorrer da conversa com Nuno Beires, neto de D. Elzira, mencionei que
frequentava o primeiro ano, do Curso de Arquitetura na Universidade do Porto, ao que
considerou que seria uma experiência enriquecedora conversar com a sua avó, assim
como ter a possibilidade de conhecer in loco a icónica casa. Convite que aceitei de
imediato, agradecendo-lhe a oportunidade que me estava a conceder.
Neste desiderato, e como posteriormente combinado com a D. Elzira, desloquei-
me no fim de semana seguinte à Póvoa de Varzim.
A gentil Senhora aguardava-me no pátio, onde a densa vegetação tomara conta
daquele espaço. Cumprimentou-me delicadamente, mencionando que
excecionalmente recebe visitas e por conseguinte pouco socializa.
Encaminhou-me para o interior da residência, justificando estar muito frio para
permanecermos na rua. Neste hiato temporal constatei que o projeto apresenta, um
design particular e ímpar, aparentando um cubo, em que uma das arestas transmite a
impressão de se encontrar em ruínas, como se tivesse sido alvo da explosão de uma
bomba. Reparei que a mesma foi separada por dois pisos, com base numa planta térrea
de configuração retangular, com entradas do lado Este (na sua face lateral) que permite
o acesso à garagem. Quanto ao pátio, transmitiu-me a ideia que se configura como um
zona de transição e articulação com o interior e exterior, e estabelece uma dicotomia
privado/público.
Já no interior da residência, na sala de jantar, aguardava-nos um lanche
esmeradamente preparado pela distinta Senhora. Enquanto lanchávamos a conversa foi
fluindo, nomeadamente, sobre o facto de ser açoriana, da minha adaptação à cidade do
Porto e à Faculdade de Arquitetura. Quando tive oportunidade solicitei à D. Elzira que
me falasse um pouco da conceção da casa Beires, pois havia tanto para ouvir, e já não
conseguia conter o meu entusiasmo.
Nesta abordagem, inferi que a mesma foi construída, num período conturbado,
projetada num contexto urbano, marcado pelas influências da década de setenta, numa
época em que ocorriam grandes transformações da sociedade portuguesa, coincidentes
com a revolução de 25 de abril, tendo sido concluída três anos após o início do projeto
(1973-1976) (Teixeira et al, 2023).
Da boa disposição que caracteriza D. Elzira e sentido de humor recordou o
descontentamento do arquiteto quando viu o terreno. Depreendi que fosse pelo facto
de estar inserido numa envolvente desinteressante, bem como a normativa que esta
impunha neste projeto em particular. “Na área envolvente surgem lotes mais ou menos
com a mesma dimensão onde no seu centro se inserem as casas. Constituíam-se como
lotes retangulares, e no seu interior estava situada a habitação” (Oliveira, 2009, p.85).
Simultaneamente, ao descontentamento de Siza com a área de intervenção, D.
Elzira referiu ainda a algumas imposições e desejos da família. Tinham em mente um
desenho de uma casa com um pátio semelhante ao da Casa Rocha Ribeiro, na Maia. O
que me levou a refletir que a família não teve em consideração que se tratava de um
lote suburbano de reduzidas dimensões, mais precisamente de 17 x 30m, bem como da
regulamentação do plano de urbanização, o que poderia ter sido um obstáculo à
construção da residência que idealizaram (Silva, 2014).
Neste ponto, questionei como foi possível Álvaro Siza levar a cabo a construção
da casa Beires. Sorridente, explicou que Siza fez um desenho espontâneo e livre, sem
qualquer convicção de que o projeto fosse edificado. Segundo Belém (2012, p.7-8) “O
seu olhar sobre cada projeto, a importância da envolvência do que o rodeia, as várias
leituras, (…) as técnicas tradicionais, a força evocativa do espaço (…) Siza consegue, a
partir de um somatório de sensações e ideias, construir a beleza”.
Com o desenvolver do diálogo, percebi que o desenho recria o pátio pela
subtração da massa à casa, que ocupa a totalidade do lote e contrariamente ao que Siza
julgava, o mesmo satisfez de imediato a família, e “(…) deixou explodir a casa” (Fleck,
1992, p.34 cit in Duarte, 2014, p. 98).
Como num sinal de alerta, o relógio de parede anunciou a hora, e nesse momento
D. Elzira, sugeriu guiar-me pelas divisões da casa, ao que fui aludindo e indagando sobre
algumas das suas particularidades.
A minha primeira ilação é que a casa se assemelha a um cubo, cuja fachada
principal aparenta ter sido destruída por um bombardeamento. Constatei que as
divisões principais encontram-se direcionadas para sudoeste, para a extremidade que
aparenta ter sido “explodida”. Neste sentido, questionei se o objetivo era abri-las para
a área exterior ajardinada, ao que aquiesceu. Compreendi que esta situação só foi
exequível devido à fragmentação do cubo, viabilizando deste modo uma distribuição
interna dos quartos no piso superior, orientados para o pátio interior (Santos, 2018).
Particularmente no que concerne ao piso térreo localizam-se as zonas comuns,
os espaços de cariz mais público e de lazer. Verifiquei que é composto por uma
sequência de sala de estar, sala de jantar e de estudo, ao longo da fachada, ou seja, em
redor do plano ondulado de vidro voltado para a rua, que lhes concede grande fluidez e
luminosidade. Dispostas ao longo das fachadas a Norte e nascente encontra-se “(…) a
cozinha, o quarto de banho e hall de entrada sem ligação ao pátio e iluminados por vãos
pontuais sendo que no caso da cozinha pela bay-window do volume cilíndrico” (Silva,
2014, p. 71). Direcionadas para a parte de trás da casa situa-se ainda, a garagem e um
anexo coberto, sendo que no lado inverso ao referido anexo, o plano ondulado de vidro
representa a fratura da casa. Este piso obedece a uma métrica ortogonal até chegar ao
ponto de rutura, que ocorre quando encontra o plano de vidro ondulante (Castro, 2006).
Relativamente ao piso superior, é destinado a espaços íntimos, de carácter mais
privado. Mantém a coerência da abertura dos quartos para o pátio, em relação a dois
quartos de dormir, a antessala e a suíte principal. Em contrapartida, os acessos (corredor
e escadas) e as duas casas de banho foram impelidos para as paredes “sólidas”.
As paredes interiores das casas de banho são arredondadas, e o corredor
transmite uma ideia de ritmo, devido às paredes curvas e de diferente dimensão,
pormenores que não passam despercebidos.
No que concerne à privacidade dos espaços observei que é garantida por uma
pérgula e persianas que encerram a varanda contínua do primeiro piso.
O acesso entre os pisos é efetuado através de escadas, revestidas de cortiça. A
posição destas ocupa o centro da fachada nordeste, ou seja, a entrada, sendo o único
componente que não é alvo de qualquer alteração com a rutura quando esta alcança o
piso superior.
No meu entender, não obstante, os dois pisos, apresentarem plantas muito
distintas, possuem em comum o facto de se encontrarem direcionados para o mesmo
pátio-jardim, oferecendo ainda mais relevância a este espaço. Na casa Beires, os
elementos e a sua ordenação são invertidos: o pátio avança para a frente da casa, aberto
sobre a rua, separada desta por um muro (Ramos, 2010, cit in Silva 2014).
Do ponto de vista construtivo, destaca-se a extensa e ondulante parede cortina
de vidro que certamente exigiu um cuidadoso e detalhado estudo de pormenor, devido
à complexidade dos detalhes. Percebe-se que no sistema utilizado na construção da casa
foi utilizada uma grande hibridez de meios, nomeadamente técnicas tradicionais com
novos materiais.
Neste âmbito e enquanto percorríamos a casa analisei os materiais utilizados. A
estrutura vertical é maioritariamente constituída por paredes em alvenaria de granito e
complementada por pilares de betão armado, assim como a escada de acesso ao
segundo piso.
As paredes exteriores são de perpianho de granito, e em tijolo vazado pelo
interior. As suas superfícies foram rebocadas com argamassa de cimento, cal hidráulica
e areia, com acabamento areado fino assim como as paredes interiores e os tetos. Sendo
o acabamento dos tetos argamassa de gesso estuque, cal em pasta e areia fina ao traço
e o das paredes interiores estanhado com uma película de argamassa de cimento, cal
branca e areia, com exceção das zonas sanitárias, cozinha e garagem, cujas paredes
foram revestidas com azulejo. Em relação à pintura das paredes foi aplicada tinta à base
de resinas de pliolite.
A caixilharia da cortina de vidro que configura o alçado que explodiu voltada para
o pátio é executada em madeira lacada de cor preta, transmitindo a ideia que é metálica.
As caixilharias das bay window são feitas em perfis metálicos e têm vidros simples. As
janelas e as portas são de madeira de pinho tratado (Teixeira et al 2023).
Face ao adiantado da hora agradeci a gentileza e disponibilidade da D. Elzira em
receber-me, enquanto regressava ao Porto ocorreu-me que a casa Beires é um
paradigma de inovação: face ao contexto em que foi construída, no trajeto profissional
de Álvaro Siza, ao nível das opções estruturais, materiais e no grande rigor na dimensão
construtiva , assim como no desenho de cada pormenor.
Referencias Bibliográficas:
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PT&lr=&id=eJDx0QPcFrgC&oi=fnd&pg=PT2&dq=Bel%C3%A9m,+M.+C.+(2012).++O+ess
encial+sobre+%C3%81lvaro+Siza+Vieira.+Leya.+&ots=g9h1iLXdZ3&sig=E_DRgt3XHjW2a
60DUsA_o37wVWI#v=onepage&q&f=false
Castro, C. A. A. A. (2006) Fragmento representação da memória na arquitetura, Prova
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Duarte, N. M. S. (2014). Alvar Aalto e Siza Vieira, as três escalas de pensar e construir o
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Oliveira, T. L. C. S. C. (2009). Ruína na arquitectura contemporânea: alguns exemplos.
Dissertação de Mestrado em Arquitectura, Faculdade de Arquitectura da Universidade
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Santos, A. G. F. F. D. (2018). Regionalismo e caráter: um estudo de 4 casos do séc. XX .
Mestrado Integrado em Arquitetura, Universidade Lusíada de Lisboa, Faculdade de
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Silva, J. P. P. C. M. (2014). Intervenção Sobre o Património do Século XX. Caso de Estudo:
Casa Beires de Álvaro Siza. Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura,
Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.
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Teixeira, J., Ferreira, T., Cruz, T., & Póvoas, R. (2023). Tradição e Inovação em Álvaro Siza.
Uma Perspectiva Tectónica Sobre a Casa Beires (1973-1979). 4º Congresso Internacional
de História da Construção Luso-Brasileira - Ambientes em Mudança. Guimarães. 4 a 7 de
Setembro de 2023. [Link]