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O Duque Corintio - Emma v. Leech

Enviado por

Ellen Nunes
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Table of Contents

Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Epílogo
O Coraçã o das Trevas
Pró logo
Sobre mim!
Outras obras de Emma V. Leech
Audiobooks (títulos disponíveis apenas em inglês)
Agradecimentos
Desafiando um Duque
Ousando Ser Indecente
Acertando as Contas com o Diabo
O Lorde Indomável
O Duque Coríntio
Patifes & Cavalheiros - Livro 13
Por Emma V. Leech
O Duque Coríntio
Patifes & Cavalheiros - Livro 13
Por Emma V. Leech
****
Publicado por: Emma V. Leech.
Arte da capa por: Victoria Cooper
Título original: The Corinthian Duke
Traduçã o: Inês Vanmuysen
Preparaçã o de Texto/Revisã o: Vâ nia Nunes
Direitos autorais (c) Emma V. Leech 2018
ASIN Noº.: B0DF4ZBLF7
ISBN No : 978-2-487015-22-7
Esta é uma obra de ficçã o. Seu intuito é entreter as pessoas. Nomes,
personagens, lugares e acontecimentos descritos sã o produtos da
imaginaçã o da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e
acontecimentos reais é mera coincidência.
Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.
Todos os direitos reservados.
Sã o proibidos o armazenamento e/ou a reproduçã o de qualquer parte
dessa obra, através de quaisquer meios — tangível ou intangível — sem
o consentimento escrito da autora.
A violaçã o dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n°. 9.610/98
e punido pelo artigo 184 do Có digo Penal.
Nenhuma identificaçã o com pessoas reais (vivas ou falecidas), locais,
edifícios e produtos é inferi
Sumá rio
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Epílogo
O Coraçã o das Trevas
Pró logo
Sobre mim!
Outras obras de Emma V. Leech
Audiobooks (títulos disponíveis apenas em inglê s)
Agradecimentos
Desafiando um Duque
Ousando Ser Indecente
Acertando as Contas com o Diabo
O Lorde Indomá vel
A Chave para Erebus
O Príncipe Sombrio
Quer mais Emma?
Capítulo 1
“No qual nossos jóqueis disputam posição”

16 de outubro de 1819. Newmarket, Inglaterra.


Oscar Paget olhou para seu melhor amigo, Bertram Aldous,
Visconde Withington, e o viu lutando para acalmar sua potra inquieta,
Afrodite. Ele acabara de montar perto do Posto Thomond, e a bela
criatura estava fazendo o possível para derrubá -lo, extremamente
agitada por causa da multidã o. A expectativa no ar era palpável
enquanto os cavaleiros montavam seus cavalos agitados antes do início
do pá reo.
O barulho era digno de ser notado, o ambiente ao redor era
pulsante, animado com a conversa dos espectadores e os vendedores
gritando por cima de suas mercadorias enquanto cerveja e comida
eram servidas à s multidõ es famintas. A melodia se fazia ouvir em meio
à confusã o e Afrodite se irritou com um acrobata desajeitado, fazendo
seu cavaleiro proferir uma série de palavrõ es.
Oscar reprimiu um sorriso e esperava que Virago nã o fosse seguir o
seu exemplo e o derrubasse, caindo de bunda no chã o. Ela era uma
lindeza mal-humorada, na melhor das hipó teses. Oscar observou, com
seu coraçã o acelerado, o seu cavalariço levar a reluzente potra negra
em sua direçã o. Ele vivia para momentos como este. O entusiasmo e a
empolgaçã o de uma corrida faziam o seu sangue ferver como poucas
coisas, especialmente quando sabia que grandes quantias estavam em
jogo.
Os operadores de apostas ainda estavam aceitando apostas em suas
bancas nos ú ltimos instantes antes do início da corrida, mas ele nã o
parou para ouvir as apostas. Quem apostava contra sua vitó ria era um
tolo.
Havia muitas outras maneiras de perder dinheiro naquele lugar
sem ser no evento principal, e as bancas de apostas haviam surgido aos
montes. Todas as classes podiam perder a quantia dos seus bolsos no
cara ou coroa, isso se algum bandido com a mã o leve nã o os
esvaziassem antes mesmo de terem a chance de pegar suas moedas.
Em meio à multidã o, a nobreza se misturava com todas as classes
sociais, assistindo a cã es dançantes e tendo suas sortes reveladas pelos
ciganos em suas tendas coloridas, enquanto os engolidores de fogo
encantavam multidõ es de crianças de olhos arregalados. As malas-
postas, diligências e as carruagens da alta sociedade cercavam a pista,
com muitos jovens se espremendo nos tetos para ter uma visã o melhor.
A maioria das damas havia optado por um ambiente mais refinado
nas arquibancadas e Oscar sabia que sua noiva desaprovadora, Lady
Pearl Aldous, estaria lá . A irmã de Bertram nã o gostava de corridas,
nem do alvoroço que as cercava, mas sentia que devia apoiar seu noivo
em seus esforços, independentemente de seus pró prios sentimentos.
Oscar se perguntou se Ella estaria sentada pacientemente ao lado
da irmã mais velha, mas suspeitava que nã o. A moça travessa
provavelmente estaria escondida em uma das tendas ciganas ou
apostando seu dinheiro em sua vitó ria. A ideia o fez bufar de diversã o.
Newmarket Town Plate era uma das poucas corridas de cavalos em
que um homem como Oscar podia montar sua pró pria montaria sem
censura. Oscar nã o se importava muito com o que os outros pensavam,
mas sua mã e teria um ataque de nervos se alguém o visse fazendo algo
que nã o estivesse à altura do Duque de Rothborn.
Ele havia convencido Bertram a participar com ele, e a expressã o
carrancuda no rosto do amigo sugeria que ele o xingaria internamente
de agora até o dia do Juízo Final.
Depois de pesado, Oscar prendeu a sela sobre o dorso de sua
montaria enquanto seu cavalariço cuidava da rédea. Depois de ajustar
tudo do jeito que queria, ele montou, ansioso para começar. Virago
pisou duro e se virou para lhe lançar um olhar ameaçador antes de
tentar morder o cavalariço. O jovem se afastou apressado do enorme
animal enquanto Oscar segurava as rédeas.
Um zumbido de excitaçã o percorreu a multidã o naquele momento,
enquanto os trinta corredores se posicionavam. Apenas os cinco
primeiros passariam para a final.
— Por que diabos eu deixei você me convencer a fazer isso,
Rothborn? — gritou Bertram por cima do barulho, balançando a cabeça
e parecendo que poderia vomitar.
— Anime-se, Bertie — disse Oscar, sorrindo para o amigo. — É
apenas o primeiro pá reo. Sobreviva a isso e poderemos fazer negó cio.
Qualquer que fosse a resposta indignada de Bertie, o clamor da
multidã o a abafou quando um oficial veio instruir os jó queis a se
posicionarem. Os cavalos se inquietavam e relinchavam enquanto se
alinhavam ao lado do Posto Thomond, que marcava o início e o fim da
pista circular, aguardando o sinal enquanto o bandeirinha subia no
poste de sinalizaçã o branco e erguia a bandeirinha vermelha e preta.
***
Ella esticou o pescoço e ficou na ponta dos pés, perguntando-se se
talvez teria sido melhor ficar na Tribuna Portland, como Pearl insistira.
Pearl odiava corridas e, mesmo quando estava longe de toda a diversã o,
reclamava sobre o quã o entediante era. Isso tirava toda a alegria e
emoçã o do dia.
Ella simplesmente nã o conseguia entender a irmã , mas agora nã o
conseguia enxergar nada devido ao amontoado de pessoas que se
aglomeravam à sua frente à medida que avançavam, aguardando o
início da primeira eliminató ria. Ela olhou ao redor, tentando encontrar
uma posiçã o privilegiada, e entã o sorriu ao ver o Conde de Stanthorpe.
Ele estava sentado em cima de sua carruagem brilhante, com os cachos
dourados emoldurando seu rosto radiante, na companhia de seu
melhor amigo, Sr. Owen Tatum.
— Tommy! — chamou ao jovem conde, sabendo que sua irmã
chamaria a sua atençã o se a visse nã o apenas gritando e acenando os
braços em pú blico, mas também chamando o homem pelo nome.
Tommy, no entanto, nã o era nem um pouco presunçoso e gritou de
volta.
— Lady Ella! — Ele sorriu para ela, enquanto Ella acenava para os
jó queis que se preparavam para começar.
— Nã o estou conseguindo enxergar! — lamentou ela, agora
frenética. Se ela perdesse o início da corrida de Oscar, nunca se
perdoaria, embora seu irmã o Bertie também estivesse competindo e ela
deveria apoiá -lo também.
Tommy olhou ao redor, percebendo seu problema à medida que a
multidã o a empurrava de todos os lados. Depois de falar com Owen, os
dois homens estenderam os braços e Ella sorriu para eles enquanto a
levantavam.
— Como vai, Lady Ella? — perguntou Owen, com os olhos
castanhos cintilando. — Sua irmã sabe que você está aqui sem
supervisã o?
— Nã o seja tolo, Owen — disse Ella, bufando de uma maneira
pouco feminina. Eles a puxaram para o teto da carruagem com
facilidade, segurando um braço cada. — Você sabe que, se ela soubesse,
me daria um sermã o.
— E onde estã o suas acompanhantes? — perguntou Tommy, seu
tom ameno enquanto ela se acomodava um pouco mais para trá s no
teto brilhante da carruagem.
— Pode ser que eu tenha saído pela parte de trá s da tenda da
vidente e tenha me perdido delas — respondeu Ella, dando de ombros
enquanto os dois homens a repreendiam. Ela tentou ajeitar as saias
para parecer um pouco menos desonrosa, mas a barra estava cheia de
lama, entã o desistiu.
— Se eu fosse você, nã o estaria preocupada com Lady Pearl, acho
que é Bertie que irá te trancafiar se continuar agindo assim —
respondeu Owen, seu tom um pouco mais severo agora. — Há todo tipo
de pessoas de má índole em um lugar como este.
— Ah, cale a boca — pediu Ella.
Ela concluiu que era inevitável nã o estar parecendo uma moça de
má reputaçã o naquele instante e tentou ajoelhar-se, enquanto suas
saias do vestido se enroscavam nas pernas. Tommy pegou seu braço
quando ela quase caiu da carruagem e ela se endireitou com um
sorriso. Ela podia ouvir os gritos pedindo que os cavaleiros se
preparassem. Seu coraçã o batia forte.
— Ah, onde está Oscar? Você consegue localizá -lo?
— É melhor você falar com ela, Tommy, senã o ela vai acabar se
metendo em problemas — disse Owen, mas Tommy estava muito
ansioso para assistir à corrida ou sabia que era inú til intervir.
— Começou! — gritou Ella.
Ela assistia, com o coraçã o na boca, enquanto os cavalos
avançavam. Ela pô de ver seu irmã o, Bertie, tentando se desvencilhar de
um pequeno grupo de cavaleiros enquanto os cavalos se empurravam e
se chocavam antes da largada. Oscar havia se mantido afastado, com
Virago longe da multidã o, provavelmente mordendo qualquer um que
se aproximasse demais. Ela era uma égua mal-humorada.
— Vai, Oscar! — gritou Ella, quase caindo da carruagem novamente
de tanto entusiasmo.
Owen segurou seu braço desta vez e a puxou novamente em
segurança. — Lady Ella, você é uma garota travessa — observou ele.
Ela parou brevemente para sorrir para ele antes de voltar a atençã o
para a corrida. — Eu sei — disse ela, sem um pingo de remorso,
enquanto continuava gritando por cima da multidã o.
***
Ella soprou os dedos, deixando a castanha quente cair em seu colo
com uma exclamaçã o.
— Espere esfriar — disse Owen, revirando os olhos para ela.
Ela balançou a cabeça, tentando pegar a castanha novamente e
soprando-a. — Estou com muita fome.
Com uma expressã o determinada, ela franziu a testa para a
castanha, descascando a casca dura com dificuldade.
— Quanto tempo falta? — perguntou ela, pela quinta vez.
— Dez minutos, pelo menos — respondeu Tommy, entregando-lhe
uma castanha já descascada com as pontas dos dedos.
Ella sorriu para ele e a aceitou. Ela inspirou profundamente,
mordendo a semente da castanha e quase queimando a língua, pois o
interior ainda estava muito quente. Pelo menos iria aquecê-la. Aquele
dia de outubro começara ameno, com um calor agradável ao sol, mas as
nuvens haviam se acumulado e, agora, uma brisa forte soprava sobre o
campo, agitando folhas, saias e fazendo chapéus saírem voando pelo
chã o ú mido.
Oscar e Bertie passaram pela eliminató ria com estilo. Oscar venceu,
naturalmente, e Bertie parecia um pouco surpreso nã o só por ter
terminado a corrida, mas por ter chegado em terceiro. Os dois pá reos
seguintes nã o despertavam muito interesse em Ella. A égua do Duque
de Ranleigh venceu o segundo pá reo e Ella sabia que isso devia ter
irritado Oscar; os dois eram rivais ferrenhos. Eles estariam disputando
ponto a ponto na corrida principal.
O duque em si nã o estava correndo; era muito respeitável para isso,
ou covarde, segundo Oscar. A vitó ria de Ranleigh era dada como certa, e
ela se perguntou como Oscar se sairia contra sua deslumbrante égua
castanha.
O evento principal era o pró ximo, e seu estô mago se contraiu com
uma mistura de expectativa e fome.
O tempo se arrastava enquanto Ella se inquietava.
— Por favor, que Oscar vença — murmurou ela, cruzando os dedos
e desejando com todas as forças. Ele ficaria tã o decepcionado se nã o
ganhasse.
— Aqui vêm eles — disse Owen, enquanto Ella se esforçava para
voltar a se pô r de joelhos.
Ela assistiu com o coraçã o acelerado enquanto Oscar se dirigia de
volta ao Posto Thomond. Ele havia vestido fardas novas, e o verde-
escuro combinava com sua cor de pele, ressaltando os brilhos outonais
de seu cabelo castanho-claro. A aparência loira e os olhos azuis de
Bertie nã o combinavam muito com a sua farda vermelha, mas
enfatizavam o rubor em suas bochechas, fazendo-o parecer mais jovem
do que seus vinte e cinco anos.
— Boa sorte, Oscar! — gritou Ella o mais alto que pô de, enquanto
Oscar se virava e a avistava.
Ele deu uma risada ao vê-la sentada no teto da carruagem com
Tommy e Owen, e ergueu a mã o em saudaçã o.
Infelizmente, seu irmã o também a viu e seu olhar foi bem menos
entusiasmado. Ele a encarou com raiva, e Ella se encolheu um pouco,
sabendo que estava prestes a ouvir mais um sermã o sobre o decoro e a
conduta adequada de uma jovem dama. Ah, pensando bem, se fosse
Bertie repreendendo-a e nã o Pearl, ela nã o se importava.
Pela ú ltima vez, os cavalos se reuniram, com a multidã o muito
menor agora que as eliminató rias haviam eliminado os concorrentes
até restarem apenas quinze cavalos e corredores. Com interesse, Ella
notou que a égua de Ranleigh nã o estava entre eles.
— Onde está a Srta. Skirmish? — perguntou Ella, olhando ao redor
à procura da bela égua castanha que havia mostrado potencial para
desafiar Oscar de verdade.
— Nã o faço ideia — respondeu Owen, vasculhando o terreno. —
Talvez tenha havido forfait?
Ella deu de ombros, muito empolgada para pensar muito sobre o
assunto enquanto assistiam o bandeirinha subir no Posto Thomond
pela quarta e ú ltima vez naquele dia.
***
Oscar deu uma ú ltima olhada por cima do ombro enquanto Virago
troteava pelo turfe. Bertie estava muito atrá s, mas parecia determinado
a ficar com o terceiro lugar. O cinzento do Coronel Pitt, Merry Pintle,
estava a toda velocidade, aproximando-se dele, mas a linha de chegada
estava à vista e Oscar sabia que havia vencido. Com um grito de euforia
que certamente faria sua noiva empalidecer, ele cruzou a linha de
chegada. Oscar riu com gosto, respirando com dificuldade, coberto de
lama da cabeça aos pés e com o coraçã o batendo forte no peito. Ele
nunca se sentira tã o vivo assim.
— Bom trabalho, minha belezinha — gritou ele, batendo no
pescoço ú mido de Virago enquanto ela retornava a meio galope.
Os aplausos da multidã o ecoaram ao seu redor e ele sorriu,
encantado. Bertie cruzou a linha de chegada em terceiro e cavalgou a
meio galope até ele, e os dois amigos permitiram que suas montarias
diminuíssem a velocidade.
— Parabéns — disse Bertie, ofegante. — Posso pegar uma bebida
agora?
Oscar riu e assentiu. — Nó s dois, e vá rias. Aliá s, o que aconteceu
com a égua castanha de Ranleigh? Esperava que ela ficasse na minha
cola.
— Forfait — gritou Bertie por cima da multidã o, enquanto eles
eram cercados pelos que queriam cumprimentar o vencedor. — Ouvi
que ele estava preocupado com a possibilidade de ela ter lesionado um
ligamento. É um verdadeiro milagre que nã o tenhamos quebrado o
pescoço com todos aqueles buracos. Deveriam fazer algo a respeito.
Oscar assentiu, mas nã o estava muito preocupado com os buracos
naquele momento. Ele havia vencido, e o gosto da vitó ria era doce.
Eles desmontaram e reuniram os arreios enquanto os cavalariços
levavam suas montarias para longe e esperaram para serem pesados
novamente.
— Aonde está indo? — quis saber Bertie, enquanto Oscar se dirigia
em direçã o ao Está bulo do Rei e à Casa de Escovaçã o.
— Vou dar uma olhada em Virago — disse Oscar, imaginando que
isso fosse ó bvio. Muitos entregariam suas montarias aos cavalariços e
nã o pensariam mais no assunto, mas Oscar nã o era assim. Virago
poderia ser uma criatura mal-humorada, mas havia vencido a corrida
para ele, e era grato por isso.
— Certo — respondeu Bertie, acompanhando-o. — Caramba, você
viu a minha maldita irmã ? A desgraçada. Aquela atrevida estava
sentada no teto da carruagem entre Stanthorpe e Tatum e berrando
sem parar. Meu Deus, o que essa moçoila fará a seguir?
Oscar riu e deu um tapinha nas costas de Bertie, com uma
expressã o mais divertida do que simpá tica.
— Com Bug, a diversã o nunca acaba — disse ele.
Embora nã o tenha dito, ele mal podia esperar para encontrá -la e
celebrar sua vitó ria. Ela sempre ficava tã o empolgada com suas
conquistas que era quase como reviver as vitó rias.
Bertie parecia menos impressionado, no entanto.
— Preciso arranjar um marido para ela o mais rá pido possível,
entã o será problema do marido dela. Mas quem diabos casaria com ela,
eu te pergunto?
— Sua irmã , casada? — respondeu Oscar, surpreso. Uma estranha
sensaçã o de preocupaçã o se instalou sob sua pele e ele franziu a testa.
Ella nã o devia ter idade suficiente para se casar. Ainda nã o. — Mas ela é
apenas uma criança.
Bertie revirou os olhos para ele. — Ela foi apresentada no ano
passado, nã o se lembra, babaca? Ela tem dezoito anos, nã o oito, mas eu
concordo que, em algumas ocasiõ es, é difícil perceber.
A carranca do Oscar aprofundou-se. Esse pensamento o
incomodava, embora ele nã o soubesse o porquê. Tentou pensar em
alguém adequado para se casar com Ella e nã o conseguiu pensar em
ninguém. Todos tentavam fazê-la andar na linha e se comportar, ou
acabar com a alegria e a vitalidade dela. Um estranho sentimento de
proteçã o tomou conta de seu peito. Bertie estava errado. Ela podia ter
dezoito anos, mas parecia ter quinze na maior parte do tempo, e agia de
acordo. Era muito cedo para pensar em casamento.
Nã o era?
Ele nã o sabia por que se sentia tã o perturbado com a ideia.
Provavelmente, era porque isso o fazia sentir-se velho também. Velho e
responsável. Velho o suficiente para ter uma esposa e se estabelecer.
Oscar estremeceu e afastou o sentimento.
Bertie, ao notar o estado sombrio em que ele se encontrava,
levantou uma sobrancelha interrogativa. Oscar forçou um sorriso,
fazendo pouco caso do ocorrido, e mandou um beijo para uma jovem
ousada que piscou sugestivamente o olho para ele enquanto passavam
pelas multidõ es.
— Suponho que, se ela tem dezoito anos, logo encontrará alguém
que goste de suas excentricidades — disse ele, tentando convencer a si
mesmo tanto quanto a Bertie. — Ela é uma boa pessoa, muito divertida.
— Eu sei disso! — disse Bertie, soando bastante aborrecido.
Apesar de suas queixas, Oscar sabia que Bertie adorava Ella e sua
irritaçã o vinha mais da preocupaçã o do que antipatia.
Na verdade, os dois irmã os eram pró ximos, mais do que com sua
irmã mais velha, Pearl.
Sua noiva.
Eles estavam noivos desde a infâ ncia, com as duas grandes famílias
ansiosas para forjar uma aliança vantajosa. Seus respectivos pais
haviam acertado as coisas entre eles quando Oscar e Pearl ainda eram
bebês. Oscar afastou o pensamento, fazendo de conta que nã o existia.
Era algo que ele tinha facilidade em fazer. Anos de prá tica
desconsiderando seu destino transformaram isso em algo natural. Mas
estava pró ximo. Cada vez mais pró ximo.
Ele sabia de seu dever. Seu pai lhe havia transmitido isso até o dia
de sua morte. No entanto, isso nã o significava que Oscar desejasse
cumprir a tarefa.
Nã o que Pearl fosse dentuça ou estrá bica. Meu Deus, pelo contrá rio,
mas ele ainda nã o estava pronto para abrir mã o de sua liberdade, nã o
importava que todos, nos ú ltimos dois anos, viessem insistindo que ele
marcasse uma data para o seu casamento. Somente Pearl parecia
menos ansiosa com o casamento do que ele, embora nunca admitisse o
quanto.
Pearl e Ella eram completamente opostas em todos os aspectos.
Pearl era tudo o que Ella nã o era. Se, por um lado, Ella enfrentaria
dificuldades para encontrar um marido, Pearl, se estivesse livre, atrairia
homens à sua porta. Ela havia puxado à mã e: era alta e curvilínea, loira
platinada e com olhos azul-cerú leo. Dona de uma beleza indiscutível,
Pearl chamava a atençã o por onde passava.
Ella havia puxado ao pai. Muito mais baixa que Pearl, ela era magra
e seu cabelo era de um castanho-escuro. Possuía sobrancelhas espessas,
bastante intimidantes que ficavam sobre seus grandes e acinzentados
olhos, e ela estava constantemente em movimento. Ele nunca viu uma
criatura mais irrequieta em toda a sua vida. Que os céus ajudassem se
ela ficasse entediada; nunca se sabia o que ela poderia aprontar a
seguir.
Pearl, por outro lado, era um exemplo da perfeita dama inglesa. Ela
estava sempre impecável, utilizava tons baixos e bem modulados de
voz, era inteligente, e nunca levantava a voz em raiva ou exasperaçã o.
Todos diziam que ela seria uma duquesa excepcional. Ele supunha que
estavam certos, embora tentasse nã o pensar muito nisso.
Uma lembrança de Ella no ano anterior, encharcada até os ossos e
coberta de lama depois que ele a havia tirado de uma poça, fez seus
lá bios se contraírem em um sorriso. Ela era uma amazona formidável,
mas até os mais habilidosos erram à s vezes, e ela havia aterrissado em
uma poça de lama. Em vez de parecer mortificada, como ele poderia
esperar de muitas jovens que conhecia, ela simplesmente se sentou na
lama e riu até nã o poder mais. Ela admitiu que havia sido culpa dela e
que merecia o que havia acontecido.
Uma expressã o de preocupaçã o se formou em sua testa mais uma
vez. Parecia impossível que ela estivesse na idade para se casar, mas
quem se casaria com ela? Sim, ela era muito divertida, mas Bertie tinha
razã o. Apesar das palavras tranquilizadoras de Oscar, ele sabia que
nenhum homem sensato a aceitaria. O sujeito nunca teria um momento
de paz. Se nã o fosse pelo fato de ela se parecer tanto com o pai, Oscar
suspeitava que haveria comentá rios, pois seria difícil encontrar duas
irmã s mais diferentes.
— Oscar!
Ele se virou e, como se a tivesse conjurado, lá estava Ella,
indiferente à barra de suas saias em meio à sujeira enquanto corria em
direçã o a eles pelo pá tio de paralelepípedos. Ela lançou os braços ao
redor de seu pescoço e ele a girou em círculos, rindo antes de colocá -la
novamente no chã o.
— Oh, bom trabalho, Oscar! Eu sabia que você venceria, e de
maneira tã o esplêndida! Nunca me senti tã o orgulhosa — exclamou ela,
com os olhos acinzentados brilhando de felicidade. — Ah, e você
também, Bertie — completou ela, como um pensamento de ú ltima hora,
dando um sorriso para o irmã o.
— Que consideraçã o sua lembrar de mim — disse Bertie, com um
tom seco.
— Boa corrida, Rothborn. Ganhei uma bela quantia em cima de
você, meu velho.
Oscar olhou para cima quando Owen Tatum apareceu atrá s de Ella.
Ele sorriu e estendeu a mã o. Oscar a apertou, radiante, e, entã o,
cumprimentou Tommy. O conde lançou a Bertie um olhar um tanto
envergonhado.
— Nó s, é... encontramos sua irmã — disse ele, esfregando a nuca e
parecendo um pouco desconfortável.
Bertie lançou um olhar sombrio para Ella antes de estender a mã o e
apertar a mã o de Tommy. — Eu sei bem como é.
Capítulo 2
“No qual os desafios são aceitos.”

Ella fechou a cara para seu irmã o. Só porque ela o tirava do sério
nã o significava que todos os outros sentiam o mesmo.
Não é mesmo?
— Tommy nã o se importou nem um pouco, certo, Tommy? —
perguntou ela, embora sentisse uma pontada de dú vida agora. Sua
família sempre lhe dizia que era um bendito incô modo, e ela se
perguntava se talvez Tommy nã o tivesse ficado tã o satisfeito com sua
companhia quanto aparentava.
Por que as pessoas tinham que ser polidas o tempo todo? Ela nunca
tinha certeza do que queriam dizer. Se ele nã o quisesse sua companhia,
deveria ter dito. Ele poderia tê-la levado de volta para sua irmã se assim
o quisesse.
— Claro que nã o — disse Tommy, e ela soltou o fô lego, já que ele
parecia estar falando com sinceridade. — Tenho certeza de que nã o
teríamos aproveitado tanto a tarde sem você. Concorda, Owen?
— Oh, sem dú vida — respondeu seu amigo, oferecendo-lhe um
sorriso reconfortante.
— Viu só ? — Ela cruzou os braços, fulminando Bertie com o olhar, o
qual apenas revirou os olhos para ela.
— Parabéns, Rothborn.
Todos eles olharam ao redor e viram a figura imponente e
imaculada do Duque de Ranleigh cruzando o pá tio na direçã o deles.
Oscar retesou-se um pouco e Ella assistiu com interesse. Oscar odiava
Ranleigh, embora ela nunca pudesse entender o porquê. Ele parecia
uma figura interessante e bastante elegante.
Ranleigh observava Oscar, com um brilho vagamente divertido em
seus olhos castanho-escuros. Ele era um sujeito bonito, embora um
homem mais velho com entradas grisalhas nas têmporas. Mesmo em
seus trinta e poucos anos, ainda era considerado um dos melhores
partidos restantes no mercado matrimonial. No entanto, aos olhos de
Ella, ele nunca poderia ser tã o bonito quanto Oscar, que na opiniã o dela
superava, e muito, todas as referências de beleza masculina.
Oscar nã o era tã o alto quanto Ranleigh, mas talvez tivesse os
ombros mais largos. Ella tentou nã o olhar, mas valia a pena olhar para
Oscar. Seu cabelo era grosso e ondulado, de um castanho-claro e
dourado que brilhava com toques de bronze à luz do sol. Seus olhos
tinham um tom quente de avelã avermelhado, salpicado de verde e
ouro.
Com um pequeno suspiro de desespero, Ella percebeu que estava
apaixonada por Oscar há exatamente seis anos, apó s o ter idolatrado
por ainda mais tempo antes disso. Como ela era uma tola. Nã o que ela
tivesse dito alguma coisa ou dado qualquer sinal de seus sentimentos.
Nem iria.
Quando percebeu pela primeira vez que se apaixonara por ele, Ella
começou a agir de forma diferente, mantendo distâ ncia e evitando
brincar com ele ou oferecer um abraço ou toque casual, como
costumava fazer com seu irmã o. Mas entã o, Bertie comentou sobre isso
e perguntou qual era o problema. Será que tinham discutido? Entã o, ela
se esforçou para tratar Oscar da mesma forma de sempre, apesar da
dor que à s vezes lhe trazia ao estar tã o perto, e, ainda assim, muito
longe.
Ella havia perdido Oscar antes mesmo de nascer, já que ele havia
sido prometido a Pearl desde o berço. Era uma situaçã o deplorável e ela
se odiava por seus sentimentos. À s vezes, ela odiava Oscar por isso
também, e Pearl, que parecia nã o se importar nem um pouco com ele.
Nã o da mesma maneira que Ella. Parecia uma jogada cruel do destino
para com ela, mas ela sabia que nada podia ser feito. Oscar devia
cumprir seu dever e, se ela fosse honesta – e Ella sempre era honesta –
Pearl seria a duquesa perfeita para ele.
Pearl fazia tudo com perfeiçã o, ela pensou com apenas um pouco de
amargura e uma pitada de inveja.
Ella teria sido uma duquesa desastrosa. Ela teria causado
problemas intermináveis sem nem mesmo tentar. Era uma espécie de
dom, embora indesejável.
Pearl parecia um cisne, navegando pela vida sem nunca agitar uma
imaculada pena branca. Ella bufou ao perceber que, em comparaçã o,
era um pato, cambaleando por uma poça enlameada e fazendo todos
rirem enquanto tentava sacudir a sujeira das penas.
Lutando para se libertar de tais reflexõ es sentimentais e
autoindulgentes, Ella voltou sua atençã o para os homens e a atmosfera
repentina e frá gil que parecia ter se instalado sobre eles.
— Virago poderia vencer a Srta. Skirmish de olhos vendados e com
três pernas — disse Oscar, com desgosto.
Ranleigh havia insinuado que Oscar teve sorte em vencer, Ella
concluiu, e que ele só o fez porque a Srta. Skirmish estava indisposta.
Oh, não!
— Parece-me que uma aposta é necessá ria, entã o — disse Ranleigh,
e aquela expressã o bastante sarcá stica que parecia sempre espreitar
em seus olhos brilhava com desafio.
— Como desejar — respondeu Oscar, cruzando os braços. — Diga a
hora e local.
Ranleigh refletiu por um momento, com um brilho nos olhos
enquanto observava Oscar. — No Craven Stakes, primeira reuniã o da
temporada, no pró ximo ano. Aposto duas mil libras que a Srta. Skirmish
pode vencer sua Virago sem pestanejar.
Oscar bufou e estendeu a mã o. — Fechado. Será um prazer ficar
com seu dinheiro.
Um sorriso lento surgiu no rosto de Ranleigh. — Veremos,
Rothborn, veremos. Adieu, meus jovens amigos.
— Idiota pomposo — murmurou Oscar, encarando as costas do
homem que se afastava. — Vou fazê-lo engolir as pró prias palavras.
Vocês vã o ver só .
Bertie franziu um pouco a testa e lançou a Oscar um olhar bastante
ansioso. — Nã o sei nã o, Oscar. Aquela castanha dele é verdadeiramente
especial.
Oscar emitiu um som de desgosto e olhou para o irmã o dela. — Oh,
cale a boca, Bertie. Estou comemorando. — Ele virou-se para Ella e
apontou para ela, lançando-lhe um olhar severo. Oscar jamais havia
agido tã o severamente; mas havia diversã o em seus olhos, como de
costume. — Você, volte já para a sua irmã ou para onde quer que tenha
vindo.
— Oh! — exclamou Ella, cabisbaixa. — Mas, Oscar, eu também
quero comemorar!
Oscar revirou os olhos para ela e lhe beliscou a bochecha. — Muito
bem, mas vá celebrar com Pearl. Vamos a um lugar onde nã o podemos
levar uma garota como você. Diga a ela, Bertie.
Bertie abriu a boca, mas Ella olhou furiosamente com nojo.
— Ah, nã o se preocupe. Eu sei quando nã o sou desejada. Mas vocês
vã o ao baile na Newberry Mansion House amanhã ? — Ela fez essa
pergunta para o pessoal reunido, entã o nã o parecia que estava se
dirigindo apenas a Oscar.
Tommy e Owen afirmaram que iriam, e ela sabia que Bertie
também. Oscar deu de ombros, com indiferença.
— Acredito que sim, se for preciso. Agora vá , Ella, seja uma boa
menina. Preciso cuidar de Virago antes de me trocar.
Ella suspirou, erguendo os olhos quando o conde lhe ofereceu o
braço.
— Posso acompanhá -la de volta à Tribuna Portland? — perguntou
ele, sorrindo para ela.
Ela deu uma ú ltima olhada em Oscar e Bertie enquanto eles
desapareciam na Casa de Escovaçã o e assentiu. — Sim, por favor,
Tommy. É melhor eu encarar a minha irmã agora. Pelo menos, ela nã o
pode me dar sermã o em pú blico.
***
Guy de Warenne, o Duque de Ranleigh, passou uma mã o experiente
sobre o belo boleto na perna da Srta. Skirmish.
— Uma pena — lamentou ele, enquanto a linda castanha virava os
olhos funestos e com cílios cumpridos em sua direçã o. — Mas fizemos a
coisa certa. Esta é uma senhorita especial, e nã o vou correr riscos
desnecessá rios.
— Até mesmo para calar a boca daquele jovem pretensioso,
Rothborn?
Guy levantou os olhos para o Conde de Falmouth, que o observava
com diversã o nos olhos cinzentos.
— Até mesmo para isso — disse ele, com um tom pesaroso na voz.
— Mas vou provar a ele na primavera, Alex, nã o se preocupe.
— Eu nunca duvidei disso — respondeu Alex, os lá bios se
contraindo um pouco. —, embora eu me pergunte por que se incomoda.
Guy encolheu os ombros e acenou com a cabeça para o cavalariço
continuar enquanto saíam do está bulo e vagavam pelo pá tio,
novamente entre a multidã o.
— O pai dele era um grande amigo meu quando eu era pouco mais
que um menino, um mentor, diria. Eu queria cuidar do rapaz.
Infelizmente, fiz tudo errado e o irritei quando ele era muito jovem.
Agora, ele acha que procuro toda vez vencê-lo, o que nã o é verdade.
— Mesmo assim, você o desafia com essa corrida?
Guy sorriu para Alex e deu de ombros. — É verdade, mas nã o pude
evitar, e nunca vi um jovem que precisasse mais ser colocado em seu
devido lugar.
Alex fungou e balançou a cabeça. — Ele tem vinte e cinco anos. Nã o
se lembra de como éramos nessa idade, acreditando sermos
invencíveis?
— Claro que lembro. Ainda nã o estou senil, Alex. Nã o foi há muito
tempo.
Uma risada sombria ressoou através de seu companheiro. — Terei
que concordar com você, já que sou um ou dois anos mais velho.
— Três anos, Falmouth — respondeu Guy, com um tom alegre em
sua voz. — Diga-me, como está aquela sua adorável e jovem esposa?
Espero que ela esteja te mantendo na linha.
Um olhar caloroso tomou conta dos olhos do homem e Guy
experimentou apenas uma pequena pontada de inveja.
— Céleste está bem e, atendendo à s suas expectativas
admiravelmente, obrigado.
Guy assentiu, ciente da reverência na voz do amigo. — E as
crianças?
— Tenho certeza de que William é o bebê mais ganancioso que já
existiu e sua irmã mais velha, Marie, nã o gosta dele. Ele é um usurpador
aos olhos dela e ela deixou seus sentimentos sobre o assunto bem
claros.
Guy sorriu, lembrando-se, divertido, da visã o da pequena criança
loira tendo o homem de aparência ameaçadora na palminha de sua
mã o.
— Ah, a felicidade doméstica. Nunca acreditei que sucumbiria a
isso.
— Nem eu. — Alex parecia bastante repugnantemente satisfeito
consigo mesmo.
Eles caminharam um pouco mais, ladeando a multidã o, antes de
Guy se virar para ele mais uma vez. — Presumo que apostará no
resultado da minha aposta com Rothborn?
— Naturalmente — respondeu o conde, um sorriso persistente
sobre uma boca que para a maioria das pessoas parecia cruel e
intransigente. — Vou até registrá -la no livro do White’s.
Alex tirou o chapéu e desejou um bom dia a Guy, e Guy nã o deixou
de perceber que seu amigo nã o havia revelado em quem apostaria. O
diabo.
***
— ...completamente ultrajante. Nã o sei mais o que fazer.
Ella permitiu que sua mente vagasse enquanto Pearl continuava a
repreendê-la. Ela se perguntou se Oscar dançaria esta noite. Raramente
o fazia, para irritaçã o de Pearl. Oscar desprezava bailes e danças, e só
aparecia se nã o tivesse escolha. Ella nã o o culpava. Dançar era bom,
mas ter a chance de passar uma noite com Oscar jogando cartas ou
conversando, ou... ou qualquer coisa...
Pare, Ella, ela se repreendeu. Não é seu. Ele não é seu.
— Como se desaparecer em Newmarket nã o fosse ruim o
suficiente, eu meio que esperava que alguém me dissesse que havia
encontrado seu corpo em uma vala...
Ella revirou os olhos para o céu, embora tomasse cuidado para nã o
deixar a irmã ver. Isso irritava Pearl, e ela sabia que nã o deveria piorar
as coisas.
— Se nosso pai tivesse um pingo de bom senso, ele a mandaria
passar um tempo com Tia Hermione até que você aprendesse boas
maneiras condizentes com a sua posiçã o. Eu lhe disse...
Ella cerrou os dentes. Ela sabia muito bem que Pearl a tiraria de
casa se pudesse. Tia Hermione era o pior destino que Ella poderia
imaginar sendo infligido a qualquer um. Uma velha excêntrica com
bigode e o temperamento de uma vespa irritadiça, ela nã o era uma
companhia fá cil. Os jovens eram muito barulhentos, muito inquietos e
nã o tinham respeito pelos mais velhos. Dizer que ela desprezava Ella
nã o teria chegado perto dos seus verdadeiros sentimentos. Até mesmo
a perfeita Pearl nã o escapava do olhar crítico de Hermione. Era a ú nica
coisa positiva que Ella conseguia pensar sobre ela.
— Você nã o deveria poder comparecer esta noite depois do seu
comportamento chocante — continuou Pearl, seu tom cheio de
indignaçã o hipó crita. — Nã o consigo entender como você tem papai na
palma da sua mã o. Mas já vou logo avisando, se me envergonhar esta
noite, farei você pagar.
Ella empalideceu um pouco com a perspectiva. Pearl nã o fazia tais
ameaças levianamente. Ella tinha sido alvo da retaliaçã o de sua irmã
tantas vezes que nã o poderia ignorar.
— Nã o vou — disse ela, apressadamente, rezando para poder
cumprir a promessa. Ella havia feito promessas com muita frequência
no passado, apenas para descobrir que eram impossíveis de cumprir.
Nã o que ela procurasse problemas exatamente, mas de alguma forma
ela parecia encontrá -los, ou eles a encontravam. Ela nã o tinha certeza
do que era o mais acurado.
— Serei o modelo de decoro, Pearl. Tem a minha palavra.
Pearl lançou-lhe um olhar implacável de desgosto que fez Ella gelar
quando a carruagem parou, e entã o desapareceu em um doce sorriso
quando o lacaio abriu a porta para ela.
Ella se perguntou como ela conseguia. Pearl em pú blico era uma
criatura bem diferente da Pearl que Ella via em privado. Pearl, em
pú blico, brilhava com simpatia e beleza e uma postura tranquila e
elegante que Ella nunca conseguiria imitar. Pearl, em privado, continha
tanto calor quanto a está tua de má rmore de Vênus, que era a peça
central da impressionante galeria de seu pai em sua casa, Atterbury
Hall.
Ella suspirou e tentou nã o tropeçar nas saias enquanto descia no
encalço da adorável irmã . Tendo conseguido isso, suas esperanças
aumentaram de que talvez ela conseguisse passar a noite ilesa.
***
Oscar resistiu ao desejo de puxar a gravata. Ele sabia que estava
imaculada, mas a maldita coisa parecia estrangulá -lo esta noite. Meu
Deus, ele odiava esses assuntos. A ú nica razã o pela qual eram
minimamente suportáveis era o fato de que todos sabiam que ele estava
comprometido. O ú nico benefício ó bvio de seu noivado era que ele
havia escapado das jovens e de suas mã es famintas.
Com um resmungo de diversã o, ele notou Ranleigh lançando a uma
mã e entusiasmada um olhar de frio desinteresse enquanto ela enfiava
sua filha mortificada sob o nariz dele. A jovem usava um vestido
monstruosamente feio, totalmente coberto de babados e laços. Oscar
nã o tinha certeza de qual deles estava mais chocado, Ranleigh ou a
garota. Nã o era a mã e.
Esse era o problema de ter um título; era como acenar com uma
cenoura suculenta em uma sala cheia de coelhos famintos. Por um
momento, ele se divertiu imaginando as pessoas ali reunidas com rabos
e orelhas peludas. Era mais fá cil com alguns do que com outros. A pobre
garota sob o olhar gelado de Ranleigh era um exemplo perfeito com seu
excesso de babados brancos. Ela quase quicou em sua â nsia de escapar
dele também. Oscar deu uma risadinha.
— Divertindo-se?
Oscar olhou em volta e viu Bertie observando-o com curiosidade.
— Nã o seja idiota. Quanto tempo antes de podermos partir?
Alex suspirou e balançou a cabeça. — Você deve dançar com Pearl,
meu velho. Será o inferno na terra se nã o o fizer.
— Eu sei, eu sei — murmurou Oscar, irritado. Como se ele nã o
soubesse do seu dever. Ele olhou através do salã o de baile lotado para a
sua prometida e tentou se entusiasmar com a ideia.
O que havia de errado com ele? Ela era assombrosamente adorável,
e os olhos de todos os homens no salã o se voltavam para ela como se
houvesse um magnetismo irresistível. Ele deveria estar impaciente para
tomá -la nos braços, mas ainda assim...
Ele tinha lhe perguntado se poderia beijá -la uma ou duas vezes. Nas
duas ocasiõ es, Pearl havia levantado a cabeça e ficado imó vel, e apesar
de sua beleza, ele sentia como se estivesse beijando uma está tua. Era
ó bvio que nenhum deles era afetado por aquilo. Parecia um dever e ele
estava assustado por ela nã o ter encontrado nenhum prazer nisso. Ele
nunca teve problemas em conseguir com que as mulheres
respondessem a ele antes. Será que ela temia o casamento deles tanto
quanto ele?
Oscar tentou perguntar-lhe uma vez, para determinar se ela queria
esse acordo que eles foram forçados a fazer sem o consentimento deles.
Ela tinha acabado de encará -lo, com um olhar interrogativo em seus
olhos azuis.
Você diz as coisas mais estranhas, Oscar.
Oscar suspirou. Ele nã o duvidava de que ela queria o título, ela
nasceu para o papel, mas será que ela o queria? Uma carranca marcou
sua testa enquanto ele a observava conversando com um grupo de
conhecidas, damas elegantes, todas de boas famílias. Será que uma
delas teria sido a escolha dele se tivesse tido alguma? Quem ela teria
escolhido? Ele nã o, Oscar tinha certeza.
— Olá .
Uma voz familiar penetrou seus pensamentos e ele olhou para
baixo, percebendo que Ella o havia localizado.
— Boa noite, Bug — disse ele, usando o apelido que ele e o irmã o
dela haviam dado a ela há dez anos ou mais. Ele sorriu ao perceber que
os grampos estavam caindo do cabelo dela, com um cacho pesado todo
torto. Seus dedos coçaram para ajeitá -lo, mas ele manteve-se imó vel.
— Você vai dançar com Pearl? — quis saber ela, parecendo tã o
irritada quanto ele se sentia. Suas sobrancelhas pesadas se juntaram,
conferindo-lhe um olhar revoltado.
Um muxoxo de irritaçã o escapou dele. — Ela te mandou perguntar?
— Sim, entã o nã o fique bravo comigo. Nã o tenho culpa.
Ela cruzou os braços e encarou furiosamente o chã o, e Oscar
suspirou.
— Sim, sim, eu vou... mais tarde — acrescentou ele, nã o gostando
da sensaçã o de ser incomodado, mesmo que nã o fosse nada fora do
comum. Seu rosto se suavizou quando ele olhou para Ella e percebeu
que ela estava abatida. Ele notava isso, com mais frequência
ultimamente. A energética Ella, que nunca estava desanimada, parecia
cada vez mais infeliz.
Aquele sentimento ansioso apertou seu coraçã o novamente.
— O que aconteceu com você? — perguntou ele, as palavras
bruscas, embora estivesse preocupado. Irritava-o que também tivesse
que se preocupar com Ella. Se ele nem conseguia se livrar de um
casamento que nã o queria, entã o, como poderia ajudar Ella?
Ella encolheu os ombros caídos, a imagem do desâ nimo. Ele sorriu
involuntariamente, pois ela parecia querer estar tã o longe deste
maldito salã o de baile quanto ele. Ela provavelmente preferiria estar em
casa jogando cartas. Ela era diabolicamente boa em piquet e sempre
ganhava dele.
— Estou certo de que Pearl te repreendeu severamente por
desaparecer ontem? — perguntou ele, suavizando o tom agora.
Ele podia imaginar o que Pearl havia dito a ela. Nã o que ele já
tivesse visto Pearl de mau humor; era difícil acreditar que ela tivesse
levantado a voz. Ella, no entanto, o havia esclarecido sobre esse fato há
muitos anos. Ele também havia visto os hematomas e os beliscõ es como
se a irmã dela realmente estivesse furiosa.
Pearl nã o era tudo o que parecia ser.
O olhar que Ella retribuiu foi eloquente.
— Bem, e o que você esperava, Bug? — Ele deu um suspiro
desesperado e puxou um dos cachos dela. — Se você se comportar de
maneira escandalosa, deve esperar arcar com as consequências.
— Mas eu já arco — retrucou ela, indignada. — Isso nã o significa
que eu tenha que desfrutar, assim como você nã o tem que desfrutar
isso.
Oscar assentiu e deu-lhe um sorriso simpá tico.
— Você nã o deveria estar dançando? — perguntou Oscar, e nem
mesmo ele conseguiu decifrar a ligeira irritaçã o em suas palavras. —
Disseram-me que precisa de um marido.
Havia uma fú ria contida em seus olhos agora e ele teve que abafar
uma gargalhada com a ó bvia repugnâ ncia dela. Ele teve que admitir,
com um pouco de alívio, que ela via a ideia da mesma forma que ele.
— Oh, meu Deus, Oscar, nã o comece. Você sabe tã o bem quanto eu
que nã o há um homem aqui que eu suporte, muito menos um que possa
me suportar.
Ela olhou ao redor do salã o e Oscar seguiu o olhar dela, sabendo
que as palavras dela nã o passavam da verdade. Ele a observou encolher
os ombros e colar um sorriso no rosto.
— Nã o tem jeito. Serei uma velha excêntrica cercada de gatos.
Talvez ela pudesse ter enganado alguém que nã o a conhecia tã o
bem quanto Oscar, mas ele podia enxergá -la com facilidade. Havia
ansiedade ali dentro e uma profundidade de tristeza que ele nã o
conseguia explicar. Talvez ela realmente acreditasse que esse era o seu
destino.
— Nã o seja tola. Você se apaixonará perdidamente por algum jovem
antes de nos darmos conta disso.
As palavras ficaram presas em sua garganta, provavelmente porque
ele sabia que também nã o acreditava nelas.
— Nã o — disse ela, a palavra direta e honesta enquanto balançava a
cabeça. — Nã o vou.
Oscar franziu a testa. Mais uma vez, aquela sensaçã o estranha e
assustadora surgiu em seu peito. Era muito perturbadora, mas era
porque ele se importava profundamente com Ella. Ela era tã o irmã dele
quanto de Bertie. A ideia de ela estar sozinha e infeliz fazia com que ele
se preocupasse com ela.
— Nã o pode realmente acreditar que vai viver assim, Ella. Você se
sentiria sozinha — disse ele, com um formigamento de desconforto no
pescoço com a possibilidade real de que ela pudesse terminar os dias
dessa maneira. Ella nã o. Seria um crime.
— Claro que nã o. — Seu tom era firme e sem rodeios enquanto ela
revirava os olhos para ele. — Viajarei e verei o mundo e, quando voltar,
você e Pearl terã o muitos filhos e eu serei uma tia indulgente. Haverá
muito para me ocupar.
Oscar abriu a boca para se opor, mas antes que pudesse, ela puxou o
braço dele. — Ah, vá dançar, Oscar. Prometi que nã o a envergonharia
esta noite, mas ela me culpará se você nã o fizer o que ela pede.
Ele olhou para a futura esposa, vendo-a observá -lo com um sorriso
doce nos lá bios. Era estranho como ela era sempre tã o plá cida e
sorridente na presença dele e, no entanto, ninguém podia fazê-lo se
sentir mais nervoso. Melhor cumprir o dever dele entã o.
— Está bem — murmurou ele. — Mas se eu devo, você também
deve.
— Nem pensar — retrucou Ella, e correu para longe antes que ele
pudesse encontrar um parceiro para ela.
Oscar atravessou o salã o de baile e cumprimentou Pearl. Ela fez
uma reverência para ele e Oscar nã o pô de deixar de admirar a elegâ ncia
de seu pescoço gracioso e a extensã o sedutora do decote enquanto se
curvava.
— Você está linda esta noite, Pearl — disse ele, oferecendo-lhe o
braço e guiando-a para a pista de dança.
— Ora, obrigada, Vossa Graça — disse ela, inclinando um pouco a
cabeça.
Ele fez uma careta, perguntando-se se ela usava esse termo apenas
para irritá -lo.
— Meu nome é Oscar; acredito que já mencionei isso. — As
palavras dele saíram um pouco ríspidas e ele viu um lampejo de algo
nos olhos dela por apenas um momento, mas ela respondeu com aquele
sorriso plá cido mais uma vez.
— Você é um duque. Tais coisas merecem respeito, mesmo em seu
círculo íntimo.
Oscar franziu a testa. Ele se perguntou se ela gritaria “ah, Vossa
Graça”, quando se deitasse com ela. Sua mente ficou em branco
enquanto ele tentava conjurar uma imagem da mulher em seus braços
em tal posiçã o relaxada.
— Mas nã o gosto que me chame de Vossa Graça — insistiu ele,
perguntando-se por que se sentia tã o teimoso esta noite.
— Muito bem — respondeu ela, com um lampejo de algo que
poderia ter sido diversã o em seus olhos. — Rothborn.
Oscar cerrou os dentes. Sinos do inferno, ele queria uma bebida.
Do outro lado da pista de dança, ele vislumbrou Ella, sentada com
as moças invisíveis e fazendo o seu melhor para manter os braços e as
pernas em algo pró ximo de uma posiçã o elegante. Depois de um
momento ou dois, ela desistiu e afundou na cadeira, parecendo
cansada. Quando ele rodopiou Pearl durante a dança e a trouxe de volta,
viu Ella suspirar e esticar as pernas... e um cavalheiro tropeçar no pé
dela.
Ella se levantou, vermelha de mortificaçã o enquanto se desculpava.
Quem quer que fosse o sujeito, deu uma resposta dura e afastou-se
rapidamente. Pobre Bug. Ela olhou em volta, claramente esperando que
Pearl nã o a tivesse visto. Oscar ergueu uma sobrancelha quando os
olhares deles se encontraram e Ella pressionou um dedo nos lá bios,
lançando uma expressã o suplicante em sua direçã o.
Oscar abafou uma risada e piscou para ela, antes de voltar sua
atençã o para a dança.
Capítulo 3
“No qual Ella ultrapassa os limites da imprudência.”

Abril de 1820

Oscar desfrutava do ar fresco da primavera contra sua pele, ainda


frio a esta hora da manhã enquanto Virago irrompia pelos campos. A
Reuniã o Craven seria em poucos dias e Virago estava em plena forma.
Ranleigh nã o saberia o que havia acontecido com ela. Sua Srta. Skirmish
certamente ficaria para trá s.
Com imensa satisfaçã o, ele desacelerou a égua, dando tapinhas no
pescoço dela e sussurrando todos os tipos de elogios extravagantes. Ele
teria que agradecer a August Bright, Lorde Marchmain, por seu
excelente trabalho com a potra. Oscar queria inspecionar Virago para a
Reuniã o Craven, entã o a transferiu para sua pró pria propriedade.
Marchmain, que havia criado Virago, morava nas proximidades e
trabalhou junto com Oscar durante seu treinamento. O conhecimento
desse homem sobre cavalos era o ú nico que valia a pena.
Ele passeava pelos campos, com o sol acariciando seus ombros
debaixo de um calor agradável, quando ouviu um grito e se virou.
Galopando em sua direçã o numa adorável égua cinzenta estava Ella.
Seus cabelos escuros haviam escapulido dos grampos e o chapéu
saltava em suas costas, onde caía livremente, e ela sorria como uma
luná tica.
— Bom dia! — disse ela, sem fô lego enquanto se aproximava dele,
as bochechas e o nariz vermelhos devido ao ar frio da manhã .
— Invadindo minha propriedade, Bug? — disse ele, tentando
franzir a testa e soar severo. Se ele conseguiu, nã o soube dizer, mas ela
bufou e revirou os olhos para ele.
— Como se você se importasse.
— Eu sou um duque, sabia? — disse ele, estalando a língua para ela
e dando uma de arrogante. — Devia mostrar mais respeito.
Aquelas sobrancelhas grossas se ergueram. Como sempre, ela nã o
ficou impressionada com aquela bobagem, embora seus lá bios tenham
se contraído. — Por que diabos eu faria isso?
Oscar encolheu os ombros, aliviado por ela nã o o tratar com a
deferência que alguns faziam, mesmo que ele gostasse de provocá -la
por causa disso.
— Sua irmã me chama de “Vossa Graça” — disse ele, pretendendo
ensinar-lhe uma liçã o e se perguntando por que as palavras soavam tã o
tristes e amargas.
Ella riu, sacudindo a cabeça. — Sim, mas apenas em pú blico.
Oscar olhou para ela, erguendo uma sobrancelha enquanto Ella o
encarava horrorizada.
— Nã o... nã o exatamente.
— Vamos lá — disse ele, rapidamente. — Vamos para minha casa.
Seu irmã o já estará lá ; e acho melhor você ficar para o almoço.
Ele incitou Virago a galopar, movendo-se à frente dela para que ela
nã o tivesse tempo de interrogá -lo mais. Ele nã o queria pensar no fato
de que a estava usando como desculpa para nã o falar com o irmã o dela
a só s. O pai de Ella, o Conde de Eghampton, o encurralara há alguns
dias, exigindo saber quando ele se casaria com Pearl.
A pró pria Pearl vinha perguntando a mesma coisa com uma
frequência cada vez maior ultimamente, o que também o perturbava.
Ela parecia nã o ter pressa antes, mas de repente estava pressionando
para que ele seguisse em frente e marcasse o enlace. Oscar se sentia
como um coelho preso em uma armadilha e teria arrancado
alegremente a pró pria pata para se libertar se essa fosse uma opçã o.
Parecia que uma rede se aproximava dele e a sensaçã o de ser sufocado
aos poucos só ficava mais intensa com o passar dos dias.
Ele nã o duvidava que o pobre Bertie tivesse sido coagido pelo
conde a forçar um encontro com ele.
Eles entraram no está bulo e Oscar foi ajudar Ella a descer, mas
descobriu que ela havia pulado no chã o sem ajuda. Balançando a cabeça
com diversã o, ele chamou um cavalariço para levar a égua e se ocupou
em tirar a sela de Virago.
— Ei, cuidado aí — gritou ele, erguendo os olhos tarde demais e
vendo que Ella se aproximava da montaria cruel e estendia a mã o para
acariciá -la.
Ella olhou para ele surpresa enquanto deslizava a mã o sobre o
focinho macio de Virago e a égua nã o fez nada além de emitir um som
suave e estridente.
— Nossa, estou sem palavras. — Oscar balançou a cabeça em
espanto.
Escovar Virago era um trabalho do qual a maioria dos cavalariços
jogaria no cara ou coroa, já que nenhum deles queria se aproximar dela,
caso pudessem evitar, sabendo que provavelmente sairiam com
hematomas. Ela nã o permitia carícias. Nunca.
Virago virou a cabeça e mostrou os dentes para ele com uma risada
silenciosa.
— Espertinha — murmurou ele, e a levou de volta para a baia.
***
Como esperado, Bertie os aguardava na biblioteca. Ele estava à
vontade, sentado lendo um livro e fumando um charuto.
Ella tossiu enquanto caminhava pela fumaça azulada. Ela foi até
uma janela e a abriu.
— Que fedor repugnante, Bertie — disse ela, fazendo uma careta
para o irmã o.
— Ah, você também está aqui, Bug? — Bertie parecia bastante
animado com essa guinada de acontecimentos, e Oscar suspeitava que o
irmã o estava tã o aliviado quanto ele por nã o poderem falar em
particular. — Céus, olhe para o seu estado. Caiu em outra poça?
Ella retribuiu com um olhar solene. — Nã o.
Eles observaram enquanto ela se apressava para examinar o
pró prio reflexo no espelho sobre a cornija da lareira.
— Oh!
Oscar bufou e entregou-lhe um lenço enquanto ela esfregava os
respingos de lama do rosto. Feito isso, ela deu um grito de consternaçã o
ao notar que as saias de seu traje de montaria também estavam
salpicadas.
— Caramba, Oscar — disse Bertie, com um brilho perverso nos
olhos que era indício de problemas para a irmã . — Você se lembra
daquela vez em que fomos pescar no lago e Bug nos seguiu? Tentamos
despistá -la, e ela pegou um atalho para nos alcançar, ficou presa até os
joelhos na lama na margem. Você parece atrair esse tipo de coisa, Bug,
juro.
Ella lançou ao irmã o um olhar indiferente enquanto Oscar ria,
lembrando-se da visã o de uma Ella aos oito anos de vestido branco,
chorando por ajuda. Tinha sido um verã o longo e quente e as á guas do
lago estavam muito abaixo do nível normal. Os dois riram até nã o
aguentarem mais enquanto ela se debatia nos margem cinzentas e
pegajosas e os mandava para o inferno com palavrõ es suficientes para
fazer um marinheiro corar.
Eles a ensinaram a fazer isso também.
Nã o importava o quanto tentassem se livrar dela ao longo dos anos,
era algo difícil de fazer. Entã o, eles se divertiam à s custas dela,
ensinando-a a praguejar, como colocar isca no anzol, escalar uma
á rvore e geralmente fazer muitas coisas que a maioria das meninas
evitava como a praga. Ele supô s que a menina travessa coberta de lama
diante deles agora era um produto de sua pró pria imaginaçã o.
Ella murmurou algo desagradável – que sem dú vida veio de seus
ensinamentos – e estendeu o lenço para ele pegar de volta. Oscar olhou
para o que tinha sido tecido quadrado branco intocado e agora possuía
uma aparência acinzentada, amassada e manchada. Ele torceu o nariz.
— Pode ficar com ele.
O almoço foi um evento prazeroso. Ella e Bertie sempre eram uma
boa companhia, os dois irmã os gostavam de implicar um com o outro
tanto quanto com Oscar. Era uma coisa agradável estar na companhia
de velhos amigos. Oscar se perguntava por que Pearl nunca se juntava
à quela amizade descomplicada. Ele nã o se lembrava de tentar mantê-la
afastada, mas Ella gostava de impor sua companhia a eles, gostassem
ou nã o. Embora ele achasse que eles poderiam tê-la afastado se
realmente se opusessem.
Pearl indo pescar ou colocando uma larva em um anzol, no
entanto... ele quase se engasgou com a fatia de torta que estava
mastigando, ao pensar na ideia.
Se ele pensou que poderia escapar do assunto de seu casamento
iminente, no entanto, ficou muito desapontado.
— Entã o, já decidiu uma data?
Oscar ergueu os olhos do prato, assustado, pois a indagaçã o vinha
de Ella e nã o de Bertie. Ela nã o estava olhando para ele, sua atençã o
estava fixada no almoço, embora ele notasse que ela tinha comido
pouco. Bertie olhava de Oscar para Ella com interesse, talvez aliviado
por ela ter cumprido seu dever por ele.
— Eu...
— Ah, por favor, Oscar. Você sabia que esse dia chegaria. Por que
nã o acabar com a nossa angú stia?
Havia uma amargura na pergunta de Ella que ele nã o conseguia
interpretar, mas ela parecia um pouco impaciente. Ele admitiu ficar
surpreso e um pouco consternado por ela o incomodar também, no
entanto, Pearl era irmã dela. Elas nunca foram pró ximas, mas ele supô s
que devia haver um senso de lealdade envolvido.
— Eu... eu decidi — mentiu ele, querendo escapar da sensaçã o de
sufocamento que fazia sua garganta fechar.
— Oh? — respondeu Bertie, com as sobrancelhas erguidas.
— Sim. — Oscar estendeu a mã o para a taça, tomando um gole
fortificante de vinho. — Eu vou... eu vou anunciar isso depois de Craven
Stakes. — A corrida era segunda-feira, entã o dava-lhe o resto do fim de
semana para refletir sobre o problema, pelo menos.
— Que bom — respondeu Ella, ainda encarando o prato. — Pearl
ficará satisfeita.
***
— Você está bem?
— O quê? — Ella ergueu o olhar e viu o irmã o estreitando os olhos
para ela enquanto cavalgavam ao longo da ruela na volta para casa.
— Eu perguntei se você está bem. — repetiu Bertie.
Ella fez o possível para retribuir um sorriso radiante e se livrar da
sensaçã o de que seu mundo estava prestes a desmoronar. De qualquer
forma, era pura tolice.
— Claro que estou — respondeu ela, tentando fazer com que as
palavras soassem convincentes e desejando nã o querer chorar. —
Nunca estive melhor.
Bertie emitiu um som que sugeria que nã o estava nada convencido.
Ele desviou o olhar dela, olhando para frente, e quando falou
novamente, as palavras estavam cheias de simpatia.
— Você sempre soube que isso aconteceria, Bug.
Uma sensaçã o de arrepio formigou sob sua pele quando a suspeita
repugnante que seu irmã o sabia de seus sentimentos ganhou vida.
— Que o que aconteceria? — perguntou ela, esforçando-se para
proferir um tom alegre e ouvindo o leve tremor em sua voz.
Ele nã o podia ter adivinhado, certo? Bertie nã o era o sujeito mais
observador do mundo. Ele era um homem bonito, mas permanecia
alheio à s muitas mulheres que rondavam por perto, preferindo seus
cavalos ou uma noite de cartas a qualquer coisa que envolvesse
mulheres. Era por isso que ele e Oscar se davam tã o bem, mas se ele
tivesse descoberto, entã o...
Ela sentiu seu rosto ficar lívido.
Ella se forçou a olhar para ele e nã o ficou nem um pouco
reconfortada com o olhar de pena que a confrontou.
— Ele é um duque, Ella. Ele precisa de uma duquesa.
Havia um olhar tã o suave nos olhos dele que Ella sentiu a garganta
apertar.
— Perdoe-me, Bertie, mas de que diabos você está falando? —
retrucou ela, fazendo o possível para parecer indignada.
Talvez uma boa ofensiva fosse o que ela precisava. Seu tom
impaciente nã o foi recompensado, no entanto, e o sorriso bastante
torto que ele lhe deu fez seu coraçã o dar um salto.
— Estou falando sobre Oscar se casar com o tipo de mulher que
pode organizar jantares para a nata da sociedade e engajar em uma
conversa cortês. Que nã o abra a boca e diga a primeira coisa que lhe
vem à cabeça, por mais inapropriada que seja, ou acidentalmente jogue
uma batata assada no colo de Lorde Chamberlain.
Ella corou, embora nã o pudesse ter certeza se era por Bertie ter
adivinhado onde estava seu coraçã o ou pela lembrança de um dos
eventos mais humilhantes de sua vida. Lá grimas começaram a se
formar nos olhos dela.
— Fui eu quem o forçou a marcar a data — disse ela, parecendo
irascível e zangada agora, embora seu coraçã o parecesse estar em carne
viva e exposto no lado errado das costelas.
— Eu sei, Bug — disse ele, seu tom suave. — E fez a coisa certa. Vai
ficar mais fá cil, sabe. Assim que ele se estabelecer.
Ella engoliu em seco e incitou a égua a um trote rá pido, guiando-a
para fora da ruela e por um caminho que levava através dos campos.
Era um caminho mais longo para casa e ela já estava com frio, pois o sol
se escondia atrá s das nuvens, mas nã o se importava. Ela tinha que se
afastar, se afastar da simpatia nos olhos do irmã o e da piedade na voz
dele.
Como se ela nã o soubesse que Pearl era a escolha certa para ele...
embora ela nã o pudesse deixar de se preocupar, mesmo assim. Será que
Pearl se importava com ele? Ella sabia que gostava do título e de tudo o
que ele lhe daria, mas será que era tudo? E será que Oscar se importava
com Pearl?
Parecia haver tã o pouco carinho entre eles, apesar do fato de terem
crescido juntos. Ela sabia que era dever deles para com suas respectivas
famílias e nã o era nem um pouco tola a ponto de acreditar que
casamentos dessa natureza eram baseados no amor, mas... a ideia de
Oscar contrair um matrimô nio sem amor enquanto ela transbordava de
amor...
A vida era tã o injusta.
Como se isso nã o bastasse, agora seu irmã o sabia o segredo
vergonhoso e doloroso que ela carregava. Já era excruciante o suficiente
suportar quando ela pensava que era só dela, mas caso ele soubesse...
Era muito humilhante, e se Bertie sabia, talvez Oscar também. Isso fez
com que sua garganta ficasse apertada e as bochechas queimassem.
Bertie pediu que ela esperasse, mas ela o ignorou e, quando voltou
para um terreno mais plano, ela avançou mais rá pido, galopando a toda
velocidade. Seu cabelo dançava ao vento, libertando-se dos grampos
enquanto as lá grimas escorriam pelo rosto.
***
12 de abril. Corrida Craven Stakes, Newmarket.
O rebuliço habitual cobria a brejo. Desta vez, no entanto, era uma
reuniã o profissional, e apenas jó queis estariam cavalgando. Embora
soubesse que pagaria por isso, Ella se afastou de Pearl e Bertie e
despistou a criada e o lacaio que haviam sido instruídos a nã o a perder
de vista.
Eles claramente nã o entendiam com quem estavam lidando, já que
Ella levou cinco minutos para desaparecer na multidã o.
Nã o que ela estivesse à procura de Oscar. Nã o desta vez. Hoje,
parecia o ú ltimo dia de sua juventude de alguma forma estranha e ela
queria ficar sozinha. Apó s a corrida, ele anunciaria a data do que se
tornaria o casamento do ano, e Ella teria que suportar isso. Ela teria
que sorrir, rir e fingir que estava feliz por eles, quando na verdade seu
coraçã o estava se despedaçando.
Ella se lembrou de todas as vezes que fez Oscar rir: gargalhadas
genuínas, que faziam a barriga doer de tanto rir e seus olhos castanhos
brilharem enquanto ele rugia com a hilaridade de quaisquer coisas
terríveis que ela tivesse dito. Ela fazia isso de propó sito, é claro, sem
querer nada além de ver os olhos dele cheios de felicidade. Isso a
alegrava mais do que qualquer coisa, o som da risada dele. Por mais que
tentasse, ela nunca conseguia se lembrar de Pearl fazendo-o rir. Nem
uma vez sequer. Suas entranhas se contorceram de angú stia e ela
piscou com força quando a cena colorida ao seu redor ficou turva.
— Que belo dia para a corrida, Lady Ella.
Ella fez um esforço para esconder suas emoçõ es ao som da voz
familiar e se virou para cumprimentar Tim Banks, o cavalariço de Oscar.
— Olá , Sr. Banks. Sim, de fato. Um belo dia, e como está Virago?
Banks acompanhou o passo dela e parecia orgulhoso como um
novo pai.
— Oh, está tascando o freio, milady — disse ele, sorrindo para ela.
— E a mim tamém, para falar a verdade. — Ele ergueu o braço,
mostrando um rasgo na manga e Ella fez uma careta.
— Ah, meu Deus, ela é uma desgraçada rancorosa, nã o?
— Sim, bem, ela é uma lindeza e sabe muito bem disso — disse o Sr.
Banks, com o ar de um homem que tinha experiência com essas coisas.
Ella mordeu o lá bio e se recusou a permitir-se matutar sobre o
pensamento indelicado que acabara de entrar em sua cabeça.
— Posso ir vê-la antes que você a leve? — perguntou ela em vez
disso, pensando que isso ocuparia sua mente por um tempo e a
impediria de pensar. Oscar parecia perplexo com a maneira como
Virago decidiu que Ella poderia nã o ser a inimiga, e ela queria tentar a
sorte novamente.
— Nã o vejo por que nã o — respondeu ele, estendendo o braço para
ela. — Willy ficará muito feliz em vê-la antes da corrida. Acha que você
lhe traz sorte.
Ella sorriu para ele, esperando que isso fosse verdade hoje, e o
seguiu até os Está bulos do Rei.
Tim Banks nã o era muito mais velho do que ela, tinha mais ou
menos a idade de Oscar, ela supunha, e ela o conhecia desde os dias em
que vivia atrá s de Oscar e Bertie. Ele era extremamente alto, mais alto
que Oscar, e devia ter quase metade do peso dele. Seu rosto magro era
ladeado por orelhas grandes que se projetavam para fora, dando-lhe a
aparência de uma carruagem com as portas abertas. Banks, um jovem
gentil, muitas vezes lhe dava um aceno com a cabeça se soubesse para
onde os jovens haviam ido – supondo que nã o fosse escandaloso – para
que ela pudesse localizá -los.
Os está bulos estavam cheios de gente e eles atravessaram pá tio até
o prédio que abrigava os está bulos de Virago.
— Ô, Willy — chamou Banks quando eles entraram.
O cheiro familiar e bem-vindo de cavalo, feno e couro bem polido a
envolveu. Ela permaneceu ao lado de Banks enquanto os olhos deles se
ajustavam à escuridã o apó s o brilho do sol intenso da primavera lá fora.
— Willy? — chamou ele novamente, piscando enquanto examinava
os arredores.
Willy Camden era o jó quei de Oscar, um homem experiente que
havia vencido um grande nú mero de corridas. Em seus quarenta e
poucos anos, ele era magro como um coelho esfolado, baixo como um
garotinho, e atualmente com as mã os e joelhos na palha, apertando a
barriga.
— Willy, o que foi? — exigiu saber Banks, horrorizado, sentando-se
ao lado dele.
— Sei lá — respondeu Willy, gemendo e balançando a cabeça.
Ella encarou-o, apreensiva. Seu rosto estava branco e suado, e
parecia que ia vomitar a qualquer momento.
— Meu estô mago tá todo embrulhado. Maldito inferno, mas dó i
como o diabo — praguejou Willy e agarrou o estô mago, tombando de
lado e trazendo os joelhos para perto do corpo.
Todos ficaram em silêncio quando o primeiro chamado para os
jó queis levarem seus cavalos para fora ecoou pelo pá tio.
— Essa nã o — sussurrou Ella, os olhos encontrando os de Banks.
Pobre Willy! Ela devia buscar ajuda para ele só que... se Willy nã o
pudesse cavalgar, Oscar perderia a corrida e Ranleigh venceria.
Ela só conseguia pensar na decepçã o e frustraçã o de Oscar. Nos
ú ltimos seis meses, ele só falava sobre essa corrida. Ele passou todas as
horas livres treinando e exercitando a égua. Ele havia provido todos os
cuidados e atençã o para sua preciosa Virago, para que ela estivesse em
forma ao competir com a Srta. Skirmish e mostrar ao Duque de
Ranleigh que criatura superior ela era.
Ella nunca o tinha visto levar nada tã o a sério quanto essa corrida, e
ainda assim, se Willy estivesse doente demais para cavalgar... ele
perderia antes mesmo de Virago sair do está bulo.
— Vá buscar um médico — disse ela, tomando as rédeas da
situaçã o, enquanto o Sr. Banks parecia paralisado de pâ nico. — Agora!
O jovem sobressaltou-se, encarando-a, com os olhos arregalados de
horror. — M-mas, Virago... a corrida...
— Nã o importa, Willy exige atençã o. Agora, vá !
Ela empurrou o homem para fora da baia e se virou para Willy, que
se levantou e estava sentado de costas para a parede.
— Eu nunca o decepcionei antes, Lady Ella — disse ele, parecendo
arrasado. — Nunca houve uma corrida que eu nã o terminei. Maldiçã o
dos inferno! Ele ficará extremamente decepcionado.
— Está tudo bem, Willy — disse ela, dando um tapinha no ombro
dele no que ela esperava ser reconfortante, embora seu coraçã o
estivesse pulsando como um tambor em seu peito.
Ela nã o ia deixar Oscar perder essa corrida. Nã o se estivesse em
suas mã os dar-lhe uma chance. Sua mente girava enquanto tentava
considerar quaisquer possíveis alternativas. Nã o havia chance de
encontrar outro jó quei nesta altura do campeonato. Mesmo que
conseguisse encontrar um jó quei disponível, nã o teria o tempo
necessá rio para persuadi-los a montar Virago, por mais infame que
fosse por ser um bicho mal-humorado que adorava derrubar seu
cavaleiro.
Ella podia ouvir os cavalariços conduzindo suas montarias para o
pá tio agora, nã o havia tempo para pensar mais. Se ela fosse agir, tinha
que ser agora e ainda assim...
Essa nã o era uma brincadeira boba.
Isso nã o era como despistar as acompanhantes ou cair de cabeça
em uma poça ou comer castanhas com os dedos em cima da carruagem
do Conde de Stanthorpe. Essa era uma corrida... uma corrida
profissional de verdade, onde os melhores jó queis do país competiam
para ganhar o prêmio. Nã o só isso, era montando em Virago!
Se ela tivesse muita sorte, talvez nã o quebrasse o pescoço estú pido.
Com pâ nico sufocando a garganta, ela viu as fardas verde-escuras
de Willy penduradas em um pregador e as agarrou. Willy estava com
muita dor para notá -la quando ela entrou na baia vazia ao lado de
Virago e se despiu.
Praguejando e proferindo todas as profanidades imundas de que se
lembrava, seus dedos tremeram e seu estô mago revirou quando ela
deixou cair no chã o a saia, aná guas e vestiu as fardas. Elas deslizaram,
frias e escorregadias contra sua pele corada de terror, e foi com alívio
que ela enfiou os pés nas botas de Willy e percebeu que eram só um
pouco maiores que seu tamanho. Reservando um momento para
esconder as pró prias roupas, Ella entã o pegou a sela e o freio com os
quais seria pesada, as mã os tremendo enquanto agarravam o couro
macio.
— Santa Mã e de Deus!
Ella estremeceu ao sair da baia e viu Willy olhando para ela com
absoluto terror. Se fosse possível, o homem parecia ainda mais branco
do que antes.
— Não! Nã o, nã o, nã o. Lady Ella, nã o se atreva — implorou ele. Ela
achava que nunca tinha visto um homem ficar tã o pá lido assim.
Ella endireitou a coluna, determinada agora, apesar do terror que
crescia dentro dela.
— Mas tenho que fazer isso, Willy. Sabe o quanto isso significa para
ele.
Willy tentou se levantar cambaleante. — Eu vou cavalgar — disse
ele, o rosto corando enquanto tentava se levantar. — Estou sentindo-se
muito...
Ella arquejou quando os olhos dele se reviraram e ele desabou no
chã o novamente.
— Willy! Willy!
Ela caiu de joelhos ao lado dele, dando tapinhas no rosto dele até
que ele acordou novamente com um gemido. — Nã o seja tolo, nã o pode
ir a lugar algum, e o médico está vindo te ver. Agora comporte-se e
deite-se quietinho. Eu... eu v-vou ficar bem.
Willy balançou a cabeça e a princípio ela pensou que ele tentaria se
levantar novamente, mas ele agarrou o braço dela, encarando-a com os
olhos febris.
— Você vai ser descoberta... seu cabelo — disse ele, com a voz
á spera. — Se o seu boné escapulir, eles vã o ver o seu cabelo.
Ella tocou os grossos cachos escuros que se aglomeravam ao redor
do rosto e sabia que ele estava certo. Oh, minha nossa.
Seu coraçã o estava a mil por hora, batendo erraticamente quando a
realidade do que ela estava fazendo a atingiu, mas ela nã o daria para
trá s agora. Nã o. Oscar nunca seria dela, ela sabia disso, ela aceitava isso,
mas... mas pelo menos ela poderia fazer isso por ele, algo que Pearl
nunca... nunca poderia sonhar em fazer.
Bem, já que tinha entrado nessa... iria até o fim, custe o que custar.
Com a mã o tremendo, ela foi rapidamente até o kit de primeiros
socorros e afastou raspadeiras e escovas até encontrar o que buscava:
uma faca.
Ella puxou seu cabelo espesso com força e começou a cortá -lo,
observando os cachos escuros caírem em uma pequena pilha aos seus
pés, perguntando-se se dessa vez ela realmente havia perdido a cabeça.
— Você é completamente louca, Ella Aldous — murmurou ela para
si mesma enquanto outro cachinho caía no chã o. — Pirada da cabeça,
maluca das ideias, doida de pedra... completamente e absolutamente
insana.
Ela encarou os restos de seu cabelo, macio contra o ouro afiado da
palha. Porém, era tarde demais para arrependimentos agora, e ela
agarrou o boné, escondendo as mechas soltas com firmeza embaixo
dele.
— Precisa contê-la.
Ella correu para se sentar ao lado de Willy novamente enquanto sua
voz coaxava. Ele agarrou o braço dela.
— Se está decidida a fazer isso... deve contê-la. Virago odeia perder.
Deve contê-la com toda a força até passar dois terços da pista, entã o
solte-a... ela nã o vai te decepcionar.
— Eu vou, Willy... pelo menos, vou tentar — prometeu Ella,
perguntando-se como, em nome de Deus, ela poderia conter a enorme
égua se pretendia deixá -la correr livremente.
Willy agarrou o braço dela novamente, seus olhos implorando. —
Nã o quebre seu belo pescoço, milady. Nunca me perdoarei.
— Nã o será sua culpa, Willy. Essa ideia louca é toda minha; você
nã o vai levar culpa alguma. Você dificilmente está em posiçã o de me
impedir.
Ela deu um tapinha tranquilizador no braço dele e depois se
levantou.
— O médico está à ca...
Ella se virou quando a voz de Banks chegou aos seus ouvidos. Ao
observá -la, ele parecia quase tã o doente quanto Willy.
Banks olhou para ela, com sua cabeça se movendo para lá e para cá
com uma expressã o horrorizada que dizia claramente não, não, não,
sem que ele pronunciasse uma ú nica palavra.
— Sim, Sr. Banks, sim — disse ela, com a voz firme. — E mais
importante, você deve me ajudar, ou isso nã o vai funcionar.
Banks retrocedeu, estendendo as mã os em sinal de rendiçã o. —
Nã o, milady... nem pensar! Nã o farei isso!
Ella fulminou-o com o olhar e cruzou os braços. Nã o havia como,
em sã consciência, ela ter cortado o cabelo apenas para fracassar agora.
Com um semblante sério, ela encarou o Sr. Banks.
— Ora, Sr. Banks, escute bem aqui...
Capítulo 4
“No qual uma dama vai atrás de um prêmio.”

Oscar encarou a multidã o. Havia um baque surdo em seu peito, uma


sensaçã o de aperto sob a pele que oscilava entre a excitaçã o e o
completo pâ nico. Onde estava Willy com Virago? Eles eram os
pró ximos. Com um esforço supremo, ele se recusou a se mexer,
mantendo a expressã o indiferente e desinteressada.
Ele desejou que Bertie ainda estivesse ali para quebrar a tensã o,
mas ele havia saído em busca de Ella, que tinha desaparecido como de
costume, a danadinha. Ele admitiu estar desapontado por ela nã o
querer ficar para apoiá -lo, mas sem dú vida a garota estava tramando
algum tipo de travessura.
— Oh, veja, lá está o Duque de Ware.
Oscar olhou ao redor enquanto Pearl deslizava o braço no dele. Ela
inclinou a cabeça de maneira régia enquanto Ware olhava para cima e
sorria para Oscar. Oscar reprimiu a irritaçã o. Por que importava que
Pearl agisse como se conhecesse o duque quando ele sabia que ela nã o
o conhecia, ele nã o conseguia entender.
— Você nos apresentará mais tarde, nã o é, Rothborn? — disse ela,
com uma voz suave, levemente elevada para ser ouvida acima do
burburinho da multidã o. — Eu deveria conhecer os seus amigos.
— Certamente — disse ele, sem olhar para ela. — Vou apresentá -la
ao Sr. Banks e ao Sr. Camden.
— Quem sã o?
Oscar se virou entã o, franzindo a testa enquanto o olhar de Pearl
seguia a figura gloriosa do Duque de Ware. Nã o que ele pudesse culpá -
la, ele era sem dú vida o homem mais bonito da alta sociedade, mas
ainda assim...
— O cavalariço de Virago e o jó quei cavalgando hoje — disse ele,
dando ênfase à s palavras.
Pearl franziu a testa para ele, parecendo perplexa. — Ah, uma das
suas piadas bobas, é claro — disse ela, suspirando enquanto o rosto se
iluminava.
— Nã o, de forma alguma, eles também sã o amigos. — Por que ele
estava tã o determinado a irritá -la esta manhã , nã o sabia, mas ele tinha
o diabinho em seu ombro e nã o conseguia segurar a língua.
Ela o fulminou com um olhar entã o, sua expressã o muito mais fria.
— Em particular, é aceitável ter uma relaçã o amigável com seus criados,
mas nã o faz bem para a sua reputaçã o ter muita intimidade com esse
tipo de gente em pú blico.
— Que se dane minha reputaçã o — murmurou Oscar, e depois se
voltou para ela se sentir inexplicavelmente beligerante. — Eles sã o
criados e amigos e eu nã o dou a mínima para o que alguém pensa sobre
isso.
Pearl balançou a cabeça. — Você é um tolo se acredita nisso; e um
maior ainda para encorajar esse tipo de coisa. Eles se aproveitarã o de
você se nã o o respeitarem.
Havia um tom bastante amargo nas palavras e Oscar olhou para a
bela mulher ao seu lado, consternado. Ela tinha uma aparência gloriosa.
Seu cabelo dourado brilhava como cevada madura à luz do sol, sua pele
era perfeita e seus olhos de um azul tã o deslumbrante... e sem um pingo
de simpatia neles.
Ele estremeceu, com uma estranha sensaçã o de pressentimento
formigando ao longo de sua coluna.
— Como enxerga o nosso casamento, Pearl?
Ela olhou para ele, aparentemente surpresa com a pergunta. — O
que quer dizer, Oscar?
Ele se virou para encará -la, na esperança de que talvez estivesse
sendo tolo. Seu casamento com ela era uma inevitabilidade que seu pai
o forçou a aceitar desde o momento em que tinha idade suficiente para
entender o que isso significava. Era uma das ú ltimas coisas, das quais
ele se lembrava do velho duque falando com ele nas semanas antes de
morrer: a importâ ncia de seu dever com o nome da família.
O pai de Oscar havia morrido quando ele tinha apenas sete anos.
Duque em tã o tenra idade e sem outros irmã os, sua mã e fazia as
vontades dele... mimava-o extremamente, mas a voz de seu pai sempre
soava em seus ouvidos. Entã o, ele aceitou seu destino, nunca
questionou e nunca pensou sobre isso.
Mas ele estava pensando agora.
— Quero dizer, como você enxerga nossas vidas juntos?
O que diabos ele estava fazendo? Ele deveria ficar de olho em
Virago e aproveitar o momento, nã o o desperdiçar questionando a
mulher com quem esteve noivo a vida toda. Que hora para fazer isso.
A compreensã o pareceu registrar em seus olhos, um olhar
conhecedor que o perturbou ainda mais.
— Nã o se preocupe, Oscar. Nã o vou interferir nos seus prazeres.
Serei uma boa esposa para você, nunca terá de se preocupar... — Ela fez
uma pausa, contraindo os lá bios como se tivesse um gosto ruim na
língua.
Pearl sorriu entã o, encontrando as palavras de que precisava. —
Com qualquer ciú me bobo. Você terá a sua vida, os seus interesses, e eu
terei a minha. Nã o precisaremos nos incomodar mais do que o
necessá rio.
Oscar pestanejou. A conversa estranha que ele havia tido com o pai
dela quando o homem o pressionou para marcar uma data voltou à sua
mente.
Pearl é uma menina sensata, não tem concepções românticas bobas.
Você será livre para viver como desejar, desde que seja discreto.
O que o conde nã o conseguia entender, o que ele mal entendia era...
era por que ele nã o queria marcar uma data. Nã o era o tipo de
casamento que ele queria.
Ele afastou tais pensamentos tolos e assentiu em vez disso. Que
opçã o ele tinha?
— Ló gico, Pearl. Entendo.
Ela sorriu para ele entã o, com o tipo de sorriso devastador pelo
qual os homens lutavam e morriam. Se ao menos ela mostrasse algum
prazer na ideia, ele nã o poderia negar que a ideia de dormir com ela
nã o era desagradável. Pelo menos havia isso.
Oscar ignorou o vazio que consumia seu peito e voltou sua atençã o
para o brejo abaixo, procurando por Virago.
***
Ella puxou o boné para baixo e manteve os olhos no chã o,
segurando a sela e a rédea quase até o seu queixo.
— Ele vai me matar — murmurou Banks ao lado dela, enquanto
conduzia Ella e Virago ao Posto Thomond para a pesagem. O rosto dele
era sombrio, os lá bios, uma linha reta. — Morte por um duque. Eles me
encontrarã o cortado em pedacinhos e espalhado pelo brejo.
— Ele não vai matá -lo.
Banks lançou-lhe um olhar fulminante que ela captou por baixo da
aba do boné. — Claro que vai, e com razã o. Olhe só para você, uma
mocinha franzina. Mas acha que pode montar essa égua arisca? Vai
quebrar o pescoço.
— Nã o vou. — respondeu Ella, embora a agitaçã o em suas
entranhas nã o parecesse confirmar essa afirmaçã o.
— Sim, você vai; entã o ele vai me demitir, e então... ele vai me matar.
A voz de Banks era ameaçadora e resignada enquanto ele se
agarrava a Virago de corpo e alma. Seu casaco brilhava como veludo de
ébano à luz do sol e o estô mago de Ella revirou quando a enorme besta
lhe lançou um olhar selvagem e sacudiu a cabeça.
Oh, que Deus a ajudasse.
— Oscar nã o vai te demitir, eu prometo. Vou garantir que ele saiba
que te chantageei e que a culpa é toda minha. Ele vai acreditar, nã o se
preocupe. É exatamente o tipo de coisa ridícula que eu faria. — Ela
ouviu o tom histérico de suas palavras e fechou a boca.
— Talvez — disse Banks, xingando internamente, enquanto Virago
se esquivava e tentava chutar um de seus oponentes. — Mas ainda
assim ele vai me matar. Será que ele vai torcer o meu pescoço? Espadas,
talvez? Ele é um demô nio com uma lâ mina. Uma bala na cabeça seria
mais rá pido, talvez se eu pedir?
Ella revirou os olhos para ele, mas manteve a boca fechada
enquanto ele ponderava sobre as maneiras variadas e cada vez mais
complexas pelas quais o duque poderia dar cabo à sua vida.
Rá pido demais, no entanto, o posto de pesagem estava diante deles.
— Está tudo bem, Willy? — indagou uma voz. Ella ignorou-a e
apressou-se para a frente, esforçando-se para manter seu passo varonil
e sua cabeça baixa.
Seu coraçã o martelava, o som dele pulsando em seus ouvidos
enquanto ela se sentava na balança. O metal estava frio através do
material macio de seus culotes e Ella nunca se sentiu tã o exposta assim
em sua vida. Geralmente, ela estava envolta em camadas e mais
camadas de tecidos. A consciência de que estava nua sob a farda
colorida e cercada por homens fez suas bochechas corarem. Pela
primeira vez em sua vida, ela agradeceu aos céus por sua aparência de
menino; se ela tivesse o corpo de Pearl, nunca teria saído do pá tio.
— Hoje você está montando com pouco peso — observou uma voz
ao lhe passar pesinhos de chumbo para colocar na sela.
Ella deu um sorriso de reconhecimento e se afastou-se
rapidamente.
— Rá pido — disse ela a Banks, estendendo a sela para ele.
Banks se mexeu enquanto Ella se firmava em Virago. A égua a olhou
com suspeita, mas nã o tentou morder. Talvez isso tenha sido um bom
sinal, nã o?
— Isso mesmo, boa garota — sussurrou Ella, estendendo o braço
para acariciar o focinho macio. — Apenas nã o me mate, por favor.
Ela observou com apreensã o enquanto as orelhas de Virago se
dobravam para trá s e seus dentes continuavam escondidos. Talvez
houvesse esperança.
Um pouco de esperança.
Um vislumbre?
— Oh, meu Deus, essa nã o.
— O quê? — exclamou Ella, em pâ nico pelo tom horrorizado da voz
de Bank.
— Lorde Marchmain.
— Nã o!
Ella espiou por trá s de Virago e viu a bela figura de August Bright
movendo-se em direçã o a eles. Como ele havia criado e treinado Virago
com Oscar, era natural que ele quisesse dar uma olhada nela antes da
corrida.
— Rá pido! — gritou Ella, puxando o pequeno estribo curto. —
Rá pido, ajude-me a subir.
No calor do pâ nico, Banks obedeceu à sua ordem e deu um
empurrã o tã o brusco que ela quase despencou para o outro lado.
Praguejando, Ella lutou para se ajeitar na sela enquanto Virago dançava
de emoçã o. Nã o era tã o estranho para ela cavalgar com uma perna de
cada lado já que ela já havia feito isso muitas vezes na infâ ncia, quando
perseguia Oscar e Bertie. Ela ainda cavalgava assim quando estava
sozinha em seus pró prios terrenos, mas Pearl a teria matado se
soubesse. Naquele momento ela era grata que fazia aquilo. O chã o
parecia estar a uma distâ ncia assustadora, considerando que os trê s
metros e meio de altura de Virago faziam dela uma é gua muito maior
do que ela estava acostumada. Nã o havia como ela voltar atrá s agora;
ao ajustar as ré deas e assegurar o controle da embocadura, ela
pressionou os flancos de Virago com precisã o, e a é gua irrompeu como
uma bala de canhã o.
Ella nã o olhou para trá s, mas fingiu que estava alheia,
concentrando-se em nã o permitir que Virago a derrubasse, o que
parecia seu propó sito de vida agora. A enorme égua preta deu mais
alguns pulinhos e investidas experimentais antes de lançar um olhar
feroz para Ella por cima do ombro.
— Agora, ouça-me bem — disse ela, inclinando-se para a frente e
sussurrando o mais pró ximo possível do ouvido da criatura. — Eles
acham que as garotas nã o podem fazer coisas assim. Eles acham que as
garotas nã o podem fazer nada. Devemos nos sentar parecendo um
objeto decorativo e nunca abrir nossas belas bocas. Bem, se tudo sair
como planejado, eu acho que eles vã o continuar pensando assim, mas...
nó s vamos saberá verdade, Virago, você e eu. Nós vamos saber.
Ella engoliu em seco enquanto o conteú do de seu café da manhã
parecia prestes a dar o ar da graça. Apesar das suas palavras fraternais,
Virago continuava a se agitar e a pisotear, e a ú nica sorte era que todos
sabiam que era melhor manter-se fora do alcance de seus golpes.
Aproveitando a oportunidade para olhar para cima e ao redor, Ella
viu a castanha de Ranleigh. Ela era um lindo animal e, ao contrá rio da
megera em que Ella estava montada, caminhava como uma jovem bem-
educada, dó cil e adorável, embora seus ouvidos balançassem para
frente e para trá s com interesse.
— Lá está ela, Virago. Você vê aquela linda castanha? Essa é a Srta.
Skirmish. Ela nã o é adorável? Ela quer que todos vejam o quã o linda e
inteligente e rá pida ela é... é isso que você quer?
Nã o havia mais tempo para falar com Virago, tã o improvável quanto
tinha sido desde o início. O som de um rufar de tambores sinalizou que
os corredores deviam ficar em fila e o coraçã o de Ella martelou no peito
enquanto ela assistia o bandeirinha dirigir-se à largada.
Seu primeiro objetivo era fazer de tudo para nã o ser derrubada.
Diferentemente de Town Plate, esta corrida nã o era um teste de
resistê ncia, mas sim de pura velocidade. Lá , com quase seis
quilô metros e meio de extensã o, a largada era menos relevante. No
entanto, aqui, com apenas um quilô metro e meio pela frente, ela
precisava de uma largada rá pida.
Ela fez Virago avançar, decidida a nã o ficar bloqueada na parte de
trá s. Um elegante baio se contorcia de impaciência, empurrando Virago,
que revidou com um coice furioso.
A respiraçã o de Ella era rá pida e superficial agora enquanto ela
olhava para o homem segurando a bandeira preta e vermelha. Ele
levantou-a e ela sentiu como se o mundo inteiro segurasse a respiraçã o.
***
Oscar observou através do telescó pio enquanto Virago se agitava e
Willy lutava para mantê-la sob controle. Ela parecia estar cheia de
energia, animada e prestes a explodir. Seu pelo ébano brilhava como
seda preta quando ela balançou a cabeça, orgulhosa como uma rainha.
Orgulho e esperança explodiram em seu peito.
Você consegue, garota, você consegue.
Pearl falava ao lado dele, mas ele nã o se virou, seu foco
inteiramente em Virago enquanto uma estranha sensaçã o de
formigamento percorria sua coluna. Ele franziu a testa, olhando com
mais intensidade. Havia algo estranho, algo que ele nã o conseguia
identificar, mas a maneira como Willy a controlava...
Ele encarou e encarou... por que Willy parecia muito mais magro no
ombro do que o normal?
Em meio à multidã o, Oscar avistou Banks, de cabeça baixa,
correndo a toda velocidade em direçã o à s arquibancadas, em direçã o à
linha de chegada. Ele parecia culpado.
— Banks!
Oscar estremeceu quando Pearl muxoxou, horrorizada com a
maneira como ele gritou por cima da multidã o.
O olhar horrorizado no rosto de Banks era a ú nica prova adicional
de que ele precisava de que algo estava errado. Oscar fez um
movimento com os dedos chamando por Banks, que pareceu ficar da
cor de um peixe morto, os olhos vidrados de terror. Ele se moveu,
porém, e Oscar esperou que ele aparecesse no balcã o. Ele ouviu o som
discreto de um tambor percorrendo Rowley Mile e voltou a olhar
através de seu telescó pio, encarando com crescente descrença o jó quei
de Virago.
Quem quer que fosse, nã o era Willy. Por Deus, ele teria a cabeça de
alguém por isso.
— Vossa Graça?
Oscar se virou, com um olhar de pâ nico enquanto agarrava Banks
pelo braço.
— O que diabos está acontecendo? Onde está Willy?
— D-doente, Vossa Graça. O médico está com ele agora; acredita
que seja apendicite.
— Maldito inferno! — exclamou Oscar. — Ele vai ficar bem?
— Dotô acha que sim.
— Que bom — respondeu Oscar, embora seu tom fosse sombrio. —
Agora, diga-me... quem diabos está montando Virago?
O jovem empalideceu ainda mais, parecendo que poderia vomitar.
Ele tentou puxar Oscar para o lado, baixando a voz.
— Eu... eu nã o tive como impedi-la, Vossa Graça — disse ele, sua voz
apenas um sussurro. — Eu tentei, juro que tentei, mas ela estava
determinada...
— Ela?
Oscar se virou e viu o bandeirinha levantar a bandeira vermelha e
preta à distâ ncia enquanto uma emoçã o de terror percorria sua
espinha. Havia apenas uma mulher em todo o maldito mundo, louca o
suficiente para fazer uma proeza como essa.
— Oh, meu Deus.
Impotente, ele ergueu o telescó pio, observando com o coraçã o na
boca enquanto a bandeira caía. Virago avançou, começando de forma
fantá stica enquanto a multidã o rugia.
O som tomou conta dele como uma onda. Oscar nã o podia fazer
nada além de assistir, congelado, mudo, a mesma sú plica circulando em
sua cabeça repetidamente.
Que ela fique bem, que ela fique bem...
Que ela fique bem, porque juro por Deus, vou matá-la.
Ele observou, vagamente ciente de Pearl lançando olhares de
profunda desaprovaçã o a Banks, mas ele nã o deu a mínima. Ela ainda
nã o era uma maldita duquesa.
Os dois homens observaram em silêncio tenso até que os cavaleiros
desapareceram de vista conforme o terreno declinava. Oscar nã o
conseguia respirar. Nada existia fora deste momento e da atmosfera
ansiosa, todos se esforçando para o primeiro vislumbre dos que
lideravam. Seu peito parecia distendido como uma membrana de
tambor, seu coraçã o batendo forte enquanto o estrondo baixo dos
cascos dos cavalos reverberava no ar.
A Srta. Skirmish apareceu primeiro, a castanha estava três corpos à
frente do grupo, com o restante dos competidores surgindo logo atrá s
da elevaçã o.
— Oh, graças a Deus — disse Oscar, soltando um suspiro, ao ver
Virago e a pequena figura de Ella nas fardas verdes de Willy. Ele quase
deu um pulo de susto quando Banks agarrou seu braço, os dois
encarando, desejando que ela continuasse.
— Vamos, garota — sussurrou ele, sentindo-se enjoado, quente, frio
e exultante tudo de uma só vez. Naquela altura, ele nã o dava a mínima
para vencer a corrida, apenas que Ella saísse ilesa. — Vamos, vamos —
rosnou ele, mal conseguindo se conter.
Virago estava a seis cavalos de distâ ncia da castanha enquanto
disparavam pela Rowley Mile, passando pela metade do caminho. Oscar
observou, aterrorizado e admirado, enquanto Ella lutava para contê-la,
empurrando-a para o lado de fora da cavalaria.
— Vamos, moça — disse Banks ao lado dele, a voz instável de
ansiedade. — Vamos, aguente um pouco mais, vamos...
— Rothborn, sério... — disse Pearl, a voz baixa e enojada. Ela
colocou a mã o na nele. — Livre-se dele...
— Cale a boca, Pearl! — disparou Oscar, libertando seu braço
enquanto agarrava o corrimã o diante dele.
Sua noiva disse algo mais, mas a voz dela nã o era nada além de um
zumbido fraco nos ouvidos dele. Tudo em que ele conseguia se
concentrar era em Ella enquanto ela dava rédeas soltas a Virago e
avançava para fora da cavalaria. De repente, elas estavam voando,
Virago ciente do cheiro da vitó ria agora que ela estava livre para correr
como o vento.
Oscar sentiu o ritmo dos cascos enquanto seu coraçã o acelerava no
mesmo compasso, e Ella e Virago disparavam pelo campo como se os
cã es do inferno estivessem em seu encalço.
Ela passou pelos outros corredores, Godolphin e Skim,
permanecendo ao lado de Cannon Ball, o baio do jó quei lançando-lhe
um olhar de soslaio quando Virago entrou em seu campo visual.
A mã o de Banks ainda segurava seu braço esquerdo, os dedos
agarrando-o através do casaco de lã elegante de Oscar com tanta força
que ele provavelmente deixaria hematomas, mas Oscar nã o podia
culpá -lo. Seus pró prios nó s dos dedos estavam brancos contra o
corrimã o da varanda, seu coraçã o batia tã o rá pido agora que o peito
doía.
— Espere só mais um pouco — suplicou ele, as palavras
sussurradas. — Espere só mais um pouco.
Ella nã o parecia contente em apenas esperar, no entanto. Ela estava
curvada rente ao pescoço de Virago, incitando-a com mais força, a
castanha de Ranleigh era o prêmio no horizonte enquanto beleza negra
dava tudo de si.
— Veja! — gritou Banks, quase quicando ali mesmo quando Virago
apareceu ao lado da Srta. Skirmish.
Todos os corredores estavam ganhando velocidade enquanto
disparavam morro abaixo, e Oscar nã o conseguia tirar os olhos da
figura esbelta de farda verde quando Banks começou a pular para cima
e para baixo e gritar, quase histérico agora.
— Vamos, moça, vamos! — berrou Banks.
Oscar nã o sabia se o seu coraçã o suportaria a tensã o. Ele mal
ousava olhar, mas também nã o conseguia desviar. No entanto, o
entusiasmo de Banks era contagiante, e ele começou a gritar e berrar
enquanto a multidã o ao seu redor bradava de animaçã o.
Havia grandes somas de dinheiro apostadas no resultado dessa
corrida; mais de cento e oitenta mil guinéus no total, conforme a
histó ria da aposta entre os dois duques havia circulado. A tensã o nas
arquibancadas era palpável enquanto os dois ú nicos cavalos que
importavam se dirigiam para a linha de chegada, e o barulho da
espectadores tornava-se ensurdecedor.
Oscar nã o se importava com o que Pearl ou qualquer outra pessoa
que assistia pensava de seu comportamento. Foi-se a figura indiferente
e fria de um homem que nã o se importava se ganhava ou perdia,
substituído por um maníaco frenético, gritando a plenos pulmõ es.
— Vamos, El... Virago... Vamos, Virago... Vamos, garota! Você está
quase lá ...
Os dois homens berraram até ficarem roucos enquanto observavam
Virago emparelhada com a castanha, as duas elegantes criaturas lado a
lado. Como se fosse um sonho, Oscar observou Ella virar a cabeça e viu
a Srta. Skirmish ao seu lado. Havia uma determinaçã o feroz em sua
expressã o enquanto ela gritava algo – ele nã o tinha ideia do que –, mas
as orelhas de Virago se abaixaram. De repente, a égua disparou,
encontrando uma ú ltima explosã o de energia enquanto avançava,
passando pela castanha de Ranleigh quando a linha de chegada entrou
em seu campo visual.
Ella era apenas uma figura minú scula incitando a besta negra a
avançar, suas mã os agarravam a crina de Virago agora, seu corpo
flexível movendo-se como um em consonâ ncia com a enorme égua ao
disparar pela linha de chegada.
Banks e Oscar se entreolharam, mudos por uma fraçã o de segundo
antes que os dois homens berrassem, agarrando-se aos braços um do
outro, gritando e bradando com alegria incompreensível e o peso
esmagador do alívio.
Ela tinha conseguido.
Ela tinha conseguido, poxa!
De repente, Oscar ficou em silêncio enquanto a cor fugia de seu
rosto. Meu Deus. Ella precisaria ser pesada novamente. Ela precisaria
voltar para os está bulos sem ninguém saber que tinha sido ela quem
correu. Se fosse descoberta...
A magnitude do escâ ndalo que provocaria fez o estô mago de Oscar
despencar até as botas. Nã o só a corrida seria anulada, gerando a ira de
milhares de apostadores diante de tal artifício, como Ella seria
lembrada como a mulher mais infame da histó ria.
Ela seria arruinada.
— Ella — sussurrou Oscar.
Os olhos do cavalariço se arregalaram de compreensã o e ele
assentiu. Oscar agarrou o seu braço, puxando-o em seu encalço. Nã o
havia tempo a perder.
Eles correram em meio à multidã o, empurrando os admiradores
que avançavam para parabenizar Oscar, enquanto se apressavam ao
local onde os cavalos retornavam à linha de chegada para que os
jó queis fossem pesados novamente.
Ella estava bem atrá s. Ela permitiu que Virago corresse muito além
da linha de chegada e agora estava se demorando enquanto a levava de
volta em direçã o à multidã o ao redor do poste de sinalizaçã o e das
balanças.
Oscar correu a mil por hora em direçã o a ela. Mesmo à distâ ncia, ele
podia ver a palidez do rosto dela, embora houvesse um rubor
surpreendente nas bochechas. Banks agarrou as rédeas de Virago para
contê-la enquanto a égua balançava a cabeça, exultante e satisfeita
consigo mesma, ainda cheia de emoçã o. Oscar avançou enquanto Ella
deslizava de lado na sela, com exaustã o nos olhos enquanto ele a
empurrava de volta para cima.
— Espere — disse ele, sua voz sombria. Qualquer emoçã o de
triunfo que ele pudesse ter sentido há muito suprimida quando ele
percebeu o que estava em jogo. — Espere um pouco. Vamos levá -la de
volta aos está bulos o mais rá pido possível. Abaixe esse maldito boné.
Ella assentiu, puxando a aba para baixo sobre o rosto salpicado de
lama. Oscar se recusou a sentir remorso ao perceber o quanto as mã os
dela tremiam. Meu Deus, a garota devia estar aterrorizada. A coragem
que deve ter sido necessá ria para ter feito isso... mas tudo o que ele
conseguia pensar naquele momento era no horror que ela enfrentaria
se fossem descobertos. Ele tinha que manter a calma, manter o controle
dessa situaçã o ultrajante.
Banks olhou para ele enquanto se aproximavam de onde os jó queis
estavam desmontando.
— Desça — disse ele, aproximando-se enquanto Ella deslizava para
o chã o. Os joelhos dela se dobraram, e ele agarrou os cotovelos dela,
mantendo-a ereta.
— Olhe para mim — ordenou ele, sua voz severa.
Ela o fez, aqueles olhos cinzentos e arregalados cheios de terror
enquanto olhava para ele. — Vamos sobreviver a isso, mas você precisa
ser forte por mais um tempo. Está me ouvindo?
Ella assentiu, fazendo um pequeno movimento de concordâ ncia.
— O que você acabou de fazer... — Sua voz soou rouca, e sua
garganta se apertou antes que ele conseguisse concluir.
As palavras o abandonaram, de qualquer forma. Em sua cabeça, ele
estava gritando: foi ultrajante, terrível, pavoroso, incrível... a coisa mais
espetacular que ele já tinha visto. Ele nã o conseguia dizer nenhuma
dessas palavras, no entanto.
— Bem, se você conseguiu fazer isso, conseguirá sobreviver aos
pró ximos dez minutos — disse ele, sucintamente. — Você vai
sobreviver a isso! Agora, mantenha a boca fechada e fique ao meu lado
como uma sombra.
Ela assentiu novamente, e Oscar a guiou de volta para ser pesada.
Capítulo 5
“No qual os sonhos de Ella se tornam realidade, de maneira apavorante.”

Ella sentou-se na balança, tremendo. Ela estava muito atordoada


para fazer qualquer coisa, exceto o que Oscar lhe dissesse. O medo de
encarar as consequências de seus atos a deixava paralisada. Ela nã o
conseguia pensar, nã o conseguia falar. Se ela tentasse abrir a boca, os
dentes bateriam, entã o, mantinha a boca fechada. Ela segurou com
firmeza a sela de Virago contra o peito como se fosse sua tá bua de
salvaçã o. Em algum recanto sombrio de sua mente, ouviu alguém se
dirigir a ela, mas nã o conseguia dizer quem ou por quê.
Antes que ela pudesse descobrir, Oscar estava lá , com a mã o no
braço dela, arrastando-a para fora da balança, com a mã o em suas
costas para guiá -la em meio à aglomeraçã o de pessoas. Tudo o que ela
podia ver eram botas enquanto mantinha a cabeça baixa, concentrando-
se em colocar um pé na frente do outro enquanto Oscar a forçava a
atravessar a multidã o.
De repente, havia paralelepípedos sob seus pés e ela ergueu os
olhos de debaixo do boné, reconhecendo os Está bulos do Rei. Se ela
pudesse apenas se trocar sem ser vista, estariam a salvo.
Ela tinha conseguido.
O está bulo estava escuro e tã o silencioso que aquela paz parecia
ressoar em seus ouvidos mais alto do que os gritos da multidã o quando
ela cruzou a linha de chegada.
Ela tinha conseguido.
Nã o conseguia assimilar isso.
Oscar estava falando com ela, mas ela nã o conseguia entender as
palavras. Com um esforço monumental, ela tentou se concentrar
enquanto ele a sacudia pelos ombros.
— Droga, as suas roupas. Onde estã o?
Ella gesticulou para onde as havia escondido – uma vida inteira
atrá s – e Oscar avançou, apenas para congelar no lugar. Ela seguiu o
olhar dele para o chã o na direçã o da pequena pilha de cachos escuros. A
mandíbula dele se contraiu e ele se virou para ela, arrancando o boné
da cabeça dela enquanto ele olhava para as madeixas que haviam sido
cortadas.
— Meu Deus, Ella...
Ele reprimiu tudo o que poderia ter dito a seguir, mas seu olhar
furioso nã o era encorajador. Ele chutou os cachinhos, lançando-os na
palha e agitando a poeira até desaparecerem; depois, agarrou as roupas
dela.
— Vamos — disparou ele, gesticulando para que ela se movesse.
Só que ela nã o conseguia. Seu corpo tremia, um tremor
incontrolável que nã o conseguia parar, e ela mal entendia como ainda
se mantinha de pé. Assim que esse pensamento a atingiu, seus joelhos
pareceram concordar que aquilo era um milagre, e suas pernas
cederam.
— Maldiçã o! — exclamou Oscar, empilhando as roupas dela ao lado.
— A qualquer momento, Deus e o mundo vã o estar aqui. Você tem
que se vestir e sair daqui.
Ela assentiu, os dedos tentando alcançar a farda para puxá -la sobre
a cabeça. O sú bito pensamento de que ela estava nua por baixo a fez
corar e hesitar.
— Você deveria ter pensado nisso antes — disse ele, com a voz
baixa e irritada. — Neste momento, nã o sei se te mato ou...
Ele levantou as mã os, e ela se sentiu magoada por nã o poder
descobrir qual era a outra opçã o.
— Por que fez isso, Ella? — perguntou ele, a voz baixa enquanto
puxava as botas dela.
Ella quase riu disso, mas teria sido um som amargo. Em vez disso,
ela apenas balançou a cabeça. Entã o quer dizer que ele nã o sabia. Nã o
fazia ideia.
Porque eu te amo, seu tolo cego. Porque eu faria qualquer coisa por
você, não importa o quão idiota ou escandaloso.
Ela quase sentiu raiva dele por aquilo, apesar de nã o ser sua culpa.
Ele nã o havia pedido o amor dela, assim como ela nã o escolheu amá -lo.
Estava fora de seu controle. Se ela pudesse fazer isso parar, faria em um
piscar de olhos, mas essa nã o era a decisã o dela. Seu coraçã o tolo nunca
a escutava, sempre metendo-a em confusã o antes que sua cabeça
tivesse chance de avisá -la para nã o continuar.
Oscar se moveu para ficar atrá s dela e, em um movimento rá pido,
puxou a farda sobre a cabeça dela. Ella deu um gritinho, cobrindo os
seios com os braços.
— Nã o estou olhando — murmurou ele, espalhando as roupas dela
enquanto procurava as roupas íntimas.
Sua camisola foi puxada sobre sua cabeça, prendendo seus braços,
enquanto ele se movia para seus pés, arrancando suas calças. Ela caiu
na palha antes que pudesse livrar os braços da camisola, enquanto ele a
manipulava como uma boneca de grandes dimensõ es, o tempo todo
xingando baixinho.
Ele nã o a olhou, nã o de verdade... apenas fez o que tinha que fazer.
Ella lembrou-se de um sonho bobo que tivera uma vez, dela e de
Oscar nos está bulos. Oscar confessava que tinha sido ela o tempo todo,
que ele a amava desde o início. Ele nã o podia se casar com Pearl; ele só
queria a ela. Ele a beijava, jogava-a na palha...
Um soluço ficou preso na garganta dela enquanto ele arremessava
as calças para o lado. Nã o havia nada de româ ntico nessa situaçã o. Se a
visã o dela quase nua nã o o havia afetado minimamente, entã o ele, sem
dú vida, nã o a via dessa forma. Ele nã o a via em absoluto. Nunca viu, e
nunca veria. Era assim que deveria ser.
Oscar estava se casando com a irmã dela, sua linda e glamourosa
irmã , e mesmo que ele a tivesse notado, mesmo que em alguma
estranha realidade alternativa ele a amasse, nã o havia nada que Ella
pudesse fazer a respeito.
Ela engoliu em seco, lutando para evitar que o soluço escapasse,
mas nã o conseguiu evitar que as lá grimas corressem livremente pelo
rosto. Ele nem sabia por que ela tinha feito o que tinha feito. Sem
dú vida, ele acreditava que era apenas a natureza travessa dela se
manifestando.
Ela havia ganhado o Craven Stakes.
Sua... pequena Ella Aldous.
Ela venceu, por ele, porque o amava... e ele nã o sabia que era a
razã o pela qual ela arriscou tudo. Ella tocou as mã os nas pontas
irregulares do cabelo; ela provavelmente parecia um espantalho agora.
Nã o que ela tivesse sido uma beleza antes, mas... ela cortou o cabelo –
por ele, arriscou seu pescoço estú pido – tudo por ele. Seu corpo tremeu
de exaustã o, choque e tristeza, e entã o ele olhou para cima.
— Ella!
A expressã o horrorizada em seus olhos só piorou as coisas e Ella
nã o conseguiu mais se conter. Ele anunciaria a data do casamento ainda
hoje, e isso seria o fim de tudo. Quaisquer devaneios bobos teriam que
morrer para sempre. Nã o importava; eles sempre foram ridículos.
Ela soluçou, sua angú stia ao saber que o havia perdido era
avassaladora.
— Ella, nã o — implorou ele, parecendo desolado, mas ela nã o
conseguia parar. Ela chorou copiosamente, emitindo grandes soluços de
partir o coraçã o que abalaram seu corpo.
Um momento depois, ela ofegou quando Oscar a puxou para um
abraço. Ela nã o era tola a ponto de acreditar que ele tinha intençõ es
româ nticas, mas o choque de estar em seu colo e ser abraçada com
nada além de sua camisola... suas lá grimas pararam abruptamente
quando a maravilha da situaçã o a dominou.
Ele fez círculos lentos nas costas dela, com uma mã o acariciando o
cabelo dela enquanto puxava a cabeça dela contra o seu ombro.
— Pequena Bug, sua tola — disse ele, seu tom suave. — Está tudo
bem. Tudo ficará bem.
Ela sorriu apesar da tristeza. Nã o ficaria tudo bem, nunca mais, mas
nã o era culpa dele.
O cheiro de sâ ndalo e linho recém-lavado emanava de seu corpo, e
ela aproveitou aquele momento. Seu casaco elegante era macio sob sua
bochecha, seus braços ao redor dela fortes e confiantes. Ela podia ouvir
seu coraçã o batendo e sentir o calor de seu corpo através das camadas
de sua camisa e colete enquanto se agarrava a ele, confiando cada
detalhe à memó ria.
Ela olhou para cima, querendo ver seu rosto, apenas por um
momento, e viu-se capturada pela expressã o em seus olhos. Talvez ele
também tivesse acabado de perceber que ela estava tã o perto dele, em
seu colo, em seus braços... praticamente nua. Por um momento, a tensã o
se estendeu entre eles, com um arrepio de expectativa correndo pela
espinha... e entã o ele olhou para longe, e se afastou.
— Vamos, Ella, nó s realmente devemos...
Ela franziu a testa quando ele parou de falar subitamente e sentiu,
com surpresa, a sú bita rigidez do choque sacudir seu corpo. Ele
estendeu a mã o para pegar seu vestido, arremessando-o na direçã o
dela enquanto Ella olhava para cima, assustada ao vê-lo olhando
aterrorizado para o outro lado do está bulo. Sua cabeça se virou e ela
deu um gritinho de consternaçã o ao descobrir que eles nã o estavam
sozinhos.
***
Era um pesadelo.
O desejo de acreditar naquilo era avassalador, mas Oscar nã o podia
fechar os olhos e esperar que desaparecesse.
Ele estava na palha do Está bulo do Rei, com a irmã da noiva nos
braços. Ah, e ela estava praticamente nua. Suas roupas estavam
espalhadas pelo está bulo como se as tivessem descartado em um
acesso de paixã o, e Ella estava agarrada a ele, corada e respirando com
dificuldade...
As palavras “eu posso explicar” estavam na ponta da sua língua, mas
morreram. O que ele poderia dizer? Que ele nã o tinha acabado de se
deitar com sua cunhada, empolgado com euforia de sua vitó ria? Ah,
nã o... Isso porque ela era na verdade a jó quei que havia levado Virago à
vitó ria, e ele estava apenas tentando encobrir esse fato antes que
alguém descobrisse e houvesse uma maldita investigaçã o.
Sim, essa explicaçã o era muito mais convincente.
Oscar engoliu em seco. Ele podia sentir o rubor subindo pelo
pescoço, um vermelho opaco e quente que fazia sua pele formigar.
O Duque de Ranleigh, o Conde de Falmouth e o Conde de
Eghampton – o maldito pai de Ella – ficaram ali encarando-o, com os
olhos arregalados de choque e incredulidade. Nã o, esqueça isso,
Ranleigh parecia mais divertido do que chocado, mas o pai de Ella
parecia completamente incrédulo. Ele continuou abrindo e fechando a
boca, o que poderia ter sido divertido em outras circunstâ ncias.
— Ora, ora, Rothborn — disse Ranleigh, com um leve levantamento
de uma sobrancelha. — Eu vim para parabenizá -lo, mas vejo que
estamos sobrando um pouco aqui. Acredito que pode confiar na nossa
discriçã o. Falmouth — disse ele, virando-se para seus acompanhantes.
— Talvez devêssemos deixar Rothborn e Lady Ella... bem... discutirem
as coisas com o pai dela?
Houve um murmú rio entusiasmado de assentimento do conde com
essa ideia e os dois acenaram de maneira cortês para Oscar; como se
estivessem conversando civilizadamente no Almack’s. Eles se viraram
para sair, mas, antes que pudessem, o pesadelo se transformou em uma
comédia de erros quando Pearl entrou no está bulo com sua melhor
amiga, a Srta. Langton.
— Oh, boa tarde, Vossa Graça — disse Pearl para Ranleigh, o sorriso
em seu adorável rosto minguando ao se dar conta do horror estampado
nos olhos de Ranleigh.
Em sua defesa, Ranleigh fez o possível para virá -la antes que ela
visse, mas o grito de horror enraivecido que ecoou pelos está bulos foi
ensurdecedor. Pior foi a alegria nos olhos da Srta. Langton enquanto ela
se afastava antes que alguém pudesse detê-la. Ela era uma
fofoqueirazinha maliciosa, e qualquer chance de encobrir a histó ria foi
por á gua abaixo.
Ella começou a chorar novamente, e Oscar podia sentir sua tristeza,
seu corpinho atormentado com soluços enquanto ela se agarrava ao
casaco dele.
— Vista-se.
George Aldous, o pai de Ella, parou de fazer cara de espanto e agora
parecia pronto para cometer um assassinato. Ele rosnou, as palavras
duras, cortantes e cheias de nojo enquanto olhava para a filha. Ranleigh
e Falmouth estavam se encarregando de Pearl – como, Oscar nã o sabia
– mas a levaram embora. Um pequeno consolo.
Ella pareceu encolher-se nele sob o peso da repulsa na expressã o
do pai e Oscar apertou ainda mais o braço ao redor dela. Apesar de toda
essa situaçã o ridícula ser inteiramente culpa dela, ele nã o queria vê-la
infeliz. A resposta estava na cara dele e a ironia disso nã o passou
despercebida. Ele nã o veria Ella arruinada, por nada no mundo.
— Vou me casar com ela, é claro.
Seu futuro sogro bufou de desgosto.
— Pode apostar que sim — disse ele, as palavras um rosnado. —
Como, em nome de Deus, você pô de agir assim, sabendo que deixou
uma beldade como Pearl esperando por tantos anos? É por isso? —
exigiu saber ele, gesticulando para os dois, sua raiva aumentando a
cada instante.
— N-nã o... — gaguejou Oscar, indignado e esforçando-se para
lembrar que ele era uma porcaria de um duque e nã o um menino tolo
pego com as calças abaixadas nos está bulos. Ao diabo com as
aparências.
— Entã o, por quê? — gritou o pai, as palavras uma explosã o de
incompreensã o. — Por que, em nome de tudo o que é sagrado, você a
escolheria em vez de Pearl? Enlouqueceu?
Oscar sentiu o choque dessas palavras quando atingiram Ella e
sentiu uma sú bita onda de fú ria. Ele nã o queria se casar com Ella, pelo
contrá rio, mas também nã o queria se casar com Pearl. Pelo menos Ella
nã o era uma megera fria. Ela certamente nã o merecia ser tratada como
se nã o fosse nada à luz de sua irmã perfeita.
— Nã o é da porcaria da sua conta. — A voz de Oscar saiu dura e
igualmente zangada, e ele reprimiu a pontinha de culpa que lhe dizia
que era da conta do pai dela. Ele era um maldito duque e tinha a
obrigaçã o de se casar com uma integrante daquela família. Bem, por
Deus, ele faria isso, mas nã o a irmã que escolheram para ele.
— Vou visitá -lo esta noite à s seis horas para discutir os detalhes do
nosso casamento. Passar bem, senhor.
O conde parecia ter muito mais a dizer sobre o assunto, mas no
momento ele segurou a língua e saiu do está bulo.
Oscar engoliu em seco, entorpecido pelo choque. Comecemos pelo
mais importante.
Ele tirou os dedos de Ella de suas roupas e continuou despindo-a.
Ela encarou-o com os olhos arregalados.
— V-você nã o tem que fazer isso, Oscar. Nã o tem importâ ncia. Eu
vou partir. O escâ ndalo vai desaparecer. Eu nunca ia me casar, de
qualquer maneira. Ninguém me aceitaria, sabe disso... S-só se case com
Pearl.
— Nem pensar — disparou ele, furioso agora. — E fazer com que
todos acreditem que eu te arruinei e depois te descartei? O que diabos
você pensa que eu sou? Meu Deus, já é ruim o suficiente eles pensarem
que eu seduzi uma... uma criança! Você deixaria que eu te abandonasse
e, ainda por cima, me casasse com a sua irmã ? Meu Deus, eu nunca mais
seria capaz de manter a cabeça erguida. Nã o sei como vou fazer isso
agora!
Ele puxou o vestido dela sobre sua cabeça, silenciando mais
protestos antes que ela emergisse novamente, lutando para se libertar.
— Cale a boca! — avisou ele, sabendo que suas emoçõ es estavam
completamente fora de controle.
Ele faria ou diria algo imperdoável se ela o pressionasse agora. Isso
era tudo culpa dela. O que a havia possuído para fazer algo tã o... tã o
inaceitável? Mesmo para os padrõ es de Ella, isso estava fora de
qualquer coisa que uma pessoa racional contemplaria.
— Eu sinto m-muito, Oscar. Mas sabia o quã o importante era a
corrida e quando vi que W-Willy estava doente, eu... eu só queria que
você ganhasse.
Oscar bufou, balançando a cabeça.
— Era apenas uma maldita corrida, Ella, nã o uma questã o de vida
ou morte. Podia ter partido o seu pescoço estú pido, percebe isso?
Podíamos estar carregando seu cadáver para fora de Rowley Mile agora.
Acha que isso teria me agradado mais do que ser forçado a me casar
com você? Que maldita confusã o você arrumou.
Oscar fechou a boca, ciente de que estava sendo cruel agora e se
arrependendo.
Ele ousou olhar para ela, vendo os olhos cinzentos repleto de
tristeza, o rosto pá lido e lívido. Ela parecia ter cerca de doze anos, com
o vestido todo torto e os cachinhos desiguais do seu cabelo em
desalinho, mais parecendo um ouriço do que uma dama.
Oscar suspirou e esfregou a mã o cansada no rosto. Ele aproveitou o
momento para respirar fundo, acalmando-se antes de se atrever a falar
novamente.
— Está tudo bem, Bug — disse ele, nã o querendo que ela sofresse
mais. Ela era apenas uma garotinha tola e nã o fazia sentido ficar com
raiva dela. Nã o mudaria nada. — Tudo se ajeitará .
Ele estendeu a mã o e apertou a dela, brevemente.
— Agora, arrume-se e, pelo amor de Deus, coloque o seu bonnet.
Parece que alguém a atacou com tesouras de jardim.
Esforçando-se ao má ximo para oferecer um sorriso reconfortante,
ele se levantou e a deixou sozinha.
Capítulo 6
“No qual uma cerimônia sela os seus destinos.”

Ela ia se casar com Oscar.


Esse pensamento, essa ideia incrível e improvável, deveria deixá -la
radiante de felicidade. Ela deveria estar transbordando de alegria, com
o prazer borbulhando dentro de si como uma garrafa de champanhe
prestes a estourar.
Ella se encolheu ainda mais debaixo das cobertas de sua cama,
embora ainda fosse dia, e desejou que tudo nã o passasse de um terrível
pesadelo. Ela já estava totalmente infeliz sabendo que Oscar nunca
seria dela, mas isso era um milhã o de vezes pior. Agora, todos estavam
infelizes, nã o apenas ela, e era tudo culpa dela.
Tiveram que chamar um médico para sedar Pearl.
Quando Ella voltou para casa, a irmã foi à loucura. Ela havia gritado
e esbravejado, seu lindo rosto contorcido e desfigurado pela fú ria. Ella
era uma vagabunda, uma vadia maquinadora que sempre invejou Pearl.
Chocada demais para falar, Ella nã o tentou negar. Para quê? Ela
invejava a irmã . O fato de que ela nunca havia, em toda a sua vida,
planejado tomar Oscar de Pearl parecia irrelevante, e nã o era um ponto
que valesse a pena discutir.
— Lady Ella?
Ella espreitou sob os cobertores e viu sua criada, Nancy, segurando
uma xícara de chá .
— Vamos lá . Sente-se e beba isso. Vai fazer com que se sinta melhor.
Com um bufo, Ella lançou à jovem um olhar mordaz. Ela sabia muito
bem que seu comportamento vergonhoso, ou pelo menos a suposiçã o
disso, já teria circulado pelos criados.
— Bem, tudo bem, nã o muito melhor, talvez, mas um pouco —
admitiu a criada, com um sorriso.
Ella obedeceu e emergiu de debaixo das cobertas. Nancy era uma
garota meiga e sempre foi uma amiga para ela. Ela nã o deixaria Ella em
paz, entã o era melhor ela se sentar.
— Oh, minha nossa! — exclamou Nancy, a xícara de chá tilintando
no pires enquanto olhava para Ella horrorizada.
Com um susto, a mã o de Ella foi para o cabelo. Ela se retirou da
ceninha de Pearl sem tirar o bonnet e nã o viu ninguém desde entã o. Seu
pai também nã o havia mencionado o episó dio, talvez muito perturbado
para ter notado tal detalhe.
— O que diabos você fez? — exigiu saber a criada.
— E-eu o cortei — gaguejou Ella, perguntando-se como raios iria
explicar.
— Com o que, tesoura de jardinagem? — Nancy encarou-a, com os
olhos tã o redondos quanto o pires que segurava. — Por que você faria
uma coisa dessas?
A mente de Ella ficou em branco. Ela encarou Nancy. — P-puniçã o
— disse ela, pensando que todos deveriam acreditar nisso, pelo menos.
— Puniçã o pelo meu comportamento. Eu o cortei e queimei.
Ella esperava que Nancy nã o comentasse o fato de que se fosse esse
o caso, o cheiro de cabelo queimado ainda deveria estar empestando
todo o quarto. Felizmente, Nancy parecia chocada demais com sua
aparência para comentar.
Nancy estalou a língua e empurrou a xícara de chá na mã o para a
mã o de Ella. — Apenas beba isso, milady. Vou pegar uma tesoura e
tentar... tentar ajeitar esse cabelo.
***
— Quer saber? Combina com você.
Ella lançou a Nancy um olhar cético, mas a criada assentiu,
insistente.
— Combina, de verdade. Veja só .
Nancy estendeu o espelho de mã o que Ella evitava olhar, e Ella
ousou dar uma espiadela.
— Ah — disse ela, surpresa, levantando a mã o hesitante para tocar
o cabelo.
Sua cabeça parecia estranha, mais leve e bastante exposta, e ela
continuava querendo sacudir as pesadas madeixas, perplexa ao
encontrá -las desaparecidas.
Ela sempre achou que o cabelo era uma das suas melhores
características. Era grosso, brilhante e escuro com uma ondulaçã o
natural, mas ela percebeu que dominava seu rosto pequeno, assim
como suas malditas sobrancelhas. Agora que Nancy havia arrumado a
terrível bagunça que havia feito, cachos macios e curtos se agrupavam
em torno do rosto em formato de coraçã o. Nancy havia entrelaçado
uma fitinha azul e ficou... muito bonito. Embora isso nã o a fizesse
parecer mais velha, ela notou com desâ nimo.
Ningué m a tratava como uma jovem dama, embora ela tivesse
acabado de completar dezenove anos. Ela era baixa e fraca, e parecia
ter pouco mais de quinze anos, na melhor das hipó teses. Era irritante.
— Você parece uma fadinha — disse Nancy, dando uma risadinha.
— Quem me dera — disse Ella, suspirando, colocando o espelho na
penteadeira. — Assim, eu poderia me livrar desta situaçã o.
— Ora essa — repreendeu-a sua criada, lançando-lhe um olhar
severo. — Você será a Duquesa de Rothborn. Nã o há necessidade de
lamentar tanto assim, nã o é? O duque é um homem bonito e
obviamente gosta de você — acrescentou ela com um tom divertido,
embora azedo, à s palavras.
Ella sentiu os olhos se encheram de lá grimas. Como ela desejava
que isso fosse verdade. Oscar nã o olharia para ela dessa maneira,
mesmo que ela fosse a ú ltima mulher da face da Terra. Ele a
considerava uma garota tola; ele havia deixado isso bem claro. Se ela
tivesse pensado por um momento que ele sentia algum prazer em casar
com ela, ela se alegraria, apesar do escâ ndalo e da vergonha que isso
causaria a Pearl.
Era vergonhoso, sim, mas verdadeiro.
Podíamos estar carregando seu cadáver para fora de Rowley Mile
agora. Acha que isso teria me agradado mais do que ser forçado a me
casar com você? Que maldita confusão você arrumou.
A respiraçã o dela ficou presa na garganta.
Oscar podia nã o amar Pearl, mas Ella tinha certeza de que ele a
desejava. Que homem em sã consciência nã o faria isso? Ele teria
orgulho de levá -la a qualquer lugar, de ser visto com uma mulher tã o
bonita em seu braço.
O que ele sentiria quando levasse Ella? Nada mais que vergonha e
humilhaçã o por ter sido forçado a casar com ela em vez de sua adorável
irmã . Ela havia arruinado tudo, para Pearl e sua pró pria família, mas
especialmente para ele, e ele a odiaria por isso. Nã o que ele fosse
demonstrar; Oscar era bom demais para isso. De alguma forma, isso só
piorava as coisas. Ele faria o possível para protegê-la de qualquer
constrangimento, e seria gentil com ela.
Ela queria morrer.
Ella estremeceu quando uma batida soou na porta. Nancy correu
para ver quem estava lá e voltou, sorrindo.
— O Duque de Rothborn está à sua espera lá embaixo, milady.
Entã o, é melhor aceitar o pedido dele.
O estô mago de Ella deu um nó enquanto ela descia as escadas.
Oscar a esperava no escritó rio, sozinho, graças a Deus. Ela supô s
que o pai ainda estava muito furioso e enojado para sequer olhar para
ela. Naquela altura, ela considerava isso uma bênçã o.
Ele olhou para cima quando ela abriu a porta e, como previsto, deu-
lhe um sorriso gentil. Ela conteve um grito.
— Boa noite, Ella. Espero que esteja recuperada da sua aventura.
Ella deu uma risada sem graça. — Dela, certamente.
Ela permaneceu a uma certa distâ ncia dele, mais estranha na
presença dele do que nunca. Tudo sempre fora tã o natural entre eles,
possuíam uma amizade tã o fá cil. Agora nã o. Ele parecia tenso, apesar
do sorriso.
— Vamos nos casar depois de amanhã — disse ele,
pragmaticamente. — Estou providenciando uma licença especial. Será
uma cerimô nia tranquila.
Ella assentiu, sem saber mais o que fazer. Eles se casariam
imediatamente para conter o escâ ndalo. Que româ ntico!
— Nã o precisa parecer tã o devastada — disse ele, rindo um pouco,
embora as palavras soassem falsas ao ouvido dela, a simpatia nelas
forçada e artificial. — Nó s somos amigos, nã o?
Ela assentiu novamente, olhando para o tapete e sentindo um nó na
garganta.
— Claro — disse ela, sua voz pouco mais do que um sussurro. Eles
eram amigos. Nada mais.
— Muito bem, entã o — disse ele, como se isso resolvesse tudo. —
Nã o serei um marido rigoroso, pode ficar tranquila. Cada um de nó s
pode continuar vivendo como antes; nada precisa mudar. Você
simplesmente viverá em Chancery House em vez de aqui.
Ella ergueu o olhar ao ouvir aquilo, perguntando-se o que ele estava
insinuando. — Como assim? Nada vai mudar? Seremos... seremos
marido e mulher — disse ela, com as bochechas queimando ao notar a
maneira como os olhos dele se afastaram dos dela.
— Só no papel — disse ele, sua voz austera. — Eu...
Ela observou enquanto ele caminhava em direçã o à janela e depois
parava, passando a mã o pelos cabelos de nervoso.
— Santo Deus, Ella, você é como uma irmã zinha para mim. Só de
pensar em... em... — Ele acenou com a mã o para ela, parecendo
verdadeiramente enjoado. — Eu nã o conseguiria!
Muito bem. Lá estava. Sua humilhaçã o estava completa. Se antes ela
nã o havia entendido, agora ele deixava bem claro para ela. A
perspectiva de tocar nela nã o só nã o despertava seu interesse... como o
deixava enjoado. Por um momento, ela se lembrou daquele breve
encontro de olhares no está bulo, antes que ele desviasse o olhar.
Obviamente nã o tinha sido a revelaçã o que ela acreditava ser.
Ella estendeu a mã o, agarrando-se ao encosto de uma cadeira
enquanto sentia o sú bito desejo de se sentar e chorar. Ela nã o o fez,
agarrando-se aos resquícios restantes de sua dignidade com um esforço
monumental.
— Isso é ridículo, Oscar. Precisa de um herdeiro. Se nã o consegue
nem... Deve se casar com Pearl.
Ele fez um gesto impaciente com a mã o para ela.
— Eu já te disse, isso está fora de questã o — disse ele, a gentileza
em sua voz minguando e sendo substituída por algo muito mais duro.
— Sim, precisarei de um herdeiro, mas isso pode esperar alguns anos.
Talvez, a essa altura... Bem, vamos lidar com isso quando chegar a hora.
Como ela nã o chorou naquele momento, nã o sabia. Sim, talvez em
alguns anos ele pudesse se forçar a ir para a cama dela. Bem, ao menos
isso era algo pelo qual ansiar.
— Entendo — respondeu ela, um pouco espantada por sua voz soar
calma e moderada.
Ela olhou para cima quando ele atravessou o cô modo e pegou a
mã o dela.
— Nã o fique com esse semblante desolado, Bug — disse ele, e ela
nã o suportava ver a simpatia nos olhos dele. — Será bastante tranquilo,
nã o se preocupe. Ser amigos é mais do que muitas pessoas casadas
conseguem. Metade delas se odeia — acrescentou, rindo um pouco. —
Vamos ficar bem, você vai ver.
Ela assentiu, tentando acreditar nele. No entanto, estar casada com
o homem que ela amou a vida toda e, ainda assim, nã o estar mais perto
dele... parecia o pior tipo de tortura. Ela supô s que ele ainda teria uma
amante ou duas. Ela tinha ouvido falar de uma glamourosa cortesã que
ele mantinha em grande estilo na cidade. Sem dú vida, isso nã o mudaria.
Ela teria que fingir-se de cega. Ela nã o podia exigir fidelidade, dadas as
circunstâ ncias. Nã o. Só a amizade dele.
— Sim, claro. Ficaremos bem.
***
— Oscar!
A voz furiosa de Bertie soou da frente da casa. Oscar se virou e se
preparou para enfrentar o amigo, com o rosto pá lido de raiva, descer os
degraus da frente da casa. Ele nã o via Bertie desde antes da corrida, nã o
tinha tido um momento para se explicar, e a indignaçã o de seu amigo
era palpável.
Oscar afastou com um gesto o cavalariço que segurava sua égua. —
Irei para o está bulo quando estiver pronto.
O cavalariço assentiu e conduziu sua montaria enquanto Oscar se
preparava para confrontar o irmã o de Ella.
— É melhor você ter uma boa explicaçã o — disse Bertie, com as
mã os cerradas e o desejo de quebrar o nariz de Oscar evidente no olhar
comprimido sobre sua boca.
Oscar reprimiu o desejo de rir. Isso nã o ajudaria em nada.
— Ah, eu tenho, Bertie. Prometo a você isso.
Oscar levou o amigo para longe de casa, informando-o sobre os
acontecimentos do dia. Bertie ouviu em silêncio horrorizado.
— Por Deus — disse ele, sua voz sombria. — Ella venceu Craven
Stakes... montada em Virago?
Oscar bufou. Com os eventos extraordiná rios que se seguiram à sua
vitó ria, esse fato mais do que surpreendente quase foi ignorado por ele.
Ocorreu-lhe entã o que nã o era apenas a reputaçã o de Ella que estava
em jogo. Se alguém descobrisse que nã o foi um jó quei profissional que
ganhou a corrida por ele, também estaria no centro de um escâ ndalo de
um tipo diferente.
— Venceu.
Bertie sentou-se com um baque nos degraus que levavam a um
jardim de topiarias.
— Que garota extraordiná ria ela é — murmurou ele, soando um
pouco atordoado. Oscar nã o sabia dizer se ele admirava a irmã ou se
estava horrorizado com ela. Talvez as duas coisas.
Oscar sentou-se ao lado dele. Nossa, como ele estava cansado. Este
foi, sem dú vida, o dia mais longo de sua vida. O confronto com o pai de
Ella tinha sido extremamente humilhante, mas o que ele poderia dizer?
O homem acreditava que ele tivesse seduzido sua filha mais nova
enquanto era noivo da irmã dela. Ele dificilmente poderia culpar o
homem por pensar que ele era o pior tipo de libertino. Se ele dissesse a
verdade, atribuiria toda a culpa a Ella e... bem, Oscar era muito honrado
para permitir isso.
— Obrigado.
Oscar ergueu o olhar e viu Bertie observando-o com curiosidade.
Ele deu de ombros, aliviado por alguém no mundo saber a verdade,
pelo menos.
— Você se importa muito?
A pergunta rondava a cabeça de Oscar e ele nã o tinha uma resposta.
Ele nã o estava ansioso para se casar com Pearl, pelo contrá rio. Ah, levá -
la para a cama tinha sido uma ideia tentadora, ele admitia isso, mas
acabava aí.
Ele gostava de Ella, se importava muito com ela, e as palavras ditas
a ela tinham sido verdadeiras. Eles poderiam ser felizes juntos, como
amigos e companheiros. No entanto, ela ser sua esposa no verdadeiro
sentido da palavra...
O pâ nico percorreu a espinha dele.
Nã o que ela nã o fosse atraente. Ela era uma coisinha bonita. Bem,
exceto aquelas malditas sobrancelhas, mas... ela era uma garotinha aos
olhos dele. O tempo resolveria esse problema, ele supô s, mas era mais
do que isso. Ele sempre a tratou da mesma forma que a Bertie: como
uma irmã . Como ele poderia levá -la para a cama? A ideia o fazia se
sentir o monstro que o pai dela acreditava que ele fosse.
— Você nã o ama Pearl.
Oscar nã o se incomodou em discordar da declaraçã o de Bertie; o
homem o conhecia melhor do que ele mesmo.
— Nã o.
— E você gosta de Ella.
— Sim.
— Bem — disse Bertie, com um olhar esperançoso. — Nã o é um
desastre tã o grande. Você sabe que ela pensa que você é perfeito,
embora eu nã o saiba o motivo — acrescentou ele, com um sorriso.
Oscar forçou um sorriso nos lá bios, perguntando-se por que nã o
conseguia concordar que nã o era um desastre quando sabia que era a
verdade. — Nã o. Nã o é um desastre de forma alguma.
Eles permaneceram quietos por um tempo e Oscar observou a
expressã o fechada que tomava conta do rosto de Bertie.
— Oscar?
— Sim?
— Posso ficar com você por um tempo?
As sobrancelhas de Oscar se ergueram quando Bertie respondeu
com uma expressã o pesarosa.
— Viver sob o mesmo teto que Pearl será um verdadeiro inferno
daqui em diante, sem mencionar o meu pai.
Com um bufo, Oscar deu um tapinha nas costas de Bertie e assentiu.
Ele podia muito bem imaginar como Pearl se comportaria nos pró ximos
meses. Nã o era uma visã o agradável. Ela ansiava por ser uma duquesa.
— Minha casa está à sua disposiçã o, meu velho.
— Graças a Deus por isso.
***
Eles se casaram na capela da propriedade de Oscar.
Ella usava o seu melhor vestido feito de cetim verde pá lido, com
bordados em tom mais escuro no busto, acompanhado por um spencer
verde-escuro que harmonizava com a peça. Se a noiva parecia pá lida,
ninguém comentou sobre isso.
Ninguém disse muita coisa.
O pai de Ella mal conseguia olhar nos olhos de ambos e ela apreciou
a presença alegre de Bertie de todo o coraçã o. Ela nunca amou tanto o
irmã o.
Ele ficou zangado com ela no início, depois que Oscar o informou
sobre a verdade do que realmente havia acontecido. Bertie nunca
conseguia ficar com raiva de ninguém por muito tempo, no entanto. Ele
era indolente demais para sustentar tal emoçã o, e ela sabia que ele a
amava e apenas temia que ela se metesse em encrenca. Ela pensou que
talvez ele até a admirasse um pouco. Ele nã o disse muito, mas a
maneira como ele olhou para ela murmurando: “Minha irmãzinha
venceu Craven Stakes...” com um tom bastante admirado em sua voz a
fez acreditar que ele nã o estava tã o chocado quanto surpreso.
Se nã o fosse pelas consequências escandalosas, ela pensou que
talvez ele a teria parabenizado.
Ela nã o sabia dizer o que a mã e de Oscar pensava dela.
A viú va duquesa de Rothborn ainda era uma mulher extraordiná ria.
Seu cabelo era mais claro e dourado do que o de Oscar, mas
compartilhavam os mesmos olhos cor de mel. Era de conhecimento
geral que ela adorava seu ú nico filho. Os olhares curiosos que ela
continuava lançando para Ella eram inquietantes, e Ella desejava saber
o que a mulher estava pensando. Sem dú vida, ela ficou desapontada por
nã o ver Pearl ao lado do belo filho. Que casal perfeito eles teriam
formado.
Ella tentou engolir o nó de tristeza na garganta.
Pearl permaneceu confinada no quarto, mas Ella sabia que se
enfrentariam em algum momento. Ela nã o era tola a ponto de acreditar
que Pearl nã o tentaria se vingar.
Anime-se, Ella, ela se repreendeu, forçando-se a ficar mais ereta e
colar algo parecido com um sorriso no rosto. Ela estava se casando com
o homem que amava, o seu melhor amigo do mundo. Talvez ele nã o a
amasse, nunca pudesse amá -la, mas... mas pelo menos eles estariam
juntos. Oscar achava que eles poderiam ser felizes juntos, entã o...
A vontade de chorar era quase esmagadora, mas ela resistiu. Isso
era tudo culpa dela. Ela tinha provocado aquilo. Como de costume, sua
pró pria imprudência foi sua ruína. Ela havia agido sem pensar e esse
era o resultado. Com desespero, ela se lembrou de sua esperança: que
deixaria de amar Oscar assim que ele e Pearl se casassem. Ela planejava
partir por um tempo, viajar e ver o mundo um pouco e esquecê-lo.
Talvez até se apaixonar por outra pessoa.
Embora tivesse perdido essas esperanças e sonhos, nã o queria
dizer que nã o pudesse construir outros. Ela era a Duquesa de Rothborn
e poderia construir uma vida em que Oscar nã o precisasse ser o foco de
sua atençã o. Ela também seria a mã e dos filhos de Oscar um dia...
supondo que ele pudesse suportar levá -la para a cama.
Ella engoliu em seco, tentando acompanhar as palavras da
cerimô nia e repetindo as falas conforme as instruçõ es. De repente,
havia acabado e ela ergueu o rosto para fitar os olhos do marido. Ele
estava sorrindo para ela, com afeto e carinho em sua expressã o
enquanto se inclinava e beijava a bochecha dela.
Oh, meu Deus.
Capítulo 7
“No qual Ella descobre um aliado.”

— Bem, nã o faz sentido em apresentá -la o lugar. Desde que você


aprendeu a andar, já se movimenta por aqui como se estivesse em casa.
A voz de Oscar soou alegre e falsa quando ele entregou o chapéu e
as luvas ao mordomo.
— Bom dia, Vossa Graça — disse o Sr. Wilkes a ela, abrindo um
enorme sorriso. — Gostaria de dizer em nome de toda criadagem, que
estamos muito satisfeitos em recebê-la em Chancery.
Ella sentiu um pouco da tensã o se dissipar com a evidente simpatia
nos olhos de Wilkes enquanto ele a cumprimentava. Pelo menos, isso já
era alguma coisa.
Eles haviam dispensado um café da manhã tradicional de
casamento. Seu pai mal podia esperar para expulsá -la de casa e Pearl
preferia esfaqueá -la no olho com um garfo do que sentar-se à mesa com
ela. Bertie havia deixado claro sua intençã o de se mudar para Chancery
e foi duramente criticado por todos, exceto Oscar e Ella, que só
conseguiam sentir alívio. A presença de Bertie faria com que parecesse
mais normal, como nos velhos tempos, e Ella já conhecia todos os
criados daqui. Era como voltar para casa, nesse sentido.
— Obrigada, Wilkes. Eu... eu receio que todos vocês tenham que ser
pacientes comigo. Eu nunca esperei... — Ela estacou, e um rubor coloriu
as bochechas quando percebeu que nã o poderia terminar aquela frase.
— Iremos nos esforçar ao má ximo para que se sinta em casa. —
Wilkes manteve o olhar nela enquanto falava, as palavras firmes e
reconfortantes.
Todos sabiam por que Oscar se casou com ela... ou, pelo menos,
tinham ouvido falar do escâ ndalo que havia substituído o verdadeiro
escâ ndalo. No entanto, a despeito disso, eles a apoiariam e a receberiam
de braços abertos, mesmo que ela tivesse usurpado a posiçã o da irmã .
— Obrigada. — As palavras pareciam inadequadas, embora fossem
sinceras, mas Oscar a estava levando para dentro da casa, entã o ela deu
a Wilkes um ú ltimo sorriso e correu atrá s dele.
A mã e de Oscar os esperava na sala de estar junto com o Visconde
Featherstone. Featherstone era conhecido por todos como “Fluff” ou
“Fluffy” menos por causa de seu nome, talvez, e mais porque ele era
incapaz de demonstrar seriedade. Ele tinha sido o amigo do peito da
viú va por mais de uma década, e os dois eram inseparáveis. Ella sabia
muito bem que Oscar o considerava um tolo e tinha paciência com ele
apenas por causa da mã e. Ela, particularmente, gostava muito do velho
dâ ndi.
Aos cinquenta e dois anos, ele ainda era um homem atraente, com
cabelos grisalhos e um corpo bem cuidado, embora estivesse
começando a ganhar um pouco de peso na regiã o abdominal. Hoje, ele
estava vestido de maneira extravagante como sempre, com um colete
azul e amarelo pastel listrado e um casaco de lavanda-clara que
destacava o azul em seus olhos afiados. Preguiçoso e amável, ele era um
sujeito tranquilo, mas um que Ella suspeitava ser um pouco mais
brilhante do que Oscar lhe dava crédito.
— Visconde Featherstone — disse ela, estendendo a mã o para ele
enquanto ele dava um enorme sorriso para ela.
Ele balançou um dedo bem cuidado e adornado com joias para ela.
— Nada disso, nada disso, somos praticamente família — disse ele, com
um brilho bastante perverso nos olhos. — Você deve me chamar de
Fluff.
Ella reprimiu um sorriso, sabendo que ele disse isso para irritar
Oscar e fazê-la se sentir em casa.
— Fluff, entã o — disse ela, enquanto ele levava a mã o aos lá bios.
— Meus parabéns — acrescentou ele, com a voz baixa enquanto
piscava para ela. — Estou tã o feliz por você tê-lo fisgado.
Ella corou um pouco, assustada com o comentá rio, mas nã o teve
tempo de pensar nisso antes que a duquesa viú va, Clementine Paget,
chamasse sua atençã o.
— Venha se sentar ao meu lado, Ella — disse ela, dando tapinhas no
assento ao seu lado.
O brilho curioso ainda estava nos olhos dela e fez Ella se sentir
nervosa. Ela tinha certeza de que a viú va sabia muito bem que nã o a
haviam pegado em flagrante delito com o filho. A ideia de Oscar ser
tomado por uma onda de paixã o por ela... Bem, a mã e dele nã o era tola,
ela saberia que era uma mentira deslavada.
Ella fez o que a viú va lhe pediu, acomodando-se na beirada do sofá ,
pouco à vontade.
— Oh, relaxe, pobre menina. Eu nã o vou te devorar. Certamente que
sabe disso depois de todos estes anos.
Com um rubor que sentiu queimá -la das bochechas aos dedos dos
pés, Ella balançou a cabeça.
— Oh, para dizer a verdade, nã o, Vossa Graça. Eu... É simplesmente
tudo um pouco...
— Ella, em primeiro lugar, somos uma família agora — disse ela,
lançando ao amante um olhar semicerrado de diversã o. — Entã o, você
deve me chamar de Mintie.
— Nã o de mamã e? — perguntou Oscar, com um tom provocador na
voz.
— Nã o — respondeu Mintie, sucintamente. Ela bateu as mã os para
os dois homens com impaciência. — Agora, vocês dois saiam já daqui e
nos deixem em paz. Quero ter uma conversa com a minha nova nora.
— Venha, meu jovem — disse Fluff, gesticulando para que Oscar
mostrasse o caminho. — Nã o somos bem-vindos entre as damas, ao que
parece. Devo desafiá -lo para uma partida de bilhar?
— Se quiser mesmo — murmurou Oscar, lançando um olhar
ansioso para a mã e e depois para Ella.
Ele balançou levemente a cabeça quando Ella encontrou os olhos
dele, e ela piscou quando o olhar dele se tornou mais intenso. Com uma
compreensã o repentina, ela percebeu que ele a estava avisando. Ela nã o
devia contar a verdade à mã e dele.
Sem dú vida, ele temia que a mã e ficasse enojada com ela se
soubesse o que Ella realmente havia feito. Mintie nã o era puritana e
pensaria que uma menina que se deixasse levar por seu belo menino
era compreensível. Ella suspeitava que descobrir que sua nova nora
havia fingido ser um homem e ganhado Craven Stakes... bem, isso
poderia ser mais difícil para ela de aceitar.
Ella tentou nã o se inquietar ao sentir o olhar da bela duquesa viú va
sobre ela. Ela se virou e tentou sorrir, desejando ter metade do
equilíbrio e glamour da mulher ao seu lado. Ela era tudo o que uma
duquesa deveria ser. Na verdade, ela lembrava Ella de Pearl, só que com
muito mais simpatia e compaixã o.
Uma mulher amável e indulgente, ela sempre foi gentil com Ella.
Todos sabiam que Mintie era uma anfitriã maravilhosa. Uma figura
vibrante e muito querida entre a alta sociedade, sua natureza alegre e
disposiçã o para rir ainda mantinham uma legiã o de admiradores aos
seus pés, mesmo com seus quarenta e sete anos.
— Bem, Ella. Por essa... eu nã o esperava.
Ella engoliu em seco e rezou para nã o fazer um papel vergonhoso
chorando. Nã o havia tom cortante algum na voz da viú va, apenas
surpresa.
— Sim — respondeu ela, mantendo os olhos abaixados e sem ter
ideia do que mais poderia dizer.
Ela esperava que Mintie acreditasse que estava envergonhada de
suas açõ es. Era verdade, embora por razõ es diferentes.
Uma mã o quente envolveu a dela, e Ella sentiu a garganta apertar
quando Mintie puxou sua mã o para o pró prio colo.
— Nã o pareça tã o triste, menina. Nã o está feliz por ser a esposa de
Oscar? Pensei que fosse a realizaçã o do seu sonho.
Ella olhou, horrorizada, para a mulher quando as palavras suaves
acertaram em cheio. A mã e dele sabia o tempo todo. Meu Deus. Ela
pensou que tinha sido tã o cuidadosa em agir como se ele nã o fosse
nada mais do que um amigo querido, e o tempo todo...
Havia tanta compreensã o nos olhos de sua mã e – olhos tã o
parecidos com os de Oscar – que Ella perdeu a compostura e desatou a
chorar.
— Oh, calma, calma. Está tudo bem, minha querida, chore um
pouco.
Antes que Ella pudesse se recompor ou protestar, Mintie a envolveu
em seus braços perfumados, abraçando-a apertado.
Por um momento, ela se sentiu a criança que todos acreditavam que
ela fosse, e ela desejou ter sua pró pria mã e ali. Ela havia morrido
quando Ella tinha cinco anos, e Ella sempre acreditou que sua afinidade
com Oscar havia se originado desse fato, já que o pai dele também havia
morrido quando era jovem. Será que ela teria sido um fardo tã o terrível
para todos se sua mã e ainda estivesse viva? Se ela tivesse tido um
pouco mais de orientaçã o?
Mintie colocou um lindo lenço com bordas de renda em sua mã o e
Ella secou os olhos, fazendo o possível para se recompor.
— Oh, minha nossa. O que você deve pensar de mim? — disse ela,
ousando olhar para cima e nã o encontrando nada além de bondade e
simpatia no rosto adorável que a observava.
— Acho que algo aconteceu e meu filho fez algo honroso para a
ajudar a sair de uma encrenca.
Ella mordeu o lá bio e encarou o chã o, interessando-se
repentinamente pelo tapete Aubusson sob o bico do sapato.
— Ele nã o quer que me diga, nã o tenho a menor dú vida. — disse
Mintie, pensativa agora, com uma inteligência feroz brilhando naqueles
olhos cor de mel. — Hmm.
O silêncio reinou por um tempo e Ella sentiu que podia ouvir a
viú va pensando, tal era a concentraçã o no rosto da mulher quando se
atreveu a olhar de relance para ela.
— Seu pai me disse que encontrou vocês dois em meio a um abraço
apaixonado, com você vestindo somente sua camisola.
Ella sentiu o rubor brotar e se espalhar, o calor subindo pelo
pescoço e aquecendo as bochechas. Ela engoliu em seco, mas nã o disse
nada. Oscar a proibira de dizer qualquer coisa e ela nã o poderia
começar a vida de casados desobedecendo-o.
— Isso é verdade, Ella?
— Eu... eu... — gaguejou Ella, dividida. Ela nã o podia mentir para a
mulher que seria sua sogra, mas nã o podia dizer a verdade sem
enfurecer Oscar.
Para seu alívio, Mintie ergueu a mã o. — Nã o, tudo bem. Nã o devia
ter perguntado a você. Mas devo dizer-lhe que eu nã o acredito em uma
palavra sequer.
Ella reprimiu uma risada amarga. Claro que nã o. A mã e de Oscar
sabia que ele nã o tinha o menor interesse româ ntico por ela.
— O que significa... que ele estava te tirando de uma enrascada? —
De repente, um olhar mais duro tomou conta dos olhos da mulher, e
Ella prendeu a respiraçã o. — Havia outro homem? Aquele com quem
você realmente flertou?
— Nã o! — Ella se levantou, profundamente chocada quando a viú va
soltou um suspiro de alívio.
— Graças a Deus por isso. — Ela suspirou e pegou a mã o de Ella. —
Ah, sinto muito, minha querida. Perdoe-me, mas é confuso e eu tinha
que perguntar... Você entende?
Ella deu um aceno tenso e sentou-se novamente.
— Vou chegar à verdade — disse Mintie, com um tom de
advertência, embora ela desse a Ella um sorriso caloroso. — Mas nã o
vamos nos preocupar com isso agora. Por enquanto, permita-me dizer
que estou muito feliz de tê-la em Chancery.
— V-você está ?
Havia um tom cético na voz dela e Mintie deu uma risada alegre.
— Estou, Ella, tem minha palavra. É tã o difícil assim de acreditar?
Ella olhou para o sofá em que estavam sentadas e passou um dedo
por um padrã o de pá ssaros e flores na seda amarela. — Sim.
Ela ergueu os olhos, decidindo que poderia muito bem ser honesta
com a mulher. Oscar a havia proibido de revelar seu motivo para se
casar com ela, mas o restante... isso nã o era segredo.
— Nã o consigo deixar de pensar que você deve estar desapontada.
Pearl teria sido uma duquesa perfeita. Ela é tã o controlada e... e nã o diz
nada para fazer as pessoas corarem e nunca faria nada terrível, como
derrubar o jantar no colo do chanceler.
Mintie soltou uma gargalhada desta vez e os olhos de Ella se
arregalaram.
— Nã o, ela nunca faria isso, mas é uma pena — disse a mulher,
surpreendendo-a. — Acho que faria muito bem a ela se o fizesse. Nã o há
nada que possa nos fazer voltar à realidade mais rapidamente do que
fazer papel de tolo. Já fiz isso muitas vezes, garanto.
— Você? — Ella encarou-a, incrédula.
— Sim. Na verdade, vou te contar um segredo. — Ela baixou a voz,
inclinando-se para Ella com uma expressã o de travessura brilhando nos
olhos. — Uma vez, nã o muito tempo depois de me tornar a Duquesa de
Rothborn, estávamos em algum grande evento na cidade. Eu estava
absurdamente orgulhosa de mim mesma, sabe, repleta de vaidade por
ter me casado com um duque.
Ella lançou-lhe um olhar duvidoso e Mintie bufou.
— Nã o sou um exemplo, Ella. Peço que nã o me transforme em um.
Nã o lido bem com alturas e pedestais me causam ná usea. Bem, de
qualquer forma, eu estava fazendo minha grande entrada, com o nariz
no ar, quando tropecei nas saias e rolei escada abaixo. Desci
derrubando um conde e um visconde e fui salva de um desastre
absoluto por um criado rá pido que deixou a bandeja de bebidas que
carregava cair e me pegou em seus braços. Até hoje nã o tenho certeza
de qual de nó s ficou mais constrangido.
Mintie deu uma olhada na expressã o de horror fascinado de Ella e
caiu na gargalhada.
— Pronto, muito pior do que lançar uma batata no colo de algum
político enfadonho.
Apesar da ansiedade, Ella riu. Uma risada sincera que afastou
alguns dos medos e preocupaçõ es que a atormentavam e a privavam do
sono desde que essa ridícula situaçã o havia começado.
— Está falando sério? — exigiu saber ela, assim que recuperou o
fô lego.
— Juro por Deus — respondeu Mintie, com um suspiro
arrependido. — Pensei que nunca mais seria capaz de encarar a
sociedade, mas, é claro, acabei conseguindo. Descobri que a melhor
maneira de lidar com isso seria rindo e trazendo o assunto à tona antes
deles. Assim que perceberam que eu nã o ligava, desistiram de usar isso
contra mim. Logo, eles encontraram outra pessoa para caçoar.
Ella olhou para a nova sogra com crescente admiraçã o e Mintie
sorriu, segurando as suas mã os.
— Agora, sim. Seremos amigas, nã o seremos, Ella?
Nã o havia outra resposta possível, entã o Ella sorriu para ela e
assentiu. — Sim, tudo indica que sim.
Mintie assentiu, satisfeita, e baixou a voz. Quando ela falou
novamente, havia um tom bastante íntimo nas palavras.
— Bem, entã o, talvez me permita aconselhá -la um pouco nos
pró ximos meses?
— Ah, sim, por favor — pediu Ella, aliviada além da conta. —
Administrar uma grande casa como esta me causa um pavor terrível,
entã o, eu ficaria muito grata.
Mintie franziu a testa para ela e soltou um muxoxo impaciente,
balançando a cabeça. — Nã o, nã o, nã o. Nã o isso. Nã o foi isso que eu
quis dizer.
Ella piscou, perplexa. — Bem, entã o... o que...?
A viú va deu um suspiro exasperado. — Oh, nã o seja tonta, Ella. Quis
dizer conselhos sobre como fazer Oscar se apaixonar por você.
Ela encarou Ella por um momento, com um olhar crítico que fez Ella
corar.
— Primeiro — disse a viú va com um ar decisivo. —, temos que
ajeitar essas sobrancelhas.
***
Ella sentou-se para jantar com Oscar, ainda se recuperando da
conversa com a mã e dele. Já tinha sido extremamente surpreendente
que a mulher achasse que havia até a possibilidade de seu filho se
apaixonar por ela, mas o fato de que ela estava determinada a fazer isso
se concretizar... isso a tinha deixado atordoada. Além disso, Mintie nã o
parecia nem um pouco desapontada por ter Ella em vez de Pearl. Na
verdade, ela parecia satisfeita. Era tudo bastante confuso, mas de uma
maneira agradável. Talvez houvesse uma centelha de esperança no
horizonte? Nã o um farol brilhando na escuridã o, talvez, mas... uma
centelha.
Era mais do que ela acreditava que tinha quando estava no altar
mais cedo. Como alguém agarrando-se a um fio de esperança, ela
manteria aquela centelha viva o má ximo possível.
No momento, no entanto, o clima permanecia tenso enquanto Oscar
lutava para engajar em uma conversa cortês.
— Trouxe sua égua, e o resto dos seus pertences estará aqui pela
manhã , embora deva comprar o que precisar. Farei com que tenha uma
mesada adequada, mas se precisar de mais...
— Tenho certeza de que será mais do que generoso, Oscar — disse
Ella, interrompendo-o.
Mintie e seu devotado Fluff tinham ido para uma festa. Ella sabia
que era para dar privacidade aos recém-casados, mas, apesar do
incentivo de Mintie, ela preferia que eles tivessem ficado. Ela desejava
que o irmã o também estivesse ali, mas até mesmo Bertie havia se
recusado a ficar na casa na noite de nú pcias deles.
Se ele soubesse a verdade, talvez nã o tivesse se preocupado com
isso. Ele certamente nã o interromperia qualquer troca de carícias e
murmú rios româ nticos. Ele devia saber disso, mas ela imaginou que
Oscar nã o o havia informado sobre a natureza do casamento deles.
Um silêncio sepulcral invadiu a sala e pairou sobre eles enquanto os
criados iam e vinham, trazendo o pró ximo prato e recolhendo o ú ltimo.
Ella tinha pouco apetite e nã o podia fazer jus ao farto banquete.
— Sinto muito, Oscar — disse ela, depois que o silêncio se estendeu
tanto que ela nã o aguentava nem mais um momento. — Eu sei que isso
nã o muda nada, mas... eu sinto muito mesmo. Eu quero que você saiba
disso.
— Eu também sinto muito, Ella — disse ele, dando-lhe um sorriso
acolhedor que fez seu coraçã o revirar no peito. — Imagino que este nã o
era o casamento que você esperava.
Ella conteve a dor que se acumulava sob as costelas. Casar-se com
Oscar era o ú nico sonho que ela já teve, mas nã o assim.
— Oh, eu nunca tive a intençã o de me casar, você sabe disso —
disse ela, as palavras suaves enquanto pegava o vinho e dava um grande
gole.
— Nã o seja tola, Ella. Você teria se casado um dia, e lamento que a
chance de ter um... um romance tenha sido tirada de você.
Ah, não, Oscar, ela implorou em silêncio. Por favor, não piore ainda
mais as coisas.
— Eu... eu só quero que você saiba que se... se algum dia conhecer
alguém...
Ella olhou para ele, horrorizada, desejando que ele nã o dissesse tais
palavras, mas ele continuou, esmagando seu coraçã o até reduzir o que
restava a pó .
— Bem, desde que você seja discreta e... e cuidadosa, bem, eu nã o
ficaria no seu caminho.
Seus dedos envolveram a haste delgada do copo e ela teve que lutar
para nã o a segurar com tanta força que quebrasse. Ela manteve a
respiraçã o calma, concentrando-se na tarefa quando queria acertar
tudo sobre a mesa tã o decisivamente quanto as palavras dele haviam
esmagado suas frá geis esperanças.
— Entã o, você está dizendo que estou livre para... ter casos, se eu
quiser?
Oscar corou um pouco, mas assentiu. — Quero que seja feliz, Ella, o
mais feliz possível que essa situaçã o permita, pelo menos. Quero dizer...
você deve tomar cuidado, nã o vou criar o bastardo de outro homem,
mas... Sim, você tem minha permissã o para arranjar um amante, se você
quiser.
— Entendo.
Suas palavras eram cuidadosas, serenas, e Ella se sentia um pouco
como se estivesse andando em uma corda bamba. Se ela fizesse um
movimento brusco, se olhasse para ele ou dissesse a coisa errada, ela
cairia.
— Eu estou realmente muito cansada, Oscar, assim... se você me
desculpar.
Oscar levantou-se quando ela se levantou e ela se virou sem dizer
mais nada, determinada a nã o o deixar ver a angú stia em seus olhos. Ela
tinha acabado de sair da sala quando as lá grimas começaram a cair, e
ela correu.
Ela correu através do grande hall de entrada e subiu as escadas,
sem se importar se era um comportamento indigno de uma duquesa, e
bateu a porta do quarto atrá s dela.
Maldito homem. Maldito homem e sua porcaria de bondade e
compreensã o. De que adiantava a permissã o dele para que ela amasse
outro, quando ela era incapaz de fazer isso?
Capítulo 8
“No qual heróis ou vilões sobem ao palco?”

As semanas seguintes caíram na rotina, e logo ficou claro para Ella


que Oscar a evitava.
No que dizia respeito a Ella, parecia mais que ele havia se casado
com seu irmã o. Oscar passava mais tempo com ele do que com sua
esposa. Nada mudou, assim como Oscar tinha dito; pelo menos, nã o
para ele e Bertie.
Oscar e Bertie continuavam fazendo as mesmas coisas de sempre.
Eles caçavam, pescavam e aterrorizavam a vida selvagem local,
enquanto a deixavam para suportar as intermináveis visitas matinais de
vizinhos e amigos que se estendiam tarde adentro. Era cansativo,
especialmente porque todos queriam saber a verdade de seu
relacionamento com Oscar.
Felizmente, sua sogra, a qual Ella estava começando a acreditar vir
a ser sua fada madrinha, protegia-a do pior. Ela tinha uma incrível
habilidade de repreender perguntas impertinentes com pouco mais do
que um olhar de desdém entediado. Uma vez que esse olhar atingia o
objetivo, ela mudava o rumo da conversa para um assunto de sua
escolha, muitas vezes um concebido para deixar seu convidado
desconfortável. Era uma liçã o sobre como navegar nas á guas infestadas
de tubarõ es da alta sociedade que Ella estava ansiosa para aprender. Se
ela conseguiria um dia a dignidade necessá ria para que funcionasse
como Mintie, era outra histó ria.
Ao praticar o olhar intimidador da duquesa diante do espelho,
Nancy observou que ela parecia mais como uma gatinha descontente.
Era muito desanimador.
À noite, todos jantavam juntos, e Ella tinha que admitir que era uma
ocasiã o agradável. Oscar e Bertie eram ó timas companhias, assim como
Mintie, e a conversa era descontraída e divertida. À noite, quando o
Visconde Featherstone também estava presente, o grupo
frequentemente mergulhava em um bate-papo ruidoso, pois ele se
divertia em provocar os mais jovens com suas brincadeiras bem-
humoradas.
Oscar parecia estar satisfeito o suficiente com seu arranjo, e Ella se
desesperava com a perspectiva de que alguma coisa mudasse. Desde o
tête-à-tête inicial, Mintie se mantinha calada e nã o havia dado conselho
algum, dizendo apenas que eles inevitavelmente levariam algumas
semanas para se estabelecer.
Ella suspirou, com impaciência. Algo tinha que mudar. Quanto mais
tempo ela passava com Oscar, mais ela ansiava por tocá -lo. Se ela nã o
tomasse cuidado, poderia passar uma noite inteira olhando para ele
como um cachorrinho apaixonado, perdida em devaneios sobre como
sua vida poderia ser se ele a notasse.
Uma coisa positiva foi a apresentaçã o de Mintie a Madame Dubois,
sua modiste. Particularmente, Ella achava que Madame Dubois era tã o
francesa quanto ela, e falava ainda menos a língua. Ela ficou calada, no
entanto, já que sempre admirava o gosto impecável de sua sogra e nã o
iria ofender a costureira habilidosa que havia feito muitas das roupas
mais glamourosas de Mintie.
A madame tinha observado sua aparência enquanto Ella aguardava
de pé no plinto. A madame, entã o, deu uma voltinha lenta em torno
dela, franzindo o rosto.
Mintie a tinha advertido que ela poderia se sentir ofendida pela
mulher, que costumava ser sincera, mas que o resultado final valeria a
pena.
Enquanto a madame apertava e alfinetava, medindo e fazendo
comentá rios desdenhosos, sobre seu busto nada volumoso, em um
francês de sotaque duvidoso, Ella esperava que ela estivesse certa.
Ela descobriu que sua primeira oportunidade de exibir as peças de
vestuá rio da madame seria em um baile dado por seu pai e organizado
por Pearl, dentre todas as pessoas.
Ella tinha feito cara feia para o convite e exigido que Bertie
explicasse o que estava acontecendo.
— Bem, é em sua homenagem, sua boba — disse ele, inclinando-se
para o café da manhã abundante de contrafilé.
Ella fez uma careta na direçã o de seu prato e levou seu chocolate
quente aos lá bios.
— Sim, mas agora? — Ela abaixou a xícara, com uma sensaçã o
inquietante deslizando sob sua pele. — Nã o é um pouco tarde para
isso?
— Bem, ele dificilmente poderia ter feito isso antes, com Pearl
fazendo sua melhor imitaçã o de Lady Macbeth.
— Eu nã o entendo o que mudou — retrucou Ella, sua voz cortante.
Bertie bufou e deu-lhe um sorriso. — Pearl mudou. Ela parece ter
aceitado a situaçã o e, segundo papai, ela mergulhou de cabeça nos
preparativos. Ele acha que é uma boa oportunidade para a família
mostrar uma frente unida, acabar com as fofocas e ajudar a fazer o
escâ ndalo desaparecer.
Ella levantou sua xícara novamente e tomou outro gole enquanto
essa ideia rondava sua mente. Ela lançou um olhar de soslaio na direçã o
de seu irmã o. — E o que você acha?
Bertie deu de ombros, terminou de mastigar o pedaço de bife e
lançou-lhe um olhar direto. — Acho que é bom você tomar cuidado.
Ella estava pensando a mesma coisa e por isso nã o se surpreendeu.
Pearl nã o deixaria que ela roubasse seu marido e seu título sem que ela
pagasse por isso. Sem dú vida, ela faria tudo ao seu alcance para ofuscar
Ella e fazer com que todos dissessem que Oscar era um tolo por ter se
metido em uma enrascada dessas. Certamente, Pearl se esforçaria ao
má ximo para fazer o papel de amante rejeitada.
Se Ella tivesse acreditado por um momento sequer que o coraçã o
de Pearl havia sido de alguma forma partido pelo que aconteceu, ela
nunca teria conseguido se perdoar, mas era o dinheiro e o poder que
sua irmã estava lamentando. Ela nã o dava a mínima para Oscar. Ela só
se importava que Ella tivesse o que acreditava ser dela.
Ella suspirou. Se Pearl soubesse como ela estava sofrendo,
perceberia que ela já tinha se vingado perfeitamente. Pelo menos Pearl
estava livre agora. Com um rosto como o dela, ela nã o teria problemas
para arranjar outro casamento perfeito se fosse isso o que ela desejava.
Ela podia até se apaixonar.
— Acho que estou pegando um resfriado — disse Ella, limpando
sua garganta enquanto Bertie lhe lançava um olhar de pena.
— E eu nã o lhe culpo por isso, mas você nã o pode se livrar disso,
Ella. Se você nã o estiver lá , as coisas ficarã o piores para você e Pearl
será o centro das atençõ es, assim como ela deseja.
— Ela será isso de qualquer maneira — murmurou Ella.
— Meu Deus, Bertie, ainda está aí comendo?
Ambos olharam para cima ao verem Oscar entrar a passos largos.
Ele parecia gloriosamente belo, vestido com traje de montaria com os
calçõ es apertados. Um calor indesejado brotou sob a pele de Ella e ela
desejou que seu marido nã o fosse tã o atraente; era terrivelmente
injusto.
— Nã o, nã o, eu estou pronto — disse Bertie, afastando seu prato
para longe e jogando seu guardanapo no tampo da mesa.
— Ah, bom dia, Ella — disse Oscar, enquanto Bertie se levantava, só
entã o percebendo que ela estava lá .
Ella suspirou interiormente e sorriu para ele.
— Bom dia, Oscar.
Ele hesitou, parecendo que nã o podia esperar para sair.
— Bem, vejo você mais tarde, entã o — disse ele, acenando com a
mã o ao ir atrá s de seu irmã o para fora da sala o mais rá pido que podia.
— Sim, tenho certeza de que você vai — respondeu Ella, baixinho.
Bem, essas seriam suas interaçõ es com o marido naquele dia, entã o.
Ele estava sempre ali ao romper do dia e tomava café da manhã com ela
e Bertie. Eles nã o se veriam novamente até a hora jantar, nã o tinha a
menor dú vida. Ocasionalmente, quando seus caminhos se cruzavam, ele
tentava perguntar se ela havia dormido bem. Se ele estivesse se
sentindo muito loquaz, poderia perguntar quais seriam os planos dela.
Se ele tivesse perguntado a ela isso hoje, ela teria respondido que se
esforçaria para pensar em uma maneira de impedir que sua irmã a
aniquilasse diante da nata da sociedade.
Mas ele nã o tinha perguntado, e Ella ficou na sua.
***
— Ella, pare de se mexer. Você está perfeitamente adorável —
repreendeu-a a mã e de Oscar.
Ela já estava pronta há um tempo, assim, aguardava só a sogra dar
os retoques finais na pró pria aparência deslumbrante.
Ella suspirou e tentou manter-se quieta, colocando as mã os uma em
cima da outra. Ela estava bonita esta noite, sabia disso. O problema era
que, com Mintie ao seu lado, era difícil recordar disso. Ela observou
como a viú va observava seu reflexo no espelho e suspirava.
— Malditas rugas. Envelhecer é tã o cansativo, Ella.
Ella bufou. — Você está divina, Mintie, e sabe bem disso.
Mintie respondeu com um olhar malicioso por debaixo dos cílios
grossos. — Sim, mas leva muito mais tempo do que antigamente. — Ela
levantou-se com um farfalhar de saias de seda e lançou a Ella um olhar
crítico. — Eu vou dizer isso para a Madame Dubois, ela tem um olho
clínico para cores.
Ella nã o tinha como discordar. O vestido dela tinha um tom suave
de lilá s-acinzentado, uma cor que ela nunca teria escolhido, mas que
destacava o tom de seus olhos cinzentos, enquanto o corte mais austero
conferia uma sofisticaçã o de que Ella carecia profundamente. Pelo
menos, ela esperava aparentar todos os seus dezenove anos e nã o
parecer uma criança. Já era um início.
Mintie usava um verde-esmeralda claro extravagante, que em
qualquer outra mulher teria parecido chamativo. No entanto, fazia com
que ela se parecesse com a deusa da primavera. Ella reprimiu uma
pontada de ciú me e tentou nã o se perguntar o que Pearl estaria usando.
Ela nã o teve que esperar muito para descobrir.
Qualquer prazer que Ella pudesse ter encontrado ao entrar no salã o
de festas de sua casa de infâ ncia no braço de seu belo marido se
evaporou em poucos momentos. A alta sociedade lotava a sala, os
glamourosos e os ricos espremidos na multidã o, todos ansiosos para
vislumbrar a escandalosa nova Duquesa de Rothborn.
Pearl apressou-se até eles, seu lindo rosto envolto em sorrisos e
simpatia.
— Querida Ella e querido Oscar. Que bom ver vocês dois.
Ela beijou Ella, parecendo uma irmã dedicada ao mundo, enquanto
a mã o que agarrava o braço de Ella lhe dava uma beliscada cruel. Ella
levou um susto e recuou, instantaneamente percebendo que Pearl
retribuía com um olhar de má goa que parecia como se Ella tivesse
rejeitado sua saudaçã o calorosa.
Oscar olhou de uma para a outra, intrigado.
— Pearl — disse ele, seu tom cauteloso.
Pearl fingiu recompor-se e abriu um sorriso radiante para ele. Ela
se inclinou, nas pontas dos pés com uma mã o descansando levemente
em seu peito enquanto ela beijava sua bochecha. — Eu devo beijar meu
novo irmã o — disse ela, seu tom baixo enquanto olhava para ele
furtivamente.
Um burburinho percorreu o recinto.
Ella cerrou os dentes. Parece que elas haviam declarado guerra.
A noite só foi piorando.
Pearl flertou escandalosamente com Oscar que, para ser justo, nã o
retribuiu seu comportamento com nada mais do que comentá rios
educados, embora houvesse um olhar curioso em seus olhos. Sem
dú vida, ele ansiava se deitar com a criatura gloriosa, pois Pearl estava
deslumbrante. Mais do que o habitual.
Seu vestido era branco com uma sobressaia de seda que parecia
captar a luz e mudar de cor, conferindo-lhe um brilho perolado que
combinava tanto com seu cabelo dourado quanto com sua pele de
porcelana. Houve vá rios elogios encantadores sobre seu nome e sua
bela aparência, e Pearl os aceitava avidamente como um gato satisfeito
com uma tigela transbordando de leite.
Ella aguentou da melhor maneira possível, sorrindo até seu rosto
doer e evitando as perguntas curiosas daqueles que tentavam chegar à
verdade de suas repentinas nú pcias. Quando Pearl reivindicou a dança
que ela havia exigido de Oscar, no entanto, Ella chegou ao seu limite.
Ela assistiu por alguns minutos, ouvindo os sussurros ao seu redor,
comentando que belo casal eles formavam. Realmente eles formavam.
Nã o que fosse uma surpresa. Sempre foram considerados o casal
perfeito: encantadores e deslumbrantes, uma dupla perfeita. Doía, no
entanto, e a dor que atravessou seu coraçã o fez sua pele doer de desejo.
Ella fugiu dali. Ninguém notaria que ela fosse embora. Nã o com
Pearl e Oscar para assistir. Esse foi sempre o caso. A menos que ela
estivesse fazendo algo terrível e fazendo uma cena, ninguém a notaria.
A estufa sempre havia sido um dos seus cô modos favoritos da casa.
A noite estava mais fria lá , com uma leve umidade no ar devido à s
centenas de plantas amontoadas no espaço. Ela caminhou até as portas
e olhou para fora na direçã o dos jardins escuros, vendo apenas seu
pró prio reflexo encarando-a. Até que outra figura apareceu.
Ella se virou, assustada, e viu o Duque de Ranleigh observando-a.
— Oh, meu Deus — disse ela, rindo e colocando uma mã o em seu
coraçã o. — Você me assustou.
— Peço desculpas, Vossa Graça — disse ele, sua voz simpá tica. —
Eu notei que você deixou o salã o de baile e eu queria me certificar que
estava bem.
— Certamente — disse Ella, tentando lutar contra o vermelho que
estava tingindo suas bochechas. Ele sabia por que ela havia deixado o
salã o. — Eu... eu precisava de um pouco de ar.
— Eu nã o te culpo — disse ele, um sorriso pairando sobre a boca.
— Sua irmã é bastante desagradável, mas ela sempre foi.
Ella fitou-o boquiaberta, um pouco atordoada por um comentá rio
tã o perverso.
— D-desculpe, pode repetir? — gaguejou ela, perguntando-se se ela
talvez tivesse interpretado mal suas palavras.
A boca de Ranleigh curvou-se em um sorriso, seus olhos calorosos e
iluminados com diversã o.
— Você vai perdoar minha franqueza, mas seu marido teve sorte de
sair ileso. Talvez ele ainda nã o perceba isso, mas nã o é um tolo. Ele vai
chegar lá .
Ella engoliu em seco, encarando o homem com seu coraçã o em sua
garganta. Já era bem ruim o fato de que ela estava ali sozinha com ele.
Ela deveria ficar indignada ao ouvi-lo falar assim sobre sua irmã , mas
uma parte vergonhosa e maliciosa dela queria se agarrar à s suas
palavras.
— Por que você diria isso?
O duque deu de ombros, o movimento realçando seus ombros
poderosos. Ele era um homem grande, bonito, exalando poder, embora
sua expressã o fosse amável.
— Porque eu sou um homem experiente, e eu conheci muitas
mulheres como sua irmã . Ela colherá o que semeia, no fim das contas.
Nã o há necessidade de você se preocupar com ela. Oscar é um menino
tolo à s vezes, mas ele nã o é tã o tolo assim.
Ella corou mais profundamente agora, horrorizada que seu ciú me
fosse tã o ó bvio, mas nã o havia sentido em negá -lo. — Mas eles formam
um casal tã o bonito. Ela é deslumbrante. Como ele nã o poderia desejá -
la?
As palavras quase a sufocaram, especialmente admitidas a alguém
que era quase um estranho para ela. No entanto, ela sentiu o desejo
repentino de confiar nele. Ele parecia o tipo de homem a quem você
poderia confidenciar seus segredos mais sombrios também, e sabia que
ele os guardaria.
Ranleigh olhou para ela por um momento e, em seguida, entrou um
pouco mais no ambiente. — Talvez ele a deseje. Ela é superficialmente
adorável, admito, mas ele nã o a desonraria assim. Tenho certeza. Nã o
pode deixar que as maquinaçõ es de Lady Pearl a machuquem dessa
maneira.
— Nã o faz diferença — disse Ella, ouvindo a derrota em suas
palavras. — Estou feliz que nã o seja ela, mas haverá outras, há outras. O
duque só se casou comigo para salvar minha reputaçã o; ele nunca
quis... — Ela encolheu os ombros. Ele nunca a quis. Ela nã o precisava
dizer as palavras; elas eram ó bvias.
— Sabia que você sempre foi a minha debutante favorita?
Ella olhou para ele, procurando o escá rnio em sua expressã o, ou em
suas palavras, mas parecia que nã o havia nenhum.
— Entã o você tem um gosto bem peculiar — retrucou ela.
Ele levantou uma sobrancelha elegante. — Meu gosto é impecável e
nã o está em questã o.
A observaçã o foi um tanto intimidadora, e Ella se irritou.
— Bem, entã o você nã o deve dizer coisas tã o estranhas, ou as
pessoas podem duvidar disso.
Ele riu, em seguida, um som reconfortante que deslizou sob sua
pele.
— Você tem determinaçã o, duquesa, e uma mente vivaz. Eu
também acredito que você é leal à queles que ama, e totalmente
destemida.
Ela franziu a testa dele, sem saber o que dizer. — Do que você está
falando?
Ella observou enquanto ele passeava pela estufa, ou talvez rondava
fosse uma palavra melhor. Ele era á gil e muito gracioso para um homem
tã o grande. Ela sentiu um formigamento de algo que poderia ter sido
desconfortável, mas nã o se sentiu de forma alguma ameaçada por ele.
Talvez ela fosse uma tola por isso.
— Apó s o episó dio com Falmouth nos Está bulos Reais, fui
parabenizar o Sr. Camden pela corrida. Eu até considerei tentar atraí-lo
para longe de seu marido, para correr por mim... só que logo ficou claro
que Willy Camden nã o estava mais lá . Algumas investigaçõ es discretas
revelaram seu paradeiro e... seu estado de saú de.
Ella sentiu um arrepio de pâ nico percorrer a sua pele enquanto ele
continuava a falar.
— Entã o, naturalmente, eu fiquei curioso sobre quem tinha levado
Virago a vitó ria. Aquele episó dio com Oscar no está bulo me intrigou,
sabe? Embora eu me vanglorie de reconhecer seu valor, as preferências
de Oscar sempre foram bem mais ó bvias. Assim, retornei aos está bulos,
de onde todos já haviam saído, mas uma breve aná lise do está bulo me
trouxe algumas evidências interessantes.
Era uma sensaçã o estranha, mas Ella estava em chamas apenas
alguns momentos atrá s, o rubor queimando suas bochechas. Agora, ela
tremia, observando o Duque de Ranleigh enfiar a mã o em um bolso e
tirar uma mecha lustrosa e escura.
— Eu gostei de seu novo penteado, Vossa Graça. É encantador e
combina muito com você.
— O-o que você quer? — exigiu saber ela, irritada e fria de repente.
Ela se afastou dele enquanto seu estô mago se revirava de pâ nico.
Os olhos do duque se arregalaram e ele riu, balançando a cabeça.
— Nã o, nã o, sua garota tola. Nã o tenho nenhum desejo de a
destruir. Aqui, pegue. Um presente meu.
Ele entregou a mecha de cabelo para ela e Ella franziu a testa para
ele, intrigada. — Eu suponho que você tenha mais, no entanto,
guardado a sete chaves. Isso nã o significa nada.
Ranleigh soltou uma respiraçã o que soou apenas um pouco
indignada. — Meu Deus, você está determinada a me escalar como o
vilã o neste caso, e aqui eu estava tentando ao má ximo encenar o heró i.
— Por qual razã o? — exclamou ela, pegando a mecha do cabelo e
colocando-a sob o decote de seu vestido.
— Eu nã o faço a menor ideia — disse ele, com reprovaçã o em seus
olhos. — Parece um papel muito pouco gratificante.
— Oh, você é impossível. — Ella o fulminou com o olhar e ele deu
uma risada contida.
— Muito bem — disse ele, seus olhos escuros brilhando de
diversã o. — Deixe-me começar de novo. Quando eu era um jovem muito
tolo, mais jovem do que Oscar, meti-me em uma enrascada. O falecido
Duque de Rothborn, pai de Oscar, tirou-me dessa situaçã o. Ele se tornou
um amigo querido e alguém que eu admirava profundamente. Tentei
ser amigo de seu filho, mas estraguei tudo e, agora, o garoto me
despreza.
Ella levantou as sobrancelhas, surpresa. — Eu sempre me perguntei
por que ele odiava você.
Ranleigh encolheu os ombros, com uma expressã o pesarosa
tocando seus lá bios. — Porque eu nã o tenho a delicadeza que o pai dele
possuía. Certa vez, tentei dar-lhe alguns conselhos, bons conselhos, mas
acabei por fazê-lo sentir-se tolo. Nã o era minha intençã o, mas aí está . O
orgulho de um jovem é uma coisa frá gil e me orgulho de que Oscar
realmente me admirava na época. Contudo, tal idolatria pode se
transformar em ressentimento quando o orgulho de uma pessoa é
ferido.
— Por Deus — respondeu Ella, encarando o duque com novos
olhos. Ela acreditava nele, havia muita franqueza em suas palavras para
duvidar dele. — Bem, esta noite está cheia de surpresas.
— Isso significa que você vai considerar me escalar como o heró i
afinal? — perguntou Ranleigh, moderadamente.
Ella nã o conseguiu evitar o sorriso que se formou em seus lá bios.
Ele realmente era ridículo, mas muito charmoso.
— Eu acho que é uma possibilidade real — respondeu ela, seu tom
grave. — Embora eu nã o tenha certeza de como você pretende ser
heroico sem me arruinar dizendo a todos a verdade.
— Você tem a minha palavra de honra que eu vou levar essa
histó ria para o meu tú mulo — disse ele, com a maior seriedade
possível. — No entanto, eu nã o poderia deixar passar a oportunidade
de lhe dizer que é uma pessoa extraordiná ria, Ella. Acho o fato de que
você ter feito tal coisa para Oscar de tirar o fô lego. — As palavras foram
ditas em um tom baixo e a fizeram estremecer enquanto ele se
aproximava e pegava sua mã o, levando-a aos lá bios. — Você tem minha
mais profunda admiraçã o.
Ella corou novamente, embora por diferentes razõ es desta vez. A
expressã o nos olhos de Ranleigh exalava franqueza e admiraçã o.
Nenhum homem jamais a tinha enxergado de tal forma.
— Ranleigh, que diabos você está tramando?
Ella se sobressaltou ao ouvir a voz furiosa do marido ecoar pela
estufa.
Os olhos de Ranleigh encontraram os dela e ele deu uma piscadela,
acenando levemente. — Nã o diga nada a ele — sussurrou ele. Ele virou-
se para enfrentar Oscar.
— Ah, Rothborn, aí está você. Eu estava apenas me perguntando
por que você tinha deixado esta criatura adorável sozinha. Devia tomar
mais cuidado. Pode ser que alguém se dê conta do tesouro que você
conquistou... antes de você.
Oscar desceu os degraus em direçã o à estufa, esplêndido em seu
traje de gala, fazendo Ella sentir uma onda de orgulho e desejo. Ele
parecia furioso, quase possessivo, e por um momento suas esperanças
aumentaram.
Ele se aproximou, seus olhos nunca deixando Ranleigh. — Fique
longe da minha esposa. Você perdeu sua aposta e nã o vai me superar
em nenhuma outra á rea, eu lhe asseguro.
— Tomara que você esteja certo — murmurou Ranleigh, virando-se
para lançar a Ella um olhar um tanto travesso que seu marido nã o podia
ver. — Bem, agora que você reivindicou essa mulher encantadora e a
levará à segurança, eu posso considerar cumprido meu dever. Boa noite,
duquesa — disse ele, inclinando levemente a cabeça. — Desejo-lhe uma
noite agradável.
Ele deu a Oscar um sorriso divertido que até Ella pô de perceber que
tinha a intençã o de irritá -lo ao má ximo, e saiu tranquilamente. Ella
reprimiu um sorriso e depois se assustou quando Oscar se virou para
ela furioso.
— O que diabos você está tramando, sua tolinha? As pessoas
continuarã o a falar sobre nosso casamento inesperado por muitos anos.
O que mais você quer de mim? Você já nã o causou escâ ndalo suficiente?
Está procurando por outro?
Havia uma expressã o impaciente em seus olhos, como se ele
estivesse lidando com uma criança teimosa.
— O quê? Nã o! — exclamou Ella, irritada por sua raiva. — Eu só vim
para respirar um pouco de ar e ele me seguiu.
— E entã o você se livrou da companhia dele o mais rá pido possível,
é? — exigiu saber ele, cruzando os braços e encarando-a, desafiando-a a
contradizê-lo.
— N-nã o, mas...
Ele revirou os olhos, parecendo frustrado. — Pelo amor de Deus,
Ella, eu nã o posso cuidar de você a noite toda. Mostre um pouco de bom
senso pelo menos uma vez em sua vida. Você nã o pode ser tã o ingênua
assim. Homens como Ranleigh sã o perigosos, em hipó tese alguma vou
permitir que todos me considerem um corno, além de um...
Ele fechou a boca, mas Ella tinha uma boa ideia do que ele diria a
seguir.
— Além de tolo por ter sido pego com a irmã errada, sim, eu sei —
retrucou Ella, sem paciência com o marido. Como ele ousava? — Bem,
nã o se preocupe, Oscar. Eu vou tomar mais cuidado, eu garanto, mas
você deve se lembrar de que me deu permissã o para ter um amante.
Você nunca disse que tinha que aprová -los.
Com isso, ela saiu pisando duro, passando por Oscar e afastando-se
dele o mais longe que pô de. Por um momento, ela sentiu uma sensaçã o
de satisfaçã o com a indignaçã o em seus olhos, mas durou pouco.
Quando a noite interminável terminou e os dois foram forçados a
compartilhar uma carruagem, ficou claro que Oscar estava furioso com
ela e Ella estava muito triste para ficar com raiva por mais tempo. Ela se
encolheu no canto da carruagem, olhando para a paisagem enluarada e
tentando ignorar as expressõ es de preocupaçã o de Fluff e Mintie. Os
dois trocaram olhares silenciosos, mas nã o a questionaram. Foi o
melhor final que ela poderia esperar para uma noite assustadora.
Capítulo 9
“No qual surgem ideias brilhantes para o futuro de Oscar.”

— Sua irmã realmente é a megera mais assustadora que já vi.


Ella se engasgou quando o chocolate quente entrou pelo buraco
errado e ergueu os olhos, vendo a sogra responder com os olhos
arregalados de perfeita inocência enquanto se acomodava à mesa do
café da manhã .
— Bem, ela é, Ella, nã o há como negar isso. A maneira como ela se
atirou em Oscar ontem à noite, fez com que eu quisesse vomitar. Ela nã o
é flor que se cheire, se você quer saber, mas sempre achei isso.
Elas acordaram tarde depois de voltar para casa de madrugada e
agora estavam sozinhas na sala de café da manhã . Ella pigarreou e
tentou recuperar o fô lego, observando Mintie selecionar uma fatia de
bolo de ameixa e cortá -la em quadradinhos precisos. Ela pegou uma
entre o polegar e o indicador e o levou à boca.
Supondo que ela nã o quisesse dizer mais nada no momento, Ella
ergueu a xícara mais uma vez.
— Falei com Ranleigh ontem à noite...
A xícara de Ella voltou à mesa com um baque, e ela nã o conseguiu
evitar que entornasse um pouco. O chocolate escorreu pelos seus dedos
e Mintie começou a gargalhar quando Ella corou e fez o possível para
limpar a bagunça.
— Ora, ora, estou reconhecendo uma consciência pesada.
— Oh, nã o! — exclamou Ella, horrorizada. — Você... nã o p-pode
achar...
Mintie revirou os olhos e deu uma bufada deselegante. — Menina
tola. Ranleigh nã o é um tipo de homem que anda por aí seduzindo
inocentes. Nã o é o estilo dele. Nã o, nã o, mas ele me contou tudo sobre o
que aconteceu.
Ella sentiu a cor esvair das bochechas e se perguntou se o duque
havia contado tudo a ela. Nã o, ela se tranquilizou, ele jurou que levaria
essa histó ria para o tú mulo e ela acreditava nele.
— Isso explica por que Oscar estava com um humor tã o ruim na
noite passada, bem, isso e Pearl lançando olhares inocentes para ele a
noite toda, embora seja uma maneira educada de dizer isso. Ele partiu,
sabia?
Havia um tom de simpatia nessas ú ltimas palavras enquanto Ella a
encarava.
— Partiu? Partiu para onde?
Mintie encolheu os ombros. — Para algum lugar em que ele possa
fingir que nã o tem esposa e responsabilidades, aposto.
Ela piscou para Ella, que se esforçou para exibir um sorriso, mas
nã o conseguiu simular um.
— Oh, nã o precisa ficar tã o desolada, Ella. Você nã o vê? Isso nos dá
a oportunidade perfeita.
— Que raios quer dizer com isso? — indagou Ella, encarando o
restante de seu chocolate quente e prevendo uma vida em que ela e o
marido eram estranhos até o fim de seus dias.
— Ora, para te transformar no assunto do momento.
Ella ergueu os olhos, fitando a sogra, horrorizada, mas a criatura
terrível apenas sorriu para ela e voltou a atençã o para o café da manhã .
Durante as semanas seguintes, Mintie orientou Ella.
Ela teve que aguentar outras visitas à Madame Dubois, em que ela
era espetada com alfinetes e experimentava tantos vestidos de estilos
diferentes até se sentir zonza. Elas passaram horas examinando
atentamente as ú ltimas gravuras da moda. Mintie e a madame a
encararam com seus olhares críticos, julgando-a de todos os â ngulos
enquanto ela se sentia cada vez mais como uma vaca premiada em uma
feira. Pelo menos, nã o pediram para verificar os dentes dela.
Mas foi um momento tenso com a Sra. Fenton, a criada pessoal de
Mintie. A mulher, que vestia uma das damas mais glamourosas da alta
sociedade, nã o aceitou cuidar de uma garota como Ella sem protestar.
Mintie, no entanto, amenizou a situaçã o assegurando a Fenton que
somente ela poderia realizar os feitos que precisavam, e que Ella seria
seu maior êxito.
Ella nã o tinha certeza se deveria se sentir insultada por esse
comentá rio um tanto franco, mas estava muito ciente de suas pró prias
deficiências e muito curiosa para ver o que a Sra. Fenton poderia fazer
para reclamar.
Fenton começou a trabalhar, demonstrando imediata desaprovaçã o
pelas sobrancelhas espessas de Ella, o que agradou Mintie. A mulher
era insensível à dor de Ella, arrancando-as até que Ella sentisse vontade
de chorar de desespero.
Em um certo estado de confusã o, Ella oscilava entre as provas de
vestido, os cuidados pouco gentis de Fenton e as liçõ es de Mintie sobre
como ser uma duquesa.
Essas liçõ es pareciam sem pé nem cabeça. À s vezes, faziam todo o
sentido, liçõ es sobre como agir à mesa de jantar quando um dos seus
convidados estava bêbado... bastante toleráveis. Como desencorajar
aquelas pessoas dissimuladas que desejavam conhecê-la apenas para
aumentar sua pró pria importâ ncia… aterrorizantes, mas reveladoras.
Liçõ es sobre o funcionamento da casa, sobre como lidar com disputas
entre a criadagem e organizar um baile eram exatamente o que ela
esperava. Liçõ es sobre como flertar sem parecer uma mulher ordiná ria
e ainda deixar o marido com ciú mes – totalmente inapropriado, ainda
assim, intrigante – e assim os dias progrediram.
Mintie e Ella estavam sentadas na sala de estar junto à lareira uma
noite, costurando amigavelmente depois de Fluff desejar boa noite à
sua senhora. Ella sabia muito bem que ele passava a maior parte das
noites aqui, mas eles mantinham a aparência de respeitabilidade
enquanto o visconde fingia ir para casa e depois dava a volta pelas
escadas dos fundos. Ella suspeitava que eles sabiam que ela sabia, e só
continuavam a farsa para poupar seus rubores. Nã o que ela se
importasse. Estava claro que o visconde estava profundamente
apaixonado por Mintie, e Ella só conseguia se perguntar por que nunca
se casaram. Era bastante româ ntico, porém, e nã o era da conta dela,
entã o Ella nã o dizia nada e – em vez de se sentir chocada – só conseguia
sentir inveja.
— Eu me pergunto quem será o seu Chichisbéu — refletiu Mintie
em voz alta, fazendo com que Ella se espetasse violentamente com a
agulha.
— O quê? — gritou ela, xingando internamente, enquanto sangrava
por todo o bordado.
— Seu Chichisbéu — repetiu Mintie, com uma expressã o paciente.
— Seu concubino, ou amante, se preferir.
— Eu sei o que isso significa. — disse Ella, chupando o polegar
antes que o sangue causasse mais danos.
— Bem, você tem alguém em mente? — perguntou Mintie, serena
diante do choque horrorizado de Ella.
— Você nã o pode estar falando sério. Você nã o pode achar que eu...
conseguiria...
— Ah, nã o. — Mintie colocou o pró prio bordado no colo e bufou
com impaciência. — Nã o me refiro a um amante de verdade, quero
dizer alguém que podemos fazer Oscar acreditar que possa ser, se ele
nã o for muito cuidadoso. Teria que ser alguém disposto a concordar
com isso — acrescentou ela, com uma carranca pensativa. — Alguém
que saiba ser discreto. Nã o queremos dar início a nenhum rumor
desagradável, mas se, por exemplo, eu deixasse escapar que... o Duque
de Ranleigh tem dispensado a você uma atençã o significativa...
Mintie olhou de relance para ela, parecendo tã o inocente que Ella
nã o sabia se deveria ficar chocada ou simplesmente ceder à força que
era a Duquesa Viú va de Rothborn.
— Ranleigh? — repetiu ela, com a voz fraca.
— Sim. — Mintie assentiu e passou a mã o sobre o bordado,
muxoxando ao ver que a seda havia se emaranhado. — Ele é muito
bonito, um homem experiente, rico como Creso e tem a quantidade
certa de libertinagem para ser extremamente excitante. Ele é
exatamente o tipo de homem por quem uma jovem se apaixonaria
quando deixada sozinha por seu marido idiota.
Ella franziu a testa e depois balançou a cabeça. — Nunca vai
funcionar, Mintie. Para ter ciú mes, um homem deve se importar, e Oscar
simplesmente nã o me enxerga desse jeito.
— Que asneira.
Ella ergueu as sobrancelhas, surpresa com a raiva por trá s daquelas
palavras.
— Oscar se importa. Ele se importa muito com você. Meu Deus,
acha que ele permitiria que você andasse com ele e Bertie todos esses
anos se ele nã o gostasse da sua companhia? Ele te adora.
— Sim, como uma amiga — respondeu Ella, impaciente agora. —
Ele me ama como se fosse uma irmã ou uma amiga, embora até essa
amizade pareça estar em crise agora. Ele nã o sabe mais como falar
comigo.
— Bem, naturalmente ele nã o sabe. Você nã o é mais amiga dele, é
esposa dele, e isso vai levar tempo, mas ele precisa se acostumar com
isso, e ele vai.
Ella franziu a testa, olhando para o pró prio bordado. A mancha de
sangue tinha deixado um pequeno formato de coraçã o na seda e ela
sentiu que seu pró prio coraçã o perderia litros do fluido enquanto essa
farsa continuasse.
— Você nã o pode forçar alguém a sentir algo que nã o sente, Mintie
— disse ela, com a voz suave. — Oscar é um homem bom e gentil. Nã o
posso culpá -lo por nã o me amar. Nã o pode enganá -lo para fazer isso.
— Bem, é claro que nã o posso e nem vou tentar. Fazer o homem ver
o que está na frente de seu maldito nariz é outra questã o, no entanto.
Suas palavras eram cortantes e um pouco desafiadoras, e Ella nã o
sabia se queria rir ou chorar. O fato de que sua sogra fizesse tais
esforços em seu nome e quisesse que seu filho a amasse tanto fez o
coraçã o de Ella doer de gratidã o, mas ela nã o podia ficar parada e ver
Oscar ser manipulado. Nã o era justo.
— Mintie, já chega, por favor. Nã o quero ver Oscar chateado ou
envergonhado, e certamente nã o quero deixá -lo com raiva depois de
tudo o que fez por mim. Ele nã o precisava se casar comigo. Ele poderia
ter me deixado enfrentar um escâ ndalo terrível e ainda ter se casado
com Pearl...
— Ah, sim — intrometeu-se Mintie. — Porque ele estava
terrivelmente ansioso para fazer isso.
Ella franziu a testa, assustada com a veemência das palavras de
Mintie. — Bem, eu sei que eles nã o se amavam, mas...
— Ella, seu tola!
Mintie levantou as mã os em desespero.
— Quando vai perceber que Oscar nã o suporta Pearl? Agora,
escute-me bem: Eu amava loucamente o pai dele. Quando ele faleceu, eu
teria ido junto se nã o fosse por Oscar. Perdê-lo partiu meu coraçã o. Ele
era um homem bom, gentil e maravilhoso, e tã o bonito. — Ela deu um
suspiro, com os olhos lacrimosos por um momento antes que sua
expressã o se tornasse um pouco mais dura. — Mas esse noivado
ridículo entre Oscar e Pearl quando crianças foi ultrajante da parte dele.
Nunca fiquei tã o furiosa quanto naquele momento. Foi a ú nica vez que
discordamos violentamente sobre algo, mas meu marido falou com
Oscar sobre isso nos meses que antecederam sua morte e pareceu fazer
o menino estú pido ver que era seu dever para com a família. Eu nunca
fui capaz de fazê-lo ver o contrá rio. Casar com você foi a melhor coisa
que poderia ter acontecido com ele, acredite em mim, e no fim das
contas o menino tolo também perceberá . Mas ele precisa de um... um
pouco de incentivo.
— Na forma do Duque de Ranleigh? — respondeu Ella, secamente,
embora as palavras de Mintie a tivessem abalado.
— Exatamente — disse Mintie, pegando o bordado mais uma vez.
— Mas nã o se preocupe, Ella, querida. Você sairá ilesa desse caso.
Espere só e verá !
— Nã o, Mintie. Nã o. — Ella balançou a cabeça, com um sinal de
aviso em sua voz. — Nã o haverá nenhum caso. Nenhum. Nem mesmo
um sussurro, nem mesmo um murmú rio. Nem um pio.
— É claro, querida — disse Mintie, seu tom inocente demais para o
seu gosto. — Como queira.
***
Oscar fez com que os criados de sua residência na cidade entrassem
em pâ nico ao chegar sem aviso prévio. Até mesmo sua governanta, uma
senhora que achava que o sol seguia aonde quer que Oscar fosse, estava
um pouco ríspida e o repreendeu por sua imprudência em nã o avisar.
Esse era o problema de se tornar duque em tã o tenra idade. Todos o
conheciam desde que era criança e – apesar de seu título elevado –
sentiam vontade de tratá -lo da mesma maneira. Oscar tinha a sensaçã o
de que pouco havia mudado. Talvez ele nã o tivesse mudado o suficiente
para justificar um tratamento diferente. Ele fugiu como um menino
rabugento. Nã o foi o seu melhor momento.
A culpa pesava sobre ele, e encontrar os mó veis da casa cobertos
com mantas de proteçã o nã o ajudou a melhorar seu â nimo. Ele
lamentou nã o ter contado a Bertie que estava a caminho e suplicado
para que ele fosse com ele. Já que ele havia abandonado a irmã de
Bertie, nã o achava que Bertie fosse aceitar a ideia com entusiasmo.
Oscar dirigiu-se aos quartos frios da grande casa em Mayfair e fez
uma careta para as formas fantasmagó ricas dos mó veis cobertos.
Droga. Por que ele se sentia tã o arrasado quando havia sido Bug a
causadora dessa bagunça infernal?
Porque você prometeu que tudo ficaria bem, retrucou uma vozinha.
Oscar bufou. Tudo estava muito longe de estar bem.
Quando ele sugeriu que Ella estava livre para viver sua pró pria vida
e ter um amante se quisesse, ele viu a dor que suas palavras causaram,
apesar dos esforços dela para escondê-la. Naquele momento, ele
percebeu que nã o seria suficiente para ela. Ela queria um marido que a
amasse. Ela queria amor e carinho e, sem dú vida, uma dú zia de crianças
também. Além do mais, ela merecia todas essas coisas. Ele queria essas
coisas para ela, mas nã o era o homem para dá -las a ela.
Ele nã o conseguia esquecer todas as lembranças.
Lembranças de uma doce garotinha com longos cabelos
encaracolados escuros e olhos cinzentos solenes, as saias sujas em uma
das mã os enquanto corria atrá s dele e de Bertie. Ele a ajudou a subir
em á rvores e a ensinou a montar. Ele também insistiu em ensiná -la a
colocar uma minhoca em um anzol de pesca, embora ela parecesse com
nojo e horrorizada. Oscar sabia muito bem que ela nã o queria tocar na
minhoca viscosa, mas ela nã o reclamou, querendo impressioná -lo. Ela
sempre queria impressioná -lo, agradá -lo.
Era a aprovaçã o dele que ela buscava, nã o a de Bertie, e como se
isso nã o o deixasse orgulhoso. Quando Ella olhava para ele com tanta
admiraçã o, ele sentia que podia conquistar o mundo. Ele gostava da
adoraçã o dela, a adorava, mas... mas nã o desse jeito.
Oscar havia passado muito tempo bancando o protetor, o irmã o
mais velho, garantindo que ela estivesse a salvo do mundo e fazendo o
possível para mantê-la longe de problemas. Ele a amava, mas trocar de
papel de irmã o para marido... o pâ nico surgiu em seu peito. Isso o fez
sentir como se ele precisasse protegê-la dele mesmo. Ela era muito
jovem, muito pura e inocente com relaçã o aos homens... ele apenas... ele
não podia.
Ele tentou tirar o má ximo de proveito da situaçã o, mas descobriu
que a evitava sempre que podia. Cumprimentos formais na mesa do
café da manhã ou se passassem por um corredor nã o eram base para
um casamento feliz. Para nenhum dos dois. Ele a estava deixando
infeliz, observando o ardor desaparecer dos olhos dela à medida que os
dias passavam, e isso o estava matando.
Nã o. Assim era melhor. Se ele a deixasse sozinha, ela seria forçada a
sobreviver ou sucumbir, e nã o havia como Ella nã o sobreviver. Ela era
muito destemida para desistir e sucumbir. Se ele partisse, ela nã o
ficaria em casa lamentando-se e parecendo desolada como parecia
agora. Era mais do que provável que ela ficasse furiosa com ele, e essa
fú ria levaria à açã o e... e quando ele voltasse, ela estaria vivendo sua
pró pria vida. Ser positiva era o que Ella fazia de melhor. Nada a deixava
para baixo por muito tempo. Na verdade, só ela conseguia animá -lo
quando ele estava desanimado.
Oscar suspirou, extremamente desanimado e recusando-se a
lamentar que Ella nã o estivesse lá . Ela nã o era mais sua amiga, era sua
esposa, e só quando viu a má goa em seus olhos ele compreendeu a
complexidade entre esses dois relacionamentos.
Ela nã o faria isso.
Ele nã o ia ficar ali se afundando em autocomiseraçã o. Açã o. Ele
precisava se manter ocupado e precisava se livrar das emoçõ es
reprimidas que pareciam ter se estabelecido em um nó na garganta. O
Jackson’s era a resposta ó bvia; assim, Oscar pegou o chapéu e as luvas e
saiu mais uma vez. Com alguma sorte, levar um soco ou retribuir o
favor faria com que ele se sentisse melhor.
***
Ella olhou para si mesma no espelho da alcova de Mintie e piscou.
Só por um momento ela desejou que Oscar estivesse lá para vê-la, mas
isso era inú til. Ele estava acostumado a olhar para mulheres bonitas, e
só porque ela parecia mais bonita do que nunca nã o significava que ele
se apaixonaria por ela. Nã o, ela teria que se contentar em se sentir
satisfeita por conta pró pria porque... bem, porque ela estava com uma
aparência esplêndida.
O vestido era de um escuro tom de azul-safira com um delicado
detalhe de renda branca. Mangas bufantes curtas descansavam na parte
superior dos braços, deixando os ombros nus. Pentes cravejados de
safira brilhavam em seus cachinhos, que haviam crescido um pouco, e
enrolavam-se encantadoramente ao redor de seu rosto. Mintie lhe
emprestara as safiras dos Rothborn, um conjunto completo com
brincos, colar e os dois pentes gloriosos aninhados em suas mechas
escuras.
— Querida, você está deslumbrante! — Mintie parecia prestes a
saltar de alegria, ela estava tã o empolgada com a nova imagem de sua
nora. — Meu Deus, sua irmã vai parecer que chupou um limã o quando
te vir.
Ella empalideceu, perguntando-se se poderia ficar em casa na
companhia de um bom livro. Ela passou muito tempo pensando em
Pearl ultimamente e concluiu que merecia a fú ria da irmã .
— Mintie, você nã o pode culpar Pearl por estar furiosa comigo —
disse ela, aceitando a culpa que vinha tentando evitar assumir como
sua. Só porque Pearl era uma megera e nã o se importava nem um pouco
com Oscar, nã o significava que ela nã o tivesse sido injustiçada. —
Roubei o marido dela e a fiz parecer uma tola. Pearl viveu a vida inteira
esperando desempenhar o papel que eu tirei dela, e ela faria um
trabalho muito melhor também. Nã o duvido que ela queira a minha
cabeça e, pela primeira vez, nã o posso dizer que nã o tenho culpa.
Mintie a encarou, com um olhar pensativo nos olhos. — Vocês duas
nunca se deram bem, certo?
— Nã o.
Havia pesar por trá s da palavra, como sempre houve. Ella havia
idolatrado Pearl por muito tempo e tentado ser sua amiga. Pearl nã o
queria uma irmã mais nova e deixava claro seus sentimentos sobre o
assunto. Mesmo uma pessoa determinada como Ella só aguentava até
certo ponto os beliscõ es, puxõ es de cabelo e comentá rios maldosos
antes de desistir, embora Pearl fosse esperta o suficiente para fazer isso
apenas quando estavam sozinhas. Na presença de outras pessoas, ela
era doce e gentil, e Ella aprendeu rapidamente que a irmã tinha dois
lados. Nas poucas ocasiõ es em que teve a oportunidade de confiar em
Pearl, ela terminou magoada e humilhada. Por isso, ela a mantinha
afastada.
Sempre surpreendeu Ella que ela nã o tivesse sofrido por ser amiga
de Oscar. Ela presumiu que era porque Pearl nã o a via como uma
ameaça. Nã o havia motivo para tal. Oscar a tratava da mesma forma que
Bertie: como uma irmã zinha irritante, mas amada. No entanto, Pearl
passava mais tempo falando sobre Oscar do que na companhia dele.
Embora ele passasse muito tempo na casa deles com Bertie, ela nunca
aproveitou a oportunidade para passar tempo com ele, o que Ella nunca
havia entendido. Era como se Oscar fosse um conceito ou um
personagem fictício, nã o um homem de carne e osso.
Nã o que ela pudesse dizer algo diferente de Oscar, também; ele nã o
procurava exatamente por Pearl.
Ella suspirou e pressionou a ponta dos dedos nas têmporas. Ela
estava ficando com dor de cabeça.
— Pare com isso imediatamente — repreendeu-a Mintie,
balançando um dedo para ela. — Você está deslumbrante e teremos
uma noite maravilhosa.
— Sim, Mintie — disse Ella, com um sorriso nos lá bios que nã o
alcançou o seu coraçã o.
Mintie se aproximou dela e pegou suas mã os. — Você nã o pode
mudar o passado, Ella. Independentemente do que te trouxe até aqui,
você nunca teve a intençã o de roubar Oscar de Pearl, correto?
— Nã o!
Ella ficou horrorizada com a ideia. Ela pretendia persuadir o pai a
deixá -la partir depois do casamento de Pearl e Oscar, para proteger seu
pró prio coraçã o, era verdade, mas ela nunca teve a menor expectativa
de que Oscar voltasse a sua atençã o para ela. Mesmo que ela tivesse
tido a chance de fazer isso acontecer, ela nunca faria tal coisa. Ela podia
nã o gostar muito de sua irmã , mas nunca teria sido tã o desleal, tã o
escandalosamente perversa. A culpa de ter feito isso sem querer já era
difícil de suportar.
— Entã o, pare de se punir. Nã o há necessidade de se gabar de sua
posiçã o na cara da sua irmã , embora eu reconheça que você é uma
mulher melhor do que eu se nã o o fizer. — Mintie deu-lhe um sorriso
diabó lico e apertou seus dedos. — Mas esta é a sua vida agora, Ella, e
você deve vivê-la ao má ximo. Talvez Oscar se apaixone por você, talvez
nã o, mas nã o pode passar a vida pedindo desculpas pelo que nã o pode
ser mudado. Explore o mundo e encontre seu lugar no mundo, divirta-
se, faça amigos, seja ousada, querida. A vida é muito curta para nã o ser
vivida ao má ximo.
Ella respirou fundo, sabendo que havia verdade em suas palavras.
Uma vozinha em sua cabeça sussurrou que ser ousada a havia colocado
nessa situaçã o, em primeiro lugar, mas Mintie estava certa. Esta era a
vida dela, e ela deveria tirar o má ximo de proveito. Ficar triste nã o iria
corrigir o mal que ela fizera a Pearl; na verdade, só pioraria a situaçã o.
— Sim, Mintie, você está certa. Farei o que disse.
Mintie abriu um sorriso irradiante para ela. — É assim que se fala!
Agora, vamos lá . Mal posso esperar para te exibir ao mundo.
Ella seguiu Mintie escada abaixo e encontrou Bertie esperando por
ela. Mintie escapuliu para a sala de estar e viu que o visconde a
esperava quando Bertie se adiantou para cumprimentar a irmã .
— Minha nossa, Ella — disse ele, e ela nã o pô de deixar de ficar
satisfeita com o olhar espantado dele. — Uma duquesa da cabeça aos
pés, estou falando sério. — Ele assobiou baixinho entre os dentes
enquanto a rondava. — Eu nunca acreditei que fosse possível.
— Sim, entendi, Bertie, nã o estrague tudo — respondeu Ella, seu
tom seco. — Você nã o precisa parecer tã o surpreso.
Bertie deu de ombros, balançando a cabeça. — Desculpe, Bug, mas
estou muito acostumado a vê-la até o pescoço na lama. Você nã o pode
culpar um sujeito por se assustar.
Ella revirou os olhos para ele e depois franziu a testa ao perceber
que ele nã o estava vestido para sair.
— Bertie, estamos de saída, e você nem sequer se trocou?
Sua expressã o ficou sombria. — Nã o, eu nã o vou. Decidi ir atrá s do
seu marido.
— O quê? — Ella se aproximou dele e agarrou seu braço. — Ah, nã o,
Bertie, nã o precisa. Oscar é livre para viver a sua pró pria vida.
Concordamos que deve ser assim.
Bertie balançou a cabeça, com uma carranca deformando o belo
rosto. — Nã o está certo, Ella. Talvez se ele tivesse esperado um ou dois
meses, mas partir logo apó s o casamento... Ele praticamente anunciou à
sociedade que... — Ele deixou a frase no ar, corando um pouco.
— Que o nosso casamento é uma farsa. — terminou Ella por ele. —
Sim, Bertie, eu sei, mas é verdade, e nenhum de nó s pode mudar isso —
observou ela, tocada, surpreendendo-se com a carranca no rosto do
irmã o. A intensidade da raiva ali era algo que ela nã o havia previsto.
— Nã o, Ella, isso já foi longe demais. Nã o vou deixar que ele te
envergonhe assim.
Ella suspirou, desejando que essa situaçã o ridícula nã o estivesse
machucando tantas pessoas. Se a amizade de Oscar e Bertie fosse
prejudicada, ela nunca se perdoaria.
— Oh, Bertie, gostaria que nã o fizesse isso. Já é difícil o suficiente
encarar a fofoca tal como ela é, mas ter que encará -lo todos os dias,
quando sei como ele deve se ressentir comigo.
Um olhar revoltado cruzou o rosto do irmã o que ela reconheceu
bem. Ele cruzou os braços.
— Ella, Oscar é seu amigo, e amigos nã o se tratam assim. Ele
prometeu que tudo ficaria bem, e... e você nã o está nada bem. Você nã o
pode me fazer mudar de ideia.
Seu maxilar estava tenso, e ela sabia que nã o conseguiria fazê-lo
mudar de ideia. Bertie era um sujeito geralmente tranquilo, mas
teimoso como uma mula quando colocava alguma coisa na cabeça.
— Muito bem, Bertie, mas me prometa uma coisa.
Ella apertou ainda mais a manga dele enquanto Bertie olhava para
ela.
— Sua amizade significa muito para Oscar. Nã o, eu imploro, nã o
briguem por minha causa. Partiria o meu coraçã o.
A expressã o de Bertie suavizou e ele sorriu para ela, puxando-a
para um abraço.
— Tudo bem, Bug — disse ele, com as palavras suaves. — Prometo.
Capítulo 10
“No qual amigos, alianças e inimigos se fazem presentes.”

O baile estava sendo organizado por Lady Marchmain, e toda a


sociedade, que se reuniu para as reuniõ es da Pá scoa realizadas em
Newmarket, estava presente.
Ella manteve a cabeça erguida e um sorriso no rosto ao entrar com
Mintie e Fluff. Ela sabia que os cochichos e fofocas sobre ela ainda
estavam longe de acabar, mas nã o daria a ninguém a satisfaçã o de
acreditar que isso a incomodava. Incomodava, é claro. Perceber que as
pessoas acreditavam que a haviam flagrado em uma posiçã o
comprometedora com o homem a quem sua irmã estava prometida
para fazê-la parecer o pior tipo de mulher perversa... mas tudo o que
podia fazer era resistir.
A noite progrediu da maneira usual. Havia os bajuladores, ansiosos
para conhecê-la porque era uma duquesa; ansiosos por obter um
detalhe suculento para espalhar para o resto do grupo; havia inveja e
comentariozinhos mordazes que eram feitos com sorrisos
enganosamente doces. Ella aguentou tudo e descobriu, para seu alívio,
que ainda havia algumas pessoas genuínas e gentis no mundo que lhe
dariam uma chance.
Patience Bright, Lady Marchmain, era uma delas.
— Que vestido lindo, Vossa Graça — disse a dama, sua admiraçã o
genuína e sua expressã o cheia de simpatia. À primeira vista, ela nã o era
uma mulher bonita, mas sua evidente bondade e natureza doce
irradiavam dela. Isso chamava a atençã o das pessoas e a prendia, e ao
contrá rio de um rosto bonito, jamais desapareceria. Sua simpatia
discreta e sua prontidã o para rir faziam com que quisessem conhecê-la.
— Oh, por favor, pode me chamar de Ella — pediu Ella, com um tom
bastante suplicante. — Sempre que alguém diz “Vossa Graça”, acho que
estã o falando com a minha sogra.
Lady Marchmain riu, parecendo satisfeita com o pedido.
— Seria um prazer, Ella, obrigada. A duquesa viú va está de bom
humor esta noite. Que criatura adorável ela é.
Ella observou Mintie e seu devotado visconde dançarem a valsa.
Tamanha elegâ ncia e estilo, e tamanha adoraçã o radiando entre eles.
Ela suspirou.
— Ela é, e uma alma tã o generosa. Sempre invejei a mã e de Oscar, e
agora que também é minha, sei como sou sortuda. — Ela corou entã o,
perguntando-se se Patience achava que ela havia planejado ser flagrada
com Oscar para forçá -lo a se casar com ela, já que muitas pessoas
estavam cochichando. Para sua surpresa, Patience estendeu a mã o e
colocou-a no braço de Ella.
— Espero que venha me visitar, se... se quiser. Vivemos
tranquilamente aqui em Finchfields e eu ficaria muito feliz se você
pudesse reservar um tempo para isso.
Ella respondeu com um sorriso, seu primeiro sorriso
verdadeiramente genuíno da noite.
— Seria um prazer, obrigada, e espero que me visite em Chancery.
Eu adoraria ter uma visita que nã o tenha vindo para tentar arrancar de
mim algumas fofocas suculentas.
Patience deu-lhe um sorriso simpá tico e pegou seu braço, e Ella
sentiu um carinho especial pela sua nova amiga.
As duas mulheres ergueram os olhos, ainda satisfeitas com a
crescente amizade enquanto o marido de Patience a procurava, na
companhia do Duque de Ranleigh.
Os dois homens formavam uma combinaçã o impressionante.
August Bright fazia jus ao seu nome. Tudo nele era tã o dourado quanto
um dia de verã o. Seu cabelo era da cor de milho maduro e resplandecia
à luz de velas, seus olhos eram de um verde-esmeralda surpreendente e
ele era incrivelmente bonito. Tinha sido o assunto da sociedade quando
a desinteressante Patience Pearson, sem fortuna nem beleza, havia
capturado o libertino mais procurado da cidade. O fato de ter sido um
casamento por amor tornou tudo ainda mais digno de fofoca.
Ranleigh estava ao lado dele, o oposto de August em todos os
sentidos. Onde August era claro, Ranleigh era escuro. Seu cabelo era de
castanho vivo, com um pouco de cabelo grisalho nas laterais. Seus olhos
também eram escuros e iluminados com uma diversã o cínica. Ele era
um homem que já tinha visto de tudo e nã o esperava mais ser
surpreendido. O rosto de August era franco e obviamente satisfeito com
o mundo.
Ranleigh nã o revelava nada.
— Lady Rothborn — disse Ranleigh, inclinando-se respeitosamente
sobre a mã o de Ella. — Como sempre, um prazer. Permita-me lhe dizer
como está linda esta noite. Esse vestido é motivo de inveja de todas as
mulheres aqui esta noite, eu garanto.
Ella sorriu com o elogio, mas nã o disse nada. Ela acreditava que
Ranleigh era seu amigo, mas os comentá rios de Mintie a fizeram refletir.
— Ouvi dizer que seu marido deve ser parabenizado mais uma vez
— disse August, sorrindo para ela.
Ella vacilou, envergonhada por nã o ter a menor ideia do que ele
estava falando. Oscar nã o escrevia para ela desde que partira, entã o, ela
nã o sabia o que ele estava fazendo.
August captou o olhar intenso que a esposa lhe estava enviando e
apressou-se em continuar.
— Ah, bem, esbarrei com alguém que estava lá , entã o suponho que
a notícia ainda nã o tenha se espalhado, mas ele desafiou Sheringham
para uma corrida de carruagens de aproximadamente vinte e cinco
quilô metros. Ele jurou que suas cinzentas eram mais rá pidas que o par
de Sherry. Confesso que achei que ele havia dado um passo maior que a
perna, já que aqueles baios de Sherry sã o alguns dos cavalos mais
bonitos que já vi. Mas ele conseguiu, porém, e em grande estilo, como
Rothborn sempre faz.
Ella ouviu, imaginando o prazer de Oscar na corrida e sua
subsequente vitó ria. Ela sorriu, embora houvesse uma sensaçã o de
vazio em seu coraçã o.
— Eu gostaria de ter visto isso — disse ela, incapaz de esconder um
tom melancó lico em sua voz.
— Se bem me lembro, você também tem uma certa destreza com o
chicote, duquesa — disse Ranleigh, enquanto Ella começava com
surpresa. Poucas pessoas sabiam disso. Oscar e Bertie a haviam
ensinado, por insistência dela. Seu pai ficou furioso, pois ela só tinha
cerca de doze anos na época, mas era algo com o qual ela tinha certa
habilidade.
— É mesmo? — Patience a encarou com evidente admiraçã o. —
Que incrível. Adoraria ver isso.
— Você gostaria? — indagou Ella, surpresa e totalmente encantada.
— Bem, entã o, vou levá -la para sair. Quarta-feira à tarde ficaria bom
para você?
— Oh, certamente!
Ella riu do entusiasmo da nova amiga, feliz por tê-la agradado. Ela
olhou para Ranleigh, que deu um passo repentino para mais perto dela.
— Posso ter a honra desta dança, duquesa?
Havia um olhar intenso nos olhos dele e ela abriu a boca para dar
uma desculpa, mas ele baixou a voz.
— Sua irmã está vindo para cá — disse ele, com um tom bastante
sombrio.
Ella empalideceu e aceitou o braço dele. — S-sim, eu adoraria
dançar — disse ela com pressa, perguntando-se se estava sendo
terrivelmente covarde, mas nã o totalmente certa de que se importava.
Ranleigh a levou para a pista de dança e Ella nã o se atreveu a olhar
para trá s para ver qual tinha sido a reaçã o de Pearl.
— Obrigada — disse ela, suas palavras sinceras enquanto tomavam
suas posiçõ es.
— O prazer é todo meu, duquesa — disse Ranleigh, com um sorriso.
— Lamento informá -la, mas sua irmã está fazendo de tudo para
espalhar boatos mal-intencionados. Eu te garanto, Falmouth e Lorde
Marchmain abafaram isso com algumas palavras nos ouvidos certos,
entã o nã o há motivo para alarde. Na verdade, Pearl está fazendo mais
mal a si mesma do que a você ao insistir nisso, mas pensei que talvez
você devesse saber que... ela também disse coisas sobre seu marido que
podem chegar até você.
Uma sensaçã o nauseante e perturbadora tomou conta do estô mago
de Ella, e ela o encarou.
— E sã o verdadeiras? — perguntou ela, desejando que a pergunta
nã o parecesse tã o lamentável e ansiosa.
Ela sabia muito bem que Oscar tinha pelo menos uma amante na
cidade, e que ele via o casamento deles como uma farsa nã o era segredo
para ela, ou para qualquer outra pessoa. O fato de ele estar se
divertindo e vivendo a vida como sempre viveu nã o era uma surpresa
para ela.
A raiva surgiu como uma onda, afugentando a tristeza dela. Ele nã o
poderia pelo menos ter dado uma chance a ela? Ele nã o poderia ter
tentado? No entanto, entã o, ela se lembrou de quem era a culpa dessa
maldita aliança, e sua raiva se transformou em culpa.
Ranleigh olhou para ela. — Eu nã o daria nenhum crédito à s
palavras que vêm de sua irmã no futuro pró ximo. Embora sua raiva
possa ser compreensível, seu comportamento nã o lhe dá crédito.
Garanto que, embora o escâ ndalo ainda cative o pú blico, há uma
mudança notável na percepçã o de quem é o culpado na situaçã o.
Ella notou que ele nã o havia respondido à sua pergunta, mas estava
muito intrigada para ouvir que as opiniõ es estavam mudando para
prosseguir.
— O que dizem agora? — perguntou ela, curiosa, mesmo contra sua
vontade.
Ranleigh sorriu para ela, a admiraçã o em seus olhos ó bvia até para
ela.
— Que você se comportou com dignidade e controle em
circunstâ ncias difíceis. Acredito que nã o tem nada a temer. Basta ser
você mesma, minha cara. Tudo ficará bem.
— Ser eu mesma foi o que me colocou nesta situaçã o — murmurou
Ella, com um bufo.
Ranleigh riu, um som reconfortante que a fez sorrir em resposta.
Ele era uma companhia encantadora.
— Exatamente — respondeu ele, dando-lhe uma piscadela discreta.
— Nã o tema, bela duquesa. Fortis fortuna adiuvat.
— A sorte favorece os corajosos — traduziu ela, erguendo os olhos
e vendo a diversã o brilhando nos olhos escuros dele.
— Nunca se esqueça disso. Se você quiser alguma coisa, deve deixar
o medo de lado e se arriscar, e eu sei o quã o corajosa você é.
O coraçã o de Ella acelerou quando Ranleigh a girou mais rá pido,
guiando-a sem esforço através dos movimentos da dança. Era a
sensaçã o mais pró xima que ela podia imaginar de voar e seu ú nico
arrependimento era que nã o era o marido que a segurava nos braços.
— E se eu arriscar e, ainda assim, perder? — perguntou ela, as
palavras soando sem fô lego enquanto flutuavam pelo salã o de baile. —
E se ele nunca puder me amar?
Ranleigh silenciou-se até que a mú sica terminou, e os dançarinos
pararam. Ele se curvou para ela e, quando levantou a cabeça, seus olhos
estavam sérios.
— Entã o, você jogou sua melhor carta e fez tudo o que podia. Daí,
você deve se acostumar com o fato e seguir em frente, mas lamentar
algo que nã o pode alterar é uma coisa, lamentar algo que nunca tentou
mudar... já é outra.
Ele a levou para longe da pista de dança e de volta para Lorde e
Lady Marchmain. Para alívio de Ella, Pearl nã o estava à vista.
— Por que está me ajudando? — perguntou ela, tentando descobrir
a motivaçã o dele antes que os alcançassem. Será que apenas em
memó ria do pai de Oscar?
— Já lhe disse minhas razõ es — disse ele, olhando de esguelha para
ela. —, mas acrescente a isso que admiro bravura, e você tem o coraçã o
de um leã o. Você é uma criatura destemida, duquesa.
— Nã o sou! — objetou ela, rindo. — Passo a maior parte da minha
vida com medo de abrir a boca por medo de dizer algo ultrajante.
Montar Virago foi aterrorizante. Eu ainda tremo só de pensar nisso!
— E, mesmo assim, você montou — disse ele, com a voz baixa. —
Isso é o que a torna corajosa. Nã o a ausência de medo, mas o seu
domínio dele.
— Tem certeza de que nã o quer dizer imprudência? — perguntou
ela, com um sorriso irô nico.
Ranleigh riu, e o som intenso e grave que poderia ter feito uma
mulher mais suscetível sentir as pernas fraquejando. — Bem, talvez um
pouco disso também, mas isso nã o é algo ruim na minha opiniã o.
Ella evitou Pearl pelo resto da noite, embora se sentisse um pouco
assustada com o comportamento da irmã . Sua habitual compostura
elegante, que ela parecia irradiar em vivacidade e risos, parecia ter
sumido. Ela atraiu a atençã o de quase todos os homens no local,
embora nã o tenha conseguido convencer o Duque de Ranleigh a dançar
com ela, apesar de estar claramente tentando. Ranleigh pareceu rejeitá -
la com uma desculpa educada e um sorriso, mas Ella temia que a irmã
nã o aceitasse tã o bem já que ele já havia dançado com ela.
Pearl continuou a se destacar durante toda a noite, sem dar sinais
de cansaço à medida que a noite avançava, mas Ella sentiu que o riso de
sua irmã parecia um pouco falso, com uma vivacidade excessivamente
radiante, demais para ser sincera. Mais preocupante para ela era a
maneira paqueradora de Pearl. Ela parecia decidida a atrair todos os
homens que cruzassem seu caminho sob o feitiço de sua beleza.
A certa altura, ela chamou a atençã o de Ella, e o olhar que ela
retribuiu era frio e duro e fez Ella estremecer de apreensã o. Por mais
que ela se arrependesse do que havia acontecido e entendesse a fú ria
de Pearl com ela, tornou-se mais difícil sentir simpatia pela posiçã o de
sua irmã quando ela estava tã o determinada a se vingar e se valia de
tais tá ticas desonestas.
Ella ficou mais do que aliviada quando a noite chegou ao fim, e
voltou para a Chancery com alívio e um mau pressentimento.
***
Oscar observou, satisfeito, enquanto seu oponente cambaleava, com
um olhar vidrado no rosto, antes que o sujeito desabasse no chã o.
Houve aplausos de aprovaçã o de todos no local e o Sr. Roberts, um dos
treinadores, bateu nas costas de Oscar.
— Boa, Vossa Graça. Esse seu gancho de direita é uma força a ser
considerada.
Com um sorriso triunfante, Oscar tentou recuperar o fô lego. Ele
apoiou os braços nas pernas, mas pareciam como se os ossos tivessem
sido removidos e substituídos por mingau. Ele estava se esforçando
cada vez mais, buscando oponentes mais difíceis e, até agora, parecia
quase invencível. À noite, ele era o ú nico fora do famoso clube de boxe
que sabia que estava cheio de hematomas sob suas roupas elegantes.
— Quem é o pró ximo entã o, Vossa Graça? — quis saber Roberts,
entregando-lhe uma toalha.
Oscar enxugou o rosto e se endireitou novamente. — Sobrou
alguém? — exigiu saber ele, com o levantar de uma sobrancelha,
tentando encontrar o jovem outrora arrogante que ele sabia ser.
Era estranho estar aqui sem Bertie, sabendo que seu melhor amigo
estava furioso com ele, e por um bom motivo. Para ser honesto, ele se
sentia cada vez mais isolado. Ella estava em sua mente com mais
frequência do que ele queria pensar, e que ele também sentia falta dela
era apenas a cereja do bolo.
Nã o, ele se corrigiu, sentia falta de Bug. Ele sentia falta de sua
amiga. Ele nã o sentia falta da esposa, com quem nã o tinha a menor
ideia do que fazer.
— Acho que posso encontrar alguém para você, se tiver certeza de
que está à altura do desafio? — Havia um tom bastante sagaz na voz do
homem, mas Oscar estava distraído demais para prestar muita atençã o.
— Há uma chance de ser superado.
Oscar pendurou a toalha no pescoço e lançou a Roberts um olhar
reprovador.
— Sou um duque — disse ele, com um tom divertido.
— Nã o no ringue, nã o é. — Roberts riu. — Mas acha que pode dar
conta de um desafio real?
Havia um clima no clube que Oscar só agora notou. Os homens
estavam observando, ouvindo a conversa e esperando o resultado. Bem,
ele supô s que nã o poderia recuar agora.
— Claro — respondeu Oscar, com um aceno despreocupado da
mã o. — O que você tem em mente?
— Eu.
Oscar virou-se para o som de uma voz grave e rouca e seus olhos se
arregalaram enquanto lutava para manter o choque longe do rosto. O
homem era robusto como uma maldita montanha.
Bem, maldito inferno. Ele ia morrer.
Esperando que ele nã o parecesse tã o doente quanto se sentia,
Oscar estendeu a mã o para o oponente.
— Prazer em conhecê-lo, Sr...?
— Blackehart — respondeu o sujeito enquanto Oscar olhava para a
cicatriz de aparência cruel que marcava o lado direito do rosto,
repuxando o olho.
Ele claramente nã o era um cavalheiro, e Oscar se perguntou o que
estava fazendo no Jackson’s, mas controlou a língua. Seria grosseiro
fazer tais comentá rios, pois só evidenciaria seu medo, que de fato
sentia, mas ele preferia andar sobre brasas antes de admitir isso.
— Quando e onde? — perguntou ele ao brutamontes, esperando
que fosse impossível encontrar uma brecha em suas agendas lotadas.
Blackehart parecia um homem ocupado.
Na verdade, ele parecia o tipo de homem que esquartejava duques e
escondia os pedaços por toda Londres.
— Fim do mês — sugeriu Blackehart, a diversã o brilhando nos
olhos escuros. Oscar engoliu em seco. — Para ter tempo para... se
preparar.
O homem sorriu, se é que podia chamar aquilo de sorriso. Estava
mais perto de uma exibiçã o selvagem de dentes. Qualquer que fosse a
razã o, fez Oscar sentir um frio na espinha.
— Certo, entã o.
As palavras saíram indiferentes, como se ele estivesse concordando
em dar um passeio no parque, ao invés de parecer ter enfiado suas
palavras goela abaixo.
Aqueles que estavam assistindo se reuniram agora, dando um tapa
nas costas de Oscar e desejando-lhe sorte. Eles fariam suas apostas no
livro do White’s. Seria um grande acontecimento.
Oscar colou um sorriso no rosto e rezou para que nã o fosse
rapidamente seguido por outro evento que ele seria forçado a
participar: o pró prio funeral.
***
Na manhã seguinte, seu humor nã o tinha melhorado. Oscar
suspirou e pegou o café. Ele empurrou o prato cheio de café da manhã
do qual havia acabado de se servir, percebendo que nã o tinha apetite.
Sons no corredor chegaram aos seus ouvidos e ele olhou para cima
quando a porta se abriu e a voz familiar de Bertie se tornou audível.
— Nã o se incomode, eu sei o caminho.
Oscar se levantou, imaginando se seria forçado a se defender antes
mesmo de chegar ao Jackson’s hoje.
Bertie olhou para ele de cima a baixo e balançou a cabeça com
desgosto. Ele nã o podia culpar o amigo. Fugir de Ella como ele tinha
feito era desprezível da parte dele, ele sabia disso, mas ele fez isso, de
qualquer maneira. Ele se perguntou se poderia explicar isso a Bertie,
explicar como sentiu seu futuro pressioná -lo até pensar que poderia
sufocar sob o peso.
O desejo de fugir tinha sido irresistível.
Ele observou, desconfiado, enquanto Bertie entrava e se sentava em
silêncio, servindo-se de um generoso café da manhã antes de olhar para
o prato intocado de Oscar.
Oscar sentou-se novamente.
— Alguma coisa está te incomodando? — perguntou Bertie, as
palavras parcialmente agradáveis, embora o tom estivesse carregado
com algo um pouco mais sombrio. — Nã o é do seu feitio estar sem
fome.
— Ah, acabe logo com isso, Bertie — disse Oscar, sabendo que nã o
havia como escapar daquela situaçã o. — Eu sei que sou um maldito
monstro, sei que me comportei como um canalha. Se quiser me criticar,
está no seu direito, eu... eu simplesmente nã o sei o que fazer.
— Vai logo para casa, para sua esposa — respondeu Bertie, irritado.
— Nã o me considero um sujeito culto, Oscar, como você bem sabe, mas
até mesmo eu nã o sou tã o insensato que nã o consiga entender isso.
Oscar gemeu novamente e depois se sobressaltou quando Bertie
largou a faca e o garfo no prato com um barulho.
— Qualquer um pensaria que você se casou com uma velha
rabugenta — retrucou Bertie, e Oscar sentiu-se um pouco surpreso com
a fú ria de suas palavras. Ele sabia que Bertie amava sua irmã , é claro
que amava, mas certamente ele deveria entender a situaçã o em que
estava? Afinal, ele sabia a verdade do que havia acontecido.
— Nã o seja ridículo, Bertie — disse ele, indignado. — Nã o tem nada
a ver com a aparência dela ou... ou qualquer coisa do tipo. É apenas que
ela...
— Sim? — A voz de Bertie era quase um rosnado baixo, e sua
expressã o desafiava Oscar a dizer algo que nã o fosse elogioso.
— Ela é... Bug, pelo amor de Deus! — Oscar levantou as mã os,
exasperado. — Como você se sentiria se tivesse sido forçado a... a... com
a sua pró pria irmã?
— Mas ela nã o é sua irmã , Oscar, e além do mais, se você a tivesse
visto na noite anterior à minha partida... bem, ela também nã o é mais a
pequena Bug. Ela está mudando, Oscar, diante dos meus olhos, e se você
nã o voltar e consertar as coisas, terá perdido qualquer chance que
possa ter tido. As pessoas estã o começando a notá -la.
Oscar franziu a testa, sem entender nada. — O que diabos você quer
dizer com isso?
Bertie encolheu os ombros e começou a se concentrar na comida.
Oscar bateu com a mã o na mesa, frustrado. — Droga, cara,
desembucha. O que está querendo dizer?
Bertie olhou para ele e retribuiu com um olhar semicerrado. — Já
disse tudo o que queria. Prometi a Ella que nã o brigaria com você,
entã o, vou controlar a língua, mas o aviso está dado, Oscar. Nã o se
esqueça disso.
Oscar se lembrou da ú ltima noite em que viu Ella, quando a viu
conversando com Ranleigh, sozinha. Havia sido a gota d'á gua. Ele ficou
furioso. Como o homem se atrevia a tentar seduzir sua nova esposa?
Como ele ousava? Ella era inocente, nã o como as criaturas sofisticadas
com as quais Ranleigh se associava. No entanto, ocorreu-lhe naquele
momento que Ranleigh nã o via Ella como uma menina. Quando Ella
ameaçou aceitar o homem como seu amante... isso o surpreendeu. Mas
ele dificilmente poderia voltar atrá s na permissã o, certo?
Você pode ter um amante, desde que não seja Ranleigh?
Ele poderia dizer isso a ela?
Ele certamente havia dito o suficiente naquela noite. O suficiente
para ferir seus sentimentos ainda mais do que antes. Ver aquela dor nos
olhos dela e saber que ele a havia colocado lá , novamente, tinha sido a
pior coisa que ele já havia feito. Entã o, o que ele fez para redimir-se? Ele
tinha virado as costas e fugido como o covarde que era.
Estaria Ranleigh com ela agora, ele se perguntou, com uma
sensaçã o desagradável, que ele nã o reconhecia nem aprovava,
revolvendo suas entranhas. Ao inferno com o canalha, se estivesse.
Como ele poderia sequer contemplar a inocência de alguém tã o doce
como Ella? O homem era velho demais para ela. Ele deveria voltar e
avisá -la, no mínimo. Era seu dever como amigo protegê-la do mal,
independentemente de seu dever como marido.
Ele levou as mã os à cabeça.
Bertie emitiu um som de desgosto e Oscar sentiu uma pontada de
apreensã o enquanto levantava a cabeça e olhava para o melhor amigo.
Será que ele deveria ir para casa? Ele franziu a testa ao se lembrar do
desafio do Blackehart. Se ele fosse embora, todos iriam considerá -lo um
covarde. Sua reputaçã o seria destruída. — Eu... eu nã o posso ir, ainda
nã o. Eu tenho compromissos.
Bertie lançou-lhe um olhar indiferente e, para seu horror, Oscar
sentiu-se corar um pouco. — Eu aceitei um desafio de uma luta de boxe
no Jackson’s... no final do mês.
Oscar sentiu o sangue ferver ao ver os olhos de Bertie se voltarem
para o céu, como se orasse por paciência.
— Entã o vá e volte depois, maldito seja.
— Nã o consigo, Bertie. Se visse o sujeito com quem vou lutar...
Inferno, se eu nã o entrar em forma para esta luta, o homem vai me
dilacerar. Para ser honesto, você terá que juntar os pedaços que ele
deixar, de qualquer maneira, mas tenho que tentar.
A sobrancelha de Bertie se ergueu, sua expressã o sarcá stica e a
implicaçã o perfeitamente ó bvia.
Oscar olhou furiosamente para o amigo, indignado com a
desaprovaçã o de Bertie. Ella o forçou a esse maldito casamento. Ele fez
a coisa honrosa e se casou com a maldita garota, o que mais Bertie
queria?
— Ah, vamos lá , Bertie. Vou voltar para Chancery logo apó s a luta.
Nã o posso desistir, sabe que nã o posso. É uma questã o de honra.
— Sim, Oscar — respondeu Bertie, os olhos no prato e as palavras
carregadas de sarcasmo. — Sem dú vida alguma.
Capítulo 11
“No qual Ella toma as rédeas da situação.”

Patience soltou um suspiro ao ver Ella contornar uma curva


acentuada, quase sem diminuir a velocidade dos cavalos. Com uma
gargalhada, Ella incentivou os cavalos a irem mais rá pido à medida que
a estrada se alargava, aproveitando cada momento.
O phaeton com capota reversível e dois gloriosos cavalos pretos
haviam sido um presente de casamento para ela de Mintie, e ela nunca
se sentiu tã o agradecida. Ao se aproximar de Finchfields, a bela
residência de sua mais nova amiga, a dama ficou deslumbrada ao vê-la.
Tinha sido bastante divertido.
Vestida com um traje de viagem de veludo roxo-escuro,
acompanhado de um chapéu estilo hussardo adornado com penas
brancas, tingidas nas pontas da mesma cor roxa, Ella sabia que estava
absolutamente elegante.
— Que dia glorioso — disse Patience, inclinando a cabeça para trá s
para apreciar o sol da primavera no rosto. — Muito obrigada por ter me
convidado.
— O prazer foi todo meu, eu garanto — disse Ella, falando sério.
Patience era alguns anos mais velha do que ela e experimentou seu
pró prio gosto de escâ ndalo quando fugiu para se casar com August. O
fato de a nova amiga simpatizar com as circunstâ ncias de Ella era
reconfortante.
— Tem sido tã o estranho desde que me casei com Oscar. Eu... eu
passei tanto tempo na companhia dele e de meu irmã o antes e, ainda
assim, desde que nos casamos...
Ela deu de ombros, imaginando se deveria confiar tanto em sua
nova amiga, mas havia algo em Patience que convidava a se abrir, e ela
nã o podia fingir que Oscar nã o havia fugido. Era o assunto do momento
da alta sociedade. Ella tinha certeza de que podia confiar nela.
— Você nã o tem notícias dele desde que ele foi embora?
Havia compreensã o nas palavras da amiga e Ella balançou a cabeça,
concentrando-se na estrada para evitar que a má goa viesse à tona. —
Nã o. Nem uma palavra sequer.
Ela franziu os lá bios. — Sabe, à s vezes é preciso chamar a atençã o
de um homem.
Ela riu de Ella, com um bufo de diversã o, mas continuou.
— Deve trazê-lo para casa, Ella. Se ele estiver fingindo que nã o tem
esposa, nada vai mudar.
— Eu nã o discordo — respondeu Ella, desacelerando os cavalos
enquanto um fazendeiro com sua carroça se tornava visível à frente. —
Mas como posso fazer isso?
Patience calou-se por um momento. — Você soube que Darling
Bertie se mudou para a propriedade do Marquês de Henshaw, em Bury
St. Edmunds? Acredito que ele passará lá o verã o.
As palavras eram indiferentes, mas Ella nã o era tola a ponto de
acreditar que nã o eram pertinentes ao assunto em questã o.
Ella virou-se e piscou para a amiga com espanto. O que diabos ela
estava sugerindo? — Claro que ouvi. Além de mim, é a ú nica coisa sobre
a qual as pessoas estão comentando.
— Dizem que o marquês o mandou para lá para mantê-lo longe de
problemas. Ao que tudo indica, nã o está funcionando e ele está
aprontando as artimanhas de sempre. Ele está organizando um baile de
má scaras. Estarã o presentes as pessoas mais na moda. Poetas,
escritores e artistas... — Patience deixou as palavras no ar.
— Nã o é um evento muito respeitável, nã o é? — Ella franziu a testa
para Patience. Decerto ela nã o estava sugerindo...
— Ah, nã o, de jeito nenhum, mas irei com August como
acompanhante, entã o nã o tem como ser tã o escandaloso. Gostaria de ir
conosco?
Ella olhou boquiaberta para Patience e depois apressou-se para se
concentrar em seus cavalos, que estavam inquietos por terem que
desacelerar.
— Eu... eu... nã o sei.
— Bem, você ficou famosa quando roubou o marido da sua irmã , e
ele piorou ainda mais a sua reputaçã o ao te deixar sozinha poucas
semanas apó s o casamento. A esta altura, você tem pouco a perder, e
uma duquesa sempre superará pequenos escâ ndalos, entã o é melhor se
divertir.
Ella lançou outro olhar para Patience, que repousou uma mã o
tranquilizadora em seu braço.
— August e eu estaremos lá para manter as coisas respeitáveis,
entã o nã o é um risco tã o grande.
— Nã o — ponderou Ella, repassando a ideia em sua mente. — E
suponho que, se me divertir bastante, vou parar de pensar em Oscar.
Patience assentiu, com um sorriso aprovador. — Exatamente, e
pode ter certeza de que no momento em que parar de babar por ele,
será exatamente quando o desgraçado voltará para casa. Talvez seja
bom para ele perceber como você consegue viver sem ele.
Por um momento, Ella nã o falou nada, mordendo o lá bio com
concentraçã o enquanto diminuía a velocidade do phaeton ao passar
pelo fazendeiro e sua carroça fortemente carregada, uma vez que a
pista se alargou o suficiente para tentar a manobra. Se ela fosse
honesta, nã o eram os cavalos que prendiam sua atençã o, mas as
palavras de Patience, que pareciam ecoar muito do que Mintie havia
sugerido.
— Sim — disse ela, libertando um pouco da natureza impulsiva que
ela havia prometido manter sob controle. Mintie havia decidido que
deveria se tornar a sensaçã o do momento, entã o, resolveu tentar. Como
Patience disse, havia muito pouco a perder.
***
Oscar abaixou as cartas. Ele havia perdido feio naquela noite, mas
nã o conseguia reunir entusiasmo para se importar.
— Preciso de um pouco de ar.
Bertie assentiu e reuniu as cartas, distribuindo-as aos jogadores
restantes. As salas de jogos privadas no Lady West’s eram exclusivas e
apenas com apostas altas. O elegante salã o estava iluminado por
dezenas de velas e envolto em fumaça de charuto.
Oscar se levantou, seus movimentos um pouco duros apó s o esforço
físico desta manhã . Roberts tinha se tornado um treinador inflexível.
Ele sabia que o treinador acreditava que Blackehart iria crucificá -lo,
mas nem pensar Oscar iria facilitar o trabalho dele. Até mesmo o
grande Sr. Jackson tinha vindo dar uma conferida na forma de Oscar e
dar-lhe algumas dicas. As coisas deviam estar desesperadoras.
Ele dirigiu-se para a parte de trá s da casa, esperando obter um
pouco de ar fresco nos jardins. Um dos lacaios de Lady West abriu a
porta para ele. Sem dú vida, ele estava atento para dissuadir aqueles
rapazes, que haviam perdido muito, de saírem pela porta dos fundos
antes de quitarem suas dívidas. Felizmente, o crédito de Rothborn era
ilimitado e eles sabiam que ele nã o era o tipo de pessoa que fugia de
suas dívidas. Uma sensaçã o fria e nauseante se agitou em suas
entranhas ao pensar naquela afirmaçã o.
Os jornais de escâ ndalos daquela manhã nã o eram diferentes de
outros que ele havia lido ultimamente. Ella, assim como ele havia
previsto, estava navegando pelas á guas perigosas da alta sociedade
como uma linda sereia. Ele franziu a testa ao ler os relatos sobre sua
roupa da moda e sobre uma mulher cuja beleza florescia a ponto de
rivalizar com a linda irmã . Será que realmente estavam falando da sua
pequena Bug?
Uma coisa estava clara: ela nunca afundaria, nunca esteve em
perigo de afundar. Ele afirmava a si mesmo que deveria se sentir
aliviado, já que qualquer culpa que sentisse por tê-la deixado sozinha
claramente nã o fazia sentido. Ela nã o precisava dele.
Em vez disso, ele se sentia vazio e terrivelmente solitá rio. Bertie
mal estava falando com ele, e provavelmente havia magoado tanto Ella
que ela nunca o perdoaria. Ele se recriminou pela luta estú pida com
Blackehart. Meu Deus, como ele era um tolo.
O ar fresco da noite o envolveu enquanto ele seguia para os jardins
e se sentava nos degraus que levavam do terraço até o gramado. Ele
estava lá há apenas um segundo quando o som suave de soluços chegou
aos seus ouvidos.
Com uma expressã o de preocupaçã o, ele se levantou e vasculhou o
jardim até encontrar a fonte de tã o triste choro.
Uma menina estava sentada sob a copa de um grande arbusto de
rododendro, com uma camisola branca totalmente desalinhada e os
joelhos levantados em direçã o ao peito. Ela segurava uma boneca feia
em uma das mã os enquanto com a outra enxugava as lá grimas, os olhos
grandes e assustados olhando para Oscar em alarme.
— Olá , nã o tenha medo — disse ele, tentando parecer menor e o
menos ameaçador possível enquanto espiava por baixo dos galhos. —
Você está bem?
A menina limpou o nariz na manga e piscou, tentando frear as
lá grimas, encarando-o com desconfiança. Ela tinha talvez sete ou oito
anos, com longos cabelos castanhos amarrados em uma trança solta.
— Nã o — disse ela, com a voz fraca. — Eu... eu nã o consigo voltar
para dentro. A ama fechou a janela pela qual eu escalei, e Smith está
vigiando a porta dos fundos. Nunca vou conseguir passar por ele e vou
me meter em apuros quando descobrirem.
— Ah, isso é um problemã o — concordou Oscar, simpá tico à sua
situaçã o. — Mas por que você está aqui fora, entã o?
— Deixei Jane na casinha na á rvore nos fundos do jardim e a
esqueci lá até a hora de dormir. A ama disse que estava escuro demais
para buscá -la, mas... mas eu nã o conseguia dormir pensando nela lá ,
sozinha... no escuro. — As ú ltimas palavras foram quase sussurradas
enquanto seus olhos arregalados vasculhavam a escuridã o da noite ao
redor deles.
Oscar percebeu que a menina havia ficado aterrorizada de sair e
buscar sua boneca, mas o fizera porque nã o suportava a ideia de nã o o
fazer. De repente, lembrou-se de Ella na mesma idade e soube que ela
teria feito exatamente a mesma coisa. Seu coraçã o deu um salto
irregular no peito.
— Como você é corajosa — disse ele, sorrindo para ela.
A menina esboçou um sorriso, embora fosse pouco convincente. —
Nem tanto. Eu estava com muito medo.
— Isso torna tudo ainda mais corajoso — respondeu Oscar, sua voz
firme. — Qual é o seu nome?
— Millicent Faversham — disse ela, apertando a boneca contra o
peito e tremendo um pouco. — Tenho oito anos.
— E você está hospedada com Lady West?
Ela assentiu, e Oscar percebeu o quanto ela estava com frio ao ver
seu corpo frá gil tremendo sob a camisola.
— Ela é minha tia.
Oscar tirou o paletó justo e passou para a menina sob os galhos do
arbusto. — Toma, coloque isso enquanto eu penso em como te levar de
volta para dentro.
— Você vai me ajudar? — perguntou ela, animando-se
imediatamente e olhando para ele com surpresa.
— Vou — disse ele, assentindo enquanto pensava no que fazer.
— Oh, muito obrigada!
Oscar observou a menina, envolta em seu paletó , com uma
expressã o de confiança nos olhos enquanto esperava que ele resolvesse
a situaçã o. Ele sentiu um nó se formar em sua garganta. Ella costumava
olhá -lo assim, como se ele fosse capaz de pegar a lua do céu se ela assim
lhe pedisse.
— Por que você está tã o triste?
Ele olhou para baixo e encontrou Millicent olhando-o com
preocupaçã o.
Oscar balançou a cabeça. — Ah, nada. É ... — Ele parou antes que
uma resposta superficial saísse automaticamente. Em vez disso, optou
pela verdade. — Na verdade, é porque você me lembra alguém. Uma
amiga querida. Sinto falta dela.
— Ela tem a mesma idade que eu?
Bertie riu, balançando a cabeça. — Nã o, ela é... ela nã o é uma
criança.
As palavras foram assimiladas enquanto ele lembrava o que mais os
jornais de fofoca haviam dito, sugerindo que ela estava fazendo
Ranleigh dançar conforme sua mú sica. Seria ele amante dela? A
sensaçã o de mal-estar no estô mago se intensificou.
— Por que você nã o vai vê-la, entã o? Se sente falta dela? Você é um
adulto, pode fazer o que quiser.
Oscar respirou fundo e balançou a cabeça. — Nã o é tã o simples
assim e... e eu nem sei se ela gostaria de me ver. Eu... tenho medo de ter
ferido seus sentimentos.
Olhos grandes e sérios o encararam, e Oscar sentiu como se a
criança estivesse olhando em sua alma.
— Mas você está arrependido? — perguntou ela, franzindo a testa.
Ele assentiu, o nó na garganta se tornando mais apertado à medida
que ele percebia o quanto realmente se arrependia.
— Bem, entã o — disse ela, rolando os olhos para ele. — Entã o, os
amigos te perdoam se você está arrependido.
Ele riu e assentiu. — Sim, é verdade, e ela tem sido uma amiga e
tanto. Nã o tenho certeza se algum dia mereci isso. Mas sabe, você é
muito parecida com ela. Ela teria dito exatamente a mesma coisa.
Millicent abriu um sorriso radiante para ele, parecendo satisfeita
consigo mesma.
— Muito bem, entã o, jovem dama. Como vamos fazer para você
voltar para dentro, sem que sua ama perceba?
O rostinho da menina se entristeceu enquanto ela voltava a pensar
no pró prio dilema.
— Eu nã o sei — disse ela, com a voz fraca.
Oscar se levantou e olhou para a parte de trá s da casa com uma
expressã o pensativa. — De qual janela você escapou?
— Da janela da cozinha, mas alguém a fechou. Aposto que foi a
ama — disse ela, soltando um suspiro amargo. — Ela sempre se
preocupa com as correntes de ar.
— De quem é a sacada? — perguntou ele, apontando para uma
sacadinha Julieta, onde uma das portas de vidro estava entreaberta.
— Ah, aquela é a do quarto das crianças — disse Millicent, saindo
de baixo do arbusto para olhar melhor. — A criada deixa as portas
abertas para ventilar depois de limpar. A ama vai brigar com ela por
esquecer de fechá -las de novo, mas eu nunca teria coragem de subir ali.
Ela tirou a sujeira de sua camisola e abraçou a boneca contra o
peito. O casaco de Oscar caía até o chã o em seus ombros finos e parecia
um pouco danificado.
— Você acha que conseguiria se segurar em mim se eu a escalasse?
— perguntou Oscar.
Havia uma grossa videira de glicínia subindo pela parte de trá s da
casa e algumas treliças de ferro forjado. Ele achava que conseguiria
subir ali facilmente, se a menina fosse corajosa o suficiente para se
segurar a ele.
Os olhos dela se arregalaram enquanto ela olhava de Oscar para a
sacada e de volta para ele.
— Eu... eu... acho que sim — disse ela, mordendo o lá bio e
parecendo ansiosa.
— É assim que se fala! — respondeu Oscar, sorrindo para ela.
— Será que sua amiga deixaria você carregá -la até lá em cima? —
perguntou ela, parecendo ainda mais desconfiada.
— Sim. — Oscar assentiu. — Ela é a pessoa mais corajosa que eu
conheço. Muito mais corajosa do que eu — acrescentou ele, baixinho. —
E ela nã o é só minha amiga, é minha esposa.
— Oh! — disse Millicent, surpresa com essa informaçã o. — Entã o
você deve, com certeza, ir para casa e pedir desculpas a ela.
Ela falou com tom severo enquanto o olhava e cruzava os braços
sobre a boneca.
Constrangido, Oscar assentiu, esfregando a nuca. — Sim. Você está
certa, sei que está . Sabe de uma coisa... Se você for corajosa o suficiente
para se segurar a mim enquanto eu subo lá , prometo que vou para casa
e peço desculpas à minha esposa.
A menina mordeu o lá bio por um momento e depois deu um forte
aceno com a cabeça. — Fechado — disse ela, estendendo a mã o.
Oscar apertou a mã o dela, tã o sério quanto ela, antes de se agachar
no chã o. — Entã o, vamos lá . Ah, e me dê Jane, ou você vai deixá -la cair.
Ele colocou a boneca dentro do colete para protegê-la e esperou até
que os braços de Millicent se envolvessem firmemente ao redor de seu
pescoço, com as pernas agarradas à s suas laterais.
— Lá vamos nó s, entã o. Segure firme e nã o tenha medo.
Para seu alívio, a subida foi fá cil, embora seus membros já
doloridos protestassem um pouco. Ele saltou sobre a sacada e colocou
Millicent no chã o.
— Você consegue chegar ao seu quarto a partir daqui? — sussurrou
ele.
A menina assentiu, sorrindo para ele. — Sim, muito obrigada. — Ela
esticou o braço e puxou seu pescoço, e Oscar se inclinou para receber
um beijo na bochecha. — Você é muito galante — disse ela, sorrindo
para ele. — Como um cavaleiro dos contos de fadas.
Oscar bufou e balançou a cabeça. — Eu nã o acho que isso esteja
nem perto de ser verdade, mas prometo tentar mais a partir de agora
para viver de acordo com esse ideal.
Ele bagunçou o cabelo dela e subiu pela sacada, encontrando seu
equilíbrio na glicínia enquanto ouvia o som indesejável da porta dos
fundos se abrindo.
O criado, Smith, e Bertie apareceram justamente quando ele saltava
para o chã o e percebeu que a boneca estava escondida em seu colete.
Ah.
Eles o olharam enquanto Oscar começava uma série de
polichinelos, para dar a impressã o de que nã o havia acabado de pular
da lateral da casa, mas estava, na verdade, se exercitando.
Os dois homens o encararam, boquiabertos.
— O que diabos você está aprontando? — quis saber Bertie, com os
olhos arregalados de alarme. — Você ficou louco?
— Louco? — repetiu Oscar, rezando para que a boneca nã o
escapasse por debaixo do colete. Ele parou os exercícios enquanto
Smith e Bertie o olhavam com desconfiança. — Nã o, nã o, é só que... uma
grande luta está vindo aí. — Ele arfou, sentindo-se exausto. — Nã o
posso... posso... perder tempo.
— Entã o, você está aqui... fazendo exercícios? — O ceticismo na voz
de seu amigo era difícil de ignorar.
— Sim — concordou Oscar, percebendo que seu casaco ainda
estava com a garotinha. Bem, de todas as coisas ridículas...
Bertie lançou-lhe um olhar sério, o mesmo que ele usava para
pessoas que ele achava que estavam tentando enganá -lo.
— Se é o que você está dizendo — respondeu Bertie, claramente
nã o acreditando nele. Ele balançou a cabeça com um suspiro. — Vamos
lá , Rothborn, você está embriagado ou maluco, e eu nã o me importo
nem um pouco com isso, mas quero ir para a cama e nã o vou a pé. Sua
carruagem nos aguarda.
— Claro, depois de você — disse Oscar, com um tom jovial
enquanto gesticulava para Bertie.
Bertie apertou os olhos e lançou a Oscar um ú ltimo olhar
desconfiado antes de voltar para a porta, com Smith seguindo atrá s,
igualmente confuso.
Oscar deu meia-volta e lançou a boneca pelo ar, onde ela aterrissou
com um estrondo na sacada, bem no momento em que seu casaco voava
da porta do quarto das crianças e caía sobre sua cabeça. Oscar o
agarrou a tempo de ver Bertie e Smith se virarem e olharem para ele.
— Esqueci meu casaco — disse ele, segurando o artigo amassado e
ficando um pouco corado enquanto passava por eles e voltava para
dentro do prédio.
Capítulo 12
“No qual a estrela de Ella está ascendendo.”

Hareton House já pertencera à Abadia de Bury St. Edmunds. A


antiga morada medieval havia sido demolida no início do século XVIII, e
os ancestrais do atual marquês começaram a construçã o do novo e
impressionante edifício diante deles. Fortemente influenciado pelo
design italiano, o edifício era incomum, elegante e, naquele momento,
estava lotado de grandes estrelas do mundo da arte.
— Meu Deus — disse Patience, com a palavra soando bastante
atô nita, como se ecoasse tudo o que Ella sentia.
Por um momento, ela se sentiu acuada, sabendo de imediato por
que seu pai lhe havia proibido de comparecer ao evento quando
soubera de seus planos. Ella sentiu uma pequena onda de triunfo por
ignorá -lo. Ele nã o tinha mais poder sobre seu comportamento, e seu
marido nem estava ali para lhe dizer nã o, entã o, ambos poderiam ir
para o inferno. No entanto, a pequena sensaçã o de insegurança de que
seu pai pudesse ter razã o continuava ali.
O clima era de pura animaçã o entre os presentes, à medida que as
normas de etiqueta habituais de um baile eram deixadas de lado sob o
disfarce discreto de pessoas com má scaras e mantos encapuzados, e
uma exibiçã o exuberante de fantasias dos mais variados tipos.
Videntes esbarravam em pastoras e deusas. Padres, freiras e sultõ es
turcos se misturavam com arlequins e eremitas, funileiros e reis de
todas as épocas. A mú sica, a conversa e as cores em movimento eram
intimidadoras e, de certa forma, sufocantes.
— Você nã o deve dançar com ninguém a menos que eu o tenha
identificado primeiro — disse August a Ella, parecendo lamentar ter
permitido que sua esposa o convencesse a comparecer ao evento. —
Vossa graça — acrescentou ele, rapidamente, percebendo que estava
dando ordens a uma mulher que o superava em posiçã o.
Ella assentiu em concordâ ncia. O pobre homem estava em uma
situaçã o difícil, ele realmente nã o tinha autoridade sobre ela, mas se
algo acontecesse a ela sob seus cuidados, o duque – um dos seus
melhores clientes – o responsabilizaria. Sendo assim, Ella estava feliz
em se manter pró xima dele e de Patience, aproveitando a experiência.
Ela puxou a capa de seda vermelha de sua fantasia um pouco mais
para cobrir seu rosto, embora a má scara de seda combinando já
cobrisse a maior parte dele. O vestido que usava por baixo era um
simples vestido de musselina branca, surpreendentemente inocente
diante da seda vermelho-sangue que o cobria.
Uma voz profunda soou atrá s dela, fazendo um arrepio percorrer
sua espinha. — Ora, ora, Chapeuzinho Vermelho. Que encantador.
Ella olhou para cima, e uma imponente figura com manto e má scara
preta projetou-se sobre ela. Olhos escuros brilhavam por trá s de uma
má scara preta, e ela piscou para ele, reconhecendo a voz.
— Ranleigh, é você? — perguntou August, enquanto o homem se
virava para ele.
— Em carne e osso — respondeu Ranleigh, com um sorriso
pesaroso. — Está tã o fá cil assim de me identificar? Eu achava que
estava pronto para uma noite de devassidã o sem as consequências.
August riu e deu-lhe um tapinha nas costas.
— Sinto muito em te desapontar, Vossa Graça. A atitude ducal
transparece até por trá s desse disfarce impenetrável.
Ranleigh soltou um suspiro de desgosto e estalou a língua em
resposta à s palavras de August. — Eu sabia que deveria ter vindo de
imperador romano — disse ele, soando tã o ridiculamente desanimado
que Ella nã o pô de deixar de rir, o que, claro, era sua intençã o.
Satisfeito consigo mesmo, ele estendeu a mã o.
— Quer dançar com um lobo? — indagou ele, lançando-lhe um
sorriso que mostrava dentes demais em uma tentativa ó bvia de exibir
um sorriso lupino.
— Sim — respondeu Ella, divertindo-se. — Acho que quero, sim.
Ranleigh a guiou para o meio da multidã o, protegendo-a do pior
dos convidados entusiastas enquanto seguiam em direçã o à pista de
dança.
Ele curvou-se de forma teatral, parecendo elegante e bastante
misterioso por baixo de sua capa de seda preta e má scara. Ella fez uma
reverência e permitiu que ele a conduzisse para o meio da pista de
dança.
Por um momento, ela se esqueceu de Oscar, da culpa e das suas
preocupaçõ es, das fofocas e do futuro, e simplesmente aproveitou o
momento. A mú sica envolveu-os, o ar vibrando com risos, e Ella foi
transportada para longe de seus problemas cotidianos, encantada
enquanto o duque a girava, seu manto caindo para revelar seu cabelo.
Logo, a dança terminou, e eles pararam. Ella estava rindo e ofegante
enquanto olhava para o duque. Os olhos escuros dele estavam fixos nos
dela, de repente intensos.
— Meu Deus, duquesa. Seu marido realmente é um tolo.
Ela corou diante do tom de suas palavras, com a força subjacente a
elas, sabendo que ele estava tornando claro seu interesse, mas mal
ousando acreditar nisso.
— Nã o precisa fazer essa cara de espanto — disse ele, rindo um
pouco, um sorriso autodepreciativo pairando em sua boca. — Eu sei
onde está o seu coraçã o, e eu traria Rothborn de volta a você em vez de
me tornar o vilã o. Nã o posso fingir que nã o estou tentado a mandar
minha consciência para o diabo, no entanto.
Ella deu uma risada e pegou o braço que ele lhe ofereceu. — Acho
que você faz um ó timo trabalho em aumentar minha confiança, e por
isso, agradeço.
Ela tentou sair do seu aperto, pois a mú sica já havia parado e outra
dança estava prestes a começar, mas Ranleigh a segurou firmemente,
franzindo a testa.
— Pelo amor de Deus — murmurou ele, parecendo bastante
surpreso. — Você ainda duvida da minha sinceridade?
Ela riu, realmente acreditando que ele dizia essas coisas para fazê-
la se sentir melhor. — Acho que você gosta de flertar e conseguiria
conquistar o interesse de qualquer mulher, de dezesseis a cem anos,
simplesmente porque pode.
O braço sob sua mã o se contraiu, os mú sculos se flexionando
enquanto ele a encarava. Ella sentiu um rubor subir por seu pescoço,
tã o quente que sem dú vida combinava com o vermelho-escarlate de sua
fantasia. Antes que ela pudesse se recompor e perceber que o homem
realmente havia dito cada palavra, ele se inclinou e a beijou.
Sua grande mã o segurou seu rosto, com o polegar acariciando sua
bochecha enquanto sua boca pressionava contra a dela. Lá bios tã o
macios quanto os dela roubaram-lhe o fô lego com facilidade e, logo em
seguida, se afastaram rapidamente.
Ella o encarou, muda de choque.
— Jurei ser seu amigo, Ella — disse ele, com a voz baixa. — Entã o,
você tem minha promessa de que isso nunca mais acontecerá , mas nã o
seja tã o tola a ponto de acreditar que os homens nã o a desejam ou que
você nã o tem poder aqui. Rothborn pode ser cego para o que está
debaixo do seu nariz, mas posso garantir que os outros estã o prestando
muita atençã o.
Ele se afastou, guiando-a de volta pela multidã o como se nada
tivesse acontecido. Ella, no entanto, sentia-se tonta. Seu primeiro beijo!
O fato de nã o ter sido Oscar quem a beijou fez seu coraçã o doer, mas as
palavras de Ranleigh deram-lhe esperança. Se ela podia conquistar o
interesse de um homem experiente como o duque, talvez conquistar
seu pró prio marido nã o fosse uma tarefa tã o impossível.
Se Patience percebeu o rubor nas bochechas de Ella quando ela
retornou até eles, nã o comentou nada, para imenso alívio de Ella. Quer
tivesse sido esse o propó sito ou nã o, as atençõ es lisonjeiras do duque
haviam feito maravilhas pela confiança de Ella, e ela começou a olhar o
mundo com novos olhos. Para sua surpresa, Ranleigh estava certo.
Parecia haver uma fila interminável de possíveis parceiros de dança
ansiosos por um momento de sua atençã o, todos duramente
examinados por um Lorde Marchmain cada vez mais exasperado. Além
disso, a admiraçã o nos olhos deles era evidente e bastante intrigante.
O resto da noite passou em uma espécie de torpor enquanto Ella
dançava, ria e se divertia bastante. Como August era tã o rígido em
afastar qualquer pessoa que considerasse inadequada, nã o havia perigo
para ela, mas as má scaras e o tom um tanto clandestino e escandaloso
da noite tornaram tudo misterioso, excitante e terrivelmente româ ntico.
Finalmente, deram-se por vencidos. Patience jurou que seus pés
nunca mais seriam os mesmos, e Ella teve que admitir que estava
exausta. Fora uma noite maravilhosa.
De braço dado, as duas damas seguiram para o lado de fora para
encontrar a carruagem. August as guiava, fazendo o melhor possível
para escolher um caminho que nã o as expusesse ao que parecia ser
uma cena bacanal se desenrolando nos jardins iluminados pelo luar.
Todos os cantos mais escuros pareciam ocupados, e Ella nã o pô de
deixar de ver casais mergulhados em abraços e outros ainda
desaparecendo mais na escuridã o. Ela reprimiu um suspiro de pesar
por talvez nunca saber o que é ser beijada à luz da lua, mas recusou-se a
ficar triste ou deixar que o pensamento diminuísse a alegria de uma
noite encantadora.
Enquanto seguiam, ela viu a figura familiar de George Jones, um
criado da propriedade de seu pai. O que ele estava fazendo ali? A lista
de convidados poderia ser ampla, mas ainda assim. Ela quase levantou
a mã o para chamá -lo, quando se lembrou de que também deveria ser
discreta e controlou a língua. Porém, enquanto observava, ele se
escondeu sob um arco sombrio e ela percebeu que estava encontrando
uma amante.
Ella sorriu, sentindo-se bastante invejosa pelo encontro româ ntico,
ao vislumbrar um braço esguio, envolto em uma longa luva de seda
branca, estendendo-se para ele. Uma pulseira refletiu à luz do luar, o
design incomum de diamantes e pérolas brilhando e enviando uma
descarga elétrica através dela como um raio. Ela arquejou.
— Ella? — perguntou Patience, olhando para ela com preocupaçã o.
— O que há de errado?
Ella engoliu em seco e balançou a cabeça, mantendo os olhos no
caminho à frente.
— Nada — mentiu, forçando seu coraçã o a parar de bater tã o
rá pido, pois estava começando a se sentir enjoada. — Eu... eu tropecei
em uma pedra. As solas dessas sapatilhas nã o sã o feitas para caminhos
de cascalho.
Patience concordou e notou o aparecimento da carruagem à frente,
soltando um suspiro de alívio.
Já na escuridã o isolada da carruagem, Ella se permitiu recordar o
elegante braço de luva branca, e a imagem familiar da pulseira de sua
irmã , que parecia gravada em sua mente.
***
Dois dias depois, Ella se viu em uma comemoraçã o informal na
companhia de Mintie, Fluff, Patience e August. Desde o começo, Mintie e
August se deram muito bem, ambos sendo sedutores inveterados, mas
claramente profundamente apaixonados por suas parceiras. As
brincadeiras deles eram hilá rias e fizeram todos caírem na gargalhada,
enquanto August fingia ter se apaixonado pelos encantos dela e a viú va
se fazia de tã o velha e desgastada quanto Matusalém.
Ranleigh e seu amigo, o Conde de Falmouth, também estavam
presentes. Ella corou ao lembrar-se da ú ltima vez em que encontrara o
conde – quando ele esbarrou com ela e Oscar – mas o homem era
encantador, apesar de sua aparência severa, e rapidamente a
apresentou à sua linda esposa.
A esposa de Falmouth, Céleste, era uma figura. Uma bela loira de
olhos azuis, a francesa émigrée conquistava os coraçõ es de todos que
conhecia com apenas um sussurro de seu encantador sotaque francês.
Sob o olhar um tanto intimidador e protetor de seu marido, ela
circulava pela sala com Ella no braço. Ela conhecia todo mundo, e todo
mundo a conhecia, e antes do final da noite, Ella já havia conhecido
tantas pessoas interessantes que sua cabeça girava. Houve convites a
todo momento, e ela mal sabia como conseguiria encaixar tudo nos
pró ximos dias, à medida que sua agenda ficava lotada.
— Vossa Graça está se tornando uma verdadeira sensaçã o. A visã o
de você conduzindo aqueles cavalos pretos como verdadeiro exímio em
um phaeton impossivelmente alto é o assunto do momento de
Newmarket.
Uma suave respiraçã o quente contra seu pescoço fez sua pele se
arrepiar com a sensaçã o e seu estô mago afundar, enquanto a voz de
Ranleigh sussurrava em seu ouvido. Ela se virou um pouco e olhou para
ele.
— Bem, tento evitar que Rothborn roube todas as manchetes —
respondeu ela, as palavras um tanto amargas.
Ranleigh riu e se moveu para ficar ao lado dela. — Já lhe ocorreu,
duquesa, que seu duque errante sabe muito bem sobre sua ascensã o
rá pida ao topo da alta sociedade e está se sentindo um pouco...
desconcertado?
Ella levantou uma sobrancelha para ele, cínica demais em relaçã o
aos boatos que ainda circulavam sobre sua reputaçã o para confiar
demais na atençã o cada vez mais positiva que estava recebendo. Ela
ainda nã o acreditava que a alta sociedade a considerava o auge da moda
e a observava com atençã o submissa. O fato de ela nunca duvidar da
veracidade das histó rias sobre as façanhas do marido era
provavelmente injusto da sua parte, dadas as circunstâ ncias, mas era o
que era.
Oscar havia sido mencionado vá rias vezes nas colunas de fofocas
por frequentar os eventos mais glamorosos ou, mais frequentemente,
por uma certa aventura esportiva imprudente. No entanto, ele nã o tinha
sido tã o comentado ultimamente e, longe de ser tranquilizador, isso só
a fazia se preocupar ainda mais. Será que ele havia criado um ninho de
amor com uma nova amante, talvez?
Ella dizia a si mesma que nã o se importava. Ela estava trilhando seu
pró prio caminho, criando uma vida para si mesma, exatamente como
Oscar lhe pedira. O que importava a ela como ele passava o tempo?
A mentira pesava fria e densa em seu coraçã o, e ela nunca
conseguia se livrar dela.
Ranleigh se aproximou mais. — Os boatos dizem que você me tem
na palma da sua mã o. Sabia disso?
Ella se sentiu instantaneamente ruborizada e se recusou a olhar
para ele. Sim, ela sabia disso. O rumor de que o duque a estava
cortejando chegou aos seus ouvidos alguns dias atrá s.
— Eles parecem achar que meu coraçã o está aos seus pés. Vai pisá -
lo com seu salto, meu bem?
— Nã o me chame assim — disse ela, ficando ainda mais corada. —
E nã o me provoque desse jeito. Nó s dois sabemos que seu coraçã o nã o
está ao meu alcance e que eu nã o tenho nenhum poder sobre você. Pare
com essa tolice antes que alguém ouça.
Ranleigh riu, totalmente desinibido. — Ora essa, nã o venha criar
caso comigo. Eu nã o escrevo as colunas de fofocas e, além disso, nã o
acho que você nã o ficaria encantada se Rothborn voltasse correndo
para casa e me desafiasse para um duelo.
Ella fitou-o boquiaberta, horrorizada. — De todas as sugestõ es
idiotas! Você deve me achar uma criatura completamente artificial se
acredita que ver um dos meus melhores amigos e marido brigando em
um duelo me agradaria!
Ranleigh fez uma pausa, com surpresa nos olhos. — Realmente
tenho essa honra?
Ela olhou para ele, soltando um suspiro de irritaçã o. — Quando
você nã o está agindo como um canalha sem vergonha, sim. Criatura
odiosa — acrescentou ela, balançando a cabeça.
Para sua surpresa, Ranleigh deu uma risada sonora, e ela o acertou
no braço com seu leque.
— Pare, todo mundo está olhando e vai haver ainda mais boatos
para desmentir.
— Peço desculpas — disse ele, as palavras sérias, embora seus
olhos brilhassem de prazer.
Mandando Ranleigh embora com uma resposta afiada e um pedido
para que fosse buscar uma bebida para ela, Ella sorriu enquanto Mintie
se aproximava e lhe tomava o braço.
— Espero que nã o se importe, querida. Prometi que você jogaria
lanterlu comigo depois do jantar. Precisávamos de uma quinta jogadora
e achei que você me faria esse favor.
— Claro — respondeu Ella.
Mintie suspirou e olhou para ela, estendendo a mã o para tocar em
um cacho de seu cabelo. — Olhe só para você — disse, com os olhos um
pouco marejados. — Você ouviu que houve uma onda de moças
cortando o cabelo curtinho para imitar a deslumbrante Duquesa de
Rothborn?
Ella piscou. Isso ela nã o tinha ouvido. — Nã o pode ser! — exclamou,
surpresa demais para rir.
— É verdade — respondeu Mintie, rindo e balançando a cabeça. —
Eu sabia que você ia encantar a todos, se tivesse a chance.
— Mas eu nã o fiz nada de notável — protestou Ella. — Na verdade,
tento ao má ximo nã o ser notada. Tudo o que faço é comparecer a
diversos eventos sociais e fazer o meu melhor para nã o fazer papel de
boba.
Mintie lhe lançou um olhar travesso, mordendo os lá bios por um
momento. — Sim, querida — disse, com a maior seriedade. —, mas
você faz isso com tanto estilo.
Ella suspirou. Particularmente, ela achava que o mundo deveria ter
coisas melhores para fazer, mas já conhecia bem o funcionamento da
alta sociedade.
— Se ao menos meu filho nã o fosse um completo idiota e voltasse
para casa...
A voz de Mintie soou lamentosa, e Ella nã o pô de fazer nada, a nã o
ser ecoar o sentimento, embora nã o em voz alta. Ela tomava cuidado
para que ninguém soubesse o quanto desejava que seu marido voltasse
para casa.
— Meu Deus — murmurou sua sogra, sorrindo agora. — O pobre
garoto nã o vai reconhecer você.
Capítulo 13
“No qual Oscar toma coragem.”

Ella olhou por cima do seu livro quando um tumulto no corredor


chegou aos seus ouvidos. Deixando o livro de lado, ela se levantou e foi
até o hall de entrada para ver o que estava acontecendo.
— Isso nã o é certo. Eu exijo ver o Duque de Rothborn!
— Sua Graça nã o está em casa; no entanto, farei com que a
mensagem chegue até ele assim que possível — dizia o Sr. Wilkes
enquanto um homem alto, de rosto avermelhado e claramente irritado,
aproximava-se dele.
Wilkes endireitou os ombros enquanto os criados se adiantavam
para apoiá -lo. Pressentindo o desastre prestes a acontecer, Ella correu
para ver o que poderia fazer.
— Bom dia — disse ela, desviando a atençã o do homem irritado
por um momento antes que ele pudesse descontar sua frustraçã o no
mordomo. — Peço desculpas, mas meu marido nã o está em casa no
momento. Posso lhe ajudar?
— Você é a Duquesa de Rothborn? — quis saber o homem, com
desconfiança nos olhos.
— Sou — confirmou ela, estendendo-lhe a mã o enquanto Wilkes
prendia a respiraçã o, incrédulo. Ella ignorou a reaçã o dele e manteve a
mã o estendida, em um ato de rebeldia.
O visitante ficou parado, aparentemente tã o surpreso quanto
Wilkes. Por um momento, franziu a testa, como se achasse que era
algum tipo de truque, antes de estender dois dedos hesitantes e dar-lhe
um aperto de mã o suave.
— Prazer em conhecê-la, Vossa Graça.
— O prazer é meu, Sr...? — perguntou ela, enquanto o homem
corpulento corava e retirava o chapéu de forma apressada.
— Sr. Burrows — disse, virando o chapéu surrado para lá e para cá .
— Bem, Sr. Burrows, vejo que algo o está incomodando. Nã o
gostaria de vir até a sala de estar e me contar tudo sobre isso? Wilkes,
traga um chá para o Sr. Burrows, por favor. Ele claramente teve um dia
difícil.
Assim que Burrows se sentou, parecendo surpreso enquanto Ella
lhe entregava uma xícara de chá e preparava uma para si, ela lhe
perguntou novamente qual era o problema.
— Houve um incêndio, anteontem à noite, lá em Cripps Corner.
Cinco famílias perderam suas casas. Dezessete crianças entre elas. Bem,
fizemos o possível para arrumar lugares para elas ficarem por
enquanto, mas algo permanente deve ser feito. Algumas dessas crianças
estã o dormindo em está bulos e outras, em anexos. Eles sã o
arrendatá rios de Sua Graça. Pessoas boas, trabalhadoras, que nã o
merecem estar na rua.
Ella empalideceu. Tinha chovido muito na noite anterior e estava
frio. A ideia de alguém ter que passar uma noite em um está bulo, e
ainda mais uma criança...
— Eu entendo perfeitamente a sua angú stia, Sr. Burrows — disse
ela, horrorizada por nã o ter sabido nada sobre isso. Será que alguém
tinha contado isso a Oscar? — Você está certo, esta é uma situaçã o
terrível e precisamos remediá -la. Posso perguntar se tem alguma
sugestã o?
O homem se iluminou com a pergunta e se inclinou para frente. —
Sim, eu tenho. Tem aqueles chalés antigos, em Berry Street. Sei que Sua
Graça tinha planos para restaurá -los. Têm uma boa estrutura, embora
os telhados estejam em estado lamentável, mas pensei que talvez...
Ele parou de falar enquanto Ella se levantava e pegava papel e lá pis.
Ela sentou-se novamente, sorrindo amplamente para ele.
— Uma excelente sugestã o, Sr. Burrows. Exatamente o que
precisamos. Agora, seria tã o amável em me dizer o que precisa ser feito
e quais materiais serã o necessá rios para os reparos? Eu vou garantir
que o administrador de Rothborn os envie até você o mais rá pido
possível. Quanto à s crianças, você deve trazê-las para cá . Temos
bastante espaço e nã o suporto a ideia de elas passarem mais uma noite
nos está bulos.
O Sr. Burrows piscou, parecendo um pouco atordoado.
— Isso é aceitável? — perguntou Ella, sentindo-se subitamente um
pouco ansiosa. Ela havia dito algo errado?
— Sim — disse o homem, com um sorriso se abrindo em seu rosto
largo. — Sabe, eu ouvi falar que a nova duquesa era especial. Acho que
falaram a verdade.
Ella corou, mais contente com suas palavras do que com qualquer
outro elogio exagerado que ouvira nas ú ltimas semanas.
— Bem — disse ela, tentando manter o tom de seriedade. — Vamos
esperar que eu consiga corresponder à s expectativas.
***
— Tem certeza de que este é o lugar? — perguntou Bertie,
segurando com força o braço de Oscar enquanto o impedia de entrar.
— Sim — respondeu Oscar, embora desejasse nã o estar tã o certo.
O enorme armazém estava repleto de homens que pareciam
dispostos a enfiar uma faca entre suas costelas se tivessem a
oportunidade. Ele entendia perfeitamente a relutâ ncia de Bertie em
entrar. No entanto, aquele era o endereço onde lhe disseram que
encontraria Blackehart, e era para lá que ele precisava ir. Bertie o soltou
com evidente relutâ ncia e o seguiu para dentro do vasto espaço.
— O que, em nome de Deus, você estava pensando? — exigiu saber
Bertie, com a voz cada vez mais alta enfatizando o seu terror. — Você
quer morrer?
Oscar balançou a cabeça enquanto subia as escadas, o suor
escorrendo pelas suas costas. Ele havia ouvido uma coisa ou outra
sobre Blackehart desde que aceitara seu desafio, nada do tipo de coisa
que ajudaria um homem a dormir à noite.
Dois homens robustos estavam em frente à porta indicada como o
escritó rio de Blackehart.
Oscar limpou a garganta, tentando soar como um duque com o
mundo aos seus pés, e menos como um menino assustado que poderia
sujar suas roupas a qualquer momento.
— O Duque de Rothborn está aqui para ver o Sr. Blackehart — disse
ele, as palavras ríspidas.
Os homens nã o piscaram nem uma vez. O sujeito via duques todos
os dias, talvez? Pelo que algumas das fofocas indicavam, nã o era algo
impossível de acontecer.
Um dos homens desapareceu para dentro enquanto o outro
observava Oscar com uma expressã o entediada, nada impressionado
com seu título. Um momento depois, a porta se abriu e o homem
robusto fez um gesto com a cabeça, que Oscar interpretou como um
sinal para entrar.
— Você fica aqui — disse ele a Bertie. — Eu... acho que vou vê-lo
sozinho.
Bertie assentiu, observando os dois guardas com desconfiança. —
Nã o demore — disse ele, de forma sucinta.
Oscar se encheu de coragem e entrou no escritó rio de Blackehart.
Estava iluminado por dezenas de velas, que clareavam o ambiente
apesar de ser dia. A manhã estava nublada, no entanto, e o espaço teria
ficado escuro sem elas. Blackehart claramente podia gastar o quanto
quisesse com velas.
Blackehart estava recostado na sua mesa, e o cheiro de um charuto
recentemente apagado ainda pairava no ar. Com uma pontada de pesar,
Oscar percebeu que nã o havia se enganado quanto ao tamanho do
brutamontes.
— Vossa Graça — disse Blackehart, as palavras educadas, mas
ligeiramente zombeteiras. Ele nã o se levantou, algo que irritou Oscar,
mas ele se conteve e nã o fez comentá rio sobre isso. — A que devo o
prazer? Está pensando em... é... cancelar nosso acordo?
— Certamente que nã o — retrucou Oscar, irritado pela insinuaçã o.
Blackehart sorriu e soltou uma risada baixa. — Fico feliz em ouvir
isso. Eu teria ficado desapontado. — Naquele momento, ele se levantou
e fez um gesto para Oscar se sentar. — Quer um chá ou café?
Os olhos de Oscar se arregalaram, um pouco surpreso com a
pergunta.
— Eu num sou um cavalheiro, mas acho que sei como segurar uma
xícara e um pires — disse o sujeito, com um sorriso desdenhoso nos
lá bios.
Ruborizado, Oscar balançou a cabeça. Nã o queria ter ofendido, mas
obviamente o fizera. — Nã o, nã o vou ficar. Só queria perguntar se... se
poderíamos adiar nossa luta por algumas semanas?
Blackehart ergueu uma sobrancelha.
— Nã o estou desistindo — respondeu Oscar, agora irritado. — É só
que... — Ele parou, observando o olhar curioso crescer nos olhos do
homem. De algum modo, Oscar sabia que esse homem conseguia
perceber uma mentira de longe. — É minha esposa — disse ele, com
um suspiro.
— Ah — disse Blackehart, com um tom surpreendentemente
compreensivo. — Sim, ouvi dizer que a Duquesa de Rothborn está em
alta ultimamente. Todos os rapazes estã o de olho nela, huh?
Oscar assentiu, cada vez mais sombrio. — Sim, ela está , e...
Maldiçã o, Blackehart. Você leu os jornais, nã o duvido, entã o conhece os
rumores tã o bem quanto eu. Fui um maldito tolo e quero voltar para
casa para ver se... se consigo consertar as coisas antes que seja tarde
demais.
Blackehart o observou por um longo momento e depois sorriu. —
Como preferir.
As sobrancelhas de Oscar se levantaram. Ele acabara de aceitar?
Sem quebrar nenhum dedo?
O homem bufou diante da surpresa de Oscar. — Vá pra casa e
conserte as coisas, Vossa Graça. Volte quando tiver resolvido tudo.
Estarei esperando.
— De verdade? — indagou Oscar, ainda com dificuldade de
acreditar. — Eu... eu nã o sei o que dizer. — Ele fez uma pausa e entã o
franziu a testa, com um pensamento perturbador surgindo na sua
mente. — Espere, vou te dever um... um favor ou algo assim?
Os olhos de Blackehart ficaram ainda mais escuros, negros como
breu e tã o acolhedores quanto.
— Eu num trabalho desse jeito — disse ele, com um tom afiado nas
palavras.
— Nã o quis ofender — respondeu Oscar, perguntando-se com o que
diabos ele trabalhava. Ele tinha uma temível reputaçã o e parecia o
diabo encarnado, mas – fora alguns comentá rios á cidos que pareciam
surgir de uma consciência da divisã o de classe entre eles – ele fora...
bem, até certo ponto educado.
Oscar hesitou, sentindo que deveria pedir desculpas por qualquer
ofensa, intencional ou nã o. Ele estendeu a mã o para Blackehart.
Foi um gesto que nã o passou despercebido para o homem. Um
duque raramente apertava a mã o de qualquer um, mesmo de outros
nobres, e muito menos de um plebeu.
Blackehart encontrou seu olhar, com curiosidade brilhando em seus
olhos antes de estender a mã o e apertar a de Oscar.
— Obrigado — disse Oscar, com sinceridade. — Entrarei em
contato para marcar uma nova data, tem minha palavra.
— Nã o se preocupe, rapaz — disse Blackehart, sorrindo. — Eu
acredito em você.
Oscar estava tã o aliviado que nã o se importou de ser chamado de
“rapaz” e apenas assentiu.
— Adeus, Sr. Blackehart.
— Vossa Graça — respondeu ele, inclinando a cabeça.
***
Oscar desceu de sua carruagem em frente à sua casa, extremamente
nervoso. Seis horas sentado, ensaiando o que queria dizer a Ella, nã o
lhe deram mais confiança do que quando ele havia saído.
Bom Deus, o que estava acontecendo com ele? Esta era sua casa e
ele era um maldito duque, nã o algum garoto travesso expulso da escola.
Ele puxou a gravata, incapaz de se convencer dessa verdade sabendo
que havia se comportado como uma criança, bem mais infantil do que
ele acreditava que Ella fosse.
A ú ltima fofoca que ele lera havia insinuado mais uma vez que
Ranleigh estava na sua cola, tã o manso quanto um cordeiro. Será que
ele já havia perdido a oportunidade de consertar tudo? Com uma
carranca, ele percebeu que ainda nã o sabia exatamente como se sentia.
A ideia de vê-la com Ranleigh o fazia se sentir horrorizado, e ele sentia
falta de sua amiga com uma dor que se tornava mais intensa a cada dia.
No entanto, ele nunca havia desejado Ella, nunca a viu dessa forma.
Poderia, sinceramente, exigir que ela fosse fiel a ele se ainda nã o
conseguia encontrar esses sentimentos dentro de si mesmo?
Ele se perguntou se ela acreditava que ele já a havia traído. Quando
partiu, sua intençã o era de fato fazê-lo. Ele acreditava que poderia
seguir sua vida como antes, mas... era um maldito tolo.
Ele mal havia colocado o pé na porta da casa de sua amante antes
de perceber que nã o conseguiria fazer isso. Nã o importava o que
sentisse por Ella, ele fizera votos diante de Deus, havia dado sua palavra
de abandonar todos os outros, e tarde demais ele percebeu que
realmente queria cumprir isso.
— Wilkes. — Ele acenou para o mordomo ao entrar no grande hall
de entrada. — Como está ?
— Vossa Graça — disse o mordomo, sua expressã o desinteressada.
— Sua Graça nã o está em casa no momento, mas a duquesa viú va está
em seus aposentos.
Oscar ergueu uma sobrancelha, notando o tom frio do mordomo e
que sua pergunta havia sido ignorada. Seria assim, entã o? Ele sabia que
merecia aquilo, mas, até mesmo a criadagem?
Uma risada, seguida de um grito, fez Oscar olhar para o corredor,
onde uma menina com tranças corria da biblioteca e saía pela porta dos
fundos. Um menino, nã o muito mais velho, corria atrá s dela, emitindo
um rugido, semelhante ao de uma besta selvagem.
Oscar voltou a olhar para Wilkes, as sobrancelhas levantadas em
questionamento.
— Convidados de Sua Graça — respondeu Wilkes, sem oferecer
mais explicaçõ es.
Muito bem, então.
— Obrigado — disse Oscar, entregando ao homem seu chapéu,
luvas e casaco e subindo as escadas de dois em dois degraus.
Provavelmente, o melhor seria enfrentar sua mã e primeiro e ver como
as coisas estavam.
Com uma breve batida, Oscar abriu a porta dos aposentos de sua
mã e e entrou. Mintie estava sentada perto do fogo, com um livro aberto
sobre o colo enquanto olhava para o nada. Ela levantou os olhos ao
ouvi-lo entrar, mas seu sorriso habitual de alegria ao vê-lo foi ofuscado
por uma expressã o de reprovaçã o.
— Ora, ora! Já era hora, seu menino terrível.
Oscar estendeu as mã os em um gesto de paz. — Eu sei, mã e. Nã o, eu
imploro, nã o me dê um sermã o. Eu sei que mereço, mas vim para fazer
as pazes se... se nã o for tarde demais?
Ele ouviu a ansiedade por trá s dessas palavras tã o claramente
quanto ela deve ter ouvido, e nã o sabia se devia se sentir aliviado ou
mais preocupado quando a expressã o dela suavizou.
— Venha, sente-se — disse ela, sorrindo para ele agora e batendo
no assento ao lado dela.
Ela lhe lançou um olhar curioso, e ele se negou a se contorcer de
relutâ ncia. Sua mã e era a pessoa mais indulgente e amorosa que
qualquer filho poderia querer. Ele havia sido mimado o tempo todo e
sabia disso. Isso, no entanto, nã o significava que ela fosse cega para
suas falhas.
— Eu nã o sei, Oscar — disse ela, a resposta à sua pergunta mais
dura do que ele esperava.
Ele empalideceu e soltou um suspiro, abaixando a cabeça. — Isso
significa que Ranleigh...?
Oscar se sobressaltou quando levou um tapa forte na orelha.
— Ranleigh é um cavalheiro, e sua esposa é a mulher mais leal que
já existiu. No entanto, se o coraçã o dela ainda é seu, nã o posso fingir
que sei. — Sua mã e balançou a cabeça e agora lhe deu um leve tapinha
na bochecha. — Oh, Oscar, seu menino tolo. Ella esteve apaixonada por
você a vida toda. Ela merecia mais do que isso.
— Oh, meu Deus — disse ele, colocando a cabeça nas mã os, ainda
mais arrasado à medida que essa pequena informaçã o atravessava seu
coraçã o. — Eu nã o sabia, eu juro. Pelo menos... nã o até depois de
casarmos, e entã o, eu... eu só entrei em pâ nico.
— Como você nã o sabia? — exigiu saber ela, balançando a cabeça.
— A garota te adorava.
— Bem, isso eu sabia! — respondeu Oscar, indignado. — Eu só
achei que fosse um tipo de adoraçã o de heró i, como se ela me olhasse
com respeito, nã o... Maldiçã o, mã e! Eu achava que ela era apenas uma
garotinha, nã o...
Ele parou quando sua mã e deu uma risada aborrecida.
— Ela nã o é mais uma criança há muito tempo, Oscar, e certamente
cresceu no tempo em que você a abandonou. Ela teve que fazer isso —
acrescentou ela, com um tom que o fez se sentir desconfortável.
— Mas, honestamente — disse Oscar, franzindo a testa —, ela ainda
estava subindo em á rvores e exigindo que a levá ssemos à feira algumas
semanas antes de casarmos, com certeza você pode ver porque eu me
senti... desconfortável.
Ele corou, mortificado por ter que discutir isso com sua mã e, mas,
como sempre, ela nã o se perturbou nem um pouco. Ela apenas rolou os
olhos para ele.
— Sim, e provavelmente ainda faria isso, nã o porque seja uma
criança, mas porque ela é cheia de vida e alegria, Oscar, e é por isso que
ela tem a sociedade na palma da mã o.
Oscar suspirou e se levantou, indo até a janela.
— Eu nã o sei se posso mudar o que sinto, mas... mas nã o quero que
ela seja infeliz. Aliá s, eu também nã o quero ser. Nunca disse antes, já
que eu deveria me casar com Pearl, gostando ou nã o, mas... — Ele se
sentou no peitoril da janela, olhando para sua mã e com desalento. — Eu
gostaria de ter um casamento feliz, e de filhos que saibam que sã o
amados e protegidos. Acho que me acostumei com a ideia de que nossa
uniã o era um acordo comercial e nada mais, e nã o vi razã o para que
fosse diferente com Ella. No entanto, se eu tiver uma chance de algo
real, eu quero aproveitá -la. Eu me importo muito com ela e sei que devo
a ela tentar.
Sua mã e o observou, com expressã o triste, e ele balançou a cabeça,
desejando nã o ter sido uma decepçã o para todos. Para si mesmo.
— Desculpe por ter fugido, mas... eu precisava de um tempo para
pensar. Tudo aconteceu tã o de repente e, bem, para falar a verdade,
acho que também precisava crescer um pouco.
Sua mã e se levantou e caminhou até ele, dando-lhe um abraço.
— Criatura tola. Estou tã o feliz que você esteja em casa. Eu
realmente acho que vocês dois foram feitos um para o outro, sabia? E...
eu nã o me preocuparia muito com esse sentimento de desconforto. Ella
nã o é mais a pequena Bug que você lembra... pelo menos, nã o
totalmente.
— Onde posso encontrá -la?
Oscar franziu a testa quando a expressã o de sua mã e se entristeceu.
— Oh, Oscar, eu nã o te contei. Houve um incêndio em Cripps Corner, e
alguns dos arrendatá rios ficaram desabrigados.
— Meu Deus! Alguém se machucou? — perguntou Oscar,
horrorizado. — Quando aconteceu? Por que nã o fui informado?
— Oh. Bem, porque Ella tomou conta de tudo de forma tã o
esplêndida, nã o houve necessidade. Eu escrevi para você, mas imagino
que a carta tenha chegado quando você já tinha partido, e você nã o viu.
Algo precisava ser feito imediatamente, e você nã o estava aqui, entã o...
Ela deu de ombros enquanto a culpa de Oscar se tornava ainda mais
pesada. Nã o era como se ele soubesse; se soubesse, teria tomado as
rédeas da situaçã o imediatamente.
Os olhos de sua mã e brilharam ao falar de sua esposa com um
orgulho genuíno.
— Ella foi maravilhosa, Oscar. Você devia ter visto. Ela organizou
tudo, inclusive trazendo as crianças para cá enquanto o trabalho é feito,
e montando uma escola temporá ria.
Bem, isso explicava muita coisa.
Sua mã e deu-lhe um tapinha na bochecha, sorrindo com carinho.
— Vá até os antigos chalés em Berry Street. Você a encontrará lá .
Capítulo 14
“No qual se a música nutre o amor... alguém está fora de sintonia.”

Ella olhou ao redor do primeiro chalé com satisfaçã o. Como o Sr.


Burrows havia indicado, os chalés nã o estavam em péssimo estado,
exceto pelos telhados, que estavam em condiçõ es terríveis. O primeiro
já havia sido reconstruído, com o trabalho concluído na noite anterior,
juntamente com alguns reparos no interior. O vidro da janela quebrada
foi substituído e as mulheres conseguiram entrar e deixar o lugar limpo
o suficiente para que as paredes pudessem ser repintadas.
A aparência já era maravilhosa para Ella, que havia passado a
manhã varrendo e espanando, e depois se ajoelhado para ajudar a
esfregar os pisos. Houve protestos, naturalmente. Aparentemente,
duquesas nã o deveriam sujar suas mã os delicadas. Ella explicou, com
um sorriso um tanto amargo, que provavelmente essa duquesa faria
muitas coisas que nã o deveria, e seria melhor que se acostumassem
logo com isso.
Foi um pouco desconfortável no início, com muitas pessoas olhando
para ela em admiraçã o por encontrá -la entre elas, mas com um pouco
de persuasã o e persistência, ela iniciou conversas e foi conhecendo os
arrendatá rios de Oscar. Agora, também seus arrendatá rios, ela
percebeu. Compartilhar um lanche com eles ajudou muito. Uma vez que
perceberam que ela nã o era arrogante a ponto de recusar se sentar na
grama e comer pã o e queijo com os outros, as coisas ficaram muito mais
fá ceis.
— Aqui está , Vossa Graça. Para ajudar com a poeira.
Ella olhou ao redor e sorriu agradecida quando o Sr. Burrows lhe
entregou um copo de limonada.
— Oh, exatamente o que o médico pediu — disse ela, pegando o
copo dele. — Você é gentil, senhor. Obrigada.
— Que disparate — disse Burrows, balançando a cabeça. — O que
você fez aqui em tã o pouco tempo é nada menos que um milagre, e sou
muito grato. Todos nó s somos.
Ella corou um pouco, mas nã o conseguiu esconder o prazer com
suas palavras.
— Bem, Sr. Burrows, você me faz parecer que fui eu quem
consertou o telhado, o que lhe garanto que nã o foi. Só fui responsável
por varrer e limpar um pouco.
— E fazer todo mundo trabalhar rá pido e sacudir aquele maldito
administrador. Ouvi como ele tentou pressioná -la a esperar pela
permissã o de Sua Graça, o velho miserável...
— Sim, bem — apressou-se em responder Ella, antes que ele
pudesse dizer mais alguma coisa. — Claro, ele estava fazendo seu
trabalho, como seria de se esperar. Eu sou duquesa há pouco tempo e
nem sequer havíamos sido apresentados. Nã o se pode esperar que o
homem ceda aos meus desejos sem um pouco de cautela, certo?
O Sr. Burrows emitiu um som baixinho de desagrado, indicando que
nã o concordava, mas era educado demais para contradizê-la.
Ella escondeu um sorriso, tocada pela maneira protetora dele, e
levou a limonada aos lá bios. Estava fresca, á cida e realmente ajudou
com a poeira, ao menos da boca. Seu cabelo estava rijo de sujeira e ela
podia sentir teias de aranha em sua pele. Suas roupas também estavam
imundas, e ela nem se atrevia a olhar o estado de suas unhas.
— Talvez seja melhor você ir para casa agora — disse Burrows, com
um tom de preocupaçã o. — Você está aqui desde o amanhecer e nã o há
muito mais que você possa fazer agora.
Ella terminou a limonada e devolveu o copo a ele. — Sim, acho que
já deve estar ficando tarde.
— Já passou e muito das cinco, Vossa Graça.
Os olhos de Ella se arregalaram. Meu Deus, e ela ainda tinha um
concerto para ir essa noite nos salõ es de baile da cidade.
— Céus! Estarei em apuros — exclamou ela, e saiu correndo dali.
***
Berry Street estava cheia de gente. Oscar havia planejado renovar
os chalés vazios no decorrer daquele ano e já havia discutido o assunto
com seu administrador. O fato de tanto já ter sido feito em sua ausência
fez com que se sentisse um pouco deslocado. Ele nã o conseguia
entender exatamente por quê.
Ele estava feliz pelo trabalho estar sendo feito, feliz por Ella ter se
sentido capaz de tomar a frente do assunto, mas...
Oscar suspirou. Estava sendo tolo, sem dú vida.
— Sr. Burrows! — chamou Oscar o homem conhecido, levantando a
mã o em saudaçã o enquanto ele se virava.
O Sr. Burrows tirou o chapéu e caminhou em direçã o a ele.
— Vossa Graça — disse o homem, educadamente, inclinando um
pouco a cabeça.
— Fiquei muito triste em saber sobre o incêndio, Sr. Burrows. Vejo
que o trabalho está avançando bem. Espero que esteja tudo indo bem.
— Oh, sim, de fato, mas, se me permite dizer, nã o teríamos
conseguido sem a duquesa. Ela tem sido maravilhosa e nã o teve medo
de sujar as mã os. Ela fez o trabalho pesado nos chalés também, embora
todos nó s tenhamos dito que nã o era apropriado. Mas é como estar
diante de uma tempestade de verã o, nã o há como pará -la.
Oscar piscou surpreso enquanto o homem sorria para ele.
— Receio que nunca tenha tido a chance de parabenizá -lo pelo
casamento, mas vou fazer isso agora. Você nos deixou muito
orgulhosos.
Ele abriu a boca, querendo dizer algo apropriado, mas Oscar se viu
sem palavras. A descriçã o de Ella como uma tempestade de verã o nã o
podia ser desmentida, e isso fez Oscar sorrir, pois ele reconhecia aquele
sentimento muito bem.
— Eu... é... obrigado, Sr. Burrows — conseguiu dizer finalmente.
Ella realmente havia tomado as rédeas desde sua ausência. Um
arrepio de ansiedade percorreu sua espinha enquanto ele se
perguntava o que mais poderia ter mudado.
— Você sabe onde eu posso encontrá -la?
— Infelizmente acabou de desencontrá -la. Saiu há alguns minutos.
Correu daqui como se suas saias estivessem em chamas — disse ele,
rindo, antes de ajustar sua expressã o ao ver as sobrancelhas levantadas
de Oscar. — É ... bem, ela nã o percebeu a hora, de tã o ocupada que
estava. Acho que ela tem um compromisso à noite e foi correndo para
se arrumar. Ela está sempre correndo. Nunca vi uma mulher tã o cheia
de vida.
O Sr. Burrows corou e limpou a garganta, claramente acreditando
ter passado do limite, enquanto Oscar o olhava, um pouco atordoado.
— Bem, entã o, boa tarde, Vossa Graça — murmurou o homem,
fazendo uma rá pida reverência antes de sair apressado.
Oscar suspirou. Teria que encontrá -la antes que ela saísse à noite.
Sua mã e saberia aonde ela estava indo. Talvez ele pudesse acompanhá -
la?
Esperançoso de que a encontraria logo, Oscar apressou-se de volta
para a casa.
***
Demorou um pouco para tirar a sujeira de seu cabelo, e Ella estava
aliviada por ter as mechas mais curtas. Suas unhas estavam em um
estado lamentável e, apesar de uma lavagem cuidadosa, ela se sentiu
aliviada ao escondê-las sob suas longas luvas de seda.
Ella olhou para cima quando uma batida na porta de seu quarto de
vestir soou. Nancy correu até a porta para abri-la e fez uma reverência
enquanto Mintie entrava, parecendo régia e magnífica em uma
encantadora roupa de seda â mbar. Ella se levantou, sorrindo para sua
sogra.
— Que vestido maravilhoso — disse ela, virando-se para que Nancy
pudesse colocar um colar em seu pescoço. — Madame Dubois é
realmente uma maravilha.
— Sim — respondeu Mintie, indo inspecionar a criaçã o no espelho
de corpo inteiro e sorrindo de prazer. — Embora eu fique com todo o
crédito por escolher a cor. Eu simplesmente tinha que fazê-lo.
— Fica muito bem em você — disse Ella, rindo enquanto Mintie
voltava sua atençã o para ela.
— Pode ser, mas você, minha querida, está absolutamente
deslumbrante.
— Obrigada, mamã e — respondeu Ella, fingindo solenidade
enquanto se curvava levemente.
Mintie sorriu radiante e se aproximou rapidamente, pegando suas
mã os enquanto Ella se erguia. Havia um entusiasmo em seus olhos
enquanto ela abaixava a voz, fazendo-a se inclinar em um sussurro
confidente.
— Agora, ouça-me bem, Ella. Eu nã o tive tempo de te contar antes,
pois você chegou em casa em tanta correria, mas preciso te avisar.
Oscar está em casa.
Ella piscou. Por um momento, as palavras pairaram no ar sem que
ela tivesse a menor noçã o do que significavam.
— E-ele está em casa? — balbuciou ela.
Ela reprimiu o impulso de entrar em pâ nico e correr em círculos
inú teis, pelo menos exteriormente. Sentia como se seu coraçã o
estivesse entrando em pâ nico e correndo por ela. As palavras
reverberavam em sua cabeça em sincronia com seu batimento cardíaco.
Ele está em casa, ele está em casa, ele está em casa… oh, céus!
— Bem, isso é bom. Será bom vê-lo — disse ela, tentando manter a
calma, embora as palavras saíssem um pouco estridentes.
Mintie fez uma careta para ela e estalou a língua.
— Agora, Ella, escute bem. Ele está em casa e quer recomeçar. Sente
muito por ter partido e pelo jeito que te tratou.
— Ah.
Ella nã o conseguiu dizer mais nada além disso. Estava atô nita. Foi
difícil parar de se lamentar e sentir falta dele quando ele foi embora,
mas ela havia conseguido, ou ao menos fingiu muito bem. Ela se
aventurou na sociedade, encarando o escâ ndalo de frente; superou as
observaçõ es rancorosas que a irmã fazia e formou suas pró prias
amizades. Oscar queria que ela vivesse sua vida separada da dele, e ela
fez isso... e agora ele estava de volta, querendo tentar novamente? O que
era bom, nã o era?
Mas e se ele tentasse e ainda falhasse?
Ella nã o achava que seu coraçã o suportaria tamanha dor e
sobreviveria.
— Isso é tudo que você tem a dizer? “Ah”? — indagou Mintie,
parecendo um pouco desapontada.
— Eu acho que sim — respondeu Ella, arrependida, mas sendo ao
menos honesta.
Mintie suspirou. — Mas como você vai tratá -lo? Vai recebê-lo de
braços abertos ou vai tratá -lo com desdém? Está brava com ele? Vai
usar palavras ríspidas com ele? Você tem todo o direito de estar, mas...
oh, nã o em pú blico, eu te imploro.
Ella levantou uma mã o para silenciá -la. — Mintie, eu... eu nã o sei,
mas prometo que nã o vou demostrar raiva nem fazer um espetá culo
sobre o nosso casamento em pú blico.
— Tem certeza? — A duquesa a encarou, com uma expressã o
preocupada.
— Bem, é cl... — começou Ella a tranquilizá -la, as palavras na ponta
da língua antes de pensar nelas, e de repente nã o tinha mais tanta
certeza.
Ela simplesmente nã o sabia o que sentia, nã o mais. Oscar a
magoara e a decepcionara, e sua armadura brilhante, que a
deslumbrara nã o muito tempo atrá s, agora estava manchada. Ela sabia
que estava longe de ser isenta de culpa nessa situaçã o, mas as coisas
poderiam ter sido diferentes.
— Eu tentarei me comportar de uma maneira que te faça orgulhosa,
Mintie. Tem a minha palavra.
Era o melhor que ela podia fazer. Muitas emoçõ es estavam
açoitando seu coraçã o e, naquele momento, ela nã o sabia qual delas iria
prevalecer.
Mintie sorriu e assentiu. — Claro. Eu sei disso, e foi horrível da
minha parte te pressionar assim. Nã o é da minha conta, sei disso, mas
eu realmente desejo ver os dois felizes.
Ella se inclinou e beijou a bochecha de Mintie, tocada pela
sinceridade de suas palavras.
— Eu sei disso, e tenho certeza de que Oscar também sabe.
Precisamos apenas tentar lidar com as coisas um dia de cada vez.
— Sim, você está certa — disse a duquesa, suspirando. — Eu sou
tã o impaciente. Quero netos para abraçar! Ah, ver esta casa velha e
abafada cheia de crianças.
— Mintie! — exclamou Ella, enquanto Mintie dava uma risada
irresistível e ia em direçã o à porta. — Desça assim que estiver pronta,
querida. Ele está esperando para te cumprimentar.
Ella correu até o espelho e verificou seu reflexo. Estava encantada
com o vestido de cetim de azul-etéreo com pequenos detalhes florais,
leve como o ar e que se ajustava à sua delicada figura. Pérolas e
diamantes brilhavam em seu pescoço e orelhas, e dois belos grampos se
aninhavam em seus cachos escuros.
— Você parece uma duquesa — sussurrou uma voz ao seu lado, e
Ella virou-se, encontrando Nancy sorrindo para ela.
Ela abraçou sua criada, segurando-a por um momento. — Obrigada,
Nancy. Isso era exatamente o que eu precisava ouvir.
Ella puxou suas longas luvas, garantindo que estivessem bem
alinhadas, alisou as dobras sedosas de seu vestido e deu um profundo
suspiro. Duvidava que o vestido fosse mudar algo, a nã o ser talvez como
ela se sentia a respeito de si mesma.
Sua confiança aumentara na ausência de Oscar. Ser jogada de
cabeça na sociedade de tal maneira fora assustador, mas uma coisa fez a
diferença. Ela nã o estava mais à sombra de Pearl. Ah, à s vezes ainda
estava nos mesmos eventos que sua encantadora irmã , que ainda
deslumbrava a todos, e ainda murmurava palavras cruéis.
No entanto, as duas nã o entravam mais no mesmo ambiente, nã o
eram cumprimentadas ao mesmo tempo, e a sensaçã o de sempre ser a
irmã mais ofuscada, menos interessante, havia se dissipado com a
ausência de Pearl. Agora, as pessoas procuravam por Ella, e sim, muitas
vezes isso se devia ao seu título, em vez de um desejo genuíno de
conhecê-la, mas nem sempre.
O que os outros pensavam dela, nã o importava. Havia uma coisa
que ela estava determinada a provar ao marido. Ela nã o era uma
criança. Essa era uma acusaçã o que ela se recusava a permitir que ele
fizesse. Nã o mais. Nã o, ela lhe mostraria o quã o sofisticada sua esposa
podia ser.
Entã o, Ella levantou a cabeça e desceu as escadas com toda a
confiança exterior que aprendera a simular nas ú ltimas semanas,
mesmo que seu coraçã o ainda estivesse disparando e confuso.
***
Oscar desistiu de andar de um lado para o outro pela biblioteca e
pegou a garrafa de conhaque. Só um pouco para acalmar os nervos.
Como seria recebido era uma pergunta que ele tentara arrancar de sua
mã e ao saber que ela havia contado a Ella que ele estava lá . No entanto,
a mulher, surpreendentemente, negou-se a falar e insistira que nã o
sabia de nada.
Ele nã o podia dizer se isso era a pura verdade ou se sua mã e estava
decidida a torturá -lo mais um pouco. De qualquer forma, suas
entranhas estavam em um nó e, até que visse como as coisas estavam
entre ele e sua esposa, nã o achava que aquele nó se desfaria tã o cedo.
Uma coisa que ele via no futuro pró ximo era uma noite
interminável ouvindo uma mulher bastante talentosa cantarolar a
plenos pulmõ es. Nã o era a receita para uma conversa íntima. Ele mal
poderia fugir disso, porém. Nã o quando viera tentar acertar as coisas.
Entã o, o mínimo que podia fazer era comparecer de bom grado, embora
ficasse frustrado só de pensar nisso. Talvez ele conseguisse conversar
um pouco com Ella sozinho, antes ou depois do concerto.
Oscar bebeu o conhaque em um grande gole e decidiu andar pelo
corredor por um tempo, pelo menos isso lhe daria uma mudança de
cená rio.
Ele mal tinha chegado ao centro do grande hall de entrada quando
um movimento no topo da escada prendeu sua atençã o, e depois sua
respiraçã o.
Meu Deus.
Era... sua esposa?
Ele percebeu naquele momento que sempre que pensava em Ella
nas ú ltimas semanas recordava dela enlameada, com os cabelos
desgrenhados onde ela os havia cortado. Por que, ele nã o sabia, exceto
que a imagem estava gravada em sua memó ria.
A mulher à sua frente parecia como se nunca tivesse sujado a barra
de seu vestido e esperasse que ele jogasse seu casaco para que ela
pisasse nele.
Seu cabelo havia crescido um pouco, com cachos suaves ao redor de
seu rosto miú do, formando uma nuvem brilhante de madeixas
castanhas. Diamantes brilhavam entre seus cachos escuros, em suas
orelhas e em seu pescoço esguio. Eles só eram iguais ao brilho nos seus
grandes olhos cinzas.
— Rothborn, que prazer inesperado. Você deveria ter nos avisado
que viria. Teríamos nos preparado melhor para lhe receber.
Rothborn.
Nã o Oscar, mas seu título.
Uma sensaçã o desconfortável floresceu em seu peito, mas ele
avançou para cumprimentá -la, mal conseguindo absorver a cena diante
de seus olhos. O que ela fizera consigo mesma desde que ele partira?
Ela estava...
— Puxa, Ella, você está ...
Linda, gloriosa, impressionante...
— ...diferente.
Oscar recriminou-se. Excelente, Rothborn. Essa é a maneira certa de
conquistar o coração dela com seu charme refinado. Bom trabalho.
Uma sobrancelha elegantemente arqueada ergueu-se levemente.
Espere, o que aconteceu com a menina sobrancelhuda que
costumava lançar olhares furiosos para ele?
— Você também está diferente, Oscar — respondeu ela, e embora
sorrisse, havia algo nas palavras que ele nã o conseguia decifrar.
— Tenho passado muito tempo na academia — disse ele,
perguntando-se se ela notaria que estava um pouco mais largo nos
ombros, talvez, ou se seu casaco estava mais apertado do que deveria.
— Ah — disse ela, com a voz suave e um olhar misterioso nos olhos
que ele nã o conseguia interpretar. — Deve ser isso.
Eles caíram em silêncio quando Wilkes e os criados chegaram com
capas e chapéus, e sua mã e se juntou a eles.
— Bertie está com você, Oscar? — perguntou Ella.
— Ele veio comigo, mas eu o deixei na casa de seu pai. Ele disse que
viria amanhã .
Ela assentiu, aceitando essa informaçã o, e Oscar os acompanhou
até a carruagem que os aguardava.
Uma tensã o palpável pairava no ar durante a viagem até os salõ es
de baile, pelo menos para Oscar. Ainda havia um pouco de luz do dia no
céu, embora a lua também fosse visível. A luz dentro da carruagem
estava ficando fraca, mas Oscar ainda conseguia distinguir bem os
traços de Ella.
As colunas de fofocas estavam certas. Ela agora rivalizava com a
irmã . Oscar experimentou uma estranha sensaçã o que percorreu seu
corpo e lhe dizia que ela nã o apenas rivalizava com Pearl, mas a
superava.
A beleza de Pearl vinha da perfeiçã o de seus traços. Os olhos azuis,
com cílios espessos, a mais doce tez de uma rosa inglesa, e uma silhueta
que poderia tirar o fô lego de um homem do outro lado da sala.
A beleza de Ella era difícil de definir, era como tentar pegar algo
volá til e perceber que ele escapava pelos dedos. Você pensava que
talvez fosse uma coisa, mas sua atençã o era atraída por outra.
O rosto em formato de coraçã o que ele sempre achou élfico e
travesso ainda era igual, mas agora carregava com elegâ ncia e porte.
Entã o, havia aquele brilho em seus olhos acinzentados, o olhar
ligeiramente malicioso de diversã o que prometia que ela o
surpreenderia. Seu cabelo brilhava, e embora seus cachinhos fossem
incomuns, a tentaçã o de passar os dedos por eles era irresistível.
Ele nunca dera muita atençã o ao corpo dela, para ser honesto. No
entanto, ela capturara toda sua atençã o quando desceu as escadas em
sua direçã o, com os quadris balançando. Ela era uma coisinha tã o
pequeninha, ele nã o fazia ideia das curvas esbeltas que ela estava
escondendo. Nã o era o corpo voluptuoso e feminino de Pearl, nã o, mas...
Sua boca pareceu de repente seca.
Ella Rothborn – sua esposa – nã o era mais uma criança, e agora ele
percebia o quanto fora tolo.
Essa conclusã o nã o mudava nada ao entrarem nos salõ es de baile
em Newmarket.
Se Oscar sentiu uma onda de orgulho ao entrar no elegante edifício
com sua esposa ao seu lado, durou pouco. Antes que pudesse pensar
em uma razã o para mantê-la perto de si, ela já havia sido arrancada de
seu braço e levada por uma onda de pessoas tagarelando.
Os amigos dela, ele notou, eram muitos dos seus pró prios amigos.
Ele foi saudado por alguns cumprimentos animados de “Ei, Rothborn,
você veio?” e “Ah, o andarilho retorna”. Nenhuma dessas palavras fez
com que se sentisse melhor, enquanto todos se apressavam atrá s de sua
esposa.
— Oh, pobre Ella. — Sua mã e riu, balançando a cabeça. — A pobre
garota nunca tem um momento de paz. Ela é desejada em todo lugar,
convidada para todas as festas populares. Você deve estar tã o orgulhoso
dela. Todos querem conhecê-la, Oscar; e quando vamos a um baile? Meu
Deus, a garota irá dançar até cair. Ela é a sensaçã o do momento, juro. Eu
sabia que seria, assim que o escâ ndalo passasse. Ela é tã o engraçada e
cheia de vida.
Essas palavras aparentemente engenhosas fizeram Oscar estreitar
os olhos para sua mã e, mas ela pareceu encontrar alguém com quem
simplesmente precisava falar do outro lado do salã o e correu até lá ,
deixando-o sozinho. Para ser honesto, suas palavras se confirmaram
quando ele olhou e viu Ella rodeada de pessoas. Ela estava rindo, seu
rosto iluminado de divertimento, e com uma pontada de remorso,
Oscar se lembrou de uma época, nã o tã o distante, quando ela ria assim
por causa dele. Ele mal precisava abrir a boca para fazê-la gargalhar
com as piadas mais bobas do mundo. Será que ainda conseguiria fazer
isso? Nã o estava nem um pouco certo disso.
Oscar atravessou a multidã o, aliviado ao notar que ainda havia
muitas pessoas querendo falar com ele, enquanto ao mesmo tempo
desejava que fossem para o inferno e saíssem de seu caminho. Ella
estava se afastando, de braço dado com uma jovem que ele nã o
reconhecia.
Ele foi frustrado mais uma vez quando um homem idoso, amigo de
seu pai, aproximou-se e Oscar foi forçado a ficar para engajar em uma
conversa cortês por alguns minutos. Quando conseguiu se livrar, Ella já
nã o estava mais à vista.
Xingando, ele abriu caminho pela multidã o, praguejando com mais
veemência quando finalmente encontrou sua esposa, conversando com
o maldito Ranleigh.
O duque se projetava sobre ela, embora tivesse inclinado a cabeça
para sussurrar em seu ouvido. O que quer que ele tivesse dito fez ela
explodir em gargalhadas, enquanto o duque olhava para ela com algo
que parecia perigosamente com afeiçã o nos olhos. Maldito bastardo.
Como ele ousava olhar para Ella dessa forma?
Furioso agora, embora tanto com ele mesmo quanto com Ranleigh,
Oscar diminuiu a distâ ncia entre eles.
— Rothborn? — disse Ranleigh, com algo que poderia ser surpresa
em seu tom. — Nã o sabia que você havia voltado.
Bem, eu voltei, seu desgraçado, Oscar murmurou internamente,
lutando contra o desejo de ranger os dentes. Em vez disso, ele deu um
sorriso agradável a Ranleigh e pegou a mã o de Ella, colocando-a
firmemente em seu braço.
— Hoje, Ranleigh — respondeu ele, tentando manter as palavras o
mais serenas possíveis.
A tensã o era palpável ao redor deles. Todos conheciam os rumores
– que Ranleigh havia tentado cortejar sua esposa durante sua ausência
– e todos estavam ansiosos para ver como aquilo se desenrolaria.
Se Ella era contra a forma possessiva com que ele a tomava pela
mã o, ela nada disse, embora tenha lançado um olhar curioso em sua
direçã o, o que ele fez questã o de ignorar.
Antes que palavras menos prudentes pudessem ser ditas por
qualquer um dos dois, o chamado para que todos tomassem seus
lugares ecoou, e Oscar conduziu Ella até a sala reservada para o
concerto.
Os salõ es de baile eram lindos, com paredes rosadas e detalhes em
gesso branco e refinado. Imensos lustres cintilavam e iluminavam o
elegante edifício, que era um dos mais bonitos do país, só superado por
cidades maiores, como Bath. O salã o de baile havia sido reservado para
o concerto daquela noite, e as cadeiras preenchiam o espaço com um
corredor no meio.
Oscar acomodou Ella em sua cadeira, irritado ao perceber que
Ranleigh sentara ao lado dela.
Não reaja, repreendeu-se.
A maneira mais rá pida de provocar uma discussã o com Ella seria
criticar suas escolhas de amigos, especialmente depois da ú ltima vez
que estiveram juntos. Nã o passou despercebido que Ranleigh tivesse
sido a fonte daquela briga nem sua estupidez ao avisar Ella para se
afastar dele e, em seguida, sumir. Se ele tivesse a intençã o de jogá -la nos
braços do homem, nã o poderia ter feito melhor.
— O que vamos ouvir esta noite? — perguntou a Ella, desesperado
para iniciar algum tipo de conversa com ela.
— Haydn — respondeu ela.
Bem, isso respondia à pergunta. Pelo menos ele nã o gemeu em voz
alta, embora estivesse tentado.
— Está terrivelmente quente aqui — tentou ele, sorrindo enquanto
pegava o programa que ela lhe passou e se abanava com ele.
— Angelica Giodarmo, a famosa soprano, irá cantar esta noite. Por
isso está tã o cheio. Se você nã o fosse um duque, duvido que o deixariam
entrar.
Ele lançou um olhar na direçã o dela, mas nã o conseguiu detectar
tom á spero algum nas palavras. Qualquer tentativa futura de ensejar
uma conversa com ela se encerrou, no entanto, quando os mú sicos
assumiram seus lugares.
Com um suspiro, Oscar se acomodou na cadeira e se conformou a
uma noite interminável.
Capítulo 15
“No qual planos são elaborados.”

— Entã o, o filho pró digo retorna ao lar.


Ella levantou o olhar e viu os olhos escuros de Ranleigh observando
seu marido do outro lado do salã o.
— Sim — disse, perguntando-se o que aquilo significava.
Mintie havia dito que ele queria tentar novamente, que estava
arrependido por tê-la deixado, mas isso nã o explicava nada. Ele iria se
forçar a ser um marido de verdade para ela, contra sua pró pria
vontade? Seria tudo uma encenaçã o, apenas para fazê-la se sentir
melhor e acabar com os rumores sobre ela e Ranleigh? A ideia a deixava
enjoada.
Ela desejou nã o ter concordado em ir ao concerto naquela noite. Se
ao menos ele tivesse enviado uma mensagem avisando que viria, ela
teria inventado uma desculpa.
Ella olhou para o outro lado do salã o e viu-o conversando com um
senhor mais velho, sorrindo e exalando aquele carisma natural que ele
exalava tanto. Santo Deus, como ele era bonito. Seu cabelo dourado
cintilava à luz das velas, e o casaco preto abraçava seus ombros largos e
musculosos. Ela era invejada por todas as mulheres ali, e ainda assim,
como ririam se soubessem que ele nunca sequer a tocara.
Será que ele visitou suas amantes enquanto estava na cidade? Ela
supô s que sim. Por que nã o faria isso? Nã o era como se ele tivesse
hesitado em explicar o tipo de casamento que teriam. Ele era livre para
ter amantes... assim como ela. Ele nã o se importava.
Se ao menos ela soubesse como seduzir. Pearl conseguia fazer isso
com tanta naturalidade, mas ela tinha um grande diferencial a seu favor.
Ella suspirou, desanimada, e entã o sentiu a mã o de Ranleigh em seu
braço.
— O que foi? — perguntou ele, com uma expressã o preocupada. —
O que está te deixando tã o triste? Nã o está contente por ele ter voltado?
Pensei que era o que queria.
Ela sorriu e assentiu. — É , sim, mas fazer com que ele queira ficar
em casa...
Ela deu de ombros e sentiu um nó na garganta. Era muito mais fá cil
quando eles eram apenas amigos. Como se arrependia daquele dia nas
corridas. Ela havia arruinado o pouco relacionamento que tinha com
ele. Pelo menos, ele gostava de sua companhia naquela época.
— Ele provará ser um verdadeiro idiota, se nã o ficar — resmungou
Ranleigh, com veemência, e Ella riu. Ele sempre a fazia se sentir melhor.
Um pensamento surgiu em sua mente enquanto ela olhava para o
rosto atraente dele. Ranleigh havia se mostrado um amigo para ela, um
homem em quem podia confiar. Ele também era um homem experiente.
Se alguém poderia ensiná -la a fazer com que Oscar a desejasse... com
certeza ele poderia.
— Ranleigh — disse ela, sua voz baixa, enquanto ele se virava para
ela. — Preciso de sua ajuda.
Ele franziu um pouco a testa, encarando-a. — O que quiser, é só
dizer.
— Eu... — Ella corou um pouco, perguntando-se como explicaria o
que precisava, mas certamente nã o era algo que pudesse falar ali. —
Preciso falar com você em particular. Há algum lugar onde posso
encontrá -lo e onde possamos estar a só s?
Uma expressã o um tanto surpresa cruzou o rosto dele, mas ele
assentiu. — Claro. Tenho compromissos amanhã , mas... depois de
amanhã ?
Ella assentiu e soltou um suspiro de alívio. — Sim. Obrigada.
Ele riu, sorrindo para ela. — Nã o me agradeça ainda, eu nem sei o
que você quer de mim. Pode sair a cavalo pela manhã ? Há um folly [1] na
colina, ao norte da igreja, em Brasted.
— Sim, eu a conheço. Irei à s dez.
Ele a encarou, com curiosidade nos olhos. — Estarei lá , mas... tome
cuidado, Ella. Você sabe o que as pessoas estã o dizendo sobre nó s. Nã o
vai precisar de muito para alimentar os boatos.
Ela pô de ver que ele estava preocupado com ela e, sem dú vida,
perplexo com seu pedido para ficarem a só s, já que haviam tomado
tanto cuidado para evitar isso. Ranleigh vinha provocando apenas o
suficiente de fofocas para que Oscar ouvisse, mas sem causar danos à
reputaçã o dela. Era evidente que ele estava surpreso com seu pedido.
Ella suspeitava que saber o motivo de seu pedido o surpreenderia ainda
mais.
***
Já era tarde quando o concerto terminou.
Sua mã e tagarelou o caminho todo para casa, contando sobre as
pessoas com quem conversara, dando sua opiniã o sobre a mú sica,
contando histó rias um tanto escandalosas sobre a famosa soprano,
Angelica Giodarmo. Parecia determinada a preencher o silêncio
inquietante que haviam suportado no caminho até lá , e Oscar se sentiu
extremamente grato por isso.
Ele sentia um pouco como se o tapete tivesse sido puxado debaixo
de seus pés. Estivera fora por semanas, nã o meses e, ainda assim, tudo
havia mudado.
Enquanto observava sua esposa no interior da carruagem, seu
perfil delicado iluminado pelo luar, percebeu que isso nã o era
inteiramente verdade. Ela nã o havia mudado tanto quanto ele pensara
no início. Foi ele quem abriu os olhos e, só agora, estava realmente
vendo-a pela primeira vez.
Ella estivera ali o tempo todo, sempre o fazendo rir, sempre pronta
para ouvir, mas ele nã o permitira que ela crescesse. Ah, ela o fizera
mesmo assim, mas em sua mente ele nã o a via de forma diferente do
que quando ela tinha doze ou treze anos. Nã o a tratara de outra forma
porque Bertie também nã o o fizera. Ela era a irmã zinha estranha e
desajeitada de seu amigo, a engraçada e pequena Bug que nã o se
importava se eles a provocassem e rissem dela, contanto que a
deixassem participar.
A amizade deles era tã o fá cil, tã o natural, que ele nã o percebeu seu
valor até que a afastou.
Agora, nã o havia mais risos e adoraçã o nos olhos dela. Embora mal
tivesse tido a chance de conversar com ela, isso ele percebera. Ela
estava desconfiada. Era precauçã o o que ele via quando ela olhava para
ele. Qualquer confiança que ela depositara nele havia sido abalada, e ele
nã o sabia como remediar isso.
Mas ele remediaria, tinha que fazê-lo. Só agora, na escuridã o da
carruagem, diante de uma mulher que conhecera e pela qual se
importara durante toda sua vida, percebeu o quanto sentia falta dela.
***
A manhã seguinte amanheceu clara, e Oscar levantou-se cedo para
garantir que Ella nã o pudesse fugir dele. Mesmo assim, teve que
esperar até bem depois das nove.
— Bom dia — disse ele, desejando soar um pouco menos como um
cachorrinho ansioso enquanto se levantava rapidamente quando ela
entrou na sala de café da manhã .
Ela parecia um pouco surpresa ao vê-lo, sem dú vida porque ele
tomara tanto cuidado para evitá -la nas semanas antes de partir.
— Dormiu bem? — perguntou ele, e em seguida repreendeu-se,
pois soava mais como se estivesse falando com uma convidada do que
com sua esposa, mas ele precisava começar de alguma forma.
— Sim, obrigada — respondeu ela, com um sorriso educado,
embora ele achasse que ela parecia um pouco cansada e suspeitou que
fosse mentira.
Ele voltou a se sentar à mesa enquanto ela aceitava uma xícara de
chá do lacaio e pegava um pã ozinho recém-assado, partindo-o ao meio.
— Eu gostaria de saber se... se gostaria de cavalgar comigo esta
manhã ? O dia está lindo.
Ele notou a hesitaçã o dela ao responder enquanto passava
manteiga no pã o. — Eu... ia até Berry Street ver como as coisas estã o
indo.
— Claro — disse Oscar, irritado por ele mesmo nã o ter sugerido
isso. — Por que nã o vamos até lá a cavalo? Podemos fazer um
piquenique e comer à beira do rio depois.
Ela olhou de relance para ele, e ele desejou poder ler a expressã o
nos olhos dela.
— Seria agradável. — Ela lhe ofereceu um sorriso, e Oscar sentiu
uma sensaçã o estranha se agitar em seu peito.
Apó s o café da manhã , Oscar providenciou que a égua dela estivesse
selada e pronta e esperou que ela saísse. O som de cascos no cascalho
chamou sua atençã o, e ele se virou ao ver Bertie se aproximando a
cavalo.
— Bom dia, Bertie — disse ele, enquanto seu amigo desmontava.
Eles apertaram as mã os, e Bertie lhe lançou um olhar inquisitivo.
— E entã o? Como foi? Ela está falando com você?
Oscar deu de ombros, desejando poder dar uma resposta mais
positiva, mas sabendo que merecia tudo o que estava recebendo.
— Ela está falando comigo, mas... Ah, droga, Bertie, eu estraguei
tudo. Fomos a um concerto ontem à noite e Ranleigh estava lá , pairando
como uma sombra.
Ele franziu o cenho e chutou o cascalho com a bota.
Bertie lançou-lhe um olhar de “eu avisei” que Oscar nã o pô de
ignorar.
— Vou levá -la para passear esta manhã , fazer um piquenique à
beira do rio.
— Ó timo — respondeu Bertie, batendo o chicote contra a coxa, com
uma expressã o pensativa. — Mas nã o espere que ela se jogue nos seus
braços. Ela é teimosa quando é contrariada; você devia se lembrar
disso.
Oscar assentiu. Ele se lembrava. Ela era teimosa e obstinada, e nã o
hesitaria em dar o troco se achasse que fosse merecido. Ele nã o tinha
expectativas de reconquistar sua confiança – muito menos seu afeto –
naquele dia, mas isso já era um começo, nã o?
— Bertie!
Eles se viraram e viram Ella sorrindo para o irmã o ao descer os
degraus para abraçá -lo. Assim como na noite anterior, Oscar ficou sem
fô lego.
A família Aldous nã o era pobre, mas era evidente que Pearl tinha a
maior parte do orçamento dedicado à s roupas. Muitas das vezes, as
roupas de Ella eram as de Pearl ajustadas, e as cores nã o lhe favoreciam
sempre.
Agora, no entanto, ela estava vestida seguindo os ditames da moda,
e a diferença era de tirar o fô lego. Seu traje de montar era de um cinza-
escuro, que poderia ter ficado sem graça em uma pessoa menos
vibrante. Mas os olhos cinzentos dela brilhavam, e o chapéu elegante
combinava com seus cachos escuros, com uma pena branca balançando
graciosamente. A cintura alta realçava sua silhueta, e o bordado no
busto e nos punhos a fazia se destacar.
— Caramba, Ella, você está incrível — aprovou Bertie, ao analisar a
irmã . — Nunca imaginei que pudesse aparentar tanta elegâ ncia, mas
esse traje... está magnífico, realmente.
Ella ficou praticamente radiante de tanto prazer com o elogio do
irmã o, e Oscar xingou internamente o amigo por roubar-lhe o
momento. Ele também estava pronto para elogiá -la, mas agora
pareceria que estava apenas repetindo o que Bertie havia falado.
— Oh, Bertie, nó s vamos cavalgar. Gostaria de se juntar a nó s? —
perguntou Ella, enquanto os planos de Oscar para passar algum tempo
a só s com sua esposa começavam a ir por á gua abaixo.
Bertie lançou um olhar a Oscar, que franziu o cenho até que Ella
também se virasse para o olhar.
— Nã o, acho que nã o, Ella — disse Bertie, interpretando
corretamente o olhar de Oscar. — Vejo vocês quando voltarem.
Oscar assentiu enquanto Bertie se afastava, deixando-os a só s.
— Vamos? — perguntou ele, sentindo-se estranhamente nervoso.
Ella assentiu e foi até a banqueta escada enquanto o cavalo dela era
trazido pelo cavalariço. Uma vez acomodada, Oscar montou e liderou o
caminho para longe da casa.
Era uma manhã ensolarada, com uma fina névoa envolvendo o chã o
enquanto o sol surgia e cintilava no orvalho.
— Bertie estava certo, sabia? — disse Oscar, examinando-a dos pés
à cabeça. — Mal a reconheço. Você se tornou uma verdadeira beldade.
Eu devia ter percebido isso antes, mas... como é que nunca vi isso, Ella?
As palavras estavam cheias de confusã o e frustraçã o, e Oscar nã o
tentou esconder isso. Seria honesto com ela dali em diante.
Um rubor corou as bochechas dela, apenas realçando ainda mais a
bela imagem que fazia.
— Acho que está exagerando, Oscar. Tenho roupas mais elegantes
agora, eu acho. A modista de Mintie é realmente uma maravilha, entã o
talvez essa seja a diferença. Embora eu também tenha aprendido
muitas coisas sobre mim mesma nas ú ltimas semanas. E sobre outras
pessoas, também.
Ela fez a égua trotar, passando à frente dele enquanto o caminho
estreitava e, por um momento, ele nã o pô de continuar a conversa.
Assim que a estrada se alargou novamente, ele voltou ao lado dela,
observando-a e desejando poder entender o que havia nos olhos dela
ou interpretar o tom nas palavras dela ao falar com ele.
— Você está muito zangada comigo?
Ela olhou para ele e depois desviou o olhar antes de balançar a
cabeça. — Nã o estou zangada. Foi culpa minha, afinal de contas. Se eu
nã o tivesse sido tã o estú pida...
Ele observou enquanto ela apertava os lá bios e nã o dizia mais nada.
— Nã o foi estú pido, Ella — disse ele, sua voz baixa. Saber que ela
pensava assim, quando tinha demonstrado tanta coragem por ele, fazia
seu peito doer. — Eu... ainda nã o consigo acreditar que fez isso por
mim. Foi incrivelmente corajoso.
Ela balançou a cabeça, e ele teve a impressã o de que estava
segurando as lá grimas. — Foi estú pido, e agora todos temos que viver
com as consequências disso.
Antes que ele pudesse responder, ela instigou o cavalo a meio
galope. Ela nã o diminuiu a velocidade até que os chalés de Berry Street
surgiram à sua frente.
Longe dele e na companhia de seus arrendatá rios e dos
trabalhadores, ela relaxou. Oscar pô de ver a mudança nela. Ela ria e
sorria, e todos pareciam animados e motivados pela presença dela.
Oscar havia se aproximado, esperando falar com o Sr. Burrows para
perguntar se eles tinham os suprimentos necessá rios para terminar o
trabalho.
— O novo suprimento de palha chegou? — perguntou Ella.
Burrows assentiu. — Chegou, mas acho que ainda é insuficiente.
— Você poderia calcular o quanto falta? Se puder fazer uma lista de
tudo o mais que precisa, irei me reunir com o administrador esta tarde.
Se quisermos ter uma chance de conseguir a tempo, ele precisará da
informaçã o imediatamente.
— Considere feito, Vossa Graça. Levo a lista para a mansã o esta
tarde, se for conveniente.
— Contanto que seja antes das três e meia — disse ela, assentindo.
— Agora, como está o andamento da decoraçã o?
Oscar observou, intrigado, enquanto Ella se afastava com o Sr.
Burrows, deixando-o para trá s como uma peça inú til. Por um momento,
ele se sentiu um pouco ofendido. Normalmente, era ele quem cuidava
dessas questõ es, e o fazia desde muito jovem. Ele levava os assuntos da
propriedade a sério, especialmente os que diziam respeito aos seus
arrendatá rios, e ser deixado de lado com tamanha rapidez era
desconcertante. No entanto, a leve irritaçã o foi esquecida à medida que
outra sensaçã o tomou seu lugar.
Ele se demorou para trá s, observando Ella à distâ ncia enquanto
todos paravam o que estavam fazendo para cumprimentá -la, ansiosos
para chamar sua atençã o para o que havia sido realizado desde sua
ú ltima visita.
Um orgulho encheu seu peito. Ela estava conquistando seu espaço,
e nã o apenas como a Duquesa de Rothborn. Ella estava entrando nos
coraçõ es deles, assim como fizera com ele, e ele duvidava que eles se
dessem conta disso.
Ao entrar no primeiro chalé, que parecia estar bem pró ximo de ser
finalizado, ele olhou ao redor com aprovaçã o. O lugar estava impecável,
e a decoraçã o estava em andamento. O cheiro de tinta fresca preenchia
o ar, e ele sorriu para Ella quando ela se virou para olhá -lo.
— Você fez maravilhas, Ella — disse ele.
O prazer nos olhos dela com sua aprovaçã o o atingiu em cheio.
Talvez ela ainda se importasse com o que ele pensava? Pelo menos um
pouco.
— Eu nã o fiz isso com as minhas pró prias mã os — disse,
balançando a cabeça, divertida, rejeitando o elogio. — Só garanti que os
materiais e os trabalhadores chegassem. Qualquer um poderia ter feito
isso.
Eles inspecionaram o restante dos chalés, todos em diferentes
está gios de conclusã o.
— Restou muita coisa depois do incêndio, Sr. Burrows? Em termos
de pertences, quero dizer? Mó veis e afins.
Burrows deu de ombros, com uma expressã o sombria. — Alguns se
saíram melhor que outros, Vossa Graça. A família Smith conseguiu tirar
todos os pertences, já que a casa deles foi a ú ltima a pegar fogo. Os
Roberts, no entanto, mal conseguiram sair com a roupa do corpo. A
maioria dos outros salvou uma ou outra coisa.
Oscar assentiu. — Além da lista de materiais, talvez você possa
pedir à s famílias que façam uma lista das coisas que perderam.
Devemos ver o que pode ser feito para ajudá -los a se reerguer. Também
quero saber como esse incêndio começou. Se vamos reconstruir Cripps
Corner, prefiro evitar que isso aconteça de novo.
Burrows sorriu para ele. — Obrigado, Vossa Graça, cuidarei disso
imediatamente.
Oscar se virou e viu Ella observando-o. Ela nã o disse nada, mas sua
expressã o era de aprovaçã o e, pela primeira vez desde que voltara,
Oscar sentiu um pouco mais de esperança de que nem tudo estava
perdido.
Capítulo 16
“No qual a verdade é difícil de ser encarada.”

Apó s a visita aos chalés, eles seguiram até o rio para o piquenique.
Ele podia ver que Ella estava ansiosa para ficar e ajudar, mas, vestida
com sua roupa de montaria, mal poderia fazer isso, entã o, se despediu
de todos e prometeu retornar em breve.
Oscar desmontou do cavalo e se apressou em ajudar Ella a descer.
Na vez anterior, ela tinha desmontado sozinha, em uma confusã o de
saias. Bastante impró prio, claro, mas ele sorriu ao lembrar, pois era tã o
característico dela. Talvez a pequena Bug nã o tivesse desaparecido
completamente, afinal. Ele percebeu que estava feliz com essa
descoberta.
— Eu consigo descer sozinha — protestou ela, enquanto Oscar
estendia-lhe os braços.
Ele notou o leve rubor em suas bochechas e se perguntou o que o
causava. Ela gostava da ideia de suas mã os sobre ela, ou aquilo apenas a
deixava desconfortável?
— Eu sei que você consegue — disse ele, as palavras gentis e um
tanto pesarosas. — Parece que você pode fazer muitas coisas sem mim,
mas sou seu marido e gostaria de ajudar onde puder, se você assim me
permitir.
Ela nã o respondeu, apenas assentiu e permitiu que ele a ajudasse a
descer. Ela era tã o pequena. Ele manteve as mã os na cintura dela por
um momento, encarando-a e desejando mais uma vez poder decifrar a
expressã o em seus olhos. Antes que pudesse entender, ela se afastou, e
ele a soltou.
Oscar a observou enquanto ela caminhava até a margem do rio e
entã o começou a desembrulhar o piquenique que havia preparado para
eles.
— Onde devemos nos sentar? — perguntou ele, segurando a toalha
no alto.
Ella apontou. — Ali, ao sol.
Ele estendeu a toalha onde ela indicou, e Ella se sentou do lado
oposto, o mais longe que pô de. Oscar começou a tirar a comida da cesta,
lançando olhares furtivos para sua esposa enquanto ela inclinava a
cabeça para trá s e fechava os olhos, aproveitando a luz do sol no rosto.
— Você se lembra quando viemos pescar aqui e Bertie caiu na
á gua? — perguntou ele, tentando evocar lembranças mais alegres.
O sorriso que iluminou o rosto dela fez seu coraçã o se acelerar, e a
sensaçã o o pegou de surpresa, fazendo-o encará -la. Seria essa
realmente Ella?
— Sim! — exclamou ela, encantada. — E você tentou tirá -lo da á gua
e acabou molhando suas botas novas. Tinham sido compradas na Hoby
e custaram uma fortuna, e você ficou furioso.
Oscar riu, balançando a cabeça. — Eu era um dâ ndi insuportável,
admito.
— Era? — repetiu ela, com uma sobrancelha levemente erguida.
— Ah, por favor, Ella — disse ele, oferecendo-lhe uma fatia de torta
e um olhar divertido, mas repreensivo. — Você nã o pode criticar os
outros quando parece saída de uma revista de moda.
Ela pegou a torta de sua mã o, dando de ombros um pouco, e o clima
entre eles ficou tenso de repente.
— Talvez, mas só estou tentando nã o te envergonhar mais do que já
envergonhei.
Ele a encarou, desanimado pelo tom frio, mas seu rosto estava
virado para longe dele, e ele nã o pô de ver se ela pretendia feri-lo com
aquelas palavras.
— Ella — disse ele, com a voz baixa. —, se você acha que, de alguma
forma, tenho vergonha de você ou que me arrependo do nosso
casamento, está completamente enganada.
Ela deu um muxoxo e lançou-lhe um olhar duro. — Você disse que
preferia carregar meu corpo sem vida em Rowley Mile a ter que se
casar comigo.
Oscar sentiu a dor daquelas palavras, tã o intensamente quanto ela
deve ter sentido ao ouvi-las. Ele ficou em silêncio por um momento,
entã o balançou a cabeça.
— Nã o posso fingir que nã o sou um idiota à s vezes, Ella. Pelo amor
de Deus, você me conhece desde sempre, deve saber que sou
especialista em dizer bobagens. Tudo o que posso te dizer é que eu
ainda estava em choque. Tudo aconteceu tã o rá pido, e eu nunca te
considerei como algo além da irmã do Bertie – droga, Ella, você era
minha irmã também.
— Eu entendo, Oscar. Prometo que entendo, e nã o quero te deixar
desconfortável. Nã o posso fingir que nã o doeu na época, mas... sei que
você nã o me vê dessa forma.
O tom dela permaneceu frio e inalterado ao responder, e o coraçã o
dele doeu, com uma crescente sensaçã o de medo em seu peito,
temendo que tivesse causado dano irreparável.
— Você está errada. — Oscar a encarou, frustrado pela má goa e
incerteza em seus olhos.
Saber que ele era o responsável só tornava tudo pior.
Ele se aproximou dela, afastando a cesta com impaciência para
poder tocar o rosto dela, virando-o em sua direçã o.
Olhos cinzentos o encararam, um pouco brilhantes demais, mas
serenos e, de certa forma, acusadores.
— Eu nã o te via dessa forma, mas só porque eu sou um completo
idiota, Ella. Sou eu quem precisava amadurecer, nã o você.
As palavras saíram á speras e sua voz era dura ao perceber o quanto
isso era verdade. Ele observou a mudança nela enquanto falava: o
escurecer dos olhos, a respiraçã o acelerada. O olhar dela desceu para os
lá bios dele, e o desejo de beijá -la foi tã o forte que ele se sentiu
completamente desequilibrado.
Imaginando se levaria um tapa por sua ousadia, ele se inclinou
devagar, dando-lhe todas as chances de mandá -lo para o inferno. Em
vez disso, ela permaneceu ali, imó vel, nã o o rejeitando, mas tampouco
demonstrando entusiasmo.
Assustado, mas esperançoso, ele roçou os lá bios nos dela. Ele nã o
conseguia decifrar o que ela sentia, nã o só porque ela nã o se mexeu,
mas também porque ele pró prio estava tomado por uma sensaçã o
avassaladora. Era algo familiar e, ao mesmo tempo, novo e estranho.
Seus lá bios eram macios e doces demais, e um breve toque estava longe
de ser suficiente, mas ele se forçou a se afastar, nã o querendo assustá -la
ou passar do limite sem permissã o.
Ao se afastar, viu que as bochechas dela estavam escarlates e a
respiraçã o, rá pida, mas ela desviou o olhar e começou a desembrulhar
o resto da comida.
— Coxa de frango? — perguntou ela, oferecendo um pacote envolto
em papel manteiga.
As palavras saíram um pouco ofegantes e sua ansiedade era
palpável, entã o, Oscar apenas assentiu e pegou uma com um sorriso.
Passaram uma tarde agradável e, embora a conversa fosse tensa,
era melhor do que ela nã o falar com ele.
Oscar tentou de tudo para deixá -la à vontade. Nunca tivera
problemas para encantar outras mulheres, mas toda vez que tentava
elogiá -la ou criar uma maior intimidade entre eles, um olhar indagador
surgia nos olhos dela. Era penetrante, avaliador, como se estivesse
analisando-o. Ela nã o confiava mais nele.
Apó s tantos anos de amizade, essa verdade o feria profundamente,
mas ele nã o tinha ninguém para culpar além de si mesmo.
Eles voltaram para casa a tempo de Ella trocar de roupa antes de
seu encontro com o administrador. Oscar quase se ofereceu para
acompanhá -la, mas mudou de ideia no ú ltimo momento. O projeto dos
chalés era dela, e ela tinha gerido tudo muito bem sem ele. Nã o queria
que ela pensasse que ele estava interferindo e tomando conta. Melhor
mostrar que confiava em seu julgamento e deixá -la cuidar de tudo
sozinha.
— Podemos fazer isso de novo? — perguntou ele, enquanto ela se
dirigia para dentro da casa.
Meu Deus, como ele se sentia tolo, pedindo à pró pria esposa para
vê-la de novo, mas sem nutrir falsas esperanças. Estava nas mã os dela.
Se nã o quisesse vê-lo, ela o evitaria.
— Sim, claro — respondeu ela, embora as palavras soassem mais
educadas do que entusiasmadas.
— Amanhã de manhã ? — Ele odiava o tom esperançoso de suas
palavras, mas nã o pô de evitar. Ela precisava saber o quanto ele queria
passar tempo com ela.
A hesitaçã o dela disse tudo.
— De manhã , nã o — disse ela, evitando seu olhar. — Mas preciso ir
à cidade à tarde, se... se você quiser me acompanhar?
Oscar agarrou a oportunidade antes que ela mudasse de ideia,
desejando ter a coragem de perguntar o que ela faria pela manhã , mas
nã o queria ser invasivo.
— Sim, eu ficaria muito feliz.
Ela assentiu, ainda parecendo um pouco desconfortável, e correu
para dentro da casa.
***
Ella levantou-se cedo. Tinha dormido mal, entã o nã o fazia sentido
ficar na cama.
Com a ajuda de Nancy, vestiu-se o mais rá pido que pô de, esperando
evitar Oscar no café da manhã . Ele sempre acordava cedo, entã o, ela
teria que sair rapidamente para nã o o encontrar.
Hoje, ela escolheu um traje de montaria em um tom de rosa-escuro,
com um chapéu encantador da mesma cor. Era uma roupa bem mais
leve que o cinza sombrio de ontem, mas ontem ela estava tentando
parecer elegante. Queria mostrar a Oscar que era uma mulher adulta,
nã o uma criança.
Ranleigh, porém, nã o precisava ser convencido.
Ela sabia que estava brincando com fogo, encontrando-se com ele
daquela forma. Sua experiência com homens era inexistente, mas sabia
que ele a desejava. No entanto, tinha certeza de que ele nunca tentaria
seduzi-la. Nã o só porque sabia que ela amava Oscar, mas também
porque ele estava tentando ajudar tanto ela quanto seu marido. Ele era
um homem honrado e queria que fossem felizes juntos; ele nã o deixaria
seus pró prios desejos atrapalharem.
Os pensamentos de Ella voltaram à tarde anterior e ao piquenique
que tinha compartilhado com Oscar. Mais especificamente, à quele beijo.
Quantas vezes ela sonhara em beijar Oscar ao longo dos anos?
Centenas? Milhares? Provavelmente. Ainda assim, a realidade havia
sido muito melhor.
Foi perfeito. As palavras dele acalmaram seu coraçã o, e o beijo fez
seus ossos derreterem e seu coraçã o tremer... mas ela nã o fazia ideia se
aquilo era real.
Oscar era gentil e generoso. Sempre fora. Era uma das razõ es pelas
quais o amava tanto. Sempre tinha tempo para as pessoas, mesmo para
aquelas que testavam sua paciência. Ele se importava profundamente
com o destino de seus arrendatá rios e de todos em sua propriedade.
Seus amigos e familiares sempre podiam contar com ele em tempos
difíceis. Ela nunca o vira fugir de suas responsabilidades.
Na verdade, isso nã o era verdade. Ela já o tinha visto fazer isso.
Duas vezes.
A primeira, quando ele manteve Pearl à espera de uma data para o
casamento, e a segunda, quando fugiu dela.
Ela sempre achara que manter Pearl esperando era apenas a
natural relutâ ncia de um jovem em abrir mã o de sua liberdade. Saber
que era mais do que isso foi uma surpresa.
Mas o modo como ele a deixou sozinha por semanas indicava o
quã o infeliz seu casamento o deixava, e isso a machucava. Entã o, como
poderia acreditar em suas palavras agora? Ele voltara, olhara para ela
uma vez e decidira que estava apaixonado, ou pelo menos que a
desejava?
Parecia bastante improvável.
Ela precisava saber se algo do que ele dizia era real, ou se ele estava
apenas tentando cumprir seu dever e fazer sua esposa feliz, apesar de
seus pró prios sentimentos. Mas como poderia saber?
E, se ele nã o a desejava, seria tarde demais para fazer isso
acontecer? Era algo que poderia aprender? Um sentimento que poderia
encorajar, se ao menos soubesse como?
Seu estô mago se revirava de ansiedade. Ranleigh saberia o que
fazer e poderia guiá -la.
Por um momento, ela lamentou que sua relaçã o com Pearl nã o fosse
pró xima o suficiente para pedir o conselho da irmã , mas essa esperança
já estava morta há tempos. Ella lembrou-se, entã o, de uma vez em que
viu um dos lacaios de seu pai sendo puxado por um braço elegante,
envolto em seda, para um canto discreto. O que Pearl estava
aprontando?
O que quer que fosse, nã o era da sua conta, e Pearl certamente nã o
aceitaria sua interferência. Além disso, Ella já tinha problemas
suficientes para lidar.
Para seu alívio, Oscar nã o estava em lugar algum, e ela tinha
acordado tã o cedo que assustou os criados, que ainda estavam
arrumando a mesa.
Ella engoliu um pedaço de bolo e uma xícara de chá e correu para
os está bulos antes que alguém pudesse impedi-la. Chegaria muito cedo
para encontrar Ranleigh, mas pelo menos teria liberdade e tempo para
pensar antes da hora marcada.
***
Oscar ergueu os olhos da mesa de café da manhã quando Bertie
entrou, bocejando de verdade.
— Bom dia — disse ele, acenando para Oscar e sentando-se ao seu
lado. Bertie franziu a testa, olhando para ele de forma curiosa. — Por
que essa cara abatida? Parece que você trocou ouro por cascalho.
— Porque perdi uma amiga e dei de cara com uma conhecida —
respondeu Oscar, um pouco desanimado.
Ele esperava que as coisas tivessem mudado, ao menos um pouco,
depois do piquenique de ontem. No entanto, desceu para o café da
manhã e descobriu que Ella já havia saído. Uma coisa ele sabia sobre
Ella: ela odiava manhã s e, pelo que sabia, nunca se levantava antes dele.
Isso significava que ela o estava evitando.
— Você nã o pode esperar que ela corra de volta para seus braços só
porque voltou para casa — respondeu Bertie, enquanto enchia seu
prato. — Você terá que se esforçar mais que isso.
Oscar bufou. — Eu sei disso, e nã o estou reclamando. — Bem, na
verdade ele estava. — Mas acho que ela está me evitando.
Bertie ergueu uma sobrancelha cínica. — Nã o me diga — disse ele,
com sarcasmo.
— Você nã o está ajudando. — Oscar lançou-lhe um olhar irritado.
— Sou um idiota. Eu sei disso, você sabe disso, e Ella certamente sabe
disso. Entã o, como faço para melhorar as coisas?
— Continue tentando — aconselhou Bertie, cortando o bacon com
precisã o.
— Você sabe para onde ela foi esta manhã ? — perguntou Oscar,
sentindo que havia atingido um novo fundo do poço por sequer ter
perguntado.
— Nã o sou o guardiã o de minha irmã — murmurou Bertie, entre
um pedaço de bacon e ovos.
Oscar suspirou e desistiu, considerando que nã o valia a pena. Pelo
menos a veria à tarde.
Depois que Bertie devorou uma segunda porçã o do café da manhã ,
os dois homens saíram para uma cavalgada. Oscar sentia que
enlouqueceria se tivesse que ficar esperando Ella voltar, entã o, um
pouco de ar fresco para clarear a mente parecia uma boa ideia.
Eles passaram pela igreja em Brasted e seguiram o caminho
inclinado que subia até um terreno mais alto. Havia um pequeno folly
no topo com uma vista espetacular do campo, e assim, foram em um
ritmo lento e descontraído.
Oscar estava perdido em pensamentos, por isso se assustou um
pouco quando Bertie falou com ele.
— Caramba, Oscar. Vamos mudar o trajeto, vamos pela estrada mais
baixa.
— Por quê? — indagou Oscar, intrigado. — É o dobro do caminho, e
esta rota é bem mais bonita, além do mais, foi ideia sua.
— Bem, mudei de ideia — disse Bertie, parecendo um pouco
desesperado.
Oscar olhou para ele, perplexo, até que algo se moveu no canto do
seu olho, e seu olhar se voltou para o folly. Havia duas figuras lá , o
cená rio intimista e româ ntico, e, por um momento, Oscar apenas os
invejou... até perceber.
Ranleigh... com Ella.
Seu estô mago despencou, com uma onda de frio, medo e dor se
abatendo sobre ele. A raiva também surgiu: uma onda sú bita de ciú me e
fú ria tã o intensa que o deixou sem fô lego. Ele queria nada mais do que
cruzar o campo e quebrar o nariz de Ranleigh, e isso era só o começo.
Mas nã o o fez. Nã o podia.
Oscar havia dado a Ella permissã o para ter um amante. Ele lhe
dissera que ela podia viver e amar como quisesse, contanto que fosse
cuidadosa.
Ele nã o tinha o direito de protestar agora que ela estava fazendo o
que ele sugerira.
Com o estô mago revirado, Oscar sabia que nã o tinha ninguém mais
para culpar. Era tudo culpa dele e, por Deus, essa era a pior parte de
tudo. A doce Ella, que o amara tã o devotadamente, depositando sua
confiança em um homem como Ranleigh, e ele nã o podia fazer
absolutamente nada a respeito.
Nã o. Isso nã o podia ser verdade. Ranleigh teria que ser
confrontado, mas nã o na presença de Ella. Ele precisava deixar uma
coisa clara ao homem: se ele machucasse Ella de qualquer forma, Oscar
o mataria.
— Oscar — disse Bertie, com a voz baixa e cheia de compaixã o. —
Oscar, eu sinto muito.
Oscar balançou a cabeça, horrorizado ao perceber que sua garganta
estava apertada de angú stia. — Minha culpa — disse ele, as palavras
roucas. — Tudo culpa minha.
Enquanto ele encarava as figuras, sentadas lado a lado,
profundamente envolvidos na conversa, Ella ergueu o olhar. Ele nã o
conseguiu decifrar sua expressã o dali, mas ela deu um pulo, claramente
horrorizada por ter sido descoberta. Ranleigh se levantou também,
colocando uma mã o protetora no ombro dela.
Aquele gesto sutil, aquele movimento defensivo, machucou Oscar
profundamente, pois sabia que era um papel que ele deveria estar
cumprindo.
Oscar encarou-a por um longo momento, um momento que pareceu
se estender por dias, semanas e meses... décadas, cada segundo
lembrando-o do que poderia ter tido.
Finalmente, ele baixou o olhar e virou seu cavalo em direçã o à casa.
Capítulo 17
“No qual nem tudo é o que parece ser.”

Ranleigh estava esperando por Ella no folly, embora ela tivesse


chegado um pouco cedo.
Ela sentiu uma onda de gratidã o por ele nã o a ter deixado
esperando. Seus nervos estavam em frangalhos. Cada galho quebrado e
cada farfalhar nas moitas a faziam saltar de ansiedade e olhar por cima
do ombro. Céus, como as pessoas conseguiam manter casos amorosos?
Era o suficiente para qualquer um ter um colapso nervoso. Isso só
confirmava para ela a impossibilidade de um dia ter um amante. Mesmo
que Oscar nã o se importasse, ela se importava, e se alguém descobrisse,
no mínimo, iria se sentir constrangida. Ela nã o poderia fazer isso com
ele, nem consigo mesma.
Tudo a levava a uma conclusã o inevitável: se Oscar nã o conseguisse
amá -la, se nã o pudesse se comprometer com o casamento de coraçã o
aberto, entã o, ela suportaria uma existência solitá ria e sem amor. Nã o
que ela esperasse algo diferente, mesmo antes de se casarem, mas ao
menos antes ela tinha sua amizade, e isso era algo em que podia confiar.
Sem isso, ela se sentia à deriva.
No folly, Ranleigh avançou para ajudá -la a descer, seu sorriso
caloroso acalmando seus nervos à flor da pele.
— Bom dia, duquesa, e posso dizer o quanto você está linda esta
manhã ?
Ella devolveu o sorriso, embora soubesse que nã o era muito
convincente. — Eu preferiria que nã o dissesse — respondeu ela, com
um sorriso pesaroso. — Já me sinto péssima por encontrá -lo aqui
sozinha, só que... só que preciso de ajuda, Ranleigh, e nã o sei a quem
mais recorrer. Eu sei que poderia falar com Mintie, mas ela é mã e de
Oscar e...
Ranleigh estendeu a mã o e segurou a dela. — Calma, nã o precisa
ficar nervosa, querida. Farei tudo o que puder, você sabe disso.
Ela assentiu e permitiu que ele a guiasse até um dos bancos de
pedra que circundavam o folly.
— Conte-me — pediu ele, era fá cil falar, mas difícil fazer.
Ella pressionou as costas das mã os contra as bochechas, sentindo o
rubor tomar conta antes mesmo de abrir a boca. Ela respirou fundo.
— Oscar diz que foi um erro ir embora, que... que ele quer que
tentemos novamente, diz que tem sentimentos por mim e que me d-
deseja.
Ela ousou olhar para cima e o encontrou sorrindo para ela, os olhos
cheios de afeto.
— Bem... Nã o é isso o que você queria?
Ella lhe deu um sorriso incerto, sentindo as lá grimas se
acumularem em seus olhos. — Sim — disse ela, desejando que fosse
simples assim. —, mas eu nã o acredito nele.
— Ah — disse Ranleigh. — Entendo.
— Como ele pode ir embora por algumas semanas e depois voltar
com sentimentos tã o mudados? Nã o é possível, Ranleigh. Você sabe que
nã o é. Só porque eu me visto melhor e encontrei meu lugar na
sociedade... como isso seria suficiente para fazê-lo sentir algo tã o
diferente?
— Ella — disse Ranleigh.
Ela sentiu que ele estava escolhendo as palavras com cuidado e nã o
pô de reclamar da intimidade de chamá -la pelo primeiro nome nessas
circunstâ ncias.
— Ella, acho que Oscar sempre se importou muito com você, mas
foi ele quem precisou amadurecer, nã o você. Ele foi mimado e adorado a
vida toda; nunca houve uma ú nica coisa que nã o lhe fosse entregue de
bandeja. Até a esposa foi escolhida para ele sem que ele movesse um
dedo. Se isso o fez feliz ou nã o é outra histó ria, mas ele nunca lutou
contra seu destino.
— E daí? — exigiu saber ela, encarando-o.
Ranleigh suspirou, cruzando uma longa perna sobre a outra. Ele
olhou para o campo antes de se voltar para ela, os olhos escuros
calorosos e um pouco tristes.
— Entã o, acho que foi necessá rio se afastar de você e ver as coisas
de outra forma para perceber o que poderia ter e o que poderia perder.
— Você acredita que ele esteja sendo sincero? — perguntou Ella,
seu coraçã o tolo saltando, desejando poder depositar suas esperanças
nisso apenas.
Ranleigh deu de ombros. — Acredito que se ele nã o fosse, ele seria
o maior tolo do mundo.
Ella jogou as mã os para o alto, frustrada. — Isso nã o é uma
resposta, Ranleigh.
Ele deu uma risadinha e assentiu. — Perdoe-me, e você acha que
poderia me chamar de Guy depois de tanto tempo?
Ela soltou um suspiro, sentindo-se desanimada, mas assentiu. —
Claro, Guy.
— Vamos lá — disse ele, a voz baixa enquanto estendia a mã o e
erguia seu queixo, inclinando seu rosto para o dele. — Pare com isso.
Você é encantadora, Ella, acredite em mim. Nenhum homem no mundo
poderia ignorá -la, ou nã o sentir nada na sua presença. Nenhum com
sangue nas veias, pelo menos. Nã o acredito que seu marido seja
diferente.
Ella bufou e cruzou os braços. — Acho que você está tentando me
fazer sentir melhor, está sendo gentil, e agradeço, mas...
— Gentil? — interveio Ranleigh, cortando-a. Ele deu uma
gargalhada e balançou a cabeça. — Minha pobre inocente. Nã o conhece
minha reputaçã o? Estou longe de ser gentil.
Ella olhou para ele com carinho e sorriu com a indignaçã o em sua
expressã o.
— Mentiroso — disse ela, suavemente.
Ranleigh bufou e revirou os olhos. Quando falou, as palavras foram
duras e diretas.
— Você nã o tem ideia da tentaçã o que representa, sua tolinha
adorável. Se nã o fosse pelo meu afeto por Oscar e pela minha dívida de
honra para com o pai dele, você engoliria essas palavras, juro.
Ella riu, sabendo que ele a desejava, mas nã o acreditando nele
mesmo assim. Ele era um bom homem. Ela entrelaçou seu braço no dele
e encostou a cabeça em seu ombro.
— Como faço para que ele me deseje?
O braço sob sua mã o ficou tenso e ela olhou para ver uma expressã o
intensa em seus olhos.
— Basta ser você mesma, Ella. Ele é um homem.
— Mas como vou saber se... se isso significa mais do que apenas...?
— Ela parou de falar subitamente, incapaz de colocar em palavras.
Ranleigh olhou para ela e pressionou um beijo em sua testa.
— Você saberá — disse ele, com a voz baixa. — Oscar nã o é um
mentiroso. Peça que ele diga a verdade. Nã o acho que ele consiga olhar
em seus olhos e mentir para você. Eu sei que eu nã o conseguiria —
disse ele, com a voz totalmente sincera. — E eu tenho muito mais
prá tica nisso.
Ella suspirou e assentiu.
— Preciso ir — disse ela, endireitando-se. — Já tomei muito do seu
tempo. Muito obrigada por ter vindo.
— Bem, nã o sei se ajudei em alguma coisa, mas o prazer foi
inteiramente meu — disse Ranleigh, algo em sua expressã o que lhe
dizia que ele falava a verdade. — Ella — acrescentou ele, e havia algo no
tom de sua voz que a fez hesitar. — Desejo que você e Oscar sejam
felizes. Espero que saiba disso.
— Naturalmente — disse ela, sorrindo para ele.
— Mas — acrescentou ele, com o olhar direto — se as coisas nã o
derem certo, se chegar a um ponto em que nã o houver mais esperança
de reconciliaçã o... ainda estarei aqui. Nã o se esqueça disso.
Ela sentiu o rosto corar com as palavras dele, desconfortável agora
e querendo partir, mas assentiu. — Eu sei. Nã o vou esquecer disso.
Ranleigh assentiu, aparentemente satisfeito.
Ella abriu a boca, prestes a se despedir, e entã o olhou para cima ao
ouvir vozes do outro lado do campo. Com horror, reconheceu as duas
figuras a cavalo, ambas olhando em sua direçã o.
Ela levantou-se com um grito de desespero, com a mã o cobrindo o
coraçã o, que parecia prestes a sair do peito, de tã o forte que batia.
A mã o de Ranleigh pousou em seu ombro, mantendo-a no lugar
quando ela poderia ter corrido para se explicar.
Oscar a encarou, e por um momento, ela achou que podia discernir
fú ria em sua expressã o, mas ele estava longe demais para ter certeza, e
entã o ele se virou.
— Oscar? — chamou ela, a palavra desesperada e dolorosa demais
para alcançá -lo.
— Deixe-o ir, Ella — disse Ranleigh, com urgência na voz. — Sei que
está chocada, mas nã o é tã o ruim quanto acha. Isso deve fazer a
situaçã o parecer bem mais real para ele.
— Mas nã o é real! — protestou Ella, com a voz embargada. — E ele
nem disse nada! — exclamou ela, levantando as mã os. — Agora vê... vê
o quanto ele se importa! Ele nem se deu ao trabalho de lhe desafiar.
Um soluço rasgou sua garganta, e, por mais que tentasse, as
lá grimas se acumularam em seus olhos.
— Ella, Ella, acalme-se, sua criatura sanguiná ria — consolou-a
Ranleigh, puxando-a para seu abraço. Ela bufou e tentou se
desvencilhar, percebendo a diversã o por trá s das palavras, mas ele a
segurou firme.
Ele colocou as mã os em seus ombros, forçando-a a olhar em seus
olhos.
— Ele virá me procurar, nã o tenha medo. Pode até me desafiar, já
que você parece tã o ansiosa pelo meu sangue, mas ele nã o fará isso na
sua frente.
Ela soluçou e olhou para ele, lutando contra o impulso de bater o
pé.
— Oh, nã o quero ver nenhum de vocês se machucar, seu homem
ridículo. Eu nã o suportaria, e você bem sabe. — Ela pausou, piscando
para ele. — Você vai dizer a verdade para ele, nã o vai? Vai explicar
tudo?
— Oh, vou explicar, com certeza — disse Ranleigh, com um leve
sorriso nos lá bios. — Prometo. Deixarei tudo muito claro.
***
— O que você vai fazer?
A voz de Bertie era cautelosa, e eles estavam quase em casa antes
que ele falasse algo.
— Fazer uma visita a Ranleigh — respondeu Oscar. — O que mais
você espera que eu faça?
Nã o havia raiva em sua voz, apenas cansaço. Ele se sentia com cem
anos de idade. Olhando para as ú ltimas semanas, só conseguia ver suas
pró prias açõ es como as de uma criança mimada. Sem dú vida, Ella
pensaria que ele só a queria agora porque estava com ciú mes e, por
Deus, ele estava com ciú mes. Aquela emoçã o amarga e angustiante
queimava sob sua pele e retorcia suas entranhas.
— Vai desafiá -lo?
Oscar deu de ombros. — Nã o sei. Estou morrendo de vontade,
mas... — Ele praguejou e balançou a cabeça. — Droga, Bertie, eu dei
permissã o a ela! Entã o, o que faço agora? Como volto atrá s? Diga-me o
que fazer, pelo amor de Deus, porque estou estragando tudo e nã o sei
como consertar.
Ele se virou para o melhor amigo e viu pena brilhando em seus
olhos.
— Eu gostaria de saber — respondeu Bertie.
Oscar deu uma risada amarga. — Nã o importa. Eu causei essa
confusã o toda, e agora tenho que consertá -la. Sob hipó tese alguma, irei
embora. Talvez um homem melhor iria, mas... mas Ella é parte de mim,
Bertie. Nã o percebi o quanto ela havia se enraizado no meu coraçã o até
partir. Nã o posso deixá -la ir, pelo menos nã o sem lutar.
— Nã o vai ficar bravo com ela? — perguntou Bertie, enquanto
Oscar franzia o cenho.
— Como eu poderia? — exclamou Oscar, incrédulo. — Eu disse que
nã o a queria. Que direito eu tenho de ficar bravo?
Ele calou-se, sentindo o estô mago revirar. Será que ela amava
Ranleigh? O homem era bonito, rico, charmoso e um renomado
libertino. Uma pequena inocente como Ella nã o teria a menor chance
diante de uma seduçã o tã o encantadora. Seu estô mago se contorceu
com a ideia de Ella se entregando a ele, de Ranleigh tocando sua pele.
Oh, Deus, ele precisava consertar isso.
— Você acha que ela poderia me perdoar? — perguntou a Bertie,
com a voz baixa.
— Eu achava que ela poderia perdoar qualquer coisa vindo de você
— disse Bertie, com um sorriso meio torto. —, mas isso foi antes de
você ir embora. Outrora, você foi uma figura heroica e perfeita para ela,
Oscar, mas agora ela vê que você é apenas um homem, de carne e osso
como todos nó s, pobres mortais. Nã o acho que isso seja tã o ruim, para
dizer a verdade, mas... você precisa ser honesto com ela. Se mentir para
ela, ela nunca mais confiará em você.
Oscar assentiu e parou o cavalo na estrada que levava de volta para
Chancery.
— Onde Ranleigh está hospedado?
— No Rutland Arms, eu acho — disse Bertie, com preocupaçã o em
seus olhos. — Tome cuidado, Oscar. Nã o seria bom começar um
escâ ndalo, e Ranleigh é bem á gil com os punhos.
— Nã o se preocupe — respondeu Oscar, sombrio. — Nã o vou
envergonhar ninguém.
Ninguém, exceto a si mesmo, no caso.
Capítulo 18
“No qual há revelações e uma surpresa para Ella.”

Oscar ficou aliviado ao descobrir que Ranleigh chegou em Rutland


Arms pouco tempo depois dele. Ele nã o havia passado muito tempo com
Ella depois que Oscar partiu, entã o. Seria isso um bom sinal?
Eles foram levados a um salã o privado a pedido de Ranleigh, que
pediu conhaque. Eles ficaram em silêncio, com a atmosfera tensa entre
eles, até que a criada trouxe um decantador e copos e deixou-os a só s.
Ranleigh ergueu o decantador em direçã o a ele com um gesto de
pergunta, e Oscar assentiu. A tentaçã o de agarrá -lo e quebrá -lo sobre a
cabeça de Ranleigh era forte, mas ele era um maldito cavalheiro e agiria
como tal.
Ranleigh deslizou um copo com uma dose generosa pela mesa de
madeira escura e entã o se sentou, parecendo bastante à vontade.
— Pedi uma vez que você ficasse longe da minha esposa — disse
Oscar, seu tom muito mais calmo do que ele esperava. A afliçã o que
consumia seu peito exigia açã o, nã o palavras, mas ele nã o estragaria
tudo agindo sem pensar, de novo nã o.
— Verdade — concordou Ranleigh, e entã o tomou um gole de seu
conhaque, observando Oscar por sobre a borda do copo. — E depois
fugiu como um garotinho assustado. Alguém tinha que juntar os
pedaços e ajudá -la a encontrar seu lugar na sociedade.
O fato de Ranleigh estar certo fez o estô mago de Oscar se retorcer
de culpa.
Oscar tomou um grande gole de seu conhaque e se preparou para
engolir também um pouco de seu orgulho.
— Você me advertiu uma vez, Ranleigh. Disse que eu precisava
parar de agir como um menino mimado e crescer, tomar as rédeas da
minha vida.
Ranleigh assentiu, a curiosidade brilhando em seus olhos. — Sim,
eu disse isso, e recebi uma enxurrada de ofensas em troca. Também te
disse para romper o noivado com Pearl, pois vocês nã o combinavam.
Parece que você nã o fez nenhum dos dois até que fosse tarde demais.
Oscar assentiu, com os punhos cerrados enquanto a tensã o
percorria seus ombros.
— Nã o é tarde demais — disse ele, ouvindo o medo por trá s das
palavras: a suspeita terrível de que poderia estar errado. — Posso
consertar tudo. Eu irei, Ranleigh, e se você atrapalhar, juro por Deus,
nã o me darei ao trabalho de vir falar com você. Eu te mato, nã o importa
as consequências.
Para sua surpresa, Ranleigh sorriu, e nã o o sorriso arrogante e
zombeteiro que Oscar poderia esperar, e que ele dominava tã o bem.
Nã o. O homem parecia genuinamente satisfeito.
— Bem, já era hora — disse Ranleigh, com um suspiro. Ele tirou a
cadeira de baixo da mesa e apontou com a cabeça para ela. — Sente-se,
Rothborn. Apenas ponha a bunda na cadeira, está me causando dor no
pescoço.
Um pouco atordoado, Oscar franziu o cenho para ele, mas fez o que
lhe foi solicitado.
Ranleigh se inclinou sobre a mesa, seus olhos atentos e a voz
carregada de uma advertência. — A reputaçã o e a pessoa da Duquesa
de Rothborn estã o acima de qualquer reprovaçã o. Nã o há nada entre
nó s além de amizade. Para ser sincero, acredito que ela me vê de
maneira quase paternal. Uma suspeita desanimadora para alguém com
minha reputaçã o, admito, você deixou o orgulho de lado hoje, entã o,
agirei da mesma forma.
Oscar soltou um suspiro. O fardo que havia se tornado cada vez
mais pesado nos ú ltimos dias – e que ameaçava esmagá -lo ao ver sua
esposa com o duque naquela manhã – se dissipou. Nã o que estivesse
fora de perigo, mas talvez nã o estivesse tã o perdido quanto temia.
Ele ergueu os olhos e viu Ranleigh o observando.
— Você me acha um tolo — disse Oscar, surpreso quando Ranleigh
balançou a cabeça.
Ranleigh riu de sua expressã o. — Nã o. Acho você jovem e mimado.
De fato, exatamente como eu era na sua idade.
Ele deu a Oscar um sorriso acolhedor que nã o achava ser
merecedor.
— Quase cometi um erro colossal na sua idade, e seu pai foi gentil o
suficiente para me tirar de uma enrascada antes que eu me machucasse
seriamente. Eu esperava fazer o mesmo por você, mas temo que me
falte a mesma delicadeza.
Oscar bufou, lembrando-se da bronca que Ranleigh lhe deu alguns
anos antes. Isso o fazia corar só de pensar. Principalmente, porque
Oscar sabia que ele estava certo.
— Nunca fui o vilã o desta histó ria, Oscar — disse Ranleigh, com a
voz grave e o olhar suavizado agora que o desejo de Oscar de
estraçalhá -lo parecia ter passado. — E o ú nico motivo pelo qual sua
esposa veio até mim foi para pedir conselhos sobre como fazer para
você a desejar.
As palavras atingiram Oscar tã o forte que ele quase se engasgou
com o conhaque.
— O quê?
Ranleigh balançou a cabeça. — A juventude é realmente
desperdiçada nos jovens — disse, pesarosamente.
Por um momento, Oscar apenas o encarou, atô nito demais para
falar alguma coisa. Ranleigh ergueu uma sobrancelha, divertido. Oscar
soltou um suspiro e deu uma risada trêmula. Ele descobriu que agora
poderia até sentir certa simpatia pelo homem, sabendo a verdade.
— Ah, até parece, Ranleigh, você está longe de ser velho —
protestou ele, sabendo muito bem que o homem era um dos solteiros
mais cobiçados da sociedade, e nã o apenas por sua fortuna e título.
— É mesmo? Você me surpreende. Nã o consigo evitar sentir que
meu tempo acabou quando sou reduzido a dar conselhos. Bons
conselhos, diga-se de passagem.
Oscar se inclinou para a frente, encarando o homem o qual ele
havia se ressentido por tanto tempo e sabendo que só sentia esse
ressentimento porque sabia que Ranleigh o enxergava como ele
realmente era.
— Estou ouvindo — disse ele, sério agora.
Ranleigh sorriu. — Vá para casa para sua esposa, seu cabeça-oca, e
nunca mais a trate desse jeito.
— Nã o vou — respondeu Oscar, falando com todo o coraçã o.
Levantou-se e estendeu a mã o. — Obrigado.
Ranleigh apertou sua mã o, mas, quando Oscar tentou se afastar, ele
a segurou firme.
— Um aviso, jovem Rothborn. Ella é uma mulher extraordiná ria.
Muitos de nó s já percebemos isso. Se você estragar tudo de novo...
ficarei mais do que feliz em trocar de papel e ser o vilã o.
A mandíbula de Oscar se contraiu um pouco, mas ele entendeu o
aviso literalmente.
— É melhor procurar outra protagonista, Ranleigh. Essa aqui está
prestes a descobrir que o heró i pode ser um idiota, mas aprendeu a
liçã o.
Ranleigh deu um riso divertido e assentiu, aprovando. — Boa sorte,
Rothborn. Aguardo o final feliz.
***
— Oh, Mintie! Mintie, algo terrível aconteceu.
Ella entrou apressada na sala de estar de sua sogra, e a mulher se
assustou, colocando o bordado de lado com um grito de afliçã o.
— Ella! — exclamou, enquanto Ella se jogava aos seus pés e
soluçava em seu colo.
Ela sentiu uma mã o acariciando seus cachos. — Querida menina, o
que aconteceu? Conte-me tudo agora mesmo.
— Oh, Mintie, eu fui tã o b-boba — gaguejou Ella, perguntando-se se
poderia ficar mais infeliz do que naquele momento. — Pedi que
Ranleigh se encontrasse comigo, a só s. Eu precisava do conselho dele
sobre o que fazer em relaçã o ao Oscar, mas... mas... Oscar e Bertie
estavam cavalgando e nos viram! — exclamou ela, fora de si.
Ela pegou o lenço que Mintie lhe oferecia e enxugou os olhos em
vã o; as lá grimas continuavam a cair.
— Oh, nã o percebe? Eu arruinei a pouca chance que tinha. Ele vai
pensar que estou flertando com Ranleigh, mas eu juro, Mintie, pela
minha honra, que nã o estou.
— Meu Deus — disse Mintie, cobrindo o coraçã o com uma mã o
delicada. — Você me deu um susto, sua menina travessa. Pensei que
algo terrível tivesse acontecido.
— Você nã o ouviu o que acabei de dizer? — indagou Ella, irritada
com a falta de reaçã o. Ela nã o percebia o perigo?
— Claro que ouvi, querida — respondeu Mintie, perfeitamente
calma enquanto pegava seu bordado novamente.
— Entã o, como pode simplesmente ficar aí sentada? Precisamos ir
agora mesmo, pois Oscar pode estar duelando neste exato momento.
Mintie lançou-lhe um olhar duvidoso. — Acho isso bem improvável,
Ella, querida — disse ela, ainda inabalável diante do terror de Ella. —
Ranleigh é um homem tã o sensato. Ele explicará tudo para Oscar, nã o se
preocupe.
Ela deu a Ella um tapinha tranquilizador na mã o.
— Por que nã o pede chá e bolo? Chá e bolo sempre colocam as
coisas em perspectiva.
Ella a encarou, pensando que ela era a mã e mais incomum do
mundo. Como podia estar tã o despreocupada? Ranleigh estava certo de
que Oscar o procuraria, e ele ainda nã o tinha voltado, entã o...
— Ella! — disse Mintie, em um tom repreensivo. — Pare de se
preocupar, sua tolinha. Será bom para Oscar levar um susto. Quem sabe
ele se anime a mudar de postura. E, quanto a você, o que te levou a
procurar Ranleigh? Por que nã o me perguntou? Achei que eu tinha sido
de grande valia ao te aconselhar sobre como agir.
— Oh, sim — respondeu Ella, arrependida. — É que... eu... eu nã o
queria perguntar à mã e do Oscar sobre... sobre...
Mintie a encarou e entã o caiu na gargalhada. — Oh, oh — disse,
recuperando o fô lego. — Pobre Ranleigh. Ele deve estar se sentindo um
tio idoso. Oh, Ella, que criatura engraçada você é! Que provaçã o para o
pobre homem.
Ella franziu o cenho para ela, sem achar a menor graça. Ela
levantou-se, afastou-se e tocou a campainha com vigor.
Uma hora depois, e já com a barriga cheia de chá e bolo, ao ponto
de nã o aguentar mais, Ella percorria os corredores de Chancery,
tremendo tã o intensamente que seu estô mago se revirava. Estava
morrendo de medo, apesar das palavras de Mintie. Será que Oscar havia
desafiado Ranleigh? Teriam lutado? Estaria um deles sangrando até a
morte nesse instante? Mesmo que isso nã o tivesse ocorrido, a
perspectiva de enfrentar Oscar era assustadora o suficiente. Ela abafou
um grito e levou as mã os à s bochechas.
— Acalme-se, acalme-se — murmurou ela, enquanto andava de um
lado para o outro. — Você nã o é uma criança estú pida, você é uma
duquesa, entã o, comporte-se à altura.
Recriminar-se pareceu tranquilizá -la um pouco, mas, ao se virar
para retornar pelo corredor, a porta da frente se abriu, e Oscar entrou...
inteiro.
— Oscar! — gritou ela, levantando as saias e correndo pelo salã o
grandioso como a moleca que seu pai a acusava de ser.
Ela jogou os braços ao redor do pescoço dele com tanta força que
Oscar tropeçou para trá s, suas botas escorregando no chã o de
má rmore, e os dois caíram no chã o juntos.
Wilkes olhou, horrorizado, sem saber o que fazer enquanto Ella
enchia o rosto de Oscar de beijos.
— Oh, Oscar! Oscar, eu estava tã o assustada. Diga-me que você nã o
o matou.
— Ella! — exclamou Oscar, rindo, embora houvesse um tom de
advertência em sua voz enquanto afastava com um gesto Wilkes e dois
lacaios de olhos arregalados. — Sério, querida, estamos tentando evitar
mais escâ ndalos. Será que você pode tentar se lembrar disso?
Para seu alívio, ele parecia divertido em vez de irritado, e sua
expressã o era calorosa... até que ela começou a chorar.
— Oh, nã o, querida. Nã o chore. Por favor, eu imploro — disse ele,
puxando-a para perto. — Acalme-se, minha querida. Levante-se, nã o
posso falar com você enquanto nos encontrarmos assim, sentados no
chã o do hall de entrada.
Ella se levantou, um pouco atordoada ao ouvir as palavras
carinhosas direcionadas a ela. Ele a segurou pela cintura e a conduziu
até a biblioteca, acomodando-a em uma poltrona perto da lareira.
Ela o observou, confusa, enquanto ele servia um pequeno copo de
conhaque e o entregava em suas mã os.
— Aqui, tome um gole. Isso vai te fazer sentir melhor.
Ella tomou de uma vez, fazendo uma careta, e devolveu-lhe o copo
vazio. Oscar suspirou e deu-lhe um sorriso pesaroso antes de abaixar o
copo.
— Vamos lá — disse ele, ajoelhando-se à sua frente e segurando
suas mã os. — Ella, minha querida amiga, pode me perdoar por ter sido
um completo idiota?
Ella sorriu para ele e assentiu, até que uma expressã o de
preocupaçã o surgiu em seu rosto ao se lembrar de algo. — Posso, claro,
Oscar, mas... nã o me deixe sozinha daquele jeito de novo. Se... se você
nã o quer ficar comigo, eu... eu entendo, mas...
As palavras ficaram suspensas no ar quando Oscar se inclinou e
pressionou os lá bios nos dela.
Ella se sobressaltou, e entã o se entregou à sensaçã o dos lá bios
macios dele nos seus. Antes que pudesse pensar, suas mã os se
entrelaçaram no cabelo dele, puxando-o para mais perto enquanto ele
deslizava a língua suavemente na sua.
Bom Deus.
Ela ansiava por isso, sonhava com isso, mas desejar e sonhar nã o
capturavam a explosã o de desejo sob sua pele. Sua língua deslizava
contra a dele, quente como seda, enquanto ela imitava o movimento
provocante e envolvente. Uma mã o saiu do cabelo dele e foi para o
peito, deslizando sob o casaco. O desejo de tocá -lo era uma espécie de
loucura. Era tudo o que ela conseguia pensar enquanto abria os botõ es
de seu colete. Sua palma pressionou o linho fresco, sentindo o calor e a
solidez dos mú sculos, e percebeu o coraçã o dele batendo forte,
assegurando-a de que ele também nã o estava indiferente.
Entã o ele se afastou, fitando-a com os olhos arregalados.
— Meu Deus — murmurou ele, e a beijou de novo, com mais
intensidade, seus braços apertando-a mais, o abraço tã o desesperado
que mal havia espaço para respirar.
— Oh, desculpe! — veio uma voz horrorizada do outro lado do
cô modo.
Ambos se sobressaltaram quando Bertie entrou no recinto. Ele os
encarou, corado como um camarã o cozido, e entã o deu meia-volta.
— Eu nã o estou aqui — disse por cima do ombro. — Continuem.
Feliz por você nã o estar morto, Rothborn.
Oscar soltou uma risada ao mesmo tempo em que Ella explodia em
gargalhadas.
— Maldito tolo — murmurou ele, balançando a cabeça. Ele olhou
para ela com tanto afeto nos olhos que Ella sentiu seu coraçã o apertar
no peito.
— Sinto muito — disse ela, sentindo que lhe devia pelo menos isso.
— por ter me encontrado com Ranleigh.
Oscar lhe deu um sorriso pesaroso. — Podemos dizer que ambos
fomos... um tanto tolos e... Oh, Ella, podemos começar de novo, querida?
Senti tanto a sua falta. Nã o percebi o quanto ansiava pela sua
companhia todos os dias, pelas coisas extravagantes que você diz e pela
forma como nunca sei o que fará a seguir. Você foi minha melhor amiga
por tanto tempo, mas eu nunca percebi o quanto isso significava para
mim.
Ella o encarou, desesperada para acreditar, mas ainda incerta se ele
dizia tais coisas apenas para nã o ferir seus sentimentos. Talvez sua
incerteza estivesse visível, pois Oscar segurou seu rosto com as mã os,
encarando-a com tanta intensidade que ela perdeu o fô lego.
— Quando te vi com Ranleigh, eu... Meu Deus, Ella, eu quis matá -lo.
Nunca senti tanta fú ria na vida. Como deixei você sozinha com ele, eu
nunca saberei.
Ele a beijou novamente, um beijo ardente que a deixou sem fô lego e
agarrando suas lapelas.
— Oh. Você estava com ciú mes? — perguntou ela, querendo a
confirmaçã o, apesar do que ele já dissera e do jeito possessivo com que
a segurava.
Oscar bufou, com consternaçã o nos olhos. — Sim, terrível e
veementemente ciumento — disse, parecendo um pouco abalado com a
pró pria confissã o. Ele nã o esperava por isso, ela percebeu. — Nunca
soube o que era sentir tanta raiva e dor. Droga, Ella, estive tã o perto de
arruinar tudo.
Ella sentiu o coraçã o apertar no peito, vendo a sinceridade em seus
olhos e acreditando, verdadeiramente acreditando nisso pela primeira
vez. Ele se importava com ela. Se era amor, ela nã o podia ter certeza,
nã o ainda, mas ele se importava o bastante para temer perdê-la.
Ela riu de repente, com uma felicidade borbulhando dentro dela
com tanta intensidade que nã o pô de conter. Ella se levantou e atirou os
braços ao redor do pescoço dele, beijando-o com tanto entusiasmo que
o desequilibrou pela segunda vez naquele dia. Como ele estava de
joelhos, nã o tinha muito para onde cair dessa vez e a levou junto,
aparentemente bem contente em levá -la ao chã o.
Ella olhou para ele, apoiando as mã os em seu peito ao perceber que
estava deitada sobre ele. De repente, foi tomada por uma onda de
sensaçõ es, notando o corpo dele tã o excitado sob o dela e as mã os em
seus quadris mantendo-a ali. Ela corou quando seus olhos se
encontraram e, dessa vez, Oscar soltou uma risadinha baixa, um som
um tanto travesso que fez o sangue dela vibrar com a expectativa.
— É como viver com um cachorrinho animado — disse ele, com
malícia nos olhos.
Ella bufou para ele, fingindo estar ofendida, mas foi por pouco
tempo, pois ele a rolou de costas.
— Eu gosto disso — murmurou ele, acariciando o espaço macio
abaixo de sua orelha e pressionando beijinhos ao longo do pescoço
dela. — Pode me derrubar quantas vezes quiser.
Ela emitiu um som ofegante, algo entre um suspiro e uma risada,
enquanto ele se movia entre suas pernas e pressionava o quadril contra
o dela. Sua excitaçã o encontrou o ponto sensível entre suas coxas, que
ansiava por ele há tanto tempo, e Ella suspirou novamente, sentindo a
cabeça girar e o desejo borbulhar sob sua pele.
— Ella — sussurrou ele, e agora ela viu como os olhos dele
escureceram; viu o desejo em sua expressã o e, de repente, estava em
chamas.
Ela prendeu a respiraçã o.
Uma batida na porta fez com que ambos praguejassem.
— Mande-os embora — implorou Ella, tremendo de ansiedade.
— O que você quer, maldito seja? — exigiu saber Oscar, seu
desagrado com a interrupçã o perfeitamente audível.
Houve um momento de hesitaçã o antes de Wilkes responder do
outro lado da porta. — Perdoe-me, Vossa Graça, pela interrupçã o, mas
Lady Pearl está aqui e... parece estar indisposta.
— Pearl! — exclamou Ella, atô nita.
Oscar gemeu. — Maldita seja, essa sua irmã . Se ela veio causar
problemas, é melhor já indo dar meia-volta.
Ella o empurrou até que ele saísse de cima dela, e ela se levantou,
balançando a cabeça. — Wilkes disse que ela estava indisposta. Ela nã o
viria a mim, a menos que... bem, ela nã o viria. Tem muito orgulho para
isso.
Oscar levantou-se, resmungando e abotoando o colete. — Hmph —
resmungou ele, um som depreciativo que ilustrava seu desagrado com a
interrupçã o.
Ella teve vontade de beijá -lo por isso, entã o o fez.
Foi apenas um breve toque de lá bios, mas Oscar praguejou e tentou
puxá -la novamente enquanto ela se afastava.
— Preciso ver o que houve, Oscar — disse ela, em tom repreensivo,
embora estivesse secretamente encantada com a reaçã o dele.
Ela correu para a porta e entã o parou, olhando para ele por um
momento, como se nã o pudesse acreditar que ele era real.
Oscar sorriu e entã o lhe mandou um beijo com as mã os. — Volte
logo — exigiu ele.
Ella sorriu para ele, e entã o foi encontrar sua irmã .
Capítulo 19
“No qual a perfeição prova ser uma ilusão.”

Wilkes conduziu Pearl ao salã o azul, o mais pró ximo do hall de


entrada. Ao olhar para sua irmã , Ella se perguntou como ela tinha
conseguido chegar até ali.
— Pearl! — exclamou Ella, horrorizada ao ver sua irmã , sempre tã o
impecável, naquele estado.
Sua pele perfeita estava pá lida, com manchas vermelhas, e seus
olhos, injetados. Estava claro que ela havia chorado. Seu rosto parecia
inchado e, com um sobressalto, Ella percebeu que ela tinha ganhado
peso.
Ella deu um passo à frente, com o instinto de consolar Pearl, mas
sabia muito bem que tais demonstraçõ es de afeto nunca eram bem
recebidas. Em vez disso, hesitou, sem saber o que fazer.
Pearl zombou de sua indecisã o, abraçando-se.
— Vou pedir para Wilkes chamar um médico — disse Ella, virando-
se para a porta.
— Nã o se incomode — disse Pearl, a voz ríspida e cheia de
desprezo. — Nã o há nada a ser feito.
Ella a encarou, franzindo o cenho.
— O que quer dizer com isso, Pearl? O que há de errado com você?
— Você! Sua vadiazinha — rosnou Pearl, e Ella recuou alguns
passos ao ouvir o veneno em suas palavras.
Pearl riu e, por um momento, Ella questionou sua sanidade, até
perceber que ela nã o estava mais rindo, mas chorando. Pearl
simplesmente ficou ali, tremendo de angú stia, com enormes e
dolorosos soluços sacudindo seu corpo. Seus joelhos cederam, e ela
caiu no chã o, e Ella nã o pô de simplesmente ficar ali olhando.
Apesar do ó dio evidente de sua irmã por ela, Ella nã o podia virar a
cara. Ela nã o tinha sentimentos tã o venenosos dentro de si, e só
conseguia sentir pena do sofrimento de sua irmã .
Com um pouco de apreensã o, ela se apressou a sentar-se ao lado de
Pearl e colocou um braço ao seu redor, puxando seu corpo rígido e
inflexível para um abraço desajeitado.
— Calma, calma, Pearl. Nã o se atormente assim. Seja o que for,
vamos resolver. Eu vou te ajudar, prometo.
Como se as palavras tivessem destravado uma fechadura, toda a
rigidez saiu do corpo de Pearl, e ela se agarrou à irmã , segurando-a
firmemente e chorando como se seu coraçã o estivesse partido.
Ella nã o disse nada, julgando melhor deixar que Pearl liberasse o
turbilhã o de emoçõ es antes de tentar explicar. Apó s algum tempo, seu
choro se transformou em uma tristeza silenciosa, e Ella apertou os
braços ao redor dela por um momento.
— Vamos lá . Você nã o deve estar confortável aqui no chã o. Venha se
sentar no sofá , e eu vou pedir um chá , e você pode me contar tudo.
— Por quê? — perguntou Pearl, com uma voz dividida entre a fú ria
e perplexidade. Ela encarou Ella, as lá grimas escorrendo pelo rosto
incontrolavelmente. — Por que você me ajudaria? Você me odeia.
Ella balançou a cabeça, lutando contra as pró prias lá grimas ao
admitir a verdade para si mesma e para Pearl.
— Nã o, Pearl. Você me odiava. Sempre desejei ser sua amiga, sua
irmã , e serei agora, se você permitir. É tudo o que sempre quis de você.
Pearl soltou um som de exasperaçã o e balançou a cabeça. — Por
que você tem que ser tã o boazinha? Você está sempre tã o
absurdamente alegre e feliz. Isso nã o te cansa?
Ella soltou uma risada, surpresa. — Se eu estou fingindo, sim. Nã o
sabia o quanto era difícil fingir estar feliz até me casar com Oscar.
Ela se perguntou se deveria ter feito essa confissã o, sabendo como
Pearl usava qualquer fraqueza contra ela, mas estava tã o angustiada
que Ella sentiu que isso seria uma espécie de oferta de paz. Havia
confessado antes que Pearl admitisse qualquer coisa. Um presente
estranho talvez, mas sincero.
Pearl a encarou, de olhos arregalados.
— Mas você ama Oscar. Sempre o amou. Por que nã o está feliz?
Ella devolveu um sorriso cauteloso. — Eu... estou... agora — disse,
timidamente. —, mas contarei minha histó ria depois. Primeiro, você
precisa me contar o que a deixou tã o abalada. Venha.
Ela se moveu para ajudar Pearl a se levantar, passando um braço ao
redor de sua cintura para sustentá -la, e engasgou de choque ao
descobrir o que havia sob o vestido incomumente largo que sua irmã
usava.
Pearl a encarou, com um olhar insolente em seus olhos, desafiando
Ella a julgá -la.
— Oh, Pearl — disse Ella, as palavras cheias de tristeza enquanto
seu coraçã o se contraía.
Olhos azuis que sempre pareceram desprovidos de sentimento, tã o
frios e indiferentes, a encararam de volta, e tudo o que Ella pô de ver foi
medo. Ela respirou fundo.
— Certo. Primeiro, uma xícara de chá . Mintie acredita firmemente
que chá e bolo resolvem a maioria dos problemas. Agora, sente-se aqui
— continuou Ella, tentando desesperadamente soar como se pudesse
resolver isso para Pearl. — E... e quando você estiver descansada,
vamos ver o que pode ser feito.
Ella continuou falando, sua mente girando em uma velocidade
alucinante. Ocupando-se para esconder seus pensamentos confusos, ela
afofou almofadas e colocou um xale nos ombros da irmã . Quando Pearl
estava relaxada, Ella tocou o sino para chamar um criado, enquanto
ponderava o que sabia. Ela tinha visto Pearl com o lacaio naquela noite.
Seu estô mago se revirou e um calafrio desceu por sua espinha. Meu
Deus do céu, Lady Pearl Aldous carregando o filho de um lacaio? Ela
nã o apenas estaria arruinada, estaria completamente destruída.
— Nã o há nada a ser feito, Ella — disse Pearl, e Ella podia ver a
derrota em seus olhos, e ouvi-la no vazio de suas palavras. — Se eu
tivesse me casado com Oscar, poderia ter escondido, mas nã o dá mais.
Minha criada, Helen, descobriu algumas semanas atrá s, e ela tem
guardado meu segredo, ajustando meus vestidos, mas... mas agora...
Pearl engoliu em seco e desviou o olhar. Wilkes bateu antes que Ella
pudesse dizer algo, e ela pediu chá e bolo, depois se apressou a sentar-
se ao lado da irmã . Ao se sentar e segurar a mã o de Pearl, descobriu que
estava gelada. Ela esfregou a pele, tentando aquecê-la. Ella franziu o
cenho enquanto absorvia as palavras de Pearl e, quando a compreensã o
a atingiu, levantou os olhos.
— Você já estava grávida — disse ela, as palavras mal passando de
um sussurro. — Quando eu... quando fui pega com Oscar. Você teria se
casado com ele e...
— E teria alegado ser seu filho — completou Pearl por ela. Ela disse
como se fosse ó bvio, com a voz pragmá tica e desprovida de emoçã o. —
Sim. Eu teria feito isso. Até que você arruinou todos os meus planos.
Ella a encarou, horrorizada por ela sequer ter considerado tal coisa.
— Ainda quer me ajudar? — desafiou Pearl, com aquele olhar de
desprezo voltando a seu rosto, embora Ella nã o se deixasse enganar.
Pearl estava apavorada.
O que sua irmã tinha feito – e estava disposta a fazer com Oscar – a
chocava e a enojava, mas ela ainda nã o conhecia o lado de Pearl da
histó ria.
Ela encarou o olhar de Pearl, sem piscar. Pearl nunca havia lhe dado
a chance de ser uma amiga ou uma irmã , e agora, talvez, só estivesse
fazendo isso por estar desesperada, mas Ella sabia que nunca haveria
outra oportunidade. Se a afastasse agora, seria como abandoná -la à
pró pria sorte. O resultado seria o mesmo. Ela queria sua irmã , queria
aquele relacionamento que sempre desejou e que sentiu falta, nã o
importava o preço.
— Sim. Eu vou te ajudar.
O lá bio de Pearl tremeu, e o que restava de sua fachada fria
desmoronou. Ella a abraçou, ninando-a como uma criança enquanto ela
chorava, agora em silêncio, exausta com o turbilhã o de emoçõ es.
— Vou te ajudar, Pearl. Tem a minha palavra. O que for preciso, nó s
faremos.
Pela primeira vez na vida, Ella sentiu a irmã retribuir o abraço,
segurando-a firme enquanto também começava a chorar.
— Obrigada, Ella, obrigada.
***
Wilkes trouxe o chá e o bolo, mas estava claro para Ella que Pearl
estava exausta. Ela instruiu que preparassem um quarto para sua irmã
imediatamente. Lady Pearl estava indisposta e precisava descansar.
Enquanto aguardavam, ela fez com que Pearl tomasse uma xícara de
chá e comesse alguns pedaços de bolo antes de acompanhá -la até o
quarto e ajudá -la a se despir.
— Vou chamar sua criada e avisar a papai que você veio ficar
comigo.
Pearl bufou enquanto se enfiava na cama.
— Bem, ele nã o nunca irá acreditar nisso. Ele vai saber que há algo
errado.
Ella lhe emprestou uma camisola e se viu hipnotizada pela
protuberâ ncia na barriga de Pearl. Quase cinco meses de gravidez,
segundo Pearl, embora nã o parecesse ter certeza. Em segredo, Ella se
perguntava se poderia ser mais.
Incapaz de conter-se, Ella estendeu a mã o, hesitando ao olhar para
Pearl. Sua irmã assentiu, e entã o Ella pousou a palma sobre a barriga
dela. Ela arquejou ao sentir uma mã ozinha ou pezinho pressionar sob
seu toque. Ella riu, encantada, fitando a irmã .
— Eu tenho uma sobrinha ou sobrinho aí dentro — disse, sorrindo
com alegria.
Pearl a encarou e depois balançou a cabeça, sua expressã o sombria.
— Ninguém que você tenha a possibilidade de reivindicar.
— Tente me impedir — retrucou Ella, furiosa ao ver o olhar de
espanto nos olhos de Pearl.
— Você sempre foi tã o corajosa, Ella, muito mais do que eu. Por que
faria isso? Você é uma duquesa. O escâ ndalo será horrível.
— Se decidir que quer ficar com a criança e enfrentar o escâ ndalo,
eu o enfrentarei também. Sou uma duquesa; posso certamente suportar
a tempestade. Quem ousaria me desprezar? — respondeu, frustrada
com a falta de fé de Pearl nela. — E porque você é minha irmã ! Porque
somos família, você é sangue do meu sangue, e porque eu te amo. Ah,
nã o me olhe assim — disse, ainda irritada ao ver o brilho cínico nos
olhos de Pearl. — Eu também já te odiei na mesma medida, pode ficar
tranquila.
Pearl sorriu entã o, um sorriso verdadeiro, que alcançou seus olhos,
e Ella achou que talvez fosse o primeiro sorriso genuíno que ela lhe
dera.
— O que você quer fazer, Pearl? — perguntou ela, segurando a mã o
da irmã .
Pearl piscou com força e deu uma risada surpresa. — Sabe, é a
primeira vez que alguém me pergunta isso. Na minha vida.
— Pois bem, estou perguntando, e quando você estiver pronta, eu
vou ouvir e fazer tudo ao meu alcance para que aconteça.
Pearl se recostou nos travesseiros e suspirou enquanto Ella fechava
as cortinas e acendia uma ú nica vela. Voltando para a cama, observou
sua irmã , ainda incrédula, e puxou as cobertas, cobrindo-a como uma
criança.
— Agora, descanse um pouco e tente nã o se preocupar. Quando nã o
estiver tã o cansada e chateada, as coisas nã o parecerã o tã o sombrias.
Pela manhã , você poderá me contar o que aconteceu, se quiser, e
conversaremos sobre o que deseja fazer daqui para frente.
Ella lhe deu o que esperava ser um sorriso reconfortante e foi sair,
mas a mã o de Pearl se estendeu rapidamente, segurando seu pulso.
— Você nã o vai perguntar quem é o pai? — Ela a encarou, confusa.
— Você nã o quer saber quem é o responsável?
— Nã o até você estar pronta para me contar, e só se quiser — disse
Ella, e depois suspirou, percebendo que deveria confessar suas
suspeitas. — Embora... acho que já saiba.
Pearl a encarou, horrorizada, enquanto Ella se sentava novamente
na beirada da cama e cobria a mã o dela com a sua. — Ninguém mais
sabe além de mim — disse, torcendo para que fosse verdade. — Mas...
Eu te vi no baile de má scaras ou, pelo menos, reconheci a pulseira que
você usava. Pérolas e diamantes. Eu também vi George Jones lá .
Ela observou Pearl engolir em seco e dar um pequeno aceno de
confirmaçã o.
— Um lacaio, Ella — sussurrou ela, com dor por trá s das palavras.
— Você ainda ficará ao meu lado, ao lado da criança? Quando eu
trouxer tanta vergonha e desonra para a família?
— Sim — disse Ella, em um tom suave, afastando o cabelo loiro de
Pearl da testa. — Ficarei. Enfrentaremos isso juntas, você e eu. Tudo o
que o mundo nos lançar, poderemos suportar.
Ella foi retirar a mã o, mas Pearl segurou firme, apertando-a.
— Eu sei o que pensa de mim, Ella. Você me acha fria e cruel, mas
eu nã o me entreguei por capricho... Eu o amava. Eu o amava de verdade.
Amo desde menina, mesmo sabendo que nã o devia. Ele era bonito e
engraçado e... — Ela fez uma pausa, soltando um risinho contido ao se
lembrar. — E nã o se impressionava com minha postura altiva. Ele falava
comigo como se eu nã o fosse melhor que ele, e isso me deixava furiosa,
mas também era... diferente. Ele me intrigava. Eu sabia como era
errado, o quanto papai ficaria furioso. Quero dizer, eu, Lady Pearl, filha
de um conde, com... um lacaio? Mas eu nã o pude evitar.
— Eu entendo, Pearl — disse Ella, entendendo exatamente o que
ela queria dizer. — Eu sabia que Oscar era seu, e me esforcei tanto para
nã o o amar, mas nã o é algo que se escolha, é?
Pearl balançou a cabeça. — Nã o — sussurrou, e soltou um suspiro
triste.
— Descanse agora, Pearl. Vou pedir que lhe tragam uma bandeja
mais tarde, e pela manhã , conversaremos novamente.
Ella apertou a mã o de Pearl e saiu, deixando-a sozinha.
***
Ella vagou do corredor até a escada, atordoada e sobrecarregada.
Apesar de todas as promessas feitas a Pearl, promessas que pretendia
cumprir, ela nã o fazia ideia de como cumpri-las.
Teriam que mandar Pearl passar um tempo longe até o nascimento
do bebê, e isso lhe daria tempo para decidir o que queria. Ella
suspeitava que ela abriria mã o da criança, embora isso lhe apertasse o
coraçã o. Contudo, era a escolha de Pearl, nã o dela. Ella tomaria o maior
cuidado para encontrar uma família adequada: uma que amasse a
criança como sendo sua e nunca guardasse ressentimento por sua
ilegitimidade. Entã o, Pearl poderia retornar e continuar como se nada
tivesse acontecido.
— Em que está pensando?
Ella olhou para cima, só entã o percebendo que havia parado no
meio da escada, olhando para além do corrimã o, perdida em
pensamentos. Oscar descia as escadas atrá s dela, deslizando um braço
ao redor de sua cintura. O simples toque fez seu coraçã o saltar e, por
um momento, os problemas de Pearl desapareceram ao ver o prazer
nos olhos cor de mel dele. Ele estava feliz em vê-la, realmente estava.
— Com a cabeça nas nuvens, amor?
— Sim — admitiu ela. Estava mesmo.
Ele franziu o cenho e ergueu a mã o para tocar seu rosto. — O que
diabos Pearl está fazendo aqui? Espero que nã o tenha vindo causar
problemas. — Ele fez uma pausa, talvez percebendo a preocupaçã o
dela, e procurou seu olhar enquanto passava o polegar por sua
bochecha. — Ela te chateou, é?
Ella balançou a cabeça, sem saber o que dizer. Ela nã o podia trair a
irmã contando tudo para Oscar, ainda nã o. Ele teria que saber, mas
antes precisava da permissã o de Pearl.
— Nã o, Oscar, mas ela está muito infeliz e... — Ela parou,
balançando a cabeça. — Nã o posso te contar. Sinto muito. Pelo menos,
nã o ainda. Mas ela precisa da minha ajuda, e eu vou ajudá -la.
Ela sabia que seu tom soava como um aviso, e Oscar percebeu,
franzindo ainda mais o cenho. — Ela nã o está te pressionando, está ?
Porque, se ela estiver tentando te controlar...
Ella segurou seu braço, balançando a cabeça. — Nã o, nada disso, eu
prometo, e vou te contar tudo. Só ... ainda nã o. Confie em mim, por favor,
Oscar.
A expressã o dele suavizou.
— É claro que confio em você — disse ele, embora seu rosto tivesse
uma sombra de dú vida. — Só nã o vá participar de algum pá reo ou
cortar o cabelo de novo, ou fazer alguma outra loucura. Pelo menos, nã o
sem me contar antes.
— Prometo que da pró xima vez que fizer algo terrível, te avisarei —
disse ela, assentindo solenemente.
— Ah, nã o... antes — brincou ele, balançando o dedo para ela. —
Antes de fazer algo terrível. Peço pelo menos a chance de participar.
Ela riu, encantada, enquanto ele sorria e se inclinava, roçando seus
lá bios nos dela de forma suave e provocadora.
Ela suspirou ao toque, por mais leve que fosse, e segurou a nuca
dele, puxando-o de volta para ela. Ela buscou sua boca, beijando-o com
uma intensidade que fez Oscar soltar um leve gemido. Motivada por
esse som delicioso, Ella se aproximou ainda mais enquanto as mã os de
Oscar deslizavam por seu flanco, puxando-a para mais perto.
— Ella, oh, meu Deus, Ella... — Ele se afastou um pouco, seus olhos
escurecidos de desejo. — Nã o que eu desaprove, querida, mas... talvez
nã o na escada? Vamos assustar os criados.
Ela soltou uma risada trêmula, um pouco atordoada pela
intensidade de sua pró pria reaçã o. Olhou para o saguã o vazio, satisfeita
ao ver que nã o havia ninguém.
— Vá para o meu quarto, amor — sussurrou ele, fazendo o sangue
dela ferver sob a pele.
Ella abriu a boca para concordar de imediato, mas o imenso reló gio
no andar de baixo badalou as horas.
— Santo Deus! — exclamou ela, surpresa. — Nã o fazia ideia de que
já era tã o tarde. Precisamos nos arrumar para o jantar.
Oscar gemeu, mas com um som bem diferente do anterior.
— Nã o estou com a menor fome — disse ele, embora seu olhar
demonstrasse outro tipo de apetite.
Ella notou o fogo nos olhos dele, um brilho dourado que a fez sentir
um calor líquido espalhando-se por seu corpo, dos pés à cabeça.
Começou lá no fundo, em seu íntimo, e se espalhou por todo o seu
corpo, um calor envolvendo-a, como um calor que deslizava sobre sua
pele, algo que ela nã o conseguia controlar.
Ela ansiava ver uma expressã o como aquela em seus olhos, saber
que ela era desejada, talvez até amada. Ranleigh tinha prometido que
ela sabia que era real quando ela viu. Ele estava certo. Nã o havia
fingimento nisso.
Era uma sensaçã o poderosa e inebriante, e sua confiança
aumentava enquanto ela espalmava sua mã o contra o peito de Oscar,
passando-o sobre o linho e a seda. Os dedos dela brincaram com os
botõ es do colete enquanto sua respiraçã o se acelerava.
Ella o olhou através dos cílios.
— Fluff vai jantar conosco hoje. Nã o podemos ser rudes — disse
ela, mantendo a voz baixa e íntima. — Mas, depois do jantar... você pode
vir ao meu quarto, se quiser.
— Que se dane Fluff — resmungou ele, frustrado, apertando-a
contra ele de novo, demonstrando claramente sua impaciência. Ela
sentiu sua excitaçã o pressionando contra seu corpo. — Nã o quero
esperar.
Ella sorriu, balançando a cabeça devagar, gostando de provocá -lo
enquanto ele resmungava e apoiava a testa na dela. — Que mulher cruel
— murmurou ele. — É assim que será ? Você vai me tratar com tanta
frieza agora que sabe que tem meu coraçã o?
Ela estremeceu, encarando-o, deixando toda a provocaçã o de lado e
fitando-o, desesperada para acreditar em suas palavras.
— Você nã o sabia? — sussurrou ele contra seus lá bios.
Ella balançou a cabeça, incapaz de responder. De qualquer maneira,
sua voz parecia nã o estar querendo colaborar.
— Nem eu sabia — confessou, com o olhar sério agora. — Eu nã o
tinha a mínima ideia, mas agora sei, Ella. Acho que sempre soube, só
tinha medo demais para enxergar a verdade.
— Oh — exclamou ela, prestes a abraçá -lo, mas ele segurou seus
braços, impedindo-a.
— Querida, ficarei feliz em me deixar ser levado a praticamente
qualquer superfície que você escolher, mas minha restriçã o é a escada.
Nã o quero adiar nossa noite de nú pcias por nem um segundo a mais,
mas nã o desejo fazê-lo com uma perna quebrada, obrigado.
Ella riu, tã o feliz que nã o conseguiu se conter, enquanto Oscar
sorria.
— Agora, cama, ou temos que enfrentar o jantar primeiro? —
perguntou ele.
Ela fez uma careta e deu de ombros. — Nã o é como se eu quisesse ir
ao jantar — admitiu ela, com um suspiro.
— Oh, muito bem entã o — resmungou Oscar, pegando sua mã o e a
guiando de volta pela escada. — Mas — acrescentou, olhando por cima
do ombro — coma rápido.
Capítulo 20
“No qual... finalmente acontece”

Se a expectativa que Oscar sentia pulsando entre ele e Ella foi


perceptível para qualquer outra pessoa, elas foram discretas o
suficiente para nã o mencionar.
Bertie, Fluff e sua mã e nã o paravam de falar besteiras, todos
animados agora que estava evidente que ele e Ella estavam em termos
mais amigáveis. Havia um clima praticamente de celebraçã o,
contagiando a todos, embora, uma ou duas vezes, ele visse preocupaçã o
nos olhos de Ella. Pela primeira vez, sentiu que nã o era ele quem havia
causado essa preocupaçã o, embora ainda odiasse vê-la assim. Sem
dú vida, tinha sido sua maldita irmã .
Embora Ella lhe tivesse garantido que Pearl nã o tinha intençã o de
causar problemas, Oscar nã o conseguia evitar se sentir ansioso. Pearl
sempre tratou Ella de maneira monstruosa, e se ela tentasse isso agora,
ele nã o sentiria pena em expulsá -la.
Mesmo Pearl, no entanto, nã o foi capaz de deixá -lo de mau humor.
Apesar de se esforçar ao má ximo para se conter, Oscar nã o
conseguiu evitar encarar sua esposa do outro lado da mesa. Sempre que
seus olhares se encontravam, era como um raio, uma onda de sensaçõ es
percorrendo-o e deixando-o cada vez mais impaciente. Estava prestes a
exigir que a criadagem que estava servindo se apressasse, e, quando
Fluff demorou uma eternidade com a sobremesa e ainda pediu mais,
Oscar teve que se conter para nã o agredir o idiota.
Ao ver o brilho malicioso nos olhos de Fluff suspeitou que o canalha
sabia exatamente o que estava fazendo. Maldito.
Finalmente, a refeiçã o terminou. Oscar rejeitou a ideia de que todos
se sentariam para jogar piquet e lançou um olhar repreensivo à sua
mã e quando ela sugeriu que Ella tocasse piano para eles.
— Boa noite — disse, com um tom autoritá rio, enquanto pegava a
mã o de Ella e a puxava para fora da sala.
O fato de que sua esposa estava agora em um tom de vermelho
surpreendente nã o o fez sentir nem um pouco de remorso, embora
evitasse o olhar do irmã o dela enquanto saíam.
Ele fechou a porta da sala de jantar com um suspiro.
— Graças a Deus — murmurou, e dirigiu-se à s escadas.
— Oscar! — Ella o repreendeu enquanto ele puxava sua mã o. —
Nunca me senti tã o constrangida.
Ele se sentia um pouco como um homem das cavernas arrastando
sua caça para sua caverna, mas nã o havia o que fazer. Ele olhou para
trá s para se certificar de que ela estava realmente se divertindo com
seu desespero, e nã o irritada.
— Desculpe, querida — disse ele, sem soar arrependido. — As
coisas talvez teriam ficado feias se tentassem nos atrasar mais. Tive que
agir.
Ella deu um resmungo e Oscar sorriu para ela.
Ele parou em frente ao quarto dela, e Ella hesitou.
— V-você pode voltar em dez minutos? — perguntou ela, sua voz
um pouco ansiosa.
— Você nã o pode estar falando sério — disse ele, com os olhos
arregalados. — Posso ser sua criada — acrescentou, dando um passo à
frente e levantando as sobrancelhas de forma vil, fazendo-a rir. A
ansiedade desapareceu imediatamente, como ele esperava, e ela deu
um tapinha em seu braço.
— Bobo — murmurou ela, com carinho.
— Seu bobo — concordou ele, inclinando-se para roubar um beijo.
— Dez minutos — insistiu ela, empurrando-o para longe
novamente, embora sorrisse.
— Argh! — Oscar levantou as mã os, derrotado. — Certo, pode me
torturar, se quiser. Dez minutos, mas nem um segundo a mais.
Ele piscou para ela e se afastou pelo corredor, com a excitaçã o viva
em seu sangue e um sorriso nos lá bios.
Ella correu para seu quarto, quase se atrapalhando ao tentar
desabotoar seu vestido sozinha.
— Nancy! — exclamou ela, enquanto a criada se apressava em sua
direçã o. — Dispa-me disso aqui!
— O que está acontecendo, Vossa Graça? — questionou Nancy,
desconcertada com a urgência.
— Ele está vindo! — Ella fez um barulho impaciente, sem querer
ser tímida.
— Oh! — respondeu Nancy, arregalando os olhos e depois deu uma
risada triunfante, batendo as mã os. — Ah, muito bem, Ella... peço
perdã o, Vossa Graça!
— Ah, para de me chamar de Vossa Graça — exclamou Ella,
despindo as saias e se apressando até a bacia de á gua. — Onde está
minha camisola? Aquela adorável de renda.
Ella lavou-se, esfregando um pano e seu sabã o favorito com cheiro
de rosa sobre a pele e depois espalhou pó dental em uma escova,
aliviada por ter recusado a sopa de cebola no jantar.
As duas mulheres correram pelo quarto e Ella estava prestes a
amarrar o fecho no pescoço de sua camisola quando um toque educado
na porta soou.
Ella corou, e Nancy riu baixinho enquanto pegava as roupas sujas
do chã o e corria para abrir a porta. A criada se espantou ao ver Oscar. A
gravata dele já nã o estava mais ali, assim como o paletó e o colete, e a
camisa estava aberta no pescoço. Seus pés estavam descalços. Nancy
lançou a Ella um olhar travesso antes de sair correndo pela porta,
enquanto Oscar permanecia na soleira. As risadinhas dela podiam ser
ouvidas até o final do corredor.
Ele lançou um olhar divertido para a criada enquanto ela corria e
entrou no quarto, fechando a porta atrá s de si.
Ella se abraçou, tremendo sem motivo, já que a temperatura no
quarto estava perfeitamente quente. Sua excitaçã o anterior havia
desaparecido e ela estava terrivelmente nervosa.
— Olá — disse Oscar, com uma expressã o acolhedora e aqueles
lindos olhos cor de mel cheios de prazer.
— Olá — respondeu Ella, sentindo-se tola. Ela nã o tinha dú vida de
que as amantes dele o haviam convidado para seus quartos com
palavras sedutoras e graça delicada, enquanto ela permanecia
paralisada no lugar.
Oscar esfregou a nuca e deu um sorriso pesaroso. — Está nervosa?
— perguntou.
Ella assentiu, nã o confiando em sua voz a ponto de responder.
— Graças a Deus, eu também — disse ele, aliviado.
Ela o encarou e entã o explodiu em gargalhadas. Por que estava
sendo tã o boba? Era Oscar, nã o alguém de quem ela deveria ter medo.
Ela havia feito papel de tola diante dele inú meras vezes ao longo dos
anos, e ainda assim... ali estava ele, com ela.
Oscar sorriu para ela e deu um passo à frente. Ele colocou uma mã o
sobre o quadril dela e a outra segurou sua bochecha, levantando seu
rosto para ele.
— Você nã o tem medo de mim, tem? Sabe o que acontece...?
Ella revirou os olhos para ele, sua confiança retornando um pouco.
— Claro que nã o, e sim, Oscar.
Oscar estreitou os olhos, exibindo um brilho malicioso agora neles.
— Ah, é mesmo, Sra. Sabichona? Devo me entregar a você, entã o?
Ella bufou para ele, fulminando-o com o olhar. — Criatura terrível.
Você sabe muito bem que eu nã o quis dizer...
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Oscar abaixou a cabeça
e a beijou, e qualquer nervosismo restante se dissipou sob uma onda de
excitaçã o.
Por muito tempo, nã o houve mais nada além do deslizar e da carícia
das línguas, o suave pressionar dos lá bios, e o som suave da respiraçã o
deles no silêncio do quarto.
Ella se aproximou dele, pressionando seu corpo contra o dele,
ansiosa por seu calor enquanto os braços dele a envolviam.
Ela olhou para ele enquanto ele interrompia o beijo, fitando-a. Ela
ficou sem ar e ela ainda estava atô nita ao ver uma expressã o como
aquela nos olhos de Oscar enquanto ele a observava. Ele a encarava
com admiraçã o, como se ela fosse algo especial e milagroso, e seu
coraçã o transbordou.
— Ella — murmurou ele, deslizando os dedos por seus cachinhos.
Sua voz era baixa e sua respiraçã o, um sopro quente contra a boca dela.
— Quero que saiba, nã o há lugar no mundo onde eu preferiria estar do
que aqui e você nã o precisa se preocupar com... com qualquer outras
distrações na minha vida.
Ele parecia um pouco desconfortável agora e Ella o encarou, quase
nã o ousando esperar ter entendido.
— Você está falando de suas amantes, Oscar? — perguntou ela.
Com um suspiro, Oscar revirou os olhos. — Sim, sua danadinha,
embora eu estivesse tentando evitar ferir suas emoçõ es delicadas.
Ella deu uma gargalhada. — Eu nã o tenho nada disso, Oscar. Você
sabe bem disso, a essa altura.
Ela ficou séria ao olhá -lo, alcançando o rosto dele. — Você está
falando sério? Eu serei a ú nica? Porque... porque nã o acho que eu
conseguiria suportar... nã o agora.
Ele pressionou um dedo sobre seus lá bios e balançou a cabeça. —
Só você, meu amor. Pela minha honra. Eu desisti delas assim que voltei
para Londres. Nã o houve mais ninguém desde que nos casamos.
Um sorriso se curvou nos lá bios dele enquanto ele observava a
expressã o de surpresa que ela sabia que devia estar evidente em seu
rosto.
— Mas, sendo assim — murmurou ele, pressionando seus lá bios
contra o pescoço dela. —, você terá que me desculpar se eu estiver
apenas um pouco... impaciente.
Ella gritou quando ele a levantou e a colocou na cama.
— Oscar! — exclamou ela, observando com interesse enquanto ele
tirava a camisa.
Tudo o que ela sempre suspeitou sobre Oscar era, de forma
grandiosa, verdade, e ela observava fascinada o movimento dos
mú sculos sob a pele dele enquanto se movia. Seu entusiasmo por tudo
relacionado ao esporte havia produzido um corpo esculpido como
qualquer escultura grega em má rmore, e a boca de Ella ficou seca.
Enquanto ele desabotoava as calças e se livrava da roupa íntima
chutando-a para o meio do quarto, ela nã o conseguiu evitar de olhar.
Pernas poderosas, tonificadas à perfeiçã o por horas de equitaçã o e
entã o...
Ella ofegou, com as sobrancelhas quase tocando a raiz do cabelo. —
Meu Deus, Oscar...
Para sua diversã o, ele corou um pouco, embora houvesse um brilho
de satisfaçã o em seus olhos. Ele se aproximou e subiu na cama.
— Sua vez, Lady Rothborn — disse ele, gesticulando com uma mã o
impaciente. Ele se deitou, cruzando os braços atrá s da cabeça,
observando-a com um sorriso dançando nos olhos. — Vamos lá , vamos
lá , nã o tenho a noite toda.
Ella estreitou os olhos para ele, percebendo a forma como seus
lá bios se moviam, e sabendo que ele estava brincando. — Despir a
esposa nã o é o tipo de coisa que um marido faz na noite de nú pcias?
Ele levantou uma sobrancelha, surpreso. — Oh, Céus, Ella, você
sabe que sou preguiçoso demais para isso.
— Muito bem — respondeu ela, sua voz cortante. Ela desceu da
cama e ficou de pé, virando-se para encará -lo. Lentamente... muito
lentamente, ela puxou o primeiro fecho do imaculado vestido branco.
Era uma roupa simples, inocente, cobrindo quase todo o corpo,
incluindo uma generosa dose de renda no pescoço e nos punhos.
Ela observou, intrigada, à medida que os olhos de Oscar se
escureciam de desejo, fixos no movimento de suas mã os enquanto ela
desabotoava o pró ximo fecho, e o pró ximo. O vestido se abriu,
revelando um generoso decote em V que descia do pescoço até o
umbigo.
— Tire isso, Ella.
A voz de Oscar estava rouca agora, o tom provocador havia
desaparecido, enquanto ele se endireitava um pouco, com o olhar fixo
nela.
Ella sentiu o coraçã o acelerar, e a adrenalina fluindo por suas veias
era uma sensaçã o excitante sob o peso do olhar dele sobre ela. Nunca
havia se sentido tã o exposta, tã o vulnerável, ou tã o poderosa. Era
intoxicante, e a expressã o nos olhos dele a fez se tornar ousada.
Com dedos trêmulos, ela tirou o tecido de algodã o transparente de
um ombro, depois do outro. Deslizou um pouco, depois ele ficou preso
na protuberâ ncia tentadora de seus mamilos.
— Cristo, Ella, mais — exigiu ele, tirando as pernas da cama. Ele foi
alcançá -la, mas ela se afastou, retribuindo a provocaçã o dele. O que vale
para um, vale...
Ela se sentiu viva sob o olhar enfeitiçado dele. Era quase tangível,
uma carícia sobre sua pele enquanto ela deixava a roupa cair até os
quadris, e entã o escorregar até o chã o. Ela estremeceu ao sentir o
algodã o deslizando sobre sua pele, o ar sobre sua carne nua e o olhar
quente e devorador dele.
— Venha aqui — sussurrou ele.
Ela fez o que ele pediu, sentindo-se tímida novamente, mas
sorrindo diante da satisfaçã o na expressã o dele. Ele colocou uma mã o
na cintura dela, o contato contra a pele nua tã o chocante e íntimo que
ela teve que respirar fundo.
Oscar a puxou para mais perto, entre suas pernas, onde ele estava
sentado na beirada do colchã o. A outra mã o dele subiu, traçando uma
linha da clavícula até o meio dos seios, e ela estremeceu. Ambas as
mã os agora a tocavam, segurando seus pequenos seios e brincando com
os mamilos até o calafrio se tornar um tremor contínuo e sua
respiraçã o se tornar ofegante.
Ela observou enquanto Oscar se inclinava e traçava o contorno de
um dos pequenos botõ es enrugados com a língua, perguntando-se se
suas pernas continuariam a sustentá -la. O momento era envolto em
uma névoa vaga, como em um sonho, uma sensaçã o vertiginosa que
zumbia sob sua pele, algo longe de ser desagradável, mas que a fazia
querer se entregar e permitir que seus membros se curvassem sob o
peso delicioso do prazer.
Oscar fez uma pausa e a incentivou a voltar para a cama; ela se
perguntou se ele sabia que suas pernas estavam prestes a falhar. Ela o
olhou agora, estendendo as mã os para ele, envolvendo os braços ao
redor do pescoço dele enquanto ele se inclinava para beijá -la.
O corpo dele se acomodou com cuidado, o choque de sua pele
cobrindo a dela foi uma maravilhosa revelaçã o. Tudo nele era tã o
diferente dela. Ele era muito maior e mais pesado, e poderia facilmente
intimidar ou dominar, mas suas mã os eram suaves, seu toque quase
reverente.
O calor emanava da pele dele, queimando contra sua pele. Como ele
podia estar muito mais quente que ela? Ella estremeceu novamente,
com o contraste do ar frio e a temperatura incandescente dele
pressionando contra ela de uma maneira sensual da qual ela nã o queria
escapar. O cabelo no peito e nas coxas dele era grosso, raspando
deliciosamente contra sua pele sensível, mas a pele dele era como a
seda mais fina e ela deixou suas mã os deslizarem sobre ele, explorando-
o enquanto ele devolvia aquelas carícias explorató rias.
Os beijos se tornaram mais profundos, uma urgência possuindo
Oscar a qual ela respondeu à altura, sentindo algo se intensificar,
reconhecendo a dor dentro de si, e o desejo por ele se espalhando como
tinta na á gua. Ele fixou-se em seu sangue enquanto ela levantava os
quadris, e sua respiraçã o acelerava ainda mais. Desesperada por mais,
precisando estar mais perto, ela levantou as pernas, agarrando-se aos
quadris dele, um movimento instintivo ao qual Oscar nã o demorou a
responder.
Ella gemeu, o prazer atravessando-a quando ele deslizou contra o
calor de sua regiã o íntima. Ela segurou os ombros dele, inconsciente
agora enquanto ele repetia o movimento vá rias vezes, um deslizar lento
e indecente em uma loucura prazerosa. Sua cabeça desabou para trá s
enquanto ela arqueava, a sensaçã o dos lá bios dele pressionando, com a
boca aberta, beijos em seu pescoço, alimentando um fogo que era
impossível de conter. Ela fechou os olhos, concentrando-se na sensaçã o
cintilante que crescia dentro dela, agarrando-se aos ombros de Oscar
enquanto a voz dele murmurava em seu ouvido doces palavras de
garantia e encorajamento que ela nã o conseguia compreender, mas que
a guiavam enquanto ela se entregava.
O prazer a pegou de surpresa e ela esperou, com absoluta
ansiedade até a primeira onda a atingir. De novo e de novo, seu corpo
convulsionou, sons selvagens saíram de seus lá bios, os quais ela nã o
queria nem podia conter. Pouco a pouco, o prazer foi desaparecendo até
ela estar ofegante e atordoada, olhando para cima enquanto Oscar
voltava ao foco.
Ele parecia muito satisfeito consigo mesmo.
Ella estendeu a mã o, tocando com a ponta do dedo esse sorriso
presunçoso enquanto Oscar sorria e mordia seu dedo. Ele deslizou sua
excitaçã o contra ela novamente, fazendo-a ofegar enquanto sua carne
sensível pulava sob o toque íntimo dele. Desta vez, no entanto, ele
empurrou para frente, deslizando para dentro dela enquanto sua
respiraçã o falhava.
— Está tudo bem? — sussurrou ele, as palavras faladas contra sua
pele e fazendo calafrios percorrerem sua espinha. Ele aninhou-se em
seu pescoço e, como ela nã o respondeu, ou nã o conseguia, ele levantou
a cabeça, procurando o rosto dela.
Ela sorriu, deslizando as mã os no calor do cabelo dele.
— Está ? — perguntou ele, com dú vida nos olhos.
— Sim — conseguiu responder ela, enquanto ele suspirava e
deslizava mais fundo. — Sim. Oh.
Ella tinha esperado a dor. Uma amiga recém-casada lhe dissera que
a primeira vez doía muito, mas nã o sentia nada disso. Um pouco de
desconforto enquanto seu corpo se esticava para acomodar essa
invasã o amistosa, mas nada mais.
— Continua tudo bem? — Ele ofegou, apoiado nos cotovelos, com
uma expressã o pró xima à dor.
— Sim — disse ela, sorrindo agora enquanto Oscar murmurava
uma exclamaçã o de alívio.
Ela gemeu enquanto ele penetrava fundo, e depois novamente, o
calor se espalhando sobre sua pele quando ele retirava e empurrava
novamente.
— Ella — disse ele, seu nome repetido contra seus lá bios em um
tom atordoado que ela bem entendia. — Ella, meu amor...
Ela riu entã o, sem saber se essa era a resposta certa nas atuais
circunstâ ncias, mas a felicidade brotou dentro dela. Oscar levantou a
cabeça, assustado, e depois riu também, o som reverberando através
dela enquanto ambos arfavam.
Embora a felicidade permanecesse, o desejo de rir desapareceu à
medida que a antecipaçã o se estendia sob sua pele. Oscar estava
perdido, agarrando a sua pele ú mida e quente enquanto seus
movimentos se tornavam mais rá pidos e descontrolados. Os sons que
ele fazia eram intoxicantes, alimentando seus pró prios desejos à
medida que ele aceitava seu prazer e dava o dela em troca, até que um
clímax desesperado e urgente os envolveu e foram lançados para o
outro lado.
Ella deitou-se nos braços do marido, exausta e suada, com o sorriso
mais ridículo esticando sua boca de orelha a orelha.
Oscar se virou de lado, apoiando a cabeça na mã o enquanto olhava
para ela.
— Bem, você parece muito satisfeita consigo mesma, duquesa.
O sorriso dela se alargou. — E estou — respondeu ela, satisfeita.
— Por que será ? — ponderou ele, inclinando-se para beijar seu
nariz.
Ella bufou e balançou a cabeça. — Nã o vou te contar, você já é muito
convencido tal como é.
— Bem, eu gosto disso — reclamou ele. — Eu? Convencido? Tenho
certeza de que está me confundindo com outra pessoa.
— Nã o — disse ela, com toda a seriedade. — Nã o estou.
Oscar bufou. — Justo. — Ele se inclinou e mordeu a orelha dela,
fazendo-a se contorcer. — Mas, de qualquer forma, diga-me —
sussurrou ele.
Com um suspiro, Ella fez beicinho para ele.
— Bem, se você realmente quer saber... e talvez você realmente nã o
queira, mas... Oh, eu te amei por tanto tempo e, por todo esse tempo,
tive que me convencer de que você nunca seria meu, mas agora nã o
preciso mais pensar assim. É ... é uma constataçã o maravilhosa, Oscar.
Eu te amo e nã o preciso mais esconder isso.
— Eu também te amo, minha querida Bug — disse ele, sorrindo
enquanto ela revirava os olhos para o apelido repulsivo. — Minha
adorável e querida Bug. Eu nã o mudaria um fio de cabelo ou uma
sardinha ou uma ú nica coisa sobre você. Só lamento ter te causado
tanta infelicidade sendo um idiota.
Ella suspirou, perdoando o maldito apelido naquele momento. Ele
poderia chamá -la de Bug pelo resto de seus dias, se continuasse a dizer
coisas assim.
— Só nã o faça isso de novo — disse ela, fazendo sua voz parecer
repreensiva e severa, embora estivesse tentando nã o rir.
O rosto dele se entristeceu, e ele ficou quieto. Ella sentiu um
pequeno nó de ansiedade apertar em seu estô mago.
— O que foi? — perguntou ela, enquanto uma ruga surgia em sua
testa.
— Ella, prometa que nã o ficará brava — disse ele, com uma
expressã o incerta nos olhos.
— Oscar? — Ella se endireitou, de repente aterrorizada com a
mudança em seu comportamento, enquanto ele se movia para se sentar
ao lado dela e pegar sua mã o. — O que aconteceu?
Oscar pigarreou e parecia tã o nervoso que Ella sentiu o suor
escorrendo pela nuca.
— Eu... eu posso ter feito algo um pouco... é... imprudente, quando
estava em Londres. — Ele deu uma risada fraca. — Você pode até achar
um pouco... tolo.
Ella o encarou, quase nã o ousando respirar enquanto ele esfregava
a nuca e parecia que ia passar mal.
— O quê? — exigiu saber ela, com as palavras estridentes de
preocupaçã o.
— E-eu eu aceitei lutar... contra Luther Blackehart.
Capítulo 21
“No qual Pearl enfrenta o futuro, e Oscar... Blackehart.”

Apesar da agradável dor de cansaço que persistia nos ossos de Ella,


ela passou uma noite bastante agitada, preocupando-se excessivamente
com o conceito imbecil de Oscar de passatempo. Os homens, quando
adultos, eram muito mais infantis do que ela jamais poderia ter sido
acusada de ser. De todas as coisas ridículas em que ele poderia se
envolver, esta tinha que ser a mais idiota.
Ele a acalmou, pelo menos temporariamente, dando-lhe sua
atençã o total quando ela acordou. Levemente envergonhada pela
maneira como ela gemera e se contorcera sob sua língua há bil e dedos
exploradores, ela foi totalmente incapaz de repreendê-lo mais do que já
havia feito. Sem dú vida, essa foi a intençã o dele desde o começo.
Bertie, no entanto, nã o ajudou em nada, dando-lhe uma descriçã o
detalhada de Luther Blackehart, sem poupar-lhe nenhum detalhe sobre
a assustadora reputaçã o do homem.
— O brutamontes vai arrancar a cabeça e devolvê-la a ele —
respondeu Bertie, seu tom alegre enquanto ele se servia de um prato de
kedgeree.
Ella sentiu a cor desaparecer de seu rosto enquanto se sentava na
cadeira. Oscar havia ido verificar o progresso em Berry Street, depois
de comer enquanto Ella ainda se vestia.
— Ah, nã o se preocupe, Bug. Oscar vai conseguir. Nunca conheci
alguém que caísse de pé como ele.
— M-mas você disse que o homem é um criminoso... um... um
bandido, você disse — protestou Ella, seu estô mago revirando de
ansiedade. — Você disse que ele tem dois metros de altura e é
extremamente largo, e que provavelmente poderia nocautear Oscar
com uma mã o amarrada nas costas.
Bertie hesitou, talvez agora arrependido de ter sido tã o direto ao
concordar que Oscar era um tolo imbecil diante do evidente pavor de
Ella.
— Bem, eu só o vi de relance — disse Bertie, escondendo-se atrá s
de sua memó ria nebulosa. — Você sabe como sou bom de lembrar
rostos. Talvez o sujeito nã o seja tã o grande quanto eu lembro.
Ella fez uma careta para ele e fez um comentá rio pouco lisonjeiro
sobre os homens em geral e os irmã os em particular, antes de deixar
Bertie sozinho.
Agora, além de se preocupar com Oscar, ela tinha que enfrentar
Pearl também, e o que fariam sobre aquela situaçã o ela simplesmente
nã o sabia.
Ela hesitou na porta de Pearl, tentando encontrar uma expressã o
encorajadora e positiva para exibir antes de bater e entrar.
Pearl estava sentada na cama tomando café da manhã e, para alívio
de Ella, parecia muito mais ela mesma do que no dia anterior. A cor já
tinha voltado à s suas bochechas e, embora seus olhos estivessem
sombreados de preocupaçã o, ela parecia mais descansada.
— Bom dia. Como você está se sentindo? Parece muito melhor.
Pearl deu de ombros, mas sorriu um pouco. — Estou melhor. Menos
histérica, pelo menos — disse ela, parecendo um pouco envergonhada.
— Você tinha todo o direito de ficar histérica, Pearl, mas estou tã o
feliz que veio até mim.
Ella hesitou, perguntando-se como deveria começar o assunto, mas
Pearl falou antes que ela pudesse perguntar.
— Ele se foi — disse Pearl. — O Sr. Jones foi embora há dois dias
sem me avisar. Sabia que ele teve a audá cia de pedir uma carta de
recomendaçã o a papai? — Pearl riu, embora o som fosse amargo. —
Todo mundo sabia que ele estava indo embora, menos eu, embora
ninguém pareça saber para onde ele foi.
O coraçã o de Ella apertou ao ver o sofrimento no rosto da irmã . —
Oh, Pearl. Eu sinto muito.
Ela estendeu a mã o e segurou a mã o de sua irmã , e Pearl olhou para
ela com seus grandes olhos azuis.
— Você realmente se importa, nã o? — constatou Pearl, as palavras
impregnadas de espanto. — Eu achava que você iria se alegrar em me
ver reduzida a tal estado, depois de tudo o que fiz com você.
Ella hesitou antes de fazer a pergunta que sempre a intrigou. — Por
que, Pearl? Por que você me odiava tanto?
Pearl deu de ombros e olhou para o lado, removendo a mã o de Ella.
Ella observou os dedos delicados dela puxando as cobertas da cama,
um gesto nervoso pouco característico dela. Ao contrá rio de Ella, Pearl
sempre fora serena e calma. Como as coisas haviam mudado.
Pearl pareceu precisar de um momento para se recompor antes de
falar, alisando as cobertas e colocando as mã os recatadamente à frente,
uma sobre a outra.
— Você usurpou a minha posiçã o. Eu era o centro do mundo dos
nossos pais antes de você chegar, mas mamã e sempre te amou mais.
Ella olhou para ela, chocada. — Mas... você é a có pia dela. Todo
mundo diz isso. Por que...?
— Porque você é como papai, e ela o adorava — disse Pearl,
sorrindo agora. — Você nã o se lembra dela, nã o é?
— Vagamente — admitiu Ella. — Eu lembro de vestidos bonitos e
de ser embalada para dormir, e do cheiro de flor de laranjeira.
Pearl assentiu. — Bem, você era o centro do mundo dela, aos meus
olhos, e entã o... entã o você roubou Oscar também.
Ella sentiu a garganta apertar. Nã o havia nada que ela pudesse dizer
para se defender dessa acusaçã o.
Pearl riu e estendeu a mã o para pegar a mã o de Ella.
— Ah, nã o quando você se casou com ele. Foi bem antes disso.
Quando você era uma garotinha. Ele era meu amigo e entã o você
cresceu o suficiente para querer brincar também, e nã o se importava de
sujar o vestido. Você nã o se importava quando ele te provocava ou
puxava seu cabelo, você simplesmente puxava o dele de volta. Você
nunca chorava ou reclamava, simplesmente ficava atrá s dele como um
cachorrinho. Ele sempre foi seu, Ella, nã o meu. Ele adorava você, e
embora eu nunca o quisesse como marido, acho que nunca te perdoei
por isso.
— Eu nã o sabia — disse Ella, sentindo-se impotente e um pouco
perdida à luz dessas informaçõ es, embora agora tudo fizesse muito
mais sentido.
Pearl assentiu e se recostou nos travesseiros.
— Passei a vida inteira tentando ser perfeita — disse ela,
encarando as janelas, onde o céu possuía uma coloraçã o azul-cobalto
brilhante. — Você sabe como é cansativo ser perfeita o tempo todo?
Ella riu e balançou a cabeça enquanto Pearl virava de volta e lhe
dava um sorriso pesaroso.
— Nã o faço a menor ideia — admitiu Ella.
— Nã o — concordou sua irmã , e havia quase uma admiraçã o em
seu tom. — Você nã o faz, nã o é? Bem, é verdade, e eu decidi que nã o
quero mais ser perfeita. Vou ficar com o bebê.
Ella soltou o ar e entã o se inclinou para dar um abraço apertado em
Pearl. — Fico tã o feliz, Pearl.
Pearl a abraçou de volta e quando Ella a soltou, viu lá grimas nos
olhos de Pearl, mas a desesperança do dia anterior havia desaparecido.
— Você... você realmente ainda vai querer me ver depois que o bebê
nascer?
— Ah, Pearl, sua boba. Tente só me manter afastada — disse ela,
sentindo os pró prios olhos arderem agora.
Pearl sorriu, e entã o hesitou. — Você lembra, anos atrá s, quando
fomos para a Escó cia, a uma das propriedades do Oscar? Havia uma
casa perto de um lago e dava para caminhar até o vilarejo.
Ella assentiu. — Sim, lembro. Era um lugar lindo.
— Você acha que Oscar me deixaria ir até lá , para ter o bebê e... e
talvez ficar lá um tempo até... bem, até eu saber o que papai vai fazer
comigo?
Ella segurou suas mã os, com uma expressã o decidida. — Eu sei que
nã o deveria falar sem perguntar a ele, mas sei que Oscar te daria a casa,
Pearl. Nã o vamos deixar papai te forçar a fazer algo que você nã o
queira.
— Ele vai querer que eu parta e desista do bebê.
— Sim — concordou Ella, sabendo que era verdade. —, mas vamos
te manter segura, Pearl, você e o bebê. Tem a minha palavra. Nada vai
acontecer que você nã o queira.
Pearl soltou a fô lego que prendia e a tensã o restante parecia ter se
dissipado. — Eu fui uma idiota, Ella. Todas as minhas pretensõ es bobas
e esperanças de que eu poderia ser uma duquesa e, ainda assim, ter
George. Eu pretendia trazê-lo comigo quando me casasse com Oscar,
sabia?
Ella empalideceu, mas permaneceu em silêncio, e Pearl riu.
— Bem, isso é inédito. Pela primeira vez, te choquei.
Ela observou enquanto Pearl passava as mã os sobre a barriga.
— É um alívio de certa forma, sabe? Nã o ter que viver essa vida, nã o
ter que me preocupar se tenho uma mancha, ou se meu cabelo nã o está
perfeito, ou se estou com dor de cabeça e nã o quero mais sorrir. Eu
estraguei tudo, e é estranhamente libertador. Desde que você nã o me
abandone, e nã o deixe papai me expulsar, acho que posso viver com
isso. Acho que posso tentar ser diferente.
— Eu nunca faria isso.
Pearl assentiu, seu olhar sereno enquanto olhava para ela. — Eu sei
— disse ela. — Você é minha irmã .
Ella sorriu.
***
— Ela está o quê?
Oscar encarou-a, com os olhos arregalados de choque.
Ella passou a mã o sobre a toalha de piquenique e se perguntou o
quanto deveria contar a ele. Pearl lhe havia dado permissã o para contar
tudo, mas ainda assim.
Ela o havia encontrado em Berry Street com um piquenique,
ansiosa para descobrir como as coisas estavam indo. Sentada ao sol, à
beira do rio com ele, parecia um bom momento para contar-lhe,
embora ela estivesse relutante em quebrar o encantamento de uma
tarde tã o agradável.
O rio gorgolejava suavemente ao fundo, e o sol aquecia seu rosto. O
perfume do verã o estava no ar e Ella se sentia cheia de ansiedade. As
suas vidas juntas estavam apenas começando e ela estava cheia de
entusiasmo. Desde que Oscar nã o se matasse naquela maldita luta de
boxe. Seu rosto se fechou. Algo teria que ser feito em relaçã o a isso.
Por ora, ela voltou sua atençã o para o marido, que a olhava com
descrença nos olhos.
— Ela está grávida, Oscar, e o pai é um lacaio de nossa propriedade.
George Jones. Aparentemente, eles eram amantes há algum tempo.
Oscar permaneceu ali, boquiaberto, parecendo um peixe fora
d’á gua.
— Feche a boca, querido — disse ela, colocando o dedo sob o
queixo dele e empurrando. — Você está parecendo uma carpa.
Ele fez uma careta, balançando a cabeça.
— De quantos meses? — perguntou ele, com um olhar sombrio
surgindo em seus olhos.
Ella olhou para a toalha, seguindo a linha do padrã o de tartã com o
dedo. — Ela nã o tem certeza. Talvez cinco meses.
Oscar deu um suspiro e ela pô de ver que ele estava processando a
informaçã o.
— Nã o é à toa que ela queria tanto que eu marcasse uma data. Ela
nunca pareceu ansiosa com isso até este ano, e de repente queria
resolver logo. Ah, meu Deus, Ella. Ela teria feito com que seu filho se
passasse por meu.
Ella nã o disse nada, nã o querendo condenar Pearl ainda mais,
embora estivesse tã o chocada quanto ele.
Antes que pudesse pensar no que dizer a seguir, Oscar a puxou para
seus braços, apertando-a contra ele.
— Obrigado — disse ele, sua voz reverente e um tanto rouca. —
Obrigado por ser corajosa, excêntrica e tola o suficiente para ficar ao
meu lado.
Ele a beijou, e Ella sentiu uma onda de pura felicidade tomar conta
dela enquanto passava os braços ao redor do pescoço dele.
Quando ele se afastou, seus olhos estavam brilhantes e sua
expressã o era cheia de adoraçã o. Ele colocou a mã o sobre sua
bochecha. — Eu fico apavorado só de pensar no que minha vida teria
sido sem você, minha querida. E se você nã o tivesse montado Virago
naquele dia? E se você nã o tivesse sido a criatura mais corajosa e
ousada do país? Meu Deus, Ella. Eu te amo loucamente. Você sabe disso?
— Sim — disse Ella, rindo agora enquanto as lá grimas começavam
a se formar em seus olhos. —, e é um tremendo alívio. Agora você sabe
como eu sempre me senti em relaçã o a você.
Ela o beijou novamente, e o resto da tarde passou de forma
deliciosa.
***
Três semanas depois, Ella estava nas escadas de Chancery, com
Oscar ao seu lado, enquanto acenavam para Pearl.
Ela faria a viagem para a Escó cia em pequenas etapas, e Ella
prometeu que iriam visitá -la assim que estivesse acomodada. Também
estava determinada a estar ao lado de sua irmã para o parto, algo que
fez Pearl chorar.
Nas semanas desde que Pearl havia chegado à sua porta,
começaram construir uma relaçã o muito mais pró xima. Era nova e
incerta, mas parecia que ambas estavam decididas a fazer as pazes e
reconstruir a relaçã o.
Ella deu os primeiros passos ficando ao lado de Pearl enquanto ela
dava a notícia ao pai delas.
Ele havia ficado furioso, chocado e com o coraçã o partido. Foi um
grande sofrimento para ambas, mas especialmente para Pearl. Ella se
manteve firme, como prometera, enfrentando a raiva do pai. Havia
algumas vantagens em ser duquesa. Ela tinha mais autoridade que o
pai, e com o apoio inabalável de Oscar, ele cedeu aos desejos delas.
Pearl se retiraria da vida pú blica e criaria seu filho, reclusa. Ella
esperava que um dia ela fosse corajosa o suficiente para enfrentar o
escâ ndalo e voltar à sociedade, mas essa seria uma decisã o de sua irmã .
Se ela tomasse essa decisã o, Ella ficaria ao seu lado.
Agora, quando a carruagem virou a esquina e saiu de vista, Ella
olhou para Oscar, que estava quieto e, estranhamente envergonhado.
— Vai ficar tudo bem, Ella. Nã o se preocupe.
Ella lhe deu um soquinho.
— Ai! — exclamou Oscar, esfregando o ombro. — Por que diabos
fez isso?
— Por ser um idiota — disse ela, engolindo em seco. — Como
diabos você acha que vou parar de me preocupar quando você vai
enfrentar um homem que todos dizem ser um assassino e bandido?
Você tem que desistir, Oscar.
Uma expressã o de rebeldia surgiu no rosto dele, e ele balançou a
cabeça.
— Nã o posso, Ella. Você sabe que nã o posso.
— Eu nã o sei de nada disso, seu cabeça-dura. — Ela bateu o pé,
tomada pela raiva de nã o poder impedi-lo e se virou, entrando na casa
rapidamente.
— Ella!
A voz implorante de Oscar a seguiu, mas ela estava tã o irritada que
nã o olhou para trá s. As ú ltimas semanas juntos tinham sido
maravilhosas, apesar do estresse de enfrentar seu pai pela situaçã o de
Pearl. A ú nica coisa que realmente estragava sua felicidade era a nuvem
negra da luta iminente de Oscar.
Pearl nã o era a ú nica a partir naquele dia.
Oscar estava pronto para ir a Londres. Ele havia escrito para
Blackehart na semana anterior, marcando uma nova data para a luta.
Ela aconteceria em dois dias e ele levaria Bertie para acompanhá -lo
para apoiá -lo moralmente. Ele se recusou, categoricamente, a permitir
que Ella o acompanhasse. Nada do que ela dissesse mudaria sua
decisã o.
Sua reaçã o a isso resultou na primeira grande briga deles.
Agora, ela se dirigia para a biblioteca, batendo a porta com
empenho. Caminhou até a janela, envolvendo-se em um abraço protetor
e tentando com dificuldade nã o chorar. A porta se abriu novamente e
ela sabia que Oscar a havia seguido, mas ignorou-o, cheia de medo,
raiva e frustraçã o para perdoá -lo.
As grandes mã os dele deslizaram sobre seus ombros e ele tentou
puxá -la contra seu peito, mas ela se afastou dele, saindo de seu alcance.
— Ella, por favor, querida — implorou ele. — Eu preciso ir. Nã o me
faça fazer isso assim. Você está partindo meu coraçã o.
Ella fez um som de desespero, ainda furiosa com ele, mas incapaz
de ignorar palavras tã o suplicantes. Ela se virou e se atirou nos braços
dele enquanto ele a apertava forte.
— Eu estou tã o brava com você. — Ela soluçou, agarrando-se a ele.
— Eu sei, querida. Nã o mais do que estou comigo mesmo, eu te
garanto, mas... todos nó s fazemos coisas impulsivas de vez em quando.
— Ele lhe lançou uma expressã o de arrependimento enquanto ela o
encarava.
— Oscar Paget, nã o ouse jogar isso na minha cara. Eu fiz isso por
você!
— Eu sei — disse ele, as palavras baixas enquanto acariciava sua
bochecha. — E eu vou voltar inteiro, por você.
Ela bufou e olhou para ele com desgosto, sem muita fé nessa
promessa.
— Talvez com um machucado aqui e ali — acrescentou, inclinando
a cabeça para olhar nos seus olhos. — Vou precisar de cuidados e de
muitos beijos para me curar — disse ele, tentando convencê-la.
Ella suspirou e se entregou a ele, desfazendo-se em seu abraço,
apesar de tudo. Ela empurrou seu peito quando ele a soltou.
— Eu só estou tã o brava porque estou aterrorizada, Oscar — disse
ela, piscando para afastar as lá grimas enquanto sua garganta se
apertava de emoçã o.
— Eu sei — sussurrou ele. — E nunca mais te darei motivo para se
preocupar, tem minha palavra. Eu vou voltar para você, minha querida.
Eu juro que voltarei.
Ella assentiu, beijou-o novamente e forçou-se a se despedir dele
sem chorar.
Quando a carruagem dele sumiu de vista, ela levantou a saia e
correu pelo hall de entrada, subindo as escadas de dois em dois
degraus, sem se importar com o olhar atô nito de Wilkes e dos lacaios.
— Nancy! — gritou ao entrar em seu quarto, batendo a porta com
pressa. — Nancy, faça minhas malas, imediatamente.
Nancy pulou e deixou o vestido cair com um grito de surpresa. A
mulher levou a mã o ao coraçã o, encarando Ella. — Mas, por que, Vossa
Graça? O que está acontecendo?
Ella abriu uma gaveta e começou a procurar o que precisava, mas
levantou a cabeça para lançar a Nancy um olhar de determinaçã o feroz.
— Vamos para Londres.
Capítulo 22
“No qual Ella é imprudente, apenas para variar.”

Ella olhou fixamente para o pedaço de papel em suas mã os e depois


para fora da janela da carruagem.
— Você tem certeza de que este é o lugar? — exigiu saber ela.
O criado, Francis, assentiu. Ele era um homem forte, de constituiçã o
robusta, talvez com uns trinta anos, e seu rosto, normalmente calmo,
estava contraído em uma expressã o de grande ansiedade.
— Sim. Eu confirmei, mas, por favor, Vossa Graça, nã o gostaria de
reconsiderar? Sua Graça nos dispensará se descobrir que a trouxemos
aqui.
Havia um tom de sú plica em suas palavras, embora a expressã o em
seus olhos nã o fosse otimista. Nã o era para menos, já que ele vinha
repetindo a mesma coisa diversas vezes desde que saíram de Chancery.
— Nã o.
Ella fez um gesto impaciente e o homem suspirou, muito bem
treinado para nã o demonstrar mais sinais de desâ nimo. Ele abaixou a
escadinha para ela e se afastou da porta aberta da carruagem. Ela o
havia tranquilizado uma dú zia de vezes dizendo que os empregos deles
estavam assegurados. Oscar sabia melhor do que ninguém que era
impossível impedi-la uma vez que ela tomasse uma decisã o. Ele nã o os
puniria por seguirem suas instruçõ es. Afinal, se nã o o fizessem, ela teria
vindo sozinha.
— Vossa Graça? — chamou Nancy, puxando a manga de Ella e
pá lida como um lençol. — Dizem que ele matou um homem quando
tinha doze anos!
— Ah, bobagem. Nã o vou dar ouvidos a fofocas. Anime-se, Nancy —
disse Ella, impaciente. — Ele nã o vai nos matar à luz do dia. Eu dei ao
gerente do hotel os detalhes de onde estamos indo e temos dois
homens corajosos para nos proteger.
Ella lançou um olhar semicerrado para os dois criados que a
acompanhavam. Francis trocou um olhar com seu colega, e ambos
pareciam visivelmente desconfortáveis, mas engoliram em seco e se
mantiveram um pouco mais eretos.
Ella saiu da carruagem e deu um longo suspiro. Ela já fizera coisas
imprudentes em sua vida, mas tinha que admitir que isso talvez fosse a
mais aterrorizante. Pelo menos quando estava montando Virago, ela
sabia o que estava fazendo.
O armazém se erguia diante deles, de tijolos vermelhos e
cavernosos. Era um dos muitos armazéns alfandegados ali em East
India Docks, e os edifícios eram tã o vastos que o tamanho deles era
intimidante. Ella estremeceu e atravessou a estrada pavimentada, indo
em direçã o ao que ela imaginava ser a entrada principal. O criado lhe
lançou um ú ltimo olhar desesperado antes de ceder ao inevitável. Ele
bateu forte na porta e, um momento depois, um homem apareceu.
Ele era de estatura mediana, embora sua largura fosse
proporcional. O pescoço era grosso como o de um boi e seus pequenos
olhos cintilantes os observavam com desconfiança. Aqueles olhos
esbugalhados pousaram sobre Ella e se arregalaram o má ximo que
podiam.
— A Duquesa de Rothborn deseja ver o Sr. Blackehart — disse o
lacaio, com tom firme, apesar de sua aparência pá lida como mingau
frio.
Um sorriso curioso apareceu nos lá bios do homem. — Rothborn,
hein? Melhor entrarem entã o.
Ele os conduziu para dentro e subiram uma escada estreita e
íngreme. O armazém parecia ser para armazenar mercadorias de todos
os tipos. Pedaços de seda e cetim em cores gloriosas estavam
empilhados em prateleiras fundas ao lado de centenas de grandes
barris de vinho e caixas empilhadas. O vasto andar estava cheio de
pessoas e o som de conversas alegres e gritos amigáveis preenchiam o
ar enquanto diversas carroças eram carregadas e descarregadas. Havia
vá rias estacionadas fora das portas largas e abertas em frente à
entrada.
Ella observava, com interesse, enquanto subiam as escadas, até
ouvir uma batida e perceber que o homem os havia levado até uma á rea
de desembarque. Ele parou diante da porta de um escritó rio, esperando
por eles. Ali também havia caixas e mais caixas cuidadosamente
empilhadas. Flanqueando a porta estavam dois dos homens mais
imponentes e aterrorizantes que Ella já vira. Ela ouviu Nancy gemer de
afliçã o ao vê-los.
Ella apertou a mã o da jovem, transmitindo-lhe coragem, enquanto o
homem baixo e atarracado entrava ao ouvir uma ordem ríspida.
O coraçã o de Ella acelerou ao som daquela voz. Era grave e
autoritá ria, e ela teve que admitir que também estava apavorada. Eles
caíram em um silêncio desconfortável.
Os quatro pularam quando a porta se abriu novamente e o homem
que os guiara reapareceu.
— Entrem — disse ele, sorrindo para eles.
Era bem ó bvio que ele sabia que todos estavam tremendo e estava
se divertindo com a visã o.
Ella deu um suspiro profundo.
— Vocês três ficarã o aqui — disse ela, bastante satisfeita por sua
voz nã o vacilar, embora sentisse que seus joelhos tremiam sob o
vestido.
— Mas, Vossa Graça... — exclamou Nancy, tentando segurar seu
braço enquanto seus olhos se arregalavam de horror. — Nã o pode ficar
sozinha com... com aquele...
— Tenho certeza de que o Sr. Blackehart é um cavalheiro — disse
Ella, interrompendo-a antes que ela dissesse algo mais insultante e
levantando a voz o suficiente para que o ocupante do escritó rio a
ouvisse. — Nã o há nada a temer.
Ela percebeu uma movimentaçã o no escritó rio e viu uma grande
sombra se movendo na sala iluminada. O guia virou-se para olhar para
trá s e entã o se afastou, enquanto o maior homem que Ella já havia visto
na vida preencheu a abertura da porta. Os terríveis homens ao lado dele
pareceram encolher diante de sua presença, e ela achava que já tinham
uma boa estatura.
— Você parece bem certa disso, Vossa Graça — disse ele. Sua voz
era rouca e apontava para as ruas de Londres, mas tinha um timbre
profundo, que nã o era desagradável. Naquele momento, ela podia
perceber um toque de diversã o. — Você tem certeza?
Ella ergueu o olhar, mais e mais para cima, e se esforçou para nã o
recuar ou dar um passo para trá s.
Ele tinha a mandíbula quadrada e a aparência rú stica, mas a cicatriz
horrível que percorria sua bochecha direita arruinava seu rosto.
Repuxava o seu olho, dando-lhe uma aparência diabó lica. Nesse
momento, Ella acreditava em tudo o que ouvira sobre ele. Ele nã o
parecia um cavalheiro.
— Nã o sei, me diga você , Sr. Blackehart — respondeu Ella,
levantando o queixo. Seu coraçã o batia tã o forte e rá pido que ela ficou
sem fô lego, mas usou toda a sua energia para manter as palavras
firmes e calmas. Afinal, ela era uma duquesa, e agiria como tal.
Ele sorriu entã o, mostrando dentes brancos e alinhados. Nã o era
uma expressã o totalmente agradável.
— Nã o vou devorá -la, duquesa — disse ele, aparentemente
entretido com sua ousadia, seu olhar brilhando de diversã o.
— Bem, isso é um grande alívio — respondeu ela, acidamente,
enquanto passava por ele e entrava em seu escritó rio.
Ella ficou rígida de tensã o enquanto Blackehart fechava a porta e se
sentava atrá s de sua mesa.
— Pode sentar-se — disse ele, com palavras que de alguma forma
pareciam zombeteiras, apesar de educadas.
— Prefiro ficar de pé, Sr. Blackehart. Nã o é uma visita social.
Ela suprimiu um lampejo de irritaçã o quando Blackehart se sentou,
embora ela ainda estivesse de pé.
— Uma pena — murmurou ele. — Eu teria pedido chá .
Ele coçou o queixo com uma grande mã o enquanto a observava de
forma calculada, seu olhar imperturbável, até mesmo desafiador.
— Por favor, nã o se incomode. Acho que sabe bem o motivo da
minha visita.
Blackehart franziu os lá bios. — Suspeito que queira discutir a luta
com seu marido, embora nã o saiba o motivo, Vossa Graça. A menos que
deseje fazer uma aposta no resultado, sem o conhecimento de seu
marido, talvez? Receio que nã o tenha boas chances comigo agora. Sou
certamente o favorito para ganhar.
Ele sorriu diante da indignaçã o nos olhos dela.
— Eu sei que você é o favorito, maldito seja — disparou ela,
divertida agora com a surpresa nos olhos dele ao ouvi-la praguejar. —
Por que você acha que estou aqui? O que será necessá rio para que você
cancele a luta?
Seu choque era palpável.
— Eu pagarei a você — continuou Ella, indiferente ao crescente
horror em sua expressã o. — Qualquer valor. Diga o seu preço.
A desesperança em sua voz tinha que ser clara, mas, quando
Blackehart se levantou novamente, ela se afastou rapidamente de sua
mesa, intimidada pela expressã o nos olhos dele.
— Você se atreve a me pedir para desistir de um desafio? Por
dinheiro? — Ele deu uma risada sonora que a fez pular de susto. —
Duquesa, sou um homem muito, mas muito rico, e minha reputaçã o é
impagável. Nã o há ouro suficiente no mundo para me fazer desistir
dessa luta.
— Sua reputaçã o? — repetiu ela, sua raiva crescendo. — Você quer
dizer sua reputaçã o de bandido e criminoso?
— Aham — disse ele, seu tom grave enquanto se afastava da mesa.
— Esse tipo de reputaçã o. Você acha que isso serviria aos meus
interesses, ter meus inimigos me vendo desistir de uma luta? Achando
que fiquei mole ou perdi a coragem? — Ele resmungou, olhando para
ela com total desprezo. — Nunca.
Ella sentiu as lá grimas ameaçando escapar de seus olhos ao
perceber que nã o haveria negociaçã o com aquele homem. Ela engoliu
em seco, decidida a manter a compostura.
— Entã o nã o há mais nada a dizer. — Ela se moveu em direçã o à
porta, a garganta apertada de medo e ansiedade. Quando estendeu a
mã o para a maçaneta, Blackehart bloqueou seu caminho, e ela ofegou,
afastando-se dele.
— Você realmente veio aqui só para salvar a pele do seu marido?
Havia curiosidade nos olhos dele agora, e nã o pouca desconfiança.
— Claro que sim — disse ela, ouvindo a tremedeira por trá s das
palavras enquanto lutava para manter a compostura.
— Por quê? — exigiu saber ele.
Ella o encarou, atô nita por ele fazer tal pergunta.
— Você nunca amou alguém, Sr. Blackehart? — exigiu saber ela. —
Nunca amou alguém o suficiente para arriscar tudo para mantê-lo a
salvo?
Ela observou o rosto dele, curiosa pela resposta. Por um breve
momento, viu um lampejo de emoçã o ali, uma faísca de algo sombrio e
triste, mas desapareceu rapidamente.
— É por isso que você está aqui? — Suas palavras eram incrédulas
e até um pouco zangadas. — Você veio aqui com aqueles dois lacaios
patéticos e uma criada para te proteger? Mesmo sabendo da minha
reputaçã o? Você deve estar completamente fora de si.
A raiva subiu no peito dela, o que foi bom, pois afastou o desejo de
chorar. Ella se agarrou a isso, mantendo seu olhar firme no dele.
— Nã o, de forma alguma, senhor. Eu estou perfeitamente sã ,
garanto. Estou simplesmente apaixonada pelo meu marido, e faria
qualquer coisa para mantê-lo a salvo.
Ele a encarou, um olhar longo e firme que fez o suor descer pela
nuca dela, mas ela se recusou a piscar ou desviar o olhar. Finalmente,
ele deu uma risadinha de divertimento e sorriu; um sorriso verdadeiro
desta vez, e nã o um rosnado de dentes. Para sua surpresa, Ella percebeu
que o brutamontes tinha covinhas.
— Acho que o Duque de Rothborn é um homem muito sortudo —
disse ele, soltando uma risadinha baixa.
Havia algo que poderia ser admiraçã o nos olhos dele, mas Ella
permaneceu indiferente. Ele nã o faria o que ela pediu, entã o nã o
merecia nenhum agradecimento da parte dela.
Ela retribuiu com um olhar severo. — Nã o o suficiente, pelo que
parece — disse ela, com uma carranca, as palavras mais rosnadas do
que faladas. — Tenha um bom dia, Sr. Blackehart.
***
— Sou um idiota — disse Oscar, olhando para o outro lado do
recinto, onde Blackehart estava se aquecendo.
Despir-se da cintura para cima o tornava ainda mais intimidador do
que quando estava vestido. Qualquer esperança de que sua corpulência
tivesse sido ressaltada por um alfaiate habilidoso com um
acolchoamento estratégico foi imediatamente frustrada.
Bertie se virou para olhá -lo, franzindo um pouco a testa.
— Nã o está esperando que eu contra-argumente, está ?
Oscar balançou a cabeça. Ele se sentia mal. Ele era bom no ringue,
um boxeador experiente, todos sabiam disso. Por que ele tinha aceitado
isso, nã o conseguia entender. O que ele tentava provar, pelo amor de
Deus? Era Davi contra Golias novamente, exceto que ele nã o tinha uma
funda. Ele estava em desvantagem e, se Blackehart estivesse de um
humor vingativo, se demoraria o má ximo possível, matando-o
lentamente.
Oscar deu um longo suspiro e continuou aquecendo seus mú sculos,
dando jabs e cruzados. Por que ele estava se esforçando, nã o sabia ao
certo. Com a extensã o massiva de Blackehart, ele seria sortudo se
conseguisse dar um golpe sequer.
— Oscar — disse Bertie, com um tom ligeiramente alarmado na
voz. — Oscar.
— O que foi? — exigiu saber ele, um pouco irritado por ter sua
concentraçã o interrompida. Ele olhou e viu Bertie fazer um gesto com a
cabeça e descobriu que Blackehart estava caminhando em sua direçã o.
— Vossa Graça — disse Blackehart, parecendo completamente à
vontade, como era de se esperar. — Posso ter uma palavrinha? — Ele
olhou de soslaio para Bertie. Nã o era um olhar elogioso, o que irritou
um pouco o rapaz. — Em particular.
Bertie levantou as mã os. — Eu sei quando nã o sou bem-vindo —
disse ele, dando um sorriso tenso e se afastando.
Oscar encarou seu oponente, incapaz de tirar os olhos do estado
horrível de seu pescoço. Ele achava que a cicatriz no rosto era prova o
suficiente de uma vida violenta, mas isso era outra coisa. Alguém tentou
enforcar o Sr. Blackehart – e falhou. A corda havia cortado cruelmente
sua carne, deixando a pele deformada e brilhante com tecido cicatricial.
Oscar se forçou a encarar os olhos do homem e se concentrar no
momento presente. Se Blackehart viera intimidá -lo, ele nã o daria a
satisfaçã o. Oscar era um idiota, mas nã o um covarde. Ele deu um passo
para trá s, para nã o ter que olhar para cima por tanto tempo.
— Você queria alguma coisa? — perguntou ele, mantendo a
indiferença na voz.
— Sim — respondeu Blackehart, com um comportamento amigável.
— Parabenizá -lo pela sua esposa. Ela é uma mulher notável. Corajosa
também... mas terrivelmente imprudente.
Oscar sentiu um arrepio de alarme ao ouvir as palavras dele. Medo
e fú ria subiram em seu peito.
— O que você quer dizer com isso? — exigiu ele, aproximando-se.
— Pelo amor de Deus, Blackehart, se você tocou nela, eu arranco sua
cabeça, seu maldito.
As sobrancelhas de Blackehart se ergueram um pouco, mas ele
parecia mais divertido do que intimidado.
— Calma, homem. Ela está sã e salva. Por que diabos eu a
machucaria? Ambos sabemos que esta luta já está ganha.
Oscar se forçou a considerar isso e tentou fazer seu coraçã o
desacelerar ao perceber que Blackehart estava certo. Ele nã o tinha nada
a ganhar.
— Ela veio me ver — disse Blackehart, enquanto Oscar se
sobressaltava, horrorizado.
Blackehart parecia entretido com isso e até um pouco admirado,
mas o coraçã o de Oscar estava acelerando novamente, e ele sentiu que
poderia realmente vomitar.
— O quê? — questionou ele, horrorizado, rezando para ter ouvido
errado.
Para seu desgosto, o homem apenas assentiu. — Ontem. Ela entrou
no meu escritó rio, tremendamente ousada, e me deu uma dura quando
recusei deixá -la me pagar.
Oscar o encarou, boquiaberto, tã o atô nito que ficou sem palavras
por um momento.
— Oh, meu Deus.
Oscar retrocedeu, aliviado ao descobrir um banco encostado na
parede. Ele se sentou com um baque e colocou a cabeça nas mã os. Ele já
deveria ter imaginado. Maldiçã o, ele deveria ter imaginado. Era Ella
com quem ele estava lidando; ela nunca se sentaria e ficaria quieta se
tivesse a chance de salvá -lo. Sinos do inferno!
— Você jura que ela está bem? — perguntou ele novamente,
suspirando quando Blackehart assentiu.
— Palavra de honra. Ela saiu do mesmo jeito que entrou. Nã o, isso
nã o é verdade, ela saiu brava como um touro — corrigiu ele, dando uma
risadinha agora. — Fiz com que meus homens a escoltassem de volta
para sua vizinhança.
— Eu nã o sabia — disse Oscar, quando conseguiu se acalmar o
suficiente para falar. — Sério — acrescentou, horrorizado, temendo que
o homem pensasse que ele havia enviado sua esposa para tentar
defendê-lo.
— Eu acredito em você — respondeu Blackehart, visivelmente
divertido com a situaçã o. — Ela nã o é o tipo de mulher que aceita um
“nã o” como resposta.
— Você nã o faz ideia. — As palavras eram irô nicas, embora Oscar
estivesse certo de que seu orgulho por ela fosse bastante evidente. —
Eu nunca sei o que ela fará a seguir.
— Você é um homem de sorte, Rothborn — disse Blackehart,
estendendo a mã o.
Oscar encarou a mã o dele. Nã o era um aperto de mã o em privado
desta vez, mas à vista de todos. Um arrepio de alarme percorreu suas
costas. Se Blackehart achava que ele faria isso na esperança de que
fosse mais fá cil com ele no ringue, estava muito enganado. Ainda assim,
ele havia visto Ella chegar segura em casa, e Oscar nã o acreditava que
essa fosse sua motivaçã o. Nã o. Blackehart era inteligente e queria
amigos poderosos.
Ele estendeu a mã o e apertou a de Blackehart.
— Eu sei o quã o sortudo sou, acredite, e agradeço por fazê-la
chegar em segurança em casa.
Ele olhou para cima e viu espectadores entrando no grande recinto.
O murmú rio de vozes e uma sensaçã o de expectativa preenchiam o
ambiente. E ele sentiu borboletas em seu estô mago.
— Entã o, vamos à luta — disse Blackehart, sorrindo. Ele se virou
para ir embora, mas hesitou. — Nã o tenho interesse em matá -lo. Vamos
apenas disfrutar um pouco de esporte, certo? Eu vi o seu desempenho.
Você é muito bom, sabe o que está fazendo. Talvez até consiga acertar
um golpe se for realmente sortudo.
— Ora essa, seu desgraçado — disse Oscar, sem saber se deveria se
sentir divertido ou ofendido.
— Perdedor paga as bebidas? — sugeriu Blackehart, ao se afastar.
Oscar resmungou, rindo agora, e se sentindo bem mais à vontade
do que antes. — Fechado.
***
Ella caminhava de um lado para o outro na espaçosa sala da
residência na cidade de Oscar. Nã o havia mais sentido em continuar
com a farsa de ficar em um hotel agora, entã o mandou todos
arrumarem as coisas.
A luta havia acabado, e Oscar perdera. Disso ela sabia, pois havia
enviado Francis para aguardar as notícias e reportar tudo
imediatamente. Ele havia sido nocauteado no final do terceiro round,
embora Francis a tivesse tranquilizado, dizendo que ele havia se
recuperado sem maiores consequências. Mas, se fosse assim, onde
diabos ele estava?
A luta havia terminado há horas.
Ainda assim, nada de Oscar.
Ella era consumida pela ideia de que o golpe que o deixou
inconsciente tinha causado mais danos do que perceberam, e que ele
tivesse adoecido depois. E se ele estivesse desacordado em algum
lugar?
Ella forçou-se a respirar e a ser razoável. Bertie estava com ele. Seu
irmã o o levaria para casa em segurança e chamaria um médico caso
algo estivesse errado. Ela sabia disso. Mas, mesmo assim, nã o conseguia
deixar de se preocupar.
O som de risadas altas chegou até seus ouvidos, e ela correu até a
janela, esticando o pescoço para ver quem se aproximava da porta da
frente. Com um suspiro, ela observou a cena com total descrença e
desceu as escadas assim que o mordomo abriu a porta.
Oscar e Blackehart cambaleavam pela entrada, com os braços sobre
os ombros um do outro como irmã os. Bertie entrou logo atrá s,
tropeçando um pouco, mas aparentemente menos embriagado do que
os outros.
Ella permaneceu parada, incrédula, observando o impressionante
olho roxo que Oscar exibia e notando que Blackehart também nã o saiu
totalmente ileso. Seu lá bio estava inchado e sangrava visivelmente.
Excelente, ela pensou, com uma pitada de vingança.
— Aqui está ela! — disse Oscar, acenando de forma exagerada e
parecendo alegre. — Minha esposa, Blackehart. Nã o há melhor em toda
a Inglaterra... Nã o, nã o — disse ele, repentinamente sério, balançando a
cabeça e apontando o dedo para Blackehart. — Na verdade, no mundo
inteiro.
— Eu concordo — disse Blackehart, magnâ nimo na vitó ria.
Os dois homens cambalearam levemente, sorrindo para ela com
idênticas suaves expressõ es de contentamento. Vindo de Blackehart,
era algo bastante desconcertante.
— Você sabia que ela venceu Craven Stakes, em Newmarket? —
disse Oscar, irradiando orgulho.
Blackehart ficou de olhos arregalados, boquiaberto.
— Oscar! — exclamou Ella, horrorizada, enquanto descia as
escadas. Santo Deus, quã o bêbado ele estava?
— Ah, desculpe, querida — disse Oscar, dando-lhe um sorriso
deslumbrante. Ele se virou para Blackehart e colocou o dedo nos lá bios.
— Shh. Segredo.
Blackehart resmungou. — Sou bom em segredos — disse ele, com
uma expressã o um tanto perturbadora nos olhos. — Nã o vou contar a
ninguém.
Ella balançou a cabeça, surpresa ao descobrir que acreditava nele.
Atrá s dela, Bertie escorregou pela parede e caiu com um baque no chã o.
— Oi, Bug — disse, com um sorriso bobo nos lá bios. — Ele ainda
está vivo. Te falei que ele ia sobreviver.
Talvez seu irmã o nã o estivesse tã o só brio quanto ela imaginava.
— Pelo amor de Deus — murmurou ela, revirando os olhos. — Café,
imediatamente — pediu ela a um lacaio que parecia divertido com a
cena. — E bastante — acrescentou.
— Melhor irem para a biblioteca — disse ela, empurrando os dois
amigos do peito para dentro antes de voltar para ajudar seu irmã o a se
levantar.
— Você deveria estar tomando conta dele, Bertie — repreendeu-o,
embora estivesse aliviada demais para realmente ficar brava.
— Ele nã o está morto — respondeu Bertie, dando de ombros.
— Nã o — concordou Ella, com um suspiro e entã o sorriu para ele,
dando-lhe um beijo na bochecha. — Nã o está . — Pela primeira vez
desde que Oscar fizera sua ridícula confissã o, ela sentiu que poderia
finalmente respirar.
— Vamos logo, entã o. Preciso recuperar a sobriedade de um duque
e um bandido. Nã o posso deixar você sentado no corredor.
— Depois de você, Bug — disse seu irmã o, com um sorriso, fazendo
um gesto para que ela passasse à frente e conseguindo se manter em
pé.
Ella riu e colocou o braço ao redor da cintura dele, e os dois
caminharam zonzos em direçã o à biblioteca.
Epílogo
“No qual há recém-chegados e finais felizes”

Ella olhou fixamente para aquele rostinho perfeito e tocou com a


ponta do dedo o cabelinho macio visível na borda do gorro de lã do
bebê. A criança agarrou seu dedo, e Ella sentiu seu coraçã o apertar no
peito.
A filha de Pearl era perfeita.
— Você vai ter uma vida maravilhosa, minha querida sobrinha. Eu
prometo.
Ela se inclinou e deu um beijo na testa incrivelmente macia da c
criança antes de colocá -la de volta nos braços da mã e.
Pearl estava sentada na cama, parecendo incrivelmente bonita,
considerando que havia dado à luz na manhã anterior.
— Já decidiu o nome? — perguntou Ella, observando enquanto
Pearl olhava para sua filha com tanto carinho que sua garganta se
apertou.
— Sim. — Pearl olhou para a irmã . — Eleanor, em homenagem à tia
dela.
Ella encarou-a, o aperto na garganta aumentando conforme seus
olhos se enchiam de lá grimas. — Oh — disse, sem conseguir falar mais
nada devido à emoçã o. Em vez disso, inclinou-se e abraçou Pearl e sua
pequena xará com cuidado.
— Obrigada — conseguiu dizer, depois de se recompor um pouco.
— Nã o sei mais o que dizer. Isso significa muito para mim.
Pearl sorriu. — Você significa muito para mim, irmã .
Ella riu e beijou a bochecha de sua irmã . — O sentimento é
recíproco.
Ela se levantou, lançando um ú ltimo olhar para a cena idílica e
sentindo uma pequena onda de ansiedade.
— Vou deixar vocês em paz por um tempo entã o — disse Ella,
sorrindo. — Durma um pouco.
Ella fechou a porta com cuidado atrá s de si e desceu as escadas
apressadamente, ansiosa para encontrar Oscar.
Ele estava na sala de estar, franzindo a testa para o tempo lá fora,
que consistia em um céu cinzento e nuvens pesadas, com chuva caindo
torrencialmente.
— Meu Deus, eu tinha esquecido de como era ú mido aqui —
resmungou ele, levantando o olhar quando Ella entrou.
Ella se aproximou e passou o braço pelo dele. Já estavam ali há mais
de uma semana, e o tempo nã o dava sinais de melhora. Oscar, que
nunca foi bom em ficar parado por muito tempo, estava começando a
ficar impaciente.
Ele se inclinou e deu um beijo no topo da cabeça de Ella.
— Oi, Bug. E como é a recém-chegada?
— Absolutamente linda — disse Ella, suspirando. —, e ela vai se
chamar Eleanor.
Oscar sorriu, sabendo o quanto isso significaria para ela. — Fico
feliz por você — disse ele.
Ella se recostou nele. Ele e Pearl ainda nã o estavam totalmente à
vontade na presença um do outro, mas estavam tentando por ela, e Ella
tinha certeza de que o tempo colocaria tudo em seu devido lugar.
Oscar voltou a olhar pela janela e suspirou. — Você acha que
alguma hora vai parar?
— Sim — disse ela, sorrindo um pouco. — Mas nã o hoje, nem
amanhã , nem depois.
— Ah, quã o encorajador — bufou Oscar, balançando a cabeça. —
Juro que vou enlouquecer se nã o tiver algo para fazer logo.
— Mas eu tenho algo para você fazer — respondeu Ella, com um
tom levemente astuto.
Oscar levantou uma sobrancelha, percebendo o tom dela. — Oh? —
O tom dele era cauteloso, e Ella conteve uma risada.
— Lembra de como na outra noite você me disse o quanto me
ama...?
— Bem, isso nã o ajuda muito a restringir as opçõ es — interrompeu
ele, sorrindo com carinho.
Ella riu. — Nã o, acho que nã o — disse ela, sentindo-se um pouco
convencida. — Mas você também disse que me daria qualquer coisa
para me fazer feliz, qualquer coisa no mundo.
Oscar a puxou para seus braços, com os olhos brilhando de
curiosidade agora. — Eu disse mesmo — murmurou ele, inclinando-se
para dar um beijo suave na pele abaixo da orelha dela.
Ella suspirou e inclinou a cabeça para permitir que ele continuasse.
— E o que você deseja, duquesa? Joias? Vestidos? Uma nova
carruagem para me aterrorizar?
— Nã o — disse ela, ligeiramente ofegante agora, enquanto ele
pressionava beijos delicados, com a boca aberta, descendo por seu
pescoço. — Você já me deu tudo isso no meu aniversá rio.
— O que, entã o? — disse ele contra sua pele. — Diga e será seu.
— Eu quero dar a Eleanor um primo.
Oscar parou e levantou a cabeça para fitá -la, sua expressã o
escurecendo e lançando-lhe um olhar que fez seu coraçã o bater mais
rá pido no peito com a expectativa.
— Você quer? — perguntou ele, os cantos da boca se curvando para
cima.
Ella assentiu e entã o deu um grito de surpresa quando Oscar a
ergueu, tomando-a em seus braços. Ela se agarrou ao pescoço dele
enquanto ele a carregava para fora da sala de estar e subia as escadas.
— Oscar, os criados — sibilou Ella, enterrando o rosto no pescoço
dele ao ouvir o som inconfundível de Nancy gargalhando enquanto
passavam por ela no corredor.
— O que tem eles? — perguntou Oscar, sem se deixar intimidar. —
Somos recém-casados.
— Nã o, nã o somos — protestou ela, enquanto ele abria a maçaneta
do quarto deles com o cotovelo e arrombava a porta. — Estamos
casados há meses!
Ele fechou a porta com um chute e a jogou na cama com tanta força
que as molas protestaram.
Ella observou, mordendo o lá bio para conter a risada, enquanto ele
puxava a gravata e começava a se contorcer na tentativa de tirar as
botas.
— Maldito inferno — resmungou ele, quase caindo de costas
quando finalmente tirou uma bota. Ele pegou a outra, olhou para ela e
sorriu. — Ainda me parece recente — disse ele, com uma expressã o tã o
encantadora que fez seu coraçã o dar um pulo no peito.
Ela entendeu o que ele queria dizer. Ainda parecia recente, e ao
mesmo tempo antigo e familiar. Ele ainda era Oscar, o menino tolo e
aventureiro que ela amava quando era menina, mas também era seu
marido. Um homem cheio de charme, perdã o e amor no coraçã o, e
muito distante da perfeiçã o... o que era exatamente o que ela gostava
nele.
A perfeiçã o só deveria existir por momentos fugazes. Em face a um
recém-nascido, ou em uma noite de verã o perfeita; um momento no
tempo que você captura no coraçã o e nas memó rias, para ser guardado
e lembrado novamente quando as coisas nã o forem tã o impecáveis.
Ela sabia que Pearl nunca forçaria sua filha a alcançar a perfeiçã o, e
sabia que a vida nunca seria totalmente perfeita. Nã o deveria ser. Ainda
assim, enquanto Oscar subia na cama, com a camisa torta e um sorriso
no rosto, Ella sabia que ela estava tã o perto disso quanto qualquer um
poderia estar.
— Muito bem, entã o — disse ele, um pouco sem fô lego enquanto se
movia sobre ela.
Ela colocou os braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para
mais perto.
— Sim, Oscar? — disse ela, com as palavras suaves e curiosas.
— Vamos ter um menino ou uma menina?
Ella sorriu para ele, deleitando-se com o peso do corpo dele sobre
ela enquanto ele se deitava.
— Oh — disse ela, fingindo ponderar a questã o por um momento.
— Vá rios de cada, eu diria.
— Meu Deus — respondeu Oscar, com os olhos arregalados. —
Nesse caso, é melhor começarmos logo.
No pró ximo livro da série Patifes & Cavalheiros, a histó ria de
Lucifer Blackehart...
Continue lendo para uma prévia.
O Coraçã o das Trevas
Patifes & Cavalheiros – Livro 14

Lorde Blackehart nã o tem uma gota de sangue azul em suas veias,


mas é o inegável Senhor do submundo de Londres.
Nascido na pobreza e rapidamente abandonado, ele é deixado para
crescer na miséria em um orfanato. Há muitos rumores sobre ele, que
ele nã o pode morrer e que matou um homem quando tinha apenas
doze anos. Agora, um homem em plena forma, ele é forte como uma
montanha e exala poder.
Katherine Dove é ilegítima. Ela carregou a vergonha disso a vida
toda, mas quando seu guardiã o e sua ú nica proteçã o do mundo exterior
morre, ela descobre uma pista sobre sua ascendência.
Uma jornada perigosa até Londres, em busca de seu pai, leva-a a
uma companhia perigosa, mas a Srta. Dove é engenhosa, e Luther
Blackehart parece ser um homem capaz de fornecer as respostas para
tudo o que ela deseja.
Pró logo
“No qual conhecemos um jovem vilão em formação, ou um herói com
outro nome.”

Setembro de 1802, Orfanato da Paróquia de St. John, Hackney. No


condado de Middlesex.
O edifício era antigo, um chalé estilo Tudor que, em algum
momento, poderia ter sido uma construçã o imponente, com suas
beirais e cantos pitorescos. Agora, estava apodrecendo, com telhados
estreitos que se curvavam ao redor de uma infinidade de chaminés
altas, que se esticavam para o céu como braços magros implorando a
Deus.
Só que aqui nã o existia Deus.
Luther ouvira falar sobre Deus. O capelã o falava dele todos os
domingos. Em seus intermináveis doze anos, a ú nica coisa que Luther
aprendera sobre Deus era que Ele era vingativo e cruel, e que um
abismo ardente o aguardava no fim de seus miseráveis dias.
O orfanato ficava bem em frente para uma taberna chamada Adã o e
Eva, e naquele momento, essa taberna parecia estar a milhõ es de
quilô metros de distâ ncia. Estava do outro lado de um pá tio
pavimentado, cercado por galpõ es e uma alta cerca de madeira. Luther
nunca havia posto os pés fora dos terrenos, desde o dia em que nascera
na insalubre e desesperadora imundície do orfanato. Hoje ele sairia.
Hoje nã o havia outra escolha.
Ele virou-se, puxando a mã o do garotinho assustado ao seu lado.
— Precisamos ir, Ricky — disse ele, desejando nã o soar tã o
assustado. O garotinho de oito anos olhou para ele, precisando dele,
para proteçã o e orientaçã o. Ele havia decepcionado a ú nica outra
pessoa com quem já se importara. Uma decepçã o tã o esmagadora e
grandiosa que ele nã o podia pensar nela, nã o ainda, mas nã o falharia
com Ricky também. Ele havia feito uma promessa, e preferiria morrer a
quebrá -la.
Luther era um garoto grande para seus doze anos, apesar de sua
desnutriçã o. O menino de olhos grandes ao seu lado, no entanto, era
pura pele e osso. Uma rajada forte de vento o derrubaria. Ele nã o
aguentaria a puniçã o que a governanta lhe aplicaria quando o crime de
Luther fosse descoberto. Nã o que ele tivesse feito algo além de estar na
mesma sala. A culpa era apenas de Luther, e ele nã o se arrependia. Ele
cuspiria nos olhos de Deus e diria isso, se fosse preciso.
Ele sabia que nã o sobreviveria à sua pró pria puniçã o também,
enforcamento nã o era algo de que um homem se recuperasse. Será que
eles enforcavam crianças, se perguntou. Nunca ouvira falar disso; por
outro lado, a maioria das crianças nã o era assassina. Suas entranhas se
retorceram, as sensaçõ es familiares de fome e medo se entrelaçando
em um torvelinho nauseante.
— Estou com medo, Lou — disse o garotinho, seu peitinho estreito
arfando pelo esforço de fugir do local do crime.
— Eu nã o estou — mentiu Luther, as palavras firmes e duras. — Eu
vou tirar a gente dessa maldita pocilga. Vamos ser ricos, Ricky, vamos
viver como reis e comer carne toda noite e no café da manhã também.
Marque as minhas palavras.
— Promete, Lou? — disse o garotinho, seus grandes olhos
arregalando tanto em seu rosto sujo que ele parecia inumano, como
uma criatura estranha nascida do cruzamento de uma besta e um
homem.
Luther soltou a mã o do garoto e cuspiu na pró pria palma,
estendendo-a novamente. — Palavra de honra, Ricky. Você e eu, nunca
vamos deixar ninguém nos machucar, nunca mais.
O garotinho engoliu em seco, fitando Luther com admiraçã o
enquanto fazia um pequeno movimento de cabeça, que Luther
interpretou como concordâ ncia.
— Aperte, entã o — disse ele, lançando um olhar feroz para o
menino. — Aperte, é um pacto.
Ricky colocou a mã o menor contra a sua, os dedos magros se
curvando ao redor dos seus, e Luther soltou um suspiro. — Certo, entã o
— disse, virando-se para observar a vastidã o do pá tio pavimentado e a
bagunça imunda dos edifícios ao longe. Londres chamava sua atençã o,
com suas histó rias de maldade e sonhos realizados, de riquezas
inimagináveis e crueldade e pobreza das mais vis, piores até do que do
orfanato... mas pelo menos estariam livres.
Luther preferiria morrer de fome, por sua pró pria vontade, do que
ser forçado a lamber poças fétidas como um cã o sarnento quando suas
refeiçõ es novamente lhe fossem negadas por falar fora de hora. Nunca
mais ficaria calado, diria o que quisesse e iria para o inferno com um
rosnado nos lá bios.
Um grito chegou aos seus ouvidos, distante e abafado, e ele soube
que nã o havia mais tempo para reunir coragem, para se preparar para
encarar o mundo exterior pela primeira vez. Pegando firme a mã o de
Ricky, virou-se para lhe lançar um ú ltimo olhar desafiador, que o
provocava a se acovardar.
— Você e eu, Ricky. Vamos conquistar o maldito mundo. Agora,
corre!
***
Luther fez uma careta ao sentir a espessa lama gelada entre os
dedos dos pés. Nã o importava que ele já estivesse fazendo isso há mais
de um ano, ele nunca se acostumaria. O fedor do rio Tâ misa na maré
baixa invadia seus pulmõ es, putrefato e tã o denso que parecia
preencher seu peito como um peso. Coisas mortas, coisas apodrecendo,
lixo humano, até cadáveres, vivenciados tantas vezes que quase nã o se
dava conta disso... Esses cená rios já nã o chocavam nenhum dos dois.
Luther nem tinha certeza se um dia haviam. Ele fora forçado a
compartilhar um quarto com um cadáver por três dias e três noites no
orfanato, por um crime que nem se lembrava mais. Isso lhe dera uma
aversã o mó rbida a quartos escuros, mas ele nã o tinha medo da morte,
nem da sua pró pria. Ela viria, ou nã o viria. Ele nã o conseguia reunir
energia para temê-la.
As pessoas o chamavam de Garotos da Lama, aqueles que
vasculhavam a imundície que a maré do Tâ misa deixava nas margens
quando recuava. Uma cesta enlameada pendia do braço de Luther,
parcialmente cheia de carvã o. Quando os barqueiros jogavam os
pesados sacos de carvã o na margem, pedaços frequentemente caíam na
á gua e afundavam na lama. Em um bom dia, conseguiam encher duas
cestas antes da maré voltar. Vendiam para as casas na vizinhança e
ganhavam o suficiente para manter os estô magos cheios. Hoje, havia
alguns pedaços de ferro também, um prego e alguns rebites que
renderiam uns poucos centavos. Ontem, haviam encontrado corda,
caída de algum navio. Ela foi vendida para os comerciantes marítimos.
— Eu tô morrendo de fome, Lou — murmurou Ricky, com os braços
girando enquanto ele perdia o equilíbrio na lama pegajosa. Luther
estendeu a mã o para estabilizá -lo, puxando-o para cima.
— Você tá sempre morrendo de fome — murmurou Luther,
irritado. — Enche essa cesta que a gente consegue pã o e cerveja, e
talvez um pouco de queijo também.
Ricky fez uma carranca, mas voltou sua atençã o para o lixo. Ele
tinha ganhado um pouco de peso nos ú ltimos dois anos desde que
haviam fugido do orfanato, embora ainda fosse magro e bem menor que
Luther.
Os primeiros meses depois que fugiram haviam sido os piores de
suas vidas. A euforia inicial de terem escapado foi curta, já que a brutal
realidade da vida nas ruas logo se impô s a eles. Luther dissera a Ricky
que o levaria de volta ao orfanato, se ele quisesse, mas que preferiria
morrer congelado em uma vala a ter que voltar. Ricky ficou. Eles
estavam congelados e perto de morrerem de fome quando Luther ouviu
falar dos Garotos da Lama que limpavam as margens do Tâ misa como
um cachorro roendo um osso.
O começo, fora duro e miserável, já que os Garotos da Lama eram
um povo territorial. Luther sempre fora bom com os punhos, mas nunca
tivera que lutar tanto nem tã o frequentemente como nas primeiras
semanas. No inverno, havia menos garotos trabalhando, entã o as
probabilidades nã o eram tã o ruins. Até os garotos mais durõ es nã o
queriam enfrentar a lama congelada sob os pés descalços, a menos que
fosse realmente necessá rio. Era um trabalho miserável e perigoso.
Inicialmente, Luther trabalhava sozinho, pois Ricky era muito frá gil.
Encontraram abrigo em um velho está bulo nas primeiras semanas,
mudando depois para uma velha barcaça podre, abandonada ao norte
da orla. Agora, os outros Garotos da Lama os aceitavam, sabendo que
Luther era durã o demais para ser dissuadido e que só ganhariam um
nariz sangrando, ou algo pior, por seus problemas. Mesmo quando os
Garotos da Lama do Verã o apareceram, incluindo garotas, com suas
saias arrastando na lama, ninguém se atrevia a tentar assustar Luther,
sua reputaçã o era muito perigosa.
Quando a cesta estava cheia, eles a levaram de volta para a barcaça
e Luther pegou um balde de á gua para lavar as pernas e os pés. Nã o que
ficassem limpos, a á gua estava imunda antes mesmo de chegarem perto
dela e a sujeira já estava tã o impregnada em sua pele que nunca
perderiam o tom acinzentado da sujeira novamente. Luther odiava isso.
O fedor do rio permanecia em suas narinas.
Algumas semanas atrá s, estavam andando pelas ruas no crepú sculo
da noite. Seus estô magos estavam agradavelmente cheios e dois copos
de cerveja lhes proporcionavam uma sensaçã o de contentamento
tranquilo. Um casal elegante passou por eles, e os meninos pararam
para admirar. O par estava vestido no que Luther supô s ser o auge da
moda. A pele da mulher brilhava com a saú de da juventude, rosa e
perfeita como a de um recém-nascido. Suas roupas estavam impecáveis,
perfeitas, e seu perfume... Luther tentara recapturar o cheiro dela à
noite, enquanto estava na cama. Nã o sabia o que era, além do fato de
que exalava riqueza e uma vida de lençó is limpos e estô magos cheios.
Um forte desejo por uma vida assim tomou conta de suas
entranhas, junto com uma determinaçã o de que escaparia da lama
pegajosa do Tâ misa, assim como escapou do orfanato. Nã o deixaria que
puxassem a ele e a Ricky para as profundezas do inferno. Ele abriria um
caminho com as pró prias mã os, arranhando e cavando. Eles
escapariam, para uma vida melhor, assim que uma oportunidade
surgisse.
Como era de se esperar, o destino estava ouvindo.
Eles comeram o má ximo que os ganhos do dia permitiram,
conseguindo até mesmo um xelim de queijo para acompanhar o pã o.
Apesar de estar com a fome saciada, Luther ainda estava inquieto
quando voltaram para a barcaça abandonada. Ricky desabou na pilha
de trapos que servia de cama e, em poucos momentos, já estava
profundamente adormecido. Seus suaves roncos ecoavam pelo casco
irregular, e Luther bufou, irritado sem motivo aparente.
Inquieto, ele se levantou e foi para fora. Era final de setembro, e
mesmo com o fedor do rio, Luther conseguia perceber o outono no ar, o
cheiro mais doce das folhas podres e os dias que iam escurecendo,
anunciando que o inverno logo estaria sobre eles. Suas entranhas se
contraíram só de pensar nos dias e noites congelantes que viriam. Meu
Deus, o que ele nã o daria por um teto decente sobre a cabeça e uma
lareira ao lado em uma noite fria?
A maré estava baixa e as camadas de lama ao lado do rio sujeito a
marés brilhavam escuros ao luar. Os grandes navios que se alinhavam
ao longo do movimentado canal, dois em cada lado do rio, balançavam
de um lado para o outro em seus leitos turvos. Luther caminhava pelas
margens pantanosas, sentindo-se pequeno e sozinho sob um céu que
ele temia que o sufocasse como um manto negro de tinta. Ainda odiava
a escuridã o, mas se sentia melhor lá fora do que dentro dos limites
daquela maldita barcaça.
De vez em quando, ele ouvia o grito de um marinheiro a bordo de
um dos navios. Pobres bastardos que tinham tirado a pior sorte e
tinham que proteger a carga, xingando seus companheiros em
Southwark, que estavam aconchegados com as prostitutas e bebendo
até perder a razã o.
Luther enrijeceu quando outro som chamou sua atençã o, um
movimento nos pâ ntanos, esse tipo de farfalhar da grama nã o era
causado pelo vento, mas por homens. Ele se virou, preparado para
correr, quando vultos escuros surgiram da noite como caranguejos,
baixos e rastejando. Já era tarde demais quando uma mã o grande
cobriu sua boca, e o cheiro de rum, fumaça e trabalhador invadiu seus
sentidos exaustos.
— Silêncio, meu bravo rapazinho — disse o homem, com uma voz
baixa e divertida. — Tenho um trabalho pra você; se quiser ganhar um
salá rio honesto?
Um sujeito riu alto e foi silenciado por um cotovelo, se o som surdo
que Luther ouviu fosse alguma indicaçã o nesse sentido.
Luther assentiu, seu coraçã o batendo forte no peito. A mã o grande
se retirou de sua boca, e ele se virou, dando de cara com um homem
robusto de estatura mediana. Seu cabelo era escuro, mas com um tufo
branco em uma têmpora. Luther nã o achou aquilo tã o notável quanto a
moeda de seis pence de prata que o homem segurava entre o dedo e o
polegar. Ela brilhava como uma pequena lua na grande mã o marcada
enquanto ele a balançava de um lado para o outro de maneira
hipnó tica.
— Uma agora, outra quando eu voltar, se você ficar e vigiar os
marinheiros. Estou sem homens hoje e preciso de todas as mã os para
carregar a carga.
Luther nã o precisou que ele pedisse duas vezes. Ele e Ricky
ganhavam seis pence em um bom dia, uma vez ou outra. O dobro disso
por ficar e vigiar a á gua...
— Pode contar comigo, senhor — disse ele, estendendo a mã o para
pegar a moeda.
Ela foi rapidamente arrancada de seu alcance, o homem lhe
lançando um olhar de olhos semicerrado.
— Posso mesmo? — perguntou ele, as palavras causando um
arrepio na espinha de Luther. — Porque se nã o puder, vou te caçar e
nã o vai restar nada pros ratos roer quando eu terminar.
Luther olhou para ele, seu olhar firme. Havia diversã o nos olhos do
homem, e Luther já ouvira coisas piores e teve que correr de homens
que pareciam bem mais depravados do que aquele, mesmo com toda a
sua grosseria.
— Nã o tenho medo de ratos, senhor, e nã o precisa temer minha
traiçã o. Nunca quebro minha palavra, uma vez dada.
O homem soltou uma risada baixa e assentiu. — Entã o aqui vai,
vermezinho. Estarei de volta em meia hora, espero que grite bem alto
se vir esses desgraçados remando pelo rio.
— Vai me ouvir — prometeu Luther, sentindo a moeda de prata
entre os dedos com um pequeno saltitar de prazer no coraçã o.
Luther observou, intrigado, enquanto os piratas do rio entravam na
lama e se dirigiam a um dos barcos alinhados. Silenciosos e mortais,
escalaram as laterais escorregadias do navio, á geis como macacos.
Quando desapareceram pelas laterais, tudo ficou quieto até um grito
abafado ser ouvido, seguido por uma série desesperada de batidas e
lutas.
O horizonte estava imó vel enquanto Luther observava, ouvindo sua
pró pria respiraçã o e o batimento de seu coraçã o na escuridã o
expectante, enquanto os minutos passavam com o rio sujo; a maré
estava virando. Ele estava prestes a olhar de volta, ciente de que os
piratas estavam jogando sua carga na lama abaixo, quando algo chamou
sua atençã o. Ele teve que forçar a vista, mas entã o viu a silhueta
inconfundível de uma galé aberta, remada por quatro homens com
outro no leme. Ela desapareceu por um momento sob uma neblina, mas
ele sabia o que havia visto.
Luther colocou as mã os em volta da boca. — Ei! — gritou com todas
as forças, sua voz atravessando o rio. — Barqueiros!
Por um segundo, pareceu que tudo congelou, entã o os barqueiros
gritaram, tendo ouvido Luther, assim como os piratas. Os vultos escuros
desceram rapidamente pelas laterais do navio enquanto os barqueiros
remavam furiosos em direçã o ao barco violado.
Por um momento, Luther ficou parado, congelado como um idiota,
assistindo a cena se desenrolar, quase como se nã o fosse parte dela, até
que uma mã o grande o empurrou para frente. Um tiro explodiu na
escuridã o.
— Corra, seu menino idiota — gritou o homem que lhe dera a
moeda de seis pence.
Luther percebeu que, além de nã o querer encontrar os barqueiros,
ainda nã o havia recebido o segundo pagamento. Ele correu, seguindo o
homem que se movia surpreendentemente rá pido, considerando sua
forma compacta e o fato de carregar um grande baú de madeira.
O grupo se dividiu, desaparecendo nas vielas e ruas imundas, mas
Luther seguiu seu benfeitor como uma sombra, o homem mais velho
sem conseguir competir com um garoto muito mais jovem e em melhor
forma.
— Aqui — disse o homem, arfando, empurrando uma pesada porta
de carvalho em uma rua estreita. A rua cheirava a imundície e
desespero, e Luther entrou atrá s dele, ansioso demais para fechar a
porta e se livrar do fedor.
Seu companheiro largou o baú que estava carregando, e o som de
metal batendo contra metal ecoou nas laterais de madeira.
— Bom trabalho, garoto — disse o homem, sorrindo para Luther
enquanto se apoiava nas pernas, tentando recuperar o fô lego. — Eu
poderia usar um sujeito como você, se quiser ganhar o seu pã o como
um homem, em vez de um porco, fuçando na sujeira.
Luther enrijeceu, seu orgulho ferido pelo insulto. — Você ainda nã o
me pagou pelo que ganhei esta noite — observou ele. Ele cruzou os
braços, encarando o pirata que nã o era mais alto que Luther, mas tinha
a musculatura e o volume de um homem, nã o de um garoto. Ele nã o
venceria uma luta, mas poderia ser mais rá pido. Aquele baú parecia
estar cheio de... o quê? Ouro? Prata? Nã o eram pregos e rebites de ferro,
isso era certo.
Era uma ideia tentadora. Ele poderia alugar um quarto para o
inverno, manter Ricky e ele aquecidos e alimentados, longe das ruas.
Fora daquela maldita barcaça furada.
O homem riu, um som baixo de diversã o que fez os pelos na nuca de
Luther se arrepiarem.
— É tentador, nã o? — disse ele, com algo que poderia ser simpatia
por trá s das palavras.
Antes que Luther pudesse dar outra respiraçã o para falar, uma faca
estava em sua garganta.
— Se você botar a mã o nesse baú , ou mesmo pensar em pegar o
que é meu, eu te abro de orelha a orelha, meu bom rapaz.
Luther engoliu em seco. A lâ mina era fria contra sua pele, com o
medo uma coisa viva, arranhando sob sua pele, mas ele permaneceu
imó vel, nã o recuou ou implorou, apenas encarou o homem, seu rosto
impassível. Nunca mostre medo, isso ele aprendera muitos anos atrá s.
Sem medo, sem remorso.
O pirata sorriu, aparentemente satisfeito com sua reaçã o. — Frio
como gelo — disse ele, enquanto retirava a lâ mina. — Sim, rapaz. Você
pode me ser ú til. Aqui. — Ele estendeu outra moeda de seis pence de
prata para Luther, que a pegou de sua mã o com uma rapidez
impressionante.
— Quer ganhar mais dessas? — perguntou o homem, enquanto
Luther colocava alguma distâ ncia entre eles, aproximando-se da porta.
— Talvez — respondeu ele, com a expressã o dura e relutante, mas
sem conseguir esconder a curiosidade e a ansiedade em sua voz.
— Já ouviu falá de Black Rule?
Luther sentiu um arrepio de algo frio e, ao mesmo tempo,
incandescente, percorrer seu corpo. Já tinha sido espancado com
urtigas no orfanato vá rias vezes, e a sensaçã o nã o era muito diferente.
Black Rule era um homem e a lei. Diziam que nem mesmo um bolso era
furtado ao longo do rio sem que Black Rule soubesse e quisesse sua
parte.
— Dá pra vê que já . — A diversã o estava impregnada em suas
palavras, e Luther fez mais força para manter o rosto impassível.
— E daí? — exigiu saber ele, tentando parecer despreocupado,
enquanto seu coraçã o subia na garganta, fazendo-o sentir-se enjoado.
— Porque, ocê, meu jovem ladrã ozinho de Tyburn, vai conhecê o
Senhô de Londres.
pré-encomende sua cópia aqui
O Coraçã o das Trevas
Sobre mim!

Comecei essa incrível jornada em 2010 com A Chave Para Erebus,


mas nã o tive coragem de publicá -lo até outubro de 2012. Para quem já
fez isso, saberá que publicar seu primeiro título é uma coisa
terrivelmente assustadora! Eu ainda fico nervosa quando um novo
título é lançado, mas agora esse terror diminuiu, finalmente. Agora, o
meu pavor é quando minhas filhas tiverem idade suficiente para lê-los.
Que pesadelo! (Para todas nó s, na minha opiniã o).
No ano de 2017, fiz minha primeira incursã o no Romance Histó rico
e no mundo do Romance Regencial. Meu Deus, que ano! Fiquei
encantada com a resposta a esta série e mal posso esperar para
adicionar mais títulos. Os leitores de Romance Paranormal nã o
precisam se desesperar, pois há muito mais por vir também. Escrever
tornou-se um vício e, assim que um livro termina, fico extremamente
animada para começar o pró ximo.
Como muitas das minhas obras refletem, sou muito influenciada
pela bela paisagem francesa em que vivo... Moro aqui no Sudoeste
desde 1998, embora tenha nascido e crescido na Inglaterra. Minhas três
lindas filhas sã o todas bilíngues, e eu, meu marido – Pat – e nossos
quatro gatos nos consideramos extremamente afortunados por termos
feito deste lugar tã o lindo o nosso lar.
CONTINUE LENDO PARA DESCOBRIR MEUS OUTROS LIVROS!
Outras obras de Emma V. Leech
Patifes & Cavalheiros

Sé rie – Patifes & Cavalheiros

Damas Ousadas

Sé rie – Damas Ousadas

Filhas Ousadas

Sé rie – Filhas Ousadas

Filhos Ousados
Série – Filhos Ousados

Romances Regenciais de Mistério

Sé rie – Romances Regenciais de Misté rio

A Lenda Francesa dos Vampiros

Sé rie – A Lenda Francesa dos Vampiros

A Lenda Francesa dos Fae


Série – A Lenda Francesa dos Fae
Livros Independentes
A Amante de Livros (uma novela paranormal)
A Menina Nã o está para o Natal (romance regencial)
Audiobooks (títulos disponíveis apenas em inglês)
Nã o tem tempo para ler, mas ainda precisa de uma dose de romance? A
espera acabou...
Depois de muitos pedidos, garanta alguns de seus livros favoritos de
Romance Regencial de Emma V. Leech em á udio, interpretados pelos
incompará veis Philip Battley e Gerard Marzilli. Vá rios títulos disponíveis e mais
adicionados a cada mê s!
Encontre-os na sua loja de audiobook favorita!
Agradecimentos
Agradeço, é claro, à minha editora maravilhosa, Kezia Cole da Magpie
Literary Services. A Victoria Cooper, por todo o seu trabalho duro, sua obra de
arte é incrível e, acima de tudo, sua paciê ncia sem fim!!! Muito obrigada.
Você é incrível!
À minha melhor amiga, assistente pessoal, torcedora de carteirinha
e provedora de chocolate, Varsi Appel, pelo apoio moral, por aumentar
minha confiança e por ler o meu trabalho, mais vezes do que eu. Eu te
adoro!
Muito obrigada a todas as minhas leitoras beta e apoiadoras! Vocês
sã o as melhores!
Eu fico sempre tã o feliz em ouvi-los. Por isso, sintam-se à vontade
para enviar um e-mail ou uma mensagem :)
emmavleech@[Link]
Ao meu marido Pat e à minha família... por sempre se orgulharem de
mim.
As Damas Ousadas que deram início a tudo...
Damas Ousadas — A nova série emocionante de Emma V. Leech, a
multipremiada escritora de romances top 10 da Amazon, por trá s da
série Patifes & Cavalheiros.
Dentro de cada jovem tímida e isolada, pulsa o coração de uma leoa,
uma pessoa apaixonada disposta a arriscar tudo pelo seu sonho, se puder
encontrar a coragem para começar. Quando essas jovens ignoradas
fazem um pacto para mudar suas vidas, tudo pode acontecer.
Doze Mulheres – Doze Desafios Inesperados. Doze histórias de
paixão. Quem ousará arriscar tudo?
Desafiando um Duque
Damas Ousadas – Livro 1

Sonhos de amor verdadeiro e felizes para sempre.


Sonhos de amor sã o muito bons, mas tudo o que Prunella Chuffington-
Smythe quer é publicar o seu romance. O casamento a custo de sua
independê ncia é algo que ela nã o considerará . Tendo experimentado o sucesso
escrevendo sob um nome falso na revista semanal The Ladies, seu alter ego
está alcançando notoriedade e fama e Prue gosta bastante disso.
Um dever deve ser suportado
Robert Adolphus, o Duque de Bedwin, nã o tinha pressa em se casar, ele já
fez isso uma vez e repetir esse desastre é a ú ltima coisa que deseja. No
entanto, um herdeiro é um mal necessá rio para um duque e nã o pode se
esquivar disso. Uma reputaçã o sombria o precede, visto que sua primeira
esposa pode ter morrido jovem, mas os escâ ndalos que a bela, vivaz e
rancorosa criatura forneceu à sociedade nã o a acompanharam. Uma esposa
precisa ser encontrada. Uma esposa que nã o seja nem bonita nem vivaz, mas
doce e sem graça, e que com certeza fique longe de problemas.
Desafiado a fazer algo drástico
O sú bito interesse de um certo duque covarde é tã o desconcertante como
indesejá vel. Ela nã o vai jogar suas ambiçõ es de lado para se casar com um
canalha agora que seus planos de autossuficiê ncia e liberdade estã o se
concretizando. Mostrar claramente ao homem que ela nã o é a jovenzinha
tímida que ele procura, será suficiente para dar fim à s suas intençõ es? Quando
Prue é desafiada por suas amigas a fazer algo drá stico, parece ser a
oportunidade perfeita para resolver dois problemas com uma só soluçã o.
No entanto, Prue nã o pode deixar de ficar intrigada com o patife que
inspirou muitos de seus romances. Normalmente, ele desempenhava o papel
de bonito libertino, destinado a destruir sua corajosa heroína. Mas será
realmente o vilã o da trama desta vez, ou poderia ser o heró i?
Descobrir será perigoso, mas poderá inspirar sua melhor história até hoje.
Desafiando um Duque
Da autora da série best-seller Damas Ousadas – Uma nova sé rie
empolgante com as filhas das Damas Ousadas...
As histó rias do Clube do Livro de Damas Peculiares e seus desafios se
tornaram lendas entre seus filhos. Quando o chapé u é redescoberto,
empoeirado e abandonado, as demais ousam desencadear uma sé rie de
eventos que ecoarã o por todas as famílias... e suas Filhas Ousadas.

Ousando Ser Indecente


Filhas Ousadas – Livro 1

Duas filhas ousadas...


Lady Elizabeth e Lady Charlotte sã o filhas do Duque e da Duquesa de
Bedwin. Criadas por uma mã e nada convencional e um pai indulgente, um
tanto superprotetor, ambas se esforçam contra a rígida moralidade da é poca.

A imagem elegante de uma jovem mansa e fraca, propensa a desmaiar pelo


menos por provocaçã o, é aquela que a faz fervilhar de frustraçã o.
O belo amigo de infância...
Cassius Cadogen, Visconde Oakley, é o ú nico filho do Conde e Condessa de
St. Clair. Amado e indulgente, ele é popular, gloriosamente bonito, e um artista
talentoso.
Retornando de dois anos de estudo na França, sua amizade com as duas
irmã s fica tensa quando o ciú me aumenta. Uma situaçã o nã o ajudada pelos
dois misteriosos franceses que o acompanharam para casa.
E a rivalidade entre irmãs...
Paixã o, arte e segredos provam ser uma combinaçã o inflamá vel, e algué m
sem dú vida pegará fogo.
Ousando Ser Indecente
E apresentando a mais nova série de Emma V Leech, Filhos
Ousados, seguindo as vidas e amores dos filhos das Damas Ousadas.
Aproveite mais uma incursã o no mundo das Damas Ousadas e de
sua prole.
Suas mães ousaram tudo por amor.
Suas filhas fizeram o mesmo.
Algo ousado se aproxima...

Acertando as Contas com o Diabo


Filhos Ousados – Livro 1

Um Filho Ousado...
Alto, moreno e bonito, ridiculamente rico e herdeiro de um título.
Com tantas bênçã os em sua vida, para este Filho Ousado, nã o há muito
sentido em ser mais do que um enfeite. Ou, pelo menos... é isso que
todos acreditam, mas esse homem tem um segredo. Sendo um homem
de sua posiçã o, se alguém descobrisse que ele é o misterioso autor de
Os Fantasmas do Castelo Madruzzo, seria motivo de chacota.
Seu primeiro romance foi um tremendo sucesso, e embora as
vendas tenham sido excelentes, ele está ciente de que nunca mais
atingiu completamente a dinâ mica daquele primeiro livro. Seus leitores
parecem nã o se importar e clamam por mais, mas uma certa crítica
continua a atormentá -lo com críticas ruins. De alguma forma, ela
adivinhou que ele é um nobre e se deleita em encontrar falhas em seus
personagens menos afortunados.
Passar um tempinho disfarçado deve resolver o problema, para
provar a si mesmo e à dama que ele é nada menos que dedicado à sua
arte.
Uma dama a ser levada em consideração...
Como a mais velha – e ú nica sensata – em uma família abarrotada,
Selina Davenport está lutando para manter a sanidade. A ú ltima coisa
que ela precisa é da presença em sua vida de um nobre privilegiado
fingindo ser algo que nã o é. Até parece que ela nã o tinha percebido à
primeira vista que ele nã o era o simples jardineiro que tinha fingido ser.
Que palerma.
Isso nã o significa que ela nã o esteja preparada para se divertir um
pouco à custa dele.
Um jogo que sai do controle...
Mas quando um objeto imó vel encontra um desafio irresistível, as
faíscas estã o destinadas a voar, mas será que elas irã o incendiar tudo ao
seu redor?

Acertando as Contas com o Diabo


Gosta de Romances Regenciais com reviravoltas?
O Lorde Indomável
Romances Regenciais de Mistério – Livro 2

Um homem com um passado


Harry Browning era uma criança de rua ó rfã , e na manhã em que se
deparou com o idoso Alexander Preston, o Visconde Stamford, agarrado
a uma parede rochosa íngreme, ele nã o acreditou no destino. Mas os
destinos têm planos para Harry, quer ele acredite ou nã o, e ele nã o está
inteiramente certo se os aprecia.
Como recompensa por sua bravura, e em um momento incomum de
caridade, o avarento Lorde Stamford o acolhe. Ele é ensinado a ler, a
administrar a vasta e deteriorada propriedade, e a se comportar como
um cavalheiro, mas Harry sabe que isso é algo que ele nunca será
verdadeiramente.
Fugindo de um passado sombrio, seu futuro está se tornando cada
vez mais complexo quando ele se vê preso em uma teia de ciú me e
vingança.
Uma jovem intrépida
A tentaçã o, na forma da encantadora Senhorita Clarinda Bow, é uma
ameaça constante à sua paz de espírito, tentando-o a ser algo que ele
nã o é. Mas quando o velho morre, seu testamento tem uma exigência
surpreendente, e os destinos podem dar a Harry a chance de ter tudo o
que sempre desejou, incluindo Clara, se ele ousar.
E à medida que aqueles próximos à família Preston começam a
morrer, Harry pode não ter escolha.
O Lorde Indomável
Perca-se no mundo paranormal de Emma com a série A Lenda
Francesa do Vampiro...
A Chave para Erebus
A Lenda Francesa do Vampiro – Livro 1

A verdade pode matar você.


Quando criança, é levada para longe para uma vida em que os
vampiros, faes e outras criaturas míticas sã o reais e traiçoeiras. Ao
regressar à França rural, Jéhenne Corbeaux, a bela jovem bruxa, está
totalmente despreparada para viver com a sua excêntrica avó .
Lançada de cabeça em um mundo sobre o qual ela nada sabe,
procura descobrir a verdade sobre si mesma. Nessa jornada, descobre
segredos mais chocantes do que qualquer coisa que jamais poderia ter
imaginado e conclui que nã o é, de forma alguma, impotente para
proteger aqueles que ama.
No entanto, apesar das terríveis advertências de sua avó , é
inexoravelmente atraída pela figura sombria e aterrorizante de Corvus,
um antigo vampiro e mestre da vasta família Albinus.
Jéhenne está prestes a encontrar as respostas que buscava e a
descobrir que Corvus nã o somente é muito mais perigoso do que ela
jamais poderia imaginar, mas também que ele detém muito mais do que
a chave do seu coraçã o...
Disponível na Amazon A Chave para Erebus
Confira a emocionante série de fantasia de Emma, aclamada pelo
Kirkus Reviews como “uma fantasia encantadora com uma heroína
simpática, intriga romântica, e floreios narrativos inteligentes”.

O Príncipe Sombrio
A Lenda Francesa dos Fae – Livro 1

Dois Príncipes Fae


Uma Mulher Humana
E um mundo pronto para separá-los.
Laen Braed é o Príncipe dos Dark Fae, com um temperamento e
uma reputaçã o que combinam com seus olhos negros e um coraçã o que
despreza a raça humana. Quando é enviado de volta, através dos
portõ es sagrados entre os reinos, para recuperar um antigo artefato
Fae, ele volta para casa com muito mais do que esperava.
Corin Albrecht, o mais poderoso príncipe Fae já nascido. Dizem que
seus olhos dourados sã o uma dá diva dos deuses, e o destino o chama.
Com um amor profundo pelo mundo humano, seu relacionamento com
Laen está sendo destruído pelos preconceitos de seu amigo.
Océane DeBeauvoir é uma artista e encadernadora que sempre
confiou em sua imaginaçã o fértil para superar uma vida infeliz e sem
aventuras. Um punhal com joias exposto em um museu pró ximo chega
à s manchetes com especulaçõ es sobre uma outra raça, os Fae. Mas a
descoberta também inspira Océane a criar uma extraordiná ria obra de
arte que nã o pode ser confinada à s pá ginas de um livro.
Com dois homens poderosos disputando sua atençã o e a amizade
deles chegando ao limite, Océane precisa decidir em quem confiar... e
qual deles é realmente o Príncipe Sombrio.
O homem dos seus sonhos está chegando... ou sã o os seus
pesadelos que ele visita? Descubra no primeiro livro da Lenda Francesa
dos Fae.
Disponível na Amazon O Príncipe Sombrio
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[1] A tendê ncia arquitetô nica das follies tem início em meados do sé culo XVIII,
por iniciativa de aristocratas europeus, que tinham em suas propriedades
vestígios do passado histó rico e cultural desses locais. Nesse sentido, eles
decidiam transformar essas ruínas de civilizaçõ es antigas ou locais de batalha
em atraçõ es para visitaçã o. Quando nã o havia uma construçã o previamente
existente, elas eram erguidas artificialmente sem que houvesse um propó sito
específico ou mesmo necessidade para tal construçã o.

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