O DIREITO À CIDADE Henry Lefebvre, São Paulo, Centauro, 2001.

INDUSTRIALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO Noções Preliminares
INTRODUÇÃO A sociedade urbana define a nossa realidade social. Processo de industrialização é o motor de transformação da sociedade, é o indutor, e os induzidos são problemas relativos ao crescimento e planificação, questões referentes à cidade e ao desenvolvimento da realidade urbana, do lazer e da cultura. A cidade é anterior à industrialização e, as criações urbanas mais belas (obra = aquilo que tem valor de uso; produto = aquilo que tem valor de troca) datam de antes da indústria. No processo histórico, a burguesia substitui a aristocracia, e junto com a democracia substitui também a opressão pela exploração, e com isso, substitui a obra pelo produto. TRÊS MOMENTOS NO PROCESSO DE “URBANIZAÇÃO INDUSTRIAL” Destruição da idéia social urbana de cidade pela imposição da realidade econômica industrial; A urbanização e a sociedade urbana se generaliza, identificando-se com a realidade socioeconômica, mas também reconhecendo a necessidade da cidade e da centralidade no processo de composição da sociedade; Reencontro ou reinvento da realidade urbana, buscando-se restituir uma nova centralidade, o centro de decisões. Nasce ou renasce a reflexão urbanística, desnecessária na cidade medieval ou renascentista, quando as pressões do povo ou de uma outra civilização levavam ao investimento em obras urbanas. ACUMULAÇÃO CAPITALISTA NAS CIDADES No processo de consolidação da cidade medieval, quando elas centralizam riquezas e os grupos dirigentes investem improdutivamente parte da riqueza na cidade que dominam, o capitalismo bancário e comercial já se transformou em riqueza móvel – através de circuitos de troca, redes de transferência de dinheiro, fazendo com que a riqueza já não seja apenas imobiliária, pois nem a produção agrícola, nem a propriedade da terra não são mais predominantes. CIDADES DO RENASCIMENTO E DO BARROCO A sociedade em conjunto formada pela cidade, pelo campo e pelas instituições reguladoras de suas relações forma Redes de cidades com uma certa divisão (técnica, soial e política) do trabalho, ligadas por estradas, vias fluviais e marítimas, relações comerciais e bancárias. (O período das conquistas além mar). Este sistema não impediu rivalidades e concorrências, mas é a base do Estado que faz surgir a cidade sobre as demais, a capital. Surge então três termos que se distinguem: a Sociedade, o Estado e a Cidade sendo que esta última conserva sua organização corporativa que vem da aldeia. O contínuo processo de luta de classes, entre riqueza e pobreza, reforça o apego à cidade, arena destes conflitos. Para justificar seus privilégios diante da comunidade, os poderosos gastam suas fortunas em edifícios, palácios, embelezamentos e festas, demonstrando que sociedades muito opressivas foram muito criadoras e ricas em obras. Este processo se modifica com a substituição da produção de obras pela produção de produtos, modificando as relações sociais responsáveis por aquelas obras.

jogado sobre o território e composto por um conjunto de vias. que regulamenta atividades no espaço (ruas e bairros) e no tempo urbano (honorários e festas). que tende a se fixar em uma estrutura imóvel. Descontinuidade entre indústria nascente e suas condições históricas. o tecido urbano pode ser visto: 1) da perspectiva do campo. Exemplos em cidades antigas: Veneza. com o surgimento de favelas onde a industrialização não consegue ocupar e fixar a mão de obra disponível. pouco estudada no que diz respeito à cidade e ao “sistema urbano”. TENDEM A DESTRUIR A CIDADE E A REALIDADE URBANA. A regra é onde existe rede de cidades. se aproxima ou produzir seus centros urbanos. quando assistimos a um processo de concentração da população. são espaços apropriados para festas. urbanização sem industrialização. etc – e sistema de valores: lazeres. gás. com seus sistemas de objetos – água. da televisão. CIDADE E INDUSTRIALIZAÇÃO SE COMPLEMENTAM A indústria se implanta fora da cidade. ampliação das periferias e das redes (bancárias. população migra para Mestre. dos utensílios de plástico. a indústria adequou às suas necessidades. habitado por camponeses sem posses ou arruinados. exigências referentes ao futuro. as qualidades estéticas desempenham um grande papel na preservação. Atratividade recíproca entre industria e cidade. se não transformando a realidade rural. com rápida extensão da aglomeração. provoca expansão urbana. A industrialização exige destruição do sistema urbano preexistente. residência de dirigentes. Cidades que crescem com pouca industrialização em locais da Europa. mão de obra. há fenômenos sócio-culturais que podem diferenciar-se na própria cidade. A PERMANENCIA DOS NUCLEOS URBANOS Nos núcleos dos centros urbanos. infraestrutura e edificações. dos transportes e das trocas comerciais. rompe núcleos antigos. concentração dos meios de produção: ferramentas. oriundos de realidade agrária dependente da industrialização e dos pólos de crescimento mundiais. luz. mobiliário. reserva de mão de obra. Além da base econômica do TU. modas. sendo suporte de um modo de vida urbana. Atenas. de um bairro para outro. espaços e locais de lazer. matéria prima. Simultaneamente. perto de fontes de energia. meios de transportes. pelo menos dividindo-a. Unidade em conflito. as cidades antigas são mercados. tão complexa quanto o sistema industrial. CIDADE E INDUSTRIALIZAÇÃO SE CONTRADIZEM INDUSTRIALIZAÇÃO = CRESCIMENTO = PRODUÇÃO ECONÔMICA X URBANIZAÇÃO = DESENVOLVIMENTO = VIDA SOCIAL. fontes e geração de capitais. não limitado à sua morfologia. por onde a sociedade e a vida urbana penetram no campo. TECIDO URBANO Mais que conjunto físico.TESE: A CIDADE E A REALIDADE URBANA DEPENDEM DO VALOR DE USO. atacando cada cidade. O VALOR DE TROCA E A GENERALIZAÇÃO DA MERCADORIA PELA INDUSTRIALIZAÇÃO. implica mudança radical que se traduz em crise. pois contêm monumentos e sedes de instituições. SISTEMA CORPORATIVO E INDUSTRIALIZAÇÃO O embate entre sistema capitalista bancário e comercial e o sistema corporativo. absorvido pela juventude do lugar e. comerciais. industriais) e de habitação (residências. costumes. acompanhados do carro. esvaziamento demográfico. matérias primas.) TU está ligado ao conceito de um ecossistema. 2) da perspectiva da cidade. mas principalmente América do Sul e África: cinturão de favelas em torno da cidade. . etc.

enxergam apenas seu espaço e a cidade deixa de existir em suas consciências e em sua prática. no conhecimento. às comunicações e às informações. mas seu reinado parece acabar. destruindo a urbanidade. . ao estarem desconectados da cidade. não deixa seu lugar a uma nova realidade nova e bem definida. a menos que se afirme como centro do poder. confrontos de diferenças políticas e ideológicas que coexistem na cidade –. residencial. não atentam que o homem mudou de escala e que a medida de outrora é agora desmedida.. expulsa do centro urbano e da própria cidade o proletariado. moradores dos pavilhões se apóiam no imaginário do habitat. Não hesitaria em arrasar o que resta da cidade para dar lugar aos carros. não desaparece. Tornam-se valor de uso e valor de troca. ocorre a suburbanização. A possibilidade de uma democracia urbana – encontros e desencontros. religioso. As urgências fazem com que a política habitacional se resuma em fazer mais moradias. com pobres ocupando térreo de edifícios com pessoas abastadas nos andares superiores. que emprega riquezas produzidas na cultura. o processo de suburbanização faz desaparecer elementos da realidade urbana tais como ruas. Prática: o núcleo urbano deteriorando. nem natural nem sem vontades. de comunicação. A DEMOCRACIA URBANA Em 1848. intelectual. é também formalismo. gerando empregos do capital e investimentos produtivos – e da sociedade. Intervenção das classes dirigentes – que possuem capital. é uma técnica de circulação. transbordando. termina aí. Por trás dos vazios dos parques e bulevares está a afirmação da glória e do poder do Estado. adoção de modelos pela beleza o que. político. na ideologia. aldeia ou cidade).desfiles. pois ela ameaçava os privilégios da nova classe dirigente. ameaça os ricos. lugar de consumo e consumo do lugar. O ressurgimento do núcleo da cidade como centro comercial ou turístico. que faz dos operários proprietários de suas casas.. monumentos. TENDÊNCIAS DO URBANISMO Urbanismo dos arquitetos e escritores: Humanistas. Urbanismo dos administradores ligados ao setor público: Geralmente. A aceitação do habitat esfuma a consciência da cidade e da realidade urbana. os conjuntos – blocos de apartamentos – não deixam margem para apropriação e plasticidade do habitat. reforça valor da cidade enquanto obra = valor de uso. diversões e produto de consumo para turistas e suburbanos. passeios. praças. no fundo. Ou caem no formalismo adoção de modelos sem conteúdo ou sentido – ou no estetismo. A gestão de Haussmann. entre outras ações. SUBURBANIZAÇÃO E CONJUNTOS HABITACIONAIS Comuna de Paris (1871). A CRISE DA CIDADE Teórica: o conceito de cidade está em curso de transformação e de nova elaboração. no menor tempo e baixo custo. retorno dos trabalhadores ao centro. dá idéia do seu passado como centro comercial. Em ambos casos. Os moradores dos conjuntos se refugiam na lógica do habitat. espaços para encontro. Ao contrário dos pavilhões. econômico. da comunidade. na arte. Através do conceito do HABITAT (divergente do habitar = participar da vida social. periferização da cidade e ocupação do centro. IDEOLOGIA E POLÍTICA DA URBANIZAÇÃO Processo de tomada da cidade pela industrialização.

um sistema unitário e um urbanismo total. outros centros de decisão e de poder. mas a constituição de uma estratégia unitária bem sucedida seria irreparável. consumidores de produtos e de espaço. que se torna valor de troca. como produtores. vendendo agora não mais moradias ou imóveis. . Neste contexto. compondo uma urbanização desurbanizada. ao redor dos quais se localizam periferias dispersas. mas urbanismo.Urbanismo dos promotores de vendas: Que concebem e realizam para o mercado.Da convergência destes projetos podem surgir novas contradições. TENDÊNCIA GLOBAL ESTRATÉGICA? Estas tendências convergem para uma estratégia global. todas as condições se reúnem para a exploração das pessoas. onde se juntam centros de consumo privilegiados.

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