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Bion 2

O documento explora o pensamento de Wilfred Bion, destacando sua abordagem à psicanálise como uma prática instrumental que se concentra na observação e na experiência emocional compartilhada, em vez de se basear exclusivamente em teorias. Bion propõe que o analista deve estar atento às emoções e intuições, permitindo que novas reflexões surjam durante a análise, e utiliza modelos como ferramentas clínicas para facilitar a compreensão da dinâmica entre analista e paciente. A obra de Bion é vista como uma evolução da psicanálise clássica, integrando elementos de Freud e Klein, mas também introduzindo conceitos inovadores que ampliam a prática clínica.

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Bion 2

O documento explora o pensamento de Wilfred Bion, destacando sua abordagem à psicanálise como uma prática instrumental que se concentra na observação e na experiência emocional compartilhada, em vez de se basear exclusivamente em teorias. Bion propõe que o analista deve estar atento às emoções e intuições, permitindo que novas reflexões surjam durante a análise, e utiliza modelos como ferramentas clínicas para facilitar a compreensão da dinâmica entre analista e paciente. A obra de Bion é vista como uma evolução da psicanálise clássica, integrando elementos de Freud e Klein, mas também introduzindo conceitos inovadores que ampliam a prática clínica.

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AULA 2

INTRODUÇÃO AO
PENSAMENTO DE W. BION
(BRITÂNICO)

Prof.ª Silvia Brandt


TEMA 1 – PSICANÁLISE INSTRUMENTAL

Bion criou ou não uma teoria? Essa dúvida divide opiniões dentre os
psicanalistas. Alguns creem que ele apenas trouxe técnicas e instrumentos para
a psicanálise, enquanto estudiosos de Wilfred Bion dizem que sim, ele criou uma
teoria da observação, ou uma psicanálise instrumental.
Alguns dos estudiosos apontam que Bion não se preocupou com os
porquês, mas com a técnica: como observo, o que observo, quais são os
obstáculos daquilo que observo.
A psicanálise chamada de clássica é aquela de autores como Freud,
Ferenczi, Abraham, Klein, entre outros que iniciaram os estudos da área. A
psicanálise surge a partir do estudo da histeria, como um método de exploração
do inconsciente para o tratamento dessa patologia, buscando a ontologia para o
sintoma (trauma).

• Objetivo: responder à pergunta "Por que o sintoma?”


• Psicopatologia: considerando a norma (como deveria ser) e os desvios
(como está), a psicopatologia é o desvio em relação à norma
• Norma: desenvolvimento comum do ser humano

Existem muitas leituras ontológicas de Bion, principalmente as que partem


da visão kleiniana. Para Bion, Freud e Klein são ontológicos, mas não Bion. Por
isso, seria importante compreender Bion, em especial a partir de uma visão não
ontológica, ou seja, a partir da visão de que ele propõe modelos para a criação de
instrumentos clínicos psicanalíticos.
Bion percebe que a teoria não é a melhor ferramenta para descrever uma
sessão terapêutica ou uma situação relevante. Ele acredita que a teoria cega o
analista, pois faz com que passe a buscar a teoria a todo custo, ao invés de
observar a situação real. Assim, ele se questiona: como descrever aquilo que eu
vi?
O modelo de rêverie, de Bion, pode ser considerado ontológico. O bebê
tem alguma experiência sobre a qual ele não consegue pensar. A experiência que
não pode ser pensada é o elemento beta. A mãe tem a capacidade de transformar
o elemento beta em elementos alfa. A mãe, ao ouvir o choro do bebê, busca
entender a situação e entregar ao bebê o que ele precisa. A partir disso, o bebê
passa a entender o que para ele não tinha sentido anteriormente.

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• Elemento beta: o que não tem significado
• Elemento alfa: pode ter significado

A mãe é a primeira que faz a transformação de beta para alfa. Na


sequência, o bebê começa a aprender a fazer isso. Isso pode ser compreendido
como aspecto ontológico – o que se passa entre a mãe e o bebê, que acontece
com todas as mães e todos os bebês.
Sobre a leitura não ontológica, Bion explica que algumas sensações podem
ter significado e outras não. Na clínica, é necessário observar se o analista está
diante de algo que está acontecendo, e que para aquele paciente é pode ter
significado, ou se é algo que não apresenta significado. Para Bion, essa é uma
ferramenta observacional, uma vez que, compreendendo se o fato pode vir a ter
ou não significado, passamos a ter uma noção do caminho que o analista pode
tomar.
Importante entender que Bion chama a atenção para o fato de que nem
tudo que o paciente diz poderá ter significado. Essa é uma das ferramentas que
ele nos ensina, mas Bion também criou outras ferramentas para o analista usar
na clínica.

TEMA 2 – UMA NOVA PSICANÁLISE?

Neste tópico, vamos estudar um artigo de João Carlos Braga (2017),


membro efetivo e analista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São
Paulo/SP e do Grupo Psicanalítico de Curitiba/PR. Segundo o autor, Bion foi alvo
de críticas por parte dos psicanalistas, que o questionavam: o que ele fazia era
psicanálise? Braga (2017) aponta que sim: Bion teve como base a psicanálise e
dela não se afastou, ainda que tenha desenvolvido o seu próprio modo de ver o
homem.
Segundo o próprio Freud, psicanalista é aquele que reconhece “a
importância da resistência ao inconsciente, da transferência e das raízes
genéticas da neurose na infância” (Freud, 1969). Assim, Bion se enquadra no que
chamamos de psicanálise, pois compreende a resistência, analisa-a e traz
contribuições para o conceito.
O objeto de estudo de Freud era a mente, enquanto um de seus
instrumentos era a transferência. Melaine Klein, além da transferência, trabalhou
a teoria da identificação projetiva. Bion, por sua vez, fez uso de instrumentos de

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ambos os psicanalistas anteriores, criando ainda outros, como a grade e a teoria
das transformações.
Considerando que Bion segue a base psicanalítica, então por que a
estranheza? O que Braga (2017) nos diz é que esse pensador desenvolve uma
forma nova de pensar a prática da clínica psicanalítica:

Há uma inflexão metodológica e epistemológica centrando o trabalho


analítico na elaboração da experiência emocional compartilhada na
sessão e assim modificando o estatuto dado às teorias em nossa prática
clínica. Uma vez aceita esta inflexão, o analista não mais toma as teorias
psicanalíticas como geometrias (o modelo do pensamento científico),
deixando de buscar ser um mestre do conhecimento e passado a ser um
explorador renitente em suas próprias experiências clínicas, auxiliado
pelos “diários de viagem” (comunicações) de exploradores (analistas)
anteriores bem-sucedidos. [...] É inevitável nossa necessidade de teorias
para auxiliar-nos a pensar na realidade. O que é evitável é que tomemos
essas teorias como verdades – e não como modelos que nos ajudam a
dar forma ao nosso experimentar a realidade. (Braga, 2017, p. 184)

Em seu texto Transformações, Bion começa a trazer a ideia de duas


dimensões diferentes da mente. A dimensão finita (simbólica) e a dimensão infinita
(o inconsciente). Para ele, a dimensão infinita poderia ser vista na relação
analítica. Braga (2017) analisa que mesmo as dimensões infinitas e
desconhecidas podem ser trazidas para o processo terapêutico pelas
aproximações com a teoria da identificação projetiva. Por isso, Bion sublinha, em
sua teoria, a importância de “ser” do analista. Ele acredita que o analista se
alicerça nas teorias, precisa conhecê-las, mas também esquecê-las quando for
ouvir o paciente, para que possa permitir o que ainda não se sabe, ou ainda
permitir que pensamentos que ainda não surgiram se façam presentes.

2.1 Intuição psicanaliticamente treinada

Bion traz a provocação de que, antes de usar a teoria como sustentação


da clínica, devemos partir da intuição de um psicanalista treinado. Ou seja, o
analista deve estar atento às observações, para que as teorias anteriormente
apreendidas e internalizadas possam ser um campo confiável, ainda que não
sejam o guia da experiência com o paciente.

Desde 1965, Bion nos propõe a importância psicanalítica da dimensão


do tornar-se um com a realidade (-> infinito), para além da dimensão do
aprender com a experiência (-> finito). Alcançado esse ponto, o analista
sustenta suas próprias pré-concepções, não mais importando quais
teorias psicanalíticas privilegiou. Então, já não serão as teorias
consolidadas que sustentam a clínica, mas sim a condição do analista
de ser a pessoa que é, agora acrescido o vértice analítico, na
investigação da realidade psíquica. (Braga, 2017, p. 186)
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Fato é que Bion tem como base, para a sua prática, as teorias psicanalíticas
de Freud e Klein, mas adiciona a elas contribuições que surgem a partir de sua
experiência, ampliando dimensões da psicanálise e criando uma forma tão sua de
pensar e atuar, de modo que hoje podemos revisitar os seus predecessores, tendo
como ponto de partida a obra bioniana.

O modelo, então, para a relação analista-teoria psicanalítica poderia ser


o da necessidade que temos de uma família para poder-nos desenvolver
como indivíduos. Se este desenvolvimento ocorre em um tempo
adequado, adquirimos identidade e vida própria. Nesse caso, muda a
relação do indivíduo com a família em que cresceu; as teorias, tão
fundamentais em nossos inícios, foram assimiladas em nosso modo de
pensar e de sermos analistas. E não mais serão as teorias a sustentar a
nossa clínica, mas sim a condição pessoal do analista assumindo uma
postura de constante exame e elaboração das experiências que está
vivendo. Ser analista passa a ser a pessoa que se é, mantendo o vértice
analítico. (Braga, 2017, p. 189)

Bion traz algumas mudanças importantes:

• A experiência emocional no momento terapêutico


• O analista é parte integrante do processo terapêutico

Quando o analista se detém no conhecimento simbólico, perde os


significados das emoções, criando um campo finito, que não permite que venha à
tona aquilo que a consciência ainda não alcançou, mas que está na nascente das
emoções. Ou seja, as emoções trazem informações que ainda não se
transformaram em conteúdos cognitivos e reconhecidos. Ao tentar enquadrar
apenas o que surge no campo do verbal, não permitimos ouvir tais informações,
ou ainda barramos as informações antes mesmo que elas surjam como ideias
cognoscíveis, com possibilidade de serem expressas no campo do verbal.
A partir do momento em que entendemos que o ser do analista faz parte
da análise, é importante permitir que as emoções e as imagens (ou intuições)
sejam bem-vindas. O analista, quando vinculado com o paciente, pode, em sua
escuta e observação, perceber elementos que ainda não falam ao campo do
verbal, pois surgiriam no formato de intuição. Quando o analista traz esse
conteúdo de modo aberto, novas situações e reflexões podem surgir em análise.
Não obstante, como descreve Braga (2017, p. 191) “o movimento de ficar
em um campo de observação infinito demanda tolerância a paradoxos, como a
validade de múltiplas possibilidades de aproximações à experiência.”

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TEMA 3 – MODELO

Bion recorre ao que ele chama de modelo para mediar a reflexão sobre as
teorias. Para ele, modelos são histórias inventadas, fantasiosas, mas que trazem
uma maior possibilidade de reflexão e compreensão da teoria de que partimos.
Em O aprender com a experiência (1962), Bion afirma que o modelo é a abstração
da experiência emocional, ou a concretização de uma abstração. Segundo
Zimermann (2008, p. 49), “pode-se verificar, ao longo de toda a sua obra, o quanto
Bion utiliza-se de modelos biológicos, místicos, matemáticos, entre muitos outros,
sob a forma de histórias, de metáforas, de equações, etc.”
Segundo Bion, o uso de um modelo é eficaz por devolver o sentido do
concreto para uma investigação que pode ter perdido o contato com o seu pano
de fundo, por meio da abstração e dos sistemas dedutivos teóricos associados.
Podemos compreender melhor o que Bion queria com o conceito de modelo a
partir de uma fala que fez em 1980 (p. 13):

Agora queria começar a referir-me aos modelos. São apenas estórias


imaginárias, idealizadas com o propósito de que exerçam uma porção
de efeitos psicológicos sobre nós, no sentido de ajudar-nos a ter uma
ideia sobre uma teoria, uma ideia mais abstrata, porém que, não
obstante, se mantém a uma distância reconhecida com respeito ao que
podemos enfrentar em um consultório.

Zimermann (2008) nos explica que o modelo é uma construção que


combina duas ou mais imagens concretas. Ele é construído com elementos do
passado do indivíduo. Vale ressaltar que modelo e teoria não são, de modo algum,
a mesma coisa. A teoria se constitui a partir de e para um paradigma que deverá
servir por um longo período de tempo, enquanto os modelos são efêmeros e
servem como ferramenta clínica, devendo ser utilizados somente quando
puderem contribuir para o processo terapêutico. Após o uso, devem ser
descartados.
Na abstração, ao contrário dos modelos, em que o foco está nos
elementos/fatos da realidade e em imagens visuais, os elementos reais não
assumem tanta importância, já que o foco principal está nas preconcepções do
futuro do sujeito.
Segundo Zimermann (2008), Bion utilizou modelos para mostrar a relação
entre vínculos e identificação projetiva, tanto nos protótipos mãe x bebê, quanto
na dinâmica analista e analisando. Vejamos (Bion, 1980, p. 13):

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Em primeiro lugar, vou propor um modelo para uma identificação
projetiva falha que, segundo sustentam nossas teorias, segue um certo
rumo e é causa de adversidade para o paciente. O lactente experimenta
o temor de estar morrendo e chora.
A mãe reage com angústia e diz: “Não sei o que é que se passa com
esta criança”, e tende a pôr distância entre ela mesma e a criança que
chora; seja na realidade concreta, seja psicologicamente, ela não está
disposta a tranquilizar a criança. Este é um modelo da situação em que
a criança dissocia uma parte de si mesma – seu temor de morrer – e,
chora para colocá-la em sua mãe, porém, essa parte é recusada e
colocada novamente na criança. Como já disse, o modelo é: “Não sei o
que se passa com esta criança” e também ansiedade e impaciência
como resposta.
Agora, como modelo para a identificação projetiva de êxito, suponhamos
um tipo de mulher afetuosa e maternal normal e uma criança que
também chora por temor à morte. A mãe leva a criança ao colo, sorri
afetuosamente e diz: “Bem, bem, não é para tanto” e poucos instantes
depois a criança também sorri e aceita voltar novamente para o berço.
Segundo a teoria pela qual suponhamos que isto é um modelo, o lactente
dissocia seu temor à morte, como sugeri, e o coloca no seio de sua mãe,
esta o desintoxica, e a criança recupera um temor, leve. Agora, bem,
suponhamos que, por alguma razão, a mãe afetuosa e amorosa não está
ali, seja por que não ama o filho ou porque sente alguma angústia, ou
talvez porque a criança é particularmente perturbada e sente temor da
mãe, ou seja, o tipo de caso que ocorreria com um bebê psicótico. No
modelo para esta situação, se poderia dizer que acriança experimenta
temor porque sente que está morrendo, dissocia esse temor e o coloca
no seio; porém, neste caso, suponhamos que haja algum problema de
hostilidade, seja no bebê, ou na mãe, que estraga a fantasia onipotente
e impede que o seio desintoxique o temor. Aqui se tem a sensação de
que esse objeto mal despoja as projeções do bebê, em forma ávida,
invejosa e hostil do significado que pode ter tido. Assim, o temor de
morrer que a criança sente se pode colocar no seio materno, mas
quando o recupera já se trata de um temor inefável, em outras palavras,
o que se coloca no seio materno, o temor da morte, foi despojado
inclusive do significado que tinha e se converteu, como disse,
simplesmente em um terror sem nome. Essas são três situações
totalmente imaginárias, não tenho a menor ideia do que é que pensa um
bebê e não creio que alguma pessoa a tenha, e a cada um de nós, só
nos resta imaginar sua própria versão. Porém, o importante desses três
quadros é o fato de que proporcionam uma gama de imagem visual que
permite compreender um pouco mais essa teoria tão abstrata.

Uma das vantagens de um modelo, de acordo com Bion, consiste em que


os seus dados, já familiares para o psicanalista, estão disponíveis para satisfazer
qualquer necessidade urgente, interna ou externa. Ao construir o seu próprio
modelo, o psicanalista precisa se dar conta de qual é o modelo usado pelo seu
paciente e pô-lo a descoberto. Então, poderá comparar o seu próprio modelo e a
sua abstração com aqueles do analisando, observando, por exemplo, se o modelo
que está sendo vivido na situação analítica é de natureza biológica, de tipo
alimentar, excretório, respiratório ou muscular, ou se é de natureza mística, o que
Bion chamava de dimensão do “como se”, e assim por diante.
Além do modelo do sistema digestório (por exemplo, a introjeção, a
absorção e a expulsão dos elementos psicanalíticos), Bion cita outros, dentre os

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quais os mais importantes são: o sistema respiratório, ao qual se liga o sistema
olfativo; o sistema auditivo, ao qual se ligam transformações, tais como música e
ruído; e sistema visual.
Mas por que é importante pensar nos modelos de Bion e citar os principais?
Em especial porque ele usa modelos para explicar a forma como pensa e vai
construindo a sua teoria. Por exemplo, quando usa o modelo digestório para
explicar o aparelho de pensar (a mente). O autor afirma que esse processo de
construção do aparelho de pensar acontece em similaridade com o aparelho
gastrointestinal: o alimento entra em nosso corpo por meio da boca, aproveitam-
se os nutrientes e o que não serve é expulso/evacuado pelo ânus. Assim é com o
aparelho de pensar: um gatilho chega ao campo mental do sujeito, desperta uma
emoção, pode ser que uma parte se transforme em elemento alfa, pensamento,
mas os elementos protomentais (elementos beta) são evacuados.
Zimerman (2008, p. 50) descreve:

Um outro modelo digestório utilizado por Bion é o da “fome”. Nesse caso,


a fome é associada à imagem visual de um seio que não o satisfaz, mas
que, por ser necessitado, torna-se um objeto “mau”. Nesse modelo de
“fome”, todos os objetos que se apresentam como necessidade são
objetos maus, porquanto eles impõem o suplício de Tântalo. Se o
indivíduo necessita deles, é porque, na realidade, ele fica à mercê de um
outro. Igualmente, nesse modelo, a necessidade do alimento leite deve
ser equiparada à necessidade de “amor”, e é importante que não se
confunda a existência deum “seio bom” – nutridor – que esteja ausente,
com a de um “seio mau” – não-nutridor – e ausente, porque foi
“evacuado”.

Além dos modelos citados, existem outros. Dois dos mais importantes são
o continente e conteúdo e a grade.

TEMA 4 – TEORIA DO PENSAR: ELEMENTO ALFA

O pensamento em busca do pensador: O pensar passa a existir para dar


conta dos pensamentos. Bion segue a base freudiana, de processos primários e
secundários na formação psíquica do bebê. No período autoerótico, para Freud,
o bebê busca a satisfação (prazer), mas se encontra com a realidade. Ela vai se
impondo. A imposição da realidade sobre o princípio do prazer é um processo
constituinte do aparelho psíquico e de sua capacidade de elaboração ou
subjetivação. Ali começa a separação dos mundos internos e externos.
Como a realidade se impõe? Nos momentos em que o bebê precisa
esperar, ou seja, em que o bebê está com fome, mas a mãe precisa se organizar

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para amamentar, o bebê está com frio, chora, mas precisa aguardar que a mãe
traga o cobertor.
O bebê de fato não busca o prazer, mas foge do desprazer.

• Princípio do prazer: processo primário


• Princípio da realidade: processo secundário

Bion, a partir desse conceito, cria termos importantes para a sua teoria:
elemento alfa, função alfa e barreira de contato, elemento beta, função beta e
pantalha beta. Para Bion, o ato do bebê de buscar a satisfação por meio do seio
é uma pré-concepção. Todos os humanos apresentam essa capacidade.
Concepção é quando o bebê encontra o seio. A espera, então, é a
realidade. Pelo princípio do prazer, buscamos fazer tudo o que desejamos, mas
pelo princípio da realidade precisamos aprender a esperar e a tolerar as emoções
que surgem quando nos deparamos com limites.
O princípio da realidade gera a possibilidade de adiar a descarga pulsional.
Nessa espera, desenvolve-se a capacidade de tolerância. O indivíduo que tem
intensidade em sua pulsão de morte, ou seja, em seus aspectos destrutivos,
apresenta maior dificuldade de tolerar a frustração. Bion chama a experiência de
frustração de experiência de não-seio, termo que advém da teoria kleiniana. Klein
fala de seio bom e seio mal, e assim Bion correlaciona o não-seio com aquilo que
eu não tenho, aquilo que eu quero, aquilo que eu preciso. Quando você suporta a
experiência do não-seio, cria-se o que Bion chama de protopensamento.
Protopensamento é o início do aparelho de pensar, ou função alfa.
Aparelho para pensar é o aparelho que digere emoções, transformando
elementos. Surge por conta de uma necessidade: eu preciso tolerar uma
frustração. Eu tolerei a frustração, gerei uma semente, agora preciso pensar o que
é isso, o que é e o que faço com essa semente.
As experiências humanas são brutas, de prazer e dor. Se o indivíduo tem
a possibilidade de tolerar a frustração advinda dessas vivências, ele cria o
aparelho de pensar, a função alfa, que como já vimos lhe dá a possibilidade de
refletir sobre a emoção, transformando tais experiências brutas em experiências
mais sofisticadas, sendo necessário compreendê-las e não gerar elementos beta.
À medida que desenvolvemos cada vez mais o aparelho de pensar, nossas
emoções e nossas experiências, desenvolvemos também o intelecto, a
capacidade reflexiva, sonhar mais e ter pensamentos oníricos.

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Vejamos agora o modelo do aparelho digestivo. Os alimentos são
oferecidos ao bebê de modo gradual, iniciando com o leite e introduzindo na
sequência alimentos sólidos, batidos, amassados etc., até chegar a alimentos
mais pesados (churrasco, feijoada etc.).
Primeiro, surge o alimento, e a partir de então o corpo precisa desenvolver
o aparelho digestivo. O mesmo pode ser visto no aparelho de pensar: primeiro
surge o alimento, a experiência que permite a frustração. Com ela, vem a
necessidade de criar o meio digestivo dessa emoção, o aparelho de pensar.
A princípio, a criança lidará com frustrações pequenas: frio, fome, sujeira.
Ao crescer, as frustrações se tornam maiores. Não obstante, mesmo adultos, há
situações que exigem cada vez mais o desenvolvimento do aparelho de pensar.
Quando não há tolerância a um determinado alimento, o corpo o põe para fora de
alguma forma (vômito, diarreia). O mesmo ocorre com nosso aparelho de pensar:
o que não foi digerido, o que não conseguiu ser pensado, sairá. O que sai é o
elemento beta.

4.1 Elementos alfa e beta

Bion estudou matemática e se afeiçoava a essa ciência. Por isso, o autor


traz vários conceitos e nomeações dessa área para a sua teoria. Uma dessas
nomeações é a função alfa, nome que ele usa para batizar o aparelho de pensar.
Segundo Bion, se a pessoa consegue tolerar a frustração, ela gera uma semente
para começar a pensar. Nesse sentido, o pensamento é fruto de frustração. Assim,
quanto mais a pessoa consegue tolerar a frustração, maior a possibilidade de
gerar pensamentos sobre as emoções, de pensar e viver as experiências.

Não seio -> protopensamento -> formação do aparelho para pensar

Quando uma emoção oriunda de uma situação de frustração atinge um


nível tal que o ego do indivíduo não dá conta de suportar, dificilmente surgirá o
aparelho para pensar (por exemplo, o ódio). Na clínica, uma de nossas funções
enquanto psicanalistas bionianos é auxiliar o paciente a aprender a tolerar a
frustração, para que possa desenvolver pensamentos.
Contudo, se o paciente não consegue suportar a emoção destrutiva que
surge pela falta de tolerância à frustração, a experiência que está sendo vivida
não poderá ser refletida, pois não gerará pensamento – ao contrário, se
transformará em protoelementos, que serão chamados de elementos beta.

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• Frustração: ódio que o Ego pode suportar -> protopensamentos (elemento
alfa) -> novas experiências refletidas
• Frustração: ódio que o Ego não consegue suportar -> elementos beta ->
descarregados

Elementos beta geram desconforto e agitação, não permitindo que o


protopensamento surja. Eles precisam ser postos para fora, descarregados.
Existem três modos de descarga dos elementos beta:
• Agitação motora: gestos
• Atuações: actings
• Somatizações (por exemplo: enxaqueca)

4.2 Barreira de contato

Conforme o indivíduo vai experenciando as emoções, suportando as


frustrações, gerando protopensamentos e compreendendo as experiências – ou
seja, a partir da função alfa (aparelho de pensar) – são produzidos elementos alfa,
que juntos constituem a barreira de contato.
A barreira de contato, para Bion, tem uma função importante, pois ela
separa o que é consciente do que é inconsciente, assim como a fantasia da
realidade. Podemos dizer que o conjunto de elementos alfa forma a barreira de
contato e permite que o indivíduo tenha uma sensação de integração, ou seja, de
estar em contato com o ambiente, compreendendo a diferença entre o eu e o
externo.

4.3 Pensamento onírico

Capacidade de refletir sobre as vivências e os fatos de modo mais


emocionado e sonhador, com a possibilidade de ter ideia e de nos tornar criativos.
É diferente do pensamento concreto ou binário: isso é isso, certo ou errado.

TEMA 5 – TEORIA DO PENSAR: ELEMENTO BETA

Como vimos, quando a frustração não é tolerada, ou seja, quando o ódio é


tamanho que o ego não é capaz de suportar, a emoção não será digerida,
tampouco transformada em pensamento. Assim, precisará ser posta para fora, o
que leva à formação de um conjunto de elementos beta, que são insuportáveis e
angustiantes, gerando um terror sem nome. Podemos dizer que o desconforto é
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tal que a pessoa não consegue nomear a emoção, de modo que precisa por aquilo
para fora.
Para descarregar, existem alguns caminhos:

• Agitação motora: a pessoa fica muito agitada fisicamente


• Actings: pessoa atua
• Somatizações corporais

5.1 Elemento beta

Elementos primitivos e caóticos, sem forma, que não conseguimos nomear.


De acordo com Bion, os elementos beta se juntam dentro da mente do indivíduo,
como se houvesse um íman, formando a pantalha beta. A pantalha beta é
diferente da barreira de contato que é formada pelos elementos alfa, pois não
apresenta a função de diferenciar consciente/inconsciente ou fantasia/realidade.
Ao contrário, a pantalha beta, por ser uma mistura caótica, leva o indivíduo muitas
vezes a agir a partir do caos, das fantasias e das idealizações onipotentes, como
se aquilo fosse realidade, o que o leva a agir no mundo, com uma conduta de
acordo com essa situação vivenciada em seu mundo interno. Aqui, podemos
pensar em um funcionamento predominantemente psicótico, sem distinção entre
fantasia e realidade.
Os elementos beta, a princípio, não são pensáveis. Eles são
descarregados, razão pela qual muitas vezes precisamos de um outro para
receber, acolher, conter, digerir e devolver essas descargas, para que elas
possam começar a ser pensadas pelo indivíduo. Essa é uma das funções do
psicoterapeuta: a partir da identificação projetiva, conter, digerir e devolver, de
modo que a mente do paciente possa digerir, pensar e viver aquela emoção,
permitindo que o paciente perceba as suas emoções, a fim de aprimorar o seu
aparelho de pensar, para que aos poucos consiga suportar as frustrações.
Quanto maior o ódio da pessoa em resposta a uma frustração, mais difícil
será pensar as emoções. Por isso, é importante que o terapeuta observe o nível
de tolerância à frustração do indivíduo, o nível de ódio, a força da pulsão de morte
da pessoa.

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5.2 Funções no processo de desenvolvimento

Bion chama a atenção para duas funções importantes dentro do processo


de desenvolvimento, seja da mãe com o bebê, ou do analista com o paciente. A
função continente e contido contém o conteúdo do outro. Fala sobre a capacidade
de continência, ou seja, a capacidade de tolerar as frustrações. Já a função rêverie
é a capacidade de sonhar, de transformar os elementos. Bion fala da habilidade
de captar os elementos que vêm à mente quando ouvimos a história de um
paciente. Esses elementos, que são para ele os sonhos, podem ser um filme, uma
música, uma imagem, uma palavra, uma sensação etc.
Ao perceber o sonho, o analista pode oferecer ao paciente uma metáfora.
Fala então da capacidade do analista de perceber os elementos que ainda não
conseguem ser pensados pelo paciente, uma vez que o aparelho de pensar ainda
está em processo, naquele momento, para aquela situação.

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REFERÊNCIAS

BION, W. R. O Gênio e o Establishment. Revista Gradiva, n. 20, 1980.

BRAGA, J. C. O legado de Bion: um novo paradigma para pensar a psicanálise.


J. psicanal., v. 50, n. 92, jun. 2017.

FREUD, S. Sobre o Narcisismo. In: _____. Obras completas: edição Standard


Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. XIV.

ZIMERMAN, D. E. Da teoria à prática : uma leitura didática. 2. ed. Porto Alegre:


Artmed, 2008.

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