0% acharam este documento útil (0 voto)
1K visualizações583 páginas

Kristen Ashley - Wild West MC 03 - Smooth Sailing (Rev) R&A

O livro narra a história de Harlan 'Hugger' McCain, que se junta ao Chaos Moto Clube e se vê dividido entre sua nova família e seu passado conturbado. Ele se envolve com Diana Armitage, uma mulher que busca mostrar a ele que ele pertence ao clube e merece amor. A narrativa se passa em um universo interconectado de romances sobre motoclubes, onde cada história é independente, mas entrelaçada com personagens de livros anteriores.

Enviado por

judece.braeuner
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
1K visualizações583 páginas

Kristen Ashley - Wild West MC 03 - Smooth Sailing (Rev) R&A

O livro narra a história de Harlan 'Hugger' McCain, que se junta ao Chaos Moto Clube e se vê dividido entre sua nova família e seu passado conturbado. Ele se envolve com Diana Armitage, uma mulher que busca mostrar a ele que ele pertence ao clube e merece amor. A narrativa se passa em um universo interconectado de romances sobre motoclubes, onde cada história é independente, mas entrelaçada com personagens de livros anteriores.

Enviado por

judece.braeuner
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

SOBRE O LIVRO

Quando o Chaos Moto Clube bateu à sua porta, Harlan “Hugger” McCain não
estava pronto para ser acolhido como parte da irmandade. Disseram que ele era
um legado. Mas ele se sentia um estranho.

Ainda assim, vestiu o colete.

E mergulhou de cabeça nas missões do clube - que estavam longe de serem


completamente fora da lei.

Isso o levou até Phoenix, diretamente para a órbita de Diana Armitage, uma mulher
de olhos verdes, linda e generosa, com um talento assustador para se sacrificar por
quase todos que ama... e até por aqueles que mal conhece.

Hugger apenas existia. A vida nunca lhe deu muito e, agora, ele esperava ainda
menos.

Diana, por outro lado, vivia intensamente. E não fazia questão de esconder que
queria arrastar Hugger com ela nessa jornada.

Mas Hugger tinha certeza de que carregava um sangue ruim. Um pé dentro do


Chaos, outro fora. Um pé na vida de Diana, outro fora.

Agora, ela e seus irmãos de clube têm uma missão desafiadora: mostrar a Hugger
quem ele realmente é.

Que ele pertence ali.

E que merece ser amado.


Nota sobre o universo Wild West MC
—Às vezes você precisa de uma estrada muito torta para colocar a cabeça no
lugar.—

~ Desconhecido ~

A série Wild West MC são romances escritos sobre três motoclubes: Aces High, Chaos e
Resurrection.

O Chaos MC foi introduzido na minha série Dream Man e teve sua própria série que agora
está concluída. Abrangeu seis livros e três novelas.

Intercalado nesta série, haverá muita tradição que se refere às histórias de Tack e Tyra
(Motorcycle Man), Tabby e Shy (Own the Wind), Hop e Lanie (Fire Inside), Joker e Carissa (Ride
Steady), Millie e High (Walk Through Fire), Hound e Keely (Wild Like the Wind), Rush e Rebel
(Free), Snapper e Rosalie (Rough Ride), Dutch e Georgie (Wild Fire) e Jagger e Archie (Wild Wind).

A série Chaos se passa em Denver, Colorado.

É importante observar que a série Chaos não foi apenas um spinoff da minha Dream Man
Series, Dream Man foi um spinoff da Rock Chick Series.

O Aces High MC foi apresentado com a história de Clara e Buck, Still Standing. A irmã de
Buck, Sheila, é a old lady de Dog, outro membro do Chaos MC.

Aces High está situado em Phoenix, Arizona.

Resurrection, que anteriormente era um clube de motocicletas chamado Bounty, foi


mencionado na série Chaos, mas primeiro ocupou o centro do palco em Rough Ride. A decisão
deles de se tornarem Resurrection foi explicada em Free. Esse livro também contém a história de
amor de Beck e Janna.

Embora o Resurrection esteja sediado em Denver, eles fazem seu trabalho em qualquer lugar
que seja necessário.
O universo Wild West MC vai saltar entre esses três clubes.

Smooth Sailing é o terceiro romance da série e é dedicado ao Chaos MC.

Escrevo esta nota porque, por mais que eu tente tornar cada história independente para os
leitores, nesta série em particular, há tanta coisa que aconteceu antes, é impossível não se referir
a ela. Sem mencionar que meus leitores leais esperam os ovos de páscoa para que possam ver os
personagens com quem passaram um tempo nos romances anteriores.

No entanto, estou bem ciente de que novos leitores podem pensar: ‘Quem é Tack?’

Dito isso, não quero atolar a narrativa com muitas informações sobre a história que
abrange, essencialmente, mais de vinte livros.

Espero que novos leitores voltem e descubram todas essas histórias.

Mas eu não queria te decepcionar com o que você tem em mãos. Eu queria que você
soubesse que eu considerei onde você está com esta história, e fiz o meu melhor para mantê-la
junto de uma maneira que você não se perca, sem cobri-lo com informações que não têm a ver
com o contando a história de Core e Hellen.

Espero que tenha funcionado.

Obrigado por ler!

Rock on!

-Kristen
Prólogo
CADEIRAS VELHAS
Big Petey

Não muito tempo atrás…


Quinta-feira à noite

O bar não era o pior que Pete já tinha frequentado, mas também não era o
melhor.

Mas era um bar, um lugar movimentado, e confusão acontecia em bares - se


fossem cheios, decadentes ou nenhum dos dois.

E a confusão estava prestes a começar.

Foi por isso que ele se enrijeceu, e Rush, sentado à sua frente em um reservado
no fundo do bar, fez o mesmo.

Eles tinham visto o idiota no banco do bar dar uma passada de mão na mulher
que passava com as amigas. Tinham visto a reação negativa dela àquele toque
indesejado.

E tinham visto que Harlan McCain também não deixou passar.

Agora, Harlan, que era o segurança do bar, estava se aproximando.

Pete sabia que Harlan também notara que o cara no banco não estava sozinho.
Ele tinha um grupo com ele.

E aquele bar tinha um único segurança.


Harlan.

Isso não impediu o homem de ir direto até o tal Banco de Bar e trocar algumas
palavras com ele.

Sem surpresa, a conversa não foi bem recebida.

Mesmo que Harlan parecesse agir de maneira calma e racional, a situação


rapidamente saiu do controle. O sujeito levantou do banco e, sem mais nem menos,
empurrou Harlan com as duas mãos. E o segurança nem sequer tentou impedir.

Os amigos do sujeito também se levantaram e cercaram o segurança.

Harlan deu um passo para trás com o empurrão, mas só isso.

Ainda assim, continuou falando.

Banco de Bar ficou cara a cara com ele, e não parecia que estavam discutindo
sobre o tempo.

Harlan manteve a compostura e, quando o outro finalmente calou a boca,


continuou falando, fazendo gestos claros com a cabeça e as mãos - o tipo de sinal
universal que dizia: A porta da frente é por ali. Saiam.

Mas Banco de Bar, fosse por estar bêbado, fosse por ser burro, ou talvez pelos
dois motivos, recuou um passo e ergueu o braço para dar um soco.

Isso fez Pete se preparar para agir.

Também fez Harlan se esquivar e, enquanto desviava, agarrou o sujeito pela gola
da camisa e pela parte de trás do cós da calça jeans, arrastando-o direto até a porta
da frente e jogando-o para fora.

Os amigos dele o seguiram, e seus rostos cerrados e a linguagem corporal


deixavam claro o que pretendiam fazer quando chegassem lá fora.

Pete e Rush saíram do reservado no mesmo instante.


Harlan era um cara grande. Alto. Forte. E a musculatura dele não era só definida -
era volumosa.

Se soubesse usar sua força, seria capaz de dar um golpe devastador.

Se não soubesse, poderia acabar lento. Vulnerável.

Mas quatro contra um nunca era uma boa proporção para ninguém, não
importava quão bom fosse na briga.

Foi por isso que Pete e Rush se esgueiraram rapidamente pelo bar até a porta e
saíram.

Rush era jovem, ágil e sabia como lidar com uma situação dessas.

Pete, por outro lado, já tinha passado há muito tempo da fase de entrar em
brigas.

Droga, ele já precisava se preparar só para se levantar da cadeira. Seus joelhos


estavam ruins. Suas costas doíam quase todos os dias. O pescoço ficava rígido com
facilidade. Até os quadris doíam mais do que ele gostaria de admitir. O frio o deixava
travado. Ele tomava ibuprofeno como se fosse acionista da empresa.

A simples ideia de dar um soco, ou pior, levar um, fazia seu estômago se revirar.

Mas aquilo envolvia Harlan.

E Harlan era filho de Jackie.

Então, se fosse preciso, Pete aceitaria ser esmurrado até o chão.

Rush saiu pela porta primeiro, Pete logo atrás. Mas assim que chegaram lá fora,
ambos pararam no mesmo instante.

Banco de Bar estava estirado de costas no asfalto, aparentemente apagado.

Um dos amigos dele estava curvado, com uma das mãos no rosto, sangue
escorrendo entre os dedos enquanto gritava:
— Você quebrou meu nariz, seu desgraçado!

Outro estava de joelhos, segurando suas partes íntimas com as duas mãos,
exibindo uma expressão que qualquer homem entenderia sem precisar de tradução.

O último estava recuando de Harlan, as mãos erguidas em rendição.

— Bom… merda, — Rush sussurrou.

Isso resumia bem a situação.

Levou quanto tempo para eles chegarem ali? Meia dúzia de segundos?

Impressionante.

— Banidos. — A voz grave e áspera de Harlan soou, seu olhar fixo em Mãos Para
Cima.

— Você acabou de ganhar um processo — ameaçou Mãos para Cima.

— Tem câmeras por toda parte, cara. Elas registraram aquele gênio — Harlan
inclinou a cabeça na direção do homem caído no chão — aprontando suas
palhaçadas no bar. Pegaram ele se recusando a sair quando ficou claro que não era
mais bem-vindo aqui. Pegaram ele me empurrando e se preparando para me
acertar. Aqui fora, pegaram a mesma coisa, e depois aquele professor — outro
movimento de cabeça em direção ao que estava sangrando — pulou nas minhas
costas. — Harlan indicou com a cabeça na outra direção. — E aquele ali tentou se
meter também. Agora me diz, que juiz vai olhar pra isso e ver um palhaço agarrando
a bunda de uma mulher, se recusando a sair quando mandado, vocês quatro
partindo pra cima de um cara só, e ainda dar um centavo pra vocês num caso onde
eu estava apenas me protegendo e protegendo as mulheres do bar, algo que, aliás,
faz parte do meu trabalho?

Antes que Mãos para Cima pudesse responder, Harlan continuou:

— Nenhum juiz. Pode confiar em mim, eu faço isso há um bom tempo. Agora
junta teus amigos e cai fora. E nem pensa em voltar. Banimento vitalício.
Mãos para Cima ajudava Nozes Esmagadas a se recompor enquanto soltava
insultos.

— Esse bar era uma porcaria mesmo.

— Ainda bem que não vai sentir falta — murmurou Harlan.

Mãos para Cima, Nariz Sangrando e Nozes Esmagadas arrastaram Banco de Bar,
que começava a recobrar a consciência, colocando-o de pé, enquanto lançavam
olhares furiosos para Harlan. Pete percebeu que, frequentemente, eles desviavam a
atenção para Rush, que estava próximo, mas não exatamente ao lado de Harlan.

Eles ignoraram Pete. Mas, para ser sincero, até ele sabia que não era uma ameaça
tão grande assim.

Harlan permaneceu imóvel. O mesmo fizeram Rush e Pete, observando os quatro


se dirigirem a um SUV.

E continuaram parados enquanto o veículo saía do estacionamento.

Assim que o carro sumiu, Harlan se virou para eles.

Ele lançou um olhar para Rush, mas seu foco se fixou em Big Petey.

— Se eu quisesse entrar, teria ido direto para o Complexo cara.

— Você anda de moto — respondeu Pete.

Os ombros largos de Harlan subiram e desceram.

— Muitos homens andam de moto. Isso não significa que eles têm um patch.

Verdade.

Mas ele era filho de Jackie.

— Está na hora — afirmou Pete.

Harlan balançou a cabeça.


— Eu não sou do tipo que se junta a grupos.

— Joker também não, mas é um irmão. Snapper é igual — disse Pete. — Não se
trata de se juntar, filho. Trata-se de família.

Harlan tinha um cabelo bagunçado, loiro-acinzentado, e uma barba cheia e


espessa, que não decidia se queria ser loira ou castanha, com até alguns fios negros
disputando espaço.

Mesmo assim, Pete conseguiu ver seus lábios se comprimirem no meio daquela
barba ao ouvir a palavra “família”.

Pete já estava velho demais para essa merda.

E estava cansado.

Sobreviveu a duas guerras com seu clube. Perderam homens, tanto para a morte
quanto para a desonra. Colocaram suas vidas em risco. Viram suas mulheres em
perigo.

Pessoalmente, ele assistiu sua única filha, sua linda garota, definhar por causa do
câncer.

Mas ele precisava fazer isso. Precisava encontrar forças.

Isso precisava acontecer.

Por Harlan.

Por Jackie.

Então, Pete jogou seu trunfo.

— Ela queria que você estivesse conosco, Harlan — disse ele, baixando a voz. —
Você sabe disso. Sabe, filho. Eu ouvi ela dizer isso com todas as palavras.

Até aquele momento, Harlan mantinha contato visual direto.

Mas assim que aquelas palavras saíram da boca de Pete, ele desviou o olhar.
E Pete soube que tinha acertado.

Sabia que Jackie morreu desejando isso para seu filho. Queria que ele tivesse
propósito, estabilidade, irmandade.

E ela morreu sem vê-lo conseguir isso.

Rush entrou na conversa.

— Olha, você não precisa decidir agora. Vamos fazer um encontro no sábado.
Começa à uma da tarde. Aparece quando quiser. É AAF... assim, você vai sentir como
é estar entre nós. Vai poder tomar uma decisão com mais certeza.

E vamos sentir como é ter você entre nós - ele não disse isso, mas Pete sabia que
era parte do plano.

Rush era jovem demais para entender.

Mas Tack sabia. Hound, Hop, Dog, Brick, High, Arlo, Boz... todos sabiam.

Eles todos sabiam.

Rush não sabia.

Pete havia contado a ele, mas, ainda assim, ele não sabia.

Harlan já fazia parte deles.

A tensão no peito de Pete diminuiu um pouco quando Harlan perguntou:

— O que é AAF?

— Apenas Amigos e Família — respondeu Rush.

Agora, o contato visual com Rush era direto. Intenso. E durou um tempo.

Por fim, Harlan disse:

— Veremos.
Tanto ele quanto Rush sabiam que aquilo era o máximo que conseguiriam.

Deixaram por isso mesmo e seguiram até suas motos.

Veriam no sábado.

E, da parte de Pete, ele teria esperança.

E toda essa esperança era por Jackie.

Diana

Alguns anos antes da visita de Big Petey e Rush ao bar...

Isso estava realmente acontecendo?

Essa merda estava mesmo acontecendo?

Eu empurrei. Eu empurrei de novo. Eu mordi. Eu arranhei.

E eu gritei.

Todos tinham ficado surdos?

Era tarde, mas uma mulher gritando não era o suficiente para acordar pelo
menos uma pessoa? Sem falar que estávamos em um dormitório universitário.
Metade dos moradores não dormia antes do amanhecer - isso se dormissem.

Mas ninguém apareceu.

E isso estava acontecendo.

Eu não podia deixar que acontecesse.


O problema era que, quanto mais tempo aquilo durava, mais eu sentia que
estava entrando em um estado de torpor. A descrença estava sumindo, o medo
aumentando, ele era obviamente mais forte do que eu, e a esperança de conseguir
escapar estava se esvaindo. E, por alguma razão maldita, minha mente decidiu
simplesmente desligar.

De repente, vi uma oportunidade e não hesitei. Levantei o joelho com toda a


força que consegui e atingi seus testículos com um impacto brutal.

Ele grunhiu, gemeu e rolou para o lado, agarrando a virilha. Num instante, rolei
para o outro lado, saindo da cama estreita do meu dormitório, onde ele havia me
forçado.

Quando consegui me firmar sobre os pés, percebi o quanto estava ofegante. Eu


conseguia sentir meu coração martelando dentro do peito, minha pele formigando
com a onda de adrenalina e medo.

E, sem pensar em mais nada além de garantir que ele estivesse completamente
incapacitado, soquei sua virilha com toda a força que pude reunir.

Foi um golpe baixo, mas pelo amor de Deus, o cara estava tentando me estuprar.

Seu gemido foi carregado de dor enquanto ele se encolhia, assumindo a posição
fetal.

Corri para fora do quarto, pelo corredor, até a porta da supervisora do


dormitório.

Bati com força, enquanto meu coração continuava disparado e minha respiração
saía em arfadas explosivas.

Ela abriu a porta e piscou para mim, sonolenta.

Claro, provavelmente todo o dormitório já estava acordado—mas essa mulher,


essa mulher tinha dormido.

— Você não me ouviu gritando? — exigi. — Meu colega de estudo acabou de


tentar me estuprar!
O rosto dela empalideceu. E, mesmo no meio da adrenalina, do pânico, da raiva,
do medo e do choque que ainda me dominavam, vi a sucessão de emoções
passando por sua expressão.

Surpresa. Preocupação. Raiva.

Mas também incômodo.

Isso seria um incômodo para ela.

Sério?

— Agora é a hora de chamar a segurança do campus — informei.

— Certo... — murmurou. — Entre.

Entrei.

Sentei-me na beirada da cama dela.

Foi quando comecei a tremer.

Tremores violentos.

Catastróficos.

Droga.

Nunca tinha sido atacada sexualmente.

E esperava nunca mais passar por isso.

Não foi tão horrível quanto poderia ter sido, mas ainda assim foi terrível.
Assustador.

Sentada ali, eu sabia que aquilo mudaria minha vida para sempre.

O que eu não sabia era que, de fato, mudaria.

Mas de maneiras que eu jamais poderia imaginar.


Harlan

Vários anos após o ataque a Diana...


Sábado

Harlan estava afastado da multidão, sentado em uma cadeira de resina branca no


pátio atrás da Ride, a loja de autopeças, e em frente à outra parte da Ride, a
garagem de customização de carros e motos, localizada nos fundos da propriedade
do Chaos Moto Clube.

Ele estava no Chaos.

De novo.

Embora fosse a primeira vez em mais de uma década.

Não.

Mais de duas.

Harlan não queria gostar do que aquela cadeira de resina representava.

Mas ele gostava.

Era o tipo de cadeira que se comprava por vinte dólares (se tanto) no Walmart.

Aqueles homens, com seus negócios – tinham lojas de autopeças espalhadas por
todo o Colorado – estavam ganhando muito dinheiro. As personalizações feitas na
garagem eram tão impressionantes que já tinham saído em várias matérias de
revistas.
Sua mãe colecionou cada uma delas, guardadas com cuidado em pequenos
plásticos protetores.

Agora, ele as tinha.

Mas aquela cadeira não era apenas barata, tinha sido comprada em grande
quantidade (porque havia várias espalhadas pelo lugar). Estavam arranhadas,
desgastadas e, claramente, estavam ali há muito tempo.

Ninguém se preocupava em substituí-las.

Sem frescuras, sem pretensões.

Cadeiras de resina brancas. Um homem na churrasqueira – que estava longe de


ser nova (e que claramente já tinha visto muitos anos de uso) – fritando
hambúrgueres, linguiças e cachorros-quentes. Pratos de comida trazidos pelos
convidados cobrindo uma mesa. Tanta comida que, se o dobro dos AAFs aparecesse
nessa festa, ainda sairiam de barriga cheia. Barris com gelo e chopeiras. Coolers
gigantes cheios de cerveja, refrigerante e água, com as garrafas saindo para fora.
Música tocando.

Era metal.

Era alto.

Mas não tão alto a ponto de impedir uma conversa ou de ouvir o que os outros
diziam.

Crianças correndo por todo lado.

Muitas crianças.

Por toda parte.

E mulheres.

Foram elas que o desconcertaram.


Algumas usavam roupas caras – tão caras que até ele conseguia perceber isso –
mas de um jeito casual. Nos pés, sandálias de salto plataforma que também não
eram baratas... e ainda assim, tinham um ar despojado.

Outras eram old ladies por essência e vestiam isso com orgulho – jeans,
camisetas da Harley e joias de prata.

Cristo... uma delas usava um vestido fofo, tinha uma cascata de cachos loiro-mel
e parecia uma maldita líder de torcida.

E todas estavam ali, misturadas, rindo juntas, conversando com as cabeças


próximas, formando uma irmandade clara dentro daquela fraternidade.

Harlan era muito jovem da última vez que esteve ali. Sua mãe estava
desesperada. Ele não se lembrava de muita coisa, só da sensação de impotência,
porque ela estava numa situação da qual ele não podia salvá-la.

Mas se lembrava de como aqueles homens a trataram diferente de praticamente


qualquer outra pessoa.

Ela estava vulnerável.

Eles a tornaram segura.

Seu olhar vagou até Tack Allen, depois para Hopper Kincaid e, por fim, para
Hound Ironside.

Sim...

Com Big Petey, eles a mantiveram segura.

Ele ainda sentia a mudança entre o passado e o presente.

Era exatamente o que Pete disse que era.

Era o que sua mãe contou que Tack estava construindo.

Era uma família.


Ele ouviu o som de uma cadeira sendo arrastada e olhou para o lado, vendo
Rush, filho de Tack Allen - e seu legado1, já que agora era presidente do Clube,
posição que antes pertencia a Tack - empurrando outra cadeira branca, velha e
desgastada, em direção a Harlan.

Quando a posicionou onde queria, Rush se sentou e se recostou, testando a


resistência da cadeira de um jeito que Harlan, que devia pesar pelo menos uns vinte
e cinco quilos a mais que ele, jamais cogitaria fazer. Rush tomou um gole de sua
cerveja e manteve os óculos escuros da Oakley apontados para o pátio.

— Está entendendo? — Rush perguntou.

— Como não? — Harlan respondeu.

— Ninguém precisa saber — Rush garantiu.

Era um dia tranquilo. Ensolarado. O outono estava chegando, mas o clima ainda
estava ótimo. Ele já tinha comido uma linguiça e um hambúrguer, além de uma das
melhores saladas de batata caseiras que já havia provado. E aquelas eram, sem
dúvida, boas pessoas.

Ele não queria se irritar.

— Não tenho vergonha disso — afirmou, tenso. — Minha mãe também não
tinha.

Rush olhou para ele e repetiu:

— Ninguém precisa saber.

Foi então que ele entendeu.

1
Um Legado é alguém que carrega o nome ou a história de um clube por sua linhagem, tendo um
status especial dentro da hierarquia.
Se entrasse para o Clube, faria parte da irmandade, mas isso não significava que
eles o possuíssem. Não significava que teriam cada parte dele. Não significava que
ele lhes devia porra nenhuma.

Ele entraria do jeito que quisesse. Daria o que estivesse disposto a dar. E ambos
eram escolhas dele.

Harlan precisava admitir que estava surpreso com isso.

Ainda mais vindo de Rush.

— Então, como isso funciona? Pelo que sei desse meio, quando você entra, é
para sempre — questionou.

— Você passa um tempo como novato — Rush explicou. — Aviso: vai ser uma
merda. Mas não é sobre humilhação, e sim sobre dever. Lealdade. Compromisso.
Quando os irmãos decidem que você já passou tempo suficiente, ganha seu patch.
Durante esse período e depois que se tornar um membro oficial, trabalha na loja ou
na oficina. Recebe como qualquer outro irmão, uma porcentagem da arrecadação
mensal. Só que, como novato, ganha menos. Depois de oficializado, recebe o
mesmo que todos.

Mais uma surpresa.

— Igualdade?

— Ninguém é melhor que ninguém no Clube, Harlan.

— Não importa o tempo de casa?

Rush balançou a cabeça.

— Não importa nada, a não ser se você é um novato ou um irmão oficial.

— E é só isso?

Um sorriso surgiu nos lábios de Rush Allen.


— Você nunca foi um novato. Ser um novato é uma merda. Ficar à mercê de um
monte de babacas que podem estar no clima de te encher o saco não é fácil.

Isso não parecia nem um pouco divertido.

— Você passou por isso?

Rush ergueu o queixo.

— Todo mundo passa. Até um legado, como você.

Isso também o surpreendeu.

E também o atingiu em cheio.

Harlan tomou outro gole da cerveja, desviou o olhar e murmurou:

— Não sou legado, cara.

— Acho que Pete, meu pai, Hop, High, Hound, Arlo e Boz discordariam.

— Eles foram bons para ela — Harlan disse baixinho.

— Somos bons para muitas pessoas, cara. Se decidir me deixar te apadrinhar,


descubra por si mesmo.

Harlan apontou com a cabeça para o pátio.

— Preciso dizer que, pela vida que levei, isso tudo parece bom demais para ser
verdade.

— O que você precisa saber é que Big Petey compartilhou só o básico. Nada
além disso. O resto é seu para contar ou guardar para si — Rush respondeu.

Harlan achou isso interessante.

Rush continuou:

— Não é que não tenhamos regras, só que não são muitas. Também temos
estrutura. Existe uma hierarquia, mas não para mandar em ninguém. É para manter o
equilíbrio e a ordem. Aqui é uma democracia. Todo homem com um patch tem
direito a voto, e seu voto vale tanto quanto qualquer outro. Mas novatos também
têm voz, e todos nós temos ouvidos. Eles podem não votar, mas são escutados.

Harlan assentiu, reconhecendo que estava ouvindo Rush, e ele prosseguiu:

— E falando claro: nada de drogas. Maconha, beleza. É legal. Qualquer outra


coisa, problema. Você faz o que quiser, mas se arrumar uma mulher e fizer merda
com ela, se tiver filhos e ferrar com a vida deles, ou se mexer com a irmandade, isso
vai ser um problema. E o Clube vai resolver. Você vai ter a chance de se explicar, mas
não vai ter escolha a não ser acatar a decisão dos irmãos.

Nada daquilo era um problema para Harlan.

Ele voltou a encarar Rush.

— Gosto do meu trabalho.

— Eu entendo. Ação.

Mas não era isso. Rush não entendia.

Pelo menos não agora.

Talvez nunca.

— Se entrar, vai aprender que a gente não se limita a administrar uma loja e
construir carros fodas — Rush informou.

E, mais uma vez, Harlan se surpreendeu. Sua mãe havia lhe dito que eles tinham
largado toda aquela vida.

— Fora da lei? — perguntou.

Os lábios de Rush se curvaram de novo.

— Não do jeito ruim — ele respondeu, tomando mais um gole da cerveja.

Harlan fez o mesmo.


Mas dessa vez, sentiu que algo nele tinha mudado.

Cadeiras velhas.

Uma festa de comida compartilhada.

Risadas de crianças misturadas ao riso de homens e mulheres e ao som do metal.

As "regras" eram simples: sem drogas e tratar bem suas mulheres, filhos e irmãos.

E era isso.

"Não do jeito ruim" de fora da lei.

Harlan tomou mais um gole da cerveja e se recostou.

Porque... sim.

Harlan estava interessado.

Muito interessado.

Diana

Alguns anos antes da conversa entre Harlan e Rush...


Mas ainda assim, em um sábado.

A administradora da faculdade saiu do escritório, lançou-me um olhar que não


consegui decifrar e, então, disse:

— Seu pai quer ter uma conversa com você. Você pode usar meu escritório.
Ela sorriu um sorriso tenso, e esse eu consegui decifrar.

Quando Nolan Armitage quer ter uma conversa com você, você aparece no fim
de semana para tê-la. Se ele quer uma conversa particular com a filha, você cede seu
escritório para que ele a tenha.

Ao passar por ela, murmurei:

— Desculpe.

Não consegui me conter. Era um hábito. Sempre fazia isso quando meu pai se
envolvia.

Ela não disse nada e fechou a porta atrás de mim.

Meu pai estava de pé, e, quando me pegou mais cedo para me trazer até aqui,
soube que ele não estava para brincadeiras. Era fim de semana, e ele vestia um terno
completo, sob medida, do tipo "olhem para mim, sou importante!".

— Bem, isso saiu caro — ele soltou, ríspido.

Fiquei confusa.

— O quê? — perguntei.

— Resolver sua situação exigiu uma doação… e foi cara.

Minha… situação?

Balancei a cabeça.

— Pai, eu não⁠...

— Felizmente, ainda estamos no início do semestre. Eles vão te remover da


turma que você divide com aquele jovem…

Aquele jovem?

Não aquele cretino que atacou minha filha no dormitório?


— … e você será matriculada novamente no semestre que vem — ele continuou.
— Além disso, essa situação será apagada e não constará no seu histórico… nem no
dele. Será como se nunca tivesse acontecido.

Minha boca se abriu enquanto meu peito se esvaziava. Eu não conseguia


acreditar no que estava ouvindo.

— Sério, Diana — meu pai prosseguiu. — O que você tinha na cabeça ao estudar
até tarde com um rapaz que deixou claro que tinha uma queda por você? É óbvio
que ele interpretaria aquela situação de um jeito específico.

Ah, não.

Não, não, não.

Merde!

Eu ia começar a chorar.

Lágrimas de raiva.

Lágrimas de muita raiva.

E talvez gritar.

Alto.

Mas eu não podia fazer nenhuma das duas coisas. Aprendi isso.

Ah, como aprendi.

Eu precisava ser forte, inteligente e ambiciosa, sempre me esforçando e ocupada


com o que realmente importava. Embora as lágrimas não fossem proibidas, eram
desencorajadas e só consideradas aceitáveis em situações específicas.

E essas circunstâncias não incluíam confrontar meu pai.

— Ele concordou em se manter longe de você — meu pai informou. — Sugiro


que faça o mesmo.
— Bom, sim, pai, eu vou fazer isso, já que ele me atacou! — rebati.

— Diana...

— Você está me dizendo que não veio aqui para garantir que, no mínimo, esse
predador fosse expulso da instituição? E que, além disso, não fez nada para
assegurar que ele fosse preso e acusado? Em vez disso, facilitou as coisas para ele e
agora sou eu que tenho que mudar minha rotina para evitá-lo?

— Escute bem — ele disse naquele tom que conhecia tão bem, aquele "temo
que você seja burra demais para entender, mas vou tentar explicar mesmo assim". —
Você não tem muita experiência com homens⁠...

Cortei na hora:

— Já namorei bastante, pai, e nenhum dos caras com quem saí me jogou na
cama e tentou arrancar minha roupa.

Dou o braço a torcer: quando disse isso, ele estremeceu.

Mas se recuperou rápido.

— Eram garotos do ensino médio — rebateu. — Não eram homens.

Como se garotos do ensino médio não pudessem ter os mesmos impulsos.

Ele estava louco?

— Sou uma estudante do segundo ano — lembrei. — E não me fiz de freira no


primeiro.

— Diana...

— Então, o que você está dizendo é que agora que lido com homens, não posso
mais estar segura no meu próprio espaço? Tenho que me preocupar com o que
algum idiota pode sentir em relação a transar comigo ou não? Mas ele não precisa
se preocupar com o que eu sinto sobre isso? Não pode simplesmente, sei lá, usar as
palavras para expressar o que quer e perguntar, ao invés de me atacar para pegar à
força?

— É assim que o mundo funciona — ele disse, friamente.

Ah, sim.

Eu não podia acreditar que estava ouvindo isso.

Mas deveria. Esse era meu pai. Nolan Armitage. O exemplo perfeito do advogado
frio, obcecado por poder, ganancioso, viciado em trabalho, que conseguia tudo o
que queria por qualquer meio necessário. E o que ele queria, obviamente, era
dinheiro e poder. Todo o resto - sua filha, suas esposas (sim, no plural, embora não
ao mesmo tempo) - não tinha importância.

Sem mencionar que ele foi o homem que reduziu minha mãe a pó.

Ainda assim, eu não conseguia acreditar.

Achei que já sabia lidar com ele. Achei que havia construído barreiras suficientes
para não sentir mais essa dor.

Mas a vida está sempre ensinando novas lições.

E a de hoje doía como o inferno.

— Você faz ideia de como eu fiquei apavorada? — sussurrei.

Ele suavizou… um pouco.

Mas não o suficiente. Nem de longe.

E provou isso com o que disse em seguida:

— Você precisa aprender a se proteger.

— Eu estava protegida. No meu dormitório. Com gente dos dois lados e do


outro lado do corredor. Em um estudo com um cara que eu mal conhecia, ou seja,
obviamente, eu não queria que ele rasgasse minhas roupas.
— Você mal o conhece e o deixou entrar no seu quarto?

— Eu não estou sendo julgada aqui, pai — retruquei. — Guarde suas manobras
de tribunal para revitimizar as sobreviventes de agressão que seus clientes ricos
pagam para livrar da culpa.

O rosto do meu pai se endureceu.

— Isso foi desnecessariamente cruel.

Encarei-o.

Ele me lançou um olhar severo.

Ele realmente não enxergava o que estava acontecendo ali, o que tinha
acontecido comigo, sua filha, e o que ele estava fazendo comigo, sua filha.

Ele simplesmente não via.

Mas eu via.

Ah, sim, eu via perfeitamente.

Cristalino.

Eu não devia ter perdido tempo erguendo barreiras.

Devia ter usado esse tempo para planejar uma fuga.

— Acabou — declarei.

Meu pai assentiu.

— Sim, acabou. Jantaremos cedo, e depois eu volto para Phoenix.

— Não, eu quis dizer que acabou de verdade.

Seus olhos se estreitaram.

— O quê exatamente?
— Você — abri os braços. — Isso. Tudo isso.

Ele soltou um longo suspiro.

— Por favor, seja clara, Diana. Foi muita gentileza da Srta. Bainbridge nos deixar
usar o escritório dela, mas não podemos ficar aqui o dia todo.

— Eu vou largar a faculdade.

Um rubor de raiva subiu pelo pescoço dele.

— Você não vai — afirmou categoricamente.

— Você está pagando por isso, e eu não quero mais nada de você. Então, até
que eu possa arcar com os custos, estou fora. Também estou fora de casa. Vou
morar com a vovó e o vovô.

Seu lábio se curvou em desdém.

— Esse não é o momento para fazer birra, Diana.

As palavras dele me trouxeram uma sensação repentina.

Não era calma. Era frieza. Mas eu a aceitei completamente.

— Eu não tenho cinco anos, tenho dezenove — lembrei-o. — Sou oficialmente


adulta. Posso votar. Posso servir ao meu país. Então, não se engane. Eu não estou
fazendo birra. Estou tomando uma decisão e seguindo com ela.

— Isso é um absurdo. Algo desagradável aconteceu com você, e você está sendo
exageradamente emocional.

— Posso te garantir, com cem por cento de certeza, que até você passar pela sua
própria agressão sexual, não tem o direito de julgar o nível de emoção de quem
sobreviveu a uma. Além disso, o que aconteceu comigo não foi desagradável. Foi
aterrorizante. Foi chocante. Foi inconcebível. E foi criminoso. Você é um estudioso da
lei, mas, mais do que isso, é meu pai. E o fato de você facilitar a vida daquele
desgraçado, permitindo que ele saia impune pelo que fez comigo — o que pode
significar que ele fará isso com outra pessoa — é simplesmente impensável.

— Uma dama não fala palavrões.

Meu Deus!

Foi nisso que ele se concentrou em tudo o que eu disse?

— É mesmo? — perguntei.

— O certo é sim... e sim, você sabe disso, porque já te falei inúmeras vezes que
não aceito esse tipo de linguagem vindo da minha filha.

— Então escuta bem, pai. Eu não sou uma dama. Sou uma mulher. E posso falar
do jeito que bem entender.

Me inclinei para frente, olhando diretamente nos olhos dele, e disparei:

— Então vai se foder, pai.

Sem esperar resposta, saí do escritório da Srta. Bainbridge.

Ela estava do lado de fora. Seus olhos pousaram em mim imediatamente, e a


suavidade e preocupação neles quase me fizeram desmoronar.

— Obrigada — murmurei e saí dali o mais rápido possível.

Eu me permitiria desabar em outro lugar.

Não ali.

Não naquele momento.

Não com ele por perto.

Mais tarde.

Mas não por muito tempo, porque eu precisaria me reconstruir, me fortalecer e


me manter firme para que ele não me destruísse também.
Isso era certo.

Isso era necessário.

Eu precisava de uma educação. Precisava pensar no meu futuro.

O que eu não precisava era dever nada àquele homem.

Alguns poderiam achar loucura ou até estupidez, mas estariam errados.

Essa era a decisão mais inteligente que eu já tinha tomado em toda a minha vida.

Harlan

Atualmente...

Rush estava errado.

Ser um novato no Chaos MC não era um trabalho tão difícil assim.

Hugger e sua mãe passaram por momentos complicados - alguns apertados,


outros assustadores - então, desde pequeno, ele já cozinhava, limpava e ajudava a
mãe na lavanderia. Conseguiu seu primeiro trabalho, pago por fora, aos onze anos.

Ao longo da vida, carregou mais barris de cerveja do que poderia contar, limpou
vômito e sangue, levou socos e os retribuiu, foi menosprezado, subestimado,
enganado.
Servir uma cerveja para um irmão quando ordenado e levar para casa as garotas
do clube2 bêbadas não era nenhum sacrifício.

Claro, havia tarefas bem mais pesadas - e muitas delas - mas eram coisas que
precisavam ser feitas.

Hugger aprendeu cedo que, se algo precisa ser feito, é melhor simplesmente
fazer. Não perder tempo tentando jogar a responsabilidade para outra pessoa nem
procurando o jeito mais fácil de cumprir a tarefa. O certo era se envolver e fazer o
serviço direito.

Depois, seguir em frente.

Cumpriu seu tempo como novato, foi pago por isso (o que, convenhamos,
tornava aquilo apenas um trabalho ruim), até ser oficialmente aceito no clube.
Agora, ganhava muito mais, e isso não era nada ruim.

E a irmandade valia a pena.

Eles eram como aquelas cadeiras velhas e gastas que Hugger precisou empilhar
mais de uma vez quando era um prospecto.

Todos ali eram como ele.

Marcados. Arranhados. Desgastados. Mas ainda de pé, cumprindo seus papéis.

E esses papéis, como ele aprendeu ao longo dos anos, envolviam ser bons
maridos, bons pais, bons irmãos e manter os negócios prósperos - principalmente
para garantir que suas famílias também estivessem bem.

Era isso.

Havia outras atividades em que poderiam se envolver, mas a escolha era


individual.

2
Garota do clube é uma versão mais suave e menos pejorativa, usada para se referir a mulheres que
gostam do estilo de vida MC sem compromisso sério, geralmente como uma groupie ou acompanhante
casual.
Hugger aceitou isso desde o começo.

Ele suspeitava que todos no clube sabiam quem ele era, de certa forma. Com
certeza, os irmãos mais velhos sabiam.

Mas ninguém se metia em sua vida. Ninguém pressionava por mais do que ele
queria oferecer. Simplesmente o deixavam ser quem era.

Claro, tiravam sarro dele, como ao dar-lhe o apelido Hugger3, justamente


porque ele não gostava de contato físico - exceto quando estava na cama com uma
mulher. Depois do sexo, definitivamente não era do tipo que ficava abraçado. Se ela
passasse a noite, cada um ficava no seu lado da cama. Se tentasse invadir o espaço
dele, ele a colocava de volta onde deveria estar. Se insistisse, ou ele saía, ou ela saía.

Nunca perdeu tempo tentando entender isso. Era óbvio.

Ele e sua mãe sempre foram uma equipe de dois.

Fim de papo.

Quando sua mãe morreu, ele ficou sozinho. E estava bem com isso. Não
procurava deixar ninguém entrar.

Até encontrar o Chaos.

Mas como ali não havia pressão, nem imposições, ele estava tranquilo com isso
também.

Ao atravessar a área do bar no Complexo - um lugar desgastado pelo tempo,


mas cheio de vida - sentiu aquela familiaridade que o atingiu na primeira vez que
voltou ali. E isso não tinha nada a ver com o fato de já ter estado lá antes.

Ele se dirigiu à sala de reuniões dos irmãos.

Tinha sido convocado.

3
A palavra "Hugger" em inglês significa alguém que abraça, ou seja, uma pessoa que gosta muito de
abraçar os outros.
Ao entrar, não se surpreendeu muito ao ver que apenas Rush e Big Petey
estavam sentados à mesa grande, com a bandeira do Chaos protegida sob um
tampo de acrílico.

Rush, porque era o presidente e se envolvia em tudo que dizia respeito ao clube.

Pete, porque tentava se tornar uma espécie de figura paterna para Hugger desde
que ele entrou como prospecto.

Hugger não se incomodava com isso. Pete era um cara decente.

Mas ele também não incentivava.

Aquilo não tinha nada a ver com laços familiares dentro do clube.

Era outra coisa.

A maioria dos irmãos não hesitava quando o Resurrection MC - outro clube de


Denver, também conhecido como Anjos da Vingança, e, por razões bem
justificadas, Anjos da Morte - pedia ajuda em suas missões de justiça própria.

Havia muita história envolvida nisso. História entrelaçada com o Chaos. Hugger
aprendeu tudo quando era novato.

E tinha sentimentos contraditórios sobre o Resurrection.

O que eles fizeram no passado, que os colocou nessa busca interminável por
redenção, era algo que ele jamais perdoaria.

Não aconteceu com ele. Foi muito antes do seu tempo.

Mas aquilo foi imperdoável.

Ainda assim, ele sabia que todos os homens daquele clube estavam nessa
jornada eterna de redenção - e nenhum deles desviaria desse caminho.

Então, havia isso.


Hugger ergueu o queixo para Rush e Pete em cumprimento. Eles retribuíram. Ele
então tomou seu lugar à mesa.

Tinha uma ideia do que se tratava aquela reunião.

E quando Rush falou, viu que estava certo.

— A situação em Phoenix precisa de atenção. Conversei com Beck. Ele está


mandando Muzzle e Eightball para lá. Eles não pediram nossa ajuda, mas eu não
gosto da investigação que aquele jogador específico está fazendo no Vale do Sol4.
Estão desenterrando histórias do Chaos que deveriam permanecer enterradas. Não
sei qual é a dele com a gente e o Resurrection, mas ele está ligando os pontos.
Quero um dos nossos lá também.

— Estou dentro — Hugger respondeu sem hesitar.

Beck era o presidente do Resurrection, também conhecido pelo nome do clube,


Washington - ou simplesmente Wash. Muzzle e Eight eram irmãos daquele grupo.

Rush e Pete trocaram um olhar.

Pete foi quem falou:

— Esse cara que você vai investigar é problema sério.

Hugger assentiu.

— Imran Babić. Gângster bósnio. Enfia o dedo em tudo que pode, desde que seja
ilegal. Além disso, é completamente insano. Pra você ter uma ideia, ele mexeu com a
mulher do presidente do Aces High MC.

— Você sabe ouvir bem, mas isso a gente já sabia — Pete retrucou. — Mas,
recentemente, as coisas começaram a dar errado para esse cara.

— Sem surpresa. Ele mora no sul, e não estou falando do Arizona — respondeu
Hugger.

"Vale do Sol" (Valley of the Sun) refere-se à região metropolitana de Phoenix, que inclui cidades
4

como Scottsdale, Mesa, Tempe, Glendale e Chandler.


— Ele foi preso recentemente e pagou fiança depois de um estupro brutal —
disse Rush.

Hugger permaneceu completamente imóvel.

— Ela está destruída. Mas prestou queixa — continuou Rush. — Isso o torna
vulnerável. E do tipo de vulnerável que vai fazer de tudo para resolver a situação.

A voz de Hugger saiu rouca quando ele perguntou, forçando as palavras:

— Ela tem proteção?

— Isso faz parte do que Muzz, Eight e você vão cuidar.

Ah, sim.

Ele estava dentro.

— Eu vou junto — declarou Big Petey.

Hugger manteve a boca fechada sobre a participação de Pete, mas não gostou
da ideia.

Para começo de conversa, o homem não era jovem.

E, além disso, não estava bem.

Quando alguém nunca te pressionava, te deixava ser quem você era e sempre
estava ao seu lado, você retribuía.

Então, o fato de Pete não ter falado nada sobre estar perdendo peso, se
movendo mais devagar e, às vezes, parecer distraído, significava que todos tinham
que engolir a preocupação e deixar que ele lidasse com isso do jeito dele.

Mas Hugger sabia que não era o único irmão preocupado.

Por isso, foi Rush e ele que trocaram um olhar após as palavras de Pete, mas,
além disso, não disseram nada.
Pelo menos, não sobre isso.

— Tem um pequeno obstáculo nesse plano — Rush prosseguiu.

— É mesmo? — incentivou Hugger.

— Ela já tem proteção. Uma mulher chamada Diana Armitage.

Ah, merda.

— Uma mulher? — perguntou Hugger.

Sem desmerecer. Mulheres sabiam fazer o trabalho.

Mas uma única mulher contra um gângster bósnio com um grupo enorme não
eram boas chances.

Rush confirmou com um aceno de cabeça.

— Ela é segurança? Ex-militar? Policial? O quê? — Hugger perguntou.

Rush balançou a cabeça.

— Nada disso.

Isso não era só ah, merda.

Era ah, porra.

E Rush ainda não tinha terminado.

— Além disso, ela é filha do advogado de Babić.

Não.

Agora era puta que pariu.

Ele não fazia ideia de por que a filha do advogado estava se metendo nisso, mas
não sentia nada de bom vindo dessa história.
Hugger olhou para Big Petey.

— Quando partimos?

Pete sorriu.

— Arrume roupas para o calor, filho. O calor ainda não passou no Vale. Assim
que estiver pronto, caímos na estrada.

Hugger se levantou.

Então, saiu, montou na moto, foi para casa, arrumou suas alforjas e se mandou
para Phoenix.
Capítulo 1
NÃO É UM PAI
Diana

— Sinto muito, Sr. Armitage. Ela simplesmente entrou e não quis sair.

— Tudo bem, Janie. Ela é minha filha, e eu pedi para vê-la. Peço desculpas por
não ter te avisado. Está tudo certo. Pode voltar ao seu trabalho.

Eu estava sentada atrás da enorme e sofisticada mesa do meu pai, observando a


troca entre os dois, surpresa ao descobrir que ele sabia pedir desculpas.

Então, vi quando ele fechou a porta atrás de Janie, que, para ser assistente
pessoal de um homem do porte do meu pai, era bem jovem. Afinal, ele não era
qualquer advogado. Era sócio nomeado em um grande escritório, tinha uma sala de
canto gigantesca que incluía uma área de conferência com uma mesa para oito
pessoas e uma área de estar com quatro poltronas e dois sofás dispostos frente a
frente.

Ah, e flores frescas.

Flores frescas por toda parte.

O orçamento semanal para flores devia ser equivalente, se não superior, à minha
hipoteca mensal.

E não podemos esquecer a arte.

Eu finalmente tinha conseguido meu diploma (sim, em artes - na verdade, dois


diplomas). Paguei por eles sozinha (muito obrigada - levei sete anos, mas consegui).
Trabalho com restauração, conservação e limpeza, então entendo de arte. E, embora
eu odiasse admitir, meu pai tinha um bom gosto.

Mas ele sempre teve.

Ele escolheu minha mãe.

Depois, escolheu Nicole.

Isso já dizia tudo.

Meu pai caminhou até a frente da mesa, sem desviar o olhar de mim.

— Pedi para te ver, mas você não respondeu ao meu recado de voz.

Eu estava recostada na cadeira confortável dele, pernas cruzadas, e levantei as


mãos.

— Considere isso minha resposta.

— Esse não é um bom momento. Tenho uma agenda cheia e uma reunião em
dez minutos. Ainda assim, gostaria de falar com você em particular — disse ele,
entre os dentes.

— Faz tempo, pai. Mas, com dezenove anos de experiência desde o nascimento,
acho que ainda sei traduzir pailês. — Inclinei-me para frente, apoiando os cotovelos
na mesa e entrelaçando os dedos sob o queixo. — O que você quer dizer é que seu
cliente vil, cruel, praticamente desumano... que, por acaso, também é rico, o que já
basta para você, quer que eu abandone Suzette, para que ele possa silenciá-la sem
complicações.

— Mais uma vez, gostaria de marcar um horário para falar com você em
particular.

Recostei-me na cadeira e fingi entusiasmo.

— Não, espera… ele quer suborná-la?


Vi meu pai perder a paciência visivelmente.

— Diana, vou repetir: não tenho tempo agora, e preferia não tratar disso aqui.
Desde o ocorrido em Tucson, não nos falamos, então também seria bom aproveitar
a chance para me atualizar sobre minha única filha.

— Ooo, essa foi boa. A carta da culpa. Bem jogado.

— Diana...

— Você teve acesso às provas? Já viu as fotos dela?

— Diana...

— Viu sim. Mas qual é a sua hora com um cliente como Babić? Quatrocentos?
Quinhentos dólares?

De repente, ele se inclinou para frente, apoiando as mãos sobre a mesa. O


movimento foi tão brusco que eu me sobressaltei.

— Você não percebe que está se colocando em perigo? — Ele sussurrou, e vi um


raro traço de inquietação no olhar dele.

Ignorei. Vinha ignorando desde que Suzette se mudou para minha casa, uma
semana atrás.

Em vez disso, me levantei e assumi a mesma posição que ele, ficando olho no
olho.

— Você não percebe que sou o único lugar seguro que ela tem? Aquele homem
é um psicopata, mas não vai matar a filha do próprio advogado para chegar até a
mulher que ele brutalmente agrediu.

— Você não sabe do que ele é capaz.

— Estou apostando minhas fichas.

— Isso tudo é muito complicado. A vítima do meu cliente morando com a minha
filha?
— Não vejo como isso seja problema meu.

— Se quer me punir, há outras formas. Como, por exemplo, me excluir da sua


vida por dez anos. Posso te garantir que isso funcionou muito bem.

— Desculpe, pai. Isso não é sobre você. É sobre Suzette.

Ele balançou a cabeça.

— Não pense que vou cair nesse papo. Você tem sua mãe em você.

Deus, às vezes eu queria ser uma pessoa violenta.

Pensando bem, qual seria o nível de violência de um tapa? Algo nível três? Ou
mais para nível cinco?

Acho que eu conseguiria um nível três. Já viver com um nível cinco... não sei.

— Diana! — Ele se endireitou, me chamando atenção.

— Eu moro em um prédio alto. Temos segurança. O que, os capangas dele vão


invadir o prédio?

— Você não brinca com um homem como Babić.

— Eu vi as fotos, pai. Não subestimo isso.

Ele respirou fundo, enchendo o peito largo. Como sempre, estava impecável. Seu
cabelo escuro agora exibia um brilho prateado - não cinza, nem branco, mas algo
que o deixava ainda mais atraente. Ele sempre manteve a forma, acordando cedo
para treinar, seja em casa, seja na academia do escritório, dedicando pelo menos
quarenta e cinco minutos ao cardio e à musculação. Era evidente que esse hábito
não tinha mudado.

Eu me perguntava se ele tinha feito botox, porque, sem os fios prateados no


cabelo, parecia um homem de pouco mais de quarenta anos, no máximo - e não
alguém que estava perto dos sessenta, como era o caso.
— Eu não lidei bem com aquela situação — ele declarou. — A que aconteceu no
campus. Agora eu vejo isso. Estava pensando como um homem da minha geração.
O que nos ensinaram e o que eu sabia que as mulheres tinham aprendido sobre
como se proteger. Não considerei que esse tipo de pensamento, além de
ultrapassado, estava errado.

Eu não sabia o que dizer.

— E eu gostaria de ter um relacionamento com minha filha — ele finalizou.

A isso, eu sabia exatamente o que responder.

— Bom, se estamos negociando, então largue o Babić como cliente, certifique-se


de que ninguém do seu escritório o represente e, quem sabe, use a influência que
passou décadas acumulando para dificultar que ele encontre outro advogado na
comunidade jurídica que queira ajudá-lo.

Ele balançou a cabeça.

— Não funciona assim, Diana. Mesmo que eu me retirasse do caso, é minha


obrigação proteger os interesses do cliente. Eu teria que recomendar outro
advogado e orientá-lo sobre o caso.

— Então, isso encerra nossas curtas negociações — murmurei.

— Tenho orgulho de você — ele declarou de repente, sem qualquer relação com
o assunto. — Você conseguiu seu diploma. Foi além. Fez isso sozinha, e eu sei que
não foi fácil. Tenho amigos que buscaram seu trabalho em conservação. Eles dizem
que você é talentosa.

Ah, não.

Nem a pau.

Ele não tinha o direito de fazer isso.

Comecei a contornar a mesa dele enquanto afirmava:


— Não vamos fazer isso.

— Diana, por favor, venha jantar — ele pediu quando eu já estava indo em
direção à porta.

Virei para ele.

E disse o que precisava dizer, apesar da dor aguda que senti ao ouvir a súplica
genuína e sem disfarces em sua voz.

— Vou pensar no caso. Mas, antes disso, quero deixar claro que o problema não
foi apenas o seu pensamento ultrapassado… e sim, você está certo, errado. O
problema foi que você pensou como um homem, e não como um pai. Você, meu
pai, depois do que eu passei, me submeteu a outro tipo de violência ao adotar a
postura de um homem, e, ao fazer isso, protegeu outro homem... um que me feriu.
Foi por isso que fui embora e nunca mais voltei.

Preciso reconhecer que, depois que disse isso, ele ficou abalado.

Não, na verdade, ele parecia devastado.

Mas eu não podia deixar que isso me afetasse, porque ainda não tinha
terminado.

— Se você está aqui, me dizendo que quer ser meu pai, então vou deixar claro:
isso nunca vai dar certo, e eu não vou me submeter a essa situação se você não
entender o que significa ser um pai. Pode parecer extremo para você, mas defender
um homem que claramente agrediu brutalmente uma mulher, física e sexualmente, e
ao mesmo tempo ter uma filha, é algo completamente inaceitável. Eu não dou a
mínima para o fato de ele ter direito a uma defesa. Que outra pessoa faça isso. Você
não é um advogado em início de carreira que precisa aceitar qualquer caso para
sustentar a família. Babić já tinha contrato com outro escritório. Depois do que fez,
eles o dispensaram. E então você o pegou. Você. Um homem cuja filha sobreviveu a
um abuso sexual. Pense nisso, pai. Pense em por que eu poderia ter um problema
com isso. Pense no que significa para mim ver você defendendo esse homem.
Quando tiver feito isso, entre em contato. E então, talvez, a gente possa conversar.
— Então, no fim das contas, é sobre você — ele afirmou, com um leve sorriso no
canto dos lábios.

Eu nunca me esqueci do quanto Nolan Armitage gostava de estar certo.

Eu só tinha esquecido o quanto isso era irritante.

— Não, é sobre você — rebati. — Minha vida inteira, nunca foi sobre mim.
Sempre foi sobre você.

A cabeça dele se moveu como se eu o tivesse esbofeteado.

E eu nem precisei recorrer a um nível cinco (ou três) de violência.

Isso servia para mim.

Saí do escritório dele, fechei a porta atrás de mim e olhei direto para Janie.

Ela era muito bonita.

Mas também era muito jovem.

Jovem demais para ser arrastada para a confusão que era meu pai.

Observando-a, tomei uma decisão que não me agradou, mas que, no fim das
contas, em nome da irmandade, eu não podia evitar.

Caminhei até ela e parei diante de sua mesa.

— Meu pai dorme com todas as assistentes dele — anunciei.

Os olhos dela se arregalaram.

Mas seu rosto ficou vermelho.

Certo.

Eles estavam dormindo juntos.


Suspeitava que ela era vários anos mais nova do que eu.

Nojento, mas nada surpreendente.

Nem por um segundo me perguntei se ela o chamava de “Sr. Armitage”


enquanto transavam, porque só imaginar isso já me causava arrepios.

Em vez disso, continuei:

— Ele troca de assistente todo ano, e as antigas nunca são realocadas para outro
advogado do escritório. Pense nisso, Janie. Seu tempo aqui é limitado, e posso
garantir que você não vai ser a exceção. Não vai receber um anel de noivado, não vai
planejar um casamento luxuoso e se mudar para a mansão dele em Paradise Valley.
Não vai ter filhos dele nem admirar o quanto ele é um pai maduro e cheio de
energia. Ele não quer filhos. Houve momentos em que eu me perguntei se ele
sequer me queria. Ele não quer uma parceira, ele quer um símbolo de status. E há
apenas um desfecho para essa história: você não vai receber nada do que foi
prometido, nem nada do que espera. Quando ele se cansar, simplesmente será
substituída.

Me senti mal ao perceber que ela estava prestes a chorar e, tarde demais,
considerei se deveria ter sido menos direta.

Mas, no fim das contas, mesmo sendo bonita e atraente para ele, ela só tinha
conseguido o emprego porque era boa no que fazia.

Ela precisava encontrar outro trabalho, um onde as expectativas fossem mais


realistas - de ambos os lados.

E, com isso, minha missão estava cumprida.

Saí do escritório do meu pai.


Capítulo 2
Vamos fazer isso?
Diana

Dirigi de volta para casa saindo do escritório do meu pai, fingindo que não
estava sendo seguida.

Fato humilhante: pode-se dizer que fui excessivamente emocional quando decidi
me envolver na situação de Suzette Snyder e Imran Babić.

Ou talvez altamente iludida.

Li no Arizona Republic5 sobre uma mulher que praticamente rastejou até a


emergência de um hospital após um ataque brutal.

Naquele momento, minha reação foi vaga. Um leve desconforto, considerando o


fato horrível de que isso não era algo raro. Como o resto da sociedade, eu já estava
acostumada a esse tipo de coisa.

Depois, ouvi que ela havia identificado seu agressor, ele tinha sido preso e aquilo
se tornou uma grande notícia. Diziam que ele era um figurão em Phoenix, alguém
no estilo Tony Soprano, e sua prisão foi vista como uma vitória para as autoridades.

Então, li que meu pai assumiria o caso dele.

Eu havia conseguido evitar meu pai por muito tempo. A única coisa que me
alcançou foi quando ele defendeu Rogan Kirk depois que ele roubou a
aposentadoria de várias pessoas anos atrás. Isso também foi um grande escândalo,
então meu pai apareceu bastante diante das câmeras.

5
O Arizona Republic é o maior jornal do estado do Arizona, cobrindo a região metropolitana de
Phoenix.
Mas consegui ignorar aquilo, porque Rogan Kirk era só um ganancioso que tirou
dinheiro das pessoas.

Não um predador sexual que tirava algo ainda mais valioso delas.

Foi nesse momento que a coisa toda ficou excessivamente emocional (ou
altamente iludida, escolha o que preferir).

Infelizmente, sim, eu sabia que não apenas estava sendo seguida regularmente,
mas também que havia olhos sobre meu apartamento desde que trouxe Suzette
para morar nele (não pergunte como isso aconteceu, envolveu algumas pesquisas
no Google que talvez não fossem muito apropriadas, algumas manobras
estratégicas com funcionários do hospital, algumas conversas entre mulheres que
podem ter sido, da minha parte, levemente manipulativas e alguns policiais furiosos
que achavam que era responsabilidade deles oferecer proteção a Suzette -
especialmente um, o detetive Rayne Scott, que não superou isso e frequentemente
me ligava tentando mudar a situação).

Não menti para meu pai sobre a segurança do meu prédio.

Eu tinha um ótimo emprego, mesmo que nunca me tornasse milionária com ele.
Ainda assim, era um nicho de mercado que atendia pessoas ricas dispostas a pagar
caro pela preservação de itens valiosos para elas. E elas pagavam muito bem.

Num momento de rara ousadia, alguns anos atrás, decidi apostar parte dos meus
ganhos em vídeo pôquer no número treze preto na roleta do Talking Stick Casino6.
Para minha surpresa, a bolinha caiu exatamente ali, e eu ganhei uma quantia
absurda de dinheiro.

Saí do cassino imediatamente após isso. E como alguém que aprendeu a não
forçar a sorte (exceto, claro, quando me dá um novo surto de coragem e decido
enfiar o nariz em situações perigosas envolvendo mulheres que eu nunca vi na vida),
nunca mais voltei lá.

6
O Talking Stick Resort é um luxuoso hotel e cassino localizado em Scottsdale, Arizona
Juntando esse prêmio ao bom, mas nada extravagante, valor que meu avô me
deixou de herança, consegui dar uma entrada que tornava a hipoteca (e as taxas
ridiculamente altas do condomínio) viáveis em um ótimo prédio próximo ao Fashion
Square Mall7 em Scottsdale.

Havia seguranças patrulhando o local.

Além disso, era necessário um chaveiro eletrônico para acessar os saguões dos
elevadores, e ele só permitia entrada no andar correspondente ao seu apartamento.
O mesmo servia para as escadas.

Ou seja, tínhamos isso a nosso favor.

Além disso, o prédio era repleto de câmeras de vigilância e eu tinha um sistema


de segurança próprio no meu apartamento.

Depois que Suzette se mudou, instalei uma dessas barras de aço na porta,
aquelas com duas placas grossas que deslizam para encaixes laterais quando você
aperta um botão no centro. Não era bonito, mas considerando que minha porta já
era reforçada, aquilo tornava a invasão bem mais difícil.

Não era um caso de arrombar fechaduras. Aquela coisa só podia ser aberta por
dentro ou com um controle remoto.

Isso não nos tornava invulneráveis.

Mas exigia um bom esforço de quem tentasse invadir - e esse esforço seria
barulhento e violento. Isso nos daria tempo suficiente para chamar a polícia antes
que conseguissem entrar.

Por isso, Suzette não saiu do meu apartamento desde que se mudou. Nem
mesmo para sentar em uma das duas varandas (uma na sala e outra no meu quarto),
ambas com vista para o enorme pátio do condomínio.

7
O Fashion Square Mall é um shopping de luxo localizado em Scottsdale, Arizona. Ele é o maior
shopping do estado e um dos mais sofisticados do sudoeste dos Estados Unidos.
O andar térreo do prédio era repleto de estabelecimentos comerciais abertos ao
público. Havia uma lanchonete, um restaurante sofisticado, um café para brunch,
uma cafeteria, um bar de bairro, um lounge de coquetéis, um estúdio de hot yoga8,
um espaço de pilates, uma boutique charmosa, um salão de beleza e um spa, entre
outras coisas.

Algumas dessas lojas tinham área externa.

E, sim, da minha varanda, percebi que alguns homens tomavam seus cafés
espresso e leite vaporizado nessas áreas e tinham uma visão direta do meu
apartamento. Não o tempo todo, mas com frequência.

Eles não faziam alarde, mas também não tentavam esconder.

Eles estavam observando.

O que me levou a me envolver nessa situação tensa? Nem eu sei ao certo.

O começo foi difícil quando larguei a faculdade e saí para me virar sozinha.

Meus avós me ajudaram, minha mãe deu apoio moral à distância, mas, no fim,
era eu quem precisava fazer acontecer. Foi um período de trabalhar em vários
empregos, virar noites estudando, chegar ao nível de exaustão em que parece
impossível se recuperar, passar dezoito meses inteiros sem um único dia de folga
entre trabalho, estudo e obrigações.

E, de certa forma, não posso negar que uma parte disso tudo era sobre meu pai.
Sobre mostrar a ele que eu conseguiria, mesmo decidida a nunca mais vê-lo. Sobre
provar algo não só sobre mim, mas sobre minha mãe, algo que eu não compreendia
totalmente, mas sabia que estava lá.

Ele foi um péssimo pai, mas um grande motivador.

O caso de Suzette, no entanto, era algo completamente diferente.

8
É uma modalidade de ioga praticada em uma sala aquecida, geralmente com temperaturas entre
35°C e 40°C, e um nível de umidade controlado. O calor tem o objetivo de aumentar a flexibilidade,
intensificar o suor e proporcionar um treino mais desafiador.
Era assustador, estúpido e perigoso.

Mas Suzette concordava comigo. Eu era o muro atrás do qual ela poderia se
esconder, sabendo que Babić não o derrubaria. Ela foi clara sobre o que aconteceu, e
seus inúmeros ferimentos corroboravam sua versão.

Havia DNA coletado debaixo das unhas dela, além de fluido seminal (ainda não
testado, mas que, quando fosse, seria uma prova incontestável).

Por isso, Babić realmente, mas realmente precisava de um bom advogado.

Além disso, Babić realmente, realmente não precisava de mais problemas com a
lei ou de uma má reputação. A morte de sua acusadora, ou qualquer coisa que
acontecesse com a mulher que lhe oferecia proteção, seria um grande problema de
imagem e traria complicações ainda mais sérias com a justiça.

Em outras palavras, Suzette estava compreensivelmente um pouco paranoica.


Afinal, ela já tinha passado pelo inferno e talvez não estivesse pensando com clareza.

Quanto a mim, eu não fazia ideia do que estava fazendo.

O que eu sabia, e que me preocupava profundamente, era que eu também não


estava pensando direito.

Estacionei meu pequeno Fiat 500 azul-bebê (que, de forma irônica, mas adorável,
eu tinha apelidado de Baby Shark) na minha vaga subterrânea e peguei minhas
chaves. Mais precisamente, peguei o spray de pimenta que ficava no chaveiro. Soltei
o botão de segurança que cobria o gatilho, envolvi o tubo com a palma da mão e
mantive o polegar sobre o botão, observando ao redor pelas janelas e espelhos. Só
quando tive certeza de que não havia nada suspeito, saí do carro.

Permaneci alerta no caminho até o saguão dos elevadores. Passei meu cartão de
acesso, chamei o elevador e entrei. Acionei meu andar e soltei um suspiro de alívio
quando as portas começaram a se fechar.

Até que um homem deslizou para dentro.

Depois, outro.
E mais um.

E, por fim, um último.

De repente, eu estava no elevador com quatro homens grandes e de aparência


intimidadora. Abri a boca para gritar e levantei o spray de pimenta, pronta para
apertar o gatilho, mas o segundo homem que entrou, um sujeito muito alto e
musculoso, com um cabelo loiro-acastanhado grosso, selvagem e ondulado, além de
uma barba imponente, avançou rapidamente.

Antes que eu pudesse reagir, ele agarrou meu pulso, redirecionando minha mão
para longe dele (ou de qualquer um deles). Em seguida, apertou meu pulso com
firmeza, mas sem machucar, e arrancou o tubo da minha mão.

Bem, isso foi humilhante.

E assustador.

Ele então se aproximou ainda mais, me forçando contra o fundo do elevador.


Baixou o rosto até o meu, seus olhos castanho-escuros presos nos meus. A única
parte dele que me tocava era a mão ainda segurando meu pulso.

E então ele falou:

— Você está segura. Não vamos te machucar. Meu nome é Hugger. Esses são
Eight, Muzzle e Cruise. Temos um problema em comum com os Babić e achamos
que podemos te ajudar.

Ah.

Bom... então.

As portas do elevador se fecharam e começamos a subir.

Hugger soltou meu pulso e recuou um passo.

Analisei os homens ao meu redor.


Hugger era alto, mas um deles era ainda mais - absurdamente alto. Os outros
dois também eram grandes. Um usava um coque masculino e tinha uma leve
barriguinha de cerveja, enquanto o outro era apenas... bonito (assim como Hugger e
o cara absurdamente alto).

Eles não pareciam com aqueles mafiosos bem-vestidos, de camisa polo e calça
social, que bebiam café espresso e leite vaporizado e mantinham uma presença sutil,
mas ameaçadora, no pátio.

Eles pareciam homens que nem sabiam o que era uma camisa polo. E eu
apostaria que nenhum deles possuía uma calça social.

— Sou membro do Chaos MC em Denver — Hugger continuou, enquanto o


elevador subia. — Eight e Muzzle são do Resurrection MC, também em Denver.
Cruise é daqui, do Aces High.

— MC? — perguntei.

— Moto Clube — ele respondeu.

Bom, isso explicava a ausência de calças sociais.

— E que tipo de problema vocês têm com os Babić? — questionei.

As portas do elevador se abriram.

Os três outros homens saíram.

Fiquei no elevador com Hugger.

O cara absurdamente alto segurava a porta aberta.

— Vamos fazer isso? — Hugger perguntou.

— O que exatamente significa “isso”? — devolvi.

— Conversar, explicar tudo e oferecer proteção para você e sua amiga, porque,
sinceramente, vocês não estão nada seguras — ele afirmou. — Eles estão te
vigiando. Estão analisando a situação. Estão planejando. E vão agir assim que
acharem que podem fazer isso sem deixar rastros.

E era por isso que eu precisava de camadas extras de corretivo para esconder as
olheiras. Eu sabia exatamente que era isso que estava acontecendo.

Fitei Hugger.

Se ele não estivesse tão sério, seria fofo.

Debaixo de toda aquela barba e cabelo, havia um rosto muito bonito. Mesmo
com toda aquela quantidade absurda de pelos, nada conseguia esconder
completamente seus traços marcantes - o nariz reto e forte, os cílios grossos e
escuros, os lábios cheios e bem desenhados.

E com aquele corpo grande e robusto, ele parecia ser o tipo de cara que te
provocaria o tempo todo, enquanto você fingia se irritar, mas secretamente adorava.
O tipo de cara que cortaria cebolas ao seu lado enquanto você temperava a carne. O
tipo de cara que abriria os braços para te envolver num abraço enorme e confortável
quando você estivesse tendo um dia ruim.

Em outras palavras, fofo.

Talvez ele não fosse muito chegado em cuidados pessoais (ou em qualquer
cuidado, na verdade), mas era inegavelmente bem-cuidado. Vestia uma camiseta
preta do Rage Against the Machine9, jeans desbotado e botas de motociclista pretas
- tudo limpo.

E seu cheiro... tinha um toque de cravo, um pouco de sândalo e um leve traço


cítrico. Quente, natural e revigorante.

O que, de alguma forma, parecia descrevê-lo perfeitamente.

Mesmo que eu não soubesse nada sobre ele.

9
Rage Against the Machine (RATM) é uma banda de rock alternativo e rap metal dos EUA, formada
em 1991, conhecida por seu som agressivo, letras politicamente carregadas e ativismo social.
Um olhar rápido para os outros três me disse praticamente a mesma coisa (sem
o cheiro, pois não estavam perto o suficiente para que eu pudesse senti-los).

Naquele dia, tomei outra decisão importante e atravessei as portas.

Hugger saiu atrás de mim.

Parei logo na saída e não me movi.

Eles também não.

— Há câmeras por toda parte — avisei, dirigindo-me a Hugger (embora a


mensagem servisse para todos).

— Sabemos — ele respondeu.

— Vamos conversar aqui. Não vou deixar vocês entrarem na minha casa até eu
entender o que está acontecendo — deixei claro.

— Aceitável — grunhiu Hugger.

— Certo, então — continuei. — O que está acontecendo?

— Babić pegou uma obsessão pela mulher do presidente do Aces High MC. Ele a
sequestrou para divulgar essa informação — Hugger afirmou.

Aquele desgraçado.

— Urgh... — resmunguei.

— Ela não gostou da atenção e deixou isso bem claro. Depois disso, ele começou
a mexer com as outras mulheres dos Aces. Deixava bilhetes nos para-brisas dos
carros delas, enviava flores e presentes para o trabalho e a casa de cada uma. Coisas
sutis, nada ilegal, mas que bagunçam a cabeça de qualquer uma — Hugger
continuou. — E está funcionando.

— Urgh, de novo — reclamei.


Hugger ignorou meu comentário.

— De algum jeito, ele se envolveu com uma garota do clube que tem problemas
com o Aces — prosseguiu. — Ela é prima de uma mulher casada com um dos irmãos
do Resurrection — ele inclinou a cabeça em direção ao cara muito alto e ao que
estava ao lado dele, que não usava um coque masculino. — E, por algum motivo,
isso fez com que ele passasse a se interessar não só pelos Aces, mas também pelo
Resurrection e pelo Chaos. Não sabemos o porquê, só sabemos que nada de bom
pode sair disso. Por isso eu, Eight e Muzzle estamos aqui. Para trabalhar com o Aces
e descobrir.

— E Suzette entra nisso... como? — deixei a frase no ar e, quando ele respondeu,


me enrijeci, lutando contra o impulso de dar um passo para trás. Seu tom havia se
deteriorado significativamente.

— Suzette entra nisso primeiro porque não aceitamos que qualquer filho da puta
faça o que ele fez com qualquer mulher — rosnou Hugger. — Mas ele fez, e isso não
pode ficar sem resposta.

Mesmo concordando com ele, engoli em seco, não só pelo tom ameaçador, mas
pela fúria intensa que brilhava em seus olhos escuros.

— Além disso, se ela eliminá-lo, o esquema dele fica vulnerável — continuou. —


Assim, podemos neutralizá-lo antes que ele arruíne a vida de mais alguém. Então,
ela precisa se manter saudável. Primeiro, porque precisa. Segundo, porque terá que
testemunhar e colocá-lo atrás das grades.

— Como vocês obviamente sabem, temos o mesmo objetivo — declarei.

— Sim, sabemos disso — ele assentiu.

— Mas não sei exatamente o que vocês podem fazer para ajudar — confessei.

Ele piscou.

Depois, me encarou fixamente.


Em seguida, seus olhos castanhos percorreram meu corpo de cima a baixo. Duas
vezes.

Eu sabia o que ele estava vendo.

Usava uma calça jeans branca, justa e curta no comprimento, sapatos de salto
dourado fosco e uma camisa rosa, de corte masculino, feita de tecido leve. Também
carregava uma bolsa de couro rosado, sofisticada e elegante.

Além disso, eu tinha 1,68m. Era uma apaixonada por sorvete, creme gelado,
tortas e biscoitos – e carregava as evidências disso no meu traseiro (e nos meus
seios e, tá bom, talvez nas coxas e na barriga também).

Para piorar a situação, eu não me limitava um dia específico para comer tacos.
Para mim, tacos eram bons em qualquer dia da semana.

E meu cabeleireiro (que, por acaso, tinha uma cadeira no salão localizado no
pátio do condomínio onde eu morava - era um mestre do balayage10, então meu
cabelo escuro tinha mechas douradas feitas pelas mãos de um verdadeiro artista.
Mas era a minha mão que criava as ondas perfeitas, naturais e com ar de praia nas
minhas longas madeixas.

O que posso dizer?

Eu sabia fazer um bom cabelo.

Também era especialista em maquiagem.

Nenhum dos dois era um hobby.

Apenas um reflexo do que aprendi com meu pai, que sempre me ensinou que
aparência era tudo. Mais que isso, eu o representava, e essa representação deveria
ser impecável. Então, me tornei excelente em ambas as coisas.

Agora, era apenas hábito.

10
Balayage é uma técnica francesa de coloração capilar que significa "varrer" em francês. Diferente das
mechas tradicionais feitas com papel alumínio, o balayage é aplicado à mão livre, criando um efeito mais
natural e iluminado, como se os fios tivessem sido clareados pelo sol.
O que eu definitivamente não parecia era uma guarda-costas durona ou uma
comandante de elite.

Ele também não tinha essa aparência.

Parecia exatamente o que era: um motociclista (embora sem a jaqueta ou o


colete de couro que eu via os membros dos clubes usarem pelas ruas de Phoenix -
um paraíso para motociclistas, já que dava para rodar o ano todo).

Mas, considerando que ele devia ter pelo menos 1,90m e que os músculos
saltados em seus bíceps, além das veias grossas em seus antebraços, claramente não
estavam ali só para enfeite, eu suspeitava que ele estava longe de ser um alvo fácil.

O mesmo acontecia com os outros três caras (embora o sujeito do coque


masculino parecesse um pouco mais velho - mas não muito - e sua pequena barriga
de cerveja não me enganou nem por um segundo).

— Não sei por que você se meteu nisso, Diana — disse o grandalhão Hugger
novamente. Minha atenção voltou imediatamente para ele, e não apenas porque
estava falando.

Ah, não.

Foi porque ele disse meu nome.

E não era o fato de ele saber meu nome - o que já era um tanto desconcertante,
considerando que eu não havia me apresentado.

Era o jeito como ele pronunciou meu nome, com aquela voz grave, masculina e
irresistível, que me fez sentir algo físico.

Algo muito agradável.

O que era estranho, já que ele definitivamente não fazia meu tipo.

Então, o que foi isso?


— A segurança neste prédio é rígida — ele continuou. — Mas acho que você não
entende a gravidade da situação.

— Quando a conheci, já tinham se passado duas semanas desde o ataque —


respondi em voz baixa — e ainda assim ela parecia ter sido arrastada por um
caminhão por quilômetros. Eu sei muito bem com o que estou lidando.

Ao ouvir isso, os olhos dele brilharam de maneira perigosa, mas ele se recompôs
rapidamente.

— Você tem que saber que não tem os recursos para levar isso adiante — ele
rebateu.

— E que recursos você está oferecendo? — questionei.

— Uma casa segura — respondeu sem hesitar.

Balancei a cabeça.

— Isso não cabe a você decidir — ele afirmou secamente.

— Você está certo. Cabe à Suzette — concordei. — Mas posso garantir que ela
se sente segura comigo, e eu não posso ir com ela para uma casa segura. Tenho
uma hipoteca para pagar.

Nesse momento, o sujeito muito alto entrou na conversa.

— Talvez você possa explicar por que ela recusou a custódia protetiva da polícia
— sugeriu.

Virei-me para ele.

— Ela acha que Babić tem alguém — ou mais de um alguém — infiltrado.

Era verdade. E foi assim que consegui convencê-la (mesmo que levemente) a
ficar comigo.

O cara do coque masculino decidiu falar.


— Seu pai é o advogado de Babić. Quer explicar isso?

Ah, então eles sabiam praticamente tudo. Isso, obviamente, incluía meu nome.

Bom, não fui muito rápida em perceber isso. Me processem. Eu nunca tinha sido
encurralada por um grupo de motociclistas antes. Descobri que isso tira a gente do
eixo.

— Até hoje, não falo com meu pai há dez anos — revelei algo que, claramente,
eles não sabiam.

Eles trocaram olhares entre si.

— Seria bom entender por que você está envolvida nisso — o último deles
comentou.

— Eu explicaria se soubesse — respondi com honestidade. — Mas não sei. Só


ouvi falar do que aconteceu. Não sabia nada sobre Babić, apenas que ele havia sido
preso. Mas quando vi que meu pai — que, aviso, é excelente no que faz — ia
defendê-lo, senti que precisava... me envolver.

— Se envolvendo colocando-se no caminho de um lunático criminoso? — o cara


do coque masculino quis saber.

Era uma boa pergunta. Sem uma boa resposta.

— Admito que talvez eu não estivesse pensando com clareza — confessei, sem
intenção de compartilhar que, na verdade, tudo se resumia a estar emocionalmente
abalada. — Mas já fiz isso, e aqui estamos. Então, os motivos que nos trouxeram até
aqui não importam mais.

Senti o olhar penetrante do grandalhão sobre mim e, quando me virei para ele,
me arrependi imediatamente.

De repente, me senti exposta. Como se ele pudesse enxergar cada parte de mim,
não só por fora, mas lá no fundo, em lugares que nem eu mesma visitava - e que,
definitivamente, não explorava.
Por isso, desviei o olhar rapidamente.

— Se ela não quer ir para uma casa segura ou aceitar a custódia protetiva — o
cara alto disse — então o foco precisa ser segurança. Um homem dentro do seu
apartamento e patrulhamento do lado de fora.

Um homem dentro do meu apartamento?

— Você quer dizer, alguém morando comigo e com Suzette? — perguntei para
esclarecer. — Ou alguém no meu lugar?

— Embora a melhor opção fosse você se afastar completamente dessa situação,


se não vai sair, então você vai ganhar um novo colega de quarto — o grandalhão
decretou.

Ai, meu Deus.

— Escutem— comecei.

— Não — ele me cortou, a voz afiada como uma lâmina.

A dor do corte foi quase real, então calei a boca.

Ele então expôs os fatos.

E me expôs junto.

— Você não faz ideia do que está fazendo. Nem sequer sabe por que está
fazendo isso. Nós temos força. Temos armas. Temos homens. Temos um interesse
nisso. E temos experiência. Você, por outro lado, ou tem alguma rixa para resolver
ou está tentando provar algo para o seu pai. Você precisa descobrir isso, mas não às
custas de uma mulher que precisa de alguém para protegê-la, não de alguém
resolvendo seus próprios problemas.

Ele fez uma pausa antes de concluir:

— Você conseguiu fazer com que ela se sentisse segura com você. Ótimo. Nós
também vamos te dar cobertura. Agora, você vai nos levar até seu apartamento,
apresentar Suzette e dizer a ela que arrumou reforços. E, a partir daqui, nós
assumimos.

— Com licença, mas isso não tem nada a ver comigo — rebati, irritada.

— Não tem? — ele devolveu.

Aquilo atingiu um ponto sensível.

— Talvez o motivo pelo qual comecei tenha, mas não é mais esse o caso —
retruquei.

— Besteira — ele rebateu.

Ele estava um pouco certo e muito errado.

A parte errada me irritou.

— Você me conhece há, o quê, cinco minutos? — rebati. — Não pode tirar
conclusões sobre mim assim.

— Lembra da parte em que falei sobre experiência? — ele perguntou com


sarcasmo.

— Sim, lembro — retruquei. — E talvez você queira explicar isso, já que, até
agora, só deixou claro que são membros de um clube de motociclistas, e não
especialistas em segurança ou cientistas comportamentais.

Ele se recostou, o peito largo e imponente, e perguntou:

— Você acha que dá conta disso?

— Não, eu não acho. Mas me diga, se fosse você no meu lugar, encurralado em
um elevador por quatro caras oferecendo ajuda — aparentemente por pura
bondade, misturada a uma certa solidariedade com a vítima de um crime violento —
e tivesse prometido a uma mulher que faria de tudo para mantê-la segura, deixaria
esses caras simplesmente entrarem e assumirem tudo?
Ele fez um gesto amplo para os outros e respondeu:

— Se eles tivessem essa aparência e oferecessem ajuda quando eu não tivesse


nada para oferecer, com certeza eu deixaria.

Ele tinha um ponto.

— De qualquer forma, essa não é uma decisão sua — o cara do coque masculino
reforçou. — É de Suzette.

Sim, era. Maldição.

Não me entenda mal, a aparição desses homens do nada era um presente divino.
Especialmente se houvesse mais deles.

A parte do “temos armas” não me agradou muito, porque eu não sou fã de


armas.

Mas suspeitava que Babić e seus homens tivessem várias.

Então, pelo menos, isso equilibrava um pouco as coisas.

Eu também fiquei um pouco confuso com a parte do "temos experiência" na


ladainha dele.

Mas eu tinha mandado uma mensagem para Suzette avisando a que horas
chegaria em casa. Ela estava me esperando. Não queria preocupá-la, e isso estava
me atrasando para chegar até ela e evitar que ficasse preocupada.

Eu tinha outra decisão a tomar, e era uma grande.

Eu não tinha certeza do que estava acontecendo.

O que eu sabia com certeza era que, se Babić fizesse sua jogada, eu não tinha as
habilidades para reagir à altura.

Talvez esses caras também não tivessem, mas era evidente que estavam muito
mais preparados do que eu.
Droga.

— Vamos encontrar a Suzette — murmurei.

Hugger me lançou um olhar carrancudo.

O cara do coque sorriu.

O grandalhão olhou para as próprias botas.

O outro soltou um suspiro impaciente.

Virei-me e os conduzi pelo corredor até a minha porta.


Capítulo 3
COMEMOS EM UMA HORA
Hugger

Hugger estava puto pra caralho.

Havia muitas razões para isso.

Primeiro, Diana Armitage estava perambulando por essa cidade quente pra
cacete, banhada pelo sol, seca como o inferno - um lugar onde ninguém em sã
consciência escolheria morar voluntariamente. E ela fazia isso usando sapatos
dourados de salto alto, dirigindo o menor e mais inseguro carro que ele já tinha
visto na vida, tudo isso enquanto era seguida por dois capangas armados de uma
máfia local.

E, ainda assim, ela agia como se fosse só mais um dia qualquer. Como se não
tivesse dois brutamontes armados no seu encalço.

O que significava que ela era ou estupidamente corajosa ou corajosamente


estúpida. Mas nenhuma das duas opções era inteligente.

Segundo, a mulher era linda pra caralho.

Muito peito. Muito quadril. Maquiagem impecável. Olhos verdes brilhantes.


Cabelos longos e espessos, do tipo que qualquer homem ficaria excitado só de
imaginar deslizando os dedos por eles, espalhados sobre seu colo enquanto ela o
chupava.

Ela tinha atitude. Ela tinha ousadia.


E estava completamente ferrada, considerando que se meteu nessa situação por
ter um problema com o próprio pai. Isso era tão ridiculamente estúpido que Hugger
teve vontade de jogá-la sobre os joelhos e dar uns tapas até ela recuperar o juízo.

Terceiro, ela tinha um apartamento foda pra caralho.

Não era preciso ser especialista em comportamento para saber que sua cor
favorita era azul. Seu carro era azul, e sua casa era predominantemente branca com
vários toques de azul. O lugar era elegante, estiloso, confortável e feminino.

Mesmo não sendo o tipo de decoração que ele escolheria, ele gostou. Era bonito.
Combinava com ela. Feminino sem ser exageradamente delicado, o que a definia
perfeitamente. E ele admirava o fato de que ela se conhecia bem o suficiente para
imprimir sua identidade no ambiente com tanta clareza.

Mas ele estava em uma missão.

Não precisava querer transar com essa mulher.

Só que, porra, ele queria muito transar com essa mulher.

Por fim, Suzette Snyder apareceu depois de uma rápida conversa com Diana em
um dos quartos no final do corredor.

Quando surgiu, tinha o braço enfaixado, mancava e ainda exibia pontos no lábio
e no osso da bochecha, logo abaixo do olho esquerdo. Os hematomas também não
haviam sumido completamente, mesmo após três semanas.

Ela mal chegava a 1,60m. Devia pesar pouco mais de 45 quilos. E parecia ter treze
anos, apesar de Hugger saber que tinha vinte e seis.

Isso significava que Babić não se preocupava em enfrentar alguém do próprio


tamanho. E, pior, talvez tivesse uma tara doentia por meninas.

Pela primeira vez na vida, Hugger entendeu o que significava fazer o sangue
ferver.
Suzette evitava olhar qualquer um dos homens nos olhos. Também não se
aproximava completamente. Ficava atrás de Diana, ligeiramente de lado, com os
dedos apertando tanto o antebraço dela que Hugger conseguia ver as pontas de
suas unhas ficando esbranquiçadas.

Aquela pressão deixaria marcas, mas Diana nem reagia. Nem um tremor, nem
uma careta de desconforto.

Hugger entendia isso parcialmente. Ele mesmo sentia a tensão no ar ao vê-la, e


os outros homens também. E não eram boas vibrações. Ele queria se controlar, mas,
diante do estado de Suzette, estava achando isso impossível.

A outra parte que entendia era que um homem tinha feito isso com ela. E, por
isso, homens a aterrorizavam.

— Este é Hugger e, uh… — Diana começou a apresentá-los.

— Eight — resmungou Eightball.

— Muzzle — disse Muzz.

— Cruise — completou Cruise, secamente.

— Como eu disse, eles estão aqui para garantir que tudo fique sob controle
enquanto o promotor constrói o caso contra Babić e depois… — Diana hesitou.

— Ficam até Babić estar preso — disparou Eight.

— Então, hum… por um bom tempo — concluiu Diana.

Suzette não disse nada.

Diana se virou para ela, soltou seu braço devagar, mas segurou suas mãos,
entrelaçando os dedos.

— Eles precisam saber que você está de acordo com isso — disse suavemente. —
Então, agora que os conheceu, você e eu voltamos pro seu quarto para conversar
sobre isso. Tudo bem?
Suzette assentiu, soltou Diana e praticamente correu de volta pelo corredor.

Os punhos de Hugger se cerraram.

Diana lançou a eles um olhar e rapidamente a seguiu.

Hugger se concentrou no balanço do quadril dela, porque precisava daquela


visão para afastar o que era ruim.

— Aquele filho da puta… — rosnou Muzzle.

— Segura a onda — murmurou Cruise.

Hugger precisava de ar. Mesmo que fosse seco, quente e empoeirado pra
caralho.

Então, caminhou até a porta de vidro deslizante que levava à varanda, onde havia
móveis de pátio, predominantemente azuis (as almofadas e travesseiros) e brancos
(as estruturas).

Assim que pisou lá fora, seus olhos foram direto para os dois desgraçados
sentados do lado de fora de uma cafeteria do outro lado do pátio, em frente ao
apartamento de Diana.

Um deles ergueu o copo de café na direção dele.

Hugger considerou levantar o dedo do meio, mas desistiu.

Também considerou descer até lá e bater as cabeças deles uma contra a outra.

Desistiu disso também.

Em vez disso, se aproximou mais da grade e analisou o pátio no centro do


complexo residencial.

Seis passagens para os corredores de entrada dos apartamentos. Duas no meio


de cada lado e uma em cada canto.
Um espaço totalmente aberto no centro, com vagas amplas para visitantes no
lado norte.

Se alguém seguisse um morador até o lobby do elevador, como eles mesmos


fizeram mais cedo com um desavisado, ou entrasse atrás de algum idiota fitness que
preferisse as escadas, chegaria facilmente até a porta do apartamento.

A única coisa boa era a barra de aço reforçada que parecia resistir até explosivos.

Mas um homem desesperado faz coisas desesperadas. E Hugger não tinha


dúvida de que Babić não hesitaria em explodir algumas portas para alcançar sua
presa.

Sentiu alguém se aproximar ao seu lado e olhou para Eight.

— Precisamos colocar ela em uma casa segura — afirmou.

— É — murmurou Eight, observando o pátio. — Precisamos tirar ela daqui.

Hugger viu Eight levantar o queixo em direção à cafeteria, como se


cumprimentasse um velho conhecido.

Então, olhou para ele.

— O que acha da Armitage? — perguntou Eight.

— Isso é pessoal pra ela por causa do pai, o que é uma tremenda burrice.

— É pessoal, sim — Eight murmurou.

— Ela tem um problema com o velho dela — observou Hugger.

— Tem. Mas também tem um problema com Babić — respondeu Eight.

— O que não é difícil, considerando o que ele fez.

— Não tem nada a ver com o que ele fez com a Suzette. Tem a ver com o que
outro desgraçado fez com a Diana.
O impacto dessas palavras foi como um tsunami atingindo Hugger, arrancando
seu ar, puxando-o para o fundo e o arrastando para longe.

A voz de Eight pareceu vir de dez quilômetros de distância quando chamou:

— Hug!

O que outro desgraçado fez com a Diana.

— Hug! — Eight repetiu, mais firme.

Hugger lutou para emergir da onda que o puxava.

Eight o observou se recompor e então perguntou:

— Você não percebeu isso antes?

— Não — respondeu Hugger, a voz grave.

— Você tá no controle?

— Não.

Eight cruzou os braços sobre o peito e o estudou.

— Você está a fim dela.

— E você não?

— Ah, eu pegaria fácil se ela me desse uma chance. Mas o que você sente é
diferente.

Era, sim. Principalmente porque ele queria acertar um soco na garganta de Eight
por ter dito isso.

— Você já está na dela, Hug — concluiu Eight.

Hugger o encarou.
Eight era o líder da missão. E quando o Resurrection tomava uma decisão, o
Chaos não dizia porra nenhuma..

Mas, considerando que Eight percebeu exatamente onde ele estava


emocionalmente, Hugger tinha que questionar isso.

— Não acho que seja uma boa ideia — ponderou Hugger.

— Vou te contar uma coisa, Hug. Quando você tem algo em jogo, luta até o fim
pra ganhar.

Antes que Hugger pudesse responder, uma voz interrompeu:

— Irmãos.

Eles olharam para a porta e viram Muzzle parado ali.

Olhando pela janela, Hugger viu que Diana havia voltado.

Ela tinha tirado os sapatos.

Com eles, ficava apenas dez centímetros mais baixa que ele. Sem eles, ficava
evidente que ele poderia jogá-la sobre o ombro e carregá-la para a cama sem o
menor esforço.

Merda.

Ele e Eight entraram no cômodo, e Hugger deslizou a porta para fechá-la atrás
de si.

Diana esperou até que ele fizesse isso antes de dizer:

— Suzette está de acordo com vocês ajudarem.

— Ela sabe que Hugger vai dormir no sofá? — perguntou Eight.

Hugger observou atentamente quando os olhos dela se arregalaram e suas


bochechas coraram levemente. Nenhuma dessas reações ajudou em nada, porque as
duas eram absurdamente fofas e deixavam claro que ela estava na mesma situação
que ele com essa história.

Ótimo.

A voz dela saiu um pouco estrangulada ao responder:

— Ela sabe, sim.

— Vamos precisar de chaves eletrônicas, chaves normais e um pedaço de papel


para anotar alguns números — disse Eight.

Diana assentiu e seguiu para a cozinha, que tinha armários modernos e


brilhantes, todos brancos, com bancadas de quartzo. Mas havia um leve tom de azul
no padrão dos azulejos que compunham o backsplash, e três globos de vidro azul-
cobalto pendiam sobre a ilha central.

Ela pegou um chaveiro com uma chave eletrônica e um jogo de chaves, jogando-
o sobre o balcão.

Eight pegou e imediatamente o lançou para Hugger, que o agarrou no ar.

Diana observou isso, respirou fundo e começou a vasculhar uma gaveta.

— Vamos mandar fazer mais cópias das chaves e pedir chaves eletrônicas extras
na administração do prédio — disse, puxando um bloco de notas e uma caneta e
deslizando-os pelo balcão para Eight.

Ele se debruçou sobre o papel e começou a escrever, passando tanta informação


que precisou tirar o celular do bolso para conferir alguns detalhes.

Quando terminou, endireitou-se e empurrou o bloco de volta para Diana.

— Salva esses números no celular e peça para Suzette fazer o mesmo. São só
precauções, vocês vão estar seguras — explicou Eight.

Ela assentiu.
— Temos mais um homem conosco. O nome dele é Big Petey. Ele é mais velho,
tem um jeito mais tranquilo, não parece ser uma ameaça, mas ainda está na ativa.
Ele vai ficar com Suzette durante o dia, enquanto Hugger cuida de você... — os olhos
dela imediatamente se voltaram para Hugger — e os outros caras vão garantir que
tudo esteja sob controle aqui no apartamento. Tá me acompanhando?

Diana desviou o olhar para Eight.

— Eu não preciso de um guarda-costas.

— Ok, claro. Você ainda não entendeu direito no que se meteu. Vou esclarecer —
disse Eight, com paciência forçada. — Você e Suzette passaram essa
responsabilidade para nós. Agora, é com a gente. Vocês fazem o que mandamos,
quando mandamos, sem questionar. Vamos protegê-las da maneira que acharmos
melhor, e isso não é negociável. Ainda está comigo?

Ela abriu a boca para responder, mas Eight continuou antes que ela pudesse
dizer qualquer coisa.

— Ótimo. Não vai ser complicado. Se nada der errado, a vida segue normal. Você
trabalha, volta para casa. A única diferença é que sempre terá alguém te
acompanhando para o caso de Babić ter alguma ideia errada. Suzette fica aqui e está
protegida, dentro e fora. Mantemos as coisas sob controle enquanto tentamos
convencê-la a ir para algum lugar seguro, assim vocês saem do radar e a gente não
precisa proteger um maldito condomínio gigante em cima de um mini shopping.

Ela tentou falar de novo, mas Eight a interrompeu mais uma vez.

— Eu entendi que ela não quer te deixar. Mas vamos conseguir convencê-la, e
você vai ajudar nisso. Você não tem que se meter em um problema tão pesado.
Precisa sair dessa situação, e ela precisa estar em um lugar onde possamos controlar
todo o ambiente. Vamos conversar com Buck para ver se ele conhece algum policial
de confiança. Se tiver, passamos a informação de que ela “desapareceu”, mas, na
verdade, ela só estará segura, enquanto ele mantém o caso andando.

Ele respirou fundo, mas, mesmo assim, Diana não conseguiu se manifestar.
— Isso tem que acontecer o quanto antes. Vamos fazer com que ela confie na
gente, e depois tiramos você dessa história. Parece bom?

— Quem é Buck? — ela perguntou rapidamente, tentando, enfim, falar.

Hugger sentiu um sorriso puxar o canto da boca.

— Presidente do Aces — respondeu Eight.

— Sobre o Hugger… — ela começou, hesitante.

— Sim, nós deixamos nossas coisas no nosso alojamento temporário. Muzz vai
ficar aqui com você, Cruise e eu vamos circular para entender melhor a área e
marcar presença, e Hugger vai buscar as coisas dele e trazer para cá. Ele volta em
cerca de uma hora. Seria bom se você convencesse Suzette a sair do quarto. Hugger
é um cara grande, mas ele preferiria morrer a fazer mal a uma mulher. Ela vai
perceber isso, mas não se continuar trancada.

Diana rebateu:

— Você tem que dar espaço para ela lidar com as coisas no próprio tempo.

Eight assentiu.

— Claro, ela pode ter espaço, mas não temos muito tempo. Você não é ingênua,
sabe do que estou falando. Ou está com a gente, ou vamos ter que nos reunir e
encontrar outra solução.

Hugger não apenas viu, mas sentiu Diana ficando irritada.

E, para falar a verdade, ele gostou disso. Gostou da firmeza dela e do fato de que
não deixava nem mesmo alguém como Eight passar por cima.

— Que outra solução? — ela exigiu.

— Não sei, por isso teríamos que nos reunir — respondeu Eight com calma. — O
que eu sei é que, de um jeito ou de outro, você está fora disso e Suzette estará
segura. Esse é o objetivo. E nós vamos alcançá-lo, custe o que custar.
— Desculpe, mas me permito estar um pouco confusa sobre por que vocês estão
tão dedicados a essa missão — ela comentou.

— Talvez um dia, quando Babić estiver apodrecendo na cadeia e a gangue dele


estiver desmantelada, possamos conversar sobre isso tomando uma cerveja — disse
Eight. — Por enquanto, você vai ter que confiar que faremos o que for necessário
para resolver essa situação.

— Acho que não tenho muita escolha — ela retrucou, contrariada.

Eight sorriu.

— Que bom que estamos na mesma página.

Diana lançou um olhar furioso para ele.

Eight se virou para os homens.

— Certo, vamos colocar isso em movimento.

Hugger começou a se dirigir para a porta, que ficava além de um arco que levava
a uma sala vazia, exceto por uma longa mesa de jantar branca (com cadeiras
estofadas em azul), um bar embutido e uma parede de vidro que exibia uma adega
climatizada.

Ficava claro que ela herdara aquele apartamento mobiliado, porque quase não
havia vinho ali.

— Hugger — ela o chamou.

Ele parou e se virou para encará-la.

— Vou começar o jantar — avisou. — Comemos em uma hora.

Ela estava falando sério?

— Se eu não estiver aqui, comam sem mim — respondeu ele.


— E como a Suzette vai te conhecer se você não estiver no jantar? — ela
perguntou.

Misericórdia.

— Como o Eight disse, eu volto em mais ou menos uma hora.

— Agora é horário de pico. O trânsito fica caótico em Phoenix.

— Então faz algo que possa ser mantido aquecido, mulher, porque eu não tenho
controle sobre o trânsito.

— Ótimo — ela resmungou.

— Maravilha — ele retrucou. — Posso ir agora?

Ela deu de ombros.

— Claro.

Droga, ele queria muito levá-la para a cama.

Merda.

Ele lançou um olhar carrancudo para Eight, que apenas sorriu de volta.

Então, ele saiu dali o mais rápido possível.


Capítulo 4
GOSTAR DESSES CARAS
Diana

— Meu Deus, Diana, como uma situação completamente insustentável pode ficar
ainda pior? — exigiu Nicole no meu ouvido.

Sim, Nicole já tinha sido assistente pessoal do meu pai.

Sim, ela foi a única que conseguiu colocar um anel no dedo e caminhar até o
altar com um homem que nunca teve a intenção de honrar seus votos.

Sim, Nicole ainda era a assistente do meu pai quando ele ainda era casado com
minha mãe.

Sim, no começo, isso foi um grande problema para mim.

E, por último, sim, ao longo do tempo, Nicole me conquistou, porque ela era
simplesmente incrível.

Parte do que a tornava incrível era assumir suas próprias merdas, aprender as
lições que a vida jogava na cara, compartilhar esse conhecimento e estar lá para
mim. Mesmo - odeio admitir - nos momentos importantes em que minha mãe não
esteve.

Como quando menstruei pela primeira vez, quando fui ao meu primeiro
encontro, quando precisei do vestido perfeito para o baile e quando meu primeiro
namorado partiu meu coração.

Para sua informação, tudo isso aconteceu depois que meu pai a descartou.
Incluindo, obviamente, quando ela esteve ao meu lado depois que fui agredida
sexualmente em um encontro de estudos.

Perdi minha mãe para a traição do meu pai e para a espiral de destruição em que
ela entrou e nunca conseguiu sair. Posso dizer isso mesmo que, atualmente, ela viva
o que faz questão de exibir como uma vida idílica em Idaho — ao lado de um
babaca alcoólatra com um vício ocasional em cocaína e a mentalidade de um
homem das cavernas sobre o papel da mulher na sociedade. Mas ele tinha dinheiro,
minha mãe tinha três bolsas Birkin11, então, para ela, estava tudo certo.

Mas, no meio de tudo isso, eu ganhei Nicole.

Nunca tentei descobrir se isso equilibrava a balança.

Era simplesmente o que era: minha vida. E eu a vivia.

E, no final, Nicole sempre foi meu porto seguro, enquanto eu tentava me


equilibrar entre um pai que esperava de mim coisas que eu não tinha certeza se
deveria oferecer - e, ainda assim, eu sempre ficava aquém - e uma mãe que eu
adorava, mas que meu pai havia destruído além do reparo.

Ou seja, Nicole, que sabia de tudo, não era exatamente uma entusiasta da minha
ideia de me envolver na situação de Suzette.

E muito menos aprovava tudo o que eu acabara de lhe contar: desde invadir o
escritório do meu pai para vê-lo pela primeira vez em uma década, até jogar a
verdade nua e crua para Janie e aceitar a ajuda de um grupo de motociclistas que eu
não conhecia nem de vista.

— Você precisa falar com aquele detetive Scott de novo — aconselhou Nicole.

— Suzette não confia nele — lembrei-a.

11
As bolsas Birkin são bolsas de luxo feitas pela Hermès, uma das marcas mais exclusivas do mundo.
Elas são conhecidas por seu design sofisticado, materiais de altíssima qualidade e preços extremamente
elevados, variando de dezenas a centenas de milhares de dólares.
— Tenho certeza de que a polícia sabe muito bem o quão perigoso esse cara é.
Eles querem tirá-lo de circulação e vão fazer de tudo para mantê-la segura para que
ela possa testemunhar.

— Eu concordo. Mas ela não confia neles.

— Diana…

Ah, droga.

Ela disse meu nome naquele tom de “prepara-se, estou prestes a compartilhar
uma grande lição de vida.”

Eu sempre estava aberta a sabedoria, mas recebê-la nem sempre era divertido.

— …Eu poderia passar horas esfolando verbalmente o Nolan pelo jeito como ele
lidou com o que aconteceu com você na escola.

Pois é.

Lá vinha a lição.

— Mas isso não pode ser mudado — ela continuou. — Nem por ele. E, minha
querida, nem por você.

Eu estava no meu quarto. Tinha me refugiado lá depois que os homens foram


embora para ligar para Nicole e organizar meus pensamentos antes de começar o
jantar e tentar convencer Suzette a sair para me ajudar - mesmo que Muzzle ainda
estivesse por perto - e, depois, tentar convencê-la a ficar fora quando Hugger
voltasse.

O pensamento de Hugger voltando fez um pequeno arrepio de felicidade


percorrer minha barriga, algo que ignorei com firmeza.

Para reforçar minha resistência, caminhei até a parede de janelas que dava para a
pequena varanda, encostei o ombro em uma delas e encarei o pátio sem realmente
vê-lo.
— Você é tão parecida com seu pai. Queria que vocês dois enxergassem isso
para poderem celebrar juntos essa semelhança — ela afirmou.

Minha cabeça deu um leve sobressalto de choque.

— Eu sou parecida com ele? — perguntei.

— Inteligência assustadora? Confere. Teimosia? Duplo confere. Determinação


inabalável? Triplo confere. Na maior parte do tempo, a teimosia é positiva. Exceto
nesse caso. Mas definitivamente, quando você se apega a algo, não solta. E não
deixa ninguém passar por cima de você. Sempre se impõe. Ele veio do nada e
construiu uma vida invejável. Você largou tudo e fez o mesmo.

Como eu disse, sabedoria nem sempre era algo agradável de receber.

Como agora.

Se existia uma coisa no mundo que eu não queria ser, era parecida com meu pai.

Mas ela não estava errada.

Eu só nunca tinha notado.

— Não sei o que ele esperava que você fosse — ela prosseguiu. — Eu me
apaixonei por ele, casei com ele, e nem eu sei o que ele esperava que eu fosse. Só
sei que, para o Nolan, tudo se resume a expectativas. E a única pessoa que as atende
é ele mesmo. Ele só não percebe que isso acontece porque ele tem controle sobre o
que esperam dele. Ele decide se vale a pena perseguir algo e, se for, ele enfrenta o
desafio e o supera. Mas ele não pode fazer isso com outras pessoas. Você precisa ter
suas próprias metas e lutar por elas. Ele não pode fazer isso por você.

Ah, é.

A sabedoria, às vezes, era uma merda completa.

Quero dizer, eu já sabia de tudo isso, claro. Mas ouvir em voz alta era outra
história. E, por alguma razão, em vez de me sentir validada, me trouxe de volta
àquela antiga sensação:
A de que eu sempre seria uma decepção para o meu pai, não importava o
quanto tentasse evitar.

E isso, por sua vez, me lembrou que, mais cedo naquele dia, ele me dissera que
estava orgulhoso de mim. E eu sabia que ele falava sério.

Algo que eu tinha esperado a vida toda para ouvir.

— Você deveria jantar com ele, Di — ela disse suavemente.

— Nic… — Foi tudo o que consegui dizer, porque, sim…

Eu ainda conseguia ouvir o tom de súplica na voz dele quando me fez o convite.
E ainda sentia o aperto que aquilo causou dentro de mim.

— E, por mais que me assuste saber que quatro estranhos apareceram no seu
prédio oferecendo ajuda, confio no seu julgamento. Então, você precisa trabalhar
com esses motociclistas para garantir que Suzette fique em um lugar onde as
pessoas certas possam ajudá-la de verdade — ela concluiu.

Eu já tinha entendido isso.

— Estou de acordo com isso — compartilhei. — Não sei no que eu estava


pensando. Deveria ter deixado o detetive Scott cuidar dela.

— Ela já explicou por que está completamente sozinha?

Suzette não tinha se aberto. E, quando digo isso, quero dizer que não contou
absolutamente nada.

Eu só sabia que não havia namorado, aparentemente nenhum amigo próximo, e


seus pais eram um assunto proibido. Nem sabia se ela havia largado um emprego
para se esconder no meu apartamento, ou onde morava antes de vir para cá.

Então, sim…

Ah, sim.
Isso era uma grande bagunça, e eu tinha me metido nela até o pescoço.

— Não achei prudente pressioná-la — respondi.

— Provavelmente não é, mas, em algum momento, ela vai ter que voltar para o
mundo dos vivos. O que ela precisa fazer para superar isso exige coragem. Todo
mundo precisa de um tempo para lamber as feridas. Mas, se continuar lambendo,
elas nunca vão cicatrizar.

Elas nunca vão cicatrizar.

Droga, merda, porcaria.

Merda.

Sentindo meu momento de epifania com seus incríveis poderes de ex-madrasta


badass, ela chamou:

— Di?

— Eu fiz isso, não fiz? Depois do que aconteceu em Tucson… Não com aquele
cara. Com o meu pai. Eu não deixei as feridas fecharem.

— Não, querida, você não deixou — disse ela com suavidade.

Deixei minha testa encostar no vidro da janela.

— Acho que meu pai sente minha falta.

Nicole ficou em silêncio.

— Nic?

— Não podemos obrigar as pessoas a nos amarem do jeito que queremos. Ou


aceitamos o amor como ele vem, ou o rejeitamos. Dito isso, Diana, ele te ama.
Sempre te amou. Pode não ser da maneira que você precisa, mas isso não significa
que o amor não esteja lá.
Droga, merda, porcaria.

Eu ia chorar.

Não podia chorar, não só porque odiava isso, mas também porque Hugger logo
estaria de volta, e eu não queria que ele me visse com os olhos inchados.

Também não queria pensar no motivo de não querer que Hugger me visse assim.

Felizmente (ou infelizmente, dependendo do ponto de vista), Nicole voltou a


falar antes que eu precisasse me aprofundar nesse pensamento.

— Agora que você já tem idade suficiente, acho que está madura para ouvir o
que ele tem a dizer.

Minha cabeça se ergueu do vidro na mesma hora.

— O que isso quer dizer? — perguntei.

— Não tenho certeza — ela respondeu, soando desconfortável, como se


estivesse tentando evitar algo. — O que eu sei é que ser afastado de você por uma
década, com certeza, o devastou. E isso não é uma tentativa de te fazer sentir
culpada, querida. Ele teve todas as oportunidades de estender a mão durante esses
anos e não fez isso. Era ele quem deveria ter dado esse passo. Então, não é sua
responsabilidade. Mas agora que essa barreira foi quebrada… Reaproxime-se do seu
pai. Se isso ainda for prejudicial para você, afaste-se de novo. Mas eu te conheço. Se
não tentar, vai se arrepender. E se deixar passar muito tempo e acabar encontrando
um meio-termo com ele, vai se lamentar por ter perdido ainda mais anos que
poderiam ter sido diferentes.

— Essa sua sabedoria toda pode ser bem cansativa — resmunguei, e ouvi sua
risada suave.

— Ele é um homem cheio de falhas, mas todos nós temos as nossas, inclusive eu
— declarou. — Uma delas foi me apaixonar por alguém que não era a pessoa certa
para mim. Mas isso me trouxe até você. E, por isso, não me arrependo.
— Você precisa parar de ser tão incrível, ou não vou conseguir enxergar direito
enquanto faço tacos para uma mulher com um alvo nas costas e um motociclista.
Ninguém quer lágrimas nos tacos. Acho que nem mesmo os motociclistas.

Ouvi a diversão na voz dela quando respondeu:

— Certo, vou deixar você ir. Larry manda lembranças.

Nicole conheceu Larry um ano depois do divórcio com meu pai. Casaram-se dois
anos depois. Fui uma das damas de honra.

Ele era bonito, adorava Nicole como se ela fosse uma deusa e tinha dois filhos de
um casamento anterior. Ele não queria mais filhos. Nicole também não queria ter os
seus próprios, mas estava completamente disposta a espalhar sua incrível bondade
de madrasta, então fazia isso com os filhos de Larry, assim como fazia comigo.

Eles a adoravam.

Larry (e as crianças) me adoravam.

E eu adorava todos eles.

Era um ganha-ganha-ganha-ganha.

Então… mais uma vez, Nicole era a única constante que eu tinha na minha vida.

E isso significava tudo para mim.

Enviei meu amor de volta, desliguei e saí do meu quarto, indo até a porta
fechada do quarto de Suzette.

Eu bati.

— Suze? Sou eu.

— Oi? — veio a resposta.

Abri a porta e a vi encolhida na cama com o iPad nas mãos (na verdade, meu
iPad).
Ela era uma coisinha linda, mas tão pequena.

Droga.

Cabelos loiros fartos, olhos azuis enormes e o que antes era uma pele perfeita,
de porcelana.

Eu não conseguia imaginar alguém levantando a mão contra ela com raiva,
machucando-a de qualquer forma.

Só de estar ali, parada na porta do quarto, queria envolvê-la nos braços e apagar
todas as suas dores.

Mas eu não podia fazer isso.

Então, fiz a única coisa que podia.

— Vou fazer tacos de peixe empanado na cerveja com salada. Quer ajudar? —
perguntei.

— Eles já foram?

Balancei a cabeça.

— Não. Muzzle ainda está aqui. Mas ele vai embora quando Hugger voltar.

— Acho que vou ficar por aqui. Não estou com muita fome.

A verdade era que ela quase não comia, e isso estava começando a me
preocupar. Ela era tão pequenininha. Precisava comer.

Também tinha passado por um trauma gigantesco e afundava cada vez mais em
uma depressão que, provavelmente, estava afetando seu apetite. Precisava se
alimentar, mesmo sem fome. Podia lidar com a depressão depois, mas não
conseguiria se estivesse enfraquecida.

Parei por um momento, então entrei no quarto. Antes era minha oficina, onde
meu chefe me deixava fazer alguns projetos menores em casa, o que era uma
vantagem.
Com a ajuda de Nicole, Larry, minha avó e alguns amigos, guardamos minhas
coisas e montamos um espaço só para Suzette. Colocamos uma cama de casal,
roupas de cama bonitas, criados-mudos, luminárias, uma cômoda e uma TV.

Tudo de segunda mão, mas bem arrumado.

Feminino, acolhedor, um espaço que mostrava que ela importava.

As persianas estavam fechadas, as cortinas puxadas, os abajures acesos. Ainda


era setembro, então o dia ainda estava claro, mas ali dentro, parecia uma caverna.

— Não vou insistir — garanti.

Ela se enrijeceu, sabendo que eu estava prestes a insistir um pouco.

— Mas vou te incentivar a abrir as cortinas e sair mais desse quarto.

— Não entendo por que, de repente, quatro caras enormes apareceram


querendo me ajudar — ela comentou.

Eu também não entendia totalmente.

— Como eu disse, eles têm um histórico com... você sabe.

Eu evitava dizer o nome dele. Ela sempre estremecia quando ouvia, então eu
tentava não mencioná-lo.

— Então eles estão me usando para chegar até ele? — ela perguntou.

— Não. Eles estão genuinamente — e eu diria extremamente — irritados com o


que ele fez com você, pelo que pude perceber.

E lá estava.

O estremecimento.

Droga.

— E é por isso que querem te ajudar — finalizei.


— Mas eles ganham algo com isso.

Dei de ombros.

— Não sei, querida. Eles nem sabem por que, hum... aquele-que-não-deve-ser-
nomeado decidiu focar neles. Também estão tentando entender isso, como
expliquei quando falamos sobre isso mais cedo.

— Isso me parece estranho.

Sorri para ela, entrei um pouco mais no quarto e me sentei na cama.

— Concordo. Mas caso você não tenha notado, eu não sou o Jason Statham.

Os lábios dela se curvaram levemente.

— Estamos seguros aqui, eu realmente acredito nisso — disse a ela. — Mas não
posso negar que estamos muito mais seguros com aqueles caras por perto.

— É... — ela murmurou.

— Então, vai sair do quarto para me ajudar com os tacos?

Ela mordeu o canto do lábio e encolheu o ombro direito antes de relaxá-lo e


pedir:

— Posso tentar amanhã à noite?

— Sem pressão. Eu disse que não iria forçar, e falei sério. Mas aviso logo: posso
não te pressionar, mas minha motivação pode ser um pouco mais intensa.

Ela sorriu com isso, não muito, mas foi um sorriso real antes de dizer:

— Considero-me avisada.

— Vou trazer uns tacos para você — ofereci.

Ela assentiu.
Se ela comesse, junto com aquele sorriso, já seria uma vitória para a noite.

Saí do quarto dela, fui até o meu, troquei de roupa e coloquei um short jeans
desfiado e uma camiseta preta fofa, com mangas bufantes e um decote em V
profundo (e eu ignorei o fato de ter escolhido uma blusa semi-elegante com decote,
sendo que dificilmente a usaria para ficar em casa _ era mais uma peça para um café
ou cinema). Então, segui para a cozinha.

Muzzle estava esparramado no meu sofá, todo seu estilo de motociclista durão,
vestindo jeans surrados e uma camiseta, com o olhar fixo na TV, onde passava um
documentário sobre crimes reais.

— Gosta de crimes reais? — perguntei enquanto seguia para a cozinha.

Ele me olhou, seu olhar desceu até minhas pernas, ficou preguiçoso por um
segundo e depois voltou para os meus olhos.

Anotado: Muzzle era um cara que gostava de pernas.

— Sofrimento adora companhia — ele respondeu.

— O quê? — franzi a testa.

— Não é bom saber que existem outros desgraçados por aí que as pessoas têm
que lidar. Mas, ao mesmo tempo, é bom saber que não somos os únicos lidando
com esses desgraçados o tempo todo.

Interessante.

— Isso significa...? — incentivei.

— As pessoas têm problemas. A polícia não consegue resolver, ou elas não têm
dinheiro para advogados, investigadores particulares ou seja lá o que precisem para
se livrar do problema. Então, elas vêm até nós... e nós resolvemos.

Interessante.

— E isso quer dizer...? — pressionei.


Ele olhou para a parede ao lado, onde ficava o banheiro de hóspedes, depois
além, para o quarto de Suzette, e então voltou a me encarar.

Mas não disse nada.

Percebi que seu olhar era a resposta.

Infelizmente, também não era.

— Pelo visto, nosso curto convívio ainda não me ensinou a decifrar seus olhares
significativos — comentei, enquanto começava a preparar o jantar.

Ele soltou uma gargalhada.

Também desligou a TV, levantou-se para revelar sua altura de cara-quente-


motociclista e foi até a ilha da cozinha.

— Tivemos um caso de uma mãe cuja filha adolescente estava sendo


chantageada sexualmente por um anônimo nas redes sociais. A garota não
aguentou. Tirou a própria vida. A polícia estava agindo devagar demais e, no fim das
contas, esse desgraçado estava fazendo o mesmo com outras meninas. Nós
encontramos o cara e demos um jeito nele. De graça. A mãe teve justiça. Outras
garotas ficaram livres dele. E fim de papo.

Eu o encarei.

— Como exatamente vocês deram um jeito nele?

Ele me lançou um sorriso de-derreter-calcinhas, branco e perfeito.

— Isso, nem as old ladies sabem. Tem coisas que são só da irmandade, Diana. E
ninguém entra. Não se trata de excluir as mulheres. É sobre manter qualquer um que
não seja um irmão de fora. Aprenda isso desde já.

Eu não sabia se precisava dessa lição para o, com sorte, curto período de tempo
que levaria para garantir que Suzette estivesse em um lugar verdadeiramente
seguro.
Mas guardei a informação mesmo assim.

— O que tem para o jantar? — ele perguntou.

Era uma boa pergunta, porque eu precisava saber a quantidade.

— Você vai comer? — devolvi.

— Depende do que for.

— Tacos de peixe empanado na cerveja.

— Vou comer.

Sorri para ele.

Ele inclinou a cabeça de lado.

— Isso vai ser feito do zero?

— O peixe, sim. A salada de repolho, sim. A salsa... infelizmente, não.

— Quer ajuda?

— Você sabe cozinhar?

— Só se não tiver outra opção. Mas se uma mulher com um corpo incrível, um
belo traseiro, pernas matadoras e um sorriso bonito pedir, eu posso improvisar.

Nenhum homem jamais havia falado sobre meu corpo, diretamente para mim,
com tanta franqueza... e, ainda assim, me senti altamente lisonjeada.

Mesmo assim, estreitei os olhos para ele.

— Você está flertando comigo?

— Sim, mas só por hábito — ele afirmou. — Se fosse sério, você saberia. Mas não
posso ser sério porque Hugger me faria comer minhas bolas no café da manhã, e eu
gosto delas onde estão.
Meu coração apertou de um jeito estranho com essa declaração.

— Por que ele faria isso?

— Baby... — foi tudo o que ele disse.

— Isso é uma resposta para minha pergunta?

— Hã... sim.

— Odeio te informar, mas não foi, na verdade.

Ele piscou para mim, depois foi até a geladeira, pegou um repolho e disse:

— Vou deixar você descobrir.

Hmm.

Não insisti, porque prometi a Hugger que o jantar estaria pronto quando ele
voltasse. Ele já estava fora há uns vinte minutos, então precisávamos agilizar.

Aprendi que Muzzle era bom em ralar repolho e cenoura.

Também aprendi que ele era exatamente o que eu esperava: um homem de


verdade.

Isso ficou claro quando temperei o peixe, deixei a massa descansando e ele me
afastou com firmeza quando peguei a frigideira e o óleo.

Fritura era coisa de homem.

Bom saber.

Enquanto isso, discretamente, eu o observava.

Sua força era magra e definida, enquanto a de Hugger era massiva e, bem...
igualmente definida.
Muzzle tinha cabelos castanho-escuros, longos e bagunçados, além de uma
barba por fazer, mas sem ser uma barba cheia. Seus olhos eram cor de avelã, com
um tom âmbar hipnotizante no centro.

Se ele se arrumasse um pouco, colocasse uma camisa social e um jeans mais


novo, seria exatamente meu tipo. Alto, esguio, moreno e charmoso.

Hugger não era nada disso. E, ainda assim, ali estava eu, cozinhando ao lado de
Muzzle sem o menor traço daquela ansiedade incômoda que aparece quando
estamos perto de um homem atraente que queremos conhecer melhor.

Pelo contrário, era simplesmente confortável e amigável.

Não. A inquietação que me dominava era outra: eu estava esperando ouvir a


porta da frente se abrir, anunciando que Hugger tinha voltado.

Isso era um problema.

Eu nunca fui do tipo tímida com homens que me interessavam, então não era
isso.

Na verdade, era porque eu sou realista.

Hugger morava em Denver.

Já tive minha experiência com neve. Ela é linda - se você estiver dentro de casa,
tomando um chocolate quente e assistindo a filmes da Hallmark12. Fora isso, eu não
queria ter que lidar com ela.

Mas esse não era o único motivo pelo qual eu não tinha a menor intenção de
deixar Phoenix. Os outros eram bem mais importantes, e seus nomes eram Nicole,
Vovó, Larry e todos os meus amigos. Sem falar no meu trabalho.

Além disso, nunca ouvi uma história de relacionamento à distância que tenha
dado certo. Tampouco conheço alguém que tenha largado tudo e se mudado para

12
São conhecidos por suas histórias leves, românticas e reconfortantes, especialmente os famosos
filmes de Natal.
ficar com alguém - normalmente a mulher - e a coisa tenha terminado bem. Sempre
acaba sendo um desastre, tanto emocionalmente quanto financeiramente.

E, para piorar, a maior parte do problema era que eu nem tinha certeza se ele
gostava de mim ou se apenas me achava uma idiota.

A salada de repolho estava marinando. Havia seis tiras crocantes de bacalhau


descansando sobre um papel-toalha, mais três fritando no óleo, e eu estava
tentando esquentar as tortillas quando ouvimos a porta da frente se abrir.

Meu coração deu um salto.

Droga.

Hugger entrou carregando duas bolsas de couro preto, quadradas e desgastadas,


com tiras e fivelas prendendo-as, uma em cada mão.

Ele parou, olhou para mim, depois para Muzzle, em seguida para o peixe fritando
na frigideira e, por fim, voltou a me encarar—primeiro para o meu decote, depois
para os meus olhos.

— O jantar ainda não está pronto — declarou.

Eu comecei a rir.

Então disse:

— Vem comigo.

Saí da cozinha e fui até meu quarto.

Parei na porta do meu closet e me virei, vendo Hugger dar alguns passos para
dentro do cômodo, analisando tudo ao redor.

Não senti aquela animação borbulhante na barriga.

Não.
A felicidade que me invadiu ao vê-lo no meu quarto estava bem mais ao sul.

— Acho que você não deveria dividir o banheiro com a Suzette — afirmei.

Ele focou sua atenção em mim.

— Ela precisa do espaço dela e de se sentir totalmente segura. Então, você pode
guardar suas coisas no meu closet e usar meu banheiro.

— Certo — respondeu.

— Se eu não estiver aqui, pode entrar à vontade. Se eu estiver e você precisar de


algo, obviamente, é só bater na porta.

— Certo.

— Sem querer alimentar padrões de gênero ultrapassados, mas vou deixar


algumas toalhas separadas para você. As suas serão azuis, as minhas, brancas.

— Entendido.

— Tenho duas pias lá. Pode se acomodar. Você vai perceber qual delas não está
em uso e pode ficar com ela.

Ele não disse nada, apenas ficou parado.

— Preciso liberar um espaço no closet e nas gavetas para você? — perguntei.

— Não estou me mudando.

Franzi a testa.

— Achei que estivesse... pelo menos temporariamente.

Ele não respondeu a isso.

Em vez disso, perguntou:

— Você tem problema com minhas coisas espalhadas pelo chão do closet?
Pensei por um segundo.

Na verdade, só precisei de meio segundo.

— Totalmente.

Ele balançou a cabeça de um jeito que parecia dizer essa mulher é um caso
perdido e disse:

— Tá bom. Me arranja um espaço.

— Faço isso depois do jantar — avisei. — E, só pra você saber, eu não tenho um
sofá-cama, mas podemos tirar as almofadas do encosto, e o assento é bem largo. Eu
durmo nele o tempo todo. É super confortável.

— Você pesa uns cinquenta quilos a menos do que eu.

Ah, que fofo!

— Se for desconfortável, podemos pegar um colchão de ar — sugeri.

— Não estou aqui de férias — ele lembrou.

— Todo mundo precisa de uma boa noite de sono — rebati.

— Já dormi em sofás. Já dormi no banco de trás de carros. Já dormi no chão, em


barracas, fora das barracas, direto no chão dentro de um saco de dormir. Uma vez,
dormi no topo de um bar. Não tenho problema em dormir em qualquer lugar
disponível. Não se preocupe com isso.

Meu Deus, eu queria muito saber a história por trás desse “topo de um bar”.

Mas deixei passar.

— Beleza — respondi.

— Acabamos aqui?

— Sim.
— Posso largar minhas coisas e ir comer?

Sorri para ele.

— Sim.

Ele não se moveu.

E eu também não, porque ele estava olhando para minha boca de um jeito que
nenhum homem jamais olhou antes. Isso me fez sentir tantas ondas de felicidade
pelo corpo que eu não tinha certeza se conseguiria sair do lugar.

Ele quebrou o encanto, passou por mim, e eu me afastei para dar passagem.
Então, ele “largou suas coisas” dentro do meu closet.

Saiu do quarto, e eu fiquei observando cada passo, maravilhada com o fato de


um homem tão grande ter um tipo de graça tão intensa.

O feitiço foi quebrado quando Muzzle gritou da cozinha:

— O peixe está esfriando, e eu não fiquei me matando nesse óleo pra servir peixe
encharcado!

Isso me fez sorrir de novo porque, pode me chamar de maluca, mas eu estava
começando a gostar desses caras.
Capítulo 5
MERDA
Diana

Era manhã do dia seguinte.

Eu já estava vestida, pronta para o dia e organizando as coisas para o jantar


daquela noite.

Mais cedo, ao sair para preparar o café, vi Hugger deitado de costas no meu sofá.
Eu tinha preparado um lugar para ele dormir: um lençol sobre o sofá, outro para se
cobrir, um cobertor e dois travesseiros extras. Também tirei as almofadas do encosto
para dar mais espaço - ainda assim, ele parecia ocupar tudo.

Seu braço estava jogado sobre os olhos e, pelo que pude perceber, além das
botas estarem no chão ao lado do sofá, ele ainda vestia as mesmas roupas do dia
anterior.

Por último (algo que tratei de tirar da minha mente no instante em que vi), havia
uma arma sobre a mesa de centro, bem próxima dele.

Ele não se moveu enquanto eu preparava o café.

Quando voltei, já vestida e pronta para o café da manhã, ele estava sentado no
sofá, encarando a mesa de centro com um olhar perdido, enquanto tomava um gole
de café. Seu cabelo estava ainda mais bagunçado que o normal. Até a barba parecia
mais desalinhada.

E os dois estavam incríveis.


Mais incrível ainda foi o fato de que ele já tinha desmontado o improviso do sofá
e dobrado tudo, deixando os lençóis e o cobertor cuidadosamente organizados no
canto, fora de vista.

Motociclistas arrumam as coisas. Quem diria?

Ele me lançou um olhar sonolento (e ainda mais incrível, diga-se de passagem),


levantou-se e, sem dizer uma palavra, caminhou tranquilamente pelo corredor até o
meu quarto.

Enquanto preparava aveia, ouvi o chuveiro ligar e tentei ao máximo não pensar
em Hugger tomando banho ali.

Falhei.

Comi minha aveia, falhando miseravelmente em não imaginar Hugger, nu e


molhado, no meu chuveiro.

Estava prestes a pegar a Crock-Pot quando ele apareceu.

E então, congelei.

Ele vestia uma camiseta preta justa sobre o peito largo, jeans desbotados e o
cabelo ainda úmido, penteado para trás, destacando ainda mais sua beleza
marcante.

Como se isso já não fosse o suficiente, as pontas do cabelo começaram a secar,


formando cachos sutis na nuca, o que adicionava um toque de charme irresistível à
sua aparência.

— Quer café da manhã? — perguntei, tentando soar casual.

— Sim — respondeu, indo direto para a cafeteira. Fiquei feliz por ter feito uma
jarra cheia, pois estava claro que ele tomava café do mesmo jeito que eu.

— Tenho aveia — informei. — Posso fazer um smoothie13. Também tem cereal.

13
Smoothie é uma bebida cremosa e gelada, feita à base de frutas, vegetais, iogurte, leite ou sucos
naturais, geralmente batidos no liquidificador com gelo ou outros ingredientes.
— Cereal — decidiu, colocando a jarra de volta no suporte.

— No armário perto da parede — indiquei.

Ele colocou duas colheres de açúcar no café e foi até o armário.

Ele então assobiou baixo e acrescentou:

— Puta merda.

Eu sabia exatamente o que aquilo significava.

— Sou uma grande entusiasta de supermercados — informei a ele.

— Deu para perceber — ele murmurou, ignorando os flocos de arroz


saborizados, o cereal de milho doce, o cereal com marshmallows, as bolinhas
crocantes de chocolate e o cereal de canela e açúcar, indo direto no cereal colorido
de frutas.

Aprovei essa escolha.

— As tigelas estão no armário ao lado da lava-louças — avisei enquanto


preparava a panela elétrica de cozimento lento.

Ele pegou uma tigela grande de massa, em vez de uma tigela normal de cereal.

Pensei em fazer um comentário só para provocá-lo, mas decidi apenas sorrir.

Ele não precisou de instruções para encontrar o leite.

Tinha acabado de despejar o leite e colocá-lo de volta na geladeira quando


pegou o celular no bolso de trás, olhou para a tela e depois para mim.

— Big Petey chegou. Como faço para liberar a entrada?

— Basta apertar o botão verde no painel ali — indiquei com a cabeça. — Isso
libera o acesso até o hall de entrada. Depois, aperte o azul. Ele terá cinco minutos
para chamar o elevador e poder subir até o meu andar.
Hugger foi até o painel, apertou os botões e voltou para seu cereal.

Fui até a geladeira pegar os peitos de frango.

Quando a campainha tocou, Hugger foi atender.

Ele voltou no momento em que eu começava a arrumar os frangos no fundo da


Crock-Pot.

Parei no meio do movimento, pela segunda vez naquela manhã, ao ver Big Petey.

Ele parecia um avô motociclista, com a ênfase no avô.

A boa notícia era que Suzette provavelmente não teria nenhum problema em
passar um tempo com ele. Assim como os outros caras, ele tinha um jeito bruto, mas
a bondade em seus olhos era evidente.

A má notícia era que, se houvesse algum perigo, eu duvidava que Big Petey seria
capaz de impedir que ele me encontrasse.

— Pete, essa é Diana. Diana, Big Petey — Hugger apresentou, soltando um


grunhido antes de voltar para o café e o cereal.

— Desculpa, estou com as mãos cheias de suco de frango, só um segundo —


avisei, correndo até a pia para lavá-las.

Depois de terminar o que estava fazendo, me aproximei de Big Petey com a mão
erguida.

— Prazer em te conhecer.

— O prazer é meu, querida — ele respondeu, apertando minha mão com firmeza
e simpatia antes de soltá-la.

— Você já tomou café da manhã? Ou pelo menos um café? — perguntei.

— Peguei algo no caminho — ele disse.


— Suzette ainda não saiu, mas vou buscá-la para apresentá-los antes de Hugger
e eu sairmos. Só preciso organizar a panela elétrica primeiro.

— Não tenho outro lugar para estar, Diana — ele garantiu.

Sorri para ele.

— Fique à vontade. Comida, bebida, TV, streaming... O que quiser.

— Obrigado, querida.

Voltei para a cozinha e peguei uma caixa de caldo. Estava despejando sobre o
frango quando Hugger perguntou:

— O que você está fazendo?

— Preparando o jantar.

— Agora?

Levantei os olhos para ele.

— É uma panela de cozimento lento.

Ele espiou dentro da panela elétrica e depois voltou a me encarar.

— O que tem para o jantar?

— Tacos de frango desfiado.

Ele inclinou a cabeça de leve.

— Comemos tacos ontem à noite.

— E vamos comer de novo hoje. E se você tiver algum problema com isso,
engole o choro, porque provavelmente vamos comer amanhã também.

— Taco é taco. Ninguém nunca recusa um taco — ele declarou, como se fosse
uma verdade universal. Mas então, se desviou do caminho certo: — A menos que
tenha que comer todo santo dia.
— Não se preocupe, eu tenho um repertório inteiro de tacos. Você já provou o
de peixe empanado na cerveja. Hoje é de frango desfiado. Depois tem de carne
desfiada, carne moída, camarão, peixe grelhado... Ah, também tem frango grelhado,
fajitas, steak... e...

Ele ergueu a mão aberta bem na minha frente e ordenou:

— Pare.

Não gostei nada daquele gesto (embora, sem dúvida, fosse uma grande e bela
mão de dedos longos - Deus, alguém me mate). Franzi o nariz para ele.

Ele encarou meu nariz do mesmo jeito que havia olhado para minha boca na
noite anterior, e então baixou a mão.

Ignorando o quanto gostei da expressão dele, retruquei:

— Não fale mal dos meus tacos.

— Então você está dizendo que é uma especialista em tacos também.

— Sou especialista em muita coisa, e tudo gira em torno de comida.

O olhar dele desceu para a altura dos meus quadris e ele murmurou:

— Aprovado.

Meu clitóris pulsou.

Hugger ergueu a tigela à boca e bebeu o leite direto dela.

E Deus me ajude, porque isso também fez meu clitóris pulsar.

Big Petey pigarreou.

Virei para ele e vi que o vovô motociclista tinha se transformado em Vovô


Motociclista!, com um enorme sorriso no rosto, olhos brilhando de divertimento e
todo o ambiente ao redor dele irradiando pura satisfação.
— Eu adoro tacos — ele anunciou.

— Ótimo, porque vai ter de sobra — respondi.

Dito isso, Big Petey foi se acomodar no sofá. Voltei a organizar a panela elétrica.
E, para minha surpresa, Hugger enxaguou a tigela, a colher e a caneca de café,
colocando tudo na lava-louças.

Prova concreta: motociclistas também arrumam a bagunça.

Sem mais desculpas para adiar, algo que eu queria fazer porque não sabia se ela
estava pronta para isso - e eu certamente não estava pronta para forçá-la - mas sem
escolha (sem mencionar que eu precisava trabalhar), avisei a Big Petey:

— Vou buscar a Suzette agora.

— Tudo bem, querida.

Caminhei pelo corredor, bati suavemente na porta e fiquei surpresa quando ela
se abriu imediatamente alguns centímetros, revelando Suzette.

Ela já estava vestida, o que era algo característico dela. Só a vi de pijama uma
única vez - numa noite em que eu fazia maratona de TV na sala e, bem tarde, ela foi
e voltou do banheiro.

Fora isso, ela sempre parecia pronta para qualquer coisa, o tempo todo. Até
mesmo de tênis.

Aquilo doeu no meu coração, entender o motivo.

Mas eu entendi.

Depois do incidente, eu simplesmente nunca mais tive encontros de estudo em


lugares que não fossem públicos e, até hoje, nenhum homem tinha permissão para
entrar na minha casa antes do quinto encontro. Sem exceções.

Bem, havia uma: serviços não solicitados de segurança prestados por


motociclistas.
Com isso em mente, não fiz nenhum comentário.

— Ei, o Big Petey está aqui. Quero que você o conheça antes de mim e do
Hugger sairmos.

— Tá bom — ela sussurrou, abriu a porta e deslizou para fora.

Ela não estava de sapatos.

Talvez fosse um progresso?

Caminhamos pelo corredor. Hugger manteve distância, e eu adorei que ele


soubesse fazer isso sem que eu precisasse dizer nada.

Big Petey se levantou do sofá.

Assim que a viu, uma expressão de pura fúria cruzou seu rosto por um instante
antes de ele se controlar e sorrir para Suzette.

— Oi, garota — ele cumprimentou.

— Oi — ela respondeu timidamente.

— Sou o Big Petey.

— Hum... — murmurou ela.

— Você já tomou café? — ele perguntou.

— Não estou com muita fome — respondeu, e considerando que ela tinha
comido dois tacos na noite anterior, dessa vez, talvez fosse verdade.

— Pode ser, mas todos precisamos comer, e o café da manhã é a refeição mais
importante do dia — Pete rebateu, então olhou para mim. — Você tem ovos e
bacon?

— Ela é praticamente uma especialista em supermercados — Hugger respondeu


por mim.
— Sim — confirmei.

Big Petey abriu um sorrisão para Hugger, mas parou com isso assim que seguiu
para a cozinha.

— Vem me fazer companhia enquanto eu preparo seu café da manhã, querida —


convidou Suzette.

Ela avançou hesitante até o balcão da cozinha, mesmo dizendo:

— Eu realmente não estou com fome.

Pete se virou para ela, mas não lançou um olhar de Avô Motociclista!

Em vez disso, usou um olhar de Pai Preocupado, Então É Melhor Você Me Ouvir!
e respondeu:

— Você precisa comer.

Suzette se aproximou um pouco mais.

Eu estava percebendo que isso poderia funcionar, pelo menos em certo nível.
Pete era mais insistente do que eu me sentia confortável, mas Suzette
aparentemente respondia bem a isso.

Ainda assim, eu tinha minhas preocupações quanto à idade dele e ao real motivo
de estar ali.

A proteção de Suzette.

Mas, pelo jeito como ela o observava se familiarizar com a minha cozinha, era
evidente que ela não compartilhava dessas preocupações.

— Baby — Hugger chamou.

Não me pergunte como eu soube que ele estava se referindo a mim. Talvez
porque fosse improvável que ele estivesse chamando Suzette, e com certeza não
estava se dirigindo ao Big Petey.
Virei-me para ele e, de fato, ele falava comigo.

— Vamos ou não? — ele perguntou.

— Certo, vamos — respondi.

Olhei entre Big Petey e Suzette.

— Vocês estão bem?

— Estamos ótimos. Vai. Nos vemos mais tarde para os tacos — Pete respondeu.

Suzette apenas acenou para mim.

Sorri para os dois, fui até a sala de jantar, peguei minha bolsa e saí com Hugger
logo atrás.

Quando chegamos ao elevador, estendi a mão e puxei levemente a camiseta dele


na lateral, perto dos músculos abdominais.

Lentamente, ele abaixou a cabeça para olhar meus dedos tocando o tecido.

Soltei a camiseta.

Com a mesma lentidão, ele ergueu a cabeça e me olhou.

— Hm...

Eu não sabia como começar.

Mas segui em frente mesmo assim.

— Não tenho certeza sobre o Big Petey.

— O que exatamente você não tem certeza?

— Hm... — repeti, sem dizer mais nada.

— Fala logo, Diana — ele ordenou.


— Ele não é jovem.

— Impressionado com seus incríveis poderes de observação.

Lancei-lhe um olhar irritado.

Hugger falou:

— Para de se preocupar. Ele sabe o que está fazendo. Ink e Driver estão lá fora
com o Muzzle, vigiando tudo. Além disso, hackeamos as câmeras do prédio ontem à
noite.

Parei de semicerrar os olhos para poder encará-lo melhor.

As portas do elevador se abriram.

Hugger entrou, e eu o segui automaticamente.

Ele apertou o botão para o andar térreo.

— Vocês hackearam as câmeras do prédio? — perguntei.

— O Resurrection tem um aliado que faz esse tipo de coisa. Ele também tem um
software de reconhecimento facial e acesso a fotos de todos os associados
conhecidos de Imran Babić. Se algum dos caras dele, ou qualquer um que não nos
passe uma boa impressão, se aproximar do saguão dos elevadores, recebemos um
alerta na hora.

Estava me sentindo bem mais segura com o alcance dos serviços de segurança
dos motociclistas enquanto as portas do elevador se abriam e saíamos.

— Ink e Driver? — perguntei.

— Mais membros dos Aces.

— Quantos de vocês são?

— Muitos.
Definitivamente, eu estava me sentindo muito melhor.

Foi então que percebi que ele estava me empurrando para fora, em direção à
entrada principal do complexo, e que não estávamos no meu andar de
estacionamento. Claro que não estaríamos, já que nenhum de nós usava um
chaveiro eletrônico para acesso.

Parei.

— Meu carro está dois andares abaixo.

Ele se virou para mim, meio dentro e meio fora da porta.

— Vamos de moto.

Ah, de jeito nenhum que íamos.

— Eu nunca andei de moto na vida.

Algo quente brilhou nos olhos dele, mas ele apenas disse:

— Hoje é o seu dia.

— Isso vai bagunçar meu cabelo.

O olhar dele subiu para minha cabeça, e sua voz saiu com um tom áspero
quando respondeu:

— Definitivamente, não vai.

— O vento faz isso.

Ele prendeu os olhos nos meus.

— Confia em mim.

Minha voz ficou mais aguda, porque, para ser sincera, eu não estava nada segura
sobre subir naquela moto com ele.
E não era só por causa do meu cabelo.

— Eu estou de salto!

Sim, saltos nude de verniz, combinados com uma calça cropped14 rosa-claro e
uma blusa de gola careca azul-bebê, toda de seda. Eu estava totalmente vestida para
um ambiente de negócios casual, não para um passeio de moto.

— Agora eu entendi — ele declarou.

— Entendeu o quê?

— Tyra, Lanie, Millie.

— O quê?

— Nunca tinha entendido antes, mas agora entendo.

— O quê?

Ele entrou de vez, fechando a porta atrás de si, e não fez isso para explicar suas
palavras.

— Primeiro, não acho que eu caiba no seu carro.

Eu não tinha pensado nisso, mas agora que ele mencionou, percebi que era um
problema.

— Segundo, seu carro é ridículo e uma armadilha mortal.

Eu também nunca tinha pensado nisso, mas agora que ele disse, isso me irritou.

— Não é, não! — retruquei.

As sobrancelhas dele se ergueram.

14
A vestimenta cropped se refere a qualquer peça de roupa que tenha um comprimento mais curto
do que o padrão, deixando parte da barriga ou cintura à mostra. O termo é mais comumente usado para
blusas, tops e jaquetas, mas também pode se aplicar a calças e casacos com um corte encurtado.
— Se você bater em um SUV ou numa caminhonete, que é basicamente o que
mais tem nesta cidade... uma cidade onde, pelo que percebi, as pessoas fazem o que
bem entendem, ignorando completamente as leis de trânsito, que, por sinal, são leis
de verdade, você está ferrada.

Eu nunca tinha pensado nisso também, e não podia dizer que ele estava errado.

Especialmente sobre os motoristas de Phoenix.

Há tempos eu havia aprendido a conter qualquer inclinação para a fúria no


trânsito, porque, se não fizesse isso, teria tendências homicidas a cada metro de
asfalto que cruzasse. E esse tipo de coisa demandava energia demais.

Agora, simplesmente deixava todo mundo seguir seu caminho. Desde que eu
chegasse em casa inteira e sem sentir a necessidade de afiar facas, estava ótimo.

Senti meus lábios se comprimirem, porque eu odiava estar errada.

E essa era outra coisa que eu compartilhava com meu pai.

Droga!

— Terceiro, por causa do primeiro e do segundo motivo, meu traseiro nunca vai
entrar nesse pedaço de lata que você chama de carro — ele concluiu.

— Talvez você possa me seguir até o trabalho — sugeri.

— Talvez você possa calar a boca e simplesmente subir na minha moto.

— Ok, Hugger, posso estar no terceiro dia da minha escova, mas isso não
significa que quero que ela seja arruinada..

— Sua o quê?

Apontei para o cabelo.

— Escova.

— Pelo amor de Deus — ele murmurou.


E então não disse mais nada.

Eu também não.

Nós ficamos nos encarando.

Não sabia exatamente quanto tempo se passou, mas, se tivesse que adivinhar,
diria que foram uns bons cinco minutos. O que significava que eu estava prestes a
me atrasar para o trabalho.

Não que minha chefe fosse se importar. Ela nem estaria lá.

Mas era uma questão de princípio (como meu pai me ensinou).

— Você está pronta para ir trabalhar? — ele perguntou.

Argh!

— Você é insuportável — resmunguei, passando por ele.

Ele se virou e saiu pela porta antes de mim, soltando um baixo e rouco “Hm”.

Aquele som fez um estrago nos meus mamilos, e, numa tentativa de ignorar isso,
soltei um suspiro irritado.

Hugger me levou até uma moto brilhante estacionada na área de visitantes.

Merda.
Capítulo 6
ELE TROUXE BISCOITOS
Diana

Era hora do almoço, e eu estava apresentando os sanduíches do Sack’s 15 ao


Hugger.

Hugger pediu um de carne bovina nobre, cebola caramelizada, molho de raiz-


forte e complementos.

Eu pedi um de peru, bacon, abacate, brotos, cream cheese e complementos.

Ele pagou.

Não discuti, porque brigar por quem paga a conta era uma das minhas irritações
pessoais. Se alguém se oferecia ou insistia em pagar, por que discutir? Claro, isso me
fez desenvolver ótimas habilidades para insistir em pagar primeiro, mas, dessa vez,
Hugger foi mais rápido.

Ele conseguiu isso porque eu estava com muitas coisas na cabeça.

Para começar, descobri que a presença de Hugger no trabalho não seria apenas
ele circulando discretamente do lado de fora da oficina, de olho em tudo.

Não. Ele entrou direto e ficou comigo no estúdio.

Isso me deixou feliz pelo fato de minha chefe ter um dia cheio de compromissos
fora, porque eu realmente não sabia como explicaria por que precisava de um
homem me fazendo companhia no trabalho.

15
Sack's é uma rede de lanchonetes em Phoenix, Arizona, especializada em sanduíches gourmet,
saladas, sopas caseiras e massas.
Felizmente, era sexta-feira, e eu teria até segunda para pensar em uma
explicação.

Mais felizmente ainda, minha chefe era meio distraída.

Ok, muito distraída.

Annie talvez nem notasse que ele estava lá.

Outra coisa que não saía da minha cabeça era que, a princípio, foi estranho ter
Hugger ali enquanto eu trabalhava.

Mas, na maior parte do tempo, ele ficou mexendo no celular e, por uns trinta
minutos, recostou a cabeça para trás, cruzou os braços sobre o peito e apoiou as
botas no parapeito da janela. Eu podia jurar que ele tirou um cochilo (eu já sabia que
aquele sofá não seria confortável para ele).

No fim, aquilo não pareceu estranho de jeito nenhum.

A última coisa que ocupava minha mente era que andar na garupa da moto de
Hugger, com ele, havia se tornado uma espécie de revelação.

Havia algo libertador naquilo. O sol na pele. O vento nos cabelos (e, sim, eu
estava errada de novo, e Hugger, certo - não era tanto vento assim, meu cabelo
precisou de um pouco de ajeite, tanto no trabalho quanto depois que passamos no
Sack’s, mas não tanto quanto imaginei, provavelmente porque não dava para correr
muito nas ruas da cidade).

Mas, acima de tudo, era sobre me entregar a Hugger. Confiar nele. Sentir seu
cheiro. Encaixar meus polegares nos passantes do cinto de sua calça. Sentir o calor
que emanava de seu corpo. Perceber sua força. Observar sua concentração atenta
por trás dos óculos escuros enquanto ele manobrava pelas ruas, mantendo nós dois
seguros em sua moto.

Era incrível.
E eu tinha que admitir que também me deixava ainda mais envolvida o fato de
que ele era ele - jeans, camiseta, cabelo bagunçado, barba grande - e eu era eu -
balayage, calça rosa cropped e scarpins.

A dualidade de nós dois, juntos na moto dele, era um tipo específico de


provocação que praticamente me implorava para me entregar a isso. Para abraçar
aquilo. Para envolver minha cintura em torno dele, pressionar minha bochecha
contra seu ombro e ser uma só com ele naquela moto.

Eu sabia que Hugger era um certo tipo de encrenca, e que eu precisava pisar
com cuidado.

Mas agora começava a perceber que ele era, sem dúvida, um problema e tanto, e
eu teria que me cuidar.

Tive dois relacionamentos longos.

O primeiro foi devastador. Eu estava profundamente apaixonada (ou achava que


estava). Então, quando descobri que ele me traía emocionalmente, trocando
mensagens com a ex-namorada do colégio, fiquei arrasada.

Depois que terminei com ele, ela terminou com o namorado dela, e os dois
ficaram juntos. Duraram um tempo, chegaram até a ficar noivos. Mas, em um
desfecho espetacular (e humilhante para ele), ela voltou para o ex, e ele tentou
voltar para mim.

Isso não aconteceu.

O segundo relacionamento simplesmente se desgastou. Ele sabia. Eu sabia.


Seguimos caminhos diferentes, mas continuamos amigos - ou, talvez, uma mistura
de amizade, convivência e um lembra-quando-a-gente-dormia-junto?.

Nunca namorei um motociclista.

Nunca me envolvi com alguém de um círculo social ou cultural diferente do meu.

Mas o que estava acontecendo com Hugger não era sobre isso.
Era sobre Suzette e o fato de eu precisar focar nela.

Era sobre Suzette e o fato de ela precisar de todo tipo de apoio, sem ter que
assistir, bem diante do nariz, duas pessoas orbitando uma à outra (e tudo o que isso
poderia significar).

Era sobre Denver e o fato de ele morar lá.

E era sobre o fato de que ele não demonstrava nenhum desejo de que meus
polegares saíssem dos passantes de seu cinto, nem que meus braços deixassem de
envolvê-lo, nem que minha bochecha se afastasse de seu ombro.

— Ah, é. Essa era a grande questão.

— Não entendo — ele disse, trazendo-me de volta à realidade enquanto


estávamos sentados um de frente para o outro em uma lanchonete incrível.

— Não entende o quê?

— Você cospe em pinturas para ganhar a vida. Como conseguiu um apê tão
legal?

Afastei meus pensamentos inquietantes, ri do que ele disse e respondi:

— A saliva tem enzimas que ajudam a remover a sujeira suavemente.

— Eu já suspeitava. Mas, ainda assim, você mora em Scottsdale, que é um lugar


sofisticado. Seu condomínio também é de alto nível, assim como o seu apartamento.
É muito para alguém que limpa quadros com cuspe e um cotonete.

— Ganhei na roleta. Treze preto. Isso foi uns três meses antes do meu avô falecer
devido a um derrame e me deixar algum dinheiro.

— Certo — ele disse, mordendo uma batata frita.

— A maior parte do meu apartamento já era assim, mas o Larry é empreiteiro e


fez a cozinha para mim com um grande desconto. Ele usou material que uma mulher
rica encomendou, pagou, mas depois decidiu que não queria mais. Então,
simplesmente pediu outra coisa, mesmo sabendo que era sob medida e que não
poderia ser reembolsada. Como não queria aquilo ocupando espaço, disse ao Larry
que ele podia ficar com tudo.

— Os ricos fazem umas loucuras — ele murmurou, pegando o sanduíche e


dando a última mordida.

— Fazem mesmo — concordei. — De qualquer forma, os funcionários do Larry


fizeram alguns ajustes para que coubesse no meu espaço. Ele conseguiu uns
eletrodomésticos de ponta que tinham alguns arranhões e amassados que nem dá
para ver. E voilà! Cozinha nova e maravilhosa.

— Quem é Larry?

— Meu… sei lá. O marido da minha ex-madrasta. Então, acho que ele é meio que
meu padrasto, de um jeito distante.

Hugger me observou, seus olhos castanhos analisando algo que eu não sabia ao
certo o que era.

— Imagino que você ainda seja próxima da sua madrasta — ele comentou
enquanto eu mordia meu sanduíche.

Mastiguei e assenti.

Então, algo me ocorreu e eu soltei sem pensar:

— Eu não sou esse tipo de mulher.

Ele inclinou a cabeça para o lado.

— Que tipo?

— O tipo que deixa o papai pagar tudo. Larguei a faculdade por causa de uma
briga com ele. Cansei desse tipo de coisa entre nós, embora essa tenha sido a pior
de todas. Como ele pagava minha mensalidade e praticamente tudo na minha vida,
eu dei um basta. No final, fiz tudo sozinha. Claro, minha avó, meu avô e minha mãe
sempre me deram cheques bem generosos de aniversário e Natal para ajudar. Mas,
no geral, fui eu que conquistei tudo.

— Eu não estava te criticando — ele disse.

— Só para deixar claro — murmurei. — É uma questão de orgulho para mim.

— E tem que ser mesmo. Você mandou seu pai se ferrar e construiu tudo isso, e
nem chegou aos trinta ainda. Sim, tem que se orgulhar.

De repente, senti meu corpo inteiro esquentar.

— O que te levou para a vida de motociclista? — perguntei.

— Minha mãe queria isso para mim.

Sorri para ele.

— Ela era uma garota do clube?

— Não. Ela era prostituta.

Engasguei com minha própria saliva, que seria capaz de limpar uma camada
inteira de um quadro a óleo.

— É… — ele sussurrou. Agora, o marrom dos olhos dele parecia madeira


petrificada. Seco e impenetrável.

Me recompus e prometi:

— Minha reação foi só surpresa, nada mais.

— Certo — ele murmurou, inclinando a cabeça para trás para despejar os últimos
farelos do pacote de batatas na boca.

E, cara, ele era só ele. Na minha cozinha. Nessa lanchonete.

Eu gostava disso.
Eu definitivamente precisava tomar muito cuidado.

Principalmente agora.

— Estou falando sério. Não tenho nenhum problema com trabalhadores do sexo
— afirmei.

— Vamos mudar de assunto — ele suspirou.

— Vamos não — retruquei com firmeza. — Não conheço sua história, mas
consigo captar um pouco dela. Se sua mãe queria essa vida para você e você a
seguiu, então imagino que vocês eram próximos e que ela era muito importante
para você.

— Ela era tudo para mim — ele disse baixinho, deixando transparecer o quanto
ela significava.

E era tanto… que um arrepio subiu pela minha espinha com a intensidade disso.

Ajustei meu tom e perguntei:

— Já que estamos falando no passado...

— Morta — ele declarou sem emoção. — Câncer de mama. Se espalhou e tomou


conta dela completamente.

— Meu Deus, Hugger — sussurrei, sentindo meus olhos arderem. — Sinto muito.
Ela devia ser jovem.

— Jovem demais para morrer.

— Meu Deus — soltei, estendendo a mão sobre a mesa e envolvendo o pulso


dele com meus dedos. — Sinto muito, de verdade.

— Ela era uma mulher incrível — ele afirmou, afastando meu toque de forma
gentil, mas firme.

Senti o peso daquela perda. Era demais. Mas engoli em seco, enterrei isso dentro
de mim e apenas assenti.
— Aposto que sim. Afinal, ela criou um homem como você — comentei.

— O que isso quer dizer?

Peguei uma batata frita do meu pacote e perguntei:

— O que você quer dizer com "o que isso quer dizer?"

— Você acha que sabe que tipo de homem eu sou?

Encarei-o.

Então disse:

— Bom... sim.

Ele se recostou, já tendo terminado a comida, exceto pelo biscoito que vinha
com o sanduíche. Talvez ele não gostasse de biscoitos (o que me chocaria até o
fundo da alma), mas se não gostasse, isso significava que eu poderia comer.

— Me esclareça — ele disse. — Que tipo de homem eu sou?

— Bom, você veio de outro estado só para garantir a segurança e a proteção de


uma mulher que nunca conheceu. Para isso, está dormindo num sofá que,
considerando seu tamanho, não pode ser confortável, por mais que diga o contrário.
Percebi que você é você. As pessoas te aceitam como é, e ponto. A confiança nisso é
impressionante. Você inspira a lealdade de outros homens bons e retribui essa
lealdade. Não te conheço há muito tempo, mas vejo tudo isso. Claro, pode ser que
isso tudo seja apenas quem você se tornou, mas eu suspeito que sua mãe teve um
papel importante nisso.

A voz dele soou estranha, áspera, quase gutural quando ele afirmou:

— Ela teve. Eu sou o que ela me ensinou a ser.

Reagi ao tom dele, pensando que essa conversa era intensa demais para um
restaurante de sanduíches e para duas pessoas que, provavelmente, eram apenas
navios passando na noite.
E por mais que essa última parte fosse uma droga — já que provavelmente era
verdade — eu não precisava fazê-lo reviver tudo isso.

Coloquei a batata frita na boca, mastiguei, engoli e disse:

— De qualquer forma, sinto muito por sua perda.

— Eu também.

— Você vai comer seu biscoito? — perguntei.

— Sim.

Franzi a testa.

Seu sorriso apareceu sob a barba.

E aquilo foi sexy.

Droga!

Era um biscoito pequeno, mas ele fez questão de colocá-lo inteiro na boca e
mastigar lentamente.

— Muito deselegante — comentei.

O sorriso dele se alargou.

Sem dizer nada, ele se levantou e se afastou.

Suspeitei que estivesse indo ao banheiro. O que eu sabia era que meu horário de
almoço estava acabando e que eu tinha um prazo para finalizar a limpeza de uma
pintura a óleo. Precisava comer rápido para seguirmos com o dia.

Foquei no meu sanduíche e nas batatas fritas (o biscoito eu guardaria para o


lanche da tarde).

Enquanto decidia se tinha coragem de virar o pacote e despejar os últimos


farelos diretamente na boca, ouvi meu celular vibrar dentro da bolsa.
Peguei-o e vi no visor: "Pai ligando".

Argh.

Queria deixar cair na caixa postal.

Depois da conversa de ontem com Nicole, porém, não podia ignorar.

Atendi e coloquei o telefone no ouvido:

— Oi, pai.

— Olá, Diana.

— Escuta...

— Paguei à Janie uma rescisão generosa e a recomendei a um advogado que


conheço. Ele está precisando de uma assistente pessoal competente e tem tido
dificuldades para encontrar uma.

Fiquei completamente imóvel e prestei muita atenção.

Meu pai continuou:

— E, esta manhã, protocolei os papéis para me retirar como advogado de Imran


Babić.

Oh, meu Deus.

Oh, meu Deus!

Oh, meu Deus, Deus, Deus!

Meu pai seguiu falando:

— Conversei com o detetive Scott. Ele me garantiu que tem total aprovação do
departamento para fornecer um local seguro e proteção para Suzette Snyder até o
julgamento, mesmo que ainda falte meses. Ele também está em contato com o FBI,
que tem interesse nesse caso. Eles querem falar com ela e, dependendo do que tiver
a dizer, podem oferecer proteção especial como testemunha.

Oh, meu Deus!

— Sei que você já tem idade suficiente para tomar suas próprias decisões e que
um conselho do seu pai pode não ser bem-vindo — ele continuou. — Mas ainda
assim, eu recomendo fortemente que você fale com ela e a convença a aceitar essa
oferta da polícia.

— Você desistiu?

— Sim.

Apoiei o cotovelo na mesa e afundei a testa na mão.

— Diana? — ele chamou.

— Eu não consigo... — engoli em seco.

Eu ia chorar.

Merda!

Eu definitivamente ia chorar!

— Diana — meu pai chamou novamente.

— Que porra está acontecendo? — Hugger perguntou, a voz carregada de


exigência.

Levantei a cabeça e olhei para ele.

Parecia que ele carregava uma sacola cheia de biscoitos.

Meu Deus, esse cara.

Uma lágrima escapou dos meus olhos e deslizou pelo meu rosto.
Instantaneamente, Hugger pegou meu celular da minha mão.

— Quem é? — ele rosnou ao atender. Houve uma pausa, então ele retrucou: —
Não importa quem eu sou. Eu perguntei, quem diabos é você?

Mais uma pausa.

— Mérito seu, filho da puta, ela está chorando.

— Hugger — sussurrei.

— O quê? — ele rebateu no telefone. Então, sem rodeios: — Nem fodendo que
vou passar o telefone pra ela. Não entre mais em contato com ela, a menos que ela
te procure. Entendeu?

Sem esperar resposta, afastou o telefone da orelha, largou os biscoitos na mesa e


tocou na tela com força.

O celular vibrou em sua mão.

Ele rejeitou o que eu sabia ser uma ligação do meu pai.

Respirei fundo para controlar a emoção e expliquei:

— Não foi o que você está pensando.

Ele arrastou sua cadeira para mais perto, até que nossos joelhos se tocassem. E
se sentou ali, bem na minha frente.

Meu Deus, esse cara.

Posicionado bem perto de mim, perguntou:

— O que foi então?

— Ele desistiu da defesa do Babić. — Engoli seco e finalizei: — Porque eu pedi.

— Puta merda — ele sussurrou.


— Tem mais. Muita coisa. Eu não consigo... eu não...

Eu estava me perdendo de novo.

— Não aqui. No seu trabalho. Não tem ninguém lá. Vamos.

E, com isso, ele se levantou, empurrou a cadeira para trás, pegou minha mão e
me puxou para fora do assento.

Tive tempo apenas de agarrar meu biscoito e enfiá-lo na boca (não podia deixá-
lo para trás). Ele pegou a sacola e me entregou antes de me puxar para fora do
Sack’s.

Guardei os biscoitos na minha bolsa, a joguei no ombro e, assim que ele montou
na moto, subi atrás dele como se já tivesse feito isso mil vezes - quando, na verdade,
era só a segunda.

Muita coisa passava pela minha cabeça. Janie. O convite para jantar com meu pai.
Babić. Suzette. O FBI.

Era demais.

Tanto que, sem pensar, envolvi Hugger com os braços e encostei minha
bochecha no ombro dele enquanto ele saía do estacionamento do Sack’s.

Ainda nem tinha passado um dia.

Meu pai e eu tivemos nossa primeira conversa em anos. E, em menos de um dia,


ele fez o que eu pedi. Até mesmo coisas que eu não pedi (Janie) e... e...

E ele desistiu de defender um chefe da máfia.

Meu corpo ficou tenso, e eu tirei a bochecha do ombro de Hugger.

— Já estamos chegando — ele avisou.

Quase lá.

Ele comprou biscoitos.


Encostei minha testa na base do pescoço dele.

Pouco tempo depois, Hugger estacionou na vaga vazia em frente à oficina.

Desci da moto. Ele também. Mas quando ele pegou minha mão para me levar
para dentro, eu o segurei, interrompendo seu passo.

— Meu pai desistiu da defesa de um chefe da máfia — falei.

— É, você já me disse. Agora vamos entrar.

— Não, Hugger, eu quero dizer... esse cara. — Sacudi a cabeça. — Ele não é
normal. Isso vai irritá-lo? Meu pai está em perigo?

Hugger colocou os óculos escuros (aviadores espelhados - sim, ele ficava


absurdamente sexy com eles), e sua barba cobria boa parte do rosto.

Ainda assim, vi a tensão tomar conta dele.

Oh, meu Deus.

Coloquei a mão no peito dele e me aproximei.

— Ele tinha outro escritório de advocacia com o qual trabalhava. Babić. Eles o
abandonaram depois que ele foi preso pelo que fez com Suzette. Não sou viciada
em notícias, mas não ouvi falar de nenhum advogado local que tenha morrido de
forma suspeita. Então, talvez ele não mande matar meu pai... ou faça seja lá o que
esses caras fazem.

— Podemos entrar, baby? — ele pediu.

Podíamos.

Podíamos fazer qualquer coisa que ele pedisse se ele finalizasse assim, com esse
doce "baby".

Apertei sua mão e o puxei para a porta.

Ele pegou as chaves de mim, destrancou a entrada e nos conduziu para dentro.
Depois de trancar a porta atrás de nós, ele me guiou até a sala onde ficava meu
estúdio de trabalho - um dos dois únicos, já que só eu e Annie trabalhávamos ali.

Ele me sentou no banco em frente à tela onde eu estava pintando. Depois,


arrastou a cadeira em que estava sentado antes para perto de mim, acomodando-se
ali e inclinando-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

O tempo todo, seus olhos estavam fixos em mim.

Posicionado, ele ordenou:

— Me conta tudo.

— Nós… como eu disse, tivemos uma briga. Foi feio. Eu o afastei completamente.
Quando ele soube que Suzette estava comigo, pediu para conversar. Meio que me
impus a ele, aparecendo no seu escritório sem avisar. E foi… bem, foi para um lugar
que eu jamais imaginaria. Do jeito dele, ele deixou claro que sentiu minha falta. Que
o fato de eu tê-lo afastado foi difícil para ele. Que ele… queria conversar. Parecia que
queria acertar as coisas.

— Certo.

— Eu disse que a única maneira de eu considerar isso era se ele deixasse o Babić
como cliente.

Hugger não disse nada.

— Isso aconteceu há menos de vinte e quatro horas, Hugger — finalizei.

Ele puxou uma grande lufada de ar, recostou-se e soltou lentamente.

— Bom, caramba — murmurou.

— Isso resume bem a situação — respondi.

— O que você vai fazer?

— Acho que preciso jantar com ele.


— Não conheço toda a história, baby. Mas, pelo que vejo, ele te estendeu um
belo de um ramo de oliveira.

Assenti.

— Devo… você acha que devo ligar para ele? — perguntei.

— Não — ele respondeu com firmeza. — Manda uma mensagem. Diz que está
processando tudo. Dá a ele algo sobre o gesto que fez. E avisa que está
considerando o jantar.

Esse era um bom conselho.

Abri minha bolsa e peguei o celular.

Então, digitei: Desculpe por aquilo. Fiquei sobrecarregada. Pode me dar um


tempo para processar tudo? Depois talvez possamos falar sobre o jantar.

Terminei de digitar, virei o celular para Hugger.

— Está bom?

Ele leu e assentiu.

Enviei a mensagem.

Minha atenção se desviou para a pintura e, sem pensar, soltei:

— Não sei se tenho energia para continuar com isso.

Quase pulei de susto quando o celular vibrou na minha mão.

Uma mensagem do meu pai.

Abri.

Um minuto.

— Ele disse "um minuto" — informei a Hugger, depois soltei uma pergunta que
ele não tinha como responder: — O que isso significa?
Ele apenas deu de ombros.

— Não sei, Diana.

Fiquei encarando o telefone. Continuei olhando para ele. Mesmo assim, levei
outro susto quando ele vibrou de novo.

Outra mensagem do meu pai.

Desculpe. Precisei adiar uma reunião com um cliente. Você está bem?

— Meu Deus — sussurrei.

— O quê? — Hugger perguntou, tenso.

Olhei para ele.

— Ele adiou uma reunião com um cliente para me mandar mensagem.

— Certo.

— Hugger, ele nunca fez algo assim. O trabalho é a vida dele.

Hugger apenas manteve o olhar fixo em mim.

— Ele quer saber se estou bem — falei.

— Acho que você deveria dizer que está — ele sugeriu.

Assenti, baixei os olhos para o telefone e digitei: Sim. Você só me pegou de


surpresa. Foi uma boa surpresa.

Virei o celular para Hugger, que apenas ergueu o queixo em aprovação.

Enviei a mensagem.

Mal tinha sido enviada quando outra chegou.

Tem certeza? Aquele homem disse que você estava chorando.


Eu só fiquei sobrecarregada.

Mas você está bem?

Sim, pai. Estou bem.

Você tem um homem na sua vida?

Ah, droga.

Virei o celular para Hugger.

Minha respiração travou quando ele ordenou:

— Diz que sim.

— Mas…

— Diz, Diana.

— Estamos tentando consertar as coisas. Não posso começar consertando minha


relação com meu pai mentindo para ele. E se eu decidir aceitar o jantar e ele quiser
que você vá?

— Então, eu vou.

Ele só podia estar louco.

— Você não pode ir! — exclamei.

— Por quê? Porque você não quer levar um motociclista para jantar com seu pai?

— Não me insulte — rebati. — Em algum momento eu te dei qualquer sinal de


que me importo com o fato de você ser um motociclista?

Um lampejo de arrependimento passou pelos olhos dele, e ele murmurou:

— Foi um comentário fora de linha.

— Ah, com certeza foi.


— Só diga que tem um homem te protegendo. Você não precisa dizer o motivo.

Eu tinha certeza absoluta de que meu pai não ficaria nada feliz ao saber que
Suzette e eu tínhamos uma equipe de proteção. E, infelizmente para ele, isso seria
em parte porque eram motociclistas.

Mas, na maior parte, seria porque precisávamos de proteção.

— Maldição — resmunguei, baixando os olhos para o telefone novamente.

Sim. Ele é meio protetor.

Virei o celular para Hugger.

— Bom — ele aprovou.

Enviei a mensagem.

Meu pai respondeu rápido.

Ele não esconde isso. Isso me traz alívio. Saber que vocês duas estavam
sozinhas me preocupava. Um namorado protetor me tranquiliza.

Ah, merda.

— O quê? — Hugger perguntou.

Mostrei a ele a mensagem.

Seus lábios, escondidos sob a barba, se curvaram.

Bati no braço dele.

— Para de sorrir, seu grandalhão. Sei que isso vai voltar para me morder na
bunda.

— Não vejo como.

— Então você nunca leu um romance onde o truque do namorado falso acaba
ferrando a mocinha?
— Não, nunca li — ele admitiu sem hesitação.

Urgh!

O celular vibrou de novo.

Vou esperar você me avisar se vamos ou não jantar. Espero que aceite.
Gostaria muito de saber o que está acontecendo na sua vida e ter você de volta na
minha. Por favor, pense bem nisso, Florzinha.

Ao ler aquela última palavra, levantei o celular e o bati repetidamente contra


minha testa, tentando conter o novo ataque de lágrimas que ameaçava surgir.

Hugger tirou o aparelho da minha mão e leu a mensagem.

— Por que isso fez você bater a cabeça com o celular? — perguntou. — Esse é o
jeito dele de pressionar você sem parecer que está fazendo isso?

Balancei a cabeça.

— Não. É porque ele não me chama de Florzinha desde que eu tinha, sei lá, uns
doze anos.

— Merda — ele sussurrou.

Estendi a mão, palma para cima.

— Me devolve o celular.

Ele colocou o aparelho na minha mão.

Digitei: Eu vou. Vou pensar bastante, pai. Por favor, tenha cuidado.

Mas não enviei.

Considerei terminar com um te amo.

Em vez disso, acrescentei um emoji corado e enviei a mensagem.

Soltei um longo suspiro.


— Recuperou sua coragem? — Hugger provocou.

Revirei os olhos.

— A pintura não vai se limpar sozinha, baby — ele comentou.

Revirei os olhos de novo.

Hugger se levantou, voltou com a cadeira para perto da janela, se jogou nela,
apoiou as botas no parapeito, cruzando os tornozelos, e pegou o celular.

Sem outra opção, considerando que eu tinha uma hipoteca para pagar - e isso
exigia que eu trabalhasse para ganhar meu salário - voltei minha atenção para a
pintura, peguei um cotonete e recomecei o trabalho.
Capítulo 7
QUANDO NÃO É?
Hugger

Hugger estava sentado à mesa de jantar de Diana, observando-a.

No fundo do peito, ele sabia.

Mesmo assim, não confiava nisso. Talvez fosse porque nunca esperou por isso.
Talvez porque, no fundo, nunca realmente quis. Ou talvez porque simplesmente
nunca achou que teria. Ou ainda, porque desde que se entendia por gente, tinha
certeza de que isso nunca aconteceria com ele.

Mas, fosse qual fosse a razão...

Estava acontecendo.

Já vinha se desenhando desde que ele segurou o pulso dela no elevador e, com
certeza, se intensificou durante o almoço - e tudo o que aconteceu depois. Mas
Hugger realmente percebeu quando chegaram ao apartamento dela, depois do
trabalho.

Assim que entraram, encontraram Big Petey e Suzette instalados no sofá da sala.

Pete assistia TV.

Suzette estava encolhida em um canto ao lado dele, pintando de um jeito mais


refinado, com lápis especiais.

— Vi seus livros e achei que você não se importaria — explicou Pete, enquanto
Suzette apenas olhava para Diana e corava, como se tivesse sido flagrada fazendo
algo errado.
Com uma expressão que parecia indicar que Pete acabara de anunciar que algum
médico havia descoberto a cura do câncer, Diana respondeu:

— De jeito nenhum!

Aquilo dizia muito sobre o quanto Suzette era reservada, não que Hugger já não
tivesse notado.

Então veio a notícia de que Big Petey havia dito a Eight que o jantar seria tacos
de frango e que Eight, Muzzle e Driver queriam saber se poderiam aparecer.

Isso irritou Hugger. Diana não precisava alimentar a equipe toda noite.

Mas isso não incomodou Diana.

— Com certeza! — ela respondeu animada. E, sem perder tempo, correu para a
cozinha, onde abriu e fechou armários, a geladeira, pegou um bloco de notas de
uma gaveta, rabiscou algumas coisas, arrancou a folha e a ergueu no ar,
perguntando:

— Quem vai ao mercado?

Pete claramente não queria sair de perto de Suzette, então Hugger foi até o
armário pegar suas alforjes vazias para levar as compras na moto.

Enquanto estava lá, algo o atingiu, algo que não havia notado na noite anterior,
quando desfizera as malas. O armário dela era grande, mas não estava cheio. Ela
havia reservado um espaço para ele, com cabideiros, prateleiras e gavetas, mas não
precisou se esforçar muito para isso.

Ao pegar as bolsas e atravessar o apartamento de Diana, ele percebeu o mesmo


em toda parte.

Ela era organizada, mas não tinha muitas coisas.

Aquilo era o início de uma vida.

Ela poderia ter dinheiro para viver bem, mas o que disse no almoço era verdade.
Ela não era esse tipo de mulher.

Não era a filha de um advogado rico que tinha de tudo, fosse porque lhe davam,
porque se endividava para conseguir ou porque gastava tudo o que ganhava para
ter.

Ela estava construindo, fazendo as coisas do jeito certo, mas de forma


inteligente.

Isso atingiu Hugger em cheio. Como praticamente tudo nela.

Ao voltar para a cozinha, viu que Suzette estava ajudando Diana, Big Petey ainda
dominava o sofá com uma cerveja na mão, e Diana entregava a lista de compras
para ele, sorrindo.

Merda.

Aquele sorriso.

Ele sentiu aquilo direto no baixo-ventre. Sempre sentia.

Mas dessa vez, foi mais.

Ela não estava irritada porque um bando de motociclistas tinha se convidado


para o jantar.

Pelo contrário.

Parecia estar no seu elemento. Como se aquilo fosse exatamente o que queria
fazer numa sexta-feira à noite depois do trabalho.

Ela lhe disse onde encontrar um mercado. Pete informou que já tinha falado para
Eight que eles ficariam encarregados de trazer a cerveja. Hugger partiu e, ao voltar,
encontrou a mesa posta para o jantar. Diana e Suzette estavam na cozinha,
ocupadas com os preparativos. E Eight, Muzzle, Driver e Pete estavam na sala,
bebendo cerveja e conversando.
— Maravilha! — exclamou Diana ao vê-lo, indo direto até as sacolas que ele
colocara no balcão.

— Certo, jantar em vinte minutos! — anunciou ao grupo, enquanto começava a


tirar as compras das sacolas.

Hugger lançou um olhar para Suzette, que parecia ignorar os homens na sala
enquanto abria latas de feijão, mas, pelo menos, estava ali entre eles.

Hugger pegou uma cerveja, foi para a sala de estar e, vinte minutos depois,
todos estavam reunidos em volta da mesa de Diana, que estava coberta com
ingredientes para montar tacos: carne, alface, tomates e cebolas picadas, queijo,
molho, além de arroz espanhol, feijão refrito e um prato de milho que Diana
chamava de elote16 - e que era absurdamente bom.

Ela colocou Pete na cabeceira da mesa e posicionou Suzette entre ele e ela
mesma, criando uma espécie de casulo seguro e familiar para Suzette se sentir
protegida enquanto estava com o grupo.

Muzz sentou-se ao lado de Pete, e Hugger ficou ao lado dele para ficar de frente
para Diana. Eight sentou-se ao lado de Diana, e Driver ficou ao lado de Hugger.

Durante o jantar, Suzette permaneceu em silêncio e só interagiu com Pete e


Diana, mas, ainda assim, estava ali. Além disso, estava comendo. Ambos eram bons
sinais.

O resto foi exatamente como sempre acontecia desde que Hugger se juntara ao
Chaos: muita zoeira, provocações, histórias, risadas, conversas e um pouco de papo
furado.

Diana se encaixou perfeitamente.

— Sério? Você morou na Inglaterra? — Driver perguntou a Diana quando a


comida já estava quase toda devorada e eles estavam relaxados, jogando conversa
fora.

16
Elote é um prato tradicional mexicano feito com espiga de milho grelhada ou cozida, servida com
diversos acompanhamentos saborosos.
Ela assentiu.

— Por seis meses. Consegui um estágio incrível no Museu Britânico. Foi


totalmente irado.

— A comida de lá é ruim como todo mundo diz? — Eight perguntou.

— De jeito nenhum! — Diana respondeu. — Uma palavra: creme de leite. Três


palavras: purê de batata com linguiça. Duas palavras: café da manhã inglês. Hmm,
deixa eu contar… quatro palavras: torta de carne e rim. Eu poderia continuar. Só o
queijo deles já é divino. Nem me faça começar a falar do sorvete. Os laticínios, de
modo geral, dão um novo sentido à vida. E eu sonho com o bacon deles.

— Sério? — Eight perguntou.

— Sem brincadeira — ela confirmou.

— O que tem de diferente no bacon deles? — Driver quis saber.

— Mais carne, menos gordura, mais sabor — ela explicou. — Não faço ideia de
como eles conseguem, já que o sabor normalmente está na gordura, mas eles
conseguem. É tipo magia.

Isso fez os homens rirem.

Todos, exceto Hugger, que, ao mesmo tempo, queria provar aquele bacon inglês
e ver Diana comendo.

— Você chegou a visitar outros lugares enquanto estava lá? — Muzz perguntou.

Ela balançou a cabeça, mas disse:

— Dei umas voltas pela Inglaterra. O sistema de trens deles facilita muito. A
gente devia trazer isso de volta aqui. Praticamente zero estresse e dá para ir a quase
qualquer lugar. Também passei um fim de semana em Paris, indo de trem. — Deu de
ombros. — Queria ter feito mais, mas não tive tempo nem dinheiro.

— Você vai voltar — Big Petey garantiu.


Ela sorriu para ele.

— Espero que sim.

No meio da frase, toda a mesa ficou tensa porque alguém começou a bater forte
na porta.

Os homens se entreolharam, mas foi Hugger quem se levantou.

— Você tem vizinhos que bateriam na sua porta desse jeito? — ele perguntou a
Diana enquanto se aproximava.

Ela abriu a boca para responder, mas, antes disso, ouviram uma voz masculina
gritar do lado de fora:

— Diana Elizabeth Armitage, abra esta porta!

Os olhos de Diana se arregalaram enquanto ela sussurrava:

— Caramba. É o Larry.

— Larry, se acalma! — uma voz feminina soou do lado de fora.

Hugger espiou pelo olho mágico e viu um homem, provavelmente na casa dos
cinquenta, cabelo escuro começando a ficar grisalho, bem-apessoado, forte, sem
nenhum sinal de estar perdendo a forma. Ao lado dele, estava uma mulher loira e
alta, também em ótima forma, mas de um jeito diferente. Parecia saída da capa de
uma revista, mesmo tendo, claramente, também seus cinquenta anos.

Ex-madrasta e um tipo de ex-padrasto distante. E, ao saber que Diana estava


recebendo um bando de motociclistas, ele não gostou nada da ideia e decidiu fazer
algo a respeito.

Hugger apertou o botão que destravou a fechadura e abriu a porta.

O homem lançou um olhar fulminante para ele.

A mulher o encarou, a boca se abrindo em surpresa.


Então, o homem entrou furioso, e Hugger deixou, porque ele era, de certa forma,
o ex-padrasto de Diana, e estava ali porque estava preocupado com ela.

A mulher entrou logo atrás, caminhando com calma. Hugger se certificou de


fechar e trancar a porta antes de voltar para sua posição.

Larry lançou um olhar cortante para Diana, depois lançou uma expressão
carrancuda para os homens na mesa, mas, ao ver Suzette, seu rosto suavizou.

— Oi, querida — ele disse com gentileza.

— Larry — Suzette sussurrou.

— Como você está, meu bem? — a mulher perguntou a Suzette.

— Estou bem. E você? — Suzette respondeu baixinho.

— Estaria melhor se o Larry não estivesse tendo um ataque — a mulher


respondeu.

Isso fez Suzette esboçar um pequeno sorriso.

— Falando nisso… — Larry começou. — Diana, preciso falar com você.

— Larry, como pode ver… — Diana fez um gesto amplo, indicando a mesa com
as tigelas vazias, pratos e garrafas de cerveja — … está tudo bem.

— Agora. — Larry insistiu, entredentes.

Soltando um suspiro frustrado, Diana se levantou.

— Certo, mas antes de tudo, este é o Eight. — Ela indicou Eightball. — Ele é
membro do Resurrection MC, de Denver.

Eight se levantou, se aproximou e estendeu a mão para Larry.

Hugger teve que admitir: Larry hesitou apenas por um instante antes de apertá-
la.
— E este é o Big Petey. Ele tem passado os dias com Suzette — continuou Diana.
— Ele faz parte do Chaos MC, também de Denver.

Mais apertos de mão foram trocados, e a tensão começou a sair do corpo de


Larry. Diana seguiu com as apresentações e terminou com Hugger.

— Hugger me protege durante o dia e dorme no sofá para que nós dois
fiquemos seguros à noite — finalizou ela.

O aperto de mão de Larry com Hugger foi firme, porém breve. Logo depois, ele
se afastou, parecendo um pouco desconcertado.

— Ainda precisamos conversar? — Diana perguntou.

Larry não respondeu. Seus olhos percorreram os homens ao redor antes de dizer:

— Sem ofensa.

— Nenhuma — Big Petey respondeu por todos. — Se minha garota deixasse um


monte de homens estranhos ficarem na casa dela depois de conhecê-los por alguns
minutos, eu também daria uma dura nela.

Larry pareceu aliviado ao perceber que Pete entendia seu lado.

— Quer uma cerveja? — Eight ofereceu.

— Ele precisa de umas sete — disse uma mulher. — E, a propósito, eu sou Nicole.
E fiquem tranquilos, sei que a Di tem um ótimo julgamento de caráter. Mas, para ser
sincera, estou bem chateada de ter perdido o elote dela.

Sorrisos se espalharam, algumas risadas surgiram, mais apertos de mão foram


trocados, e então Diana disse para Nicole:

— Eu pego uma cerveja para o Larry e preparo um martíni para você.

— Vou te amar para sempre se fizer isso, mas já estava planejando preparar um.
Só saiba que tem minha eterna gratidão por oferecer esse elixir, depois de eu ter
lidado com o Sr. Superprotetor na última hora — respondeu Nicole.
— Então você escondeu isso dele até agora? — Diana perguntou enquanto ia
para a cozinha, com Nicole a seguindo.

Hugger não ouviu a resposta de Nicole.

Suzette murmurou:

— Eu vou começar a limpar… — E sem demora, colocou-se a trabalhar. Mais que


isso, usou a tarefa como desculpa para escapar do grupo de homens e se juntar às
mulheres.

— Ela está bem com vocês? — Larry perguntou em um tom baixo, seus olhos
seguindo Suzette, sem perceber sua intenção de se afastar.

— Sim e não — Big Petey respondeu no mesmo tom. — Acho que hoje consegui
deixá-la mais à vontade comigo. Mas ela finge que os outros caras não existem. No
geral, acho que ela está saindo do quarto, não porque se sente confortável, mas
porque não quer desapontar a Diana.

— Não sei se isso é bom — Larry murmurou.

— Provavelmente não é bom ela se forçar antes de estar pronta. Mas é pior se
ela ficar trancada sozinha num quarto escuro, presa na própria cabeça. E isso não é
um lugar seguro para ela estar agora — Pete argumentou.

Larry assentiu.

Diana voltou com a cerveja de Larry, pegou alguns pratos e declarou:

— Suze e eu cozinhamos. Vou levar isso para a cozinha, mas isso significa que
não vamos lavar a louça.

E, com isso, saiu desfilando para a cozinha.

— Recebemos nossas ordens — disse Eight, pegando algumas coisas da mesa.


Os outros homens seguiram seu exemplo.

— Enquanto eles fazem isso, podemos conversar? — Pete perguntou a Larry.


Larry o analisou por um instante antes de assentir com um movimento de queixo.

— Hug, vem com a gente — Big Petey chamou Hugger.

Os três seguiram para a varanda.

Assim que chegaram lá, os olhos de Pete foram direto para a cafeteria do outro
lado da rua. Hugger fez o mesmo.

Estava fechada, e não parecia haver ninguém suspeito sentado na área externa
ou em qualquer outra parte do espaço ao ar livre.

— Tudo certo? — Larry perguntou.

Big Petey desviou o olhar para ele.

Hugger manteve os olhos em Pete.

— Você sabe da história dela? A de Suzette? — Pete perguntou.

Larry pareceu surpreso.

— Você não sabe?

— Sei o que aconteceu com ela — Pete respondeu. — Mas só passei um dia com
ela. Não sei mais nada. Queria saber se você sabe.

— O que exatamente quer saber? — Larry perguntou.

— Ela tem alguém? Tem bens? Tem emprego? Um lugar para ficar? — Pete
especificou.

Larry balançou a cabeça.

— Nic disse que ela não tem se aberto com a Di, e a Di não quer forçar.

Pete ponderou por um momento antes de comentar:

— Ela está presa aqui, cara. Eu não consigo entender. Coisas assim nunca
aconteceram comigo. Mas, ao mesmo tempo, realmente não entendo. Mesmo
quando coisas muito ruins acontecem, a maioria de nós não pode simplesmente
pausar a vida inteira para se esconder e tentar resolver tudo.

Big Petey tinha um ponto.

Hugger observou a casa.

Os homens estavam na cozinha.

Diana e Nicole estavam sentadas na sala de estar, conversando animadamente.

Suzette havia desaparecido.

— Como essas duas se aproximaram? — Pete perguntou a Larry.

Larry assumiu uma expressão descontente antes de explicar:

— Diana fez uma investigação amadora, enganou alguns funcionários do


hospital e o policial que fazia a segurança na porta do quarto de Suzette e
conseguiu entrar. Não sei bem como ela a convenceu. Nem sequer entendo por que
fez isso, embora a Di tenha seus próprios problemas com o pai e um histórico que
faz isso fazer certo sentido.

O pescoço de Hugger ficou tenso.

Um histórico que faz isso fazer certo sentido.

— Isso tem preocupado a mim e à Nic desde que aconteceu — Larry continuou.
— Di não é assim. Ela gosta do trabalho dela. Tem bons amigos. Sai para se divertir.
Mas, desde que a conheço, desde que ela tinha doze anos, sempre foi quase
assustadoramente responsável.

Isso não surpreendia Hugger nem um pouco.

Larry prosseguiu:

— Ela se jogou nisso e, depois que superei o choque, tive que me segurar para
não tirá-la à força. Mas Di não tem nenhum apoio da família. A mãe dela é instável e
mora longe. A avó é uma boa mulher, mas não tem pulso firme. Faz anos que nós
estamos ali para dar suporte a Di, porque simplesmente não havia mais ninguém
com força suficiente para isso. Resumindo: não gostamos nada dessa situação, mas,
dadas as circunstâncias, não brigamos com ela por causa disso.

— Entendo — murmurou Pete.

— Por que está perguntando sobre Suzette? — Larry quis saber.

Pete respirou fundo, como se estivesse ganhando tempo para encontrar as


palavras certas. Soltou o ar e disse:

— Vivi bastante, cara. E acho que tem mais acontecendo aqui do que apenas a
sujeira e a crueldade que fizeram com aquela mulher.

O pescoço de Hugger ficou ainda mais tenso.

— Como assim? — ele perguntou, seco.

Big Petey balançou a cabeça.

— Como eu não sei. A menos que consigamos fazer essa garota falar. E não vejo
isso acontecendo tão cedo.

— Nem eu — Larry murmurou.

— Aprecio seu cuidado com Diana e Suzette — Pete disse a Larry. — E entendo
sua preocupação. Nosso clube anda desconfiado do Babić. Não temos nenhuma rixa
com ele, nunca lidamos diretamente com o cara, então estamos tentando entender
por que ele está se metendo com algumas das nossas mulheres. Nada tão grave
quanto o que fez com Suzette, mas ele está brincando com a cabeça delas e se
metendo nos nossos negócios, e não conseguimos entender o motivo. Viemos aqui
para descobrir. Enquanto isso, já que temos gente suficiente, achamos melhor
oferecer proteção para essas garotas. Elas estão seguras com a gente. Isso é uma
promessa. Me passe seu contato e faço questão de te manter informado. Já fui pai,
sei o que você precisa.

A cabeça de Larry se ergueu com as últimas palavras de Pete, e ele perguntou,


desconfiado:
— Já foi pai?

— Minha garotinha morreu de câncer há algum tempo — Pete contou.

Larry fez uma careta e disse, em voz baixa:

— Você ainda é pai, meu amigo.

— Sim... — Pete murmurou, e Hugger estreitou os olhos para ele.

Ele sabia sobre a filha de Pete. Todos sabiam.

Só não gostava nem um pouco da forma como Pete descrevia o que sentia que
tinha se tornado depois da perda dela.

Larry também o observava atentamente, mas logo desviou o olhar por cima do
ombro, para dentro da casa. Claramente sentiu a atenção da esposa nele, porque ela
estava mesmo olhando.

Ele voltou-se para Hugger e Pete.

— Melhor entrarmos. Estamos bem?

Big Petey assentiu.

Larry entrou.

Hugger e Pete permaneceram na varanda.

Hugger não perdeu tempo.

— O que você está pensando?

Big Petey balançou a cabeça e deu de ombros ao mesmo tempo.

— Tenho um mau pressentimento, garoto.

— Que tipo de mau pressentimento?


— Tem algo mais nessa garota — Pete disse. — Eu entendo que ela esteja
apavorada com o que aconteceu. Entendo que esteja se fechando por isso. Mas tem
algo mais profundo. Algo mais sombrio.

— Como o quê?

Pete olhou diretamente em seus olhos.

— Como se ela já se considerasse morta. Só está respirando por mais algum


tempo.

— Faz sentido, já que está bem claro que Babić não vai deixar que ela o derrube
— Hugger disse, inclinando levemente a cabeça na direção do pátio, que naquele
momento não tinha os capangas de Babić, mas ambos sabiam que eles voltariam.

— É... Talvez — Pete não parecia convencido.

— O pai da Diana desistiu de ser advogado do Babić — Hugger contou.

As espessas sobrancelhas grisalhas de Pete se ergueram.

— Sério?

— Foi ela quem pediu. Ele está tentando consertar as coisas entre eles. E parece
que o homem não tem medo de grandes gestos — Hugger disse. — Preciso falar
com o Eight e ligar para o Rush. Diana está assustada, acha que Babić vai ficar
furioso e pode tomar alguma atitude contra isso. Precisamos de homens cuidando
de Nolan Armitage.

Pete inclinou o queixo em um gesto firme de concordância.

— Fechado. O Aces tem um negócio para tocar. Eles podem revezar os homens,
mas se precisarmos de mais, podemos pressioná-los. Vamos cuidar disso e trazer
mais alguns caras como reforço.

— Consegue chamar o Eight para conversar? — perguntou Hugger. — Vou ligar


para o Rush enquanto estou aqui fora.
— Fica com o Eight e faz isso com o Rush. Depois, liga para o Tack — ordenou
Big Petey.

As sobrancelhas de Hugger se uniram em desconfiança.

— Tack? Por quê?

— Porque, meu filho, você não faz ideia do que te atingiu ontem. Anos atrás, a
mesma coisa atingiu ele. Demorou um tempo pra tirar a cabeça do próprio rabo e
enxergar, e isso deixou ela tão puta que decidiu que não queria mais nada com ele.
Ele teve que correr atrás pra recuperar o que perdeu. Fala com ele. Ele pode te dar a
sabedoria pra você não cometer o mesmo erro.

— Do que você está falan⁠..

Big Petey ergueu a mão, cortando a frase no meio.

— Não me vem com merda, Hug. Não estou nem aí se o Nolan Armitage
defendeu um estuprador e um completo pedaço de lixo e agora tá se fodendo pra
sair dessa encrenca. Mas você se importa. Porque ela se importa. E nós vamos
proteger ele. Por você. E por ela. Porque ela é sua. E você sabe como funciona. Se ela
é sua, ela é nossa.

Hugger sentiu a garganta arranhar por dentro.

Normalmente, o jeito paternal de Big Petey não o incomodava. Ele era um bom
homem, tinha um grande coração, se importava com seus irmãos e se importava
com a mãe de Hugger.

Mas agora, estava irritando.

— Big Petey... — começou ele.

— Não — Pete suspirou. — Simplesmente não, filho. Te garanto, se insistir, vai se


arrepender.

— Não é o que eu quero.


Ele disse, mesmo sem acreditar em uma palavra. Mas queria acreditar.

Foi um erro, porque abriu uma porta que Hugger fazia questão de manter
fechada.

Pete atravessou essa porta como se nada fosse e cravou os olhos nele.

— Que bom que estamos falando disso, porque nunca consegui entender. O que
você quer, afinal?

Hugger disse a verdade:

— Nada.

Foi nesse momento que Big Petey começou a ficar puto.

E não hesitou em explicar o motivo.

— Você sabe que isso partiria o coração dela se ouvisse você dizer isso.

Pete estava falando da mãe dele.

— Esse é o melhor jeito de viver. Não criar expectativas, não ter decepções. Foi
isso que ela me ensinou.

— Merda, Hug — Pete retrucou de imediato. — Ela não teve escolha. Mas ela
deu tudo de si pra que você tivesse.

Agora era Hugger que estava ficando com raiva.

— Você não sabe o que nós éramos. Você não sabe o que tivemos.

— Eu conhecia a Jackie — rebateu Big Petey. — Eu sabia o que ela sentia por
você. E sei que essa mulher ali dentro, cujo mundo se ilumina só porque outra
mulher abriu um pouquinho da gaiola onde se trancou para colorir um livro, e que
essa mesma mulher preparou uma refeição de improviso para um monte de homens
que mal conhece e adorou fazer isso, é uma mulher que faria sua mãe dar
cambalhotas de felicidade por estar na sua vida. Ela gosta de você, Hug. Não fode
com isso.
— Estamos em uma missão.

— Você não sabe fazer duas coisas ao mesmo tempo?

— Isso aqui é sério, Pete.

— E quando não foi?

Hugger não respondeu, porque sabia que isso só reforçaria o ponto de Big Petey.

— Liga para o Rush e para o Tack — ordenou Pete. — Eu cuido do Eight.

Com isso, a conversa estava encerrada. Hugger soube porque Pete simplesmente
o deixou ali, sozinho na varanda.
Capítulo 8
TOME O RISCO
Hugger

Na manhã seguinte, Hugger estava na sacada, tomando um café que ele mesmo
preparou, enquanto encarava diretamente os babacas que estavam de volta,
curtindo um café espresso e leite vaporizado de sábado de manhã no café da praça.

Ele ouviu a porta deslizar e se virou, encontrando Diana com o cabelo preso em
um nó bagunçado no topo da cabeça. O short de amarração pendia frouxo em seus
quadris, e a camiseta curta e justa moldava seus seios, exibindo o logo dos
Diamondbacks17.

Era a primeira vez que a via sem maquiagem.

Ela era tão deslumbrante quanto com ela.

Jesus.

Era como se estivesse tentando torturá-lo.

— Você está acordado — ela comentou.

Ele assentiu e indicou a praça com um movimento de cabeça.

— Temos companhia.

Ela lançou um olhar de desgosto e revirou os olhos, depois fez uma careta
fingindo que ia vomitar.

17
Diamondbacks se refere ao Arizona Diamondbacks, um time profissional de beisebol dos Estados
Unidos
Porra. O jeito fofo dela era tão sexy quanto o lado mais sensual.

Definitivamente estava torturando ele.

— Preciso usar o banheiro — avisou. — Você pode ficar aqui, mas não se
exponha aonde eles possam te ver.

— Você ainda não…? — ela começou.

— Você disse para não invadir seu espaço. E eu concordo. Você precisa do seu
espaço.

A expressão dela suavizou.

— Hugger, só bate na minha porta. Se eu estiver dormindo, simplesmente entra.

— Estou segurando faz meia hora, baby. Podemos falar disso depois que eu
esvaziar a bexiga?

Ela mordeu o lábio e assentiu.

Ele entrou para resolver o que precisava e, quando voltou à sacada, a viu sentada
nas almofadas azul-claro do sofá da área externa. Os pés descalços apoiados na
mesinha de centro branca, uma caneca de café nas mãos. Hugger foi até a cafeteira,
esquentou o dele e se juntou a ela.

Sentou-se numa poltrona na diagonal do sofá.

— Dormiu bem? — ela perguntou.

Ele dormiu uma merda.

Ela estava certa: ele era grande demais para aquele sofá, mesmo sem as
almofadas do encosto.

E estava perto demais dela, que dormia sozinha em uma cama king enorme.

Mas era o que era. E ia continuar assim.


— Dormi ótimo — mentiu.

— Mentiroso — ela murmurou contra a caneca antes de tomar um gole. Depois


de engolir, olhou para ele. — Você viu a Suzette?

Ele negou com a cabeça.

— Ela vai sair quando sentir que você está por aqui.

— É… — ele murmurou.

O olhar dela se desviou.

— Vou falar com ela hoje sobre a proteção policial. Esqueci de mencionar ontem,
mas meu pai disse que conversou com um dos policiais que está interessado em
cuidar dela. Ele também disse que o FBI quer falar com ela…

Hugger se endireitou no assento.

— O quê?

Os olhos dela voltaram para ele.

— Meu pai disse que o FBI quer falar com ela.

— Por quê?

Ela encolheu os ombros.

— Babić é um criminoso perigoso. Provavelmente não restringe suas atividades


ilegais só à região metropolitana de Phoenix.

— E o que a Suzette saberia sobre essa merda?

— Eu não… — A importância do que estavam discutindo caiu sobre ela, e Diana


também se endireitou, tirando os pés da mesa. — Ah, merda, Hugger — sussurrou.
— Quando meu pai disse isso, eu não liguei os pontos.

Ela não ligaria. O pai dela mexeu com o mundo dela ontem.
Mas agora, estava entendendo.

— O quanto você sabe sobre ela, baby? — ele perguntou.

— Praticamente nada.

— Me conta o que sabe — ele exigiu.

— Nada mesmo — repetiu ela. — E não estou escondendo nada. Ela não se
abriu. Nem um pouco.

— Como ela chegou até aqui? Você foi buscar na casa dela?

Ele perguntou porque queria saber onde era e invadir para ver se encontravam
respostas.

Mas, para seu azar, Diana balançou a cabeça.

— Ela me ligou do hospital e aceitou minha oferta. Disse para eu encontrá-la


num QuikTrip18. Fui até lá, ela tinha uma bolsa com ela, entrou no Baby Shark e
viemos pra cá. Só isso.

— Baby Shark?

— Meu carro.

Cristo.

Essa mulher…

— Ela tem celular? — ele perguntou.

Diana assentiu.

— Ela ligou para alguém? Conversou com alguém?

18
QuikTrip (QT) é uma rede americana de lojas de conveniência e postos de combustível na região
metropolitana de Phoenix.
— Não fico vigiando o tempo todo, mas não. Pelo que vi, não. Pelo que entendi,
ela não tem ninguém. Quando vocês não estão aqui e eu estou em casa, ela sai do
quarto e fica comigo. Tentei puxar assunto, mas… Você já viu, Hugger. Ela não dá
espaço para isso. É tão frágil que tenho medo de quebrá-la se pressionar demais.

Ele entendia isso.

E era uma merda, mas iam ter que começar a pressionar.

— Liguei pro presidente do meu clube ontem à noite, baby — ele contou. — O
nome dele é Rush. Ele está mandando outro irmão, Dutch. O Resurrection está
enviando dois dos deles, Core e Linus. Vamos adicionar à nossa lista de prioridades
garantir que seu pai está seguro.

A suavidade voltou ao rosto dela, mas não apagou completamente a


preocupação.

— E precisamos de um encontro com aquele detetive — ele continuou. —


Porque tem coisa que a gente precisa saber para manter todos vocês seguros.

— Vou pegar meu celular — ela sussurrou e saiu do sofá para fazer isso.

Hugger puxou o próprio telefone do bolso de trás e mandou uma mensagem


para Eight e Big Petey.

Acabei de saber que o FBI quer falar com Suzette. O pai da Diana contou isso
pra ela ontem. Vou buscar mais informações sobre isso. Fiquem atentos.

Diana voltou e, enquanto caminhava de volta para o sofá, perguntou:

— Será que é tranquilo ligar pra ele num sábado?

— Vamos arriscar — Hugger respondeu, estendendo a mão para ela.

Ela olhou para a mão dele e depois para seu rosto.

— Espera… Você que vai falar com ele?


— Coloca ele na linha e me passa o telefone, porque, sim, eu vou falar com ele.

Ela demorou um segundo, mas fez o que ele pediu e lhe entregou o celular.

Ele manteve os olhos nela, enquanto sua mente voltava para quando Nicole
dissera que sabia que Diana era uma excelente julgadora de caráter.

Então, ele perguntou:

— Você confia nesse cara?

— Ele me parece confiável, mas o que eu sei? Aposto que um policial corrupto
não demonstraria isso pra ninguém, muito menos pra alguém como eu.

— Mas sua intuição? Ele parece firme? — ele insistiu.

Ela assentiu.

— Algum dos outros policiais com quem você lidou nessa história te deu uma
sensação estranha?

— Não foram muitos, mas posso dizer que todos pareciam mais focados em
conseguir justiça para Suzette do que em prender Babić só pra ganhar pontos.
Quero dizer, não que eles não queiram derrubá-lo, mas ela era… — Ela deu de
ombros. — Você sabe como ela era, Hugger.

Ele sabia.

— E se algum deles estava fingindo, são ótimos atores — ela concluiu.

— Certo. — Ele olhou para o telefone, que já havia escurecido. — Preciso que
ligue isso de novo, querida.

Ela o fez, ele checou o nome na tela e apertou o botão de chamada.

O homem do outro lado atendeu sem enrolação.

Aparentemente, não havia problema em ligar para ele em pleno sábado.


— Diana, está tudo bem? — uma voz grave perguntou.

— Rayne Scott? — Hugger respondeu.

— Quem está falando?

— Harlan McCain. Chaos MC, Denver. Estamos cuidando da segurança da Suzette


e da Diana.

Silêncio do outro lado.

— Você soube que o Armitage não é mais o advogado? — Hugger perguntou.

— Sim.

— Ele disse pra Diana que o FBI quer interrogar Suzette.

— Eu não colocaria dessa forma.

— E como colocaria?

— Eles têm algumas linhas de investigação que querem seguir.

— Pode compartilhar alguma coisa?

— Eu não te conheço, então, não. A Diana está aí?

— Sentada bem aqui comigo, na varanda. Dois capangas do Babić estão na


cafeteria lá embaixo. Então, acho seguro dizer que precisamos nos encontrar, mas
não aqui. Suzette está começando a sair da concha, mas está indo no tempo dela.
Não quero fazer nada que a faça se retrair de novo. Mas, pelo que vejo, temos o
mesmo objetivo: garantir a segurança dela e mantê-la assim.

— Talvez você não saiba que policiais não discutem detalhes de uma
investigação com ninguém além dos envolvidos e de outros policiais — Scott
esclareceu.
— E talvez você não saiba que temos um interesse direto em garantir que
Suzette sobreviva ao que quer que esteja enfrentando e possa seguir com uma vida
longa e feliz.

— Eu adoraria aceitar sua palavra nisso, mas espero que não se importe se eu
não fizer isso — Scott retrucou.

— Podemos nos encontrar?

— Podemos, mas vai ser perda de tempo. Isso não vai mudar minha posição.

Scott fez uma pausa e então continuou:

— Olha, não sei como vocês se meteram nisso. Não posso dizer que estou
incomodado por Suzette e Diana terem alguém cuidando delas. Mas o único
assunto que temos pra discutir é encontrar um jeito de, primeiro, colocar Suzette em
um lugar mais seguro e, segundo, convencê-la a falar sobre o que possa saber.

— Então, ela não era só uma garota aleatória que ele pegou pra destruir a vida
— Hugger observou.

Scott soltou um suspiro audível, mas não disse nada.

Hugger sabia que insistir seria inútil, mas fez mesmo assim:

— Repito, temos os mesmos objetivos aqui, Scott.

Scott ficou em silêncio por um ou dois segundos, então o surpreendeu


completamente ao dizer:

— Vamos nos encontrar.

Hugger aproveitou a deixa.

— Ótimo. Diga quando e onde, estaremos lá. Eu e, provavelmente, um dos meus


irmãos, Eight.

— Quantos de vocês estão nessa?


Para construir confiança, Hugger jogou limpo:

— Quatro de fora, por enquanto. Mais três estão chegando porque agora
precisamos cobrir o Armitage também. E todo o pessoal dos Aces.

— Então isso tem a ver com o Aces — Scott murmurou, parecendo ligar os
pontos.

E provavelmente estava.

— Parcialmente. Você viu Suzette. No momento em que a encontramos, tudo


passou a ser sobre ela. E Diana.

— Entendi.

— Onde nos encontramos?

Scott passou um horário e um local.

— Estaremos lá — Hugger garantiu.

Ele encerrou a ligação e jogou o celular para Diana.

— Vou me trocar — ela disse, já se movendo em direção à porta.

— Você não vai.

Ela parou.

— Vou, sim.

— Não, baby, você não vai.

— Vou sim! Big Petey vai vir aqui?

— Di...

— Harlan! — ela o interrompeu, irritada.


Ele se calou. Mesmo sabendo que aquilo o incomodava, ele gostava de ouvir seu
nome na boca dela.

— É totalmente frustrante que seu nome seja tão incrível quanto você —
reclamou.

Ele nunca tinha ouvido alguém dizer que seu nome era legal. Nem ele mesmo
achava isso.

— Chama o Big Petey pra cá — ordenou, antes de sair rebolando para dentro do
apartamento.

Ele soltou um suspiro.

Em seguida, abaixou a cabeça, pegou o celular e foi direto ao ponto.

Mais tortura: Diana na garupa da moto dele.

Já era ruim quando tudo o que ela tinha para segurar eram os passantes do cinto
dele, como agora.

Era insuportável quando ela se pressionava contra ele, como ontem.

Ela não entendia que o nome dele no clube era irônico. Não percebia que ele
não gostava de ser tocado. Puxava a camisa dele, segurava seu pulso, dava tapas em
seu braço e, quando precisava dele, se agarrava firme.

E ele não dava a ela o que fazia os outros entenderem. Além disso, era quase
doloroso quando ele se afastava dela.

Também não se aprofundava nos motivos pelos quais fazia isso, nem no porquê
daquela dor.
Na noite anterior, ele ligou para Rush, mas ainda não tinha certeza se ligaria para
Tack.

Não tinha certeza porque, antes de qualquer coisa, a conversa com Tack não
poderia começar com um passeio pela estrada das memórias de como ele
conquistou sua old lady, Tyra.

Havia algo mais.

Algo enorme.

Uma montanha entre ele e uma vida.

Uma montanha entre ele e seu clube.

Uma montanha entre ele e o que quer que pudesse acontecer com Diana.

Uma montanha que ele vinha encarando desde que entrou para o Chaos e, até
hoje, não sabia se queria escalá-la.

Sua vida era estável e previsível. Ele não podia dizer que era feliz, nem mesmo
que estava satisfeito.

Mas podia dizer que estava respirando, estava seguro, não precisava se
preocupar com dinheiro e tinha ao seu redor pessoas que respeitava.

E, considerando a vida que levou antes do Chaos, isso era mais do que jamais
imaginou ter.

Escalar aquela montanha para ver o que havia do outro lado?

Poderia ser um oásis.

Ou poderia ser um deserto de merda.

E, pela sua experiência, a segunda opção era sempre a mais provável.

Então… é.
Subir aquela montanha era uma aposta arriscada.

Mas o agora era agora.

Big Petey estava certo: havia algo mais com Suzette.

Ela sabia de alguma coisa.

Algo que estava deixando Babić ainda mais inquieto do que sua condenação por
um estupro com agressão grave, que lhe renderia no mínimo vinte e cinco anos e,
no pior dos casos, prisão perpétua.

Então, era algo grande.

Isso significava que não era só Pete que havia ficado no apartamento de Diana.
Muzzle também estava lá. Driver tinha voltado e trouxera outro irmão dos Aces,
Gash. Eles estavam sentados do lado de fora da cafeteria, a uma mesa de distância
de alguns capangas.

Babić queria mandar um recado?

Eles também iam mandar um.

Ele entrou no estacionamento de algumas quadras públicas perto de uma rua


chamada Indian School. Eight já estava lá.

E, por algum motivo idiota, mesmo com quarenta e um graus lá fora, dois
malucos jogavam tênis.

Fora isso, o lugar estava deserto.

Ele encostou ao lado de Eight, estacionou, e Diana saltou da moto.

Só então ele desceu.

Eight lançou um olhar para ela, depois para Hugger, e abriu um sorriso.

— Diz pra ela "não" — Hugger respondeu ao comentário silencioso de Eight.


O sorriso de Eight se alargou ainda mais antes de perguntar a Diana:

— Que tipo de tacos vamos comer hoje?

Ela bufou antes de responder:

— Harlan não quer tacos toda noite. Vou fazer chili branco e servir com
pãezinhos.

— Que horas? — Eight perguntou.

— Sei lá… Seis?

— Eu trago a cerveja de novo — Eight avisou.

— E também um vinho — ela acrescentou. — Branco. Sauvignon blanc ou um


chardonnay.

— Sauvignon ou Chardonnay. Vou providenciar isso agora mesmo — Eight


respondeu, parecendo prestes a explodir de tanto segurar o riso.

Hugger sentia o mesmo.

Diana Armitage era única e, para seu completo tormento, tudo nela era bom.

— Também vamos garantir que Diana receba um bolo. Ela não vai alimentar essa
galera de graça — Hugger entrou na conversa.

— Eu cuido disso também… Harlan — Eight provocou.

— Isso não é necessário — Diana disse.

— É, sim — Hugger e Eight responderam juntos.

— Não é mesmo — ela insistiu.

— O que é ou não é necessário não está em discussão — Hugger retrucou.

— Argh — ela resmungou, rendendo-se de forma adorável.


Puro tormento para ele.

— Hmm — Eight murmurou, levantando o queixo.

Hugger e Diana se viraram e viram um SUV brilhante chegando.

A questão era que eles sabiam quem estava ao volante, então não era o policial
de Phoenix.

— Isso acabou de ficar ainda mais interessante — Eight murmurou.

— Quem é? — Diana perguntou.

— Kai Mason — Hugger respondeu.

— Você conhece ele? — ela questionou enquanto Mason estacionava.

— Ele é de Denver. Mudou para cá para expandir os negócios — Hugger


explicou.

— E esse negócio é o quê?

Ele olhou para ela.

— Investigações e segurança. E antes que você pergunte, sim, eles são bons. Os
melhores.

— Por que ele está aqui? — Ela observava Mace se aproximar.

— Porque Scott não pode nos dizer porra nenhuma — respondeu Eight. — Mas
Mace pode.

E isso dizia tudo.

O detetive Rayne Scott era confiável.

Eles esperaram até Mace chegar.

— Eight — Mace cumprimentou com um aperto de mão.


— Mace.

— Hug. — Mace se virou para ele.

Eles se cumprimentaram, e Hugger disse:

— Esta é Diana.

— Sei quem ela é — murmurou Mace, inclinando o queixo para ela. — Diana.

— Você me conhece? — ela perguntou. — Como?

— Tento saber o máximo possível sobre essa cidade — ele respondeu, sem dar
muitos detalhes.

Claro que Diana não ia deixar barato.

— Especificamente... eu. Como você me conhece? — ela insistiu.

— Tudo o que Imran Babić toca, eu fico sabendo. E qualquer coisa que ele possa
tocar de um jeito que vá me irritar, eu sei ainda melhor — Mace devolveu.

Aquilo foi o suficiente para Diana, que recuou.

— Certo, tenho um vinho para comprar, vamos direto ao ponto — anunciou


Eight.

Mace ficou sério.

— Suzette Snyder não existe.

Diana arfou.

Eight resmungou.

Hugger rosnou.

— Pelo menos, a mulher que está com você não se chama Suzette Snyder —
Mace esclareceu, olhando para Diana.
— Meu Deus... — sussurrou Diana.

— A polícia não sabe quem ela é. Ela não tinha documentos quando foi
encontrada e não apresentou nenhum antes de sair. O endereço que deu pertence a
outra pessoa, que nunca ouviu falar dela. As digitais não estão no sistema. Ela disse
à polícia que tem vinte e três anos. Os médicos que a examinaram não podem
confirmar, mas acham que ela não tem mais de dezessete — explicou Mace.

Diana ficou atordoada, e Hugger rapidamente passou um braço ao redor de seus


ombros, puxando-a contra o peito e segurando-a firme ao envolvê-la pela cintura.

Ela, por sua vez, agarrou o antebraço dele com as duas mãos.

— Você está de sacanagem comigo — rosnou Eight.

Mas Hugger já tinha sacado.

— Tráfico — ele disse, entredentes.

— Não... — gemeu Diana.

— É nisso que a polícia e o FBI estão apostando — confirmou Mace, então focou
em Eight. — Podemos falar a sós?

— Seja o que for, eu preciso saber — Diana interveio.

— Entendo que você ache isso, mas sei que não precisa — Mace rebateu.

— Se alguém vai convencê-la a se manter segura e ajudá-la a lidar com isso, sou
eu. Eu preciso saber com o que estou lidando — Diana insistiu.

Hugger, no entanto, observava a expressão de Mace.

Então, apertou Diana contra si e disse:

— Baby.

Ela virou o rosto para ele.


— Eu preciso saber, Harlan.

Merda, ela tinha se agarrado ao nome dele com mais força do que segurava seu
braço. E ela o segurava com força.

— O quão ruim é? — Eight perguntou.

— O pior — Mace respondeu sem hesitação.

Eight se afastou um pouco.

— Vamos nessa.

— Não! — Diana gritou. — Eu deveria saber.

Mace olhou para Hugger.

— Não olhe para ele — exigiu ela. — Olhe para mim.

— Por que você está envolvida nisso? — Mace perguntou, e Hugger a segurou
mais firme.

— Isso não é relevante — ela rebateu.

— Eu discordo.

— Então, que seja. Não é da sua conta — retrucou.

— Isso, de fato, não posso discordar — Mace devolveu, olhando diretamente nos
olhos dela. Ou seja, ele já tinha feito uma suposição experiente e acertado em cheio.

Hugger sentiu Diana estremecer. Sabia o motivo. E rosnou para Mace:

— Pega leve.

Mace desviou o olhar para Hugger, assentiu uma vez e então soltou:

— Os exames preliminares de DNA saíram. Múltiplos.

Ah, merda.
O calor que emanou de Eight foi avassalador.

Merda.

— Múltiplos o quê? — Diana perguntou.

— Não responda — Hugger ordenou a Mace. Então soltou Diana, mas pegou sua
mão e a puxou para longe do grupo.

— Harlan! — ela protestou enquanto andavam.

Quando ele a levou para longe o suficiente, virou-a de frente para si, inclinou-se
até ficarem cara a cara e segurou seu rosto com as mãos em ambos os lados do
pescoço.

— Você não quer saber disso, Diana.

— Quero sim, Harlan.

— Baby, se afasta disso. Deixe a gente terminar essa conversa. Depois voltamos
para sua casa, e você continua focada na Suzette, como sempre. Vamos seguir com
isso e ir mais fundo.

A cabeça dela deu um solavanco.

Merda.

O rosto dela se encheu de dor.

Merda.

Ela estava entendendo.

— Diana, se afasta — ele ordenou.

— Múltiplos — ela sussurrou.

Ele levou as mãos até o maxilar dela, aproximando-se até que seus narizes quase
se tocassem.
— Afaste-se.

— Múltiplas amostras de DNA — ela soltou com dificuldade. — Não foi só o


Babić. Ela foi violentada em grupo.

— Baby — ele sussurrou.

Ela se desvencilhou de seu toque, girou nos calcanhares e deu dois passos
furiosos para longe. Mas parou tão bruscamente que seu corpo oscilou.

Então, virou-se de volta para ele e declarou:

— Eu quero machucar alguém.

— Alguém vai se machucar. Mas não vai ser você quem vai fazer isso. Vem aqui.

— Eu não posso. Eu não consigo. Eu… — Ela balançou a cabeça. — Meu Deus, ela
tem no máximo dezessete anos e foi violentada por vários homens.

Ele não repetiu a ordem.

Foi até ela e a puxou para seus braços, envolvendo-a completamente. Uma mão
segurou sua cabeça, encaixando sua bochecha contra seu peito, enquanto a outra a
abraçava com firmeza.

Ficaram assim por um tempo, o sol queimando sobre eles, o calor dela se
infiltrando nele.

Hugger começou a suar só de ficar ali parado, mas não se mexeu. E não era só
porque ela se sentia absurdamente bem em seus braços, mas porque se sentia ainda
melhor oferecendo a ela algo firme em que pudesse se segurar.

Eventualmente, ele percebeu que ela estava se recompondo.

Só então afrouxou o aperto.

Mas não a soltou.

— Está bem? — ele perguntou.


Ela ergueu o rosto para encontrar seus olhos e assentiu.

— Você é forte? — ele insistiu.

— Eu… eu não sei exatamente o que você quer dizer, mas espero que sim.

Ele analisou seu rosto enquanto sua mente resgatava lembranças dela. Lembrou-
se dela limpando meticulosamente um quadro horrível com um cotonete. Lembrou-
se de como, mesmo no meio de um trauma emocional, não deixou passar a
oportunidade de pegar um biscoito.

Lembrou-se dela apontando para a própria cabeça e dizendo, irritada: “Desastre


total”. Do brilho nos olhos dela ao ver Suzette colorindo um livro. Do riso solto
enquanto se divertia no sofá com a ex-madrasta por horas, enquanto o ex-padrasto,
que tecnicamente não tinha laços reais com ela, tentava criar um vínculo com os
homens que estavam cuidando dela, simplesmente porque a considerava sua garota.

Lembrou-se da confiança que ela depositou nele ao ajudá-la a lidar com uma
conversa difícil por mensagem com o pai.

E então, veio uma lembrança distante.

Era vaga porque ele mesmo a tornou assim. Ele a enterrou junto com todas as
outras boas memórias de sua vida, exceto o orgulho de cuidar de sua mãe.

Mas agora, recordava-se dela voltando do trabalho e encontrando a casa limpa.


O sorriso dela. O brilho em seus olhos.

E as palavras que ela disse:

“Um dia, meu lindo garoto, você vai fazer uma mulher muito feliz.”

E ele tomou uma decisão arriscada.

— Você quer estar nisso? Realmente estar nisso?

— Eu não sei exatamente o que isso significa, mas acho que sim.
— Você tem que ter certeza. E eu preciso saber que posso confiar em você.
Então, pensa bem, Di. Você está dentro ou vai apenas cuidar da Suzette, convencê-la
a se proteger e conversar com os federais, sem se envolver no resto?

— Você está meio que me assustando, Hugger — ela disse baixinho.

— Ótimo — ele respondeu.

— É difícil decidir sobre algo que eu nem sei direito o que é, ao mesmo tempo
em que estou completamente assustada.

— Esse é o ponto da confiança.

— Eu...

— Diana, dentro ou fora?

— Eu não⁠...

Ele segurou seu rosto de novo, trazendo-o para perto do dele.

— Dentro ou fora, baby.

Ela encarou seus olhos.

E sussurrou:

— Dentro.

Ele já sabia que essa seria a resposta dela.

Agora, era hora de assumir o risco.

— O Resurrection MC é conhecido por outros dois nomes.

— Ok… — ela disse devagar.

— Eles são chamados de Anjos da Vingança.

Os olhos dela se arregalaram.


— E os Anjos da Morte.

Os lábios dela se entreabriram.

— E ambos acabam de ser ativados.

— Meu Deus — ela sussurrou.

— Você não tem envolvimento nisso, mas tem um papel aqui. Você e Pete. Vocês
precisam fazer a Suzette falar. Sobre ela, sobre o que aconteceu, sobre se proteger,
sobre contar tudo o que sabe e, principalmente, sobre por que escolheu você.

— Por que ela me escolheu?

— Ela fugiu, mas não se escondeu. Foi direto para o hospital. Essa não é uma
mulher que desistiu. É uma mulher que queria ajuda. Mas ela não confia na polícia.
Confia em você. Precisamos entender por que ela não confia nos policiais. E, para
isso, precisamos saber por que escolheu você.

As mãos dele se moveram no ritmo da cabeça dela, que assentiu.

— Você vai atrás disso?

Ela assentiu de novo.

Certo.

— Agora, aqui está o que vai acontecer — ele começou. — Mace conhece o
Eight. Ele conhece o Resurrection. Ele sabe exatamente que botão acabou de
apertar. Não sei qual foi a intenção dele. Talvez tenha feito de propósito. Talvez
tenha feito para causar um incêndio em outro lugar. Scott vai investigar. Vai ouvir
coisas. E é bem provável que Mace conte algumas delas para ele. Mas Chaos não
está envolvido nisso. O Aces também não. Então, agora estamos numa corrida
contra o tempo, baby. Não tenho problema com o que Eight e Muzz pretendem
fazer. Mas eu, Pete e Dutch não podemos deixar que isso afete você, Suzette ou
Chaos. E nossa melhor chance de evitar isso é colocar Babić atrás das grades e
acabar com essa merda.
— Então, vocês estão... em conflito com o Eightball e o Muzzle agora?

— Não é um conflito de propósito. Só que o objetivo final não é o mesmo.

— Ah. Certo — ela murmurou, parecendo confusa.

— Não se preocupa com isso. Foca em você. Na decisão sobre o jantar com seu
pai. E na Suzette.

Ela soltou uma risada surpresa antes de perguntar:

— Jantar com meu pai?

— É o que eu sei, Di. A vida segue. Suzette é importante. E isso é importante.


Ontem, você jogou uma boia para um homem que estava se afogando. Não perca o
foco e deixe ele afundar.

Os olhos dela começaram a brilhar. Ela fungou forte e assentiu.

— Você está bem?

Ela assentiu novamente, mas disse:

— Não mais do que dezessete, Hug.

— Sim — ele sussurrou.

Os lábios dela tremeram. Ela os prendeu entre os dentes, soltou devagar, fungou
de novo, dessa vez com mais força, e então endireitou os ombros.

E foi nesse momento que ele teve certeza de que podia correr o risco.

Aquilo era o que ele já sabia desde ontem, mas não havia confiado.

Agora, não tinha escolha além de confiar.

Ele soltou-a, pegou sua mão e a levou de volta para o grupo.

— Você tem tudo o que precisamos? — ele perguntou a Eight.


— Com certeza, porra — Eight respondeu.

Hugger estava começando a ver os homens do Resurrection com outros olhos.

Talvez, mesmo que ainda não fosse sua batalha, ele pudesse perdoar.

Mas, por ora, teria que trabalhar ao lado dele ao mesmo tempo em que tentava
impedir seus planos.

Isso ia ser complicado.

Diana distraiu seus pensamentos apertando sua mão.

— Podemos ir? Quero voltar para a Suzette.

— Podemos ir, baby — ele respondeu.

— Prazer em te conhecer... mais ou menos — ela disse para Mace e acrescentou:


— Sem ofensa pelo "mais ou menos".

— Prazer em te conhecer também, Diana — Mace respondeu.

— Te vejo no jantar — ela disse para Eight.

— Pode apostar, querida — Eight respondeu.

Hugger a guiou até sua moto.

Ele subiu.

Ela subiu atrás dele.

E dessa vez, não foi segurando pelos passantes do jeans.

Seios colados às costas dele e queixo apoiado em seu ombro.

Ele achava que seria tortura.

Mas não era.


Era um sinal de que talvez fosse hora de escalar aquela maldita montanha.

Porque, quem sabe, só talvez, contra todas as probabilidades que estiveram


contra ele desde o dia em que nasceu...

Havia um oásis do outro lado.


Capítulo 9
MOTIVAÇÃO
Hugger

Hugger acordou se sentindo ainda pior do que o normal pela manhã.

O sofá azul-escuro de Diana parecia bonito e era confortável para sentar, mas
não era longo o suficiente para ele. Ele não conseguia encontrar uma posição que
funcionasse, o que significava que passava a noite toda acordando e se remexendo
em busca de uma.

Além disso, ele ainda estava vestindo suas roupas, como fazia todas as noites, o
que também não ajudava em nada no conforto. Mas ele não queria que Suzette ou
Diana o encontrassem vestindo apenas suas cuecas boxer ou shorts de dormir.

Especialmente Suzette.

Hugger queria que ela sempre sentisse uma camada extra de proteção vinda
dele.

Isso significava que ele já estava há três noites dormindo mal, justamente em um
momento em que precisava estar mais alerta do que nunca.

Ou seja, ele tinha acabado de acordar, mas já precisava de um cochilo.

Ainda estava escuro, apenas um pouco da luz do amanhecer vazava pelas várias
janelas de Diana, mas ele sabia que não conseguiria dormir mais.

Sentou-se no sofá, apoiou os cotovelos nos joelhos e passou os dedos pelos


cabelos, pressionando as pontas contra o couro cabeludo antes de deslizar para a
nuca, onde permaneceu, apertando os músculos tensos.
Hugger nunca foi uma pessoa matutina. Sempre acordava de mau humor. Até ser
velho o bastante para descobrir o café, essa sensação durava um bom tempo.

Isso enlouquecia sua mãe.

Ao pensar nisso, ele se lembrou de quando tinha uns oito ou nove anos, se
arrastando e resmungando pela casa de manhã antes de ir para a escola, enquanto
sua mãe reclamava:

— Eu devia encher um balde com água gelada e jogar em você toda manhã pra
ver se acorda direito!

A partir desse dia, Hugger continuou acordando mal, mas fez o possível para
parar de se arrastar e resmungar, só para não irritá-la.

Sentindo-se inquieto com essa lembrança - principalmente pelo fato de ela ter
surgido do nada - ele a afastou e se levantou do sofá. Caminhou pelo corredor,
notando que a porta de Suzette estava firmemente fechada, mas a de Diana, no final
do corredor, estava entreaberta alguns centímetros.

Um sinal claro de que ele não precisava se preocupar se precisasse usar o


banheiro.

Droga, ela era uma mulher incrível.

Fofa. Inteligente. Engraçada. Atenciosa. Um pouco maluquinha, mas do jeito


bom.

Ainda assim, quando chegou à porta dela, segurou a maçaneta para que não
abrisse mais enquanto batia de leve, para não acordá-la caso estivesse dormindo - e
nem Suzette.

Nenhum som veio do quarto, então ele bateu de novo.

Só quando ela não respondeu, empurrou a porta e entrou.

A fraca luz da manhã iluminava o ambiente, e ele a viu deitada de costas para ele,
bem no centro da cama grande. Os lençóis brancos estavam puxados até seu ombro.
Seu cabelo escuro e dourado estava preso no topo da cabeça e se destacava no
travesseiro branco. Os travesseiros grandes e quadrados de veludo azul-claro que
ele tinha visto na cama dela durante o dia estavam empilhados no chão, e o
edredom azul-claro de veludo estava dobrado no pé da cama.

As paredes também eram azul-claro, mas a cabeceira estofada tinha um tom de


linho.

Ele já havia passado três noites imaginando como seria transar com ela naquela
cama - mais um motivo pelo qual o sono não vinha fácil.

Os criados-mudos eram brancos, num estilo clássico e elegante, como aqueles


móveis antigos franceses. Os abajures tinham bases de cristal. Acima da cabeceira,
uma grande flor branca em 3D estava montada na parede. Ao lado, prateleiras
embutidas abrigavam várias molduras brancas com fotos em preto e branco.

E era isso. Simples e sofisticado.

Hugger já tinha sentido vontade de olhar aquelas fotos, de ver um pouco mais
da vida dela, de descobrir quem eram as pessoas importantes o suficiente para
estarem ali, em seu quarto.

Mas não olhou.

E também não ficou parado ali por muito tempo, encarando-a dormir, porque ele
não era um pervertido.

Ainda assim, notou que havia um ventilador de teto ligado, o ruído branco
enchendo o ambiente. Isso o lembrou de que, em casa, ele também dormia com um
ventilador. Talvez, se Diana tivesse um portátil, ele pudesse colocar na sala para ver
se ajudava a dormir no sofá.

Se ela não tivesse, ele iria comprar um.

Seguiu para o banheiro, fez o que precisava, lavou as mãos, escovou os dentes,
jogou água no rosto e secou-se.
Então, ficou encarando a toalha que usou - um azul-claro bem bonito.

Virou a cabeça e viu duas toalhas penduradas lado a lado na porta: uma branca,
de Diana, e outra azul.

A dele.

"Não precisamos pintar, mãe."

"Meu lindo menino está virando homem. Precisa de um quarto de homem.


Vamos pintar."

Outra lembrança de sua mãe surgiu do nada, junto com o pensamento de


quando pintaram seu quarto de azul, quando ele tinha quinze anos. Ela nem
perguntou ao proprietário do imóvel.

— Não vai estragar nada — disse ela.

Simplesmente deu aquele presente a ele, mesmo sabendo que provavelmente


perderia o depósito ao se mudarem.

Foi o espaço mais bonito que ele já teve.

Até agora, temporariamente instalado no apartamento aconchegante de Diana,


com uma toalha azul espessa e uma pia só para ele.

Em Denver, ele tinha uma casinha que comprou porque podia, porque precisava
de um lugar para dormir. Mudou-se para lá porque era sua. E, além disso, nunca fez
nada com ela, a não ser consertar quando algo quebrava.

— Porra... — murmurou Hugger, nada animado com a avalanche de


pensamentos invadindo sua mente justo quando precisava manter o foco.

Outro sinal de que ele precisava dormir direito.

Um bom cochilo de três horas.

Descansar o corpo e a mente, limpar a cabeça.


Normalmente, ele ia treinar para conseguir isso, mas não queria deixar Diana e
Suzette sozinhas. Além disso, um treino agora só o deixaria mais exausto - e isso ele
não precisava.

Ele precisava dar um jeito de encontrar tempo para aquele cochilo.

Mas não fazia ideia de como.

Ele saiu em silêncio, fechando a porta do quarto de Diana por completo antes de
se dirigir diretamente para a cafeteira. Preparou um café e, enquanto esperava a
bebida ficar pronta, apoiou-se no balcão, deixando a mente revisitar os
acontecimentos do dia anterior.

Quando ele e Diana voltaram ao condomínio dela depois de se encontrarem com


Mace, ela segurou sua mão na entrada dos elevadores, antes que qualquer um dos
dois apertasse o botão, e declarou:

— Antes de subirmos, precisamos resolver isso.

Dessa vez, ele não puxou a mão de volta.

Não, ele entrelaçou os dedos nos dela e segurou firme.

Pensou no que estava fazendo. Sabia que não deveria, sabia o que aquele gesto
comunicava, ainda mais depois de tudo que já havia transmitido com seu toque
naquela manhã.

Mas segurou mesmo assim.

— Resolver o quê? — perguntou.

— Você não pode contar para Muzzle e Big Petey sobre a Suzette enquanto ela
estiver por perto. Eles vão surtar.

Ela tinha razão. Eles iam surtar.

— Mas eles precisam saber — ela continuou. — Além disso, Big Petey e eu temos
que bolar uma estratégia para fazê-la se abrir, e não podemos discutir isso com ela
por perto. Já saímos de casa logo cedo em pleno sábado, o que ela pode achar
estranho. Não quero que pense que estamos conspirando contra ela ou que há algo
errado.

Ela tinha razão de novo.

— Vamos encontrar uma forma mais sutil de compartilhar essa nova informação
e fazer isso longe da Suzette — ele garantiu.

— Posso distraí-la. Talvez, se você estiver pronto para tirar Big Petey e Muzzle
dali, possa me dar um sinal, tipo esse.

Com a mão livre, ela fez um gesto tão elaborado e confuso que qualquer técnico
ofensivo de futebol americano ficaria extasiado.

Hugger não acreditava que, depois das notícias que haviam recebido, ainda
precisasse segurar o riso, mas foi exatamente o que aconteceu.

Como ela conseguiu enganar a equipe do hospital e um policial para chegar até
Suzette, ele não fazia ideia. Provavelmente, foi menos uma questão de enganação e
mais de carisma.

— Aí eu saberia que preciso levá-la para algum lugar onde não perceba que
vocês saíram ou algo assim — concluiu.

— Você não acha que ela vai perceber se eu fizer essa coisa esquisita com a
mão? — ele perguntou, sem conseguir esconder a diversão na voz.

Ela franziu a testa, irritada.

— E você tem um plano melhor? — rebateu.

— Vou mandar o Muzzle falar com o Eight. Ele pode contar tudo. Eu já voltei,
então Muzzle não precisa ficar aqui agora. Quanto ao Petey, ele pode saber depois.
Acho que não é uma boa ideia sair correndo de manhã para pressioná-la a contar
seus segredos e tomar uma decisão sobre algo tão sério quanto a própria
segurança. Mas você pode ir aos poucos. Um pouco mais de atenção, um pouco
mais de pressão. Ela está segura por enquanto, e o FBI pode esperar até que esteja
pronta. Isso não precisa acontecer hoje.

— Boa ideia — ela murmurou.

— Podemos subir agora? — ele perguntou.

Ela lançou um olhar fulminante, que ele imaginou que fosse para matá-lo, mas,
na verdade, só a deixou ainda mais fofa. Em seguida, apertou o botão do elevador,
então ele interpretou isso como um "sim".

Assim que entraram, Muzzle praticamente o atropelou ao sair apressado, o que


significava que Eight já havia ligado para ele.

Pete lhe lançou um olhar de Que porra está rolando?, e Hugger não teve escolha
a não ser responder com um Depois te explico.

Diana teve a brilhante ideia de manter o dia tranquilo com atividades normais e
convenceu Suzette a ajudá-la.

Elas passaram o dia limpando, lavando roupas, mandando Pete ao mercado com
mais uma lista e começando a preparar o chili branco (de novo na panela elétrica).
Hugger ficou encarregado do lixo e da reciclagem e, depois que Diana tirou o
aspirador do armário, ele tomou conta dessa tarefa também. Suzette e Diana ainda
fizeram uma torta de morango (incrivelmente deliciosa, melhor até que o elote dela).

À tarde, se reuniram para assistir a um filme britânico hilário, Morte no Funeral19


(escolha de Diana).

Os rapazes chegaram às seis.

Jantaram na mesa da sala, conversaram bastante, e Muzzle o irritou ao pedir


Diana em casamento depois de experimentar a torta dela (mesmo que fosse
claramente uma piada). Hugger ainda repensou seus sentimentos sobre Resurrection

19
Morte no Funeral" (Death at a Funeral) é o título de duas comédias de humor negro, uma britânica
de 2007 e um remake americano de 2010. Ambas giram em torno do caos e dos segredos familiares que
surgem durante um velório.
quando viu Eight satisfeito com o fato de Diana ter aprovado o vinho que ele trouxe
(e ele trouxe cinco garrafas, embora ela só tenha provado uma).

Dessa vez, eles foram embora bem mais cedo que na noite anterior. Pete foi com
eles.

E as melhorias continuaram, porque Suzette não se trancou no quarto depois


que saíram. Pelo contrário, ficou para assistir a outro filme com eles, mesmo com
Hugger ali.

Diana fez questão de deixá-la escolher. Suzette optou por um filme da Disney,
Encanto20, que, para a surpresa de Hugger, não era ruim. E a trilha sonora era muito
boa.

Depois do filme, todos foram dormir, e, pela primeira vez, Suzette dirigiu a
palavra a ele:

— Boa noite, Hugger.

Mais um progresso.

Quando as mulheres foram dormir, ele saiu para a varanda para ligar para Rush e
Big Petey.

Pete estava na casa segura, então, quando Hugger finalmente falou com ele, Pete
já sabia de tudo.

Rush ficou em silêncio por dois minutos inteiros depois de receber a atualização,
antes de dizer com a voz tensa:

— Wash já deve estar sabendo disso, embora eu não esteja surpreso por ele não
ter me ligado. Eles podem estar prestes a agir por conta própria. Vou conversar com
Wash e Buck. Talvez precisemos mandar Jag e Coe para manter as coisas sob
controle. Vamos ver. Te retorno depois.

20
Encanto" é um filme de animação da Disney lançado em 2021. O filme aborda temas como
expectativas familiares, autodescoberta e aceitação, mostrando que cada pessoa tem valor, mesmo que
não tenha um "dom especial".
E foi isso. Agora era agora.

Mais um dia em uma casa confortável, com uma mulher incrível, uma garota
quebrada e a cabeça cheia de pensamentos.

Ele se virou para a cafeteira, preparou uma caneca de café e a levou para o sofá.
Empurrou para o lado as cobertas que Diana insistia em ajeitar sobre as almofadas
para improvisar uma cama para ele.

Estava guardando tudo fora de vista quando seu celular - repousando ao lado da
arma na mesa de centro - acendeu.

Era Big Petey ligando.

Ele pegou o telefone e a caneca e foi até a varanda.

Ao atender, o céu já estava mais claro. Algumas mulheres, vestindo roupas de


ioga e carregando tapetes, seguiam para um estúdio no andar térreo. Fora isso, o
ambiente estava tranquilo.

— Ei. Tudo certo? — ele cumprimentou.

— Consegui impedir Eight e Muzz de invadirem a casa do Imran Babić ontem à


noite e, em vez disso, convencê-los a esperar Rush, Buck e Wash decidirem como
lidar com a situação. Então, isso foi um avanço.

E realmente foi, embora Hugger soubesse que aquilo era apenas uma batalha,
não a guerra.

— Bom — ele disse.

— Você está acordado cedo — Petey comentou. — Achei que ia cair na caixa
postal.

— Dormir no sofá é uma merda, cara.


— Imagino — Pete murmurou. Depois, acrescentou: — Vou tomar um banho,
pegar uns donuts e passar aí. Mas, do jeito que esses ossos velhos trabalham, isso
deve levar umas duas horas.

— Diana quer conversar com você para tentar descobrir um jeito de fazer Suzette
falar. Mas ela não quer que Suzette veja essa conversa. Se você puder dar um jeito
nisso, vai deixá-la mais tranquila.

— Vamos resolver.

Havia algo na voz de Pete que incomodou Hugger.

— Você tem certeza de que está bem? — ele perguntou.

O homem demorou um momento para responder.

Por fim, suspirou:

— Estou velho demais pra essa merda, Hug.

Hugger não podia discordar, mas também não gostou de ouvir isso sair da boca
de Pete.

Ainda assim, perguntou:

— Precisa voltar para Denver?

— Nem com um estoque inteiro de dinamite você me tiraria de perto dessas


duas mulheres antes de eu ter certeza absoluta de que elas estão seguras — Pete
respondeu.

Hugger sorriu e tomou um gole do café antes de dizer:

— Certo.

— E você? Como está lidando com tudo isso?

— Suzette me deu boa noite ontem. Acho que está começando a se acostumar
com a gente. Hoje pode ser o dia de insistir um pouco mais. Diana volta ao trabalho
amanhã. É pesado para ela ter que trabalhar para sobreviver e, quando chega em
casa, ter uma responsabilidade ainda maior. O trabalho dela parece tranquilo, mas
exige muita atenção e foco.

— Concordo. Mas preciso dizer, Suzette não tem essa relação comigo. Odeio
admitir, mas não temos tempo para eu conquistar essa confiança. Diana e eu vamos
conversar, mas no fim das contas, tudo vai depender dela.

Hugger já suspeitava disso, mas não gostava da ideia. Ele inclinou a cabeça de
um lado para o outro para aliviar a tensão no pescoço antes de tomar mais um gole
de café e responder:

— É...

— Pelo jeito que vocês dois estavam ontem, parece que você já tomou uma
decisão sobre ela.

Merda.

Eles não estavam exatamente aos beijos e abraços, mas era verdade que ele tinha
ultrapassado um limite com Diana. Ela se aconchegou nele no sofá durante os dois
filmes, e ele permitiu. Não só porque o espaço era pequeno demais para os três se
acomodarem se ela não fizesse isso, mas porque quis.

Ele nunca tinha feito isso antes. Nunca teve vontade. Já tinha visto outras pessoas
se aconchegando assim e nunca entendeu a graça de ter alguém invadindo seu
espaço daquele jeito.

Com Diana, foi natural.

E, pra ser sincero, foi ótimo.

— Pete...

— Mas conversei com Tack e ele disse que não ouviu nada de você.

— Ainda não tomei uma decisão sobre ela.


— Certo... Então, onde você está com isso?

— Num lugar onde não quero falar sobre isso.

— Hug...

— Muito cedo pra essa merda, Petey.

— Pode ser. Mas já falamos sobre isso outro dia, então vou tocar no assunto de
novo: a gente tem você, mas ao mesmo tempo não tem.

Hugger franziu a testa.

— O quê?

— Você é Chaos. Podemos contar com você. Mas, se eu perguntar pra qualquer
um dos irmãos, duvido que alguém possa dizer que realmente te conhece.

Hugger sentiu o peito apertar.

— É assim que as coisas são. Eu dou o que vocês dão, e devolvo na mesma
moeda.

— Sim. Essa é a outra questão. Nenhum dos irmãos pode dizer que realmente te
conhece.

Hugger não gostou nada daquilo.

— Isso não é verdade.

— Só não é porque eles se importam muito mais do que você e prestam


atenção.

— Você está dizendo que isso é um problema?

— Não, filho, estou dizendo que, para mim, isso é preocupante.

— Pelo amor de Deus, por quê?


— Porque você tem muito a oferecer.

— Como o quê?

— Talvez devesse perguntar para a Diana.

Hugger fechou a boca.

Big Petey, não.

— Quando ela chegar naquele ponto da recuperação, pergunte para a Suzette.


Pergunte para qualquer um dos nossos irmãos. Você aparece na loja e faz o que tem
que fazer sem reclamar, enquanto a maioria dos caras odeia trabalhar lá. Pergunte a
qualquer membro do Resurrection, quando você protege as costas deles. Pergunte à
Tab, quando o Playboy estava vomitando as tripas e o Shy e o Rush estavam em Fort
Collins, o Tack e a Tyra estavam em St. Lucia, e você foi para o hospital ficar com ela
até o marido e o irmão conseguirem chegar lá.

— É o que fazemos.

— Você é como a Suzette, Hug, mas de um jeito diferente. Só está vivendo até
morrer.

Aquilo atingiu tão fundo que ele sentiu a lâmina raspar o osso.

— Precisamos falar sobre isso — anunciou Big Petey.

Hugger conseguiu respirar, porque sabia exatamente sobre o que Pete queria
falar.

E isso não ia acontecer.

— Não, não precisamos.

— Deixei isso pendente por muito tempo. Estou ficando velho, desacelerando.
Preciso resolver isso para a Jackie antes de partir.

Ele também não gostava quando Pete falava sobre partir.


— Pete…

— Não agora. Tem muita coisa acontecendo. Depois — disse Pete, no instante
em que Hugger ouviu a porta de vidro deslizante se abrir atrás dele.

Ele se virou e viu Diana, agora de shorts largos e uma camiseta dos
Diamondbacks. O cabelo bagunçado pendia para um lado. Os olhos sonolentos, a
caminhada arrastada enquanto se aproximava dele.

E ela era a coisa mais bonita que ele já tinha visto.

Ele congelou no lugar quando ela se aproximou sem hesitar, encaixando-se às


suas costas. Sentiu o toque do rosto dela pressionando-se contra ele, enquanto os
braços dela se enlaçavam ao redor de sua cintura.

Era o toque mais doce que ele já havia sentido.

Meu Deus.

— Hug? — chamou Big Petey.

— Diana acordou — ele murmurou.

— Certo. Vamos parar por aqui. Mas aviso logo, vamos retomar isso depois. Nos
falamos em breve.

— Até mais — ele soltou, encerrando a ligação.

Ele colocou a caneca no corrimão e se virou, cuidadosamente, nos braços de


Diana.

Ela permitiu, mas então se apertou contra o peito dele.

— Está muito cedo, e pelo jeito você já está acordado faz tempo — murmurou
ela, a voz doce e sonolenta. — Precisamos sair para comprar um colchão de ar pra
você.

Hugger guardou o celular no bolso de trás, segurou-a pelos braços e, com


gentileza, mas firmeza, afastou-a.
Ela piscou para ele. Seu rosto se desfez, e o estômago dele revirou ao ver aquilo.

— Me desculpa — sussurrou ela, agora completamente desperta, o horror


substituindo o sono. — Desculpa mesmo. Achei que ontem… você tocando meu
rosto, segurando minha mão, assistindo aos filmes comigo… Eu achei que… eu… —
Ela balançou a cabeça, fazendo os fios de cabelo grossos pularem. — Achei errado. E
me desculpa por isso. Deve ter sido muito estranho pra você.

Hugger se ouviu dizer:

— Não gosto de ser tocado. Não sou do tipo afetuoso.

— Ah… Certo. — Ela assentiu rapidamente, várias vezes. — De novo, me


desculpa.

Ela evitava olhá-lo diretamente.

— Eu só vou…

— Diana.

Os olhos dela passaram rapidamente pelo rosto dele e pousaram em sua orelha.

— Baby, olha pra mim — ele pediu suavemente.

Ela precisou de esforço visível para encontrar o olhar dele.

E parecia desconfortável, mortificada, como se quisesse estar a um milhão de


quilômetros dali.

Ele não suportava aquilo. Nenhuma parte daquilo. Mas, principalmente, essa
última.

Ele se inclinou para ela, segurou seu queixo entre o polegar e o indicador e
sussurrou:

— Eu sou um problema que você não precisa.

— O quê? — ela sussurrou de volta.


— Tenho coisas que nenhuma mulher boa merece carregar.

— Que coisas?

— Coisas com as quais já nasci. — Droga, ele estava mesmo entregando aquilo
pra ela. — Coisas que me fizeram ser quem sou.

— Harlan…

— Você já tem muita coisa com que lidar. Não pode carregar mais essa.

— Pode pelo menos me dar uma pista do que é essa coisa?

— Já dei.

— Eu não… — A névoa do sono e da vergonha desapareceu, e as sobrancelhas


dela se juntaram. — Você está falando da sua mãe?

Ele precisava parar de tocá-la, mas não conseguia fazer isso sem deslizar o
polegar ao longo da linha do maxilar dela.

Então, não parou.

— Porra, não, Di. Mas pensa nisso.

— Pensar no quê?

— Quem é meu pai?

A cabeça dela se ergueu num movimento brusco, e ela perguntou:

— Você sabe?

— Conheci ele uma vez. Uma única vez foi suficiente. Mas eu sei quem ele era.
Sei tudo sobre quem ele era.

— E isso importa?

As palavras dela foram como uma lança atravessando seu peito, deixando-o sem
resposta.
Diana ergueu as mãos no ar.

— Quem é meu pai?

— Di… — ele conseguiu murmurar, com a voz falhando.

— Tá bom, agora ele está tentando. Mas eu tenho vinte e nove anos, Harlan. Sou
grata pelo esforço dele, decidi dar uma chance a isso, mas é muito tempo pra passar
com um pai que sempre esperou que eu fosse a perfeição dele, da cabeça aos pés,
na inteligência, na personalidade... e conviver com o peso de nunca alcançar esse
ideal, de sempre decepcioná-lo. Um pai que traiu minha mãe, que destruiu o
coração dela bem na minha frente. E, mesmo tendo traído, ainda agia como se ela
fosse um defeito ambulante, como se estivesse abaixo dele, de mim, de todo
mundo. Um pai que cresceu sem ter muito, odiava isso, e fez de tudo pra conseguir
mais, pra ele e, sim, pra mim também. Mas isso significou que fui criada por babás e
governantas e...

Ela estava se perdendo nesse turbilhão.

Então ele ordenou:

— Para com isso, meu bem.

— Você quer saber por que eu fiz questão de colocar a Suzette na minha casa?

Ah, não.

Nem ferrando.

Eles não podiam entrar nesse assunto.

— Não vem com essa — ele rosnou.

— Então você já sacou que eu fui desencadeada e sabe o motivo.

Hugger não disse nada.

— Quando aquilo aconteceu, meu pai…


Ah, não.

Definitivamente, eles não podiam ir por esse caminho.

— Não vem com essa, Di.

— Ele fez de um jeito que aquele cara…

— Estou avisando, baby, não me vem com essa merda.

— Aquele cara…

Dane-se.

Pra calá-la, ele segurou a nuca dela, puxou-a contra seu corpo, inclinou a cabeça
e tomou sua boca.

Por um instante, ela congelou.

Então, se entregou. As mãos dela subiram pelo peito dele.

Com o convite aceito, Hugger inclinou ainda mais a cabeça, tocou a língua nos
lábios dela.

Ela se abriu para ele. Hugger deslizou a língua para dentro e sentiu o gosto de
hortelã, calor, feminilidade, mistérios, verdades e a plenitude da vida.

Tudo isso o atingiu ao mesmo tempo.

Foi esmagador.

E foi fodidamente fantástico.

Ele aprofundou o beijo, apertou o braço ao redor dela, inclinou-se ainda mais,
curvando-a sobre seu braço.

Diana gemeu contra sua boca, enfiou os dedos nos cabelos dele, o outro braço
envolvendo com firmeza o pescoço dele.

Ela se apertou contra ele.


Ela deu.

E deu.

E mais.

Então, tomou. Entrelaçou a língua na dele, avançando para provar o gosto dele.

Ao senti-la envolvê-lo, seu membro pulsou, e um rosnado profundo escapou de


sua garganta.

Ela soltou um gemido e se pressionou ainda mais contra ele.

Eles se agarraram, tomaram um do outro, deram um ao outro, e nada mais


importava.

Nada.

O mundo não era um completo desastre. Coisas horríveis não aconteciam com
pessoas boas. Você não precisava suar, sangrar e implorar por qualquer migalha que
conseguisse.

Não.

O mundo era a sacada de Diana, seu corpo macio contra o dele, sua mão entre
seus cabelos, a promessa aberta de quem ela era e do que poderia oferecer - mais
do que suficiente para dar a um homem a motivação para escalar montanhas.

Quando esse pensamento explodiu em sua mente, Hugger quebrou o beijo, mas
não o abraço, aninhando o rosto dela contra seu peito.

Foi então que, em sua mente, ele viu a imagem do irmão do Chaos, Joker,
surgindo de trás do capô de um carro, e a expressão dele ao ver sua mulher, Carissa,
entrando na oficina da Ride.

Viu o olhar de Shy quando encontrou Tab no hospital, onde seu filho estava
internado com uma gripe forte.
Viu Georgie provocando Dutch, e os olhos de Dutch brilhando, porque ele
adorava isso.

Viu Tack como tantas outras vezes - encostado na beira da mesa de Tyra, no
escritório da Ride. Ele não precisava estar ali por trabalho. Estava ali porque sua
mulher estava.

Um turbilhão de imagens semelhantes tomou sua mente: Lanie e Hop, Millie e


High, Hound e Keely, Jag e Archie, Rosalie e Snap, Rush e Rebel…

E, merda, ele tinha sido lento para perceber.

Sempre esteve ali. Bem na sua frente, ao seu redor.

O que sua mãe queria para ele.

O que Big Petey e Rush estavam tentando lhe mostrar.

Mesmo naquela churrascada do AAF, onde foi apresentado à vida que poderia
ter, ele nunca tinha compreendido isso—nem racionalmente, nem emocionalmente.

— Hum… — Diana murmurou contra seu peito.

Ele soltou a cabeça dela, mas a manteve presa com o outro braço.

Ela ergueu o rosto.

Seus lábios estavam inchados, as bochechas coradas…

Cristo.

Maravilhosa.

— Então… aquele foi um beijo realmente… meio que… hum, importante, né? —
ela perguntou.

— É — ele confirmou.

Sentiu o corpo dela relaxar contra o seu, aliviado.


Sim, ela estava tão envolvida quanto ele.

— Então talvez a gente devesse deixar algumas coisas claras — ela sugeriu.

— Di…

— Eu gosto de você.

Lá estava.

Ela continuou:

— Eu gosto mesmo de você. Gostei muito daquele beijo. E, bem, nada disso é
ideal, com tudo o que está acontecendo e o fato de morarmos em cidades
diferentes, em estados diferentes.

— É — ele concordou de novo.

— Mas eu… bem… — Ela hesitou.

— Eu gosto de você — ele disse baixinho. — Estou envolvido nisso. O momento


é uma merda, não só pelo que você falou, mas porque eu ainda tenho algumas
coisas pra resolver antes de estar pronto pra me jogar de cabeça com uma mulher
incrível que eu quero muito conhecer melhor.

Ele achou que ela não poderia derreter mais, mas naquele instante, ela
praticamente se fundiu a ele, seus lindos olhos verdes brilhando com um toque de
felicidade.

Hugger se apaixonou por aquele brilho no mesmo instante.

E decidiu que queria mantê-lo aceso até o último suspiro.

Mas ela precisava saber.

— Baby, a merda que eu tenho que enfrentar é bem profunda, e não é o tipo de
coisa que se joga em cima de uma mulher que você acabou de conhecer e quer
conhecer melhor — ele avisou.
— Hm… Você estava no Sack’s quando eu tive um colapso porque meu pai
demonstrou, pela primeira vez em vinte e nove anos, que se importa comigo?

Hugger não conseguia acreditar, mas sorriu.

Ela observou o sorriso dele e, em seguida, olhou nos olhos dele.

— Sim, você estava lá. A gente aprende algo novo todos os dias, se prestar
atenção. E, nos últimos dias, eu aprendi que você não escolhe o momento em que
conhece um cara e quer pular nos ossos dele.

As sobrancelhas dele se ergueram.

— Você quer pular nos meus ossos?

— Hm… De novo, você estava ali naquele beijo?

Ele acariciou as costas dela e murmurou:

— Totalmente ali, baby.

— Então… O que isso significa? Vamos meio que namorar enquanto lidamos com
todo esse caos?

— Não exatamente, mas não temos escolha a não ser nos conhecer melhor. E eu
estou muito a fim de fazer isso.

Os olhos dela se estreitaram, e o que ela disse em seguida mostrou que ela já
estava começando a conhecê-lo.

— Você parece que não dorme há uma semana.

— Di, não é grande coisa.

— É, sim. Eu não gosto disso. Você consegue tirar um cochilo durante o dia?

— Quem não consegue?

— Eu. Se o sol está brilhando, é impossível.


Puta merda.

— Sério? — ele perguntou.

Ela assentiu.

— Que droga pra você, baby — ele murmurou.

— Pois é. Mas enfim… Quando o Big Petey chegar, você vai pro meu quarto,
fechar a porta e recuperar o sono.

Ele queria recusar, mas sabia que não deveria. Então, não recusou.

— O Pete está trazendo donuts — ele contou.

Os olhos dela brilharam de novo, e Jesus.

Porra.

Ah, sim.

Motivação para escalar montanhas.

— Perfeito — ela respondeu. — Então, vamos simplesmente seguir o fluxo e ver


como tudo se desenrola? Esse é o nosso plano?

— Eu topo se você topar.

Mais brilho nos olhos dela e mais contato físico, com ela se aproximando ainda
mais.

— Totalmente.

Ele segurou o rosto dela, acariciando sua bochecha com o polegar e… droga.

Segurá-la, tocá-la, estar livre para fazer isso depois de querer desde que colocou
os olhos nela… era uma sensação fodidamente boa.

— Vou mandar uma mensagem pro meu pai e aceitar o jantar — ela informou.
— E se ele te convidar também, você provavelmente deveria saber que…
Ele ficou tenso e a interrompeu.

— Baby, como eu disse, não.

A expressão dela ficou confusa.

— Não é uma coisa boa, mas você deveria saber.

— Eu já sei que não é uma coisa boa. Sei que não tem nada a ver comigo. E
agora sei que ele não cuidou de você como deveria, e é por isso que vocês dois têm
essa relação complicada.

Ela mordeu o lábio.

— Uhum.

— Então, eu não posso saber como ele não fez isso, porque isso vai me deixar
puto num nível extremo. Eu não quero estar compartilhando um beijo incrível com
você num segundo e, no outro, perdendo a cabeça por causa do seu pai e, talvez, te
assustando. Eu preciso estar no estado certo. Mais importante ainda, você precisa
estar no estado certo. E acho que podemos concordar que aqui e agora não é esse
momento.

Ela franziu o nariz e murmurou:

— Você tem razão.

— Acabamos de superar nosso primeiro obstáculo e caímos de pé. Não preciso


que seu pai estique a perna e me derrube.

— Eu também não quero isso.

— Então, deixamos isso pra depois, certo?

Ela assentiu.

— Quer tomar um banho antes do Big Petey aparecer com os donuts, eu devorar
alguns e finalmente conseguir dormir direito?
Os olhos dela se arregalaram.

— Banho juntos?

Ele sentiu seu rosto suavizar.

— Não, baby. Isso fica pra depois. Quando a gente chegar lá e você estiver
pronta. Certo?

Ela assentiu de novo, mas ele adorou o fato de que ela parecia desapontada.

Ele se inclinou e roçou os lábios nos dela.

Os olhos verdes dela estavam brilhando quando ele se afastou.

— Eu gosto desse novo “nós” — ela decretou.

Porra, ele esperava saber o que estava fazendo.

— Eu também. Agora, anda logo. Pete disse que só chega em algumas horas,
mas Suzette pode acordar a qualquer momento. E ela está começando a se sentir
mais à vontade comigo e a sair para os espaços comuns. A gente não precisa estar
se pegando na varanda quando ela sair.

Diana franziu a testa.

Hugger sorriu.

Então, ele a virou, colocou a mão na base das costas dela e a empurrou
suavemente em direção à porta.

Ele a observou entrar e percebeu que, antes de desaparecer, ela olhou para trás,
como se quisesse ter certeza de que ele ainda estava ali e não iria simplesmente
saltar pela grade para fugir.

Ele ergueu o queixo para ela.

Ela sorriu e sumiu.


Hugger se virou e olhou para o pátio abaixo.

Algumas outras mulheres, carregando bolsas de treino nos ombros e vestindo


roupas justas, seguiam em direção a outra porta no primeiro andar.

Nem sequer eram sete da manhã em um domingo.

Loucura.

Ele pegou sua caneca e tomou um gole.

Devia estar pelo menos uns trinta e dois graus lá fora, e o café tinha esfriado.

Então, entrou em uma cozinha incrível, em um lugar de dar inveja, para


esquentá-lo.
Capítulo 10
PESO PRECIOSO
Diana

Eu estava sentada em um canto do sofá, enquanto Big Petey ocupava o outro.

Já tínhamos comido nossos donuts, e agora Hugger dormia na minha cama,


enquanto Suzette estava no quarto dela, fazendo sabe-se lá o quê.

Eu ainda estava no embalo do que tinha acontecido na varanda com Hugger.

Não, não era como se eu tivesse esquecido que, na teoria, estávamos no meio de
um grande drama envolvendo mafiosos e o FBI. Além disso, Hugger morava a
oitocentos e vinte e um quilômetros de distância (sim, eu pesquisei). Ou seja, levar
nosso relacionamento para aquele nível era a última coisa que deveríamos estar
fazendo.

Mas, cara…

Aquele beijo.

Depois daquele beijo e, bem... de praticamente tudo nele, eu não me importava


se Hugger morasse na lua. Eu queria descobrir até onde poderíamos chegar juntos.

E eu queria isso pra valer.

(Poderíamos simplesmente dizer que ele tinha um corpo feito para abraços. Os
melhores dois filmes que já assisti, sem sombra de dúvida.)

Como se já não tivesse acontecido coisa suficiente para abalar meu mundo
naquela manhã (embora tudo da melhor forma possível, eu ainda sentia os lábios de
Hugger nos meus e sua barba, áspera e macia ao mesmo tempo... meu Deus), e
ainda nem era dez da manhã, eu estava diante do verdadeiro Apocalipse no meu
celular.

A parte menos catastrófica desse colapso tecnológico era meu amigo Bernie
exigindo minha presença para uma noite de drinques na sexta-feira.

Eu vinha basicamente ignorando todo mundo por causa de Suzette e, depois,


claro, os garotos apareceram e tomaram toda a minha atenção (especialmente um
deles... ahem).

Como Nic sabia de tudo e, por consequência, Larry também, eles me ajudaram a
mudar Suzette para o apartamento, mas eu não fui exatamente transparente com
meus amigos. Só disse que tinha um convidado de fora da cidade ficando comigo
por um tempo e que precisava de ajuda para montar um quarto de hóspedes,
pegando algumas coisas emprestadas com eles.

Eu não tinha certeza se conseguiria sair para os drinques na sexta. Precisava


perguntar a Hugger.

Então minha resposta foi fácil: Parece divertido! Eu te confirmo em breve!

A parte realmente catastrófica era que eu tinha mandado uma mensagem para
meu pai avisando que estava disponível para jantar.

Achei que ele estaria na academia ou jogando golfe, mas sua resposta veio
imediatamente:

Quarta-feira é bom para você?

Isso aqueceu meu coração (e eu nem sabia que tinha um coração tão sentimental
assim) ver que ele respondeu rápido e queria se encontrar logo.

Mas eu precisava falar com Hugger sobre isso também. Porém, já que tanto eu
quanto meu pai estávamos sob a proteção dos motociclistas, presumi que estaria
tudo bem.

Preciso confirmar uma coisa, mas acho que sim. Te aviso logo.
Foi aí que me lembrei da tendência do meu pai ao controle e de sua necessidade
de formar uma opinião sobre qualquer coisa para expressá-la, um impulso tão forte
que ele fazia isso até quando o foco deveria ser resolver onde estávamos na nossa
relação.

Sua resposta seguinte provou isso:

Sinta-se à vontade para trazer seu namorado.

Eu só sabia que isso ia me causar problemas.

Não corrigi, não disse que ele não era meu namorado (oficialmente, pelo
menos... hmm).

Respondi apenas: Vou falar com ele.

Ai, meu Deus!

Mal tinha enviado essa mensagem e já recebi outra, dessa vez da minha mãe.

E foi aí que o Apocalipse realmente aconteceu.

A mensagem dizia:

Oi, querida! Vou estar na cidade para fazer compras! Me busca no aeroporto na
sexta, por volta das duas. Vamos ao Fashion Square, jantar em algum lugar legal e
depois passar o fim de semana acabando com a conta bancária do Rick.

Rick, aliás, era o marido dela. E, só para constar, eu jamais o chamava de


padrasto. Nunca.

Respondi: Oi, mãe. Você já comprou as passagens?

E a resposta veio imediatamente:

Sim! Já está tudo certo! Fim de semana só para nós, meninas!

Tive que parar por um instante para processar aquilo (tá, foram uns cinco
minutos), tentando sufocar os sentimentos que sempre - ou melhor, quase sempre -
surgiam quando minha mãe entrava na minha vida.
Eu a amava. Ela era divertida e viveu praticamente a vida toda sem
responsabilidades. Como eu, era filha única, mas meus avós lidaram com isso de
forma oposta ao que meu pai fez comigo - no caso dela, mimando-a até dizer
chega.

Passar um tempo com alguém tão leve, sem amarras, dava uma sensação de
liberdade.

Por um tempo.

Mas eu tinha responsabilidades.

E, por mais que eu não quisesse ficar irritada com minha mãe, o fato de ela ter
comprado as passagens sem perguntar, esperado que eu fosse buscá-la no
aeroporto num horário em que eu estaria trabalhando e, claro, contado que eu fosse
seu motorista (porque ela não dirigia na cidade - "Me deixa nervosa!"), me
incomodava.

Dessa vez, porém, eu não poderia simplesmente largar tudo para atender ao seu
chamado repentino para passar tempo com a filha (ou, sendo mais realista, para ir às
boutiques caras do Fashion Square com uma motorista, guia turística e carregadora
de sacolas à disposição. E sim, às vezes - na verdade, muitas vezes - essa era a
sensação).

Então, tive que responder:

Desculpa, mãe. Não posso. Já tenho planos para o fim de semana.

A resposta veio no ato:

Mais importantes do que passar um tempo com sua mãe?

Nesse momento, olhei para Big Petey, que continuava no outro canto do sofá. Ele
tinha tirado as botas, os pés apenas de meia apoiados na minha mesa de centro,
enquanto assistia a episódios antigos de Meu Gato Endiabrado (eu entendo, Jackson
Galaxy é incrível21).

Voltei para o celular.

Sim. Tenho um amigo que precisa de mim.

Ela não hesitou:

E eu preciso de um tempo com minha filha.

Ah, droga.

Eu estava começando a ficar irritada.

E provavelmente foi por isso que fiz algo que nunca tinha feito antes.
Normalmente, eu enterrava qualquer incômodo em relação à minha mãe, ignorava
ou arranjava desculpas.

Mas dessa vez, não.

Resolvi reagir.

Mãe, você sabe que eu amo passar tempo com você. Mas ela foi estuprada por
um grupo de homens. Então, da próxima vez, talvez me mande uma mensagem
antes ou me ligue para ver se estou disponível ou posso tirar folga do trabalho.

A resposta veio de imediato:

Meu Deus, Diana. Um aviso antes de falar algo assim, por favor!

Fiquei olhando para a tela, sentindo algo ferver dentro de mim, como ácido.

Foi nesse instante que me lembrei de que nunca tinha contado para ela sobre o
que aconteceu comigo.

21
O programa mostra Jackson Galaxy (uma figura muito carismática, famoso por sua abordagem única e
seu estilo excêntrico - barba grande), um especialista em comportamento felino, ajudando donos
desesperados com gatos agressivos ou problemáticos
Não porque achava que a reação dela seria como a do meu pai, mas porque eu
sabia que ela não saberia lidar.

Eu protegi minha própria mãe da minha dor.

— Não sei se, por mais que você esteja encarando o celular, ele vai explodir na
sua mão — comentou Big Petey.

Virei-me para ele.

— Você está bem, garota? — ele perguntou em um tom baixo.

— Minha mãe pode ser um pouco difícil às vezes — respondi.

Ele me observou atentamente.

— É... isso acontece.

— Ela fez planos para vir neste fim de semana, mas nem sequer perguntou antes.

Sua barba grisalha e desgrenhada se contraiu com irritação.

— Pois é — concordei. — E ela não gostou nem um pouco quando eu disse que
não podia.

— Bom... ela tem uma filha adulta agora, então não é como se tivesse muita
escolha, né?

Não. Ela realmente não tinha.

Voltei minha atenção para o celular.

A gente combina outra coisa depois, prometi.

Eu estava prestes a deixar essa situação desagradável de lado e conversar com


Big Petey sobre Suzette quando meu telefone vibrou na minha mão.

Outra mensagem da minha mãe.


Tanto faz. Rick vai ficar furioso por termos que pagar a taxa de mudança do voo,
mas suponho que vamos ter que lidar com isso.

Sem dúvida, ela já havia gastado dezenas de milhares de dólares em roupas,


sapatos e bolsas. E se resolvesse se jogar de cabeça, essa quantia aumentaria
significativamente se decidisse passar pelo balcão de joias.

Ou seja, a taxa de alteração de voo era o menor dos gastos dela.

Mas um arrepio percorreu minha pele ao perceber que isso sempre acontecia. Eu
sempre era a culpada quando minha mãe não conseguia o que queria, quando
queria.

Ela abriu mão da guarda. Nem sequer tentou lutar por mim. Nos víamos em
alguns fins de semana. Jantávamos juntas. Meu pai pagou pensão para ela até que
se casasse com Brendon (o marido número dois de três). E essa pensão não era nada
modesta.

Felizmente para meu pai, Brendon apareceu rapidamente e, segundo minha mãe,
apesar de estar arrasada com a infidelidade dele, Brendon "me arrebatou
completamente".

Com o acordo de custódia - e mesmo depois, durante o pouco tempo que ela
ficou com Brendon (e quando fiquei mais velha, percebi que ele não durou muito
porque era apenas um tapa-buraco) - eu achava que ela simplesmente não
conseguia lidar com tudo porque ainda estava arrasada com a traição e a perda do
meu pai.

Pelo menos, era isso que ela me dizia.

Ela insistia muito na ideia de que meu pai "arruinou minha vida e nossa família",
sobre como foi difícil ser substituída e ter que "recomeçar do zero". E, quando as
coisas com Brendon terminaram, a culpa também era dele, porque "a traição do seu
pai me arruinou para todos os homens".

Como eu disse, Brendon apareceu muito rápido - menos de um ano depois do


divórcio. (Eu também não gostava dele, e ele não gostava de mim - eu tinha oito
anos.) Logo depois veio Rick, e ela nem hesitou quando ele decidiu que se
mudariam para Idaho.

Era como se ela não estivesse deixando uma filha para trás.

Isso doía. Doía naquela época, e agora que eu me permitia lembrar, doía de
novo.

Ao longo dos anos, eu simplesmente fiz um esforço consciente para esquecer


que isso tinha acontecido.

— Agora quer me contar por que estou com vontade de sair e comprar mais
donuts pra você? — Big Petey perguntou.

Virei-me para ele.

— Só estou percebendo algumas coisas sobre minha mãe que me irritam... e me


perguntando por que nunca notei antes.

Big Petey tinha uma resposta pronta:

— A gente usa antolhos quando se trata dos pais. A gente precisa que eles sejam
perfeitos... ou pelo menos tão bons quanto conseguimos imaginar. No fim das
contas, eles nos fizeram, né? Então, são parte da gente.

Ele pareceu se perder em pensamentos depois de dizer isso, tanto que cheguei a
me preocupar. Ele não era jovem, mas sempre parecia estar bem lúcido.

— Bom, caramba — murmurou, como se falasse consigo mesmo.

— O que foi? — perguntei.

Ele balançou a cabeça, afastando os pensamentos, e focou em mim novamente.

— Nada, querida. Só uma coisa que me ocorreu. Mas enfim, voltando ao que
interessa... A gente também precisa sentir que pode contar com eles para ter
respostas e apoio. Mas ninguém é perfeito, Di, e uma hora todo filho percebe que os
pais são só pessoas... tentando descobrir o caminho, assim como todo mundo.
— Acho que sou uma retardatária nesse quesito — murmurei.

— Você disse que ela fez planos para vir neste fim de semana. Isso quer dizer
que ela não mora por perto?

Balancei a cabeça.

— Idaho.

— Há quanto tempo ela mora lá?

Pensei um pouco e respondi:

— Ela se mudou quando eu tinha dez anos.

— Você a vê com frequência?

— Quando eu estava na escola, passava os verões com ela. Alguns feriados


também. Depois que me formei no ensino médio... não tanto assim.

— Então, não foi tempo suficiente pra você perceber antes, querida — ele
comentou. — Com esse tipo de convivência, tudo parece bem. São só férias e
comemorações. Mas o dia a dia... esse é outro assunto.

A vida era uma coisa diferente.

Como a vida que meu pai levava: ele era ambicioso. Queria ganhar dinheiro, se
tornar sócio, construir um nome para si mesmo. E, além disso, era pai e mãe de uma
filha.

Ele não era bom nisso, mas também não fugia da responsabilidade. Nunca houve
um momento em que ele parecesse irritado por estar preso a mim. Ele vivia a
própria vida. Trabalhava. Saía para encontros. Jogava golfe e tênis. E sim, em um
mundo perfeito, talvez ele devesse ter passado mais tempo comigo e, quando
estivesse comigo, ser menos rígido.

Mas ele ficou. Porque queria. Porque era meu pai.


E, naquele momento, comecei a ter a sensação extremamente desconfortável de
que talvez eu tivesse sido dura demais com ele.

Big Petey interrompeu meus pensamentos ao me trazer de volta à realidade.

— Não seja tão dura consigo mesma, Di. Você também estava vivendo a sua
vida.

— É verdade.

— Quer falar mais sobre isso? — ele ofereceu. — Já vivi bastante coisa. Talvez eu
não tenha toda a sabedoria do mundo, mas o que eu tenho, eu compartilho. Se
quiser desabafar, estou aqui.

Meu Deus, Big Petey era incrível.

— Acho que preciso processar algumas coisas antes, Big Petey. Mas obrigada.

— Vou ficar por aqui um tempo, se precisar de mim.

Não que precisasse ser dito, porque isso já era claro há muito tempo, mas... sim.

Eu gostava muito daqueles caras.

De todos eles.

— Quer mudar para um assunto nada menos complicado? — ele perguntou,


abaixando a voz.

Me aproximei dele e sussurrei:

— Suzette.

Ele se inclinou na minha direção.

— Hugger disse que falou com ele. Deu boa noite.

Assenti.
— Pareceu um grande avanço.

Seu rosto ficou sério.

— Depois do que ela passou, acho que foi mesmo.

— Sim.

— Hora de insistir, Di.

Ah, droga.

— Sim — repeti. — Tem alguma ideia?

— Acho que precisamos definir prioridades. Queremos primeiro garantir a


proteção policial para ela ou descobrir seu nome verdadeiro?

— Quero que ela esteja segura. Mas isso não é sobre o que eu quero.

— Em parte, é sim, querida. Você se colocou na frente dela como um escudo, e


essa foi sua escolha. Mas ela está te usando como escudo, e essa foi a escolha dela.
Nós estamos com você. Estamos aqui para o que der e vier. Mas não posso dizer
que podemos oferecer algo melhor do que os U.S. Marshalls22 se o FBI se envolver e
cuidar dela. E isso não é uma traição ao que você prometeu. Você prometeu mantê-
la segura. Mas você prometeu como faria isso?

Ele era um gênio.

— Não — respondi.

— Então, se fosse eu, deixaria essa decisão para ela. Vá até o quarto dela. Diga
que já está aqui há um tempo e talvez seja hora de conversar. Diga que pode ser
bom desabafar. Compartilhar com alguém.

— Big Petey? — sussurrei.

22
Os U.S. Marshals (United States Marshals Service - USMS) são um órgão federal de aplicação da lei
nos Estados Unidos, vinculado ao Departamento de Justiça. Eles são responsáveis por uma variedade de
funções de segurança pública, proteção de testemunhas-chave em casos federais e cumprimento da lei
federal.
Seu rosto ficou sério de novo antes de suavizar.

— Eu sei, querida — ele disse tão gentilmente que meus olhos começaram a
arder com lágrimas ameaçando cair.

Eles já tinham entendido. Todos eles sabiam por que eu tinha perdido a cabeça e
me metido nesse caos.

E eu não me importava. Queria que eles entendessem e não pensassem que eu


era uma idiota impulsiva.

E era bom saber que isso não era um obstáculo. Eles já estavam me tratando com
cuidado, então eu não precisava me preocupar com isso.

— Devo contar a ela? — perguntei.

— Acho que sim. Se você conseguir compartilhar, acho que ela se sente muito
sozinha. E isso pode fazer com que se sinta um pouco menos assim.

Assenti.

— Vá agora. Faça isso. Vamos ver como ela está para sabermos o tamanho do
desafio pela frente.

Assenti novamente, me levantei do sofá e fui até o quarto de Suzette.

Eu não sabia se Hugger dormia leve e não queria acordá-lo. Também não queria
invadir a privacidade de Suzette.

Então tentei encontrar um meio-termo, abri a porta e coloquei a cabeça para


dentro, pronta para cumprimentá-la.

As palavras morreram antes de serem formadas quando vi Suzette abaixar


rapidamente a mão, escondendo o celular debaixo da perna enquanto estava
sentada de pernas cruzadas na cama.

E a expressão de puro terror em seu rosto fez minha boca secar.


Entrei e fechei a porta atrás de mim.

— O que foi isso? — perguntei.

Seus olhos dispararam para os lados, como se estivesse procurando uma rota de
fuga.

Me aproximei.

— Suzette, o que foi isso?

— Você vai ficar brava — ela disse com a voz fraca.

— Não vou ficar brava — garanti.

— Acho que preciso ir para outro lugar — ela me informou.

Meu coração começou a bater forte.

— Que lugar?

— Para longe de você. Para longe dos caras.

Dei mais um passo em sua direção.

— Eles estão assustando você?

Ela balançou a cabeça com força, seu rosto começando a se desfazer.

— Não. Não. No começo, sim, mas agora sei que são todos muito legais.

Com cautela, sentei na beira da cama.

— Fala comigo, Suzette. O que está acontecendo?

Seu rosto finalmente desabou e ela o escondeu nas mãos.

Meu Deus.

— Posso te tocar? — perguntei.


Ela acenou com a cabeça, mas não tirou as mãos do rosto.

Aproximei-me um pouco mais e, tomando cuidado com seu braço machucado, a


envolvi nos meus.

Ela continuou sem tirar o rosto das mãos, chorando contra a minha camiseta.
Chorava baixinho, mas os soluços profundos e os tremores no corpo mostravam o
quanto aquilo estava doendo.

Deixei que desabafasse, e aquilo durou um bom tempo.

Quando o choro começou a diminuir, sussurrei:

— Fica aqui. Vou pegar uns lenços de papel.

Saí do quarto às pressas, fui até a lavanderia/depósito do outro lado do corredor,


peguei uma caixa nova de lenços e voltei correndo.

Rasguei a abertura de papelão, puxei uns cinco lenços e entreguei para ela assim
que me sentei de volta na cama.

Ela ainda chorava, mas começou a enxugar os olhos.

Entreguei mais alguns, e ela assoou o nariz.

— Se sente melhor? — perguntei baixinho.

— N-não.

É claro que não.

Que pergunta idiota, Diana!

— Quero dizer, um pouco melhor agora.

— Não! — ela gritou, e eu me sobressaltei com a força da resposta.

Eu nunca a tinha ouvido falar tão alto.


— Ele vai machucá-los. Ele vai machucar você. Ele vai me machucar.

Ah, pobre Suzette, trancada aqui, tomada por esse medo.

— Você está segura aqui — garanti.

— Não estou, não. Ele os conhece. Ele os conhece e quer machucá-los.

Meu sangue gelou.

— Ele quer machucar quem?

— O Hugger. E o Eight, o Muzzle e até o B-b-big Petey!

— Como você sabe disso?

Ela puxou o celular debaixo da coxa e declarou:

— Porque, quando fugi, roubei o telefone dele. Ele me manda mensagens. Diz o
que vai fazer se eu não voltar para ele. E eu só queria que ele fizesse... Diana, eu só
queria voltar. Estou tão cansada. Tão cansada de... de... de tudo. E não posso deixar
que ele machuque você ou... ou os caras.

Droga. Merda. Inferno.

— Eu preciso que você me entregue esse telefone, Suzette. Depois, preciso levá-
lo ao detetive Scott.

— Eu preciso de um telefone para você poder falar comigo.

— Eu consigo outro para você. Não quero que use mais esse. Ele não pode ter
nenhum contato com você. Nenhum. E acho que é muito importante que a polícia
tenha esse telefone.

Ela pareceu surpresa.

— Você vai me arranjar um telefone?

— Sim. Como você mesma disse, precisamos nos falar.


— Mas telefones são caros.

Forcei um sorriso.

— Não posso prometer o modelo mais moderno, mas você vai poder ligar,
mandar mensagens e baixar alguns joguinhos.

Ela hesitou por um instante e, então, me entregou o telefone de Imran Babić.

Só de tocá-lo, senti um arrepio de nojo.

— Você sabe o código? — perguntei.

Ela assentiu.

— Vi quando ele digitou. Ele não tomou cuidado porque... porque... bem, achou
que eu tivesse desmaiado.

Senti um aperto no peito por ela.

— Mas eu mudei o código — continuou. — Agora é dois, dois, três, dois.

— Entendido. Volto já.

— Tá bom.

Saí do quarto e quase trombei com Hugger no corredor.

Ele tinha ouvido o grito dela e estava parado do lado de fora da porta.

— Tudo certo? — ele perguntou com a voz grave.

Balancei a cabeça, peguei sua mão e o puxei até a sala.

Big Petey estava sentado na beirada do sofá, alerta.

Ele também tinha ouvido o grito.

Assim que soltei Hugger, Big Petey se levantou e veio até mim.
Entreguei o telefone para ele.

— Esse é o telefone de Imran Babić. Ela roubou quando fugiu.

— Jesus — ele murmurou.

— Cristo — ouvi Hugger dizer atrás de mim.

Corri até a cozinha, abri a gaveta de tralhas e encontrei o cartão do detetive Scott
exatamente onde eu o havia deixado. Peguei e voltei depressa para Big Petey.

— Pode ligar para o detetive Scott? Diz que temos o telefone do Babić. —
Entreguei o cartão para ele.

— Pode deixar.

— O código é dois, dois, três, dois — informei. — E, Big Petey, ele tem mandado
mensagens para ela. Ameaçando-a. A mim. A todos nós.

— Filho da puta — ele rosnou.

Hugger não disse nada, mas senti a onda de raiva irradiando dele e batendo em
mim com força.

— Tenho que voltar para ela — falei para os dois.

— Vai — Big Petey incentivou.

Corri de volta para o quarto de Suzette e entrei sem hesitar.

Ela estava encostada na cabeceira da cama, abraçando um travesseiro contra o


peito, o braço bom envolvendo as pernas dobradas, encolhida, ainda apavorada,
claramente convencendo a si mesma de que tinha feito algo errado.

Eu me sentei novamente na cama.

E tomei uma decisão assustadora.

Mas senti que tinha uma chance.


E eu iria aproveitá-la.

— Eu sei que seu nome não é Suzette — disse a ela.

Ela estremeceu e se encolheu ainda mais.

— Não estou brava com isso também — assegurei. — Na verdade, não estou
brava com nada, exceto com o que fizeram com você. Você só estava se protegendo.

— Não quero que encontrem meus pais.

— Quem você não quer que os encontre? Aquele homem os ameaçou também?

— Não, não ele. A polícia. Não quero que eles contem aos meus pais onde estou.

Ah, droga.

— Quer me dizer por quê? — perguntei.

— Porque eu fiquei com raiva deles e fui embora. Foi uma estupidez. E ele
mentiu para mim. E foi... foi tão, tão estúpido.

Ah, essa garota doce...

— Qual é o seu nome?

— Madison — sussurrou.

As lágrimas encheram meus olhos.

— Oi, Madison.

As lágrimas também encheram os dela antes que jogasse o travesseiro para o


lado e se atirasse nos meus braços.

Eu a segurei, acariciei seus cabelos e, dessa vez, chorei com ela.

Talvez ela já tivesse derramado quase todas as suas lágrimas, porque parou antes
de mim. Então, me obriguei a parar também.
Mantive-a perto enquanto alcançava uma caixa de Kleenex. Nós duas secamos as
lágrimas e, então, me acomodei contra a cabeceira da cama, segurando-a ao meu
lado, mantendo os lenços por perto.

E perguntei:

— Você quer me contar?

Ela encostou a cabeça no meu ombro, e aquele foi o peso mais precioso que já
carreguei.

Então, finalmente, ela disse:

— Quero.

Fechei os olhos em alívio.

E Madison me contou tudo.

Big Petey

Hugger perambulava entre a sala de estar e a cozinha como um animal


enjaulado.

O detetive Rayne Scott estava sentado na beirada de um dos sofás de Diana,


com os cotovelos apoiados nos joelhos. Em seus dedos, pendia um saco de
evidências contendo o celular de Babić. Seu olhar alternava entre Hugger e a parede
ao fundo, onde estavam Diana e Suzette.

Big Petey nunca tinha pensado muito sobre policiais até que Tack trouxe alguns
para o círculo interno do Chaos. Não exatamente para a irmandade, mas tão
próximos quanto alguém poderia chegar sem carregar um distintivo.
Normalmente, se os policiais ficavam fora do caminho dele, ele ficava fora do
deles.

Mas ele respeitava Mitch e Brock sem reservas.

Reconhecia que Rayne Scott era do mesmo tipo de Mitch Lawson e Brock Lucas.
E não apenas porque o desgraçado era alto, moreno e, para piorar, um homem
absurdamente atraente.

Scott era direto. Atento. Focado. Claramente preocupado com o que estava
acontecendo no quarto de Suzette. E, estando ali em pleno domingo de manhã, era
evidente que levava o trabalho a sério.

Hugger parou abruptamente e encarou o corredor.

Pete se levantou, percebendo mais uma vez que o calor seco de Phoenix fazia
bem para suas articulações envelhecidas. Denver também era árido, mas o frio se
infiltrava no corpo. No deserto, ele se sentia pelo menos cinco anos mais jovem.

Diana surgiu na entrada do corredor e foi direto até Hugger.

Pete congelou quando viu Hugger segurá-la imediatamente, envolvendo a lateral


de seu pescoço com uma das mãos e inclinando-se até ficarem com os narizes
quase se tocando.

— Você — grunhiu Hugger.

Ela entendeu o recado e sussurrou:

— Estou bem.

Scott se aproximou, e Pete fez o mesmo.

Hugger se afastou do rosto dela, e Diana voltou-se para Scott.

— O nome dela é Madison O’Keefe. Diz ter dezenove anos. É de Lubbock, Texas.
Estava estudando para se tornar manicure e pedicure. Conheceu um cara pela
internet, e os pais dela tiveram um pressentimento ruim sobre ele. No fim, estavam
certos. Discutiram sobre isso algumas vezes, mas a última briga foi feia. Ela arrumou
as malas e foi atrás dele. O sujeito fugiu com ela e, quando ela começou a
questionar para onde estavam indo... atravessando a divisa para o Novo México, as
coisas começaram a desandar.

— Merda — resmungou Scott. — Ela não mencionou nada disso quando a


entrevistamos no hospital.

Pete observou enquanto Hugger deslizava a mão pelas costas de Diana até
envolvê-la pela cintura. Ele a encaixou ao seu lado como se ela tivesse sido feita para
estar exatamente ali.

Esse gesto teria derrubado Pete de surpresa.

Até ontem, ele não sabia se já tinha visto Hugger tocar outro ser humano, exceto
quando brincava com as crianças. Quando estava com Rider, Cutter, Nash, Playboy,
Wren, Princess, Travis, Clementine, Wyatt, Raven… qualquer um deles, era um
homem diferente.

Com eles, ele era o homem que era com Diana.

Era um homem que acreditava que sua vida valia a pena ser vivida.

— Ele basicamente a vendeu para os capangas de Babić — continuou Diana,


arrancando Pete de seus pensamentos. — E uma das razões pelas quais ela sabia
quem era Babić é porque os homens que a compraram disseram: "Ninguém toca
nela. Babić sempre tem a primeira escolha."

Pete rangeu os dentes, ouviu Hugger rosnar e viu os olhos de Scott se


estreitarem.

— Ela tentou fugir em certo momento, e eles riram dela — Diana prosseguiu. —
Disseram que metade da polícia estava na folha de pagamento do Sr. Babić. Se ela
tentasse pedir ajuda, só iriam entregá-la de volta.

— Espero que isso tenha sido só conversa para fazê-la pensar que estava ferrada
de qualquer jeito — comentou Pete para Scott.
— É mentira — Scott afirmou com os dentes cerrados.

Pete estudou o detetive com atenção e, droga, esperava que ele estivesse
falando a verdade.

— Foi isso que eu disse a ela — reforçou Diana. — Acho que consegui prepará-la
para se abrir mais com você. Mas ela já teve o suficiente por hoje.

Ela olhou para Hugger.

— Vou ligar para o trabalho e avisar que não vou amanhã. Vou deixá-la
descansar pelo resto do dia e, com sorte, convencê-la a ir até a delegacia para um
depoimento mais detalhado.

Enquanto ela falava, Scott já estava no celular.

Quando terminou, ele virou a tela para eles e anunciou:

— Os pais dela registraram seu desaparecimento há um mês.

Na tela, havia uma foto de Madison ao lado da manchete: JOVEM DE LUBBOCK É


DADA COMO DESAPARECIDA.

— Eles devem estar apavorados — murmurou Pete.

— Posso ler? — perguntou Diana.

Scott estendeu o telefone, e ela pegou o aparelho, escaneando rapidamente o


artigo. Seus olhos brilharam com lágrimas.

— Eles estão apavorados — sussurrou.

Ela devolveu o celular a Scott, pegou o próprio telefone e, de cabeça baixa,


começou a digitar enquanto caminhava de volta pelo corredor.

— Já volto.

Assim que desapareceu atrás da porta de Madison, Pete olhou para Scott.
— O que temos aqui?

— Babić se envolve em um monte de merda — respondeu Scott. — Mas nunca


ouvimos falar que ele estava metido com tráfico de pessoas.

— Isso é algo que você saberia? — perguntou Big Petey.

Scott assentiu.

— Temos dedicado muitos recursos a esse cara. Mas, como você deve imaginar,
ele tem um grande interesse em nos impedir de descobrir tudo o que precisamos
saber. Aí Madison apareceu e, pouco depois, os federais também. Eles nem sempre
colaboram bem com a polícia local, mas ficou claro que isso fazia parte da
investigação deles. Sendo bem sincero, isso me pegou totalmente de surpresa. Não
havia sequer um boato de que isso estivesse ligado às operações do Babić.

— Esse telefone vai ajudar em alguma coisa? — perguntou Pete.

Um sorriso lento se espalhou no rosto de Scott.

— Tecnicamente, é um objeto roubado. Oficialmente, foi roubado pela vítima


após a execução de um crime violento, então é uma prova em um caso de estupro. E
sim, acho que vamos encontrar algumas coisas bem interessantes nele.

— Ele está mexendo feio com a cabeça dela — Pete lembrou a Scott sobre o que
já havia contado quando o homem chegou. — Ela não respondeu, mas ele tem feito
ameaças repetidas contra um monte de gente que pode significar algo pra ela,
incluindo ela mesma, há mais de uma semana. Isso é considerado crime?

— Tudo que sei é que, quando esse caso for a julgamento, isso não vai pegar
bem com o júri.

Pete concordou mentalmente. Se estivesse no júri e visse aquelas mensagens,


votaria para mandar aquele desgraçado tão longe que ele jamais encontraria o
caminho de volta.

Os dois olharam para o corredor e viram Diana com a cabeça e a mão para fora
da porta do quarto de Madison, acenando para Hugger.
Hug seguiu na direção dela.

Pete e Scott observaram enquanto os dois trocavam algumas palavras em voz


baixa. Hugger assentiu. Diana desapareceu novamente para dentro do quarto.
Hugger voltou até eles.

— Madison teve outra crise — informou. Depois, voltando-se para Scott,


acrescentou: — Ela quer saber se você pode ligar para os pais dela e avisar que ela
está bem.

Sendo policial e provavelmente sem muitas oportunidades de dar boas notícias,


Scott aceitou a tarefa sem hesitar.

— Porra, com certeza eu ligo. Madison quer falar com eles?

— Di ainda não chegou a esse ponto — Hugger explicou. — Mas ela quer que
eles saibam o quanto antes.

Scott assentiu, apertou um botão no celular e se afastou do grupo.

Pete o ouviu dizer para alguém ao telefone:

— Preciso que me passe o contato da polícia de Lubbock, no Texas. E o nome da


pessoa responsável pelo caso de uma mulher desaparecida chamada Madison
O’Keefe.

Big Petey se aproximou de Hugger.

— Aquelas ameaças, irmão... — Deixou a frase no ar, porque Hugger também


tinha lido tudo.

— Quero ficar por aqui caso Di saia. Pode ligar para o Rush e atualizar ele?

— Pode deixar.

Hugger voltou a atenção para o corredor.

Pete seguiu para a sacada.


Ele ligou para Rush e passou a atualização. Rush disse para continuarem no
mesmo plano. Dutch, Core e Linus já tinham chegado a Phoenix, e Coe e Jag
estavam indo para lá naquele dia.

Rush também compartilhou o que já suspeitavam: o grupo Resurrection queria


se separar do Chaos para agir por conta própria, deixando o Chaos encarregado da
segurança de Diana, Madison e Nolan Armitage.

— Estou começando a achar que devíamos deixar eles fazerem o que querem —
Rush comentou. — Estamos limpos e fora do radar, e eles são bons nesse tipo de
coisa.

Pete não discordou.

Quando terminou a ligação com Rush e se preparava para voltar para dentro, viu
Diana retornar. Ela foi direto até Hugger, encaixando-se ao lado dele. Dessa vez, ele
abriu espaço para ela sem hesitação e passou o braço ao redor dela, segurando-a
ali.

Isso fez com que Big Petey voltasse para perto do corrimão e pegasse o telefone
novamente.

Ele desbloqueou o celular.

Porque era hora.

Já fazia tempo que era hora.

Então, ele ligou para Tack.


Capítulo 11
VALE A PENA ESPERAR
Diana

— Pode entrar.

No início da tarde, abri a porta do quarto de Madison e a encontrei ainda na


cama, abraçada a um travesseiro. Mas, dessa vez, ela estava de lado e, em vez de
parecer estar se confortando por puro medo, parecia mais uma tentativa de se
acalmar diante da realidade difícil que estava vivendo.

Quando entrei, ela se moveu, ajeitando-se com alguma dificuldade por causa do
braço ainda imobilizado na tipoia. Com algum esforço, conseguiu se sentar
encostada em um lado da cabeceira, um convite silencioso para que eu ocupasse o
outro.

Aceitei e me acomodei de lado, virada para ela.

Ela também se virou para mim.

— Como está se sentindo? — perguntei.

Ela assentiu com a cabeça.

— Só para você saber, eu contei ao Big Petey que tem uma loja da Apple
praticamente do outro lado da rua. Também mencionei, sem querer, que você queria
um celular. Então, acho que não ficamos surpresas quando ele saiu correndo para
pegar a moto e ir comprar um para você. Só um aviso: é bem provável que venha
com todas as últimas tecnologias.

Seu rosto suavizou, e os lábios esboçaram um pequeno sorriso.


— Ele é um homem bom — ela sussurrou.

Pensei em tudo que aprendi sobre Big Petey nesse curto tempo, especialmente
na conversa que tivemos sobre minha mãe.

Então, respondi com sinceridade:

— Sim, ele é.

Seu semblante mudou quando acrescentou:

— Hugger também é legal.

Ah, droga.

Será que ela percebeu?

Bom, como não perceberia? Ficamos abraçados durante dois filmes inteiros.

— É, todos eles são — respondi, tentando parecer despreocupada.

Falhei miseravelmente, porque o que ela disse a seguir não deixava dúvidas:

— Mas eu acho que você acha que ele é o mais legal de todos.

Demorei um segundo para captar o que ela queria dizer, mas então percebi que
talvez estivesse me provocando.

Ou talvez fosse algo mais.

Para garantir, optei pelo "algo mais".

— Nós só estávamos sentados perto um do outro porque não tinha muito


espaço.

Foi então que Madison me pegou de surpresa ao soltar uma risadinha e retrucar:

— Não estavam, não. Eu vejo como você olha para ele.

Droga!
Era tão óbvio assim?

Droga de novo! Será que isso a incomodava?

— Isso está te deixando desconfortável?

Ela pareceu refletir antes de dar de ombros.

— Não. Ele é legal, grande, forte e durão, e você é toda bonita, delicada e
elegante. Normalmente, ninguém juntaria vocês dois, mas... é fofo.

Fiquei surpresa. Não pelo "os opostos se atraem", porque isso era óbvio, mas por
outra parte da fala dela.

— Você acha que eu sou elegante?

— Bom... sim. Você usa sapatos chiques todos os dias para trabalhar.

Certo, se essa era a definição, então eu definitivamente me encaixava.

— Eu sei que o momento não é o melhor, mas eu gosto dele, e ele gosta de
mim. Dito isso, vamos tentar não ser... — comecei a dizer.

— Eu entrei de supetão na sua vida, Diana — ela disse, a voz pequena. — Não
deixe que eu atrapalhe.

Me aproximei um pouco mais e respondi suavemente:

— Você não atrapalhou minha vida, Madison. Eu te convidei para vir. E, depois,
descobri que você é incrível, e estou muito feliz que confiou em mim para cuidar de
você.

Seu rosto se contorceu, não como se fosse chorar de novo, mas como se não
acreditasse no que eu dizia.

— Eu realmente estou — reforcei.

— Sou um estorvo para você.


— Não é — afirmei com firmeza.

Ela me lançou um olhar tão descrente que me fez rir.

— Tá, certo, não é como se estivéssemos passeando pelo campo de flores —


admiti. — Mas, ainda assim, estou feliz por te conhecer, e significa muito para mim
que você esteja me deixando te ajudar.

Ela inclinou um pouco a cabeça, seus olhos azuis ficaram distantes e, em um


sussurro, ela disse:

— Aconteceu com você também.

Inclinei o rosto até que ficasse mais próximo do dela e sussurrei de volta:

— Não foi tão ruim, nem de longe, mas sim, querida. Aconteceu comigo
também.

Ela continuou sussurrando quando disse:

— Sinto muito, Diana.

— Eu também sinto muito por você.

— Nós, mulheres, temos que sentir muito, não é?

Essa era uma das lições mais tristes da vida, e eu odiava que ambas tivéssemos
aprendido isso.

— É — concordei. — Também temos que ser fortes muitas vezes, e força vem de
muitas formas. E, infelizmente, vou ter que pedir um pouco mais da sua, porque tem
mais uma coisa difícil que preciso te contar antes de deixarmos isso de lado e
tentarmos aproveitar o resto do nosso domingo.

— Di... — ela começou.

Falei rápido, para acabar logo.


— O detetive Scott conversou com seus pais. Ele disse que eles ficaram
desesperadamente aliviados ao saber que você está bem e querem falar com você.

Isso era uma meia verdade.

Ele não usou exatamente as palavras "desesperadamente aliviados", essas foram


minhas. Ele também disse que sua mãe chorou ao telefone e que seu pai precisou
desligar e ligar de volta porque estava engasgado com a emoção.

Mas isso eu não ia contar.

Outra coisa que fez minha fala ser uma meia verdade era que eles não apenas
queriam falar com ela, mas também queriam vê-la. Tanto que já informaram ao
detetive que pegariam o primeiro voo para Phoenix.

Mas isso, deixaríamos para amanhã.

Ela balançou a cabeça e se afastou um pouco.

— Eu não estou pronta para isso.

Como eu suspeitava.

— Eu disse a ele que provavelmente essa seria sua resposta. Só queria que você
soubesse o que está acontecendo — ou, pelo menos, parte disso.

— Tá bom — murmurou.

— Tá bom — repeti. — Agora, quer sair um pouco e comer alguma coisa?

— Chorei tanto que estou exausta. Acho que preciso tirar um cochilo.

Lágrimas curavam. Descanso curava. Conversas curavam. E, pelo jeito que seus
pais reagiram ao saber onde ela estava, eu esperava que vê-los também ajudasse
nesse processo.

Isso me lembrou que Hugger também precisava descansar. Seu cochilo não
durou nem uma hora.
Esperaríamos o Big Petey voltar da loja da Apple para isso.

Engraçado como Madison e eu estivemos sozinhas por tanto tempo, mas agora,
mesmo depois de apenas alguns dias, não parecia certo estar sem aqueles caras por
perto.

Mas a verdade era essa: não parecia certo.

— Eu saio mais tarde, pode ser? — ela perguntou.

— O que você precisar, querida — respondi. — Antes de ir, posso te dar um


abraço?

Ela pareceu surpresa com a pergunta, mas então assentiu e se inclinou para mim.

Envolvi meus braços ao redor dela e lhe dei um abraço cuidadoso, mas firme.

Eu estava prestes a soltá-la quando ela sussurrou no meu ouvido:

— Ainda bem que confiei em você também.

É claro que isso me fez apertá-la um pouco mais forte.

Soltei-a, levantei da cama e estava no meio do caminho até a porta quando ela
chamou:

— Di?

Virei-me.

— Estou aqui.

Ela hesitou antes de admitir:

— Tem mais coisas que eu ainda não te contei.

Eu já imaginava. Ela podia ser pequena, mas era forte. Uma verdadeira guerreira.

Mas já bastava por hoje. Eu suspeitava que até Alexandre, o Grande, tirava um
tempo para relaxar.
No entanto, essa não era uma decisão minha.

— Quer falar sobre isso agora? — perguntei.

— Acho que... — Ela fez uma longa pausa antes de completar: — Hoje já foi
bastante.

— Foi sim — concordei. — E vou aproveitar para dizer que o que você tem para
contar é seu. Não há pressa. Quando quiser compartilhar, será no seu tempo.

Ela soltou um suspiro de alívio.

— Obrigada, Di.

Sorri para ela.

— Descansa. Quer algo especial para o jantar?

— Os caras vão vir de novo?

— Você quer que eles venham?

— Me sinto... segura quando estão aqui. E tudo parece mais normal.

Então, ela sentia o mesmo que eu.

Ela ergueu a cabeça de repente.

— Não que eu não me sentisse segura só com a gente duas.

Soltei uma risada.

— Tenho que admitir, baby, eu também me sinto mais segura com um monte de
motociclistas pisando forte por aí com suas botas de couro.

Isso arrancou um sorriso meio tímido dela. Eu retribuí com um sorriso completo.

— Podemos pedir pizza? — ela perguntou.

— Podemos comer o que você quiser. Qual o seu sabor preferido?


— Pepperoni.

— Quer caseira ou prefere que alguém faça e entregue para nós?

— Gosto de cozinhar com você.

Eu ia ter que mandar o Big Petey ao mercado de novo.

Mas eu duvidava que ele fosse se importar.

— Vou providenciar isso. Agora, relaxa e descansa.

— Beleza, Di.

Dei mais um sorriso para ela antes de sair do quarto.

Quando cheguei à sala, Hugger se levantou do sofá, erguendo sua grande e


imponente figura.

Eu gostava daquela presença. Gostava do olhar atento de seus olhos castanhos


enquanto me observava entrar na sala, como se estivesse tentando avaliar meu
estado de espírito apenas com o olhar. Gostava do jeito desarrumado do seu cabelo
e da selvageria em sua barba.

Ok. Oficialmente, eu gostava dele.

Fui até ele e quase o abracei, mas me lembrei de que ele havia dito que não era
muito afetuoso e não gostava de contato físico.

Ainda não tinha parado para pensar nisso, especialmente porque, desde ontem
na quadra de tênis, ele tinha me tocado várias vezes. Mas agora que eu estava
refletindo sobre isso, não gostava da ideia.

Nunca tinha pensado nisso quando se tratava de mim. Acho que eu também não
era do tipo que exagerava no toque, mas gostava de contato físico com o meu cara,
quando tinha um. E não só no sentido sexual. Além disso, nunca fui de evitar contato
com as pessoas, apenas não era exageradamente carinhosa.

Mas, se Hugger não gostava, eu teria que lidar com isso.


De algum jeito.

Então, apenas me aproximei e disse:

— Ela ainda não está pronta para falar com os pais. Quer descansar depois de
liberar todas aquelas emoções, e eu não a culpo. Também quer que os caras venham
para o jantar. Vamos de pizza de pepperoni.

— Ela quer que os caras venham? — Hugger perguntou, claramente surpreso.

— Ela disse que se sente mais segura quando eles estão aqui.

Os lábios dele se apertaram sob a barba antes de murmurar:

— Provavelmente, não deveria estar surpreso com isso.

— E ela gosta da sensação de que tudo parece "normal" quando eles estão por
perto.

— Então, vou fazer uma ligação e colocar esses caras a caminho — Hugger
afirmou.

Caramba, esse cara era incrível.

— Vou precisar mandar alguém buscar mais mantimentos — murmurei.

— Faz uma lista. Eu saio assim que o Pete voltar.

Hmm.

Essa era outra coisa sobre o Hugger.

Ontem, enquanto limpávamos, ele simplesmente pegou o aspirador e começou a


usar, sem ninguém precisar pedir. Também não precisou que ninguém dissesse para
levar o lixo para fora. Sem fingir que estava ocupado na varanda, sem fingir que
estava consertando uma torneira que nem sequer estava vazando só para escapar
do serviço.
Eu também não tinha pensado nisso na época.

Mas agora que estava refletindo, apesar de o fato de ele não ser carinhoso ou
afetuoso estar na coluna dos contras na minha lista de prós e contras do "Quero
explorar isso com Hugger?", isso definitivamente era um pró.

Nenhum dos meus dois ex-namorados de longo prazo ajudava nas tarefas
domésticas, e eu tinha morado com ambos. Sempre tinham desculpas - horários de
golfe, jogos de futebol, idas à loja de materiais de construção para comprar coisas
para consertar o que eu nem tinha certeza de que estava quebrado. E quando
ajudavam, faziam um trabalho péssimo.

Quando ouvi a expressão "incompetência estratégica", imediatamente me veio à


mente os dois.

Hugger não passava o aspirador de vez em quando só para fingir que estava
ajudando, ele realmente aspirava a casa.

Além disso, todas as manhãs, ele ajeitava o sofá, colocando as almofadas


exatamente como eu gostava - e o melhor, sem que eu precisasse pedir.

Agora, ele estava se oferecendo para ir ao mercado, em parte porque eu não


podia ir, mas eu tinha certeza de que fazia isso principalmente porque esse era o
jeito dele.

Sim, definitivamente um pró.

Mesmo assim...

— Eu também posso pedir online, assim o Pete não precisa sair de novo —
sugeri. — Você precisa tentar descansar mais.

— Falamos sobre isso quando o Big Petey voltar.

Assenti concordando.

— Agora vamos falar de você. Como está lidando com tudo isso? — ele
perguntou.
— Estou muito feliz que ela chorou. Muito feliz que finalmente conseguiu colocar
essa emoção para fora, acho que isso vai ajudar no processo de cura, e eu duvido
que ela tenha sequer começado a fazer isso antes. Estou ainda mais feliz que os pais
dela agora sabem que ela está bem... ou pelo menos que ela ainda está neste
mundo e onde encontrá-la. Além disso, estou aliviada por ver as coisas avançando,
pois ela claramente confia em mim e se sente segura com os caras por perto. E, por
último, estou feliz para além das palavras por finalmente saber o nome dela.

— É... — ele murmurou e, então, perguntou: — É errado eu me sentir aliviado por


ela ter dezenove e não dezessete? Quer dizer, o que fizeram com ela foi horrível, não
importa a idade. Não é isso que estou dizendo. Mas...

Balancei a cabeça e senti uma vontade imensa de tocá-lo. Ele parecia


desconfortável falando sobre isso, e era doce e fofo vê-lo assim, mas ninguém gosta
de se sentir desconfortável.

— Não — cortei. — Quando penso em mim aos dezessete e aos dezenove... e foi
com dezenove que aconteceu comigo, percebo que teria sido muito mais difícil lidar
com isso se tivesse sido antes.

A voz dele ficou mais grave, mais áspera, quando perguntou em tom baixo:

— Você tinha dezenove?

— Uhum.

Seus lábios se estreitaram e uma aura perigosa emanou dele. Mais uma vez, tive
vontade de tocá-lo.

— Estou bem, Hugger. E, antes que as coisas fossem longe demais, eu dei uma
joelhada nele. Quando ele estava lidando com isso, dei um soco certeiro para
garantir minha fuga.

Hugger piscou devagar.

— Você socou ele?


— Bom, é claro. Eu precisava ter certeza de que ele estaria incapacitado quando
corresse para chamar o monitor do dormitório.

De repente, sua mão se moveu rápido, segurou a parte de trás da minha cabeça
e me puxou contra seu peito largo.

Ele estava tremendo, e sua voz também quando murmurou:

— Essa é minha garota. Nunca deixe um trabalho pela metade.

Eu não conseguia acreditar, considerando o assunto, mas estava rindo.

E era bom ouvir ele me chamar de "minha garota", sem contar que estava me
tocando.

Ele se superou quando me puxou para o sofá, me aninhando em seus braços e


me segurando firme.

— Você também passou por muita coisa esta manhã — comentou.

Amei o fato de ele entender isso.

Mesmo assim...

— De verdade, estou bem.

Ainda assim, me aconcheguei mais, porque, se minhas chances de ter momentos


assim com Hugger fossem limitadas, eu iria aproveitá-las ao máximo quando
pudesse.

— Você não precisa estar sempre se matando para cuidar de todo mundo, Di —
ele disse. — Pode tirar um tempo para si também.

— Bem, precisamos falar sobre isso, porque não só meu pai quer que eu vá
jantar com ele na quarta-feira, como também te convidou. E aviso logo: isso é só
para te avaliar, julgar e encontrar defeitos em você.
Hugger revirou os olhos de um jeito tipicamente masculino - se você não sabe
como é, é basicamente um olhar de lado, mas com os olhos voltados para cima
também.

Foi meio engraçado. E meio sexy.

Mas eu não tinha tempo para nenhuma dessas coisas. Precisava ser sincera sobre
meu pai.

— Vou te adiantar: isso vai ser sobre você ser um motociclista. Mas, mesmo que
não fosse, ele não iria gostar de você. Ele nunca gostou de nenhum dos meus
namorados.

— Pais têm um talento especial para isso — ele disse. — Não sei se vou
conquistar ele. Mas sei que não me importo. A única pessoa que precisa gostar de
mim é você.

Eu estava com a cabeça apoiada no ombro dele, mas levantei para olhá-lo.

— Você vai?

— Sim. Porque não quero que você fique sozinha com seu pai nesse primeiro
encontro, sabendo que ele já foi um babaca com você antes.

Cara, ele era simplesmente tão doce.

— E também porque quero garantir sua segurança de outras formas — concluiu.

Definitivamente mais um ponto para Hugger.

Ainda assim...

— Eu não quero jantar com meu pai sendo um babaca com você.

— Eu tenho a pele dura, Di. Não se preocupe comigo.

Eu queria saber mais sobre por que ele precisava ter uma "casca grossa", mas
não toquei no assunto. Estávamos nos conhecendo, e não precisávamos fazer isso
tudo em um único dia.
— Minha amiga Bernie também quer que eu saia para tomar uns coquetéis na
sexta-feira.

— Podemos combinar isso também.

— Você gostaria de ir?

Seus lábios se curvaram em um leve sorriso antes de ele responder:

— Não sou muito fã de coquetéis, baby.

Sem surpresa.

— E sinto que seria mais um "teste de fogo" conhecer seus amigos do que seu
pai.

Ele estava certo quanto a isso. Meus amigos não eram críticos, mas também não
aceitávamos qualquer rostinho bonito quando se tratava de quem estávamos
saindo.

— Eles sabem sobre Madison? — Hugger perguntou.

— Não.

— Mas sabem sobre você? — ele questionou, agora mais suavemente.

— Sim.

— Quer me contar por que não falou sobre Madison para eles?

— Porque eu não queria que tentassem me convencer a desistir de fazer algo


totalmente insano.

Ele riu, e o som e a sensação disso foram bons.

— Então, posso dizer sim para o meu pai e para Bernie — resumi.

— Sim.
— E agora preciso fazer outra lista. Então, preciso saber qual é sua pizza favorita.

Ele respondeu sem hesitar:

— Não curto cebola encharcada, e se tiver uma pizza com abacaxi nesta casa,
vou jogá-la da sua varanda.

Comecei a rir.

Enquanto eu ria, ele continuou:

— Fora isso, como qualquer coisa. Mas, se fosse pedir só para mim, seria de
linguiça e cogumelos.

— Então, pepperoni para Madison e linguiça com cogumelos para você.

Ele me apertou de leve.

— E para você?

— Minha pizza favorita?

— Sim, quero saber. Mas também quero que você coloque as suas preferências
na lista. Vou repetir: não se trata só dos outros o tempo todo.

— Acho que você pode estar tendo a ideia errada sobre mim, meu caro.

Dizer "meu caro" me rendeu outro aperto, mesmo que eu não tivesse dito com
esse tom.

Mas eu gostei do que aquele gesto significava.

— Nem sempre sou tão altruísta assim — avisei.

— Vamos ver — ele murmurou.

— Estou falando sério.

— Ok, acredito em você — ele mentiu descaradamente.


Sorri para ele.

Seus olhos caíram para minha boca, e eu vi, de perto, como ficaram mais
intensos.

— O sorriso mais bonito que já vi — ele murmurou.

Oh, meu Deus!

— Você acha que é seguro a gente se beijar? — perguntei.

Seus olhos encontraram os meus, e dessa vez vi arrependimento neles.

— Não — respondeu.

— Só um pouquinho? — insisti.

Foi então que percebi um brilho divertido em seu olhar.

— Você acha que, depois daquele beijo de hoje de manhã, conseguiríamos nos
beijar "só um pouquinho"? Já foi difícil parar naquela hora. Agora que sei o quanto é
bom sentir essa boca, não tenho certeza se conseguiria parar.

Franzi a testa, forçada a admitir:

— Tá, faz sentido.

Ele riu de novo, e eu gostei novamente do som e da sensação disso. Então,


arrisquei e me aconcheguei mais perto.

Seus braços se apertaram ao meu redor, mesmo enquanto ele observava:

— Você tem uma lista para fazer.

— É… — murmurei.

— Podemos pedir pizza, Di.

— Madison gosta de cozinhar comigo.


Seu corpo começou a tremer, e levou um tempo para eu perceber que ele estava
rindo.

— O que foi?

— Me diga de novo como você não é altruísta o tempo todo.

Bati de leve em seu peito.

Ele segurou meu pulso, levou até sua boca, e senti o toque suave de seus lábios
junto ao roçar de sua barba na parte interna do meu pulso.

E aquele arrepio gostoso percorreu todo o meu corpo outra vez, porque não foi
só a sensação que me pegou… ver ele fazendo aquilo foi uma baita provocação.

— Vai pegar o bloco de notas e trazer para cá — ordenou. — Vamos fazer uma
compra enorme. Criar um cardápio ou algo assim, para você não precisar ficar
escrevendo listas toda hora e para não deixarmos você sozinha sempre que
precisarmos ir ao mercado.

Achei a ideia excelente, então me soltei dele e corri até a cozinha para pegar o
bloco e uma caneta.

Quando voltei, hesitei por um instante. Como ele tinha começado o carinho, eu
podia simplesmente voltar para aquele aconchego ou deveria dar um pouco de
espaço?

Hugger decidiu por mim ao pegar minha mão e me puxar para o sofá, me
mantendo bem perto.

— Vamos fazer sundaes de calda quente hoje à noite — sugeriu.

— Estou tão apaixonada por essa ideia que quase choro.

Seus olhos castanhos brilharam.

— Você é doida — brincou (embora todos soubéssemos que havia um fundo de


verdade nisso).
— Mas não uma doida ruim — retruquei.

— Não, baby — ele sussurrou, olhando direto nos meus olhos. — Nem um
pouco.

Deus, eu precisava beijá-lo.

— Tem certeza de que não podemos nos beijar?

Meu coração disparou quando ele se inclinou e encostou os lábios nos meus.

Mas então, ele se afastou.

Fitei-o, estreitando os olhos.

— Provocador — acusei.

— Tanto faz — ele respondeu. — Coloca sorvete na lista. E um pote de calda


quente, um spray de chantilly... não aquele de pote, castanhas e cerejas.

— Você leva sundaes a sério — observei, impressionada.

— Podemos dizer que sou um aficionado.

Agora ele estava claramente brincando comigo, e isso foi tão doce que caí na
risada.

Hugger passou um braço ao redor dos meus ombros, me puxou para mais perto
e ordenou:

— Mulher. Lista.

E então, me pus a escrever.

Hugger ajudou na escolha dos itens do menu.

Big Petey voltou com o celular de Madison e decidimos que ele iria até a loja, já
que não via problema em levar Baby Shark, e nenhuma das bicicletas deles
conseguiria carregar aquela quantidade de mantimentos.
Hugger ficou comigo, relaxando, conversando e assistindo episódios de Meu
Gato Endiabrado até Big Petey retornar com as compras. Ele ainda ajudou a guardar
tudo (mais um ponto positivo para ele) antes de voltar para o meu quarto para
tentar mais um cochilo.

Madison saiu pouco depois e, tão feliz por ter um celular, que acabou abraçando
Big Petey.

Ele a envolveu em seus braços, olhou por cima da cabeça dela e encontrou o
meu olhar.

Meus olhos estavam marejados.

E os dele também.

Pizza, sorvete com calda quente, muita cerveja e vinho foram consumidos. Os
caras já tinham ido embora, e Big Petey foi junto com eles.

Madison foi para a cama cedo, provavelmente ainda exausta do dia emocional
(embora eu tivesse a leve suspeita de que ela também estivesse me dando tempo a
sós com Hugger).

Isso eu estava aceitando – mas não estávamos apenas nos aconchegando no


sofá.

Ah, não.

Estávamos os dois esticados nele, Hugger atrás, eu na frente, nossos braços ao


redor um do outro e nossas pernas um pouco entrelaçadas, totalmente em posição
de amasso (e mais), só que sem a parte do amasso.

Ele tinha uma maneira estranha de não ser afetuoso e pegajoso.


Eu não ia dizer uma palavra sobre isso.

Como mencionei, não estávamos nos beijando, mas Hugger estava acumulando
vários pontos positivos na minha lista de "Quero explorar isso com Hugger?".

Entre eles, estava o fato de ser incrivelmente habilidoso em dar beijos de


esquimó (sério… uma delícia), ter um talento absurdo para usar as mãos de forma
suave e reconfortante, sem me deixar completamente louca de desejo (ou pelo
menos, não tão louca - só de estar perto dele, sentir seu calor, seu cheiro e ter sua
atenção, já era suficiente para me desestabilizar), e, o melhor de tudo era...

Fazer carinho com os pés.

Sim!

Carinho com os pés!

Viu?

Ele era absolutamente fofo, por trás de toda aquela aparência de homem grande,
forte, barbudo e durão.

— Então, vocês têm uma nota mínima na escala de gostosura para permitir
motociclistas na sua irmandade? — perguntei.

Ele piscou rápido uma vez e, rindo, retrucou:

— O quê?

— Dutch é absurdamente lindo.

Sim, eu já tinha conhecido Dutch.

E o Eight tinha arrastado o Core e o Linus junto com o resto dos caras, então
minha mesa ficou tão cheia que precisei pegar cadeiras emprestadas do vizinho.
Madison, mesmo sem conversar muito com todos eles, parecia mais à vontade
comigo, Pete, Hugger, Eight e Muzzle.
Core tinha uma beleza digna de Hollywood. Linus também, mas ele ainda era
jovem e não tinha crescido por completo nela - faltar-lhe aquela confiança natural
que o Core já exalava.

E Dutch era exatamente o que eu disse.

Incrível.

Havia algo de verdadeiramente bonito nos olhos dele, como se carregasse uma
empatia universal por todas as dores que um ser humano poderia enfrentar. Era
hipnotizante.

— Você acha o Dutch bonito? — Hugger perguntou, como se acreditasse que


Dutch era a definição exata de feiura.

— Você não acha?

— Posso dizer que não temos um critério mínimo, porque ninguém repara
nessas coisas.

— Difícil não reparar. Para falar a verdade, estou até com medo de conhecer o
Jagger e o Roscoe quando chegarem. Minhas retinas podem simplesmente queimar.

Ele riu de novo.

— Se prepara. O Jagger é irmão mais novo do Dutch. Se você acha o Dutch


bonito, eles são parecidos, então já sabe o que esperar. Agora, sobre o Coe... bom,
não tenho uma vagina, então não faço ideia do que as mulheres pensam dele. Mas
posso dizer que ele não tem problema algum em conseguir companhia.

— Eu te conto quando conhecê-lo — garanti.

— Vou ficar esperando ansiosamente por isso, baby — ele brincou.

— Pelo tamanho e brilho da aliança do Dutch, diria que ele é muito casado —
comentei, para ver se ele falava mais sobre os irmãos.
— Sim, com a Georgie. Ela é incrível. Jag também está casado, com Archie. Outra
mulher incrível, mas de um jeito diferente. Georgie é jornalista. Archie tem a própria
loja. Eu não sou muito de fazer compras, mas é um lugar bem irado.

— Dois irmãos casados com duas mulheres com nomes de homem?

— Aconteceu assim.

Uma boa lembrança de que a vida pode trazer surpresas bem divertidas às vezes.

— Dutch parece… — hesitei, tentando encontrar as palavras certas. — Como se


estivesse sempre muito atento a tudo o que acontece. Quase mais do que o Big
Petey, mesmo com toda a idade, experiência e sabedoria dele.

— O pai do Dutch foi assassinado quando ele ainda era criança.

Meu corpo travou, e eu encarei Hugger, chocada.

— Eu conheci o pai dele quando era bem mais novo — ele continuou. — Jovem
demais para formar uma impressão profunda, mas sabia que gostava dele. Ele
adorava crianças.

— Nossa… odeio isso pelo Dutch.

— Quando você passa por algo assim, vê sua mãe de luto pelo seu pai por duas
décadas, isso molda sua visão sobre tragédia. Fazemos o que fazemos no
Resurrection em parte por causa dele. Os caras estavam inquietos, isso já era um
fato, mas Dutch conhecia o Clube tão bem quanto qualquer outro irmão que já
tivesse um patch há décadas. Ele estava inquieto, outros também. Agora, a gente
entra quando quer.

— Conhecia o Clube?

Hugger virou de costas e me puxou para cima dele, deixando nossos rostos bem
próximos.
— A old lady do nosso presidente, Rush, a Rebel, é diretora de cinema. Ela fez
um documentário sobre o Chaos — ele pausou por um momento antes de concluir:
— Acho que você devia assistir, Di.

Ah, eu com certeza ia assistir.

— Que demais — comentei.

— A gente costumava ser outlaws.

Hmm.

Não sei se estava tão convencida disso.

— O que isso significa? — perguntei com cautela.

— Trafegávamos armas. Fazíamos segurança para remessas de mercadoria ilegal.


Mantínhamos uma rede de garotas de programa. Minha mãe era uma das mulheres
do Chaos.

Santo Deus!

— Harlan, eu… isso não… — Engasguei. — Uau.

— Pois é — ele concordou com meu choque.

— Isso não é um problema para você?

— A maioria dos irmãos não queria se envolver com essa merda. Então, eles
caíram fora. Pelo menos, cuidaram bem das garotas quando fizeram isso, ou pelo
menos tentaram o melhor que puderam. Demorou um tempo para se livrarem
completamente, e foi perigoso, mas conseguiram. Quando entrei para o Clube, eles
já estavam limpos.

Eu estava começando a entender.

— Mas eles eram viciados em adrenalina, e para continuar tendo essa dose de
emoção, vocês se juntaram ao Resurrection.
— Não exatamente — ele respondeu. — Para deixar claro que não eram mais
foras da lei, o Resurrection fez o caminho oposto e se tornou um grupo de
justiceiros.

Ummmmmmmmm...

Santo Deus!

Ainda assim, isso não deveria me surpreender tanto, considerando o que Hugger
e Big Petey fizeram por mim e por Madison.

No entanto, fornecer segurança para duas garotas e investigar por que um


lunático criminoso tinha como alvo o clube era bem diferente de ser um vigilante.

— Não é o que você está pensando — Hugger me disse. — Só mantivemos


nosso território limpo, só isso. Sem drogas, sem prostituição, nada dessa merda
perto da Ride, da nossa loja e da oficina que administramos. Quando ficamos sem
inimigos, paramos com isso e agora deixamos para a polícia. Mas, se algo assim se
aproxima da loja, nós eliminamos. Só que reduzimos nossa área para alguns
quarteirões ao redor da loja, não para quilômetros.

— Certo.

Ele me observava atentamente enquanto dizia:

— Você precisa assistir ao documentário.

— Com certeza! Quer ver agora?

Ele pareceu surpreso ao perguntar:

— Você quer assistir comigo?

— Você aparece nele?

— Não.

— Você não quer assistir comigo?


— Na verdade, sim... — ele afastou uma mecha de cabelo do meu rosto (e era
bom nisso, eu sabia, porque senti um arrepio percorrer meu pescoço quando ele fez
isso) — seria legal.

— Quer que eu faça pipoca?

— Baby, você fez quatro pizzas, uma salada Caesar gigante e ainda tomamos
quase oito litros de sorvete nos sundaes. Você ainda aguenta pipoca?

— Isso foi um não? — perguntei, irritada. Nunca gostei que comentassem sobre
o que eu comia (meu pai fazia isso o tempo todo), e definitivamente não queria que
um cara de quem eu gostava fizesse o mesmo.

— Não, não foi um não. Estou impressionado, só isso.

Relaxei e sorri para ele.

— Eu pego uma cerveja e reabasteço seu vinho. Você cuida da pipoca — ele
disse.

— Você quer de micro-ondas ou feita no óleo?

— Você escolhe.

— Feita no óleo, com manteiga derretida e muito sal.

Hugger deslizou as mãos pelas minhas costas e murmurou:

— Perfeito.

Mas, pelo jeito como ele me olhava, senti que aquela palavra tinha dois
significados.

E, caramba, aquilo era bom.

Infelizmente, não durou muito, porque Hugger me puxou para junto dele, nos
colocando de pé.
Fomos juntos para a cozinha.

Ele ajudou derretendo a manteiga (mais um ponto para a minha lista de "Quero
explorar isso com Hugger?").

Preparando o filme, nos acomodamos no sofá, colados um no outro, com a tigela


de pipoca entre nós.

O documentário sobre o Clube era incrível. Mesmo que não fosse sobre o Chaos,
eu teria achado sensacional.

Essa diretora, Rebel, tinha um talento absurdo para o cinema.

Não posso dizer que algumas partes não foram assustadoras, porque foram.

Mas adorei o fato de Hugger ser tão aberto sobre tudo, sem esconder nada. E
também adorei ver que o Clube tinha superado aquela fase.

Ah, e o pai de Dutch era tão incrível quanto ele. E não era só pela aparência. O
cara tinha um sorriso lindo e claramente amava a esposa, os filhos e os irmãos. Isso
me deixou um pouco triste, mas, ao mesmo tempo, feliz por ele ter deixado dois
filhos para continuar esse legado antes de partir.

Quando o filme terminou, já era tarde. Depois de alguns beijos suaves e alguns
abraços apertados, Hugger me mandou para a cama.

Eu quase convidei ele para ir comigo. Não para avançar rápido demais, mas só
para dormir juntos, ele sobre as cobertas e eu debaixo delas. Assim, ele descansaria
melhor.

Mas não fiz isso.

Não fiz o convite porque, depois dos beijos de esquimó, de fazer carinho com os
pés, da pipoca e da honestidade brutal que ele compartilhou tão abertamente com
aquele documentário, eu não precisava da tentação.

Então, fui para a cama sozinha, sem nem um mini amasso para me ajudar a
passar a noite.
Foi uma droga.

Mas, sinceramente, tudo que Hugger estava mostrando me dizia que ele valia a
espera.
Capítulo 12
COLCHÃO DE AR
Diana

Meu quadril estava se movendo, e eu não estava fazendo isso.

Abri os olhos para o sol da manhã e virei a cabeça, vendo Hugger pairando sobre
mim.

Bom, então.

Bom dia para mim.

— Ei — sussurrei.

— Odeio te acordar assim, baby, mas Scott está no telefone, e as coisas estão
pegando fogo.

Sentei-me tão rápido que quase bati a cabeça na de Hugger.

— O que está acontecendo? — perguntei.

Ele se sentou na beira da cama.

— Primeiro, o pessoal da Madison está na delegacia. Provavelmente não é


surpresa que eles estejam exigindo vê-la.

— Droga — murmurei.

Eu esperava ter pelo menos a manhã para contar a ela e convencê-la a vê-los.

— E Scott me disse mais uma coisa.


Todo o sono desapareceu, e eu me concentrei nele.

— O que ele disse?

— Esse telefone não é do Imran Babić.

Espera.

— O quê? — perguntei.

— É do filho dele. Esad Babić.

Espera.

— O quê?

Hugger balançou a cabeça.

— Não sei, Di. Mas Scott quer falar com Madison o quanto antes.

"Tem mais que eu não te contei."

Talvez ela não quisesse dizer o que eu achei que quis dizer com isso.

— Di? — Hugger chamou.

— Eu não sei o que fazer com essa informação.

— Eu também não, mas Scott me contou mais uma coisa.

Ótimo.

— O que foi agora? — perguntei, mesmo sem ter certeza se queria saber.

— Durante o tempo em que Madison estava com o telefone, houve uma ligação
de um número salvo como "Otac", que, pelo que parece, significa "pai" em bósnio. A
chamada aconteceu na manhã seguinte à que ela deu entrada no hospital e durou
quinze minutos.
— Isso significa que ela estava com o telefone do filho, mas conversou com o
pai.

— Eu não sei o que isso significa, baby. Só sei que Scott disse que essa ligação
aconteceu antes da polícia entrevistá-la. Então agora está tudo ainda mais confuso,
porque ela identificou Imran Babić como seu estuprador, e ele foi preso por esse
crime, mas ela estava com o telefone do filho dele e disse ontem que era o telefone
do homem que a atacou.

Fiz uma careta.

— Pai e filho agindo juntos? Esse cara é tão nojento assim?

— De novo, não sei. Mas Scott precisa descobrir, para que essa investigação não
saia dos trilhos.

Merda, droga, caramba.

Afundei um pouco na cama, peguei meu celular no criado-mudo e murmurei:

— Vou ligar para Scott.

— Quer que eu traga um café pra você?

Olhei para ele enquanto mentalmente expandia a lista de prós e contras do


"Quero explorar isso com Hugger?".

Se você está acompanhando, o único item na coluna dos contras era o fato de
ele não ser muito de contato físico, e ele continuava sendo carinhoso, então isso
estava escrito a lápis.

— Você faria isso? — perguntei.

— Claro — ele murmurou, inclinando-se para perto, roçando seus lábios ásperos
na minha testa (mais um ponto positivo!) antes de sair para buscar meu café.

Todos os motociclistas eram assim?


Eu realmente queria saber.

Tentei decidir se escovar os dentes ou ligar para o detetive Scott era a prioridade.
O detetive ganhou por pouco, porque boca de manhã era nojenta.

Ele atendeu na hora.

— Diana?

— Olá, Detetive Scott.

— Como eu sempre digo, pode me chamar de Rayne.

Ele tinha um nome bonito para combinar com um rosto bonito.

Na verdade, antes do Hugger, ele era totalmente meu tipo.

Mas aposto que ele não passava aspirador.

— Harlan me atualizou — compartilhei.

— Certo.

— Então agora preciso saber o que fazer com Madison. Você pode vir até nós,
onde ela se sente segura? Ou preciso dar um jeito de levá-la até você?

— O ideal para mim, se conseguirmos fazê-la falar, seria tê-la em um ambiente


onde pudéssemos gravar o depoimento. Mas se conseguirmos que ela fale, não
importa onde aconteça.

— Entendido. E quanto à família dela?

— Isso é com você. Ela não está sob minha custódia. Mas eu recomendaria que
isso acontecesse logo. Eles sabem o que aconteceu com ela e estão se
despedaçando.

Merda, droga, caramba.

Hugger entrou com meu café.


— Certo, me dá meia hora e eu te ligo de volta.

— Agradeço.

— Até mais.

— Tchau, Diana.

Quando desligamos, Hugger me entregou o café e se sentou novamente na beira


da cama.

Aproveitei um momento para saborear um gole e admirar a vista.

— Onde estamos nisso? — ele perguntou.

— Scott disse que seria melhor se a entrevista acontecesse na delegacia para que
possam gravá-la. Mas acho que devemos deixar a família dela vir aqui vê-la.

— Nós?

Assenti enquanto tomava outro gole.

— Di, baby, essa casa não é minha — ele me lembrou de algo que eu já sabia.

— Estamos nisso juntos, não estamos? — perguntei.

Seus lábios se curvaram em um sorriso, levando a barba junto, e eu gostei


daquilo.

— Estamos, sim — ele concordou.

Senti que a resposta dele tinha um duplo significado. Como a minha também
tinha, eu estava totalmente bem com isso.

— Falando nisso, como dormiu?

— Tudo certo.

— Mentira deslavada.
Uma risada curta, mas sincera, escapou dele, e eu gostei disso também.

O que eu não gostei foi que soou áspera, como se ele não risse com frequência.

Com tudo o que estava acontecendo, não tinha escolha a não ser deixar isso para
lá.

Por enquanto.

— Você falou com Big Petey? — perguntei.

— Liguei pra ele antes de você. Provavelmente já está a caminho.

Isso era bom. Madison claramente tinha criado um vínculo com ele, e parecia que
o presente do telefone havia solidificado isso.

— Seria bom se conseguíssemos levá-la à delegacia — Hugger comentou. —


Podemos garantir sua segurança lá, já que recebi notícias do Big Petey de que Wash
também está em Phoenix. Ele apareceu ontem à noite. Quer uma reunião, e achamos
que essa reunião é para tentar se livrar do Chaos e seguir sozinho. Vamos levar
segurança, e eles vão lidar com os Babićs.

— Wash?

— O Presidente do Resurrection.

Oh.

— Eles provavelmente deveriam saber com qual Babić estão lidando — comentei.

— Acho que eles não se importam.

Eita!

— Certo, então nosso plano é o seguinte: você usa o banheiro primeiro enquanto
eu tomo meu café e ligo para minha chefe para avisar que vou tirar um dia pessoal
— expliquei. — Depois, eu uso o banheiro, acordo a Madison e a preparo tanto para
a visita dos pais quanto para voltar e ser reentrevistada pela polícia.
— Ótimo plano.

— Então, nada demais... Só mover algumas montanhas antes das oito da manhã.

Hugger sorriu.

— É, nada demais, só isso.

Engoli seco.

— Você consegue — afirmou Hugger antes de se aproximar e pressionar os


lábios contra os meus.

Café e hálito matinal não eram a melhor combinação para um beijo.

Mas um selinho firme vindo dele? Eu aceitaria qualquer dia.

Ele se levantou e foi para o banheiro.

Enquanto isso, tomei um gole do meu café e rolei a tela do celular até encontrar
o número de Annie.

E, quando apertei o botão para ligar, foi como apertar o botão para começar a
mover uma montanha.

— Eles vão ficar muito bravos.

O momento estava prestes a chegar. Quero dizer, Hugger havia descido para
escoltar o Sr. e a Sra. O’Keefe até sua filha.

Rayne estava com eles.

Eu estava com Madison e Big Petey na minha sala de estar.


Big Petey estava ali para dar apoio e presença. Madison, por outro lado, não
estava apenas ansiosa, estava completamente à beira de um colapso.

Ela concordou com isso depois que contei sobre o choro, os soluços e a
necessidade de uma segunda ligação, porque seus pais ficaram tão emocionados
que mal conseguiram falar.

Mas dava para ver que agora estava repensando tudo.

— Não gosto quando eles simplesmente desistem e vão embora — declarou Big
Petey.

Madison e eu olhamos para ele.

— Está me ouvindo, garota? — perguntou a ela.

— Eu causei tudo isso sendo estúpida, Big Petey, e acabei...

— Bobagem — ele a interrompeu bruscamente. — Você não fez nada disso


consigo mesma, Maddy, querida. Tira essa besteira da cabeça, entendeu?

— Sim, Big Petey — respondeu ela em voz baixa.

— Se eles te culparem, vão ter que se entender comigo antes de eu mandá-los


embora — ele ameaçou.

Cristo na cruz!, isso estava me destruindo. Já era a quingentésima vez no dia que
eu segurava o choro.

Dessa vez, porque eu queria que meu pai tivesse reagido como Big Petey depois
do que aconteceu comigo.

Madison nem teve tempo de responder à ameaça dele.

Ouvimos a porta da frente se abrir, e Big Petey se posicionou em frente a ela,


ligeiramente de lado.

Vale repetir: eu realmente gostava desses caras.


Me aproximei de Madison e segurei sua mão.

Ela apertou a minha com força.

Hugger foi o primeiro a surgir na entrada da sala de jantar. Ele deu um passo
para o lado, e duas pessoas entraram logo atrás.

Foi nesse momento que percebi como Madison era a cópia exata da mãe: uma
mulher pequena, com muito cabelo loiro e olhos azuis enormes.

Já seu pai competia em porte físico com Hugger, embora o Sr. O’Keefe tivesse
um físico mais macio (o que significava que Hugger ganhava essa disputa, na
verdade, óbvio que ganharia de qualquer forma).

Os olhos dos dois vasculharam o ambiente até encontrarem Madison. Quando


isso aconteceu, pararam completamente.

Apertei a mão dela.

Ela apertou a minha de volta.

Rayne veio logo atrás e parou atrás dos O’Keefe.

Ninguém disse nada.

Ninguém nem se mexeu.

Até que o Sr. O’Keefe soltou um gutural:

— Minha menininha...

Então, a Sra. O’Keefe começou a chorar.

E Madison largou minha mão e correu para o pai.

Ele a envolveu em um abraço tão forte que a tirou do chão.

A Sra. O’Keefe se aninhou neles, e ele manteve a filha suspensa no ar, mesmo
enquanto soltava um dos braços para abraçar a esposa.
Ah, pronto.

Totalmente chorando.

Droga!

Hugger veio até mim e, o homem supostamente nada afetuoso que era, me
puxou para os braços e me encaixou ao seu lado.

Aquele abraço coletivo durou um bom tempo e foi acompanhado de murmúrios


que fiz questão de não escutar.

Eu já estava pensando em sugerir que fôssemos para a sala de jantar para dar
mais privacidade à família quando o abraço finalmente se desfez.

— Foi uma tortura não saber onde você estava, minha menina — resmungou o
Sr. O’Keefe. E sim, até aquele momento, eu não sabia que alguém poderia
resmungar uma frase inteira, mas ele conseguiu.

— Papai, eu sinto muito — Madison soluçou contra o pescoço dele.

Ele a colocou no chão delicadamente, mas sem soltar nem a filha, nem a esposa.

Ainda assim, parecia confuso.

— Pelo que você está pedindo desculpas?

— Eu fui burra. Você me avisou...

— Pare com isso agora mesmo, Madison Renee O’Keefe — cortou a Sra. O’Keefe
com firmeza.

Me aninhei ainda mais contra Hugger.

— Mamãe...

— Nem mais uma palavra assim, Maddy — ela alertou. — Nem mais uma.
— Tá bom, mamãe — Madison murmurou, sem soar repreendida, apenas
concordando.

A Sra. O’Keefe, que podia ser pequena, mas eu já estava percebendo que era
alguém com quem não se brincava, soltou o braço do marido, ajeitou sua blusa
simples, porém elegante, e falou novamente:

— Agora, quem são essas pessoas que cuidaram da nossa garota?

Madison se aconchegou ao lado do pai, um homem que, percebi, não a soltaria


tão cedo — e ela não parecia querer ir a lugar nenhum.

— Esse é Hugger. Ele nos protege o tempo todo, até dormindo no sofá para
garantir isso — apresentou. — Esse é Big Petey, que ontem me comprou um
celular... e donuts.

Ela abaixou um pouco a voz.

— E essa é Diana... Ela me salvou.

Engoli em seco, limpei o rosto (agradecendo por não ter tido tempo de passar
rímel), soltei Hugger e caminhei até a família O’Keefe.

— Eu não a salvei. Ela se salvou sozinha. Só ofereci um lugar para ficar — corrigi.

Não tive tempo de dizer mais nada, porque me aproximei demais das garras de
uma mãe protetora. Sem hesitar, ela fincou as unhas longas no meu ombro, me
puxou para um abraço e me apertou com tanta força que fiquei sem ar.

— Nunca poderei te retribuir — sussurrou em meu cabelo.

— Você nunca precisará — sussurrei de volta.

Ela fungou, me soltou tão repentinamente quanto me puxou e seguiu para


cumprimentar Hugger e Big Petey com um aperto de mão.

O Sr. O’Keefe permaneceu ao lado da filha, preferindo um cumprimento verbal, o


qual fez questão de usar.
Confirmando minha teoria sobre a força que a Sra. O’Keefe representava, assim
que resolveu a questão, ela decretou:

— Pronto, agora resolvemos isso. Primeiro, vamos à delegacia, porque o detetive


Scott tem algumas perguntas para você.

Ela disse isso diretamente para Madison. O restante foi direcionado ao grupo
presente:

— Depois disso, alugamos uma daquelas casas de temporada. Tem uma piscina
que também conta com uma jacuzzi. Vamos ficar por aqui até o detetive Scott obter
todas as informações de que precisa, e então voltamos para casa.

Enquanto ela falava, percebi que o rosto de Madison ficava cada vez mais pálido.

Ah, merda.

— Hm… — comecei, mas não sabia o que dizer.

Felizmente, Rayne sabia.

— Expliquei algumas coisas para a senhora na delegacia, Sra. O’Keefe. Se


Madison não ficar aqui, sob a proteção que Diana está oferecendo através de Harlan
e Pete, então ela precisa estar em um lugar onde a polícia de Phoenix possa
protegê-la.

— Não pudemos trazer uma arma no avião — rebateu a Sra. O’Keefe. — Mas
sabemos como conseguir uma, e pode ter certeza de que Elias aqui não tem medo
de usá-la.

— Preferimos que ninguém precise disparar uma arma para garantir segurança e
proteção dentro dos limites da cidade — observou Rayne.

— O que Emmylou está dizendo, filho, é que não queremos ficar longe da nossa
menina e esperamos que você entenda isso e encontre um jeito de respeitar.

— Estou segura aqui — Madison disse suavemente.


— Querida, seu pai e eu estamos aqui agora — respondeu Emmylou.

— Eu sei, mamãe, mas estou segura aqui, com Diana e os caras. E não é só o Big
Petey e o Hugger. Tem o Eight, o Muzzle, o Dutch, o Core e o Linus.

Os dois O’Keefe mais velhos se viraram para nos encarar.

— Vocês podem ficar conosco também — ofereci. — Podemos reorganizar a sala


de jantar e colocar um colchão inflável.

— Você e esses malditos colchões infláveis — murmurou Hugger, mas parecia


divertido.

Mesmo assim, lancei um olhar para ele.

— Não vou deixar os pais da Maddy na linha de frente caso alguém entre pela
porta da frente — declarou Big Petey.

— Acha que eu não vou estar atento? — Elias rebateu.

— Acho que Hugger deve ficar no quarto com Diana, você pode dormir no sofá e
Emmylou dorme com a filha — devolveu Big Petey.

Meu Deus.

Eu poderia beijar Big Petey.

Solução perfeita por vários motivos.

— Pete — rosnou Hugger.

— Está decidido — decretou Emmylou. — Se você tem certeza de que não se


importa, Srta. Diana.

— Não me importo, Sra. O’Keefe — assegurei. — De jeito nenhum.

— Me chame de Emmylou. Ou só Emmy — convidou. Em seguida, voltou-se para


a filha: — Pronta para ir falar com a polícia?
Antes que Madison pudesse responder, Pete ordenou:

— Segurem as pontas. Quero que vocês tenham escolta. Temos rapazes


patrulhando o complexo. Preciso avisá-los para se prepararem.

— Tudo bem — Emmylou concordou, aparentemente sem se abalar nem um


pouco com o fato de Madison ter um pequeno exército de motociclistas cuidando
dela.

Parece que Rayne fez um bom trabalho atualizando-a na delegacia.

— Alguém quer café enquanto Big Petey resolve isso? — perguntei.

— Já estou abastecido, querida, mas obrigado — respondeu Elias.

— Eu preciso de café, querida. Não preguei o olho a noite toda — disse


Emmylou.

— Ah, mamãe — Madison gemeu.

Emmylou se virou rapidamente para a filha:

— Menina, esta noite eu vou dormir como um bebê, sabendo que você está ao
meu lado. Agora, vamos tomar um café e resolver isso logo para que o detetive
Scott possa fazer seu trabalho.

A presença de Emmylou estava sendo uma vantagem. Eu ainda não tinha


conseguido convencer Madison a ir até a delegacia.

Agora, não precisava mais.

Preparei café em copos térmicos, caso os rapazes não demorassem a sair de


moto.

Enquanto isso, tanto Hugger quanto Big Petey estavam ao telefone. Meu palpite
era que Hugger estava organizando um encontro enquanto estivéssemos na
delegacia.
Ele então se aproximou de mim e murmurou:

— Vou sair e comprar um daqueles colchões para dormir no chão do seu quarto.

— Você pode comprar um para o Sr. O’Keefe, para que ele fique confortável.
Para você, não.

— Baby...

— Não é como se você não soubesse que eu quero dormir com você.

— Eu sei disso, e quero o mesmo, mas…

Enquanto ele falava, dei uma olhada ao redor. Ninguém parecia prestar atenção
em nós, mas mesmo assim… Eu não morava no Palácio de Buckingham, onde os
quartos eram do tamanho de campos de futebol. Mesmo sem querer, poderiam
acabar ouvindo.

Então, cortei o assunto:

— Falamos sobre isso depois.

— Di...

Lancei-lhe um olhar afiado:

— Harlan, falamos sobre isso depois.

Seus lábios se apertaram.

Fiquei na ponta dos pés e dei um beijo rápido.

Eles relaxaram.

Lá estava a solução.

Outro ponto positivo: um simples selinho e, mesmo que ele não esquecesse o
assunto, pelo menos não insistiria nele.
Com isso resolvido, entreguei um copo térmico de café para Emmylou.
Capítulo 13
BOA NOITE
Diana

Eu tinha chegado ao meu limite.

Não me orgulhava disso, mas não podia negar.

Era por isso que estava deitada, encolhida na minha cama.

Eu me dizia que estava dando um tempo para Madison, Elias e Emmylou, que
estavam na sala de estar, se reconectando. Mas, na verdade, eu só precisava de um
espaço para processar toda a merda que descobri naquele dia.

Emmylou podia até parecer que comandava sua família no dia a dia como a
matriarca do clã O’Keefe, mas Maddy tinha seus próprios traços de Mini-Emmylou.
Quando decidiu que não queria nenhum dos pais presentes em seu depoimento, ela
bateu o pé.

Ela queria a mim.

Então, foi o que teve.

Não estávamos em uma sala com mesa e cadeiras, como nos programas de
crimes reais. O detetive Scott nos colocou em um ambiente mais acolhedor, com um
sofá e algumas poltronas. Eram simples, mas mais confortáveis.

Porém, essa foi a única coisa confortável.

Hugger ligou no meio disso tudo, mas não consegui atender. Ele mandou uma
mensagem dizendo que não poderiam nos escoltar de volta para casa, mas que
estava providenciando outra escolta.
No final, tivemos uma escolta do Aces High, incluindo Ink, Driver, Cruise, Gash e
uma escolta policial.

Fosse o que fosse que os rapazes estavam discutindo, estava levando tempo,
porque as entrevistas - sim, no plural - duraram horas, e Hugger e Big Petey ainda
não tinham voltado.

Foi quando ouvi a porta se abrir. Levantei a cabeça e vi Hugger entrando.

Não estava preparada para a onda de alívio que me atingiu ao vê-lo.

Mas não podia negar o tamanho desse alívio.

Comecei a me erguer apoiando em um braço, mas ele lançou um olhar para mim
e ordenou friamente:

— Não se mexe, porra.

Surpresa com o tom, não me mexi.

Observei enquanto ele caminhava até o pé da cama, depois o vi tirando as botas,


subindo de joelhos no colchão e, por fim, engatinhando até mim.

Eu não estava no clima para nada tão quente quanto aquilo.

Ainda assim, ver Hugger se aproximar sorrateiramente da minha cama como um


grande felino foi tão bom que algo milagroso aconteceu: entrei no clima.

Ele se acomodou atrás de mim, assumindo a posição de conchinha, e ordenou:

— Relaxe.

Deitei de volta e, com o braço ao meu redor, ele me puxou para perto.

E continuou sendo mandão:

— Fale comigo.

Agora eu entendi o tom dele. E pelo visto, eu não sabia disfarçar nada.
Pode-se dizer que eu gostava de conchinha, e acabei de descobrir que Hugger
fazia isso melhor do que qualquer um.

Ainda assim, me mexi até ficarmos de frente um para o outro, com as pernas
levemente entrelaçadas, e inclinei a cabeça para olhá-lo.

No instante em que nossos olhos se encontraram, ele deslizou uma mão grande
pelas minhas costas e sussurrou:

— Baby.

Não. Definitivamente, eu não sabia disfarçar nada.

— Senti vontade de matar alguém, — confessei. — Sério mesmo.

— Merda, — ele murmurou.

Inspirei fundo e soltei o ar, explicando:

— Então, aqui está o que a polícia está montando. Esad Babić se desligou dos
negócios sujos do pai e resolveu criar seu próprio esquema. Ele trabalha com
recrutadores, como o que encontrou Madison online, para atrair jovens para suas
garras e vendê-las para pessoas como Esad. Depois que eles terminavam com ela…

Hugger me puxou ainda mais para perto.

Acelerei a explicação:

— Eles acharam que ela estava inconsciente e a largaram ali. Madison, que
parece ter feito da arte de esconder sua inteligência e força um hábito, fingiu estar
desacordada, na esperança de que fizessem exatamente isso e ela conseguisse fugir.
Depois de tudo o que fizeram com ela, Harlan, ela ainda teve presença de espírito…

Engoli em seco.

— Di, baby… talvez seja melhor a gente não relembrar isso, — Hugger
murmurou, agora acariciando minhas costas.
— Não, preciso colocar para fora, se você estiver disposto a ouvir.

— Claro que vou ouvir, baby. É por isso que estou aqui.

Como, nesse mundo de merda, onde coisas tão horríveis acontecem com
pessoas tão boas, Harlan Hugger McCain me encurralou em um elevador e, com
isso, acabou fazendo parte da minha vida?

Não devia questionar.

Devia aproveitar.

Foi o que fiz, enquanto continuava contando:

— Como sabemos, o plano dela deu certo. Ela pegou o celular de Esad e fugiu.
Um bom samaritano a encontrou e a levou para o pronto-socorro mais próximo.

— Certo, — Hugger disse.

— Eles acham que, quando Esad percebeu que ela e o celular tinham sumido,
soube que estava fodido. Então, correu para o papai, esperando que ele encobrisse
tudo. O velho entrou em ação e ligou para Madison do celular do filho no dia
seguinte, dando ordens: ela devia dizer à polícia que foi ele quem fez tudo. Se não o
fizesse, ele não descansaria até encontrá-la e deixar bem claro o quanto estava
irritado. E avisou que ela não sairia dessa viva. Nem ela, nem as pessoas que ama.
Como era de se esperar, a ameaça funcionou e Madison fez o que ele mandou.

Hugger franziu a testa.

Eu também reagi assim.

Então, ele expressou sua confusão:

— Por que ele simplesmente não ameaçou ela para ficar quieta? Por que se
colocar nessa posição?

Comecei a explicar:
— Rayne conversou comigo depois. Ele disse que acreditam que o velho Babić
fez isso porque nenhuma das provas de DNA o ligaria ao crime. Ele seria inocentado,
e Madison desacreditada. Depois de um falso relato, mesmo que ela apontasse Esad
e os outros mais tarde, um bom advogado de defesa acabaria com ela no tribunal. E,
segundo Rayne, isso é uma das coisas que o velho Imran Babić adora: ferrar com a
polícia. Se ele puder desmoralizar um depoente e bagunçar a investigação, melhor
ainda. Ou seja, para ele, era um golpe duplo. Limpava a barra do filho e ainda se
divertia às custas dos policiais. Um ganha-ganha para ele.

— E agora? — Hugger perguntou.

— Agora, os federais estão indo atrás dessa rede de recrutadores e dos


compradores. Pelo que parece, essas meninas estão sendo traficadas para vários
lugares. Emitiram um mandado de prisão para Esad e, através de fotos, Madison
identificou os dois caras que estavam com ele. Eles também têm mandados de
prisão contra esses dois. Além disso, os federais se sentaram com Madison. Ela não
pôde dar muitas informações, mas descreveu com detalhes o homem que a aliciou e
conseguiu identificá-lo em uma seleção de fotos. Ela estava apavorada na época e
não prestou muita atenção ao ambiente, mas viu outras garotas lá. Não sabe
quantas, mas viu pelo menos duas. E entre a descrição de Maddy... que nem
conhece Phoenix, mas explicou onde foi levada, e o depoimento do bom
samaritano, que fez um relato detalhado no hospital, eles têm uma ideia da
localização desse lugar.

— Algumas boas notícias.

Assenti.

— E tem mais. O celular do Esad foi um grande achado. Tem sido um verdadeiro
tesouro de informações para eles. E se conseguirem prender Esad e os caras dele, e
arrancarem informações de um deles, acham que isso será gigantesco. As peças
dessa organização começarão a cair.

— Certo... Isso também é ótimo.

E realmente era.
— Eles levaram o celular dela — observei. — Esad e aqueles babacas pegaram o
telefone dela e a bolsa, então ela ficou sem nenhum documento de identificação.
Mas, antes de fugir da casa dos pais, ela preparou uma mala. Essa mala continuou
com ela, e ela a pegou quando conseguiu escapar. Eu entendo por que levaram o
celular e a bolsa, mas acho estranho não terem pego a bagagem também.

— Não sei como esses palhaços funcionam, baby. Mas, pelo menos, ela estava
com as próprias coisas quando conseguiu fugir. Talvez isso tenha trazido algum
conforto? — ele sugeriu.

Eu esperava que sim.

Agora vinha a parte difícil.

— Eles estão levando eles — murmurei.

— O quê?

— Maddy, Elias e Emmylou. Eles estão organizando tudo, e amanhã de manhã


vão levá-los para a custódia protetiva, pelo menos até que essa situação com Babić
seja resolvida. Mas talvez por mais tempo, se Maddy precisar entrar no Programa de
Proteção a Testemunhas. De qualquer forma, vou perder o contato, já que ela não
poderá falar comigo. Isso pode ser só por um tempo... ou pode ser para sempre

— Di... — ele sussurrou com ternura.

Enterrei meu rosto no pescoço dele e me aninhei ainda mais.

— Eu sei que é o melhor para ela — falei contra a pele dele. — Eu sei disso. Mas
não quero que ela vá. E o Programa de Proteção a Testemunhas? Toda a vida dela já
foi virada de cabeça para baixo, e agora vai ser de novo?

— É o que é melhor para ela, o que é mais seguro.

— É... — resmunguei.

Ele estava certo, claro.


Mas eu odiava que ela já tivesse passado por tanto e agora teria que passar por
mais isso.

— Scott foi surpreendentemente direto sobre tudo — Hugger comentou.

Levantei o rosto.

— Foi. Mas eu também participei das entrevistas, porque Maddy pediu.

Ele parou de acariciar minhas costas e me apertou contra ele.

— Baby...

— Tá tudo bem. Eu estou bem. Fiquei honrada por ela ter me pedido isso.

Ele fez uma expressão estranha antes de dizer:

— Vamos precisar conversar sobre esse seu hábito de se sacrificar para ser tudo
o que os outros precisam.

— Eu sobrevivi, Harlan.

— Nunca vou esquecer o jeito que você ficou. O seu rosto, você se encolhendo
aqui, se escondendo para que ninguém visse você se curar. Sim, você é uma
sobrevivente. Mas até quando vai continuar aguentando tudo isso antes de perceber
o quanto isso está te consumindo?

Em vez de responder, escondi meu rosto no pescoço dele novamente.

Ele voltou a acariciar minhas costas.

Então, acho que eu já tinha respondido.

Decidi mudar de assunto.

— Emmylou assumiu o comando. Descobri que, no estilo texano, há diferenças


de gênero na hora de fazer sanduíches. Os caras ganharam lanches com uns sete
centímetros de carne. Eu e a Maddy só tivemos cinco.
Hugger riu.

Levantei o rosto de novo para encará-lo.

— Cinco centímetros já é muita carne, Hugger.

Ele me olhou de um jeito peculiar e continuou rindo.

— Nem tanto.

Num dia horrível como aquele... eu realmente ia rir?

Não consegui evitar.

Eu ri, mesmo enquanto o advertia:

— Tira essa mente da sarjeta.

— Certo... — ele disse, ainda rindo.

— Ink, Driver, Cruise e Gash deram o melhor de si como homens, mas eu temia
que tivéssemos um momento explosão por exagero..

Hugger franziu as sobrancelhas.

— Explosão por exagero?

— Aquela cena do filme do Monty Python23 em que o cara come tanto que
explode.

— Nunca vi.

— Você precisa ver. É um clássico.

Ele passou a mão pelo meu quadril (gostei disso).

— Podemos assistir na nossa próxima noite de filmes.

23
Monty Python é um grupo britânico de comédia que revolucionou o humor com seu estilo
nonsense, satírico e surreal.
Nossa próxima noite de filmes.

Gostei ainda mais disso.

— Ah, e você provavelmente vai gostar de saber que Emmylou está usando a
carne em cubos que compramos para eu fazer meus fabulosos tacos de carne
desfiada para preparar carne com macarrão hoje à noite. Ela precisa saber quantas
pessoas vêm para o jantar.

— Eu resolvo isso para ela — ele disse.

— Sua vez.

Ele suspirou antes de se deitar de costas e me puxar para cima dele.

Com Hugger, não existia posição melhor ou pior.

Todas eram perfeitas.

O corpo grande, forte e robusto dele era simplesmente tão confortável.

— Preciso relatar tudo isso para eles — ele compartilhou. — Mas, mesmo que eu
faça isso, não acho que a missão deles vá mudar. O Aces e o Chaos estão fora.
Resurrection vai lidar com os Babićs.

— Como uma cidadã cumpridora da lei, vejo por que isso é preocupante. Como
alguém que gosta de você, e considerando que são seus amigos, também vejo por
que isso é preocupante. Como alguém que gosta deles... preocupação de novo. Mas,
depois de tudo o que ouvi hoje, não tenho energia para me importar com os Anjos
da Morte indo atrás desses desgraçados. — Inclinei a cabeça para o lado e
perguntei: — E você, como se sente em relação a isso?

— O objetivo é derrotar o inimigo. Mas o melhor objetivo é derrotá-lo e


humilhá-lo — Hugger respondeu. — Não acho que eles vão gostar do que
Resurrection está planejando. Acho que odiariam ainda mais apodrecer na prisão
pelo resto da vida.
Eu via o ponto dele.

— O que isso significa? — perguntei.

— Significa que esperamos que a polícia pegue Esad e os comparsas dele. E que
também consigam incriminar Imran por qualquer coisa que consigam provar contra
ele, antes que o Resurrection vire um caos. Mas, quando isso acontecer, estaremos
sempre fora. Depois de descobrirem o que fizeram com Maddy, eles se recusam a
recuar. Quando perceberem que há um esquema em andamento, vão se jogar de
cabeça até desmontá-lo por completo. Resumindo, independentemente do que
achamos das intenções deles, estamos fora.

Um pensamento desagradável me ocorreu naquele instante.

— Com a Maddy indo embora e o Resurrection assumindo, isso significa que


você também vai partir?

Ele balançou a cabeça, e a tensão que começava a se espalhar pelo meu corpo
desapareceu.

— Nos últimos dias, Buck tem tentado entrar em contato com Imran para uma
negociação. Ele não responde. Parte do que Buck queria discutir era garantir que
você e seu pai estivessem fora do radar deles. Como Imran não quer sentar para
conversar e acertar as coisas, precisamos garantir que vocês dois estejam protegidos
até termos certeza de que não estão na jogada.

— Então você e Big Petey vão ficar?

Dessa vez, ele assentiu.

— E Dutch, Jag e Coe também. Eight, Muzzle e Linus estão indo para a
clandestinidade.

Eu esperava que eles ficassem bem depois de se esconderem.

— E o Core?
— Core tem uma mulher. Ele está voltando para Denver. Quando um membro do
Resurrection escolhe uma mulher, Wash designa tarefas que não coloquem suas
vidas em risco ou os levem para a prisão.

Eita!

— Ok... — murmurei, decidindo evitar essa conversa.

— Mas só pra deixar claro, nós dois estamos nisso juntos. Então, mesmo que
estivesse tudo bem entre você e seu pai com relação aos Babićs, eu ficaria para
resolver isso com você.

Ao dizer isso, ele me apertou levemente.

Meu humor mudou imediatamente. Sorri largo e repeti:

— Ok.

— Agora precisamos falar sobre os arranjos para dormir esta noite.

Outra mudança de humor.

— Harlan...

— Baby, ainda não chegamos lá.

— Não, mas você precisa dormir bem, e a situação na minha casa exige que você
fique aqui. E não vai dormir no chão quando há uma cama grande o suficiente para
dois neste quarto. Falei com os caras, e tanto Ink quanto Cruise têm colchões
infláveis. Eles vão trazer um para Elias.

Aproveitei o momento para testar sua regra de sem toque (que ainda incluía
muito contato, o que me lembrou que eu precisava de uma nova lista de assuntos
para discutir com Hugger) e passei os dedos por sua barba.

Era uma sensação ótima. Ele não reclamou, então continuei e voltei a falar.

— Vai ser difícil, eu sei. Mas acho que conseguimos manter as mãos longe um do
outro por uma noite.
— Já é difícil dormir sabendo que você está no fim do corredor. Provavelmente
impossível com você bem ao meu lado, numa cama grande e macia.

Eu realmente não queria fazer isso, mas a situação exigia.

Sorri de canto.

Hugger deslizou as mãos para minha cintura e apertou.

— Você ficar toda animada sabendo o que faz comigo não ajuda em nada, baby
— ele comentou.

— Desculpa — menti.

Ele deslizou os dedos longos pelo lado do meu cabelo, prendendo uma mecha
atrás da minha orelha, acrescentando um detalhe ao toque que tinha me dado na
noite anterior. Gostei. E o jeito que ele fez agora, ainda melhor.

— Não quero que pense que estou me aproveitando — disse baixinho.

Pisquei.

Fiquei olhando para ele.

Depois, enfiei meu rosto no seu pescoço, e fiz isso com força.

Quem era esse homem e o que eu fiz nesta vida para merecer ser encurralada
por ele em um elevador?

— Foi ideia do Big Petey — ele continuou. — Não sua. E você tem um coração
do tamanho do Alasca, tão dourado que chega a cegar. Quer que eu descanse bem.
Você sempre coloca todo mundo na frente de si mesma e...

Levantei a cabeça ao mesmo tempo que repousava os dedos sobre seus lábios
cobertos pela barba.

— Eu queria te oferecer isso ontem à noite — confessei. — Fiquei feliz quando


Big Petey sugeriu. E sim, é sobre você, porque quero que descanse bem. Mas
também é sobre mim. Porque eu gosto de você, sinto atração por você, estou
adorando te conhecer e imagino que, eventualmente, você estará aqui de qualquer
maneira.

Dessa vez, ele puxou parte do meu cabelo para frente e começou a enrolar os
fios entre os dedos.

Relutante, afastei minha mão de sua boca.

— E vai ser bom não precisar ficar sozinha na última noite que teremos Maddy
conosco — sussurrei.

Com os dedos ainda entre meus cabelos, ele acariciou meu maxilar.

— Então, esta noite, estou aqui com você, na sua cama.

Como eu sabia que ele diria isso?

Parece que eu não era a única que colocava os outros antes de si mesma.

— Consegue tirar o dia de amanhã também? — ele perguntou. — Pra ter um


tempo pra lidar com a despedida dela.

Minha chefe era do tipo que só percebia o que estava bem na frente dela.

Annie notaria se eu não entregasse o trabalho. Mas não perceberia se eu sumisse


por três dias, e quando voltasse, provavelmente diria algo como: "Achei que tinha
algo estranho na oficina."

Se fosse professora, seria o exemplo perfeito daquele estereótipo.

— Minha chefe é bem tranquila. Vou ligar pra ela, porque é uma boa ideia.

— Que tal fazer isso agora, tirar isso do caminho, e depois irmos passar um
tempo com a Maddy? Assim, você pode aproveitar o momento com ela antes de ela
ir embora.

Era um bom plano. Então, me movi com cuidado para pegar meu celular sem
perder muito contato com ele.
Disquei o número dela.

Ela atendeu meio segundo antes de cair na caixa postal.

— Sim?

— Oi, Annie. Sou eu, Di de novo.

— Oi, querida.

— Olha, desculpa, mas vou precisar tirar o dia de amanhã também.

— Você não está aqui?

Viu o que eu quis dizer?

— Sim. Lembra? Eu te liguei de manhã pedindo um dia de folga.

— Ah, sim, sim. Eu esqueci — murmurou ela.

— Então, está tudo bem se eu folgar amanhã também? Eu explico quando for ao
escritório na quarta-feira.

— Claro, Di. O que você precisar. Espera... Como está o quadro dos Galligan?

— Ainda trabalhando nele. Mas vou terminá-lo a tempo, conforme o prazo


prometido.

— E o ícone dos Harris?

— Esse é o próximo da lista.

— Certo, então — disse ela, distraída. — Nos vemos na quarta-feira.

E provou o quanto estava distraída ao desligar na minha cara, sem nem se


despedir, só para voltar ao que estava fazendo.

Joguei o telefone de lado e anunciei:


— Tudo certo no trabalho.

— Ótimo. Então, está pronto para sair e passar um tempo com a Maddy antes
dela ir embora?

Eu estava, completamente. E, ao mesmo tempo, não estava. Mas essa segunda


parte era só porque sabíamos que aquele tempo tinha um prazo de validade.

— Vamos lá.

Hugger segurou a parte de trás da minha cabeça e a puxou para perto da dele,
roçando seus lábios ásperos nos meus antes de nos fazer rolar para fora da cama.

— Você acha que a Emmylou faria um sanduíche de homem para mim? —


perguntou enquanto caminhávamos de mãos dadas até a porta. — Não almocei.

— Acho que a Emmylou prepararia um jantar de Ação de Graças inteiro em meia


hora se um dos homens que cuidam da garota dela pedisse.

A voz dele carregava um tom divertido quando concordou:

— Acho que você tem razão.

Ele abriu a porta, e um cheiro doce e delicioso tomou conta do corredor.

— Viu só? — perguntei a Hugger, sendo praticamente atacada pelo aroma.

Ele sorriu para mim.

Maldição, ele tinha um sorriso incrível.

Chegamos à sala e encontramos Big Petey conversando com Elias, enquanto


Emmylou e Madison estavam na minha cozinha, fazendo biscoitos.

E sanduíches.

— Pete disse que vocês dois não almoçaram, Hugger — chamou Emmylou. — O
jantar será daqui a algumas horas, mas estou preparando algo para vocês beliscarem
enquanto isso.
— Agradeço — respondeu Hugger, com um leve tremor na barba.

— Que tipo de biscoitos são esses? — perguntei.

— Os famosos biscoitos de amêndoa da mamãe — Maddy respondeu.

— Meu Deus, eu amo amêndoas — disse a Emmylou.

— Meu objetivo é agradar — murmurou ela enquanto trazia dois pratos


carregados com sanduíches gigantes e montes de batatas fritas tão grandes que
praticamente escondiam os sanduíches. Eu suspeitava que isso seria mais do que
suficiente para sustentar Hugger e Big Petey até o jantar.

Hugger se sentou com Pete e Elias na sala para comer o sanduíche.

Eu fui para a cozinha ajudar com os biscoitos.

— O que é uma yurt24? — Emmylou perguntou a Jagger.

Uma novidade: Jagger era, de fato, tão bonito quanto o irmão mais velho. Um
pouco menos intenso, mas não menos atraente.

Roscoe também era charmoso - se é que um motociclista podia ser abertamente


charmoso. Mas Roscoe provava que sim, especialmente com seus óculos de armação
grossa e preta, no estilo Buddy Holly, que o deixavam ainda mais cativante.

Estávamos todos sentados à mesa de jantar, saboreando biscoitos depois de


devorarmos o inacreditavelmente delicioso prato de carne com macarrão que
Emmylou preparou.

24
Uma yurt (ou iurta, em português) é uma tenda circular tradicional usada como moradia pelos
povos nômades da Ásia Central, especialmente na Mongólia, Cazaquistão e Quirguistão. Atualmente,
yurts modernas são usadas para turismo ecológico, retiros e até como residências sustentáveis no
Ocidente.
Eu precisava pegar as receitas dela antes que fosse embora.

— É uma tenda redonda que não tem um suporte central — Jagger explicou a
Emmylou. — E eu só sei disso porque minha esposa tem um espírito aventureiro. Ela
cismou que queria se hospedar em uma yurt. Levei ela pra uma e não posso dizer
que foi ruim.

— Por onde vocês já viajaram? — Elias perguntou.

— Melhor perguntar pra onde ainda não foram — Big Petey se intrometeu. — Se
o tempo está bom, eles estão por aí, viajando.

— Só se é jovem uma vez — Emmylou comentou. — É bom matar essa vontade


de explorar antes de sossegar e formar família.

— Acho que, quando tivermos filhos, Arch vai amarrar os pequenos em nós dois
e nos colocar na estrada mesmo assim, dona Emmylou — Jagger respondeu com um
sorriso.

— Cada um com seu jeito — Emmylou afirmou. — Crianças precisam de


estabilidade, mas essa estabilidade vem dos pais. O resto não importa.

Olhei para Maddy para ver como ela estava lidando com tudo aquilo.

Ela mordia um biscoito, com um pequeno sorriso direcionado à mãe.

Ali estava—mais um pouco de cura.

Ela ainda tinha um longo caminho pela frente, mas agora, pelo menos, tinha ao
seu redor as pessoas certas para ajudá-la a seguir.

Eight empurrou a cadeira para trás.

— Melhor ir nessa — declarou.

Os outros rapazes seguiram o movimento, e todos nos levantamos.


Houve apertos de mão, tapinhas nas costas, murmúrios de despedida, palavras
de gratidão dos dois O’Keefe mais velhos - e eu também recebi abraços,
especialmente longos de Eight e Muzzle.

Mas, assim como vinham fazendo desde que chegaram dias atrás, eles
mantiveram certa distância de Maddy.

Até chegarem à porta, quando Eight a abriu, pronto para sair.

Foi então que Maddy gritou:

— Espera! Só isso?

Todos os homens pararam e olharam para ela.

Ninguém disse nada.

Então, de repente, Maddy se lançou para frente, correndo até Eight, e se agarrou
a ele.

Pelo olhar que ele fez ao curvar seu corpo alto sobre ela e retribuir o abraço, eu
soube que, gostassem ou não do que ele fazia, aquilo era seu propósito.

— Obrigada — ouvi Maddy sussurrar. Foram as primeiras palavras que dirigiu a


ele.

E a nova expressão no rosto de Eight me atingiu em cheio—ao mesmo tempo


me partiu o coração e restaurou minha fé na humanidade.

— Uma honra, pequena — ele murmurou.

Ah, droga. Estava acontecendo de novo.

Eu ia chorar.

Levei um susto quando Hugger passou um braço pelos meus ombros e me


puxou para perto dele.
Observamos enquanto Maddy fazia o mesmo com Muzzle. Com Linus, Core,
Dutch, Jagger e Roscoe - com quem não tinha tanta familiaridade - ela apenas
acenou.

Muzzle foi o último a sair, mas, antes de fechar a porta, enfiou a cabeça para
dentro e disse para Maddy:

— A cada segundo que você vive com força e coragem, garota, você vence eles.
Continua detonando, Maddy. Você consegue.

Maddy soltou um pequeno soluço.

Elias a envolveu nos braços.

Muzzle sumiu pela porta.

Hugger e eu estávamos em frente às nossas pias no banheiro, cada um


escovando os dentes.

Por que eu adorava olhar no espelho e vê-lo ao meu lado, com espuma de pasta
de dente na barba?

— Di?

Ao ouvir Maddy me chamar do quarto, virei para encarar Hugger antes de cuspir,
enxaguar a boca, me limpar e sair do banheiro.

Maddy estava parada logo na entrada.

— Tudo certo? — perguntei, indo até ela.

— Posso te pedir uma coisa?

— Qualquer coisa.
Quando eu disse isso, algo passou pelo rosto dela — algo quente e acolhedor,
mas também triste e doloroso. Então, ela estendeu a mão e segurou a minha.

Ela brincou com meus dedos enquanto olhava para eles. Mas não disse nada.

— Maddy, você está bem? — perguntei.

Ela ergueu a cabeça.

— Não se levante para se despedir de nós amanhã de manhã.

Senti como se tivesse levado um soco no peito.

— Maddy... — sussurrei.

— Eu não consigo me despedir de você, Di.

Droga!

Eu tinha conseguido segurar as emoções quando os caras foram embora, mas


dessa vez não tinha certeza se conseguiria.

— A gente vai dormir como sempre — ela continuou — só que, dessa vez,
mamãe e papai estão aqui. Então, você acorda, e eu já fui.

— Querida... — forcei a voz.

Ela apertou minha mão com força.

— Não me faça me despedir de você. Só me deseje boa noite e vamos fingir que
eu não estou indo embora.

Minha voz saiu rouca, e minha garganta ardia quando perguntei:

— Nosso boa noite pode incluir um abraço?

A resposta dela foi simplesmente se jogar nos meus braços.

Nos abraçamos por um longo tempo, mas, ao mesmo tempo, pareceu durar
apenas alguns segundos.
Quando ela finalmente se afastou, milhões de palavras passaram pela minha
mente, mas nenhuma conseguiu sair da minha boca.

Ela parou na porta, olhou para mim, e eu gravei cada detalhe na memória: sua
pele cor de pêssego e creme, os cabelos loiros bonitos e aqueles olhos azuis tão
lindos.

— Boa noite, Di — ela disse.

Eu estava me desmanchando por dentro, mas consegui responder:

— Boa noite, Maddy.

Ela me deu um de seus sorrisos tímidos e desapareceu pelo corredor.

Abaixei a cabeça nas mãos e quase fui ao chão.

O que me impediu de desabar foi Hugger me pegar no colo e me levar para a


cama.

Assim que nos deitamos, me encolhi contra ele e usei o resto da minha força
para não desmoronar.

— Deixa eles irem — ele sussurrou.

— Amanhã — respondi, com a voz falha.

— Tudo bem, baby — ele concordou.

Ele me manteve firme em seus braços enquanto rolava de um lado para o outro
para apagar as luzes dos criados-mudos.

Só então percebi que ele estava sem camisa... e que seu peito era coberto de
pelos.

Não tinha energia para processar isso. Só tinha forças para sentir Hugger puxar
os cobertores por baixo de nós e nos cobrir.

— Não vou conseguir dormir essa noite — murmurei.


— Ainda bem que você tem folga amanhã, então — ele respondeu.

— Sim... — sussurrei.

Hugger entrelaçou suas pernas longas nas minhas, bem mais curtas, e me
abraçou forte.

Me esforcei para ouvir qualquer som vindo da casa.

Não havia nenhum.

Continuei ouvindo.

E, segura nos braços de Hugger, adormeci assim.

Quando acordei, Hugger estava me abraçando por trás de novo.

Eu sabia que ele percebeu que eu tinha despertado quando seu braço ao meu
redor me puxou ainda mais para perto do seu corpo. E também sabia que ele
entendeu que eu ouvira os ruídos além da porta do meu quarto, pois continuou me
segurando firme.

Eventualmente, o silêncio se instalou, mas meu corpo, tenso dos pés até o topo
da cabeça, permaneceu da mesma forma.

Houve uma batida suave na porta.

Eu não me mexi.

Senti Hugger erguer a cabeça antes de responder:

— Sim?
— Pegamos a nossa garota. Ela está bem — ouvi Big Petey dizer em voz baixa.

— Valeu, irmão — Hugger respondeu.

A porta se fechou com um leve clique.

Virei-me nos braços de Hugger, me aconcheguei ainda mais e deixei as lágrimas


caírem.

Hugger enroscou os dedos nos meus cabelos, me envolveu com força no outro
braço e apenas me deixou chorar.
Capítulo 14
PACIÊNCIA
Hugger

Um alarme disparou, soando como o canto de pássaros.

— Jesus... — Diana acordou com o som de pássaros cantando.

Hugger estava deitado parcialmente de bruços, parcialmente de lado. Diana


estava aconchegada contra suas costas.

Ele sentiu quando ela se mexeu, os lábios macios pressionando sua pele, a voz
suave ordenando que o alarme parasse. Em seguida, ela rolou para fora da cama.

Ele abriu os olhos e viu sua arma sobre o criado-mudo. Desviando o olhar,
observou Diana atravessar o quarto, o short folgado estampado com margaridas
balançando enquanto ela desaparecia atrás da porta do banheiro.

Virando-se de costas, passou as mãos pelo rosto. Quando alisou a barba, seus
olhos encontraram a flor branca tridimensional de Diana pendurada sobre a cama.
Ele sentiu os lençóis macios e o colchão com a mistura perfeita entre firmeza e
conforto.

— Que porra eu estou fazendo? — murmurou para si mesmo.

O barulho do chuveiro ligado veio do banheiro, e ele percebeu que sua ereção
matinal estava ali, bem presente.

— Cristo... que porra eu estou fazendo? — repetiu, de novo em um sussurro.

No dia anterior, o primeiro sem Maddy, as coisas foram tranquilas. Mesmo assim,
Diana passou o dia cabisbaixa, e Hugger gostou de ver que ela não tentava esconder
o quanto sentia falta da garota. Ela não fez drama, mas ele e Big Petey sabiam que
ela estava sofrendo. Não precisavam adivinhar e nem se preocupar se ela estava
reprimindo tudo para depois explodir e machucar quem estivesse ao redor.

Hugger nunca teve um relacionamento que durasse mais de dois meses. Nunca
morou com uma mulher, exceto sua mãe.

Mas sua mãe tinha seus momentos de mau humor.

Assim como ele.

Sempre que ouvia um homem reclamar de uma mulher de temperamento


instável, não entendia. Como se esse cara não tivesse emoções e não as
demonstrasse? Como se a mulher tivesse que flutuar pela vida cantando, sorrindo e
girando como a Bela Adormecida?

Sim, era um saco quando sua mãe ficava irritada.

Mas ela também não gostava quando ele ficava.

Na tarde anterior, Hugger sentiu um calor estranho no peito ao ver como Diana
permitia que Big Petey cuidasse dela.

O cara era o tipo de irmão que qualquer um queria. Quando se tratava do Clube,
Pete não economizava em experiência ou sabedoria.

Mas, no que dizia respeito às mulheres, ele se comportava como um pai, um tio
ou até um avô, oferecendo o que fosse necessário para cada uma delas.

Hugger imaginava que isso vinha do fato de Pete ter apenas uma filha. Se você
era um bom homem, e Big Petey era o melhor, era natural que, ao criar uma menina,
esse instinto surgisse.

Então, Pete estava em seu elemento com Diana.

Na verdade, nos últimos dias, Petey parecia mais ele mesmo, mais tranquilo do
que há muito tempo.
E ia além disso, porque Hugger sabia que Diana percebia e permitia isso.

Porque ela era assim.

Sempre disposta a dar.

Mais tarde, à tarde, receberam notícias de Scott. Maddy e sua família estavam
seguras e acomodadas.

Scott também informou que Imran, Esad e os rapazes de Esad estavam sendo
difíceis de encontrar. No local onde suspeitavam que havia atividade criminosa,
encontraram a casa completamente esvaziada. Porém, havia sinais claros de
ocupação recente - e nada indicava que fosse uma família comum morando ali.

Acreditavam também ter encontrado a cena do crime de Maddy, que, ao que


tudo indicava, fora palco de vários outros crimes. Ainda havia muito a processar.

As investigações estavam avançando. Não rapidamente, mas dentro do


esperado.

Por fim, no dia anterior, Hugger deixou Diana convencê-lo a dormir ao lado dela
mais uma vez.

Para ser honesto, não precisou de muito.

E ela admitiu na hora o que estava fazendo.

— Aviso: manipulação emocional chegando! — ela disse, suavizando o olhar


verde e suplicando: — Por favor, não me faça dormir sozinha esta noite.

Foi só isso.

E, de novo, ele cedeu sem resistência.

Agora, com Maddy fora do alcance dos Babićs, a vida de Diana deveria voltar ao
normal. Eles ainda estavam garantindo sua segurança, mas, sem Maddy na equação,
os Babićs não tinham mais motivo para mexer com Diana.
Armitage era outro caso. Mas Hugger sabia que ninguém chega longe no mundo
do crime desperdiçando tempo e recursos com alguém que só causou um
incômodo passageiro.

Logo, eles provavelmente descobririam que não havia mais razão para Hugger
permanecer em Phoenix.

Exceto Diana.

E não havia nada impedindo que explorassem o que estava acontecendo entre
eles.

Isso o deixava inquieto.

Ele tinha o Clube. Um trabalho que fazia apenas para contribuir com o Clube,
mas que não gostava. Servia para passar o tempo.

Tinha uma casa pela qual não dava a mínima.

Uma conta bancária saudável, porque quase não gastava dinheiro.

E só.

Diana tinha amigos, família, um trabalho que adorava e um apartamento estiloso


que refletia sua personalidade.

Aquela noite, jantariam com o pai dela. Na sexta, ela sairia para tomar coquetéis
com as amigas.

Ela tinha mais compromissos em uma semana do que Hugger tivera nos últimos
seis meses.

E o único evento no qual ele poderia ir era um porco assado do Chaos - um


churrasco da irmandade com suas famílias. Algo que ele poderia ir ou não, tanto
fazia.

Isso não era sobre Hugger.


Ela tinha uma vida.

Ele, uma existência.

Não era muito para oferecer a uma mulher incrível.

Com esse pensamento nada animador, saiu da cama, foi ao banheiro de


hóspedes e depois seguiu para a cozinha fazer café.

Enquanto a cafeteira trabalhava, ele voltou ao quarto para checar o celular.

Assim como nas últimas 24 horas - não de forma exagerada, mas ainda assim
mais do que um simples contato - havia mais uma chamada de Tack.

Hugger estava evitando essas ligações. Tinha seus motivos.

Agora... já não tinha mais.

Mesmo assim, não retornou.

Voltou para o café, viu que estava pronto e serviu duas xícaras. Uma para ele,
outra para Diana.

Levou até o quarto dela e chamou pela porta do banheiro:

— Baby, você está decente? Trouxe café.

Meio segundo depois, a porta se abriu.

Ela estava lá, com o cabelo torcido em uma toalha esquisita e um robe curto
cobrindo o corpo.

O rosto dela parecia brilhante.

Por um momento, ficou parada, olhando diretamente para o peito nu dele.

Sua ereção matinal já tinha passado, mas o jeito que ela o olhava fez com que
ameaçasse voltar.
Antes que precisasse dizer algo para tirá-la do transe - como avisar que, se ela
continuasse olhando para ele daquele jeito, acabaria sendo fodida pela primeira vez
ali mesmo no chão do banheiro, com o rosto brilhando e o cabelo enrolado naquela
toalha estranha - o olhar dela deslizou até a xícara na mão dele.

— Meu Deus, você é demais! — declarou, pegando o café, dando um beijo


rápido na barba dele e voltando para o banheiro, onde a pia estava coberta de
maquiagem espalhada.

Hugger seguiu para a dele.

— Dormiu bem? — Diana perguntou, mexendo o quadril enquanto espalhava


mais alguma coisa grudenta no rosto.

Ele pegou a escova de dentes no copo chique do balcão e respondeu:

— Sim.

— Eu também. Me surpreendeu. Mas fiquei bem melhor depois que Rayne ligou
dizendo que estavam seguros.

Ele passou a pasta de dentes e murmurou:

— É.

Começou a escovar enquanto via Diana mexer nos olhos com um pincel fino,
falando sem parar:

— Então, meu pai quer a gente lá às seis e meia. Acho que deveria levar alguma
coisa, tipo um gesto de "eu vim em paz". Mas ele é um cara, então acho que flores
não rolam, apesar de ele ter flores frescas espalhadas pelo escritório. Ele gosta de
gim... talvez um Hendrick’s25. Mas ele pode comprar o próprio gim. Apesar disso, é o
gesto que conta, né?

Hugger cuspiu, enxaguou e, antes de lavar o rosto, respondeu:

25
Hendrick’s é uma marca premium de gin escocês, conhecida por seu sabor diferenciado e
embalagem vintage.
— Acho que a única coisa que ele quer que você leve é você.

Ela ficou em silêncio por um momento.

— Certo... — murmurou.

Ele secava o rosto com a toalha quando se virou e a viu de novo, concentrada
com aquele pincel fino.

Ela também não parecia se incomodar com o fato de ele estar bem ali.

— Você já morou com um homem antes, baby? — ele perguntou em um tom


baixo.

Com um pincel fino apontado para a pálpebra, ela virou a cabeça na direção
dele.

— Sim. Duas vezes.

Ela voltou a atenção para o espelho.

— O primeiro, eu peguei trocando mensagens e enviando conteúdos eróticos


com a namorada do colégio, que tinha se mudado para a Virgínia. Eles não estavam
envolvidos fisicamente, mas estavam completamente imersos emocionalmente.
Terminei com ele. Ele reagiu como se o mundo tivesse acabado, mas, em menos de
um mês, conseguiu um emprego na Virgínia e se mudou para ficar com ela.

Ela trocou de pincel, pegou uma caixa estreita e comprida do balcão, abriu-a
para revelar várias sombras em tons semelhantes e voltou ao que estava fazendo.

— Eles ficaram noivos — continuou. — Um mês antes do casamento, ele a pegou


na cama com o cara que ela tinha deixado para ficar com ele. Porque, sim, enquanto
trocava mensagens e enviava conteúdos eróticos com meu ex, ela ainda estava com
outro. Ele os pegou juntos na cama que dividia com ela. O casamento não foi
cancelado. Ela simplesmente se casou com o outro cara no dia da cerimônia. Meu ex
ficou tão humilhado que voltou para Phoenix. Tentou reatar comigo, mas isso
definitivamente não ia acontecer.
Hugger agora estava encostado na pia do banheiro dela, os braços cruzados
sobre o peito, observando-a se maquiar enquanto ouvia.

— História maluca, baby. Mas parece que você escapou de uma grande
confusão.

— Pois é — ela concordou. E, como parecia ser sempre o caso com Diana,
continuou falando. — O outro cara... Bom, simplesmente não éramos feitos um para
o outro. Foi estranho, mas os dois perceberam ao mesmo tempo que só estavam
levando o relacionamento no automático. Ele sugeriu que tivéssemos uma conversa
na mesma noite em que eu estava planejando falar com ele sobre isso.

Ela deu de ombros e trocou de produto.

E continuou falando.

— Ainda somos amigos... mais ou menos. Quer dizer, se eu o encontrasse por aí,
seríamos cordiais um com o outro. Mas não saímos juntos nem nada.

— Certo — ele murmurou.

— E você? — ela perguntou, ainda olhando para o espelho.

— O quê?

Ela se virou para ele.

— Já morou com alguém?

— Minha mãe. Alguns colegas de quarto. Mas nenhuma mulher — ele admitiu,
sentindo-se um pouco desconfortável.

As sobrancelhas dela se arquearam.

— Quantos anos você tem?

— Trinta e cinco. E só para você saber, nunca tive uma mulher na minha vida por
mais de alguns meses também.
Agora ela o encarava.

— Sério?

Ele assentiu.

— Você é doce. Protetor. Insanamente atraente. Traz café para uma garota.
Então, a pergunta que não quer calar: por que diabos não?

Aquilo fez ele se sentir bem.

Muito bem.

Mas era uma excelente pergunta.

A única que chegou perto foi Mandy. Ela era incrível. Um sorriso lindo. Ótima na
cama. Tinha a vida sob controle.

Mas se tivesse dado certo com Mandy, ele não teria uma chance com Diana.
Então, no fim das contas, era melhor assim.

— Harlan? — Diana chamou.

Ele se concentrou nela e respondeu baixinho:

— Acho que isso faz parte das coisas que eu não queria despejar em você, baby.
E a gente precisa conversar sobre isso, porque agora que estamos sem distrações,
temos que entender o que é isso e o quanto estamos dispostos a lutar por nós.

— Acho que eu já sei o quanto quero lutar por isso — ela declarou.

Agora ele se sentia ainda mais desconfortável.

— Baby...

Ela balançou a cabeça e voltou a encarar o espelho, interrompendo-o.

— Essa não é uma conversa para agora. Vamos ter um dia normal, tirando o
jantar com meu pai, claro. Podemos marcar um momento para falar sobre isso
depois. Estou pensando no sábado. Não, melhor não... sábado tem que ser um dia
divertido. Vamos deixar para domingo.

Hugger sorriu de canto.

— Certo. Então, temos um encontro para conversar sobre isso no domingo,


daqui a quatro dias. Sendo que estamos praticamente morando juntos e eu vou
trabalhar com você, ou seja, teremos muito tempo para falar.

Ela aplicava blush com um pincel maior.

— Mas vamos falar disso no domingo.

— Certo — ele repetiu.

— Quer que eu leve minha maquiagem para o quarto para você poder tomar
banho?

— Posso tomar banho no banheiro de hóspedes.

Ela se aproximou do espelho para ter uma visão melhor do que estava fazendo, o
que fez seu belo traseiro empinar um pouco. Enquanto isso, murmurou:

— Beleza, querido.

Ele gostou de vê-la assim, com o robe curto subindo levemente. Gostou que ela
o chamasse de querido. Também gostou do fato de que ela parecia completamente
à vontade se maquiando enquanto ele escovava os dentes ao lado dela, naquele
banheiro bonito, com puxadores de vidro dourado nos armários azul-celeste. O
papel de parede azul, dourado e branco tinha um design geométrico, mas também
flores. Mais flores, essas artificiais, mas incrivelmente realistas, em um pequeno
arranjo entre a pia dele e a dela.

Este espaço, como todos os outros que pertenciam a ela, refletia sua essência.
Elegante, inteligente e sofisticado, mas cheio de personalidade. Atraente. Acolhedor.
E ele se sentia bem ali.
O que ele não gostava era da certeza de que era um homem sem muito a
oferecer, enquanto ela era uma mulher que merecia tudo.

Mas isso era uma conversa para o domingo.

Agora, ele precisava de um banho.

No pequeno estacionamento em frente ao trabalho dela, Diana desceu da moto


assim que necessário, antes que ele balançasse a perna para desmontar.

Hugger fez isso sem tirar os olhos dela, gostando não só da sensação de tê-la na
garupa da moto com ele, mas também do que via.

Ela vestia uma calça marrom de pernas largas, presa por um cinto preto largo nos
passadores, uma blusa preta justa sem mangas e sapatos de salto preto brilhantes,
com uma tira sobre o peito do pé.

Nunca em sua vida Hugger tinha visto uma mulher vestida assim para o trabalho
e, ainda assim - não, na verdade, especialmente por isso - diabolicamente atraente. E
não era só pelo fato de que Diana tinha subido na garupa da moto daquele jeito,
como se estivesse acostumada a andar com ele há anos.

Mas, desde que Maddy se foi, tudo em Diana parecia atraente para ele. No
fundo, ele sabia que sempre tinha sido assim. Só que todas as merdas que estavam
acontecendo com Maddy antes distraíam sua mente disso.

Agora, porém, ele tinha um trabalho a fazer, e esse trabalho não envolvia ficar
observando os seios de Diana balançarem enquanto ela ajustava a grande bolsa
preta no ombro.

Ele escaneou a área quando chegaram e fez isso de novo enquanto caminhava
até ela, pegando sua mão para seguirem até a porta da frente.
Sentiu um leve estremecimento nos dedos dela quando os segurou, então olhou
para baixo.

— Tudo bem? — perguntou.

— Para alguém que não é muito de contato físico — ela apertou a mão dele e
lhe deu um sorriso brilhante — você até que é bem tocador.

Ele não era.

Mas simplesmente não conseguia manter as mãos longe dela.

— Isso te incomoda? — ele perguntou.

— Não, querido, eu adoro — ela murmurou, ainda sorrindo enquanto empurrava


a porta e os levava para dentro da pequena e organizada recepção do trabalho dela.

Da última vez que ele esteve ali, o lugar parecia pouco usado.

Agora, havia uma mulher atrás do balcão da recepção, parecendo estar


vasculhando o local em busca de documentos sigilosos para roubar.

Hugger era um motociclista. Isso significava que ele era do tipo viva e deixe viver.
Antes disso, tinha sido segurança.

Ele já tinha visto de tudo.

Mas a mulher atrás do balcão fez ele olhar duas vezes.

Ela era magra como um graveto, baixinha e vestia um suéter preto de gola alta.
Seu cabelo, um cinza metálico, estava penteado com uma parte da franja enrolada
para dentro, num daqueles estilos grandes dos anos 40. O resto estava preso com
uma faixa larga e preta, caindo em cachos suaves sobre os ombros. E, seja
naturalmente ou por escolha, uma faixa de cabelo preto passava pelo cinza bem
acima do olho esquerdo.

Usava óculos de armação preta, com lentes tão pequenas e redondas que
pareciam inúteis para corrigir qualquer visão.
O traço vermelho que era sua boca brilhava intensamente contra a pele branca
de vampiro, que ele podia ver que era assim tanto por sua cor natural quanto pela
maquiagem que usava. Sua pele começava a enrugar em alguns pontos, revelando
sua idade, e ela parecia tranquila com isso.

Ela também usava aquele delineado preto que as mulheres estavam fazendo
ultimamente, com um puxado no canto dos olhos, mas o dela era tão pronunciado
que chegava a parecer quase exagerado mas, contra todas as probabilidades, ela
fazia funcionar.

Ela não passava nem de longe uma vibe de normal, o que foi parte do motivo
pelo qual Hugger gostou dela imediatamente. A outra parte era que ela parecia ser
do tipo de pessoa que valia a pena conhecer.

— Ei, Annie — chamou Diana. — Procurando alguma coisa?

Annie levantou a cabeça num sobressalto, como se não tivesse ouvido a porta se
abrir e duas pessoas entrarem. Depois, encarou os dois como se não soubesse o que
eram seres humanos (ou talvez porque não conseguisse vê-los direito através das
lentes minúsculas dos óculos).

Um total branco.

Tanto para Hugger quanto para Diana, que trabalhava ali.

Algo pareceu se encaixar na cabeça de Annie, e ela finalmente respondeu:

— Ah, oi, Diana.

Diana o puxou para o outro lado do balcão.

— Está procurando alguma coisa?

A mulher pareceu extremamente confusa.

— Estou?

Diana apontou para a mesa da recepção.


Annie olhou para baixo, como se esperasse encontrar algo ali, mas não viu nada.
Nem mesmo a mesa.

Jesus Cristo.

Diana já tinha avisado que a chefe era um pouco distraída, mas pelo amor de
Deus!

— Ah! — Annie exclamou, de repente. — Isso! Estou procurando a fatura da


Bernardi.

— Eu enviei na semana passada — Diana informou. — Está na planilha.

Annie levantou os minúsculos óculos e encarou Diana.

— Eles já pagaram?

— Não sei. Eles pagam por cheque. Mandei na quinta-feira e fiquei fora nos
últimos dois dias.

Annie desviou o olhar para a porta e murmurou:

— Esqueci de pegar o correio.

Que surpresa.

— Eu pego — Diana ofereceu.

— Eu pego — Hugger declarou.

Diana olhou para cima. Annie olhou para cima.

Diana percebeu o olhar curioso de Annie para Hugger e explicou:

— Annie, este é o Hugger. Houve uma situação com um dos clientes do meu pai.
Uma possível ameaça. Não é nada confirmado — acrescentou rapidamente, embora
Annie não tenha demonstrado a menor reação à palavra ameaça. — Então, até
termos certeza de que não há risco, Hugger vai me acompanhar. Espero que esteja
tudo bem para você.
— Você pode pegar o correio? — foi a única coisa que Annie perguntou.

O que ela não perguntou foi nada sobre essa tal situação ou sobre o fato de sua
única funcionária precisar de um segurança.

Caramba, essa mulher é uma peça.

— Sim — respondeu Hugger.

— Ótimo — disse Annie e voltou a olhar para a mesa. — Agora, o que mesmo eu
estava procurando?

Santo Deus.

Ele ouviu Diana conter uma risada.

Hora de passar por cima da distração total de Annie.

— Onde fica a caixa de correio? — perguntou para Diana.

Ela foi até a mesa, abriu uma gaveta, pegou um chaveiro com uma pequena
chave e entregou a ele.

— Fica do lado de fora do prédio, à direita da porta, se você estiver de frente


para ela.

— Entendi — murmurou, saindo.

Quando voltou com o correio, Annie já tinha sumido e Diana, sem a bolsa, o
esperava na porta do estúdio.

Ele caminhou até ela, e Diana ergueu a mão para pegar as cartas quando ele se
aproximou.

— Como essa mulher consegue administrar um negócio? — ele perguntou,


enquanto a acompanhava para dentro do estúdio e ela examinava as
correspondências.
— Não muito bem, antes de me contratar — respondeu Diana. — Dei uma
olhada nos arquivos de funcionários, e ela teve várias outras pessoas antes de mim,
mas nenhuma ficou muito tempo, provavelmente porque ela as enlouquecia. No
começo, ela me enlouquecia também. Aí, propus assumir a parte administrativa se
ela aumentasse meu salário um pouco para compensar essas novas
responsabilidades. Eu ganhei um valor justo pelo trabalho extra, ela não precisa se
preocupar com isso, o negócio funciona melhor e eu gosto da autonomia que a
distração dela me dá.

Lá estava de novo.

Diana cuidando de alguém.

Mas, pelo menos dessa vez, sendo paga por isso.

Ela parou de mexer nas cartas e seguiu para o outro lado do estúdio, ainda
falando:

— Temos uma planilha compartilhada sobre os projetos, então eu sei no que ela
está trabalhando, o mesmo vale para mim, além do progresso, prazos previstos de
conclusão, estimativas de trabalho, faturas enviadas e pagas. Dessa forma, se ela
lembrar de conferir, sabe que estou fazendo meu trabalho e que estamos
recebendo. Ela tem um contador, então não preciso lidar com dinheiro, além de
depositar um cheque ou garantir que recebemos o pagamento pelo PayPal ou
Venmo26. Não tenho horários fixos. Tenho projetos fixos. E eu gosto disso.

— Parece um bom esquema, baby — Hugger comentou, observando-a se sentar


à pequena escrivaninha posicionada na diagonal no canto, longe da bagunça de
cavaletes, mesas, luminárias, potes, jarras e instrumentos.

Mas, ao mesmo tempo, sentiu algo ruim se formar dentro dele.

Porque ela não só estava fazendo o que gostava, como também tinha liberdade
para isso, sem ninguém pegando no seu pé.

26
PayPal e Venmo são serviços de pagamento digital usados principalmente nos Estados Unidos e em
outros países para transferências de dinheiro, compras online e pagamentos entre pessoas.
Sim, a mulher que ele conheceu na recepção era completamente avoada, mas, se
ela deixava Diana seguir com seu trabalho em paz, isso parecia o emprego perfeito
para ele.

Ele sabia disso porque fazia parte do seu trabalho.

Di pegou um abridor de cartas e começou a abrir a correspondência.

Hugger seguiu até a cadeira que havia colocado perto da janela. Sentou-se,
apoiou as botas no parapeito e manteve os olhos fixos lá fora, permanecendo assim
até que Di se afastou da mesa e foi até o cavalete onde estava trabalhando em uma
pintura.

— Pensei em irmos ao Taco Chelo27 para almoçar hoje — comentou ela.

Claro que ela queria sair para comer tacos.

Ele sentiu os lábios se curvarem em um sorriso, mas conteve o gesto ao se virar


para ela.

— Há quanto tempo você trabalha aqui, baby? — perguntou.

— Quatro anos — respondeu, ainda concentrada na pintura. — Como precisei


sair da faculdade por causa da situação com meu pai, levei um ano a mais para
terminar o bacharelado, mesmo fazendo matérias no verão. O estágio acrescentou
mais seis meses até eu concluir o mestrado. Annie é meu primeiro emprego na
minha área.

Então, ela tinha um mestrado.

Droga.

— Você se saiu bem — murmurou ele.

Ela parou de girar um cotonete na boca e sorriu para ele.

27
Taco Chelo é um restaurante mexicano localizado em Phoenix, Arizona, conhecido por sua comida
autêntica, inspirada na culinária de rua do México.
— Tá com a vida feita — declarou ele.

Ela se inclinou sobre a pintura, usando o cotonete para trabalhar nos detalhes.

— Nem tanto. Embora Annie pague bem, já que aceita encomendas particulares
de quem pode bancá-las, o sonho de qualquer conservador de arte é conseguir uma
vaga em um museu. Sempre dou uma olhada na página de carreiras do Museu de
Arte de Phoenix, mas, até agora, nada surgiu.

— Museu de Arte de Phoenix?

— Isso. Fora trabalhar no Museu Metropolitano de Arte ou em algum dos


museus Smithsonian28, que seria um sonho, aqui na região esse seria o lugar onde
eu gostaria de estar — explicou. — Não me entenda mal, este trabalho é bom e eu
amo o que faço. Mas a diversidade de obras com as quais eu teria contato, as coisas
que poderia aprender e a interação com outros profissionais fazem falta aqui.

Ela lançou-lhe mais um sorriso.

— Não que Annie não seja amigável. Mas... bem, ela é a Annie.

Aquela mulher definitivamente era… Annie.

— Você teria uma redução no salário se fosse para um museu? — ele perguntou.

Ela girou o outro lado do cotonete na boca, depois o tirou e voltou à pintura.

— Sim. Então, para ser sincera, talvez isso nunca aconteça. Minha situação
financeira é estável, mas se eu ganhasse menos, as coisas ficariam apertadas.

Não se ela dividisse as despesas pela metade, tendo um homem ao lado.

Ele voltou a olhar para a janela, pensando que o Museu de Arte de Denver
deveria ser incrível. Nunca tinha ido, mas sabia onde ficava e era seu prédio favorito
na cidade. Parecia uma espaçonave cinza. Era simplesmente irado.

28
O Smithsonian Institution é um complexo de museus, centros de pesquisa e um zoológico
administrado pelo governo dos Estados Unidos.
— Quando não estou nesse trampo, trabalho como vendedor na Ride – Loja de
Autopeças, que pertence ao Clube — disse ele, ainda olhando para a janela. — E
moro em uma casa minúscula de dois quartos, que mobiliei de uma vez só com
coisas de um brechó beneficente.

Sem resposta, ele se virou e viu que Di o observava.

— Domingo — disse ela.

Certo.

Mas ela precisava saber com o que estava lidando no domingo.

— Baby, os irmãos dividem os lucros igualmente e temos várias lojas de


autopeças. Além disso, as customizações da oficina trazem uma grana alta. Não
estou quebrado. Mas não vivo como você.

— Então, se quisesse viver como eu, poderia, porque tem dinheiro para isso. Só
não se importa tanto, então não faz.

— Quer mesmo saber? — ele perguntou.

— Claro — ela confirmou.

— Nunca tive uma vida boa como a sua, então nem parei para pensar nisso,
embora muitos dos irmãos, principalmente os que têm esposas, vivam no luxo.

— E você gosta desse luxo? — ela perguntou suavemente.

A casa dela?

O cheiro do cabelo e do perfume dela nos lençóis macios?

Uma refeição caseira todas as noites?

Porra, sim.

— Com certeza vou dar uma olhada em alguns rolos de papel de parede quando
chegar em casa — brincou ele.
Ela sorriu de novo e voltou à pintura.

— O que você queria ser quando crescesse?

Hugger desviou o olhar para a janela.

Queria que sua mãe estivesse segura, longe do domínio de algum cafetão.

Quando o Chaos entrou na vida dela pela segunda vez, eles a libertaram do
último cafetão, a ajudaram a se estabelecer para que pudesse ter seus próprios
clientes e trabalhar por conta própria.

Depois disso, ele só esperava não crescer e se tornar como seu pai.

— Harlan? — Di o chamou.

— Nunca parei para pensar nisso — respondeu, ainda olhando para a janela.

O silêncio que se seguiu pesou no ar, mas ele deixou assim.

Porque, sim.

No domingo, ela precisava saber com quem estava lidando.

Estavam em uma fase em que ainda não tinham tido muito tempo juntos. Assim,
quando conversassem no domingo, se isso não levasse a nada, ela não sentiria que
perdeu tempo com ele.

Enquanto isso, ele poderia aproveitar os próximos quatro dias com ela. Ter seu
tempo. Seus sorrisos. Estar ao lado dela quando se encontrasse com o pai.

E decidiu, naquele momento, que isso bastava para ele.

Hugger nunca teve muito na vida, e não era exagero dizer que os últimos seis
dias com Di foram os melhores que já teve, sem comparação. E nem sequer tinha
dormido com ela ainda.

Então, pegaria o que pudesse de Diana Armitage. Depois, sairia da vida dela
quando percebesse que ele era um problema que não valia a pena.
Com esse pensamento, que não era feliz, mas também não era incomum para
Hugger, ele pegou o celular para jogar paciência enquanto ela limpava uma pintura
feia pra caralho.

No almoço, foram ao centro da cidade para um lugar que fazia tacos excelentes,
com tortilhas frescas, assadas na grelha na hora. Hugger notou que, em uma cidade
que parecia um interminável conjunto de centros comerciais, ainda era possível
encontrar comida realmente boa.

No caminho de volta para o trabalho dela, eles pararam em uma loja da Total
Wine para que ela pudesse comprar uma garrafa de gim para o pai.

Ela retomou a pintura.

E ele voltou para algo familiar.

Paciência.
Capítulo 15
ALGO GRANDE
Diana

— Você não precisa trocar de roupa! — gritei pelo corredor.

— Eu não estou trocando.

Precisávamos sair logo para o jantar.

Eu estava na cozinha, tentando amarrar um laço ao redor da garrafa de gim do


meu pai. Talvez fosse exagero, mas eu estava nervosa.

Primeiro, porque não queria que meu pai fosse um idiota com o Hugger. Se isso
acontecesse, a noite acabaria ali mesmo, porque eu não toleraria.

Também não queria que ele fosse um idiota comigo. Claro, isso seria péssimo
para mim, mas o que realmente me preocupava era como o Hugger reagiria. E,
sinceramente, nem eu nem meu pai queríamos descobrir - embora eu suspeitasse
que ele quisesse menos do que eu.

Além disso, eu estava preocupada com o Hugger.

Desde que Madison foi embora, ele havia mudado. Havia algo quase fatalista
nele.

Claro, eu entendia que nosso começo tinha sido estranho. Nunca tivemos um
encontro de verdade. Trocamos um beijo. A polícia e o FBI estavam envolvidos nas
nossas vidas. E agora, estávamos morando juntos, dormindo juntos, mas sem a parte
divertida do sexo que, normalmente, viria com isso.

E, para completar, nosso caminho era cheio de obstáculos.


Hugger teria que voltar para casa.

Eu teria que ficar aqui.

O que eu sentia ao pensar nisso era ódio. Ódio pelo simples fato de saber que,
em algum momento, ele iria embora.

Só isso. Ele partir.

Era o quanto eu já estava acostumada com a presença dele.

E o quanto eu gostava disso.

A ideia de termos que nos conhecer melhor por chamadas de vídeo e


mensagens, tentando encaixar visitas e lidando com os custos disso, tornava tudo
pior.

Eu não sabia nada sobre clubes de motociclistas, além do que aprendi assistindo
àquele documentário sobre o Chaos. Mas eu suspeitava que, se você fazia parte de
um, esperavam que estivesse lá, e não morando com alguma garota em outro
estado. O documentário praticamente confirmou essa suspeita.

Quanto a mim, bem... empregos na área de conservação e preservação de arte


não surgiam do nada. Eram raros.

Minha vida estava aqui. Morei aqui a vida toda, exceto pelo período em que vivi
em Londres.

Mas eu amei o tempo que passei em Londres. A comida diferente, o clima, as


pessoas.

Ah, meu Deus... eu estava me tornando uma daquelas mulheres que começam a
procurar motivos para largar tudo por um homem.

E o pior? Eu estava considerando fazer isso por um cara que eu nem conhecia há
uma semana inteira.
— Você também está linda e bem arrumada — a voz do Hugger me tirou dos
meus pensamentos.

Olhei para cima, largando a tentativa frustrada de dar o laço, e o vi entrando na


cozinha.

Ele usava um jeans bonito e uma camisa de botão cor de caramelo, que
destacava o bronzeado da sua pele. Seu cabelo, loiro-escuro, estava preso para trás,
afastado do rosto, diferente do que costumava ser. Não parecia ter nenhum produto
nele. Estava seco, mas não caía nos olhos, e havia pequenas ondulações charmosas
nas pontas.

Ao ver Hugger assim, com essa versão dele arrumado, apertei as coxas juntas e
rezei para que o bojo do meu sutiã estivesse cumprindo sua função.

— Não dá pra conhecer o pai da sua namorada parecendo um desleixado — ele


concluiu, parando ao meu lado.

— Você nunca parece desleixado — retruquei.

— Você entendeu o que eu quis dizer.

Sim, eu entendi. E significava muito para mim que ele estivesse se esforçando.

Hugger, aliás, era todo sobre esforço. Trazia café para mim, ajudava com a louça,
arrumava a cama (e de um jeito tão perfeito que eu congelei por uns bons trinta
segundos de choque ao ver que ele a fez exatamente como eu faria, enquanto eu
terminava meu cabelo naquela manhã).

Eu mal podia acreditar que ele nunca tinha morado com uma mulher antes. Ele
agia como alguém que foi muito bem treinado.

Por outro lado, era óbvio que sua mãe significava o mundo para ele. Talvez tenha
sido ela quem fez esse trabalho.

Se foi o caso, eu agradecia. Porque, pelo que vi até agora, ela fez um trabalho
excepcional.
Ainda assim, mesmo sabendo que ele não escondia nada, percebia que, às vezes,
se sentia desconfortável com algumas conversas. Por isso, perguntei com cautela:

— Você já conheceu muitos pais?

— Namorei bastante no ensino médio — ele respondeu, tranquilo. — Pais de


adolescentes gostam de conhecer os caras com quem as filhas estão saindo. Então,
sim. E também conheci os pais da Mandy.

— Mandy?

— A mulher que durou uns dois meses.

— Ah.

— Você está pronta pra ir? — ele perguntou.

Pelo visto, não íamos mais falar sobre isso.

— Preciso amarrar esse laço — respondi.

Ele olhou para a garrafa.

— Por quê?

Ótima pergunta.

Arranquei a fita e peguei a garrafa.

— Pronta pra ir — anunciei.

Ele sorriu, mas logo franziu a testa.

Entendi o motivo quando disse:

— Acho que vamos ter que ir no seu carro.

Caí na gargalhada.

Quando recuperei o fôlego, falei:


— Acho que só precisamos ser nós mesmos para o meu pai. Podemos ir na sua
moto.

— Me dói dizer isso, e vou negar até o fim da minha vida, mas eu não arrumei
meu cabelo à toa pra bagunçar tudo na moto indo pra casa do seu pai.

Dessa vez, eu ri ainda mais.

E, nossa... Aquilo aqueceu várias partes do meu corpo, principalmente o coração,


porque estava claro que ele queria causar uma boa impressão no meu pai.

Hugger pegou minha mão, me guiou até minha bolsa, soltou minha mão para
me entregá-la, e eu a joguei no ombro. Ele segurou minha mão de novo e saímos.

— Eu vou dirigir — ele anunciou quando entramos no elevador.

Antes que eu pudesse questionar, ele se adiantou e puxou as chaves da minha


mão. Eu as tinha pego na bolsa para destravar a porta da garagem.

— Você não sabe onde meu pai mora — apontei o óbvio.

— Você tem boca. Pode me guiar — ele rebateu.

— Mulheres dirigem desde que os carros foram inventados — argumentei.

— Eu sei — ele respondeu, enquanto as portas do elevador se abriam.

E não disse mais nada.

Apenas segurou minha mão de novo e me puxou para fora.

— Então me explica por que, aparentemente, eu não posso dirigir meu próprio
carro? — perguntei, enquanto ele nos levava para a garagem.

Ele parou e olhou para mim. Como ainda estávamos de mãos dadas, eu também
parei e olhei para ele.

— Não. Não tenho absolutamente nenhuma explicação racional pra isso.


Bem, pelo menos ele foi honesto.

Ele voltou a andar.

— O que eu posso dizer é que nunca tive uma mulher pra chamar de minha, mas
sei que algumas coisas precisam acontecer se eu tiver.

Oh.

Interessante.

— E quais são essas coisas? — perguntei, tentando não parecer muito ansiosa
por essa informação.

— Eu dirijo.

Franzi a testa.

Ele sorriu e acrescentou:

— E ela não tira o lixo. Nunca.

Hmm. Gostei disso.

Não sei se alguém gosta de tirar o lixo, mas o que eu sabia era que eu
definitivamente não gostava.

— A menos que ela entenda do assunto, qualquer veículo que tivermos será da
minha responsabilidade — ele continuou.

Gostei disso também, porque eu não entendia nada do assunto, mas


principalmente porque manutenção e compra de veículos eram uma baita dor de
cabeça.

— Não cuido do jardim, mas ela também não vai. Vamos contratar alguém —
seguiu ele.

— E se ela gostar de cuidar do jardim? — perguntei, apesar de nunca ter feito


isso na vida e torcendo para nunca precisar.
Ele estreitou os olhos para mim.

— Você gosta de jardinagem?

— Nunca fiz, mas, ainda assim, posso afirmar com segurança que não gosto.

— Então, nesse contexto, a sua pergunta faz sentido?

— Meio que faz. Quero dizer, se ela gostar de cortar grama e aparar tudo, você
não deixaria?

Ele pensou um pouco.

E então disse:

— Sim, mas nesse caso, eu teria que fazer junto com ela.

— Por quê?

— Vários motivos.

— Cite dois — desafiei.

— Um: porque, mesmo que ela goste, ainda é trabalho. E quando você trabalha,
pode acabar se sentindo sobrecarregado, achando que está fazendo mais do que
deveria. Então, eu ajudaria para que ela não sentisse que estava carregando o fardo
sozinha.

Essa foi uma resposta absurdamente boa.

— Dois — ele continuou — porque se ela for minha mulher, eu provavelmente


gosto de passar tempo com ela. Então, mesmo que eu não curta tudo que ela curte,
a gente encontraria maneiras de ficar juntos.

Meu Deus do céu.

Essa também foi uma resposta absurdamente boa.

Como esse cara conseguia ser tudo isso que ele era?
— Terminamos seu interrogatório? — ele perguntou.

— Eu não estava interrogando você — declarei.

Ele inclinou a cabeça de lado, e um sorriso torto surgiu em seus lábios.

Revirei os olhos e puxei sua mão para que voltássemos a caminhar, admitindo:

— Ok. Interrogatório leve. Relaxa. Não cheguei a usar instrumentos de tortura


medieval. — Fiz uma pausa para dar um efeito cômico. — Dessa vez.

Ele riu e destravou as portas do meu carro.

Entrei no lado do passageiro do Baby Shark, um lugar que eu nunca tinha


ocupado antes.

Era confortável.

Enquanto colocava o cinto, Hugger ajustava o banco do motorista antes mesmo


de tentar entrar.

Parecia não ter muita dificuldade, mas, depois que fechou a porta, ficou claro que
ele estava espremido ali dentro.

E agora eu estava considerando comprar um carro novo... para um homem.


Mesmo que o carro fosse meu e ele só dirigisse de vez em quando.

Que loucura.

Eu estava completamente envolvida.

Mas, no fundo, eu não me importava.

Não.

Eu fingia me importar, porque sentia que deveria, mas, na verdade, parecia


absolutamente certo estar envolvida assim com Hugger.

— Você está confortável? — perguntei, enquanto ele prendia o cinto.


— Não. Porque estou morrendo de medo de que algum dos motoristas malucos
de Phoenix nos faça virar parte dessa sucata de metal.

Foi aí que soltei uma risada e me inclinei para programar o endereço do meu pai
no GPS, para que Hugger pudesse nos levar sem precisar que eu o guiasse.

Seguimos caminho.

— Você só tem a sua moto? — perguntei.

— Não. Em Denver, temos todas as estações do ano, então também tenho uma
caminhonete.

— De que cor?

— Prata.

— Você gosta de neve?

— Lanie e Hop têm uma casa em Vail. Eles deixam qualquer um usar quando não
estão lá. Gosto de ir para lá quando neva. Fica afastada das pistas de esqui. É
tranquila. Parece ainda mais tranquila quando a neve cobre tudo.

Eu conseguia imaginar isso.

— Mas não gosto de dirigir na neve — ele acrescentou. — Sei como fazer isso,
mas os outros não. Eles são o problema, e você não tem controle sobre isso.

— Nunca dirigi na neve, e preciso de uma jaqueta se a temperatura chegar perto


dos vinte e um graus. — compartilhei.

Ele caiu na gargalhada.

Eu me deleitei com isso, porque estava percebendo que ele não ria tanto assim.

Havia sorrisos, risadas baixas, mas não muita gargalhada.

No meio disso, ele perguntou:


— Vinte e um graus?

— Tenho sangue de garota do deserto.

— Pelo visto, sim — ele murmurou, soltando uma risada e repetindo: — Vinte e
um graus. Você deve ter passado um inferno em Londres.

— Estranhamente, não. Aprendi a apreciar muito os pulôveres e as botas.

— Pulôveres?

— É como eles chamam os suéteres.

— Por que chamam assim?

— Não faço ideia. Mas foi divertido aprender todas as palavras diferentes que
eles usam para as coisas — comentei e, então, perguntei: — Você já saiu do país?

Ele fez uma curva na Lincoln Drive.

— Nunca.

— Já teve vontade?

Ele se remexeu no banco e respondeu:

— Nunca parei pra pensar nisso.

Ele também "nunca parou pra pensar" no que queria ser quando crescesse.

Fiquei alarmada ao descobrir isso. Assim como me alarmava o fato de ele nunca
ter pensado em viajar para fora dos Estados Unidos.

Se ele dissesse: "Não tem nada lá fora que eu queira ver, esse país já é incrível",
eu até entenderia, mesmo sem concordar, porque eu queria conhecer o mundo
todo. Isso fazia parte de mim. Fazia parte do motivo de eu ter me tornado quem
sou.
— Eu já tinha ido a Londres — compartilhei. — Meu pai me levou quando eu
tinha, sei lá, acho que treze anos. Também fizemos um cruzeiro pelo Reno quando
eu tinha quinze. Começou em Amsterdã e passou pela Alemanha, Bélgica e Suíça. E,
no meu aniversário de dezesseis anos, ele me deu uma viagem para a Itália. Roma,
Milão, Florença. Ver a arquitetura, visitar os museus... foi isso que me fez decidir
seguir a carreira que tenho hoje.

— Qual foi seu lugar favorito?

— Provavelmente Florença, por causa da arte. Mas a Suíça é absurdamente linda,


então diria que lá, pelo cenário. Lucerna, sério, é simplesmente mágica.

— Você voltaria ou prefere conhecer lugares novos?

— Ambos. Mas os novos primeiro.

Fiz uma pausa antes de perguntar:

— E você? Iria?

— Porra, com certeza — ele disse. — Alugar uma moto e viajar pela Europa.
Aposto que seria foda.

Relaxei.

Porque sim.

Seria foda.

— Você se divertia com seu pai nessas viagens? — ele perguntou.

Pensei um pouco e, então, fui eu quem se mexeu no banco.

— Sim — respondi, percebendo que, de tanto segurar meu rancor, havia


esquecido de algo importante. — Ele é um homem diferente longe do escritório, e
ama viajar. A família dele nunca passou necessidade, mas também não tinha muito
dinheiro, e ele sempre quis conhecer outros lugares. Claro que tinha um pouco do
jeito dele... Ele queria que eu experimentasse coisas fora da minha rotina, então
sempre me incentivava a provar comidas que eu não tinha certeza se queria. E, por
mais que eu gostasse, ele poderia passar anos em museus, o que, quando se é
criança, acaba ficando cansativo. Mas ele dizia que a mente de uma pessoa se
estreita quando o mundo dela se estreita. Quando ela não viaja, não experimenta
comidas diferentes, não se abre para novas experiências, como música, teatro, ou o
que for. Nós costumávamos ter uma...

Interrompi a frase de repente.

Tinha me esquecido disso também.

E eu adorava fazer isso com meu pai.

Hugger estendeu a mão para mim, palma para cima.

Coloquei a minha sobre a dele.

Assim que ele fechou os dedos em volta da minha mão e a apoiou na sua coxa
(muito firme, como eu já tinha descoberto com todos os nossos momentos de
aconchego), ele perguntou suavemente:

— Vocês costumavam ter o quê?

— Noite de filme todo mês — respondi com a voz falhando, depois limpei a
emoção repentina da garganta. — Era sagrado. Mesmo que ele estivesse envolvido
num grande caso, sempre separava duas horas para assistir a um filme comigo. Um
mês era a escolha dele, e eu tinha que assistir, gostasse ou não. No outro mês, era a
minha vez, e valia o mesmo. Fizemos isso desde que me lembro. Até antes do
divórcio dos meus pais. E foi a última coisa que fizemos juntos, na noite antes de ele
me levar para a faculdade. Era o nosso momento.

— Ele escolhia filmes bons?

— É assim que conheço Monty Python. Então, é... — respondi.

Os dedos dele se apertaram um pouco mais ao redor dos meus.


— Baby, as pessoas se desentendem. Mas estamos indo jantar com ele. Nem
tudo está perdido.

Eu ainda não tinha contado a ele sobre as mensagens da minha mãe, nem sobre
minha conversa com Big Petey. Também não tive tempo para processar
completamente a estranheza que estava sentindo em relação a tudo isso.

E agora também não era o momento, porque Hugger estava virando à direita na
Tatum, o que significava que estávamos a uns cinco minutos da casa do meu pai.

Mas eu precisava focar no presente, porque ele estava certo.

Nem tudo estava perdido.

Cara, eu realmente esperava que meu pai não fosse um babaca com Hugger.

Porém, já que ainda tínhamos um tempinho para conversar, havia algo mais que
eu queria esclarecer.

— Então... vi no documentário aquele emblema tatuado nas suas costas. É o


símbolo do Chaos, certo? — perguntei.

— Isso mesmo. A marca do Chaos. Todos os caras têm.

Ah.

— E aquela embaixo do seu ombro, na frente? — continuei.

— História do Chaos. Uma lição. Todos os irmãos têm também. Você viu a
história no documentário, mas Rebel manteve algumas coisas apenas para nós,
como essa tatuagem. O significado é que perdemos Black, o pai de Dutch e Jag, e
quase perdemos Cherry, ou melhor, Tyra... mas Tack a chama de Ruiva. Tudo isso
aconteceu quando os caras estavam envolvidos em coisas seriamente estúpidas.
Mas não é só aquele ditado "brinque com coisas idiotas, ganhe prêmios idiotas". É
mais como: seja idiota, faça idiotices e perca o que realmente importa.
A tatuagem era uma balança. De um lado, estava escrito Black, com uma figura
parecida com a Morte pairando acima. Do outro, Red, com sangue escorrendo.

Era incrível, mas também um pouco assustadora.

Agora eu entendia o porquê.

— Nenhuma outra tatuagem além dessas? — perguntei.

Como já tinha visto quase todo o corpo dele, mas não completamente, só queria
confirmar.

— Não sou muito fã de tatuagem. Só fiz essas por causa da irmandade. Não me
incomoda, mas também não tenho vontade de fazer mais. — Ele lançou um olhar
para mim. — E você, tem alguma?

— Nenhuma.

— Não é do tipo que curte tatuagens? — ele questionou.

— Tatuagens são arte, como as suas, então eu gosto. Só que nunca senti vontade
de fazer uma. Mas, se um dia quiser, não vou hesitar.

— Sim... — ele murmurou, ligando a seta para entrar na comunidade onde meu
pai morava.

O condomínio era fechado, mas meu pai tinha deixado nossos nomes na
portaria, então o segurança nos deixou passar sem problemas.

O portão, no entanto, me fez pensar em como os irmãos de Hugger estavam


cuidando do meu pai enquanto ele estava em casa.

— Ele pode não ter crescido com muito — Hugger começou — mas encontrou
seu caminho até aqui.

De fato, as mansões no bairro do meu pai gritavam riqueza.


Pouco depois, Hugger estacionou em frente à casa de estilo hacienda29 do meu
pai, soltando um assobio baixo.

— Tudo bem? — perguntei, enquanto ele desligava o motor.

Ele se virou para mim e rebateu:

— Você quer dizer se estou intimidado pelo fato de que o dono dessa casa não
precisa compensar nada com um grande pau?

Caí na gargalhada.

Parei quando ele passou as costas dos dedos pelo meu maxilar e disse:

— Não, baby. Aprendi há muito tempo que sou quem sou, tenho o que tenho e,
se as pessoas pensam merda sobre isso, foda-se. Além disso, nada de bom vem de
querer o que não se tem. Se você quer algo de verdade, vá atrás. Se não conseguir, é
porque ou não queria o suficiente ou aquilo não era para ser seu.

Certo.

Estávamos na entrada da casa do meu pai, um lugar onde eu não pisava havia
uma década. O jantar iminente me deixava ansiosa, para dizer o mínimo.

Mas nada disso importava.

Soltei meu cinto de segurança e me inclinei sobre o pequeno espaço entre nós,
pressionando meus lábios nos de Hugger.

Ele segurou a parte de trás do meu pescoço, então inclinei a cabeça e abri a
boca.

Ele fez o mesmo e aceitou o convite.

29
Casa em estilo hacienda é uma residência inspirada no estilo fazenda colonial espanhol muito
popular em regiões de clima quente, como o sudoeste dos Estados Unidos, México e partes da América
do Sul.
E lá estava de novo: o gosto de Hugger, o toque dele, a intensidade, a
masculinidade, a eletricidade.

Tudo aquilo era sublime.

Felizmente, ele terminou o beijo antes que eu escalasse para o colo dele - o que
era exatamente o que eu queria fazer - mas achei que uma sessão de amassos no
meu Fiat, na entrada da casa do meu pai, não ajudaria muito no jantar de
reconciliação.

— Vamos nessa — ele sussurrou.

Assenti.

Ele encostou a boca na minha mais uma vez e então saiu do carro.

Peguei a garrafa de gim, minha bolsa, saí também, dei a volta pelo capô, e não
houve mãos dadas enquanto caminhávamos até a porta da frente.

Não. Hugger passou o braço pelos meus ombros e me guiou até lá. Ele também
foi quem tocou a campainha.

Não esperamos muito antes de meu pai abrir a porta. Ele vestia uma calça cinza
casual e uma camisa polo azul-prateada de manga longa.

Ele olhou para mim primeiro, sorriu, depois ergueu os olhos para Hugger.

O sorriso sumiu e seus olhos se arregalaram.

Ah, droga.

— Oi, pai — cumprimentei.

Ele desviou o olhar de Hugger e voltou para mim.

— Trouxe um gim para você — anunciei, estendendo a garrafa na direção dele.

Merda, eu estava nervosa.


Ele olhou para a garrafa.

Depois, para Hugger.

Então, ele me olhou com tanto alívio e calor nos olhos que minhas pernas quase
cederam.

Pegou a garrafa das minhas mãos como se fosse uma peça de cristal inestimável
e disse:

— Entre.

Nós entramos, mas fiz isso de maneira hesitante, porque meu pai estava agindo
como se um Hendrick’s fosse uma raridade. Quero dizer, ele morava em uma casa de
quase 700 metros quadrados em Paradise Valley. Ele podia comprar algo melhor
que Hendrick’s, mesmo que Hendrick’s fosse ótimo.

— Este é Harlan — falei, indicando Hugger com um gesto inquieto da mão. —


Harlan McCain. Harlan, este é meu pai, Nolan Armitage.

Meu pai estendeu a mão.

— Harlan.

Hugger apertou.

— Nolan.

Quando soltaram as mãos, meu pai disse:

— Vamos entrar e pegar umas bebidas.

Enquanto o seguíamos, notei que ele havia acrescentado algumas peças à sua
coleção de arte, mas, fora isso, a casa onde morei com ele desde os meus quinze
anos permanecia praticamente a mesma.

Chegamos à sala de estar nos fundos, próxima à cozinha. Do outro lado ficava a
sala de jantar, todas com vista para o pátio lindamente paisagístico e a piscina
igualmente bem cuidada no quintal.
— O que vocês querem beber? — perguntou meu pai.

Eu queria beber vodca direto da garrafa, então respondi:

— Dirty martini30.

Ele assentiu e se virou para Hugger.

— Estou dirigindo, então nada, a não ser que tenha um refrigerante — Hugger
disse.

— Tenho Coca e Sprite — informou meu pai.

— Coca serve.

Meu pai foi até o bar embutido, dizendo:

— Fiquem à vontade.

Meu Deus, isso era tão estranho.

Eu meio que cresci aqui. Essa tinha sido minha casa. E, pelo que sabia, a casa da
infância de uma pessoa, mesmo que ela tenha se mudado para lá na adolescência e
saído ainda jovem, sempre continuava sendo sua casa.

Mas eu me sentia uma estranha ali, e a sensação piorou quando meu pai me
disse para ficar à vontade.

Hugger me puxou para um dos dois sofás brancos que se encaravam,


perpendiculares a uma lareira de adobe.

Nos sentamos, bem próximos, por imposição física de Hugger, e ele comentou:

— Bela casa.

— Estou pensando em me mudar para um lugar menor — disse meu pai do bar.

30
Um Dirty Martini é uma variação do clássico Martini, feito com gin (ou vodca), vermouth seco e
salmoura de azeitona, que dá a ele um sabor mais salgado e um tom levemente turvo (daí o nome "dirty",
que significa "sujo").
Aquilo meio que doeu.

Por que doeu?

— É muita casa para um homem só — observou Hugger.

— Exatamente — concordou meu pai.

Ok, o nível de estranheza só aumentava. Meu pai nem sequer pareceu


desconfiado do fato de que um cara grande, de cabelo comprido e barba
desgrenhada, vestindo jeans de boa qualidade e uma camisa, mas combinando isso
com botas de motociclista, estava sentado no sofá da sua casa.

Meu pai se aproximou segurando um copo alto e elegante, cheio de gelo picado
e Coca-Cola, e entregou a Hugger.

— Valeu, cara — murmurou Hugger, pegando o copo.

Meu pai voltou ao bar e perguntou:

— Como vocês se conheceram?

— No elevador — respondi rapidamente, lançando um olhar de soslaio para


Hugger.

Ele sorriu, bebendo seu refrigerante.

Meu pai não comentou mais nada, nem mesmo quando veio até mim com uma
taça de martini decorada com um palito prateado atravessando quatro azeitonas
gordas.

Peguei a taça e murmurei um agradecimento, tentando não beber tudo de uma


vez.

Ele preparou seu próprio martini (com o Hendrick’s, claro) e veio se sentar de
frente para nós.
Agora, a estranheza tinha atingido um novo nível. Meu pai estava sentado bem
na minha frente, mas eu não fazia ideia do que dizer.

— Como está Suzette? — ele perguntou.

— Foi colocada sob proteção — respondi.

Foi impressão minha ou os ombros dele relaxaram um pouco com alívio?

— Acho que foi uma decisão sábia — ele comentou. — Ela ficou bem com isso?

— Está com os pais, então sim.

As sobrancelhas do meu pai se franziram.

— Está com os pais?

— Na verdade, o nome dela é Madison. Ela foi sequestrada no Texas, traficada e


vendida para o filho de Imran Babić, que, junto com alguns amigos, foi quem a
violentou — revelei.

Meu pai estremeceu.

— Imran entrou em contato com ela, ameaçou-a e a forçou a fazer uma denúncia
falsa — continuei. — Mas tudo já foi resolvido.

— No fim das contas, preciso admitir que fiquei satisfeito por você ter me
encorajado a dispensá-lo como cliente. Não posso dizer que todos os meus clientes
são santos, mas, particularmente, Babić não é um homem bom — declarou meu pai.

Eu não exatamente o encorajei.

Mas se ele queria ver dessa forma, eu aceitava.

Meu pai continuou.

— O filho dele é… — uma longa pausa antes de concluir — pior.


Eu nunca tinha conhecido o cara, nem queria, mas sabia que ele era, sem
dúvida… pior.

Então, meu pai olhou para Hugger.

— Obrigado por cuidar da minha filha e, hã, da Madison durante tudo isso.

— Meu dever como companheiro dela — Hugger respondeu tranquilamente


antes de tomar um gole de sua Coca-Cola.

Dei-lhe uma cotovelada de leve.

Ele não demonstrou nenhuma reação, exceto por um pequeno tremor em sua
barba, quase imperceptível.

— Certo — disse meu pai, de repente assumindo seu tom de voz imponente de
advogado, o que me fez sobressaltar.

Hugger passou um braço sobre meus ombros.

Meu pai continuou, agora dirigindo-se diretamente a mim:

— Quero superar essa primeira parte rapidamente, porque pode ser algo que te
deixe irritada, mas precisa ser feito. Então, vamos resolver isso e seguir em frente.

Lá vamos nós.

Antes que eu pudesse interrompê-lo e evitar que ele agisse como um babaca, ele
prosseguiu:

— Eu criei um fundo fiduciário com o que imagino ter sido destinado para sua
mensalidade, além do aluguel e uma quantia para alimentação e despesas pessoais
— começou ele. — Isso cobre tanto sua graduação quanto o mestrado. Haverá
implicações fiscais sobre qualquer rendimento e distribuições que você receber
desse fundo. Mas você não precisará pagar impostos sobre o valor principal. Se tiver
dúvidas sobre isso, pode falar com meu contador.
Permaneci completamente imóvel, sem dizer uma palavra.

Porque eu sabia muito bem que, se ele estava cobrindo todas essas despesas,
esse fundo deveria ter mais de cem mil dólares.

— Eu realmente preferia que você não tentasse recusar, Diana — meu pai
afirmou. — É seu. Foi um privilégio, como seu pai, poder oferecer isso a você. Não
tive essa oportunidade antes, e entendo os motivos. Isso é apenas uma maneira,
ainda que parcial, de corrigir meu erro.

Quando o silêncio se prolongou depois que ele terminou de falar, me obriguei a


dizer algo.

— Eu, uh… Pai, isso deve ser muito dinheiro.

— Já havia sido reservado para você — ele respondeu. — Pelo menos para a
graduação. Apenas adicionei mais quando soube que você fez o mestrado.

Eu estava processando tudo, mas…

Espera um pouco.

Essa não foi a primeira vez que ele mencionou algo sobre mim que não deveria
saber.

Quer dizer, ele disse que tinha amigos que eram clientes da Annie, mas, embora
eu vivesse pedindo para Annie atualizar o site - que mal funcionava, servindo apenas
para fornecer informações de contato e uma lista de serviços - não havia perfis dos
funcionários lá. E, até onde eu sabia, ela não distribuía meu currículo para clientes
atuais ou potenciais.

Ou seja, isso era estranho e me deu uma sensação esquisita.

— Quem te contou que eu fiz o mestrado? — perguntei.

Ele tomou um gole do martíni antes de murmurar:


— Sua mãe se deleitava em me manter informado sobre tudo o que eu estava
perdendo.

Ah, não.

Eu ainda estava ressentida com a situação da visita fracassada da minha mãe,


mas agora eu estava começando a ficar irritada.

E desconfiada.

— Ela não me disse que fazia isso — observei.

Meu pai permaneceu em silêncio.

— Por que ela faria isso? — insisti.

Ele tomou outro gole do martíni e continuou sem responder.

— Pai — pressionei.

Ele suspirou.

— Sinto muito por isso, sinto há quase toda a sua vida, Diana — disse ele. — Mas
você sabe que eu e sua mãe nunca nos demos bem.

— Vocês estão divorciados há mais de vinte anos — apontei. — Ela se casou de


novo, mora em outro estado, e eu sou adulta. Não há motivo para vocês ainda
estarem se falando.

— Eu fiquei feliz em receber as atualizações.

— Isso eu percebi. Mas mamãe sabia que nós tivemos um desentendimento, e o


jeito como você disse que ela te informava sobre mim me faz pensar que ela usava
isso como uma forma de te provocar.

O braço de Hugger ao redor dos meus ombros apertou levemente.

— Eu deveria ter escolhido palavras diferentes — murmurou meu pai.


— Mas ela te provocava com isso — afirmei.

— Ela não escondia o fato de que estava satisfeita por não estarmos nos falando
— ele admitiu.

— E contou coisas que, se eu quisesse que você soubesse, eu mesma teria


contado. Além disso, ela nunca mencionou, nem uma única vez em dez anos, que
estava te mantendo atualizado sobre minha vida.

— Diana— — meu pai tentou intervir.

— Ela comprou uma passagem de avião para vir até aqui e fazer uma maratona
de compras neste fim de semana — anunciei.

Os lábios dele se apertaram.

Ahá.

Hugger moveu a mão para apoiar na parte de trás do meu pescoço.

Foi um gesto doce e solidário, mas ainda assim...

— E ela não me perguntou. Eu disse que ela não podia vir. Na época, não
sabíamos que teríamos esse avanço com Maddy e conseguiríamos mantê-la segura.
Ela não ficou nada satisfeita.

— Sua mãe gosta de conseguir o que quer, quando quer. Isso também não é
novidade para você, Diana — meu pai comentou.

Fiz outra revelação:

— Nicole me incentivou a me reconciliar com você.

Meu pai olhou para a perna cruzada e murmurou, como se Hugger e eu não
estivéssemos sentados bem na frente dele:

— Nicole era uma mulher incrível, e eu estraguei tudo.


— Você está falando sério? — perguntei.

Ele encontrou meu olhar.

— Diana...

— Ela disse que havia algo que eu já era adulta o suficiente para saber. O que é?

O rosto do meu pai empalideceu.

Ah, droga.

Era algo.

Algo grande.

— O que é? — exigi.

— Baby… — Hugger sussurrou.

— O que é? — continuei pressionando meu pai, ignorando Hugger.

Papai me olhou diretamente nos olhos e perguntou, ou melhor, implorou:

— Podemos ter um jantar tranquilo, Florzinha? Colocar o papo em dia e deixar


as coisas mais difíceis para depois?

O "Florzinha" foi um bom toque.

Mas...

Nem pensar.

— Vamos colocar tudo para fora — sugeri.

— Não sei se você quer que seu namorado escute isso.

Agora, eu estava menos irritada e mais assustada.

Porque...
Escutar o quê?

— Pai...

— Diana, de verdade...

— Pai! — rebati.

Hugger fez menção de se levantar, o que significava que ele soltou minha mão, e
eu não gostei nem um pouco disso.

— Talvez seja melhor eu... — ele começou.

— Não! — ainda falei de forma incisiva. — Se você quer me conhecer, precisa


conhecer isso também.

— Diana — meu pai insistiu.

Olhei diretamente nos olhos de Hugger e sussurrei:

— Eu preciso de você, querido.

Um tipo de surpresa masculina tomou conta do rosto bonito dele, um olhar que
eu imediatamente adorei.

Logo em seguida, um calor tomou conta de sua expressão, e eu adorei esse olhar
também.

Depois de me presentear com essas reações, Hugger se acomodou de volta na


cadeira.

— Harlan e eu somos muito sinceros um com o outro. Não escondemos nada —


declarei para meu pai. E, naquele momento, percebi que era verdade. E isso era
incrível.

— Tudo bem, então. Talvez possamos falar sobre isso mais tarde — ele
respondeu.

— É algo sério? — perguntei.


Meu pai tomou mais um gole da bebida.

Evadiu a pergunta.

— Pai, é algo sério?

Dessa vez, ele sustentou o olhar comigo e disse:

— Sua mãe já estava tendo um caso com Brendon Malley muito antes de eu
começar qualquer coisa com Nicole.

Arregalei os olhos e soltei um suspiro tão forte que quase engasguei.

— Na verdade, eu já tinha contratado um advogado de divórcio e pedido a


separação quando comecei com Nicole — ele continuou.

Minha boca simplesmente caiu aberta.

— Brendon veio de uma família rica — ele prosseguiu. — Estávamos criando uma
filha com apenas um salário e juntando dinheiro para que eu pudesse me tornar
sócio de uma empresa. Por isso, precisei dizer "não" para sua mãe mais vezes do que
ela gostaria. Brendon não dizia "não".

A parte mais terrível disso tudo?

Eu acreditava em cada palavra.

— Ela te traiu primeiro? — sussurrei.

A mão de Hugger voltou para minha nuca, quente e firme. Eu queria que seu
toque me fizesse sentir melhor. E fez.

Mas meu pai acabara de virar meu mundo de cabeça para baixo.

— Sim, ela traiu — ele confirmou.

— Ela me disse que foi você.

— Eu sei.
Meu Deus.

Levantei de repente e gritei:

— Por que você nunca me contou?

Meu pai também se levantou, assim como Hugger.

A mão de Hugger pousou suavemente na base das minhas costas e começou a


me acariciar.

— Para quê eu faria isso? — papai disse.

— Como assim para quê? — praticamente gritei.

— Diana...

Bati meu copo na mesa entre nós, aliviada por ele não ter quebrado, e me
endireitei ao dizer:

— Ela te transformou no vilão dessa história.

— E o que eu deveria ter feito? — meu pai perguntou. — Jogar sua mãe nesse
papel?

Joguei as mãos para o alto e exclamei:

— Sim! Já que ela merecia.

Meu pai suspirou antes de dizer, em um tom mais calmo:

— Quando você tiver filhos, querida, vai entender.

— Você a protegeu — sussurrei.

— Não. Eu protegi você.

Santo Deus.
Me virei para Hugger, e ele me envolveu nos braços.

Eu não ia chorar.

Eu não ia.

Respirei fundo enquanto Hugger deslizava a mão para cima e para baixo nas
minhas costas.

Era como se ele percebesse que eu estava conseguindo me recompor, porque,


assim que comecei a me acalmar, ele inclinou a cabeça e murmurou no meu ouvido:

— Não sei se sou eu quem você deveria estar abraçando, baby.

Olhei para ele.

Depois, me virei para meu pai.

— Você ia me contar quando eu fosse mais velha?

Ele balançou a cabeça.

— Eu nunca ia te contar.

Engoli em seco antes de murmurar:

— Eu sempre te culpei pelo divórcio.

— Eu sei, Florzinha, e você sempre amou sua mãe incondicionalmente. Meninas


precisam das mães desse jeito.

— Elas também precisam dos pais.

O rosto do meu pai se entristeceu, e ele disse:

— Talvez eu tenha lidado mal com isso.

— Não — retruquei com firmeza. — Não, de jeito nenhum, pai. Você não fez
nada errado.
Dito isso, contornei a mesa de centro e me joguei nos braços dele.

Ele me segurou, é claro.

Ele sempre fez isso por mim.

Eu só não percebia.

E quando percebia, ou não notava o suficiente ou simplesmente não dava o


devido valor.

Foi nesse momento que manchei a camisa polo dele, de um azul prateado
brilhante, com o rímel que escorria dos meus olhos.

Meu pai não se importou.


Capítulo 16
A MELHOR COISA QUE JÁ FIZ
Hugger

Quando voltaram para o apartamento dela naquela noite, Di estava


definitivamente em outro estado de espírito.

Mas, dessa vez, ela não dizia nada.

Durante todo o caminho de volta, dentro do elevador e até entrar em casa,


permaneceu em silêncio.

Hugger parou no balcão da cozinha, jogou as chaves ali e observou enquanto ela
seguia direto para o quarto, seus movimentos rígidos e tensos. Viu quando a luz se
acendeu lá dentro.

Hugger queria muito ligar para Joker, Shy, Dutch ou Jag e perguntar o que fazer
quando sua mulher acabava de ser emocionalmente despedaçada, de cima a baixo.
Todos eles já tinham passado por isso, alguns de forma pior que outros, mas tinham
passado.

Só que ele não tinha tempo para isso.

Como sempre, estava por conta própria. E agora precisava descobrir como estar
presente para ela.

Depois que Di teve seu momento de choro no peito do pai, houve apenas dois
momentos mais delicados durante o jantar.

O primeiro foi quando ela saiu para retocar a maquiagem, deixando Hugger
sozinho com Armitage.
O homem não perdeu tempo.

— Você é o motivo pelo qual estou sendo seguido por motociclistas por toda
parte?

Para garantir presença visível, seus irmãos decidiram não agir discretamente, mas
ainda assim era interessante que Armitage tivesse notado.

— Di ficou preocupada com sua segurança depois que você dispensou Babić —
explicou Hugger. — Então pedi para meus irmãos te darem cobertura.

Isso claramente o acalmou e, de certa forma, também o agradou, o que Hugger


achou surpreendente. Mas, considerando que significava que sua filha se
preocupava com ele, fazia sentido.

— Você faz parte de um clube? — Armitage perguntou.

— Sim. Pesquise sobre o Chaos MC. Somos donos e administramos as lojas Ride
Autopeças, e nossa oficina faz personalizações de motos. Você pode encontrar um
artigo sobre nosso Clube e nossos trabalhos na Wilde & Hay. Ainda está no site
deles. Também temos um documentário sobre nossa história. Está disponível para
streaming.. Se chama Sangue, Coragem e Fraternidade.

— Isso é bem direto.

— Não tenho nada a esconder.

Armitage lançou um olhar na direção para onde Di tinha ido e depois voltou sua
atenção para Hugger.

— Você parece se importar muito com ela.

Sem hesitação, Hugger abriu o jogo para o pai de Diana.

— Minha mãe fez o melhor que pôde, mas não tivemos uma vida fácil. Então,
com tudo o que ela é e tudo o que ela me dá, Diana é a melhor coisa que já
aconteceu na minha vida.
Armitage o encarou por vários segundos antes de confessar:

— Eu falhei com ela.

— Quer dizer por não ter contado sobre a mãe dela?

— Não. Outra coisa.

Hugger arriscou um palpite:

— Você quer dizer por não ter lidado direito com o que aconteceu quando ela se
machucou?

Armitage assentiu com dificuldade, a voz embargada:

— Isso.

— Cara, se você ainda não percebeu que sua filha tem um coração de ouro, está
na hora de prestar atenção. Eu não sei o que aconteceu, porque pedi para ela não
me contar antes de eu te conhecer. Não queria te odiar antes mesmo de ter te visto.
O que sei é que ela está aqui agora. Ela sente sua falta. Então conserte isso. E um
conselho: você não vai conseguir fazer isso se continuar tratando ela como uma
visita na casa do próprio pai.

— Claro — murmurou Armitage, sua atenção fixa em Hugger, avaliando-o sob


essa nova perspectiva, antes de erguer o queixo em um gesto sutil para indicar que
Di estava voltando.

O segundo momento delicado aconteceu vinte minutos depois, quando chegou


uma entrega gigantesca de comida indiana.

Aparentemente, eram todos os pratos favoritos de Di, do restaurante indiano que


ela mais gostava.

Ela quase se descontrolou de novo ao perceber que o pai lembrava de algo tão
importante para ela, mas conseguiu se segurar.
Jantaram ao redor da ilha da cozinha, como uma família, e não na sala de jantar,
embora Hugger tivesse notado que a mesa estava posta.

Di relaxou e começou a conversar com o pai, atualizando-o sobre sua vida.

Eles falaram sobre muita coisa que fez Hugger se sentir deslocado.

Os dois eram muito cultos e viajados. Armitage contou que continuou


explorando o mundo nos anos em que Di não estava em sua vida, passando pela
Suécia, Polônia, Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul e Japão.

Di falou sobre seu estágio em Londres e suas "férias culturais em museus" em


Washington DC, Nova York, Chicago e Los Angeles, além das "férias na praia" em St.
Thomas e Aruba.

Hugger não tinha muito a acrescentar e, felizmente, os dois estavam tão


envolvidos na conversa que isso passou despercebido e nem era esperado.

Mas Di, sendo quem era, fez questão de que ele não se sentisse excluído. Tocava
nele, sorria, encostava de leve o ombro no dele para mostrar que não o tinha
esquecido e garantia que seu prato estivesse sempre cheio.

Eles comeram uma quantidade absurda de comida, e ainda assim Armitage


apareceu com uma torta de maçã caramelizada que havia comprado. Isso fez Di se
emocionar, pois era outra de suas favoritas. Mesmo assim, ela conseguiu segurar as
lágrimas.

Ela comentou que convidaria o pai para o próximo jantar, e Armitage não perdeu
tempo em apoiar a ideia. Marcaram para a quarta-feira seguinte.

O peso da situação a atingiu assim que entraram no carro.

E agora ele precisava fazer algo a respeito.

Só não fazia ideia do quê.


Hugger caminhou pelo corredor até o quarto dela e chegou a tempo de vê-la ao
lado da cama, com o telefone no ouvido, claramente deixando uma mensagem para
a mãe.

— …Pare de agir como uma criança. Pare de fazer birra. Jantei com o papai hoje,
e nós duas temos algo importante para conversar. Me liga.

Ela apertou a tela com força e, ao levantar os olhos para Hugger, decretou:

— Sou uma idiota.

Merda, ele ficou aliviado por ela estar falando.

Ainda assim, não gostou do que ouviu.

— Você não é — rosnou.

— Minha vida toda, eu ignorei o quanto ela é mimada.

— Ela é sua mãe. Isso é algo que você simplesmente não percebe.

— Mas o papai não era assim. Nic não era assim. Como eu não percebi?

— Porque ela é sua mãe.

Ela o encarou por um momento antes de simplesmente desabar na cama de


bruços.

Cristo, nas últimas semanas, ela passou por uma montanha-russa emocional.

E, mesmo assim, conseguia ser adorável.

Hugger tirou as botas e subiu na cama do outro lado, puxando-a delicadamente


pelos braços até aconchegá-la contra si.

Ele ficou imóvel quando Diana se virou de lado para tirar os sapatos de salto e,
logo depois, se ajeitou novamente, montando sobre ele. Então, colapsou o peito
contra o dele e afundou a testa em seu pescoço.
— Tem mais sobre o meu pai — anunciou. — Coisas que precisamos conversar.
Mas acho que estou começando a entender.

— Entender o quê?

— Por que parecia que ele era tão duro comigo. Ok, não é que parecia… Ele
realmente era. Mas talvez fosse porque ele não queria que eu me tornasse como a
minha mãe.

Hugger tinha as mãos na cintura dela. Sentir seu peso sobre ele, seu cheiro por
toda parte, era tão bom que ele não confiava em si mesmo para se mexer.

Então, manteve as mãos onde estavam e perguntou:

— Como ele era duro com você?

Ela se apoiou nos antebraços sobre o peito dele, o que não ajudou em nada o
efeito que tinha sobre ele. Pelo contrário, agora ele podia ver seu rosto lindo e
aquele cabelo maravilhoso, o que tornava tudo ainda pior.

Droga, ele precisava se controlar. Ela estava passando por um momento difícil e
tudo o que conseguia pensar era em transar com ela.

— Eu tinha que tirar boas notas. Um B era inaceitável — explicou. — Eu tinha que
participar de várias atividades extracurriculares para ter uma experiência escolar
completa e não “perder tempo”, como ele dizia, com coisas inúteis como TV.

Ela fez uma pausa antes de continuar:

— Eu tinha tarefas em casa. Ele fez uma lista de leituras para mim que não era
exigida pela escola, mas sim por ele. Quando fiz dezesseis anos, ele abriu uma conta
conjunta para mim e eu precisava mantê-la equilibrada e mostrar os cálculos todo
mês. Ele tinha opiniões firmes sobre como eu deveria usar o cabelo e me vestir,
sempre me lembrando de que minha aparência representava não apenas a mim,
mas também a ele. Além disso, ele era extremamente rígido sobre eu não ganhar
peso. Ele sempre foi um cara em forma, muito ligado a um estilo de vida saudável, e
fez questão de me impor isso.
Hugger escolheu as palavras com cuidado.

— Ou seja, ele era um pai.

— Foi muita pressão, Hugger. E talvez, como homem, ele não tenha percebido o
quanto é prejudicial julgar a forma como uma garota se alimenta, seu peso e sua
aparência. Mas, mais do que isso, eu nunca recebia um ‘muito bem’. Era mais um ‘ok,
você fez isso, agora precisa aprender aquilo’. Quando eu errava, a decepção dele era
extrema, e ele não hesitava em demonstrar. Parecia que ele queria que eu fosse uma
filha perfeita, como se fosse programada. Parte disso era sufocante, mas, na maior
parte, o que mais doía era decepcionar meu pai.

Ela fechou a boca de repente, seus olhos se arregalaram.

Ela explicou rapidamente:

— Isso tudo deve soar ridículo para alguém como você.

Hugger não entendeu.

— Por quê?

— Eu tive um pai que se importava e talvez tenha sido um pouco rígido demais,
provavelmente porque não queria que eu crescesse mimada e egoísta. Ele queria
que eu fosse independente, não uma mulher que fizesse de tudo para se prender a
um homem rico apenas para ser sustentada. Enquanto isso, minha mãe…

Ela hesitou antes de continuar:

— Você nunca comentou sobre sua infância, mas eu sei que…

Os dedos de Hugger se moveram sozinhos, apertando de leve a pele dela.

— Sua mãe abriu mão da sua guarda?

— Sim. Desde o início, meu pai tinha a guarda total, e ela nunca contestou. E
quando conheceu Rick, se mudou para Idaho para ficar com ele.
Hugger tentou processar essa informação.

Não conseguiu.

Então, tentou encontrar um jeito de aceitar aquilo, porque sabia que devia ter
sido devastador para Diana.

Era impossível aceitar.

E ele só conseguia pensar que esperava nunca conhecer aquela mulher.

— Harlan — chamou Di.

— Contra todas as probabilidades, minha mãe nunca soltou minha mão — ele
disse a ela. — Nunca tivemos muito dinheiro, mas eu sempre tive um teto sobre a
cabeça, e era um bom teto. Sempre tive comida no prato, e em quantidade
suficiente. Roupas no corpo, e ela fazia questão de comprar novas no começo de
cada ano letivo, e dobrava esse esforço no Natal e no meu aniversário. Nenhuma
criança na escola sabia o que minha mãe fazia para viver, nem que não tínhamos
muito. Ela fez de tudo para que fosse assim, para que ninguém pensasse nada e as
crianças não fossem cruéis comigo.

Ele respirou fundo antes de continuar:

— Ela só me deixou ir quando morreu. E nem queria fazer isso. Ela faleceu
segurando minha mão, fraca demais para apertá-la, mas ainda segurando. E suas
últimas palavras neste mundo foram: “A melhor coisa que já fiz foi você.”

Ele viu os olhos de Di brilharem antes que ela murmurasse:

— Essas foram as últimas palavras dela?

— Olhando direto nos meus olhos até a luz se apagar nos dela.

Di se ergueu um pouco e apoiou a testa na dele.

— Ah, Hugger...
Droga.

Droga.

Aquilo foi bom.

Durante toda a sua vida, eles tinham sido só os dois...

E, quando a perdeu, ele ficou sozinho.

Mas agora, não estava mais.

Droga.

— Você sabe que é, né? — ela disse.

Sua voz saiu estranha, rouca e densa, quando ele perguntou:

— Sou o quê?

— O melhor.

Droga.

Era errado, aquele não era o momento, mas, pelo amor de Deus, ele precisava
beijá-la.

Estava errado. Aquele era o momento, porque Di o beijou.

Ele já tinha pensado muito sobre isso, talvez demais. Imaginava que, na primeira
vez, iria devagar, queria que ambos saboreassem cada segundo, que fosse uma
lembrança que durasse para sempre.

Mas no instante em que sua língua tocou a dela, esse plano foi pelos ares.

Ele a virou de costas, incapaz de se saciar dela. Suas mãos a exploravam, sua
boca devorava a dela.
Ela o encontrou com a mesma intensidade - na verdade, superou - se ergueu e o
empurrou para que ficasse deitado. Então, rompeu o beijo, sentou-se e puxou a
blusa para fora do corpo.

Ela usava um sutiã preto, simples, sem rendas, mas os seios volumosos sobre a
borda da peça fizeram seu pau pulsar.

Ele se ergueu, beijando o pescoço dela, descendo pelo colo, enquanto ela abria
os botões da camisa dele.

Quando estava quase chegando ao seio dela, prestes a provocá-la através do


sutiã (antes de tirá-lo), ela o empurrou para que deitasse de novo e se inclinou sobre
o peito dele. Afastou sua camisa, passou as unhas pelo pelo do peito e encontrou
seu mamilo com os lábios.

Ele nunca foi especialmente sensível ali, mas sentiu aquilo - e foi bom. Ainda
melhor quando ela continuou usando as unhas, descendo com os lábios, até a ponta
da língua tocar o cós da calça dele, enquanto os dedos iam para o zíper.

Ah, não.

De jeito nenhum.

Ele tinha que provar dela primeiro.

Di soltou um grito de surpresa e prazer quando ele a ergueu sem esforço e a


jogou de costas na cama. O som que ela fez percorreu direto para seu pau.

Então, ele se levantou, tirou a camisa pelos ombros e ouviu o ar escapar dos
lábios dela. Agarrou os tornozelos de Di, puxando-a para ele, arrancando mais um
suspiro.

Os olhos verdes dela queimavam sobre ele quando ele desabotoou o cinto, abriu
a calça e deslizou a peça junto com a calcinha por suas pernas.

Vê-la ali, quase nua para ele, quase o fez gozar dentro da calça.

— Harlan... — ela sussurrou.


Ele caiu de joelhos ao lado da cama, puxou-a para a beirada, colocou uma das
coxas sobre o ombro e depois a outra.

Então, ouviu o gemido dela, viu seu sexo úmido e rosado exposto para ele.

E se afundou ali.

Cristo, era o paraíso.

Se estivesse no juízo perfeito, mesmo sentindo o quanto ela já estava molhada,


ele teria dado muito mais preliminares antes desse momento.

Mas, no instante em que sua boca tocou nela, Di arqueou as costas,


pressionando-se contra ele, os calcanhares cravando em suas costas, e gemeu.

Ele interrompeu o movimento para sorrir contra o sexo dela, porque ela estava
com ele.

Sempre, Di estava com ele.

E ele aprendeu rápido que poderia passar uma vida inteira a devorando e nunca
se cansaria, principalmente quando ela enfiou a mão em seus cabelos, segurando-o
ali.

Ele sabia que ela estava perto pelo som dos gemidos, pelo jeito como apertava e
soltava os dedos no cabelo dele, pelo modo como se pressionava contra seu rosto,
se remexendo, buscando mais.

Então, ele se levantou.

— Harlan! — ela arquejou.

Ele limpou a boca com o dorso da mão, inclinou-se para arrancar as meias,
puxou a carteira do bolso e pegou um preservativo. Jogou a carteira no criado-
mudo, rasgou a embalagem com os dentes e abriu a calça.

Seu foco estava nela.

Diana.
O rosto corado.

Os cabelos espalhados pelos lençóis brancos.

Os olhos brilhando, as pálpebras pesadas.

Ela era vida.

Ela era coração.

Ela era bondade.

Ela era tudo.

Ali, pronta, esperando por ele na cama, o olhar preso ao dele.

Ou melhor, estava, até ele abaixar as calças.

Então, o olhar dela travou em seu pau.

As bochechas ficaram mais rosadas, os olhos ainda mais quentes, o corpo


começou a se mover.

Ele grunhiu:

— Nem pense nisso.

Ela parou, e seu olhar estava ainda mais intenso.

Depois de se livrar da camisinha, Hugger se inclinou e a envolveu com um braço,


apreciando o suave arfar que ela soltou quando ele a puxou mais para o centro da
cama.

Tendo-a exatamente onde queria, ele se acomodou sobre ela. Curvou uma de
suas pernas ao redor de sua cintura, a outra ao longo de sua coxa, segurou seu
membro e o guiou até ela.

— Vamos fazer isso, baby? — sussurrou contra seus lábios.


— Se não fizermos agora, acho que nunca vou te perdoar.

Ele sorriu e roçou a ponta em sua entrada.

— Para de brincar, Hugger — ordenou ela.

— Você precisa de tempo para se ajustar — explicou ele.

— Eu vi bem o tamanho disso, querido. Sei exatamente o que esperar. Mas sou
mais resistente do que você imagina.

Ele sabia que ela era forte, mas nunca permitiria que ela precisasse ser.

Avançou um pouco, observando seus olhos se arregalarem antes de se tornarem


lânguidos.

— Gostoso — ela sussurrou.

Ela disse, mas ele sentiu.

Avançou mais um pouco, e, porra, ela era apertada e tão quente que estava
matando ele ter que ir devagar.

— Ainda melhor, baby — sua voz era um sopro enquanto suas mãos percorriam
seu corpo quente e ansioso.

Mais um pouco.

Ela gemeu e fincou as unhas nele.

Isso mesmo.

— Tá comigo? — ele gemeu.

— Oh, sim — ela arquejou. — Mais, Hugger.

Lentamente, ele deslizou até a base, enterrando-se por completo.

Ela estava certa.


Oh, sim.

— Bom? — ele rosnou.

— Incrível — ela arfou.

Ele a beijou. Queria ir devagar, saboreá-la, mas ela enroscou a língua na dele, o
beijo ficou voraz, suas mãos e unhas em seu corpo estavam ainda mais exigentes,
suas pernas apertaram num pedido silencioso, e ela não lhe deu escolha além de
fodê-la com força.

E foi exatamente o que ele fez.

Ela se entregou completamente, arqueando o corpo, segurando-o, arranhando.

E ele se perdeu nela porque soube, naquele instante, que estava certo.

Ela era tudo.

E, provando isso, Diana gozou alto contra sua boca, agarrando seus cabelos,
apertando sua bunda e se fechando ao redor dele.

Ele veio em silêncio, gemendo contra seu pescoço enquanto investia fundo
dentro dela.

Silêncio porque foi a maior descarga que já teve, a mais intensa, a mais doce, e
seu corpo precisou de toda a energia para entregar aquilo a ela.

Ainda teve presença de espírito suficiente para manter o peso nos antebraços ao
desabar sobre ela.

E soube que estava ferrado.

Era isso.

Ela era a única.

Talvez não tivesse muito a oferecer, mas, ainda que isso o matasse, encontraria
uma maneira de entregar o mundo a ela.
— Ok, isso foi… — Ela respirou fundo, expandindo o peito. — Absolutamente
fantástico.

Ele ergueu a cabeça para encará-la. Suas bochechas estavam coradas, os lábios
inchados, os olhos enevoados.

Maldição, ela era perfeita.

— Eu queria ir mais devagar na nossa primeira vez — ele admitiu.

— Pelo amor de Deus, por quê?

Os cantos de sua boca se ergueram antes que ele explicasse:

— Queria fazer amor, não só transar.

— Fazer amor é coisa de filme e romance açucarado. Transar é que é bom.

Ainda dentro dela, ele caiu na risada.

Nunca tinha rido assim com uma mulher, e foi uma sensação incrível.

— Sua barba e o boquete que você faz, querido… — ela ronronou, passando os
dedos pelo cabelo dele antes de arranhar a barba. — Puta merda.

— Você é do tipo que gosta de discutir cada detalhe depois? — ele provocou.

— Nunca fui. Mas acho que a gente devia analisar cada segundo dessa transa pra
garantir que vai ficar bem gravado na memória.

Porra, ele estava rindo de novo.

Mas não precisava relembrar nada.

Gravaria cada detalhe até o dia em que morresse.

— Você está apagando — ele murmurou, roçando os lábios nos dela antes de
continuar: — Vou me livrar da camisinha e já volto.
Ela assentiu.

Ele a beijou, planejando ser rápido e leve.

Mas acabaram se agarrando novamente, e levou um tempo até ele conseguir se


desvencilhar e ir até o banheiro.

Quando voltou, ela estava vestindo sua camiseta, puxando a barra repetidamente
para baixo, sentada de pernas cruzadas no meio da cama.

Ele parou no meio do quarto ao vê-la assim.

Seja vestida com seus trajes chiques, suas pequenas roupas de dormir, toda
arrumada, sem maquiagem ou com a cara toda suja de algum tratamento facial, ela
era a mulher mais linda que ele já tinha visto.

Mas, porra, ele adorava vê-la na camiseta dele.

Os olhos dela percorreram seu corpo.

Os dele fizeram o mesmo com o dela.

E sim.

Porra, sim.

Custasse o que fosse, Diana Armitage seria sua mulher.

Hugger se moveu até a cama, puxando os cobertores. Di se ajeitou para que,


quando ele deitasse, pudesse se aninhar contra ele, e então ele puxou os lençóis
sobre os dois.

— Porra, seu cabelo fica lindo assim, baby — ele observou.

Ela soltou uma risadinha, um som genuinamente feminino, e esfregou o rosto


nos pelos do peito dele.

— Absolutamente tudo.
Ela ergueu a cabeça e disse:

— Também acontece com você.

A resposta dele foi puxar a camisa para cima, deslizando a mão pelas costas dela
e apertando sua cintura.

Então, ele ficou sério.

— Como você está se sentindo?

— Excepcional. Incrível. Maravilhosa. Fantástica. Precisa de mais adjetivos?

Ele não conseguiu segurar o sorriso, mas precisava perguntar:

— Estou falando sobre outras coisas.

Ela respirou fundo, o peito pressionado contra o dele - algo que ele
definitivamente adorou - e soltou o ar antes de responder:

— Vai ser interessante ouvir o que minha mãe tem a dizer sobre ter mentido
para mim a vida inteira. Mas acho que, no fim, a noite foi boa, especialmente depois
que meu pai parou de agir como se a Princesa de Gales estivesse aqui para um
martíni e a gente finalmente conseguiu ter um momento em família.

Então, ele tinha acertado.

Ótimo.

— E pode até ter sido um trajeto turbulento, mas a viagem que fiz depois do
jantar compensou totalmente — ela acrescentou.

Ele não conseguiu segurar a risada.

E sentiu um alívio enorme, porque parecia que tinha lidado com tudo da maneira
certa.

— Quantos preservativos você tem? — ela perguntou.


— Só aquele.

Ela franziu os lábios.

— Isso não é um bom planejamento para um cara de moto, Hugger McCain.

— Passo na farmácia amanhã.

— E até lá, o que a gente vai fazer?

Ele caiu na gargalhada.

Então a puxou para baixo dele, virou-a de costas e murmurou:

— A gente vai dar um jeito.

— Tenho cem por cento de certeza disso — ela sussurrou, entrelaçando os


braços ao redor do pescoço dele.

Ele a beijou.

Di, sendo Di, retribuiu à altura.


Capítulo 17
NASCIDO ASSIM
Hugger

— Baby — ele alertou, a voz rouca.

Diana, ajoelhada entre suas coxas abertas, com suas pernas dobradas nos
joelhos, a cabeça e os ombros apoiados no encosto da cama dela para poder assistir,
continuava o que fazia.

Se tivesse que escolher, com uma arma apontada para sua cabeça, entre tê-la
com a boca ou dentro dela pelo resto da vida, escolheria estar dentro dela.

Mas seria uma decisão difícil.

— Di — ele grunhiu quando sentiu os músculos enrijecerem.

Estava prestes a gozar.

Ela deslizou para fora, encontrando seu olhar, mas sua mão pequena e firme
continuou o movimento em torno dele. Com a outra, arrastou as unhas pela parte
interna da coxa dele.

Isso o fez fechar os olhos, afundar a cabeça no encosto e liberar tudo sobre o
próprio abdômen.

Ela extraiu até a última gota com toques mais suaves e, antes que ele pudesse se
recuperar, se jogou sobre ele como se não se importasse nem um pouco de se
deitar sobre a bagunça.

Ele forçou o foco nela e viu o enorme sorriso que estampava seu rosto.
— Bom, isso foi divertido — ela disse.

Hugger grunhiu outra vez, mas, dessa vez, sem palavras.

— Ainda bem que fiz meu cabelo ontem, assim tive meia hora extra para te
chupar hoje de manhã — compartilhou, animada.

Ele acordara rabugento, como sempre, mas essa sensação passou rápido quando
Diana foi direto ao ponto.

Agora, no entanto, voltava a ficar inquieto. E pior: percebia que estava lidando
com uma mulher bem-humorada logo cedo.

Sem contar que ela parecia genuinamente feliz por ter feito aquilo com ele.

— Me dá um segundo para me recuperar e eu retribuo o favor — murmurou.

— Não precisa.

Ele a apertou nos braços.

— Baby, eu gozo, você goza.

— Isso é uma regra?

— É pra mim. Pra nós.

— Aceito essa regra com entusiasmo, mas com ressalvas. Tipo, adiar para outra
hora quando eu precisar me levantar e me arrumar para o trabalho.

— Achei que você pudesse ir e vir quando quisesse.

— Gosto de manter disciplina nisso. Se a Annie resolver se conectar ao mundo


real, não quero que ela pense que estou me aproveitando.

Ele a virou na cama, afirmando:

— Hoje, você vai se atrasar.

— Harlan...
Ele deslizou os dedos entre as pernas dela.

— Harlan... — ela sussurrou.

Ele sorriu.

Depois, a beijou.

E então se dedicou a garantir que não houvesse mais desculpas sobre


adiamentos.

Hugger estava em sua cadeira perto da janela, com o celular em mãos, olhando a
página de carreiras do Museu de Arte de Denver.

Havia três vagas abertas.

Nenhuma delas na área de Di.

Diana havia terminado a pintura no dia anterior e, agora, estava sentada à


grande mesa no centro do ateliê, inclinada sobre um pequeno pedaço de madeira.
Ela olhava através de uma lupa fixa e trabalhava com alguns pincéis.

Era meio da manhã.

Foi nesse momento que Annie entrou.

Ela parou, olhou para Di, depois para Hugger, voltou para Di e depois para
Hugger novamente.

Diana levantou a cabeça e, ao perceber que Annie ainda estava parada, chamou:

— Ei, Annie.
— Ei. — Annie deu um passo à frente. — Seu pai está bem?

Hugger endireitou-se, tirando os pés do parapeito.

— Acho que sim — Diana respondeu com cautela. — Por que pergunta?

— Você mencionou uma ameaça.

Hugger relaxou.

Parece que Annie precisava de cerca de vinte e sete horas para processar as
coisas.

— Estamos só sendo cautelosos — Di explicou. — Tudo deve ficar bem e Hugger


não precisará ficar comigo o tempo todo.

Annie olhou para Hugger.

— Você é segurança profissional?

— Não, sou motociclista.

Annie assentiu, como se isso fizesse total sentido para ela.

Ela então se voltou para Diana.

— Vou fazer um brunch neste domingo. Você e seu segurança gostariam de vir?

Hugger percebeu imediatamente o olhar de oh, merda! no rosto de Di antes que


ela o escondesse e respondesse:

— Para ser totalmente sincera, Annie, Hugger também é o meu cara.

Annie olhou para ela, confusa.

— Seu cara?

— Meu namorado — Diana explicou.


Eles ainda não haviam tido essa conversa, mas era bom saber que estavam
alinhados.

Annie desviou o olhar para Hugger.

— Ah, que adorável. Você está cuidando da sua namorada.

— Sim — ele confirmou.

— Muito cavalheiresco da sua parte — Annie comentou.

— Obrigado — ele respondeu.

— Você gosta de brunch? — Annie perguntou.

— Nunca fui a um — ele disse.

Os olhos de Annie se arregalaram, quase dobrando de tamanho atrás das lentes


redondas.

— Sério?

— Sério.

— Nunca? — ela insistiu.

— Motociclistas não são muito fãs de brunch — Diana interveio.

— Então, vocês precisam ir. Estão perdendo algo bom. — Ela se virou para Diana.
— Minha casa. Dez horas. Vejo vocês lá.

Falou como se não estivessem prestes a trabalhar no mesmo local pelos


próximos dois dias.

E, com isso, ela saiu.

Hugger olhou para Di.

— O que foi aquele olhar de oh, merda quando ela nos convidou para o brunch?
Di olhou para a porta e, então, fez um gesto com a mão para ele se aproximar.

Ele se levantou e foi até ela.

— Três possibilidades — ela sussurrou, como se Annie pudesse ouvir. —


Primeira: ela vai lembrar que convidou as pessoas e estará pronta quando todos
chegarem às dez. Segunda: ela vai lembrar tarde demais, então vamos ficar sentados
por duas horas enquanto ela prepara o brunch, e teremos que ficar lembrando ela
de que talvez seja uma boa ideia voltar à cozinha para terminar o que começou.
Terceira: ela vai esquecer completamente, a gente vai chegar e ela não estará em
casa porque decidiu passar o dia em Sedona.

Hugger sorriu.

— Isso não me surpreende.

— E há uma quarta possibilidade — ela continuou. — Vamos chegar e descobrir


que ela incendiou a casa tentando preparar o brunch.

Ele riu baixinho antes de responder:

— Vamos nos preparar e comer donuts antes.

— Você está realmente ok com esse brunch da Annie?

Ele precisava ampliar seus horizontes e estava começando agora.

— Claro. Por que não estaria?

— Porque ela é a Annie, e ela pode esquecer quem você é até domingo.

Ele riu novamente, se inclinou para beijá-la e, ao se afastar, disse:

— Vou sobreviver a esse golpe, se acontecer.

Ela sorriu radiante para ele, e, droga, ele adorava aquele sorriso.

— Vejo que as coisas progrediram enquanto eu estava fora.


Os dois se viraram quando ouviram Big Petey entrando no ateliê de Di.

— Petey! — Diana exclamou, como se ele estivesse fora por anos, e não apenas
alguns dias.

Ela se levantou da cadeira e correu até ele, jogando os braços ao redor dele.

Hugger observou enquanto Pete fechava os olhos e a abraçava apertado.

Quando se separaram, Di perguntou:

— Como tem se cuidado?

— Não tenho comido tão bem, isso é certo.

— Então, óbvio que você vai vir jantar conosco — Diana afirmou.

Hugger queria um tempo só para eles, sem trabalho ou problemas pesados para
resolver.

Mas, para Petey e Di, ele daria um jeito.

Pete olhou para Hugger, que deu um aceno de aprovação, e então ele se voltou
para Diana.

— Parece bom.

— Incrível! — exclamou ela, empolgada.

— Estou aqui para fazer o check-in e atualizar vocês dois.

— Vou puxar outra cadeira — disse Di.

— Nem pense nisso — ordenou Hugger.

Di olhou para ele, mas Hugger simplesmente caminhou até sua própria cadeira,
arrastou-a, depois pegou a dela e a trouxe para perto. Em seguida, pegou a cadeira
atrás da mesa dela e fez o mesmo.
Eles se sentaram, e Pete começou a falar:

— O Resurrection tem alguns contatos bons para descobrir certas coisas. E eles
descobriram algumas. Parte disso é que Imran colocou Esad e seus irmãos em um
avião para a Costa Rica dois dias depois que Maddy se internou no hospital. O
próprio Imran fugiu sob fiança há quatro dias e foi para a Bolívia. A Costa Rica tem
um tratado de extradição com os Estados Unidos. A Bolívia também, mas não um
que funcione de verdade.

Diana recostou-se na cadeira.

— Eles fugiram?

Pete assentiu.

— Há razões para isso. Os federais estão profundamente envolvidos nessa rede


de tráfico. Tanto que os depoimentos de Maddy foram apenas o toque final em uma
investigação que eles já vinham conduzindo. Poderiam levar semanas, ou talvez
apenas dias, para que emitissem mandados. O envolvimento de Esad nisso já era
algo que eles conheciam, o que levou Imran ao radar deles, e assim começaram a
juntar provas contra ele também. Sabendo que todos fugiram, eles aceleraram o
processo e fizeram uma série de batidas ontem. Prenderam boa parte do exército
que Imran deixou para trás, além de coletar outras evidências que garantem que ele
melhor fique na América do Sul, porque, se voltar, será capturado.

— O que isso significa? — perguntou Di.

— Significa que Imran é um verdadeiro filho da mãe, porque está claro que o
filho dele não é muito inteligente. E, mais cedo ou mais tarde, a polícia ou o pessoal
do Resurrection vai pegá-lo. Se for a polícia, vão extraditá-lo, e nenhum deles verá a
luz do dia fora da prisão novamente.

Pete respirou fundo e continuou:

— Encontraram as outras garotas. Eram três. E, como ninguém está ameaçando


elas para mentirem para a polícia, estão contando tudo. Esad e seus comparsas
estão ferrados.
— Então Imran está… o quê? Sacrificando o próprio filho? — Di perguntou.

— Ele não vai deixar o filho levá-lo junto. É mais fácil fugir sozinho. E mais barato
também — disse Big Petey.

— Eu realmente não me importo com o que acontece com Esad, mas, se


considerarmos o mínimo padrão de paternidade aceitável, isso é revoltante —
declarou Diana.

Hugger e Big Petey riram.

— É tudo que você tem? — Hugger perguntou.

Big Petey assentiu, mas acrescentou:

— Rush quer que fiquemos por aqui cuidando da Di e do Armitage. Ainda não
pegaram todo o grupo, e Rush quer garantir que tudo esteja tranquilo antes de nos
dispensar.

Diana sorriu. Ela não tinha nada com que se preocupar. Até que Hugger definisse
com ela onde estavam e para onde iriam, ele não iria a lugar algum.

Big Petey continuou:

— Rush está conversando com Lee, e Lee está em contato com Mace, que está
acompanhando tudo isso. O grupo de Mace aqui é novo, mas está conseguindo
avançar, já tem alguns informantes, e ele acha que vão descobrir se Imran deixou
alguém com ordens que não nos agradariam.

— Ótimo — murmurou Hugger.

— Quem é Lee? — Diana perguntou.

— Lee Nightingale — respondeu Pete. — A empresa que Mace administra aqui


chama-se Nightingale Investigações e Segurança. Mace é sócio, e eles têm três
escritórios em três estados.

— Ah — murmurou ela.
— Que bom que você está aqui — disse Hugger. — Pode fazer companhia para a
Di enquanto eu resolvo uma coisa.

— Também posso resolver isso para você — ofereceu Matchmaker Pete.

Ele adorava o cara, mas não iria mandá-lo comprar preservativos para ele.

— Eu preciso fazer isso pessoalmente — afirmou. Depois pediu: — Me


acompanha até minha moto?

Big Petey se levantou.

— Claro.

Hugger também se levantou, empurrou a cadeira de volta para trás da mesa de


Di. Quando voltou, ela estava em pé ao lado de Pete.

Ele depositou um beijo nos cabelos dela, fazendo com que ela erguesse a cabeça
para encontrar seu olhar.

— Compra uma caixa bem grande. Bem grande — ela instruiu.

Ele sorriu, deu-lhe outro beijo, dessa vez nos lábios, depois se virou para Pete,
que os observava com um sorriso próprio, e saíram juntos.

Ao chegarem à moto, Hugger começou:

— Tenho umas questões para resolver com o Clube.

— Certo — respondeu Big Petey, analisando-o atentamente.

— Tack tem me ligado.

— Isso porque eu disse a ele que é hora de você acertar as coisas com o Clube.

Hugger cruzou os braços sobre o peito.

— Não fique irritado comigo — advertiu Pete. — Você está nessa agora, e sabe
que chegou a hora.
Ele não podia discutir isso.

— Vejo que você e Di já se entenderam — observou Pete.

— Nós sabemos — confirmou Hugger. — Mas há problemas.

— Que problemas?

— Cara, nem preciso dizer. É óbvio.

— Se eu perguntei, é porque não é.

— Ela tem um mestrado. Já viajou para lugares como Lucerna. Construiu uma
vida estável aqui.

Big Petey estreitou os olhos para Hugger.

— Você não está prestando atenção, filho?

— Pete...

— Lanie é dona da maior agência de publicidade de Denver. Millie comanda a


empresa de organização de eventos mais prestigiada da cidade.

— Pete...

— Georgie é uma jornalista premiada — continuou Pete, sem dar trégua.

— É, e o Hop, o High e o Dutch têm muito mais a oferecer do que eu — rebateu


Hugger.

Big Petey começou a se irritar.

— E como você chegou a essa conclusão, Hug?

— Eu...

Hugger fechou a boca, sem saber o que responder.


— Pois é, exatamente assim que funciona — disparou Big Petey, dando um passo
à frente. — Ouça bem, Hug: o amor não é uma balança. Ninguém entra nele
pesando mais que o outro e esperando que a outra parte compense. O amor
simplesmente é. É o ar que respiramos. É o pulsar de um coração. Quando você se
apaixona por uma mulher, a única coisa que realmente importa é que você ofereça a
ela quem você é. E se ela não te aceitar assim, então não é a mulher que merece o
seu amor.

Hugger não encontrou palavras para responder.

Big Petey se aproximou ainda mais.

— Lanie ama o Hop porque ama o Hop. Millie se apaixonou pelo High na
primeira noite em que o conheceu. Georgie e Dutch estavam morando juntos antes
mesmo que alguém percebesse. Joker e Carrie se apaixonaram no colégio, foram
separados e agora têm cinco filhos.

— Joker é um gênio construindo motos ou qualquer coisa com motor —


lembrou Hugger.

— Carrie não ama o Joker porque ele constrói máquinas incríveis. Joke poderia
cavar covas para viver, e ainda assim seria a vida dela.

Era a mais pura verdade.

O olhar de Hugger se desviou para a janela do estúdio de Di, onde ele estava
sentado.

— Vou te dizer uma coisa, irmão — continuou Big Petey, chamando sua atenção
de volta. — Há muita coisa que nos molda como homens. Sim, parte disso vem dos
nossos pais. E tenho certeza de que você não vai discordar que teve a melhor mãe
do mundo.

— Não vou discordar disso — respondeu Hugger, num tom baixo.

Pete assentiu uma vez.


— Pois é. E ela te deu a base para se tornar o homem que é. Aquela mulher já
tinha lidado com mais do que o suficiente quando se tratava de homens, então sabia
exatamente como guiar você para ser o melhor possível. Mas, a partir dali, foi você
quem fez seu próprio caminho. E posso te garantir uma coisa: aquela mulher ali
dentro — ele apontou firmemente para o estúdio de Di — vê cada lição que Jackie
te ensinou, cada presente que ela te deu, tudo o que você absorveu da vida para
poder ser o melhor para a mulher que escolheu. E Di quer isso. E ela não daria a
mínima se você cavasse covas também. Ela só quer você.

Hugger subitamente percebeu que estava com dificuldade para respirar.

— E vou te dizer mais uma coisa antes de voltar para a sua garota — acrescentou
Big Petey. — Se eu ouvir você se diminuindo na minha frente de novo, sou um velho
desgraçado, mas vou encontrar forças para enfiar a porrada em você. Eu te entendo.
Sei o que você precisa resolver. Sei que precisa superar isso, e me irrita pra caramba
não ter te forçado a encarar antes, para que já tivesse superado há muito tempo.
Mas você vai passar por isso. Com o seu Clube ao seu lado. Porque ele faz parte de
você, mas você não é ele.

Você não é ele.

Sim... droga.

Ele não conseguia respirar.

Pete ainda não tinha terminado.

— Di não se importa com os livros que você leu, os países que visitou ou o
trabalho que você tem. O que importa para ela é que você passou o aspirador. Que
você garantiu a segurança do pai dela. Que fez com que ela se sentisse segura. Que
esteve ao lado dela quando ela perdeu a Maddy. Ela se importa com a forma como
você a olha, como a trata e como a toca. Isso é tudo o que importa para ela.

— Você a conhece há uma semana, e mesmo assim ela já sabe mais sobre você
do que você mesmo, irmão. Você pode decidir ficar em casa enquanto ela roda o
mundo, mas ela sempre vai voltar para você... e vai estar feliz pra caralho por isso.
Hugger ficou parado enquanto Pete se colocou na ponta dos pés para encará-lo
de perto.

— Preste atenção, filho. Ela tem mostrado isso para você desde o começo. Não
se coloque na posição de perder essa chance. Isso pode significar perder a melhor
coisa que já aconteceu na sua vida, e eu prometo, você vai se odiar pelo resto dela
se fizer isso.

— Relaxa, Pete. Já decidi que vou fazer o que for preciso para que a Di seja
minha.

Big Petey se recostou nos calcanhares e murmurou:

— Bom, então tá.

— Faz um favor pra mim? Cuida dela um pouco enquanto eu vou comprar uma
caixa gigante de camisinhas.

Pete estreitou os olhos, claramente irritado, antes de soltar um suspiro. Em


seguida, virou-se e marchou de volta para a oficina de Di.

Hugger montou na moto e seguiu para uma farmácia que tinha visto enquanto
levava Di para o trabalho. Antes de entrar, pegou o celular e mandou uma
mensagem perguntando se ela precisava de alguma coisa.

Ele já estava indo para o caixa com os preservativos quando ela respondeu:
Twizzlers de cereja31.

Essa simples mensagem fez com que ele sorrisse, mesmo depois de pagar a
conta.

Já estava sentado na moto, pronto para dar partida e sair, quando sentiu um
impulso. Aquele tipo de impulso que só havia sentido uma vez antes—na noite
passada, quando não sabia o que fazer para ajudar Di.

31
Twizzlers de cereja são um tipo de bala de goma em formato de tiras compridas e torcidas, com
sabor de cereja.
Mas agora ele tinha tempo.

Seu primeiro instinto foi lutar contra isso.

O segundo, deixar pra depois e pensar melhor no assunto.

O último... simplesmente fazer essa porra.

Então, ele ligou para Dutch.

— Fala, Hug — Dutch atendeu. — Tudo certo?

— Sim. Pete está com a Di e eu estou resolvendo umas coisas. Mas tem um
minuto?

— Tenho vários. Jag e Coe estão de olho no velho, e eu estou de boa na casa
alugada até você chegar com a Diana. Depois disso, vou cuidar do complexo. O que
manda?

— Você e Georgie se acertaram rápido e criaram raízes tão rápido quanto.

— É.

— Como você... — Porra, isso era difícil. — Como você soube que era com ela?

Dutch riu e disse:

— Cara, no começo, eu não soube. Ela era uma puta de uma chata quando nos
conhecemos. Depois, parou de ser. Aí eu falei uma merda enorme e quase estraguei
tudo. Mas depois... ela só foi ela mesma. E então, eu soube.

— Foi só isso?

— Você conhece a Georgie?

Hugger conhecia.

E, sim, ela era uma mulher incrível.


— Entendi o que quer dizer — murmurou.

— Todo mundo já percebeu que você está de olho na Diana — Dutch comentou,
sugestivo.

— O problema é que ela se doa demais pra todo mundo ao redor.

— Parece uma combinação perfeita.

Hugger franziu a testa e olhou para o tanque da moto.

— Como assim?

— Você é o primeiro a se voluntariar nas missões. O primeiro a abrir a loja. O


primeiro a levantar a mão quando alguém precisa de ajuda. O Hop disse que te
deram o nome de Clube errado. Ele acha que deviam ter te chamado de Shaky, já
que é o oposto de Steady32.

Hugger passou a mão na nuca, que queimava sob o sol, mas aquele calor não era
nada comparado ao que estava crescendo dentro dele.

— Hug? — Dutch chamou.

— Você sabe quem é o meu pai? — ele perguntou de repente.

— Não — Dutch respondeu. — Eu sei de quem você veio. Mas também sei que
esse cara nunca chegou nem perto de ser seu pai.

— Mas eu ainda sou feito do sangue dele.

— Irmão, você conhece a história do Joker. Agora me diz: o Joke tem alguma
coisa a ver com aquele merda que colocou ele no mundo?

Merda.

— Não — Hugger soltou.

32
A expressão sugere uma brincadeira irônica ou provocativa, dizendo que o nome do Clube deveria
ser Shaky (instável) em vez de Steady (firme), como se insinuasse que a forma intensa e imediata com que
ele age pudesse ser vista como impulsiva ou apressada, em vez de estável e calculada.
— E todo mundo sabe o que aconteceu com o Core, o que ele viveu, o que o pai
dele fez. O Core se desviou feio, mas fez de tudo pra se reerguer. Hellen acha que
ele pendura a lua e traz o sol. Ele se perdeu, mas conseguiu se encontrar de novo.
No final das contas, ele não tem absolutamente nada a ver com o homem que o
gerou.

Hugger também conhecia a história de Hardcore.

E mais uma vez.

Droga.

— Escuta — disse Dutch. — Você precisa falar com Tack.

— Eu vou.

— Certo. Então, enquanto isso, não deixe essa merda atrapalhar quando
encontrar o que quer. Inferno, quando encontrar o que merece, cara. Só não deixe.

— Ela mora em outro estado, irmão.

— Eu seguiria Georgie até o Cazaquistão se ela tivesse que se mudar para lá por
causa do trabalho. E eu nem sei onde fica o Cazaquistão.

Hugger riu, mas ficou surpreso ao ouvir aquilo.

— Você faria isso?

— Com certeza.

— E o Clube?

— O Clube não vai a lugar nenhum. Meu patch ainda estará lá. Só estarei usando
ele no Cazaquistão.

Naquele momento, Hugger sentiu o sol queimando sua nuca e se perguntou se


conseguiria aguentar aquilo a longo prazo.

— Valeu, Dutch. Isso foi legal.


— Qualquer hora, ouviu?

— Sim.

— Não, sério, Hug. Você ouviu mesmo?

O calor voltou a apertar em seu estômago, e sua voz saiu baixa quando
respondeu:

— Sim, Dutch. Eu ouvi.

— Você tem muito amor, irmão. Só precisa se abrir para que a gente possa te dar
um pouco disso.

Foi então que Hugger abaixou a cabeça.

E repetiu:

— Sim.

— Posso te deixar ir?

Hugger ergueu a cabeça.

— Vem jantar se estiver patrulhando o complexo. Diana ficaria furiosa se


soubesse que você estava por perto e não deixou ela te alimentar.

— Me diz a hora e eu apareço.

— Fechado. Até mais, irmão. E, de novo, obrigado.

— Meu prazer. Te vejo hoje à noite.

Eles desligaram. E, antes que pudesse se convencer a não fazer isso, Hugger fez
outra ligação.

Colocou o telefone no ouvido, ouviu chamar duas vezes e então a conexão foi
feita.
— Já era hora — disse Tack.

— Eu preciso de algo, irmão, mas não sei o que é — Hugger admitiu.

— Você está bem com a ideia de eu resolver isso junto com seus irmãos?

— Não, mas já passou da hora.

— Por que o "não"?

Porque ele estava morrendo de medo, era por isso.

— Isso sempre foi sobre ela e você. Jackie e Harlan — a voz rouca de Tack
ressoou. — Nunca foi sobre ele. Você era um legado porque era filho da Jackie,
Hugger. Agora, quando você voltar para casa, isso será confirmado. Eu vou resolver
isso. Você me entendeu?

"Você era um legado porque era filho da Jackie."

— Eu era um legado por causa da minha mãe?

— Você é nosso, Hug. Nasceu assim.

"Nosso. Nasceu assim."

— Você me entendeu? — Tack repetiu.

— Vou ficar por aqui um tempo — avisou Hugger.

— Sim. Pete disse que você está se conectando com Diana. Fico feliz por você,
irmão. Já estava mais do que na hora também. Você tem muito a oferecer a uma
mulher.

Ok, ele precisava encerrar aquela conversa, porque estava mexendo com sua
cabeça.

Claro, estava mexendo de um jeito bom.


Mas Hugger estava descobrindo que um homem só conseguia lidar com uma
certa quantidade de coisas boas ao mesmo tempo.

Especialmente quando não estava acostumado com isso.

E ele estava mergulhado nisso com Di. Estava ao seu redor o tempo todo, e
agora começava a se tornar algo esmagador.

— Traga ela para cá. Apresente-a para a família — sugeriu Tack. — E nós
resolvemos essa merda para que você possa seguir em frente.

— Certo.

— Certo.

— Cara, eu só… — Droga. — Eu nunca te agradeci por cuidar da minha mãe. Lá


atrás, e também quando o Chaos pagou as contas médicas dela quando ela ficou
doente.

— Agradeço o reconhecimento, Hugger, mas parece que falhamos em alguma


coisa. Você não agradece a família por cuidar da família. Agora, conquiste sua
mulher e traga ela para cá, para que as outras mulheres possam fazer o ritual de
iniciação. Só fique sabendo que ela vai voltar com uns cinquenta pares de sapatos.

Hugger soltou uma gargalhada, porque ele bem sabia que as "velhas senhoras"
do Clube, todas elas, tinham uma queda por sapatos.

— Acho que ela não vai se importar.

— Elas nunca se importam.

— Acho que eu também não vou me importar.

— Eu te entendo. A Ruiva de saia e salto ainda mexe comigo, mesmo depois de


dois filhos e mais de uma década juntos.

— Bom saber.
— Quando você encontra a pessoa certa, isso nunca desaparece. Pode dar uma
acalmada por um tempo. Terão altos e baixos que você vai ter que encarar. Mas, de
um jeito ou de outro, nunca desaparece.

— Bom saber disso também.

— Estamos bem? — Tack perguntou.

— Sempre — Hugger respondeu.

— Lembre-se disso, porque essa é a mais pura verdade — afirmou Tack.

Então ele desligou.

Hugger enfiou o telefone no bolso de trás.

Depois, ligou sua moto, deu a ré e partiu em direção à oficina de Di.

Ele precisava entregar o regaliz dela.


Capítulo 18
MISSÃO
Diana

— Essa é Georgie e eu no dia do nosso casamento — disse Dutch, virando o


celular na minha direção para que eu pudesse ver a tela de onde estava, sentada à
mesa de jantar, de frente para ele.

A imagem me atingiu em cheio. Dutch Black, já naturalmente um homem


deslumbrante, estava ainda mais impressionante de smoking, sem a gravata
borboleta, com o colarinho aberto. Ao lado dele, uma mulher lindíssima, com
cabelos castanhos brilhantes e um vestido de noiva justo, estilo sereia, com bastante
tule drapeado. O decote princesa e as mangas curtas de renda davam um toque
delicado, criando um equilíbrio perfeito entre sofisticação e feminilidade. Um
verdadeiro milagre de execução. Eu adorei.

E ela tinha curvas.

Agora, eu já tinha visto Hugger completamente nu, da cabeça aos pés. Seu corpo
era simplesmente impecável, sem um pingo de gordura. Os músculos bem definidos
do abdômen eram de dar água na boca. As marcas em "V" nos quadris eram
praticamente uma revelação divina. Seus bíceps volumosos, os antebraços
vascularizados, a definição dos ombros e das costas, a força das coxas... bom, você
entendeu. Tudo nele era a prova viva de que Deus existia.

E isso estava bem longe do que eu oferecia. Embora Hugger nunca tivesse
demonstrado o menor problema com meu bumbum, minhas coxas ou minha
barriga, ver Dutch e Georgie tão felizes juntos, irradiando uma felicidade genuína,
fez algo dentro do meu coração se aquietar.
Dutch deslizou o dedo pela tela do celular, virou-o novamente para mim e disse:

— Esse aqui são Jag e Arch no casamento deles.

Uau.

A mulher na foto também era linda, mas esguia, vestindo um tubinho tomara
que caia de cetim marfim, combinado com um lenço circular de chiffon suave que
caía do pescoço até as costas. Seu cabelo estava preso sem nenhum adorno, e os
únicos acessórios eram elegantes brincos tipo candelabro, feitos de pérolas,
pendendo das orelhas. Só isso.

Era de uma simplicidade absoluta e tão incrivelmente estiloso que me fez


repensar o vestido de noiva dos meus sonhos, aquele que eu sempre imaginei usar
no meu próprio casamento.

— Pelo visto, vocês têm bom gosto — comentei.

Dutch girou o celular de volta para si, analisando a foto antes de concordar:

— É... Arch é foda. — Ele me lançou um sorriso. — E, obviamente, Georgie foi a


noiva mais perfeita que já existiu.

Retribuí o sorriso.

— Obviamente.

— Eu também tenho algumas — disse Big Petey, do topo da mesa.

Virei para a direita e vi que ele também estava me mostrando a tela do celular.

Na foto, duas crianças adoráveis, um menino e uma menina, ambos de cabelos


escuros e sorrisos encantadores.

— Esses são Playboy e Princess — anunciou, deslizando o dedo para a próxima


imagem.
Agora, um homem incrivelmente bonito, alto e magro, com cabelos escuros e
olhos verdes, segurava a mesma menininha da foto anterior em um dos braços. No
outro, carregava uma garotinha um pouco mais velha, enquanto uma mulher
estonteante, de olhos azul-safira, segurava a mão do garotinho.

— Filhos do Shy e da Tabby — explicou Petey.

Virei para Hugger, que estava sentado ao meu lado, e perguntei:

— Vocês têm algum critério de beleza para aceitar novos membros no grupo?

Ele abriu um sorriso.

Ouvi Dutch e Big Petey rirem baixinho.

Voltei a atenção para Petey, que continuava mexendo no celular.

— Playboy e Princess? — questionei.

— Apelidos — ele respondeu. — Os nomes deles são Landon Kane e Caroline


Tyra. A filha do meio é Wren. O menino foi batizado em homenagem ao irmão do
Shy e ao pai da Tabby. A última garotinha recebeu os nomes da mãe do Shy e da
madrasta da Tabby. Wren faz jus ao nome, nossa passarinha delicada.

— Ah...

Big Petey virou o celular mais uma vez.

— Esses aqui são os filhos do Joke e da Carrie.

E, como já era de se esperar, Joker era um homem ridiculamente bonito, e sua


mulher, com cachos loiro-avermelhados, me lembrava uma líder de torcida. Eles
estavam cercados - ou melhor, sitiados - por crianças.

— Travis, Clementine, Wyatt, Raven e Dakota — enumerou Petey. — Eles


pensaram em ter mais um, mas depois resolveram esperar os filhos crescerem um
pouco e talvez adotar uma criança mais velha, já que são as mais difíceis de
encontrar um lar. Ou quem sabe apenas seguir no caminho do acolhimento
temporário.

Ele voltou a deslizar o dedo pela tela e então virou o celular de novo para mim.

Ao ver a nova foto, senti algo que nunca havia sentido antes.

Meu útero se apertou de puro desejo maternal.

A imagem mostrava Hugger com Raven em suas costas. A garotinha tinha os


bracinhos envoltos no pescoço dele, parecendo sussurrar algo em seu ouvido,
enquanto ele escutava com toda a atenção do mundo.

— Esses dois são unha e carne — comentou Big Petey. — O "Tio Hug" é o
favorito de todas as crianças, porque sempre tem tempo para elas.

— Pete — Hugger alertou em um tom baixo.

Big Petey o ignorou completamente.

— Mas acho que, às vezes, Rave se sente meio perdida no meio de tanta gente.
Não só os irmãos dela, mas toda a criançada do Chaos. Ela é muito tímida. Hugger é
o porto seguro dela.

Virei lentamente para Hugger.

Seus lábios grossos, cobertos pela barba, estavam franzidos em irritação com a
indiscrição de Petey.

Mas eu adorei saber disso.

— Tio Hug — sussurrei.

— Cala a boca — ele rebateu no mesmo tom.

Meu sorriso se alargou.


Hugger soltou um suspiro, então se levantou.

— Di cozinhou, então, Dutch, vamos limpar isso aqui.

Dutch, que estava rindo baixinho enquanto olhava para o próprio colo,
resmungou:

— Certo.

Ele se levantou, pegando alguns pratos.

Hugger fez o mesmo, reunindo mais louça, e os dois deixaram a mesa, me


deixando sozinha com Big Petey.

Quando eles saíram, olhei para Petey.

— Posso ver aquela foto de novo?

Ele me entregou o celular, e meus olhos voltaram a se fixar em Hugger e Raven.

— Eles são muito fofos juntos — murmurei, minimizando completamente o que


sentia.

— Espera só até ver pessoalmente — disse Petey.

Eu não conseguia.

Simplesmente não conseguia esperar.

Também não conseguia esperar por outras coisas. E ver aquela foto me fez ter
ainda mais esperança de que eu as teria.

Hugger e Dutch voltaram para pegar mais coisas e depois retornaram para a
cozinha.

Inclinei-me em direção a Pete e entreguei seu celular.

— Acho que agora você entendeu que estamos juntos — sussurrei.


Pete também se inclinou para mim, um leve sorriso nos lábios.

— Ah, eu entendi, querida.

— Ele está diferente — continuei sussurrando.

— Diferente como? — Pete perguntou.

— Depois que a Maddy foi embora, parecia que ele estava se afastando. Quer
dizer, não exatamente, mas era como se ele achasse que algo fosse acontecer para
nos impedir. Na verdade, até antes da Maddy ir embora, parecia que ele estava
segurando alguma coisa. Mas hoje… hoje não é nada disso.

— Isso acontece quando um homem que está se apaixonando para de lutar


contra o fato de que está se apaixonando.

Minha respiração travou.

Apaixonando-se.

Ouvimos barulhos de louça sendo lavada vindo da cozinha.

— Ele tem algumas coisas que só ele pode te contar, Di — Pete disse, e então
alertou: — E são pesadas.

— Pesadas tipo eu tentando resolver as coisas com meu pai, descobrindo


verdades sobre minha mãe que viraram meu mundo de cabeça para baixo, e o
Hugger esteve ao meu lado em tudo isso?

As sobrancelhas de Big Petey se ergueram.

— O que você descobriu sobre sua mãe?

Eu contei.

— Bom, merda — ele murmurou, afundando-se na cadeira quando terminei.

Viu?
Pesado.

— O Harlan já me disse que ele tem coisas para me contar, não estou indo às
cegas, Petey — garanti. — Mas ele também não recuou quando as minhas questões
surgiram. A gente não pode decidir como a vida vai acontecer, e com certeza o que
está rolando entre nós dois não é um conto de fadas. O que posso dizer é que gosto
muito assim. Provados pelo fogo, e talvez depois venham águas calmas.

— Espero que sim. E fico feliz por você — Pete murmurou. — Feliz pelos dois.

Sorri.

— Eu também.

— Agora, sobre sua mãe… — ele deixou a frase no ar, esperando que eu
continuasse.

E eu continuei.

— Liguei para ela. Deixei um recado pedindo que me retornasse. Ela não ligou.
Desde então, mandei duas mensagens. Ela leu, mas não respondeu. Acho que sabe
que eu descobri e está me evitando.

— E o que você vai fazer quando ela parar de te evitar? — Pete perguntou.

Hugger e Dutch voltaram com a lata de biscoitos de amêndoa no momento em


que respondi:

— Ainda não decidi. Quero ouvir o que ela tem a dizer.

— Do que estão falando? — Hugger perguntou.

— Da minha mãe — respondi.

Seus lábios se comprimiram novamente.

— O que quer que aconteça, vai ficar tudo bem — prometi, acariciando seu
antebraço.
— Hm… — ele murmurou.

Hm… Eu adorava aquele "hm" grave e rouco do Hugger.

— Pais precisam tomar todo tipo de decisão difícil — Big Petey declarou com
sabedoria. — Mas é bom que você saiba tudo o que teve com seu pai, não importa
o que aconteça com sua mãe.

— Isso é verdade — murmurei, então me virei para Dutch. — Falando no meu


pai, ele mora em um condomínio fechado. Estava me perguntando como vocês
estão cuidando dele lá dentro. Não que eu esteja duvidando de vocês — acrescentei
rapidamente. — Só queria saber.

— A escuridão cobre muita coisa — Dutch respondeu.

Ele não disse mais nada, mas pelo tom, entendi que eles tinham tudo sob
controle.

— Me passa essa lata — Big Petey pediu.

Deslizei a lata até ele.

Ele pegou um biscoito, deu uma mordida e, com a boca cheia, comentou:

— Espero que alguém tenha pegado essa receita com a Emmy antes de ela ir
embora.

— Não se preocupe, eu peguei. E também a receita do ensopado de carne com


macarrão.

Big Petey me olhou com os olhos brilhando.

— Claro que pegou, querida.

Hugger passou o braço pelo encosto da minha cadeira e repetiu:

— Claro que pegou.

E… sim.
Eu gostava daqueles biscoitos, os caras também gostavam, mas Hugger amava
aqueles biscoitos tanto que era um milagre ainda ter alguns sobrando.

Então, é claro que eu peguei a receita.

— Poderia dizer que era difícil pra caramba não gozar só de cavalgar meu
grandão, com aquele pau enorme, o peito lindo, o rosto irresistível, o cabelo grosso
espalhado pelo meu travesseiro, a barba cheia, perfeita para eu puxar... e tudo isso
sendo a única coisa que eu conseguia ver.

De alguma forma, consegui me segurar.

Observei os olhos dele escurecerem ainda mais, senti as pontas dos dedos
cravando nos meus quadris e fiquei muito satisfeita ao perceber que estava prestes a
levá-lo ao limite. Mas, de repente, eu não estava mais quicando no pau dele.

Soltei um grito quando ele me puxou e me colocou de joelhos na cama ao lado


dele.

Então, num movimento ágil, ele se ergueu, se aproximou e, com o corpo


pressionado contra minhas costas, me forçou a andar de joelhos pela cama, até que
me inclinou em direção à cabeceira. Num instante, ele se posicionou e investiu
fundo dentro de mim.

Minha mão voou para o apoio da parede.

— Senhor...

Tão bom.

Hugger continuou investindo sem parar.


Minha cabeça tombou para trás, repousando em seu ombro.

— Deus, eu amo, amo, amo ser jogada e posicionada pelo meu homem.

Hugger era o tipo de homem que sabia exatamente o que queria na cama e não
hesitava em tomar para si. Isso era tão fodidamente quente - não, era além disso.
Era cinquenta níveis acima do que se poderia chamar de quente.

Ardente.

Não, incandescente.

Suas mãos envolveram meus seios, os polegares calejados esfregando meus


mamilos.

Ok, eu adorava cavalgar Hugger, mas isso... isso era ainda melhor.

Com o rosto enterrado na curva do meu pescoço, ele me fodia, eu aceitava,


adorava - não, venerava - e soube que as coisas estavam ficando sérias quando uma
das mãos dele deixou meu seio, deslizou pela minha barriga e mergulhou entre
minhas pernas, com o dedo encontrando meu clitóris.

Meu corpo estremeceu quando ondas de calor me percorreram.

— Isso, baby — murmurei em incentivo.

Encontrei os movimentos dele, levantei o quadril para sentir mais, pressionei


minha cabeça contra o ombro dele e estendi a mão para trás, segurando seus
quadris enquanto ele me preenchia. A tensão vinha se acumulando há um tempo,
mas, de repente, explodiu, me consumindo, me arrastando para um lugar onde a
única coisa em que eu podia me agarrar era o jeito como Hugger me possuía.

E era a única coisa que eu queria.

Quando comecei a voltar à realidade, senti o dedo dele deixar meu clitóris,
apenas para envolver meu ventre, me segurando firme enquanto ele continuava
investindo.
Isso só me incendiou ainda mais.

Virei a cabeça, absorvendo o som das respirações pesadas dele, dos pequenos
gemidos que foram ficando mais profundos, até que ele afundou bem dentro de
mim, apertou meu seio e me envolveu com mais força no momento em que gozou.

Hugger era silencioso durante o sexo, ao contrário de mim. Ele fazia barulhos,
mas eram baixos, discretos, e destoavam do esforço que ele colocava para tornar
tudo tão bom para nós dois.

Isso era tão excitante quanto qualquer outra coisa nele.

Ele afastou meu cabelo do pescoço com o queixo - um gesto fadado ao fracasso,
pois senti meus fios se enroscarem na barba dele - mas mesmo assim beijou minha
pele.

Então, saiu devagar, me acomodou na cama com cuidado, tocou os lábios na


minha testa e se levantou para se livrar da camisinha.

Eu me ajeitei sob os cobertores, me espreguiçando, relaxada e satisfeita.

Ah, sim. Sem dúvida.

Hugger estava diferente naquele dia. Não completamente diferente, mas


diferente.

Era como se antes ele estivesse comigo e, ao mesmo tempo, me protegendo de


alguma coisa.

Agora, não era mais assim.

Agora, ele estava apenas comigo.

Não sabia o que tinha acontecido. Queria saber, mas se ele nunca me contasse,
não importava.

Só estava feliz que o que quer que fosse que ele estava segurando entre nós, ele
tinha deixado para trás.
Ele está se apaixonando.

Se qualquer uma das minhas melhores amigas - Bernie, Charlie, Mel - dissesse
que estava se apaixonando por um cara depois de apenas uma semana, eu ficaria
preocupada.

Mas aqui estava eu.

E Hugger também.

E eu não tinha nenhuma preocupação.

Era esse o meu pensamento feliz quando vi a luz do banheiro se apagar e


Hugger sair de lá, exibindo toda a sua glória.

E que glória.

Mas o olhar no rosto dele...

Esse, definitivamente, não era glorioso.

Fiquei perplexa quando ele deu a volta na cama e veio para o meu lado. Mais
perplexa ainda quando pegou meu celular do carregador. E ainda mais perplexa
quando sua expressão irritada se transformou em uma carranca completa ao olhar
para a tela.

Ele colocou o telefone de volta no suporte magnético, levantou as cobertas,


entrou na cama e se acomodou diretamente sobre mim, puxando os lençóis para
cobrir seus quadris assim que se ajeitou.

Pelo menos isso foi bom (muito bom).

— O que foi? — perguntei.

— Sua mãe ainda não mandou mensagem.

Relaxei sob o peso dele, deslizei as mãos por suas costas e murmurei:

— Querido…
— Isso está me irritando — ele afirmou.

— Eu percebi — respondi. — Mas não há nada que possamos fazer a respeito.

— É… — ele grunhiu.

— Posso te perguntar uma coisa? — pedi.

Ele focou o olhar em mim.

— Você pode me perguntar qualquer coisa.

Ok.

Hm.

Sim...

Definitivamente estou me apaixonando por esse cara.

E ele definitivamente está comigo agora.

— Você me disse mais cedo que não gosta de toque e não é carinhoso.

— Não gosto. E não sou.

Pisquei.

— Mas não consigo tirar as mãos de você — ele murmurou.

Pressionei os lábios para segurar o sorriso que, do contrário, teria o ofuscado.

— E adoro suas mãos em mim, mesmo quando não estamos transando — ele
continuou.

Apertei os lábios ainda mais.

Quando senti que estava sob controle, observei:

— Você pareceu bem carinhoso com a Raven.


— Ela é uma criança, e o Pete estava certo. Ela é tímida. Acaba se perdendo no
meio de muitas personalidades grandes e barulhentas.

Acariciei sua barba e perguntei suavemente:

— Você sente uma conexão com ela por causa disso?

Ele inclinou a cabeça ligeiramente e depois disse:

— Acho que sim. Nunca pensei nisso, mas faz sentido.

— Você, uh… quer ter filhos? — perguntei com cautela.

Ele fez aquela expressão que sempre surgia quando estava prestes a dizer
"Nunca pensei nisso."

Mas então seu olhar clareou, e ele respondeu suavemente:

— Quero.

Achei que já estava relaxada debaixo dele, mas quando ouvi isso, meu corpo se
soltou ainda mais.

— E você? — ele perguntou.

— Quero.

— Quantos?

— Dois.

— Dois é um bom número. Não sei muito sobre isso, mas ouvi dizer que ser filho
do meio não é nada divertido.

— Também não sei, mas ouvi a mesma coisa.

Seus olhos ficaram suaves, e ele se inclinou para roçar o nariz no meu.

Nossa, como eu amava quando ele fazia isso.


Já que ele estava sendo tão aberto (não que ele nunca fosse, mas ainda assim),
arrisquei e comentei:

— Você parece diferente hoje.

— Isso porque eu decidi que estamos fazendo isso.

Deixei escapar uma risada surpresa.

— Você decidiu isso hoje?

— Não. Decidi ontem à noite, quando descobri que você é um sexo fantástico.

Minha boca se abriu.

— Completou o pacote perfeito — ele declarou.

— Bom, ainda bem que não te decepcionei na cama — murmurei.

— Não acho que você poderia me decepcionar em nada, baby.

Puta merda!

Tipo, sério.

Ele estava sendo real?

— Eu estava deixando minhas merdas atrapalharem as nossas merdas — ele


explicou. — Você encarou a Maddy e se manteve firme. Encarou a verdade sobre sua
mãe pelo seu pai, mesma coisa. Nada te abala. Vamos ficar bem.

— Quer me contar o que poderia me abalar sobre você? — perguntei.

— Isso fica para domingo, baby — ele disse baixinho. — Mas posso dizer que o
que estava me incomodando era sentir que eu não era bom o suficiente para você.

Minha boca voltou a se abrir, mas dessa vez não foi só por surpresa.

Foi por raiva.


— Você só pode estar brincando.

— Não. — Ele percebeu meu humor e segurou meu rosto com uma das mãos. —
Baby, você tem um mestrado.

— E daí?

— Eu nunca saí do Colorado, exceto para ir a Vegas algumas vezes e agora vir
para cá.

Isso me chocou.

Ainda assim…

— E daí? — repeti de forma mais afiada.

Ele inclinou um pouco a cabeça para trás.

— Você não entende de onde estou vindo com isso?

— Na verdade, não. Porque isso só me diz que, no fundo, você acha que eu
acabaria acreditando que sou melhor que você.

Seu tom demonstrou que estava ficando irritado quando respondeu:

— Não era isso.

— Então explica o que era — exigi.

— Eu vejo sua reação quando te digo que nunca esperei nada da minha vida,
que nunca nem pensei nisso.

— Acho que essa conversa vai ser difícil sem eu ter as respostas de que preciso e
ter que esperar até domingo para tê-las.

De repente, ele se moveu, segurando meu rosto com as duas mãos e trazendo
seu rosto para bem perto do meu.
— Nunca sonhei, nunca quis porcaria nenhuma, porque sabia que não poderia
ter — ele rosnou. — Aí eu sigo essa mulher maravilhosa, cheia de atitude, até o
cantinho incrível que ela criou e, de repente, começo a querer coisas. Trinta e cinco
anos, mulher, e foi a primeira vez na vida que enxerguei o que queria. Tudo. Tudo o
que eu precisaria pelo resto da minha vida. Isso me desestabilizou. Me aterrorizou
pra caralho. Quando você não quer nada, não se decepciona. Agora vejo que era
isso que eu fazia. Me protegendo. Porque, de repente, ali estava — suas mãos
exerceram uma pressão suave na minha cabeça — tudo, e eu sabia, eu... porra...
sabia o quanto ia doer se eu não conseguisse.

— Harlan — sussurrei, tomada por uma enxurrada de sentimentos. Era tanto que
parecia me sufocar, encher cada poro, cada canto do quarto. Mas, ainda assim, era
uma sensação absurdamente linda.

— Sei que meu banheiro lá em casa é uma droga — ele continuou — e que
escovo os dentes no seu banheiro chique, ao seu lado, enquanto você inclina esse
seu traseiro delicioso para passar rímel, com aquele seu cabelo incrível e seu
suprimento absurdo de maquiagem espalhado ao redor.

— Meu estoque de maquiagem não é absurdo.

— Vi você arrumar tudo por dois dias seguidos, baby. Você tem três gavetas só
disso.

Então...

Tudo bem.

Meu estoque de maquiagem era absurdo.

— Nós viemos de mundos diferentes — ele seguiu — e eu quero você no meu


mundo, mas quero ainda mais fazer parte do seu.

Ah, ele ia fazer parte do meu, com certeza.


— Então, o que você está dizendo é que, na última semana, você tem lidado com
a possibilidade de finalmente conseguir o que merece e isso te apavorou — resumi.

— Não sei sobre merecer, mas sim, me apavorou.

— Harlan, se prepara, meu homem maravilhoso, porque agora vou apelar pro
golpe baixo: o que sua mãe diria ao saber que você acha que não merece uma vida
boa?

Ele fez uma careta.

Ah-há.

E ah-há de novo.

Porque agora eu tinha uma missão.

Não sabia onde iríamos parar. Não sabia o que me esperava no domingo.

O que eu sabia era que ele teria um banheiro fodidamente incrível, um quarto
fodidamente incrível, tudo fodidamente incrível. E ele ia fazer parte da criação disso -
comigo. Mas teria sua voz, escolheria o que queria, para que pudesse viver o sonho
que nunca permitiu a si mesmo ter.

Essa era minha missão.

E eu ia cumprir.

Enlacei os braços ao redor dele, ergui um pouco a cabeça do travesseiro e toquei


meus lábios nos dele antes de deitá-la novamente.

— Domingo, você pode despejar tudo sobre mim — convidei. — Mas, por
enquanto, não tivemos muito tempo juntos. E eu ainda não tive tempo suficiente
para te fazer entender que você merece um banheiro chique e tudo o mais que um
dia perceber que quer. Mas saiba que essa é minha nova tarefa e eu não vou parar
até te colocar exatamente onde você sempre deveria estar.
Ele deslizou o polegar pela minha maçã do rosto, mantendo os olhos nos meus,
mas não disse nada.

— Você ouviu isso? — insisti.

— Você fica linda quando me dá sermão.

— Harlan! — reclamei, estapeando seu ombro.

Ele sorriu.

— Começando pelo brunch, você vai me mostrar o mundo?

— Com certeza.

— Acho que quero começar pelo Japão. Gosto de sushi e os jardins deles são
sensacionais.

Ótima notícia que ele gostava de sushi, porque eu era uma verdadeira fã.

— Nossa primeira viagem de férias — declarei.

Meu corpo começou a tremer porque o dele tremia, já que ele estava rindo.

— Você acha isso engraçado? — perguntei, semicerrando os olhos.

— Baby... — foi tudo o que ele disse.

Argh.

Ele me beijou e nos virou, me colocando por cima.

Bom, tanto faz.

Ele ia ver.

Mas, primeiro, tínhamos uma caixa gigante de camisinhas à disposição.

Spoiler: o que aconteceu em seguida foi incrível.


Capítulo 19
EU JÁ O AMO
Diana

Na noite seguinte, desci pelo corredor enquanto colocava o último brinco, entrei
na sala de estar e vi Hugger esparramado no sofá, os olhos grudados na TV.

Assim que apareci, ele virou a cabeça na minha direção.

Então, observei com bastante interesse cada centímetro do seu corpo longo e
relaxado entrar em alerta.

— É a primeira vez que estou usando isso — anunciei, levantando os braços ao


lado do corpo, como se isso ajudasse a mostrar melhor o vestidinho preto e curto
que eu estava vestindo.

Era bem simples, como um vestido preto curto deve ser. Uma manga longa, um
ombro à mostra, bem justo ao corpo, uma saia curta que terminava vários
centímetros acima do joelho, com uma fenda de um lado.

Eu me convenci de que conseguiria arrasar com ele quando o experimentei na


loja.

Agora… já não tinha tanta certeza.

— Ficou bom? — perguntei a Hugger.

— De que jeito?

A pergunta dele me confundiu. "

— De que jeito o quê?


— Como você quer que fique bom?

Olhei para mim mesma e murmurei:

— Bom, tenho o quadril meio largo… e tem isso aqui. — Coloquei as mãos sobre
minha barriguinha.

— O quê?

Fiquei ainda mais confusa e voltei minha atenção para ele.

— O vestido é tão justo que dá pra ver minha pochete.

— Tudo que eu vejo é minha mulher num vestido que está deixando meu pau
duro.

Hmm.

— Sério?

— Quer sentir a prova?

Estremeci com o convite, mas tive que dizer:

— Acho que isso nos faria chegar atrasados.

— Se sua mão chegar perto do meu pau, principalmente agora com você nesse
vestido, a gente vai se atrasar, baby — ele decretou.

E eu realmente, realmente queria minha mão ali.

Mas já vinha ignorando minhas amigas há um tempo, e se atrasar era falta de


educação.

Droga.

Mordi o canto do lábio, indecisa.

Hugger riu baixinho enquanto se levantava do sofá.


— Vamos te levar para os coquetéis — disse, pegando minha mão.

Antes que ele pudesse me puxar para qualquer lugar (não que eu pudesse ir
muito longe, já que ainda precisava trocar de bolsa), segurei firme seus dedos e
perguntei:

— Você não se importa que eu use minha dedicação a biscoitos e tacos no meu
quadril, barriga e em outros lugares?

Sua expressão se fechou, impaciente.

E, como sempre acontecia com Hugger, ele não me fez esperar para entender
seu humor.

— Agora vejo como seu pai estragou isso.

— Sim, mas você é super em forma — apontei.

— Porque temos uma academia no Chaos, e todos os irmãos fazem questão de


usar.

— No Chaos?

— Nossa sede principal, com a primeira loja, a oficina e o Clube. É assim que
chamamos, como se fosse uma ilha. Se você está lá, está “no Chaos”. Não sei como
isso começou, só sei que é assim.

— Ah.

Não sabia explicar por que, mas adorei saber disso sobre o clube dele.

— Eu era segurança antes de virar irmão — continuou. — O pagamento era uma


merda, mas eu era bom nisso. E você não pode fazer esse trabalho sem saber do
que seu corpo é capaz e sem conseguir resolver problemas. Para isso, tem que
treinar.

— Certo.
— Virou um hábito, e eu curto. Me ajuda a limpar a mente.

— Uma vez fiz uma aula de pilates no andar de baixo e não consegui me mexer
por dois dias.

Ele sorriu.

— Quando o calor dá uma trégua no Vale, gosto de caminhar. Mas, faça frio ou
calor, a maioria dessas caminhadas acontece dentro de um shopping.

O sorriso dele se alargou.

— Basicamente, meu exercício físico se resume a limpar minha casa uma vez por
semana — finalizei.

Ele se aproximou mais, abaixando o queixo para me encarar.

— Te dei algum sinal de que não amo cada centímetro seu? — perguntou
baixinho.

— Não — respondi com honestidade, e sim, um pouco sem fôlego.

— Então tira essa ideia da cabeça. A única pessoa que precisa se sentir bem
nesse vestido é você. Mas só para deixar claro, você está linda. Você sempre está
linda, mas hoje se superou.

Bom, então...

Foda-se.

Me pus na ponta dos pés, joguei os braços ao redor do seu pescoço, me


pressionei contra ele e o beijei. Um beijo quente, molhado e intenso.

Hugger me empurrou até o braço do sofá e nós caímos sobre ele.

Então, quando finalmente saímos, estávamos atrasados.


— Que porra é essa? — perguntou Hugger enquanto virávamos a esquina saindo
da recepção do 36 Below33.

Eu segurei o riso, porque aquele bar minúsculo, localizado no porão de uma


cafeteria, tinha banquetas acolchoadas de veludo laranja ao redor de mesas
igualmente minúsculas e bancos de veludo verde no balcão. Além disso, as telas
espalhadas pelo ambiente exibiam uma paisagem animada de um mundo mágico,
com cogumelos gigantes, uma roda d’água, animais da floresta correndo de um lado
para o outro e brilhos flutuantes.

Para completar, os clientes bebiam em taças em formato de cogumelo, apoiadas


sobre placas de madeira cobertas de musgo ou dentro de lanternas de vidro
iluminadas, penduradas em ganchos de ferro adornados com flores artificiais.

Definitivamente, não era o tipo de lugar frequentado por motociclistas.

Era necessário ter uma reserva, e nós conseguimos uma mesa quase minúscula
com quatro banquetas. Então, Hugger estava ali apenas para conhecer as meninas
antes de subir, relaxar, ficar de olho na entrada e provavelmente tomar um café.

Puxei-o na direção das minhas amigas (nem todas tinham aderido ao vestido
preto clássico - Bernie estava com um vestido curto e justo, mas em azul elétrico,
Mel estava abertamente desejando o outono em um vestido curto, justo, de gola
alta e verde, e Charlie, nossa garota hippie, usava um vestido longo sem mangas, de
decote canoa, feito de gaze creme, com uma fenda lateral alta e uma fileira de
pequenos sinos na saia esvoaçante - eu sabia que eles tilintariam quando ela
andasse. Ela estava sentada, mas conhecia bem o vestido porque já a tinha visto usá-
lo antes).

33
O 36 Below é um bar de coquetéis imersivo localizado em Phoenix, Arizona, projetado para oferecer
aos clientes uma experiência sensorial única.
Enquanto nos aproximávamos, todas estavam nos encarando com a mesma
expressão: um misto de choque e curiosidade extrema.

— Oi, desculpa o atraso — falei ao chegar à mesa.

Ninguém respondeu.

Elas simplesmente continuaram olhando para Hugger.

— Esse é Harlan — indiquei. — Ele só me trouxe, mas queria que vocês o


conhecessem.

Silêncio.

Elas ainda estavam vidradas nele.

— Essa é Bernie... ou Bernice — apontei para ela. — E Mel... ou Melissa — segui,


gesticulando na direção de Mel. — E Charlie... ou Charlotte — concluí.

— Você foi a única que não ganhou um apelido masculino — comentou Hugger,
olhando para Charlie.

— E é uma pena que Jagger e Dutch já estejam comprometidos, porque parece


que todas as minhas meninas seriam candidatas — acrescentei.

Hugger me lançou um sorriso.

Ouvi Charlie soltar um ruído de surpresa.

Totalmente compreensível: o sorriso dele, com aqueles dentes brancos


contrastando com a barba multicolorida, era simplesmente incrível.

— Deixo vocês com a conversa — disse ele, inclinando a cabeça e se abaixando


para beijar meu pescoço. Quando ergueu o olhar e encontrou o meu, completou: —
Divirtam-se.

Depois, virou-se para as meninas.

— Prazer em conhecê-las.
— Sim... — Bernie pigarreou.

— O mesmo digo — Mel suspirou.

Charlie apenas acenou.

Hugger atravessou o pequeno espaço com a segurança de quem era dono do


lugar e desapareceu pela parede que levava às escadas.

Quase caí das minhas sandálias pretas de salto quando Charlie puxou meu pulso
com força. Felizmente, contra todas as probabilidades, acabei aterrissando numa das
minúsculas banquetas de veludo laranja.

As três se inclinaram para mim ao mesmo tempo.

— Quem diabos é esse cara? — exigiu Mel.

— Ok, não fiquem bravas... — comecei.

— Brava eu não estou. Eu estou é morrendo de inveja, mas brava não — disse
Charlie. — Quero dizer... aquele cara é tipo... uau.

Ele era, de fato, uau.

— Por que ficaríamos bravas? — questionou Bernie. — A não ser pelo fato de
que você simplesmente sumiu do mapa por semanas e agora aparece com esse cara
enorme e gostoso, que ainda por cima te dá um beijo no pescoço antes de ir
embora.

Bernie, a propósito, era magra, negra, tinha um quadril generoso, mas pouco
peito. Tudo ficava bem nela, de qualquer cor. Além disso, mudava de penteado mais
vezes do que eu trocava de bolsa, e olha que eu trocava de bolsa o tempo todo.

Naquele momento, ostentava tranças finíssimas e compridas, com a metade


presa num coque incrível, do qual algumas pontas escapavam na parte de trás da
cabeça.
Ela era um pouco tímida e reservada, mas não com a gente. Quando estava com
suas meninas, falava o que pensava e não levava desaforo para casa.

Mel, por outro lado, era branca, baixinha, ruiva e super organizada. Ela era a
única de nós que tinha um namorado: Gerard, um escocês completamente
apaixonado por ela. Pelo menos era o que parecia, porque metade do tempo eu mal
entendia o que ele dizia, o sotaque dele era absurdo.

Charlie, como já mencionei, era a hippie do grupo. Fotógrafa de casamentos e


tecladista em uma banda de música ambiente (se é que dava pra chamar aquilo de
banda). Pelo que diziam, as músicas funcionavam, mas sempre me davam sono, o
que, tecnicamente, não deveria ser o propósito de um show.

Ainda assim, íamos assistir sempre. Porque ela era a Charlie.

A garçonete apareceu, e eu vi que na mesa havia um cogumelo, uma lanterna e


um vaso verde com algumas folhas pontudas saindo dele, junto com uma fatia de
maçã e algumas amêndoas flutuando. Então, escolhi o Solis, porque era delicioso,
mas também porque era servido em um cálice, e achei que isso completaria o
conjunto.

Assim que a garçonete saiu, eu disse:

— Ok, muita coisa aconteceu.

— Você acha? — Mel respondeu, inclinando a cabeça em direção ao lugar onde


Hugger havia desaparecido.

— Você está preparada para ouvir tudo? — perguntei.

— Ah, meu Deus — Charlie sussurrou.

— Preparada. Desembucha — Bernie ordenou.

E eu contei tudo.

Continuei contando enquanto recebia meu coquetel, e só parei quando já tinha


tomado metade dele.
— Caramba — Charlie murmurou quando finalmente me calei, enfatizando sua
reação ao sugar mais um terço da bebida pelo canudo, porque tudo o que eu tinha
compartilhado realmente pedia por isso.

— Bandidos podem estar atrás de você? — Bernie perguntou.

— Achamos que não, mas talvez. Eles costumavam ficar no pátio do meu prédio
para fazer pressão, mas não os vimos há dias. Apesar disso, Hugger não está
disposto a correr riscos — respondi, colocando minha taça sobre a mesa.

— Ele faz parte de um moto clube? — Mel questionou.

Não soube interpretar a expressão no rosto dela, mas respondi com firmeza:

— Sim.

— Por que não nos contou que tudo isso estava acontecendo? — Bernie fez a
pergunta de um milhão de dólares.

— Primeiro, porque muita coisa estava rolando e eu não tive tempo — expliquei.

— Isso eu percebo — Mel murmurou.

— Segundo, porque estava acontecendo tanta coisa ao mesmo tempo — Maddy,


meu pai, Hugger — que eu simplesmente não tinha cabeça para processar e falar
sobre isso. Era demais — abri as mãos sobre a mesa — Mas agora estou falando.

— Acho que deveríamos começar falando sobre sua mãe — Bernie sugeriu.

— Acho que deveríamos começar falando sobre esse cara que mora em Denver
— Mel contrapôs.

— Acho que deveríamos dar um tempo, porque, como a Di disse, é muita coisa
— Charlie cortou, olhando para Mel e Bernie do outro lado da mesa.

— Bom, sobre minha mãe, não há nada de novo para contar — avisei. — Ela
ainda não respondeu ao meu correio de voz, nem a nenhuma das minhas
mensagens.
— Desculpa, amiga, mas isso é muito ridículo — Mel decretou.

Esqueci de mencionar que Mel também era bem direta.

E, como em muitas outras vezes, estava certa.

— Concordo — respondi. — Quanto mais tempo ela demora para dar sinal de
vida, mais isso me irrita. E está deixando o Hugger furioso. Ele teve uma mãe incrível.
Acho que isso o confunde completamente, mas, além disso, como ele teve o oposto
do que eu tive, ele odeia essa situação. E é um absurdo, porque me dá tempo
suficiente para relembrar coisas do passado e perceber detalhes que antes eu
ignorava… e que não são nada bons.

— Tipo o fato de ela ter aberto mão da sua guarda sem nem pestanejar? —
Bernice sugeriu.

— Ou o fato de ter se mandado para Idaho como se nunca tivesse tido filhos,
quando teve, e esse filho que ela convenientemente esqueceu que teve foi você —
Mel acrescentou.

— Ou que, quando ela aparece, você e sua avó têm que largar tudo para atender
aos caprichos dela, mas ela se recusa a ficar com vocês. Não, ela precisa de um
bangalô no Biltmore34, e cabe a vocês irem buscá-la e passear por Phoenix conforme
a vontade dela — Charlie completou.

Pois é…

Parece que minhas amigas entenderam minha mãe antes de mim.

— E, sendo bem direta, ela tinha condições de te ajudar quando você estava se
matando para conseguir seus diplomas — Bernie começou — e não fez nada. Não
acredito que seu pai colocou tudo isso em um fundo para você. E além disso, ele
abandonou aquele cliente mafioso só porque você pediu. Isso foi um gesto muito
digno.

34
O Arizona Biltmore é um resort histórico de luxo localizado em Phoenix, Arizona
Meu pai e eu ainda não havíamos resolvido a questão do fundo, mas Bernie tinha
razão. Foi um gesto nobre.

— Não era dinheiro da minha mãe — pontuei.

— Se ela vendesse uma única bolsa Birkin, pagaria um ano inteiro da sua
faculdade — Mel rebateu.

Infelizmente, não pude contestar.

— Outro ponto a favor do seu pai: ele aguentou tudo o que aguentou ao longo
da sua vida — Bernie continuou. — O que eu não entendo é por que sua mãe agiu
dessa forma.

— Bom, não é como se, na frente da Di, Nolan e Margaret fossem sentar e
discutir quem traiu primeiro — Mel observou.

— Essa é a pior parte de tudo isso — Charlie disse. — A Grande Mentira.

— Vítimas vão sempre agir como vítimas — Mel comentou. — Você não
consegue fazer todo mundo te adorar e facilitar sua vida se não os convencer de
que eles devem.

Fiquei imóvel.

Vítimas vão sempre agir como vítimas.

Meu pai traiu minha mãe (quando, na verdade, não traiu).

Brendon desistiu dela (mas será que desistiu mesmo?).

Rick a obrigou a morar em Idaho, onde ela era “forçada” a viajar até Seattle para
fazer compras decentes ou voar até Phoenix (mas ela foi para lá com ele sem
reclamar).

Rick saía para caçar e a deixava “sozinha” (quando, pelo amor de Deus, as
pessoas têm hobbies!).
Rick ficava irritado porque ela não gostava de andar no barco dele, já que o
vento bagunçava seu cabelo, e ela retrucava: “Ele não entende o que é o cabelo de
uma mulher?!”. Mas, mesmo assim, ela ia no barco e reclamava o tempo todo, como
se passear num lago deslumbrante fosse um castigo medieval.

Nada nunca era culpa da minha mãe.

Nada saía como minha mãe queria.

Mas ela viveu uma vida muito boa.

Eu nem sabia como ela passava o tempo por lá, exceto pelo fato de que suas
unhas estavam sempre impecáveis, a pedicure era perfeita, não havia raízes à mostra
no cabelo e ela frequentava spas com frequência.

Eu queria conquistar meus diplomas por conta própria, queria fazer isso para
provar algo ao meu pai. Mas, dito isso, foi um caminho repleto de desafios.

Conheci todas as minhas amigas no primeiro ano da faculdade. Elas sabiam tudo
sobre mim, passaram por tudo ao meu lado. Aliás, os pais da Bernice me deram um
emprego de garçonete em um dos restaurantes deles. Trabalhei lá por três anos.

E elas estavam certas. Minha mãe e Rick me davam cheques generosos nos
aniversários e no Natal, mas eles não eram tão grandes assim.

Ela poderia ter ajudado.

Poderia ao menos ter se oferecido.

Mas não o fez.

Nunca sequer perguntou sobre isso e, para ser sincera, ainda me dava esses
cheques generosos. Agora, porém, eu os via como cheques da culpa—se é que ela
era capaz de sentir essa emoção.

O que eles não eram, com certeza, eram presentes.


Mesmo quando eu era criança, minha mãe me dava dinheiro nessas ocasiões.

Era como se ela fosse uma consumidora tão superior que nem se importava em
me conhecer o suficiente para me dar um presente de verdade, algo que eu
realmente quisesse.

— Di? — Bernie me chamou.

Me concentrei nela.

— Ah, droga — Mel murmurou quando viu minha expressão.

— Dói de verdade — sussurrei.

— Ok, agora vamos dar um tempo nisso — Charlie decretou.

Bernie estendeu a mão sobre nossa mesa minúscula em minha direção.

Peguei sua mão.

— É uma droga ter que lidar com isso, mas fico feliz que esteja percebendo,
porque você dá muito para essa mulher quando ela exige, e ela não merece —
Bernie afirmou.

— Bernie! — Charlie repreendeu.

— Não — interrompi, apertando os dedos de Bernie antes de soltar — ela está


certa.

— Você já sabe o que vai fazer quando sua mãe ligar? — Mel perguntou.

— Acho que… preciso conversar com o Hugger sobre isso — respondi.

— Hugger? — Charlie estranhou.

— Sem querer ofender, mas eu… — sorri — ele meio que se tornou meu ponto
de equilíbrio.

— Perfeito gancho — Mel murmurou.


Sim.

Era hora de falar sobre Hugger.

— Ele aspira a casa — anunciei.

— O quê? — Bernie franziu a testa.

— No sábado passado, Maddy e eu estávamos limpando a casa. Peguei o


aspirador, e ele simplesmente tomou de mim e aspirou tudo.

— Uau — Bernie exclamou.

— O Gerard já fez isso? — Charlie perguntou a Mel.

— Uma vez, e fez tão malfeito que nunca mais tentou — Mel respondeu.

Bernie e Charlie reviraram os olhos uma para a outra.

— Com licença, mas ele tem outras qualidades — Mel retrucou com malícia.

— Sim, ele sabe muito bem o que fazer com o próprio pau — Bernie murmurou.

E isso nós sabíamos bem.

— E ele faz uma mulher gozar só de falar com aquele sotaque — Charlie
acrescentou.

Isso também era verdade.

— Tem esse detalhe — Mel concordou com meus pensamentos. — E ele cozinha
e faz as compras, e eu não gosto de fazer nenhuma das duas coisas.

— Ele é um cara legal, de verdade — Charlie tranquilizou. — Mas ele poderia


simplesmente dizer: "Não gosto de aspirar, vamos dividir as tarefas de outro jeito",
ao invés de fazer um trabalho péssimo só para não precisar repetir.
— Eu percebi que ele não gosta, então agora sou eu quem faz. Ele nem precisou
dizer, porque eu presto atenção no meu homem. E só para constar, ele também
presta atenção em mim, e é por isso que cozinha — Mel rebateu.

— Vamos voltar para a Di — Bernie insistiu.

— Ele cresceu só com a mãe, eram só os dois — compartilhei. — Acho que, por
isso, ele sempre teve que ajudar. Está no sangue dele. Por exemplo, ele arruma a
cama toda manhã, assim como eu.

— Caramba — Mel sussurrou, reverente.

— Pois é — concordei. — Ele escuta. É inteligente. Dá bons conselhos. Diz que


não é carinhoso, mas é extremamente atencioso comigo. E isso é muito gostoso. Ele
gosta da minha barriguinha e do meu quadril grande e nem pisca quando eu como
um terceiro biscoito. Ou um quarto.

— Uau — Bernie murmurou.

— E ele esteve ao meu lado durante tudo isso. Sinceramente, não sei se teria
conseguido passar por essa fase sem ele.

— Ah, Di… — Charlie acariciou minha mão. — Claro que teria.

— E você tinha suas meninas — Mel lembrou.

— Eu sei, mas ele estava lá. Ele ficou. E, por causa disso, tudo se tornou mais fácil.

— Então, além de ser lindo, ele não tem problema em ser um parceiro de
verdade — Bernie resumiu.

— Sim, e muito mais — confirmei.

— Por favor, diz que esse homem enorme, com esse corpo enorme, faz coisas
enormes com você na cama — Charlie implorou.

Sorri.
— Ele é bem… dominador.

Charlie revirou os olhos e soltou um gemido.

Bernie e Mel trocaram sorrisos.

Charlie se recuperou, inclinou a cabeça para o lado e perguntou:

— Então… Denver?

Balancei a cabeça.

— Ainda não chegamos a esse ponto. Vamos ter a grande conversa no domingo.
Mas, até ele ter certeza de que estou segura, ele não vai a lugar nenhum.

— Fofo — Charlie sussurrou.

— E quando isso vai acontecer? — Bernie perguntou. — Você saber que está
segura?

— É improvável que eu não esteja. Eles só querem garantir.

— Então… Denver? — Mel insistiu.

— Eu não sei. Não quero que ele vá embora. Não gosto da ideia de um
relacionamento à distância. Também não quero pensar em me mudar, porque amo
minha vida aqui. E, antes que vocês digam qualquer coisa, eu sei que é cedo demais
para tomar uma decisão assim.

Respirei fundo antes de admitir:

— Então, pode parecer loucura, mas eu simplesmente sei que, aconteça o que
acontecer, nós vamos dar um jeito.

— Você realmente sente isso? — Charlie me observou atentamente.

— Sabe de uma coisa? — perguntei a ela.

— Sei que você vai entender tudo isso — ela explicou.


Sorri.

— Sim, essa é uma das poucas coisas nessa bagunça toda que eu tenho certeza
absoluta.

Olhei para todas elas.

— Ele é o meu cara. Não sei explicar, porque nunca houve uma explicação para
isso. Eu simplesmente sei. — Dei um leve tapinha no peito. — Bem aqui, no fundo.

Charlie envolveu os braços ao meu redor e me apertou com força.

— Amo isso por você.

Bernie e Mel me lançaram sorrisos suaves e cheios de felicidade.

Eba!

Elas entenderam.

Mas, pensando bem, eu sabia que entenderiam.

— Vocês querem mais um drink? — A atendente se aproximou da nossa mesa.

Bernie olhou para o relógio.

— Droga, nosso tempo já está quase no fim.

No 36 Below, o tempo era cronometrado.

Você bebia e tinha que ir embora.

— Não quero outro — disse Charlie.

— Eu também não — acrescentou Mel.

Balancei a cabeça em concordância.

— Vou trazer a conta para vocês — murmurou a garçonete, dando um único


passo até o balcão de atendimento.
Peguei meu copo para dar mais um gole antes de terminar.

— Acho que devíamos ir a algum lugar onde o Hugger possa sentar com a gente
— Bernie decretou.

— Estou dentro! — Charlie exclamou animada.

— Totalmente! — concordou Mel.

— Ele não vai beber. Quando dirige, não bebe — avisei. — Mas provavelmente
vai tomar uma Coca-Cola.

— Já amo ele! — Bernie decidiu.

E eu a amava também.

Amava todas elas.

— Desculpem por não ter contado tudo isso antes — confessei.

— Mas você contou agora — Mel rebateu.

— Então está tudo certo — Bernie completou.

Sim, eu definitivamente amava todas elas.

A garçonete voltou com a conta.

— Vamos acertar isso e buscar o Hugger — Charlie disse, pegando o recibo.

Aquilo não era sobre elas o julgarem.

Era sobre conhecerem ele.

Por isso, fiquei em silêncio enquanto abria minha bolsa para pegar o cartão de
crédito.
— Que diabos é um ambiente jam35? — perguntou Hugger.

Caí na risada.

Isso foi depois de algumas bebidas no Linger Longer Lounge36, o que incluiu
devorar sanduíches de mortadela frita no meio da noite. Estávamos um pouco
arrumados demais (bom, o Hugger não estava), mas era o Linger Longer e era
Phoenix, então valia tudo.

Isso aconteceu depois de um sexo incrível.

Estávamos em um estado que já começava a se tornar familiar: eu deitada na


cama, Hugger sobre mim, ambos sob as cobertas, felizes, relaxados e quentes no
pós-coito, conversando.

Charlie tinha nos convidado para o show dela no fim de semana seguinte.

Um "ambiente jam".

— Vamos precisar tomar dois chás com especiarias e café antes de ir, confia em
mim — avisei.

— O quê? — ele perguntou.

— Ela tem uma espécie de banda. E não digo "espécie" para ser rude, é só que
não é como nenhuma banda que você já viu, embora eles toquem instrumentos.
Charlie toca teclado, tem alguém no drum machine, um guitarrista solo e um

35
A palavra "jam", no contexto musical, refere-se a uma jam session, ou seja, uma sessão de
improvisação musical, geralmente informal, onde músicos tocam juntos sem um roteiro fixo, explorando
ideias e interagindo espontaneamente.

36
O Linger Longer Lounge é um bar e lounge localizado em Phoenix, Arizona, conhecido por seu
ambiente acolhedor e descontraído.
baixista. Mas tudo é muito... — busquei a palavra certa — atmosférico. Eles têm
algumas gravações, tenho no celular. Amanhã, te mostro uma.

— Não sei se estou ansioso por isso.

Sorri e deslizei os dedos pelos pelos do queixo dele.

— É bem gostoso se você estiver em casa, num clima tranquilo, pintando um


livro e tomando vinho, ou sei lá. Mas, ao vivo, pode ser um pouco... digamos,
constrangedor.

— Mas você vai.

Dei de ombros.

— Charlie quer que a gente esteja lá, então, sim.

— Então, sim — ele repetiu baixinho.

Não íamos voltar a falar sobre como eu era altruísta. Não agora. Eu estava
confortável, satisfeita, relaxada sem estar exausta e havia outro assunto a tratar.

— Você gostou deles? — perguntei.

— Eles são ótimos.

Sorri novamente.

— Mel, Charlie e eu conversamos enquanto você me irritava indo ao bar com


Bernie pegar mais bebidas.

Engoli uma risada e respondi:

— Eles estavam ficando desconfortáveis com você pagando todas.

— Tanto faz — ele resmungou.

— Sobre o que conversaram?


— Disseram que você teve uma epifania sobre sua mãe.

Gluh.

— A noite foi boa, estou agradavelmente cansada, podemos deixar isso para
depois? — pedi.

— Só se você me disser que está bem.

Passei os dedos na barba dele e sussurrei:

— Estou bem.

— Tudo bem, então.

Esse era Hugger.

Com ele, tudo sempre ficava bem.

Dito isso, ele se virou para apagar os abajures ao lado da cama e, em seguida,
me puxou para mais perto, colando nossos corpos no escuro.

— Fico feliz que tenha tido uma boa noite, baby — murmurou.

— Fico feliz que tenha gostado dos meus amigos, querido — murmurei de volta.

Hugger me abraçou com mais força.

Apoiei a cabeça sob o queixo dele, fechei os olhos e, mais uma vez, adormeci
aconchegada e segura nos braços do meu cara.
Capítulo 20
ABSOLUTAMENTE ADORÁVEL
Diana

O alarme estava tocando.

Acordei pela metade, não na posição de sempre, enroscada em Hugger ou


colada às suas costas.

Não, dessa vez, era ele quem estava me abraçando por trás.

Gostoso.

O zumbido parou.

Meus olhos se abriram e logo se fecharam de novo enquanto eu voltava a dormir


no calor do corpo de Hugger.

O alarme soou novamente, desta vez ficando pressionado.

Meus olhos se arregalaram.

— Que porra é essa? — resmungou Hugger.

Meu homem, eu já tinha percebido, não era uma pessoa matutina. Descobri que
um boquete ou sexo podiam dissipar sua letargia, mas, depois do orgasmo, ela
voltava e só ia embora depois de, pelo menos, metade de sua primeira xícara de
café.

Era adorável.

Então, enquanto ele jogava as cobertas para trás e saía da cama, eu olhei para o
relógio de cabeceira e vi que mal passava das sete e meia. Muito cedo para um
sábado, especialmente depois de termos ficado fora até tarde na noite anterior. Ou
seja, Momento Letargia Total para Hugger.

Vi quando ele parou diante do painel na parede, ao lado da porta do quarto.

Completamente nu (quente!), apertou um botão e exigiu:

— Quem é?

— Quem está falando? — a voz da minha mãe soou pelo interfone.

Eu me sentei na cama num pulo.

— Sou eu que você está incomodando, mulher. Quem é você? — rosnou Hugger.

— Mãe — sussurrei.

A cabeça de Hugger virou na minha direção e, com tudo que era sagrado, eu
esperava nunca ser o alvo daquele olhar.

— Estou procurando Diana Armitage — disse minha mãe.

— Alguém já desce — retrucou Hugger, apertando o botão para deixá-la entrar


no hall do elevador, mas não o que a levaria diretamente ao meu apartamento.
Depois, foi até suas calças no chão.

— Harlan...

Ele se abaixou para pegar o jeans, mas sua cabeça se ergueu de repente, e ele
me fulminou com o olhar.

— Nem fodendo, baby. Nem fodendo.

Foi tudo o que disse antes de vestir as calças e puxá-las para cima.

Enquanto ele abotoava o jeans e vestia a camiseta, me dei conta de que


precisava me mexer.

Saí voando da cama.


Dormíamos nus, algo que eu nunca tinha feito antes. Simplesmente aconteceu
com a gente.

Então, corri até os ganchos no meu closet, onde tinha deixado meu pijama,
enquanto Hugger marchava para o corredor.

— Merda, merda, merda, merda — murmurei enquanto vestia o short sem


calcinha, pegava o top (porque a parte de baixo podia ficar livre por um tempo, mas
as de cima precisavam de contenção) e lutava para colocá-lo, antes de pegar a
camiseta.

Eu ainda puxava a blusa pela cabeça quando saí do closet e ouvi batidas na
porta.

Espera aí.

Como minha mãe subiu? Ela não tinha um acesso ao elevador.

Saí correndo pelo corredor.

Hugger não estava na sala de estar, então me apressei até a sala de jantar,
chegando bem a tempo de vê-lo abrir a porta.

Lá estavam minha mãe e minha avó. O que explicava o acesso ao elevador, já que
vovó tinha um, além de uma chave. Provavelmente, mamãe a fez levantar cedo para
buscá-la e trazê-la até aqui.

Ou seja, ela não mudou os planos de voo, só recrutou a vovó para ser sua
motorista e guia turística.

As duas encaravam Hugger com choque evidente no rosto, mas apenas minha
mãe falou:

— Quem é você?

— Seu pior pesadelo — respondeu Hugger.

Eita!
O rosto da minha mãe congelou.

A cabeça da vovó inclinou ligeiramente, surpresa.

— Não façam nada para me irritar — advertiu Hugger, virando-se e saindo da


porta, que começou a fechar, forçando minha mãe a estender a mão para impedir
que se batesse em seu rosto.

Hugger passou por mim e continuou pelo corredor até desaparecer no quarto.

— Diana! Quem é esse homem? — exigiu minha mãe.

Me virei para vê-las paradas dentro do apartamento.

Mamãe era loira (de mentira, ela tinha a mesma cor de cabelo que eu, mas
suspeitava que agora fosse prata ou grisalho). Tínhamos o mesmo tipo de corpo e
altura, mas ela era uns quinze quilos mais leve do que eu, se não mais.

Ela usava calças marrom ajustadas, uma blusa branca com um bonito desenho de
folhas marrons e mangas amplas em formato de sino. Estava segurando uma jaqueta
de camurça, mesmo que as temperaturas tivessem esfriado um pouco – mas ainda
fazia trinta e sete graus durante o dia.

E nos pés, usava sandálias de camurça de salto alto e grosso, com uma larga tira
cruzada na frente

Já o cabelo da vovó era todo prateado, então era deslumbrante. Nós herdamos
nossa estrutura óssea dela, mas ela provavelmente pesava uns quinze quilos a mais
do que eu e, na minha opinião, ela sabia como sustentar isso.

Ela estava vestindo jeans cropped e uma camisa masculina de botões,


parcialmente colocada para dentro da calça na frente (arrasou, vovó!) em um tom
suave de pêssego.

— Diana! — Mamãe chamou em um tom cortante. — Eu te fiz uma pergunta.

— Esse é o Harlan, meu namorado.


— Você tem um namorado, boneca? — Vovó perguntou, sua confusão dando
lugar a um brilho animado no olhar.

— Sim, você tem um namorado e não contou para sua mãe? — Mamãe
questionou, seus olhos frios de reprovação.

— Olha, você nos acordou e...

— Então, era isso que estava acontecendo de verdade? — Mamãe me cortou. —


E não aquela história de uma garota machucada? Você tem um homem na sua vida
e larga tudo, inclusive sua mãe, para dar toda a sua atenção a ele?

Cabeças explodem?

Eu precisava saber, para avisar Hugger e pegar um esfregão.

— Maggie — Vovó murmurou, surpresa ao encarar minha mãe.

— Como você pode inventar uma história dessas? — Mamãe me repreendeu.

Mas Hugger voltou para a sala nesse momento, celular em mãos e uma
expressão de pura fúria.

— Vocês vão descer, tomar um café e esperar até que Di ligue dizendo que
podem subir de novo — ele ordenou.

— Claro — concordou vovó.

— Acho que não — rebateu mamãe.

— Isso não vai acontecer até que Di e eu tenhamos um tempo para acordar de
verdade — Hugger insistiu.

— Desculpe, mas eu nem te conheço, então não vou aceitar ordens suas —
disparou minha mãe.
— Maggie — sussurrou vovó mais uma vez, mas dessa vez sua voz soou mais
aguda, mais alarmada. — É óbvio que acordamos eles. Eu te disse que era muito
cedo para surpreender a Diana num sábado. Vamos dar um tempo para eles.

Mamãe ergueu um braço em nossa direção e respondeu para vovó:

— Agora eles estão acordados.

A cabeça de vovó deu mais um tranco de surpresa.

— Mãe, sério, só meia hora, tá bom? — pedi.

— Acho que tenho o direito de saber o que está acontecendo com a minha filha!
— A voz de mamãe foi se elevando.

Hugger fez um barulho ameaçador que parecia vir do fundo do peito.

Mas eu exigi:

— Você está brincando?

Mamãe apontou diretamente para Hugger, com o braço esticado.

— Um homem que eu não conheço abriu a porta da minha filha.

— Vai tomar um café — rosnou Hugger.

— Não! — Mamãe disparou. — Talvez você possa se retirar enquanto eu


converso com a minha filha.

— Isso não vai acontecer, senhora — Hugger devolveu.

O corpo de mamãe recuou, indignado.

— Você fala comigo desse jeito?

Hugger abriu a boca…

Mas eu já tinha perdido a paciência.


— Esta é a minha casa, onde eu pago a hipoteca, então sou eu quem decide o
que acontece aqui. E o que não vai acontecer é você se metendo na vida do meu
homem.

— Diana… — Mamãe sussurrou, ferida e incrédula.

— Se você quer ter essa conversa agora, vamos ter — falei com firmeza.

— Baby... — murmurou Hugger.

— Mas sugiro que você vá tomar um café para eu esfriar a cabeça — finalizei.

— Vamos pegar um café, querida — vovó incentivou.

— Esfriar a cabeça do quê? — Mamãe ignorou vovó e me encarou.

Ela não tinha estado aqui nos últimos cinco minutos?

E ela sequer ouviu meu correio de voz ou leu de verdade minhas mensagens?

— Podemos conversar sobre isso quando você voltar — declarei. — E, a


propósito, quando voltar, pode me trazer um chá com especiarias e um toque de
espresso feito com leite de aveia, um espresso duplo para o Hugger e dois
danishes37 de queijo.

— Eu não sou garçonete — ela sibilou.

— E você não é grande coisa — Hugger murmurou.

— O que você disse? — Mamãe exigiu saber.

— Melhor nem saber — Hugger disse a verdade.

Ela lançou um olhar fulminante para ele e depois para mim.

37
Danish também é o nome de um tipo de folhado doce de origem dinamarquesa, muitas vezes
recheado com creme, frutas ou geleia.
— Não acredito que você está deixando seu namorado me desrespeitar, Diana —
acusou. — Mas acho que não deveria me surpreender, já que ele claramente não
tem nem o mínimo de higiene.

— Maggie! — vovó exclamou, horrorizada.

Mas eu vi tudo vermelho.

Não.

Escarlate.

Não.

Vermelho-vivo.

Eu comecei a me lançar para cima dela, sem nem saber exatamente por quê, mas
Hugger me segurou pela cintura e me puxou contra ele.

— Respira — ele sussurrou no meu ouvido.

Eu abri a boca.

— Respira — ele repetiu.

Porra!

Eu respirei.

— Maggie, eu adoraria um café — vovó disse, persuasiva, do jeito que sempre


falava com minha mãe. — Vamos dar um tempo para eles se vestirem. Fica logo ali
embaixo.

— É melhor você estar com outra atitude quando eu voltar, mocinha — mamãe
me ameaçou. Então, saiu batendo os pés, abriu a porta com um puxão e se foi, sem
nem segurar para a própria mãe.

— Não sei o que está acontecendo, mas vou falar com ela, querida — vovó disse
para mim.
Apenas assenti com a cabeça, ríspida.

A porta se fechou atrás dela.

Foi então que Hugger me arrastou até a sala, ainda segurando meu corpo contra
o dele, e só me soltou quando chegamos lá.

— Vou fazer café — ele disse quando me virei para encará-lo. — Você vai fazer o
que precisar para estar pronta.

— Você ligou para alguém? — perguntei.

— Sim — ele respondeu.

— Para quem?

— Liguei para o Pete e mandei ele vir correndo. Mas antes disso, pedi para ele
conseguir o número do seu pai e avisar que sua mãe está aqui, para ele vir também.

— Como ele vai achar o número do meu pai?

— Confia em mim, ele vai achar.

Pelo jeito que ele disse isso, eu acreditei que o Big Petey daria um jeito.

Mas desanimei.

— Hugger, eu não sei se⁠...

Ele segurou meu rosto com as duas mãos e inclinou-se para mim.

— Esse confronto vai acontecer, baby, porque você precisa disso. Mas você
precisa da sua família ao seu lado quando acontecer.

Meu Deus!

Eu estava me apaixonando por esse cara.

Afundei o rosto em seu peito.


Ele envolveu minha cabeça com uma das mãos, beijou meu cabelo e sussurrou:

— Agora vai. Escove os dentes. Faz o que precisar.

Obviamente, depois de aliviar a bexiga e já na metade da escovação dos dentes,


Hugger apareceu no banheiro com uma caneca de café.

Ele colocou a caneca ao lado da minha e foi até a própria pia.

Mentalmente, revisei meu guarda-roupa para ver se tinha um visual apropriado


para um Confronto com Minha Mãe.

Eu não tinha.

Enquanto adicionava uma fina camada de armadura ao rosto - base, corretivo,


pó, blush, iluminador, sombra de tom único e rímel - eu encontrei a solução.

Assim que borrifei um pouco de perfume e passei desodorante, fui até o closet e
vesti meu vestido tipo camiseta em tom rosa-rosado, com um decote V amplo. Ele
caía logo abaixo do joelho, tinha bolsos incríveis e um cinto largo de cetim na
mesma cor, que o elevava, dava forma e o tornava mais feminino.

Eu me sentia bem nele - confortável e arrumada.

Então, era perfeito.

Voltei ao banheiro para prender o cabelo em um coque bagunçado, deixando


algumas mechas soltas ao redor do rosto.

Voltei ao closet para colocar os brincos de diamante que meu pai me deu na
formatura do colégio e, nos outros furos, pequenas barras com diamantes delicados
ao longo da linha, que as meninas me presentearam no meu aniversário alguns anos
antes.

Para o toque final do meu apoio moral em forma de joias, acrescentei o colar
com pingente de diamante que meu pai me deu no meu aniversário de dezesseis
anos.
Saí descalça e encontrei meu pai na cozinha com Hugger, os dois tomando café.

Papai parecia infeliz.

Os olhos de Hugger me percorreram dos pés à cabeça, e ele deu um sorriso de


canto.

Prova de que eu acertei no visual.

Ainda bem que coloquei calcinha.

Uma batida soou na porta.

— Deve ser o Pete — disse Hugger, colocando a caneca na pia e indo atender.

Caminhei até meu pai.

— Gosto do seu homem — ele disse.

Isso me surpreendeu pra caramba, mas adorei que ele tivesse dito.

— Está perdendo um horário no golfe para estar aqui? — perguntei.

— O campo não vai a lugar nenhum.

Ou seja, sim.

Me aproximei mais e me aninhei em seus braços.

— Harlan me contou o que já aconteceu — ele murmurou contra meu cabelo.

— É... não foi nada bom.

— Se você não quiser passar por isso, posso descer e mandá-la embora — ele
ofereceu.

Inclinei a cabeça para trás para encará-lo.

— Ela já está aqui. Acho que encarar de frente é melhor.


— Não queria que você passasse por isso, Florzinha — ele sussurrou.

— Bem, é o que é. E, sinceramente, com toda a porcaria que tem acontecido, fico
até aliviada por poder resolver logo isso.

Meu pai assentiu e, ainda com o braço ao meu redor, nos virou porque Hugger
estava de volta com Big Petey.

— Nolan, este é Pete Waite, um irmão para mim e amigo da Diana — apresentou
Hugger.

Big Petey se aproximou, apertou a mão do meu pai e depois me encarou.

— Você está bem, querida? — perguntou.

Assenti (mentindo descaradamente sem dizer uma palavra).

— Está pronta? — Hugger perguntou.

Assenti de novo (ainda mentindo sem dizer nada).

— Manda uma mensagem para sua avó, baby — ele murmurou.

Droga.

Voltei para o quarto e peguei o celular. Enquanto caminhava de volta para a


cozinha, enviei uma mensagem para a vovó.

Assim que cheguei, recebi a resposta dela: Estou pegando seus cafés e já
subindo!

O tom animado da mensagem indicava que ela estava fazendo o que sempre
fazia pela minha mãe: tentando amenizar a situação.

Me perguntei se vovó tinha conseguido acalmar mamãe e colocar um pouco de


bom senso na cabeça dela.

Duvidava muito.
— Elas estão subindo — anunciei.

Pete pegou um café para si, completou o do meu pai, que observava tudo com
interesse enquanto Pete se movia pela minha cozinha com familiaridade.

Quinze minutos depois, bateram na porta.

Hugger foi atender.

Meu corpo enrijeceu.

Ele entrou primeiro, mas, quando minha mãe veio atrás, parou abruptamente,
fazendo com que vovó - que carregava uma sacola (provavelmente com danishes) e
copos de café de papel em cada mão - esbarrasse nela.

Claro que mamãe não ajudou a carregar as coisas. Como pude ser tão cega por
tanto tempo?

— Ah, então isso vai ser uma emboscada? — ela acusou, lançando um olhar
azedo para o meu pai.

— Margaret, sugiro que fique quieta e escute o que nossa filha tem a dizer — ele
aconselhou.

— O tempo em que você me dizia o que fazer já passou há muito, Nolan — ela
retrucou com veneno.

Meu pai suspirou.

Vovó parecia prestes a chorar.

Mas, claro, ela era puro amor e bondade, não gostava de confrontos e amava
tanto a mim quanto à filha. Então, essa hostilidade aberta - que provavelmente
parecia repentina para ela - devia estar a matando por dentro.

Aposto que ela achava que estavam apenas vindo me buscar para um passeio. E
dava para ver que mamãe não explicou nada enquanto tomavam café espresso e
leite vaporizado, muito menos que havia recebido mensagens não muito amigáveis
minhas.

Era horrível não poder aliviar a situação para ela, mas, naquele momento, eu não
podia fazer nada além de sugerir:

— Vovó, talvez seja melhor você dar uma voltinha na varanda?

— Acho que vou ficar aqui, querida — ela respondeu com incerteza.

Mamãe ignorou nossa troca e apontou para Big Petey.

— Quem é esse homem?

— Um amigo meu — declarei.

Ela lançou um olhar desdenhoso para Pete e resmungou alto o suficiente para
todos ouvirem:

— Por que não estou surpresa?

Paciência, Diana. Paciência, repeti para mim mesma.

— Não sei. Já que você não me conhece, como poderia se surpreender com
qualquer coisa a meu respeito? Isso, sim, é surpreendente — rebati.

Mamãe me encarou enquanto eu contornava o balcão da cozinha em direção à


sala.

Se íamos ter um embate, era hora de tomar minha posição.

— Não acredito que você me disse isso — ela sussurrou, magoada.

— Qual é a minha cor favorita? — perguntei.

— Eu... — Ela se interrompeu e, para não admitir que não sabia a resposta,
rebateu: — Isso vai ser algum tipo de teste?

Mas... caramba, isso doeu.


Era um teste. E ela falhou.

Minha própria mãe não sabia qual era minha cor favorita.

— Que cor é? — pressionei.

— Azul, querida! Está por toda parte! — vovó se apressou em responder,


forçando um tom alegre.

— Não a ajude, Shannon — disse meu pai.

Antes que minha mãe ou minha avó pudessem dizer qualquer coisa, eu falei.

— O papai nunca mandou em você, mandou? — perguntei. — Pelo menos, não


com sucesso.

— O que você está…? — começou minha mãe.

— Mas ele tentou, e foi por isso que você recorreu ao Brendon — afirmei.

Observei a cor sumir do rosto da minha mãe.

Eu tinha acreditado no meu pai quando ele me contou, mas, ao ver aquela
reação, eu soube.

Eu soube.

— O quê? — perguntou minha avó.

— Tantas perguntas — murmurei. — As normais, como "como você pôde trair


seu marido e o pai da sua filha?". E as incomuns, como "como você teve a audácia
de dizer a todos que foi ele quem traiu você?".

Minha avó contornou minha mãe.

— Do que a Di está falando, Maggie?

— Vejo que ele está enchendo sua cabeça de mentiras — disse minha mãe.
Antes que eu pudesse responder, meu pai se adiantou.

— Você partiu meu coração.

A franqueza em sua voz fez meu estômago revirar, a ponto de eu achar que ia
vomitar.

Os olhos da minha avó voaram para ele.

O rosto da minha mãe recuperou a cor, e rápido, mas desta vez ficou vermelho.

Meu pai saiu da cozinha, continuando a falar.

— Eu te amei tanto. Fiquei tão destruído pelo que você fez comigo que, quando
encontrei uma mulher boa depois de você, estraguei tudo. Perdi ela também. Mas
isso foi culpa minha.

— Nem foi depois — disse minha mãe, com a voz trêmula, porque a farsa tinha
acabado.

— Deveríamos ligar para a Nicole? — sugeriu meu pai. — Ver se a linha do


tempo dela bate com a sua?

— Ela também mentiria — retrucou minha mãe, se agarrando ao que lhe restava.

— Margaret, o que está acontecendo aqui? — questionou minha avó.

— Nada, mãe. O Nolan está com seus joguinhos de novo — respondeu minha
mãe.

— Então você não traiu o papai com o Brendon? — perguntei, querendo clareza.
— O papai não pediu o divórcio antes de a Nicole entrar na vida dele? Isso nunca
aconteceu? Mesmo que você tenha se casado com o Brendon poucos meses depois
do divórcio sair?

— Foi um romance arrebatador — disse ela.

— Você realmente está na minha casa, na minha frente, mentindo para mim? —
questionei.
— Claro que você acredita nele — ela reclamou. — Sempre foi você e ele contra
mim.

— Não, sempre foi você e eu contra ele, porque você fez ser assim. O que eu não
percebi é que ele estava lá para mim, e você não!

Ok… droga.

Eu estava gritando.

Mas não conseguia parar.

— Você não lutou pela minha guarda! Você não me ajudou a escolher meu
vestido de formatura! Você nunca esteve lá para mim! Então, como espera que eu
acredite que foi fiel ao papai?

— Ele destruiu a nossa família! — minha mãe gritou de volta.

— Então por que foi ele quem nos manteve juntos depois que você foi embora?
Por que ele e eu ainda éramos uma família sem você?

— Eu não tinha condições de cuidar de você — rebateu minha mãe.

— Você tinha uma pensão generosa. Teria sido mais ainda com a pensão
alimentícia. Não era incapaz de conseguir um emprego. Você estava nos seus trinta
anos. Poderia ter construído uma vida comigo.

— Parece tão fácil quando você fala, Diana — retrucou ela. — Mas nunca é tão
fácil assim.

Levantei um braço, apontando ao redor.

— Olhe ao redor, mãe. Você acha que o que eu construí aqui foi fácil? Pois não
foi. Mas eu fiz assim mesmo. Então responda ao papai. Ligamos para a Nic para
perguntar como foi? Ou talvez para o Brendon, para saber a versão dele?

— Não ouse falar com aquele homem! — minha mãe explodiu.


— Por quê? Porque você o odeia por ter te desmascarado e te deixado para trás?
Ou porque ele confirmaria a versão do papai? Ou os dois?

— Não preciso aguentar isso — declarou minha mãe, girando nos calcanhares
para sair, apenas para dar de cara com Hugger bloqueando a entrada da sala de
jantar. — Saia da frente! — exigiu.

— Não até a Di terminar com você — Hugger respondeu.

— Saia da minha frente! — ela gritou.

— Margaret, olhe para mim — minha avó ordenou.

Ela olhou, apenas para se lamentar:

— Mãe, manda esse homem sair do caminho!

— Você fez o que a Diana disse? — minha avó perguntou.

Minha mãe ergueu as mãos.

— Ah, não você também…

— Responda — exigiu minha avó.

— Claro que não! — ela retrucou, mas sem conseguir encarar minha avó nos
olhos.

— Meu Deus… — minha avó sussurrou, e o choque em sua voz doeu como uma
ferida aberta. Desilusão. Arrependimento. Tristeza.

Minha mãe virou-se para a sala.

— Então agora todos estão contra mim? Como sempre! Meu ex-marido me tirou
minha filha quando ela ainda era um bebê, e agora ele faz isso de novo…

Que se dane essa história.

Interrompi:
— Eu não era um bebê. Eu já tinha consciência das coisas, mãe. Eu falava frases
completas, lia, fazia contas. Eu me lembro que você não lutou por mim.

— Eu não tinha condições — repetiu minha mãe.

— Com licença, Margaret Ann, seu pai e eu oferecemos essas condições para
você — disse minha avó.

Isso era novidade.

Interessante.

— Eu não podia pedir dinheiro para vocês, mãe — rebateu minha mãe.

— Por que não? Você fez isso muitas vezes quando era mais nova — disparou
minha avó. — E, desta vez, seria por algo importante. Minha neta.

Minha mãe levou a mão ao peito.

— Eu fui a destruída pelo que o Nolan fez comigo.

— Você superou rápido, se casando com aquele filho da mãe — retrucou minha
avó.

Uau.

Meus olhos se arregalaram.

Minha avó nunca xingava.

E também nunca enfrentava minha mãe.

Talvez estivesse brava por ter que acordar cedo para brincar de motorista.

Ou talvez ela estivesse tão cansada quanto eu.

— Você não pode evitar quando se apaixona — disse minha mãe.


— Besteira — retrucou vovó, irritada. Deus o abençoe, eu não sei como ele
conseguiu, mas Big Petey se esgueirou para pegar o café e os doces dinamarqueses
das mãos dela, mesmo enquanto ela continuava reclamando. — Eu não acredito que
você está aí, se humilhando, e a mim também, de novo. Duas vezes na mesma
manhã. Foi rude com o rapaz da Di. Foi rude com a própria Di, sua filha. E ainda foi
grosseira quando voltou, depois de eu passar quarenta e cinco minutos conversando
com você naquela cafeteria!

Minha mãe apontou para mim.

— Bem, ela mentiu sobre uma pobre garota que foi violentada em grupo só para
passar mais tempo com o novo namorado.

— Cuidado com o que diz — alertou Hugger.

Minha mãe se virou para ele, furiosa.

— Isso não é da sua conta.

— O nome dela é Madison — interveio Big Petey.

Dessa vez, minha mãe se virou para ele, que estava encostado no balcão da
cozinha, com o café e o saco de doces dinamarqueses à sua frente. Vovó também se
voltou para ele.

— Ela foi sequestrada em sua casa no Texas, vendida para traficantes e


violentada por três homens. Sua filha lhe deu abrigo, encontrou uma forma de
convencê-la a falar com a polícia e com o FBI e garantiu que fosse colocada sob
custódia protetiva.

— Isso é absurdo — decretou minha mãe.

— Talvez eu possa acompanhá-la até a delegacia para falar com o detetive Rayne
Scott — sugeriu meu pai. — Ele pode confirmar a história do Pete.

— Como você está aqui? — questionou minha mãe. — Durante anos, Diana nem
sequer falava com você.
Eu fui mais rápida que meu pai.

— Isso não é da sua conta.

— Como não é da minha conta? Eu sou sua mãe! — ela gritou.

— Não é da sua conta porque meu pai e eu nos reaproximamos depois que eu
fui abusada sexualmente no meu dormitório na faculdade.

Vovó engasgou, soltou um gemido e, cambaleando, se segurou no balcão da


cozinha. Big Petey se aproximou para ampará-la.

Minha mãe me encarou.

Meu pai se aproximou.

Mas, por mais que eu sentisse por vovó - e sentia muito - eu já estava envolvida
demais nisso, então meu foco era minha mãe.

— Mas eu nem sequer te contei sobre isso, mãe, porque você é tão frágil que eu
sabia que não suportaria — continuei. — Só que recentemente percebi a verdade.
Eu não te contei sobre o que aconteceu porque, lá no fundo, eu sabia que, de
alguma forma, você distorceria tudo e faria disso algo sobre você.

— Isso é uma coisa terrível de se dizer — sussurrou minha mãe.

— Eu sei que é. E até sinto que é. Mas é verdade — respondi.

— Diana — vovó engasgou.

Olhei para ela, e a expressão em seu rosto me destruiu.

— Eu estou bem, vovó. Foi há dez anos. Eu estou bem — garanti.

— Por que você não me contou? — ela perguntou.

E... pois é.
Eu não contei para ela nem para o vovô porque ele não teria suportado (ele
sempre foi superprotetor com todas as meninas da família - uma bênção para mim,
mas que se tornaria um fardo por causa... da minha mãe). Além disso, vovó teria
contado para ela.

— Porque você contaria para a mamãe, e eu não conseguiria lidar com o que
aconteceu e com ela ao mesmo tempo. — As lágrimas encheram os olhos de vovó,
então acrescentei suavemente: — Me desculpe.

— Foi por isso que você largou a faculdade — ela concluiu.

— Parte disso, sim.

— Você não precisa se desculpar comigo, querida. Fomos eu e seu avô que
falhamos com você — disse vovó.

— Não, vocês não falharam. Vocês me deixaram morar com vocês.

— Poderíamos ter feito mais.

— Não havia mais o que fazer — assegurei. — Vocês fizeram o que eu precisava.

— Ah, mas isso é maravilhoso, não é? — ironizou minha mãe. — Todo mundo
está bem e confortável, mas vocês estão com raiva de mim, mesmo eu não sabendo
de nada do que estava acontecendo.

— Maggie, sua filha acabou de compartilhar... — começou vovó.

— Poupe-me, mãe! — minha mãe gritou.

— Não fale com ela desse jeito — adverti.

— Olha quem fala, falando assim com a própria mãe — retrucou ela, como se ela
mesma não tivesse acabado de gritar com a dela.

Sério.

Já era demais.
— Você é mesmo minha mãe? — perguntei.

Foi um golpe baixo, e ele atingiu em cheio.

Minha mãe fez um som como se tivesse levado um soco no estômago.

Vovó estremeceu.

Meu pai sussurrou:

— Diana.

Mas Hugger?

Ele sorriu para mim.

E Pete?

Ele piscou.

— Eu vejo como é — disse minha mãe, a voz carregada de mágoa.

Mas não.

Ah, não.

Ela não era a vítima aqui.

— No fim das contas, você me afastou do meu pai — declarei, minha voz
propositalmente serena. — Você mentiu para mim, me fez acreditar em coisas que
não eram verdade sobre ele. Criou uma barreira entre nós, mesmo quando ele me
amava, me sustentava, estava presente para mim. Mas sua mentira sempre esteve
entre nós. Ele sabia disso. E sacrificou o que poderíamos ter tido para que eu tivesse
você.

Vovó soltou um soluço.

Minha mãe me encarou.


— Eu não sei se consigo te perdoar por isso — confessei com honestidade. — O
que eu sei é que vir até minha casa e falar da maneira que falou comigo, com
Harlan, com Pete, com meu pai, com vovó, definitivamente não é o caminho para me
guiar a isso.

— Suponho que possa correr para a Nicole, que sempre esteve lá por você, e
chorar no ombro dela — minha mãe rebateu.

— Eu sei que posso, porque você está certa, ela sempre esteve lá por mim —
retruquei.

Outro soluço escapou de vovó.

Minha mãe se virou para ela.

— Quero voltar para o Biltmore. Preciso descansar e processar tudo isso antes
dos meus compromissos no spa.

Meu Deus.

— Você está se ouvindo, Margaret? — perguntou vovó, tão chocada com as


palavras da filha que sua surpresa secou suas lágrimas.

O que não era nenhuma surpresa, porque minha mãe era uma enorme mimada.
E não do jeito bom.

— Acho que fui tratada de forma abominável, então não pode ser surpresa que
eu precise de um tempo para...

— Pelo amor de Deus, pare de falar — suspirou vovó. — E peça um desses Ubers.
Eu não vou te levar de volta para o Biltmore.

— Mãe! — minha mãe exclamou, indignada.

— Te amei demais, mas errei com você — murmurou vovó.

— Mãe! — gritou minha mãe.


— Estou despedaçada, Maggie — sussurrou vovó. — Talvez você não tenha
prestado atenção em tudo que aconteceu agora, preferindo, como sempre, viver no
mundo de fantasia da sua cabeça, mas eu estava aqui. Peça logo um maldito Uber.

— Eu chamo um — ofereceu meu pai.

— Não quero nada vindo de você — minha mãe retrucou, ríspida.

— Tudo bem — murmurou ele.

— Então é isso? — minha mãe me perguntou.

— Isso depende de você — respondi.

— Bom, certamente não vou vir do Idaho até aqui para ser tratada assim de novo
— ela avisou.

— Acho que tudo o que precisava ser dito já foi dito — afirmei. — Agora cabe a
você pedir desculpas e...

— Pedir desculpas?! — minha mãe me interrompeu.

— Chame o Uber, Maggie — ordenou vovó, ainda sendo a mãe dela e, mesmo
devastada, tentando conter o desastre.

— Também não vou mais visitar você — disparou minha mãe.

O rosto de vovó se contraiu de dor.

— Cristo, você é inacreditável — murmurou Hugger, alto o suficiente para todos


ouvirem.

— Como se eu me importasse com o que um homem como você pensa de mim


— minha mãe rebateu.

Ih, complicou.

Hugger apenas deu de ombros e saiu do caminho para deixá-la passar.


Eu ainda sentia o fogo queimando no meu peito e se espalhando pelas minhas
veias quando minha mãe começou a se afastar.

— Pare — ordenei.

Ela se virou para mim.

— Sem contato — declarei.

Meu pai fez um barulho de surpresa. Hugger se moveu na minha direção.

— O quê? — minha mãe perguntou.

— É o termo usado quando você corta laços com um familiar. Você segue a regra
do sem contato. Vou te bloquear no meu celular. Acabou.

Hugger ficou ao meu lado enquanto minha mãe me encarava, sussurrando:

— O quê?

Balancei a cabeça.

— Você não entende. Nada disso. Nunca vai entender. E sua última cartada foi
destratar meu cara, de novo, como se estivesse tudo bem. Mas não está. Você já
falou mal do meu pai, da vovó, do Big Petey, e eu deixei passar. Mas Hugger, não.
De jeito nenhum. Isso foi a gota d’água. Como eu disse, acabou.

O rosto dela empalideceu.

— Você não pode estar falando sério — sussurrou.

— Com toda certeza — respondi, sentindo meu estômago se revirar.

Mas era isso.

Ia doer. Eu a amava. Amava de verdade, apesar de tudo.

Mas ela não fazia bem para mim.


Nem para ninguém.

Ela me observou por um momento antes de endireitar os ombros e dizer:

— Você fez o mesmo com seu pai, então duvido que isso dure.

— Veremos daqui a dez anos — retruquei.

Ela ficou ainda mais pálida.

— Você tem o aplicativo do Uber? Porque seria bom se você fosse agora —
sugeri.

— Não acredito que você está fazendo isso comigo — ela murmurou.

— E esse é o problema — rebati. — Eu não estou fazendo nada com você. Você
causou tudo isso sozinha.

Ela olhou para mim. Depois para meu pai. Em seguida, para vovó.

Então fungou e, sendo totalmente ela mesma, mesmo em meio ao caos, fez o
que sabia fazer de melhor: saiu desfilando pela casa com toda a sua pose,
desaparecendo na sala de jantar.

Ninguém disse nada enquanto esperávamos o som da porta da frente se abrir e


se fechar.

E ninguém disse nada depois que isso aconteceu.

Quebrei o silêncio.

— Vovó, você está bem?

— N-não — gaguejou ela.

Fui até ela e a envolvi em um abraço.

— Sinto muito que você tenha passado por tudo isso — murmurei.
— Eu sinto muito por você, querida — respondeu, apertando-me com força. —
Sua mãe...

— Por favor, não arrume desculpas para ela — implorei em um sussurro.

— Tudo bem, Di — ela assentiu, também baixinho.

Apertei-a mais uma vez, beijei o lado de sua cabeça e me afastei um pouco,
ainda mantendo um braço ao redor dela, antes de olhar para Hugger.

— Acho que nosso sábado divertido foi por água abaixo — comentei.

— Ah, não... — vovó murmurou, preocupada.

Mas Hugger apenas me encarou, sério.

Então disse:

— Não sei, baby. Sua família está aqui. Acho que podemos encontrar uma
maneira de nos unir.

Então...

Totalmente...

Me apaixonando pelo meu cara.

Sorri para ele.

Sua barba se mexeu quando ele me mandou um beijo.

Primeira vez que isso aconteceu.

E ah, sim.

Foi absolutamente adorável.


Capítulo 21
ENCERRAMENTO
Diana

Hugger teve seu primeiro brunch um dia antes do planejado.

Isso aconteceu porque todos nós fomos ao Prep & Pastry38 depois que minha
mãe saiu furiosa, e eu consegui acalmar a vovó.

Pode-se dizer que, depois de duas décadas achando que meu pai era um cretino,
agora ela claramente se sentia péssima por isso. Além do mais, estava atordoada
com tudo o que havia descoberto naquela manhã. Por isso, o brunch não foi
exatamente um momento de risos e descontração - principalmente porque vovó
parecia e agia como se tivesse sido atropelada por um caminhão.

Porém, meu pai foi incrivelmente gentil com ela, Big Petey soube manter a
conversa fluindo, mesmo que, em alguns momentos, estivesse um tanto forçado. No
fim das contas, tive a impressão de que vovó ficou aliviada por ter a oportunidade
de começar a se redimir por algo que nem era culpa dela.

Hugger, por outro lado, permaneceu majoritariamente em silêncio durante tudo


isso.

Na noite anterior, eu havia descoberto que ele simplesmente era um cara quieto.
Ele conversava comigo com sinceridade e abertura, mas, em situações sociais,
preferia observar. Não parecia desconfortável com isso - era apenas quem ele era. E
como Hugger sempre era autêntico, aquilo apenas o tornava ainda mais atraente
aos meus olhos.

38
O Prep & Pastry é um restaurante especializado em café da manhã, brunch e almoço, com várias
unidades no Arizona, incluindo Tucson, Scottsdale e Gilbert.
Depois do brunch, foi uma tortura saber que estávamos a apenas dois minutos
de caminhada do setor de sapatos da Nordstrom e não poder aproveitar. Mas vovó
parecia ter envelhecido cinco anos desde que apareceu na minha porta naquela
manhã, e, apesar de estar arrasando com seu estilo, ela não era mais jovem, e aquela
cena com a minha mãe tinha sido uma loucura. Eu sabia que ela não estava no clima
para experimentar sapatos (ou brincar com maquiagem nos balcões de cosméticos).

Por isso, Hugger e eu a acompanhamos até o carro. Prometi chamá-la para jantar
em breve, dei um beijo nela, e ela deu a Hugger um sorriso distraído e murmurou:

— Foi um prazer te conhecer, filho, queria que fosse em outras circunstâncias.

Então, entrou no carro e deu a partida.

— Ligue para ela em meia hora para ver como está — ordenou Hugger enquanto
observávamos vovó partir.

Mais um traço incrivelmente atraente.

Deixei para lá a Nordstrom (devastador!) e voltamos para meu apartamento, para


que eu pudesse dar um tour oficial para meu pai. Isso não significava apenas
mostrar cada cantinho do meu espaço, mas também levá-lo para conhecer o
complexo: a piscina, a sala de ginástica e o clube.

Hugger e Big Petey nos deram espaço para fazê-lo a sós, mas suspeitei que
fizeram isso porque Dutch, Jagger ou Roscoe estavam de olho no prédio.

— Isso é incrível — disse meu pai enquanto voltávamos para o apartamento.

O que ele realmente quis dizer foi que era um lugar sofisticado para alguém de
vinte e nove anos.

— Fiz uma aposta enorme no treze preto, no Talking Stick, e a bola caiu no treze
preto — contei.

Meu pai parou e me encarou.


Várias expressões lutaram para tomar conta de seu rosto: surpresa (porque era
algo inusitado para eu fazer), reprovação (porque, sem dúvida, ele não me
aconselharia a apostar assim) e confusão (porque, mesmo com aqueles ganhos,
aquele era um lugar caro para morar, e eu ainda não tinha mencionado a ajuda do
vovô).

Então, ele caiu na gargalhada.

Meu Deus, era maravilhoso ver meu pai rindo.

E ficou evidente algo que eu sempre soube: ele era incrivelmente bonito.

Definitivamente, meu pai ainda tinha charme.

— Eu já tinha ganhado muito em uma rodada incrível de vídeo pôquer, então


resolvi arriscar no roleta. Assim que venci, saquei o dinheiro e nunca mais voltei a
um cassino — compartilhei.

Ele passou o braço pelos meus ombros enquanto caminhávamos pelo pátio em
direção ao elevador.

— Embora eu nunca aconselhasse minha filha, que estava construindo sua vida,
ou qualquer pessoa, a apostar uma grande quantia em um único número na roleta,
você, de fato, investiu bem.

Nossa, me senti como se devesse estufar o peito.

Não lembro de ter sentido isso antes, mas naquele momento, deu vontade.

Passei o chaveiro para acessar o elevador e, enquanto esperávamos, meu pai


disse:

— Você lidou muito bem com sua mãe, Florzinha.

Fiz uma careta.

— Se mudar de ideia e decidir voltar a falar com ela, ela vai te aceitar num
instante — garantiu ele.
As portas do elevador se abriram, entramos, selecionei meu andar e me virei para
ele.

— Nós dois sabemos que ela vai me fazer passar por um inferno, torcer tudo até
que eu acabe pedindo desculpas, e então tudo voltará a ser como era antes. O que
não é saudável.

Meu pai preferiu não responder.

— Vai ser horrível, e eu vou sentir falta dela — continuei. — Mas, pai, eu contei
que fui agredida. A vovó quase desmaiou, mas minha mãe? Não teve nenhuma
reação, a não ser pensar em como aquilo afetava a ela.

— De fato — murmurou ele, infeliz.

Infelizmente, eu não podia fazer nada pelo sofrimento dele. Estava ocupada
lidando com o meu próprio. No fim, ambos teríamos que aprender a conviver com
isso.

Saímos do elevador e ele segurou minha mão.

Parei e olhei para cima.

— Precisamos conversar sobre isso — ele disse com cuidado.

— Não, não precisamos — retruquei. — Você não lidou bem com a situação na
época. Eu deixei isso bem claro e guardei ressentimento por muito tempo. Mas
sinceramente, acha que ainda precisa se redimir?

— Espero que não.

E, no fundo, eu também esperava que não.

— Então, podemos simplesmente seguir em frente? — perguntei.

Seus dedos se apertaram nos meus.

— Eu adoraria.
— E não tem nada a ver com o dinheiro do fundo fiduciário, embora devêssemos
conversar sobre isso também.

Dessa vez, sua mão apertou a minha com mais firmeza.

— Diana, você não deveria recusar.

— Tenho orgulho do que conquistei.

— Eu também tenho orgulho do que você fez, querida. Mas você poderia usar
esse dinheiro, refinanciar seu apartamento e reduzir significativamente suas parcelas.

Hmm.

— Ou poderia deixá-lo intocado e usá-lo como uma excelente entrada quando


decidir dar um passo maior na compra de um imóvel — meu pai continuou.

Hmm de novo.

— Ou ainda, poderia retirar os rendimentos trimestrais e fazer algo especial para


você mesma — ele prosseguiu, apertando minha mão mais uma vez. — Trabalhei
demais e por muitas horas enquanto você crescia. Agora vejo isso. Mas o que quero
que entenda é que foi exatamente por isso que fiz tudo isso. Sua mãe me contou
que você conseguiu concluir dois cursos sem precisar de um único empréstimo. Mas
teve que trabalhar de forma quase impossível para conseguir isso. Agora, por favor,
permita-me fazer o que batalhei tanto para alcançar: dar à minha filha um pouco de
tranquilidade financeira no momento em que ela começa a construir sua vida.

Cara, ter meu pai de volta era simplesmente incrível.

— Tá bom, eu aceito o fundo fiduciário — cedi.

Seu sorriso foi tão radiante que me perguntei por que considerei recusar.

— Não quero que venda nossa casa — soltei de repente.

Meu pai piscou, surpreso.


— Desculpa — murmurei. — Isso foi egoísta.

— Só tem eu lá agora — ele disse com gentileza. — É um espaço grande demais


só para mim.

— Você poderia encontrar uma mulher especial — sugeri, mas me arrependi no


mesmo instante de ter dito "especial", já que ele reagiu com um leve desconforto. —
Desculpa de novo. Não devia me meter na sua vida amorosa.

Ele segurou minha mão e a passou por seu braço, guiando-me pelo corredor
enquanto caminhávamos.

— Tenho pensado muito desde que você voltou para minha vida — começou. —
E percebi outra coisa. Sabotei meus relacionamentos. Sabotei as mulheres com
quem estive... tudo para não me machucar novamente.

— Ah, pai... — sussurrei.

— Me arrependo dos corações que magoei — murmurou.

— Quando o seu próprio coração está ferido, talvez seja difícil enxergar além
disso — tentei justificar.

— Não arrume desculpas para mim, Di — ele respondeu.

Pressionei os lábios e apenas assenti.

— Vou pensar em manter a casa — disse ele, por fim.

— Não precisa. Eu não devia ter mencionado isso.

— Talvez eu a mantenha por um tempo, para que você possa passar mais tempo
lá. Para que nós possamos passar mais tempo juntos nela, sermos uma família ali de
novo.

Sorri.

— Isso seria maravilhoso.


Ele cobriu minha mão com a dele, deu um tapinha carinhoso e, em seguida, me
soltou para que eu destrancasse a porta do meu apartamento.

Ficamos um tempo conversando antes de Pete e meu pai irem embora.

Foi então que Hugger decretou:

— Manda mensagem para suas meninas.

Quase morri de tanto rir, porque ficou claro que meu homem estava decidido a
garantir que eu cuidasse da minha avó (já tinha mandado uma mensagem para ela,
ela mentiu dizendo que estava bem, mas pelo menos sabia que eu estava pensando
nela) e, ao mesmo tempo, não me perdesse tanto no caos da minha vida a ponto de
me afastar de um dos meus pilares: minhas amigas.

E assim começou uma maratona de meia hora de mensagens com Mel, Bernie e
Charlie.

Elas ficaram tristes por eu ter tomado a decisão que tomei, mas todas
concordaram que eu fiz o certo.

Enquanto isso, fui enrolando e organizando algumas coisas, incluindo separar


roupas minhas e do Hugger para lavar e colocar tudo na máquina.

Mas, no final, acabei estirada no sofá quando a conversa por mensagem foi
diminuindo, tornando-me o lugar perfeito para Hugger se acomodar em cima de
mim.

(Ah, e detalhe: no meio das minhas mensagens, ele me ajudou a trocar os lençóis
da cama e ainda levou o aspirador para as duas varandas, limpando o pó do deserto
de Phoenix dos tapetes e móveis - e eu nem precisei pedir!)

Joguei o celular na mesa de centro, aceitei de bom grado seu peso sobre mim e
passei os braços ao redor dele.

— Preciso dizer uma coisa — ele anunciou.


— E eu tenho ouvidos, então manda — incentivei.

Ele sorriu, mas logo ficou sério ao continuar:

— Não gosto que façam minha lavanderia, baby.

Oh.

— Eu cuidava da roupa da minha mãe e da minha também — explicou. — Não


tínhamos muito, então o que tínhamos, a gente zelava. Peguei o hábito de ser
meticuloso com isso. Se você observar como faço e estiver de boa com isso, posso
cuidar da nossa roupa. Se não, cada um cuida da sua.

Bom...

Isso de repente se tornou uma Conversa Sobre Planejar Nossa Vida Juntos.

E eu estava totalmente dentro.

— Se você continuar pegando todas as tarefas pra você, eu vou acabar


ganhando uns vinte quilos, comendo bombons e fazendo as unhas enquanto assisto
Real Housewives39 — brinquei.

Suas sobrancelhas se ergueram.

— Você assiste essa porcaria?

— Absolutamente não.

Suas sobrancelhas voltaram ao normal e ele me beijou.

Quando se afastou, perguntei:

— Ok, estou muito arrumada para uma faxina pesada. Posso fazer isso amanhã.
O que quer fazer pelo resto do nosso sábado divertido?

39
Real Housewives é uma franquia de reality shows produzida nos Estados Unidos. O programa
acompanha a vida de mulheres ricas e influentes em diversas cidades, mostrando seus dramas pessoais,
relacionamentos, amizades e conflitos.
Antes que ele respondesse, listei as opções:

— Você mencionou jardins japoneses. Temos um ótimo jardim botânico em


Phoenix, que é divertido de passear e tem uma loja de presentes incrível. Também
temos um jardim tradicional japonês, embora o 'tradicional' signifique apenas que
ele segue esse estilo. Obviamente, não fica no Japão..

Seu olhar se iluminou com um brilho divertido.

Continuei...

— Ou podemos caminhar pelo Papago Park40, que é incrivelmente bonito. Ou, se


preferir, o cinema fica literalmente a um quarteirão de distância e tem aquelas
poltronas reclináveis fantásticas. Se quiser ver um filme, podemos ir. Também tem o
Talking Stick Casino. Já tentei a sorte lá o máximo que pude, mas você disse que já
esteve em Vegas. Se gosta de jogar, podemos ir, e eu assisto você se divertir.

— Além disso, tem o Biltmore Mall. É um shopping, mas ao ar livre, bonito e com
ótimos restaurantes. Podemos almoçar tarde no Blanco ou no Zinburger e depois
tomar um gelato no Frost41.

— Baby...

— O Mercado do Agricultor no centro é incrível, mas acho que já fechou —


continuei, sem parar. — Posso conferir o site de eventos do Arizona Republic para
ver se tem algum festival acontecendo. Estamos perto do Oktoberfest, e a feira
estadual está rolando.

Parei de falar quando percebi que meu corpo estava balançando levemente. Ele
estava rindo, em silêncio.

40
O Papago Park é um parque municipal localizado nas cidades de Phoenix e Tempe, no Arizona,
Estados Unidos. Conhecido por suas distintas formações geológicas de arenito vermelho e uma variedade
de plantas típicas do deserto

41
O Biltmore Fashion Park é um centro comercial de luxo localizado em Phoenix, Arizona, oferecendo
uma variedade de lojas especializadas e esses estabelecimentos contribuem para a reputação do Biltmore
Fashion Park como um destino de compras e gastronomia de alto padrão em Phoenix.
— O quê? — perguntei.

— Você está tentando me convencer a gostar de Phoenix?

Ah, merda.

Eu definitivamente estava.

Arregalei os olhos e, tarde demais, fechei a boca.

Ganhei outro beijo, e ele levantou a cabeça mais uma vez.

— Está quente demais para caminhar lá fora. Eu toparia o cinema, mas preferiria
assistir aquele filme do Monty Python com você aqui — disse ele, acrescentando: —
Mas, se tiver algo disso que você realmente queira fazer, eu topo.

— Que tal vermos um filme aqui e depois saímos para comer alguma coisa? —
sugeri.

— Fechado. Quer pipoca?

Ele fez a pergunta no instante em que meu celular vibrou na mesa de centro.

Ele esticou o braço longo, e nós dois vimos "Nic Chamando" na tela.

Ele me entregou o telefone, deu um beijo no meu pescoço e murmurou:

— Vou preparar a pipoca.

Então, saiu de cima de mim.

Sentei e atendi a ligação.

— Oi, Nic.

— Ah, querida — disse ela, com emoção na voz. — Seu pai me ligou.

Nossa.

Ele ligou?
— Sério? — perguntei.

— Ele queria que eu soubesse o que aconteceu entre você e sua mãe.

Caramba.

— Como o Larry reagiu ao meu pai ligar? — perguntei com cautela.

Larry não era do tipo possessivo ou ciumento, mas, ao mesmo tempo... era, sim,
um pouco.

Digo, não tinha dado certo entre meu pai e Nicole, mas ela tinha sido muito
apaixonada por ele. Sem dúvida, Larry sabia disso, e qualquer homem que soubesse
disso não ficaria exatamente tranquilo com o ex dela ligando do nada.

— No começo, ele não gostou muito, mas, quando percebeu sobre o que
estávamos conversando, superou — disse Nic.

— Bom, isso é ótimo.

— Quer que eu vá até aí? — ela ofereceu.

Ela era incrível.

— Não, Nic. Obrigada. Hum... — Lancei um olhar para a cozinha e vi Hugger


ligando minha pipoqueira. — Acabei me envolvendo seriamente com um dos
motociclistas.

Hugger virou a cabeça para mim e sorriu.

Sorri de volta.

— Por favor, me diz que foi com aquele grandão, barbudo, que parece um ursão
de pelúcia — respondeu ela.

De fato, foi. Mas, em um milhão de anos, eu nunca chamaria Hugger de ursinho


de pelúcia.
Se você não o conhecesse, talvez.

Mas eu já o tinha visto nu.

E também tinha visto a expressão no rosto dele quando minha mãe apareceu de
surpresa em uma manhã de sábado.

Ele era mais como um urso pardo. Parecia fofo e dava vontade de abraçar, mas,
se você mexesse com ele, com alguém que ele amava ou estivesse sob sua proteção,
ele te dilaceraria sem hesitar.

— Sim, Harlan. Hugger. E é...

Será que eu deveria ir para a varanda?

Não, entre mim e Hugger já estava tudo às claras.

— É algo, Nic.

— Eu amo isso por você, querida.

Isso era tão Nicole. Sempre me apoiando.

— De qualquer forma, ele estava aqui, sabe de tudo o que está acontecendo.
Estou bem. Não totalmente bem, mas vou sobreviver. No fim das contas, acho que
será melhor assim. Não tem mais uma mentira envenenando tudo entre nós. E eu
tenho meu pai de volta.

— Fico muito feliz que você tenha conseguido resolver as coisas com ele.

— Eu também. Então, está tudo certo. Hugger e eu vamos assistir a um filme


agora.

— Ah. Tudo bem então. Vou deixar você ir.

Havia algo na voz dela que não consegui identificar.

— Você está bem? — perguntei.


Ela hesitou por um longo tempo.

Aguardei em silêncio.

— Eu sabia de tudo isso, Di, e não te contei — ela admitiu, finalmente.

Minha doce Nicole.

— Papai te fez prometer, não foi? — deduzi.

— Foi — ela confirmou.

— Não era sua obrigação me contar, Nic — assegurei.

— Não...

— Por favor, não se sinta mal por isso — pedi. — Realmente, não era sua história
para contar. O que mais você poderia ter feito?

— Acho que... exatamente o que fiz.

— Sim. O que você fez.

— Você precisa saber até onde seu pai está indo com tudo isso — ela começou.

Ah, droga.

Já tinha sido um dia pesado, então me preparei, porque sentia que viria mais.

— Ele me pediu desculpas — ela contou. — Disse que me amava muito, mas
estava tão destruído pelo que a Maggie fez que não conseguiu confiar em nós.

Afundei o rosto na mão, sentindo-me devastada por ambos, e murmurei:

— Ah, Nic...

— Eu sei — ela sussurrou. — Foi de partir o coração ouvir isso. Saber o quanto
ele sofreu.
Ai!

— É... — consegui dizer.

— Mas, ao mesmo tempo, foi bom saber que o que eu sentia era real. Porque,
por muito tempo, achei que tinha interpretado tudo errado.

Senti a grande mão de Hugger pousar na parte de trás do meu pescoço.

Levantei o rosto da mão, olhei para ele e murmurei, sem som: Estou bem.

Ele me estudou por um segundo, então assentiu e voltou para a cozinha.

Para Nic, eu disse:

— Espero que isso te traga um pouco de paz.

— Eu encontrei o Larry depois do Nolan e eu terminarmos. Fiz mais do que bem.


O que me deixa ainda mais feliz por você e Nolan terem se acertado. Assim, ele não
fica tão... sozinho.

Ai.

— Estamos definitivamente nos acertando — prometi. — Você contou isso para


o Larry?

— Eu não escondo nada dele, Di, então sim, contei. Ele sabe que eu o adoro. Mas
sei que, às vezes, exagero ao demonstrar isso.

Ri.

— Então ele sabe que Nolan não é uma ameaça — ela continuou. — Isso foi há
muito tempo. No fim das contas, acho que Larry ficou feliz por haver um
encerramento, e do tipo certo. E, considerando que todos compartilhamos você,
talvez possamos ser uma espécie de família para você.

Ah, meu Deus!


Será que as pessoas que eu amo poderiam parar de testar os limites das minhas
glândulas lacrimais?

Argh!

— Bom, ponto para o meu pai por ter sido grande o bastante para te procurar —
disse, em vez de cair no choro.

— É muita coisa para todos nós, especialmente para você, mas estamos lidando
com isso — ela disse. — Ah, e Nolan me contou sobre a Suzette, que na verdade era
Madison. Fico feliz que ela esteja segura e com os pais.

— Eu também.

— Você teve notícias dela?

— Sei que chegou ao destino, mas, até que o perigo passe, não terei mais
contato.

— Certo.

— Mas, se ela me procurar, te aviso.

— Ótimo. Uma garota tão jovem ter que ser tão forte... Espero que ela perceba
sua própria força.

Eu também.

Encerramos a ligação por volta do momento em que Hugger voltou com uma
tigela enorme de pipoca.

— Bem? — ele perguntou, acomodando-se ao meu lado.

— Meu pai contou a ela sobre o confronto desta manhã. Também disse que a
ama… e estragou tudo.

As sobrancelhas de Hugger se ergueram de novo.


— Eu sei — falei. — Mas ela ficou bem com isso, e acho que era algo que meu
pai precisava fazer para colocar um ponto final nessa história.

— Gosto dele. Ele te ama. Ele é sincero. É um cara íntegro. Sua mãe surtou por
você ter motociclistas na sua vida e jogou tudo na sua cara sem hesitar. Seu pai nem
piscou.

— Tenho que admitir, isso me surpreendeu. Mas foi uma boa surpresa.

— Pois é. Agora que sei quem ele é hoje, quer me contar o que ele te fez naquela
época?

Não era um bom momento. Mas nunca seria.

E eu não queria que Hugger mudasse de opinião sobre meu pai.

Mas ele estava pronto para ouvir, então contei toda a história.

— Por mais fodido que isso seja, baby, ele não é o único que pensa assim —
Hugger disse baixinho quando terminei meu relato lamentável. — Principalmente
pessoas da geração dele. Até mulheres acreditam nessa merda.

— Eu sei. Fui dura demais com ele — murmurei.

— Diana, escuta — ele afirmou, a voz firme. — Não foi isso que eu disse. Pelo
que entendi, com uma lógica completamente errada, ele achou que estava fazendo
o certo por você. Mas o problema não é só esse. Pelo que parece, jogaram um
problema no colo dele e, no meio da correria da vida, ele simplesmente resolveu da
maneira mais prática, sem parar para pensar no que aquilo significava para você.
Sem sequer conversar contigo sobre o que você queria que fosse feito. Isso foi
muito errado.

Hugger fez uma pausa antes de continuar:

— Depois, ele deixou dez anos se passarem antes de te procurar para admitir
que ferrou tudo. E, no fim das contas, ele nem te encontrou. Você que encontrou
ele. Isso não está certo. Agora ele está se esforçando ao máximo para consertar as
coisas, e eu acho isso incrível, mas não muda o fato de que ele cagou tudo com
você… e de um jeito colossal.

Ah, cara.

Eu amava o fato de ele pensar assim.

— Ele parece outra pessoa, Hug — contei, observando os olhos dele se


suavizarem quando usei o apelido como os irmãos dele faziam. Fiz uma nota mental
de que ele não se importava e outra de que eu deveria chamá-lo assim com mais
frequência. — Ele diz abertamente que tem orgulho de mim. Fala sobre tudo, sem
reservas. Até conversamos sobre as escolhas péssimas que ele fez nos
relacionamentos dele.

— Baby, se eu perdesse você por uma década porque fui um babaca e tivesse
uma chance de te reconquistar, eu pensaria muito bem em tudo e daria um jeito na
minha vida também.

Oh, meu Deus!

— Podemos transar antes de assistir ao filme? — perguntei.

Ele sorriu de lado, sexy, mas respondeu:

— A manteiga da pipoca vai endurecer.

— Você se importa?

— Nem um pouco.

Hugger colocou a tigela de pipoca na mesa de centro.

Eu me joguei nele.

Transamos no meu sofá pela segunda vez.

Durou mais do que a primeira, mas era difícil decidir qual foi melhor.
A pipoca ainda estava boa quando voltamos para ela, mas já não era a mesma
coisa.

Por outro lado, o sushi que pedimos mais tarde no Sushiholic42 foi infinitamente
melhor.

Então, no fim das contas, apesar do começo totalmente turbulento, foi um


sábado divertido ao lado do meu cara.

42
O Sushiholic é um restaurante japonês localizado em Phoenix, Arizona, conhecido por oferecer uma
variedade de sushis frescos e pratos tradicionais japoneses.
Capítulo 22
TUDO DENTRO
Diana

Hugger nos parou assim que entramos na casa da Annie na manhã seguinte.

Eu sabia o motivo.

Havia um leve cheiro de comida queimada.

Por mais sutil que fosse, era impossível não perceber.

Isso significava que, enquanto caminhávamos para dentro da casa, Hugger ria
baixinho, e eu me sentia feliz da vida porque ele estava se divertindo.

Apesar do cheiro, ao chegarmos à sala de jantar, encontramos a mesa coberta de


comida - e nada parecia queimado.

Depois de uma rápida busca, encontramos Annie perto da piscina.

Ela conversava com alguém, então ficamos um pouco afastados, esperando o


momento certo para cumprimentá-la.

Fizemos isso mesmo que o homem com quem ela conversava tenha olhado para
nós cinco vezes - sempre sorrindo - tentando dar a entender a Annie que havia
novos convidados.

Continuamos parados até que, finalmente, no sexto olhar dele, ela se virou para
nós, piscou algumas vezes e disse:

— Ah, vocês chegaram.


— Sim, estamos aqui — respondi, entregando a ela a garrafa de Veuve que
havíamos comprado.

Ela pegou a garrafa e olhou para ela distraidamente, como se nunca tivesse visto
um champanhe antes.

— Que lindo — murmurou.

— Obrigada por nos convidar para o brunch — eu disse.

Ela assentiu e então se virou para Hugger, analisando-o dos pés à cabeça.

— Você fica bem arrumado — comentou.

Ele usava novamente a camisa caramelizada de botões.

— Valeu — murmurou ele.

— Mas eu prefiro as camisetas — disse Annie.

Os lábios de Hugger se contraíram.

— Certo.

— Elas têm mais personalidade — explicou ela (e eu concordava, embora ele


estivesse maravilhoso com aquela camisa).

— Certo — Hugger repetiu.

— E há uma grande arte estampada em camisetas — continuou ela. — Arte de


álbuns e rock são formas de expressão muitas vezes subestimadas. Annie Leibovitz,
Robert Mapplethorpe e Andy Warhol já fizeram capas de discos. Mas Storm
Thorgerson e Audrey Powell, da Hipgnosis, foram pioneiros da arte de álbuns e
criaram imagens icônicas, mais conhecidas até do que as latas de sopa Campbell do
Warhol43.

43
Esses nomes são fundamentais na história da fotografia, design gráfico e arte contemporânea,
influenciando gerações de artistas e designers.
— Não dá pra discordar — Hugger respondeu. — Dark Side of the Moon. Houses
of the Holy, do Zeppelin. Look Hear?, do 10cc. Band on the Run, do Wings44.

Eu olhei para ele, impressionada.

Annie também ficou.

— Você entende de arte de álbuns.

— Sim.

— Posso falar com você um instante? — ela perguntou.

O olhar dela estava fixo em Hugger, assim como a conversa. Então, por que
estava perguntando, se já estava falando com ele? Além disso, não deveria ter nada
a dizer a Hugger… a não ser sobre arte de álbuns.

— Eu? — perguntei, confusa.

— Não, seu rapaz. — Ela enlaçou o braço no dele. — Venha comigo.

E lá foram eles, me deixando para trás. Contornei a piscina com o olhar e


continuei observando enquanto, surpreendentemente, Annie fazia a maior parte da
conversa.

Hugger, previsivelmente, não dizia nada. Apenas ouvia, sério.

No fim, ele assentiu. Annie voltou a segurar seu braço e o trouxe de volta para
mim.

— Pode pegá-lo de volta agora — anunciou.

Então, saiu andando, parecendo ter esquecido que ainda segurava uma garrafa
de champanhe.

Olhei para Hugger.

44
Cada um desses álbuns é reconhecido por sua importância na história do rock lançados por bandas
icônicas nos anos 70.
— O que foi isso?

— Ela disse que tem clientes com "conexões". E que, se eu te machucar, ela vai
acioná-los para me mostrar o erro dos meus atos de um jeito que eu vá desejar não
ter feito isso.

Fiquei chocada.

— O quê?! — sussurrei, lançando um olhar para Annie.

— Foi engraçado pra caralho — Hugger respondeu, me trazendo de volta para


ele. — E meio fofo. Mas não deixei transparecer nenhuma das duas coisas.

Annie tinha feito isso…

Nossa.

Quando a ficha caiu, segurei o braço dele, me apoiei nele e murmurei:

— Acho que ela gosta de mim. Gosta mesmo.

Ele sorriu para mim.

— Sim, baby, ela realmente gosta de você.

Embora eu já soubesse disso, de certa forma.

Ainda assim, era uma sensação incrível.

— Eu não fazia ideia de que algum dos nossos clientes tinha "conexões" —
comentei.

— Provavelmente, não tem. Ela só inventou isso pra me manter na linha. E sabe
que uma baixinha que usa preto o tempo todo e tem o cabelo enrolado na testa
como se fosse a Betty Grable45 não vai me fazer tremer nas bases com uma ameaça.

45
A expressão metafórica nessa frase compara a aparência de uma pessoa com a da atriz Betty Grable,
que foi um ícone de Hollywood nos anos 1940, famosa por sua beleza e seu penteado característico.
— Tenho que admitir, Annie é a mulher menos ameaçadora que conheço,
tirando minha avó.

— Sua avó colocou sua mãe no lugar ontem — ele me lembrou. E depois
aconselhou: — Nunca subestime uma mulher. A maioria pode não ter a força bruta
dos homens, mas sempre encontra um jeito de conseguir o que quer. Como agora
há pouco.

Eu adorava que ele soubesse disso.

Então, abri um sorriso radiante.

Hugger abaixou a cabeça e beijou meu sorriso até apagá-lo do meu rosto.

Quando se afastou, perguntei:

— Depois dos donuts, ainda tem espaço pra mais comida?

— Claro — respondeu.

Entramos na casa de Annie, que ficava em Arcadia Lite e era decorada no estilo
totalmente Annie (ou seja, monocromática em preto, cinza e branco, o cenário
perfeito para exibir seu cisne-balão magenta de Jeff Koons e um retrato pop art de
Lynda Carter como Mulher-Maravilha, feito por Ashley Longshore, com os dizeres
ROLE OS CRÉDITOS).

Pelo caminho, acenei para algumas pessoas conhecidas e fiz mentalmente uma
nota para apresentar Hugger a elas. O evento estava maior do que os que Annie
costumava organizar, e me perguntei como ela conseguia lembrar de tanta gente
para convidar.

Depois do donut que comi mais cedo, fui direto a uma mini quiche para
equilibrar os níveis de açúcar no meu estômago com algo salgado.

Hugger pegou um prato e escolheu uma pequena pilha de panquecas, espetadas


com um palito longo e decoradas com uma amora no topo. Era uma ideia bacana -
transformar panquecas em comida de aperitivo. Anotei mentalmente para usar caso
um dia organizasse um brunch buffet.
Ele despejou um pouco de calda sobre elas e, segurando o prato embaixo para
não pingar, levantou o palito para colocar as panquecas na boca…

Foi quando uma mulher próxima exclamou:

— Não!

Tarde demais. Ele já tinha mordido.

Então, se virou para mim.

Ao ver a expressão no rosto dele, corri imediatamente até uma pilha de


guardanapos e entreguei um a ele.

Hugger virou a cabeça e cuspiu as panquecas.

A mulher se inclinou levemente, esperando ele se recompor, e explicou:

— Achamos que a Annie trocou o açúcar pelo sal. Mas todo o resto parece estar
certo… até agora.

Eu comecei a rir.

Porque…

Annie.

— Como você conhece a Annie? — ela perguntou.

— Trabalho com ela — respondi.

— Ah, então você deve ser a Diana.

Hmm.

Annie falava de mim.

— Culpada — confirmei. — E este é meu namorado, Harlan.


— Oi — ela disse para Hugger.

— Oi — ele respondeu.

— Sou Wendy. Meu marido e eu conhecemos a Annie há anos. Moramos na


mesma rua. Ela fala muito de você. E só coisas boas. Acha você incrível.

Se a ameaça de joelhos quebrados (ou algo pior) por parte de Hugger não fosse
suficiente para me aquecer, isso com certeza foi.

— Ela diz que você é a melhor funcionária que já teve — Wendy continuou.

E mais calor tomou conta de mim.

— Nossa, que legal — respondi.

Ela se inclinou mais uma vez e sussurrou:

— Meu marido diz que ela já teria falido sem você. Annie é doce como açúcar e
faz qualquer coisa por quem ama... sim, até ameaçar joelhos quebrados (ou algo
pior), mas não tem muito talento para os negócios.

Hugger soltou um grunhido.

Segurei o riso.

— Não, ela é uma ótima chefe, e eu gosto muito dela, mas realmente não é esse
tipo de pessoa.

— Eu… — Wendy franziu o cenho e farejou o ar. — Você está sentindo esse
cheiro…?

Um bip alto preencheu a casa.

— Merda — Hugger praguejou, jogou o prato e o guardanapo de lado e saiu em


disparada.

Corri atrás dele até a cozinha, agora tomada por fumaça.


Notei de onde vinha, me lancei até o forno, abri a porta e fui engolida por uma
nova onda de fumaça, que me fez tossir. Agitei as mãos no ar e, quando a névoa
começou a se dissipar, vi que algum tipo de assado havia sido colocado diretamente
sob as resistências superiores e pegou fogo.

Hugger viu também, porque me puxou para trás e entrou no meio da fumaça.

— Hugger! — gritei.

Ele desligou o forno, pegou as luvas térmicas e gritou para ser ouvido acima do
alarme ainda disparado:

— Dá um jeito nesse alarme, baby!

Corri até uma janela, abri-a e, em seguida, peguei um pano de prato e comecei a
agitá-lo contra o detector de fumaça. Enquanto isso, Hugger usava as luvas para
tirar a travessa do forno. Ele a largou no fogão com um estrondo e, com as mesmas
luvas, bateu nas chamas até apagá-las.

Depois de mais umas dez sacudidas com o pano de prato, o alarme finalmente
silenciou.

Graças a Deus.

Que barulheira.

O cheiro de comida queimada impregnava o ambiente.

De repente, senti que tínhamos espectadores. Virei-me para a entrada da cozinha


e vi que a porta estava abarrotada de gente.

Foi nesse instante que Annie se esgueirou até a frente da multidão.

Ainda segurava a garrafa de champanhe que demos a ela.

Seus olhos passaram de mim para Hugger, depois para a travessa, voltaram para
Hugger, para mim e, por fim, pousaram novamente na comida carbonizada.
— Ah… eu fiz pudim de pão? — perguntou, para ninguém e para todos ao
mesmo tempo.

E então aconteceu.

Um daqueles momentos dourados da vida.

E eu tive o privilégio de assistir.

Porque Hugger não apenas caiu na gargalhada…

Ele foi tomado por ela.

Tão forte que, ainda segurando as luvas chamuscadas, se apoiou no balcão da


cozinha de Annie, dobrou-se ao meio e deixou seu corpo inteiro tremer de tanto rir.
Ele precisou se firmar nos joelhos para não cair, enquanto a risada continuava
dominando-o.

Naquele instante, vendo Harlan "Hugger" McCain rir daquele jeito, soube que
amaria Annie para sempre.

Mas o meu cara…

Esse, eu amaria por toda a eternidade.

Hugger voltou do banheiro depois de se livrar da segunda camisinha da tarde.

Eu estava deitada, completamente nua, de bruços e na diagonal da cama, sem


forças nem para me mexer. Mesmo assim, ainda dei um pequeno salto quando ele
deu um leve tapa na minha bunda e perguntou:

— Finalmente acabei com você?


Como eu bem sabia - e vivia aprendendo isso - a gente descobre algo novo
todos os dias.

O que aprendi naquele dia foi: nunca lute com um motociclista.

E, definitivamente, nunca faça isso na cama.

Além disso, jamais faça isso estando nua.

O que me deu na cabeça, eu não sabia. Meu homem gostava de comandar, e eu


gostava disso.

Por outro lado, se eu tentasse assumir o controle - outra lição que aprendi
naquele dia - ele encarava isso como um desafio.

E que desafio incrível. Um que, sem sombra de dúvida, eu não me importava nem
um pouco de perder de forma esmagadora.

Mas, ainda assim, era um desafio.

Ele se acomodou na cama e me puxou, me deixando jogada sobre o lado dele.

— Da próxima vez que lutarmos, você vai ter que amarrar um braço para trás —
murmurei.

— Ainda assim, vou te colocar de costas e te foder até te deixar sem sentido.

— Urgh — fiz uma careta, embora não tivesse a menor dúvida de que isso era
verdade. E de que seria incrível. Assim como o que tinha acabado de acontecer.

Ele riu — ele sabia que tinha sido incrível. Afinal, pelo volume do meu gemido e
pela intensidade do meu orgasmo, era impossível não perceber.

Levantei a cabeça para observar sua expressão divertida e fiz um esforço colossal
para mover a mão até sua barba, deixando meus dedos deslizarem por ela enquanto
ele sorria.
— Eu poderia olhar para você por dias — sussurrei. — Principalmente quando
está feliz.

— Di — ele respondeu no mesmo tom, se aconchegando na cama e virando-se


para mim, até ficarmos cara a cara.

— Não quero te assustar, mas, mantendo o tema do nosso dia, preciso que saiba:
eu gosto de você. Gosto muito, muito de você — confessei.

— Isso é bom, porque sinto o mesmo.

Relaxei contra ele.

— Graças a Deus.

Ele me lançou um sorriso terno.

— Achei que já tivesse deixado isso bem claro.

— É bom ouvir as palavras.

— Anotado — ele murmurou, antes de selar nossos lábios com um beijo suave.

— Acho que está na hora da nossa conversa — disse.

— É... sobre isso.

Ah, não.

Eu não tinha certeza se esse era um bom começo.

— Quando tivermos certeza de que você está segura, preciso voltar para Denver.
Resolver algumas coisas com os irmãos — Hugger declarou.

Ah, droga.

— Que coisas? — perguntei, cautelosa.

Ele ficou em silêncio por um instante, então me puxou para mais perto.
— Meu pai foi um dos irmãos do Chaos.

— Oh — suspirei, surpresa. Eu sabia que ele amava aqueles caras, e que eles
também o amavam. Mas até aquele momento, ele nunca tinha mencionado que seu
pai fazia parte do grupo.

— Ele fez algumas coisas horríveis. Coisas realmente nojentas. Para o clube, para
várias pessoas. Depois que você entra, leva muito para os irmãos se virarem contra
você. Mas eles o odiavam, Di. E havia muito para odiar. Ele fez tão mal a eles que só
de pensar nisso, meu estômago revira. Ele foi um desperdício completo de espaço.
Além de um grande filho da puta.

Meu coração doeu por ele.

— Harlan...

— Eu quase não o conheci. Só o vi uma vez. Mas sabia quem ele era.

— Como soube de tudo isso, então?

— Perguntei para minha mãe. Ela evitou me contar até que eu fosse mais velho.
Só me disse depois que ele apareceu para mim, tentando se aproximar,
provavelmente para me usar. Talvez até para me usar contra o Chaos. Ela me contou
para que eu soubesse a verdade e não caísse na conversa fiada dele. E, só para você
saber, ele também fez muito mal a ela.

O aperto no meu peito ficou mais forte.

— Foi na época em que o clube tinha se desviado do caminho. Minha mãe fazia
parte do círculo delas. Esse cara... ele a enganou. Falou bonito. Disse que a amava.
Que ia tirá-la daquela vida, casar com ela, lhe dar uma casa, filhos. Ela acreditou. Se
entregou a ele. Se ele não tivesse feito isso, ela nunca teria permitido que ele a
tivesse sem proteção, e eu nunca teria nascido.

— Meu Deus — gemi, sentindo o peso da traição que a mãe dele sofreu.

— Sim. Mas tudo não passava de conversa fiada. Ele só queria vantagens.
Me aproximei ainda mais.

— Deus, Harlan... que... — Eu nem sabia como chamá-lo. O que ele fez foi tão
sujo e desleal que parecia não haver palavras suficientes para descrevê-lo.

— É, não tem muitos termos fortes o bastante para definir o grande babaca que
ele foi.

Fiz uma careta.

Hugger passou o polegar debaixo do meu olho e continuou contando.

— Quando o Chaos saiu desse tipo de negócio, minha mãe tentou se virar
sozinha. Tentou montar um esquema só com clientes fixos para que fosse mais
seguro. Mas um cafetão desgraçado a encurralou. Queria que ela trabalhasse para
ele. E depois do que meu pai fez, ela não queria estar sob o controle de ninguém. Só
que ele não aceitou um ‘não’ como resposta. Espancou minha mãe mais de uma vez.

A cada palavra, a história ficava ainda pior.

Me pressionei ainda mais contra ele, sem saber o que dizer além de um
murmurado:

— Querido...

— Sim... — ele concordou, sentindo todo o peso que coloquei naquela única
palavra. — Na terceira vez que isso aconteceu, ela foi até o Chaos. Me levou junto,
porque o cara também me ameaçou, tudo para pegar a parte do dinheiro que ela
ganhava. Ela contou para eles. Eles acharam o cara e acabaram com o negócio dele.

Meus olhos se arregalaram.

— Você quer dizer que eles o mataram?

— Não. Mas deram um jeito nele tão bem que, depois disso, ele ficou com tanto
medo deles que quando disseram para ele mudar de ramo, ele obedeceu.
— Ah... certo — murmurei.

— Então, eles ajudaram minha mãe. Demorou um pouco, mas depois disso, ela
nunca mais precisou andar nas ruas. Criou uma lista de clientes, aceitava apenas
indicações e fazia checagens antes de atender alguém. No fim, muitos deles eram
clientes fixos, acostumados com ela. Faziam o serviço, mas, na maioria das vezes, só
queriam companhia. Alguém para conversar. E minha mãe era familiar.

Meu coração doeu ao saber que ele conhecia esses detalhes da vida da mãe.

Me perguntei por que ela não tentou fazer outra coisa.

Mas, pensando bem, mães solo já enfrentavam dificuldades hoje. Trinta e cinco
anos atrás, devia ser ainda pior.

E era algo que ela sabia fazer.

— Chaos também pagou pelo tratamento do câncer dela — ele continuou. —


Quimioterapia. Radioterapia. E, por fim, os cuidados paliativos. Ela não tinha seguro.
Na época, eu trabalhava como segurança, e, para falar a verdade, não tinha quase
nada para ajudá-la. Mas eles garantiram que ela tivesse o melhor que Denver podia
oferecer.

Sua voz enfraqueceu até se tornar um sussurro nas últimas palavras.

— Um fim de vida com dignidade.

Com o coração apertado pela dor dele, alisei seu cabelo para trás e continuei
passando os dedos por seus fios. Eu queria poder mudar aquilo para ele, mas não
havia palavras que pudessem amenizar.

— Por fim, foram eles que pagaram o enterro dela — ele concluiu.

Meu amor por aqueles caras só crescia.

— Meu Deus, querido... eu não sei o que dizer — admiti.


— Não tem o que dizer. Essa foi a nossa vida. Não foi boa, nem ruim. O que eu
sei é que tive uma mãe incrível. Não era só sobre me alimentar ou me vestir. Ela foi
uma grande mãe. Em nossa casa, você não saberia o que ela fazia. Nós éramos
normais. Ela me deu isso, apesar das dificuldades.

Respirei fundo.

— O que você precisa resolver com seus irmãos?

— Descobrir por que minha mãe lutou tanto para me dar uma boa vida, me
mostrar o caminho... mas eu deixei um homem que a destruiu, um homem que
conheci só uma vez, me arrastar para uma vida onde eu apenas respirava... e não
realmente vivia.

Eu realmente gostaria que Hugger conseguisse lidar com isso.

— Eles podem ajudar? — perguntei.

— Meio que já ajudaram. Conversei com o nosso ex-presidente outro dia. Foi ele
quem os tirou daquela merda toda em que estavam metidos. Ele conhecia meu pai.

— Pai biológico — corrigi.

Seus lábios se curvaram levemente.

— Pai biológico — repetiu, passando um dedo pela minha linha do cabelo. —


Você já teve medo de acabar como sua mãe?

— Não. Meu medo sempre foi não ter dado ao meu pai o devido crédito pelo
quanto ele trabalhou para garantir que eu não me tornasse como ela.

— Ele não queria que você soubesse disso, baby — ele me lembrou.

— Eu sei. E preciso superar isso. Eu vou. Mas agora não estamos falando de mim.

— Fui eu quem fez a pergunta.

Dei-lhe um sorriso suave.


— Você está certo. Foi mesmo — concordei, mudando de assunto. — Você teme
se tornar como seu pai biológico?

— Temi. Talvez ainda tema. Isso me assombra.

Eu podia imaginar.

— E esse ex-presidente? — incentivei. — Ele também vai te ajudar com isso?

— Tack. Um bom homem. Um ouro de pessoa. Pai amoroso. Marido dedicado.


Irmão leal.

— Entendi — murmurei quando ele fez uma pausa.

— O Chaos me recrutou. Vieram atrás de mim. Eu não entendia por quê,


considerando quem meu...

Ele parou e seus lábios se curvaram.

— ... pai biológico era. Mas me disseram que minha mãe queria isso para mim.
Agora eu entendo. Ela confiava neles. E pelo que Tack fez pelo Clube, ela sabia que
seria um lugar seguro para mim. Um lugar onde eu poderia estar quando ela se
fosse, cercado por pessoas que cuidariam de mim. Então, tornei-me um prospecto,
mas fiz isso por ela.

— Eu queria ter conhecido sua mãe — declarei com intensidade.

— Eu também, baby — ele sussurrou. — Ela teria amado você.

— Eu espero que sim.

— Não, baby, entenda isso. Ela teria realmente amado você.

Merda, eu ia chorar de novo.

Felizmente, Hugger deixou passar e continuou:


— O que eu não entendia era o que minha mãe realmente queria que eu tivesse
com o Chaos. Mesmo que eles tenham me dito desde o início, eu não compreendi.
Pelo menos, até recentemente.

— O quê?

— Uma família.

Fechei os olhos e encostei o rosto em seu pescoço.

Ele entrelaçou os dedos no meu cabelo.

— Eu tinha uma, e então ela se foi, e restou apenas eu — ele disse baixinho,
como se fosse uma confissão. — Mas agora estou entendendo. Eu a tenho
lamentado de uma forma muito intensa. E acho que é por isso que caí nessa rotina
de apenas sobreviver dia após dia. Sempre foi só eu e ela. Não conhecia avós. Ela
teve uma infância difícil e nunca voltou para casa. Isso significava que eu nunca
havia perdido ninguém que realmente significasse algo para mim. Depois que ela se
foi, eu não sabia o que estava sentindo, então não sabia como lidar com isso.

Deus, ele estava me destruindo.

Imaginar tudo o que sua mãe teve que fazer para sobreviver.

O quão sozinhos eles foram.

O quão sozinho ele ficou quando ela partiu.

O quanto ele a amava e o quanto perdeu.

E o fato de que confiava o suficiente em mim para ser tão incrivelmente honesto.

Sim.

Estava acabando comigo.

Hugger continuou, e eu soube, pelo tom de sua voz, que ficaria ainda pior.
— Ela ouvia uma música — sussurrou. — E, às vezes, cantava para mim.

— Que música, querido? — retribuí no mesmo tom.

— You and Me Against the World46. Já ouviu?

Balancei a cabeça, engolindo em seco para conter as lágrimas, porque só o título


da música já me destruiu.

— Essa música...

Ele fez uma pausa e então disse:

— Era como se ela estivesse me preparando para quando não estivesse mais
aqui.

Oh, Deus.

— Quero ouvir essa música — minha voz saiu rouca.

— Vou tocar para você depois, baby — ele murmurou.

— Ok.

Ele inspirou fundo pelo nariz e continuou me entregando sua verdade.

— Então, é isso. Fiquei tão preso no luto que, quando o Chaos me acolheu, eu
não percebi o que estava ao meu redor. O que minha mãe queria para mim. O que
Pete e Rush se esforçaram para encontrar e me oferecer. O que todos os irmãos, as
old ladies e as crianças me deram desde o início.

Eu amava o fato de que ele estava compreendendo o que tinha com o Clube.

Amava isso.

46
"You and Me Against the World" é uma música lançada originalmente em 1974 e interpretada por
Helen Reddy. A letra transmite a ideia de solidariedade e companheirismo, destacando que,
independentemente dos desafios e obstáculos, os dois personagens da música sempre estarão juntos
contra o mundo.
Mas também sentia um aperto no estômago pelo que ele estava dizendo.

Sua família estava em Denver.

E a minha, em Phoenix.

Com o tipo de vida que ele levava, eu não poderia tirá-lo disso. Especialmente
agora, quando ele estava percebendo a grandiosidade do que sua mãe lhe
proporcionou.

Mesmo que eu tivesse perdido parte da minha, recuperei o que realmente


importava.

Ainda assim...

Para que Hugger tivesse sua família, eu teria que me mudar para Denver.

— Di? — ele chamou.

Levantei a cabeça para encontrar seu olhar.

— Eu não poderia estar mais feliz por você estar descobrindo tudo isso, Hug.
Não conheci todos, mas os que conheci são incríveis. E, pelo modo como tratam
você, sei que pensam o mesmo sobre você.

— Sim.

— Então, se era isso que sua mãe queria, ela ficaria feliz por você estar com eles?
— perguntei, já sabendo a resposta.

— Com certeza ficaria.

Deus. Eu ia ter que me mudar para Denver.

— Você tem uma ou duas vagas de estacionamento com este apartamento? —


ele perguntou.

Pisquei devagar, sem acompanhar a mudança repentina de assunto.


— Desculpa?

— Sua vaga de estacionamento vem com a propriedade ou você a aluga?

— Vem com o apartamento.

— Apenas uma?

— Não — suspirei. — São duas. E, hum, tem um grande depósito também. Quer
dizer, não é enorme, mas cabe minha árvore de Natal e outras coisas. Embora eu
não tenha muitas coisas, então ele fica praticamente vazio.

— Hm — ele murmurou.

— Por que perguntou isso?

— Porque, se eu me mudar para cá, preciso de um lugar para estacionar minha


caminhonete. Não quero entrar em um forno toda vez que for usá-la.

Meu corpo ficou completamente estático.

— Agora, é assim que vejo as coisas — ele continuou.

De repente, mesmo que um segundo antes eu jurasse que não aguentava mais
nada, não podia esperar para descobrir como ele via as coisas.

— Estou toda ouvidos — praticamente ofeguei.

Ele sorriu para mim, rolou de costas e me puxou para cima dele.

Depois, juntou meu cabelo na nuca e segurou-o com ambas as mãos, apoiando
os antebraços em minhas costas nuas.

— Eu volto para casa, resolvo algumas coisas. Não vai demorar, mas precisa ser
feito. Você vem para passar um fim de semana, conhece meus irmãos, as mulheres
deles, as crianças. Te mostro Denver. Se você se apaixonar pela cidade, ótimo. Se
não, converso com meu irmão Snap. Ele tem vários imóveis. Compra, reforma e
aluga. Ele pode me ajudar a fazer isso com meu apartamento. Eu o alugo e fico com
a renda.
— Eu...

— Eu me mudo para cá, para morar com você.

Quando eu me mudar para cá.

Derreti contra o corpo dele.

Ele continuou falando.

— Pelo que parece, nos damos bem morando juntos, mas ainda é tudo muito
novo. Pode ser apenas o encanto inicial do que temos. Muita coisa acontecendo,
não passamos pelo dia a dia real ainda. Se superarmos isso e der certo, perfeito. Se
não, eu saio, nos conhecemos do jeito tradicional e, quando estivermos prontos, eu
volto. Temos um plano?

Minha voz saiu rouca quando perguntei:

— E o Clube?

— Não preciso de muito, então tenho uma boa quantia guardada, embora
precise usar parte dela para reformar meu apartamento. Não me sentiria bem
pegando minha parte no Clube sem estar fazendo minha parte para eles, mas vou
conversar sobre isso com eles. Todos os Moto Clubes têm regras, hierarquias, mas
nenhum deles é sobre prender um homem em correntes. Pelo menos, não os que
conheço. O que eu sei, no fundo, é que meu Clube não vai me impedir de ter você.

— Talvez devêssemos falar sobre Denver — forcei a falar.

— Denver é uma cidade incrível. Você vai gostar. Mas lá não tem seu pai, Nicole,
Larry, Charlie, Bernie, Mel, Annie. Um emprego que você ama. E...

— E Phoenix não tem Big Petey, ou Dutch, Jagger, Roscoe, esse cara chamado
Tack e todo o resto deles.

Tudo o que a mãe dele queria que ele tivesse.


Ele nos virou novamente, ficando por cima, e se aproximou ainda mais do meu
rosto.

— Aqui está a questão principal — ele declarou.

Prendi a respiração.

Foi uma boa escolha.

— Não me importa onde eu esteja, desde que você esteja lá.

Depois de ouvir isso, não tinha certeza se algum dia voltaria a respirar.

Mas ele ainda não tinha terminado.

— Vou alugar meu apartamento. Fiz um investimento nele, então sempre estará
lá para nós e continuará se valorizando. Além disso, o aluguel vai nos ajudar
financeiramente — ele sorriu. — Mas não sou o tipo de cara que pode ficar sentado
assistindo Real Housewives. Preciso de algo para fazer. Vou descobrir. O Aces tem
uma loja de materiais de construção no norte de Phoenix e aposto que eles me
contratariam. Tenho experiência com lojas, praticamente administro a Ride, então sei
que eles teriam um bom homem trabalhando para eles.

— Hugger...

— Não sei quanto você ganha, mas vou contribuir. Meia a meia, em tudo. Gosto
do seu apartamento. Ele é ótimo. Estacionamento coberto. Seguro. Sem jardim para
cuidar. Se você não quiser fazer café, pode descer e comprar um. Quando
decidirmos ter nossos dois filhos, baby, vamos precisar de um lugar maior. E eu
também vou arcar com isso.

— Hug...

— Faz um calor infernal aqui, mas eu chequei, e o clima é ruim de junho a


setembro. Quatro meses de doze, eu aguento.

Ele tinha verificado.


Ele realmente tinha verificado!

E continuava.

— E gosto de neve, mas você tem montanhas aqui, não muito longe, assim como
em Denver. Se eu sentir vontade, a gente pode dirigir até lá — ele me sacudiu de
leve e sorriu novamente. — E eu dirijo. Assim como em Denver, é preciso fazer uma
viagem para chegar à neve de verdade nas montanhas, mas aqui, você nunca precisa
morar nela, e isso me agrada.

— Não, você não precisa morar nela. Mas, Hugger...

— No fim das contas, Denver fica a um voo de duas horas ou a uma viagem de
um dia. É longe, mas dá para fazer em um dia. Não é tão longe assim. Podemos ir e
visitar minha família sempre que quisermos.

Esperei para ver se ele tinha mais alguma coisa a dizer e, quando não disse,
tentei de novo.

— Isso pode acabar com casais — comentei.

— O quê?

— Você abrir mão de algo tão grande por mim.

— E o que você está me dando? — ele perguntou.

Fiquei sem entender a pergunta.

— Eu... Eu não sei.

— Um brunch em um apê estiloso, com uma pintura incrível da Mulher-


Maravilha, que, por sorte, não virou cinzas hoje.

Quis sorrir com a piada dele, mas considerando o que estávamos discutindo,
havia muito em jogo, e eu simplesmente não consegui.

Ele continuou:
— Você pode tomar seus coquetéis em um bar esquisito, com fadas animadas
voando pelas paredes e bebidas servidas em copos malucos. Mas dá pra ver que isso
não é pra mim. Agora, aquele outro bar... aquele foi foda. E os sanduíches de
mortadela frita deles não têm comparação.

Passei a mão pelo ombro dele e sussurrei:

— Hugger...

— Você é tudo o que faz de você... você, baby, e acho que já deixei bem claro
que eu quero tudo isso.

Ah, isso ele fez, com certeza.

— Mas você está abrindo o meu mundo — continuou, fazendo o meu girar. — E
eu nunca soube que queria isso, mas agora sei que quero. Mais do que isso, minha
mãe também ia querer pra mim. E ela adoraria saber que você está me dando isso.

Dessa vez, meu “querido” saiu trêmulo.

Ele roçou o nariz no meu antes de dizer:

— Acho que você entende que, se eu tivesse a chance de ter minha mãe de volta,
eu agarraria sem pensar.

Sim, eu entendia.

— E você acabou de recuperar seu pai — ele continuou. — Nem ferrando que eu
vou tirar isso de você... ou dele.

— Não é a mesma coisa — argumentei.

— Não, não completamente. Mas, de certa forma, é.

Não tinha como contestar isso, então repeti:

— E você acabou de entender o que o Clube realmente significa pra você.


— Meu Clube, minha família, eles não vão a lugar nenhum, Di. Sempre estarão lá.
Outra coisa que aprendi recentemente, porque o Pete jogou isso na minha cara,
depois o Dutch e, por fim, o Tack... eles querem que eu seja feliz. — Seus braços se
apertaram ao meu redor. — Você disse isso antes, baby, mas acho que você não
entendeu de verdade. É você que me faz feliz, Di, e eles querem isso pra mim. Todos
disseram isso, diretamente. Até o Tack, que nem te conhece. Ele só me mandou te
levar lá pra conhecer a família.

— Ele disse isso?

— Sim.

— Uau.

— Sim.

— O Big Petey tem a língua solta? — perguntei, desconfiada.

— Sim.

Não fiquei surpresa.

— Ok — afirmei.

— Ok o quê?

— Ok, eu vou pra Denver. Quero ver. Quero conhecer todo mundo. Vou
conversar com a Annie sobre tirar férias, em breve. Passar uma semana lá. Ainda
tenho uma semana de férias. Vou conhecer o lugar direito pra poder decidir. Pode
ser que eu ame. Quem sabe? Mas quero ter a experiência antes de tomar uma
decisão. Se eu não me adaptar, então fazemos do seu jeito.

Os lábios dele começaram a se abrir num sorriso.

Coloquei um dedo sobre eles antes que se formasse completamente.


— Mas quero que você prometa que vai se comunicar comigo — exigi. — Se as
coisas ficarem difíceis. Se você não gostar de trabalhar numa loja de material de
construção. Se sentir falta da sua família.

Ele tirou minha mão da boca dele e disse:

— Eu prometo.

— E não quero essa coisa de relacionamento à distância.

— Como assim?

— Se você precisar ir pra lá resolver suas pendências, tudo bem. Lidar com seus
problemas com seu pai biológico, beleza. Mas quando você voltar, vai trazer sua
caminhonete, carregar sua moto, encher a caçamba com suas coisas, e nós vamos
fazer isso.

Ele se inclinou ainda mais sobre mim, ficando completamente por cima.

E, meu Deus, eu adorei o olhar que ele me lançou.

— Vamos fazer isso? — ele perguntou.

— Com tudo — declarei.

— Você está completamente entregue?

— Sim, estou completamente entregue — respondi. — E já que a culpa disso é


toda sua, se estiver com vontade de me pegar de novo, vai ter que fazer todo o
trabalho.

— Como se eu já não fizesse a maior parte — provocou.

— Você deve ter notado que eu tentei assumir o controle antes, mas você não
deixou.

As mãos dele estavam se movendo sobre mim, e, como sempre, meu corpo
respondia.
— Notei algo assim — murmurou com um sorriso malicioso.

— Como poderia não notar? Quase caí da cama duas vezes.

Ele abaixou a cabeça e disse contra minha pele:

— Com certeza percebi isso.

Deslizou a boca até meu peito.

— Não era lá que eu queria você.

— Bem, você resolveu isso — rebati, tentando soar irritada, mas fracassei, porque
saiu todo ofegante.

Ele passou a língua no meu mamilo.

Meu clitóris pulsou.

E parecia que ele sabia disso, porque sua mão deslizou pela minha cintura,
chegando exatamente onde eu precisava.

Soltei um gemido e arranhei de leve suas costas.

— Sempre tão molhada pra mim — ele sussurrou contra minha pele antes de
sugar meu mamilo entre os lábios.

Enterrei os dedos nos cabelos dele e arqueei o corpo contra sua boca.

Ele alternou sua atenção entre meus seios e meu clitóris, até que eu estivesse me
contorcendo debaixo dele, movendo os quadris contra sua mão.

Então, trouxe a boca até a minha.

— Você toma anticoncepcional? — perguntou.

— Não.

— Vai começar a tomar?


— Sim.

— Os dois vamos nos testar, o quanto antes. Cuidar disso.

— Ok, querido.

Achei que ele fosse pegar um preservativo.

Mas ele não pegou.

Ele deslizou pelo meu corpo, jogou minhas pernas sobre seus ombros e se
entregou a mim.

Gozei contra sua boca e, pouco depois, novamente ao redor do seu pau.

Foi nesse momento que algo se tornou oficial.

Eu estava completamente exausta, saciada de prazer.

Não fazia ideia de que isso era possível, mas lá estava eu, entregue.

E, além disso, tinha encontrado o meu homem.

E que homem incrível ele era.

Perfeito.

Ele era meu.

Ele estava vindo para mim.

Ele ia morar comigo.

Nós estávamos resolvendo tudo sem aquela porcaria de distância nos separando.

Nós estávamos fazendo isso.

Juntos.

Totalmente dentro.
E mesmo que, quando Hugger me deixou na cama para lidar com a camisinha,
eu literalmente não conseguisse me mexer (definitivamente não podia sair pulando
de alegria e dando cambalhotas como queria), eu estava extasiada com isso.

Com toda, fodida, certeza.


Capítulo 23
SEM PREOCUPAÇÕES
Hugger

Hugger saiu das sombras ao lado da casa da avó de Di assim que ouviu a porta
da frente se abrir e as duas mulheres se despedirem.

Era terça-feira, depois de um fim de semana intenso, cheio de momentos ruins e


ótimos, e Di sentiu que precisava conferir como sua avó estava. Hugger a levou até
lá, mas achou melhor que elas tivessem um tempo a sós, então ficou do lado de
fora, vigiando, enquanto as duas tomavam uma taça de vinho.

Ele encontrou as mulheres na varanda.

— Ah, agora que você está aqui, deveria entrar para tomar uma bebida rápida,
Harlan — convidou Shannon.

Ela não sabia que ele não estava ali apenas para buscar Di. Na verdade, ele
esteve lá o tempo todo, porque ela também não sabia que ele não era apenas o
namorado de Di, mas também seu segurança.

— Agradeço, Shannon, mas está ficando tarde, e preciso levar minha mulher para
casa para que ela possa descansar. Ela trabalha amanhã — respondeu Hugger.

— Que rapaz atencioso — murmurou Shannon, e Hugger quase sorriu.

Fazia muito tempo que não era chamado de "rapaz".

Ele não sorriu porque não gostou da expressão no rosto de nenhuma das duas.

Di abraçou a avó, e Hugger estendeu a mão para cumprimentá-la. Shannon a


pegou, mas, em vez de apertá-la, apenas deu algumas palmadinhas. Ele nunca teve
uma avó, então nunca havia sentido algo parecido com o que aquele simples gesto
transmitia. Mas não pôde negar: aquelas palmadinhas tinham um quê de doçura.

Quando a mulher o soltou, ele passou o braço pelos ombros de Di, sentiu o dela
deslizar por sua cintura, e eles caminharam até sua moto.

Eram nove e meia, fazia vinte e sete graus lá fora, já em meados de setembro, e
desde que ele tinha chegado ali, o tempo não tinha dado nenhum motivo para
mantê-lo longe da sua moto.

Talvez Phoenix não fosse tão ruim assim, nem mesmo nos meses mais
insuportáveis.

Ele a parou ao lado da moto e a virou de frente para ele.

Estava prestes a falar, mas ela se adiantou:

— Agora entendi o que o Dutch quis dizer sobre a escuridão.

— Como assim?

— Você surgiu da noite como uma sombra ganhando forma. Então, sim, vejo o
que ele quis dizer. Estou impressionada.

Ela estava brincando, mas ele não comprou aquilo.

Por isso, em vez de responder à provocação, perguntou:

— Como foi lá dentro?

Ela demorou um instante antes de suspirar, balançar a cabeça e encostar o rosto


no peito dele por um momento, pressionando o resto do corpo contra ele, com os
braços o envolvendo. Então, ergueu o olhar.

Aquela era uma sensação que ele nunca tinha experimentado - ou talvez nunca
tivesse permitido que o atingisse.

E, droga, era bom sentir-se forte quando sua mulher precisava se apoiar nele.
— Ela tem ligado para a mamãe todos os dias desde... o incidente — contou. —
Mesmo quando mamãe ainda estava na cidade. Mas mamãe está ignorando todas
as ligações dela.

Droga, aquela mulher era uma completa megera.

Ele não disse isso em voz alta.

— Você acha que ela vai ceder? — perguntou.

— Não sei. Ninguém nunca confrontou minha mãe de uma maneira tão
grandiosa. Estamos em território desconhecido.

O celular em seu bolso traseiro vibrou, mas ele o ignorou, mantendo o foco em
sua mulher.

Ele fez isso porque, mesmo com tão pouco tempo juntos, já conhecia bem Di.

— Você pretende se meter nisso?

Ela mordeu o lábio.

Exatamente como ele suspeitava. Di sempre dava tudo de si para todo mundo, às
vezes à custa de si mesma.

O que ela não percebia era que sua mãe tinha um papel nisso. Desde que
nasceu, Diana sempre atendeu a todas as vontades daquela mulher. Era tudo o que
conhecia.

Mas, pelo menos, Di conseguia transformar essa característica em algo positivo


para aqueles que realmente importavam.

E, agora, ela tinha Hugger. Ele garantiria que ela não se esgotasse.

— Di...

— Urgh — resmungou. — Eu não posso. Sem contato significa sem contato. E,


para falar a verdade, mamãe é tão boa em seus joguinhos que pode estar fazendo
isso de propósito só para me obrigar a me envolver.
— É — ele concordou.

— Então eu não posso.

— É — ele repetiu, agora com muito mais firmeza.

— Urgh — repetiu ela, frustrada.

Hugger se inclinou para roçar os lábios nos dela e, ao se afastar, murmurou:

— Vamos para casa.

— ‘Tá bom — murmurou ela.

Eles se soltaram, ele subiu na moto, e Di se acomodou atrás dele, colando-se às


suas costas, com os braços ao redor da sua cintura e o queixo apoiado no ombro
dele.

Aquilo não era tão bom quanto sentir que ela precisava se apoiar nele.

Mas, ainda assim, era bom pra caramba.

Eles partiram, e, do jeito que ele sentia, provavelmente ela também notou o
celular vibrando de novo no seu bolso traseiro.

Quando pararam no semáforo, ele gritou por cima do ronco do motor:

— Pega isso pra mim?

Di se mexeu o suficiente para alcançar o bolso de trás e pegar o celular depois


que a ligação terminou.

— Dutch — ela disse no ouvido dele.

— Mostre meu rosto para a câmera e ligue para ele — ele ordenou, lembrando-
se de que precisava passar o código de acesso para ela depois.

Ela desbloqueou o telefone, apontou para o rosto dele e manteve o braço ao


redor dele enquanto ele acelerava assim que o semáforo ficou verde.
Ele ouviu a conversa exaltada dela com Dutch, então já imaginava o que estava
por vir antes mesmo de ela encerrar a chamada e dizer alto em seu ouvido:

— Ele quer você na casa segura o mais rápido possível. E disse que eu também
posso ir.

Hugger mudou de faixa.

Uma das vantagens de Phoenix era sua estrutura urbana organizada quase
inteiramente em um sistema de grade, com avenidas numeradas a oeste e ruas a
leste, separadas pela Central Avenue, o que tornava incrivelmente fácil se localizar na
cidade.

Vinte minutos depois, ele subiu a entrada de uma casa onde várias motos já
estavam estacionadas. Seus olhos se estreitaram ao notar que não eram apenas as
motos de Dutch, Jagger e Coe, nem a trike47 de Big Petey. Armitage, Eight e Muzzle
também estavam lá, e, na calçada, havia um SUV da NI&S, uma caminhonete
chamativa e um Jaguar reluzente.

Diana desceu rapidamente da moto, e Hugger veio logo atrás. Ele parou ao
perceber o olhar dela.

— O que foi? — ele perguntou.

— Isso é uma casa segura? — ela retrucou, gesticulando para a ampla casa em
estilo rancho no alto da colina, com uma vista espetacular do vale. O lugar tinha
quatro quartos, quatro banheiros e meio, uma piscina com uma cachoeira que
desaguava em uma jacuzzi e até uma mesa de air hockey.

— O Resurrection tem algumas lojas de cannabis em Denver — ele explicou. —


Eles têm grana.

Ela apenas o encarou.

Então ele continuou:

47
Moto Trike → Um veículo de três rodas, muitas vezes uma motocicleta modificada para ter mais
estabilidade, popular entre motociclistas que querem conforto e segurança extras.
— E a Ride tem oficinas e garagens espalhadas pelo Colorado. O comércio vai
bem, ainda mais agora que os millennials e a Geração Z decidiram que é importante
comprar de negócios locais. Sem contar que nossas motos personalizadas são
vendidas por centenas de milhares de dólares.

— Então, além de serem seguranças e vigilantes de meio período, vocês também


são empresários motociclistas — ela observou.

Ele passou um braço ao redor dos ombros dela e murmurou:

— Algo assim.

Ele a guiou para dentro e imediatamente reconheceu todos os presentes.

Sim, Eight e Muzzle estavam de volta. Também estavam lá Mace e Cap Jackson,
outro membro da equipe da NI&S, além de Sylvie e Tucker Creed, dois
investigadores particulares locais com ligações em Denver, já que Sylvie trabalhava
para Knight Sebring, um aliado do Chaos. E, por fim, uma mulher que ele conhecera
no único outro encontro deles em Phoenix - um encontro no qual todos esses
presentes haviam passado para fornecer informações e conselhos, o que o
prolongou consideravelmente.

O nome dela era Sixx. Ela era deslumbrante, e ele não fazia ideia de qual era sua
profissão, mas, fosse o que fosse, envolvia algo impressionante. Se ele fosse
qualquer outra pessoa, provavelmente teria medo dela.

Ele não teve chance de apresentar Diana aos novos conhecidos, porque ela
exclamou:

— Meu Deus! Pessoal! — e correu direto para Muzzle.

Ela o abraçou com força, e Muzz, sendo meio canalha, a segurou ainda mais
apertado, dando um sorriso provocador para Hugger.

Filho da mãe.

Hugger apenas cruzou os braços e observou.


Diana então foi até Eight, que, ao contrário de Muzz, apenas retribuiu o abraço
apertado sem provocações.

Quando ela se afastou, perguntou:

— O que vocês estão fazendo de volta?

— Isso é o que precisamos conversar — Eight respondeu.

Em seguida, Diana foi apresentada a Cap, Sylvie, Tucker e Sixx.

Depois, Mace se dirigiu a ela:

— Fique aqui com o pessoal enquanto roubamos seu homem por um tempo?

Diana, que não era nada boba, já havia percebido que algo sério estava
acontecendo com os Babićs.

Mas ela não contestou, e Jagger se aproximou, perguntando:

— Sua escolha: cerveja ou air hockey?

— Só posso escolher uma? — ela devolveu.

Sim, essa era a mulher dele.

— Vamos lá, querida — Big Petey incentivou, estendendo a mão para Diana. —
Vamos começar um jogo enquanto Jag nos prepara uma bebida.

Diana seguiu para a mesa de air hockey com Big Petey, enquanto Jagger ia até a
geladeira.

Hugger acompanhou Eight e Mace até a sala de estar na frente da casa, seguido
por Sylvie, Tucker, Cap e Sixx. Cap fechou a porta atrás deles.

Eight pegou um tablet da mesa, ativou a tela e entregou para Hugger.

Ao olhar para a imagem, Hugger prendeu a respiração.


A foto mostrava três homens caídos no chão, encostados contra uma parede,
desmoronando uns sobre os outros. Estavam cobertos de sangue, cheios de buracos
e completamente mortos.

No colo deles, repousavam dois grandes cartazes. Um dizia "Eu estou" e o outro,
"Fora".

Um dos homens era Esad Babić. Os outros dois eram seus irmãos.

— Foi isso que as autoridades da Costa Rica encontraram quando localizaram


Esad — Mace informou.

Hugger trocou um olhar com Eight.

Eight balançou a cabeça.

— Não fomos nós. Estávamos lá, tentando conseguir armas por meio de
contatos, mas chegamos tarde demais. Ouvimos que o serviço já estava feito e
voltamos para os Estados Unidos esta tarde.

— Então, quem foi? — Hugger perguntou. — E o que significa "Eu estou fora"?

Sixx se aproximou.

— Imran não saiu da Bolívia. Mas isso não significa que ele não possa ordenar
uma execução. E há rumores de que Imran ordenou três assassinatos de sua
hacienda.

Hugger ficou chocado.

— Ele mandou matar o próprio filho?

— Imran é um lunático — Sylvie interveio — mas também é um empresário


astuto. Policiais e agentes federais vasculharam todas as propriedades dele aqui no
Vale e em outros lugares. Não encontraram nada que o ligasse a algo além de seus
negócios legais. O problema de Imran foi que pegaram o telefone de Esad, o que já
foi um grande golpe. Mas, ao revistar a casa de Esad, encontraram o laptop dele,
que ele, idiota, deixou para trás. O dispositivo continha uma quantidade enorme de
informações, não apenas sobre as atividades criminosas de Esad, mas também sobre
os negócios do pai. Além disso, pegaram o carro de Esad, com o histórico de
endereços no GPS. Isso os levou a esconderijos conhecidos e desconhecidos do
império dos Babić. Ainda há muitas conexões a serem feitas, mas tudo até agora
aponta para Imran. — Ela fez uma pausa e concluiu: — Eles estão fritos.

— Como em "fora" — Tucker acrescentou.

Hugger mal podia acreditar.

— O filho dele realmente salvou os esconderijos no GPS?

— Sim — confirmou Tucker.

Cristo, aquele cara era um completo idiota.

— A polícia e os federais prenderam a maior parte do exército de Imran —


acrescentou Mace. — Não todos, mas a maioria. Nenhum deles está falando. Ou por
causa do código deles, ou porque estão apavorados com Babić, considerando que
ele foi capaz de mandar matar o próprio filho. Sem falar no fato óbvio de que ele é
um lunático.

Cap assumiu a conversa:

— Alguns dos soldados dele ainda estão soltos, mas se dispersaram. Alguns
foram para a Bolívia. A maioria cruzou a fronteira com o México.

— Estão sumidos? — perguntou Hugger.

— Por enquanto — respondeu Cap.

— Tem mais coisa — interveio Sixx.

— O que é? — Hugger insistiu, ao notar que ela não disse mais nada.

— Babić mandou um recado por meio de alguém que sabia que chegaria até
mim — explicou ela. — Fez isso para que eu informasse Mace, Sylvie, Tucker ou
alguém que levasse a informação até vocês, já que ele não sabia que tínhamos sido
apresentados. Ele disse que não tem nada contra Nolan ou Diana Armitage. E nunca
teve.

Seu próprio filho morto por ordem dele… Hugger achou aquilo bom demais para
ser verdade.

— A gente acredita nisso? — ele questionou.

— Acreditamos — afirmou Sixx.

— Tem algum motivo para ele não ter dito isso direto para o Buck, quando o
Buck tentou entrar em contato dez malditas vezes? — resmungou Hugger.

— Infelizmente, tem — disse Sixx. — Ele achou hilário o esforço que vocês
estavam fazendo para proteger duas pessoas com quem ele não se importa nem um
pouco.

Que desgraçado.

Mas isso era algo que fazia sentido vindo desse cara. Pelo menos significava que
Di e Nolan estavam seguros, e Dutch, Jag e Coe poderiam voltar para casa.

Ele, no entanto, ficaria em Phoenix, pelo menos por um tempo.

— E Maddy? — Hugger perguntou a Sixx.

— Maddy não é mais problema dele — respondeu Sixx. — Ela foi, quando ele
tentava impedir que o próprio filho destruísse tudo, inclusive os negócios da família.
Mas não é mais. Não há nada que ligue Imran Babić àquela rede de tráfico. Além
disso, os federais a desmantelaram completamente. Conseguiram o testemunho de
várias mulheres, sem falar de alguns envolvidos que estão fazendo acordos. É
possível que Madison nem precise testemunhar.

Bem, essa era uma notícia que trazia um grande alívio.

Hugger se voltou para Eight.

— Alguma novidade sobre o que ele quer com os clubes?


O olhar de Eight escureceu antes de responder:

— Sim. Lá em Denver, Core e Brain conseguiram pegar um informante… que, por


acaso, era um informante do Babić. Fizeram o que tinham que fazer e descobriram
que, de alguma forma, Babić ficou sabendo sobre a situação entre o Chaos, os
Resurrection e Benito Valenzuela.

Valenzuela era um nome do passado do Chaos, assim como o pai biológico de


Hugger.

E, assim como a história do seu pai biológico, essa também não era nada
agradável.

Isso fez com que Hugger ficasse inquieto.

— E daí?

— Daí que Babić teve a brilhante ideia de que não gostou do fato de dois
motoclubes terem vencido um dos seus — informou Eight. — Então, por puro prazer
sádico, porque esse cara é um psicopata, decidiu se meter com a gente para ver o
que aconteceria.

Puta merda.

Hugger analisou Eight com atenção.

— O quanto ele sabe sobre Valenzuela?

A voz de Eight ficou mais baixa:

— O suficiente, mas nada daquilo. Ninguém sabe nada sobre aquilo.

Hugger relaxou.

Mas só um pouco.

— O exército dele foi dizimado, os negócios estão arruinados. Será que ele está
reconsiderando essa jogada? — perguntou Hugger.
— Seria difícil — ponderou Mace. — A menos que ele se infiltre de volta no país,
qualquer ponto de entrada que ele tentar, será preso imediatamente. Ele pode dar
ordens da América do Sul, mas sem soldados, não sei em quem poderia confiar para
uma operação que precisaria ser minuciosa e bem executada.

— Homens como ele sempre encontram um jeito — apontou Hugger.

Ninguém discordou.

— Ele também teria que se reconstruir — acrescentou Cap. — Suspeitamos que


esteja vivendo de dinheiro escondido, mas todas as contas bancárias dele aqui, que
estavam muito bem abastecidas, foram congeladas. E, conforme o processo avança,
é questão de tempo até serem apreendidas, junto com todas as propriedades dele.
Ou seja, ele não tem nem de perto os recursos que tinha antes.

— Sem falar que ele cometeu um erro ao escolher a Bolívia — interveio Mace. —
O tratado de extradição que assinamos com eles nunca funcionou bem para os
Estados Unidos, a ponto de ser praticamente inútil. A última pessoa que
extraditaram foi nos anos 90. Eles não gostam de extraditar cidadãos bolivianos. Mas
Babić não é boliviano. Ele conseguiu cidadania americana em 1998. As autoridades
bolivianas já foram informadas da presença dele lá, e o governo dos EUA está
negociando para extraditá-lo. Então ele pode precisar se mover de novo, e logo.

— Então, ele vai estar fugindo — deduziu Hugger.

— Talvez, e ocupado com isso, vocês estejam fora do radar dele. Ou talvez
aquela mensagem de "Eu estou fora" seja só uma jogada para fazer vocês baixarem
a guarda. Mas, pelo menos por enquanto, ele não será um problema imediato —
disse Sylvie.

Isso significava que não podiam ter certeza de que a situação com Babić estava
resolvida, mas, por ora, Nolan e Di estavam seguros. Eles tinham um pouco de
tempo para respirar e um alerta de que estavam no radar de um lunático que sentia
necessidade de brincar com eles.

— Vamos manter os ouvidos atentos — acrescentou Tucker.


— Resumindo: por enquanto, Di e o pai dela estão bem — afirmou Eight.

— Você vai voltar para Denver? — Hugger perguntou.

— Linus já está a caminho. Amanhã, Muzz e eu seguimos também. Roscoe vem


com a gente. Alugamos essa casa até o fim do mês, então, aparentemente, Georgie
e Archie virão para o fim de semana antes de os irmãos Black voltarem.

Isso seria bom. Di poderia conhecê-los.

— Então, isso está encerrado — concluiu Hugger.

— Por enquanto — concordou Eight.

Sim.

Por enquanto.

Mas ele se conformaria com isso, sabendo que Di estava segura. O resto... eles
veriam com o tempo.

Depois de falar com o pai para avisá-lo de que estava tudo bem com Babić,
Hugger viu Di entrar no quarto.

Ele estava esparramado na cama dela com um livro que pegou da estante
(Mother Daughter Murder Night48 - parecia o tipo de coisa que ele gostaria, mesmo
nunca tendo sido um leitor. Ele estava tentando coisas novas, e como Di tinha uma
estante enorme cheia de livros na sala, ele se aproveitou disso).

48
“Mother-Daughter Murder Night" é um livro de mistério escrito por Nina Simon. A história gira em
torno de um trio de mulheres que acabam se envolvendo na investigação de um assassinato na pequena
comunidade costeira onde vivem.
Ele observou enquanto ela caminhava em sua direção, vestindo uma camiseta
curta e justa e shorts soltos de amarrar.

Rapidamente, ele colocou o livro de lado quando ela se jogou sobre ele.

— Seu pai está bem? — ele perguntou.

Ela assentiu.

— Ele quer fazer uma festa na piscina no sábado, já que Georgie e Archie estarão
aqui.

Hugger não tinha um calção de banho desde, no mínimo, os oito anos de idade.

— Vou precisar avisar Dutch e Arch para que as mulheres possam levar os
biquínis.

— Ok.

— E também vamos ter que sair para comprar um calção pra mim.

Ela abriu um sorriso ao imaginar a ideia de ir às compras.

— Ok.

Ele deslizou os dedos pela barra do short dela, subindo até a calcinha.

— Por que diabos você colocou pijama?

Di assumiu uma expressão falsamente severa.

— Com licença, Harlan “Hugger” McCain, você tem uma ideia errada sobre mim.
Eu não sou fácil.

Foi quando ele sorriu, a virou de costas e provou que ela estava errada.
Hugger estava com Diana de quatro, curvado sobre ela, uma mão apoiada na
cama, a outra entre suas pernas, os dedos estimulando seu clitóris.

E ele estava quase lá, então ela precisava chegar lá também.

Com esse pensamento, sua cabeça, que estava inclinada, jogou-se para trás,
batendo com força contra o ombro dele. Seus cabelos macios roçaram seu rosto,
enredando-se em sua barba, fazendo seu corpo inteiro reagir. E então ela gozou...
alto.

Graças a Deus.

Ele deslizou os dedos para longe, envolveu o braço ao redor da cintura dela,
segurando-a firme para seus últimos movimentos. Por fim, enfiou o rosto em seu
pescoço, chegou ao ápice e, como sempre acontecia com Diana, foi intenso.

Ele ainda estava usando preservativo. Ela tinha uma consulta médica na semana
seguinte. Ele, outra, na semana seguinte, em Denver.

Hugger diminuiu o ritmo dentro dela até perder a rigidez, então saiu devagar,
beijou seu ombro e, erguendo-se, a empurrou delicadamente para o lado da cama,
cobrindo-a com os lençóis antes de se livrar do preservativo.

Quando voltou, deitou-se ao lado dela, e Diana se aconchegou em seu peito.

— Aquele show foi bizarro, baby — ele declarou.

Ela começou a rir.

— Quase peguei no sono — continuou.

Ela riu ainda mais.


Ele adorava fazê-la rir.

Ela ergueu os olhos para ele.

— Então um ambiente jam não é o seu estilo?

Era sábado à noite. Mais cedo, tinham ido ao show da Charlie com Mel e seu
namorado, Gerard (um cara legal, ainda mais quando Mel teve que cutucá-lo com o
cotovelo porque ele realmente cochilou). Bernie também estava lá, assim como
Dutch, Georgie, Jagger e Archie.

Durante todo o show, Dutch e Jagger continuavam lançando olhares para


Hugger como quem dizia Que porra é essa?

Georgie parecia prestes a rir o tempo todo.

Archie, por outro lado, parecia estar curtindo - ou, pelo menos, fingia melhor do
que o resto deles que não achava aquilo completamente fora da realidade.

— Não — ele respondeu à pergunta de Diana.

— Você não precisa ir de novo — ela garantiu.

— Você vai a todos?

Ela assentiu.

Claro que sim.

— Não acontecem com muita frequência — explicou. — Porque, né…


obviamente, não tem um grande público, e não existem muitos lugares implorando
para receber uma banda que vai colocar a clientela para dormir.

Ele notou que o bar não estava nem um pouco cheio, e algumas mesas
chegaram a esvaziar depois que Charlie e a banda começaram a tocar.

— Charlie não liga — Diana continuou. — Ela só gosta de tocar.


— Com que frequência eles se apresentam?

— Talvez uma vez a cada dois meses. Vão mais para Sedona e Flagstaff do que
tocam aqui. Às vezes, a gente vai, porque são cidades legais para passear. Às vezes,
não.

— Vamos ver quando rolar de novo.

Ela olhou para ele com doçura, passou os dedos por sua barba e mudou de
assunto.

— Eu gostei da Georgie e da Archie. As duas são muito fodas.

Os lábios dele se curvaram em um sorriso.

— Definitivamente… fodas.

Ela parou de acariciar a barba dele para dar um tapa leve em seu peito e
provocou:

— Não me zoa!

Hugger sorriu de verdade.

Os olhos dela brilharam ao vê-lo assim, mas ele percebeu a mudança sutil em
seu humor.

— Baby… — ele disse suavemente. — Isso precisa ser feito.

Ele sabia exatamente sobre o que ela estava pensando.

Ela sabia que ele voltaria para Denver com Dutch e Jag na quarta-feira.

— Eu sei — ela murmurou.

— Snap vai ajudar a reformar meu apartamento — ele lembrou. — Ele mandou
mensagem hoje dizendo que Hound já passou por lá e começou a demolir a
cozinha.
Os olhos dela se arregalaram.

— Sério?

— Hound gosta de destruir coisas.

O humor dela mudou de novo, e ela começou a rir.

— Você acabou de ganhar um nome de Clube — ele murmurou, adorando até os


ossos o jeito dela.

Tanto Georgie quanto Archie começaram a chamá-la de "Blue" no instante em


que chegaram ao apartamento dela naquela noite, quando todos se encontraram
para comer algo antes do show.

O humor dela mudou completamente quando ela abriu um sorriso radiante para
ele.

— Agora eu sou oficial.

— Você já era, baby — ele murmurou.

Isso lhe rendeu um beijo.

Ele retribuiu antes de encerrá-lo, então a virou de um lado para o outro para
apagar os abajures ao lado da cama.

Ele estava exausto, tinha acabado de gozar intensamente, e o dia seguinte seria
longo. Precisavam descansar um pouco.

Eles se aconchegaram, frente a frente, como faziam todas as noites. Embora, com
o tempo, ele costumasse se mexer e acabavam dormindo com ela enroscada nas
costas dele. Às vezes, era ela quem se virava, e então era ele quem se encaixava nas
costas dela.

Mas sempre começavam conectados. E sempre terminavam conectados.

Todas as noites.
Hugger nunca pensou sobre isso, nem uma única vez, desde o começo.

Porque essa era a Di.

Então, ele também não pensou nisso naquela noite, quando a sentiu adormecer
em seus braços e a acompanhou no sono.

E não pensou nisso horas depois, quando despertou, curvado contra as costas
dela, mantendo-a perto.

Naquela tarde, Hugger saiu da piscina de Nolan, sacudiu a água dos cabelos e
pegou uma das toalhas de praia grossas da pilha que haviam deixado para ele se
enxugar.

Depois, caminhou até o enorme cooler cheio de cervejas e pegou uma.

Torcendo a tampa, jogou-a no lixo próximo e se virou para observar o que


acontecia na piscina.

Uma música tocava em um volume médio - felizmente, nada de ambiente. Para


combinar com a geração deles, Nolan colocou uma música dos anos 90, o que
funcionava bem para todos.

Di estava montada em um espaguete de piscina, vestindo um biquíni vermelho


adorável. A parte de cima tinha um decote profundo e um pequeno babado,
destacando seus seios, enquanto a parte de baixo era de cintura alta, com algumas
pregas na barriga e um corte que realçava suas curvas.

Estava sexy pra caralho.

De manhã, tinham passado no shopping, e ele comprou uma bermuda de surfe


bem longa, em verde militar. Di queria que ele pegasse uma vermelha, mas
vermelho não era a praia dele. Agora, ele estava feliz por ter insistido nisso - se não,
estariam combinando, e isso seria ridiculamente brega.

Mas, pensando bem, era por isso que ela insistiu na cor. Para que ficassem
bregas juntos. Para que ela fosse fofa e, ao mesmo tempo, uma pedra no sapato
dele—o que, para piorar, ele também achava fofo.

Mel, Charlie e Georgie estavam na piscina com espaguetes também. Bernie


estava sentada ao lado de Nicole, na beirada do que Di lhe disse se chamar uma
Baja bench, dentro da piscina. Todas as mulheres seguravam drinques congelados, já
meio derretidos, em copos plásticos, porém sofisticados, e formavam uma espécie
de círculo de conversa.

Jagger parecia estar dormindo sobre uma boia que mais lembrava um travesseiro
gigante. Dutch e Gerard estavam nas espreguiçadeiras dentro da Baja bench,
bebendo cerveja e jogando conversa fora.

Pete estava completamente apagado debaixo de uma das espreguiçadeiras na


lateral da piscina, e tinha companhia. Shannon lia um romance na espreguiçadeira
ao lado dele.

Então, sim.

Mais um ponto positivo para Phoenix: aquela vista.

Larry não veio. Pelo que parecia, ele apoiava totalmente Diana em estar perto da
família, mas Nicole chocou Di e Hugger quando apareceu na festa. Ainda assim,
provavelmente levaria um tempo até Larry se sentir à vontade para curtir na casa do
ex da esposa.

O simples fato de Nicole estar ali dizia muito sobre ele. E também sobre ela.

Guardar rancor só fode com a gente. Melhor evitar.

Embora, no caso da mãe de Di, Hugger esperava que ela segurasse aquele
ressentimento por, pelo menos, mais uns vinte e cinco anos.
Quando ouviu a porta se abrir atrás dele, se virou e viu Armitage sair.

O homem olhou para a piscina, sua expressão suavizando. Depois, virou-se para
Hugger e caminhou até ele.

Pegou uma cerveja, abriu e ficou ao lado dele.

— Você não é de perder tempo — Hugger comentou, inclinando a garrafa na


direção da piscina.

— Parece que você também não é — Armitage respondeu, antes de dar um gole
na cerveja. — Diana me disse que você está se mudando para cá.

— Sim.

— Isso é um baita sacrifício — Armitage observou. — Vai te afastar da sua


família.

— Meus irmãos vão entender. E Di não mora na Nova Zelândia.

— Não, ela não mora — murmurou Armitage, olhando para a própria cerveja
antes de dar outro gole.

Hugger tomou o dele e continuou:

— Além disso, perdi minha mãe. Di encontrou o pai. E aquela mulher que se diz
mãe dela está brincando com a avó. Se afastar de vocês agora a mataria por dentro.

Ele sentiu o olhar do homem sobre si e, então, desviou os olhos de Diana, que
sorria para algo que Archie dizia, e encarou o pai dela.

— Você perdeu sua mãe? — Armitage perguntou.

— Sim.

— Sinto muito, Harlan — disse ele, em um tom baixo.

Hugger deu outro gole e respondeu:


— Já faz um tempo.

— Mas a gente nunca supera — Armitage afirmou.

Seu peito apertou, mas ele não disse nada.

— Tive uma mãe maravilhosa — Armitage continuou. — Meus pais trabalharam


duro a vida toda, morreram cedo demais e nem tiveram tempo de aproveitar o que
conquistaram. Se foram nos sessenta e poucos, mas ainda assim… era cedo demais.
Sinto falta deles todos os dias. E lamento por eles todos os dias. Queria que tivessem
tido tempo de viver sem precisar gastar tanto suor e lágrimas.

Hugger permaneceu em silêncio. Ele sentia aquilo nos ossos, porque era
exatamente o mesmo para ele.

O olhar de Armitage ficou mais intenso ao dizer:

— Esse é o legado deles. O que conquistaram com a gente. Não serem


esquecidos. Eles continuam vivos em nós, enquanto tivermos as lembranças deles.

— É — Hugger murmurou.

Mas ele gostou dessa ideia.

Era o que sua mãe lhe dizia naquela música.

Ela partiria, mas suas lembranças o ajudariam a seguir em frente.

E ela estava com ele - talvez apenas em seus pensamentos - mas, todos os dias,
sempre que precisasse dela, bastava chamá-la, e ela estaria ali.

Sua atenção foi desviada quando risadas femininas ecoaram pelo ar. Tanto ele
quanto Armitage voltaram o olhar para as mulheres na piscina, vendo todas
entregues ao riso.

— Com o que Margaret fez, sempre havia algo, como um peso sufocando nossa
felicidade como família, a minha e a da Di — comentou Armitage, observando as
mulheres rirem. — Nunca a vi tão feliz e despreocupada.
Hugger sentiu a garganta se fechar.

Porque o que Armitage acabara de dizer…

Aquilo era para ele.

O homem estava lhe dando esse presente.

Armitage se virou para ele.

— Obrigado por isso, Harlan.

Meu Deus, isso era para mim.

— Pode me chamar pelo nome do Clube, Hugger ou Hug — ele conseguiu dizer.

Armitage sorriu e murmurou:

— É uma honra.

Então, caminhou até a borda da piscina e perguntou:

— Alguém pronto para eu colocar os hambúrgueres na grelha?

Pete despertou com isso e gritou:

— Porra, sim!

— Quer ajuda, pai? — Di chamou.

— Eu adoraria, Florzinha — respondeu Armitage.

Ele lançou um breve olhar para Hugger, inclinando o queixo em um gesto


discreto, antes de pegar sua cerveja e entrar na casa.

Diana nadou até o banco Baja, largou o macarrão de piscina e saiu da água.

Dutch e Gerard se levantaram das espreguiçadeiras. Dutch foi se sentar na beira


do banco, enquanto Gerard pegava o macarrão de Diana e flutuava na piscina.
Jagger tirou os óculos do nariz, olhou para Hugger e sorriu.

Hugger deixou a cerveja de lado e se enxugou um pouco mais para não pingar.

Então, entrou na casa para ajudar Di e seu pai com os hambúrgueres.


Capítulo 24
A ILHA DO CHAOS
Hugger

Duas semanas depois…

Hugger estava em sua casa em Denver, refletindo sobre sua decisão. Todas as
suas coisas importantes estavam embaladas e guardadas no porão de High e Millie,
esperando para serem carregadas em sua caminhonete para a viagem até Phoenix.
O restante - móveis, utensílios de cozinha, qualquer outra coisa que não valesse a
pena levar - tinha sido descartado.

O lugar nunca estivera tão bem. Os carpetes foram arrancados, a cozinha e os


banheiros foram demolidos, e a parede que separava a cozinha da sala de estar foi
derrubada para criar um espaço amplo e integrado.

No canto da sala, havia uma pilha de caixas e paletes carregados. Outra parte
estava repleta de ferramentas. Eles aguardavam a chegada dos armários de cozinha,
escolhidos por Rosalie e Tyra (e aprovados por Diana). Mas, enquanto isso, estavam
prontos para começar a reforma dos banheiros.

Esse trabalho começaria no dia seguinte.

Hugger estava ansioso para ver tudo concluído, colocar inquilinos no imóvel e
começar a gerar renda.

Aquela casa nunca tinha sido um lar. Mas agora, ao menos, seria algo.

Algo que contribuiria para a construção de uma boa vida ao lado de Diana.
Ele saiu, ativando o sistema de segurança - o primeiro item instalado na casa,
porque agora havia algo de valor ali - e trancou a porta.

Subiu na moto e seguiu para o Chaos.

Ao chegar ao pátio, viu todas as motos de seus irmãos alinhadas em frente ao


Complexo.

Hugger estacionou no final da fila, desligou a moto e desceu.

Estava a caminho da entrada principal quando algo o fez mudar de direção.

Mesmo sabendo que os homens o aguardavam, seus pés o levaram até a porta
dos fundos da loja. Digitou o código, abriu a porta e atravessou o depósito
meticulosamente organizado - obra sua. Antes de sua chegada, aquele espaço era
um verdadeiro caos.

Caminhar pela loja teve um efeito estranho sobre ele. Ele sabia exatamente onde
cada correia de ventilador estava pendurada, onde cada galão de fluido para para-
brisas era armazenado, onde cada lata de óleo de motor estava empilhada.

Foi então que percebeu o quanto gostava de ser o primeiro a abrir a loja.
Gostava de ser o cara a quem todos recorriam com dúvidas no caixa ou sobre o
tempo de entrega de uma peça especial de determinado fornecedor.

Gostava de ser esse cara para seus irmãos.

E foi então que soube que sentiria falta daquilo.

Contaria isso a Diana depois de estar instalado. Ela já estava nervosa o suficiente
com o que ele estava “deixando para trás” por ela. Não iria acrescentar mais uma
preocupação até que ela tivesse certeza de que ele estava bem e que os dois
estavam sólidos.

Quando estava saindo da Ride para o Complexo, seu telefone vibrou com uma
mensagem.
Era de Diana.

Maddy acabou de ligar! Ela voltou para casa após passar por um exame e está
apresentado progresso, e agora está planejando retomar as aulas!!!!!!!!

Ela adicionou uma dúzia de corações duplos cor-de-rosa, carinhas sorridentes


com corações ao redor e finalizou com umas duas dúzias de emojis de mulheres
dançando.

Hugger já estava empolgado com o que estava prestes a acontecer, mas, ao ler
aquela mensagem, não pôde evitar um sorriso.

Ótima notícia, baby. Se ela ligar de novo, diz que mandei um oi.

A resposta veio antes mesmo de ele chegar ao meio do Complexo:

Já fiz isso.

Ele parou de andar e enviou um emoji de beijo para ela.

Depois, olhou ao redor.

O bar em curva. Os sofás de couro surrados. A mesa de sinuca.

Sua mãe sempre precisava encontrar lugares onde os proprietários aceitassem


dinheiro vivo sem fazer perguntas. Esse tipo de gente não costumava ser estável,
nem sempre era da legalidade, então eles se mudavam com frequência.

Foi naquele momento que, pela primeira vez em sua vida, Hugger percebeu:
aquele era seu lar.

Não apenas parecia um lar.

Era seu lar.

O Complexo.

A ilha do Chaos.
Aquilo nunca iria desaparecer.

Nunca iria mudar.

Seria dele, faria parte dele, um refúgio seguro, até o dia de sua morte.

Não importava onde estivesse.

Mas sair dali também iria doer.

Deixar o lugar. Deixar os irmãos.

E, enfim, ele entendeu por que Diana estava tão preocupada com sua mudança.

Isso não mudava sua decisão.

Ela era sua mulher.

Ela era sua felicidade.

Ela era seu futuro.

Mas esse era o preço que teria de pagar. E ia doer.

Sacudindo os pensamentos, ele se concentrou no que vinha a seguir.

Aquela reunião era para ele.

Aquele encontro era para ajudá-lo a se livrar do peso que carregava do pai
biológico.

E seria ali que contaria a todos que estava se mudando para Phoenix.

Hugger endireitou os ombros e seguiu para a sala de reuniões.

Ao abrir a porta, viu que todos estavam lá, sentados ao redor da grande mesa.
No centro, sob uma camada de acrílico, estava a primeira bandeira do Chaos: o
emblema da irmandade no meio, cercado pelo lema: VENTO, FOGO, PASSEIO E
LIBERDADE.
O único que não estava sentado era Hound. Ele nunca se sentava. Sempre ficava
de pé, braços cruzados no peito, ombro e sola da bota apoiados na parede, o cão de
guarda dos irmãos, sempre alerta.

Rush ocupava a cabeceira da mesa, e Hugger parou ao perceber uma pilha alta
de relatórios encadernados em plástico ao lado dele.

Ele não sabia do que se tratava, mas, considerando o motivo daquela reunião,
aquilo o deixou inquieto.

— Bom que resolveu aparecer — Boz provocou, referindo-se ao atraso.

Hugger se dirigiu à sua cadeira, situada entre Dog e Snapper.

Somente depois de se sentar, ergueu o dedo do meio para Boz.

Boz riu.

— Certo, estamos todos aqui — Rush anunciou, batendo o martelo na mesa.

Hugger ficou tenso.

Aquilo estava acontecendo.

Merda.

— Temos algo a discutir e todos sabemos o que é, mas primeiro, negócios —


Rush declarou.

Com isso, ele se levantou e começou a distribuir os relatórios pelo centro da


mesa. Mãos se estendiam para pegá-los e passá-los adiante até que todos tivessem
um.

Hugger olhou para a capa do seu.

Havia um logotipo, um nome de empresa abaixo, e o título dizia:


PESQUISA DE MERCADO
PROJETO DE EXPANSÃO
LOJA DE AUTOPEÇAS E OFICINA MECÂNICA RIDE
PHOENIX, ARIZONA

Hugger sentiu a garganta se fechar.

— Dá uma olhada no que diz aí, mas vou resumir — começou Rush. — Phoenix
está crescendo. É uma das cidades que mais cresce nos Estados Unidos. Um paraíso
para motociclistas. Além disso, há um grande interesse por motos clássicas e
restauração. Boa diversidade de níveis de renda, diferentes gerações morando lá, o
que significa dinheiro circulando e gente disposta a gastá-lo. Estão construindo
fábricas, há muitos projetos de habitação em andamento ou planejados. Isso só vai
trazer mais crescimento. A cidade está pronta para investimentos e expansão. Além
disso, o código tributário do estado é favorável.

Ele pegou outro monte de papéis encapados com plástico e os lançou para os
homens.

Os documentos foram agarrados, distribuídos, e antes que Hugger pudesse


sequer olhar a capa, Rush já estava falando de novo.

— Estamos de olho em três terrenos. Dois estão vazios. No terceiro, se


decidirmos ir em frente e escolher esse, vai ser preciso demolir algumas coisas. Os
dois terrenos vazios são enormes, bem maiores do que precisamos, mas isso porque
o Aces High quer uma parceria. Eles também querem expandir. Estão planejando
abrir outra loja e topariam se associar à Ride, caso a gente siga com isso. Boa
oportunidade de marketing cruzado.

Lutando para respirar sem demonstrar, Hugger folheou o relatório imobiliário.

Ele não sabia os endereços exatos, mas, por causa de sua mulher e de como ela
era, enquanto esteve em Phoenix, teve muitas oportunidades de rodar pela cidade.
Então, tinha uma noção dos locais - e eles eram bons.
— Obviamente, antes de falarmos sobre os terrenos, precisamos decidir se
vamos expandir para fora do Colorado e entrar no Arizona — disse Rush.

— Os pais da Millie já estão mais velhos e moram lá — acrescentou High. — Ela


já estava falando sobre conseguirmos um lugar pra quando chegar a hora de eles
precisarem de mais atenção. Além disso, Cleo quer cursar enfermagem na
Universidade do Arizona. E Zadie vai pra onde a irmã for. Então, mais cedo ou mais
tarde, íamos acabar comprando algo por lá, se não mudando de vez. Millie não vai
querer que eu fique longe das minhas meninas.

O que High não disse em voz alta era que, como Millie era inseparável de suas
enteadas, ela também não ia querer ficar longe delas.

— A Ruiva já cansou da neve — comentou Tack. — E os garotos vão sair do


ensino médio em alguns anos e tocar o terror em Denver. Então, ela vai querer
dificultar um pouco o acesso deles até nós pra pedir dinheiro de fiança.

Houve algumas risadas, mas Tack continuou:

— Não vai ser em tempo integral. Não vou deixar meus netos, e a Ruiva também
não vai querer isso. Mas no inverno, preciso tirar minha mulher do frio e da neve.

Hop entrou na conversa:

— Onde Tyra for, Lanie vai querer ir atrás. E eu topo qualquer lugar onde eu
possa andar de moto o ano inteiro. Mas ainda vamos ter que esperar um pouco até
Nash terminar os estudos.

— Vou arrumar um lugar de inverno por lá — anunciou Big Petey. — Aquele sol
de Phoenix fez bem pra esses ossos velhos. Vou travar de vez se tiver que aguentar
mais quatro meses de frio aqui.

— Renae está de acordo com isso? — perguntou Snapper, referindo-se à mulher


de Petey, que também era sua sogra.

— Sim, filho — respondeu Big Petey. — Ela ficou radiante só de pensar em nunca
mais precisar raspar gelo do para-brisa.
— Eu topo ficar lá o ano inteiro — disse Boz. — Não curto o frio. E um novo
cardápio de mulheres também não faz mal.

Alguns gemidos de reprovação foram ouvidos, e Hound pegou o relatório de


mercado e jogou na cabeça de Boz.

Boz lançou um olhar irritado para Hound, que apenas sorriu.

Antes que algo mais pudesse acontecer, Rush perguntou:

— Vocês querem ler o relatório ou já estão prontos pra votar?

— Óbvio que estou dentro — disse High.

— Dentro — resmungou Tack.

— Dentro — acrescentou Hop.

— Totalmente dentro — declarou Big Petey.

— Sim — disse Shy.

— Sim — responderam Dutch e Jag em uníssono.

— Também não me importaria de me mudar pra lá — disse Roscoe, olhando


para Hound. — E não joga nada em mim, mas, sério, lá embaixo a gente não tem
que passar cinco meses vendo as mulheres se esconderem em suéteres enormes e
casacos pesados e tal.

Joker, Snapper, Dog, Chill e Saddle deram seus votos afirmativos.

— Já falei com Brick, Arlo, Tug, Bat e Speck, e eles também estão de acordo —
informou Rush. Esses eram os membros que haviam se mudado para outras
localidades para cuidar dos negócios.

Então, ele olhou diretamente para Hugger.

— Você ainda não votou, Hug.


Ele não tinha falado. Porque não conseguia.

Quando deixou Denver rumo a Phoenix, não houve nenhuma conversa sobre
expansão.

Ele sabia exatamente o que estava acontecendo.

Eles estavam fazendo isso por ele.

Isso era para ele.

Para que não perdesse sua família.

Para que não perdesse seu lar.

Para que soubesse exatamente quem ele era.

— Hug? — Tack sugeriu.

— Sim — ele forçou a resposta.

Tack assentiu.

— Parece que a Ride está indo para Phoenix — decretou Rush. — Agora, deem
uma olhada nessas propriedades. Podemos decidir isso depois.

Rush voltou-se para Hugger.

— Vou te encarregar de ser nosso homem lá embaixo. Está bem com isso?

Hugger precisou limpar a garganta antes de responder:

— Sim.

Rush então olhou para Dog.

— Brick está dentro para ajudar, mas também preciso saber se você pode. Vocês
dois têm mais experiência abrindo novas lojas. Hug vai precisar de irmãos ao lado
dele.
— Conta comigo — Dog disse, abrindo um sorriso. — Além disso, Sheila vai
adorar qualquer desculpa para ir ao Vale. Assim, pode passar um tempo com o
irmão e mimar os sobrinhos até não poder mais.

Sheila era irmã de Buck.

— Ótimo. Está resolvido? — perguntou Rush.

— Está resolvido — Tack confirmou.

Rush bateu o martelo.

O peito de Hugger parecia que ia explodir.

Rush olhou para o pai.

Tack não hesitou.

— Agora, precisamos falar sobre Chew — declarou Tack.

— Não — Hugger rebateu de imediato.

Ao som da palavra de Hugger, o silêncio tomou conta da sala.

Ele precisou limpar a garganta novamente, e fez isso olhando diretamente nos
olhos de Tack Allen.

Porque seu filho era o presidente.

Mas a Ride em Phoenix tinha sido ideia de Tack.

— Não, não precisamos. Ou precisamos? — ele perguntou a Tack.

— Isso é com você, irmão — Tack respondeu, indiferente.

E ele realmente não se importava.

Porque Chew não valia nada.

Mas Hugger se importava.


Porque eles haviam acabado de provar, sem sombra de dúvida, que ele valia.

— O que acabou de acontecer… realmente aconteceu? — Hugger perguntou,


apesar de já saber a resposta.

— Aconteceu — Tack confirmou.

Eles estavam comprando um enorme terreno comercial em outro estado e


abrindo um novo negócio apenas para que Hugger não perdesse sua família.

— Então acho que não precisamos falar sobre meu pai biológico — Hugger
declarou.

— Isso significa que você entende quem você é? — Tack perguntou.

Hugger assentiu.

— Diz isso, irmão — Hop incentivou, em um tom tranquilo.

— Sou filho de Jackie McCain — Hugger afirmou.

— E? — Hound pressionou.

Hugger olhou para Hound.

— E eu sou Chaos.

— Isso mesmo — Hound resmungou em aprovação.

Foi preciso um esforço enorme para manter a cabeça erguida. O peso de tudo o
que estavam fazendo, de tudo o que estavam dizendo, era esmagador.

Droga, como ele queria que sua mãe ainda estivesse viva.

Droga.

— Precisamos fazer algum tipo de cerimônia, tipo arrancar as pernas de uma


tarântula, para finalmente nos livrarmos de Arthur Maldito Lannigan? — Hound
perguntou.
Arthur "Chew" Lannigan.

Ex-Chaos.

Um verdadeiro desgraçado.

O pai biológico de Hugger.

— Millie te mataria se machucasse uma tarântula — High afirmou.

— Um dos saltos dela enfiado no seu traseiro ia doer, irmão — Jagger provocou
o padrasto (Hound).

— Hugger — Big Petey chamou.

Ele olhou para o homem e pensou… talvez estivesse errado.

Talvez não tenha sido Tack quem orquestrou tudo isso.

Talvez tenha sido Big Petey.

Ou os dois.

Mas, no fim das contas, foram todos eles.

Então não importava de quem tinha sido a ideia.

— Esse homem está morto e enterrado — Hugger declarou.

A sala mergulhou em outro silêncio.

Era como se todos estivessem observando sua reação, tentando entender,


tentando ter certeza de que as palavras que saíam de sua boca eram palavras que
ele realmente acreditava, lá no fundo da alma.

O silêncio só foi quebrado quando Dog lhe deu um forte tapa nas costas.

— Acabamos? — Rush perguntou.


Um coro de "sim" ecoou pela sala e Rush bateu o martelo novamente.

Todos os homens se levantaram, se preparando para sair da sala. Alguns iriam


para casa encontrar suas mulheres, outros iriam para a área comum jogar conversa
fora e tomar uma cerveja. Seguir com a vida, como se não tivessem acabado de
mudar a de Hugger de um jeito que ele jamais conseguiria retribuir.

Mas ele não precisava retribuir.

Porque...

Porra.

Isso era família.

Ele começou a se mover, mas não foi muito longe antes de Snapper surgir à sua
frente.

Hugger enrijeceu, mas isso não impediu Snap de puxá-lo para um abraço,
encostar seus peitos num leve impacto, dar-lhe um soco amigável nas costas e então
se afastar.

Mas, assim que Snapper se afastou, ele não foi embora de imediato. Seus olhos
encontraram os de Hugger, e foi como se o corpo de Hugger se esvaziasse,
tornando-se apenas uma casca… até ser preenchido novamente pelo que aquele
olhar transmitia.

O pai biológico de Hugger havia mandado matar Snap. Se tivesse conseguido,


Snapper não estaria ali. Rosie não estaria feliz, vivendo com o homem que amava, e
eles não estariam planejando ter filhos.

E, com aquele olhar, Snapper dizia que nada disso era culpa de Hugger.

— É? — Snapper perguntou, querendo ter certeza de que ele tinha entendido.

— É — Hugger confirmou.
Só então Snapper se afastou completamente.

Rush veio em seguida e fez praticamente a mesma coisa.

O pai biológico de Hugger havia feito a pior coisa possível com a mãe de Rush. E
não era apenas o fato de tê-la mantido sob a mira de uma arma. Rush nunca foi
muito próximo dela - era uma mulher difícil de amar - mas ainda assim, era sua mãe.
E nenhuma mulher merecia o que o pai de Hugger fez com ela.

Rush encerrou aquilo dando três socos firmes no ombro de Hugger, seu olhar
fixo no dele. Só se moveu quando Hugger ergueu o queixo em resposta.

Depois foi a vez de Dog, que repetiu o mesmo gesto, mas sem o contato visual
no final.

Jagger veio depois de Dog, Roscoe veio depois de Jagger, Dutch depois de
Roscoe.

Todos se aproximaram para um abraço, exceto Hound, que segurou Hugger pela
lateral do pescoço, balançou-o para frente e para trás e depois deu um tapa ali,
soltando-o e saindo da sala.

E Tack… Tack não o abraçou.

Ele segurou o rosto de Hugger com as duas mãos e colidiu suas testas, deixando-
os cara a cara.

Olho no olho.

A intensidade do olhar azul de Tack perfurou o dele, como se quisesse arrancar


qualquer vestígio de Arthur Lannigan que ainda assombrasse Hugger.

Não. Não era como se ele estivesse fazendo isso.

Ele estava fazendo isso.

E quando Tack o soltou, Chew Lannigan se foi.


Tudo o que restava era Harlan “Hugger” McCain. O filho de Jacqueline McCain. O
irmão do Chaos.

No fim, os únicos que permaneceram na sala foram Hugger e Big Petey, que não
tinha saído da cadeira.

— Você que orquestrou isso? — Hugger perguntou ao velho.

— Isso importa? — Big Petey retrucou.

— Acho que não — Hugger murmurou.

— Você tem amor, Hugger — disse Big Petey.

Ele sabia disso.

Oh, sim, ele sabia.

— É — Hugger grunhiu.

— Amo você, filho — Big Petey disse, baixo.

Porra.

Hugger o encarou diretamente nos olhos.

— Também te amo, velho — respondeu.

Big Petey esboçou um sorriso discreto, afastou-se da mesa e se levantou da


cadeira.

— Agora, vamos tomar uma porra de cerveja — disse ele.

Uma semana depois…


Hugger levou Diana diretamente para o Chaos depois de buscá-la no aeroporto.

Ele nunca havia ficado nervoso ao conhecer os pais das namoradas do colégio,
porque, como agora sabia, sua mãe havia lhe ensinado a ser um bom namorado.

Mas ele sempre ficava tenso quando sua mãe conhecia suas namoradas. Não
porque se preocupasse com o que elas pensariam dela, mas porque temia o que sua
mãe pensaria da escolha que ele havia feito.

E, apesar de Diana ser quem era - e Hugger saber que ela conseguiria encantar
até uma cobra - aquele era exatamente o tipo de nervosismo que sentia ao entrar
no recinto do Complexo com ela. O mesmo que tinha quando apresentava uma
namorada para sua mãe.

Assim que entraram, Diana estava à sua esquerda e olhou para aquele lado,
observando as paredes marcadas, cobertas de fotos e adesivos, os sofás gastos, as
mesas e cadeiras arranhadas, e a mesa de sinuca cheia de marcas de uso.

Hugger olhou para a direita, em direção ao bar, onde Tack e Hop estavam
encostados no balcão, enquanto Hound, Big Petey, Joker e Dutch estavam sentados
ao redor dele.

Sua atenção voltou para Diana no instante em que ela exclamou:

— Meu Deus! Esse lugar é incrível!

Ela deu mais um passo à frente, virou-se para a direita e soltou um grito animado
antes de sair correndo em direção a Big Petey, que, assim como os outros, já havia
se levantado do banco. No caminho, passou direto por Hound, que tinha uma
expressão que faria a maioria das pessoas pensar duas vezes antes de se aproximar
dele, mas ela o ignorou completamente e atingiu Pete como uma bala.

Hugger ficou surpreso ao ver Big Petey absorvendo o impacto, assim como os
outros homens. Era um sinal claro de que todos haviam percebido que Petey já não
tinha a mesma agilidade de antes.
Mas ele se manteve firme, apenas recuando um passo antes de abrir os braços e
envolver Diana em um abraço apertado, o qual ela retribuiu com a mesma
intensidade.

Depois de um tempo, ela se afastou e disse:

— Nossa mesa de jantar nunca mais foi a mesma sem você.

Hugger aproveitou esse momento para olhar para os outros homens e, naquele
instante, viu com absoluta clareza:

Diana Armitage acabara de ser aprovada.

— Maddy te ligou? — ela perguntou a Big Petey. — Eu dei a ela seu número.

— Sim, tivemos algumas conversas, querida — ele respondeu.

— Claro que sim — Diana murmurou, com um olhar afetuoso.

A porta se abriu atrás de Hugger e, num piscar de olhos, Tyra, Elvira e Millie
entraram correndo.

Elas pararam a poucos metros da entrada, ofegantes.

— Alguma de vocês quebrou o salto na corrida até aqui? — Tack provocou.

Tyra lançou um olhar fulminante para o marido.

Era óbvio que, assim que viram Hugger estacionando, não perderam tempo e
saíram correndo do escritório de Tyra, na garagem, para dar uma boa olhada em
Diana.

Mas Diana sequer notou.

Ela estava ocupada abraçando Dutch.

Quando se soltaram, ela exclamou:


— Caramba! Você tem que descer de novo! Charlie tem outro show daqui a duas
semanas. Ambiente jam-a-palooza49!

O olhar que Dutch lançou a ela quase fez Hugger desatar a rir.

— Que diabos é um ambiente jam? — Hound perguntou.

— Você não quer saber — Hop, ex-integrante de uma banda de rock, respondeu.

Diana apenas deu um tapa leve no braço de Dutch e disse:

— Brincadeira! Mas vou avisar Charlie que você sente muito por não poder ir.

O alívio estampado no rosto de Dutch era evidente.

— Agradeço — ele respondeu.

Nesse momento, Diana virou-se e observou os outros homens. Foi quando High
entrou no recinto - provavelmente viera com as mulheres, mas sem pressa. Então,
Diana também teve a chance de dar uma olhada nele.

Em seguida, virou-se para Hugger, arqueou as sobrancelhas, colocou as mãos na


cintura e declarou:

— Então quer dizer que tem um requisito mínimo de gostosura para seus irmãos
entrarem para o clube? Besteira. E pelo visto, as mulheres também precisam atender
a esse padrão.

A sala inteira explodiu em gargalhadas.

Elvira avançou para dentro do ambiente, avaliando Diana com interesse.

— Garota, por favor, me diz que você bebe tequila! — Ela apontou para Hugger
com o polegar. — Alguém conseguiu derreter essa montanha de gelo, temos que
comemorar com doses!

49
"Palooza" – É uma referência ao festival de música Lollapalooza, que se tornou sinônimo de grandes
eventos musicais e culturais.
Diana lançou um olhar para Hugger, como se tivesse escapado por um triz de um
abismo mortal, se agarrado a um pico e, no dia seguinte, alcançado o topo do
Everest.

Hugger apenas balançou a cabeça e sorriu.

Ela então se virou para Elvira e lamentou:

— Desculpa, mas não sou fã de tequila.

— Garota, me diz que pelo menos bebe vodka! — Elvira insistiu, já indo até as
garrafas atrás do balcão.

— Fireball50? — Diana sugeriu.

Elvira parou no mesmo instante e olhou para Diana com uma expressão de
aprovação tão intensa que iluminou todo o ambiente.

Diana se aproximou do bar e perguntou:

— E você? A qual irmão pertence?

— Ele é um tipo diferente de irmão — Elvira respondeu, pegando a garrafa de


Fireball do compartimento de gelo. — O nome dele é Malik. Ele é policial. Não sou
uma old lady, mas fui adotada.

Diana lançou um sorriso animado para Hugger antes de dizer a Elvira:

— Demais!

Tyra e Millie se aproximaram. Hugger também, para apresentar Diana ao restante


do grupo. E, ao longo da próxima hora, conforme a notícia da presença de Di se
espalhava, todos foram aparecendo para conhecê-la melhor.

Ele era o único que destoava no Chaos, mas, ainda assim, Diana tinha carisma. E,
por isso, conquistou a todos em questão de segundos.

50
Fireball Cinnamon Whisky é uma marca de uísque com sabor de canela, conhecida por seu gosto
adocicado e ardente. É popular em festas e costuma ser consumida pura ou misturada em drinks.
Sim, ele nunca deveria ter se preocupado.

Deveria ter sabido que, sendo quem era, logo todos estariam encantados por ela.

Porque Diana era Diana.

E, ao final da noite, ela já fazia parte do Chaos.

Dois dias depois...

Hugger estava sentado em um banco no Complexo quando elas chegaram.

Tyra, Lanie, Tab, Rosalie, Carrie, Millie, Keely, Rebel e Elvira.

As mulheres se espalharam, indo direto para os homens a quem pertenciam,


exceto Elvira, que, como já mencionado, era um membro honorário – e muito
querido – do grupo das "old ladies".

Elvira seguiu para trás do bar.

Isso significava que Diana veio até ele.

— Já era hora, mulher — ele disse assim que ela se aconchegou ao seu lado e lhe
deu um beijo rápido.

— Não vamos perder nosso horário — ela respondeu.

— Quanto estrago você fez? — ele perguntou.

Ela ergueu os olhos para a linha do cabelo.

Certo.

— Di — ele insistiu.
Ela soltou um suspiro.

— Bom, comprei cinco pares de sapatos. Não ouviu falar? Recentemente, me


tornei uma herdeira de fundo fiduciário.

Jesus, ela era adorável.

— Só isso? — ele perguntou.

— E talvez um pouco de maquiagem.

— Tem mais espaço nas suas gavetas pra essa tralha?

— Posso usar as suas.

Ela podia.

Se quisesse um estoque inteiro de maquiagem, ele daria um jeito de conseguir


para ela.

Então, esse assunto estava encerrado.

— Está pronta? — ele perguntou.

Os olhos dela brilharam e ela assentiu.

Ele deslizou para fora do banco e pegou a mão dela.

— Precisam que a gente leve alguma coisa para mais tarde, Millie? — Di
perguntou, enquanto ele a guiava até a porta.

— Está tudo sob controle, querida — Millie respondeu.

Com sua casa em reforma – a pedido de Millie – Hugger estava ficando no


Complexo. Mas, desde que Diana chegou, e considerando que o quarto de hóspedes
na mansão de Millie e High era infinitamente melhor do que seu pequeno quarto no
Complexo, a decisão estava tomada: eles ficariam com Millie e High.
Diana se apaixonou pelos gatos de Millie, então Hugger suspeitava que um
bichano fazia parte do futuro deles.

Ainda assim, ele já havia transado com ela no seu quarto do Complexo. Sim, com
certeza ele não deixaria essa oportunidade passar.

Millie e High estavam organizando uma festa naquela noite para todos.

— Até mais, Di! — Rebel gritou enquanto Hugger empurrava a porta.

— Sim, até mais! — Carrie acrescentou.

— Até mais, queridas! — Di respondeu.

Era óbvio que ela se dava bem com as mulheres, mas Hugger já esperava por
isso. Diana era incrível, e aquelas mulheres eram as melhores que existiam.

Ela era a peça perfeita para completar o grupo.

Ainda assim, ele precisava admitir que se sentiu mais tranquilo ao ver como ela
se encaixou tão naturalmente.

O ar estava gelado, então, em vez da moto, eles estavam na caminhonete.

Ele ajudou sua mulher a subir, fechou a porta, contornou o capô e entrou.

Ligou o motor, saiu do estacionamento e seguiu para o centro da cidade.

Di falava sobre o brunch com as meninas, sobre as compras e como Elvira era
hilária, Carrie era um doce, Rebel era "a coisa mais legal do mundo" e por aí vai
(basicamente, tudo o que ele ouvia dela nos últimos dois dias sobre sua família).

Ela também comentou que era uma pena que Archie tivesse que ficar na loja e
que Georgie estivesse trabalhando numa reportagem, porque os dois não puderam
ir.
Ela falou disso o caminho inteiro, durante o estacionamento e enquanto
caminhavam até o prédio.

Foram até o balcão, onde Hugger mostrou os ingressos no celular. Receberam


aparelhos de áudio com fones de ouvido e foram direcionados para a fila de entrada
do próximo horário.

Quando entraram na fila, Di continuou segurando a mão dele e pressionou os


seios contra seu braço.

Hugger olhou para ela e viu que estava brilhando de empolgação, como uma
árvore de Natal.

— Isso é insano! — ela exclamou. — Muito incrível! Uma exposição inteira de


Norman Rockwell. Vamos ver The Problem We All Live With, Girl at Mirror e a série
Four Freedoms51 ao vivo, bem diante dos nossos olhos. Eu não acredito!

Ele sorriu para ela.

As portas se abriram e o grupo foi conduzido para dentro.

Di colocou os fones e mexeu no aparelho.

Hugger fez o mesmo.

E assim, no Museu de Arte de Denver, com Diana ao seu lado, Hugger caminhou
pela primeira exposição de arte da sua vida.

E foi simplesmente do caralho.

The Problem We All Live With era poderoso.

51
Essas são obras icônicas de Norman Rockwell, cada uma carregando um forte significado social e
cultural. As obras de Norman Rockwell geralmente são mais conhecidas pelo título original em inglês, mas
algumas possuem traduções informais em português: The Problem We All Live With → O Problema com o
Qual Todos Vivemos; Girl at Mirror → Menina no Espelho e Four Freedoms → As Quatro Liberdades
Mas, enquanto discutiam a exposição no caminho de volta para os Highlands, ele
compartilhou que seus favoritos eram Saying Grace, Before the Shot e The
Lineman52.

52
Esses três nomes referem-se a pinturas icônicas do artista Norman Rockwell, que foi famoso por
suas representações do cotidiano americano. As traduções informais temas podem ser usadas para
facilitar a compreensão: "Saying Grace" → "Fazendo a Oração"; Before the Shot" → "Antes da Injeção" e
"The Lineman" → "O Eletricista"
Capítulo 25
VEJA A PARTIR DAQUI

Big Petey

Há alguns anos...

O lugar estava silencioso como um túmulo, e Big Petey não gostava de fazer essa
comparação, mas era a única que vinha à mente.

Estava escuro, já era tarde, mas ainda havia muitos funcionários e visitantes,
pessoas que tentavam prolongar o inevitável, espremendo os últimos momentos,
buscando um milagre ao tentar estender o que já se sabia ser finito.

Ele encontrou o quarto dela e, para sua surpresa, também a encontrou sozinha.

Não esperava por isso. Tinha certeza de que Harlan estaria ali.

Quando Jackie o viu parado na porta, levantou a mão com esforço. Parecia lhe
custar muito, então ele se apressou e segurou-a com firmeza.

— Pete — sussurrou ela.

— Ei, minha linda — ele respondeu, também num sussurro.

— Obrigada... por vir — disse com dificuldade.

— Sempre que precisar de mim, Jackie. Você sabe disso.

Ela lhe ofereceu um sorriso fraco.

Pete olhou ao redor do quarto e depois voltou a encará-la.

— Onde está seu garoto?


— Pedi para ele sair e me buscar um DQ53.

Foi a vez de Pete esboçar um sorriso tênue.

— Aposto que ele foi direto fazer isso.

— Não queria ir — a voz dela, enfraquecida, o alcançou. — Não queria me deixar


sozinha. Mas você tem razão, ele saiu na mesma hora para buscar.

Ela apertou os dedos dele levemente.

— Não temos muito tempo. Quero fazer isso antes que ele volte.

— Certo, querida. O que você precisa?

— Cuide dele?

Pete escondeu a mágoa que a pergunta lhe causou.

— É claro.

— Não, Pete. Cuide dele de verdade.

Big Petey continuou a esconder seu incômodo.

— Jackie, você não precisa pedir isso. Eu e os caras sempre estivemos com você.

— Estou falando do Chaos.

— Eu sei.

— Quero que ele conquiste o patch dele.

Pete apertou os dedos dela com cuidado.

— Jackie, querida, eu sei.

Ela o fitou e sussurrou:

53
Dairy Queen – Uma famosa rede de fast food e sorveteria nos EUA.
— Você sabe.

— Você é nossa, ele é nosso. Só precisamos encontrar um jeito de fazer ele


entender isso.

— Eu sou de vocês, ele é de vocês — murmurou tão baixo que ele quase não
ouviu.

Mas viu as lágrimas brotarem e escorrerem pelo canto do olho dela.

Ele se inclinou mais perto.

— Ei, ei, ei, nada disso. Você não tem com o que se preocupar. Nós cuidamos
dele.

Com os olhos ainda marejados, ela o analisou, como se tentasse detectar


qualquer vestígio de mentira.

Não havia. Então, não encontrou.

— Eu devia ter trazido ele para vocês antes — murmurou.

— Ele precisava estar com você. Você sabe disso, Jackie. Não tinha como ele se
comprometer com o clube enquanto seu único compromisso era com você.

— Eu não devia ter feito isso com ele, não devia ter feito ele se sentir assim.

— Querida — Pete se inclinou ainda mais — você não fez nada errado. Você
criou esse garoto do jeito certo. Um bom filho sempre vai cuidar da mãe.

Ela acenou de leve, o cansaço ainda mais evidente em seu rosto.

— Se continuar se esforçando assim, não vai ter forças para comer o sorvete
quando ele chegar — alertou Big Petey.

— Só preciso de uma mordida. É o suficiente. Pedi de Oreo, o favorito do Harlan.

É claro que pediu.


— Ele vai comer o resto — finalizou.

Seria como mastigar poeira, mas Harlan comeria.

— Ajude-o a encontrar uma boa mulher, Pete — implorou. — Bonita, com


coragem e elegância, com inteligência, como a que o Tack encontrou.

— Considere feito.

— Certifique-se de que ela seja doce também.

— Eu vou.

— Diga aos caras...

Outro aperto cuidadoso nos dedos dela.

— Não precisa dizer nada pra eles.

— Diga mesmo assim — sussurrou.

— Eu direi, querida.

De repente, a expressão dela se tornou feroz, e Pete viu um vislumbre da antiga


Jackie.

Mesmo agora, reduzida a quase nada, ainda era linda.

Harlan herdara tudo dela. O cabelo espesso e leonino. O corpo alto e forte.
Como se ela tivesse desejado isso, e talvez tenha desejado, porque não havia nada
do pai nele.

Harlan McCain era todo Jackie.

— Eu não me arrependo. Nem por um segundo — declarou.

— Eu sei.

— Tirei ele daquilo. Não me arrependo disso.


— Eu sei, querida.

— Sem arrependimentos — murmurou, seus olhos piscando pesadamente.

— Nada para se arrepender, Jackie.

— Ele vai honrar vocês — prometeu.

— Nem por um segundo duvido disso.

Os dedos frágeis dela se curvaram levemente ao redor dos dele, então se


soltaram quando seus olhos se fecharam.

Pete sentiu um instante de pânico, mas quando levantou o olhar para o monitor
cardíaco, viu os batimentos ainda lentos, mas firmes.

Ele a observou ali, naquela cama, mas a lembrança que permaneceu foi de como
ela costumava ser. Alta e dourada, não dobrada por uma vida que quebraria a
maioria, mantendo-se firme porque essa era Jacqueline McCain. E porque ela
precisava ser assim por seu filho.

Então, Big Petey se inclinou, beijou sua testa e sussurrou:

— Não se preocupe com nada, Jackie, nós cuidamos disso.

Ergueu sua mão e beijou seus dedos também.

Depois, saiu do quarto antes que Harlan voltasse.

Mas não saiu da clínica.

Encontrou uma sombra e se misturou a ela, de onde viu Harlan retornar


segurando o copo do Dairy Queen.

Esperou um tempo antes de se mover silenciosamente pelo corredor,


posicionando-se fora da porta e espiando pela fresta.

Harlan estava de costas para ele, inclinado sobre a mãe, dando-lhe uma
colherada do sorvete.
Ela acordara para ele, porque estavam espremendo os últimos momentos,
tentando fazer um milagre ao prolongar o inevitável.

Então, o homem alto e bonito se sentou na cadeira ao lado da cama da mãe e


tomou o sorvete, conversando com ela até que ela adormecesse.

Não demorou muito.

Big Petey viu quando Harlan se levantou e, pelo som que ouviu ao longe, soube
exatamente quando o copo da DQ foi jogado no lixo.

Ainda havia muito sorvete ali.

Ele estava certo. Tinha gosto de poeira.

Harlan voltou a sentar-se ao lado da mãe.

Big Petey se afastou da porta, seguiu até sua trike e só ligou para Rush depois
que chegou em casa.

Dias atuais…

Big Petey estava ao lado do túmulo, observando a lápide de mármore marfim,


arqueada e elegante. No topo, delicadas flores estavam esculpidas, adicionando um
toque suave à solene estrutura. Logo abaixo, a inscrição dizia:

Jacqueline Mary McCain


Mãe amorosa
Querida mãe

"Lembre-se dos dias de nós dois,


Você e eu contra o mundo."
Havia flores na base, porque, é claro, havia. Hugger estava na cidade, e Di tinha
acabado de partir. Ele trouxe sua mulher para conhecer a mãe, porque esse era
Harlan McCain.

As flores eram lírios-de-calla cremosos.

Os favoritos de Jackie.

Big Petey posicionou a moldura ao lado das flores, cujas pétalas começavam a se
curvar e escurecer.

Dentro da moldura, havia uma foto de Diana segurando Chief, o gato rabugento
de Millie, junto ao peito. Hug estava próximo dos dois, os dedos enterrados na
pelagem do animal, mas seus olhos estavam fixos em Diana.

Seu rosto estava suave, assim como o dela.

Eles sorriam um para o outro, brilhantes e radiantes.

— Ela tem classe e coragem, é uma lutadora, tem um coração tão grande que
você nem acreditaria, e, como pode ver, é deslumbrante — ele disse a Jackie. — E,
mulher, ela ama aquele homem de um jeito intenso. Intenso de verdade. A mãe dela
disse algo cruel para seu garoto, e Di a cortou da vida sem hesitar. Foi algo para se
ver, eu te garanto. Simplesmente a tirou da equação. — Ele fez uma pausa e
acrescentou num murmúrio: — A mulher é uma víbora, mesmo.

Depois que suas palavras se dissiparam, só restou o ar frio do fim de outubro.

— Nós tivemos isso, querida, e agora Di tem. Pode ter certeza — prometeu Big
Petey. — Ela está com ele. Agora ele está bem. Ele tem uma família, e a única coisa
que lhe resta fazer é aumentá-la.

O mármore não respondeu.

Big Petey tocou o topo da lápide, sentindo o frio como uma queimadura nos
dedos.
— Pode descansar agora, linda. Está tudo certo — murmurou, deu um leve tapa
na pedra e respirou fundo.

Então, deixou Jackie para descansar, caminhou até sua moto e partiu, sentindo o
ar gelado cortar seu rosto e o vento frio em seus cabelos.

Isso poderia não fazer bem para suas articulações, mas naquele momento ele
não se importava.

Porque, como ele disse, finalmente, depois de anos de luta, guerra, dor e traição,
estava tudo bem.

E, de qualquer forma, sempre que estava sobre duas rodas, durante toda a sua
vida, Big Petey sentia apenas uma coisa: liberdade.
EPÍLOGO
“ROLL ME AWAY54”
Diana

Cerca de duas semanas depois...

O movimento de Hugger me acordou.

Eu estava aninhada contra suas costas e, como parecia que ele não estava saindo
da cama para ir ao banheiro ou algo assim, mantive meu braço ao redor da sua
cintura, segurando-o firme.

Percebi que ele estava atendendo o telefone quando murmurou um seco:

— Alô?

Abri os olhos e vi que ainda estava escuro lá fora, mas era o começo de
novembro. Os dias eram mais curtos e, ao contrário da maior parte do mundo, nós,
moradores de Phoenix, não nos incomodávamos com isso, porque significava
temperaturas mais amenas e a cidade despertava para algo que parecia um Mardi
Gras que durava oito meses55.

Essa era minha linha de pensamento quando senti o corpo de Hugger enrijecer.

54
"Roll Me Away" é uma música do cantor e compositor americano Bob Seger, lançada em 1982. A
letra fala sobre um espírito livre, que sai em busca de algo maior do que a vida que tem. A música
simboliza liberdade, recomeços e a vontade de seguir em frente, sendo muito associada ao estilo de vida
dos motociclistas.

55
No Arizona, o clima fresco dura cerca de oito meses (de outono até a primavera), tornando a cidade
mais viva e movimentada nesse período. A comparação sugere que Phoenix passa de um estado
“hibernante” no calor para um período cheio de energia e eventos ao ar livre como o Mardi Gras - uma
festa famosa em Nova Orleans, conhecida por música, festividades e multidões nas ruas.
O resto do sono desapareceu no mesmo instante diante da energia que emanava
dele. Apoiei uma das mãos no colchão para tentar enxergar seu rosto.

A luz era fraca.

Ainda assim, pude ver que sua expressão parecia esculpida em pedra.

Meu estômago se revirou..

— Quando? — ele disparou, a voz soando como um latido abafado.

Mas eu ouvi.

Ouvi a dor.

Ah, não...

O que estava acontecendo?

Aproximei-me mais.

— Certo. Sim. — Ele fez uma pausa e finalizou: — Assim que der, estaremos aí.

Ele tirou o telefone do ouvido.

— Querido? — chamei quando ele simplesmente ficou ali, de lado, imóvel.

Ele continuou do mesmo jeito. O braço que segurava o telefone repousava no


colchão como se tivesse perdido a força, os olhos fixos em um ponto qualquer.

O medo começou a tomar conta de mim.

— Querido? — repeti, agora com urgência, tentando empurrá-lo para que ficasse
de costas e eu pudesse ver melhor seu rosto.

De repente, ele largou o telefone na cama e esticou o braço para acender o


abajur.
Pisquei algumas vezes, ajustando minha visão à claridade. Quando consegui
enxergar direito, vi que ele agora estava deitado de costas, olhando para mim. Mas
seu rosto... sua expressão vazia era assustadora.

Ele passou as mãos pelo rosto, um gesto que fazia sempre pela manhã, quando
ainda estava sob o efeito do que eu chamava de Névoa Matinal do Hugger.

Mas não era isso. Não dessa vez.

Assim que suas mãos caíram para os lados, subi sobre ele, peito contra peito, e
segurei seu rosto com ambas as mãos.

— Harlan, o que aconteceu? — exigi saber.

— Era a Tyra, — ele respondeu.

Meu Deus.

Por que Tyra ligaria tão cedo?

Hugger me disse.

— Pete morreu enquanto dormia, na noite passada.

Foi nesse momento que percebi: o mundo havia desaparecido sob nossos pés.

Minha cabeça caiu, meu rosto afundando contra o peito dele, incapaz de
sustentar o peso da notícia.

Hugger deslizou os dedos pelo meu cabelo e segurou a parte de trás da minha
cabeça.

Então, veio a onda. Forte, quente, violenta. As lágrimas explodiram de dentro de


mim, incontroláveis.

Hugger nos virou de lado, apertando-me contra seu pescoço enquanto eu


chorava descontroladamente contra sua pele.
Ele me deixou desabafar. E, depois de muito tempo, quando os soluços
começaram a perder força, ele sussurrou:

— Precisamos ir para Denver.

Afastei meu rosto úmido e avermelhado do pescoço dele, olhei para o rosto
bonito, mas abatido do meu homem, e murmurei de volta:

— Precisamos ir para Denver.

Na procissão fúnebre, papai dirigia o SUV alugado.

Eu estava no banco do passageiro.

Nicole e Larry estavam no banco de trás. Hugger estava em sua moto, uma das
que lideravam a procissão. O rugido dos motores à nossa frente era ensurdecedor.

Isso porque não eram apenas os integrantes do Chaos em suas motos


conduzindo o carro fúnebre até o cemitério. Todos os membros do Resurrection e
do Aces High estavam presentes, assim como cerca de duzentos outros
motociclistas de todo o país, cujas vidas Peter Waite havia tocado. A procissão era
liderada e escoltada pela polícia.

Nunca tinha visto uma guarda de honra tão impressionante em toda minha vida.
Mas não fiquei nem um pouco surpresa.

Eu os observei partindo e percebi que havia um espaço vazio na frente da


procissão, um espaço onde deveria estar um triciclo Harley. Precisei desviar o olhar.
Aquele vazio me devastou. Mas não conseguia parar de pensar nele.

Enquanto seguíamos, pessoas paravam, observavam, e nem faziam ideia de que


viam um homem deslizar em sua última jornada, um homem que nunca
conheceriam, mas que era bom e verdadeiro até o ússaro dos ossos. Nunca
saberiam quem passava por elas. Nunca saberiam que tinham o privilégio de estar
na presença de um homem que, talvez, não tivesse feito grandes feitos, mas fez um
mundo de diferença para muita gente. E o mundo era um lugar infinitamente mais
pobre sem ele.

Ao chegarmos ao cemitério, havia carros e motos por toda parte. Larry, sentado
atrás de mim, saiu rápido para abrir minha porta e me ajudar a descer.

Estava frio. Antes de virmos, precisei correr até o shopping para comprar um
sobretudo e luvas. Mas eu não sentia nada.

Papai e Nicole se juntaram a nós. Papai segurou minha mão, Nicole entrelaçou o
braço no meu, mas antes que pudéssemos nos mover, Larry fez um som estranho.

Como se estivesse em transe, eu observava enquanto retiravam o caixão do carro


fúnebre. Tack, Hop, High, Hound, Arlo e Boz eram os carregadores, mas o resto do
clube formava uma fila para seguir a última jornada de Big Petey.

Os únicos que não eram motociclistas e tinham permissão para seguir o grupo
do Chaos o fizeram. Eu os havia conhecido no dia anterior também. Seus nomes
eram Hawk Delgado, Brock Lucas e Mitch Lawson.

Também conheci todas as mulheres deles, que estavam por ali em algum lugar
(mas, naquele momento, eu não tinha forças para procurá-las). Assim como Mace
(que, aparentemente, era casado com Stella Gunn, a famosa estrela do rock!), além
de vários outros caras atraentes e suas esposas deslumbrantes, que mais tarde eu
descobriria serem conhecidos como os “Homens Nightingale” e as “Rock Chicks”.

Por fim, havia um homem tragicamente lindo que eu conhecera no dia anterior
como Knight Sebring, que estava acompanhado de sua mulher, igualmente bela,
chamada Anya.

O caixão era preto, sem flores, mas o emblema do Chaos havia sido pintado no
topo.
— Florzinha, acho que você deve ir com Rebel — murmurou meu pai em meu
ouvido.

Pisquei e olhei para ele, seguindo seu olhar. Rebel estava mais à frente, perto da
sepultura, com os olhos fixos em mim.

— Vamos, querida — incentivou Nicole, com uma mão suave em minhas costas,
me dando um leve empurrão. — Você precisa estar com a família de Pete agora.
Estaremos por perto, prometo.

Assenti. Meu pai e Nicole me soltaram, e, de forma mecânica e desajeitada,


atravessei o gramado que ainda não havia congelado sob meus saltos pretos de
salto agulha.

Ao me aproximar de Rebel, ela passou o braço ao redor da minha cintura e me


guiou até as cadeiras dispostas ao lado do túmulo recém-cavado. Havia enormes
arranjos de rosas vermelhas ao redor da base do caixão, escondendo o buraco na
terra.

— Hugger precisa poder te ver — murmurou Rebel, explicando.

Sim, claro.

E eu também precisava que Hugger pudesse me ver.

Assenti mais uma vez.

Ela me levou para a segunda fileira de cadeiras, onde Archie, já sentada, estendeu
a mão para mim. Me acomodei ao lado dela, e Georgie fez o mesmo depois de mim.

Tyra e Tabby estavam sentadas à nossa frente, Lanie ao lado de Tyra, Elvira ao
lado de Tabby. Renae, a mulher de Pete (e mãe de Rosalie), sentava-se ao lado de
Lanie, com Rosalie ao seu lado. Depois vinham Millie e Carrie, que estava ao lado de
Elvira, com Keely na outra ponta.

Rebel, agora a rainha do Chaos, já que seu marido Rush era o presidente, sentou-
se ao nosso lado, junto com uma mulher que conheci no dia anterior, Bev. Ela já fora
casada com Boz, mas agora estava com outro homem cujo nome, com tantas
apresentações nos últimos dias, eu infelizmente havia esquecido.

De qualquer forma, percebi que, uma vez que você era Chaos e fazia jus ao
grupo, eles nunca te abandonavam.

Família era família.

Sempre.

Obviamente, não me incomodei com meu lugar. Eu era a novata, e Rebel


organizou tudo assim porque, de certa forma, ela também era uma quase-não-
exatamente-mas-nesse-contexto novata.

As mulheres na fileira da frente tinham mais história com Big Petey. E as da nossa
fileira estavam ali para apoiá-las. Esse era o código dos motociclistas.

As crianças foram acolhidas nos colos das mães ou acomodadas em assentos, e


ninguém pareceu se incomodar quando todos os meninos saíram para se juntar aos
homens. Rider e Cutter (filhos de Tack e Tyra), Cody e Nash (Hop tinha Nash de um
relacionamento anterior, e Lanie e Hop tiveram Cody), Playboy (filho de Tabby e
Shy), Travis e Wyatt (filhos de Carrie e Joker), Wilder (filho de Keely e Hound), Atticus
(filho de Rosalie e Snapper) e Rhodes (filho de Rebel e Rush) se afastaram, seguidos
por Raven e sua irmã mais velha, Clementine.

Elas foram direto para Joker e Hugger.

Assim que Raven chegou ao meu homem, ele a pegou no colo e a acomodou no
quadril. Imediatamente, ela repousou a cabecinha no peito do tio Hugger e envolveu
seu pescocinho com a mãozinha.

Senti minha garganta apertar.

E, droga, como eu amava meu homem.

Clementine não era uma garota grande, mas também já não era tão pequena. No
entanto, isso não impediu Joker de fazer o mesmo de sempre.
Seguindo com esse assunto de crianças, Cleo e Zadie - as filhas de High e
enteadas de Millie - haviam puxado Wren, a filha do meio de Shy e Tabby, e estavam
aninhadas ao lado de Georgie.

Por fim, pelo canto do olho, vi o que parecia ser alguém acenando. Então, foquei
além das cadeiras e senti o peito apertar ao ver Maddy, vestida de preto, parada ali.
Seus olhos estavam avermelhados, e ela estava entre Elias e Emmylou - esta última
também com os olhos vermelhos.

Ela parecia triste, claro, mas não abatida (o que era bem típico de Maddy) e, o
melhor de tudo, parecia ter ganhado um pouco de peso.

Lhe mandei um beijo e ela retribuiu, acrescentando um pequeno e triste sorriso.

Nos acomodamos, com uma multidão atrás de nós, e observei enquanto os


motociclistas à nossa frente se espalhavam em um arco ao redor do outro lado do
caixão.

Todos estavam vestindo suas cores.

Para a maioria dos membros do Chaos, suas cores estavam estampadas em


jaquetas de couro com o patch do clube nas costas, enquanto apenas alguns
usavam coletes de couro. Hugger havia me explicado que ele não usava suas cores
em Phoenix, não só porque era "quente pra caralho”, mas também porque, quando
estavam em missões, não exibiam seus patches.

Ele também explicou que o Resurrection nunca exibia as informações do clube


em público.

Mas, naquele dia, todos os membros do Resurrection estavam vestindo suas


cores - fosse em jaquetas ou coletes.

O céu estava cinza e feio, refletindo exatamente o meu humor.

Ainda assim, era uma cena impressionante: cerca de duzentos e cinquenta


motociclistas formando um arco ao redor do caixão de apenas um. Eu nunca tinha
visto uma homenagem tão grandiosa, exceto para um chefe de estado ou um
membro da realeza.

O Chaos, obviamente, estava na linha de frente daquela multidão.

Um movimento à nossa frente chamou minha atenção, e olhei para ver que
Carrie agora apoiava a cabeça no ombro de Elvira. Dakota tinha subido no colo dela,
e Vira envolvia o pequeno com os braços.

Só conseguia ver o perfil de Vira, mas, pelo que percebi, lágrimas silenciosas
deslizavam por seu rosto. Ainda assim, suas costas permaneciam eretas, e seu olhar
seguia fixo no caixão.

Nunca tinha visto alguém chorar com tanta dignidade antes.

E adorei que ela tivesse oferecido isso ao Big Petey.

Tabby estava um desastre, e Tyra não estava muito melhor. As duas estavam
encolhidas uma contra a outra, buscando apoio, mas mantinham o olhar firme à
frente.

Não demorou muito para que todos chegassem e tomassem seus lugares. Então,
Tack, no centro do caixão, entre Rush e Hop, não hesitou em dar um passo à frente.

Seu olhar nunca se desviou do caixão.

O silêncio tomou conta, e quando sua voz rouca ecoou, soou como um trovão.

— Foda-se, velho, por ser mortal.

Não consegui evitar um sorriso, porque era triste, mas era apropriado.

Tabby soltou um misto de riso e choro.

Tyra a abraçou com mais força.


— Foda-se ainda mais por nos convencer de que não era. — Tack continuou. —
Todos nós temos nosso lugar nesta irmandade, mas você ocupava todos eles. Onde
quer que precisássemos de você. Do jeito que precisássemos. Quando
precisássemos. Você estava lá. Guerreiro. Sábio. Curandeiro. Sacerdote. Mão que
segura. Babá. Irmão. Pai. Avô. Tio. Marido. Parceiro. Você passou pelo pior com a
gente, e foi uma jornada difícil. Mas você atravessou o fogo conosco, e quando
finalmente chegamos a águas calmas, você simplesmente foi embora. E preciso
dizer, porque sei que você gostava da verdade, Pete… isso deixou todos nós putos
da vida.

Definitivamente, seria o elogio fúnebre mais estranho que já ouvi.

E, sem dúvida, o mais perfeito.

Tack colocou a mão sobre o caixão e inclinou a cabeça.

Tyra, Tabby e Elvira soltaram soluços audíveis ao vê-lo fazer isso.

E eu entendi o motivo.

Ouvi muitas histórias sobre Kane “Tack” Allen. Vi aquele filme. Pelo que ouvi, vi e
soube, nada dobrava aquele homem. Ele tinha passado pelo inferno, tanto
pessoalmente quanto com o clube, e guiou seus irmãos para fora dele. Protegeu sua
família, as famílias deles. E fez tudo isso de cabeça erguida, olhar firme, costas retas,
ombros quadrados, visão clara.

Mas agora ele estava curvado…

Pela perda de Big Petey.

— A única coisa a que podemos nos agarrar é que você viveu uma vida onde
dominou o vento. E, no seu tempo, foi selvagem como ele. Selvagem como o fogo.
Selvagem como o vento. E agora, finalmente, está livre.

Sem tirar os olhos de Tack, vasculhei minha bolsa em busca de um lenço de


papel.
Tack continuou.

— Você foi amado porque soube amar — disse Tack diretamente a Big Petey. —
O melhor pai que existiu. O melhor irmão que alguém poderia ter. O melhor homem
que já conheci. Houve momentos em que parecia que os anjos nos haviam
abandonado, mas nunca o fizeram. Havia um anjo entre nós. E esse anjo era você.

Novos soluços ecoaram ao redor, inclusive os meus.

— Diga à sua garota que sentimos falta dela — ordenou Tack. — E siga firme,
meu irmão. Nos vemos do outro lado.

Ele respirou fundo, ergueu a cabeça e deu um passo para trás.

No instante em que se juntou novamente à formação, Rush gritou:

— No três!

Ele ergueu a mão, três dedos estendidos.

Um abaixou, depois o outro, e então o último.

E, em uníssono, todos os motociclistas bradaram:

— Vento! Passeio! Fogo! Liberdade!

Meu Deus.

Agora eu chorava abertamente.

Rush avançou e gritou:

— Quatro rodas movem o corpo, duas rodas movem a alma!

Os motociclistas soltaram um grito forte.

Certo, droga, eu estava prestes a desabar.


Felizmente, houve um breve silêncio, o suficiente para que eu tentasse me
recompor antes que Rosie e Tabby se levantassem e fossem até Renae. Rosie pegou
a mão da mãe e a ajudou a se levantar. Tentou pegar a filha dos braços da avó, mas
Emmeline se agarrou a ela e Rosalie desistiu. Então, juntas, caminharam até o caixão.

Tabby, que todos consideravam a filha de criação de Pete desde que ele perdeu
a sua própria, abaixou-se e beijou o caixão primeiro. Rosalie passou a mão pelas
costas da mãe, e Renae se despediu por último.

Enquanto permaneciam ali, em seu momento, Emmeline olhou fixamente para o


caixão e sussurrou:

— Tchau, vovô.

Renae soltou um soluço contido, mas visível.

E eu?

Sim.

Eu chorava. Não era um choro alto, mas era um choro sentido, e ao meu redor
ouviam-se fungadas, tosses e lágrimas silenciosas.

Renae, Rosalie e Tabby voltaram aos seus lugares e, no instante em que se


sentaram, os motociclistas começaram a se mover em direção às motos.

Virei-me para procurar meu pai, mas Georgie segurou minha mão.

— Fica quieta, querida, ainda não acabou — sussurrou ela.

Sinceramente, eu não aguentava muito mais.

Mas eu aguentaria.

Precisava.

Por Big Petey.

E por Hugger.
Fiquei sentada, observando aquela onda de motociclistas caminhando até suas
motos.

Millie virou-se para a nossa fileira e murmurou:

— Tocando para os mortos.

Eu não sabia o que aquilo significava, mas pelo tom dela, não parecia que eu
fosse gostar.

Nos últimos três dias, Hugger estivera tão calado, tão perdido, que eu não tive
coragem de insistir em detalhes. Ele apenas nos disse onde deveríamos estar e a que
horas. Naquela manhã, quando chegaram de surpresa, ele permitiu que meu pai,
Nicole e Larry o abraçassem. E dava para ver o quanto ficou surpreso e tocado por
eles terem vindo.

Mas, na maior parte do tempo, ele estava preso ao luto, e tudo o que eu podia
fazer era ficar por perto e garantir que ele soubesse que eu estava ali.

De repente, ouvi todas as motos ligando ao mesmo tempo e deixei meu olhar
percorrer a longa e densa fileira de Harleys.

Tack estava na frente.

Rush, na última moto, na retaguarda.

Então, subitamente, Tack acelerou o motor, e todos os outros motociclistas o


acompanharam. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes.

O barulho cessou, e, após alguns segundos, Rush acelerou sua moto uma única
vez.

— A última aceleração — disse Keely, com a voz trêmula. Ela engasgou ao


concluir: — Está feito.

Meu Deus, que coisa bonita.

— Agora podemos ir — Archie sussurrou e se levantou.


Levantei-me com ela e procurei Hugger, encontrando-o montado em sua moto,
perto da dianteira do grupo.

Ele não estava próximo.

Mas eu sabia que seus olhos estavam em mim.

Levei a mão ao coração, depois aos lábios, e soprei um beijo em sua direção.

Ele ainda estava distante.

Mas vi quando ergueu o queixo em resposta.

Archie e Georgie me guiaram até onde estavam meu pai, Nicole e Larry.

E então, juntos, voltamos para o Chaos.

Uma festa acontecia do lado de fora do Complexo, mas, lá dentro, onde apenas
os membros do Chaos, Resurrection, Aces High (além do meu pai, Nic, Larry e
amigos próximos do Chaos) eram permitidos, o clima era sombrio.

Meus olhos estavam fixos no meu homem, sentado no bar, onde todos os irmãos
estavam reunidos, bebendo tequila e afundados em seus pensamentos. O restante
de nós mantinha distância.

Meu pai, Nic e Larry tinham os olhos em mim.

Mas foi Nicole quem envolveu seus dedos ao redor do meu pulso.

Olhei para ela.

— Vá até ele — incentivou Nicole.

Eu não tinha certeza.


Era a novata ali. Não queria fazer algo errado e estragar tudo.

— Nenhuma das outras mulheres está fazendo isso — argumentei.

— Então quebre o gelo, querida — agora era meu pai quem estava perto. —
Aqueles homens precisam de suas mulheres.

— E essas mulheres precisam de seus homens — acrescentou Nicole.

Merda.

Será que eu devia?

Observei Hugger virar uma dose de tequila.

Ele tomava cerveja em algumas ocasiões, mas não era de beber muito.

Ele mal tinha colocado o copo na mesa quando Shy o encheu de novo.

E Shy mal tinha enchido o copo antes de Hugger virar outra vez.

Shy nem se preocupava com um copo, simplesmente tomava seus goles direto
da garrafa.

Porra.

Eu precisava tomar uma decisão.

Uma decisão pelo meu homem.

Eu tomei.

Caminhei até ele, o som dos meus saltos ecoando alto no silêncio solene.

Alguns dos homens me observaram se aproximar, mas, pelo olhar deles, eu não
conseguia dizer se estava fazendo certo ou errado.

Mesmo assim, continuei andando.


E quando cheguei até ele, coloquei minha mão nas costas de Hugger.

Ele se virou para mim.

— Oi, querido — sussurrei.

Mal terminei de falar e ele já havia se virado completamente, puxando-me com


força entre suas pernas abertas e para dentro de seus braços. O impacto me fez
perder o fôlego. Ele enterrou o rosto no meu pescoço.

Não apenas ouvi, mas senti a respiração dele falhar de forma intensa.

Fechei os dedos em seu cabelo, envolvi-o com o outro braço e escondi meu
rosto em seu pescoço também.

Enquanto o segurava, percebi as outras mulheres indo ao encontro de seus


homens.

Não sei por quanto tempo fiquei ali com o meu, assim como minhas irmãs com
os deles, até ouvir Elvira dizer:

— Que se foda. Chega. Petey estaria tão puto com essa merda que cuspiria no
chão.

Espiei por cima do ombro de Hugger e vi seu homem — outro lindo, porque
parecia que o Chaos só atraía caras assim, mesmo que Malik não fosse do clube -
posicionando uma caixa de som bluetooth no bar, enquanto Elvira procurava algo
no celular.

Em instantes, acordes de piano e batidas de bateria preencheram o ambiente.

Quando a voz de Bob Seger começou a soar, Hop a acompanhou.

Antes mesmo de chegar à segunda linha, Tack, Boz e Hound se juntaram,


cantando alto.

E nem foi preciso esperar o próximo verso para que High, Snap e Shy também
entrassem no coro.
Todos no Complexo se reuniram ao redor do bar, e cantamos juntos.

Eu não sabia todas as palavras, mas já tinha ouvido a música, então fiz o melhor
que pude. E, a cada verso, cantávamos mais alto, um verdadeiro coro do Chaos e
Amigos entoando Roll Me Away, de Seger.

Alguns braços se entrelaçaram, outros descansaram sobre ombros, alguns se


curvaram ao redor de cinturas, mas todos, de alguma forma, estavam conectados,
formando um círculo de amor ao redor daquele bar.

Estávamos cantando para nos despedirmos de Big Petey em sua última viagem.

No meio da música, sorrisos começaram a aparecer, olhos brilharam, e o fôlego


foi devolvido a uma família amorosa que havia perdido seu alicerce e não sabia
como seguir em frente.

Até aquele momento.

Quando entenderam que o homem que ergueu aquele alicerce o fez tão forte
que ele jamais desmoronaria.

E perceberam que o homem que o construiu sempre faria parte da base sólida
sobre a qual algo belo havia sido edificado.

Porque, quando o Chaos enfrentasse sua próxima tempestade, com o apoio, a


coragem e a orientação de Peter Waite, eles saberiam exatamente como lidar com
ela.

No quarto de Hugger, no Complexo, saí do banheiro depois de me limpar.

Hugger e eu tínhamos acabado de fazer amor.


Não que nunca tivéssemos feito desse jeito - já fizemos, sim. Mas era raro.
Preferíamos algo mais intenso, selvagem, cheio de paixão.

Mas, naquela noite, ele levou o tempo dele comigo, explorando cada detalhe do
meu corpo, e eu fiz o mesmo com o dele. Depois de um dia horrível como aquele,
foi simplesmente perfeito.

O quarto de Hugger no Complexo sempre me chamava a atenção pelo mesmo


motivo: estava impecavelmente arrumado, assim como ele sempre era em tudo. Ele
fora condicionado a cuidar bem das poucas coisas que tinha e, mesmo depois de ter
mais, manteve esse hábito.

Na semana anterior, eu havia considerado uma pequena vitória quando ele


deixou as roupas no chão do nosso quarto, em vez de pegá-las imediatamente e
colocá-las no cesto de roupa suja. Ele tinha uma reunião cedo com Buck sobre as
propriedades que estavam analisando e, por algum motivo, não seguiu seu ritual
habitual.

Talvez eu fosse a única mulher no mundo que queria que seu homem relaxasse
um pouco quando se tratava de organização.

Mas, no fim das contas, se ele não mudasse, tudo bem.

Eu o aceitava exatamente como ele era.

Quando me aproximei da cama, Hugger ergueu o cobertor que cobria sua


cintura, um convite silencioso para que eu me juntasse a ele. Assim que me
aconcheguei, encontrando meu lugar sobre ele, senti suas mãos grandes traçando
um caminho suave pelas minhas costas.

— Por que eu sou o único cara no mundo pensando em voltar a usar camisinha
só pra minha garota não ter que sair da cama e ir até o banheiro depois do sexo? —
ele murmurou.

Ok, ok, ok.


Oficial pra caramba.

Eu simplesmente amava esse homem.

— Combinado. A partir de agora, eu que limpo você — ele continuou.

— Fechado — concordei.

Seus olhos desviaram para o lado por um instante antes de voltarem para mim.

— Seu celular não parou de tocar, baby.

Eu tinha ouvido vagamente durante o sexo, mas bem de longe.

Suspirei, estiquei o braço para pegar o telefone e desbloqueei a tela com o rosto.
Passei os olhos pelas mensagens, depois coloquei o aparelho de volta no criado-
mudo e me virei para ele.

— Mensagens da Bernie, da Charlie e da Mel. Também do Gerard. E, surpresa, até


a Annie lembrou. Todos pediram para dizer que estão pensando em você e na sua
família.

— Que legal. Agradece por mim — ele murmurou.

— Vou fazer isso — respondi, deslizando os dedos pela sua barba. — Como você
está segurando as pontas?

— Me sentindo uma merda… e absolutamente incrível ao mesmo tempo.

Não entendi, mas fiquei em silêncio. Eu sabia que ele me explicaria.

E ele explicou.

— Quando perdi minha mãe, eu não sabia o que esperar, e isso foi uma merda.
Mas pior ainda foi ter que passar por tudo sozinho. Foi o que me deixou preso
naquilo. Eu não sabia como sair e não tinha ninguém para me mostrar o caminho.

Meu coração apertou por ele.


Continuei acariciando sua barba.

— Perder o Pete não é menos difícil — ele prosseguiu. — Saber como essa dor
vai ser, porque já passei por isso antes, também não torna nada mais fácil. Mas,
desta vez, tenho meus irmãos, minha família… — Suas mãos pararam de deslizar
pelas minhas costas. — E tenho você.

Derreti contra ele.

Ou melhor, eu já estava praticamente derretida, então me fundi ainda mais.

— Baby, seu pai, o Nic e o Larry aparecerem hoje foi muito foda — ele sussurrou.

— Eles gostam de você — sussurrei de volta.

— É… — ele murmurou.

— Não, eles realmente gostam de você — brinquei, mas era verdade.

Ele deslizou as mãos até minha bunda e apertou.

Sorri para ele. Não foi um sorriso radiante, mas foi verdadeiro.

Então respirei fundo e deixei sair.

— E eu amo você — disse.

Hugger ficou imóvel sob mim.

Então, num movimento rápido, me virou, ficando por cima.

— Diz de novo — ele ordenou.

Afastei o cabelo do seu rosto lindo, deixando meus olhos presos nos seus—
intensos, quentes, de um castanho profundo e cheio de sentimentos.

Então, sussurrei:

— Eu amo você, Harlan McCain.


Ele inclinou a cabeça e me beijou.

Forte, molhado, longo e profundo.

Quando se afastou, meus lábios estavam inchados, mas meus olhos ardiam com
lágrimas. Hugger sempre foi um beijo incrível, mas aquele… aquele foi o melhor de
todos.

E eu sabia exatamente o motivo.

Mas ele era o meu Hugger.

Então, ele me disse.

— Também amo você, baby — declarou.

Uma lágrima escapou pelo canto do meu olho.

Hugger a pegou com o polegar, encostou o nariz no meu…

E então me beijou de novo.

E então fizemos amor novamente - de forma lenta, intensa, doce e envolvente.

Adormecemos nos braços um do outro, no Complexo do Caos.

O lugar onde eu pertencia.

E onde o meu homem nasceu para estar.

Antes de voltarmos para Phoenix, recebemos mais um golpe - brutal e, ao


mesmo tempo, suave como veludo.
Renae nos entregou os presentes de Natal que Big Petey havia encomendado
para nós.

Sendo a mulher incrível que era, Renae fez questão de embrulhá-los em papel de
Natal, mesmo que ainda faltasse bastante tempo para o Dia de Ação de Graças.

Abrimos os pacotes ali mesmo, diante dela. Eu sabia que Hugger não queria fazer
isso, e, para ser sincera, eu também não queria. Sabíamos que aqueles presentes
seriam como golpes diretos ao coração. Mas fizemos isso porque ela estava ali,
resistindo, mesmo estando quebrada por dentro. Esse era o segundo homem que
ela perdia - o pai de Rosalie havia falecido antes de Renae conhecer Big Petey. Se ela
queria ver nossas reações, então daríamos isso a ela.

A boa notícia foi que não me fez chorar.

A boa notícia foi que não me fez chorar.

Eu amei meu presente - e o de Hugger - com cada fibra do meu ser.

Eram camisetas pretas (a minha era ajustada ao corpo - nossa, o Big Petey
prestava atenção nos detalhes ou o quê?).

Na frente, tinham o logo do Chaos, e nas costas da minha estava escrito:


PROPRIEDADE DE HUGGER.

Já nas costas da de Hugger, dizia: PROPRIEDADE DE BLUE.

Eram tudo. Eram vida.

Assim que chegamos em casa, liguei para Rebel para descobrir onde Pete tinha
conseguido aquelas camisetas.

Então, encomendei três para Hugger e três para mim, para garantir que sempre
houvesse uma limpa à mão.

As que Big Petey nos deu, mandei emoldurar em uma caixa de vidro e pendurei
na parede, bem atrás da cabeceira da mesa de jantar - o lugar que pertencia a Pete.
Agora, ele sempre estaria ali conosco.

Sempre.

Seis meses depois...

Hugger caminhava à minha frente pelo caminho. Distraído enquanto observava


tudo ao redor, não percebeu que eu havia parado para tirar uma foto de perto de
uma flor de cerejeira.

Depois de capturar a imagem, meus olhos procuraram pelo meu homem.

Ele também havia parado, respirando profundamente, absorvendo o aroma


delicado que impregnava o ar. O cenário ao redor era de uma beleza indescritível -
árvores cobertas de pétalas rosadas criavam uma paisagem onírica, e, ao fundo, um
edifício vermelho vibrante de quatro andares, com telhados verdes e as icônicas
curvas japonesas nas extremidades, completava a visão deslumbrante.

Levantei o celular para tirar uma foto dele no exato momento em que ele se
virou para me procurar. Assim que me encontrou, sorriu.

Devolvi o sorriso antes de baixar os olhos para conferir a foto.

Droga, ele era lindo.

Ouvi alguém chamar, mas não compreendi, pois a voz falava em japonês.
Levantei o olhar e vi uma mulher correndo em direção a Hugger.

Mas não era dela que ele chamava a atenção.

Seu filho pequeno estava parado bem perto dele, olhando para cima com uma
expressão de puro encantamento, como se estivesse diante de uma criatura mágica
caída do céu.
Eu entendia perfeitamente o sentimento.

A mulher alcançou Hugger, curvando-se repetidamente enquanto falava e


tentava puxar o menino para longe.

Hugger apenas sorriu, estendeu a mão e bagunçou de leve o cabelo do garoto.


Eu não estava tão perto, mas podia jurar que ele piscou para o menino.

A risada infantil chegou até mim, e o que não pude deixar de notar foi o enorme
sorriso que iluminava o rosto da criança.

Meu coração transbordou.

— Obrigada — sussurrei para Jackie McCain.

Então apressei meus passos em direção ao meu homem, concentrada em abrir o


aplicativo de tradução no celular, sem perceber que uma brisa suave atravessava as
cerejeiras, espalhando pétalas pelo ar.

E, por um instante perfeito, nossa viagem se tornou um verdadeiro sonho.

Porque fomos tocados pelo céu.

Hugger
Um ano e meio depois...

Toda vez que ele vinha, era assim.

Velas, flores, garrafas de bourbon, uísque, tequila e, de vez em quando, uma


cerveja. Patches, bandeiras e uma porção de fotos.

No meio da bagunça ao redor da lápide de Big Petey, Hugger encaixou mais uma
foto.
Era em preto e branco, mostrando uma imagem borrada.

Mesmo assim, ele a colocou entre uma foto de Rider fazendo cócegas em
Princess tão intensamente que precisou segurá-la para que ela não caísse de tanto
rir e outra de Joker e Travis - com Travis em cima de um banquinho, inclinado sobre
o capô de um dos projetos de Joke.

Perto dali, havia uma imagem de Jag pairando sobre o ombro de Archie
enquanto ela estava deitada em uma cama de hospital, segurando o recém-nascido
Graham nos braços. Outra mostrava vários de seus irmãos, suas mulheres, Hugger e
Di devorando tacos no Festival de Tacos em Phoenix no ano passado.

Também não muito longe estava a foto desbotada de Diana, usando um vestido
de noiva tomara que caia, cheio de rendas, com uma longa fenda lateral e duas
saias. Uma delas era reta, com uma pequena cauda de renda na parte de trás,
enquanto a outra era volumosa, caindo da cintura - um detalhe que ficava incrível
enquanto ela caminhava pelo corredor, mas que, felizmente, ela se livrou a tempo de
aproveitar a festa.

Bastava dizer que a combinação de Nolan e Di planejando o casamento, com o


dinheiro de Nolan, resultou em algo longe de um evento discreto.

Isso rendeu aos seus irmãos um motivo eterno para zoá-lo, embora, na época,
nenhum deles tenha reclamado do open bar, do prime rib perfeitamente assado, da
extravagante mesa de sobremesas ou da pista de dança animada.

Mas Hugger não mudaria nada.

Di estava tão incrivelmente linda que era quase difícil olhar para ela (mas ele fez
um esforço e conseguiu).

E ela estava tão absurdamente feliz que ele não alteraria um único detalhe.

Nem mesmo o fato de sua mãe não ter comparecido - especialmente porque
não foi convidada.
Por outro lado, do lado de Di na igreja, o primeiro banco estava ocupado por seu
pai e sua então noiva, agora esposa, Gisele - uma mulher da mesma faixa etária,
elegante pra caramba (porque era francesa), linda, sofisticada e hilária. Hugger
achava ela incrível, e Di a adorava. Entre festas na piscina, jantares, Di e Gisele
cozinhando pratos franceses na sua cozinha e Gisele já tendo dois filhos e um neto
(até então), Nolan não vendeu sua casa.

Além deles, estavam lá a avó de Di, Nicole, Larry e os filhos de Larry.

Com eles e o restante da igreja praticamente lotada, sua mulher tinha amor de
sobra.

Nenhuma das fotos ao redor da lápide de Pete estava em molduras, mas todas
estavam bem presas, e Hugger fez questão de garantir que aquela nova também
ficasse segura.

Com o tempo, o sol castigava as imagens, o vento as desgastava, a chuva e a


neve faziam as cores escorrerem.

E tudo isso significava que o que estava naquelas fotos era absorvido pela pedra,
pela terra e pelos ossos abaixo - exatamente onde deveriam chegar.

Quando se endireitou, ele olhou para a lápide e disse:

— O nome dela vai ser Jacqueline Waite McCain.

— Eu sugeri Petra como nome do meio — Di acrescentou ao seu lado.

Ele olhou para sua esposa.

— Não vamos chamar nossa filha de Petra — Hugger disse pela quinquagésima
vez.

— Por quê?

— Parece nome de videogame.

Ela franziu o nariz.


— Exatamente — ele decretou.

— E Peta? — ela tentou.

— Isso é pão.

Ela fez uma careta.

Droga, ela era adorável.

— Petronella? — tentou de novo.

— Parece combustível de lamparina. — Ele olhou para a lápide. — Parece que


minha mulher não gosta do seu sobrenome, Big Petey.

— Não é verdade! — ela protestou, também falando com a lápide. Depois se


virou para Hugger, já apelando. — Petunia!

Ele a puxou pela nuca e grudou um beijo forte e molhado em sua boca.

Quando se afastou, declarou:

— Vai ser Waite.

— ‘Tá bom — ela sussurrou.

Ah, sim, ela era uma graça.

— Está com frio? — ele perguntou.

— Morrendo — ela sussurrou.

Ele esfregou o nariz no dela e voltou a olhar para a lápide.

— Preciso levar minha mulher para casa e aquecê-la, velho. A gente se vê


quando voltar para a cidade — disse.

— Tchau, Big Petey — Diana acrescentou. — Amo você.

Sim. Amo você, Pete, do fundo da minha alma, pensou Hugger.


Então, ele passou o braço pelos ombros da mulher, sentindo o dela envolver sua
cintura. Mantendo-a junto a si, levou-a até a moto que havia pegado emprestada da
garagem.

Subiu primeiro.

Di montou atrás dele, enroscando os braços sob os seus, uma das mãos apoiada
em seu ombro, a outra espalmada contra o peito. Depois, encostou o queixo em seu
ombro.

Com Di bem acomodada onde pertencia, Hugger ligou a moto, acelerou em um


último adeus para o irmão e, juntos - ele, sua mulher e a filha que ainda não havia
nascido - partiram.

A série Wild West MC continuará...


ELENCO DE PERSONAGENS
Série Wild West MC

Chaos Moto Clube


(com filhos)
• Tack e Tyra
o Rider
o Cutter
o (Rush e Tabby)
• Shy e Tabby
o Kane (Playboy)
o Wren
o Caroline (Princess)
• Lanie e Hop
o Molly
o Cody
o Nash
• Carissa e Joker
o Travis
o Clementine
o Wyatt
o Raven
o Dakota
• High e Millie
o Cleo
o Zadie
• Hound e Keely
o Wilder
o (Dutch e Jagger)
• Rosalie e Snapper
o Atticus
o Emmeline
• Rebel e Rush
o Rhodes
o Ember
• Dutch e Georgie
• Jagger e Archie
o Graham
• Hugger e Diana
o Jackie
• Big Petey e Renae
• Dog e Sheila
• Arlo
• Boz
• Brick
• Roscoe
• Tug
• Bat
• Speck
• Chill
• Saddle
Resurrection Moto Clube
• Beck (Wash) e Janna
• Eightball (Eight)
• Muzzle
• Hardcore (Core) e Hellen
• Linus
• Brain
Aces High Moto Clube
• Buck e Clara
• Cruise
• Ink
• Gash
• Driver

Você também pode gostar