Kristen Ashley - Wild West MC 03 - Smooth Sailing (Rev) R&A
Kristen Ashley - Wild West MC 03 - Smooth Sailing (Rev) R&A
Quando o Chaos Moto Clube bateu à sua porta, Harlan “Hugger” McCain não
estava pronto para ser acolhido como parte da irmandade. Disseram que ele era
um legado. Mas ele se sentia um estranho.
Isso o levou até Phoenix, diretamente para a órbita de Diana Armitage, uma mulher
de olhos verdes, linda e generosa, com um talento assustador para se sacrificar por
quase todos que ama... e até por aqueles que mal conhece.
Hugger apenas existia. A vida nunca lhe deu muito e, agora, ele esperava ainda
menos.
Diana, por outro lado, vivia intensamente. E não fazia questão de esconder que
queria arrastar Hugger com ela nessa jornada.
Agora, ela e seus irmãos de clube têm uma missão desafiadora: mostrar a Hugger
quem ele realmente é.
~ Desconhecido ~
A série Wild West MC são romances escritos sobre três motoclubes: Aces High, Chaos e
Resurrection.
O Chaos MC foi introduzido na minha série Dream Man e teve sua própria série que agora
está concluída. Abrangeu seis livros e três novelas.
Intercalado nesta série, haverá muita tradição que se refere às histórias de Tack e Tyra
(Motorcycle Man), Tabby e Shy (Own the Wind), Hop e Lanie (Fire Inside), Joker e Carissa (Ride
Steady), Millie e High (Walk Through Fire), Hound e Keely (Wild Like the Wind), Rush e Rebel
(Free), Snapper e Rosalie (Rough Ride), Dutch e Georgie (Wild Fire) e Jagger e Archie (Wild Wind).
É importante observar que a série Chaos não foi apenas um spinoff da minha Dream Man
Series, Dream Man foi um spinoff da Rock Chick Series.
O Aces High MC foi apresentado com a história de Clara e Buck, Still Standing. A irmã de
Buck, Sheila, é a old lady de Dog, outro membro do Chaos MC.
Embora o Resurrection esteja sediado em Denver, eles fazem seu trabalho em qualquer lugar
que seja necessário.
O universo Wild West MC vai saltar entre esses três clubes.
Escrevo esta nota porque, por mais que eu tente tornar cada história independente para os
leitores, nesta série em particular, há tanta coisa que aconteceu antes, é impossível não se referir
a ela. Sem mencionar que meus leitores leais esperam os ovos de páscoa para que possam ver os
personagens com quem passaram um tempo nos romances anteriores.
No entanto, estou bem ciente de que novos leitores podem pensar: ‘Quem é Tack?’
Dito isso, não quero atolar a narrativa com muitas informações sobre a história que
abrange, essencialmente, mais de vinte livros.
Mas eu não queria te decepcionar com o que você tem em mãos. Eu queria que você
soubesse que eu considerei onde você está com esta história, e fiz o meu melhor para mantê-la
junto de uma maneira que você não se perca, sem cobri-lo com informações que não têm a ver
com o contando a história de Core e Hellen.
Rock on!
-Kristen
Prólogo
CADEIRAS VELHAS
Big Petey
O bar não era o pior que Pete já tinha frequentado, mas também não era o
melhor.
Foi por isso que ele se enrijeceu, e Rush, sentado à sua frente em um reservado
no fundo do bar, fez o mesmo.
Eles tinham visto o idiota no banco do bar dar uma passada de mão na mulher
que passava com as amigas. Tinham visto a reação negativa dela àquele toque
indesejado.
Pete sabia que Harlan também notara que o cara no banco não estava sozinho.
Ele tinha um grupo com ele.
Isso não impediu o homem de ir direto até o tal Banco de Bar e trocar algumas
palavras com ele.
Banco de Bar ficou cara a cara com ele, e não parecia que estavam discutindo
sobre o tempo.
Mas Banco de Bar, fosse por estar bêbado, fosse por ser burro, ou talvez pelos
dois motivos, recuou um passo e ergueu o braço para dar um soco.
Também fez Harlan se esquivar e, enquanto desviava, agarrou o sujeito pela gola
da camisa e pela parte de trás do cós da calça jeans, arrastando-o direto até a porta
da frente e jogando-o para fora.
Mas quatro contra um nunca era uma boa proporção para ninguém, não
importava quão bom fosse na briga.
Foi por isso que Pete e Rush se esgueiraram rapidamente pelo bar até a porta e
saíram.
Rush era jovem, ágil e sabia como lidar com uma situação dessas.
Pete, por outro lado, já tinha passado há muito tempo da fase de entrar em
brigas.
A simples ideia de dar um soco, ou pior, levar um, fazia seu estômago se revirar.
Rush saiu pela porta primeiro, Pete logo atrás. Mas assim que chegaram lá fora,
ambos pararam no mesmo instante.
Um dos amigos dele estava curvado, com uma das mãos no rosto, sangue
escorrendo entre os dedos enquanto gritava:
— Você quebrou meu nariz, seu desgraçado!
Outro estava de joelhos, segurando suas partes íntimas com as duas mãos,
exibindo uma expressão que qualquer homem entenderia sem precisar de tradução.
Levou quanto tempo para eles chegarem ali? Meia dúzia de segundos?
Impressionante.
— Banidos. — A voz grave e áspera de Harlan soou, seu olhar fixo em Mãos Para
Cima.
— Tem câmeras por toda parte, cara. Elas registraram aquele gênio — Harlan
inclinou a cabeça na direção do homem caído no chão — aprontando suas
palhaçadas no bar. Pegaram ele se recusando a sair quando ficou claro que não era
mais bem-vindo aqui. Pegaram ele me empurrando e se preparando para me
acertar. Aqui fora, pegaram a mesma coisa, e depois aquele professor — outro
movimento de cabeça em direção ao que estava sangrando — pulou nas minhas
costas. — Harlan indicou com a cabeça na outra direção. — E aquele ali tentou se
meter também. Agora me diz, que juiz vai olhar pra isso e ver um palhaço agarrando
a bunda de uma mulher, se recusando a sair quando mandado, vocês quatro
partindo pra cima de um cara só, e ainda dar um centavo pra vocês num caso onde
eu estava apenas me protegendo e protegendo as mulheres do bar, algo que, aliás,
faz parte do meu trabalho?
— Nenhum juiz. Pode confiar em mim, eu faço isso há um bom tempo. Agora
junta teus amigos e cai fora. E nem pensa em voltar. Banimento vitalício.
Mãos para Cima ajudava Nozes Esmagadas a se recompor enquanto soltava
insultos.
Mãos para Cima, Nariz Sangrando e Nozes Esmagadas arrastaram Banco de Bar,
que começava a recobrar a consciência, colocando-o de pé, enquanto lançavam
olhares furiosos para Harlan. Pete percebeu que, frequentemente, eles desviavam a
atenção para Rush, que estava próximo, mas não exatamente ao lado de Harlan.
Eles ignoraram Pete. Mas, para ser sincero, até ele sabia que não era uma ameaça
tão grande assim.
Ele lançou um olhar para Rush, mas seu foco se fixou em Big Petey.
— Muitos homens andam de moto. Isso não significa que eles têm um patch.
Verdade.
— Joker também não, mas é um irmão. Snapper é igual — disse Pete. — Não se
trata de se juntar, filho. Trata-se de família.
Mesmo assim, Pete conseguiu ver seus lábios se comprimirem no meio daquela
barba ao ouvir a palavra “família”.
E estava cansado.
Sobreviveu a duas guerras com seu clube. Perderam homens, tanto para a morte
quanto para a desonra. Colocaram suas vidas em risco. Viram suas mulheres em
perigo.
Pessoalmente, ele assistiu sua única filha, sua linda garota, definhar por causa do
câncer.
Por Harlan.
Por Jackie.
— Ela queria que você estivesse conosco, Harlan — disse ele, baixando a voz. —
Você sabe disso. Sabe, filho. Eu ouvi ela dizer isso com todas as palavras.
Mas assim que aquelas palavras saíram da boca de Pete, ele desviou o olhar.
E Pete soube que tinha acertado.
Sabia que Jackie morreu desejando isso para seu filho. Queria que ele tivesse
propósito, estabilidade, irmandade.
— Olha, você não precisa decidir agora. Vamos fazer um encontro no sábado.
Começa à uma da tarde. Aparece quando quiser. É AAF... assim, você vai sentir como
é estar entre nós. Vai poder tomar uma decisão com mais certeza.
E vamos sentir como é ter você entre nós - ele não disse isso, mas Pete sabia que
era parte do plano.
Mas Tack sabia. Hound, Hop, Dog, Brick, High, Arlo, Boz... todos sabiam.
Pete havia contado a ele, mas, ainda assim, ele não sabia.
— O que é AAF?
Agora, o contato visual com Rush era direto. Intenso. E durou um tempo.
— Veremos.
Tanto ele quanto Rush sabiam que aquilo era o máximo que conseguiriam.
Veriam no sábado.
Diana
E eu gritei.
Era tarde, mas uma mulher gritando não era o suficiente para acordar pelo
menos uma pessoa? Sem falar que estávamos em um dormitório universitário.
Metade dos moradores não dormia antes do amanhecer - isso se dormissem.
Ele grunhiu, gemeu e rolou para o lado, agarrando a virilha. Num instante, rolei
para o outro lado, saindo da cama estreita do meu dormitório, onde ele havia me
forçado.
E, sem pensar em mais nada além de garantir que ele estivesse completamente
incapacitado, soquei sua virilha com toda a força que pude reunir.
Foi um golpe baixo, mas pelo amor de Deus, o cara estava tentando me estuprar.
Seu gemido foi carregado de dor enquanto ele se encolhia, assumindo a posição
fetal.
Bati com força, enquanto meu coração continuava disparado e minha respiração
saía em arfadas explosivas.
Sério?
Entrei.
Tremores violentos.
Catastróficos.
Droga.
Não foi tão horrível quanto poderia ter sido, mas ainda assim foi terrível.
Assustador.
Sentada ali, eu sabia que aquilo mudaria minha vida para sempre.
De novo.
Não.
Mais de duas.
Era o tipo de cadeira que se comprava por vinte dólares (se tanto) no Walmart.
Aqueles homens, com seus negócios – tinham lojas de autopeças espalhadas por
todo o Colorado – estavam ganhando muito dinheiro. As personalizações feitas na
garagem eram tão impressionantes que já tinham saído em várias matérias de
revistas.
Sua mãe colecionou cada uma delas, guardadas com cuidado em pequenos
plásticos protetores.
Mas aquela cadeira não era apenas barata, tinha sido comprada em grande
quantidade (porque havia várias espalhadas pelo lugar). Estavam arranhadas,
desgastadas e, claramente, estavam ali há muito tempo.
Era metal.
Era alto.
Mas não tão alto a ponto de impedir uma conversa ou de ouvir o que os outros
diziam.
Muitas crianças.
E mulheres.
Outras eram old ladies por essência e vestiam isso com orgulho – jeans,
camisetas da Harley e joias de prata.
Cristo... uma delas usava um vestido fofo, tinha uma cascata de cachos loiro-mel
e parecia uma maldita líder de torcida.
Harlan era muito jovem da última vez que esteve ali. Sua mãe estava
desesperada. Ele não se lembrava de muita coisa, só da sensação de impotência,
porque ela estava numa situação da qual ele não podia salvá-la.
Seu olhar vagou até Tack Allen, depois para Hopper Kincaid e, por fim, para
Hound Ironside.
Sim...
Era um dia tranquilo. Ensolarado. O outono estava chegando, mas o clima ainda
estava ótimo. Ele já tinha comido uma linguiça e um hambúrguer, além de uma das
melhores saladas de batata caseiras que já havia provado. E aquelas eram, sem
dúvida, boas pessoas.
— Não tenho vergonha disso — afirmou, tenso. — Minha mãe também não
tinha.
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Um Legado é alguém que carrega o nome ou a história de um clube por sua linhagem, tendo um
status especial dentro da hierarquia.
Se entrasse para o Clube, faria parte da irmandade, mas isso não significava que
eles o possuíssem. Não significava que teriam cada parte dele. Não significava que
ele lhes devia porra nenhuma.
Ele entraria do jeito que quisesse. Daria o que estivesse disposto a dar. E ambos
eram escolhas dele.
— Então, como isso funciona? Pelo que sei desse meio, quando você entra, é
para sempre — questionou.
— Você passa um tempo como novato — Rush explicou. — Aviso: vai ser uma
merda. Mas não é sobre humilhação, e sim sobre dever. Lealdade. Compromisso.
Quando os irmãos decidem que você já passou tempo suficiente, ganha seu patch.
Durante esse período e depois que se tornar um membro oficial, trabalha na loja ou
na oficina. Recebe como qualquer outro irmão, uma porcentagem da arrecadação
mensal. Só que, como novato, ganha menos. Depois de oficializado, recebe o
mesmo que todos.
— Igualdade?
— E é só isso?
— Acho que Pete, meu pai, Hop, High, Hound, Arlo e Boz discordariam.
— Preciso dizer que, pela vida que levei, isso tudo parece bom demais para ser
verdade.
— O que você precisa saber é que Big Petey compartilhou só o básico. Nada
além disso. O resto é seu para contar ou guardar para si — Rush respondeu.
Rush continuou:
— Não é que não tenhamos regras, só que não são muitas. Também temos
estrutura. Existe uma hierarquia, mas não para mandar em ninguém. É para manter o
equilíbrio e a ordem. Aqui é uma democracia. Todo homem com um patch tem
direito a voto, e seu voto vale tanto quanto qualquer outro. Mas novatos também
têm voz, e todos nós temos ouvidos. Eles podem não votar, mas são escutados.
— Eu entendo. Ação.
Talvez nunca.
— Se entrar, vai aprender que a gente não se limita a administrar uma loja e
construir carros fodas — Rush informou.
E, mais uma vez, Harlan se surpreendeu. Sua mãe havia lhe dito que eles tinham
largado toda aquela vida.
Cadeiras velhas.
As "regras" eram simples: sem drogas e tratar bem suas mulheres, filhos e irmãos.
E era isso.
Porque... sim.
Muito interessado.
Diana
— Seu pai quer ter uma conversa com você. Você pode usar meu escritório.
Ela sorriu um sorriso tenso, e esse eu consegui decifrar.
Quando Nolan Armitage quer ter uma conversa com você, você aparece no fim
de semana para tê-la. Se ele quer uma conversa particular com a filha, você cede seu
escritório para que ele a tenha.
— Desculpe.
Não consegui me conter. Era um hábito. Sempre fazia isso quando meu pai se
envolvia.
Meu pai estava de pé, e, quando me pegou mais cedo para me trazer até aqui,
soube que ele não estava para brincadeiras. Era fim de semana, e ele vestia um terno
completo, sob medida, do tipo "olhem para mim, sou importante!".
Fiquei confusa.
— O quê? — perguntei.
Minha… situação?
Balancei a cabeça.
— Pai, eu não...
Aquele jovem?
— Sério, Diana — meu pai prosseguiu. — O que você tinha na cabeça ao estudar
até tarde com um rapaz que deixou claro que tinha uma queda por você? É óbvio
que ele interpretaria aquela situação de um jeito específico.
Ah, não.
Merde!
Eu ia começar a chorar.
Lágrimas de raiva.
E talvez gritar.
Alto.
Mas eu não podia fazer nenhuma das duas coisas. Aprendi isso.
— Diana...
— Você está me dizendo que não veio aqui para garantir que, no mínimo, esse
predador fosse expulso da instituição? E que, além disso, não fez nada para
assegurar que ele fosse preso e acusado? Em vez disso, facilitou as coisas para ele e
agora sou eu que tenho que mudar minha rotina para evitá-lo?
— Escute bem — ele disse naquele tom que conhecia tão bem, aquele "temo
que você seja burra demais para entender, mas vou tentar explicar mesmo assim". —
Você não tem muita experiência com homens...
Cortei na hora:
— Já namorei bastante, pai, e nenhum dos caras com quem saí me jogou na
cama e tentou arrancar minha roupa.
— Diana...
— Então, o que você está dizendo é que agora que lido com homens, não posso
mais estar segura no meu próprio espaço? Tenho que me preocupar com o que
algum idiota pode sentir em relação a transar comigo ou não? Mas ele não precisa
se preocupar com o que eu sinto sobre isso? Não pode simplesmente, sei lá, usar as
palavras para expressar o que quer e perguntar, ao invés de me atacar para pegar à
força?
Ah, sim.
Mas deveria. Esse era meu pai. Nolan Armitage. O exemplo perfeito do advogado
frio, obcecado por poder, ganancioso, viciado em trabalho, que conseguia tudo o
que queria por qualquer meio necessário. E o que ele queria, obviamente, era
dinheiro e poder. Todo o resto - sua filha, suas esposas (sim, no plural, embora não
ao mesmo tempo) - não tinha importância.
Sem mencionar que ele foi o homem que reduziu minha mãe a pó.
Achei que já sabia lidar com ele. Achei que havia construído barreiras suficientes
para não sentir mais essa dor.
— Eu não estou sendo julgada aqui, pai — retruquei. — Guarde suas manobras
de tribunal para revitimizar as sobreviventes de agressão que seus clientes ricos
pagam para livrar da culpa.
Encarei-o.
Ele realmente não enxergava o que estava acontecendo ali, o que tinha
acontecido comigo, sua filha, e o que ele estava fazendo comigo, sua filha.
Mas eu via.
Cristalino.
— Acabou — declarei.
— O quê exatamente?
— Você — abri os braços. — Isso. Tudo isso.
— Por favor, seja clara, Diana. Foi muita gentileza da Srta. Bainbridge nos deixar
usar o escritório dela, mas não podemos ficar aqui o dia todo.
— Você está pagando por isso, e eu não quero mais nada de você. Então, até
que eu possa arcar com os custos, estou fora. Também estou fora de casa. Vou
morar com a vovó e o vovô.
— Isso é um absurdo. Algo desagradável aconteceu com você, e você está sendo
exageradamente emocional.
— Posso te garantir, com cem por cento de certeza, que até você passar pela sua
própria agressão sexual, não tem o direito de julgar o nível de emoção de quem
sobreviveu a uma. Além disso, o que aconteceu comigo não foi desagradável. Foi
aterrorizante. Foi chocante. Foi inconcebível. E foi criminoso. Você é um estudioso da
lei, mas, mais do que isso, é meu pai. E o fato de você facilitar a vida daquele
desgraçado, permitindo que ele saia impune pelo que fez comigo — o que pode
significar que ele fará isso com outra pessoa — é simplesmente impensável.
Meu Deus!
— É mesmo? — perguntei.
— O certo é sim... e sim, você sabe disso, porque já te falei inúmeras vezes que
não aceito esse tipo de linguagem vindo da minha filha.
— Então escuta bem, pai. Eu não sou uma dama. Sou uma mulher. E posso falar
do jeito que bem entender.
Não ali.
Mais tarde.
Essa era a decisão mais inteligente que eu já tinha tomado em toda a minha vida.
Harlan
Atualmente...
Ao longo da vida, carregou mais barris de cerveja do que poderia contar, limpou
vômito e sangue, levou socos e os retribuiu, foi menosprezado, subestimado,
enganado.
Servir uma cerveja para um irmão quando ordenado e levar para casa as garotas
do clube2 bêbadas não era nenhum sacrifício.
Claro, havia tarefas bem mais pesadas - e muitas delas - mas eram coisas que
precisavam ser feitas.
Hugger aprendeu cedo que, se algo precisa ser feito, é melhor simplesmente
fazer. Não perder tempo tentando jogar a responsabilidade para outra pessoa nem
procurando o jeito mais fácil de cumprir a tarefa. O certo era se envolver e fazer o
serviço direito.
Cumpriu seu tempo como novato, foi pago por isso (o que, convenhamos,
tornava aquilo apenas um trabalho ruim), até ser oficialmente aceito no clube.
Agora, ganhava muito mais, e isso não era nada ruim.
Eles eram como aquelas cadeiras velhas e gastas que Hugger precisou empilhar
mais de uma vez quando era um prospecto.
E esses papéis, como ele aprendeu ao longo dos anos, envolviam ser bons
maridos, bons pais, bons irmãos e manter os negócios prósperos - principalmente
para garantir que suas famílias também estivessem bem.
Era isso.
2
Garota do clube é uma versão mais suave e menos pejorativa, usada para se referir a mulheres que
gostam do estilo de vida MC sem compromisso sério, geralmente como uma groupie ou acompanhante
casual.
Hugger aceitou isso desde o começo.
Ele suspeitava que todos no clube sabiam quem ele era, de certa forma. Com
certeza, os irmãos mais velhos sabiam.
Mas ninguém se metia em sua vida. Ninguém pressionava por mais do que ele
queria oferecer. Simplesmente o deixavam ser quem era.
Fim de papo.
Quando sua mãe morreu, ele ficou sozinho. E estava bem com isso. Não
procurava deixar ninguém entrar.
Mas como ali não havia pressão, nem imposições, ele estava tranquilo com isso
também.
3
A palavra "Hugger" em inglês significa alguém que abraça, ou seja, uma pessoa que gosta muito de
abraçar os outros.
Ao entrar, não se surpreendeu muito ao ver que apenas Rush e Big Petey
estavam sentados à mesa grande, com a bandeira do Chaos protegida sob um
tampo de acrílico.
Rush, porque era o presidente e se envolvia em tudo que dizia respeito ao clube.
Pete, porque tentava se tornar uma espécie de figura paterna para Hugger desde
que ele entrou como prospecto.
Aquilo não tinha nada a ver com laços familiares dentro do clube.
Havia muita história envolvida nisso. História entrelaçada com o Chaos. Hugger
aprendeu tudo quando era novato.
O que eles fizeram no passado, que os colocou nessa busca interminável por
redenção, era algo que ele jamais perdoaria.
Ainda assim, ele sabia que todos os homens daquele clube estavam nessa
jornada eterna de redenção - e nenhum deles desviaria desse caminho.
Hugger assentiu.
— Imran Babić. Gângster bósnio. Enfia o dedo em tudo que pode, desde que seja
ilegal. Além disso, é completamente insano. Pra você ter uma ideia, ele mexeu com a
mulher do presidente do Aces High MC.
— Você sabe ouvir bem, mas isso a gente já sabia — Pete retrucou. — Mas,
recentemente, as coisas começaram a dar errado para esse cara.
— Sem surpresa. Ele mora no sul, e não estou falando do Arizona — respondeu
Hugger.
"Vale do Sol" (Valley of the Sun) refere-se à região metropolitana de Phoenix, que inclui cidades
4
— Ela está destruída. Mas prestou queixa — continuou Rush. — Isso o torna
vulnerável. E do tipo de vulnerável que vai fazer de tudo para resolver a situação.
Ah, sim.
Hugger manteve a boca fechada sobre a participação de Pete, mas não gostou
da ideia.
Quando alguém nunca te pressionava, te deixava ser quem você era e sempre
estava ao seu lado, você retribuía.
Então, o fato de Pete não ter falado nada sobre estar perdendo peso, se
movendo mais devagar e, às vezes, parecer distraído, significava que todos tinham
que engolir a preocupação e deixar que ele lidasse com isso do jeito dele.
Por isso, foi Rush e ele que trocaram um olhar após as palavras de Pete, mas,
além disso, não disseram nada.
Pelo menos, não sobre isso.
Ah, merda.
Mas uma única mulher contra um gângster bósnio com um grupo enorme não
eram boas chances.
— Nada disso.
Não.
Ele não fazia ideia de por que a filha do advogado estava se metendo nisso, mas
não sentia nada de bom vindo dessa história.
Hugger olhou para Big Petey.
— Quando partimos?
Pete sorriu.
— Arrume roupas para o calor, filho. O calor ainda não passou no Vale. Assim
que estiver pronto, caímos na estrada.
Hugger se levantou.
Então, saiu, montou na moto, foi para casa, arrumou suas alforjas e se mandou
para Phoenix.
Capítulo 1
NÃO É UM PAI
Diana
— Sinto muito, Sr. Armitage. Ela simplesmente entrou e não quis sair.
— Tudo bem, Janie. Ela é minha filha, e eu pedi para vê-la. Peço desculpas por
não ter te avisado. Está tudo certo. Pode voltar ao seu trabalho.
Então, vi quando ele fechou a porta atrás de Janie, que, para ser assistente
pessoal de um homem do porte do meu pai, era bem jovem. Afinal, ele não era
qualquer advogado. Era sócio nomeado em um grande escritório, tinha uma sala de
canto gigantesca que incluía uma área de conferência com uma mesa para oito
pessoas e uma área de estar com quatro poltronas e dois sofás dispostos frente a
frente.
O orçamento semanal para flores devia ser equivalente, se não superior, à minha
hipoteca mensal.
Meu pai caminhou até a frente da mesa, sem desviar o olhar de mim.
— Pedi para te ver, mas você não respondeu ao meu recado de voz.
— Esse não é um bom momento. Tenho uma agenda cheia e uma reunião em
dez minutos. Ainda assim, gostaria de falar com você em particular — disse ele,
entre os dentes.
— Faz tempo, pai. Mas, com dezenove anos de experiência desde o nascimento,
acho que ainda sei traduzir pailês. — Inclinei-me para frente, apoiando os cotovelos
na mesa e entrelaçando os dedos sob o queixo. — O que você quer dizer é que seu
cliente vil, cruel, praticamente desumano... que, por acaso, também é rico, o que já
basta para você, quer que eu abandone Suzette, para que ele possa silenciá-la sem
complicações.
— Mais uma vez, gostaria de marcar um horário para falar com você em
particular.
— Diana, vou repetir: não tenho tempo agora, e preferia não tratar disso aqui.
Desde o ocorrido em Tucson, não nos falamos, então também seria bom aproveitar
a chance para me atualizar sobre minha única filha.
— Diana...
— Diana...
— Viu sim. Mas qual é a sua hora com um cliente como Babić? Quatrocentos?
Quinhentos dólares?
Ignorei. Vinha ignorando desde que Suzette se mudou para minha casa, uma
semana atrás.
Em vez disso, me levantei e assumi a mesma posição que ele, ficando olho no
olho.
— Você não percebe que sou o único lugar seguro que ela tem? Aquele homem
é um psicopata, mas não vai matar a filha do próprio advogado para chegar até a
mulher que ele brutalmente agrediu.
— Isso tudo é muito complicado. A vítima do meu cliente morando com a minha
filha?
— Não vejo como isso seja problema meu.
— Não pense que vou cair nesse papo. Você tem sua mãe em você.
Pensando bem, qual seria o nível de violência de um tapa? Algo nível três? Ou
mais para nível cinco?
Acho que eu conseguiria um nível três. Já viver com um nível cinco... não sei.
Ele respirou fundo, enchendo o peito largo. Como sempre, estava impecável. Seu
cabelo escuro agora exibia um brilho prateado - não cinza, nem branco, mas algo
que o deixava ainda mais atraente. Ele sempre manteve a forma, acordando cedo
para treinar, seja em casa, seja na academia do escritório, dedicando pelo menos
quarenta e cinco minutos ao cardio e à musculação. Era evidente que esse hábito
não tinha mudado.
— Tenho orgulho de você — ele declarou de repente, sem qualquer relação com
o assunto. — Você conseguiu seu diploma. Foi além. Fez isso sozinha, e eu sei que
não foi fácil. Tenho amigos que buscaram seu trabalho em conservação. Eles dizem
que você é talentosa.
Ah, não.
Nem a pau.
— Diana, por favor, venha jantar — ele pediu quando eu já estava indo em
direção à porta.
E disse o que precisava dizer, apesar da dor aguda que senti ao ouvir a súplica
genuína e sem disfarces em sua voz.
— Vou pensar no caso. Mas, antes disso, quero deixar claro que o problema não
foi apenas o seu pensamento ultrapassado… e sim, você está certo, errado. O
problema foi que você pensou como um homem, e não como um pai. Você, meu
pai, depois do que eu passei, me submeteu a outro tipo de violência ao adotar a
postura de um homem, e, ao fazer isso, protegeu outro homem... um que me feriu.
Foi por isso que fui embora e nunca mais voltei.
Preciso reconhecer que, depois que disse isso, ele ficou abalado.
Mas eu não podia deixar que isso me afetasse, porque ainda não tinha
terminado.
— Se você está aqui, me dizendo que quer ser meu pai, então vou deixar claro:
isso nunca vai dar certo, e eu não vou me submeter a essa situação se você não
entender o que significa ser um pai. Pode parecer extremo para você, mas defender
um homem que claramente agrediu brutalmente uma mulher, física e sexualmente, e
ao mesmo tempo ter uma filha, é algo completamente inaceitável. Eu não dou a
mínima para o fato de ele ter direito a uma defesa. Que outra pessoa faça isso. Você
não é um advogado em início de carreira que precisa aceitar qualquer caso para
sustentar a família. Babić já tinha contrato com outro escritório. Depois do que fez,
eles o dispensaram. E então você o pegou. Você. Um homem cuja filha sobreviveu a
um abuso sexual. Pense nisso, pai. Pense em por que eu poderia ter um problema
com isso. Pense no que significa para mim ver você defendendo esse homem.
Quando tiver feito isso, entre em contato. E então, talvez, a gente possa conversar.
— Então, no fim das contas, é sobre você — ele afirmou, com um leve sorriso no
canto dos lábios.
— Não, é sobre você — rebati. — Minha vida inteira, nunca foi sobre mim.
Sempre foi sobre você.
Saí do escritório dele, fechei a porta atrás de mim e olhei direto para Janie.
Jovem demais para ser arrastada para a confusão que era meu pai.
Observando-a, tomei uma decisão que não me agradou, mas que, no fim das
contas, em nome da irmandade, eu não podia evitar.
Certo.
— Ele troca de assistente todo ano, e as antigas nunca são realocadas para outro
advogado do escritório. Pense nisso, Janie. Seu tempo aqui é limitado, e posso
garantir que você não vai ser a exceção. Não vai receber um anel de noivado, não vai
planejar um casamento luxuoso e se mudar para a mansão dele em Paradise Valley.
Não vai ter filhos dele nem admirar o quanto ele é um pai maduro e cheio de
energia. Ele não quer filhos. Houve momentos em que eu me perguntei se ele
sequer me queria. Ele não quer uma parceira, ele quer um símbolo de status. E há
apenas um desfecho para essa história: você não vai receber nada do que foi
prometido, nem nada do que espera. Quando ele se cansar, simplesmente será
substituída.
Me senti mal ao perceber que ela estava prestes a chorar e, tarde demais,
considerei se deveria ter sido menos direta.
Mas, no fim das contas, mesmo sendo bonita e atraente para ele, ela só tinha
conseguido o emprego porque era boa no que fazia.
Dirigi de volta para casa saindo do escritório do meu pai, fingindo que não
estava sendo seguida.
Fato humilhante: pode-se dizer que fui excessivamente emocional quando decidi
me envolver na situação de Suzette Snyder e Imran Babić.
Depois, ouvi que ela havia identificado seu agressor, ele tinha sido preso e aquilo
se tornou uma grande notícia. Diziam que ele era um figurão em Phoenix, alguém
no estilo Tony Soprano, e sua prisão foi vista como uma vitória para as autoridades.
Eu havia conseguido evitar meu pai por muito tempo. A única coisa que me
alcançou foi quando ele defendeu Rogan Kirk depois que ele roubou a
aposentadoria de várias pessoas anos atrás. Isso também foi um grande escândalo,
então meu pai apareceu bastante diante das câmeras.
5
O Arizona Republic é o maior jornal do estado do Arizona, cobrindo a região metropolitana de
Phoenix.
Mas consegui ignorar aquilo, porque Rogan Kirk era só um ganancioso que tirou
dinheiro das pessoas.
Não um predador sexual que tirava algo ainda mais valioso delas.
Foi nesse momento que a coisa toda ficou excessivamente emocional (ou
altamente iludida, escolha o que preferir).
Infelizmente, sim, eu sabia que não apenas estava sendo seguida regularmente,
mas também que havia olhos sobre meu apartamento desde que trouxe Suzette
para morar nele (não pergunte como isso aconteceu, envolveu algumas pesquisas
no Google que talvez não fossem muito apropriadas, algumas manobras
estratégicas com funcionários do hospital, algumas conversas entre mulheres que
podem ter sido, da minha parte, levemente manipulativas e alguns policiais furiosos
que achavam que era responsabilidade deles oferecer proteção a Suzette -
especialmente um, o detetive Rayne Scott, que não superou isso e frequentemente
me ligava tentando mudar a situação).
Eu tinha um ótimo emprego, mesmo que nunca me tornasse milionária com ele.
Ainda assim, era um nicho de mercado que atendia pessoas ricas dispostas a pagar
caro pela preservação de itens valiosos para elas. E elas pagavam muito bem.
Num momento de rara ousadia, alguns anos atrás, decidi apostar parte dos meus
ganhos em vídeo pôquer no número treze preto na roleta do Talking Stick Casino6.
Para minha surpresa, a bolinha caiu exatamente ali, e eu ganhei uma quantia
absurda de dinheiro.
Saí do cassino imediatamente após isso. E como alguém que aprendeu a não
forçar a sorte (exceto, claro, quando me dá um novo surto de coragem e decido
enfiar o nariz em situações perigosas envolvendo mulheres que eu nunca vi na vida),
nunca mais voltei lá.
6
O Talking Stick Resort é um luxuoso hotel e cassino localizado em Scottsdale, Arizona
Juntando esse prêmio ao bom, mas nada extravagante, valor que meu avô me
deixou de herança, consegui dar uma entrada que tornava a hipoteca (e as taxas
ridiculamente altas do condomínio) viáveis em um ótimo prédio próximo ao Fashion
Square Mall7 em Scottsdale.
Além disso, era necessário um chaveiro eletrônico para acessar os saguões dos
elevadores, e ele só permitia entrada no andar correspondente ao seu apartamento.
O mesmo servia para as escadas.
Depois que Suzette se mudou, instalei uma dessas barras de aço na porta,
aquelas com duas placas grossas que deslizam para encaixes laterais quando você
aperta um botão no centro. Não era bonito, mas considerando que minha porta já
era reforçada, aquilo tornava a invasão bem mais difícil.
Não era um caso de arrombar fechaduras. Aquela coisa só podia ser aberta por
dentro ou com um controle remoto.
Mas exigia um bom esforço de quem tentasse invadir - e esse esforço seria
barulhento e violento. Isso nos daria tempo suficiente para chamar a polícia antes
que conseguissem entrar.
Por isso, Suzette não saiu do meu apartamento desde que se mudou. Nem
mesmo para sentar em uma das duas varandas (uma na sala e outra no meu quarto),
ambas com vista para o enorme pátio do condomínio.
7
O Fashion Square Mall é um shopping de luxo localizado em Scottsdale, Arizona. Ele é o maior
shopping do estado e um dos mais sofisticados do sudoeste dos Estados Unidos.
O andar térreo do prédio era repleto de estabelecimentos comerciais abertos ao
público. Havia uma lanchonete, um restaurante sofisticado, um café para brunch,
uma cafeteria, um bar de bairro, um lounge de coquetéis, um estúdio de hot yoga8,
um espaço de pilates, uma boutique charmosa, um salão de beleza e um spa, entre
outras coisas.
E, sim, da minha varanda, percebi que alguns homens tomavam seus cafés
espresso e leite vaporizado nessas áreas e tinham uma visão direta do meu
apartamento. Não o tempo todo, mas com frequência.
O começo foi difícil quando larguei a faculdade e saí para me virar sozinha.
Meus avós me ajudaram, minha mãe deu apoio moral à distância, mas, no fim,
era eu quem precisava fazer acontecer. Foi um período de trabalhar em vários
empregos, virar noites estudando, chegar ao nível de exaustão em que parece
impossível se recuperar, passar dezoito meses inteiros sem um único dia de folga
entre trabalho, estudo e obrigações.
E, de certa forma, não posso negar que uma parte disso tudo era sobre meu pai.
Sobre mostrar a ele que eu conseguiria, mesmo decidida a nunca mais vê-lo. Sobre
provar algo não só sobre mim, mas sobre minha mãe, algo que eu não compreendia
totalmente, mas sabia que estava lá.
8
É uma modalidade de ioga praticada em uma sala aquecida, geralmente com temperaturas entre
35°C e 40°C, e um nível de umidade controlado. O calor tem o objetivo de aumentar a flexibilidade,
intensificar o suor e proporcionar um treino mais desafiador.
Era assustador, estúpido e perigoso.
Mas Suzette concordava comigo. Eu era o muro atrás do qual ela poderia se
esconder, sabendo que Babić não o derrubaria. Ela foi clara sobre o que aconteceu, e
seus inúmeros ferimentos corroboravam sua versão.
Havia DNA coletado debaixo das unhas dela, além de fluido seminal (ainda não
testado, mas que, quando fosse, seria uma prova incontestável).
Além disso, Babić realmente, realmente não precisava de mais problemas com a
lei ou de uma má reputação. A morte de sua acusadora, ou qualquer coisa que
acontecesse com a mulher que lhe oferecia proteção, seria um grande problema de
imagem e traria complicações ainda mais sérias com a justiça.
Estacionei meu pequeno Fiat 500 azul-bebê (que, de forma irônica, mas adorável,
eu tinha apelidado de Baby Shark) na minha vaga subterrânea e peguei minhas
chaves. Mais precisamente, peguei o spray de pimenta que ficava no chaveiro. Soltei
o botão de segurança que cobria o gatilho, envolvi o tubo com a palma da mão e
mantive o polegar sobre o botão, observando ao redor pelas janelas e espelhos. Só
quando tive certeza de que não havia nada suspeito, saí do carro.
Permaneci alerta no caminho até o saguão dos elevadores. Passei meu cartão de
acesso, chamei o elevador e entrei. Acionei meu andar e soltei um suspiro de alívio
quando as portas começaram a se fechar.
Depois, outro.
E mais um.
Antes que eu pudesse reagir, ele agarrou meu pulso, redirecionando minha mão
para longe dele (ou de qualquer um deles). Em seguida, apertou meu pulso com
firmeza, mas sem machucar, e arrancou o tubo da minha mão.
E assustador.
— Você está segura. Não vamos te machucar. Meu nome é Hugger. Esses são
Eight, Muzzle e Cruise. Temos um problema em comum com os Babić e achamos
que podemos te ajudar.
Ah.
Bom... então.
Eles não pareciam com aqueles mafiosos bem-vestidos, de camisa polo e calça
social, que bebiam café espresso e leite vaporizado e mantinham uma presença sutil,
mas ameaçadora, no pátio.
Eles pareciam homens que nem sabiam o que era uma camisa polo. E eu
apostaria que nenhum deles possuía uma calça social.
— MC? — perguntei.
— Conversar, explicar tudo e oferecer proteção para você e sua amiga, porque,
sinceramente, vocês não estão nada seguras — ele afirmou. — Eles estão te
vigiando. Estão analisando a situação. Estão planejando. E vão agir assim que
acharem que podem fazer isso sem deixar rastros.
E era por isso que eu precisava de camadas extras de corretivo para esconder as
olheiras. Eu sabia exatamente que era isso que estava acontecendo.
Fitei Hugger.
Debaixo de toda aquela barba e cabelo, havia um rosto muito bonito. Mesmo
com toda aquela quantidade absurda de pelos, nada conseguia esconder
completamente seus traços marcantes - o nariz reto e forte, os cílios grossos e
escuros, os lábios cheios e bem desenhados.
E com aquele corpo grande e robusto, ele parecia ser o tipo de cara que te
provocaria o tempo todo, enquanto você fingia se irritar, mas secretamente adorava.
O tipo de cara que cortaria cebolas ao seu lado enquanto você temperava a carne. O
tipo de cara que abriria os braços para te envolver num abraço enorme e confortável
quando você estivesse tendo um dia ruim.
Talvez ele não fosse muito chegado em cuidados pessoais (ou em qualquer
cuidado, na verdade), mas era inegavelmente bem-cuidado. Vestia uma camiseta
preta do Rage Against the Machine9, jeans desbotado e botas de motociclista pretas
- tudo limpo.
9
Rage Against the Machine (RATM) é uma banda de rock alternativo e rap metal dos EUA, formada
em 1991, conhecida por seu som agressivo, letras politicamente carregadas e ativismo social.
Um olhar rápido para os outros três me disse praticamente a mesma coisa (sem
o cheiro, pois não estavam perto o suficiente para que eu pudesse senti-los).
— Vamos conversar aqui. Não vou deixar vocês entrarem na minha casa até eu
entender o que está acontecendo — deixei claro.
— Babić pegou uma obsessão pela mulher do presidente do Aces High MC. Ele a
sequestrou para divulgar essa informação — Hugger afirmou.
Aquele desgraçado.
— Urgh... — resmunguei.
— Ela não gostou da atenção e deixou isso bem claro. Depois disso, ele começou
a mexer com as outras mulheres dos Aces. Deixava bilhetes nos para-brisas dos
carros delas, enviava flores e presentes para o trabalho e a casa de cada uma. Coisas
sutis, nada ilegal, mas que bagunçam a cabeça de qualquer uma — Hugger
continuou. — E está funcionando.
— De algum jeito, ele se envolveu com uma garota do clube que tem problemas
com o Aces — prosseguiu. — Ela é prima de uma mulher casada com um dos irmãos
do Resurrection — ele inclinou a cabeça em direção ao cara muito alto e ao que
estava ao lado dele, que não usava um coque masculino. — E, por algum motivo,
isso fez com que ele passasse a se interessar não só pelos Aces, mas também pelo
Resurrection e pelo Chaos. Não sabemos o porquê, só sabemos que nada de bom
pode sair disso. Por isso eu, Eight e Muzzle estamos aqui. Para trabalhar com o Aces
e descobrir.
— Suzette entra nisso primeiro porque não aceitamos que qualquer filho da puta
faça o que ele fez com qualquer mulher — rosnou Hugger. — Mas ele fez, e isso não
pode ficar sem resposta.
Mesmo concordando com ele, engoli em seco, não só pelo tom ameaçador, mas
pela fúria intensa que brilhava em seus olhos escuros.
— Mas não sei exatamente o que vocês podem fazer para ajudar — confessei.
Ele piscou.
Usava uma calça jeans branca, justa e curta no comprimento, sapatos de salto
dourado fosco e uma camisa rosa, de corte masculino, feita de tecido leve. Também
carregava uma bolsa de couro rosado, sofisticada e elegante.
Além disso, eu tinha 1,68m. Era uma apaixonada por sorvete, creme gelado,
tortas e biscoitos – e carregava as evidências disso no meu traseiro (e nos meus
seios e, tá bom, talvez nas coxas e na barriga também).
Para piorar a situação, eu não me limitava um dia específico para comer tacos.
Para mim, tacos eram bons em qualquer dia da semana.
E meu cabeleireiro (que, por acaso, tinha uma cadeira no salão localizado no
pátio do condomínio onde eu morava - era um mestre do balayage10, então meu
cabelo escuro tinha mechas douradas feitas pelas mãos de um verdadeiro artista.
Mas era a minha mão que criava as ondas perfeitas, naturais e com ar de praia nas
minhas longas madeixas.
Apenas um reflexo do que aprendi com meu pai, que sempre me ensinou que
aparência era tudo. Mais que isso, eu o representava, e essa representação deveria
ser impecável. Então, me tornei excelente em ambas as coisas.
10
Balayage é uma técnica francesa de coloração capilar que significa "varrer" em francês. Diferente das
mechas tradicionais feitas com papel alumínio, o balayage é aplicado à mão livre, criando um efeito mais
natural e iluminado, como se os fios tivessem sido clareados pelo sol.
O que eu definitivamente não parecia era uma guarda-costas durona ou uma
comandante de elite.
Mas, considerando que ele devia ter pelo menos 1,90m e que os músculos
saltados em seus bíceps, além das veias grossas em seus antebraços, claramente não
estavam ali só para enfeite, eu suspeitava que ele estava longe de ser um alvo fácil.
— Não sei por que você se meteu nisso, Diana — disse o grandalhão Hugger
novamente. Minha atenção voltou imediatamente para ele, e não apenas porque
estava falando.
Ah, não.
E não era o fato de ele saber meu nome - o que já era um tanto desconcertante,
considerando que eu não havia me apresentado.
Era o jeito como ele pronunciou meu nome, com aquela voz grave, masculina e
irresistível, que me fez sentir algo físico.
O que era estranho, já que ele definitivamente não fazia meu tipo.
Ao ouvir isso, os olhos dele brilharam de maneira perigosa, mas ele se recompôs
rapidamente.
— Você tem que saber que não tem os recursos para levar isso adiante — ele
rebateu.
Balancei a cabeça.
— Você está certo. Cabe à Suzette — concordei. — Mas posso garantir que ela
se sente segura comigo, e eu não posso ir com ela para uma casa segura. Tenho
uma hipoteca para pagar.
— Talvez você possa explicar por que ela recusou a custódia protetiva da polícia
— sugeriu.
Era verdade. E foi assim que consegui convencê-la (mesmo que levemente) a
ficar comigo.
Ah, então eles sabiam praticamente tudo. Isso, obviamente, incluía meu nome.
Bom, não fui muito rápida em perceber isso. Me processem. Eu nunca tinha sido
encurralada por um grupo de motociclistas antes. Descobri que isso tira a gente do
eixo.
— Até hoje, não falo com meu pai há dez anos — revelei algo que, claramente,
eles não sabiam.
— Seria bom entender por que você está envolvida nisso — o último deles
comentou.
— Admito que talvez eu não estivesse pensando com clareza — confessei, sem
intenção de compartilhar que, na verdade, tudo se resumia a estar emocionalmente
abalada. — Mas já fiz isso, e aqui estamos. Então, os motivos que nos trouxeram até
aqui não importam mais.
Senti o olhar penetrante do grandalhão sobre mim e, quando me virei para ele,
me arrependi imediatamente.
De repente, me senti exposta. Como se ele pudesse enxergar cada parte de mim,
não só por fora, mas lá no fundo, em lugares que nem eu mesma visitava - e que,
definitivamente, não explorava.
Por isso, desviei o olhar rapidamente.
— Se ela não quer ir para uma casa segura ou aceitar a custódia protetiva — o
cara alto disse — então o foco precisa ser segurança. Um homem dentro do seu
apartamento e patrulhamento do lado de fora.
— Você quer dizer, alguém morando comigo e com Suzette? — perguntei para
esclarecer. — Ou alguém no meu lugar?
— Escutem— comecei.
E me expôs junto.
— Você não faz ideia do que está fazendo. Nem sequer sabe por que está
fazendo isso. Nós temos força. Temos armas. Temos homens. Temos um interesse
nisso. E temos experiência. Você, por outro lado, ou tem alguma rixa para resolver
ou está tentando provar algo para o seu pai. Você precisa descobrir isso, mas não às
custas de uma mulher que precisa de alguém para protegê-la, não de alguém
resolvendo seus próprios problemas.
— Você conseguiu fazer com que ela se sentisse segura com você. Ótimo. Nós
também vamos te dar cobertura. Agora, você vai nos levar até seu apartamento,
apresentar Suzette e dizer a ela que arrumou reforços. E, a partir daqui, nós
assumimos.
— Com licença, mas isso não tem nada a ver comigo — rebati, irritada.
— Talvez o motivo pelo qual comecei tenha, mas não é mais esse o caso —
retruquei.
— Você me conhece há, o quê, cinco minutos? — rebati. — Não pode tirar
conclusões sobre mim assim.
— Sim, lembro — retruquei. — E talvez você queira explicar isso, já que, até
agora, só deixou claro que são membros de um clube de motociclistas, e não
especialistas em segurança ou cientistas comportamentais.
— Não, eu não acho. Mas me diga, se fosse você no meu lugar, encurralado em
um elevador por quatro caras oferecendo ajuda — aparentemente por pura
bondade, misturada a uma certa solidariedade com a vítima de um crime violento —
e tivesse prometido a uma mulher que faria de tudo para mantê-la segura, deixaria
esses caras simplesmente entrarem e assumirem tudo?
Ele fez um gesto amplo para os outros e respondeu:
— De qualquer forma, essa não é uma decisão sua — o cara do coque masculino
reforçou. — É de Suzette.
Não me entenda mal, a aparição desses homens do nada era um presente divino.
Especialmente se houvesse mais deles.
Mas eu tinha mandado uma mensagem para Suzette avisando a que horas
chegaria em casa. Ela estava me esperando. Não queria preocupá-la, e isso estava
me atrasando para chegar até ela e evitar que ficasse preocupada.
O que eu sabia com certeza era que, se Babić fizesse sua jogada, eu não tinha as
habilidades para reagir à altura.
Talvez esses caras também não tivessem, mas era evidente que estavam muito
mais preparados do que eu.
Droga.
Primeiro, Diana Armitage estava perambulando por essa cidade quente pra
cacete, banhada pelo sol, seca como o inferno - um lugar onde ninguém em sã
consciência escolheria morar voluntariamente. E ela fazia isso usando sapatos
dourados de salto alto, dirigindo o menor e mais inseguro carro que ele já tinha
visto na vida, tudo isso enquanto era seguida por dois capangas armados de uma
máfia local.
E, ainda assim, ela agia como se fosse só mais um dia qualquer. Como se não
tivesse dois brutamontes armados no seu encalço.
Não era preciso ser especialista em comportamento para saber que sua cor
favorita era azul. Seu carro era azul, e sua casa era predominantemente branca com
vários toques de azul. O lugar era elegante, estiloso, confortável e feminino.
Mesmo não sendo o tipo de decoração que ele escolheria, ele gostou. Era bonito.
Combinava com ela. Feminino sem ser exageradamente delicado, o que a definia
perfeitamente. E ele admirava o fato de que ela se conhecia bem o suficiente para
imprimir sua identidade no ambiente com tanta clareza.
Por fim, Suzette Snyder apareceu depois de uma rápida conversa com Diana em
um dos quartos no final do corredor.
Quando surgiu, tinha o braço enfaixado, mancava e ainda exibia pontos no lábio
e no osso da bochecha, logo abaixo do olho esquerdo. Os hematomas também não
haviam sumido completamente, mesmo após três semanas.
Ela mal chegava a 1,60m. Devia pesar pouco mais de 45 quilos. E parecia ter treze
anos, apesar de Hugger saber que tinha vinte e seis.
Pela primeira vez na vida, Hugger entendeu o que significava fazer o sangue
ferver.
Suzette evitava olhar qualquer um dos homens nos olhos. Também não se
aproximava completamente. Ficava atrás de Diana, ligeiramente de lado, com os
dedos apertando tanto o antebraço dela que Hugger conseguia ver as pontas de
suas unhas ficando esbranquiçadas.
Aquela pressão deixaria marcas, mas Diana nem reagia. Nem um tremor, nem
uma careta de desconforto.
A outra parte que entendia era que um homem tinha feito isso com ela. E, por
isso, homens a aterrorizavam.
— Como eu disse, eles estão aqui para garantir que tudo fique sob controle
enquanto o promotor constrói o caso contra Babić e depois… — Diana hesitou.
Diana se virou para ela, soltou seu braço devagar, mas segurou suas mãos,
entrelaçando os dedos.
— Eles precisam saber que você está de acordo com isso — disse suavemente. —
Então, agora que os conheceu, você e eu voltamos pro seu quarto para conversar
sobre isso. Tudo bem?
Suzette assentiu, soltou Diana e praticamente correu de volta pelo corredor.
Hugger precisava de ar. Mesmo que fosse seco, quente e empoeirado pra
caralho.
Então, caminhou até a porta de vidro deslizante que levava à varanda, onde havia
móveis de pátio, predominantemente azuis (as almofadas e travesseiros) e brancos
(as estruturas).
Assim que pisou lá fora, seus olhos foram direto para os dois desgraçados
sentados do lado de fora de uma cafeteria do outro lado do pátio, em frente ao
apartamento de Diana.
Também considerou descer até lá e bater as cabeças deles uma contra a outra.
A única coisa boa era a barra de aço reforçada que parecia resistir até explosivos.
— Isso é pessoal pra ela por causa do pai, o que é uma tremenda burrice.
— Não tem nada a ver com o que ele fez com a Suzette. Tem a ver com o que
outro desgraçado fez com a Diana.
O impacto dessas palavras foi como um tsunami atingindo Hugger, arrancando
seu ar, puxando-o para o fundo e o arrastando para longe.
— Hug!
— Você tá no controle?
— Não.
— E você não?
— Ah, eu pegaria fácil se ela me desse uma chance. Mas o que você sente é
diferente.
Era, sim. Principalmente porque ele queria acertar um soco na garganta de Eight
por ter dito isso.
Hugger o encarou.
Eight era o líder da missão. E quando o Resurrection tomava uma decisão, o
Chaos não dizia porra nenhuma..
— Vou te contar uma coisa, Hug. Quando você tem algo em jogo, luta até o fim
pra ganhar.
— Irmãos.
Com eles, ficava apenas dez centímetros mais baixa que ele. Sem eles, ficava
evidente que ele poderia jogá-la sobre o ombro e carregá-la para a cama sem o
menor esforço.
Merda.
Ele e Eight entraram no cômodo, e Hugger deslizou a porta para fechá-la atrás
de si.
Ótimo.
Ela pegou um chaveiro com uma chave eletrônica e um jogo de chaves, jogando-
o sobre o balcão.
— Vamos mandar fazer mais cópias das chaves e pedir chaves eletrônicas extras
na administração do prédio — disse, puxando um bloco de notas e uma caneta e
deslizando-os pelo balcão para Eight.
— Salva esses números no celular e peça para Suzette fazer o mesmo. São só
precauções, vocês vão estar seguras — explicou Eight.
Ela assentiu.
— Temos mais um homem conosco. O nome dele é Big Petey. Ele é mais velho,
tem um jeito mais tranquilo, não parece ser uma ameaça, mas ainda está na ativa.
Ele vai ficar com Suzette durante o dia, enquanto Hugger cuida de você... — os olhos
dela imediatamente se voltaram para Hugger — e os outros caras vão garantir que
tudo esteja sob controle aqui no apartamento. Tá me acompanhando?
— Ok, claro. Você ainda não entendeu direito no que se meteu. Vou esclarecer —
disse Eight, com paciência forçada. — Você e Suzette passaram essa
responsabilidade para nós. Agora, é com a gente. Vocês fazem o que mandamos,
quando mandamos, sem questionar. Vamos protegê-las da maneira que acharmos
melhor, e isso não é negociável. Ainda está comigo?
Ela abriu a boca para responder, mas Eight continuou antes que ela pudesse
dizer qualquer coisa.
— Ótimo. Não vai ser complicado. Se nada der errado, a vida segue normal. Você
trabalha, volta para casa. A única diferença é que sempre terá alguém te
acompanhando para o caso de Babić ter alguma ideia errada. Suzette fica aqui e está
protegida, dentro e fora. Mantemos as coisas sob controle enquanto tentamos
convencê-la a ir para algum lugar seguro, assim vocês saem do radar e a gente não
precisa proteger um maldito condomínio gigante em cima de um mini shopping.
Ela tentou falar de novo, mas Eight a interrompeu mais uma vez.
— Eu entendi que ela não quer te deixar. Mas vamos conseguir convencê-la, e
você vai ajudar nisso. Você não tem que se meter em um problema tão pesado.
Precisa sair dessa situação, e ela precisa estar em um lugar onde possamos controlar
todo o ambiente. Vamos conversar com Buck para ver se ele conhece algum policial
de confiança. Se tiver, passamos a informação de que ela “desapareceu”, mas, na
verdade, ela só estará segura, enquanto ele mantém o caso andando.
Ele respirou fundo, mas, mesmo assim, Diana não conseguiu se manifestar.
— Isso tem que acontecer o quanto antes. Vamos fazer com que ela confie na
gente, e depois tiramos você dessa história. Parece bom?
— Sim, nós deixamos nossas coisas no nosso alojamento temporário. Muzz vai
ficar aqui com você, Cruise e eu vamos circular para entender melhor a área e
marcar presença, e Hugger vai buscar as coisas dele e trazer para cá. Ele volta em
cerca de uma hora. Seria bom se você convencesse Suzette a sair do quarto. Hugger
é um cara grande, mas ele preferiria morrer a fazer mal a uma mulher. Ela vai
perceber isso, mas não se continuar trancada.
Diana rebateu:
— Você tem que dar espaço para ela lidar com as coisas no próprio tempo.
Eight assentiu.
— Claro, ela pode ter espaço, mas não temos muito tempo. Você não é ingênua,
sabe do que estou falando. Ou está com a gente, ou vamos ter que nos reunir e
encontrar outra solução.
E, para falar a verdade, ele gostou disso. Gostou da firmeza dela e do fato de que
não deixava nem mesmo alguém como Eight passar por cima.
— Não sei, por isso teríamos que nos reunir — respondeu Eight com calma. — O
que eu sei é que, de um jeito ou de outro, você está fora disso e Suzette estará
segura. Esse é o objetivo. E nós vamos alcançá-lo, custe o que custar.
— Desculpe, mas me permito estar um pouco confusa sobre por que vocês estão
tão dedicados a essa missão — ela comentou.
Eight sorriu.
Hugger começou a se dirigir para a porta, que ficava além de um arco que levava
a uma sala vazia, exceto por uma longa mesa de jantar branca (com cadeiras
estofadas em azul), um bar embutido e uma parede de vidro que exibia uma adega
climatizada.
Ficava claro que ela herdara aquele apartamento mobiliado, porque quase não
havia vinho ali.
Misericórdia.
— Então faz algo que possa ser mantido aquecido, mulher, porque eu não tenho
controle sobre o trânsito.
— Claro.
Merda.
Ele lançou um olhar carrancudo para Eight, que apenas sorriu de volta.
— Meu Deus, Diana, como uma situação completamente insustentável pode ficar
ainda pior? — exigiu Nicole no meu ouvido.
Sim, ela foi a única que conseguiu colocar um anel no dedo e caminhar até o
altar com um homem que nunca teve a intenção de honrar seus votos.
Sim, Nicole ainda era a assistente do meu pai quando ele ainda era casado com
minha mãe.
E, por último, sim, ao longo do tempo, Nicole me conquistou, porque ela era
simplesmente incrível.
Parte do que a tornava incrível era assumir suas próprias merdas, aprender as
lições que a vida jogava na cara, compartilhar esse conhecimento e estar lá para
mim. Mesmo - odeio admitir - nos momentos importantes em que minha mãe não
esteve.
Como quando menstruei pela primeira vez, quando fui ao meu primeiro
encontro, quando precisei do vestido perfeito para o baile e quando meu primeiro
namorado partiu meu coração.
Para sua informação, tudo isso aconteceu depois que meu pai a descartou.
Incluindo, obviamente, quando ela esteve ao meu lado depois que fui agredida
sexualmente em um encontro de estudos.
Perdi minha mãe para a traição do meu pai e para a espiral de destruição em que
ela entrou e nunca conseguiu sair. Posso dizer isso mesmo que, atualmente, ela viva
o que faz questão de exibir como uma vida idílica em Idaho — ao lado de um
babaca alcoólatra com um vício ocasional em cocaína e a mentalidade de um
homem das cavernas sobre o papel da mulher na sociedade. Mas ele tinha dinheiro,
minha mãe tinha três bolsas Birkin11, então, para ela, estava tudo certo.
Ou seja, Nicole, que sabia de tudo, não era exatamente uma entusiasta da minha
ideia de me envolver na situação de Suzette.
E muito menos aprovava tudo o que eu acabara de lhe contar: desde invadir o
escritório do meu pai para vê-lo pela primeira vez em uma década, até jogar a
verdade nua e crua para Janie e aceitar a ajuda de um grupo de motociclistas que eu
não conhecia nem de vista.
— Você precisa falar com aquele detetive Scott de novo — aconselhou Nicole.
11
As bolsas Birkin são bolsas de luxo feitas pela Hermès, uma das marcas mais exclusivas do mundo.
Elas são conhecidas por seu design sofisticado, materiais de altíssima qualidade e preços extremamente
elevados, variando de dezenas a centenas de milhares de dólares.
— Tenho certeza de que a polícia sabe muito bem o quão perigoso esse cara é.
Eles querem tirá-lo de circulação e vão fazer de tudo para mantê-la segura para que
ela possa testemunhar.
— Diana…
Ah, droga.
Ela disse meu nome naquele tom de “prepara-se, estou prestes a compartilhar
uma grande lição de vida.”
Eu sempre estava aberta a sabedoria, mas recebê-la nem sempre era divertido.
— …Eu poderia passar horas esfolando verbalmente o Nolan pelo jeito como ele
lidou com o que aconteceu com você na escola.
Pois é.
Lá vinha a lição.
— Mas isso não pode ser mudado — ela continuou. — Nem por ele. E, minha
querida, nem por você.
Para reforçar minha resistência, caminhei até a parede de janelas que dava para a
pequena varanda, encostei o ombro em uma delas e encarei o pátio sem realmente
vê-lo.
— Você é tão parecida com seu pai. Queria que vocês dois enxergassem isso
para poderem celebrar juntos essa semelhança — ela afirmou.
Como agora.
Se existia uma coisa no mundo que eu não queria ser, era parecida com meu pai.
— Não sei o que ele esperava que você fosse — ela prosseguiu. — Eu me
apaixonei por ele, casei com ele, e nem eu sei o que ele esperava que eu fosse. Só
sei que, para o Nolan, tudo se resume a expectativas. E a única pessoa que as atende
é ele mesmo. Ele só não percebe que isso acontece porque ele tem controle sobre o
que esperam dele. Ele decide se vale a pena perseguir algo e, se for, ele enfrenta o
desafio e o supera. Mas ele não pode fazer isso com outras pessoas. Você precisa ter
suas próprias metas e lutar por elas. Ele não pode fazer isso por você.
Ah, é.
Quero dizer, eu já sabia de tudo isso, claro. Mas ouvir em voz alta era outra
história. E, por alguma razão, em vez de me sentir validada, me trouxe de volta
àquela antiga sensação:
A de que eu sempre seria uma decepção para o meu pai, não importava o
quanto tentasse evitar.
E isso, por sua vez, me lembrou que, mais cedo naquele dia, ele me dissera que
estava orgulhoso de mim. E eu sabia que ele falava sério.
Eu ainda conseguia ouvir o tom de súplica na voz dele quando me fez o convite.
E ainda sentia o aperto que aquilo causou dentro de mim.
— E, por mais que me assuste saber que quatro estranhos apareceram no seu
prédio oferecendo ajuda, confio no seu julgamento. Então, você precisa trabalhar
com esses motociclistas para garantir que Suzette fique em um lugar onde as
pessoas certas possam ajudá-la de verdade — ela concluiu.
Suzette não tinha se aberto. E, quando digo isso, quero dizer que não contou
absolutamente nada.
Então, sim…
Ah, sim.
Isso era uma grande bagunça, e eu tinha me metido nela até o pescoço.
— Provavelmente não é, mas, em algum momento, ela vai ter que voltar para o
mundo dos vivos. O que ela precisa fazer para superar isso exige coragem. Todo
mundo precisa de um tempo para lamber as feridas. Mas, se continuar lambendo,
elas nunca vão cicatrizar.
Merda.
— Di?
— Eu fiz isso, não fiz? Depois do que aconteceu em Tucson… Não com aquele
cara. Com o meu pai. Eu não deixei as feridas fecharem.
— Nic?
Eu ia chorar.
Não podia chorar, não só porque odiava isso, mas também porque Hugger logo
estaria de volta, e eu não queria que ele me visse com os olhos inchados.
Também não queria pensar no motivo de não querer que Hugger me visse assim.
— Agora que você já tem idade suficiente, acho que está madura para ouvir o
que ele tem a dizer.
— Essa sua sabedoria toda pode ser bem cansativa — resmunguei, e ouvi sua
risada suave.
— Ele é um homem cheio de falhas, mas todos nós temos as nossas, inclusive eu
— declarou. — Uma delas foi me apaixonar por alguém que não era a pessoa certa
para mim. Mas isso me trouxe até você. E, por isso, não me arrependo.
— Você precisa parar de ser tão incrível, ou não vou conseguir enxergar direito
enquanto faço tacos para uma mulher com um alvo nas costas e um motociclista.
Ninguém quer lágrimas nos tacos. Acho que nem mesmo os motociclistas.
Nicole conheceu Larry um ano depois do divórcio com meu pai. Casaram-se dois
anos depois. Fui uma das damas de honra.
Ele era bonito, adorava Nicole como se ela fosse uma deusa e tinha dois filhos de
um casamento anterior. Ele não queria mais filhos. Nicole também não queria ter os
seus próprios, mas estava completamente disposta a espalhar sua incrível bondade
de madrasta, então fazia isso com os filhos de Larry, assim como fazia comigo.
Eles a adoravam.
Era um ganha-ganha-ganha-ganha.
Então… mais uma vez, Nicole era a única constante que eu tinha na minha vida.
Enviei meu amor de volta, desliguei e saí do meu quarto, indo até a porta
fechada do quarto de Suzette.
Eu bati.
Abri a porta e a vi encolhida na cama com o iPad nas mãos (na verdade, meu
iPad).
Ela era uma coisinha linda, mas tão pequena.
Droga.
Cabelos loiros fartos, olhos azuis enormes e o que antes era uma pele perfeita,
de porcelana.
Eu não conseguia imaginar alguém levantando a mão contra ela com raiva,
machucando-a de qualquer forma.
Só de estar ali, parada na porta do quarto, queria envolvê-la nos braços e apagar
todas as suas dores.
— Vou fazer tacos de peixe empanado na cerveja com salada. Quer ajudar? —
perguntei.
— Eles já foram?
Balancei a cabeça.
— Não. Muzzle ainda está aqui. Mas ele vai embora quando Hugger voltar.
— Acho que vou ficar por aqui. Não estou com muita fome.
A verdade era que ela quase não comia, e isso estava começando a me
preocupar. Ela era tão pequenininha. Precisava comer.
Também tinha passado por um trauma gigantesco e afundava cada vez mais em
uma depressão que, provavelmente, estava afetando seu apetite. Precisava se
alimentar, mesmo sem fome. Podia lidar com a depressão depois, mas não
conseguiria se estivesse enfraquecida.
Parei por um momento, então entrei no quarto. Antes era minha oficina, onde
meu chefe me deixava fazer alguns projetos menores em casa, o que era uma
vantagem.
Com a ajuda de Nicole, Larry, minha avó e alguns amigos, guardamos minhas
coisas e montamos um espaço só para Suzette. Colocamos uma cama de casal,
roupas de cama bonitas, criados-mudos, luminárias, uma cômoda e uma TV.
Eu evitava dizer o nome dele. Ela sempre estremecia quando ouvia, então eu
tentava não mencioná-lo.
— Então eles estão me usando para chegar até ele? — ela perguntou.
E lá estava.
O estremecimento.
Droga.
Dei de ombros.
— Não sei, querida. Eles nem sabem por que, hum... aquele-que-não-deve-ser-
nomeado decidiu focar neles. Também estão tentando entender isso, como
expliquei quando falamos sobre isso mais cedo.
— Concordo. Mas caso você não tenha notado, eu não sou o Jason Statham.
— Estamos seguros aqui, eu realmente acredito nisso — disse a ela. — Mas não
posso negar que estamos muito mais seguros com aqueles caras por perto.
— Sem pressão. Eu disse que não iria forçar, e falei sério. Mas aviso logo: posso
não te pressionar, mas minha motivação pode ser um pouco mais intensa.
Ela sorriu com isso, não muito, mas foi um sorriso real antes de dizer:
— Considero-me avisada.
Ela assentiu.
Se ela comesse, junto com aquele sorriso, já seria uma vitória para a noite.
Saí do quarto dela, fui até o meu, troquei de roupa e coloquei um short jeans
desfiado e uma camiseta preta fofa, com mangas bufantes e um decote em V
profundo (e eu ignorei o fato de ter escolhido uma blusa semi-elegante com decote,
sendo que dificilmente a usaria para ficar em casa _ era mais uma peça para um café
ou cinema). Então, segui para a cozinha.
Muzzle estava esparramado no meu sofá, todo seu estilo de motociclista durão,
vestindo jeans surrados e uma camiseta, com o olhar fixo na TV, onde passava um
documentário sobre crimes reais.
Ele me olhou, seu olhar desceu até minhas pernas, ficou preguiçoso por um
segundo e depois voltou para os meus olhos.
— Não é bom saber que existem outros desgraçados por aí que as pessoas têm
que lidar. Mas, ao mesmo tempo, é bom saber que não somos os únicos lidando
com esses desgraçados o tempo todo.
Interessante.
— As pessoas têm problemas. A polícia não consegue resolver, ou elas não têm
dinheiro para advogados, investigadores particulares ou seja lá o que precisem para
se livrar do problema. Então, elas vêm até nós... e nós resolvemos.
Interessante.
— Pelo visto, nosso curto convívio ainda não me ensinou a decifrar seus olhares
significativos — comentei, enquanto começava a preparar o jantar.
Eu o encarei.
— Isso, nem as old ladies sabem. Tem coisas que são só da irmandade, Diana. E
ninguém entra. Não se trata de excluir as mulheres. É sobre manter qualquer um que
não seja um irmão de fora. Aprenda isso desde já.
Eu não sabia se precisava dessa lição para o, com sorte, curto período de tempo
que levaria para garantir que Suzette estivesse em um lugar verdadeiramente
seguro.
Mas guardei a informação mesmo assim.
— Vou comer.
— Quer ajuda?
— Só se não tiver outra opção. Mas se uma mulher com um corpo incrível, um
belo traseiro, pernas matadoras e um sorriso bonito pedir, eu posso improvisar.
Nenhum homem jamais havia falado sobre meu corpo, diretamente para mim,
com tanta franqueza... e, ainda assim, me senti altamente lisonjeada.
— Sim, mas só por hábito — ele afirmou. — Se fosse sério, você saberia. Mas não
posso ser sério porque Hugger me faria comer minhas bolas no café da manhã, e eu
gosto delas onde estão.
Meu coração apertou de um jeito estranho com essa declaração.
— Hã... sim.
Ele piscou para mim, depois foi até a geladeira, pegou um repolho e disse:
Hmm.
Não insisti, porque prometi a Hugger que o jantar estaria pronto quando ele
voltasse. Ele já estava fora há uns vinte minutos, então precisávamos agilizar.
Isso ficou claro quando temperei o peixe, deixei a massa descansando e ele me
afastou com firmeza quando peguei a frigideira e o óleo.
Bom saber.
Sua força era magra e definida, enquanto a de Hugger era massiva e, bem...
igualmente definida.
Muzzle tinha cabelos castanho-escuros, longos e bagunçados, além de uma
barba por fazer, mas sem ser uma barba cheia. Seus olhos eram cor de avelã, com
um tom âmbar hipnotizante no centro.
Hugger não era nada disso. E, ainda assim, ali estava eu, cozinhando ao lado de
Muzzle sem o menor traço daquela ansiedade incômoda que aparece quando
estamos perto de um homem atraente que queremos conhecer melhor.
Eu nunca fui do tipo tímida com homens que me interessavam, então não era
isso.
Já tive minha experiência com neve. Ela é linda - se você estiver dentro de casa,
tomando um chocolate quente e assistindo a filmes da Hallmark12. Fora isso, eu não
queria ter que lidar com ela.
Mas esse não era o único motivo pelo qual eu não tinha a menor intenção de
deixar Phoenix. Os outros eram bem mais importantes, e seus nomes eram Nicole,
Vovó, Larry e todos os meus amigos. Sem falar no meu trabalho.
Além disso, nunca ouvi uma história de relacionamento à distância que tenha
dado certo. Tampouco conheço alguém que tenha largado tudo e se mudado para
12
São conhecidos por suas histórias leves, românticas e reconfortantes, especialmente os famosos
filmes de Natal.
ficar com alguém - normalmente a mulher - e a coisa tenha terminado bem. Sempre
acaba sendo um desastre, tanto emocionalmente quanto financeiramente.
E, para piorar, a maior parte do problema era que eu nem tinha certeza se ele
gostava de mim ou se apenas me achava uma idiota.
Droga.
Ele parou, olhou para mim, depois para Muzzle, em seguida para o peixe fritando
na frigideira e, por fim, voltou a me encarar—primeiro para o meu decote, depois
para os meus olhos.
Eu comecei a rir.
Então disse:
— Vem comigo.
Parei na porta do meu closet e me virei, vendo Hugger dar alguns passos para
dentro do cômodo, analisando tudo ao redor.
Não.
A felicidade que me invadiu ao vê-lo no meu quarto estava bem mais ao sul.
— Acho que você não deveria dividir o banheiro com a Suzette — afirmei.
— Ela precisa do espaço dela e de se sentir totalmente segura. Então, você pode
guardar suas coisas no meu closet e usar meu banheiro.
— Certo — respondeu.
— Certo.
— Entendido.
— Tenho duas pias lá. Pode se acomodar. Você vai perceber qual delas não está
em uso e pode ficar com ela.
Franzi a testa.
— Você tem problema com minhas coisas espalhadas pelo chão do closet?
Pensei por um segundo.
— Totalmente.
Ele balançou a cabeça de um jeito que parecia dizer essa mulher é um caso
perdido e disse:
— Faço isso depois do jantar — avisei. — E, só pra você saber, eu não tenho um
sofá-cama, mas podemos tirar as almofadas do encosto, e o assento é bem largo. Eu
durmo nele o tempo todo. É super confortável.
Meu Deus, eu queria muito saber a história por trás desse “topo de um bar”.
— Beleza — respondi.
— Acabamos aqui?
— Sim.
— Posso largar minhas coisas e ir comer?
— Sim.
E eu também não, porque ele estava olhando para minha boca de um jeito que
nenhum homem jamais olhou antes. Isso me fez sentir tantas ondas de felicidade
pelo corpo que eu não tinha certeza se conseguiria sair do lugar.
Ele quebrou o encanto, passou por mim, e eu me afastei para dar passagem.
Então, ele “largou suas coisas” dentro do meu closet.
— O peixe está esfriando, e eu não fiquei me matando nesse óleo pra servir peixe
encharcado!
Isso me fez sorrir de novo porque, pode me chamar de maluca, mas eu estava
começando a gostar desses caras.
Capítulo 5
MERDA
Diana
Mais cedo, ao sair para preparar o café, vi Hugger deitado de costas no meu sofá.
Eu tinha preparado um lugar para ele dormir: um lençol sobre o sofá, outro para se
cobrir, um cobertor e dois travesseiros extras. Também tirei as almofadas do encosto
para dar mais espaço - ainda assim, ele parecia ocupar tudo.
Seu braço estava jogado sobre os olhos e, pelo que pude perceber, além das
botas estarem no chão ao lado do sofá, ele ainda vestia as mesmas roupas do dia
anterior.
Por último (algo que tratei de tirar da minha mente no instante em que vi), havia
uma arma sobre a mesa de centro, bem próxima dele.
Quando voltei, já vestida e pronta para o café da manhã, ele estava sentado no
sofá, encarando a mesa de centro com um olhar perdido, enquanto tomava um gole
de café. Seu cabelo estava ainda mais bagunçado que o normal. Até a barba parecia
mais desalinhada.
Enquanto preparava aveia, ouvi o chuveiro ligar e tentei ao máximo não pensar
em Hugger tomando banho ali.
Falhei.
E então, congelei.
Ele vestia uma camiseta preta justa sobre o peito largo, jeans desbotados e o
cabelo ainda úmido, penteado para trás, destacando ainda mais sua beleza
marcante.
— Sim — respondeu, indo direto para a cafeteira. Fiquei feliz por ter feito uma
jarra cheia, pois estava claro que ele tomava café do mesmo jeito que eu.
13
Smoothie é uma bebida cremosa e gelada, feita à base de frutas, vegetais, iogurte, leite ou sucos
naturais, geralmente batidos no liquidificador com gelo ou outros ingredientes.
— Cereal — decidiu, colocando a jarra de volta no suporte.
— Puta merda.
Ele pegou uma tigela grande de massa, em vez de uma tigela normal de cereal.
— Basta apertar o botão verde no painel ali — indiquei com a cabeça. — Isso
libera o acesso até o hall de entrada. Depois, aperte o azul. Ele terá cinco minutos
para chamar o elevador e poder subir até o meu andar.
Hugger foi até o painel, apertou os botões e voltou para seu cereal.
Parei no meio do movimento, pela segunda vez naquela manhã, ao ver Big Petey.
A boa notícia era que Suzette provavelmente não teria nenhum problema em
passar um tempo com ele. Assim como os outros caras, ele tinha um jeito bruto, mas
a bondade em seus olhos era evidente.
A má notícia era que, se houvesse algum perigo, eu duvidava que Big Petey seria
capaz de impedir que ele me encontrasse.
Depois de terminar o que estava fazendo, me aproximei de Big Petey com a mão
erguida.
— Prazer em te conhecer.
— O prazer é meu, querida — ele respondeu, apertando minha mão com firmeza
e simpatia antes de soltá-la.
— Obrigado, querida.
Voltei para a cozinha e peguei uma caixa de caldo. Estava despejando sobre o
frango quando Hugger perguntou:
— Preparando o jantar.
— Agora?
— E vamos comer de novo hoje. E se você tiver algum problema com isso,
engole o choro, porque provavelmente vamos comer amanhã também.
— Taco é taco. Ninguém nunca recusa um taco — ele declarou, como se fosse
uma verdade universal. Mas então, se desviou do caminho certo: — A menos que
tenha que comer todo santo dia.
— Não se preocupe, eu tenho um repertório inteiro de tacos. Você já provou o
de peixe empanado na cerveja. Hoje é de frango desfiado. Depois tem de carne
desfiada, carne moída, camarão, peixe grelhado... Ah, também tem frango grelhado,
fajitas, steak... e...
— Pare.
Não gostei nada daquele gesto (embora, sem dúvida, fosse uma grande e bela
mão de dedos longos - Deus, alguém me mate). Franzi o nariz para ele.
Ele encarou meu nariz do mesmo jeito que havia olhado para minha boca na
noite anterior, e então baixou a mão.
O olhar dele desceu para a altura dos meus quadris e ele murmurou:
— Aprovado.
Dito isso, Big Petey foi se acomodar no sofá. Voltei a organizar a panela elétrica.
E, para minha surpresa, Hugger enxaguou a tigela, a colher e a caneca de café,
colocando tudo na lava-louças.
Sem mais desculpas para adiar, algo que eu queria fazer porque não sabia se ela
estava pronta para isso - e eu certamente não estava pronta para forçá-la - mas sem
escolha (sem mencionar que eu precisava trabalhar), avisei a Big Petey:
Caminhei pelo corredor, bati suavemente na porta e fiquei surpresa quando ela
se abriu imediatamente alguns centímetros, revelando Suzette.
Ela já estava vestida, o que era algo característico dela. Só a vi de pijama uma
única vez - numa noite em que eu fazia maratona de TV na sala e, bem tarde, ela foi
e voltou do banheiro.
Fora isso, ela sempre parecia pronta para qualquer coisa, o tempo todo. Até
mesmo de tênis.
Mas eu entendi.
— Ei, o Big Petey está aqui. Quero que você o conheça antes de mim e do
Hugger sairmos.
Assim que a viu, uma expressão de pura fúria cruzou seu rosto por um instante
antes de ele se controlar e sorrir para Suzette.
— Não estou com muita fome — respondeu, e considerando que ela tinha
comido dois tacos na noite anterior, dessa vez, talvez fosse verdade.
— Pode ser, mas todos precisamos comer, e o café da manhã é a refeição mais
importante do dia — Pete rebateu, então olhou para mim. — Você tem ovos e
bacon?
Big Petey abriu um sorrisão para Hugger, mas parou com isso assim que seguiu
para a cozinha.
Pete se virou para ela, mas não lançou um olhar de Avô Motociclista!
Em vez disso, usou um olhar de Pai Preocupado, Então É Melhor Você Me Ouvir!
e respondeu:
Eu estava percebendo que isso poderia funcionar, pelo menos em certo nível.
Pete era mais insistente do que eu me sentia confortável, mas Suzette
aparentemente respondia bem a isso.
Ainda assim, eu tinha minhas preocupações quanto à idade dele e ao real motivo
de estar ali.
A proteção de Suzette.
Mas, pelo jeito como ela o observava se familiarizar com a minha cozinha, era
evidente que ela não compartilhava dessas preocupações.
Não me pergunte como eu soube que ele estava se referindo a mim. Talvez
porque fosse improvável que ele estivesse chamando Suzette, e com certeza não
estava se dirigindo ao Big Petey.
Virei-me para ele e, de fato, ele falava comigo.
— Estamos ótimos. Vai. Nos vemos mais tarde para os tacos — Pete respondeu.
Sorri para os dois, fui até a sala de jantar, peguei minha bolsa e saí com Hugger
logo atrás.
Lentamente, ele abaixou a cabeça para olhar meus dedos tocando o tecido.
Soltei a camiseta.
— Hm...
Hugger falou:
— Para de se preocupar. Ele sabe o que está fazendo. Ink e Driver estão lá fora
com o Muzzle, vigiando tudo. Além disso, hackeamos as câmeras do prédio ontem à
noite.
— O Resurrection tem um aliado que faz esse tipo de coisa. Ele também tem um
software de reconhecimento facial e acesso a fotos de todos os associados
conhecidos de Imran Babić. Se algum dos caras dele, ou qualquer um que não nos
passe uma boa impressão, se aproximar do saguão dos elevadores, recebemos um
alerta na hora.
Estava me sentindo bem mais segura com o alcance dos serviços de segurança
dos motociclistas enquanto as portas do elevador se abriam e saíamos.
— Muitos.
Definitivamente, eu estava me sentindo muito melhor.
Foi então que percebi que ele estava me empurrando para fora, em direção à
entrada principal do complexo, e que não estávamos no meu andar de
estacionamento. Claro que não estaríamos, já que nenhum de nós usava um
chaveiro eletrônico para acesso.
Parei.
— Vamos de moto.
Algo quente brilhou nos olhos dele, mas ele apenas disse:
O olhar dele subiu para minha cabeça, e sua voz saiu com um tom áspero
quando respondeu:
— Confia em mim.
Minha voz ficou mais aguda, porque, para ser sincera, eu não estava nada segura
sobre subir naquela moto com ele.
E não era só por causa do meu cabelo.
— Eu estou de salto!
Sim, saltos nude de verniz, combinados com uma calça cropped14 rosa-claro e
uma blusa de gola careca azul-bebê, toda de seda. Eu estava totalmente vestida para
um ambiente de negócios casual, não para um passeio de moto.
— Entendeu o quê?
— O quê?
— O quê?
Ele entrou de vez, fechando a porta atrás de si, e não fez isso para explicar suas
palavras.
Eu não tinha pensado nisso, mas agora que ele mencionou, percebi que era um
problema.
Eu também nunca tinha pensado nisso, mas agora que ele disse, isso me irritou.
14
A vestimenta cropped se refere a qualquer peça de roupa que tenha um comprimento mais curto
do que o padrão, deixando parte da barriga ou cintura à mostra. O termo é mais comumente usado para
blusas, tops e jaquetas, mas também pode se aplicar a calças e casacos com um corte encurtado.
— Se você bater em um SUV ou numa caminhonete, que é basicamente o que
mais tem nesta cidade... uma cidade onde, pelo que percebi, as pessoas fazem o que
bem entendem, ignorando completamente as leis de trânsito, que, por sinal, são leis
de verdade, você está ferrada.
Eu nunca tinha pensado nisso também, e não podia dizer que ele estava errado.
Agora, simplesmente deixava todo mundo seguir seu caminho. Desde que eu
chegasse em casa inteira e sem sentir a necessidade de afiar facas, estava ótimo.
Droga!
— Terceiro, por causa do primeiro e do segundo motivo, meu traseiro nunca vai
entrar nesse pedaço de lata que você chama de carro — ele concluiu.
— Ok, Hugger, posso estar no terceiro dia da minha escova, mas isso não
significa que quero que ela seja arruinada..
— Sua o quê?
— Escova.
Eu também não.
Não sabia exatamente quanto tempo se passou, mas, se tivesse que adivinhar,
diria que foram uns bons cinco minutos. O que significava que eu estava prestes a
me atrasar para o trabalho.
Não que minha chefe fosse se importar. Ela nem estaria lá.
Argh!
Ele se virou e saiu pela porta antes de mim, soltando um baixo e rouco “Hm”.
Aquele som fez um estrago nos meus mamilos, e, numa tentativa de ignorar isso,
soltei um suspiro irritado.
Merda.
Capítulo 6
ELE TROUXE BISCOITOS
Diana
Ele pagou.
Não discuti, porque brigar por quem paga a conta era uma das minhas irritações
pessoais. Se alguém se oferecia ou insistia em pagar, por que discutir? Claro, isso me
fez desenvolver ótimas habilidades para insistir em pagar primeiro, mas, dessa vez,
Hugger foi mais rápido.
Para começar, descobri que a presença de Hugger no trabalho não seria apenas
ele circulando discretamente do lado de fora da oficina, de olho em tudo.
Isso me deixou feliz pelo fato de minha chefe ter um dia cheio de compromissos
fora, porque eu realmente não sabia como explicaria por que precisava de um
homem me fazendo companhia no trabalho.
15
Sack's é uma rede de lanchonetes em Phoenix, Arizona, especializada em sanduíches gourmet,
saladas, sopas caseiras e massas.
Felizmente, era sexta-feira, e eu teria até segunda para pensar em uma
explicação.
Outra coisa que não saía da minha cabeça era que, a princípio, foi estranho ter
Hugger ali enquanto eu trabalhava.
Mas, na maior parte do tempo, ele ficou mexendo no celular e, por uns trinta
minutos, recostou a cabeça para trás, cruzou os braços sobre o peito e apoiou as
botas no parapeito da janela. Eu podia jurar que ele tirou um cochilo (eu já sabia que
aquele sofá não seria confortável para ele).
A última coisa que ocupava minha mente era que andar na garupa da moto de
Hugger, com ele, havia se tornado uma espécie de revelação.
Havia algo libertador naquilo. O sol na pele. O vento nos cabelos (e, sim, eu
estava errada de novo, e Hugger, certo - não era tanto vento assim, meu cabelo
precisou de um pouco de ajeite, tanto no trabalho quanto depois que passamos no
Sack’s, mas não tanto quanto imaginei, provavelmente porque não dava para correr
muito nas ruas da cidade).
Mas, acima de tudo, era sobre me entregar a Hugger. Confiar nele. Sentir seu
cheiro. Encaixar meus polegares nos passantes do cinto de sua calça. Sentir o calor
que emanava de seu corpo. Perceber sua força. Observar sua concentração atenta
por trás dos óculos escuros enquanto ele manobrava pelas ruas, mantendo nós dois
seguros em sua moto.
Era incrível.
E eu tinha que admitir que também me deixava ainda mais envolvida o fato de
que ele era ele - jeans, camiseta, cabelo bagunçado, barba grande - e eu era eu -
balayage, calça rosa cropped e scarpins.
Eu sabia que Hugger era um certo tipo de encrenca, e que eu precisava pisar
com cuidado.
Mas agora começava a perceber que ele era, sem dúvida, um problema e tanto, e
eu teria que me cuidar.
Depois que terminei com ele, ela terminou com o namorado dela, e os dois
ficaram juntos. Duraram um tempo, chegaram até a ficar noivos. Mas, em um
desfecho espetacular (e humilhante para ele), ela voltou para o ex, e ele tentou
voltar para mim.
Mas o que estava acontecendo com Hugger não era sobre isso.
Era sobre Suzette e o fato de eu precisar focar nela.
Era sobre Suzette e o fato de ela precisar de todo tipo de apoio, sem ter que
assistir, bem diante do nariz, duas pessoas orbitando uma à outra (e tudo o que isso
poderia significar).
E era sobre o fato de que ele não demonstrava nenhum desejo de que meus
polegares saíssem dos passantes de seu cinto, nem que meus braços deixassem de
envolvê-lo, nem que minha bochecha se afastasse de seu ombro.
— Você cospe em pinturas para ganhar a vida. Como conseguiu um apê tão
legal?
— Ganhei na roleta. Treze preto. Isso foi uns três meses antes do meu avô falecer
devido a um derrame e me deixar algum dinheiro.
— Quem é Larry?
— Meu… sei lá. O marido da minha ex-madrasta. Então, acho que ele é meio que
meu padrasto, de um jeito distante.
Hugger me observou, seus olhos castanhos analisando algo que eu não sabia ao
certo o que era.
— Imagino que você ainda seja próxima da sua madrasta — ele comentou
enquanto eu mordia meu sanduíche.
Mastiguei e assenti.
— Que tipo?
— O tipo que deixa o papai pagar tudo. Larguei a faculdade por causa de uma
briga com ele. Cansei desse tipo de coisa entre nós, embora essa tenha sido a pior
de todas. Como ele pagava minha mensalidade e praticamente tudo na minha vida,
eu dei um basta. No final, fiz tudo sozinha. Claro, minha avó, meu avô e minha mãe
sempre me deram cheques bem generosos de aniversário e Natal para ajudar. Mas,
no geral, fui eu que conquistei tudo.
— E tem que ser mesmo. Você mandou seu pai se ferrar e construiu tudo isso, e
nem chegou aos trinta ainda. Sim, tem que se orgulhar.
Engasguei com minha própria saliva, que seria capaz de limpar uma camada
inteira de um quadro a óleo.
Me recompus e prometi:
— Certo — ele murmurou, inclinando a cabeça para trás para despejar os últimos
farelos do pacote de batatas na boca.
Eu gostava disso.
Eu definitivamente precisava tomar muito cuidado.
Principalmente agora.
— Estou falando sério. Não tenho nenhum problema com trabalhadores do sexo
— afirmei.
— Vamos não — retruquei com firmeza. — Não conheço sua história, mas
consigo captar um pouco dela. Se sua mãe queria essa vida para você e você a
seguiu, então imagino que vocês eram próximos e que ela era muito importante
para você.
— Ela era tudo para mim — ele disse baixinho, deixando transparecer o quanto
ela significava.
E era tanto… que um arrepio subiu pela minha espinha com a intensidade disso.
— Meu Deus, Hugger — sussurrei, sentindo meus olhos arderem. — Sinto muito.
Ela devia ser jovem.
— Ela era uma mulher incrível — ele afirmou, afastando meu toque de forma
gentil, mas firme.
Senti o peso daquela perda. Era demais. Mas engoli em seco, enterrei isso dentro
de mim e apenas assenti.
— Aposto que sim. Afinal, ela criou um homem como você — comentei.
— O que você quer dizer com "o que isso quer dizer?"
Encarei-o.
Então disse:
— Bom... sim.
Ele se recostou, já tendo terminado a comida, exceto pelo biscoito que vinha
com o sanduíche. Talvez ele não gostasse de biscoitos (o que me chocaria até o
fundo da alma), mas se não gostasse, isso significava que eu poderia comer.
A voz dele soou estranha, áspera, quase gutural quando ele afirmou:
Reagi ao tom dele, pensando que essa conversa era intensa demais para um
restaurante de sanduíches e para duas pessoas que, provavelmente, eram apenas
navios passando na noite.
E por mais que essa última parte fosse uma droga — já que provavelmente era
verdade — eu não precisava fazê-lo reviver tudo isso.
— Eu também.
— Sim.
Franzi a testa.
Droga!
Era um biscoito pequeno, mas ele fez questão de colocá-lo inteiro na boca e
mastigar lentamente.
Suspeitei que estivesse indo ao banheiro. O que eu sabia era que meu horário de
almoço estava acabando e que eu tinha um prazo para finalizar a limpeza de uma
pintura a óleo. Precisava comer rápido para seguirmos com o dia.
Argh.
— Oi, pai.
— Olá, Diana.
— Escuta...
— Conversei com o detetive Scott. Ele me garantiu que tem total aprovação do
departamento para fornecer um local seguro e proteção para Suzette Snyder até o
julgamento, mesmo que ainda falte meses. Ele também está em contato com o FBI,
que tem interesse nesse caso. Eles querem falar com ela e, dependendo do que tiver
a dizer, podem oferecer proteção especial como testemunha.
— Sei que você já tem idade suficiente para tomar suas próprias decisões e que
um conselho do seu pai pode não ser bem-vindo — ele continuou. — Mas ainda
assim, eu recomendo fortemente que você fale com ela e a convença a aceitar essa
oferta da polícia.
— Você desistiu?
— Sim.
Eu ia chorar.
Merda!
Eu definitivamente ia chorar!
Uma lágrima escapou dos meus olhos e deslizou pelo meu rosto.
Instantaneamente, Hugger pegou meu celular da minha mão.
— Quem é? — ele rosnou ao atender. Houve uma pausa, então ele retrucou: —
Não importa quem eu sou. Eu perguntei, quem diabos é você?
— Hugger — sussurrei.
— O quê? — ele rebateu no telefone. Então, sem rodeios: — Nem fodendo que
vou passar o telefone pra ela. Não entre mais em contato com ela, a menos que ela
te procure. Entendeu?
Ele arrastou sua cadeira para mais perto, até que nossos joelhos se tocassem. E
se sentou ali, bem na minha frente.
E, com isso, ele se levantou, empurrou a cadeira para trás, pegou minha mão e
me puxou para fora do assento.
Tive tempo apenas de agarrar meu biscoito e enfiá-lo na boca (não podia deixá-
lo para trás). Ele pegou a sacola e me entregou antes de me puxar para fora do
Sack’s.
Guardei os biscoitos na minha bolsa, a joguei no ombro e, assim que ele montou
na moto, subi atrás dele como se já tivesse feito isso mil vezes - quando, na verdade,
era só a segunda.
Muita coisa passava pela minha cabeça. Janie. O convite para jantar com meu pai.
Babić. Suzette. O FBI.
Era demais.
Tanto que, sem pensar, envolvi Hugger com os braços e encostei minha
bochecha no ombro dele enquanto ele saía do estacionamento do Sack’s.
Quase lá.
Desci da moto. Ele também. Mas quando ele pegou minha mão para me levar
para dentro, eu o segurei, interrompendo seu passo.
— Não, Hugger, eu quero dizer... esse cara. — Sacudi a cabeça. — Ele não é
normal. Isso vai irritá-lo? Meu pai está em perigo?
— Ele tinha outro escritório de advocacia com o qual trabalhava. Babić. Eles o
abandonaram depois que ele foi preso pelo que fez com Suzette. Não sou viciada
em notícias, mas não ouvi falar de nenhum advogado local que tenha morrido de
forma suspeita. Então, talvez ele não mande matar meu pai... ou faça seja lá o que
esses caras fazem.
Podíamos.
Podíamos fazer qualquer coisa que ele pedisse se ele finalizasse assim, com esse
doce "baby".
Ele pegou as chaves de mim, destrancou a entrada e nos conduziu para dentro.
Depois de trancar a porta atrás de nós, ele me guiou até a sala onde ficava meu
estúdio de trabalho - um dos dois únicos, já que só eu e Annie trabalhávamos ali.
— Me conta tudo.
— Nós… como eu disse, tivemos uma briga. Foi feio. Eu o afastei completamente.
Quando ele soube que Suzette estava comigo, pediu para conversar. Meio que me
impus a ele, aparecendo no seu escritório sem avisar. E foi… bem, foi para um lugar
que eu jamais imaginaria. Do jeito dele, ele deixou claro que sentiu minha falta. Que
o fato de eu tê-lo afastado foi difícil para ele. Que ele… queria conversar. Parecia que
queria acertar as coisas.
— Certo.
— Eu disse que a única maneira de eu considerar isso era se ele deixasse o Babić
como cliente.
Assenti.
— Não — ele respondeu com firmeza. — Manda uma mensagem. Diz que está
processando tudo. Dá a ele algo sobre o gesto que fez. E avisa que está
considerando o jantar.
— Está bom?
Enviei a mensagem.
Abri.
Um minuto.
— Ele disse "um minuto" — informei a Hugger, depois soltei uma pergunta que
ele não tinha como responder: — O que isso significa?
Ele apenas deu de ombros.
Fiquei encarando o telefone. Continuei olhando para ele. Mesmo assim, levei
outro susto quando ele vibrou de novo.
Desculpe. Precisei adiar uma reunião com um cliente. Você está bem?
— Certo.
Enviei a mensagem.
Ah, droga.
— Mas…
— Diz, Diana.
— Então, eu vou.
— Por quê? Porque você não quer levar um motociclista para jantar com seu pai?
Eu tinha certeza absoluta de que meu pai não ficaria nada feliz ao saber que
Suzette e eu tínhamos uma equipe de proteção. E, infelizmente para ele, isso seria
em parte porque eram motociclistas.
Enviei a mensagem.
Ele não esconde isso. Isso me traz alívio. Saber que vocês duas estavam
sozinhas me preocupava. Um namorado protetor me tranquiliza.
Ah, merda.
— Para de sorrir, seu grandalhão. Sei que isso vai voltar para me morder na
bunda.
— Então você nunca leu um romance onde o truque do namorado falso acaba
ferrando a mocinha?
— Não, nunca li — ele admitiu sem hesitação.
Urgh!
Vou esperar você me avisar se vamos ou não jantar. Espero que aceite.
Gostaria muito de saber o que está acontecendo na sua vida e ter você de volta na
minha. Por favor, pense bem nisso, Florzinha.
— Por que isso fez você bater a cabeça com o celular? — perguntou. — Esse é o
jeito dele de pressionar você sem parecer que está fazendo isso?
Balancei a cabeça.
— Não. É porque ele não me chama de Florzinha desde que eu tinha, sei lá, uns
doze anos.
— Me devolve o celular.
Digitei: Eu vou. Vou pensar bastante, pai. Por favor, tenha cuidado.
Revirei os olhos.
Hugger se levantou, voltou com a cadeira para perto da janela, se jogou nela,
apoiou as botas no parapeito, cruzando os tornozelos, e pegou o celular.
Sem outra opção, considerando que eu tinha uma hipoteca para pagar - e isso
exigia que eu trabalhasse para ganhar meu salário - voltei minha atenção para a
pintura, peguei um cotonete e recomecei o trabalho.
Capítulo 7
QUANDO NÃO É?
Hugger
Mesmo assim, não confiava nisso. Talvez fosse porque nunca esperou por isso.
Talvez porque, no fundo, nunca realmente quis. Ou talvez porque simplesmente
nunca achou que teria. Ou ainda, porque desde que se entendia por gente, tinha
certeza de que isso nunca aconteceria com ele.
Estava acontecendo.
Já vinha se desenhando desde que ele segurou o pulso dela no elevador e, com
certeza, se intensificou durante o almoço - e tudo o que aconteceu depois. Mas
Hugger realmente percebeu quando chegaram ao apartamento dela, depois do
trabalho.
Assim que entraram, encontraram Big Petey e Suzette instalados no sofá da sala.
— Vi seus livros e achei que você não se importaria — explicou Pete, enquanto
Suzette apenas olhava para Diana e corava, como se tivesse sido flagrada fazendo
algo errado.
Com uma expressão que parecia indicar que Pete acabara de anunciar que algum
médico havia descoberto a cura do câncer, Diana respondeu:
— De jeito nenhum!
Aquilo dizia muito sobre o quanto Suzette era reservada, não que Hugger já não
tivesse notado.
Então veio a notícia de que Big Petey havia dito a Eight que o jantar seria tacos
de frango e que Eight, Muzzle e Driver queriam saber se poderiam aparecer.
Isso irritou Hugger. Diana não precisava alimentar a equipe toda noite.
— Com certeza! — ela respondeu animada. E, sem perder tempo, correu para a
cozinha, onde abriu e fechou armários, a geladeira, pegou um bloco de notas de
uma gaveta, rabiscou algumas coisas, arrancou a folha e a ergueu no ar,
perguntando:
Pete claramente não queria sair de perto de Suzette, então Hugger foi até o
armário pegar suas alforjes vazias para levar as compras na moto.
Enquanto estava lá, algo o atingiu, algo que não havia notado na noite anterior,
quando desfizera as malas. O armário dela era grande, mas não estava cheio. Ela
havia reservado um espaço para ele, com cabideiros, prateleiras e gavetas, mas não
precisou se esforçar muito para isso.
Ela poderia ter dinheiro para viver bem, mas o que disse no almoço era verdade.
Ela não era esse tipo de mulher.
Não era a filha de um advogado rico que tinha de tudo, fosse porque lhe davam,
porque se endividava para conseguir ou porque gastava tudo o que ganhava para
ter.
Ao voltar para a cozinha, viu que Suzette estava ajudando Diana, Big Petey ainda
dominava o sofá com uma cerveja na mão, e Diana entregava a lista de compras
para ele, sorrindo.
Merda.
Aquele sorriso.
Pelo contrário.
Parecia estar no seu elemento. Como se aquilo fosse exatamente o que queria
fazer numa sexta-feira à noite depois do trabalho.
Ela lhe disse onde encontrar um mercado. Pete informou que já tinha falado para
Eight que eles ficariam encarregados de trazer a cerveja. Hugger partiu e, ao voltar,
encontrou a mesa posta para o jantar. Diana e Suzette estavam na cozinha,
ocupadas com os preparativos. E Eight, Muzzle, Driver e Pete estavam na sala,
bebendo cerveja e conversando.
— Maravilha! — exclamou Diana ao vê-lo, indo direto até as sacolas que ele
colocara no balcão.
Hugger lançou um olhar para Suzette, que parecia ignorar os homens na sala
enquanto abria latas de feijão, mas, pelo menos, estava ali entre eles.
Hugger pegou uma cerveja, foi para a sala de estar e, vinte minutos depois,
todos estavam reunidos em volta da mesa de Diana, que estava coberta com
ingredientes para montar tacos: carne, alface, tomates e cebolas picadas, queijo,
molho, além de arroz espanhol, feijão refrito e um prato de milho que Diana
chamava de elote16 - e que era absurdamente bom.
Ela colocou Pete na cabeceira da mesa e posicionou Suzette entre ele e ela
mesma, criando uma espécie de casulo seguro e familiar para Suzette se sentir
protegida enquanto estava com o grupo.
Muzz sentou-se ao lado de Pete, e Hugger ficou ao lado dele para ficar de frente
para Diana. Eight sentou-se ao lado de Diana, e Driver ficou ao lado de Hugger.
O resto foi exatamente como sempre acontecia desde que Hugger se juntara ao
Chaos: muita zoeira, provocações, histórias, risadas, conversas e um pouco de papo
furado.
16
Elote é um prato tradicional mexicano feito com espiga de milho grelhada ou cozida, servida com
diversos acompanhamentos saborosos.
Ela assentiu.
— Mais carne, menos gordura, mais sabor — ela explicou. — Não faço ideia de
como eles conseguem, já que o sabor normalmente está na gordura, mas eles
conseguem. É tipo magia.
Todos, exceto Hugger, que, ao mesmo tempo, queria provar aquele bacon inglês
e ver Diana comendo.
— Você chegou a visitar outros lugares enquanto estava lá? — Muzz perguntou.
— Dei umas voltas pela Inglaterra. O sistema de trens deles facilita muito. A
gente devia trazer isso de volta aqui. Praticamente zero estresse e dá para ir a quase
qualquer lugar. Também passei um fim de semana em Paris, indo de trem. — Deu de
ombros. — Queria ter feito mais, mas não tive tempo nem dinheiro.
No meio da frase, toda a mesa ficou tensa porque alguém começou a bater forte
na porta.
— Você tem vizinhos que bateriam na sua porta desse jeito? — ele perguntou a
Diana enquanto se aproximava.
Ela abriu a boca para responder, mas, antes disso, ouviram uma voz masculina
gritar do lado de fora:
— Caramba. É o Larry.
Hugger espiou pelo olho mágico e viu um homem, provavelmente na casa dos
cinquenta, cabelo escuro começando a ficar grisalho, bem-apessoado, forte, sem
nenhum sinal de estar perdendo a forma. Ao lado dele, estava uma mulher loira e
alta, também em ótima forma, mas de um jeito diferente. Parecia saída da capa de
uma revista, mesmo tendo, claramente, também seus cinquenta anos.
Larry lançou um olhar cortante para Diana, depois lançou uma expressão
carrancuda para os homens na mesa, mas, ao ver Suzette, seu rosto suavizou.
— Larry, como pode ver… — Diana fez um gesto amplo, indicando a mesa com
as tigelas vazias, pratos e garrafas de cerveja — … está tudo bem.
— Certo, mas antes de tudo, este é o Eight. — Ela indicou Eightball. — Ele é
membro do Resurrection MC, de Denver.
Hugger teve que admitir: Larry hesitou apenas por um instante antes de apertá-
la.
— E este é o Big Petey. Ele tem passado os dias com Suzette — continuou Diana.
— Ele faz parte do Chaos MC, também de Denver.
— Hugger me protege durante o dia e dorme no sofá para que nós dois
fiquemos seguros à noite — finalizou ela.
O aperto de mão de Larry com Hugger foi firme, porém breve. Logo depois, ele
se afastou, parecendo um pouco desconcertado.
Larry não respondeu. Seus olhos percorreram os homens ao redor antes de dizer:
— Sem ofensa.
— Ele precisa de umas sete — disse uma mulher. — E, a propósito, eu sou Nicole.
E fiquem tranquilos, sei que a Di tem um ótimo julgamento de caráter. Mas, para ser
sincera, estou bem chateada de ter perdido o elote dela.
— Vou te amar para sempre se fizer isso, mas já estava planejando preparar um.
Só saiba que tem minha eterna gratidão por oferecer esse elixir, depois de eu ter
lidado com o Sr. Superprotetor na última hora — respondeu Nicole.
— Então você escondeu isso dele até agora? — Diana perguntou enquanto ia
para a cozinha, com Nicole a seguindo.
Suzette murmurou:
— Ela está bem com vocês? — Larry perguntou em um tom baixo, seus olhos
seguindo Suzette, sem perceber sua intenção de se afastar.
— Sim e não — Big Petey respondeu no mesmo tom. — Acho que hoje consegui
deixá-la mais à vontade comigo. Mas ela finge que os outros caras não existem. No
geral, acho que ela está saindo do quarto, não porque se sente confortável, mas
porque não quer desapontar a Diana.
— Provavelmente não é bom ela se forçar antes de estar pronta. Mas é pior se
ela ficar trancada sozinha num quarto escuro, presa na própria cabeça. E isso não é
um lugar seguro para ela estar agora — Pete argumentou.
Larry assentiu.
— Suze e eu cozinhamos. Vou levar isso para a cozinha, mas isso significa que
não vamos lavar a louça.
Assim que chegaram lá, os olhos de Pete foram direto para a cafeteria do outro
lado da rua. Hugger fez o mesmo.
Estava fechada, e não parecia haver ninguém suspeito sentado na área externa
ou em qualquer outra parte do espaço ao ar livre.
— Sei o que aconteceu com ela — Pete respondeu. — Mas só passei um dia com
ela. Não sei mais nada. Queria saber se você sabe.
— Ela tem alguém? Tem bens? Tem emprego? Um lugar para ficar? — Pete
especificou.
— Nic disse que ela não tem se aberto com a Di, e a Di não quer forçar.
— Ela está presa aqui, cara. Eu não consigo entender. Coisas assim nunca
aconteceram comigo. Mas, ao mesmo tempo, realmente não entendo. Mesmo
quando coisas muito ruins acontecem, a maioria de nós não pode simplesmente
pausar a vida inteira para se esconder e tentar resolver tudo.
— Isso tem preocupado a mim e à Nic desde que aconteceu — Larry continuou.
— Di não é assim. Ela gosta do trabalho dela. Tem bons amigos. Sai para se divertir.
Mas, desde que a conheço, desde que ela tinha doze anos, sempre foi quase
assustadoramente responsável.
Larry prosseguiu:
— Ela se jogou nisso e, depois que superei o choque, tive que me segurar para
não tirá-la à força. Mas Di não tem nenhum apoio da família. A mãe dela é instável e
mora longe. A avó é uma boa mulher, mas não tem pulso firme. Faz anos que nós
estamos ali para dar suporte a Di, porque simplesmente não havia mais ninguém
com força suficiente para isso. Resumindo: não gostamos nada dessa situação, mas,
dadas as circunstâncias, não brigamos com ela por causa disso.
— Vivi bastante, cara. E acho que tem mais acontecendo aqui do que apenas a
sujeira e a crueldade que fizeram com aquela mulher.
— Como eu não sei. A menos que consigamos fazer essa garota falar. E não vejo
isso acontecendo tão cedo.
— Aprecio seu cuidado com Diana e Suzette — Pete disse a Larry. — E entendo
sua preocupação. Nosso clube anda desconfiado do Babić. Não temos nenhuma rixa
com ele, nunca lidamos diretamente com o cara, então estamos tentando entender
por que ele está se metendo com algumas das nossas mulheres. Nada tão grave
quanto o que fez com Suzette, mas ele está brincando com a cabeça delas e se
metendo nos nossos negócios, e não conseguimos entender o motivo. Viemos aqui
para descobrir. Enquanto isso, já que temos gente suficiente, achamos melhor
oferecer proteção para essas garotas. Elas estão seguras com a gente. Isso é uma
promessa. Me passe seu contato e faço questão de te manter informado. Já fui pai,
sei o que você precisa.
Só não gostava nem um pouco da forma como Pete descrevia o que sentia que
tinha se tornado depois da perda dela.
Larry também o observava atentamente, mas logo desviou o olhar por cima do
ombro, para dentro da casa. Claramente sentiu a atenção da esposa nele, porque ela
estava mesmo olhando.
Larry entrou.
— Como o quê?
— Faz sentido, já que está bem claro que Babić não vai deixar que ela o derrube
— Hugger disse, inclinando levemente a cabeça na direção do pátio, que naquele
momento não tinha os capangas de Babić, mas ambos sabiam que eles voltariam.
— Sério?
— Foi ela quem pediu. Ele está tentando consertar as coisas entre eles. E parece
que o homem não tem medo de grandes gestos — Hugger disse. — Preciso falar
com o Eight e ligar para o Rush. Diana está assustada, acha que Babić vai ficar
furioso e pode tomar alguma atitude contra isso. Precisamos de homens cuidando
de Nolan Armitage.
— Fechado. O Aces tem um negócio para tocar. Eles podem revezar os homens,
mas se precisarmos de mais, podemos pressioná-los. Vamos cuidar disso e trazer
mais alguns caras como reforço.
— Porque, meu filho, você não faz ideia do que te atingiu ontem. Anos atrás, a
mesma coisa atingiu ele. Demorou um tempo pra tirar a cabeça do próprio rabo e
enxergar, e isso deixou ela tão puta que decidiu que não queria mais nada com ele.
Ele teve que correr atrás pra recuperar o que perdeu. Fala com ele. Ele pode te dar a
sabedoria pra você não cometer o mesmo erro.
— Não me vem com merda, Hug. Não estou nem aí se o Nolan Armitage
defendeu um estuprador e um completo pedaço de lixo e agora tá se fodendo pra
sair dessa encrenca. Mas você se importa. Porque ela se importa. E nós vamos
proteger ele. Por você. E por ela. Porque ela é sua. E você sabe como funciona. Se ela
é sua, ela é nossa.
Normalmente, o jeito paternal de Big Petey não o incomodava. Ele era um bom
homem, tinha um grande coração, se importava com seus irmãos e se importava
com a mãe de Hugger.
Foi um erro, porque abriu uma porta que Hugger fazia questão de manter
fechada.
Pete atravessou essa porta como se nada fosse e cravou os olhos nele.
— Que bom que estamos falando disso, porque nunca consegui entender. O que
você quer, afinal?
— Nada.
— Você sabe que isso partiria o coração dela se ouvisse você dizer isso.
— Esse é o melhor jeito de viver. Não criar expectativas, não ter decepções. Foi
isso que ela me ensinou.
— Merda, Hug — Pete retrucou de imediato. — Ela não teve escolha. Mas ela
deu tudo de si pra que você tivesse.
— Você não sabe o que nós éramos. Você não sabe o que tivemos.
— Eu conhecia a Jackie — rebateu Big Petey. — Eu sabia o que ela sentia por
você. E sei que essa mulher ali dentro, cujo mundo se ilumina só porque outra
mulher abriu um pouquinho da gaiola onde se trancou para colorir um livro, e que
essa mesma mulher preparou uma refeição de improviso para um monte de homens
que mal conhece e adorou fazer isso, é uma mulher que faria sua mãe dar
cambalhotas de felicidade por estar na sua vida. Ela gosta de você, Hug. Não fode
com isso.
— Estamos em uma missão.
Hugger não respondeu, porque sabia que isso só reforçaria o ponto de Big Petey.
Com isso, a conversa estava encerrada. Hugger soube porque Pete simplesmente
o deixou ali, sozinho na varanda.
Capítulo 8
TOME O RISCO
Hugger
Na manhã seguinte, Hugger estava na sacada, tomando um café que ele mesmo
preparou, enquanto encarava diretamente os babacas que estavam de volta,
curtindo um café espresso e leite vaporizado de sábado de manhã no café da praça.
Ele ouviu a porta deslizar e se virou, encontrando Diana com o cabelo preso em
um nó bagunçado no topo da cabeça. O short de amarração pendia frouxo em seus
quadris, e a camiseta curta e justa moldava seus seios, exibindo o logo dos
Diamondbacks17.
Jesus.
— Temos companhia.
Ela lançou um olhar de desgosto e revirou os olhos, depois fez uma careta
fingindo que ia vomitar.
17
Diamondbacks se refere ao Arizona Diamondbacks, um time profissional de beisebol dos Estados
Unidos
Porra. O jeito fofo dela era tão sexy quanto o lado mais sensual.
— Preciso usar o banheiro — avisou. — Você pode ficar aqui, mas não se
exponha aonde eles possam te ver.
— Você disse para não invadir seu espaço. E eu concordo. Você precisa do seu
espaço.
— Estou segurando faz meia hora, baby. Podemos falar disso depois que eu
esvaziar a bexiga?
Ele entrou para resolver o que precisava e, quando voltou à sacada, a viu sentada
nas almofadas azul-claro do sofá da área externa. Os pés descalços apoiados na
mesinha de centro branca, uma caneca de café nas mãos. Hugger foi até a cafeteira,
esquentou o dele e se juntou a ela.
Ela estava certa: ele era grande demais para aquele sofá, mesmo sem as
almofadas do encosto.
E estava perto demais dela, que dormia sozinha em uma cama king enorme.
— Ela vai sair quando sentir que você está por aqui.
— É… — ele murmurou.
— Vou falar com ela hoje sobre a proteção policial. Esqueci de mencionar ontem,
mas meu pai disse que conversou com um dos policiais que está interessado em
cuidar dela. Ele também disse que o FBI quer falar com ela…
— O quê?
— Por quê?
Ela não ligaria. O pai dela mexeu com o mundo dela ontem.
Mas agora, estava entendendo.
— Praticamente nada.
— Nada mesmo — repetiu ela. — E não estou escondendo nada. Ela não se
abriu. Nem um pouco.
— Como ela chegou até aqui? Você foi buscar na casa dela?
Ele perguntou porque queria saber onde era e invadir para ver se encontravam
respostas.
— Baby Shark?
— Meu carro.
Cristo.
Essa mulher…
Diana assentiu.
18
QuikTrip (QT) é uma rede americana de lojas de conveniência e postos de combustível na região
metropolitana de Phoenix.
— Não fico vigiando o tempo todo, mas não. Pelo que vi, não. Pelo que entendi,
ela não tem ninguém. Quando vocês não estão aqui e eu estou em casa, ela sai do
quarto e fica comigo. Tentei puxar assunto, mas… Você já viu, Hugger. Ela não dá
espaço para isso. É tão frágil que tenho medo de quebrá-la se pressionar demais.
— Liguei pro presidente do meu clube ontem à noite, baby — ele contou. — O
nome dele é Rush. Ele está mandando outro irmão, Dutch. O Resurrection está
enviando dois dos deles, Core e Linus. Vamos adicionar à nossa lista de prioridades
garantir que seu pai está seguro.
— Vou pegar meu celular — ela sussurrou e saiu do sofá para fazer isso.
Acabei de saber que o FBI quer falar com Suzette. O pai da Diana contou isso
pra ela ontem. Vou buscar mais informações sobre isso. Fiquem atentos.
Ela demorou um segundo, mas fez o que ele pediu e lhe entregou o celular.
Ele manteve os olhos nela, enquanto sua mente voltava para quando Nicole
dissera que sabia que Diana era uma excelente julgadora de caráter.
— Ele me parece confiável, mas o que eu sei? Aposto que um policial corrupto
não demonstraria isso pra ninguém, muito menos pra alguém como eu.
Ela assentiu.
— Algum dos outros policiais com quem você lidou nessa história te deu uma
sensação estranha?
— Não foram muitos, mas posso dizer que todos pareciam mais focados em
conseguir justiça para Suzette do que em prender Babić só pra ganhar pontos.
Quero dizer, não que eles não queiram derrubá-lo, mas ela era… — Ela deu de
ombros. — Você sabe como ela era, Hugger.
Ele sabia.
— Certo. — Ele olhou para o telefone, que já havia escurecido. — Preciso que
ligue isso de novo, querida.
— Sim.
— E como colocaria?
— Talvez você não saiba que policiais não discutem detalhes de uma
investigação com ninguém além dos envolvidos e de outros policiais — Scott
esclareceu.
— E talvez você não saiba que temos um interesse direto em garantir que
Suzette sobreviva ao que quer que esteja enfrentando e possa seguir com uma vida
longa e feliz.
— Eu adoraria aceitar sua palavra nisso, mas espero que não se importe se eu
não fizer isso — Scott retrucou.
— Podemos, mas vai ser perda de tempo. Isso não vai mudar minha posição.
— Olha, não sei como vocês se meteram nisso. Não posso dizer que estou
incomodado por Suzette e Diana terem alguém cuidando delas. Mas o único
assunto que temos pra discutir é encontrar um jeito de, primeiro, colocar Suzette em
um lugar mais seguro e, segundo, convencê-la a falar sobre o que possa saber.
— Então, ela não era só uma garota aleatória que ele pegou pra destruir a vida
— Hugger observou.
Hugger sabia que insistir seria inútil, mas fez mesmo assim:
— Quatro de fora, por enquanto. Mais três estão chegando porque agora
precisamos cobrir o Armitage também. E todo o pessoal dos Aces.
— Então isso tem a ver com o Aces — Scott murmurou, parecendo ligar os
pontos.
E provavelmente estava.
— Entendi.
Ela parou.
— Vou, sim.
— Di...
— É totalmente frustrante que seu nome seja tão incrível quanto você —
reclamou.
Ele nunca tinha ouvido alguém dizer que seu nome era legal. Nem ele mesmo
achava isso.
— Chama o Big Petey pra cá — ordenou, antes de sair rebolando para dentro do
apartamento.
Já era ruim quando tudo o que ela tinha para segurar eram os passantes do cinto
dele, como agora.
Ela não entendia que o nome dele no clube era irônico. Não percebia que ele
não gostava de ser tocado. Puxava a camisa dele, segurava seu pulso, dava tapas em
seu braço e, quando precisava dele, se agarrava firme.
E ele não dava a ela o que fazia os outros entenderem. Além disso, era quase
doloroso quando ele se afastava dela.
Também não se aprofundava nos motivos pelos quais fazia isso, nem no porquê
daquela dor.
Na noite anterior, ele ligou para Rush, mas ainda não tinha certeza se ligaria para
Tack.
Não tinha certeza porque, antes de qualquer coisa, a conversa com Tack não
poderia começar com um passeio pela estrada das memórias de como ele
conquistou sua old lady, Tyra.
Algo enorme.
Uma montanha entre ele e o que quer que pudesse acontecer com Diana.
Uma montanha que ele vinha encarando desde que entrou para o Chaos e, até
hoje, não sabia se queria escalá-la.
Sua vida era estável e previsível. Ele não podia dizer que era feliz, nem mesmo
que estava satisfeito.
Mas podia dizer que estava respirando, estava seguro, não precisava se
preocupar com dinheiro e tinha ao seu redor pessoas que respeitava.
E, considerando a vida que levou antes do Chaos, isso era mais do que jamais
imaginou ter.
Então… é.
Subir aquela montanha era uma aposta arriscada.
Algo que estava deixando Babić ainda mais inquieto do que sua condenação por
um estupro com agressão grave, que lhe renderia no mínimo vinte e cinco anos e,
no pior dos casos, prisão perpétua.
Isso significava que não era só Pete que havia ficado no apartamento de Diana.
Muzzle também estava lá. Driver tinha voltado e trouxera outro irmão dos Aces,
Gash. Eles estavam sentados do lado de fora da cafeteria, a uma mesa de distância
de alguns capangas.
E, por algum motivo idiota, mesmo com quarenta e um graus lá fora, dois
malucos jogavam tênis.
Eight lançou um olhar para ela, depois para Hugger, e abriu um sorriso.
— Harlan não quer tacos toda noite. Vou fazer chili branco e servir com
pãezinhos.
Diana Armitage era única e, para seu completo tormento, tudo nela era bom.
— Também vamos garantir que Diana receba um bolo. Ela não vai alimentar essa
galera de graça — Hugger entrou na conversa.
A questão era que eles sabiam quem estava ao volante, então não era o policial
de Phoenix.
— Investigações e segurança. E antes que você pergunte, sim, eles são bons. Os
melhores.
— Porque Scott não pode nos dizer porra nenhuma — respondeu Eight. — Mas
Mace pode.
— Esta é Diana.
— Sei quem ela é — murmurou Mace, inclinando o queixo para ela. — Diana.
— Tento saber o máximo possível sobre essa cidade — ele respondeu, sem dar
muitos detalhes.
— Tudo o que Imran Babić toca, eu fico sabendo. E qualquer coisa que ele possa
tocar de um jeito que vá me irritar, eu sei ainda melhor — Mace devolveu.
Diana arfou.
Eight resmungou.
Hugger rosnou.
— Pelo menos, a mulher que está com você não se chama Suzette Snyder —
Mace esclareceu, olhando para Diana.
— Meu Deus... — sussurrou Diana.
— A polícia não sabe quem ela é. Ela não tinha documentos quando foi
encontrada e não apresentou nenhum antes de sair. O endereço que deu pertence a
outra pessoa, que nunca ouviu falar dela. As digitais não estão no sistema. Ela disse
à polícia que tem vinte e três anos. Os médicos que a examinaram não podem
confirmar, mas acham que ela não tem mais de dezessete — explicou Mace.
Ela, por sua vez, agarrou o antebraço dele com as duas mãos.
— É nisso que a polícia e o FBI estão apostando — confirmou Mace, então focou
em Eight. — Podemos falar a sós?
— Entendo que você ache isso, mas sei que não precisa — Mace rebateu.
— Se alguém vai convencê-la a se manter segura e ajudá-la a lidar com isso, sou
eu. Eu preciso saber com o que estou lidando — Diana insistiu.
— Baby.
Merda, ela tinha se agarrado ao nome dele com mais força do que segurava seu
braço. E ela o segurava com força.
— Vamos nessa.
— Por que você está envolvida nisso? — Mace perguntou, e Hugger a segurou
mais firme.
— Eu discordo.
— Isso, de fato, não posso discordar — Mace devolveu, olhando diretamente nos
olhos dela. Ou seja, ele já tinha feito uma suposição experiente e acertado em cheio.
— Pega leve.
Mace desviou o olhar para Hugger, assentiu uma vez e então soltou:
Ah, merda.
O calor que emanou de Eight foi avassalador.
Merda.
— Não responda — Hugger ordenou a Mace. Então soltou Diana, mas pegou sua
mão e a puxou para longe do grupo.
Quando ele a levou para longe o suficiente, virou-a de frente para si, inclinou-se
até ficarem cara a cara e segurou seu rosto com as mãos em ambos os lados do
pescoço.
— Baby, se afasta disso. Deixe a gente terminar essa conversa. Depois voltamos
para sua casa, e você continua focada na Suzette, como sempre. Vamos seguir com
isso e ir mais fundo.
Merda.
Merda.
Ele levou as mãos até o maxilar dela, aproximando-se até que seus narizes quase
se tocassem.
— Afaste-se.
Ela se desvencilhou de seu toque, girou nos calcanhares e deu dois passos
furiosos para longe. Mas parou tão bruscamente que seu corpo oscilou.
— Alguém vai se machucar. Mas não vai ser você quem vai fazer isso. Vem aqui.
— Eu não posso. Eu não consigo. Eu… — Ela balançou a cabeça. — Meu Deus, ela
tem no máximo dezessete anos e foi violentada por vários homens.
Foi até ela e a puxou para seus braços, envolvendo-a completamente. Uma mão
segurou sua cabeça, encaixando sua bochecha contra seu peito, enquanto a outra a
abraçava com firmeza.
Ficaram assim por um tempo, o sol queimando sobre eles, o calor dela se
infiltrando nele.
Hugger começou a suar só de ficar ali parado, mas não se mexeu. E não era só
porque ela se sentia absurdamente bem em seus braços, mas porque se sentia ainda
melhor oferecendo a ela algo firme em que pudesse se segurar.
— Eu… eu não sei exatamente o que você quer dizer, mas espero que sim.
Ele analisou seu rosto enquanto sua mente resgatava lembranças dela. Lembrou-
se dela limpando meticulosamente um quadro horrível com um cotonete. Lembrou-
se de como, mesmo no meio de um trauma emocional, não deixou passar a
oportunidade de pegar um biscoito.
Lembrou-se da confiança que ela depositou nele ao ajudá-la a lidar com uma
conversa difícil por mensagem com o pai.
Era vaga porque ele mesmo a tornou assim. Ele a enterrou junto com todas as
outras boas memórias de sua vida, exceto o orgulho de cuidar de sua mãe.
“Um dia, meu lindo garoto, você vai fazer uma mulher muito feliz.”
— Eu não sei exatamente o que isso significa, mas acho que sim.
— Você tem que ter certeza. E eu preciso saber que posso confiar em você.
Então, pensa bem, Di. Você está dentro ou vai apenas cuidar da Suzette, convencê-la
a se proteger e conversar com os federais, sem se envolver no resto?
— É difícil decidir sobre algo que eu nem sei direito o que é, ao mesmo tempo
em que estou completamente assustada.
— Eu...
— Eu não...
E sussurrou:
— Dentro.
— Você não tem envolvimento nisso, mas tem um papel aqui. Você e Pete. Vocês
precisam fazer a Suzette falar. Sobre ela, sobre o que aconteceu, sobre se proteger,
sobre contar tudo o que sabe e, principalmente, sobre por que escolheu você.
— Ela fugiu, mas não se escondeu. Foi direto para o hospital. Essa não é uma
mulher que desistiu. É uma mulher que queria ajuda. Mas ela não confia na polícia.
Confia em você. Precisamos entender por que ela não confia nos policiais. E, para
isso, precisamos saber por que escolheu você.
Certo.
— Agora, aqui está o que vai acontecer — ele começou. — Mace conhece o
Eight. Ele conhece o Resurrection. Ele sabe exatamente que botão acabou de
apertar. Não sei qual foi a intenção dele. Talvez tenha feito de propósito. Talvez
tenha feito para causar um incêndio em outro lugar. Scott vai investigar. Vai ouvir
coisas. E é bem provável que Mace conte algumas delas para ele. Mas Chaos não
está envolvido nisso. O Aces também não. Então, agora estamos numa corrida
contra o tempo, baby. Não tenho problema com o que Eight e Muzz pretendem
fazer. Mas eu, Pete e Dutch não podemos deixar que isso afete você, Suzette ou
Chaos. E nossa melhor chance de evitar isso é colocar Babić atrás das grades e
acabar com essa merda.
— Então, vocês estão... em conflito com o Eightball e o Muzzle agora?
— Não se preocupa com isso. Foca em você. Na decisão sobre o jantar com seu
pai. E na Suzette.
Os lábios dela tremeram. Ela os prendeu entre os dentes, soltou devagar, fungou
de novo, dessa vez com mais força, e então endireitou os ombros.
E foi nesse momento que ele teve certeza de que podia correr o risco.
Aquilo era o que ele já sabia desde ontem, mas não havia confiado.
Talvez, mesmo que ainda não fosse sua batalha, ele pudesse perdoar.
Mas, por ora, teria que trabalhar ao lado dele ao mesmo tempo em que tentava
impedir seus planos.
Ele subiu.
O sofá azul-escuro de Diana parecia bonito e era confortável para sentar, mas
não era longo o suficiente para ele. Ele não conseguia encontrar uma posição que
funcionasse, o que significava que passava a noite toda acordando e se remexendo
em busca de uma.
Além disso, ele ainda estava vestindo suas roupas, como fazia todas as noites, o
que também não ajudava em nada no conforto. Mas ele não queria que Suzette ou
Diana o encontrassem vestindo apenas suas cuecas boxer ou shorts de dormir.
Especialmente Suzette.
Hugger queria que ela sempre sentisse uma camada extra de proteção vinda
dele.
Isso significava que ele já estava há três noites dormindo mal, justamente em um
momento em que precisava estar mais alerta do que nunca.
Ainda estava escuro, apenas um pouco da luz do amanhecer vazava pelas várias
janelas de Diana, mas ele sabia que não conseguiria dormir mais.
Ao pensar nisso, ele se lembrou de quando tinha uns oito ou nove anos, se
arrastando e resmungando pela casa de manhã antes de ir para a escola, enquanto
sua mãe reclamava:
— Eu devia encher um balde com água gelada e jogar em você toda manhã pra
ver se acorda direito!
A partir desse dia, Hugger continuou acordando mal, mas fez o possível para
parar de se arrastar e resmungar, só para não irritá-la.
Sentindo-se inquieto com essa lembrança - principalmente pelo fato de ela ter
surgido do nada - ele a afastou e se levantou do sofá. Caminhou pelo corredor,
notando que a porta de Suzette estava firmemente fechada, mas a de Diana, no final
do corredor, estava entreaberta alguns centímetros.
Ainda assim, quando chegou à porta dela, segurou a maçaneta para que não
abrisse mais enquanto batia de leve, para não acordá-la caso estivesse dormindo - e
nem Suzette.
A fraca luz da manhã iluminava o ambiente, e ele a viu deitada de costas para ele,
bem no centro da cama grande. Os lençóis brancos estavam puxados até seu ombro.
Seu cabelo escuro e dourado estava preso no topo da cabeça e se destacava no
travesseiro branco. Os travesseiros grandes e quadrados de veludo azul-claro que
ele tinha visto na cama dela durante o dia estavam empilhados no chão, e o
edredom azul-claro de veludo estava dobrado no pé da cama.
Ele já havia passado três noites imaginando como seria transar com ela naquela
cama - mais um motivo pelo qual o sono não vinha fácil.
Hugger já tinha sentido vontade de olhar aquelas fotos, de ver um pouco mais
da vida dela, de descobrir quem eram as pessoas importantes o suficiente para
estarem ali, em seu quarto.
E também não ficou parado ali por muito tempo, encarando-a dormir, porque ele
não era um pervertido.
Ainda assim, notou que havia um ventilador de teto ligado, o ruído branco
enchendo o ambiente. Isso o lembrou de que, em casa, ele também dormia com um
ventilador. Talvez, se Diana tivesse um portátil, ele pudesse colocar na sala para ver
se ajudava a dormir no sofá.
Seguiu para o banheiro, fez o que precisava, lavou as mãos, escovou os dentes,
jogou água no rosto e secou-se.
Então, ficou encarando a toalha que usou - um azul-claro bem bonito.
Virou a cabeça e viu duas toalhas penduradas lado a lado na porta: uma branca,
de Diana, e outra azul.
A dele.
Em Denver, ele tinha uma casinha que comprou porque podia, porque precisava
de um lugar para dormir. Mudou-se para lá porque era sua. E, além disso, nunca fez
nada com ela, a não ser consertar quando algo quebrava.
Ele saiu em silêncio, fechando a porta do quarto de Diana por completo antes de
se dirigir diretamente para a cafeteira. Preparou um café e, enquanto esperava a
bebida ficar pronta, apoiou-se no balcão, deixando a mente revisitar os
acontecimentos do dia anterior.
Pensou no que estava fazendo. Sabia que não deveria, sabia o que aquele gesto
comunicava, ainda mais depois de tudo que já havia transmitido com seu toque
naquela manhã.
— Você não pode contar para Muzzle e Big Petey sobre a Suzette enquanto ela
estiver por perto. Eles vão surtar.
— Mas eles precisam saber — ela continuou. — Além disso, Big Petey e eu temos
que bolar uma estratégia para fazê-la se abrir, e não podemos discutir isso com ela
por perto. Já saímos de casa logo cedo em pleno sábado, o que ela pode achar
estranho. Não quero que pense que estamos conspirando contra ela ou que há algo
errado.
— Vamos encontrar uma forma mais sutil de compartilhar essa nova informação
e fazer isso longe da Suzette — ele garantiu.
— Posso distraí-la. Talvez, se você estiver pronto para tirar Big Petey e Muzzle
dali, possa me dar um sinal, tipo esse.
Com a mão livre, ela fez um gesto tão elaborado e confuso que qualquer técnico
ofensivo de futebol americano ficaria extasiado.
Hugger não acreditava que, depois das notícias que haviam recebido, ainda
precisasse segurar o riso, mas foi exatamente o que aconteceu.
Como ela conseguiu enganar a equipe do hospital e um policial para chegar até
Suzette, ele não fazia ideia. Provavelmente, foi menos uma questão de enganação e
mais de carisma.
— Aí eu saberia que preciso levá-la para algum lugar onde não perceba que
vocês saíram ou algo assim — concluiu.
— Você não acha que ela vai perceber se eu fizer essa coisa esquisita com a
mão? — ele perguntou, sem conseguir esconder a diversão na voz.
— Vou mandar o Muzzle falar com o Eight. Ele pode contar tudo. Eu já voltei,
então Muzzle não precisa ficar aqui agora. Quanto ao Petey, ele pode saber depois.
Acho que não é uma boa ideia sair correndo de manhã para pressioná-la a contar
seus segredos e tomar uma decisão sobre algo tão sério quanto a própria
segurança. Mas você pode ir aos poucos. Um pouco mais de atenção, um pouco
mais de pressão. Ela está segura por enquanto, e o FBI pode esperar até que esteja
pronta. Isso não precisa acontecer hoje.
Ela lançou um olhar fulminante, que ele imaginou que fosse para matá-lo, mas,
na verdade, só a deixou ainda mais fofa. Em seguida, apertou o botão do elevador,
então ele interpretou isso como um "sim".
Pete lhe lançou um olhar de Que porra está rolando?, e Hugger não teve escolha
a não ser responder com um Depois te explico.
Diana teve a brilhante ideia de manter o dia tranquilo com atividades normais e
convenceu Suzette a ajudá-la.
Elas passaram o dia limpando, lavando roupas, mandando Pete ao mercado com
mais uma lista e começando a preparar o chili branco (de novo na panela elétrica).
Hugger ficou encarregado do lixo e da reciclagem e, depois que Diana tirou o
aspirador do armário, ele tomou conta dessa tarefa também. Suzette e Diana ainda
fizeram uma torta de morango (incrivelmente deliciosa, melhor até que o elote dela).
19
Morte no Funeral" (Death at a Funeral) é o título de duas comédias de humor negro, uma britânica
de 2007 e um remake americano de 2010. Ambas giram em torno do caos e dos segredos familiares que
surgem durante um velório.
quando viu Eight satisfeito com o fato de Diana ter aprovado o vinho que ele trouxe
(e ele trouxe cinco garrafas, embora ela só tenha provado uma).
Dessa vez, eles foram embora bem mais cedo que na noite anterior. Pete foi com
eles.
Diana fez questão de deixá-la escolher. Suzette optou por um filme da Disney,
Encanto20, que, para a surpresa de Hugger, não era ruim. E a trilha sonora era muito
boa.
Depois do filme, todos foram dormir, e, pela primeira vez, Suzette dirigiu a
palavra a ele:
Mais um progresso.
Quando as mulheres foram dormir, ele saiu para a varanda para ligar para Rush e
Big Petey.
Pete estava na casa segura, então, quando Hugger finalmente falou com ele, Pete
já sabia de tudo.
Rush ficou em silêncio por dois minutos inteiros depois de receber a atualização,
antes de dizer com a voz tensa:
— Wash já deve estar sabendo disso, embora eu não esteja surpreso por ele não
ter me ligado. Eles podem estar prestes a agir por conta própria. Vou conversar com
Wash e Buck. Talvez precisemos mandar Jag e Coe para manter as coisas sob
controle. Vamos ver. Te retorno depois.
20
Encanto" é um filme de animação da Disney lançado em 2021. O filme aborda temas como
expectativas familiares, autodescoberta e aceitação, mostrando que cada pessoa tem valor, mesmo que
não tenha um "dom especial".
E foi isso. Agora era agora.
Mais um dia em uma casa confortável, com uma mulher incrível, uma garota
quebrada e a cabeça cheia de pensamentos.
Ele se virou para a cafeteira, preparou uma caneca de café e a levou para o sofá.
Empurrou para o lado as cobertas que Diana insistia em ajeitar sobre as almofadas
para improvisar uma cama para ele.
Estava guardando tudo fora de vista quando seu celular - repousando ao lado da
arma na mesa de centro - acendeu.
E realmente foi, embora Hugger soubesse que aquilo era apenas uma batalha,
não a guerra.
— Você está acordado cedo — Petey comentou. — Achei que ia cair na caixa
postal.
— Diana quer conversar com você para tentar descobrir um jeito de fazer Suzette
falar. Mas ela não quer que Suzette veja essa conversa. Se você puder dar um jeito
nisso, vai deixá-la mais tranquila.
— Vamos resolver.
Hugger não podia discordar, mas também não gostou de ouvir isso sair da boca
de Pete.
— Certo.
— Suzette me deu boa noite ontem. Acho que está começando a se acostumar
com a gente. Hoje pode ser o dia de insistir um pouco mais. Diana volta ao trabalho
amanhã. É pesado para ela ter que trabalhar para sobreviver e, quando chega em
casa, ter uma responsabilidade ainda maior. O trabalho dela parece tranquilo, mas
exige muita atenção e foco.
— Concordo. Mas preciso dizer, Suzette não tem essa relação comigo. Odeio
admitir, mas não temos tempo para eu conquistar essa confiança. Diana e eu vamos
conversar, mas no fim das contas, tudo vai depender dela.
Hugger já suspeitava disso, mas não gostava da ideia. Ele inclinou a cabeça de
um lado para o outro para aliviar a tensão no pescoço antes de tomar mais um gole
de café e responder:
— É...
— Pelo jeito que vocês dois estavam ontem, parece que você já tomou uma
decisão sobre ela.
Merda.
Eles não estavam exatamente aos beijos e abraços, mas era verdade que ele tinha
ultrapassado um limite com Diana. Ela se aconchegou nele no sofá durante os dois
filmes, e ele permitiu. Não só porque o espaço era pequeno demais para os três se
acomodarem se ela não fizesse isso, mas porque quis.
Ele nunca tinha feito isso antes. Nunca teve vontade. Já tinha visto outras pessoas
se aconchegando assim e nunca entendeu a graça de ter alguém invadindo seu
espaço daquele jeito.
— Pete...
— Mas conversei com Tack e ele disse que não ouviu nada de você.
— Hug...
— Pode ser. Mas já falamos sobre isso outro dia, então vou tocar no assunto de
novo: a gente tem você, mas ao mesmo tempo não tem.
— O quê?
— Você é Chaos. Podemos contar com você. Mas, se eu perguntar pra qualquer
um dos irmãos, duvido que alguém possa dizer que realmente te conhece.
— É assim que as coisas são. Eu dou o que vocês dão, e devolvo na mesma
moeda.
— Sim. Essa é a outra questão. Nenhum dos irmãos pode dizer que realmente te
conhece.
— Como o quê?
— É o que fazemos.
— Você é como a Suzette, Hug, mas de um jeito diferente. Só está vivendo até
morrer.
Aquilo atingiu tão fundo que ele sentiu a lâmina raspar o osso.
Hugger conseguiu respirar, porque sabia exatamente sobre o que Pete queria
falar.
— Deixei isso pendente por muito tempo. Estou ficando velho, desacelerando.
Preciso resolver isso para a Jackie antes de partir.
— Não agora. Tem muita coisa acontecendo. Depois — disse Pete, no instante
em que Hugger ouviu a porta de vidro deslizante se abrir atrás dele.
Ele se virou e viu Diana, agora de shorts largos e uma camiseta dos
Diamondbacks. O cabelo bagunçado pendia para um lado. Os olhos sonolentos, a
caminhada arrastada enquanto se aproximava dele.
Meu Deus.
— Certo. Vamos parar por aqui. Mas aviso logo, vamos retomar isso depois. Nos
falamos em breve.
— Está muito cedo, e pelo jeito você já está acordado faz tempo — murmurou
ela, a voz doce e sonolenta. — Precisamos sair para comprar um colchão de ar pra
você.
— Eu só vou…
— Diana.
Os olhos dela passaram rapidamente pelo rosto dele e pousaram em sua orelha.
Ele não suportava aquilo. Nenhuma parte daquilo. Mas, principalmente, essa
última.
Ele se inclinou para ela, segurou seu queixo entre o polegar e o indicador e
sussurrou:
— Que coisas?
— Coisas com as quais já nasci. — Droga, ele estava mesmo entregando aquilo
pra ela. — Coisas que me fizeram ser quem sou.
— Harlan…
— Você já tem muita coisa com que lidar. Não pode carregar mais essa.
— Já dei.
Ele precisava parar de tocá-la, mas não conseguia fazer isso sem deslizar o
polegar ao longo da linha do maxilar dela.
— Pensar no quê?
— Você sabe?
— Conheci ele uma vez. Uma única vez foi suficiente. Mas eu sei quem ele era.
Sei tudo sobre quem ele era.
— E isso importa?
As palavras dela foram como uma lança atravessando seu peito, deixando-o sem
resposta.
Diana ergueu as mãos no ar.
— Tá bom, agora ele está tentando. Mas eu tenho vinte e nove anos, Harlan. Sou
grata pelo esforço dele, decidi dar uma chance a isso, mas é muito tempo pra passar
com um pai que sempre esperou que eu fosse a perfeição dele, da cabeça aos pés,
na inteligência, na personalidade... e conviver com o peso de nunca alcançar esse
ideal, de sempre decepcioná-lo. Um pai que traiu minha mãe, que destruiu o
coração dela bem na minha frente. E, mesmo tendo traído, ainda agia como se ela
fosse um defeito ambulante, como se estivesse abaixo dele, de mim, de todo
mundo. Um pai que cresceu sem ter muito, odiava isso, e fez de tudo pra conseguir
mais, pra ele e, sim, pra mim também. Mas isso significou que fui criada por babás e
governantas e...
— Você quer saber por que eu fiz questão de colocar a Suzette na minha casa?
Ah, não.
Nem ferrando.
— Aquele cara…
Dane-se.
Pra calá-la, ele segurou a nuca dela, puxou-a contra seu corpo, inclinou a cabeça
e tomou sua boca.
Com o convite aceito, Hugger inclinou ainda mais a cabeça, tocou a língua nos
lábios dela.
Ela se abriu para ele. Hugger deslizou a língua para dentro e sentiu o gosto de
hortelã, calor, feminilidade, mistérios, verdades e a plenitude da vida.
Foi esmagador.
Ele aprofundou o beijo, apertou o braço ao redor dela, inclinou-se ainda mais,
curvando-a sobre seu braço.
Diana gemeu contra sua boca, enfiou os dedos nos cabelos dele, o outro braço
envolvendo com firmeza o pescoço dele.
E deu.
E mais.
Então, tomou. Entrelaçou a língua na dele, avançando para provar o gosto dele.
Nada.
O mundo não era um completo desastre. Coisas horríveis não aconteciam com
pessoas boas. Você não precisava suar, sangrar e implorar por qualquer migalha que
conseguisse.
Não.
O mundo era a sacada de Diana, seu corpo macio contra o dele, sua mão entre
seus cabelos, a promessa aberta de quem ela era e do que poderia oferecer - mais
do que suficiente para dar a um homem a motivação para escalar montanhas.
Quando esse pensamento explodiu em sua mente, Hugger quebrou o beijo, mas
não o abraço, aninhando o rosto dela contra seu peito.
Foi então que, em sua mente, ele viu a imagem do irmão do Chaos, Joker,
surgindo de trás do capô de um carro, e a expressão dele ao ver sua mulher, Carissa,
entrando na oficina da Ride.
Viu o olhar de Shy quando encontrou Tab no hospital, onde seu filho estava
internado com uma gripe forte.
Viu Georgie provocando Dutch, e os olhos de Dutch brilhando, porque ele
adorava isso.
Viu Tack como tantas outras vezes - encostado na beira da mesa de Tyra, no
escritório da Ride. Ele não precisava estar ali por trabalho. Estava ali porque sua
mulher estava.
Mesmo naquela churrascada do AAF, onde foi apresentado à vida que poderia
ter, ele nunca tinha compreendido isso—nem racionalmente, nem emocionalmente.
Ele soltou a cabeça dela, mas a manteve presa com o outro braço.
Cristo.
Maravilhosa.
— Então… aquele foi um beijo realmente… meio que… hum, importante, né? —
ela perguntou.
— É — ele confirmou.
— Então talvez a gente devesse deixar algumas coisas claras — ela sugeriu.
— Di…
— Eu gosto de você.
Lá estava.
Ela continuou:
— Eu gosto mesmo de você. Gostei muito daquele beijo. E, bem, nada disso é
ideal, com tudo o que está acontecendo e o fato de morarmos em cidades
diferentes, em estados diferentes.
Ele achou que ela não poderia derreter mais, mas naquele instante, ela
praticamente se fundiu a ele, seus lindos olhos verdes brilhando com um toque de
felicidade.
— Baby, a merda que eu tenho que enfrentar é bem profunda, e não é o tipo de
coisa que se joga em cima de uma mulher que você acabou de conhecer e quer
conhecer melhor — ele avisou.
— Hm… Você estava no Sack’s quando eu tive um colapso porque meu pai
demonstrou, pela primeira vez em vinte e nove anos, que se importa comigo?
— Sim, você estava lá. A gente aprende algo novo todos os dias, se prestar
atenção. E, nos últimos dias, eu aprendi que você não escolhe o momento em que
conhece um cara e quer pular nos ossos dele.
— Então… O que isso significa? Vamos meio que namorar enquanto lidamos com
todo esse caos?
— Não exatamente, mas não temos escolha a não ser nos conhecer melhor. E eu
estou muito a fim de fazer isso.
Os olhos dela se estreitaram, e o que ela disse em seguida mostrou que ela já
estava começando a conhecê-lo.
— É, sim. Eu não gosto disso. Você consegue tirar um cochilo durante o dia?
Ela assentiu.
— Pois é. Mas enfim… Quando o Big Petey chegar, você vai pro meu quarto,
fechar a porta e recuperar o sono.
Ele queria recusar, mas sabia que não deveria. Então, não recusou.
Porra.
Ah, sim.
Mais brilho nos olhos dela e mais contato físico, com ela se aproximando ainda
mais.
— Totalmente.
Ele segurou o rosto dela, acariciando sua bochecha com o polegar e… droga.
Segurá-la, tocá-la, estar livre para fazer isso depois de querer desde que colocou
os olhos nela… era uma sensação fodidamente boa.
— Vou mandar uma mensagem pro meu pai e aceitar o jantar — ela informou.
— E se ele te convidar também, você provavelmente deveria saber que…
Ele ficou tenso e a interrompeu.
— Eu já sei que não é uma coisa boa. Sei que não tem nada a ver comigo. E
agora sei que ele não cuidou de você como deveria, e é por isso que vocês dois têm
essa relação complicada.
— Uhum.
— Então, eu não posso saber como ele não fez isso, porque isso vai me deixar
puto num nível extremo. Eu não quero estar compartilhando um beijo incrível com
você num segundo e, no outro, perdendo a cabeça por causa do seu pai e, talvez, te
assustando. Eu preciso estar no estado certo. Mais importante ainda, você precisa
estar no estado certo. E acho que podemos concordar que aqui e agora não é esse
momento.
Ela assentiu.
— Quer tomar um banho antes do Big Petey aparecer com os donuts, eu devorar
alguns e finalmente conseguir dormir direito?
Os olhos dela se arregalaram.
— Banho juntos?
— Não, baby. Isso fica pra depois. Quando a gente chegar lá e você estiver
pronta. Certo?
Ela assentiu de novo, mas ele adorou o fato de que ela parecia desapontada.
— Eu também. Agora, anda logo. Pete disse que só chega em algumas horas,
mas Suzette pode acordar a qualquer momento. E ela está começando a se sentir
mais à vontade comigo e a sair para os espaços comuns. A gente não precisa estar
se pegando na varanda quando ela sair.
Hugger sorriu.
Então, ele a virou, colocou a mão na base das costas dela e a empurrou
suavemente em direção à porta.
Ele a observou entrar e percebeu que, antes de desaparecer, ela olhou para trás,
como se quisesse ter certeza de que ele ainda estava ali e não iria simplesmente
saltar pela grade para fugir.
Loucura.
Devia estar pelo menos uns trinta e dois graus lá fora, e o café tinha esfriado.
Não, não era como se eu tivesse esquecido que, na teoria, estávamos no meio de
um grande drama envolvendo mafiosos e o FBI. Além disso, Hugger morava a
oitocentos e vinte e um quilômetros de distância (sim, eu pesquisei). Ou seja, levar
nosso relacionamento para aquele nível era a última coisa que deveríamos estar
fazendo.
Mas, cara…
Aquele beijo.
(Poderíamos simplesmente dizer que ele tinha um corpo feito para abraços. Os
melhores dois filmes que já assisti, sem sombra de dúvida.)
Como se já não tivesse acontecido coisa suficiente para abalar meu mundo
naquela manhã (embora tudo da melhor forma possível, eu ainda sentia os lábios de
Hugger nos meus e sua barba, áspera e macia ao mesmo tempo... meu Deus), e
ainda nem era dez da manhã, eu estava diante do verdadeiro Apocalipse no meu
celular.
A parte menos catastrófica desse colapso tecnológico era meu amigo Bernie
exigindo minha presença para uma noite de drinques na sexta-feira.
Como Nic sabia de tudo e, por consequência, Larry também, eles me ajudaram a
mudar Suzette para o apartamento, mas eu não fui exatamente transparente com
meus amigos. Só disse que tinha um convidado de fora da cidade ficando comigo
por um tempo e que precisava de ajuda para montar um quarto de hóspedes,
pegando algumas coisas emprestadas com eles.
A parte realmente catastrófica era que eu tinha mandado uma mensagem para
meu pai avisando que estava disponível para jantar.
Achei que ele estaria na academia ou jogando golfe, mas sua resposta veio
imediatamente:
Isso aqueceu meu coração (e eu nem sabia que tinha um coração tão sentimental
assim) ver que ele respondeu rápido e queria se encontrar logo.
Mas eu precisava falar com Hugger sobre isso também. Porém, já que tanto eu
quanto meu pai estávamos sob a proteção dos motociclistas, presumi que estaria
tudo bem.
Preciso confirmar uma coisa, mas acho que sim. Te aviso logo.
Foi aí que me lembrei da tendência do meu pai ao controle e de sua necessidade
de formar uma opinião sobre qualquer coisa para expressá-la, um impulso tão forte
que ele fazia isso até quando o foco deveria ser resolver onde estávamos na nossa
relação.
Não corrigi, não disse que ele não era meu namorado (oficialmente, pelo
menos... hmm).
Mal tinha enviado essa mensagem e já recebi outra, dessa vez da minha mãe.
A mensagem dizia:
Oi, querida! Vou estar na cidade para fazer compras! Me busca no aeroporto na
sexta, por volta das duas. Vamos ao Fashion Square, jantar em algum lugar legal e
depois passar o fim de semana acabando com a conta bancária do Rick.
Tive que parar por um instante para processar aquilo (tá, foram uns cinco
minutos), tentando sufocar os sentimentos que sempre - ou melhor, quase sempre -
surgiam quando minha mãe entrava na minha vida.
Eu a amava. Ela era divertida e viveu praticamente a vida toda sem
responsabilidades. Como eu, era filha única, mas meus avós lidaram com isso de
forma oposta ao que meu pai fez comigo - no caso dela, mimando-a até dizer
chega.
Passar um tempo com alguém tão leve, sem amarras, dava uma sensação de
liberdade.
Por um tempo.
E, por mais que eu não quisesse ficar irritada com minha mãe, o fato de ela ter
comprado as passagens sem perguntar, esperado que eu fosse buscá-la no
aeroporto num horário em que eu estaria trabalhando e, claro, contado que eu fosse
seu motorista (porque ela não dirigia na cidade - "Me deixa nervosa!"), me
incomodava.
Dessa vez, porém, eu não poderia simplesmente largar tudo para atender ao seu
chamado repentino para passar tempo com a filha (ou, sendo mais realista, para ir às
boutiques caras do Fashion Square com uma motorista, guia turística e carregadora
de sacolas à disposição. E sim, às vezes - na verdade, muitas vezes - essa era a
sensação).
Nesse momento, olhei para Big Petey, que continuava no outro canto do sofá. Ele
tinha tirado as botas, os pés apenas de meia apoiados na minha mesa de centro,
enquanto assistia a episódios antigos de Meu Gato Endiabrado (eu entendo, Jackson
Galaxy é incrível21).
Ah, droga.
E provavelmente foi por isso que fiz algo que nunca tinha feito antes.
Normalmente, eu enterrava qualquer incômodo em relação à minha mãe, ignorava
ou arranjava desculpas.
Resolvi reagir.
Mãe, você sabe que eu amo passar tempo com você. Mas ela foi estuprada por
um grupo de homens. Então, da próxima vez, talvez me mande uma mensagem
antes ou me ligue para ver se estou disponível ou posso tirar folga do trabalho.
Meu Deus, Diana. Um aviso antes de falar algo assim, por favor!
Fiquei olhando para a tela, sentindo algo ferver dentro de mim, como ácido.
Foi nesse instante que me lembrei de que nunca tinha contado para ela sobre o
que aconteceu comigo.
21
O programa mostra Jackson Galaxy (uma figura muito carismática, famoso por sua abordagem única e
seu estilo excêntrico - barba grande), um especialista em comportamento felino, ajudando donos
desesperados com gatos agressivos ou problemáticos
Não porque achava que a reação dela seria como a do meu pai, mas porque eu
sabia que ela não saberia lidar.
— Não sei se, por mais que você esteja encarando o celular, ele vai explodir na
sua mão — comentou Big Petey.
— Ela fez planos para vir neste fim de semana, mas nem sequer perguntou antes.
— Pois é — concordei. — E ela não gostou nem um pouco quando eu disse que
não podia.
— Bom... ela tem uma filha adulta agora, então não é como se tivesse muita
escolha, né?
Mas um arrepio percorreu minha pele ao perceber que isso sempre acontecia. Eu
sempre era a culpada quando minha mãe não conseguia o que queria, quando
queria.
Ela abriu mão da guarda. Nem sequer tentou lutar por mim. Nos víamos em
alguns fins de semana. Jantávamos juntas. Meu pai pagou pensão para ela até que
se casasse com Brendon (o marido número dois de três). E essa pensão não era nada
modesta.
Felizmente para meu pai, Brendon apareceu rapidamente e, segundo minha mãe,
apesar de estar arrasada com a infidelidade dele, Brendon "me arrebatou
completamente".
Com o acordo de custódia - e mesmo depois, durante o pouco tempo que ela
ficou com Brendon (e quando fiquei mais velha, percebi que ele não durou muito
porque era apenas um tapa-buraco) - eu achava que ela simplesmente não
conseguia lidar com tudo porque ainda estava arrasada com a traição e a perda do
meu pai.
Ela insistia muito na ideia de que meu pai "arruinou minha vida e nossa família",
sobre como foi difícil ser substituída e ter que "recomeçar do zero". E, quando as
coisas com Brendon terminaram, a culpa também era dele, porque "a traição do seu
pai me arruinou para todos os homens".
Era como se ela não estivesse deixando uma filha para trás.
Isso doía. Doía naquela época, e agora que eu me permitia lembrar, doía de
novo.
— Agora quer me contar por que estou com vontade de sair e comprar mais
donuts pra você? — Big Petey perguntou.
— A gente usa antolhos quando se trata dos pais. A gente precisa que eles sejam
perfeitos... ou pelo menos tão bons quanto conseguimos imaginar. No fim das
contas, eles nos fizeram, né? Então, são parte da gente.
Ele pareceu se perder em pensamentos depois de dizer isso, tanto que cheguei a
me preocupar. Ele não era jovem, mas sempre parecia estar bem lúcido.
— Nada, querida. Só uma coisa que me ocorreu. Mas enfim, voltando ao que
interessa... A gente também precisa sentir que pode contar com eles para ter
respostas e apoio. Mas ninguém é perfeito, Di, e uma hora todo filho percebe que os
pais são só pessoas... tentando descobrir o caminho, assim como todo mundo.
— Acho que sou uma retardatária nesse quesito — murmurei.
— Você disse que ela fez planos para vir neste fim de semana. Isso quer dizer
que ela não mora por perto?
Balancei a cabeça.
— Idaho.
— Então, não foi tempo suficiente pra você perceber antes, querida — ele
comentou. — Com esse tipo de convivência, tudo parece bem. São só férias e
comemorações. Mas o dia a dia... esse é outro assunto.
Como a vida que meu pai levava: ele era ambicioso. Queria ganhar dinheiro, se
tornar sócio, construir um nome para si mesmo. E, além disso, era pai e mãe de uma
filha.
Ele não era bom nisso, mas também não fugia da responsabilidade. Nunca houve
um momento em que ele parecesse irritado por estar preso a mim. Ele vivia a
própria vida. Trabalhava. Saía para encontros. Jogava golfe e tênis. E sim, em um
mundo perfeito, talvez ele devesse ter passado mais tempo comigo e, quando
estivesse comigo, ser menos rígido.
— Não seja tão dura consigo mesma, Di. Você também estava vivendo a sua
vida.
— É verdade.
— Quer falar mais sobre isso? — ele ofereceu. — Já vivi bastante coisa. Talvez eu
não tenha toda a sabedoria do mundo, mas o que eu tenho, eu compartilho. Se
quiser desabafar, estou aqui.
— Acho que preciso processar algumas coisas antes, Big Petey. Mas obrigada.
Não que precisasse ser dito, porque isso já era claro há muito tempo, mas... sim.
De todos eles.
— Suzette.
Assenti.
— Pareceu um grande avanço.
— Sim.
Ah, droga.
— Quero que ela esteja segura. Mas isso não é sobre o que eu quero.
— Não — respondi.
— Então, se fosse eu, deixaria essa decisão para ela. Vá até o quarto dela. Diga
que já está aqui há um tempo e talvez seja hora de conversar. Diga que pode ser
bom desabafar. Compartilhar com alguém.
22
Os U.S. Marshals (United States Marshals Service - USMS) são um órgão federal de aplicação da lei
nos Estados Unidos, vinculado ao Departamento de Justiça. Eles são responsáveis por uma variedade de
funções de segurança pública, proteção de testemunhas-chave em casos federais e cumprimento da lei
federal.
Seu rosto ficou sério de novo antes de suavizar.
— Eu sei, querida — ele disse tão gentilmente que meus olhos começaram a
arder com lágrimas ameaçando cair.
Eles já tinham entendido. Todos eles sabiam por que eu tinha perdido a cabeça e
me metido nesse caos.
E era bom saber que isso não era um obstáculo. Eles já estavam me tratando com
cuidado, então eu não precisava me preocupar com isso.
— Acho que sim. Se você conseguir compartilhar, acho que ela se sente muito
sozinha. E isso pode fazer com que se sinta um pouco menos assim.
Assenti.
— Vá agora. Faça isso. Vamos ver como ela está para sabermos o tamanho do
desafio pela frente.
Eu não sabia se Hugger dormia leve e não queria acordá-lo. Também não queria
invadir a privacidade de Suzette.
Seus olhos dispararam para os lados, como se estivesse procurando uma rota de
fuga.
Me aproximei.
— Que lugar?
— Não. Não. No começo, sim, mas agora sei que são todos muito legais.
Meu Deus.
Ela continuou sem tirar o rosto das mãos, chorando contra a minha camiseta.
Chorava baixinho, mas os soluços profundos e os tremores no corpo mostravam o
quanto aquilo estava doendo.
Rasguei a abertura de papelão, puxei uns cinco lenços e entreguei para ela assim
que me sentei de volta na cama.
— N-não.
— Porque, quando fugi, roubei o telefone dele. Ele me manda mensagens. Diz o
que vai fazer se eu não voltar para ele. E eu só queria que ele fizesse... Diana, eu só
queria voltar. Estou tão cansada. Tão cansada de... de... de tudo. E não posso deixar
que ele machuque você ou... ou os caras.
— Eu preciso que você me entregue esse telefone, Suzette. Depois, preciso levá-
lo ao detetive Scott.
— Eu consigo outro para você. Não quero que use mais esse. Ele não pode ter
nenhum contato com você. Nenhum. E acho que é muito importante que a polícia
tenha esse telefone.
Forcei um sorriso.
— Não posso prometer o modelo mais moderno, mas você vai poder ligar,
mandar mensagens e baixar alguns joguinhos.
Ela assentiu.
— Vi quando ele digitou. Ele não tomou cuidado porque... porque... bem, achou
que eu tivesse desmaiado.
— Tá bom.
Ele tinha ouvido o grito dela e estava parado do lado de fora da porta.
Assim que soltei Hugger, Big Petey se levantou e veio até mim.
Entreguei o telefone para ele.
Corri até a cozinha, abri a gaveta de tralhas e encontrei o cartão do detetive Scott
exatamente onde eu o havia deixado. Peguei e voltei depressa para Big Petey.
— Pode ligar para o detetive Scott? Diz que temos o telefone do Babić. —
Entreguei o cartão para ele.
— Pode deixar.
— O código é dois, dois, três, dois — informei. — E, Big Petey, ele tem mandado
mensagens para ela. Ameaçando-a. A mim. A todos nós.
Hugger não disse nada, mas senti a onda de raiva irradiando dele e batendo em
mim com força.
— Não estou brava com isso também — assegurei. — Na verdade, não estou
brava com nada, exceto com o que fizeram com você. Você só estava se protegendo.
— Quem você não quer que os encontre? Aquele homem os ameaçou também?
— Não, não ele. A polícia. Não quero que eles contem aos meus pais onde estou.
Ah, droga.
— Porque eu fiquei com raiva deles e fui embora. Foi uma estupidez. E ele
mentiu para mim. E foi... foi tão, tão estúpido.
— Madison — sussurrou.
— Oi, Madison.
Talvez ela já tivesse derramado quase todas as suas lágrimas, porque parou antes
de mim. Então, me obriguei a parar também.
Mantive-a perto enquanto alcançava uma caixa de Kleenex. Nós duas secamos as
lágrimas e, então, me acomodei contra a cabeceira da cama, segurando-a ao meu
lado, mantendo os lenços por perto.
E perguntei:
Ela encostou a cabeça no meu ombro, e aquele foi o peso mais precioso que já
carreguei.
— Quero.
Big Petey
Big Petey nunca tinha pensado muito sobre policiais até que Tack trouxe alguns
para o círculo interno do Chaos. Não exatamente para a irmandade, mas tão
próximos quanto alguém poderia chegar sem carregar um distintivo.
Normalmente, se os policiais ficavam fora do caminho dele, ele ficava fora do
deles.
Reconhecia que Rayne Scott era do mesmo tipo de Mitch Lawson e Brock Lucas.
E não apenas porque o desgraçado era alto, moreno e, para piorar, um homem
absurdamente atraente.
Scott era direto. Atento. Focado. Claramente preocupado com o que estava
acontecendo no quarto de Suzette. E, estando ali em pleno domingo de manhã, era
evidente que levava o trabalho a sério.
Pete se levantou, percebendo mais uma vez que o calor seco de Phoenix fazia
bem para suas articulações envelhecidas. Denver também era árido, mas o frio se
infiltrava no corpo. No deserto, ele se sentia pelo menos cinco anos mais jovem.
— Estou bem.
— O nome dela é Madison O’Keefe. Diz ter dezenove anos. É de Lubbock, Texas.
Estava estudando para se tornar manicure e pedicure. Conheceu um cara pela
internet, e os pais dela tiveram um pressentimento ruim sobre ele. No fim, estavam
certos. Discutiram sobre isso algumas vezes, mas a última briga foi feia. Ela arrumou
as malas e foi atrás dele. O sujeito fugiu com ela e, quando ela começou a
questionar para onde estavam indo... atravessando a divisa para o Novo México, as
coisas começaram a desandar.
Pete observou enquanto Hugger deslizava a mão pelas costas de Diana até
envolvê-la pela cintura. Ele a encaixou ao seu lado como se ela tivesse sido feita para
estar exatamente ali.
Até ontem, ele não sabia se já tinha visto Hugger tocar outro ser humano, exceto
quando brincava com as crianças. Quando estava com Rider, Cutter, Nash, Playboy,
Wren, Princess, Travis, Clementine, Wyatt, Raven… qualquer um deles, era um
homem diferente.
Era um homem que acreditava que sua vida valia a pena ser vivida.
— Ela tentou fugir em certo momento, e eles riram dela — Diana prosseguiu. —
Disseram que metade da polícia estava na folha de pagamento do Sr. Babić. Se ela
tentasse pedir ajuda, só iriam entregá-la de volta.
— Espero que isso tenha sido só conversa para fazê-la pensar que estava ferrada
de qualquer jeito — comentou Pete para Scott.
— É mentira — Scott afirmou com os dentes cerrados.
Pete estudou o detetive com atenção e, droga, esperava que ele estivesse
falando a verdade.
— Foi isso que eu disse a ela — reforçou Diana. — Acho que consegui prepará-la
para se abrir mais com você. Mas ela já teve o suficiente por hoje.
— Vou ligar para o trabalho e avisar que não vou amanhã. Vou deixá-la
descansar pelo resto do dia e, com sorte, convencê-la a ir até a delegacia para um
depoimento mais detalhado.
— Já volto.
Assim que desapareceu atrás da porta de Madison, Pete olhou para Scott.
— O que temos aqui?
Scott assentiu.
— Temos dedicado muitos recursos a esse cara. Mas, como você deve imaginar,
ele tem um grande interesse em nos impedir de descobrir tudo o que precisamos
saber. Aí Madison apareceu e, pouco depois, os federais também. Eles nem sempre
colaboram bem com a polícia local, mas ficou claro que isso fazia parte da
investigação deles. Sendo bem sincero, isso me pegou totalmente de surpresa. Não
havia sequer um boato de que isso estivesse ligado às operações do Babić.
— Ele está mexendo feio com a cabeça dela — Pete lembrou a Scott sobre o que
já havia contado quando o homem chegou. — Ela não respondeu, mas ele tem feito
ameaças repetidas contra um monte de gente que pode significar algo pra ela,
incluindo ela mesma, há mais de uma semana. Isso é considerado crime?
— Tudo que sei é que, quando esse caso for a julgamento, isso não vai pegar
bem com o júri.
Os dois olharam para o corredor e viram Diana com a cabeça e a mão para fora
da porta do quarto de Madison, acenando para Hugger.
Hug seguiu na direção dela.
— Di ainda não chegou a esse ponto — Hugger explicou. — Mas ela quer que
eles saibam o quanto antes.
— Quero ficar por aqui caso Di saia. Pode ligar para o Rush e atualizar ele?
— Pode deixar.
— Estou começando a achar que devíamos deixar eles fazerem o que querem —
Rush comentou. — Estamos limpos e fora do radar, e eles são bons nesse tipo de
coisa.
Quando terminou a ligação com Rush e se preparava para voltar para dentro, viu
Diana retornar. Ela foi direto até Hugger, encaixando-se ao lado dele. Dessa vez, ele
abriu espaço para ela sem hesitação e passou o braço ao redor dela, segurando-a
ali.
Isso fez com que Big Petey voltasse para perto do corrimão e pegasse o telefone
novamente.
— Pode entrar.
Quando entrei, ela se moveu, ajeitando-se com alguma dificuldade por causa do
braço ainda imobilizado na tipoia. Com algum esforço, conseguiu se sentar
encostada em um lado da cabeceira, um convite silencioso para que eu ocupasse o
outro.
— Só para você saber, eu contei ao Big Petey que tem uma loja da Apple
praticamente do outro lado da rua. Também mencionei, sem querer, que você queria
um celular. Então, acho que não ficamos surpresas quando ele saiu correndo para
pegar a moto e ir comprar um para você. Só um aviso: é bem provável que venha
com todas as últimas tecnologias.
Pensei em tudo que aprendi sobre Big Petey nesse curto tempo, especialmente
na conversa que tivemos sobre minha mãe.
— Sim, ele é.
Ah, droga.
Bom, como não perceberia? Ficamos abraçados durante dois filmes inteiros.
Falhei miseravelmente, porque o que ela disse a seguir não deixava dúvidas:
— Mas eu acho que você acha que ele é o mais legal de todos.
Demorei um segundo para captar o que ela queria dizer, mas então percebi que
talvez estivesse me provocando.
Foi então que Madison me pegou de surpresa ao soltar uma risadinha e retrucar:
Droga!
Era tão óbvio assim?
— Não. Ele é legal, grande, forte e durão, e você é toda bonita, delicada e
elegante. Normalmente, ninguém juntaria vocês dois, mas... é fofo.
Fiquei surpresa. Não pelo "os opostos se atraem", porque isso era óbvio, mas por
outra parte da fala dela.
— Bom... sim. Você usa sapatos chiques todos os dias para trabalhar.
— Eu sei que o momento não é o melhor, mas eu gosto dele, e ele gosta de
mim. Dito isso, vamos tentar não ser... — comecei a dizer.
— Eu entrei de supetão na sua vida, Diana — ela disse, a voz pequena. — Não
deixe que eu atrapalhe.
— Você não atrapalhou minha vida, Madison. Eu te convidei para vir. E, depois,
descobri que você é incrível, e estou muito feliz que confiou em mim para cuidar de
você.
Seu rosto se contorceu, não como se fosse chorar de novo, mas como se não
acreditasse no que eu dizia.
Inclinei o rosto até que ficasse mais próximo do dela e sussurrei de volta:
— Não foi tão ruim, nem de longe, mas sim, querida. Aconteceu comigo
também.
Essa era uma das lições mais tristes da vida, e eu odiava que ambas tivéssemos
aprendido isso.
— É — concordei. — Também temos que ser fortes muitas vezes, e força vem de
muitas formas. E, infelizmente, vou ter que pedir um pouco mais da sua, porque tem
mais uma coisa difícil que preciso te contar antes de deixarmos isso de lado e
tentarmos aproveitar o resto do nosso domingo.
Outra coisa que fez minha fala ser uma meia verdade era que eles não apenas
queriam falar com ela, mas também queriam vê-la. Tanto que já informaram ao
detetive que pegariam o primeiro voo para Phoenix.
Como eu suspeitava.
— Eu disse a ele que provavelmente essa seria sua resposta. Só queria que você
soubesse o que está acontecendo — ou, pelo menos, parte disso.
— Tá bom — murmurou.
— Chorei tanto que estou exausta. Acho que preciso tirar um cochilo.
Lágrimas curavam. Descanso curava. Conversas curavam. E, pelo jeito que seus
pais reagiram ao saber onde ela estava, eu esperava que vê-los também ajudasse
nesse processo.
Isso me lembrou que Hugger também precisava descansar. Seu cochilo não
durou nem uma hora.
Esperaríamos o Big Petey voltar da loja da Apple para isso.
Engraçado como Madison e eu estivemos sozinhas por tanto tempo, mas agora,
mesmo depois de apenas alguns dias, não parecia certo estar sem aqueles caras por
perto.
Ela pareceu surpresa com a pergunta, mas então assentiu e se inclinou para mim.
Envolvi meus braços ao redor dela e lhe dei um abraço cuidadoso, mas firme.
Soltei-a, levantei da cama e estava no meio do caminho até a porta quando ela
chamou:
— Di?
Virei-me.
— Estou aqui.
Eu já imaginava. Ela podia ser pequena, mas era forte. Uma verdadeira guerreira.
Mas já bastava por hoje. Eu suspeitava que até Alexandre, o Grande, tirava um
tempo para relaxar.
No entanto, essa não era uma decisão minha.
— Acho que... — Ela fez uma longa pausa antes de completar: — Hoje já foi
bastante.
— Foi sim — concordei. — E vou aproveitar para dizer que o que você tem para
contar é seu. Não há pressa. Quando quiser compartilhar, será no seu tempo.
— Obrigada, Di.
— Tenho que admitir, baby, eu também me sinto mais segura com um monte de
motociclistas pisando forte por aí com suas botas de couro.
Isso arrancou um sorriso meio tímido dela. Eu retribuí com um sorriso completo.
— Beleza, Di.
Fui até ele e quase o abracei, mas me lembrei de que ele havia dito que não era
muito afetuoso e não gostava de contato físico.
Ainda não tinha parado para pensar nisso, especialmente porque, desde ontem
na quadra de tênis, ele tinha me tocado várias vezes. Mas agora que eu estava
refletindo sobre isso, não gostava da ideia.
Nunca tinha pensado nisso quando se tratava de mim. Acho que eu também não
era do tipo que exagerava no toque, mas gostava de contato físico com o meu cara,
quando tinha um. E não só no sentido sexual. Além disso, nunca fui de evitar contato
com as pessoas, apenas não era exageradamente carinhosa.
— Ela ainda não está pronta para falar com os pais. Quer descansar depois de
liberar todas aquelas emoções, e eu não a culpo. Também quer que os caras venham
para o jantar. Vamos de pizza de pepperoni.
— Ela disse que se sente mais segura quando eles estão aqui.
— E ela gosta da sensação de que tudo parece "normal" quando eles estão por
perto.
— Então, vou fazer uma ligação e colocar esses caras a caminho — Hugger
afirmou.
Hmm.
Mas agora que estava refletindo, apesar de o fato de ele não ser carinhoso ou
afetuoso estar na coluna dos contras na minha lista de prós e contras do "Quero
explorar isso com Hugger?", isso definitivamente era um pró.
Nenhum dos meus dois ex-namorados de longo prazo ajudava nas tarefas
domésticas, e eu tinha morado com ambos. Sempre tinham desculpas - horários de
golfe, jogos de futebol, idas à loja de materiais de construção para comprar coisas
para consertar o que eu nem tinha certeza de que estava quebrado. E quando
ajudavam, faziam um trabalho péssimo.
Hugger não passava o aspirador de vez em quando só para fingir que estava
ajudando, ele realmente aspirava a casa.
Mesmo assim...
— Eu também posso pedir online, assim o Pete não precisa sair de novo —
sugeri. — Você precisa tentar descansar mais.
Assenti concordando.
— Agora vamos falar de você. Como está lidando com tudo isso? — ele
perguntou.
— Estou muito feliz que ela chorou. Muito feliz que finalmente conseguiu colocar
essa emoção para fora, acho que isso vai ajudar no processo de cura, e eu duvido
que ela tenha sequer começado a fazer isso antes. Estou ainda mais feliz que os pais
dela agora sabem que ela está bem... ou pelo menos que ela ainda está neste
mundo e onde encontrá-la. Além disso, estou aliviada por ver as coisas avançando,
pois ela claramente confia em mim e se sente segura com os caras por perto. E, por
último, estou feliz para além das palavras por finalmente saber o nome dela.
— Não — cortei. — Quando penso em mim aos dezessete e aos dezenove... e foi
com dezenove que aconteceu comigo, percebo que teria sido muito mais difícil lidar
com isso se tivesse sido antes.
A voz dele ficou mais grave, mais áspera, quando perguntou em tom baixo:
— Uhum.
Seus lábios se estreitaram e uma aura perigosa emanou dele. Mais uma vez, tive
vontade de tocá-lo.
— Estou bem, Hugger. E, antes que as coisas fossem longe demais, eu dei uma
joelhada nele. Quando ele estava lidando com isso, dei um soco certeiro para
garantir minha fuga.
De repente, sua mão se moveu rápido, segurou a parte de trás da minha cabeça
e me puxou contra seu peito largo.
E era bom ouvir ele me chamar de "minha garota", sem contar que estava me
tocando.
Mesmo assim...
— Você não precisa estar sempre se matando para cuidar de todo mundo, Di —
ele disse. — Pode tirar um tempo para si também.
— Bem, precisamos falar sobre isso, porque não só meu pai quer que eu vá
jantar com ele na quarta-feira, como também te convidou. E aviso logo: isso é só
para te avaliar, julgar e encontrar defeitos em você.
Hugger revirou os olhos de um jeito tipicamente masculino - se você não sabe
como é, é basicamente um olhar de lado, mas com os olhos voltados para cima
também.
Mas eu não tinha tempo para nenhuma dessas coisas. Precisava ser sincera sobre
meu pai.
— Vou te adiantar: isso vai ser sobre você ser um motociclista. Mas, mesmo que
não fosse, ele não iria gostar de você. Ele nunca gostou de nenhum dos meus
namorados.
— Pais têm um talento especial para isso — ele disse. — Não sei se vou
conquistar ele. Mas sei que não me importo. A única pessoa que precisa gostar de
mim é você.
Eu estava com a cabeça apoiada no ombro dele, mas levantei para olhá-lo.
— Você vai?
— Sim. Porque não quero que você fique sozinha com seu pai nesse primeiro
encontro, sabendo que ele já foi um babaca com você antes.
Ainda assim...
— Eu não quero jantar com meu pai sendo um babaca com você.
Eu queria saber mais sobre por que ele precisava ter uma "casca grossa", mas
não toquei no assunto. Estávamos nos conhecendo, e não precisávamos fazer isso
tudo em um único dia.
— Minha amiga Bernie também quer que eu saia para tomar uns coquetéis na
sexta-feira.
Sem surpresa.
— E sinto que seria mais um "teste de fogo" conhecer seus amigos do que seu
pai.
Ele estava certo quanto a isso. Meus amigos não eram críticos, mas também não
aceitávamos qualquer rostinho bonito quando se tratava de quem estávamos
saindo.
— Não.
— Sim.
— Quer me contar por que não falou sobre Madison para eles?
— Então, posso dizer sim para o meu pai e para Bernie — resumi.
— Sim.
— E agora preciso fazer outra lista. Então, preciso saber qual é sua pizza favorita.
— Não curto cebola encharcada, e se tiver uma pizza com abacaxi nesta casa,
vou jogá-la da sua varanda.
Comecei a rir.
— Fora isso, como qualquer coisa. Mas, se fosse pedir só para mim, seria de
linguiça e cogumelos.
— E para você?
— Sim, quero saber. Mas também quero que você coloque as suas preferências
na lista. Vou repetir: não se trata só dos outros o tempo todo.
— Acho que você pode estar tendo a ideia errada sobre mim, meu caro.
Dizer "meu caro" me rendeu outro aperto, mesmo que eu não tivesse dito com
esse tom.
Seus olhos caíram para minha boca, e eu vi, de perto, como ficaram mais
intensos.
— Não — respondeu.
— Só um pouquinho? — insisti.
— Você acha que, depois daquele beijo de hoje de manhã, conseguiríamos nos
beijar "só um pouquinho"? Já foi difícil parar naquela hora. Agora que sei o quanto é
bom sentir essa boca, não tenho certeza se conseguiria parar.
— É… — murmurei.
— O que foi?
Ele segurou meu pulso, levou até sua boca, e senti o toque suave de seus lábios
junto ao roçar de sua barba na parte interna do meu pulso.
E aquele arrepio gostoso percorreu todo o meu corpo outra vez, porque não foi
só a sensação que me pegou… ver ele fazendo aquilo foi uma baita provocação.
— Vai pegar o bloco de notas e trazer para cá — ordenou. — Vamos fazer uma
compra enorme. Criar um cardápio ou algo assim, para você não precisar ficar
escrevendo listas toda hora e para não deixarmos você sozinha sempre que
precisarmos ir ao mercado.
Achei a ideia excelente, então me soltei dele e corri até a cozinha para pegar o
bloco e uma caneta.
Quando voltei, hesitei por um instante. Como ele tinha começado o carinho, eu
podia simplesmente voltar para aquele aconchego ou deveria dar um pouco de
espaço?
Hugger decidiu por mim ao pegar minha mão e me puxar para o sofá, me
mantendo bem perto.
— Não, baby — ele sussurrou, olhando direto nos meus olhos. — Nem um
pouco.
Meu coração disparou quando ele se inclinou e encostou os lábios nos meus.
— Provocador — acusei.
Agora ele estava claramente brincando comigo, e isso foi tão doce que caí na
risada.
Hugger passou um braço ao redor dos meus ombros, me puxou para mais perto
e ordenou:
— Mulher. Lista.
Big Petey voltou com o celular de Madison e decidimos que ele iria até a loja, já
que não via problema em levar Baby Shark, e nenhuma das bicicletas deles
conseguiria carregar aquela quantidade de mantimentos.
Hugger ficou comigo, relaxando, conversando e assistindo episódios de Meu
Gato Endiabrado até Big Petey retornar com as compras. Ele ainda ajudou a guardar
tudo (mais um ponto positivo para ele) antes de voltar para o meu quarto para
tentar mais um cochilo.
Madison saiu pouco depois e, tão feliz por ter um celular, que acabou abraçando
Big Petey.
Ele a envolveu em seus braços, olhou por cima da cabeça dela e encontrou o
meu olhar.
E os dele também.
Pizza, sorvete com calda quente, muita cerveja e vinho foram consumidos. Os
caras já tinham ido embora, e Big Petey foi junto com eles.
Madison foi para a cama cedo, provavelmente ainda exausta do dia emocional
(embora eu tivesse a leve suspeita de que ela também estivesse me dando tempo a
sós com Hugger).
Ah, não.
Como mencionei, não estávamos nos beijando, mas Hugger estava acumulando
vários pontos positivos na minha lista de "Quero explorar isso com Hugger?".
Sim!
Viu?
Ele era absolutamente fofo, por trás de toda aquela aparência de homem grande,
forte, barbudo e durão.
— Então, vocês têm uma nota mínima na escala de gostosura para permitir
motociclistas na sua irmandade? — perguntei.
— O quê?
E o Eight tinha arrastado o Core e o Linus junto com o resto dos caras, então
minha mesa ficou tão cheia que precisei pegar cadeiras emprestadas do vizinho.
Madison, mesmo sem conversar muito com todos eles, parecia mais à vontade
comigo, Pete, Hugger, Eight e Muzzle.
Core tinha uma beleza digna de Hollywood. Linus também, mas ele ainda era
jovem e não tinha crescido por completo nela - faltar-lhe aquela confiança natural
que o Core já exalava.
Incrível.
Havia algo de verdadeiramente bonito nos olhos dele, como se carregasse uma
empatia universal por todas as dores que um ser humano poderia enfrentar. Era
hipnotizante.
— Posso dizer que não temos um critério mínimo, porque ninguém repara
nessas coisas.
— Difícil não reparar. Para falar a verdade, estou até com medo de conhecer o
Jagger e o Roscoe quando chegarem. Minhas retinas podem simplesmente queimar.
— Pelo tamanho e brilho da aliança do Dutch, diria que ele é muito casado —
comentei, para ver se ele falava mais sobre os irmãos.
— Sim, com a Georgie. Ela é incrível. Jag também está casado, com Archie. Outra
mulher incrível, mas de um jeito diferente. Georgie é jornalista. Archie tem a própria
loja. Eu não sou muito de fazer compras, mas é um lugar bem irado.
— Aconteceu assim.
Uma boa lembrança de que a vida pode trazer surpresas bem divertidas às vezes.
— Eu conheci o pai dele quando era bem mais novo — ele continuou. — Jovem
demais para formar uma impressão profunda, mas sabia que gostava dele. Ele
adorava crianças.
— Quando você passa por algo assim, vê sua mãe de luto pelo seu pai por duas
décadas, isso molda sua visão sobre tragédia. Fazemos o que fazemos no
Resurrection em parte por causa dele. Os caras estavam inquietos, isso já era um
fato, mas Dutch conhecia o Clube tão bem quanto qualquer outro irmão que já
tivesse um patch há décadas. Ele estava inquieto, outros também. Agora, a gente
entra quando quer.
— Conhecia o Clube?
Hugger virou de costas e me puxou para cima dele, deixando nossos rostos bem
próximos.
— A old lady do nosso presidente, Rush, a Rebel, é diretora de cinema. Ela fez
um documentário sobre o Chaos — ele pausou por um momento antes de concluir:
— Acho que você devia assistir, Di.
Hmm.
Santo Deus!
— A maioria dos irmãos não queria se envolver com essa merda. Então, eles
caíram fora. Pelo menos, cuidaram bem das garotas quando fizeram isso, ou pelo
menos tentaram o melhor que puderam. Demorou um tempo para se livrarem
completamente, e foi perigoso, mas conseguiram. Quando entrei para o Clube, eles
já estavam limpos.
— Mas eles eram viciados em adrenalina, e para continuar tendo essa dose de
emoção, vocês se juntaram ao Resurrection.
— Não exatamente — ele respondeu. — Para deixar claro que não eram mais
foras da lei, o Resurrection fez o caminho oposto e se tornou um grupo de
justiceiros.
Ummmmmmmmm...
Santo Deus!
Ainda assim, isso não deveria me surpreender tanto, considerando o que Hugger
e Big Petey fizeram por mim e por Madison.
— Certo.
— Não.
— Baby, você fez quatro pizzas, uma salada Caesar gigante e ainda tomamos
quase oito litros de sorvete nos sundaes. Você ainda aguenta pipoca?
— Isso foi um não? — perguntei, irritada. Nunca gostei que comentassem sobre
o que eu comia (meu pai fazia isso o tempo todo), e definitivamente não queria que
um cara de quem eu gostava fizesse o mesmo.
— Eu pego uma cerveja e reabasteço seu vinho. Você cuida da pipoca — ele
disse.
— Você escolhe.
— Perfeito.
Mas, pelo jeito como ele me olhava, senti que aquela palavra tinha dois
significados.
Infelizmente, não durou muito, porque Hugger me puxou para junto dele, nos
colocando de pé.
Fomos juntos para a cozinha.
Ele ajudou derretendo a manteiga (mais um ponto para a minha lista de "Quero
explorar isso com Hugger?").
O documentário sobre o Clube era incrível. Mesmo que não fosse sobre o Chaos,
eu teria achado sensacional.
Não posso dizer que algumas partes não foram assustadoras, porque foram.
Mas adorei o fato de Hugger ser tão aberto sobre tudo, sem esconder nada. E
também adorei ver que o Clube tinha superado aquela fase.
Ah, e o pai de Dutch era tão incrível quanto ele. E não era só pela aparência. O
cara tinha um sorriso lindo e claramente amava a esposa, os filhos e os irmãos. Isso
me deixou um pouco triste, mas, ao mesmo tempo, feliz por ele ter deixado dois
filhos para continuar esse legado antes de partir.
Quando o filme terminou, já era tarde. Depois de alguns beijos suaves e alguns
abraços apertados, Hugger me mandou para a cama.
Eu quase convidei ele para ir comigo. Não para avançar rápido demais, mas só
para dormir juntos, ele sobre as cobertas e eu debaixo delas. Assim, ele descansaria
melhor.
Não fiz o convite porque, depois dos beijos de esquimó, de fazer carinho com os
pés, da pipoca e da honestidade brutal que ele compartilhou tão abertamente com
aquele documentário, eu não precisava da tentação.
Então, fui para a cama sozinha, sem nem um mini amasso para me ajudar a
passar a noite.
Foi uma droga.
Mas, sinceramente, tudo que Hugger estava mostrando me dizia que ele valia a
espera.
Capítulo 12
COLCHÃO DE AR
Diana
Abri os olhos para o sol da manhã e virei a cabeça, vendo Hugger pairando sobre
mim.
Bom, então.
— Ei — sussurrei.
— Odeio te acordar assim, baby, mas Scott está no telefone, e as coisas estão
pegando fogo.
— Droga — murmurei.
Eu esperava ter pelo menos a manhã para contar a ela e convencê-la a vê-los.
Espera.
— O quê? — perguntei.
Espera.
— O quê?
— Não sei, Di. Mas Scott quer falar com Madison o quanto antes.
Talvez ela não quisesse dizer o que eu achei que quis dizer com isso.
Ótimo.
— O que foi agora? — perguntei, mesmo sem ter certeza se queria saber.
— Durante o tempo em que Madison estava com o telefone, houve uma ligação
de um número salvo como "Otac", que, pelo que parece, significa "pai" em bósnio. A
chamada aconteceu na manhã seguinte à que ela deu entrada no hospital e durou
quinze minutos.
— Isso significa que ela estava com o telefone do filho, mas conversou com o
pai.
— Eu não sei o que isso significa, baby. Só sei que Scott disse que essa ligação
aconteceu antes da polícia entrevistá-la. Então agora está tudo ainda mais confuso,
porque ela identificou Imran Babić como seu estuprador, e ele foi preso por esse
crime, mas ela estava com o telefone do filho dele e disse ontem que era o telefone
do homem que a atacou.
— De novo, não sei. Mas Scott precisa descobrir, para que essa investigação não
saia dos trilhos.
Se você está acompanhando, o único item na coluna dos contras era o fato de
ele não ser muito de contato físico, e ele continuava sendo carinhoso, então isso
estava escrito a lápis.
— Claro — ele murmurou, inclinando-se para perto, roçando seus lábios ásperos
na minha testa (mais um ponto positivo!) antes de sair para buscar meu café.
Tentei decidir se escovar os dentes ou ligar para o detetive Scott era a prioridade.
O detetive ganhou por pouco, porque boca de manhã era nojenta.
— Diana?
— Certo.
— Então agora preciso saber o que fazer com Madison. Você pode vir até nós,
onde ela se sente segura? Ou preciso dar um jeito de levá-la até você?
— Isso é com você. Ela não está sob minha custódia. Mas eu recomendaria que
isso acontecesse logo. Eles sabem o que aconteceu com ela e estão se
despedaçando.
— Agradeço.
— Até mais.
— Tchau, Diana.
— Scott disse que seria melhor se a entrevista acontecesse na delegacia para que
possam gravá-la. Mas acho que devemos deixar a família dela vir aqui vê-la.
— Nós?
— Di, baby, essa casa não é minha — ele me lembrou de algo que eu já sabia.
Senti que a resposta dele tinha um duplo significado. Como a minha também
tinha, eu estava totalmente bem com isso.
— Tudo certo.
— Mentira deslavada.
Uma risada curta, mas sincera, escapou dele, e eu gostei disso também.
O que eu não gostei foi que soou áspera, como se ele não risse com frequência.
Com tudo o que estava acontecendo, não tinha escolha a não ser deixar isso para
lá.
Por enquanto.
Isso era bom. Madison claramente tinha criado um vínculo com ele, e parecia que
o presente do telefone havia solidificado isso.
— Wash?
— O Presidente do Resurrection.
Oh.
— Eles provavelmente deveriam saber com qual Babić estão lidando — comentei.
Eita!
— Certo, então nosso plano é o seguinte: você usa o banheiro primeiro enquanto
eu tomo meu café e ligo para minha chefe para avisar que vou tirar um dia pessoal
— expliquei. — Depois, eu uso o banheiro, acordo a Madison e a preparo tanto para
a visita dos pais quanto para voltar e ser reentrevistada pela polícia.
— Ótimo plano.
— Então, nada demais... Só mover algumas montanhas antes das oito da manhã.
Hugger sorriu.
Engoli seco.
Enquanto isso, tomei um gole do meu café e rolei a tela do celular até encontrar
o número de Annie.
E, quando apertei o botão para ligar, foi como apertar o botão para começar a
mover uma montanha.
O momento estava prestes a chegar. Quero dizer, Hugger havia descido para
escoltar o Sr. e a Sra. O’Keefe até sua filha.
Ela concordou com isso depois que contei sobre o choro, os soluços e a
necessidade de uma segunda ligação, porque seus pais ficaram tão emocionados
que mal conseguiram falar.
— Não gosto quando eles simplesmente desistem e vão embora — declarou Big
Petey.
Cristo na cruz!, isso estava me destruindo. Já era a quingentésima vez no dia que
eu segurava o choro.
Dessa vez, porque eu queria que meu pai tivesse reagido como Big Petey depois
do que aconteceu comigo.
Hugger foi o primeiro a surgir na entrada da sala de jantar. Ele deu um passo
para o lado, e duas pessoas entraram logo atrás.
Foi nesse momento que percebi como Madison era a cópia exata da mãe: uma
mulher pequena, com muito cabelo loiro e olhos azuis enormes.
Já seu pai competia em porte físico com Hugger, embora o Sr. O’Keefe tivesse
um físico mais macio (o que significava que Hugger ganhava essa disputa, na
verdade, óbvio que ganharia de qualquer forma).
— Minha menininha...
A Sra. O’Keefe se aninhou neles, e ele manteve a filha suspensa no ar, mesmo
enquanto soltava um dos braços para abraçar a esposa.
Ah, pronto.
Totalmente chorando.
Droga!
Hugger veio até mim e, o homem supostamente nada afetuoso que era, me
puxou para os braços e me encaixou ao seu lado.
Eu já estava pensando em sugerir que fôssemos para a sala de jantar para dar
mais privacidade à família quando o abraço finalmente se desfez.
— Foi uma tortura não saber onde você estava, minha menina — resmungou o
Sr. O’Keefe. E sim, até aquele momento, eu não sabia que alguém poderia
resmungar uma frase inteira, mas ele conseguiu.
Ele a colocou no chão delicadamente, mas sem soltar nem a filha, nem a esposa.
— Pare com isso agora mesmo, Madison Renee O’Keefe — cortou a Sra. O’Keefe
com firmeza.
— Mamãe...
— Nem mais uma palavra assim, Maddy — ela alertou. — Nem mais uma.
— Tá bom, mamãe — Madison murmurou, sem soar repreendida, apenas
concordando.
A Sra. O’Keefe, que podia ser pequena, mas eu já estava percebendo que era
alguém com quem não se brincava, soltou o braço do marido, ajeitou sua blusa
simples, porém elegante, e falou novamente:
— Esse é Hugger. Ele nos protege o tempo todo, até dormindo no sofá para
garantir isso — apresentou. — Esse é Big Petey, que ontem me comprou um
celular... e donuts.
Engoli em seco, limpei o rosto (agradecendo por não ter tido tempo de passar
rímel), soltei Hugger e caminhei até a família O’Keefe.
— Eu não a salvei. Ela se salvou sozinha. Só ofereci um lugar para ficar — corrigi.
Não tive tempo de dizer mais nada, porque me aproximei demais das garras de
uma mãe protetora. Sem hesitar, ela fincou as unhas longas no meu ombro, me
puxou para um abraço e me apertou com tanta força que fiquei sem ar.
Ela disse isso diretamente para Madison. O restante foi direcionado ao grupo
presente:
— Depois disso, alugamos uma daquelas casas de temporada. Tem uma piscina
que também conta com uma jacuzzi. Vamos ficar por aqui até o detetive Scott obter
todas as informações de que precisa, e então voltamos para casa.
Enquanto ela falava, percebi que o rosto de Madison ficava cada vez mais pálido.
Ah, merda.
— Não pudemos trazer uma arma no avião — rebateu a Sra. O’Keefe. — Mas
sabemos como conseguir uma, e pode ter certeza de que Elias aqui não tem medo
de usá-la.
— Preferimos que ninguém precise disparar uma arma para garantir segurança e
proteção dentro dos limites da cidade — observou Rayne.
— O que Emmylou está dizendo, filho, é que não queremos ficar longe da nossa
menina e esperamos que você entenda isso e encontre um jeito de respeitar.
— Eu sei, mamãe, mas estou segura aqui, com Diana e os caras. E não é só o Big
Petey e o Hugger. Tem o Eight, o Muzzle, o Dutch, o Core e o Linus.
— Não vou deixar os pais da Maddy na linha de frente caso alguém entre pela
porta da frente — declarou Big Petey.
— Acho que Hugger deve ficar no quarto com Diana, você pode dormir no sofá e
Emmylou dorme com a filha — devolveu Big Petey.
Meu Deus.
— Menina, esta noite eu vou dormir como um bebê, sabendo que você está ao
meu lado. Agora, vamos tomar um café e resolver isso logo para que o detetive
Scott possa fazer seu trabalho.
Enquanto isso, tanto Hugger quanto Big Petey estavam ao telefone. Meu palpite
era que Hugger estava organizando um encontro enquanto estivéssemos na
delegacia.
Ele então se aproximou de mim e murmurou:
— Vou sair e comprar um daqueles colchões para dormir no chão do seu quarto.
— Você pode comprar um para o Sr. O’Keefe, para que ele fique confortável.
Para você, não.
— Baby...
— Não é como se você não soubesse que eu quero dormir com você.
Enquanto ele falava, dei uma olhada ao redor. Ninguém parecia prestar atenção
em nós, mas mesmo assim… Eu não morava no Palácio de Buckingham, onde os
quartos eram do tamanho de campos de futebol. Mesmo sem querer, poderiam
acabar ouvindo.
— Di...
Eles relaxaram.
Lá estava a solução.
Outro ponto positivo: um simples selinho e, mesmo que ele não esquecesse o
assunto, pelo menos não insistiria nele.
Com isso resolvido, entreguei um copo térmico de café para Emmylou.
Capítulo 13
BOA NOITE
Diana
Eu me dizia que estava dando um tempo para Madison, Elias e Emmylou, que
estavam na sala de estar, se reconectando. Mas, na verdade, eu só precisava de um
espaço para processar toda a merda que descobri naquele dia.
Emmylou podia até parecer que comandava sua família no dia a dia como a
matriarca do clã O’Keefe, mas Maddy tinha seus próprios traços de Mini-Emmylou.
Quando decidiu que não queria nenhum dos pais presentes em seu depoimento, ela
bateu o pé.
Não estávamos em uma sala com mesa e cadeiras, como nos programas de
crimes reais. O detetive Scott nos colocou em um ambiente mais acolhedor, com um
sofá e algumas poltronas. Eram simples, mas mais confortáveis.
Hugger ligou no meio disso tudo, mas não consegui atender. Ele mandou uma
mensagem dizendo que não poderiam nos escoltar de volta para casa, mas que
estava providenciando outra escolta.
No final, tivemos uma escolta do Aces High, incluindo Ink, Driver, Cruise, Gash e
uma escolta policial.
Fosse o que fosse que os rapazes estavam discutindo, estava levando tempo,
porque as entrevistas - sim, no plural - duraram horas, e Hugger e Big Petey ainda
não tinham voltado.
Comecei a me erguer apoiando em um braço, mas ele lançou um olhar para mim
e ordenou friamente:
— Relaxe.
Deitei de volta e, com o braço ao meu redor, ele me puxou para perto.
— Fale comigo.
Agora eu entendi o tom dele. E pelo visto, eu não sabia disfarçar nada.
Pode-se dizer que eu gostava de conchinha, e acabei de descobrir que Hugger
fazia isso melhor do que qualquer um.
Ainda assim, me mexi até ficarmos de frente um para o outro, com as pernas
levemente entrelaçadas, e inclinei a cabeça para olhá-lo.
No instante em que nossos olhos se encontraram, ele deslizou uma mão grande
pelas minhas costas e sussurrou:
— Baby.
— Então, aqui está o que a polícia está montando. Esad Babić se desligou dos
negócios sujos do pai e resolveu criar seu próprio esquema. Ele trabalha com
recrutadores, como o que encontrou Madison online, para atrair jovens para suas
garras e vendê-las para pessoas como Esad. Depois que eles terminavam com ela…
Acelerei a explicação:
— Eles acharam que ela estava inconsciente e a largaram ali. Madison, que
parece ter feito da arte de esconder sua inteligência e força um hábito, fingiu estar
desacordada, na esperança de que fizessem exatamente isso e ela conseguisse fugir.
Depois de tudo o que fizeram com ela, Harlan, ela ainda teve presença de espírito…
Engoli em seco.
— Di, baby… talvez seja melhor a gente não relembrar isso, — Hugger
murmurou, agora acariciando minhas costas.
— Não, preciso colocar para fora, se você estiver disposto a ouvir.
— Claro que vou ouvir, baby. É por isso que estou aqui.
Como, nesse mundo de merda, onde coisas tão horríveis acontecem com
pessoas tão boas, Harlan Hugger McCain me encurralou em um elevador e, com
isso, acabou fazendo parte da minha vida?
Devia aproveitar.
— Como sabemos, o plano dela deu certo. Ela pegou o celular de Esad e fugiu.
Um bom samaritano a encontrou e a levou para o pronto-socorro mais próximo.
— Eles acham que, quando Esad percebeu que ela e o celular tinham sumido,
soube que estava fodido. Então, correu para o papai, esperando que ele encobrisse
tudo. O velho entrou em ação e ligou para Madison do celular do filho no dia
seguinte, dando ordens: ela devia dizer à polícia que foi ele quem fez tudo. Se não o
fizesse, ele não descansaria até encontrá-la e deixar bem claro o quanto estava
irritado. E avisou que ela não sairia dessa viva. Nem ela, nem as pessoas que ama.
Como era de se esperar, a ameaça funcionou e Madison fez o que ele mandou.
— Por que ele simplesmente não ameaçou ela para ficar quieta? Por que se
colocar nessa posição?
Comecei a explicar:
— Rayne conversou comigo depois. Ele disse que acreditam que o velho Babić
fez isso porque nenhuma das provas de DNA o ligaria ao crime. Ele seria inocentado,
e Madison desacreditada. Depois de um falso relato, mesmo que ela apontasse Esad
e os outros mais tarde, um bom advogado de defesa acabaria com ela no tribunal. E,
segundo Rayne, isso é uma das coisas que o velho Imran Babić adora: ferrar com a
polícia. Se ele puder desmoralizar um depoente e bagunçar a investigação, melhor
ainda. Ou seja, para ele, era um golpe duplo. Limpava a barra do filho e ainda se
divertia às custas dos policiais. Um ganha-ganha para ele.
Assenti.
— E tem mais. O celular do Esad foi um grande achado. Tem sido um verdadeiro
tesouro de informações para eles. E se conseguirem prender Esad e os caras dele, e
arrancarem informações de um deles, acham que isso será gigantesco. As peças
dessa organização começarão a cair.
E realmente era.
— Eles levaram o celular dela — observei. — Esad e aqueles babacas pegaram o
telefone dela e a bolsa, então ela ficou sem nenhum documento de identificação.
Mas, antes de fugir da casa dos pais, ela preparou uma mala. Essa mala continuou
com ela, e ela a pegou quando conseguiu escapar. Eu entendo por que levaram o
celular e a bolsa, mas acho estranho não terem pego a bagagem também.
— Não sei como esses palhaços funcionam, baby. Mas, pelo menos, ela estava
com as próprias coisas quando conseguiu fugir. Talvez isso tenha trazido algum
conforto? — ele sugeriu.
— O quê?
— Eu sei que é o melhor para ela — falei contra a pele dele. — Eu sei disso. Mas
não quero que ela vá. E o Programa de Proteção a Testemunhas? Toda a vida dela já
foi virada de cabeça para baixo, e agora vai ser de novo?
— É... — resmunguei.
Levantei o rosto.
— Baby...
— Tá tudo bem. Eu estou bem. Fiquei honrada por ela ter me pedido isso.
— Vamos precisar conversar sobre esse seu hábito de se sacrificar para ser tudo
o que os outros precisam.
— Eu sobrevivi, Harlan.
— Nunca vou esquecer o jeito que você ficou. O seu rosto, você se encolhendo
aqui, se escondendo para que ninguém visse você se curar. Sim, você é uma
sobrevivente. Mas até quando vai continuar aguentando tudo isso antes de perceber
o quanto isso está te consumindo?
— Nem tanto.
— Ink, Driver, Cruise e Gash deram o melhor de si como homens, mas eu temia
que tivéssemos um momento explosão por exagero..
— Aquela cena do filme do Monty Python23 em que o cara come tanto que
explode.
— Nunca vi.
23
Monty Python é um grupo britânico de comédia que revolucionou o humor com seu estilo
nonsense, satírico e surreal.
Nossa próxima noite de filmes.
— Ah, e você provavelmente vai gostar de saber que Emmylou está usando a
carne em cubos que compramos para eu fazer meus fabulosos tacos de carne
desfiada para preparar carne com macarrão hoje à noite. Ela precisa saber quantas
pessoas vêm para o jantar.
— Sua vez.
— Preciso relatar tudo isso para eles — ele compartilhou. — Mas, mesmo que eu
faça isso, não acho que a missão deles vá mudar. O Aces e o Chaos estão fora.
Resurrection vai lidar com os Babićs.
— Como uma cidadã cumpridora da lei, vejo por que isso é preocupante. Como
alguém que gosta de você, e considerando que são seus amigos, também vejo por
que isso é preocupante. Como alguém que gosta deles... preocupação de novo. Mas,
depois de tudo o que ouvi hoje, não tenho energia para me importar com os Anjos
da Morte indo atrás desses desgraçados. — Inclinei a cabeça para o lado e
perguntei: — E você, como se sente em relação a isso?
— Significa que esperamos que a polícia pegue Esad e os comparsas dele. E que
também consigam incriminar Imran por qualquer coisa que consigam provar contra
ele, antes que o Resurrection vire um caos. Mas, quando isso acontecer, estaremos
sempre fora. Depois de descobrirem o que fizeram com Maddy, eles se recusam a
recuar. Quando perceberem que há um esquema em andamento, vão se jogar de
cabeça até desmontá-lo por completo. Resumindo, independentemente do que
achamos das intenções deles, estamos fora.
Ele balançou a cabeça, e a tensão que começava a se espalhar pelo meu corpo
desapareceu.
— Nos últimos dias, Buck tem tentado entrar em contato com Imran para uma
negociação. Ele não responde. Parte do que Buck queria discutir era garantir que
você e seu pai estivessem fora do radar deles. Como Imran não quer sentar para
conversar e acertar as coisas, precisamos garantir que vocês dois estejam protegidos
até termos certeza de que não estão na jogada.
— E Dutch, Jag e Coe também. Eight, Muzzle e Linus estão indo para a
clandestinidade.
— E o Core?
— Core tem uma mulher. Ele está voltando para Denver. Quando um membro do
Resurrection escolhe uma mulher, Wash designa tarefas que não coloquem suas
vidas em risco ou os levem para a prisão.
Eita!
— Mas só pra deixar claro, nós dois estamos nisso juntos. Então, mesmo que
estivesse tudo bem entre você e seu pai com relação aos Babićs, eu ficaria para
resolver isso com você.
— Ok.
— Harlan...
— Não, mas você precisa dormir bem, e a situação na minha casa exige que você
fique aqui. E não vai dormir no chão quando há uma cama grande o suficiente para
dois neste quarto. Falei com os caras, e tanto Ink quanto Cruise têm colchões
infláveis. Eles vão trazer um para Elias.
Aproveitei o momento para testar sua regra de sem toque (que ainda incluía
muito contato, o que me lembrou que eu precisava de uma nova lista de assuntos
para discutir com Hugger) e passei os dedos por sua barba.
Era uma sensação ótima. Ele não reclamou, então continuei e voltei a falar.
— Vai ser difícil, eu sei. Mas acho que conseguimos manter as mãos longe um do
outro por uma noite.
— Já é difícil dormir sabendo que você está no fim do corredor. Provavelmente
impossível com você bem ao meu lado, numa cama grande e macia.
Sorri de canto.
— Você ficar toda animada sabendo o que faz comigo não ajuda em nada, baby
— ele comentou.
— Desculpa — menti.
Ele deslizou os dedos longos pelo lado do meu cabelo, prendendo uma mecha
atrás da minha orelha, acrescentando um detalhe ao toque que tinha me dado na
noite anterior. Gostei. E o jeito que ele fez agora, ainda melhor.
Pisquei.
Depois, enfiei meu rosto no seu pescoço, e fiz isso com força.
Quem era esse homem e o que eu fiz nesta vida para merecer ser encurralada
por ele em um elevador?
— Foi ideia do Big Petey — ele continuou. — Não sua. E você tem um coração
do tamanho do Alasca, tão dourado que chega a cegar. Quer que eu descanse bem.
Você sempre coloca todo mundo na frente de si mesma e...
Levantei a cabeça ao mesmo tempo que repousava os dedos sobre seus lábios
cobertos pela barba.
Dessa vez, ele puxou parte do meu cabelo para frente e começou a enrolar os
fios entre os dedos.
— E vai ser bom não precisar ficar sozinha na última noite que teremos Maddy
conosco — sussurrei.
Com os dedos ainda entre meus cabelos, ele acariciou meu maxilar.
Parece que eu não era a única que colocava os outros antes de si mesma.
Minha chefe era do tipo que só percebia o que estava bem na frente dela.
— Minha chefe é bem tranquila. Vou ligar pra ela, porque é uma boa ideia.
— Que tal fazer isso agora, tirar isso do caminho, e depois irmos passar um
tempo com a Maddy? Assim, você pode aproveitar o momento com ela antes de ela
ir embora.
Era um bom plano. Então, me movi com cuidado para pegar meu celular sem
perder muito contato com ele.
Disquei o número dela.
— Sim?
— Oi, querida.
— Então, está tudo bem se eu folgar amanhã também? Eu explico quando for ao
escritório na quarta-feira.
— Claro, Di. O que você precisar. Espera... Como está o quadro dos Galligan?
— Ótimo. Então, está pronto para sair e passar um tempo com a Maddy antes
dela ir embora?
— Vamos lá.
Hugger segurou a parte de trás da minha cabeça e a puxou para perto da dele,
roçando seus lábios ásperos nos meus antes de nos fazer rolar para fora da cama.
E sanduíches.
— Pete disse que vocês dois não almoçaram, Hugger — chamou Emmylou. — O
jantar será daqui a algumas horas, mas estou preparando algo para vocês beliscarem
enquanto isso.
— Agradeço — respondeu Hugger, com um leve tremor na barba.
Uma novidade: Jagger era, de fato, tão bonito quanto o irmão mais velho. Um
pouco menos intenso, mas não menos atraente.
24
Uma yurt (ou iurta, em português) é uma tenda circular tradicional usada como moradia pelos
povos nômades da Ásia Central, especialmente na Mongólia, Cazaquistão e Quirguistão. Atualmente,
yurts modernas são usadas para turismo ecológico, retiros e até como residências sustentáveis no
Ocidente.
Eu precisava pegar as receitas dela antes que fosse embora.
— É uma tenda redonda que não tem um suporte central — Jagger explicou a
Emmylou. — E eu só sei disso porque minha esposa tem um espírito aventureiro. Ela
cismou que queria se hospedar em uma yurt. Levei ela pra uma e não posso dizer
que foi ruim.
— Melhor perguntar pra onde ainda não foram — Big Petey se intrometeu. — Se
o tempo está bom, eles estão por aí, viajando.
— Acho que, quando tivermos filhos, Arch vai amarrar os pequenos em nós dois
e nos colocar na estrada mesmo assim, dona Emmylou — Jagger respondeu com um
sorriso.
Olhei para Maddy para ver como ela estava lidando com tudo aquilo.
Ela ainda tinha um longo caminho pela frente, mas agora, pelo menos, tinha ao
seu redor as pessoas certas para ajudá-la a seguir.
Mas, assim como vinham fazendo desde que chegaram dias atrás, eles
mantiveram certa distância de Maddy.
— Espera! Só isso?
Então, de repente, Maddy se lançou para frente, correndo até Eight, e se agarrou
a ele.
Pelo olhar que ele fez ao curvar seu corpo alto sobre ela e retribuir o abraço, eu
soube que, gostassem ou não do que ele fazia, aquilo era seu propósito.
Eu ia chorar.
Muzzle foi o último a sair, mas, antes de fechar a porta, enfiou a cabeça para
dentro e disse para Maddy:
— A cada segundo que você vive com força e coragem, garota, você vence eles.
Continua detonando, Maddy. Você consegue.
Por que eu adorava olhar no espelho e vê-lo ao meu lado, com espuma de pasta
de dente na barba?
— Di?
Ao ouvir Maddy me chamar do quarto, virei para encarar Hugger antes de cuspir,
enxaguar a boca, me limpar e sair do banheiro.
— Qualquer coisa.
Quando eu disse isso, algo passou pelo rosto dela — algo quente e acolhedor,
mas também triste e doloroso. Então, ela estendeu a mão e segurou a minha.
Ela brincou com meus dedos enquanto olhava para eles. Mas não disse nada.
— Maddy... — sussurrei.
Droga!
— A gente vai dormir como sempre — ela continuou — só que, dessa vez,
mamãe e papai estão aqui. Então, você acorda, e eu já fui.
— Não me faça me despedir de você. Só me deseje boa noite e vamos fingir que
eu não estou indo embora.
Nos abraçamos por um longo tempo, mas, ao mesmo tempo, pareceu durar
apenas alguns segundos.
Quando ela finalmente se afastou, milhões de palavras passaram pela minha
mente, mas nenhuma conseguiu sair da minha boca.
Ela parou na porta, olhou para mim, e eu gravei cada detalhe na memória: sua
pele cor de pêssego e creme, os cabelos loiros bonitos e aqueles olhos azuis tão
lindos.
Assim que nos deitamos, me encolhi contra ele e usei o resto da minha força
para não desmoronar.
Ele me manteve firme em seus braços enquanto rolava de um lado para o outro
para apagar as luzes dos criados-mudos.
Só então percebi que ele estava sem camisa... e que seu peito era coberto de
pelos.
Não tinha energia para processar isso. Só tinha forças para sentir Hugger puxar
os cobertores por baixo de nós e nos cobrir.
— Sim... — sussurrei.
Hugger entrelaçou suas pernas longas nas minhas, bem mais curtas, e me
abraçou forte.
Continuei ouvindo.
Eu sabia que ele percebeu que eu tinha despertado quando seu braço ao meu
redor me puxou ainda mais para perto do seu corpo. E também sabia que ele
entendeu que eu ouvira os ruídos além da porta do meu quarto, pois continuou me
segurando firme.
Eventualmente, o silêncio se instalou, mas meu corpo, tenso dos pés até o topo
da cabeça, permaneceu da mesma forma.
Eu não me mexi.
— Sim?
— Pegamos a nossa garota. Ela está bem — ouvi Big Petey dizer em voz baixa.
Hugger enroscou os dedos nos meus cabelos, me envolveu com força no outro
braço e apenas me deixou chorar.
Capítulo 14
PACIÊNCIA
Hugger
Ele sentiu quando ela se mexeu, os lábios macios pressionando sua pele, a voz
suave ordenando que o alarme parasse. Em seguida, ela rolou para fora da cama.
Ele abriu os olhos e viu sua arma sobre o criado-mudo. Desviando o olhar,
observou Diana atravessar o quarto, o short folgado estampado com margaridas
balançando enquanto ela desaparecia atrás da porta do banheiro.
Virando-se de costas, passou as mãos pelo rosto. Quando alisou a barba, seus
olhos encontraram a flor branca tridimensional de Diana pendurada sobre a cama.
Ele sentiu os lençóis macios e o colchão com a mistura perfeita entre firmeza e
conforto.
O barulho do chuveiro ligado veio do banheiro, e ele percebeu que sua ereção
matinal estava ali, bem presente.
No dia anterior, o primeiro sem Maddy, as coisas foram tranquilas. Mesmo assim,
Diana passou o dia cabisbaixa, e Hugger gostou de ver que ela não tentava esconder
o quanto sentia falta da garota. Ela não fez drama, mas ele e Big Petey sabiam que
ela estava sofrendo. Não precisavam adivinhar e nem se preocupar se ela estava
reprimindo tudo para depois explodir e machucar quem estivesse ao redor.
Hugger nunca teve um relacionamento que durasse mais de dois meses. Nunca
morou com uma mulher, exceto sua mãe.
Na tarde anterior, Hugger sentiu um calor estranho no peito ao ver como Diana
permitia que Big Petey cuidasse dela.
O cara era o tipo de irmão que qualquer um queria. Quando se tratava do Clube,
Pete não economizava em experiência ou sabedoria.
Mas, no que dizia respeito às mulheres, ele se comportava como um pai, um tio
ou até um avô, oferecendo o que fosse necessário para cada uma delas.
Hugger imaginava que isso vinha do fato de Pete ter apenas uma filha. Se você
era um bom homem, e Big Petey era o melhor, era natural que, ao criar uma menina,
esse instinto surgisse.
Na verdade, nos últimos dias, Petey parecia mais ele mesmo, mais tranquilo do
que há muito tempo.
E ia além disso, porque Hugger sabia que Diana percebia e permitia isso.
Mais tarde, à tarde, receberam notícias de Scott. Maddy e sua família estavam
seguras e acomodadas.
Scott também informou que Imran, Esad e os rapazes de Esad estavam sendo
difíceis de encontrar. No local onde suspeitavam que havia atividade criminosa,
encontraram a casa completamente esvaziada. Porém, havia sinais claros de
ocupação recente - e nada indicava que fosse uma família comum morando ali.
Por fim, no dia anterior, Hugger deixou Diana convencê-lo a dormir ao lado dela
mais uma vez.
Foi só isso.
Agora, com Maddy fora do alcance dos Babićs, a vida de Diana deveria voltar ao
normal. Eles ainda estavam garantindo sua segurança, mas, sem Maddy na equação,
os Babićs não tinham mais motivo para mexer com Diana.
Armitage era outro caso. Mas Hugger sabia que ninguém chega longe no mundo
do crime desperdiçando tempo e recursos com alguém que só causou um
incômodo passageiro.
Logo, eles provavelmente descobririam que não havia mais razão para Hugger
permanecer em Phoenix.
Exceto Diana.
E não havia nada impedindo que explorassem o que estava acontecendo entre
eles.
Ele tinha o Clube. Um trabalho que fazia apenas para contribuir com o Clube,
mas que não gostava. Servia para passar o tempo.
E só.
Aquela noite, jantariam com o pai dela. Na sexta, ela sairia para tomar coquetéis
com as amigas.
Ela tinha mais compromissos em uma semana do que Hugger tivera nos últimos
seis meses.
Assim como nas últimas 24 horas - não de forma exagerada, mas ainda assim
mais do que um simples contato - havia mais uma chamada de Tack.
Voltou para o café, viu que estava pronto e serviu duas xícaras. Uma para ele,
outra para Diana.
Ela estava lá, com o cabelo torcido em uma toalha esquisita e um robe curto
cobrindo o corpo.
Sua ereção matinal já tinha passado, mas o jeito que ela o olhava fez com que
ameaçasse voltar.
Antes que precisasse dizer algo para tirá-la do transe - como avisar que, se ela
continuasse olhando para ele daquele jeito, acabaria sendo fodida pela primeira vez
ali mesmo no chão do banheiro, com o rosto brilhando e o cabelo enrolado naquela
toalha estranha - o olhar dela deslizou até a xícara na mão dele.
— Sim.
— Eu também. Me surpreendeu. Mas fiquei bem melhor depois que Rayne ligou
dizendo que estavam seguros.
— É.
Começou a escovar enquanto via Diana mexer nos olhos com um pincel fino,
falando sem parar:
— Então, meu pai quer a gente lá às seis e meia. Acho que deveria levar alguma
coisa, tipo um gesto de "eu vim em paz". Mas ele é um cara, então acho que flores
não rolam, apesar de ele ter flores frescas espalhadas pelo escritório. Ele gosta de
gim... talvez um Hendrick’s25. Mas ele pode comprar o próprio gim. Apesar disso, é o
gesto que conta, né?
25
Hendrick’s é uma marca premium de gin escocês, conhecida por seu sabor diferenciado e
embalagem vintage.
— Acho que a única coisa que ele quer que você leve é você.
— Certo... — murmurou.
Ele secava o rosto com a toalha quando se virou e a viu de novo, concentrada
com aquele pincel fino.
Ela também não parecia se incomodar com o fato de ele estar bem ali.
Com um pincel fino apontado para a pálpebra, ela virou a cabeça na direção
dele.
Ela trocou de pincel, pegou uma caixa estreita e comprida do balcão, abriu-a
para revelar várias sombras em tons semelhantes e voltou ao que estava fazendo.
— História maluca, baby. Mas parece que você escapou de uma grande
confusão.
— Pois é — ela concordou. E, como parecia ser sempre o caso com Diana,
continuou falando. — O outro cara... Bom, simplesmente não éramos feitos um para
o outro. Foi estranho, mas os dois perceberam ao mesmo tempo que só estavam
levando o relacionamento no automático. Ele sugeriu que tivéssemos uma conversa
na mesma noite em que eu estava planejando falar com ele sobre isso.
E continuou falando.
— Ainda somos amigos... mais ou menos. Quer dizer, se eu o encontrasse por aí,
seríamos cordiais um com o outro. Mas não saímos juntos nem nada.
— O quê?
— Minha mãe. Alguns colegas de quarto. Mas nenhuma mulher — ele admitiu,
sentindo-se um pouco desconfortável.
— Trinta e cinco. E só para você saber, nunca tive uma mulher na minha vida por
mais de alguns meses também.
Agora ela o encarava.
— Sério?
Ele assentiu.
— Você é doce. Protetor. Insanamente atraente. Traz café para uma garota.
Então, a pergunta que não quer calar: por que diabos não?
Muito bem.
A única que chegou perto foi Mandy. Ela era incrível. Um sorriso lindo. Ótima na
cama. Tinha a vida sob controle.
Mas se tivesse dado certo com Mandy, ele não teria uma chance com Diana.
Então, no fim das contas, era melhor assim.
— Acho que isso faz parte das coisas que eu não queria despejar em você, baby.
E a gente precisa conversar sobre isso, porque agora que estamos sem distrações,
temos que entender o que é isso e o quanto estamos dispostos a lutar por nós.
— Acho que eu já sei o quanto quero lutar por isso — ela declarou.
— Baby...
— Essa não é uma conversa para agora. Vamos ter um dia normal, tirando o
jantar com meu pai, claro. Podemos marcar um momento para falar sobre isso
depois. Estou pensando no sábado. Não, melhor não... sábado tem que ser um dia
divertido. Vamos deixar para domingo.
— Quer que eu leve minha maquiagem para o quarto para você poder tomar
banho?
Ela se aproximou do espelho para ter uma visão melhor do que estava fazendo, o
que fez seu belo traseiro empinar um pouco. Enquanto isso, murmurou:
— Beleza, querido.
Ele gostou de vê-la assim, com o robe curto subindo levemente. Gostou que ela
o chamasse de querido. Também gostou do fato de que ela parecia completamente
à vontade se maquiando enquanto ele escovava os dentes ao lado dela, naquele
banheiro bonito, com puxadores de vidro dourado nos armários azul-celeste. O
papel de parede azul, dourado e branco tinha um design geométrico, mas também
flores. Mais flores, essas artificiais, mas incrivelmente realistas, em um pequeno
arranjo entre a pia dele e a dela.
Este espaço, como todos os outros que pertenciam a ela, refletia sua essência.
Elegante, inteligente e sofisticado, mas cheio de personalidade. Atraente. Acolhedor.
E ele se sentia bem ali.
O que ele não gostava era da certeza de que era um homem sem muito a
oferecer, enquanto ela era uma mulher que merecia tudo.
Hugger fez isso sem tirar os olhos dela, gostando não só da sensação de tê-la na
garupa da moto com ele, mas também do que via.
Ela vestia uma calça marrom de pernas largas, presa por um cinto preto largo nos
passadores, uma blusa preta justa sem mangas e sapatos de salto preto brilhantes,
com uma tira sobre o peito do pé.
Nunca em sua vida Hugger tinha visto uma mulher vestida assim para o trabalho
e, ainda assim - não, na verdade, especialmente por isso - diabolicamente atraente. E
não era só pelo fato de que Diana tinha subido na garupa da moto daquele jeito,
como se estivesse acostumada a andar com ele há anos.
Mas, desde que Maddy se foi, tudo em Diana parecia atraente para ele. No
fundo, ele sabia que sempre tinha sido assim. Só que todas as merdas que estavam
acontecendo com Maddy antes distraíam sua mente disso.
Agora, porém, ele tinha um trabalho a fazer, e esse trabalho não envolvia ficar
observando os seios de Diana balançarem enquanto ela ajustava a grande bolsa
preta no ombro.
Ele escaneou a área quando chegaram e fez isso de novo enquanto caminhava
até ela, pegando sua mão para seguirem até a porta da frente.
Sentiu um leve estremecimento nos dedos dela quando os segurou, então olhou
para baixo.
— Para alguém que não é muito de contato físico — ela apertou a mão dele e
lhe deu um sorriso brilhante — você até que é bem tocador.
Da última vez que ele esteve ali, o lugar parecia pouco usado.
Hugger era um motociclista. Isso significava que ele era do tipo viva e deixe viver.
Antes disso, tinha sido segurança.
Ela era magra como um graveto, baixinha e vestia um suéter preto de gola alta.
Seu cabelo, um cinza metálico, estava penteado com uma parte da franja enrolada
para dentro, num daqueles estilos grandes dos anos 40. O resto estava preso com
uma faixa larga e preta, caindo em cachos suaves sobre os ombros. E, seja
naturalmente ou por escolha, uma faixa de cabelo preto passava pelo cinza bem
acima do olho esquerdo.
Usava óculos de armação preta, com lentes tão pequenas e redondas que
pareciam inúteis para corrigir qualquer visão.
O traço vermelho que era sua boca brilhava intensamente contra a pele branca
de vampiro, que ele podia ver que era assim tanto por sua cor natural quanto pela
maquiagem que usava. Sua pele começava a enrugar em alguns pontos, revelando
sua idade, e ela parecia tranquila com isso.
Ela também usava aquele delineado preto que as mulheres estavam fazendo
ultimamente, com um puxado no canto dos olhos, mas o dela era tão pronunciado
que chegava a parecer quase exagerado mas, contra todas as probabilidades, ela
fazia funcionar.
Ela não passava nem de longe uma vibe de normal, o que foi parte do motivo
pelo qual Hugger gostou dela imediatamente. A outra parte era que ela parecia ser
do tipo de pessoa que valia a pena conhecer.
Annie levantou a cabeça num sobressalto, como se não tivesse ouvido a porta se
abrir e duas pessoas entrarem. Depois, encarou os dois como se não soubesse o que
eram seres humanos (ou talvez porque não conseguisse vê-los direito através das
lentes minúsculas dos óculos).
Um total branco.
— Estou?
Jesus Cristo.
Diana já tinha avisado que a chefe era um pouco distraída, mas pelo amor de
Deus!
— Eles já pagaram?
— Não sei. Eles pagam por cheque. Mandei na quinta-feira e fiquei fora nos
últimos dois dias.
Que surpresa.
— Annie, este é o Hugger. Houve uma situação com um dos clientes do meu pai.
Uma possível ameaça. Não é nada confirmado — acrescentou rapidamente, embora
Annie não tenha demonstrado a menor reação à palavra ameaça. — Então, até
termos certeza de que não há risco, Hugger vai me acompanhar. Espero que esteja
tudo bem para você.
— Você pode pegar o correio? — foi a única coisa que Annie perguntou.
O que ela não perguntou foi nada sobre essa tal situação ou sobre o fato de sua
única funcionária precisar de um segurança.
— Ótimo — disse Annie e voltou a olhar para a mesa. — Agora, o que mesmo eu
estava procurando?
Santo Deus.
Ela foi até a mesa, abriu uma gaveta, pegou um chaveiro com uma pequena
chave e entregou a ele.
Quando voltou com o correio, Annie já tinha sumido e Diana, sem a bolsa, o
esperava na porta do estúdio.
Ele caminhou até ela, e Diana ergueu a mão para pegar as cartas quando ele se
aproximou.
Lá estava de novo.
Ela parou de mexer nas cartas e seguiu para o outro lado do estúdio, ainda
falando:
— Temos uma planilha compartilhada sobre os projetos, então eu sei no que ela
está trabalhando, o mesmo vale para mim, além do progresso, prazos previstos de
conclusão, estimativas de trabalho, faturas enviadas e pagas. Dessa forma, se ela
lembrar de conferir, sabe que estou fazendo meu trabalho e que estamos
recebendo. Ela tem um contador, então não preciso lidar com dinheiro, além de
depositar um cheque ou garantir que recebemos o pagamento pelo PayPal ou
Venmo26. Não tenho horários fixos. Tenho projetos fixos. E eu gosto disso.
Porque ela não só estava fazendo o que gostava, como também tinha liberdade
para isso, sem ninguém pegando no seu pé.
26
PayPal e Venmo são serviços de pagamento digital usados principalmente nos Estados Unidos e em
outros países para transferências de dinheiro, compras online e pagamentos entre pessoas.
Sim, a mulher que ele conheceu na recepção era completamente avoada, mas, se
ela deixava Diana seguir com seu trabalho em paz, isso parecia o emprego perfeito
para ele.
Hugger seguiu até a cadeira que havia colocado perto da janela. Sentou-se,
apoiou as botas no parapeito e manteve os olhos fixos lá fora, permanecendo assim
até que Di se afastou da mesa e foi até o cavalete onde estava trabalhando em uma
pintura.
Droga.
27
Taco Chelo é um restaurante mexicano localizado em Phoenix, Arizona, conhecido por sua comida
autêntica, inspirada na culinária de rua do México.
— Tá com a vida feita — declarou ele.
Ela se inclinou sobre a pintura, usando o cotonete para trabalhar nos detalhes.
— Nem tanto. Embora Annie pague bem, já que aceita encomendas particulares
de quem pode bancá-las, o sonho de qualquer conservador de arte é conseguir uma
vaga em um museu. Sempre dou uma olhada na página de carreiras do Museu de
Arte de Phoenix, mas, até agora, nada surgiu.
— Não que Annie não seja amigável. Mas... bem, ela é a Annie.
— Você teria uma redução no salário se fosse para um museu? — ele perguntou.
Ela girou o outro lado do cotonete na boca, depois o tirou e voltou à pintura.
— Sim. Então, para ser sincera, talvez isso nunca aconteça. Minha situação
financeira é estável, mas se eu ganhasse menos, as coisas ficariam apertadas.
Ele voltou a olhar para a janela, pensando que o Museu de Arte de Denver
deveria ser incrível. Nunca tinha ido, mas sabia onde ficava e era seu prédio favorito
na cidade. Parecia uma espaçonave cinza. Era simplesmente irado.
28
O Smithsonian Institution é um complexo de museus, centros de pesquisa e um zoológico
administrado pelo governo dos Estados Unidos.
— Quando não estou nesse trampo, trabalho como vendedor na Ride – Loja de
Autopeças, que pertence ao Clube — disse ele, ainda olhando para a janela. — E
moro em uma casa minúscula de dois quartos, que mobiliei de uma vez só com
coisas de um brechó beneficente.
Certo.
— Então, se quisesse viver como eu, poderia, porque tem dinheiro para isso. Só
não se importa tanto, então não faz.
— Nunca tive uma vida boa como a sua, então nem parei para pensar nisso,
embora muitos dos irmãos, principalmente os que têm esposas, vivam no luxo.
A casa dela?
Porra, sim.
— Com certeza vou dar uma olhada em alguns rolos de papel de parede quando
chegar em casa — brincou ele.
Ela sorriu de novo e voltou à pintura.
Queria que sua mãe estivesse segura, longe do domínio de algum cafetão.
Quando o Chaos entrou na vida dela pela segunda vez, eles a libertaram do
último cafetão, a ajudaram a se estabelecer para que pudesse ter seus próprios
clientes e trabalhar por conta própria.
Depois disso, ele só esperava não crescer e se tornar como seu pai.
— Harlan? — Di o chamou.
— Nunca parei para pensar nisso — respondeu, ainda olhando para a janela.
Porque, sim.
Estavam em uma fase em que ainda não tinham tido muito tempo juntos. Assim,
quando conversassem no domingo, se isso não levasse a nada, ela não sentiria que
perdeu tempo com ele.
Enquanto isso, ele poderia aproveitar os próximos quatro dias com ela. Ter seu
tempo. Seus sorrisos. Estar ao lado dela quando se encontrasse com o pai.
Hugger nunca teve muito na vida, e não era exagero dizer que os últimos seis
dias com Di foram os melhores que já teve, sem comparação. E nem sequer tinha
dormido com ela ainda.
Então, pegaria o que pudesse de Diana Armitage. Depois, sairia da vida dela
quando percebesse que ele era um problema que não valia a pena.
Com esse pensamento, que não era feliz, mas também não era incomum para
Hugger, ele pegou o celular para jogar paciência enquanto ela limpava uma pintura
feia pra caralho.
No almoço, foram ao centro da cidade para um lugar que fazia tacos excelentes,
com tortilhas frescas, assadas na grelha na hora. Hugger notou que, em uma cidade
que parecia um interminável conjunto de centros comerciais, ainda era possível
encontrar comida realmente boa.
No caminho de volta para o trabalho dela, eles pararam em uma loja da Total
Wine para que ela pudesse comprar uma garrafa de gim para o pai.
Paciência.
Capítulo 15
ALGO GRANDE
Diana
Primeiro, porque não queria que meu pai fosse um idiota com o Hugger. Se isso
acontecesse, a noite acabaria ali mesmo, porque eu não toleraria.
Também não queria que ele fosse um idiota comigo. Claro, isso seria péssimo
para mim, mas o que realmente me preocupava era como o Hugger reagiria. E,
sinceramente, nem eu nem meu pai queríamos descobrir - embora eu suspeitasse
que ele quisesse menos do que eu.
Desde que Madison foi embora, ele havia mudado. Havia algo quase fatalista
nele.
Claro, eu entendia que nosso começo tinha sido estranho. Nunca tivemos um
encontro de verdade. Trocamos um beijo. A polícia e o FBI estavam envolvidos nas
nossas vidas. E agora, estávamos morando juntos, dormindo juntos, mas sem a parte
divertida do sexo que, normalmente, viria com isso.
O que eu sentia ao pensar nisso era ódio. Ódio pelo simples fato de saber que,
em algum momento, ele iria embora.
Eu não sabia nada sobre clubes de motociclistas, além do que aprendi assistindo
àquele documentário sobre o Chaos. Mas eu suspeitava que, se você fazia parte de
um, esperavam que estivesse lá, e não morando com alguma garota em outro
estado. O documentário praticamente confirmou essa suspeita.
Minha vida estava aqui. Morei aqui a vida toda, exceto pelo período em que vivi
em Londres.
Ah, meu Deus... eu estava me tornando uma daquelas mulheres que começam a
procurar motivos para largar tudo por um homem.
E o pior? Eu estava considerando fazer isso por um cara que eu nem conhecia há
uma semana inteira.
— Você também está linda e bem arrumada — a voz do Hugger me tirou dos
meus pensamentos.
Ele usava um jeans bonito e uma camisa de botão cor de caramelo, que
destacava o bronzeado da sua pele. Seu cabelo, loiro-escuro, estava preso para trás,
afastado do rosto, diferente do que costumava ser. Não parecia ter nenhum produto
nele. Estava seco, mas não caía nos olhos, e havia pequenas ondulações charmosas
nas pontas.
Ao ver Hugger assim, com essa versão dele arrumado, apertei as coxas juntas e
rezei para que o bojo do meu sutiã estivesse cumprindo sua função.
Sim, eu entendi. E significava muito para mim que ele estivesse se esforçando.
Hugger, aliás, era todo sobre esforço. Trazia café para mim, ajudava com a louça,
arrumava a cama (e de um jeito tão perfeito que eu congelei por uns bons trinta
segundos de choque ao ver que ele a fez exatamente como eu faria, enquanto eu
terminava meu cabelo naquela manhã).
Eu mal podia acreditar que ele nunca tinha morado com uma mulher antes. Ele
agia como alguém que foi muito bem treinado.
Por outro lado, era óbvio que sua mãe significava o mundo para ele. Talvez tenha
sido ela quem fez esse trabalho.
Se foi o caso, eu agradecia. Porque, pelo que vi até agora, ela fez um trabalho
excepcional.
Ainda assim, mesmo sabendo que ele não escondia nada, percebia que, às vezes,
se sentia desconfortável com algumas conversas. Por isso, perguntei com cautela:
— Mandy?
— Ah.
— Por quê?
Ótima pergunta.
Caí na gargalhada.
— Me dói dizer isso, e vou negar até o fim da minha vida, mas eu não arrumei
meu cabelo à toa pra bagunçar tudo na moto indo pra casa do seu pai.
Hugger pegou minha mão, me guiou até minha bolsa, soltou minha mão para
me entregá-la, e eu a joguei no ombro. Ele segurou minha mão de novo e saímos.
— Então me explica por que, aparentemente, eu não posso dirigir meu próprio
carro? — perguntei, enquanto ele nos levava para a garagem.
Ele parou e olhou para mim. Como ainda estávamos de mãos dadas, eu também
parei e olhei para ele.
— O que eu posso dizer é que nunca tive uma mulher pra chamar de minha, mas
sei que algumas coisas precisam acontecer se eu tiver.
Oh.
Interessante.
— E quais são essas coisas? — perguntei, tentando não parecer muito ansiosa
por essa informação.
— Eu dirijo.
Franzi a testa.
Não sei se alguém gosta de tirar o lixo, mas o que eu sabia era que eu
definitivamente não gostava.
— A menos que ela entenda do assunto, qualquer veículo que tivermos será da
minha responsabilidade — ele continuou.
— Não cuido do jardim, mas ela também não vai. Vamos contratar alguém —
seguiu ele.
— Nunca fiz, mas, ainda assim, posso afirmar com segurança que não gosto.
— Meio que faz. Quero dizer, se ela gostar de cortar grama e aparar tudo, você
não deixaria?
E então disse:
— Sim, mas nesse caso, eu teria que fazer junto com ela.
— Por quê?
— Vários motivos.
— Um: porque, mesmo que ela goste, ainda é trabalho. E quando você trabalha,
pode acabar se sentindo sobrecarregado, achando que está fazendo mais do que
deveria. Então, eu ajudaria para que ela não sentisse que estava carregando o fardo
sozinha.
Como esse cara conseguia ser tudo isso que ele era?
— Terminamos seu interrogatório? — ele perguntou.
Revirei os olhos e puxei sua mão para que voltássemos a caminhar, admitindo:
Era confortável.
Parecia não ter muita dificuldade, mas, depois que fechou a porta, ficou claro que
ele estava espremido ali dentro.
Que loucura.
Não.
Foi aí que soltei uma risada e me inclinei para programar o endereço do meu pai
no GPS, para que Hugger pudesse nos levar sem precisar que eu o guiasse.
Seguimos caminho.
— Não. Em Denver, temos todas as estações do ano, então também tenho uma
caminhonete.
— De que cor?
— Prata.
— Lanie e Hop têm uma casa em Vail. Eles deixam qualquer um usar quando não
estão lá. Gosto de ir para lá quando neva. Fica afastada das pistas de esqui. É
tranquila. Parece ainda mais tranquila quando a neve cobre tudo.
— Mas não gosto de dirigir na neve — ele acrescentou. — Sei como fazer isso,
mas os outros não. Eles são o problema, e você não tem controle sobre isso.
Eu me deleitei com isso, porque estava percebendo que ele não ria tanto assim.
— Pelo visto, sim — ele murmurou, soltando uma risada e repetindo: — Vinte e
um graus. Você deve ter passado um inferno em Londres.
— Pulôveres?
— Não faço ideia. Mas foi divertido aprender todas as palavras diferentes que
eles usam para as coisas — comentei e, então, perguntei: — Você já saiu do país?
— Nunca.
— Já teve vontade?
Ele também "nunca parou pra pensar" no que queria ser quando crescesse.
Fiquei alarmada ao descobrir isso. Assim como me alarmava o fato de ele nunca
ter pensado em viajar para fora dos Estados Unidos.
Se ele dissesse: "Não tem nada lá fora que eu queira ver, esse país já é incrível",
eu até entenderia, mesmo sem concordar, porque eu queria conhecer o mundo
todo. Isso fazia parte de mim. Fazia parte do motivo de eu ter me tornado quem
sou.
— Eu já tinha ido a Londres — compartilhei. — Meu pai me levou quando eu
tinha, sei lá, acho que treze anos. Também fizemos um cruzeiro pelo Reno quando
eu tinha quinze. Começou em Amsterdã e passou pela Alemanha, Bélgica e Suíça. E,
no meu aniversário de dezesseis anos, ele me deu uma viagem para a Itália. Roma,
Milão, Florença. Ver a arquitetura, visitar os museus... foi isso que me fez decidir
seguir a carreira que tenho hoje.
— E você? Iria?
— Porra, com certeza — ele disse. — Alugar uma moto e viajar pela Europa.
Aposto que seria foda.
Relaxei.
Porque sim.
Seria foda.
Assim que ele fechou os dedos em volta da minha mão e a apoiou na sua coxa
(muito firme, como eu já tinha descoberto com todos os nossos momentos de
aconchego), ele perguntou suavemente:
— Noite de filme todo mês — respondi com a voz falhando, depois limpei a
emoção repentina da garganta. — Era sagrado. Mesmo que ele estivesse envolvido
num grande caso, sempre separava duas horas para assistir a um filme comigo. Um
mês era a escolha dele, e eu tinha que assistir, gostasse ou não. No outro mês, era a
minha vez, e valia o mesmo. Fizemos isso desde que me lembro. Até antes do
divórcio dos meus pais. E foi a última coisa que fizemos juntos, na noite antes de ele
me levar para a faculdade. Era o nosso momento.
Eu ainda não tinha contado a ele sobre as mensagens da minha mãe, nem sobre
minha conversa com Big Petey. Também não tive tempo para processar
completamente a estranheza que estava sentindo em relação a tudo isso.
E agora também não era o momento, porque Hugger estava virando à direita na
Tatum, o que significava que estávamos a uns cinco minutos da casa do meu pai.
Cara, eu realmente esperava que meu pai não fosse um babaca com Hugger.
Porém, já que ainda tínhamos um tempinho para conversar, havia algo mais que
eu queria esclarecer.
Ah.
— História do Chaos. Uma lição. Todos os irmãos têm também. Você viu a
história no documentário, mas Rebel manteve algumas coisas apenas para nós,
como essa tatuagem. O significado é que perdemos Black, o pai de Dutch e Jag, e
quase perdemos Cherry, ou melhor, Tyra... mas Tack a chama de Ruiva. Tudo isso
aconteceu quando os caras estavam envolvidos em coisas seriamente estúpidas.
Mas não é só aquele ditado "brinque com coisas idiotas, ganhe prêmios idiotas". É
mais como: seja idiota, faça idiotices e perca o que realmente importa.
A tatuagem era uma balança. De um lado, estava escrito Black, com uma figura
parecida com a Morte pairando acima. Do outro, Red, com sangue escorrendo.
Como já tinha visto quase todo o corpo dele, mas não completamente, só queria
confirmar.
— Não sou muito fã de tatuagem. Só fiz essas por causa da irmandade. Não me
incomoda, mas também não tenho vontade de fazer mais. — Ele lançou um olhar
para mim. — E você, tem alguma?
— Nenhuma.
— Tatuagens são arte, como as suas, então eu gosto. Só que nunca senti vontade
de fazer uma. Mas, se um dia quiser, não vou hesitar.
— Sim... — ele murmurou, ligando a seta para entrar na comunidade onde meu
pai morava.
O condomínio era fechado, mas meu pai tinha deixado nossos nomes na
portaria, então o segurança nos deixou passar sem problemas.
— Ele pode não ter crescido com muito — Hugger começou — mas encontrou
seu caminho até aqui.
— Você quer dizer se estou intimidado pelo fato de que o dono dessa casa não
precisa compensar nada com um grande pau?
Caí na gargalhada.
Parei quando ele passou as costas dos dedos pelo meu maxilar e disse:
— Não, baby. Aprendi há muito tempo que sou quem sou, tenho o que tenho e,
se as pessoas pensam merda sobre isso, foda-se. Além disso, nada de bom vem de
querer o que não se tem. Se você quer algo de verdade, vá atrás. Se não conseguir, é
porque ou não queria o suficiente ou aquilo não era para ser seu.
Certo.
Estávamos na entrada da casa do meu pai, um lugar onde eu não pisava havia
uma década. O jantar iminente me deixava ansiosa, para dizer o mínimo.
Soltei meu cinto de segurança e me inclinei sobre o pequeno espaço entre nós,
pressionando meus lábios nos de Hugger.
Ele segurou a parte de trás do meu pescoço, então inclinei a cabeça e abri a
boca.
29
Casa em estilo hacienda é uma residência inspirada no estilo fazenda colonial espanhol muito
popular em regiões de clima quente, como o sudoeste dos Estados Unidos, México e partes da América
do Sul.
E lá estava de novo: o gosto de Hugger, o toque dele, a intensidade, a
masculinidade, a eletricidade.
Felizmente, ele terminou o beijo antes que eu escalasse para o colo dele - o que
era exatamente o que eu queria fazer - mas achei que uma sessão de amassos no
meu Fiat, na entrada da casa do meu pai, não ajudaria muito no jantar de
reconciliação.
Assenti.
Ele encostou a boca na minha mais uma vez e então saiu do carro.
Peguei a garrafa de gim, minha bolsa, saí também, dei a volta pelo capô, e não
houve mãos dadas enquanto caminhávamos até a porta da frente.
Não. Hugger passou o braço pelos meus ombros e me guiou até lá. Ele também
foi quem tocou a campainha.
Não esperamos muito antes de meu pai abrir a porta. Ele vestia uma calça cinza
casual e uma camisa polo azul-prateada de manga longa.
Ele olhou para mim primeiro, sorriu, depois ergueu os olhos para Hugger.
Ah, droga.
Então, ele me olhou com tanto alívio e calor nos olhos que minhas pernas quase
cederam.
Pegou a garrafa das minhas mãos como se fosse uma peça de cristal inestimável
e disse:
— Entre.
Nós entramos, mas fiz isso de maneira hesitante, porque meu pai estava agindo
como se um Hendrick’s fosse uma raridade. Quero dizer, ele morava em uma casa de
quase 700 metros quadrados em Paradise Valley. Ele podia comprar algo melhor
que Hendrick’s, mesmo que Hendrick’s fosse ótimo.
— Harlan.
Hugger apertou.
— Nolan.
Enquanto o seguíamos, notei que ele havia acrescentado algumas peças à sua
coleção de arte, mas, fora isso, a casa onde morei com ele desde os meus quinze
anos permanecia praticamente a mesma.
Chegamos à sala de estar nos fundos, próxima à cozinha. Do outro lado ficava a
sala de jantar, todas com vista para o pátio lindamente paisagístico e a piscina
igualmente bem cuidada no quintal.
— O que vocês querem beber? — perguntou meu pai.
— Dirty martini30.
— Estou dirigindo, então nada, a não ser que tenha um refrigerante — Hugger
disse.
— Coca serve.
— Fiquem à vontade.
Eu meio que cresci aqui. Essa tinha sido minha casa. E, pelo que sabia, a casa da
infância de uma pessoa, mesmo que ela tenha se mudado para lá na adolescência e
saído ainda jovem, sempre continuava sendo sua casa.
Mas eu me sentia uma estranha ali, e a sensação piorou quando meu pai me
disse para ficar à vontade.
Nos sentamos, bem próximos, por imposição física de Hugger, e ele comentou:
— Bela casa.
— Estou pensando em me mudar para um lugar menor — disse meu pai do bar.
30
Um Dirty Martini é uma variação do clássico Martini, feito com gin (ou vodca), vermouth seco e
salmoura de azeitona, que dá a ele um sabor mais salgado e um tom levemente turvo (daí o nome "dirty",
que significa "sujo").
Aquilo meio que doeu.
Meu pai se aproximou segurando um copo alto e elegante, cheio de gelo picado
e Coca-Cola, e entregou a Hugger.
Meu pai não comentou mais nada, nem mesmo quando veio até mim com uma
taça de martini decorada com um palito prateado atravessando quatro azeitonas
gordas.
Ele preparou seu próprio martini (com o Hendrick’s, claro) e veio se sentar de
frente para nós.
Agora, a estranheza tinha atingido um novo nível. Meu pai estava sentado bem
na minha frente, mas eu não fazia ideia do que dizer.
— Acho que foi uma decisão sábia — ele comentou. — Ela ficou bem com isso?
— Imran entrou em contato com ela, ameaçou-a e a forçou a fazer uma denúncia
falsa — continuei. — Mas tudo já foi resolvido.
— No fim das contas, preciso admitir que fiquei satisfeito por você ter me
encorajado a dispensá-lo como cliente. Não posso dizer que todos os meus clientes
são santos, mas, particularmente, Babić não é um homem bom — declarou meu pai.
— Obrigado por cuidar da minha filha e, hã, da Madison durante tudo isso.
Ele não demonstrou nenhuma reação, exceto por um pequeno tremor em sua
barba, quase imperceptível.
— Certo — disse meu pai, de repente assumindo seu tom de voz imponente de
advogado, o que me fez sobressaltar.
— Quero superar essa primeira parte rapidamente, porque pode ser algo que te
deixe irritada, mas precisa ser feito. Então, vamos resolver isso e seguir em frente.
Lá vamos nós.
Antes que eu pudesse interrompê-lo e evitar que ele agisse como um babaca, ele
prosseguiu:
— Eu criei um fundo fiduciário com o que imagino ter sido destinado para sua
mensalidade, além do aluguel e uma quantia para alimentação e despesas pessoais
— começou ele. — Isso cobre tanto sua graduação quanto o mestrado. Haverá
implicações fiscais sobre qualquer rendimento e distribuições que você receber
desse fundo. Mas você não precisará pagar impostos sobre o valor principal. Se tiver
dúvidas sobre isso, pode falar com meu contador.
Permaneci completamente imóvel, sem dizer uma palavra.
Porque eu sabia muito bem que, se ele estava cobrindo todas essas despesas,
esse fundo deveria ter mais de cem mil dólares.
— Eu realmente preferia que você não tentasse recusar, Diana — meu pai
afirmou. — É seu. Foi um privilégio, como seu pai, poder oferecer isso a você. Não
tive essa oportunidade antes, e entendo os motivos. Isso é apenas uma maneira,
ainda que parcial, de corrigir meu erro.
— Já havia sido reservado para você — ele respondeu. — Pelo menos para a
graduação. Apenas adicionei mais quando soube que você fez o mestrado.
Espera um pouco.
Essa não foi a primeira vez que ele mencionou algo sobre mim que não deveria
saber.
Quer dizer, ele disse que tinha amigos que eram clientes da Annie, mas, embora
eu vivesse pedindo para Annie atualizar o site - que mal funcionava, servindo apenas
para fornecer informações de contato e uma lista de serviços - não havia perfis dos
funcionários lá. E, até onde eu sabia, ela não distribuía meu currículo para clientes
atuais ou potenciais.
Ah, não.
E desconfiada.
— Pai — pressionei.
Ele suspirou.
— Sinto muito por isso, sinto há quase toda a sua vida, Diana — disse ele. — Mas
você sabe que eu e sua mãe nunca nos demos bem.
— Ela não escondia o fato de que estava satisfeita por não estarmos nos falando
— ele admitiu.
— Ela comprou uma passagem de avião para vir até aqui e fazer uma maratona
de compras neste fim de semana — anunciei.
Ahá.
— E ela não me perguntou. Eu disse que ela não podia vir. Na época, não
sabíamos que teríamos esse avanço com Maddy e conseguiríamos mantê-la segura.
Ela não ficou nada satisfeita.
— Sua mãe gosta de conseguir o que quer, quando quer. Isso também não é
novidade para você, Diana — meu pai comentou.
Meu pai olhou para a perna cruzada e murmurou, como se Hugger e eu não
estivéssemos sentados bem na frente dele:
— Diana...
— Ela disse que havia algo que eu já era adulta o suficiente para saber. O que é?
Ah, droga.
Era algo.
Algo grande.
— O que é? — exigi.
Mas...
Nem pensar.
Porque...
Escutar o quê?
— Pai...
— Diana, de verdade...
— Pai! — rebati.
Hugger fez menção de se levantar, o que significava que ele soltou minha mão, e
eu não gostei nem um pouco disso.
Um tipo de surpresa masculina tomou conta do rosto bonito dele, um olhar que
eu imediatamente adorei.
Logo em seguida, um calor tomou conta de sua expressão, e eu adorei esse olhar
também.
— Tudo bem, então. Talvez possamos falar sobre isso mais tarde — ele
respondeu.
Evadiu a pergunta.
— Sua mãe já estava tendo um caso com Brendon Malley muito antes de eu
começar qualquer coisa com Nicole.
— Brendon veio de uma família rica — ele prosseguiu. — Estávamos criando uma
filha com apenas um salário e juntando dinheiro para que eu pudesse me tornar
sócio de uma empresa. Por isso, precisei dizer "não" para sua mãe mais vezes do que
ela gostaria. Brendon não dizia "não".
A mão de Hugger voltou para minha nuca, quente e firme. Eu queria que seu
toque me fizesse sentir melhor. E fez.
Mas meu pai acabara de virar meu mundo de cabeça para baixo.
— Eu sei.
Meu Deus.
— Diana...
Bati meu copo na mesa entre nós, aliviada por ele não ter quebrado, e me
endireitei ao dizer:
— E o que eu deveria ter feito? — meu pai perguntou. — Jogar sua mãe nesse
papel?
Santo Deus.
Me virei para Hugger, e ele me envolveu nos braços.
Eu não ia chorar.
Eu não ia.
Respirei fundo enquanto Hugger deslizava a mão para cima e para baixo nas
minhas costas.
— Eu nunca ia te contar.
— Não — retruquei com firmeza. — Não, de jeito nenhum, pai. Você não fez
nada errado.
Dito isso, contornei a mesa de centro e me joguei nos braços dele.
Eu só não percebia.
Foi nesse momento que manchei a camisa polo dele, de um azul prateado
brilhante, com o rímel que escorria dos meus olhos.
Hugger parou no balcão da cozinha, jogou as chaves ali e observou enquanto ela
seguia direto para o quarto, seus movimentos rígidos e tensos. Viu quando a luz se
acendeu lá dentro.
Hugger queria muito ligar para Joker, Shy, Dutch ou Jag e perguntar o que fazer
quando sua mulher acabava de ser emocionalmente despedaçada, de cima a baixo.
Todos eles já tinham passado por isso, alguns de forma pior que outros, mas tinham
passado.
Como sempre, estava por conta própria. E agora precisava descobrir como estar
presente para ela.
Depois que Di teve seu momento de choro no peito do pai, houve apenas dois
momentos mais delicados durante o jantar.
O primeiro foi quando ela saiu para retocar a maquiagem, deixando Hugger
sozinho com Armitage.
O homem não perdeu tempo.
— Você é o motivo pelo qual estou sendo seguido por motociclistas por toda
parte?
Para garantir presença visível, seus irmãos decidiram não agir discretamente, mas
ainda assim era interessante que Armitage tivesse notado.
— Di ficou preocupada com sua segurança depois que você dispensou Babić —
explicou Hugger. — Então pedi para meus irmãos te darem cobertura.
— Sim. Pesquise sobre o Chaos MC. Somos donos e administramos as lojas Ride
Autopeças, e nossa oficina faz personalizações de motos. Você pode encontrar um
artigo sobre nosso Clube e nossos trabalhos na Wilde & Hay. Ainda está no site
deles. Também temos um documentário sobre nossa história. Está disponível para
streaming.. Se chama Sangue, Coragem e Fraternidade.
Armitage lançou um olhar na direção para onde Di tinha ido e depois voltou sua
atenção para Hugger.
— Minha mãe fez o melhor que pôde, mas não tivemos uma vida fácil. Então,
com tudo o que ela é e tudo o que ela me dá, Diana é a melhor coisa que já
aconteceu na minha vida.
Armitage o encarou por vários segundos antes de confessar:
— Você quer dizer por não ter lidado direito com o que aconteceu quando ela se
machucou?
— Isso.
— Cara, se você ainda não percebeu que sua filha tem um coração de ouro, está
na hora de prestar atenção. Eu não sei o que aconteceu, porque pedi para ela não
me contar antes de eu te conhecer. Não queria te odiar antes mesmo de ter te visto.
O que sei é que ela está aqui agora. Ela sente sua falta. Então conserte isso. E um
conselho: você não vai conseguir fazer isso se continuar tratando ela como uma
visita na casa do próprio pai.
Ela quase se descontrolou de novo ao perceber que o pai lembrava de algo tão
importante para ela, mas conseguiu se segurar.
Jantaram ao redor da ilha da cozinha, como uma família, e não na sala de jantar,
embora Hugger tivesse notado que a mesa estava posta.
Eles falaram sobre muita coisa que fez Hugger se sentir deslocado.
Mas Di, sendo quem era, fez questão de que ele não se sentisse excluído. Tocava
nele, sorria, encostava de leve o ombro no dele para mostrar que não o tinha
esquecido e garantia que seu prato estivesse sempre cheio.
Ela comentou que convidaria o pai para o próximo jantar, e Armitage não perdeu
tempo em apoiar a ideia. Marcaram para a quarta-feira seguinte.
— …Pare de agir como uma criança. Pare de fazer birra. Jantei com o papai hoje,
e nós duas temos algo importante para conversar. Me liga.
Ela apertou a tela com força e, ao levantar os olhos para Hugger, decretou:
— Ela é sua mãe. Isso é algo que você simplesmente não percebe.
— Mas o papai não era assim. Nic não era assim. Como eu não percebi?
Cristo, nas últimas semanas, ela passou por uma montanha-russa emocional.
Ele ficou imóvel quando Diana se virou de lado para tirar os sapatos de salto e,
logo depois, se ajeitou novamente, montando sobre ele. Então, colapsou o peito
contra o dele e afundou a testa em seu pescoço.
— Tem mais sobre o meu pai — anunciou. — Coisas que precisamos conversar.
Mas acho que estou começando a entender.
— Entender o quê?
— Por que parecia que ele era tão duro comigo. Ok, não é que parecia… Ele
realmente era. Mas talvez fosse porque ele não queria que eu me tornasse como a
minha mãe.
Hugger tinha as mãos na cintura dela. Sentir seu peso sobre ele, seu cheiro por
toda parte, era tão bom que ele não confiava em si mesmo para se mexer.
Ela se apoiou nos antebraços sobre o peito dele, o que não ajudou em nada o
efeito que tinha sobre ele. Pelo contrário, agora ele podia ver seu rosto lindo e
aquele cabelo maravilhoso, o que tornava tudo ainda pior.
Droga, ele precisava se controlar. Ela estava passando por um momento difícil e
tudo o que conseguia pensar era em transar com ela.
— Eu tinha que tirar boas notas. Um B era inaceitável — explicou. — Eu tinha que
participar de várias atividades extracurriculares para ter uma experiência escolar
completa e não “perder tempo”, como ele dizia, com coisas inúteis como TV.
— Eu tinha tarefas em casa. Ele fez uma lista de leituras para mim que não era
exigida pela escola, mas sim por ele. Quando fiz dezesseis anos, ele abriu uma conta
conjunta para mim e eu precisava mantê-la equilibrada e mostrar os cálculos todo
mês. Ele tinha opiniões firmes sobre como eu deveria usar o cabelo e me vestir,
sempre me lembrando de que minha aparência representava não apenas a mim,
mas também a ele. Além disso, ele era extremamente rígido sobre eu não ganhar
peso. Ele sempre foi um cara em forma, muito ligado a um estilo de vida saudável, e
fez questão de me impor isso.
Hugger escolheu as palavras com cuidado.
— Foi muita pressão, Hugger. E talvez, como homem, ele não tenha percebido o
quanto é prejudicial julgar a forma como uma garota se alimenta, seu peso e sua
aparência. Mas, mais do que isso, eu nunca recebia um ‘muito bem’. Era mais um ‘ok,
você fez isso, agora precisa aprender aquilo’. Quando eu errava, a decepção dele era
extrema, e ele não hesitava em demonstrar. Parecia que ele queria que eu fosse uma
filha perfeita, como se fosse programada. Parte disso era sufocante, mas, na maior
parte, o que mais doía era decepcionar meu pai.
— Por quê?
— Eu tive um pai que se importava e talvez tenha sido um pouco rígido demais,
provavelmente porque não queria que eu crescesse mimada e egoísta. Ele queria
que eu fosse independente, não uma mulher que fizesse de tudo para se prender a
um homem rico apenas para ser sustentada. Enquanto isso, minha mãe…
— Sim. Desde o início, meu pai tinha a guarda total, e ela nunca contestou. E
quando conheceu Rick, se mudou para Idaho para ficar com ele.
Hugger tentou processar essa informação.
Não conseguiu.
Então, tentou encontrar um jeito de aceitar aquilo, porque sabia que devia ter
sido devastador para Diana.
— Contra todas as probabilidades, minha mãe nunca soltou minha mão — ele
disse a ela. — Nunca tivemos muito dinheiro, mas eu sempre tive um teto sobre a
cabeça, e era um bom teto. Sempre tive comida no prato, e em quantidade
suficiente. Roupas no corpo, e ela fazia questão de comprar novas no começo de
cada ano letivo, e dobrava esse esforço no Natal e no meu aniversário. Nenhuma
criança na escola sabia o que minha mãe fazia para viver, nem que não tínhamos
muito. Ela fez de tudo para que fosse assim, para que ninguém pensasse nada e as
crianças não fossem cruéis comigo.
— Ela só me deixou ir quando morreu. E nem queria fazer isso. Ela faleceu
segurando minha mão, fraca demais para apertá-la, mas ainda segurando. E suas
últimas palavras neste mundo foram: “A melhor coisa que já fiz foi você.”
— Olhando direto nos meus olhos até a luz se apagar nos dela.
— Ah, Hugger...
Droga.
Droga.
Droga.
— Sou o quê?
— O melhor.
Droga.
Era errado, aquele não era o momento, mas, pelo amor de Deus, ele precisava
beijá-la.
Ele já tinha pensado muito sobre isso, talvez demais. Imaginava que, na primeira
vez, iria devagar, queria que ambos saboreassem cada segundo, que fosse uma
lembrança que durasse para sempre.
Mas no instante em que sua língua tocou a dela, esse plano foi pelos ares.
Ele a virou de costas, incapaz de se saciar dela. Suas mãos a exploravam, sua
boca devorava a dela.
Ela o encontrou com a mesma intensidade - na verdade, superou - se ergueu e o
empurrou para que ficasse deitado. Então, rompeu o beijo, sentou-se e puxou a
blusa para fora do corpo.
Ela usava um sutiã preto, simples, sem rendas, mas os seios volumosos sobre a
borda da peça fizeram seu pau pulsar.
Ele se ergueu, beijando o pescoço dela, descendo pelo colo, enquanto ela abria
os botões da camisa dele.
Ele nunca foi especialmente sensível ali, mas sentiu aquilo - e foi bom. Ainda
melhor quando ela continuou usando as unhas, descendo com os lábios, até a ponta
da língua tocar o cós da calça dele, enquanto os dedos iam para o zíper.
Ah, não.
De jeito nenhum.
Então, ele se levantou, tirou a camisa pelos ombros e ouviu o ar escapar dos
lábios dela. Agarrou os tornozelos de Di, puxando-a para ele, arrancando mais um
suspiro.
Os olhos verdes dela queimavam sobre ele quando ele desabotoou o cinto, abriu
a calça e deslizou a peça junto com a calcinha por suas pernas.
Vê-la ali, quase nua para ele, quase o fez gozar dentro da calça.
Então, ouviu o gemido dela, viu seu sexo úmido e rosado exposto para ele.
E se afundou ali.
Ele interrompeu o movimento para sorrir contra o sexo dela, porque ela estava
com ele.
E ele aprendeu rápido que poderia passar uma vida inteira a devorando e nunca
se cansaria, principalmente quando ela enfiou a mão em seus cabelos, segurando-o
ali.
Ele sabia que ela estava perto pelo som dos gemidos, pelo jeito como apertava e
soltava os dedos no cabelo dele, pelo modo como se pressionava contra seu rosto,
se remexendo, buscando mais.
Ele limpou a boca com o dorso da mão, inclinou-se para arrancar as meias,
puxou a carteira do bolso e pegou um preservativo. Jogou a carteira no criado-
mudo, rasgou a embalagem com os dentes e abriu a calça.
Diana.
O rosto corado.
Ele grunhiu:
Tendo-a exatamente onde queria, ele se acomodou sobre ela. Curvou uma de
suas pernas ao redor de sua cintura, a outra ao longo de sua coxa, segurou seu
membro e o guiou até ela.
— Eu vi bem o tamanho disso, querido. Sei exatamente o que esperar. Mas sou
mais resistente do que você imagina.
Ele sabia que ela era forte, mas nunca permitiria que ela precisasse ser.
Avançou mais um pouco, e, porra, ela era apertada e tão quente que estava
matando ele ter que ir devagar.
— Ainda melhor, baby — sua voz era um sopro enquanto suas mãos percorriam
seu corpo quente e ansioso.
Mais um pouco.
Isso mesmo.
Ele a beijou. Queria ir devagar, saboreá-la, mas ela enroscou a língua na dele, o
beijo ficou voraz, suas mãos e unhas em seu corpo estavam ainda mais exigentes,
suas pernas apertaram num pedido silencioso, e ela não lhe deu escolha além de
fodê-la com força.
E ele se perdeu nela porque soube, naquele instante, que estava certo.
E, provando isso, Diana gozou alto contra sua boca, agarrando seus cabelos,
apertando sua bunda e se fechando ao redor dele.
Ele veio em silêncio, gemendo contra seu pescoço enquanto investia fundo
dentro dela.
Silêncio porque foi a maior descarga que já teve, a mais intensa, a mais doce, e
seu corpo precisou de toda a energia para entregar aquilo a ela.
Ainda teve presença de espírito suficiente para manter o peso nos antebraços ao
desabar sobre ela.
Era isso.
Talvez não tivesse muito a oferecer, mas, ainda que isso o matasse, encontraria
uma maneira de entregar o mundo a ela.
— Ok, isso foi… — Ela respirou fundo, expandindo o peito. — Absolutamente
fantástico.
Ele ergueu a cabeça para encará-la. Suas bochechas estavam coradas, os lábios
inchados, os olhos enevoados.
Nunca tinha rido assim com uma mulher, e foi uma sensação incrível.
— Sua barba e o boquete que você faz, querido… — ela ronronou, passando os
dedos pelo cabelo dele antes de arranhar a barba. — Puta merda.
— Você é do tipo que gosta de discutir cada detalhe depois? — ele provocou.
— Nunca fui. Mas acho que a gente devia analisar cada segundo dessa transa pra
garantir que vai ficar bem gravado na memória.
— Você está apagando — ele murmurou, roçando os lábios nos dela antes de
continuar: — Vou me livrar da camisinha e já volto.
Ela assentiu.
Quando voltou, ela estava vestindo sua camiseta, puxando a barra repetidamente
para baixo, sentada de pernas cruzadas no meio da cama.
Seja vestida com seus trajes chiques, suas pequenas roupas de dormir, toda
arrumada, sem maquiagem ou com a cara toda suja de algum tratamento facial, ela
era a mulher mais linda que ele já tinha visto.
E sim.
Porra, sim.
— Absolutamente tudo.
Ela ergueu a cabeça e disse:
A resposta dele foi puxar a camisa para cima, deslizando a mão pelas costas dela
e apertando sua cintura.
Ela respirou fundo, o peito pressionado contra o dele - algo que ele
definitivamente adorou - e soltou o ar antes de responder:
— Vai ser interessante ouvir o que minha mãe tem a dizer sobre ter mentido
para mim a vida inteira. Mas acho que, no fim, a noite foi boa, especialmente depois
que meu pai parou de agir como se a Princesa de Gales estivesse aqui para um
martíni e a gente finalmente conseguiu ter um momento em família.
Ótimo.
— E pode até ter sido um trajeto turbulento, mas a viagem que fiz depois do
jantar compensou totalmente — ela acrescentou.
E sentiu um alívio enorme, porque parecia que tinha lidado com tudo da maneira
certa.
Ele a beijou.
Diana, ajoelhada entre suas coxas abertas, com suas pernas dobradas nos
joelhos, a cabeça e os ombros apoiados no encosto da cama dela para poder assistir,
continuava o que fazia.
Se tivesse que escolher, com uma arma apontada para sua cabeça, entre tê-la
com a boca ou dentro dela pelo resto da vida, escolheria estar dentro dela.
Ela deslizou para fora, encontrando seu olhar, mas sua mão pequena e firme
continuou o movimento em torno dele. Com a outra, arrastou as unhas pela parte
interna da coxa dele.
Isso o fez fechar os olhos, afundar a cabeça no encosto e liberar tudo sobre o
próprio abdômen.
Ela extraiu até a última gota com toques mais suaves e, antes que ele pudesse se
recuperar, se jogou sobre ele como se não se importasse nem um pouco de se
deitar sobre a bagunça.
Ele forçou o foco nela e viu o enorme sorriso que estampava seu rosto.
— Bom, isso foi divertido — ela disse.
— Ainda bem que fiz meu cabelo ontem, assim tive meia hora extra para te
chupar hoje de manhã — compartilhou, animada.
Ele acordara rabugento, como sempre, mas essa sensação passou rápido quando
Diana foi direto ao ponto.
Agora, no entanto, voltava a ficar inquieto. E pior: percebia que estava lidando
com uma mulher bem-humorada logo cedo.
Sem contar que ela parecia genuinamente feliz por ter feito aquilo com ele.
— Não precisa.
— Aceito essa regra com entusiasmo, mas com ressalvas. Tipo, adiar para outra
hora quando eu precisar me levantar e me arrumar para o trabalho.
— Harlan...
Ele deslizou os dedos entre as pernas dela.
Ele sorriu.
Depois, a beijou.
Hugger estava em sua cadeira perto da janela, com o celular em mãos, olhando a
página de carreiras do Museu de Arte de Denver.
Ela parou, olhou para Di, depois para Hugger, voltou para Di e depois para
Hugger novamente.
Diana levantou a cabeça e, ao perceber que Annie ainda estava parada, chamou:
— Ei, Annie.
— Ei. — Annie deu um passo à frente. — Seu pai está bem?
— Acho que sim — Diana respondeu com cautela. — Por que pergunta?
Hugger relaxou.
Parece que Annie precisava de cerca de vinte e sete horas para processar as
coisas.
— Vou fazer um brunch neste domingo. Você e seu segurança gostariam de vir?
— Seu cara?
— Sério?
— Sério.
— Então, vocês precisam ir. Estão perdendo algo bom. — Ela se virou para Diana.
— Minha casa. Dez horas. Vejo vocês lá.
— O que foi aquele olhar de oh, merda quando ela nos convidou para o brunch?
Di olhou para a porta e, então, fez um gesto com a mão para ele se aproximar.
Hugger sorriu.
— Porque ela é a Annie, e ela pode esquecer quem você é até domingo.
Ela sorriu radiante para ele, e, droga, ele adorava aquele sorriso.
— Petey! — Diana exclamou, como se ele estivesse fora por anos, e não apenas
alguns dias.
Ela se levantou da cadeira e correu até ele, jogando os braços ao redor dele.
— Então, óbvio que você vai vir jantar conosco — Diana afirmou.
Hugger queria um tempo só para eles, sem trabalho ou problemas pesados para
resolver.
Pete olhou para Hugger, que deu um aceno de aprovação, e então ele se voltou
para Diana.
— Parece bom.
Di olhou para ele, mas Hugger simplesmente caminhou até sua própria cadeira,
arrastou-a, depois pegou a dela e a trouxe para perto. Em seguida, pegou a cadeira
atrás da mesa dela e fez o mesmo.
Eles se sentaram, e Pete começou a falar:
— O Resurrection tem alguns contatos bons para descobrir certas coisas. E eles
descobriram algumas. Parte disso é que Imran colocou Esad e seus irmãos em um
avião para a Costa Rica dois dias depois que Maddy se internou no hospital. O
próprio Imran fugiu sob fiança há quatro dias e foi para a Bolívia. A Costa Rica tem
um tratado de extradição com os Estados Unidos. A Bolívia também, mas não um
que funcione de verdade.
— Eles fugiram?
Pete assentiu.
— Significa que Imran é um verdadeiro filho da mãe, porque está claro que o
filho dele não é muito inteligente. E, mais cedo ou mais tarde, a polícia ou o pessoal
do Resurrection vai pegá-lo. Se for a polícia, vão extraditá-lo, e nenhum deles verá a
luz do dia fora da prisão novamente.
— Ele não vai deixar o filho levá-lo junto. É mais fácil fugir sozinho. E mais barato
também — disse Big Petey.
— Rush quer que fiquemos por aqui cuidando da Di e do Armitage. Ainda não
pegaram todo o grupo, e Rush quer garantir que tudo esteja tranquilo antes de nos
dispensar.
Diana sorriu. Ela não tinha nada com que se preocupar. Até que Hugger definisse
com ela onde estavam e para onde iriam, ele não iria a lugar algum.
— Rush está conversando com Lee, e Lee está em contato com Mace, que está
acompanhando tudo isso. O grupo de Mace aqui é novo, mas está conseguindo
avançar, já tem alguns informantes, e ele acha que vão descobrir se Imran deixou
alguém com ordens que não nos agradariam.
— Ah — murmurou ela.
— Que bom que você está aqui — disse Hugger. — Pode fazer companhia para a
Di enquanto eu resolvo uma coisa.
Ele adorava o cara, mas não iria mandá-lo comprar preservativos para ele.
— Claro.
Ele depositou um beijo nos cabelos dela, fazendo com que ela erguesse a cabeça
para encontrar seu olhar.
Ele sorriu, deu-lhe outro beijo, dessa vez nos lábios, depois se virou para Pete,
que os observava com um sorriso próprio, e saíram juntos.
— Isso porque eu disse a ele que é hora de você acertar as coisas com o Clube.
— Não fique irritado comigo — advertiu Pete. — Você está nessa agora, e sabe
que chegou a hora.
Ele não podia discutir isso.
— Que problemas?
— Ela tem um mestrado. Já viajou para lugares como Lucerna. Construiu uma
vida estável aqui.
— Pete...
— Pete...
— Eu...
— Lanie ama o Hop porque ama o Hop. Millie se apaixonou pelo High na
primeira noite em que o conheceu. Georgie e Dutch estavam morando juntos antes
mesmo que alguém percebesse. Joker e Carrie se apaixonaram no colégio, foram
separados e agora têm cinco filhos.
— Carrie não ama o Joker porque ele constrói máquinas incríveis. Joke poderia
cavar covas para viver, e ainda assim seria a vida dela.
O olhar de Hugger se desviou para a janela do estúdio de Di, onde ele estava
sentado.
— Vou te dizer uma coisa, irmão — continuou Big Petey, chamando sua atenção
de volta. — Há muita coisa que nos molda como homens. Sim, parte disso vem dos
nossos pais. E tenho certeza de que você não vai discordar que teve a melhor mãe
do mundo.
— E vou te dizer mais uma coisa antes de voltar para a sua garota — acrescentou
Big Petey. — Se eu ouvir você se diminuindo na minha frente de novo, sou um velho
desgraçado, mas vou encontrar forças para enfiar a porrada em você. Eu te entendo.
Sei o que você precisa resolver. Sei que precisa superar isso, e me irrita pra caramba
não ter te forçado a encarar antes, para que já tivesse superado há muito tempo.
Mas você vai passar por isso. Com o seu Clube ao seu lado. Porque ele faz parte de
você, mas você não é ele.
Sim... droga.
— Di não se importa com os livros que você leu, os países que visitou ou o
trabalho que você tem. O que importa para ela é que você passou o aspirador. Que
você garantiu a segurança do pai dela. Que fez com que ela se sentisse segura. Que
esteve ao lado dela quando ela perdeu a Maddy. Ela se importa com a forma como
você a olha, como a trata e como a toca. Isso é tudo o que importa para ela.
— Você a conhece há uma semana, e mesmo assim ela já sabe mais sobre você
do que você mesmo, irmão. Você pode decidir ficar em casa enquanto ela roda o
mundo, mas ela sempre vai voltar para você... e vai estar feliz pra caralho por isso.
Hugger ficou parado enquanto Pete se colocou na ponta dos pés para encará-lo
de perto.
— Preste atenção, filho. Ela tem mostrado isso para você desde o começo. Não
se coloque na posição de perder essa chance. Isso pode significar perder a melhor
coisa que já aconteceu na sua vida, e eu prometo, você vai se odiar pelo resto dela
se fizer isso.
— Relaxa, Pete. Já decidi que vou fazer o que for preciso para que a Di seja
minha.
— Faz um favor pra mim? Cuida dela um pouco enquanto eu vou comprar uma
caixa gigante de camisinhas.
Hugger montou na moto e seguiu para uma farmácia que tinha visto enquanto
levava Di para o trabalho. Antes de entrar, pegou o celular e mandou uma
mensagem perguntando se ela precisava de alguma coisa.
Ele já estava indo para o caixa com os preservativos quando ela respondeu:
Twizzlers de cereja31.
Essa simples mensagem fez com que ele sorrisse, mesmo depois de pagar a
conta.
Já estava sentado na moto, pronto para dar partida e sair, quando sentiu um
impulso. Aquele tipo de impulso que só havia sentido uma vez antes—na noite
passada, quando não sabia o que fazer para ajudar Di.
31
Twizzlers de cereja são um tipo de bala de goma em formato de tiras compridas e torcidas, com
sabor de cereja.
Mas agora ele tinha tempo.
— Sim. Pete está com a Di e eu estou resolvendo umas coisas. Mas tem um
minuto?
— Tenho vários. Jag e Coe estão de olho no velho, e eu estou de boa na casa
alugada até você chegar com a Diana. Depois disso, vou cuidar do complexo. O que
manda?
— É.
— Como você... — Porra, isso era difícil. — Como você soube que era com ela?
— Cara, no começo, eu não soube. Ela era uma puta de uma chata quando nos
conhecemos. Depois, parou de ser. Aí eu falei uma merda enorme e quase estraguei
tudo. Mas depois... ela só foi ela mesma. E então, eu soube.
— Foi só isso?
Hugger conhecia.
— Todo mundo já percebeu que você está de olho na Diana — Dutch comentou,
sugestivo.
— Como assim?
Hugger passou a mão na nuca, que queimava sob o sol, mas aquele calor não era
nada comparado ao que estava crescendo dentro dele.
— Não — Dutch respondeu. — Eu sei de quem você veio. Mas também sei que
esse cara nunca chegou nem perto de ser seu pai.
— Irmão, você conhece a história do Joker. Agora me diz: o Joke tem alguma
coisa a ver com aquele merda que colocou ele no mundo?
Merda.
32
A expressão sugere uma brincadeira irônica ou provocativa, dizendo que o nome do Clube deveria
ser Shaky (instável) em vez de Steady (firme), como se insinuasse que a forma intensa e imediata com que
ele age pudesse ser vista como impulsiva ou apressada, em vez de estável e calculada.
— E todo mundo sabe o que aconteceu com o Core, o que ele viveu, o que o pai
dele fez. O Core se desviou feio, mas fez de tudo pra se reerguer. Hellen acha que
ele pendura a lua e traz o sol. Ele se perdeu, mas conseguiu se encontrar de novo.
No final das contas, ele não tem absolutamente nada a ver com o homem que o
gerou.
Droga.
— Eu vou.
— Certo. Então, enquanto isso, não deixe essa merda atrapalhar quando
encontrar o que quer. Inferno, quando encontrar o que merece, cara. Só não deixe.
— Eu seguiria Georgie até o Cazaquistão se ela tivesse que se mudar para lá por
causa do trabalho. E eu nem sei onde fica o Cazaquistão.
— Com certeza.
— E o Clube?
— O Clube não vai a lugar nenhum. Meu patch ainda estará lá. Só estarei usando
ele no Cazaquistão.
— Sim.
O calor voltou a apertar em seu estômago, e sua voz saiu baixa quando
respondeu:
— Você tem muito amor, irmão. Só precisa se abrir para que a gente possa te dar
um pouco disso.
E repetiu:
— Sim.
Eles desligaram. E, antes que pudesse se convencer a não fazer isso, Hugger fez
outra ligação.
Colocou o telefone no ouvido, ouviu chamar duas vezes e então a conexão foi
feita.
— Já era hora — disse Tack.
— Você está bem com a ideia de eu resolver isso junto com seus irmãos?
— Isso sempre foi sobre ela e você. Jackie e Harlan — a voz rouca de Tack
ressoou. — Nunca foi sobre ele. Você era um legado porque era filho da Jackie,
Hugger. Agora, quando você voltar para casa, isso será confirmado. Eu vou resolver
isso. Você me entendeu?
— Sim. Pete disse que você está se conectando com Diana. Fico feliz por você,
irmão. Já estava mais do que na hora também. Você tem muito a oferecer a uma
mulher.
Ok, ele precisava encerrar aquela conversa, porque estava mexendo com sua
cabeça.
E ele estava mergulhado nisso com Di. Estava ao seu redor o tempo todo, e
agora começava a se tornar algo esmagador.
— Traga ela para cá. Apresente-a para a família — sugeriu Tack. — E nós
resolvemos essa merda para que você possa seguir em frente.
— Certo.
— Certo.
Hugger soltou uma gargalhada, porque ele bem sabia que as "velhas senhoras"
do Clube, todas elas, tinham uma queda por sapatos.
— Bom saber.
— Quando você encontra a pessoa certa, isso nunca desaparece. Pode dar uma
acalmada por um tempo. Terão altos e baixos que você vai ter que encarar. Mas, de
um jeito ou de outro, nunca desaparece.
Agora, eu já tinha visto Hugger completamente nu, da cabeça aos pés. Seu corpo
era simplesmente impecável, sem um pingo de gordura. Os músculos bem definidos
do abdômen eram de dar água na boca. As marcas em "V" nos quadris eram
praticamente uma revelação divina. Seus bíceps volumosos, os antebraços
vascularizados, a definição dos ombros e das costas, a força das coxas... bom, você
entendeu. Tudo nele era a prova viva de que Deus existia.
E isso estava bem longe do que eu oferecia. Embora Hugger nunca tivesse
demonstrado o menor problema com meu bumbum, minhas coxas ou minha
barriga, ver Dutch e Georgie tão felizes juntos, irradiando uma felicidade genuína,
fez algo dentro do meu coração se aquietar.
Dutch deslizou o dedo pela tela do celular, virou-o novamente para mim e disse:
Uau.
A mulher na foto também era linda, mas esguia, vestindo um tubinho tomara
que caia de cetim marfim, combinado com um lenço circular de chiffon suave que
caía do pescoço até as costas. Seu cabelo estava preso sem nenhum adorno, e os
únicos acessórios eram elegantes brincos tipo candelabro, feitos de pérolas,
pendendo das orelhas. Só isso.
Dutch girou o celular de volta para si, analisando a foto antes de concordar:
Retribuí o sorriso.
— Obviamente.
Virei para a direita e vi que ele também estava me mostrando a tela do celular.
— Vocês têm algum critério de beleza para aceitar novos membros no grupo?
— Ah...
Ele voltou a deslizar o dedo pela tela e então virou o celular de novo para mim.
Ao ver a nova foto, senti algo que nunca havia sentido antes.
— Esses dois são unha e carne — comentou Big Petey. — O "Tio Hug" é o
favorito de todas as crianças, porque sempre tem tempo para elas.
— Mas acho que, às vezes, Rave se sente meio perdida no meio de tanta gente.
Não só os irmãos dela, mas toda a criançada do Chaos. Ela é muito tímida. Hugger é
o porto seguro dela.
Seus lábios grossos, cobertos pela barba, estavam franzidos em irritação com a
indiscrição de Petey.
Dutch, que estava rindo baixinho enquanto olhava para o próprio colo,
resmungou:
— Certo.
Eu não conseguia.
Também não conseguia esperar por outras coisas. E ver aquela foto me fez ter
ainda mais esperança de que eu as teria.
Hugger e Dutch voltaram para pegar mais coisas e depois retornaram para a
cozinha.
— Depois que a Maddy foi embora, parecia que ele estava se afastando. Quer
dizer, não exatamente, mas era como se ele achasse que algo fosse acontecer para
nos impedir. Na verdade, até antes da Maddy ir embora, parecia que ele estava
segurando alguma coisa. Mas hoje… hoje não é nada disso.
Apaixonando-se.
— Ele tem algumas coisas que só ele pode te contar, Di — Pete disse, e então
alertou: — E são pesadas.
Eu contei.
Viu?
Pesado.
— O Harlan já me disse que ele tem coisas para me contar, não estou indo às
cegas, Petey — garanti. — Mas ele também não recuou quando as minhas questões
surgiram. A gente não pode decidir como a vida vai acontecer, e com certeza o que
está rolando entre nós dois não é um conto de fadas. O que posso dizer é que gosto
muito assim. Provados pelo fogo, e talvez depois venham águas calmas.
— Espero que sim. E fico feliz por você — Pete murmurou. — Feliz pelos dois.
Sorri.
— Eu também.
— Agora, sobre sua mãe… — ele deixou a frase no ar, esperando que eu
continuasse.
E eu continuei.
— Liguei para ela. Deixei um recado pedindo que me retornasse. Ela não ligou.
Desde então, mandei duas mensagens. Ela leu, mas não respondeu. Acho que sabe
que eu descobri e está me evitando.
— E o que você vai fazer quando ela parar de te evitar? — Pete perguntou.
— O que quer que aconteça, vai ficar tudo bem — prometi, acariciando seu
antebraço.
— Hm… — ele murmurou.
— Pais precisam tomar todo tipo de decisão difícil — Big Petey declarou com
sabedoria. — Mas é bom que você saiba tudo o que teve com seu pai, não importa
o que aconteça com sua mãe.
Ele não disse mais nada, mas pelo tom, entendi que eles tinham tudo sob
controle.
Ele pegou um biscoito, deu uma mordida e, com a boca cheia, comentou:
— Espero que alguém tenha pegado essa receita com a Emmy antes de ela ir
embora.
E… sim.
Eu gostava daqueles biscoitos, os caras também gostavam, mas Hugger amava
aqueles biscoitos tanto que era um milagre ainda ter alguns sobrando.
— Poderia dizer que era difícil pra caramba não gozar só de cavalgar meu
grandão, com aquele pau enorme, o peito lindo, o rosto irresistível, o cabelo grosso
espalhado pelo meu travesseiro, a barba cheia, perfeita para eu puxar... e tudo isso
sendo a única coisa que eu conseguia ver.
Observei os olhos dele escurecerem ainda mais, senti as pontas dos dedos
cravando nos meus quadris e fiquei muito satisfeita ao perceber que estava prestes a
levá-lo ao limite. Mas, de repente, eu não estava mais quicando no pau dele.
— Senhor...
Tão bom.
— Deus, eu amo, amo, amo ser jogada e posicionada pelo meu homem.
Hugger era o tipo de homem que sabia exatamente o que queria na cama e não
hesitava em tomar para si. Isso era tão fodidamente quente - não, era além disso.
Era cinquenta níveis acima do que se poderia chamar de quente.
Ardente.
Não, incandescente.
Ok, eu adorava cavalgar Hugger, mas isso... isso era ainda melhor.
Quando comecei a voltar à realidade, senti o dedo dele deixar meu clitóris,
apenas para envolver meu ventre, me segurando firme enquanto ele continuava
investindo.
Isso só me incendiou ainda mais.
Virei a cabeça, absorvendo o som das respirações pesadas dele, dos pequenos
gemidos que foram ficando mais profundos, até que ele afundou bem dentro de
mim, apertou meu seio e me envolveu com mais força no momento em que gozou.
Hugger era silencioso durante o sexo, ao contrário de mim. Ele fazia barulhos,
mas eram baixos, discretos, e destoavam do esforço que ele colocava para tornar
tudo tão bom para nós dois.
Ele afastou meu cabelo do pescoço com o queixo - um gesto fadado ao fracasso,
pois senti meus fios se enroscarem na barba dele - mas mesmo assim beijou minha
pele.
Não sabia o que tinha acontecido. Queria saber, mas se ele nunca me contasse,
não importava.
Só estava feliz que o que quer que fosse que ele estava segurando entre nós, ele
tinha deixado para trás.
Ele está se apaixonando.
Se qualquer uma das minhas melhores amigas - Bernie, Charlie, Mel - dissesse
que estava se apaixonando por um cara depois de apenas uma semana, eu ficaria
preocupada.
E Hugger também.
E que glória.
Fiquei perplexa quando ele deu a volta na cama e veio para o meu lado. Mais
perplexa ainda quando pegou meu celular do carregador. E ainda mais perplexa
quando sua expressão irritada se transformou em uma carranca completa ao olhar
para a tela.
Relaxei sob o peso dele, deslizei as mãos por suas costas e murmurei:
— Querido…
— Isso está me irritando — ele afirmou.
— É… — ele grunhiu.
Ok.
Hm.
Sim...
— Você me disse mais cedo que não gosta de toque e não é carinhoso.
Pisquei.
— E adoro suas mãos em mim, mesmo quando não estamos transando — ele
continuou.
Ele fez aquela expressão que sempre surgia quando estava prestes a dizer
"Nunca pensei nisso."
— Quero.
Achei que já estava relaxada debaixo dele, mas quando ouvi isso, meu corpo se
soltou ainda mais.
— Quero.
— Quantos?
— Dois.
— Dois é um bom número. Não sei muito sobre isso, mas ouvi dizer que ser filho
do meio não é nada divertido.
Seus olhos ficaram suaves, e ele se inclinou para roçar o nariz no meu.
— Não. Decidi ontem à noite, quando descobri que você é um sexo fantástico.
Puta merda!
Tipo, sério.
— Isso fica para domingo, baby — ele disse baixinho. — Mas posso dizer que o
que estava me incomodando era sentir que eu não era bom o suficiente para você.
Minha boca voltou a se abrir, mas dessa vez não foi só por surpresa.
— Não. — Ele percebeu meu humor e segurou meu rosto com uma das mãos. —
Baby, você tem um mestrado.
— E daí?
— Eu nunca saí do Colorado, exceto para ir a Vegas algumas vezes e agora vir
para cá.
Isso me chocou.
Ainda assim…
— Na verdade, não. Porque isso só me diz que, no fundo, você acha que eu
acabaria acreditando que sou melhor que você.
— Eu vejo sua reação quando te digo que nunca esperei nada da minha vida,
que nunca nem pensei nisso.
— Acho que essa conversa vai ser difícil sem eu ter as respostas de que preciso e
ter que esperar até domingo para tê-las.
De repente, ele se moveu, segurando meu rosto com as duas mãos e trazendo
seu rosto para bem perto do meu.
— Nunca sonhei, nunca quis porcaria nenhuma, porque sabia que não poderia
ter — ele rosnou. — Aí eu sigo essa mulher maravilhosa, cheia de atitude, até o
cantinho incrível que ela criou e, de repente, começo a querer coisas. Trinta e cinco
anos, mulher, e foi a primeira vez na vida que enxerguei o que queria. Tudo. Tudo o
que eu precisaria pelo resto da minha vida. Isso me desestabilizou. Me aterrorizou
pra caralho. Quando você não quer nada, não se decepciona. Agora vejo que era
isso que eu fazia. Me protegendo. Porque, de repente, ali estava — suas mãos
exerceram uma pressão suave na minha cabeça — tudo, e eu sabia, eu... porra...
sabia o quanto ia doer se eu não conseguisse.
— Harlan — sussurrei, tomada por uma enxurrada de sentimentos. Era tanto que
parecia me sufocar, encher cada poro, cada canto do quarto. Mas, ainda assim, era
uma sensação absurdamente linda.
— Sei que meu banheiro lá em casa é uma droga — ele continuou — e que
escovo os dentes no seu banheiro chique, ao seu lado, enquanto você inclina esse
seu traseiro delicioso para passar rímel, com aquele seu cabelo incrível e seu
suprimento absurdo de maquiagem espalhado ao redor.
— Vi você arrumar tudo por dois dias seguidos, baby. Você tem três gavetas só
disso.
Então...
Tudo bem.
— Harlan, se prepara, meu homem maravilhoso, porque agora vou apelar pro
golpe baixo: o que sua mãe diria ao saber que você acha que não merece uma vida
boa?
Ah-há.
E ah-há de novo.
Não sabia onde iríamos parar. Não sabia o que me esperava no domingo.
O que eu sabia era que ele teria um banheiro fodidamente incrível, um quarto
fodidamente incrível, tudo fodidamente incrível. E ele ia fazer parte da criação disso -
comigo. Mas teria sua voz, escolheria o que queria, para que pudesse viver o sonho
que nunca permitiu a si mesmo ter.
E eu ia cumprir.
— Domingo, você pode despejar tudo sobre mim — convidei. — Mas, por
enquanto, não tivemos muito tempo juntos. E eu ainda não tive tempo suficiente
para te fazer entender que você merece um banheiro chique e tudo o mais que um
dia perceber que quer. Mas saiba que essa é minha nova tarefa e eu não vou parar
até te colocar exatamente onde você sempre deveria estar.
Ele deslizou o polegar pela minha maçã do rosto, mantendo os olhos nos meus,
mas não disse nada.
Ele sorriu.
— Com certeza.
— Acho que quero começar pelo Japão. Gosto de sushi e os jardins deles são
sensacionais.
Ótima notícia que ele gostava de sushi, porque eu era uma verdadeira fã.
Meu corpo começou a tremer porque o dele tremia, já que ele estava rindo.
Argh.
Ele ia ver.
Na noite seguinte, desci pelo corredor enquanto colocava o último brinco, entrei
na sala de estar e vi Hugger esparramado no sofá, os olhos grudados na TV.
Então, observei com bastante interesse cada centímetro do seu corpo longo e
relaxado entrar em alerta.
Era bem simples, como um vestido preto curto deve ser. Uma manga longa, um
ombro à mostra, bem justo ao corpo, uma saia curta que terminava vários
centímetros acima do joelho, com uma fenda de um lado.
— De que jeito?
— Bom, tenho o quadril meio largo… e tem isso aqui. — Coloquei as mãos sobre
minha barriguinha.
— O quê?
— Tudo que eu vejo é minha mulher num vestido que está deixando meu pau
duro.
Hmm.
— Sério?
— Se sua mão chegar perto do meu pau, principalmente agora com você nesse
vestido, a gente vai se atrasar, baby — ele decretou.
Droga.
Antes que ele pudesse me puxar para qualquer lugar (não que eu pudesse ir
muito longe, já que ainda precisava trocar de bolsa), segurei firme seus dedos e
perguntei:
— Você não se importa que eu use minha dedicação a biscoitos e tacos no meu
quadril, barriga e em outros lugares?
E, como sempre acontecia com Hugger, ele não me fez esperar para entender
seu humor.
— No Chaos?
— Nossa sede principal, com a primeira loja, a oficina e o Clube. É assim que
chamamos, como se fosse uma ilha. Se você está lá, está “no Chaos”. Não sei como
isso começou, só sei que é assim.
— Ah.
Não sabia explicar por que, mas adorei saber disso sobre o clube dele.
— Certo.
— Virou um hábito, e eu curto. Me ajuda a limpar a mente.
— Uma vez fiz uma aula de pilates no andar de baixo e não consegui me mexer
por dois dias.
Ele sorriu.
— Quando o calor dá uma trégua no Vale, gosto de caminhar. Mas, faça frio ou
calor, a maioria dessas caminhadas acontece dentro de um shopping.
— Basicamente, meu exercício físico se resume a limpar minha casa uma vez por
semana — finalizei.
— Te dei algum sinal de que não amo cada centímetro seu? — perguntou
baixinho.
— Então tira essa ideia da cabeça. A única pessoa que precisa se sentir bem
nesse vestido é você. Mas só para deixar claro, você está linda. Você sempre está
linda, mas hoje se superou.
Bom, então...
Foda-se.
Era necessário ter uma reserva, e nós conseguimos uma mesa quase minúscula
com quatro banquetas. Então, Hugger estava ali apenas para conhecer as meninas
antes de subir, relaxar, ficar de olho na entrada e provavelmente tomar um café.
Puxei-o na direção das minhas amigas (nem todas tinham aderido ao vestido
preto clássico - Bernie estava com um vestido curto e justo, mas em azul elétrico,
Mel estava abertamente desejando o outono em um vestido curto, justo, de gola
alta e verde, e Charlie, nossa garota hippie, usava um vestido longo sem mangas, de
decote canoa, feito de gaze creme, com uma fenda lateral alta e uma fileira de
pequenos sinos na saia esvoaçante - eu sabia que eles tilintariam quando ela
andasse. Ela estava sentada, mas conhecia bem o vestido porque já a tinha visto usá-
lo antes).
33
O 36 Below é um bar de coquetéis imersivo localizado em Phoenix, Arizona, projetado para oferecer
aos clientes uma experiência sensorial única.
Enquanto nos aproximávamos, todas estavam nos encarando com a mesma
expressão: um misto de choque e curiosidade extrema.
Ninguém respondeu.
Silêncio.
— Você foi a única que não ganhou um apelido masculino — comentou Hugger,
olhando para Charlie.
— Prazer em conhecê-las.
— Sim... — Bernie pigarreou.
Quase caí das minhas sandálias pretas de salto quando Charlie puxou meu pulso
com força. Felizmente, contra todas as probabilidades, acabei aterrissando numa das
minúsculas banquetas de veludo laranja.
— Brava eu não estou. Eu estou é morrendo de inveja, mas brava não — disse
Charlie. — Quero dizer... aquele cara é tipo... uau.
— Por que ficaríamos bravas? — questionou Bernie. — A não ser pelo fato de
que você simplesmente sumiu do mapa por semanas e agora aparece com esse cara
enorme e gostoso, que ainda por cima te dá um beijo no pescoço antes de ir
embora.
Bernie, a propósito, era magra, negra, tinha um quadril generoso, mas pouco
peito. Tudo ficava bem nela, de qualquer cor. Além disso, mudava de penteado mais
vezes do que eu trocava de bolsa, e olha que eu trocava de bolsa o tempo todo.
Mel, por outro lado, era branca, baixinha, ruiva e super organizada. Ela era a
única de nós que tinha um namorado: Gerard, um escocês completamente
apaixonado por ela. Pelo menos era o que parecia, porque metade do tempo eu mal
entendia o que ele dizia, o sotaque dele era absurdo.
E eu contei tudo.
— Achamos que não, mas talvez. Eles costumavam ficar no pátio do meu prédio
para fazer pressão, mas não os vimos há dias. Apesar disso, Hugger não está
disposto a correr riscos — respondi, colocando minha taça sobre a mesa.
Não soube interpretar a expressão no rosto dela, mas respondi com firmeza:
— Sim.
— Por que não nos contou que tudo isso estava acontecendo? — Bernie fez a
pergunta de um milhão de dólares.
— Primeiro, porque muita coisa estava rolando e eu não tive tempo — expliquei.
— Acho que deveríamos começar falando sobre sua mãe — Bernie sugeriu.
— Acho que deveríamos começar falando sobre esse cara que mora em Denver
— Mel contrapôs.
— Acho que deveríamos dar um tempo, porque, como a Di disse, é muita coisa
— Charlie cortou, olhando para Mel e Bernie do outro lado da mesa.
— Bom, sobre minha mãe, não há nada de novo para contar — avisei. — Ela
ainda não respondeu ao meu correio de voz, nem a nenhuma das minhas
mensagens.
— Desculpa, amiga, mas isso é muito ridículo — Mel decretou.
— Concordo — respondi. — Quanto mais tempo ela demora para dar sinal de
vida, mais isso me irrita. E está deixando o Hugger furioso. Ele teve uma mãe incrível.
Acho que isso o confunde completamente, mas, além disso, como ele teve o oposto
do que eu tive, ele odeia essa situação. E é um absurdo, porque me dá tempo
suficiente para relembrar coisas do passado e perceber detalhes que antes eu
ignorava… e que não são nada bons.
— Tipo o fato de ela ter aberto mão da sua guarda sem nem pestanejar? —
Bernice sugeriu.
— Ou o fato de ter se mandado para Idaho como se nunca tivesse tido filhos,
quando teve, e esse filho que ela convenientemente esqueceu que teve foi você —
Mel acrescentou.
— Ou que, quando ela aparece, você e sua avó têm que largar tudo para atender
aos caprichos dela, mas ela se recusa a ficar com vocês. Não, ela precisa de um
bangalô no Biltmore34, e cabe a vocês irem buscá-la e passear por Phoenix conforme
a vontade dela — Charlie completou.
Pois é…
— E, sendo bem direta, ela tinha condições de te ajudar quando você estava se
matando para conseguir seus diplomas — Bernie começou — e não fez nada. Não
acredito que seu pai colocou tudo isso em um fundo para você. E além disso, ele
abandonou aquele cliente mafioso só porque você pediu. Isso foi um gesto muito
digno.
34
O Arizona Biltmore é um resort histórico de luxo localizado em Phoenix, Arizona
Meu pai e eu ainda não havíamos resolvido a questão do fundo, mas Bernie tinha
razão. Foi um gesto nobre.
— Se ela vendesse uma única bolsa Birkin, pagaria um ano inteiro da sua
faculdade — Mel rebateu.
— Outro ponto a favor do seu pai: ele aguentou tudo o que aguentou ao longo
da sua vida — Bernie continuou. — O que eu não entendo é por que sua mãe agiu
dessa forma.
— Bom, não é como se, na frente da Di, Nolan e Margaret fossem sentar e
discutir quem traiu primeiro — Mel observou.
— Vítimas vão sempre agir como vítimas — Mel comentou. — Você não
consegue fazer todo mundo te adorar e facilitar sua vida se não os convencer de
que eles devem.
Fiquei imóvel.
Rick a obrigou a morar em Idaho, onde ela era “forçada” a viajar até Seattle para
fazer compras decentes ou voar até Phoenix (mas ela foi para lá com ele sem
reclamar).
Rick saía para caçar e a deixava “sozinha” (quando, pelo amor de Deus, as
pessoas têm hobbies!).
Rick ficava irritado porque ela não gostava de andar no barco dele, já que o
vento bagunçava seu cabelo, e ela retrucava: “Ele não entende o que é o cabelo de
uma mulher?!”. Mas, mesmo assim, ela ia no barco e reclamava o tempo todo, como
se passear num lago deslumbrante fosse um castigo medieval.
Eu nem sabia como ela passava o tempo por lá, exceto pelo fato de que suas
unhas estavam sempre impecáveis, a pedicure era perfeita, não havia raízes à mostra
no cabelo e ela frequentava spas com frequência.
Eu queria conquistar meus diplomas por conta própria, queria fazer isso para
provar algo ao meu pai. Mas, dito isso, foi um caminho repleto de desafios.
Conheci todas as minhas amigas no primeiro ano da faculdade. Elas sabiam tudo
sobre mim, passaram por tudo ao meu lado. Aliás, os pais da Bernice me deram um
emprego de garçonete em um dos restaurantes deles. Trabalhei lá por três anos.
E elas estavam certas. Minha mãe e Rick me davam cheques generosos nos
aniversários e no Natal, mas eles não eram tão grandes assim.
Nunca sequer perguntou sobre isso e, para ser sincera, ainda me dava esses
cheques generosos. Agora, porém, eu os via como cheques da culpa—se é que ela
era capaz de sentir essa emoção.
Era como se ela fosse uma consumidora tão superior que nem se importava em
me conhecer o suficiente para me dar um presente de verdade, algo que eu
realmente quisesse.
Me concentrei nela.
— É uma droga ter que lidar com isso, mas fico feliz que esteja percebendo,
porque você dá muito para essa mulher quando ela exige, e ela não merece —
Bernie afirmou.
— Você já sabe o que vai fazer quando sua mãe ligar? — Mel perguntou.
— Sem querer ofender, mas eu… — sorri — ele meio que se tornou meu ponto
de equilíbrio.
— Uma vez, e fez tão malfeito que nunca mais tentou — Mel respondeu.
— Com licença, mas ele tem outras qualidades — Mel retrucou com malícia.
— Sim, ele sabe muito bem o que fazer com o próprio pau — Bernie murmurou.
— E ele faz uma mulher gozar só de falar com aquele sotaque — Charlie
acrescentou.
— Tem esse detalhe — Mel concordou com meus pensamentos. — E ele cozinha
e faz as compras, e eu não gosto de fazer nenhuma das duas coisas.
— Ele cresceu só com a mãe, eram só os dois — compartilhei. — Acho que, por
isso, ele sempre teve que ajudar. Está no sangue dele. Por exemplo, ele arruma a
cama toda manhã, assim como eu.
— E ele esteve ao meu lado durante tudo isso. Sinceramente, não sei se teria
conseguido passar por essa fase sem ele.
— Eu sei, mas ele estava lá. Ele ficou. E, por causa disso, tudo se tornou mais fácil.
— Então, além de ser lindo, ele não tem problema em ser um parceiro de
verdade — Bernie resumiu.
— Por favor, diz que esse homem enorme, com esse corpo enorme, faz coisas
enormes com você na cama — Charlie implorou.
Sorri.
— Ele é bem… dominador.
— Então… Denver?
Balancei a cabeça.
— Ainda não chegamos a esse ponto. Vamos ter a grande conversa no domingo.
Mas, até ele ter certeza de que estou segura, ele não vai a lugar nenhum.
— E quando isso vai acontecer? — Bernie perguntou. — Você saber que está
segura?
— Eu não sei. Não quero que ele vá embora. Não gosto da ideia de um
relacionamento à distância. Também não quero pensar em me mudar, porque amo
minha vida aqui. E, antes que vocês digam qualquer coisa, eu sei que é cedo demais
para tomar uma decisão assim.
— Então, pode parecer loucura, mas eu simplesmente sei que, aconteça o que
acontecer, nós vamos dar um jeito.
— Sim, essa é uma das poucas coisas nessa bagunça toda que eu tenho certeza
absoluta.
— Ele é o meu cara. Não sei explicar, porque nunca houve uma explicação para
isso. Eu simplesmente sei. — Dei um leve tapinha no peito. — Bem aqui, no fundo.
Eba!
Elas entenderam.
— Acho que devíamos ir a algum lugar onde o Hugger possa sentar com a gente
— Bernie decretou.
— Ele não vai beber. Quando dirige, não bebe — avisei. — Mas provavelmente
vai tomar uma Coca-Cola.
E eu a amava também.
Por isso, fiquei em silêncio enquanto abria minha bolsa para pegar o cartão de
crédito.
— Que diabos é um ambiente jam35? — perguntou Hugger.
Caí na risada.
Isso foi depois de algumas bebidas no Linger Longer Lounge36, o que incluiu
devorar sanduíches de mortadela frita no meio da noite. Estávamos um pouco
arrumados demais (bom, o Hugger não estava), mas era o Linger Longer e era
Phoenix, então valia tudo.
Charlie tinha nos convidado para o show dela no fim de semana seguinte.
Um "ambiente jam".
— Vamos precisar tomar dois chás com especiarias e café antes de ir, confia em
mim — avisei.
— Ela tem uma espécie de banda. E não digo "espécie" para ser rude, é só que
não é como nenhuma banda que você já viu, embora eles toquem instrumentos.
Charlie toca teclado, tem alguém no drum machine, um guitarrista solo e um
35
A palavra "jam", no contexto musical, refere-se a uma jam session, ou seja, uma sessão de
improvisação musical, geralmente informal, onde músicos tocam juntos sem um roteiro fixo, explorando
ideias e interagindo espontaneamente.
36
O Linger Longer Lounge é um bar e lounge localizado em Phoenix, Arizona, conhecido por seu
ambiente acolhedor e descontraído.
baixista. Mas tudo é muito... — busquei a palavra certa — atmosférico. Eles têm
algumas gravações, tenho no celular. Amanhã, te mostro uma.
Dei de ombros.
Não íamos voltar a falar sobre como eu era altruísta. Não agora. Eu estava
confortável, satisfeita, relaxada sem estar exausta e havia outro assunto a tratar.
Sorri novamente.
Gluh.
— A noite foi boa, estou agradavelmente cansada, podemos deixar isso para
depois? — pedi.
— Estou bem.
Dito isso, ele se virou para apagar os abajures ao lado da cama e, em seguida,
me puxou para mais perto, colando nossos corpos no escuro.
— Fico feliz que tenha tido uma boa noite, baby — murmurou.
— Fico feliz que tenha gostado dos meus amigos, querido — murmurei de volta.
Apoiei a cabeça sob o queixo dele, fechei os olhos e, mais uma vez, adormeci
aconchegada e segura nos braços do meu cara.
Capítulo 20
ABSOLUTAMENTE ADORÁVEL
Diana
Não, dessa vez, era ele quem estava me abraçando por trás.
Gostoso.
O zumbido parou.
Meu homem, eu já tinha percebido, não era uma pessoa matutina. Descobri que
um boquete ou sexo podiam dissipar sua letargia, mas, depois do orgasmo, ela
voltava e só ia embora depois de, pelo menos, metade de sua primeira xícara de
café.
Era adorável.
Então, enquanto ele jogava as cobertas para trás e saía da cama, eu olhei para o
relógio de cabeceira e vi que mal passava das sete e meia. Muito cedo para um
sábado, especialmente depois de termos ficado fora até tarde na noite anterior. Ou
seja, Momento Letargia Total para Hugger.
— Quem é?
— Sou eu que você está incomodando, mulher. Quem é você? — rosnou Hugger.
— Mãe — sussurrei.
A cabeça de Hugger virou na minha direção e, com tudo que era sagrado, eu
esperava nunca ser o alvo daquele olhar.
— Harlan...
Ele se abaixou para pegar o jeans, mas sua cabeça se ergueu de repente, e ele
me fulminou com o olhar.
Foi tudo o que disse antes de vestir as calças e puxá-las para cima.
Então, corri até os ganchos no meu closet, onde tinha deixado meu pijama,
enquanto Hugger marchava para o corredor.
Eu ainda puxava a blusa pela cabeça quando saí do closet e ouvi batidas na
porta.
Espera aí.
Hugger não estava na sala de estar, então me apressei até a sala de jantar,
chegando bem a tempo de vê-lo abrir a porta.
Lá estavam minha mãe e minha avó. O que explicava o acesso ao elevador, já que
vovó tinha um, além de uma chave. Provavelmente, mamãe a fez levantar cedo para
buscá-la e trazê-la até aqui.
Ou seja, ela não mudou os planos de voo, só recrutou a vovó para ser sua
motorista e guia turística.
As duas encaravam Hugger com choque evidente no rosto, mas apenas minha
mãe falou:
— Quem é você?
Eita!
O rosto da minha mãe congelou.
Hugger passou por mim e continuou pelo corredor até desaparecer no quarto.
Mamãe era loira (de mentira, ela tinha a mesma cor de cabelo que eu, mas
suspeitava que agora fosse prata ou grisalho). Tínhamos o mesmo tipo de corpo e
altura, mas ela era uns quinze quilos mais leve do que eu, se não mais.
Ela usava calças marrom ajustadas, uma blusa branca com um bonito desenho de
folhas marrons e mangas amplas em formato de sino. Estava segurando uma jaqueta
de camurça, mesmo que as temperaturas tivessem esfriado um pouco – mas ainda
fazia trinta e sete graus durante o dia.
E nos pés, usava sandálias de camurça de salto alto e grosso, com uma larga tira
cruzada na frente
Já o cabelo da vovó era todo prateado, então era deslumbrante. Nós herdamos
nossa estrutura óssea dela, mas ela provavelmente pesava uns quinze quilos a mais
do que eu e, na minha opinião, ela sabia como sustentar isso.
— Sim, você tem um namorado e não contou para sua mãe? — Mamãe
questionou, seus olhos frios de reprovação.
Cabeças explodem?
Mas Hugger voltou para a sala nesse momento, celular em mãos e uma
expressão de pura fúria.
— Vocês vão descer, tomar um café e esperar até que Di ligue dizendo que
podem subir de novo — ele ordenou.
— Isso não vai acontecer até que Di e eu tenhamos um tempo para acordar de
verdade — Hugger insistiu.
— Desculpe, mas eu nem te conheço, então não vou aceitar ordens suas —
disparou minha mãe.
— Maggie — sussurrou vovó mais uma vez, mas dessa vez sua voz soou mais
aguda, mais alarmada. — É óbvio que acordamos eles. Eu te disse que era muito
cedo para surpreender a Diana num sábado. Vamos dar um tempo para eles.
— Acho que tenho o direito de saber o que está acontecendo com a minha filha!
— A voz de mamãe foi se elevando.
Mas eu exigi:
— Se você quer ter essa conversa agora, vamos ter — falei com firmeza.
— Mas sugiro que você vá tomar um café para eu esfriar a cabeça — finalizei.
E ela sequer ouviu meu correio de voz ou leu de verdade minhas mensagens?
37
Danish também é o nome de um tipo de folhado doce de origem dinamarquesa, muitas vezes
recheado com creme, frutas ou geleia.
— Não acredito que você está deixando seu namorado me desrespeitar, Diana —
acusou. — Mas acho que não deveria me surpreender, já que ele claramente não
tem nem o mínimo de higiene.
Não.
Escarlate.
Não.
Vermelho-vivo.
Eu comecei a me lançar para cima dela, sem nem saber exatamente por quê, mas
Hugger me segurou pela cintura e me puxou contra ele.
Eu abri a boca.
Porra!
Eu respirei.
— É melhor você estar com outra atitude quando eu voltar, mocinha — mamãe
me ameaçou. Então, saiu batendo os pés, abriu a porta com um puxão e se foi, sem
nem segurar para a própria mãe.
— Não sei o que está acontecendo, mas vou falar com ela, querida — vovó disse
para mim.
Apenas assenti com a cabeça, ríspida.
Foi então que Hugger me arrastou até a sala, ainda segurando meu corpo contra
o dele, e só me soltou quando chegamos lá.
— Vou fazer café — ele disse quando me virei para encará-lo. — Você vai fazer o
que precisar para estar pronta.
— Para quem?
— Liguei para o Pete e mandei ele vir correndo. Mas antes disso, pedi para ele
conseguir o número do seu pai e avisar que sua mãe está aqui, para ele vir também.
Pelo jeito que ele disse isso, eu acreditei que o Big Petey daria um jeito.
Mas desanimei.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos e inclinou-se para mim.
— Esse confronto vai acontecer, baby, porque você precisa disso. Mas você
precisa da sua família ao seu lado quando acontecer.
Meu Deus!
Eu não tinha.
Assim que borrifei um pouco de perfume e passei desodorante, fui até o closet e
vesti meu vestido tipo camiseta em tom rosa-rosado, com um decote V amplo. Ele
caía logo abaixo do joelho, tinha bolsos incríveis e um cinto largo de cetim na
mesma cor, que o elevava, dava forma e o tornava mais feminino.
Voltei ao closet para colocar os brincos de diamante que meu pai me deu na
formatura do colégio e, nos outros furos, pequenas barras com diamantes delicados
ao longo da linha, que as meninas me presentearam no meu aniversário alguns anos
antes.
Para o toque final do meu apoio moral em forma de joias, acrescentei o colar
com pingente de diamante que meu pai me deu no meu aniversário de dezesseis
anos.
Saí descalça e encontrei meu pai na cozinha com Hugger, os dois tomando café.
— Deve ser o Pete — disse Hugger, colocando a caneca na pia e indo atender.
Isso me surpreendeu pra caramba, mas adorei que ele tivesse dito.
Ou seja, sim.
— Se você não quiser passar por isso, posso descer e mandá-la embora — ele
ofereceu.
— Bem, é o que é. E, sinceramente, com toda a porcaria que tem acontecido, fico
até aliviada por poder resolver logo isso.
Meu pai assentiu e, ainda com o braço ao meu redor, nos virou porque Hugger
estava de volta com Big Petey.
— Nolan, este é Pete Waite, um irmão para mim e amigo da Diana — apresentou
Hugger.
Droga.
Assim que cheguei, recebi a resposta dela: Estou pegando seus cafés e já
subindo!
O tom animado da mensagem indicava que ela estava fazendo o que sempre
fazia pela minha mãe: tentando amenizar a situação.
Duvidava muito.
— Elas estão subindo — anunciei.
Pete pegou um café para si, completou o do meu pai, que observava tudo com
interesse enquanto Pete se movia pela minha cozinha com familiaridade.
Ele entrou primeiro, mas, quando minha mãe veio atrás, parou abruptamente,
fazendo com que vovó - que carregava uma sacola (provavelmente com danishes) e
copos de café de papel em cada mão - esbarrasse nela.
Claro que mamãe não ajudou a carregar as coisas. Como pude ser tão cega por
tanto tempo?
— Ah, então isso vai ser uma emboscada? — ela acusou, lançando um olhar
azedo para o meu pai.
— Margaret, sugiro que fique quieta e escute o que nossa filha tem a dizer — ele
aconselhou.
— O tempo em que você me dizia o que fazer já passou há muito, Nolan — ela
retrucou com veneno.
Mas, claro, ela era puro amor e bondade, não gostava de confrontos e amava
tanto a mim quanto à filha. Então, essa hostilidade aberta - que provavelmente
parecia repentina para ela - devia estar a matando por dentro.
Aposto que ela achava que estavam apenas vindo me buscar para um passeio. E
dava para ver que mamãe não explicou nada enquanto tomavam café espresso e
leite vaporizado, muito menos que havia recebido mensagens não muito amigáveis
minhas.
Era horrível não poder aliviar a situação para ela, mas, naquele momento, eu não
podia fazer nada além de sugerir:
— Acho que vou ficar aqui, querida — ela respondeu com incerteza.
Ela lançou um olhar desdenhoso para Pete e resmungou alto o suficiente para
todos ouvirem:
— Não sei. Já que você não me conhece, como poderia se surpreender com
qualquer coisa a meu respeito? Isso, sim, é surpreendente — rebati.
— Eu... — Ela se interrompeu e, para não admitir que não sabia a resposta,
rebateu: — Isso vai ser algum tipo de teste?
Minha própria mãe não sabia qual era minha cor favorita.
Antes que minha mãe ou minha avó pudessem dizer qualquer coisa, eu falei.
— Mas ele tentou, e foi por isso que você recorreu ao Brendon — afirmei.
Eu tinha acreditado no meu pai quando ele me contou, mas, ao ver aquela
reação, eu soube.
Eu soube.
— Vejo que ele está enchendo sua cabeça de mentiras — disse minha mãe.
Antes que eu pudesse responder, meu pai se adiantou.
A franqueza em sua voz fez meu estômago revirar, a ponto de eu achar que ia
vomitar.
O rosto da minha mãe recuperou a cor, e rápido, mas desta vez ficou vermelho.
— Eu te amei tanto. Fiquei tão destruído pelo que você fez comigo que, quando
encontrei uma mulher boa depois de você, estraguei tudo. Perdi ela também. Mas
isso foi culpa minha.
— Nem foi depois — disse minha mãe, com a voz trêmula, porque a farsa tinha
acabado.
— Ela também mentiria — retrucou minha mãe, se agarrando ao que lhe restava.
— Nada, mãe. O Nolan está com seus joguinhos de novo — respondeu minha
mãe.
— Então você não traiu o papai com o Brendon? — perguntei, querendo clareza.
— O papai não pediu o divórcio antes de a Nicole entrar na vida dele? Isso nunca
aconteceu? Mesmo que você tenha se casado com o Brendon poucos meses depois
do divórcio sair?
— Você realmente está na minha casa, na minha frente, mentindo para mim? —
questionei.
— Claro que você acredita nele — ela reclamou. — Sempre foi você e ele contra
mim.
— Não, sempre foi você e eu contra ele, porque você fez ser assim. O que eu não
percebi é que ele estava lá para mim, e você não!
Ok… droga.
Eu estava gritando.
— Você não lutou pela minha guarda! Você não me ajudou a escolher meu
vestido de formatura! Você nunca esteve lá para mim! Então, como espera que eu
acredite que foi fiel ao papai?
— Então por que foi ele quem nos manteve juntos depois que você foi embora?
Por que ele e eu ainda éramos uma família sem você?
— Você tinha uma pensão generosa. Teria sido mais ainda com a pensão
alimentícia. Não era incapaz de conseguir um emprego. Você estava nos seus trinta
anos. Poderia ter construído uma vida comigo.
— Parece tão fácil quando você fala, Diana — retrucou ela. — Mas nunca é tão
fácil assim.
— Olhe ao redor, mãe. Você acha que o que eu construí aqui foi fácil? Pois não
foi. Mas eu fiz assim mesmo. Então responda ao papai. Ligamos para a Nic para
perguntar como foi? Ou talvez para o Brendon, para saber a versão dele?
— Não preciso aguentar isso — declarou minha mãe, girando nos calcanhares
para sair, apenas para dar de cara com Hugger bloqueando a entrada da sala de
jantar. — Saia da frente! — exigiu.
— Claro que não! — ela retrucou, mas sem conseguir encarar minha avó nos
olhos.
— Meu Deus… — minha avó sussurrou, e o choque em sua voz doeu como uma
ferida aberta. Desilusão. Arrependimento. Tristeza.
— Então agora todos estão contra mim? Como sempre! Meu ex-marido me tirou
minha filha quando ela ainda era um bebê, e agora ele faz isso de novo…
Interrompi:
— Eu não era um bebê. Eu já tinha consciência das coisas, mãe. Eu falava frases
completas, lia, fazia contas. Eu me lembro que você não lutou por mim.
— Com licença, Margaret Ann, seu pai e eu oferecemos essas condições para
você — disse minha avó.
Interessante.
— Eu não podia pedir dinheiro para vocês, mãe — rebateu minha mãe.
— Por que não? Você fez isso muitas vezes quando era mais nova — disparou
minha avó. — E, desta vez, seria por algo importante. Minha neta.
— Você superou rápido, se casando com aquele filho da mãe — retrucou minha
avó.
Uau.
Talvez estivesse brava por ter que acordar cedo para brincar de motorista.
— Bem, ela mentiu sobre uma pobre garota que foi violentada em grupo só para
passar mais tempo com o novo namorado.
Dessa vez, minha mãe se virou para ele, que estava encostado no balcão da
cozinha, com o café e o saco de doces dinamarqueses à sua frente. Vovó também se
voltou para ele.
— Talvez eu possa acompanhá-la até a delegacia para falar com o detetive Rayne
Scott — sugeriu meu pai. — Ele pode confirmar a história do Pete.
— Como você está aqui? — questionou minha mãe. — Durante anos, Diana nem
sequer falava com você.
Eu fui mais rápida que meu pai.
— Não é da sua conta porque meu pai e eu nos reaproximamos depois que eu
fui abusada sexualmente no meu dormitório na faculdade.
Mas, por mais que eu sentisse por vovó - e sentia muito - eu já estava envolvida
demais nisso, então meu foco era minha mãe.
— Mas eu nem sequer te contei sobre isso, mãe, porque você é tão frágil que eu
sabia que não suportaria — continuei. — Só que recentemente percebi a verdade.
Eu não te contei sobre o que aconteceu porque, lá no fundo, eu sabia que, de
alguma forma, você distorceria tudo e faria disso algo sobre você.
E... pois é.
Eu não contei para ela nem para o vovô porque ele não teria suportado (ele
sempre foi superprotetor com todas as meninas da família - uma bênção para mim,
mas que se tornaria um fardo por causa... da minha mãe). Além disso, vovó teria
contado para ela.
— Porque você contaria para a mamãe, e eu não conseguiria lidar com o que
aconteceu e com ela ao mesmo tempo. — As lágrimas encheram os olhos de vovó,
então acrescentei suavemente: — Me desculpe.
— Você não precisa se desculpar comigo, querida. Fomos eu e seu avô que
falhamos com você — disse vovó.
— Não havia mais o que fazer — assegurei. — Vocês fizeram o que eu precisava.
— Ah, mas isso é maravilhoso, não é? — ironizou minha mãe. — Todo mundo
está bem e confortável, mas vocês estão com raiva de mim, mesmo eu não sabendo
de nada do que estava acontecendo.
— Olha quem fala, falando assim com a própria mãe — retrucou ela, como se ela
mesma não tivesse acabado de gritar com a dela.
Sério.
Já era demais.
— Você é mesmo minha mãe? — perguntei.
Vovó estremeceu.
— Diana.
Mas Hugger?
E Pete?
Ele piscou.
Mas não.
Ah, não.
— No fim das contas, você me afastou do meu pai — declarei, minha voz
propositalmente serena. — Você mentiu para mim, me fez acreditar em coisas que
não eram verdade sobre ele. Criou uma barreira entre nós, mesmo quando ele me
amava, me sustentava, estava presente para mim. Mas sua mentira sempre esteve
entre nós. Ele sabia disso. E sacrificou o que poderíamos ter tido para que eu tivesse
você.
— Suponho que possa correr para a Nicole, que sempre esteve lá por você, e
chorar no ombro dela — minha mãe rebateu.
— Eu sei que posso, porque você está certa, ela sempre esteve lá por mim —
retruquei.
— Quero voltar para o Biltmore. Preciso descansar e processar tudo isso antes
dos meus compromissos no spa.
Meu Deus.
O que não era nenhuma surpresa, porque minha mãe era uma enorme mimada.
E não do jeito bom.
— Acho que fui tratada de forma abominável, então não pode ser surpresa que
eu precise de um tempo para...
— Pelo amor de Deus, pare de falar — suspirou vovó. — E peça um desses Ubers.
Eu não vou te levar de volta para o Biltmore.
— Bom, certamente não vou vir do Idaho até aqui para ser tratada assim de novo
— ela avisou.
— Acho que tudo o que precisava ser dito já foi dito — afirmei. — Agora cabe a
você pedir desculpas e...
— Chame o Uber, Maggie — ordenou vovó, ainda sendo a mãe dela e, mesmo
devastada, tentando conter o desastre.
Ih, complicou.
— Pare — ordenei.
— É o termo usado quando você corta laços com um familiar. Você segue a regra
do sem contato. Vou te bloquear no meu celular. Acabou.
— O quê?
Balancei a cabeça.
— Você não entende. Nada disso. Nunca vai entender. E sua última cartada foi
destratar meu cara, de novo, como se estivesse tudo bem. Mas não está. Você já
falou mal do meu pai, da vovó, do Big Petey, e eu deixei passar. Mas Hugger, não.
De jeito nenhum. Isso foi a gota d’água. Como eu disse, acabou.
— Você fez o mesmo com seu pai, então duvido que isso dure.
— Você tem o aplicativo do Uber? Porque seria bom se você fosse agora —
sugeri.
— Não acredito que você está fazendo isso comigo — ela murmurou.
— E esse é o problema — rebati. — Eu não estou fazendo nada com você. Você
causou tudo isso sozinha.
Ela olhou para mim. Depois para meu pai. Em seguida, para vovó.
Então fungou e, sendo totalmente ela mesma, mesmo em meio ao caos, fez o
que sabia fazer de melhor: saiu desfilando pela casa com toda a sua pose,
desaparecendo na sala de jantar.
Quebrei o silêncio.
— Sinto muito que você tenha passado por tudo isso — murmurei.
— Eu sinto muito por você, querida — respondeu, apertando-me com força. —
Sua mãe...
Apertei-a mais uma vez, beijei o lado de sua cabeça e me afastei um pouco,
ainda mantendo um braço ao redor dela, antes de olhar para Hugger.
— Acho que nosso sábado divertido foi por água abaixo — comentei.
Então disse:
— Não sei, baby. Sua família está aqui. Acho que podemos encontrar uma
maneira de nos unir.
Então...
Totalmente...
E ah, sim.
Isso aconteceu porque todos nós fomos ao Prep & Pastry38 depois que minha
mãe saiu furiosa, e eu consegui acalmar a vovó.
Pode-se dizer que, depois de duas décadas achando que meu pai era um cretino,
agora ela claramente se sentia péssima por isso. Além do mais, estava atordoada
com tudo o que havia descoberto naquela manhã. Por isso, o brunch não foi
exatamente um momento de risos e descontração - principalmente porque vovó
parecia e agia como se tivesse sido atropelada por um caminhão.
Porém, meu pai foi incrivelmente gentil com ela, Big Petey soube manter a
conversa fluindo, mesmo que, em alguns momentos, estivesse um tanto forçado. No
fim das contas, tive a impressão de que vovó ficou aliviada por ter a oportunidade
de começar a se redimir por algo que nem era culpa dela.
Na noite anterior, eu havia descoberto que ele simplesmente era um cara quieto.
Ele conversava comigo com sinceridade e abertura, mas, em situações sociais,
preferia observar. Não parecia desconfortável com isso - era apenas quem ele era. E
como Hugger sempre era autêntico, aquilo apenas o tornava ainda mais atraente
aos meus olhos.
38
O Prep & Pastry é um restaurante especializado em café da manhã, brunch e almoço, com várias
unidades no Arizona, incluindo Tucson, Scottsdale e Gilbert.
Depois do brunch, foi uma tortura saber que estávamos a apenas dois minutos
de caminhada do setor de sapatos da Nordstrom e não poder aproveitar. Mas vovó
parecia ter envelhecido cinco anos desde que apareceu na minha porta naquela
manhã, e, apesar de estar arrasando com seu estilo, ela não era mais jovem, e aquela
cena com a minha mãe tinha sido uma loucura. Eu sabia que ela não estava no clima
para experimentar sapatos (ou brincar com maquiagem nos balcões de cosméticos).
Por isso, Hugger e eu a acompanhamos até o carro. Prometi chamá-la para jantar
em breve, dei um beijo nela, e ela deu a Hugger um sorriso distraído e murmurou:
— Ligue para ela em meia hora para ver como está — ordenou Hugger enquanto
observávamos vovó partir.
Hugger e Big Petey nos deram espaço para fazê-lo a sós, mas suspeitei que
fizeram isso porque Dutch, Jagger ou Roscoe estavam de olho no prédio.
O que ele realmente quis dizer foi que era um lugar sofisticado para alguém de
vinte e nove anos.
— Fiz uma aposta enorme no treze preto, no Talking Stick, e a bola caiu no treze
preto — contei.
E ficou evidente algo que eu sempre soube: ele era incrivelmente bonito.
Ele passou o braço pelos meus ombros enquanto caminhávamos pelo pátio em
direção ao elevador.
— Embora eu nunca aconselhasse minha filha, que estava construindo sua vida,
ou qualquer pessoa, a apostar uma grande quantia em um único número na roleta,
você, de fato, investiu bem.
Não lembro de ter sentido isso antes, mas naquele momento, deu vontade.
— Se mudar de ideia e decidir voltar a falar com ela, ela vai te aceitar num
instante — garantiu ele.
As portas do elevador se abriram, entramos, selecionei meu andar e me virei para
ele.
— Nós dois sabemos que ela vai me fazer passar por um inferno, torcer tudo até
que eu acabe pedindo desculpas, e então tudo voltará a ser como era antes. O que
não é saudável.
— Vai ser horrível, e eu vou sentir falta dela — continuei. — Mas, pai, eu contei
que fui agredida. A vovó quase desmaiou, mas minha mãe? Não teve nenhuma
reação, a não ser pensar em como aquilo afetava a ela.
Infelizmente, eu não podia fazer nada pelo sofrimento dele. Estava ocupada
lidando com o meu próprio. No fim, ambos teríamos que aprender a conviver com
isso.
— Não, não precisamos — retruquei. — Você não lidou bem com a situação na
época. Eu deixei isso bem claro e guardei ressentimento por muito tempo. Mas
sinceramente, acha que ainda precisa se redimir?
— Eu adoraria.
— E não tem nada a ver com o dinheiro do fundo fiduciário, embora devêssemos
conversar sobre isso também.
— Eu também tenho orgulho do que você fez, querida. Mas você poderia usar
esse dinheiro, refinanciar seu apartamento e reduzir significativamente suas parcelas.
Hmm.
Hmm de novo.
Seu sorriso foi tão radiante que me perguntei por que considerei recusar.
Ele segurou minha mão e a passou por seu braço, guiando-me pelo corredor
enquanto caminhávamos.
— Tenho pensado muito desde que você voltou para minha vida — começou. —
E percebi outra coisa. Sabotei meus relacionamentos. Sabotei as mulheres com
quem estive... tudo para não me machucar novamente.
— Quando o seu próprio coração está ferido, talvez seja difícil enxergar além
disso — tentei justificar.
— Talvez eu a mantenha por um tempo, para que você possa passar mais tempo
lá. Para que nós possamos passar mais tempo juntos nela, sermos uma família ali de
novo.
Sorri.
Quase morri de tanto rir, porque ficou claro que meu homem estava decidido a
garantir que eu cuidasse da minha avó (já tinha mandado uma mensagem para ela,
ela mentiu dizendo que estava bem, mas pelo menos sabia que eu estava pensando
nela) e, ao mesmo tempo, não me perdesse tanto no caos da minha vida a ponto de
me afastar de um dos meus pilares: minhas amigas.
E assim começou uma maratona de meia hora de mensagens com Mel, Bernie e
Charlie.
Elas ficaram tristes por eu ter tomado a decisão que tomei, mas todas
concordaram que eu fiz o certo.
Mas, no final, acabei estirada no sofá quando a conversa por mensagem foi
diminuindo, tornando-me o lugar perfeito para Hugger se acomodar em cima de
mim.
(Ah, e detalhe: no meio das minhas mensagens, ele me ajudou a trocar os lençóis
da cama e ainda levou o aspirador para as duas varandas, limpando o pó do deserto
de Phoenix dos tapetes e móveis - e eu nem precisei pedir!)
Joguei o celular na mesa de centro, aceitei de bom grado seu peso sobre mim e
passei os braços ao redor dele.
Oh.
Bom...
Isso de repente se tornou uma Conversa Sobre Planejar Nossa Vida Juntos.
— Absolutamente não.
— Ok, estou muito arrumada para uma faxina pesada. Posso fazer isso amanhã.
O que quer fazer pelo resto do nosso sábado divertido?
39
Real Housewives é uma franquia de reality shows produzida nos Estados Unidos. O programa
acompanha a vida de mulheres ricas e influentes em diversas cidades, mostrando seus dramas pessoais,
relacionamentos, amizades e conflitos.
Antes que ele respondesse, listei as opções:
Continuei...
— Além disso, tem o Biltmore Mall. É um shopping, mas ao ar livre, bonito e com
ótimos restaurantes. Podemos almoçar tarde no Blanco ou no Zinburger e depois
tomar um gelato no Frost41.
— Baby...
Parei de falar quando percebi que meu corpo estava balançando levemente. Ele
estava rindo, em silêncio.
40
O Papago Park é um parque municipal localizado nas cidades de Phoenix e Tempe, no Arizona,
Estados Unidos. Conhecido por suas distintas formações geológicas de arenito vermelho e uma variedade
de plantas típicas do deserto
41
O Biltmore Fashion Park é um centro comercial de luxo localizado em Phoenix, Arizona, oferecendo
uma variedade de lojas especializadas e esses estabelecimentos contribuem para a reputação do Biltmore
Fashion Park como um destino de compras e gastronomia de alto padrão em Phoenix.
— O quê? — perguntei.
Ah, merda.
Eu definitivamente estava.
— Está quente demais para caminhar lá fora. Eu toparia o cinema, mas preferiria
assistir aquele filme do Monty Python com você aqui — disse ele, acrescentando: —
Mas, se tiver algo disso que você realmente queira fazer, eu topo.
— Que tal vermos um filme aqui e depois saímos para comer alguma coisa? —
sugeri.
Ele fez a pergunta no instante em que meu celular vibrou na mesa de centro.
Ele esticou o braço longo, e nós dois vimos "Nic Chamando" na tela.
— Oi, Nic.
— Ah, querida — disse ela, com emoção na voz. — Seu pai me ligou.
Nossa.
Ele ligou?
— Sério? — perguntei.
— Ele queria que eu soubesse o que aconteceu entre você e sua mãe.
Caramba.
Larry não era do tipo possessivo ou ciumento, mas, ao mesmo tempo... era, sim,
um pouco.
Digo, não tinha dado certo entre meu pai e Nicole, mas ela tinha sido muito
apaixonada por ele. Sem dúvida, Larry sabia disso, e qualquer homem que soubesse
disso não ficaria exatamente tranquilo com o ex dela ligando do nada.
— No começo, ele não gostou muito, mas, quando percebeu sobre o que
estávamos conversando, superou — disse Nic.
Sorri de volta.
— Por favor, me diz que foi com aquele grandão, barbudo, que parece um ursão
de pelúcia — respondeu ela.
E também tinha visto a expressão no rosto dele quando minha mãe apareceu de
surpresa em uma manhã de sábado.
Ele era mais como um urso pardo. Parecia fofo e dava vontade de abraçar, mas,
se você mexesse com ele, com alguém que ele amava ou estivesse sob sua proteção,
ele te dilaceraria sem hesitar.
— É algo, Nic.
— De qualquer forma, ele estava aqui, sabe de tudo o que está acontecendo.
Estou bem. Não totalmente bem, mas vou sobreviver. No fim das contas, acho que
será melhor assim. Não tem mais uma mentira envenenando tudo entre nós. E eu
tenho meu pai de volta.
— Fico muito feliz que você tenha conseguido resolver as coisas com ele.
Aguardei em silêncio.
— Não...
— Por favor, não se sinta mal por isso — pedi. — Realmente, não era sua história
para contar. O que mais você poderia ter feito?
— Você precisa saber até onde seu pai está indo com tudo isso — ela começou.
Ah, droga.
Já tinha sido um dia pesado, então me preparei, porque sentia que viria mais.
— Ele me pediu desculpas — ela contou. — Disse que me amava muito, mas
estava tão destruído pelo que a Maggie fez que não conseguiu confiar em nós.
— Ah, Nic...
— Eu sei — ela sussurrou. — Foi de partir o coração ouvir isso. Saber o quanto
ele sofreu.
Ai!
— Mas, ao mesmo tempo, foi bom saber que o que eu sentia era real. Porque,
por muito tempo, achei que tinha interpretado tudo errado.
Levantei o rosto da mão, olhei para ele e murmurei, sem som: Estou bem.
Ai.
— Eu não escondo nada dele, Di, então sim, contei. Ele sabe que eu o adoro. Mas
sei que, às vezes, exagero ao demonstrar isso.
Ri.
— Então ele sabe que Nolan não é uma ameaça — ela continuou. — Isso foi há
muito tempo. No fim das contas, acho que Larry ficou feliz por haver um
encerramento, e do tipo certo. E, considerando que todos compartilhamos você,
talvez possamos ser uma espécie de família para você.
Argh!
— Bom, ponto para o meu pai por ter sido grande o bastante para te procurar —
disse, em vez de cair no choro.
— É muita coisa para todos nós, especialmente para você, mas estamos lidando
com isso — ela disse. — Ah, e Nolan me contou sobre a Suzette, que na verdade era
Madison. Fico feliz que ela esteja segura e com os pais.
— Eu também.
— Sei que chegou ao destino, mas, até que o perigo passe, não terei mais
contato.
— Certo.
— Ótimo. Uma garota tão jovem ter que ser tão forte... Espero que ela perceba
sua própria força.
Eu também.
Encerramos a ligação por volta do momento em que Hugger voltou com uma
tigela enorme de pipoca.
— Meu pai contou a ela sobre o confronto desta manhã. Também disse que a
ama… e estragou tudo.
— Gosto dele. Ele te ama. Ele é sincero. É um cara íntegro. Sua mãe surtou por
você ter motociclistas na sua vida e jogou tudo na sua cara sem hesitar. Seu pai nem
piscou.
— Tenho que admitir, isso me surpreendeu. Mas foi uma boa surpresa.
— Pois é. Agora que sei quem ele é hoje, quer me contar o que ele te fez naquela
época?
Mas ele estava pronto para ouvir, então contei toda a história.
— Por mais fodido que isso seja, baby, ele não é o único que pensa assim —
Hugger disse baixinho quando terminei meu relato lamentável. — Principalmente
pessoas da geração dele. Até mulheres acreditam nessa merda.
— Diana, escuta — ele afirmou, a voz firme. — Não foi isso que eu disse. Pelo
que entendi, com uma lógica completamente errada, ele achou que estava fazendo
o certo por você. Mas o problema não é só esse. Pelo que parece, jogaram um
problema no colo dele e, no meio da correria da vida, ele simplesmente resolveu da
maneira mais prática, sem parar para pensar no que aquilo significava para você.
Sem sequer conversar contigo sobre o que você queria que fosse feito. Isso foi
muito errado.
— Depois, ele deixou dez anos se passarem antes de te procurar para admitir
que ferrou tudo. E, no fim das contas, ele nem te encontrou. Você que encontrou
ele. Isso não está certo. Agora ele está se esforçando ao máximo para consertar as
coisas, e eu acho isso incrível, mas não muda o fato de que ele cagou tudo com
você… e de um jeito colossal.
Ah, cara.
— Baby, se eu perdesse você por uma década porque fui um babaca e tivesse
uma chance de te reconquistar, eu pensaria muito bem em tudo e daria um jeito na
minha vida também.
— Você se importa?
— Nem um pouco.
Eu me joguei nele.
Durou mais do que a primeira, mas era difícil decidir qual foi melhor.
A pipoca ainda estava boa quando voltamos para ela, mas já não era a mesma
coisa.
Por outro lado, o sushi que pedimos mais tarde no Sushiholic42 foi infinitamente
melhor.
42
O Sushiholic é um restaurante japonês localizado em Phoenix, Arizona, conhecido por oferecer uma
variedade de sushis frescos e pratos tradicionais japoneses.
Capítulo 22
TUDO DENTRO
Diana
Hugger nos parou assim que entramos na casa da Annie na manhã seguinte.
Eu sabia o motivo.
Isso significava que, enquanto caminhávamos para dentro da casa, Hugger ria
baixinho, e eu me sentia feliz da vida porque ele estava se divertindo.
Fizemos isso mesmo que o homem com quem ela conversava tenha olhado para
nós cinco vezes - sempre sorrindo - tentando dar a entender a Annie que havia
novos convidados.
Continuamos parados até que, finalmente, no sexto olhar dele, ela se virou para
nós, piscou algumas vezes e disse:
Ela pegou a garrafa e olhou para ela distraidamente, como se nunca tivesse visto
um champanhe antes.
Ela assentiu e então se virou para Hugger, analisando-o dos pés à cabeça.
— Certo.
43
Esses nomes são fundamentais na história da fotografia, design gráfico e arte contemporânea,
influenciando gerações de artistas e designers.
— Não dá pra discordar — Hugger respondeu. — Dark Side of the Moon. Houses
of the Holy, do Zeppelin. Look Hear?, do 10cc. Band on the Run, do Wings44.
— Sim.
O olhar dela estava fixo em Hugger, assim como a conversa. Então, por que
estava perguntando, se já estava falando com ele? Além disso, não deveria ter nada
a dizer a Hugger… a não ser sobre arte de álbuns.
No fim, ele assentiu. Annie voltou a segurar seu braço e o trouxe de volta para
mim.
Então, saiu andando, parecendo ter esquecido que ainda segurava uma garrafa
de champanhe.
44
Cada um desses álbuns é reconhecido por sua importância na história do rock lançados por bandas
icônicas nos anos 70.
— O que foi isso?
— Ela disse que tem clientes com "conexões". E que, se eu te machucar, ela vai
acioná-los para me mostrar o erro dos meus atos de um jeito que eu vá desejar não
ter feito isso.
Fiquei chocada.
Nossa.
— Eu não fazia ideia de que algum dos nossos clientes tinha "conexões" —
comentei.
— Provavelmente, não tem. Ela só inventou isso pra me manter na linha. E sabe
que uma baixinha que usa preto o tempo todo e tem o cabelo enrolado na testa
como se fosse a Betty Grable45 não vai me fazer tremer nas bases com uma ameaça.
45
A expressão metafórica nessa frase compara a aparência de uma pessoa com a da atriz Betty Grable,
que foi um ícone de Hollywood nos anos 1940, famosa por sua beleza e seu penteado característico.
— Tenho que admitir, Annie é a mulher menos ameaçadora que conheço,
tirando minha avó.
— Sua avó colocou sua mãe no lugar ontem — ele me lembrou. E depois
aconselhou: — Nunca subestime uma mulher. A maioria pode não ter a força bruta
dos homens, mas sempre encontra um jeito de conseguir o que quer. Como agora
há pouco.
Hugger abaixou a cabeça e beijou meu sorriso até apagá-lo do meu rosto.
— Claro — respondeu.
Entramos na casa de Annie, que ficava em Arcadia Lite e era decorada no estilo
totalmente Annie (ou seja, monocromática em preto, cinza e branco, o cenário
perfeito para exibir seu cisne-balão magenta de Jeff Koons e um retrato pop art de
Lynda Carter como Mulher-Maravilha, feito por Ashley Longshore, com os dizeres
ROLE OS CRÉDITOS).
Pelo caminho, acenei para algumas pessoas conhecidas e fiz mentalmente uma
nota para apresentar Hugger a elas. O evento estava maior do que os que Annie
costumava organizar, e me perguntei como ela conseguia lembrar de tanta gente
para convidar.
Depois do donut que comi mais cedo, fui direto a uma mini quiche para
equilibrar os níveis de açúcar no meu estômago com algo salgado.
— Não!
— Achamos que a Annie trocou o açúcar pelo sal. Mas todo o resto parece estar
certo… até agora.
Eu comecei a rir.
Porque…
Annie.
Hmm.
— Oi — ele respondeu.
Se a ameaça de joelhos quebrados (ou algo pior) por parte de Hugger não fosse
suficiente para me aquecer, isso com certeza foi.
— Ela diz que você é a melhor funcionária que já teve — Wendy continuou.
— Meu marido diz que ela já teria falido sem você. Annie é doce como açúcar e
faz qualquer coisa por quem ama... sim, até ameaçar joelhos quebrados (ou algo
pior), mas não tem muito talento para os negócios.
Segurei o riso.
— Não, ela é uma ótima chefe, e eu gosto muito dela, mas realmente não é esse
tipo de pessoa.
— Eu… — Wendy franziu o cenho e farejou o ar. — Você está sentindo esse
cheiro…?
Hugger viu também, porque me puxou para trás e entrou no meio da fumaça.
— Hugger! — gritei.
Ele desligou o forno, pegou as luvas térmicas e gritou para ser ouvido acima do
alarme ainda disparado:
Corri até uma janela, abri-a e, em seguida, peguei um pano de prato e comecei a
agitá-lo contra o detector de fumaça. Enquanto isso, Hugger usava as luvas para
tirar a travessa do forno. Ele a largou no fogão com um estrondo e, com as mesmas
luvas, bateu nas chamas até apagá-las.
Depois de mais umas dez sacudidas com o pano de prato, o alarme finalmente
silenciou.
Graças a Deus.
Que barulheira.
Seus olhos passaram de mim para Hugger, depois para a travessa, voltaram para
Hugger, para mim e, por fim, pousaram novamente na comida carbonizada.
— Ah… eu fiz pudim de pão? — perguntou, para ninguém e para todos ao
mesmo tempo.
E então aconteceu.
Naquele instante, vendo Harlan "Hugger" McCain rir daquele jeito, soube que
amaria Annie para sempre.
Por outro lado, se eu tentasse assumir o controle - outra lição que aprendi
naquele dia - ele encarava isso como um desafio.
E que desafio incrível. Um que, sem sombra de dúvida, eu não me importava nem
um pouco de perder de forma esmagadora.
— Da próxima vez que lutarmos, você vai ter que amarrar um braço para trás —
murmurei.
— Ainda assim, vou te colocar de costas e te foder até te deixar sem sentido.
— Urgh — fiz uma careta, embora não tivesse a menor dúvida de que isso era
verdade. E de que seria incrível. Assim como o que tinha acabado de acontecer.
Ele riu — ele sabia que tinha sido incrível. Afinal, pelo volume do meu gemido e
pela intensidade do meu orgasmo, era impossível não perceber.
Levantei a cabeça para observar sua expressão divertida e fiz um esforço colossal
para mover a mão até sua barba, deixando meus dedos deslizarem por ela enquanto
ele sorria.
— Eu poderia olhar para você por dias — sussurrei. — Principalmente quando
está feliz.
— Não quero te assustar, mas, mantendo o tema do nosso dia, preciso que saiba:
eu gosto de você. Gosto muito, muito de você — confessei.
— Graças a Deus.
— Anotado — ele murmurou, antes de selar nossos lábios com um beijo suave.
Ah, não.
— Quando tivermos certeza de que você está segura, preciso voltar para Denver.
Resolver algumas coisas com os irmãos — Hugger declarou.
Ah, droga.
Ele ficou em silêncio por um instante, então me puxou para mais perto.
— Meu pai foi um dos irmãos do Chaos.
— Oh — suspirei, surpresa. Eu sabia que ele amava aqueles caras, e que eles
também o amavam. Mas até aquele momento, ele nunca tinha mencionado que seu
pai fazia parte do grupo.
— Ele fez algumas coisas horríveis. Coisas realmente nojentas. Para o clube, para
várias pessoas. Depois que você entra, leva muito para os irmãos se virarem contra
você. Mas eles o odiavam, Di. E havia muito para odiar. Ele fez tão mal a eles que só
de pensar nisso, meu estômago revira. Ele foi um desperdício completo de espaço.
Além de um grande filho da puta.
— Harlan...
— Eu quase não o conheci. Só o vi uma vez. Mas sabia quem ele era.
— Perguntei para minha mãe. Ela evitou me contar até que eu fosse mais velho.
Só me disse depois que ele apareceu para mim, tentando se aproximar,
provavelmente para me usar. Talvez até para me usar contra o Chaos. Ela me contou
para que eu soubesse a verdade e não caísse na conversa fiada dele. E, só para você
saber, ele também fez muito mal a ela.
— Foi na época em que o clube tinha se desviado do caminho. Minha mãe fazia
parte do círculo delas. Esse cara... ele a enganou. Falou bonito. Disse que a amava.
Que ia tirá-la daquela vida, casar com ela, lhe dar uma casa, filhos. Ela acreditou. Se
entregou a ele. Se ele não tivesse feito isso, ela nunca teria permitido que ele a
tivesse sem proteção, e eu nunca teria nascido.
— Meu Deus — gemi, sentindo o peso da traição que a mãe dele sofreu.
— Sim. Mas tudo não passava de conversa fiada. Ele só queria vantagens.
Me aproximei ainda mais.
— Deus, Harlan... que... — Eu nem sabia como chamá-lo. O que ele fez foi tão
sujo e desleal que parecia não haver palavras suficientes para descrevê-lo.
— É, não tem muitos termos fortes o bastante para definir o grande babaca que
ele foi.
— Quando o Chaos saiu desse tipo de negócio, minha mãe tentou se virar
sozinha. Tentou montar um esquema só com clientes fixos para que fosse mais
seguro. Mas um cafetão desgraçado a encurralou. Queria que ela trabalhasse para
ele. E depois do que meu pai fez, ela não queria estar sob o controle de ninguém. Só
que ele não aceitou um ‘não’ como resposta. Espancou minha mãe mais de uma vez.
Me pressionei ainda mais contra ele, sem saber o que dizer além de um
murmurado:
— Querido...
— Sim... — ele concordou, sentindo todo o peso que coloquei naquela única
palavra. — Na terceira vez que isso aconteceu, ela foi até o Chaos. Me levou junto,
porque o cara também me ameaçou, tudo para pegar a parte do dinheiro que ela
ganhava. Ela contou para eles. Eles acharam o cara e acabaram com o negócio dele.
— Não. Mas deram um jeito nele tão bem que, depois disso, ele ficou com tanto
medo deles que quando disseram para ele mudar de ramo, ele obedeceu.
— Ah... certo — murmurei.
— Então, eles ajudaram minha mãe. Demorou um pouco, mas depois disso, ela
nunca mais precisou andar nas ruas. Criou uma lista de clientes, aceitava apenas
indicações e fazia checagens antes de atender alguém. No fim, muitos deles eram
clientes fixos, acostumados com ela. Faziam o serviço, mas, na maioria das vezes, só
queriam companhia. Alguém para conversar. E minha mãe era familiar.
Meu coração doeu ao saber que ele conhecia esses detalhes da vida da mãe.
Mas, pensando bem, mães solo já enfrentavam dificuldades hoje. Trinta e cinco
anos atrás, devia ser ainda pior.
Com o coração apertado pela dor dele, alisei seu cabelo para trás e continuei
passando os dedos por seus fios. Eu queria poder mudar aquilo para ele, mas não
havia palavras que pudessem amenizar.
— Por fim, foram eles que pagaram o enterro dela — ele concluiu.
Respirei fundo.
— Descobrir por que minha mãe lutou tanto para me dar uma boa vida, me
mostrar o caminho... mas eu deixei um homem que a destruiu, um homem que
conheci só uma vez, me arrastar para uma vida onde eu apenas respirava... e não
realmente vivia.
— Meio que já ajudaram. Conversei com o nosso ex-presidente outro dia. Foi ele
quem os tirou daquela merda toda em que estavam metidos. Ele conhecia meu pai.
— Não. Meu medo sempre foi não ter dado ao meu pai o devido crédito pelo
quanto ele trabalhou para garantir que eu não me tornasse como ela.
— Ele não queria que você soubesse disso, baby — ele me lembrou.
— Eu sei. E preciso superar isso. Eu vou. Mas agora não estamos falando de mim.
Eu podia imaginar.
— ... pai biológico era. Mas me disseram que minha mãe queria isso para mim.
Agora eu entendo. Ela confiava neles. E pelo que Tack fez pelo Clube, ela sabia que
seria um lugar seguro para mim. Um lugar onde eu poderia estar quando ela se
fosse, cercado por pessoas que cuidariam de mim. Então, tornei-me um prospecto,
mas fiz isso por ela.
— O quê?
— Uma família.
— Eu tinha uma, e então ela se foi, e restou apenas eu — ele disse baixinho,
como se fosse uma confissão. — Mas agora estou entendendo. Eu a tenho
lamentado de uma forma muito intensa. E acho que é por isso que caí nessa rotina
de apenas sobreviver dia após dia. Sempre foi só eu e ela. Não conhecia avós. Ela
teve uma infância difícil e nunca voltou para casa. Isso significava que eu nunca
havia perdido ninguém que realmente significasse algo para mim. Depois que ela se
foi, eu não sabia o que estava sentindo, então não sabia como lidar com isso.
Imaginar tudo o que sua mãe teve que fazer para sobreviver.
E o fato de que confiava o suficiente em mim para ser tão incrivelmente honesto.
Sim.
Hugger continuou, e eu soube, pelo tom de sua voz, que ficaria ainda pior.
— Ela ouvia uma música — sussurrou. — E, às vezes, cantava para mim.
— Essa música...
— Era como se ela estivesse me preparando para quando não estivesse mais
aqui.
Oh, Deus.
— Ok.
— Então, é isso. Fiquei tão preso no luto que, quando o Chaos me acolheu, eu
não percebi o que estava ao meu redor. O que minha mãe queria para mim. O que
Pete e Rush se esforçaram para encontrar e me oferecer. O que todos os irmãos, as
old ladies e as crianças me deram desde o início.
Eu amava o fato de que ele estava compreendendo o que tinha com o Clube.
Amava isso.
46
"You and Me Against the World" é uma música lançada originalmente em 1974 e interpretada por
Helen Reddy. A letra transmite a ideia de solidariedade e companheirismo, destacando que,
independentemente dos desafios e obstáculos, os dois personagens da música sempre estarão juntos
contra o mundo.
Mas também sentia um aperto no estômago pelo que ele estava dizendo.
E a minha, em Phoenix.
Com o tipo de vida que ele levava, eu não poderia tirá-lo disso. Especialmente
agora, quando ele estava percebendo a grandiosidade do que sua mãe lhe
proporcionou.
Ainda assim...
Para que Hugger tivesse sua família, eu teria que me mudar para Denver.
— Eu não poderia estar mais feliz por você estar descobrindo tudo isso, Hug.
Não conheci todos, mas os que conheci são incríveis. E, pelo modo como tratam
você, sei que pensam o mesmo sobre você.
— Sim.
— Então, se era isso que sua mãe queria, ela ficaria feliz por você estar com eles?
— perguntei, já sabendo a resposta.
— Apenas uma?
— Não — suspirei. — São duas. E, hum, tem um grande depósito também. Quer
dizer, não é enorme, mas cabe minha árvore de Natal e outras coisas. Embora eu
não tenha muitas coisas, então ele fica praticamente vazio.
— Hm — ele murmurou.
De repente, mesmo que um segundo antes eu jurasse que não aguentava mais
nada, não podia esperar para descobrir como ele via as coisas.
Ele sorriu para mim, rolou de costas e me puxou para cima dele.
Depois, juntou meu cabelo na nuca e segurou-o com ambas as mãos, apoiando
os antebraços em minhas costas nuas.
— Eu volto para casa, resolvo algumas coisas. Não vai demorar, mas precisa ser
feito. Você vem para passar um fim de semana, conhece meus irmãos, as mulheres
deles, as crianças. Te mostro Denver. Se você se apaixonar pela cidade, ótimo. Se
não, converso com meu irmão Snap. Ele tem vários imóveis. Compra, reforma e
aluga. Ele pode me ajudar a fazer isso com meu apartamento. Eu o alugo e fico com
a renda.
— Eu...
— Pelo que parece, nos damos bem morando juntos, mas ainda é tudo muito
novo. Pode ser apenas o encanto inicial do que temos. Muita coisa acontecendo,
não passamos pelo dia a dia real ainda. Se superarmos isso e der certo, perfeito. Se
não, eu saio, nos conhecemos do jeito tradicional e, quando estivermos prontos, eu
volto. Temos um plano?
— E o Clube?
— Não preciso de muito, então tenho uma boa quantia guardada, embora
precise usar parte dela para reformar meu apartamento. Não me sentiria bem
pegando minha parte no Clube sem estar fazendo minha parte para eles, mas vou
conversar sobre isso com eles. Todos os Moto Clubes têm regras, hierarquias, mas
nenhum deles é sobre prender um homem em correntes. Pelo menos, não os que
conheço. O que eu sei, no fundo, é que meu Clube não vai me impedir de ter você.
— Denver é uma cidade incrível. Você vai gostar. Mas lá não tem seu pai, Nicole,
Larry, Charlie, Bernie, Mel, Annie. Um emprego que você ama. E...
— E Phoenix não tem Big Petey, ou Dutch, Jagger, Roscoe, esse cara chamado
Tack e todo o resto deles.
Prendi a respiração.
Depois de ouvir isso, não tinha certeza se algum dia voltaria a respirar.
— Vou alugar meu apartamento. Fiz um investimento nele, então sempre estará
lá para nós e continuará se valorizando. Além disso, o aluguel vai nos ajudar
financeiramente — ele sorriu. — Mas não sou o tipo de cara que pode ficar sentado
assistindo Real Housewives. Preciso de algo para fazer. Vou descobrir. O Aces tem
uma loja de materiais de construção no norte de Phoenix e aposto que eles me
contratariam. Tenho experiência com lojas, praticamente administro a Ride, então sei
que eles teriam um bom homem trabalhando para eles.
— Hugger...
— Não sei quanto você ganha, mas vou contribuir. Meia a meia, em tudo. Gosto
do seu apartamento. Ele é ótimo. Estacionamento coberto. Seguro. Sem jardim para
cuidar. Se você não quiser fazer café, pode descer e comprar um. Quando
decidirmos ter nossos dois filhos, baby, vamos precisar de um lugar maior. E eu
também vou arcar com isso.
— Hug...
E continuava.
— E gosto de neve, mas você tem montanhas aqui, não muito longe, assim como
em Denver. Se eu sentir vontade, a gente pode dirigir até lá — ele me sacudiu de
leve e sorriu novamente. — E eu dirijo. Assim como em Denver, é preciso fazer uma
viagem para chegar à neve de verdade nas montanhas, mas aqui, você nunca precisa
morar nela, e isso me agrada.
— No fim das contas, Denver fica a um voo de duas horas ou a uma viagem de
um dia. É longe, mas dá para fazer em um dia. Não é tão longe assim. Podemos ir e
visitar minha família sempre que quisermos.
Esperei para ver se ele tinha mais alguma coisa a dizer e, quando não disse,
tentei de novo.
— O quê?
Quis sorrir com a piada dele, mas considerando o que estávamos discutindo,
havia muito em jogo, e eu simplesmente não consegui.
Ele continuou:
— Você pode tomar seus coquetéis em um bar esquisito, com fadas animadas
voando pelas paredes e bebidas servidas em copos malucos. Mas dá pra ver que isso
não é pra mim. Agora, aquele outro bar... aquele foi foda. E os sanduíches de
mortadela frita deles não têm comparação.
— Hugger...
— Você é tudo o que faz de você... você, baby, e acho que já deixei bem claro
que eu quero tudo isso.
— Mas você está abrindo o meu mundo — continuou, fazendo o meu girar. — E
eu nunca soube que queria isso, mas agora sei que quero. Mais do que isso, minha
mãe também ia querer pra mim. E ela adoraria saber que você está me dando isso.
— Acho que você entende que, se eu tivesse a chance de ter minha mãe de volta,
eu agarraria sem pensar.
Sim, eu entendia.
— E você acabou de recuperar seu pai — ele continuou. — Nem ferrando que eu
vou tirar isso de você... ou dele.
— Sim.
— Uau.
— Sim.
— Sim.
— Ok — afirmei.
— Ok o quê?
— Ok, eu vou pra Denver. Quero ver. Quero conhecer todo mundo. Vou
conversar com a Annie sobre tirar férias, em breve. Passar uma semana lá. Ainda
tenho uma semana de férias. Vou conhecer o lugar direito pra poder decidir. Pode
ser que eu ame. Quem sabe? Mas quero ter a experiência antes de tomar uma
decisão. Se eu não me adaptar, então fazemos do seu jeito.
— Eu prometo.
— Como assim?
— Se você precisar ir pra lá resolver suas pendências, tudo bem. Lidar com seus
problemas com seu pai biológico, beleza. Mas quando você voltar, vai trazer sua
caminhonete, carregar sua moto, encher a caçamba com suas coisas, e nós vamos
fazer isso.
Ele se inclinou ainda mais sobre mim, ficando completamente por cima.
— Você deve ter notado que eu tentei assumir o controle antes, mas você não
deixou.
As mãos dele estavam se movendo sobre mim, e, como sempre, meu corpo
respondia.
— Notei algo assim — murmurou com um sorriso malicioso.
— Bem, você resolveu isso — rebati, tentando soar irritada, mas fracassei, porque
saiu todo ofegante.
E parecia que ele sabia disso, porque sua mão deslizou pela minha cintura,
chegando exatamente onde eu precisava.
— Sempre tão molhada pra mim — ele sussurrou contra minha pele antes de
sugar meu mamilo entre os lábios.
Enterrei os dedos nos cabelos dele e arqueei o corpo contra sua boca.
Ele alternou sua atenção entre meus seios e meu clitóris, até que eu estivesse me
contorcendo debaixo dele, movendo os quadris contra sua mão.
— Não.
— Ok, querido.
Ele deslizou pelo meu corpo, jogou minhas pernas sobre seus ombros e se
entregou a mim.
Gozei contra sua boca e, pouco depois, novamente ao redor do seu pau.
Não fazia ideia de que isso era possível, mas lá estava eu, entregue.
Perfeito.
Nós estávamos resolvendo tudo sem aquela porcaria de distância nos separando.
Juntos.
Totalmente dentro.
E mesmo que, quando Hugger me deixou na cama para lidar com a camisinha,
eu literalmente não conseguisse me mexer (definitivamente não podia sair pulando
de alegria e dando cambalhotas como queria), eu estava extasiada com isso.
Hugger saiu das sombras ao lado da casa da avó de Di assim que ouviu a porta
da frente se abrir e as duas mulheres se despedirem.
— Ah, agora que você está aqui, deveria entrar para tomar uma bebida rápida,
Harlan — convidou Shannon.
Ela não sabia que ele não estava ali apenas para buscar Di. Na verdade, ele
esteve lá o tempo todo, porque ela também não sabia que ele não era apenas o
namorado de Di, mas também seu segurança.
— Agradeço, Shannon, mas está ficando tarde, e preciso levar minha mulher para
casa para que ela possa descansar. Ela trabalha amanhã — respondeu Hugger.
Ele não sorriu porque não gostou da expressão no rosto de nenhuma das duas.
Quando a mulher o soltou, ele passou o braço pelos ombros de Di, sentiu o dela
deslizar por sua cintura, e eles caminharam até sua moto.
Eram nove e meia, fazia vinte e sete graus lá fora, já em meados de setembro, e
desde que ele tinha chegado ali, o tempo não tinha dado nenhum motivo para
mantê-lo longe da sua moto.
Talvez Phoenix não fosse tão ruim assim, nem mesmo nos meses mais
insuportáveis.
— Como assim?
— Você surgiu da noite como uma sombra ganhando forma. Então, sim, vejo o
que ele quis dizer. Estou impressionada.
Aquela era uma sensação que ele nunca tinha experimentado - ou talvez nunca
tivesse permitido que o atingisse.
E, droga, era bom sentir-se forte quando sua mulher precisava se apoiar nele.
— Ela tem ligado para a mamãe todos os dias desde... o incidente — contou. —
Mesmo quando mamãe ainda estava na cidade. Mas mamãe está ignorando todas
as ligações dela.
— Não sei. Ninguém nunca confrontou minha mãe de uma maneira tão
grandiosa. Estamos em território desconhecido.
O celular em seu bolso traseiro vibrou, mas ele o ignorou, mantendo o foco em
sua mulher.
Ele fez isso porque, mesmo com tão pouco tempo juntos, já conhecia bem Di.
Exatamente como ele suspeitava. Di sempre dava tudo de si para todo mundo, às
vezes à custa de si mesma.
O que ela não percebia era que sua mãe tinha um papel nisso. Desde que
nasceu, Diana sempre atendeu a todas as vontades daquela mulher. Era tudo o que
conhecia.
E, agora, ela tinha Hugger. Ele garantiria que ela não se esgotasse.
— Di...
Aquilo não era tão bom quanto sentir que ela precisava se apoiar nele.
Eles partiram, e, do jeito que ele sentia, provavelmente ela também notou o
celular vibrando de novo no seu bolso traseiro.
— Mostre meu rosto para a câmera e ligue para ele — ele ordenou, lembrando-
se de que precisava passar o código de acesso para ela depois.
— Ele quer você na casa segura o mais rápido possível. E disse que eu também
posso ir.
Uma das vantagens de Phoenix era sua estrutura urbana organizada quase
inteiramente em um sistema de grade, com avenidas numeradas a oeste e ruas a
leste, separadas pela Central Avenue, o que tornava incrivelmente fácil se localizar na
cidade.
Vinte minutos depois, ele subiu a entrada de uma casa onde várias motos já
estavam estacionadas. Seus olhos se estreitaram ao notar que não eram apenas as
motos de Dutch, Jagger e Coe, nem a trike47 de Big Petey. Armitage, Eight e Muzzle
também estavam lá, e, na calçada, havia um SUV da NI&S, uma caminhonete
chamativa e um Jaguar reluzente.
Diana desceu rapidamente da moto, e Hugger veio logo atrás. Ele parou ao
perceber o olhar dela.
— Isso é uma casa segura? — ela retrucou, gesticulando para a ampla casa em
estilo rancho no alto da colina, com uma vista espetacular do vale. O lugar tinha
quatro quartos, quatro banheiros e meio, uma piscina com uma cachoeira que
desaguava em uma jacuzzi e até uma mesa de air hockey.
47
Moto Trike → Um veículo de três rodas, muitas vezes uma motocicleta modificada para ter mais
estabilidade, popular entre motociclistas que querem conforto e segurança extras.
— E a Ride tem oficinas e garagens espalhadas pelo Colorado. O comércio vai
bem, ainda mais agora que os millennials e a Geração Z decidiram que é importante
comprar de negócios locais. Sem contar que nossas motos personalizadas são
vendidas por centenas de milhares de dólares.
— Algo assim.
Sim, Eight e Muzzle estavam de volta. Também estavam lá Mace e Cap Jackson,
outro membro da equipe da NI&S, além de Sylvie e Tucker Creed, dois
investigadores particulares locais com ligações em Denver, já que Sylvie trabalhava
para Knight Sebring, um aliado do Chaos. E, por fim, uma mulher que ele conhecera
no único outro encontro deles em Phoenix - um encontro no qual todos esses
presentes haviam passado para fornecer informações e conselhos, o que o
prolongou consideravelmente.
O nome dela era Sixx. Ela era deslumbrante, e ele não fazia ideia de qual era sua
profissão, mas, fosse o que fosse, envolvia algo impressionante. Se ele fosse
qualquer outra pessoa, provavelmente teria medo dela.
Ele não teve chance de apresentar Diana aos novos conhecidos, porque ela
exclamou:
Ela o abraçou com força, e Muzz, sendo meio canalha, a segurou ainda mais
apertado, dando um sorriso provocador para Hugger.
Filho da mãe.
— Fique aqui com o pessoal enquanto roubamos seu homem por um tempo?
Diana, que não era nada boba, já havia percebido que algo sério estava
acontecendo com os Babićs.
— Vamos lá, querida — Big Petey incentivou, estendendo a mão para Diana. —
Vamos começar um jogo enquanto Jag nos prepara uma bebida.
Diana seguiu para a mesa de air hockey com Big Petey, enquanto Jagger ia até a
geladeira.
Hugger acompanhou Eight e Mace até a sala de estar na frente da casa, seguido
por Sylvie, Tucker, Cap e Sixx. Cap fechou a porta atrás deles.
No colo deles, repousavam dois grandes cartazes. Um dizia "Eu estou" e o outro,
"Fora".
Um dos homens era Esad Babić. Os outros dois eram seus irmãos.
— Não fomos nós. Estávamos lá, tentando conseguir armas por meio de
contatos, mas chegamos tarde demais. Ouvimos que o serviço já estava feito e
voltamos para os Estados Unidos esta tarde.
— Então, quem foi? — Hugger perguntou. — E o que significa "Eu estou fora"?
Sixx se aproximou.
— Imran não saiu da Bolívia. Mas isso não significa que ele não possa ordenar
uma execução. E há rumores de que Imran ordenou três assassinatos de sua
hacienda.
— Alguns dos soldados dele ainda estão soltos, mas se dispersaram. Alguns
foram para a Bolívia. A maioria cruzou a fronteira com o México.
— O que é? — Hugger insistiu, ao notar que ela não disse mais nada.
— Babić mandou um recado por meio de alguém que sabia que chegaria até
mim — explicou ela. — Fez isso para que eu informasse Mace, Sylvie, Tucker ou
alguém que levasse a informação até vocês, já que ele não sabia que tínhamos sido
apresentados. Ele disse que não tem nada contra Nolan ou Diana Armitage. E nunca
teve.
Seu próprio filho morto por ordem dele… Hugger achou aquilo bom demais para
ser verdade.
— Tem algum motivo para ele não ter dito isso direto para o Buck, quando o
Buck tentou entrar em contato dez malditas vezes? — resmungou Hugger.
— Infelizmente, tem — disse Sixx. — Ele achou hilário o esforço que vocês
estavam fazendo para proteger duas pessoas com quem ele não se importa nem um
pouco.
Que desgraçado.
Mas isso era algo que fazia sentido vindo desse cara. Pelo menos significava que
Di e Nolan estavam seguros, e Dutch, Jag e Coe poderiam voltar para casa.
— Maddy não é mais problema dele — respondeu Sixx. — Ela foi, quando ele
tentava impedir que o próprio filho destruísse tudo, inclusive os negócios da família.
Mas não é mais. Não há nada que ligue Imran Babić àquela rede de tráfico. Além
disso, os federais a desmantelaram completamente. Conseguiram o testemunho de
várias mulheres, sem falar de alguns envolvidos que estão fazendo acordos. É
possível que Madison nem precise testemunhar.
E, assim como a história do seu pai biológico, essa também não era nada
agradável.
— E daí?
— Daí que Babić teve a brilhante ideia de que não gostou do fato de dois
motoclubes terem vencido um dos seus — informou Eight. — Então, por puro prazer
sádico, porque esse cara é um psicopata, decidiu se meter com a gente para ver o
que aconteceria.
Puta merda.
Hugger relaxou.
Mas só um pouco.
— O exército dele foi dizimado, os negócios estão arruinados. Será que ele está
reconsiderando essa jogada? — perguntou Hugger.
— Seria difícil — ponderou Mace. — A menos que ele se infiltre de volta no país,
qualquer ponto de entrada que ele tentar, será preso imediatamente. Ele pode dar
ordens da América do Sul, mas sem soldados, não sei em quem poderia confiar para
uma operação que precisaria ser minuciosa e bem executada.
Ninguém discordou.
— Sem falar que ele cometeu um erro ao escolher a Bolívia — interveio Mace. —
O tratado de extradição que assinamos com eles nunca funcionou bem para os
Estados Unidos, a ponto de ser praticamente inútil. A última pessoa que
extraditaram foi nos anos 90. Eles não gostam de extraditar cidadãos bolivianos. Mas
Babić não é boliviano. Ele conseguiu cidadania americana em 1998. As autoridades
bolivianas já foram informadas da presença dele lá, e o governo dos EUA está
negociando para extraditá-lo. Então ele pode precisar se mover de novo, e logo.
— Talvez, e ocupado com isso, vocês estejam fora do radar dele. Ou talvez
aquela mensagem de "Eu estou fora" seja só uma jogada para fazer vocês baixarem
a guarda. Mas, pelo menos por enquanto, ele não será um problema imediato —
disse Sylvie.
Isso significava que não podiam ter certeza de que a situação com Babić estava
resolvida, mas, por ora, Nolan e Di estavam seguros. Eles tinham um pouco de
tempo para respirar e um alerta de que estavam no radar de um lunático que sentia
necessidade de brincar com eles.
Sim.
Por enquanto.
Mas ele se conformaria com isso, sabendo que Di estava segura. O resto... eles
veriam com o tempo.
Depois de falar com o pai para avisá-lo de que estava tudo bem com Babić,
Hugger viu Di entrar no quarto.
Ele estava esparramado na cama dela com um livro que pegou da estante
(Mother Daughter Murder Night48 - parecia o tipo de coisa que ele gostaria, mesmo
nunca tendo sido um leitor. Ele estava tentando coisas novas, e como Di tinha uma
estante enorme cheia de livros na sala, ele se aproveitou disso).
48
“Mother-Daughter Murder Night" é um livro de mistério escrito por Nina Simon. A história gira em
torno de um trio de mulheres que acabam se envolvendo na investigação de um assassinato na pequena
comunidade costeira onde vivem.
Ele observou enquanto ela caminhava em sua direção, vestindo uma camiseta
curta e justa e shorts soltos de amarrar.
Rapidamente, ele colocou o livro de lado quando ela se jogou sobre ele.
Ela assentiu.
— Ele quer fazer uma festa na piscina no sábado, já que Georgie e Archie estarão
aqui.
Hugger não tinha um calção de banho desde, no mínimo, os oito anos de idade.
— Vou precisar avisar Dutch e Arch para que as mulheres possam levar os
biquínis.
— Ok.
— E também vamos ter que sair para comprar um calção pra mim.
— Ok.
Ele deslizou os dedos pela barra do short dela, subindo até a calcinha.
— Com licença, Harlan “Hugger” McCain, você tem uma ideia errada sobre mim.
Eu não sou fácil.
Foi quando ele sorriu, a virou de costas e provou que ela estava errada.
Hugger estava com Diana de quatro, curvado sobre ela, uma mão apoiada na
cama, a outra entre suas pernas, os dedos estimulando seu clitóris.
Com esse pensamento, sua cabeça, que estava inclinada, jogou-se para trás,
batendo com força contra o ombro dele. Seus cabelos macios roçaram seu rosto,
enredando-se em sua barba, fazendo seu corpo inteiro reagir. E então ela gozou...
alto.
Graças a Deus.
Ele deslizou os dedos para longe, envolveu o braço ao redor da cintura dela,
segurando-a firme para seus últimos movimentos. Por fim, enfiou o rosto em seu
pescoço, chegou ao ápice e, como sempre acontecia com Diana, foi intenso.
Ele ainda estava usando preservativo. Ela tinha uma consulta médica na semana
seguinte. Ele, outra, na semana seguinte, em Denver.
Hugger diminuiu o ritmo dentro dela até perder a rigidez, então saiu devagar,
beijou seu ombro e, erguendo-se, a empurrou delicadamente para o lado da cama,
cobrindo-a com os lençóis antes de se livrar do preservativo.
Era sábado à noite. Mais cedo, tinham ido ao show da Charlie com Mel e seu
namorado, Gerard (um cara legal, ainda mais quando Mel teve que cutucá-lo com o
cotovelo porque ele realmente cochilou). Bernie também estava lá, assim como
Dutch, Georgie, Jagger e Archie.
Archie, por outro lado, parecia estar curtindo - ou, pelo menos, fingia melhor do
que o resto deles que não achava aquilo completamente fora da realidade.
Ela assentiu.
Ele notou que o bar não estava nem um pouco cheio, e algumas mesas
chegaram a esvaziar depois que Charlie e a banda começaram a tocar.
— Talvez uma vez a cada dois meses. Vão mais para Sedona e Flagstaff do que
tocam aqui. Às vezes, a gente vai, porque são cidades legais para passear. Às vezes,
não.
Ela olhou para ele com doçura, passou os dedos por sua barba e mudou de
assunto.
— Definitivamente… fodas.
Ela parou de acariciar a barba dele para dar um tapa leve em seu peito e
provocou:
— Não me zoa!
Os olhos dela brilharam ao vê-lo assim, mas ele percebeu a mudança sutil em
seu humor.
Ela sabia que ele voltaria para Denver com Dutch e Jag na quarta-feira.
— Snap vai ajudar a reformar meu apartamento — ele lembrou. — Ele mandou
mensagem hoje dizendo que Hound já passou por lá e começou a demolir a
cozinha.
Os olhos dela se arregalaram.
— Sério?
O humor dela mudou completamente quando ela abriu um sorriso radiante para
ele.
Ele retribuiu antes de encerrá-lo, então a virou de um lado para o outro para
apagar os abajures ao lado da cama.
Ele estava exausto, tinha acabado de gozar intensamente, e o dia seguinte seria
longo. Precisavam descansar um pouco.
Eles se aconchegaram, frente a frente, como faziam todas as noites. Embora, com
o tempo, ele costumasse se mexer e acabavam dormindo com ela enroscada nas
costas dele. Às vezes, era ela quem se virava, e então era ele quem se encaixava nas
costas dela.
Todas as noites.
Hugger nunca pensou sobre isso, nem uma única vez, desde o começo.
Então, ele também não pensou nisso naquela noite, quando a sentiu adormecer
em seus braços e a acompanhou no sono.
E não pensou nisso horas depois, quando despertou, curvado contra as costas
dela, mantendo-a perto.
Naquela tarde, Hugger saiu da piscina de Nolan, sacudiu a água dos cabelos e
pegou uma das toalhas de praia grossas da pilha que haviam deixado para ele se
enxugar.
Mas, pensando bem, era por isso que ela insistiu na cor. Para que ficassem
bregas juntos. Para que ela fosse fofa e, ao mesmo tempo, uma pedra no sapato
dele—o que, para piorar, ele também achava fofo.
Jagger parecia estar dormindo sobre uma boia que mais lembrava um travesseiro
gigante. Dutch e Gerard estavam nas espreguiçadeiras dentro da Baja bench,
bebendo cerveja e jogando conversa fora.
Então, sim.
Larry não veio. Pelo que parecia, ele apoiava totalmente Diana em estar perto da
família, mas Nicole chocou Di e Hugger quando apareceu na festa. Ainda assim,
provavelmente levaria um tempo até Larry se sentir à vontade para curtir na casa do
ex da esposa.
O simples fato de Nicole estar ali dizia muito sobre ele. E também sobre ela.
Embora, no caso da mãe de Di, Hugger esperava que ela segurasse aquele
ressentimento por, pelo menos, mais uns vinte e cinco anos.
Quando ouviu a porta se abrir atrás dele, se virou e viu Armitage sair.
O homem olhou para a piscina, sua expressão suavizando. Depois, virou-se para
Hugger e caminhou até ele.
— Parece que você também não é — Armitage respondeu, antes de dar um gole
na cerveja. — Diana me disse que você está se mudando para cá.
— Sim.
— Não, ela não mora — murmurou Armitage, olhando para a própria cerveja
antes de dar outro gole.
— Além disso, perdi minha mãe. Di encontrou o pai. E aquela mulher que se diz
mãe dela está brincando com a avó. Se afastar de vocês agora a mataria por dentro.
Ele sentiu o olhar do homem sobre si e, então, desviou os olhos de Diana, que
sorria para algo que Archie dizia, e encarou o pai dela.
— Sim.
Hugger permaneceu em silêncio. Ele sentia aquilo nos ossos, porque era
exatamente o mesmo para ele.
— É — Hugger murmurou.
E ela estava com ele - talvez apenas em seus pensamentos - mas, todos os dias,
sempre que precisasse dela, bastava chamá-la, e ela estaria ali.
Sua atenção foi desviada quando risadas femininas ecoaram pelo ar. Tanto ele
quanto Armitage voltaram o olhar para as mulheres na piscina, vendo todas
entregues ao riso.
— Com o que Margaret fez, sempre havia algo, como um peso sufocando nossa
felicidade como família, a minha e a da Di — comentou Armitage, observando as
mulheres rirem. — Nunca a vi tão feliz e despreocupada.
Hugger sentiu a garganta se fechar.
— Pode me chamar pelo nome do Clube, Hugger ou Hug — ele conseguiu dizer.
— É uma honra.
— Porra, sim!
Diana nadou até o banco Baja, largou o macarrão de piscina e saiu da água.
Hugger deixou a cerveja de lado e se enxugou um pouco mais para não pingar.
Hugger estava em sua casa em Denver, refletindo sobre sua decisão. Todas as
suas coisas importantes estavam embaladas e guardadas no porão de High e Millie,
esperando para serem carregadas em sua caminhonete para a viagem até Phoenix.
O restante - móveis, utensílios de cozinha, qualquer outra coisa que não valesse a
pena levar - tinha sido descartado.
No canto da sala, havia uma pilha de caixas e paletes carregados. Outra parte
estava repleta de ferramentas. Eles aguardavam a chegada dos armários de cozinha,
escolhidos por Rosalie e Tyra (e aprovados por Diana). Mas, enquanto isso, estavam
prontos para começar a reforma dos banheiros.
Hugger estava ansioso para ver tudo concluído, colocar inquilinos no imóvel e
começar a gerar renda.
Aquela casa nunca tinha sido um lar. Mas agora, ao menos, seria algo.
Algo que contribuiria para a construção de uma boa vida ao lado de Diana.
Ele saiu, ativando o sistema de segurança - o primeiro item instalado na casa,
porque agora havia algo de valor ali - e trancou a porta.
Mesmo sabendo que os homens o aguardavam, seus pés o levaram até a porta
dos fundos da loja. Digitou o código, abriu a porta e atravessou o depósito
meticulosamente organizado - obra sua. Antes de sua chegada, aquele espaço era
um verdadeiro caos.
Caminhar pela loja teve um efeito estranho sobre ele. Ele sabia exatamente onde
cada correia de ventilador estava pendurada, onde cada galão de fluido para para-
brisas era armazenado, onde cada lata de óleo de motor estava empilhada.
Foi então que percebeu o quanto gostava de ser o primeiro a abrir a loja.
Gostava de ser o cara a quem todos recorriam com dúvidas no caixa ou sobre o
tempo de entrega de uma peça especial de determinado fornecedor.
Contaria isso a Diana depois de estar instalado. Ela já estava nervosa o suficiente
com o que ele estava “deixando para trás” por ela. Não iria acrescentar mais uma
preocupação até que ela tivesse certeza de que ele estava bem e que os dois
estavam sólidos.
Quando estava saindo da Ride para o Complexo, seu telefone vibrou com uma
mensagem.
Era de Diana.
Maddy acabou de ligar! Ela voltou para casa após passar por um exame e está
apresentado progresso, e agora está planejando retomar as aulas!!!!!!!!
Hugger já estava empolgado com o que estava prestes a acontecer, mas, ao ler
aquela mensagem, não pôde evitar um sorriso.
Ótima notícia, baby. Se ela ligar de novo, diz que mandei um oi.
Já fiz isso.
Foi naquele momento que, pela primeira vez em sua vida, Hugger percebeu:
aquele era seu lar.
O Complexo.
A ilha do Chaos.
Aquilo nunca iria desaparecer.
Seria dele, faria parte dele, um refúgio seguro, até o dia de sua morte.
E, enfim, ele entendeu por que Diana estava tão preocupada com sua mudança.
Aquele encontro era para ajudá-lo a se livrar do peso que carregava do pai
biológico.
E seria ali que contaria a todos que estava se mudando para Phoenix.
Ao abrir a porta, viu que todos estavam lá, sentados ao redor da grande mesa.
No centro, sob uma camada de acrílico, estava a primeira bandeira do Chaos: o
emblema da irmandade no meio, cercado pelo lema: VENTO, FOGO, PASSEIO E
LIBERDADE.
O único que não estava sentado era Hound. Ele nunca se sentava. Sempre ficava
de pé, braços cruzados no peito, ombro e sola da bota apoiados na parede, o cão de
guarda dos irmãos, sempre alerta.
Rush ocupava a cabeceira da mesa, e Hugger parou ao perceber uma pilha alta
de relatórios encadernados em plástico ao lado dele.
Ele não sabia do que se tratava, mas, considerando o motivo daquela reunião,
aquilo o deixou inquieto.
Boz riu.
Merda.
— Dá uma olhada no que diz aí, mas vou resumir — começou Rush. — Phoenix
está crescendo. É uma das cidades que mais cresce nos Estados Unidos. Um paraíso
para motociclistas. Além disso, há um grande interesse por motos clássicas e
restauração. Boa diversidade de níveis de renda, diferentes gerações morando lá, o
que significa dinheiro circulando e gente disposta a gastá-lo. Estão construindo
fábricas, há muitos projetos de habitação em andamento ou planejados. Isso só vai
trazer mais crescimento. A cidade está pronta para investimentos e expansão. Além
disso, o código tributário do estado é favorável.
Ele pegou outro monte de papéis encapados com plástico e os lançou para os
homens.
Ele não sabia os endereços exatos, mas, por causa de sua mulher e de como ela
era, enquanto esteve em Phoenix, teve muitas oportunidades de rodar pela cidade.
Então, tinha uma noção dos locais - e eles eram bons.
— Obviamente, antes de falarmos sobre os terrenos, precisamos decidir se
vamos expandir para fora do Colorado e entrar no Arizona — disse Rush.
O que High não disse em voz alta era que, como Millie era inseparável de suas
enteadas, ela também não ia querer ficar longe delas.
— Não vai ser em tempo integral. Não vou deixar meus netos, e a Ruiva também
não vai querer isso. Mas no inverno, preciso tirar minha mulher do frio e da neve.
— Onde Tyra for, Lanie vai querer ir atrás. E eu topo qualquer lugar onde eu
possa andar de moto o ano inteiro. Mas ainda vamos ter que esperar um pouco até
Nash terminar os estudos.
— Vou arrumar um lugar de inverno por lá — anunciou Big Petey. — Aquele sol
de Phoenix fez bem pra esses ossos velhos. Vou travar de vez se tiver que aguentar
mais quatro meses de frio aqui.
— Sim, filho — respondeu Big Petey. — Ela ficou radiante só de pensar em nunca
mais precisar raspar gelo do para-brisa.
— Eu topo ficar lá o ano inteiro — disse Boz. — Não curto o frio. E um novo
cardápio de mulheres também não faz mal.
— Já falei com Brick, Arlo, Tug, Bat e Speck, e eles também estão de acordo —
informou Rush. Esses eram os membros que haviam se mudado para outras
localidades para cuidar dos negócios.
Quando deixou Denver rumo a Phoenix, não houve nenhuma conversa sobre
expansão.
Tack assentiu.
— Parece que a Ride está indo para Phoenix — decretou Rush. — Agora, deem
uma olhada nessas propriedades. Podemos decidir isso depois.
— Vou te encarregar de ser nosso homem lá embaixo. Está bem com isso?
— Sim.
— Brick está dentro para ajudar, mas também preciso saber se você pode. Vocês
dois têm mais experiência abrindo novas lojas. Hug vai precisar de irmãos ao lado
dele.
— Conta comigo — Dog disse, abrindo um sorriso. — Além disso, Sheila vai
adorar qualquer desculpa para ir ao Vale. Assim, pode passar um tempo com o
irmão e mimar os sobrinhos até não poder mais.
Ele precisou limpar a garganta novamente, e fez isso olhando diretamente nos
olhos de Tack Allen.
— Então acho que não precisamos falar sobre meu pai biológico — Hugger
declarou.
Hugger assentiu.
— E? — Hound pressionou.
— E eu sou Chaos.
Foi preciso um esforço enorme para manter a cabeça erguida. O peso de tudo o
que estavam fazendo, de tudo o que estavam dizendo, era esmagador.
Droga, como ele queria que sua mãe ainda estivesse viva.
Droga.
Ex-Chaos.
Um verdadeiro desgraçado.
— Um dos saltos dela enfiado no seu traseiro ia doer, irmão — Jagger provocou
o padrasto (Hound).
Ou os dois.
O silêncio só foi quebrado quando Dog lhe deu um forte tapa nas costas.
Porque...
Porra.
Ele começou a se mover, mas não foi muito longe antes de Snapper surgir à sua
frente.
Hugger enrijeceu, mas isso não impediu Snap de puxá-lo para um abraço,
encostar seus peitos num leve impacto, dar-lhe um soco amigável nas costas e então
se afastar.
Mas, assim que Snapper se afastou, ele não foi embora de imediato. Seus olhos
encontraram os de Hugger, e foi como se o corpo de Hugger se esvaziasse,
tornando-se apenas uma casca… até ser preenchido novamente pelo que aquele
olhar transmitia.
E, com aquele olhar, Snapper dizia que nada disso era culpa de Hugger.
— É — Hugger confirmou.
Só então Snapper se afastou completamente.
O pai biológico de Hugger havia feito a pior coisa possível com a mãe de Rush. E
não era apenas o fato de tê-la mantido sob a mira de uma arma. Rush nunca foi
muito próximo dela - era uma mulher difícil de amar - mas ainda assim, era sua mãe.
E nenhuma mulher merecia o que o pai de Hugger fez com ela.
Rush encerrou aquilo dando três socos firmes no ombro de Hugger, seu olhar
fixo no dele. Só se moveu quando Hugger ergueu o queixo em resposta.
Depois foi a vez de Dog, que repetiu o mesmo gesto, mas sem o contato visual
no final.
Jagger veio depois de Dog, Roscoe veio depois de Jagger, Dutch depois de
Roscoe.
Todos se aproximaram para um abraço, exceto Hound, que segurou Hugger pela
lateral do pescoço, balançou-o para frente e para trás e depois deu um tapa ali,
soltando-o e saindo da sala.
Ele segurou o rosto de Hugger com as duas mãos e colidiu suas testas, deixando-
os cara a cara.
Olho no olho.
No fim, os únicos que permaneceram na sala foram Hugger e Big Petey, que não
tinha saído da cadeira.
— É — Hugger grunhiu.
Porra.
Ele nunca havia ficado nervoso ao conhecer os pais das namoradas do colégio,
porque, como agora sabia, sua mãe havia lhe ensinado a ser um bom namorado.
Mas ele sempre ficava tenso quando sua mãe conhecia suas namoradas. Não
porque se preocupasse com o que elas pensariam dela, mas porque temia o que sua
mãe pensaria da escolha que ele havia feito.
E, apesar de Diana ser quem era - e Hugger saber que ela conseguiria encantar
até uma cobra - aquele era exatamente o tipo de nervosismo que sentia ao entrar
no recinto do Complexo com ela. O mesmo que tinha quando apresentava uma
namorada para sua mãe.
Assim que entraram, Diana estava à sua esquerda e olhou para aquele lado,
observando as paredes marcadas, cobertas de fotos e adesivos, os sofás gastos, as
mesas e cadeiras arranhadas, e a mesa de sinuca cheia de marcas de uso.
Hugger olhou para a direita, em direção ao bar, onde Tack e Hop estavam
encostados no balcão, enquanto Hound, Big Petey, Joker e Dutch estavam sentados
ao redor dele.
Ela deu mais um passo à frente, virou-se para a direita e soltou um grito animado
antes de sair correndo em direção a Big Petey, que, assim como os outros, já havia
se levantado do banco. No caminho, passou direto por Hound, que tinha uma
expressão que faria a maioria das pessoas pensar duas vezes antes de se aproximar
dele, mas ela o ignorou completamente e atingiu Pete como uma bala.
Hugger ficou surpreso ao ver Big Petey absorvendo o impacto, assim como os
outros homens. Era um sinal claro de que todos haviam percebido que Petey já não
tinha a mesma agilidade de antes.
Mas ele se manteve firme, apenas recuando um passo antes de abrir os braços e
envolver Diana em um abraço apertado, o qual ela retribuiu com a mesma
intensidade.
Hugger aproveitou esse momento para olhar para os outros homens e, naquele
instante, viu com absoluta clareza:
— Maddy te ligou? — ela perguntou a Big Petey. — Eu dei a ela seu número.
A porta se abriu atrás de Hugger e, num piscar de olhos, Tyra, Elvira e Millie
entraram correndo.
Era óbvio que, assim que viram Hugger estacionando, não perderam tempo e
saíram correndo do escritório de Tyra, na garagem, para dar uma boa olhada em
Diana.
O olhar que Dutch lançou a ela quase fez Hugger desatar a rir.
— Você não quer saber — Hop, ex-integrante de uma banda de rock, respondeu.
— Brincadeira! Mas vou avisar Charlie que você sente muito por não poder ir.
Nesse momento, Diana virou-se e observou os outros homens. Foi quando High
entrou no recinto - provavelmente viera com as mulheres, mas sem pressa. Então,
Diana também teve a chance de dar uma olhada nele.
— Então quer dizer que tem um requisito mínimo de gostosura para seus irmãos
entrarem para o clube? Besteira. E pelo visto, as mulheres também precisam atender
a esse padrão.
— Garota, por favor, me diz que você bebe tequila! — Ela apontou para Hugger
com o polegar. — Alguém conseguiu derreter essa montanha de gelo, temos que
comemorar com doses!
49
"Palooza" – É uma referência ao festival de música Lollapalooza, que se tornou sinônimo de grandes
eventos musicais e culturais.
Diana lançou um olhar para Hugger, como se tivesse escapado por um triz de um
abismo mortal, se agarrado a um pico e, no dia seguinte, alcançado o topo do
Everest.
— Garota, me diz que pelo menos bebe vodka! — Elvira insistiu, já indo até as
garrafas atrás do balcão.
Elvira parou no mesmo instante e olhou para Diana com uma expressão de
aprovação tão intensa que iluminou todo o ambiente.
— Demais!
Ele era o único que destoava no Chaos, mas, ainda assim, Diana tinha carisma. E,
por isso, conquistou a todos em questão de segundos.
50
Fireball Cinnamon Whisky é uma marca de uísque com sabor de canela, conhecida por seu gosto
adocicado e ardente. É popular em festas e costuma ser consumida pura ou misturada em drinks.
Sim, ele nunca deveria ter se preocupado.
Deveria ter sabido que, sendo quem era, logo todos estariam encantados por ela.
— Já era hora, mulher — ele disse assim que ela se aconchegou ao seu lado e lhe
deu um beijo rápido.
Certo.
— Di — ele insistiu.
Ela soltou um suspiro.
Ela podia.
— Precisam que a gente leve alguma coisa para mais tarde, Millie? — Di
perguntou, enquanto ele a guiava até a porta.
Ainda assim, ele já havia transado com ela no seu quarto do Complexo. Sim, com
certeza ele não deixaria essa oportunidade passar.
Millie e High estavam organizando uma festa naquela noite para todos.
Era óbvio que ela se dava bem com as mulheres, mas Hugger já esperava por
isso. Diana era incrível, e aquelas mulheres eram as melhores que existiam.
Ainda assim, ele precisava admitir que se sentiu mais tranquilo ao ver como ela
se encaixou tão naturalmente.
Ele ajudou sua mulher a subir, fechou a porta, contornou o capô e entrou.
Di falava sobre o brunch com as meninas, sobre as compras e como Elvira era
hilária, Carrie era um doce, Rebel era "a coisa mais legal do mundo" e por aí vai
(basicamente, tudo o que ele ouvia dela nos últimos dois dias sobre sua família).
Ela também comentou que era uma pena que Archie tivesse que ficar na loja e
que Georgie estivesse trabalhando numa reportagem, porque os dois não puderam
ir.
Ela falou disso o caminho inteiro, durante o estacionamento e enquanto
caminhavam até o prédio.
Hugger olhou para ela e viu que estava brilhando de empolgação, como uma
árvore de Natal.
E assim, no Museu de Arte de Denver, com Diana ao seu lado, Hugger caminhou
pela primeira exposição de arte da sua vida.
51
Essas são obras icônicas de Norman Rockwell, cada uma carregando um forte significado social e
cultural. As obras de Norman Rockwell geralmente são mais conhecidas pelo título original em inglês, mas
algumas possuem traduções informais em português: The Problem We All Live With → O Problema com o
Qual Todos Vivemos; Girl at Mirror → Menina no Espelho e Four Freedoms → As Quatro Liberdades
Mas, enquanto discutiam a exposição no caminho de volta para os Highlands, ele
compartilhou que seus favoritos eram Saying Grace, Before the Shot e The
Lineman52.
52
Esses três nomes referem-se a pinturas icônicas do artista Norman Rockwell, que foi famoso por
suas representações do cotidiano americano. As traduções informais temas podem ser usadas para
facilitar a compreensão: "Saying Grace" → "Fazendo a Oração"; Before the Shot" → "Antes da Injeção" e
"The Lineman" → "O Eletricista"
Capítulo 25
VEJA A PARTIR DAQUI
Big Petey
Há alguns anos...
O lugar estava silencioso como um túmulo, e Big Petey não gostava de fazer essa
comparação, mas era a única que vinha à mente.
Estava escuro, já era tarde, mas ainda havia muitos funcionários e visitantes,
pessoas que tentavam prolongar o inevitável, espremendo os últimos momentos,
buscando um milagre ao tentar estender o que já se sabia ser finito.
Ele encontrou o quarto dela e, para sua surpresa, também a encontrou sozinha.
Não esperava por isso. Tinha certeza de que Harlan estaria ali.
Quando Jackie o viu parado na porta, levantou a mão com esforço. Parecia lhe
custar muito, então ele se apressou e segurou-a com firmeza.
— Não temos muito tempo. Quero fazer isso antes que ele volte.
— Cuide dele?
— É claro.
— Jackie, você não precisa pedir isso. Eu e os caras sempre estivemos com você.
— Eu sei.
53
Dairy Queen – Uma famosa rede de fast food e sorveteria nos EUA.
— Você sabe.
— Eu sou de vocês, ele é de vocês — murmurou tão baixo que ele quase não
ouviu.
— Ei, ei, ei, nada disso. Você não tem com o que se preocupar. Nós cuidamos
dele.
— Ele precisava estar com você. Você sabe disso, Jackie. Não tinha como ele se
comprometer com o clube enquanto seu único compromisso era com você.
— Eu não devia ter feito isso com ele, não devia ter feito ele se sentir assim.
— Querida — Pete se inclinou ainda mais — você não fez nada errado. Você
criou esse garoto do jeito certo. Um bom filho sempre vai cuidar da mãe.
— Se continuar se esforçando assim, não vai ter forças para comer o sorvete
quando ele chegar — alertou Big Petey.
— Considere feito.
— Eu vou.
— Eu direi, querida.
Harlan herdara tudo dela. O cabelo espesso e leonino. O corpo alto e forte.
Como se ela tivesse desejado isso, e talvez tenha desejado, porque não havia nada
do pai nele.
— Eu sei.
Pete sentiu um instante de pânico, mas quando levantou o olhar para o monitor
cardíaco, viu os batimentos ainda lentos, mas firmes.
Ele a observou ali, naquela cama, mas a lembrança que permaneceu foi de como
ela costumava ser. Alta e dourada, não dobrada por uma vida que quebraria a
maioria, mantendo-se firme porque essa era Jacqueline McCain. E porque ela
precisava ser assim por seu filho.
Harlan estava de costas para ele, inclinado sobre a mãe, dando-lhe uma
colherada do sorvete.
Ela acordara para ele, porque estavam espremendo os últimos momentos,
tentando fazer um milagre ao prolongar o inevitável.
Big Petey viu quando Harlan se levantou e, pelo som que ouviu ao longe, soube
exatamente quando o copo da DQ foi jogado no lixo.
Big Petey se afastou da porta, seguiu até sua trike e só ligou para Rush depois
que chegou em casa.
Dias atuais…
Os favoritos de Jackie.
Big Petey posicionou a moldura ao lado das flores, cujas pétalas começavam a se
curvar e escurecer.
Dentro da moldura, havia uma foto de Diana segurando Chief, o gato rabugento
de Millie, junto ao peito. Hug estava próximo dos dois, os dedos enterrados na
pelagem do animal, mas seus olhos estavam fixos em Diana.
— Ela tem classe e coragem, é uma lutadora, tem um coração tão grande que
você nem acreditaria, e, como pode ver, é deslumbrante — ele disse a Jackie. — E,
mulher, ela ama aquele homem de um jeito intenso. Intenso de verdade. A mãe dela
disse algo cruel para seu garoto, e Di a cortou da vida sem hesitar. Foi algo para se
ver, eu te garanto. Simplesmente a tirou da equação. — Ele fez uma pausa e
acrescentou num murmúrio: — A mulher é uma víbora, mesmo.
— Nós tivemos isso, querida, e agora Di tem. Pode ter certeza — prometeu Big
Petey. — Ela está com ele. Agora ele está bem. Ele tem uma família, e a única coisa
que lhe resta fazer é aumentá-la.
Big Petey tocou o topo da lápide, sentindo o frio como uma queimadura nos
dedos.
— Pode descansar agora, linda. Está tudo certo — murmurou, deu um leve tapa
na pedra e respirou fundo.
Então, deixou Jackie para descansar, caminhou até sua moto e partiu, sentindo o
ar gelado cortar seu rosto e o vento frio em seus cabelos.
Isso poderia não fazer bem para suas articulações, mas naquele momento ele
não se importava.
Porque, como ele disse, finalmente, depois de anos de luta, guerra, dor e traição,
estava tudo bem.
E, de qualquer forma, sempre que estava sobre duas rodas, durante toda a sua
vida, Big Petey sentia apenas uma coisa: liberdade.
EPÍLOGO
“ROLL ME AWAY54”
Diana
Eu estava aninhada contra suas costas e, como parecia que ele não estava saindo
da cama para ir ao banheiro ou algo assim, mantive meu braço ao redor da sua
cintura, segurando-o firme.
— Alô?
Abri os olhos e vi que ainda estava escuro lá fora, mas era o começo de
novembro. Os dias eram mais curtos e, ao contrário da maior parte do mundo, nós,
moradores de Phoenix, não nos incomodávamos com isso, porque significava
temperaturas mais amenas e a cidade despertava para algo que parecia um Mardi
Gras que durava oito meses55.
Essa era minha linha de pensamento quando senti o corpo de Hugger enrijecer.
54
"Roll Me Away" é uma música do cantor e compositor americano Bob Seger, lançada em 1982. A
letra fala sobre um espírito livre, que sai em busca de algo maior do que a vida que tem. A música
simboliza liberdade, recomeços e a vontade de seguir em frente, sendo muito associada ao estilo de vida
dos motociclistas.
55
No Arizona, o clima fresco dura cerca de oito meses (de outono até a primavera), tornando a cidade
mais viva e movimentada nesse período. A comparação sugere que Phoenix passa de um estado
“hibernante” no calor para um período cheio de energia e eventos ao ar livre como o Mardi Gras - uma
festa famosa em Nova Orleans, conhecida por música, festividades e multidões nas ruas.
O resto do sono desapareceu no mesmo instante diante da energia que emanava
dele. Apoiei uma das mãos no colchão para tentar enxergar seu rosto.
Ainda assim, pude ver que sua expressão parecia esculpida em pedra.
Mas eu ouvi.
Ouvi a dor.
Ah, não...
Aproximei-me mais.
— Certo. Sim. — Ele fez uma pausa e finalizou: — Assim que der, estaremos aí.
— Querido? — repeti, agora com urgência, tentando empurrá-lo para que ficasse
de costas e eu pudesse ver melhor seu rosto.
Ele passou as mãos pelo rosto, um gesto que fazia sempre pela manhã, quando
ainda estava sob o efeito do que eu chamava de Névoa Matinal do Hugger.
Assim que suas mãos caíram para os lados, subi sobre ele, peito contra peito, e
segurei seu rosto com ambas as mãos.
Meu Deus.
Hugger me disse.
Foi nesse momento que percebi: o mundo havia desaparecido sob nossos pés.
Minha cabeça caiu, meu rosto afundando contra o peito dele, incapaz de
sustentar o peso da notícia.
Hugger deslizou os dedos pelo meu cabelo e segurou a parte de trás da minha
cabeça.
Afastei meu rosto úmido e avermelhado do pescoço dele, olhei para o rosto
bonito, mas abatido do meu homem, e murmurei de volta:
Nicole e Larry estavam no banco de trás. Hugger estava em sua moto, uma das
que lideravam a procissão. O rugido dos motores à nossa frente era ensurdecedor.
Nunca tinha visto uma guarda de honra tão impressionante em toda minha vida.
Mas não fiquei nem um pouco surpresa.
Ao chegarmos ao cemitério, havia carros e motos por toda parte. Larry, sentado
atrás de mim, saiu rápido para abrir minha porta e me ajudar a descer.
Estava frio. Antes de virmos, precisei correr até o shopping para comprar um
sobretudo e luvas. Mas eu não sentia nada.
Papai e Nicole se juntaram a nós. Papai segurou minha mão, Nicole entrelaçou o
braço no meu, mas antes que pudéssemos nos mover, Larry fez um som estranho.
Os únicos que não eram motociclistas e tinham permissão para seguir o grupo
do Chaos o fizeram. Eu os havia conhecido no dia anterior também. Seus nomes
eram Hawk Delgado, Brock Lucas e Mitch Lawson.
Também conheci todas as mulheres deles, que estavam por ali em algum lugar
(mas, naquele momento, eu não tinha forças para procurá-las). Assim como Mace
(que, aparentemente, era casado com Stella Gunn, a famosa estrela do rock!), além
de vários outros caras atraentes e suas esposas deslumbrantes, que mais tarde eu
descobriria serem conhecidos como os “Homens Nightingale” e as “Rock Chicks”.
Por fim, havia um homem tragicamente lindo que eu conhecera no dia anterior
como Knight Sebring, que estava acompanhado de sua mulher, igualmente bela,
chamada Anya.
O caixão era preto, sem flores, mas o emblema do Chaos havia sido pintado no
topo.
— Florzinha, acho que você deve ir com Rebel — murmurou meu pai em meu
ouvido.
Pisquei e olhei para ele, seguindo seu olhar. Rebel estava mais à frente, perto da
sepultura, com os olhos fixos em mim.
— Vamos, querida — incentivou Nicole, com uma mão suave em minhas costas,
me dando um leve empurrão. — Você precisa estar com a família de Pete agora.
Estaremos por perto, prometo.
Sim, claro.
Ela me levou para a segunda fileira de cadeiras, onde Archie, já sentada, estendeu
a mão para mim. Me acomodei ao lado dela, e Georgie fez o mesmo depois de mim.
Tyra e Tabby estavam sentadas à nossa frente, Lanie ao lado de Tyra, Elvira ao
lado de Tabby. Renae, a mulher de Pete (e mãe de Rosalie), sentava-se ao lado de
Lanie, com Rosalie ao seu lado. Depois vinham Millie e Carrie, que estava ao lado de
Elvira, com Keely na outra ponta.
Rebel, agora a rainha do Chaos, já que seu marido Rush era o presidente, sentou-
se ao nosso lado, junto com uma mulher que conheci no dia anterior, Bev. Ela já fora
casada com Boz, mas agora estava com outro homem cujo nome, com tantas
apresentações nos últimos dias, eu infelizmente havia esquecido.
De qualquer forma, percebi que, uma vez que você era Chaos e fazia jus ao
grupo, eles nunca te abandonavam.
Sempre.
As mulheres na fileira da frente tinham mais história com Big Petey. E as da nossa
fileira estavam ali para apoiá-las. Esse era o código dos motociclistas.
Assim que Raven chegou ao meu homem, ele a pegou no colo e a acomodou no
quadril. Imediatamente, ela repousou a cabecinha no peito do tio Hugger e envolveu
seu pescocinho com a mãozinha.
Clementine não era uma garota grande, mas também já não era tão pequena. No
entanto, isso não impediu Joker de fazer o mesmo de sempre.
Seguindo com esse assunto de crianças, Cleo e Zadie - as filhas de High e
enteadas de Millie - haviam puxado Wren, a filha do meio de Shy e Tabby, e estavam
aninhadas ao lado de Georgie.
Por fim, pelo canto do olho, vi o que parecia ser alguém acenando. Então, foquei
além das cadeiras e senti o peito apertar ao ver Maddy, vestida de preto, parada ali.
Seus olhos estavam avermelhados, e ela estava entre Elias e Emmylou - esta última
também com os olhos vermelhos.
Ela parecia triste, claro, mas não abatida (o que era bem típico de Maddy) e, o
melhor de tudo, parecia ter ganhado um pouco de peso.
Um movimento à nossa frente chamou minha atenção, e olhei para ver que
Carrie agora apoiava a cabeça no ombro de Elvira. Dakota tinha subido no colo dela,
e Vira envolvia o pequeno com os braços.
Só conseguia ver o perfil de Vira, mas, pelo que percebi, lágrimas silenciosas
deslizavam por seu rosto. Ainda assim, suas costas permaneciam eretas, e seu olhar
seguia fixo no caixão.
Tabby estava um desastre, e Tyra não estava muito melhor. As duas estavam
encolhidas uma contra a outra, buscando apoio, mas mantinham o olhar firme à
frente.
Não demorou muito para que todos chegassem e tomassem seus lugares. Então,
Tack, no centro do caixão, entre Rush e Hop, não hesitou em dar um passo à frente.
O silêncio tomou conta, e quando sua voz rouca ecoou, soou como um trovão.
Não consegui evitar um sorriso, porque era triste, mas era apropriado.
E eu entendi o motivo.
Ouvi muitas histórias sobre Kane “Tack” Allen. Vi aquele filme. Pelo que ouvi, vi e
soube, nada dobrava aquele homem. Ele tinha passado pelo inferno, tanto
pessoalmente quanto com o clube, e guiou seus irmãos para fora dele. Protegeu sua
família, as famílias deles. E fez tudo isso de cabeça erguida, olhar firme, costas retas,
ombros quadrados, visão clara.
— A única coisa a que podemos nos agarrar é que você viveu uma vida onde
dominou o vento. E, no seu tempo, foi selvagem como ele. Selvagem como o fogo.
Selvagem como o vento. E agora, finalmente, está livre.
— Você foi amado porque soube amar — disse Tack diretamente a Big Petey. —
O melhor pai que existiu. O melhor irmão que alguém poderia ter. O melhor homem
que já conheci. Houve momentos em que parecia que os anjos nos haviam
abandonado, mas nunca o fizeram. Havia um anjo entre nós. E esse anjo era você.
— Diga à sua garota que sentimos falta dela — ordenou Tack. — E siga firme,
meu irmão. Nos vemos do outro lado.
— No três!
Meu Deus.
Tabby, que todos consideravam a filha de criação de Pete desde que ele perdeu
a sua própria, abaixou-se e beijou o caixão primeiro. Rosalie passou a mão pelas
costas da mãe, e Renae se despediu por último.
— Tchau, vovô.
E eu?
Sim.
Eu chorava. Não era um choro alto, mas era um choro sentido, e ao meu redor
ouviam-se fungadas, tosses e lágrimas silenciosas.
Virei-me para procurar meu pai, mas Georgie segurou minha mão.
Mas eu aguentaria.
Precisava.
E por Hugger.
Fiquei sentada, observando aquela onda de motociclistas caminhando até suas
motos.
Eu não sabia o que aquilo significava, mas pelo tom dela, não parecia que eu
fosse gostar.
Nos últimos três dias, Hugger estivera tão calado, tão perdido, que eu não tive
coragem de insistir em detalhes. Ele apenas nos disse onde deveríamos estar e a que
horas. Naquela manhã, quando chegaram de surpresa, ele permitiu que meu pai,
Nicole e Larry o abraçassem. E dava para ver o quanto ficou surpreso e tocado por
eles terem vindo.
Mas, na maior parte do tempo, ele estava preso ao luto, e tudo o que eu podia
fazer era ficar por perto e garantir que ele soubesse que eu estava ali.
De repente, ouvi todas as motos ligando ao mesmo tempo e deixei meu olhar
percorrer a longa e densa fileira de Harleys.
O barulho cessou, e, após alguns segundos, Rush acelerou sua moto uma única
vez.
Levei a mão ao coração, depois aos lábios, e soprei um beijo em sua direção.
Archie e Georgie me guiaram até onde estavam meu pai, Nicole e Larry.
Uma festa acontecia do lado de fora do Complexo, mas, lá dentro, onde apenas
os membros do Chaos, Resurrection, Aces High (além do meu pai, Nic, Larry e
amigos próximos do Chaos) eram permitidos, o clima era sombrio.
Meus olhos estavam fixos no meu homem, sentado no bar, onde todos os irmãos
estavam reunidos, bebendo tequila e afundados em seus pensamentos. O restante
de nós mantinha distância.
Mas foi Nicole quem envolveu seus dedos ao redor do meu pulso.
— Então quebre o gelo, querida — agora era meu pai quem estava perto. —
Aqueles homens precisam de suas mulheres.
Merda.
Ele tomava cerveja em algumas ocasiões, mas não era de beber muito.
Ele mal tinha colocado o copo na mesa quando Shy o encheu de novo.
E Shy mal tinha enchido o copo antes de Hugger virar outra vez.
Shy nem se preocupava com um copo, simplesmente tomava seus goles direto
da garrafa.
Porra.
Eu tomei.
Caminhei até ele, o som dos meus saltos ecoando alto no silêncio solene.
Alguns dos homens me observaram se aproximar, mas, pelo olhar deles, eu não
conseguia dizer se estava fazendo certo ou errado.
Não apenas ouvi, mas senti a respiração dele falhar de forma intensa.
Fechei os dedos em seu cabelo, envolvi-o com o outro braço e escondi meu
rosto em seu pescoço também.
Não sei por quanto tempo fiquei ali com o meu, assim como minhas irmãs com
os deles, até ouvir Elvira dizer:
— Que se foda. Chega. Petey estaria tão puto com essa merda que cuspiria no
chão.
Espiei por cima do ombro de Hugger e vi seu homem — outro lindo, porque
parecia que o Chaos só atraía caras assim, mesmo que Malik não fosse do clube -
posicionando uma caixa de som bluetooth no bar, enquanto Elvira procurava algo
no celular.
E nem foi preciso esperar o próximo verso para que High, Snap e Shy também
entrassem no coro.
Todos no Complexo se reuniram ao redor do bar, e cantamos juntos.
Eu não sabia todas as palavras, mas já tinha ouvido a música, então fiz o melhor
que pude. E, a cada verso, cantávamos mais alto, um verdadeiro coro do Chaos e
Amigos entoando Roll Me Away, de Seger.
Estávamos cantando para nos despedirmos de Big Petey em sua última viagem.
Quando entenderam que o homem que ergueu aquele alicerce o fez tão forte
que ele jamais desmoronaria.
E perceberam que o homem que o construiu sempre faria parte da base sólida
sobre a qual algo belo havia sido edificado.
Mas, naquela noite, ele levou o tempo dele comigo, explorando cada detalhe do
meu corpo, e eu fiz o mesmo com o dele. Depois de um dia horrível como aquele,
foi simplesmente perfeito.
Talvez eu fosse a única mulher no mundo que queria que seu homem relaxasse
um pouco quando se tratava de organização.
— Por que eu sou o único cara no mundo pensando em voltar a usar camisinha
só pra minha garota não ter que sair da cama e ir até o banheiro depois do sexo? —
ele murmurou.
— Fechado — concordei.
Seus olhos desviaram para o lado por um instante antes de voltarem para mim.
Suspirei, estiquei o braço para pegar o telefone e desbloqueei a tela com o rosto.
Passei os olhos pelas mensagens, depois coloquei o aparelho de volta no criado-
mudo e me virei para ele.
— Vou fazer isso — respondi, deslizando os dedos pela sua barba. — Como você
está segurando as pontas?
E ele explicou.
— Quando perdi minha mãe, eu não sabia o que esperar, e isso foi uma merda.
Mas pior ainda foi ter que passar por tudo sozinho. Foi o que me deixou preso
naquilo. Eu não sabia como sair e não tinha ninguém para me mostrar o caminho.
— Perder o Pete não é menos difícil — ele prosseguiu. — Saber como essa dor
vai ser, porque já passei por isso antes, também não torna nada mais fácil. Mas,
desta vez, tenho meus irmãos, minha família… — Suas mãos pararam de deslizar
pelas minhas costas. — E tenho você.
— Baby, seu pai, o Nic e o Larry aparecerem hoje foi muito foda — ele sussurrou.
— É… — ele murmurou.
Sorri para ele. Não foi um sorriso radiante, mas foi verdadeiro.
Afastei o cabelo do seu rosto lindo, deixando meus olhos presos nos seus—
intensos, quentes, de um castanho profundo e cheio de sentimentos.
Então, sussurrei:
Quando se afastou, meus lábios estavam inchados, mas meus olhos ardiam com
lágrimas. Hugger sempre foi um beijo incrível, mas aquele… aquele foi o melhor de
todos.
Sendo a mulher incrível que era, Renae fez questão de embrulhá-los em papel de
Natal, mesmo que ainda faltasse bastante tempo para o Dia de Ação de Graças.
Abrimos os pacotes ali mesmo, diante dela. Eu sabia que Hugger não queria fazer
isso, e, para ser sincera, eu também não queria. Sabíamos que aqueles presentes
seriam como golpes diretos ao coração. Mas fizemos isso porque ela estava ali,
resistindo, mesmo estando quebrada por dentro. Esse era o segundo homem que
ela perdia - o pai de Rosalie havia falecido antes de Renae conhecer Big Petey. Se ela
queria ver nossas reações, então daríamos isso a ela.
Eram camisetas pretas (a minha era ajustada ao corpo - nossa, o Big Petey
prestava atenção nos detalhes ou o quê?).
Assim que chegamos em casa, liguei para Rebel para descobrir onde Pete tinha
conseguido aquelas camisetas.
Então, encomendei três para Hugger e três para mim, para garantir que sempre
houvesse uma limpa à mão.
As que Big Petey nos deu, mandei emoldurar em uma caixa de vidro e pendurei
na parede, bem atrás da cabeceira da mesa de jantar - o lugar que pertencia a Pete.
Agora, ele sempre estaria ali conosco.
Sempre.
Levantei o celular para tirar uma foto dele no exato momento em que ele se
virou para me procurar. Assim que me encontrou, sorriu.
Ouvi alguém chamar, mas não compreendi, pois a voz falava em japonês.
Levantei o olhar e vi uma mulher correndo em direção a Hugger.
Seu filho pequeno estava parado bem perto dele, olhando para cima com uma
expressão de puro encantamento, como se estivesse diante de uma criatura mágica
caída do céu.
Eu entendia perfeitamente o sentimento.
A risada infantil chegou até mim, e o que não pude deixar de notar foi o enorme
sorriso que iluminava o rosto da criança.
Hugger
Um ano e meio depois...
No meio da bagunça ao redor da lápide de Big Petey, Hugger encaixou mais uma
foto.
Era em preto e branco, mostrando uma imagem borrada.
Mesmo assim, ele a colocou entre uma foto de Rider fazendo cócegas em
Princess tão intensamente que precisou segurá-la para que ela não caísse de tanto
rir e outra de Joker e Travis - com Travis em cima de um banquinho, inclinado sobre
o capô de um dos projetos de Joke.
Perto dali, havia uma imagem de Jag pairando sobre o ombro de Archie
enquanto ela estava deitada em uma cama de hospital, segurando o recém-nascido
Graham nos braços. Outra mostrava vários de seus irmãos, suas mulheres, Hugger e
Di devorando tacos no Festival de Tacos em Phoenix no ano passado.
Também não muito longe estava a foto desbotada de Diana, usando um vestido
de noiva tomara que caia, cheio de rendas, com uma longa fenda lateral e duas
saias. Uma delas era reta, com uma pequena cauda de renda na parte de trás,
enquanto a outra era volumosa, caindo da cintura - um detalhe que ficava incrível
enquanto ela caminhava pelo corredor, mas que, felizmente, ela se livrou a tempo de
aproveitar a festa.
Isso rendeu aos seus irmãos um motivo eterno para zoá-lo, embora, na época,
nenhum deles tenha reclamado do open bar, do prime rib perfeitamente assado, da
extravagante mesa de sobremesas ou da pista de dança animada.
Di estava tão incrivelmente linda que era quase difícil olhar para ela (mas ele fez
um esforço e conseguiu).
E ela estava tão absurdamente feliz que ele não alteraria um único detalhe.
Nem mesmo o fato de sua mãe não ter comparecido - especialmente porque
não foi convidada.
Por outro lado, do lado de Di na igreja, o primeiro banco estava ocupado por seu
pai e sua então noiva, agora esposa, Gisele - uma mulher da mesma faixa etária,
elegante pra caramba (porque era francesa), linda, sofisticada e hilária. Hugger
achava ela incrível, e Di a adorava. Entre festas na piscina, jantares, Di e Gisele
cozinhando pratos franceses na sua cozinha e Gisele já tendo dois filhos e um neto
(até então), Nolan não vendeu sua casa.
Com eles e o restante da igreja praticamente lotada, sua mulher tinha amor de
sobra.
Nenhuma das fotos ao redor da lápide de Pete estava em molduras, mas todas
estavam bem presas, e Hugger fez questão de garantir que aquela nova também
ficasse segura.
E tudo isso significava que o que estava naquelas fotos era absorvido pela pedra,
pela terra e pelos ossos abaixo - exatamente onde deveriam chegar.
— Não vamos chamar nossa filha de Petra — Hugger disse pela quinquagésima
vez.
— Por quê?
— Isso é pão.
Ele a puxou pela nuca e grudou um beijo forte e molhado em sua boca.
Subiu primeiro.
Di montou atrás dele, enroscando os braços sob os seus, uma das mãos apoiada
em seu ombro, a outra espalmada contra o peito. Depois, encostou o queixo em seu
ombro.