@analivia_stts
Perspectivas: Gestalt-terapia e fenomenologia
(Merleau Ponty).
A Gestalt não tem uma definição estabelecida de
corpo, mas a autora traz algumas pistas:
• Husserl – Epistemologia. 1. Campo organismo/ambiente = O sujeito é
Consciência como um fluxo e algo uma totalidade (mente-corpo, no mundo).
intencional (sempre se relaciona com um Seus elementos não podem ser estudados
objeto/correlato). isoladamente na realidade.
Suspensão de sentidos.
2. Contato = Awareness (saber da experiência) e
• Heidegger – Ontologia. resposta motora ao campo.
Qual é o sentido do ser? No contato com o mundo, formamos
O dasein é pura possibilidade. Um ser-aí, no- gestaltens -> Uma figura que antes estava
mundo, com-os-outros, para-a-morte. indiferenciada se destaca do fundo, e agora
podemos direcionar uma ação motora a ela.
• Merleau Ponty – Filosofia. Isso se dá através do sentir e do excitamento.
Conceitos fundamentais: percepção e corpo. Não é um processo de estímulo-resposta, pois
O corpo é um ser senciente (que percebe as o organismo e o ambiente não são coisas
coisas, assim como é percebido). Não há diferentes. Eles estão imbricados.
separação entre corpo e consciência.
A consciência não é um “eu penso”, mas um
Na Gestalt-terapia, o existir se dá a partir do
“eu posso”.
campo organismo/ambiente.
Não existe consciência e nem pensamento
puros. Eles sempre se relacionam com seus
correlatos no mundo. O corpo é um ancoradouro no mundo que
A existência é comprovada pelas permite possibilidades, com os outros e no aqui-
possibilidades. “Posso, logo, existo”. agora, pelo movimento e pela ação criativa.
1
@analivia_stts
• O corpo se movimenta a todo instante e isso
é essencial para que ele se invente e reinvente Virtual = Aquilo que é possível, mas ainda não
a si e ao mundo. existe no concreto e no material.
• O movimento nos permite nos dirigir às
coisas percebidas.
O virtual é somente o oposto do atual, pois não
existe no aqui-agora.
O corpo é potência, possibilidade, e permite que
mesmo no presente possamos nos movimentar
• Olhar e perceber algo é um movimento, em em direção ao futuro. Ao permitir a virtualidade,
que o objeto se diferencia do fundo, ele é considerado um centro de ação virtual.
tornando-se figura.
• Porém, só vemos perfis das coisas, pois nunca
conseguimos enxergar todas as suas partes ao
mesmo tempo. Percebemos por perspectivas.
• Não há primeiro a percepção e depois o
movimento. Percepção e movimento são um 1. Concreto: implica tocar e pegar.
sistema que se modifica simultaneamente. Fundo = O mundo aberto e contingente (a
realidade compartilhada).
É dado ao sujeito, ou seja, ele não escolhe o
fundo nem a figura.
Ocorre no espaço material, no ser, no atual.
• A espacialidade do corpo é situacional -> Tem origem na situação e a meta da ação é
Dependendo da situação e da tarefa, sentimos algo no mundo.
o nosso corpo de modos diferentes (damos
atenção a certas partes, esquecemos de outras; 2. Abstrato: implica criar, projetar algo
fazemos movimentos específicos). imaterial. Ele que possibilitou a criação das
• O esquema corporal é a consciência global do tecnologias e o ciberespaço.
nosso corpo, quando integramos suas partes Fundo = O próprio sujeito escolhe qual será o
em um todo. Essa integração ocorre conforme fundo e também a figura.
o valor que cada parte do corpo tem para a Ocorre no espaço virtual/possível/não ser.
tarefa em que ele está engajado. Tem origem no sujeito e a meta da ação é o
• Quando um objeto se torna figura, o corpo próprio corpo, por isso é centrífugo.
desaparece, ficando em segundo plano.
2
@analivia_stts
Esses movimentos não são independentes um do
outro.
No mundo virtual, o corpo não está mais
ancorado no espaço-tempo e isso traz
consequências:
Ciberespaço = Espaço de comunicação aberto pela
interconexão mundial dos computadores. É o
espaço virtual. • Desmaterialização do eu: o “eu” também não
se limita mais ao espaço-tempo.
No espaço virtual, ele parece adquirir
• Ele nos permite viver o espaço-tempo de superpoderes, não existem mais certos limites
forma diferente do mundo material. e o “eu posso” se amplifica, dando uma ilusão
• Se nos conectamos virtualmente, como os de onipotência.
modos de subjetivação ocorrem agora? Ex.: é possível morrer várias vezes.
O eu torna-se ficcional, ancorado num espaço
e corpo virtuais.
• Desaparecimento do corpo: o corpo
A produção de sujeitos é um processo: desaparece de forma muito prolongada,
ficando o movimento restrito às mãos e aos
dedos.
• Corporal.
• Temporal. • O distanciamento do mundo material: o
• No mundo. ciberespaço nos atrai muito, mas mata o
• Com os outros. mundo concreto aqui e agora.
Relacionamentos virtuais substituem os reais
e diminuem o contato físico.
O processo de selfing se transforma na relação Ex.: casais que ficam no celular em um
corporal com o mundo e o outro. E há 2 fatores encontro.
importantes da contemporaneidade que
influenciam nisso: • O sujeito fica em uma espécie de transe, em
um universo abstrato aonde vai com o
pensamento, mas não com o corpo, ainda que
1. A relação com o espaço virtual (ciberespaço). isso produza emoções e afetos.
2. A relação com a lógica da produção intensiva Aparentemente a figura é o celular, mas na
e de eficácia (produtividade/trabalho). verdade é o mundo ao qual ele dá acesso.
3
@analivia_stts
• O problema da imagem: no virtual, a imagem
do corpo predomina. Padrões corporais são
Devemos analisar esse fenômeno complexo sem
criados para nos controlar, produzindo uma
buscar patologizá-lo.
estética massificada (as pessoas não são mais
singulares, todas estão iguais). O papel da clínica é promover um retorno ao
Busca-se uma saúde e um corpo perfeitos, a corpo vivo, no aqui-agora, e descentralizar o
partir de imagens idealizadas sobre si e a sujeito.
edição delas por meio do photoshop.
• Aula do dia 18/10/2024 da manhã.
A lógica produtiva também promove um estado • Cap.4 do livro “Questões do humano na
mortificado de existência, fazendo desaparecer o contemporaneidade”.
corpo, a presença e o outro pela aceleração do
tempo, do movimento e do fazer.
• Exigência constante de produção: toda ação
precisa ser útil e voltada ao profissional. Não
temos tempo para o tédio ou descanso.
• Desaparecimento do outro: também não
temos tempo para se preocupar com as
pessoas. Nossa relação com o outro é
instrumentalizada, ou seja, apenas
estabelecida quando ele será útil.
• Em um movimento concreto e centrípeto, as
forças do sistema ideológico introjetam
hábitos para controlar os sujeitos. Os corpos
tornam-se mecânicos e robóticos.
Portanto, é uma sociedade individualista, sem
alteridade, em que há a valorização do eu, a
espetacularização e o afastamento da relação com
o outro no mundo concreto.
4
@analivia_stts
Teórico da hipermodernidade e pós-modernidade, O capitalismo e a globalização permitem uma
abordando temas da moda e do consumo. produção personalizada em massa.
Afirma que na pós-modernidade tudo é hiper O hiperconsumo tem uma lógica subjetiva e
(lógica do excesso e exagero). emocional -> O consumo é individualizado e
serve para diminuir a ansiedade.
A identidade do consumidor se define pelas suas
• Neoliberalismo e excesso de estímulos.
escolhas diante um mercado acessível, sem
• Cultura da ansiedade e da insegurança.
barreiras.
• Hedonismo, individualismo e competição.
• Capitalismo e consumismo. Esse hipercapitalismo só aumentou as
• Cansaço, burnout, depressão, suicídio, TDAH desigualdades.
e transtornos de imagem/identidade.
• A gestalt-terapia sofre influências de várias
O homem pós-moderno trocou sua segurança áreas (psicanálise, psicodrama, teorias
para ganhar mais liberdade. reichianas, fenomenologia, budismo).
• Bases filosóficas: humanistas, existencialistas e
Sem o peso das amarras sociais e
fenomenológicas.
desinstitucionalizado pela descrença nas
autoridades, o homem fica com um vazio
ideológico e ansioso com tal instabilidade. A existência é contato (relações entre pessoas). E
Embora esse mundo tenha várias oportunidades o contato implica reconhecer as alteridades.
de diversão, o homem moderno vaga sem É na relação campo-organismo-meio que
objetivo. Não sabe o que quer nem como formamos nosso self e nossa identidade, através
alcançar. da percepção de si, dos outros e do mundo.
5
@analivia_stts
A experiência da realidade é sempre subjetiva, em
que há 2 esferas da existência:
1. Experiencial – A experiência direta.
• Anorexia.
2. Simbólica – Representações imagéticas que
• Bulimia.
fazemos da experiência.
• Dismorfofobia (insatisfação e distorção da
imagem corporal).
• Vigorexia (exercício compulsivo).
• Excesso de cirurgias plásticas.
Para Alvin, identidade implica em ser quem se é, A mídia estimula o sentimento de inadequação e
ter alteridade. vergonha, que pode levar à dismorfia, ações
Entretanto, os padrões sociais impostos anulam e danosas e até a autoinanição.
reprimem nossa individualidade, gerando tédio, Paradoxo -> A sociedade promove a
ausência de significado e a busca pela alienação. hiperalimentação, a compulsão alimentar e a
Vivemos distanciados e desconexos do nosso obesidade; mas exige um corpo magro e incentiva
corpo-tempo, do presente. o hiperconsumo de produtos fitness e dietéticos.
Somos prisioneiros do relógio, como corpos-
máquinas, vulneráveis às pressões sociais.
A sociedade cria um ideal e vende produtos para
atingi-lo, os quais só uma pequena parcela da • Pode tanto auxiliar as pessoas a
população consegue acessar. desenvolverem habilidades sociais, como
também matar as relações reais.
Ideal de beleza = Corpo sempre magro e jovem;
• Permite construir versões irreais de si.
rosto harmônico, simétrico e padronizado.
• Redimensiona as fronteiras do eu ->
Quando a imagem corporal real não corresponde Confunde-se o público e o privado, pela
aos padrões, introjetados consciente e perda da privacidade.
inconscientemente, as pessoas tentam se ajustar a
eles de modo disfuncional.
• Aula do dia 25/10/2024 da manhã.
• Cap.2 do livro “Questões do humano na
contemporaneidade”.
6
@analivia_stts
Biopolítica – Estado em que se faz a gestão da
vida e da morte, operando com técnicas
Achille Mbembe é um autor africano. disciplinares e dispositivos de segurança/controle.
A reflexão de seu livro “Necropolítica”, publicado
em 2003, pode ser aplicada ao contexto atual. • A noção de população é criada.
• Há a estatização do biológico -> O Estado
começa a exercer poder sobre a vida da
• Mbembe cria o termo necropolítica, o qual população. Não se governa mais territórios, e
deriva da biopolítica (Foucault), pois acredita sim pessoas.
esta não é suficiente para explicar a sociedade. • Faz a gestão da vida (ex.: controla o índice de
• Ele não nega a tradição filosófica (Foucault, natalidade e vacinas) e da morte (ex.: não dar
Hannah Arendt, psicanálise), e sim dialoga acesso à vacina a todos).
com esses autores para ir além. • A biopolítica também é uma necropolítica.
• Critica a tradição política, alegando que ela é
ingênua e construída em cima de fantasias,
como: “somos animais bons, racionais, que Como a biopolítica opera? Seu grande dispositivo
resolvem problemas pelo diálogo, entendem de regulação é o conceito de raça e o racismo.
os limites da soberania e têm um Estado de Os conhecimentos e as estatísticas viram
direitos”. instrumentos de controle do Estado para
• Para Mbembe, o homem é um ente que legitimar suas ações.
habita o mundo de morte, que mata e deixa
morrer, com pulsão de morte.
• A política tem um genocídio programado e Necropolítica – Estado em que se faz a gestão da
permitido. Um suicídio programado e morte (mata ou deixa morrer).
consentido.
• Isso não é uma leitura pessimista da política
ou defensora da violência, e sim realista. • É um trabalho da morte.
• O lugar da necropolítica é o campo de
concentração, a colônia e o sistema de
plantation.
7
@analivia_stts
• Um exemplo é Israel, que possui um poder
bélico forte e com o elemento racial operando
O poder soberano (do Estado, legisladores,
a favor da morte.
executores) leva ao direito de matar.
• Técnicas -> O Estado cria terras arrasadas,
destrói tanques de água, obstrui Do séc. XVII ao XIX, o Estado manipula a vida.
comunicações, impede a locomoção, a A biopolítica, com dispositivos de segurança,
energia, destrói símbolos culturais, saqueia território e medicalização, indica quem vive e
equipamentos médicos etc. quem morre.
• Outro exemplo é o Brasil na pandemia do A biologização foi exercida em séculos passados,
Covid-19, em que o Estado não protegeu a mas não na proporção atual. Ela tenta legitimar a
vida das pessoas. hierarquia entre grupos sociais presentes desde o
colonialismo e suas violências: genocídios,
O Estado brasileiro sempre operou na marginalização, segregação.
necropolítica, em todos os governos desde que O neoliberalismo faz uma administração biológica
começamos como colônia, ao proteger apenas social. Quando deixa certos grupos viverem e
certa parte da população. outros morrerem, produz um darwinismo social.
• A lógica neoliberal usa da biopolítica e • A modernidade é a sociedade do controle,
necropolítica para a violência e extermínio de com instrumentos para manter a população
povos e minorias sociais. disciplinada, socializada e ordenada.
• Os Estados de exceção (que suspendem • Ela produz corpos, mentes e subjetividades
direitos e pregam a violência) são a regra dóceis.
atualmente.
• Compreender o diálogo entre Mbembe e
Foucault para entender como a biopolítica se
transformou em necropolítica.
Para compreender a necropolítica, tanto em
Estados democráticos quanto totalitários, é
necessário entender:
Foucault alerta que o poder está em todas as
relações, em formato de rede, e se manifesta de 1. Biopolítica.
várias formas (discursos, saberes e disciplina). 2. Soberania.
Não é estático e nem concentrado em alguém. 3. Estado de exceção.
8
@analivia_stts
2. Grupo + radical: quer construir uma episteme
totalmente desvinculada dos países e autores
• A guerra é um meio de universalizar e exercer
colonizadores.
o direito de matar e ter soberania.
• Na filosofia política moderna, guerra
(desrazão) e política (razão) são opostas. O
Estado é um contrato movido pela
racionalidade.
• Mbembe discorda dos modernos, pois o 2 grandes fatores determinaram a ascensão das
Estado é um projeto necropolítico. A política governamentalidades do extermínio:
é guerra.
• A soberania estrategicamente permite ataques
contra grupos descartáveis na sociedade. As 1. A colonialidade e suas permanências no
tecnologias de poder que sustentam esse pensamento até hoje.
Estado são o racismo e o colonialismo. 2. O racismo.
Necropolítica = “Poder de tirar a vida ou deixar O campo de concentração é o território onde se
viver” (Mbembe). iniciou os projetos necropolíticos, transformados
na sociedade contemporânea no combate a
opositores ideológicos e inimigos que ameaçam a
ordem do neoliberalismo.
Os marginalizados (ex.: negros, imigrantes,
Mbembe critica as sociedades contemporâneas favelados) não são mais vistos como sujeitos de
com suas heranças coloniais e bélicas, que direitos. Sua morte já está determinada em vida.
transformam pessoas em “não seres”. Não há diálogo, e sim dialéticas: cidadão x
Questiona a filosofia tradicional, com seu modo marginal; bairro x favela; trabalhador x
de pensar colonizante disfarçado de neutralidade desocupado.
científica, que reproduz a sujeição.
Inclusive, ele faz parte do movimento decolonial,
em que há 2 grupos:
• Precisamos de uma psicologia que tem como
1. Busca acrescentar à episteme existente o ponto de partida a realidade dos colonizados.
conhecimento através da visão dos • Uma que não só importa o que é produzido
marginalizados. no exterior (Europa e EUA), pois constrói
Mbembe se encaixa aqui. conhecimento brasileiro.
9
@analivia_stts
• Que não apenas ensine a se adaptar à
sociedade, como também a transformá-la.
Mbembe retoma e revisa Foucault, percebendo a
transição do biopoder para a necropolítica no
Estado liberal e neoliberal.
• Aula do dia 01/11/2024 da manhã.
• Artigo “Descolonizar o poder: reverberações
de Foucault em Mbembe”.
10
@analivia_stts
(colonizados), de modo que haja alteridade ao
Na modernidade, a perspectiva ocidental e invés de um discurso hegemônico.
colonial é antropocêntrica (coloca o ser humano
Porém, isso é depreciado como se fosse uma
como o centro de tudo) e eurocêntrica (baseada
tentativa de mudar a história já estruturada. O
na visão de mundo europeia).
pensamento decolonial pode ser taxado como
Devido a eventos importantes na Europa, como o uma episteme não científica.
Renascimento, Iluminismo e a Revolução
Assim, é importante que a psicologia política seja
Científica, surgem as ciências humanas e os
crítica e considere a visão pós-colonial e
estudos sobre subjetividade e identidade.
decolonial. A intenção é relativizar os argumentos
A psicologia, como ciência humana, se tradicionais; analisá-los de outra perspectiva.
fundamenta nessa visão eurocêntrica.
Porém, há vozes dissonantes (autores decoloniais)
que problematizam tal visão, pois ela esconde
outras perspectivas de mundo e os determinantes
político-econômicos. Os estudos pós-coloniais não têm 1 única origem,
mas eles foram massivos na década de 80, na
Inglaterra e no EUA.
• Vozes indianas: Spivak e Bhabha.
• Vozes latino-americanas: Dussel, Mignolo e
Castro-Gamez (Argentina e Colombia). • A obra Orientalismo questiona a divisão
arbitrária do mundo: Ocidente x Oriente.
Eles argumentam que a história é contada de
modo que os europeus (colonizadores) se • Spivak: obra “Pode o subalterno falar?”.
colocam como vencedores, sem falhas. Critica Foucault e Deleuze, pois são
intelectuais que querem representar as
O movimento decolonial busca contar a história pessoas do terceiro mundo, mas não
sob a perspectiva dos marginalizados pertencem a ele.
11
@analivia_stts
Além de alegarem que mesmo que os
marginalizados possam falar por si, é melhor Bhaba então propõe sair dessa visão dualista
quando os intelectuais falam por eles. (nós x outros) para ir a um lugar de
Spivak traz os pontos: negociação.
Afirma que a modernidade esqueceu sobre a
1. O subalterno (marginalizado) não pode importância do colonialismo. Embora tenha
falar, e se falar não será ouvido. um discurso que pretende ser democrático,
2. Ao supostamente representar os racional e moralista, este é quebrado quando
subalternos, os intelectuais estão os imigrantes mostram como realmente são
transformando-os em objetos e elegendo a tratados (ex.: xenofobia).
si próprios como seus representantes
legítimos. E como esses argumentos ajudam a entender a
3. Os intelectuais, ao afirmarem que não concepção de identidade e subjetividade?
têm a intenção de retratar fielmente a
realidade, se desresponsabilizam pela sua
falta de transparência e são acríticos. • O mito da modernidade baseia-se na noção
4. Quando Foucault diz que o poder está em inconsciente de uma superioridade europeia.
todos, desconsidera que a sociedade • A subjetividade e a identidade sofrem
capitalista possui centros irradiadores de influência da ideologia colonial. Os
poder e produz desigualdades. colonizadores são vistos como superiores. Os
5. Os intelectuais perpetuam o status quo ao colonizados são vistos como inferiores.
manter o discurso hegemônico: a Europa • Não é só os europeus e norte-americanos que
seria a referência (“sujeito”) e todo o têm uma mentalidade eurocêntrica. O sujeito
resto é subjugado a ela (“o outro”). latino-americano também tem para si que o
ideal de ser é o ocidental, branco, homem.
• Bhabha: obra “A questão do outro”. • Não podemos entender esses processos de
A partir da psicanálise, aborda a questão de o forma rígida, a priori ou a-histórica.
grupo considerar o outro como estranho. • A subjetividade não é algo só do indivíduo.
O estereótipo e o fetiche do outro são Ela depende dos discursos sociais e das
fantasias que buscam negar a diferença (de condições materiais (financeiras).
gênero, raça e cultura), atribuindo um aspecto • A identidade é uma posição do sujeito
negativo a ela, porque a identidade daquele conforme as condições sociais. É melhor
grupo se vê ameaçada quando entra em falarmos de “identificações” em vez de
contato com o diferente. “identidades”, pois é algo contínuo e que
Como a alteridade não é aceita, busca impor pode mudar.
sua visão de mundo.
12
@analivia_stts
• No Brasil, os indígenas precisavam ser
convertidos religiosamente (na religião dos
Estamos familiarizados com o eurocentrismo, mas colonizadores) para serem considerados
Dussel oferece uma nova proposta: humanos.
• Houve também um epistemicídio, pois os
saberes dos povos não brancos foram taxados
• Atualmente, temos uma visão de que a de ignorantes, primitivos e supersticiosos.
Europa é civilizada, desenvolvida. Porém, isso
é muito diferente da visão da Europa na
Antiguidade Clássica, em que ela era tida A violência e a negação do outro explicitam o
pelos outros povos como habitada por duplo caráter da modernidade:
bárbaros (não humanos, não civilizados).
• Entre os séculos V e XII até o período
1. Internamente, é mostrada como racional e
medieval, a civilização mulçumana estava no
desenvolvida.
auge, enquanto a Europa era marginalizada.
2. Externamente, é o ápice da irracionalidade e
• A Grécia também não foi precursora da
da violência injustificável contra o outro.
Europa moderna. Isso é uma invenção
ideológica.
O Estado moderno não deve ser entendido
separadamente do colonialismo, pois seus
Pela visão eurocêntrica, a Europa sempre teve
benefícios econômicos, valores e preconceitos
sucesso e progresso, porém, essa história esconde
estão fundamentados nesse passado.
a face obscura deles: a colonialidade -> Genocídio,
etnocídio, estupros e escravidão dos outros.
• Através das grandes navegações, exploraram,
sequestraram, comercializaram e escravizaram
os povos pretos e os originários. A desconstrução da matriz colonial tem
• Essa história é contada pelo branco europeu consequências importantes para a psicopolítica,
como um processo de desenvolvimento. pois mostra que nossas subjetivações podem
A colonização é alegada como um ato resistir ao pensamento colonial.
civilizatório e humanizador. É como se esses A psicologia teve sua origem marcada pelo
povos já não fossem humanos antes; não entendimento de que há um modelo de ser
tivessem uma religião, forma de viver, humano ideal (homem branco europeu cristão),
costumes e valores legítimos. detentor da razão e por isso merece ser estudado.
13
@analivia_stts
O movimento decolonial critica essa psicologia:
• Com escassez de estudos sobre as concepções
de etnia, raça e colonialismo cultural.
• Considerada neutra -> Uma psicologia que se
diz neutra, na verdade, endossa o discurso
hegemônico europeu.
O fato de o DSM já ter considerado a
homossexualidade uma doença mostra que
isso não foi neutro, e sim influenciado pela
moralidade judaico-cristã.
• Baseada em um conhecimento científico que
busca quantificar e descrever, sem explicar os
fenômenos a partir de suas múltiplas causas
para propor mudanças sociais.
• Que não estuda a realidade brasileira, apenas
importa dados e pesquisas. Venera autores
europeus.
• É não-crítica.
O movimento decolonial busca transformar a
realidade presente e passada (ao acrescentar a
narrativa dos marginalizados na história).
Assim, faz-se necessária uma psicologia crítica
que leva em consideração a historicidade.
• Aula do dia 08/11/2024 da manhã.
• Texto “Contribuições do Pensamento
Decolonial à Psicologia Política”.
14
@analivia_stts
• Essa obra busca contribuir com o debate a
respeito das opressões contra a comunidade Os mitos sobre a origem da sexualidade e
LGBTQIA+. identidade de gênero da comunidade LGBTQIA+
• Ela contém uma pesquisa com esse público a seguir são usados como justificativa para sugerir
que dá voz a seus relatos de sofrimentos a existência de tratamentos para reorientar a
ético-políticos (tratamento desigual da sexualidade e gênero:
sociedade), violências, injustiças e exclusão.
• Há nisso a contribuição da Psicologia, visto
que psicólogos já tentaram reverter a • Conflitos de identificação com o pai/mãe.
orientação sexual e a identidade de gênero de • Na gestação, a mãe esperou ter uma criança
seus pacientes, mostrando como ainda existe de outro sexo.
uma patologização de comportamentos e • Distúrbio psicológico.
práticas não hétero/cis. • Ser só uma fase.
• A Resolução do CFP nº 01/99 estabelece • Problemas espirituais.
normas de atuação do psicólogo em relação à • Maldição familiar.
sexualidade, reforçando que a • Reencarnar no corpo errado.
homossexualidade não é uma patologia, e sim • Demônio.
parte da identidade da pessoa. • Influência dos amigos.
• Já a Resolução CFP nº 01/2018 estabelece • Abuso sexual.
normas de atuação para o psicólogo em • Traumas.
relação às pessoas transexuais e travestis, • Falta de estrutura familiar.
atuando contra o preconceito, ódio e a
patologização. Isso exemplifica como o padrão cis/hétero tenta
• A população LGBTQIA+ sofre tentativas de aniquilar subjetividades e as práticas psicológicas
aniquilamentos de suas subjetividades, de podem ser ferramentas para isso.
suas formas plurais de ser. A psicologia tem o
compromisso ético-político de combater
quaisquer formas de violência.
15
@analivia_stts
Sou gay, homem cis, negro e tenho 24 anos –
“Ele (o psicólogo) dizia que a minha
• A crença de que trans não se engajam em
homossexualidade teria advindo de uma relação
relacionamentos estáveis e duradouros.
inadequada com o meu pai. Segundo ele, quando
• Relacionarem a pessoa ser trans a ser
a criança do sexo masculino deixava de se profissional do sexo.
identificar com pai, ou se o relacionamento da
criança com pai fosse um relacionamento ruim,
ele não iria conseguir se identificar com o Esse estudo objetiva compreender os sentidos
masculino e, portanto, ia passar a buscar esse atribuídos à experiência conjugal por um casal
masculino em outros homens. À medida que isso cis-trans: Marcelo (homem trans) e Joice (mulher
não acontecesse, se tornaria um desejo cis).
sexualizado, e daí (surgiam) os desejos
homossexuais.”
• Abjeção: corpos cujas vidas são
desconsideradas e separados para não
As conjugalidades e relações amorosas “contaminar” os outros. Isso valida a exclusão
homoafetivas ganharam destaque na Psicologia, e discriminação social em relação a pessoas
porém, no senso comum, são discutidas através trans.
de preconceitos morais e religiosos.
• Abjeção por procuração: não só os corpos
Embora vivemos em tempos líquidos e a visão do abjetos sofrem, como também as pessoas à
casamento tenha sofrido inúmeras mudanças, tal sua volta.
como a de amor também mudou por ser um
conceito polissêmico e histórico, o desejo de viver • Dispositivo da heteronormatividade -> Impõe
uma vida feliz a dois ainda permanece. que o normal e o único caminho é o de ser
Na contemporaneidade, há várias formas de heterossexual.
conjugalidade: casar mas morar separado,
poliamor, casamento aberto etc. • Binarismo de gênero -> Estabelecer que só há
2 possibilidades de gênero: homem ou
Embora o tema sobre casais homoafetivos tenha
mulher.
ganhado atenção, pouco se estuda sobre
conjugalidade em casais cis-trans; e quando se
• Matriz sexual compulsória -> A sociedade
estuda, há vieses preconceituosos, apenas
demandar que a sexualidade, identidade de
contribuindo para estereótipos como:
gênero e corpo devem estar alinhados aos
padrões.
16
@analivia_stts
• Já Marcelo tinha dúvidas de entrar num
relacionamento, por ainda estar se
• Marcelo é um homem trans e, ao contrário descobrindo e pelo medo de se expressar.
do que o senso comum espera, sua vida não • O casal se incomoda quando perguntam
foi marcada por violência. sobre as diferenças de seu relacionamento em
• Desde sua infância, tinha dificuldade em usar comparação ao de casais cis heterossexuais,
roupas femininas, mas havia a cobrança por pois afirmam que são um casal normal e feliz.
parte de seus familiares de agir e parecer • Eles reconhecem muito a importância de ter
como uma menina. uma rede de apoio. “A nossa maior família
• Relata o incômodo ao passar pela puberdade. hoje são nossos amigos”.
Esse desconforto com o próprio corpo não
pode ser visto sem considerar o papel da
pressão que a sociedade faz.
• A família e a escola podem ser consideradas
os principais produtores de preconceitos • Resistir aos padrões sociais é uma tarefa
vividos na infância. difícil, mas que pode ser menos penosa
quando compartilhada dentro de um
relacionamento afetivo sólido.
• Pessoas trans são excluídas socialmente por
diversos locais. Seu acesso à educação e ao
mercado de trabalho são negados.
• Joice sempre se identificou como mulher cis. • Com o avanço das políticas neoliberais, o
Em sua adolescência, começou a gostar de sentimento de desproteção e desamparo social
homens e mulheres, o que foi mal-recebido aumentaram.
pelos seus pais e afastou a sua família. • É necessário que profissionais da saúde sejam
• Na sociedade, “ser feminina” equivale a ser acolhedores e tenham conhecimento acerca
heterossexual. Quando uma mulher gosta de da diversidade sexual e de gênero; além de
outra mulher, é como se ela não fosse mais mais estudos que deem visibilidade à
feminina. dinâmica de casais cis-trans.
• Livro “Tentativas de Aniquilamento de
• Joice nunca se preocupou com o gênero ou o subjetividades LGBTIS”.
corpo de seus parceiros. • Texto “conjugalidade cis-trans: reinventando
laços, desestabilizando certezas”.
17