Geologia Estrutural
Capítulo 6 – Reologia
• Reologia e mecânica do contínuo:
→ A reologia e a mecânica do continuo descrevem o fluxo das rochas, ao passo que a mecânica das rochas lida,
fundamentalmente, com o modo como as rochas respondem aos esforços por meio do falhamento rúptil e
do fraturamento.
→ Reologia:
▪ A reologia (do grego rheo = fluir) é o estudo das propriedades mecânicas de materiais sólidos, fluidos
e gases. Quando uma rocha aquecida flui, ela acumula deformação gradualmente, como uma geleira
em movimento lento, sem a formação de fraturas ou outras descontinuidades. Portanto, as rochas
também são estudadas na reologia.
▪ Crosta terrestre:
➢ Crosta superior rúptil: tende a se fraturar, um comportamento que está fora do campo da
reologia, mas que ainda é descrito pela mecânica das rochas.
➢ Crosta inferior dúctil: apresenta comportamento dúctil e as rochas e minerais sofrem processos
de deformação devido aos esforços diferenciais (pressão dirigida).
▪ A condição reológica de um material depende:
➢ Fatores externos:
❖ Temperatura: o efeito da temperatura é a principal razão pela qual o fluxo se concentra na
crosta média e inferior, e não na crosta superior mais fria.
❖ Presença de fluidos.
❖ Esforços envolvidos (tensões).
❖ Taxa de deformação: quantidade de deformação num dado tempo.
➢ Propriedade do material (rochas): muitos tipos de rochas e minerais (quartzo e feldspato) tendem
a se fraturar quando submetidos a esforços na crosta superior. Entretanto, em qualquer
profundidade em que camadas espessas de sal (evaporitos) ocorram, essas camadas irão fluir em
vez de se fraturar. Mesmo camadas de argila ou areia podem fluir quando a pressão de fluidos nos
poros é elevada. Portanto, o fluxo de rochas não é restrito a crosta inferior. Por outro lado,
terremotos profundos e evidências de campo indicam que rochas anidras da crosta inferior
também podem se fraturar sob determinadas condições.
→ Mecânica do contínuo:
▪ A mecânica do contínuo é um ramo da mecânica que lida com o comportamento mecânico de materiais
modelados como uma massa contínua em vez de partículas discretas. Considerando uma rocha como
um meio contínuo (sem microfraturas, sem limites entre os grãos minerais e sem poros), é possível
estuda-las através da mecânica do contínuo. As equações que descrevem matematicamente as
relações entre esforço e deformação são denominadas equações constitutivas (leis constitutivas) e,
como indica o termo constitutivo, a constituição ou composição do material é relevante.
▪ Em um contexto simples e idealizado da mecânica do contínuo, os materiais podem reagir aos esforços
de três maneiras fundamentalmente diferentes:
➢ Deformação elástica.
➢ Deformação plástica.
➢ Deformação viscosa.
▪ Além disso, ainda há a deformação rúptil e o fluxo cataclástico, que estão além dos domínios da
mecânica do contínuo. As deformações são comumente analisadas por meio de um gráfico do esforço-
deformação ou da taxa de esforço e deformação, no qual a deformação ou a taxa de deformação são
indicadas no eixo horizontal e o esforço no eixo vertical.
• Materiais elásticos:
→ Um material elástico resiste à mudança na forma, mas se deforma à medida que o esforço aumenta.
Idealmente, esse material recupera sua forma original assim que o esforço aplicado (força) for removido. A
deformação elástica é recuperável pois envolve o alongamento em vez da quebra das ligações atômicas.
→ Elasticidade linear e a lei de Hooke:
▪ Material elástico linear: apresenta uma relação linear entre esforço e a deformação (strain). Ao
colocarmos um peso suspenso na mola, ocorrerá um aumento no comprimento da mola. Se o peso
suspenso na mola for duplicado, o comprimento da mola também o será. Ou seja, a elongação da mola
é proporcional à força aplicada, e a mola retornará ao seu comprimento original quando a força for
removida.
▪ Lei de Hooke: afirma que a distensão de um objeto elástico é diretamente proporcional à força aplicada
sobre ele. Expressa a relação linear de um material elástico linear:
Em que:
➢ σ = esforço.
➢ e = elongação ou extensão (deformação unidimensional).
➢ E = módulo de Young (informalmente, rigidez de um material).
▪ Módulo de Young (constante de elasticidade):
➢ O módulo de Young pode ser visto como a razão entre o esforço normal e a respectiva extensão
ou encurtamento elástico (elongação) na mesma direção, e descreve o quão difícil é deformar um
material elástico ou uma rocha.
➢ Em uma deformação uniaxial, o módulo de Young apresenta uma relação próxima com o módulo
de cisalhamento (μ), que representa o quão difícil é deformar uma rocha sob cisalhamento
simples.
Como o módulo de cisalhamento (μ) está relacionado com a deformação por cisalhamento (γ), a
lei de Hooke pode ser descrita como:
➢ Uma rocha com pequeno valor de módulo de Young, é mecanicamente fraca e sua resistência a
deformação é pequena. Como a deformação (strain) é adimensional, o módulo de Young tem a
mesma dimensão do esforço (GPa = 109 Pa). O módulo de Young do diamante é superior a 1000
GPa (muito difícil de ser deformado) e o do ferro é de 196 GPa.
→ Elasticidade não linear:
▪ A maioria dos materiais elásticos não segue a Lei de Hooke, ou seja, não descreve uma linha reta no
espaço e-σ. Consequentemente, não há uma relação constante entre esforço e deformação, e o
módulo de Young não tem valor único.
▪ O material pode ser classificado de acordo com processo de deformação (carga) e com a recuperação
da forma original (alívio de carga), cujo gradiente pode ser descrito pelo módulo de Young:
➢ Material elástico perfeito: as curvas definidas pelo processo de deformação e de recuperação da
forma original são iguais. Nessa situação, o termo perfeito se refere ao fato de que o material
recupera perfeitamente sua forma original.
➢ Materiais elásticos com histerese: as curvas definidas pelo processo de deformação e de
recuperação da forma original são diferentes.
→ Deformação elástica e razão de Poisson:
▪ Efeito Poisson: é descrito como a diminuição da área de um corpo à medida que ele é elongado
positivamente.
▪ Material isotrópico incompressível perfeito:
➢ O material isotrópico apresenta o mesmo encurtamento em qualquer direção perpendicular à
direção de elongação, ao passo que se for incompressível perfeito não haverá alteração no volume
do sólido.
➢ Se colocarmos uma barra em um sistema de coordenadas com o eixo mais longo paralelo a Z, e se
considerarmos que o volume será preservado, a elongação segundo o eixo Z será balanceada pelas
elongações nas direções representadas pelos eixos X e Y.
Em que:
❖ eZ: elongação paralela ao eixo maior da barra.
❖ eX e eY: elongações perpendiculares ao eixo maior da barra.
➢ Como o material é isotrópico, ex é igual a ey e, portanto, a equação pode ser escrita como:
➢ O ex é negativo pois os eixos X e Y sofrem elongação negativa durante o estiramento na direção Z.
A consequência disso é uma redução na área da barra. Como o material é incompressível perfeito,
o encurtamento nas direções X e Y é contrabalanceado pela elongação na direção Z, sem alteração
no volume. Na deformação das rochas, sempre há variação no volume e o valor 0,5 da equação
anterior é substituído pela razão de Poisson (ν), que corresponde a razão entre a extensão normal
e a paralela ao vetor esforço σz:
▪ As rochas da crosta estão confinadas, e isso impõe restrições às variações de volume que elas podem
apresentar por extensão ou encurtamento nas direções horizontais. Um dado volume de sedimentos
ou rochas sedimentares sob soterramento sofre encurtamento vertical que pode ser compensado em
pequena proporção por uma extensão horizontal. Portanto, surgem esforços horizontais que se
contrapõem ao encurtamento axial eZ produzido pelo esforço vertical:
➢ Deformação vertical resultante do esforço vertical (eZ’):
➢ Deformações horizontais resultantes dos esforços horizontais (eZ’’ e eZ’’’):
Note, portanto, que na deformação elástica a deformação é proporcional ao esforço. A deformação
axial total pode ser expressa por:
Expressões similares podem ser desenvolvidas para os esforços horizontais:
Devido ao confinamento, a deformação horizontal é nula ou muito pequena nas rochas da crosta (eX =
eY ≈ 0), o que reduz o encurtamento vertical. De fato, a deformação vertical depende tanto da razão de
Poisson como do esforço vertical. Podemos rearranjar as equações anteriores à condição da crosta (eX
= eY ≈ 0).
▪ Compressibilidade de um material:
➢ É uma medida da mudança relativa de volume (deformação volumétrica) de um fluido ou um
sólido em resposta a uma variação na pressão ou no esforço médio. Portanto, se a deformação for
elástica, o módulo de compressibilidade (K) irá relacionar a variação de pressão com a mudança
do volume.
➢ O módulo global é o inverso da compressibilidade de um material. Desse modo, quanto maior for
o valor do módulo global, mais pressão será necessária para a compressão do material. É possível
reescrever a equação anterior, em que K se relaciona ao módulo de Young (E) e ao módulo de
cisalhamento (μ).
→ A teoria elástica descreve, de modo adequado, pequenas deformações que ocorrem na crosta superior.
Quando, porém, as rochas estão aquecidas, elas tendem a fluir e a acumular deformações permanentes.
Nesse contexto, é interessante considerarmos o modo como os fluidos respondem aos esforço
Comportamento elástico ideal (aula Fátima):
1. Relação linear: razão constante (módulo de Young ou constante de elasticidade).
2. Resposta instantânea: note que já no instante zero do gráfico c, instante em que é aplicada uma
tensão, ocorre a deformação.
3. Deformação recuperável.
Comportamento frágil: a ruptura se segue à deformação elástica, sem deformação permanete
anterior.Esse é o típico comportamento da rochas em superfícia quando um geólogo marreta uma rocha.
• Plasticidade e fluxo (deformação permanente):
→ As rochas nunca se comportam como fluidos, a menos que sofram fusão, mas em altas temperaturas e ao
longo do tempo geológico, sua reologia pode se aproximar muito da reologia dos líquidos.
→ Materiais viscosos (fluidos):
▪ Viscosidade (η): é a propriedade física que caracteriza a resistência de um fluido ao escoamento.
Equivale ao esforço dividido pela taxa de deformação, e é, portanto, medida em unidades de esforço
multiplicadas pelo tempo (Pas = 1 Poise; kgm-1s-1).
▪ Material viscoso perfeito (fluido newtoniano ou linear):
➢ É um material (ou fluido) cuja viscosidade, ou atrito interno, é constante para diferentes taxas de
cisalhamento e não variam com o tempo. Quando esse material recebe uma força externa, flui
como fluido. Isso significa que não há deformação elástica envolvida e, portanto, quando a força
é removida, o material viscoso não recupera a sua forma original. É uma deformação permanente
(irreversível).
➢ Existe uma relação linear entre o esforço e a taxa de deformação. Ou seja, quanto maior é o
esforço, mais rápido é o fluxo em um meio viscoso:
❖ Relação entre o esforço de cisalhamento (σS) e a taxa de deformação por cisalhamento (𝜸̇ ):
O cisalhamento de um meio (fluido) implica um esforço principal máximo (σ1), atuando 45o
em relação à superfície. Para pequenas deformações, essa situação equivale a orientação de
ISA1. Se o material for viscoso, o aumento do esforço resultará em cisalhamento mais rápido.
❖ Relação entre o esforço normal (σN) e a taxa de elongação (𝒆̇ ):
Enquanto na deformação elástica o esforço é proporcional a deformação, na deformação em meios viscosos o
esforço é proporcional à taxa de deformação. Portanto, a deformação viscosa é uma deformação dependente
do tempo. Ou seja, ela não é instantânea e se acumula ao longo do tempo.
➢ Uma analogia física de um material perfeitamente viscoso é um cilindro preenchido por óleo e
dotado de um pistão perfurado:
❖ Ao ser comprimido, o pistão se move através do óleo com uma velocidade constante e
proporcional ao esforço. Quando a força é removida, o pistão para e permanece no local em
que está. Se o óleo for aquecido, sua viscosidade diminui, e a força deverá ser reduzida para
manter a taxa de deformação constante.
❖ Se o óleo for substituído por um fluido mais viscoso, a força deverá ser maior para produzir a
mesma taxa de deformação. Caso contrário, o pistão irá se mover mais lentamente.
▪ Viscosidade relativa: está relacionada a competência de um corpo heterogêneo (como camadas
estratificadas) submetido a um esforço. A competência é a resistência que camadas ou objetos impõem
ao fluxo. As camadas mais viscosas tendem a apresentar boudinage/fraturamento ou flambagem
quando há extensão ou encurtamento paralelo as camadas. Uma camada competente é mais rígida ou
mais viscosa que as camadas menos competentes.
→ Apenas os fluidos (magmas, camadas de sal e lama fluidizada por sobrepressão) são verdadeiramente
viscosos, ou seja, apresentam viscosidade constante em função da taxa de deformação. No entanto, as
rochas apresentam comportamento viscoso não linear, ou seja, a viscosidade varia em função da taxa de
deformação.
→ Deformação plástica (fluxo de rochas sólidas):
▪ Deformação plástica: é a mudança permanente na forma ou no tamanho de um corpo sem que ocorra
fraturamento, acumulada ao longo do tempo pela manutenção de um esforço acima do limite de
elasticidade do material (tensão de cedência). No gráfico da esquerda, observamos que a deformação
elástica é substituída pela plástica quando o limite de plasticidade (tensão de cedência, σY) é atingido.
Quando o esforço é retirado, a deformação elástica é desfeita e a plástica permanece. No gráfico da
direita, o esforço é aumentado até o ponto em que ocorre a deformação rúptil.
▪ Leis de fluxo: descrevem o fluxo plástico. Um exemplo geral é a equação exponencial:
▪ Materiais perfeitamente plásticos (materiais de Saint Venant):
➢ Um material perfeitamente plástico é aquele no qual o esforço não pode ser elevado acima do
limite de elasticidade e a deformação pode continuar se acumulando sem nenhuma modificação
no nível de esforços. A resistência não é afetada pela taxa de deformação, ou seja, não importa a
velocidade com que o material seja forçado a fluir, a curva esforço-deformação não sofrerá
alterações. Um material perfeitamente plástico também é incompressível.
➢ Um análogo mecânico da deformação plástica perfeita é um objeto repousando sobre uma
superfície com atrito. Com o aumento da força aplicada, o objeto permanecerá sem deformação
até que a resistência do atrito (friccional) entre o objeto e a superfície seja excedida.
▪ Endurecimento e amolecimento por deformação:
➢ As rochas não se comportam como materiais perfeitamente plásticos quando sofrem deformação
plástica. É possível que a taxa de deformação seja responsável por isso e que o nível de esforços
se altere durante a história deformacional.
➢ Endurecimento por deformação:
❖ Significa que o esforço necessário para deformar uma rocha deve ser aumentado para haver
acúmulo de deformação plástica, pois as rochas se tornam mais resistentes e duras com o
avanço da deformação. Se o esforço continuar aumentando, o endurecimento aumentará até
que o material se quebre, resultando em uma transição de deformação plástica para rúptil.
❖ O endurecimento por deformação, durante a deformação plástica, é explicado pela
deformação em escala atômica. Nesse processo, ocorrem defeitos da estrutura cristalina
conhecidos como deslocamentos, que dificultam o acúmulo de deformação, endurecendo o
material. Desse modo, é necessário um esforço maior para haver deformação do material.
Temperaturas elevadas causam o relaxamento dos deslocamentos e, portanto, reduzem o
efeito do endurecimento por deformação.
➢ Amolecimento por deformação:
❖ Ocorre nos casos em que é necessário um esforço menor para manter a deformação em
curso.
❖ Fatores que causam o amolecimento são:
✓ Redução do tamanho dos grãos durante a deformação plástica (milonitização).
✓ Formação de minerais menos resistentes.
✓ Introdução de fluidos.
✓ Aumento da temperatura.
➢ Ausência de endurecimento e amolecimento: ocorre em materiais elástico-plástico perfeitos, em
que o material continua a ser deformado, após o yield stress, sem qualquer aumento no esforço.
Esse processo é denominado fluência (creep).
Comportamento viscoso ideal:
1. Relação linear entre o esforço (σ) e a taxa de deformação (𝒆̇ ): viscosidade (η).
2. Tensão depende da taxa de deformação.
3. Reação do material à tensão é retardada, ou seja, quanto mais tempo, mais deformação.
4. Deformação permanente (não recuperável).
Comportamento plástico ideal (aula Fátima):
1. Deforma em tensão constante uma vez atingida a tensão de cedência.
2. Tensão constante independente da taxa de deformação.
3. Deformação permanente.
4. Ausência de endurecimento e amolecimento por deformação.
Endurecimento por deformação: a tensão necessária para deformar a rocha precisa aumentar para que a
deformação se acumule, uma vez que a rocha se torna mais resistente e mais difícil de deformar.
Amolecimento por deformação: precisa-se cada vez menos tensão par manter a deformação acontecendo.
• Modelos combinados:
→ As rochas não se comportam como materiais elásticos, viscosos ou plásticos perfeitos. Na realidade, há uma
combinação entre esses três tipos de deformação durante a deformação das rochas.
→ Material elástico-plástico (material de Prandtl): são materiais que respondem ao esforço e a deformação
elástica até que o limite da elasticidade seja atingido e a deformação se torne plástica. O modelo elástico-
plástico é comumente aplicado na deformação em larga escala da crosta e do manto.
→ Material viscoplástico (material de Bingham): são materiais que fluem como um material perfeitamente
viscoso apenas acima de um certo limite de elasticidade. Abaixo desse limite não há deformação. As lavas
silicosas se comportam como um fluido viscoplástico em um intervalo significativo de temperatura. Devido
a seu conteúdo de cristais, apresentam um limite de elasticidade.
→ Material viscoelástico:
▪ São materiais considerados intermediários entre fluidos e sólidos, onde tanto o fluxo do fluido como a
resposta elástica do sólido estão presentes.
▪ Modelo viscoelástico de Kelvin: o comportamento viscoelástico de Kelvin é aquele em que o processo
de deformação é reversível, mas tanto a acumulação como a reversão da deformação são retardados.
Esse processo pode ser observado através do arranjo paralelo de uma mola em um amortecedor.
Ambos sistemas se movem simultaneamente sob a influência de um esforço, mas o amortecedor
retarda a extensão da mola. Quando o esforço é liberado, a mola retorna sua posição original, mas o
amortecedor novamente retarda esse movimento. Tal deformação é, portanto, dependente do tempo.
▪ Modelo viscoelástico de Maxwell: o material viscoelástico de Maxwell acumula deformação a partir
do momento que o esforço é aplicado. Primeiro, elasticamente e depois, de um modo
progressivamente mais viscoso. Ou seja, sua reação de curto prazo ao esforço é elástica, ao passo que
sua resposta a longo prazo é viscosa e, portanto, permanente. Esse modelo se ajusta ao manto, que se
deforma elasticamente durante a propagação das ondas sísmicas e de modo viscoso na convecção ou
no fluxo relacionado a carga litosfera. O análogo mecânico, nesse caso, é composto por um arranjo em
série de amortecedor e mola.
→ Comportamento linear geral: é um modelo que mais se aproxima da resposta natural das rochas
submetidas a esforços. O análogo mecânico é composto por dois modelos viscoelásticos em série. A
primeira aplicação de esforço acumula-se na parte elástica do modelo de Maxwell. Com a remoção do
esforço, a deformação elástica é inicialmente removida, seguida pelo componente viscoelástico. Entretanto,
uma parte da deformação referente ao modelo de Maxwell é permanente.
→ Esses modelos preveem uma relação linear entre esforço e taxa de deformação. Porém, nas rochas há uma
relação exponencial entre esforço e taxa de deformação, caracterizando materiais de comportamento não
linear. No entanto, esses modelos são úteis para o entendimento da mecânica de deformação.
• Experimentos:
→ Equipamento de deformação triaxial:
▪ Amostras cilíndricas são submetidas a uma pressão confinante (PC) e a um esforço axial principal (σa).
Todos os esforços são compressíveis e a amostra é:
➢ Encurtada: esforço compressivo axial > pressão confinante.
➢ Alongada: esforço compressivo axial < pressão confinante.
▪ Alguns aparatos de deformação podem gerar um movimento de cisalhamento rotatório (deformação
por cisalhamento), configuração em que uma torção se soma à compressão axial e à pressão
confinante.
→ Experimentos de esforço constante (fluência):
▪ Como analisado anteriormente, a fluência ocorre quando campo de esforços é mantido constante. Em
geologia, isso ocorre em:
➢ Movimento de solos em encostas, por meio do acúmulo de deslocamento em planos de falha
(fluência rúptil).
➢ Movimento lento de sólidos submetidos à esforços (fluência dúctil ou plástica).
▪ A fluência plástica é a deformação plástica de um material submetido a um esforço constante e
persistente enquanto está sob alta temperatura homóloga. A temperatura homóloga (TH) é a razão
entre a temperatura do material (T) e a temperatura de seu ponto de fusão (Tm).
▪ A figura abaixo mostra um diagrama geral de deformação-tempo para um experimento de fluência, em
que:
➢ Fluência primária (ou transiente): o esforço é rapidamente elevado e mantido em um nível fixo
➢ Fluência secundária (ou em estado constante): após a acumulação de deformação elástica, a
fluência ocorre com uma taxa decrescente de deformação.
➢ Fluência terciária: o microfraturamento ou a recristalização causam um aumento na taxa de
deformação. Esse estágio é interrompido quando fraturas macroscópicas se desenvolvem.
→ Experimentos com taxa de deformação constante: nesses experimentos, a amostra se deforma
elasticamente antes de acumular uma deformação permanente, ou seja, este é o comportamento geral das
rochas abaixo do nível de fraturamento. Em baixas temperaturas ou em taxas de deformação mais altas,
deve haver um aumento no esforço para manter a taxa de deformação constante devido ao endurecimento
por deformação. Em temperaturas mais elevadas ou em taxas de deformação mais baixas, a deformação
não causa endurecimento e se aproxima do estado constante.
• Fatores que afetam o comportamento dos materiais na crosta:
→ Aumento da temperatura:
▪ Reduz a resistência final da rocha (esforço diferencial no qual a rocha se fratura).
▪ Reduz o limite de elasticidade da rocha.
▪ Ativa processos plásticos em microescala nos cristais, como a migração de deslocamentos e a difusão.
→ Aumento da taxa de deformação:
▪ Significa aumentar o nível de fluxo por esforço. Portanto, o aumento da temperatura, que enfraquece
a rocha, contrapõe-se ao efeito do aumento da taxa de deformação.
▪ Significa que uma menor deformação plástica pode ser acumulada, pois a rocha poderá fraturar-se em
um estágio anterior.
▪ Aumenta a resistência da rocha à deformação. As rochas são menos resistentes em baixas taxas de
deformação, pois os processos plásticos em cristais podem acomodar mais facilmente os esforços
aplicados.
→ Aumento de fluidos (como a água):
▪ Enfraquece as rochas.
▪ Reduz o limite de elasticidade.
▪ Aumenta os processos de deformação plástica em cristais.
→ Aumento da pressão confinante: permite uma maior acumulação de deformação finita antes que a rocha
se rompa, favorecendo os mecanismos de deformação plásticas em cristais. Esse efeito está relacionado à
maior dificuldade de abertura de fraturas sob altas pressões confinantes. O efeito do aumento da pressão
confinante é contraposto por um aumento na pressão dos poros (em rochas porosas), o que reduz o esforço
efetivo.
→ Feições não isotrópicas (como foliações preexistentes): uma incipiente foliação em uma rocha torna a
extensão da rocha mais difícil na direção paralela à foliação, pois é preciso um esforço diferencial maior
para obter a mesma quantidade de deformação. Esse efeito diminui com o aumento da temperatura. Esse
processo pode ser observado nos blocos de rocha dos gráficos acima.
→ Tamanho dos grãos e a trama cristalográfica (fábrica): podem alterar o comportamento das rochas de
modos diferentes, dependendo da orientação das forças aplicadas. No gráfico abaixo observamos a
anisotropia dos cristais de olivina. A resposta aos esforços depende da orientação das forças aplicadas em
relação aos sistemas de deslizamento da olivina. Uma trama cristalográfica penetrativa pode existir no
manto, o que pode causar a existência de uma importante anisotropia mecânica e influenciar a localização
de riftes, zonas de transcorrência e orogenias. O efeito do tamanho dos grãos depende dos mecanismos de
deformação em microescala, mas no regime plástico, onde ocorre a fluência por deslocamento, a redução
do tamanho dos grãos tende a causar um amolecimento por deformação. Por outro lado, a redução do
tamanho dos grãos no regime friccional (rúptil) quase sempre implica em endurecimento por deformação,
devido ao intertravamento dos grãos.
Fatores que afetam o comportamento dos materiais na crosta:
1. Intensidade das tensões diferenciais:
a. O aumento da tensão diferencial favorece a ruptura. Não quer dizer que sempre irá ocorrer a
ruptura, já que o aumento da tensão diferencial nem sempre promove a ultrapasagem do limite de
resistência a ruptura.
b. O comportamento do material passa através dos seguintes estágios: elástico → viscoso → rúptil.
c. Em baixas tensões: comportamento elástico ou viscoelástico.
2. Aumento da pressão de confinamento aumenta resitência efetiva das rochas:
a. Aumenta a tensão de cedência (limite de plasticidade). Ou seja, aumenta o limite em que um material
passa de um comportamento elástico para o plástico.
b. Aumenta a tensão de ruptura (σr).
3. Aumento da temperatura:
a. Diminui a tensão de cedência (σy).
b. Aumenta a tensão de rupruta (σr).
4. Presença de fluidos:
a. Diminui a tensão de cedência (σy).
b. Aumenta a tensão de rupruta (σr): torna a rocha
c. Amolecimento por deformação: torna a rocha 5 a 10 vezes mais deformável (mais dúctil).
d. A pressão efetiva é a pressão de confinamento menos a pressão de fluidos. Se a pressão de fluidos
aumentar mais que a ressão de confinamento, o comportamento será o oposto. Ou seja, ao invés
de aumentar a ductilidade a rocha vai tender a quebrar (fraturamento hidráulico).
5. Taxa de deformação:
a. O aumento da taxa de deformação aumenta a tensão de cedência.
b. A diinuição da taxa de deformação diminui a tensão de cedência.
c. Sob taxadas de deformações normais (≈10-14/s) a deformação é da ordem de 10% em 1Ma.
• Definição de deformação plástica, dúctil e rúptil:
→ Material dúctil: é aquele que acumula deformação permanente ou flui sem fraturamentos macroscópicos
perceptíveis, ao menos, até o ponto que o limite de resistência for excedido.
→ Material rúptil: é aquele que deforma por fraturamento quando submetido a esforços além do seu limite
de elasticidade.
→ Deformação dúctil: preserva a continuidade de estruturas e camadas originalmente contínuas e descreve
um estilo de deformação dependente da escala, que pode formar-se por vários mecanismos de deformação.
As estruturas dúcteis são comuns em rochas metamórficas (rochas que sofreram deformação na porção
média ou inferior da crosta). A deformação dúctil também ocorre em solos e sedimentos inconsolidados ou
pouco consolidados, onde há distribuição de deformação em vez de formação de fraturas nítidas.
→ Deformação rúptil: característica reológica de material que, em determinadas condições termodinâmicas,
ao ultrapassar o limite de rigidez, deforma-se permanentemente em microescala por mecanismos de
deformação rúptil como o fraturamento rúptil, a rolagem ou o deslizamento friccional de grãos.
A área ou volume deformado pode ser:
1. Dúctil em escala sísmica ou mesoscópica (amostra de mão).
2. Rúptil em escala subsísmica ou microscópica.
Na imagem, observamos camadas que parecem contínuas na escala sísmica (a) e uma visão de detalhe em
que se percebe que a deformação é dada por múltiplas pequenas falhas.
→ Deformação plástica: é, em geral, definida como a mudança permanente na forma ou no tamanho de um
corpo, sem a ocorrência de fraturas e produzida por um esforço mantido além do limite de elasticidade do
material e pela migração de deslocamentos (em escala de estrutura cristalina). A teoria dos deslocamentos
indica que a plasticidade se inicia onde os minerais começam a se deformar pela migração de seus
deslocamentos, o que, em geral, ocorre em profundidades de 10 a 15 km. Os mecanismos plásticos ou por
plasticidade cristalina ocorrem em escala atômica sem rompimento das ligações atômicas por meio de
processos de fluência, como, por exemplo, a migração de deslocamentos.
→ Estilos de deformação e mecanismos de deformação:
▪ O termo rúptil pode ser usado em relação:
➢ Mecanismos de deformação rúptil: indica uma deformação friccional em microescala.
➢ Estilo da deformação (regime rúptil): onde tais mecanismo predominam.
▪ Dessa forma, podemos apresentar três situações distintas:
➢ Estilo rúptil e mecanismo rúptil: fraturas e microfraturas.
➢ Estilo dúctil e mecanismo rúptil: ausência de fraturas e presença de microfraturas.
➢ Estilo dúctil e mecanismo plástico: ausência de fraturas e microfraturas.
• Reologia da litosfera:
→ Três minerais são particularmente comuns na litosfera:
▪ Quartzo: deforma-se por mecanismos rúpteis sob temperaturas até 350 oC, que em um gradiente
térmico continental típico, correspondem a profundidades de 10 a 12 km. Em profundidades maiores
predominam os mecanismos por plasticidade cristalina (mecanismos de deslocamentos) e de difusão.
▪ Feldspatos: apresentam comportamento diferente devido à ocorrência de rupturas paralelas às
clivagens e à dificuldade de deslizamento, além dos deslocamentos escalonados (mecanismos de
deformação plástica em cristais). Os feldspatos deformam-se de modo rúptil até cerca de 500 oC e a
profundidades de 20 a 30 km.
▪ Olivina: a resposta aos esforços depende da orientação das forças aplicadas em relação aos sistemas
de deslizamento da olivina. A deformação é mais pronunciada na direção [110]. A olivina apresenta
comportamento rúptil até profundidades de cerca de 50 km.
→ Um modelo simples divide a crosta em uma parte superior rúptil e uma parte inferior onde o fluxo plástico
predomina. A transição entre elas é denominada transição rúptil-plástica (transição rúptil-dúctil). Em uma
crosta teórica ideal, uniforme e monolitológica, com o aumento gradual de temperatura, haverá uma única
zona transicional. As resistências das crostas seguirão diferentes leis:
▪ A resistência da crosta inferior: seguirá uma equação constitutiva (leis constitutivas), ou seja,
relacionada a constituição ou composição do material.
▪ A resistência da crosta superior: seguirá a Lei de Byerlee, que se baseia em experimentos friccionais
feitos em laboratório.
Duas curvas distintas de resistência são, portanto, traçadas a partir de dados experimentais:
▪ Curva plástica: é baseada em dados experimentais de quartzo.
▪ Curva rúptil: é independente da composição mineralógica, com exceção dos argilominerais.
→ As variações na composição mineralógica ao longo da litosfera podem causar a formação de camadas com
reologias alternadamente rúptil e plásticas (estratificação reológica):
▪ Crosta superior (domínio do quartzo): a partir de 10 a 12 km o quartzo começa a se deformar
plasticamente. Isso significa que, mesmo se o feldspato permanecer rúptil até cerca de 15 a 20 km de
profundidade, o quartzo ocorrerá em quantidade suficiente para que a crosta tenha uma deformação
predominantemente plástica em profundidade de 10 a 12 km
▪ Crosta inferior (domínio do feldspato): se o feldspato, que é mais resistente, se tornar reológicamente
dominante em alguma profundidade, a lei de fluxo dos felsdpatos adquirirá importância e a crosta
apresentará novamente uma deformação rúptil.
▪ Manto (olivina): No manto, dominado pela olivina, ainda mais resistente, é definido um novo
intercepto com a curva de resistência rúptil.