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Bruna Doc 05

O documento discute os conceitos de história, tempo e memória, enfatizando a complexidade e subjetividade na definição de história como ciência. O papel do historiador é destacado como fundamental na seleção de informações relevantes e na construção de narrativas históricas que esclarecem o passado e influenciam o presente. Além disso, aborda a importância da memória, tanto individual quanto coletiva, e a necessidade de uma análise crítica para evitar manipulações e anacronismos.
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O documento discute os conceitos de história, tempo e memória, enfatizando a complexidade e subjetividade na definição de história como ciência. O papel do historiador é destacado como fundamental na seleção de informações relevantes e na construção de narrativas históricas que esclarecem o passado e influenciam o presente. Além disso, aborda a importância da memória, tanto individual quanto coletiva, e a necessidade de uma análise crítica para evitar manipulações e anacronismos.
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

ESCOLA DE HUMANIDADES
CURSO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: HISTÓRIA, TEMPO E MEMÓRIA — Prof. Dr. Luciano Aronne
de Abreu

BRUNA CRISTINA OLIVEIRA PUPE

O SENTIDO DOS CONCEITOS: HISTÓRIA, TEMPO E MEMÓRIA E O


PAPEL DO HISTORIADOR NA CONTEMPORANEIDADE

PORTO ALEGRE — RS
2020
1. O SENTIDO DOS CONCEITOS: HISTÓRIA, TEMPO E MEMÓRIA E O
PAPEL DO HISTORIADOR NA CONTEMPORANEIDADE

Debruçar-se sobre conceitos como história, tempo e memória é permitir-


se cair em ambiguidades e subjetividades que permeiam esses conceitos não tão
concretos nem palpáveis. É arriscar constantemente cair nas armadilhas do nosso
valor de juízo e até mesmo no senso comum que estão impregnados no âmago
social e cultural que estamos inseridos. História é a narração de eventos
genéricos importantes? História é a narração de eventos que têm determinada
importância a uma sociedade e/ou a alguma nação? São indagações dessa estirpe
que caímos enquanto historiadores na dificuldade em definir o que é história e o
que pode ser tratado como ciência.
A partir do século XIX, época em que a história passou a ser considerada
uma ciência, distanciando-se da literatura, buscou-se criar métodos e critérios
para que legitimasse o que passaria a ser a ciência histórica. Nesse contexto, na
França, quando surgia um demasiado patriotismo e a formação da unidade
nacional que surge a chamada Escola Metódica, também chamada de Positivista.
Os metódicos debruçando-se sobre a consolidação da história como ciência
consideravam-na como a narração de eventos e personagens relevantes para o
Estado. Desde então surge uma História que personifica indivíduos como heróis
nacionais.
Ao longo do tempo, novas escolas históricas surgem com novas
definições para o que podíamos considerar como sendo história. Ainda no século
XIX surgirá a Escola Marxista que denomina que a história pode ser fixada na
constante luta de classes, ou seja, grande fixação com os processos e realidades
econômicas. Entretanto, irá surgir no século XX, a Escola de Annales, que vai
abrir o leque de possibilidades do que se pode considerar como sendo história.
Perde-se em Annales essa fixação dos estudos históricos em requisitos rigorosos
e inflexíveis do que se pode chamar história.
A afirmação aqui trazida é de extrema importância: tudo possui história,
mas nem tudo é história. Pode haver contrariedades advindas de outros
historiadores com percepções que se diferem a essa. Mas a explicação é simples:
é um fato que tudo possui uma história e isso deve ser levado em conta, mas
nem toda informação sobre algo pode ser considerada como conhecimento
histórico. Mas a radicalização dessa afirmação não é um dogma nem
fundamentalismo, mas sim relativa para as circunstâncias que se insere. Cabe a
nós, historiadores, definirmos o que pode e o que não pode ser levado em conta
em nossas pesquisas e naquilo que queremos contar. Dentro da afirmação
supracitada entra o papel fundamental do historiador em selecionar informações
relevantes para a narrativa histórica.
O papel fundamental da História é “esclarecer a memória e ajudá-la a
retificar os seus erros” (LE GOFF, 2003, p. 29). Além do esclarecimento, a
história é responsável por dar sentido a processos e a fatos sociais que existem
ou se deram em algum momento no passado e influenciam processos e fatos
sociais no presente. Uma das preocupações dos historiadores é dar sentido a
eventos que ocorreram no passado e influenciam reproduções ou consequências
no presente.
“Toda a história é bem contemporânea, na medida em que o passado é
apreendido no presente e responde, portanto, a seus interesses, o que não é só
inevitável como legítimo.” (LE GOFF, 2003, p. 51), exemplifica Jaques Le Goff
ao mostrar-nos que a história serve para sanar as dúvidas quanto ao presente, e
que toda narrativa histórica é permeada por presentes e visões de mundo
contemporâneas, ou seja, as visões que o historiador, o qual faz a narrativa
histórica, possui da história são, inevitavelmente, frutos do seu tempo e de sua
sociedade.
Mas o exercício da pesquisa histórica e de sua narrativa, logo após como
história, deve haver cuidados de critérios e metodologias que cabem à
responsabilidade do próprio historiador. A história que não atende nem é
investigada através dos métodos propriamente científicos pode ser manipulada e
posta em xeque quanto a sua legitimidade como conhecimento histórico. Isso
acontece pela plasticidade da história e, também, comumente, pelas inclinações
parciais do próprio historiador — o que é para nosso ofício um grande crime e
irresponsabilidade. As manipulações nas narrativas ocorrem por diversos fins:
atender aos interesses de quem conta; enaltecer algum personagem ou evento;
atendar aos interesses de quem quer a narração (quando envolvem núcleos
ideológicos, partidos políticos, grupos com interesses comuns etc.).
Basicamente, o historiador é o interlocutor principal entre o passado e o
presente, mesmo que essa linha divisória seja tênue e arriscada de traçar. Já que
o conceito de tempo e o que é próprio dele são questões difíceis de afirmarmos
como padrões dentro do campo da ciência histórica.
O tempo histórico não se iguala ao tempo biológico ou físico como
muitos ainda pensam. Ele não se constitui por uma linha reta e constante que
segue fixamente a uma só direção nem é igual para todas as sociedades.

“Ao estudar os homens que vivem em sociedade [...], a


história se serve de um tempo social, ou seja, de referências
temporais que são comuns aos membros da mesma
sociedade. No entanto, o tempo não é o mesmo para todas as
sociedades: para os historiadores atuais, é o de nossa
sociedade ocidental contemporânea.” (PROST, 2008, p. 97)

Os indivíduos possuem noções de sua realidade em conformidade com o


seu tempo. Suas preocupações, suas máximas importâncias, suas opiniões são
diretamente e invariavelmente ligadas ao tempo em que ele está inserido. Não há
inconsistências quanto a isso. O historiador, por sua vez, obrigatoriamente deve
levar em conta essas questões para que não cometa anacronismos graves nem
imponha suas próprias percepções em contextos que se diferem do presente —
da sua contemporaneidade.
Nossa sociedade ocidental contemporânea utiliza-se do tempo cristão
para fazer a contagem de tempo. Unificou-se ao longo da história uma noção de
tempo que possui um marco fundador, o nascimento de Jesus Cristo.

O cristianismo marcou uma viragem na história e na maneira de


escrever história, porque combinou pelo menos três tempos: o tempo
circular da liturgia, ligado às estações e recuperando o calendário
pagão; o tempo cronológico linear, homogêneo e neutro, medido pelo
relógio; e o tempo linear teológico, o tempo escatológico. 1” (LE
GOFF, 2003, p. 57)

Apesar da ideia de linearidade que o tempo cristão faz surgir, existe


dentro deste mesmo tempo, um tempo cíclico que acaba fixando-se manias
1
Escatologia: doutrina que trata do destino final do homem e do mundo; pode apresentar-se em
discurso profético ou em contexto apocalíptico.
temporais de regresso constante de tempos em tempos, tal qual as datas
religiosas e, também, as estações do ano que, apesar da influência do próprio
planeta (tempo físico), finda e recomeça após determinado tempo.
“O iluminismo e o evolucionismo construíram a ideia de um
progresso irreversível que exerceu maior influência na ciência histórica do
século XIX.” (ibidem). Veio do século XVIII, essa noção encrustada de que o
tempo e a história é constantemente atrelada a um progresso sem nuances. Por
isso, em muitas mentalidades coletivas e individuais tratam o passado como
tempos que realmente eram bons.
A memória é outro conceito que devemos tratar e utilizá-la com cuidado.
Por ser um fenômeno individual e psicológico é passível de ambiguidades e
influências externas e empíricas que a não legitimam como verdade absoluta.
A memória individual como fonte histórica requer a minuciosidade da
análise de um historiador competente, para que possa usufruir de certas
narrativas, advindas da memória, fragmentos úteis para a construção de uma
narrativa mais próxima da objetividade. No caso da memória coletiva,
fragmentos e projeções sobre um passado compartilhadas por indivíduos da
mesma sociedade, devemos nos ater às reproduções sociais sobre tradições,
algumas vezes eventos passados figurativos — por exemplo, mitos fundadores
ou marcos na história daquela sociedade —, costumes reproduzidos por
determinado grupo de indivíduos.
As diferentes vivências individuais e coletivas acarretam significados
diferentes diante de certos contextos, por exemplo: pessoas beneficiadas de certa
forma pela ditadura terá sempre boas impressões para com aquele contexto; já
pessoas que tiveram vivências ruins ou ideologias que se diferiam do contexto,
terão impressões ruins para com aquele contexto.
Em suma, a história é uma grande “colcha de retalhos” que exigem a
organização e a atribuição de sentido dados por nós, historiadores. Na
contemporaneidade, se faz extrema a necessidade do ofício do historiador para
termos, não presságios do nosso futuro, mas para esclarecer maneiras para que
possamos criá-lo constantemente da melhor maneira possível.
Atualmente, vários eventos históricos foram recobertos sob a escuridão
de revisionismos pedantes e errôneos de certa forma.
O fundamental papel do historiador não resume-se apenas em esclarecer
o passado e dar sentido ao presente, mas também incentivar um sentimento
reflexivo em toda a sociedade. O historiador é devedor constante da verdade
sobre o passado ao mesmo tempo que é responsável pela consciência crítica do
seu presente.

REFERÊNCIAS:

LE GOFF. Jaques. História e memória. 5ª edição. Campinas: Editora da UNICAMP,


2003. 541 p.
PROST. Antoine. Doze lições sobre a história. Belo Horizonte: Autêntica Editora,
2008. 369 p.

OBRAS CONSULTADAS:

ROJAS. Carlos Antonio Aguirre; MALERBA. Jurandir. Antimanual do Mau


Historiador: ou como se fazer uma boa história crítica? Londrina, PR: Eduel, 2007.
p. 165.

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