AUTOR CARLOS JORGE PAIXÃO Doutor em Educação pela UNESP

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História da Educação

UNIDADE 1
HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÃO 1.1 CONCEPÇÕES DE HISTÓRIA 1.1.1 Concepção Positivista O pensamento de Augusto Comte (1798-1857), denominado de Positivismo, surge no século XIX, com a pretensão de ser uma síntese definitiva da evolução humana pautada em elementos oriundos da lógica das ciências exatas e naturais, na busca do estado positivo ou científico. (PAIXÃO, 2001; 2003; 2004). Segundo Augusto Comte, em sua obra intitulada Curso de Filosofia Positiva, publicada em 1830: [...] O caráter fundamental da filosofia positiva é tomar todos os fenômenos como sujeitos as leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços, considerando como absolutamente inacessível e vazia de sentido para nós a investigação das chamadas causas, sejam primeiras, sejam finais. (COMTE, 1830, p. ) Assim, a história, no sentido positivista, baseia-se nos fatos descritos e demonstrados nos documentos de origem oficial. 1.1.2 Concepção Marxista Marx (1818-1883) surge, no século XIX, colocando o homem e sua história como decorrência das condições materiais determinadas pela economia política. Os meios de produção e as classes sociais são fatores que se destacam na estruturação e organização da sociedade, a partir da distribuição das riquezas. Para Marx (1983, p. 194):
[...] temos que começar constatando o primeiro pressuposto de toda existência humana e por tanto de toda história, a saber, o pressuposto de que os homens precisam estar em condições de viver para poderem fazer história. Mas para viver é preciso antes de mais nada, comer e beber, morar, vestir e ainda algumas coisas mais. O primeiro ato histórico é, portanto, engendrar os meios para satisfação dessas necessidades, produzir a vida material mesma, e isto é um ato histórico, uma condição básica de toda a história que ainda hoje, como há milênios, precisa ser preenchida [...]

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No marxismo, a história é determinada pelos meios de produção que estabelecem a base material da sociedade. As idéias dependem das condições econômicas da sociedade, manifestadas na situação socioeconômica dos homens, distribuídos em classes sociais, nas quais quem detém o capital, domina os que estão destituídos deste. A metodologia para produção do conhecimento histórico baseia-se na dialética materialista. Segundo Gamboa (1996, p. 106), o método dialético aborda o fenômeno em suas contradições numa perspectiva histórica e dinâmica. 1.1.3 Concepção do Annales A História faz parte da vida dos homens e mulheres, que por sua vez, constroem a existência, em sociedade, com idéias e coisas, que surgem no cotidiano de uma espécie de cultura viva ou por outro lado de ambientes sofisticados e eruditos como as academias.

História da Educação O século XX, entre a década de 20 e a década de 60, ainda profundamente marcada pelas concepções positivistas e marxistas, assiste a um movimento de inovações na produção do conhecimento histórico em torno da Revista Os Annales, organizada por Marc Bloch e Lucien Febvre. O grupo da revista Os Annales sofre influências do marxismo (materialismo histórico e dialética materialista), porém deixa de incorporar a “luta de classes” como uma categoria de análise da História. Segundo Ciro Flamarion Cardoso (1981 apud LOPES, 1989), as principais características dos Annales são:
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Passagem da História Narração à História Problema; O caráter científico da História é dado, mesmo em se tratando de ciência em construção; Contato e debate com as outras ciências sociais (adoção de problemáticas, métodos e técnicas); Ampliação dos limites da História, abrangendo todos os aspectos da vida social: civilização material, poder e mentalidades coletivas; Insistência nos aspectos sociais, coletivos e repetitivos; Ampliação da noção de fonte para além da escrita (vestígios arqueológicos, tradição oral etc.); Construção de temporalidades múltiplas, ao contrário do tempo línea e simples da historiografia tradicional; Reconhecimento da ligação indissolúvel e necessária entre passado e presente no conhecimento histórico, reafirmando-se as possibilidades sociais do historiador. História Nova, que, de certa forma, prossegue a linha da inovação dos Annales, repousa sua novidade em três processos: ▪ Novos problemas – põem em causa a própria História; ▪ Novas contribuições – modificam, enriquecem, transformam os setores tradicionais da história; ▪ Novos objetos – no campo epistemológico da História.

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Goff e Nora (apud LE GOFF, 1990, p. 14), principais articuladores dessa nova busca de redefinição da História, explicam que:
[...] O essencial não é sonhar, hoje, com um prestígio de ontem ou de amanhã. É saber fazer a história de que temos hoje necessidade. Ciência do domínio do passado e da consciência do tempo, deve ainda definir-se como ciência da mudança, da transformação. Uma História Nova pautada nas necessidades de mudança da sociedade, que investigue os vestígios do homem do passado no presente, tendo o futuro como referência.

História da Educação 1.2 CONHECIMENTO HISTÓRICO Os estudiosos do conhecimento histórico, em sua maioria, demarcam a fundação da história, a partir dos estudos de Heródoto, que surgiram no século V antes de Cristo, na Grécia, tendo como conteúdo a descrição da guerra entre Gregos e Persas (490-479 a.C.). Para Heródoto, a História era mais que uma simples descrição dos eventos em torno de um fato grandioso realizado pelos homens; ela consiste em investigar, em pesquisar na tentativa de encontrar a verdade, informa Borges (1981). A partir da Grécia, a idéia de história sofre uma série de variações, dentro do espaço-tempo das civilizações com seus autores de estilos e de formações das mais diversas, produzindo uma série de definições sobre a mesma conforme demonstramos, a seguir. Marc Bloch (apud MENDES, 1993, p. 8) define que:
[...] O objeto da história é por natureza o homem. Melhor: os homens. Mais do que o singular, favorável à abstração, convém a uma ciência da diversidade o plural, que é o modo gramatical da relatividade [...]. O bom historiador, esse assemelha-se ao monstro da lenda. Onde farejar carne humana é que esta a sua caça [...] Ciência dos homens, dissemos nós. É ainda muito vago. Temos de acrescentar: dos homens do tempo. O historiador não pensa apenas o humano. A atmosfera em que o seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração.

A história não se basta com o singular, busca nas suas investidas o sentido da duração dos homens, nas diversas formas de expressão de sua humanidade, materializada nos monumentos e descrita nos documentos, que espelham a trajetória coletiva da cultura humana. É ciência que estabelece a identificação do ser humano dentro das cronologias, ao investigar e interpretar suas lembranças, resgatando suas recordações como "marcas", que ao serem decifradas colocam o homem diante de si, com seu retrovisor de feitos singulares e coletivos, um ser da consciência. Philippe Ariès (1986, p. 22) apresenta a seguinte reflexão:
[...] As culturas são, pois, necessariamente diferentes umas das outras, e cabe ao historiador apreender essas diferenças. Como? Através de um jogo de espelhos e de ricochetes, que o historiador vai aprendendo, na sua vida cotidiana. Vejamos um exemplo: leio, num artigo de Paul Veyne, que a alta sociedade romana preferia a adoção à filiação natural para a sucessão numa herança ou num determinado poder. Este fato interessa-me, primeiro, como um traço característico da civilização romana da época. Mas, em seguida, apercebo-me de que a preferência pela adoção desapareceu, durante a idade média e a época moderna, até que nos nossos dias começa a reaparecer. O fato em si, que é a adoção - e a não-adoção - torna-se o revelador de uma diferença fundamental entre várias culturas.

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Assim, a cultura pode alterar-se em um mesmo espaço, a mudança pode acontecer dentro de um determinado tempo em uma mesma sociedade. O fato histórico que em um determinado período, pode ser considerado determinante do comportamento de um grupo social, pode alterar-se, ou até desaparecer; este movimento, dentro da trajetória humana, estabelece a diferença cultural entre grupos sociais que habitam a mesma geografia. E o estudioso da história, deve neste caso, estabelecer uma periodização, pois sem este recorte no tempo, dificilmente, obterá sucesso em sua investigação. Segundo Ariès (1986, p. 24):
[...] A história é, e deve continuar a ser, o conhecimento das aparências, cuja ilusão não deve denunciar, mas da qual deve descobrir os elementos que, muitas vezes, estão ocultos e que dela fazem uma estrutura coerente. O historiador cedo se apercebe de que existem dois tipos de aparências, as que são manifestas e estão à

Para Raoul Glaber. Esta função de pedagogia moral manteve-se por muito tempo – Michelet. pretendia-se mostrar aos homens como é que Deus queria que eles agissem. um ponto comum é a tentativa dos historiadores de colocar o homem diante de si. apenas notadas pelos seus contemporâneos. por outro lado. p. garantindo os elementos mais importantes no retrovisor. Para que serve a história? A história é. antes de mais nada. Tradicionalmente. do público e. Então. Todo conhecimento científico traz a marca de seu autor. Georges Duby (1986. pela interpretação das obras mais clássicas e de fontes primárias investigadas e devidamente identificadas. O processo de investigar a história busca nas suas investidas o sentido da duração dos homens. decretos. O homem é o centro da construção do conhecimento histórico. visível e contextual e.] Estamos aqui perante a questão da função da história. que foi variando ao longo dos tempos. A dimensão espacial está relacionada com a necessidade de localização geográfica da sociedade ou civilização escolhida para o desenvolvimento do estudo. ofícios. coletando e tratando documentos. ocupava a cátedra de História e de Moral.. Em geral. Mas também é verdade que a história sempre desempenhou uma função ideológica. os estudos históricos partem da investigação dos eventos do passado. que espelham a trajetória coletiva da cultura humana. o produtor do conhecimento histórico deve ocupar-se das "aparências". Espaço e tempo são duas categorias que se destacam na delimitação dos estudos históricos. 1. segundo Mendes (1993. quando ensinava no Collège de France. dar conta da escavação dos elementos acumulados ao longo das etapas e dos períodos componentes do passado.3 MÉTODOS. apresentavam ora estudos historiográficos de fidelidade às determinações de grupos dominantes. INVESTIGAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DE HISTORIOGRAFIAS As idéias e ações humanas são objetos de busca do historiador. pela formação e pelos interesses de seus autores. subterrâneas. nos seus diversos períodos da trajetória humana. evidências da ação dos agentes históricos em um determinado tempo e espaço de uma civilização. representa interesses de grupos e determina o desenvolvimento das políticas.História da Educação vista de todos. um divertimento: o historiador sempre escreveu por prazer e para dar prazer aos outros. que podem ser desenterrados.. é marcada pela personalidade. p. nas diversas formas de expressão de sua humanidade. atas. ora estudos críticos e revolucionários. situado no tempo e no espaço de uma cultura de uma civilização. apesar das variações da história. e as ocultas. todos ao lidarem com os estudos historiográficos. essa função consistia numa interpretação moral dos fatos: narrando os acontecimentos do passado. possivelmente. buscando dimensionar o que está na "vitrine". que situados em estados e instituições. a história no decorrer do tempo e das culturas. para que. materializada nos monumentos e descrita nos documentos.14) faz uma análise crítica da função e do desenvolvimento da história: [. os documentos são representados por cartas. das regras de cunho moral que fazem parte da interpretação constante na obra dos historiadores em diversas épocas. Dizemos que. o conjunto de idéias dentro de uma sociedade em geral. sofre as marcas das idéias no decorrer do tempo. A história enquanto construção de um conhecimento sobre o homem. encontrem um pouco de sua memória individual e coletiva. legislações etc. 144): 5 .

. deve ser direto – da realidade em foco. de um grupo humano. estudioso ou não. apresentados como prova e os documentos – todo esse material. As fontes históricas podem apresentar-se em várias facetas: vestígios arqueológicos. pensamos com o produto substantivo da investigação histórica. a investigação de sua possibilidade. por vezes insuperáveis. onde está localizado o investigador.História da Educação [. giram os agentes históricos. Buzzi (1994. caminha na direção de uma seleção dos dados de maneira a compor uma sucessividade de eventos que sejam capazes de traduzirem as ações e as expressões dos agentes históricos do passado.. tentam esgotar questões em torno de personagens. na ciência histórica. então. a investigação histórica carece de uma delimitação no tempo e no espaço de uma sociedade. Os materiais do passado são as fontes de abastecimento da produção do conhecimento histórico e a única maneira de orientar a investigação histórica no tempo presente.. pretensiosamente. sobretudo. As fontes históricas.. 2001. uma vez que dificilmente um pesquisador apresenta condições de estudar múltiplas cronologias. A problematização. encontrar-se-ão dificuldades. A . são dados que evidenciam um tempo-espaço. de uma civilização. fatos e eventos... Para Schorske (2000.. a correlação de forças entre eles. à nível do conhecimento – o qual. 13): [.] Pensar com a história não é o mesmo que pensar sobre a história. p. (PAIXÃO. é o tempo. tratando-se de um quadro geográfico excessivamente amplo. 72) destaca que: [. o conhecimento produzido e acumulado nas obras (teoria). com as imagens que formamos do passado.] A delimitação espacial de qualquer estudo histórico impõe-se. genericamente. devido a dois fatores: impossibilidade de se extrapolarem conclusões de uma área estudada para outra que não tenha sido objeto de estudo. Com efeito. na construção das historiografias. 6 Assim.] A árvore fala da natureza. com a ilusão de se criar uma “grande história”. do homem. testemunhos. responsável pela seleção de acordo com o recorte eleito para a definição de seu objeto de estudo. o devagar de seu constituir-se [. arquitetônicos.] A história é a preocupação do homem. que. geralmente. pré-históricos.. p. Pensar com a história implica o emprego dos materiais do passado e das configurações em que os organizamos e compreendemos para nos orientar no presente. 2003). denominado de "fontes". a fim de nos definir por diferença ou semelhança a ele. de se localizar no passado é devido aos vestígios e evidências deixadas por outros homens nas diversas formas de documentar a trajetória da civilização humana. como uma forma geral de produzir sentido. Uma outra categoria fundamental. com suas características culturais. a história. A possibilidade de um homem contemporâneo. sob pena de naufragar no oceano panorâmico dos “estudos universais”. uma segunda impossibilidade – de ordem prática e inerente à própria natureza humana – prendese com o estudo de áreas demasiado extensas. a demarcação cronológica é inevitável para que a pesquisa alcance viabilidade e validade. a circulação de idéias. industriais e comemorativos. sempre que possível. em geral. Isso é o que os filósofos ou teóricos da história fazem. o que convencionamos chamar de uma época da cultura humana. 1993). da pesquisa das fontes e do tratamento de dados. é a razão da existência da investigação histórica. Em torno de um problema histórico selecionado. (MENDES. e o tipo de sociedade na qual se desenvolve o evento. monumentos artísticos. Em um modo. A dimensão temporal torna-se imprescindível. por meio do estudo realizado no tempo presente.

em busca de resposta ao problema proposto. com o intuito de compor uma história total. pelos pesquisadores e estudiosos da história. contribui com a pedagogia disponibilizando seus métodos e técnicas de investigação para que o educador possa apropriar-se dos eventos pedagógicos que ocorrem nas diversas épocas e nas diversas sociedades. com o apoio teórico-conceitual das obras de outros estudiosos. história da ciência. mas que. consiste em tentar uma compreensão da parte. Dois grandes caminhos vêm sendo trilhados. A história. já que. Dificilmente.4 HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÃO Os estudos históricos ou historiografias derivam em geral. políticas e sociais. porque como nos diz um mote antigo. produzidos ou reproduzidos na forma escolar e não escolar para a reconstrução da memória coletiva dos fenômenos educativos. e nem é possível universalizar o estudo realizado. sem pretensão de produzir uma "grande história". a necessidade do pesquisador de delimitar o seu problema. analisando a posição de Saviani. História gasta tempo para fazer o homem. Alguma lacuna há de ficar. é certo. em qualquer área. mostrando que há uma tendência que dá ênfase à primeira palavra da locução – história –.. o hominizar-se do homem. p. como ciência que interpreta os atos humanos. preferencialmente. tomando como referência a teoria acumulada pelos historiadores. A proposta de Saviani é que se desloque a ênfase para a segunda palavra mesmo ocorrendo o risco de apenas inverter a hipertrofia. história econômica. resultado da investigação sistemática de um tempo dentro de uma sociedade. concluiu que: [.). o método historiográfico analítico e o método historiográfico globalizante. onde os bens simbólicos da cultura são apresentados. o estudioso da história e de suas variantes (história da educação. porém. aparente e falso. passa a ser imprescindível para início do estudo e da investigação. faz a análise de questões ligadas ao magistério dessas disciplinas. buscando a universalização do estudo. a história. construirá uma história total (global). portanto. 37). O outro caminho busca a construção de uma história de longo alcance temporal e geográfico. a segunda – educação – aparece como uma mera conseqüência. capaz de dar conta de uma grande época. Eliane Lopes (1989. em que a delimitação de um tempo (cronologia). o caminho mais seguro. história da psicologia etc. o ponto de 7 . flores e frutos apresenta o florescimento da natureza. segundo ele. que não é possível com um projeto de pesquisa dar conta da história total (global). A preocupação do professor em dominar a história acaba por colocar a educação na penumbra. buscando a Função do ensino de Filosofia da Educação e de História da Educação.. dentro de um contexto mais amplo. Entendemos que a demarcação espaço. Os caminhos da história são diversos. São os atos humanos que o historiador busca estudar em cada cronologia e em cada espaço com os métodos de investigação adequados ao problema e o desenrolar dos fatos na época selecionada. de uma sociedade inteira com suas múltiplas determinações econômicas. entendermos que uma posição pode ser anunciada após alguns anos trabalhando com estudos historiográficos. dentro de uma determinada sociedade (espaço). Faz parte da natureza do processo de construção do conhecimento científico. O risco. O primeiro caminho constitui-se em um percurso por dentro da história com um itinerário parcial (história parcelar). elegendo um foco para aprofundar e avançar com seu estudo. mesmo que o método possa ser plenamente utilizado. 1.História da Educação árvore de mil folhas. mas válido até os dias de hoje: "Sem teoria não se constrói o conhecimento científico". que nos ensina cotidianamente. de uma civilização ou até de um determinado grupo humano. a ênfase e. tempo e personagens é uma exigência do fazer científico.] Dermeval Saviani. do conhecimento histórico acumulado.

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nos mosteiros: ela se caracteriza por poucos intercâmbios e é toda devotada à fé cristã. mas também aberturas proféticas e fragmentos utópicos que nos apresentam uma imagem mais complexa e mais rica da Idade Média. a época do meio entre dois momentos altos de desenvolvimento da civilização: o mundo antigo e o mundo moderno. 1999). da identidade supranacional etc. que se manifestam com toda a força nas criações artísticas e técnicas. Foi. (CAMBI. A Idade Média não é. toda esta longa época: conferindo-lhe conotações de dramaticidade e de tensão. aos seus dogmas. desenvolvese somente no castelo do feudatário ou nas igrejas e. é a principal responsável pela formação dos homens na época.História da Educação UNIDADE 2 EDUCAÇÃO NA EUROPA MEDIEVAL E MODERNA 2. a partir do ano 476 demarcação do fim do Império Romano e o ano 1492 da descoberta da América. por isso denominada também de sociedade feudal. sobretudo. A cultura. Segundo Cambi (1999. fundaram o tempo do cristianismo católico. de modo particular. nutre as mentalidades. A Alta Idade Média corresponde ao período que vai das invasões bárbaras até as proximidades do ano mil. mas enfraquecida que antes. A fé cristã. A igreja. caracterizando. do empenho produtivo. governada por um senhor que age dentro dele como fonte de direito. a época da formação da Europa cristã e da gestação dos pré-requisitos do homem moderno (formação da consciência individual. A identidade da idade média está associada às duas classes que detêm o poder no período. a composição dos Estados Nacionais e a presença embrionária da nova classe – a burguesia. aos seus mitos. Assim como uma fase histórica que se coagulou em torno dos valores e dos princípios da religião.1 O CONTEXTO MEDIEVAL A Idade Média corresponde ao longo período delimitado. produzindo e consumindo in loco as mercadorias de que tem necessidade. por meio do fundamento cristão. 9 . que se empenha na sua defesa militar. heresias e revoltas camponesas. e também uma identidade mais próxima de nós e de nossa sensibilidade. marcada por forte espírito comunitário e uma etapa da evolução de alguns saberes especializados como a matemática e a lógica. A Idade Média costuma ser dividida em duas grandes fases: Alta Idade Média e Baixa Idade Média. em geral de subsistência.) como também um modelo de sociedade orgânica. econômica e cultural. temos a Baixa Idade Média marcada pelo surgimento das cidades e da expansão do comércio. 155): O feudo é uma unidade territorial. que impõe aos habitantes do feudo a obrigação à fidelidade e à submissão. p. Um tempo caracterizado pela força da economia feudal e pela hegemonia do cristianismo. A partir do ano mil. e o ressurgimento dos valores laicos. absolutamente. Um tempo de transformação política. no feudo. reduzindo ao mínimo o intercâmbio e apresentando-se predominantemente agrícola. respectivamente. constrói os ideais e desenham um imaginário que atravessa as fronteiras das cronologias até os tempos modernos. o clero e a nobreza que. A economia do feudo é. que conjuga a presença da Igreja. por meio da Igreja e do Império. sobretudo. no centro da Europa. A sociedade medieval estrutura-se em torno do feudo. o despertar das ciências e das artes. em troca de proteção.

conservador. que passam a empregar método de ensino pautado no debate de questões teológicas. a partir do ensino dos valores do Cristianismo adaptado ao contexto dos mais pobres. embora amparado. por franciscanos e dominicanos. pelas pilastras universalistas da Igreja e do Império. Além disso. na escola catedral de Notre Dame que servirá de base para a fundação da Universidade de Paris. ferreiros. por exemplo). 1990). para organismos diversos. as ordens pauperistas e mendicantes.] Também a educação não é estranha a este processo. que transformam as oficinas em ambientes de ensinoaprendizagem. 1997). por exemplo). As escolas Monásticas (ou abaciais) cuidavam da formação religiosa por meio do estudo de textos sagrados e da meditação. É todo um mundo que vai se renovando.. na Alta Idade Média. como descreve Cambi (1999. Mudam as técnicas e transforma-se o trabalho. administradores do império e filhos da nobreza. fundando os alicerces racionalistas e as sementes dos ideais de uma educação moderna e humanista. a via mística utilizará a razão para desenvolver o significado da fé e a sua relação com a vida social. desenvolvida em escolas organizadas pela Igreja Cristã Católica. p. a partir das transformações das escolas catedrais..1 Educação na alta idade média e na baixa idade média A educação. (MANACORDA. representadas. também surgem as primeiras universidades. Os estudos na universidade duravam de cinco a sete anos. por volta de 1150. que inaugurou esse modelo de escola em seu próprio palácio. também político. 10 As corporações que surgem na Baixa Idade Média são criadas em torno dos ofícios artesanais (alfaiates. principalmente. segue uma pedagogia eclesiástica. Estes novos modelos pedagógicos ainda marcados pelo cristianismo. que implica cada vez mais competências especializadas e envolve cada vez mais indivíduos por conhecimentos e interesses comuns: nascem as corporações. filosóficas. uma iniciativa do Imperador Carlos Magno (742-814).1. Como exemplo deste tipo de educação universitária da época. Já a educação na Baixa Idade Média sofre grandes modificações. agora. mas fortemente ativos na vida social (as cidades e as nações). desenvolvem seu apostolado. mais locais e mais diluídos. após sete anos de estudo. por assim dizer. jurídicas e até médicas. Três tipos de escolas ganham destaque no período: as monásticas (ou abaciais). isto é. (LUZURIAGA.História da Educação 2. a partir de agora. dirigida pelo monge inglês Alcuíno de York (730-804). formalista e não-criativo caracterizado pela tradição e submissão à autoridade eclesiástica. as catedrais e as palacianas. distanciando-se do modelo escolástico apresentado pela Igreja Católica. conflitam entre si e deixam espaço. temos o trabalho de Abelardo. estabelecendo uma relação pedagógica entre mestres e aprendizes. mas que. . Os títulos eram de bacharel com cinco anos e de magister. Renova-se a ideologia. [. 173). que vê o povo cada vez mais protagonista ativo de movimentos ideais e de lutas sociais (as seitas pauperistas ou as lutas camponesas. Eram escolas construídas ao lado da igreja em que o bispo tem seu trono ou cátedra. Nesse período. onde o ensino visa à formação de religiosos. estão voltados para a laicização do intelecto do homem e de sua vida social. As escolas Catedrais eram escolas com a missão de formar o clero secular com um modelo educativo didático. tecelão. As escolas palacianas ou palatinas visavam formar eclesiásticos.

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portanto devem ser investigadas. As teorias pedagógicas tomam uma conotação histórica e empírica.2 O CONTEXTO DA ÉPOCA MODERNA A Época Moderna ou Idade Moderna começa a partir do marco simbólico da descoberta da América (1492). prisões e manicômios) agem em função do controle e da conformação social. CAMBI. O homem europeu passa a descobrir e valorizar a razão e tudo o que pode advir como produto da racionalidade. . caracterizou-se por grandes transformações nas estruturas da Europa Ocidental. 1999). a partir do século XVI. 1990. As grandes navegações empreendidas. posto como artífice de sua sorte no mundo em que vive. competências das quais o sistema tem necessidade). efetivamente. os fins da educação destinam-se a um indivíduo ativo na sociedade. Transformações econômicas e sociais determinaram as mudanças no modelo jurídico-político.  Como revolução econômica: fim do modelo feudal (agrícola). Entre essas instituições. JACQUES. início de uma economia de intercâmbio (mercadoria. de modo analítico e experimental. político. ou o início do sistema capitalista. social. marcando definitivamente esse tempo de mudança – os tempos modernos. além da família e da igreja. (CAMBI. Este longo período da segunda metade do século XV até o século XVIII. econômico. a substituir as estruturações ideológicas do teocentrismo. ideológico. 1999).História da Educação 2. como ainda da oficina. 12    Mudam os meios educativos: toda sociedade se anima de locais formativos. a passagem do feudalismo para o pré-capitalismo. operando no sentido educativo. cada vez mais orgânico e funcional para o desenvolvimento da sociedade moderna: da sua ideologia (da ordem e da produtividade) e do seu sistema econômico (criando figuras profissionais. pelas novas estruturas ideológicas baseadas no antropocentrismo. passando a estudos que consideram o tempo histórico e as condições naturais do homem. principalmente. a escola ocupa um lugar cada vez mais central. Como revolução social: afirmação da classe burguesa. Isto é. nutrido da fé laica e aberto para o cálculo racional da ação e de suas conseqüências. portanto como uma revolução. uma revolução em muitos âmbitos: geográfico. cultural e pedagógico. 1997. por Portugal e Espanha serão decisivas para as mudanças nos horizontes geográficos e o desenvolvimento mercantil. para a formação dos estados nacionais e a centralização do poder. LUZURIAGA. (MANACORDA. (AQUINO. Todas essas mudanças estruturais produziram um afastamento mais acentuado dos valores do cristianismo difundidos pela Igreja na Idade Média e uma aproximação maior da dimensão humana. que. um indivíduo mundanizado. 2003). DENIZE e OSCAR. Como revolução na educação e na pedagogia: a formação do homem segue outros itinerários sociais. liberado de vínculos e de ordens. Como revolução política: nascimento do estado moderno (Estado-nação e Estado-patrimônio). Essa transformação de base econômica tornará o terreno propício politicamente. ano da Revolução Francesa. bem como novas instituições sociais (hospitais. sistematicamente. também o exército e a escola. dinheiro. para ser mais preciso 1789. a Europa começa. Assim. racionalização de recursos financeiros e humanos). A ruptura da modernidade apresenta-se.

2. 1.6 Espírito crítico. Sob o patrocínio de nobres e prósperos comerciantes. Dentro desse cenário. marcada pelo resgate da antiguidade clássica e pela construção de uma educação humanista. homem culto: ilustrado com base nas idéias de Platão e Quintiliano. catedrais. redescobrimento da personalidade humana livre e independente da religião e da política.2 espírito cosmopolita: universalidade balizada pelas relações comerciais e pelos descobrimentos geográficos. 2.5 Cultivo da individualidade. uma nova fase da cultura humana. 1. Diversas tradições técnicas foram desenvolvidas em algumas regiões da Europa.7 Estudo atraente e ameno. Seus trabalhos técnicos e artísticos são testemunhos da cultura da época – sua obra mais conhecida é a pintura intitulada Mona Lisa. 2.9 Cultivo do corpo e estética / boas maneiras e urbanidade. 2. provoca estranheza ainda hoje – refletia o caráter interdisciplinar da cultura técnica renascentista.1 desenvolvimento da cidade e estado-cidade / direção burguesa. Os clássicos gregos e romanos inspiravam e ilustravam os homens da época na busca de inovações técnicas e artísticas. sistemas de distribuição de água para cidades. Apresentamos a seguir uma caracterização da renascença elaborada por Luzuriaga (1990.8 Matérias realistas e científicas.4 Cortesão instruído e urbano. 1. 2. 13 . A diversidade de interesses de sua obra – que. 2. 2.3 A EDUCAÇÃO NA RENASCENÇA E A PEDAGOGIA HUMANISTA Dentro da época moderna temos o fenômeno da renascença. 2. 2. os engenheiros italianos projetavam e construíam palácios. além de esculpir e pintar quadros e afrescos. educação humanista (Grécia e Roma ).História da Educação 2.): 1. 37. Leonardo da Vinci (1452 – 1519) tornou-se um símbolo máximo do movimento renascentista.4 maior riqueza econômica (laços comerciais / sistema de crédito ).3.1. p. Socialmente: 1. ao abarcar campos aparentemente tão díspares. O norte e o centro da Itália destacaram-se das demais áreas pelo dinamismo comercial. Pedagogicamente: 2.3 participação da mulher.2.

do sistema capitalista e do estado moderno.3. ciências e história. A nossa sociedade. uma concepção de educação. Todo o universo da educação mudou. A pedagogia humanista resulta. Tem um sistema de educação. deve ser disponibilizado aos homens. 14 . E.10 Educação das massas. desse tempo.História da Educação 2. o conhecimento é para todos. 1999). a indicação mais explícita dessa dupla transformação. uma consciência de sua importância. muda a imagem do homem que é formado por esse processo educativo: trata-se daquele homem mais laico. A estética torna-se assim o paradigma-guia da formação e o critério supremo da pedagogia em todas as suas formas (desde a teórica até a escolar). antropocêntrico – o homem no centro da nova forma de pensar e construir novos bens simbólicos e uma nova moral pautada em valores afirmados na família e confirmados no processo de escolarização por meio dos estudos das humanidades (studia humanitatis) numa formação que conjuga o estudo das letras e história.4 SÉCULO XVII: A REVOLUÇÃO PEDAGÓGICA E A LAICIZAÇÃO EDUCATIVA O século XVII é o tempo da consolidação das novas estruturas que efetivam a modernidade como a época histórica da classe burguesa. O homem passa a criar e inventar obras no campo das artes e das técnicas exercitando a razão e afastando-se dos saberes que derivam da teologia. inaugurando a revolução pedagógica burguesa com um sentido utópico de “ensinar tudo a todos”. às mudanças na estrutura do pensamento e na formação de uma nova mentalidade pautada no “espírito científico”. que põe em relevo o papel social da educação e redefine as duas instituições (família e escola). (CAMBI. a nossa época é herdeira direta de uma mudança advinda com a Modernidade. nesse aspecto. em que o homem e a sociedade tentam renascer a partir do resgate dos saberes produzidos na Grécia e Roma Antiga e das construções artísticas inspiradas em modelos humanos. 2. A civilização medieval tinha esquecido a “paidéia dos antigos” e não conhecia a educação dos modernos. A família e a escola são as duas instituições que ganham importância na construção do novo sentido pedagógico. 1999). 2. mas também com a vontade e a práxis. nos fins e nos meios. mudou o ensino e mudou a atitude da família em relação à criança. desenvolvido em todas as suas potencialidades e realizado naquele pluralismo de capacidades e de dimensões. sobretudo em relação a este papel. hoje. Comenius é maior pedagogo do século XVII. Um tempo humano. depende do sucesso de seu sistema de educação. Um homem que quer ver a si próprio. O sentido de revolução diz respeito em especial. Devemos a Áries e ao seu estudo de 1960 sobre História social da família e da infância. de modo intensamente dinâmico e radicalmente dialético. (CAMBI.1 Colégio humanista / escola secundária / estudo do latim e do grego. língua e civilização. a partir da dimensão humana e se tornam as principais instâncias de formação dos sujeitos na modernidade. secularizado e laicizado pela pedagogia como uma ciência da educação universal. por meio de sua obra principal denominada de Didática Magna (1657). uma vez que. segundo um modelo harmônico similar à “obra de arte”. civil e do trabalho que vive como um micromundo no qual se reflete o macromundo e que é senhor do universo por dominá-lo com o pensamento e com a palavra.

15 Comenius. As questões. MARTINS. . com sua obra Didática Magna (1657). ao captar seu objeto. 2003) Os valores da burguesia. para se certificar da validade de sua representação. p.” (ARANHA. e sua tarefa consistia em representá-la. logo existo. continuamente. Com ele se delineiam pela primeira vez de maneira orgânica e sistemática alguns dos problemas já relevantes da pedagogia: desde o projeto antropológico-social que deve guiar o mestre até os aspectos gerais e específicos da didática. o homem. 281): [. deveria formular hipóteses e experimentá-las. apesar de guardar ainda marcas da tradição escolástica. DENIZE e OSCAR.] Com o século XVII afirma-se um modelo de pedagogia explicitamente epistemológico e socialmente engajado. que afirma a universalidade da educação contra as restrições devidas as tradições e a interesses de grupos e de classes. para chegar às estratégias educativas referentes ás diversas orientações da instrução.História da Educação Tal mudança. inaugura um tempo de busca de processos educativos que seja “ensinado tudo a todos”. o poder secularizado do Estado e a busca do conhecimento científico são fatores decisivos para as mudanças pedagógicas e a laicização educativa. em que busca “justificar e legitimar o poder do Estado sem recorrer à intervenção divina ou qualquer explicação religiosa. partem da tendência de secularização e laicização do pensamento político e filosófico. Para uma compreensão da mudança revolucionária na pedagogia e o afastamento dos processos de formação dos valores religiosos difundidos pela teologia. vejamos o que nos diz Cambi (1999. no século XVII.. idéia central da Dúvida Metódica. e a sua centralidade na vida do homem e da sociedade. desenha. significa que o homem passava a ver a natureza como objeto de sua ação e de seu conhecimento. no período em questão. para atingir tal objetivo era necessário um método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. 2003). Definitivamente. em torno do Estado. que leva a aceitar apenas aquilo que a razão possa compreender e que possa ser demonstrado. desenvolvido principalmente por Jan Amos Comenius. um novo tempo para a pedagogia moderna laica e capaz de viabilizar o conhecimento por meio da escola para todos os homens da sociedade. definitivamente. Para Descartes (1596-1650) tudo era duvidoso. ampliando o sentido do fazer pedagógico que. nada podia ser considerado como certo. (AQUINO. Dessa forma. as explicações teológicas e metafísicas não mais satisfaziam o homem moderno cioso de uma objetividade que o levasse à compreensão dos fenômenos e leis que constituíam a natureza. Assim. JACQUES. na estrutura do pensamento. a não ser penso..

História da Educação ATIVIDADE Aplicando nosso conhecimento sobre a Educação Humanista 1) Caracterize a Pedagogia Humanista. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 16 . __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 2) Destaque do texto as principais contribuições de Comenius para a Pedagogia do Século XVII.

a palavra colônia deriva do verbo latino Colo. agora tendo a educação cristã como principal estratégia. 3. a educação passa a compor a estratégia política da Coroa Portuguesa. em que o “processo pedagógico” dos Jesuítas tem como principal objetivo enquadrar os indígenas na dinâmica mercantilista como mão-de-obra.História da Educação UNIDADE 3 EDUCAÇÃO NO BRASIL 3. que chegam como parceiros na implantação de um novo processo de dominação dos nativos. que pode ser traduzido como eu moro. é a matriz de colônia enquanto espaço que se está ocupando. O termo Colo denota sempre quando de sua utilização alguma coisa de incompleto e transitivo. terra ou povo que se pode trabalhar e sujeitar. e este passou a explorar tudo o que podia servir de divisas comerciais. No cenário da época. representantes da Igreja Católica.1 A pedagogia dos jesuítas A criação do Governo Geral. O Governador geral deverá pautar as suas ações administrativas de acordo com a diretriz da nova política de D. O tempo colonial compreende o período histórico.org> Segundo Bosi (1994). A terra era propriedade de seu conquistador. considerado para fins deste estudo de 1549 a 1822.anmfa. como uma forma de administração política do local subordinada as ordens e diretrizes do Rei de Portugal e aos Padres Jesuítas. eu ocupo a terra e. com a Inglaterra. . especialmente. fortalecendo as relações comerciais. João (17/12/1548) que pode ser sintetizada conversão dos indígenas à fé católica pela catequese e pela instrução.1 EDUCAÇÃO NO BRASIL COLONIAL A Metrópole (Portugal) retira va da colônia todas as riquezas disponíveis. tem por finalidade a garantia do processo de colonização.1. No início desta fase. eu cultivo o campo. por extensão. destacamos a instituição do Governo Geral. primeiro representante do poder político no Brasil Colônia. 17 Engenho de açúcar Fonte: <www. eu trabalho.

o futuro destinado pelos Mestres Jesuítas aos descendentes dos colonizadores Portugueses. Assim. A Língua tornase o principal obstáculo a ser transposto para efetivação do processo de aculturação. relações através das quais se estabelece o quadro institucional para que a vida econômica da metrópole seja dinamizada pelas atividades coloniais. era em geral. que compreendia o Primário e o Secundário. O projeto de transpor para a fala do índio a mensagem católica demandava um esforço de penetrar no imaginário do outro. 3. Os estudos de Bosi (1994). Na lógica escravocrata do Governo Português. sobre o Padre José de Anchieta. principalmente para continuação dos estudos em Portugal na Universidade de Coimbra.1.História da Educação Em 1549. a organização escolar no Brasil Colônia é construída estreitamente vinculada à política colonizadora dos portugueses. gramática latina e a culminância seria a viagem à Europa. Tomé de Souza para administrar a colônia. escola de ler e escrever. nos apresentam a complexidade da tarefa de decifrar os códigos tupis e traduzi-los para a codificação da língua portuguesa. os Jesuítas enfrentavam o problema cultural. os índios catequizados pelos jesuítas seriam a nova força de trabalho para a exploração da terra. ao menos no registro que esta assumira ao longo da Idade Média européia? Anchieta. com dois elementos: um centro de decisão (metrópole) e outro (colônia) subordinado. aprendizado profissional agrícola. Os braços de negros e índios seriam a garantia das divisas financeiras para o fortalecimento de Portugal no contexto da Europa. os estudos seriam desenvolvidos a partir da seguinte estruturação que considerando um percurso curricular . espelhado na linguagem e nas alegorias que moldavam os rituais dos índios. A Ratio com os seus princípios educativos pautados na teologia cristã católica e na escolástica. preferencialmente. Novais (1975 apud RIBEIRO. para que este fosse facilmente dominado e colocado à disposição dos agentes da política de colonização da Coroa Portuguesa. curso de teologia e a viagem à Europa. líder da Ordem dos Jesuítas. Para além de estruturar um modelo didático de ensino. chega o Primeiro Governador Geral. neste e em outros casos extremos. considerando que o trabalho de escolarização deveria atender os índios e os filhos de colonos portugueses. Esta é uma adaptação da Ratio studiorum (Plano Pedagógico dos Jesuítas. 1991). Formar os filhos de colonos. publicado em 1599). música instrumental. organizava-se iniciando a formação Superior por meio de cursos de humanidades. filosofia. por meio do cultivo da cana e da produção de açúcar: a base da economia colonial até meados do século XVII. e este foi o empenho do primeiro apóstolo. prefere enxertar o vocábulo português no 18 . comandando seis religiosos. se eles careciam até mesmo da sua noção. por exemplo. em sua companhia vem Manoel da Nóbrega. feita por Nóbrega para a Educação Básica da época. Na passagem de uma esfera simbólica para outra Anchieta encontrou óbices por vezes incontornáveis. canto ofeônico.iniciaria com o aprendizado do Português. Com dizer aos tupis.2 Plano de estudo da Companhia de Jesus Para o Padre Nóbrega. para o índio apenas a formação cristã pelo método catequético. (NOVAIS. visando torná-los futuros sacerdotes. a palavra pecado. 1975 apud RIBEIRO. matérias relativas à doutrina cristã. 1991) diz que a política colonial: Se apresenta como um tipo particular de relações políticas. No entanto.

A formação dada pela pedagogia dos jesuítas segue as regras da escolástica medieval. visando assegurar também a educação dos filhos de colonos portugueses. a busca de um novo método de conhecimento. e 3) Elite (educação voltada para o trabalho intelectual dentro do modelo católico). que vale tanto para toda sombra quanto para o espírito dos antepassados. Plano de Estudo dos Jesuítas.1991. uma vez que. p. Santa Maria. afastando os alunos de qualquer novidade científica. a Educação dos Jesuítas pode ser dividida em: 1) Profissional (voltada para o aprendizado de técnicas rudimentares e o trabalho manual). Isto porque. (RIBEIRO.. Objetivo da educação dos Jesuítas era formar religiosos. diz uma das regras da Ratio. Alma é anga. os Jesuítas conseguem uma estruturação básica para o funcionamento do processo de escolarização na Colônia. 65). comprometendo e comprovando as insuficiências do método escolástico medieval. casa de Tupã. e com fortes razões. 25). p. 1994. p. Segundo Ribeiro (1991). Igreja. 19 A forma de educar dos Padres Jesuítas é o único caminho no período colonial para a formação sistemática da população local desejosa das primeiras letras para sair da escuridão do analfabetismo e buscar uma colocação dentro da ordem religiosa ou dentro da estrutura política e governamental que se esboça em torno do Governador Geral. protetora dos meus! Tais casos. . poderia aproximar os sujeitos de teorias científicas. Santa Maria. Segundo Ribeiro (1991): A elite era preparada para o trabalho intelectual segundo o modelo religioso (católico). mas que reconheciam que esta era a única via de preparo intelectual. quer dizer pajé maior. A nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi. Para afigura bíblico-cristã do anjo Anchieta cunha o vocábulo Karaibebê. A pesar das dificuldades com a língua Tupi. 2) Feminina (boas maneiras e prendas domésticas). fez com que os seus colégios fossem procurados por muitos que não tinham realmente vocação religiosa. espírito errante e perigoso. Nossa Senhora às vezes aparece sob o nome de Tupansy. mesmo que muitos de seus membros não chegassem a ser sacerdotes. com a palavra missa e com a invocação a Nossa Senhora: Ejorí. porém. diante do apoio real oferecido. 28) diz que. (BOSI. nesta pedagogia. mas uma terceira esfera simbólica.] se alguns forem amigos de novidades ou de espírito demasiado livre devem ser afastados sem hesitação do serviço docente". "[. uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível. / xe anáma rausubá! / Vem. Isto. mãe de Tupã. Paim (1967. profeta voador. atípicos. O mais comum é a busca de alguma homologia entre as duas línguas com resultados de valor desigual: Bispo é Pai-guaçu. coerentemente é tupãóka. por sua vez..História da Educação tronco do idioma nativo. O Reino de Deus é Tupãretama. Demônio é anhangá. a Companhia de Jesus se tornou a ordem dominante no campo educacional. terra de Tupã. uma nova pedagogia. o mesmo faz.

1) Caracterize a Pedagogia dos Jesuítas e busque conexões desta pedagogia com a Educação atual.História da Educação Atividade Análise do texto estudado. traçando um paralelo com a Educação dos Jesuítas. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ . __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 20 2) Realize um levantamento sobre a Educação Indígena nos dias atuais.

colonos portugueses e escravos. O ensino. a política que as condições econômicas e sociais do país pareciam reclamar”. informa Ribeiro (1991). provocar algumas mudanças no Brasil. apesar da expulsão dos Padres Jesuítas. dentro do plano de recuperação nacional. que ao tempo dos Jesuítas era organizado em forma de curso – Humanidades –.] As reformas. com o objetivo de adaptá-lo. no Brasil. Segundo Carvalho (1952 apud RIBEIRO. b) A Companhia de Jesus educava o cristão a serviço da ordem religiosa e não dos interesses do país. passou a sê-lo em aulas avulsas (aulas régias) de latim. enquanto colônia. o Marquês de Pombal. traduzem. 1991). a exemplo do que a Inglaterra era há mais de um século. deixando claro nas medidas administrativa. As medidas administrativas de Pombal culminaram com a expulsão dos Jesuítas em 1759 (Companhia de Jesus). 21 . grego.. à nova ordem pretendida em Portugal. também. os Padres trabalhavam na direção de efetivar o Projeto de salvação das almas da Ordem Religiosa Companhia de Jesus e fundavam Missões com relativa autonomia quanto às diretrizes do Rei de Portugal e isso incomodava as autoridades da corte. Uma dificuldade enfrentada por Pombal era que a formação dos professores da época era baseada nos valores e na “visão profissional” da Pedagogia dos Jesuítas. carecendo de uma autoridade que discipline alguns setores. faz parte de uma tentativa de organização administrativa e de estabelecimento da ordem em uma Colônia que cresce em torno do trabalho dos Jesuítas. Sebastião José de Carvalho e Melo. As reformas pombalinas visavam transformar Portugal numa metrópole capitalista. filosofia e retórica.História da Educação 3. orientou-se no sentido de recuperar a economia por meio de uma concentração do poder real e da modernização da cultura portuguesa. Ministro do Rei D. José I. entre as quais as da instituição pública. visto que. O Ensino Secundário..2 MARQUÊS DE POMBAL E A ESCOLARIZAÇÃO COLONIAL A relação entre os Padres Jesuítas e a Coroa Portuguesa já não era de correspondência quanto ao Plano de dominação dos Índios. O motivo apontado era o fato de eles serem um empecilho na conservação da unidade cristã e da sociedade civil – razão do Estado invocada na época por que: a) A Companhia de Jesus era detentora de um poder econômico que deveria ser devolvido ao Governo. continuava marcado pelos métodos e pela pedagogia da Companhia de Jesus (Ratio). A presença de Pombal. Visavam. “[.

História da Educação Atividade 2 Análise do filme “A missão”. .Assista ao filme A Missão. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 22 . filme com Al Pacino e elabore um breve comentário sobre o papel dos Jesuítas na organização da resistência contra a Coroa Portuguesa.

História da Educação 3. No ano de 1808. com reformas de caráter cultural e educacional para adequar o Brasil como a sede da Coroa Portuguesa: a criação da Imprensa Régia (13/05/1808). Academia Real Militar em 1810 (que em 1858. em 1812. . em 1874.br> Desse modo. e hoje é a Escola Nacional de Engenharia). a Revista carioca – O Patriota. cuja capital passa a ser o Rio de Janeiro. e a família real. O início do século XIX. e os cursos de anatomia e cirurgia no Rio. surge um terceiro personagem da educação nacional D. Biblioteca Pública (1810). João VI e a corte se vêem obrigadas a virem para o Brasil sob a guarda inglesa. que se instalou no Hospital Militar. 23 Chegada da Família Real no Brasil Fonte: <www. João VI Rei de Portugal e. Em 1808 é criado o curso de cirurgia (Bahia). Escola Politécnica. concentrando os órgãos de administração pública e justiça. A partir desta nova realidade são tomadas várias medidas no campo intelectual. de 1815 em diante. em 1813. Na área educacional são criados alguns cursos com base nas necessidades imediatas do Brasil da época: Academia Real Marinha (1808).3 A CORTE PORTUGUESA NO BRASIL A época contemporânea é demarcada pelos historiadores a partir da Revolução Francesa na segunda metade do Século XVIII. chefiada por D. passou a chamar-se Escola Central. o Rio de Janeiro passou a ser a sede administrativa. Os três primeiros séculos da educação brasileira apresentam em seu cenário duas grandes figuras: Padre Manoel da Nóbrega (Jesuíta) e o Marquês de Pombal (Reformador). Em 1808 circula o primeiro jornal (A Gazeta do Rio).com. Museu Nacional (1818). precisamente em 1807. a conjugação de tais interesses (grupos coloniais e ingleses) obriga o príncipe regente a decretar a “abertura dos portos” em 1808 (RIBEIRO. a primeira revista (As Variações ou Ensaios de Literatura).casadeportinari. Rei do Reino Unido de Portugal e do Brasil e do Algarves. 1991). que representam duas filosofias da educação bem diferentes. sob o comando de Napoleão. Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1810). Portugal é invadido pelas tropas francesas.

em especial por “novas idéias”. Este ato político reflete-se imediatamente na estruturação da educação. em manter a unidade em seu vasto território. em 1822. o Brasil continuava uma “terra de analfabetos”. começa a preocupar os políticos brasileiros. pois.br/ahimtb/images/acarealgm. nesta época. Este nível de ensino tem sua importância acentuada à medida que cresce o número de pessoas que vêem nele. Foram criadas duas cadeiras de inglês e um de francês no Rio. ameaçado por dentro e por fora. Então.História da Educação Academia Real de Guardas-Marinha Fonte: <www. em seu artigo 1º. apesar do estabelecimento da obrigatoriedade do ensino elementar. Tanto assim que. na Constituição de 11 de dezembro de 1823. 3. o Brasil empenhado em organizar-se e em provar que se desenvolveria independente de Portugal.4 EDUCAÇÃO NO BRASIL APÓS 1822 De 1822 em diante. pois em seu parágrafo 24 . o célebre artigo 179. Essas cadeiras e as de matemática SUPERIOR em Pernambuco (1809). promulgada por D. sendo criadas “pelo menos umas 20 cadeiras de gramática latina”. por causa das idéias democratizantes de Rousseau e da Revolução Francesa. o que estava escrito em Lei não se efetivava. a educação. não só um preparo para o Secundário como também para pequenos cargos burocráticos. Com a proclamação da Independência. do indianismo e também do romantismo educacional. a de desenho e história em Vila Rica (1817) e a de Retórica e filosofia em Paracatu (MG – 1821) integram-se a um conteúdo de ensino em vigor desde a época dos jesuítas. Pedro I. antes de mais nada. O Ensino Secundário – permanece a organização de aulas régias. preocupa-se. é a fase do romantismo: do romantismo literário. repetido nos discursos diversas vezes depois: “A instrução primária é gratuita a todos os cidadãos”. pois apenas tem-se notícia da criação de “mais de 60 cadeiras de primeiras letras”.resenet. o único acontecimento concreto e eficiente foi inserir. Mas. estabelece a descentralização do poder político para as províncias com a criação de Assembléias Legislativas Provinciais em substituição aos Conselhos Gerais.com.jpg> A estrutura do ensino imperial é composta de três níveis: quanto ao Primário – continua sendo um nível de instrumentalização técnica (escola de ler e escrever). Jean-Jacques Rousseau O Ato Adicional de 1834.

4. durante um século. a super-estrutura do ensino superior. edificar. p. quanto ao ensino primário. Na época. 52). principalmente. Evolução esta exigida não só pelas necessidades internas. 1991. na seqüência. • estabelecimento das normas para o exercício da liberdade de ensino e de um sistema de preparação do professor primário (1854). B) uma atração sobre o significativo contingente populacional (rendas altas. a passagem de uma sociedade exportadora com base rural-agrícola para urbano-agrícola-comercial. 75).História da Educação 2º. p. a década de 1850 é marcada por várias realizações. o sucesso da lavoura cafeeira vem preencher os problemas financeiros gerados inicialmente pela decadência da mineração e. 25 . (AZEVEDO. nem reduzir a distância intelectual entre as camadas inferiores e as elites do País. Em 1869. instituída pelo Ato Adicional e mantida pela República. “legislar sobre a instrução pública e estabelecimentos próprios”. Os adeptos de Augusto Comte (1798-1857) eram contra a existência de Universidades e Faculdades por considerá-las fruto da Igreja Católica e do estado metafísico da humanidade. segundo Fernando de Azevedo (1958): A descentralização do ensino fundamental. no entanto. estabelece como competência das Assembléias Legislativas Provinciais. tomando-se por base programas e livros adotados nas escolas oficiais. como também por exigências ou interesses do capitalismo internacional. Elas promovem: A) uma reorganização do trabalho urbano. o que já foi assinalado.1958. 1991. p. os positivistas iniciam suas manifestações contra o Ensino Superior. restritas em sua maioria ao município da Corte. 53). não permitiu. as cidades passam a ser os pólos dinâmicos de crescimento capitalista interno. pela crise na produção do açúcar. • reformulação dos estatutos do Colégio de Preparatórios. desta forma. do Artigo 10. Realizações: • criação da Inspetoria Geral da Instrução Primária e Secundária do Município da Corte (1854). por força da Lei em vigor.1 Algumas realizações Na educação. Isso causa uma série de problemas. médias e baixas). geral ou profissional. A partir de 1840. Segundo Ribeiro (1991). 3. nas províncias mais distantes e mais pobres como a do Mato Grosso e a do Amazonas. atingindo um dos pontos essenciais da estrutura do sistema escolar. (RIBEIRO. • reformulação do estatuto da academia de Belas Artes (1855). sobre base sólida e larga a educação comum. (RIBEIRO. estava ocorrendo. e • reformulação dos estatutos da Aula de Comércio da Corte. • reorganização do Conservatório de Música. Nesse período.

iniciadas na terceira década do Século XIX. pelo decreto n°. continuando o Ensino Médio de sete anos e proibindo-se as transferências de um estabelecimento para outro. reafirma a importância fundamental do Ensino Primário e a personalidade própria do Ensino Médio. salvo a inspeção necessária para garantir as condições de moralidade e higiene”. o projeto de José Paulino Soares de Sousa trata da necessidade de se cumprir as leis educacionais. denunciando a influência da política nas questões educacionais. a última do Império e uma das que mais se destacaram no período. TOBIAS s/d). segundo a qual ficam instituídas escolas primárias do primeiro e de segundo graus. As Escolas Normais. Atividade 3 Elaboração textual. Várias Escolas Normais também surgem após o Ato Adicional. de uma escola profissional primária. O projeto de João Alfredo. em 1846. fecha em 1867.207). em 1871. destacamos: • no ano de 1854. afirma a obrigatoriedade do Ensino Primário e a instalação de escolas primárias de segundo grau e a criação em cada município. surgem várias reformas voltadas para a estruturação do ensino e também as primeiras Escolas Normais.História da Educação Depois do Ato Adicional de 1834. • em 1870. aparece a Reforma do Ministro Carlos Leôncio de Carvalho. e a organização destas. lembrando ser o Brasil o país que menos dinheiro aplica em educação. reabre em 1876. por estarem em nível secundário. devido à situação de instabilidade de tais cursos. 7247. mas passando a trabalhar fora como educadoras de outras crianças de maneira oficial e sistemática. a primeira Escola Normal é fundada em 1835 em Niterói. (RIBEIRO. A Reforma Leôncio de Carvalho estabelecia que: “É completamente livre o Ensino Primário e Secundário no Município da Corte e o Superior em todo o Império. vindo a fechar novamente em 1877. Em 1880 reabre. 1991. Quanto as Reformas do Ensino. no Brasil do Século XIX. 26 . a partir da memória de ex-alunas e Professoras de estabelecimentos de ensino do município. asseguram pela primeira vez na História da Educação de nossa sociedade a presença das mulheres com o papel social de cuidar da educação não só de seus filhos. Neste mesmo ano é criada a primeira escola oficial no Rio de Janeiro. s/d. apesar das dificuldades estruturais e pedagógicas dessa modalidade de ensino. 1 – Com base na pesquisa bibliográfica organize um texto síntese sobre a História da Escola Normal no Brasil. • A 19 de abril de 1879. dando inicio a democratização do ensino feminino.. em seguida em 1842 é fundada a da Bahia. 2 – Investigue a História da Escola Normal no Maranhão e em Itapecuru Mirim. Pequena. trouxe pequena melhora ao ensino. p. a Reforma do Ensino de Luiz Pedreira Couto Ferraz. A escola aberta em São Paulo. (TOBIAS.

Muitos proprietários de escravos. com belas frases (”somos da América e queremos ser americanos”). É mais um dos falsos mitos de que impregnam a nossa história. O manifesto de 1870 era demasiado literário. O positivismo de Augusto Comte (1798 – 1857) desponta no contexto do século XIX. não se referia ao problema servil. somadas a um esforço de implantação da lógica das ciências exatas e naturais.A. da mensuração e da crítica a quEm seu Curso de Filosofia Positiva (1988). p. vão de forma oportunista fortalecer o movimento republicano e ingressar nas fileiras do Partido Republicano. uma visão geral sobre a marcha progressiva do espírito humano. 03). os camponeses sem terra. Os resultados dos embates eleitorais em que se meteram os chefes republicanos antes do 15 de novembro. mas.. considerado em seu conjunto.1 A reforma de Benjamin Constant A Reforma da Instrução Pública Primária e Secundária do Distrito Federal. 27 . de início. com o apoio da nova aristocracia do café e de membros intelectualizados da classe média. (BASBAUM. Socialmente não representava os interesses de uma classe definida.5 EDUCAÇÃO NA REPÚBLICA Um fato decisivo para Proclamação da República é a Libertação dos Escravos por meio da Lei Áurea de 1888. os operários.1967. O quadro traçado acima culmina com a Proclamação da República a 15 de novembro de 1889. sem a participação popular. 215-216). O fato de não haver sido a República uma aspiração popular se deve menos ao respeito e ao amor pela monarquia do que ao conteúdo vago – para não dizer vazio – do programa do Partido. Comte expõe de maneira pedagógica a natureza de sua doutrina. que não consultava os interesses populares. os ideais de liberdade ecoavam e atravessavam as fronteiras originarias. p. descontentes com a medida. são de fato bastante expressivos. no ano de 1890. que é um reflexo de seu tempo: Para explicar convenientemente a verdadeira natureza e o caráter próprio da filosofia positiva. pois uma concepção qualquer só pode ser bem conhecida por sua história. Mas.História da Educação 3. da experimentação. sofre a influência da doutrina positivista. os libertos sem profissão e sem trabalho. não tocava no problema da terra. 1988. sem a indenização pretendida pelos senhores dos negros africanos. é indispensável ter. • 2º que a República não era uma aspiração popular. 3. assinada por Benjamin Constant Botelho de Magalhães.5. Um século marcado pela sombra das influências da Revolução Industrial. nem as classes médias e muito menos as classes mais pobres. Leôncio Basbaum (1967) apresenta a seguinte análise em torno do movimento de transição do Império para República: • 1° que de fato não havia uma tradição republicana no Brasil como querem alguns autores. nem a lavoura nem a incipiente burguesia. o número de clubes e dos membros desses clubes. a grande maioria do povo não se interessava pelos Partidos ou Clubes Republicanos. da Revolução Francesa e da Independência dos E. não o suficiente para despertar do interesse do povo. os posseiros. na busca do conhecimento por meio do formalismo. (COMTE.U. não traduzia reivindicações de caráter econômico. rendeiros.

devidamente adaptadas de acordo com a maior ou menor crença de seu autor e o ambiente intelectual de sua região. artigos. em 18 de outubro de 1836. Assim. cada indivíduo ao passar pelos “estados” propostos na sua doutrina reproduz a história da humanidade. a ordem por base. com seus apóstolos da humanidade. quanto a inclusão de elementos da moral positivista na área educacional no final da segunda metade do século XIX. Na ótica positivista. a existência humana deve ser determinada apenas pelo que é passível de verificação empírica. sob inspiração teológica. na classificação das ciências e na religião da humanidade. aos vinte anos alistou-se como voluntário no Regimento Provisório de Portugal. tanto no eixo centro-sul quanto em outras regiões do país. Desse modo. natural do Rio Grande do Sul. embora sem um movimento articulado nacionalmente. entrando para a classe dos avulsos”. para desembocar na demonstração positiva. Augusto Comte (1988) afirma que: [. A esta lei de filiação meu Sistema de Filosofia Positiva sempre associou a lei de classificação. difundindo as idéias de Augusto Comte. sobrenatural e teológico cede lugar para o “novo deus”: a natureza una e soberana. .História da Educação A doutrina positivista considera o homem um produto da natureza. cuja aplicação dinâmica fornece o segundo elemento indispensável à minha teoria da evolução. com efeito. de onde foi “mandado desembarcar. 28 Para Comte. o progresso por fim” – eis a fórmula positivista apresentada contra a anarquia e o atraso da sociedade católico-tomista. Bernardina Joaquina da Silva Guimarães. Benjamin Constant Botelho de Magalhães nasceu no Porto do Méyer. garantindo a sua evolução progressiva dentro da sociedade humana. em 28 de novembro de 1833. “O amor por princípio. passando a pertencer à 3ª Companhia do Corpo de Artilharia de Marinha. mesmo enfrentando as perseguições dos segmentos católicos e as sanções das autoridades representativas do poder imperial. positivistas com visão ortodoxa. É o conhecimento científico que determina a nova moral. atuavam em diversas instituições. alcançando em 18 de outubro de 1829 o posto de 1º tenente. Freguesia de São Lourenço no Município de Niterói (RJ). passando pela argumentação metafísica. A idéia de um deus. desenvolvido mediante o processo evolucionista. o conhecimento dos fenômenos naturais constituiu-se na via de mão única para o conhecimento do homem.. por meio de discursos.. ou. natural de Torre de Moncorvo. Português por seu pai e brasileiro por sua mãe D. Seu pai Leopoldo Henrique Botelho de Magalhães. da segunda metade do Século XIX. Assim. segundo a qual nossas diversas concepções participam de cada fase sucessiva. por sua complicação crescente.] tudo começa. pela dedicação à família e à pátria. seja nas tribunas dos intelectuais ilustrados ou se possível nas instituições de ensino público. No Brasil. por meio de uma “nova vida” marcada pelo altruísmo. Sabe-se que esta ordem está regulada pela generalidade decrescente dos fenômenos correspondentes. determinando a ordem necessária. o presente e o futuro da humanidade. estendendo suas influências no processo de implantação da república por meio de Benjamin Constant. a partir de um modelo pedagógico fundamentado na lei dos três estados. seja nos templos das Igrejas positivistas. seguiu a carreira militar. o seu principal representante. uma mesma lei geral nos permite de agora em diante abarcar ao mesmo tempo o passado. teses etc. A moral positivista deve formar cientificamente o indivíduo. onde a matéria representa o fundamento de toda ordem existencial. “nossos positivistas” começam a apresentar as idéias morais de Augusto Comte em jornais e instituições de ensino. o que implica o mesmo.

depois de fazer solene profissão de fé pozitivista e depois de ter fundado a república. a sua pernicióza influência pública e privada.. em homenagem a sua dedicação é que a instituição passou a se chamar Instituto Benjamin Constant. mesmo com a sua aproximação da doutrina de A.35). garantindo ajuda as famílias pobres de seus associados.38). compósta de minha mãe viúva e quatro irmãos menóres e continuar os meus estudos. [. em carta dirigida ao Ex-Conselheiro João Alfredo.44). mas. Apreciando tal sociedade como simples instituição destinada a prolongar alem da mórte a proteção e o amparo que devemos nóssa família. De origem pobre. lembraremos que o compromisso da irmandade esplícitamente determinada que só pódem ser admitidos néla os cidadãos que professárem a religião Católica Apostólica Romana ( art. por decreto do Presidente Deodoro da Fonseca. Antes de conhecer a doutrina positivista.] Por meus esfórços e pela fé com que me empenhava em aussiliar os meus esplicandos e dicípulos em seus estudos consegui no fim de alguns anos uma reputação por demais lizonjeira como professor de matemáticas elementares e superiores. apesar das regras escritas com o intuito de fortalecer o culto católico. A "Imperial irmandade da Cruz dos Militares". que o ingrésso na referida irmandade da Crus dos Militares ezige do público a mais grave atenção. Quanto à Benjamim Constant. p. com destino a Escola Militar. [. os Drs.. Foi sócio do Montepio geral e como Ministro da Instituição P'blica criou o montepio obrigatório para os funcionários dessa reepartição. já em 1854 era “explicador” de matemática elementar da referida escola. como todas as congêneres. Militar e de Marinha. Benjamin Constant fez parte da "Imperial Irmandade da Cruz dos Militares".” Em agosto de 1862. E nós o havemos de ver até o fim de sua vida apegado às suas idéias sobre sociedades de aussílios mútos e montepios. lutava contra as dificuldades financeiras que cercavam sua família. (MENDES. e ensinei também em alguns colégios.ser útil a minha família. confraria instituída em 1628. p. (MENDES. Tornou-se. então. Porque a sua ezistência impórta em segregar o destino dos que nos são caros da sórte geral dos nóssos similhantes. em 1852... aos poucos transformou-se em uma sociedade de auxílio mútuo. Comte. 1937. apenas esplicável pela relaxação geral dos costumes. prevalecendo-se de várias ezistentes e instituindo outras .História da Educação Aos 16 anos de idade. éla patenteia. . chegando a assumir a direção do Instituto de 1869 a 1883. e manda que seja riscado qualquér irmão que abjurar a referida religião ( art. que aliás constituem o único apoio de tais agrupamentos. 29 A respeito de sua carreira no magistério. apesar da pobreza. Teixeira Mendes (1937) apresenta um comentário sobre a referida irmandade católica: Para ver-se até que ponto ião as consessões. noivo da filha do Dr. André Negreiros de Sayão Lobato e Antonio Jozé de Araújo. Benjamin. foi-me possível conseguir o duplo intuito que tinha em vista: . 32).. diretor da referida instituição de ensino. Mas não é só sob o aspéto de uma incoerência. foi servir no 1º Regimento de Cavalaria. obtivera a cadeira de lente do Instituto dos Meninos Cegos. com a finalidade de divulgar o culto a Cruz de Cristo entre os católicos das forças armadas. comenta que: Aussiliado pela confiança que em mim depozitávão meus dignos e venerandos lentes e amigos. de 24 de janeiro de 1891. dois dias após a morte de Constant.1937. Benjamin Constant dedicou seus maiores esforços a causa dos cegos. Cláudio Luís da Costa.] Nós o encontraremos filiado à Imperial Irmandade da Cruz dos Militares.. Constant. Fui por muitos anos esplicador déstas matérias nas escólas Central.

Tu és para mim mais. lente da Escola Militar. Comprara-o. que se pode circunscrever atualmente em pouco mais dos limites de nossa instrução primária e como uma extensão dela. em 1857. como ressalta Teixeira Mendes. ou seja. e mesmo quando as diversas sciecias estavam em embryão: não teria ainda apparecido se ao genio admiravel de Augusto Comte não fosse dado pela vastidão de sua intelligencia transpor os seculos que hão de vir. e a unica que dimana naturalmente das leis que regem a natureza humana. Nessa época. em que era grande a influência da concepção matemática de Comte. Para Constant a instrução deveria ser baseada num “bom sistema de educação científica”. da guerra contra a República do Paraguai para onde seguiu no ano de 1866. no posto de capitão. Benjamin Constant assinalava que: “o meio mais poderoso de que um governo pode lançar mão para o engrandecimento moral e material de seu país é sem dúvida alguma a instrução”. Benjamin Constant apresenta na carta endereçada a esposa. 5 de junho de 1867. uma outra versão circulava entre os membros da Escola Militar a partir de informações colhidas pelo Capitão Beviláqua de que. tornou-se entre nós o maior admirador conhecido do Fundador da Religião da Humanidade. Benjamin encontrara casualmente em um livreiro esse mesmo 1º volume. um trabalho sobre a teoria das quantidades negativas. Não podia ser a primeira porque ella depende do conhecimento de todas as leis da natureza. porém a mais racional. “acessível a todos os espíritos sãos” e “mais proveitoso ao indivíduo. a minha religião. sua “profissão de fé em Augusto Comte "positivista”. Em seu relatório. que és a minha unica felicidade. Mas. como verificamos no trecho de uma carta enviada a sua esposa. do que Clotilde de Vaux era para o sábio e honrado Augusto Comte. Entretanto. particularmente a do parlamento. muito mais. É uma religião nova. embora. surpreendendo por sua sabia previdencia as sciencias em seu termo e dando-nos. o cérto é que desde então o seu ensino resentiu-se da incomparável influência do nósso Méstre e em tão alto grau que em bréve Benjamin Constant. à família. destacando vários elementos que fazem parte dos princípios da moral positivista. suas crenças. Seja como for. lera-o. não podia apparecer na infância da razão humana. à sociedade e à humanidade em geral”. que te amo mais que a tudo e que a todos neste mundo. todas as suas doutrinas. Deu-se isto. para o positivismo. Benjamin Constant iria chamar as atenções gerais. Benjamin Constant apresentava. asseverou ter ouvido o próprio Benjamin Constant dizer que. a minha unica ventura. Acrescentando: “que este plano. a mais philosophica. Em pleno cenário da guerra do Paraguay. o capitão Pinto Peixoto. é uma consequencia natural desse conhecimento e. portanto. fora levado a ler o 1º volume do Sistema de Filosofia Positiva por indicação de um lente da antiga Escolar Militar. o filósofo francês não seja uma só vez citado.História da Educação Participou ainda. as idéias de Augusto Comte já faziam parte de suas reflexões. Benjamin defenderia uma concepção positivista do saber e da educação. menos de três anos mais tarde. seus princípios. para o povo . ao examinar as necessidades da Instituição que dirigia. tratando da instrução intelectual.. a Religião da Humanidade é a minha religião. sigo-a de coração com a differença porém de que para mim a família está acima de tudo. 30 Em 1867.. datada de Tuyuty. entuziasmara-se pela espozição do Reformador. e mandara imediatamente buscar as outras óbras do filózofo para si e dois amigos. na sua Religião Positiva – a religião definitiva da Humanidade. chegando mesmo a insinuar a superioridade da Religião da Humanidade. Sigo. redigindo o seu segundo relatório como diretor do Instituto de Meninos Cegos. Efetivamente. Segundo Teixeira Mendes (1937). como sabes. ao Instituto Politécnico do Rio de Janeiro. onde diz: Lembra-te que sou o teu maior e verdadeiro amigo.

que como o congresso referido. 5 O pensamento de Comte vai encontrar em Benjamin Constant o seu principal divulgador no âmbito da educação. a recuperação econômica por meio do café. além dos Pareceres de Rui Barbosa de 1882 sobre o Ensino Primário. Aliás. obrigatoriedade do ensino. numa tentativa de centralizar no estado. 31 Um conjunto de tendências e interesses marcavam os primeiros anos do governo federal. aos métodos e aos livros adotados. Foram realizadas as Conferências Pedagógicas de 1873. ensino seriado. este desgraçado achaque. Alguns eventos de cunho pedagógico vão marcar o final do império. a escravista e por movimentos sociais a favor da federação e da República que. organizadas no governo do Conselheiro João Alfredo. inclusive. As idéias de liberdade e igualdade da Revolução Francesa. O relator de nossa comissão teve o desgosto de encontrar. muito embora. nas discussões e nos movimentos políticos. currículos. dos valores e das formas de viver e organizar a sociedade brasileira. a responsabilidade cabe quase toda à péssima direção do ensino popular. as últimas décadas do Império foram marcadas por várias questões polêmicas como a eleitoral. gratuidade. dentro do contexto da Revolução Industrial. A nova maneira de pensar. contando com um momento histórico favorável para a fermentação de “novas idéias”. mas não monopolizar a administração do ensino elementar. inspirada na doutrina positivista. Muitos dos temas discutidos nesses trabalhos eram coincidentes. demonstrando certa preocupação da sociedade civil com a instrução primária: dentre outras. havia reflexões sobre escolas mistas.640-42) até a sua morte. p. vai marcar os meios intelectuais da época. a militar. às condições sócio-culturais. produziram em conjunto. suas idéias repercutissem em toda sociedade.História da Educação uma espécie de religião. que contudo não se realizou. tentou pôr em prática a idéia de uma Secretaria de Negócios da Instrução Pública.. buscamos estudar a situação real das coisas no município neutro. A reforma da Instrução Primária instituída por Constant surgiu num momento político em que se discutia a administração do ensino elementar. programas. contendo como dogmas de fé científica o maior número possível de princípios teóricos reduzidos a preceitos de imediatas aplicações gerais à vida prática. Correios e Telégrafos.] para formação completa do nosso juízo. Deste enorme pecado contra a pátria e contra a humanidade. a religiosa. 19-04-1890. a Exposição Pedagógica de 1883 que reuniu os trabalhos que seriam apresentados no Congresso da Instrução desse mesmo ano. em janeiro de 1891. essas discussões já vinham acontecendo no Império e foram objeto de análise de muitos políticos. de Rui Barbosa. gerando uma nova maneira de encarar a vida em sociedade. vão estar presentes. nas melhores escolas oficiais da localidade. organização da escola. por via de regra. a “Luz da ciência”. os mestres são os menos culpados nesta imbecilização oficial da mocidade. distribuição do tempo e das matérias. criada em 19 de abril de 1890 e assumida por Benjamin Constant (Governo Provisório.. influenciando assim a Reforma Constant. Além disso. que dizia: [. um repensar das tradições morais. também não tiveram efetivação plena. ensino religioso. pois. O governo de Deodoro da Fonseca. métodos de ensino. e por assim dizer usuais e domésticas”. a organização do novo regime realizouse em função das idéias dominantes entre aqueles que compunham o Governo Provisório. . liberdade de ensino. Decreto nº 346. condicionadas necessariamente. favorecia o espírito científico e a expansão do modelo capitalista.

fazia parte desse jogo. Chefe do governo Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brazil. A criação da Pasta da Instrução. Correios e Telégrafos. Decreto n°. Quintino e Aristides Lobo. resolve approvar para a Instrucção Primaria e Secundaria do distrito Federal o regulamento que a este acompanha assignado pelo General de brigada Benjamin Constant Botelho de Magalhães. a uma necessidade imperiosa de caráter administrativo. os riograndenses com o positivismo militantes.3010/3032). em nome da Nação. Correios e Telégrafos não correspondera. Constant e Deodoro não se entendiam quando as questões ligadas à desordem no quartel e a lei de censura à imprensa. É na vigência da Constituição de 23 de outubro de 1890. TITULO I Principios geraes da instrucção primaria e secundaria 32 . tudo estava sendo feito no sentido de consolidar a república num clima de paz entre os militares e civis. bem como a reforma do ensino faziam parte dos arranjos dos interesses políticos. 8 de novembro de 1890. correios e Telegraphos. que estabelece os princípios gerais da Instrução primária e secundária: DECRETOS DO GOVERNO PROVISÓRIO DECRETO N. 2º da Republica. (Decreto n°. O Generalissimo Manoel Deodoro da Fonseca. com Vandenkolk. 981. Palacio do Governo Provisorio. Benjamin Constant.História da Educação Para Pedro Calmon (1963). que é promulgada a reforma da Instrução Pública Primária e Secundária do Distrito Federal assinada por Benjamin Constant (Governo Provisório. a campanha republicana. como se procurou justificar então esse ato. a ala paulista. Nele figuravam a juventude das armas. seu apóstolo da escola de guerra. 981.3474/3513).DE 8 DE NOVEMBRO DE 1890 Approva do Regulamento da Instrucção Primaria do districto Federal. p. Dunsche de Abranches (1907) comentou que: A criação da Pasta da Instrução. o governo recém surgido visa: Conciliar os grupos na representação de suas tendências. Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Instrucção Pública. Demétrio Ribeiro. desde a primeira hora. submetida pelo Governo Provisório ao Congresso Constituinte. mas fora um meio ardiloso e delicado de afastar Benjamin Constant da pasta do ministério da guerra. MANOEL DEODORO DA FONSECA Benjamin Constant Botelho de Magalhães Regulamento da Instrucção Primaria e Secundaria do Districto Federal. que assim o faça executar. a armada. constituído pelo Exercito e Armada . p. 8-11-1890. a que se refere o decreto desta data. e o titular Benjamin Constant. com Campos Sales. 914A. mas. Apresentamos um trecho do decreto de Benjamin Constant.

o ensino primario e secundario.º Para exercer o magisterio particular bastará que o individuo prove que não sofreu condemnação judicial por crime infamante. assim como dos cursos. p. e os nomes dos professores. Daí a publicação da Revista Pedagógica servir à veiculação dessas informações. os directores de estabelecimento particulares serão obrigados a franqueal-os à visita das autoridades incumbidas da inspecção escolar e da inspecção hygienica. mas. a exposição dos melhores métodos e do material de ensino mais aperfeiçoado” (Decreto nº 981. § 2. no districto Federal. também. for dado às crianças no seio de suas familias. Esta equiparação incluía não só a expedição de diplomas oficiais pelo sistema estadual ou pelo sistema particular.º Depois de iniciados os trabalhos do ensino. sua frequencia. § 3. A criação do Pedagogium é uma outra manifestação da situação de referência que envolvia a reforma da instrução pública. sob a vigilancia dos paes ou dos que fizerem suas vezes. " É completamente livre aos particulares. viessem ocorrer nos estados e municípios. hygiene e estatistica definidas nesta lei. 38. de ensino secundário.º É inteiramente livre e fica isento de inspecção official o ensino que. 8-11-1890. Apesar de se restringir à capital da República. sob as condções de moralidade. Apesar das tentativas de Constant. 1. com um governo provisório mergulhado em uma “crise de confiança”. fundado em 1883. e a remetter à Inspectoria Geral mappas semestraes declarando o numero e alumnos matriculados. o Pedagogium era um aproveitamento da idéia do ex-Museu Escolar Nacional. § 1. aos do ginásio nacional. por força da descentralização administrativa e política do novo regime. propõe a equiparação dos exames de outros estabelecimentos. o que gerava muito desconforto para os ministros e inviabilizava a materialização das reformas. passado pelo delegado de hygiene do districto. a inspecção dos estabelecimentos particulares limitarse-há a verificar que elle nào seja contrario à moral e à saude dos alumnos. com a finalidade de “oferecer ao público e ao professores em particular. de conformidade com o disposto no art.º Na parte relativa ao ensino. desde que organizados segundo o plano desta escola.10 Para alguns monarquistas. os meios de instrução profissional de que possam carecer. e que não foi punido por demissão. Parece comprovar essa consciência de situação modelar o art. o direito de matrícula nos cursos Superiores. O Pedagogium deveria constituir-se no centro propulsor das reformas e melhoramentos da instrução nacional. por meio de intercâmbio com autoridades e instituições congêneres dos demais estados do país e dos países estrangeiros. § 4.3480). é provável que a reforma pela sua importância naquele momento histórico e conjuntural fosse considerada modelo para o país e referência constante para as outras reformas que.História da Educação Art. Calmon (1956) confirma a situação de crise do governo: 33 . quaes os programmas e livros adoptados. ao tratar do exame de madureza. o ensino continuava em estado precário e seguindo de acordo com o movimento político. § único desse regulamento da Instrução Primária e Secundária que. Para dirigir estabelecimento particular de educação será exigida esta mesma prova e mais o certificado das boas condições hygienicas do edificio. conferências e exposições havidos e de reconhecida utilidade para o aperfeiçoamento do professorado nacional. 63 do presente decreto.

em janeiro de 1891. 34 . o “Regulamento da Instrução Primária e Secundária” de 1890. onde a educação passa a ser um elemento estratégico. por meio da estruturação administrativa e curricular da escola primária. porque os escalões superiores têm sempre a sua peculiar maneira de fazê-lo). mediante a reforma Constant. mas devia ser objeto de atenção e reflexão de todos os professores. sem dúvida que Benjamin Constant não está sozinho no poder. Por ser militar. A primeira. a política no Exército. a do “soldado-profissional”. defendia a conciliação entre o caráter científico e articulações dentro do “jogo político”. e o Marechal Deodoro chamou para recompor o ministério o Barão de Lucena. Uma educação voltada para o cientificismo. E sendo um positivista assumido vai mesclar em sua reforma educacional elementos do esquema moral comteano com os interesses das forças armadas. Representando. Finalmente. Benjamin esperava. seria um contraponto institucional à primeira.15 Benjamin Constant representa esse escalão intelectualizado dos militares no poder político do estado brasileiro. Apesar da curta duração da reforma de Benjamin Constant.. estimulados pela doutrina positivista. a do “soldadocidadão”. estabelecendo em seu lugar uma nova disciplina a Instrução Moral e Cívica: [. voltada para os súditos do império. por meio da educação. propugnando a não-participação (particularmente dos baixos escalões. através de exemplos vivos. representante do antigo regime. da agronomia. A educação ganha destaque como fator de “salvação nacional”. com seus heróis e seus símbolos para manutenção da segurança da nação. dos cálculos aritméticos. A Segunda.. com o governo militar a República inicia um período assinalado por um entusiasmo nacionalista marcante que tinha na educação uma força importante para desenvolver o país ao nível do século. sempre que possível as aulas estimulariam o acesso ao conhecimento prático dos fenômenos físicos e naturais. não se trataria de fazer. Como Comte. que tem nessa “ordem” a certeza do “progresso” da sociedade. com influências dos “ideais” da Revolução Francesa e da moral positivista.] que não constituía bem uma disciplina à parte. No Brasil. para uma educação republicana. marcada pelo surgimento do cidadão da “res pública”. como formulou posteriormente o general Goes Monteiro.História da Educação A crise de confiança atingiria seriamente o governo provisório. a grandeza das leis morais e do civismo. são os militares. intervindo também na organização do ensino brasileiro e na formação da mentalidade nacionalista. da língua pátria. Ou. regenerar a sociedade. demarca o rompimento com os elementos determinantes da Igreja Católica. Os ministros demitiram-se coletivamente a 20 de janeiro. A reforma Constant é a evidência principal da presença de elementos da doutrina e da moral positivista na educação brasileira. Aliás. corresponderia à afirmação do direito individual e institucional à participação política. baseada nas regras da caserna. o que vai ser uma tônica em nossa sociedade. em relação à escola primária o ensino devia voltar-se para as “lições de coisas”. este representa um grupo que. José Murilo de Carvalho afirma que o positivismo estimulou as três “ideologias de intervenção” que orientaram as ações militares no início da história da República. a “intervenção moderadora” corresponderia a uma política da instituição. sempre que houvesse o momento adequado para mostrar. assegurando a “evolução intelectual” dos indivíduos e o progresso da sociedade. quer dizer. mas a política do Exército. a passagem da educação monárquica. as virtudes cívicas e patrióticas.

e foi introduzida em nossa cultura por Rui Barbosa. os “positivistas ortodoxos”. o contar e calcular. de direito pátrio e economia política. 08-11-1889. e exercícios militares. não contempla todos os princípios do positivismo de forma ortodoxa. figurado e topográfico. geometria e trigonometria. música. álgebra elementar. o mesmo regulamento indicava: caligrafia. além da instrução moral e cívica (Governo Provisório. são também. o sistema métrico. aritmética. de paisagem. noções.História da Educação Além destas. sobre "o ensino intuitivo". que recebiam alunos de 13 a 15 anos. 1950). explica o significado do "ensino intuitivo".16 A reforma do Ensino de 1890. especialmente do Brasil. pela intuição. português. de reduzir os ensinamentos às pesquisas de utilidade imediata. 35 A ênfase no sentido prático do ensino devia receber especial atenção na escola primária de 1º grau que admitia alunos de 7 a 13 anos. ginástica e exercícios militares.. relações íntimas e contínuas com sua existência”.. Decreto nº 981. pelo exercício reflexivo dos sentidos. intitulada Primary Object Lessons. o próprio Rui Barbosa. p.] O Ensino pelo aspecto. TOMO I. 1886. desde de 1886. a liberdade espiritual. a leitura e escrita. como o fundamento das "lições de coisas": [. no preâmbulo com que apresentou o livro. na Reforma Benjamin Constant. buscando na maioria das vezes a conciliação com os demais personagens que faziam parte do processo de implantação da República. que fez a tradução da obra do educador americano Norman Allison Calkins. centravam força.XIII. ainda. trabalhos manuais para meninos e de agulha para meninas. recebeu o título em Português de Primeiras Lições de Coisas.V. elementos de ciências físicas e história natural aplicáveis às indústrias. até porque. (BARBOSA. a escola primária do 1º grau abrangia. desenho de ornato. pela realidade. geografia e história. pois que similhante medida ataca a autoridade patérna e destrói. elementos de música. Para as escolas primárias do 2º grau. contudo. Benjamin tinha uma personalidade eclética. que predominava na Europa e nos Estados Unidos.. à agricultura e à higiene. A obra do autor americano.3475). pelo cultivo complexo das faculdades de observação destinado a suceder triunfantemente aos processos verbalistas. em todos seus fenômenos. Já por vezes temos discutido ésta questão de ensino obrigatório e mostrado a incompetência do poder civil para decretá-lo. a apreensão do mundo exterior. tomado este então como inteiramente destinado “a seu uso como se apresentasse. Em matéria de ensino não se déve aceitar nenhuma impozição. bem antes da Reforma de Constant. 26 de Carlos Magno de 93 (13 de julho de 1886) . em 1866. e o Estado não póde impor méstres nem doutrinas. ao absurdo formalismo da escola antiga. o resultado da influência da Pedagogia de Henri Pestalozzi (1746-1827). sinão a que resulta da livre adezão de cada um às doutrinas em circulação. Não se tratava. como não póde impor padres nem religião. ginástica. Quando se pretende submeter à sanção penal matéria que só comporta uma . elementos de língua francesa. A obrigatoriedade do ensino é uma das muitas panacéias inventadas hoje para sanar males que não compórtão remédio legal e que só pódem ser debelados pela modificação gradual e lenta das opiniões e dos costumes. na qual consagrava as idéias pestalozzianas. como podemos conferir em um texto datado de: Rio. Inclusive. na crítica ao “ensino obrigatório”. mas de facilitar por meio da observação dos fatos. ao mesmo tempo. As "lições de coisas".. trabalhos manuais para meninos e de agulha para meninas.

esse saber era encadeado por sua própria natureza e unificado na escola enciclopédica. o saber enciclopédico e o saber total em extensão. Em Benjamin Constant.. portanto. em Niterói a 25 de Novembro de 1854. planta-se o absolutismo e lança-se o gérmen das reações violentas. como chefes de família e como pozitivistas. de similhante governo. voltaremos a discutir o assunto. geografia. de acordo com a “classificação das ciências” (da mais simples. ao contrário de Comte.17 Mesmo apoiando algumas posições contrárias aos ortodoxos com relação ao ensino. o ensino “enciclopédico” tinha a pretensão de profundidade. uma vez que. mas que são radicalmente incompetentes.. Nesse sentido não se tratava de fazer do homem um sábio especializado. a sociologia). a matemática para a mais complexa.) Temos fé em que nésta rezistência seremos acompanhados. copiando servilmente regulamentos de paízes estrangeiros e amalgamando-os com vistas colhidas aqui e ali na leitura de meia dúzia de publicistas alamóda. Uma das divergências entre Constant e Comte com relação a educação estava no conceito de cultura enciclopédica. e que não é. depois elementos da física e química). mas apenas o indispensável para a cultura intelectual e para o seu conhecimento. como cidadãos. Para o comtismo. chegando a ser considerado por Teixeira Mendes. cívicos ou sociais). em Caxias a 5 de Janeiro de 1855. em vez da cultura estética e lingüística. objetos e fatos. Por ser matemático vai garantir como disciplina curricular a “lição das coisas”. não segue a lei dos três estados e a classificação enciclopédica das ciências. 36 . geometria e álgebra). (.História da Educação solução espiritual. qualquer que seja o rótulo. onde o ensino das crianças vai partir da observação e do contato direto com seres. música. Benjamin Constant vai ser cultuado por esse grupo positivista. Lavramos o nósso protésto desde já. mas também por todos os cidadãos que tivérem dignidade cívica e soubérem compreender que sem liberdade espiritual compléta não há outra alternativa sinão para os mais ferrenho e degradante despotismo. que tal problema póde ser rezolvido. Sendo que o currículo da escola primária do 1º grau (7 aos 12 anos) era composto por onze disciplinas: português. Teixeira Mendes (Rua de Santa Izabel nº 10) N. não era preciso conhecer tudo de cada uma delas. no entanto. o saber de tudo que existe no universo. e. como o verdadeiro “Fundador da República Brasileira” e um dos maiores divulgadores dos valores morais apresentados pela doutrina de Comte. Desse modo. história e ciências (história natural. monárquico ou republicano. vai priorizar o ensino das ciências e das matemáticas como base da Educação Infantil. como recomenda Comte. si for necessário. mas de fornecer-lhe as luzes capazes de guiá-lo em todas as circunstâncias da vida (na profissão. Miguel Lemos (Rua de Santa Izabel nº 6) N. não só pelos nossos correligionários pozitivistas. instrução moral e cívica. Benjamin Constant. R. Ver-se-á então mais uma vês que a reforma do ensino público supõe nada menos do que a renovação filozófica e religióza da sociedade modérna. nos deveres domésticos. matemáticas (aritmética.

ginástica. abolindo o diploma em favor de um certificado de assistência e aproveitamento. Os resultados foram desastrosos. é lançada Reforma Francisco Campos. é necessária porque se refletirá na organização escolar. em vez do fundamental delas. fornece os elementos centrais para o enraizamento de uma cultura escolar baseada nas “lições das coisas”. apresentar o termo “enciclopédico” no sentido de superficial. retornando ao poder. Além disso. A série de reformas pelas quais passa a organização escolar revela uma oscilação entre a influência humanista clássica e a realista ou científica. 73). Ribeiro (1991) faz uma análise do efeito das Reformas Educacionais na primeira fase republicana apontando os traços deixados na cultura escolar e as influências de filosofias européias que passam pelo classicismo humanista até o realismo cientificista de cunho positivista. Do ponto de vista político. e transferindo os exames de admissão ao ensino superior para as faculdades. 1991. as idéias que norteiam a moral positivista penetram na organização da escola primária brasileira.5. mas sem dúvida que. ampliando a aplicação do princípio de liberdade espiritual ao pregar a liberdade de ensino (desoficialização) e de freqüência. p.História da Educação desenho. dentro da cultura brasileira. que vai de 1937 a 1945. Daí. de valores construídos na prática pela prática. por meio do voto. O positivismo é filtrado nas medidas expostas no regulamento de Benjamin Constant. sem chance para as interpretações críticas. é criado o Ministério da Educação e Saúde. a Reforma Rivadávia (1911) retoma a orientação positivista tentando infundir um critério prático ao estudo das disciplinas.2 Educação na Década de Vargas Em 1930. por meio dessa reforma do ensino de 1890. determinando ao final do século XIX as bases da estrutura e funcionamento da escola moderna brasileira. 3. reafirmando o traço de dependência cultural. personagem responsável pela movimentação de idéias de reformas da educação na década anterior. que não temos dúvidas deveriam começar já no Ensino Básico. voltada para a organização do Ensino Superior. O código Epitácio Pessoa (1901) acentua a parte literária ao incluir a lógica e retirar a biologia. a partir de 1951. Getúlio Vargas ocupa cronologicamente o período denominado Estado Novo. ser comum. Neste período. (RIBEIRO. a sociologia e a moral. que acabou de ser feita. gerando para a escola primária (Ensino Fundamental) até os dias de hoje. 37 . no tratamento superficial dos conteúdos das disciplinas do currículo. tendo a frente Francisco Campos. A caracterização do reforçamento do traço de dependência na base da estrutura social durante os anos de 1894 a 1918. com o objetivo de que o secundário se tornasse formador do cidadão e não do candidato ao nível seguinte. uma tradição da objetividade. noções de agronomia e trabalhos manuais – algumas subdivididas conforme avançavam as séries (ou classes) e contempladas com uma programação que pretendia abarcar “tudo de todas as ciências”. Em 1931.

Observou-se. A demanda social da educação cresce e se consubstancia numa pressão cada vez mais forte pela expansão do ensino. (ROMANELLI. Afrânio Peixoto. a nosso ver. Hermes Lima. ao lado de uma profunda e sofisticada preocupação pedagogizante. focaliza o atual problema educacional brasileiro. republicado em 1932. Roquette Pinto. da autoria de 26 eminentes educadores. jamais um escrito teve repercussão semelhante ao Manifesto dos Pioneiros. esta contradição pode ser sintetizada em dois pontos básicos: a) o fato de vivermos. de passar a viver o dualismo educacional que se traduz pela presença do analfabetismo e ausência de educação primária gratuita e universal. em matéria de educação. p. Júlio de Mesquita Filho. no contexto da qual se dá a maior parte dessa primeira fase de industrialização que vai de 1930 a 1961. e depois de todo o país. cuja a superação está a exigir uma tradição cultural e educacional. compõe-se de três partes: • a primeira. como nos demais aspectos da vida social. (RIBEIRO. Ferreira de Almeida Junior. Sampaio Dória. o que trouxe como conseqüência uma das contradições mais sérias do sistema educacional brasileiro. E é sob sua liderança que se aplica a política do nacional-desenvolvimentismo. 4. expunha não só a pedagogia da Escola Nova. enquanto enfrentamos situações mais complexas. entre os quais: Fernando de Azevedo. Frota Pessoa.História da Educação Getúlio Vargas passa a exercer um papel central no âmbito da política brasileira. 38 . e de sermos com isso obrigados a resolver problemas que outros povos já resolveram há um século ou mais. p. que ainda não temos. 2001. Lourenço Filho. o corpo propriamente dito do escrito. composto de 46 páginas. E a terceira??? Na História da Educação Brasileira. Anísio Spínola Teixeira. 60). Raul Briquet. Pascoal Lemme. e com isso. que irá tomar conta inicialmente do eixo São Paulo – Rio. no entanto que. • a segunda. Cecília Meirelles. Noemy da Silveira. em 22 páginas de autoria de Fernando de Azevedo. duas ou mais épocas históricas simultaneamente. seus líderes desejavam mudar a educação de forma revolucionária. falando de suas deficiências e propondo a reconstrução da educação. b). Para a autora. Delgado de Carvalho. a expansão da demanda escolar só se desenvolveu nas zonas em que se intensificaram as relações de produção capitalista. Mário Casassanta. 1994. 154) Para Romanelli (2001). o fato de expor-nos ao risco de enfrentar e até mesmo. assim como a expansão capitalista não se fez da mesma forma em todo o território nacional. a implantação definitiva do capitalismo industrial no Brasil gerou modificações no horizonte cultural da época. mas também a filosofia da educação social-radical. OS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova.

A despeito da condição de profunda violação dos direitos humanos. publicada no Brasil. Um evento histórico importante para a educação é a implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A obra Pedagogia do Oprimido é a síntese da proposta freiriana para a educação de adultos.] Ao final do ano de 1964 havia 50 mil presos políticos em todo o país”. podemos destacar o trabalho desenvolvido pelo educador pernambucano Paulo Freire. da alçada e jurisdição do governo central. por isso mesmo. tomando como base o percurso para a publicação da referida obra: 39 . n°. Inquéritos político-militares (IPM) são instalados. Militarismo e Educação no Brasil: os efeitos do Golpe de 64 O Militarismo e seus feitos na sociedade brasileira podem ser mesurados a partir da afirmação de Leôncio Basbaum (s. formada por princípios gerais. No trecho a seguir. não à receptividade. apresentam a alternativa da Educação Nova. do Presidente da República e seu Ministro. considerada arcaica e superada. passam a infiltrar-se em toda parte. Os militares passam a governar o país por meio de atos institucionais. O uso a tortura como instrumento de obtenção de “confissões” generalizou-se e “aprimorou-se”. de 20 de dezembro de 1961. Os agentes do Serviço Nacional de Informação (SNI). fazendo um apelo dos jardins de infância até a universidade. com o objetivo de servir de guia para toda a educação Nacional. A Reforma de Gustavo Capanema. Como efeito do medo que se instala começam também as delações em grande escala. sob a chefia do general Golbery do Couto e Silva.História da Educação declarando-se contra a educação Clássica. a Reforma atribui ao Ensino Secundário a sua finalidade fundamental. ligado a Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB) e ao Governo Federal. Ribeiro (1994..1. mas a atividade criadora do aluno. que é a formação da personalidade do adolescente... apenas em 1975. 4244.d. Os movimentos sociais ligados a área da Educação que mais se destacaram foram os Centros Populares de Cultura (CPC). que constitui o que se chama a Lei Orgânica do Ensino Secundário. 4. Além do movimento de educação de base (MEB). 4024. a sociedade civil engendrou várias formas de resistência. o próprio Paulo Freire relata as dificuldades vivenciadas no período da ditadura militar. que aparece em 1961. dava direito ao governo de cassar mandatos e suspender direitos políticos sem necessidade de justificação. com a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”. Decreto-Lei n°. entre outras questões. Nesse contexto. de 10-04-64. p. que antes mesmo da ocorrência do golpe já militava na causa da erradicação do analfabetismo e por conta desse trabalho ficou exilado de novembro de 1964 a junho de 1980. de 9 de abril de 1942. 142): “[. 157) ilustra esta forma de governo no trecho abaixo: O Ato Institucional nº 1 (AI-1). pautada no espírito dinâmico. cuja origem está ligada a Prefeitura de recife e no Rio Grande do Norte. julgamento ou direito de defesa. ligados a União Nacional dos Estudantes (UNE) e os Movimentos de Cultura Popular (MCP). ocupa-se principalmente do Ensino Médio e não tanto do Ensino Primário.

ter sua primeira edição em Português. língua em que foi originalmente escrito. Constant. já morávamos em Genebra. Remeti o texto nos fins de 1970.. que a si mesmo pitorescamente chamou de revolução (.. A questão que se colocava era como remetêlo com segurança não só para os originais. quando o livro já tinha sua primeira edição em inglês. Gasparian. como nos impôs o golpe de estado de 1º de abril de 1964.). do respeito a coisa pública. Aquela altura. a enganação e a desconsideração da coisa pública. diretor da [editora] Paz e Terra. e sobretudo. (..) Dias depois. mais ainda odienta. 62-63) Atividade 4 Análise. começo dos anos 70. que o publicaria. da ética. Freire. Há mais um aspecto ligado a Pedagogia do oprimido e ao clima perverso antidemocrático do regime militar que se abateu sobre nós que forma singularmente raivosa. 3 – Construa um texto histórico sobre a trajetória do Educador P. Mesmo sabendo que o livro não podia ser editado aqui [Brasil]. seria interessante que o texto datilografado chegasse às mãos de Fernando Gasparian. que gostaria de salientar. em nome da liberdade. 1997.História da Educação Agora. acusava o recebimento do material pedindo que esperasse por tempos mais favoráveis para a sua publicação. da democracia. para o portador. tantos anos depois e cada vez mais convencido do quanto devemos lutar para que nunca mais.. p. sua primeira impressão só foi possível em 1975 (FREIRE. 1 – Analise a relação entre o positivismo e Reforma de B. 2 – Faça um levantamento em bases convencionais e em bases virtuais de pesquisa sobre a Educação Nova na década de 30 do Século XX. o ultraje a democracia. vivamos de novo a negação da liberdade. discretamente. Sua publicação aqui. 40 . ou nos começos de 1971. mas também.

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