AUTOR CARLOS JORGE PAIXÃO Doutor em Educação pela UNESP

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História da Educação

UNIDADE 1
HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÃO 1.1 CONCEPÇÕES DE HISTÓRIA 1.1.1 Concepção Positivista O pensamento de Augusto Comte (1798-1857), denominado de Positivismo, surge no século XIX, com a pretensão de ser uma síntese definitiva da evolução humana pautada em elementos oriundos da lógica das ciências exatas e naturais, na busca do estado positivo ou científico. (PAIXÃO, 2001; 2003; 2004). Segundo Augusto Comte, em sua obra intitulada Curso de Filosofia Positiva, publicada em 1830: [...] O caráter fundamental da filosofia positiva é tomar todos os fenômenos como sujeitos as leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços, considerando como absolutamente inacessível e vazia de sentido para nós a investigação das chamadas causas, sejam primeiras, sejam finais. (COMTE, 1830, p. ) Assim, a história, no sentido positivista, baseia-se nos fatos descritos e demonstrados nos documentos de origem oficial. 1.1.2 Concepção Marxista Marx (1818-1883) surge, no século XIX, colocando o homem e sua história como decorrência das condições materiais determinadas pela economia política. Os meios de produção e as classes sociais são fatores que se destacam na estruturação e organização da sociedade, a partir da distribuição das riquezas. Para Marx (1983, p. 194):
[...] temos que começar constatando o primeiro pressuposto de toda existência humana e por tanto de toda história, a saber, o pressuposto de que os homens precisam estar em condições de viver para poderem fazer história. Mas para viver é preciso antes de mais nada, comer e beber, morar, vestir e ainda algumas coisas mais. O primeiro ato histórico é, portanto, engendrar os meios para satisfação dessas necessidades, produzir a vida material mesma, e isto é um ato histórico, uma condição básica de toda a história que ainda hoje, como há milênios, precisa ser preenchida [...]

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No marxismo, a história é determinada pelos meios de produção que estabelecem a base material da sociedade. As idéias dependem das condições econômicas da sociedade, manifestadas na situação socioeconômica dos homens, distribuídos em classes sociais, nas quais quem detém o capital, domina os que estão destituídos deste. A metodologia para produção do conhecimento histórico baseia-se na dialética materialista. Segundo Gamboa (1996, p. 106), o método dialético aborda o fenômeno em suas contradições numa perspectiva histórica e dinâmica. 1.1.3 Concepção do Annales A História faz parte da vida dos homens e mulheres, que por sua vez, constroem a existência, em sociedade, com idéias e coisas, que surgem no cotidiano de uma espécie de cultura viva ou por outro lado de ambientes sofisticados e eruditos como as academias.

História da Educação O século XX, entre a década de 20 e a década de 60, ainda profundamente marcada pelas concepções positivistas e marxistas, assiste a um movimento de inovações na produção do conhecimento histórico em torno da Revista Os Annales, organizada por Marc Bloch e Lucien Febvre. O grupo da revista Os Annales sofre influências do marxismo (materialismo histórico e dialética materialista), porém deixa de incorporar a “luta de classes” como uma categoria de análise da História. Segundo Ciro Flamarion Cardoso (1981 apud LOPES, 1989), as principais características dos Annales são:
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Passagem da História Narração à História Problema; O caráter científico da História é dado, mesmo em se tratando de ciência em construção; Contato e debate com as outras ciências sociais (adoção de problemáticas, métodos e técnicas); Ampliação dos limites da História, abrangendo todos os aspectos da vida social: civilização material, poder e mentalidades coletivas; Insistência nos aspectos sociais, coletivos e repetitivos; Ampliação da noção de fonte para além da escrita (vestígios arqueológicos, tradição oral etc.); Construção de temporalidades múltiplas, ao contrário do tempo línea e simples da historiografia tradicional; Reconhecimento da ligação indissolúvel e necessária entre passado e presente no conhecimento histórico, reafirmando-se as possibilidades sociais do historiador. História Nova, que, de certa forma, prossegue a linha da inovação dos Annales, repousa sua novidade em três processos: ▪ Novos problemas – põem em causa a própria História; ▪ Novas contribuições – modificam, enriquecem, transformam os setores tradicionais da história; ▪ Novos objetos – no campo epistemológico da História.

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Goff e Nora (apud LE GOFF, 1990, p. 14), principais articuladores dessa nova busca de redefinição da História, explicam que:
[...] O essencial não é sonhar, hoje, com um prestígio de ontem ou de amanhã. É saber fazer a história de que temos hoje necessidade. Ciência do domínio do passado e da consciência do tempo, deve ainda definir-se como ciência da mudança, da transformação. Uma História Nova pautada nas necessidades de mudança da sociedade, que investigue os vestígios do homem do passado no presente, tendo o futuro como referência.

História da Educação 1.2 CONHECIMENTO HISTÓRICO Os estudiosos do conhecimento histórico, em sua maioria, demarcam a fundação da história, a partir dos estudos de Heródoto, que surgiram no século V antes de Cristo, na Grécia, tendo como conteúdo a descrição da guerra entre Gregos e Persas (490-479 a.C.). Para Heródoto, a História era mais que uma simples descrição dos eventos em torno de um fato grandioso realizado pelos homens; ela consiste em investigar, em pesquisar na tentativa de encontrar a verdade, informa Borges (1981). A partir da Grécia, a idéia de história sofre uma série de variações, dentro do espaço-tempo das civilizações com seus autores de estilos e de formações das mais diversas, produzindo uma série de definições sobre a mesma conforme demonstramos, a seguir. Marc Bloch (apud MENDES, 1993, p. 8) define que:
[...] O objeto da história é por natureza o homem. Melhor: os homens. Mais do que o singular, favorável à abstração, convém a uma ciência da diversidade o plural, que é o modo gramatical da relatividade [...]. O bom historiador, esse assemelha-se ao monstro da lenda. Onde farejar carne humana é que esta a sua caça [...] Ciência dos homens, dissemos nós. É ainda muito vago. Temos de acrescentar: dos homens do tempo. O historiador não pensa apenas o humano. A atmosfera em que o seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração.

A história não se basta com o singular, busca nas suas investidas o sentido da duração dos homens, nas diversas formas de expressão de sua humanidade, materializada nos monumentos e descrita nos documentos, que espelham a trajetória coletiva da cultura humana. É ciência que estabelece a identificação do ser humano dentro das cronologias, ao investigar e interpretar suas lembranças, resgatando suas recordações como "marcas", que ao serem decifradas colocam o homem diante de si, com seu retrovisor de feitos singulares e coletivos, um ser da consciência. Philippe Ariès (1986, p. 22) apresenta a seguinte reflexão:
[...] As culturas são, pois, necessariamente diferentes umas das outras, e cabe ao historiador apreender essas diferenças. Como? Através de um jogo de espelhos e de ricochetes, que o historiador vai aprendendo, na sua vida cotidiana. Vejamos um exemplo: leio, num artigo de Paul Veyne, que a alta sociedade romana preferia a adoção à filiação natural para a sucessão numa herança ou num determinado poder. Este fato interessa-me, primeiro, como um traço característico da civilização romana da época. Mas, em seguida, apercebo-me de que a preferência pela adoção desapareceu, durante a idade média e a época moderna, até que nos nossos dias começa a reaparecer. O fato em si, que é a adoção - e a não-adoção - torna-se o revelador de uma diferença fundamental entre várias culturas.

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Assim, a cultura pode alterar-se em um mesmo espaço, a mudança pode acontecer dentro de um determinado tempo em uma mesma sociedade. O fato histórico que em um determinado período, pode ser considerado determinante do comportamento de um grupo social, pode alterar-se, ou até desaparecer; este movimento, dentro da trajetória humana, estabelece a diferença cultural entre grupos sociais que habitam a mesma geografia. E o estudioso da história, deve neste caso, estabelecer uma periodização, pois sem este recorte no tempo, dificilmente, obterá sucesso em sua investigação. Segundo Ariès (1986, p. 24):
[...] A história é, e deve continuar a ser, o conhecimento das aparências, cuja ilusão não deve denunciar, mas da qual deve descobrir os elementos que, muitas vezes, estão ocultos e que dela fazem uma estrutura coerente. O historiador cedo se apercebe de que existem dois tipos de aparências, as que são manifestas e estão à

o conjunto de idéias dentro de uma sociedade em geral. 144): 5 . O processo de investigar a história busca nas suas investidas o sentido da duração dos homens. todos ao lidarem com os estudos historiográficos. é marcada pela personalidade. Tradicionalmente. ofícios. possivelmente. que espelham a trajetória coletiva da cultura humana. ocupava a cátedra de História e de Moral. Para que serve a história? A história é. representa interesses de grupos e determina o desenvolvimento das políticas.14) faz uma análise crítica da função e do desenvolvimento da história: [. ora estudos críticos e revolucionários. evidências da ação dos agentes históricos em um determinado tempo e espaço de uma civilização.3 MÉTODOS. apresentavam ora estudos historiográficos de fidelidade às determinações de grupos dominantes. pela formação e pelos interesses de seus autores.] Estamos aqui perante a questão da função da história. pela interpretação das obras mais clássicas e de fontes primárias investigadas e devidamente identificadas. subterrâneas. o produtor do conhecimento histórico deve ocupar-se das "aparências". Mas também é verdade que a história sempre desempenhou uma função ideológica. Em geral. nas diversas formas de expressão de sua humanidade. que situados em estados e instituições. apesar das variações da história. materializada nos monumentos e descrita nos documentos. e as ocultas. INVESTIGAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DE HISTORIOGRAFIAS As idéias e ações humanas são objetos de busca do historiador. p. a história no decorrer do tempo e das culturas. atas. Todo conhecimento científico traz a marca de seu autor. situado no tempo e no espaço de uma cultura de uma civilização. encontrem um pouco de sua memória individual e coletiva. O homem é o centro da construção do conhecimento histórico. um divertimento: o historiador sempre escreveu por prazer e para dar prazer aos outros. pretendia-se mostrar aos homens como é que Deus queria que eles agissem. buscando dimensionar o que está na "vitrine". Espaço e tempo são duas categorias que se destacam na delimitação dos estudos históricos. sofre as marcas das idéias no decorrer do tempo. por outro lado. A história enquanto construção de um conhecimento sobre o homem. quando ensinava no Collège de France. Esta função de pedagogia moral manteve-se por muito tempo – Michelet. dar conta da escavação dos elementos acumulados ao longo das etapas e dos períodos componentes do passado. segundo Mendes (1993. garantindo os elementos mais importantes no retrovisor. antes de mais nada. Então. para que. decretos.. 1. A dimensão espacial está relacionada com a necessidade de localização geográfica da sociedade ou civilização escolhida para o desenvolvimento do estudo. os documentos são representados por cartas. um ponto comum é a tentativa dos historiadores de colocar o homem diante de si. os estudos históricos partem da investigação dos eventos do passado. p. nos seus diversos períodos da trajetória humana.História da Educação vista de todos.. das regras de cunho moral que fazem parte da interpretação constante na obra dos historiadores em diversas épocas. do público e. apenas notadas pelos seus contemporâneos. Dizemos que. que podem ser desenterrados. que foi variando ao longo dos tempos. Para Raoul Glaber. Georges Duby (1986. essa função consistia numa interpretação moral dos fatos: narrando os acontecimentos do passado. coletando e tratando documentos. visível e contextual e. legislações etc.

que. As fontes históricas.] A delimitação espacial de qualquer estudo histórico impõe-se. sob pena de naufragar no oceano panorâmico dos “estudos universais”. uma vez que dificilmente um pesquisador apresenta condições de estudar múltiplas cronologias.. p. industriais e comemorativos. e o tipo de sociedade na qual se desenvolve o evento. de se localizar no passado é devido aos vestígios e evidências deixadas por outros homens nas diversas formas de documentar a trajetória da civilização humana. giram os agentes históricos. sobretudo. a circulação de idéias. A possibilidade de um homem contemporâneo.História da Educação [. 2003). com a ilusão de se criar uma “grande história”.] A árvore fala da natureza. devido a dois fatores: impossibilidade de se extrapolarem conclusões de uma área estudada para outra que não tenha sido objeto de estudo.. com suas características culturais. monumentos artísticos. testemunhos. Buzzi (1994.. de uma civilização.. estudioso ou não. geralmente. o devagar de seu constituir-se [.. deve ser direto – da realidade em foco. genericamente. é o tempo. então. tratando-se de um quadro geográfico excessivamente amplo. é a razão da existência da investigação histórica. (MENDES.. encontrar-se-ão dificuldades. sempre que possível. 13): [. a fim de nos definir por diferença ou semelhança a ele. de um grupo humano. p. tentam esgotar questões em torno de personagens. 1993). 72) destaca que: [. Uma outra categoria fundamental. a demarcação cronológica é inevitável para que a pesquisa alcance viabilidade e validade. Isso é o que os filósofos ou teóricos da história fazem. por meio do estudo realizado no tempo presente. A problematização. como uma forma geral de produzir sentido. As fontes históricas podem apresentar-se em várias facetas: vestígios arqueológicos. da pesquisa das fontes e do tratamento de dados. na ciência histórica.] A história é a preocupação do homem. (PAIXÃO.. responsável pela seleção de acordo com o recorte eleito para a definição de seu objeto de estudo. do homem. pré-históricos. fatos e eventos. na construção das historiografias. onde está localizado o investigador. o que convencionamos chamar de uma época da cultura humana. a investigação de sua possibilidade. A dimensão temporal torna-se imprescindível. 6 Assim. caminha na direção de uma seleção dos dados de maneira a compor uma sucessividade de eventos que sejam capazes de traduzirem as ações e as expressões dos agentes históricos do passado. por vezes insuperáveis. Pensar com a história implica o emprego dos materiais do passado e das configurações em que os organizamos e compreendemos para nos orientar no presente. Em torno de um problema histórico selecionado. uma segunda impossibilidade – de ordem prática e inerente à própria natureza humana – prendese com o estudo de áreas demasiado extensas. apresentados como prova e os documentos – todo esse material. pretensiosamente. Para Schorske (2000. denominado de "fontes". com as imagens que formamos do passado. a investigação histórica carece de uma delimitação no tempo e no espaço de uma sociedade.] Pensar com a história não é o mesmo que pensar sobre a história. Com efeito. arquitetônicos. A . a história.. pensamos com o produto substantivo da investigação histórica. são dados que evidenciam um tempo-espaço. o conhecimento produzido e acumulado nas obras (teoria). em geral. Os materiais do passado são as fontes de abastecimento da produção do conhecimento histórico e a única maneira de orientar a investigação histórica no tempo presente. a correlação de forças entre eles. 2001. Em um modo. à nível do conhecimento – o qual.

contribui com a pedagogia disponibilizando seus métodos e técnicas de investigação para que o educador possa apropriar-se dos eventos pedagógicos que ocorrem nas diversas épocas e nas diversas sociedades. Dois grandes caminhos vêm sendo trilhados. de uma sociedade inteira com suas múltiplas determinações econômicas. São os atos humanos que o historiador busca estudar em cada cronologia e em cada espaço com os métodos de investigação adequados ao problema e o desenrolar dos fatos na época selecionada. dentro de uma determinada sociedade (espaço). capaz de dar conta de uma grande época. produzidos ou reproduzidos na forma escolar e não escolar para a reconstrução da memória coletiva dos fenômenos educativos. o estudioso da história e de suas variantes (história da educação. A história. O risco. com o apoio teórico-conceitual das obras de outros estudiosos. a necessidade do pesquisador de delimitar o seu problema. em qualquer área. portanto. e nem é possível universalizar o estudo realizado.. O outro caminho busca a construção de uma história de longo alcance temporal e geográfico. construirá uma história total (global). faz a análise de questões ligadas ao magistério dessas disciplinas. passa a ser imprescindível para início do estudo e da investigação. Faz parte da natureza do processo de construção do conhecimento científico. do conhecimento histórico acumulado. porém. Entendemos que a demarcação espaço. de uma civilização ou até de um determinado grupo humano. Alguma lacuna há de ficar. elegendo um foco para aprofundar e avançar com seu estudo. A preocupação do professor em dominar a história acaba por colocar a educação na penumbra. consiste em tentar uma compreensão da parte. em busca de resposta ao problema proposto. 1. tomando como referência a teoria acumulada pelos historiadores. tempo e personagens é uma exigência do fazer científico. segundo ele. aparente e falso. a segunda – educação – aparece como uma mera conseqüência. A proposta de Saviani é que se desloque a ênfase para a segunda palavra mesmo ocorrendo o risco de apenas inverter a hipertrofia. mostrando que há uma tendência que dá ênfase à primeira palavra da locução – história –. mesmo que o método possa ser plenamente utilizado. história econômica. p. o hominizar-se do homem. entendermos que uma posição pode ser anunciada após alguns anos trabalhando com estudos historiográficos. 37). o caminho mais seguro. buscando a universalização do estudo. políticas e sociais. com o intuito de compor uma história total. a ênfase e. o método historiográfico analítico e o método historiográfico globalizante. flores e frutos apresenta o florescimento da natureza.História da Educação árvore de mil folhas. que nos ensina cotidianamente. mas que. o ponto de 7 . mas válido até os dias de hoje: "Sem teoria não se constrói o conhecimento científico". sem pretensão de produzir uma "grande história". porque como nos diz um mote antigo. história da ciência. Os caminhos da história são diversos. analisando a posição de Saviani. onde os bens simbólicos da cultura são apresentados. história da psicologia etc.). a história. como ciência que interpreta os atos humanos. buscando a Função do ensino de Filosofia da Educação e de História da Educação. O primeiro caminho constitui-se em um percurso por dentro da história com um itinerário parcial (história parcelar). preferencialmente. já que..] Dermeval Saviani. Eliane Lopes (1989. História gasta tempo para fazer o homem. é certo. dentro de um contexto mais amplo. Dificilmente. resultado da investigação sistemática de um tempo dentro de uma sociedade. concluiu que: [. pelos pesquisadores e estudiosos da história.4 HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÃO Os estudos históricos ou historiografias derivam em geral. que não é possível com um projeto de pesquisa dar conta da história total (global). em que a delimitação de um tempo (cronologia).

1) Selecione e analise duas das concepções de história apresentadas nesta unidade. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 2) Após o estudo desta unidade. o sentido de história irromperá com toda força.História da Educação partida do estudo estiver na educação ou na problemática educacional. elabore uma definição de História da Educação. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 3) Caracterize o método historiográfico analítico e o método historiográfico global. ATIVIDADE Aplicando o conhecimento adquirido nesta unidade. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 8 .

mas também aberturas proféticas e fragmentos utópicos que nos apresentam uma imagem mais complexa e mais rica da Idade Média. que impõe aos habitantes do feudo a obrigação à fidelidade e à submissão. no feudo. e também uma identidade mais próxima de nós e de nossa sensibilidade. nos mosteiros: ela se caracteriza por poucos intercâmbios e é toda devotada à fé cristã. sobretudo. Foi. 1999). A Alta Idade Média corresponde ao período que vai das invasões bárbaras até as proximidades do ano mil. no centro da Europa. Um tempo de transformação política. caracterizando. a composição dos Estados Nacionais e a presença embrionária da nova classe – a burguesia.1 O CONTEXTO MEDIEVAL A Idade Média corresponde ao longo período delimitado. A economia do feudo é. A identidade da idade média está associada às duas classes que detêm o poder no período. 155): O feudo é uma unidade territorial. governada por um senhor que age dentro dele como fonte de direito. o clero e a nobreza que. de modo particular. que se manifestam com toda a força nas criações artísticas e técnicas. respectivamente. A sociedade medieval estrutura-se em torno do feudo. toda esta longa época: conferindo-lhe conotações de dramaticidade e de tensão. (CAMBI. Um tempo caracterizado pela força da economia feudal e pela hegemonia do cristianismo. Segundo Cambi (1999. por meio do fundamento cristão. desenvolvese somente no castelo do feudatário ou nas igrejas e. a época do meio entre dois momentos altos de desenvolvimento da civilização: o mundo antigo e o mundo moderno. produzindo e consumindo in loco as mercadorias de que tem necessidade. a partir do ano 476 demarcação do fim do Império Romano e o ano 1492 da descoberta da América. A fé cristã. constrói os ideais e desenham um imaginário que atravessa as fronteiras das cronologias até os tempos modernos. A igreja. é a principal responsável pela formação dos homens na época. econômica e cultural. absolutamente. A Idade Média não é. a época da formação da Europa cristã e da gestação dos pré-requisitos do homem moderno (formação da consciência individual. fundaram o tempo do cristianismo católico. heresias e revoltas camponesas. aos seus dogmas. sobretudo. marcada por forte espírito comunitário e uma etapa da evolução de alguns saberes especializados como a matemática e a lógica. p. por meio da Igreja e do Império.) como também um modelo de sociedade orgânica. A Idade Média costuma ser dividida em duas grandes fases: Alta Idade Média e Baixa Idade Média. da identidade supranacional etc. Assim como uma fase histórica que se coagulou em torno dos valores e dos princípios da religião. mas enfraquecida que antes. reduzindo ao mínimo o intercâmbio e apresentando-se predominantemente agrícola. temos a Baixa Idade Média marcada pelo surgimento das cidades e da expansão do comércio. em geral de subsistência.História da Educação UNIDADE 2 EDUCAÇÃO NA EUROPA MEDIEVAL E MODERNA 2. 9 . que conjuga a presença da Igreja. aos seus mitos. por isso denominada também de sociedade feudal. em troca de proteção. o despertar das ciências e das artes. e o ressurgimento dos valores laicos. que se empenha na sua defesa militar. A partir do ano mil. A cultura. nutre as mentalidades. do empenho produtivo.

conservador. . a partir de agora. conflitam entre si e deixam espaço.] Também a educação não é estranha a este processo. segue uma pedagogia eclesiástica.História da Educação 2.1 Educação na alta idade média e na baixa idade média A educação.. Os títulos eram de bacharel com cinco anos e de magister. (MANACORDA. Além disso. para organismos diversos. (LUZURIAGA. principalmente. estão voltados para a laicização do intelecto do homem e de sua vida social.. por exemplo). também político. uma iniciativa do Imperador Carlos Magno (742-814). As escolas palacianas ou palatinas visavam formar eclesiásticos. administradores do império e filhos da nobreza. Renova-se a ideologia. [. por assim dizer. Estes novos modelos pedagógicos ainda marcados pelo cristianismo. Como exemplo deste tipo de educação universitária da época. Três tipos de escolas ganham destaque no período: as monásticas (ou abaciais). na escola catedral de Notre Dame que servirá de base para a fundação da Universidade de Paris. dirigida pelo monge inglês Alcuíno de York (730-804). como descreve Cambi (1999. 173). mais locais e mais diluídos. por exemplo).1. jurídicas e até médicas. 1990). mas fortemente ativos na vida social (as cidades e as nações). a partir das transformações das escolas catedrais. As escolas Monásticas (ou abaciais) cuidavam da formação religiosa por meio do estudo de textos sagrados e da meditação. que passam a empregar método de ensino pautado no debate de questões teológicas. ferreiros. na Alta Idade Média. a partir do ensino dos valores do Cristianismo adaptado ao contexto dos mais pobres. que inaugurou esse modelo de escola em seu próprio palácio. a via mística utilizará a razão para desenvolver o significado da fé e a sua relação com a vida social. p. representadas. desenvolvem seu apostolado. 10 As corporações que surgem na Baixa Idade Média são criadas em torno dos ofícios artesanais (alfaiates. que vê o povo cada vez mais protagonista ativo de movimentos ideais e de lutas sociais (as seitas pauperistas ou as lutas camponesas. É todo um mundo que vai se renovando. por franciscanos e dominicanos. Eram escolas construídas ao lado da igreja em que o bispo tem seu trono ou cátedra. Nesse período. onde o ensino visa à formação de religiosos. Os estudos na universidade duravam de cinco a sete anos. agora. estabelecendo uma relação pedagógica entre mestres e aprendizes. por volta de 1150. embora amparado. após sete anos de estudo. pelas pilastras universalistas da Igreja e do Império. isto é. desenvolvida em escolas organizadas pela Igreja Cristã Católica. Mudam as técnicas e transforma-se o trabalho. formalista e não-criativo caracterizado pela tradição e submissão à autoridade eclesiástica. também surgem as primeiras universidades. fundando os alicerces racionalistas e as sementes dos ideais de uma educação moderna e humanista. filosóficas. que transformam as oficinas em ambientes de ensinoaprendizagem. 1997). As escolas Catedrais eram escolas com a missão de formar o clero secular com um modelo educativo didático. distanciando-se do modelo escolástico apresentado pela Igreja Católica. as catedrais e as palacianas. mas que. Já a educação na Baixa Idade Média sofre grandes modificações. que implica cada vez mais competências especializadas e envolve cada vez mais indivíduos por conhecimentos e interesses comuns: nascem as corporações. as ordens pauperistas e mendicantes. tecelão. temos o trabalho de Abelardo.

História da Educação ATIVIDADE Aplicando nosso conhecimento sobre a Educação Medieval 1) Caracterize a Educação Medieval? • Na Alta Idade Média: __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ • Na Baixa Idade Média: __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 11 2) Busque e registre aqui evidências da Educação Medieval. nos dias atuais. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ .

1999). para ser mais preciso 1789. ou o início do sistema capitalista. sistematicamente. prisões e manicômios) agem em função do controle e da conformação social. ideológico. pelas novas estruturas ideológicas baseadas no antropocentrismo. operando no sentido educativo. posto como artífice de sua sorte no mundo em que vive. As teorias pedagógicas tomam uma conotação histórica e empírica. bem como novas instituições sociais (hospitais. econômico. principalmente. 2003). O homem europeu passa a descobrir e valorizar a razão e tudo o que pode advir como produto da racionalidade. a escola ocupa um lugar cada vez mais central. a Europa começa. Assim. DENIZE e OSCAR. um indivíduo mundanizado. Este longo período da segunda metade do século XV até o século XVIII. ano da Revolução Francesa. passando a estudos que consideram o tempo histórico e as condições naturais do homem. 1990. social.  Como revolução econômica: fim do modelo feudal (agrícola). também o exército e a escola. Como revolução política: nascimento do estado moderno (Estado-nação e Estado-patrimônio). marcando definitivamente esse tempo de mudança – os tempos modernos. Todas essas mudanças estruturais produziram um afastamento mais acentuado dos valores do cristianismo difundidos pela Igreja na Idade Média e uma aproximação maior da dimensão humana. Isto é.História da Educação 2. efetivamente. início de uma economia de intercâmbio (mercadoria. LUZURIAGA. . CAMBI. Transformações econômicas e sociais determinaram as mudanças no modelo jurídico-político. cada vez mais orgânico e funcional para o desenvolvimento da sociedade moderna: da sua ideologia (da ordem e da produtividade) e do seu sistema econômico (criando figuras profissionais. de modo analítico e experimental. (MANACORDA. liberado de vínculos e de ordens. político. a passagem do feudalismo para o pré-capitalismo. (CAMBI. portanto como uma revolução. a partir do século XVI. 12    Mudam os meios educativos: toda sociedade se anima de locais formativos. As grandes navegações empreendidas. por Portugal e Espanha serão decisivas para as mudanças nos horizontes geográficos e o desenvolvimento mercantil. A ruptura da modernidade apresenta-se. portanto devem ser investigadas. (AQUINO. a substituir as estruturações ideológicas do teocentrismo. os fins da educação destinam-se a um indivíduo ativo na sociedade.2 O CONTEXTO DA ÉPOCA MODERNA A Época Moderna ou Idade Moderna começa a partir do marco simbólico da descoberta da América (1492). como ainda da oficina. dinheiro. que. uma revolução em muitos âmbitos: geográfico. Como revolução social: afirmação da classe burguesa. racionalização de recursos financeiros e humanos). Entre essas instituições. Essa transformação de base econômica tornará o terreno propício politicamente. nutrido da fé laica e aberto para o cálculo racional da ação e de suas conseqüências. cultural e pedagógico. além da família e da igreja. 1999). 1997. JACQUES. para a formação dos estados nacionais e a centralização do poder. caracterizou-se por grandes transformações nas estruturas da Europa Ocidental. Como revolução na educação e na pedagogia: a formação do homem segue outros itinerários sociais. competências das quais o sistema tem necessidade).

2. Pedagogicamente: 2. 2. Sob o patrocínio de nobres e prósperos comerciantes.8 Matérias realistas e científicas. uma nova fase da cultura humana. 2. homem culto: ilustrado com base nas idéias de Platão e Quintiliano.3 A EDUCAÇÃO NA RENASCENÇA E A PEDAGOGIA HUMANISTA Dentro da época moderna temos o fenômeno da renascença.2 espírito cosmopolita: universalidade balizada pelas relações comerciais e pelos descobrimentos geográficos.6 Espírito crítico.): 1. provoca estranheza ainda hoje – refletia o caráter interdisciplinar da cultura técnica renascentista. 1. 2. Seus trabalhos técnicos e artísticos são testemunhos da cultura da época – sua obra mais conhecida é a pintura intitulada Mona Lisa.1. os engenheiros italianos projetavam e construíam palácios. 2. redescobrimento da personalidade humana livre e independente da religião e da política. p. Diversas tradições técnicas foram desenvolvidas em algumas regiões da Europa. 13 .3 participação da mulher.4 Cortesão instruído e urbano. Dentro desse cenário. sistemas de distribuição de água para cidades. 37.9 Cultivo do corpo e estética / boas maneiras e urbanidade. 2. A diversidade de interesses de sua obra – que. 2.5 Cultivo da individualidade. Socialmente: 1.3. além de esculpir e pintar quadros e afrescos. 1. educação humanista (Grécia e Roma ). 1. 2. 2. marcada pelo resgate da antiguidade clássica e pela construção de uma educação humanista.2.7 Estudo atraente e ameno. O norte e o centro da Itália destacaram-se das demais áreas pelo dinamismo comercial.1 desenvolvimento da cidade e estado-cidade / direção burguesa. Leonardo da Vinci (1452 – 1519) tornou-se um símbolo máximo do movimento renascentista.4 maior riqueza econômica (laços comerciais / sistema de crédito ).História da Educação 2. ao abarcar campos aparentemente tão díspares. catedrais. Apresentamos a seguir uma caracterização da renascença elaborada por Luzuriaga (1990. Os clássicos gregos e romanos inspiravam e ilustravam os homens da época na busca de inovações técnicas e artísticas.

nos fins e nos meios. A civilização medieval tinha esquecido a “paidéia dos antigos” e não conhecia a educação dos modernos. mas também com a vontade e a práxis. inaugurando a revolução pedagógica burguesa com um sentido utópico de “ensinar tudo a todos”. a partir da dimensão humana e se tornam as principais instâncias de formação dos sujeitos na modernidade. civil e do trabalho que vive como um micromundo no qual se reflete o macromundo e que é senhor do universo por dominá-lo com o pensamento e com a palavra. 1999). ciências e história. mudou o ensino e mudou a atitude da família em relação à criança. A nossa sociedade. desenvolvido em todas as suas potencialidades e realizado naquele pluralismo de capacidades e de dimensões. muda a imagem do homem que é formado por esse processo educativo: trata-se daquele homem mais laico. desse tempo. Um tempo humano. uma concepção de educação. a nossa época é herdeira direta de uma mudança advinda com a Modernidade. O homem passa a criar e inventar obras no campo das artes e das técnicas exercitando a razão e afastando-se dos saberes que derivam da teologia. Tem um sistema de educação. E. hoje.História da Educação 2. (CAMBI. O sentido de revolução diz respeito em especial. em que o homem e a sociedade tentam renascer a partir do resgate dos saberes produzidos na Grécia e Roma Antiga e das construções artísticas inspiradas em modelos humanos. uma consciência de sua importância. 2. Todo o universo da educação mudou.4 SÉCULO XVII: A REVOLUÇÃO PEDAGÓGICA E A LAICIZAÇÃO EDUCATIVA O século XVII é o tempo da consolidação das novas estruturas que efetivam a modernidade como a época histórica da classe burguesa. segundo um modelo harmônico similar à “obra de arte”. depende do sucesso de seu sistema de educação. A família e a escola são as duas instituições que ganham importância na construção do novo sentido pedagógico. às mudanças na estrutura do pensamento e na formação de uma nova mentalidade pautada no “espírito científico”. Devemos a Áries e ao seu estudo de 1960 sobre História social da família e da infância. 14 . do sistema capitalista e do estado moderno. o conhecimento é para todos. A estética torna-se assim o paradigma-guia da formação e o critério supremo da pedagogia em todas as suas formas (desde a teórica até a escolar). A pedagogia humanista resulta. Comenius é maior pedagogo do século XVII. 2.10 Educação das massas. a indicação mais explícita dessa dupla transformação. língua e civilização. uma vez que. de modo intensamente dinâmico e radicalmente dialético. deve ser disponibilizado aos homens. Um homem que quer ver a si próprio. secularizado e laicizado pela pedagogia como uma ciência da educação universal. nesse aspecto.1 Colégio humanista / escola secundária / estudo do latim e do grego. por meio de sua obra principal denominada de Didática Magna (1657). 1999). (CAMBI. sobretudo em relação a este papel. antropocêntrico – o homem no centro da nova forma de pensar e construir novos bens simbólicos e uma nova moral pautada em valores afirmados na família e confirmados no processo de escolarização por meio dos estudos das humanidades (studia humanitatis) numa formação que conjuga o estudo das letras e história. que põe em relevo o papel social da educação e redefine as duas instituições (família e escola).3.

Definitivamente. um novo tempo para a pedagogia moderna laica e capaz de viabilizar o conhecimento por meio da escola para todos os homens da sociedade. JACQUES. deveria formular hipóteses e experimentá-las. Dessa forma. ao captar seu objeto. DENIZE e OSCAR. vejamos o que nos diz Cambi (1999. e a sua centralidade na vida do homem e da sociedade. o poder secularizado do Estado e a busca do conhecimento científico são fatores decisivos para as mudanças pedagógicas e a laicização educativa. (AQUINO. o homem. MARTINS. Com ele se delineiam pela primeira vez de maneira orgânica e sistemática alguns dos problemas já relevantes da pedagogia: desde o projeto antropológico-social que deve guiar o mestre até os aspectos gerais e específicos da didática. Assim. nada podia ser considerado como certo. para chegar às estratégias educativas referentes ás diversas orientações da instrução. que afirma a universalidade da educação contra as restrições devidas as tradições e a interesses de grupos e de classes. . em que busca “justificar e legitimar o poder do Estado sem recorrer à intervenção divina ou qualquer explicação religiosa. As questões. com sua obra Didática Magna (1657). partem da tendência de secularização e laicização do pensamento político e filosófico. idéia central da Dúvida Metódica. inaugura um tempo de busca de processos educativos que seja “ensinado tudo a todos”. no período em questão. para se certificar da validade de sua representação. para atingir tal objetivo era necessário um método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. 15 Comenius. definitivamente.. p. na estrutura do pensamento. em torno do Estado. que leva a aceitar apenas aquilo que a razão possa compreender e que possa ser demonstrado.” (ARANHA.História da Educação Tal mudança.] Com o século XVII afirma-se um modelo de pedagogia explicitamente epistemológico e socialmente engajado. desenvolvido principalmente por Jan Amos Comenius. e sua tarefa consistia em representá-la. 281): [. continuamente. 2003). 2003) Os valores da burguesia. ampliando o sentido do fazer pedagógico que. as explicações teológicas e metafísicas não mais satisfaziam o homem moderno cioso de uma objetividade que o levasse à compreensão dos fenômenos e leis que constituíam a natureza. Para uma compreensão da mudança revolucionária na pedagogia e o afastamento dos processos de formação dos valores religiosos difundidos pela teologia.. no século XVII. significa que o homem passava a ver a natureza como objeto de sua ação e de seu conhecimento. apesar de guardar ainda marcas da tradição escolástica. desenha. a não ser penso. Para Descartes (1596-1650) tudo era duvidoso. logo existo.

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fortalecendo as relações comerciais.História da Educação UNIDADE 3 EDUCAÇÃO NO BRASIL 3. a educação passa a compor a estratégia política da Coroa Portuguesa.org> Segundo Bosi (1994). 17 Engenho de açúcar Fonte: <www. destacamos a instituição do Governo Geral. João (17/12/1548) que pode ser sintetizada conversão dos indígenas à fé católica pela catequese e pela instrução. No início desta fase.1 EDUCAÇÃO NO BRASIL COLONIAL A Metrópole (Portugal) retira va da colônia todas as riquezas disponíveis. em que o “processo pedagógico” dos Jesuítas tem como principal objetivo enquadrar os indígenas na dinâmica mercantilista como mão-de-obra. agora tendo a educação cristã como principal estratégia. O tempo colonial compreende o período histórico. com a Inglaterra. terra ou povo que se pode trabalhar e sujeitar. especialmente. é a matriz de colônia enquanto espaço que se está ocupando. O Governador geral deverá pautar as suas ações administrativas de acordo com a diretriz da nova política de D. eu cultivo o campo. e este passou a explorar tudo o que podia servir de divisas comerciais. primeiro representante do poder político no Brasil Colônia. 3. A terra era propriedade de seu conquistador. representantes da Igreja Católica. como uma forma de administração política do local subordinada as ordens e diretrizes do Rei de Portugal e aos Padres Jesuítas. tem por finalidade a garantia do processo de colonização. eu ocupo a terra e. que chegam como parceiros na implantação de um novo processo de dominação dos nativos. por extensão. O termo Colo denota sempre quando de sua utilização alguma coisa de incompleto e transitivo.1 A pedagogia dos jesuítas A criação do Governo Geral. considerado para fins deste estudo de 1549 a 1822.anmfa. a palavra colônia deriva do verbo latino Colo. No cenário da época. eu trabalho.1. . que pode ser traduzido como eu moro.

História da Educação Em 1549. os Jesuítas enfrentavam o problema cultural. prefere enxertar o vocábulo português no 18 . Formar os filhos de colonos. em sua companhia vem Manoel da Nóbrega. O projeto de transpor para a fala do índio a mensagem católica demandava um esforço de penetrar no imaginário do outro. espelhado na linguagem e nas alegorias que moldavam os rituais dos índios. A Ratio com os seus princípios educativos pautados na teologia cristã católica e na escolástica. sobre o Padre José de Anchieta. aprendizado profissional agrícola. Novais (1975 apud RIBEIRO. Na passagem de uma esfera simbólica para outra Anchieta encontrou óbices por vezes incontornáveis. música instrumental. A Língua tornase o principal obstáculo a ser transposto para efetivação do processo de aculturação. era em geral. organizava-se iniciando a formação Superior por meio de cursos de humanidades. 1975 apud RIBEIRO. visando torná-los futuros sacerdotes. o futuro destinado pelos Mestres Jesuítas aos descendentes dos colonizadores Portugueses. por exemplo.1. líder da Ordem dos Jesuítas. os estudos seriam desenvolvidos a partir da seguinte estruturação que considerando um percurso curricular .2 Plano de estudo da Companhia de Jesus Para o Padre Nóbrega. para que este fosse facilmente dominado e colocado à disposição dos agentes da política de colonização da Coroa Portuguesa. e este foi o empenho do primeiro apóstolo. Esta é uma adaptação da Ratio studiorum (Plano Pedagógico dos Jesuítas. publicado em 1599). a organização escolar no Brasil Colônia é construída estreitamente vinculada à política colonizadora dos portugueses. 3. a palavra pecado. principalmente para continuação dos estudos em Portugal na Universidade de Coimbra. (NOVAIS. se eles careciam até mesmo da sua noção. gramática latina e a culminância seria a viagem à Europa. que compreendia o Primário e o Secundário. neste e em outros casos extremos. por meio do cultivo da cana e da produção de açúcar: a base da economia colonial até meados do século XVII. chega o Primeiro Governador Geral. escola de ler e escrever. comandando seis religiosos. canto ofeônico. No entanto. Com dizer aos tupis. para o índio apenas a formação cristã pelo método catequético. com dois elementos: um centro de decisão (metrópole) e outro (colônia) subordinado. Na lógica escravocrata do Governo Português. relações através das quais se estabelece o quadro institucional para que a vida econômica da metrópole seja dinamizada pelas atividades coloniais. curso de teologia e a viagem à Europa. 1991). Assim. matérias relativas à doutrina cristã. Tomé de Souza para administrar a colônia. Os braços de negros e índios seriam a garantia das divisas financeiras para o fortalecimento de Portugal no contexto da Europa. feita por Nóbrega para a Educação Básica da época. Para além de estruturar um modelo didático de ensino. ao menos no registro que esta assumira ao longo da Idade Média européia? Anchieta. filosofia. considerando que o trabalho de escolarização deveria atender os índios e os filhos de colonos portugueses. os índios catequizados pelos jesuítas seriam a nova força de trabalho para a exploração da terra.iniciaria com o aprendizado do Português. Os estudos de Bosi (1994). 1991) diz que a política colonial: Se apresenta como um tipo particular de relações políticas. nos apresentam a complexidade da tarefa de decifrar os códigos tupis e traduzi-los para a codificação da língua portuguesa. preferencialmente.

atípicos. / xe anáma rausubá! / Vem. que vale tanto para toda sombra quanto para o espírito dos antepassados. os Jesuítas conseguem uma estruturação básica para o funcionamento do processo de escolarização na Colônia. o mesmo faz. Nossa Senhora às vezes aparece sob o nome de Tupansy. e 3) Elite (educação voltada para o trabalho intelectual dentro do modelo católico). 19 A forma de educar dos Padres Jesuítas é o único caminho no período colonial para a formação sistemática da população local desejosa das primeiras letras para sair da escuridão do analfabetismo e buscar uma colocação dentro da ordem religiosa ou dentro da estrutura política e governamental que se esboça em torno do Governador Geral. Santa Maria.] se alguns forem amigos de novidades ou de espírito demasiado livre devem ser afastados sem hesitação do serviço docente". Igreja. 1994. . espírito errante e perigoso. Alma é anga. profeta voador. Segundo Ribeiro (1991): A elite era preparada para o trabalho intelectual segundo o modelo religioso (católico). p. a Companhia de Jesus se tornou a ordem dominante no campo educacional. protetora dos meus! Tais casos. quer dizer pajé maior. mas uma terceira esfera simbólica. mãe de Tupã. uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível. uma vez que. 65). a busca de um novo método de conhecimento. fez com que os seus colégios fossem procurados por muitos que não tinham realmente vocação religiosa. (BOSI. A nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi. mesmo que muitos de seus membros não chegassem a ser sacerdotes.1991. 25). Santa Maria. "[. a Educação dos Jesuítas pode ser dividida em: 1) Profissional (voltada para o aprendizado de técnicas rudimentares e o trabalho manual). Isto porque. Isto.. diante do apoio real oferecido. Demônio é anhangá. terra de Tupã. A formação dada pela pedagogia dos jesuítas segue as regras da escolástica medieval. Para afigura bíblico-cristã do anjo Anchieta cunha o vocábulo Karaibebê. uma nova pedagogia. coerentemente é tupãóka. diz uma das regras da Ratio. O mais comum é a busca de alguma homologia entre as duas línguas com resultados de valor desigual: Bispo é Pai-guaçu. 28) diz que.. Plano de Estudo dos Jesuítas. por sua vez. 2) Feminina (boas maneiras e prendas domésticas). visando assegurar também a educação dos filhos de colonos portugueses. mas que reconheciam que esta era a única via de preparo intelectual. casa de Tupã. p. afastando os alunos de qualquer novidade científica. (RIBEIRO.História da Educação tronco do idioma nativo. comprometendo e comprovando as insuficiências do método escolástico medieval. p. Objetivo da educação dos Jesuítas era formar religiosos. Segundo Ribeiro (1991). Paim (1967. porém. com a palavra missa e com a invocação a Nossa Senhora: Ejorí. O Reino de Deus é Tupãretama. poderia aproximar os sujeitos de teorias científicas. nesta pedagogia. A pesar das dificuldades com a língua Tupi. e com fortes razões.

1) Caracterize a Pedagogia dos Jesuítas e busque conexões desta pedagogia com a Educação atual. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ .História da Educação Atividade Análise do texto estudado. traçando um paralelo com a Educação dos Jesuítas. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 20 2) Realize um levantamento sobre a Educação Indígena nos dias atuais.

filosofia e retórica. orientou-se no sentido de recuperar a economia por meio de uma concentração do poder real e da modernização da cultura portuguesa. a exemplo do que a Inglaterra era há mais de um século. com o objetivo de adaptá-lo.História da Educação 3. O Ensino Secundário. traduzem. 1991). também. à nova ordem pretendida em Portugal. informa Ribeiro (1991). deixando claro nas medidas administrativa. grego. visto que.] As reformas.. entre as quais as da instituição pública. O motivo apontado era o fato de eles serem um empecilho na conservação da unidade cristã e da sociedade civil – razão do Estado invocada na época por que: a) A Companhia de Jesus era detentora de um poder econômico que deveria ser devolvido ao Governo.2 MARQUÊS DE POMBAL E A ESCOLARIZAÇÃO COLONIAL A relação entre os Padres Jesuítas e a Coroa Portuguesa já não era de correspondência quanto ao Plano de dominação dos Índios. Visavam. Uma dificuldade enfrentada por Pombal era que a formação dos professores da época era baseada nos valores e na “visão profissional” da Pedagogia dos Jesuítas. continuava marcado pelos métodos e pela pedagogia da Companhia de Jesus (Ratio). apesar da expulsão dos Padres Jesuítas. A presença de Pombal. os Padres trabalhavam na direção de efetivar o Projeto de salvação das almas da Ordem Religiosa Companhia de Jesus e fundavam Missões com relativa autonomia quanto às diretrizes do Rei de Portugal e isso incomodava as autoridades da corte. As medidas administrativas de Pombal culminaram com a expulsão dos Jesuítas em 1759 (Companhia de Jesus). O ensino. enquanto colônia. Segundo Carvalho (1952 apud RIBEIRO. dentro do plano de recuperação nacional. no Brasil. colonos portugueses e escravos. passou a sê-lo em aulas avulsas (aulas régias) de latim. b) A Companhia de Jesus educava o cristão a serviço da ordem religiosa e não dos interesses do país. que ao tempo dos Jesuítas era organizado em forma de curso – Humanidades –. provocar algumas mudanças no Brasil. a política que as condições econômicas e sociais do país pareciam reclamar”. José I. o Marquês de Pombal. Sebastião José de Carvalho e Melo. Ministro do Rei D. carecendo de uma autoridade que discipline alguns setores. “[. As reformas pombalinas visavam transformar Portugal numa metrópole capitalista.. 21 . faz parte de uma tentativa de organização administrativa e de estabelecimento da ordem em uma Colônia que cresce em torno do trabalho dos Jesuítas.

Assista ao filme A Missão. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 22 . filme com Al Pacino e elabore um breve comentário sobre o papel dos Jesuítas na organização da resistência contra a Coroa Portuguesa. .História da Educação Atividade 2 Análise do filme “A missão”.

Os três primeiros séculos da educação brasileira apresentam em seu cenário duas grandes figuras: Padre Manoel da Nóbrega (Jesuíta) e o Marquês de Pombal (Reformador). Biblioteca Pública (1810). a conjugação de tais interesses (grupos coloniais e ingleses) obriga o príncipe regente a decretar a “abertura dos portos” em 1808 (RIBEIRO. o Rio de Janeiro passou a ser a sede administrativa. que representam duas filosofias da educação bem diferentes. Academia Real Militar em 1810 (que em 1858.casadeportinari. A partir desta nova realidade são tomadas várias medidas no campo intelectual.3 A CORTE PORTUGUESA NO BRASIL A época contemporânea é demarcada pelos historiadores a partir da Revolução Francesa na segunda metade do Século XVIII. e hoje é a Escola Nacional de Engenharia). que se instalou no Hospital Militar.br> Desse modo. concentrando os órgãos de administração pública e justiça. de 1815 em diante. cuja capital passa a ser o Rio de Janeiro. Rei do Reino Unido de Portugal e do Brasil e do Algarves. Museu Nacional (1818).História da Educação 3. precisamente em 1807. Em 1808 circula o primeiro jornal (A Gazeta do Rio). Portugal é invadido pelas tropas francesas. e os cursos de anatomia e cirurgia no Rio.com. e a família real. 1991). Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1810). . com reformas de caráter cultural e educacional para adequar o Brasil como a sede da Coroa Portuguesa: a criação da Imprensa Régia (13/05/1808). Em 1808 é criado o curso de cirurgia (Bahia). passou a chamar-se Escola Central. chefiada por D. em 1812. Escola Politécnica. Na área educacional são criados alguns cursos com base nas necessidades imediatas do Brasil da época: Academia Real Marinha (1808). a Revista carioca – O Patriota. em 1813. em 1874. João VI e a corte se vêem obrigadas a virem para o Brasil sob a guarda inglesa. 23 Chegada da Família Real no Brasil Fonte: <www. a primeira revista (As Variações ou Ensaios de Literatura). sob o comando de Napoleão. O início do século XIX. surge um terceiro personagem da educação nacional D. No ano de 1808. João VI Rei de Portugal e.

na Constituição de 11 de dezembro de 1823. antes de mais nada. pois em seu parágrafo 24 . Pedro I. Este ato político reflete-se imediatamente na estruturação da educação. não só um preparo para o Secundário como também para pequenos cargos burocráticos. Este nível de ensino tem sua importância acentuada à medida que cresce o número de pessoas que vêem nele. O Ensino Secundário – permanece a organização de aulas régias.História da Educação Academia Real de Guardas-Marinha Fonte: <www. promulgada por D. do indianismo e também do romantismo educacional.br/ahimtb/images/acarealgm. o que estava escrito em Lei não se efetivava. o Brasil continuava uma “terra de analfabetos”. apesar do estabelecimento da obrigatoriedade do ensino elementar. em manter a unidade em seu vasto território. a de desenho e história em Vila Rica (1817) e a de Retórica e filosofia em Paracatu (MG – 1821) integram-se a um conteúdo de ensino em vigor desde a época dos jesuítas. o único acontecimento concreto e eficiente foi inserir. em especial por “novas idéias”.4 EDUCAÇÃO NO BRASIL APÓS 1822 De 1822 em diante. o célebre artigo 179. a educação. 3. ameaçado por dentro e por fora. por causa das idéias democratizantes de Rousseau e da Revolução Francesa. pois apenas tem-se notícia da criação de “mais de 60 cadeiras de primeiras letras”. em 1822. Mas. Com a proclamação da Independência. o Brasil empenhado em organizar-se e em provar que se desenvolveria independente de Portugal. é a fase do romantismo: do romantismo literário. Foram criadas duas cadeiras de inglês e um de francês no Rio. em seu artigo 1º. pois. estabelece a descentralização do poder político para as províncias com a criação de Assembléias Legislativas Provinciais em substituição aos Conselhos Gerais. nesta época.resenet.com. Tanto assim que. Então. repetido nos discursos diversas vezes depois: “A instrução primária é gratuita a todos os cidadãos”. Jean-Jacques Rousseau O Ato Adicional de 1834. sendo criadas “pelo menos umas 20 cadeiras de gramática latina”.jpg> A estrutura do ensino imperial é composta de três níveis: quanto ao Primário – continua sendo um nível de instrumentalização técnica (escola de ler e escrever). Essas cadeiras e as de matemática SUPERIOR em Pernambuco (1809). preocupa-se. começa a preocupar os políticos brasileiros.

as cidades passam a ser os pólos dinâmicos de crescimento capitalista interno. • estabelecimento das normas para o exercício da liberdade de ensino e de um sistema de preparação do professor primário (1854). desta forma. 75). A partir de 1840. Realizações: • criação da Inspetoria Geral da Instrução Primária e Secundária do Município da Corte (1854). Isso causa uma série de problemas. do Artigo 10. estabelece como competência das Assembléias Legislativas Provinciais. 3. a super-estrutura do ensino superior. • reformulação dos estatutos do Colégio de Preparatórios. p. médias e baixas). o sucesso da lavoura cafeeira vem preencher os problemas financeiros gerados inicialmente pela decadência da mineração e. (AZEVEDO. Em 1869. 25 . por força da Lei em vigor. na seqüência. Nesse período. como também por exigências ou interesses do capitalismo internacional. estava ocorrendo. 53). p. 52). (RIBEIRO. quanto ao ensino primário. durante um século.4. “legislar sobre a instrução pública e estabelecimentos próprios”. sobre base sólida e larga a educação comum. 1991. B) uma atração sobre o significativo contingente populacional (rendas altas. no entanto.1 Algumas realizações Na educação. edificar. • reorganização do Conservatório de Música. Os adeptos de Augusto Comte (1798-1857) eram contra a existência de Universidades e Faculdades por considerá-las fruto da Igreja Católica e do estado metafísico da humanidade. Na época. restritas em sua maioria ao município da Corte. segundo Fernando de Azevedo (1958): A descentralização do ensino fundamental. pela crise na produção do açúcar.1958. atingindo um dos pontos essenciais da estrutura do sistema escolar. não permitiu.História da Educação 2º. os positivistas iniciam suas manifestações contra o Ensino Superior. Segundo Ribeiro (1991). p. • reformulação do estatuto da academia de Belas Artes (1855). geral ou profissional. a passagem de uma sociedade exportadora com base rural-agrícola para urbano-agrícola-comercial. nas províncias mais distantes e mais pobres como a do Mato Grosso e a do Amazonas. nem reduzir a distância intelectual entre as camadas inferiores e as elites do País. Evolução esta exigida não só pelas necessidades internas. (RIBEIRO. Elas promovem: A) uma reorganização do trabalho urbano. tomando-se por base programas e livros adotados nas escolas oficiais. o que já foi assinalado. 1991. e • reformulação dos estatutos da Aula de Comércio da Corte. a década de 1850 é marcada por várias realizações. instituída pelo Ato Adicional e mantida pela República. principalmente.

História da Educação Depois do Ato Adicional de 1834. em 1846. • em 1870. (TOBIAS. e a organização destas. vindo a fechar novamente em 1877. • A 19 de abril de 1879. em 1871. O projeto de João Alfredo. TOBIAS s/d). fecha em 1867. 1 – Com base na pesquisa bibliográfica organize um texto síntese sobre a História da Escola Normal no Brasil. Várias Escolas Normais também surgem após o Ato Adicional. por estarem em nível secundário. dando inicio a democratização do ensino feminino. a partir da memória de ex-alunas e Professoras de estabelecimentos de ensino do município. As Escolas Normais. A Reforma Leôncio de Carvalho estabelecia que: “É completamente livre o Ensino Primário e Secundário no Município da Corte e o Superior em todo o Império. denunciando a influência da política nas questões educacionais. 2 – Investigue a História da Escola Normal no Maranhão e em Itapecuru Mirim.. destacamos: • no ano de 1854. Em 1880 reabre. Atividade 3 Elaboração textual. a Reforma do Ensino de Luiz Pedreira Couto Ferraz. pelo decreto n°. A escola aberta em São Paulo. iniciadas na terceira década do Século XIX. em seguida em 1842 é fundada a da Bahia. reabre em 1876. a última do Império e uma das que mais se destacaram no período. asseguram pela primeira vez na História da Educação de nossa sociedade a presença das mulheres com o papel social de cuidar da educação não só de seus filhos. aparece a Reforma do Ministro Carlos Leôncio de Carvalho. continuando o Ensino Médio de sete anos e proibindo-se as transferências de um estabelecimento para outro. no Brasil do Século XIX. segundo a qual ficam instituídas escolas primárias do primeiro e de segundo graus. o projeto de José Paulino Soares de Sousa trata da necessidade de se cumprir as leis educacionais. trouxe pequena melhora ao ensino. afirma a obrigatoriedade do Ensino Primário e a instalação de escolas primárias de segundo grau e a criação em cada município. 1991. mas passando a trabalhar fora como educadoras de outras crianças de maneira oficial e sistemática. a primeira Escola Normal é fundada em 1835 em Niterói. (RIBEIRO. 7247. surgem várias reformas voltadas para a estruturação do ensino e também as primeiras Escolas Normais. lembrando ser o Brasil o país que menos dinheiro aplica em educação. Neste mesmo ano é criada a primeira escola oficial no Rio de Janeiro. 26 . salvo a inspeção necessária para garantir as condições de moralidade e higiene”. de uma escola profissional primária. p. reafirma a importância fundamental do Ensino Primário e a personalidade própria do Ensino Médio.207). s/d. devido à situação de instabilidade de tais cursos. apesar das dificuldades estruturais e pedagógicas dessa modalidade de ensino. Pequena. Quanto as Reformas do Ensino.

os ideais de liberdade ecoavam e atravessavam as fronteiras originarias. os camponeses sem terra. 27 . • 2º que a República não era uma aspiração popular. Um século marcado pela sombra das influências da Revolução Industrial. Os resultados dos embates eleitorais em que se meteram os chefes republicanos antes do 15 de novembro. p. 3. É mais um dos falsos mitos de que impregnam a nossa história.1967. pois uma concepção qualquer só pode ser bem conhecida por sua história. descontentes com a medida. da experimentação. Mas. (COMTE. vão de forma oportunista fortalecer o movimento republicano e ingressar nas fileiras do Partido Republicano. que não consultava os interesses populares. Socialmente não representava os interesses de uma classe definida. com o apoio da nova aristocracia do café e de membros intelectualizados da classe média.. somadas a um esforço de implantação da lógica das ciências exatas e naturais. 03). rendeiros. sem a indenização pretendida pelos senhores dos negros africanos. na busca do conhecimento por meio do formalismo. a grande maioria do povo não se interessava pelos Partidos ou Clubes Republicanos. O manifesto de 1870 era demasiado literário.A. é indispensável ter. nem a lavoura nem a incipiente burguesia. 1988. sofre a influência da doutrina positivista. mas. uma visão geral sobre a marcha progressiva do espírito humano. assinada por Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Leôncio Basbaum (1967) apresenta a seguinte análise em torno do movimento de transição do Império para República: • 1° que de fato não havia uma tradição republicana no Brasil como querem alguns autores. não o suficiente para despertar do interesse do povo. de início. sem a participação popular. p. não se referia ao problema servil. Muitos proprietários de escravos. com belas frases (”somos da América e queremos ser americanos”). Comte expõe de maneira pedagógica a natureza de sua doutrina. não traduzia reivindicações de caráter econômico. os posseiros. são de fato bastante expressivos.1 A reforma de Benjamin Constant A Reforma da Instrução Pública Primária e Secundária do Distrito Federal. (BASBAUM. nem as classes médias e muito menos as classes mais pobres. O positivismo de Augusto Comte (1798 – 1857) desponta no contexto do século XIX.5 EDUCAÇÃO NA REPÚBLICA Um fato decisivo para Proclamação da República é a Libertação dos Escravos por meio da Lei Áurea de 1888. os libertos sem profissão e sem trabalho.U. o número de clubes e dos membros desses clubes. da Revolução Francesa e da Independência dos E.5. os operários. O quadro traçado acima culmina com a Proclamação da República a 15 de novembro de 1889. considerado em seu conjunto. que é um reflexo de seu tempo: Para explicar convenientemente a verdadeira natureza e o caráter próprio da filosofia positiva.História da Educação 3. da mensuração e da crítica a quEm seu Curso de Filosofia Positiva (1988). O fato de não haver sido a República uma aspiração popular se deve menos ao respeito e ao amor pela monarquia do que ao conteúdo vago – para não dizer vazio – do programa do Partido. no ano de 1890. 215-216). não tocava no problema da terra.

difundindo as idéias de Augusto Comte. tanto no eixo centro-sul quanto em outras regiões do país. Freguesia de São Lourenço no Município de Niterói (RJ). artigos. o progresso por fim” – eis a fórmula positivista apresentada contra a anarquia e o atraso da sociedade católico-tomista. devidamente adaptadas de acordo com a maior ou menor crença de seu autor e o ambiente intelectual de sua região. Bernardina Joaquina da Silva Guimarães. Na ótica positivista.. É o conhecimento científico que determina a nova moral. Benjamin Constant Botelho de Magalhães nasceu no Porto do Méyer. Assim. A esta lei de filiação meu Sistema de Filosofia Positiva sempre associou a lei de classificação. ou. por meio de uma “nova vida” marcada pelo altruísmo. garantindo a sua evolução progressiva dentro da sociedade humana. a partir de um modelo pedagógico fundamentado na lei dos três estados. Sabe-se que esta ordem está regulada pela generalidade decrescente dos fenômenos correspondentes. A moral positivista deve formar cientificamente o indivíduo. natural do Rio Grande do Sul. . seja nas tribunas dos intelectuais ilustrados ou se possível nas instituições de ensino público. o seu principal representante. Augusto Comte (1988) afirma que: [. alcançando em 18 de outubro de 1829 o posto de 1º tenente. cada indivíduo ao passar pelos “estados” propostos na sua doutrina reproduz a história da humanidade. teses etc. em 18 de outubro de 1836. quanto a inclusão de elementos da moral positivista na área educacional no final da segunda metade do século XIX. positivistas com visão ortodoxa. passando pela argumentação metafísica. sob inspiração teológica.] tudo começa. por sua complicação crescente. em 28 de novembro de 1833. uma mesma lei geral nos permite de agora em diante abarcar ao mesmo tempo o passado. com efeito. estendendo suas influências no processo de implantação da república por meio de Benjamin Constant. natural de Torre de Moncorvo. sobrenatural e teológico cede lugar para o “novo deus”: a natureza una e soberana. segundo a qual nossas diversas concepções participam de cada fase sucessiva. para desembocar na demonstração positiva. pela dedicação à família e à pátria. “O amor por princípio. entrando para a classe dos avulsos”. a ordem por base. o conhecimento dos fenômenos naturais constituiu-se na via de mão única para o conhecimento do homem. onde a matéria representa o fundamento de toda ordem existencial.. na classificação das ciências e na religião da humanidade. passando a pertencer à 3ª Companhia do Corpo de Artilharia de Marinha. determinando a ordem necessária. da segunda metade do Século XIX. Português por seu pai e brasileiro por sua mãe D. “nossos positivistas” começam a apresentar as idéias morais de Augusto Comte em jornais e instituições de ensino. a existência humana deve ser determinada apenas pelo que é passível de verificação empírica. embora sem um movimento articulado nacionalmente.História da Educação A doutrina positivista considera o homem um produto da natureza. cuja aplicação dinâmica fornece o segundo elemento indispensável à minha teoria da evolução. desenvolvido mediante o processo evolucionista. No Brasil. seja nos templos das Igrejas positivistas. Seu pai Leopoldo Henrique Botelho de Magalhães. atuavam em diversas instituições. seguiu a carreira militar. Assim. 28 Para Comte. o que implica o mesmo. com seus apóstolos da humanidade. A idéia de um deus. por meio de discursos. de onde foi “mandado desembarcar. o presente e o futuro da humanidade. mesmo enfrentando as perseguições dos segmentos católicos e as sanções das autoridades representativas do poder imperial. aos vinte anos alistou-se como voluntário no Regimento Provisório de Portugal. Desse modo.

(MENDES. Foi sócio do Montepio geral e como Ministro da Instituição P'blica criou o montepio obrigatório para os funcionários dessa reepartição. . garantindo ajuda as famílias pobres de seus associados. Antes de conhecer a doutrina positivista. lembraremos que o compromisso da irmandade esplícitamente determinada que só pódem ser admitidos néla os cidadãos que professárem a religião Católica Apostólica Romana ( art. então. compósta de minha mãe viúva e quatro irmãos menóres e continuar os meus estudos. foi servir no 1º Regimento de Cavalaria. Benjamin. em carta dirigida ao Ex-Conselheiro João Alfredo.ser útil a minha família. 29 A respeito de sua carreira no magistério. Benjamin Constant dedicou seus maiores esforços a causa dos cegos. Apreciando tal sociedade como simples instituição destinada a prolongar alem da mórte a proteção e o amparo que devemos nóssa família. De origem pobre. chegando a assumir a direção do Instituto de 1869 a 1883. depois de fazer solene profissão de fé pozitivista e depois de ter fundado a república. mesmo com a sua aproximação da doutrina de A. que aliás constituem o único apoio de tais agrupamentos. apesar da pobreza. apenas esplicável pela relaxação geral dos costumes. por decreto do Presidente Deodoro da Fonseca. com destino a Escola Militar. Tornou-se. a sua pernicióza influência pública e privada. E nós o havemos de ver até o fim de sua vida apegado às suas idéias sobre sociedades de aussílios mútos e montepios. p. (MENDES. Mas não é só sob o aspéto de uma incoerência. obtivera a cadeira de lente do Instituto dos Meninos Cegos. Constant.] Nós o encontraremos filiado à Imperial Irmandade da Cruz dos Militares. éla patenteia. em 1852.. Teixeira Mendes (1937) apresenta um comentário sobre a referida irmandade católica: Para ver-se até que ponto ião as consessões. e manda que seja riscado qualquér irmão que abjurar a referida religião ( art. aos poucos transformou-se em uma sociedade de auxílio mútuo.. de 24 de janeiro de 1891. Cláudio Luís da Costa. já em 1854 era “explicador” de matemática elementar da referida escola. em homenagem a sua dedicação é que a instituição passou a se chamar Instituto Benjamin Constant. [. 1937.35). que o ingrésso na referida irmandade da Crus dos Militares ezige do público a mais grave atenção. Benjamin Constant fez parte da "Imperial Irmandade da Cruz dos Militares". confraria instituída em 1628.44). lutava contra as dificuldades financeiras que cercavam sua família. Quanto à Benjamim Constant. Militar e de Marinha. A "Imperial irmandade da Cruz dos Militares". Porque a sua ezistência impórta em segregar o destino dos que nos são caros da sórte geral dos nóssos similhantes. [. os Drs. p.História da Educação Aos 16 anos de idade.1937. como todas as congêneres. dois dias após a morte de Constant.. diretor da referida instituição de ensino.38).” Em agosto de 1862. prevalecendo-se de várias ezistentes e instituindo outras .] Por meus esfórços e pela fé com que me empenhava em aussiliar os meus esplicandos e dicípulos em seus estudos consegui no fim de alguns anos uma reputação por demais lizonjeira como professor de matemáticas elementares e superiores. Comte.. comenta que: Aussiliado pela confiança que em mim depozitávão meus dignos e venerandos lentes e amigos. mas. 32). foi-me possível conseguir o duplo intuito que tinha em vista: . Fui por muitos anos esplicador déstas matérias nas escólas Central. e ensinei também em alguns colégios. apesar das regras escritas com o intuito de fortalecer o culto católico. André Negreiros de Sayão Lobato e Antonio Jozé de Araújo. noivo da filha do Dr.. com a finalidade de divulgar o culto a Cruz de Cristo entre os católicos das forças armadas..

o cérto é que desde então o seu ensino resentiu-se da incomparável influência do nósso Méstre e em tão alto grau que em bréve Benjamin Constant.. É uma religião nova. Seja como for. como sabes. em 1857. e mandara imediatamente buscar as outras óbras do filózofo para si e dois amigos. Benjamin encontrara casualmente em um livreiro esse mesmo 1º volume. particularmente a do parlamento. Benjamin Constant iria chamar as atenções gerais. Benjamin Constant assinalava que: “o meio mais poderoso de que um governo pode lançar mão para o engrandecimento moral e material de seu país é sem dúvida alguma a instrução”. embora. e a unica que dimana naturalmente das leis que regem a natureza humana. como verificamos no trecho de uma carta enviada a sua esposa. Sigo.História da Educação Participou ainda. Não podia ser a primeira porque ella depende do conhecimento de todas as leis da natureza. da guerra contra a República do Paraguai para onde seguiu no ano de 1866. para o povo . e mesmo quando as diversas sciecias estavam em embryão: não teria ainda apparecido se ao genio admiravel de Augusto Comte não fosse dado pela vastidão de sua intelligencia transpor os seculos que hão de vir. não podia apparecer na infância da razão humana. que se pode circunscrever atualmente em pouco mais dos limites de nossa instrução primária e como uma extensão dela. datada de Tuyuty. muito mais. Segundo Teixeira Mendes (1937). em que era grande a influência da concepção matemática de Comte. a minha religião. lera-o. tornou-se entre nós o maior admirador conhecido do Fundador da Religião da Humanidade. menos de três anos mais tarde. suas crenças. todas as suas doutrinas. a mais philosophica. Nessa época. lente da Escola Militar.. para o positivismo. Benjamin Constant apresenta na carta endereçada a esposa. Mas. do que Clotilde de Vaux era para o sábio e honrado Augusto Comte. o capitão Pinto Peixoto. fora levado a ler o 1º volume do Sistema de Filosofia Positiva por indicação de um lente da antiga Escolar Militar. seus princípios. ao Instituto Politécnico do Rio de Janeiro. à sociedade e à humanidade em geral”. Acrescentando: “que este plano. o filósofo francês não seja uma só vez citado. chegando mesmo a insinuar a superioridade da Religião da Humanidade. a Religião da Humanidade é a minha religião. tratando da instrução intelectual. Deu-se isto. sua “profissão de fé em Augusto Comte "positivista”. portanto. Tu és para mim mais. é uma consequencia natural desse conhecimento e. Comprara-o. uma outra versão circulava entre os membros da Escola Militar a partir de informações colhidas pelo Capitão Beviláqua de que. Benjamin Constant apresentava. as idéias de Augusto Comte já faziam parte de suas reflexões. no posto de capitão. 30 Em 1867. onde diz: Lembra-te que sou o teu maior e verdadeiro amigo. entuziasmara-se pela espozição do Reformador. ao examinar as necessidades da Instituição que dirigia. destacando vários elementos que fazem parte dos princípios da moral positivista. um trabalho sobre a teoria das quantidades negativas. ou seja. 5 de junho de 1867. Benjamin defenderia uma concepção positivista do saber e da educação. redigindo o seu segundo relatório como diretor do Instituto de Meninos Cegos. Entretanto. Em seu relatório. que és a minha unica felicidade. porém a mais racional. asseverou ter ouvido o próprio Benjamin Constant dizer que. como ressalta Teixeira Mendes. Para Constant a instrução deveria ser baseada num “bom sistema de educação científica”. na sua Religião Positiva – a religião definitiva da Humanidade. “acessível a todos os espíritos sãos” e “mais proveitoso ao indivíduo. a minha unica ventura. Efetivamente. Em pleno cenário da guerra do Paraguay. sigo-a de coração com a differença porém de que para mim a família está acima de tudo. surpreendendo por sua sabia previdencia as sciencias em seu termo e dando-nos. à família. que te amo mais que a tudo e que a todos neste mundo.

liberdade de ensino. 31 Um conjunto de tendências e interesses marcavam os primeiros anos do governo federal. condicionadas necessariamente. influenciando assim a Reforma Constant. vai marcar os meios intelectuais da época. buscamos estudar a situação real das coisas no município neutro. currículos. a escravista e por movimentos sociais a favor da federação e da República que. nas discussões e nos movimentos políticos. dos valores e das formas de viver e organizar a sociedade brasileira. As idéias de liberdade e igualdade da Revolução Francesa. Foram realizadas as Conferências Pedagógicas de 1873. pois. um repensar das tradições morais. e por assim dizer usuais e domésticas”. além dos Pareceres de Rui Barbosa de 1882 sobre o Ensino Primário. programas. inspirada na doutrina positivista. os mestres são os menos culpados nesta imbecilização oficial da mocidade. organizadas no governo do Conselheiro João Alfredo.. inclusive. este desgraçado achaque.640-42) até a sua morte. organização da escola. Alguns eventos de cunho pedagógico vão marcar o final do império. muito embora. . suas idéias repercutissem em toda sociedade. distribuição do tempo e das matérias. aos métodos e aos livros adotados. Além disso. às condições sócio-culturais. contando com um momento histórico favorável para a fermentação de “novas idéias”. a responsabilidade cabe quase toda à péssima direção do ensino popular. Deste enorme pecado contra a pátria e contra a humanidade. A nova maneira de pensar. vão estar presentes. p. criada em 19 de abril de 1890 e assumida por Benjamin Constant (Governo Provisório. Decreto nº 346. a Exposição Pedagógica de 1883 que reuniu os trabalhos que seriam apresentados no Congresso da Instrução desse mesmo ano. nas melhores escolas oficiais da localidade. 19-04-1890. A reforma da Instrução Primária instituída por Constant surgiu num momento político em que se discutia a administração do ensino elementar. também não tiveram efetivação plena. a religiosa. gerando uma nova maneira de encarar a vida em sociedade. a “Luz da ciência”. 5 O pensamento de Comte vai encontrar em Benjamin Constant o seu principal divulgador no âmbito da educação. a militar. ensino seriado. métodos de ensino.. contendo como dogmas de fé científica o maior número possível de princípios teóricos reduzidos a preceitos de imediatas aplicações gerais à vida prática. a recuperação econômica por meio do café. essas discussões já vinham acontecendo no Império e foram objeto de análise de muitos políticos. gratuidade. favorecia o espírito científico e a expansão do modelo capitalista. mas não monopolizar a administração do ensino elementar. que contudo não se realizou. que dizia: [. Correios e Telégrafos. em janeiro de 1891. de Rui Barbosa. numa tentativa de centralizar no estado. a organização do novo regime realizouse em função das idéias dominantes entre aqueles que compunham o Governo Provisório. que como o congresso referido. O governo de Deodoro da Fonseca. produziram em conjunto. as últimas décadas do Império foram marcadas por várias questões polêmicas como a eleitoral. tentou pôr em prática a idéia de uma Secretaria de Negócios da Instrução Pública. havia reflexões sobre escolas mistas. Aliás. obrigatoriedade do ensino. Muitos dos temas discutidos nesses trabalhos eram coincidentes.] para formação completa do nosso juízo. ensino religioso.História da Educação uma espécie de religião. por via de regra. demonstrando certa preocupação da sociedade civil com a instrução primária: dentre outras. O relator de nossa comissão teve o desgosto de encontrar. dentro do contexto da Revolução Industrial.

O Generalissimo Manoel Deodoro da Fonseca. (Decreto n°. resolve approvar para a Instrucção Primaria e Secundaria do distrito Federal o regulamento que a este acompanha assignado pelo General de brigada Benjamin Constant Botelho de Magalhães. com Campos Sales. 981. a ala paulista. que assim o faça executar. tudo estava sendo feito no sentido de consolidar a república num clima de paz entre os militares e civis. p.3010/3032). p. Nele figuravam a juventude das armas. MANOEL DEODORO DA FONSECA Benjamin Constant Botelho de Magalhães Regulamento da Instrucção Primaria e Secundaria do Districto Federal. seu apóstolo da escola de guerra. o governo recém surgido visa: Conciliar os grupos na representação de suas tendências. mas fora um meio ardiloso e delicado de afastar Benjamin Constant da pasta do ministério da guerra. como se procurou justificar então esse ato. Demétrio Ribeiro. desde a primeira hora. a que se refere o decreto desta data. bem como a reforma do ensino faziam parte dos arranjos dos interesses políticos. 2º da Republica. que é promulgada a reforma da Instrução Pública Primária e Secundária do Distrito Federal assinada por Benjamin Constant (Governo Provisório.DE 8 DE NOVEMBRO DE 1890 Approva do Regulamento da Instrucção Primaria do districto Federal. a campanha republicana. Chefe do governo Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brazil. que estabelece os princípios gerais da Instrução primária e secundária: DECRETOS DO GOVERNO PROVISÓRIO DECRETO N. Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Instrucção Pública. 981. Decreto n°. a uma necessidade imperiosa de caráter administrativo. A criação da Pasta da Instrução. Dunsche de Abranches (1907) comentou que: A criação da Pasta da Instrução. Benjamin Constant. em nome da Nação. mas. Correios e Telégrafos não correspondera. 8-11-1890. Palacio do Governo Provisorio. É na vigência da Constituição de 23 de outubro de 1890. correios e Telegraphos. TITULO I Principios geraes da instrucção primaria e secundaria 32 . com Vandenkolk. Constant e Deodoro não se entendiam quando as questões ligadas à desordem no quartel e a lei de censura à imprensa. os riograndenses com o positivismo militantes. Correios e Telégrafos.História da Educação Para Pedro Calmon (1963). Quintino e Aristides Lobo. 8 de novembro de 1890. e o titular Benjamin Constant. constituído pelo Exercito e Armada . a armada.3474/3513). Apresentamos um trecho do decreto de Benjamin Constant. fazia parte desse jogo. submetida pelo Governo Provisório ao Congresso Constituinte. 914A.

Apesar de se restringir à capital da República. A criação do Pedagogium é uma outra manifestação da situação de referência que envolvia a reforma da instrução pública. o Pedagogium era um aproveitamento da idéia do ex-Museu Escolar Nacional. § 4. os meios de instrução profissional de que possam carecer. passado pelo delegado de hygiene do districto. ao tratar do exame de madureza. Daí a publicação da Revista Pedagógica servir à veiculação dessas informações. por meio de intercâmbio com autoridades e instituições congêneres dos demais estados do país e dos países estrangeiros. os directores de estabelecimento particulares serão obrigados a franqueal-os à visita das autoridades incumbidas da inspecção escolar e da inspecção hygienica. § 3. e os nomes dos professores. 8-11-1890. 38. conferências e exposições havidos e de reconhecida utilidade para o aperfeiçoamento do professorado nacional. o ensino continuava em estado precário e seguindo de acordo com o movimento político. propõe a equiparação dos exames de outros estabelecimentos.º Na parte relativa ao ensino. o que gerava muito desconforto para os ministros e inviabilizava a materialização das reformas.º Para exercer o magisterio particular bastará que o individuo prove que não sofreu condemnação judicial por crime infamante.10 Para alguns monarquistas. viessem ocorrer nos estados e municípios. de ensino secundário. Parece comprovar essa consciência de situação modelar o art. § 2.3480). assim como dos cursos. p. 63 do presente decreto. Apesar das tentativas de Constant. a exposição dos melhores métodos e do material de ensino mais aperfeiçoado” (Decreto nº 981. com um governo provisório mergulhado em uma “crise de confiança”.º Depois de iniciados os trabalhos do ensino. aos do ginásio nacional. § único desse regulamento da Instrução Primária e Secundária que. hygiene e estatistica definidas nesta lei. 1. com a finalidade de “oferecer ao público e ao professores em particular. de conformidade com o disposto no art. for dado às crianças no seio de suas familias. " É completamente livre aos particulares. quaes os programmas e livros adoptados. sob a vigilancia dos paes ou dos que fizerem suas vezes. sua frequencia. e a remetter à Inspectoria Geral mappas semestraes declarando o numero e alumnos matriculados. o ensino primario e secundario. o direito de matrícula nos cursos Superiores. mas. Para dirigir estabelecimento particular de educação será exigida esta mesma prova e mais o certificado das boas condições hygienicas do edificio. Calmon (1956) confirma a situação de crise do governo: 33 . Esta equiparação incluía não só a expedição de diplomas oficiais pelo sistema estadual ou pelo sistema particular. também.º É inteiramente livre e fica isento de inspecção official o ensino que. é provável que a reforma pela sua importância naquele momento histórico e conjuntural fosse considerada modelo para o país e referência constante para as outras reformas que. § 1. a inspecção dos estabelecimentos particulares limitarse-há a verificar que elle nào seja contrario à moral e à saude dos alumnos. fundado em 1883. e que não foi punido por demissão. O Pedagogium deveria constituir-se no centro propulsor das reformas e melhoramentos da instrução nacional. desde que organizados segundo o plano desta escola. sob as condções de moralidade.História da Educação Art. por força da descentralização administrativa e política do novo regime. no districto Federal.

a do “soldadocidadão”. mediante a reforma Constant. estabelecendo em seu lugar uma nova disciplina a Instrução Moral e Cívica: [. da agronomia. a grandeza das leis morais e do civismo. Como Comte. Benjamin esperava. A reforma Constant é a evidência principal da presença de elementos da doutrina e da moral positivista na educação brasileira. A educação ganha destaque como fator de “salvação nacional”. dos cálculos aritméticos.História da Educação A crise de confiança atingiria seriamente o governo provisório. Ou. baseada nas regras da caserna.] que não constituía bem uma disciplina à parte. representante do antigo regime. A primeira. em relação à escola primária o ensino devia voltar-se para as “lições de coisas”. Aliás. o “Regulamento da Instrução Primária e Secundária” de 1890. Apesar da curta duração da reforma de Benjamin Constant. que tem nessa “ordem” a certeza do “progresso” da sociedade. este representa um grupo que. No Brasil. com seus heróis e seus símbolos para manutenção da segurança da nação. Por ser militar.15 Benjamin Constant representa esse escalão intelectualizado dos militares no poder político do estado brasileiro. porque os escalões superiores têm sempre a sua peculiar maneira de fazê-lo). mas a política do Exército. intervindo também na organização do ensino brasileiro e na formação da mentalidade nacionalista. a do “soldado-profissional”. Uma educação voltada para o cientificismo. por meio da estruturação administrativa e curricular da escola primária. com influências dos “ideais” da Revolução Francesa e da moral positivista. onde a educação passa a ser um elemento estratégico. regenerar a sociedade. voltada para os súditos do império. são os militares. 34 . E sendo um positivista assumido vai mesclar em sua reforma educacional elementos do esquema moral comteano com os interesses das forças armadas. em janeiro de 1891. propugnando a não-participação (particularmente dos baixos escalões. Os ministros demitiram-se coletivamente a 20 de janeiro. marcada pelo surgimento do cidadão da “res pública”. estimulados pela doutrina positivista. o que vai ser uma tônica em nossa sociedade. e o Marechal Deodoro chamou para recompor o ministério o Barão de Lucena. para uma educação republicana. a política no Exército. demarca o rompimento com os elementos determinantes da Igreja Católica. Representando. mas devia ser objeto de atenção e reflexão de todos os professores. corresponderia à afirmação do direito individual e institucional à participação política. A Segunda. as virtudes cívicas e patrióticas. assegurando a “evolução intelectual” dos indivíduos e o progresso da sociedade. da língua pátria. quer dizer. não se trataria de fazer. defendia a conciliação entre o caráter científico e articulações dentro do “jogo político”. por meio da educação. Finalmente. seria um contraponto institucional à primeira. como formulou posteriormente o general Goes Monteiro. com o governo militar a República inicia um período assinalado por um entusiasmo nacionalista marcante que tinha na educação uma força importante para desenvolver o país ao nível do século.. sem dúvida que Benjamin Constant não está sozinho no poder. a passagem da educação monárquica.. a “intervenção moderadora” corresponderia a uma política da instituição. através de exemplos vivos. sempre que houvesse o momento adequado para mostrar. José Murilo de Carvalho afirma que o positivismo estimulou as três “ideologias de intervenção” que orientaram as ações militares no início da história da República. sempre que possível as aulas estimulariam o acesso ao conhecimento prático dos fenômenos físicos e naturais.

Não se tratava.. na qual consagrava as idéias pestalozzianas. o próprio Rui Barbosa. o mesmo regulamento indicava: caligrafia. a escola primária do 1º grau abrangia. sinão a que resulta da livre adezão de cada um às doutrinas em circulação. noções. como podemos conferir em um texto datado de: Rio. contudo. 1886. até porque. a apreensão do mundo exterior. de reduzir os ensinamentos às pesquisas de utilidade imediata. no preâmbulo com que apresentou o livro. e foi introduzida em nossa cultura por Rui Barbosa. português. o sistema métrico. centravam força. são também. ginástica. pela realidade. 26 de Carlos Magno de 93 (13 de julho de 1886) . e exercícios militares. em todos seus fenômenos.16 A reforma do Ensino de 1890. ginástica e exercícios militares. à agricultura e à higiene. 35 A ênfase no sentido prático do ensino devia receber especial atenção na escola primária de 1º grau que admitia alunos de 7 a 13 anos. desde de 1886. aritmética. sobre "o ensino intuitivo". Inclusive. elementos de ciências físicas e história natural aplicáveis às indústrias. que recebiam alunos de 13 a 15 anos. Para as escolas primárias do 2º grau. pelo exercício reflexivo dos sentidos. A obra do autor americano. intitulada Primary Object Lessons. ainda. (BARBOSA. tomado este então como inteiramente destinado “a seu uso como se apresentasse. música.] O Ensino pelo aspecto. Benjamin tinha uma personalidade eclética. não contempla todos os princípios do positivismo de forma ortodoxa.História da Educação Além destas. o contar e calcular. o resultado da influência da Pedagogia de Henri Pestalozzi (1746-1827). p. relações íntimas e contínuas com sua existência”. ao absurdo formalismo da escola antiga.XIII. geometria e trigonometria. como o fundamento das "lições de coisas": [. elementos de língua francesa. os “positivistas ortodoxos”.V. Decreto nº 981. mas de facilitar por meio da observação dos fatos. As "lições de coisas". buscando na maioria das vezes a conciliação com os demais personagens que faziam parte do processo de implantação da República. 1950). que fez a tradução da obra do educador americano Norman Allison Calkins. Quando se pretende submeter à sanção penal matéria que só comporta uma . na Reforma Benjamin Constant. explica o significado do "ensino intuitivo". trabalhos manuais para meninos e de agulha para meninas. pois que similhante medida ataca a autoridade patérna e destrói. geografia e história. Em matéria de ensino não se déve aceitar nenhuma impozição. figurado e topográfico. a liberdade espiritual. como não póde impor padres nem religião. elementos de música. desenho de ornato. A obrigatoriedade do ensino é uma das muitas panacéias inventadas hoje para sanar males que não compórtão remédio legal e que só pódem ser debelados pela modificação gradual e lenta das opiniões e dos costumes.. em 1866. e o Estado não póde impor méstres nem doutrinas. de direito pátrio e economia política. álgebra elementar. Já por vezes temos discutido ésta questão de ensino obrigatório e mostrado a incompetência do poder civil para decretá-lo. especialmente do Brasil.3475). além da instrução moral e cívica (Governo Provisório. 08-11-1889.. pelo cultivo complexo das faculdades de observação destinado a suceder triunfantemente aos processos verbalistas.. recebeu o título em Português de Primeiras Lições de Coisas. TOMO I. a leitura e escrita. trabalhos manuais para meninos e de agulha para meninas. ao mesmo tempo. pela intuição. bem antes da Reforma de Constant. que predominava na Europa e nos Estados Unidos. de paisagem. na crítica ao “ensino obrigatório”.

onde o ensino das crianças vai partir da observação e do contato direto com seres. história e ciências (história natural.. copiando servilmente regulamentos de paízes estrangeiros e amalgamando-os com vistas colhidas aqui e ali na leitura de meia dúzia de publicistas alamóda. instrução moral e cívica. 36 . e que não é. em vez da cultura estética e lingüística.História da Educação solução espiritual. monárquico ou republicano. depois elementos da física e química). como chefes de família e como pozitivistas. Benjamin Constant. em Caxias a 5 de Janeiro de 1855. não segue a lei dos três estados e a classificação enciclopédica das ciências. qualquer que seja o rótulo. que tal problema póde ser rezolvido. objetos e fatos. o saber de tudo que existe no universo. voltaremos a discutir o assunto. si for necessário. como o verdadeiro “Fundador da República Brasileira” e um dos maiores divulgadores dos valores morais apresentados pela doutrina de Comte. em Niterói a 25 de Novembro de 1854. como recomenda Comte. de similhante governo. não só pelos nossos correligionários pozitivistas. mas apenas o indispensável para a cultura intelectual e para o seu conhecimento. Teixeira Mendes (Rua de Santa Izabel nº 10) N. não era preciso conhecer tudo de cada uma delas. mas também por todos os cidadãos que tivérem dignidade cívica e soubérem compreender que sem liberdade espiritual compléta não há outra alternativa sinão para os mais ferrenho e degradante despotismo. a matemática para a mais complexa.) Temos fé em que nésta rezistência seremos acompanhados.17 Mesmo apoiando algumas posições contrárias aos ortodoxos com relação ao ensino. uma vez que. esse saber era encadeado por sua própria natureza e unificado na escola enciclopédica. de acordo com a “classificação das ciências” (da mais simples. portanto. o ensino “enciclopédico” tinha a pretensão de profundidade. Ver-se-á então mais uma vês que a reforma do ensino público supõe nada menos do que a renovação filozófica e religióza da sociedade modérna. geometria e álgebra). Benjamin Constant vai ser cultuado por esse grupo positivista. música. e. Por ser matemático vai garantir como disciplina curricular a “lição das coisas”. Desse modo.. mas de fornecer-lhe as luzes capazes de guiá-lo em todas as circunstâncias da vida (na profissão. nos deveres domésticos. Para o comtismo. Em Benjamin Constant. como cidadãos. Uma das divergências entre Constant e Comte com relação a educação estava no conceito de cultura enciclopédica. mas que são radicalmente incompetentes. Lavramos o nósso protésto desde já. R. Miguel Lemos (Rua de Santa Izabel nº 6) N. no entanto. geografia. vai priorizar o ensino das ciências e das matemáticas como base da Educação Infantil. (. ao contrário de Comte. Sendo que o currículo da escola primária do 1º grau (7 aos 12 anos) era composto por onze disciplinas: português. matemáticas (aritmética. a sociologia). planta-se o absolutismo e lança-se o gérmen das reações violentas. o saber enciclopédico e o saber total em extensão. Nesse sentido não se tratava de fazer do homem um sábio especializado. chegando a ser considerado por Teixeira Mendes. cívicos ou sociais).

Neste período. voltada para a organização do Ensino Superior. reafirmando o traço de dependência cultural. abolindo o diploma em favor de um certificado de assistência e aproveitamento. por meio dessa reforma do ensino de 1890. noções de agronomia e trabalhos manuais – algumas subdivididas conforme avançavam as séries (ou classes) e contempladas com uma programação que pretendia abarcar “tudo de todas as ciências”. em vez do fundamental delas. O positivismo é filtrado nas medidas expostas no regulamento de Benjamin Constant. Getúlio Vargas ocupa cronologicamente o período denominado Estado Novo. e transferindo os exames de admissão ao ensino superior para as faculdades. fornece os elementos centrais para o enraizamento de uma cultura escolar baseada nas “lições das coisas”. por meio do voto. O código Epitácio Pessoa (1901) acentua a parte literária ao incluir a lógica e retirar a biologia. 3.História da Educação desenho. uma tradição da objetividade. que não temos dúvidas deveriam começar já no Ensino Básico. é lançada Reforma Francisco Campos. 37 . A caracterização do reforçamento do traço de dependência na base da estrutura social durante os anos de 1894 a 1918. (RIBEIRO. Os resultados foram desastrosos. de valores construídos na prática pela prática. personagem responsável pela movimentação de idéias de reformas da educação na década anterior. as idéias que norteiam a moral positivista penetram na organização da escola primária brasileira. Em 1931. Além disso. que vai de 1937 a 1945. A série de reformas pelas quais passa a organização escolar revela uma oscilação entre a influência humanista clássica e a realista ou científica. ampliando a aplicação do princípio de liberdade espiritual ao pregar a liberdade de ensino (desoficialização) e de freqüência. Do ponto de vista político. é criado o Ministério da Educação e Saúde. 73). no tratamento superficial dos conteúdos das disciplinas do currículo. a partir de 1951. ser comum. 1991.2 Educação na Década de Vargas Em 1930. gerando para a escola primária (Ensino Fundamental) até os dias de hoje. a Reforma Rivadávia (1911) retoma a orientação positivista tentando infundir um critério prático ao estudo das disciplinas. é necessária porque se refletirá na organização escolar. apresentar o termo “enciclopédico” no sentido de superficial. dentro da cultura brasileira. mas sem dúvida que. com o objetivo de que o secundário se tornasse formador do cidadão e não do candidato ao nível seguinte. Ribeiro (1991) faz uma análise do efeito das Reformas Educacionais na primeira fase republicana apontando os traços deixados na cultura escolar e as influências de filosofias européias que passam pelo classicismo humanista até o realismo cientificista de cunho positivista. a sociologia e a moral. que acabou de ser feita. retornando ao poder. p. ginástica. Daí.5. determinando ao final do século XIX as bases da estrutura e funcionamento da escola moderna brasileira. sem chance para as interpretações críticas. tendo a frente Francisco Campos.

(ROMANELLI. Raul Briquet. 1994. no contexto da qual se dá a maior parte dessa primeira fase de industrialização que vai de 1930 a 1961. o corpo propriamente dito do escrito. Noemy da Silveira. jamais um escrito teve repercussão semelhante ao Manifesto dos Pioneiros. composto de 46 páginas. E a terceira??? Na História da Educação Brasileira. E é sob sua liderança que se aplica a política do nacional-desenvolvimentismo. falando de suas deficiências e propondo a reconstrução da educação. 38 . 2001. esta contradição pode ser sintetizada em dois pontos básicos: a) o fato de vivermos. p. republicado em 1932. expunha não só a pedagogia da Escola Nova. e depois de todo o país. Lourenço Filho. ao lado de uma profunda e sofisticada preocupação pedagogizante. que irá tomar conta inicialmente do eixo São Paulo – Rio. (RIBEIRO. que ainda não temos. 154) Para Romanelli (2001). Mário Casassanta. Observou-se. Delgado de Carvalho. de passar a viver o dualismo educacional que se traduz pela presença do analfabetismo e ausência de educação primária gratuita e universal.História da Educação Getúlio Vargas passa a exercer um papel central no âmbito da política brasileira. focaliza o atual problema educacional brasileiro. Cecília Meirelles. Frota Pessoa. b). em matéria de educação. OS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. a nosso ver. a implantação definitiva do capitalismo industrial no Brasil gerou modificações no horizonte cultural da época. entre os quais: Fernando de Azevedo. Anísio Spínola Teixeira. o fato de expor-nos ao risco de enfrentar e até mesmo. Pascoal Lemme. compõe-se de três partes: • a primeira. da autoria de 26 eminentes educadores. e com isso. o que trouxe como conseqüência uma das contradições mais sérias do sistema educacional brasileiro. • a segunda. Para a autora. p. seus líderes desejavam mudar a educação de forma revolucionária. A demanda social da educação cresce e se consubstancia numa pressão cada vez mais forte pela expansão do ensino. Júlio de Mesquita Filho. como nos demais aspectos da vida social. 4. Roquette Pinto. no entanto que. e de sermos com isso obrigados a resolver problemas que outros povos já resolveram há um século ou mais. Hermes Lima. assim como a expansão capitalista não se fez da mesma forma em todo o território nacional. mas também a filosofia da educação social-radical. em 22 páginas de autoria de Fernando de Azevedo. 60). duas ou mais épocas históricas simultaneamente. cuja a superação está a exigir uma tradição cultural e educacional. Sampaio Dória. Afrânio Peixoto. enquanto enfrentamos situações mais complexas. Ferreira de Almeida Junior. a expansão da demanda escolar só se desenvolveu nas zonas em que se intensificaram as relações de produção capitalista.

4244. 157) ilustra esta forma de governo no trecho abaixo: O Ato Institucional nº 1 (AI-1). Como efeito do medo que se instala começam também as delações em grande escala. de 20 de dezembro de 1961. Nesse contexto. Decreto-Lei n°. ligado a Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB) e ao Governo Federal. entre outras questões. A obra Pedagogia do Oprimido é a síntese da proposta freiriana para a educação de adultos. dava direito ao governo de cassar mandatos e suspender direitos políticos sem necessidade de justificação. Ribeiro (1994. p. considerada arcaica e superada. o próprio Paulo Freire relata as dificuldades vivenciadas no período da ditadura militar.. 142): “[. de 10-04-64. a sociedade civil engendrou várias formas de resistência. que antes mesmo da ocorrência do golpe já militava na causa da erradicação do analfabetismo e por conta desse trabalho ficou exilado de novembro de 1964 a junho de 1980. A Reforma de Gustavo Capanema. formada por princípios gerais. Os movimentos sociais ligados a área da Educação que mais se destacaram foram os Centros Populares de Cultura (CPC). fazendo um apelo dos jardins de infância até a universidade. A despeito da condição de profunda violação dos direitos humanos. 4024. podemos destacar o trabalho desenvolvido pelo educador pernambucano Paulo Freire. sob a chefia do general Golbery do Couto e Silva. com a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”. Além do movimento de educação de base (MEB). Os militares passam a governar o país por meio de atos institucionais.1. cuja origem está ligada a Prefeitura de recife e no Rio Grande do Norte. passam a infiltrar-se em toda parte. por isso mesmo. publicada no Brasil. 4.. que é a formação da personalidade do adolescente.História da Educação declarando-se contra a educação Clássica.d. tomando como base o percurso para a publicação da referida obra: 39 . apresentam a alternativa da Educação Nova. julgamento ou direito de defesa. Militarismo e Educação no Brasil: os efeitos do Golpe de 64 O Militarismo e seus feitos na sociedade brasileira podem ser mesurados a partir da afirmação de Leôncio Basbaum (s. do Presidente da República e seu Ministro. Inquéritos político-militares (IPM) são instalados. O uso a tortura como instrumento de obtenção de “confissões” generalizou-se e “aprimorou-se”. Um evento histórico importante para a educação é a implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. com o objetivo de servir de guia para toda a educação Nacional. ligados a União Nacional dos Estudantes (UNE) e os Movimentos de Cultura Popular (MCP). que constitui o que se chama a Lei Orgânica do Ensino Secundário. que aparece em 1961. da alçada e jurisdição do governo central. No trecho a seguir.] Ao final do ano de 1964 havia 50 mil presos políticos em todo o país”. Os agentes do Serviço Nacional de Informação (SNI). n°. mas a atividade criadora do aluno. a Reforma atribui ao Ensino Secundário a sua finalidade fundamental. apenas em 1975. pautada no espírito dinâmico. não à receptividade.. de 9 de abril de 1942. ocupa-se principalmente do Ensino Médio e não tanto do Ensino Primário.

acusava o recebimento do material pedindo que esperasse por tempos mais favoráveis para a sua publicação. da democracia. língua em que foi originalmente escrito. e sobretudo. 2 – Faça um levantamento em bases convencionais e em bases virtuais de pesquisa sobre a Educação Nova na década de 30 do Século XX. seria interessante que o texto datilografado chegasse às mãos de Fernando Gasparian. 1997. ter sua primeira edição em Português. já morávamos em Genebra. para o portador. 3 – Construa um texto histórico sobre a trajetória do Educador P. Remeti o texto nos fins de 1970. o ultraje a democracia... do respeito a coisa pública.. como nos impôs o golpe de estado de 1º de abril de 1964. da ética. a enganação e a desconsideração da coisa pública. 40 .) Dias depois. que gostaria de salientar. mas também. diretor da [editora] Paz e Terra. discretamente.História da Educação Agora. p. que o publicaria. Constant. sua primeira impressão só foi possível em 1975 (FREIRE. tantos anos depois e cada vez mais convencido do quanto devemos lutar para que nunca mais. que a si mesmo pitorescamente chamou de revolução (. (. A questão que se colocava era como remetêlo com segurança não só para os originais.). começo dos anos 70. quando o livro já tinha sua primeira edição em inglês. Sua publicação aqui. vivamos de novo a negação da liberdade.. em nome da liberdade. Freire. ou nos começos de 1971. Mesmo sabendo que o livro não podia ser editado aqui [Brasil]. Aquela altura. mais ainda odienta. 1 – Analise a relação entre o positivismo e Reforma de B. 62-63) Atividade 4 Análise. Gasparian. Há mais um aspecto ligado a Pedagogia do oprimido e ao clima perverso antidemocrático do regime militar que se abateu sobre nós que forma singularmente raivosa.

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