AUTOR CARLOS JORGE PAIXÃO Doutor em Educação pela UNESP

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História da Educação

UNIDADE 1
HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÃO 1.1 CONCEPÇÕES DE HISTÓRIA 1.1.1 Concepção Positivista O pensamento de Augusto Comte (1798-1857), denominado de Positivismo, surge no século XIX, com a pretensão de ser uma síntese definitiva da evolução humana pautada em elementos oriundos da lógica das ciências exatas e naturais, na busca do estado positivo ou científico. (PAIXÃO, 2001; 2003; 2004). Segundo Augusto Comte, em sua obra intitulada Curso de Filosofia Positiva, publicada em 1830: [...] O caráter fundamental da filosofia positiva é tomar todos os fenômenos como sujeitos as leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços, considerando como absolutamente inacessível e vazia de sentido para nós a investigação das chamadas causas, sejam primeiras, sejam finais. (COMTE, 1830, p. ) Assim, a história, no sentido positivista, baseia-se nos fatos descritos e demonstrados nos documentos de origem oficial. 1.1.2 Concepção Marxista Marx (1818-1883) surge, no século XIX, colocando o homem e sua história como decorrência das condições materiais determinadas pela economia política. Os meios de produção e as classes sociais são fatores que se destacam na estruturação e organização da sociedade, a partir da distribuição das riquezas. Para Marx (1983, p. 194):
[...] temos que começar constatando o primeiro pressuposto de toda existência humana e por tanto de toda história, a saber, o pressuposto de que os homens precisam estar em condições de viver para poderem fazer história. Mas para viver é preciso antes de mais nada, comer e beber, morar, vestir e ainda algumas coisas mais. O primeiro ato histórico é, portanto, engendrar os meios para satisfação dessas necessidades, produzir a vida material mesma, e isto é um ato histórico, uma condição básica de toda a história que ainda hoje, como há milênios, precisa ser preenchida [...]

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No marxismo, a história é determinada pelos meios de produção que estabelecem a base material da sociedade. As idéias dependem das condições econômicas da sociedade, manifestadas na situação socioeconômica dos homens, distribuídos em classes sociais, nas quais quem detém o capital, domina os que estão destituídos deste. A metodologia para produção do conhecimento histórico baseia-se na dialética materialista. Segundo Gamboa (1996, p. 106), o método dialético aborda o fenômeno em suas contradições numa perspectiva histórica e dinâmica. 1.1.3 Concepção do Annales A História faz parte da vida dos homens e mulheres, que por sua vez, constroem a existência, em sociedade, com idéias e coisas, que surgem no cotidiano de uma espécie de cultura viva ou por outro lado de ambientes sofisticados e eruditos como as academias.

História da Educação O século XX, entre a década de 20 e a década de 60, ainda profundamente marcada pelas concepções positivistas e marxistas, assiste a um movimento de inovações na produção do conhecimento histórico em torno da Revista Os Annales, organizada por Marc Bloch e Lucien Febvre. O grupo da revista Os Annales sofre influências do marxismo (materialismo histórico e dialética materialista), porém deixa de incorporar a “luta de classes” como uma categoria de análise da História. Segundo Ciro Flamarion Cardoso (1981 apud LOPES, 1989), as principais características dos Annales são:
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Passagem da História Narração à História Problema; O caráter científico da História é dado, mesmo em se tratando de ciência em construção; Contato e debate com as outras ciências sociais (adoção de problemáticas, métodos e técnicas); Ampliação dos limites da História, abrangendo todos os aspectos da vida social: civilização material, poder e mentalidades coletivas; Insistência nos aspectos sociais, coletivos e repetitivos; Ampliação da noção de fonte para além da escrita (vestígios arqueológicos, tradição oral etc.); Construção de temporalidades múltiplas, ao contrário do tempo línea e simples da historiografia tradicional; Reconhecimento da ligação indissolúvel e necessária entre passado e presente no conhecimento histórico, reafirmando-se as possibilidades sociais do historiador. História Nova, que, de certa forma, prossegue a linha da inovação dos Annales, repousa sua novidade em três processos: ▪ Novos problemas – põem em causa a própria História; ▪ Novas contribuições – modificam, enriquecem, transformam os setores tradicionais da história; ▪ Novos objetos – no campo epistemológico da História.

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Goff e Nora (apud LE GOFF, 1990, p. 14), principais articuladores dessa nova busca de redefinição da História, explicam que:
[...] O essencial não é sonhar, hoje, com um prestígio de ontem ou de amanhã. É saber fazer a história de que temos hoje necessidade. Ciência do domínio do passado e da consciência do tempo, deve ainda definir-se como ciência da mudança, da transformação. Uma História Nova pautada nas necessidades de mudança da sociedade, que investigue os vestígios do homem do passado no presente, tendo o futuro como referência.

História da Educação 1.2 CONHECIMENTO HISTÓRICO Os estudiosos do conhecimento histórico, em sua maioria, demarcam a fundação da história, a partir dos estudos de Heródoto, que surgiram no século V antes de Cristo, na Grécia, tendo como conteúdo a descrição da guerra entre Gregos e Persas (490-479 a.C.). Para Heródoto, a História era mais que uma simples descrição dos eventos em torno de um fato grandioso realizado pelos homens; ela consiste em investigar, em pesquisar na tentativa de encontrar a verdade, informa Borges (1981). A partir da Grécia, a idéia de história sofre uma série de variações, dentro do espaço-tempo das civilizações com seus autores de estilos e de formações das mais diversas, produzindo uma série de definições sobre a mesma conforme demonstramos, a seguir. Marc Bloch (apud MENDES, 1993, p. 8) define que:
[...] O objeto da história é por natureza o homem. Melhor: os homens. Mais do que o singular, favorável à abstração, convém a uma ciência da diversidade o plural, que é o modo gramatical da relatividade [...]. O bom historiador, esse assemelha-se ao monstro da lenda. Onde farejar carne humana é que esta a sua caça [...] Ciência dos homens, dissemos nós. É ainda muito vago. Temos de acrescentar: dos homens do tempo. O historiador não pensa apenas o humano. A atmosfera em que o seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração.

A história não se basta com o singular, busca nas suas investidas o sentido da duração dos homens, nas diversas formas de expressão de sua humanidade, materializada nos monumentos e descrita nos documentos, que espelham a trajetória coletiva da cultura humana. É ciência que estabelece a identificação do ser humano dentro das cronologias, ao investigar e interpretar suas lembranças, resgatando suas recordações como "marcas", que ao serem decifradas colocam o homem diante de si, com seu retrovisor de feitos singulares e coletivos, um ser da consciência. Philippe Ariès (1986, p. 22) apresenta a seguinte reflexão:
[...] As culturas são, pois, necessariamente diferentes umas das outras, e cabe ao historiador apreender essas diferenças. Como? Através de um jogo de espelhos e de ricochetes, que o historiador vai aprendendo, na sua vida cotidiana. Vejamos um exemplo: leio, num artigo de Paul Veyne, que a alta sociedade romana preferia a adoção à filiação natural para a sucessão numa herança ou num determinado poder. Este fato interessa-me, primeiro, como um traço característico da civilização romana da época. Mas, em seguida, apercebo-me de que a preferência pela adoção desapareceu, durante a idade média e a época moderna, até que nos nossos dias começa a reaparecer. O fato em si, que é a adoção - e a não-adoção - torna-se o revelador de uma diferença fundamental entre várias culturas.

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Assim, a cultura pode alterar-se em um mesmo espaço, a mudança pode acontecer dentro de um determinado tempo em uma mesma sociedade. O fato histórico que em um determinado período, pode ser considerado determinante do comportamento de um grupo social, pode alterar-se, ou até desaparecer; este movimento, dentro da trajetória humana, estabelece a diferença cultural entre grupos sociais que habitam a mesma geografia. E o estudioso da história, deve neste caso, estabelecer uma periodização, pois sem este recorte no tempo, dificilmente, obterá sucesso em sua investigação. Segundo Ariès (1986, p. 24):
[...] A história é, e deve continuar a ser, o conhecimento das aparências, cuja ilusão não deve denunciar, mas da qual deve descobrir os elementos que, muitas vezes, estão ocultos e que dela fazem uma estrutura coerente. O historiador cedo se apercebe de que existem dois tipos de aparências, as que são manifestas e estão à

os documentos são representados por cartas. que foi variando ao longo dos tempos. atas. buscando dimensionar o que está na "vitrine". o conjunto de idéias dentro de uma sociedade em geral. e as ocultas. A história enquanto construção de um conhecimento sobre o homem.História da Educação vista de todos.] Estamos aqui perante a questão da função da história. evidências da ação dos agentes históricos em um determinado tempo e espaço de uma civilização. 1. encontrem um pouco de sua memória individual e coletiva. Para que serve a história? A história é. que espelham a trajetória coletiva da cultura humana. possivelmente. apenas notadas pelos seus contemporâneos.14) faz uma análise crítica da função e do desenvolvimento da história: [. garantindo os elementos mais importantes no retrovisor. 144): 5 . coletando e tratando documentos. apresentavam ora estudos historiográficos de fidelidade às determinações de grupos dominantes. Então. Esta função de pedagogia moral manteve-se por muito tempo – Michelet. Georges Duby (1986. para que. p. legislações etc. dar conta da escavação dos elementos acumulados ao longo das etapas e dos períodos componentes do passado.. representa interesses de grupos e determina o desenvolvimento das políticas.3 MÉTODOS. p. visível e contextual e. ofícios. por outro lado. nas diversas formas de expressão de sua humanidade. a história no decorrer do tempo e das culturas. Em geral. O homem é o centro da construção do conhecimento histórico. todos ao lidarem com os estudos historiográficos. sofre as marcas das idéias no decorrer do tempo. essa função consistia numa interpretação moral dos fatos: narrando os acontecimentos do passado. situado no tempo e no espaço de uma cultura de uma civilização. um ponto comum é a tentativa dos historiadores de colocar o homem diante de si. decretos. é marcada pela personalidade. do público e. apesar das variações da história. ora estudos críticos e revolucionários. que podem ser desenterrados. quando ensinava no Collège de France. um divertimento: o historiador sempre escreveu por prazer e para dar prazer aos outros. subterrâneas. A dimensão espacial está relacionada com a necessidade de localização geográfica da sociedade ou civilização escolhida para o desenvolvimento do estudo. ocupava a cátedra de História e de Moral. Dizemos que. das regras de cunho moral que fazem parte da interpretação constante na obra dos historiadores em diversas épocas. pretendia-se mostrar aos homens como é que Deus queria que eles agissem. Tradicionalmente. nos seus diversos períodos da trajetória humana. segundo Mendes (1993. O processo de investigar a história busca nas suas investidas o sentido da duração dos homens. Mas também é verdade que a história sempre desempenhou uma função ideológica. pela formação e pelos interesses de seus autores. materializada nos monumentos e descrita nos documentos. INVESTIGAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DE HISTORIOGRAFIAS As idéias e ações humanas são objetos de busca do historiador. pela interpretação das obras mais clássicas e de fontes primárias investigadas e devidamente identificadas. o produtor do conhecimento histórico deve ocupar-se das "aparências". Todo conhecimento científico traz a marca de seu autor. antes de mais nada. Para Raoul Glaber. Espaço e tempo são duas categorias que se destacam na delimitação dos estudos históricos.. os estudos históricos partem da investigação dos eventos do passado. que situados em estados e instituições.

a investigação histórica carece de uma delimitação no tempo e no espaço de uma sociedade. 1993). responsável pela seleção de acordo com o recorte eleito para a definição de seu objeto de estudo. o devagar de seu constituir-se [.História da Educação [. a história. 6 Assim. As fontes históricas podem apresentar-se em várias facetas: vestígios arqueológicos. testemunhos. Isso é o que os filósofos ou teóricos da história fazem. Em um modo. a fim de nos definir por diferença ou semelhança a ele. sobretudo. fatos e eventos. (PAIXÃO.] A história é a preocupação do homem. a correlação de forças entre eles. uma segunda impossibilidade – de ordem prática e inerente à própria natureza humana – prendese com o estudo de áreas demasiado extensas. pensamos com o produto substantivo da investigação histórica. da pesquisa das fontes e do tratamento de dados. tratando-se de um quadro geográfico excessivamente amplo. Pensar com a história implica o emprego dos materiais do passado e das configurações em que os organizamos e compreendemos para nos orientar no presente. de uma civilização. a circulação de idéias. deve ser direto – da realidade em foco.. o que convencionamos chamar de uma época da cultura humana. com as imagens que formamos do passado. onde está localizado o investigador. p. do homem. estudioso ou não. à nível do conhecimento – o qual. A . A dimensão temporal torna-se imprescindível. apresentados como prova e os documentos – todo esse material. a demarcação cronológica é inevitável para que a pesquisa alcance viabilidade e validade. que. na construção das historiografias. geralmente. Os materiais do passado são as fontes de abastecimento da produção do conhecimento histórico e a única maneira de orientar a investigação histórica no tempo presente.. Uma outra categoria fundamental. sempre que possível. Para Schorske (2000. denominado de "fontes". arquitetônicos. por meio do estudo realizado no tempo presente. Com efeito... o conhecimento produzido e acumulado nas obras (teoria). na ciência histórica. (MENDES. pré-históricos. então. 2003).. pretensiosamente. Buzzi (1994. é o tempo. é a razão da existência da investigação histórica. com a ilusão de se criar uma “grande história”.. de se localizar no passado é devido aos vestígios e evidências deixadas por outros homens nas diversas formas de documentar a trajetória da civilização humana. sob pena de naufragar no oceano panorâmico dos “estudos universais”.. p. genericamente. como uma forma geral de produzir sentido. são dados que evidenciam um tempo-espaço. a investigação de sua possibilidade. tentam esgotar questões em torno de personagens. giram os agentes históricos. A possibilidade de um homem contemporâneo. devido a dois fatores: impossibilidade de se extrapolarem conclusões de uma área estudada para outra que não tenha sido objeto de estudo. por vezes insuperáveis. de um grupo humano. e o tipo de sociedade na qual se desenvolve o evento. monumentos artísticos. em geral. 2001. caminha na direção de uma seleção dos dados de maneira a compor uma sucessividade de eventos que sejam capazes de traduzirem as ações e as expressões dos agentes históricos do passado. A problematização.] A árvore fala da natureza. uma vez que dificilmente um pesquisador apresenta condições de estudar múltiplas cronologias. industriais e comemorativos.. encontrar-se-ão dificuldades.] A delimitação espacial de qualquer estudo histórico impõe-se. Em torno de um problema histórico selecionado. 72) destaca que: [. com suas características culturais. As fontes históricas.] Pensar com a história não é o mesmo que pensar sobre a história. 13): [.

O primeiro caminho constitui-se em um percurso por dentro da história com um itinerário parcial (história parcelar). construirá uma história total (global). analisando a posição de Saviani. porém. buscando a universalização do estudo. elegendo um foco para aprofundar e avançar com seu estudo. em busca de resposta ao problema proposto. com o apoio teórico-conceitual das obras de outros estudiosos. a história. preferencialmente. São os atos humanos que o historiador busca estudar em cada cronologia e em cada espaço com os métodos de investigação adequados ao problema e o desenrolar dos fatos na época selecionada. produzidos ou reproduzidos na forma escolar e não escolar para a reconstrução da memória coletiva dos fenômenos educativos. mesmo que o método possa ser plenamente utilizado. o estudioso da história e de suas variantes (história da educação. contribui com a pedagogia disponibilizando seus métodos e técnicas de investigação para que o educador possa apropriar-se dos eventos pedagógicos que ocorrem nas diversas épocas e nas diversas sociedades. o hominizar-se do homem. em qualquer área. portanto. Dificilmente. onde os bens simbólicos da cultura são apresentados. capaz de dar conta de uma grande época. A história.] Dermeval Saviani. com o intuito de compor uma história total. Faz parte da natureza do processo de construção do conhecimento científico.. o ponto de 7 . Eliane Lopes (1989. o método historiográfico analítico e o método historiográfico globalizante. Alguma lacuna há de ficar. O outro caminho busca a construção de uma história de longo alcance temporal e geográfico. mostrando que há uma tendência que dá ênfase à primeira palavra da locução – história –. que nos ensina cotidianamente. flores e frutos apresenta o florescimento da natureza. 1. como ciência que interpreta os atos humanos. história da ciência. que não é possível com um projeto de pesquisa dar conta da história total (global). do conhecimento histórico acumulado. tempo e personagens é uma exigência do fazer científico. tomando como referência a teoria acumulada pelos historiadores. dentro de um contexto mais amplo. Entendemos que a demarcação espaço. história econômica. entendermos que uma posição pode ser anunciada após alguns anos trabalhando com estudos historiográficos. pelos pesquisadores e estudiosos da história. buscando a Função do ensino de Filosofia da Educação e de História da Educação. é certo. em que a delimitação de um tempo (cronologia). a segunda – educação – aparece como uma mera conseqüência. porque como nos diz um mote antigo. mas válido até os dias de hoje: "Sem teoria não se constrói o conhecimento científico". consiste em tentar uma compreensão da parte.. sem pretensão de produzir uma "grande história". 37).4 HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÃO Os estudos históricos ou historiografias derivam em geral. passa a ser imprescindível para início do estudo e da investigação. faz a análise de questões ligadas ao magistério dessas disciplinas. A proposta de Saviani é que se desloque a ênfase para a segunda palavra mesmo ocorrendo o risco de apenas inverter a hipertrofia. resultado da investigação sistemática de um tempo dentro de uma sociedade.). já que. Dois grandes caminhos vêm sendo trilhados. o caminho mais seguro. História gasta tempo para fazer o homem. a necessidade do pesquisador de delimitar o seu problema. e nem é possível universalizar o estudo realizado. A preocupação do professor em dominar a história acaba por colocar a educação na penumbra. dentro de uma determinada sociedade (espaço). de uma sociedade inteira com suas múltiplas determinações econômicas. a ênfase e. segundo ele. de uma civilização ou até de um determinado grupo humano. aparente e falso. Os caminhos da história são diversos. p. mas que. história da psicologia etc. políticas e sociais. O risco.História da Educação árvore de mil folhas. concluiu que: [.

História da Educação partida do estudo estiver na educação ou na problemática educacional. o sentido de história irromperá com toda força. ATIVIDADE Aplicando o conhecimento adquirido nesta unidade. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 3) Caracterize o método historiográfico analítico e o método historiográfico global. 1) Selecione e analise duas das concepções de história apresentadas nesta unidade. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 8 . __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 2) Após o estudo desta unidade. elabore uma definição de História da Educação.

História da Educação UNIDADE 2 EDUCAÇÃO NA EUROPA MEDIEVAL E MODERNA 2. no feudo. 9 . que se empenha na sua defesa militar. fundaram o tempo do cristianismo católico. A Idade Média costuma ser dividida em duas grandes fases: Alta Idade Média e Baixa Idade Média. é a principal responsável pela formação dos homens na época. A economia do feudo é. A identidade da idade média está associada às duas classes que detêm o poder no período. econômica e cultural. A Alta Idade Média corresponde ao período que vai das invasões bárbaras até as proximidades do ano mil. em geral de subsistência. produzindo e consumindo in loco as mercadorias de que tem necessidade. A igreja. caracterizando. o despertar das ciências e das artes. marcada por forte espírito comunitário e uma etapa da evolução de alguns saberes especializados como a matemática e a lógica. (CAMBI. que impõe aos habitantes do feudo a obrigação à fidelidade e à submissão. a composição dos Estados Nacionais e a presença embrionária da nova classe – a burguesia. por meio da Igreja e do Império. de modo particular. sobretudo. aos seus dogmas. desenvolvese somente no castelo do feudatário ou nas igrejas e. mas enfraquecida que antes. nos mosteiros: ela se caracteriza por poucos intercâmbios e é toda devotada à fé cristã. do empenho produtivo. A cultura. 1999). temos a Baixa Idade Média marcada pelo surgimento das cidades e da expansão do comércio. no centro da Europa. heresias e revoltas camponesas. e também uma identidade mais próxima de nós e de nossa sensibilidade. aos seus mitos. por isso denominada também de sociedade feudal. reduzindo ao mínimo o intercâmbio e apresentando-se predominantemente agrícola. por meio do fundamento cristão. constrói os ideais e desenham um imaginário que atravessa as fronteiras das cronologias até os tempos modernos. Um tempo de transformação política. sobretudo. absolutamente. Segundo Cambi (1999. A Idade Média não é. em troca de proteção. p. 155): O feudo é uma unidade territorial.1 O CONTEXTO MEDIEVAL A Idade Média corresponde ao longo período delimitado. Um tempo caracterizado pela força da economia feudal e pela hegemonia do cristianismo.) como também um modelo de sociedade orgânica. a época do meio entre dois momentos altos de desenvolvimento da civilização: o mundo antigo e o mundo moderno. A sociedade medieval estrutura-se em torno do feudo. Assim como uma fase histórica que se coagulou em torno dos valores e dos princípios da religião. mas também aberturas proféticas e fragmentos utópicos que nos apresentam uma imagem mais complexa e mais rica da Idade Média. respectivamente. A fé cristã. a partir do ano 476 demarcação do fim do Império Romano e o ano 1492 da descoberta da América. o clero e a nobreza que. que se manifestam com toda a força nas criações artísticas e técnicas. da identidade supranacional etc. Foi. nutre as mentalidades. toda esta longa época: conferindo-lhe conotações de dramaticidade e de tensão. governada por um senhor que age dentro dele como fonte de direito. e o ressurgimento dos valores laicos. que conjuga a presença da Igreja. A partir do ano mil. a época da formação da Europa cristã e da gestação dos pré-requisitos do homem moderno (formação da consciência individual.

fundando os alicerces racionalistas e as sementes dos ideais de uma educação moderna e humanista. Os títulos eram de bacharel com cinco anos e de magister.] Também a educação não é estranha a este processo. dirigida pelo monge inglês Alcuíno de York (730-804). Além disso.. Três tipos de escolas ganham destaque no período: as monásticas (ou abaciais). agora. na Alta Idade Média. mas fortemente ativos na vida social (as cidades e as nações). as ordens pauperistas e mendicantes. que passam a empregar método de ensino pautado no debate de questões teológicas. desenvolvem seu apostolado. (MANACORDA. ferreiros. segue uma pedagogia eclesiástica. Renova-se a ideologia. a partir das transformações das escolas catedrais. também surgem as primeiras universidades. tecelão. principalmente. estão voltados para a laicização do intelecto do homem e de sua vida social. jurídicas e até médicas. conservador. que transformam as oficinas em ambientes de ensinoaprendizagem.História da Educação 2. que vê o povo cada vez mais protagonista ativo de movimentos ideais e de lutas sociais (as seitas pauperistas ou as lutas camponesas. 10 As corporações que surgem na Baixa Idade Média são criadas em torno dos ofícios artesanais (alfaiates. que implica cada vez mais competências especializadas e envolve cada vez mais indivíduos por conhecimentos e interesses comuns: nascem as corporações. por franciscanos e dominicanos. a partir de agora. temos o trabalho de Abelardo. uma iniciativa do Imperador Carlos Magno (742-814). para organismos diversos.1. como descreve Cambi (1999. formalista e não-criativo caracterizado pela tradição e submissão à autoridade eclesiástica. a partir do ensino dos valores do Cristianismo adaptado ao contexto dos mais pobres. após sete anos de estudo. Mudam as técnicas e transforma-se o trabalho. que inaugurou esse modelo de escola em seu próprio palácio. Estes novos modelos pedagógicos ainda marcados pelo cristianismo. Como exemplo deste tipo de educação universitária da época. É todo um mundo que vai se renovando. distanciando-se do modelo escolástico apresentado pela Igreja Católica. administradores do império e filhos da nobreza. As escolas Catedrais eram escolas com a missão de formar o clero secular com um modelo educativo didático. (LUZURIAGA. isto é. . também político. por exemplo). Eram escolas construídas ao lado da igreja em que o bispo tem seu trono ou cátedra. representadas. mas que.. Nesse período. na escola catedral de Notre Dame que servirá de base para a fundação da Universidade de Paris. conflitam entre si e deixam espaço. p. Já a educação na Baixa Idade Média sofre grandes modificações. 1990). mais locais e mais diluídos. filosóficas. onde o ensino visa à formação de religiosos. estabelecendo uma relação pedagógica entre mestres e aprendizes. as catedrais e as palacianas. As escolas Monásticas (ou abaciais) cuidavam da formação religiosa por meio do estudo de textos sagrados e da meditação. 1997). pelas pilastras universalistas da Igreja e do Império. por assim dizer. 173). por volta de 1150. embora amparado. desenvolvida em escolas organizadas pela Igreja Cristã Católica. a via mística utilizará a razão para desenvolver o significado da fé e a sua relação com a vida social. Os estudos na universidade duravam de cinco a sete anos. por exemplo). [.1 Educação na alta idade média e na baixa idade média A educação. As escolas palacianas ou palatinas visavam formar eclesiásticos.

nos dias atuais.História da Educação ATIVIDADE Aplicando nosso conhecimento sobre a Educação Medieval 1) Caracterize a Educação Medieval? • Na Alta Idade Média: __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ • Na Baixa Idade Média: __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 11 2) Busque e registre aqui evidências da Educação Medieval. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ .

portanto devem ser investigadas. (MANACORDA. cada vez mais orgânico e funcional para o desenvolvimento da sociedade moderna: da sua ideologia (da ordem e da produtividade) e do seu sistema econômico (criando figuras profissionais. dinheiro. (AQUINO. Entre essas instituições. que. (CAMBI. marcando definitivamente esse tempo de mudança – os tempos modernos. Como revolução na educação e na pedagogia: a formação do homem segue outros itinerários sociais. bem como novas instituições sociais (hospitais. 2003). A ruptura da modernidade apresenta-se.História da Educação 2. início de uma economia de intercâmbio (mercadoria. ideológico. a partir do século XVI. caracterizou-se por grandes transformações nas estruturas da Europa Ocidental. político. As teorias pedagógicas tomam uma conotação histórica e empírica. CAMBI. liberado de vínculos e de ordens. também o exército e a escola. a escola ocupa um lugar cada vez mais central. efetivamente. para a formação dos estados nacionais e a centralização do poder. 1990. ou o início do sistema capitalista. a substituir as estruturações ideológicas do teocentrismo. nutrido da fé laica e aberto para o cálculo racional da ação e de suas conseqüências. Como revolução política: nascimento do estado moderno (Estado-nação e Estado-patrimônio). Transformações econômicas e sociais determinaram as mudanças no modelo jurídico-político. 1999). racionalização de recursos financeiros e humanos). pelas novas estruturas ideológicas baseadas no antropocentrismo. O homem europeu passa a descobrir e valorizar a razão e tudo o que pode advir como produto da racionalidade. econômico. cultural e pedagógico. um indivíduo mundanizado. de modo analítico e experimental. social. uma revolução em muitos âmbitos: geográfico. DENIZE e OSCAR. a passagem do feudalismo para o pré-capitalismo. As grandes navegações empreendidas. ano da Revolução Francesa. competências das quais o sistema tem necessidade). a Europa começa. posto como artífice de sua sorte no mundo em que vive. prisões e manicômios) agem em função do controle e da conformação social. portanto como uma revolução.2 O CONTEXTO DA ÉPOCA MODERNA A Época Moderna ou Idade Moderna começa a partir do marco simbólico da descoberta da América (1492).  Como revolução econômica: fim do modelo feudal (agrícola). principalmente. passando a estudos que consideram o tempo histórico e as condições naturais do homem. JACQUES. para ser mais preciso 1789. operando no sentido educativo. Como revolução social: afirmação da classe burguesa. Essa transformação de base econômica tornará o terreno propício politicamente. como ainda da oficina. 1999). 1997. Todas essas mudanças estruturais produziram um afastamento mais acentuado dos valores do cristianismo difundidos pela Igreja na Idade Média e uma aproximação maior da dimensão humana. além da família e da igreja. Isto é. LUZURIAGA. sistematicamente. por Portugal e Espanha serão decisivas para as mudanças nos horizontes geográficos e o desenvolvimento mercantil. Este longo período da segunda metade do século XV até o século XVIII. . os fins da educação destinam-se a um indivíduo ativo na sociedade. Assim. 12    Mudam os meios educativos: toda sociedade se anima de locais formativos.

educação humanista (Grécia e Roma ).9 Cultivo do corpo e estética / boas maneiras e urbanidade.3. 2. os engenheiros italianos projetavam e construíam palácios. 2. 2. Dentro desse cenário.4 Cortesão instruído e urbano.3 A EDUCAÇÃO NA RENASCENÇA E A PEDAGOGIA HUMANISTA Dentro da época moderna temos o fenômeno da renascença. Seus trabalhos técnicos e artísticos são testemunhos da cultura da época – sua obra mais conhecida é a pintura intitulada Mona Lisa.): 1.História da Educação 2. homem culto: ilustrado com base nas idéias de Platão e Quintiliano. A diversidade de interesses de sua obra – que. Socialmente: 1. Os clássicos gregos e romanos inspiravam e ilustravam os homens da época na busca de inovações técnicas e artísticas. redescobrimento da personalidade humana livre e independente da religião e da política.6 Espírito crítico. p. Sob o patrocínio de nobres e prósperos comerciantes. 2. catedrais. 13 .1. 1. provoca estranheza ainda hoje – refletia o caráter interdisciplinar da cultura técnica renascentista. 2. 2. sistemas de distribuição de água para cidades. 1. 1. Pedagogicamente: 2. além de esculpir e pintar quadros e afrescos. 2.1 desenvolvimento da cidade e estado-cidade / direção burguesa. 2.5 Cultivo da individualidade. O norte e o centro da Itália destacaram-se das demais áreas pelo dinamismo comercial. Diversas tradições técnicas foram desenvolvidas em algumas regiões da Europa. Apresentamos a seguir uma caracterização da renascença elaborada por Luzuriaga (1990. marcada pelo resgate da antiguidade clássica e pela construção de uma educação humanista.2 espírito cosmopolita: universalidade balizada pelas relações comerciais e pelos descobrimentos geográficos. Leonardo da Vinci (1452 – 1519) tornou-se um símbolo máximo do movimento renascentista. uma nova fase da cultura humana. ao abarcar campos aparentemente tão díspares.3 participação da mulher. 2.4 maior riqueza econômica (laços comerciais / sistema de crédito ). 37.2.7 Estudo atraente e ameno.8 Matérias realistas e científicas.

3. Tem um sistema de educação. sobretudo em relação a este papel. que põe em relevo o papel social da educação e redefine as duas instituições (família e escola). o conhecimento é para todos. depende do sucesso de seu sistema de educação. A pedagogia humanista resulta. hoje. secularizado e laicizado pela pedagogia como uma ciência da educação universal.4 SÉCULO XVII: A REVOLUÇÃO PEDAGÓGICA E A LAICIZAÇÃO EDUCATIVA O século XVII é o tempo da consolidação das novas estruturas que efetivam a modernidade como a época histórica da classe burguesa. 2. inaugurando a revolução pedagógica burguesa com um sentido utópico de “ensinar tudo a todos”. Todo o universo da educação mudou. 2. 1999). A nossa sociedade. 1999). Comenius é maior pedagogo do século XVII. segundo um modelo harmônico similar à “obra de arte”. uma concepção de educação. 14 . mas também com a vontade e a práxis. nesse aspecto. língua e civilização. (CAMBI. A família e a escola são as duas instituições que ganham importância na construção do novo sentido pedagógico. de modo intensamente dinâmico e radicalmente dialético. desenvolvido em todas as suas potencialidades e realizado naquele pluralismo de capacidades e de dimensões. nos fins e nos meios. por meio de sua obra principal denominada de Didática Magna (1657). em que o homem e a sociedade tentam renascer a partir do resgate dos saberes produzidos na Grécia e Roma Antiga e das construções artísticas inspiradas em modelos humanos. às mudanças na estrutura do pensamento e na formação de uma nova mentalidade pautada no “espírito científico”. uma vez que.1 Colégio humanista / escola secundária / estudo do latim e do grego.10 Educação das massas. ciências e história. do sistema capitalista e do estado moderno. E. Um tempo humano. mudou o ensino e mudou a atitude da família em relação à criança. a indicação mais explícita dessa dupla transformação. muda a imagem do homem que é formado por esse processo educativo: trata-se daquele homem mais laico. Devemos a Áries e ao seu estudo de 1960 sobre História social da família e da infância. civil e do trabalho que vive como um micromundo no qual se reflete o macromundo e que é senhor do universo por dominá-lo com o pensamento e com a palavra. deve ser disponibilizado aos homens. Um homem que quer ver a si próprio. (CAMBI. a nossa época é herdeira direta de uma mudança advinda com a Modernidade. O sentido de revolução diz respeito em especial. a partir da dimensão humana e se tornam as principais instâncias de formação dos sujeitos na modernidade. uma consciência de sua importância. antropocêntrico – o homem no centro da nova forma de pensar e construir novos bens simbólicos e uma nova moral pautada em valores afirmados na família e confirmados no processo de escolarização por meio dos estudos das humanidades (studia humanitatis) numa formação que conjuga o estudo das letras e história. A estética torna-se assim o paradigma-guia da formação e o critério supremo da pedagogia em todas as suas formas (desde a teórica até a escolar). desse tempo. A civilização medieval tinha esquecido a “paidéia dos antigos” e não conhecia a educação dos modernos. O homem passa a criar e inventar obras no campo das artes e das técnicas exercitando a razão e afastando-se dos saberes que derivam da teologia.História da Educação 2.

JACQUES. Definitivamente. o homem. e sua tarefa consistia em representá-la. a não ser penso.. para se certificar da validade de sua representação. definitivamente. Assim.História da Educação Tal mudança. significa que o homem passava a ver a natureza como objeto de sua ação e de seu conhecimento. as explicações teológicas e metafísicas não mais satisfaziam o homem moderno cioso de uma objetividade que o levasse à compreensão dos fenômenos e leis que constituíam a natureza. nada podia ser considerado como certo. em torno do Estado.” (ARANHA. no século XVII. inaugura um tempo de busca de processos educativos que seja “ensinado tudo a todos”. um novo tempo para a pedagogia moderna laica e capaz de viabilizar o conhecimento por meio da escola para todos os homens da sociedade. para chegar às estratégias educativas referentes ás diversas orientações da instrução.. para atingir tal objetivo era necessário um método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. ampliando o sentido do fazer pedagógico que. e a sua centralidade na vida do homem e da sociedade. (AQUINO. em que busca “justificar e legitimar o poder do Estado sem recorrer à intervenção divina ou qualquer explicação religiosa. Para Descartes (1596-1650) tudo era duvidoso. na estrutura do pensamento. 2003). partem da tendência de secularização e laicização do pensamento político e filosófico. deveria formular hipóteses e experimentá-las. desenvolvido principalmente por Jan Amos Comenius. que afirma a universalidade da educação contra as restrições devidas as tradições e a interesses de grupos e de classes. Com ele se delineiam pela primeira vez de maneira orgânica e sistemática alguns dos problemas já relevantes da pedagogia: desde o projeto antropológico-social que deve guiar o mestre até os aspectos gerais e específicos da didática. 15 Comenius. p. o poder secularizado do Estado e a busca do conhecimento científico são fatores decisivos para as mudanças pedagógicas e a laicização educativa. apesar de guardar ainda marcas da tradição escolástica. idéia central da Dúvida Metódica. com sua obra Didática Magna (1657).] Com o século XVII afirma-se um modelo de pedagogia explicitamente epistemológico e socialmente engajado. 2003) Os valores da burguesia. 281): [. vejamos o que nos diz Cambi (1999. Para uma compreensão da mudança revolucionária na pedagogia e o afastamento dos processos de formação dos valores religiosos difundidos pela teologia. logo existo. . As questões. DENIZE e OSCAR. no período em questão. Dessa forma. desenha. MARTINS. continuamente. que leva a aceitar apenas aquilo que a razão possa compreender e que possa ser demonstrado. ao captar seu objeto.

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eu cultivo o campo. terra ou povo que se pode trabalhar e sujeitar. que chegam como parceiros na implantação de um novo processo de dominação dos nativos.1. é a matriz de colônia enquanto espaço que se está ocupando. 3. por extensão.org> Segundo Bosi (1994). em que o “processo pedagógico” dos Jesuítas tem como principal objetivo enquadrar os indígenas na dinâmica mercantilista como mão-de-obra. com a Inglaterra. eu ocupo a terra e. A terra era propriedade de seu conquistador. No início desta fase. O tempo colonial compreende o período histórico.anmfa. agora tendo a educação cristã como principal estratégia. especialmente. 17 Engenho de açúcar Fonte: <www. João (17/12/1548) que pode ser sintetizada conversão dos indígenas à fé católica pela catequese e pela instrução. eu trabalho. tem por finalidade a garantia do processo de colonização. . fortalecendo as relações comerciais. No cenário da época.1 A pedagogia dos jesuítas A criação do Governo Geral. representantes da Igreja Católica. e este passou a explorar tudo o que podia servir de divisas comerciais. como uma forma de administração política do local subordinada as ordens e diretrizes do Rei de Portugal e aos Padres Jesuítas. a educação passa a compor a estratégia política da Coroa Portuguesa. primeiro representante do poder político no Brasil Colônia. destacamos a instituição do Governo Geral. considerado para fins deste estudo de 1549 a 1822. que pode ser traduzido como eu moro. a palavra colônia deriva do verbo latino Colo. O termo Colo denota sempre quando de sua utilização alguma coisa de incompleto e transitivo. O Governador geral deverá pautar as suas ações administrativas de acordo com a diretriz da nova política de D.História da Educação UNIDADE 3 EDUCAÇÃO NO BRASIL 3.1 EDUCAÇÃO NO BRASIL COLONIAL A Metrópole (Portugal) retira va da colônia todas as riquezas disponíveis.

Para além de estruturar um modelo didático de ensino. Esta é uma adaptação da Ratio studiorum (Plano Pedagógico dos Jesuítas. sobre o Padre José de Anchieta. prefere enxertar o vocábulo português no 18 . os Jesuítas enfrentavam o problema cultural. Assim. O projeto de transpor para a fala do índio a mensagem católica demandava um esforço de penetrar no imaginário do outro. A Língua tornase o principal obstáculo a ser transposto para efetivação do processo de aculturação. escola de ler e escrever. canto ofeônico. música instrumental.iniciaria com o aprendizado do Português. 3. organizava-se iniciando a formação Superior por meio de cursos de humanidades. Tomé de Souza para administrar a colônia. a palavra pecado. por meio do cultivo da cana e da produção de açúcar: a base da economia colonial até meados do século XVII. 1975 apud RIBEIRO. (NOVAIS. a organização escolar no Brasil Colônia é construída estreitamente vinculada à política colonizadora dos portugueses. publicado em 1599). comandando seis religiosos. Os braços de negros e índios seriam a garantia das divisas financeiras para o fortalecimento de Portugal no contexto da Europa. em sua companhia vem Manoel da Nóbrega. para que este fosse facilmente dominado e colocado à disposição dos agentes da política de colonização da Coroa Portuguesa. A Ratio com os seus princípios educativos pautados na teologia cristã católica e na escolástica.2 Plano de estudo da Companhia de Jesus Para o Padre Nóbrega. ao menos no registro que esta assumira ao longo da Idade Média européia? Anchieta. líder da Ordem dos Jesuítas. relações através das quais se estabelece o quadro institucional para que a vida econômica da metrópole seja dinamizada pelas atividades coloniais. Os estudos de Bosi (1994). neste e em outros casos extremos. espelhado na linguagem e nas alegorias que moldavam os rituais dos índios. chega o Primeiro Governador Geral. que compreendia o Primário e o Secundário. era em geral. gramática latina e a culminância seria a viagem à Europa. os índios catequizados pelos jesuítas seriam a nova força de trabalho para a exploração da terra. 1991) diz que a política colonial: Se apresenta como um tipo particular de relações políticas. considerando que o trabalho de escolarização deveria atender os índios e os filhos de colonos portugueses. se eles careciam até mesmo da sua noção. nos apresentam a complexidade da tarefa de decifrar os códigos tupis e traduzi-los para a codificação da língua portuguesa. curso de teologia e a viagem à Europa. Com dizer aos tupis. os estudos seriam desenvolvidos a partir da seguinte estruturação que considerando um percurso curricular . e este foi o empenho do primeiro apóstolo. preferencialmente. Na lógica escravocrata do Governo Português.1. com dois elementos: um centro de decisão (metrópole) e outro (colônia) subordinado. matérias relativas à doutrina cristã. 1991). visando torná-los futuros sacerdotes.História da Educação Em 1549. filosofia. por exemplo. principalmente para continuação dos estudos em Portugal na Universidade de Coimbra. Formar os filhos de colonos. o futuro destinado pelos Mestres Jesuítas aos descendentes dos colonizadores Portugueses. Na passagem de uma esfera simbólica para outra Anchieta encontrou óbices por vezes incontornáveis. aprendizado profissional agrícola. Novais (1975 apud RIBEIRO. para o índio apenas a formação cristã pelo método catequético. No entanto. feita por Nóbrega para a Educação Básica da época.

A pesar das dificuldades com a língua Tupi.] se alguns forem amigos de novidades ou de espírito demasiado livre devem ser afastados sem hesitação do serviço docente". atípicos. mas que reconheciam que esta era a única via de preparo intelectual. nesta pedagogia. visando assegurar também a educação dos filhos de colonos portugueses. casa de Tupã. os Jesuítas conseguem uma estruturação básica para o funcionamento do processo de escolarização na Colônia. Santa Maria. terra de Tupã. p. espírito errante e perigoso.1991. afastando os alunos de qualquer novidade científica. Plano de Estudo dos Jesuítas. mãe de Tupã. com a palavra missa e com a invocação a Nossa Senhora: Ejorí.. poderia aproximar os sujeitos de teorias científicas. / xe anáma rausubá! / Vem. fez com que os seus colégios fossem procurados por muitos que não tinham realmente vocação religiosa. Santa Maria. uma vez que. p. mas uma terceira esfera simbólica. que vale tanto para toda sombra quanto para o espírito dos antepassados. comprometendo e comprovando as insuficiências do método escolástico medieval. Demônio é anhangá. 25). 65). (BOSI. Para afigura bíblico-cristã do anjo Anchieta cunha o vocábulo Karaibebê. uma nova pedagogia. Igreja. protetora dos meus! Tais casos. 19 A forma de educar dos Padres Jesuítas é o único caminho no período colonial para a formação sistemática da população local desejosa das primeiras letras para sair da escuridão do analfabetismo e buscar uma colocação dentro da ordem religiosa ou dentro da estrutura política e governamental que se esboça em torno do Governador Geral. (RIBEIRO. a Educação dos Jesuítas pode ser dividida em: 1) Profissional (voltada para o aprendizado de técnicas rudimentares e o trabalho manual). 2) Feminina (boas maneiras e prendas domésticas). Paim (1967. Isto. O Reino de Deus é Tupãretama. 1994. uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível. Nossa Senhora às vezes aparece sob o nome de Tupansy. Segundo Ribeiro (1991): A elite era preparada para o trabalho intelectual segundo o modelo religioso (católico). a busca de um novo método de conhecimento. a Companhia de Jesus se tornou a ordem dominante no campo educacional. diz uma das regras da Ratio. o mesmo faz. . Alma é anga. e 3) Elite (educação voltada para o trabalho intelectual dentro do modelo católico). por sua vez. Isto porque. porém. O mais comum é a busca de alguma homologia entre as duas línguas com resultados de valor desigual: Bispo é Pai-guaçu. Segundo Ribeiro (1991). quer dizer pajé maior. Objetivo da educação dos Jesuítas era formar religiosos.História da Educação tronco do idioma nativo. e com fortes razões. A nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi. diante do apoio real oferecido. 28) diz que. profeta voador. coerentemente é tupãóka. "[. p. mesmo que muitos de seus membros não chegassem a ser sacerdotes.. A formação dada pela pedagogia dos jesuítas segue as regras da escolástica medieval.

História da Educação Atividade Análise do texto estudado. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ . traçando um paralelo com a Educação dos Jesuítas. 1) Caracterize a Pedagogia dos Jesuítas e busque conexões desta pedagogia com a Educação atual. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 20 2) Realize um levantamento sobre a Educação Indígena nos dias atuais.

Uma dificuldade enfrentada por Pombal era que a formação dos professores da época era baseada nos valores e na “visão profissional” da Pedagogia dos Jesuítas. filosofia e retórica. faz parte de uma tentativa de organização administrativa e de estabelecimento da ordem em uma Colônia que cresce em torno do trabalho dos Jesuítas. Sebastião José de Carvalho e Melo. José I. provocar algumas mudanças no Brasil. orientou-se no sentido de recuperar a economia por meio de uma concentração do poder real e da modernização da cultura portuguesa. continuava marcado pelos métodos e pela pedagogia da Companhia de Jesus (Ratio). à nova ordem pretendida em Portugal.História da Educação 3. informa Ribeiro (1991). A presença de Pombal. Visavam. também. 1991). Ministro do Rei D. no Brasil.. grego. visto que. apesar da expulsão dos Padres Jesuítas. enquanto colônia. As reformas pombalinas visavam transformar Portugal numa metrópole capitalista. O Ensino Secundário. que ao tempo dos Jesuítas era organizado em forma de curso – Humanidades –. a política que as condições econômicas e sociais do país pareciam reclamar”. Segundo Carvalho (1952 apud RIBEIRO. dentro do plano de recuperação nacional. carecendo de uma autoridade que discipline alguns setores. 21 . os Padres trabalhavam na direção de efetivar o Projeto de salvação das almas da Ordem Religiosa Companhia de Jesus e fundavam Missões com relativa autonomia quanto às diretrizes do Rei de Portugal e isso incomodava as autoridades da corte. “[. deixando claro nas medidas administrativa. o Marquês de Pombal.] As reformas. a exemplo do que a Inglaterra era há mais de um século.2 MARQUÊS DE POMBAL E A ESCOLARIZAÇÃO COLONIAL A relação entre os Padres Jesuítas e a Coroa Portuguesa já não era de correspondência quanto ao Plano de dominação dos Índios. colonos portugueses e escravos.. entre as quais as da instituição pública. As medidas administrativas de Pombal culminaram com a expulsão dos Jesuítas em 1759 (Companhia de Jesus). com o objetivo de adaptá-lo. O motivo apontado era o fato de eles serem um empecilho na conservação da unidade cristã e da sociedade civil – razão do Estado invocada na época por que: a) A Companhia de Jesus era detentora de um poder econômico que deveria ser devolvido ao Governo. traduzem. O ensino. passou a sê-lo em aulas avulsas (aulas régias) de latim. b) A Companhia de Jesus educava o cristão a serviço da ordem religiosa e não dos interesses do país.

.Assista ao filme A Missão. filme com Al Pacino e elabore um breve comentário sobre o papel dos Jesuítas na organização da resistência contra a Coroa Portuguesa.História da Educação Atividade 2 Análise do filme “A missão”. __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ 22 .

sob o comando de Napoleão. cuja capital passa a ser o Rio de Janeiro. com reformas de caráter cultural e educacional para adequar o Brasil como a sede da Coroa Portuguesa: a criação da Imprensa Régia (13/05/1808). João VI Rei de Portugal e. precisamente em 1807. Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1810). e os cursos de anatomia e cirurgia no Rio.3 A CORTE PORTUGUESA NO BRASIL A época contemporânea é demarcada pelos historiadores a partir da Revolução Francesa na segunda metade do Século XVIII. No ano de 1808. a Revista carioca – O Patriota. O início do século XIX. Na área educacional são criados alguns cursos com base nas necessidades imediatas do Brasil da época: Academia Real Marinha (1808). Museu Nacional (1818). de 1815 em diante. A partir desta nova realidade são tomadas várias medidas no campo intelectual.casadeportinari. que representam duas filosofias da educação bem diferentes. passou a chamar-se Escola Central. o Rio de Janeiro passou a ser a sede administrativa. chefiada por D. Em 1808 é criado o curso de cirurgia (Bahia). em 1874. e a família real. surge um terceiro personagem da educação nacional D. João VI e a corte se vêem obrigadas a virem para o Brasil sob a guarda inglesa. que se instalou no Hospital Militar. 1991). Academia Real Militar em 1810 (que em 1858. Rei do Reino Unido de Portugal e do Brasil e do Algarves. a conjugação de tais interesses (grupos coloniais e ingleses) obriga o príncipe regente a decretar a “abertura dos portos” em 1808 (RIBEIRO. .br> Desse modo. concentrando os órgãos de administração pública e justiça.História da Educação 3. Os três primeiros séculos da educação brasileira apresentam em seu cenário duas grandes figuras: Padre Manoel da Nóbrega (Jesuíta) e o Marquês de Pombal (Reformador). Biblioteca Pública (1810). Em 1808 circula o primeiro jornal (A Gazeta do Rio). em 1812. e hoje é a Escola Nacional de Engenharia). em 1813. a primeira revista (As Variações ou Ensaios de Literatura). Portugal é invadido pelas tropas francesas. Escola Politécnica.com. 23 Chegada da Família Real no Brasil Fonte: <www.

a educação. começa a preocupar os políticos brasileiros. promulgada por D. pois em seu parágrafo 24 . Jean-Jacques Rousseau O Ato Adicional de 1834. nesta época. em seu artigo 1º. o Brasil continuava uma “terra de analfabetos”. repetido nos discursos diversas vezes depois: “A instrução primária é gratuita a todos os cidadãos”.História da Educação Academia Real de Guardas-Marinha Fonte: <www. é a fase do romantismo: do romantismo literário. Este ato político reflete-se imediatamente na estruturação da educação. o que estava escrito em Lei não se efetivava. Então. na Constituição de 11 de dezembro de 1823.com. O Ensino Secundário – permanece a organização de aulas régias.resenet. ameaçado por dentro e por fora. Foram criadas duas cadeiras de inglês e um de francês no Rio. antes de mais nada.4 EDUCAÇÃO NO BRASIL APÓS 1822 De 1822 em diante. Este nível de ensino tem sua importância acentuada à medida que cresce o número de pessoas que vêem nele. Essas cadeiras e as de matemática SUPERIOR em Pernambuco (1809). por causa das idéias democratizantes de Rousseau e da Revolução Francesa.jpg> A estrutura do ensino imperial é composta de três níveis: quanto ao Primário – continua sendo um nível de instrumentalização técnica (escola de ler e escrever). a de desenho e história em Vila Rica (1817) e a de Retórica e filosofia em Paracatu (MG – 1821) integram-se a um conteúdo de ensino em vigor desde a época dos jesuítas. não só um preparo para o Secundário como também para pequenos cargos burocráticos. Mas. preocupa-se. 3. Pedro I. Com a proclamação da Independência. pois. em especial por “novas idéias”. pois apenas tem-se notícia da criação de “mais de 60 cadeiras de primeiras letras”. Tanto assim que. em 1822. o Brasil empenhado em organizar-se e em provar que se desenvolveria independente de Portugal. o único acontecimento concreto e eficiente foi inserir. do indianismo e também do romantismo educacional.br/ahimtb/images/acarealgm. sendo criadas “pelo menos umas 20 cadeiras de gramática latina”. estabelece a descentralização do poder político para as províncias com a criação de Assembléias Legislativas Provinciais em substituição aos Conselhos Gerais. o célebre artigo 179. apesar do estabelecimento da obrigatoriedade do ensino elementar. em manter a unidade em seu vasto território.

edificar. A partir de 1840. (AZEVEDO. (RIBEIRO. o que já foi assinalado. 53). o sucesso da lavoura cafeeira vem preencher os problemas financeiros gerados inicialmente pela decadência da mineração e. • reformulação do estatuto da academia de Belas Artes (1855). • reorganização do Conservatório de Música. 1991. a década de 1850 é marcada por várias realizações. durante um século. restritas em sua maioria ao município da Corte.4. (RIBEIRO. p. nem reduzir a distância intelectual entre as camadas inferiores e as elites do País. 25 . Elas promovem: A) uma reorganização do trabalho urbano. p. pela crise na produção do açúcar. quanto ao ensino primário. e • reformulação dos estatutos da Aula de Comércio da Corte.1958. médias e baixas). p. não permitiu. como também por exigências ou interesses do capitalismo internacional. Os adeptos de Augusto Comte (1798-1857) eram contra a existência de Universidades e Faculdades por considerá-las fruto da Igreja Católica e do estado metafísico da humanidade. principalmente. 1991. 3. • reformulação dos estatutos do Colégio de Preparatórios. as cidades passam a ser os pólos dinâmicos de crescimento capitalista interno. os positivistas iniciam suas manifestações contra o Ensino Superior. nas províncias mais distantes e mais pobres como a do Mato Grosso e a do Amazonas. • estabelecimento das normas para o exercício da liberdade de ensino e de um sistema de preparação do professor primário (1854). Nesse período. instituída pelo Ato Adicional e mantida pela República. Realizações: • criação da Inspetoria Geral da Instrução Primária e Secundária do Município da Corte (1854). geral ou profissional. estabelece como competência das Assembléias Legislativas Provinciais. “legislar sobre a instrução pública e estabelecimentos próprios”. sobre base sólida e larga a educação comum. Evolução esta exigida não só pelas necessidades internas. atingindo um dos pontos essenciais da estrutura do sistema escolar. segundo Fernando de Azevedo (1958): A descentralização do ensino fundamental.História da Educação 2º. Segundo Ribeiro (1991). na seqüência. 75). estava ocorrendo. Isso causa uma série de problemas. B) uma atração sobre o significativo contingente populacional (rendas altas. Em 1869. do Artigo 10. a passagem de uma sociedade exportadora com base rural-agrícola para urbano-agrícola-comercial. desta forma. no entanto. tomando-se por base programas e livros adotados nas escolas oficiais. Na época. a super-estrutura do ensino superior. 52).1 Algumas realizações Na educação. por força da Lei em vigor.

1 – Com base na pesquisa bibliográfica organize um texto síntese sobre a História da Escola Normal no Brasil.207). a primeira Escola Normal é fundada em 1835 em Niterói. afirma a obrigatoriedade do Ensino Primário e a instalação de escolas primárias de segundo grau e a criação em cada município. Pequena. denunciando a influência da política nas questões educacionais. mas passando a trabalhar fora como educadoras de outras crianças de maneira oficial e sistemática. de uma escola profissional primária. Neste mesmo ano é criada a primeira escola oficial no Rio de Janeiro. em seguida em 1842 é fundada a da Bahia. surgem várias reformas voltadas para a estruturação do ensino e também as primeiras Escolas Normais. continuando o Ensino Médio de sete anos e proibindo-se as transferências de um estabelecimento para outro. em 1871. trouxe pequena melhora ao ensino. 2 – Investigue a História da Escola Normal no Maranhão e em Itapecuru Mirim. iniciadas na terceira década do Século XIX. As Escolas Normais. reabre em 1876. apesar das dificuldades estruturais e pedagógicas dessa modalidade de ensino. Em 1880 reabre. vindo a fechar novamente em 1877. 26 . (RIBEIRO. o projeto de José Paulino Soares de Sousa trata da necessidade de se cumprir as leis educacionais. a partir da memória de ex-alunas e Professoras de estabelecimentos de ensino do município. a Reforma do Ensino de Luiz Pedreira Couto Ferraz. • em 1870. dando inicio a democratização do ensino feminino. lembrando ser o Brasil o país que menos dinheiro aplica em educação. destacamos: • no ano de 1854.História da Educação Depois do Ato Adicional de 1834. por estarem em nível secundário. devido à situação de instabilidade de tais cursos. s/d. segundo a qual ficam instituídas escolas primárias do primeiro e de segundo graus. • A 19 de abril de 1879. A escola aberta em São Paulo. e a organização destas. salvo a inspeção necessária para garantir as condições de moralidade e higiene”. O projeto de João Alfredo. Atividade 3 Elaboração textual. Várias Escolas Normais também surgem após o Ato Adicional. (TOBIAS. a última do Império e uma das que mais se destacaram no período. no Brasil do Século XIX. asseguram pela primeira vez na História da Educação de nossa sociedade a presença das mulheres com o papel social de cuidar da educação não só de seus filhos. 1991. fecha em 1867. A Reforma Leôncio de Carvalho estabelecia que: “É completamente livre o Ensino Primário e Secundário no Município da Corte e o Superior em todo o Império. em 1846. Quanto as Reformas do Ensino. 7247.. aparece a Reforma do Ministro Carlos Leôncio de Carvalho. pelo decreto n°. p. TOBIAS s/d). reafirma a importância fundamental do Ensino Primário e a personalidade própria do Ensino Médio.

considerado em seu conjunto. O positivismo de Augusto Comte (1798 – 1857) desponta no contexto do século XIX. p. sofre a influência da doutrina positivista.5 EDUCAÇÃO NA REPÚBLICA Um fato decisivo para Proclamação da República é a Libertação dos Escravos por meio da Lei Áurea de 1888. 03). não traduzia reivindicações de caráter econômico.5. Muitos proprietários de escravos. não o suficiente para despertar do interesse do povo. na busca do conhecimento por meio do formalismo.1 A reforma de Benjamin Constant A Reforma da Instrução Pública Primária e Secundária do Distrito Federal. com belas frases (”somos da América e queremos ser americanos”). da Revolução Francesa e da Independência dos E. vão de forma oportunista fortalecer o movimento republicano e ingressar nas fileiras do Partido Republicano. a grande maioria do povo não se interessava pelos Partidos ou Clubes Republicanos. que não consultava os interesses populares.1967. nem as classes médias e muito menos as classes mais pobres. de início. nem a lavoura nem a incipiente burguesia. Mas. que é um reflexo de seu tempo: Para explicar convenientemente a verdadeira natureza e o caráter próprio da filosofia positiva.. Leôncio Basbaum (1967) apresenta a seguinte análise em torno do movimento de transição do Império para República: • 1° que de fato não havia uma tradição republicana no Brasil como querem alguns autores. 3. são de fato bastante expressivos. O quadro traçado acima culmina com a Proclamação da República a 15 de novembro de 1889. os camponeses sem terra. é indispensável ter. os libertos sem profissão e sem trabalho. descontentes com a medida. p. os posseiros. sem a indenização pretendida pelos senhores dos negros africanos. Socialmente não representava os interesses de uma classe definida. sem a participação popular. uma visão geral sobre a marcha progressiva do espírito humano. • 2º que a República não era uma aspiração popular. não tocava no problema da terra. o número de clubes e dos membros desses clubes. 1988. O manifesto de 1870 era demasiado literário. Um século marcado pela sombra das influências da Revolução Industrial.U. somadas a um esforço de implantação da lógica das ciências exatas e naturais. da mensuração e da crítica a quEm seu Curso de Filosofia Positiva (1988). Comte expõe de maneira pedagógica a natureza de sua doutrina. 27 . no ano de 1890. não se referia ao problema servil.História da Educação 3. 215-216). (BASBAUM. Os resultados dos embates eleitorais em que se meteram os chefes republicanos antes do 15 de novembro. O fato de não haver sido a República uma aspiração popular se deve menos ao respeito e ao amor pela monarquia do que ao conteúdo vago – para não dizer vazio – do programa do Partido.A. os ideais de liberdade ecoavam e atravessavam as fronteiras originarias. assinada por Benjamin Constant Botelho de Magalhães. da experimentação. rendeiros. mas. pois uma concepção qualquer só pode ser bem conhecida por sua história. os operários. (COMTE. É mais um dos falsos mitos de que impregnam a nossa história. com o apoio da nova aristocracia do café e de membros intelectualizados da classe média.

com seus apóstolos da humanidade. garantindo a sua evolução progressiva dentro da sociedade humana. onde a matéria representa o fundamento de toda ordem existencial. quanto a inclusão de elementos da moral positivista na área educacional no final da segunda metade do século XIX. “nossos positivistas” começam a apresentar as idéias morais de Augusto Comte em jornais e instituições de ensino. estendendo suas influências no processo de implantação da república por meio de Benjamin Constant. Bernardina Joaquina da Silva Guimarães. desenvolvido mediante o processo evolucionista. da segunda metade do Século XIX. de onde foi “mandado desembarcar. passando a pertencer à 3ª Companhia do Corpo de Artilharia de Marinha. “O amor por princípio.História da Educação A doutrina positivista considera o homem um produto da natureza. com efeito. seja nas tribunas dos intelectuais ilustrados ou se possível nas instituições de ensino público. devidamente adaptadas de acordo com a maior ou menor crença de seu autor e o ambiente intelectual de sua região. Na ótica positivista. ou. alcançando em 18 de outubro de 1829 o posto de 1º tenente. o que implica o mesmo. por sua complicação crescente. por meio de discursos. segundo a qual nossas diversas concepções participam de cada fase sucessiva. atuavam em diversas instituições. para desembocar na demonstração positiva. em 18 de outubro de 1836. Sabe-se que esta ordem está regulada pela generalidade decrescente dos fenômenos correspondentes. mesmo enfrentando as perseguições dos segmentos católicos e as sanções das autoridades representativas do poder imperial. tanto no eixo centro-sul quanto em outras regiões do país. A idéia de um deus. por meio de uma “nova vida” marcada pelo altruísmo. seguiu a carreira militar. o progresso por fim” – eis a fórmula positivista apresentada contra a anarquia e o atraso da sociedade católico-tomista. No Brasil. Seu pai Leopoldo Henrique Botelho de Magalhães. aos vinte anos alistou-se como voluntário no Regimento Provisório de Portugal. Augusto Comte (1988) afirma que: [. a partir de um modelo pedagógico fundamentado na lei dos três estados. difundindo as idéias de Augusto Comte. A moral positivista deve formar cientificamente o indivíduo. a existência humana deve ser determinada apenas pelo que é passível de verificação empírica. natural do Rio Grande do Sul. Assim. determinando a ordem necessária. A esta lei de filiação meu Sistema de Filosofia Positiva sempre associou a lei de classificação. Desse modo. Benjamin Constant Botelho de Magalhães nasceu no Porto do Méyer. Freguesia de São Lourenço no Município de Niterói (RJ). em 28 de novembro de 1833. teses etc. 28 Para Comte. passando pela argumentação metafísica. sobrenatural e teológico cede lugar para o “novo deus”: a natureza una e soberana. embora sem um movimento articulado nacionalmente. artigos. o conhecimento dos fenômenos naturais constituiu-se na via de mão única para o conhecimento do homem. o presente e o futuro da humanidade.] tudo começa. natural de Torre de Moncorvo. cuja aplicação dinâmica fornece o segundo elemento indispensável à minha teoria da evolução. pela dedicação à família e à pátria. o seu principal representante. positivistas com visão ortodoxa. uma mesma lei geral nos permite de agora em diante abarcar ao mesmo tempo o passado. . É o conhecimento científico que determina a nova moral. a ordem por base.. na classificação das ciências e na religião da humanidade.. entrando para a classe dos avulsos”. seja nos templos das Igrejas positivistas. Português por seu pai e brasileiro por sua mãe D. sob inspiração teológica. Assim. cada indivíduo ao passar pelos “estados” propostos na sua doutrina reproduz a história da humanidade.

. Comte. Benjamin Constant dedicou seus maiores esforços a causa dos cegos. mesmo com a sua aproximação da doutrina de A.. Militar e de Marinha. André Negreiros de Sayão Lobato e Antonio Jozé de Araújo. Cláudio Luís da Costa. [. em 1852. 1937. os Drs. a sua pernicióza influência pública e privada. dois dias após a morte de Constant.1937.. mas. Apreciando tal sociedade como simples instituição destinada a prolongar alem da mórte a proteção e o amparo que devemos nóssa família. Tornou-se. p. confraria instituída em 1628. 32).ser útil a minha família.] Nós o encontraremos filiado à Imperial Irmandade da Cruz dos Militares. já em 1854 era “explicador” de matemática elementar da referida escola.35). De origem pobre. de 24 de janeiro de 1891. lembraremos que o compromisso da irmandade esplícitamente determinada que só pódem ser admitidos néla os cidadãos que professárem a religião Católica Apostólica Romana ( art. em homenagem a sua dedicação é que a instituição passou a se chamar Instituto Benjamin Constant. compósta de minha mãe viúva e quatro irmãos menóres e continuar os meus estudos. diretor da referida instituição de ensino.. garantindo ajuda as famílias pobres de seus associados.38). [. prevalecendo-se de várias ezistentes e instituindo outras . foi-me possível conseguir o duplo intuito que tinha em vista: . aos poucos transformou-se em uma sociedade de auxílio mútuo. Quanto à Benjamim Constant. comenta que: Aussiliado pela confiança que em mim depozitávão meus dignos e venerandos lentes e amigos. em carta dirigida ao Ex-Conselheiro João Alfredo. apesar das regras escritas com o intuito de fortalecer o culto católico. então. apenas esplicável pela relaxação geral dos costumes. com a finalidade de divulgar o culto a Cruz de Cristo entre os católicos das forças armadas.História da Educação Aos 16 anos de idade.. como todas as congêneres. (MENDES. e ensinei também em alguns colégios. (MENDES. por decreto do Presidente Deodoro da Fonseca. Teixeira Mendes (1937) apresenta um comentário sobre a referida irmandade católica: Para ver-se até que ponto ião as consessões. Mas não é só sob o aspéto de uma incoerência. 29 A respeito de sua carreira no magistério. Benjamin Constant fez parte da "Imperial Irmandade da Cruz dos Militares". Antes de conhecer a doutrina positivista.] Por meus esfórços e pela fé com que me empenhava em aussiliar os meus esplicandos e dicípulos em seus estudos consegui no fim de alguns anos uma reputação por demais lizonjeira como professor de matemáticas elementares e superiores. lutava contra as dificuldades financeiras que cercavam sua família.. depois de fazer solene profissão de fé pozitivista e depois de ter fundado a república. noivo da filha do Dr. chegando a assumir a direção do Instituto de 1869 a 1883. p. foi servir no 1º Regimento de Cavalaria. e manda que seja riscado qualquér irmão que abjurar a referida religião ( art. Fui por muitos anos esplicador déstas matérias nas escólas Central.” Em agosto de 1862. A "Imperial irmandade da Cruz dos Militares". com destino a Escola Militar. Porque a sua ezistência impórta em segregar o destino dos que nos são caros da sórte geral dos nóssos similhantes. Benjamin. apesar da pobreza. E nós o havemos de ver até o fim de sua vida apegado às suas idéias sobre sociedades de aussílios mútos e montepios. que o ingrésso na referida irmandade da Crus dos Militares ezige do público a mais grave atenção. Foi sócio do Montepio geral e como Ministro da Instituição P'blica criou o montepio obrigatório para os funcionários dessa reepartição. que aliás constituem o único apoio de tais agrupamentos. éla patenteia. obtivera a cadeira de lente do Instituto dos Meninos Cegos.44). Constant. .

Em seu relatório. chegando mesmo a insinuar a superioridade da Religião da Humanidade. Entretanto. portanto. 30 Em 1867. lera-o. as idéias de Augusto Comte já faziam parte de suas reflexões. sigo-a de coração com a differença porém de que para mim a família está acima de tudo.História da Educação Participou ainda. “acessível a todos os espíritos sãos” e “mais proveitoso ao indivíduo. Efetivamente. É uma religião nova. do que Clotilde de Vaux era para o sábio e honrado Augusto Comte. Segundo Teixeira Mendes (1937). como sabes. Sigo. datada de Tuyuty. Benjamin encontrara casualmente em um livreiro esse mesmo 1º volume. o cérto é que desde então o seu ensino resentiu-se da incomparável influência do nósso Méstre e em tão alto grau que em bréve Benjamin Constant. tornou-se entre nós o maior admirador conhecido do Fundador da Religião da Humanidade. e mesmo quando as diversas sciecias estavam em embryão: não teria ainda apparecido se ao genio admiravel de Augusto Comte não fosse dado pela vastidão de sua intelligencia transpor os seculos que hão de vir. na sua Religião Positiva – a religião definitiva da Humanidade. ou seja. Benjamin Constant assinalava que: “o meio mais poderoso de que um governo pode lançar mão para o engrandecimento moral e material de seu país é sem dúvida alguma a instrução”. Nessa época. que te amo mais que a tudo e que a todos neste mundo. tratando da instrução intelectual. lente da Escola Militar. muito mais. particularmente a do parlamento. Em pleno cenário da guerra do Paraguay. o capitão Pinto Peixoto. embora. um trabalho sobre a teoria das quantidades negativas. é uma consequencia natural desse conhecimento e. para o positivismo. que se pode circunscrever atualmente em pouco mais dos limites de nossa instrução primária e como uma extensão dela. a minha religião. em 1857. Benjamin defenderia uma concepção positivista do saber e da educação.. onde diz: Lembra-te que sou o teu maior e verdadeiro amigo. em que era grande a influência da concepção matemática de Comte. surpreendendo por sua sabia previdencia as sciencias em seu termo e dando-nos. da guerra contra a República do Paraguai para onde seguiu no ano de 1866. redigindo o seu segundo relatório como diretor do Instituto de Meninos Cegos. no posto de capitão. não podia apparecer na infância da razão humana. Benjamin Constant iria chamar as atenções gerais. seus princípios. e mandara imediatamente buscar as outras óbras do filózofo para si e dois amigos. para o povo . a minha unica ventura. que és a minha unica felicidade.. Deu-se isto. todas as suas doutrinas. Benjamin Constant apresentava. como verificamos no trecho de uma carta enviada a sua esposa. menos de três anos mais tarde. a mais philosophica. porém a mais racional. Seja como for. Não podia ser a primeira porque ella depende do conhecimento de todas as leis da natureza. Tu és para mim mais. e a unica que dimana naturalmente das leis que regem a natureza humana. suas crenças. ao examinar as necessidades da Instituição que dirigia. à família. asseverou ter ouvido o próprio Benjamin Constant dizer que. o filósofo francês não seja uma só vez citado. Mas. entuziasmara-se pela espozição do Reformador. Para Constant a instrução deveria ser baseada num “bom sistema de educação científica”. Acrescentando: “que este plano. sua “profissão de fé em Augusto Comte "positivista”. Benjamin Constant apresenta na carta endereçada a esposa. à sociedade e à humanidade em geral”. como ressalta Teixeira Mendes. destacando vários elementos que fazem parte dos princípios da moral positivista. 5 de junho de 1867. fora levado a ler o 1º volume do Sistema de Filosofia Positiva por indicação de um lente da antiga Escolar Militar. uma outra versão circulava entre os membros da Escola Militar a partir de informações colhidas pelo Capitão Beviláqua de que. Comprara-o. ao Instituto Politécnico do Rio de Janeiro. a Religião da Humanidade é a minha religião.

gratuidade. a religiosa. contendo como dogmas de fé científica o maior número possível de princípios teóricos reduzidos a preceitos de imediatas aplicações gerais à vida prática. havia reflexões sobre escolas mistas. influenciando assim a Reforma Constant. ensino religioso. a organização do novo regime realizouse em função das idéias dominantes entre aqueles que compunham o Governo Provisório. ensino seriado. vão estar presentes. nas melhores escolas oficiais da localidade. dos valores e das formas de viver e organizar a sociedade brasileira. demonstrando certa preocupação da sociedade civil com a instrução primária: dentre outras. que dizia: [. Além disso. aos métodos e aos livros adotados. distribuição do tempo e das matérias. O relator de nossa comissão teve o desgosto de encontrar. a recuperação econômica por meio do café. que contudo não se realizou. condicionadas necessariamente. A reforma da Instrução Primária instituída por Constant surgiu num momento político em que se discutia a administração do ensino elementar. métodos de ensino. buscamos estudar a situação real das coisas no município neutro. Decreto nº 346. . produziram em conjunto. obrigatoriedade do ensino. dentro do contexto da Revolução Industrial. a “Luz da ciência”. A nova maneira de pensar. Aliás. suas idéias repercutissem em toda sociedade. O governo de Deodoro da Fonseca. inclusive. favorecia o espírito científico e a expansão do modelo capitalista.640-42) até a sua morte. As idéias de liberdade e igualdade da Revolução Francesa. criada em 19 de abril de 1890 e assumida por Benjamin Constant (Governo Provisório. muito embora. Correios e Telégrafos.. programas. 19-04-1890. organização da escola. a Exposição Pedagógica de 1883 que reuniu os trabalhos que seriam apresentados no Congresso da Instrução desse mesmo ano. e por assim dizer usuais e domésticas”. a responsabilidade cabe quase toda à péssima direção do ensino popular. Foram realizadas as Conferências Pedagógicas de 1873. organizadas no governo do Conselheiro João Alfredo. Deste enorme pecado contra a pátria e contra a humanidade. Muitos dos temas discutidos nesses trabalhos eram coincidentes. a escravista e por movimentos sociais a favor da federação e da República que. que como o congresso referido. também não tiveram efetivação plena. inspirada na doutrina positivista. os mestres são os menos culpados nesta imbecilização oficial da mocidade. em janeiro de 1891. mas não monopolizar a administração do ensino elementar. pois. p. Alguns eventos de cunho pedagógico vão marcar o final do império.História da Educação uma espécie de religião. contando com um momento histórico favorável para a fermentação de “novas idéias”. nas discussões e nos movimentos políticos. 31 Um conjunto de tendências e interesses marcavam os primeiros anos do governo federal. este desgraçado achaque.. essas discussões já vinham acontecendo no Império e foram objeto de análise de muitos políticos. um repensar das tradições morais.] para formação completa do nosso juízo. liberdade de ensino. por via de regra. 5 O pensamento de Comte vai encontrar em Benjamin Constant o seu principal divulgador no âmbito da educação. currículos. além dos Pareceres de Rui Barbosa de 1882 sobre o Ensino Primário. às condições sócio-culturais. numa tentativa de centralizar no estado. gerando uma nova maneira de encarar a vida em sociedade. de Rui Barbosa. vai marcar os meios intelectuais da época. tentou pôr em prática a idéia de uma Secretaria de Negócios da Instrução Pública. a militar. as últimas décadas do Império foram marcadas por várias questões polêmicas como a eleitoral.

a campanha republicana. mas fora um meio ardiloso e delicado de afastar Benjamin Constant da pasta do ministério da guerra. como se procurou justificar então esse ato. Demétrio Ribeiro. É na vigência da Constituição de 23 de outubro de 1890.História da Educação Para Pedro Calmon (1963). 8 de novembro de 1890. a uma necessidade imperiosa de caráter administrativo. p. 981. Decreto n°. com Vandenkolk. Constant e Deodoro não se entendiam quando as questões ligadas à desordem no quartel e a lei de censura à imprensa. Quintino e Aristides Lobo. com Campos Sales. que estabelece os princípios gerais da Instrução primária e secundária: DECRETOS DO GOVERNO PROVISÓRIO DECRETO N. fazia parte desse jogo. p. em nome da Nação. bem como a reforma do ensino faziam parte dos arranjos dos interesses políticos. Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Instrucção Pública. resolve approvar para a Instrucção Primaria e Secundaria do distrito Federal o regulamento que a este acompanha assignado pelo General de brigada Benjamin Constant Botelho de Magalhães. os riograndenses com o positivismo militantes. Dunsche de Abranches (1907) comentou que: A criação da Pasta da Instrução. TITULO I Principios geraes da instrucção primaria e secundaria 32 . 914A. desde a primeira hora.DE 8 DE NOVEMBRO DE 1890 Approva do Regulamento da Instrucção Primaria do districto Federal. a armada. mas. Palacio do Governo Provisorio. correios e Telegraphos. que assim o faça executar. a ala paulista. submetida pelo Governo Provisório ao Congresso Constituinte. 2º da Republica. Correios e Telégrafos. tudo estava sendo feito no sentido de consolidar a república num clima de paz entre os militares e civis. O Generalissimo Manoel Deodoro da Fonseca. (Decreto n°. e o titular Benjamin Constant. 981. Benjamin Constant. A criação da Pasta da Instrução. Correios e Telégrafos não correspondera. constituído pelo Exercito e Armada . seu apóstolo da escola de guerra. 8-11-1890.3010/3032). que é promulgada a reforma da Instrução Pública Primária e Secundária do Distrito Federal assinada por Benjamin Constant (Governo Provisório. Nele figuravam a juventude das armas. a que se refere o decreto desta data. Apresentamos um trecho do decreto de Benjamin Constant.3474/3513). MANOEL DEODORO DA FONSECA Benjamin Constant Botelho de Magalhães Regulamento da Instrucção Primaria e Secundaria do Districto Federal. o governo recém surgido visa: Conciliar os grupos na representação de suas tendências. Chefe do governo Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brazil.

mas. a inspecção dos estabelecimentos particulares limitarse-há a verificar que elle nào seja contrario à moral e à saude dos alumnos. § 2. o ensino primario e secundario. for dado às crianças no seio de suas familias. os directores de estabelecimento particulares serão obrigados a franqueal-os à visita das autoridades incumbidas da inspecção escolar e da inspecção hygienica.º É inteiramente livre e fica isento de inspecção official o ensino que. 38.º Depois de iniciados os trabalhos do ensino. Apesar de se restringir à capital da República. e que não foi punido por demissão. Esta equiparação incluía não só a expedição de diplomas oficiais pelo sistema estadual ou pelo sistema particular. Daí a publicação da Revista Pedagógica servir à veiculação dessas informações. o que gerava muito desconforto para os ministros e inviabilizava a materialização das reformas. sua frequencia. assim como dos cursos. 1. § 1.História da Educação Art. Para dirigir estabelecimento particular de educação será exigida esta mesma prova e mais o certificado das boas condições hygienicas do edificio. viessem ocorrer nos estados e municípios. quaes os programmas e livros adoptados. sob as condções de moralidade. § 3. a exposição dos melhores métodos e do material de ensino mais aperfeiçoado” (Decreto nº 981. e a remetter à Inspectoria Geral mappas semestraes declarando o numero e alumnos matriculados.º Para exercer o magisterio particular bastará que o individuo prove que não sofreu condemnação judicial por crime infamante. aos do ginásio nacional.10 Para alguns monarquistas. e os nomes dos professores. fundado em 1883. os meios de instrução profissional de que possam carecer. propõe a equiparação dos exames de outros estabelecimentos. é provável que a reforma pela sua importância naquele momento histórico e conjuntural fosse considerada modelo para o país e referência constante para as outras reformas que. o Pedagogium era um aproveitamento da idéia do ex-Museu Escolar Nacional. por meio de intercâmbio com autoridades e instituições congêneres dos demais estados do país e dos países estrangeiros. Apesar das tentativas de Constant. no districto Federal. de conformidade com o disposto no art. ao tratar do exame de madureza. Calmon (1956) confirma a situação de crise do governo: 33 . A criação do Pedagogium é uma outra manifestação da situação de referência que envolvia a reforma da instrução pública. o direito de matrícula nos cursos Superiores. com a finalidade de “oferecer ao público e ao professores em particular.º Na parte relativa ao ensino. o ensino continuava em estado precário e seguindo de acordo com o movimento político. p. " É completamente livre aos particulares. O Pedagogium deveria constituir-se no centro propulsor das reformas e melhoramentos da instrução nacional. § único desse regulamento da Instrução Primária e Secundária que. conferências e exposições havidos e de reconhecida utilidade para o aperfeiçoamento do professorado nacional. Parece comprovar essa consciência de situação modelar o art. desde que organizados segundo o plano desta escola.3480). § 4. passado pelo delegado de hygiene do districto. com um governo provisório mergulhado em uma “crise de confiança”. 8-11-1890. também. por força da descentralização administrativa e política do novo regime. 63 do presente decreto. de ensino secundário. hygiene e estatistica definidas nesta lei. sob a vigilancia dos paes ou dos que fizerem suas vezes.

as virtudes cívicas e patrióticas.. intervindo também na organização do ensino brasileiro e na formação da mentalidade nacionalista. mas a política do Exército. Como Comte. e o Marechal Deodoro chamou para recompor o ministério o Barão de Lucena. quer dizer. da agronomia. baseada nas regras da caserna. a do “soldadocidadão”. 34 . são os militares. mediante a reforma Constant. sempre que possível as aulas estimulariam o acesso ao conhecimento prático dos fenômenos físicos e naturais. a grandeza das leis morais e do civismo. Finalmente. que tem nessa “ordem” a certeza do “progresso” da sociedade. sempre que houvesse o momento adequado para mostrar. através de exemplos vivos.História da Educação A crise de confiança atingiria seriamente o governo provisório. José Murilo de Carvalho afirma que o positivismo estimulou as três “ideologias de intervenção” que orientaram as ações militares no início da história da República. com influências dos “ideais” da Revolução Francesa e da moral positivista. para uma educação republicana. Uma educação voltada para o cientificismo. representante do antigo regime. a “intervenção moderadora” corresponderia a uma política da instituição. sem dúvida que Benjamin Constant não está sozinho no poder. em janeiro de 1891. A educação ganha destaque como fator de “salvação nacional”. este representa um grupo que. regenerar a sociedade. assegurando a “evolução intelectual” dos indivíduos e o progresso da sociedade. por meio da estruturação administrativa e curricular da escola primária.] que não constituía bem uma disciplina à parte. com o governo militar a República inicia um período assinalado por um entusiasmo nacionalista marcante que tinha na educação uma força importante para desenvolver o país ao nível do século. o que vai ser uma tônica em nossa sociedade. em relação à escola primária o ensino devia voltar-se para as “lições de coisas”. a passagem da educação monárquica. com seus heróis e seus símbolos para manutenção da segurança da nação. A primeira. Apesar da curta duração da reforma de Benjamin Constant. A Segunda. mas devia ser objeto de atenção e reflexão de todos os professores. A reforma Constant é a evidência principal da presença de elementos da doutrina e da moral positivista na educação brasileira. defendia a conciliação entre o caráter científico e articulações dentro do “jogo político”.15 Benjamin Constant representa esse escalão intelectualizado dos militares no poder político do estado brasileiro. da língua pátria. Benjamin esperava. Os ministros demitiram-se coletivamente a 20 de janeiro. estabelecendo em seu lugar uma nova disciplina a Instrução Moral e Cívica: [. não se trataria de fazer. seria um contraponto institucional à primeira. Por ser militar. porque os escalões superiores têm sempre a sua peculiar maneira de fazê-lo). a do “soldado-profissional”. dos cálculos aritméticos. por meio da educação. o “Regulamento da Instrução Primária e Secundária” de 1890. Ou. voltada para os súditos do império. demarca o rompimento com os elementos determinantes da Igreja Católica. marcada pelo surgimento do cidadão da “res pública”. No Brasil. como formulou posteriormente o general Goes Monteiro. Representando. Aliás. estimulados pela doutrina positivista. corresponderia à afirmação do direito individual e institucional à participação política. propugnando a não-participação (particularmente dos baixos escalões. E sendo um positivista assumido vai mesclar em sua reforma educacional elementos do esquema moral comteano com os interesses das forças armadas.. onde a educação passa a ser um elemento estratégico. a política no Exército.

Benjamin tinha uma personalidade eclética. a leitura e escrita. os “positivistas ortodoxos”. como o fundamento das "lições de coisas": [. A obra do autor americano.. 1950). ao mesmo tempo. As "lições de coisas". 08-11-1889. a apreensão do mundo exterior. música. intitulada Primary Object Lessons. explica o significado do "ensino intuitivo". relações íntimas e contínuas com sua existência”. recebeu o título em Português de Primeiras Lições de Coisas. pela realidade. pelo cultivo complexo das faculdades de observação destinado a suceder triunfantemente aos processos verbalistas. p. na crítica ao “ensino obrigatório”. de direito pátrio e economia política. 35 A ênfase no sentido prático do ensino devia receber especial atenção na escola primária de 1º grau que admitia alunos de 7 a 13 anos. a escola primária do 1º grau abrangia. Não se tratava. geometria e trigonometria. até porque. elementos de música. mas de facilitar por meio da observação dos fatos.16 A reforma do Ensino de 1890. a liberdade espiritual. português.História da Educação Além destas. e foi introduzida em nossa cultura por Rui Barbosa. especialmente do Brasil. o próprio Rui Barbosa.] O Ensino pelo aspecto. que fez a tradução da obra do educador americano Norman Allison Calkins. sinão a que resulta da livre adezão de cada um às doutrinas em circulação. álgebra elementar. na qual consagrava as idéias pestalozzianas.. bem antes da Reforma de Constant. como podemos conferir em um texto datado de: Rio. de paisagem. são também. Já por vezes temos discutido ésta questão de ensino obrigatório e mostrado a incompetência do poder civil para decretá-lo. sobre "o ensino intuitivo". que recebiam alunos de 13 a 15 anos.. aritmética. ginástica. buscando na maioria das vezes a conciliação com os demais personagens que faziam parte do processo de implantação da República.XIII. de reduzir os ensinamentos às pesquisas de utilidade imediata. Inclusive. TOMO I. além da instrução moral e cívica (Governo Provisório. pois que similhante medida ataca a autoridade patérna e destrói.3475). geografia e história. desenho de ornato. figurado e topográfico. o contar e calcular. (BARBOSA. trabalhos manuais para meninos e de agulha para meninas. à agricultura e à higiene. o sistema métrico. em todos seus fenômenos. na Reforma Benjamin Constant. pela intuição. Para as escolas primárias do 2º grau. pelo exercício reflexivo dos sentidos. noções. contudo. centravam força. elementos de língua francesa. o mesmo regulamento indicava: caligrafia. 26 de Carlos Magno de 93 (13 de julho de 1886) . ginástica e exercícios militares. não contempla todos os princípios do positivismo de forma ortodoxa. o resultado da influência da Pedagogia de Henri Pestalozzi (1746-1827). tomado este então como inteiramente destinado “a seu uso como se apresentasse. e o Estado não póde impor méstres nem doutrinas. que predominava na Europa e nos Estados Unidos. como não póde impor padres nem religião. Decreto nº 981. em 1866. desde de 1886. ao absurdo formalismo da escola antiga. Quando se pretende submeter à sanção penal matéria que só comporta uma . no preâmbulo com que apresentou o livro. elementos de ciências físicas e história natural aplicáveis às indústrias. e exercícios militares.. Em matéria de ensino não se déve aceitar nenhuma impozição. 1886.V. ainda. A obrigatoriedade do ensino é uma das muitas panacéias inventadas hoje para sanar males que não compórtão remédio legal e que só pódem ser debelados pela modificação gradual e lenta das opiniões e dos costumes. trabalhos manuais para meninos e de agulha para meninas.

. como o verdadeiro “Fundador da República Brasileira” e um dos maiores divulgadores dos valores morais apresentados pela doutrina de Comte. mas apenas o indispensável para a cultura intelectual e para o seu conhecimento. 36 . Nesse sentido não se tratava de fazer do homem um sábio especializado. Ver-se-á então mais uma vês que a reforma do ensino público supõe nada menos do que a renovação filozófica e religióza da sociedade modérna. chegando a ser considerado por Teixeira Mendes. não segue a lei dos três estados e a classificação enciclopédica das ciências.17 Mesmo apoiando algumas posições contrárias aos ortodoxos com relação ao ensino. Em Benjamin Constant.. em Niterói a 25 de Novembro de 1854. Para o comtismo. (. copiando servilmente regulamentos de paízes estrangeiros e amalgamando-os com vistas colhidas aqui e ali na leitura de meia dúzia de publicistas alamóda. como recomenda Comte. Lavramos o nósso protésto desde já. em Caxias a 5 de Janeiro de 1855. si for necessário. cívicos ou sociais). o saber de tudo que existe no universo. matemáticas (aritmética. geografia. em vez da cultura estética e lingüística. monárquico ou republicano. o ensino “enciclopédico” tinha a pretensão de profundidade. como cidadãos. que tal problema póde ser rezolvido. história e ciências (história natural. Uma das divergências entre Constant e Comte com relação a educação estava no conceito de cultura enciclopédica. o saber enciclopédico e o saber total em extensão. a sociologia). mas que são radicalmente incompetentes. Por ser matemático vai garantir como disciplina curricular a “lição das coisas”. Sendo que o currículo da escola primária do 1º grau (7 aos 12 anos) era composto por onze disciplinas: português. geometria e álgebra). de similhante governo. uma vez que. depois elementos da física e química).) Temos fé em que nésta rezistência seremos acompanhados. nos deveres domésticos. Miguel Lemos (Rua de Santa Izabel nº 6) N. de acordo com a “classificação das ciências” (da mais simples. e que não é. e. música. a matemática para a mais complexa. onde o ensino das crianças vai partir da observação e do contato direto com seres. esse saber era encadeado por sua própria natureza e unificado na escola enciclopédica. Benjamin Constant vai ser cultuado por esse grupo positivista. objetos e fatos. R. não era preciso conhecer tudo de cada uma delas. mas de fornecer-lhe as luzes capazes de guiá-lo em todas as circunstâncias da vida (na profissão. mas também por todos os cidadãos que tivérem dignidade cívica e soubérem compreender que sem liberdade espiritual compléta não há outra alternativa sinão para os mais ferrenho e degradante despotismo. no entanto. Desse modo. planta-se o absolutismo e lança-se o gérmen das reações violentas. Benjamin Constant. voltaremos a discutir o assunto. Teixeira Mendes (Rua de Santa Izabel nº 10) N. portanto. vai priorizar o ensino das ciências e das matemáticas como base da Educação Infantil. ao contrário de Comte. instrução moral e cívica. qualquer que seja o rótulo.História da Educação solução espiritual. não só pelos nossos correligionários pozitivistas. como chefes de família e como pozitivistas.

2 Educação na Década de Vargas Em 1930. as idéias que norteiam a moral positivista penetram na organização da escola primária brasileira. mas sem dúvida que. Getúlio Vargas ocupa cronologicamente o período denominado Estado Novo. com o objetivo de que o secundário se tornasse formador do cidadão e não do candidato ao nível seguinte. noções de agronomia e trabalhos manuais – algumas subdivididas conforme avançavam as séries (ou classes) e contempladas com uma programação que pretendia abarcar “tudo de todas as ciências”. apresentar o termo “enciclopédico” no sentido de superficial. A série de reformas pelas quais passa a organização escolar revela uma oscilação entre a influência humanista clássica e a realista ou científica. reafirmando o traço de dependência cultural. retornando ao poder. O código Epitácio Pessoa (1901) acentua a parte literária ao incluir a lógica e retirar a biologia. dentro da cultura brasileira. por meio dessa reforma do ensino de 1890.5. Neste período. por meio do voto. sem chance para as interpretações críticas. Ribeiro (1991) faz uma análise do efeito das Reformas Educacionais na primeira fase republicana apontando os traços deixados na cultura escolar e as influências de filosofias européias que passam pelo classicismo humanista até o realismo cientificista de cunho positivista. fornece os elementos centrais para o enraizamento de uma cultura escolar baseada nas “lições das coisas”. Além disso. gerando para a escola primária (Ensino Fundamental) até os dias de hoje. ser comum. 37 . Os resultados foram desastrosos. A caracterização do reforçamento do traço de dependência na base da estrutura social durante os anos de 1894 a 1918. determinando ao final do século XIX as bases da estrutura e funcionamento da escola moderna brasileira. a sociologia e a moral. O positivismo é filtrado nas medidas expostas no regulamento de Benjamin Constant. 1991. (RIBEIRO. e transferindo os exames de admissão ao ensino superior para as faculdades. a partir de 1951.História da Educação desenho. que vai de 1937 a 1945. 3. personagem responsável pela movimentação de idéias de reformas da educação na década anterior. que acabou de ser feita. de valores construídos na prática pela prática. voltada para a organização do Ensino Superior. abolindo o diploma em favor de um certificado de assistência e aproveitamento. é lançada Reforma Francisco Campos. uma tradição da objetividade. no tratamento superficial dos conteúdos das disciplinas do currículo. 73). a Reforma Rivadávia (1911) retoma a orientação positivista tentando infundir um critério prático ao estudo das disciplinas. Daí. em vez do fundamental delas. ampliando a aplicação do princípio de liberdade espiritual ao pregar a liberdade de ensino (desoficialização) e de freqüência. que não temos dúvidas deveriam começar já no Ensino Básico. Do ponto de vista político. é necessária porque se refletirá na organização escolar. Em 1931. é criado o Ministério da Educação e Saúde. p. tendo a frente Francisco Campos. ginástica.

seus líderes desejavam mudar a educação de forma revolucionária. a nosso ver. Sampaio Dória. que ainda não temos. Noemy da Silveira. entre os quais: Fernando de Azevedo. Júlio de Mesquita Filho. Delgado de Carvalho. republicado em 1932. p. como nos demais aspectos da vida social. jamais um escrito teve repercussão semelhante ao Manifesto dos Pioneiros. ao lado de uma profunda e sofisticada preocupação pedagogizante. Ferreira de Almeida Junior. de passar a viver o dualismo educacional que se traduz pela presença do analfabetismo e ausência de educação primária gratuita e universal. Afrânio Peixoto. (ROMANELLI. 4. expunha não só a pedagogia da Escola Nova. e depois de todo o país. da autoria de 26 eminentes educadores. no contexto da qual se dá a maior parte dessa primeira fase de industrialização que vai de 1930 a 1961. em 22 páginas de autoria de Fernando de Azevedo. no entanto que. b). Pascoal Lemme. a expansão da demanda escolar só se desenvolveu nas zonas em que se intensificaram as relações de produção capitalista. composto de 46 páginas. e com isso. o corpo propriamente dito do escrito. Frota Pessoa. e de sermos com isso obrigados a resolver problemas que outros povos já resolveram há um século ou mais. que irá tomar conta inicialmente do eixo São Paulo – Rio. a implantação definitiva do capitalismo industrial no Brasil gerou modificações no horizonte cultural da época. p. Mário Casassanta. Observou-se. 1994. esta contradição pode ser sintetizada em dois pontos básicos: a) o fato de vivermos. 38 . Para a autora. E a terceira??? Na História da Educação Brasileira. o fato de expor-nos ao risco de enfrentar e até mesmo. assim como a expansão capitalista não se fez da mesma forma em todo o território nacional. E é sob sua liderança que se aplica a política do nacional-desenvolvimentismo. Raul Briquet. 60). focaliza o atual problema educacional brasileiro. A demanda social da educação cresce e se consubstancia numa pressão cada vez mais forte pela expansão do ensino.História da Educação Getúlio Vargas passa a exercer um papel central no âmbito da política brasileira. Lourenço Filho. falando de suas deficiências e propondo a reconstrução da educação. em matéria de educação. 2001. Roquette Pinto. • a segunda. Cecília Meirelles. duas ou mais épocas históricas simultaneamente. mas também a filosofia da educação social-radical. compõe-se de três partes: • a primeira. Anísio Spínola Teixeira. OS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. cuja a superação está a exigir uma tradição cultural e educacional. 154) Para Romanelli (2001). (RIBEIRO. o que trouxe como conseqüência uma das contradições mais sérias do sistema educacional brasileiro. Hermes Lima. enquanto enfrentamos situações mais complexas.

formada por princípios gerais. n°. fazendo um apelo dos jardins de infância até a universidade.1. de 20 de dezembro de 1961. 4244. de 10-04-64. dava direito ao governo de cassar mandatos e suspender direitos políticos sem necessidade de justificação. julgamento ou direito de defesa. que constitui o que se chama a Lei Orgânica do Ensino Secundário. 157) ilustra esta forma de governo no trecho abaixo: O Ato Institucional nº 1 (AI-1). Ribeiro (1994. podemos destacar o trabalho desenvolvido pelo educador pernambucano Paulo Freire. por isso mesmo. de 9 de abril de 1942. A despeito da condição de profunda violação dos direitos humanos. ligado a Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB) e ao Governo Federal. tomando como base o percurso para a publicação da referida obra: 39 .. com o objetivo de servir de guia para toda a educação Nacional. ligados a União Nacional dos Estudantes (UNE) e os Movimentos de Cultura Popular (MCP). Militarismo e Educação no Brasil: os efeitos do Golpe de 64 O Militarismo e seus feitos na sociedade brasileira podem ser mesurados a partir da afirmação de Leôncio Basbaum (s. Os militares passam a governar o país por meio de atos institucionais. 4024. apresentam a alternativa da Educação Nova. entre outras questões. pautada no espírito dinâmico.. Os movimentos sociais ligados a área da Educação que mais se destacaram foram os Centros Populares de Cultura (CPC). No trecho a seguir. apenas em 1975. publicada no Brasil. Um evento histórico importante para a educação é a implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. ocupa-se principalmente do Ensino Médio e não tanto do Ensino Primário.. mas a atividade criadora do aluno. que aparece em 1961. do Presidente da República e seu Ministro. p. Nesse contexto. A obra Pedagogia do Oprimido é a síntese da proposta freiriana para a educação de adultos. que é a formação da personalidade do adolescente.] Ao final do ano de 1964 havia 50 mil presos políticos em todo o país”. Os agentes do Serviço Nacional de Informação (SNI).História da Educação declarando-se contra a educação Clássica. Inquéritos político-militares (IPM) são instalados. que antes mesmo da ocorrência do golpe já militava na causa da erradicação do analfabetismo e por conta desse trabalho ficou exilado de novembro de 1964 a junho de 1980.d. O uso a tortura como instrumento de obtenção de “confissões” generalizou-se e “aprimorou-se”. passam a infiltrar-se em toda parte. a sociedade civil engendrou várias formas de resistência. sob a chefia do general Golbery do Couto e Silva. Decreto-Lei n°. 4. da alçada e jurisdição do governo central. considerada arcaica e superada. Além do movimento de educação de base (MEB). o próprio Paulo Freire relata as dificuldades vivenciadas no período da ditadura militar. a Reforma atribui ao Ensino Secundário a sua finalidade fundamental. com a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”. não à receptividade. A Reforma de Gustavo Capanema. Como efeito do medo que se instala começam também as delações em grande escala. cuja origem está ligada a Prefeitura de recife e no Rio Grande do Norte. 142): “[.

seria interessante que o texto datilografado chegasse às mãos de Fernando Gasparian. para o portador.). diretor da [editora] Paz e Terra. tantos anos depois e cada vez mais convencido do quanto devemos lutar para que nunca mais. Mesmo sabendo que o livro não podia ser editado aqui [Brasil]. como nos impôs o golpe de estado de 1º de abril de 1964. começo dos anos 70. Freire. mas também. discretamente. 1 – Analise a relação entre o positivismo e Reforma de B. Constant. acusava o recebimento do material pedindo que esperasse por tempos mais favoráveis para a sua publicação. o ultraje a democracia. da democracia. 3 – Construa um texto histórico sobre a trajetória do Educador P. língua em que foi originalmente escrito. p. quando o livro já tinha sua primeira edição em inglês. 40 ... A questão que se colocava era como remetêlo com segurança não só para os originais. ou nos começos de 1971. Sua publicação aqui. (. 62-63) Atividade 4 Análise. da ética. sua primeira impressão só foi possível em 1975 (FREIRE. que o publicaria.História da Educação Agora. em nome da liberdade. já morávamos em Genebra.. 2 – Faça um levantamento em bases convencionais e em bases virtuais de pesquisa sobre a Educação Nova na década de 30 do Século XX. a enganação e a desconsideração da coisa pública.. Gasparian. mais ainda odienta. ter sua primeira edição em Português. Remeti o texto nos fins de 1970. vivamos de novo a negação da liberdade. Há mais um aspecto ligado a Pedagogia do oprimido e ao clima perverso antidemocrático do regime militar que se abateu sobre nós que forma singularmente raivosa. Aquela altura. 1997. que gostaria de salientar.) Dias depois. e sobretudo. do respeito a coisa pública. que a si mesmo pitorescamente chamou de revolução (.

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