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Fichamento Eric Hobsbawm – Sobre História

 Eric Hobsbawm – estou preocupado com os usos e abusos da história, tanto na sociedade quanto
na política, e com a compreensão, e espero, transformação do mundo. Mais especificamente, discuto o
valor da história para as outras disciplinas, especialmente na área das ciências sociais. p. 07
 Em segundo lugar, dizem respeito ao que tem acontecido entre os historiadores e outros
pesquisadores acadêmicos do passado. Incluem levantamentos e avaliações críticas de várias tendências e
modas em história, além de intervenções em debates, como, por exemplo, sobre pós-modernismo e
cliometria. Em terceiro, dizem respeito a meu próprio tipo de história, ou seja, os problemas centrais com
que todo historiador sério deve se defrontar, à interpretação histórica que achei mais útil quando os
enfrentei e, também, à maneira pela qual a história que tenho escrito traz as marcas, antecedentes,
convicções e experiência de vida de um homem de minha idade. É provável que os leitores descubram
que cada ensaio, de um modo ou de outro, é relevante a todos os demais. p. 8
 Defendo vigorosamente a opinião de que aquilo que os historiadores investigam é real. O ponto do
qual os historiadores devem partir, por mais longe dele que possam chegar, é a distinção fundamental e,
para eles, absolutamente central, entre fato comprovável e ficção, entre declarações históricas baseadas
em evidências e sujeitas a evidenciação e aquelas que não o são. p. 8
 A história é a matéria-prima para as ideologias nacionalistas ou étnicas, ou fundamentalistas. p. 17
 O abuso ideológico mais comum da história baseia-se antes em anacronismo que em mentiras. p.
19
 Mito e invenção são essências à política de identidade pela qual grupos de pessoas ao se definirem
hoje por etnia, religião ou fronteiras nacionais passadas ou presente, tentam encontrar alguma certeza em
um mundo incerto e instável, dizendo: “Somos diferentes e melhores do que os Outros”. p. 19
 História não é memória ancestral ou tradição coletiva. p. 20
 O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, um componente
inevitável das instituições, valores e outros padrões da sociedade humana. p. 22
 Quando a mudança social acelera ou transforma a sociedade para além de um certo ponto, o
passado deve cessar de ser o padrão do presente, e pode, no máximo, tornar-se modelo para o mesmo. p.
25
 Porém, mais cedo ou mais tarde, é provável que se atinja um ponto em que o passado já não possa
mais ser concretamente reproduzido ou mesmo restaurado. Nesse momento o passado fica tão distante da
realidade atual ou mesmo lembrada que no final pode se transformar em pouco mais que uma linguagem
para definir em termos históricos certas aspirações de hoje que não são necessariamente conservadoras. p.
27
 Movimentos nacionalistas são os mais óbvios, já que a história é a matéria-prima mais fácil de
trabalhar no processo de fabricar as “nações” historicamente novas em que estão engajados. p. 28
 O sentido do passado como uma continuidade coletiva de experiência mantém-se
surpreendentemente importante, mesmo para aqueles mais concentrados na inovação e na crença de que
novidade é igual a melhoria: como testemunha a inclusão universal da “história” no programa de todos os
sistemas educacionais modernos, ou a busca de ancestrais pelos revolucionários modernos cuja teoria, se
são marxistas, supõe sua irrelevância. p. 32
 Finalmente, consideremos o problema da cronologia, que nos leva ao extremo oposto da
possibilidade de generalização, uma vez que é difícil pensar em alguma sociedade conhecida que, para
determinados objetivos, não ache conveniente registrar a duração do tempo e a sucessão de eventos. p. 33
 No sentido mais extenso, todas as sociedades possuem mitos de criação e desenvolvimento que
implicam sucessão temporal: as primeiras coisas eram assim, depois mudaram assim. Inversamente, uma
concepção providencial do universo também implica algum tipo de sucessão de eventos, pois a teleologia
é um tipo de história. p. 34
 Qualquer nacionalismo moderno, não poderia ser concebido como retorno a um passado perdido,
porque o tipo de Estados-nações territoriais, dotados do tipo de organização que ele visava, simplesmente
não existiu até o século XIX. Teve de ser inovação revolucionária que se fantasiava de restauração. De
fato, teve de inventar a história da qual dizia resgatar a fruição. p. 38
 Admito que, na prática, a maior parte do que a história pode nos dizer sobre as sociedades
contemporâneas baseia-se em uma combinação entre experiência histórica e perspectiva histórica. É
tarefa dos historiadores saber consideravelmente mais sobre o passado do que as outras pessoas, e não
podem ser bons historiadores a menos que tenham aprendido, com ou sem teoria, a reconhecer
semelhanças e diferenças. p. 47
 Em essência, o que assistimos durante o século XX é justamente o que os historiadores ortodoxos
da década de 1890 rejeitavam por completo: uma aproximação entre história e as ciências sociais. É claro
que a história não pode ser mais que parcialmente subordinada sob o título de uma ou talvez outra ciência
social. Não que isso impeça alguns historiadores de se concentrarem em problemas que poderiam ser e
também são abordados por, digamos, demógrafos ou economistas de orientação historicista. De qualquer
modo, não impede. Claro que a aproximação não se dá apenas por um dos lados. Se os historiadores
progressivamente recorreram a várias ciências sociais em busca de métodos e modelos explicativos, as
ciências sociais progressivamente tentaram se historicizar e com isso recorreram aos historiadores. E os
professores do final do século XIX tinham toda razão em rejeitar os esquemas e modelos explicativos das
ciências sociais contemporâneos como simplórios e irreais, e a maioria dos que se encontram hoje em
oferta ainda podem ser legitimamente rejeitados por esses motivos. p. 75
 A história da sociedade é história; ou seja, ela tem como uma de suas dimensões o tempo
cronológico real. Não estamos preocupados apenas com estruturas e seus mecanismos de persistência e
mudança, e com as possibilidades gerais e padrões de suas transformações, mas também com o que de
fato aconteceu. p. 92
 A história da sociedade é, portanto, uma colaboração entre modelos gerais de estruturas e mudança
social e o conjunto específico de fenômenos que de fato aconteceram. Isso é verdade e independe da
escala geográfica ou cronológica utilizada em nossas investigações. p. 92
 A história da sociedade é, entre outras coisas, a história de unidades específicas de pessoas que
vivem juntas, unidades que são definíveis em termos sociológicos. É a história das sociedades e também
da sociedade humana (em oposição à sociedade de, digamos, macacos e formigas), ou de certos tipos de
sociedade e suas possíveis relações (em termos como “burguês” ou “sociedade pastoril”) ou do
desenvolvimento geral da humanidade considerada como um todo. p. 92
 A história da sociedade exige que apliquemos, se não um modelo formalizado ou elaborado de tais
estruturas, pelo menos uma ordem aproximada de prioridades de pesquisa e uma hipótese de trabalho
sobre o que constitui o nexo central ou complexo de conexões de nosso tema, ainda que, naturalmente,
essas coisas impliquem um modelo. Todo historiador social de fato levanta tais hipóteses e sustenta tais
prioridades. p. 93
 Uma preocupação central de quem trabalha nesse campo tem sido o nacionalismo e a formação
nacional, e nesse sentido a situação colonial pode fornecer uma aproximação muito maior ao modelo
geral. Embora os historiadores mal tenham se empenhado nisso, o complexo de fenômenos que pode ser
chamado nacional(ista) é evidentemente crucial à compreensão da estrutura e dinâmica sociais na era
industrial, e alguns dos trabalhos mais interessantes em sociologia política passaram a reconhecer isto. p.
103
 A “nação” uma invenção histórica dos últimos duzentos anos, cujo imenso significado prático
quase não carece hoje de discussão, levante diversas questões cruciais da história da sociedade, como, por
exemplo, a mudança ao nível das sociedades, a transformação de sistemas sociais pluralistas,
indiretamente vinculados, em sistemas unitários com encadeamentos diretos, os fatores que determinam
os limites de um sistema social (...) Até que ponto a “nação” é uma tentativa de preencher o vazio deixado
pelo desmantelamento da comunidade e estruturas sociais anteriores por meio da invenção de algo que
poderia operar como – ou produzir – substitutos simbólicos para o funcionamento de uma comunidade ou
sociedade conscientemente concebida? (O conceito de Estado-nação poderia então combinar esses
desenvolvimentos e objetivos e subjetivos). p. 104
 Seria possível negar que os movimentos nacionalistas se fortaleceram pelas dedicadas
investigações eruditas do passado de seu povo, mesmo que os próprios movimentos possam considerar a
fantasia e a falsificação tão uteis – talvez mais uteis – quanto a investigação cética, ainda que engajada?
Além disso, existem causas – entre as quais se destaca o marxismo – que se consideram especificamente.
(...) Todo Estado requisita a ciência para certos propósitos. p. 147
 Arnaldo Momigliano resumia as mudanças na historiografia em quatro situações principais: 1 a
hitória política e religiosa havia declinado visivelmente, ao passo que as historias nacionais pareciam
antiquadas. Em troca, tinha havido uma notável virada em direção à história socioeconômica. 2 não era
mais comum, ou realmente fácil, utilizar as ideias como uma explicação da história. 3 as explicações
vigentes aogra se davam em termos de forças sociais, embora isso levantasse, de uma forma mais aguda
que no tempo de Ranke, a questão da relação entre a explicação dos acontecimentos históricos e a
explicação das ações individuais. 4 tornava-se agora (1954) difícil falar em progresso ou mesmo em
desenvolvimento significativo dos acontecimento em uma certa direção. p. 157
 A principal contribuição do marxismo a essa tendência no passado foi a crítica do positivismo, ou
seja, das tentativas de assimilar o estudo das ciências sociais ao das ciências naturais, ou assimilar o
humano ao não-humano. Ela implica o reconhecimento de que as sociedades são sistemas de relações
entre seres humanos, das quais as mantidas com a finalidade de produção e reprodução são primordiais
para Marx. Implica também a análise da estrutura e funcionamento desses sistemas como entidades que
mantém a si mesmas, em suas relações tanto com o ambiente exterior – não-humano e humano – quanto
em suas relações internas. O marxismo está longe de ser a única teoria estrutural-funcionalista da
sociedade, embora possa ser, a justo título, considerada a primeira delas, mas difere da maioria das outras
em dois aspectos. Insiste, em primeiro lugar, em uma hierarquia dos fenômenos sociais (tais como “base”
e “superestrutura”) e, em segundo, na existência no interior de toda sociedade de tensões internas
(“contradições”) que contrabalançam a tendência do sistema a se manter como um interesse vigente. p.
162
 A questão fundamental em histórica implica a descoberta de um mecanismo tanto para a
diferenciação dos vários grupos sociais humanos quanto para a transformação de um tipo de sociedade em
outro, ou para sua não-transformação. p. 164
 O caminho mais simples e a reprodução ampliada, mas de que a investigação histórica faz com
que seja desejável que esses modelos distintos sejam vinculados. O caminho mais simples para o
estruturalista é omitir a mudança, e deixar a história para alguém mais, ou ainda, como alguns dos
primeiros antropólogos sociais ingleses, virtualmente negar sua relevância. Entretanto, uma vez que ela
existe, o estruturalismo deve descobrir maneiras de explica-la. p. 165
 A hierarquia de níveis é necessária para explicar por que a história tem uma direção. É a crescente
emancipação do homem em relação à natureza e sua capacidade crescente de controla-la que faz com que
a história como um todo seja “orientada e irreversível”. p. 166
 Em suma, o modo de produção é a base de nosso entendimento da diversidade das sociedades
humanas e suas interações, bem como de sua dinâmica histórica. p. 179
 Lawrence Stone acredita que há uma volta da “história narrativa” porque houve um declínio da
história que se dedicava a perguntar “os grandes porquês”, a “história cientifica” generalizante. p. 201
 O fato de que a Europa seja naturalmente um constructo não significa que não existisse ou não
exista. Sempre houve uma Europa, desde que os antigos gregos lhe deram um nome. Só que se trata de
um conceito mutável, divisível e flexível, embora talvez não tão elástico quanto “Mitteleuropa”, o
exemplo clássico de programas políticos disfarçados de geografia. p. 234
 Procurar uma “Europa” programática única, portanto, resulta em debates intermináveis sobre os
problemas até agora não resolvidos, e talvez insolúveis, de como ampliar a União Europeia, ou seja, como
converter um continente, que ao longo de sua história tem sido econômica, política e culturalmente
heterogêneo, em uma única entidade mais ou menos homogênea. Nunca houve uma Europa única. A
diferença não pode ser eliminada de nossa história. Isso sempre foi assim, mesmo quando a ideologia
preferia vestir a “Europa” numa roupagem mais religiosa que geográfica. p. 237
 Mas isso deixa em aberto a questão mas ampla: podemos algum dia escrever a história definitiva
de alguma coisa (...) Nesse caso, em um sentido óbvio a resposta é não, a despeito do fato de que há uma
realidade histórica objetiva, que os historiadores investigam, para estabelecer, entre outras coisas, a
diferença entre fato e ficção. p. 256
 Todavia, cada geração faz suas próprias perguntas novas sobre o passado. E todas continuarão a
fazer isso. Lembremos também que na historia do mundo moderno estamos lidando com uma acumulação
quase infinita de registros públicos e privados. Não há jeito nem mesmo de imaginar o que os futuros
historiadores procurarão e descobrirão neles que nós não havíamos pensado. p. 256
 O exemplo padrão de uma cultura de identidade, que se ancora no passado por meio de mitos
disfarçados de história, é o nacionalismo. p. 285
 As nações são entidades historicamente novas fingindo terem existindo durante muito tempo. É
inevitável que a versão nacionalista de sua história consista de anacronismo, omissão,
descontextualização e, em casos, extremos, mentiras. Em um grau menor, isso é verdade para todas as
formas de história de identidade, antigas ou recentes. p. 285
 Insistir na supremacia da evidência na importância central da distinção entre histórico verificável
e ficção é apenas uma das maneiras de exercer a responsabilidade de historiador e, como a atual
fabricação histórica não é o que era antigamente, talvez não seja a mais importante. Ler os desejos do
presente no passado ou, em termos técnicos, anacronismo, é a técnica mais comum e conveniente de criar
uma história que satisfaça as necessidades do que Benedict Anderson chamou “comunidades imaginadas”
ou coletivos, que não são, de modo algum, apenas nacionais. p. 288
 Durante muito tempo, a desconstrução de mitos políticos ou sociais disfarçados como história foi
parte das obrigações profissionais do historiador, independente de suas simpatias. p. 288
 A crítica cética do anacronismo histórico provavelmente é hoje a principal maneira pela qual os
historiadores podem demonstrar sua responsabilidade publica. p. 288
 Em segundo lugar, podemos demolir um mito apenas na medida em que se apoie em proposições
cujo erro possa ser demonstrado. p. 289
 A terceira limitação na função dos historiadores como eliminador de mitos é ainda mais obvia. No
curto prazo, estão impotente contra os que optam por acreditar no mito histórico, principalmente se
sustentam poder político, o que, em muitos países, e especificamente nos numerosos Estados novos,
envolve controle sobre o que ainda é o canal mais importante para comunicar informações históricas, as
escolas. E convém nunca esquecer que a história – principalmente a história nacional – ocupa um lugar
importante em todos os sistemas conhecidos de educação publica. p. 290
 Infelizmente, como demonstra a situação em áreas enormes do mundo no final de nosso milênio, a
história ruim não é historia inofensiva. Ela é perigosa. As frases digitadas em teclados aparentemente
inócuos pode ser sentenças de morte. p. 292