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LITERATURA E PRECONCEITO RACIAL

Análise de Detalhes em Preto e Branco


de Lacordaire Vieira
José Fernandes da Silva

Resumo: este artigo é uma análise de um dos contos escritos por


Lacordaire Vieira, intitulado Detalhes em Preto e Brando (do
livro de mesmo nome), tendo como ponto de partida a relação
entre discurso, tema e assunto, enquanto elementos a partir dos
quais o texto é construído.

Palavras-chave: preconceito racial, tema, assunto, discurso,


acontecimento.

As noções de tema e de assunto às vezes se confundem. Em


pesquisa científica, significam geralmente a mesma coisa: aquilo a
partir (ou em torno) do qual a pesquisa se desenvolve. Em teoria
literária, significam coisas essencialmente diversas: o assunto
significa aquilo a respeito do qual fala o próprio discurso narrativo;
o tema significa aquilo a respeito do qual fala não o próprio discurso
narrativo, mas os acontecimentos nele representados. O papel
desempenhado pela narração, neste caso, é o de um significante ao
qual se une (ou unem) não um, mas dois significados (e de natureza
essencialmente diversa): um significado de sentido imediato,
correspondente àquilo a respeito do qual fala o discurso narrativo
(ou, seja, ao assunto); e um significado de sentido transimediato,
correspondente àquilo a respeito do qual fala não o discurso
narrativo, mas os acontecimentos nele representados (ou seja, ao
tema). Trata-se, na verdade, de uma forma discursiva na qual se
correlacionam duas outras formas discursivas: uma correspondente
a signos de natureza verbal (as palavras do narrador); outra
correspondente a signos de natureza extraverbal (os
acontecimentos em geral). De modo que, se o assunto é um tipo de
conteúdo (ou significado) que tem por expressão (ou significante) o
próprio discurso narrativo (ou as palavras do narrador), o tema é
um tipo de conteúdo (ou significado) que tem por expressão (ou
significante) não o discurso narrativo (ou as palavras do narrador),
mas os acontecimentos nele representados.
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Em Detalhes em Preto e Branco, narrativa escrita por
Lacordaire Vieira e que serve de objeto a este estudo, temos: como
assunto, o passeio de um determinado indivíduo e sua filhinha a um
parque zoológico; e, como tema, o preconceito racial, enquanto
sentido manifesto a partir da visão deste mesmo indivíduo em
relação a um terceiro que aí aparece (caracterizado como de
descendência africana) e às outras coisas do parque, que também
funcionam, direta ou indiretamente, como reflexos deste mesmo
conteúdo.

A narração, neste caso, fala: diretamente, do passeio dos dois


indivíduos (o pai e a filha) ao parque zoológico; e, indiretamente, do
preconceito racial. E, deste modo, tem dois objetos: um – o passeio
dos dois indivíduos ao parque zoológico – representado de forma
imediata, através do próprio discurso narrativo (objeto direto); e
outro – o preconceito racial – representado de forma transimediata,
através não do discurso narrativo, mas dos acontecimentos nele
reproduzidos (objeto indireto).

O passeio dos dois indivíduos ao parque zoológico, enquanto objeto


representado de forma imediata, isto é, através do próprio discurso
narrativo (objeto direto), é algo que se pode captar mediante a
própria observação (captação direta); já o preconceito racial,
enquanto objeto representado de forma transimediata, isto é,
através não do discurso narrativo, mas dos acontecimentos nele
reproduzidos (objeto indireto), é algo que só se pode captar
mediante um processo inferencial ou interpretativo, deduzindo-o
não do que diz o narrador, mas do que, ao dizer – descrevendo os
acontecimentos –, ele (ainda que involuntariamente) – revela, ou
deixa-se revelar (captação indireta).

Na caracterização do mencionado indivíduo, o primeiro traço posto


em destaque é o referente à fala,

- Quantos hipopota será que tem aí? (p.13)

configurando não um fato objetivo: a existência de tal tipo de fala


como manifestação de um dialeto surgido do cruzamento das
línguas africanas com o idioma português; mas um fato subjetivo: a
existência de tal tipo de fala como deformação (ou má assimilação)
do idioma português.

E o pai da menininha, ao ouvir tais palavras, parece assustar-se:


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Olhei vacilante para o rapaz que estava ao meu lado, à beira da


cerca do paquiderme. Moreno brilhoso, cabelos lisos à força, dentes
claros e risonhos. Comigo, apenas a Tatiana, na pontinha dos pés,
admirando a cabeçorra sobrenadante do animal. Orelhas pequenas
demais e focinho exageradamente grande atraíam os seus olhinhos
verdes. Festivos. À minha volta ninguém mais. Seria comigo? Ergui
minha filha nos braços, aconcheguei os seus cinco aninhos junto a
mim e disse a ela qualquer coisa que também servia a ele como
resposta:

- Parece que tem mais dois lá na frente (p. 13).

No fragmento acima, o que realmente se procura caracterizar é,


primeiramente, o mencionado indivíduo e, em seguida, o
hipopótamo; mas, dado a sutileza da transição do primeiro para o
segundo momento, e dado ainda as maneiras como, em nossa
sociedade, se costuma caracterizar a figura do homem de cor
negra, é como se o narrador, ao passar da caracterização do negro
para a caracterização do hipopótamo, estivesse caracterizando,
neste segundo momento, não apenas o hipopótamo, mas também o
próprio negro, enquanto indivíduo visto à imagem do hipopótamo;
ou como se, ao descrever o hipopótamo, o estivesse fazendo com a
mente voltada para a imagem não apenas dele próprio, mas
também do próprio negro, enquanto configuração do hipopótamo.
Fato que, neste outro fragmento, torna-se ainda mais evidente:

Indiferente, narinas flutuantes, monstruosamente encoberto,


enigmático, africano, o gorduroso não se move. Mas seu
compatriota espectador agora gargalha, seu sorriso rindo,
continuado. Quase conversa com o animal, querendo de mim a
resposta. Aproveito a chegada de alguém e, à sua distração,
momentânea, fujo para a esquerda, com minha Tate (p.13,14).
(Conversando com Lacordaire, este me fez lembrar que o
hipopótamo é, na verdade, de origem africana).

O que Lacordaire procura pôr aí em destaque é, na verdade, algo


bastante comum em nossa sociedade, não obstante às tentativas
(por parte sobretudo das autoridades) de encobri-lo. Guimarães
Rosa, em São Marcos (narrativa pertencente à coleção
Sagarana)2, toca no mesmo problema, e pondo a ferida ainda
mais à mostra:
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Hora de missa, não havia pessoa esperando audiência, e João
Mangolô, que estava à porta, como de sempre sorriu para mim.
Preto; pixainha alto, branco amarelado; banguela; horrendo.
- Ó Mangolô!
- Senh’us’Cristo, Sinhô!
- Pensei que você era uma cabiúna de queimada...
- Isso é graça de Sinhô...
- ... Com um balaio de rama de mocó, por cima!...
- Ixe!
- Você deve conhecer os mandamentos do negro... Não sabe?...
“Primeiro: todo negro é cachaceiro...”
- Oi,oi!...
- “Segundo: todo negro é vagabundo.”
- Virgem!
- “Terceiro: todo negro é feiticeiro...”
Aí, espetado em sua dor-de-dentes, ele passou do riso bobo à
carranca de ódio, resmungou, se encolheu para dentro, como um
caramujo à cocléia, e ainda bateu com a porta.
- Ó Mangolô!: “Negro na festa, pau na testa!...” (op. cit., p. 245-
246).

Entre as duas narrativas há, entretanto, no que se refere ao modo


como se interpreta a relação entre discriminador e discriminado,
uma diferença fundamental: se, em São Marcos, quem sai
vitorioso é o próprio discriminado, através de uma vingança na qual
este leva o discriminador (por meio de um feitiço) a estado
temporário de cegueira, obrigando-o deste modo a se retratar; em
Detalhes em Preto e Branco, quem sai vitorioso é não o
discriminado, e sim o discriminador, que termina por trucidar (ainda
que apenas imaginariamente) o discriminado, aprisionando-o numa
caixinha de fósforo – depois de havê-lo transformado em uma figura
diminuta - e, em seguida, reduzindo-o a cinza e fumaça.

No lago dos cisnes, pousa a manzorra escura na cabecinha loira


da minha boneca e lhe faz perguntas:
- Quem te deu esse sapatinho bonito, foi a mamãe? (p.14).

A questão do ponto de vista, ou perspectiva de visão, é uma


questão fundamental na análise de uma narrativa literária. Vista
objetivamente, uma “mão grande” é apenas uma “mão grande” ou,
quando muito, uma “mãozona”. Vista, todavia, subjetivamente, ou
seja, do ponto de vista de um preconceito ou de uma rejeição,
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enquanto manifestação de um preconceito, deixa de ser apenas
uma “mão grande” ou uma “mãozona” para tornar-se uma
“manzorra”, da mesma forma que uma “cabeça grande” deixa de
ser uma “cabeça grande”, ou uma “cabeçona”, para tornar-se uma
“cabeçorra”. Uma característica, pois, não do próprio objeto, mas
da maneira de ver a partir da qual ele é representado.

A forma com que o indivíduo se dirige à menininha

“- Quem te deu esse sapatinho bonito, foi a mamãe?” (p. 14)

é, como se vê, em tom carinhoso e em termos de amizade; mas


não é assim que, na visão do pai da menininha, isto aparece. Daí os
tipos de situações que, de imediato, vêm à sua mente: “Polícia”,
“Estupro”, “Retrato falado” etc. Mas, como ele mesmo o diz
explicitamente, “é preciso ver” em lugar da feiura, “a beleza”;
“Pensar a paz”; “afastar o medo e recompor o quadro”; “Retocar a
pintura”; “Pintar a cena” (que vinha sendo manchada de negro),
“com tinta branca.” (p. 14). Tentativa (ou desejo), entretanto, inútil.
Pois, mal acabara de pensar que haviam deixado a presença do
negro para trás, está ela aí novamente, e agora de forma realmente
provocativa:

- Cadê o papaizinho? É aquele barbudinho lá? (p. 14)

O “barbudinho”, embora irritado, procura se disfarçar, desviando a


atenção do que (em sua perspectiva de visão) é feio desagradável
para o que (nesta mesma perspectiva de visão) é belo e agradável;
ou seja: primeiro, para a própria filhinha e para si mesmo, na
maneira particular de cada um deles de ser e de se trajar; e, em
seguida, para as coisas do parque:

Finjo que não vejo, disfarço naturalidade, mas nos afastamos


(de mãos dadas), formando um par. Fitinha verde, vestidinho
branco, perninhas curtas; jeans desbotado, camisa esporte, tênis
quarenta e dois: ela e eu. A placa agora fala dos quelônios. Hábitos,
alimentação, família. Estão dispersos. Cágados, tartarugas e
jabutis. São pedras espalhadas, querendo ser vida. O jacaré não se
move. A sucuri é só um monte de cobra escura. É uma rodilha.
Armadilha na certa. O cafuso some (p. 14).

Da visão dos animais rasteiros e, por conseguinte, implumes, passa-


se à dos voadores e, consequentemente, emplumados, e os traços
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em destaque são ainda (além de outros) os referentes às cores,
numa ampliação que vai do preto e do branco, predominantes até
agora , a vários outros tipos de colorido:
Livre do negro, nos viveiros das aves, explico os pássaros,
cantos e cores. O verde, o azul e o violeta. “Esse é o pavão, aquele
o galinho-do-peito-amarelo. Essa é a rolinha, e periquito é esse
outro. A arara é a grande, papagaio é o médio. Cegonha não tem
no Brasil. Elas vêm aqui só de vez em quando para trazer as
crianças. Acho que as garças também podem fazer isso. O sabiá, o
curió e o canário são músicos. Mas os outros também têm a sua
própria voz e a sua cantoria (p. 14,15).

Mas, logo em seguida, agora numa transição dos animais que são
emplumados e que voam para os que são peludos e que, embora
não voem, trepam em árvores (os macacos), a figura do negro vem
outra vez à lembrança do pai da menininha, com aquela analogia
entre o homem e o animal passando-se da simples conotação para
uma em sentido explícito:

Nesse aqui não tem nada, está vazio, deve ter fugido. É um
prisioneiro que se evadiu. Igual os crioulos que fogem da cadeia. Na
jaula dos chimpanzés, o espaço externo é mais disputado. As
pessoas se misturam e se perdem. Próximas, não se vêem nada.
Distraído, de lá, o negro ri do nariz do macaco, esparramado pela
cara, sobrancelha cabeluda, dentes miúdos e testa quadrada.
Malabarismo, negaceios e gestos. Em tudo o homem” (p. 15).

E, para completar:

O homem vem do macaco (p. 15).

Só que, no presente caso, a recíproca é também verdadeira:


olhando para o macaco: em tudo o homem; e, olhando para o
homem: em tudo o macaco.

Logo depois, o pai da menininha faz ainda esta outra observação,


caracterizando ainda mais a dita analogia:

O macaco achando graça do macaco. Descasca banana, lambe a


casca, faz que joga e come sorrindo. Safado e saltitante, abraça a
fêmea e rola no cimento, beijando na boca” (p. 15).

E, mais uma vez:


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- Joga o chocolate pro macaco – diz, sem reservas, colocando o


doce na mão da minha espiguinha loira (p. 15).

E a revolta do pai, que vinha crescendo desde o início, com isso


aumenta ainda mais, e a forma pela qual ele procura se vingar é
ainda a da caricatura, agora em uma imagem em sentido ainda
mais deformador:

Já se julga íntimo. Já não faz rodeios. Dirige-se a nós sem


subterfúgios. O nariz alargado. Ventas abertas. Língua vermelha,
beiço roxo, às avessas. Braços longos e pernas tortas. Quer erguê-
la mais alto para lhe mostrar melhor os amigos prisioneiros. Tatiana
choraminga, não se deixa engambelar e me chama para ir embora
(p. 15).

À noite, no final do passeio, a menininha não consegue dormir,


porque a figura daquele indivíduo, que não para de vir à sua
lembrança, não o permite; e a estratégia engendrada pelo pai para
livrá-la de tal situação é das mais exemplares e merece ser
transcrita textualmente:

Olho seu quartinho rodeado de cinderelas e princesas encantadas.


O lobo mau, simpático, disfarçado por entre flores. Gato de Botas,
Ali Babá, Os Três Porquinhos, posteres de Xuxas e bonequinhas
rosadas.
- Você está com medo de quê?
- Daquele homem preto!...
Contemplo por mais alguns instantes os quadros nas paredes.
Os caçadores estão matando o lobo, o coelho vence a onça, a
princesa encontra o príncipe. No canto, o pianinho de brinquedo,
um pedaço de porcelana quebrada e uma caixinha de fósforo vazia.
- Sabe, filha, o papai é mágico!... Ele vai prender o negro
nessa caixinha de fósforo. Veja como é que ele consegue
fácil.
Contraio os músculos, pego o monstro, esmurro-lhe a venta,
derrubo o canalha, amarro-lhe os pulsos e o deixo imóvel por
alguns instantes. Depois, suavemente, começo a encolher o
inimigo, a diminuir-lhe o tamanho, a reduzi-lo, até caber na
caixinha Beija-Flor, para pendê-lo definitivamente ali, para sempre.
Para finalizar, tomo de um barbante, que enrolo garboso na
pequena embalagem, como quem anovela, sem pressa, uma linha
qualquer num fuso antigo.
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Ponho fogo na caixa para consolidar a minha vitória. Mas já
sem necessidade, porque a língua de luz já ilumina, no berço ao
lado, o rosto sorrindo de um anjinho que dorme.
Um pouco acima, um patinho feio se encolhe ao lado de um
Cristo resplandecente. Dois olhos azuis velam a paz. Serenamente
(p. 16).

A coerência no jogo com as palavras e seus significados, enquanto


meios de configuração e representação dos diversos aspectos de
que se compõe a realidade aí artisticamente interpretada, é algo
realmente impressionante nesta narrativa de Lacordaire; sobretudo
no que diz respeito ao papel desempenhado por certos elementos,
como os referentes às cores (sobretudo o preto e o branco), por
exemplo, enquanto configurações não dos próprios objetos e
fenômenos nelas configurados, mas dos pontos de vista – enquanto
expressões de uma certa ideologia – a partir dos quais eles são
representados.

Tendo em vista que, numa narrativa literária, o narrador ( que é um


ser imaginário ou fictício) nunca pode ser confundido com o autor
propriamente dito (que é um ser real e concreto), devemos ter o
máximo cuidado de, ao caracterizarmos aquele modo de ver as
coisas como o de uma visão acentuadamente preconceituosa e
racista, não atribuí-lo sem mais nem menos a este último. Mas, já
que, além deste traço (o referente à narração em primeira pessoa),
existem ainda outros que, somados a ele, apontam-nos justamente
no sentido de uma semelhança (vejam, por exemplo, entre outras,
a característica “barbudinho”), como evitar, em nossa
interpretarão, uma certa aproximação entre os dois sujeitos e,
consequentemente, entre os dois pontos de vista (não obstante o
fato de, para quem conhece realmente Lacordaire Vieira – com
aquele seu bom-humor todo cheio de camaradagem e humanismo –
isto parecer simplesmente um absurdo).

O crítico, se quer ser coerente e, por conseguinte, honesto, não


pode fugir a tais indagações.
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1
Vieira, Lacordaire. Detalhes em Prto e Branco. Editora da Universidade Católica de Goiás.
Goiânia, 1995.
2
Rosa, João Guimarães. Sagarana. Editora Nova Fronteira. 28ª Edição. Rio de Janeiro, 1984.

Goiânia, fevereiro de 2002