REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA

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Cavalinhos amarelos, tela do expressionista Franz Marc
Reprodução

O chulo e o chic em depoimento do poeta Glauco Mattoso

E n t r e

L i v r o s Capa

Poesia e pensamento na Máquina do mundo de Haroldo de Campos

Publicação de Octaedro e da Obra crítica permitem reavaliar obra de Cortázar

Arte
Panorâmica de Alex Flemming mostra uso plástico da palavra

Claudio Cammarota

E n t r e v i s t a

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O poeta Glauco Mattoso

Na Ponta da Língua
Os diferentes usos de locuções verbais como “tem havido”

R a d a r C U L T
CULT começa a publicar em capítulos novela de Marcelo Mirisola

Redescoberta do Brasil
Lisboa discute 500 anos de encontros e desencontros entre Brasil e Portugal

Memória em Revista
Crônica de Agostinho de Campos fala da chegada do foot-ball em Portugal

Literatura Italiana
Annalisa Cima fala sobre o Diário póstumo de Eugênio Montale

D o s s i ê C U L T
Antologia poética, exposição e ciclo de cinema trazem expressionismo alemão a São Paulo

Do Leitor
Cartas, fax e e-mails dos leitores de CULT

OUTUBRO D E

2000

A o o ll ee i e t ti o oRoR R i l i t to R A A o A o l e

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Manuel da Costa Pinto

Diretor-presidente Paulo Lemos Diretora executiva Silvana De Angelo Diretor superintendente José Vicente De Angelo

Vice-presidente de negócios Idelcio Donizete Patricio

REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA

Editor e jornalista responsável Manuel da Costa Pinto – MTB 27445 Redatora Maria Cristina Elias Editora de Arte Tatiana Paula P. Barboza Diagramação Cristiane Alfano

Digitalização de imagens Adriano Montanholi e Yuri Fernandes Revisão Claudia Padovani Colunistas Cláudio Giordano João Alexandre Barbosa Pasquale Cipro Neto

Colaboradores Bruno Fischli, Claudia Cavalcanti, Claudia Valladão de Mattos, Fabio Weintraub, Ivan Marques, Ivo Barroso, Marcelo Mirisola, Marcelo Miyake, Nilson Moulin Louzada, Reynaldo Damazio, Saúl Sosnowski, Susana Kampff Lages, Tereza de Arruda, Vera Albers Capa Cortázar por Sara Facio; nos destaques, metrô de Buenos Aires por José Guilherme Rodrigues Ferreira, Glauco Mattoso por Cláudio Cammarota e Retrato de Gerda, tela de Ernst Ludwig Kirchner Produção gráfica Altamir França Fotolitos Unigraph

Departamento comercial Milla de Souza – Triunvirato Comunicação Rua México, 31-D, Gr. 1.403 A – Rio de Janeiro – RJ CEP 20031-144 – tel. 21/533-3121/524-0366 e-mail: triunvirato@openlink.com.br Distribuição e assinaturas José Cardeal do Carmo Rua Santo Antônio, 1.263 – Bela Vista – SP CEP 01314-001 – Tel./fax 11-3104-1675 e-mail: assinaturas@lemos.com.br Distribuição em bancas FERNANDO CHINAGLIA Distrib. S/A Rua Teodoro da Silva, 907 Rio de Janeiro – RJ – CEP 20563-900 Tel./fax 21/575-7766/6363 e-mail: contfc@chinaglia.com.br Distribuidor exclusivo para todo o Brasil.

Departamento jurídico Dr. Valdir de Freitas Departamento financeiro Regiane Mandarino ISSN 1414-7076

CULT – Revista Brasileira de Literatura é uma publicação mensal da Lemos Editorial & Gráficos Ltda. Rua Rui Barbosa, 70, Bela Vista – São Paulo, SP CEP 01326-010 – Tel./fax: 11/251-4300 e-mail: cult@lemos.com.br

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Assinaturas e números atrasados Alagoas: 82/977-9835 Bahia: 71/248-2737 Paraná e Santa Catarina: 41/352-6444 Paraíba, Pernambuco e Sergipe: 81/9108-5105 Rio de Janeiro: 21/9801-7136 Rio Grande do Norte: 64/983-0836 Rio Grande do Sul: 51/395-3436 São Paulo: 11/3120-5042

l e i t o

No próximo dia 30, a CULT encerra as inscrições para o prêmio “Redescoberta da Literatura Brasileira”. Desde seu lançamento, em abril, o concurso tem recebido um grande número de originais nos três gêneros contemplados – poesia, romance e conto. Seria prematuro avaliar a repercussão do prêmio a partir da quantidade de trabalhos enviados à revista até esse momento, considerando-se que o volume de obras tende a crescer às vésperas do prazo final. As cerca de trezentas obras já inscritas permitem, porém, algumas ilações. Em primeiro lugar, trata-se aqui de um concurso que, em lugar de uma premiação em dinheiro, gratificará os vencedores com o lançamento em livro dos trabalhos selecionados pelas comissões julgadoras. Ou seja, existe uma enorme massa de autores virtuais que buscam canais de expressão alternativos para uma atividade criativa que o tímido mercado editorial brasileiro não consegue trazer à luz. Em segundo lugar, e como decorrência disso, é importante notar a importância que publicações literárias como a CULT assumiram nos últimos anos. Reunindo críticos e jornalistas que na maior parte do tempo divulgam e analisam autores consagrados seja pela tradição literária, seja pelo próprio meio editorial, a CULT nunca deixou de oferecer espaço para autores inéditos (como o demonstra o “Radar CULT”). Portanto, muitos dos autores que se inscreveram no prêmio “Redescoberta da Literatura Brasileira” estão buscando a avaliação de um júri designado por uma revista que assim reitera seu compromisso de mapear, entre acertos e erros, os itinerários de nossa literatura contemporânea. Finalmente, e é isso que importa, existem hoje no país cem, duzentas ou, quem sabe?, mil ou cem mil pessoas que procuram na solidão da palavra escrita uma forma de organização da experiência, de lucidez e de permanência. Pois a palavra (que nem sempre equivale a literatura) é ainda a garantia de sobrevida de uma atividade simbólica que nos preserva da mais completa alienação.
Tiragem desta Edição: 25.000 exemplares – Auditada por

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A Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, a Câmara Riograndense do Livro e a União Gaúcha de Escritores promovem nos dias 1, 2 e 3 de novembro o “Encontro de Escritores da Rede Mercocidades: Literatura, integração e compromisso”, em que cerca de 150 escritores latino-americanos analisarão o papel do escritor, os impasses e avanços da produção intelectual na América Latina e a atual situação política no continente. A Rede Mercocidades é composta por cidades de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Já confirmaram presença os escritores Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura e Heloísa Buarque de Holanda (Brasil), Pablo Rocca e Tomás Mattos (Uruguai) e Susy Delgado e Renée Ferrer (Paraguai). Informações pelo telefone 51/221-6622, ramal 227 ou 226, ou pelo e-mail: cll@smc.prefpoa.com.br.

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F r e d e r i c o

B a r b o s a

O poeta e crítico Frederico Barbosa – autor de Rarefato (Iluminuras) e Nada feito nada (Perspectiva) – lança, no dia 21 de outubro, seu terceiro livro de poesias, Contracorrente, pela editora Iluminuras. A partir de 19h na Escola Logos (av. Rebouças, 2.633, São Paulo, tel. 11/3062-5711).

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Fernando Rabelo/Divulgação

A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo promove, de 4 a 25 de outubro, o ciclo “Poesia em Revista”, em que editores de publicações literárias e poetas apresentarão um panorama da poesia contemporânea. Participam revistas como Dimensão, Cigarra, Poesia Sempre, Babel, CULT e a argentina tsé = tsé, que publicou uma seleção de 30 poetas contemporâneos brasileiros. A iniciativa dá continuidade aos encontros de poetas com o público, como os ciclos “Poesia 96” e “Poesia 97”, e aos debates sobre revistas literárias, já realizados pela Secretaria Municipal de Cultura. A entrada é franca e a inscrição, gratuita. Informações pelo telefone 11/ 239-3459. Segundas e quartas-feiras, às 19h30, na Biblioteca Mário de Andrade (r. da Consolação, 94).

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B i b l i o t e c a

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O escritor Carlos Heitor Cony, que participa de encontro de escritores em Porto Alegre

O Memorial da América Latina promove, no dia 24 de outubro, dentro da série “Poetas na Biblioteca”, um recital com o escritor e editor peruano Reynaldo Jiménez, autor, entre outros, de Eléctrico y despojo, Las miniaturas, Ruido incidental/ El té, La curva del eco, e do inédito Musgo, e coordenador da coleção de antologias Poesía Mayor, da editora Leviatán de Buenos Aires. Na ocasião, será lançada a nova edição da revista literária argentina tsé = tsé, da qual o poeta é co-editor. A entrada é franca. Às 20h, na Biblioteca Latino-americana Victor Civita (Memorial da América Latina, av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, São Paulo, tel. 11/ 3823-9831).

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www.lemos.com.br/cult

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Será realizado em Petrópolis, de 23 a 27 de outubro, o 24º Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). O evento discutirá temas como desigualdade na educação, novo milênio, empresariado, partidos e judiciário. Na ocasião, serão lançados mais de cem livros e ministrados os seguintes cursos: “Cultura e política: Antropologia”, por Antônio Augusto Arantes (Unicamp); “Ciência política”, por César Guimarães (IUPERJ); e “Sociologia”, por Sérgio Miceli (USP). Informações pelos telefones 11/815-1243 e 815-0381 ou pelo e-mail: letania@uol.com.br.

ASSINATURAS

DISQUE CULT 0800.177899

outubro/2000 Eduardo Rascov entrevista GLAUCO MATTOSO .4 Cult .

na entrevista que você lerá a seguir. lexicógrafo. produtor de discos de punk rock e amante das sonatas de Scarlatti. o poeta nos recebeu no começo de agosto. Glauco Mattoso dá. Fabio Weintraub outubro/2000 . e do cinismo.C u l t 5 .A poucos meses da edição de uma antologia poética. Tratando do nexo entre humor e filosofia. o podólatra mais conhecido das letras nacionais mostra que continua fiel ao seu fetiche. provas de sua verve lúcida e versátil. de outro). de um lado. erudito sem deixar de ser moleque. dos impasses da literatura de testemunho ou das contradições existentes em nosso projeto civilizatório (erigido entre os limites da hipocrisia. inventando novas maneiras de “tirar leite do pé”. Ex-bibliotecário. o poeta Glauco Mattoso partilha sua descoberta do soneto e pondera quanto ao impacto da cegueira sobre sua produção recente. mês de cachorro louco. Chulo e chique. recolhendo a sua produção desde os anos 70 – do Jornal Dobrabil à série de sonetos publicada em 99 –.

o glossário. antes ou depois. todos os esportes e jogos (futebol. surge alguma idéia que eu começo a transformar em poesia metrificada. uma tara ainda mais forte que a podolatria: o enciclopedismo. G. Imagino a vírgula.M. em torno da qual cada poema funciona como variação orquestral”. cristãos. como se eu pegasse uma lupa e fosse vendo cada letra. você perfila conhecimentos sobre todos os povos e lugares (árabes. ter uma atividade mental erótica. todas as artes (arquitetura. ao retomar a atividade literária. Isso tem a ver com a sua formação como bibliotecário ou com sua atuação como lexicógrafo? Glauco Mattoso O curso de biblioteconomia e a profissão de bibliotecário. mas a fonte. a tara inventariante. botânica. Uma espécie de defesa e de autodefesa. novas questões se colocam. Por eu ter insistido bastante no tema da podolatria. todos os estilos de época. música. todos os problemas sociais (sistema carcerário. O mais curioso de tudo é que.. judeus. alemães. Eu tento dormir por um período superior a oito horas. culinária. a Bíblia. teatro. Ao compor. o pesadelo.. Tal furor catalogante. A segunda explicação tem a ver com o meu fetiche. Como essa pessoa nem sempre está presente. Tornei-me um escritor pornográfico. vejo não só a letra. cariocas. Falando do pé. ou na tendência para a definição. vem um lance borgiano. fetichista. chineses.. tenho aquela sensação de pânico. Às vezes. italianos. depois de ter composto todo o soneto na cabeça. surfe. nada. comparece também na forma enumerativa adotada em certos sonetos. filologia.. skate. Os sonetos que eu estou fazendo agora constituem assim uma espécie de recapitulação. colorido. É como se eu estivesse passando em revista tudo aquilo que eu li. obrigam você a ter realmente uma cultura enciclopédica. de repente. serve até como uma forma de me acalmar sem a necessidade da masturbação. Acordo assustado. nordestinos. sistemático. pintura. Tenho de me excitar.Cult Você abre o seu ciclo de sonetos dizendo que o pé é um “fetiche arraigado que agora se eleva à categoria de célula temática. Até para compor. com a minha capacidade de memória. entre uma coisa e outra. Cult Conte-nos um pouco mais do processo de elaboração desses sonetos. para compensar isso e poder relaxar. o espaço 6 Cult . que eu cheguei a exercer na Biblioteca do Banco do Brasil. a Segunda Guerra Mundial. literatura. e só. racismo.). Recapitulação não só daquilo que eu li. classificar. Conto unicamente com o meu repertório mental.. cinema. eu posso apenas revisar o que já criei. para colocar em funcionamento os meus neurônios e para mostrar que eu não perdi tudo o que acumulei lendo. entra a cegueira. ao meu ver. da mesma forma que se “salva” um arquivo de computador. quadrinhos). mas de muitos temas e questões que já estavam presentes no Jornal Dobrabil. Essa é a explicação biográfica.). Eu consigo “salvar” isso na cabeça.outubro/2000 . A profissão exige um conhecimento metódico. aquela coisa cíclica. Para colocá-la em teste. criou-se uma tendência a me relativizar. conhecimentos de zoologia. A cegueira é uma nova realidade. todos os sistemas de governo. Defesa contra qualquer relativização externa e autodefesa para me preservar mesmo. restringir. mas sei que não consigo. gregos. Nesse meio-termo. a Idade Média. trote estudantil). Após a cegueira. carteado). Faz parte do métier. africanos. Intencionalmente eu teria de fazer uma espécie de varredura. eu me masturbo. Sonho nitidamente. Não posso consultar um dicionário de rimas. o Aurélio. Componho em Garamond. vejo tudo e. daí acordo porque tive algum pesadelo relacionado à cegueira. Essa “variação orquestral” revela. de giro epistemológico. e tudo num corpo muito grande. ele vai precisar de uma pitadinha de conhecimento sobre todos os assuntos para entender o acervo que ele deve catalogar. tive de fazer uma espécie de retomada de todos os temas. sobre todas as épocas (Antigüidade greco-latina. às vezes. Se o bibliotecário for um cara de fato interessado no que faz e não um mero burocrata. a me limitar muito. algumas palavras estão em itálico. eu tinha que de certa forma exorcizar essa pecha. Tenho de esperar que alguém procure para mim. durmo algumas horas. eleições. Aí. ou está presente após eu ter composto o poema. hindus.. Tenho sono cedo. A parte prática da coisa? A parte mental é aquilo de que eu estava falando: a insônia.

que o verbo é pedra em si. Orgasmo não se tem como se quer. G. Cult E quanto à sua relação com a obra de Jorge Luis Borges? Além da tradução feita por você do Fervor de Buenos Aires. o formato. especi- SONETO PAULINDRÔMICO [2. mesmo depois de “salvos”. compromisso. Ocorre que um poema é meio e fim. Mas isso não é cláusula pra mim. imposto. azar. Aí eu salvo o que já está pronto.426] Não basta a ditadura que já dura e vem a ditadura antigordura! Saímos do regime militar. Estou numa posição muito neutra. é justo requisito. Só sobra o bom do garfo e da colher. com Paulo Henriques Britto que existe inspiração num verso vivo. É claro que há sonetos que. algo ruim. Aí não tem como esquecer. Prefiro achar que ter um bom motivo. Temer o tema é o medo que amedronta. Concordo. Eu respeito. Algum palestrador alega assim. Vivo mais intensamente as contradições do que o Borges. Ele talvez tenha se apoiado mais em determinadas forças e se engrandecido mais. Ele era considerado um bruxo e eu. sempre a dar espaço à medicina que reprime! Gestapo da “saúde” e “bem-estar”! Resista! Coma! Abaixo a ditadura! A luta tem um símbolo: FRITURA! outubro/2000 . Mas. admiro Borges.em branco. enfim. Como eu vejo o soneto impresso. não ferramenta. à minha maneira. Você parece abordar o tema de modo mais amargo e revoltado. Não basta o “como” em verso ou prosa pronta. SONETO TORRESMISTA [2. O contato com o sobrenatural admite várias posturas. O “como” é que o poeta faz de monta. além do jeito. Não há termos de comparação. Ocorre o seguinte: a postura de Borges diante da cegueira foi abrandada pelo fato de ele já ser um escritor reconhecido quando ficou cego. há algumas coincidências biográficas que o ligam ao autor argentino: ambos bibliotecários e cegos. Mas são exceções. caímos no regime do regime. eu não estou “salvando” apenas a poesia. muito menor. eu modifico no computador. a coisa se desenvolve de uma forma mais solta. faz o “Elogio da sombra”.. Só que Borges.M. porém precisa ser de alguém que enfrenta dor. cegos ou não. Ou sonetos que eu não completo durante uma noite. Censuram-nos até no paladar! Trabalho. um terceto. horário. há uma terceira coincidência que me aproxima de Borges: o misticismo. depois digito e fico estudando um meio de completar aquilo. Depois eu digito no computador e não tem mais problema. Assim como admiro e respeito outros nomes consagrados. tudo muito nítido. um verso no meio etc. fome. Em geral. mas a imagem gráfica. forças obscuras e forças iluminadas.C u l t 7 . No caso da cegueira.. Fica faltando alguma coisa. Eu não. angústia. Aí é que se estabelece a principal diferença. também sou. e os nazis nariz metem até nisso.406] Ter algo que dizer não é o que conta. Minha postura é a de observar o equilíbrio de forças entre bem e mal. Já havia um julgamento pacífico acerca de seu valor. além da cegueira e da biblioteconomia. Ele já era diretor da principal biblioteca da Argentina. sou um observador participante dessas coisas. diferentemente de você. Maldita seja a mídia. A minha situação é a de uma pessoa totalmente indefesa. Observo mais esse antagonismo. deixo a lacuna mental. O meu contato com Borges não supõe nenhuma identificação.

ou chove. Aparentemente é uma forma fixa. cria clichês etc. que aparentemente não muda. criando muito obstáculo para mim. Ultimamente eu não tenho feito isso. G. A cada dia você está diferente: pensa diferente. Essa história de ficar dando volta no quarteirão mostra como uma coisa rotineira. se eu não estiver acompanhado. acho que ele conseguiu sublimar e enobrecer um pouco o drama pessoal. uma espécie de prisão do raciocínio que vicia. Cult No soneto que fecha o Paulisséia ilhada. Moro neste apartamento há 18 anos. imutável. que define um espaço restrito. um quarteirão memorizado cujo equivalente estaria na forma soneto. Mantenho uma correspondência 8 Cult . Gosto muito desse soneto.. no final do Geléia de rococó. Tem dia que você encontra alguém na rua e conversa com a pessoa. Eu desrespeito. você fala da necessidade de andar num espaço restrito. Eu me movo aqui dentro porque decoro a posição de todas as coisas. com bastante freqüência. Então é o mesmo caminho. ora pisa no cocô de cachorro.M. é sempre diferente. às vezes alguém te agride. O soneto é a mesma coisa. neste quarteirão. porque estão quebrando muito as calçadas. Tanto que. o pedólatra (ilustrado por Marcatti) – Editora Abriu-fechou ficamente. mas. Só que não é assim. Tenho experimentado novos formatos. até para não atrofiar as pernas. Pelo fato de ser um escritor universal..Obras de Glauco Mattoso Periódicos Jornal Dobrabil 1977/1981 – edição do autor (53 números em 1 vol. ou faz calor. muito do que se encontra nos tratados de versificação. intencionalmente.outubro/2000 . Aventuras e leituras de um tarado por pés – Expressão Dicionário Dicionarinho do palavrão (inglês-português/português-inglês) – Record Quadrinhos As aventuras de Glaucomix. saindo do prédio com a bengala. o cenário é outro. poderosas. ora você tropeça. mas é sempre nova a caminhada. até fiz uma pequena teoria acerca do soneto para mostrar que não estou seguindo as regras. sozinho ou acompanhado. tem outras emoções. de trabalhar com imagens muito fortes. comecei a dar a volta nesse quarteirão. O soneto não impõe regras que você tenha de seguir como se fossem regras de gramática. mas aberto a novas caminhadas. Depois que fiquei cego. De teimoso. não consigo ir longe. um caminho fixo. despersonificando a tragédia. Ainda enxergava razoavelmente quando vim morar aqui e o processo final de perda da visão se deu aqui. acho que o Borges dissimula um pouco. O quarteirão a que ele se refere é este onde fica meu prédio.) Revista Dedo Mingo – edição do autor (2 fascículos) Poesia Línguas na papa – Pindaíba Memórias de um pueteiro – Trote Limeiriques e outros debiques glauquianos – Dubolso Centopéia: Sonetos nojentos e quejandos – Ciência do Acidente Paulisséia ilhada – Ciência do Acidente Geléia de rococó – Ciência do Acidente Ensaio O que é poesia marginal – Brasiliense O que é tortura – Brasiliense O calvário dos carecas: História do trote estudantil – EMW Ficção Manual do pedólatra amador. não consigo mais andar sozinho na rua.

a mesma métrica. Recentemente. 2. Não tem nada a ver. a mesma distribuição de rimas. e que reflete uma determinada realidade política. Em alguns momentos. Na verdade.com o Paulo Henriques Britto e ele me propôs um formato de soneto diferente: cinco estrofes com 2. sua poesia não seria crítico-participativa. Um formato palindrômico. instrumento de uma sátira social que mistura a influência modernista. Comecei a fazer alguns sonetos nessa linha e troquei com o Paulo.M. autor de Sistema de erros (Arte Pau-Brasil) outubro/2000 . Fabio Weintraub poeta e editor. A última coisa em que eu poderia estar pensando seria em homoerotismo. 3. eu estava fazendo essa paródia clássica. que era o datilograma. eu estava fazendo um fanzine pós-moderno. delimitar muito. Havia uma proposta formal. DEED. são afirmativamente cínicos e não querem mudar nada: gozam enquanto transformam”. Estava sendo irônico. nem paulista etc. um contexto de drogas. Não me importo com os rótulos. Embora não houvesse a palavra pós-modernismo nos anos 70. psicológica. ele resvala para uma interpretação muito mais restritiva daquilo que pretendi fazer. Cult Você sempre defendeu o “plágio consciente”.M. mas podem também facilitar a compreensão das coisas. social) para convertê-lo em puro gozo discursivo. e havia uma proposta conceitual. que certas pessoas têm às vezes uma visão mais restrita do que a minha. a pilhagem de estilos acumulados ao longo da história. que era a de retomar a antropofagia oswaldiana num contexto contracultural. O problema é que. Aí é que está a armadilha. no entanto. um crítico norte-americano. ela já não lhe pertence mais. concretista. afinal de contas. sexo e rock’n’roll. a obra de arte é sempre aberta. Com isso. AA. como o Umberto Eco já havia observado. Foi uma experiência gostosa. você encarna um dos traços fundamentais da cultura pós-moderna que é o pastiche. de fanzine. coisa que o Paulo não estava fazendo. Cult Há um texto do professor João Adolfo Hansen que problematiza a grade taxonômica. Ele pega o poema intitulado “Defectivo” (“Eu mordo/ tu mastigas/ ele engole/ nós digerimos/ vós cagais/ eles policiam”) e o caracteriza como um poema homoerótico. Gostei da experiência. como se eu estivesse desmerecendo o meu próprio trabalho como uma forma de chamar atenção. fisionômica. no lugar desses rótulos falsos e imprecisos. Só que eu vendia esse peixe como se fosse uma coisa muito mais descartável. porque é a única alternativa numa época em que desapareceram as possibilidades de um estilo individual. assim como não havia a palavra fanzine. BCB. pós anos 60. Podem ser algumas vezes muito restritivos. Hansen propõe uma compreensão que desenraíza o texto de qualquer realidade (biográfica. Daí eu propus um esquema de rimas que acompanhasse isso: AA. Eu tinha uma frase no Dobrabil que dizia: “Original é quem plagia primeiro”. Afirma ele: “Os textos de G. comparou com a literatura cubana e tal. Ocorre. estratégia retórica. de pós-tropicalismo. a nomenclatura geralmente usada para enquadrar o que você faz. de mostrar que aquilo poderia ser mais importante do que parecia. Você concorda com esse tipo de leitura? G. apropriandose de textos alheios e atribuindo aos outros coisas suas. como uma forma de crítica à noção de propriedade intelectual. No entanto. 3. nem marginal. chama-se “Soneto Paulindrômico”. 4. sem potencial crítico-satírico. de pós-concretismo. Esse poema é típico do que eu fazia no Jornal Dobrabil: um poema coprofágico. O que eu fazia no Dobrabil aparentemente era uma defesa explícita do plágio.M. pois adotei o decassílabo heróico. analisou meu trabalho nos Estados Unidos considerando o Manual do pedólatra um exemplo de pós-modernismo.C u l t 9 . isso que você chama de lacunar. o David William Foster. nem homossexual. porque esse formato tem a mesma proporção do soneto clássico. BCB. essa releitura crítica. Como você avalia hoje a entronização do pastiche? G. Fiz até um soneto em homenagem a ele. Jameson refere-se ao plágio como “paródia lacunar”. foi um desafio difícil. Segundo esse crítico. ele tem todo o direito de fazer uma leitura mais direcionada para esse ou aquele aspecto porque. muito mais primária. Desde o momento em que você a divulga. O que eu fazia não era mero pastiche.

nada do que se passar nesse estado estará resolvido. uma importância tal que se imponha e faça-se respeitar. naquele ensaio. retomar – então alguma coisa de novo se declara: estamos insensivelmente transformados e dispostos a viver. como sempre. o ritmo. É essa desconfiança que encaminha a reflexão de Valéry para uma análise da própria linguagem que viabilizaria a nomeação seja da poesia. buscava refletir sobre as relações tensas entre poesia e pensamento. frustra todos os esforços de definição (…). aquele dos empregos práticos e abstratos da linguagem. como ele mesmo diz logo no início do ensaio: Freqüentemente opõe-se a idéia de Poesia à de Pensamento e. o poema não morre por ter vivido: ele é feito expressamente para renascer de suas cinzas e voltar indefinidamente a ser o que era. que apontasse para a convergência entre poesia e pensamento. as imagens. desconfiada às palavras utilizadas para marcar aquela articulação. Ou. abolido por um ato bem determinado. em português. que se traduziu. excita-nos a reconstituí-la identicamente. não sobrevive à compreensão. No primeiro caso. de poesia e. “Poésie et pensée abstraite”. como a de Lucrécio ou Dante. A maioria acredita. através de seu próprio efeito. os impulsos virtuais 10 Cult .outubro/2000 . a palavra. que as análises e o trabalho do intelecto. a respirar. pela editora Iluminuras. Vício e Virtude. fazendo com que seja reconhecida desde as primeiras palavras. Calor e Frio. aquilo que ele chama de universo poético. na edição brasileira. tão logo essa forma sensível adquire. principalmente. O fato é que. seja do pensamento. desfaz-se na clareza. destacada para exame. ao outro ponto. para Valéry. tão confiantemente utilizada pela linguagem corrente. Daí a iluminada e luminosa conclusão: A poesia reconhece-se por esta propriedade: tende a se fazer reproduzir em sua forma. entretanto. a Voz em ação. parece perder a sua identidade habitual ou. que é. é constituído precisamente pelo desejo de realizar a passagem daquele nível de compreensão que caracteriza a linguagem em suas funções práticas ou abstratas para um outro – o propriamente poético – em que. E. transformada no objeto de um terrível desejo filosófico. ao contrário daquele. uma aproximação. isto é. portanto. e não apenas observar e respeitar. na poesia francesa.E Juan Esteves n t r e   l i v r o S P ara os que não o leram. E por que esse título alusivo? Antes de mais nada porque. e vê. não obstante as suas próprias conquistas em poemas como La jeune parque e em alguns de Charmes. de pensamento e de que modo é possível pensar numa articulação entre os dois. essa superabundância de expressões. Fala-se em “Poesia e Pensamento Abstrato” como se fala no Bem e no Mal. desempenhou sua função. inicialmente uma conferência na Universidade de Oxford e depois incluído em Varieté V. almejando romper com a dicotomia tradicional que via. todos os valores significativos. que sempre reclamara da nãoexistência. isto é. isto é. o movimento – em uma palavra. o sensível e o ato mesmo do discurso não se conserva. ao ponto conjugado do primeiro. introduz uma resistência estranha. por assim dizer. aquele em que as palavras são adequadas à criação de estados poéticos que podem. Desse modo. a pensar de acordo com um regime e sob leis que não são mais de ordem prática – ou seja. ou não. por um lado. a questão está em esclarecer o que se está chamando. viveu. de 1939. em 1991 e reeditada em 1999. como diz o próprio Valéry. as entonações. as características sensíveis da linguagem. sem muita reflexão. os esforços de vontade e de exatidão em que o espírito participa não concordam com essa simplicidade de origem. por outro lado. por outro. provocou a compreensão. e que pode ser lido na coletânea do poeta Variedades. por limpeza da situação verbal. agiu. Valéry. de 1944. acabado. o timbre. mas desejar e. de “Pensamento Abstrato”. para o poeta. torna-se magicamente problemática. No segundo. as excitações do sentimento e da memória. para Valéry. Valéry utiliza a imagem de um pêndulo que oscila entre dois pontos simétricos para tratar das relações entre poesia e pensamento: Suponham que uma dessas posições extremas representa a forma. essa graça e essa fantasia que distinguem a poesia. Era apenas um meio e ei-la transformada em fim. Mais adiante. publicada. Associem. É o que chama de nettoyage de la situation verbale. é preciso dizer que o título desta coluna é uma alusão ao ensaio de Paul Valéry. no par poesia-pensamento uma oposição radical. de uma poesia. vir a ser configurados em poemas. o som. o físico. as idéias. a forma.

Por isso mesmo. O que. citados por Valéry. por ser repensada. Desse modo. violeta e cristal) que. segundo os seus termos. sobretudo. quer no concreto “O cão sem plumas”). de ritmo decassilábico. em que se destaca a repetição que acentua uma semântica de subtração. publicando pela Ateliê Editorial A máquina do mundo repensada. por assim dizer. Camões) que Haroldo de Campos volta (principalmente depois do Finismundo: A última viagem. para Valéry. não se trata. criando um espaço de leitura que funciona como indagação pela máquina do poema e como elemento de articulação entre poesia e pensamento e as formações de compreensão – em uma palavra. mas porque é capaz de refletir acerca daquelas articulações na efetivação do poema. é o sonho da violeta e é o cristal primevo. ou cantos. É precisamente a partir de um diálogo com este último poema (e também com Dante e. Dividido em três partes. o pequeno texto busca a essencialidade por entre manifestações da existência (vida. de Manuel Bandeira ou de Carlos Drummond de AnJoão Leite outubro/2000 . O mesmo se poderia dizer acerca de alguns poemas de João Cabral (e penso quer no abstrato “Uma faca só lâmina”. cria um espaço de leitura para aquelas utilizações que funciona como elemento de articulação entre a poesia . não é indispensável a existência do poema longo. para insistir nos termos valeryanos. pela voz que a enuncia. O que o cristal contém Na sua primeira infância. de poesia filosófica ou de expressões semelhantes. Sendo assim. num poema de apenas seis versos de Murilo Mendes. o poeta será um pensador não porque seja o porta-voz de uma sistema “filosófico”.Poesia e pensamento (concreto) João Alexandre Barbosa Em A máquina do mundo repensada. reduzidas a situações mínimas de realidade: é a vida sem evidência. no poema como oscilação contínua entre a voz e o pensamento. para que se descortine aquelas relações. mais do que isso. a relação entre poesia e pensamento abstrato faz-se consistente pela efetivação do poema. vive. tornando presente a herança da linguagem de João Guimarães Rosa. e a reflexão sobre os seus próprios significados que exigiu e impôs aquela configuração. entre o Pensamento e a Voz. o poema. é possível perceber a intensidade das oscilações entre voz e pensamento. A partir mesmo de seu título.C u l t 11 drade. sem contar as suas viagens de transcriador por poemas bíblicos e homéricos) ao poema longo. envolve utilizações poéticas anteriores. pensadas. No poema de Murilo Mendes. Nesse sentido. embora já nas duas estrofes seguintes convoque termos e imagens que o localizam em experiência mais próxima do poeta. O poema intitula-se “Algo”: O que raras vezes a forma Revela. Assim. por onde se possa falar de poetas filósofos. mas uma definição construída sobre um paradoxo (aquilo que se diz é o que não está dito). mas que só ocasionalmente. mais uma estrofe de apenas um verso inconcluso. O que a violeta sonha. Haroldo de Campos realiza o ideal expresso por Valéry no ensaio “Poésie et pensée abstraite”. entre a Presença e a Ausência. Servindo como uma definição para o seu título. do livro Poesia liberdade. sobretudo o de “A máquina do mundo”. ou revelada. são. oscila o pêndulo poético. por aquela forma. do livro Claro enigma. sem evidência. por exemplo. Entre a Voz e o Pensamento. isto é. em terza rima (o segundo verso de cada estrofe rima com o primeiro e o terceiro da estrofe seguinte). se propõe como exercício dialógico em que a tópica da máquina do mundo. num golpe de dados que pudesse vencer o acaso. pode-se afirmar que o poema de Murilo Mendes é aquilo que está entre a configuração verbal. por onde a abstração termina por se traduzir no concreto da estrutura textual. é empolgada. As articulações entre poesia e pensamento se dão no concreto da própria composição poética. tudo o que constitui o conteúdo. Todas sentidas e. sertões e veredas ou onça-pintada que equivale à pantera e à loba dantescas. cuja ação é destacada no segundo verso. como aqueles de Dante e de Lucrécio. o sentido de um discurso (…). por sua vez. dos inícios da década passada. o longo poema de 152 estrofes de três versos. aludindo logo na abertura ao poeta da Comédia (quisera como dante em via estreita/ extraviar-me no meio da floresta/ entre a gaia pantera e a loba à espreita). de estabelecer uma relação entre poesia e indagação filosófica. se se quiser.

nas sexta e sétima estrofes: 6. em que o primeiro signo parece ser a figuração da procura infinita.1. notável como. nos versos de Haroldo de Campos: 12. Desejo de poema que possa ultrapassar a sombria condição de abatimento. contempla. Letras e Ciências Humanas e Pró-reitor de Cultura da USP João Alexandre Barbosa assina mensalmente esta . essa ciência sublime e formidável.possível e a ação de pensar. Professor de teoria literária e literatura comparada. incurioso furtou-se e o canto-chão 2. a acídia: lume baço em céu nuvioso E é. ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola. para fora de mim tacteando o nexo? 2. (. logo se identifica o objeto de desejo pela leitura daquilo que foi ou impossibilidade pela superabundância de luz. o leitor tem de passar pela glosa da física cosmogônica da segunda. Ou. quando então é retomada em chave de oposição: 32. a sua (e no estupor se translumina) 3. então. e a cada instante mais se retraindo. publicada pela Ateliê Editorial. assume um papel fundamental no texto. pelo menos quatro estrofes (14-17). autor de A metáfora crítica e As ilusões da modernidade (pela editora Perspectiva). e alto saber que aos seres todos rege: 3. aquele inconcluso e isolado verso já referido e que. abre teu peito para agasalhá-lo. mais próximo. escolado na pedra do mineiro 34. olha. sem dúvida..outubro/2000 3. repara. a ver por dentro o enigma do futuro 35. remiro-me no espelho do perplexo? 3. da dúvida angustia) – terço acidioso 3. ao poema de Drummond na passagem em que a voz da máquina do mundo oferta maravilhas: João Alexandre Barbosa é um dos maiores críticos literários do país. foi presidente da Edusp. 1. Daí os últimos e admiráveis versos inquisitivos do poema: 151. inicialmente.) O que procuraste em ti ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou. mas hermética. e para um poeta contemporâneo que de sua contemporaneidade lê a tradição das leituras. como um comentário. pela estrada de minas sóbrio chão É. Mas para chegar a esse pranto primordial: primeiro nexo. Termos problematizados pela experiência pessoal de desânimo e quase desistência. seção da CULT. como está nas estrofes transcritas. porque torna presente e. o último verso do poema de Haroldo de Campos. do seu trem-do-viver foi ruminando 3. cujo título foi extraído de sua mais recente antologia de ensaios. ecoa. se abrira (e a mim quem dera!) por remota 13. ao mesmo tempo. de repintar a neutra face agora 3. desapeteceu: ciente estando embora 2. milênio a me esfingir: que me alimenta 7. num movimento solidário de dúvidas e buscas. fazendo ecoar por todo o poema a declaração de desejo com que ele se inicia: quisera. descendendo – estrela ázimo-esverdeada 3. por isso. a esfera a rodar no éter do ultramundo E tudo aquilo que se revela ao Gama pela visão da máquina ocupa. de acordo com o traçado do próprio poeta. viu – alcançando o topo e soada a hora – 39. caminho seco sob o céu escuro 2. repensar a máquina do mundo será obrigatoriamente indagar pela máquina do poema que concretiza as articulações entre poesia e pensamento.. Assim. Uma espécie de fratura que desestabiliza o rigor épico do texto. com crenças dessepultas do imo arcano 38.1. mão comandada – um dom saído do fundo 2. esse nexo primeiro e singular que nem concebes mais. (camões o narra) máquina do mundo 3. E para isso. pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste… vê. pois à máquina de astros que a seu giro 2.1. que dante no regiro do íris no íris 3. por outro lado. como é o caso de Haroldo de Campos. quando é. e o ciclo ptolomaico assim termina… Não obstante. orbes sobre-regula o marinheiro12 Cult . na primeira parte. ou dádiva ofertada pela deusa a Vasco da Gama. o poeta singulariza a experiência do poeta brasileiro por entre aqueles poetas (leia-se Dantes e Camões) que viram no ROSTO o nosso se estampando: 37. nas quatro últimas estrofes desta primeira parte. na suprema figura subsumir-se 2. diretor da Faculdade de Filosofia. para o leitor atento. drummond minas pesando não cedeu 3. mesmo afetando dar-se ou se rendendo.1.1. expondo-se às frustrações ilimitadas do horizonte humano e também recolhendo as alegrias do entrever nexos e conexões. ou repensar. de mágico pelouro por inteiro 2.1. de chumbo – cético entre lobo e cão – 3. -almirante rendeu-se qual se um tiro 33. uma vez que o último o retome (O nexo o nexo o nexo o nexo o nex).1. o mesmo em toda parte viu (consigna) 2. – quisera tal ao gama no ar a ignota 2.1. minto: menos drummond que ao desengano 2. recolho-me por dentro? vou de mim 152. como está na estrofe LXXX do canto X de Os lusíadas. sobretudo. de compreensão e de explicação daquilo que foi também desejo em discursos poéticos anteriores. os seus termos. por isso mesmo. – e que camões um rosto a repetir-se 40.1. a mesma – de saturno o acrimonioso 2. transido e eu nesse quase – (que a tormenta 2. como está dito na quinta estrofe da última parte do poema.1. como está. no caso do Paradiso.1. o processo lírico por entre as anotações narrativas das três partes do poema.1. finjo uma hipótese entre o não e o sim? 2. A imitação da forma e Opus 60 (Livraria Duas Cidades). e. essa total explicação da vida. e do outronão discuto o anjo e o sexo? Juan Esteves . A leitura do intervalo (Iluminuras) e A biblioteca imaginária (Ateliê Editorial). o pasmasse: já o poeta drummond duro 3. interrompida por outras quatro (18-21) em que surge a presença de Carlos Drummond de Andrade (ao capitâneo arrojo em prêmio aberta/ – drummond também no clausurar do dia/ por estrada de minas uma certa) para ser novamente interrompida durante onze estrofes de leitura da visão do Gama.1. observo o paradoxo do outrossim 3. o último. essa problematização que viabiliza.

realçando a lógica sofisticada de textos em que personagens e enredos funcionam como variáveis de uma equação narrativa Reynaldo Damazio Fotos: Sara Facio 14 Cult .O POLIEDRO CORTÁZAR A publicação de Octaedro e do segundo volume da Obra crítica permite uma reavaliação da obra de Cortázar que transcende o contexto do realismo fantástico. ao qual o escritor argentino pertenceu.outubro/2000 .

é tomado pelo texto que compõe e fica à mercê de suas estruturas internas. articulando-se de um modo coeso e intenso sob a chancela do livro impresso. o cotidiano mesmo revela sua face perversa de irracionalidade. alterando bruscamente o conjunto. era conduzido como que por uma necessidade mediúnica. até mesmo nos contextos em que nos sentimos à beira do nonsense. Cortázar tentava despistar críticos e exegetas afirmando que não havia planejamento na confecção de seus textos. no fim das contas. para ficar em alguns exemplos. o escritor que construiu em O jogo da amarelinha uma versão latino-americana do Ulisses joyceano. o salto calculado da frase. Por outro lado.C a p A Aceita como fantástica pelo próprio autor – “por falta de melhor nome” – a obra de Julio Cortázar (1914-1984) desafia leitores e críticos como um jogo de cubo mágico. Cenas aparentemente banais são rasgadas por um episódio insólito que altera a ordem estabelecida e expõe uma dimensão estranha do real. Noutras vezes. seria melhor comparado a um prestidigitador. ora góticos. organizado por Jaime Alazraki. Esse fascinante processo de articulação circular na ficção cortaziana está muito bem decodificado em O escorpião encalacrado. geométrico. A manipulação da linguagem que realiza é a do ilusionismo. estudo seminal de David Arrigucci Jr. manipulando fórmulas cifradas e envolto numa bruma de insondáveis arcanos. Prosa do observatório e O perseguidor. Situações e personagens transitam entre os contos como que a oferecer novos ângulos de uma experiência de vida que jamais poderia ser apreendida de forma absoluta e definitiva. percebe-se uma poderosa mente fabulatória a montar complicados quebra-cabeças. movido por razões alquímicas que nos escapam. A publicação de Octaedro e do segundo volume de sua Obra crítica. Há certos momentos em que o absurdo passeia tranqüilo pelo cotidiano e se acomoda ao seu ritmo monótono. não se pode negar a presença de um raciocínio ordenador. com peças que estrategicamente mudam de forma para se adaptar a novas imagens e confundir o leitor. Em todos os relatos se percebe a condução rigorosamente medida. cujos planos de narração parecem refletir outros planos que reverberam em planos inesperados. Embora a obra de Cortázar possa ser considerada um contundente libelo contra as limitações da racionalidade ocidental e uma questionadora feroz da precariedade do cientificismo castrador que a todos nos orienta. como Histórias de Cronópios e de Famas. Tomados isoladamente. Como se Cortázar fora um bruxo da prosa. mas que. meticuloso na construção dessa mesma obra. Acontece que na ficção de Cortázar há vários indícios de uma busca obsessiva pela construção de narrativas precisas. jogando com truques sofisticados que chegam mesmo a colocar em xeque o próprio mecanismo de prestidigitação. permite uma oportuna reavaliação. meticulosas e matematicamente arquitetadas. Todo autor. artigos e entrevistas. onde há uma condensação exasperante de recursos estilísticos e referências literárias. Cortázar dá sentido ao imoutubro/2000 . no caso a escrita. Na verdade. quase à maneira de um de seus interlocutores ilustres: Jorge Luis Borges. oferecendo uma variedade combinatória infinita de figuras e cores. Escritura poliédrica. a tensão angustiante com que a linguagem é moldada em seus detalhes e efeitos mínimos. se observados em conjunto e cotejados com ensaios. como Guimarães Rosa fez em português com Grande sertão: Veredas. sem rebarbas e volteios. os textos podem parecer A ora surrealistas. A dificuldade em enquadrar textos tão diversos entre si e ao mesmo tempo complexos em sua urdidura narrativa. polimorfa. leva muitas vezes a mistificações e superficialidades. o traçado preciso da parábola. ao contrário.C u l t 15 . com bruscos solavancos. instaurando atmosferas oníricas que sugerem labirintos inexpugnáveis.

Alguém que anda por aí (Nova Fronteira). em Todos os fogos o fogo. O relançamernto mais recente é Octaedro (tradução de Gloria Rodríguez). O leitor caminha sobre um equilíbrio precário. “Liliana chorando” e “As fases de Severo”. A contenção e a coesão são tão determinantes na montagem das narrativas que acabam por estabelecer uma atmosfera claustrofóbica.00) é organizado por Saúl Yurkievich e traz os textos que compõem A teoria do túnel. No relato “Nota sobre o tema de um rei e a vingança de um príncipe”. que reuniu ensaios posteriores a O jogo da amarelinha. em Octaedro. O primeiro volume (112 págs. O conto “O outro céu”.. palpável. no metrô. As armas secretas (José Olympio). Prosa do observatório (Perspectiva). reunindo ensaios. o segundo (368 págs. de 1947. formula uma poética que estará presente em seus livros de ficção. que poderíamos também chamar de permuta entre estágios de consciência e percepção. ou mesmo o surgimento de um ente fantástico – como o inexplicável cavalo branco no conto “Verão”. de Final do jogo. sufocantes. num terrível engarrafamento ou dentro do próprio pulôver. Os contos tangenciam realidades paralelas que se multiplicam e se refletem como num labirinto de espelhos.outubro/2000 funcionam como variáveis na equação da narrativa. a Civilização Brasileira está reeditando a obra ficcional do escritor com novo projeto gráfico. Os textos estão assentados numa sofisticada lógica estocástica. presente no mesmo volume. Livro de Manuel (Nova Fronteira). pode-se avançar recuando ou perder-se em atalhos que levam a caminhos inexistentes. de Todos os fogos o fogo.CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA EDITA OBRA CRÍTICA DE CORTÁZAR A editora Civilização Brasileira. A inclusão de um personagem um gesto furtivo no metrô. Fora de hora (Nova Fronteira). Outras edições do escritor no Brasil são: Bestiário (Nova Fronteira). de fé. Valise de cronópio (Perspectiva). Uma variante metafórica do enclausuramento é representada pelo núcleo temático da doença. como: “A casa tomada”. a regra e o improviso. para a Alianza Editorial. da Espanha. de razão e de esperanças. teriam como fio condutor aquela rubrica. Os prêmios (Civilização Brasileira). Ficava imaginando que ao voltar à superfície poderia se deparar com um mundo ou uma época diferentes. Já foram republicados também O jogo da amarelinha (tradução de Fernando de Castro Ferro) e Histórias de Cronópios e de Famas (tradução de Gloria Rodríguez). “Ninguém tem culpa”. o destino e o acaso: os jogos. Além disso. ao estranhamento sem explicação de seus personagens diante da realidade despida de mitos. Os personagens experimentam dramas psicológicos e existenciais profundos em espaços fechados.00) acaba de ser lançado e tem organização de Jaime Alazraki. resenhas e artigos escritos pelo autor argentino. ainda que apresente fraturas abissais na ordem aparente das relações. Um tal Lucas (Nova Fronteira). “A auto-estrada do sul”. O enredo se constrói a partir da enfermidade de um personagem ou da observação dos que estão à volta do moribundo.. pode-se dar a ruptura e o leitor se vê projetado num patamar diverso de realidade. Além de usar o próprio metrô como cenário e variante temática em diversas narrativas. é um mecanismo recorrente na obra de Cortázar. A Obra crítica de Julio Cortázar tem tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. R$ 38. como se estivesse em constante estado de interseção. em janeiro do próximo ano. cognitiva por excelência. que compilou os textos anteriores a O jogo da amarelinha. tem um princípio revelador: “Acontecia-me às vezes que tudo ia por si mesmo. aceitando sem resistência que se pudesse passar assim de uma coisa a outra”. de 1949. o terceiro volume está previsto para abril de 2001 e é organizado por Saúl Sosnowski. o poema dramático Os reis. Orientação dos gatos (Nova Fronteira). Essa travessia intratextual. a metáfora dos mundos paralelos (defendida hoje até como hipótese científica por certas correntes da física pós-quântica) se configura em sua obra como um forte eixo catalisador. O exame final (Civilização Brasileira). do livro Octaedro – podem guinar radicalmente os rumos da trama e gerar desfechos inesperados. Numa entrevista para um documentário de televisão. Cada passo nesse bosque ficcional é provisório. Aqui chegamos a uma outra obsessão de Cortázar. do Rio de Janeiro. Nicarágua tão violentamente doce (Brasiliense). segundo o escritor. A editora prevê também o lançamento de dois outros livros ainda inéditos no Brasil: em dezembro. O escritor se baseou no arranjo de Millicent Silver . R$ 17. de Todos os fogos o fogo. que permite a síntese paradoxal entre o lúdico e o racional. ao discutir o romance moderno. pouco antes de morrer. Faz com que a anormalidade nos pareça normal. probabilística. Adeus Robinson e outras peças curtas (Civilização Brasileira). ou de uma frase. em que Cortázar. Cortázar dizia que ao entrar no metrô sempre tinha a sensação de que estava mergulhando numa outra dimensão de espaço e de tempo. abrandava-se e cedia terreno. tenha o título de Juegos. tem de aceitar as regras do jogo e correr riscos. ao indizível. “Pescoço de gatinho preto”. Não parece casual que o segundo dos quatro volumes de textos recompilados pelo autor. No meio de um parágrafo. Diário de Andres Fava (José Olympio). Nele estão reunidas 29 narrativas que. o abstrato e o concreto. será publicado 62/ Modelo para armar e. Todos os fogos o fogo (Civilização Brasileira). A exploração desses mundos projeta o leitor no campo da incerteza. Basta lembrar alguns de seus contos mais conhecidos. Cortázar explica a gênese do conto “Clone”. em que personagens e enredos 16 Cult . A idéia era criar uma narrativa nos moldes de uma peça de Bach. de Bestiário. seja numa casa. intimidadores. está publicando pela primeira vez no Brasil a Obra crítica de Julio Cortázar. Veja-se os contos “A saúde dos doentes” e “Senhorita Cora”. de Octaedro.

dois de doença. Em todos se apresentam a súmula das inquietações de Cortázar: os seres extraordinários. Esse metatexto provocador e irônico registra a busca de um escritor por sua identidade. ou até ensaios. as relações pessoais marcadas por uma comunicação precária e truncada. alternando ou opondo-se deviam encontrar sua correlação em sentimentos.C u l t 17 .OS PERSONAGENS EXPERIMENTAM DRAMAS PSICOLÓGICOS E EXISTENCIAIS PROFUNDOS EM ESPAÇOS FECHADOS. NUM TERRÍVEL ENGARRAFAMENTO OU DENTRO DO PRÓPRIO PULÔVER para oito instrumentos contemporâneos do compositor alemão. Cortázar cria o inventor de uma máquina complexa para ler O jogo da amarelinha. Durante uma viagem à praia. A obsessão por jogos fica evidente também em seu romance O jogo da amarelinha. O fato de o compositor Gesualdo. no jogo infantil. por uma possível salvação do inferno pelo amor. Há quem hoje considere O jogo da amarelinha o precursor do hipertexto. Há gráficos da engenhoca. INTIMIDADORES. príncipe de Venosa. interconexões. O livro Octaedro. recai perfeitamente como metáfora da trajetória do escritor. Inspirado no madrigalista da Renascença Carlo Gesualdo. enfeixa oito contos. recompostos em outros textos originais. e consultando uma fotocópia da capa do disco. traçando relações entre a vida dos personagens e os instrumentos. dividido entre anjos e demônios não mais metafísicos. reordenados. A imagem do percurso entre céu e inferno. contos. Sob a figura perfeita de um octaedro. A partir daí seria possível desenvolver a ação dramática espelhada com os sucessivos movimentos da Oferenda musical de Bach. O texto que narra suas possibilidades de se tornar narração. com instruções para instalação e uso. mas também um desenvolvimento bem-humorado do processo metalingüístico. condutas e relações de oito pessoas”. gravado pela London Harpsichord Ensemble. assim como Bestiário e Todos os fogos o fogo. De fato. de onde se pode tirar outros romances. SEJA NUMA CASA. o limite entre o real e o absurdo. Um romance estruturalmente híbrido e desdobrável. a metalinguagem e a perda dos liames entre a razão e o entorno. Cada conto representa uma face da figura. mas principalmente se trata da procura do próprio romance. mas terrivelmente humanos. SUFOCANTES. Formamse pares temáticos: dois contos falam de literatura. Desde o título. Mas Cortázar considerou que seria inviável criar um duplo literário da orquestra londrina. Além de demonstrar o longo e exaustivo processo de elaboração de um pequeno conto ou de um romance de quase 600 páginas. ter assassinado a esposa acaba oferecendo um tempero especial à trama. O projeto ficou guardado por um tempo. abrigam-se as inquietações e os questionamentos mais profundos do autor. oito desenhos sonoros respondendo. de carne e desejo. Em A volta ao dia em oitenta mundos. dos jogos do texto consigo mesmo. transformou os oito instrumentos musicais em integrantes de um conjunto vocal. segundo “o prazer que o escritor se havia proposto antes de mais nada”. podem ser montadas pelo leitor e até possui um roteiro de leitura oferecido pelo escritor. correspondências. uma variação do tropo poesia como purificação utópica. Auto-ironização extrema com as supostas dificuldades de leitura de seu denso romance. Os três livros parecem compor um complexo artifício de simetrias. Somente depois de uma conversa casual conseguiu chegar à solução do dilema. As faces dialogam entre si segundo uma rigorosa combinatória vetorial. NO METRÔ. dois de jogos no metrô e dois de relacionamentos. os exemplos acima apontam para uma outra fixação cortaziana. muitas vezes travestido em seus personagens. pelo sentido da existência. autotelicamente. o móbile começou a ser montado: “A regra do jogo era ameaçadora: oito instrumentos deveriam ser representados por oito personagens. cujo título se refere a uma figura geométrica de oito faces. a Rayuel-O-Matic. Cortázar desenvolve um imenso painel de “peças” (narrativas) que se intercambiam. está ali uma colagem de textos que podem ser refeitos. As outubro/2000 . os jogos com a temporalidade.

Cortázar nunca se rendeu ao automatismo da escrita. é um poema dramático sobre o mito de Teseu e o Minotauro.br) . as traduções e o exercício de uma crítica literária brilhante numa Buenos Aires enigmática. impregnar-se dela. os caminhos se bifurcam.outubro/2000 Charlie Parker e Miles Davis que tanto admirava. com seu rigor construtivo. Seus textos circulam em outro código e resultam do cruzamento de Edgar Alan Poe com Anton Tchekhov. a partir de 1951. ou ao fluxo livre da consciência. seu desejo não era apenas ser escritor para escrever. a obra de Cortázar está distante do neo-barroquismo de inspiração lezamesca e não tem parentesco algum com Gabriel García Márquez. Assim também está no início do percurso textual de Cortázar. Originalmente. com sua mitologia fantástica e alta voltagem de poeticidade. Num outro livro maravilhoso como Prosa do observatório – mistura de crônica. pelo geométrico. também se deve lembrar da referência às fugas bachianas. Cortázar afirmava que via na poesia “uma espécie de desenfreamento total do ser. tampouco de estilhaçamento do significante. Final do jogo talvez exemplifique um de seus livros em que o encontro com Kafka esteja mais acentuado. de modulações delicadas na superfície do discurso. de Ernest Hemingway com Franz Kafka.)”. se amalgama com a observação de monumentos e edificações indianos. cujas raízes de clara origem mágico-poéticas persistem na linguagem. apontamentos de viagem –. a máquina do mundo se abre de SaintGermain-des-Prés a Bánfield. Escreveu também sonetos de dicção mallarmeana.com. que se proporá precisamente a essa nominação. grande poema coletivo do homem” (o grifo é do autor). Los reyes. contrária à rotinização e aos padrões socialmente impostos. de 1954. em O perseguidor. mas transpirá-la. A galáxia reflete o fundo do oceano. pois é justamente aquele que “agrega ao seu ser as essências do que canta (. o surrealismo era importante como uma postura filosófica – que conduzisse ao “reconhecimento da realidade como poética” – mais do que uma corrente ou modismo literário. sua apresentação absoluta. de Roberto Arlt com Jorge Luis Borges. pleno de musicalidade. Ao contrário dos escritores que tornaram a literatura latino-americana conhecida internacionalmente como a geração do realismo fantástico. Os textos de Cortázar não são feitos de transbordamento metafórico. labiríntica. com a ironia patafísica de Alfred Jarry. num artigo sobre Rimbaud. Mesmo sendo um admirador fervoroso do surrealismo. Reynaldo Damazio jornalista. Tal qual um rito iniciático que encarna o mito fundador. de identidade sem mediações entre seres e coisas. Já em 1941. Estamos todos lá. “a admiração pelo que pode ser nomeado ou aludido engendra a poesia. ensaio. assinado com o pseudônimo de Julio Denis. Paco. Seu livro de estréia. traduzida ainda no desejo de que “a vida saia dos livros”. escrita no asilo de loucos de Rodez.. mancúspias. Maga. Mas é sobretudo em seus ensaios sobre literatura que se tem a noção mais precisa da importância da poesia na vida e na obra de Cortázar. Cortázar era poeta. está próximo de Borges e de Italo Calvino. Segundo Cortázar. está na raiz de toda a ficção de Cortázar. Escritura e vida emaranhadas no mesmo corpo. para dar ao texto a pulsação da existência. dividido entre o magistério. Como um “mago metafísico” o poeta se identifica com aquilo que nomeia. A reflexão sobre a paisagem ganha contornos filosóficos e cosmológicos. resultando num texto delicioso. incorporou à sua experiência literária o deslocamento afetivo-intelectual do exílio. de Lugones e Juarrós.. editor do departamento de publicações do Memorial da América Latina e do site Weblivros! (www. a poesia estaria na origem de tudo. que nos torna demasiado humanos. angüilas. Como no exemplo extraído de uma carta de Artaud. sem a intermediação ancestral da lâmina fria do espelho. de Jaipur ao planeta Faros. Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes. especialmente da linguagem. provinciana noutra.simetrias se propagam.weblivros. Caberia à literatura ser tão intensa e contraditória como a vida. Será preciso buscar também correspondências com a poesia de Rimbaud e Mallarmé. talvez esteja uma das sínteses possíveis de seu pensamento sobre a relação entre literatura e realidade: “viver importa mais do que escrever. universal numa esquina. Vivendo em Paris. sem máscaras ou fórmulas. O mesmo jogo pode ser aplicado a Bestiário e Todos os fogos o fogo. é puro Hemingway. Para ele. mas de distorções sutis do significado. escrita nos anos 50. Margrit e muitos mais. Um livro como Histórias de Cronópios e de Famas. em analogia às performances de 18 Cult . mas para viver o escrito. Se é pertinente comparar seu estilo ao improviso jazzístico. Ambos lidam com o real de forma analógica. na alma e na página em branco. tema que seria reaproveitado em outros livros. a obsessão pela forma. Em A volta ao dia em oitenta mundos publicou alguns poemas que fazem parte de uma longa série. injetando libido nas entrelinhas. No artigo intitulado “Para uma poética”. Esse ideal da arte como um modo de existência. entre mente e matéria. Dessa máquina saem axolotes. ele faz uma linda aproximação entre a visão de mundo do poeta e a dos povos primitivos. a menos que escrever seja – como tão poucas vezes – um viver”. Lucho. Como Borges. como se constata em artigo de 1948 sobre a morte de Antonin Artaud. e ainda que pertencendo ao contexto. As cisões vão se multiplicando. sua enteléquia”. quase formalistas. com as reflexões poético-existenciais de Paul Valéry e os delírios metafísicolinguísticos de Antonin Artaud. A literatura não poderia jamais congelar a vida. Ainda nesse artigo. A história do saxofonista drogado e boêmio Johnny Carter. plânctons e estrelas se irmanam. Há uma relação de encantamento com o existente. de 1949. prosa poética. ele também procurou o fio de Ariadne. Morelli. de Nova York a Outro Preto.

outubro/2000 .C u l t 19 .

A COSMOPISTA DO RISCO Saúl Sosnowski Por razões canônicas. para sempre. Uma leitura de sua variada dimensão literária atravessa a inocente carícia carregada de erotismo. a exaltação do indivíduo e a recuperação do abandonado por um longínquo erro da espécie. esses mesmos textos podem incitar ao diálogo aberto. E ao longo das décadas. perdura o perfil de um rebelde com causa que em sua época freqüentou a tímida poesia e o raro drama junto à tradução e à docência. O tom que reconheceríamos como sua marca instalou na prática literária a sutil desculpa do primeiro Borges1 e o fez já não por circunstâncias fortuitas. “Satarsa” e “Pesadillas”. o culto de letras inglesas e francesas.4 Talvez mais do que com qualquer outro intelectual latino-americano de nossos dias. Percebemos isso na séria leveza humorística de seus cronópios e famas e na ocasional conduta de Lucas. certamente) que carregam sua própria versão da verdade. o sonho de revanche do boxeador caído e a dúvida entre as cordas e a mancha no asfalto. O pacto que se torna vigente ao abordar seus textos se reveste de um ar de sedutora intimidade. de amores . pelo corredor de algum ministério ou pelo corredor de um ônibus. admiração por sua retidão ética. em diferentes instâncias de seu posicionamento ideológico. convicção e ternura. no inquietante enquadramento poético das histórias que organizam “Reunión” e “Apocalipsis de Solentiname”. de confiança com sinais de alerta. principalmente quando pertencem a autores que apostaram em outra leitura e em outra definição da literatura e de seu mundo. algo mais que a alternativa entre a entrega e a loucura. há textos que suscitam análises solenes ou próximas demais a esquemas individuais e que se adequam a manobras teórico-ideológicas (provisórias. o encontro dos corpos e o amor em glíglico (balbucio). a reflexão sobre o existencialismo e o regozijo perante o surrealismo. franco e incondicional. de aposta no possível. “Continuidad de los parques” e “Las babas del diablo”2. A partir dessa perspectiva e. as páginas de Realidad e o clima de Sur. não é casual o diálogo desejoso de que nos apropriamos ao ingressar na obra de Cortázar. pelo respaldar de um assento ou pela mão sedutora num corrimão. Lidos em outra sintonia. nas intermináveis investigações do Clube da Serpente e nas apostas de todos os seus perseguidores para achar alguma coisa mais vivencial que a submissão ao cotidiano. na busca de algum sistema para que algo ou alguém diga “Las babas del diablo”. pela leitura e por aquilo que desliza a partir das bordas do livro. ou por passageiras modas acadêmicas. no convés de um barco ou no voluntário recolhimento de um apartamento parisiense.3 A 16 anos de sua morte.outubro/2000 P uma casa. fomentaram seu trânsito e formalizaram a cumplicidade do leitor encontra-se Cortázar. Dada a generosidade do desafio e a aventura que sempre se insinua no quintal de 20 Cult . no escândalo e no terror de contos que vão de “Casa tomada” a “No se culpe a nadie”. dentre outros. os ícones peronistas e a saída para o que só sob a ditadura dos anos 70 perceberia como exílio. e sim assumindo a responsabilidade por todo ato. podemos ler. de fé no sentido próprio dessas dimensões que não se conseguem vislumbrar. pelo compromisso e pela solidariedade5 – palavras que se tingiram de nostalgia e cinismo no desmembramento das comunidades. não tão simplesmente e. mas que sempre estão por perto do desejo. em Cortázar se entrelaçam carinho. algo mais. a denúncia dos assassinos e a segurança do burocrata. Dentre aqueles que estenderam pontes.

assim como sobre o lugar da Argentina perante as tradições literárias e as guerras européias. em que a construção das identidades se tornou um lugar-comum de setores acadêmicos que pugnam por instalar seu discurso como alternativa ao que percebem como ameaça à figura individual e aos interesses agregados de multíplices minorias. o satori e o salto desde e em direção ao ser. esse modo que Cortázar teve de pensar-se em função da história mais próxima e de comprometer-se com ela sugere algo mais que a conduta poltronesca daqueles que. logo após as comemorações do primeiro centenário do nascimento de Borges [ocorridas em 1999]. diante de crescente migração interna. de outro modo de dizer e de escrever. No contexto dos debates sobre nacionalismo e representação.Os jogos literários de Cortázar correspondem ao impulso de reconhecer as regras do mundo e de fugir de tudo o que é normativo. depois. Hoje. Cortázar haveria de incorporar livremente certa presença oriental através de sua fascinação com a mandala. À fórmula de Borges. sempre a busca de alternativas. perderam a revolução. Dada a peculiaridade do país e a de sua própria herança cultural. surgia a pergunta: “Qual é a tradição argentina?”. e não podemos limitar-nos ao argentino para sermos argentinos: porque o ser argentino é uma fatalidade e nesse caso o seremos de qualquer modo. quando. assumiu seu latino-americanismo e atuou conforme suas exigências em diversos cenários da América violentada. Borges propunha uma resposta perdurável: “Acredito que nossa tradição é toda a cultura ocidental. outubro/2000 . Por outro lado.W.C u l t 21 .8 Em suas considerações. em compensação. Sem recair no que já foi estudado em outro lugar. “outra forma de nomear Biblioteca”. Borges passa rapidamente de “ocidente” a “universo”. o ser argentino é uma mera afetação. em contraposição ao alimento que lhes prodigavam os folcloristas. enquanto. perdura e se acentua com claras expressões racistas e xenófobas no discurso nacionalista e regional. Nesse sentido.”7 Sugere “que não devemos temer e que devemos pensar que nosso patrimônio é o universo. lançar mão de todos os temas. primeiro. uma máscara”. para recuperar. o escritor argentino como herdeiro e inovador das letras que mereceu receber. em virtude da publicação de Fantomas 9 e seus possíveis alcances populares. Em anos recentes. estabelecendo uma cartografia do desejo cujas preocupações políticas e carga erótica libertária já estavam presentes em seus contos fantásticos de juventude e travessias. esta se vê diluída na cada vez mais difusa nomenclatura de “o latino”/”o hispânico” nas terras globalizadas do norte. conveniência ou cinismo. e cifra. sobre o simulacro de verossimilhança do realismo folclórico e a construção da nação. Cortázar se redefiniu: sem deixar de ser o que sempre foi (essa fatalidade de ser argentino). cabe assinalar que. sistematicamente em sua reflexão sobre as estratégias do conto e. o que é também outro modo de ser. “El escritor argentino y la tradición”. mais do que podem ter os habitantes de uma ou outra nação ocidental. de W. uma dimensão continental.10 O interesse por essas precisões adquiriria. Jacobs. prefiro evitar a tão citada circunstância de ter sido Borges quem publicou o primeiro conto de Cortázar (“Casa tomada”) e sua valiosa apreciação6. por razões de idade. Essa atitude também impõe sua própria reflexão sobre o manuseio da língua. ao cruzar o oceano e ao participar da promessa que significou a Revolução Cubana. volta a narrar a reação dos gauchos argentinos diante de “La pata de mono”. esse debate já antigo “cuja sombra ainda se projeta ocasionalmente pelo aparato cultural” também aflorou em Cortázar. e acredito também que temos direito a essa tradição. generosamente. particularmente nos e a partir dos anos 60.

Para abordar o mundo sugerido por seus textos. quando tantos latino-americanos nos EUA entregam-se. a partir da cultura.Leia a seguir a cronologia de Cortázar extraída do site www. cuidar da língua era recriá-la. margens e exotismos do pouco freqüentado ou lugares que são filhos da imaginação. ritmo de rua e de sentidos. que contém várias fotografias e informações sobre a vida e a obra do escritor argentino: 1914 Julio Florencio Cortázar nasce em Bruxelas (Bélgica) no dia 26 de agosto. A semente de suas preocupações e a ética que erigiu sua obra acham-se ainda em seus contos fantásticos de juventude. a generosa sabedoria de uma identidade que se reconhece nos caminhos compartilhados. com “El perseguidor”. assim. a asiáticos que compreendem sua própria cultura e. De forma apertada e muito próxima (como possivelmente corresponda enunciá-lo). percebo nesse castelhano mantido nas décadas parisienses uma moral que teria colhido outra epígrafe para Rayuela (O jogo da amarelinha) – à la César Bruto. do mesmo modo que no século XVI. a intervir nas multíplices mesasredondas geradas pelo clima desses anos e a escrever uma série de textos posteriormente publicados em vários livros sobre a Argentina e a Nicarágua. igualmente. Adotou. mas também às que se querem suas filiais).ar. pelo espaço que navega por entre as letras. pela dúvida sistemática. passá-la pela peneira do cemitério – assim definiu algum dia o Dicionário da Real Academia Espanhola – para dar-lhe vida. 1916 A família Cortázar se instala na Suíça. com Cortázar mudamos de geografia. entra-se pela fissura.outubro/2000 lado não-doutrinário da simpatia a favor do socialismo. ao reconhecimento de um público que saboreia outros sons ou – o que acaba sendo mais mesquinho. onde aguarda o fim da Primeira Guerra Mundial. Para Cortázar e para aqueles que aceitam ser seus cúmplices. 1928 Inicia seus estudos na Escola Normal de Professores Mariano Acosta. trata-se de conjugar o corpo como lugar de encontro. caberia esperar que a qualquer momento se pudesse oscilar entre a queda e o impulso em direção a outro salto. ouvir a música das esferas. aposta e modo de vida tão irrenunciáveis como a força de eros. como fez magistralmente Héctor Bianciotti.11 Embora alguns de seus leitores de primeira hora tenham se surpreendido diante da virada política de Cortázar. a literatura é risco. culturas e letras. quando a história o exige. apelam a prestigiados índios da Índia. também acharemos o descobrimento da gozosa cartografia do desejo. que abandona depois de um ano. mas.com. embora dê a medida de seus praticantes – ao escasso renome da academia (e já não só à estadunidense. mas da hipocrisia de rebeldes de sala de aula que. rendendo idioma e definição de ser. Cruzaremos ocasionalmente quintais portenhos.juliocortazar. Hoje. Se. a força necessária para opor-se à violência. a defesa dos direitos humanos que o levaria a participar no Tribunal Russel sobre o Chile. de outorgar-lhe um pródigo tempo e espaço sobre-a-terra diante do . amizade. Cortázar passou do “eu” ao “nós”. esse outro instrumento para possuir e definir a realidade. editado por Bruno Szister. como olhar os outros e reconhecer-se na prática solidária que oferece proximidade. amor e também. embora sempre tenha se negado a produzir uma literatura de tese ou a responder aos requerimentos de uma literatura política por encomenda. regozijo e sóbria precisão. degustar o sabor de outra pele. Instalados em sua dimensão. Para Cortázar. para aceitar suas próprias origens. sim. claro. onde o alternativo ainda era o prédio do multíplice e do simultâneo. com “Reunión” antecipou o que já seria parte integrante de sua obra crítica: a reflexão a partir do 22 Cult . as ditaduras do Cone Sul e a Nicarágua de Somoza foram surpreendentes.12 Seus primeiros textos apontaram para uma zona na qual as categorias deviam ser matizadas. Por outro lado. Ainda amparados por filiações literárias e pela inquietante sombra das tradições que cifra Borges nesses (e todos?) nossos dias – e que incluem não só a exaltação do indivíduo e seu culto à coragem como também a responsabilidade dos homens perante a história –. seguem confundindo a cartografia de etnias. o redescobrimento do eros combatente. 1935 Obtém o título de Professor Normal em Letras e ingressa na Faculdade de Filosofia e Letras. nem seu interesse pelos direitos humanos nem sua dedicação para enfrentar. 1918 Retorno à Argentina (Buenos Aires). é enfrentamento e procura. em Cortázar. E esclareço que não falo de opções vitais nem de integração à cultura francesa. pelo interrogante que suspende toda certeza para lançar possibilidades e aberturas. entre renunciar a uma escassa segurança de uma ordem que ia se despedaçando e atravessar uma ponte ou uma galeria ou um oceano (ou apenas sair/ se do porto) para acariciar outro perfume. foi notória a mudança de perspectiva e ênfase nos ensaios que escrevera nos anos 40 e 50 diante dos publicados a partir dos 60.

à reivindicação política. Talvez também porque nos ensinaram que nem todas as viagens são a viagem. a partir dali. Sem sentimentalismo nem cega exaltação de uma época. o produto de exílios. quando se situam em outro cenário. Historizando. 1981 Obtém nacionalidade francesa. dirigida por Jorge Luis Borges. cabe recordar dias em que a ênfase na primeira pessoa do best seller de um quilômetro quadrado de metrópole não merecia o interesse de todos os leitores. 1972 Edita Prosa do observatório. em particular violações a direitos humanos. não o é menos o recorte do desenho mais demarcado dos corpos. pouquíssimos anos depois de terem ocorrido. do eu-você. em tantos outros – anunciava um modo mais abrangente e generoso de ver o mundo. tenha-se vivido dias menos egoístas por sentir que a palavra e aqueles que a enunciavam eram responsáveis por algo mais além do que seu lugar em uma página diária e o comentário dos suplementos.C u l t 23 . Essa ronda – voluntária. Como toda saída ao mundo. partidos e fórmulas. Carol Dunlop. "Bruja". E. Bestiário. substituição – modos substantivos para designar as esperançadas escaramuças de alguns cônegos de claustro. Não é casual a conjunção que define os anos 60 em que. desse eu-você. a partir da intimidade do gozo. “Historizando”. 1974 Publica Octaedro. aceitemos que para nossos dias a importância de Rayuela é suficiente para marcar um antes e um depois na literatura latino-americana. enriquecida por outras culturas e outras visões. os leitores. reunido em Roma para examinar a situação política na América Latina. escrito a quatro mãos com Carol Dunlop. foram reconhecidos como transformadores da história. Sempre foi possível narrar o universo falando da aldeia. mesmo em instâncias em que tantos outros. 1945 Reúne um primeiro volume de contos. talvez porque a promessa de outras alternativas estivesse na rua ou porque nós. mas também os que na mais humana cotidianidade da história literária são compreendidos como divisores de águas. Participa do Tribunal Russell II. despreocupadamente. mas sem que fosse possível sua integração – a tríade sexo-rock-droga. morre sua companheira. na revista Correo Literario. outubro/2000 . somou-se – como parte do clima. Os clássicos não são somente os livros nos quais um povo lê e interpreta seus desígnios (matizando a versão de Borges). que a sua não era uma metáfora atualizada do intelectual à procura das musas européias para regressar iluminado para suas terras. La otra orilla. em que o minimalista não era o oposto ao épico e em que a história não era desvelar os namoricos de caudilhos decimonônicos. O massivo pode ser irredutível quando se trata de movimentos de liberação política. 1963 Lançamento de sua obra mais conhecida. ignoramos como se lerá ao completar-se o centenário de sua publicação. Pela dinâmica e pelo espírito das jornadas que acompanharam sua publicação. portanto. Já que não nos é dada a profecia e. própria de toda liberação. Presencia. então. 1983 Aparece o livro Los autonautas de la cosmopista. Publica Nicarágua tão violentamente doce. com certa nostalgia. esquecendo o valor de tal companhia –. assim como depois respondeu à ferocidade dos 70 para aportar. 1951 Lança seu primeiro livro de contos. trata-se de aceitar. Obtém uma bolsa do governo francês e viaja a Paris. O jogo da amarelinha. tivéssemos achado vozes e interlocutores que soubessem abrir a porta para ir jogar e para antecipar que outras ordens jaziam atrás da “gran des/orden”. Julio Cortázar morre de leucemia e é enterrado no cemitério de Montparnasse. mas como forjador (o termo não é excessivo) das letras que interpretam nossos compartilhados tempos. rendidos a ordens. diríamos que Cortázar foi um homem dos anos 60 que aceitou sua incipiente versão dos 40 e 50. 1973 O livro de Manuel ganha em Paris o Prêmio Médicis. mas foi igualmente necessário sair da aldeia para conhecer seu lugar no mundo e a partir dali iniciar o conhecimento das origens e de seus possíveis futuros. Além da dimensão justiceira das verdadeiras revoluções e das lutas que reivindicam os direitos humanos. 1984 Em 12 de fevereiro. 1946 Publica o conto "Casa tomada". 1962 Publica Histórias de Cronópios e de Famas. da harmonia. 1953 Casa-se com Aurora Bernárdez. essas carregam uma carga erótica e múltipla. aguarda sua superação. repressor corpo-para-terra. Começa a trabalhar como escritor na Unesco. essa foi propícia para dialogar com outras vozes e outras culturas – e mais ainda: para ouvir a própria voz – para que.C R O N O L O G I A 1938 Publica sua primeira coleção de poemas. integra um núcleo seleto de romances que. 1944 Publica seu primeiro conto. exigiam dele a partir das bases do compromisso. voltasse a enunciar novos matizes e soma do próprio. o fato é que foram dias de experimentação e de ruptura (também no literário) e que. como no caso de Cortázar. Rayuela não está sozinho (o solitário jogo individual ainda se goza mais quando vem acompanhado). nas promessas dos 80 e a uma compreensão mais lúcida dessas épocas. Talvez. deslocação. nós o vemos a partir deste final de século não só como companheiro de rota – assim o tacharam alguns a partir de suas próprias distâncias. Talvez nessa ênfase que Cortázar adjudicou a eros e ao jogo (ao jogo/ fogo de eros) também se encontre a origem da independência à qual jamais renunciou. na revista Los Ananes de Buenos Aires. que é na pele mais profunda que se inicia o que chegará a ser (ou não) a liberação de todas as forças e de todo sistema. 1982 Em novembro. com o pseudônimo Julio Denis.

“espiritual” fixam limites em seu próprio enquadramento e. a isso se somou posteriormente o reconhecimento da história que estava se desenvolvendo na América Latina. enquanto também relia Rodolfo Walsh e Felisberto como chave de sobrevivência e de simpatia e escrevia contos. num sentido de justiça globalizada. uma constante no impulso por sair do normativo.outubro/2000 isso também lhes incumbe e subjaze a certos enunciados na obra de Cortázar –. e praticaram. Há. no entanto. na interpretação do exílio como estratégia para recuperar valores e aprender a ser menos insular ao enfrentar o legado de nossas compartilhadas ditaduras. Ambas instâncias. sob o domínio de uma ética participativa e comprometida com o trânsito do homem pela terra e pela história. nas esgotantes jornadas de solidariedade que manteve até seus últimos dias. para quem as reconhece. Não me refiro. definir uma medida de comodidade didática. sem colocar em jogo algo mais que o exercício da crítica. para citar somente os personagens mais notórios. de Persio e de Medrano. portanto. mais recentemente. tampouco um gesto anárquico ou de repúdio gratuito. essas mesmas incitam a seu abandono e transformação quando mais não seja para estabelecer outras versões desses mesmos modos de viver e gozar e entender e voltar sobre a vida. até o que merece. Não penso em “estados de alma”. através de já incipientes epígrafes como as que regem Rayuela. Penso nesse latino-americanismo solidário com o qual Cortázar e outros intelectuais de seus tempos europeus apostaram. pessoa e textos. às fórmulas de organismos preocupados pela iniquidade e a marginalização – embora 24 Cult . como tantas vezes nos recordou Cortázar. pela variante plástica da felicidade que conheceu Julio Silva13. com presumida objetividade. é por isso que. quando. certamente. Se no princípio foi uma percepção ontológica que ecoou em suas já citadas reflexões sobre o existencialismo e o surrealismo. precisamente. pela música – do jazz e do clássico ao tango e a seu memorável Trottoirs de Buenos Aires14 – tudo aquilo que fazia a seus outros segmentos de vida. o compromisso e a paixão são relegados pela disciplina acadêmica. sonhos. e até obrigatórios. poemas. no político. Não é uma simples reação contra o certificado de boa conduta e as convenções. por exemplo. ainda que tacitamente. No mais explicitamente literário manifestou-se. acredito. Tudo e. de uma relação que. Nesse caso me permito acreditar que nem sempre é. tudo tem nome e. vários qüinqüênios antes que o juiz espanhol Baltazar Garzón devolvesse a esperança de que serão submetidos a ela . e sim a essa sensação mais profunda de fraude que está na busca de Johnny Carter. “material”. acusam sua própria insuficiência para dar conta de tudo aquilo que excede os fichários – em sua época o descobriram. E isso sem abandonar seu conhecido interesse pelos jogos. aqueles que fixam o romance histórico. articula conhecimento e poder. antecipou alguns dos recortes de imprensa hoje multiplicados ciberneticamente. “realista”. além disso. O distanciamento e o sentido de estranheza podem ser produtivos. além disso. responde a regras. mas sim no que suscita a reflexão sobre uma figura que marcou nossos tempos e que. ocasionalmente. cuja meta é. assim e que o juízo de valor e a encenação do desejo e do corpo também têm (devem ter) seu lugar no sistema. especialmente os jogos. os seguidores da classificação de Todorov em torno da literatura fantástica e. saber e desenvolvimento humano.15 Tenho consciência da dificuldade que encontro em escrever sobre Cortázar.Termos definidores como “fantástico”. de Horacio Oliveira e daqueles que redigem O livro para Manuel inserindo a documentação jornalística na vontade literária. por gestos como a doação dos direitos autorais às famílias de presos políticos. nem deve ser. Do outro lado do afã classificatório. Provém.

Buenos Aires. pp. Katún. dentre outros e. 1979. ou as traduções de André Gide e Marguerite Yourcenar. verificamos que algo precioso se perdeu". Talvez por isso Cortázar tenha apostado tanto na infância e nos jogos. como tampouco foi. Madri. Penso naqueles que não precisaram ser brasileiros. A edição popular publicada em Buenos Aires por GenteSur incorpora a "Carta abierta de Julio Cortázar a Pablo Neruda" e "Historia del águila imperial".15. Un tal Lucas. Buenos Aires. Nossos nadas pouco diferem. "América Latina: exilio y literatura". argentina) sempre ávida de universo e de calor humano. New Readings. Penso no repúdio ao nacionalismo literário vulgar com que se impugnou o que não deixava de ser insultante para os setores menos ilustrados nas tradições culturais metropolitanas. nem de nação. é notória a densidade política de suas preocupações através das páginas de "Situación del intelectual latinoamericano". chilenos. 1974. 1998. pp.16 só para citar dois autores que o ocuparam durante anos. em outro sentido. 1984. 4 Para uma bibliografia completa de suas primeiras publicações. bem como o número de homenagem de La Maga. Sudamericana. "Satarsa" e "Pesadillas". 12 A edição dos 3 tomos de sua Obra crítica (Buenos Aires. que cita minha entrevista com ele publicada em Hispamérica. Última (por hoje) compartilhada alusão: do mesmo modo que com Borges. escrito em 1947. em Obras completas.. "No se culpe a nadie". em 1996. Buenos Aires. p. Emecé. Buenos Aires. 14 Tangos de Edgardo Cantón e Cortázar. Suspeito. p. Paris. 1966. Sudamericana. 1996). Cada um deles17 aponta para uma procura constante de limites literários e. Siglo XXI. a obra de Cortázar continua crescendo com a edição de livros que permaneceram inéditos. do leitor cúmplice numa aventura que nem começa nem acaba numa jornada de cosmopista. cf. Sudamericana. 1975) e à inserção de "Un julio habla del outro". traduzidos e anotados por Cortázar e com um detido estudo preliminar (pp. há. organizado por Saúl Yurkievich. Buenos Aires. nem de fidelidade a línguas e culturas de fundação. com aquilo que unifica através das diferenças e do culto à diversidade e à heterogeneidade cultural. pp. um compromisso maior com o ser humano. Sudamericana. seu redator. no entanto. XI-XCVII). "El intelectual y la política en Hispanoamérica". Ninguém pode contar o argumento de um texto de Cortázar. 2 "Las babas del diablo"." "A quien leyere". Excelsior. Hermes. na clave da origem.8-13. 1975). para constituir. a meu cargo. o livro de Saúl Yurkievich. pp. El libro de los sueños. já sabíamos há muito tempo. que incluem. Rayuela. outubro/2000 . 1984). Em 1995 (Buenos Aires. 1987. Cortázar foi algo pouco freqüente na história das letras americanas: necessário. Alianza. textos sobre Rimbaud. previamente. 1997. com a debilidade de sua existência e com a promessa de seus logros. como o confirmou sua parisiense vida latino-americana (e claro. Madri.9-18. México. 15 Salvo el crepúsculo. porque nessas cartas veremos o que. a Universidade de Porto Rico. Keats. 10 Em "Algunos aspectos del cuento". 1994) torna-a ainda mais evidente: Teoría del túnel.N 1 O T A S aqueles que a violaram impunemente durante o exercício do terror de estado. p. "Reunión". Marechal. Las armas secretas. Buenos Aires. Borges lembra ter editado "Casa tomada" e acrescenta: "O estilo não parece cuidado. pp. organizador do terceiro volume da Obra crítica de Julio Cortázar tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro tradutora de Os sete loucos & Os lança-chamas e de Viagem terrível. 9-11. 6 No prólogo aos Cuentos de Cortázar. 13 (1976). Jaime Alazraki prefacia os ensaios prévios à publicação de Rayuela (1963). 5 Um notável exemplo dessas reações no número que lhe dedicou Casa de las Americas pouco depois de sua morte. Também. uruguaios. Não há nessa atitude repúdio de lar. 15-16 (1962-1963. mas cada palavra foi escolhida. em que nada é inevitável. Sudamericana. ao completar-se 10 anos da morte de Cortázar. "Casa tomada". ocupa o primeiro tomo. "La literatura latinoamericana a la luz de la historia contemporánea" e "Nuevo elogio de la locura". Outro tipo de leitura – que em alguns casos informa mais sobre o modo de ler da academia estadunidense do que sobre o estudado – em Carlos J. "Una utopía realizable narrada por Julio Cortázar" (México. 8 id. Emecé. 13 Refiro-me a Sivalandia. Paz. 1984. pp. Madri. 1978. Biblioteca personal: Prólogos. Alguien que anda por ahí. pp. Alfaguara. Espasa-Calpe). 1973. é trivial e fortuita a circunstância de que seja você o leitor destes exercícios e eu. Buenos Aires.C u l t 25 . 1959. Fervor de Buenos Aires. Ediçiones Culturales. pp. Buenos Aires. "Apocalipsis de Solentiname".10. 9 Fantomas contra los vampiros multinacionales. 1974. necessário ser argentino para exercer a justiça por crimes contra a humanidade. New York. Buenos Aires. em momentos em que tudo é possível. o leitor me perdoe a descortesia de eu tê-lo usurpado. Noé. nem na escritura compartilhada. pp.68-72. Victoria Ocampo e os freqüentemente citados "Notas sobre la novela contemporánea".ibidem. 77-98. México. ed. 272. fundamentalmente. 5 (novembro 1994). Buenos Aires. Minotauro. Alfaguara. em Territorios. Talvez porque. 3 A seqüência de referências corresponde a Historias de Cronopios y de Famas.79-89. 1977. "Para una poética" e "Algunos aspectos del cuento". Julio Cortázar. "Continuidad de los parques" em Final de juego.67-86. edição fac-similar aos cuidados de Aurora Bernárdez. da editora Iluminuras "Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz. publicou-se Veredas de Buenos Aires y otros poemas. bolivianos ou paraguaios. meu Julio Cortázar: una búsqueda mítica. Todos los fuegos el fuego. Se tentamos resumi-lo. Alfaguara. Imagen de John Keats foi publicado por Alfaguara. 3-14). em Obras completas. sim. 16 Em 1956. Artaud. 1983. Nueva Imagem. No terceiro tomo. Madrid. 1994. de Sergio Ramírez. 1963. 1988. foram compilados por Saúl Yurkievich e publicados em Barcelona e Buenos Aires por Muchnik. publicado inicialmente em Casa de las Américas. V. A anunciada publicação de sua correspondência certamente será motivo de curiosidade e interesse. Legassa. Cortázar sempre escreveu. pp. 1964. No segundo tomo. Negro el diez. Notas para una ubicación del surrealismo y el existencialismo. como também o soube o autor de “El jardin de los senderos que se bifurcan”. 7 Discusión. Alfaguara. o Tribunal Russel II para investigar a situação imperante nesses países. cantados por Juan Cedrón e gravados em Paris em 1980. nem é. de Julio Silva e Julio Cortázar (México. Alfaguara. graças à sua leitura. Buenos Aires. pp. Deshoras. Alonso. com seleção e prólogo de Mario Benedetti. em 1974-1975. 17 Os exercícios teatrais Nada a Pehuajó e Adiós a Robinson (México. Final de juego. dentre outros. Jorge Luis Borges. College Park (EUA). para mais que isso. Talvez porque ele próprio foi um nexo entre culturas. Sudamericana. Cambridge University Press. 1951. cada texto consta de determinadas palavras numa determinada ordem. como o demonstram seus estudos de Keats e de Poe. incorpora as declarações do Tribunal Russel II. 1962. 55-6. que sua leitura tornará mais difícil dissociar texto e textura. junto a leituras de Arlt e Felisberto. Julio Cortázar: al calor de tu sombra. Bestiario. Saúl Sosnowski professor da Universidade de Maryland. publicou em 2 tomos Obras en prosa de Edgar Allan Poe. 273-74. 51-69 e 99-118. 1986) e Divertimiento (Buenos Aires. e já desde o título. 11 Nicaragua tan violentamente dulce e Argentina: años de alambradas culturales. de Roberto Arlt. México. muito especialmente. o romance El examen (Buenos Aires. e Cuaderno de Zihuatanejo.

ROUPAS E FOTOGRAFIAS PARA ESTABELECER UMA LINGUAGEM EM QUE A PALAVRA DESEMPENHA UM PAPEL A ROUPA da palavra FUNDAMENTAL tereza de arruda 26 Cult .A r t E COMEÇA ESTE MÊS EM BELO HORIZONTE A PANORÂMICA DO ARTISTA PLÁSTICO ALEX FLEMMING. COM OBRAS QUE UTILIZAM SUPORTES COMO SOFÁS. POLTRONAS.outubro/2000 .

partindo da mais profunda intimidade. a bem-sucedida integração entre arte e arquitetura na Estação Sumaré do Metrô de São Paulo. Vulgaridade (1999).Veneza. atualmente mora em Berlim. acompanhada de idéias e impressões assimiladas mundo afora. Mistificação. Os materiais e suportes por ele utilizados excedem sua função original e são integralmente abstraídos e acoplados a um novo contexto. certamente como uma denúncia à predestinação do ser humano à violência. Schuld. Antonio de Albuquerque. Palavras soltas. Nos últimos dez anos o artista brasileiro residente em Berlim tem utilizado letras pintadas sobre os mais diversos materiais.P Poucas vezes na história da arte conseguiu-se combinar de maneira feliz a pintura com a literatura. Zorn. 31/227-6494 No alto. No centro. O vestuário sintetiza todo o Ser. Istambul. em Belo Horizonte. incorporadas como uma segunda pele. Esta desenvoltura global o leva a preservar e ressaltar pequenos detalhes da vida que remetem ao microcosmo subjetivo e vêm a se transformar em instrumentos de sua linguagem artística. o artista plástico Alex Flemming tem conseguido realizar esse feito. Torquato Neto ou Haroldo de Campos ao cristalizar seus poemas sobre lâminas de vidro onde também estão retratados 44 rostos de pessoas anônimas como a recitar poesia umas às outras. Todo esse material é reproduzido sobre PVC em cores fortes. Schuld (1993). Em seu dia-a-dia Alex Flemming percorre cidades como São Paulo. México (1997). passando por uma rica opção que começa na Bíblia e pode terminar em manchetes de notícias de jornal. roupas e até fotografias. onde estudou história da arte PANORÂMICA DE ALEX FLEMMING Galeria Celma Albuquerque 24 de outubro a 18 de novembro 2ª a 6ª feira – das 9h30 às 19h sábado – das 9h30 às 13h R. O exemplo mais conhecido para os brasileiros está em uma das maiores obras públicas realizada nos últimos anos. Rio de Janeiro e Porto. De uma maneira totalmente conceitual. o artista percebeu que o maior cúmplice de uma pessoa são suas próprias roupas. recebendo uma segunda pele de cores marcantes como roxo. A tinta utilizada deu ainda mais corpo aos objetos. Tereza de Arruda curadora e crítica de arte. Detalhes fotográficos de corpos perfeitos levam como tatuagem impressões de mapas de regiões em guerra extraídas de jornais. substituem marcas famosas e falam dos sentimentos humanos: Abandono. Berlim. camisas e paletós. 885 Belo Horizonte – MG tel. Nova York. até a formalidade das gravatas. Sua bagagem é sempre espartana. sendo a fragilidade humana posta em confronto direto com a perversão da tecnologia do mecanismo de guerra. laranja e amarelo. Na página oposta. Flemming ressaltou a importância de autores brasileiros como Gregório de Mattos. Os textos escolhidos variam de Mário de Andrade a Shakespeare. . Olavo Bilac. Ao lado. Havana. Sem título (1998). que se tornaram rígidos como armaduras. O ser humano e toda sua fragilidade são um dos motivos freqüentes da obra de Flemming como em sua mais recente série de pinturas sobre fotografias de Bodybuilders. dentre tantas outras. sofás e poltronas. como as cuecas. A vasta obra de Flemming se classifica como pintura e ao observar sua produção salta aos olhos a versatilidade do suporte utilizado: animais empalhados. Belo Horizonte. Toda essa rica produção artística dos últimos dez anos pode ser vista em uma única mostra que acontece a partir de outubro na Galeria Celma Albuquerque. Ao refletir sobre os valores fundamentais que acompanham todo ser humano em sua trajetória. Lisboa. Harmonia ou Cruelty. Sua postura nômade é uma herança de infância e integrada ao seu cotidiano. O texto utilizado nesse caso são citações da Bíblia que relatam cenas de barbárie ou massacre. atingindo a superfície externa. reflexo do aprendizado do cotidiano. como calças. Estas peças autobiográficas foram extraídas de um convívio intenso.

“Ela fez” e “Nós fizemos”.as duas se referiam a acontecimentos recentes. diz-se que o ato de estudar é freqüente hoje e nos últimos tempos. O Estado de S. naufragando grande número de embarcações. idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa. ou seja.. do espanhol. se o verbo “ter” fica no infinitivo. com a qual se encerra peremptoriamente um arrazoado verbal: “Tenho dito”. O Estado de S. Em “Ele foi multado por ter desrespeitado a sinalização”. (Tornado provoca destruição na Unicamp. é formada por dois verbos conjugados no pretérito perfeito.”). por sinal. Até a próxima. Em italiano. da TV Cultura. que estão exatamente na discussão da mudança que sofre o aspecto da locução verbal formada pelo presente do verbo “ter” e por um particípio. “Yo he preguntado”..outubro/2000 pede algo a que. Ambigüidade à parte (teria sido melhor escrever “que situam no passado os fatos relatados”).”.N a p o n t a d a l í Laura Cardoso Pereira n g u A Tenho dito! Pasquale Cipro Neto Num de seus vestibulares. “das duas notícias. locuções como “tem havido” têm características iterativas (ou freqüentativas). O melhor de tudo está por vir. por exemplo. já que com elas se expressam fatos que se repetem. (Há um século. as duas notícias transcritas a seguir têm em comum o fato de se referirem a catástrofes provocadas pelo mau tempo. “noi facemmo” é o “passato remoto”. indicavam ações completamente concluídas.. Ele levantou e retorceu a estrutura do telhado. “I have seen”. a Unicamp formulou a seguinte questão: “Publicadas à exata distância de um século pelo jornal O Estado de São Paulo.) O tornado rompeu presilhas de aço de uma polegada de espessura. do italiano. que. “atirou”).. “Eu perguntei”. do inglês (que o pessoal que traduz filmes adora trocar por “Tenho visto”). há um século as locuções “tem havido” e “tem arrojado” (que podiam ser formadas com o verbo “haver” no lugar de “ter”) tinham caráter perfectivo. na verdade. No português de hoje. do francês. A questão pedia ao candidato que transcrevesse. porém. já que em outro item lhe determina a redação de uma continuação para uma notícia escrita hoje. como se vê... Paulo . Nas quebradas. bastava ao aluno ler com atenção e levar em conta elementos fundamentais da primeira notícia (o singular em “grande tempestade”. as expressões que situam os fatos relatados no passado”. No momento de sua publicação. do Diário do Grande ABC e de O Globo. que na notícia “velha” o passado recente é expresso por “tem havido” (que hoje equivaleria a “houve”) e “tem arrojado” (equivalente a “arrojou”. que começasse por “Tem havido no Mar Negro. O valor perfectivo da locução formada por “ter” no presente do indicativo e um particípio não morreu de todo. A própria questão pede ao candidato que demonstre essa percepção. Paulo. ocorrem com freqüência. nas locuções formadas pelo equivalente de “haver” e por um particípio. Parece evidente. que estão sendo recolhidos. Nada disso. “Elle a fait”. Quando se diz “Tenho estudado muito”. a expressão “até agora” e os 80 cadáveres). equivalem. Um forte abraço. Pasquale Cipro Neto professor do Sistema Anglo de Ensino. Como sempre. Até agora o mar tem arrojado à praia mais de 80 cadáveres. ou seja.. autor da coluna Ao Pé da Letra. “arremessou”. “lançou”. Esse valor. Como se viu. mais propriamente no segundo período (“. “ter desrespeitado” se transforma em “desrespeitou” no desdobramento da oração reduzida (“Ele foi multado porque desrespeitou a sinalização”). o enunciado 28 Cult . a locução tem valor perfectivo. 29/11/1895: Constantinopla – Tem havido no Mar Negro grande tempestade.. essa locução se transforma em “Falei e disse!”..)”.) 29/11/1995: Campinas – Um tornado com ventos de 180 quilômetros por hora destruiu anteontem a cobertura do ginásio multidisciplinar da Universidade Estadual de Campinas (. mas os recursos gramaticais empregados para expressar passado recente diferem de uma notícia para a outra. Está vivo em pelo menos uma expressão corrente. É de notar que. ao que hoje se expressa por “Eu vi”.) Dez árvores foram arrancadas com a raiz e os ventos arremessaram longe vidros da Biblioteca Central. respectivamente. o tempo de “noi abbiamo fatto” é chamado de “passato prossimo”. de 100 metros de extensão e 200 toneladas (. e “Noi abbiamo fatto”. tira da questão o brilho e a pertinência. consultor e colunista da Folha de S. é vivo em outras línguas neolatinas e no inglês. também de aço. já respondeu no início. Paulo.. as duas se referiam a acontecimentos recentes. pois.

texto inédito do escritor Ricardo Miyake outubro/2000 . do escritor Marcelo Mirisola Gaveta d Guardados e Doze poemas inéditos da escritora Vera Albers R a d a r da P o e s i a Memória prévia.RADAR c u l t Í N D I C E 30 32 34 36 N o v e l a C U L T Leia a primeira parte da novela Acaju. de Chantal Castelli. explora a “vertigem do tempo duplo” C r i a ç ã o Conto Leia Incidências.C u l t 29 .

discreta e vampira. Além disso. trazia flores da rua. sei que é uma estrangulada . iluminação e o caralho.. toda claustrofóbica manhã. Às vezes eu Leia a seguir a primeira parte da novela inédita Acaju (A gênese do ferro quente). de Marcelo Mirisola. O problema é que a escrota transformou-se em mulher perfeita. O NOME DELE É GATO.outubro/2000 Novela C U L T . Quando não estava fora do corpo. Louis Althusser TENHO UM GATO. Ana Gravílovna morreu. Outras coisas. sempre com um olhar demente e lacrimoso. Um dos mais talentosos e virulentos escritores da nova literatura brasileira. (. Umas coxas deliciosas. que o “Radar CULT” começa a publicar com exclusividade a partir desta edição. “ração pros gatos”.QUENTE) ACAJU (A GÊNESE DO FERRO QUENTE) A PRIMEIRA PARTE Alvaro Motta/Agência Estado no entanto. tampouco. soprava uma porra de “flauta sáfica” (invisível. puxava seu fuminho e me pedia.) ? Também uma filha que não existe/ acima do mal – o que exige paciência. além de homossexual a porra da flauta) e me chamava de doutor sabugo. resgatando em clave contemporânea a tradição das narrativas folhetinescas. mordia e deixava marcas – orientada por mim.. adaptado às lides dos fregueses – e junto com um negócio que ela chamava de “alma” – alçava vôos ou funcionava mesmo como uma extensão obscena e profissional da própria língua. uma boa dose de cara-de-pau – e revolta. Se não fosse verdade. sem perceber. O corpo. E uma oração: “O Pai Nosso”. Especialista que era em mamilos. creio. Trepo putas feito um santo. sempre – apesar de tudo... Ensinou-me a gostar de violetas. Ana g. Ela se ocupava de mosaicos e cerâmicas. O comprimento dos cabelos dela é que eram negros. Da minha parte. aprendeu a manchar guimbas com batom e. eu a pediria em casamento e viveríamos felizes para sempre. aprendeu o fundamental: abandoná-las nos lugares certos. A gente trepava menos no inverno. Eu não controlava essas coisas – nem ela. 30 Cult . uma salamandra tatuada logo acima do púbis. Mirisola é autor dos livros Fátima fez os pés para mostrar na choperia (editora Estação Liberdade) e do recém-lançado O herói devolvido (Editora 34).

Mas eu não fui. que atendia pela alcunha de dona Alzira g.. gastava meu dinheiro em antiquários suspeitos e estrias lhe subiam o púbis. As unhas e o queixinho duplo é que injetaram gasolina. Além disso. Ana g. Ou seja. mulheres e um lobisomem colombiano. Acho que faltou um siri. ensejou nosso azar foram os dentes encavalados – um anão empoleirado. Uma vez ela me deu um cocar Carijó de presente: – Vai vestir maravilhosamente bem em você. e cortava os assuntos pela metade. depilação e dentista. fez um filho esquisito com um japonês e “transou” – ela é quem insistia “transei isso. em primeiro lugar) e. eu discorria sobre orquídeas. Um chá de capimcanudinho que era especialidade dela – e mamilos. Ou foi por causa dele que não fiz a letra..C u l t 31 . pirataria de cigarros via Paraguay. A mãe. inveja e distância deliberada. incluído aí o céu da boca. o básico do asseio e higiene pessoal. Outra complicação foi negociar contraceptivos e absorventes íntimos em troca dos malditos incensos. Sei lá. gnomos e defumadores. O que. 1) Chás de Capim-Canudinho (e um cocar Carijó). Então ela caía de boca. 2) Eu feliz da vida. vermífugos. Ana g. Ana g. incapacidade de pegar na mão e encantamento. não queria saber de sabonete. às vezes por causa das paixões a que inopinadamente me submeti (o dever de cavar buracos. I love you baby: impecavelmente babaca e sentimental. Tive que gastar um dinheirão com bactericidas. nem fudendo. Os irmãos e o pai gente neurótica. Quem é que me beijou em 1978? – quer casar comigo? – de modo que não me lembro se foi sonho ou se recebi flores de uma mulher. tal filha. Até que um dia ela não quis dar o cu pra mim. Isso aconteceu antes de ela tomar gosto pelas matérias de sangue. Ou as bichogrilices e “transas” de Ana g. mamilos. Uma conversa meio burra. de resto. baby”.. chacras de puta que pariu. e aliás. 3) As flores de Ana g. como o dentista pôde comprovar e enlouquecer. dona Alzira g. e 4) Uma letra de música que não fiz. minha hippie particular. Uma tipa sórdida – depois é que eu fui descobrir – metida em contrabandos banais. por causa do tempo suicidado nas dependências do “Parque Eletrônico Futurama”. outubro/2000 . em vertiginoso leque: – Baby. preso – apesar das flores trazidas da rua. apaixonado e de frente para o mar. Tal mãe. foi presa em Uruguaiana. xampus etc. no entretanto. uma mulher perfeitamente tesuda. livros de Glorinha Kalil. transei aquilo” – homens. fodia em qualquer posição – e.ACAJU (A GÊNESE DO FERRO QUENTE) ACAJU (A MARCELO MIRISOLA compartilhava dessas bobagens por desaforo. desconfio. O vaivém obrigatoriamente ficava por conta dela. cobrava vinte reais pelo sexo oral: engolia o esperma. mandei tudo pros infernos. Uma língua viscosa e pequena (antes de ela se profissionalizar. Uma coisa pela outra. a dela. aprendeu a engolir porra com a mãe. Eu disse que não. desinteressante e devedora crônica de IPTU. o efeito dessa merda é diabólico – então. Às vezes eu cedia mesmo. Eu impus uma condição: “nada de visitas. Bem. nem fudendo. quase sempre. o lugar mágico (na divisa entre Santos e São Vicente) e sobretudo responsável por minha transformação – junto às manhãs claustrofóbicas e sobre as quais trabalharam “a manga dos eixos” – neste tipo entristecido. Quando sugeri uma fonoaudióloga ela não aceitou. evidentemente). Outra coisa. A mãe dela.

E os cento e onze homens que jazem despidos Do que viveram? E do que vivem os homens que os abateram? A O. E o manto sibilando ao vento bate Dourado. provavelmente Negro e escarlate. Dispo então o langor da preguiça terrena E abro-me ao estupor de uma nova novena Da aranha tecendo: a sua tela brilhando Independentemente do querer ou do mando. A. Gaveta d Guardados e 32 Cult . Cento e onze vilões Jazem.ALERIA PESSOAL PEQUENA GALERIA PESSOAL PE A J. É o amor da placenta pelo feto Que num arranque supremo Abre as portas da vida Secando-se. eliminando o ato. em minha mente. sem que se saiba a causa De sua ex-vida. RIMBAUD E vivo a ficção que eu mesma engendrei Da qual sou cativa. Terão sido crianças Terão tido mães ou vindo Do ventre de cães? Mas os cães que agora farejam odores Vivem do instinto que os fez ameaçadores. até mesmo o graal que paira soberano sobre nosso fato prescindindo do agente.outubro/2000 . CARANDIRU Cento e onze caixões Por onde se entrevê a tarja De um novo cache-sex. Tudo é virtual: aparência. MANDELSTAM Só há um amor infindável: o que a natureza [engendra No âmago das criaturas. substância. É o amor do anelídeo pela terra Onde se alonga e se encerra À espreita de organismos que o preencham. É o amor da seiva da calêndula Pela raiz dicotiledônica Que nutre cada dobradura De seu ser. É o que une a parideira ao parido Num agudo gemido Irreprimível. mas ao menos sei Que não há acaso possível. sobre fundo azul. AO SOL Sinto-te no calor do solo Na cor da lagartixa No cheiro do alecrim No denso exalar do estrume Na cíclica mudança E relume. HERÁLDICA O touro.

Vera Albers escritora residente em São Paulo.EQUENA GALERIA PESSOAL PEQUENA GALERIA P VERA ALBERS AFORISMAS Sentir-se quite com a morte é nada dever à vida Reprimo-me no azul enquanto o rubro se agiganta VELHICE Os que me fizeram vivem em mim. reforçar. Titânio se possível Elementos cujo átomo resista Como a palavra escrita. À MORTE (após uma leitura de Hilda Hist) Antes que vire trapaça O último jogo Antes que o espelho desleia O último traço Antes que o orgulho desmanche o último pacto Antes que a boca desdenhe o último beijo Antes que o olho renegue o último pranto Antes que vire quebranto o último augúrio NÃO Não temo a infâmia: Saberei. é autora do romance Deformação (editora Perspectiva) e da coletânea de contos Surtos urbanos (Editora 34). URGE CONSTRUIR É verdade. HAI KAI O ruído O escuro O ruído do escuro Antes que o palco rejeite o último ato Antes que a dor me desfaça Tome-me. E caracóis eternos colarão sua baba a teu intento.C u l t 33 . atualmente. Fundar-me. Tu. inteira. segues-me. está escrevendo um romance-folhetim outubro/2000 . Urge elevar-se acima E não esquecer: Amarrar. fixar as peças soltas Com amianto e tungstênio. colar. Viverei na memória dos que fiz? À VIDA Virás ensolarada pela estrada das pedras. cão sabujo. definhada. Armar palanques E neles colocar pregos de aço. Postes hão de pontear os teus passos poeirentos. Não terás O intervalo das coisas Tu que és Um único tempo. Arrasto-me no lodo seco E fujo.

O que ela busca. Em vez de contemplar o acontecido. a passagem das coisas: “Seu olhar parado é pleno/ das coisas que passam/ antes de passar/ e ressuscitam/ no tempo duplo/ da exumação”. É disso que trata o poema “Memória prévia”. seja a pequena memória particular: “Tento recompor/ as paredes de louça. mas as coisas passam R a d a r da P o e s i a 34 Cult . a poeta espera.outubro/2000 ./ a porta da rua apodrecendo. branca e intocável. Guimarães Rosa. O tributo ao modernismo é pago com invenção. dois olhos / de vidro opaco”. “o menino pensativo/ junto à água da Penha/ mira o futuro”. cuja herança ela não simplesmente repete. A reconstrução do passado é sempre desejosa. longe do staccato de uma simples sucessão.O abismo e sua flor O abismo e sua flor O A POESIA EM MEMÓRIA PRÉVIA SE revela após lento trabalho. Toda lembrança remete a algo que se perdeu./ os tijolos aparentes/ no muro onde dois registros/ – água e luz –/ saltavam. ou seja. Amorosamente. Mallarmé –. não é um “resumo do existido”. que existiu apenas em sua consciência ampliada pela vertigem do “tempo duplo”. O ritual praticado por Chantal Castelli começa pela paciente leitura dos mestres – Drummond. que é uma constante nas poéticas da memória. e tão indissociável da imaginação que “lembrar das coisas que nunca aconteceram” (Mark Twain) às vezes parece ser a única memória possível. mas revive. ou melhor. Drummond oferece uma imagem cristalina da memória-consciência enquanto simultaneidade. como ensina Vico. Chantal mira o passado como quem olha um espelho. num gesto que recompõe – e dilata – seja a tradição cultural. reproduzido (incorporado) logo na abertura do livro. viajando entre cacos e sombras. Daí o jogo de sombras e reflexos – a oscilação entre presença e ausência –. de Boitempo. viagem interior na qual os instantes convivem e confluem. mas o instante imaturo que sequer chegou a existir. no fundo do espelho. durée. É com esforço que se deixa vislumbrar.

é antes a busca profunda – no mar. “Tento recompor/ a memória prévia/ o tempo duplo/ a casa em chiaroscuro. como a água exausta “sob a pele de sal”.abismo e sua flor O abismo e sua flor O a IVAN MARQUES antes de passar. O desejo irrealizado gerou uma foto impossível: memória de uma ausência (“apenas a idéia / viajando na carne”) que comove e ilumina como um retrato do absoluto.00 São as meditações desse menino triste que percorrem. Na expressão de Drummond. leituras. Ambos estão condenados à pedra. os versos de Chantal Castelli. A poeta multiplica seus “serviços de amores” por mil objetos: lembranças. à “pele do sono”. a curva. Solitude. étoile. que aos 25 anos. em branco” (Mallarmé). “o poema calado. Nos próximos livros.” A ênfase no esforço é também uma maneira de dizer o fracasso a que se submete todo escritor. desfiou recordações. Em sua “mínima nau”.C u l t 35 . Em compensação. mar. grotas. à “plácida estátua de esquecer”. o corpo. Eis o que o lirismo tenta captar. Chantal Castelli já se encontra em plena viagem. regatos) criando a impressão de uma poesia dispersa e “sem pátria”./ no papel que/ (mesmo querendo)/ não posso rasgar. – R$ 15. efêEditora Com-Arte mero. o sertão mitopoético) e de lugares (veredas. 74 págs. imaturo: “viver é tel. a autora reafirma seu norte: o alvor e a “impalpável fibra” do silêncio. O que existe desde já – e não é pouco – é a consciência do caminho a ser percorrido. devaneios. o amor. récif. o gesto. A vida em sua plasticidade: o movimento. uma constelação de temas (a memória.. Na contemplação dos retratos. seria possível acusá-la do excesso cometido por Raul Pompéia. “imenso trabalho nos custa a flor”. a “flor sem memória” (Orides Fontela) que os poetas desentranham do abismo e da vertigem. E o esforço de repetir e ressentir não comporta mágoa. em Memória prévia pleno viço – que Chantal Castelli portanto é falso. Mas aqui há a compreensão de que só o absoluto (o que não existiu) permanece. nos abismos – dessa beleza perene e transparente que aos obstinados subitamente se entrega. a linguagem. recolhendo “flores mínimas” no passado e no cotidiano. Ivan Marques jornalista e doutorando em literatura brasileira na USP outubro/2000 . com sobriedade rara num livro de estréia. certamente haverá mais escolha e depuração: o aprendizado da própria voz supõe a experimentação de peles e estilos. movido a ressentimentos. o retrato inexistente do poema “Revelação” é bem mais fecundo e dinâmico: “Tento decifrar / uma foto que não há: / ao lado da janela meu pai / e eu / e nosso reflexo no vidro / de uma tarde morta”.. a poeta vê apenas estase e esquecimento: o rosto triste do anarquista Gino Meneghetti se parece com a melancolia do tigre na jaula – “o olho deita ferrugem / em sinal de derrota”. 11/3818-4087 saudade prévia”. Se a memória fosse apenas o que o tempo adensa e distancia. Entre a sombra deitada pelo esquecimento e a “substância” dos retratos impossíveis (o “não-tempo” de Guimarães Rosa).

o Vítor. Lisa Makino reparando em suas formas. naquela sala estreita cheirando a flores mortas e velas gastas. vejo um rosto pela janela de vidro. procuro quem me salve. por que. ele. o que era? Então. de narinas oclusas e algodão amargo. devo-lhe muito. visíveis apesar das roupas escuras que usa. tentando me lembrar o que me trouxera ali. pela Com-Arte. 1998) C r i a ç ã o Conto 36 Cult .br). esperando que ela não tenha percebido a sombra que cresce e se desenha em meu rosto. mal chegado da notícia e da rua. um rosto magro e longe. afinal era quase meia-noite. o morto olhando para o teto. as demais pessoas pensando o mesmo. É claro. sim. mas: de onde?. mais uma vez. cursou Letras na USP e leciona teoria literária e literatura brasileira na UniFMU. um corpo que vejo de longe. e não penso. você era amigo do Vítor?. olho de novo aquela pessoa escurecida pela fome. respondo.NCIAS INCIDÊNCIAS INCIDÊNCIAS INCIDÊNCIAS INC RICARDO MIYAKE O CORPO NO MEIO DA SALA OPACA.. olho para o rosto de Vítor. concordamos. toca meu ombro. alguém que conheci?. só eu comparecera. Quero chorar. Uma das mulheres. mas seguro a convulsão que me sobe. Digo meu nome. sem olhar para minha interlocutora. uma vigília longa estava prevista. ou por todos nós. mas aos poucos vejo mais que o perfil reto e escuro do féretro. completo. desejando que ela percebesse minha má-vontade e fosse embora. de todos. UM corpo estreito no espaço restrito do caixão. divórcio. pelo Vítor. sempre foi bom em questões legais. publicou. ela retribui. numa firmeza que desconheço. Um silêncio. uma morena de cabelos e olhos avermelhados. já que eu próprio não saberia explicar minha presença junto às flores e às velas murchas. e olhos se voltam para mim. só eu ali. necessário conversar e incerto o caminho das palavras. expressa apenas na lágrima que surge no olho esquerdo. e sonho beijá-lo de leve. Você gostou dele? Sim. por instantes sem saber o que faço nesse lugar. os olhos nessa altura já deteriorados pela falta de oxigenação. miro pela última vez o rosto daquela mulher e de seu marido e me despeço. o que era verdade. essas coisas. me desculpe. penso. numa sensação sem rumo de felicidade. desconhecendo se isso mesmo. os olhos justamente. E pela primeira vez a encaro. sem esperança. colabora com o jornal EntreLivros do curso de Editoração da USP e com a Revista A (www.com. era parente?. soprando esperança em seus ouvidos. Livro de coisas (poemas. entre madeira e panos. protegido pelo vidro. e eu digo: ele já fez vários serviços para mim.outubro/2000 . então caminho devagar. algumas pessoas em volta. a noite ganhando contornos frescos sem horizonte visível. Sou a mulher do Vítor.. e aquela gente toda. por ela. E. aproximando-se.revistaa. acrescenta. não sei se por mim. sim. perguntariam e eu diria: de certo modo. ares cansados e cheiro de flores murchas e velas amolecidas pelo fogo. me forço a isso até para evitar contatos com os outros. Ricardo Miyake nasceu em São Paulo em 1962. Ela de novo: acho que não conheço você.

contrapondo-se ao “carnaval das caravelas” que caracterizou as comemorações oficiais outubro/2000 .C u l t 37 Portugal-e-Brasil R EDESCOBERTA DO B RASIL .Outras visões. outras imagens Nilson Moulin Louzada fotos de Luiz Braga O ciclo promovido pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada de Lisboa prossegue este mês com intelectuais das duas margens do Atlântico em torno de uma discussão dos 500 anos de encontros e desencontros entre Brasil e Portugal.

R EDESCOBERTA DO B RASIL U lissipônia. que se prenunciava desastroso desde o início de 1999. Enquanto setores tradicionalistas (lá e cá) continuam a utilizar os esgarçados conceitos de “achamento” e “descoberta”. das polêmicas entre os seguidores de Freinet. Sara. Piaget e Vigotski (é claro 38 Cult . pedagógicos e políticos. tratamos de mobilizar conferencistas em ambas as margens do Atlântico. sou obrigado a discordar do mestre Saramago: houve alguns aspectos negativos no processo de integração.. “Precisamos dizer não a tanta manipulação temperada com mediocridade e gastos supérfluos. o bom humor do cidadão com quem se fala pelas ruas e nas livrarias indica que existem benefícios palpáveis para a maioria. a abertura se deu com “Uma língua. Beatriz. o amigo da “Campanha de Moçambique”/UNESCO continua firme em seus princípios éticos. Trata-se de uma cooperativa de professores que. Fotógrafos (incluindo o nosso onipresente Salgado) e outros artistas não deixam emudecer as luminosas paredes de cinco metros de altura.. em termos de “invasão” e “ocultamento”. Autores portugueses e africanos animam debates nos lançamentos de seus livros. Escultores e pintores africanos ali realizam oficinas cujos resultados ficam expostos nos labirínticos corredores do ISPA. Esboçado o cenário. O musicólogo mineiro José Maria Neves (UFRJ) emocionou a todos com “Música para os mortos na colônia brasileira” e Rui Mário Gonçalves (Universidade de Lisboa) surpreendeu-nos com seu cotejo entre as vanguardas artísticas. mas hoje.). como fazem questão de frisar nossos amigos lusitanos.. Igualmente fundamental no processo de ensino-aprendizagem. várias culturas”. autora de Mar aberto: Viagens dos portugueses. renomado também como editor (Gradiva. Lissabon. Lisbona. Em fevereiro deste ano.” Vozes dissonantes que então éramos. publicado pela Editorial Caminho em 1999 – e com a Dra. outras imagens”. que precisamos pedir esprestada à Universidade Nova de Lisboa. autor do magnífico painel que domina a parte superior do auditório onde trabalhamos no ISPA.. Para além dos fundamentos da psicopedagogia. Politicamente de esquerda.. acolhedora e cosmopolita que se estabeleceu um diálogo diferente a propósito dos 500 anos de des/ encontros entre Brasil e Portugal.. Inocência da Mata. vamos à série de colóquios programados para este ano: “Portugal-e-Brasil – Outras visões. (As mui gentis Ariadnes do Instituto respondem por Delfina.. Nossos anfitriões: professores e estudantes do Instituto Superior de Psicologia Aplicada/ISPA.. deixou-nos chocados com o relato das . Andrea. os alunos acham-se mergulhados num ambiente de arte e literatura.. Lisbonne.). em Portugal e no Brasil. “entrar para a Europa” está fazendo bem a Portugal. Psicólogo e psicanalista. encabeçada por Frederico Pereira. são-tomense “boa de briga”. Neste particular. nas primeiras décadas do século XX. ao longo de vinte anos. um grupo bastante eclético de brasileiros passou a argumentar. O pintor Malangatana. se me é permitido o “anacronismo”. reunimo-nos em Lisboa com a direção do ISPA. também na ex-capital do império. O Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp justificou sua fama além-mar: Haquira Osakabe e Tânia Alkmim brilharam com Luciana Stegagno Picchio – professora da Università degli Studi di Roma e grande divulgadora da literatura brasileira e portuguesa na Itália..outubro/2000 que lá também o grande teórico russo constitui referência axial).: sem dúvida. Literatura e Psicanálise. Nauseados com o “carnaval das caravelas”. transformou-se num centro de referência europeu no que concerne à formação de jovens vocacionados para a “intervenção social”. o enxuto e sólido catálogo de publicações do ISPA é de fazer corar certos editores brasileiros que ainda acreditam que quantidade gera necessariamente qualidade. E é com essa Lisboa bem-humorada.

editor da revista Sem Terra. com instituições e intelectuais de Roma e Lisboa. um grupo de marinheiros. Até mesmo nas fotografias de um interior de uma casa. levou-nos às lágrimas ao entrecruzar versos de Cecília Meireles.. do fotógrafo Luiz Braga. o espectador percebe em cada fotografia o que há de mais natural e espontâneo no mundo e nos seres desenhados pelo olhar do fotógrafo. o olhar demorado e contemplativo são também signos de uma tradição. atriz. de uma história que Luiz Braga recorta no dia-a-dia da gente amazônica. de Carla Camurati. As variações de verde. A preguiça. o rosto de uma cunhantã. “Pindorama – Terra Brasilis”. não teve energias para nenhum tipo de catarse. a direção do ISPA reiterou seu compromisso de publicar os anais do conjunto de seis colóquios até março de 2001. outras imagens”. estuda um acordo de co-edição com o ISPA. A editora Cortez. pinturas de cores fortes que aparecem nas paredes e fachadas de certas casas e paisagens de Belém e da Amazônia. outubro/2000 . Déa Fenelon (PUC-SP) e jovens professores paulistas iniciaram ou retomaram diálogos com pesquisadores da Universidade de Coimbra e de Lisboa. Ouvir um psicanalista discorrer sobre sustentabilidade social e o Dr. É esse outro tempo que nos convida a admirar sem pressa as imagens fisgadas num sonho mínimo de cada noite ou no breve devaneio de cada dia.Desenhos do olhar Milton Hatoum Leia abaixo o texto de Milton Hatoum. “Portugal. Em março. vamos consolidar laços de cooperação. o qual cuidará da distribuição de títulos brasileiros não apenas em Portugal. Não há denúncia social nem didatismo. os rituais religiosos. de José Manuel Tengarrinha e José Jobson Arruda e Um sertão chamado Brasil. Almeida Santos. Por meio desse olhar. título talvez um tanto ambicioso para apenas dois dias de seminário. houve incursões diferenciadas quanto a algumas linhagens historiográficas contemporâneas. Aos poucos. Alípio Freire. os artesãos de barcos e bichos para a procissão do Círio de Nazaré. Moçambique e outras nações africanas. o passeio ao léu. o cotidiano das pessoas simples adquire uma dignidade e uma beleza incomuns. a luminosidade. É esse cotidiano humilde que a lente de Luiz espreita com sutileza. sua aura de tradição fortemente enraizada no trabalho humano. fixando os gestos e atitudes de um pequeno mundo que ainda vive num tempo peculiar. de uma cultura. Ana Maria de Almeida Camargo e Heloísa Bellotto (USP) foram responsáveis pela seleção do sexteto de historiadores brasileiros. Brasil: Quem fomos? Quem somos?”. vermelho e azul em superfícies às vezes descoradas dão à rusticidade do ambiente uma rara beleza plástica. As fotos lembram quadros. exigir mais ética em nossas relações globalizadas foi um preâmbulo auspicioso. São imagens que nos remetem a outro tempo: o da demora e o do prazer na demora. um velho músico. “500 anos de luta e luto”. reuniram-se historiadores. Não cometemos gafes diplomáticas quanto às portas preferenciais da União Européia: já estamos produzindo. a uma beleza telúrica e a uma dignidade que o olhar paciente do fotógrafo transforma em arte.. da Coorde- A arte de Luiz Braga surpreende e encanta pela sua aparente simplicidade.C u l t 39 . que não perdeu sua autenticidade. as cores. esses e outros recursos técnicos não são apenas exercícios formais. bem mais que “vana verba”. reflexo de um olhar que é também interior. naquele Moçambique já exaurido pelos estertores do processo de descolonização. “500 anos de predação”. de Nísia Trindade Lima. objetos) que dão humanidade a um ambiente desprovido de pessoas. Por isso. sob curadoria de Rosely Nakagawa. literalmente. Bandeira e Drummond com as inflexões de poetas africanos e portugueses. Depois dos vexames e das violências oficiais em Porto Seguro. Princesa do Brazil. O rigor do enquadramento. autor dos livros Relato de um certo oriente e Dois irmãos. foi. enchentes que faziam suas primeiras vítimas no Vale do Limpopo. Nessa seqüência de fotos não há exotismo nem estereótipos. superando a retórica das efemérides. Para o ano. de São Paulo. sobre a mostra “Desenhos do olhar”. mas servem para revelar o recorte de uma verdade íntima. o olhar de Luiz Braga se detém em detalhes (quadros. com Angola. Presidente da Assembléia da República. Carlota Joaquina. mas a qualidade dos debates superou as previsões. Valmir Assunção. Nessa altura. as fotografias parecem sugerir ao espectador que o cotidiano humilde da Amazônia é uma viagem íntima e sutil a algo que ainda não se perdeu. engasgado. que será exposta no ciclo “Portugal-eBrasil – Outras visões. Livros que suscitaram interesse: Historiografia luso-brasileira contemporânea. E Maria do Céu Guerra. Os blocos temáticos definidos para as mesas sugeriam atitude diversa da pirotecnia espalhafatosa e burlesca do governo FHC: “Terra em xeque”. não seccionado pela urgência. Discutiu-se a produção didática de história sobre os dois países. retratos de família. havia crescido a expectativa em relação ao terceiro colóquio. por assim dizer. as festas populares. no âmbito educativo e cultural. as sombrinhas e os guarda-chuvas coloridos são imagens impregnadas de valores humanos. A projeção de D. No conjunto. um choque cultural: o público.

não perdeu a atualidade política. Vários estudantes não identificavam naquelas falas nada similar ao Brazil das telenovelas e por isso mesmo intervieram com insistência. Bilingüismo e biculturalismo é um tema que atraia leigos? Nos dias 10 e 11 de novembro vamos agitar o ISPA a pretexto de “Literatura.R EDESCOBERTA DO B RASIL nação Nacional do MST. Último colóquio dessa temporada em lusas terras. “Política e políticas: o velho e o novo”. Os seminários serão retomados em 27 e 28 outubro com “Multiculturalidade. A professora Stegagno Picchio comprometeu-se a publicar sua versão italiana brevemente. O subseqüente desempenho de ambos. do Instituto Socioambiental/SP.. O relatório de Graciliano Ramos. ao menos em literatura. desenvolvimento e educação”. a “lenda viva”. deixou-nos emocionados e. O professor Aziz. que provocou algumas perplexidades. ergueu bem alto a bandeira da sociodiversidade e da valorização do patrimônio ambiental da Amazônia. em meados de dezembro. O terceiro dia do terceiro colóquio manteve o andamento vivace: a deputada Janete Capiberibe. manteve-se o registro alto: dentre os parlamentares portugueses. ampliaremos o debate quanto a cenários para 2002. destaque para a deputada do Partido Verde. a lentidão compensa? Lançamentos de livros com uma ótica “da praia para os textos trazidos pelas caravelas”: brasileiros também podem glosar Fernando Pessoa. Nilson Moulin Louzada tradutor. Frederico Pereira lendo o discurso que João Alberto Capiberibe havia proferido na abertura da Semana da Índio. de novo. No dia seguinte. Isabel Castro. comentadas em texto de Milton Hatoum. Esaú e Jacó.. apresentou um depoimento forte. o mais que geógrafo Aziz Ab’Sáber. do Instituto de Estudos Avançados/USP e o antropólogo Carlos Alberto Ricardo. que conquistara a platéia desde sua primeira fala. Mesclando a reflexão acadêmica com a práxis de governo em diferentes Estados e com temperos posteleições municipais.. vai questionar a atual versão brasiliense do neocolonialismo. O encerramento. O governador Ronaldo Lessa. interveio em nome do governador do Amapá. Sísifo contemporâneo. que os brasileiros desconhecem. esperançosos. pareciam ter preparado um curso resumido: “Brasil em mutação”.. Este manauara. com o Dr. 40 Cult . Nada de lamúrias nem verborragia de cassandras: um panorama de lutas. Leonardo da Vinci. de norte a sul e de baixo para cima. Os professores Carlos Simões e Luís Silva Pereira abriram o leque das intervenções do ISPA: “Ecologia urbana e a política indigenista do Chile – O problema Mapuche”. nos jornais e televisões de circulação nacional. ausente por estar combatendo o narcotráfico com o apoio da CPI do Congresso. O vereador e cacique Ramos Santos e Cassiripiná Waiãpi deram mostra eloqüente da sofisticação política de lideranças indígenas no âmbito do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá. então prefeito de Palmeira dos Índios.. vai relatar pessoalmente que. escritor de livros infanto-juvenis.. O mestre Eduardo Lourenço irá mesmo juntar-se a nós? Uma certeza: haverá uma reedição de Geografia da fome. junto do representante do MST. trabalha com formação em educação ambiental .outubro/2000 Cinema de poesia: Joel Pizzini para fazer ver que somos capazes de criar muitíssimo mais e melhor que telenovelas fajutas e açucaradas. do extraordinário precursor que foi Josué de Castro. política e políticas culturais”: uma nova geração de intelectuais orgânicos (quem “deletou” Gramsci?) vai polemizar. PSB/AP. uma das “passionárias” de um Portugal renovado e vigoroso. não é só matéria para professores de literatura. em Macapá. PSB/AL. tendo como pano de fundo fotos do amazônida Luiz Braga. adquiriu uma densidade quase dramática.

nos seus meios e nos seus destinos futuros. abdicando de toda a vaidade e contentando-se em ser modesta parcela de um todo.. é necessário que cada um dos parceiros se vença a si próprio. Urge reconhecer a existência da mania que.. gastam horas. e ainda antes de começar o desafio entre jogadores portugueses e ingleses. na tribuna de um campo de foot-ball. e portanto mais próprios para rapazes entre os 10 e os 15 anos de idade. é uma escola de solidariedade. uma revolução que não custou a ninguém desgraças ou lágrimas (.M e m ó r i a e m r e v i s t A A GERAÇÃO DO PONTAPÉ NA B OLA PONTAPÉ BOLA Vez ou outra esta página reporta-se a um livro. aliás beneméritas.) explicava-me há tempos. reproduzindo parte de crônica do autor português Agostinho de Campos. prestassem alguma atenção a este caso do foot-ball.. consiste no seguinte: cada domingo. de sol a sol. Mas parecia-me razoável que as pessoas. portanto. e vem a ser que esta camada de gente moça. a geração atual do pontapé na bola. Mas uma coisa pode afirmar-se com axiomática segurança. mas sobretudo das classes populares. em vez de querer brilhar por si só. O exemplar de onde a extraímos pertenceu à biblioteca de Oscar Mendes e hoje integra a da “Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes”. mesmo jogado macarronicamente.) Donde vem e para onde vai esta revolução de costumes? (…) É difícil prever que rumo seguirá.. aos pontapés uns aos outros (…) O foot-ball é um jogo ótimo para rapagões de 16 a 20 anos. como eles gostam. a ambição de um jogador vaidoso comprometerão sem remédio a sorte do grupo. é geral: e procurar regulá-la ou desviá-la (sem a sufocar) na direção de outros jogos menos violentos. O egoísmo. Há quem diga que é um mau presente e que com ele vai às vezes disfarçada uma lesão cardíaca. a indisciplina. no seu caráter. No entanto.) Lembrei-me que o foot-ball não é a única instituição inglesa que nós temos importado e estragado (…) Evidentemente. Lembramos que na Cult de junho/98 (nº 11) reproduzimos sobre o mesmo tema texto de Monteiro Lobato. ensinandoos a dar pontapés na bola e a deixarem de andar. as razões profundas e gerais donde resultaria fatalmente a vitória destes sobre aqueles: – O foot-ball. disse o meu homem. que estão dirigindo em Portugal o progressivo movimento da educação física pelos jogos. nem se não... há dez ou quinze anos a esta parte. há de ser também totalmente diversa delas. É o que faremos desta feita. e onde quer que a higiene da infância e da mocidade se encontram bem organizada. dezenas de milhares de rapazes portugueses de todas as classes.. principalmente em Lisboa e onde quer que haja um terreno plano disponível. inserida no livro Educar (2ª ed. Um amigo meu (. vibrando pontapés infatigáveis e convictos sobre inocentes bolas de borracha encouradas (.. nem a todos é permitido jogá-lo.C u l t 41 . no seu modo de encarar o presente e. e os portugueses não aprenderão a jogar enquanto se não resolverem a adotá-las (. uma vez lançada à vida. A glória de todos só pode resultar da abdicação e da humildade de cada um. Não sei se vai. Tento na bola! outubro/2000 . ou pseudo foot-ball infantil. Há quem diga que o rito português é herético e que os nossos rapazes não sabem ou não querem amoldar o seu pontapé ao dogma britânico. Para que o grupo vença. absorvida em ocupações e atividades físicas totalmente ignoradas pelas suas antecessoras. 1919). ainda que estejam na idade para isso (…) O presente mais bem aceito hoje por um rapazito português de 10 a 12 anos é uma bola de borracha. stá a operar-se em Portugal. Ora..). na sua psicologia. forrada de couro e acompanhada da competente bomba de pressão. fugindo à constante das revistas. os ingleses compreendem e praticam E Cláudio Giordano impecavelmente estas regras. é preciso não esquecer que na Inglaterra. ao menos em Lisboa e redondezas. não haveria para mim tarefa mais sedutora do que transformar os meus compatriotas em seres verdadeiramente sociais.

publicados na revista brasileira Remate de Males. Jorge Guillén. Giuseppe Ungaretti e Ezra Pound. a inspiradora de Montale.” Têm início então suas freqüentações literárias: em 1967. manifestei ao galerista o desejo de retroceder e acrescentar corpos e cabeças humanas aos meus quadros abstratos.” A pintura e a poesia foram as paixões que substituíram em Annalisa seu primeiro amor pela música. e todos esses encontros se transformaram na prosa poética do volumezinho Occhio magico. Nesse entretempo havia publicado alguns livros de versos e de prosa e a literatura me pareceu o refúgio ideal do bluff. Adoraria ir. Seus cabelos ruivos (de um “biondo tiziano”. publicado por Vanni Scheiwiller. Insistiu o galerista que eu devesse continuar com a pintura abstrata. Ao fundo da sala. mas não queria tornar aquilo um habitus definitivo. Talvez buscasse exprimir então algo para o que a minha timidez não encontrava palavras. Aldo Palazzeschi. A necessidade de reclusão e intensivo tratamento fez dela uma jovem retraída. Seus gestos são amáveis e sua cordialidade expressa bem seus dotes de “Emily da alta burguesia lombarda”. Em 1964. surge no corredor de sua casa em Lugano. “Infelizmente. tradutor desse livro que está sendo lançado no Brasil pela editora Record Eugenio Montale e Annalisa Cima em Milão (1969) Ivo Barroso a musa de Montale nnalisa Cima. Começamos a falar sobre a tradução do Diário póstumo. Marianne Moore. programada para sair no Brasil em outubro. Havia chegado ao abstrato por amor às cores. e me estende a mão. Em 1968 encontra Eugenio Montale. atravessando ulteriores experiências. mas só posso fazê-lo em outra ocasião. pois a arte é por natureza in progress. conhece Murilo Mendes. refutando o clichê que me queriam impor. refugiando-se em atividades menos solicitantes. Annalisa usa óculos de lentes coloridas para atenuar sua fotofobia: o excesso de luz provoca-lhe irremediáveis enxaquecas. pois era essa a expectativa do mercado. de que escapara graças à minha índole rebelde. combinando assim o abstrato de meu último período com o figurativo. para quem ele escreveu os 84 poemas de seu Diário póstumo. acrescentando apenas algumas variações. na Suíça. A escritora e organizadora do Diário póstumo de Eugenio Montale fala sobre o escritor italiano a Ivo Barroso. Contei com a amizade de dois ilustres brasileiros. e Annalisa logo manifesta seu pesar por não poder estar presente ao lançamento. no dizer de Montale) formam uma auréola contra o fundo foscamente iluminado do corredor. quando estava escolhendo os slides para um catálogo de meus trabalhos.L i t e r a t u r a i t a l i a n A Annalisa Cima. Cancelei meu contrato e finalmente pude voltar a pintar nus e cabeças.outubro/2000 A Eulálio. um piano de cauda recorda os tempos em que se preparava para uma carreira de concertista. interrompida pela enfermidade pulmonar que a surpreendeu aos 16 anos. dando início a uma grande amizade baseada numa profunda estima recíproca que . que aliás traduziu alguns de meus poemas. o poeta Murilo Mendes e o escritor Alexandre 42 Cult . Já estive no Brasil em 1966. quando expus alguns de meus quadros. da Universidade de Campinas. “Comecei a pintar aos 17 anos. o compositor Gian Francesco Malipiero. compromissos prévios impedem que me ausente agora.

ansiava poder contar com alguém – um discípulo. do futuro. em suma. a amizade lhe pareceu a única saída para saborear o prazer de uma projeção que o distraísse da sensação de incapacidade que o acompanhara durante toda a vida: a inabilidade de combater os outros. E o que vem à baila ex abrupto é que eu sou a musa e tu o poeta. nos menus dos restaurantes. para experimentar o terreno. Uma leve brisa entre ofuscar de luzes faz erguer nuvens de areia e espuma.” De seus encontros.C u l t 43 . um quase filho – que lhe fosse fiel bastante para desafiar as borrascas que um enredado projeto. entre eles o professor Facheris que ensinou a Annalisa rudimentos de latim. É o saber-te igual num tempo diverso que talvez me doa. 1968. que acolheu em sua casa inúmeros refugiados antifascistas. foi para ela um ato absolutamente natural. viva o exterminador. Oriunda de família tradicionalmente ligada à indústria papeleira. Surge um livrinho de dentro do armazém de tua grande bolsa. uma crítica. a enfermidade forçou-a a uma vida semi-reclusa. Terso perfil de mar voz que trazes assombro desanuvias pensamentos fica naquele mundo que confunde presente e passado gotas de tempo e sons. balneário do Mar Lígure. obra do escritor italiano que será lançada no Brasil este mês. enfim em qualquer suporte gráfico que lhe estivesse à mão no momento propício. O vate é morto. um presente. o corajoso-spleen. tendo-me conhecido. visse em mim traços que o tranqüilizavam: aquela melancólica-alegria.” Tratava-se do “Terso profilo di mare”.Leia abaixo um poema de Annalisa Cima dedicado a Montale. rápido porém um gesto teu anula essa distância. Grande era a sua afinidade com o avô Francesco. uma sede de amizade desinteressada e certo amor ao paradoxo. e Profilo di un autore: Eugenio Montale. que integra o livro Ipotese d'amore. Alegre notícia. Em sua juventude. Incontro Montale. de repente. a melancolia que acompanha cada gesto nosso. que estava com 72 anos na época em que Annalisa contava apenas 27. Quando outubro/2000 . são capazes de vencer. em que predominava a presença de pessoas idosas. consegui ler para ele um poema que lhe havia dedicado e pedi sua opinião. Annalisa era ainda muito nova quando da separação de seus pais e foi viver em companhia dos avós paternos em San Giovanni Bianco. desde muito pensado. publicado por Annalisa em 1984. para suportar com menos angústia o peso dos anos. Depois seguiram-se pequenas provas: uma poesia. além do medo do presente. do livro Ipotese d'amore. no verso de envelopes. aprendera que a música e a poesia distraem da tristeza da vida e do aborrecimento que os outros nos causam. “Montale. foram brotando pequenos poemas – anotações jocosas ou observações de caráter particular. e um poema extraído de Diário póstumo. Mais tarde. iria inevitavelmente provocar depois de sua morte. cristalino gelado onde espelhar-se é um outro dia Annalisa Cima Tradução de Ivo Barroso se materializou nos livros Eugenio Montale. sentir-se ao mesmo tempo mestre e inspirador. E preencher esse futuro com um projeto concreto talvez lhe parecesse o melhor modo de exorcizá-lo. 1977. nas proximidades de La Spezia. onde figuram muitos outros poemas dedicados a Cherubino-Montale. fervoroso adepto de Gobetti. em cartõespostais. O poeta via-se de repente transformado em musa e essa sensação inspirou-lhe um dos mais belos poemas do Diário póstumo: “Ex abrupto”.M. EX ABRUPTO Um espaço de anos nos separa. principalmente nas férias de verão passadas em Forte dei Marmi. envolvendo em geral os componentes mais íntimos de seu círculo de amigos – escritos por Montale em guardanapos de papel. e límpido ressoa um verso que devo então julgar. Apesar de minha timidez. 1973. via Bigli. Na velhice. Eugenio Montale Tradução de Ivo Barroso A E. E foi o caso que. “Foi meu editor Vanni Scheiwiller quem me apresentou a Montale. Conviver com Montale. mas também do desconhecido.

este presente de Montale a todos nós é uma fábula que nos conta como a força da amizade e da poesia pode tornar real um sonho.Eliot . que pretendia ser o curador da obra completa de Montale para a Mondadori.S. com os últimos vinte e quatro. Uma primeira recolha em livro seria feita quando os trinta primeiros poemas fossem divulgados e o conjunto dos 84 poemas em 1996. Tive de organizar uma entrevista coletiva em Milão para exibir os documentos em que Montale não só me fazia sua executora testamentária como me tornava herdeira universal de sua obra. e Os gatos. mediante uma série de condicionamentos que iam sendo criados ludicamente à medida que os compunha. mais que um diário. E havia um maior. em suas mais variadas formas fragmentárias. para integrar o projeto. já trazia em mente desde muito: a publicação póstuma desses poemas. Não que necessitasse de um estratagema bem urdido para conservar seu nome em evidência quando não mais pertencesse ao mundo dos vivos: sua poesia já o consagrara em vida e o eco de sua voz continuaria certamente a ressoar pelos tempos em fora. O crítico e poeta italiano Giovanni Raboni. exercendo com refinamento inexcedível sua aguda percepção da vida e seus valores. autor do ensaio literário "O Corvo" e suas traduções.outubro/2000 numerados de um a dez. segundo ela. aqui em Lugano. “Grande celeuma se levantou na imprensa italiana quando foram publicados os primeiros versos. com a ajuda de Annalisa. E em doses reduzidas e periódicas. publiquei um livro com a reprodução de todos os originais. de modo a marcar de tempos em tempos sua presença editorial. durante o qual ficaram expostos ao público os originais da obra. o poeta começou. de Shakespeare. Estou muito satisfeita em saber que seu tradutor brasileiro a considera das mais representativas. ensaísta. inclusive a lacragem dos envelopes e as instruções para abri-los. que estavam depositados num banco. a montar o projeto que. Por isso organizei um seminário sobre o livro. dizendo que nela o gênio poético de Montale se extravasa de maneira tão cabal que o leitor irá encontrar o vate em sua plenitude.” Ivo Barroso poeta. Devo dizer que hoje não paira qualquer dúvida quanto à autenticidade da obra e sobre o seu valor literário na totalidade da produção montaliana. autor dos livros de poemas Nau dos náufragos e Visistações de Alcipe. Annalisa Cima e seu marido durante entrevista concedida a Ivo Barroso. por ocasião do seu centenário de nascimento. uma poesia. Ele teve a precaução de registrar tudo em cartório. Talvez. Mas era a forma pela qual seu espírito lúdico procurava exorcizar o tempo e a morte. num texto entremeado pela fina ironia com que sutilizava seus escritos mais requintados. Ao lado. Montale havia estabelecido em testamento que a publicação inicial devia ser feita em plaquetes. dizendo que eu os teria transcrito de gravações em fita ou de autógrafos muito rabiscados. não raro um jogo. esses poemas alcançaram um número considerável. “A cada encontro me anunciava uma surpresa. de T. cada qual contendo seis poemas.” Montale estabeleceu que os poemas seriam publicados somente quatro ou cinco anos depois de sua morte.Acima. em número reduzido de exemplares. Annalisa e o poeta Murilo Mendes em 1974. Montale distribuíra os poemas escritos para ela em dez envelopes 44 Cult . com o risco das duras conseqüências que Annalisa teria mais tarde de enfrentar. pôs em dúvida a autenticidade dos poemas. além das cartas e dos documentos em que me confiava a publicação de sua obra completa. Também o crítico Dante Isella. tradutor da obra completa de Rimbaud (Topbooks) e dos volumes Os sonetos. A cada ano deveria ser sorteado um envelope e publicado seu conteúdo em plaquetes. fez tudo para denegrir o Diário póstumo e sua inspiradora. e convidei pessoas de mérito entre os escritores e críticos de vários países para se manifestarem na ocasião. mesmo sem ter lido a plaquete. em outubro de 1997. Posteriormente.

D o s s i ê C U L T expressionismo alemão Nu. xilogravura de Karl Schmidt-Rottluff (1909) .

outubro/2000 . dedicada a Oscar Panizza. tela de George Grosz (1917/18) 4 6 Cult.O cabaré do novo homem Claudia Cavalcanti Procissão funeral.

às vezes até primitiva. D efinir o termo “expressionismo” como a forma de arte criada a partir do impacto da expressão. e seu grito parece ecoar no vazio. cujos modelos são. O grito é a forma de expressão oral mais enfática e por isso estará presente também na literatura. o impressionismo se desenvolveu na literatura (como impressionistas alemães classificam-se Hugo von Hofmannsthal. não se restringiu às artes plásticas e à literatura. Porém. parece tão correto quanto genérico. Do mesmo modo que o expressionismo. Em todo caso. 60). de Edvard Munch. muito menos alemã. tema de uma antologia poética e de uma exposição que será inaugurada no dia 10 de outubro. O quadro de Munch parece sintetizar a intensidade de um momento vivido. Enquanto movimento de vanguarda (contemporâneo do futurismo italiano e do cubismo francês). Porém. representam as origens do movimento na Alemanha. de criatividade pura. Arnold Schoenberg. conseguiu abarcar as mais variadas formas de arte e ao longo de diferentes fases – desde a música (com os compositores da Escola de Viena. Alban Berg e Anton Webern) e a dança (com Isadora Duncan. o impressionismo. algumas correntes da crítica literária vêem em obras como Os cadernos de Malte Laurids Brigge. ensaios sobre a literatura. tão enciclopédico quanto vago. mas foi na pintura que a estética impressionista parece ter encontrado mais ressonância. sendo essas o princípio da criação. neste Dossiê. Stephan George e Rainer Maria Rilke. Rudolf von Laban e Mary Wigman) até o cinema e o teatro (veja texto na pág. O pintor Julien Auguste Hervé utilizouo em 1901 para designar uma série de oito quadros seus expostos em Paris. Leia. O surgimento de um.Começa este mês em São Paulo uma série de eventos dedicados ao expressionismo alemão. com os seus autoretratos. por exemplo). ou Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul). Van Gogh. norueguês marcado pelo impressionismo. qualquer definição das artes plásticas expressionistas torna-se desnecessária diante do quadro O grito (1895). causado pelo mundo exterior e manifestado em imagens espontâneas. não pressupõe o desaparecimento do outro e certos artistas expressionistas deram as suas primeiras pinceladas ou escreveram os seus primeiros versos sob a batuta da estética impressionista. mas que representa o auge do expressionismo.C u l t 4 7 . apesar das duas pessoas ao fundo. em Munique (19111912). Numa enciclopédia também se poderia ler uma definição bastante simples. grupos e tendências dentro do próprio expressionismo. senão não estaríamos lidando com um movimento de vanguarda. fundado em Dresden em 1905. por exemplo. E assim é – só que não apenas isso. não há como encontrar uma definição mais adequada sob a qual possam ser reunidas todas as correntes artísticas consideradas expressionistas. e o construtivismo de Cézanne. Toulouse-Lautrec. a primeira reação é pensar no seu “antônimo”. Por outro lado. cujo aparecimento tem como objetivo maior negar o sistema vigente. a subjetividade expelida quase como um parto. de Rilke. O expressionismo. escrita desde 1904 e publicada em 1910. A segunda reação é imaginar que o expressionismo surgiu em oposição ao impressionismo – o que não deixa de ser verdade. Quando se fala em expressionismo. ele expressa acima de tudo a angústia da alienação outubro/2000 . a arte. Círculos como Die Brücke (A Ponte). o teatro e o cinema de um dos movimentos de vanguarda mais importantes do século XX. o termo “expressionismo” estava desprovido de qualquer conotação literária. no entanto. por Van Gogh. uma introdução à literatura expressionista. Nas artes plásticas é enorme a gama de artistas. quando foi empregado pela primeira vez. como a de que este último seria uma forma de arte em que são transmitidas impressões subjetivas. contudo. Gauguin. A figura esquelética de sexo indefinido está sozinha à beira-mar. Sem querer nem ousar adivinhar que mensagem emite esse grito.

cujos sinônimos eram o burguês. evidentemente) deveria ser marcado por um humanismo indiferente a classes sociais. só seria mais facilmente identificável com a distância das décadas passadas. tela de Edvard Munch (1895). de alguma forma igualmente marginais. outro prenúncio: Walden fundava em Berlim a Verein für die Kunst (Sociedade pela Arte). A geração expressionista O expressionismo nasceu quando o império alemão caminhava cada vez mais claramente para aquele estágio avançado da sociedade imperialista contra a qual já se pronunciavam escritores como Karl Kraus e Heinrich Mann. Foi em 1911 que o expressionismo apareceu pela primeira vez ligado à literatura. quase que concomitante a outros movimentos de vanguarda européia. neoclássica. Nesse sentido. o qual. Else Lasker-Schüler e Ludwig Rubiner. que organizava leituras e reunia nomes como Alfred Döblin e Paul Scheerbart.outubro/2000 com Berlim e com o grupo em torno de Walden. se preciso for. Alguns dos seus integrantes são Herwath Walden. participavam da Nova Comunidade os filósofos Gustav Landauer e Martin Buber. Ao lado. Das Romanische Café (1938). a comunidade. o submundo. do qual faziam parte Franz Kafka e Max Brod. Rimbaud e Baudelaire. do conceito do super-homem de Nietzsche e de modelos literários. cujo círculo literário. A geração nascida sobretudo entre 1880 e 1890 começou então a se rebelar contra os valores herdados por um século que já acabara. Na literatura expressionista. a juventude. dentre outros. como o surrealismo. como Kleist. O desejo de um novo homem (e. ladrões. outra cidade em ebulição cultural era Praga. Grabbe. o “novo”. O velho provocava medo. A simpatia dessa geração era direcionada mais aos marginais da sociedade burguesa (prostitutas. Era uma sociedade dominada pela grande burguesia. pelos militares e pelos nobres e que. perante a natureza e as outras pessoas.À esquerda. tédio. Ainda antes de 1910. atitude antiburguesa que na Alemanha detonou o expressionismo. encontrava representação numa arte “acadêmica”. o de uma nova vida) levou a uma tendência de bipolarização. Da mesma forma. É claro que os impulsos para tal pensamento partiram de teóricos como Lênin e Bakunin. mais tarde um dos temas e lemas dos expressionistas. O grito. o futurismo. O tom messiânico que pregava a necessidade do novo homem vinha imbuído de um pensamento cristão. o entorpecimento. o dadaísmo. ódio iconoclasta. Assim. como se pode deduzir. Büchner. a angústia da solidão. presente em textos tanto poéticos quanto programáticos. mantinha um constante contato 4 8 Cult. que logo depois exerceriam influência decisiva em certas correntes do expressionismo. uma tentativa idealista de reunir adeptos da filosofia monista. Na Nova Comunidade discutia-se e sonhava-se com o “novo homem”. de outro. destruidor. Além disso. a ordem. a rejeição à cidade grande e o desejo de volta à natureza eram pontos-chave tanto do grupo quanto do movimento. com o grupo Neue Gemeinschaft (Nova Comunidade). de um lado estava o “velho”. sobretudo com a guerra e a Revolução de Outubro). Os cerca de 350 autores expressionistas (segundo estatística de Paul Raabe) . mendigos) que propriamente à classe trabalhadora (o que só viria a acontecer aos poucos. porém. um dos pontos de encontro de escritores de Berlim. o espírito. entre 1900 e 1903. com ele. Os primeiros sinais de um futuro expressionismo são notados em Berlim. são heróis aqueles que rompem com o mundo burguês para habitar. o “novo homem” (der neue Mensch) ansiado pelos jovens expressionistas seria o indivíduo cuja ação era caracterizada por um rigor ético e filosófico e cujo objetivo de vida (subjetivo e idealista. Em 1904. no qual se incluíam o vitalismo.

À esquerda, estação de trem na Friedrichstrasse em Berlim, no período anterior à Primeira Guerra Mundial. Acima Alexanderplatz na década de 20.

nasceram, em sua maioria, em cidades grandes como Berlim, Munique ou Praga; foram estes, além, de Leipzig, Dresden e Viena, os grandes centros da geografia expressionista. Os da província trataram de mudar-se rapidamente, pois era lá que se encontravam os teatros, os jornais, as revistas, as editoras, os cafés, os cabarés e as musas como Else LaskerSchüler (que encantava pela excentricidade, pelo talento e também por ser mais velha que os seus muitos admiradores) e Emmy Hennings. Os cafés e cabarés eram o ponto de encontro dos expressionistas e, sem dúvida alguma, fator de impulso para a criação literária. Daí terem sido imprescindíveis na história do movimento. Os já citados centros do movimento tinham os seus locais mais conhecidos, onde aos freqüentadores era permitido desenvolver idéias e formas de vida antiburguesas. Em Berlim, não há dúvida de que o Café des Westens, também chamado ironicamente de Café Grössenwahn (Megalomania), foi o que reuniu os mais importantes nomes da primeira fase do expressionismo. Havia ainda o Café Stefanie, em Munique, e o Café Felsche, de Leipzig. Dentre os cabarés, o Neopathetisches Kabarett (Cabaré Neopatético) foi o mais importante de todos. Para isso, são

necessárias algumas palavras sobre o Neuer Klub (Novo Clube) e seus integrantes (na maioria estudantes e jovens artistas), sem os quais dificilmente se poderia falar em expressionismo na literatura. O Novo Clube foi a concretização do que já vinha sendo delineado na década pré-expressionista. Dirigido a partir de 1909 por Kurt Hiller e Erwin Loewenson e com novo impulso após a entrada de Georg Heym, no ano seguinte, o Clube caracterizava-se por um desejo do novo para a literatura e a arte, acompanhado de uma crítica sem limites às correntes pequeno-burguesas vigentes na política e na cultura da Alemanha wilhelminista. Acima de tudo, o grupo foi o que melhor representou o chamado “vitalismo” expressionista – conceito tão presente naquela literatura quanto nebulosas são as suas definições, apresentando, conforme o autor, uma nuance “religiosa ou niilista, dionisíaca ou cínica, mística ou política” (W. Muschg). O Cabaré Neopatético, portanto, uma vez fundado em 1910 pelos integrantes do Novo Clube, é a forma de expressão do grupo, aliás o primeiro a tentar reaproximar esse gênero teatral da literatura. Neopatéticos eram o poeta, o músico, o teórico que se apresentavam a um público composto predominante-

mente de estudantes, atores, escritores e boêmios, testemunhas, ao mesmo tempo em que se divertiam, do surgimento de uma nova forma e um novo conteúdo na literatura. Neopatéticos eram, na verdade, os futuros expressionistas, já que o termo à sua época ainda não existia (introduzido na literatura por Hiller em 1911, ele de fato só muito lentamente iria começar a ser utilizado, e definitivamente adotado a partir de 1914).

As fases
Foram muitas as tentativas de classificar a literatura expressionista de acordo com determinadas fases de sua criação. A mais comum compreende três fases. A primeira, entre 1910 e 1913-1914, também chamada de “expressionismo precoce” (Frühexpressionismus), foi a que pretendeu romper com os moldes antigos de pensamento e literatura e que, por isso, é também chamada de fase do “destrucionismo”. A segunda, entre 1914 e 1918, encaixa-se exatamente no período da guerra: é o “alto expressionismo” (Hochexpressionismus), uma fase de maturidade e auge da criação literária. Como muitos de seus autores tentaram por essa época uma alternativa “política” de salvação da humanidade, pode-se ouvir falar de “salvacionismo” em referência a
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Perspectiva prepara coletânea sobre o expressionismo
A editora Perspectiva lançará no primeiro semestre de 2001 um volume de ensaios dedicados ao expressionismo, dentro da coleção “Stilus” (que reúne livros sobre os mais diversos movimentos artísticos e inclui títulos como O maneirismo, O barroco e O clacissismo, dentre outros). A coletânea O expressionismo reunirá textos de especialistas nessa vertente estética, organizados da seguinte forma: Expressionismo na história: “Quadro histórico do período”, por Luiz Nazário; e “Histórico do expressionismo”, por Cláudia Valladão de Mattos. Expressionismo na vida: “Modo de vida e moda”, por Ana Cláudia de Oliveira. Expressionismo no pensamento: “Visão do mundo”, por Marion Fleicher; e “Filosofia”, por Ricardo Timm de Souza. Expressionismo nas ciências humanas: “Psicologia, psicanálise”, por João Freyse. Expressionismo nas ciências: “Teoria da relatividade, o princípio da incerteza”, por Ubiratan D’Ambrosio. Expressionismo na literatura: “Prosa de ficção e literatura crítica”, por Aguinaldo José Gonçalves; e “Poesia”, por Susana Kampff Lages. Expressionismo nas Artes do Espetáculo: “Dramaturgia”, por Mariângela Alves de Lima; “Encenação teatral”, por Sílvia Fernandes; “Dança”, por Soraia Maria; e “Cinema”, por Luís Nazário. Expressionismo nas artes plásticas: “Pintura”, por Alice Brill; “Escultura”, por Claudia Valladão de Mattos. Expressionismo na arquitetura: “Arquitetura”, por Fernanda Fernandes. Expressionismo na música: “Música clássica, popular e o cabaré”, por Lauro Machado Coelho. Expressionismo nos meios de comunicação: “Imprensa, rádio, TV e filme”, por Luiz Nazário. Expressionismo no Brasil: “Literatura e expressionismo no Brasil”, por Aguinaldo José Gonçalves.

Cena de rua em Berlim, tela de George Grosz (1930)

essa fase. A terceira e última fase talvez seja a de mais complicada periodização, já que é difícil estabelecer exatamente até quando durou. Em todo caso, diz-se que o “expressionismo tardio” (Spätexpressionismus) teria vigorado de 1918-1919 a 1925. Como engloba o dadaísmo e revela o disparate que foram os esforços de mudança intelectual e espiritual de toda uma geração, a terceira fase pode ainda ser chamada de “absurdismo”. Por volta de 1920 começaram a aparecer os primeiros textos que dão conta do fim do expressionismo, que coincide com o início do período inflacionário da República de Weimar, sem dúvida um dos motivos de seu declínio. O esgotamento de fórmulas e palavras e a repetição exaustiva de idéias também contribuíram para o desaparecimento do expressionismo da cena literária. Da mesma forma, não se pode menosprezar o fato de que a geração rebelde, tão característica do movimento, havia envelhecido dez anos. Se até 1925 ainda existiam obras fiéis à tradição, então só existiam justamente
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por isso: por fidelidade a uma idéia que, antes inovação, passava a ser convenção. Em meados dos anos 20 também despontava o novo estilo literário e artístico na literatura alemã, denominado Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade), cujas características se opunham ao que fora o expressionismo até então. Desfecho comum a todo movimento vanguardista, o prenunciado fim do expressionismo tinha também motivos históricopolíticos. Pois, principalmente para os representantes do expressionismo utópico, como sobreviver à desilusão de uma revolução fracassada, em 1919, ou, conseqüência disso, ao assassinato de líderes como Rosa Luxemburgo, no mesmo ano? Já não bastavam as agruras do pós-guerra? Entre esses textos (artigos, discursos) está o de Iwan Goll, cujo título já diz tudo: “Der Expressionismus stirbt” (“Morre o expressionismo”), de 1921. Para Goll, a morte do expressionismo só estava sendo confirmada, pois de novo esvanecia uma arte, “doente do tempo que a traiu”, e não era importante saber se a

culpa era da arte ou do tempo. O expressionismo morria porque queria ser mãe da revolução em nome da humanidade (Rubiner já escrevera em seu “O poeta interfere na política”: “Nosso apelo é l’homme pour 1’homme ao invés de l’art pour l’art”). O artigo de Goll tem o tom de uma homenagem póstuma: Reivindicação. Manifesto. Apelo. Atuação. Súplica. Êxtase. O homem grita. [...] Quem não participou? Todos participaram. [...] Nenhum expressionista foi reacionário. Nenhum deixou de ser contra a guerra. Nenhum que não acreditasse em fraternidade e comunhão. [...] Expressionismo foi uma bela, boa, grande causa. [...] Mas o resultado é infelizmente, e sem a culpa dos expressionistas, a república alemã em 1920. [...] O expressionista escancara a boca e simplesmente fecha-a em seguida.
Claudia Cavalcanti
tradutora e crítica literária, acaba de lançar a antologia Poesia expressionista alemã pela editora Estação Liberdade; é autora de A literatura expressionista alemã (editora Ática), do qual foram extraídos os trechos que compõem este ensaio publicado pela CULT

Um organismo vitalmente mórbido

Portão de Brandenburgo, 1928.

A editora Estação Liberdade lança antologia da poesia expressionista, que teve entre seus principais representantes nomes como Johannes R. Becher, Gottfried Benn, Else LaskerSchüler, Georg Heym, Jakob van Hoddis e Georg Trakl, integrantes de uma geração cujo pathos poético foi intensificado pela tempestade da Primeira Guerra
Susana Kampff Lages

E

xplosiva, a poesia do expressionismo alemão – que acaba de ganhar uma antologia bilíngüe, publicada pela editora Estação Liberdade, com organização e traduções de Claudia Cavalcanti – teve seu detonador, sua “bíblia” e seu canto de cisne. O detonador foi o poema de Jakob van Hoddis, “Fim do mundo”, publicado em 1911 na revista Der Demokrat e considerado por Johannes Robert Becher (que foi juntamente ao poeta Gottfried Benn um dos poetas mais longevos do movimento) como uma espécie de senha mágica que transformaria por completo a relação dos jovens poetas com

seu contexto social e com a própria literatura: “Eu também esgotaria a mais ousada imaginação de meus leitores ao tentar descrever-lhes a magia que, para nós, este poema de Jakob van Hoddis, Weltende, abrigava em si. Estas duas estrofes... Ah! Estes oito versos pareciam ter-nos transformado em outras pessoas, ter-nos colocado acima de um mundo de um burguesismo embotado, que nós desprezávamos e do qual não sabíamos como sair.” Muito do elã da poesia expressionista provinha deste desejo de expressar a insatisfação constitutiva do poeta com o

contexto tacanho da burguesia guilhermina alemã. Essa insatisfação transpareceu em expressões premonitórias da guerra e mesmo em sua conjuração como evento capaz de trazer um necessário e desejado corte na banalidade de um cotidiano sufocante, como foi o caso do poeta Georg Heym. A Primeira Guerra Mundial foi, sem dúvida alguma, o evento de maior impacto sobre os jovens poetas expressionistas, tendo sido também grande responsável por sua morte precoce (vários poetas morrem no front: Alfred Lichtenstein, August Stramm, Georg Trakl, Ernst Stadler). Se a entrada
outubro/2000 - C u l t 5 1

Fim do mundo O chapéu voa da cabeça do cidadão Em todos os ares retumba-se gritaria. por fim. a experiência da vida nas metrópoles. uma mais experimental. Esse elemento patético. mais fortemente presente somente numa poeta que ocupa uma posição um tanto excêntrica dentro do movimento. a outra mais engajada. Os trens precipitam-se das pontes. A maioria das pessoas tem coriza. A tempestade da guerra passa e traz uma cesura indelével na produção e nas principais manifestações poéticas do expressionismo. com a transcendência. muitas vezes identificadas com os dois principais núcleos aglutinadores de escritores e artistas: respectivamente. as revistas Der Sturm. Jakob van Hoddis Tradução de Claudia Cavalcanti Extraído de Poesia expressionista alemã Jakob van Hoddis Gottfried Benn em 1956 na guerra era acompanhada por uma visão idealizada que imaginava a conversão do sujeito em herói. Os poemas mais importantes neste sentido são o longo poema premonitório “Der Krieg I”. do hermetismo simbolista finissecular de um Trakl ao ritmo whitmaniano dos versos longos do alsaciano Ernst Stadler. último poema escrito por Georg Trakl no front oriental. Os temas mais fortes são: os prenúncios e as vivências da guerra. depreender duas tendências básicas. transmutado posteriormente em eufórico engajamento político por Johannes Becher (futuro ministro da cultura da futura República Democrática Alemã. porém. passando por toda uma gama de poemas de temática afim aos novos tempos. da representação nua e crua de um corpo doente ou morto de Gottfried Benn ao “barroco fecal”. bem como em poemas de amor de alguns de seus contemporâneos. pode-se. sonetos). concretizou-se poeticamente de formas muito diversas. saltam à terra Mares selvagens que esmagam largos diques. fora encarregado de atender. ligado sobretudo ao momento histórico. sobretudo pela delicadeza incomum de suas imagens: Else Lasker-Schüler. a deterioração do corpo/ desintegração da subjetividade. assombrado pelas visões dos corpos num pavilhão de feridos de guerra. também poemas de caráter programático que investem contra convenções literárias dominantes. o poeta consegue por fim pacificação com uma dose letal de cocaína. de Georg Heym. fundamental na poética expressionista. o desejo de renovação do ser humano. da ironia quase cínica de Jakob van Hoddis aos versos grotescos de Alfred Lichtenstein. a vivência concreta da violência bélica da guerra de trincheiras vai destruir por completo essa imagem. do apelativo Franz Werfel. . a quem ele. Depois desse poema e de uma tentativa frustrada de suícidio com arma de fogo. entretanto. mas com freqüência plasmada em estruturas das mais tradicionais (foram muito utilizadas sobretudo as formas de quartetos. a uma antropomorfização. antiga Alemanha Oriental). Para além da multiplicidade de formas e temas privilegiados pelos expressionistas. presente apenas esparsamente entre os vários poetas.outubro/2000 Stramm à retórica de um Ludwig Rubiner. devendo-se mencionar. não chegando. aspectos tecnológicos e sociais da industrialização. Caem os telhadores e se despedaçam E nas costas – lê-se – sobe a maré. Na sua lírica. paisagem e natureza – elementos intimamente associados à lírica amorosa – são submetidos a uma subjetivação. os poemas de guerra de August Stramm (sobretudo “Patrulha” e “Assalto”) e o belíssimo “Grodek”. Apenas um tema lírico por excelência se encontra fracamente representado no interior da prolífica produção poética expressionista: a lírica amorosa. não redutíveis à poesia de caráter engajado: da redução lingüística pré-concretista de um August 5 2 Cult. a relação com Deus. A tespestade chegou. a questionar a relação entre eles a ponto de levar à completa impossibilidade de uma tal lírica da natureza. agregando sua dose de pathos àquele já existente. a decadência do mundo burguês. numa diversidade de estilos e temas desconcertante. que expõe uma fissura na relação entre o homem e o mundo natural. na qualidade de farmacêutico.

o ensaio “Nach 40 Jahren” (Depois de 40 anos). vai pouco a pouco cedendo espaço à segunda.. Em 1955. em que Kurt Pinthus reflete sobre o expressionismo poético e sua própria antologia de poemas. Die Nachtigal e Im Zimmer) e de Lincoln Antonio (A valsa dos olhos costurados). de Hugo Friedrich. voltar a questionar-se sobre o enigma das muitas caras do expressionismo. entre outros. por Franz Pfemfert. por assim dizer. O critério de Pinthus ao fazer a seleção e o agrupamento dos poemas trai bem essa tendência a privilegiar uma visão da poesia expressionista como de caráter messiânico-extático. Franz Kafka e Paul Celan. entre outros. Recital marca lançamento da antologia editada por Herwarth Walden. tel. de caráter marcadamente experimental (“geometria”) e internacionalista. Essa visão começará a ser abalada. do teórico Kasimir Edschmid. O lançamento será acompanhado de uma apresentação da cantora Suzana Salles e do pianista Lincoln Antonio. pelo nosso Mário de Andrade e por Jorge Luis Borges. será lançada no dia 5 de outubro. talvez seu mais importante representante. e Die Aktion. com a publicação do livro Estrutura da lírica moderna. uma cobra-d’água. filosóficos pedaços de pensamentos detonados. organizada por Kurt Pinthus.00). de 1920. Gottfried Benn. e last but not least.C u l t 5 3 . organizada e traduzida por Claudia Cavalcanti e publicada pela editora Estação Liberdade (232 págs. uma espécie de Ku-Klux-Klan?” Susana Kampff Lages professora de língua alemã na Unicamp. Sinal dessa tendência: a publicação em 1920 da antologia Menschheitsdämmerung (“Crepúsculo da humanidade”). Entre os anunciadores e sancionadores do fim do expressionismo estão o poeta alsaciano Iwan Goll. dando o devido destaque a poetas “maiores”. Possivelmente. às 20h. “Der Expressionismus ist tot” (Está morto o expressionismo). com apoio do CNPq outubro/2000 . tardiamente engendrado. havia o expressionismo. uma lírica da intuição intelectual. atualmente realiza pesquisa de pós-doutoramento na área de literatura alemã do Departamento de Letras Modernas da USP sobre o tema Memória e melancolia em Walter Benjamin. mais centrada numa crítica aos eventos do dia (há uma série de poemas dedicados ao pranteamento da morte de Karl Liebknecht e à exaltação do socialismo) e mais compenetrada na função social do poeta como agente de uma transformação redentora do mundo e de si próprio (“grito”). São Paulo. A primeira tendência. a vida e a morte desse organismo vitalmente mórbido que foi o expressionismo poético. que interpretam composições de Alban Berg (Schliesse mir de Augen beide. 11/3088-4288). resumiu a perplexidade do olhar retrospectivo na irônica e irrespondível pergunta: “O que é afinal o expressionismo? Um conglomerado. em especial. tais como Georg Trakl e Gottfried Benn. tradutor de poesia expressionista). “Antes de eu servir (na guerra). com seu ensaio de 1921. R$ 28. Lisboa. impunha-se. Aos “sobreviventes”. além da fórmula do crítico vienense Paul Hatvani. no Instituto Goethe (r. ao rótulo do expressionismo poético como movimento de poetae minores. Suzana Salles lerá também alguns dos poemas publicados no livro. onde dependuravam arrebatados rasgos carnais de sentimento. uma nota que perdurará por muito tempo na recepção imediatamente posterior do movimento e que dará ensejo. Quando retornei. A antologia Poesia expressionista alemã. comovente canto de cisne do expressionismo poético. com comentários de Claudia Cavalcanti. de 1922. de 1956. que ressitua o expressionismo no panorama das poéticas européias da modernidade. não será casual o fato de que a morte do expressionismo tenha sido objeto de vários ensaios que tentavam dar uma explicação para a velocidade e as idiossincrasias de seu desaparecimento da cena cultural no início dos anos 20. pois. um ano antes de morrer. o monstro de Loch Ness. Else Lasker-Schüler em 1909/10. grande marco. precursor do longo balanço de 1959. que ganhou notoriedade. o breve “Nachklang” (Ressonância). “Der Expressionismus stirbt” (Morre o expres- sionismo). ao lado do artigo “Stand des Expressionismus” (Situação do expressionismo).” Essa frase de Robert Musil resume de modo contundente o nascimento.Ao lado. existia uma explosiva lírica de idéias intelectual. 974. a “bíblia” da poesia do expressionismo alemão (com poemas que foram lidos. O estudioso Ladislao Mittner sintetizou-as no epíteto “Grito e geometria”.

xilogravura de Erich Heckel (1915) 5 4 Cult.outubro/2000 .As travessias da arte expressionista Claudia Valladão de Mattos Canal curvo.

fazendo a crítica ao ser “civilizado” da decadente sociedade européia. 11/5549-9688. Nesse período. que antecedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Os quadros que nasceram deste encontro eram arrojados. aos quais juntaram-se um pouco mais tarde Fritz Blyl. em que a autonomia da dimensão estética deveria garantir um espaço para o nascimento de uma atitude espiritual diante do mundo Exposição Expressionismo Alemão 10 de outubro a 10 de dezembro Museu de Arte Moderna de São Paulo Parque do Ibirapuera – Portão 3 tel. faz-se necessário inicialmente considerarmos as situações particulares dos principais grupos do período do pré-guerra. a nomenclatura geral. desejavam representar através da pintura o gesto forte de um novo homem. De certo.Exposição no MAM e no Museu Lasar Segall traz ao Brasil a utopia expressionista consolidada nas propostas dos grupos vanguardistas Die Brücke. No entanto. através de um desejo de ver novamente reunidas vida e arte. e Der Blaue Reiter. eles não deixavam de apresentar. à qual deram o nome de Die Brücke (A Ponte) e que viria a ser o primeiro marco significativo no desenvolvimento da arte de vanguarda na Alemanha. adquirimos o hábito de adotar o termo expressionismo ao nos referirmos à produção artística das décadas de 10 e 20 naquele país. uma forte relação com a cultura finde-siècle da geração que os precedera. a situação mudaria já com o começo da guerra e principalmente no pós-guerra. Assim. distantes quase um século do início dos movimentos de vanguarda na Alemanha. quando o expressionismo se imporia como um estilo supostamente “nacional”. buscando inspiração em leituras de Nietzsche e Dostoiévski. Herdeira por sua vez. apesar desse espírito rebelde e da insistente negação de todas as formas de arte do passado. que buscava libertar a arte da esfera do puramente estético para criar uma nova relação com a vida. 11/5574-7322 H oje. fundaram uma pequena sociedade de artistas. opondo-se às demais vanguardas européias. nos vemos obrigados a rever. ao menos parcialmente. Otto Müller e Nolde. na música de Wagner e nas obras de artistas independentes como Munch. essa geração anterior de artistas exibia uma aguda consciência das rupturas significativas que haviam ocorrido entre as esferas estética e social. Os quatro artistas. com o início da guerra. como o cubismo francês e o futurismo italiano. Tal projeto de raízes românticas retornaria de forma bastante intensificada na prática outubro/2000 . logo evidenciam-se tantas diferenças importantes entre as várias manifestações locais dessa vanguarda que. para em seguida nos aventurarmos a acompanhar o desdobramento do movimento ao longo dos últimos anos da década de 10 e princípio dos anos 20. ou seja.C u l t 5 5 . Porém. Ernst Ludwig Kirchner e Max Pechstein –. Van Gogh e Gauguin. desde as revoluções burguesas do século XVIII. liderada por Kandinsky e que receberia o nome de Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul). vale a pena lembrar que o termo “expressionismo” começou a ser usado para designar as vanguardas alemãs apenas em 1914. podemos acompanhar o desenvolvimento de pelo menos duas vertentes importantes e distintas do expressionismo nas artes plásticas: uma em Dresden. como não poderia deixar de ser. com o grupo Die Brücke (A Ponte) e outra em Munique. exibindo cores brilhantes tiradas diretamente dos tubos e evitando uma referência naturalista. Entrada franca Museu Lasar Segall Rua Berta. para compreendermos o movimento expressionista como um todo. do romantismo. Erich Heckel. tematizando freqüentemente a questão. quatro estudantes de Arquitetura em Dresden – Carl SchmidtRottluff. O expressionismo de Dresden: Die Brücke No ano de 1905. 111 – Vila Mariana tel. guiados pela disposição de romper com o passado e com todas as formas de arte desenvolvidas dentro da Academia. Nesse contexto. num exame mais atento. enquanto anteriormente falava-se principalmente de futurismo quando as novas tendências da arte alemã eram mencionadas. em pouco tempo. Tais diferenças são particularmente evidentes no período inicial de sua formação.

transformando a pintura numa forma de extensão desses gestos libertadores. dentre muitos outros. portanto. assim definiu Kirchner certa vez os objetivos da pequena sociedade. sobre a qual se estruturavam os ideais revolucionários do grupo. onde praticavam nudismo e conviviam em relações livres. entre 1905 e 1910. ou não européia. inventado por Schmidt-Rottluff. que obrigava o artista a desenvolver um vocabulário mais econômico e abstrato. tanto pelas posições naturais – não estudadas – assumidas pelo modelo quanto pela velocidade das pinceladas e espontaneidade das soluções composicionais. como Conrad Felixmüller. uma vez que também aludia a uma época anterior à perda de uma função social para a arte. da nova visualidade criada pelo grupo. Havia uma admiração pelo trabalho coletivo e. cativou particularmente o grupo. como o caminho privilegiado para o desenvolvimento de uma nova arte. Os artistas da Brücke estavam. Acima Hamburgo. que se tornaria ativa no período do pós-Primeira Guerra imediato. A pintura não era mais praticada nos ateliês. Assim. pretendia significar essa “travessia” de um estilo de vida a outro. Assim. ela era sempre rápida. August Bockstiegel. anônimo.outubro/2000 das relações cotidianas e os artistas investiram. Da mesma forma. evitando qualquer tipo de enquadre. por seu caráter direto e não refinado. exerciam sobre eles um fascínio especial. pois elas eram consideradas como exemplos de uma perfeita integração entre as funções estética e ritualística naquelas sociedades. ilustração de Emil Nolde (1910). como o . tela de Ernst Ludwig Kirchner (1914/26). prioritariamente em modalidades alternativas e mais espontâneas de convivência grupal. o nascimento de uma nova arte era vista como a conseqüência natural da transformação 5 6 Cult. eles realizavam viagens às regiões de lagos perto de Dresden. Porto. durante os meses mais frios. dos artistas da Brücke. mas passaria a ser inteiramente integrada às atividades cotidianas do grupo. O próprio nome Die Brücke. interessados em resgatar a espontaneidade do gesto na pintura. que os artistas puderam estudar no museu etnográfico de Dresden. nesse sentido. Sua produção vigorosa e claramente distinta das demais manifestações européias de vanguarda. o mais despojadas possíveis de preceitos e regras sociais. os artistas investiram em formas coletivas de convivência. que eles recuperariam como uma espécie de tributo aos grandes mestres anônimos da Idade Média. A mesma prática era desenvolvida no ateliê conjunto em Dresden. por assim dizer. de fato. Retrato de Gerda. o que é facilmente reconhecível nos quadros. forçando a mesma novamente para dentro da esfera da vida cotidiana. formando a base. As esculturas africanas e de outros povos não europeus. Do interesse por uma junção entre arte e vida desenvolveu-se também o fascínio desses artistas pela arte assim chamada “primitiva”. Durante os meses de verão. A pintura da Brücke teve grande influência sobre a geração mais jovem de artistas alemães. que visava o bem-estar de toda a comunidade. a arte medieval interessava profundamente os artistas da Brücke. e pela técnica da xilogravura. Nesse contexto a xilogravura. “Permitir que vida e arte voltassem a constituir-se em um todo harmônico através de um fazer puro e naïf”. estando a ênfase primeiramente na espontaneidade do gesto. durante os anos ativos da Brücke em Dresden. uma técnica muito usada na Idade Média e abandonada definitivamente no século XIX. Otto Griebel.Ao lado. Dentro dessa perspectiva.

) Assim. Casas em Munique. sendo capazes de descobrir identidades entre as mais diversas manifestações artísticas da humanidade. uma das principais contribuições do pensamento teórico dos artistas do Der Blaue Reiter para a História da Arte. profundamente cosmopolita. por assim dizer. Gabrielle Münter (primeira esposa de Kandinsky) e Alexander von Jawlensky. a questão da renovação da arte passaria por uma intensa pesquisa formal. era precisamente a autonomia da dimensão estética que deveria garantir o espaço para o nascimento de uma atitude espiritual diante do mundo. fazendo-a brotar revigorada de uma nova relação com a vida e o cotidiano. por volta de 1913-15). tela de Wassily Kandinsky (1908). de onde emergiria uma nova “gramática” para a pintura. e que deu o impulso inicial para o desenvolvimento da pintura abstrata). talvez. Para esses artistas. O grupo. (O passo definitivo dado em direção a uma arte inteiramente não representativa ocorre apenas com o “Quadrado negro” de Kasimir Malevich. responderia ao desejo contemporâneo de desenvolvimento de uma arte singularmente “alemã”. a base de suas pesquisas futuras encontra-se exatamente em suas reflexões do período do outubro/2000 . portanto. Apenas através da arte. encontrou sua melhor expressão no Almanaque der blaue Reiter. dando forma a suas visões proféticas destinadas a “romantizar o mundo”. (Pensamos aqui especialmente no modelo do “triângulo espiritual” proposto por Kandinsky no capítulo “O movimento” de seu livro Do espiritual na arte. que funcionariam. do artista. mesmo que sua arte ainda estivesse cunhada na noção de uma “representação” do mundo interior do artista. algo impossível de ser encontrado. os artistas fundadores do grupo Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul) respondiam de forma bastante diversa ao mesmo problema. e profundamente inspirado nestes – resumiria. cubismo e o futurismo. onde ela havia sido confinada desde Kant. a nosso ver. a humanidade seria capaz de formular novas visões. do qual Lasar Segall foi membro fundador em 1919.Acima. Kandinsky iria ocupar-se durante muitos anos com essa questão. organizado por Kandinsky e Marc em 1912. ao contrário do que pregavam os membros da Brücke. portanto. como condutoras da humanidade a graus cada vez mais elevados de vida espiritual. fundado em 1911 por iniciativa de Kandinsky e Franz Marc e a participação de August Macke. à teoria das cores e formas desenvolvida por Wassily Kandinsky. visando apontar para a existência de um princípio criativo comum. Esses artistas possuíam uma visão trans-histórica de arte. gramática essa que pudesse verdadeiramente servir à expressão do mundo interior do artista. nas obras dos expressionistas de Munique. dando os primeiros passos em direção ao abstracionismo. Tal tratamento explícito da pintura como linguagem (evidentemente estamos nos referindo aqui. ilustração de Conrad Felixmüller para o primeiro programa do Dresdner Sezession Gruppe. onde comparações formais eram traçadas entre obras de contextos os mais diversos possíveis. Tal postura. em primeiro lugar. apenas pelos cubistas –. Ao lado. e. como veremos. marcaria. uma outra vertente do expressionismo alemão bastante diversa da Brücke. por sua vez. superado. desenvolvendo suas teorias sobre a atividade psíquica das formas em diferentes publicações. Porém. para usar as famosas palavras de Novalis.C u l t 5 7 . O expressionismo de Munique: Der Blaue Reiter Enquanto os artistas da Brücke buscaram libertar a arte da esfera do puramente estético.

gezeichnet. Felixmüller. Durante os anos do pré-guerra.Cavaleiro Azul. tornavam a cena artística alemã ainda mais complexa. um dos mais engajados jovens artistas de sua geração. erlebt. nos dá o tempo presente”. que interessara os artistas da Brücke devido ao caráter coletivo e “primitivo” de suas realizações. o entendiam. arte deveria ser confissão. em grande parte ausentes entre artistas da geração anterior. ou da Brücke. isso. gemalt”. especialmente da Die Aktion de Pfemfert. cubismo e abstração animavam então o mundo das artes. vemos estabelecer-se aos poucos uma . foi rejeitado como uma nova forma de brincadeira estética ou como ‘negroidismo primitivo’. em Die Hören) Ao mesmo tempo.. acreditando que o conflito abriria caminho para um novo futuro: “A guerra nos presenteia. A segunda geração expressionista A Primeira Guerra significou uma reviravolta completa nos cursos do movimento expressionista na Alemanha. da forma como os pintores do grupo Der Blaue Reiter. com o avançar dos anos e o acúmulo de mortos no front. agora era saudado como manifestação pura de um “espírito alemão”. escreveria o importante crítico de arte Julius Meier Graefe. que prometiam transformar a humanidade através da arte. O gótico. Kandinsky viu-se obrigado a deixar a Alemanha. discurso.. Porém. ao rememorar o período de guerra: “Fortes discussões em torno do futurismo.outubro/2000 outros desde ontem. por exemplo. O que faltava. gerando novos movimentos. o conteúdo. especialmente através de seu vínculo com o editor e galerista berlinense Hewarth Walden. o isolamento da Alemanha gerou internamente uma procupação com questões de identidade e nacionalidade. A luta pelas palavras e pelos programas chegou ao fim (…). Em decorrência dessa nova atmosfera. na linguagem e na forma dos poetas de então. também se faziam sentir. as teorias de Kandinsky sobre arte tornamse cada vez mais populares na Alemanha e ele conseguiu uma projeção importante no cenário cultural do país. diria. Nesse processo.” (“Menschen. logo após o início da guerra. por sua vez. A situação humana e política exigia mais do que um estilo estético. de Munique. conteúdo. principalmente no caso de artistas ligados ao Partido Comunista (KPD). Tínhamos teorias. uma certa decepção em relação às utopias expressionistas. publicado em 1910. Porém. como já mencionamos. como Felixmüller e Griebel. Reações a essa postura conservadora. juntamente dos outros cidadãos russos do grupo. como o Dadá e o verismo. o expressionismo. expressionismo. Por fim. com o início da guerra. Somos 5 8 Cult. através de revistas. As formas tradicionais já tinham sido bombardeadas. na cena artística alternativa era a revolução social que se exprimia no mundo intelectual. tal otimismo deu lugar a protestos e provocou uma rápida politização do expressionismo. Franz Marc e August Macke morreriam nos campos de batalha pouco tempo depois e nos anos seguintes podemos observar uma sensível perda de interesse pelas posições do grupo em favor de preocupações nacionalistas. meus irmãos. mais especificamente em seu pequeno livro Sobre o espiritual na arte. Muitos artistas se alistaram voluntariamente como soldados.

como a Dresdner Sezession – da qual Lasar Segall foi membro fundador em 1919 – ou a Das Junge Rheinland de Dusseldorf. Dama. agora passaram a se organizar em grupos. iniciando um movimento que viria a ser conhecido como Nova Objetividade. Impõe-se a seleção. Como era destino de todas as vanguardas. o expressionismo sobreviveria ainda por algum tempo. logo em seguida. que ajudou a pôr fim ao regime imperial. mas perdendo cada vez mais a sua força. Um resto de populismo expressionista ainda termina tardiamente.Na página oposta à esquerda. Ela preencheu seu objetivo. tal como ela ocorrera antes da guerra. Os artistas. praticamente nenhum artista que se considerasse “filho de seu tempo” (segundo expressão usada por Kandinsky e que se tornou muito popular entre os críticos e artistas do começo do século) adotava uma linguagem expressionista. xilogravura de Franz Marc (1912). preocupados com a expressão de suas intensas experiências. linguagem expressionista mais homogênea. mais tarde a Bauhaus. agora bastante generalizado: “O expressionismo está morto”. bastante baseada nas formas desenvolvidas por artistas do pré-guerra. O expressionismo era agora o grande portador das esperanças de uma arte nacional. usado por todos os jovens artistas que desejassem se exprimir em uma linguagem “moderna”. a descrença no discurso expressionista. A principal dessas organizações foi sem dúvida a Novembergruppe de Berlim. Claudia Valladão de Mattos doutora em história da arte pela Universidade de Berlim e autora do livro Lasar Segall – Expressionismo e judaísmo (editora Perspectiva) outubro/2000 . abandonaram até certo ponto uma reflexão formal sobre arte. Depois desse veredito. publicaria um artigo de Wilhelm Hausenstein. ao lado capa da revista Die Aktion (de 1911 a 1918). que possuía um largo número de associados. ao lado. que dessem conta da experiência trágica da Alemanha daqueles anos. reavivou por pouco tempo entre os artistas as esperanças na construção de uma sociedade melhor. diria ele.C u l t 5 9 . que explicitaria pela primeira vez esse sentimento de fracasso do expressionismo. tendo sido seguido de perto por artistas como George Grosz e Otto Griebel. Ela pode ir embora. tedioso na vida e na morte”. À esquerda. que deveria crescer e florescer dentro da nova República e os artistas. com todas as qualidades acadêmicas. Criou-se por fim uma espécie de “expressionismo padrão”. um dos primeiros artistas a procurar novas formas de expressão. Quando a guerra chegou ao fim. porém menos experimental e com um pathos cada vez maior. A ativa participação na assim chamada “Revolução de Novembro”. Auto-retrato de Otto Dix (1922) e. Otto Dix. politizados pela militância contra o regime guilhermino. abandonaria a linguagem cheia de pathos do Expressionismo por uma descrição crítica da realidade. Lagartixas. tornando-se freqüentemente afetada e melodramática. preocupando-se prioritariamente com a expressão de conteúdos. aquarela de George Grosz (1925). Por volta de 1925. a paisagem cultural alemã tinha se transformado inteiramente. Porém outras organizações similares foram criadas em outras províncias na época. uma das principais revistas de vanguarda da época. Porém a instabilidade econômica e política que se seguiu ao início da República de Weimar reforçou. também o expressionismo chegara a seu fim. Em 1920 a Kunstblatt. e da qual nasceria. Os sinais de enfraquecimento das utopias expressionistas agora podiam ser claramente sentidas. “A categoria não diz mais nada.

Era comum a todos o protesto contra a realidade dominante. mas a sua renovação. à pintura e à música. Talvez justamente por isso o conceito de estilo “expressionismo” seja particularmente discutível nesses dois gêneros artísticos. A “forma curta” (a poesia. Formador de estilo. de Ernst Barlach. poetas. Ligada a isso está a ritmização da linguagem (escrita. afinal de contas. do movimento e do espaço. o grande Max Reinhardt. do idealismo alemão. o teatro e o cinema são filhos da República de Weimar (1918-1933). arquitetos. pintores. a “pequena forma” da pintura) parecia cair como uma luva para a representação de estados de êxtase. falantes e atuantes. fotógrafos e cineastas. de Wassily Kandinsky. essa Weltanschauung originou formas específicas de expressão. nas palavras do filósofo Ernst Bloch. à qual o indivíduo se opunha com “enigmáticos arrebatamentos do sujeito”. muitos artistas plásticos: Dia morto (1906/07). no qual estava inserido também o momento utópico: o “novo Homem” (uma espécie singular de Humanidade. cujo nome a princípio não é ligado ao expressionismo (mais tarde Friedrich Wilhelm Murnau seria chamado “o Reinhardt do cinema”). 6 0 Cult. Enquanto essas O expressionismo alemão não foi primordialmente um estilo: foi um posicionamento com relação ao mundo (em alemão temos para isso a belíssima palavra Weltanschauung) que abrangeu toda uma geração de artistas. Estilisticamente. atores.outubro/2000 tramavam sua revolta expressionista sobretudo antes e durante a Primeira Guerra. o odiado império wilhelmínico – e a Guerra Mundial evocada por ele.Uma arte total Teatro e cinema são formas tardias de manifestação de um movimento que representa a última tentativa de renovação do idealismo alemão Bruno Fischli que buscavam em todos os gêneros artísticos a sua respectiva configuração. ambos de . falada. Assassinos. à qual parecia insignificante o “de onde” e o “para onde”. Através desses elementos de ligação o próprio movimento expressionista é algo como uma “obra de arte total” (Gesamtkunstwerk). o expressionismo é a última tentativa de renovação. não por acaso. precederam a manifestação do teatro expressionista na República de Weimar experimentos teatrais quase clandestinos. a correção de sua degeneração. dos quais participaram. em relação à literatura. escultores. de Oskar Kokoschka (1907/1910). assim como da musical). esperança das mulheres (1907/10). cor e espaço servia sobretudo para a representação dos estados de espírito dos seres sensíveis. na Alemanha e na Áustria sobretudo no período da Primeira Guerra. O uso simbólico de luz. as “peças curtas” da música típicas daquele período. Nesse sentido. como mais tarde chamou com ironia o originalmente expressionista Bertolt Brecht) e a fraternidade universal baseada nele. a destruição da sintaxe tradicional: do fluxo da linguagem. da música e das coisas são extraídos somente aqueles elementos cujos valores de expressão correspondem ao estado espiritual do artista. É comum a eles. Seu objetivo não era a destruição da sociedade e cultura burguesas. o “drama em estações”. são “temporãos”. desligada dos problemas sociais concretos. músicos. também deu a sua contribuição com a fundação do palco experimental no “Teatro Alemão” e do grupo “A Jovem Alemanha". O teatro e o cinema expressionistas. entretanto já desaparecera. como plano de atrito central e aglutinador. situados no centro. por exemplo. ou O som amarelo (1909/10). Contudo.

1919). ao lado. O crítico Emil Faktor caracterizou suas “formas de expressão” entre “o patético inflamável pelo calor e a sensualidade nervosamente bruxuleante”. por três apresentações formadoras de estilo: as montagens de Richard Weichert de O filho (Mannheim. A maior parte dos dramaturgos da República de Weimar foi influenciada pelo expressionismo. a mesma cena no filme de 1921. espaço. e a de Karl Heinz Martin de A mudança (Berlim. de Georg Kaiser (que aliás até 1905 viveu na América Latina. Um outro astro do teatro daquele tempo se tornou também um astro da sétima arte. Krauss atuava de forma tão concentrada que parecia fazê-lo com os sentidos invertidos: ele via o som e ouvia o movimento”.Acima. 1919). de Fritz von Unruh. a palavra tornou-se corpo. Era comum a essas três montagens a tentativa de reteatralização do teatro. Berlim. por exemplo. assim como Guilherme Tell (Berlim. a ritmização da linguagem e do movimento e. a forma de falar eruptiva e extática. a dramaturgia que lhe servia de base lhe precedia em quase uma década. cor. em De manhã até a meia-noite (1912) e Os cidadãos de Calais (1914). de Walter Hasenclever. O consciente afastamento da realidade física. Por volta do final dos anos 20. A alta das montagens expressionistas. no início da República de Weimar. ao lado de Georg Kaiser e Fritz von Unruh. apologista do teatro expressionista. esboço de Paul Leni para o filme Escada de serviço. de Ernst Toller. um clássico da literatura dramática expressionista. de Leopold Jessner. no exílio americano). o expressionismo foi menosprezado como mero fenômeno de moda e tempo e outubro/2000 . 1918). em parte. inclusive no Brasil). Nas duas últimas montagens citadas. música e linguagem corporal – assim. ou nos dramas Os oficiais (1911) e Uma geração (1917). sem ser expressionista no sentido restrito do termo. de Reinhard Goering. que por sua vez eram encarnações de uma “idéia”. já continha detalhadas marcações de cena para uma utilização completamente nova. na qual o jovem Werner Krauss comemorou um sucesso fulminante e talvez por isso tenha sido alçado a astro do cinema expressionista (“Caligari”): “A palavra era o gesto. Ela. desencadeou uma verdadeira onda de dramaturgia expressionista. e com isso ele também deu o fundamento para a posterior fama do cinema. de Reinhard Sorge. assim como Arnolt Bronnen (o antes amigo de Brecht e posterior fascista) e Hanns Johst (que em 1935 se tornou presidente da “Câmara Imperial de Literatura” nacional-socialista). expressionista. o emprego de luz.C u l t 6 1 . Dentre os dramaturgos mais produtivos estão. Ernst Toller (que mais tarde trabalhou com Erwin Piscator e se suicidou em 1939. sem o qual o cinema expressionista seria quase inimaginável: Fritz Kortner. Fritz Kortner fazia o papel principal. e. já em 1917 ele montou naquela cidade O mendigo. cor e espaço para a representação de estados psíquicos e anímicos. o andamento acelerado – tudo servia para conferir expressão às oprimidas figuras principais dos dramas. O verdadeiro momento de nascimento do expressionismo teatral é marcado. de luz. porém. Embora o teatro expressionista tenha se desenvolvido completamente depois da Primeira Guerra. o já mencionado e multitalentoso Ernst Barlach. e em 1918 A batalha naval. escreveu Herbert Ihering. não por último.

de Karl-Heinz Martin. Talvez ainda valha a defesa de Bloch pelo movimento. Fizeram escola a desfiguração subjetiva das construções e dos espaços. característicos do expressionismo. tivesse ainda o seu lugar. Cena do filme Dr. A morte cansada (1921). de Robert Wiene (1919).” Bruno Fischli diretor do Goethe-Instituto São Paulo tradução de Claudia Cavalcanti . Enquanto o cinema americano e russo dos anos 20 foi inovador na montagem de filmes. de Friedrich Wilhelm Murnau. pela “realidade física” (Siegfried Kracauer. a artificialidade e o simbolismo dos bastidores e cenários. de Paul Wegener). o jogador (1922). Caligari. atraiu toda uma geração de cineatas: O gabinete do Dr. sem que ali o indivíduo. na concorrência com outras indústrias filmográficas nacionais. com a iluminação. os méritos do cinema alemão daqueles anos residem claramente no campo da encenação (fortemente influen- ciada por Max Reinhardt). Castelo Vogelöd (1921). Mabuse. Metrópolis (1925/26) ou M (1930) seriam tão inimagináveis quanto A passagem pela noite (1920). o emprego de efeito de luz e sombra. Nosferatu (1921/22). quase todo o cinema da República de Weimar foi e é denominado expressionista. De Caligari a Hitler. Caligari) e Conrad Veidt (Cesare). Ficou a fascinação sempre exercida por esse último movimento artístico total. O último homem (1924) e Fausto (1926) – sem falar em De manhã até a meia-noite (1920). de Robert Wiene (originalmente Fritz Lang deveria assumir a direção). por exemplo. antes de ser difamado e proibido pelos nazistas como “arte degenerada”. pois ainda nem se deu início a ela. de 1914. de uma forma ou de outra. Os filmes expressionistas eram admirados no exterior por causa de sua atmosfera sombria e sinistra. com o movimento de câmera e com a representação. Caligari. E nisso veio-lhe certamente ao encontro o grande e geral interesse pela arquitetura fantástica (lembre-se de Bruno Taut ou de Hans Poelzig. vê em sua salvação a missão social do cinema). Com estes e outros filmes expressionistas pôde-se finalmente mostrar ao público burguês a pretensão artística do novo meio de expressão. que em seu famoso livro. contudo. que foi o responsável pelo desenho fílmico de O Golem. de Fritz Lang (1922). Dr. mas um pouco melhor: com ele a indústria filmográfica alemã conseguiu produzir algo inconfundível e com isso se afirmar. Claro está que sem o Caligari de Fritz Lang. mais próxima da realidade. uma atmosfera que na Alemanha nazista acabou por determinar a vida social. diante das hegemonias americana. apresenta um estudo sociopsicológico e político desses filmes. em cooperação com o cenário. ou mesmo suas obras-primas. que 6 2 Cult. francesa e italiana. A Cinemateca Brasileira mostrará dez desses filmes neste mês de outubro. mostravam-se então em uma forma estatalmente conduzida e canalizada – e ali se torna visível a forma politicamente ambivalente dessa revolta burguesa. em grande parte em versões restauradas e com música ao vivo. os gestos exagerados de Werner Krauss (Dr.Cena do filme O gabinete do Dr. de Paul Leni. substituído pela “Nova Objetividade”. a redução das pessoas agentes às suas características essenciais. tão central para o indivíduo. Escada de trás (1921). De forma errônea. A rigor houve também aqui um modelo que. perante a ortodoxia marxista: “A herança do expressionismo ainda não acabou. de Leopold Jessner ou Gabinete das figuras de cera (1924). Mabuse. que em 24 de janeiro de 1920 foi mostrado em préestréia e no qual Werner Krauss era o protagonista. Não aconteceu de forma muito diferente com o cinema expressionista.outubro/2000 nele se tornava manifesto. assim como o desinteresse. Os elementos extáticos e irracionais.

de Paul Leni 12 de outubro.00 3 de outubro. com participação da cantora Suzana Salles (foto). MESAS-REDONDAS – A REVOLTA CULTURAL DO EXPRESSIONISMO Museu de Arte Moderna de São Paulo Parque do Ibirapuera – Portão 3 tel.00/de 6ª a domingo R$ 8. 18h e 20h30 Dr. radiomaker premiada pela emissora alemã WDR e editora de música da revista Bravo!. de Friedrich Wilhem Murnau 7 de outubro. 19h30 O Expressionismo Alemão e sua Influência sobre o Modernismo Brasileiro Participantes: Andreas K. 11/5084-2177 Ingressos: de 3ª a 5ª – R$ 6. 19h Sesc Belenzinho Rua Álvaro Ramos. Staatgalerie Stuttgart. 19h30 O Expressionismo no Cinema.Paulo e da TV Cultura. quinta-feira. 18h e 20h30 Dr. 19h30 e 22h 22 de outubro. terça-feira. 9 de novembro. o inferno do crime (Na sessão das 20h30 o filme será apresentado em 20q/s) 10 de outubro. na Música. de Karl-Heinz Martin 5 de outubro. de Fritz Lang (Na sessão das 20h30. 11/5549-9688. produtora. Regina Porto. terça-feira. Marta Rossetti. professor do Departamento de Filosofia da USP. 20h30 O gabinete do Dr. quinta-feira. de Multimeios da Unicamp e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. 20h30 Da aurora à meia-noite (1920). coordenadora do mestrado e do Centro de Estudos em Dança do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Vetter. professora e pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. 20h30 Escada de serviço (1921). São Paulo.C u l t 6 3 . e Bruno Fischli. quarta-feira. sexta-feira. crítica de cinema e articulista da Folha de S. titular de Ciência Política na Universidade de Munique. Entrada franca 19 de outubro. 18h A última gargalhada (1924). e do encenador e bailarino Tom Plischke 21 de outubro. de Robert Wiene 4 de outubro. 20h30 Caminhando na noite (1920). quarta-feira. Susana Kampff Lages. 11/6096-8143 outubro/2000 . Veja a seguir a programação completa elaborada pelo Instituto Goethe em parceria com a Cinemateca Brasileira. 207. 20h30 O gabinete das figuras de cera (1924). Mabuse. Raul Cardoso. na Dança e na Literatura Participantes: Helena Katz. domingo. diretor do Instituto Goethe São Paulo (moderador). Leon Kossovitch. 2ª Parte: Dr. 20h30 O castelo Vogelöd (1921).CICLO TRAZ CINEMA EXPRESSIONISTA A SÃO PAULO Além da exposição Expressionismo alemão e do lançamento da antologia Poesia expressionista alemã. da reflexão estética e da dança. São Paulo sedia este mês uma série de eventos sobre esse movimento artístico nos campos do cinema. de Friedrich Wilhelm Murnau 12 de outubro. de Friedrich Wilhelm Murnau 6 de outubro. De 3 a 12 de outubro – Sala Cinemateca Largo Sen. 53). 20h30 Segredos de uma alma (1925-26) de Georg Wilhelm Pabst Além dos eventos destacados neste quadro. o MAM e o Sesc: CLÁSSICOS DO CINEMA EXPRESSIONISTA ALEMÃO Mostra de filmes com música ao vivo do grupo Gargântua e exposição de cartazes originais de filmes expressionistas do acervo da Cinemateca Brasileira. musicista. de Leopold Jessner e Paul Leni 11 de outubro. o filme será apresentado em 20q/s) 8 de outubro. quinta-feira. Caligari (1919). professora de língua alemã no CEL/ Unicamp e pesquisadora e pós-doutoranda em literatura alemã na USP. pesquisadora do MAM-SP (moderadora). 19h30 O Expressionismo e sua Época Participantes: Henning Ottmann. crítica de dança de O Estado de S. e Margarida Sant'Anna. DANÇA – “AFFECTS” Espetáculo do grupo B. Lúcia Nagib. Mabuse. sábado. e Marcelo Araújo. diretor do Museu Lasar Segall (moderador). professora de cinema do Depto.Paulo. Mabuse (1922). 991 tel. acontece no dia 5 de outubro o lançamento da antologia Poesia expressionista alemã (veja boxe na pág.D. tel.C. 26 de outubro.

justamente por circunstâncias sociais históricas. porque a matéria sobre o Nietzsche é simplesmente extraordinária. Sou antigo admirador da obra do filósofo alemão e também estudante de direito e. Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector. Que tal começar pela irônica Jane Austen. não só ele. Sou um fã incondicional do autor de A metamorfose. Thiago Mota por e-mail Escritoras Sou assinante Cult e me felicito por isso. teóricos. É uma pena que as pessoas envolvidas. mostrou-se excelente. O dossiê “Nietzsche 100 Anos” (CULT 37) me compeliu definitivamente a escreverlhes. Um dos pontos principais que encontrei para os iniciantes em Kafka foi a indicação das traduções de Modesto Carone. CEP 01326-010). Cada um se coloca (com alguma exceção entre os leitores) como “o” intelectual e ponto. Jorge Alberto por e-mail Nietzsche Desde que conheci e. via correio eletrônico. Alfredo Cesar Melo por e-mail seu conceito de rizoma. como o longo analfabetismo das mulheres.outubro/2000 Resposta da redação Agradecemos as sugestões. Considero isso uma falha. talvez por medo de cair no lugar. E estou falando aqui não da educação formal. Um dos meus teóricos de pesquisa é Gilles Deleuze. Estou falando de educação como aquele respeito necessário pelo outro que. tenho me esforçado no sentido de fazer uma ligação entre a doutrina nietzscheana e a filosofia do direito. Em geral. automaticamente. há poucas entrevistas e ou dossiês sobre escritoras. Melhor ainda. dezembro/1997]. a despeito da proferida incompatibilidade que haja entre os dois temas. 11/251-4300 e. dossiês. tanto de um lado como de outro. Gostaria muito de ver uma reportagem especial sobre Deleuze e o 6 4 Cult. que serão aproveitadas em breve num dossiê da CULT. pois. que é ótima e abre espaço para importantes ensaios. Mensagens via fax podem ser transmitidas pelo tel. Entretanto. comecei a consumir a CULT. por uma literatura menor”. aí vai um desafio para o editor: que tal um mapa deleuziano da literatura? Magda Garcia por e-mail Mário Chamie Em primeiro lugar. por si só. Seria interessante lembrarem se disso. Gostaria também de saber se vocês já lançaram algum dossiê sobre Guimarães Rosa. que chegou ao mercado editorial brasileiro suprindo uma grande lacuna de competência na reflexão teórica e crítica e de atualização do conceito estético e técnico das publicações especializadas em literatura. sem alteração de conteúdo. vi-me impelido a escrever para a seção “Do leitor”. desenvolvida no Jornal do Brasil na década de 50. Sou mestranda em Estudos Literários da UFMG e gostaria de elogiar o número dedicado a Kafka e à relação da sua obra com a América. publicamos entrevistas com a romancista sul-africana Nadine Gordimer [CULT 5] e com a ensaísta Beatriz Sarlo [CULT 35]. só destacam os homens escritores. Virginia Woolf e Pearl Buck ? Janyne Sattler por e-mail Kafka Gostaria de dar os parabéns pelo dossiê sobre Kafka [CULT 36. Mas tenho um pedido a fazer. Parece-me que o que faltou mesmo foi cada um se ver em seu devido papel e relevância. . pois todos são professores. além de sempre termos dado espaço equivalente para homens e mulheres nas resenhas e nas seções de criação literária. sua virtuosidade fala. ainda não havia chegado a concretizar esse impulso. é preciso notar que a revista nunca deixou de dar espaço para as escritoras. colocaram um brilhante ensaio de Stélio Marras. pois já fui vítima de péssimas traduções. Rui Barbosa. 32. como no caso de O processo. 5.comum dos elogios melosos. Se não. críticos.D o l e i t o r C U L T Cartas para a revista CULT devem ser enviadas para a Lemos Editorial (r. fará um ano da morte do ensaísta e crítico literário José Guilherme Merquior. março/2000]. Queria sugerir um dossiê sobre o poeta Mário Faustino. exceto belíssimas matérias como a de Marilena Chauí [CULT 35]. No entanto. que tanto tem influenciado a literatura contemporânea. Sou assinante da CULT e estou muito satisfeito tanto com o conteúdo como com o projeto gráfico. dispensa maiores comentários. Gilberto Freyre Gostaria de parabenizar pela excelente edição da CULT sobre Gilberto Freyre [n. Elisa Sayeg por e-mail Parabéns pela CULT. feito em “Kafka. conhecido pelo seu estudo minucioso da obra do escritor tcheco. porque a matéria veio inteiramente a calhar para um trabalho de pesquisa que venho desenvolvendo. Lygia Fagundes Telles [CULT 23] e Clarice Lispector num dos primeiros números da CULT [n. Em janeiro do próximo ano (2001). Porém. e Sinto falta de uma maior visibilidade para a literatura escrita por mulheres na CULT. diferencia a civilização da barbárie. conte-se com um número menor delas tanto na literatura como em qualquer outra arte. fui arrebatado.com. apesar de “desconhecido”. Ainda bem que há pessoas (na revista) preocupando-se em contribuir com uma reflexão séria sobre a cultura (como João Alexandre Barbosa). tenham tão pouca educação.br”. Os textos publicados nesta seção poderão ser resumidos ou publicados parcialmente. ao perguntar ao meu jornaleiro pela edição do mês [de agosto]. que se destacou tanto no campo poético como na crítica literária. Por que não aparecem as escritoras tanto quanto os escritores? Concordo que. junho/2000]. Segundo. isso sim. Além das citadas Marilena Chauí. Infelizmente. que. entrevistas. parabéns pela revista. Gostaria de comentar a polêmica que envolveu o poeta Mário Chamie [entrevistado na CULT 32] e leitores que responderam na seção de cartas [CULT 34]. para o e-mail “cult@lemos. mas vários outros bons autores brasileiros ficam um tanto esquecidos e necessitam ser resgatados. até mesmo no caso de novos escritores. em vez de se utilizar de algum ensaio das figurinhas marcadas do cenário cultural brasileiro. Primeiro. 70. São Paulo. Alonso Torres por e-mail alto. quando vão lançar? Outra coisa importante. Ele tem uma obra vastíssima. E. Com tudo de arrogância que há nessa posição. por dois motivos: para parabenizálos e para agradecê-los.

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