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Florianópolis, novembro de 2009

Educação 13

Instituições privadas premiam os melhores alunos do Enade

No dia 8 de novembro, os 731 alu- nos da faculdade Cesusc que fizeram o Exame Nacional de Desempenho do Es- tudante (Enade) tiveram uma motiva- ção extra para responder às perguntas com calma: quem concluísse a prova depois das três da tarde passava a con- correr automaticamente a um laptop, que será sorteado em dezembro. Antes, já haviam sido distribuídos 25 pen- drives para aqueles que respondessem corretamente às perguntas postadas em um blog criado especialmente para o exame. Além dos prêmios, a instituição ofereceu aulas de revisão dos conteúdos gerais e específicos de cada curso.

A estudante Gabriela Coutinho de

Azevedo, da segunda fase do curso de Direito, considera a ação da faculdade positiva: “Acho que ajudou. A ideia de

fazer uma revisão foi legal para estimu- lar os estudantes. Quem ia às palestras

e assinava a lista de presença concorria

a pendrives. Foi um jeito de recompen-

sar quem estava empenhado.” O estu- dante de Administração da Universida- de Federal de Santa Catarina (UFSC) Marcelo Dorigatti, que participou do exame como concluinte, apresenta ou- tro ponto de vista. “Acho que a facul- dade não tem que motivar o aluno, o aluno é que tem que estar motivado. O Enade é como um cartão de visita do

estudante.”

O coordenador dos cursos de Admi-

nistração e Ciências Contábeis da Uni-

ca, Carlos Roberto Vicente, explica que

o bom desempenho dos alunos no Ena-

de é muito valioso para a instituição. “O mercado sempre leva em considera- ção o ranking do MEC. O Enade é muito

importante, mas nossas preocupações não podem se restringir a isso”, afirma. Para garantir uma boa classificação, a Unica ofereceu aos convocados cerca de 120 horas de revisão e decidiu con- templar o melhores colocados com dez bolsas de pós-graduação.

O coordenador do curso de Jornalis-

mo da UFSC, Áureo Moraes, critica as

dimensões que esse ranking tomou. “É válido e importante que o MEC tenha um instrumento para avaliar as insti- tuições, mas é uma distorção utilizar o ranking para fazer propaganda e divi- dir: esses são os competentes, esses são os incompetentes”. Ele não é a favor de que a faculdade realize uma preparação específica para o exame. “Para isso nós teríamos que admitir que a formação que estamos dando não é completa. Se os resultados do Enade demonstrarem que nosso ensino apresenta falhas em determinada área, veremos uma ma- neira de melhorar essa situação. Mas será uma ação contínua, não um cursi-

nho visando à prova do dia seguinte.” O professor afirma que as institui- ções particulares têm uma relação di- ferente com o aluno se comparadas às universidades públicas. “Nas faculda- des privadas, o aluno é o cliente. Eles

precisam de um bom desempenho no

MEC para fazer propaganda e conse- guir mais alunos. Além disso, o Enade

é apenas um dos indicadores para a

nota final. Quem encara o desempenho

do aluno como a cereja do bolo, certa- mente falha em outras áreas.” Ele se refere ao fato de que a nota do Enade

é composta por três índices: estrutura

física, qualificação dos professores e de- sempenho dos alunos.

Na legislação que rege o Enade não

existe nenhuma cláusula que se refira às ações que a faculdade pode ou não promover a fim de melhorar seu desem-

penho no exame. Quando questionada sobre seu posicionamento a respeito das revisões e dos sorteios de prêmios, a assessoria de imprensa do Instituto e Pesquisa e Estatística (Inep), responsá- vel pela aplicação do Enade, respondeu que aprova esse tipo de incentivo, des- de que esteja dentro da legalidade. “O Enade vê com bons olhos as iniciativas que contribuam para o desenvolvimen- to acadêmico”.

Sarah Wesphal

Avaliação

Objetivos e funcionamento da prova

O Enade é promovido pelo Ministério da Educação (MEC), aplicado pelo Instituto Na- cional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), e visa medir o rendimento dos alunos de graduação em relação aos conteúdos

programáticos dos currículos, avaliar sua ca- pacidade de compreender temas referentes

à realidade e de se adaptar às exigências

decorrentes da evolução do conhecimento.

Embora o comparecimento seja obrigatório,

o aluno não é prejudicado diretamente se

entregar a prova em branco, já que a nota do Enade não consta no currículo. Porém,

a atitude irá diminuir a média do curso. O

valor médio obtido pelos alunos de cada gra- duação é somado a outros dois índices que

levam em conta a estrutura física e a qua- lificação dos professores. Com essas notas

é calculado o conceito do curso, que varia

de 1 a 5. O conceito fica registrado em um

ranking que pode ser acessado pela internet e consta nos principais guias de vestibular. Em Florianópolis, foram convocados 6.432 alunos para a prova. A taxa de abs- tenção ainda não foi divulgada. O exame foi realizado no domingo, 8 de novembro, entre 13h e 17h em 22 escolas públicas de toda a

cidade. Foram avaliados os cursos de Admi- nistração, Arquivologia, Biblioteconomia, Ci- ências Contábeis, Ciências Econômicas, Co-

municação Social, Design, Direito, Estatística, Música, Psicologia, Relações Internacionais, Secretariado Executivo, Teatro e Turismo e os

Cursos Superiores de Tecnologia em Design de Moda, Gastronomia, Marketing, Gestão de Recursos Humanos, Gestão de Turismo, Gestão Financeira, e Processos Gerenciais. Aqueles que não compareceram ao exame

tem até o dia 23 para solicitar despensa através do site oficial do Inep. (S. W.)

Rogério Moreira Jr.

do site oficial do Inep. ( S. W.) Rogério Moreira Jr. A Apae de Florianópolis atende

A Apae de Florianópolis atende hoje mais de 400 portadores de deficiência que fazem atividades como fisioterapia, AEEs e profissionalização

Lei prevê atendimento

especializado para os estudantes deficientes

Portadores de necessidades especiais devem ser matriculados no ensino regular, porém têm que realizar atividades complementares

Publicada em 2 de outubro, a nova medida para a educação especial prevê

a implementação do Atendimento Edu-

cacional Especializado (AEEs). A reso- lução 4, publicada por Cesar Callegari, presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educa- ção, visa atualizar as políticas públicas de educação especial no Brasil. Esse dispositivo complementa o De- creto 6.571, de 2008, parte da Política Nacional de Educação na Perspectiva da Educação Inclusiva. O objetivo da determinação, criada em setembro de

2008, é definir a obrigatoriedade da matrícula de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimen- to e altas habilidades (superdotação), na rede de ensino regular. A medida visa trabalhar o desenvol- vimento desses alunos da forma mais

didática e completa possível. Para isso,

o ensino dos portadores de necessidade

deve ser complementado ou suplemen- tado pelo AEEs. A lei prevê que os aten- dimentos ocorram centros públicos

com diversos recursos educacionais. Depois de matriculados nas redes de ensino comum, os alunos deverão par- ticipar de atividades complementares no turno inverso. Os centros públicos deverão contar com uma equipe espe- cializada. Além disso, o governo exige que esse espaço de atendimento tenha mobiliário, tecnologia e material di- dático necessários para enriquecer o aprendizado desses estudantes.

Essa assistência deve ser preferen- cialmente feita dentro de pólos públi-

cos, mas também pode ser oferecida por outras instituições conveniadas com a Secretaria de Educação ou órgão equi- valente dos estados ou municípios. “Ele [o AEEs] não é um reforço escolar, mas uma forma de bolar estratégias para que o aluno possa estar preparado para aprender. O atendimento vai trabalhar atenção, concentração e tarefas da vida diária”, explica Sandra Carrieri, pro- fessora do Departamento de Inclusão Educacional do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Quando inscri- tos nas AEEs, alu- nos especiais matri- culados em escolas públicas estaduais e municipais serão duplamente finan- ciados pelo Fundo

de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação. O censo escolar será utilizado para registrar o número de alunos especiais integrados na rede pública comum. Apesar de o decreto ter entrado em vigor no final de 2008 e ter suas diretri- zes operacionais publicadas apenas em outubro de 2009, já existem diversas leis que buscam assegurar o direito de educação a todos, inclusive para alu- nos deficientes, previsto pela Constitui-

ção de 1988. Esse tipo de atendimento

é pensado no país há pelo menos 15

anos, desde 1994, quando o governo brasileiro criou a política Nacional de Educação Especial. O Colégio de Apli- cação de Florianópolis, por exemplo, tem hoje 30 alunos especiais e trabalha com a inclusão desde 2004. A coordenadora pedagógica da As- sociação dos Pais e Amigos dos Excep- cionais de Florianópolis (APAE), insti- tuição conveniada com o Estado e que oferece o serviço de AEE, Fabiana Gar- cez, explica que “os dispositivos legais

fazem parte de um movimento muito maior, no plano

internacional de políticas públi- cas educacionais, como a Conven- ção de Guate- mala, da qual o Brasil é signatá- rio”. O encontro

aconteceu em 1999, visando prevenir

e eliminar a discriminação contra por-

tadores de deficiência e favorecer sua plena integração à sociedade. Para Sandra, o principal desafio do educador é romper obstáculos. “Bar- reiras de atitude vão sempre existir em qualquer ambiente e a função do edu- cador é justamente quebrá-las. Quando isso não for possível, a lei está aí para assegurar a educação a todos”.

“Quando o educador não pode quebrar as barreiras, a lei está aí para assegurar a educação a todos”

Fernanda Martinazzi

o educador não pode quebrar as barreiras, a lei está aí para assegurar a educação a