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Clarice Lispector (Brasil)

O Manifesto da cidade

Por que não tentar neste momento, que não é grave, olhar pela janela?
Esta é a ponte. Este é o rio. Eis a Penitenciária. Eis o relógio. É Recife. Eis o
canal. Onde está a pedra que não sinto? a pedra que esmagou a cidade. Na
forma palpável das coisas. Pois esta é uma cidade realizada. Seu último
terremoto se perde em datas. Estendo a mão e sem tristeza contorno de longe
a pedra. Alguma coisa ainda escapa da rosa-dos-ventos. Alguma coisa se
endureceu na seta de aço que indica o rumo de - Outra Cidade.
Este momento não é grave. Aproveito e olho pela janela. Eis uma casa.
Apalpo tuas escadas, as que subi em Recife. Depois a pilastra curta. Estou
vendo tudo extraordinariamente bem. Nada me foge. A cidade traçada. Com
que engenhosidade. Pedreiros, carpinteiros, engenheiros, santeiros, artesãos -
estes contaram com a morte. Estou vendo cada vez mais claro: esta é a casa, a
minha, a ponte, o rio, a Penitenciária, os blocos quadrados dos edifícios, a
escadaria deserta de mim, a pedra.
Mas eis que surge um Cavalo. Eis um cavalo com quatro pernas e cascos
duros de pedra, pescoço potente, e cabeça de Cavalo. Eis um cavalo.
Se esta foi uma palavra ecoando no chão duro, qual é o teu sentido?
Como é cavo este coração no peito da cidade. Procuro, procuro. Casa,
calçadas, degraus, monumento, poste, tua indústria.
Da mais alta muralha - olho. Procuro. Da mais alta muralha não recebo
nenhum sinal. Daqui não vejo, pois tua clareza é impenetrável. Daqui não vejo
mas sinto que alguma coisa está escrita a carvão numa parede. Numa parede
desta cidade.

A roda branca

Pétala alta: que extrema superfície. Catedral de vidro, superfície da


superfície, inatingível pela voz. Pelo teu talo duas vozes à terceira e à quinta e
à nona se unem - crianças sábias abrem bocas de manhã e entoam espírito,
espírito, superfície, espírito, superfície intocável de uma rosa.
Estendo a mão esquerda que é mais fraca, mão escura que logo recolho
sorrindo de pudor. Não te posso tocar. Teu novo entendimento de gelo e glória
meu rude pensamento quer cantar.
Tento lembrar-me da memória, entender-te como se vê a aurora, uma
cadeira, outra flor. Não temas, não quero possuir-te. Alço-me em direção de
tua superfície que já é perfume.
Alço-me até atingir minha própria aparência. Empalideço nessa região
assustada e fina, quase alcanço tua superfície divina . . .
Na queda ridícula as asas de um anjo quebrei. Não abaixo a cabeça
rosnante: quero ao menos sofrer tua vitória com o sofrimento angélico de tua
harmonia, de tua alegria. Mas dói-me o coração grosseiro como de amor por
um homem.
E das mãos tão grandes sai a palavra envergonhada.

in "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de


Janeiro - 1994