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Universidade de São Paulo

Museu de Arqueologia e Etnologia – MAE


Relatório de Qualificação de Tese Doutoral

As Gravuras Rupestres no Rio Negro, Amazônia Ocidental


Brasileira: Documentação Fotográfica e Análise Preliminar
do Corpus Gráfico

Aluno: Raoni B. M. Valle


Relatório de qualificação

de tese doutoral apresentado

ao Programa de Pós-graduação

em Arqueologia do Museu de

Arqueologia e Etnologia da

Universidade de São Paulo

Orientador: Prof. Dr. Eduardo Góes Neves


Linha de Pesquisa: Arqueologia Simbólica

São Paulo
2009

1
Índice
i. Resumo – Página 3
ii. Abstract – Página 4
iii. Memorial do Aluno – Página 5
iv. Apresentação - Página 11
I.Introdução - Página 15
I.i. Definindo as Epistemes – Página 15
I.ii. Questões Preliminares – Página 16
I.iii. Sintaxe e Tafonomia – Página 28
I.iv. A Equação Cognitiva – Página 29
II.Posicionamento Conceitual e Histórico Investigativo dos Objetos – Página 33
II.i. O Que é Arte Rupestre – Página 33
II.ii. Os Registros Rupestres na América do Sul – Página 35
II.iii. Registros Rupestres na Amazônia – Página 36
II.iii.a. Os Registros Rupestres na Guiana, Venezuela e Colômbia – Página 44
II.iii.b. Os Registros Rupestres na Bacia do Rio Negro – Página 49
II.iii.c. A Datação de Gravuras Rupestres na Bacia do Rio Negro – Página 52
III.Construção e Estrutura da Pesquisa – Página 56
III.i. Área Amostral – Página 56
III.ii. Do problema – Página 61
III.ii.a. A Hidrografia – Página 65
III.ii.b. A Geologia - Página 66
III.ii.c. Etnografia, Linguística e História Indígena – Página 67
III.iii. Da Hipótese – Página 69
III.iv. Quadro Teórico-Metodológico– Página 71
III.iv.a. Da Análise dos Dados – Página 79
III.iv.b. Do Registro Fotográfico – Página 88
III.iv.c. O Formulário de Documentação de Sítio – Página 97
IV.Resultados Preliminares – Página 103
IV.i. Relação dos Sítios Trabalhados – Página 105
IV.ii. Perfis Gráficos na área Amostral 1 – Página 110
IV.ii.a. Perfil Gráfico Velho Airão – Página 110
IV.ii.b. Perfil Gráfico Rio Negro – Página 150
IV.ii.c. Perfil Gráfico Unini – Página 175
V.Da Ressignificação do Passado e Analogia Etnográfica – Página 205
V.i. Do Problema – Página 207
V.ii. Da Proposição – Página 208
V.iii. Desenvolvimento – Página 208
V.iv. Ruptura Epistemológica – Página 217
V.iv.a. Imagem, Conhecimento e Memória – Página 218
V.iv.b. Os registros rupestres pós-contato – Página 230
V.iv.c. Da Testabilidade das Hipóteses – Página 233
V.v. Conclusão da Parte V – Página 236
VI.Considerações Finais – Página 240
VII. Bibliografia – Página 246

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i. Resumo
Tratamos aqui de um estudo preliminar acerca das gravuras rupestres
(petróglifos) situadas entre a localidade de Velho Airão e a foz do rio Branco, no baixo
rio Negro, municípios de Novo Airão e Barcelos, estado do Amazonas. Nesta área
foram foto-documentados e geo-referenciados, até o presente, 15 sítios rupestres
ribeirinhos a céu aberto, parcialmente submersos, em afloramentos rochosos areníticos e
graníticos contendo petróglifos de origem indígena pré-colonial. Estes sítios não
apresentam depósitos arqueológicos e, portanto, não podem ser escavados nem
inequivocamente associados aos sítios cerâmicos adjacentes na área. Desta maneira, se
configuram em variáveis isoladas, sem contexto arqueológico nem datação, o que
dificulta seu estudo.
Dentre as abordagens teóricas correntes na arqueologia perseguimos a que
afirma serem as gravuras rupestres (e pinturas) sistemas pré-históricos de comunicação
visual que funcionariam como linguagens gráfico-simbólicas das comunidades autoras.
Nessa perspectiva, seriam passíveis de estudo enquanto uma variável, ou resultante, do
comportamento humano no passado inseridas no registro arqueológico portando
características formalmente identificáveis e mensuráveis estruturadas em perfis gráficos
que, hipoteticamente, indicariam os perfis sociais dos autores rupestres. Utilizamos
aportes da semiótica e da antropologia pré-histórica para análise de códigos simbólicos
onde se evita a interpretação de significados apoiando-se exclusivamente na análise
formal do significante gráfico baseada nos aspectos material, morfo-topológico, técnico,
tafonômico e geo-ambiental do grafismo rupestre.
A área amostral apresenta variabilidade geológica (contato do escudo cristalino
com bacia sedimentar) e variabilidade hidrográfica (confluência dos rios
Negro/Branco/Jauaperi/Unini/Jaú). Propomos que essas características ambientais
podem estar contribuindo para a variabilidade no fenômeno gráfico-rupestre que
estamos detectando na área, o que indica diferenças crono-culturais na autoria desses
petróglifos.
Um único sítio abrigado com gravuras rupestres e pacote sedimentar foi
encontrado no alto curso do rio Jauaperi, afluente do baixo Negro, no sul de Roraima,
periférico à área amostral mas hidrograficamente conectado a ela. Tendo sido já
realizada a topografia detalhada do mesmo estamos propondo agora a abertura de
sondagens estratigráficas, ao menos duas abaixo das gravuras para a tentativa de
recuperação de dados contextuais e obtenção de datações absolutas associadas a
ocupação do abrigo.
Palavras-Chave: gravuras rupestres; rio Negro; perfil gráfico; documentação
fotográfica; variabilidade gráfica.

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ii. Abstract
This research presents a preliminary study about the petroglyphs from a sample
area defined between the Velho Airão historical site and the mouth of the Branco river,
in the lower Negro river basin, Western Brazilian Amazon. They comprise a corpus of
open air and underwater Rock Art sites, twelve (12) at present, located on sandstone and
granite riverine boulders. Given the absence of archaeological stratified deposits, these
sites can neither be excavated nor unequivocally related to adjacent ceramic sites in the
survey area. Thus they are bound in contextual isolation, lacking spatial as well as
chronological control.
According to one current theoretical framework, rock art corpora (petroglyphs
and pictographs) world wide, are thought to be prehistoric systems of visual
communication that would work like graphical symbolic languages of the authors’
communities. From this perspective it would be possible to study them as a
variable/result of past human behavior presenting patterns of formal characteristics that
could be structured in graphic profiles hypothetically related to the social profiles of
these authors. This approach uses tools from semiotics and prehistoric anthropology that
are geared toward analyses of symbolic codes, which are seen as patterns of reality
constructs based on cognitive and cultural/environmental operations. Through this view,
interpretations of meaning are avoided and a formal method based on observations of
technical, thematic, morpho-topological, taphonomical and geo-environmental aspects
of the rock art phenomena are employed.
The area presents geological variability (contact between crystalline Guiana
shield and sedimentary basin) as well as hydrographical variability (confluence among
Negro, Branco, Jauaperi, Unini and Jaú rivers). We propose that this environmental set
contributes to the graphical variability we are detecting inside the rock art corpus, which
indicates possible chronological and cultural distinctions in the prehistoric authorship of
these petroglyphs.
A single sheltered petroglyph site with archaeological deposit was found in the
Upper Jauaperi River, a Lower Negro’s tributary within the sample area, in southern
Roraima state. We have already done the detailed topography of the shelter and for now
we propose the excavation of test units, at least two under the main panel to try to
recover contextual data, panel’s fragments, petroglyph tools and obtain absolute dates
for the shelter’s occupation strata.
Key Words: petroglyphs; Negro river basin; graphic profile;
photographic recording; graphical variability.

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iv. Apresentação

Este relatório de qualificação doutoral apresenta-se dividido em seis partes que


se pretendem concatenadas à exceção da quinta parte que situamos intencionalmente
como um ‘ponto de mutação’ na linha perseguida.
iv.a. A primeira delas, a introdução, se trata, de uma exposição sobre temas que
julgamos relevantes para a investigação dos registros rupestres numa escala teórica mais
ampla. Temas como: a subjetividade cognitiva do pesquisador em contraste à exigência
de objetividade do método; a ruptura epistemológica na arena histórico-cultural entre os
autores rupestres, o arqueólogo e o presente etnográfico; a unidade neuro-físio-cognitiva
da espécie sapiens; e considerações acerca da estrutura e funcionamento da mente
humana baseada em princípios de classificação e comunicação, figuram entre os
aspectos abordados.
Sugerimos que esses tópicos estão em maior ou menor grau refletidos nas
páginas que se seguirão sem, no entanto, alinhavar relações necessariamente objetivas
com os conteúdos apresentados. Desta forma, não pretendemos filiar este trabalho a
uma corrente teórica ou subdisciplina arqueológica, apesar do rótulo de arqueologia
cognitiva apresentado nas primeiras linhas assim sugerir, mas situá-lo em integração a
uma série de elementos conceituais de diversas epistemes científico-filosóficas.
Epistemes estas que se articulam no estudo da obra gráfica pré-histórica e que
transcenderiam a arqueologia, ou melhor, refletiriam a natureza própria da
interdisciplinaridade arqueológica.
iv.b. A segunda parte, posicionamento conceitual e histórico investigativo dos
objetos, é dedicada a uma apresentação mais direta dos objetos desta pesquisa e está
assim organizada: os registros rupestres de maneira geral num primeiro momento;
seguido de considerações sobre os registros rupestres amazônicos tanto na Amazônia
Ocidental brasileira quanto Oriental, com apêndices adentrando na Guiana, Venezuela e
Colômbia; para então nos determos um pouco acerca deste fenômeno na bacia do rio
Negro, neste caso, petróglifos ou gravuras rupestres mais especificamente. Ainda
abrimos espaço ao final para algumas considerações sobre as possibilidades de datação
e contextualização arqueológica, via escavação, associada a gravuras rupestres na
periferia da área amostral. Portanto, obedecemos a uma direção na apresentação
conceitual do objeto da generalidade para a especificidade.

5
iv.c. A terceira parte, construção e estrutura da pesquisa, trata-se de expormos
em linhas claras o corpo deste trabalho, a morfologia constitutiva da pesquisa. Assim,
dividimos essa parte seguindo o que entendemos ser a estrutura heurístico-
epistemológica própria do conhecimento científico: área amostral; problema; hipótese,
quadro teórico-metodológico, análises, resultados.
Há de se fazer cinco (5) ressalvas com relação a ausência de dados e de
procedimentos: (1) na àrea amostral não consta a caracterização fisiográfica, biótica e
abiótica, do meio ambiente e também está ausente a importante caracterização
paleoambiental do rio Negro e suas subáreas. Tais partes ainda não foram redigidas e,
portanto, não constarão nessa versão atual do documento sendo destinadas ao formato
final do que virá a ser proposto como a tese doutoral; (2) No ítem do problema, na
caracterização etnográfica e linguística do rio Negro falta ainda a caracterização
etnográfica do rio Branco que guarda especificidades e a apresentaremos no documento
final; (3) na parte teórico-metodológica anexamos um subítem destinado a demonstrar
nossa ficha de campo. A idéia com isso é demonstrativa e não analítico-exaustiva, ou
seja, não estamos expondo os dados prontos e concatenados analiticamente, apenas uma
demonstração da moldura de coleta dos dados, do protocolo com o qual estamos
trabalhando e orientando nossas coletas. As fichas estarão publicadas com seus dados
digitalizados na versão final do documento. Esta ressalva nos leva a quarta;(4) a parte
analítico-quantitativa ainda não foi rodada nas premissas que nos propomos no projeto
de pesquisa inicial, a partir da conversão dos atributos caracterizadores (técnica,
temática, morfologia e cenografia) de nossas unidades gráficas (o grafismo isolado) em
códigos binários de ausência-presença compondo as matrizes matemático-estatísticas
para alimentação de dois processos de agrupamento: Cluster e Cladística. Portanto,
oferecemos momentaneamente apenas as linhas gerais de nossas intenções analíticas e
não os resultados finais das análises; (5) foram executados no total 3 experimentos de
confecção de gravuras rupestres que auxiliaram na análise técnica. A descrição
detalhada dos procedimentos adotados, bem como, os resultados finais também ficará
reservada para a tese final.
iv.d. A quarta parte, os resultados preliminares, dividimos em dois
compartimentos, num deles consta uma relação dos sítios trabalhados, e no seguinte
damos espaço a considerações mais extensas acerca dos perfís gráficos dos sítios
amostrados e de suas relações intra-sítio e inter-sítios. Assim, na primeira parte temos
6
uma relação dos 15 sítios trabalhados na área amostral 1 onde estão se dando os
levantamentos extensivos e oportunísticos, com a localização e breve descrição das
propriedades intrínsecas de cada um. Na sequência relacionamos o único sítio que
constitui a amostra externa em Roraima, Arara Vermelha, onde pretendemos aplicar a
abordagem intensiva e pontual voltada para a escavação e contextualização das gravuras
desta unidade arqueológica por enquanto isolada.
O segundo compartimento engloba uma descrição mais detalhada de como cada
um dos atributos analíticos se comporta dentro dos três perfis gráficos que identificamos
na área amostral. Intentamos apresentar de maneira mais objetiva possível, nossos
constructos arqueológicos, ou metaconstrutos de realidade (a nossa construção em cima
do que julgamos ser o palaeo-constructo gráfico) e tentar com isso dar conta da
variabilidade que acreditamos existir dentre os perfis dos sítios amostrados. Trata-se aí
de dois movimentos: segregar as variáveis (atributos) em cada sítio e observá-los em
separado, e em seguida agrupar as variáveis com base em analogias visuais entre os
sítios. A idéia é identificar quais deles compartilham mais características gráficas e
quais compartilham menos e propor um ordenamento preliminar para tais
manifestações. Tal processo gerou três classes de constructos arqueológicos que estarão
descritos em suas propriedades específicas.
Para o documento final estarão constantes todos os procedimentos adotados (na
parte de método) e os resultados alcançados com a escavação do sítio arqueológico
Arara Vermelha em Roraima, que ainda não foram realizados, estando os mesmos, suas
análises e datações planejadas para o biênio 2010-2011. O mesmo procedimento será
adotado para os sítios do que estamos chamando área amostral 2, o rio Içana, no Alto
Negro, com seus 6 sítios rupestres, já documentados. Por ora, nossos resultados são
extremamente preliminares, baseados em nossas analogias visuais e fotográficas
baseadas na cognição subjetiva do pesquisador, ou seja, uma primeira impressão acerca
das propriedades do corpus encontrado na área amostral 1, a mais extensa. Guarda
ainda, portanto, considerável grau de ambiguidade, sem um efetivo teste matemático.
iv.e. Na quinta parte, da ressignificação do passado e analogia etnográfica,
propomos um turning point teórico-metodológico. Uma reflexão no rumo de uma
ruptura heurístico-epistemológica com a pesquisa em arte rupestre no Brasil baseada
exclusivamente em métodos formais de investigação (que independem e, grosso modo,
desconsideram as explicações dos indígenas atuais para o fenômeno). Posicionamos o
7
problema da ausência de contexto arqueológico, mas, da presença do contexto
etnográfico referente aos registros rupestres no rio Negro. Tocamos na questão dos usos
étnicos que as populações indígenas amazônicas dão aos petróglifos marcadamente no
alto rio Negro e em seus tributários na Colômbia e Venezuela. Perguntamos-nos se a
adoção de método formal na pesquisa com registros rupestres no rio Negro é suficiente
para atacar o fenômeno em sua ampla gama de manifestações complexas.
É ressignificação do passado (Oliveira 2004 [Org.]; Oliveira & Santos 2003) que
implica em ruptura diacrônica e reapropriação político-conceitual de velhos constructos,
ou é possível terem havido continuidades gráfico-conceituais entre as populações
indígenas atuais do rio Negro e os autores rupestres?
Entendemos ser extremamente difícil a proposição de hipóteses refutáveis a
partir da comparação do raciocínio indígena atual ao fenômeno gráfico antigo que, em
princípio, sempre permanecerá numa base especulativa e irrefutável, pois a experiência
palaeo-gráfica é irrepetível. Como, então, testar hipóteses derivadas desse processo
analógico quando não se tem o registro arqueológico como mediador experimental,
apenas os fragmentos de grafismos e fragmentos de tradições orais?
Se não sabemos como atacar esse problema, ao menos, temos que começar
tentativamente a transcender o método formal. Propomos, portanto, em carácter
experimental, uma hibridização entre os métodos formal e informado seguindo uma
agenda baseada na superposição crítica entre nossos mecanismos classificatórios e os
mecanismos classificatórios dos Tukano, Arawak e Maku sobre os petróglifos.
Basicamente, trata-se de uma proposta de linha de estudo acerca de como eles e o
arqueólogo enxergam as diferenças e as semelhanças na obra gráfica. Em suma, como
separamos classes taxonômicas.
iv.f. Chegamos nas considerações finais. Aqui retomamos a discussão sobre o
significado de nossos resultados preliminares e oferecemos uma formulação gráfica para
dar conta de nossa classificação incipiente acerca do fenômeno na área de estudo. Neste
diagrama oferecido traduzimos em formato de árvore filogenética nossa hipótese de
como se ordenam os petróglifos em suas redes de relações dentro da amostra. Propomos
com isso além de um esquema classificatório modesto e preliminar, um modelo
hipotético a ser testado com a expansão da amostra gráfica retomando as prospecções
no rio Negro a partir dos locais já conhecidos.

8
“...quando me encontrava à altura da foz do rio Branco, encontrei, numa ilhota
rochosa, numerosas figuras de homens e animais, todas de grande tamanho, entalhadas
na duríssima rocha granítica.”

Alfred Russel Wallace1 1850[1889]

I . Introdução

I.i. Definindo as Epistemes

Acreditamos que, de maneira geral, este trabalho pode ser posicionado junto à
Arqueologia Cognitiva, isto é,“the study of past ways of thought as inferred from the
surviving material remains” (Renfrew 2007, p.91). Portanto, quando lidamos com
corpora de arte rupestre tentamos criar acesso a sistemas de pensamento culturalmente
determinados e extintos, dotados de materialidade gráfica vestigial. Ou seja, sistemas de
pensamento gráfico que não estão mais em uso sócio-mental (ao menos não do ponto de
vista dos autores originários) e cujas reminescências materiais encontram-se alteradas
por processos tafonômicos. No estudo do pensamento gráfico de Homo, dentro da
abordagem que perseguimos, usamos diferencialmente aportes da semiótica e da
linguística, da filosofia, da antropologia social, da psicologia cognitiva2, da neuro-
biologia evolutiva, da etologia de primatas e da geologia.
Nossas ferramentas são a observação direta e o registro fotográfico derivados da
aplicação de um método formal (Chippindale and Taçon, 1998, p.7), que não depende
de informes etnográficos vinculados a interpretação de significados, mas de
propriedades que julgamos objetivamente observáveis na arte rupestre. Tentamos assim,
identificar estruturas de organização interna recorrentes (padrões gráficos) e estabelecer
relações entre diversos sítios e corpora gráficos, numa perspectiva espacial e, quando
possível, temporal. Apesar de nossa observação ser culturalmente exógena ao sistema

1
Naturalista Inglês do século XIX que escreveu em 1858 o ensaio On the Varieties to Depart Indefinitely
From the Original Type antecipando a teoria da evolução das espécies pela seleção natural de Darwin.
2
Acerca da psicologia cognitiva encontramos a seguinte definição a partir de Neisser (1967) "Cognitive
Psychology": Cognition literally means “knowing”. In other words, psychologists from this approach
study cognition which is ‘the mental act or process by which knowledge is acquired.
http://www.simplypsychology.pwp.blueyonder.co.uk/cognitive.html

9
extinto (diacronia cultural), ela é biologicamente endógena condicionada pela unidade
neuro-visual da espécie3 (sincronia biológica).

I.ii. Questões Preliminares

Retomamos aqui, em parte, um velho problema proposto por Jean Piaget


(1967[1973]) em sua obra Biologie et Connaissance acerca das estruturas de regulação
biológica, neuro-fisiológica e cognitiva, na construção do conhecimento serem
isomórficas ao processo epistemológico em suas regulações psico-comportamentais e
sócio-culturais. Trata-se do programa piagetiano da Epistemologia Genética4 (Piaget
1973, 1976, 1979). A idéia básica é que em ambas as esferas, em biologia e em cultura,
os princípios operatórios subjacentes à construção do conhecimento teriam sido
homólogos, no sentido de que teriam co-evoluído a partir de uma estrutura ancestral
comum e ainda hoje estariam inter-relacionados apresentando isomorfismos parciais5
entre suas estruturas reguladoras, os esquemas de ação e sistemas de operação (Piaget
1973, p. 16-17).
Piaget (1973, p.22-24) pontua: “Nosso problema não é outro senão o das
relações entre “memória” e “lógica”, próprias do comportamento e da vida mental, e

3
Apesar de não haver consenso atual em biologia sobre o conceito de espécie e sobre quais aspectos nos
unem enquanto Homo sapiens, partimos aqui da condição de interbreeding do Biological Species Concept
(BSC): “Species are Groups of interbreeding natural populations that are reproductively isolated from
other such groups” (Mayr 1995 in Coyne et al. 2004:27). Hoje se verifica grande semelhança genética
entre todas as populações humanas vivas, como apontado por Cavalli–Sforza (2003), contudo, o processo
de especiação não cessou e várias populações humanas caminham para ampliação de suas distâncias
genéticas, em contraparte há um processo global de mistura genética entre populações dos diversos
continentes que também tem implicações no design do genoma humano futuro. No caso de unidade
neuro-visual me refiro ao processo de conversão da luz em sinal elétrico que ocorre na retina a partir da
estimulação ótica do cristalino e da córnea. A retina envia o sinal elétrico ao cérebro através do nervo
ótico. Este processo, e suas consequências neuro-etológicas, é o mesmo entre nós desde quando estas
estruturas co-evoluiram com a visão bifocal, estereoscópica, possivelmente já em Homo habilis há mais
de 2.600.000 anos atrás (Hoffecker 2007).
4
Para mais detalhes ver: http://www.simplypsychology.pwp.blueyonder.co.uk/piaget.html
5
Segundo Piaget (1973, p. 73): ”Falaremos a esse respeito, de ‘isomorfismos parciais’, correndo o risco
de inquietar os lógicos, para os quais o isomorfismo ou é total (correspondência biunívoca entre os
elementos de uma estrutura A e os da estrutura A’ e entre as relações que os unem em A e as que os unem
em A’, inclusive seus sentidos de orientação) ou não existe. O inconveniente da noção de isomorfismo
parcial é, com efeito, poder-se introduzir este tipo de ligação entre quaisquer coisas (...) Mas os
isomorfismos parciais adquirem contudo uma significação instrutiva se forem satisfeitas as duas
condições seguintes: a) possibilidade de indicar os processos de transformação capazes de conduzir de
uma das estruturas comparadas à outra; b) possibilidade de fazer corresponder essas transformações a
um processo real e observável, de natureza histórica ou genética (epigenética, etc.).”

10
a “memória” ou a “lógica”(...)na vida orgânica, não enquanto propriedades
psíquicas,(...) mas a título de expressão dos mecanismos auto-reguladores.” Tratando-
se pois, “das relações entre as regulações cognoscitivas e as orgânicas em todas as
escalas”. A começar pelo “Paralelismo, bastante impressionante, dos problemas
levantados pela embriogênese orgânica e pela embriogênese mental, que é o estudo do
desenvolvimento individual da inteligência, das percepções, etc., de onde tiramos
nossas principais informações sobre a natureza dos conhecimentos.”
A hipótese piagetiana assim se traduz: “Os processos cognocitivos aparecem
então simultaneamente como resultante da auto-regulação orgânica, da qual refletem
os mecanismos essenciais, e como os órgãos mais diferenciados dessa regulação no
âmbito das interações com o exterior, de tal maneira que acabam, no homem, por
estendê-las ao universo inteiro”(Piaget 1973, p.38).
A consequência da proposição de que a cognição é um órgão regulador das
trocas entre organismo e meio para o estudo do comportamento humano no passado é
que entendendo a biologia do conhecimento como ela ocorre hoje poderemos inferir
sobre problemas culturais de construção do conhecimento diacronicamente, pelo menos
desde a especiação de Homo sapiens. Isto é, conhecer o processo pelo qual nossa
cognição, mente e corpo funcionam hoje seria um caminho para entender como essas
estruturas co-evoluiram e desenvolveram os constructos de realidade (a construção
simbólica que acreditamos ser o mundo externo), entre os quais os sistemas simbólicos
objetos deste trabalho, os registros rupestres pré-históricos.
Os princípios estruturais de qualquer código simbólico estão entranhados na
neuro-fisiologia de Sapiens. Tais princípios, portanto, estariam disponíveis ao olhar
analítico de qualquer ser humano enculturado em qualquer tradição de conhecimento.
Não sendo, portanto, de natureza cultural a estrutura subjacente ao simbólico e ao
regimento de suas propriedades manifestas, mas de natureza mental, cognitiva e
neurológica. Por esta avenida teórica se poderia estudar, hoje, o hermetismo da mente
Sapiens de outrora.
Os princípios piagetianos foram bem empregados na abordagem do fenômeno
gráfico-rupestre de Anne-Marie Pessis. Considerando que a propriedade essencial da
apresentação gráfica da tradição Nordeste de pinturas rupestres é a economia de
atributos gráficos na renderização das formas, posturas, gestos, ações e composições dos
grafismos reconhecíveis e puros desta tradição, Pessis (1987:379) faz referência direta
11
aos conceitos e processos da epistemologia genética de Piaget: “(...) L’économie
d’attributs graphiques en tant que régle de présentations graphique de la tradition
Nordeste s’expliquerait par l’existence d’un isomorphisme structurel entre la structure
cognitive et la estruture de la représentation matérielle symbolique. Dans le processus
de connaissance le sujet fonctionne avec les composants de la structure del’objet ou de
de l’événement présenté. Une sélection perceptive s’accomplit suivie d’un processus
d’assimilation aux strutures de connaissance antérieures et aux schemas d’action. La
hierarchie des composants s’etablit en function de ces forms de fonctionnement. Dans
la pratique graphique le sujet travaille avec quelques composants choisis de l’activité
qui s’accomplit sur le plan des structures mentales, et qui sont porteuses de
signification. En conséquence, le caractére économique, qui fait de ces manifestation
graphiques de la prehistoire un art essencialiste peut être considéré comme la
manifestation visible d’une correspondence de fonctionnnement entre l’activité
cognitive et l’activité de reproduction graphique du sensible.”
Assim, com base na observação das correspondências, dos isomorfismos, entre
os objetos e suas relações ambientais, que se apresentam em estruturas formais de
comportamentos, tanto no nível orgânico quanto no mental-cognitivo, o estudo da
manifestação material do simbólico antigo, da obra gráfica pré-histórica de Homo, seria
uma forma de acessar a sua cultura simbólica, de aceder à mente humana no passado a
partir dos vestígios materiais de seus construtos mentais.
Desta forma, tentamos observar e fotografar padrões objetivos na obra gráfica
mesmo que inexoravelmente partindo de nossa cognição subjetiva, alavancada pela
bagagem teórico-prática adquirida, que tende a transformar-se com o tempo de
experiência fotográfica e de leitura teórica. Mas, como nos situa Bednarik (2007, p.2)
“It is very reasonable to assume that the cosmovision of any extinct human groups also
differed significantly from that of the investigating archaeologist(…)who are strongly
conditioned by cultural and academic biases, causing them to believe they are somehow
‘objective’. Yet no human being is even remotely objective, all our constructs of reality
merely reflect cotingent prejudices whose origins are very complex indeed. (…)The
origins of human constructs of reality could be studied by objective organisms through
the examination of physical remains of the process that formed them, particularly early
expressions of symbolism.”

12
Voltando ao problema piagetiano ainda em aberto, só é humanamente possível o
estudo do modus pensandi pré-histórico partindo da cognição atual. Por essa perspectiva
existiriam isomorfismos entre padrões de funcionamento eletro-químico do cérebro e
padrões de organização sócio-comportamental que precisariam ser identificados e
testados. Nossa proposição fundante é que dois princípios operatórios do sistema
neuro-cognitivo humano desempenham papéis análogos (isomórficos parciais) quando
externalizados em comportamento cultural humano e não-humano, isto é: comunicação
e classificação, estritamente relacionados com as estruturas de comportamento
imagético em primatas, referentes a observação (seletiva e classificatória) do meio e a
apresentação (comunicação e tradução) de si ao meio (Pessis 2004, p. 59).
A partir de Piaget (1973, p.16) podemos abrir paralelos entre memória e
comunicação, enquanto assimilação de novos conteúdos contrastados aos esquemas
mentais pré-existentes, portanto, em algum tipo de comunicação interna (transporte de
informação), e entre lógica e classificação, enquanto organização de informação a partir
de esquemas de ordem e de reunião (“A lógica [...] Consiste, ela também, em um
sistema de operações [classificar, seriar, pôr em correspondência, utilizar uma
combinatória ou grupos de transformações, etc.”]). Portanto, estamos considerando
aqui os sistemas gráficos da pré-história como sistemas de comunicação e de
classificação de mundo numa base sincrônica, biológica e cultural, partindo de
paralelismos hipotéticos entre estruturas mentais-comportamentais e estruturas
orgânicas neuro-cognitivas que, parcialmente, independeriam de idiossincrasias
culturais.
Anne-Marie Pessis (2004, p.56) coloca: “Considerar a dimensão biológica dos
autores das pinturas e gravuras é identificar as características que se vão configurando
no processo de hominização, necessárias para o aparecimento do fenômeno gráfico. A
possibilidade de representar graficamente o mundo sensivel é resultado, em parte, da
capacidade da espécie humana de tomar distância em relação a ela mesma, posicionar-
se em relação aos outros e ter, como consequência do processo de evolução, uma
consciência reflexiva. Estes componentes formam a capacidade da espécie, e suas
potencialidades desenvolver-se-ão no processo de construção da cultura.”
A renderização gráfica de formulações mentais é uma derivação, “an unintended
by-product of their (nossa) cognitive evolution” (Bednarik 2007, p. 2) associada,
basicamente, à evolução fono-motora da mão e do mecanismo língua-larinje.
13
Fundamentalmente, essa co-evolução junto ao cérebro, permitiu a fala articulada e a
manipulação precisa de objetos (Hoffecker 2007) e a partir daí a (des)construção
simbólica da realidade ‘pura’, externa, ‘out there’ na perspectiva Kantiana da coisa-em-
si (Ding an sich) em contraposição ao pensamento conceitual (Edgar in Outhwaite and
Bottomore 1993, p. 521).
Sobre a consideração do mundo material de Homo ser a representação de seu
mundo interno mental, encontramos em Lewis-Williams uma interessante passagem
acerca do sábio setecentista Giambattista Vico apontando em ‘Principii di una scienza
nuova’ de 1734 que “the human mind gives shape to the material world, and it is this
shape, or coherence, that allows people to understand and relate to the world in
effective ways. The world is shaped by, and in shape of, the human mind, despite the
fact that people see the world as ‘natural’ or ‘given’ (Lewis-Williams 2004, p. 51).
Seguindo as idéias de Vico Leroi-Gourham acreditava que “upper palaeolithic people
imposed the ‘shape’ of their minds on their material world. E que “(…) close study of
the products of palaeolihic mind will reveal something of its functioning” (Lewis-
Williams 2004, p. 60). De maneira mais geral, compartilhando esta perspectiva, Gordon
Childe afirmava que cultura material é “concrete expressions and embodiments of
human thoughts and ideas” (Childe 1956, p. 1 in Hoffecker 2007).
Tratamos aqui, portanto, a obra gráfica pré-histórica como símbolo material
(artefato parietal) e como sistema simbólico (ordenações arbitrárias, enquanto
culturalmente determinadas, de conceitos e idéias que formatam os artefatos), ou seja,
representação externa e material de uma construção mental. Os registros rupestres
existem como conjuntos de signos, cada um dos quais possuindo significados
culturamente convencionados atrelados arbitrariamente a determinadas formas
simbólicas, o significante. Esta perspectiva é iminentemente semiológica fundamentada
nos estudos de Ferdinand de Saussure (1969) que introduz o conceito de signo
linguístico como uma construção cognitiva humana formada por duas propriedades
fundamentais: o ‘signifiant’, isto é, o significador (significante formal) – e um sentido
– o ‘signifié’, ou coisa significada (o significado) (Trask 2004, p. 266).
Partindo da premissa dos sistemas simbólicos, nossa categoria de entrada é a

14
unidade de pensamento que aqui definimos como símbolo 6 (signo saussuriano).
Consideramos, aqui, símbolo como a menor unidade epistemológica de Homo sapiens,
análogo ao que Dawkins (2006, p.192) definiria como meme7 (a unidade de replicação
da cultura). Embora Colin Renfrew (2007: 89) tenha desautorizado essa analogia: “(…)
I feel that the attempt by the British evolutionary theorist Richard Dawkins to introduce
into the discussion the term ‘meme’, in analogy with the term ‘gene’, is a misguided
one. It suggests a perspective where the mechanisms of growth and development of
‘cultural evolution’ (if one calls it that) are fundamentally analogous to those of
biological evolution, so long as one is willing to change one or two points of detail and
to substitute the notion of meme for that of gene. That creates a simplistic view that is
just not appropriate.” Apesar disso, seguimos na perspectiva paralelística de que
símbolo e meme se configuram numa unidade reflexiva válida que precisa ser
reconsiderada em outra arena. Concordamos com Renfrew, no entanto, quando afirma
tratar-se de uma simplificação. Especificamente nos inquieta a redução dos processos de
transmissão cultural à imitação, mesmo que, como afirma Dawkings, “in the broad
sense”.
Acerca da transmissão cultural encontramos uma passagem interessante em
Pessis (2004, p. 60) onde coloca que a imitação é apenas um dos processos
transmissivos dividindo o palco com a inovação e o aprimoramento: “A transmissão
desses conteúdos realiza-se segundo procedimentos de comunicação e aprendizado
próprios a cada espécie. A espécie humana os transmite utilizando instrumentos
destinados a registrá-los na memória através de diferentes dispositivos. O
comportamento imitativo tem uma função de aprendizado entre a prole, que aprende
observando como os outros encaram os problemas. O grupo vai formando o acervo de

6
Renfrew considera símbolo dessa ampla forma, no entanto Hoffecker chama atenção para uma restrição
conceitual em que“(…) symbols are arbitrary referents, the meaning of which is established by
convention.” (Hoffecker 2007).
7
“The new soup [a sopa primordial de origem da vida] is the soup of human culure. We need a name for
a new replicator, a noun that conveys the idea of a unit of cultural transmission, or a unit of imitation.
‘Mimeme’ comes from a suitable Greek root (…). I hope my classicist friends will forgive me if I
abbreviate mimeme to Meme.(…) Examples of memes are tunes, ideas, cacth-phrases, clothes fashions,
ways of making pots or building arches. Just as genes propagate themselves in the gene pool by leaping
from body to body via sperms or eggs, so memes propagate themselves in the meme pool by leaping from
brain to brain via a process which, in the broad sense, can be called imitation. (…)’When you plant a
fertile meme in my mind you literally parasitize my brain, just turning it into a vehicle for the meme’s
propagation in just a way that a virus may parasitize the genetic mechanism of a host cell. And this isn’t
just a way of talking – the meme, for say, ‘belief in life after death’ is actually realized physically,
millions of times over, as a structure in the nervous system of individual men the world over.’”

15
conhecimentos e, através da atividade lúdica e motora, exercita a prática desse
comportamento transmitido. Esse aprendizado é estimulado pelo grupo adulto, e até
controlado, para que a transmissão se realize com sucesso. Apenas na fase adulta
existem possibilidades de se ter iniciativas, detectar problemas, procurar soluções e
aprimorar as existentes. Esse procedimento cumulativo de técnicas, experiências e
resultados vai incrementando a cultura do grupo. A transmissão cultural realiza-se nos
termos da tradição oral na qual as duas fases estão bem identificadas: primeiro,
aprender integrando o acervo de comportamentos; depois, inovar e incrementar esse
acervo, que será novamente transmitido, sucessivamente, de geração em geração.”
Nosso ponto é que meme enquanto símbolo continua sendo a unidade de
transmissão, ressalvamos apenas que os meios de transmissão simbólica não se reduzem
à imitação, isto é, à cópia em forma e conteúdo. Por exemplo, a tradução (Carneiro da
Cunha 1998) também é uma forma de transmissão, implica em transporte de conteúdo
de um contexto para outro e necessariamente em transformação desse conteúdo, pois
todo conteúdo é contextualmente dependente. Mudando-se o contexto, necessariamente,
muda-se o conteúdo, mesmo que a forma permaneça. E nesse aspecto chegamos a
característica básica da transmissão que é o transporte do conhecimento de um ponto a
outro (implicando ou não em transformação), ou seja, a comunicação.
O símbolo nasce de uma relação dialética8 entre o sensorialmente captado e o
neuro-fisiologicamente processado, pois só temos consciência da informação do sensor
pelo processamento eletro-químico dessa informação. Trata-se, pois, de um construto
mental internalizado no aparelho neuro-cognitivo (com origem na interface sensor-
ambiente) que ao final da cadeia cognitiva, se materializa extrasomaticamente como
construto social da realidade sob a forma de imagem, de gesto, de palavra, de idéia, etc.
Identificado enquanto materialidade potencial do pensamento, o símbolo se
manifesta por intermédio de uma percepção seletiva de informação e, portanto, a partir
8
David Lewis-Williams (2004, p.229) apresenta um uso do conceito de dialética que parece-nos
adequado: “I use the word ‘dialetic’ (in the sense of progressive, interactive unification of opposites)
because I wish to move away from the purist struturalist notion of a fixed mental structure that people
impose on the world. Instead, I argue that the uses that people made of the caves did not merely reflect
structure, or structures, of diversifying upper Paleolithic society. Rather, the caves were active
instruments in both propagation and the transformation of society. As the anthropologist Tim Ingolt puts
it ‘Culture is not a framework for perceiving the world, but for interpreting it, to oneself and to others.’”
Tratamos aqui de uma dialética primitiva de nível cognitivo e neuro-fisiológico que fundamenta a
ontologia da dialética cultural, estamos no nível dos construtos de realidade humana em oposição à
realidade objetiva Kantiana, aquela que está ‘out there’ (Bednarik 2007:2), isto é, fora do cérebro de
Homo.

16
do estabelecimento de uma classificação cognitiva primária da realidade. Esta
classificação primitiva e orgânica atua na regulação das trocas com o meio (energia,
matéria, informação), antecedida por uma comunicação direta dos stimuli aos sensores.
Desenvolveremos esta proposição no tópico a equação cognitiva.
Por ora, Renfrew em Prehistory, The Making of Human Mind (2007) nos parece
bastante apropriado. Segundo ele, a arqueologia cognitiva investiga diretamente “the
ways human societies have come to use symbols. Symbols are what we speak with, and
in large extent what we think with. The use of symbols involves two very radical
procedures of abstraction: the formation of categories, and various processes of
representation. (…) Human culture is based upon the use of symbols, in word and in
material form. (…) Society is organized by means of symbolic categories – and it is
important also to note that different societies organize themselves by means of different
symbolic categories”(2007:92-93). A formação de categorias, grosso modo, pode ser
entendida como classificação e os processos de representação, em sentido amplo são
processos de tradução (transporte) e comunicação, portanto, reduzimos os dois
procedimentos radicais de abstração, citados por Renfrew, à classificação e
comunicação.
A consideração acerca das categorias simbólicas e de sua implicação enquanto
socialmente determinadas nos remete ao estabelecimento de uma relação geral que, de
forma alguma assume valor de Lei mas, se constitue numa direta proporcionalidade e
reciprocidade definida por: determinado set de escolhas sócio-culturais (A) =
determinado ordenamento de categorias simbólicas (a); em que A está para a; tal qual a
está para A.
Uma consequência lógica da formulação expressa acima, portanto, é que
sistemas gráficos específicos são proporcionais a sistemas culturais específicos, sem que
isso implique numa causalidade direta entre os dois fenômenos. Veremos no capítulo V
indicadores etnográficos que apontam para diferentes sistemas gráficos sendo
performados sincronicamente num mesmo sistema cultural, sendo o inverso também
possível, diferentes sistemas culturais compartilharem o mesmo sistema gráfico, o que
invalidaria, em princípio, a universalidade da proposição sistema cultural X = sistema
gráfico x.
Como visto anteriormente, falar em categorias simbólicas é falar em sistemas
classificatórios. É também afirmar que sistemas simbólicos se constroem através de
17
classificações entre o que é pensado e o que é expresso, e antes, entre o que é
sensorialmente detectado, neurologicamente processado e o que é corporalmente
apresentado ao mundo externo, seja pela fala, seja pelo gesto, seja pela expressão
gráfica, materialidade do gesto pensado, ao modo da Embodied Mind9 de Renfrew
(2007:101) onde a mente transcende o cérebro e se difunde por toda sensorialidade
corpórea.
Esta discussão guarda raízes em Levi-Strauss quando no livro O Pensamento
Selvagem (1966) aborda o problema das classificações etno-epistemológicas: “[A]s
observações indígenas são tão precisas e matizadas, que o lugar atribuído a cada
têrmo, no sistema, prende-se muitas vezes, a um detalhe da morfologia, ou a um
comportamento, definível apenas no nível da variedade ou da subvariedade...[C]ada
espécie, variedade ou subvariedade está apta a preencher um número considerável de
funções diferentes em sistemas simbólicos, nos quais apenas algumas funções lhe são
efetivamente designadas. A gama dessas possibilidades nos é desconhecida e, para
determinar as escolhas, é preciso referir-nos, não apenas ao conjunto de dados
etnográficos, mas, também a informações provenientes de outras fontes: zoologia,
botânica, geografia, etc. Quando as informações são suficientes – o que raramente é o
caso – verifica-se que culturas diferentes, mesmo que vizinhas, constroem sistemas
inteiramente diferentes, com elementos que parecem, superficialmente, idênticos ou
muito próximos”(Levi-Strauss 1966, p.86-87).
Sistemas simbólicos obedeceriam a eixos lógicos culturalmente variáveis. Eixos
implicam em duas polaridades interconectadas, portanto, expressando oposições
binárias que Levi-Strauss considera o mecanismo básico do pensamento humano
análogo à lógica computacional. Cada grupo social teria sua própria lógica conceitual
no estabelecimento de relação entre os termos. Levi-Strauss (1966:85) explicita alguns
princípios de operação desses eixos lógicos:“As relações que [tais lógicas] estabelecem
entre os têrmos são, na maioria das vêzes, baseadas na contiguidade (...) ou na
semelhança (...). Sob êste ponto de vista, elas não se distinguem formalmente das outras
taxinomias, mesmo modernas, onde a contiguidade e a semelhança representam sempre

9
(…) the use of wheights to codify or symbolize property makes the point that the brain exists in the body
and that the mind is embodied. Wheight has first to be perceived as a physical reality - in the hands and
arms, not just in the brain within the skull – before it can be conceptualized and measured. The mind
works through the body” (Renfrew 2007:101).

18
um papel fundamental: a contiguidade, para descobrir coisas que sob ‘um ponto de
vista estrutural, tanto quanto funcional, procedem (...) do mesmo sistema’; e a
semelhança, que não exige participação em um sistema e se baseia somente na posse
comum de um ou de vários caracteres...[A]s relações podem ser, de fato, sensíveis
(marcas corporais da abelha ou da píton), ou inteligíveis (função fabricadora, como
traço comum entre a abelha e o carpinteiro)...É provável que o número, a natureza e a
‘qualidade’ dêstes eixos lógicos não sejam os mesmos, segundo as culturas, e que estas
poderiam ser classificadas como mais ricas e mais pobres, conforme as propriedades
formais dos sistemas de referências a que recorrem, para edificar suas estruturas de
classificação”.
A relação entre classificação e sistemas simbólicos estabelecida por Levi-
Strauss, quando pensada dentro do contexto definido por Renfrew (2007: 96) como
material symbolic stage10 no desenvolvimento cognitivo de sapiens, somada à
perspectiva piagetiana de paralelismo entre as regulações nas trocas sistema nervoso -
ambiente (sincrônico) e regulações no comportamento cultural (diacrônico), pode
oferecer um caminho para o entendimento parcial dos antigos constructos humanos de
realidade, aos quais se integra o fenômeno gráfico rupestre.
O simbolo bipartido em forma e conteúdo é visto aqui como unidade de
cognição (percepção do meio) e de comunicação (transporte êmico-ético, auto-
apresentação ao meio) organizadas em sistemas simbólicos onde “Os elementos não são
constantes, apenas as relações” (Levi-Strauss 1966:76). Portanto, apesar do símbolo
ser nossa unidade cognitiva na pecepção de um código alienígena ou de uma língua
morta, não é tanto nossa unidade analítica, sendo esta posicionada no nível das relações
simbólicas, ou nas palavras de Jean Monod, discípulo de Levi-Strauss, sobre os Piaroa
da Venezuela, “O estabelecimento de uma ordem singular para cada sociedade é o que
fixa, por relação, a significação de seus traços. O que importa não é comparar os
traços isolados, mas relações e configurações” (Monod 1976, p.26).
Se considerarmos os elementos inconstantes, ou traços, enquanto o aspecto
semâtico-lexical do símbolo (conteúdo), então, as constantes relacionais, ou
10
“The next stage (...) may be termed the material symbolic stage, emphasizing the human capacity for
the use of symbols, which Leslie white recognized as of defining importance in human culture. The term
‘material Symbolic’ goes beyond Leslie White’s notion of the symbol in emphasizing that many of the key
symbols have a material reality: they are material things, not just words or insubstantial
representations.”

19
configurações estariam fixadas pelas estruturas sintáticas formais limitadas por um
repertório finito de ordenação das sentenças do pensamento. Portanto, dentro do que se
convenciona em lingüística como a sintaxe formal (isto é, o estudo da organização
estrutural e intrínseca das sentenças mentais e verbais ou a determinação dos princípios
de organização interna de uma língua [Mussalin et al. 2003]), podemos encontrar
instrumentos para o estudo de códigos gráficos socialmente extintos.
Por essa perspectiva o grafismo pré-histórico se constitui em ordenações de
símbolos que expressam sistemas de classificação de mundo estruturados em eixos
lógico-sintáticos limitados que ordenam amplas gamas de composições lexicais e
semânticas comunicáveis. O que segue na esteira do que Noam Chomsky (1986, 2006)
definiria como a característica singular das linguagens humanas em relação às
linguagens de outros animais que é a capacidade de “permitirem um conjunto ilimitado
de mensagens usando meios finitos (ou seja, um vocabulário finito e um conjunto finito
de regras gramaticais)” (Spencer in Outhwaite & Bottomore 1993) isto é, a sua
recursividade elementar e sintática.
Recursão e representação são conceitos geminados em linguística e em
psicologia cognitiva e têm relevância para nossa discussão por serem principios de
funcionamento de nossa mente análogos à classificação e comunicação, portanto, cabe
aqui a definição de ambos: representação seria a “[...] ability to project thoughts or
mental representations outside the brain in a wide variety of media” (Hoffecker 2007,
p. 360) e recursão “[…] the capacity for generating a potentially infinite array of
varying combinations of their [representational] elements” (Hoffecker 2007, p. 361).
Entendemos aqui estas propriedades enquanto interligadas na cognição humana
mantendo correspondência respectiva com comunicação (representação), na medida em
que projetar externamente uma representação interna é transportar informação de um
ponto a outro, e com classificação (recursão), pois reordenar elementos constitutivos em
novos arranjos, implica em segregação e reagrupamento.
Chomsky (1986) parte da perspectiva de que a língua é um sistema de
conhecimentos interiorizados na mente humana e que as estruturas dessa gramática
ontológica (gerativa) são genéticas e inatas à Homo sapiens, co-evoluindo tal qual um
órgão, ou uma estrutura orgânica do sistema neural. Esta perspectiva leva Chomsky a
reconhecer dois fenômenos linguísticos distintos em sapiens, a ‘competência’ e o
‘desempenho’. Competência é a capacidade inata de se comunicar por regras
20
gramaticais complexas em qualquer língua falada, que nasce com os bebês fazendo
parte de sua ontogênese fetal, desempenho é o uso que culturalmente será feito daquela
faculdade neuro-cognitiva ao longo da história de vida do indivíduo. Tais definições são
análogas aos postulados saussurianos (1969) acerca da langue e da parole, onde a
langue é um sistema geral de convenções, regras e princípios que Leroi-Gourhan
(1968) julgava ter descoberto com seu mitograma da decoração parietal nas cavernas
paleolíticas européias, enquanto parole é o uso lingüístico (Mussalin et al. 2003) dado
pelo contexto sócio-cultural do falante.
Cavalli-Sforza (2003:87) reitera essa propriedade linguística da recursividade
sintática e simbólica de Homo enquanto um marco diferencial de sua evolução
cognitiva: “Existe pelo menos uma grande diferença intelectual entre nós e nossos
parentes mais próximos na escala evolutiva, os primatas: nós nos comunicamos por
meio de uma linguagem muito mais rica e refinada que a de qualquer outra espécie. Os
chimpanzés e os gorilas conseguem aprender e usar apenas 300 a 400 palavras, e
mesmo isso exige esforço especial e comunicação não oral, pois não são capazes de
articular a língua e a faringe para produzir sons comparáveis aos nossos. O
vocabulário de um ser humano médio é no mínimo 10 ou 20 vezes maior, e pode chegar
a 100 mil palavras ou mais. Os grandes macacos conseguem usar símbolos para
indicar coisas simples, mas só os entendem quando alguém fala as línguas artificiais
desenvolvidas pelos pesquisadores que realizam esses experimentos notáveis. Contudo,
os macacos têm enorme dificuldade para formar sentenças verdadeiras e talvez sejam
incapazes de desenvolver gramática e sintaxe.”
Fica expresso que, como coloca Renfrew (2007:91) citando o filósofo Ernst
Cassirer, Homo sapiens é um “animal symbolicum” e que, portanto media todas as suas
interfaces com o meio externo ao organismo biológico através da conversão dos stimuli
em símbolos (sinais elétricos) que são internalizados e geram respostas que quando
externas, só são percebidas porque são emitidas enquanto símbolos (comportamento),
portanto na entrada (input) e na saída (output) de informação do sistema bio-cultural
humano ocorrem conversões simbólicas como mecanismo essencial de comunicação.
É como se possuíssemos uma faculdade semiótica em nível orgânico, mais profunda
que a semiótica cognitiva-mental, análoga à langue de Saussurre e à gramática gerativa
de Chomsky. Uma semiótica primitiva eletro-química que determina o funcionamento
simbólico de nosso cérebro.
21
Isto posto, vemos que em diferentes níveis da existência seja biológica interna ao
organismo seja sócio-ambiental na interface entre o organismo-meio e organismo-
organismo, a conversão simbólica é o dispositivo dominante na comunicação bilateral
entre o universo e o cérebro de Homo. Portanto, a comunicação se torna uma
ferramenta cognitiva em biologia e cultura humanas, assim como a classificação,
estando os dois conceitos dialeticamente atrelados no processo de simbolização e de
percepção sensorial.
Um exemplo de como esse mecanismo orgânico funcionaria analogamente em
cultura nos é citado por Jean Clottes (1989: 24): “However a mental image was formed,
its being made concrete on rock, bone, or antler brings into play a double process –
Whether conscious or not – of remembering (calling an image to mind) [o que
entendemos como um processo classificatório, seletivo e mnemônico de assimilação
piagetiana a esquemas anteriores] and of teaching (leading others to both seeing and
understanding) [o que entendemos como um processo comunicacional de transporte de
informação de um cérebro para outro].”
Acerca desta dimensão cognitivo-comunicacional no registro rupestre Clottes
(1989:23) comenta ainda: “(...) the basic principle implies the idea of communication, of
intelligibility. This art must have been understood by peoples of the time, even if the
comprehension was limited to a small group, over a brief period of time, and over a
narrow geographic zone (…) Leroi-Gourham Said: ‘The meaning of the figures, even
the most abstract ones, always remained clear from the beginning to end for those who
used them’ (1965, p. 60)”. Porém, também adverte: “The prehistoric artists are
obviously no longer available to explain to us how they proceeded or what it is that they
had wished to represent.” (Ibid. 1989:22).

I.iii. Sintaxe e Tafonomia

O problema não está na ausência total de significado na mensagem (o que já está


assumido na adoção de métodos formais e na aceitação da ruptura epistemológica e
histórico-cultural entre os arqueólogos e os autores rupestres) mas na tafonomia sobre a
sintaxe. “In rock art science, taphonomy is the study of the process affecting rock art
after it has been executed, determining its present appearance and statistical
properties” (Bednarik 2007:163), isto é, a obliteração das propriedades estruturais
visíveis do fenomeno que são exponencialmente alteradas com a passagem do tempo e
22
exposição às intempéries.
A adoção do uniformitarismo geológico de Charles Lyell11 (Lyell 1830; Lewis-
Williams 2004; Bednarik 2007; Cameron 1993; Silva 2009) enquanto uma teoria
arqueológica unificada, na análise dos registros rupestres leva à noção de que o que
vemos são as escolhas culturais dos autores (a sintaxe do pensamento indígena pré-
histórico), uma vez que a lógica do uniformitarismo geológico dita que o que está em
operação hoje estava ontem e por observação direta dos processos atuais podemos
chegar a dedução dos processos antigos. O que não é necessariamente correto, primeiro
no nível de nossa subjetividade cognitiva, segundo, no nível do que Bednarik (1995b,
2007:163) define como ‘Metamorphology’, isto é, “how forms of evidence change with
time to become the forms as which they are perceived or understood by the individual
archaeologist today.”
Entendemos que o nível semântico da mensagem se perde, mas nem tanto a sua
estrutura sintática apesar da distorção tafonômica. Por sintaxe empregamos a definição
semiológica utilizada por Sauvet et al (1979:349):”...de même que, dans le langage, le
sens d’une phrase n’est pas la somme des sens des mots, la signification de la
décoration pariétale d’une grotte ne saurait être réduite à la simple addition des
valeurs symboliques des animaux représentés. Un Sens global naît de leur combinaison,
c’est-à-dire la syntaxe.”
O controle, portanto, tem de ser feito na sintonia fina de nossa percepção da
sintaxe residual do fenômeno, tanto no âmbito microcenográfico, na estrutura interna de
cada grafismo, quanto na macrocenografia (Pessis 1983) dos painéis, nas relações de
combinação espacial entre os grafismos. E mais além, na inserção dos painéis na
topografia do sítio, pois “la syntaxe peut se manifester non seulement dans la
construction des panneaux, mais ausse dans leur répartition topographique” (Sauvet et
al 1979:349). Portanto, a imposição seletiva dos grafismos sobre a estrutura
geomorfológica do sítio também expressa escolhas de caráter sintático que sofrem
auterações tafonômicas.
Nesta linha Clottes (1989: 22) afirma: “The questions one must pose (...) are
11
Sobre Lyell e Uniformitarismo, Lewis-Williams (2004:20) coloca: “This idea was enshrined in the
lenghy tittle of his great work: ‘Principles of Geology, Being an attempt to Explain the Former Changes
of the Earth’s Surface by reference to Causes now in Action’. Lyell later allowed that the intensity of
change may have varied, but the notion of uniformitarianism was born: at least in geological terms, the
past was no different from the present (…)”.

23
simply to know to what extent the existing statistics and inventories are objective and
reliable, and how we can develop an increased objectivity.” O problema da
subjetividade cognitiva foi parcialmente resolvido na medida em que,
epistemologicamente, não buscamos mais a verdade, mas apenas uma versão dos fatos
que possa se mostrar errada, isto é, uma hipótese refutável. Tornamos-nos mais
humildes face a nossa ignorância e mais realistas sobre nossos limites.

I.iv. A Equação Cognitiva

Renfrew (2007:93) nos oferece a seguinte formulação para lidar com a estrutura
simbólica: X (the symbol, or signifier) represents Y (the thing signified) in context C. Os
termos expressos seguem a lógica definida por Saussure (1969) para dar conta da
estrutura do signo composto pela união de um significante (X) com um significado (Y)
num contexto de emissão e recepção de uma mensagem (C).

Atentemos agora para a seguinte equação:

Observação (X) + consciência reflexiva (Y) = Comunicação (C)

Percebe-se que a formulação X + Y = C expressa uma proposição sobre o


funcionamento da cadeia cognitiva em sapiens, cuja resultante final é a comunicação.
Isto é, apresentação sócio-ambiental do organismo, no caso de nossa espécie, mediada
pela consciência reflexiva de si (Pessis 2004), donde o signo, ou símbolo, ou meme, é o
produto final e o meio pelo qual se dá a internalização e a externalização do
pensamento. Percebemos o meio e os outros não só através de, mas como símbolos em
si e enquanto símbolos somos percebidos.
No ato da percepção externa, nosso sistema cognitivo (em primatas há certa
predominância do subsistema neuro-visual) já estabelece seleção em dois níveis: dos
fenômenos capazes de serem percebidos desencadeando resposta consciente e
inconsciente e dos tipos de órgãos sensores para os quais estamos mais sensibilizados.
Esta pré-seleção é definida por motivações psicológicas e culturais internalizadas em
pré-existência ao momento da observação (por exemplo, no complexo cultural ocidental
tem-se quase total dependência do sensor visual) e, pelas idiossincrasias na
aprendizagem e no funcionamento da arquitetura neuro–cognitiva de cada organismo
individual.
Consideramos, pois, que esta primeira seleção dos stimuli sensoriais e dos
24
sensores em uso já se trata de classificação, meio pelo qual nosso sistema nervoso capta
e processa informação seletivamente, isto é, regula as trocas com o meio. Por sua vez,
esta classificação só se estabalece nesse nível primário por comunicação físico-química
entre estímulos e sensores e posteriormente eletro-química destes para as sinapses
neurais. Do que fica estabelecido duas coisas:

1 - Classificação = Seleção, tanto em nível orgânico quanto mental;

2 – Estímulos × Sensor = Comunicação + Seleção Primárias

A partir desses dois pontos depreende-se que classificação, ou seleção, ocorre


em todas as etapas da construção biológica (neuro-fisiológica) do conhecimento (Piaget
1973[1967]) e que comunicação já na estimulação primária dos sensores se encontra
dialeticamente associada à classificação (se considerarmos que de alguma forma o
mundo se comunica com nossos sensores independente de nossa consciência tanto alerta
quanto reflexiva, então, neste caso, a comunicação antecederia a seleção sensorial
implicando que algo só pode ser selecionado quando da comunicação de sua existência).
Sendo, portanto, o princípio dialético comunicação-classificação o eixo lógico de
funcionamento do sistema sensores-cérebro-mente-corpo. Podemos agora reformular
nossa equação cognitivo-epistemológica:

Estímulo físico-químico [Z] × Percepção sensorial seletiva (comunicação físico-


química do meio aos sensores e classificação primária sensorial) [X] + comunicação
eletro-química diferencial dos sensores à rede neural (classificação e comunicação
secundária neuronial) [Y] = pensamento (classificação terciária e comunicação auto-
reflexiva interna → nível êmico) [C] > Comunicação quaternária externa (apresentação
sócio-ambiental do organismo → nível ético) [D]
Percebemos nesta equação Z × X + Y = C >12 D como comunicação se vincula
estreitamente a classificação nos 4 níveis epistemológicos definidos após os stimuli do
meio. Fica estabelecida uma relação diretamente proporcional e indiretamente causal
entre comunicação-classificação e pensamento-consciência reflexiva como um eixo para
nossa discussão. Ao definirmos símbolo como a unidade de conhecimento-pensamento
também o definimos como a unidade de comunicação. E se, portanto, a obra gráfica pré-
histórica é aqui considerada como expressão de um sistema de classificação, ela só o é,
por ser antes e, ou, ao mesmo tempo, um sistema de comunicação.

12
Em que > exprime anterioridade a.

25
Sistemas simbólicos servem, pois, para comunicar e classificar o mundo em
nossas mentes e para comunicar ao mundo nossas classificações, alterando assim a
natureza-em-si à semelhança de nosso cérebro, ainda dependente de sua estrutura
orgânica de manutenção, o corpo.
È possível que a humanidade venha a assistir a autonomização da estrutura
mente-cérebro de seu invólucro orgânico (as pessoas) como pesquisas com inteligência
artificial estão apontando (Hoffecker 2007). Mas enquanto mente-consciência (no
sentido de que “[as distinct from brain] is a notion, or sensation, created by the eletro-
chemical activity in the ‘wiring’ of the brain”[Lewis-Williams 2004, p.104]) e
humanidade ainda caminham juntos, os registros rupestres encodificam os princípios
básicos do funcionamento da regulação ambiente-cérebro-mente-ambiente, estudá-los é
entender como nós construímos as nossas representações de mundo, orgânica e
comportamentalmente. “If we were capable of studing rock art objectively, we might
discover how humans developed their ontologies” (Bednarik 2007, p.2).
A consideração do registro rupestre como sistema de comunicação-classificação
(mnemo-lógico em Piaget, sintático-recurssivo em Chomsky, observativo-
apresentacional para Pessis, spectra de consciência para Lewis-Williams, sistemas
cognitivo-epistemológicos para Bednarik e simbólico-materialistas para Renfrew)
apesar de reducionista, é a nossa proposição fundamental de partida. E se símbolo é
nossa categoria de entrada, a estrutura sintática e material da comunicação, enquanto
constructo hipotético e refutável (classificação preliminar das modalidades de
pensamento gráfico; das configurações de Monod e relações de Levi-Strauss), é nossa
categoria de saída.

26
II. Posicionamento Conceitual e Histórico Investigativo dos Objetos

II.i. O que é Arte Rupestre?

Faz-se necessário abrirmos os trabalhos com uma definição o mais científica


possível (objetiva e refutável) de nosso objeto de pesquisa. Nesse mister, a definição de
Robert Bednarik nos parece a mais apropriada pelo seu caráter inequívoco: “A
scientific definition of rock art, then, is that it consists of markings occurring on rock
surfaces that were ‘intentionally’ produced by members of the genus Homo (i.e.
anthropic markings), that are detectable by ‘normal’ human sensory faculties, and that
are concept-mediated externalizations of a ’conscious’ awareness of some form of
perceived reality” (Bednarik 2007:1).
A partir dela tentemos construir uma versão mais palatável para o conceito de
arte rupestre: são imagens pintadas (pictografias ou pinturas rupestres caracterizadas
pela adição de matéria corante diluída em meio fluido [tinta]), desenhadas ou riscadas
(aplicação de matéria corante em estado sólido) e, ou, gravadas (petróglifos ou gravuras
rupestres caracterizadas pela redução ou retirada de matéria rochosa) por Homo sapiens
nas superfícies rochosas fixas situadas em abrigos, grutas, cavernas, a céu aberto, em
desertos, florestas, montanhas, beira de rios, cachoeiras e ‘igarapés’. Isto é, nos mais
diversos ambientes espalhados pelo mundo inteiro.
Acredita-se que tal fenômeno tenha se originado somente a partir de nossa
espécie que, segundo a teoria paleo-antropológica corrente, pode ter se especiado a
cerca de 200.000 anos na África (D’Errico et al. 2003; Renfrew 2007). Apesar de
Cavalli-Sforza (2003, p. 86) afirmar que a morfologia moderna de sapiens já existiria
há 500.000 anos, segundo ele: “O cérebro humano aumentou continuamente até o
aparecimento do Homo sapiens, há cerca de 500.000 anos. Com base em medidas
cranianas, o crescimento do cérebro humano cessou naquele momento ou pouco
depois. Fazendo uso de um termo da informática, diríamos que o hardware havia
melhorado, ao menos superficialmente, mas não era o bastante: o software precisava
se tornar igualmente mais poderoso”.
De qualquer forma, é extremamente dificil a sobrevivência de vestígios de
atividade gráfica associada às primeiras de levas de Homo sapiens que circulavam pelo
continente africano há mais de 100.000 anos atrás, salvo em condições extraordinárias
de conservação como no caso de soterramento em estratigrafia arqueológica dentro de
27
grutas ou abrigos ou em cavernas. Parece que este é o caso de Auditorium Cave em
Bhimbetka na Índia, onde petróglifos (cupulares) foram recobertos in situ por um
depósito datado do paleolítico inferior, podendo, portanto, serem do período acheulense
(Kumar et all. 2003; Bednarik 2003) anterior a 500.000 anos a. p. e desta maneira
sendo pouco provável qualquer relação com sapiens.
Os registros rupestres13 mais antigos datados diretamente (datação absoluta,
neste caso por AMS, de amostra de pigmento direta da pictografia e não de contextos
relacionados) têm cerca de 32.000 anos, encontram-se na gruta de Chauvet na França
(Clottes 2001, 2003; Pessis 2004). Mas é muito provável que vestígios de atividade
gráfica do gênero Homo (não só de sapiens) alcancem datas ainda mais recuadas na
Europa e em outras partes do mundo, como na África do Sul, Índia e Austrália (Bahn
1998, 1988; Bednarik 2003, 2007).
O caso das 18 cúpulas ordenadas em padrões em La Ferrasie, França, é
interessante. Foram executadas em um bloco depositado com a face gravada para baixo
sobre um enterramento infantil do período musteriense, isto é anterior a 45.000 anos
a.p.. Trata-se, possivelmente, de atividade gráfica associada a neandertais e ilustraria
esta situação de simbolismo inicial na Europa (Bednarik 2003).
Outro exemplo emblemático, este na África do Sul, é o caso de Blombos Cave
(Henshilwood et al. 2002, et al. 2009) onde, entre diversos achados impressionantes, foi
recuperado um implemento de hematita retangular com cerca de 10 cm apresentando
facetas com incisões em X e retas ao longo do comprimento do objeto, depositado em
nível arqueológico datado em 77.000 anos a.p.. Neste caso associado a uma ocupação
por Homo sapiens arcaico.
Independentemente de sua idade ou região geográfica, a obra gráfica de Homo é
expressão direta de sua evolução biológico-cultural, são construtos de realidade de seu
aparelho cognitivo, de seu pensamento expresso e armazenado fora de seu cérebro
(D’Errico et al. 2003; Henshilwood et al. 2002; Hoffecker 2007). Transformam, assim,

13
Registro Rupestre (Martin 1999) é outro termo para designar a expressão consagrada “arte rupestre”
que evita a ambigüidade introduzida pela nossa concepção ocidental de “arte” quando se refere à
expressão gráfico-visual de códigos simbólicos pré-históricos certamente construídos por outros a priori
formais e conceituais diferentes dos nossos. A única conexão entre nós e os antigos autores seria a mesma
arquitetura neuro-fisiológica de sapiens. O termo expressa também a necessidade analítica de inclusão no
registro arqueológico como ocorre com o registro cerâmico e lítico. Neste trabalho tentaremos adotar
daqui por diante o termo registro rupestre por dividirmos as mesmas preocupações.

28
o mundo “natural” à forma e semelhança de suas operações neuro-fisio-psicológicas e
de suas interações etológicas individuais e sociais com outros organismos e com o meio
ambiente.

II.ii. Os registros rupestres na América do Sul

Para o nosso continente o panorama se restringe às evidências arqueológicas que


temos para a entrada de sapiens no final do pleistoceno, supostamente a cerca de
12.000 anos antes do presente (a.p.) segundo a teoria arqueológica mais convencional e
também mais contestada. Evidências em diversos pontos do continente apontam para
uma colonização mais antiga podendo ter chegado a 50.000 anos no NE do Brasil
(Guidon & Delibrias 1986; Guidon 1986, 1989; Martin 1999).
Com respeito às práticas gráficas dos primeiros colonizadores, porém, a situação
não é tão otimista do ponto de vista tafonômico. As manifestações gráfico-rupestres
mais antigas, com datações absolutas associadas, na América do Sul situam-se entre
12.000 e 11.000 anos a.p. (Pessis 1999, 2004; Roosevelt et al. 1996), no Piauí e no
Pará, respectivamente. Mas, de maneira geral, há pouca expectativa de se encontrar
manifestações mais antigas devido aos imperativos do intemperismo, intenso em sítios
a céu aberto ou mesmo em abrigos. Exceções à regra podem ocorrer principalmente em
relação a fragmentos de parede pintados ou gravados ou mesmo painéis soterrados em
estratigrafia arqueológica, mas, grosso modo, quanto mais antigo, mais alterado e,
portanto, mais difícil de ser detectado no registro arqueológico.
O que não quer dizer, em absoluto, que não tenha havido registro rupestre na
América do Sul antes de 12.000 anos a.p.. O fato de se ter a tradição Nordeste de
pintura rupestre plenamente desenvolvida há 12.000 anos no Piauí (Pessis 1999, 2004)
indica que ela passou por um longo caminho prévio de evolução. E, de fato, no SE do
Piauí observam-se indícios de um processo evolutivo antigo da prática gráfica como
atestado por um fragmento de parede pintada com dois segmentos de reta paralelos,
recuperado em escavação no sítio Caldeirão do Rodrigues, depositado em nível
ocupacional datado de 17.000 anos a.p.14 (Guidon 1986, 1992; Guidon et al. 1986;

14
É possível que a atividade gráfica no Piauí seja ainda mais recuada (Guidon 1986: 770; Delibrias and
Guidon 1986:315). John Greer (2001:683) em sua síntese sobre os registros rupestres amazônicos diz
acerca da cronologia sul-americana: Pictographs in excavated cave sites in the São Raimundo Nonato
area of northern Brazil (Piauí) may extend well back into the pleistocene to 17,000 B.P. or more (…),
with some firmly dated deposits containing pieces of spalled wall with possible paint suggesting that wall
29
Martin 1999). Certo é que, quando Homo sapiens adentrou em nosso continente ele já
trazia em sua bagagem neuro-cognitiva e cultural sua expressão gráfica saindo do
cérebro e impregnando vários suportes ao seu redor, do corpo às rochas e além.

II.iii. Registros Rupestres na Amazônia

Tradicionalmente a fonte privilegiada da arqueologia amazônica tem sido o


registro cerâmico. Deve-se isto à abundância de ocorrência enquanto cultura material
mais expressiva no registro arquelógico regional, bem como, às linhas de pesquisa
historicamente desenvolvidas na região, sistematicamente desde os anos 50 (Meggers &
Evans, 1957; Hilbert, 1958) que privilegiavam a análise da cerâmica como marcador
cultural do Formativo em diante (desde 4.000 anos a.p.). Neste cenário, o design dos
problemas arqueológicos amazônicos não contemplava uma perspectiva arcaica, muito
menos paleoíndia, para ocupações pré-cerâmicas, onde em outras regiões do Brasil e das
Américas a maior parte dos registros rupestres estava sendo arqueologicamente
contextualizada.
Edithe Pereira (2003) do Museu Paraense Emílio Goeldi, e pioneira no estudo
arqueológico da arte rupestre na Amazônia brasileira, afirma que “essa opção de
pesquisa gerou um desequilíbrio no nível de informação entre cerâmica e as figuras
rupestres da região, o que implicou um conhecimento fragmentado da pré-história
amazônica”.
Desde já, afirmamos que não é nossa intensão aqui fazer uma revisão exaustiva
da pesquisa com arte rupestre na Amazônia, para tanto já contamos com trabalhos que
executaram tal agenda satisfatoriamente (Ver Pereira 1996; 2003 e Greer 1995; 2001).
Falaremos indicativamente, no entanto, de diversos trabalhos que julgamos relevantes
para nossa discussão.
A pesquisa em arte rupestre na vastidão amazônica apresenta-se
heterogeneamente implantada, com lugares mais conhecidos e pesquisados e lugares
onde muito pouco foi feito. Situamos a Amazônia Oriental brasileira na primeira classe
e a Amazônia Ocidental brasileira na segunda, menos favorecida. Portanto, aqui
daremos mais atenção à porção Ocidental, até, pois, trata-se do recorte geográfico deste

painting may extend beyond 30,000 B.P.” A ênfase expressa pelo negrito é nossa e denota o
reconhecimento por um arqueólogo norte-americano de que as datas dos depósitos piauienses são seguras,
‘firmly’, o que consideramos digno de nota.

30
trabalho, considerando sua porção NW.
As primeiras referências aos petróglifos na Amazônia Ocidental brasileira são
encontradas em relatos de viajantes, naturalistas e antropólogos do século XIX e
começos do XX. Vários destes viajantes e naturalistas assinalaram a ocorrência de
gravuras rupestres ao longo da bacia do rio Negro, principalmente no seu alto curso nos
rios Uaupés e Içana e no médio Amazonas, no rio Urubu (Wallace 1889; Stradelli 1900;
Kock-Grünberg 1907, 1909; Ramos 1930). Alguns desses autores chegaram a elaborar
as primeiras tentativas de análise deste acervo rupestre, porém, destituídos de um
quadro teórico-metodológico arqueológico. Este seria caso do epigrafista e numismata
Bernardo Ramos que julgou traduzir os registros rupestres do fenício ao hebráico com a
ajuda do Rabino da sinagoga de Manaus nos anos 20. Oposto a ele temos o detalhado
inventário e perspicaz reflexão de Koch-Grünberg na obra Südamerikanische
Felszeichnungen (1907) que é arqueologicamente robusto, infelizmente ainda não
traduzido para o português, e permite além da localização precisa dos sítios rupestres no
Alto rio Negro, insights sobre os usos sócio-rituais dos petróglifos por parte das
populações ameríndias sul-americanas por ele etnografadas.
Passada essa fase inicial de atenção à arte rupestre por parte da arqueologia
proto-científica imiscuída aos naturalistas, numismatas e etnólogos voltamos a uma fase
de ostracismo rupestre que acompanha basicamente o surgimento e amadurecimento da
arqueologia científica amazônica cujo marco regulador foi o pronapa (Programa
Nacional de Pesquisas Arqueológicas) de 1965 a 1970, para o qual o registro rupestre
era considerado uma variável pouco informativa do registro arqueológico, para não
dizer negligenciada.
Nesta mesma época e desde antes, investigações paralelas por etnobotânicos e
antropólogos (Reichel-Dolmatoff 1967, 1971, 1976, 1985; Schultes 1957, 1982) na
Amazônia colombiana, basicamente, iniciam uma linha de pesquisa bastante
interessante, que é da atividade gráfica sócio-ritual e individual indígena associada ao
uso de plantas alucinógenas, principalmente acerca de Banisteriopsis caapi (alcalóides
psico-dinâmicos n,n-dimetil triptamina e harmina, e, beta-carbonilos harmalina e d-
tetraidroarmina [Schultes & Hoffman 1982]) entre os Tukano do Uaupés colombiano.
O caso de Reichel-Dolmatoff é deveras interessante e acerca dele abriremos
aqui um breve parêntese. Este autor demonstra as implicações arqueológicas da
cosmologia visual alucinogênica dos Tukano em relação aos petróglifos da área: “O
31
problema (da atividade gráfica tradicional dos Tukano estar condicionada pelo uso do
Caapi) torna-se mais complexo se for considerado do ponto de vista da inspiração
artística. É surpreendente observar que muitos dos motivos tratados acima aparecem
com frequência nas inscrições (petróglifos) em pedra e pictografias da região, e mesmo
além de seus limites (Ver Reichel-Dolmatoff 1967). Tampouco seria difícil encontrar
paralelos desses motivos em outras manifestações pré-históricas como, por exemplo, na
decoração de cerâmicas, em talhas de pedra de antigas culturas indígenas. Poder-se-ia
opinar que se trata de motivos tão elementares que podem surgir independentemente
em qualquer lugar e época; são círculos, losangos, pontos, espirais, e pouco mais. São,
porém, verdadeiramente tão elementares? Seria difícil querer afirmar que o signo da
porta e da exogamia sejam formas básicas. Seria melhor pensar em grandes zonas
culturais onde, desde tempos imemoriais, se consumia certo alucinógeno e se formava,
baseada nele, uma interpretação tradicional que, desta forma, criou um verdadeiro
estilo artístico. Poderia então, a arqueologia nos guiar para uma zonificação de tais
sistemas simbólicos? Supondo que o uso do alucinógeno na América Indígena é muito
antigo e geralmente relacionado com a esfera mágico-religiosa, também se pode supor
que os objetos de uso cerimonial foram manufaturados e decorados por especialistas,
ou, pelo menos, por pessoas que partilhavam o simbolismo religioso de sua
cultura”(Reichel-Dolmatoff 1976:89-90).
A proposição de Reichel-Dolmatoff, bem como, o problema por ele identificado
se endereça diretamente ao nosso trabalho, inicialmente por dois fatores, um de ordem
geográfica e hidrográfica, pois ambos tratam da bacia do rio Negro no NW amazônico o
que pode se correlacionar com uma mesma grande área cultural onde estamos iniciando
a zonificação de tais sistemas simbólicos. Outro de ordem morfológica, pois os motivos
analisados por Reichel-Dolmatoff também se apresentam na amostra aqui trabalhada, o
que inclusive corroboraria a perspectiva de que os petróglifos do alto Negro estariam
relacionados com os petróglifos do baixo Negro.
Mas o que Reichel-Dolmatoff talvez não tenha atentado, pois ele aparentemente
se prende, no âmbito do grafismo, a motivos considerados isoladamente, é que, como
aprendemos com Levis-Strauss e Monod, nem nos elementos nem nos traços estão
contidos os sinais filogenéticos15 (como gostaria Piaget) diacrônicos do pensamento

15
Pensamos que esses empréstimos da biologia evolutiva devem ser esclarecidos objetivamente, na
medida do possível, para que não soem como metáforas vazias quando em analogia aos processos
32
indígena, sendo os mesmos universais no pensamento humano. Mas, deveríamos atentar
sim, para as relações entre os elementos e para as configurações dos traços onde
estariam os índices sintáticos de suas estruturas cognitivo-comportamentais, ou seja, nos
arranjos combinatórios pertencentes à dimensão cenográfica (Pessis 2002; Valle 2003)
estariam contidas as regras da sintaxe próprias de cada cultura.
Os motivos abstratos realmente são elementares, pois são recorrrentes em todo
mundo, fazendo pesquisadores suporem que estariam wired in the human brain como
situa Lewis-Williams (2004) acerca do entoptic phenomena, mais conhecido como
fosfenas16, mas as ordenações morfo-topológicas são contingentes e idiossincráticas. De
modos que, a situação de duas culturas sem contato algum reproduzirem o mesmo
padrão de arranjos cenográficos entre grafismos é consideravelmente mais improvável
do que reproduzirem o mesmo padrão de grafismos (morfologias), como os citados por
Reichel-Dolmatoff.
Lembremos, pois, do conceito de Piaget sobre isomorfismos parciais (nota 4)
que deriva do conceito lógico de isomorfismo estrutural, isto é, correspondência
biunívoca entre estruturas, e estruturas não se reduzem a simples objetos, mas, no
mínimo, a rede de relações entre objetos, seu contexto de formação e uso (insistiríamos
nos sistemas de classificação dos objetos). Retomaremos esses pontos em nossa
discussão acerca das ressignificações e analogias etnográficas.
O fato é que não podemos refutar a hipótese de que B. caapi, ou outros
alucinógenos estavam em uso na produção de imagens na pré-história, mesmo embora

histórico-culturais, que são também etológicos e cognitivos, assim, apelamos aqui para as 3 modalidades
de conceito filogenético de espécie (Coyne et al. 2004): Phylogenetic Species Concept 1 (PSC 1) – A
phylogenetic species is an irreducible (basal) cluster of organisms that is diagnosably distinct from other
such clusters, and within which there is a paternal pattern of ancestry and descent (Cracraft 1989); PSC2
– A species is the smallest [exclusive] monophyletic group of common ancestry (de Queiroz and
Donoghue 1988); PSC3 – A species is a basal, exclusive group of organisms all of whose genes coalesce
more recently with each other than with those of any organism outside the group, and that contains no
exclusive group within it (Baum and Donoghue 1995; Shaw 1998). A partir dessas definições lançamos o
termo ‘conexões filogenéticas’ para exprimir uma correlação com conexões histórico-culturais estreitas
entre membros de uma mesma etnia ou grupo linguístico-cultural, ou melhor colocando, pessoas, grupos
humanos, ou conjuntos de grafismos, separados por pouco tempo e espaço de uma mesma entidade
cultural ancestral.
16
Projeções visuais dentro do globo ocular sem estimulação de luz externa. Geram padrões geométricos
universais, isto é, são projeções elétricas das estruturas neuro-orgânicas que são acionadas
involuntariamente, ou por estimulação mecânica e, ou, química (Lewis-williams 2004;Reichel-Dolmatoff
1976; Oster 1970).

33
certamente estivessem, pois a estrutura ritual de produção e uso de imagens dos Tukano
é pré-colonial e não é fenômeno isolado (Ver Whitley 1998, 2001 e Lewis-Williams
2004).
Mesmo que venhamos a identificar no registro arqueológico regional tais
espécies de plantas teremos, ainda assim, dificuldade para relacionar as estruturas,
feições e restos vegetais escavados com as pinturas e gravuras rupestres mesmo que
presentes todos num único sítio. A natureza própria dos rituais, ou das condições psico-
sociais de confecção de arte rupestre estão provavelmente perdidas para detecção pelo
método hipotético-dedutivo e pela escavação.
Conjecturas acerca de relação homológica entre o comportamento gráfico
indígena atual e comportamento gráfico indígena no passado dificilmente poderão ser
falseadas experimentalmente. Não existe o comportamento gráfico indígena no passado,
do ponto de vista da replicação experimental, apenas índices fragmentários, ou na
tradição oral ou no registro arqueológico, sobre os quais construímos nossos
archaeofacts, como diria Prous (2002), egofacts como prefere Consens (2006) ou ainda
Archaeological myths como coloca Bednarik (1992). É a ressignificação exógena do
pesquisador.
Retornemos, pois, à nossa linha temporal, que depois de fechada essa gestalt
‘Reichel-Dolmatoffiana’ pousa nos anos 80. A partir da segunda metade da década de
80, foram executados três estudos arqueológicos focados em registros rupestres na
Amazônia Ocidental brasileira: um em Rondônia (Miller 1992), outro no Amazonas na
área da hidroelétrica de Balbina (Miranda 1994) e um terceiro em Roraima nas
proximidades de Boa Vista (Ribeiro et al. 1986, 1987).
Os trabalhos de Eurico Miller (1992) nas bacias dos rios Abunã e Madeira em
seu alto curso (Rondônia) levaram este autor a identificar três estilos de gravuras
rupestres definidos como estilo A, B e C. O estilo A se caracterizava pela técnica da
picotagem, figuras geométricas, zoomorfos complexos e máscaras estilizadas. O estilo
B também definia a técnica como picotagem, mas o motivo principal são antropomorfos
frontais. Tanto A quanto B ocorrem em ambas as bacias percorridas. O estilo C só foi
identificado num único sítio e apresenta-se pela técnica de incisões em “v” com muito
geometrismo e mascaras antropomorfas triangulares. Miller não encontrou elementos
que relacionassem as gravuras com as ocupações cerâmicas e pré-cerâmicas da sua
região de estudo (Pereira 2003, p. 28) configurando-se a arte rupestre numa variável
34
arqueológica isolada e sem contexto como ocorre com a maior parte das gravuras
rupestres no Brasil.
O estudo de Marcos Miranda Corrêa (1994) se concentrou em gravuras rupestres
na área de impacto direto do lago da Usina Hidroelétrica de Balbina (Presidente
Figueiredo, Amazonas) onde foram localizados 22 sítios rupestres na bacia do rio
Uatumã e dois “estilos” puderam ser definidos: Pitinga e Uatumã-Abonari. “O
primeiro caracteriza-se pelo predomínio de motivos geométricos e pela presença de
máscaras (chamadas pelo autor de motivos culturais), enquanto o segundo caracteriza-
se pelo predomínio de figuras zoomorfas, pela ausência de máscaras e por raros
geométricos (Miranda, 1994, p.145)” (Pereira, 2003, p. 26).
Pedro Mentz Ribeiro (1985, 1986, 1987) executou um grande levantamento de
pinturas e gravuras rupestres de sítios ameaçados por depredação no entorno da capital
de Roraima e em algumas bacias próximas. Definiu dois estilos para as pinturas
encontradas (Parimé – formas abstrato-lineares e Surumu – signos representativos
naturalistas [Pereira 2003, p. 27]) e um para as gravuras baseando-se na classificação
de Denis Williams (1985) para o estilo Aishalton.
Os Três estudos definiram modalidades de phenomena gráficos diferentes para
suas respectivas áreas de pesquisa assinalando indícios de heterogeneidade gráfica entre
corpora, que implicariam em estilos distintos de registros rupestres regionalmente
dispersos. Abrindo-se a perspectiva de uma diversidade cultural e, ou, sócio-ritual
subjacente às manifestações gráficas rupestres na Amazônia Ocidental brasileira.
Particularmente, o estudo de Corrêa pode ter uma implicação direta em nosso trabalho
por dois fatores: primeiro, a proximidade geográfica entre as duas áreas, embora a bacia
do Uatumã não se conecte com a bacia do Negro; segundo, os atributos definidores para
seus dois estilos parecem em princípio corresponder a dois dos três perfis gráficos
identificados em nossa área amostral. No entanto a cópia da dissertação de mestrado de
Corrêa analisada não permite visualização adequada das fotografias o que torna nossa
analogia inconclusiva.
Com referência a dados cronológicos somente a escavação de Mentz Ribeiro no
sítio Pedra Pintada, um abrigo com pinturas na terra indígena São Marcos na região de
bosques secos (lavrado) de Roraima, permitiu o estabelecimento de uma datação
absoluta de 4.000 anos a.p. para um nível arqueológico com material corante (hematita,
hematita processada - pigmento - e fragmentos de parede pintada), mas, sem relação
35
evidente com os grafismos (Pereira 2003).
Façamos aqui um segundo parêntese acerca deste importante sítio rupestre.
Estivemos na Pedra Pintada em 2007 e constatamos que o sítio apresenta muitas
superposições e momentos gráficos distintos. Predominam grafismos puros, impressões
e pinturas de mão em vermelho (umas poucas em amarelo) inclusive manchas inteiriças
de pigmento cobrindo grandes áreas da base da parede rochosa do abrigo, obliterando
figuras mais antigas.
Na parte superior da imensa mancha gráfica (que na base ultrapassa 30 metros
de comprimento) entre cerca de 10 metros e 15 metros do solo, se encontram grandes
grafismos geométricos bicolores que se extendem por vários metros em contiguidade de
traço indicando uma outra modalidade de composição gráfica, de técnica que incluiria a
adoção de andaimes, e provavelmente outro conceito ritual associado a uma ampla
visibilidade das figuras que alcançam centenas de metros a partir do lavrado (podiam
ser vistas por todos mas não tocadas por todos), contrastando com os multiplos
palimpsestos gráficos da base da mancha onde predomina um caos monocromático
vermelho acesível ao toque da mão.
Este cenário implica em ocupação pictural intensa por longo período de tempo, e
possíveis mudanças nos sistemas simbólicos em uso no sítio, ou setores do corpo
rochoso simbolicamente diferenciados e distintamente acessados. Desde rituais mais
socialmente abertos, públicos, a possíveis atividades mais restritas e herméticas.
Na base da mancha gráfica observamos reiteradas superposições cobrindo toda a
superfície rochosa ininterruptamente, onde o “horror vacui” ou “superabundância
pictórica” (Wassén, 1976 p. 136) parece ser o comportamento gráfico preponderante,
ou uma consequência do acúmulo secular do ato de colocar as mãos pintadas, entre
outras coisas, ou de pintar com os dedos sobre um mesmo lugar. Este gesto estaria
dotado de significação ritual específica e duradoura, por ser intensamente repetitivo tal
qual, os resíduos de cera derretida das velas acesas por gerações de fiéis católicos nos
cruzeiros e portais de cemitérios, para iluminar o caminho dos mortos.
Nas partes mais altas o conceito de preenchimento do espaço gráfico foi outro,
dotado de maior respeito aos grafismos adjacentes e aos espaços vazios entre eles, sem
contar o fato indiscutível da monumentalidade bidimensional dos grafismos em sua
escala e no seu posicionamento espacial. A inacessibilidade, a impotência dos seres
humanos ‘normais’ face ao caráter sobrenatural da realização desses grafismos colossais
36
tão longe da mão humana, é um assalto interpretativo que não conseguimos nos abster
de pensar.
Um professor Indígena Makuxi da Aldeia da Roça, na TI São Marcos, RR, sr.
Agenor Makuxi, nos disse que seu pai lhe contara na infância que as pinturas altas eram
o “xirimbabo dos pajés”, isto é, a manifestação de seus poderes, e que quanto mais alto
estavam, mais poderoso teria sido o pajé autor que as produzia da noite para o dia,
voando até as partes altas dos painéis e lá pintando seus grafismos rituais que deveriam
ter um caráter individualizado entre cada pajé, dada a natureza dessa competição gráfica
mágico-religiosa entre os especialistas ancestrais dos Makuxi. Fechemos aqui o
parêntese Pedra Pintada e retornemos a narrativa central.
Basicamente, a estes três estudos citados se resume a pesquisa arqueológica com
arte rupestre na Amazônia Ocidental brasileira. O que é decididamente insuficiente e
caracteriza, portanto, o estado da arte ainda numa fase embrionária.
Na porção oriental da Amazônia brasileira, a investigação dos registros rupestres
tem avançado graças aos trabalhos de Edithe Pereira e sua equipe do Museu Parense
Emílio Goeldi. Esta pesquisadora obteve importantes resultados na sistematização
arqueológica de diversos conjuntos gráficos rupestres ao longo de mais de 20 anos de
pesquisas dentro das fronteiras do Pará, Tocantins, Maranhão e Amapá (Pereira 1990,
1996 e 2003). Caracterizando uma obra monumental pela sua extensividade.
Pereira (2003) também executou o mais completo levantamento bibliográfico
acerca de referências à arte rupestre amazônica permitindo a identificação de “três
áreas de concentração de registros rupestres: O noroeste do Pará, os cursos baixo e
médio do rio Xingú e a bacia dos rios Araguaia e Tocantins”, a partir daí delimitou
suas áreas de investigação mais intensiva. Observa-se que este tipo de trabalho, um
inventário sistemático de grandes proporções e de longa duração, é a base de dados
ideal para se proceder ao trabalho analítico a médio-longo prazo onde diferentes
corpora de registros rupestres são classificados e geograficamente situados no grid
regional.
Se para a porção ocidental, o marco cronológico para os registros rupestres foi a
escavação da Pedra Pintada por Mentz Ribeiro, para a porção oriental o marco
cronológico para os registros rupestres foi o trabalho de Anna Roosevelt (et al. 1996,
2002) na homônima Gruta da Pedra Pintada, ou Gruta do Pilão (Pereira 2003), com
pinturas rupestres em Monte Alegre, Pará, no inicio dos anos 90.
37
Datações dos níveis basais da estratigrafia arqueológica da Gruta do Pilão
relacionados à ocorrência de fragmentos de hematita (óxido de ferro) com marcas de
abrasão para produção de pigmento vermelho trouxeram a marca de 11.200 anos A.P.
Tais fragmentos foram arqueometricamente relacionados, a partir da razão Fe-Ti (ferro-
titânio) para diagnóstico de fontes comuns, com a tinta de algumas pinturas, permitindo
afirmar que as pinturas amostradas e os ocres de onze milênios compartilhariam a
mesma fonte exógena ao sítio e ao entorno. Abrindo a probabilidade dessas pinturas
serem da mesma data que os ocres.
Este raciocínio contextual situaria um possível início da prática gráfica no sítio
já no final do pleistoceno dando margem para confirmação da hipótese de Roosevelt
sobre uma ocupação paleoíndia na Amazônia por caçadores-coletores-pintores. No
entanto, não se sabe ainda se a prática gráfica datada por Roosevelt responde por todo
corpus do sítio, provavelmente não. O painel rupestre principal apresenta muitas
superposições indicando que o sítio foi usado repetidas vezes por muito tempo, desta
forma, as composições picturais seriam diacrônicas, possuiram diversas datas de
execução, sendo a data pleistocênica correspondente a apenas um momento pictural do
abrigo.

II.iii.a. A investigação dos registros rupestres na Guiana, Venezuela e Colômbia

Fora do Brasil mas ainda dentro da região amazônica e em sua periferia, nas
áreas de relevância para o presente trabalho, as investigações rupestres mais expressivas
se deram, e tem se dado, na Guiana com Denis Williams (1985, 2003), na Venezuela
com Sujo Volsky (1975), com o casal Scaramelli (1992, 1993a, 1993b, 2006) e John
Greer (1995, 2001), e na Colômbia com Reicheil-Dolmatoff (1967, 1971, 1976), e mais
recentemente, com os trabalhos do GIPRI (Grupo de Investigación de la Pintura
Rupestre Indígena) coordenado por Guillermo Munõz (centralizado no altiplano mas
com envergadura em todo território colombiano) e especificamente na Amazônia
colombiana com os trabalhos de Fernando Urbina Rangel (1992, 1993, 2000).
Os trabalhos de Denis Williams (1985 e 2003) formam hoje o conjunto de dados
concernentes às gravuras rupestres mais robusto que temos apesar de voltado para uma
área amostral relativamente extensa abarcando a Guiana e a região nordeste do estado
de Roraima, Brasil, e de ser por isso mesmo muito superficial analiticamente, mesmo
assim, é uma tentativa de ordenação preliminar que ultrapassa o nível descritivo. De
38
maneira geral, Williams considera sua amostra representativa da região do norte
Amazônico, Guiana e Caribe, e define a partir dessa base uma única unidade analítica
dotada de homogeneidade interna, o Guiana Shield Complex. Esta classe mais geral
estaria subdividida em graphic types, or, motif complex classes e que mais tarde (2003)
chamou de tradições rupestres: Aishalton seria uma classe composta por grafismos
figurativos, diversos biomorfos e grafismos abstratos (figurative type) que associa a
uma colonização pré-cerâmica por caçadores-coletores arcaicos; o Fish trap type
composto pelo que ele interpreta como diversos tipos de armadilhas de peixe e associa
ao manejo de recursos ribeirinhos, mas, de fato, o que se apresenta, são grafismos
abstratos que guardam semelhança com tais artefatos da cultura material ameríndia,
também relacionado a caçadoes-coletores–pescadores arcaicos; e o Timehri type que
possui um marcador emblemático, em geral antropomórfico com projeções radiais de
segmentos de reta saindo da cabeça e ao longo do corpo, semelhante a um traje de fibras
de palmeira com correlatos etnográficos associado aos Arawak (Koch-Grümberg 1907)
e que Williams associa à colonização de agricultores ceramistas saladóides datada por
ele em 2000 a.p.. Portanto, em sua cronologia relativa Williams estabelece duas
tradições arcaicas e uma tradição rupestre para agricultores ceramistas.
Na interpretação geral para o fenômeno gráfico Williams adota a visão de
Reichel-Dolmatoff (1971) quando este interpreta os petróglifos do rio Uaupés, alto
Negro, dentro da cultura Tukano e relaciona as gravuras ribeirinhas a uma função de
controle mito-ecológico sobre a qual Greer (2001) faz uma boa síntese: “Tukano culture
is based on a symbiotic ralationship between humans and animals used as food, in
which access to dietary resources is regulated and permitted by mythological Master of
Animals (and similar counterparts), with requests made to him by village shamans, and
with responding cultural actions controlled by shaman. Petroglyphs reflect the need to
maintain equilibrium between humans and animals and preserve the biotic equilibrium
for long term human survival.”
A interpretação de fundo ecológico-funcionalista, que Williams retira de
Reichel-Dolmatoff, apresenta o mesmo problema da construção de significados novos
para uma ‘arte’ antiga, e desconsidera, entre outras coisas, a ruptura histórico-cultural e
ecológica (no caso de grupos do holoceno médio) que certamente existe entre os
Tukano atuais (ou qualquer etnia viva) e os autores dos registros rupestres. Seu mérito,
no entanto, além do inventário colossal, é chamar a atenção para que uma moldura
39
reflexiva e classificatória do fenômeno gráfico pré-histórico deve estar pautada por uma
perspectiva sócio-cultural e não pela abordagem da história da arte. (Williams 1985;
Greer 2001). Os tipos que Williams identifica indicam variabilidade interna ao corpus,
e nesse aspecto se coaduna aos trabalhos de Ribeiro, Corrêa e Miller. Esta conjuntura
marcada pela heterogeneidade gráfica é uma referência para os estudos amazonenses,
como o próprio Mentz Ribeiro (1986 e 1987) sinaliza ao encontrar o estilo Aishalton
(Williams, 1985), em sítios de Roraima.
C.N. Dubelaar (1986) foi outro dos pioneiros, se dedicou aos petróglifos do
Caribe, mas tambem percorreu o norte da América do Sul, no entanto, sua obra é
marcadamente inventarial. Ou seja, dedica-se a montar uma base dados ampla e
sistemática, mas sem aprofundamento analítico, o que fica claro em seu livro The
petroglyphs in the Guianas and adjacent areas of Brasil and Venezuela: An Inventory;
With a Comprehensive Bibliography of south American and Antillian Petroglyphs
publicado em 1986. O mérito de Dubelaar e de Williams é que foram os primeiros a
aplicar os princípios da pesquisa sistemática baseada em problemas arqueológicos na
região, e ao dedicarem grande parte de suas vidas a prospectar sítios conseguiram fazer
um levantamento exaustivo principalmente da Guiana e do Caribe. Semelhante ao que
Edithe Pereira vem fazendo no Pará, mas sem o aprofundamento analítico da obra desta
última.
Importantes também foram os trabalhos de Jeannine Sujo Volsky (1975) cuja
dissertação de mestrado orientada pela arqueóloga Alberta Zucchi, serviu de marco
regulador para a sistematização da pesquisa venezuelana com registros rupestres a partir
dos anos 70, sem desconsiderar investigações anteriores. Em seu trabalho, além de uma
compilação da literatura de referência, a autora propôs uma metodologia rigorosa de
documentação e análise que foi adotada na pesquisa venezuelana subsequente (Sujo
Volski 1976, 1978; Scaramelli 1992, et al. 1993a; Tarble 1990, 1991 e et al. 1993b).
Ainda na Venezuela, consideráveis foram os trabalhos de John Greer (1995 e
2001) na região amazônica de Puerto Ayacucho, SW Venezuelano. Ele pesquisou
dezenas de sítios com pinturas e gravuras rupestres e fez uma ampla correlação com os
dados da pesquisa arqueológica venezuelana e sul-americana o que lhe permitiu definir
uma seqüência cronológica relativa pré-cerâmica e cerâmica para manifestações
rupestres que recuariam até o holoceno médio, cerca de 6.000 anos a.p. (Greer 2001:
690) indo até o período histórico, baseando-se em superposições gráficas e em dados
40
contextuais, assumindo que poderiam existir registros rupestres anteriores a 6.000 anos.
Em comunicação pessoal durante o supracitado encontro da IFRAO em 2009,
Franz Scaramelli, um dos principais investigadores dos registros rupestres
venezuelanos, nos situa as pesquisas de John Greer em importância equivalente a Denis
Williams na Guiana. Enquanto este é referência em petróglifos, aquele se tornou a
referência em pictografias, especificamente, na proposição do melhor modelo de
cronologia relativa que temos disponível hoje para um corpus rupestre amazônico.
Sobre esse aspecto cronológico, citamos ainda William Barse (2003) que embora
em contextos arqueológicos bem distintos, dissociados de pinturas rupestres, no alto
Orinoco, Venezuela, encontrou em níveis ocupacionais datados em torno de 9.000 anos
a.p. fragmentos de hematita com marcas de uso por abrasão indicando produção de
pigmento. Alguma atividade pictórica certamente estava sendo feita com esse material.
Na Colômbia, apesar das notícias e registros de sítios rupestres retrocederem ao
período colonial, a investigação rupestre sistemática e científica vem sendo feita desde
os anos 70 pelos esforços do Gipri (Grupo de Investigacion de Arte Rupestre Indigena)
e de pesquisadores individuais, citamos os nomes de Guillermo Munõz e Fernando
Urbina como representantes respectivos dessas duas classes. Munõz figura central nesse
processo e coordenador do Gipri, desde cedo (Munõz 198517) propôs uma metodologia
específica e rigorosa para fazer os levantamentos de arte rupestre vinculados ao rigor
científico da investigação arqueológica mais geral, equivalente ao que Annete Laming-
Emperaire, Guidon, Prous, Schmitz, Pessis e Martin fizeram no Brasil. Os estudos de
Munõz, porém, se concentraram no altiplano colombiano.
Na Amazônia colombiana, os estudos de referência são os de Fernando Urbina
(1992, 1993, 2000) e seus colaboradores indígenas, principalmente os Uitoto na bacia
do rio Caquetá, que no Brasil ganha o nome de rio Japurá. A diferença fundamental
entre os estudos de Munõz no altiplano e de Urbina na planície amazônica é o
componente étnico-interpretativo. Se no Altiplano a colonização foi devastadora para as
tradições culturais indígenas pré-colombianas, impondo a necessidade de um método
formal, na região amazônica subsistiram fortemente tradições indígenas de interpretação
mitológica dos petróglifos, permitindo uma abordagem etnoarqueológica vinculada ao
processo de atribuição de significados sócio-rituais à arte rupestre, principalmente
17
GIPRI y la Investigación del Arte Rupestre (Propuesta Metodológica), Congreso de Americanistas,
Bogotá, 1985.

41
petróglifos ribeirinhos. O trabalho de Fernando Urbina, portanto, é marcado pela
interface mito e registro rupestre e se alicerça num método informado (Chippindale &
Taçon 1998) pelas tradições indígenas, no rastro de Reichel-Dolmatoff.
Semelhante ao Brasil, os registros rupestres colombianos encontram-se pouco
contextualizados às sequências e tipologias crono-culturais arqueológicas na Colômbia.
Acerca disso Munõz (2006, p.97-99) nos diz: “Long periods of occupation have been
proven by studies on hunter-gatherer communities (Correal, Van der Hammen-1970)
permitting us to construct a complete image of the ethnic groups who lived in Colombia
as far back as 12,000 B.P. During this investigation, Colombian archaeologists have
worked in some of the study areas and have been able to describe the climatic history
(flora and fauna), as well as the conditions encountered by local ethnic groups, some of
whom possibly made rock art. Nevertheless, connections between the archaeological
studies and the documents about rock art in those areas do not exist yet, so there is
nothing to allow us to widen paths into the study of rock art and its interpretation (…)
In general, for all the country, there are no archaeological works that permit rock art to
be dated, and neither is it possible to designate one or various ethnic groups as the rock
artists. Furthermore, no information exists about the age of the rock art itself, or the
duration and dissemination of it throughout time as a cultural tradition.”
É provável que no início do holoceno entre 10.000 e 9.000 anos a.p. já houvesse
atividade gráfica pictórica difundida em toda região amazônica. Há indicações na
literatura (Greer 1995, 2001; Pereira 2003; Bednarik 1989; Pessis 2002, 2004; Koch-
Grümberg 1907; Williams 1985; Munõz 2006; Scaramelli & Scaramelli 2006) de que os
petróglifos teriam uma antiguidade equivalente, ou seriam até mais antigos, pois, por se
tratar de uma técnica invasiva no corpo rochoso em que a matéria rochosa é removida,
teria uma capacidade de sobrevida aos processos tafonômicos superior às pinturas
rupestres. Portanto poderiam ter sobrevivido do pleistoceno até nossos dias com maior
probabilidade que pinturas rupestres (aplicação de pigmento sobre a superfície rochosa).
Um elemento complicador às investidas de contextualização arqueológica da
arte rupestre amazônica é o fato de que os petróglifos ainda estão em uso sócio-ritual
entre algumas populações indígenas da região e provavelmente estiveram sendo refeitos
e ressignificados durante o período colonial e possivelmente até recentemente como
atesta Koch-Grümberg (1907) Greer (2001) e Valle et al. (2008). Velhos painéis sendo
refeitos e ressignificados, sendo renovados talvez ao longo de milhares de anos por
42
tradições culturais diferentes, até os dias atuais, é fator de ruído tecnológico e
antropológico considerável. Introduzindo no corpus gráfico amazônico um alto grau de
ambiguidade analítica quando da aplicação de uma abordagem exclusivamente
arqueológica e formal trazendo a necessidade de outros aportes, acerca dos quais
precisaremos ainda de muita reflexão. Discutiremos melhor essa questão no capítulo V
sobre as ressignificações.
Atrelado ao problema de contextualização arqueológica, esbarramos na ausência
de datação absoluta, ou mesmo relativa para os petróglifos amazônicos. Sua imensa
maioria não está associada a contextos deposicionais onde os pacotes sedimentares
arqueológicos, potencialmente relacionados aos registros rupestres, podem ser
investigados. A maior parte dos petróglifos amazônicos conhecidos, via de regra, além
de estarem a céu aberto, se encontram diretamente posicionados junto aos rios e
igarapés estando, portanto, sujeitos a submersão sazonal e às correntezas das águas. O
quadro tafonômico também é desanimador, pois, observa-se um forte intemperismo
físico-químico e biológico característico da sazonalidade hidratação/insolação, da
latitude equatorial, do ecossistema de floresta tropical úmida, da acidez dos rios de
águas pretas e da abrasão de partículas sólidas em suspensão nas águas brancas.

II.iii.b. A investigação dos registros rupestres na bacia do rio Negro

Com relação ao rio Negro em território brasileiro, apesar de ser uma província
rupestre conhecida da etnologia e de ter sítios do alto e médio rio Negro assinalados no
mapa do profícuo artigo de Williams de 1985 e em seu livro de 2003, Prehistoric
Guyana a investigação propriamente arqueológica de registros rupestres começa com
este presente trabalho.
Porém, salientamos que Michael Heckenberger (1997) prospectou o rio Jaú, um
tributário do baixo rio Negro inserido em nossa área amostral, assinalando a ocorrência
de diversos sítios cerâmicos e de pelo menos três conjuntos de gravuras rupestres entre
o sítio pré-colonial e histórico da cidade de Velho Airão e o baixo rio Jaú. Também
Marcos Corrêa em comunicação pessoal durante o Global Art 2009, reunião da IFRAO
(International Federation of Rock Art Organizations) no Piauí informou que havia
visitado em uma ocasião a região próxima à foz do rio Branco, “próximo à Pedra do
Gavião” e teria encontrado alguns petróglifos, informando da publicação de uma nota a
esse respeito em boletim da Sab no ano 2001, infelizmente ainda não tivemos acesso ao
43
documento.
No entanto, consideramos essas empreitadas incipientes e pontuais não gerando
continuidade nem dados relevantes para a investigação rupestre na bacia, que ainda está
por ser feita em larga medida. Contudo, apesar de não haver coordenadas geográficas
para os sítios, o estudo de Heckenberger especificamente serviu para sinalizar uma área
amostral onde poderíamos começar o trabalho prospectivo no Negro, e na extensão dela
reencontramos um sítio que Corrêa teria encontrado e que possivelmente seria o mesmo
que Wallace encontrou no século XIX (vide epígrafe) um pouco abaixo da foz do rio
Branco, atualmente nominado Ilha das Andorinhas.
Entre 2006 e 2008, Valle (2006, 2007, 2008, 2009a) com apoio da Fundação
Vitória Amazônica (FVA), uma organização não-governamental com atuação sócio-
ambiental no médio e baixo Negro, prospectou trechos do Parque Nacional do Jaú
(Parna Jaú) e da Reserva Extrativista do rio Unini (Resex Unini). Reencontrou os sítios
assinalados por Heckenberger e outros, se estendendo até o baixo curso do rio Unini.
Uma terceira campanha em novembro de 2008, com apoio da WWF Brasil
(representação brasileira da organização não-governamental World Wildlife
Foundation), foi dirigida para a área de confluência com o rio Branco e para o baixo rio
Jauaperi, um afluente menor. Foi possível assim, adotar procedimentos da metodologia
específica da pesquisa com registro rupestre, procedendo inicialmente à localização
geo-referenciada e documentação fotográfica sistemática das gravuras na área.
Resultando, desta forma, na identificação de 3 sítios rupestres no rio Jaú, 2 sítios
rupestres no rio Unini, mais 6 no rio Negro e 2 no baixo Jauaperi.
È preciso salientar o caráter assistemático e oportunístico desses trabalhos
prospectivos, pois estamos condicionados a cronogramas e roteiros expedicionários que
não são definidos pelas prioridades arqueológicas mas pelas agendas sócio-ambientais
das instituições parceiras, o que, entre outras coisas, reflete-se em restrições logísticas,
geográficas e cronológicas nas prospecções.
De fato, ‘pegamos carona’ nas expedições de parceiros informais da arqueologia
no Amazonas na perspectiva de termos acesso a determinadas áreas onde de outra forma
não teríamos condições de chegar. É preciso situar que estamos tratando de uma área de
difícil acesso, cuja a logística é cara, o que contrasta com falta total de apoio financeiro
ao trabalho com os petróglifos, nem ao nível de bolsa de pesquisa (a bolsa a qual o
projeto se atrela hoje somente foi concedida em julho de 2009 indo até março de 2010).
44
Isto posto, acreditamos que temos um número baixo de sítios (15) não por uma
eventual baixa densidade dos mesmos, mas porque até o momento não foi possível a
execução de uma campanha de levantamento arqueológico logisticamente adequada, em
transporte, combustível, tempo e dada em condições climáticas favoráveis (pois
dependemos de estações de seca drásticas18 e da queda extrema do nível da água no
Negro para que possamos encontrar tais sítios, de forma que ainda não nos foi possível
a realização de uma campanha arqueológica mais robusta na área alvo, mas apenas três
incursões pontuais, todas em secas moderadas.
Foi possível ainda, a custos pessoais, prospectar incipientemente em março de
2008 o alto rio Negro (ARN). Nesta vasta região demarcada em terras indígenas, os
petróglifos abundam e apesar de conhecidos da antropologia social, nunca foram
documentados e estudados sob o ponto de vista arqueológico. Uma prospecção
arqueológica com apoio da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro
(FOIRN) foi direcionada para a bacia do rio Içana, tributário do alto Negro, permitindo
a identificação de seis sítios rupestres, parcialmente submersos, entre o baixo e médio
curso desse rio (Valle & Costa 2008).
O esforço içaneiro, contudo, foi por demais preliminar o que nos impossibilita
de tecer maiores comentários sobre a amostra e de relacioná-la com o material
encontrado no baixo Negro, o que, de forma alguma, implica que tais relações não
existam. No entanto, mesmo diante da constrição amostral, o material do Içana nos é
bastante útil enquanto grupo externo à área de estudo central (baixo rio Negro) para
efeito de comparações mais gerais intra-bacia. Podemos, contudo, especular a partir de
nossas análises preliminares que no nível de motivos isolados considerando-se sua
morfologia constitutiva, temos detectado recorrências entre as duas áreas, mesmo que
ainda pontuais, fato esperado por se tratar do mesmo rio. Mas quanto aos outros
atributos utilizados em nossa análise, a exemplo das combinações cenográficas e
tendências temáticas parece-nos que as províncias rupestres no rio Negro guardam
propriedades específicas quando comparadas entre si.

18
Tais fenômenos possuem relações causais complexas mas de uma forma geral, estariam relacionados
ao evento climático El Ninõ no Pacífico, portanto respeitando um ciclo sazonal de 7 anos em média. Mas
com o aquecimento global esses ciclos estão se alterando rapidamente (Ver Fearnside, F. 2007 As
Mudanças Climáticas Globais e a Floresta Amazônica, in, A Biologia e as Mudanças Climáticas Globais
no Brasil. Marcos Buckeridge (ed.), Universidade de São Paulo, São Paulo. A última dessas grandes
secas se deu em 2005, portanto, a expectativa para um próximo evento dessa magnitude seria para a
estiagem de 2012. Infelizmente doutorado no Brasil tem 4 anos, caindo especificamente este numa janela
cronológica desafortunada (2007-2011).
45
Paralelo ao levantamento extensivo para documentarmos sítios rupestres, é
preciso que se invista tempo e dedicação na procura e na investigação de sítios
escaváveis (abrigados) que sejam portadores desse tipo de vestígio na região, para que
possamos proceder, a exemplo de Pereira, Mentz Ribeiro, Guidon, Pessis, Roosevelt, e
Greer, a um entendimento cronológico e contextual dessas gravuras rupestres. Não se
sabe quando foram feitos nem se conhece a relação dos petróglifos com as outras
variáveis do registro arqueológico regional, ou seja, com as múltiplas expressões da
cultura material das ocupações pré-históricas ameríndias, para as quais a gravura
rupestre ainda está, como no dizer caboclo, de “bubuia”. Isto é, flutuando fora dos
esquemas taxonômicos e cronológicos dos pré-historiadores.
Nas palavras de Pereira (2003, p. 29): “A imensidão geográfica da região,
aliada ao início tardio dos estudos sobre os conjuntos rupestres na Amazônia exige a
realização de um trabalho de base. É preciso procurar sítios, registrá-los, classificar as
figuras, identificar semelhanças e diferenças e compor um corpus gráfico para cada
área, além de contextualizar os conjuntos rupestres, inserindo-os na pré-história da
Amazônia, que é o objetivo final do seu estudo.”

II.iii..c. A datação de gravuras rupestres na bacia do Negro

Aqui abrimos mais um parêntese para introduzirmos na discussão nossas


expectativas para obtenção de um quadro cronológico absolutamente datado relacionado
à gravura rupestre amazônica, ainda que fora da área diretamente pesquisada.
Vamos sair um pouco do curso direto do rio Negro, mas ainda dentro de nossa
unidade ecológica geral (a bacia do rio Negro), rumo ao alto curso de um de seus
tributários, o rio Jauaperi, que penetra em nossa área amostral. Lá identificamos um
sítio abrigado portador de gravuras rupestres denominado Arara Vermelha19 situado no
município de São Luís do Anauá, SE de Roraima. Nele foi possível, também a custos
pessoais, a execução de três campanhas de documentação fotográfica e de levantamento
topográfico do sítio, entre 2005 e 2008.
Porque nos vimos obrigados a sair de junto dos grandes cursos fluviais? A
questão primordial foi a ausência de depósítos arqueológicos escaváveis e datáveis nos

19
Atualmente este nome está em desuso, sendo o mesmo uma escolha do proprietário do terreno, mas
devido ao que entendemos ser uma estratégia de incrementação do turismo da prefeitura municipal, o
mesmo mudou de nome para Pedra do Sol em 2009.

46
sítios encontrados (vide a discussão acima). Portanto, esses sítios estão contextualmente
isolados não se relacionando com datações nem cultura material associada, ou seja,
estão, de certa forma, fora do registro arqueológico amazônico. O que, em parte,
justifica a antiga posição do Pronapa de que os registros rupestres seriam variáveis
pouco informativas no registro arqueológico. Temos que admitir que os sítios rupestres
ribeirinhos oferecem consideráveis limitações no seu estudo arqueológico. Porém,
talvez esse tenha sido o equívoco do Pronapa e da arqueologia amazônica subsequente,
é que nem todos os sítios rupestres estão fadados ao desligamento do quadro
arqueológico, apenas, e por enquanto, os sítios ribeirinhos mais facilmente acessados
por quem navega e, portanto, os mais conhecidos.
A questão é que precisávamos encontrar os sítios certos, que rendessem as
possibilidades de escavação relacionada ao registro rupestre. Que gerassem, pois, um
marco cronológico para nossos sítios no Negro, seguindo o modelo da Pedra Pintada
para o lavrado roraimense e da Gruta da Pedra Pintada para o NW do Pará.
O sítio Arara Vermelha, se considerarmos hoje a vasta área da bacia do rio
Negro, é a única unidade arqueológica com potencial de gerar uma crono-estratigrafia
relacionada a produção e uso ritual de gravuras rupestres, com chances de obtenção de
datações absolutas relacionáveis, indireta ou diretamente, aos petróglifos. Lembremos
que o que foi datado em Roraima e no Pará não foram gravuras rupestres foram pinturas
rupestres, e que, portanto não há no momento para a Amazônia, como um todo,
nenhuma datação para gravuras rupestres.
Objetivamos começar esse trabalho em 2010 e abrir sondagens no referido sítio
para efeito de um entendimento preliminar das ocupações que se deram naquele
pequeno espaço abrigado de 12 metros quadrados. Nosso foco será em atividades
assinaladas na estratigrafia relacionadas à confecção, uso, ou alteração de gravuras
(fragmentos de parede gravada, ferramentas e detritos líticos utilizados e produzidos na
confecção de gravuras como estilhas e bipolares oriundos de percussão indireta e
percutores diretos tipo Mur-e [Bednarik 2007] etc.) e buscando vestígios datáveis que
possam situar os níveis de ocupação cronometricamente. Portanto, esta escavação está
orientada por um problema de pesquisa específico.
As gravuras do Arara Vermelha caso datadas, podem ser extrapoladas para
refenciar cronologicamente as gravuras do baixo rio Negro? Não de maneira
inequívoca e direta, pois as conexões objetivas entre os dois corpora, no momento se
47
reduzem à ocorrência de zoomorfos quadrúpedes perfilados que são encontrados em
ambas as amostras, o que apesar de ser um índice de relação objetivo, o é num nível
frágil de evidência morfológica e cenográfica.
Mas o que sustentamos é que precisamos de um quadro cronológico para as
gravuras rupestres na bacia do rio Negro como uma unidade ecológica geral. Ao menos
precisamos buscar a construção disso. E que nas atuais circunstâncias o Arara Vermelha
está numa posição privilegiada para tanto. Caso contrário corre-se o risco de ficar
andando em círculos na afirmação falaciosa de que as gravuras são arqueologicamente
pouco informativas porque não se apresentam junto às outras varíaveis, se quando
podemos trabalhar num caso singular com potencial de reversão desta falácia,
categoricamente, nos furtamos ao nosso dever heurístico-epistemológico.
A importância do Arara Vermelha foi reconhecida por Robert Bednarik quando
de nosso encontro e discussão acerca dos petróglifos amazônicos no Global Art 2009,
onde o mesmo pôde analizar as fotos e a topografia do sítio, reiterando que o abrigo
oferece condições de datação direta e indireta para arte rupestre, ao menos por três vias:
(1) recuperação de ferramentas líticas de confecção de gravuras (com atributos e
marcas de uso específicas, tendo o mesmo se oferecido para rodar análises traciológicas
na Austrália) que ainda podem estar depositadas no pacote e confeririam uma datação
direta para obra gráfica; (2) vários trechos do painel W desplacados e provavelmente
depositados na estratigrafia, confeririam uma datação para a erosão diferencial, portanto
mínima para a gravura; (3) e arqueometricamente pela datação de acresções minerais20
depositadas sobre as gravuras em diversos pontos dos painéis que precisam ser
coletadas e quimicamente analizadas para confirmar tal potencial, mas também
confeririam datações mínimas para os petróglifos.
Bednarik juntamente com o arqueólogo Indiano Giriraj Kumar, enfatizaram que
a pequenez do abrigo e a grande quantidade de gravuras concentradas bem como os
indicadores de grande antiguidade e heterogeneidade nos estados de conservação dos
20
Não sabemos ainda, mas possivelmente, trata-se de um processo de alteração do feldspato convertido
em caulinita ou gipsita solubilizada por precipitação e deslocamento de fluido – água - nos espaços
intersticiais do cortex granítico depositando-se por sobre as gravuras. Um fenômeno também identificado
por Williams (1997) nos granitóides da Guiana. As propriedades físico-químicas da caulinita seriam
semelhantes à calcita e poderiam teoricamente ser testadas por Uranium-Thorium Series, análogo à
datação de espeleotemas cársticos. Precisamos executar um teste inicial com ácido clorídrico (HCL)
aplicando uma gota numa amostra da acresção. Se ocasionar efervescência teremos uma amostra datável
(Bednarik & Kumar comunicação pessoal).

48
petróglifos, são fortes indícios de que muita atividade ao longo de muito tempo
aconteceu lá dentro relacionada à confecção e uso de registros rupestres. A
probabilidade dessas atividades estarem assinaladas na estratigrafia é concreta e grande.
Numa comunicação pessoal sobre o mesmo tema e sobre o mesmo sítio com
Anne-Marie Pessis, na Universidade Federal de Pernambuco por ocasião de uma visita
minha logo após o Global Art, a mesma expôs diante das fotos do abrigo, argumentos
semelhantes. Classificou como altamente promissor o sítio e o contexto arqueológico
nele encerrado, sugerindo que sua ocupação se trataria de um contexto sócio-ritual
bastante hermético e distanciado da vida cotidiana, ligado a manifestações mágico-
religiosas restritas de caráter gráfico abstrato, não-reconhecível, e repetitivo. Pessis
indicou que não abríssemos sondagens isoladas, mas escavássemos o mesmo
integralmente, dada a reduzida área interna e o modus operandi nas escavações
piauienses, com vistas a ampla visualização e reconstituição das atividades transcorridas
nos níveis horizontais.
Pelas características do sítio, provavelmente toda atividade interna ao abrigo está
direta e indiretamente associada à prática gráfica rupestre. Mas como tudo nesta
pesquisa se apresenta em níveis de dificuldade consideráveis, não seria diferente com o
Arara Vermelha. O sítio apresenta um depósito estratigráfico atacado pela fauna
silvestre local, notório são os buracos de tatu (Dasypodidae spp.). As gravuras
encontram-se extremamente fragilizadas pelo intemperismo físico-químico e biológico
no suporte granítico, que se desintegra ao mínimo contato. Como se fosse pouco, o sítio
também sofre visitação não controlada na parte abrigada, e atualmente a prefeitura
municipal decidiu incluir o mesmo num roteiro turístico, modificando-lhe o nome para
‘Pedra do Sol’. Apesar de nossas insistentes chamadas de atenção ao Iphan de RR e a
primeira SR em Manaus, que conhece e tem cadastrado o sítio por nossos esforços,
tememos pela integridade física das gravuras e do pacote arqueológico. O que é
agravado pelo fato deste sítio ser único até o momento, na área do município, no sul de
Roraima e na bacia do rio Negro como um todo. Portanto, precisamos nos apressar na
escavação se quisermos recuperar algum dado.

49
III. Construção e Estrutura da Pesquisa

Apresentaremos aqui aspectos da estrutura desta pesquisa seguindo o modelo


heurístico-epistemológico de problema-hipótese-método-resultado. Antes, porém,
apresentaremos nossa área amostral, onde introduziremos elementos que serão
aprofundados tanto na problematização quanto na hipótese e dizem respeito a duas
características geo-ambientais da área que julgamos primordiais em nossa reflexão
quando relacionadas ao seu processo de ocupação histórico-cultural. Estes são os
elementos-chaves para entendermos o esquema hipotético-dedutivo em proposta.

III.i. Área Amostral


A área amostral engloba os municípios de Barcelos e Novo Airão na transição
médio-baixo rio Negro (coordinates S02°17’ W61°03’ to S01°16’ W62°17’) estado do
Amazonas. As principais características ambientais dessa área são: a diversidade
geológica e as múltiplas confluências na malha hidrográfica. Geologicamente o contato
entre os granitos e gneisses do complexo Jauaperi no escudo cristalino guianense e os
arenitos e pelitos das formações sedimentares Prosperança, Içá, Alter do Chão e grupo
Trombetas introduzem diferentes fontes de matérias primas litológicas com
propriedades petrográficas altamente diversificadas dentro da área que teriam levado
provavelmente a diferentes cadeias técnico-operatórias na confecção de petróglifos.
Hidrograficamente, vários tributários do baixo curso do rio Negro convergem
para a área, trazendo influências bióticas e abióticas oriundas de partes muito distintas
da região amazônica. A confluência das águas barrentas alcalinas do rio Branco vindo
do norte (savanas de Roraima do SE da Venezuela e Guiana) com as águas ácidas e
escuras do rio Negro, cujas cabeceiras se localizam no extremo NW da Amazônia
(floresta tropical úmida do leste colombiano e alto rio Orinoco no SW venezuelano)
conecta áreas que também são altamente diversificadas em termos de seus conteúdos
etnográficos e histórias culturais.
Um apêndice a essa área-chave, aqui nominado de área Amostral 2, é
conformado pelos sítios do rio Içana, no Alto Negro, que aqui não trabalharemos em
detalhe, deixaremos para caracterizar essa amostra no documento final. Também
estamos considerando o sítio Arara Vermelha (N 00°51’13.4” W 60°07’55.4”) no alto
rio Jauaperi, no sul de Roraima, como uma amostra externa e não a detalharemos aqui
neste documento, apenas na versão final. Portanto, integralmente temos: Amostra 1 –
50
Baixo Negro (aqui detalhado); Amostra 2 – Içana, Alto Negro; e amostra externa –
Arara Vermelha SE de RR (figura 5).
Apresentamos aqui uma sequência de mapas e de imagens de satélite mostrando
esta variabilidade ambiental na área amostral juntamente com a localização plotada dos
sítios em estudo.

Figure 1 – Mapa geral mostrando a posição do NW amazônico no contexto sul-americano, com


foco na bacia do Negro em contexto regional. O quadrado A mostra a localização dos sítios
documentados nas campanhas de 2006 e 2007 na área amostral 1. Aparecem também o rio Içana
com (amostra 2) a amostra externa do Arara Vermelha (amostra externa) no SE de RR. Author: M.
Brito.

51
Figure 2 – Imagem da área amostral 1 apresentando a localização dos sítios rupestres
arranjados em 3 clusters: A boca do rio Jaú na parte de baixo da imagem (sítios: Pedral
Velho Airão, Pedral Rio Negro, Jaú 1, Jaú 2 e Jaú 3); O baixo curso do rio Unini no
meio da imagem (Unini 2 e Unini 4); Nas proximidades da boca do Branco no topo da
imagem (Ilha das Andorinhas, Santa Helena e Guariba 2). Outros sítios rupestres
incluem a Pedra da Vovó (num canal da desembocadura do Jauaperi), São Pedro (no
baixo curso do Jauaperi não visto no mapa) e Madadá um pouco acima da cidade de
novo Airão (não visto no mapa) que figuram, até o momento, como sítios isolados. As
outras sinalizações indicam sítios cerâmicos. Source: Google Earth.

Figure 3 – Área Amostral 1 caracterizada pela situação hidrográfica de múltipla confluência na transição
do médio-baixo curso do Negro. Marcadamente nota-se a junção entre o rio Branco e outros tributários
menores (Jufari, Caures, Jauaperi, Unini and Jaú). Source: CBRS-INPE. Scale 1 cm ≅ 30 km.

52
Figure 4 – Fronteira geológica encaixada ao longo do baixo curso do rio Unini. A cor rosa indica
formações ígneas, as outras cores indicam formações sedimentares. Source: CPRM (Reis & Marmos 2007
sob autorização).

53
Figura 5. Planta topográfica do sítio arqueológico Arara Vermelha, São Luís do Anauá, Roraima. Trata-
se do ùnico sítio abrigado com gravuras rupestres na bacia do rio Negro até o momento conhecido.
Residem aí nossas expectativas para uma escavação contextualmente relacionada aos petróglifos
amazônicos. Autor: Marcos Brito.

54
III.ii. Do Problema
Lidamos fundamentalmente aqui com o problema da identificação da
variabilidade gráfica, da heterogeneidade entre conjuntos de grafismos. Isto é, como
demonstrar por categorias objetivas que um corpus gráfico é diferente de outro, e, ou,
ao contrário, como podemos estabelecer conexões objetivas entre diversos corpora
gráficos. Dito de outra forma, nosso problema se situa na ordem da detecção e
demonstração objetiva de heterogeneidade ou homogeneidade entre corpora rupestres.
Há questões que devem ser postuladas acerca da dialética entre o semelhante e o
diverso. Isto posto, consideramos aqui que a diferença só existe à luz da semelhança e
vice-versa. São interdependentes no sentido de que a homogeneidade e a
heterogeneidade são propriedades relacionais e proporcionais. É diferente em relação a
quê? E em que proporção? Ou seja, quando se identifica padrões de atributos e
estruturas semelhantes em morfologia (e em funcionamento), o refugo analítico não
seria automaticamente equivalente às exceções, isto é, às diferenças, e o contrário
verdadeiro?
Stephen Jay Gould (1992:187), eminente paleontólogo e livre pensador da
ciência, nos dá uma ‘dica’ acerca destas considerações quando nos fala das aberrações
genéticas teratológicas (estudo dos monstros) e de método: “As leis do crescimento
normal são mais bem entendidas e formuladas, quando se pode definir as causas de
suas exceções. O próprio método experimental, pedra de toque do procedimento
científico, baseia-se no pressuposto de que os desvios da normalidade, quando
induzidos e controlados, desvendam as leis da ordem.” Seguindo esta visão ‘Gouldiana’
o método experimental privilegia o isolamento da diferença como uma técnica para se
entender os padrões, as relações de equivalência morfo-estruturais.
A base desse processo é de duas naturezas intimamente relacionadas: cognitiva e
empírica. Os aspectos lógicos são derivativos secundários e vêm na fixação mental de
caracteres selecionados com a assimilação a esquemas de ação e sistemas de operação
(Piaget 1973) teóricos introjetados em antecedência à observação ou depois dela. Na
investigação dos registros rupestres a observação empírica é inigualável. Tal qual na
análise de restos fósseis, a busca por padrões estruturais parte da inferência fragmentária
para uma tentativa de reconstituição do todo, guardando consideráveis limites. Como
nos diz Gould (1992:99) lembrando Cuvier, pai da paleontologia francesa: “O princípio
de Cuvier (da correlação das partes anatômicas) pode ser aplicável no seu sentido mais
55
amplo: se encontrássemos uma mandíbula com um único dente pequeno, com forma de
pino, não esperaríamos encontrar garras afiadas de um carnívoro nas pernas
correspondentes. Mas um dente isolado não nos diria que comprimento teriam as
pernas ou quantos dentes mais estariam presos à mandíbula. Os animais são um feixe
de acidentes históricos e não máquinas perfeitas e predizíveis (tal qual o registro
arqueológico). Quando um paleontólogo olha para um dente isolado e diz ‘Aha, um
rinoceronte!’, ele não o está reconhecendo através das leis da física, mas simplesmente
fazendo uma associação empírica: dentes com essa forma característica (e os dentes
dos rinocerontes são diferenciados) nunca foram encontrados, a não ser em
rinocerontes. Esse dente solitário implica um chifre e um couro espesso, só porque
todos os rinocerontes têm esses atributos em comum e não porque as leis dedutivas da
estrutura orgânica expressem a sua necessária conexão. Cuvier, na verdade, sabia que
atuava pela associação empírica (e não pela inferência lógica), embora considerasse
seu método de observação uma estação imperfeita, no caminho para uma futura
morfologia racional:
Todas essas conformações relativas são constantes e regulares, e podemos estar certos
de que dependem de uma causa suficiente; e, como não conhecemos a causa, devemos
aqui preencher a lacuna da teoria com a observação e assim estabelecer regras
empíricas sobre o assunto, que são quase tão corretas quanto as deduzidas dos princípios
racionais, especialmente se baseadas em repetida e cuidadosa observação (...)”

Tais princípios são análogos na observação repetida do registro rupestre seja in


situ, seja por intermédio de documentação fotográfica ou videográfica, pois não
conhecemos a causa sócio-cultural do fenômeno (apesar de conhecermos a biológica),
só nos resta observá-lo em seu aspecto formal. Mas o valor da abordagem empírica é de
caráter preliminar na definição de relações e na segregação dos desvios, pois, a
posteriori, a inferência lógica toma seu palco, e a morfologia racional Gouldiana se
torna instrumento na definição mais demorada das identidades gráficas, ao passo que a
identificação dos padrões gráficos elementares (níveis: atributo, grafismo e cenografia)
depende, em grande parte, da percepção direta do objeto. No estudo dos registros
rupestres esse processo reflexivo tende a demorar anos de pesquisa sistemática
comparativa e acúmulo de dados. Mas o primeiro momento da identificação de padrões
é sempre uma tarefa empírico-cognitiva de estranhamento hermenêutico com a coisa

56
diante dos olhos (desenvolveremos mais esses pontos no quadro teórico-metodológico e
em seus apêndices).
Neste aspecto, Ann Sieveking (In Bahn and Lorblanchet 1993:27) nos confronta
a percepção da diferença e da semelhança com a discussão acerca de estilo. Segundo a
autora: “If we wish to identify like with like in palaeolithic art, we have little choice but
to use stylistic analysis. In effect the definitions of style made by art historians and the
application of these concepts remain as valid in a Palaeolithic context as in any other.
The basic assertion that things are like each other depends upon the recognition and
demonstration of similarities: to quote Davis (1990), ‘A stylistic attribute is one for
which a match or similar can be found elsewhere in the group. By the terms of our
definition, style is always a relational, comparative or statistical description’. In his
Analysis if any attribute of an object cannot be matched or associated with attributes of
other artefacts, the attribute in question can only be given a morphological rather than
a stylistic characterization”. O nível da semelhança morfológica entre atributos é
efetivamente apenas o primeiro nível de identificação cognitiva da relação entre
corpora gráficos. É o começo da observação analítica, e, por ora, é neste nível que
baseamos nosso trabalho.
Mas, já que entramos no mérito da questão estilística, que de certa forma
tentávamos evitar para efeito deste relatório de qualificação, cabe aqui uma
consideração sobre essa nossa tentativa frustrada de contornar os problemas de estilo em
registros rupestres. Como recurso explicativo aludimos a Clottes (In Bahn and
Lorblanchet 1993: 19) que em sua crítica já nos fornece uma definição útil: (...) style
apparently still has its uses and is far from extinct, even if Chippindale and Taçon
(1992:36) think that it is ‘a concept too broad in definition, too varied in the meanings
placed upon it, and too abused in the literature for it now to be of value’. Instead, these
authors promote concern for the ‘manner in which a subject is depicted’ and prefer to
use the word “manner’ rather than ‘style’ meaning ‘the common rules of depiction
which unite a body of pictures’. They thus change the label but neither the bottle nor its
content. Changing the name of a concept but not the concept itself supports its use by
showing that even if it is no longer fashionable because of over-usage, it still cannot be
dispensed with”.
Parece razoável adimitir que nos situamos mais na linha de Chippindale e Taçon
do que ao lado de Clottes na medida em que, em princípio, também não trabalhamos
57
aqui com a categoria estilo, inclusive por acharmos muito prematuro analiticamente
qualquer assertiva nessa direção. Preferimos a categoria de trabalho identidade gráfica
(Pessis 1993), que será definida no quadro teórico-metodológico, como um substituto a
estilo. A categoria de acesso, ou o constructo de acesso à identidade gráfica é o perfil
gráfico de sítio que entre outras variáveis observadas, trabalha no nível preliminar da
identificação de semelhança formal entre atributos, grafismos, cenografias e painéis. É,
portanto, nossa categoria de entrada ao passo que a identidade gráfica é a categoria de
saída.
Consideramos aqui que estilo estaria mais próximo a uma categoria de saída
correspondente a classes taxonômicas melhor amarradas resultantes de um processo
analítico mais amadurecido, tal qual a identidade gráfica. Dito isto, não somos contra
estilos de registros rupestres, apenas não temos condições de propô-los ainda. Contudo,
observar o ‘manner of depicting’ é efetivamente possível desde já, e portanto, não nos
furtamos à busca por padrões na manifestação desse conceito dentro da obra gráfica,
desde que numa escala espacial mais modesta, com a qual efetivamente lidamos.
Aqui cabe uma outra ressalva acerca de nossa tímida abordagem sobre estilo.
Optamos por não mergulhar na disussão arqueológica de longa data em estilo que tem
uma virada marcante nos anos 70 com as discussões acerca de variabilidade nas
indústrias líticas musterienses entre Bordes & de Sonneville-Bordes (1970) e Binford
(1973) que defendiam significações distintas para a variabilidade amostral, diferenças
étnicas para os primeiros e diferenças técnico-econômicas para o segundo (Sacket
1990:38). Entendemos que ambas as interpretações são válidas e não se excluem,
explicar o que é predominante na determinação da variabilidade numa amostra
específica, aí é outro problema. O fato é que não intentamos adentrar nessa discussão
interpretativo-explicativa, nos atendo, assim, ao problema preliminar da identificação de
diferenças e semelhanças.
Para efeito prático, optamos, pois, nos fechar teoricamente nas discussões
estilísticas dentro da investigação de arte rupestre, e nesse mister nosso volume de
referência é a obra de Bahn & Lorblanchet (1993) The Post-Stylistic Era or Where do
we go from here, que traz uma coletânea de artigos de autores relevantes que,
basicamente, se dividiram em dois flancos: pró-estilo e contra-estilo. Não nos situamos
categoricamente em nenhuma das duas ‘turmas’, como dito, mas concordamos com
Jean Clottes quando diz que mudar o nome sem mudar o conceito é empoderar o
58
conceito, e desta forma, concluímos que estamos inseridos no milieu dos que usam a
análise estilística, ao menos, elementos contextuais a ela.
Tendo considerado estes pontos, nossa abordagem preliminar de um conjunto de
gravuras rupestres pressupõe a colocação da seguinte questão (Valle 2003):
Estas gravuras seriam produto de autoria cultural portadora de uma mesma
apresentação gráfica (portanto social), ou de uma diversidade étnica gravadora, desta
maneira, apresentando potencialmente diversas identidades gráficas intra-
regionalmente e, ou, localmente diferenciadas?
Fica implícita aí nossa opção teórica (reducionista) pela correlação variação
gráfica formal-variação cultural, veremos melhor isso nos postulados teórico-
metodológicos. Por ora, a aplicação deste problema ao rio Negro, especificamente ao
médio/baixo curso da bacia, se torna interessante pela congruência de fatores adicionais
de ordem geo-hidro-ambiental e etnológica que, pensamos, poderiam contribuir para a
ocorrência de variabilidade nos registros rupestres da área-alvo.
Na ordem dos fatores geo-hidro-ambientais temos dois pontos focais: um de
caráter hidrográfico situado no âmbito da confluência de redes e outro de caráter
geológico em função da geodiversidade (embasamento cristalino x bacia sedimentar)
bem encaixada no rio Unini, afluente da margem direita do Negro, com sua foz a cerca
de 40 km abaixo da confluência.

III.ii.a. Hidrografia

Pela premissa hidrográfica a confluência Negro/ Branco se conforma num


entroncamento relevante na Bacia (Ab’Saber 2002), pois reuniria os aportes bióticos,
abióticos e culturais oriundos de diferentes regiões da Amazônia que estariam sendo
transportados pelos rios. O rio Negro é oriundo do extremo NW da Amazônia brasileira
em contato com o NE/SE colombiano (sub-bacias do Uaupes, Papuri, Içana, Guaínia) e
com SW venezuelano (sub-bacias do Xié, do Cassiquiare e ligações com o alto rio
Orinoco).
O Alto rio Branco situa-se no domínio do lavrado Roraimense com ramificações
na rede de drenagens do Uraricoera, Parimé e Surumú para a região montanhosa do NW
de RR e a Grán Sabana do SE venezuelano. Já pelas sub-bacias do Tacutu e Maú
penetra no W da Guiana Inglesa. O que converte então toda a área de confluência
59
situada no médio Negro entre os municípios de Barcelos e Novo Airão num potencial
receptáculo dos fatores bióticos, abióticos e culturais que descem do NW e do N, um
entroncamento intra-regional entre áreas culturalmente e ambientalmente distintas hoje
e, possivelmente, na Pré-história.
O conceito de que os rios seriam os corredores culturais pré-históricos nas terras
baixas amazônicas não é novo, sendo o mesmo um dos marcos caracterizadores da
cultura de floresta tropical como definida no Handbook of South American Indians,
Vol.III, por Lowie e Steward (1948).

III.ii.b. Geologia

Pela premissa geológica, a área foco apresenta-se inserida no contexto do


contato entre o Complexo Jauaperi de granitos, metagranitos e gnaisses inseridos no
escudo das Guianas e os arenitos e pelitos da formação sedimentar Prosperança anterior
à história deposicional da Bacia Sedimentar do Amazonas (Reis & Marmos, 2007;
CPRM, 2006). O rio Unini é emblemático dessa situação, pois seu talvegue, nos últimos
40 km de curso, foi escavado na falha entre o embasamento ígneo proterozóico do
escudo e a bacia sedimentar em sua manifestação neo-proterozóica, não relacionada às
deposições fanerozóicas (grupo Trombetas) posteriores e que se acomodaram sobre os
estratos mais antigos. É a expressão mais ao sul na calha do Negro do contato maior
entre a porção Norte do Cráton Amazônico (Almeida, 1978) e as diversas formações
sedimentares ligadas a Bacia Amazônica e anteriores a sua formação.
Do ponto de vista petrográfico são rochas completamente diferentes em suas
características físicas constitutivas e tecnicamente demandariam modalidades de
práticas e emprego de acessórios bem distintos no sentido da elaboração da obra gráfica,
na cadeia técnico-operatória de confecção das gravuras onde conhecimentos específicos
eram construídos e performados com base numa etno-taxonomia litológica própria dos
especialistas ameríndios (Eliade 1998 [1949]; Levi-Strauss 1966; Monod 1976).
Geodiversidade nos suportes tem se mostrado um fator relevante na análise dos
condicionantes ambientais que atuam nas escolhas técnicas das gravuras rupestres em
outras regiões do Brasil (Pessis, 2002; Valle 2003). Observar como tais atributos
(técnica e petrografia do suporte) manifestam-se relacionalmente na área-alvo se
configura em parte importante do estudo acerca da variabilidade gráfica, haja vista a

60
constatação preliminar da ocorrência de gravuras nos diversos tipos rochosos lá
encontrados.

III.ii.c. Etnografia, História Indígena e Lingüística

Etnograficamente, historicamente e lingüisticamente diversas fontes (Wallace,


1979; Spix & Martius, 1981; Rodrigues Ferreira, 1972; Koch-Grunberg, 2005; Métraux,
1948; Goldman, 1948; Nimuendaju, 1950; Wright, 1992; Urban, 1992; Montserrat,
2000; Neves 1998) apontam um panorama multicultural em toda calha do rio Negro pré
e pós-contato, com áreas mais homogêneas e áreas mais heterogêneas. No entanto, uma
maior quantidade de dados etnográficos e lingüísticos tem sido historicamente gerada
para o Alto rio Negro (ARN), um trecho da bacia onde a diversidade étnica pré-colonial
sobreviveu sem grandes alterações e movimentos territoriais até, aproximadamente, o
fim do século XIX, apesar da escravização crescente desde o século XVII (Freire,
1983).
Três famílias lingüísticas principais são encontradas no rio Negro desde período
pré-colonial: Arawak, Tukano e Maku. Minoritariamente, um quarto estoque de línguas
aparentadas também se encontra na área, são os Karib. Dentro dessas famílias, dezenas
de etnias estão contidas, muitas delas com línguas e dialetos diferenciados, mas
inteligíveis entre si e outras não. Desenvolveram pré-historicamente formas de relação
inter-étnicas baseadas em sistemas de troca regionais e casamentos exogâmicos que
favoreceram a formação de sistemas multiculturais e multilingüísticos, com organização
social, econômica e política mais ou menos articuladas ao longo da calha. A cronologia
do povoamento no alto rio Negro segundo Nimuendaju (1955) estaria dividida em três
estratos crono-culturais: Os povos Maku caçador-coletores; os povos agricultores
sedentários falantes de línguas da família Arawak e, posteriormente, da família
linguística Tukano Oriental, já estabelecidos por volta do início da era cristã, e por
último os europeus.
Os primeiros a ocupar a área teriam sido os povos Maku com um padrão de
subsistência caçador-coletor de floresta em terra firme (Métraux, 1948; Silverwood-
Cope, 1990; Politis, 1996), habitando a zona de interflúvio entre o Negro e o Japurá
desde período incerto, possivelmente, anterior há 3.000 anos antes do presente. Não se
sabendo de onde teriam vindo, poderiam representar uma colonização antiga do
holoceno médio (arcaico) ou anterior. Wright (in Carneiro da Cunha, 1992) ao revisar a
61
cronologia de Nimuendaju parece não contestar a posição dos Maku enquanto estoque
cultural mais antigo ainda presente na área do rio Negro.
A escolha dos Maku como mais antigos parece se dever ao pressuposto de que o
padrão caçador-coletor seria considerado um indicador de primitivismo na organização
sócio-econômica e, portanto, de antiguidade na área. Além dos repertórios
etnohistóricos dos agricultores, tanto Arawak como Tukano, fazerem menção à presença
recuada dos caçadores da floresta na região (Reichel-Dolmatoff 1985). Todavia, apesar
de certo consenso na literatura, ainda não foram apontadas evidências lingüísticas e
arqueológicas inequívocas da anterioridade dos povos Maku no ARN.
O segundo estrato lingüístico e cultural que penetra na área é o Arawak, ou
Maipure, por volta de 3.000 anos (Urban in Carneiro da Cunha, 1992; Montserrat,
2000), que hoje apresentam maior diversidade lingüística na região centro-norte do
Perú, o que para Urban (1992) indicaria seu foco de dispersão original, embora
reconheça que não há consenso na literatura sobre a origem geográfica dos Arawak. O
fato relevante para este trabalho é que povos falantes de línguas da família Arawak
como os Manao e possivelmente Tarumã21 (Rodrigues Ferreira, 1974a; Spix & Martius,
1976; Wright in Carneiro da Cunha 1992; Freire, 1983) estavam na área-alvo por volta
do século XVII em contato à jusante e à montante com outros falantes de línguas
Arawak, como os Baniwa e os Baré, hoje situados nos municípios de Barcelos, Santa
Isabel e São Gabriel da Cachoeira no médio/alto curso. Os Manao, Baré e Tarumã
foram contatados, alguns estabeleceram relações comerciais com europeus, muitos
foram aldeados por frentes missionárias. Todos em algum momento foram combatidos e
escravizados até o quase total desaparecimento enquanto entidades culturais e
lingüísticas distintivas em meados do século XVIII, principalmente no médio-baixo rio
Negro, onde foram parcialmente substituídos por outras populações não-Arawak e,

21
A língua Tarumã, hoje extinta, é uma incógnita apesar de seus falantes estarem assinalados numa área
de dominância histórica Arauak. Segundo Bessa Freire (1983), autores situam-na dentro do Karib outros
dentro do Arauak. Um estudo mais preciso, no entanto, a situou como família Isolada: “A solução
encontrada por Loukotka, que estudou especialmente o caso Tarumã, foi classificá-la como "língua
isolada", enquanto Paul RIVET (1924, p. 643) já a havia considerado anteriormente como Aruak e
outros autores соmо Karib (MEGGERS: 1977, p.108). Loukotka reconhece a existência, no léxico
Tarumã, de termos emprestados das tribos Aruak e mostra, numa lista de itens lexicais, o parentesco com
a língua Karib, ainda pouco considerável (LOUKOTKA: 1949, pp. 55-56).”

62
posteriormente, não-indígenas.
Ainda dentro do contexto de povoamento dos povos agricultores no alto rio
Negro na classificação de Nimuendaju, encontra-se a família Tukano dividida em dois
ramos: Oriental e Ocidental. Os Tukano Orientais ocupam a área do Uaupés, no alto
Negro, e se separaram dos Ocidentais em período desconhecido, mas a diversificação
interna de línguas no ramo ocidental indicaria uma profundidade cronológica de 3 000 a
4 000 anos antes do presente (Urban in Carneiro da Cunha 1992). Já o grupo Oriental,
por apresentar um alto grau de aproximação entre as suas línguas, supõe-se que tenham
se separado de uma fonte comum há menos tempo, no entanto, Urban chama atenção
para isso colocando que tal grau de uniformidade pode ser derivado “do extremo
desenvolvimento do multilingüismo nessa área. Tem-se a impressão de que essa área
envolve constante interação e comunicação...”. Segundo Wright (1992:258) quando os
Tukano Orientais se instalaram no alto Negro, vindos do Oeste, os Arawak já estariam
lá instalados, inclusive no Uaupés, bem como os Maku. Fatos estes recontados ao longo
das gerações relatando, à época das primeiras entradas dos Desâna (Família Tukano
Oriental) no Uaupés, os encontros belicosos com horticultores sedentários e com
caçadores da floresta (Reichel-Dolmatoff, 1985).
Os dados etnográficos, etnohistóricos e lingüísticos devem ser integrados à pré-
história com ponderação e cautela. Principalmente quando não se tem noção do espectro
cronológico no qual o fenômeno arqueológico (petróglifos) que se busca relacionar
estaria inserido. Mas o que a etnografia pode nos trazer de relevante, inicialmente, é a
constatação de que desde há pelo menos 2.000 anos a.p. o rio Negro já falava múltiplas
línguas. Se, possivelmente, nos mesmos rios, territórios, fratrias e grupos exogâmicos
múltiplas tradições linguístico-culturais teriam convivido, e convivem até hoje, qual
seria o reflexo disso no (s) corpus (corpora) gráfico (s) rupestre (s) do rio Negro?
Poderia este cenário ser extrapolado para o Holoceno Médio anterior a 2.000 a.p.?

III.iii. Da Hipótese

Propomos que um set geo-ambiental marcado pela variabilidade geológica e


confluência hidrográfica tem uma contribuição direta na determinação da variabilidade
(heterogeneidade) em um dado corpus gráfico-rupestre. Nós escolhemos este corte
geográfico específico no curso do Negro, entre outras razões, de forma a testar essa

63
conjectura e elevá-la ao nível de hipótese. O que foi encontrado até o momento parece
apontar na direção de confirmar, ao invés de refutar, nossa proposição de base.
Desta forma, estamos inclinados a postular que áreas de contato geológico e de
confluência hidrográfica são mais propícias a apresentar variabilidade gráfico-rupestre,
sendo, portanto, mais favoráveis ao estudo das implicações teóricas dessa variabilidade.
Esta proposição apresenta iminente testabilidade e, em decorrência disso, acreditamos
que esteja construída numa base científica hipótetico-dedutiva, mesmo que no futuro se
demonstre falsa.
Consequentemente entendemos que esse experimento dá suporte à proposição de
um modelo preditivo geo-arqueológico preliminar a ser testado em outras áreas ao longo
do rio Negro e fora da bacia. O modelo sugerido se baseia em duas premissas: (1)
multiplas proveniências geográficas e culturais das comunidades autoras sendo
condicionadas pela rede hidrográfica; (2) multiplas estratégias e escolhas na elaboração
da obra gráfica sendo condicionadas pela variabilidade nas matérias-primas geológicas
dos suportes e das ferramentas.
Assim, desde o ponto de vista geológico, diversidade nos tipos rochosos
disponíveis levaria a diferentes procedimentos operatórios na manifestação do
fenômeno gráfico, começando com o agenciamento primário sobre as matérias brutas
até a aparição final do artefato parietal e sua manipulação intencional subsequente.22
É interessante observar que o que estamos detectando em diferentes superfícies
rochosas na area amostral indica não apenas diferentes técnicas (o que seria esperado)
mas outros tipos de escolhas gráficas em termos das temáticas, estruturas morfológicas,
arranjos topográficos no espaço gráfico (cenografia) e posicionamento geomorfológico
dos painéis nos sítios e dos sítios na paisagem. Padrões estes que vêm emergindo
heterogeneamente conforme cambiam as litologias.
De acordo com estudos anteriores (Pessis 2002; Valle 2003) e baseado em
substrata etnográfico (Lewis–Williams 2004; Whitley 2001, 1998; Reichel-Dolmatoff
1967, 1971, 1976; Eliade 1949 [1993]; Levi-Strauss 1966; Monod 1976) é possível que
as escolhas geológicas não sejam aleatórias nem constritas naturalmente, e que

22
Ainda hoje alguns grupos étnicos do alto rio Negro retocam os velhos petróglifos, algumas vezes com
técnicas líticas, mas, mais comumente aplicando tintas e pigmentos de origem natural e industrial dentro
do gravado.

64
poderiam ser governadas por sistemas pré-históricos de etnoconhecimento geológico,
ou, ao menos, por uma etnotaxonomia geológica materializada em escolhas deliberadas
de caráter ritual e, ou, cultural por determinados tipos litológicos na base de suas
cadeias simbólico-operatórias.
Dentro da perspectiva hidrográfica, a história indígena, ao menos da ùltima parte
das ocupações holocênicas, para as terras baixas amazônicas está baseada em
movimentos fluviais de língüas, culturas e pessoas. Sendo, pois, este modo de vida
ribeirinho uma das características que definem a cultura de floresta tropical (Lowie
1948). No Negro o panorama é exatamente o mesmo e diversas fontes (Wallace, 1979;
Spix & Martius, 1976; Rodrigues Ferreira, 1974a; Koch-Grunberg, 2005, Métraux,
1948; Goldman, 1948; Nimuendaju, 1950; Wright 1992, 1998; Urban, 1992;
Montserrat, 2000; Neves 1998) apontam para um cenário pré-colonial multicultural e
multilinguístico.
Dada a característica de multi-confluência da àrea amostral, onde a conexão
Negro-Branco domina a paisagem hidrográfica, estamos assumindo, a priori, que povos
e língüas vindos das savanas e terras altas do norte, Roraima, SE venezuelano e Guiana
via rio Branco e culturas vindas do NW amazônico, SE colombiano e alto Orinoco via
rio Negro estariam em possível contato diacrônico precisamente dentro da área de
pesquisa, onde estamos encontrando variabilidade interna ao corpus gráfico rupestre.
Equacionando convergência biótica e abiótica (Ab’Saber 2002) com confluência
cultural, acreditamos que áreas de contato geológico e hidrográfico são hotspots para se
testar modelos de heterogeneidade gráfico-rupestre associada, hipoteticamente, com
variabilidade cultural condicionada por fatores sócio-ambientais.

III.iv. O Quadro Teórico-Metodológico

No âmbito da discussão sobre método formal e informado (Chippindale and


Taçon 1998; Chippindale and Nash 2004), nossa opção é pelo método formal por
tratarmos aqui de uma tentativa de replicação na Amazônia do experimento conduzido
por mim em pesquisa de mestrado (Valle 2003) sob orientação de Anne-Marie Pessis
com gravuras rupestres no Nordeste brasileiro, região onde a abordagem informada já
não mais é possível.

65
Apesar da existência na região amazônica de tradições mito-históricas indígenas
ainda vivas que interpretam os petróglifos, principalmente no alto rio Negro (Reichel-
Dolmatoff 1967, 1971, 1976; Koch-Grünberg 1907; Xavier 2008; Valle et al. 2008),
não temos hoje, nenhuma forma inequívoca de demonstrar, verificar ou testar uma
conexão filogenética ou histórico-cultural entre as tradições vivas e os conceitos e
práticas gráficas dos autores pré-históricos. Assumimos que esses petróglifos, grosso
modo, são mais antigos que o passado etnográfico e a memória etnohistórica.23
Considerando isto, nós seguimos a definição de Chippindale and Taçon (1998:7)
sobre método formal, que postula: “For much prehistoric art, beginning with the
Palaeolithic art of the deep European caves, we have no basis for informed knowledge.
There we must work with formal methods, those that depend on no inside knowledge,
but which work when one comes to the stuff ‘cold’, as a prehistorian does. The
information available is then restricted to that which is immanent in the images
themselves, or which we can discern from their relations to each other and to the
landscape, or by relation to whatever archaeological context is available.”
Dito isto, acreditamos que não devemos descartar sumariamente os usos e
significados etnográficos dos petróglifos por parte das tradições indígenas vivas, mas
devemos estar cientes ao fazer tentativas de analogia, que este repertório de (re)
significações e práticas está provavelmente separado por millennia da atmosfera de
criação original dos registros rupestres pré-históricos. Quando não podemos estar certo
sobre o tempo da obra gráfica (cronologia), então se torna necessário se basear
analiticamente no espaço. Desde a análise micro-espacial das constituições formais
técnico-morfológicas e tafonômicas das imagens até os níveis analíticos macro-
espaciais das imagens nos painéis, das inserções geomorfológicas dos painéis na
formação rochosa do sítio, e finalmente, da inserção do sítio nas características mais
gerais da paisagem (Chippindale and Nash 2004).
Com respeito ao problema do controle cronológico, Natalie Franklin é de
interesse particular: “The basic problem with many studies of rock art in Australia (and

23
De fato, considerando a situação topo-geomorfológica de submersão das gravuras pode-se especular
sobre uma origem médio-holocênica para a maior parte do corpus disponível hoje, baseado em
indicadores paleoambientais para níveis da água do rio Negro bem mais baixos que o atual entre 6.000
anos B.P. and 3.000 anos B.P., (Ab’Saber 1996; Williams 1985). Durante este periodo as localizações
geomorfológica desses painéis rupestres estariam expostas ao longo de todo ano, ou na maior parte dele,
acreditando-se que a maioria dessas gravuras foram feitas para serem vistas e comunicar algo a alguem.

66
in other parts of the world) is a lack of control over time” (in Bahn&Lorblanchet
1993:1). Mais adiante ela nos diz (Ibidem 1993:8): “Fruitful approaches might be
spatial analyses, where attempts are made to measure variation within rock art on a
spatial basis. We cannot at present deal in any detail with time in rock art, but we can
deal with space. Rock art has a fixed location, and generally does not suffer the
problem of, for instance, movement within an archaeological deposit…Although some
movement and erosion of rock art panels may occur as a result of natural processes
[deveríamos adicionar também processos culturais como no caso do retoque seletivo
étnico]…this may not be as great as disturbances observed in other archaeological
sites…In spatial approach, one would proceed from a known factor, space, or location
of sites, to in most cases unknown factor, time”.
Desta forma, nosso foco é menos no tempo e mais no espaço. Então, para efeito
prático, seria indicado descartarmos, em princípio, dois níveis do fenômeno, tempo e
significado (tanto o mito-histórico e ecológico derivados da etnografia quanto os
derivados de nossa lógica ocidental) que estamos considerando, para os propósitos de
nosso trabalho e dadas suas limitações, inalcançável e inútil, respectivamente. Ao invés
disso, devemos nos concentrar nos fragmentos das evidências visuais e fotográficas,
tentando segregar modalidades de características factuais baseadas na materialidade
cognitivamente detectável dos códigos gráfico-rupestres e recorrências analógicas (o
que poderíamos chamar de visual analogies [Sieveking in Bahn&Lorblanchet 1993:33])
entre os aspectos materiais detectados e reconhecidos pelo nosso cérebro e sistema
visual.
O método formal aqui empregado é em larga escala derivado dos trabalhos de
A.M. Pessis (1983, 1986, 1987, 1989, 1992a, 1992b 1993, 1999, 2002 and 2004) e de
N. Guidon (1982, 1986, 1992 and 1992) com os registros rupestres do Parque Nacional
Serra da Capivara no SE do Piauí, bem como dos trabalhos de G. Martin (1999, 2000) e
de meus próprios esforços de pesquisa (Valle 2003) com os corpora gráficos da região
do Seridó potiguar e paraibano. As obras e procedimentos desses autores compartilham
um mesmo arcabouço teórico que coloca duas questões principais como as linhas
mestras para os estudos dos registros rupestres no Brasil:

67
1 – Quem fez a obra gráfica? Isto coloca o problema das autorias culturais baseado na
proposição de que a diversidade na apresentação gráfica24 e nos procedimentos técnico-
operatórios identificados nos registros rupestres brasileiros apontam para uma
diversidade na apresentação social (Pessis 1989) dos autores gráficos. Esta visão
também encontra suporte no cenário lingüístico e etnográfico da população indígena no
Brasil quando da intrusão européia, o que indica um contexto sócio-cultural altamente
heterogêneo na pré-história (Carneiro da Cunha 1992).
2 – Quando foi feita a obra gráfica? Esta segunda preocupação para os sítios sob
discussão apresenta-se desconfortavelmente, mas, onde e quando é cabível, ela tenta
estabelecer cronologias hipotéticas e relativas baseadas em superposições de distintas
práticas gráficas ou momentos gráficos, e, quando possível, através de posicionamento
contextual e estratigráfico em depósitos arqueológicos datáveis. O primeiro
procedimento pode ser testado na amostra atual, e de fato, já estamos tentativamente
praticando-o. Já o segundo procedimento está fora de cogitação para sítios ribeirinhos,
assim como datações diretas, que repousam além de nosso alcance, pelo menos por
enquanto (ver discussão sobre o Arara Vermelha neste trabalho).
Quando estamos procurando por padrões de apresentação gráfica, a primeira
coisa que devemos ter em mente é que essas estruturas estão arranjadas tanto no espaço
quanto no tempo e cambiam segundo essas duas diretrizes. No entanto, nós assumimos
que apenas a dimensão espacial pode ser discernível pela cognição do pesquisador de
maneira quase objetiva. Indicações cronológicas das superposições também podem se
mostrar objetivamente perceptíveis, mas quando se lida com petróglifos severamente
comprometidos pelo intemperismo, esta não é uma tarefa fácil, e dependendo do grau de
intemperismo, até mesmo os padrões gráficos formais não podem ser identificados.

24
O conceito de apresentação gráfica, segundo Anne-Marie Pessis (1989), “baseia-se no fato de que uma
representação do mundo sensível seja pré-histórica seja moderna, é uma manifestação do sistema de
apresentação social ao qual o autor pertence. Aceitando-se que cada grupo cultural e que cada segmento
da sociedade tem procedimentos próprios para se apresentar a observação de outrem,... pode-se pensar
que tais procedimentos estarão presentes nas representações gráficas de um grupo cultural..., a análise da
obra gráfica do homem pré-histórico, procurando identificar os padrões de apresentação das pinturas
rupestres, constitui um modo para aceder à sua cultura”.

68
Nós estamos tratando os registros rupestres pré-históricos como sistemas de
comunicação visual das comunidades autoras, estruturados como linguagens gráficas.
Isto é, são códigos simbólicos ordenados por regras e convenções gráficas análogas às
regras sociais e convenções de apresentação social dos grupos culturais (Pessis 1989).
Todo sistema de comunicação em Homo sapiens e em outros primatas é
baseado em dois princípio etológicos (Pessis 2004): observação sensorial da realidade
(meio ambiente) e auto-apresentação a esta realidade (interação ambiental e senso de
auto-existência e da existência de outros).
Cada comunidade estruturada em suas próprias regras sociais produziria códigos
gráficos específicos gerados a partir de suas escolhas gráfico-culturais próprias. Este
processo de construção gráfica pode ser entendido como um efeito colateral dos
sistemas técnicos de resolução de problemas baseado em comportamentos de
aprendizagem e de inovação (Pessis 2004), produzidos a partir da observação cognitiva
da realidade e da auto-apresentação ao mundo. Levando esta perspectiva em conta,
haveria uma conexão direta entre apresentação gráfica do registro rupestre e a
apresentação social dos autores, tornando teoricamente possível a identificação de
“grupos étnicos”, e, ou, tradições culturais mais amplas subjacentes à padrões gráficos
regionalmente localizados no corpus gráfico. (Pessis and Guidon 1992; Guidon 1992).
Nesta linha de raciocínio, que trata os registros rupestres como sistemas de
comunicação visual, Pessis (2004: 70) postula: “Considerar a pintura rupestre como
expressão de modos de comunicação abriu caminho para se conhecerem as culturas da
pré-história. Mas são mínimas as possibilidades de descobrir os significados que, para
determinada cultura, tiveram as figuras ou as cenas representadas. Se, em vez de
procurar meros significados, se busca identificar o que representam as figures, as
características temáticas e técnicas e as maneiras como foram concebidas, será
possível descobrir outras informações sobre o modo de comunicação. Identificar a
maneira como os grupos se mostram graficamente é uma forma de identificá-los, pois
na vida real eles também se diferenciam.”
A consideração da obra gráfica pré-histórica enquanto sistema de comunicação
tem uma fundamentação semiótica25. Colocamos aqui, então, duas proposições básicas
da abordagem semiótica como definidas por Eco (1974):

25
Semiótica é uma disciplina filosófica e científica derivada da semiologia de Ferdinand de Saussure
(1969) “ que considera todos os fenômenos culturais como processos de comunicação” e lida com “o
69
- “Toda cultura deve ser estudada como fenômeno de comunicação”
- “Todos os aspectos de uma cultura podem ser estudados como conteúdos
(talvez devêssemos acrescentar aqui ‘e formas’) de comunicação”
A Proxêmica26 (Fabbri, 1968) coloca que existiria um “paralelismo rigoroso
entre os níveis mais altos de estrutura social com os mais altos níveis da estrutura
lingüística”. Ainda segundo esta disciplina semiótica, “a estrutura social seria
aprendida pelos membros de uma cultura, segundo as mesmas modalidades que a
gramática”. Define, em síntese, o campo lingüístico que seria contextual a este trabalho;
o campo da “Comunicação que estuda a linguagem e os fenômenos que lhes são
estritamente associados: os fenômenos paralinguísticos (vocalização e qualidades de
voz) e Kinésicos (movimentos e gestos)...”. Considera-se que a materialização gráfica da
comunicação seria um desses “... fenômenos (...) estritamente associados”.
Tendo em vista a definição enquanto sistemas de comunicação, os códigos de
registros rupestres, de maneira geral, existiram e existem como ordenações de signos
caracterizadas pela união de significantes (objetos/símbolos) e de significados (um
sentido convencionado) (Saussure 1969; Eco 1974; Ostrower 1977; Renfrew 2007),
expressas na relação de forma e conteúdo de códigos simbólicos dos quais apenas
fragmentos das formas sobreviveram e estão disponíveis para análise científica. Isto é,
perdemos integralmente as dimensões semântica e fonológica (narrativa oral) dos
códigos restando apenas fragmentos da estrutura sintática.
Linguisticamente podemos definir os signos, seguindo a visão saussuriana,
como constructos sociais de realidade (Renfrew 2007; Bednarik 2007; Ostrower 1977),
unidades de significação que apontam simultaneamente para dois planos existenciais:
“the sensorial aspect, verbal or visual, by means of the sound, the written or the image
of a word (signifier), and to its notion, that is to say, a conventionalized content
(signified)” (Ostrower, 1977).

estudo das condições de comunicabilidade e compreensibilidade de uma mensagem (sua codificação e


decodificação)” (Eco 1974). A semiologia saussuriana propõe a aplicação do conceito ‘signo’ como a
união de um significado a um significante sob uma relação comunicacional entre um emissor e um
receptor. De acordo com Saussure, Semiologia é “uma ciência que estuda os signos dentro da vida
social”. A semiose de C.S. Peirce (1972) também contribui para a constituição de uma disciplina
semiótica. De acordo com este autor, a Semiose se caracteriza por “uma ação, uma influência na qual é
implícita uma operação entre três sujeitos: Um signo, seu objeto e seu interpretante, não sendo possível de
forma alguma, esta influência tri-relativa resolver-se em ações entre pares.”
26
“Ramo da Semiótica que estuda a estruturação significante do espaço humano”. (Fabbri, 1968)

70
Na análise do significante que caracteriza, basicamente, o método formal de
estudo dos registros rupestres que adotamos, 7 parâmetros são observados:
1. Cadeia técnico-operatória - toda a seqüência de procedimentos, etapas
técnicas, gestos, posturas, implementos e acessórios que levam da matéria-prima ao
produto final.
2. Morfologia - a segregação das formas das unidades gráficas, os traços
estruturais dos grafismos, os atributos que se combinam para formar a unidade gráfica.
3. Temática – Os temas morfologicamente representados nas unidades gráficas.
Podem ser: biomorfos (zoo, antropo e fito), grafismos puros (abstratos, geométricos,
não reconhecidos pela cognição do observador externo) e grafismos objetais
relacionados à representação de objetos componentes da cultura material.
4. Cenografia - conjunto de padrões de apresentação das formas no espaço
gráfico, modalidades de articulação, agenciamento e isolamento entre grafismos dentro
de uma composição.
5. Escolhas geo-ambientais - padrões na seleção petrográfica do suporte rochoso,
do instrumental e da marca técnica, ligados à cadeia técnico-operatória; e padrões na
seleção geomorfológica dos sítios na paisagem e dos painéis no sítio.
6. Cronologia – Observação de superposições entre momentos gráficos distintos,
e, ou, estados de conservação diferenciados (coloração e texturas diferenciados) em
justaposição indicando, entre outras coisas, reavivamento seletivo posterior.
7. Tafonomia – processos naturais de alteração das características físicas
originais do registro rupestre que estão em permanente atuação, desde o momento da
confecção passando pelo momento de seu estudo e documentação até seu total
desaparecimento.

A sistematização analítica desses 7 parâmetros quando aplicados a um dado


corpus de registros rupestres leva à segregação das modalidades de apresentação
gráfica, recorrentes na amostra, bem como, à proposição de cronologias relativas entre
essas modalidades. Quando quantitativamente nos referimos a um único sítio estamos
propondo a identificação do perfil gráfico do sítio. Mas quando tratamos de um
conjunto de sítios próximos, buscamos similitudes e diferenças entre esses perfis
gráficos e postulamos o repertório de similitudes detectadas enquanto uma identidade

71
gráfica27 hipotética compartilhada entre os sítios e tentamos situá-la crono-
culturalmente.
Comumente observa-se que os sítios rupestres foram usados por diversos povos
ao longo de séculos o que acarreta na superposição ou justaposição de diversos perfis,
ou apresentações gráficas no mesmo sítio ou painel, que indicam lenta evolução e
parentesco e, ou, por vezes, rupturas radicais indicando a irrupção de tradições distintas
(Pessis & Guidon 1992). Se fenômeno semelhante for recorrente em outros sítios
próximos fica sugerido que diversas identidades gráficas teriam ocupado os mesmos
sítios naquela área expressando correlação a um povoamento diacrônico efetivado por
diversas etnias mais ou menos aparentadas ou até sem nenhuma relação.
As identidades gráficas seriam o equivalente a etnias dentro de uma tradição
rupestre28 maior, ao passo que esta seria o equivalente a uma família lingüística no seio
da qual evoluem diversas linguagens gráficas inicialmente aparentadas, mas, que vão se
transformando no tempo-espaço conformando-se em entidades culturais diferenciadas
(Pessis & Guidon 1992).
Portanto se nossa categoria analítica de entrada é o perfil gráfico do sítio, a nossa
categoria analítica de saída serão as identidades gráficas de uma determinada área
arqueológica29(Martin 1999) que hipoteticamente associamos aos grupos sociais pré-

27
As identidades gráficas são “constituídas por um conjunto de características que permitem atribuir um
conjunto de grafismos a uma determinada autoria social. Essas características constituem padrões de
representação gráfica que correspondem a certas características culturais”(Pessis, 1993).
28
Tradição (rupestre): Sinônimo antropológico de horizonte cultural e arqueológico de classe taxonômica
mais geral na classificação dos registros rupestres nordestinos, onde se definem identidades culturais de
caráter mais geral (Pessis, 1992); a unidade maior de análise entre as divisões estabelecidas para o
registro rupestre (Martin & Asón, 2000). Caracteriza classes distintas de registros rupestres pela
segregação de indicadores de ordem morfológica, temática, da apresentação gráfica, cenográfica, técnica
e cronológica, apresentadas pelo acervo gráfico rupestre de determinada região. A identidade gráfica de
uma tradição é a reunião das feições próprias de cada um desses indicadores, o comportamento padrão
dos indicadores dentro de um dado corpus gráfico, que tende a variar no espaço-tempo.
29
“Uma área arqueológica, como categoria de entrada para o início e continuidade sistemática de uma
pesquisa, deve ter limites flexíveis dentro de uma unidade ecológica que participe das mesmas
características geo-ambientais. Com o andamento das pesquisas e o estudo sistemático dos sítios
arqueológicos, podem se obter crono-estratigrafias fatíveis de determinarem ocupações humanas
espaço-temporais, demonstrativas da permanência humana em toda ou parte dessa área. Podemos
também chegar a conhecer os processos de adaptação humana e o aproveitamento dos recursos” (Martin
1999).

72
históricos que a ocuparam ao longo do tempo marcando nas rochas seus sistemas de
conhecimentos e procedimentos cognitivo-culturais.
Mas, de fato, lidamos aqui com construtos dos pesquisadores que expressam o
esforço de segregação e agrupamento do processo heurístico de classificação preliminar
do fenômeno (palaeo) gráfico em categorias mensuráveis e verificáveis, visando à
compreensão necessariamente parcial do mesmo.
Apresentamos a seguir três tópicos complementares à discussão teórico-
metodológica. A saber: os níveis e procedimentos analíticos, e os métodos matemático-
quantitativos que adotaremos na parte analítica; o método de documentação fotográfica
que estamos aplicando, derivado da antropologia visual; e, por último, nossa ficha de
documentação de sítios rupestres.

III.iv.a. Da Análise dos Dados

Nossa unidade de análise, a unidade gráfica, é o petróglifo individual (quando


possível identificá-lo), uma imagem, ou um motivo como Reichel-Dolmatoff (1976)
coloca. Mas, dois níveis desse fenômeno podem ser analiticamente discernidos: o nível
intra-gráfico (ou seja, dentro da unidade gráfica) e o nível inter-gráfico (entre unidades
gráficas). O nível intra-gráfico concerne aos atributos e suas modalidades de
manifestação, ou seja, as características morfológicas estruturais que se combinam para
formar um motivo. Nesse aspecto Tratebas (in Bahn & Lorblanchet 1993:165) nos diz:
“Rock art researchers frequently use motifs as their basic unit of analysis and
interpretation. Motifs generally correspond to individual glyphs and are actually a
complex of attributes or characteristics. Attributes are finer units of analysis, which
combine in various ways to form motifs. A study of motifs misses much of the variability
within the rock art. The basic data for research consequently should be attributes rather
than the complex sets of attributes that comprise motifs.”
O nível inter-gráfico da análise concerne às relações estabelecidas entre os
motivos, aquilo que definimos páginas atrás, na introdução, como as relações sintáticas
que articulam as sentenças de pensamento gráfico (Renfrew 2007; Chomsky 1986,
2006; Saussurre 1969; Hoffecker 2007). Lembremos das relações de Levi-Strauss
(1966) e configurações de Monod (1976) e do comportamento cenográfico, associativo
e dissociativo, dos componentes dos paineis rupestres (Pessis 2002; Valle 2003).
73
Portanto nossa unidade analítica segue sendo o grafismo, mas subdividido nessas
duas dimensões estruturais do comportamento morfológico e espacial, os atributos
gráficos e a sintaxe gráfica. Portanto, o processo analítico segue uma escala crescente da
menor nível analítico (o atributo) ao maior nível analítico (a identidade gráfica).
Relacionamos aqui essa hierarquia em 6 níveis analíticos:

1- Atributo;
2- Grafismo;
3- Painel;
4- Área de concentração gráfica;
5- Perfil Gráfico de Sítio;
6- Identidade Gráfica

Cada um desses níveis corresponde a etapas analíticas sequenciadas. Os três


primeiros níveis analíticos estão diretamente relacionados, do atributo ao painél, e
podem ser tomados como uma macro-unidade analítica onde nossa percepção é
inicialmente estimulada para o estabelecimento das relações gráficas, dos padrões
gráficos. Este, portanto, é o primeiro momento do assalto cognitivo do pesquisador no
sítio e onde o olhar fotográfico é inicialmente dirigido, doutrinado, condicionado a
observar. A variável dominante aqui é o espaço de inclusão e de associação entre os
objetos atributos-grafismos-painéis. O que pode ser objetivamente captado pelo sistema
olho-cérebro-lente-CCD (no caso de câmeras digitais).
O quarto nível é mais explicitamente um híbrido entre categorias espaciais
objetivas e relações arbitrárias intelectuais do pesquisador. A área de concentração
gráfica (ACG [Valle 2003]) é um local no sítio onde diversos painéis se apresentem
mais próximos entre si do que com outros mais distanciados e a determinação dessas
distâncias pode conter considerável ambiguidade por variar de acordo com a divisão do
espaço gráfico do sítio que cada pesquisador percebe diferencialmente.
Portanto, a definição das áreas de concentração gráfica é problemática, mas elas
existem. Percebê-las não é o problema, demonstrá-las sim. Em minha dissertação de
mestrado postulei o seguinte: “Em situações onde não possam ser identificadas
unidades isoladas, todo o conjunto de traços e espaços proporcionalmente intercalados
assinalados num agenciamento inclusivo, ganham valor de unidade hipotética e passam
74
a ser denominados áreas de concentração gráfica30”(Valle 2003:18).
Percebe-se que esse conceito pode se confundir com a definição de painel, da
forma como estamos considerando este último agora. Isto posto, ressaltamos que os
códigos gravados no NE são abstratos majoritariamente e as modalidades de arranjos
cenográficos são outras, além do intemperismo associado à desertificação ter resultados
catastróficos nas amostras do semiárido nordestino, o que dificulta a definição de
limites gráficos das formas e suas associações espaciais num painel (que na altura
chamávamos de mancha gráfica). Naquele contexto foi necessário trabalharmos com
uma margem de incerteza na definição da unidade de análise, tornando-a, em alguns
casos, mais flexível e hipotética. Hoje entendemos que precisamos adaptar esse conceito
para uma unidade de inclusão espacial entre vários painéis dentro de um sítio desde que
a mesma possa ser demonstrada, pois nos deparamos com essa situação em dois sítios
da presente amostra que esperamos poder demonstrar fotograficamente.
Para perfil gráfico de sítio manteremos a definição original como apresentada
em 2003 por considerarmos ainda aplicável, segundo a qual: “A ferramenta básica
adotada para identificação e sistematização destas relações designativas da identidade
gráfica é denominada perfil gráfico (Pessis, 1992 e 1993). Trata-se de uma
estruturação sistêmica31 de atributos flexíveis (categorias de entrada32), hierarquizados
segundo menor grau de ambigüidade, orientados, em linhas gerais, no sentido de
segregar as características próprias do acervo gráfico de uma determinada área, os
marcadores de sua(s) identidade(s). No caso das gravuras irreconhecíveis, esses
marcadores são, basicamente: 1) de ordem técnica (relativos aos procedimentos
técnicos de execução do registro rupestre); 2) de ordem cenográfica (referentes ao
agenciamento e isolamento das unidades no espaço gráfico, suas dimensões e

30
Segundo conceito discutido com Pessis, a área de concentração gráfica designa um conjunto de traços
gravados e espaços, no qual não é possível identificar, a princípio, seu início e seu fim, ou seja, a
delimitação espacial original da(s) formas(s). O conjunto, pois, recebe o status de unidade preliminar
hipotética.
31
Uma estruturação sistêmica diz respeito a uma ordenação de dados segundo um recurso metodológico,
uma ferramenta ordenadora, oriunda de formalização matemática (Teoria dos Sistemas), que concebe os
fenômenos da realidade em modelos de conjuntos (sistemas) compostos por componentes inter-
relacionados entre si e a uma unidade ambiental, cujas variações ou recorrências podem ser mensuradas.
(Watson, Leblanc & redman, 1974).
32
Classe de dados que permite aceder a um sistema classificatório preliminar.

75
disposições espaciais e geomorfológicas) e; 3) de ordem morfológica (relativas às
formas das unidades gráficas). Tentou-se adaptar, nestas três categorias, as dimensões,
material, temática e de apresentação gráfica do fenômeno gráfico (Pessis, 1992),
derivadas do estudo do grafismo reconhecível.” (Valle 2003:14).
O conceito de identidade gráfica está postulado na nota 26 das considerações
teórico-metodológicas que, pela sua importâcia, aqui reproduzimos: As identidades
gráficas são “constituídas por um conjunto de características que permitem atribuir um
conjunto de grafismos a uma determinada autoria social. Essas características
constituem padrões de representação gráfica que correspondem a certas características
culturais”(Pessis, 1993). Trata-se, pois, de nossa categoria analítica mais geral e que
deriva do mesmo tipo de raciocínio de agrupamento de padrões que define o perfil
gráfico, e, em certo sentido, da mesma abordagem proximal que define área de
concentração gráfica (nesse caso a variável determinante é métrico-espacial, portanto
quantitativa, e o aspecto proximal em identidade gráfica é qualitativo, pois leva em
consideração todas as variáveis analíticas utilizadas). O que muda é a escala do
agrupamento de padrões que sai do sítio enquanto unidade amostral e vai para a área
arqueológica, ou de ocorrência de sítios, enquanto área amostral.
No momento estamos trabalhando nos três níveis iniciais em toda a amostra, e
com o quarto nível em dois sítios da amostra, portanto, sua aplicação (nível 4) analítica
é restrita. Esperamos ao final poder definir em detalhes o quinto nível para os sítios e
indicar em linhas gerais as identidades gráficas hipotéticas para a área amostral. Mas, de
fato, já estamos ensaiando isso desde já, e a identificação dos padrões gráficos per sítio
já está em processo de identificação percepto-demonstrativo, de formas que estamos
arranjando a amostra em perfis gráficos preliminares. Para efeito deste presente
documento, apresentaremos nos resultados esses constructos formais da maneira como
estamos entendendo seus comportamentos atualmente, mas enfatizamos que se trata de
uma ordenação conjectural e matemático-quantitativamente ainda indefensável.
Na expectativa de ter clarificado os níveis analíticos passemos para os
procedimentos. Antes, porém, é preciso que se entenda que temos dois eixos analíticos
aqui, um vertical materializado nos níveis e outro horizontal referente aos
procedimentos que adotamos em cada um dos níveis. O processo analítico seria
equivalente a uma subida (ou descida) de elevador num edifício onde os andares são os
níveis e os apartamentos as etapas. Dito de outra forma, como numa escavação
76
arqueológica onde o dado é produto de um cruzamento entre o perfil estratigráfico e os
pisos de ocupação, tempo e espaço.
Os 6 níveis analíticos, expostos acima, estão distribuidos em 4 etapas de análise
com procedimentos específicos para cada. Ressaltamos que este processo analítico é
experimental e flexível, pois ainda não foi testado na Amazônia como o fizemos no NE
Brasileiro. Portanto, tratamos aqui de uma proposta que está passando por adaptações
enquanto aplicada. Segue breve descrição desses procedimentos.
Na primeira etapa cada sítio será considerado uma unidade macro-analítica e os
patróglifos e painéis terão seus caracterizadores quantificados e inter-relacionados para
identificação dos perfis gráficos do sítio. Ressalvamos que num mesmo sítio podem
ocorrer diversos perfis e o mesmo perfil pode estar contido em mais de um sítio. Mas,
neste ponto tratamos apenas do estabelecimento das relações intra-sítio, entre atributos,
grafismos e painéis. Portanto, a primeira etapa é a definição do perfil gráfico de sítio
tanto na área amostral 1 quanto no sítio Arara Vermelha (amostra externa), sul de
Roraima, e nos sítios do rio Içana, alto Negro (área amosral 2).
A segunda etapa é uma condensação e uma comparação dos dados de cada sítio
agrupado em princípio por calha de rio, mas de modo geral, pensando em toda área
amostral 1 que será priorizada. O objetivo é a caracterização de unidades amostrais
maiores que um sítio isolado, inicialmente observando a proximidade espacial dentro de
uma mesma calha de rio. A idéia é que os sítios encontrados num mesmo rio possam
ser analisados um à luz do outro buscando estabelecer as semelhanças e diferenças entre
os conjuntos gráficos delimitados pela malha hidrográfica. Tratamos, pois, na segunda
etapa da definição dos perfis gráficos por rio. Nos mesmos rios estamos encontrando
contrastes como no caso do Unini, portanto, não necessariamente as propriedades dos
sítios podem ser agrupadas por rio, sendo esta proposição contingencial e não universal.
Na área amostral 1 identificamos quatro rios hidrograficamente articulados com sítios
rupestres (Negro, Jauaperi, Unini e Jaú). Saímos, pois, do nível intra-sítio e passamos ao
nível inter-sítios em sua primeira escala geográfica, dentro dos mesmos rios.
A terceira etapa é uma comparação entre os perfis gráficos dos sítios dentro da
área amostral 1 inter-relacionando os vários perfis dos rios. É uma extensão das análises
inter-sítio da etapa dois com vistas a alargar a malha comparativa e estabeler os padrões
gráficos recorrentes na área amostral integralmente. È possível que as etapas 2 e 3
possam ser condensadas numa mesma etapa. De fato, na prática isso já está sendo
77
encaminhado, pois ambas se caracterizam pela extrapolação dos dados de cada sítio,
variando na escala proximal geográfica.
As comparações inter-sítio, de forma geral, seriam a pré-condição para a
definição hipotética das identidades gráficas nos termos que estamos propondo. No
entanto, afirmamos que só é possível propor hipóteses sobre as identidades gráficas
quando se tem os dados contextuais e cronológicos de escavações de sítios rupestres
junto aos dados das análises gráficas de uma amostragem de sítios quantitativamente
robusta e representativa de uma unidade geográfica mais ampla (Pessis 1993). De tal
sorte que só poderemos propor as identidades gráficas do rio Negro depois que tivermos
coletado amostras no baixo, médio e alto rio Negro e em seus tributários principais
como o rio Branco, o Uaupés e o Içana. Portanto, insistimos que o presente estudo só
reúne condições de propor os perfis gráficos dentro da área amostral 1, na amostra
externa do Arara Vermelha e na área amostral 2 com os sítios do Içana. As
extrapolações para as identidades gráficas devem aguardar por estudos posteriores. Os
perfis que ocorram em mais de um sítio, ou atributos recorrentes entre os mesmos, serão
apenas indicados como potenciais traços das identidades hipotéticas.
Na quarta etapa sairemos dos limites de nossa área amostral 1, anteriormente
priorizada, e passaremos a comparar os perfis gráficos identificados na área amostral 2
do rio Içana, alto Negro, e com o perfil gráfico do sítio Arara Vermelha (amostra
externa). Visamos estabelecer entre essas áreas e sítios o quadro mais geral das relações
e segregações dentro da bacia do Negro, permitido pelo que conseguirmos coletar até
nossa última etapa de campo antes do fechamento da tese (outubro-novembro de 2011).
Nesta altura esperamos ter disponível dados acerca de mais sítios dentro da área
amostral 1 e dos resultados da escavação do Arara Vermelha. Trata-se, pois de uma
extenção das análises inter-sítios onde definiremos à luz dos sítios da amostra Içaneira,
no alto rio Negro, e do perfil do Arara, quais sítios dialogam mais estreitamente entre si
do ponto de vista gráfico e quais são os termos claros desses diálogos. Isto é, quais são
os padrões gráficos mais recorrentes entre os sítios e quais apresentam menos padrões.
Todos esses procedimentos serão baseados em analogias visuais obtidas a partir
da observação direta dos sítios e do material fotográfico coletado. Sendo, portanto, a
repetição, recorrência ou paralelismo entre atributos, grafismos, painéis e perfis
gráficos, nossos índices de observação. A cada etapa analítica tentaremos com maior
precisão segregar os atributos caracterizadores (caractere) e suas modalidades de
78
manifestação (estados de caráter) nos perfís gráficos segregados na amostra 1, na
amostra 2 e no Arara Vermelha.
Por exemplo, o caráter temático antropomórfico pode se subdividir em vários
caracteres morfológicos, a cabeça é um deles, podendo aparecer em inúmeras
modalidades como as definidas a partir da ausência-presença de traços faciais, ou
ausência-presença de adornos cefálicos, etc. Nessas combinações exemplificadas para
cabeça antropomórfica podemos encontrar, ao menos, 4 modalidades de apresentação:
(1) simples (só o contorno); (2) com traços faciais (ex: olho e boca); (3) com traços
faciais e adorno cefálico (ex: projeções retilínias saindo da cabeça); (4) sem traços
faciais e com adorno cefálico.
Os atributos (ou variáveis) técnicos, cenográficos, morfológicos, temáticos,
geomorfológicos e petrográficos presentes nos perfis serão então segregados com base
em suas respectivas modalidades de apresentação, sendo organizados em lógica binária,
ausência-presença, para que possam alimentar matrizes matemáticas sistêmicas,
equivalentes em biologia evolutiva e em taxonomia às matrizes de organização dos
caracteres e estados de caráter que servem para agrupar ou segregar elementos
morfológicos, comportamentais e genéticos em organismos vivos. Idealmente seria
necessária uma matriz para cada perfil gráfico de sítio e depois uma condensando
amostra integral na área 1. O mesmo com relação aos sítios do Içana, uma para cada
sítio e depois uma para o rio inteiro. E, por conseguinte uma para o Arara Vermelha e
uma última matriz pra incluir os dados de todos os sítios e rodar uma análise que
confronte internamente todo o universo tratado. Essas matrizes por sua vez serão
rodadas seguindo dois métodos, um já regularmente utilizado em arqueologia, a análise
de cluster (estatística multi-variante), e outro menos conhecido, a cladística (sistemática
filogenética), mas com algumas aplicações em arqueologia (O’Brien, Darwent and
Lyman, 2001; Valle, 2006b). Ambos serão calculados com o programa PAUP 4.0
plataforma Macintosh, para processarem a variação formal dos atributos computados
por dois algorítmos matemáticos distintos de maneira que possamos comparar os
resultados dos dois métodos. Desta forma, pensamos que poderemos dar fundamentação
matemática às hipóteses finais do trabalho acerca das autorias culturais e suas possíveis
inter-relações filogenéticas33 e estatísticas dentro da bacia.

33
“Cladistics is a powerful tool for constructing phylogenetic histories of anything that evolves over time,
including material remains found in the archaeological record (O’Brien & Lyman, 2000). To date, its
79
Cabe aqui uma definição dos dois métodos citados. Primeiro, definiremos o
menos conhecido dos arqueólogos, a cladística, ou sistemática filogenética.“In biology,
cladistics is a method of systematics (...) which is used to reconstruct genealogies of
organisms and to construct classification. However, it is also a general approach to
classification which can be used for organizing any comparative information, having
been independently discovered in linguistics (Platnick and Cameron 1977; Bonheim
1990) as well as being used in biogeography (…) The axioms of cladistics are: 1.
Nature’s hierarchy is discoverable and effectively represented by a branching diagram.
2. Characters change their status at different hierarchical levels. Characters whithin a
study group that are either present in all members of the study group or have a wider
distribution than the study group (plesiomorphies) cannot indicate relationships within
the study group. 3. Character congruence is the decisive criterion for distinguishing
homology (synapomorphy) from non-homology (homoplasy). 4. The principle of
parsimony maximizes character congruence” (Forey et all. 1992:3).
A escolha da cladística, ou sistemática filogenética (Lipscomb, 1998; Arias et al,
2005; Forey et all. 1992), método próprio da biologia evolutiva moderna, como
procedimento complementar de ordenação matemática final dos caracterizadores
quantificados se deve à possibilidade concreta de sua aplicação nos estudos de
lingüística, em que pese à formulação de hipóteses acerca da variação, formação,
dispersão, cronologia, relações de parentesco e estabelecimento de tipologias
lingüísticas (Cavalli-Sforza, 2003). Mais recentemente foi empregada com sucesso no
levantamento de hipóteses para a dispersão e a variação tipológica em pontas de projétil
no SE dos Estados Unidos (O’Brien, Darwent and Lyman, 2001).
Em 2006 um experimento dessa ordem34, porém em caráter bastante incipiente,
foi testado com as gravuras rupestres do Seridó Potiguar (Valle, 2006b35), onde os
caracterizadores definidos e quantificados em nossa pesquisa de mestrado prévia foram
reordenados seguindo os pressupostos analíticos da Cladística. Desta maneira foram

major use has been in the biological realm, but the basic approach is identical in logic and similar in
method to tracing historical patterns of descent in languages.” (O’brian et al. 2001)
34
Experimento executado em parceria com técnicos e insumos do Laboratório de Fisiologia
Comportamental e Evolução (LFCE) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
35
Conferência apresentada no II Simpósio Internacional de Povoamento Pré-Histórico das Américas, São
Raimundo Nonato, Piauí, Brasil, dezembro de 2006.

80
obtidos 2 cladogramas óptimos, baseados no princípio de máxima parcimônia, gerados a
partir de uma matriz com 5 caracterizadores, portando entre 2 e 3 estados de caráter
distintos cada, que corroboraram sistematicamente os resultados, previamente
alcançados, reforçando e dando substrato matemático às hipóteses inicialmente
formuladas. Sustentamos, pois, que é justificável dar continuidade a essa abordagem
com intuito de refinar essa aplicabilidade preliminarmente demonstrada.
A análise de Cluster é um método estatístico bastante conhecido da arqueologia,
possuindo larga aplicação e aqui o adotaremos como um método complementar à
cladística para a verificação matemática da consistência de nossas analogias. Trata-se,
pois, de “multivariate statistical methods used to isolate patterning in archaeological
data.(...) Cluster analysis identifies similarities and differences among complete
assemblages (…) and arranges them in terms of the similarities between them, so that
the most similar are grouped (i.e. clustered) together. The similarities are assessed in
terms of the occurrence or non-occurrence of specific artifact types in the assemblages.
If assemblages have the same types within them occurring in roughtly the same
quantities, they are obviously very similar and are clustered closely together” (Renfrew
& Bahn 1994:177).
Na África do Sul encontramos uma interessante aplicação da análise de cluster
em arte rupestre (Smits in Bahn & Lorblanchet 1993:127-129) que ilustra o nosso
ponto: “In southern África the painters can no longer tell us which paintings belong
together and which don’t. But further research would benefit greatly if the grouping of
“unlike” paintings and the separation of “like” paintings could be avoid. Tool and
techniques are required that uses characteristics intrinsic to the paintings and explore
whether a particular body of rock art can be regarded as one homogeneous whole or
should be seen as a number of discret sets or “types” of related paintings with specific
formal characteristics (…) we need to establish whether a particular body of rock art
can be regarded as homogeneous before any one specific interpretation of its meaning
or function can be accepted as the accurate one. This paper attempts to establish
whether statistically significant subsets or clusters can be recognized, that consist of
paintings that are more like each other than like paintings of other subsets. It is an
attempt to group paintings on the basis of similarity. Similarity not of subject matter but
of the form-characteristics, of the way that subject matter has been depicted (…)
Cluster Analysis is a powerful statistical technique of numerical classification…”
81
Portanto, a análise de Cluster é um método estatístico de agrupamento por
semelhança entre multiplas variáveis, que analisa a variação formal entre grupos de
atributos ordenando-os pelo grau de semelhança mantida entre si. Dentre as várias
técnicas de agrupamento tipo cluster disponíveis exploraremos a Upgma, ou média
aritmética entre pares, por já termos testado a mesma com os dados quantitivos das
gravuras do Seridó nordestino (Valle 2006b), cujos resultados foram positivos.
Intentamos, pois, replicar este mesmo experimento com a amostra amazônica e
confrontar nossas classificações baseadas no recurso da analogia visual e fotográfica
com classificações matematicamente construídas. Ou seja, tornar a sistemática
filogenética e a estatítica calibradores matemáticos de nossa hipótese taxonômica
preliminar apresentada no diagrama (lastreado em nossas analogias foto-visuais atuais)
de árvore inserido no tópico das considerações finais deste trabalho.

III.iv.b. Do Registro Fotográfico

A fonte de dados primordial desta análise é o registro fotográfico. Todo trabalho


analítico é baseado na observação direta e no exame de imagens fotográficas. Neste
sentido, campanhas para a captação desta ‘iconografia’36, devem ser empreendidas
seguindo alguns objetivos de registro e análise próprios das necessidades da pesquisa.
Os procedimentos aqui adotados estão em maior ou menor grau em acordo com
diversos autores (Bahn & Vertuit 1988; Pessis 2000; Chippindale 2004; Loendorf 2001;
Whitley 2005), mas fundamentalmente, derivam de nossos exercícios de documentação
fotográfica de gravuras rupestres no NE brasileiro (Valle 2003), por sua vez baseados
nos postulados de Pessis (1986, 1987, 2000, 2002). A tônica da abordagem é a tradução
antropológico-visual do sítio rupestre considerado enquanto entidade viva e visualmente

36
Acerca de iconografia em pesquisa de registro rupestre, Celis nos diz: “Desde una perspectiva general
y según el DRAE (www.rae.es) iconografía refiere a la descripción y al tratado descriptivo o colección
de imágenes. En términos de Panofsky (1939) el método iconográfico, entendido como el estudio
sistemático de las imágenes, tiene por objeto interpretar el contenido temático y el significado de las
obras de arte(...) En arqueología, la iconografía hace referencia al estudio de las representaciones
artísticas y objetos que usualmente tienen amplia significación religiosa o ceremonial, como poseedores
de cualidades simbólicas; este, por ejemplo, es un importante recurso de la arqueología cognitiva (Bahn
& Renfrew, 2000).(...)En el arte rupestre, los análisis iconográficos apuntan principalmente a la
identificación de los objetos y escenas representadas sobre las rocas.” In MARTINEZ CELIS, Diego.
2006 . Propuesta para un análisis iconográfico de petroglifos: La Piedra de Sasaima, Cundinamarca
(Colombia). En Rupestreweb, http://rupestreweb2.tripod.com/sasaima2.html

82
dinâmica. Apesar da localização geológica fixa do sítio e dos painéis, a luz é móvel e a
cognição do pesquisador também.
Outras formas de documentação são evitadas aqui por necessitarem de contato
direto com a obra gráfica como a frottage (rubbing). Entendemos que qualquer contato
físico com o gravado pode ter implicação nociva à conservação dos registros. Seguimos
nessa decisão as precauções estabelecidas pelo IFRAO (www.ifrao.com) em seu
estatuto ético de documentação dos registros rupestres. Ademais, tais tipos de
documentação introduzem grande ambiguidade na análise morfológica, técnica e
tafonômica do gravado, níveis analíticos que não são traduzidos por essas modalidades
subjetivas de documentação. Portanto, os desenhos, calques e representações gráficas
dos painéis, comuns em muitos trabalhos de investigação rupestre, não serão vistos
aqui. Métodos mais precisos e sofisticados de documentação, como fotogrametria
(Loendorf 2001; Bednarik 2007:75) e a scanerização laser tridimensional (Bednarik
2007:73) estão fora de cogitação dadas as condições atuais de pesquisa.
Condenamos terminantemente a aplicação de qualquer tipo de substância
química dentro da gravura para efeito de realce do gravado com objetivo de coleta
fotográfica (como no caso consagrado de aplicação de carbonato de cálcio – giz - nas
gravuras). O fato de não conseguirmos visualizar adequadamente a gravura para efeito
deste ou daquele trabalho, não justifica intervenções invasivas no balanceamento geo-
bio-químico da rocha, que invariavelmente é desconhecido, e somente por meio de
análises arqueométricas exaustivas é possível estabelecermos uma conduta de segurança
para conservação em caso de necessidade de abordagem invasiva.
Seguimos aqui o Princípio da Precaução, da Carta do Rio Janeiro da Conferência
Rio 92. “O Principio da Precaução é a garantia contra os riscos potenciais que, de
acordo com o estado atual do conhecimento, não podem ser ainda identificados. Este
Princípio afirma que na ausência da certeza científica formal, a existência de um risco
de um dano sério ou irreversível requer a implementação de medidas que possam
prever este risco” (Goldim 2001. Institut Servier. La Prévention et la protection dans la
societé du risque: le principe de Précaution. Amsterdam: Elsevier, 2001:5-16, 23-34).
Em se tratando de documentação de registro rupestre é preferível abster-se da
coleta de evidência a correr o risco de danificar a evidência, e nenhuma pesquisa
justifica o dano desmedido. Até o momento a coleta fotográfica e videográfica com luz

83
natural são as únicas quase 100% seguras, excetuando métodos mais modernos que
prescindem de contato físico.
O conjunto de procedimentos (protocolo) que levamos a cabo entre 2001 e 2003,
durante a pesquisa nordestina, foi implementado com uma câmera analógica Pentax K-
1000 e uma lente 50 mm com abertura máxima de 1.8 f (uma lente clara ideal para foto
em áreas sombreadas sem flash), tripé em três estágios Vivitar e rebatedor laminado-
branco de mesma marca, não usamos flash. Diversos tipos de película foto-sensível p&b
e colorida, diapositivo (slides) e papel, em diversas iso (sensibilidade à luz) foram
utilizadas, particularmente o Fuji Superia iso 400, papel, cor, rendeu melhores
resultados. Notações das aberturas e velocidades bem como do tipo de filme e o número
da foto na sequência do rolo eram sistematicamente tomadas com a ajuda de uma
assistente de campo. Nas fotos de abertura de cada novo rolo de filme a primeira
chapa era das anotações contendo nome do sítio, local, data, hora, número do filme,
características fílmicas, abertura e velocidade.
Nas foto-documentações que temos feito para o presente trabalho estamos
adotando equipamento digital (porém, dotado das mesmas propriedades ótico-
operacionais de câmeras analógicas, manuais, reflex com lentes intercambiáveis) pela
versatilidade em manuseio, análise in loco das fotos e tratamento das imagens no
computador. Particularmente temos usado o modelo D200 da Nikon com sensor CCD
de 10.2 Megapixels de resolução e lentes diversas Nikon e Sigma. Sendo o único
inconveniente deste equipamento a sua pouca definição quando operando em condições
de baixa luminosidade com iso acima de 600, o que deixa as imagens extremamente
granuladas, na linguagem da imagem digital, com muito ruído. Um outro recurso útil na
Nikon D200 é a possibilidade de anexar à foto as coordenadas geográficas do local de
retirada mediante um cabo específico (avulso) conectado a um aparelho gps, mas ainda
não testamos tal recurso. A série digital EOS da Canon, acima de 8.0 megapixel em
resolução, é superior no processamento da imagem com o sensor CMOS e a ótica de
suas lentes, apresentando melhor desempenho que o da Nikon, porém perde em
robustez do equipamento e no environmental sealing, o que é imprescindível nas
condições amazônicas.
As notações de abertura e velocidade deixaram de ser tomadas em campo pois já
se encontram anexadas nos arquivos digitais formato Jpg, bem como a numeração das
chapas que já são ordenadas nos arquivos, bem como data e hora. Estamos utilizando o
84
formato Jpg fine e ocasionalmente estamos utilizando o formato Raw, arquivo bruto
sem compressão, portanto, superior em qualidade visual, no entanto, ainda não
dispomos do software adequado para trabalhar este formato de arquivo. Um outro
problema grave que ainda não estamos em condição de superação é a impressão da
imagem. Até o momento ainda não foi possível acesso a impressoras com qualidade
equiparável ao processamento digital das imagens das câmeras de alta resolução. Isto é,
temos boas fotos nos arquivos digitais, que se tornam analiticamente imprestáveis
depois de impressas em papel.
Uma vez no sítio é preciso se fazer um estudo de luz e de exposição das
superfícies rochosas e determinar os melhores horários solares para fotografar cada
painel. Se possível passamos um dia ou dois inteiros no sítio para entender o
comportamento da luz em cada um dos painéis antes de iniciarmos os trabalhos. Um
fotomêtro digital pode ser de grande ajuda posicionado em frente aos painéis medindo a
exposição em diversos pontos do mesmo painel conforme o plano a ser tomado, e
conforme a segregação desejada. A fotometragem deve ser tomada ao menos três vezes
ao dia, de manhã cedo, ao meio dia e ao fim da tarde caso o dia se mantenha estável em
suas condições meteorológicas. Existem áreas mais claras e mais escuras em todos os
painéis de arte rupestre, que são, portanto fotometricamente heterogêneos em função da
cor da rocha e da micro-geomorfologia do suporte. Quanto mais pontos tomados maior
a precisão da fotometragem, dependendo do campo visual e do relevo e textura da
superfície refratada uma tomada já é suficiente, em outros casos a tomada de até 5
pontos, 4 nas extremidades e um central, pode ser necessária. A D200 e algumas outras
câmeras possuem fotômetros internos muito bons, que podem ser utilizados nessa tarefa
de maneira mais prática.
Normalmente é necessário dois ou mais retornos ao mesmo sítio para que se
obtenham fotos analiticamente adequadas. O que chamamos de observação repetida do
objeto, se converte em condição essencial para que possamos fazer boas fotos. Cada
nova ida a um mesmo sítio rupestre leva quase que necessariamente à descoberta de
detalhes no painel dantes não percebidos. Semelhante processo ocorre com a análise
fotográfica posterior à coleta e à estadia no sítio. Descobrem-se coisas nas fotografias
antes invisíveis na observação direta quando no sítio. O registro visual, portanto,
mesmo que coletado a partir das seleções cognitivas do pesquisador permite, a
pesteriori, a observação de configurações cenográficas e detalhes morfo-técnicos dos
85
objetos que podem não ter sido percebidas no contato visual direto.
Portanto, seguindo os preceitos da observação repetida do objeto, seriam
indicadas ao menos três incursões fotográficas em cada sítio. A primeira coleta trata-se
de um reconhecimeto fotográfico equivalente ao filme de reconhecimento (Pessis 2000),
um ensaio cognitivo para o pesquisador. Serão identificados os problemas gerais do
sítio quanto a sua documentação fotográfica, os horários solares e exposições, os postos
de observação, etc.
Na segunda investida, onde se dá efetivamente a observação repetida do objeto,
o pesquisador de posse de uma percepção mais amadurecida passa a explorar o sítio
com maiores recursos e com um conhecimento prévio das limitações e potencialidades
fotográficas específicas. Explora-se com maior precisão esta última e criam-se soluções
alternativas face às limitações. Este segundo contato vai permitir a construção de uma
relação cognitiva com maior acuidade do pesquisador face ao sítio, o que vai estar
refletido na qualidade do material fotográfico. Os erros da primeira abordagem podem
ser corrigidos e os acertos podem ser repetidos e otimizados.
A terceira campanha ao sítio, é complementar, mas pode ser fundamental.
Como que visitando um velho conhecido em sua casa já familiar, estreitamos nossos
laços perceptivos. Pois como diria Pessis (2000:35): “Um dos primeiros problemas que
deve ser considerado quando se prepara a realização de um filme de reconhecimento é
aquele gerado pela inserção do pesquisador no meio no qual se encontra o objeto de
estudo. É um problema de capital importância na realização do filme documentário(...)
Existe o consenso de que a qualidade de um filme documentário depende, em grande
parte, da qualidade da inserção do pesquisador.” Esta inserção é sensivelmente
otimizada no terceiro contato com o objeto fílmico, onde espera-se um mínimo número
de equívocos.
O sítio rupestre por sua natureza espacial estática permite essas reiteradas
observações, diferente de uma performance ritual fulgaz na antropologia, ou de uma
escavação na arqueologia. De tal forma que podemos aprimorar nosso olhar sobre a arte
rupestre a cada contato visual com o painel. Normalmente o terceiro olhar é o mais
preciso e detalhista. O que não quer dizer que resulte nas melhores fotos, pois muitas
vezes o primeiro olhar destreinado pode resultar numa captação de planos mais
abrangentes em seu nível informacional, pelo medo da perda de detalhes dos quais não

86
sabemos a hierarquia. Normalmente o primeiro olhar é mais macro-fotográfico37 (Pessis
2000:32) e os subsequentes tendem a um estreitamento do grid cognitivo. Muitos dos
painéis que documentamos renderam suas melhores fotos na primeira campanha. Neste
caso, o ideal é qua a equipe de pesquisa possa contar com dois fotógrafos, um
conhecedor do terreno e outro neófito, para que as diferentes seleções possam ser
comparadas em laboratório.
O único inconveniente das abordagens repetidas é que isso pode introduzir na
cognição do pesquisador uma autoconfiança artificial de que ele conhece bem o objeto.
Portanto, cuidado nessa hora, e a postura correta é a da constante desconfiança
hermenêutica. Nunca conheceremos a polissemia de nossos objetos, nossas
aproximações são sempre tentativas, os que o conheciam já não existem mais e
possivelmente eles não saberiam fotografá-lo, assim como um fotógrafo profissional
também não saberia. Portanto, o ônus fotográfico recai somente sobre o arqueólogo que
se pretende um antropólogo visual da pré-história, e que por isso mesmo lhe compete,
ou lhe faz necessário, o que podemos definir enquanto humildade cognitiva, aliada à
desconfiança hermenêutica e conhecimento técnico do equipamento, que é fundamental.
A boa foto não é necessariamente uma bela foto, mas é aquela que guarda potencial
analítico ao olhar desconfiado do pesquisador.
Até o momento duas visitas foram efetuadas nos sítios de Velho Airão e do
Parna do Jaú, e apenas uma visita nos sítios do Unini, Jauaperi e boca do Branco dadas
as condições oportunísticas de nosso acesso à área. O material disponível apresenta-se
consideravelmente heterogêneo em qualidade fotográfica. Cerca de 45 % do material
coletado apresenta-se em condições analíticas satisfatórias, o restante oscila entre baixa
qualidade analítica e impossibilidade analítica. Particurlamente este último caso se dá
com o sítio Unini 4, com as áreas de concentração gráfica 2, 3 e 4 do sítio Pedral Velho
Airão (com 8 áreas no total) e com o sítio Jaú 2. Madadá 1 e 2 que não foram
documentados dentro do protocolo (outro pesquisador coletou imagens casualmente) e
Mirapinima (as gravuras estavam embaixo da água quando de sua inspeção e um único
grafismo registrado foi feito fora do protocolo por outro pesquisador) apresentam-se em

37
Neste caso, macro-fotográfico coloca-se enquanto planos abertos e gerais de máxima inclusão de
informações e não como o campo macro-fotográfico definido para planos fechados, em que a escala do
objeto é mantida em tamanho natural 1:1. Normalmente isto implica que as dimensões do fotograma
correspondam a 4 por 3 cm no campo real, equivalente ao tamanho de uma caixa de fósforo.

87
baixa qualidade analítica. Portanto, novas campanhas a esses mesmos sítios serão
necessárias.
Preferivelmente não utilizamos luz artificial para evitar distorções cromáticas, o
que sujeita o trabalho à dependência de dias claros sem cobertura de nuvens, porém,
entendemos que a fotografia noturna com iluminação artificial. Neste caso com um ou
dois holofotes de 500 watts (Bednarik 2007:77) pode permitir um controle volumétrico
e textural sobre o aspecto visual das gravuras que na luz do dia seriam impossíveis, no
entanto, ainda não nos foi possível logisticamente proceder a tal experimento.
Dias nublados, podem ser compensados com a luz do flash rebatida pelas
laterais do plano, sempre em ângulo oblíquo ao traço gravado. Ainda com respeito a luz
chapada difusa do dia nublado, pode-se fazê-la útil quando o contraste da gravura no
painel é mais cromático e textural do que volumétrico. Neste caso, a fotografia pode ser
mais adequada do que em condições de insolação direta. A luz chapada do meio dia,
dependendo da posição do bloco gravado, pode ter o mesmo efeito que a luz difusa de
uma manhã ou tarde nublada.
O ideal para sítios a céu aberto ribeirinhos com cobertura vegetal semi-aberta
(ex: capoeira) é o horário fotográfico (na Amazônia Ocidental) das 6:30 às 9:30 da
manhã e das 15:30 às 17:30 da tarde, pois a luz amarelada da manhã e avermelhada da
tarde são suaves e a incidência dos raios solares é sempre oblíqua às superfícies
rochosas permitindo a projeção de sombras internas no gravado que realçam os volumes
e morfologias das gravuras, desta forma desníveis milimétricos podem ser percebidos
com clareza. São comuns traços invisíveis à luz chapada do meio dia aparecerem ‘do
nada’ ao fim da tarde. Trata-se de uma luz técnica e esteticamente aconselhada para
fotos de planos mais abertos de painéis e da inserção dos painéis nos sítios, bem como
de segregação morfológica de unidades gráficas. Porém é desaconselhável para os
planos macro-fotográficos de caracterização técnica e tafonômica das gravuras. Neste
caso, as sombras projetadas no traço gráfico precisam ser balanceadas com o uso do
flash na lateral do plano, rebatido ou direto, para que as características micro-
morfológicas da técnica e do intemperismo sejam evidenciadas.
Sítios abrigados ou em grutas oferecem outros problemas e possibilidades. O
Arara Vermelha, por ser semi-afótico e ter um espaço para recuo interno muito restrito,
oferece mais problemas do que possibilidades. A luz é o principal deles e o
enquadramento também apresenta graves problemas. 3 campanhas fotográficas foram
88
realizadas nele, a primeira, em 2005, com equipamento analógico (Nikon FM 10 e lente
35-70mm abertura máxima de 3.5 f) com filmes slide e papel (diapositivo fuji vélvia iso
200 e papel fuji superia iso 400) com luz rebatida por folha de isopor branca com
laminado em face oposta. Nas campanhas subsequentes foi utilizada a Nikon D200 com
lente 50 mm 1.4 f, Macro 105 mm 2.8f e 18-70 mm 3.5 – 5.6 f. Normalmente operada
em tripé com baixas velocidades. Utilizamos luz natural externa rebatida e uma fonte
artificial de luz (lanterna fosforescente branca), bem como a baixa luz ambiente. Mas
ressaltamos que toda parte interna do abrigo precisa ser artificialmente bem iluminada
para que fotos adequadas em exposição e foco possam ser feitas.
Tendo os pontos acima considerados, nos endereçamos aqui ao estabelecimento
de um protocolo de registro fotográfico orientado no sentido de ‘traduzir’ o sítio. Isto é,
transportá-lo imageticamente de seu meio ao laboratório permitindo a observação das
propriedades físicas dos registros gráficos em diversos níveis analíticos, da interface
geomorfológica e hidrográfica do sítio e seus painéis com o meio físico até o nível
macro-fotográfico do detalhe técnico e da alteração tafonômica.
Cabe aqui uma explanação sobre como estamos dividindo o sítio espacialmente
para fins de registro fotográfico. De maneira geral, seguimos uma lógica geral-
específico na seguinte ordem hierárquica: (1) documentação da interface geo-ambiental
do sítio: são planos de contextualização geo-hidro-ambiental do sítio em interface com a
paisagem de entorno; (2) documentação das àreas de concentração gráfica: são zonas
dentro do sítio onde painéis apresentam-se aglutinados guardando distâncias entre si
inferiores, iguais, ou pouco superiores ao tamanho médio de cada painel, ou, que
estejam visivelmente distantes de outras concentrações gráficas. Não havendo uma
metragem específica, mas sempre distâncias proporcionais que devem ser observadas e
medidas com trena pelo pesquisador, atentando-se para os espaços vazios, sem
grafismos entre os painéis; (3) documentação do painel rupestre: é um campo no corpo
rochoso onde unidades gráficas (grafismos) se encontram inseridas num espaço de
inclusão em que as distâncias médias guardadas entre elas sejam menores que a
distância média entre um painel e outro ou que o comprimento do painel integral; (4)
documentação da unidade gráfica: é o espaço delimitado pela contiguidade de um traço
(sem interrupções, ou guardadas mínimas distâncias, no caso de percussão, entre uma
cicatriz percussiva e outra) delimitando um campo inclusivo que pode ser acompanhado
pela cognição do pesquisador de forma contínua; (5) documentação dos atributos
89
gráficos das unidades: são partes estruturais da morfologia de um grafismo que possam
ser segregadas pelo pesquisador segundo critérios morfológico, técnico ou tafonômico
(áreas em melhor estado de conservação de um mesmo grafismo, p. exemplo). Estas
considerações baseadas em nossos próprios experimentos anteriores situam-se em
conformidade com os pressupostos de análise espacial dos registros rupestres definidos
por Chippindale (2004:102) em seu artigo From millimeter up to kilometer: a
framework of space and of scale for reporting and studying rock-art in its landscape
publicado no volume Pictures in Place: The figured landscape of Rock-art (Chippindale
and Nash 2004), que para efeito de referência teórica consideramos da mais alta valia,
embora nossos procedimentos guardem especificidades.
Vamos então, às disposições de nosso protocolo fotográfico:

O registro fotográfico aqui tratado se orienta para a coleta de três níveis de


dados: dados ambientais, relativos ao entorno geomorfológico do sítio; dados do sítio,
sua estrutura física e sua situação no ambiente; dados do registro rupestre, relativos às
características das gravuras rupestres.
Assim, a estrutura básica das seqüências de planos fotográficos partiu de uma
divisão baseada no enquadramento e nas distâncias focais. Considerou-se, em condições
ideais, um esquema tripartido em etapas com objetivos diferenciados:
Etapa 1 – Contextualização geomorfológica, o sítio e o entorno ambiental,
planos abertos. Tiradas em torno de 8 metros do objeto focal, com aberturas
panorâmicas. A interface sítio/ meio ambiente é o alvo que deve ser preferencialmente
captado com lente grande angular (18 mm a 28 mm), evitando-se, porém as lentes
Fisheye pelo alto grau de distorção.
Etapa 2 – Planos intermediários de aproximação. As estruturas antrópicas e
naturais do sítio são registradas, tais como manchas gráficas (painéis), marcas paleo –
hidrológicas e segregações de campos cenográficos arbitrários, tipo zonas de um painel
com alta densidade de preechimento, ou melhor, conservadas. Os planos são tomados
em distâncias focais variantes entre 8 metros e 2 metros. Esta etapa serve de subsídio
importante para a seguinte. Usar preferencialmente lente 50 mm.
Etapa 3 – Os planos de segregação das unidades de análise e os planos macro-
fotográficos de maior aproximação, obtidos entre 2 metros e 20 centímetros dos objetos
focais, que foram selecionados por apresentarem um melhor estado de conservação e,

90
em alguns casos, maior contraste entre a superfície externa da rocha e superfície interna
do sulco. As informações objetivadas com esses planos de grande aproximação são,
sobretudo, a respeito da técnica de confecção dos grafismos, das características
petrográficas das rochas suporte e dos processos intempéricos atuantes. Podem ser
usadas lentes 50 mm, Macro 90 mm/ 100 mm, e macro 50mm.
Adotam-se quatro disposições básicas nos planos de aproximação ceno-
técnicos38:
1. Fotografar em planos perpendiculares ao eixo central dos grafismos, sempre que
possível, para se evitar distorções de ângulo.
2. Usar rebatedor, fontes alternativas de luz, ou fotografar em horários solares
adequados para evitar a projeção de sombras no interior dos sulcos gravados, que
venham a mascarar detalhes técnicos, como vestígios de pigmento ou estrias
transversais indicativas de polimento.
3. Adoção sempre que possível de tripé e batedor automático para evitar ao máximo o
contato com a mão na hora de bater a chapa.
4. Adoção sistemática de referência com escala gráfica (IFRAO quando possível) para
planos de aproximação e segregação.

III.iv.c. Formulário de Documentação de Sítios Rupestres

Apresentamos aqui nosso protocolo de documentação de sítio construído


especificamente para sítios rupestres com gravuras a partir das pesquisas no Nordeste
brasileiro (Valle 2003). Não deixa de ser um esquema provisório que necessita de
adaptações. Entre as quais, a proeminência dada à geomorfologia deve ser adaptada para
a hidrografia, em relação aos sítios ribeirinhos, etc. O exemplar aqui é demonstrativo e
nele está contida uma série de dados de Jandú-Cachoeira, um sítio rupestre no médio
Içana, alto rio Negro (àrea amosral 2) que documentamos em março de 2008, cuja
versão digital foi originalmente publicada num relatório para a FOIRN (Federação das
Organizações Indígenas do rio Negro) (Valle & Costa 2008).

38
Aproximação sentido geral para específico, ou seja, de planos abertos que privilegiam as relações que
os grafismos mantem entre si e com o espaço gráfico, para planos fechados que evidenciem as unidades
gráficas segregadas e suas características técnicas e tafonômicas.

91
A maioria das fichas encontra-se manuscrita e seu processo de digitalização
ainda se encontra inconcluso, mas para a versão final da tese estarão em anexo todas as
fichas dos sítios trabalhados incluíndo o Arara Vermelha em São Luis do Anauá, RR, os
6 sítios do rio Içana, além dos 15 sítios trabalhados na área amostral 1.

1. LOCALIZAÇÃO DO SÍTIO:

a) Nome: Jandú-Cachoeira, rio Içana

b) Município: São Gabriel da Cachoeira, AM

c)Acesso: rio Içana, primeira cachoeira (corredeira) depois da escola EIBC-Pamáali,


entre as comunidades de Tucumã Rupitá e Jandú (ao lado da cachoeira)

d) Coordenadas: UTM 19 N 0532105 0166711

e) Orientação: Cachoeira desce no sentido NE/SW

f) Abertura: ñ há. Sítio a céu aberto.

g) Vegetação: Florestal secundária, capoeira alta.

2. GEOMORFOLOGIA:
a) Situação do entorno: afloramentos graníticos formando degraus altimétricos na calha
do rio, que se estreita no trecho. Ocorrem afloramentos em ambas as margens. Trata-se
de uma cachoeira encaixada em vale estreito em V (gargalo pontual na calha do rio,
mais larga a jusante e a montante). Acima dos afloramentos seguem colinas suaves que
se destacam no entorno de relevo baixo pouco acidentado.
b) Situação do sítio: Petróglifos executados sobre as rochas desse afloramento
ribeirinho.

c) Altimetria: 101 metros

d)Marcas paleo – hidrológicas:


O afloramento inteiro tem sido lavado sazonalmente pelo rio. Todas as rochas
apresentam cicatrizes hidrológicas antigas e recentes, em todos os patamares
altimétricos do afloramento.
e) Condições de sondagem geológica: No sítio rupestre em si não há. Mas acima do
afloramento na margem esquerda, na área coberta por vegetação e solo afloram
fragmentos cerâmicos, cuja tradição oral local aponta como o sítio da antiga aldeia de
Jandú. Este sítio em sua gênese crono-estratigráfica pode estar relacionado com os
autores dos petroglifos, e apresenta condições de sondagem de sub-superfície.

92
3. O SÍTIO:

a) tipo de sítio: cachoeira com petroglifos (sítio rupestre) em ambas as margens e


material cerâmico aflorando na vertente esquerda próxima aos afloramentos (sítio
cerâmico, sem relação cultural evidente com os petroglifos, além da espacial de
superfície, provavelmente material retrabalhado e carreado).

b) Dimensões: A margem esquerda concentra a maior densidade gráfica do sítio com 67


grafismos visíveis no momento da inspeção distribuídos em 100 metros de comprimento
por 46,50 metros de largura máxima (4.600 m²). Está dividido em 7 áreas de
concentração gráfica (painéis), aparentemente, separadas, considerando-se uma
redistribuição dos elementos visíveis pelo intemperismo (tafonomia). Assim, no sentido
horário de NE para SW, na área 1 (Painel 1 - 10.50 m x 5.60 m) ocorrem 12
antropomorfos e 3 grafismos puros; no painel 2 (6.30 m x 7.20 m) ocorrem 13
grafismos puros (abstratos), 2 antropomorfos e 1 zoomorfo, dois dos antropomorfos
estão em estado de superposição visível, indicando dois momentos gráficos
cronologicamente separados e apresentações gráficas antropomórficas distintas,
diferenciação entre tempo e forma dentro de uma mesma temática, que pode indicar um
padrão existente em outros sítios; no painel 3 (13.70 m de comp. x 2 m larg. min. e 5 m
larg. max.) ocorrem 3 antropomorfos, 2 não identificáveis (NI), 5 grafismos Puros e 1
zoomorfo; no painel 4 (11.10 m de comprimento x 2.50 m larg. Média) ocorrem 12
conjuntos de cúpulas39 organizados, 1 antropomorfo, 2 grafismos puros, e um conjunto
de cúpulas desorganizadas espalhadas no chão por cerca de 3 m², mas, de provável
origem natural. Esses grafismos apresentam um particular estado de conservação,
indicando que estariam mais próximos de suas características técnicas originais, ou, de
outra forma, a superfície erodida hoje aparente neste conjunto trata-se da mais antiga
exibida pelos painéis do sítio, os outros estados erosivos seriam mais recentes com
superfícies menos intemperizadas; no painel 5 ( 4.90 m max. x 3 .90 m larg méd.)
ocorrem 2 cupulares, 5 puros e 1 antropomorfo. No painel 6 (11.10 m comp max. x 1.50
larg. média.) ocorrem 1 antropomorfo, dois conjuntos cupulares em fileira dupla, um
conjunto cupular circular, um grafismo puro e um NI. Na margem direita ocorrem 8
grafismos espaçados equidistantemente, (em aproximadamente 20 m de comp. x 2.50 de
larg. Méd.) sendo 3 antropomorfos, 1 zoomorfo, 2 grafismos puros e outros 2 NI que
foram considerados dentro de um mesmo espaço inclusivo, área 7.
Ocorrem ainda dois grafismos isolados, um antropomorfo e um puro (espiral, este num
bloco separado no extremo SW do afloramento margem esquerda), no entanto, o
isolamento pode ser resultado de processos tafonômicos e não de escolha cenográfica
cultural. Totalizam, pois, neste sítio 77 unidades gráficas encontradas no momento da
inspeção.

39
Cúpulas também são Grafismos Puros, mas por constituírem um tipo clássico, reconhecido entre as
mais antigas manifestações gráficas legadas até os dias de hoje, e por estarem generalizadas no mundo
inteiro com grande recorrência recebem uma designação própria internacionalmente atribuída (Bednarik
2003).

93
c) Estado de conservação do suporte rochoso: diversos estados de erosão (descamação)
e momentos cronológicos diferentes, pelo menos 3 a 4 camadas de descamação são
visíveis alterando diferentemente os painéis. A área menos impactada é o painel 6 com
seus diversos cupulares, onde a erosão parece ser mais antiga e a superfície exposta a
mais próxima da superfície tecnicamente trabalhada, o aspecto visual é craquelado com
micro fissuras generalizadas, e rachaduras de diversos tamanhos e espessuras em pontos
diversos. Mas de maneira geral o contorno do gravado em diversas unidades gráficas
parece ainda apresentar irregularidades oriundas de um picoteamento seguido de uma
abrasão superficial que não homogeneizou o traço internamente e suas bordas
plenamente. Mas qualquer análise nessa direção é extremamente insegura. De qualquer
forma este conjunto apresenta características técnicas visivelmente distintas dos outros,
descamados muito mais recentemente, a rocha encontra-se lisa e os volumes dos
petroglifos suavizados de maneira uniforme e intensa, alguns não passam de leves
sombras sem volume. É possível distinguir nesse sítio uma cronologia da erosão,
dividida em 3 patamares diferente a área 1 (painel 1) expressa bem esses três níveis de
descamação nos mesmos grafismos de maneira bem clara. Essa é uma observação
preliminar a olho nu, reiteradas observações serão necessárias e demorados estudos
microfotográficos de setores específicos devem ser retomados. Alem disso foi possível
observar como a chuva torrencial lava as gravuras de baixo para cima diferencialmente,
e em alguns pontos do afloramento infiltrações de água e seus escorrimentos nunca
cessam como é o caso dos painéis 1 e 4 permanentemente cobertos por espessa camada
de musgo e umedecidos. Curiosamente na área 1 foi possível identificar diferentes
momentos de erosão com muita clareza, uma cronologia de 3 momentos de erosão pelo
menos, os traços técnicos em alguns trechos indicam picoteamento indireto sem um
segundo momento de abrasão em um dos momentos gráficos. Mas apenas parece, pois
com certeza dado o estado generalizado não estamos lidando com a superfície original
de trabalho.
Na margem direita o intemperismo é diferenciado, e mais acentuado ao ponto de
provocar uma maior irregularidade textural nas rochas. Não há suavidade nos volumes,
eles são tênues, mas a aspereza textural do suporte é visivelmente contrastante, como se
a própria constituição da formação granítica na outra margem fosse diferente,
apresentando inclusive uma oxidação visível em amplos trechos. As superfícies
apresentam de maneira geral uma granulação extremamente grosseira e áspera, com
rugosidades cortantes e extremamente abrasivas ao mínimo contato. As unidades
gráficas encontram-se enegrecidas por acumulo de patina biológica que não permite
distinção entre o traço e a superfície não marcada, a não ser quando estão reavivadas.
Não sendo possível evidenciá-las sem uma fonte de luz oblíqua ao plano de inclinação
do suporte, como se teria ao nascer ou por do sol, ou com uma fonte de luz artificial, ou
duas rebatidas por lençol branco ou rebatedores laminados. De modos que o registro
fotográfico desse conjunto não foi satisfatório. A área 7, além disso, apresenta várias
interferências recentes, dentro e fora do gravado, reavivamento e grafiti, pichações em
Baniwa e em português.

d)Tipos de vestígio: Petroglifos e material cerâmico aflorando no entorno do sítio, mas,


não dentro dele.

e) Refugo arqueológico: Não há na área dos petroglifos, mas como observado na zona
acima do afloramento na margem esquerda aproximadamente a 30 metros dos
petroglifos, por onde segue uma trilha que leva a uma capoeira abandonada. Nesta área
94
é provável a ocorrência de refugo em estratigrafia.

f) Tipo e composição do suporte rochoso: Granito – quartzo branco e fosco, mica e


feldspato.
Não apresenta estruturação visível.

g) Dureza dos minerais: Quartzo – 7; Muscovita (mica) – 3 feldspato 5.

h) Estrutura morfológica: Ñ

4. AS GRAVURAS:

a) Dimensão do espaço gráfico: especificado no item dimensão do sítio.

b) Estado de Conservação: especificado no item estado de conservação do suporte


rochoso

c)Técnica de Execução:
Não é possível afirmar nada com certeza, além do acentuado intemperismo, físico,
hidrológico e biológico ainda há o intemperismo étnico dos Baniwa que reavivam as
gravuras por diversas técnicas líticas, notadamente o polimento, mas também o
picoteamento direto e indireto, além da aplicação de fogo direto no suporte rachando
bruscamente amplas superfícies do granito (painel 2 e 3). A maior parte dos painéis está
lavada pela água, marcas antigas e recentes de ação paleo-hidrológica suavizam os
volumes (painéis 2, 3 e 6), outros cobertos por musgos e erodidos profundamente em
diversas camadas de desplacamento (painel 1 e 4). E outros ainda apresentando erosões
antigas pouco alteradas recentemente, que mais se aproximariam das superrficies de
trabalho originais (painel 5), que indicam uma combinação entre percussão indireta
seguida de abrasão suave a intensa.

D) Cenografia:
Apresenta-se severamente alterada pelo intemperismo, de maneira que a separação em
seis áreas de concentração é arbitrária e não diz respeito às escolhas culturais originais.
Assim como a quantidade de unidades gráficas é arbitrária e não diz respeito a um
numero absoluto, ao aspecto quantitativo original do sítio.
Ou seja, todas as relações aqui enumeradas a exceção da superposição, podem ser
aleatórias e não culturalmente determinadas, inclusive aproximações estatísticas.
No entanto, podemos afirmar que não há clara distinção ou seleção no preenchimento
dos espaços gráficos por antropomorfos (cerca de 24 unidades) e grafismos puros,
ambas as classes parecem estar quantitativamente bem representadas em todas as áreas
de concentração gráfica do sítio, com uma preponderância de grafismos puros (50
aproximadamente).

95
Com relação aos zoomorfos (3 em princípio) esses são em menor número visivelmente,
e aparecem sempre como uma espécie de acessório agenciado aos grafismos
antropomórficos, não apresentando vida cenográfica independente como os grafismos
puros.
Nos antropomorfos (painéis 1 e 2) foi possível observar duas apresentações gráficas
bem distintas e cronológicamente separadas por uma superposição bem clara. Um
momento inicial as formas são retas com corpos retangulares de grandes dimensões,
chegando a 4 metros, apresentados em fila de frente, com braços flertidos e compridos
sempre paralelos ao corpo com mãos tridigitais e pernas esticadas com definição de
joelhos e pés laterais com traço único, apresentando ainda adornos corporais (colares de
diversas morfologias). O segundo momento antropomórfico é composto por figuras
menores que chegam a 1 metro de comprimento com braços e pernas flertidos,
extremidades tridigitais em pés e mãos, isolados ou em dupla ou associados a
zoomorfos e grafismos puros, alguns apresentando projeções cefálicas como chifres.
Ambos os tipos apresentam traços faciais (boca e olhos), mas, contornos cefálicos
diferenciados, nos maiores uma variação de trapezóide a circular e nos menores uma
tendência triangular visível.
Essa cronologia de superposição antropomórfica pode ser um indicador de padrão
gráfico a ser procurado em outros sítios, um índice importante que precisa ser re-
checado e calibrado pela identificação de relações semelhantes em outros lugares.

5. PERFIL DO SÍTIO – Prematuro afirmar. Contudo, parece ocorrer uma primazia de


grafismos puros, agenciados e/ou não a antropomorfos, mas aparentam possuir vida
gráfica independente, formas cupulares, em diversos agenciamentos geométricos,
lineares duplos, lineares únicos, trapezoidais, triangulares, circulares, em forma de “T” e
espaçado aleatório, parecem dominar nas escolhas cenográficas e podem indicar um
elemento de recorrência padrão.
A relação de grafismos puros, sendo a maioria cupulares em diversas apresentações
gráficas e, em segundo plano, formas espiraladas também em diversas apresentações,
com grafismos antropomórficos não está clara, mas parece não ser uma recorrência
marcante. Porém ocorre a grosso modo, pois, em todas as áreas de concentração gráfica
encontramos ambas as classes. Sendo a primazia dada aos abstratos. Quase todos
antropomorfos estão em agenciamento entre si e em dois casos com cupulares (áreas 6 e
5), e em um caso com círculos incisos de variadas circunferências (área 1), e uma
minoria inexpressiva, mas presente, de zoomorfos que estariam mais estreitamente
ligados aos antropomorfos (área 1, 2 e 7).
Ainda não está claro quais as identidades (recorrências, padrões gráficos), nos
agenciamentos (relações espaciais e morfológicas) desse sítio, mas parece haver uma
indistinção entre o hermético, não reconhecível, abstrato, com os elementos de
reconhecimento cognitivo imediato, antropomorfos e zoomorfos. Porém está evidente
uma primazia por grafismos puros, para o hermético, para construtos mentais
materializados graficamente, e não respaldados por formas do mundo natural, fora da
imaginação de homo. Estariam como exemplo, independentes de antropomorfos e
zoomorfos. Outro ponto focal é a existência de pelo menos dois momentos gráficos
antropomórficos com atributos diferenciados.
Se esses são padrões que qualificariam o perfil do sítio rupestre Jandú 1, infelizmente,
96
dado o intemperismo natural e antrópico acentuado, consideramos não ser mais possível
obter essas respostas olhando exclusivamente para este acervo. Precisamos buscar a
confirmação e uma melhor elaboração de padrões gráficos em outros sítios no Içana e
fora dele.
Também é preciso entender no cerne do universo abstrato se existem ordenações,
recorrentes, por exemplo, entre as modalidades de cupulares e as modalidades de
espirais, motivos mais recorrentes no grafismo abstrato em questão. Enfim, esse sítio ao
menos, cumpre bem seu papel, por permitir-nos uma série de indagações dentro de uma
primeira rodada de observações e conjecturas. O que se parece é que este sítio apresenta
uma diversidade estilística em seu acervo caracterizada por no mínimo dois momentos
gráficos distintos, com propriedades gráficas determinantes diferenciadas,
marcadamente no aspecto formal dos antropomorfos.

97
IV. Resultados Preliminares

Antes de mais nada, por questões de constrição espacial e temporal, para efeito
dos resultados preliminares da pesquisa no âmbito deste documento provisório, de
qualificação, apresentaremos apenas os dados concernentes a área amostral 1, mais
intensamente pesquisada e melhor conhecida. Deixaremos a caracterização dos perfis
gráficos dos sítios da área amostral 2 (rio Içana, Alto Negro) dada a sua extensividade,
para o documento final da tese. Acerca da amostra externa o tratamento será
semelhante, porém, desde já, apresentaremos resumidamente suas características
básicas, bem como apresentaremos a topografia do sítio (figura 5). Esta se trata de uma
amostra sensivelmente menor, apenas um sítio, que entendemos ser de singular
relevância para a pesquisa com gravuras rupestres na bacia do Negro, e desde já deve
estar inserida na discussão. Porém, também reservaremos seu perfil gráfico e dados
referentes a sua escavação para a tese.
Assim, ordenamos os dados em três compartimentos: uma relação integral dos
sítios da área amostral 1 contendo nome, coordenadas geográficas e breve descrição de
cada. Nesta relação mencionamos também o Arara Vermelha por suas propriedades
singulares; em seguida descreveremos detalhadamente os três perfis gráficos
identificados na amostra da área 1 dentro das premissas definidas pelos atributos que
estamos adotando na identificação e segregação da variabilidade (especificados no
quadro teórico-metodológico).
Após cada descrição detalhada dos perfís introduziremos cadernos de fotografias
ordenadas a título de permitir a identificação visual de cada perfil gráfico no que
compete às propriedades formais das gravuras de cada classe. Nesse aspecto cabe uma
ressalva. Nossas imagens não são anexos fotográficos, ou apêndices que sempre se
situam no final do trabalho. Mais que isso, elas são nossas evidências e argumentação,
pois nossas analogias, conjeturas e hipóteses se baseiam nelas. Nossos constructos
cognitivos visam dar conta de diferenças e semelhanças que julgamos objetivamente
detectadas nas fotografias. Portanto, é justo afirmar que a fotografia do registrio rupestre
é a espinha dorsal deste trabalho, do método, da análise, do resultado e da discussão.
O que intentamos retirando a diagramação das imagens do fim do texto e
trazendo-as para o corpo do texto nos resultados, é uma sincronia cognitiva com a
percepção do leitor deste trabalho. Para que o mesmo possa confrontar nossas

98
observações textuais como nossa argumentação visual. Neste mister não procederemos
aqui na qualificação a uma exibição extensiva e datalhista de todos os sítios trabalhados,
o que reservaremos para a tese de maneira exaustiva. Selecionamos, no entanto, uma
amostra significativa de cada um dos perfis gráficos definidos, de forma a não deixar
nenhum aspecto equívoco referente à caracterização visual de nossas hipóteses.

IV.i. Relação dos sítios rupestres trabalhados

IV.i.a. Pedral Velho Airão - Gravuras rupestres distribuídas, a princípio, em 8


concentrações que se estendem por 430 metros na linha de praia sentido E/W do ponto
S 01° 55' 09.9" W 061° 24' 14.8" no extremo E até S 01° 55' 09.8" W 061° 24' 27.0" no
extremo W. Sujeito à submersão total em sua maior parte 9 meses ano. Abundam
antropomorfos em diversas apresentações gráficas, com distinção de caracteres sexuais,
estando em vários painéis, aparentemente, articulados em cenas. Os estados de
conservação, grosso modo, apresentam-se tecnicamente muito descaracterizados o que
pode ser indicativo de considerável antiguidade, pontualmente em raros grafismos é
possível perceber a percussão direta. Inter-relacionado aos antropomorfos ocorre um
repertório significativo de grafismos abstratos, principalmente motivos espiralados de
diversas modalidades. Apenas em um painel, inequivocamente, foram identificados seis
unidades gráficas zoomórficas, quadrúpedes apresentados de perfil e em movimento,
aparentemente indicando uma cena, o que se configura numa ocorrência bastante
singular em relação ao entorno gráfico no qual se insere. Este sítio é o mais extenso e
denso quantitativamente na amostra, apresentando cerca de 300 unidades gráficas
dispersas em dezenas de painéis ao longo das 8 áreas de concentração identificadas até o
momento. Uma contagem precisa ainda não foi possível visto que muitas unidades
gráficas e seus respectivos painéis encontravam-se submersos nas duas ocasiões de
inspeção.

IV.i.b. Pedral Jaú 1 – Gravuras rupestres situadas a 500 metros direção W da base do
Ibama na mesma margem – direita - do rio Jaú distribuídas em duas concentrações
separadas por 200 metros sentido W/E, uma em S 01° 54' 15.8" W 061° 26' 07.2" no
extremo E e outra a S 01° 54’14.7” e W 061° 26’ 17.2” no extremo W. Sujeito à
submersão total 9 meses ano. Comungam as mesmas características gráficas do
conjunto acima citado, sem ocorrência de formas animais (Zoomorfos). Não é possível

99
uma identificação técnica direta por razões tafonômicas, mas acredita-se que, em
analogia ao Pedral Velho Airão, seja percussão direta.

IV.i.c. Pedral Jaú 2 – Gravuras rupestres dispostas numa única concentração (painel)
situadas nas coordenadas S 01° 54’ 43.2” W 061° 27' 31.9". Sujeita à Submersão 9
meses ano. Comungam as mesmas características gráficas do conjunto acima citado,
sem ocorrência de formas animais (Zoomorfos). Não é possível uma identificação
técnica direta (tafonomia), mas acredita-se que, em analogia ao Pedral Velho Airão, seja
percussão direta.

IV.i.d. Pedral Jaú 3 - Gravuras rupestres dispostas numa única concentração (painel)
situadas nas coordenadas S 01° 53' 41.4" W 061° 32' 07.6". Sujeito à submersão.
Comungam as mesmas características gráficas do conjunto acima citado, sem
ocorrência de formas animais (Zoomorfos). Não é possível uma identificação técnica
direta (tafonomia), mas acredita-se que, em analogia ao Pedral Velho Airão, seja
percussão direta.

IV.i.e. Pedral Rio Negro - Gravuras rupestres nas margens do Negro distam 2400
metros na direção NW da boca do Jaú e 6300 metros em linha reta do Pedral Velho
Airão. Apresentam-se distribuídas em 3 concentrações ao longo de 50 metros sentido
E/W, estando uma em S 01° 53' 01.2" W 061° 26' 35.5" no extremo E, outra 35 metros a
W desta, em S 01° 53' 01.1" W 061° 26' 36.6" e uma terceira há 10 metros W desta
última em S 01° 53' 01.1" W 061° 26' 36.9" marcando o extremo W do conjunto.
Sujeito à submersão total 9 meses ano. Apresenta um conjunto massivo de grafismos
puros, com uma única unidade possivelmente antropomórfica estilizada. Nesse aspecto
este conjunto destoa sobremaneira dos grafismos anteriormente descritos. Executado
por percussão direta e, talvez, indireta.

IV.i.f. Sítio Unini 2 – Gravuras rupestres sobre pedral granítico (Rosáceo, proterozóico,
complexo Jauaperi) na margem esquerda da primeira cachoeira do rio Unini, dispostas
em três concentrações sendo duas delas distantes 7 metros a N uma da outra e
referenciadas, portanto, no mesmo ponto S 01° 40’ 12.8 “W 061° 47' 32.2”, marcam o
extremo E do conjunto. Distando 90 metros direção W encontra-se outra concentração
nas coordenadas S 01° 40’ 13.0” W 061° 47' 34.6" marcando o extremo W do conjunto.
Totalmente sujeito à submersão 9 meses ano. Este conjunto apresenta uma massiva
100
concentração de zoomorfos representando diversas espécies animais executados em
grandes dimensões (maiores que um metro de área em média) em pelo menos dois de
seus momentos gráficos e uma seqüência de antropomorfos lado a lado (numa
apresentação gráfica própria sem correspondência com os outros sítios amostrados) em
um momento gráfico aparentemente anterior. Ou seja, neste sítio é possível distinguir
diferentes momentos gráficos, cronologias a partir de estados de repatinação
diferenciados e superposições. Tecnicamente o contraste com relação ao restante
amostral é perceptível, percussão direta e indireta, possivelmente, seguida de abrasão
variada (de polimento à raspagem direta sem percussão). Algumas unidades gráficas
parecem ter sido recorrentemente reavivadas em detrimento de outras mais apagadas.

IV.i.g. Sítio Unini 4 – Trata-se de um conjunto de gravuras rupestres encontrado na


segunda cachoeira do rio Unini logo depois da comunidade de Terra Nova. Ocorre uma
primazia de gravuras zoomórficas, duas aves análogas à garças em tamanho próximo ao
natural e 6 quadrúpedes em movimento com tamanhos reduzidos (20 a 30 cm de
comprimento) equiparáveis morfologicamente ao painel zoomórfico do Velho Airão.
Apresentam-se executados no plano horizontal através de percussão indireta (com
instrumento percussivo de gume inferior a 1 cm) num dos afloramentos areníticos
(arenito Prosperança) no meio do rio. Coordenadas 1°41'51.02"S 61°50'4.93"W. Sujeito
à submersão plena 10 meses ano.

IV.i.h. Mirapinima – Ocorrência que apresenta um possível fragmento de grafismo


descaracterizado e semi-submerso e outro grafismo exposto na seca, porém
extremamente desgastado impossibilitando reconhecimento morfológico e técnico. È
provável que se tenham mais grafismos abaixo da linha de seca, ou que já tenham
existido. Diante do verificado optamos por definir aí uma ocorrência rupestre até que se
tenha melhor identificado a real extensão e localização dos painéis de grafismos.
Coordenadas 2°10'56.40"S 61° 8'5.00"W. Sujeito à submersão total 10 meses ano.

IV.i.i. Madada 1 - Conjunto de grafismos rupestres gravados, petróglifos, no flanco SE


de um matacão arenítico (bloco ou rochedo) ilhado no meio de um dos canais do rio
Negro em frente à localidade conhecida como Madada. O conjunto contém 11
grafismos visíveis entre reconhecíveis (duas faces estilizadas) e grafismos puros
(espirais e motivos geométricos) finamente picotados com instrumento lítico ou ósseo

101
pontiagudo, de gume inferior a 0,5 cm, através de percussão direta. Coordenadas
2°17'52.70"S 61° 4'14.50"W/UTM 20 M 714554 9745858. Sujeito à submersão plena
10 meses ano.

IV.i.j. Madada 2 - Ocorrência de fragmento de grafismo bastante intemperizado, não


permitindo identificação morfológica nem técnica, salvo suposição de estar relacionado
com o sítio Madada 1 pela proximidade geográfica. È provável que tenham existido
outros grafismos no mesmo bloco, hoje desaparecidos pelo intemperismo. Coordenadas
2°17'54.10"S 61° 4'14.40"W/ UTM20 M 714556 9745816. Sujeito à submersão plena
10 meses ano.

IV.i.l. Ilha das Andorinhas - Trata-se de uma ilhota rochosa granítica de mais ou menos
300 por 150 metros de área no meio de um dos canais fluviais do rio Negro entre as
localidades de Moura e Carvoeiro, margem direita. Apresenta, em princípio, 5 painéis
documentados em novembro de 2008 com grafismos em diversos estados de
conservação, mas de modo geral, bastante intemperizados. Zoomorfos são majoritários,
mas dois antropomorfos, do tipo ‘flautista’ e um grafismo de composição com vários
antropomorfos de braços dados, também integram o corpus do sítio. Coordenadas
1°23'58.74"S 61°44'59.82"W UTM 20M 0639119 / 9845301 Precisão: 9 metros
Altimetria: 15 metros. Sujeito à submersão 9 meses ano.

IV.i.m. Santa Helena 2 - Afloramentos graníticos marginais no extremo NW de uma


ilha situada entre a margem direita do rio Negro acima da vila de Sta. Helena e um canal
interno que dá acesso a vila citada. Predominam zoomorfos em 2 painéis e um grande
grafismo puro em um terceiro painel todos próximos. Localização: 1°23'36.06"S
61°47'54.24"W UTM 20M S 633722 W 9846606 Precisão: 8 metros Altimetria: 18
metros. Sujeito à Submersão 10 meses ano.

IV.i.n. Guariba 2 – Afloramentos graníticos na margem direita do Negro de frente para


a conhecida ilha do Guariba. Trata-se de 3 painéis contendo grafismos puros, que os
locais chamam de ‘arraias’ (círculos concêntricos com com apêndices retilínios basais).
Há ainda um grafismo antropomórfico isolado num quarto painel, semelhante ao tipo
flautista identificado na Ilha das Andorinhas. Localização: 1°23'57.30"S 61°48'9.84"W
UTM 20M S633247 W9845348 Precisão: 10 metros Altimetria: 14 metros, sujeito à
submersão 10 meses ano.
102
IV.i.o. Pedra da Vovó – Trata-se de blocos semi-submersos, que devem se tornar uma
ilhota rochosa em maiores estiagens, no meio de um dos canais de desembocadura do
rio Jauaperi na margem esquerda do rio Negro. Na margem esquerda desse canal
também se encontra um afloramento granítico com gravuras distando 150 metros da
ilhota. Portanto, foram definidas duas áreas de concentração gráfica na Pedra da Vovó,
pv 1 para a ilhota que dá nome ao sítio, e pv 2 para os afloramentos marginais.
Zoomorfos são majoritários, inclusive um performando uma ação antropomórfica do
‘toque de flauta’. Localização: 1°33'7.92"S 61°28'23.16"W UTM 20M S0669915
W9828415 Precisão: 10 m Altimetria: 11 m, sujeito a submersão 10 meses ano.

IV.i.p. São Pedro - Trata-se de um afloramento granítico na margem esquerda do rio


Jauaperi acima da comunidade São Pedro. Apresenta apenas um painel gráfico contendo
4 unidades abstratas, semelhantes ao tipo ‘arraia’ na definição do caboclo. Localização:
1° 4'27.36"S 61°33'18.30"W UTM 20M S 660832 W 9881261 Precisão: 10 m
Altimetria: 17 m, sujeito à submerção 10 meses ano.

IV.i.q. Arara Vermelha – Sítio abrigado encimando uma pequena colina composta por
matacões graníticos acomodados uns sobre os outros. No espaço abrigado interno de
aproximadamente 4,5 metros por 3,5 metros encontramos dois painéis em paredes
opostas, O maior e mais complexo deles mede 4,5 metros de comprimento por altura
máxima de 2,80 metros e está densamente preenchido (painel 1). Enquanto no oposto
(painel 2) constam apenas algumas unidades esparsas bastante intemperizadas, uma
delas com aplicação de pigmento no interior. Um bloco semi-soterrado bloqueia a
passagem ao fundo do abrigo, nele também estão gravadas figuras abstratas (painel 3).
Há ainda um quarto painel verificado fora da área abrigada principal, estando um em
nicho menor igualmente abrigado e escavável, apresentando apenas duas unidades
claramente superpostas (painel 4). O sítio ainda apresenta um grafismo antropomórfico
isolado do lado de fora na ‘entrada’ do abrigo (painel 5). Predominam grafismos puros
nos painéis 1, 2 e 3, com uma tendência a verticalidade morfológica e cenográfica no
painel 1. Os painéis 3 e 5 estão visivelmente melhor conservados indicando diversos
momentos de confecção de gravuras no sítio. Dois zoomorfos quadrúpedes perfilados
em superposição aos grafismos puros assemelham-se aos zoomorfos da área amostral 1,
bem como a morfologia elementar de alguns antropomorfos também apresentam

103
correspondência. Localização: N 00°51’13.4” W 60°07’55.4”. Altimetria: 111 metros.
Precisão: 12 metros.

IV.ii. Os Perfis Gráficos na Área Amostral 1

Neste momento analítico nós estamos trabalhando no nível dos perfís gráficos de
sítio, sobre os quais estamos tecendo os primeiros contrastes e analogias visuais, que
pelas mesmas razões são provisórios, conjecturais e guardam ainda considerável
ambiguidade. É válido perceber que ainda não estamos definindo identidades gráficas
ou estilos e tradições por óbvias razões de restrições analítico-quantitativas na amostra,
e porque ainda não aplicamos métodos estatístico-matemáticos rigorosos de
agrupamento e segregação (Cladística e Cluster), que consideramos necessários em
adição a observação direta e fotografia dos painéis de registros rupestres em suporte de
nossas analogias visuais e procedimentos analíticos preliminares.
Embora dois desses perfis gráficos possuam corespondências analógicas em
mais de um sítio, nós não consideramos que seja possível afirmar que eles integrem as
mesmas identidades gráficas, nem que temos apenas os três (3) perfis propostos na
amostragem. Possivelmente, os sítios que estamos segregando desta forma possuem
mais de um perfil gráfico cada (suspeitamos particularmente de Pedral Velho Airão e
Unini 2), o que pode introduzir considerável ruído e ambiguidade no nosso esquema de
segregação temporário. Todavia, nós sustentamos a posição de que a área amostral 1
pode ser dividida desta maneira grosseira e que tal divisão expressa distintos modos de
pensamento gráfico (Renfrew 2007) formalmente identificáveis.
Considerando o acima exposto, enquanto uma tentativa taxonômica preliminar,
foi possível dividir o corpus disponível na área amostral 1 em três grupos que aglutinam
em si distintos perfis gráficos:
- Perfil Gráfico Velho Airão.
- Perfil Gráfico Rio Negro.
- Perfil Gráfico Unini.

IV.ii.a. Perfil Gráfico Velho Airão

O perfil gráfico Velho Airão foi definido a partir da análise de quatro sítios
rupestres localizados entre a comunidade ribeirinha de Velho Airão (sítio histórico e
104
pré-colonial) e o baixo curso do rio Jaú, dentro e adjacente ao Parque Nacional do rio
Jaú. Uma adição posterior a este perfil gráfico foi o painel arenítico horizontal do sítio
Unini 4, encontrado isoladamente numa ilhota rochosa no segundo conjunto de
corredeiras subindo o rio Unini. Este perfil recebe seu nome do Pedral Velho Airão (S
01° 55' 09.9" W 061° 24' 14.8") um conjunto de afloramentos areníticos ribeirinhos
assim batizado dada sua proximidade com a supracitada comunidade. Nele encontramos
a maior concentração de petróglifos documentada na amostra que se extende por 430
metros de praia com afloramentos, blocos e matacões areníticos da formação sedimentar
Prosperança compreendendo 8 áreas de concentração gráfica contendo de 1 a 5 painéis
cada, totalizando centenas de unidades gráficas (petróglifos individuais).
Tecnologicamente, nenhuma observação acurada e específica pôde ser feita
devido ao que entendemos ser resultado de condições intempéricas extremamente
adversas afetando esses petróglifos. Não sendo possível uma observação satisfatória
das marcas técnicas e da cadeia técnico-operatória. O que pode ser dito baseado nas
raras figuras bem conservadas é que percussão direta foi utilizada (e talvez
minoritariamente percussão indireta [mas ver Bednarik 2007:37]). Provavelmente
foiexecutada com um implemento de seixo de quartzo pontiagudo, com uma superfície
percussiva medindo entre 1 cm e 0,5 cm, a julgar pelas pequenas marcas de percussão
direta, largura, profundidade e textura da superfície interna e morfologia do contorno
dos poucos traços preservados.
Nós presumimos percussão indireta minoritária, baseado em experimentos de
confecção de gravuras testados num calhau não intemperizado da mesma rocha matriz
utilizando um seixo de arenito recristalizado, matéria disponível no local, e de quartzo.
Baseado nisso entendemos que a precisão de alguns sulcos, sua espessura e o controle
no direcionamento do traço, principalmente nas linhas circulares e espiraladas presentes
em muitas figuras podem ser indicadores de percussão indireta. Contudo, afirmar isso
para todo sítio e perfil gráfico permanece equívoco devido a alteração tafonômica.
Esperamos no futuro próximo aplicarmos observações a partir de microscopia de campo
para refinar a definição das características técnicas.
Tematicamente, nós percebemos uma maioria de figuras antropomórficas como
tema central, associada a uma minoria de unidades gráficas não-reconhecíveis,
abstratas, principalmente diversas modalidades de espirais, conjuntos de cúpulas e
linhas onduladas, bem como o motivo que Reichel-Dolmatoff (1976) identifica como
105
exogamia a partir dos Tukano atuais. Representações zoomórficas são extremamente
raras mas ocorrem no pedral velho Airão, inequivocamente, ao menos em um painel
contendo 5 unidades gráficas, aparentemente quadrúpedes, mamíferos, com cabeça
arredondada sem traços distitivos e cauda terminada em espiral (à semelhança de
primatas), seus tamanhos variam entre 15 cm e 25 cm. Outras duas unidades
zoomórficas podem ser identificadas em outro painel mas guardando tamanha alteração
intempérica que sua afirmação categórica torna-se difícil.
Já entrando no aspecto morfológico, a apresentação gráfica dos antropomorfos
varia bastante internamente, mas de maneira geral retem certas características
constantes tais quais: tamanho com tendência para médias a grandes proporções (entre
cinquenta [50] cm e um metro e quarenta [1.40] cm); linha de contorno do corpo
simples ou dupla (sem preenchimento da parte interna); atributos sexuais distinguíveis;
grandes barrigas ovaladas à angulosas com umbigo e peitos assinalados; posturas fixas
com membros estendidos e flexionados para cima, alguns exibindo os dedos das mãos
(3); características faciais (olhos e boca); cabeças arredondadas algumas apresentando
projeções lineares radiais na parte superior indicando possível ornamento; e diversas
modalidades de estilização nas constituições morfológicas de partes do corpo (cabeça,
tronco e membros) representados com convenções morfológicas não naturalistas (e.g.,
extremidade dos membros convertidas em espirais). Estas características nos levam a
pensar que estes antropomorfos não seriam representações de seres humanos, mas de
entidades com natureza extraordinária, assumindo-se uma correlação entre morfologia
antinatural e propriedades comportamentais e poderes atribuíveis.
A cenografia dos antropomorfos é basicamente a apresentação em grupos de
indivíduos com disposição frontal, mas não em contato gráfico direto, semelhante a
cenas coletivas ou um tipo de narrativa cênico-visual onde os temas performados não
podem ser identificados por nós. Alguns desses grupos aparecem numa disposição de
cabeça para baixo apresentando pequenas figuras antropomórficas ambíguas em
conexão gráfica ou em espaço de inclusão entre as pernas e a genitália. Estas são bem
chamativas lembrando cenas de parto e sugerindo a representação de adultos e infantes,
ao menos em dois painéis distintos puderam ser identificadas em Velho Airão. O
aspecto contra-natura dessas representações e relações se torna mais visível quando se
percebe que este aparece não apenas nos atributos morfológicos das figuras
antropomórficas mas também na apresentação das disposições espaciais e posturais das
106
figuras. O sítio sofreu impacto de mineração histórica para extração de pedras usadas
na construção da cidade de Velho Airão. É possível que tal atividade tenha afetado os
blocos gravados mudando suas posições e afetando os padrões locacionais dos painéis,
inclusive virando-os de cabeça para baixo. Tal constatação introduz ambiguidade na
afirmação de que o posicionamento contra-natura de algumas figuras e painéis seria
uma escolha cultural dos autores originais.
Diversas modalidades de interação podem ser discernidas entre antropomorfos e
grafismos puros definindo composições. Dificilmente grafismos puros aparecem
isolados, e quando assim o fazem, parecem reter semelhança com algum caráter
antropomórfico decomposto e estilizado tais quais, faces com grandes olhos, ou apenas
os membros convencionados em espiral. Em geral, a regra parece ser a da associação
gráfico-espacial entre antropomorfos e grafismos puros (abstratos), com proeminência
para os primeiros. As raras figuras zoomórficas são mostradas em grupos e, ao menos
em um painel onde ocorrem, estão associadas ao contorno de uma forma humana em
espaço de inclusão.
Acerca das escolhas geomorfológicas, no que diz respeito à esse perfil gráfico, o
posicionamento dos painéis na espacialidade dos sítios é o carácter de maior interesse.
Neste aspecto o conjunto não parece apresentar nenhum padrão discernível em termos
de posicionamento geral dos painéis na paisagem rochosa interna ao sítio. De fato, este
poderia ser o padrão geomorfológico em si, isto é, a ausência de orientação uniforme
dos painéis. A maioria está disposta em planos de execução verticais e diagonais mas
variam muito na orientação geográfica, estando alguns orientados de costas para o rio
voltados para a floresta, outros estão orientados para as laterais rochosas da linha de
praia (W-E), e já outros se orientam para o rio, e, ainda há alguns em planos horizontais
que se voltam para o céu, embora estes sejam minoritários. Nenhum deles se mostra
orientado para baixo ocupando supefícies negativas (côncavas). De forma geral, essas
modalidades de situação espacial parecem estar proporcionalmente distribuídas, talvez
com uma leve tendência para a orientação fluvial ser predominante, que talvez indique
uma espécie de sinalizador fluvial. Porém, a maioria dos grafismos não pode ser
claramente visualizada do rio sendo necessário desembacar e caminhar por entre os
blocos para vê-los.
Como pode ser depreendido das considerações tecnológicas, a alteração
tafonômica por meios do intemperismo físico (erosão e exfoliação do arenito) e
107
biológica (micro-vegetal, espongiário [Cauixi], fungi e outras acresções e penetrações
intra-corticais de natureza orgânica) vem distorcendo a aparência física das marcas
técnicas e a constituição morfológica destes petróglifos de forma diversa e severa
(majoritariamente apagando as irregularidades da percussão, transmitindo um aspecto
homogêneo entre os espaços internos e externos dos petróglifos, restabelecendo
uniformemente o córtex rochoso). Esta evidência indica que a amostra integral deste
perfil gráfico tem estado sujeita a ação do intemperismo por longo tempo, desta forma
podendo ser muito antiga, talvez milenar. Nenhuma superposição foi possível ser
detectada de forma que não podemos falar de uma cronologia interna, mas parece
provável que estamos lidando com mais de um perfil gráfico e diferentes momentos de
execução baseado nas diferenças de estado de conservação. Mas, uma melhor
compreensão de tudo isso demandará mais investigação futura.

108
IV.ii.a.a. Imagens do Perfil gráfico Velho Airão

Figura 6. Localização geográfica do perfil gráfico Velho Airão (excetuando Unini 4). Fonte:
www.google.com

Figura 7. Distribuição espacial das 8 áreas de concentração gráfica (ACG) no Pedral Velho Airão. Fonte:
www.google.com
109
Figura 8. Contextualização geo-hidro-morfológica do Pedral Velho Airão. Dique de diabásio em primeiro
plano, com áreas de concentração gráfica 5 e 4 ao fundo (blocos areníticos caídos). Direção NE-SE.
Novembro 2006. Foto: R. Valle.

Figura 9. Contextualização geo-hidro-morfológica Pedral Velho Airão. Diabásio em primeiro plano e


afloramentos areníticos ao fundo na linha de floresta. Direção W-NW. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

110
Figura 10. Contextualização geomorfológica Pedral Velho Airão. Vista direção S. Novembro 2006. Foto:
R. Valle.

Figura 11. Contextualização geomorfológica do Pedral Velho Airão. Vista direção SE.Novembro 2006.
Foto. R. Valle.

111
Figura 12. Contextualização Geo-hidro-morfológica do Pedral Velho Airão. Vista SE. Novembro 2006.
Foto: R. Valle.

Figura 13. Contextualização Geo-hidro-morfológica Pedral Velho Airão. Direção E-SE. Novembro 2006.
Foto: R. Valle.

112
Figura 14. Pedral Velho Airão contextualização geomorfológica, posto de observação área de
concentração gráfica 3, voltado para W-NW.

Figura 15. Contextualização Geo-hidro-


morfológica Pedral Velho Airão. Vista NE-E. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

113
Figura 16. Vista do rio Negro em frente ao Pedral Velho Airão. Direção N. Novembro 2006. Foto: R.
Valle.

Figura 17. Área de concentração gráfica 6 (ACG 6) vista do rio. Plano geral de inserção ambiental.
Novembro 2006. Foto: R. Valle.

114
Figura 18. Plano de aproximação da ACG 6. Grafismos voltados para o rio. Novembro 2006. Foto: R.
Valle.

Figura 19. Plano de segregação de painel. ACG 6. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

115
Figura 20. Plano de segregação de unidade gráfica. ACG 6. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

Figura 21. Plano de segregação de painel. ACG 6. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

116
Figura 22. Plano de segregação de unidade gráfica. ACG 6. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

Figura 23. Plano de contextualização geo-hidro-morfológica, contrário ao rio. ACG 6. Novembro 2006.
Foto: R. Valle.

117
Figura 24. Plano de segregação de painel. ACG 6. Novembro 2006. Foto:R. Valle.

Figura 25. Plano de segregação de unidade gráfica. ACG 6. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

118
Figura 26. Plano de contextualização geomorfológica da área de concentração gráfica 5. Direção do plano
SE. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

Figura 27. Plano de segregação da ACG 5, Painéis 1 e 2 (ao fundo). Novembro 2006. Foto:R. Valle.

119
Figura 28. Plano de segregação de painel 1. Posto de observação oblíquo, de baixo para cima. ACG 5.
Novembro 2006. Foto: R. Valle.

Figura 29. Plano macro de detalhe técnico e tafonômico. Região ventral de antropomorfo painel 1. ACG
5. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

120
Figura 30. Plano perpendicular de segregação da ACG 5, painéis 1 e 2. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

Figura 31. Plano oblíquo, direção NE-SW, de segregação de painel 2, ACG 5. Novembro 2006. Foto: R.
Valle.

121
Figura 32. Plano perpendicular de segregação do painel 2, ACG 5. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

Figura 33. Plano de segregação de unidades gráficas, ou campo cenográfico. Painel 2, ACG 5. Novembro
2006. Foto: R. Valle.

122
Figura 34. Plano de contextualização geomorfológica dos painéis 2 e 3, da ACG 5. Posto de observação
direção NW-SE. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

Figura 35. Plano de aproximação painéis 2 e 3, ACG 5. Novembro 2006. Foto: R. Valle.

123
Figura 36. Plano de segregação de unidade gráfica, painel 3, ACG 5. 11-2006. Foto R. Valle.

Figura 37. Plano de contextualização geomorfológica de unidade gráfica na parte posterior do painel 3,
ACG 5. 11-2006. Foto: R. Valle.

124
Figura 38. Plano de segregação de unidade gráfica com bom estado de conservação. Painel 3, ACG 5. 11-
2006. Foto: R. Valle.

Figura 39. Plano de aproximação em unidade gráfica, painel 3, ACG5.11-2006. Foto: R. Valle.

125
Figura 40. Plano de segragação de detalhes técnicos e tafonômicos. No detalhe o busto da figura. Unidade
gráfica painel 3, ACG5,11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 41. Plano de segregação de detalhe técnico e tafonômico. Cabeça e face. Painel 3, ACG 5. 11-
2006.Foto: R. Valle.

126
Figura 42. Plano de contextualização geomorfológica, painel 4, ACG 5. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 43. Plano de segregação do painel 4, ACG 5. 11-2006. Foto: R. Valle.

127
Figura 44. Plano de segregação de detalhe técnico e tafonômico, busto e face. Marcas acima da cabeça
correspondem a um fragmento de outro grafismo, possivelmente zoomórfico. Painel 4, ACG5. 11-2006.
Foto: R. Valle.

Figura 45. Plano de segregação de detalhe técnico e tafonômico. Notar acresção biológica na face,
possivelmente um espongiário (cauixi). Painel 4 ACG 5, 11-2006. Foto: R. Valle.

128
Figura 46. Plano de contextualização geomorfológica de painel 5, ACG 5. Notar figuras antropomórficas
de cabeça para baixo com figuras menores saindo da zona genital. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 47. Plano de segregação de painel 5, ACG 5. 11-2006. Foto: R. Valle.

129
Figura 48. Plano de segregação de unidade
gráfica. painel 5, ACG 5. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 49. Plano de contextualização geomorfológica de ACG 4, no alto da formação rochosa, acima do
nível do rio cerca de 8 metros em 11-2006. direção do plano W. Foto: R. Valle.

130
Figura 50. Plano de segregação do painel 1, ACG 4. Notar pedras ao fundo em diferente nível topográfico
na formação. Desnível cerca de 7 metros de altura. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 51. Plano de segregação de campo cenográfico no painel 1, ACG 4. 11-2006. Foto: R. Valle.

131
Figura 52. Plano de aproximação no painel 1, segregação de campo cenográfico. ACG4. 11-2006. Foto:
R. Valle.

Figura 53. Plano de segregação de unidade gráfica, antropomorfo com projeção pendente no braço direito
(utensilho?). Painel 1, ACG 4. 11-2006. Foto: R. Valle.

132
Figura 54. Plano de contextualização geomorfológica do painel 1, ACG 2. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 55. Plano de segregação do painel 1, ACG 2. 11-2006. Foto: R. Valle.

133
Figura 56.
Plano de aproximação no painel 1, ACG 2. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 57. Plano de segregação de campo


cenográfico. Painel 1, ACG2. 11-2006. Foto: R. Valle.

134
Figura 58. Plano de contextualização geomorfológica da ACG 2. Na base do plano a direita se vê a parte
posterior do bloco do painel 1. Atrás vê-se uma elevação rochosa onde se situa o painel 5. 11-2006. Foto:
R.Valle.

Figura 59. Plano de contextualização geomorfológica da elevação rochosa na ACG 2 onde se situa o
painel 5, no ponto mais alto do sítio. 10-2007. Foto: R. Valle.

135
Figura 60. Plano de aproximação ao topo da elevação rochosa na ACG 2. Pode-se identificar uma unidade
gráfica antropomórfica do painel 5. 10-2007. Foto: R. Valle.

Figura 61. Plano de segregação de unidade gráfica antropomórfica no painel 5, ACG2, no alto da
formação rochosa, observa-se mesma unidade da figura 60. 10-2007. Foto: R. Valle.

136
Figura 62. Plano de segregação do painel 5, ACG 2. No topo da elevação. 10-2007. Foto: R. Valle.

Figura 63. Plano de segregação de campo cenográfico, painel 5, ACG 2. 10-2007. Foto: R. Valle.

137
Figura 64. Plano de segregação de unidade gráfica antropomórfica, painel 5, ACG 2. 10-2007. Foto: R.
Valle.

138
Figura 65. Plano de segregação de unidade gráfica, Painel 5, ACG 2. 10-2007. Foto: R. Valle.

139
Figura 66. Plano de segregação de unidade gráfica, painel 5, ACG 2. 10-2007. Foto: R. Valle.
140
Figura 67. Sítio Jaú 3, plano de contextualização geo-hidro-morfológica. Direção W-SW. 11-2006. Foto:
R. Valle.

Figura 68. Sítio Jaú 3, plano de contextualização geo-hidro-morfológica. Direção E-NE. 11-2006. Foto:
R. Valle.
141
Figura 69. Sítio Jaú 3, plano aproximação ao painel. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 70. Plano de segregação de campo cenográfico, painel do sítio Jaú 3. 11-2006. Foto: R. Valle.

142
Figura 71. Plano de segregação de unidade gráfica, painel do Jaú 3. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 72. Plano de segregação de unidade gráfica no painel do Jaú 3. 11-2006. Foto: R. Valle

143
IV.ii.b. Perfil Gráfico Rio Negro

O perfil gráfico Rio Negro foi definido com base num único sítio no arenito
Prosperança, denominado Pedral Rio Negro (S 01° 53' 01.1" W 061° 26' 36.6") por
estar situado diretamente neste rio e não ter sido possível a coleta de um nome
vernacular local. Este sítio contém 4 áreas de concentração gráfica, a maioria delas
contendo apenas um painel cada e estando uma delas parcialmente submersa quando de
nosso contato, não podendo ser fotografada na íntegra. Quantitativamente e em termos
espaciais é uma amostra inferior ao Pedral Velho Airão, apresentando apenas algumas
dezenas de unidades gráficas.
Tematicamente, temos um contraste grande neste sítio materializado na
ocorrência massiva de figuras abstratas, não-reconhecíveis, ou grafismos puros (na
terminologia de Pessis). Nenhuma figura pôde ser associada a uma temática figurativa
nem possuem morfologia reconhecível. De forma, que nós estamos considerando o
corpus deste sítio integralmente como de natureza hermética e indincadora de um tipo
de pensamento gráfico completamente diferente. Mesmo em termos comparativos com
a amostra de grafismos puros de Velho Airão não foi possível o estabelecimento de
analogias inequívocas, apesar de semelhança de uma das unidades no painel submerso.
Uma outra unidade gráfica parece ser a esquematização geométrica de uma face ou de
uma máscara, mas retendo tanta ambiguidade formal que nós não podemos
categoricamente assumir isso.
Cenograficamente observamos alguma variação entre as áreas de concentração
gráfica. Duas situações puderam ser identificadas: uma apresentando maior
concentração onde o espaço gráfico está densamente ocupado por unidades gráficas; e
outra situação mais esparsa com espaços vazios maiores entre as unidades, áreas sem
interferência técnica. Apesar da ambiguidade de definir cenas em contextos visuais não-
reconhecíveis, sem narrativa, neste caso, ao menos, o estado de conservação permite
que se perceba onde uma unidade termina e outra começa. E no âmbito do componente
interativo da dimensão cenográfica, esta condição identificatória é a propriedade-chave
para se entender o preenchimento morfo-topológico do espaço gráfico, pois torna
discerníveis os arranjos sintáticos nas figuras (configurações de atributos morfológicos)
e entre as figuras (configurações cenográficas). Por enquanto, no nível que estamos na
144
análise interna deste sítio, nenhum padrão associativo entre unidades nos painéis ou
recorrências internas de figuras individuais puderam ser detectadas. Os painéis parecem
ser compostos gerais de morfologias únicas desde uma perspectiva interna ao sítio,
quanto por uma perspectiva externa comparando com outros sítios (apesar disso, duas
unidades situadas em painéis diferentes parecem guardar correspondência morfológica
com unidades abstratas do Perfil gráfico Velho Airão).
Tecnologicamente, as marcas de percussão estão visíveis em todos os painéis,
em uns menos noutros mais (o painel semi-submerso na coleta de novembro de 2006 é
uma exceção pois as marcas técnicas não podem mais ser visualizadas). Observações
mais precisas apontam para uma predominância de marcas de perscussão direta nas
unidades suficientemente conservadas para permitir tal identificação. Mas, acreditamos
que percussão indireta também tenha sido empregada. Novamente, a base para
desconfiarmos da presença dos dois processos percussivos é a experimentação
comparativa de confecção de petróglifos com o mesmo tipo de rocha matriz como
suporte e usando ferramentas oriundas da litologia local (seixos de arenito recristalizado
e de quartzo). A observação paciente das marcas percussivas in situ e a partir de macro-
fotografias de detalhes de atributos dentro das unidades também foi adotada na
definição preliminar do aspecto tecnológico dessas gravuras. Nesses elementos
tecnológicos encontramos correspondência com a dimensão técnica do perfil gráfico
Velho Airão (o que entendemos também ser condicionado pela matriz rochosa
compartilhada entre esses sítios). Se em Velho Airão não podemos fazer uma análise
das técnicas de execução de maneira adequada pelas marcas deixadas, em Pedral Rio
Negro, ao menos na área de concentração gráfica 1, melhor conservada, nós temos um
conjunto de marcas menos alteradas, dentro do qual diferentes tipos de percussão
podem ser observados indicando, possivelmente, diferentes tipos de instrumentos e
diferentes momentos de execução.
As técnicas variam de uma percussão direta superficial e errática a uma
percussão, aparentemente, indireta profunda e precisa. A percussão direta (1 mm a 4
mm de profundidade por 1 cm 3 cm de largura) rompe suave e erraticamente o antigo
córtex indicando uma mão vacilante utilizando, provavelmente, um seixo pequeno e
pontiagudo. A percussão indireta pode ter sido usada na confecção de marcas profundas,
largas (four [4] to six [6] cm in length by two [2] to four [4] cm in depth) e com
contornos morfologicamente melhor definidos penetrando na matriz arenítica, indicando
145
considerável esforço e, ou, um sucessivo retoque de marcas antigas salientando-lhes as
propriedades físicas com um instrumento rombudo maior, possivelmente batido com um
implemento mais pesado tipo martelo. O estado de conservação geral da área de
concentração gráfica 1 (ACG1), considerado bom, permite observar o contraste entre a
cor e a textura do antigo córtex marrom escuro aparentemente oxidado com a matriz
alaranjada vívida do arenito dentro das marcas percutidas pouco erodidas e repatinadas
que ainda são visíveis. Estas características da área de concentração gráfica 1 fazem
deste sítio uma peça de evidência técnica interessante que merece análises técnicas
posteriores mais precisas.
Em um painel vertical, um grupo de cúpulas profundas (chegam até a 7 cm de
profundidade por 3 de largura) foi executado com polimento fino deixando um alto grau
de homogeneidade textural nas superfícies internas dessas marcas. Dada a posição
geomorfológica destas marcas no bloco rochoso (dentro de uma concavidade, uma
depressão interna, mas ainda em verticalidade geral) nós não pudemos entender ainda
como tais marcas foram feitas, e estamos considerando tal fenômeno como isolado.
Em termos geomorfológicos, a maioria dos petróglifos deste sítio está localizada
dentro de pequenos nichos abertos, recessos ao longo de 50 metros de um paredão
arenítico na beira de um canal do rio Negro praticamente dentro da correnteza do rio
com ampla visibilidade para os navegadores fluviais. A área de concetração gráfica 1 se
situa na linha de visão daqueles que descem a corrente do rio podendo ser visto a cerca
de 50 metros de distância do meio do canal. O sentido de uma sinalização fluvial chama
novamente nossa atenção, dessa vez com maior proeminência.
Julgando a partir do nível topográfico em seus posicionamentos no paredão,
estamos inclinados a supor a existência de mais petróglifos permanentemente embaixo
da água durante o clímax da estação de estiagem. Este padrão geral de localização
geomorfológica contrasta com o perfil gráfico Velho Airão, que não demonstra
aparentemente, nenhum padrão locacional específico. Em ambos os parâmetros
geomorfológicos que adotamos aqui, isto é, os painéis dentro do sítio (1) e o sítio dentro
da paisagem (2), os perfis Velho Airão e Rio Negro são igualmente contrastantes.
Tendo em mente, para efeito comparativo, o mesmo nível da água e a disposição das
formações rochosas com respeito às superficies disponíveis à visão e ao uso, Pedral Rio
Negro apresenta uma uniformidade na disposição dos painéis, amplamente voltados
para o rio e num contexto de direto contato do suporte dos painéis com um canal
146
bastante dinâmico e fundo do Negro. Isto caracteriza a inserção do sítio numa paisagem
hidro-ambiental de entorno específica. Enquanto Velho Airão se encontra numa praia
arenosa com matacões, podendo ser este pacote arenoso de deposição recente, mas a
interação entre os painéis rupestres, seus respectivos suportes rochosos e o rio é
diferente, quando considerado o ponto de vista do observador fluvial.
Fatores tafonômicos apresentam ação diferencial considerando-se cada uma das
áreas de concentração gráfica. O que pode ser indicador de diferentes cronologias para
o tempo de disponibilidade ao intemperismo de cada painel. Outra implicação disso é a
ocorrência de intemperismo qualitativamente diferencial condicionado por locais mais
expostos ao poder erosivo da correnteza do rio, que aparentemente constitui a fonte
mais proeminente de intemperismo em ação aqui. Mas, dada a uniformidade
geomorfológica geral dos painéis, a conjetura acerca da erosão diferencial parece ser
menos plausível enquanto fator determinante na heterogeneidade dos estados de
conservação, levando-nos a considerar o cenário de cronologia diferenciada para a
execução dos painéis. Contudo, é plausível que ambos os processos estejam em curso
para definir os estados de conservação, diferentes momentos de execução e erosão
diferencial não são fatores excludentes. O mais recente deles seria o melhor conservado
(ACG 1), onde ainda se pode admirar as marcas técnicas da execução e em alguma
extensão, o contraste original entre o antigo córtex e a natureza interna das marcas
percussivas, em cor, textura e morfologia técnica. O painel mais velho, por essa lógica,
seria o que se encontra parcialmente submerso no clímax da seca e cujas unidades
encontram-se tecnicamente “lavadas” pelo rio quase permanentemente, apresentando
petróglifos severamente erodidos, onde consta uma recorrência morfológica entre uma
unidade deste e do pedral Velho Airão. Por esta linha de raciocínio, onde estabelecemos
uma direta proporcionalidade entre estado de conservação e cronologia de execução,
consideramos que o painel 1 do Pedral Rio Negro é comparativamente mais recente que
todos os outros grupos de petróglifos executados nos suportes areníticos na área, bem
como dentro do próprio sítio. Porém, sabemos que se trata de uma simplificação
tafonômica, pois diversos fatores combinados respondem por estados de conservação
diferenciados, onde erosão diferencial de partes mais susceptíveis do suporte e maior ou
menor antiguidade da obra se superpõem.

147
IV.ii.b.b. Imagens do perfil gráfico Rio Negro

Figura 73. Localização geográfica do Pedral Rio Negro. Fonte: www.google.com

Figura 74. Localização geográfica do Pedral Rio Negro. Fonte: www.google.com

148
Figura. 75. Plano de caracterização geo-hidro-morfológica geral do Pedral Rio Negro. Direção do plano
NW-SE 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 76. Plano aproximado de contextualização geo-hidro-morfológica Pedral Rio Negro. Tomada NE-
SW. 11-2006. Foto. R. Valle.

149
Figura 77. Plano aproximado de contextualização geo-hidro-morfológica Pedral Rio Negro, ACG 4.
Tomada NE-SW. 11-2006. Foto. R. Valle.

Figura 78. Plano aproximado de contextualização geo-hidro-morfológica Pedral Rio Negro, ACG 4,
tomada W-E. 11-2006. Foto. R. Valle.

150
Figura 79. Plano de aproximação, contextualização geo-hidro-morfológica, ACG 4, Pedral rio Negro.
Tomada SE-NW. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 80. Plano de aproximação do painel 1, ACG 4. 11-2006..Foto: R. Valle.

151
Figura 81. Plano de segregação de unidade gráfica painel 1, ACG 4. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 82. Plano de segregação de unidade gráfica, painel, ACG 4. 11-2006. Foto: R. Valle.

152
Figura 83. Plano de segregação de painel 2, ACG 4. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 84. Plano de segregação de unidade gráfica (ou de painel em considerando cada cúpula um
grafismo individual). Painel 2, ACG 4. 11-2006. Foto: R. Valle.

153
Figura 85. Plano de segregação de unidade gráfica, painel 2, ACG 4. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 86. Plano de contextualização geo-hidro-morfológica da ACG 3. Tomada N-S. 11-2006. Foto: R.
Valle.

154
Figura 87. Plano de aproximação do painel semi-submerso da ACG 3. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 88. Plano de segregação de unidade gráfica, painel da ACG 3. 11-2006. Foto: R. Valle.

155
Figura 89. Plano de caracterização geo-hidro-ambiental da ACG 1, painel 1. Tomada SW-NE. 11-2006.
Foto: R. Valle.

Figura 90. Plano de aproximação oblíqua do Painel 1, ACG 1. Tomado do mesmo posto de observação da
foto anterior. 11-2006. Foto: R. Valle.

156
Figura 91. Plano oblíquo do painel da ACG 1. Mostrando limite N do painel em contato com o rio.
Tomada SW-NE. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 92. Plano perpendicular de segregação do painel , ACG 1. Tomada W-E. 11-2006. Foto: R. Valle.

157
Figura 93. Plano de segregação de campo cenográfico, canto inferior S do painel da ACG 1. 11-2006.
Foto: R. Valle.

Figura 94. Plano de segregação de unidade gráfica. ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle.

158
Figura 95. Plano Macro de segregação de detalhe técnico e tafonômico da unidade gráfica no plano
anterior. 11-2006. Foto: R. Valle

Figura 96. Plano de segregação de unidade gráfica. ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle.

159
Figura 97. Plano de segregação de unidade gráfica. ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 98. Plano de segregação de unidade gráfica.


ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle.

160
Figura 99. Plano de segregação de unidade gráfica.
ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 100. Plano de segregação de campo cenográfico, setor inferior N do painel da ACG 1. 11-2006.
Foto: R. Valle.

161
Figura 101. Plano de segregação de unidade
gráfica. ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle

Figura 102. Plano de segregação de campo cenográfico. ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle.

162
Figura 103. Plano de segregação de campo cenográfico fechado. ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 104. Plano macro de segregação de detalhes técnicos (marcas de percussão direta visível) e
tafonômico. ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle.

163
Figura 105. Plano de aproximação em detalhe técnico de pigmento vermelho dentro da gravura
(aparentemente). ACG 1. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 106. Plano de segregação de unidade gráfica isolada no topo do painel. ACG 1. 11-2006. Foto: R.
Valle.

164
Figura 107. Vista do nicho da ACG 1.Tomada SW-NE. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 108. Plano de contextualização geomorfológica do espaço de transição ente ACG 1 e ACG 2. 11-
2006. Foto: R. Valle.

165
Figura 109. Plano de segregação do Painel 1 ACG 2. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 110. Planpo de segregação de unidade gráfica painel 1 ACG 2. 11-2006. Foto: R. Valle.

166
Figura 111. Plano de contextualização geomorfológica do painel 2 ACG 2. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 112. Plano de aproximação ao painel 2, ACG 2. 11-2006. Foto: R. Valle.

167
Figura 113. Plano de segregação de campo cenográfico. Painel 2, ACG 2. 11-2006. Foto: R. Valle.

Figura 114. Plano de segregação de unidade gráfica apresentando dois momentos de execução, o traço
externo a direita da figura é posterior, menos repatinado. Painel 2 ACG 2. 11-2006. Foto: R. Valle.

168
IV.ii.c. Perfil gráfico Unini

O perfil gráfico Unini foi definido inicialmente com base num único sítio, Unini
2 (S 01° 40’ 12.8 “W 061° 47' 32.2”) situado nos blocos graníticos do primeiro conjunto
de corredeiras subindo o baixo curso do rio Unini. Subsequentemente, outros 5 sítios
foram encontrados fora do Unini na área acima sua de foz, próximos a foz do rio Branco
e subindo o baixo curso do rio Jauaperi. Estes sítios apresentam analogias visuais que
sugerem conexões gráficas entre eles, todos executados em blocos graníticos, ao passo
que, apresentam características que os distanciam da amostra de sítios areníticos
compreendidos pelos perfis Velho Airão e Rio Negro.
As escolhas temáticas privilegiam aqui as figuras zoomórficas e, em menor
proporção, figuras antropomórficas. Quando estávamos considerando apenas o Unini 2,
nenhum grafismo puro foi situado dentro deste perfil. Mas, depois de contato positivo
com esse tipo de unidade gráfica nos outros sítios fora do Unini, foi necessária a
inclusão dessa classe temática. Todavia, esta inclusão não altera o caráter
prioritariamente zoomórfico do perfil gráfico Unini.
Morfologicamente e com respeito ao aspecto cenográfico deste perfil os
zoomorfos são representados, em geral, a médio e grande tamanho, alguns poucos se
situariam numa escala pequena entre 30 cm e 50 cm, mas a maioria excede essas
medidas chegando até a 160 cm. Eles apresentam preenchimento gráfico na área interna
do corpo e uma preferência pela representação de quadrúpedes em perfil e em aparente
movimento com pernas flexionadas, com características morfológicas na cabeça, tronco
e membros diferenciadas que permitem reconhecer distintas “espécies” de animais
como cervideos, primatas, serpentes, pássaros e outros menos evidentes. As
representações zoomórficas parecem não obedecer a posicionamentos organizados e
padronais no espaço gráfico, estando espalhados dentro dos painéis quando não estão
isoladas no plano. O que parece indicar que eles não se constituem em composições
narrativas. Uma excepção ocorre em Unini 2, onde se pode observar uma composição
que parece intencional e não acúmulo de diversas intenções, sugerindo uma cena em
que 4 pequenos passeriformes (20 cm cada aproximadamente) se arrajam em perfil um
atrás do outro numa fileira, por sua vez estando atrás de um outro zoomorfo distinto e
aparentemente superposto, cuja morfologia quadrúpede sugere uma mistura entre réptil
e mamífero (40 cm aproximadamente) todos eles apresentando a superfície da marca
169
técnica “fresca” sem repatinação ou formação de neo-córtex, indicando momentos
concumitantes e recentes de execução. No sítio Pedra da Vovó (UTM 20M S0669915
W9828415) um zoomorfo semelhante a primata, de perfil, segura na mão com o braço
flexionado para cima um objeto retilínio, o que estamos compelidos a interpretar como
uma flauta, levando-o a cabeça como se tocando o instrumento. Se fôssemos interpretar
etnograficamente tal composição entre um sujeito (antropo ou zoo), um gesto e postura
(levar a mão segurando um objeto à cabeça), e um objeto (segmento de reta) teríamos
três caminhos mais gerais: tocar flauta, fumar cigarro ou soprar zarabatana, sendo esta
última mais improvável pelas incompatibilidades posturais que o uso da zarabatana
impõe. Optamos aqui por designar essa encenação enquanto a temática de ‘toque de
flauta’ que também se mostra recorrente com figuras antropomórficas neste perfil.
Os antropomorfos se apresentam em duas situações cenográficas. Primeiro,
aparecem em grandes grupos com 10 ou mais indivíduos em conexão gráfica pelos
braços, dispostos frontalmente, com membros flexionados ou extendidos, e sem
apresentar nenhum caráter físico distintivo e explícito, como orgãos sexuais, traços
faciais e adornos. Estes grafismos de composição, ou cenas, se considerarmos cada
antropomorfo individualmente, se assemelham à representação de uma dança e, ou,
ritual comunal com contato físico. A outra situação em que antropomorfos aparecem é
enquanto indivíduos isolados. Alguns em perfil levando com a mão um objeto retilínio à
cabeça (tocando ‘flauta’ ou fumando um cigarro) e outros aparecem frontalmente com
membros extendidos. Nos dois casos percebem-se associações cenográficas com
zoomorfos no campo gráfico inclusivo, e nenhuma das modalidades de antropomorfos
isolados apresenta traços sexuais, faciais ou adornos distintivos (à exceção da suposta
‘flauta’).
Geomorfologicamente Unini 2 parece apresentar um padrão de locação espacial
no contexto interno da corredeira, bem como, dos painéis no contexto do sítio. Todos os
painéis estão voltados para o rio executados nas faces sul e sudoeste dos blocos siuados
na margem esquerda do rio (norte). A verificação dos blocos na margem oposta das
corredeiras não levou à identificação de petróglifos, que podem ter um dia existido mas
não sobreviveram, mas em princípio, esta ausência indicaria uma seleção
geomorfológica pelas rochas do lado esquerdo. Fora do rio Unini, o mesmo não pode
ser dito, mas em geral todos os petróglifos estão orientados em direção aos rios e canais,
e executados em tamanhos e em planos nos blocos que pemitem seu reconhecimento a
170
distância por observadores embarcados. Enquato essa situação os conecta com o sítio
arenítico Pedral Rio Negro, os distingue do perfil gráfico Velho Airão que em geral,
como dito, necessita que se desembarque na praia para que se veja a maioria dos
petróglifos.
A técnica de confecção de toda a amostra granítica do perfil gráfico Unini parece
empregar diferentes graus de abrasão enquanto o procedimento principal. Em algumas
unidades se encontram superfícies polidas, bem regularizadas, em outras apenas uma
raspagem superficial do córtex rochoso contrastando mais em cor do que em textura e
volume (assemelhando-se a técnica do sgraffitto [Bednarik 2007:38]), sendo esta
ultima modalidade aparentemente mais comum. È possível que um primeiro momento
de percussão direta tenha sido empregado no sentido de abrir o córtex rochoso, o que
fica sugerido nos traços de maior contraste volumétrico e maior irregularidade de borda,
para esboçar as figuras e criar o contraste inicial em cor, contraste e volume.
Posteriormente, a técnica abrasiva é adotada para uniformizar a textura interna e o
contorno do traço, e aprofundar o sulco. Esta última proposição acerca de técnicas
combinadas foi testada experimentalmente utilizando-se um calhau não intemperizado
do mesmo granito suporte e como implementos de gravação utilizamos um seixo de
quartzo fosco e areia quartzosa ambos disponíveis localmente. A experimentação
verificou abrasão direta e a percussão direta seguida de abrasão e esta última alcançou
resultados mais próximos ao que, estamos inferindo, seria a característica original do
gravado. O que parecem ser marcas residuais de percussão direta, não apagadas pela
abrasão, podem ser detectadas nos petróglifos em uma proporção muito baixa, mas,
reforçam a idéia de que percussão também esteve em uso no perfil Unini mesmo que
minoritariamente.
O predomínio das técnicas abrasivas no perfil gráfico Unini é quase seguro, e,
neste aspecto, em muito se distância das técnicas na amostra arenítica. Outro aspecto
notável são os sinais de reavivamento técnico, de retoque posterior, também por
abrasão, que são comuns em várias unidades, algumas vezes modificando a morfologia
pré-existente, podendo também alterar a temática e a cenografia das figuras e dos
painéis. Um exemplo interessante deste caso parece ser a figura de um cervídeo (Figura
138) em Unini 2 que, supomos, sofreu um reavivamento transformando-o num tipo
semelhante a um primata correndo na direção oposta, onde a calda do primeiro se

171
tornou a cabeça do segundo40(figura 137). È materialização das ressignificações
antigas, pré-coloniais e coloniais que nunca sessaram.
O aspecto tafonômico, em geral, aponta para um alto grau de intemperismo
alterando esses petróglifos ígneos, tanto por exfoliação quanto por repatinação e os dois
processos atuando juntos. Consequentemente, a maioria dos petróglifos nos blocos
graníticos está quase desaparecendo e se parecem com ‘sombras’ de figuras que já
foram mais contrastantes e visíveis quando de suas execuções originais. As causas
gerais para isso podem ser atribuídas ao contexto ribeirinho de submersão sazonal com
a alternância catastrófica da exposição solar por 2 a 3 meses ano, o que introduz forte e
contingente intemperismo físico. Além disso, embora seja crível que os granitos são
mais resistentes à erosão física que os arenitos, o mesmo pode não ser verdadeiro em
termos de intemperismo químico e biológico. Acreditamos que em alguma extensão
aquelas rochas ígneas estão sendo sujeitas a alteração geo-química pela acidez da água
preta, rica em ácido úmico derivado da decomposição de matéria orgânica e que se
deposita nas superfícies dos blocos. É plausível que a penetração de material orgânico
bio-ativo nos micro-espaços intersticiais dos poros do córtex granítico estejam
aumentando a desagregação das superfícies rochosas. O que pode inclusive criar
condições para o crescimento de colônias de microorganismos que podem promover
uma série de reações bio-químicas subsequentes, desconhecidas, atuantes junto ao
intemperismo físico mais geral.
Estas especulações geo-bio-químicas merecem ser investigadas em maior
profundidade, mas por ora o que pode ser dito é que o aspecto geral da amostra dos
petróglifos graníticos aponta para um aspecto de maior degradação que os petróglifos
areníticos. Isto posto, existem razões para tal estado de coisas, podendo ser uma questão
de cronologia e idade, ou intemperismo diferencial considerando os tipos distintos de
rocha, ou ainda, talvez, uma questão das diferenças tecnológicas empregadas na
confecção das gravuras. É possível que os três processos estejam em ação juntos, já que
não são excludentes. O fato é que os petróglifos graníticos aparentam ser mais antigos e
desgastados que o material arenítico. Diversos momentos gráficos podem ser
discernidos nos mesmos painéis graníticos pelos diferentes graus de repatinação nas
figuras, ou pelas superposições entre figuras, ou ainda pelos interessantes episódios de
40
Esta observação não é minha, foi sugerida pela Dra. Pessis examinando a foto em uma de nossas
comunicações pessoais.

172
reavivamento seletivo que modificam os sujeitos representados. Todos esses fatores têm
implicações cronológicas interessantes nas quais estamos trabalhando no momento.

173
IV.ii.c.c. Imagens do perfil gráfico Unini

Figura 115. Localização geográfica do sítio Unini 2. Fonte: www.google.com

Figura 116. Distribuição espacial das ACG’s do Unini 2. Fonte: www.google.com

174
Figura 117. Contextualização geo-hidro-morfológica do sítio Unini 2. Tomada NE-SW. 11-2006. F: RV.

Figura 118. Contextualização geo-hidro-morfológica de Unini 2. Tomada SW-NE. 11-2006. RV.

175
Figura 119. Plano de contextualização geomorfológica da ACG 1 Unini 2. 11-2006. RV.

Figura 120. Plano de aproximação oblíquo ACG 1, Unini 2..11-2006. RV.

176
Figura 121. Plano perpendicular de segregação do painel da ACG 1, Unini 2, nota-se grupo de
antropomorfos na base do painel, mais repatinados, podendo ser mais antigos que os zoomorfos. 11-2006.
RV.

Figura 122. Plano de segregação de campo cenográfico setor W do painel, com uma superposição do
serpentiforme sobre o campo cenográfico dos antropomorfos repatinados. ACG 1, Unini 2. 11-2006. RV.

177
Figura 123. Plano de segregação de unidade gráfica. ACG 1, Unini 2. 11-2006. RV.

Figura 124. Plano de segregação de campo cenográfico amplo (centro do painel), ACG 1, Unini 2. 11-
2006. RV.

178
Figura 125. Plano de segregação de campo cenográfico restrito (passeriformes em inclusão cenográfica
superpostos por zoomorfo não identificável). ACG 1 Unini 2.11-2006.RV.

Figura 126. Mesmo plano em negativo pelo photoshop, para otimizar leitura visual. ACG 1, Unini 2. RV.

179
Figura 127. Plano de segregação de unidade gráfica. ACG 1, Unini 2. 11-2006. RV.

Figura 128. Plano de segregação de unidade gráfica, morfologia indica quadrúpede com projeção cefálica
voltada para trás (cornos de um cervídeo?). ACG 1. Unini 2. 11-2006. RV.

180
Figura 129. Plano de contextualização geo-ambiental da ACG 2, Unini 2. 11-2006. RV.

Figura 130. Plano perpendicular painel, ACG 2, Unini 2. Tomada SW–NE. 11-2006. RV.

181
Figura 131. Plano perpendicular da ACG 2, Tomada SE-NW. 11-2006. RV.

Figura 132. Plano frontal da ACG 2, Unini 3. Tomada S-N. 11-2006. RV.

182
Figura 133. Mesmo plano em negativo. Nota-se unidades gráficas mais apagadas indicando cronologia de
execução, ao menos dois momentos gráficos podem ser discernidos, ou um episódio de reavivamento
posterior.

Figura 134. Plano de segregação de unidade gráfica, com morfologia cefálica específica. ACG 2, Unini 2.
11-2006. RV.

183
Figura 135. Plano de contextualização geo-hidro-morfológica ACG3, Unini 2. 11-2006. RV.

Figura 136. Plano de aproximação para o painel, ACG 3. Tomada SW-NE. 11.2006. RV.

184
Figura 137. Plano de segregação de unidade gráfica. Cervídeo com possível reavivamento seletivo
excetuando a cabeça, mais escura e repatinada diferencialmente, ACG 3, Unini 2. 11-2006. RV.

Fugura 138. Localização geográfica do sítio Pedra da Vovó, rio Jauaperi. Fonte: www.google.com

185
Figura 139. Localização geográfica do sítio Pedra da Vovó. Fonte: www.google.com

Figura 140. Contextualização geo-hidro-morfológica do sítio Pedra da Vovó, Rio Jauaperi. Tomada NE-
SW. 11-2008. RV.

186
Figura 141. A pedra da Vovó, plano de contextualização ambiental, ACG 1. 11-2008. RV.

187
Figura 142. Plano de segregação da ACG 1, Pedra da
Vovó. 11-2008. RV.

Figura 143. Plano de segregação de unidade gráfica. ACG 1, Pedra da Vovó. 11-2008. RV.

188
Figura 144. Plano de contextualização geo-hidro-morfológica da ACG 2. Pedra da Vovó. 11-2008. RV.

Figura 145. Plano de segregação de unidade gráfica, ACG 2, Pedra da Vovó. 11-2008. RV.

189
Figura 146. Plano de contextualização geo-ambiental da Pedra da Vovó 2 (PV2). ACG’s 3,4,5 e 6. Situa-
se 150 metros a NE da Pedra da Vovó. 11.2008.RV.

Figura 147. Plano de contextualização PV2, face posterior dos blocos, ACG 5. 11-2008.RV.

190
Figura 148. Plano de segregação da ACG 5 na face posterior de PV2. Antropomorfo “guardando” a
rachadura no bloco, ‘uma passagem para o inframundo’ (Whitley 1994). 11-2008. RV.

191
Figura 149. Mesmo plano que 149 em negativo.

192
Figura 150. Plano de segregação da ACG 3, zoomorfo e grafismo puro (“arraia”) PV2. 11-2008. RV.

Figura 151. Plano macro de segregação de detalhe técnico e tafonômico (pata traseira do Zoomorfo
ACG3, PV2). 11-2008. RV.

193
Figura 152. Localização geográfica do sítio Ilha das Andorinhas. Fonte: www.google.com

Figura 153. Lcalização geográfica do sítio Ilha das Andorinhas. Fonte: www.google.com

194
Figura 154. Ilha das Andorinhas, plano de contextualização geo-hidro-ambiental. Tomada NW-SE. 11-
2008. RV.

Figura 155. Plano de contextualização geo-ambiental Ilha das Andorinhas, blocos do setor S onde se
concentram as ACG’s. 11-2008. RV.

195
Figura 156. Plano de segregação da ACG 1, no setor S (sul) da Ilha das Andorinhas. 11-2008.RV.

Figura 157. Mesmo plano da 157 em negativo. É possível notar sinais de reavivamento nos membros e
nas extremidades do tronco mais escuras. 11-2008. RV.

196
Figura 158. Plano de segregação da ACG 4. Observam-se dois “flautistas” um no vcanto alto direito e
outro no canto inferior esquerdo. Ilha das Andorinhas. Setor S. 11-2008. RV.

Figura 159. Plano de segregação de campo


cenográfico na ACG 5, no detalhe o “flautista” e um passeriforme em inclusão. Ilha das Andorinhas. 11-
2008. RV.

197
Figura 160. Plano de segregação da ACG 2. Grafismo de composição, antropomorfos em conexão
gráfica. Ilha das Andorinhas. 11-2008. RV.

Figura 161. Plano de segregação de detalhe tafonômico da ACG 2, perda de massa rochosa recente,
indicando a coloração “fresca” da rocha granítica. Um dia todas as gravuras daqui foram dessa cor. 11-
2008. RV.

198
V. Da Ressignificação do Passado e Analogia Etnográfica

Originalmente este texto foi escrito como trabalho final da disciplina Tradição
Oral e Sociedades Indígenas, ministrada pela etnóloga Dra. Dominique Gallois no
programa de pós-graduação em Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da Universidade de São Paulo cursada pelo candidato no primeiro
semestre de 2009.
A discussão proposta trata de uma revisão crítica do método formal empregado
como a modalidade principal de coleta e de análise dos dados nesta pesquisa.
Entendemos que face ao processo de atribuição de significados e de usos sociais e
mitológicos pelas etnias do alto rio Negro (ARN) aos registros rupestres, não podemos
abrir mão de tentarmos entender como os petróglifos estão sendo reapropriados hoje.
Isto posto, consideramos que a arena a ser tratado tal fenômeno situa-se
contextualmente ligada aos processos de ressignificação do passado vinculados
permanentemente a reelaboração cultural e construção identitária da etnicidade que faz
a “viagem de volta” [Oliveira et al. 2004] ao passado, estando o sujeito no presente
etno-político.
A questão fundante, e que impõe o caráter, em princípo, utilitário e funcionalista
de nossa inquietação, é se a partir dos usos hoje dados pelos sistemas étnicos do Alto
Negro, podemos inferir usos pré-coloniais para os petróglifos e, fundamentalmente, se
esse processo pode resultar na construção de hipóteses refutáveis. Nossas observações
foram construídas ao longo dos 12 dias que passamos no rio Içana, TI Baniwa,
fotografando sítios e conversando com as pessoas em março de 2008.
Apesar da forte conexão que os Baniwa e outras etnias do ARN sentem com
relação aos petróglifos, arqueologicamente não temos, hoje, como atestar se tais grupos
pertencem às mesmas tradições gráfico-culturais que fizeram originariamente os
registros rupestres, sobre as quais desconhecemos os referenciais crono-culturais.
Portanto, por ora, definimos o tipo de relação mantida entre as etnias e as gravuras
enquanto uma ressignificação êmica do passado expressa eticamente no reavivamento
técnico petrográfico e pictográfico e na associação de conteúdos de caráter mitológico
às figuras, sem, no entanto, podermos afirmar categoricamente uma relação de
199
autoralidade originária, uma relação “filogenética” entre os primevos gravadores e os
atuais ressignificadores. Coloca-se uma questão em aberto: os sistemas conceituais que
ordenam os petróglifos nas mentes Baniwa são semelhantes aos conceitos gráficos das
mentes dos autores pré-históricos?
Face ao problema, introduzimos aqui uma importante consideração, sobre a
história das religiões, de Mircea Eliade, retirada de sua obra de referência, O
Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase (2002[1951]: 23-24), que nos atinge
frontalmente: “Mas nunca será demais repetir que não há a menor probabilidade de se
encontrar, em parte alguma do mundo ou da história, um fenômeno religioso ‘puro’ e
perfeitamente ‘original’. Os documentos paleoetnográficos e pré-históricos de que
dispomos não vão além do paleolítico, e nada justifica supor que, durante as centenas
de milhares de anos que precederam a mais remota Idade da Pedra, a humanidade não
tenha conhecido vida religiosa tão intensa e tão variada quanto nas épocas ulteriores.
É quase certo que pelo menos parte das crenças mágico-religiosas da humanidade pré-
lítica se tenha conservado nas concepções religiosas e mitológicas ulteriores. Mas
também é muitíssimo provável que essa herança espiritual da época pré-lítica não
tenha cessado de sofrer modificações, em decorrência dos numerosos contatos culturais
entre populações pré-históricas e proto-históricas. Assim, em nenhuma parte da
história das religiões lidamos com fenômenos ‘originais’, pois a ‘história’ ocorreu em
todos os lugares, modificando, refundindo, enriquecendo ou empobrecendo as
concepções religiosas, as criações mitológicas, os ritos, as técnicas do êxtase.”
Neste processo então, entendemos que o princípio da ressignificação, isto é,
atribuir novo significado, ou significar novamente, ou reconstruir um objeto conceitual,
faz parte da história da humanidade e da mente humana, e possui uma materialidade.
Deixa marcas. Abrimos aqui um paralelo com o princípio sintático da recurssão em que
nada é criado inteiramente do zero, em aspectos humanos, mas sempre por
recombinações de propriedades pré-existentes dos objetos. “(...) Nenhuma religião é
inteiramente ‘nova’, nenhuma mensagem religiosa elimina completamente o passado;
trata-se, antes, de reorganização, renovação, revalorização, integração de elementos –
e dos mais essenciais! – de uma tradição religiosa imemorial” (2002[1951]:24].
Nesta direção apresentamos um problema de pesquisa de cunho interpretativo
acerca dos usos sócio-rituais vinculados a arte rupestre na Amazônia Ociental, que não é
o viés adotado regularmente em nossas pesquisas. Portanto, trata-se de uma ruptura com
200
nossa própria metodologia e aportes teóricos. O que propomos não é um trabalho
acabado, mas um ‘manisfesto’ por um tipo de investigação de registros rupestres que
não é adotada no Brasil, por várias razões (explicitadas no texto).
É interessante observar que o processo da ressignificação do passado, que aqui
estamos pensando a partir dos estudos de João Pacheco de Oliveira ([org.] 2004;
Oliveira et all. 2003) que a insere em sua proposição acerca de uma “etnologia dos
índios misturados” sobre o problema da etnogênese no NE brasileiro, auxilia no
entendimento de como isso ocorre também na Amazônia, em maior ou menor grau, com
todas as etnias da região. Mais interessante ainda, é que foi no Nordeste do Brasil onde
se implantou e se definiu as linhas mestras da investigação rupestre totalmente
desligada da existência dos povos indígenas desta região, considerados, grosso modo,
como inexistentes, mestiçados, integrados, e sem relação com o passado indígena
colonial e pré-colonial. Natural que, portanto, o método formal de pesquisa de arte
rupestre no Brasil surgisse no NE e no SE, áreas de colonização antiga, com a missão
Franco-Brasileira. Portanto, temos uma relação de causalidade comum aí entre a
etnologia dos índios misturados e a exclusão de métodos informados da pesquisa com
registros rupestres no Brasil. As razões que levam a ambos os fenômenos são as
mesmas.
A Amazônia reúne condições de pensarmos esse fenômeno em sua repercussão
nos estudos de arte rupestre, especificamente na bacia do rio Negro. Porém, não nos
compete aqui advogar pela aplicabilidade de ferramentas etnológicas ‘recentes’ na
arqueologia, nem é esta nossa intenção quando citamos Pacheco, embora possa parecer.
Não se trata disto a nossa discussão. E a Etnologia dos Índios Misturados é só um
atalho teórico para nos aproximarmos da questão. Tão somente, problematizamos o
fenômeno e propomos alguns procedimentos expostos a seguir. Contudo, não estamos
promovendo, ou defendendo uma ruptura com o método formal, pois somos
inexoravelmente dependentes dele enquanto pesquisadores. Partiremos, pois, sempre
dele. Isto é, partiremos sempre, de uma forma ou de outra, de nossos procedimentos de
classificação e das classes resultantes.

V.i. Problema

Do uso da analogia etnográfica indireta (a partir de fontes secundárias sem


coleta etnográfica direta por parte do arqueólogo) como instrumento auxiliar na
201
construção de hipóteses sobre a confecção e os usos sócio-rituais dos registros rupestres
no rio Negro, AM.

V.ii. Proposição

Consideremos dois pontos:


1 - Os registros rupestres no rio Negro, NW da Amazônia brasileira, até onde se
conhece estão arqueologicamente descontextualizados (sem associação segura com
outros vestígios e sítios passíveis de escavação e datação);
2 - Os registros rupestres no rio Negro estão inseridos nos repertórios
cosmológicos, mitológicos, xamanísticos e etnohistóricos das etnias indígenas que
vivem na área desde período pré-colonial.
Tal conjuntura nos leva a pensar que o estudo dos registros rupestres no rio
Negro pede uma abordagem complementar entre procedimentos de método formal41,
que se baseia na identificação e mensuração de fenômenos através de categorias
analíticas orientadas por problemas cientificamente construídos pelo pesquisador a
partir do que ele observa no sítio, e procedimentos de método informado (Chippindale
& Taçon 1998; Taçon & Ouzman 2004), analiticamente dependente de um
conhecimento interno ao sistema que engendrou o código rupestre, um sistema de
conhecimento nativo, no caso, amerídio amazônico.

V.iii. Desenvolvimento

Tradicionalmente, os principais centros de investigação dos registros rupestres


no Brasil, Piauí/Pernambuco (Martin 1999; Pessis 2004) e Minas Gerais (Prous 1992,
1996) implantados com apoio da missão arqueológica franco-brasileira no fim dos anos
60 sob orientação da arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire (1962), adotaram
modelos teóricos críticos ao uso da analogia etnográfica e do registro etnográfico como

41
O sentido filosófico da expressão Formal, que aqui se faz menção, implica em ser “Relativo às leis, às
regras ou à linguagem próprias de determinado domínio do conhecimento, e que se consideram
independentemente do conteúdo, da matéria ou da situação concreta a que se aplicam.” (Aurélio –
Dicionário da Língüa Portuguesa). Neste caso as leis e regras são procedimentos protocolares do método
e do raciocínio científico, mas o conteúdo, matéria ou situação ao qual se demonstra independência seria
o contexto sócio-cultural e ritual que engendrou as gravuras, para o qual não haveria acesso “arqueo-
etnográfico”. Chippindale and Nash (2004:20) oferecem a seguinte definição de método formal: “any
method of study which does not depend on inside knowledge, but works by the features that can be
observed in the rock-art itself, or in its physical and landscape context;”

202
procedimento e fonte de informação relacionável à Pré-história. Assumindo uma
barreira epistemológica caracterizada, a priori, pela descontinuidade diacrônica entre as
tradições rupestres e os ameríndios etnografados. Por exemplo, a associação de alguns
tipos de registro rupestre com práticas e metáforas conceituais xamânicas42 etnografadas

42
Separamos aqui algumas considerações sobre xamanismo que achamos necessárias para uma
definição conceitual mais precisa o quanto possível, no âmbito dos interesses deste trabalho, aja vista que
este será um fenômeno recorrentemente citado. Partiremos de M. Eliade (2002[1951]) quando nos
fornece a formulação xamanismo=técnica do êxtase (2002:16). Isto é, o xamã é um especialista em um
transe, durante o qual se acredita que sua alma deixa o corpo para realizar ascenções celestes ou
descenções infernais (2002:17). Mais adiante coloca: Os xamãs são ‘eleitos’ e, como tais, têm acesso a
uma zona do sagrado inacessível aos outros membros da comunidade. (...) São seres que se singularizam
no seio de suas respectivas sociedades por certos traços que, nas sociedades da europa moderna,
representam marcas de ‘vocação’ ou, pelo menos, de ‘crise religiosa’. São separados do resto da
comunidade pela intensidade de sua própria experiência religiosa (2002:19-20). E vaticina: O xamã é o
grande especialista da alma humana; só ele a vê, pois conhece sua ‘forma’ e destino (2002:20).
Encontramos no Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1999) a seguinte definição para Xamã: “ (1)
Entre certos povos asiáticos (Sibéria), espécie de sacerdote ou médico-feiticeiro, que atua como
curandeiro e adivinho; (2) Em diversos povos e sociedades, especialista a que se atribui a função e o
poder, de natureza ritual mágico-religiosa, de recorrer à forças ou entidades sobrenaturais para realizar
curas, adivinhações, exorcismo, encantamentos, etc., e cuja atuação pode ou não envolver um estado de
transe. [Não há, na antropologia, consenso geral quanto à diferenciação precisa entre xamã, feiticeiro e
sacerdote. Costuma-se empregar o termo xamã (assim como xamanismo) no contexto dos povos asiáticos
setentrionais (inclusive os esquimós) e ameríndios, em que esse tipo de especialista tem papel social de
destaque.”
E acerca do xamanismo consta: “(1) Conjunto de crenças e práticas associadas às atividades dos xamãs;
(2) O sistema religioso dos povos asiáticos setentrionais (Sibéria), em que o xamã tem papel central como
agente capaz de interceder junto aos espíritos, considerados responsáveis pelos acontecimentos bons e
maus; (3) Por extensão: Designação dada a sistemas religiosos análogos de outros povos, especialmente
indígenas das Américas.”
Um marco divisor na etnografia do xamanismo amazônico, Viveiros de Castro (1986:602) nos diz que:
“O xamã Araweté, se é um “morto antecipado” – e o é porque, como dizia C. Hugh-Jones do xamã
Barasana (1979:113), ele é capaz de separar em vida os componentes de sua pessoa, metaforizando a
morte -, desempenha porém uma função vital e social; ele é um ser-para-o-grupo... O xamã é um vivente
por excelência, o representante dos vivos no céu, e o canal de transmissão dos mortos celestes; ele é um
mediador, que, ubícuo mas sempre distinto do que comunica, comunica o que está separado. Sua eficácia
depende exatamente de ele estar vivo, e trazer os mortos.”
Robert Wallis (2002) nos dá uma boa revisão recente da discussão sobre a aplicabilidade do paradigma
xamânico na arte rupestre pré-histórica. Suficiente dizer que: “Shamanism’ has been at the centre of
interpretative rock art research for well over a decade. A debate rages between so-called ‘shamaniacs’,
primarily Dowson (e.g. 1998a), Whitley (e.g. 1992), and Lewis-Williams (e.g. 1998),
and‘shamanophobes’, most vocally represented by Bahn (e.g. 1997; 1998), with comments from Quinlan
(1998), Solomon (e.g. 2000), and Kehoe (2000). This controversy began with Lewis-Williams’s (e.g.
1975; 1981) proposal of connections between Southern African rock art, nineteenth-century ethnographic
records of the San (Bushmen), and twentieth-century anthropological research on Bushman healing
practices in the Kalahari”.
Traçando uma comparação cross-cultural entre Tukano (Reichel-Dolmatoff 1972, 1976) do NW
amazônico e os San do Kalahari, África do Sul, David Lewis-Williams (2004: 132-133), o principal pivot
da teoria do transe xamânico associado a Altered States of Conciousness (ASC) na origem da arte
rupestre, nos coloca: “The word (Shamanism) derives from the Tungus language of central Asia. Today
this is a disputed word. Some researches feel that the term has been used too generally to be of any use
and that it should be restricted to the central Asian communities of its origin…We believe that
Shamanism usefully points to a human universal – The need to make sense of shifting consciousness…I
give a brief outline of what I take the word to mean when I use it to refer to ritual specialists in hunter-
gatherer societies:
203
no século XIX e XX demonstradas por pesquisas no sudoeste norte-americano (Whitley
1994; 1998), na África do Sul (Lewis-Williams & Dowson 1988; Lewis-Williams 2004)
e na Amazônia colombiana (Reichel-Dolmatoff 1971; 1976; 1978), não apresenta
correlatos nas pesquisas arqueológicas brasileiras. Partiríamos, aqui, de um
pressuposto teórico acerca das obras rupestres serem produtos de sistemas culturais e
formalizações gráficas há muito extintas que em nada ou em pouco se pareceriam com
as populações indígenas encontradas pelos europeus no século XVI, o que deve ser
verdadeiro para maior parte do acervo gráfico-rupestre no Brasil, segundo deduz-se das
datações arqueológicas obtidas em abrigos com registros rupestres em várias partes do
país, como no Piauí, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Pará e Mato Grosso (Pessis
1999, 2002, 2004; Martin 1997, 1987; Prous 1992, 2006; Roosevelt 1996, 2002; Miller
1983; Vilhena Vialou 2006) que situariam o grosso das tradições rupestres aqui
pesquisadas entre o pleistoceno final há 11.000 anos antes do presente e o holoceno
médio a recente entre, mais ou menos, 4.000 e 2.000 anos antes do presente.

- Hunter-getherer shamanism is fundamentally posited on a range of institucionalized altered


states of consciousness.
- The visual, aural and somatic experiences of those states give rise to perceptions of an
alternative reality that is frequently tiered (hunter-gatherers believe in spiritual realms above and
below the world of daily life).
- People with special powers and skills, the samans, are believed to have acess to this alternative
reality.
- The Behavior of the human nervous system in certain altered states creates the illusion of
dissociation from one´s body (less commonly understood inghuting and Gathering shamanistic
societies as possession by spirits).
Shamans are believed to:
- Contact spirits and supernatural entities.
- Heal the sick.
- Control the movements and lives of animal.
- Change the weather.
…facilitated by supernatural entities that include:
- Variously conceived supernatural potency, or power;
- Animal-helpers and other categories of spirits that assist shamans and are associated with
potency.”
Fernando Urbina (1993) numa análise relacional entre os petróglifos e a mitologia ameríndia do rio
Caquetá-Japurá (Colômbia-Brasil) nos faz, no entanto, uma advertência apropriada sobre a interpolação
entre xamanismo e arte rupestre na Amazônia, a partir do estudo crítico da obra de Reichel-Dolmatoff:
“Las interpretaciones del arte rupestre acuñadas por Reichel tienen como telón de fondo teórico el
"chamanismo", concepto que aún en la década del 60 no había hecho carrera afortunada en Colombia.
Hoy día se está dando una exagerada recurrencia a dicho concepto -y ya no sólo en Colombia- para dar
cuenta y razón de los complejos y diversos procesos del pensamiento indígena. Viene resultando otro
comodín que permite ensamblar todos los conjuntos, pero que corre la suerte de todas las panaceas
teóricas las cuales terminan por convertirse en tan generales que, a la postre, no explican nada. El arte
rupestre es múltiple. Algunas imágenes podrían ser interpretadas con muy buen juicio mediante la
hipótesis de Reichel (reciclaje energético con base en la existencia de un |Dueño-de-animales y de
Sabedores intermediarios -chamanes); pero no todas.”

204
Assumindo-se, pois, que quando da chegada dos europeus na América do Sul as
tradições gráficas ameríndias não estariam mais usando os suportes rochosos dos
abrigos, paredões, matacões e blocos ribeirinhos. Essa mudança não refletiria apenas
uma troca de suportes, mas acreditamos que estariam em ação transformações
conceituais mais profundas de caráter hitórico-cultural, ideológico-religioso e
adaptativo, estando este último aspecto possivelmente associado ao câmbio e posterior
estabilização das condições ecológico-climáticas atuais (ou pelo menos tais como as
encontradas na Amazônia do século XVI) a cerca de 3.000 anos antes do presente,
marcando a passagem de uma maior aridez com florestas e bosques secos abertos no
holoceno médio para maiores invernos e maior pluviosidade geral com expansão da
floresta tropical úmída no holoceno recente (Barse 2003; Colinvoux 1989; Meggers
1987; Meggers and Dannon 1988; Meggers & Miller 2003, Van der Hammen 1972,
1974, 1982; Behling et al. 1999; Behling and Hooghiemstra 1998).
Depreende-se dessa descontinuidade crono-cultural um segundo aspecto de
nossa tradição científica de investigação do registro rupestre que, de maneira geral, não
se atém ao significado originário do código, sendo o nível analítico da interpretação de
significado considerado inatingível epistemologicamente e desinteressante enquanto
problema de pesquisa. Orientou-se assim, à análise formal de significantes e de suas
relações materiais percebidas pelo pesquisador no espaço e no tempo buscando-se
padrões gráficos (Pessis 2002; Valle 2003) recorrentes em técnica, morfologia,
conteúdo temático, associações cenográficas, escolhas geo-ambientais, intemperismo e
cronologia gráfica objetivando gerar, a partir disso, perfis do fenômeno gráfico
comparáveis ao registro arqueológico mais amplo. Neste sentido a abordagem
arqueológica acima enunciada apresenta um caráter fenomenológico43, enquanto estudo
de fatos sensíveis e identificáveis pela cognição do pesquisador, culturalmente
diferenciada da cognição do nativo, arqueologicamente irrecuperável.
Entendemos que o uso da segunda abordagem enunciada na proposição, método
43
Fenomenologia aqui se utiliza enquanto relacionada ao “Estudo descritivo de um fenômeno ou de um
conjunto de fenômenos em que estes se definem quer por oposição às leis abstratas e fixas que os
ordenam, quer por oposição às realidades de que seriam a manifestação.” Refere-se às seguintes
definições filosóficas do termo fenômeno: “fato, aspecto ou ocorrência passível de observação”; “Fato de
interesse científico, susceptível de descrição ou explicação”; “Objeto de experimentação, fato”; “O que se
manifesta à consciência”; “No Kantismo, tudo que é objeto de experiência possível...que se pode
manfestar no tempo e espaço através da intuição sensível e segundo as leis do entendimento” (Aurélio-
Dicionário da Língua Portuguesa 1999).

205
informado e emprego de analogia etnográfica (Chippindale & Taçon 1998; Taçon &
Ouzman 2004; Chippindale & Nash 2004; Lewis-Williams, 2004; Whitley 1994, 1998),
só é possível, com segurança, mediante a disponibilidade de material etnográfico
referente à confecção e ao uso simbólico da arte rupestre por parte de populações
indígenas atuais ou inseridas no passado etnográfico (Bednarik 2007), situadas
tradicionalmente em justaposição ou contiguidade geográfica com sítios rupestres. Mas
permanecem problemas de verificabilidade na extrapolação dos dados etnográficos para
a Pré-história. No que se refere às tradições orais, memórias sociais e práticas gráficas
ameríndias etnografadas, o processo histórico diacrônico teria implicado em mudança
cultural, depopulação e deslocamentos geográficos vivenciados pelos nativos do Novo
Mundo desde a primeira metade do século XVI. Isto é lido pela linha de pesquisa com
arte rupestre no Brasil como um fator limitante no uso dessa abordagem, na real
validade desta documentação como combustível para formulação de hipóteses
contrastáveis, falseáveis, portanto científicas, na análise dos corpora gráficos pré-
históricos, neste caso, arqueologicamente descontextualizados.
Na ausência dos autores do código e de seus vestígios em contextos
deposicionais, com o que devemos confrontar nossas hipóteses?
O estudo da manifestação gráfica num contexto etnográfico, assumindo que
“sistemas representacionais ou sistemas de codificação gráfica são formas de
conhecimento cultural embutidas em contextos institucionais” (Morphy 1989:3), pode
fornecer informações sobre as condições internas de interpretabilidade do sistema
gráfico e sobre como isso regula “sistemas de conhecimento restritos, e como designa
papéis e status particulares”. Já em contextos pré-históricos o estudo da obra gráfica
pode permitir “a identificação da duração de um complexo institucional particular ou
identificar contextos nos quais códigos restritos devem ter sido usados” (Ibidem
1989:3).
O problema da identificação, reconhecimento e classificação semântico-
morfológica dos grafismos, se torna consideravelmente maior com a distância e o tempo
entre o processo social que construiu o fato (fenômeno) e a coleta de fragmentos do
mesmo (dados) pelo pesquisador, levando à irrecuperabilidade da dimensão semântica
pelos métodos formais arqueológicos. “O que é informação de rotina num contexto
etnográfico se torna em muitos contextos pré-históricos hipotético” (Ibidem 1989:4).
Depreende-se que desde o procedimento inicial que é a identificação da unidade gráfica
206
rupestre em arqueologia, até a segregação de estilos e interpretação da variabilidade, o
processo de investigação “seria mais simples de se resolver num contexto etnográfico
em que questões podem ser feitas diretamente ao autor do grafismo e à respectiva
audiência” (Ibidem 1989:5) desde que eles façam um uso consciente e do código
gráfico, o que nem sempre ocorre, e se disponham a falar sobre o tema, assumindo que
contem a “verdade”.
Anne-Marie Pessis, que desenvolveu os procedimentos teórico-metodológicos
perseguidos na análise formal deste trabalho, sendo a mesma uma das maiores
especialistas na investigação de registros rupestres no Brasil, tece as seguintes
considerações sobre “l’anthropologie préhistorique”: “Le travail de l’anthropologue sur
un corpus d’art rupestre préhistorique est complexe, car l’absence de contexte culturel
rend trés difficile tout essai d’interpretation rigoureuse, surtout pour ce qui reléve des
significations culturelles. Comme le Corpus n’offre, dans le meilleur des cas, que des
fragments de signification – dans le domains de l’art pariétal des répresentations
reconnaissable ou des compositions à thème roconnaissable – les possibilités de
reconstruire un contexte culturel sont fort réduites. Dans ces possibilités qu’offre le
matériel pictural et de glisser dans le conjectural, par peut conduire le spécialliste à
cherche appui, pour ses constructions explicatives, sur les théories de l’anthropologie
sociale, théories dont la validité pour la préhistoire reste encore conjecturale” (Pessis
1987:8).
Bednarik (2007), epistemólogo cognitivo, apresenta em sua obra de referência
Rock Art Science: The Scientific Study of Palaeoart, uma visão um tanto quanto cética e
crítica sobre a validade científica e heurística do uso da analogia etnográfica no registro
rupestre, salientando problemas tafonômicos na interpretação do registro arqueológico
e problemas de subjetividade e tradução na coleta de dados etnográficos, demonstrando
franca insatisfação com o que denomina de “archaeo-ethnographic interpretation”.
Separamos alguns trechos de suas considerações (2007: 155-157) que entendemos ser
de particular interesse: “For ethnographic art, at least some levels of meaning remain
accessible, and justify speculation about the function of such arts in the societies that
produced them. In some rare cases one may be able to interview a producer or
consumer of the art, in others there are established cultural traditions maintaining a
level of knowledge about the art that permits some access to its meaning.
However, the fallibility of ethnographic constructs, the problems of reconciling the
207
indigenous and ‘scientific’ (alien) conceptualisations of meaning, and the significant
question of whether ethnographic interpretations of meaning can be relevant in the
‘text-free’ record of the distant past all need to be considered. All humans, including
ethnographers, lack the ability to think outside of their severely limited intellectual and
cognitive universe (…) In analogical interpretations of rock art we rely on two types of
record: the source of the analogy (ethnographically ‘determined’ ‘meanings’, such as
those just discussed) and the subject of the analogy (the empirical data acquired about
a corpus of rock art). Archaeological data are severely distorted by many taphonomic
processes and it is clear that the discipline has not as yet found systematic means of
addressing this issue…We also know that most rock art is undated, or has only been
attributed to some archaeological pigeonhole on the basis of inadequate assessment.
Again, this is a shortcoming that can be addressed by improved research methodology
and a great deal of hard work. Now we are trying to relate these biased and distorted
archaeological data to the typically incomplete ethnographic interpretations that may
be no more appropriate than children’s stories. We would be naive to expect much of
such a procedure, which cannot be proposed or supported by anyone who has seriously
considered the issues. Yet this is precisely what ‘archaeo-ethnographic interpretation’
of rock art is.”
No Brasil, como dito, tal opção arqueo-etnográfica foi descartada face a quase
total inexistência de documentação que relacionasse registro rupestre às populações
nativas contatadas nas principais províncias gráfico-rupestres pesquisadas, áreas
situadas em regiões de colonização antiga, desde o século XVI (NE e SE), onde as
populações indígenas chegaram próximas à total “transformação” dos seus sistemas
culturais tradicionais e próximas ao completo desaparecimento físico. A
descontinuidade diacrônica, inexoravelmente resultante, impôs-se sobre as opções de
abordagem, sendo efetivamente mais seguro, produtivo e lógico olhar para o registro
rupestre integrado ao contexto arqueológico do que relacionado ao registro etnográfico.
Consideramos, no entanto, que existem populações indígenas no alto curso do
rio Negro (ARN), estado do Amazonas, região NW do Brasil, que ressignificam e
reavivam gravuras rupestres, atualmente inserindo-as em suas respectivas cosmologias e
mitologias (Reichel-Dolmatoff 1971, 1976, 1978, 1985; Koch-Grünberg 2005, 1907;
Wright 1998, 1992; Xavier 2008; Valle&Costa 2008), mas não sabemos até que ponto
elas estão criando materialmente novos sistemas de comunicação gráfica ou apenas
208
reutilizando as velhas marcas com novos significados no âmbito da ressignificação e
reuso de sítios rupestres, como ocorre na Bolívia e Colômbia com populações Aymara,
Quechua e outras (Querejazu-Lewis 1994; Munõz 2007, Urbina 1993).
Não sabemos se há alguma conexão filogenética distante entre essa manifestação
comportamental da prática gráfico-rupestre em tempos históricos recentes no ARN e os
sistemas antigos de petróglifos identificados na área e no médio-baixo curso da mesma
bacia. Acreditamos que não, em princípio, sob o artifício filosófico da parcimônia e do
conhecimento parcial da história indígena local do qual dispomos, mas, de fato, não
sabemos como testar nem a conexão nem a inexistência dela. A complexidade é bem
maior se pensarmos que podemos ter distintos phenomena gráficos na área associados a
toda sequência de ocupação da bacia, desde, pelo menos, o holoceno inicial, com 9.000
anos a.p. no baixo Negro, médio Caquetá e alto Orinoco (Costa 2008; Barse 2003;
Williams 1997, 1985; Cavelier et al. 1995), até o período histórico. Em situações como
esta o processo heurístico44 pede a elaboração e aplicação de outras questões
cientificamente mais pertinentes sobre as quais possamos formular hipóteses testáveis.
No entanto, consideramos necessário e interessante para a pesquisa com
registros rupestres no rio Negro que sejam, ao menos, visitados tais repertórios
xamânicos, cosmológicos, míticos e etnohistóricos das populações assinaladas na
etnografia regional que afirmem manter vinculações simbólicas com sítos rupestres,
como os Baniwa, Curripaco e Warekena (família Arawak Maipure) dos rios Içana e Xié
e os Tukano, Dêsana, Tuyuka, Wanano, Piratapuia (família Tukano Oriental) do Uaupés
e Tiquié. Sem que isso implique, contudo, na coleta etnográfica direta desses dados,
mas, numa consulta dirigida à literatura etnográfica disponível para a área (Amazônia e
NW da América do Sul) na busca por paralelos entre atividade ritual e xamanismo com
práticas gráficas associadas para delinearmos um modelo teórico interpretativo com o
qual poderíamos tentar extrapolar o nível analítico descritivo formalista e derivar uma
explicação hipotética acerca dos usos sócio-culturais e rituais dos phenomena rupestres
do rio Negro, já que tal operação não pode ser efetuada satisfatoriamente a partir do
registro arqueológico na área e nem de uma análise exclusivamente formal
descontextualizada.

44
Entende-se aqui por heurística o “conjunto de regras e métodos que conduzem à descoberta, à
invenção e à resolução de problemas...(do Grego heuristiké [téchne] – arte de encontrar, descobrir)”.
(Aurélio – Dicionário da Língua Portuguesa 1999)

209
Acreditamos que as limitações diacrônicas e as dificuldades de diálogo
epistemológico entre as abordagens arqueológica e etnográfica do fenômeno gráfico
ameríndio não podem ser transpostas, pois, subjazem na natureza do olhar sobre o
objeto (comportamento gráfico ameríndio) do que se deriva ontologicamente que vemos
“objetos” de naturezas diferentes. Mas seus aspectos iminentemente excludentes, que
são constructos intelectuais dos pesquisadores, como a interpretação dos efeitos
diacrônicos do processo da história indígena e da colonização, podem ser repensados
com base na região e nos contextos étnico e arqueológico com os quais se trabalha, bem
como, nas escolhas do modelo teórico atuante na formulação das questões a serem
confrontadas com o objeto.
A questão não estaria tanto em buscar relações homológicas hipotéticas entre
conteúdos, entre significados étnicos e suas relações com morfologias específicas, mas
sim entre modalidades de estruturação formal, de convenções sintáticas, de regras
gráficas atuantes nas escolhas técnicas, morfológicas, espaciais e geo-ambientais e
segregar seus padrões fenomelógicos, de maneira análoga à identificação dos modos de
enunciação (estilos de narração) e dos sistemas de classificação das tradições orais
ameríndias (muitas das quais também são tradições gráficas), com seus critérios de
semelhança e diferença, suas estruturas paralelísticas e fórmulas recorrentes (Severi
1997, 2001, 2003; Cesarino 2008, 2005, Viveiros de Castro 1986, 2004), e entender a
lógica de segregação entre as variações e as constantes estruturais, e como elas
dialogam paralelisticamente mantendo a autonomia enquanto códigos epistêmicos, mas
interatuantes dialeticamente numa interdenpendência referencial. Um processo pensado
enquanto transversal e sincrônico às manifestações rituais na Amazônia Ameríndia,
especialmente no contexto xamânico, ligadas aos processos de formalização gráfica dos
mundos exterior (ético) e interior (êmico) próprios desses sistemas conceituais.
Acreditamos que essa transversalidade estrutural ritual tem origem pré-histórica antiga,
tão antiga quanto a colonização do continente por sapiens, assim como o xamanismo e
os registros rupestres. Ou seja, quando os primeiros colonizadores pleistocênicos
entraram na América do Sul já trouxeram consigo uma formalização gráfica
culturalmente codificada sobre o universo e sobre a pessoa e, provavelmente,
sofisticados especialistas nesse universo sobrenatural total e na saúde, vida, morte e
alma dessas pessoas.
Consideramos que este enfoque, olhando para a estrutura dos constructos
210
etnográficos45 acerca do grafismo indígena pensando nas manifestações rupestres da
mesma região, não é familiar à tradição brasileira de investigação do registro rupestre.
Mas, no entanto, diante das características singulares do contexto etnográfico
amazônico, mesmo se ninguém mais pinta ou grava nas rochas seguindo os mesmos
condicionantes de outrora, consideramos em nível hipotético que certas estruturas de
pensamento, práticas rituais e práticas gráficas associadas devem ser observadas
também pelo arqueólogo, no sentido de confrontar ontologicamente sua taxonomia e
raciocínio segregatório com a estruturação geral do pensamento ritual ameríndio.
Estrutura esta que vem sendo pensada pela antropologia social enquanto constituída por
uma homogeneidade de elementos com ampla dispersão geográfica e profundidade
cronológica pré-histórica, como no caso, aqui problematizado, do xamanismo
panamazônico (Viveiros de Castro, 1986, 1989, 2004; Fausto, 2001, 1999; Wright
1998; Reichel-Dolmatoff 1972, 1976, 1985; Severi 1997, 2001, 2003; Carneiro da
Cunha 1998; Gallois 1996; Cesarino 2008, 2005; Elíade 1998, 2002).

V.iv. Ruptura Epistemológica

Na Amazônia, nas áreas reconhecidas de ocupação tradicional de povos


indígenas, T.I’s, ou que, até o alcance da memória etnohistórica, estariam sendo
ocupadas por tais povos, o uso exclusivo de método formal na análise do corpus
rupestre se mostra, em princípio, insuficiente para abarcar o fenômeno das gravuras
rupestres na sua ampla dimensão, enquanto código gráfico ameríndio no passado e no
presente.
O contexto etnográfico do rio Negro situa os petróglifos simbolicamente
integrados na vida das populações indígenas atuais (Reichel-Dolmatoff 1972; 1976;
1978; 1985; Koch-Grünberg 2005, 1907; Wright 1998; Xavier 2008; Valle & Costa
2008) constituindo-se numa fonte de conhecimento interno sobre suas respectivas
etnohistórias, mitologias e cosmologias estando destacados nas tradições orais de
diversas etnias da bacia, muitas delas inseridas num contexto religioso xamânico (apesar
do missionarismo cristão enviesado e antigo), com estrutura e elementos comuns, em
maior ou menor grau. Este universo se constitui, pois, num grande banco de referências
indicadoras, entre outras coisas, de modelos naturais de fundo neuropsicológico

45
Grosso modo, “the ideas ethnographers form about people and their social systems” (Bednarik 2007).

211
(Whitley 1994) contendo metáforas e analogias simbólicas ligadas muitas delas ao
paradígma xamânico (Lewis-Williams & Dowson 1988; Lewis-Williams 2004; Turpin
1994; Schaafsma 1994; Hedges 1994; Loendorf 1994; Wallis 2002; Reichel-Dolmatoff
1971, 1976, 1978) que vem se transformando face ao colonialismo e à ocidentalização,
mas, que pode guardar ligações históricas com práticas antigas de confecção e uso dos
petróglifos, conexões filogenéticas com conceitualizações gráficas pré-colonais, talvez,
médio holocênicas.
A uniformidade estrutural do xamanismo (Elíade 1998[1949], 2002[1951])
siberiano e ameríndio sugere, além de relação homológica (uma mesma origem
ancestral), uma vasta, rápida e recuada dispersão de traços comuns, fazendo-nos supor,
a priori, que as práticas gráficas ritualmente situadas no contexto atual do xamanismo
amazônico guardariam co-relações com práticas gráficas rupestres no passado, deixando
marcas no registro arqueológico regional. Portanto, nessa perspectiva, tais repertórios
simbólicos se constituiriam em fontes de memória social e de história material –
memória material (Severi 1997, 2001, 2003), onde uma dimensão sintático-morfológica
se reencontra com uma dimensão semântica. O que se converte em manancial
potencialmente informativo e instigador de hipóteses se utilizado adequadamente, à luz
da análise formal-material do significante pré-histórico, ainda prioritária por ser
verificável em algumas instâncias.
Mas, como coadunar as duas abordagens, testar hipóteses dessa natureza e tentar
um diálogo entre a etnografia e a pré-história no entendimento do registro rupestre
amazônico?

V.iv.a. Imagem, Conhecimento e Memória

Partimos da proposição de que alguns tipos de registro rupestre expressariam


sistemas gráficos de construção e rememoração de conhecimento, extra-somáticos, isto
é, fora do cérebro (Hoffecker 2007; D’Errico et all. 2003; Henshilwood et all. 2002,
2009), culturalmente condicionados e construídos em contexto sócio-ritual, muitos dos
quais imersos, desde suas orígens, em sistemas xamânicos de conhecimento. Tais
sistemas etno-epistemológicos de comunicação visual não seriam manifestações
isoladas da vida social, tampouco se confundiriam com rituais cotidianos da vida
ordinária. Mas, estariam, de fato, ligados a outras esferas da expressão e construção
social do conhecimento integradas numa tradição cultural, como a mitologia, a
212
cosmologia, como os modos de enunciação oral e conteúdos enunciados e as expressões
gestuais e rituais, as performances rítmicas, acústicas, corporais, verbais, musicais,
religiosas e ideológicas, das quais apenas permanecem reminescências materiais das
marcas técnicas. Portanto, estamos assumindo que existiria uma ligação entre
conhecimento, memória e rituais de confecção, uso e reuso dos grafismos rupestres
tanto no contexto cultural autor quanto nos contextos ameríndios posteriores que
ressignificaram e reavivaram as gravuras antigas.
Acreditamos que podem existir paralelos detectáveis entre os estilos narrativos
(regimes de enunciação ritual de conhecimentos, oral e graficamente codificados) e os
registros rupestres amazônicos. Paralelos na estrutura desses constructos, nas
convenções sintáticas que compõem esses mecanismos, que, pensamos, se articulariam
diacronicamente nas tradicões xamânicas ameríndias, no aspecto ontológico delas onde
o conhecimento-memória ganha seu aspecto gráfico, e o grafismo ganha sua
significação sócio-ritual. Aspecto este talvez inacessível para um não-iniciado, o que
certamente é verdadeiro para um pesquisador não-indígena. Portanto, assumimos que
trabalhamos com nossas representações acerca dessas manifestações intelectuais
ameríndias, nossos perceptos dos constructos deles, e, portanto, corremos o sério risco
de não entedermos verdadeiramente nada acerca desses sistemas e nossas categorias
refletirem apenas nossos a priori cognitivos. Por ora, a idéia aqui é problematizar essa
conjuntura, e, por conseguinte, formular mais questões do que respondê-las.
Em ordem de testarmos esta premissa, da conexão conhecimento – memória -
xamanismo amazônico - registro rupestre, a partir de um contraste com dados
etnográficos afins, é necessário uma seleção de munição teórica que permita-nos
relacionar imagem, conhecimento e memória sob a ótica dos contextos rituais
ameríndios respectivos.
Carlo Severi (1987, 1993, 1997, 2001, 2002 e 2003) desenvolve numa série de
artigos e livros um modelo teórico aplicável à tradição cultural no contexto de
sociedades orais, que extrapolaria o âmbito da oralidade verbal fagocitando a produção
e uso ritual de imagens e objetos inseridos no contexto do xamanismo ameríndio. De
especial importância a nossa discussão é o fenômeno da escrita pictográfica Kuna46

46
“Os índios Kuna vivem hoje no Arquipélago de San Blas, no Panamá. A nação kuna conta com cerca
de 27 mil a 30 mil pessoas, que falam uma língua tradicional pertencente à família chibcha (Holmer 1947;
1951). Um pequeno grupo kuna, que ainda rejeita qualquer contato com o homem branco, vive na região
Chucunaque da Floresta Dorien, próxima à fronteira com a Colômbia. Os Kuna são basicamente
213
(Nordenskjöld 1928, 1938; Severi 1997) e secundariamente, o estudo de caso sobre a
respectiva estatuária xamânica - Nuchucana – espíritos auxiliares dos xamãs (Severi
2001). Os Kuna são uma etnia de língua Chibcha situada na costa ‘atlântica’ do Panamá
desde, pelo menos, o século XVI e ambos os fenômenos citados possuiriam orígem pré-
colonial.
A partir da etnografia Kuna, Severi inaugura um enfoque novo que se opõe ao
modelo de tradição puramente oral da antropologia convencional (Goody 1977, 1987;
Vansina 1976) que, em síntese, subjugava a oralidade à escrita, numa relação de
inferioridade enquanto processo de sistematização e codificação de conhecimento, e
proclamava a independência e a primazia da palavra oral em relação a formalizações
materiais e a outras variáveis atuantes na construção “etno-epistemológica”. O que se
coadunava à idéia de uma ciência da escrita independente das leis da linguagem e das
formas de enunciação (Severi 1997: 248) levando à construção da idéia de que as
sociedades orais eram destituídas de memórias que não respondessem diretamente às
demandas da vida social e que “o conhecimento circularia livremente nessas sociedades,
sem constrições nem regras, desde que a palavra falada é, por definição, instável e de
difícil controle”.
O ponto de Severi é diametralmente oposto enquanto inferioridade da oralidade
com relação à escrita, e enquanto independência e primazia da oralidade em relação a
outros sistemas de linguagem simbólica atuantes na construção do conhecimento.
Afirmava, pois, a necessidade de um modelo de tradição cultural que articulasse
imagens e objetos junto à oralidade numa teoria de construção da memória social mais
complexa, apresentando interdependência referencial entre diferentes modalidades de
expressão simbólica, relacionando imagem e objetos com conhecimento e memória
num contexto de reificação, rememoração e aprendizagem de práticas rituais ligadas a
regulação de sistemas de crenças47 (cf., Severi 2002:26).

agricultores tropicais. Em seu breve levantamento histórico, Stout (1947) especula que a sociedade kuna,
uma das primeiras a entrar em contato com os homens brancos depois da descoberta do continente
americano, era “rigidamente estratificada, e dividida em quatro classes: líderes, nobres, cidadãos e
escravos”. Hoje, o poder político é controlado pela onmakket, uma assembléia que reúne todos os homens
adultos da aldeia, apoiada por um número variável de líderes eleitos (sailakan). O sistema de parentesco
kuna é bilinear, uxorilocal e baseado em uma exogamia estrita (Howe 1976; 1986)” (Severi 2001).
47
Com relação à noção de crença, Viveiros de Castro (2002), em trecho recortado por Cesarino
(2008:73), adverte: “Se não se trata de descrever o pensamento indígena americano em termos de crença,
tampouco então é o caso de relacionar-se a ele sob o modo da crença — seja sugerindo com benevolência
seu ‘fundo de verdade’ alegórico (uma alegoria social, como para os durkheimianos, ou natural, como
214
Sublinhando a interação entre imagem e palavra nos contextos rituais Kuna,
Severi (1997:248) nos diz: “In order to understand the images we are examining, we
need a model of tradition other than that based on the purely oral. Pictographic
iconography does not have an immediate bearing on the representation of the language
but rather follows the particular structure of texts fixed by tradition…among the
Kuna…any spoken word referring to traditional knowledge is ritualized. All ritual is
chant.”
Estabelecendo uma relação estrutural, formuláica, entre o texto, a enunciação
ritual e o uso de imagens-chaves na construção de um código áudio-visual, onde a
propriedade sintática fundamental é o paralelismo entre o texto (conteúdo) e o canto
ritual (modo de enunciação), ambos de aprendizagem auditiva (áudio-memória), e,
principalmente, entre esse canto-texto ritual e o código pictográfico de comunicação
visual (memória visual). Esta propriedade paralelística se caracterizaria por uma relação
de independência enquanto códigos formais (áudio e visual), mas, ao mesmo tempo, de
interdependência referencial nos contextos de enunciação ritual em que ambos os
códigos são usados paralelisticamente numa técnica de aprendizagem e rememoração
(uma “mnemo-técnica”). O que poderia ser definido como uma relação de reciprocidade
e complementaridade entre imagem e texto e que se expressaria através de dois
princípios básicos:
“1) Whatever the degree of variation allowed by tradition, a Kuna Chant is
always enunciated in a paralelistic style;
2) Anything capable of being enunciated in a paralelistic style can be rendered
pictographically.”
Do que se deduz que todos os cantos Kuna podem ser pictograficamente
representados. Então, estes regimes de enunciação ritual seriam marcados pela repetição
de fórmulas orais-verbais, arranjos entre tensão, ápice e pausa (Ibidem 1997) dotados
de “cadência encantatória...visualidade e metaforicidade...intensidade
paralelística...sonoridade circular e reiterativa...extrema condensação e precisão

para os materialistas culturais), seja, pior ainda, imaginando que ele daria acesso à essência íntima e
última das coisas, detentor que seria de uma ciência esotérica infusa. “Uma antropologia que […] reduz o
sentido [meaning] à crença, ao dogma e à certeza cai forçosamente na armadilha de ter de acreditar ou nos
sentidos nativos, ou em nossos próprios” (Wagner 1981:30). Mas o plano do sentido não é povoado por
crenças psicológicas ou proposições lógicas, e o ‘fundo’ contém outra coisa que verdades” (Viveiros de
Castro 2002: 130-131).

215
imagéticas...que são traços centrais das poéticas ameríndias” (Cesarino 2008:18).
Estes traços identificatórios corresponderiam ao padrão sintático das enunciações
cantadas, que se articulam a uma lista de nomes e lugares, paisagens sobrenaturais,
trajetórias mito-históricas, níveis ctônicos subterrâneos (Severi 2001) e de seus
habitantes específicos. A variação dos nomes dos lugares e dos seres no conteúdo
enunciado, é percebida como um marcador mnemônico e recebe uma renderização
pictográfica, o que vincula a construção ritual de imagens à noção Kuna de variação na
estrutura etno-epistemológica. A propriedade repetitiva, reiterativa, paralelística vem
então a ser uma moldura de fixação de “cores of traditional knowledge – lists of names
of places and persons not to be forgotten (...) the strong words”
A articulação ritual dos dois sistemas de codificação informacional funcionaria
como um dispositivo extra-somático de rememoração, isto é, de auxílio à memorização
tanto de conteúdos míticos, cosmológicos, etnohistóricos enunciados ritualmemnte,
quanto de fixação dos modos de transmissão em si. São apresentados três modos dos
cantos Kuna vinculados ao conhecimento aprendido48: cantos do chefe (canto dos Pais);
cantos terapêuticos dos xamãs; e cantos específicos da iniciação feminina. Cada
modalidade seria enunciada numa língua especial, própria, não inteligível aos falantes
da língua ordinária, todos estruturados paralelisticamente e articulados a repertórios de
imagens, dialogando entre a repetição paralelística, de padrões enunciativos, e a
variação substantiva e adjetiva do marcador da natureza e do nome de cada pairagem
sobrenatural percorrida e de cada ser espiritual contatados pelos respectivos
especialistas.
Uma das funções proeminentes deste sistema áudio-visual é didática,
imbricando-se em processos sociais de aprendizagem específica, da formação de novos
xamãs, novos líderes políticos, novos especialistas na iniciação feminina, atuando
diretamente na reprodutibilidade cultural. As regras internas permitem distinguir uma
homogeneidade estilística, ordem particular nos arranjos dos pictogramas, e muitas
recorrências morfológicas sistemáticas, o que impõe a impressão de regras formais
fortemente enculturadas numa tradição e limitantes do impulso criativo individual

48
De acordo com Severi (1997) os Kuna dividem o conhecimento com base no processo de aquisição
empírica, entre conhecimento adquirido pela visão imediata do sobrenatural e pelo sonho próprio de seres
especiais os Nele, visionários, que tem aspecto generalizante a tudo se aplicando, e o conhecimento
aprendido que se aplica propriamente aos humanos e é de natureza especifíca e localizada.

216
amarrando-se a complexas estruturas sócio-rituais, algumas mais abertas ao improviso
(como o canto dos chefes) outras herméticas onde a variação é proibida (xamanismo).
Poderíamos assim definir a estrutura da escrita pictográfica Kuna: padrões
gráficos fixos e independentes de padrões verbais também fixos arranjados com
variações pictograficamente traduzidas. Ou seja, duas linguagens padronais, uma oral
outra visual interconectadas pela pictografia associada a variação conceitual, um elo
entre duas linguagens. Na variação pictografada, no âmbito da renderização gráfica
interna da imagem, existiriam duas ordens, dois princípios estruturantes, que
provavelmente manteriam uma vinculação igualmente paralelística: os padrões gráficos
recorrentes (atributos), convenções de apresentação gráfica (Pessis 1989) fixas
constituindo-se nos elementos conceituais e regras estruturantes das pictografias, e,
paralelo a isso, há o resultado das combinações e rearranjos desses padrões, as
pictografias em si mesmo, enquanto imagens acabadas, marcadoras da variação ritual e
da nominação da criação e das criaturas. Como se houvessem vários níveis de
paralelismos, de oposições interdependentes, imbricando-se uns dentro dos outros, no
design de uma taxonomia que se ramifica em filamentos cada vez mais finos e
numerosos quanto mais nos distanciamos de seu “centro”. Por oposições
interdependentes consideramos, por exemplo, que imagem e texto não são auto-
suficientes, eles são códigos de significado interativos referencialmente no contexto
ritual, e somente pela leitura paralela da iconografia e do texto é possível apreender a
significação total da mensagem bicodificada da escrita pictográfica Kuna.
O simbolismo pictográfico traduz um “vocabulário especializado” que não pode
ser comparado a uma escrita fonética. Esta se expressaria por um número limitado de
signos (sinais) notacionais dos sons da língua para transcrever qualquer palavra dela. Já
a escrita pictográfica se constitui por um repertório amplo de imagens-signos mas que
representam um número restrito de opções conceituais, de palavras. Pode-se afirmar,
contudo, que a instrução oral é a base da pictografia e que cada história é ritualmente
enunciada numa linguagem especial e no estilo paralelístico para só então serem
transcritas em pictogramas, sendo a composição gráfica a penúltima etapa de construção
epistemológica, se considerarmos como último estágio de construção, a transmissão e
seu uso didático efetivo.
O que se definiria por Kuna memory-picture assume um papel importante na
construção-transmissão do conhecimento e da memória social nas ditas sociedades
217
orais. Levando-nos a constatação de que a tradição oral é constituída por multiplas
práticas orais, gráficas e artefactuais. A consequência imediata desse modelo de tradição
cultural para os corpora gráficos rupestres é a sugestão de que os grafismos pré-
históricos estariam ligados a tradições orais de enunciação de conhecimentos
culturalmente codificados, imersos numa cadeia operatória simbólica, seguindo o
diálogo de Severi (2003 e 2001) com a idéia de Warburg49 (1932), acerca da produção
ritual de objetos inserida numa série de operações simbólicas, significativas e sensoriais,
incluindo aspectos êmicos, como imagens mentais, e éticos como uma cadeia
tecnológica de manipulação de objetos, numa rede de (re) significações, rememorações
e construções epistemológicas rituais. Portanto, alguns grafismos rupestres se
relacionariam paralelisticamente com som, palavra, expressão verbal, expressões
gestuais e operações materiais articuladas enquanto componentes e dispositivos
mnemo-técnicos, epifenômenos de um processo mental, um sistema complexo de
conceptos, perceptos e constructos ligados ritualmente na elaboração da memória social.
Pensamos, pois, que entender como esses sistemas ocorrem entre os povos
ameríndios amazônicos, como os grafismos e as formalizações e conceitualizações
gráficas são sócio-culturalmente e ritualmente construídas (onde a imagem é um elo
formal entre a memória e o conhecimento), se mostra como uma ferramenta teórica, que
pode indicar maneiras viáveis de pensarmos (interpretarmos) contextos e usos sócio-
rituais para os registros rupestres descontextualizados do rio Negro, mesmo que apenas
no âmbito das possibilidades e nem tanto das probabilidades, no seu aspecto verificável.
Coadunando-se à idéia de Severi temos a análise etnográfica de Cesarino (2005
e 2008) que identifica na tradição oral Marubo50, grupo de língua Pano situado no vale

49
“Aby Warburg (1932) tentou esboçar uma teoria geral da memória social baseada tanto em imagens
quanto em textos. A ênfase que ele colocou nas relações complexas entre símbolos visuais e significado,
na necessidade de considerar uma pintura ou um objeto esculpido como um mero elemento em uma série
de representações que devem envolver necessariamente ações rituais, textos, tradições orais ou até
simples imagens mentais, bem como sua visão a respeito da análise da memória social como um meio
para estudar a vida social dos símbolos, certamente são passos decisivos que apontam na direção de uma
nova abordagem dessa questão.” (Severi, 2001:123)
50
“‘Marubo’ é uma invenção, uma denominação atribuída a um conjunto de remanescentes de diversos
povos falantes de línguas Pano. Não pode ser compreendido como uma ‘totalidade’. Num determinado
momento da passagem dos séculos XIX e XX, tais remanescentes se reuniram na região das cabeceiras
dos rios Ituí e Curuçá (extremo da Amazônia ocidental brasileira, atualmente situado dentro da Terra
Indígena Vale do Javari, Amazonas), pressionados pela exploração violenta do caucho e por diversos
conflitos internos. Os remanescentes ali reunidos eram denominados através do esquema comum Pano,
constituído pela anteposição de um termo específico ao termo ‘povo’: Shane-nawavo, Povo (nawa)
Azulão (shane), Chai-Nawavo, Povo-Pássaro, Iskonawavo, Povo-Japó, Inonawavo, Povo-Jaguar,
218
do rio Javari, Amazônia Ocidental brasileira, uma estrutura enunciativa também
paralelística baseada em fórmulas recorrentes (análogas às dos Kuna identificadas por
Severi) em associação com expressões gráficas. Ao menos, dois padrões de
comportamento gráfico seriam performados um junto a contextos rituais verbalmente
enunciados e outro socialmente mais aberto. O primeiro se trataria de um código
formalmente hermético constituído por uma linguagem gráfica abstrata geométrica, em
tempos idos pintada e-ou tatuada na face e no corpo e definida como uma linguagem
dos espíritos, com aplicação nos rituais e conceitualizações xamânicas com padrões
geométricos formais e nominados distintamente, como o padrão losangular tao peika
(Cesarino 2008:47), mas que paralelisticamente se rearticulam na conformação de outra
manifestação gráfica não necessariamente ligada ao xamanismo e associada à narrativas
pictográficas figurativas executadas em alguns contextos da tradição oral Marubo, como
no caso da representação de cosmogramas, plantas metafóricas de malocas
intracorpóreas, ou a noção gráfica de “corpo-maloca” dos pajés Romeya (Cesarino
2008: 45).
Portanto, pelo menos, duas linguagens gráficas distintas estariam em operação,
uma figurativa representativa e outra geométrica hermética que guardam diferenças
formais, conceituais e sócio-rituais, mas que em alguma instância parecem manter um
tipo de agenciamento mútuo, segundo um princípio sintático semelhante ao da escrita
Kuna. A variação gráfica é constituída por padrões gráficos finitos e recorrentes
recombinados e “subordinados” mais às modalidades de enunciação verbal e de rituais
associados do que ao conteúdo enunciado. Assim, os marubo estariam constituindo seus
desenhos-pensamento (Cesarino 2008:93).
A ocorrência de dois códigos gráficos distintos, com aplicações rituais e funções

Satanawavo, Povo-Lontra, entre outros. Dotados, dizem os atuais Marubo, de línguas e culturas distintas,
tais fragmentos de sociedades, que até então estabeleciam intensas relações belicosas, teriam se
constituído em torno de um sistema de aliança e parentesco e passado a adotar a língua de apenas um dos
grupos que os constituía e que está agora extinto: os Chainawavo, ou Povo-Pássaro. As denominações de
tais grupos tribais acabaram por constituir os segmentos de uma mesma sociedade (cf., Melatti 1977) que,
segundo outro especialista (cf., Ruedas 2001, 2002, 2004), teria sido praticamente criada ou inventada na
primeira metade do século XX através da atividade de um importante xamã-chefe, João Tuxáua, o
aglutinador, junto com seus parentes mais velhos, dos grupos dispersos. Se é verdade que os povos
falantes de línguas da família Pano possuem uma relativa homogeneidade cultural e lingüística, bem
como uma continuidade territorial, a despeito de sua marcantes diferenças internas (cf., Erikson 1998), é
verdade também que os Marubo são estratégicos para o estudo de tais sociedades, justamente na medida
em que a multiplicidade faz-se constitutiva de seu pensamento xamanístico.” (Cesarino 2008: 15).

219
sociais distintas, num mesmo contexto étnico é sempre um fenômeno inquietante para
os modelos de variabilidade arqueológica, consideravelmente mais pobres de dados
interpretativos, que os dos etnógrafos, por isso mesmo essa identificação tipifica um
caso em que diferentes formalizações gráficas situadas em contiguidade espacial (ou em
superposição) não podem ser interpretadas como, necessariamente culturas distintas,
tradições rupestres distintas. Aquilo que etnograficamente seria uma variação interna a
um mesmo corpus tradicional (Marubo), arqueologicamente poderia ser interpretado
enquanto variabilidade cultural, ou seja, conjuntos artefactuais de proveniências
culturais distintas, não relacionados homologicamente, que quando encontrados no
registro arqueológico destituídos do contexto sócio-cultural autor podem levar à
conclusões errôneas.
Para apreendermos a complexidade deste fenômeno recorreremos a uma
passagem de Morphy sobre caso semelhante na Austrália (1989:7): “More than one
system of representation may in fact be current at the same time. Morphy… gives an
example from northern Australia where two distinct systems of representations are
used, one geometric, the other figurative. The two may be used separately or they can
be used in conjunction to encode meaning. The two systems have quite different
potential for encoding meaning and require different conditions of interpretation.
Yolngu paintings are part of a system of restricted knowledge and the geometric art can
only be interpreted by those who have been provided with the key. In contrast, the
figurative system can be at least minimally interpreted by anyone who recognizes the
form of the object as it is represented.”
O caso do duplo sistema gráfico Marubo (manifesto tanto no xamanismo de
maneira “invisível”, hermética, geométrica, quanto no contexto de um grafismo
figurativo socialmente mais aberto, ou seja, a convivência de dois sistemas de
conceitualização e formalização gráfica num mesmo constructo identitário étnico)
também pode ser entendido como um epifenômeno da história indígena respectiva.
Segundo Cesarino (2008), os Marubo não seriam necessariamente uma etnia com
origem comum e recuada. Estariam mais próximos de um ajuntamento social de
multiplas etnias falantes de diferentes línguas Pano, algumas inimigas tradicionais, que
se viram forçadas a uma unificação de suas agendas de sobrevivência total frente ao
mundo dos brancos e mestiços que se assenhoriava das imediações, tendo a pressão no
fim do século XIX, começos do XX, atingido os extertores levando à construção de uma
220
identidade social, linguística e territorial Marubo, historicamente condicionada pela
resistência de um núcleo de diversos povos Pano. Neste processo histórico é possivel
que diversas tradições ou conjuntos de conhecimentos específicos associados à
manifestações gráficas distintas, específicas nos seus contextos étnicos de origem,
tenham se encontrado no amálgama social Marubo, onde são plasmadas, mas sem
perder suas autonomias efetivas, mantendo-se atrelados a suas prováveis funções sociais
anteriores que continuaram bem distintas.
Sobre a base da formalização gráfica ritual Marubo, os padrões geométricos
Kene, transcrevemos na íntegra uma interessante passagem de Cesarino (2008:89) onde
faz uma síntese da discussão teórica sobre a vinculação de práticas gráficas corporais e
artefactuais ao xamanismo ameríndio sul-americano comparando-os com o sistema
marubo:“As pinturas corporais constituem um caso à parte dentro da etnografia
Marubo, que não posso detalhar aqui. São empregadas em situações diversas e são
diversas as variações de padrões e pinturas, divididas entre aquelas compostas a partir
dos traços geométricos kene e outras compostas de distintas manchas enegrecidas de
jenipapo (nane) por partes inteiras do corpo. Estas últimas estão, muito
frequentemente, relacionadas à proteção da pessoa contra os espectros dos mortos
(yochĩ), picadas de cobras (rono) e outros males. As pinturas baseadas nos kene, por
sua vez, pretendem deixar a pessoa ‘bela’ (roaka) e podem se dividir entre padrões
restritos aos pajés, acessíveis às pessoas comuns, interditos em certas ocasiões ou
recomendáveis em outras. Não há um discurso explícito sobre os kene como uma
tessitura/pele que vincula a pessoa ao cosmos, “todos cobertos com a mesma malha de
desenho” (Lagrou 2002: 38-39), como entre os Kaxinawá. Tampouco os padrões kene
pertencem todos eles à sucuri-fractal do mesmo povo: “O desenho da cobra contém o
mundo. Cada mancha na sua pele pode se abrir e mostrar a porta para novas formas.
Há vinte e cinco manchas na pele de Yube, que são os vinte e cinco desenhos que
existem.” (Edivaldo Kaxinawá apud Lagrou 2002: 40). Naquilo que chamou de
“terapia estética” dos Shipibo-Conibo, Gebhart-Sayer (1986: 192) também observa
que os desenhos remetem todos a Ronin (roninti em shipibo-conibo quer dizer
“desenhar”), a anaconda cósmica que possui todos os desenhos e cores imagináveis
(idem: 192), correlata de Yube dos Kaxinawá. Após ingerir ayahuasca, o xamã Shipibo
passa a ver os desenhos “projetados” por seus espíritos auxiliares, tais como Nishi Ibo,
o dono da ayahuasca, e Pino, o espírito-colibri, considerado “escrivão ou secretário”
221
dos espíritos auxiliares: os desenhos possuem assim “ondulação rítmica, ornamentação
fragrante e luminosa, se assemelhando ao rápido folhear de um livro com muitos
desenhos” (idem: 196). Os cantos do xamã são “resultado da imagem dos desenhos”
projetados pela multidão de espíritos que o cercam, cujas canções que “serpenteiam no
ar” cabe ao xamã reportar. No xamanismo sinestésico dos Shipibo-Conibo, os cantos
têm forma de desenho geométrico: são yora quene, desenhos-canto que penetram no
corpo do paciente e ali se instalam. Colpron também traz dados diversos sobre a
relação entre boídeos, padrões kene e transformação que, diga-se de passagem, é
também central no caso do xamanismo yaminawa e sharanawa estudados por Townsley
(1988, 1993) e Déléage (2006). O xamanismo marubo, como dissemos, não se orienta
pelo mesmo tipo de transformação ou sobreposição da pessoa do xamã à da
sucuri/ayahuasca e não comporta a experiência visionária baseada nos padrões kene
(específica, talvez, da mistura da Psychotria viridis à Banisteriopsis caapi). O
xamanismo Marubo é um problema eminentemente de tradução, citação, polifonia e
transporte – os padrões invisíveis kene que os romeya têm desenhados no corpo são
instrumentos de pensamento (chinã) e espécies de códigos/passaportes; transmitem
informações sobre os espíritos yovevo e outros domínios. Os desenhos ‘visíveis’
utilizados nas festas possuem outras implicações que não serão desenvolvidas aqui.
Para um estudo competente da relação entre vivos, mortos, mimetização e pintura
corporal entre os Achuar, ver Taylor (2003)”
Em ambos os casos, tanto Kuna quanto Marubo, e como acabamos de ver em
alguns outros casos na Amazônia Ameríndia, temos a articulação de imagens com a
construção do conhecimento, com processos de aprendizagem e com categorias rituais
de enunciação verbal que obedecem a conjuntos específicos de regras que as
distinguiriam, mas manteriam uma estrutura sintática comum, uma estrutura
enunciativa calcada na interação paralelística entre diferentes modalidades simbólicas,
sobretudo na articulação entre conhecimento, ritual, memória e imagem, entendidos
como os pilares da construção etno-epistemológica, como aqui estamos denominando o
processo de construção do conhecimento próprio de uma tradição cultural ameríndia.
Ou seja, o conjunto das regras de operação dos constructos e perceptos sócio-
culturalmente, neuro-psicologicamente, ecologicamente e historicamente
condicionados.
Com relação a estrutura do pensamento Marubo Cesarino (2008:13) nos diz: “o
222
pensamento poético Marubo desenvolve um complexo sistema de classificação que visa
lidar com os problemas da diferença, da replicação e da variação.” E mais adiante
escreve:“As reiterações, os paralelismos e o sistema de classificação a partir dos quais
se estruturam cantos e narrativas, extrapolam o domínio verbal e repercutem em outras
expressões estéticas (música, desenho, coreografia), bem como na cosmologia, na
pessoa e na mitologia.” (Ibidem 2008:10).
Isto posto, percebemos semelhante terminologia, sentido e raciocínio etnográfico
encontrados em Severi. Compartem, pois, semelhante moldura teórica. Estando as duas
obras complementarmente inseridas na linha da construção da memória social atrelada a
múltiplos códigos paralelisticamente acionados, artes verbais, artes visuais e artes
corporais. E, fundamental, estabelecem um parâmetro, a priori seguro, para
problematizarmos a relação proposta entre xamanismo amazônico, conhecimento,
memória, imagem e registro rupestre, quando definem etnograficamente estudos de caso
que interconectam xamanismo, tipos de conhecimento e mnemo-técnicas paralelísticas
onde observamos uma relação proporcional entre estilos ritualizados de enunciação
verbal e estilos de formalização gráfica. Esta constelação de elementos caracterizadores
coaduna-se com o modelo de xamanismo também identificado entre os Araweté
etnografados por Viveiros de Castro (1986), que se aplicaria mais a um modelo de
xamanismo Tupi-guarani amazônico, mas que ainda assim, guarda propriedades comuns
que permitem comparações entre famílias linguísticas distintas. Podendo-se falar sobre
uma estrutura ontológica do xamanismo ameríndio amazônico, como nos casos citados
do xamanismo Kuna e Marubo, respectivamente famílias Chibcha e Pano. De maneira
sugestiva, definem um contexto de uso sócio-ritual para o fenômeno gráfico no
xamanismo ameríndo amazônico atual, caracterizando este como uma estrutura êmica e
ética de longa duração, multicultural e multilinguística.
Sobre as relações do xamanismo Marubo com um modelo estrutural de
xamanismo de amplo espectro geográfico, multiétnico e panamazônico, Cesarino
(2008:17) escreve:“A estética xamanística marubo – sua peculiar capacidade de
expandir o pensamento da classificação e da variação em direção a uma apreensão
generalizada da diferença e da multiplicidade – certamente tem a ver com as redes de
circulação dos conhecimentos xamânicos que caracterizam a Amazônia ocidental...”
È interessante observarmos essa ênfase na diferença, na mudança, na
transformação, na natureza dupla do corpo e da pessoa, na multiplicidade de modos, de
223
estilos, de seres e de aldeias espirituais e na renderização de diferentes códigos gráficos
associados abertos a domesticação simbólica do outro, seja do xamanismo Marubo se
debruçar sobre a crise, a doença e a morte dessa era de contato com os brancos. Seja no
xamanismo Kuna ao sequestrar a representação dos brancos renderizando-os em
“artefatos” xamânicos, espíritos auxiliares dos especialistas Kuna, e ao mesmo tempo,
espíritos malignos capazes de incutir a locura e levar à morte (Severi 2001). Fica
imanente a capacidade de devorar o outro segundo as regras de um jogo formalmente
rígido em seus elementos estruturais, mas múltiplo e plástico em sua capacidade
recombinatória, em que diferença e semelhança, continuidade e ruptura dialogam
paralelisticamente no pensamento ameríndio. Quais são os padrões gráficos desse
pensamento? as unidades padronais? Quais são as modalidade de recombinação dessas
unidades? Como elas se recombinam para compor a variação ritual?
É exatamente sobre o problema da construção ameríndia da diferença e da
continuidade e das etnotaxonomias resultantes que iremos nos apoiar para tentar
formular um experimento de verificação de algumas das relações que estamos
propondo.

V.IV.b. Do grafismo rupestre pós-contato

Acreditamos que não é possível, hoje, demonstrar categoricamente nenhuma


relação inequívoca de autoralidade existente entre etnias indígenas atualmente ocupando
o território brasileiro e um corpus gráfico rupestre pré-histórico. Não há na literatura
referente à Amazônia brasileira um só caso de contato etnográfico direto e inequívoco
com povos fazendo arte rupestre. Isto se deve a inexistência fatual destes contextos no
passado etnográfico (Whitley 1994) ou simplesmente eles não foram detectados por nós
antes de seu efetivo desaperecimento enquanto prática culturalmente viva?
No entanto, sustentamos que se dispõe de indicadores que permitem vislumbrar
hipóteses acerca da continuidade da prática gráfica e dos usos sociais desses códigos na
experiência ameríndia pós-contato. Sabemos que até o século XIX no sudoeste norte-
americano os registros rupestres estavam em franca produção associada a contextos
xamânicos de busca e retiro visionário e no contexto de iniciação púbere masculina e
feminina (Whitley 1998, 1994; Turpin 1994). Na América do Sul, apesar da dificuldade
de verificação, algumas evidências sugerem que o mesmo poderia estar ocorrendo,

224
51
Koch-Grünberg (2005a [1905]: 244-245;1907 e 2005b [1911-1915]:50) relata em
duas situações e contextos étnicos e geográficos diferentes, no alto Negro com
indígenas Tukano e nas savanas roraimenses junto aos Makuxi, duas circunstâncias em
que petróglifos estariam sendo confeccionados no começo do século XX por essas
etnias em suas respectivas áreas. O caso Makuxi é deveras importante pois deduz-se que
os informantes de Koch-Grünberg seriam capazes de distinguir gravuras recentes feitas
por eles com um seixo pontiagudo, dentro de convenções gráficas, seleções temáticas e
morfológicas específicas identificáveis pelo etnólogo, separando-as de gravuras mais
antigas com outro padrão morfológico e estado de conservação.
No rio Negro, segundo Sujo Volsky (1975: Anexos, figura 42), em sua
detalhada revisão e proposta metodológica para investigação da arte rupestre
venezuelana, ocorreriam grafismos rupestres posteriores ao contato representando
embarcações à vela, no entanto, não é possivel a partir da obra recuperar a localização
do sítio contendo esse painel. Finalmente, nossas observações no rio Içana (Valle &

51
“Nos dias seguintes, passamos a custa de muito esforço as cachoeiras de ayú, Mirapára e yauareté, as
únicas corredeiras do médio curicuriary. Na Cayú Cachoeira achei pétroglifos que estavam riscados
apenas levemente na superfície da pedra e foram feitos provavelmente há poucas semanas ou faz poucos
dias. Representavam primitivo esboço de macacos e gente, ao lado de figuras de caráter ornamental. Aqui
pela primeira vez tornou-se Claro, como surgem estas frequentemente profundas gravações. Quase
sempre elas encontram-se nas corredeiras e quedas de água onde se encontram muitas pedras chatas e
onde é necessário demorara algum tempo. Para arrastar as embarcações. Um indígena pega uma pedra
aguda e meio inconscientemente risca levemente uma figura na parede lisa da rocha. O desenho é visível
por muito tempo na pedra dura. Um outro vem mais tarde e, obedecendo ao impulso da imitação,
brincando refaz os mesmo contornos, e assim adiante, até que esses traços no correr do tempo se
transformam em sulcos profundos. Nem é preciso que demore muito tempo.”Kock-Grunberg, Dois anos
entre os indígenas, 1903-1905, pág 244-245, Edua, 2005.
“...Partimos logo as 7 horas. Deixamos, à esquerda, a serra do Panelão, que, como todas as serras
até surumú, vai de oeste para leste. Caminhamos por terreno Ondulado, entre rochas de granito altas e
arredondadas, cobertas com inúmeros desenhos frescos riscados na rocha, representando pessoas,
quadrúpedes, pássaros e um batelã...Pouco após as 10 horas seguimos viagem. Passamos novamente por
grandes rochas arredondadas com desenhos recentes: Veados, cavalo, cachorro, Tartaruga e outros
animais, também desenhos primitivos de pessoas, bem ao estilo das antigas pinturas rupestres. A área dos
corpos, em parte, é áspera, semelhante a algumas pinturas rupestres dos Bosquímanos do sul da áfrica.
Pirokaí demonstra para mim que os desenhos são feitos com uma pedra pontuda. Diz-se que no alto
Parimé se encontra a pedra pintada, uma rocha Gigantesca toda coberta com desenhos semelhantes, feitos
há muito tempo.” Kock-Grunberg, Do Roraima ao Orinoco, Volume I, 1911 a 1913, Pág, 50, ed, Unesp,
2005.

225
Costa 2008), embora inconclusivas e preliminares, apontam para a utilização de técnicas
líticas, como o polimento, e aplicação de pigmento, no processo de revitalização de
petróglifos, de maneira a interferir tecnicamente no grafismo, inclusive reconstruíndo
morfologicamente os mesmos, e-ou selecionando trechos específicos e reavivando-os
seguindo critérios de uma formalização gráfica que, provavelmente, não é a que
construiu a cenografia original dos painéis. Tais escolhas e seleções apontariam para um
outro modelo conceitual em ação.
Durante a documentação fotográfica do sítio rupestre Jandú-Cachoeira (Ibidem
2008), na comunidade de Jandú, médio rio Içana, um fato chamou-nos a atenção acerca
da interpretabilidade Baniwa. Uma senhora desconhecida52 que descarregava sua rabeta
para passar pelas corredeiras de Jandú junto com sua família, se dirigiu a minha pessoa
enquanto fotografava e veio me falar sobre os petróglifos sem que tivesse pedido
informação alguma. Duas coisas repercutiram em minha mente desta conversa, em dois
painéis diferentes (sim, esta informante expontânea, me acompanhou por alguns
minutos me explicando alguns grafismos em diversos painéis): no painel convencionado
como de número 3, me apontou esta senhora, para as diferenças texturais dentro dos
traços gravados de unidades próximas, observando as profundidades específicas, e me
explicou que os desenhos visíveis teriam sido reavivados recentemente (quando?), com
aspecto de polimento fino abrindo sulcos profundos de textura interna suave, reluzente,
tom claro, cinza azulado. Se assim não o fosse, o desenho estaria como “esse aí”,
segundo me disse apontando para um grafismo praticamente apagado pela exfoliação.
Portanto, nossa informante foi perfeitamente capaz de interpretar o processo diacrônico
matizado numa relação de contraste entre o intemperismo natural na superfície do
corpo rochoso com a intervenção antrópica graficamente direcionada, ou seja a partir de
uma apreciação diferencial dos estados de conservação dos grafismos (percepção visual
individual do fenômeno) e de uma dedução de cronologia justaposta ao conhecimento
prévio e culturalmente introjetado de que se reavivam as gravuras no Içana
imemorialmente (percepção social do fenômeno).
Esta mesma senhora, diante do que convencionamos como painel 6,
apresentando dois antropomorfos visivelmente distintos superpostos, classificou como
integrantes de uma mesma cena, de um mesmo momento representacional, com caráter

52
Não me foi possível coletar seu nome apenas que se tratava de uma mulher Baniwa que morava no
baixo Içana e se dirigia para sua casa, quase como uma aparição de Kowai, ela se materializou e foi-se.

226
familiar mitológico (pai [nãpirikoli] e filho [Kowai] do herói mítico na sua
interpretação individual e paralelisticamente étnica) o que entendemos ser uma
superposição didática pela sua legibilidade e por separar objetivamente em dois
momentos gráficos distintos, duas formalizações gráficas referentes a conceitos
marcadamente contrastantes nas escolhas da representação antropomórfica. Se por um
lado foi cognitivamente identificável para ela a passagem do tempo no estado de
conservação do gravado, por outro, a noção de cronologia e diacronia que vemos na
superposição foi lida sincronicamente.
As referências acima citadas sugerem que, em algum nível, na área em questão,
alguns comportamentos gráficos rupestres pré-históricos podem ter sido continuamente
praticados durante o período colonial até o começo do século passado, pelo menos.
Mas, resta definirmos um caminho pelo qual poderemos trabalhar com esses
indicadores na construção de uma moldura teórica interpretativa acerca dos usos sociais
dos registros rupestres. Como testar hipóteses derivadas desse processo heurístico?

V.IV.c. Da Testabilidade de Hipóteses

Se pudéssemos de alguma forma calibrar, revisar, nossas taxonomias formais


utilizando certos critérios de agrupamento e segregação próprios dos sistemas indígenas
de pensamento gráfico, que podem ser análogos à estruturação dos modos de
enunciação de suas respectivas tradições culturais, onde construtos mentais, verbais,
imagéticos e estatuários atuam juntos na elaboração da memória social (Severi 1997,
2001, 2003), poderíamos desenhar um mecanismo para testar algumas hipóteses
construídas a partir da analogia etnográfica. No caso, a hipótese em tentativa de
verificação é a de conexão filogenética distante entre sistemas gráficos ameríndios
atuais e sistemas gráficos rupestres pré-históricos.
Tal mecanismo se basearia numa relação de superposição comparativa entre o
processo de divisão que orienta nossas classificações segundo princípios de
continuidade e descontinuidade, inclusão ou exclusão, de diferença e de semelhança
com o processo equivalente no pensamento gráfico indígena amazônico (se pudermos
detectar essa equivalência a partir da literatura), as relações de diferença e semelhança
que orientam os mecanismos classificatórios e as classificações “formais” resultantes,
buscando-se constantes sintáticas da expressão e percepção gráfico-visual ameríndia
amazônica. Mais do que como eles representam graficamente esses construtos mentais e
227
sócio-rituais, centraríamos nossa atenção em como eles segregam e agrupam, quais as
regras de associação de elementos, como vêem e distinguem a unidade e o conjunto,
como pensam o grafismo e a atividade gráfica, e em quais contextos cotidianos e-ou
rituais eles constroem seus códigos gráficos, questões pertinentes ao etnógrafo, mas que
podem auxiliar a arqueologia cognitiva (Flannery & Marcus 1996; Renfrew 2007) na
investigação desses códigos gráficos antigos na América do Sul.
Mas, como etnografar os “mortos”? Pensamos que olhar paralelamente para
estruturas vivas, quando se é possível, sem perder de vista o registro arqueológico, seja
a estratégia mais eficaz e interessante quando se tem sítios rupestres arqueologicamente
descontextualizados em terras indígenas tradicionalmente ocupadas.
Na prática, como poderíamos conceber tal operação? Bem, se pudéssemos
comparar num mesmo painel complexo, com muitas unidades e superposições, uma
leitura ameríndia local e uma leitura arqueológica, independentemente, seria um bom
começo. A partir da percepção do caráter diferencial dos ‘estilos’ formais e das
cronologias gráficas indicadas pelas superposições, repatinações, acreções, erosões e
desgastes nas marcas técnicas (base de nossa busca por segregações e agrupamentos),
se essas separações, ou esses elementos separadores de nossas classes de construtos que
associamos a diferentes sistemas de comunicação visual e a diferentes momentos
gráficos pudessem ser identificados de maneira independente pela cognição indígena e
pelas escolhas interpretativas de fundo cultural ameríndio, poderíamos conceber isso
como um indicador de que eles (a parcela ameríndia inserida no experimento)
manteriam uma tradição interpretativa mais próxima da formalização gráfica dos
autores de um dos momentos do painel, o que lhes permitiria reconhecer elementos de
um código específico separando-os de outros no mesmo painel, tal qual fazemos por
intermédio do método formal.
Por essa perspectiva, seria importante que a comparação entre as categorias de
semelhança e diferença e na percepção da antiguidade nas feições da rocha e da marca
técnica, não esteja restrita a um grafismo, ou a pequenos conjuntos fomalmente
relacionados, mas sim a um painel arqueologicamente classificado como multi-
estilístico ou a um conjunto de sítios próximos (diversos painéis) que apresentem
variabilidade gráfica e cronológica constatada.
Se a percepção da diferença e da semelhança aos olhos ameríndios e aos olhos
do pesquisador possibilitam a segregação de informações semelhantes resultando no
228
agrupamento de classes igualmente semelhantes olhando-se para um mesmo painel
rupestre, podemos hipotetisar conexões culturais entre a formalização gráfico-mental do
contexto ameríndio envolvido com a formalização gráfica rupestre pré-histórica que
identificamos formalmente. Não se trata de uma dimensão interpretativa ligada ao
significado, mas aos mecanismos de identificação morfológica e espacial das imagens e
seus arranjos em conjuntos, nos princípios de segregação e rearticulação de elementos e
nos conjuntos resultantes da aplicação desses princípios.
Pensamos que se tal experimento pudesse ser executado, e que se houvesse uma
superposição nas classes resultantes (ou em alguns elementos identificatórios), de
ambos processos, a segregação científica e a segregação ameríndia com respeito a
semelhanças e diferenças de aspectos formais e a indicadores visuais de sequência
cronológica, poderiamos afirmar hipoteticamente que aquela tradição cultural no qual
aquele indívíduo foi formalizado, guardaria conexões histórico-culturais com a
formalização gráfica que engendrou, ao menos um dos momentos do painel, permitindo
sua inteligibilidade, sua decodificação, mesmo que parcial.
Não existe ciência indígena se consideramos que ciência, estrito senso, é um
construto ontologicamente não-indígena, ocidental, eurocêntrico, e não um modo de
manifestação universal do pensamento humano, sendo, pois, um constructo artificial
histórico-culturalmente condicionado. No entanto, acreditamos (tanto os cientistas
ocidentais quanto os especialistas ameríndios) que quando separamos objetos em nossas
classificações estamos separando coisas reais “materializadas” no mundo de maneiras
diferentes e independentes de nossa vontade e percepção subjetiva. Admitimos que
nossa classificação corresponde a uma realidade concreta sensível para outros seres
humanos (não necessariamente da mesma forma, no caso do xamanismo apenas os
iniciados vêem e-ou escutam, sentem, mas o estabelecimento de uma tradição xamânica
pressupõe inteligibilidade empírica e conceitual entre iniciados e mestres, ou seja,
precisam se fazer entender entre si e dentro da comunidade de inserção, tal como nós
cientistas), e por extensão para os seres humanos que fizeram as gravuras rupestres
(sobre a discussão acerca dos construtos arqueológicos refletirem reais manifestações no
passado ou apenas em nossas cabeças ver Consens 2000a e 1990, Prous 1997 e 2002 e
Bednarik 2007). Isto é, eles (os autores rupestres) reconheceriam diferentes padrões de
grafismos, e diferentes momentos de superposição, estariam percebendo essas
diferenças, lidando com elas de maneira consciente, e possivelmente ritualizando-as,
229
compondo e recompondo os painéis rupestres ao longo do tempo, de formas que
milhares de anos depois nós também podemos acompanhar as continuidades e rupturas.
Acreditamos, pois, que uma identificação desses elementos pela percepção
indígena atual funcionaria como um elo de ligação hipotética entre modalidades antigas
e atuais de resolução gráfica do mundo e da mente. Talvez, evolutivamente, poderíamos
pensar que ambos os códigos possuiriam uma origem comum, expressariam uma
homologia. Mas, fundamentalmente a partir da implementação desses procedimentos
poderíamos afirmar ou refutar uma possível conexão filogenética entre uma entidade
étnica viva e um código gráfico-rupestre pré-histórico que estejam em superposição ou
contiguidade geográfica.

V.v. Conclusão da parte V

Preferimos pensar que podemos detectar um caráter homológico na relação


hipoteticamente expressável entre as leituras antigas e atuais, mas é muito possível que,
quando ocorram, se tratem de analogias, convergências adaptativas, sem
necessariamente ter havido conexão histórico-cultural e-ou ideológico-religiosa. Muitas
das semelhanças seriam provavelmente condicionadas pelas constantes universais da
neurologia de sapiens, uma cultura e várias naturezas na perspectiva ameríndia
(Viveiros de Castro 2004), que evolutivamente interpretaríamos como uma mesma
neuro-arquitetura receptora e uma miríade de fenômenos externos detectáveis e
processáveis cognitivamente. O pensamento simbólico e a construção de imagens
mentais, gráficas e objetais se dariam dentro das constrições de um repertório neuro-
cognitivo contendo combinações finitas e recorrentes em fórmulas cujo teatro de
manifestação e de resposta é um mundo complexo com várias combinações geo-sócio-
bio-atmosféricas.
De fato, não sabemos se detectamos analogias ou homologias quando
detectamos algum padrão entre distintos corpora de registros rupestres e entre estes e
tradições orais ameríndias. Mas procurar analogias entre conteúdos e significados
acreditamos que não responderia muito, dada sua alta plasticidade, diversidade e
suscetibilidade a situações sócio-históricas idiossincráticas, vontades e capacidades
individuais. As estruturas e relações hipotéticas de fundo filogenético devem ser
buscadas nas bases conceituais de divisão dos sistemas classificatórios ameríndios

230
amazônicos (Levi-Strauss 1966), nas manifestações do mecanismo etno-epistemológico,
em comparação com o nosso sistema de conhecimento, desenvolvido a partir da análise
formal do corpus gráfico buscando segregações fenomenológicas, aparentes. Porém,
podemos perceber os mesmos phenomena apesar do mesmo equipamento neuro-
cognitivo? Lembremos, por ora, que uma das técnicas extáticas mais poderosas e
universalizantes do xamanismo se dá através da transformação do corpo, noção
ameríndia, pelo uso de plantas de poder, como o Caapi (Banisteriopsis Caapi).
Se a antropologia social está identificando constantes que apontam para uma
estrutura de pensamento comum encapsulando um sistema de xamanismo amerídio
amazônico, independente de família linguística e territorialidade, que em muitos casos
se articula à linguagens gráficas complexas e apresenta ampla dispersão geográfica e
étnica, bem como origem pré-colonial, caberia na investigação da arte rupestre
amazônica uma reconsideração desta descontinuidade absoluta.
Isto posto, não quer dizer que doravante todas as manifestações rupestres
poderiam ser alvo de analogias etnográficas eficazes ou que a aplicação do paradigma
xamânico é uma panacéia interpretativa. Ao contrário, pensamos que apenas uma
minoria dos conjuntos rupestres conhecidos se prestaria a uma associação diacrônica
com práticas rituais atuais, apenas aqueles que se situam em áreas onde etnias indígenas
ocupem tradicionalmente e ressignifiquem os sítios rupestres e onde a variabilidade
gráfica e cronológica é identificável poderiam ser testados nessa agenda operatório-
conceitual.
Este é o caso do rio Negro onde 24 etnias ocupam diversos afluentes do alto
curso da bacia e onde abundam gravuras rupestres sem associação contextual com o
registro arqueológico, sendo ressignificadas em contexto etnográfico atual.
Sustentamos, pois, que a pesquisa com arte rupestre nessa área não deve bloquear o
potencial heurístico desses phenomena. Apesar de nos concentrarmos primordialmente
numa análise formal do corpus gráfico rupestre do médio-baixo rio Negro, o
entendimento da estrutura do pensamento xamânico amazônico e ameríndio e sua
articulação com práticas e sistemas gráficos a partir da leitura dirigida de estudos de
casos (Severi 1997, 2001, 2003; Cesarino 2008, 2005; Reichel-Dolmatoff 1972, 1976,
1978, 1985; Viveiros de Castro, 1986, 1989, 2004; Fausto 2001; Wright 1998; Gallois
1996; Xavier 2008; Taussig 1994; Vidal et al. 1992) é pretendida para tecer um pano de
fundo interpretativo. Porém, não no sentido de descobrir o significado ameríndio
231
original das gravuras rupestres (uma preocupação ingênua, calcada no senso comum e
não num problema de pesquisa), mas, buscando um conceito de interpretação “mais
amplo centralizado em explicar a forma da arte em relação ao seu uso em dado contexto
cultural” (Morphy, 1989) e gerar paralelos aplicáveis ao problema dos usos dos
grafismos pré-históricos dentro dos contextos sócio-culturais dos autores rupestres,
sobre os quais a análise formal interna pouco nos diz.
Em síntese, esta reflexão vem no sentido de problematizar a verificação de
homologias hipotéticas (origem comum) a partir do estabelecimento de analogias mais
robustas, testáveis, entre o registro rupestre e os registros arqueológico e etnográfico
amazônicos, um viés que aqui estamos provisoriamente denominando de “arqueo-
etnográfico”, a contra-gosto de Bednarik (2007).
O raciocínio básico é: se eles separam diferentes classes de fenômenos gráficos
num painel rupestre de maneira correspondente aos constructos de nossa classificação
formal (como nós entendemos e segregamos o painel), sugerimos que tal relação
indicaria condições de interpretabilidade compartilhada entre a formalização gráfico-
mental ameríndia específica e, o que os pesquisadores entendem ser, um dos momentos
gráficos e-ou elementos formalmente relacionados num painel rupestre (daí a
necessidade de, digamos, multicomponencialismo no painel).
Fundamentalmente, postulamos a hipótese de que o compartilhamento de
condições de interpretabilidade entre um interpretante e um código gráfico é um
indicador, em alguma instância, de ligação histórico-cultural entre ambos.
Se é, de fato, exequível tal experimento, pensamos que sim em dada conjuntura
ideal. Mas, conseguir detectar analogias entre a interpretabilidade de um determinado
sistema ameríndio de pensamento gráfico com um determinado estilo de arte rupestre e
postulá-los enquanto uma homologia hipotética, parece ser um resultado improvável de
se obter. Ao menos, o contrário (a desconexão filogenética ou histórico-cultural), que
também é um problema interessante, poderá ser hipoteticamente apontada. O que temos
que ter em mente é uma pergunta fundamental que ainda pode ser verificada no Alto rio
Negro, e que já foi colocada de forma muito objetiva por Tratebas (in Bahn &
Lorblanchet 1993: 165): Is this difference only perceived by the researcher or was it
also important to the petroglyph creator? Repousa nesta questão o nó górdio de nosso
problema e proposição experimental. Não podemos confrontar essa questão aos autores
rupestres, mas podemos fazê-lo aos ressignificadores rupestres. Estamos considerando
232
conjeturalmente que a cognição classificatória do autor rupestre estaria mais próxima da
do indígena atual se fosse possível por este último segregar o painel rupestre de maneira
análoga à nossa, ou a como nós estabelecemos formalmente relações e segregações.
Pelo menos tornaria o fenômeno testável para nós. Ainda não sabemos responder isso e
talvez nunca saibamos. Resta-nos perguntar aos ‘parentes’ ressignificadores o que eles
acham dessa loucura dos ‘Kariwa’.
O problema permanece. Os registros rupestres no rio Negro continuam
arqueologicamente descontextualizados, variáveis isoladas no registro arqueológico.
Mas, por outro lado, encontram-se contextualizados no pensamento ameríndio
amazônico atual. Procedimentos alternativos, não usuais à tradição da investigação
rupestre brasileira devem ser buscados, devem ser testados, na direção de uma “arqueo-
etnografia” heuristicamente construída e contrastável com a análise arqueológica formal
em implementação.

233
VI. Considerações Finais

O estudo das gravuras rupestres na área amostral 1 tem indicado variabilidade


gráfica considerável num espaço reduzido, o que entendemos como uma confirmação da
hipótese postulada em nosso modelo, concernente a propensão de áreas de confluência
fluvial e de contato geológico apresentarem uma maior variabilidade gráfico-cultural.
Seriam áreas de convergência de fatores bióticos e abióticos e postulamos que seriam
também áreas de convergência cultural, ou seja, vários grupos humanos se dirigiram
para ela ao longo do tempo. Se assim o for, poderemos encontrar no registro
arqueológico desta área os correlatos desse processo. No caso de registros rupestres isso
implica na justaposição e, ou superposição de diversas identidades gráficas num mesmo
espaço geográfico restrito.
Consideramos que os petróglifos na área amostral 1 demonstram esse fenômeno
que propomos ser análogo ao processo de ocupação da área por diversas etnias,
portadoras de linguagens gráficas diferenciadas. Tal processo de ocupação teria sido
diacrônico, isto é, ao longo de vários séculos, o que nos é indicado pelos distintos
estados de conservação apresentados intra-sítio e inter-sítios. E que apesar de se
encontrarem descontextualizados do registro arqueológico mais informativo, associado
aos sítios cerâmicos adjacentes na área-alvo, a análise formal das propriedades
intrínsecas dos registros rupestres pode, ainda assim, prover dados informativos sobre as
autorias culturais subjacentes ao fenômeno gráfico. Desta forma, acreditamos estar
contribuindo para uma compreensão das ocupações pré-históricas do rio Negro, e
permitindo um modesto avanço no entendimento das continuidades e rupturas da
história indígena de longa duração local e regional.
Em síntese, uma avaliação do quadro geral de dados permite afirmar que a área
que engloba de Velho Airão até a foz do rio Branco apresenta, em princípio, pelo menos
2 perfis gráficos distintos marcados por padrões gráficos em técnica, temática,
cenografia, escolhas geo-ambientais e estados de conservação igualmente distintos. Ou
seja, o conjunto de fatores sociais, históricos, econômicos, adaptativos, técnicos, crono-
tafonômicos e, talvez, ideológico-religiosos que produziu os grafismos do sítio granítico
Unini 253 seria, em princípio, substancialmente diferente de todo resto da amostra. De

53
Como dito, o perfil gráfico deste sítio apresenta correlatos nos sítios recentemente documentados nos
afloramentos graníticos situados acima da foz do Unini na área de confluência direta entre o Negro e o
Branco, entre as comunidades ribeirinhas de Moura e do Carvoeiro. O que consubstanciaria, em princípio,
234
modos que em termos de registros gráficos pré-históricos temos indícios de pelo menos
dois grupos culturais com distintas apresentações gráficas e sociais que gravaram
naquelas rochas seus sistemas de comunicação, provavelmente em momentos
diferentes. Ressaltamos que as diferenças entre o material gravado no granito e o
material em suporte arenítico são formalmente robustas para permitir tal separação
taxonômica. É plausível afirmar ainda a existência de variabilidade gráfica e,
possivelmente cronológica, dentro do corpus arenítico, onde se distingue um terceiro
fenômeno gráfico marcado no perfil do sítio rupestre Pedral Rio Negro, cujo acervo se
caracteriza pela ocorrência massiva de grafismos puros sem antropomorfos nem
zoomorfos, sendo alguns desses grafismos conjeturalmente interpretados como
esquematizações geométricas de faces (máscaras).
Embora petrograficamente toda a amostra arenítica esteja executada na formação
Prosperança por técnica baseada, em princípio, na percussão direta (minoritariamente
percussão indireta), há marcadas diferenças na morfologia, temática, cenografia dos
grafismos e na situação topo-geomorfológica do Pedral Rio Negro, bem como um
estado de conservação relativamente menos alterado na área de concentração gráfica 1.
Sugerindo tratar-se de uma amostra mais recente que seus congêneres litológicos (à
exceção de Unini 4 onde as marcas técnicas ainda são consideravelmente visíveis,
porém, paineis horizontais estão sujeitos a outras modalidades e intensidades
intempéricas diferentes dos paineis verticais e diagonais, a começar pela Lei da
gravidade que atua diferencialmente conforme o plano de inclinação no suporte
rochoso).
Portanto, a variabilidade gráfica e cronológica centrada fundamentalmente no
contraste entre os perfis gráficos do pedral Velho Airão/ Jaú/unini4 e do pedral Rio
Negro pode se configurar numa futura base de separação para duas distintas identidades
gráficas. Observamos, assim, na área indícios de três fenômenos gráficos diferenciados
no total, que, se representássemos num diagrama de árvore, teríamos Unini 2 isolado no
extremo de um dos troncos e no extremo do tronco oposto situaríamos Velho Airão e
Jaú, que guardariam as relações mais próximas entre si. Um pouco mais abaixo deste
mesmo tronco sairia um ramo para Unini 4 que estaria relacionado com representações
zoomórficas minoritárias presentes no Velho Airão. Mais abaixo, e ainda no mesmo

uma identidade gráfica hipotética particular dispersa da primeira cachoeira do Unini até a foz do rio
Branco (Valle et al. 2009).

235
tronco, sairia um outro ramo para o Pedral Rio Negro que pelos contrastes temáticos,
cenográficos e geomorfológicos guardaria maior distância do restante da amostra
arenítica. Assim:

Salientamos que este não é um ordenamento matemático, apenas um arranjo


gráfico para representar as relações referidas no texto quanto às características formais
que foram cognitivamente percebidas e fotografadas, tratando-se apenas de uma
ordenação diagramática conjetural sem valor estatístico-quantitativo. Mas, acreditamos,
pode servir de base para uma confrontação com modelos matematicamente construídos,
como cladogramas (Valle 2006b), árvores evolutivas e clusters.
Acreditamos desta maneira, que podemos agrupar os perfis gráficos desses sítios
em três classes preliminares: classe 1 equivalente a Unini 2 e sítios entre a foz do Unini
e a foz do Branco; classe 2 equivalente ao Pedral Rio Negro; e classe 3 equivalente ao
complexo Velho Airão/Jaú/Unini 4 (que mereceria um desmembramento mais
detalhado, mas por ora os deixemos juntos). Ainda não é possível afirmar
categoricamente se a variabilidade gráfica detectada no rio Negro é sincrônica ou
diacrônica, mas é plausível pensar em momentos distanciados no tempo para a chegada
e ocupação dos três perfis gráfico-sociais na área-alvo em função das diferenças nos
estados de conservação observados. Mas não temos como saber qual o espaço
cronológico entre essas manifestações, nem se mantém conexões evolutivas.
O estado de conservação das gravuras executadas no suporte granítico da
primeira cachoeira do Unini é diversificado, indicando variação cronológica interna,
mas, de maneira geral, apresenta-se bastante repatinado. Por sugerirem uma ação

236
intempérica mais acentuada e considerando-se a dureza da rocha ígnea, cremos serem
de uma antiguidade superior às gravuras executadas nos suportes areníticos do Unini 4 e
da ACG 1 do Pedral Rio Negro, melhor conservadas numa rocha mole, daí deriva-se o
raciocínio tafonômico de serem mais recentes a partir da equação: mesmos fatores de
intemperismo + diferentes tipos rochosos. No entanto comparar o intemperismo entre
acervos executados em rochas com propriedades petrográficas distintas, como o granito
e o arenito, é em certo sentido ilógico. Pois as taxas de evolução tafonômicas não são
equiparáveis. É como se procurássemos as diferenças entre objetos que já sabemos
serem diferentes. Mais frutífero é a comparação interna à amostra arenítica, e interna à
amostra granítica, do ponto de vista lógico.
Esta associação causal (mesmas condições intempéricas e rochas diferentes
levando a de dução de idades diferentes) ainda apresenta outra ambigüidade introduzida
pela diferenciação técnica que pode favorecer um tipo de desgaste mais acelerado
independente de variação em fatores ambientais (suporte e erosão por hidratação e
insolação sazonal). As técnicas no granito são comumente distintas das técnicas no
arenito, o que está bem demosntrado em nossa amostra. Salientamos, contudo, que
ainda não foram encampadas análises por microscopia de campo (Bednarik 2007) nas
gravuras, o que poderá, uma vez aplicadas, acarretar tanto numa identificação mais
precisa dos tipos técnicos quanto das alterações tafonômicas, o que terá impacto direto
na proposição de uma cronologia relativa para esse material. Por ora, não é possível
fazer afirmações categóricas sobre esta presumida anterioridade do acervo granítico
sobre o acervo arenítico, tratando-se apenas de uma sugestão aparente, uma conjetura
ainda não testada, fundamentada pelo aspecto visual a olho nu, que como vimos, enseja
ambiguidades.
Guardando todas as ressalvas possíveis, a análise do quadro geral aponta para
indícios preliminares de uma fronteira gráfico-rupestre entre os rios Unini e Jaú no
baixo rio Negro. Ao se pensar em fronteira gráfico-rupestre como uma categoria de
entrada, nossos pressupostos teóricos indicam uma fronteira crono-cultural como
categoria de saída, porém, salientamos que o único fato inequivocamente constatável é
uma fronteira hidrográfica e geológica, portanto, de caráter ambiental. É de se esperar
que isso incida de diversas formas na adaptabilidade de grupos humanos na pré-história
e que reflexos desse processo estejam matizados na expressão gráfica desses grupos. A
começar pelas especializações técnicas (e pensamos, rituais) à variabilidade litológica.
237
No entanto, ainda não podemos determinar como se manifestaria essa fronteira geo-
ambiental no comportamento de populações humanas pré-históricas, tão somente
tentamos identificar manifestações do comportamento humano diferentes, circunscritas
num espaço delimitado e descrevê-las.
A ferramenta de partida nesse processo analítico é o perfil gráfico de sítio e
apenas começamos a identificá-los. Portanto, é prematuro definir as identidades
gráficas, estilos rupestres ou tradições e sub-tradições do rio Negro com base no
universo amostrado. O fato é que o rio Negro foi ocupado por diversas etnias ao longo
de sua história cultural holocênica e que diversos desses povos utilizaram, passaram e se
estabeleceram na área de entroncamento hidrográfico do Negro/ Branco deixando suas
marcas em diversas variáveis do registro arqueológico. As gravuras rupestres da área
apresentam correlatos desse processo em seus perfis gráficos. Áreas de contato hidro-
geológico são locais privilegiados para se detectar tais processos e testar hipóteses
concernentes à superposição entre variabilidade gráfica e variabilidade cultural.
Da foz do rio Branco para cima e abaixo de Velho Airão, os registros rupestres
no Negro são virtualmente uma incógnita. Consideramos o modelo (confluência
hidrográfica + geodiversidade = variabilidade gráfico-cultural) provisoriamente testado
na área-alvo, mas, enquanto não for testado no ARN, permanecemos amordaçados
comparativamente. Sabe-se por ora que temos formações geológicas quartzíticas
metamórficas no ARN, contrastando com a supremacia ígnea, bem como, diversas
confluências de bacias hidrográficas, a principal delas marcada pelo contato
Uaupés/Colômbia-Negro/Orinoco, o que reúne em princípio o mesmo potencial
experimental.
No médio rio Negro, entre Barcelos e Santa Isabel, que hoje é totalmente tabula
rasa seria outro ponto para um teste experimental na calha do Negro. Lá se encontra
outro contato geológico na bacia entre a formação sedimentar Içá e afloramentos
graníticos do escudo guianense. Embora não haja uma confluência hidrográfica
marcante no trecho, sustentamos a importância da investigação em particular nesse
ponto, até para uma eventual quebra do modelo definido no contato hidro-geológico
mais abaixo entre Branco/Negro-sedimentar/ígneo.
Além desses pontos, o rio Branco é muito pouco conhecido, e fora as gravuras
que Mentz Ribeiro (1986) encontrou nas cachoeiras de Caracaraí, RR, não há referência
de outros sítios. Pescadores artesanais do médio Negro me informaram acerca de
238
gravuras no rio Catrimani, afluente da margem direita do médio Branco, o que Pereira
(2003) confirma a partir de outras fontes. Enfim, o rio Branco consiste em endereço
certo para futuras prospecções, bem como, as extensões do rio Negro que mencionamos.
Expandindo a malha geográfica das prospecções ao longo da bacia poderemos
ver com maior nitidez os contrastes que permitirão uma separação menos ambígua das
classes de dados. Servirão sobremaneira à comparação taxonômica com os dados
levantados na zona da confluência-chave, de maneira a calibrar com maior robustez ou
refutar esses constructos iniciais de caráter analítico localizado. Mas o fato é que os
caracterizadores gráficos e ambientais que adotamos como categorias de entrada na
análise gráfica dentro da metodologia que buscamos aplicar aqui (Pessis 2002; Valle
2003) tem nos indicado diferenças significativas entre dois rios muito próximos um do
outro no exato setor onde temos uma fronteira geológica marcante entre o cristalino
ígneo e a bacia sedimentar. Esses são elementos substanciosos para geração de um
modelo investigativo preliminar e formatação de um problema de pesquisa robusto
concernente ao teste científico da variabilidade gráfico-rupestre na bacia do rio Negro e
alhures. Mãos à obra!

239
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