Você está na página 1de 33

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Instituto de Educação Continuada


Pós graduação em Psicoterapia de Família e Casal

ANÁLISE DO FILME AMOR SEM ESCALAS À LUZ DA


TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA

Tania Marcia Barbosa

Belo Horizonte
2011
1

Tania Marcia Barbosa

ANÁLISE DO FILME AMOR SEM ESCALAS À LUZ DA


TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA

Monografia apresentada ao Curso de Pós-


graduação do Instituto de Educação Continuada
da Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais, como requisito parcial para obtenção do
título de Especialista em Psicoterapia de Família
e Casal.

Orientador: Vicente de Paula Almeida

Belo Horizonte
2011
2

Tania Marcia Barbosa

ANÁLISE DO FILME AMOR SEM ESCALAS À LUZ DA


TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA

Monografia apresentada ao Curso de Pós-


graduação do Instituto de Educação Continuada
da Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais, como requisito parcial para obtenção do
título de Especialista em Psicoterapia de Família
e Casal.

VICENTE DE PAULA ALMEIDA (ORIENTADOR) – PUC MINAS

JULIANE ROSA PAULINO (LEITORA) – PUC MINAS

BELO HORIZONTE, 25 DE MARÇO, 2011


3

Dedico este trabalho aos meus filhos pelo companheirismo e por me ensinarem um
novo, possível e belo conceito de família.
4

AGRADECIMENTOS

Expresso minha gratidão a Deus pela aceitação, respeitando as limitações


que ainda estão latentes em mim e também por me conceder a benção de
compartilhar minha atual existência com meus filhos, Damaris e Salomão, pessoas
maravilhosas, inteligentes amorosas, afetivas... e a quem sou grata por estarem
sempre comigo.

Agradeço aos profissionais que com seu amor e competência contribuem de


forma significativa para meu crescimento. Destaco aqui, Marisa Verdolin, minha
psicóloga que mesmo antes de sê-lo, já me ajudava em minhas escolhas e que,
como representação real do que é ser Terapeuta Sistêmica, tem me ajudado em
minha formação como Psicoterapeuta de Família e Casal.

Obrigada minha família de origem – abençoado espaço de crescimento –


principalmente minha irmã e minhas tias paternas.

Sendo este um trabalho de pesquisa, importa ressaltar minha gratidão aos


diretamente ligados a execução deste trabalho:
Professora Ana Morici, pela forma lúdica de ensinar.
Professora Eline Renó pelo controle de forma acolhedora.
Professor João Pinto por ser amável, flexível e atencioso.
Professor Marco Antônio pelo estímulo na produção do projeto deste trabalho.
Professora Juliane Paulino pela seriedade na transmissão do conhecimento.
Professor Vicente Almeida, meu querido orientador, por seu carinho,
disponibilidade, respeito às minhas dúvidas, acolhimento às minhas variações
emocionais durante o processo da definição do tema a ser trabalhado até a
produção do trabalho.

“G7” amado e querido, Alice, Bruna, Fernanda Baldi, Fernanda Brum, Vinícius
e Virgínia, muito mais que um grupo de estudo, um grupo de pessoas amigas,
amáveis e com disponibilidade e abertura para o aprendizado profissional e pessoal.
5

Agradeço ainda a segunda turma do curso de Psicoterapia de Família e Casal


do Instituto de Educação Continuada da Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais por me propiciar o exercício do respeito às diferenças.

Professora Célia Borgo, pelo carinhoso e firme incentivo.

Por fim, agradeço a mim mesma por este momento atual de minha evolução
que me permite a expansão do autoconhecimento e maior flexibilidade comigo
mesma.
6

É necessário apreciarmos o que somos (...) É preciso ser o que é. Nem colocarmos as
criaturas num pedestal, nem nos rebaixarmos à condição de capachos.
Hammed
7

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo apresentar uma reflexão sobre as possíveis
dificuldades da comunicação nas relações afetivas e também como é possível para
o psicólogo ter como ferramenta de trabalho recursos lúdicos e artísticos como a
análise de filmes. Aborda conceitos de Mony Elkaim a respeito da linguagem e
reações emocionais que tendem a direcionar nossa conduta nas comunicações. Por
fim, traz comentários sobre tais conceitos e as implicações em nosso cotidiano,
através de cenas do filme Amor Sem Escalas.

Palavras Chaves: Comunicação. Família. Relação.


8

ABSTRACT

This paper aims to present a reflection on the difficulties of communication in


relationships and also how it is possible to have as a psychologist working tool as
recreational resources and artistic analysis of films. Mony Elkaim addresses concepts
about language and emotional reactions that tend to direct our conduct in
communications. Finally includes comments on these concepts and the implications
on our everyday life through scenes from the movie Up in the Air

Keywords: Communication. Family. Relationship.


9

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 10
2 TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA ......................................................................... 12
2.1 A História da Terapia de Família................................................................... 12
2.2 Conceituando Família....................................................................................13
2.3 O Terapeuta de Família ................................................................................. 14
2.4 Teoria Familiar Sistêmica na visão de Mony Elkaïm .................................. 15
2.5 Alguns conceitos de Mony Elkaim ...............................................................16

3 O SISTEMA CASAL ..............................................................................................19


4 ANÁLISE DO FILME AMOR SEM ESCALAS .......................................................21
4.1 Análise de cenas escolhidas ............................................................................ 23
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................29
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 31
10

1 INTRODUÇÃO

Na psicologia tem-se como objeto de estudo o ser humano e o instrumento de


trabalho, a escuta. O psicólogo é preparado para ouvir e lidar com as emoções
daquele que o procura.
Na nossa cultura falar/vivenciar as próprias emoções não é algo comum.
Ainda se diz que quem procura um profissional de saúde mental é louco.
Como falar de forma objetiva sobre algo subjetivo como as emoções?
A Abordagem Sistêmica traz significativa contribuição para o entendimento
das emoções e suas implicações na vida das pessoas e em suas relações
interpessoais.
Na família começa o aprendizado sobre ser e estar no mundo e esse
aprendizado é contínuo. Quando adulto, o indivíduo reproduz, de forma direta ou
indireta, o que foi aprendido.
A família é o lugar onde se ouvem as primeiras falas, com as quais se
constrói a auto imagem e a imagem de mundo. É na família que o indivíduo tem sua
primeira experiência de relação interpessoal, é o filtro através do qual se começa a
ver e significar o mundo. É também na família, que são estabelecidos os conceitos
de afeto e desafeto e esse conceito contribui para escolha da parceria afetiva.
No exercício profissional da psicologia clínica, percebo que o ser humano
necessita de experiências de solidão e interação com o outro. Ele sente-se
inexoravemente atraído a se ligar ao outro.
Diante disso, o presente trabalho pretende verificar como a análise de um
filme, neste estudo o intitulado, Amor sem Escalas, pode tornar-se mais um exemplo
de ferramenta para ser utilizado pelos psicólogos para observação de
comportamentos humanos que são vivenciados no seu dia a dia na clínica, como
também facilitar o estudo da teoria.
No capítulo I é apresentado a história da Terapia Familiar Sistêmica e alguns
conceitos exemplificados da metodologia de Mony Elkaïm.
No capítulo II é abordado, de forma resumida, o sistema casal, buscando
clarear o conceito de casal e identificar o modo de funcionamento das relações
conjugais.
11

No capítulo III, através da análise de algumas cenas do filme Amor sem


Escalas, ilustro os conceitos de Mony Elkaïm apresentados no primeiro capítulo.
Por fim, apresento minhas considerações finais relacionando a teoria
abordada com a prática clínica e minhas experiências pessoais.
12

2 TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA

Neste capítulo expresso um breve percurso sobre a Terapia de Família.


Inicialmente, apresento alguns de seus precursores e suas contribuições para a
Terapia de Família. Em seguida, explano sobre conceitos de família e a formação do
Terapeuta de Família. Ainda neste capítulo, apresento alguns conceitos da
metodologia de Mony Elkaïm.

2.1 A História da Terapia de Família

A História da Terapia de Família é, segundo a bibliografia existente, muito


nova.
O olhar para a família como um sistema a ser observado, estudado, tratado
se iniciava nos primeiros fundamentos da Terapia de Família. Desde então se
verifica vários estudos constatando a real necessidade de existir alguma forma de
intervenção na família como apoio ao atendimento do indivíduo.
Em meados do século XX, com a socialização das ciências, da psicologia, da
psiquiatria e da psicanálise, a família ganhou papel determinante no processo de
saúde/doença das pessoas e passou a ser objeto de intervenção.
Na década de 70, importantes movimentos aconteceram na Europa, como o
Grupo de Milão que por suas características próprias, é atualmente designada
Escola de Milão, pela fundamentação na teoria sistêmica de J. Haley, V. Satir, S.
Minuchin e do Grupo do MRI (Mental Research Institute).
Os autores Satir, Jackson e Watzlawick foram considerados por Hoffman
como originadores da Terapia de Família. Já no Brasil, vários estudos foram
realizados para identificar o nascimento da terapia de família por aqui.
Uma contribuição muito significativa para a Terapia de Família é o
atendimento realizado pelos assistentes sociais que tinham como foco de seu
13

trabalho, o grupo familiar. Os mesmos introduziram a perspectiva ecológica na


terapia de família (NICHOLS E SCWARTZ, 2007).
No Brasil, os anos 80 aparecem como um momento de grande expansão da
Terapia de Família como método terapêutico, possuidora de teoria e prática
próprias, deixando de ser experiências isoladas e sendo mais acessível a um maior
número de profissionais e famílias.
A Terapia de Família propicia entender o indivíduo e ter como ajudá-lo em seu
contexto social e cultural.

2.2 Conceituando Família

A análise da família exige um esforço de estranhamento, isso pelo fato de


confundirmos a família atendida com a nossa própria família, de acordo com as
referências sociais e culturais aprendidas. “Cada família constrói seus mitos a partir
do que ouve sobre si, do discurso externo internalizado, mas devolve um discurso
sobre si que contém também sua própria elaboração, objetivando sua experiência
subjetiva”. (SARTI, 2004, p.15)
Na cultura ocidental vem-se falando da possibilidade de um declínio do grupo
familiar, mas com a idéia da transmissão geracional e ampliando o conceito de
família pensando em famílias reconstituídas, monoparentais, homoafetivas, é
possível relativizar essa possibilidade. A família tradicional que traz em si a função
moral e não afetiva, dá espaço para um novo tipo de família que busca o
estabelecimento do sucesso relacional. Não desaparece a questão moral, mas
aumenta as possibilidades de negociações entre os sujeitos que compõem a família.
Independente do critério biológico, a família é formada por um grupo afetivo.
(FERES-CARNEIRO; PONCIANO; MAGALHÃES, 2007)
Um dos pioneiros da Terapia de Família da cidade do Rio de Janeiro
entrevistado por Ponciano; Féres-Carneiro, 2003, p.70 , acredita que “a família se
forma a partir das histórias que as famílias vão contando não importa por onde. Seja
pelo silêncio, seja pelas narrativas”.
14

Cada um faz parte de uma família, cuja história vem recheada de recursos
internos, os quais vão lhes permitir, diante de seu desejo, usufruir do que os
terapeutas tem a oferecer no processo de psicoterapia sistêmica. Para se formar
uma história que envolve pessoas, é necessário se fazer pensar na história dessas
pessoas envolvidas.
O individualismo é uma característica da modernidade, mas também são
encontrados aspectos não individualistas ligados a permanência de elementos
tradicionais como a família.

2.3 O Terapeuta de Família

Cada sujeito está imerso em um contexto sócio histórico que define um modo
de ser família. Sabemos que carregamos nossa história a partir de nossa origem e
cultura e sobre o que temos como crenças e a maneira de agir e de se posicionar no
mundo A importância do terapeuta de buscar informações e ter um conhecimento
sobre o contexto em que os clientes estão inseridos faz toda a diferença no
desenvolvimento terapêutico.
Segundo Aun (2006) até o final dos anos 70 os terapeutas viam a família
como um sistema e se viam colocados fora dela. Sobre este aspecto, Ponciano e
Féres-Carneiro (2006) buscam em Dias e Ferro-Bucher, a afirmação do cuidado em
relação a formação do terapeuta. Estas autoras consideram a formação do terapeuta
como um dos aspectos mais importantes e após análise de um questionário que
enviaram para 22 instituições pelo Brasil, concluem

que é dada pouca ênfase à pessoa do terapeuta durante sua formação; é


necessário articular técnicas e teorias diversas; articular conhecimento
teórico com a realidade sóciocultural das famílias atendidas; é preciso
redefinir a prática terapêutica integrando a realidade brasileira. (DIAS;
FERRO-BUCHER apud PONCIANO; FERES-CARNEIRO, 2006, p.256)

Especializar-se em Terapeuta de Família não é suficiente para tornar-se


Terapeuta de Família. A ciência amplia os conhecimentos de base com
fundamentações teóricas, mas não basta, por si só, para ampliar a formação da
pessoa que busca ser Terapeuta de família.
15

A abordagem sistêmica assume um espaço importante na formação dos


terapeutas de família, tratando o organismo como um sistema familiar e não como
causa e efeito.
Os terapeutas sistêmicos devem aprender a questionar, entender e aceitar
arduamente as próprias limitações e alcances dentro da prática clínica. Eles são
também indivíduos que fazem parte da sociedade, seres humanos, membros de
famílias e não donos da razão carregados de onipotência.

2.4 Teoria Familiar Sistêmica na visão de Mony Elkaïm

Mony Elkaïm é médico neuro psiquiatra e psicoterapeuta. Formou-se como


Terapeuta Sistêmico em Palo alto. Durante um grande período de sua vida
profissional, trabalhou em guetos negros e porto riquenhos em Nova Iorque, e
também junto às minorias de emigrantes de Bruxelas. Fundador e presidente da
Associação de Terapia Familiar Européia; professor da Universidade Livre de
Bruxelas; introduziu as práticas de terapia de rede no âmbito da Saúde Mental.
Consultor do Departamento de Psiquiatria do “Hospital Universitário Erasme”,
dirige o “Instituto de Estudos da Família e Sistemas Humanos” de Bruxelas.
É um dos responsáveis, de grande expressividade pelo desenvolvimento da
corrente sistêmica, incorporando o pressuposto da intersubjetividade no trabalho
terapêutico e também sobre a importância de elaboração de uma hipótese inicial
sobre o problema e sua influência no sistema, apresentada para oferecer aos
envolvidos um significado para seu problema.
Fundamentando diferentes atuações terapêuticas, Mony Elkaïm concentrou-
se na premissa sistêmica de que um sintoma pode ter a função de manter um
sistema aberto em certo estado de equilíbrio – homeostase – mas que em sistemas
abertos, longe do equilíbrio – instabilidade – o sintoma pode servir de ensejo para
desencadear mudanças necessárias. Ele considera que o sistema humano é um
sistema que se constitui de elementos singulares, de regras intrínsecas, que o
homem é o agente de sua história e que o destino de um sistema pode ser
16

modificado se se dá importância aos elementos anódinos – ampliação dada a um


elemento aparentemente insignificante.
O vínculo que existe entre os fatos do passado e os do presente é
semelhante àquele que existe entre os diferentes elementos que compõem um
coquetel, participam mas nenhum sozinho é o definidor do gosto do coquetel.
Para Elkaïm (2000), a história de um sistema pode ser uma história na qual
os elementos passados não impõem automaticamente os elementos futuros; os
elementos históricos são necessários, mas não suficientes para explicar a aparição
de problemas no cotidiano.
Os sistemas humanos são basicamente construídos pela comunicação e a
relação, pois todas as pessoas se comunicam ao estabelecerem relações. A
comunicação se faz de diversas formas. Nos sistemas, e seus contextos,
aprendemos a aprender, desenvolvendo premissas básicas de conduta e
comunicação.
Todos nós temos registros armazenados de forma tal que muitas vezes até
esquecemos que os temos. Estes registros foram coletados pelas
informações/formações de conhecimento de nosso mundo externo. Vivemos a partir
de nossas experiências, falamos do que conhecemos, do que conseguimos explicar
através das reformulações de nossas experiências. Cada um de nós tem
experiências próprias, daí haver várias formas de explicação e muitas formas de
aceitar os conceitos que são baseados nas experiências do outro. (Maturana, 2001)

2.5 Alguns conceitos de Mony Elkaim

Duplos vínculos: É o ciclo vicioso que se forma nas relações a partir da


conjunção de programas oficiais e mapas de mundo antagônico. Se refere ao
paradoxo como algo corriqueiro e inexoravelmente presente no centro da vida
cotidiana, nas relações humanas, é o desejo de ser amado e o medo de ser
rejeitado.
No seu livro Se você me ama, não me ame, Mony Elkaïm (2000) ilustra este
conceito no caso apresentado no capítulo I, página 19:
17

- Para quem são estas flores?


- Mas... para você!
- Desde quando você me dá flores? De que você está querendo desculpar-
se?
- Querida, me deu vontade!
- Você não vai me ganhar com suas palavras doces. Que é que há por trás
disto?
- Mas agora eu já não posso nem mesmo te dar presentes?
- Se você fosse sincero, ao invés de encomendar meia dúzia de rosas da
primeira florista que encontrou, teria se lembrado de que eu prefiro lilases. A menos
que você simplesmente tenha pedido a sua secretária que fosse escolher umas
flores para sua mulher...
- Não foi minha secretária quem as escolheu. Fui eu mesmo.
- Porque você não comprou lilases?
- Esqueci que você gostava delas.
- Você viu! E você pretende me dar prazer! Não quero nada com suas flores!

Duplos vínculos recíprocos: São um entrelaçamento entre os duplos


vínculos individuais dos participantes de uma relação, como uma complementação
entre os problemas das pessoas envolvidas. A resposta de cada membro do casal,
não importa qual seja, é sempre insuficiente, visto que responde apenas a um dos
níveis do duplo vínculo do outro.

Programa Oficial: É uma demanda explícita nas relações que


estabelecemos, são cláusulas que colocamos claramente nos nossos contratos. O
que planejamos ser, fazer, conquistar.

Mapa do mundo: É uma crença construída a partir de experiências


anteriores. Padrões de comportamento explícitos e implícitos internalizados desde a
infância e não expressos de forma clara e objetiva.
18

Ressonância: São elementos semelhantes, comuns a diferentes sistemas


em interseção. A queixa de uma família pode trazer situações que desperte no
terapeuta lembranças de situações parecidas vividas em sua família de origem ou
em seus relacionamentos atuais.
19

3 O SISTEMA CASAL

É na família que a pessoa tem sua primeira experiência de relação


interpessoal, é o filtro através do qual se começa a ver e significar o mundo.
Segundo Satir (1988) as relações familiares se formam através do eixo constituído
pelo relacionamento conjugal.
Para conseguir se ligar ao(s) outros(s), é necessário que haja minimamente
uma espécie de ressonância entre as pessoas envolvidas, seja ela positiva ou
negativa. É inegável que a atração entre pessoas obedece a certos princípios que
respondem a questões chaves (na maioria das vezes inconscientes) dos envolvidos.
Durante décadas de atendimento clínico, observo que relações fugazes –
relações superficiais, sem envolvimento ou compromisso afetivo – podem deixar
marcas profundas contribuindo, ou reforçando, dificuldades para se criar vínculos
afetivos sexuais saudáveis.
Intimidade é um elo que se constrói, com zelo e constância até que se tenha
confiabilidade; não é um bem de consumo que se pode adquirir com jogos de poder
e sedução num relacionamento fugaz e superficial entre duas pessoas.

A definição intimidade é complexa uma vez que seus significados variam de


relacionamento para relacionamento, e dentro de um mesmo
relacionamento ao longo do tempo. Em alguns relacionamentos, a
intimidade está ligada ao sexo e sentimentos de afeto podem estar
conectados ou serem confundidos com sentimentos sexuais. Em outros
relacionamentos, a intimidade tem mais a ver com momentos divididos
pelos indivíduos do que interações sexuais. De qualquer forma, a intimidade
está ligada com sentimentos de afeto entre parceiros em um
relacionamento. Esta não é uma definição precisa, mas mesmo sem ser
específico, parece que a intimidade e relacionamentos saudáveis andam de
mãos dadas. Certamente a intimidade é um ingrediente básico em qualquer
relacionamento com algum significado: a base da amizade e uma das
fundações do amor. (MORRIS, 1997)

A relação de intimidade, o sentir-se à vontade e descontraído na companhia


do outro, é desejada secretamente por todo ser humano. Embora muitos não saibam
expressar esta expectativa e nem dela tenham consciência, todos querem uma
relação de continuidade, em que um se importa com o outro, em que ambos se
desejam, se acolhem, se respeitam e se nutrem, onde cabe a expansão da
individualidade de cada um em coexistência com um “nós” afetuoso e forte.
20

Não existem pré-requisitos que garantam que a relação entre duas pessoas
vai ou não se constituir como relação íntima. Ela poderá ser co-construída pelos
esforços dos parceiros. Sejam quais forem suas condições iniciais, uma relativa
harmonia entre valores e objetivos dos parceiros é necessária.
As diferenças quando muito acentuadas podem produzir inveja, temor de
perda gerando tentativa de cerceamento ou mudança do outro. Ainda que os
opostos se atraiam são as afinidades que mais possibilitam a solidificação do
vínculo.
É difícil uma relação se desenvolver e se manter satisfatoriamente quando se
deseja atender a expectativas idealizadas. A incompatibilidade entre os parceiros é a
preponderância do conflito entre os seus objetivos conscientes e inconscientes,
acerca de si mesmos e acerca do que esperam de um relacionamento afetivo.
A interação entre pessoas é uma realidade viva e, portanto sujeita as
mudanças a partir dos aprendizados que propicia. Algumas diferenças entre
parceiros podem dificultar e muito a relação harmoniosa e de crescimento entre eles.
Mas não são as diferenças individuais entre parceiros que podem inviabilizar
a construção de um relacionamento amoroso satisfatório entre eles, mas a
resistência em mudar, a insistência na manutenção das diferenças e a maneira de
se lidar com elas é que podem impedir a continuidade deste relacionamento ou a
manutenção de uma convivência saudável.
Ainda com a prática clínica, percebo que relacionamento entre pessoas é uma
realidade viva, dinâmica, geradora de aprendizagens ou de adoecimento, sendo o
fator de adoecimento mais frequente, a paralisia, o enrijecimento das funções e
comportamentos entre os envolvidos, o que caracteriza a negação à aprendizagem,
à mudança.
Toda pessoa tem aptidão e capacidade de aprender a se relacionar
intimamente com seu semelhante, havendo fatores intrapsíquicos e contextuais que
vão favorecer ou dificultar este aprendizado, gerando maior ou menor abertura para
aprender, disponibilidade para negociar, tolerar diferenças, sobrepor às diversidades
o interesse maior de construir e manter a relação.
21

4 ANÁLISE DO FILME AMOR SEM ESCALAS

O filme tem no elenco: George Clooney, Vera Farminga, Melaine Lynskey,


Anna Kendrick, Danny McBride e conta com a direção de Jason Reitman (2010). A
sinopse do filme assim o apresenta:
Pago para viajar pelos Estados Unidos despedindo funcionários de empresas
em crise, Ryan Bingham sempre se contentou com um estilo de vida desapegado,
passado em meio a aeroportos, hotéis e carros alugados. Ele consegue carregar
tudo o que precisa em uma mala de mão, é membro de elite de todos os programas
de fidelidade existentes e está próximo de atingir 10 milhões de milhas voadas.Mas
quando o chefe de Ryan, inspirado por uma eficiente e novata funcionária, ameaça
mantê-lo permanentemente na sede da empresa, ele se vê entre a perspectiva – ao
mesmo tempo aterrorizante e agradável – de ficar em terra firme, contemplando o
que realmente pode significar ter um lar.
Na história narrada pelo filme “Amor sem Escalas”, Ryan Binghan é um
executivo que trabalha para uma empresa na qual sua função é demitir profissionais
de diversas áreas, empresas e lugares do mundo e para isso seu trabalho lhe exige
passar mais tempo nos aeroportos do que em casa. Durante essas viagens ele
também ministra palestras de reflexão profissional sobre o que as pessoas levam
em suas bagagens diárias.
A empresa em que Ryan trabalha passa por um processo de inovação
tecnológica e ele se vê no trabalho de convencer a todos a importância de seu
trabalho ser pessoal e não por meio da tela de um computador.
Ryan então resolve levar Natalie, que desenvolveu o projeto inovador, junto
com ele em suas viagens, como assistente e expectadora.
Natalie é uma mulher jovem que sonha com o amor e um casamento
idealizado; ela se vê desiludida após o término de seu relacionamento ocorrer por
uma mensagem de texto recebida em seu celular.
Para Natalie o trabalho se torna cada vez mais estressante e ao mesmo
tempo produtivo, a pressão da função fria de desligar profissionais de seus
empregos eleva a tensão de Natalie, que pensa em desistir quando uma funcionária
que é demitida por ela, ameaça se suicidar.
22

Numa de suas viagens, Ryan conhece Alex, que também trabalha viajando e
com quem se envolve sexualmente. Por suas afinidades superficiais, articulam seus
horários para que possam sempre se encontrar entre um aeroporto e outro para
mais um momento casual.
Ryan é lembrado por Kara, sua irmã mais velha, sobre o casamento de sua
irmã caçula, Julie e lhe envia um pôster de Julie com o noivo para que durante suas
viagens, Ryan fotografe os lugares com o pôster, na intenção de fazer com que o
casal tenha a ilusão de ter viajado pelo mundo.
Natalie ajuda Ryan em sua missão de adquirir as fotos e aproveita para
questioná-lo sobre a importância dos laços afetivos. Ryan, Alex e Natalie se
divertem fazendo com que o tão racional executivo se aproxime da necessidade de
conviver e deixando-o à vontade para convidar Alex para acompanhá-lo ao
casamento de Julie, onde ele terá a até então inimaginável tarefa de irmão mais
velho, pertencente a sua família de origem.
Na véspera do casamento, seu futuro cunhado, Jim, pensa em desistir do
casamento e Kara, o incita a conversar com ele, afinal, essa era uma de suas
principais características: levar pessoas a reflexões positivas, motivadoras.
Na conversa Ryan questiona Jim sobre a presença de Julie nos momentos
felizes de sua vida, sobre a importância de se ter um co-piloto, de compartilhar a
vida com alguém e falando para Jim, ele se ouve e após o casamento reflete sobre o
que ele mesmo tem carregado em sua mochila da vida.

A vida não vale pela viagem, mas pelas conexões que fazemos pelo
caminho. (Turner – 2009)

Ryan decide ir em busca de Alex, sem avisá-la e descobre que ela é casada e
não está interessada em ter com ele mais do que os encontros que vinham tendo.
No filme, Alex passa uma mensagem dúbia de que tem interesse em Ryan,
eles tem um contrato não verbal de um relacionamento exclusivamente sexual e
quando ele vai à casa dela, ele quebra esse contrato.
23

4.1 Análise de cenas escolhidas

Cena 1

Ryan, Alex e Natalie conversam sobre o término do namoro de Natalie por uma
mensagem de texto recebida em seu celular.

Alex: Terminou com você com um torpedo?


Ryan: É igual a demitir alguém pela internet.
Alex: que canalha!
Natalie: e isso me torna o quê?
Alex: Acontece com todas nós. São espontâneos e engraçados, e nos surpreende
saber que são canalhas.
Natalie: Acompanhei-o até Omaha.
Ryan: Acompanhou?
Natalie: Eu ia trabalhar em São Francisco quando a ConAgra o chamou. Ele falou
que moraríamos juntos. Então o acompanhei.
Ryan: Até Nebraska?
Natalie: Achei que estaria noiva nessa idade. Sem querer ofender.
Alex: De jeito nenhum.
Ryan: Tudo bem.
Natalie: quando tinha 16 anos, achei que aos 23 estaria casada, com um filho,
escritório com janelas, diversão à noite. Já devia estar dirigindo um Grand Cherokee.
Alex: A vida pode decepcioná-la.
Natalie: Onde achou que estaria aos...
Alex: Não funciona assim.
Ryan: Para de se dar prazos.
Alex: Pode ser contra produtivo.

Aqui é observado a busca pelo ideal, ainda não se dando espaço para análise dos
desejos reais. Percebe-se a dualidade Mapa de Mundo e Programa Oficial. Natalie
apresenta como mapa de mundo a expectativa de amor romântico, que é “a crença
medieval de que o amor verdadeiro tem de ser a adoração extática de um homem
24

ou de uma mulher que representa para nós a imagem da perfeição” (Johnson, 1987)
e demonstra um programa oficial onde busca o sucesso profissional e a
independência.

Natalie: Não sou anti feminista. Agradeço o que sua geração fez por mim.
Alex: Foi um prazer.
Natalie: Parece que o sucesso não importa se eu não estiver com o cara certo.
Alex: Achou que era ele?
Natalie: Podia ter dado certo. Ele realmente tinha tudo a ver.
Alex: Sabia?
Ryan: Tudo a ver?
Natalie: Executivo, formado. Adora cachorros, comédias, 1.86m, cabelo castanho,
olhos meigos. Trabalha com finanças, mas gosta de ar livre nos finais de semana.
Sempre o imaginei com um nome curto como Matt, Jonh ou Dave. Num mundo
perfeito, ele dirige um 4Runner e, mais que de mim, só gosta do Golden Retrivier. E
um belo sorriso. E você?

Na coordenação de um grupo terapêutico para pessoas interessadas em aperfeiçoar


as relações afetivas, observo que as mulheres, independente da faixa etária,
sonham com o amor romântico, entrando em conflito com a realidade da vida
contemporânea que cobra a independência em todas as áreas, inclusive afetiva.

Alex: Me deixe pensar. Aos 34 anos, todos os requisitos físicos saem pela janela.
Você reza para que seja mais alto que você. Que não seja babaca. Curta a sua
companhia. Seja de boa família. Não pensa nisso quando é jovem. Não sei. Alguém
que queira filhos. Que goste e queira filhos. Por favor, deixe-o ganhar mais dinheiro
do que eu. Pode não entender agora, mas entenderá depois. Senão é uma receita
para o desastre. E um pouco de cabelo na cabeça. Mas nem isso é um problema
atualmente. Um sorriso bacana pode ser suficiente.

O discurso de Alex é com expressão de que ainda deseja encontrar essa pessoa e
quando segura a mão de Ryan , olhando em seus olhos dizendo que um sorriso
bacana pode ser suficiente, demonstra desejar que o homem com quem sonha pode
ser ele, e isso somado a suas reflexões após o casamento de sua irmã o impulsiona
25

a buscá-la. Observa-se aqui o conceito de duplo vínculo, uma dúbia mensagem do


que Alex espera de sua relação com Ryan.

Natalie: Uau, isso foi deprimente! Eu devia sair com mulheres.


Alex: Já tentei. Não somos tão agradáveis.
Natalie: Não me importo de casar com a carreira. E não espero que ela me abrace
na cama ao adormecer! Só não quero me acomodar.
Alex: É jovem. Acha que acomodação é fracasso.
Natalie: E é, por definição.
Alex: Mas quando achar a pessoa certa, não vai mais parecer acomodação. E só
haverá a garota de 23 anos com um alvo nas costas para julgar.

O que é a pessoa certa? As experiências nas relações é que nos propiciam o


crescimento pessoal. Viver em família é um constante aprendizado. Segundo Satir
(1988) o que contribui para a não homeostase do casal é quando cada um dos
cônjuges parte do princípio que deve agradar o outro, não podendo manifestar
descontentamento.

Cena 2
Kara pede a Ryan que converse com Jim que, na véspera do casamento com Julie,
apresenta-se inseguro para tal responsabilidade.

Ryan: O que foi?


Kara: O Jim mudou de idéia.
Ryan: Hoje?
Kara: É quando isso acontece.
Ryan: O que quer que eu faça?
Kara: Fale com ele.
Ryan: Quer que eu fale com ele?
Kara: É você ou eu. Sabe meu histórico. Estou fora de jogo.
Ryan: E eu nunca fui titular, nem fiquei no banco.
Kara: Não faz palestras motivacionais?
Ryan: Para evitarem compromissos.
Kara: que mensagem maluca é essa?
26

Ryan: É uma filosofia.


Kara: É maluquice.
Ryan: Podia ter ajudado você.
Kara: Não tem andado muito por perto. Basicamente você não existe. Sei que quer
ajudá-la, então é a sua chance.
Ryan entra no quarto de Jim, acompanhado pelo olhar de incentivo e controle de
Kara .
Jim: E aí, Ryan?
Ryan: Ei Jim.
Jim: Já leu este livro?
Ryan: Sim, é muito profundo.
Jim: Concordo.
Ryan: A Kara mencionou que você estava com uns pensamentos.
Jim: Acho que não conseguirei fazer isso.
Ryan: E porque diz isso logo hoje?
Jim: Ontem à noite fiquei deitado na cama sem conseguir dormir. Comecei a pensar
no casamento e que vamos comprar uma casa, morar juntos, ter um filho, depois
outro e depois vem o Natal, Ação de Graças, férias, iremos aos jogos de futebol e,
de repente eles se formam, trabalham, casam, eu viro avô, me aposento, perco o
cabelo, engordo e logo estarei morto. E não consigo parar de perguntar: qual o
propósito? Qual é o propósito?
Ryan: O propósito?
Jim: O que estou iniciando aqui.
Ryan: Jim, é o casamento. É uma das coisas mais bonitas da terra. É o que as
pessoas desejam..
Jim: Você nunca se casou.
Ryan: É verdade.
Jim: Nunca nem tentou.
Ryan: É difícil definir “tentar”.
Jim: Parece mais feliz que os meus amigos casados.
Ryan: Jim, não vou mentir. Casamento pode se um saco! E tem razão. Tudo isso
que falou te acompanha até a morte. Todos somos como relógios que não podem
ser parados. E vamos para o mesmo lugar. Não há um propósito.
Jim: Não há. É o que estou dizendo.
27

Ryan: Sabe, não sou o cara certo para conversar sobre isso. Se pensar nas suas
lembranças favoritas, nos seus momentos mais importantes, estava sozinho?
Jim: Não, acho que não.
Ryan: E ontem à noite, quando toda essa besteira estava girando na sua cabeça,
vocês não estavam em quartos separados?
Jim: Sim. A Julie foi para o apartamento e eu fiquei na suíte de lua de mel.
Ryan: Solitário, né?
Jim: É, bem solitário.
Ryan: A vida é melhor com companhia. Todos precisam de co-piloto.
Jim: Foi um toque bacana.
Ryan: Obrigado.
Jim: Como está o clima lá fora?
Ryan: Nada bom.
Jim: Ela está muito chateada?
Ryan: Só preocupada.
Jim: O que devo fazer?
Ryan: Vá pegá-la.

Observa-se nesta cena a importância de flexibilidade e sinceridade. Não


saber ou não ter experiências iguais a dos clientes não nos impossibilita a ouvi-los.
Recorrendo ao conceito de Ressonância, algo vivenciado, experimentado na história
de Ryan, em sua família de origem, o levou a aceitar ter essa conversa com Jim e a
perceber, junto com ele, a importância e o prazer de se caminhar junto.
Como quando se aprende pára de repetir, mobilizado pelas reflexões e os
últimos acontecimentos, Ryan opta para o contato consigo mesmo, aberto a
possibilidade de compartilhar sua vida com outra pessoa. Mas, voltar para solidão é
tão doloroso quanto correr riscos se relacionando. Quando se está sozinho, tem-se
muito tempo para trabalhar questões pessoais.

Cena 3
Telefonema de Alex para Ryan, após ele ir na casa dela sem avisá-la, acreditando
que ela tem por ele os mesmos sentimentos que ele tem por ela, e a encontrando
casada.
28

Ryan: Alex?
Alex: Como aparece assim na minha porta?
Ryan: O quê? Queria ver você. Não sabia que tinha uma família. Porque não me
contou?
Alex: Desculpa estragar a sua noite, mas quase me arruinou. Aquela é a minha
família, a minha vida real.
Ryan: Achei que vivíamos algo real.
Alex: Achei que nos “inscrevemos” para a mesma coisa.
Ryan: Me ajude a entender exatamente no que você se “inscreveu”.
Alex: Achei que nossa relação estava perfeitamente clara. Quer dizer, você é uma
fuga. Uma pausa das nossas vidas normais. Você é um parêntese.
Ryan: Eu sou um parêntese.
Alex: O que você quer? Me diga o que quer. Você nem sabe o que quer. Sou uma
mulher adulta, ta legal? Se quiser me ver de novo, me ligue. Tá legal?

Nesta cena o diálogo aponta para a dificuldade presente em algumas


relações: a comunicação distorcida, deturpada. Ouve-se o que quer, como quer.
Todos querem uma relação de continuidade, em que um se importa com o
outro, em que ambos se desejam, se acolhem, se respeitam e se nutrem, onde cabe
a expansão da individualidade de cada um em coexistência com um “nós” afetuoso e
forte.
29

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante a execução deste trabalho fui percebendo como foi importante para
eu buscar os autores que busquei.
Gosto muito de assistir filmes e “analisá-los”, mas debruçando sobre a análise
deste filme em particular, vivenciei de forma clara os conceitos aqui apresentados,
sendo o principal deles a ressonância.
Conforme a sinopse do filme é possível perceber o dilema de uma pessoa
entre “Mapa de mundo” e “Programa oficial”.
Como psicóloga, levo para os atendimentos não só conhecimentos com os
quais me identifico como também situações de vida que contribuem para essa
identificação teórica e as possíveis intervenções.
A vida pode ser vista como um exercício de nossos desejos, multiplicado
pelas nossas expectativas, dividido pelas nossas escolhas e em alguns casos estas
escolhas se distanciam de nossos reais desejos.
Enquanto acreditar que a verdade me pertence, não tenho como expandir a
visão para aprender com a verdade do outro que pode ser a mesma, vista de outro
ângulo. Cada pessoa tende a viver do modo com que acredita. Não é possível
enxergar o outro e aceitá-lo, se não conseguir me estranhar em relação ao que sou.
Isso não se dá apenas na ordem intelectual, mas também emocional. Não há ação
humana que não tenha significação para quem age.
Os paradigmas influenciam as percepções fazendo acreditar que meu jeito de
fazer as coisas é a única forma de fazer. As mudanças de paradigmas só podem
ocorrer por meio de vivências, de experiências, de contato, de relação para que se
tenha consciência das próprias crenças e aprendizados, questionando-os.
Aprendi na formação de Psicoterapia de Família e Casal a ser mais flexível na
escuta clínica, para que o que difere de mim não prejudique o sistema que estiver
inserida, seja ele terapêutico, social, profissional ou institucional.
Observo que a realização deste trabalho me ensina que o submetimento às
normas pode ser visto de forma ampliada possibilitando a percepção do aprendizado
na execução dessas normas, embora a exigência da produção deste trabalho para a
30

obtenção do título de especialista em Psicoterapia de Família e Casal tenha me


causado aflição.
Vivemos de acordo com nossa experiência e a cada momento nos é oferecido
novas experiências que nos levam a modificar, ou não, nossa forma de viver. Cabe a
nós, saber aproveitar o melhor de cada experiência a fim de tornar nossa vida mais
proveitosa e feliz.
Conseguindo me conhecer a ponto de manter o amor por mim mesma e pelos
que estão a minha volta, respeitando as diferenças inerentes ao ser humano,
através de uma comunicação honesta e consciente, os desentendimentos,
obstáculos ou dificuldades dos relacionamentos me servem para o fortalecimento e
me propiciam um caminhar mais harmonioso.
31

REFERÊNCIAS

AUN, Juliana Gontijo. Da terapia de família ao atendimento sistêmico à família. In:


AUN, Juliana Gontijo; VASCONCELLOS, Maria José Esteves de; COELHO, Sônia
Vieira. Atendimento sistêmico de famílias e redes sociais. Volume 1:
Fundamentos teóricos e epistemológicos. 2 ed. Belo Horizonte: Ophicina de Arte &
Prosa, 2006. p. 46-57.

ELKAÏM Mony. Se você me ama, não me ame – Abordagem Sistêmica em


Psicoterapia Familiar e Conjugal. 2ª Edição – Papirus: Campinas, 2000.

FERES-CARNEIRO, Terezinha; PONCIANO, Edna L. T.; MAGALHÃES, Andréa S.


Família e casal: da tradição à modernidade. In: CERVENY, Ceneide Maria de
Oliveira (org.) Família em movimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

FICHA TÉCNICA do filme “Amor sem Escalas” disponível em


http://www.adorocinema.com/filmes/amor-sem-escalas/ Acesso e 31 de outubro de
2010.

JOHNSON, ROBERT A. We - A Chave da Psicologia do Amor Romântico SÃO


PAULO: Mercuryo, 1987

MATURANA, Humberto. Cognição, Ciência e Vida Cotidiana. Org. MAGRO,


Cristina; PAREDES, Victor. Ed. UFMG. Belo Horizonte, 2001.

MORRIS, Desmond. Intimate Behavior: A Zoologist Classic Study of Human


Intimacy. Nova Iorque:Kodansha Globe, 1997.

NICHOLS, Michael P.; SCHWARTZ, Richard C. Terapia familiar: conceitos e


métodos. Porto Alegre: Artmed, 2007.

PONCIANO, Edna Lúcia Tinoco; FERES-CARNEIRO, Terezinha. Terapia de família


no Brasil: uma visão panorâmica. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v.
19, n. 2, 2006 . Disponível em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
79722006000200011&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 24 out. 2010.
32

Ponciano, Edna Lúcia Tinoco. História da Terapia de Família: de Palo Alto ao Rio
de Janeiro. 1999. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Curso de Pós-Graduação
em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro.

PONCIANO, Edna Lúcia Tinoco; FÉRES-CARNEIRO, Terezinha. Modelos de família


e intervenção terapêutica. Interações. v.8, n.16, p. 57-80, jul.-dez. 2003.

SARTI, Cynthia A. A Família como ordem simbólica. Psicologia USP, 2004.

SARTI, Cynthia A. Família e Individualidade: Um problema moderno – texto


preparado para exposição na mesa redonda “Perspectivas de análise teórica da
família”, no Seminário A Família contemporânea em debate. Instituto de Estudos
Especiais da PUC de São Paulo. São Paulo, 19-21 de outubro de 1993.

TURNER, Sheldon. Sinopse do filme “Amor sem Escalas”. 2009. Disponível em:
http://www.cinepop.com.br/filmes/amorsemescalas.php Acesso em: 31 de outubro
de 2010.

VASCONCELLOS, Maria José Esteves de. Pensamento Sistêmico. O Novo


Paradigma da Ciência. 8ª Edição - Papirus: Campinas – SP, 2009.