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COERÊNCIA E COESÃO TEXTUAL

Professora: Josiane Bez Fontana

COERÊNCIA

Observe o texto que segue:

Havia um menino muito magro que vendia amendoins numa esquina de uma das avenidas de
São Paulo. Ele era tão fraquinho, que mal podia carregar a cesta em que estavam os pacotinhos de
amendoim. Um dia, na esquina em que ficava, um motorista, que vinha em alta velocidade, perdeu a
direção. O carro capotou e ficou de rodas para o ar. O menino não pensou duas vezes. Correu para o
carro e tirou de lá o motorista, que era um homem corpulento. Carregou-o até a calçada, parou um
carro e levou o homem par ao hospital. Assim, salvou-lhe a vida.

Esse texto, uma redação escolar, apresenta uma incoerência: se o menino era tão fraco que quase não
podia carregar a cesta de amendoins, como conseguiu carregar um homem corpulento até o carro?
Coerência deve ser entendida como unidade do texto. Um texto coerente é um conjunto harmônico,
em que todas as partes se encaixam de maneira complementar de modo que não haja nada destoante, nada
ilógico, nada contraditório, nada desconexo. No texto coerente, não há nenhuma parte que não se solidarize
com as demais.
Todos os elementos do texto devem ser coerentes. Vamos ver apenas três dos níveis em que a
coerência deve ser observada:
1. coerência narrativa;
2. coerência figurativa;
3. coerência argumentativa.

1. Coerência narrativa

É incoerente narrar uma história em que alguém está descendo uma ladeira num carro sem freios, que
pára imediatamente, depois de ser brecado, quando uma criança lhe corta a frente.
Um outro tipo de incoerência narrativa pode ocorrer em relação à caracterização dos personagens e
às ações atribuídas a eles.
No percurso da narrativa, os personagens são descritos como possuidores de certas qualidades (alto,
baixo, frágil, forte), atribuem-se a eles certos estados de alma (colérico, corajoso, tímido, introvertido,
apático, combativo). Essas qualidades e estados de alma podem combinar-se ou repelir-se, alguns
comportamentos dos personagens são compatíveis ou incompatíveis com determinados traços de sua
personalidade.
Se na narrativa aparecem indicadores de que um personagem é tímido, frágil e introvertido, seria
incoerente atribuir a esse personagem o papel de líder e agitador dos foliões pos ocasião de uma festa
pública. Obviamente, a incoerência deixaria de existir se algum dado novo justificasse a transformação do
referido personagem. Uma bebedeira, por exemplo, poderia desencadear essa mudança.

2. Coerência figurativa

Suponhamos que se deseje figurativizar o tema “despreocupação”. Podem-se usar figuras como
“pessoas deitadas à beira de uma piscina”, “drinques gelados”, “passeios pelo shopping”. Não caberia, no

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entanto, na figurativização desse tema, a utilização de figuras como “pessoas indo apressadas para o
trabalho”, “fábricas funcionando a pleno vapor”.
Por coerência figurativa entende-se a articulação harmônica das figuras do texto, com base na
relação de significado que mantêm entre si.
Um último exemplo. Suponhamos que se queira mostrar a vida no Pólo Norte. Podem-se para isso usar
figuras como “neve”, “pessoas vestidas com roupa de pele”, “renas”, “trenós”. Não se podem, porém, utilizar
figuras como “palmeiras”, “cactos”, “camelos”, “estradas poeirentas”.

3. Coerência argumentativa

Quando se defende o ponto de vista de que o homem deve buscar o amor e a amizade, não se pode
dizer em seguida que não se deve confiar em ninguém e que por isso é melhor viver isolado.
Num esquema de argumentação, joga-se com certos pressupostos ou certos dados e deles se fazem
interferências ou se tiram conclusões que estejam verdadeiramente implicados nos elementos lançados como
base do raciocínio que se quer montar. Se os pressupostos ou dados de base não permitem tirar as
conclusões que foram tiradas, comete-se a incoerência de nível argumentativo.
Assim também é incoerente defender ponto de vista contrário a qualquer tipo de violência e ser
favorável à pena de morte, a não ser que se considere a ação de matar como uma ação violenta.

COESÃO

Quando lemos com atenção um texto bem construído, não nos perdemos por entre os enunciados que
o constituem, nem perdemos a noção de conjunto. Com efeito, é possível perceber a conexão existente entre
os vários segmentos de um texto e compreender que todos estão interligados entre si.
A título de exemplificação do que foi dito, observe o texto a seguir:

É sabido que o sistema do Império Romano dependia da escravidão, sobretudo para a


produção agrícola. É sabido ainda que a população escrava era recrutada principalmente entre
os prisioneiros de guerra.
Em vista disso, a pacificação das fronteiras fez diminuir consideravelmente a população
escrava.
Como o sistema não podia prescindir da mão-de-obra escrava, foi necessário encontrar
outra forma de manter inalterada essa população.

Como se pode observar, os enunciados desse texto não estão amontoados caoticamente, mas
estritamente interligados entre si: ao se ler, percebe-se que há conexão entre cada uma das partes.
A essa conexão interna entre os vários enunciados presentes no texto dá-se o nome de coesão. Diz-
se, pois, que um texto tem coesão quando seus vários enunciados estão organicamente articulados entre si,
quando há concatenação entre eles.
A coesão de um texto, isto é, a conexão entre os vários enunciados obviamente não é fruto do acaso,
mas das relações de sentido que existem entre eles. Essas relações de sentido são manifestadas sobretudo
por certa categoria de palavras, as quais são chamadas conectivos ou elementos de coesão. Sua função no
texto é exatamente a de pôr em evidência as várias relações de sentido que existem entre os enunciados.
São várias as palavras que, num texto, assumem a função de conectivo ou de elemento de coesão:

• as preposições: a, de, para, com, por, etc.;


• as conjunções: que, para que, quando, embora, mas, e, ou, etc.;
• os pronomes: ele, ela, seu, sua, este, esse, aquele, que, o qual, etc.;
• os advérbios: aqui, aí, lá, assim, etc.

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O uso adequado desses elementos de coesão confere unidade ao texto e contribui consideravelmente
para a expressão clara das idéias. O uso inadequado sempre tem efeitos perturbadores, tornando certas
passagens incompreensíveis.

A coesão no período composto

Muitas vezes, nas suas redações, os alunos constroem períodos incompreensíveis, por descuidarem
dos princípios de coesão. Não é raro, por exemplo, ocorrerem períodos desprovidos da oração principal, como
nos exemplos que seguem:

O homem que tenta mostrar a todos que a corrida que se trava entre as grandes potências
é uma loucura.

Ao dizer que todo o desejo de que os amigos viessem à sua festa desaparecera, uma vez
que seu pai se opusera à realização.

No primeiro período, temos:

1. o homem;
2. que tenta mostrar a todos: oração subordinada adjetiva;
3. que a corrida armamentista é uma loucura: oração subordinada substantiva objetiva direta;
4. que se trava entre as grandes potências: oração subordinada adjetiva.

A segunda oração está subordinada àquela que seria a primeira, referindo-se ao termo homem; a
terceira é subordinada à segunda, a quarta à terceira. A primeira oração está incompleta. Falta-lhe o
predicado. O aluno colocou o termo a que se refere a segunda oração, colocou uma sucessão de inserções e
“esqueceu-se” de desenvolver a idéia principal.
No segundo período, só ocorrem orações subordinadas. Ora, todos sabemos que uma oração
subordinada pressupõe a presença de uma principal.
A escrita não exige que todos os períodos sejam longos e complexos, mas que sejam completos e que
as partes estejam absolutamente conectadas entre si.
Ao escrever, devemos ter claro o que pretendemos dizer e, uma vez escrito o enunciado, devemos
avaliar se o que foi escrito corresponde àquilo que queríamos dizer.

O papel dos elementos de coesão

Consideramos como elementos de coesão todas as palavras ou expressões que servem para
estabelecer elos, para criar relações entre segmentos do discurso tais como: então, portanto, já que, com
efeito, porque, ora, mas, assim, daí, aí, dessa forma, isto é, embora e tantas outras.
Além de ligarem partes do discurso, estabelecem entre elas um certo tipo de relação semântica:
causa, finalidade, conclusão, contradição, condição, etc. Ao escrever, deve-se ter o cuidado de usar o
elemento apropriado para exprimir o tipo de relação que se quer estabelecer.
O porém, por exemplo, presta-se para manifestar uma relação de contradição: usado entre dois
enunciados ou entre dois segmentos do texto, manifesta que um contraria o outro. Observe-se o exemplo
que segue:

Israel possui um solo árido a pouco apropriado à agricultura, porém chega a exportar
certos produtos agrícolas.

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No caso, faz sentido o uso do porém, já que entre os dois segmentos ligados existe uma contradição.
Seria descabido permutar o porém pelo porque, que serve para indicar causa. De fato, a exportação de
produtos agrícolas não pode ser vista como a causa de Israel ter um solo árido.
Muitas pessoas, ao redigir, não atentam para as diferentes relações que os elementos de coesão
manifestam e acabam empregando-os mal, criando, com isso, paradoxos semânticos.
Vejamos, a título de exemplo, as relações que alguns elementos de coesão estabelecem:

a) assim, desse modo: têm um valor exemplificativo e complementar. A seqüência introduzida por eles
serve normalmente para explicitar, confirmar ou ilustrar o que se disse antes.

O Governador resolveu não se comprometer com nenhuma das facções em disputa pela
liderança do partido. Assim, ele ficará à vontade para negociar com qualquer uma que venha a
vencer.

b) e: anuncia o desenvolvimento do discurso e não a repetição do que foi dito antes: indica uma
progressão semântica que adiciona, acrescenta algum dado novo. Se não acrescentar nada, constitui
pura repetição e deve ser evitada. Ao dizer:

Este trator serve para arar a terra e para fazer colheitas.

O e introduz um segmento que acrescenta uma informação nova. Por isso seu uso é apropriado.
Mas, ao dizer:

Tudo permanece imóvel e fica sem alterar.

o segmento introduzido pelo e não adiciona nenhuma informação nova. Trata-se, portanto, de um uso
inadequado.

c) ainda: serve, entre outras coisas, para introduzir mais um argumento a favor de determinada
conclusão, ou para incluir um elemento a mais dentro de um conjunto qualquer.

O nível de vida dos brasileiros é baixo porque os salários são pequenos. Convém lembrar
ainda que os serviços públicos são extremamente deficientes.

d) aliás, além do mais, além de tudo, além disso: introduzem um argumento decisivo, apresentado
como acréscimo, como se fosse desnecessário, justamente para dar o golpe final no argumento
contrário.

Os salários estão cada vez mais baixos porque o processo inflacionário diminui
consideravelmente seu poder de compra. Além de tudo são considerados como renda e
taxados com impostos.

e) isto é, quer dizer, ou seja, em outras palavras: introduzem esclarecimentos, retificações ou


desenvolvimentos do que foi dito anteriormente.

Muitos jornais fazem alarde de sua neutralidade em relação aos fatos, isto é, de seu
não comprometimento com nenhuma das forças em ação no interior da sociedade.

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f) mas, porém, contudo e outros conectivos adversativos: marcam oposição entre dois enunciados ou
dois segmentos do texto. Não se podem ligar, com esses relatores, segmentos que não se opõem. Às
vezes, a oposição se faz entre significados implícitos no texto.

Choveu na semana passada, mas não o suficiente para se começar o plantio.

g) embora, ainda que, mesmo que: são relatores que estabelecem ao mesmo tempo uma relação de
contradição e de concessão. Servem para admitir um dado contrário para depois negar seu valor de
argumento. Trata-se de um expediente de argumentação muito vigoroso: sem negar as possíveis
objeções, afirma-se um ponto de vista contrário.
Observe-se o exemplo:

Ainda que a ciência e a técnica tenham presenteado o homem com abrigos


confortáveis, pés velozes como o raio, olhos de longo alcance e asas para voar, não
resolveram o problema das injustiças.

Como se nota, mesmo concedendo ou admitindo as grandes vantagens da técnica e da ciência,


afirma-se uma desvantagem maior.
O uso do embora e conectivos do mesmo sentido pressupõe uma relação de contradição que, se
não houver, deixa o enunciado descabido. Exemplo:

Embora o Brasil possua um solo fértil e imensas áreas de terras plantáveis, vamos
resolver o problema da fome.

h) Certos elementos de coesão servem para estabelecer gradação entre os componentes de uma certa
escala. Alguns, como mesmo, até, até mesmo, situam alguma coisa no topo da escala; outros, como ao
menos, pelo menos, no mínimo, situam-se no plano mais baixo.

O homem é ambicioso. Quer ser dono de bens materiais, da ciência, do próprio


semelhante, até mesmo do futuro e da morte.

ou

É preciso garantir ao homem seu bem-estar: o lazer, a cultura, a liberdade, ou, no


mínimo, a moradia, o alimento e a saúde.

Para encerrar essas considerações sobre o uso dos elementos de coesão, convém dizer que, às vezes,
cria-se o paradoxo semântico provocando determinados efeitos de sentido. Pode-se conseguir, por exemplo,
um efeito de humor ou de ironia ou revelar preconceitos estabelecendo-se uma relação de contradição entre
dois segmentos que, usualmente, não são vistos como contraditórios. Sirva de exemplo uma passagem como
esta:

Ela é mulher, mas é capaz.

Com essa nota, o mas passa a estabelecer uma relação de contradição entre ser mulher e ser capaz.
Essa relação revela humor ou preconceito do enunciador. Nos dois casos, no entanto, pressupõe-se que as
mulheres não sejam capazes.
É claro que o uso desses paradoxos deve ser feito com cuidado e dentro de um contexto que não dê
margem à ambigüidade.

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A retomada ou a antecipação dos termos

Observe o trecho que segue:

José e Renato, apesar de serem gêmeos, são muito diferentes. Por exemplo, este é calmo, aquele é explosivo.

O termo este retoma o nome próprio “Renato”, enquanto aquele faz a mesma coisa com a palavra
“José”. “Este” e “aquele” são chamados anafóricos.
Anafórico, genericamente, pode ser definido como uma palavra ou expressão que serve para retomar
um termo já expresso no texto, ou também para antecipar termos que virão depois.
Quando um elemento anafórico está empregado num contexto tal que pode referir-se a dois termos
antecedentes distintos, isso provoca ambigüidade e constitui uma ruptura de coesão. Na escrita, é preciso
tomar cuidado para que o leitor perceba claramente a que termo se refere o elemento anafórico.
Eis alguns exemplos de ambigüidade por causa do uso dos anafóricos:

O PT entrou em desacordo com o PMDB por causa de sua proposta de aumento de salário.

No caso, sua pode estar se referindo à proposta do PT ou à do PMDB.


Para desfazer a ambigüidade, apela-se para outras formas de construção da frase, como por exemplo:

A proposta de aumento do salário formulada pelo PT provocou desacordo com o PMDB.

O uso do pronome relativo pode também provocar ambigüidade, como na frase que segue:

Via ao longe o sol e a floresta, que tingia a paisagem com suas variadas cores.

No caso, o pronome relativo que pode estar se referindo a sol ou a floresta.


Há frases das redações escolares em que simplesmente não há coesão nenhuma. É o que ocorre nesta
frase:

Encontrei apenas belas palavras o qual não duvido da sinceridade de quem as escreveu.

Como se vê, o enunciado foca desconexo porque o pronome o qual não recupera antecedente algum.

Excertos extraídos de “PLATÃO E FIORIN. Para entender o texto: leitura e redação. 16. ed. São Paulo,
Ática, 2003.”