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Polícia e Juventude: uma análise da representação social da policia nas letras de rap dos jovens de Nova Contagem

Polícia e Juventude: uma análise da representação social da policia nas letras de rap dos jovens de Nova Contagem

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Monografia de conclusão de curso de Especialização Lato Sensu Em Polícia Comunitária e Segurança Cidadã, da Escola Superior Dom Helder Câmara, em 2009
Monografia de conclusão de curso de Especialização Lato Sensu Em Polícia Comunitária e Segurança Cidadã, da Escola Superior Dom Helder Câmara, em 2009

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A ditadura militar foi a mais recente de uma seqüência de regimes autoritários que se
intercalam com breves períodos de democracia, na história do Brasil, desde o Império.
Iniciada em 1964, o regime militar autoritário utilizou-se das estratégias criadas nos
períodos anteriores para legitimar sua estrutura. Todavia, enquanto a o Estado Novo levou o
quartel para a delegacia, e demonizou a figura de Filinto Muller, a ditadura militar aplicou a
repressão, e inclusive a tortura, com as próprias mãos, no interior das dependências das Forças
Armadas.

Ainda assim, o papel das forças policiais não ficou dissociado da repressão. A figura
do delegado Fleury, da Polícia Civil de São Paulo, é emblemática. Seu envolvimento na
repressão e na tortura, durante o período, e conhecido e documentado. Foi um dos
responsáveis pela tortura dos freis dominicanos e pelo assassinato de Carlos Marighella. O

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episódio é narrado no livro “Batismo de Sangue”, de Frei Betto, e inspirou o filme homônimo,
de Helvécio Ratton.

Sergio Paranhos Fleury encarnou o pesadelo do policial corrupto, bárbaro e ambicioso,
que utilizava seus contatos com a “tigrada” (militares das Forças Armadas) para obter
benefícios patrimoniais, intimidando opositores e comandando “Esquadrões da Morte”,
prática disseminada por todo o país. (GASPARI, 2002).
O escritor mineiro Frei Betto, na obra “Batismo de Sangue”, narra as agruras
enfrentadas pelos dominicanos sob o domínio de Paranhos Fleury, culminando com o
assassinato de Carlos Mariguella e o suicídio de Frei Tito Frankort, após sofrer inúmeras
torturas nas dependências do DOPS.

2.2 Representações sociais nas manifestações artísticas

Tanto a República Velha quanto o Estado Novo e a ditadura militar de 1964/1985, tem
em comum a utilização das forças policiais para manutenção dos interesses das classes
dominantes, em detrimento das camadas mais vulneráveis e desfavorecidas.
Segundo Moisés Augusto Gonçalves,

“Essa herança perpassa a construção do Estado-Nação - em sua
cissiparidade com o Estado Lusitano e preservação dos elementos estruturantes da
ordem escravocrata - fazendo-se presente nas tensões/contradições e vicissitudes
que possibilitaram a derrocada da monarquia e a emergência de um ideário
republicano, jamais realizado. A ordem oligárquica calcada na tradição
patrimonialista e inquisitorial domina a cena política no monopólio do exercício de
um poder que sofistica cada vez mais seus mecanismos de legitimação, na
elaboração de uma ideologia que ilegitima outros atores, cerceando sua ascensão à
cena pública, cunhando os contornos de sua periculosidade e ameaça `a ordem
estabelecida. Produz-se assim o discurso das “classes perigosas”, e toda uma
concepção de garantia da ordem pública, que delega às polícias a tarefa de
“profilaxia social”, demarcando um “regime de exceção republicano” nas suas
dimensões de contenção, intimidação social e eliminação dos “indesejáveis”. Este
processo se acentua na era Vargas, na articulação de uma cidadania concedida com
forte repressão aos opositores do regime.” (GONÇALVES, 2003, p. 15)

O mesmo discurso ainda permeia as facetas do perigoso “direito penal do inimigo”,
discurso adotado por Günter Jakobs, que, segundo Luis Flávio Gomes, a partir do início do
século XXI abandonou claramente sua postura descritiva do denominado Direito Penal do
inimigo (postura essa divulgada primeiramente em 1985, na Revista de Ciência Penal - ZStW,
n. 97, 1985, p. 753 e ss.), passando a empunhar a tese afirmativa, legitimadora e justificadora
(p. 47) dessa linha de pensamento.

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Luis Flávio Gomes tece severas críticas a esse discurso, o qual seria:

“fruto, ademais, do Direito Penal simbólico somado ao Direito Penal punitivista
(Cancio Meliá). A expansão do Direito Penal (Silva Sanchez, A expansão do Direito
Penal
, trad. de Luiz Otávio Rocha, São Paulo, RT, 2002) é o fenômeno mais
evidente no âmbito punitivo nos últimos anos. Esse Direito Penal “do legislador” é
abertamente punitivista (antecipação exagerada da tutela penal, bens jurídicos
indeterminados, desproporcionalidade das penas etc.) e muitas vezes puramente
simbólico (é promulgado somente para aplacar a ira da população); a soma dos dois
está gerando como “produto” o tal de Direito Penal do inimigo.” (GOMES, 2004)

O furor punitivo do legislador e o temível uso do direito penal como vara de condão
repercutem severamente na atuação policial, diante do papel de mantenedora da ordem e da
lei, e diante da hierarquia do sistema de justiça criminal brasileiro.

2. 2. 1 A polícia na literatura

É inegável que a sociedade possui uma imagem negativa da polícia, como é visível nas
manifestações culturais e artísticas, sejam elas populares, sejam eruditas. Eduardo Manoel de
Brito (2007) encontra, na literatura nacional dos primeiros anos da República Brasileira, na
obra de Machado de Assis, Aluízio Azevedo, Lima Barreto e João do Rio, uma imagem
literária que “propicia uma reflexão sobre a origem de imagens negativas cristalizadas da
polícia no imaginário brasileiro” (BRITO, 2007, p. 128).
De acordo com BRITO, (2007, p. 123) “os contemporâneos Aluízio de Azevedo e
Machado de Assis corresponderam a autores que partiram de uns tantos aspectos da realidade
e de modos diferentes deram forma a uma literatura realista brasileira”.
De Aluízio de Azevedo, o romance “O cortiço”, oferece um panorama da imagem da
polícia na literatura brasileira traçando um paralelo entre a polícia-instituição, e a polícia-
indivíduo, representada pelo personagem soldado Alexandre, um policial exemplar na sua
vida pessoal e profissional.
Ainda em BRITO:

“Esse modelo parece não perder a força quando pensamos, por exemplo, nas
situações em que a mídia (escrita e televisiva principalmente) crítica as ONGs e
outras entidades civis por aparentemente não se solidarizarem com os policiais
vítimas da violência criminosa e defenderem os direitos humanos e a dignidade dos
detentos. O raciocínio pode assim ser descrito: se a instituição polícia tem
problemas, ela é, por outro lado, composta de homens com seus dramas pessoais e
seus valores. Colocar sob os holofotes a imagem do policial abnegado, oferecendo
assim um contraponto à instituição problemática, de algum modo permite uma
releitura da polícia. Na narrativa de Aluízio de Azevedo, a truculência policial é
inominada: os policiais são – em um momento da narrativa – chamados de

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morcegos, cujo trabalho corresponde a espancamento, destruição e achincalhamento
com a boa imagem que um lugar possa ter. O personagem policial Alexandre –
acerca de quem o número de informações permite a elaboração completa de sua
personalidade, físico, relações familiares e sociais – é o cartão de visitas da polícia e
corresponde a uma esperança a ser depositada na instituição policial: na pessoa dele
– inclusive, premiado ao final do romance com a promoção a sargento – os deslizes
da polícia são reinterpretados e há alguma esperança para a instituição.” (BRITO,
2007, 123)

Lima Barreto, no romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, apresenta uma
visão mais subjetiva do tema polícia, segundo Eduardo Manoel de Brito:

“O texto, escrito sob a forma de memórias, possui um caráter mais subjetivo do que
os escritos e investigados nos dois autores anteriormente citados, pois mesmo as
crônicas machadianas são acrescidas de um distanciamento entre o autor e o tema
por intermédio da ironia que não permite uma identificação direta do texto com o
leitor. O foco narrativo em primeira pessoa permite, ainda, o desvelar dos
sentimentos mais íntimos do protagonista, enriquecendo a narrativa realista com
reflexões e percepções subjetivas, situação improvável no romance naturalista de
Aluízio de Azevedo. E como a imagem da polícia surge desde aí? Há com clareza a
percepção de duas polícias: a dos gabinetes (que também atua nos cárceres) e a da
rua que policia a cidade e que reprime crimes e contravenções. São, em linhas
gerais, a polícia civil e a polícia militar. A primeira surge mancomunada com os
poderes locais, bajulando os que sobre ela poderiam ter alguma influência, em
especial a imprensa e os detentores de poder. E a segunda é apresentada como uma
polícia sem métodos e violenta (no fundo, parecendo ser uma realidade,
consequência da outra). De qualquer modo, não há a introdução do bom policial
individualizado: muito pelo contrário, as experiências pessoais do protagonista
apenas corroboram o quanto a instituição é imperfeita seja sob a vista mais
generalizante, seja tendo um policial à sua frente.” (BRITO, 2007, p.125)

Enquanto instituição, a polícia tem uma imagem muito negativa, e surge nos textos
como uma entidade a ser temida: sua presença ou a ameaça de sua presença causa medo, seja
para as crianças (funcionando ela como um bicho-papão), seja para os adultos que passaram
ou não pela experiência do contato com ela.
De acordo com BRITO (2007, 128), mais do que simples ilustrações da realidade
histórica, os textos literários propiciam uma reflexão sobre a origem de imagens negativas
cristalizadas da polícia no imaginário brasileiro: “mancomunada com os poderosos e temida
pelas classes populares; mal aparelhada e mal formada, sujeita a ingerências e servindo como
moeda de troca para favorecimentos vários”.
Na ficção de Jorge Amado, o mais popular dos escritores brasileiros, temos exemplos
de tais concepções sobre a atuação policial, através de personagens diversos.
Em “Tenda dos Milagres”, de Jorge Amado, publicada em 1969, o protagonista é
Pedro Archanjo, mestiço, pobre, capoeirista, freqüentador de candomblé e bedel da Faculdade
de Medicina da Bahia. No decorrer de sua trajetória, o autodidata Archanjo passa a publicar
livros sobre o sincretismo do povo baiano, e é perseguido, ao fazer a defesa apaixonada da

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miscigenação como força essencial da identidade baiana e brasileira. Após sua morte, o
personagem é então revisitado, sofrendo tentativas de apropriação por parte da mesma elite
branca que o perseguira, mas se move do campo erudito para o popular, sendo novamente
apreendida pelos legítimos detentores, através da homenagem de uma escola de samba.
Segundo análise de Marysther Oliveira do Nascimento, colunista do site Brasil
Escola, “ o período apresentado como “tempo” do romance compreende exatamente o final do
século XIX e início do XX, quando, no Brasil, são aplicadas as chamadas teorias higienistas
como base para a criação de um projeto nacional: as diferenças de raça e o evolucionismo das
mesmas tornavam-se o ponto chave para a criação do tipo ideal nacional”
Ainda segundo Marysther Oliveira do Nascimento,

“No livro, fica perceptível a luta ideológica travada entre a cultura popular e a
ciência européia, através dos vários embates, travados entre Pedro Archanjo, o
delegado Pedrito Gordo (Dr. Pedro de Azevedo Gordilho) e o professor Nilo
Argolo, este livremente inspirado em Nina Rodrigues. É perceptível ainda na
perseguição perpetrada pelo aparelho estatal, através dos jornais e da polícia, na
busca de minimizar, ou mesmo exterminar, as práticas culturais desenvolvidas nos
terreiros de candomblé, nas rodas de capoeira e dos grupos de afoxés durante o
Carnaval”(NASCIMENTO, 2006)3

Ao defender a cultura mestiça, Archanjo profetiza o futuro onde “...tudo já terá se
misturado por completo e o que hoje é mistério e luta de gente pobre, roda de negros e
mestiços, música proibida, dança ilegal, candomblé, samba, capoeira, tudo isso será festa do
povo brasileiro, música, balé, nossa cor, nosso riso, compreende?” (Tenda dos
milagres...p.317-8).

Frederico José de Abreu, em seu artigo “A repressão à capoeira”, cita, ainda no

período Imperial, pré-abolição:

“Rugendas, persuadir de que são escravos que temos diante dos olhos’. A partir
desse ponto de vista, pode-se afirmar que o batuque (capoeira, samba, candomblé e
outros folguedos negros) proporcionava ocasiões para o escravo recuperar sua
humanidade brutalizada pela escravidão”. (...) “o controle dos negros na rua não era
mais da alçada dos seus proprietários, e, sim, do poder público, do Estado e do
aparelho policial a ele subordinado”. (ABREU, - , p. 38)

p. No Rio de Janeiro, capital da República, o poeta e jornalista Olavo Bilac escreveu:
'selvagem' presença negra na recém-inaugurada Avenida Central, principal ícone da
Regeneração, conforme Letícia Vidor de Souza Reis, no artigo “O que o rei não viu: música
popular e nacionalidade no Rio de Janeiro da Primeira República”:

“[...] Num dos últimos domingos vi passar pela Avenida Central um carroção
atulhado de romeiros da Penha: e naquele amplo boulevard esplêndido, sobre o
asfalto polido, contra a fachada rica dos prédios altos, contra as carruagens e carros
que desfilavam, o encontro do velho veículo [...] me deu a impressão de um

3 www.brasilescola.com/literatura/tenda-dos-milagres.htm – acesso em 14 de maio de 2009

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monstruoso anacronismo: era a ressurreição da barbaria — era uma idade selvagem
que voltava, como uma alma do outro mundo, vindo perturbar e envergonhar a vida
da idade civilizada [...] Ainda se a orgia desbragada se confinasse ao arraial da
Penha! Mas não! acabada a festa, a multidão transborda como uma enxurrada
vitoriosa para o centro da urbs [...] (Bilac, 1906, apud REIS, 2003, p. 241)

Conforme REIS, a capital havia sido remodelada e modernizada para acolher o novo
Brasil “urbano”. Fica “evidente a idéia de que o centro da cidade, com sua nova arquitetura e
equipamentos urbanos, deveria ser desfrutado apenas pelas camadas mais abastadas da
população, enquanto o restante deveria confinar-se às áreas periféricas” (REIS, 2003, p. 242).
Às forças policiais cabia o dever de confinar o restante da população,
predominantemente negra e pobre, às referidas áreas periféricas.
Além do privilégio de uso exclusivo do centro da cidade pelas elites, as críticas de
Bilac deixam transparecer também uma condenação à cultura popular, a qual deveria se
restringir aos locais periféricos.

2.2.2 A polícia na música brasileira

Percebe-se que o esforço conjunto das elites e do governo oligárquico da Primeira
República seria no sentido de contenção das "classes perigosas", especialmente no tocante à
sua herança africana. Contudo, apesar das tentativas de reprimi-la, a presença negra foi, pouco
a pouco, se fazendo sentir na cidade. E isso sob as formas culturais sensíveis da música, da
festa, do canto e da dança.

No período entre o final do século XIX e as primeiras três décadas do século XX,
literatos, intelectuais e políticos brasileiros apresentavam uma postura ambivalente em relação
à cultura negra, entre a reprovação e exaltação.
No final do século XIX, a abolição da escravidão pôs fim às antigas relações
senhoriais de domínio. Com a ampliação da cidadania para os ex-escravos, a temperatura da
tensão racial entre negros e brancos tende a se elevar.
Nesse momento, a igualdade jurídica é conferida a todos, e, conforme Letícia Vidor de
Sousa Reis, no artigo “O que o rei não viu": música popular e nacionalidade no Rio de
Janeiro da Primeira República”:

“as teorias deterministas raciais ganham força no país e, ao estabelecerem distinções
biológicas e hereditárias entre negros e brancos, acabam por naturalizar a diferença
entre as raças. Um caminho para o aperfeiçoamento da raça negra foi apontado pela
chamada "teoria do branqueamento". Adeptos do darwinismo social, seus

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propositores propugnarão pelo branqueamento da população brasileira a ser obtido
através de um processo gradativo de seleção natural e social, que conduziria a uma
"mestiçagem eugênica", isto é, à depuração das características negras dos mestiços.
(...) Em um breve artigo publicado em 1982, Peter Fry (2001) analisou a maneira
pela qual o samba e o candomblé, dois itens originalmente elaborados pelos negros
sob dominação, teriam sido posteriormente apropriados pelos produtores de
símbolos nacionais e da cultura de massas. Na ocasião, o autor interpretou essa
conversão de símbolos étnicos em nacionais como uma estratégia política para
acobertar e mascarar a dominação racial, dificultando inclusive a sua própria
denúncia.” (REIS, 2003, p.247).

O samba é, nesse primeiro momento, o reduto da resistência, ainda que velada, e,
juntamente com a capoeira e o candomblé, o ingrediente que auxiliou na composição da
cultura brasileira do século XX.

Sendo o uma manifestação de raiz negra, encontra um paralelo interessante no
discurso do hip-hop do século XXI, o que já foi inclusive estudado por diversos autores, como
Cristina Magaldi, Luiz Geremias, Gustavo Souza, alguns acadêmicos e outros não, bem como
nas próprias entrevistas com representantes da cultura hip-hop, com MV Bill, Marcelo D-2 e
o expoente máximo do rap brasileiro ainda hoje, Racionais MC’s, que já gravou músicas com
grupos de pagode, como o Exalta Samba (pode-se dizer que o pagode é um derivativo do
samba, e que não é exatamente conhecido pelo engajamento político ou social).
Analisar-se-á primeiramente, de forma breve, a evolução da temática de resistência e
protesto na música brasileira, do samba ao hip-hop

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