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DIREITOS CIVIS, ESTADO DE DIREITO E "CULTURA POLICIAL": A FORMAÇÃO POLICIAL EM QUESTÃO
Revista Brasileira de Ciências Criminais | vol. 41 | p. 241 | Jan / 2003DTR\2003\6 Roberto Kant de Lima Área do Direito: Geral Sumário:

Resumo: A partir da análise comparada de sistemas contemporâneos de controle social, em vigência nas sociedades ocidentais, o artigo critica o modelo de formação policial brasileiro, atrelado a princípios judiciários excludentes e punitivos e/ou a ethos militares, ambos não apropriados à negociação da ordem no espaço e na esfera públicas e incompatíveis com os requisitos exigidos pelo Estado de direito e pela prática dos direitos civis nas sociedades contemporâneas. Finaliza propondo um modelo alternativo de formação policial, já em vigência nos cursos que a Universidade Federal Fluminense ministra nessa área, com apoio da Fundação Ford, para a Polícia Militar do Rio de Janeiro e, mais recentemente, também para a Guarda Municipal de Niterói. Palavras-chave: Formação policial - Método comparativo, direitos civis e segurança pública Modelos de controle social e polícia - Sistema Judicial Criminal, direitos civis e polícia no Brasil Polícia, Estado de direito e direitos civis no Brasil. É comum, quando se questiona o desempenho dos policiais, relacionar o mau desempenho com despreparo, e atribuir o despreparo à má formação. Embora em muitos casos a relação seja procedente, como nos casos de mau uso da arma de fogo, é preciso indagar se realmente o mau desempenho em geral é resultado de despreparo ou se não decorre de fatores de outra ordem. * Exemplo recente foi o registro em vídeo e a ampla divulgação pela mídia da abordagem que um policial militar fez de dois suspeitos de assaltarem um banco e que culminou na morte dos dois suspeitos, eliminados à queima-roupa pelo policial. O que ocorreu foi que, ao assaltarem um banco na Praça Nossa Senhora da Paz, Ipanema, bairro da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, em companhia de outros dois homens, uma dupla de assaltantes embarcou em uma motocicleta que se encontrava próxima a um policial militar, junto à praça, na calçada oposta ao banco. Alertado da recente ocorrência, o policial saca a arma e dirige-se aos dois, aproximando-se para revistá-los. Ao perceber uma arma nas costas daquele que dirigia a moto e motivado por um movimento súbito da pessoa que estava revistando, atira em ambos os suspeitos, matando-os. Poucos foram aqueles que criticaram publicamente a atitude do PM, por ter efetuado uma abordagem inteiramente fora das regras de segurança que seriam mínimas garantias de sua própria incolumidade física. O próprio comandante do batalhão - e a população entrevistada em geral elogiaram a "coragem" do PM e justificaram sua ação como sendo característica reação em legítima defesa, recomendando-se sua promoção. Também se elogiou sua heróica disposição para enfrentar os bandidos, ânimo necessário para a verdadeira guerra que se realiza contra o crime no Rio de Janeiro. Em entrevista em rádio nacional, lamentei que o policial tivesse arriscado a vida daquela maneira, sujeitando-se a ser ferido ou morto por eventuais cúmplices dos assaltantes - que efetivamente foram vistos se retirando do local - ou, mesmo por um deles, pois ficou muito próximo dos suspeitos que queria revistar. Também lamentei que o policial não houvesse solicitado cobertura para enfrentar o que parecia ser uma situação em que estava em desvantagem numérica. Em módulo de curso de aperfeiçoamento que ministrei logo a seguir para capitães da Polícia Militar em Vitória, no Espírito Santo, os alunos, que haviam gravado as cenas, pediram para começar o curso discutindo o caso. Durante a discussão, posições opostas se confrontaram, contra e a favor da atitude do policial. Entretanto, quando manifestei minha opinião, dizendo que em nenhum lugar onde a polícia fosse devidamente treinada seria justificável uma aproximação como aquela, em que a polícia perde sua posição de superioridade e coloca-se no nível daqueles que quer revistar,
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unanimemente a turma manifestou-se dizendo que todos aprendiam as formas corretas de praticar essas abordagens na academia, mas essas e outras técnicas eram logo esquecidas "quando se vai para a rua". Ali, disseram, "no calor dos acontecimentos", as reações são outras. Instados a descrever suas reações, entretanto, descreveram-nas em sua esmagadora maioria como dirigidas por um padrão: o confronto com o criminoso. Quando observei que o treinamento serve exatamente para controlar reações espontâneas no profissional e que a diferença entre os transgressores e os policiais não devia ser o seu poder de fogo, mas o treinamento profissional destes, efetuado pelo Estado, observaram que este tipo de treinamento, para ser eficazmente internalizado, deveria ser permanente, o que não ocorre. Quanto ao pedido de reforço, todos concordaram, mas disseram, também, que não se dispunha de equipamento para uso imediato - rádio - e que, muitas vezes, as coisas aconteciam rapidamente e não havia tempo para proceder como mandam os manuais. A maior queixa de falta de treinamento e equipamento ocorria, no entanto, a respeito ao uso de arma de fogo, que não era realizado com a necessária freqüência, nem financiado adequadamente pela corporação, pois se dava apenas durante os cursos realizados por oficiais e praças. Surgiu, em seguida, a discussão sobre os vários papéis da polícia e a necessidade de formar grupos de especialistas, tanto para o atendimento quotidiano ao público, como para atuação em situações de emergência, como aquela mostrada no vídeo. Argumentei, então, que as pesquisas mostram que o maior número de atendimentos da Polícia Militar não é para atuar em combates diretos a transgressores, mas se refere a várias outras atividades, usualmente consideradas de menor importância e classificadas de assistenciais, e que também exigiriam complexa e diversificada política de treinamento de seu contingente. Além do mais, o treinamento de toda a tropa para o confronto armado sugeriria que, para tranqüilizar finalmente a cidade, seria necessário eliminar todos os transgressores, algo como "para acabar com o crime é necessário acabar com os criminosos", um raciocínio sociologicamente absurdo, como até mesmo um sociólogo conservador como Dürkheim já havia demonstrado desde o século XIX. Por outro lado, essa idéia de que a polícia deve ser heróica e que o confronto mano a mano é que é o modelo ideal do trabalho policial deixa de levar em consideração exatamente aquilo que é a superioridade do Estado: a sua política de proteção à população de maneira geral, o que inclui, certamente, policiais e transgressores, mas também transeuntes, inclusive crianças e seus acompanhantes. Se esta política fosse claramente definida, impediria qualquer tiroteio, não só em praça pública da zona sul do Rio de janeiro, como em qualquer outro espaço da cidade, eleita como o espaço público por definição, que cabe à polícia administrar em ordem. A discussão se encerrou por aí, tendo eu usado esse caso como exemplo durante as demais unidades do curso. Não tenho a pretensão de ter convencido ninguém, mas certamente não ouvi mais argumentos que pudessem justificar a postura do policial "herói". Dada esta discussão preliminar, a primeira pergunta a fazer é a seguinte: o que estamos chamando de mau desempenho é realmente mau desempenho ou é desempenho segundo um modelo que, na raiz, legitima as ações que estamos questionando? Depois, é preciso saber se os policiais fazem aquilo que consideramos errado porque não sabem o que é correto ou se, sabendo-o, simplesmente deliberam fazer o contrário. Eventualmente, poderemos concluir que o que estamos considerando despreparo é, na verdade, um preparo informado por valores e ideologia diferentes daqueles que informam explicitamente o nosso julgamento. Se a polícia é empregada como instrumento da política de segurança do Estado, por exemplo, e a nossa concepção é de que a polícia deva ser empregada como parte da política geral de direitos dos cidadãos, é óbvio que os parâmetros de nossa avaliação serão divergentes em relação aos parâmetros dos que, mesmo não o explicitando, defendem o primeiro modelo. Quando se questiona especificamente a truculência policial, é também comum que se imagine que o problema, estando na formação, teria a ver com os currículos. E aí a solução parece fácil: basta incluir temas como direitos humanos, cidadania, direito das "minorias" etc., como se essa medida tivesse, por si só, o efeito de modificar valores culturais fortemente arraigados dentro das instituições policiais. Se está em pauta a corrupção policial, conclui-se que se trata da má seleção e dos baixos salários, novamente abstraindo-se fatores outros que podem ter muito maior peso no problema, como a tolerância com a violência policial, já que, no mundo inteiro, violência policial e corrupção policial têm
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sido irmãs siamesas. Imaginar que é possível tolerar a violência policial e ser rigoroso com a corrupção é, na melhor das hipóteses, pura ingenuidade. Assim, antes que se proponham currículos e metodologias, cumpre levar em conta que a formação policial no Brasil ainda é marcada por uma concepção autoritária do emprego da polícia, e que os próprios policiais não estão infensos a valores culturais de uma sociedade fortemente preconceituosa e hierarquizada (DaMatta, 1979). A discussão e as propostas que se seguem, portanto, consideram que não se trata de formar apenas os policiais que entrarão na polícia doravante, mesmo porque estes poucos que entrariam (em relação à totalidade de policiais em atuação no Brasil hoje), não fariam muita diferença nem mesmo a médio prazo. Mais que tudo, trata-se de formar policiais já "formados" anteriormente, ou seja, de desconstruir paradigmas de pensamento e ação, dentro de uma nova concepção, em que todos os cidadãos, inclusive os policiais, independentemente de sua condição social, sejam vistos como sujeitos de direitos e destinatários da proteção da polícia. A formação do policial, por conseguinte, é aqui vista de uma perspectiva democrática, fundamentando-se nas seguintes premissas: a política de emprego da polícia numa sociedade democrática é parte da política geral de expressão da cidadania e da universalização dos direitos; a polícia é um serviço público para a proteção e defesa da cidadania; o fundamento da autoridade policial é a sua capacidade de administrar conflitos. Ora, para compreender a presente reflexão, faz-se necessário um esclarecimento sobre meu entendimento da política de segurança pública praticada em nossa sociedade. Inicialmente, é necessário relacioná-la a alguns aspectos de nossas tradições culturais e judiciárias que, embora costumem ficar implícitos em nosso discurso quotidiano, são fundamentais tanto para compreender a expectativa que temos quanto às condições de nossa segurança em público, quanto ao papel a ser desempenhado pelas instituições - especialmente do Estado - para fornecê-la. Assim, a primeira questão, do ponto de vista sociológico, refere-se à discussão do que entendemos por segurança pública e quais os pressupostos que julgamos necessários para sua reprodução e manutenção. Metodologicamente, facilita a compreensão a comparação e contraste da concepção de como deve ser o espaço público em diferentes modelos de controle social. 1 Ora, em um desses modelos, enfatizado pela tradição anglo-americana, por exemplo, o espaço público é um espaço ordenado, onde todos têm que se submeter igualmente às mesmas regras explícitas, que devem ser literalmente obedecidas. Este espaço, assim, apresenta-se como um espaço construído a partir de um contrato coletivo que nasce da interação dos interesses divergentes presentes em um determinado tempo e lugar. O pressuposto é que todos os elementos constitutivos deste espaço se opõem, mas têm igual voz e voto na elaboração das regras para sua utilização. A conseqüência é que se esta ordem revelar-se de difícil ou impossível manutenção, terá sempre que ser renegociada, para incluir os dissidentes e captar-lhes a adesão, sem a qual todos estarão prejudicados pela impossibilidade do convívio social. O coletivo, assim, é definido como a coleção dos seus elementos, podendo sempre variar quando agrega ou perde alguns deles. Num espaço coletivo deste gênero, a necessidade da legitimidade da ordem a ser imposta coletivamente não está em jogo: se estiver, há que criar uma nova ordem, que seja a mais aproximada possível daquela ideal, em que todos estarão cedendo um pouco para auferir os benefícios do convívio comum. Assim, tanto a obediência à lei quanto as ações empreendidas para mantê-la, venham elas dos simples cidadãos, venham de autoridades vinculadas a instituições formais, constituem-se em tarefa de benefícios inequivocamente coletivos. A lei - que no idioma inglês ( law) se confunde com o direito - e os organismos encarregados de administrá-la, representam o cidadão em sua expectativa de obter suas liberdades em público. Isto, evidentemente, inclui a possibilidade de reivindicá-las em igualdades de condições com seus concidadãos, diante dos tribunais. (Marshall, 1967). A liberdade, assim, define-se pelos seus limites possíveis entre iguais, em cada um dos dados espaços públicos e está profundamente vinculada à idéia de previsibilidade: regras explícitas e literais, comportamentos previsíveis para todos, eis o segredo da vida em público, seja no trânsito, na praça ou na sala de aula. Espaços, aliás, por isso mesmo, cheios de restrições e contenções no que diz respeito ao
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portanto. que se dá em linhas de ascensão paralelas e não convergentes. dotada de maior abrangência. Mas os recursos não serão raros. utilizando como referência a posição específica de cada elemento . neste modelo. têm sempre o intuito de promover aquela ordem teoricamente construída de forma consensual entre as partes legítimas. As resistências inevitáveis encontradas para sua implementação vêm daqueles que a ela não se submetem.na sociedade como um todo e. em cujo ápice estará sempre garantido. O sistema de justiça criminal. mas diferentes. não é passível de apropriação coletiva. Algo que. em que a base corresponde ao topo. podemos construir um outro que se caracterizaria por encerrar bem diversa concepção do que seja o espaço público. em que todos perdem um pouco para que uma nova ordem consensual. inicialmente. e sua trajetória particular não implica impedimento para a realização das metas alheias. Neste sistema. assim. todos os seus elementos estão. eventualmente. para contrastar-se a esse modelo. pelo menos teoricamente. ou porque ainda não conquistaram seu direito de participação como sujeitos no processo de sua elaboração. se o desejarem. universalmente acessíveis e compreensíveis: esse saber. constitui-se em razão sine qua non para a existência do espaço público e as regras que o limitam são a garantia dos cidadãos que o freqüentam contra o abuso do poder. torne possível o convívio social. mais legítimo se apresenta. exercita-se a barganha com os acusados para que se declarem culpados de infrações que não cometeram. portanto. quanto mais "popular". e apenas eles. desde o início. vários níveis e formas de premiação e punição. mas que implicam atenuar as punições a que estariam sujeitos se insistissem em se declarar não culpados. em especial. pois o topo do paralelepípedo está reservado àqueles que fizeram as escolhas mais adequadas. embora sejam as mesmas para todos. mas de maneira particular a cada um. oficialmente explicitados. Quando a explicitação dos conflitos se torna inevitável. aos cidadãos que se sentem injustamente acusados é devido o direito. Quando não é possível barganhar a ordem. Haverá escassez de recursos. Página 4 . sejam razoavelmente compostos.ou o governo. Como conseqüência desta apropriação particularizada. em inglês. por oposição a public. para isso. inicialmente. A igual obediência de todos a estas regras. assim. não só tem um caráter explícito. A legitimidade para administrar os conflitos advém da maior ou menor razoabilidade com que forem tratados. concebida como separada da sociedade. nesse sentido. a consideração da própria categoria público. não se deve olhar nos olhos de quem não se conhece.Resultados da Pesquisa comportamento dos que o freqüentam: fala-se baixo. ou porque não querem. os que assim se declaram. seja dos outros cidadãos individualmente. de acordo com suas condições pessoais e sociais. Os conflitos surgidos a partir das disputas pela utilização deste espaço devem ser administrados. em português. 1986).indivíduo ou grupo a quem a regra deve ser aplicada . As regras. advertindo-se os incautos ou distraídos de sua existência e. poderia ser imaginada como um grande paralelepípedo. árbitros que negociam sua decisão em uma sala secreta: é o due process of law (Corwin. através de negociações e barganhas. pois haverá recursos igualmente disponíveis a todos. mas gerais: quer dizer. A sociedade. fundamentalmente. reprimindo comportamentos que contrariem ou violem tais regras. remete a significações bem distintas. são submetidos a um sistema de arbitragem por juizes leigos escolhidos aleatoriamente na comunidade. não se pode mentir em público. encarregada de aplicar a regra: o Estado. em relação a uma dada estrutura burocrático-formal. mas literal.justifica sua eficácia pela sua capacidade de exprimir os valores cotidianos. para garantir espaço a todos. Quer dizer. Aliás.apresenta-se como o executante desta complexa negociação. decorre que as regras de utilização que regem o espaço público não são universais. funciona com o sentido de controlar os comportamentos desviantes empregando. não se aplicam a todos da mesma maneira. público é uma categoria que remete. é eminentemente interpretativa. o seu lugar. aliadas a seus méritos próprios. ao espaço apropriado particularizadamente pelo Estado. posições na escala social. de serem julgados por seus concidadãos. portanto. sucessivamente. Em português. etc. seja da coletividade institucionalizada que os represente em cada caso (Kant de Lima. o Estado . dispostos na base e. como se chamam as atuações de instituições políticas mais centralizadas . Por exemplo. sua manifestação deve ser institucionalizada para que. Suas políticas. Ora. A tarefa de aplicação das regras. Todos são iguais. 1997). ocuparão. No processo de construção da verdade que porá termo ao conflito. O saber especializado na administração de conflitos tanto o jurídico quanto o policial . pelas técnicas de sua prevenção: avisando-se a todos das regras que presidem sua utilização.

como no primeiro caso.de uma determinada regra de conteúdo perfeitamente identificável por todos e de expressão literal. até certo ponto: se o espaço público é um espaço negociado coletivamente. que não estarão disponíveis a todos. No modelo do paralelepípedo ela se constituirá na força legítima para to enforce the law. tanto em um modelo quanto em outro. não devem se opor . cabe a ela reproduzir. prevalecendo sempre o interesse do todo . mas como uma pirâmide. isto é. mas desiguais. o fato de que a sociedade é segmentada. O comportamento em público.Resultados da Pesquisa Mesmo porque. conseqüentemente. a polícia é. formas de expansão de direitos e de legitimação de cidadania para grupos emergentes que insistem em causar rupturas na ordem a ser mantida até serem seus interesses por ela incorporados. o de todos.para negociar a utilização dos espaços. por definição: é a favor da lei e da ordem e contra aqueles que a querem infringir ou perturbar. mas de um acordo em que as partes não só são diferentes. não é neutra nem imparcial. eventualmente. em tratar desigualmente aqueles que obedecem às regras e aqueles que não as obedecem. A tarefa de law enforcement.e a respectiva responsabilidade . como o espaço é de apropriação particularizada do Estado.que não é. o topo é. em sua administração. mais uma vez. através de suas instituições e órgãos incumbidos de manter a ordem e administrar os conflitos na sociedade. em última instância. necessariamente. sendo desiguais. menor do que a base. o balanceamento e a compensação de tais desigualdades. concebidas como fruto das escolhas de cada um. No seu limite. Também decorre daí que o espaço público não se define como resultante de um contrato negociado entre iguais. pela definição das regras para sua utilização e pelo zelo para que se cumpram. vindos do topo. um lugar definido nesta ordem social. Assim. nem sempre são óbvios e precisarão. desde logo.mas devem se complementar harmonicamente. de intérpretes que o explicitem. 1989). a sua apropriação se faz. visando a manutenção e reprodução da ordem. A polícia.sobre o conjunto dos interesses das partes. é a instituição mais apta a identificar focos potenciais de conflito. 2 A polícia tem autonomia . Assim. as regras de utilização dos espaços públicos. As partes.igualmente a todos . no modelo da pirâmide as funções da polícia são bem diversas. empiricamente. constituem-se nas justificativas da intervenção estatal. Saliente-se. do exercício de sua liberdade. os processos de negociação de interesses divergentes. não se representa como mero administrador de espaços coletivamente apropriados mas como feitor zeloso de sua utilização. por definição. impedindo que ela tombe ou inverta sua posição . em princípio. isto é. Ora. mas no governo da coletividade. pois difere daquele advindo da soma dos interesses das partes . portanto. Por isso a lei nunca é geral. Ora. acertada como de vigência consensual em um determinado local (Arensberg. mas uma determinada coleção de indivíduos. A realização dos princípios de justiça que mandam tratar desigualmente aos desiguais se exprime. Além do mais. A desigualdade não é estrutural. Se o espaço público é um espaço de apropriação particularizada do Estado. Ë lógico que interesses tão superiores. localizados em um certo tempo e em um certo espaço. que a regra que se está fazendo cumprir está amparada na concepção de que foi consensual e legitimamente elaborada para preservar a utilização. é este que é responsável. Tais intérpretes serão tanto mais autorizados quanto mais próximos do pólo originador dessas regras e definições. implica que tais partes ocupam. a instituição designada.como é o caso das partes iguais que se opõe para construir o paralelepípedo do public space . pois possuem peso diferenciado. que mantém a pirâmide em seu lugar. Dessa forma. mas resultado de trajetórias individuais específicas. sugerindo. portanto. a legitimidade da ação policial não repousa no Estado. sinal certo de que compartilham com o todo sua privilegiada visão do conjunto. em princípio. por definição. que vai fundar essa função institucional. refere-se sempre à imposição universal . mas sempre tem sua vigência e aplicabilidade localmente definidas. no entanto. além das estratégias de repressão mais adequadas à manutenção da ordem. dividida em partes desiguais e complementares. de forma Página 5 . para forçar o cumprimento da lei. A conseqüência óbvia desse fato é a de que a competição entre os elementos da sociedade se fará por recursos raros. se faz marcado pela imprevisibilidade: nunca sei como será a interpretação correta das regras que irão ser aplicadas para determinar o acerto ou erro dos meus atos públicos. Coletividade esta que não é a coletividade em geral. Assim. por uma determinada coletividade. claramente. de um certo espaço público. para fazer cumprir. Esse modelo representa a sociedade não como um paralelepípedo.

quer dizer. em que privilégios legais de status como a prisão especial se contrapõe a direitos e garantias constitucionais universais. A proximidade da polícia à arena do conflito. como instituições não só separadas. disputando um espaço próprio em um espaço comum que não garante lugar para todos. de universal e indiscriminadamente to enforce the law. portanto. manter em seu devido lugar. não poderia ser senão implícita.seu poder de polícia . que sobrepõe a pirâmide implícita no ethos judiciário ao paralelepípedo constitucional. é o espaço da superposição desordenada de interesses competitivos e excludentes. Ora. Na verdade. para promover sua extinção e punição. mas de verificar. portanto. os conflitos simplesmente não devem existir porque cada um deve permanecer no seu lugar. Entretanto. posteriormente. a disputa não se concretiza no espaço público porque as regras de precedência que o definem previamente regulam. fortemente reprimidos e extintos. Não se trata. O Estado . sem falar Página 6 .como são a explicitação dos conflitos de interesse entre os cidadãos . em princípio. ao invés de ser o espaço da ordem includente. A função da polícia se caracteriza. mas separadamente. onde a administração bem sucedida de conflitos garante a todos o seu espaço. exposta aos fatos e interesses em jogo. Esta atuará não como mediadora da administração de conflitos. não incumbe o explícito enforcement of the law. A explicitação de conflitos sendo indesejável. não sua resolução: ou se aceita a sua conciliação forçada ou se enfrenta as possibilidades de punição mais rigorosa pelas autoridades "superiores". mas como autoridade intermediária em sua interpretação. reprimir. o princípio da convivência complementar das desigualdades. da decifração do lugar de cada uma das partes em conflito na estrutura social para proceder à correta aplicação das regras de tratamento desigual aos estruturalmente desiguais. A sociedade nem mesmo pode formular esta concepção. portanto. para melhor escolher qual princípio se aplica a qual caso. com a valorização da imparcialidade associada à distância dos fatos.em nada assemelhado à discretion da polícia dos EUA. Esta concepção é própria de sociedades em que a estrutura social é explicitamente desigual. não ao que a sociedade deseja para si mesma. fundamentalmente. o espaço público. a posição de uma instituição encarregada desta tarefa de negociação da ordem. Assim. À polícia. mas sua supressão: inicialmente.e caracterizará o papel preventivo da polícia. pois seu poder de negociação não é legitimado pelas demais instâncias das instituições de controle social. sua capacidade de mediação e conciliação é minimizada em função de sua capacidade repressiva. forçando sua conciliação e.é que caracterizaria a ação da polícia. tem seu arbítrio . Sua legitimidade estará associada a sua interpretação do que deseja o Estado para a sociedade. em que a explicitação do conflito e a oposição de interesses fere. este estado potencial de desordem característico do espaço público se contrapõe à idéia de uma sociedade harmônica.e a polícia . Aqui. de fora. Como mera executora da política de supressão de conflitos visando a reprodução e manutenção da ordem pública desigual em uma sociedade de iguais. porque se constitui em indicador de desarmonia e ruptura da ordem. A ênfase interpretativa do sistema. é institucionalmente reforçada. devem ser minimizados ou. mas externas ao conjunto de cidadãos que precisam não apenas controlar.nem mesmo para ela . porque. Ao contrário. Seu papel de primeira conciliadora dos conflitos . mas. quando sua conciliação for impossível. assim. requer tratamento diferente daquele de administração pela negociação. sob suspeição permanente. se este papel é compreensível em uma sociedade em que a desigualdade dos súditos é explícita. suprimindo-os. está a seu cargo a tarefa de identificar conflitos visando não sua prevenção e resolução. Conflitos. caso a caso. ele mesmo. segmentada em partes desiguais. principalmente. quando me aproprio de tal espaço não estou junto com meus concidadãos. assim. por se constituírem em ameaça potencial a todo o ordenamento social. como a regra geral se particulariza em sua aplicação no caso específico. por ser eminentemente interpretativa partindo não só dos fatos mas. não tem como fornecer senão visões parciais e particularizadas de si mesma. em uma República que se define como composta de cidadãos formalmente com os mesmos direitos.Resultados da Pesquisa excludente e competitiva: quer dizer. a convivência entre os desiguais.é colocado. A suspeição sobre as intenções de descumprir regras nunca inteiramente explícitas .definem-se. Essa suspeição sistemática e institucional deve ser mantida sobre aspectos característicos da vida cotidiana . a um tempo indispensável e subalterna.como se chama o uso legítimo de sua discricionariedade .

nossa cultura judiciária está profundamente calcada em princípios inquisitoriais. Além disso. são as testemunhas mais candentes de que esta forma de reprodução do conhecimento não está confinada somente à reprodução do conhecimento jurídico. controladas da perspectiva do topo da pirâmide por aqueles que se encarregam de definir qual seja a ordem social desejável e possível em um determinado momento da sociedade. etc.estão sempre sob suspeita de estar negociando o que não devem. mas se atrela a um modelo de sociedade em que o acesso ao conhecimento não é apenas condição básica de acesso ao mercado de bens simbólicos. quanto depois desta data.seja militar. formulação e decisão das políticas de segurança pública. desta maneira. próprios de sociedades compostas por segmentos desiguais e complementares (Kant de Lima. isto é. 1979). Uma vez constatada a transgressão. que tem como conseqüência a manutenção de seu ethos ambíguo: os valores explícitos da sociedade democrática e igualitária vão-se constituir em discurso que contradiz as práticas rotineiras de manutenção da ordem repressiva em uma sociedade de desiguais. Suas camadas superiores oficiais da Polícia Militar. Por outro lado. ser punida. Não se pode esquecer que nossa tradição judiciária privilegia os juizes de fora e não os árbitros de dentro . fundamento da legitimidade do saber jurídico e acadêmico na tradição dos EUA. caracteriza-se pela valorização do saber esotérico. característica de sua prática e fundamental para o exercício de seu poder de policia .e conciliação das partes. seja pelo ethos militar que tem definido a atuação das polícias militares. e paga por isso o preço da semi-clandestinidade. mas símbolo de status e distinção. este ethos repressivo e esta organização em segmentos excludentes da polícia têm sido reforçados. assim contaminada. tanto antes de 1964.procuram fugir da contaminação institucional atribuindo às camadas inferiores da polícia as tarefas implícitas que lhe estão destinadas pelo sistema de segurança pública.que é uma "penitência" . servindo de bode expiatório dos conflitos não administrados satisfatoriamente. A polícia desempenha seu papel regida por mecanismos e princípios implícitos.e de negociação . por exemplo (Kant de Lima. fica em desvantagem perante os outros órgãos de aplicação da lei. que deve estar disponível a todos.caracteriza-se por ser excludente. Não é por acaso que sobram as vagas para juizes. preferindo que sejam resolvidos pela confissão . sempre associada à disruptura de uma ordem inegociável que deve. onde só tem valor o conhecimento que está universalmente disponível. obrigatoriamente.e a polícia . Ora. Além disso. notadamente o Ministério Publico e o Judiciário. a polícia defende-se desta contaminação segmentando-se internamente em uma tentativa de atribuir aos outros as tarefas que lhe foram confiadas. 1997). em um sistema que suspeita de toda explicitação de conflitos. penitenciando-se. dogmático e situado em níveis superiores das camadas sociais. que permanecem vazias apesar da realização de sucessivos concursos públicos. tradicionalmente organizadas como exércitos. A primeira é que quando a polícia aceita sua identidade subalterna e suas práticas implícitas faz delas a marca de sua identidade. relaciona-se de forma punitiva com a explicitação de conflitos. 1997a. seja pelos valores de nossa cultura judiciária. segue-se. talvez por ser obrigada a manter a segregação em uma sociedade que a nega explicitamente. Este ethos se opõe frontalmente à ética da universalidade de acesso à informação. Não são poucas nem ligeiras as conseqüências de tal papel destinado institucionalmente à polícia.Resultados da Pesquisa das contradições legais. Como no caso da interpretação particularizada de regras gerais. mas guardando punição certa para os que cometem graves delitos ou não se arrependem. Assim. Justifica-se. . em princípio. Passa a produzir-se e a reproduzir-se através de processos de socialização informal.como no sistema anglo-americano (Mendes de Almeida Júnior. os negociadores . mas a da pirâmide.os jurados . da transgressão cometida. no Brasil. Por isso a hierarquia . um segmento não pode converter-se no outro. há entradas e finalizações próprias e diferenciadas para cada um deles: o seu modelo organizacional não é a hierarquia do paralelepípedo. Schwartz. no Brasil. um Página 7 . aqui a apropriação particularizada do saber é socialmente valorizada e reconhecida como forma legítima de acesso às posições sociais mais destacadas. sua posição em um patamar inferior do processo de elaboração. 1920. seja civil . A polícia. Delegados de Polícia. 1995. 1999). cujo ethos excludente só faz reafirmar a valoração positiva dos saberes apropriados particularizadamente: aquilo que todos sabem de nada serve. como apontei.são postos sob suspeita institucional. Nossa cultura judiciária. A indigência das bibliotecas públicas e a pujança dos acervos bibliográficos privados.

Tal forma de hierarquia. seus oficiais são subalternos aos oficiais das Forças Armadas. das drogas. quanto no modo pelo qual se deve fazer a avaliação de sua conduta na eficácia obtida na mediação dos conflitos. se pretendesse a ele pertencer. que é transmitida através de procedimentos escolásticos. Pois ambas tem como objetivo. a dinâmica da formação escolarizada .Resultados da Pesquisa julgamento. que prevê sua incomunicabilidade. Reforça também este item o fato de a tradição militar brasileira não ser a de entrada única na carreira. mas de entradas múltiplas.é mais importante do que os currículos em si. com a conseqüente impossibilidade de argumentação consensual. Por isso mesmo.ou melhor. onde se busca a padronização de procedimentos. racial. do idoso etc. mas utilizam a técnica da vitória de uma tese sobre a outra. de gênero. Primeiro. ambíguos. 3 Finalmente. encontra sua justificativa na República. no Brasil. Quanto ao ethos militar. o treinamento formal que recebem para poder sobreviver em seu dia a dia. Em segundo lugar. a rigor. um due process of law no direito processual e constitucional brasileiro. mas a uma vocação inelutável da população para a miséria e a barbárie. mantém da hierarquia militar a estrita obediência e a negação da autonomia que. há portanto. influencia negativamente a polícia em pelo menos dois aspectos. o combate e o extermínio do inimigo ou a inexorável punição dos transgressores. opondo-se frontalmente esta tecnologia de produção de verdades às formas de produção. se pode ser indispensável às funções a serem executadas no cenário da guerra. Em ambos os casos. que se deve ater à interminável e inevitável tarefa de administração dos conflitos que se explicitam na sociedade. Tais procedimentos não só não buscam posições comuns de consenso que estabeleçam os "fatos". precedência aos argumentos de autoridade sobre a autoridade dos argumentos. esperando que ele aja reflexivamente. com freqüência. 2002). "condiciona-se" o policial para obedecer ordens irreflexivamente. mesmo que o acusado tenha confessado. duas atitudes inadequadas para o ethos policial. na prática. Dá-se. na indigência cultural do "povo brasileiro". Página 8 . a não ser aqueles necessários para ensejar a aplicação das regras em vigor. pois o processo não é direito disponível (Gonçalves Ferreira. Embora use denominações semelhantes às da carreira do Exército. o direito de o cidadão ser julgado pelos seus pares apenas quando se sinta injustamente acusado. respectivamente. A metodologia . umas para o oficialato. como se ela não se devesse à falta de acesso universal aos bens culturais. reproduzindo uma ideologia marcadamente repressiva e punitiva. para depois colocá-lo sozinho diante da realidade conflitiva das ruas. Paralelamente. assim. e tome suas decisões com bom senso e equilíbrio. mas pela sua criatividade na condução de negociações bem sucedidas. revelam-se obstáculos importantes na atuação policial. nunca ao de General. Não. Em suma. assim. em especial no campo das ciências humanas e sociais. como se viu da narrativa dos alunos de Vitória quando avaliaram a reação do colega do Rio de Janeiro no caso acima mencionado. na base de repetições mecânicas. seguindo comandos. também encontráveis na prática judiciária cotidiana. sem emitir juízos de valor. quanto a sua organização interna e quanto a suas relações externas com outras instituições da sociedade: sendo a Polícia Militar uma organização subordinada. apresentam-se. a cultura jurídica brasileira tem fundado sua autoridade na chamada dogmática jurídica. informalmente. a formação dos policiais tem que incluir processos de socialização acadêmica e profissional que os atualizem em termos dos procedimentos vigentes de construção da verdade e de administração de conflitos. outras para os oficiais subalternos. retirando dos policiais a capacidade reflexiva diante de situações complexas. Tal paradoxo convida a uma distonia cognitiva que leva os policiais militares a rejeitar. a carreira dos oficiais das Polícias Militares vai até o posto de Coronel. ao qual deveria estar subordinado o campo jurídico. justificável talvez nas sociedades segmentadas e aristocráticas. segmentação que. da discriminação social. 4 Os modelos de controle social. como se tivéssemos uma pirâmide encaixada em um paralelepípedo. tanto o ethos militar como a cultura judiciária influenciam contraditoriamente o desempenho da atividade policial que se destina à administração dos conflitos na sociedade. tanto no que diz respeito a sua necessária autonomia de decisão na prática de suas funções profissionais. A formação do policial entre nós tem sido tradicionalmente centrada na idéia de "treinamento". medida não pelo grau de obediência a ordens superiores. isto é. legitimação e consagração da verdade vigentes na academia contemporânea. como as questões da infância e da adolescência. acaba por fracionar a corporação em grupos "inferiores" e "superiores".

e policiais civis e praças da PM na base. com delegados e oficiais no topo. seriam enfatizados em cursos técnicos ou de especialização profissional. republicano e democrático. Haveria de ter. por definição secundárias. para os policiais civis.quanto vertical . não pode ser outra. Os cursos deveriam ter um núcleo básico de formação que não se estruturasse simplesmente em torno de disciplinas que repassassem conteúdos acabados. estão hierarquizados de forma excludente e elitizada. estar seguros e cientes de que a teoria. devem os policiais.de acordo com os princípios correntes na validação da produção científica contemporânea. certamente encontrará dificuldades adicionais. ou não. onde se deve destacar sua habilidade em administrar conflitos através da utilização de técnicas discursivas. além das disciplinas. Para mudar isto. um projeto de formação Página 9 . de vez que os policiais. a hierarquia e a disciplina da polícia estariam fundamentadas em valores democráticos. em nome de uma concepção idealizada e anacrônica de um mundo sem conflitos. Essa formação objetivaria capacitar os policiais para o desempenho de sua função em estrita observância dos cânones norteadores da função policial numa sociedade democrática.verdades e fatos . e de negociação pela persuasão e argumentação. particularmente. respectivamente.e de especialização . acima de tudo. Tal estrutura propiciaria aos seus componentes o exemplo necessário para que reproduzissem tais critérios no cumprimento de suas funções. introduzindo. Além disso.para os não graduados . por atividade. quanto a repressão explícita necessária à contenção de comportamentos individuais ou coletivos que põem em risco a segurança de todos. como investigação criminal e criminalística. deve ser aplicada por todos a todos. transmitirão e socializarão os alunos nas técnicas de negociação e neutralização específica dos conflitos e dos agentes neles envolvidos. e especializá-la.Resultados da Pesquisa Se a primeira e mais substantiva função legítima da polícia constitui-se na administração de conflitos do cotidiano. Assim. tendo os direitos e deveres cívicos de todos. para o exercício pleno da cidadania na sociedade estruturada juridicamente em um Estado moderno. entretanto. ou técnicas de abordagem para os policiais militares. na prática. compreendendo a importância do seu papel social. em especial em suas relações diuturnas com os também diferentes e heterogêneos segmentos da sociedade. de maneira universal. mas aquele que melhor habilitação tem para administrar com eficiência e legitimidade a ação coletiva.de reprodução de um mesmo curso para outros agentes . por outro. os cursos devem ser oferecidos de acordo com critérios de mérito em relação às habilitações específicas dos candidatos às funções. de fato. constituindo-se sua transgressão em ato ilegítimo que não pode ser caracterizado nem sustentado pelos valores que pretendem perenizar a desigualdade e a exclusão em nossa sociedade. os dos setores discriminados da sociedade. O núcleo básico (disciplinas técnicas complementares e cursos para atividades especiais completariam a formação do policial) é estimado para ser ministrado em mais ou menos 360 horas. evitando-se o uso indiscriminado de tecnologias de combate e destruição do "inimigo".para os graduados. no entanto. tanto no sentido horizontal . Os conhecimentos específicos. mas que os princípios explícitos que informam a política de segurança pública a ser implementada por seus agentes. no caso da abordagem e da intervenção. da natureza ou humanas e sociais. por um lado. é evidente que a esta função devem estar subordinadas as demais. Assim. teriam que ser fundados. Tais cursos. Finalmente. decorrentes de uma política de segurança pública baseada na inevitabilidade do conflito e na necessidade de sua administração. devem se constituir em procedimentos previsíveis e conseqüentes. como um verdadeiro curso de extensão . Esta política de segurança pública deve fundamentar a autonomia da polícia na responsabilidade explícita que decorre de sua autorização para assumir a tarefa de administrar conflitos na sociedade. transmitiria o aprendizado que caracteriza a produção de conhecimentos científicos . inclusive os dos policiais e. Formados para exercer esta função. na transmissão e socialização dos alunos nos princípios de produção da verdade vigentes no campo das ciências contemporâneas.de aprofundamentos temáticos para os que já houvessem passado pela formação mínima. tanto a reconstrução da verdade dos fatos pela investigação destinada a esclarecê-los e a punir eventuais transgressores da lei. não se pressupondo que o comandante seja aquele que tudo sabe. e universalizar a formação. no caso da investigação. distribuídas num período mínimo de três meses. Esta socialização especializada. sejam elas exatas. Estariam previstos desdobramentos periódicos do curso. visaria prepará-los para atuar com responsabilidade e bom senso. tanto na Polícia Militar quanto na Polícia Civil. seminários e atividades práticas. como marco delimitador da ação. próprias das atividades bélicas que são características e privilégio das forças armadas.

Social Control and Political Stability in the New State. Entretanto. Assim. Violência e Sociedade. Violência do Estado na Sociedade Brasileira. seria extrema ingenuidade acreditar que os resultados dessa política de formação tivessem efeitos a curto e médio prazo. Decisões de Governo e Segurança Pública. Judge and Jury in Imperial Brazil. Organização e Cultura. malandros e heróis. 1979. a universidade está diante de um outro desafio: o de contribuir para socializar em procedimentos democráticos aquelas forças que. Políticas Públicas. Austin and London: University of Texas Press. que permitam um melhor desempenho de nossa polícia e uma negociação mais justa de nossa segurança pública. Estado Contemporâneo e Instituição Policial. Pensamento Social e Organização Urbana em uma Perspectiva Comparada. Comportamento Desviante e Trabalhadores Urbanos na Sociedade Brasileira. operacionalizando e modernizando a instituição policial que temos em nosso país. Com gradativo. nos últimos cinco anos. de forma alguma deve ceder à tentação de meramente contribuir para "melhorar". esta última incluindo pontos de vista tanto jurídico como sociológico. o medo da confissão da ignorância. Numa abordagem conhecida como prático-teórica. Edward S. pelo ethos incorporado na participação na vida acadêmica universitária. A tarefa é apontar-lhe outros caminhos e dependerá de engenho e arte a consecução de objetivos comuns. Para isso. advindo de progressivo processo de aperfeiçoamento que contou com a colaboração de pesquisadores estrangeiros do Canadá. FLORY. Metodologia da Pesquisa e Segurança Pública. em cursos de extensão e de especialização que reúnem guardas municipais. Dissertação de mestrado em Direito na Universidade Gama Filho. "Você sabe com quem está falando?" Carnavais. 2. Mídia e Segurança Pública. filmes e vídeos que seriam exibidos e discutidos. Marco Aurelio. 1981. a tem constrangido no passado. GONÇALVES FERREIRA. DAMATTA. ed. 1808-1871. o processo de ensino e aprendizagem deve estar calcado na metodologia de trabalho de grupo. "O due process of law e o devido processo legal no direito processual penal brasileiro". Criminologia Aplicada à Segurança Pública. Finalmente. têm continuidade discutindo temas como. propiciando-se também o aprendizado iniciático com técnicas de pesquisa. em que os conteúdos teóricos são transmitidos durante seminários de sala de aula e nas discussões dos grupos. a competição excludente. mas indiscutível sucesso. A Constituição norte-americana e seu significado atual. Tais discussões poderão ser precedidas da leitura de um texto curto. A Questão Social e a Segurança Pública. como sempre.Resultados da Pesquisa continuada que permita ao agente reciclar-se permanentemente. Rio de Janeiro: Zahar. Roberto. Modelos de Justiça Criminal e Ordem Pública. policiais militares e interessados do público em geral. Ética. A estes temas poderiam acrescentar-se outros. Mas a conscientização progressiva dos policiais de sua desvantajosa posição na formulação e execução da política de segurança pública poderá levar a uma adesão de alguns aos efeitos práticos produzidos pela difusão de conhecimentos e universalização da informação. hoje. Cultura. não devemos abrir mão daquilo que sabemos. Controle Social e Criminalidade no Rio de Janeiro. Roberto. em parte. Estados Unidos e França. Argentina. Bibliografia CORWIN. e complementarem-se as aulas com visitas. Gestão e Processos de Decisão. aprender e reproduzir nossa experiência como eternos alunos. A antropologia da Academia: quando os índios somos nós. associados a uma política de formação profissional. Teoria da Polícia. KANT DE LIMA. 1986. Rio de Janeiro: Zahar. Página 10 . temos desenvolvido. Administração Policial e Direitos Humanos e Garantias Individuais. 2002. Minhas experiências didáticas recentes também têm mostrado que o constrangimento diante dos superiores. entre outros: História e Democracia. mas devemos procurar. todas características da formação anterior. Thomas. 1997. funcionando o professor como orientador e estimulador das discussões. Niterói: EDUFF. tradicionalmente. financiados pela Fundação Ford. são exorcizados. experiências no Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas da UFF que se consubstanciam. ou basear-se no estudo de "casos" e/ou em comentários de vídeos e filmes e incluiriam seções específicas sobre Procedimentos Policiais. Iniciando-se por Seminários de dessensibilização e integração.

Drummond (Organizadores). Rio de Janeiro: Zahar. "Carnavais.. In Laura G. 1989. p. 1. "Polícia. O processo criminal brazileiro. o texto utiliza-se tanto de dados obtidos através minhas experiências de campo no Brasil e nos EUA. Thomas H . malandros e heróis: o dilema brasileiro do espaço público. Philadelphia. ver Holloway (1993). 105-124. Lívia Barbosa e José A. n. (4) Para uma história da Polícia no Rio de Janeiro. 1979. A polícia da cidade do Rio de Janeiro. STEINBERG.. 1920. SCHWARTZ. 2000. Policing Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Forense. 1999. justiça e sociedade no Brasil: uma abordagem comparativa dos modelos de administração de conflitos no espaço público". A Suprema Corte da Bahia e seus juízes: 1609-1751. 1800-1880. Desta forma. Seus dilemas e paradoxos.Revista de Sociologia da USP 9/169-184. Cidadania. Burocracia e sociedade no Brasil colonial. ---. aliás. 1997. The Transformation of Criminal Justice. 1995. ---. Tempo Social . 1981). São Paulo: Perspectiva. João. ed. HOLLOWAY. mas para explicitá-las e promover sua compreensão de uma perspectiva mais ampla. 1967. Gomes. 2000). 3. 1999. isto é.. (1) Desde logo é preciso esclarecer que se emprega aqui o método comparativo na perspectiva antropológica. 1997a. Repression and resistance in a 19thcentury city. Chapel Hill and London: The University of North Carolina Press. Revista de Sociologia e Política 13/23-38. não para reduzir as diferenças em relação a uma única referência. MENDES DE ALMEIDA JR. Rio de Janeiro: FGV.H. "Polícia e exclusão na cultura judiciária". quanto de resultados de pesquisas efetuados por mim e por meus colegas (Kant de Lima. (3) Fato. classe e status. que também justificou a rejeição das mudanças propostas para o processo criminal brasileiro no século passado (Flory. 1997a. ---. Allen. augmentada. 1995. 2. (2) Como dizem em suas abordagens os policiais dos EUA: there is a law here. Rio de Janeiro: Typographia Baptista de Souza.Resultados da Pesquisa ---. Página 11 . nov. ed. Stuart B. Stanford: Stanford University Press. T. O Brasil não é para principiantes. 1993 MARSHALL.

mas também os que se encontram na base da pirâmide social. o discurso da lei e da ordem encontra grande ressonância. a sensação de insegurança se democratizou de forma inaudita. Do ponto de vista da comparação histórica. mesmo em sociedades com índices de criminalidade relativamente baixos. a única violência mensurável e incontestável é a violência física.Polícia . econômico. considerar como violência qualquer episódio de tensão ou incidentes banais levaria a pensar que o fenômeno estaria se agravando de forma inelutável. parece assombrar o mundo inteiro. as quais devem levar.). definidas por alguns como "sociedades de risco". A reforma da polícia e das outras instituições do sistema de justiça penal pode melhorar a eficiência da repressão.. A luta pelos direitos humanos pode converter-se em catalisador das mudanças necessárias.Resultados da Pesquisa VIOLÊNCIA. Nesse diapasão. são eles que têm a função de propor as reformas e as adaptações necessárias para fazer face à "nova ameaça". Nos EUA. Polícia é parte essencial da busca de soluções. São a vida. Jean-Claude Chesnais. O que a define é o uso material da força (. É o atentado direto. Afinal. à alteração da estrutura de poder e à superação da atual tendência de privatização da responsabilidade pela situação humana que está na base da criminologia conservadora e de programas do tipo "tolerância zero". a sensação de insegurança se integrou na psique coletiva a ponto de a violência ser encarada como um espectro que..Segurança Pública . por sua vez. Talvez associada à própria configuração das sociedades contemporâneas. a característica principal da violência é a gravidade do risco que ela faz a vítima correr. os índices de criminalidade têm baixado de forma consistente na última década sem que as políticas de segurança pública tenham perdido o "fascínio" que exercem junto ao público. A definição elástica de violência contribuiria para a sensação de insegurança. social e cultural. A busca de uma legitimação científica no desenho de políticas de segurança pública parece ser uma das condições para a "descoberta" de soluções duradouras para a insegurança. Além disso. as opiniões dos especialistas em segurança são vistas como dotadas. tendem a remeter tanto a ocorrência de Página 12 . precisa corresponder às expectativas e experiências amplamente disseminadas. O medo tem-se generalizado e. Palavras-chave: Violência . contra as pessoas. Chesnais propõe a seguinte definição: "A violência em sentido estrito. 1 Definições à parte. a saúde. Além disso. vive-se preso à expectativa de crescimento descontrolado da violência e dos riscos que a acompanham. afligindo não apenas as classes privilegiadas. em tempos de globalização. já alertava para o caráter alarmista e catastrofista do discurso contemporâneo sobre a violência. atingimos um momento em que nossa violência nada possui de comparável à violência sanguinolenta das épocas antiga. em seu livro clássico sobre a história da violência. ela se reveste de um triplo caráter: brutal. mas não constitui a panacéia em que alguns querem crer. ou seja. feudal ou clássica. a integridade corporal ou a liberdade individual que estão em jogo". Ainda que o tema não seja mais uma propriedade exclusiva de especialistas. corporal. exterior e doloroso. A preocupação com a violência criminal faz parte hoje da agenda de prioridades dos principais dirigentes nos mais diversos países. 231 | Jul / 2002DTR\2002\606 Benoni Belli Área do Direito: Geral Sumário: Resumo: A complexidade da tarefa de criar uma sociabilidade menos violenta e reduzir os índices de criminalidade não se presta as soluções unidimensionais. mas para ser efetiva no longo prazo deve ser acompanhada da desconcentração dos capitais político. POLÍCIA E DIREITOS HUMANOS Revista Brasileira de Ciências Criminais | vol. 39 | p.Criminalidade . Independentemente das curvas estatísticas e dos dados empíricos sobre criminalidade. de maior peso e consistência. essa preocupação influencia o trabalho dos estudiosos ou "técnicos" da segurança. A preocupação crescente com a violência criminal e o clamor popular por mais segurança é fenômeno que nenhum político pode se dar ao luxo de ignorar. na atualidade. o fato é que o tema da criminalidade é uma constante nas conversas diárias e tornou-se tema central das campanhas eleitorais.Direitos humanos. que. em princípio. acredita Chesnais. ademais. Por essa razão. por exemplo. para os quais se voltam as demandas de mais proteção. Dito de outro modo. à mídia e às autoridades governamentais. A "cientificidade" deve ser acompanhada. de uma eficácia simbólica.

condenam-se indivíduos.). No Brasil. melhor treinamento e condições de trabalho para agentes e policiais (incluindo salários dignos e reformulação dos códigos disciplinares das polícias militares). 2Dessa forma. potencializando o impacto de qualquer discurso eleitoral sobre o assunto. Aliás.por oposição às causas sociais. econômica. O mais assustador. contudo. cultural etc. com a função de conduzir a fase inicial da apuração de crimes. mas também no dos crimes de colarinho branco. tidos como bárbaros e pervertidos. compondo uma doxa que orienta a ação e tende a reproduzir as relações sociais hierárquicas que prevalecem desde tempos imemoriais. como diria o sociólogo alemão Ulrich Beck.Resultados da Pesquisa crimes quanto o clima mais geral de insegurança prioritariamente à responsabilidade individual . aperfeiçoamento do controle interno e externo. mas cujas conseqüências não são nada desprezíveis. Os novos técnicos da segurança pública dizem que esse discurso é demasiado abstrato. gerenciamento adequado de dados criminais e planejamento estratégico. combater a impunidade em todos os níveis. serve de desculpa para não reprimir os criminosos. ou por meio tão-somente de programas de segurança pública bem-intencionados. Constata-se uma progressiva aproximação dos discursos da direita e da esquerda. então. ênfase na investigação e na inteligência. sobretudo à luz de crimes de alta repercussão que afetam a própria auto-estima nacional. policiamento preventivo. para o efeito perverso da extrema desigualdade e da falta de oportunidades em uma sociedade em que o apelo ao consumo e à fruição hedonista e predatória dos bens materiais se tornou uma espécie de mantra. ao lado da modernização do Poder Judiciário. A elite percebe. Em uma sociedade de consumidores. O discurso pretensamente neutro da ciência ou de uma pseudociência é resgatado para legitimar "novas" políticas de segurança pública. Como o Brasil permite que crimes inomináveis continuem a ocorrer? A indignação . inclusive em parte da esquerda. apesar de problemas localizados. que também ela. Daí a tendência também entre nós de buscar. seriam passos igualmente importantes. é que a insegurança brasileira é mais palpável e possui contornos mais dramáticos. que passam a privilegiar o controle social como estratégia privilegiada de combate à criminalidade. ambos submetidos ao controle externo. porém. pode sofrer as conseqüências do descalabro na segurança das grandes cidades. do reconhecimento de que é necessária uma transformação social profunda que leve à desconcentração do poder em todas as esferas (política. São também insuficientes. em última instância. não fornece respostas para o dia-a-dia dos crimes e. Seria fundamental. além disso. A concepção de mundo que se tornou hegemônica. como se fosse possível compreender o comportamento individual fora do contexto social. ostenta índices de criminalidade relativamente baixos. É óbvio que o crime deve ser reprimido. a suposta cientificidade garantida pelos especialistas em segurança tende a corresponder a pressupostos que já fazem parte do universo do senso comum. não é a busca totalmente compreensível de respostas e de medidas urgentes para superar a situação. Ressalta-se o indivíduo e perde-se de vista a sociedade. não sobra espaço para pôr em questão as relações sociais autoritárias que estão na raiz de nossa sociabilidade nada cordial.totalmente justificada . Certamente a segurança pública carece de reformas institucionais urgentes: unificação das polícias. no cardápio de soluções oferecidas. como se fossem produto apenas de escolhas individuais. são válidas e inadiáveis. Não por acaso o tema da segurança pública foi o principal ponto de discussão na recente campanha presidencial na França. modernização do equipamento. mas a coincidência crescente de visões de como atacar o problema. não apenas no nível do ladrão de galinhas. O que há de comum entre a França e outros países desenvolvidos e o Brasil não é somente a preocupação com a segurança. Trata-se de uma omissão nem sempre intencional. e absolve-se subliminarmente a estrutura social que fornece o terreno fértil para a barbárie. mas a virtual omissão. muitos tentaram reformas ambiciosas do sistema de justiça criminal.repercute com mais força quando personalidades públicas são vítimas de crimes graves. A diferença em relação à França. e muitas outras em discussão. tende a desqualificar os que alertam para as causas sociais. mas eficiência no combate à criminalidade e respeito aos direitos humanos (para quem ainda se preocupa com esses direitos) não serão combinados com uma simples canetada. e não apenas os mais pobres. A busca frenética de soluções rápidas e mágicas é a marca de nosso desespero. em que o individualismo é elevado à enésima potência e as diferenças sociais são naturalizadas. que. As campanhas eleitorais no Brasil também prometem reservar espaço privilegiado para a questão da segurança. Todas essas mudanças. "soluções biográficas para contradições sistêmicas". O fortalecimento do Ministério Público. mas foram poucos os que Página 13 .

a explosão da violência é mais evidente nas grandes cidades. cultura e educação. tende a transformar-se numa profecia autocumprida. deve-se ter em mente que. mas dificilmente serão sustentáveis no longo prazo na ausência de um esforço sério e persistente em múltiplas frentes. deve-se lembrar que as regiões mais pobres não são necessariamente as mais violentas. aqueles cujos meios não estão à altura de seus desejos de consumo. sendo seu isolamento em guetos e sua incriminação uma forma de exorcismo. do "prendo e arrebento" sem meias palavras. trata-se de colocar em marcha uma dinâmica social de combate à exclusão em todas as esferas da atividade humana. No momento em que se buscam soluções duradouras para os problemas de segurança pública que afligem as grandes cidades brasileiras. E o segundo é ressaltar a responsabilidade coletiva pela exclusão de classe e pela produção da violência. "falta de vontade política". de modo a conferir à democracia um substrato concreto. completa e verdadeiramente. Não raro a retórica beira o histriônico e lança mão das armas tradicionais do populismo eleitoreiro. mas também ensejar ações mais efetivas e integradas do Estado nas áreas de saúde. emprego. daí a obsessão com a lei e a ordem que se abate sobre os setores considerados bem-sucedidos. às mensagens de conteúdo semelhante travestidas de roupagens um pouco mais sutis. basta que se avance progressivamente nesse sentido. as agruras e tormentos dos que dele são excluídos. como ressalta o autor. cuja organização ativa será fundamental para democratizar o poder no cotidiano de seus contatos com o Estado e com os "incluídos".Resultados da Pesquisa conseguiram produzir mudanças significativas. por isso não é possível identificar causa única para o universo heterogêneo da criminalidade. fazem as vezes das definhantes instituições do bem-estar". mas se sabe que sociedades mais Página 14 . fazendo com que os agentes do Estado sejam vistos com desconfiança. As reformas indispensáveis devem ser mais do que uma decisão de cima para baixo. apesar de sua aura de cientificidade ou do acesso privilegiado à mídia. desprezo ou temor por aqueles considerados "perigosos" (que são via de regra os que trazem no corpo as marcas da exclusão). Em outras palavras. as relações sociais hierárquicas contribuem para classificar de antemão os alvos preferenciais da vigilância. precisam ser efetuadas com a participação da maioria. Na verdade. há uma diversidade de práticas criminosas associadas a dinâmicas sociais muito diferentes. só podem ser redefinidos como um crime individual. Os "excluídos do jogo". lazer. renda.desprovido que estaria de senso prático. certos discursos indignados de técnicos e políticos não podem ser tomados por seu valor de face. nos aglomerados urbanos. Para tanto. quando o auto-engrandecimento toma o lugar do aperfeiçoamento socialmente patrocinado e a auto-afirmação substitui a responsabilidade coletiva pela exclusão de classe. As campeãs seriam "falta de polícia na rua". que. E. Essa seria uma evidência de que a "desigualdade" seria a "verdadeira e única causa" dos males. além das frustrações geradas pela desigualdade abissal brasileira em uma sociedade de consumo. as prisões agora. Isso porque. Tem razão Luiz Eduardo Soares. alerta para as explicações reducionistas em voga que procuram identificar uma causa específica para a violência urbana. A seu ver. A quem defende "mais polícia" é necessário perguntar: que polícia? A eficiência que se espera do policial depende de um planejamento adequado e diagnósticos precisos que somente uma reforma profunda será capaz de produzir. Esse esforço de democratização passaria pela reversão do que Zygmunt Bauman qualificou de privatização da responsabilidade pela situação humana. As 'classes perigosas' são assim redefinidas como classes de criminosos. Não é preciso alcançar uma sociedade perfeita para que esse objetivo comece a ser realizado. ao desqualificar o discurso das mudanças estruturais como utopia irrealista . o primeiro passo é romper com a visão de mundo que. Aos que ressaltam a "pobreza". social. em artigo recente na Veja. Não resta dúvida de que as reformas institucionais podem facilitar a superação da insegurança real e percebida. vale a pena recordar que a democratização do acesso aos capitais político. outrora encarados como um malogro coletivamente causado e que precisava ser tratado com meios coletivos. são os consumidores falhos. Os excluídos são considerados culpados pelo seu malogro e passam a constituir uma ameaça àqueles que estão devidamente inseridos na sociedade de consumo. inclusive no que tange à eliminação da exclusão e da desigualdade social extrema. econômico e cultural é condição para que as reformas propostas não funcionem somente para uns poucos. De acordo com Bauman: "Dada a natureza do jogo agora disputado. São esses que encarnam "os demônios interiores" da sociedade de consumo. "pobreza". mantendo a co-existência de uma cidadania real e uma de segunda classe. Talvez com esses passos seja possível não apenas começar uma reforma para valer dos aparelhos repressivos e de controle social. "desigualdade". 3 Mesmo correndo o risco de nadar contra a corrente. desse modo.

os indivíduos são sempre os senhores de seus destinos.Resultados da Pesquisa desiguais que a brasileira possuem índices de criminalidade freqüentemente inferiores. De um modo geral. Não é preciso ser um gênio para constatar que a popularidade da tolerância zero se afirma paralelamente ao processo de desmonte do Estado de bem-estar social na maioria dos países desenvolvidos. Como assinala Schwarz: "É claro que a liberdade do trabalho. usuários de drogas. pobres portadores de deficiência mental etc. original. apelido dado ao programa implantado pelo Prefeito Rudolph Giuliani em Nova York. por assim dizer. Nesse contexto. Dessa forma. Entre nós. ainda que flexíveis e precários) e às atividades de organizações privadas. outras cidades nos EUA tiveram reduções assemelhadas sem que a tolerância zero tivesse sido aplicada. no mesmo período em que Nova York registrou quedas acentuadas dos índices de criminalidade. As conversas sobre violência e crime são invariavelmente pontilhadas de receitas para pôr fim à insegurança e garantir a paz social. contribuindo na prática para identificar os excluídos não apenas como alvo preferencial da vigilância (classes perigosas). igrejas e entidades filantrópicas garante uma rede de proteção mínima. apesar de humilhados e excluídos. para usar uma expressão de Loïc Wacquant. sem-teto. a igualdade perante a lei e. encobrindo o essencial . atribuindo o fracasso dos outros unicamente a seus atributos pessoais inatos (preguiça. à atrofia do Estado de bem-estar se soma a hipertrofia do Estado penal. por exemplo. de modo geral. a lógica absurda constitui em julgar os criminosos leves hoje com base na suposição de que cometerão crimes graves no futuro. a ausência dessa rede de proteção para a maioria absoluta da população garante à nova ideologia criminal uma falsidade de tipo original.). Esse processo lembra fenômeno objeto de ensaio famoso de Roberto Schwarz. É grande a tentação de voltar o olhar para a árvore e deixar de ver o bosque. que seria fornecida pela capacidade extraordinária de um líder político. por sua vez. mas é pouco efetiva além do campo da retórica. da destruição dos laços comunitários pelo tráfico de drogas. Qual a conseqüência da importação das idéias provenientes dos EUA sobre gestão da criminalidade e tolerância zero? Vários políticos brasileiros vão em romaria a Nova York para conhecer os resultados alcançados no combate à criminalidade e voltam ao Brasil carregando uma bagagem cheia de idéias "revolucionárias".aristocratas e latifundiárias . No século XIX. mas também como classes Página 15 . as elites brasileiras . fundações. Por essa razão a vontade política e fatores como desigualdade. que caracterizou a criminologia e os debates sobre violência nas décadas de 60 e 70. o que sobrou do Estado de bem-estar. A Declaração dos Direitos do Homem. mas lá correspondiam às aparências. e da reprodução cotidiana de relações sociais autoritárias entre os agentes do Estado e a população-alvo da vigilância. aliado ao crescimento econômico (com maior disponibilidade de empregos. o universalismo eram ideologia na Europa também. Convencer-se de que esses exemplos são representativos e refletem a realidade do mundo é a melhor forma de lavar as mãos. Na prática. transcrita em parte na Constituição brasileira de 1824. 4 Na verdade.posavam de liberais enquanto mantinham a escravidão em terras tupiniquins. a estrutura social vigente. uma vez que se pressupõe que as infrações pequenas que afetam a "qualidade de vida" constituem a ponta do iceberg. a tolerância zero representa jogar nas malhas da justiça criminosos leves. De qualquer forma. não só não escondia nada. como tornava mais abjeto o instituto da escravidão". A explicação da falta de vontade política. conseguiram "dar a volta por cima". 5O discurso que enfatiza o lado repressivo e perde de vista as causas sociais da violência tende a reproduzir. imoralidade. pois há pessoas que "lutaram e se deram bem" ou indivíduos que. da ausência de canais institucionais para solução de conflitos. é conveniente para quem espera uma solução "carismática". da socialização em uma cultura que valoriza determinados objetos de consumo como símbolo de distinção social e poder.). Expressão dessa tendência é a popularidade da chamada "tolerância zero". seres que escolhem livremente seu próprio caminho e são os únicos responsáveis pelo seu sucesso ou fracasso. ou seja. 6 A ideologia individualista que sustenta a criminologia conservadora e que pressupõe indivíduos que decidem por conta própria enveredar pelos caminhos do desvio e da criminalidade esconde o essencial na Europa e nos EUA. falta de força de vontade etc. pode-se dizer que a antiga fé na reabilitação. No caso do Brasil e de outros países em desenvolvimento. ainda que inconscientemente. as mesmas idéias seriam falsas num sentido diverso. Assim.a exploração do trabalho. pobreza e práticas policiais precisam ser vistos no contexto urbano da sociedade de consumo. vem sendo suplantada em quase todos quadrantes por uma volúpia punitiva ancorada na idéia da degeneração moral irremediável do criminoso. a marginalização de minorias e imigrantes e a exclusão sistemática dos problemáticos (mães solteiras de baixa renda.

assim.são. as idéias não estariam fora do lugar. Nancy Cardia identificou esse tipo de sentimento entre os defensores da pena de morte: "O ato criminal retiraria do criminoso seus direitos e o colocaria fora da comunidade moral: os presos representam uma ameaça tão profunda que faz com que sejam excluídos do mundo dos humanos. A população não quer a substituição do terror do tráfico pelo terror da polícia.Resultados da Pesquisa naturalmente criminosas. advogados e representantes dos vários segmentos da sociedade. A reforma da polícia e das outras instituições do sistema de justiça penal pode gerar um alívio e melhorar a eficiência da repressão. O criminoso. Um dos principais subprodutos da privatização da responsabilidade pela situação humana é a sanha contra os ativistas de direitos humanos. que se vale do arsenal dos métodos de gestão empresarial e avaliação da eficiência para levar a cabo a tarefa de identificar. por seu turno. A violência policial apareceria assim como o melhor agente da consciência coletiva. não haveria outro remédio para salvar a sociedade da destruição e da decadência moral senão a destruição pura e simples dessas ameaças. Trata-se de uma concepção que tende a ver os direitos individuais como um estorvo. O caráter falacioso desse discurso reside na incompatibilidade entre desrespeito aos direitos humanos e eficiência na repressão ao crime. ou seja. A pretensa "cruzada" contra os que defendem os direitos humanos geralmente perde de vista que esses direitos são para todos. É na luta pelos direitos humanos e não apenas os civis e os políticos. Caberia aos agentes do Estado exercer uma vigilância constante para que a sociedade não degenere e entre em colapso. Para parafrasear o filósofo esloveno Slavoj Zizek. não se deve ouvir apenas a polícia. ao contrário. Por isso. 7 A caracterização do crime e do criminoso que integra o senso comum e que dá suporte à violência policial e às soluções "finais" justifica as atrocidades contra os criminosos. visto que o sistema judicial normal mostra-se incapaz de dar a resposta reclamada pela população. mas deve ser acompanhada de ações integradas nos vários campos acima mencionados. no entanto. Até mesmo autoridades constituídas e eleitas chegam ao limiar da insanidade quando demonstram pouca ou nenhuma consideração com o número de mortos pela polícia. dos suspeitos. o discurso que ataca os direitos humanos em nome da segurança constitui "a forma da aparência de seu contrário". As categorias sociais identificadas como potenciais criminosos . Nesse caso. desde que o objetivo da segurança seja alcançado. Para Página 16 . é na maioria das vezes equiparado. Os direitos humanos são por definição universais e. mas também os econômicos. seus integrantes são na prática "desumanizados".que talvez resida a potencialidade de superar a distância entre as promessas da democracia e a realidade das ruas. qualificados pejorativamente em certos círculos de "defensores de bandidos". A luta pelos direitos humanos em todas suas dimensões pode e deve se tornar instrumento de mobilização pelas mudanças sociais necessárias. reais ou vistos como potenciais. Como a tendência atual consiste na "desumanização" dos criminosos e. visto como a fonte irradiadora de atos de destruição da harmonia social. as nossas elites do século XXI têm conseguido utilizar a ideologia importada para encobrir o essencial. vigiar e excluir a população considerada perigosa e criminosa. A nova "ciência" criminal pretensamente neutra reforça essa concepção. educadores. não poderiam ter encontrado habitat mais acolhedor. em alguns casos. Nesse sentido. a complexidade da tarefa de criar as condições para o surgimento de uma sociabilidade menos violenta desqualifica as soluções unidimensionais. não devem ser aplicados de forma seletiva. excluídas da "comunidade moral".geralmente pobres. mas não constitui a panacéia em que alguns querem crer. no senso comum. 8uma vez que é na mobilização pela realização de todos os direitos humanos que parece residir o caminho que levará a soluções de longo prazo para os diversos fatores que incidem sobre o fenômeno multifacetado da criminalidade. pela suposta necessidade de retribuir na mesma moeda o mal causado. à expressão acabada de uma patologia social. Os mais radicais passam então a defender a eliminação física como instrumento legítimo de combate à criminalidade. No limite da exclusão nega-se aos excluídos o direito à vida". negros e favelados . A condenação moral é evidente quando se denuncia o crime como uma doença. mas com as roupagens modernas da tolerância zero. portanto. É preciso conversar também com sociólogos. conferindo um aspecto "moderno" a práticas antigas. Diferentemente das elites brasileiras do século XIX. mas instituições de segurança pública que promovam a cidadania. economistas. Em suma. a cura para a enfermidade do crime é a erradicação do mal pela raiz: a eliminação do criminoso. inclusive para o cidadão comum que tem o direito sagrado à vida e à integridade pessoal. Polícia é parte essencial da busca de soluções. sociais e culturais . retiram-se na prática esses indivíduos da comunidade de direitos.

Pierre (Org. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2000. Página 17 . (4) Benoni Belli. Anthony. (58): 157-171. 2001. Risk Society: Towards a New Modernity. SCHWARZ. a luta por todos os direitos humanos pode ser um catalisador das reformas necessárias. Novos Estudos Cebrap. Slavoj. Contre-feux: Propos pour servir à la résistence contre l'invasion néo-libérale. ainda que sob a forma de programas "modernos". Paris: Raison d'Agir. 1993. 2000. "Polícia. Loïc. The Culture of Control: Crime and Social Order in Contemporary Society. Paris: Editions Robert Laffont. In: ---. "Direitos humanos e exclusão moral". Nancy. Pierre. as quais devem levar. 1995. Zygmunt.). CHESNAIS. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (1) Jean-Claude Chesnais. por sua vez. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. nov. Paris: Seuil. 2001. David. "As idéias fora do lugar". Mais!. Laurent e SAINATI. 2000. BOURDIEU. Cidadania e justiça. 12. 1998. "Polícia. 1. 2002. Histoire de la violence. As reformas somente serão efetivas se ensejarem o controle democrático das ações empreendidas pelo Estado. 2000. X(2): 343-389. BOURDIEU. Stanford: Stanford University Press. Ulrich. ---. 1998.-dez. Roberto. La Machine à Punir: Pratiques et Discours Sécuritaires. tolerância zero e exclusão social". Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Benoni. The Consequences of Modernity. Paris: L'Esprit Frappeur. Novos Estudos Cebrap. Chicago: University of Chicago Press. São Paulo: Editora 34. 1992. p. Sociedade e Estado. à alteração da estrutura de poder. La Misère du Monde. BECK. 6-7. WACQUANT. Gilles. (58): 157-171. 1999. (6) Roberto Schwarz. (5) Loïc Wacquant. Paulo. p. ZIZEK. Globalização: as conseqüências humanas. Bibliografia BAUMAN. "Monopólio da violência e pacificação no Brasil: reflexões sobre a violência policial". O mal-estar da pós-modernidade. nov. p. p. 1998. ---.2001. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.07. 1998. Jean-Claude. 1998. "Direitos humanos e ética perversa". 1981. In: ---. (2) Ulrich Beck. (3) Zygmunt Bauman. 01. As prisões da miséria. As prisões da miséria. Paris: Editions Robert Laffont. São Paulo: Editora 34. 2001. CARDIA. London: Sage Publications. 12. mai. BONELLI. A ênfase na repressão tradicional. 1981. 137. 57. ---. Risk Society: Towards a New Modernity. tolerância zero e exclusão social". O mal-estar da pós-modernidade. GARLAND.Resultados da Pesquisa perseguir esse objetivo. Ao vencedor as batatas. 4 (8): 235-250.º semestre de 2000. "As idéias fora do lugar". Folha de S. Histoire de la violence. GIDDENS. Le Monde Diplomatique. "Sur Quelques Contes Sécuritaires Venus d'Amérique". p. Passim. representa mais do mesmo e talvez constitua maneira confortável de deixar as estruturas de poder intocadas e reproduzir a exclusão. BELLI. 2000. Ao vencedor as batatas. jul. London: Sage Publications.

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pela sua relevância.Desmilitarização da polícia preventivo-ostensiva . todos eles.5. e não pode ser apropriado por particulares ou por grupos. imune a mecanismos de controle social. a aplicação da força para o controle das infrações penais. que significa dono. nesta XV Conferência Nacional da OAB. como se sabe. é um indicador eficiente do grau de aperfeiçoamento democrático das sociedades. Os princípios éticos que fundamentam os valores republicanos. não se poderá falar em república democrática onde não houver soberania popular e igualdade de direitos. é o completo afastamento destes princípios.Emenda à Constituição Federal 1. 16 | p. a atuação do governo paulista na área da segurança traduz-se por uma "política de assassinar pessoas suspeitas de crimes ao invés de prendê-las". A conclusão estarrecedora do relatório dá conta de que em 1990 a polícia matou 585 pessoas.que. É que a esse setor incumbe. O princípio iluminador da democracia é o de que a todo governo incumbe o desempenho de funções e não o exercício de dominações . É com fundamento nesse feixe de princípios. a negação de todo o ideal republicano e democrático e. Esse princípio majoritário. complexidade e propensão ao abuso. deve ter sua aplicação limitada pela necessidade do respeito aos direitos humanos. todo poder emana do povo. caput). De acordo com a descrição insuspeita do Departamento de Estado norte-americano.409 em 1993 devido à repercussão negativa do episódio. e na observação das realidades brasileira e estrangeira. no mesmo ano. o número de assassinatos caiu muito . A falta de segurança.470. 5. e a criação de um mecanismo de controle externo da atividade policial por parte da sociedade. Em 1992. diretamente. a partir de três reformas centrais: a desmilitarização e a descentralização da polícia preventivo-ostensiva. por ação ou omissão. embora integre o núcleo de direitos fundamentais da pessoa . que o grupo de trabalho da segurança pública. o que leva a crer que os assassinatos por parte de policiais são controláveis. desembocando na ação sinistra de justiceiros. O direito à segurança.Municipalização da polícia preventivo-ostensiva . todavia. O que se observa. o número de mortes causadas por policiais subiu para 1. da Comissão de Direitos Humanos da Ordem Advogados do Brasil. senhor. em matéria de segurança pública. uma ameaça permanente aos direitos humanos. Desmilitarização da polícia preventivo-ostensiva Página 19 . publicada no último relatório anual sobre "Práticas de Direitos Humanos". de resto. são condição para o exercício dos demais direitos . e os delegados do poder devem responder por seus atos perante o povo. os valores democráticos e o reconhecimento da dignidade dos direitos humanos são.3. alcançados quando se trata da organização da atividade policial. ninguém desconhece. 2. à liberdade e à igualdade ( CF ( LGL 1988\3 ) . Princípios éticos e democráticos para uma nova política de segurança pública O serviço de segurança pública. linchadores e esquadrões da morte. é o de que o que é público é comum a todos. A existência de uma polícia militar. Por conseguinte. Na república democrática. Secção de São Paulo. representa. uma proposta de emenda à Constituição Federal ( LGL 1988\3 ) para a realização de uma nova política de segurança pública. tem sido violado sistematicamente pelo poder público. atenta gravemente contra a ordem institucional. vem apresentar. art.ao lado do direito à vida.4.Princípios éticos e democráticos para uma nova política de segurança pública 2.º. entre nós. de outro. O princípio fundamental da República ( res publica). 291 | Out / 1996DTR\1996\680 Maria Eugênia Raposo da Silva Telles Área do Direito: Geral Sumário: 1. Depois da tragédia do massacre no presídio do Carandiru.Controle externo da atividade policial .Resultados da Pesquisa PROPOSTA PARA UMA NOVA POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA Revista Brasileira de Ciências Criminais | vol.a palavra dominação vem de dominus. de um lado.

mas por meio da presença preventiva. a Polícia Militar atuou na repressão política e assimilou. impessoalidade. obrigam todos os ramos de atuação da administração pública.º e 2. nos bares ou no trânsito. capitão. que os Estados precisam de uma força de dissuasão. tenente-coronel e coronel . o conceito de guerra interna foi transferido para a atividade policial. que serve para reforçar a metáfora bélica da destruição do inimigo. Se o governo democrático é de funções e não de dominações. de resto. radicalmente. embora tais polícias não sejam militares. A longa escala hierárquica . as técnicas de riot control (controle de tumulto) e de crowd control (controle de multidão). Nada impede que uma polícia civil incumbida do policiamento preventivo-ostensivo seja uniformizada e organizada hierarquicamente. além disso.º e 1. É inadmissível órgão público que consuma tantos recursos para cuidar de seus próprios interesses. à disciplina e à hierarquia. Já estão amplamente difundidas. a finalidade dos serviços públicos só pode ser a satisfação do interesse público.que são repartições públicas . são corporações excessivamente onerosas para os cofres públicos. contribuem para tornar lento e ineficiente o serviço policial.º sargentos. É sabido que.e a cadeia de comandos. e destinado à proteção da vida e do patrimônio. major. subtenente. utilizadas pelas polícias uniformizadas do Japão. Exército e Aeronáutica. As razões de tal circunstância remontam à história da corporação que. uma vez praticada a infração. São homicídios cometidos por cidadãos comuns.soldado.Marinha. a natureza do serviço policial é essencialmente civil.Resultados da Pesquisa Ninguém mais parece duvidar de que a prática da violência faz parte do cotidiano da Polícia Militar no Brasil. que justifique a manutenção de uma polícia militarizada para a prestação do serviço de segurança pública. Winfried Hassener. é fato já muitas vezes sublinhado que não são prerrogativas exclusivamente militares. porque a persecução penal. 3. além da habitualidade e do profissionalismo. estão "na vida" desde a menoridade e que agem por conta própria. em que a máxima de que o subalterno não pode agir sem ordem superior é levada ao extremo. que constitui o grande motivo de insegurança para a população. moralidade e publicidade. Municipalização da polícia preventivo-ostensiva Página 20 . judiciária e penitenciária do Estado. Ora. Quanto à uniformização. reserve-se a natureza militar aos membros das Forças Armadas . depois de brigas em casa. para manter as PMs. o treinamento volta-se para a criação de um sentimento de culpa-e-castigo. porque é a chamada criminalidade de massas. da Alemanha. a maior parte dos crimes que oprime a população brasileira não se enquadra neste perfil. Desde o início da formação dos policiais.º tenentes. da Inglaterra e dos Estados Unidos. Em primeiro lugar. a capacidade de corromper as estruturas policial. 3. Apenas. São assaltos e furtos cometidos por delinqüentes que. Aos quartéis . ademais. no mais das vezes. no mundo de hoje.º e 1. Depois. os quais. e não o crime organizado. a ideologia da segurança nacional. Nem se alegue. A questão de saber se a militarização da polícia preventivo-ostensiva confere "força" ou "autoridade" à repressão do chamado crime organizado está há muito superada. cabo. ao sabor do momento. durante a ditadura (1964-1985). Nenhum motivo existe. devendo obediência aos princípios da legalidade. A repressão à criminalidade comum se contaminou da filosofia de combate ao inimigo. Tal "criminalidade de massas" não se evita por meio de uma investigação competente. 2. cabe à polícia judiciária. As Polícias Militares. Por conseguinte. desde a década de 30 é considerada força auxiliar e reserva do Exército. Segundo um dos mais respeitados penalistas da atualidade. O resultado é o despreparo da Polícia Militar para atuar ao lado da população como um serviço social equiparado aos serviços de saúde e educação. 1 O crime organizado só se verifica quando está presente. em detrimento do exercício regular da função policial.só pessoas autorizadas têm acesso. De fato. respeitados os direitos humanos. com efeito.

administrados em âmbito estadual. oneram o orçamento e dificultam o combate à corrupção. Esse controle. em matéria de segurança pública. a afirmação de que é no Município que o cidadão vive. em São Paulo.12. todavia. de uma atividade localizada. é sabido que a forma mais eficaz de evitar a ação criminosa é assegurar a presença da polícia. O risco do coronelismo e da transformação das polícias municipais em "guardas pretorianas" dos prefeitos pode perfeitamente ser afastado por meio da atuação das entidades de defesa da cidadania e dos mecanismos de controle externo. É o que se pôde observar durante a atuação. do policiamento A investigação criminal é atribuição da Polícia Civil e da Polícia Federal. o qual deve ser municipalizado. Uniformizada e sujeita à disciplina e à hierarquia. hoje marcada pelo autoritarismo. ao menos onde e quando a incidência de criminalidade for maior. de 30. Ocorre que. pode ser mais transparente e mais sensível à fiscalização direta pela sociedade local organizada. são mais próximos. por obra do regime militar (governo Médici). O contato muito mais direto do povo com prefeitos e vereadores . enfim da vida cotidiana de seus governados do que os governos das outras esferas do poder. extinguindo corporações policiais civis locais e transformando seus integrantes em policiais militares. Pela escala e pela abrangência. da Guarda Civil. criada em 1926. ser acessível ao povo e não privilégio de poucos. sempre lembrado. foi editado o Decreto-lei 1. Não bastasse isso. a proposta de Emenda prevê. mais chegados.072.é condição para a pressão política necessária ao controle eficaz de um serviço com as peculiaridades da segurança pública. Tal acesso. mas sem quartéis. mais íntimos.mesmo porque a área dos Municípios é menor . descentralizar a polícia preventivo-ostensiva é medida fundamental para combater a burocracia e o gigantismo que põem a perder a administração do serviço policial. Nada impede. O modelo. que essa divisão se dê de acordo com a divisão natural das comunidades destinatárias do serviço. A experiência demonstra que a verdadeira polícia comunitária é a polícia municipal.1969. ser capaz de exercer a necessária coação dentro dos limites da lei e do respeito aos direitos e garantias individuais decorre que o serviço policial precisa ser mantido sob controle permanente.patrulhamento das ruas. nos moldes da polícia inglesa. Das dificuldades inerentes à própria natureza do serviço . Aliás. a ponto de ter intervir o governo federal. como seria ideal. das escolas. Os imensos contigentes policiais. transformaram-se. por parte de seus usuários. e não da Polícia Militar que hoje realiza policiamento preventivo-ostensivo.ser protetivo sem ser intimidativo. inc. com uma cadeia interminável de atividades-meio. I) não pode deixar de aplicar-se também à segurança pública. a ponto de ser copiado em outros Estados e até mesmo em outros países da América do Sul. nunca é demais lembrar. se não em todos os lugares e em todas as horas.Resultados da Pesquisa À exceção talvez dos crimes passionais. Assim. do trânsito etc. para ser profícuo. por conseguinte. portanto. Trata-se. depende do acesso que os usuários tenham à esfera de poder a que o serviço se subordina. em muitos Estados do Brasil. Os governos dos Municípios. ganha força de norma superior. por sua estrutura e por falta de um controle assim. pelo desperdício e pela ineficiência. 30. as Polícias Militares. Também não é argumento oponível à proposta de municipalização preventivo-ostensivo a afirmação de que o crime não tem fronteiras. sujeitos a instrução militar regulamento militar e justiça militar. ainda que os recursos Página 21 . com efeito. o policiamento preventivo-ostensivo deve ser exercido por meio da presença dos policiais. foi bem sucedido. a Guarda Civil desempenhava as funções próprias da polícia preventivo-ostensiva . Para viabilizar a idéia da municipalização. em guardas pretorianas dos governadores. Em 196 todavia. fato que permite a divisão em setores do território em que se realiza. É por essa razão que o dispositivo constitucional que atribui aos Municípios competência para legislar sobre assuntos de interesse local (art. só é direito na órbita municipal.

as organizações e os indivíduos. o que garantiria a participação popular mesmo durante tais intervalos. os episódios de abusos policiais sinistros. entendido como a proteção das liberdades individuais e coletivas.relacionados. tempera a tentação oligárquica dos partidos políticos e aproxima os centros de decisão política das reais demandas da sociedade. com competência para decidir as questões relativas ao recrutamento. Ao mesmo tempo. constitui o objetivo primordial dos governos. afirmava que o direito à autodeterminação dos homens. com o dinheiro e com o poder surge a necessidade de se criar um contrapoder. Página 22 . Nunca é demais lembrar. Na verdade. Nem se alegue. Para combater desvios de poder desse tipo é preciso que se consolide a idéia do controle externo da polícia preventivo-ostensiva. a Emenda prevê a organização em forma de consórcio de Municípios. até. Além disso. Em alguns casos. todos devem ter acesso ao espaço público. a idéia de que as instituições de um Estado democrático devem ser controladas externamente pelos cidadãos é recorrente entre os teóricos da política e do governo. respectivamente. esse objetivo é elevado à condição de imperativo ético. a tendência é de que um poder prevaleça a ponto de subjugar a sociedade. todavia. observa-se uma verdadeira privatização da polícia. os anos passam e os policiais responsáveis pela chacinas. à seleção e à formação do pessoal. A criação de Conselhos desse tipo. por ter o monopólio da coação. Fora daí. acrescentou novos elementos teóricos a essa discussão. A população segue espremida entre a violência dos bandidos e a violência da polícia. nas democracias. seja pelas peculiaridades do serviço policial. no sentido do aperfeiçoamento do regime democrático de governo. que resultaram em massacres e em extermínio de adultos e de crianças. Ademais. não raro.Resultados da Pesquisa humanos e materiais para organização e manutenção das polícias preventivo-ostensivas sejam transferidos dos Estados aos Municípios. A experiência tem demonstrado que os Conselhos de representantes da comunidade significam a abertura de mais um canal de participação popular.estariam livres das interrupções decorrentes das eleições. 4. No campo da segurar pública. é propenso a desvirtuamentos escandalosos. seja pelos princípios que fundamentam a república democrática. Tal controle deve ser exercido por Conselhos. violando gravemente o princípio da res publica. a esse respeito. Como a predominância do espaço público é do mercado e do Estado . 3 recentemente. apropriam-se da atividade policial em seu proveito particular. exige a criação de contrafreios à expansão dos poderes do Estado. Particulares como lojas e bancos. no sentido de atenuar a desconfiança e o medo que a polícia infunde na população. caso de pequenas cidades ou de Municípios que não tenham condições de organizar sua polícia. Semelhante escopo. localizado fora do Estado e do mercado. Jurgen Habermas. pelos massacres e pelos extermínios continuam impunes. que a participação popular fragiliza a instituição da representação política. são promovidos de posto. compostos majoritariamente por representantes de entidades da sociedade civil organizada.que teriam também a finalidade de definir políticas para aproximar a função policial das necessidades locais de segurança pública . Para ele. Controle externo da atividade policial O objetivo supremo de todo trabalho de engenharia social é a auto-regulação das instituições. cresce a violência institucionalizada e impune. De nada adiantam as alterações nos comandos das polícias e a elaboração de fórmulas publicitárias sofisticadas. O serviço policial. segundo ele. bem como para avaliar o desempenho dos policiais para efeito de punição e de prêmio. Madison. 2 a esse respeito. A parceria entre governo e comunidade na gestão dos negócios públicos complementa e afina a atuação dos partidos políticos na tarefa de captar e equacionar as demandas populares. na história recente do país. Tais Conselhos . antes. Por falta de mecanismos de controle da atividade policial.

22. No campo da segurança pública. A polícia judiciária. X: X . Esse autêntico "contrapoder" é o poder da organização autônoma dos homens livres. Osborne & Gaebler 4 chamam a atenção para o fato de que a função do Estado não é vender serviços para gerar lucros. sob controle de conselhos constituídos majoritariamente por representantes de entidades da sociedade civil. na forma da lei. no sentido do aperfeiçoamento da democracia. isolados ou em consórcio. É por esta razão que os serviços públicos são custeados por meio de tributos de pagamento obrigatório.º. A segurança pública. aos Estados e aos Municípios ganha um inc. XIII: XIII . ao contrário dos serviços prestados pelo setor privado.Manter. Página 23 . os Estados e o Distrito Federal têm competência para legislar concorrentemente. aos Estados e ao Distrito Federal fazer tal controle. 24. a polícia preventivo-ostensiva e o corpo de bombeiros. 5. em âmbito federal e estadual. permanecendo incumbida da apuração de autorias e responsabilidades. 30. por lei orgânica própria. ele propõe a criação de esferas públicas autônomas para servir de contrapeso ao Estado e ao mercado. na defesa dos próprios públicos e interesses correspondentes. dirigida por delegados de carreira. O art. ambos de caráter civil.º. direito de todos. que passa a ter a seguinte redação: XVI . que fixa as atribuições comuns à União. § 1. exclusivamente. dever exclusivo e indelegável do Estado.2 Competência Legislativa O art. A falta de opções para o usuário na esfera pública reforça a tese da necessidade do controle externo do serviço. Emenda à Constituição Federal 5. direitos e deveres das polícias judiciárias.Legislar sobre a estrutura e funcionamento das polícias preventivo-ostensivas e dos corpos de bombeiros. 5. que só são pagos e usufruídos por quem assim o desejar. em carreiras únicas. como ocorre no setor privado. com a cooperação técnica e financeira do Estado.º § 2. será estruturada. ou seja. é alterado em seu inc. ambos de caráter civil. que fixa a competência dos municípios. XVI. 23. O art. é exercida para velar pela incolumidade das pessoas e pela preservação de seus direitos fundamentais. nos casos de infrações penais. A polícia preventivo-ostensiva e o corpo de bombeiros. O controle passa a funcionar como um mecanismo que substitui a concorrência. A função do Estado é gerar bem-estar para todos. § 2.Resultados da Pesquisa Nesse sentido.3 Competência Municipal O art. independentemente do dinheiro que cada um possua. 144 passa a ter a seguinte redação: Art. bacharéis em direito. ganha um inc. e pela qual todos são responsáveis. A legislação penal militar e processual penal militar se aplica. que fixa as matérias sobre as quais a União. que fixa as matérias sobre as quais a União tem competência para legislar privativamente. dos cidadãos. 5. ganha um § 2. garantias. para garantir serviços de boa qualidade.Organização.1 Segurança Pública O art. Todos os motivos levam o controle externo dos serviços públicos a ser uma tendência mundial. serão organizados pelos Municípios. assume feições de instrumento de combate à violência e ao autoritarismo. aos integrantes da Marinha do Exército e da Aeronáutica. Cabe à União.º. 144.

propriedades. deverá efetivar-se dentro do prazo máximo de dois anos. os Estados transferirão aos Municípios. estaduais ou municipais.) . optar por assumir. (1) HASSEMER. As patentes dos oficiais das Forças Armadas são conferidas pelo Presidente da República. com as prerrogativas. Art.Para organização e manutenção das polícias preventivo-ostensivas e dos corpos de bombeiros. devidamente autorizadas pelas respectivas Câmaras de Vereadores.6 Disposições Constitucionais Transitórias Devem ser acrescentados à Constituição.. Parágrafo Único . a que se refere este artigo..º.. poderão as Prefeituras. aos oficiais da ativa e da reserva das Forças Armadas.º e 4. (3) HABERMAS. na forma da lei. a organização de suas polícias preventivo-ostensivas e de seus corpos de bombeiros. Fernando Papaterra in Os Clássicos da Política.. 2. tem seus parágrafos 3. Publicações Escola Superior do Ministério Público. desde logo. equipamentos e verbas.. postos e uniformes militares. privativamente. Reinventing Government. Citado por LIMONGI. New York: Addison. Art. os seguintes dispositivos: Art. 5. 5. 1993.º. As patentes. ficam asseguradas. (4) OSBORNE. Página 24 . Ática. (2) MADISON.São servidores militares federais os integrantes das Forças Armadas.) . assim como aos oficiais reformados dessas Forças.Wesley Inc.A transferência.. GAEBLER. § 2. in Segurança Pública no Estado de Direito. 1984.. (. James. que define e rege os servidores públicos militares. Porto Alegre.ª ed. onde melhor couber. os direitos e os deveres a elas inerentes. 1991. Ted. passa a ter a seguinte redação: Art. em sua plenitude. São Paulo. (. 42 . a contar da promulgação desta Emenda. Winfried.º suprimidos.4 Servidores Públicos Militares O art.Durante o prazo fixado no artigo anterior. (. 252. Pertencem-lhes. § 1. Rio de Janeiro: Empo. nos termos da Lei Federal Complementar.. 1991. 125. Jurgen. David.Resultados da Pesquisa 5. 42. que rege a organização da Justiça estadual.5 Tribunais e Juízes dos Estados O art. títulos. Mudança Estrutural da Esfera Pública. p.) Os atuais integrantes das polícias militares dos Estados poderão optar por sua transferência para as polícias preventivo-ostensivas civis.

2. Uma política que adote por divisa "segurança da liberdade" mais que "combate ao crime" também deveria figurar no debate pelo menos com igual prioridade Tenho a impressão de que o tema segurança pública numa política não-conservadora há longo tempo tem trazido mais dores de cabeça e receios do que despertado interesse. 1 | p.O enrijecimento do Direito .4. Situação atual da política de segurança pública 1. apenas ela não pode ser a única voz no coral da segurança pública. . a possibilidade de colher eletronicamente conversas ocorridas no recesso do lar para fins investigatórios. Criminalidade e violência ocupam atualmente o centro das preocupações dos cidadãos da Alemanha. .Saídas 1. 5 | p. e a autorização legal para que agentes policiais secretos possam cometer pequenos ilícitos penais típicos do "milieu" onde buscam infiltrar-se. 277 | Out / 2010DTR\1994\5 Winfried Hassemer Catedrático de Ciências Penais na Universidade de Frankfurt Área do Direito: Geral Sumário: 1.5. A par disso. 2. hoje em dia incessante e enfaticamente relatada.quando não consegue remover a discussão de seu caminho . pensa-se até que pode devorar-nos todos.como pode um tal Estado ainda ter a pretensão de combater a "criminal idade organizada"? Seria recomendável incitá-lo a pôr-se em marcha e colocar em suas mãos todos os meios de combate que ofereçam alguma chance apenas razoável de sucesso? a resultado desta forma de discussão é uma caricatura da real situação e de suas exigências: . Criminalidade de massas e criminalidade organizada Não é por acaso que inexiste uma proposta progressista de segurança pública.3. criminal idade e violência vêm adquirindo tanto na opinião pública quanto na percepção dos indivíduos uma importância crescente. .Questões de fundo .Criminalidade de massas e criminalidade organizada .Resultados da Pesquisa SEGURANÇA PÚBLICA NO ESTADO DE DIREITO Revista Brasileira de Ciências Criminais | vol. quando o furto de automóveis e bicicletas não mais é combatido mas apenas "administrado" . o complexo criminalidade e violência adquire hoje uma posição de particular destaque por duas razões: .o aspecto da segurança da liberdade é argumentativamente negligenciado. Esta simplificação dá origem a um cenário de segurança pública perigoso: Segurança pública. revoltam e ao mesmo tempo fascinam.a conformar-se com posições que uma vez mais defendem a exacerbação e ampliação dos meios de combate ao crime e reduzem o complexo "violência e criminalidade" a duas questões: a investigação por meio da "grande escuta". Esta política tende atualmente .Com a "criminal idade organizada".os problemas que nós temos com esta segurança são apresentados unilateralmente e vêem-se reduzidos aos desejos policiais de exacerbação e ampliação dos meios de combate ao crime.Política criminal reduz-se a política de segurança. . Incidentalmente Página 25 . Nada contra a polícia.Situação atual da política de segurança pública . entra em cena um fenômeno ao mesmo tempo encoberto e ameaçador: Fala-se nele sem que se saiba ao certo o que é e quem o produz. isto é.não existe uma proposta progressista de segurança pública. 55 | Jan / 1994 Doutrinas Essenciais de Direito Penal | vol. sabe-se apenas que é altamente explosivo. Graves transgressões das leis penais e ameaças a bens jurídicos fundamentais infundem medo.Já na criminalidade de massa o Estado investigador mostra sua incapacidade para combater os ilícitos penais. Quando arrombamentos de apartamentos e assaltos nas ruas multiplicam-se epidemicamente.

Criminalidade de massas e criminalidade organizada 3. ao passo que o vocabulário conservador adaptou-se prazerosamente à discussão pública em tais circunstâncias. Estes sentimentos encontram-se profundamente enraizados e são portanto poderosos. Eles podem ser prontamente ativados ou despertados sobretudo quando dois fatores convergem na percepção pública: . O enrijecimento do Direito "Criminalidade organizada" apresenta-se hoje como o abre-te-sésamo para desencadear o arsenal de instrumentos de intervenção da autoridade em nome da prevenção de perigos e da elucidação de crimes. contenta-se em seguir a pauta conservadora imposta pelo momento presente e o respectivo discurso de "necessidade de agir" e limita-se a gestos de discordância e advertência. ingênuo e teimoso. não importa quem e com que eficácia deva ou possa proclamá-las e defendê-las. furtos de bicicletas ou delinqüência juvenil crescem. ao passo que sua elucidação policial bem como sua real persecução tendem a zero. Esta dúvida atinge o cerne da experiência jurídica. O atrevimento e a impassibilidade do arbítrio criminal cruzam incessantemente nossa mídia e nossas cabeças. Assaltos de rua. abala a expectativa de neutralização de superpoderes sociais em questões centrais da vida cotidiana com os instrumentos do Direito.Resultados da Pesquisa pesquisas empíricas comprovaram à sociedade que "lei e ordem" são de fato temas políticos conservadores. Estas manifestações da criminal idade afetam-nos diretamente. O crédito progressista que o Tribunal Constitucional alemão nos concedeu há muitos anos em sua festejada "decisão do recenseamento" na qual o "direito à privacidade dos dados sobre o cidadão" adquiriu contorno de Direito fundamental com assento na constituição . Trata-se da sensação de desproteção e de debilidade diante de ameaças e perigos desconhecidos. É preciso reconhecer que uma concepção de segurança pública garantidora da liberdade se apresenta mal aparelhada não apenas em relação a sua posição na arena política como também no tocante ao conteúdo de seus argumentos. Isto deforma a situação completamente. que nos leva a duvidar da força do Direito. As profundas incisões nas garantias tradicionais do poder de polícia e do processo penal estão sendo operadas ou estão por acontecer sempre e invariavelmente em nome desta forma de criminalidade.parece agora irremediavelmente esgotado: A proteção dos dados pessoais sofre hoje a mesma corrosão que outros Direitos de liberdade na alça de mira do combate ao crime: Recebe o adorno de "exagerado" e o carimbo de "fora da realidade". Na verdade a população encontra-se realmente sobressaltada e agredida por uma forma de criminalidade que nada tem a ver com a criminalidade organizada: é a criminal idade de massas. mas sobretudo atingem nosso equilíbrio emocional e nosso senso normativo. Quem mistura ambas dificulta uma Política criminal racional. desencadeando torrentes de intimidação e indignação. Página 26 . os seguidores da lei possam afirmar-se com o auxílio do Direito. A invocação de Direitos e Liberdades fundamentais no combate ao crime afigura-se nesse contexto anacrônico. Ambos estes fatores estão presentes e caracterizam nossa situação atual: C. Ela não logrou indicar temas ou prioridades na agenda de discussões. que a longo prazo disponha livremente da asseguração da liberdade e da proteção dos Direitos fundamentais com o propósito de ceder às exigências de um efetivo combate ao crime. uma verdade vale ainda hoje: Uma política criminal. coloca em jogo todas as nossas tradições de Estado de Direito.O. Demonstrou-se que o tema criminalidade e seu combate constitui um sutil regulador de sentimentos de ameaça na população. Quando nada disso mais vale. comércio de drogas. Os efeitos não são apenas físicos e econômicos. não é apenas a jurisdicionalização da proteção jurídica. (criminal idade organizada) é um produtor de medo de alta efetividade. os índices de criminal idade aumentam e os de sua elucidação caem.A ameaça é ao mesmo tempo difusa e intensa. Todavia. que eliminam qualquer concepção de segurança pública asseguradora da liberdade. invasões de apartamentos. mas sua própria efetividade que estão chegando ao seu fim. seja como vítimas reais ou possíveis. e a impotência do Estado em controlar a criminalidade é notória. 2. elimina a chance de que também os mais fracos.

teses 11 e 12). encontram-se ainda nos seus primeiros passos rumo a um esclarecimento criminológico confiável do que seja o fenômeno. nas grandes cidades o abuso de drogas. Só aqui esta forma de Política criminal pode colher frutos. o que não ocorre na maioria dos casos. policiamento ostensivo. Uma coisa decerto já é clara a esta altura: C.O. ou planejadas com grande astúcia ou dissimulação.As fontes destas formas de criminalidade situam-se mais profundamente e são consideravelmente mais difíceis de estancar do que. 3. que seria contraditório abrigar no conceito de "criminalidade organizada" manifestações criminosas com características habituais. é apresentada desde o início da discussão pública a seu respeito como uma forma de criminalidade com um potencial de ameaça gigantesco e até agora incomensurável. enquanto a Política criminal real não se debruçar sobre a criminalidade de massas. profissionais ou de bando. tb abaixo 4. Saídas O que "criminal idade organizada" realmente é. Ultimamente surgiu também a violência contra minorias politicamente mascarada. Pesquisas empíricas. O certo porém é que nada vai mudar. Por conseguinte. então a importância da C. Aqui os remédios deveriam ser de outra natureza. Quando se aborda o fenômeno criminalidade de massas em sede de Política criminal e quando se elaboram estratégias aptas e direcionadas ao seu combate. apenas por serem particularmente perigosas. inovações na política de drogas. com um pouco de arrocho. do BKA (Bundeskriminalamt. A definição atualmente em circulação é por demais abrangente e vaga. impotência do Estado e promessas por parte dos órgãos de segurança pública de que. a situação melhoraria. Este redirecionamento pressupõe consideráveis meios e uma virada na mentalidade político-criminal. não sabemos precisar. um novo começo na política de segurança pública não pode prescindir das seguintes condições: conhecimento mais preciso das formas de criminalidade que ora nos trazem problemas. roubo e outros tipos de violência contra os mais fracos nas mas.Resultados da Pesquisa Agentes secretos. em todo caso. mas apenas o crescimento ou a modernização quantitativa de fenômenos dos quais a legislação policial. Os meios cogitados para seu combate (pormenores abaixo. especificação de seus distintos cenários e formas de combate. . 5. teses 6 e 7) são de altíssimo calibre: No mínimo. precisa isolar um potencial de ameaça qualitativamente novo. chances de sobrevivência aos jovens. observações policiais prolongadas e outros meios de investigação modernos só ajudam no combate à criminal idade de rua se esta se reveste da forma organizada. Eis aqui uma mistura altamente explosiva. sugere uma direção em vez de definir um objeto. Salta aos olhos que uma Política criminal voltada à exacerbação e ampliação do arsenal investigatório tem seu centro de argumentação não na criminalidade de massas e sim na criminalidade organizada. como ela se desenvolve. se se quisesse realmente produzir a cura: prevenção técnica. tese 8). Aqui emergem dois aspectos com clareza cristalina: . distribuição bem proporcionada do arsenal teórico e prático entre ambas as formas atuais de ameaça. Um conceito útil de C. Criminalidade de massas em nosso meio compreende. penal e processual penal trata desde longa data. arrombamento de apartamentos. não deixa muita coisa de fora. eles subvertem as estruturas fundamentais do poder de polícia.As formas de criminalidade ora em apreço requerem outros meios de prevenção que os normalmente empregados contra a criminalidade organizada (v. nos quais ninguém parece realmente interessado atualmente. relativiza-se e o debate se aproxima das necessidades cotidianas dos seres humanos de liberdade e segurança. quais suas estruturas e perspectivas futuras. há muito tempo. furto de automóveis e bicicletas.O. Departamento Federal do Crime). 4. Aqui não haveria nada de novo. apenas para mencionar algumas das variadas possibilidades (pormenores em 5 abaixo). por exemplo. Página 27 . Este potencial eu vejo no assalto. o lucrativo tráfico internacional de drogas e de armas (v. por exemplo. Questões de fundo As contínuas vivências e narrações de criminalidade de massas condimentam um clima generalizado de medo do crime. tb abaixo 5. Daí decorre. usurpação ou infiltração de instâncias centrais da ordem estatal.O.

As conseqüências a serem extraídas do conhecimento deficiente do objeto de intervenção são os seguintes: . No entanto. corrupção) e portanto não é levada ao conhecimento da autoridade pelo particular. Não se há de esperar até que as práticas corruptas e corruptoras se estabilizem para que medidas penais sejam adotadas.intimida as vítimas.emprego mais cuidadoso e prudente de meios mais enérgicos de combate e elucidação: Quem não conhece vê seu alvo com precisão e por isto necessita atirar com chumbo miúdo. O delineamento ora proposto significaria um passo decisivo no sentido de se encontrar um núcleo objetivo e palpável de C. . Desde logo convém assinalar que uma tal concepção não deve ser entendida como um "adiamento" do combate à C.. . Tenho a impressão de que é precisamente esta corrupção da persecução penal estatal por meios criminosos. deve-se envidar todos os esforços para vê-la com clareza o mais breve possível.O. tráfico de drogas. . não viceja ou produz resultados diversos (ex.: Se a situação se apresenta ameaçadora. Este atraso não deve causar estranheza e nada indica que progressos significativos ocorram a curto prazo. deve pelo menos dominar a trajetória do tiro o mais longe possível. Não se lhe pode permitir uma prática atualmente em voga: Compensar ignorância criminológica com intensidade da ameaça e. ensejado por artifícios termino lógicos. quando elas existem. .permanente verificação com auxílio das ciências empíricas.possui tradicionais solos férteis em bases nacionais e. Somente quando seja possível influenciar criminosamente a definição.emprego massivo de pesquisa e conhecimento voltado à delimitação criminológica da C. ela segue mais ou menos as tendências dos mercados nacionais e internacionais e torna-se portanto difícil de ser isolada (exemplo. a exemplo de práticas mafiosas. O Direito penal e o poder de polícia encontram-se desde longa data equipados com noções tais como prevenção de perigos e delitos de perigo. Esta conceituação visa a um significado mais preciso e rico de conteúdo de C. 3. E imperativo reconhecer que nós nos encontramos ainda num estágio bastante primitivo do nosso conhecimento criminológico e de pré-cogitações terminológicas do fenômeno. Daqui não se deve extrair a conclusão de que medidas de prevenção e combate devam aguardar a aquisição de um conhecimento mais preciso sobre o objeto de atuação.O.compreende uma gama de infrações penais sem vítimas imediatas ou com vítimas difusas (ex.O. instrumentos de pronta atuação que não ficam à espera de que o circo pegue fogo. o tráfico clandestino de lixo nos países industrializados). que permita sua abordagem conseqüente e eficaz nos planos criminológico e da política de segurança pública. .é um fenômeno cambiante. desferir golpes a esmo desesperadamente.. Máfia em outros países que não o seu berço). O enrijecimento do Direito Página 28 .dispõe de múltiplos meios de disfarce e simulação. Esta seria de fato uma posição ingênua. em outras latitudes. quanto a se e onde os meios de combate alcançam ou não resultado: Quem anda no escuro deve firmar cada passo. a elucidação ou o julgamento de violações penais é que a estrutura criminosa ter-se-á estabilizado. uma Política criminal de Estado de Direito deve necessariamente extrair conseqüências da circunstância de que o objeto contra o qual deve atuar ainda é inacessível ou precariamente conhecido. . extorsão de "pedágios" ou "seguros" por organizações criminosas). em situações que considere particularmente ameaçadoras.O. Neste momento confundem-se os limites entre criminalidade e combate à criminalidade que constituem um Estado de Direito.Resultados da Pesquisa procedido por organizações criminosas. a não levarem o fato ao conhecimento da autoridade e a não fazerem declarações (ex. que de uma forma inédita nos sobressaltam profundamente. para que possam ser implementadas. por uma soma de razões: "Criminalidade organizada" .

a regra básica da transparência das investigações a atual debate público sobre Política criminal veicula a impressão de que a solução do problema consiste em conferir às autoridades da segurança pública. a fim de que possam assenhorear-se da C. penal e processual penal.já para que o atingido pudesse cuidar de sua defesa a tempo. penas patrimoniais. todos os meios e instrumentos necessários que sempre reivindicaram. Em vez disto. Na Alemanha eles foram acolhidos tanto nas legislações policiais e de ordem pública dos Estados quanto nos códigos penal e de processo da federação: agentes secretos. Os instrumentos legais coercitivos aqui enumerados produziram fundamentais mudanças nas nossas tradições de Estado de Direito nos campos policial. a antes nítida separação entre poder de polícia e persecução penal (ou seja. subrepticiamente: Até o presente as investigações eram por princípio abertas . quando de novo se discute mais medidas coercitivas e exacerbações. Nada mais falso e enganoso. somente aceitáveis mediante pressupostos e balizas claros. o rumo de nossa discussão deveria ser dirigido no sentido de que as autoridades da segurança pública viessem a público esclarecer qual o êxito que elas obtiveram com os instrumentos legais postos a seu dispor.O. A satisfação destas reivindicações muito provavelmente não trará muitos beneficias mas certamente realizará enormes estragos É muito difícil formar uma opinião fundamentada sobre as reivindicações das autoridades de segurança pública no sentido de mais meios coercitivos. captação e armazenamento de dados pessoais em larga escala. testemunhas da coroa (aquelas que. uma bagatela. Princípios fundamentais ou não valem mais ou valem apenas limitadamente: o princípio in dubio pro reo. licitações para a prática da observação policial. os setores liberais e progressistas da opinião pública vêm-se na mesma situação defensiva de antes. Precisamente nos últimos anos as autoridades da segurança pública foram equipadas com uma gama de poderosos instrumentos legais coercitivos que vinham incessantemente reclamando. A freqüente inclusão nas investigações dos chamados "elementos de contato" visa na verdade a esta intromissão. antes que novos passos na mesma direção sejam autorizados. que tradicionalmente serviu para legitimar transtornos na vida de pessoas inocentes. emprego de meios e dados dos serviços secretos de informações no combate à criminalidade. tb tese 7) não é pouco. 7. punibilidade da lavagem de dinheiro. de uma vez por todas. proteção de testemunhas (que restringe a ação da defesa). entre prevenção de perigos e combate ao crime que. observação policial. E aqui a carência de informações e dados não se Página 29 . Este é mais um sintoma da fraqueza argumentativa de uma política de segurança orientada para os Direitos fundamentais a que já aludimos acima (tese 2). O que agora se pede (v. A própria circunstância de que não se prestem contas dos passos já dados. Métodos de investigação tais como escuta telefônica. a limitação do emprego de medidas restritivas de direitos à pessoa do verificado no poder de polícia e do suspeito na persecução penal. até então separaram nitidamente os domínios policial e processual penal. entre prevenção e repressão. observação policial prolongada da vida das pessoas. A pena patrimonial transfere doravante para o atingido o encargo de provar a decência dos seus ganhos. em troca da revelação do crime e seus autores. já torna as reivindicações altamente duvidosas. enquanto não se sabe o que de positivo ou negativo os meios coercitivos já disponíveis trouxeram. Sugiro apenas que não se perca de vista o caminho até agora percorrido. escuta por meios eletrônicos. nos últimos tempos. o direito de agentes secretos cometerem infrações penais típicas do "milieu" onde atuam. Há no momento principalmente três novas reivindicações de coerção: a introdução da chamada "grande escuta" como meio instrutório no processo penal. Com base nestas experiências práticas poder-se-ia discutir mais racionalmente sobre a aptidão destes instrumentos para seus fins. mas em vista do já concedido. escuta telefônica ampliada. têm a sua própria participação perdoada ou tratada com benignidade). O medo da criminalidade organizada é o principal responsável pelas mais radicais alterações e exacerbações do poder de polícia. mas também do Direito penal. Todos estes meios são utilizados nas costas do atingido.Resultados da Pesquisa 6. As chamadas "pré-investigações" removem os limites de intervenção delineados pela noção de indício. Não defendo pura e simplesmente um recuo destas mudanças. até então uma nítida exceção. isto é simplesmente vociferam contra a concessão de meios irrecusáveis para o combate à criminalidade organizada. apurações secretas e captação de dados estendem-se necessariamente e em regra a terceiros não-partícipes. O "combate preventivo ao crime" como objetivo da atividade policial acaba por aplainar os limites entre prevenção e repressão. Vista da perspectiva dos acontecimentos reais.

mas para toda a opinião pública e até para os políticos. nas situações concretas. aí o Direito fundamental do art. uma cultura jurídica não se constrói mediante tais técnicas de avaliação (que. os riscos de lesões são ao mesmo tempo abrangentes. 4. Antes que estas faculdades sejam distribuídas. de um suposto terrorista da RAF em confronto com a polícia. O Direito processual penal não se adequa a pátio de estacionamento para depósito ou empilhamento de faculdades coercitivas. nada mais é sagrado para nós. e que culminou. nem mesmo os Direitos fundamentais (como o mencionado art. em circunstâncias a princípio pouco esclarecidas.) confirmaram o postulado de que o Estado não pode dar a aparência de usar os mesmos métodos daqueles que ele. A escuta telefônica depara avanços na tecnologia de informações. os recentes eventos de Bad Kleinen (morte a tiros. e sim na estabilidade daqueles princípios que nós reputamos indiscutíveis e indisponíveis. desejo apenas descrevê-los sucintamente. de "suspeitos") passa a ser franqueada indiscriminadamente às intervenções estatais. persegue justamente devido ao uso destes métodos. Neste passo.Quando funcionários policiais no desempenho de seu trabalho passam a legalmente poder cometer infrações penais. maiores pormenores não são porém conhecidos. mas na melhor das hipóteses. do T. isto vale com mais ênfase no tocante às medidas de força do inquérito policial. é preciso saber para que servem e até onde alcançam. O fato de que criminalidade e violência ocupem papel de destaque em nossas preocupações atuais remete-se a causas ou origens que. e com pormenores. Elas são uma parte de nossa vida diária. nós já nos habituamos a uma técnica enganosa de avaliação: Quando uma ameaça nos parece particularmente intensa.Quando a casa do cidadão (sim. Conseguimos preparar-nos apenas Página 30 . agora já não se tratará apenas do "indiciado". Pode até ser que a efetividade do combate ao crime cresça com estes novos instrumentos. . quais as tradições do Estado de Direito deverão ser sacrificadas para a obtenção deste objetivo: .Resultados da Pesquisa reduz a um querer saber meramente teórico. Salta aos olhos que as intervenções abrangentes até agora concedidas pelo legislador não são tão eficazmente abrangentes do ponto de vista criminalístico. A complexidade de nossas relações sociais é antes de mais nada vivenciada como algo ameaçador. Os filósofos sociais falam hoje de "sociedade do risco". então será o fim da transparência e do controle. que a ele chegou graças a um agente infiltrado. a longo prazo. Questões de fundo 8. N. constitui o núcleo da privacidade individual? . do Procurador Geral federal e do chefe do serviço de informações. Para mim. Sabe-se apenas. os agentes secretos têm problemas quando devem agir entre grupos étnicos minoritários. com a renúncia ou demissão do Ministro federal da justiça. como sempre foi. com boa razão. são estáveis. mas indicia a suspeita de que meios coercitivos sejam simplesmente amontoados para o desfrute de seus titulares. referindo-se a que nós na vida diária nos defrontamos com crescentes dificuldades em encontrar orientações estáveis. aí então desaparece para o cidadão a nítida fronteira entre criminalidade e combate ao crime. 13 da Constituição) ou tradições outrora intocáveis (como a necessária separação entre polícia e serviço de informações). Lamentavelmente. O Direito processual penal não é outra coisa senão Direito constitucional aplicado. Já não sobram muitos destes princípios hoje em dia. Os argumentos relativos a cada uma das novas reivindicações de arrocho foram amplamente apresentados e são conhecidos da opinião pública. o armazenamento de dados pessoais em larga escala esbarra na modificação dê comportamento das pessoas procuradas. devastadores e difusos. No entanto. também em momentos de crise.Quando se autoriza que os serviços de informações possam participar da investigação criminal com os meios que lhes são específicos (presumivelmente mais efetivos). não deixam nenhuma chance de sobrevivência aos princípios jurídicos fundamentais). pelo só fato da veiculação de informações inverídicas à imprensa. se não este recinto. como patrimônio da civilização. E bastante presumível que os mesmos problemas surgiriam com os meios coercitivos atualmente na pauta de reivindicações. não apenas para os atingidos. 13 da Carta Fundamental (inviolabilidade do domicílio) perde seu âmbito de vigência: O que mais. e a superioridade moral do Estado frente à delinqüência se esvai.

Mas já se tem como certo que os fatores que criam e fomentam os sentimentos de ameaça têm suas causas remotas nos processos de erosão das normas sociais. como o mundo profissional. perderam sua força para fixarem obviedades normativas da vida em coletividade. A saída correta passa preferentemente por uma política de segurança pública pragmática. As pesquisas empíricas neste tema ainda não desceram a pormenores. Não é preciso orientação acadêmica para que cada um possa ver os processos que fomentam estas tendências nos dias em que vivemos. Numa palavra. afiguram-se-nos incontroláveis e produzem um clima generalizado de ameaça. Sentimentos de ameaça e insegurança não são meros reflexos de ameaças reais. Instituições de controle social. das quais as normas jurídicas dependem para sua observância fática e sem as quais as normas jurídicas não conseguem nenhum resultado: Para exagerar na linguagem. diferenciada e voltada para o futuro Página 31 . estes fatores resultam de desestabilização normativa. No seu conjunto. 9. estas tendências produzem uma alteração de longo prazo das normas sociais. ele é difuso. Por outro lado. nenhum tratamento de choque eficaz. estende-se em múltiplas direções. Estas tendências são responsáveis também por nossas concepções frente à criminal idade e à violência. pelo contrário: Há mais medo do crime entre grupos sociais onde a probabilidade de ser sua vítima é mais remota. A recíproca também é verdadeira. então não existe nenhum remédio de cura completa e imediata. fenômenos superficiais como as exibições de violência na televisão. que não precisem ser cada vez questionadas e que se compõem de um emaranhado de regras não discutidas. A política de segurança pública deve portanto não apenas considerar as causas da criminalidade e da violência como também levar em conta os múltiplos fatores da sua percepção social. Normas de conduta pré-concebidas. 5. de isolamento individual e de "des-solidarização". são canalizados para reivindicações de imediato arrocho nos meios coercitivos e tornam o relaxamento dos Direitos fundamentais bem como sua corrosão pelo Estado não só toleráveis como objeto de exigência da população. a tendência atual caminha para o isolamento e a "des-solidarização". Se meu balanço da situação for pelo menos aproximadamente válido. tidos como responsáveis pelas tendências descritas. O sentimento de ameaça não se concentra em agressões criminosas. Porém. Saídas 10. a redução dos salários e o aumento dos aluguéis e despesas com seguros e saúde . são menos as fontes do que já manifestações do mal. Criminalidade e medo do crime não são como a coisa e sua imagem no espelho. não existe a mais remota relação causal entre ameaça e sentimento de ameaça. de estarmos entregues à própria sorte. e não conseguimos remediar os danos inesperados.tudo isto relacionado com uma "economicização" do nosso dia-a-dia. Por conseguinte. Isto complica o problema à primeira vista. Os filósofos sociais falam hoje de "narcisismo" referindo-se ao fato de que as normas de nossa vida diária tornaram-se quebradiças e sem força de persuasão. Os grandes riscos da tecnologia moderna. Não é a ameaça real da criminalidade e da violência que constitui o fator decisivo para a política de segurança pública e sim a percepção de tal ameaça pela coletividade. tornam-se anacrônicas. num mundo de diabos nem a polícia nem o Direito penal têm alguma chance. Levadas aos seus extremos limites. estas exibições não encontrariam espaço nos programas e sua eliminação da telinha atingiria menos a mensagem que o mensageiro. da qual dependemos.Resultados da Pesquisa precariamente para as lesões esperadas. Estes sentimentos de ameaça dominam a população. Acaso tivéssemos uma outra concepção da violência. Lembrarei apenas alguns fatores que tornam o futuro de um crescente número de seres humanos incerto: a escassez de vagas na escola e no trabalho. para um fortalecimento social dos já fortes e um enfraquecimento dos fracos. as chances crescentes dos espertos ficarem ricos e subirem na escala social e o correspondente empobrecimento dos demais. mas também conseqüência de circunstâncias da "des-solidarização" e intranqüilidade sociais. a escola. a vizinhança. a fundamental diferença entre ameaça da criminal idade e sentimento de ameaça não exigiria afinal qualquer diferenciamento numa política de segurança pública e chegaria à mesma conclusão estratégica para uma Política criminal e de segurança pública de longo prazo: iniciar e favorecer processos de solidarização e estabilização das normas.

ainda é muito pouco. correções e amenizações. omitir a conduta oposta. de que os problemas da criminalidade e da violência resolver-se-ão mediante a distribuição farta de poderes investigatórios. Conforme as questões de fundo permitem entrever (supra 4.Resultados da Pesquisa Criminalidade e medo da criminalidade têm raízes profundas e ramificadas. compreende não apenas o ponto de vista da efetividade policial. como atrás mencionado (2) à diferenciação entre os diversos tipos de criminalidade. política de segurança pública sem consideração para com a juventude. Portanto. Mesmo assim. é inadequado e equivocado reduzir a discussão sobre a correta política criminal e de segurança pública aos meios de investigação acaso constantes da nova lista de desejos das autoridades de segurança pública. no âmbito de suas possibilidades. Todavia. O que isto concretamente significa. uma resposta política à violência e à criminalidade deve ser capaz de reconhecer distinções. hoje sobretudo a criminalidade organizada e a de massas. Por isto. sequer político-criminais. mas também os efeitos colaterais não desejados mas necessariamente causados. os problemas sociais e a educação. Com esta afirmação. a exemplo da "grande escuta" ou das "infrações penais típicas do milieu e tantos outros meios exacerbados de corrosão dos Direitos fundamentais. Se assim não fosse. Por fim. Discussões em torno da política de segurança precisam ser pragmáticas. uma política de segurança no contexto de uma política interna pode amortecer ou repartir certos efeitos indesejáveis da modernização. só atingem resultados sólidos se conseguem desligar-se das questões prementes do dia-a-dia. A longo prazo. Pragmática significa também assegurar-se dos efeitos reais decorrentes das decisões de política de segurança e. Portanto. qualquer leigo o percebe. considera não apenas o êxito e o fracasso dos efeitos desejados. a mão-de-obra. Até a presente hora está valendo o seguinte: Desde quando nos decidimos pela introdução de meios coercitivos. na pior das hipóteses. estes permanecem em geral vagando pelos códigos e pelo mundo e seguem sua sina sem nenhum controle ou conhecimento. não se pode pensar apenas em processos de mudanças de longo prazo. Mas diz respeito também às dimensões temporais da política. em vista das atuais ameaças. uma política de segurança só faz algum sentido no contexto de uma verdadeira Política interna bem definida. pode estimular tendências de segurança e solidarização ou. mas também recuos. Refiro-me sobretudo a uma disposição de romper com os limites estreitos da discussão. por certo. Isto seria uma fraude. Todavia. penso demonstrar em três pontos. diminuir a "des-solidarização" da sociedade e amenizar suas conseqüências para os seres humanos Processos de erosão de normas. converte-se num espetáculo sem esperanças e sem fim previsível. apenas conviver com ela. Lamentavelmente. se necessário. cumpre romper os parâmetros tacanhos da discussão e tentar compreender as verdadeiras dimensões que uma política de segurança apresenta na atualidade. não quero referir-me apenas a um distanciamento frente às indagações científicas da Criminologia que. É óbvio que. Política exercitada com pragmatismo. ao contrário. teses 8 e 9). Isto diz respeito. por sua vez. sincronizada e coordenada. nossas políticas de segurança atuais não têm projetos de longo prazo. os efeitos da sociedade de risco não serão controlados por meios políticos. Mas é também igualmente óbvio que medidas de curto prazo só podem ser avaliadas e mesmo discutidas numa perspectiva de longo prazo. nossa política de segurança pública pode e deve. economicização ou "des-solidarização" (tese 8) são certamente impenetráveis à intervenção política direta. abrir-se-ia a questão de se e até que ponto seria desejável reverter estes processos. 11. Não se pode "revogar" a modernização. Política de segurança pública não equivale a política policial. mas compreende também uma Política criminal que. ora concentrada em posições dogmáticas cristalizadas do tipo "contra" ou "a favor". A conseqüência desta redução é a expectativa de uma população atenta e de boa-fé. Cumpre-nos abrir os olhos e dirigi-los sem vendas para os problemas da criminalidade e da violência que efetivamente estão à nossa frente. mas também as garantias penais e constitucionais. e então indagar que meios poderão funcionar contra eles. Aqui se cuida das chances de vida Página 32 . efetuar as devidas correções aconselhadas pelos efeitos verificados. a moradia. As louváveis resistências contra as alterações atualmente cogitadas para a política de segurança devem considerar em seus programas não apenas os arrochos.

que este indispensável meio de solução de problemas tendencialmente se decompõe na percepção da população. Deve antes de mais nada dedicar-se a soluções próximas ao problema: dotação e presença ostensiva da polícia. Uma repolitização do debate sobre política de segurança teria porém também o efeito de que ele voltaria a ser conduzido pelos cidadãos interessados mais que pelos experts: questões gerais e não apenas criminalísticas saltariam para o primeiro plano. Os desenvolvimentos recentes compreendidos na expressão "fastídio da política" indicam que o meio Política vem perdendo seu vigor na administração de problemas. da fantasia e dos recursos que nós atualmente estamos dispostos a empregar em objetivos de segurança de curto prazo. Uma política de segurança pragmática fará face a este problema a médio prazo não apenas e não primordialmente com reformas na legislação policial ou processual penal. Nossa polícia. formação e remuneração. em muitos aspectos ela já está em curso. Decerto os indicadores atuais não favorecem esta postura. para uma perspectiva de longo prazo. Nossas discussões atuais favorecem o aspecto "segurança" em detrimento do aspecto "política". por exemplo. Pois precisamente neste setor é onde se faz mais indispensável uma política estatal racional voltada para o futuro. Este novo cenário poderá motivar as forças atualmente comprometidas com reivindicações rumo ao novo a que se engajem na cooperação e no aproveitamento das múltiplas possibilidades de combate à criminalidade desde já ao nosso dispor. perda da sujeição à lei. de posse deste conhecimento. Com isto quero dizer sobretudo que nós fixamos apenas um dos olhos nos elementos de um controle da criminal idade tecnicamente eficiente. favorecimento da prevenção Página 33 . a harmonia a igualdade e a justiça de uma sociedade se define por parâmetros não apenas econômicos. Os direitos civis fundamentais de nossa constituição e da tradição européia podem converter-se. convém lembrar uma verdade que não é de hoje.e este é o primeiro aspecto . O fenômeno é altamente perigoso para a Política interna. alternativas ou custos deste controle atraem nossa atenção apenas marginalmente. 12. ao passo que aspectos normativos. devemos realizar experimentações controladas e abandonar passo a passo caminhos percorridos que não deram certo. Trata-se sobretudo de reconhecer as bases social-políticas de uma política de segurança e. aprimoramento da política de recrutamento. A médio prazo precisamos introduzir na Política interna razão pragmática em lugar de guerras de trincheiras e guerras de crenças. retira-se para a retaguarda na luta contra o crime em favor das empresas de segurança precisamente no campo das formas de criminalidade que mais. de que Política social é a melhor Política criminal. Aqui se privatiza um campo que é o cerne do Estado e isto tem conseqüências: desigualdade entre os ricos e os pobres no tocante à proteção contra o crime. da proteção dos Direitos humanos e do controle do Estado de Direito no combate ao crime. das crianças. A existência. atemorizam os cidadãos. tais como pressupostos de longo prazo da segurança. Neste contexto. O óbvio e irrecusável respeito pelos direitos do outro constitui-se também numa eficaz barreira contra a dissolução da sociedade e o resvalamento para a criminalidade. mas pode desde já começar e.Resultados da Pesquisa dos mais fracos. Não se trata de elaborar programas caros e ambiciosos. dirigir pelo menos uma fração das energias. A sociedade não pode resolver os problemas da violência e da criminalidade sozinha. dos velhos e das minorias étnicas. que em parte até já existem. Este fato constitui-se num escândalo da política de segurança e num perigo para o Estado de Direito. Precisamos responder diferentemente a diferentes formas de criminalidade. dos jovens. quando colocamos nos pratos da balança eficácia policial e Direitos humanos. Isto deveria levar-nos a pensar um pouco. Aqui se cuida . imediatamente.de recursos concretos e não apenas legais. Uma última observação sobre uma perspectiva de longo prazo da política de segurança. num fermento sobre o qual poderiam crescer um espírito comunitário e uma consciência solidária dos cidadãos. A pragmatização da política de segurança é uma perspectiva que não se alcança num só dia. Também no conceito desenvolvido por Habermas de um "patriotismo constitucional" eu vejo um caminho para solidarização a longo prazo. A renegação de posições simplistas abrirá o horizonte para as concretas distinções entre manifestações da criminalidade e possibilidades de reação. mais ainda na Alemanha em função dos problemas de nossa história recente. mas também normativos.

miséria diária e sedução dos dependentes. A curto prazo. regulamentação do acesso aos serviços de segurança privada e de sua fiscalização. Restrições aos Direitos fundamentais devem ser pesadas cautelosamente. tanto da produção quanto da distribuição diferenciada destas substâncias perigosas. o pequeno tráfico e outras formas de criminalidade que os dependentes das drogas praticam para manterem seu vício constituem uma boa fatia da criminalidade de massas. mas também as contaminações. e assim por diante. devemos novamente aceitar que a política de segurança pública compreende não apenas a eficácia como também a justiça e a proteção dos Direitos Humanos. vai continuar existindo. só com estes meios já estaremos atingindo uma proteção mais eficaz do cidadão contra a violência. maior enfatização do fator humano na polícia que do fator tecnologia de informações. Desde que existem seres humanos na face da terra existem drogas. por outro lado. mesmo a médio prazo. A curto prazo o debate acerca da segurança pública deve ser ampliado em seu conteúdo para abranger a dimensão da segurança da liberdade e dos Página 34 . O incomensurável sofrimento dos atingidos e dos seus. Justamente a correta compreensão do medo da criminalidade (tese 9) permite a uma visão não estreita dos fatos perceber que . Portanto. flanqueado também por disposições penais. que acompanhem passo a passo esta retirada. Uma política de segurança pública pragmática. se com "solução" se pretender a eliminação total das drogas. o álcool e os medicamentos: controle estatal rigoroso.O.ao contrário das simplificações populistas . Tais propostas já estão colocadas sobre a mesa. do Direito penal das drogas em favor de experimentações controladas. Estou convencido de que. A política das drogas é um dos poucos campos onde a criminal idade organizada e a criminalidade de massas se encontram: C. O reverso da medalha (que é o que conta na elaboração da política de segurança) consiste na obstinação em produzir esta "purificação da sociedade" mediante iterativos arrochos nos parafusos do controle social (que não terão fim.tudo isto nós devemos fundamentalmente creditar à singular circunstância de que nós reagimos ao problema das drogas com proibições e castigos ao invés de ajuda e assistência. ser guarnecidas com instrumentos que permitam o seu controle Com isto. pelo que pretendo apenas situá-las no contexto de que aqui se cuida. Esta saída conduz para fora do Direito penal das drogas rumo a uma concepção de saúde pública do problema das drogas. senão vejamos: Sempre foi uma marcante característica do pensamento autoritário (por último na Política criminal da extinta Alemanha Oriental) acalentar a população com a cantiga da "sociedade isenta do crime". mediante uma redução do âmbito do Direito penal aos setores que realmente pode combater. 13. noutras palavras. mas em verdade atua contra-produtivamente: particularmente no âmbito da política de drogas. no sentido de atenuar a tensão na área de segurança pública. Não defendo "heroína na próxima drogaria". compreende o comércio internacional de estupefacientes. Como segundo aspecto de modificações de médio prazo na política de segurança pública gostaria de lembrar algumas propostas atualmente correntes. devem ser aplicadas concentradamente e. é preciso encontrar aqui uma saída urgente no campo da política de segurança. de maneira que os direitos dos atingidos não se afigurem como custos evitáveis do bom trabalho policial. mortes. ao contrário. Isto nos conduz para um último aspecto da estratégia de médio prazo. descriminalizar os setores onde o Direito penal enganosamente tranqüiliza. gradual. O mercado negro agradece sua existência à ilegalidade. deve convencer-se do fato de que a criminal idade. e enquanto existir seres humanos vivendo em sociedade também existirá a criminalidade. No final do percurso poderá desvendar-se com mais sensata uma política de drogas como a que já praticamos para o tabaco. estou de volta ao início da discussão. Somente assim será possível articular equilibradamente eficácia técnica com proteção dos Direitos Humanos. Ao mercado negro se devem os exorbitantes lucros e as fabulosas fortunas dos dealers. os imensos custos de toda natureza que todos nós temos que suportar . repúdio moral generalizado pelas drogas.Resultados da Pesquisa técnica. o temor dos pais por seus filhos. mas um passo a passo que a cada etapa dê uma chance para o aprendizado através da experimentação e a formulação de novas decisões.a "erradicação" da droga ou da criminal idade em geral é uma meta inalcançável do ponto de vista criminológico e insuportável para o Estado de Direito. em todo caso. já que a meta jamais será alcançada). Defendo sim uma "saída à francesa". Pragmatismo sensato não é o nosso ou-isto-ou-aquilo dogmático. Mesmo uma política pragmaticamente orientada não trará a médio prazo solução para o problema das drogas. ajudas diferenciadas aos dependentes.

a tendência atual não se dirige para a concentração. não haveria necessidade de investigação. mas lamentavelmente a realidade é outra: Acaso tivéssemos o "criminoso" (ou o "ladrão". aqueles que participam do debate deveriam abster-se destas manipulações verbais. Como toda lenda. segundo a qual os meios de coerção cogitados atinjam apenas "o criminoso". teses 1 e 2). A regra básica deveria ser: Quanto menos uma restrição aos Direitos fundamentais for controlável . Acaso fôssemos mais rigorosos na utilização das informações. Aqui também se podem imaginar aprimoramentos. qualquer que seja o estigma). inclusive inocentes ou mesmo terceiros não-partícipes. porque na Europa a presunção de inocência continua valendo. por exemplo na competência jurisdicional para autorizar certas coerções ou na tutela jurisdicional contra a sua efetivação. mas quando muito de suspeito ou elemento de ligação. como se houvesse uma linha demarcatória para tais coerções. Sendo assim. nós é que nos ocupamos muito pouco delas em nossas guerras de crenças. segundo a qual a polícia deve utilizar tudo o que caia em suas garras: Achados "casuais" não são intencionais. então nosso problema perderia seu objeto. o princípio da vinculação ao fim. esta também seria muito boa. por exemplo que o núcleo dos Direitos fundamentais volte a ser considerado indisponível e portanto subtraído à livre disposição do Estado. Cumpre imaginar possibilidades de assegurar os Direitos fundamentais sem inviabilizar a atividade investigatória. Nós desenvolvemos o mal hábito de bisbilhotar demasiadamente o varejo e o espetacular da polícia e da justiça e de não olhar com a necessária atenção o seu atacado. porque ele está todo perfurado de exceções. isto é. deveria. Neste campo ainda seria possível colher outros exemplos. então só se poderia agir faticamente quando o acerto no alvo fosse altamente provável e deste modo a restrição ao Direito fundamental seria mais aceitável. surgiram no campo da segurança pública como resistência aos abusos do Estado e não como barreiras a serem removidas para um "sensato" trabalho policial. Aponto apenas alguns exemplos. é compreensível a desconfiança geral tributada à atividade investigatória. porém conseguimos na melhor das hipóteses alcançar meros suspeitos. Esta necessidade deixa-se concretizar em sentido técnico e normativo. mais tolerável juridicamente será a intervenção. o "bandido". ressalto. Estas possibilidades na verdade já existem. capaz de excluir os bons cidadãos dos "outros". historicamente. antes se inclina para a teoria.Resultados da Pesquisa Direitos fundamentais. Nosso Direito coercitivo já consagra este princípio da concentração da intervenção ao vincular a medida coercitiva à presença de indícios. Quanto mais precisa a coerção em relação ao seu alvo. assim. Este é aliás um dos argumentos contra o emprego dos serviços secretos de informações no nosso campo. negligenciada no calor das paixões com que as posições são defendidas (supra 1. Por fim cumpre mencionar a elaboração de um catálogo das infrações penais para as quais medidas como escuta telefônica e confronto de dados se legitimam. já que investigamos. porque produz menos estragos normativos. como o eufemismo sugere. inclusive ou sobretudo em tempos de crise. deveria favorecer a concentração da intervenção. mais ela se torna tolerável. isto favorece a concentração das investigações em um alvo o mais delimitado possível: Quanto maior precisão no atingimento do alvo. Também a categoria do controle já é conhecida no nosso direito coercitivo.O. aprimoraríamos o acerto no alvo e. Acaso fosse possível atingir sempre e somente o "criminoso". (admitindo-se um acordo acerca deste conceito): Acaso fossem as informações aproveitáveis apenas em fins previamente definidos. não se trata de "criminoso". cumpre resgatar sem ambigüidades o valor tradicional dos Direitos Humanos que. segundo o qual os dados só podem ser empregados no propósito para o qual foram coletados. e. Já do ponto de vista técnico. No entanto. que podem ser agrupados segundo duas metas: concentração e controle. Isto significa. Provavelmente existem outras metas para a limitação dos meios coercitivos e com toda a certeza existem outros exemplos. Concretamente no tocante à C. Mesmo a curto prazo. Também no campo do direito da proteção de dados. Isto significa. que a tradição de nossa cultura jurídica não seja cada vez mais corroída e negociada pela esperança de investigações eficientes. poderíamos ser mais generosos na busca e obtenção de informações. não se trata de tradição e sim de fantasia e criatividade. que nós de uma vez por todas deixemos de acreditar na lenda. Página 35 . mas sempre agradáveis. Do ponto de vista normativo.pelo atingido e pela coletividade mais inaceitável ela será do ponto de vista normativo. De qualquer modo. em outro exemplo. o "traficante".

é preciso que também as autoridades da segurança pública aprendam a percorrer novos caminhos. Se nós queremos avançar numa política de segurança pública digna do Estado de Direito. Em todo caso. utilidade e custo de suas medidas coercitivas. a iniciativa deveria compreender o Direito de requisição e vista das informações em favor de parlamentares ou pessoas comissionadas pelos cidadãos. E previsível um significativo interesse público nestas informações. Dir-se-á que estas propostas não se adequam ao nosso sistema. Certamente a prestação de contas não se faria designando casos concretos ou nomes. A esta objeção cumpre responder: os novos meios coercitivos também não. sempre assegurando-se a anonimidade dos casos concretos. válido para uma fase de transição rumo à elaboração de uma política criminal fundada na experiência. Esta sugestão constituir-se-ia num exemplar experimento controlado. Página 36 . e sim apresentando um balanço transparente de suas atividades concernentes à restrição de Direitos fundamentais com fins investigatórios.Resultados da Pesquisa considerando a ameaça representada pela criminal idade organizada e as pretendidas exacerbações nos meios investigatórios. a depreender da prioridade que a violência e a criminalidade assume nas preocupações diárias. seria recomendável que as autoridades ensejassem a participação da coletividade pelo menos a nível informativo através da prestação de contas periódica dos êxitos e fracassos.