Giordano Bruno: a metafísica do Infinito

por

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Música: Les Barricades Mytersieuses, de F. Couperin

O sacrifício pelo livre pensar

Filipe Bruno nasceu em Nola, Itália, em 1548. O nome com que ficou conhecido, Giordano, lhe foi dado quando, ainda muito jovem, ingressou no convento de São Domingos, onde foi ordenado sacerdote, em 1572. Mente inquieta e muito independente, Bruno teve sérios problemas com seus superiores ainda quando estudante no convento. Sabemos que já em 1567 um processo foi instaurado contra ele, por insurbordinação, mas Bruno já granjeara admiração por seus dotes intelectuais, o que possibilitou a suspensão do processo. Era tão séria a largueza de visão de Bruno quanto aos defeitos do pensamento intelectual de sua época, que em 1576 teve de fugir de Nápoles para Roma devido à peseguições de toda espécie e, depois, para a Suíça, onde freqüentou ambientes calvinistas, que logo abandonaria julgando o pensamento teológico dos protestantes tão restrito quanto o dos católicos. A partir de 1579, Bruno passa a viver na França, onde atraiu as simpatias de Henrique III. Em meados da década seguinte, Bruno vai para a Inglaterra. Mas logo ele entra em atrito com os docentes de Oxford. Vai, então, depois de um curto período de retorno à França, para a Alemanha luterana. Após um período de vivência no meio dos seguidores de Lutero (de onde seria expulso posteriormente), Bruno parte para Frankfurt, onde publica sua trilogia de poemas latinos. Recebe um convite (que lhe seria fatal) para ensinar a arte da memória ao nobre (na verdade, um interesseiro ) veneziano João Mocenigno. Assim, selando seu destino, Bruno parte para a Itália em 1591. No mesmo ano, Mocenigno (que esperava aprender as artes da magia com Bruno) denuncia o mestre ao Santo Ofício. No ano seguinte, começa o dramático processo contra Bruno, que se conclui com sua retratação. Em 1593, é transferido para Roma, onde é submetido a novo processo. Depois de extenuantes e desumanas tentativas de convencê-lo a retratar-se de algumas de suas teses mais básicas e revolucionárias pelo método inquisitorial, Bruno é, por fim, condenado à morte na fogueira, em 16 fevereiro de 1600.

que os gregos identificaram com Hermes Trismegisto. em parte. cujo traço de união era. Guzzo: "Assim. que. Resgatando parte desta tradição. A iluminação pessoal. com a conseguinte salvação da alma. O pensamento de Bruno é gnóstico em essência. que surgiu uma época de extrema intolerância relgiosa ( e que . seu pedido foi atendido: o seu julgamento se reabriu. Sua morte acabou por causar um forte impacto pela liberdade de pensamento em toda a Europa culta. O suporte doutrinário dessa literatura. a consciência italiana recorreu do processo e. Lactâncio e outros). e que nos chegaram. Nos primeiros séculos da era imperal romana durante o desenvolvimento do movimento cristão. e do nascente neoplatonismo. e ao hemetismo da Europa précrstã. antes de mais nada. É necessário aceitar o diferente. Ele conduz a magia renascentista às suas fontes pré-cristãs e as demonstra serem tão válidas e ricas quanto a cristã. Seja como for. tal como antes fizera Plotino. depende do grau de conhecimento (gnosi) e maturidade a que chega o homem em sua luta por compreender o porquê da existência terrena. leva-o às últimas consequências. realmente. Isso foi fatal para Bruno. desse modo. notadamente nos trabalhos que conhecemos como "O Corpus Hermeticum". consideraram Hermes Trismegsito um tipo de profeta pagão anterior e preparador dos ensinos de Cristo. é uma forma de metafísica inspirada em fontes do medioplatonismo. morto. Bruno. segundo Reale e Antiseri (1990). acabou por incriminar aqueles qua o haviam matado". Em virtude da profundidade destes escritos. Bruno se coloca na trilha dos magos-filósofos que ressurgiram na renascença. temos conhecimento desses escritos filosófico-religiosos que remontam à tradição inicada pelo movimento de Thot-Hermes.sejamos . inclusive. mística e direta com o Uno. embora esta história tenha sido abafada pelo fanatismo católico posterior da Idade Média. o mérito de se enriquecerem mutamente. com suas riquezes e pontos de vista complementares ao modo de ver do mundo cristão. profundamente mesclado ao pensamento hermético e neoplatônico que o sustenta. segundo seus autores.Giordano Bruno morreu sem renegar seus pontos de vista filosóficoreligiosos. que é a ante-sala do mundo suprasensível. uma figura religiosa histórica real que o tempo se incubiu de envolver nos véus da lenda. Como diz A. segundo Bruno. ele se apresenta pedindo que sua filosofia viva. E. veio à tona uma surpreendente literatura de caráter filosófico-religioso. alguns pais da Igreja (Tertuliano. o deus escriba dos egípcios. além do plano físico. as revelações trazidas po Thot. embora procurando manter-se dentro dos limites da ortodoxia cristã. de onde o nome de literatura hermética. tendo. A Filosofia de Bruno A característica básica da filosofia de Giordano Bruno é a sua volta aos princípios do neoplatonismo de Plotino. da tradição de Apolônio de Tiana. do neopitagorismo. segunda esta doutrina. considerava a religiosidade pré-Cristã uma forma de exercício para uma vivência plena. Parece que o Thot egípcio foi.

São Paulo. São Paulo. Foi para Nápoles em 1562. Yates. Essa dominação vai de 1529 a 1700.ainda perdura de forma sutil e ainda mais cruel na Igreja Católica.Giordano Bruno e a Tradição Hermética. E Bruno vem à tona pregando um reconhecimento da herança pagã antiga e da liberdade de pensamento filosófico-relgioso. Bibliografia: Reale. Mas sua coragem serviu de estopim e incentivo ao progresso científico e filosófico posterior. depois de Felipe II da Espanha. Itália Meridional. a importância do mediterrâneo para o comércio acaba. Governada por um Vice Rei (Pedro de Toledo na época de Carlos V). devido a descoberta de novas rotas marítimas. 1990. recebeu no batismo o nome de Filippo Bruno. Ed. em 1548. D. seu filho. Giordano Bruno Filósofo. e no falso discurso ecumênico que esconde interesses políticos. Porém já nessa época.que estava séculos adiante de seu tempo . está fascinado em prover com um embasamento filosófico as grandes descobertas científicas de seu tempo. estudar humanidades. onde todas as coisas.pagou um alto preço. Bruno . . como no exemplo da condenação da Teologia da Libertação e de seus formuladores. província de Nápoles. Volume II.honestos . era uma ameaça e uma atitude por demais revolucionárias para serem suportadas pelo poder de Roma. e Flaulissa Savolino. como Leonardo Boff. por si. por essa ousadia em pensar. e que buscava no hermetismo um refúgio à cegueira fanática da inquisição. O pensamento de Bruno era holista. pode-se dizer que Bruno esta interessado na natureza das idéias e do processo associativo na mente humana. estão interligadas e se interrelacionam de maneira mais ou menos sutil (holismo). etc. importante pelas suas teorias sobre o universo infinito e a multiplicidade dos sistemas siderais. em que é cegamente seguida por sua filha pródiga: o universo das igrejas e seitas evangélicas). astrônomo e matemático. Cultrix. & Antiseri. 1988. O sul da Itália era domínio de Carlos V (Sacro Império). Embora tais campos não existissem ainda na ciência. no que rejeitou a teoria geocêntrica tradicional e ultrapassou a teoria heliocêntrica de Copérnico que ainda mantinha o universo finito com uma esfera de estrelas fixas. destacamos a percepção de uma sabedoria que se exprime na ordem natural. Por outro lado.Paulis. naturalista e espiritualista. A. a pluralidade dos mundos habitados. Dentre suas idéias especulativas. Ed. Por tudo isso. militar. Nascido em Nola (motivo de ser chamado o Nolano). na Campônia. G. F. . quer tenhamos idéia ou não. Nápoles era baluarte espanhol contra os mouros. Bruno era filho de João Bruno. sendo a Terra apenas mais um de vários planetas que giram em volta de outros sistemas. lógica e .História da Filosofia. o que.

das quais com certeza tinha notícias no convento. Nessa área. Em 1565. Possivelmente as discussões ousadas que ocorriam em Trento. Sua excepcional habilidade com a arte da memória viria a atrair tutores. que é o conjunto dos segredos revelados por Hermes-Toth que constituem as ciências ocultas e astrologia a nível popular. versando o mesmo campo. Fugiu para Roma onde foi vítima de uma acusação improcedente de assassinato. Teria sido martirizado a pedradas no norte da África. porém. Quanto aos métodos de memorização. Liber de ascensu et descensu intellectus ("O Livro da subida e da descida do intelecto") descrevendo estágios do desenvolvimento intelectual no entendimento na compreensão de todos os seres através do método da sua arte. entre as quais as obras de Platão e Hermes Trismegistus. ocasião em que muda o nome para Giordano. sobre temas controversos da religião e da filosofia. talvez apenas . Intolerante com a ignorância dos colegas de claustro. místico catalão e poeta autor de um manual da cavalaria. viajou para a França e Suiça. um erudito napolitano que publicou um livro importante sobre mágica natural. Outra influência sobre Bruno. em Nápoles (onde São Tomas de Aquino havia lecionado). Bruno recebe hábito de São Domingos. Teve visões de Cristo que o levaram a deixar a vida de casado e da corte. no convento de San Domenico Majore. de Colle. Um segundo processo de excomunhão em Roma fez com que fugisse novamente. Abraçou o calvinismo. e foi levado a Roma para demonstrar suas habilidades ao Papa. como vontade a arte de amar e como memória a arte de recordar. São muitas as influências apontadas que Giordano Bruno teria sofrido durante o período de sua formação. Assim como Santo Agostinho. supõe-se que foi a de Giovanni Battista Della Porta. Ordenado sacerdote em 1572. e certos postulados de filosofia e teologia a nível erudito. continuou no convento seus estudos de teologia. inventor da escrita e patrono de todas as artes e ciências. convocado pelo papa Paulo III para discutir estratégias na contra reforma protestante. que negava a divindade de Cristo. de Maiorca. Suas tendências heterodoxas provocaram censuras e admoestações e por fim chama a atenção da Inquisição em Nápoles. V. Em 1578. É especialmente atraído pelas novas correntes de pensamento. ambos muito difundidos na Itália ao início do Renascimento. Ficou impressionado com as aulas de G. Em 1576 deixou a cidade para escapar a um processo de heresia instaurado pelo Provincial da ordem. e adepto de São Francisco pregou no norte da África e oriente tentando converter muçulmanos ao catolicismo. aos 17 anos. Deixou o hábito dominicano e perambulou pelo norte da Itália por mais de um ano.dialética. influíram no espírito de Giordano Bruno. e identificado com o deus grego Hermes Trismegisto (Três vezes grande) pelos neoplatônicos. em Genebra. aborrecia-se com as discussões de sutilezas teológicas. escriba dos deuses. talvez a influência predominante sobre Giordano Bruno tenha sido a da antiga religião egípcia do culto ao deus Toth. Giordano Bruno foi muito influenciado pelo pensamento de Raimundo Lúlio (12351316). ganhava a vida fazendo revisão de textos. Lúlio fez corresponder os três poderes da alma como imagens da trindade no homem. onde. Leu dois comentários proibidos de Erasmus e discutia desassombradamente a heresia de Ariano. introduzidos em Florença por Marsilio Ficino ao final do século anterior. filósofo de tendência averroísta (Aristotélico segundo a interpretação de Aristóteles pelo muçulmano Averroes) como também com o que leu sobre métodos de memorização (Mnemotécnica). Teve então a idéia de reduzir todo o conhecimento a princípios simples com uma convergência de unidade. É a época dos mais acesos debates no Concílio de Trento (1545-1563). Como intelecto. Lúlio viu o universo inteiro refletindo os atributos de Deus. Ars Magna ("A grande Arte"). era a arte de conhecer. As obras de Platão e também a Hermética. que concluiu em 1575. "A Árvore da Ciência".

A esta altura é um homem sem pátria e sem Igreja. A corte francesa era bastante livre. voltando para a França (1574) para assumir o trono após a morte do irmão Charles IX. porém retratou-se e assim lhe foi permitido deixar a cidade. Dispõe essas letras em uma espécie de tábua pitagórica. por todo o seu reinado a França esteve mergulhada na guerra das religiões. A reputação de Bruno chegou ao conhecimento Henrique III. Bruno gozava a reputação de um mágico que podia dotar a pessoa de uma grande retenção de memória. Passa 2 anos (1579-1581) em Toulouse. O rei tinha um grupo de amigos (rapazes bonitos) que chamava meus pequenos (mignons) com os quais se entregava a divertimentos suspeitos. Era o filho favorito. se teria a possibilidade de responder a todas as perguntas que a mente humana pode fazer. depois de conhecidas todas as maneiras de combinar os sujeitos com os predicados. Reina Henrique III (n. Casou dois dias depois de coroado (1575) com Louise de Vaudémont. círculos que se sobrepõe e faz rodar para conseguir todas as diferentes combinações possíveis. misericórdia e justiça. Ele fazia contactos facilmente e podia interessar qualquer grupo que encontrasse com o fogo de suas idéias. o que melindrava seu irmão que veio a ser Charles IX. Foi por breve tempo rei eleito da Polônia. que existem e são interligadas na construção da realidade. que ficou curioso de conhecer essa nova atração filosófica e descobrir se a arte de Bruno era de um mágico ou de um bruxo. sucessor presuntivo do rei. sem sucesso. Acreditava-se que. e as escreve em triângulos. simpatizantes do rei de Navarra. não se sabe a origem do nome). um massacre de protestantes. A arte luliana busca construir um sistema de relações entre as idéias as quais diz Lúlio. quando professor na universidade de Toulouse Bruno escreve um livro: Clavis Magna ("A grande chave") sobre o assunto. A mãe Catarina de Medici planejou a noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572). que as nossas idéias por serem sombras das idéias eternas. Vai para a França. Fiel a sua primeiras leituras sobre a teoria luliana. motivo de ser bem aceito na corte e receber a proteção de Henrique III. como essas. o protestante Henrique de Bourbon. . filho de Henrique II e Catarina de Medici. Henrique III levou as finanças do reino à ruína. (Leibniz depois retoma essa linha). Não era incomum para os eruditos vagar de lugar para lugar. onde consegue nomeação para uma cátedra de filosofia. católicos contra huguenots (simplesmente protestantes. A reação dos calvinistas foi rigorosa: foi preso e excomungado. Em Paris começou a dar aulas de filosofia. isto é. As combinações formam o silabário e o dicionário da grande arte. Um dos interesses de Bruno é a Arte Combinatória Luliana. em 1581. Mas toda a sua construção gira em torno dos gonzos de um princípio filosófico platônico.por conveniência por se achar em um país calvinista. mas demonstrou ao rei que seu sistema era baseado em conhecimento organizado. A corte era dominada por uma facção de católicos tolerantes. quanto aos costumes. Em Paris Bruno encontrou ambiente favorável para trabalhar e lecionar. ser absolvido pela Igreja Católica. lá tentou. estão vinculadas reciprocamente. o que significa desvalorização e desprezo de toda caridade. apoiando-se em Platão. em cadeias cujos elos são partes de um sistema único total e por isso podem iluminar-se mutuamente. Discorda da tese calvinista da justificação por meio da fé e não das obras. De Toulouse seguiu para Paris. e os representa por meio de letras que constituem "o alfabeto da grande arte". porque logo publicou um escrito em que criticava um professor calvinista. Determina os elementos primeiros do pensamento: sujeitos e predicados.1574-89). nascido em 1551 e falecido assassinado em 1589. Atua por meio de táboas e figuras. mas não teve filhos. Bruno encontrou um verdadeiro protetor em Henrique III. pois é uma só a luz que resplandece em todas. Extravagante. buscando alunos e protetores abastados. A posição religiosa de Bruno afinava com o grupo.

portanto. É possível que o brilho do período elisabetano tenha atraído Giordano Bruno à Inglaterra. com uma carta de apresentação de Henrique III para seu embaixador para as ilhas britânicas. cultivava a reverência escolástica pela autoridade de Aristóteles. e retribuam o amor com amor. Na primavera de 1583.As artes combinatória e mnemônica são objeto de curiosidade. Em 1584 foi convidado por Fulke Greville. Bruno resolve sair da França. Por isso. que foi casada com Felipe II de Espanha. No seu quarto trabalho Bruno escolhe a feiticeira de Homero.O tempo dá tudo e tudo toma.. Com esta filosofia meu espírito cresce.. A discussão degenerou em querela. tudo muda mas nada morre. O rei concede-lhe uma renda especial. a Inglaterra vivia um Renascimento tardio. Freqüentou a corte e tornou-se ligado a figuras influentes tais como Sir Philip Sidney e Robert Dudley. minha mente se expande." Nessa peça faz uma representação eloqüente da sociedade napolitana contemporânea. Em 1582.. e continuamente questionando o valor dos métodos de conhecimento tradicionais. Circi. Pronunciou em Oxford uma série de conferencias no verão do mesmo ano nas quais expunha a teoria de Copérnico mantendo a realidade do movimento da terra. filha de Henrique VIII e Ana Bolena. que é contrário à filosofia e que contraria outras religiões. nomeando-o um de seus "Leitores reais". que mudava homens em bestas e faz Circi discutir com sua criada o tipo de erro que cada besta representa. quando a simples observação da natureza demonstrasse o contrário. Lúlio havia tentado provar os dogmas da Igreja por meio da razão. as velas que fiz nascer. se puderem. e mesmo então é obrigado a abjurar a teoria. ao seu modo impetuoso. Sob a rainha Isabel. Ele argumenta que o Cristianismo é inteiramente irracional. Galileu nunca encontrou Bruno em pessoa e não o . para discutir sua teoria do movimento da Terra com alguns doutores de Oxford. as quais iluminarão certas sombras de idéias.. Terceira na linha de sucessão de seu pai Henrique VIII. No mesmo ano um terceiro livro surgiu: De architetura et commento artis Lulli ("Sobre a Arte de Lúlio e comentário"). o duque de Leicester. Nestes livros ele sustentava que a idéias eram somente sombras da verdade. nasceu 1533. Ao final do século XVI aparentemente não havia um único professor que ensinasse o universo segundo Copérnico. Foi por essa ocasião que um dos primeiros trabalhos de Bruno foi publicado De Umbris Idearum. e mantenham união. na idade de 34 anos.. reinou de 1558 a 1603. exceto Giordano Bruno. pregava que não se deveria acreditar no que Aristóteles havia afirmado. ele voltou para Londres onde permaneceu como hospede do embaixador da França Castelnau. Seja porque não pudesse mais sustentar sua popularidade em Paris. ele escreveu uma comédia em italiano. ("A sombra das idéias") logo seguido por Ars Mernoriae ("Arte da memória").. depois de seu irmão doente Eduardo VI e depois de sua irmã mais velha Maria I. Michel de Castelnau. Bruno nega o valor desse esforço mental. que a assim chamada revelação não tem base científica. apesar de quanto obscura a noite possa ser. Alegrem-se. um fabricante de velas que sai a anunciar seus produtos com gritos e estardalhaço: ". como as demais universidades europeias da época.. eu espero o nascer do dia. um membro do círculo de Sidney. Il Candelajo . Devido à recepção hostil dos professores oxfordianos às suas idéias. Galileu apresenta suas provas no início do século seguinte. não obstante a cordial acolhida que lhe fora dispensada em Paris pelo rei e pelos espíritos desvinculados do aristotelismo.. Bruno. O livro Cantus Circaeus mostra Bruno trabalhando com o princípio da associação de idéias. ou por que a cada dia se tornava mais grave a ameaça de uma renovação da guerra civil. Bruno desperta a inveja dos professores por ser popular e admirado. Salienta que nos o aceitamos pela fé. em abril de 1583 Bruno mudou-se para Londres. Oxford. A rainha. O rei se interessa pela arte combinatória. como um protesto contra a corrupção social e moral da época.

Os astros giram também sobre seu próprio eixo para perpetuar em si a vida. como dito acima. mas um movimento anímico que o faz transformar-se permanentemente. os pássaros. um todo no qual nada existe imóvel. O mundo não tem limites nem referência absoluta e. Em De la causa. uma pedra solta do alto de uma torre se afastaria do pé da torre. constituído de inumeráveis mundos substancialmente similares ao do sistema solar. Tudo que existe estaria reduzido a uma única essência material provida de animação espiritual. A refutação de Bruno a esse argumento. as nuvens seriam deixadas para trás. Sendo Deus. O universo não é finito e limitado como pretendia a concepção medieval. Não apenas um movimento mecânico e passivo. Pouco depois Bruno começou a escrever seus diálogos italianos.sobre a teoria do universo . as nuvens. Na Cena de le Ceneri (1584: "A Ceia da Quarta Feira de Cinzas"). e tinha como uma de suas peças básicas a astronomia de Ptolomeu que afirmava ser a Terra um ponto imóvel privilegiado. O universo não contem apenas o nosso sistema (nosso mundo) mas um sistema de mundos infinitos que nascem e decaem movidos pela divina força universal. ele não apenas reafirma a realidade da teoria heliocêntrica mas ainda sugere que o universo é infinito. portanto. três cosmológicos . implicando a unidade básica de todas as substancias e a coincidência dos opostos na unidade infinita do Ser. Seguindo deduções tipicamente aristotélicas. a qual ainda era objeto de riso e. teoria que afinava tanto com os textos bíblicos quanto com o pensamento racional aristotélico que a escolástica integrava num todo unitário. o movimento dos astros não seria esférico como Copérnico havia apresentado. para expor sucessivamente todas as suas partes ao sol (como seres que tem vida. necessariamente . animismo). principio e uno (também de 1584) ele elabora a teoria física na qual estava baseada sua concepção do universo: "forma" e "matéria" estão intimamente unidas e constituem o "Uno". impresso por Deus aos corpos celestes. que constituem a primeira exposição sistemática de sua filosofia. Infinidade e relatividade. segundo as leis da física. mas infinito e ilimitado. São afirmações ousadas em uma época em que o pensamento teológico filosófico medieval era ainda predominante. sendo bastante esperto de sua parte evitar citar um herege condenado. criador do mundo. as várias imagens dele são relativas: qualquer ponto é centro . em suas obras.e três sobre moral. Os objetos de um navio se movem com ele. Bruno suprime a esfera das estrelas fixas conservada por Copérnico e alarga o universo ao infinito. centro do movimento circular de todos os corpos celestes. com local simulado em Paris e Veneza.menciona em seus trabalhos. Afirmava que não havia posição absoluta no espaço. é que a terra e tudo que nela se encontra formam um sistema. Do mesmo modo.periferia. diziam os mestres escolásticos que. Porém. as folhas mortas voariam sempre no mesmo sentido. Existiriam possivelmente inumeráveis mundos habitados. É a história de um jantar de que participam convivas ingleses. constituindo transgressões ou reparações de transgressões da ordem divina. Em toda parte ocorre mudanças relativas incessantes de posição por todo o universo. excetuando-se o movimento circular uniforme. e o observador está sempre no centro das coisas". No mesmo diálogo ele se antecipa ao seu colega italiano o astrônomo Galileu Galilei sustentando que a Bíblia devia ser seguida pelos seus ensinamentos morais e não por suas implicações astronômicas. e nele Bruno difunde a teoria de Copérnico. as pedras são levados com a terra. todos os demais movimentos são imperfeições. A esse pensamento juntava-se a concepção de que. São seis diálogos. como dissera Aristóteles. em "O Banquete das Cinzas". mas que a posição de um corpo "era relativa à dos outros corpos". Bruno é animista. Em sua filosofia o universo é um sistema em permanente transformação. Ele também criticou fortemente os costumes da sociedade inglesa e o pedantismo dos doutores de Oxford. se a terra se movesse. de descrença por não coincidir com os ensinamentos de Aristóteles. Assim o tradicional dualismo dos físicos aristotélicos foi reduzido por ele a uma concepção monística do mundo.

achando-o rude.um ser infinito. A primeira é considerada como um meio para instruir e governar o povo ignorante. Henrique III havia revogado o edito de pacificação com os protestantes. trata da obtenção da união com o infinito Uno pela alma humana e exorta o homem à conquista da virtude e da verdade. e ao o pedantismo que encontra na cultura Católica e Protestante. pois. O Espaccio de la bestia trionfante ("Expulsão da besta triunfante") o primeiro diálogo da sua trilogia moral. inclui a discussão da relação da alma humana e a alma universal. é semelhante aos anteriores. à qual Bruno opunha uma visão exaltada da dignidade de todas as atividades humanas. inclusive chamando-a "sagrada" e "divina". Suas críticas. que é válido enquanto a humanidade não atingir um grau superior de evolução. Os católicos moderados então o desautorizaram. A Cabala del cavallo Pegaseo ("Cabala do cavalo Pégaso"). com o anexo "O asno cilênico". mais tarde.particularmente o princípio calvinista da salvação exclusivamente pela fé. Longe de adotar uma linha de comportamento cauteloso. concluindo com a negação da individualidade absoluta do primeiro. é uma sátira sobre os vícios e superstições de sua época. enquanto Bruno considerava os ingleses um tanto primitivos. a quem teria bajulado com superlativos. Em Paris encontrou uma atmosfera política mudada. Nele faz da religião uma sátira amarga. apresentando-a como "santa ignorância" que condena a curiosidade ímpia da pesquisa. e que estes eram todos habitados por seres inteligentes. Enquanto na Inglaterra. não apenas na Igreja mas nas cortes de justiça e mesmo nas universidades. O universo. Faz uma forte crítica da ética Cristã . "útil para governar os povos incultos". também de 1585. Bruno teve uma audiência pessoal com Elizabete I. o que serviu. e o Rei de Navarra havia sido excomungado. reprovar qualquer pensamento humano e renegar todo sentimento natural. e Bruno se vê obrigado a acompanhar Castelnau de volta quando este é chamado pelo Rei de volta a França em 1585. O "asno". porém mais pessimista. haviam atraído a antipatia dos mestres ingleses ainda aferrados a Aristóteles. de acordo com a qual existe a religião dos ignorantes e a religião dos doutos. seria contraditório que a uma causa infinita não correspondesse um efeito infinito. preferindo fechar os olhos. Ele também formula sua visão averroísta da relação entre filosofia e religião. fazendo uso da simbologia neoplatônica. No caminho ambos são roubados de tudo que possuíam. no entanto. O desafio audaz provoca um tumulto grande e violento. para alimentar seu processo como infiel e herege. que o processo histórico enriquece. a quem ridicularizou em quatro Dialogi. Bruno. No De l infinito universo e mondi ("Sobre o Infinito. Argumentava que o universo era infinito e continha um número infinito de mundos. como efeito de uma causa infinita não pode conceber-se senão como infinito. o matemático Fabrizio Mordente. subversivo e perigoso. acusando-a de renuncia e proibição do livre exercício do pensamento e da investigação filosófica. É uma discussão irônica das pretensões da superstição. na qual se integra a filosofia como a disciplina dos eleitos que estão aptos a se controlar e governar os outros. em consequência do que Bruno se acha ameaçado de perigos tão . A religião dos doutos ou dos teólogos. diz Bruno. Consta porem que a rainha não o levou em grande conta. Universo e Mundos") ele desenvolveu sua teoria cosmológica criticando sistematicamente os físicos aristotélicos. de 1585. Bruno entrou em polêmica com um protegido do partido católico. e em maio de 1586 ele ousou atacar Aristóteles publicamente em seu Cento e vinti articuli de natura et mundo adversos Peripatetiso ("120 artigos sobre a natureza e o mundo contra os peripatéticos") proclamadas em junho por seu discípulo João Hennequin em desafio aos doutores da Universidade de Paris. no entanto. pode ser encontrado em toda parte. é esclarecida. radical. É um conjunto de superstições contrárias à razão e a natureza. No De gli eroici furori ("Dos heróicos furores").

João Mocenigo. Henrique III desaparecera do cenário político. ele foi excomungado pela Igreja Luterana local. Fugiu de um levante da Liga em Paris. a tensão europeia tinha afrouxado temporariamente após a morte do intransigente papa Sixtus V em 1590. Giordano Bruno encontra em Praga um ambiente propício a suas pesquisas matemáticas e astronômicas. Em Frankfurt um editor veneziano que o encontra traz-lhe os chamados insistentes de um patrício. Todo o seu reinado fora marcado pela guerra entre católicos e protestantes. Sujeito a crises de depressão. consegue ser professor em Wittenberg (1588). Imperador do Sacro Império de 1576 a 1612. Em Praga. lecionando para doutores protestantes e adquirindo uma reputação de ser um "homem universal" que. que diz contrariar a lei divina do amor. ele conseguiu residente no convento Carmelita. incluindo o Articuli centum et sexatinta ("160 Artigos") contra os filósofos e matemáticos contemporâneos. Posteriormente ainda apoiaria o astrônomo Johannes Kepler. Escreve a que considera sua maior obra: De imaginum signorum et idearum compositione ("Sobre a Associação de imagens. deixou Viena. "não possuía um traço de religião" e que estava ocupado principalmente em escrever e na quimérica e vã imaginação de novidades". que sucedeu a Tycho como matemático imperial do Santo Império Romano em 1601. que desejava aprender suas técnicas mnemônicas. refugiando-se em Chartres. e De innumerabilibus sive de immenso . líder protestante. É uma crítica contra a intolerância e o sectarismo religioso. Bruno escreve uma crítica contra a intolerância e sectarismo religioso. sempre em dificuldades com a Santa Liga fundada pelos católicos e liderada por Henrique. Mas Praga não lhe convém muito. o cardeal de Lorraine em 1588. Em Helmstadt. Aceita o convite acreditando na independência da República Veneziana. onde freqüenta a corte do rei Rodolfo II. O Imperador haveria de apoiar em 1599 o astrônomo holandês Tycho Brahe cujos trabalhos ajudaram a convencer os europeus ainda duvidosos da teoria de Copérnico. se diz que nada fez para conter a Reforma ou para evitar a Guerra dos Trinta Anos. onde perambulando de uma cidade universitária para outra. Permaneceu em Helmstadt até a primavera. o Prior pensou. hoje Checoslováquia). Faz uma reivindicação da dignidade própria da liberdade espiritual humana (sem liberdade não haveria essa dignidade). filho de Maximilian II e Maria. ele foi em 1590 a Frankfurt sobre o Maine. Mas os calvinistas não toleram sua doutrina. Rudolf II. em Janeiro de 1589. impopular e doente. filha de Carlos V. ocupado com artes e ciência. os signos e as idéias") sobre mnemônica.os quais relembrava as teorias expostas nos diálogos italianos e desenvolvia o conceito de uma base atômica da matéria e do ser. devido a concessões feitas aos protestantes. no qual ele expôs sua concepção de religião .uma teoria da coexistência pacífica de todas as religiões baseada no conhecimento mútuo e liberdade recíproca de discussão. e que. Faz uma reivindicação da dignidade própria da liberdade espiritual humana (sem liberdade não haveria essa dignidade) doutrina certamente do agrado de Rudolf II que pouco fez para reprimir os protestantes.De minimo. que diz contrariar a lei divina do amor. que era uma fortaleza da Liga. Ensinou e publicou uma variedade de trabalhos menores. Não obstante. onde vivia em reclusão. De monade. Muda-se para Helmstadt. O risco não pareceu muito grande: Veneza era de longe a mais liberal dos estados italianos. refugiou-se em Praga. Não foi o único a beneficiar-se do apoio de Rudolf II. Bruno estava saudoso da Itália. Uniu-se a Henrique de Navarra.graves que se vê obrigado a sair logo da França. fazendo com ele o cerco a Paris em 1589. completando trabalhos em mágica natural e matemática (publicado postumamente) e trabalho em três poemas latinos . Para publicar estes. a capital oficial do Império e retirou-se para Praga. Mandou assassinar o Duque de Guise e o irmão dele. um . Muda-se para Praga (Reino da Boêmia. duque de Guise. Então foi assassinado a facadas por Jacques Clément. De lá Bruno vai para a Alemanha. brigado com a Igreja. onde o Duque Henrique Júlio dispensa-lhe acolhida favorável e cordial. Sucedeu seu pai como imperador do Sacro Império Romano em 1576. onde o senado rejeitou sua solicitação de permanecer.

estava então no trono da França e a pacificação religiosa parecia estar iminente. a quem ajudou na preparação da vulgata da Bíblia (159l-92) expurgando os erros da vulgata anterior de Sixtus V. que tomasse a doutrina de Copérnico como hipótese. Em Roma. No início do inverno. quando se viu preso por Mocenigo no sótão da sua casa. Grande teólogo. e que haveria de prolongar-se por sete anos. Bruno havia terminado um outro trabalho e preparava-se para viajar a Frankfurt para publica-lo. como hóspede de Mocenigo. cardeal e teólogo (veio a ser canonizado São Roberto Belarmino) foi um dos maiores defensores do catolicismo contra os protestantes. as quatro mais graves são duas teológicas e duas filosóficas: Teológicas: (a) negaria a transubstanciação. e ele deve ter sabido que a cadeira de matemática da Universidade de Pádua estava então vaga. Celestino de Verona. Por solicitação insistente do Papa. O papa encarregou o cardeal Belarmino (1542-1621) de analisar e acompanhar o processo de Giordano Bruno. (b) prioridade ideal e real do Pai e da subordinação do Filho. O protestante Henrique IV. estudou em Roma e Pádua. e tomou parte nas discussões dos aristocratas venezianos progressistas que. Filosóficas: (a) pluralidade dos mundos (os atos divinos devem . Mocenigo denunciou-o à Inquisição Veneziana por suas teorias heréticas. quando então a Inquisição Romana pediu sua extradição. quando parecia que ele não iria receber a cátedra (ela foi oferecida a Galileu em 1592) retornou a Veneza. e em janeiro de 1593 Bruno entrou na cadeia do palácio romano do Santo Ofício. Além do mais. ordenou-se em Louvain. Voltando à Itália. O cardeal Belarmino extraiu das obras de Bruno 8 heresias. O papa Clemente VIII (1592-1605) viria a ter papel decisivo no julgamento de Bruno. Criou uma comissão para resolver a querela entre Jesuítas e Dominicanos sobre a graça divina e a liberdade da vontade. Inicia-se um novo processo em 1593. foi feito cardeal em 1599 pelo papa Clemente VIII. acompanhado de torturas. o tribunal de Veneza encaminha o prisioneiro para Roma. junta novos testemunhos acusadores. um frade. Apesar de engajado em refregas políticas com Veneza e Nápoles. Dedicou-se grandemente aos pobres a quem destinava todos os seus rendimentos. Bélgica. este originado de um ato da vontade do Pai. Ao morrer reconheceu Henrique de Navarra seu sucessor.frade Jacobino fanático que conseguiu uma audiência. Bruno ainda estava procurando por um estrado acadêmico do qual pudesse expor suas teorias. Foi responsável pela publicação da vulgata (Versão standard da bíblia latina) e muitos outros livros litúrgicos (valendo-se do recente invento da imprensa). Mocenigo também ficou ressentido com a intenção de Bruno de voltar para Frankfurt para publicar seu novo trabalho. que lhe é preexistente. Bruno defendeu-se admitindo alguns erros teológicos menores. Foi imediatamente para Pádua e durante o verão de 1591 iniciou uma série de cursos privados para estudantes alemães e escreveu o Praelectiones geometricae e Ars deformationum . . Depois de prendê-lo. O palco do julgamento veneziano parecia proceder de modo favorável a Bruno. no entanto. Mais tarde salvou Galileu da condenação aconselhando-o. originalmente Henrique de Bourbon e Navarra. dedicou-se ao estudo das controvérsias religiosas: escreveu entre 1586-93 "Lições Relativas às Controvérsias da Fé Cristã contra os Hereges Contemporâneos". privadamente. vindo a morrer pobre. originalmente Roberto Francesco Romolo Bellarmino. além de considerar-se atraiçoado por não conseguir o milagre esperado. nos seus postulados básicos. Levado pelo Santo Ofício com todos os seus papeis. como Bruno. ocupava-se zelosamente da doutrina da Igreja. curioso sobre a personalidade de Bruno e o conteúdo do processo com respeito a suas idéias. insistindo. Desapontado com as lições privadas de Bruno sobre as técnicas mnemônicas que em nada ajudaram sua precária memória. este mais sério. favoreciam a investigação filosófica independentemente de suas implicações teológicas. onde lecionou teologia. O Cardeal.antes do processo -. Regressou à Itália em agosto de 1591. Em maio de 1592. Jesuíta em 1560.

Seus trabalhos foram colocados no Índex em agosto de 1603 e seus livros tornaram-se raros. sua boca com uma mordaça. Bruno a princípio desenvolveu sua linha defensiva prévia. sem dúvida. A 20 de janeiro de 1600 Bruno é condenado.Cobra. . Foi levado ao poste e quando estava morrendo um crucifixo lhe foi apresentado.br Filme. Direitos reservados. meus juízes.) que não sabe sobre o que se emendar. Críticas e correções são benvindas: filmod@mymail. Ao final foi levado. e mártir da ciência e da filosofia. sonhar e filosofar. Os inquisidores rejeitaram seus argumentos e o pressionaram para uma retratarão formal. . Foi. ao palácio do Grande Inquisidor para ouvir sua sentença de joelhos.. Em 17 de fevereiro ele foi trazido ao Campo di Fiori. um filósofo andarilho. e 2. Em certa época lhe foram dados quarenta dias para reconsiderar sua posição.corresponder à potência infinita de Deus) implicaria também várias incarnações de Cristo um número infinito de vezes.) da legitimidade das suas idéias filosóficas e da possibilidade de concilia-las com a revelação religiosa. Aberta em 28/03/97 Última revisão 28/03/97 Compilado de várias fontes por R." Lhe foram dados mais oito dias para ver se ele se arrebentai. a oito de fevereiro.com. Quando a sentença de morte foi lida para ele. Bruno então fez uma tentativa desesperada de demonstrar que seus pontos de vista não eram incompatíveis com a concepção cristã de Deus. ele dirigiu-se aos juízes dizendo: "Talvez vocês. mas ele empurrou-o para longe com marcado desdém. Para citar este texto: Cobra.Giordano Bruno. Para muitos no entanto não passou de um ocioso. pronunciem esta sentença contra mim com maior medo que o meu em recebe-la. negando qualquer interesse particular em questões teológicas e reafirmando o caráter filosófico de suas especulações.se mas renovava suas "tolices". 1997. Ao final do século XIX intelectuais italianos redescobriram Bruno. Não adiantou. para ser queimado vivo. Essa distinção não satisfez os inquisidores. e foi martirizado devido ao seu excessivo entusiasmo. Bruno faz sua defesa sempre tentando convencer os inquisidores 1.. Então conseguiu mais quarenta dias para deliberar mas não fez mais que confundir o papa e a inquisição. Página de Filosofia Moderna. Durante os sete anos do julgamento romano. um pioneiro que acordou a Europa de um longo sono intelectual. Bruno finalmente declarou que não tinha nada de que retratar-se e que ele nem sabia de que se esperava que retratasse. Ele cunhou a frase "Libertas philosophica". A idéia do universo infinito foi uma das mais estimulantes idéias do Renascimento. e (b) alma presente no corpo como o piloto no barco.Q. Internet. e ficou longe de merecer ser chamado um cientista. o direito de pensar. tomando-o como símbolo do tipo de filósofo de vanguarda ousado e livre. e 3. Geocities. A esta altura o Papa Clemente VIII ordenou que ele deveria ser sentenciado como um impenitente e herege pertinaz. um poeta vadio. que pediram uma retratação incondicional de suas teorias. Rubem Q.) alegando que a acusação toma peças isoladas do contexto de seu trabalho. (raciocínio tipicamente escolástico). ele prometia retratar. diante dos acólitos assistentes e do governador da cidade.

acreditava naquilo que achava e não provou que o universo era infinito.Recusando o pensamento aristotélico/escolástico vigente da época. provocou todo este fenômeno de existência. Enviado por: Fabio @ 05/04/2006 Cientista? Texto interessante. Ao invés da Igreja.. Enviado por: Claudio Mazzola @ 10/03/2006 muito bom O texto sobre a biogrfia de Giordano Bruno é excelente.Alguém sabe onde posso conseguir uma cópia do filme Giordano Bruno(há alguns anos eu assisti e de verdade e encantei). Em verdade a história de Giordano é muito mais poética que científica. suas doutrinas "gnósticas". Imaginem. realmente gratificante. Permitiu compreender melhor a história de uma pessoa que quis aplicar sob o veu da ciência. as leis da termodinâmica são também falsos. Enviado por: Fabio Rossano Dario @ 14/02/2006 Liberdade de Pensamento Ë muito interessante a biografia de Giordano Bruno. Pq o antagonismo dos seus sentimentos e creenças com relação a realidade. Hoje. é uma expressão muito forçosa e sofrível de uma tentativa de reproduzir em pouco tempo uma realidade muito mais lata(mas devo advertir que está bastantante lograda!). Esta história eu já conhecia e é bastante significativo que alguém mais possa conhecê-la. Enviado por: Nadja de Castro Ferreira @ 24/06/2006 Giordano Bruno Trabalhei por um ano em Campo dei Fiori e nao conhecia toda a história. teria que provar que os estudos dos "nobeis" que comprovam a teoria do Big-Bang bem como. não seria diferente. por suposto que o filme não é uma reprodução fideldigna do protagonista. o que poderia acontecer atualmente se homens recebecem a mesma punição por não pensar exatamente como aqueles que ocupam o poder? Enviado por: Rafael Torres @ 30/01/2006 que homenagem . pois como ele mesmo afirma o "filosofo é dono do seu próprio destino" Enviado por: Leomar Ferreira @ 20/02/2006 Bruno é liberdade Bruno é um símbolo para todos aqueles que amam a liberdade.

espelhado em giordano bruno. Ao ofereceremlhe o crucifixo para o beijo derradeiro. Assim como Jesus renasceu como Cristo Eterno assim também é o Homem em sua essencia. uma praça onde uma enorme pilha de lenhas amontoava-se ao redor de uma estaca. prognosticou ele. "o que acontece a este cidadão servidor do mundo que tem como o seu pai o Sol e a sua mãe a Terra. Em minutos.meu pai me deu esse nome .. que não se queima no fogo e nem se afoga na agua. vejam como o mundo que ele ama acima de tudo o condena. Enviado por: DIORDANO LUCAS DE OLIVEIRA @ 18/01/2006 bien muy buena su pagina ¡¡¡¡¡excelente me encanta todos los dias me meto para informarme sobre algo gracias por estas posibilidades Enviado por: daiana @ 06/01/2006 Resgate da memória Este texto vem resgatar a memória de um cientista..Ótimo texto. Era a fogueira que iria abrasar vivo o filósofo Giordano Bruno. no ramo astronomia. morto aos 52 anos.. Era o dia 17 de fevereiro de 1600.brasileiro. o persegue e o fará desaparecer".do infinito. in . apesar de tê-lo sido considerado. Enviado por: Sonego Oswaldo @ O martírio de Giordano Bruno "Ainda que isso seja verdade. nem digerido pelo meu estômago.Roberal Enviado por: Roberval Félix Freitas @ Bruno não Morreu Quando leio sobre Giordano Bruno. tornouse um mártir do livre-pensamento e um símbolo da intolerância da contra-reforma da Igreja Católica. do universo e dos mundos. 1584 O lúgubre cortejo saindo da prisão da Inquisição ao lado da Igreja de São Pedro seguiu pelas ruas de Roma até chegar no Campo dei Fiori. e o homem também como um ser infinito.parabéns pelo site. pois o homem não é corpo e sim Espírito." A execução de Bruno Búrquio. Talvez ele recordasse naquele instante derradeiro as palavras que certa vez escrevera num momento de profunda melancolia: "Vejam". que muito contribuiu para o desenolvimento da física. não quero crê-lo. fico emocionado de saber que ja num passado distante houve um pensador com idéias sobre o Universo infinito e também um Universo como um orgaqnismo vivo.Bruno.--italianoDiordano-. Trouxeram-no com uma mordaça na boca por temerem que ele pudesse dirigir algumas palavras perigosas ao povo que se juntou a sua passagem. uma vez que por muitos outros estudiosos se motivaram a desvendar as leis do universo. o verdugo jogou uma tocha na base da pira que num instante devorou o corpo. ao embalo das preces dos monges de San Giovanni Decollato.fico muito feliz em saber quem foi giordano bruno. Estava feito. O processo da Inquisição Giordano Bruno .. revirou os olhos. Bruno. num diálogo de G. e minhas idéias tbm se assemelham a ele. porque não é possível que esse infinito possa ser compreendido pela minha cabeça.

um poço imundo. Se medisse as palavras. a má comida. disse-lhes: "vocês certamente têm mais medo em pronuciar esta sentença do que Cena de tortura na época da Inquisição eu em escutá-la!" | A execução de Bruno | O temperamento de Bruno | A intolerância das Igrejas | A utopia de Bruno | A ironia de Galileu | Bibliografia O martírio de Giordano Bruno O temperamento de Bruno Afinal de contas qual era a causa dessa infeliz celeuma? Testemunhos disseram que muito do desenlace infausto. Bruno. Sujeitaram-no a vinte e uma entrevistas. Ele rejeitou. A leitura da sentença Exigia-se a sua rendição final: abjurava e o deixavam vivo. teria retornado à Itália em razão de um embuste. não há nada a retratar e não serei eu quem irá se Clemente VIII. Bruno mudou sua posição. devido a um áspero desentendimento. onde nascera numa família da pequena nobreza local em 1548. um tipo vulcânico. era um temperamental. Interrogando um herético (*) Documenti della vita di Giordano Bruno. endureceu-lhe a posição: "não creio em nada e não retrato nada. O interrogatório e o ultimato Em 27 de fevereiro de 1593 ele chegou à prisão papal. iria acusar Galileu Galilei. Bruno conciliou. Interrogou-o o jesuíta Roberto Bellarmino que anos depois. Ocorreu que nestes anos em que passou encarcerado. o queimassem. ou o excomungavam e o entregavam ao braço secular para que o executassem. e a constante espionagem dos seus vizinhos de cela (nos processos encontram-se citados mais de cinco testemunhos deles). cavado num porão a beira do canal. Se as rechassar como tais. já cardeal. Para os seus admiradores. Ajoelhado em frente a nove inquisidores e ao governador da cidade. na qual ele era um perito. será fixado um prazo de 40 dias para o arrependimento que se concede aos hereges impenitentes e pertinazes. Nesta primeira vez em que o interrogaram. mesmo a contragosto. se fosse mais sutil em defender suas idéias. Florença. desaforado. além de terem-no torturado. O papa esperava um triunfo. mais sedutor. "deverão inculcar no dito frade Giordano (Bruno era frei dominicano. um italiano de Nola perto de Nápoles.. autorizou a sentença de retratar!". para Bruno e para a Igreja Católica. um iconoclasta. Além de aumentar o seu desprezo pela Igreja. húmido e escuro como breu. A viagem a Roma. Uns tempos depois da sua volta. onde respondeu ao primeiro processo que a Inquisição lhe moveu. Infelizmente não foi esse o entender definitivo da Congregação do Santo Ofício que reuniu-se Bruno em 21 de dezembro de 1599. Estátua de Bruno em Roma . presidida pelo papa Clemente VIII. talvez não tivesse aquele fim terrível. A capitulação de Bruno teria um notável efeito propagandístico num ano da "graça"como o de 1600. Conduziram-no então à praça Navone para escutar a sentença no dia 8 de fevereiro. Encarceraram-no na prisão de San Castello no dia 26 de maio de 1592. isto é. e que sabia bem mais teologia do que todos os que o interrogavam. ao invés de enfraquecerem-lhe o ânimo. De nada lhe serviu. exigiu que o Doge. onde os inquisidores não sabiam bem o que fazer com ele. mas não mais vinculado a ordem). convidou-o para vir a Veneza a pretexto de ensinar a mnemotécnica. que suas proposições são heréticas e contrárias à fé católica. a arte de desenvolver a memória.. colocaram-no num espantoso calabouço. Provavelmente o manteriam na prisão e só o queimariam em efígie. alegando soberania sobre o de Veneza em casos de heresia. que seja admitido para a penitência com as devidas penas.O Santo Ofício prendera-o oito anos antes em Veneza. "sem que o sangue fosse derramado". deve ter-lhe sido um alivio. o frio permanente. Arrogante. ao encontrar Bruno na Feira do Livro de Frankfurt (que já existia naquela época) na Alemanha em 1590. O Santo Ofício de Roma. Uma dupla de livreiros. disse aos inquisidores que já começara a duvidar dos dogmas da Igreja ao entrar no mosteiro aos 17 anos. tiveram um efeito contrário. se quiser abjurá-las. O confinamento. Enquanto não se deu o translado. Giordano Bruno. ele era um desastre. Se não. Que tudo isso se faça da melhor maneira possivel e na forma devida". vibrante. determinava o documento final. atendendo a um desejo de um nobre veneziano chamado Giovanni Mocenigo. Para um homem que se considerava em missão. deveu-se à maneira de ser do filósofo. ainda que a ferros. dado a formidáveis explosões coléricas. Sabe-se com detalhes deste episódio porque a documentação chegou a ser publicada em 1933 por Vicenzo Spampanato(*). "Os padres teólogos". Seguiu-se então um longo e morosíssimo processo. em 1616. Mocenigo trancou-o num quarto da sua mansão e chamou os agentes do tétrico tribunal para levarem-no preso. enviasse Bruno preso. acusado de heresia. que há anos vivia no exterior. Tratava-se de um polemista nato.

graduar-se em teologia em Toulouse e logo ingressar no Colégio dos Leitores Reais de Paris. reagindo com brutalidade contra quem ousasse desafiar-lhes a autoridade ou duvidasse dos seus dogmas. fundada e mantida em disciplina militar pelo soldado espanhol Inácio de Loyola em 1540. era natural que a Igreja Católica como a reformada exigissem de todos posições bem definidas. A curiosidade. as brigas cessariam. voltado para ação. enaltecendo a doutrina de Copérnico e manifestando-se a favor da restauração da magia e do hermetismo (a linguagem dos sábios egípcios do passado remoto). o maior homem de letras daquele século. O Alto Clero romano e a corporação sacerdotal em geral tornaram-se no decorrer do século 16 extremamente sensíveis. sofreu a dolorosa experiência de ver-se velipendiado pelos dois lados. onde "as trevas sepultarão a luz". pensava ele. equilibrando-se entre as duas fés hostis. pela dedicação aos cultos divinos e majestosa dignidade. mas aconselhava a manutenção deles aqui na Terra. consagrara-se como Três Vezes Grande . Melhor que assim fosse para manter-se a paz.um imaginário sacerdote egípcio que pela santidade da sua vida. um hermetista na academia de Florença . Era um exército de uniforme preto. o filósofo renascentista que fundara a Academia Platônica. Qualquer lugar lhe bastava. deplorando as técnicas que faziam com que os povos se aproximassem exageradamente. Não foi sem razão que fez da Companhia de Jesus. sonhou. Estar em Londres ou em Praga. A doutrina heliocêntrica de Ficino. a bonomia e a tolerância com que muitos papas do passado trataram o ceticismo e a incredulidade de muitos homens sábios. (*) Ele desconfiava dos césares que queriam unificar a Terra dotando-a de uma só lei e uma só fé. Alquimistas e suas experiências Nada pois espantar-se em morar ele em Genebra. Nada viu de mal em ser católico e ao mesmo tempo ingressar numa congregação luterana na Alemanha. Bruno tomou a estrada da vida. era-lhe indiferente. bem antes da crucificação de Jesus. Quem se mostrasse ambíguo ou neutro. a sua espada. gostava de lembrar que a cruz era. Isto é. pois eram um tesouro de conhecimentos imemoriais. Estar a Europa envolvida na Grande Guerra Civil Teológica travada desde 1517 entre católicos e protestantes. em Wittemberg ou em Paris. restaurando o culto egípcio. morto em 1499. O hermetismo Ele criticava o cristianismo ter destruído as honoráveis religiões do passado. O martírio de Giordano Bruno A intolerância das Igrejas A Igreja Católica por sua vez via-se atolada numa inerminável batalha de trincheiras contra a Igreja reformada. desapareceu com a morte de Leão X. Forçou-se a peregrinar de cidade em cidade. Até o grande Erasmo de Roterdam. a favor ou contra elas. era visto como um inimigo a quem não se concederia nem perdão. O que não deixa de ser contraditório num pensador que queria derrubar os muros que punham limites ao universo. Luteranos e católicos deixariam de se odiar. como a que fizera em Oxford em 1583. e que tentou o quanto pôde manter-se equidistante. um símbolo sagrado de Isis e fora bordada no peito de Serápis. Vivendo em tal clima de vida e morte. nem quartel. "chamando para o novo mundo a sua antiga fisionomia". estar na corte do rei francês ou num salão de conferências de uma universidade alemã não lhe causavam qualquer estranheza. a teologia antiga. O martírio de Giordano Bruno A utopia de Bruno O filósofo porém imaginou que se seguissem suas prédicas públicas. Vira em Hermes Trimegistro . não duvidava que Deus poria fim a tal mancha. para o assalto às fortalezas da heresia. após descrever o cenário de um mundo melancólico. Tanto é assim que um dos seus ditos favoritos foi: "Al vero filosofo ogni terreno è patria" (Para o verdadeiro filósofo qualquer terreno é a sua pátria). e só "permaneceriam os anjos perniciosos".Errante e cosmopolita Ao ver desde cedo fechada a carreira acadêmica e sacerdotal por ter sido ameaçado de excomunhão aos 28 anos (ele entrara como noviço no Mosteiro de San Domenico Maggiore. não o abalava.o fundador da prisca theologia. Monge errante e renegado. A simples existência das montanhas e dos mares era um advertência feita pela natureza para que cada povo fosse mantido no seu devido lugar. Bruno enfim. Olimpicamente desconsiderou o cisma do mundo cristão. Repetindo Marcilio Ficino. opunha-se à globalização. onde Tomás de Aquino morrera). Numa memorável invocação que ele fez a Asclepius (Esculápio). Não eram só as fronteiras dos reinos e dos principados que ele ignorava. tornando-se um cosmopolita a contra-gosto (*). de onde todas as outras derivaram. se abraçassem a verdadeira religião nascida à sombra das pirâmides. que falecera em 1536. sofrendo de total inversão.

como lembrou Jacques Attali. É provavel que Bruno tenha percebido as implicações últimas da adoção do heliocentrismo. este sim o fundador da física moderna. ameaçará e fará destruir o divino empreendimento do teu grandiosos trabalho. pareceu-lhe pois um sinal desse inevitável retorno às crenças desaparecidas. na intenção de alargar as sensibilidades do conhecimento e atenuar o preconceito contra o passado pagão da humanidade. inclinado a ser mago Bruno em Shakespeare . e inumeráveis tratados de astronomia. não ficaria inerte perante a sua pregação. Que depois se somaram ao conhecimento de Telésio e ao de Lulio. no geocentrismo de Ptolomeu. os interpretes judeus da Bíblia. Platão. caro. além de alguns teólogos não-convencionais. O entendimento que Bruno tinha pois da cosmologia de Copérnico estava mais próximo de um profeta. restabelecendo o seu incomensurável fulgor. Bruno. nada assemelhando-se ao de Galileu. suponho eu. e no direito de dizer-se o que se pensa não importando o reino ou o ducado em que o acolhiam. Talvez. na tolerância. Mesmo assim foi em frente. círculos.Copérnico. mantendo-se apenas formalmente como dominicano. o grande e solene senado da ignorância disfarçada. nem recue jamais porque. a racionalista e a hermética. graças à utilização do telescópio. quadrados. Não afetou porém seu magnífico estilo e até contribuiu para evitar que fizessem dele um dogmático. enfim. um entusiasta do Discurso da Dignidade do Homem. uma espécie de sacerdote de Amon renascido na Europa do século 16. Esta sua abertura para tudo o que viesse a somar para o conhecimento fez com que ele colocasse no seu templo da sabedoria. etc. A doutrina de Copérnico Para Bruno. talvez a fazer juz ao que certa vez ele aconselhara a um admirador a quem escreveu: "Persevere. "composto por um número limitado de letras elementares em formas geométricas. e místicos diversos. pirâmides curvas. Isto fez com que seu vocabulário confundisse muitos dos seus exegetas ao lançar mão de expressões oriundas de uma ou de outra tradição. A simbologia cabalística atraiu Bruno O mago egípcio Não aderindo ao protestantismo." Servindo também estes outros caminhos como uma maneira dele encontrar escapes para a crescente opressão teológica exercida pelo catolicismo contra-reformista. Aristoteles. embebida na matemática. viu-se como um mago-hermético. Observo que este tráfico de Bruno entre a literatura clássica com a literatura hermética. com o socorro de múltiplas maquinações e artifícios. Bruno acreditava na liberdade. O seu fascínio por formas e maneiras diversas de perceber-se o mundo (interessou-se inclusive pela cabala judaica) derivou dele ver o universo. persevere! Não te desencoraje. Era. resultou de certa forma das suas leituras caóticas e vorazes feitas no Mosteiro de San Dominico. o grande astrônomo polonês ao colocar o Sol no centro do cosmos." Antecipando o livre-pensar Situando-se na tradição renascentista dos simpatizantes da magia e do ocultismo. triângulos. povos antigos. O poder da Igreja apoiado na velha concepção cósmica. restaurara a antiga deidade egípcia. de Picco de la Mirandola. onde estudou Pitágoras. que ele difundiu em incontáveis e sensacionais conferências nos meios acadêmicos europeus. que não eram considerados pelo cristianismo como merecedores de atenção. na geometria e na observação direta dos fenômenos celestes.

como lembrou Maurice de Grandillac. e tantas outras que os maus matemáticos e o beco sem saída da visão dos filósofos vulgares puderam agregar às esferas). ato I. o humanista alemão que na sua consagrada. a grande historiadora da ciência. é quem construiam muralhas imaginarias no céu. no entanto. personagem de Love's labour lost (Trabalhos de Amor Perdido). fechando-o inutilmente aos espiritos abertos. sem muito entusiasmo em seguir com rigor a disciplina que o rei. antecipando em quatro séculos a viagem dos astronautas. dizia. intrumentos e artes de tirania e assassinar um ao outro" (Ceia. da existência de uma infinitude de mundos e da possibilidade de outras vidas no cosmos (hoje mais do que consagrada pelas imagens que recebemos do telescópio espacial Huble). o náufrago da The Tempest (A Tempestade) . redobrar os defeitos mediante o comércio e agregar vícios aos vícios de cada povo. Assegurou haver movimento da Terra e a sua rotação ao redor do Sol. disse ele. 1632). era uma linguagem da natureza e não do demônio. violar as próprias pátrias das regiões. nona. reprovou a conquista da América. opinou que ela só servira "para perturbar a paz do próximo. do universo e do mundo. as artes do ocultismo eram neutras. e esgoto de toda a imundície?" (Diálogos sobre os dois sistemas do mundo.Frances Yates. decime. Anunciando os astronautas Galileu. Para escândalo dos teólogos. seu discípulo confesso. Galileu irá transformar esse paradoxo. deixou-nos uma bela descrição de um viajante imaginário que abandonasse a terra em direção às estratosferas. ottave. discorse le stelle. podendo fazer-se bom ou mau uso do seu fio. numa das suas mais sarcásticas afirmações. Como um espada. penentrando no céu. estes grandes globos" -. none. desejava impor no seu grupo de estudos. O martírio de Giordano Bruno A ironia de Galileu Muitos anos depois. faz com que desapareçam as fantasiosas muralhas da primeira. mostrando. um homem culto e estudioso. com seus tubos enfumaçados e aparelhos de ensaio (*). rejeitando o mundo fechado e finito de Aristóteles. girava apenas para atender a minúscula terra (Acerca do infinito. transitória e perecível!? Servir a isto que chamas os detritos do universo. implicava em duvidar ter Deus feito a Terra a razão de tudo. retomada por Bruno. do Trabalhos de amor perdidos) Bruno e a infinitude dos mundos Mas a irritação maior dos inquisidores e do papado derivou da convicção de Bruno. ultrapassando as margens do mundo. Tanto Moisés como Jesus eram grandes magos para ele.. ao contrário de Shakespeare. (*) Bruno. sem nenhum outro propósito que o de servir a esta Terra mutável. aos olhos de quem o nosso . pois: "Or ecco quello ch'há varcato l'aria. descortinando as estrelas. 1584). celebrava outros tantos sóis. mediante a violência impor novas loucuras e demências inéditas aonde não existem. Tanto em Berowne. eternos. isto é o Cosmos inteiro existir apenas em função da terra. nobres e perfeitos. (Ver Cena I. oitava. O cientista no laboratório de experiências Sobre a conquista do Novo Mundo. enfim. pintou o filósofo na corte de Henrique de Navarra.) Shakespeare. Via mesquinhez e mediocridade em acatar-se o princípio de que o universo que nos envolve . divinos. décima. Induzia também a que se acreditasse na existência de outros deuses. fatte svanir le fantastiche muraglie de le prime. estes animais . trapassati gli margini del mondo. como na de Próspero. confundir o que a previdente natureza distinguiu. invariáveis. Essa idéia veio-lhe porém de Nicolau de Cusa. penetrato il cielo. 1440). aquele que cruzou o espaço. que chamou Cusa de "divino". Só os matemáticos bizonhos e os filósofos vulgares. Essa afirmação. tendo o Homem como o objeto único da Criação. et altre che vi s'avesser potute aggiongere sfere per relazione de vani matematici e cieco veder di filosofi volgari" (Ora. mas então pouco divulgada obra De docta ignorancia (A douta ignorância. matematizando o céu Bruno. o filósofo não distinguia mágica boa da má. onde antecipou Copérnico. ser mais sábio o que é mais forte: ensinar novos cuidados. O mais vasto império de Deus Para Bruno porém quanto mais mundos houvesse maior ainda seria o império de Deus. dizendo não haver centro no universo e que "o seu centro está em toda parte e sua periferia em parte nenhuma". bem como o comércio de ouro e prata que se seguiu. pondo-lhe na boca um discurso hedonista. por sua volta. Citando Epicuro e Lúcrecio. Não atribui a nenhum direito especial no homem branco que o autorizasse a submeter os nativos.comportando miriades de esferas cósmicas. "estes corpos heterogeneos. rompendo com o monoteismo oficial. sentiu a imagem espelhada de Bruno em duas figuras de William Shakespeare. e outros tantos planetas. ultrapassando Copérnico.o mago bonachão italiano capaz de embasbacar nativos como Caliban. quando faz Sagredo (o próprio Galileu) dizer a Simplicio (um tolo que defende a ortodoxia e o geocentrismo): "Como assim? Estas afirmando que a natureza concebeu e produziu tantos e tão vastos corpos celestiais.

dominicano como Bruno. Esta passou para os que viviam nos países da Igreja Reformada. era também um alvo fácil. Campanella propunha em substituição ao governo estrangeiro a instalação da Cidade Mágica do Sol (que irá inspirar o seu livro La Città del Sole. inclusive sua estada em Wittemberg. enfrentavam-se dois Weltanchauungs (concepções do mundo): o Antigo. Yates supõe que Bruno esperava encontrar um ambiente mais liberal e ameno para as suas perigosas especulações e seus exercícios de magia. o de Copérnico. mudou-se em definitivo de Paris. filho da astronomia universitária moderna.planeta "incialmente parecendo-se a um astro brilhante. ao sentirem-se ameaçados pela fogueira. Os cientistas podiam acreditar que essa última Ptolomeu e Copérnico. uma esperança de tolerância Bruno e Campanella É bem possivel que outras razões. nem alto nem baixo (Sobre lo inmenso. Não pertencia a nenhuma corporação acadêmica ou ordem religiosa que intercedesse a seu favor junto à Curia Romana. entre o sagrado e o profano. dois cosmos distintos era a visão verdadeira. devido a um fator politico. e dela mesma. converte-se depois apenas num ponto luminoso perdido num horizonte sem limites". O rei Henrique IV. um renascentista dos pés à cabeça. num universo que não tinha lado. interminável. onde conderam-no à prisão domiciliar até a sua morte em 1642). Bruno foi um dos que abriu ainda que intuitivamente. para a Holanda. para a qual seria psicologicamente insuportável viver sem Deus. é bom lembrar. entre a teologia e a ciência. Em Paris. Yates cogita que a execução brutal de Bruno em Roma poderia estar de alguma forma relacionada com a insurreição napolitana. quando o Papa Paulo III oficializara o funcionamento do nefando tribunal. quando retornara da corte de Isabel da Inglaterra. da Terra. do Homem. seguido do julgamento de Galileu em 1616 (mais tarde renovado por um segundo julgamento e pela abjuração de 1633. Tommaso Campanella. geocêntrico. A rivalidade entre essas visões cósmicas escondia as crescentes diferenças entre os sacerdotes e os sábios seculares. (*)Foi o silêncio dos espaços infinitos. fatigado das incertezas e das andanças que pareciam não ter fim. Bruno arriscou. que o aguardava(*). Teria servido de advertência a qualquer tentativa futura de desafio à hierarquia e ao estabelecido. Entre tantas. Campanella. A crença no Ser Supremo era a compensação para a sua solidão absoluta. As conseqüências da morte de Bruno O suplício de Giordano Bruno em 1600. com possibilidades infinitas. um outro fadre napolitano. e o Moderno. sem os recursos da matemática e da geometria utilizados por Galileu. liderara uma rebelião dos calabreses contra o dominio espanhol em Nápoles. além da acusação de heresia. uma sociedade utópica inspirada na "República" de Platão.Henrique de Navarra. não era só dele. Em 1590 já era um homem maduro. Os sábios da peninsula. mas a Igreja sentiu-a como um rebaixamento. herdado da física astronômica helenística. nem fundo. também serviu como uma demonstração à intelectualidade em geral da determinação do Papado. Além disso. reduzida quase a uma poeira cósmica perto da magnitude do astro-rei. que dava à Terra um papel insignificante. propondo em seguida conciliar as duas religiões rivais (que configurou-se no Édito de Tolerância de Nantes de 1598). entre o espiritual e o temporal. que até então lideravam o movimento científico europeu. provocou uma irreparável desconfiança da ciência para com a religião. Um pouco antes. IV. de onde não se recolhera ainda nenhuma prova de existências extra-terrestres. perderam a primazia na luta pelo conhecimento. Ele derrotara a Santa Liga dos católicos. Um homem culto. em 1599. Talvez a Igreja relevasse os tumultos que provocara no passado. Afinal a espectativa otimista que depositara no "efeito Navarra" de se poder dali em diante "viver e pensar livremente". Pagou com a vida pelo engano. por exemplo. Ele eliminaria até um conhecidíssimo pensador se a manutenção dos dogmas assim o exigisse. heliocêntrico. chegou a passar fome e frio. as portas da percepção do homem renascentista para que ele vislumbrasse um novo universo. resta responder porque Giordano Bruno voltou a Itália? É certo que a vida não lhe corria bem. assombrosas. pesaram na decisão das autoridades de levá-lo às chamas na praça pública. capital de um país papista. Bruno. que levou mais tarde Pascal a reflexão sobre a terrível situação em que se encontava a humanidade. A tentativa de abrigar-se em Praga também fracassou. . A obra de Bruno por sua vez só foi retirada do Index dos livros proibidos aos católicos em 1948. Para a Itália resultou especialmente desastroso. escrito na prisão em 1602). Na França entronara-se um novo rei em 1589 . 3). um utópico Duas concepções cósmicas rivais Os extremos a que a Inquisição chegou no caso de Bruno. a capital da heresia (onde publicamente elogiou Lutero). As esperanças de Bruno Ainda que sabedor da atuação do Santo Oficio desde 1542. quando soube da abjuração forçada de Galileu. que referendava o Gênese biblico (a Terra é o centro do universo). Ao redor do corpo de Bruno digladiavam-se muitas coisas. Descartes.

Lisboa. Porém. 1980 Heller. H. Antiseri.El origen del Universo: teorías cosmológicas rivales. Alexandre . .Os sonâmbulos.O homem do renascimento. . Editora Aguilar.giordanobruno. 1990. Fundação Calouste Gulbenkian. ainda não tomou uma decisão favorável a Giordano Bruno.s/d.1991 Giordano Bruno na Internet: em Nápolis existe o Il Centro Internazionale di Studi Bruniani. Ibrasa. Editora Cultrix. Klaas .Galileu com sua luneta prova que a Terra se move Pairou sobre as ações da Igreja Católica um medo sombrio. Viram-na como uma instituição capaz de perseguir os doutos e os sábios caso eles ameaçassem a autoridade do Alto Clero e da burocracia papal. . Fondo de Cultura Económica.. o e-mail é segreteria@giordanobruno. Arthur . Brasilia DF. Frances . G. 1997 Yates. 1991 Shakespeare. São Paulo.it. vol II. Editorial Presença. Fondo de Cultura Económica. o Pontificam Consilium Cultura que reabilitou Johann Huss e Galileu. Reale. fundado em 1996 (http://www.História da Filosofia. universo e mundos O despacho da fera triunfante Sobre os heróicos furores De minimo De monade De immenso et innumerabilibus O martírio de Giordano Bruno Bibliografia Bruno. México.Giordano Bruno e a tradição hermética. Pietro .Galileu Herético. Agnes .La Tempestad. Lisboa. Redondi. história das idéias do homem sobre o universo.Lulio e Bruno. Lisboa. Principais Obras de Giordano Bruno 1582 1582 1584 1584 1584 1584 1585 1591 1591 1591 O Candeeiro De umbris idearum A ceia das cinzas Sobre a causa. Imagem negativa que só recentemente o Papa João Paulo II tratou de mandar reparar ao desculpar-se pela infelicidade do processo contra Galileu.Renacimiento y reforma. Companhia das Letras.Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. A Igreja Católica só deplorou a execução mas não os motivos da sua condenação. 1961 Koyré.it). I . Edições Paulinas.Ensaios reunidos. 1995 Yates. reabilitando-o em 1992. até o momento. Editora gradiva. II. Editorial Progesso. São Paulo. Universidade de Brasilia. in Obras Completas. William .Religião e ciência no Renascimento. Madri Woortmann. México. São Paulo.1984 Bondi. princípio e uno Sobre o infinito.Acerca do infinito. 1982 Koestler. e outros . Giordano . I. 1986 Grigulevich. Moscou.Historia de la Inquisicion. do universo e dos mundos. São Paulo. Frances . la contribuición italiana.

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