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Língua padrão e variedades lingüísticas

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Língua padrão e variedades lingüísticas: calos na vida do professor de português Angela Paiva Dionisio Dois grandes desafios dos

professores e dos manuais de língua portuguesa, na atualidade, parecem ser como definir a língua padrão brasileira e como tratar a variação lingüística (VL). Não se pretende neste trabalho atestar pioneirismo, mas sim tomando por base as pesquisas científicas (só para mencionar alguns Perini, 1995, Geraldi, 1996, Travaglia, 1996; Marcuschi, 1997, Preti, 1997; 1998; Possenti, 1997, 1998; Bagno, 1997, 1999, Leite, 1999) verificar se a mídia e a escola estão falando a mesma língua, uma vez que a norma da mídia vem se impondo, alterando a concepção de norma vinculada à literatura clássica. O corpus é formado por 10 artigos extraídos de revistas de circulação nacional (Veja, Época, Meio e Mensagem, Educação, SuperInteressante e Bundas) e por seis coleções destinadas aos 3º e 4º ciclos do Ensino Fundamental e recomendadas pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD)i[i], Dentre os princípios e critérios estabelecidos pelo PNLD para análise dos livros didáticos de língua portuguesa se encontra a "diversidade de variedades e registros lingüísticos". 1. As "línguas portuguesas brasileiras" na visão da mídia, da universidade e do governo. Preti (1998), na conferência intitulada "A linguagem verbal da mídia e o ensino de português", afirma que (i) a modernização dos jornais com variedade de seções e, consequentemente, leitores com interesses distintos em relação aos fatos e à linguagem que os veicula e (ii) a necessidade da televisão de "uma comunicação imediata e eficiente" com a audiência estão refletidas na linguagem empregada por repórteres, redatores, apresentadores de programa, personagens de novelas. Segundo Preti, "a imprensa é o melhor termômetro das variações lingüísticas, da incorporação de certos usos, da sua elevação à condição de norma lingüística da comunidade." Se se fizer uma pesquisa em alguns veículos da imprensa brasileira nos últimos anos, perceber-se-á claramente que a língua portuguesa tem recebido um certo destaque, conforme se pode comprovar com a citação de algumas manchetes: a) Nossa língua renasce

Os brasileiros estão tratando melhor o idioma que neste ano deu o Nobel ao escritor português José Saramago (Época, 14 de dezembro de 1998). b) Herrar é umano. Ezajerar e burrise

Uso incorreto da língua portuguesa na propaganda gera debate (Meio e Mensagem, 17 de novembro de 1997). c) Errar é divino

Por que os escritores podem deixar a gramática de lado, ao contrário dos mortais comuns (Veja, 21 de abril 1999).

Arnaldo Niskier. e a indigência vocabular tomou conta da juventude e dos não tão jovens assim. "a classe dita culta mostra-se displicente em relação à língua nacional. i) Falamos a língua de Cabral? (SuperInteressante. 5 de maio de 1999). j) Mau sinal: a corrupção chegou à linguagem (Época. e) Nobre como Camões População rural e iletrada mantém português medieval falada pelos colonizadores (Veja." (Educação. mas do prestígio e do poder de expansão da nação que a fala e da cultura associada a ela. h) O fim do português (Veja. maio/99:36). pode-se constatar que há perspectivas diferenciadas no tratamento da língua que se usa no Brasil. maio de 1999). f) Professor caga-regra (Bundas. abril de 2000). O prestígio e a capacidade de expansão de uma língua seriam resultado não de estratégias de defesa.d) PORTUGUÊS. Para ilustrar estas posturas. Castilho assegura que "a questão da defesa da língua é uma falsa questão. Numa análise superficial destas manchetes. Ataliba de Castilho. Julho de 1999). língua estrangeira (Educação. abril de 2000."(1998:6). Preti (1997:17) afirma que havia uma expectativa de se encontrar nas gravações do Projeto da Norma Urbana Lingüística Culta do Brasil (Projeto NURC) a presença de uma linguagem culta. abril de 2000). Há pelo menos duas visões contrastantes: a daqueles para quem a língua portuguesa está sendo massacrada e exterminada e a daqueles para quem as mudanças ocorridas na língua portuguesa falada e escrita no Brasil resultam de fenômenos lingüísticos naturais e peculiares a qualquer língua viva. julho de 1999). ou seja. uma vez que ninguém estaria atacando a língua portuguesa. quase como se aqueles se orgulhassem de sua própria ignorância e estes quisessem voltar atrás no tempo. g) Erro de Português não existe (Educação. . Para Niskier. vejamos a opinião do presidente da Academia Brasileira de Letras. e a opinião do professor e pesquisador da língua portuguesa. aquela marcada pelas regras da gramática normativa.

com o do falante urbano comum. (2) brasileiro não sabe português/só em Portugal se fala bem português. jornais. destacando as posições de Monteiro Lobato e Mário de Andrade. falantes nativos da língua portuguesa. O Ministério da Educação. pois "se pretendêssemos encontrar um discurso que revelasse marcas mais constantes e uniformes do nível de escolaridade do falante culto. interpessoal." Leite (1999:242) esclarece que "o purismo é um fenômeno lingüístico e como tal existe e se manifesta em todas as épocas." Destacam também que "em um mesmo espaço social convivem mescladas diferentes variedades lingüísticas." Para o autor. pois apesar das situações de interação serem gravações conscientes. as polêmicas lingüísticas revelam ter vigorado naquela fase a certeza de que a língua portuguesa devia ficar fixada no período clássico. (. um purismo heterodoxo". (6) O certo é falar assim porque se escreve assim. (5) o lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão. quando são.) no começo do século. Os brasileiros. Marcuschi (1997:52) chama atenção para o fato de que “não temos uma noção muito clara do que seja lidar com a variação intercultural. são objeto de avaliação . representado pela atualização da língua padrão adequada ao uso brasileiro. (7) é preciso saber gramática para falar e escrever bem e (8) o domínio da norma culta é instrumento de ascensão social. monitoradas por um documentador. através dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998:31). isto é. Podemos dizer que ele é um efeito da natureza funcional da linguagem. e um refluxo conservador. e assegura que "há hoje um fluxo inovador. (4) as pessoas sem instrução falam tudo errado.. representado pela resistência a alguns desses usos. "os inquéritos acabaram revelando um discurso que se identificava. só poderíamos surpreendê-lo em situações formais. reconhecem que no Brasil "quando se fala em 'Língua Portuguesa' está se falando de uma unidade que se constitui de muitas variedades. A perpetuação desses mitos é atribuída pelo autor a "um círculo vicioso" formado pela gramática tradicional. Porém. desse modo. revistas e programas de televisão brasileiros reforçam o julgamento das variedades lingüísticas existentes em nosso país. pela prática de ensino e pela indústria do livro didático. como.. (. Pratica-se. Essas diferenças não são imediatamente reconhecidas e. consideradas inferiores ou erradas pela gramática". na maioria das vezes.. geralmente associadas a diferentes valores sociais". o grau de escolaridade ajuda mas não é suficiente para identificar o discurso do falante culto.visto que os informantes do referido projeto tinham formação universitária. Além das reportagens veiculadas na mídia. tido como o de maior esplendor e beleza". ao apresentarem seções que pretendem ensinar "o certo e o errado".. entre outros. logo nas análises iniciais. acontece com as elocuções formais gravadas pelo Projeto. tensas. Reconhecer a existência da variação é conceber “a língua como heterogênea e não monolítica e homogênea”. reconhece as variedades lingüísticas existentes no Brasil e o preconceito "decorrente do valor atribuído às variedades padrão e ao estigma associado às variedades não-padrão. (3) Português é muito difícil.) A variação intriga e instaura diferenças que quando não bem-entendidas podem gerar discriminação e preconceito”. são vítimas diárias de mais um tipo de preconceito: o lingüístico. considerando a variação como um traço constitutivo das línguas humanas. Bagno (1999) enumera oito mitos do preconceito lingüístico: (1) a língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente. seu grau universitário. de certa forma. Em seu estudo. os resultados foram "inesperados e até contraditórios". Leite (1999:243) configura as fases do purismo lingüístico no Brasil. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998:82).

Tive uns problema e num tinha mi insinassi. Por que Rodrigo fala diferente da professora? Resposta do Manual do Professor: Pessoal. Rodrigo queria morrer. virar inseto e voar. sumir.negativa. Nem acabou a frase e dona Marisa berrou: — Repita: eu trouxe. apesar de afirmar que "as línguas não são imutáveis. refletem as diferenças entre os grupos de falantes e as diversas situações em que a fala ou a escrita ocorrem"(C3).. vermelho e gaguejando.) E não apenas por uma questão metodológica: é enorme a gama de variação e. pois sofrem alterações" e que "as línguas também não são uniformes. cumprindo a promessa de cobrar. Uma escola assim eu quero para mim. Elias José.. — — E por que não conseguiu? — perguntou dona Marisa. Agora responda. Leio o diálogo dele com a professora. não é tarefa simples dizer qual é a forma padrão (efetivamente. 1993. a) A língua reflete as diferenças entre os grupos de falantes. — Rodrigo. a escola precisa cuidar para que não se reproduza em seu espaço a discriminação lingüística. Além disso. furiosa. FTD. sem tecer nenhum comentário sobre os risos dos alunos ou sobre os berros da professora. A sala morria de rir. ainda que haja situações de fala orientadas pela escrita" (PCN. Rodrigo veio do sítio para a escola doidinho para aprender e descobrir os segredos que havia no encontro das letras. —Eu truce. mas o di onti eu num consegui. os padrões próprios da tradição escrita não são os mesmos que os padrões de uso oral. O referido documento alerta ainda para o fato de que "frente aos fenômenos da variação. propõe uma atividade em que o fragmento de texto utilizado evidencia uma atitude preconceituosa dos personagens (os demais alunos e a própria professora) em relação ao aluno que fala numa variedade diferente da que a professora usava. em função dos usos e das mesclas constantes. mas tremendo. trouxe os exercícios da semana passada? Perguntou ela. Uma das coleções analisadas. os padrões também são variados e dependem das situações de uso).. São Paulo. não basta somente uma mudança de atitudes. mas o de ontem não consegui. (C3) ii[ii] 5. b) Você acha que Rodrigo deve aprender a falar e a escrever na linguagem culta? Por quê? .. Rodrigo repetiu certinho.1998:82). (. Mencionar a existência das variedades lingüísticas não é sinônimo de respeitá-las.

ficando a resposta por conta do aluno (cf. apresenta um estudo (breve) sobre Regionalismo. perguntas 4 e 6). duas propostas de atividades. na seção destinada à compreensão. podemos mencionar o estudo sobre Regionalismo. de Silvia Figueiredo Brandão. solicitando atividades de (i) identificação de expressões da língua não-padrão e/ou da classe social a quem pertencem os personagens que falam no texto e (ii) reescritura de expressões ou de fragmentos textuais. 3. Três das coleções analisadas (C1. ao qual se seguem as questões que podem ser classificadas em perguntas objetivas. geralmente. Outra coleção (C4). 4. aquelas que têm a ver com o texto de maneira apenas superficial. as diastráticas. C2. basicamente. reservam os dois capítulos iniciais destinado a 1ª série do 3° ciclo (antiga 5ª série). intitulada Brasilidade. preferencialmente. seguido por perguntas de compreensão e de identificação e reescritura de VL. perguntas de 1 a 4) e perguntas subjetivas. 2." (p. as variedades lingüísticas mais focalizadas são. pois há um fragmento (pequeno) do livro "A geografia lingüística no Brasil". E é justamente ao apresentar o conceito de língua que se insere o tópico variedade lingüística. aquelas que indagam sobre o conhecimento objetivamente inserido no texto numa atividade de mera decodificação (cf. As variedades lingüísticas nos manuais de ensino: De acordo com a análise realizada.Resposta do Manual do Professor: Pessoal. as diatópicas. que são (i) a apresentação de um texto sobre VL acompanhado por perguntas de compreensão e (ii) na utilização de um texto com VL. na 6ª unidade do volume dedicado à última série do 4° ciclo (antiga 8ª série). Só conseguiremos isso com a prática da leitura e da escrita. Por que podemos afirmar que cada falante é ao mesmo tempo usuário e agente modificador de sua língua? O que é variedade lingüística? O que determina a variação lingüística? Por que. por exemplo. A formulação de conceitos se processa mediante. prazer e segurança. As C5 e C6 focalizam a VL em exercícios relacionados com os textos utilizados. os analfabetos se essa concepção de língua fosse verdadeira? 2. de editoras diferentes. ao apresentar a noção de língua e (ii) aborda-se o mecanismo das variações com questões mínimas inseridas na abordagem textual.33). Como ficariam. aos assuntos comunicação e língua. de uma época para outra. há grandes contrates na utilização da Língua Portuguesa? . respectivamente. de região para região. Outro aspecto negativo é a inadequação do conceito de língua que norteia a coleção: "a língua é o principal instrumento de comunicação entre as pessoas de uma sociedade e deve ser usada com desembaraço. (C4) 1. Quanto às formas que norteiam o estudo das variedades lingüísticas em nossos livros didáticos de língua portuguesa percebe-se que (i) aborda-se as variações em unidades específicas do LD. Para ilustrar o primeiro caso. no Brasil. de um grupo social para outro e as diacrônicas. C3).

você. 6. "tomá". de Maurício de Souza: (Texto do diálogo que está na tirinha) — — — Toma um leite Zé Lelé? Pru que ocê tá rasgando a manga da camisa? Dizem qui tomá leite cum manga faiz mar! 1. ou seja.5. as mesmas preferências. b) Apesar disso. no meio rural. Chico Bento conversa com seu amigo Zé Lelé. faz mal . principalmente as dialetais. De acordo com a norma padrão. um tipo de português falado em certas regiões do país. como deveríamos escrever as palavras e expressões "pru que". seguido de algumas questões: (C1) As variantes lingüísticas Construindo o conceito Leia esta tira. Nessa tira. 2. a) Onde se fala esse tipo de variante lingüística: na zona rural ou nos centros urbanos? Resposta do Manual do Professor: Ela é falada no interior de alguns Estados. ocê". "faiz mar"? Resposta do Manual do Professor: por que. tomar. que aprendemos na escola. os brasileiros em geral são capazes de compreender essa conversa? Resposta do Manual do Professor: Sim. enriquecerem mais seu vocabulário se conversarem com outras que possuam a mesma escolha vocabular. Qual a sua opinião sobre o preconceito lingüístico? Você acredita que as pessoas podem aprender mais. a mesma pronúncia e entonação ou se observarem falantes que utilizam a língua de maneira diferente? A segunda forma empregada para a construção do conteúdo consiste na utilização de um texto curto (ou fragmento de texto) em que haja uso de variedades lingüísticas. Observe que eles se comunicam fazendo uso de uma variante lingüística. as diferenças não chegam a impedir a compreensão.

encontram as seguintes questões: (C6) 1. Umas podem. 2. • utilização farta de fotografias. • sensacionalismo. fez a chamada para uma notícia sobre um acidente: Três patetas dão vexame no trânsito O jornal Notícias Populares. Após um fragmento de Capitães de Areia. 3. 1996:125). se destina a atingir um grande número de leitores. Pela linguagem das personagens. . alguns recursos são utilizados: • manchetes chamativas. aqueles que solicitam a observação de características de cada variedade. como por exemplo: (C5) Observe como o jornal Notícias Populares. Dê exemplos que comprovem essa afirmação. há um diálogo entre Pedro Bala e Dora. • utilização de uma linguagem simples e direta. Estes tipos de exercícios não são exclusivos das C5 e C6. Um aspecto importante na formulação dos exercícios. praticamente. parece haver uma tendência em recorrer a exercícios de gramática de uso. na seção denominada Exploração (questões ou propostas que levam à leitura e compreensão do texto em profundidade e englobam conteúdo. reside na efetiva contribuição que as atividades podem oferecer ao aluno em relação à reflexão e à apreensão das variedades lingüísticas. como seu próprio nome indica. aqueles que solicitam a passagem de forma para outra. e a exercícios de gramática reflexiva. Escolha um trecho do diálogo e reescreva-o em linguagem padrão ou culta.Quanto às coleções que partem da utilização de exercícios. estão presente. O texto registra um diálogo na linguagem coloquial. no interior do jornal. quer de fixação quer de introdução do tema. em todas as coleções analisadas. como demonstra a atividade extraída da C6. fazer com que o aluno atente para "a condição de uso de formas que são esperadas e adequadas em diferentes tipos de situações que terminam por configurar em nossa sociedade (Travaglia. realmente. identifique a classe social a que pertencem e justifique. Tomemos para ilustrar apenas as atividades de reescritura. • exploração de fatos policiais e esportivos. Para isso. pode exemplificar melhor as características da linguagem informal. estrutura e discurso). em sua primeira página. ao contrário. O texto. No texto.

4. firme? — Firme. um desses políticos de palácio chega bem perto e surpreende o governador vendo televisão. Outras atividades. embora falem a mesma língua.. revelam não só erros conceituais como inadequação metodológica. 18 ago. pertencem a grupos sociais diferentes. Novela! a) Qual o código usado entre o político e o governador? Resposta do Manual do Professor: A língua falada. explique o seu significado. Leia a piada e responda às perguntas: Aquele homem humilde. no entanto. Em seguida. Depois. Liste as gírias usadas no texto. além de veicular informações erradas. sotaque caipira. simples. O último a bater foi um Monza. A trapalhada começou quando Marcelo Zanini perdeu a direção de seu Escort e encheu o buso. . c) Classifique a linguagem dos dois falantes. não. O ônibus estava parado no canteiro central quando aconteceram as trombadas. Faz sua média: — E aí governador. afirmar que não existe comunicação entre pessoas de classes sociais diferentes: (C3) 1. b) Houve comunicação entre eles? Por quê? Resposta do Manual do Professor: Não houve comunicação entre os dois porque. 1994 Exercícios 3. Reescreva a notícia dirigindo-a a um outro tipo de leitor e usando uma linguagem mais formal. Um dia.Três patetas enchem traseira de buso parado Três carros bateram na traseira de um buso da viação São Geraldo ontem de madrugada na Marginal Pinheiros. como por exemplo. O caso mais grave encontrado foi uma proposta em que não se respeita a relação existente entre VL e as características textuais. Notícias Populares. foi eleito governador.. Ninguém se feriu. um Kadett tentou desviar e porrou.

. deve ser de outro modo. (C5) No texto de cordel aparecem com freqüência marcas da linguagem oral. o verbo dar por superar. Foram registradas outras inadequações. nem negar o preconceito existente na piada.Resposta do Manual do Professor: O político usa a linguagem culta. mas não se pode descartar o gênero textual no processo de análise textual.. em uma linguagem formal (padrão) apropriada para textos informativos e científicos. minha velha. em textos formais. pertencem a grupos sociais diferentes". a piada exige que o leitor identifique dois sentidos para o termo "firme": cumprimento informal e variante popular de "filme". "Deixe de ser boba. que estão em linguagem informal... pois seria negar a piada em si. . mantendo o sentido que têm no texto. Dê alguns exemplos desse tipo de linguagem. Na realidade. mas que na forma escrita. há sem dúvida o uso de variedade lingüística. substitua. Escreva na linguagem padrão (culta) as seguintes expressões. vó. 2. a palavra beiço por lábios. embora mais "leves" do que a acima mencionada. como já afirmou Possenti (1998:25-26). Quero apenas chamar a atenção para a necessidade de se atrelar adequadamente nas propostas de atividades os domínios de linguagem aos gêneros e tipos textuais. ". e o governador. a popular. Reescreva os trechos abaixo. Para isso. As piadas. Faça outras substituições necessárias para alcançar a formalidade na linguagem exigida pela norma culta na escrita. são textos que envolvem temas socialmente controversos e que operam com estereótipos. Na realidade. os exercícios acima propostos desconsideram a natureza textual da piada e orientam inadequadamente professores e alunos na leitura do texto ao afirmar que "não houve comunicação entre os dois porque.. embora falem a mesma língua." "Se é!' "E pra quê? '" Oi. o verbo ter por haver ou existir. . Na piada acima.. por exemplo. né. O convite é um texto de teatro e por isso apresenta muita linguagem coloquial. utilizada freqüentemente. tema tratado na unidade em que se encontra o exercício. Tratase de uma linguagem informal. porém não menos "ofensivas metodologicamente": (C6) Níveis de linguagem 1. Não quero com isso negar a caracterização do governador como ignorante e caipira.

"Oi. em seguida. No primeiro caso. por exemplo. c) Da forma que vou deixar-te Não vale a pena viver Porque teus próprios amigos Custarão te conhecer ]corto-te o beiço de cima faço sorrir sem querer. ao dizer no padrão. pois o LD afirma. quer sejam formais ou informais. vó?" não manteremos. As VL estão relacionadas com a fala dos personagens e com as situações de interações. a orientação dada (Reescreva os trechos abaixo. objeto de várias pesquisas. pois se constatou que consiste apenas numa diferença nas variedades da língua portuguesa falada no Brasil (ter) e em Portugal (haver). corretamente. que estão em linguagem informal. Alguém ." Se o cordel não é um texto informativo ou científico por que solicitar tal atividade que não respeita as peculiares dos tipos e gêneros textuais? O fato da reescritura abarcar exercícios da gramática de uso e da gramática reflexiva não lhe assegura a automatização das normas da língua padrão. que "no texto de cordel aparecem com freqüência marcas da linguagem oral" e. Não é o uso de linguagem coloquial que define o gênero textual. não possui mais obrigatoriedade de uso. o mesmo grau de intimidade demonstrado pelos personagens do texto original. em uma linguagem formal (padrão) apropriada para textos informativos e científicos) traz pelo menos dois problemas: um de erro conceitual. O emprego do verbo ter por haver ou existir. minha velha" ou "né. solicita que sejam reescritos trechos do cordel. por exemplo. Já no segundo exemplo. há um erro conceitual ao caracterizar o texto "O convite" como teatral por "apresentar muita linguagem coloquial". ou seja. provavelmente. pois alterar a linguagem de informal para formal descaracteriza o gênero cordel e outro de inconsistência teórico-metodológica. "em uma linguagem formal (padrão) apropriada para textos informativos e científicos. Retomemos três propostas de reescritura já mencionadas e observemos que tais atividades carecem de uma sistematização de usos da língua em funcionamento.a) b) Em Natal já teve um negro chamado Preto Limão. Era um negro inteligente Por toda parte que andava Já dizia abertamente Que nunca achou um cantor Que lhe desse no repente.

fosse apresentada ao aluno uma situação em que ele pudesse confrontar as formas do padrão com as formas do não-padrão e chegar a formular as regras que norteiam as variedades da língua. "Deixe de ser boba. sugerindo que devamos nos fazer as seguintes perguntas: "o que é ensinar português? Que objetivo pretendemos alcançar com nossa prática em sala de aula?" (Bagno. BAGNO. São Paulo: Contexto. mantendo o sentido que têm no texto. De acordo com a norma padrão. .poderia ainda alegar que exercícios do tipo solicitado em C1 auxiliaria a sanar problemas ortográficos. 1999. (C1) 3. "tomá". M. minha velha. que aprendemos na escola. 1999:117). como por exemplo a C5. M. Escreva na linguagem padrão (culta) as seguintes expressões. o verbo ter por haver ou existir. como deveríamos escrever as palavras e expressões "pru que". A língua de Eulália. a palavra beiço por lábios. por exemplo." "Se é!' "E pra quê? '" Oi. . substitua. (C6) 2. São Paulo: Loyola.. poderia e seria mais eficaz se ao invés da simples reescritura na norma padrão.. É ainda este autor que nos alerta para a necessidade de uma mudança no ensino... né. Preconceito lingüístico. pois há coleções que apresentam inconsistência nas propostas. 1997. parece que os autores de manuais didáticas estão ainda "acertando o passo" no estudo das VL. o verbo dar por superar.. você. tomar. ". faz mal (C5) Para isso. que ao mesmo tempo em traz uma atividade como reescritura do jornal Notícias Populares. Referências Bibliográficas: BAGNO. Acreditamos que as pesquisas nas áreas da Sociolingüística e da Lingüística Textual serão de grande utilidade para aqueles que escrevem livros didáticos e que desejam romper com o ciclo vicioso mencionado por Bagno (1999). Concordo. traz também esta de reescritura do Cordel. "faiz mar"? Resposta do Manual do Professor: por que. ocê". Em síntese. vó...

M. 1996. U. pp.BRASIL. C2. . PRETI (org. S. Os humores da língua. iii [i] Coleções analisadas destinadas aos 3° e 4° ciclos: C1. São Paulo:Scipione. Brasília. Na ponta da língua inculta e bela. In: O discurso oral culto. Gramática descritiva do português. Mercado de Letras. 64-82. D. POSSENTI. GERALDI. J. Marília. W. PRETI. C4. W. W. O texto na sala de aula. UNICAMP. Humanitas/FFLCH/USP. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa. IEL. NISKIER. São Paulo. São Paulo. 1996. S. LEITE. ALB: Mercado de Letras. pp. T. 1995. p. A. L. 1997. & Magalhães. Exercícios de compreensão ou copiação nos manuais de ensino de língua?. D. C. Cortez. Campinas. C. do Brasil S/A C5. Interação e Transformação: língua portuguesa. & Infante. M. R. 1997. S. 1998. em maio de 2000. Azevedo. 1996. 1996. 1998. ALB: Mercado de Letras. Ática. Por que (não) ensinar gramática na escola. Português: linguagens. 1997. Análise. n° 69. Jornal da Fundação. E. jul. & Medeiros. Cereja. Metalinguagem e discurso: a configuração do purismo brasileiro. Palavras e Criação: língua portuguesa. Bourgogne. São Paulo. 1998. Campinas. Linguagem e Pensamento. C3. C6. L.98. A . M. A. TRAVAGLIA. 1998. 1996. & Hailer. Tiepolo. Nicola. POSSENTI.). na Universidade de Évora. Ática. PERINI. L. Revista Em Aberto. Cócco. Palavras & Idéias. 1996. Secretaria de Educação Fundamental. São Paulo:Ed. Linguagem e ensino: exercícios de militância e divulgação. J. Concepção de Língua Falada nos manuais de português de 1° e 2° graus: uma visão crítica. MARCUSCHI. São Paulo.FFLCH/USP. São Paulo:Atual. (org). 1995.. São Paulo. São Paulo: FTD. 1999. Humanitas Publicações . Curitiba:Módulo. Linguagem e Interação. L. São Paulo: FTD. 1998. Q. D. MEC/SEF. A propósito do conceito de discurso urbano oral culto: a língua e as transformações sociais. Trabalho apresentado no Congresso Internacional “500 Anos da Língua Portuguesa no Brasil”. São Paulo.6. Revista Trabalhos em Lingüística Aplicada. J. & Silva. M. Gregolin. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramáticas no 1° e 2° graus. GERALDI.17-27. MARCUSCHI.

iv [ii] A numeração dos exercícios correspondem a numeração original. .

São Paulo:Scipione. & Silva. C6. C2. Azevedo. Linguagem e Pensamento. São Paulo:Ed. 1998. Cereja. & Infante. Análise. L. do Brasil S/A C5. Português: linguagens. C3. & Magalhães. W. C. & Hailer. Tiepolo. Curitiba:Módulo. 1996. E. Bourgogne. R. S. Nicola. Gregolin.. São Paulo: FTD. U. & Medeiros. iii iv . 1995. São Paulo:Atual. Palavras & Idéias. M. Cócco. 1996.i[i] Coleções analisadas destinadas aos 3° e 4° ciclos: C1. Interação e Transformação: língua portuguesa. C4. M. ii[ii] A numeração dos exercícios correspondem a numeração original. 1998. D. T. Palavras e Criação: língua portuguesa. São Paulo: FTD. 1998. J. Linguagem e Interação.

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