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Lopes da Mota vai de carrinho?

Um novo folhetim acaba de se abrir tendo como palco algum antagonismo


entre o poder judicial e o governo, com Sócrates, ansioso e discreto, a
espreitar atrás da cortina.

Como parece evidente, um tal Lopes da Mota, ex-secretário de Estado do


governo Guterres, encomendou aos dois responsáveis pelo processo
Freeport, que declarassem o dito processo prescrito, como é óbvio, a pedido
de alguém bem colocado e especialmente interessado no assunto que tudo
indica terá sido o Alberto Costa, o ministro de Justiça, cujos méritos
dificilmente lhe permitiriam chegar ao nível dum director de serviços.

A classe dos magistrados procura manter a sua autonomia na análise


técnica e na condução dos processos porém, naturalmente, há no seu seio
quem tenha ambições extra-judiciais e, portanto tenda a conluiar-se com o
partido-estado, PS/PSD. É o caso do referido Lopes que tem vivido bem, em
Haia, no coração da Europa rica e elegante, em contactos de alto nível,
filtrando os contactos entre as instâncias policiais e judiciais portuguesas e
das congéneres europeias, numa tal Eurojust que pouca gente conhecia. O
Lopes tem vivido longe cá da paróquiane longe de canseiras, do trabalho
chato de analisar, de processos e depoimentos muitas vezes de lana
caprina.

Para quem acreditar no Pai Natal, o Lopes, para quebrar a modorra do seu
trabalho burocrático, decidiu mostrar serviço ao partido e deu conselhos
mais ou menos insinuantes aos dois magistrados do caso Freeport, estando
portanto, o ministro Costa e o seu querido lider afastados dessa iniciativa
em que, por mero acaso, o primeiro-ministro está bastante interessado. E
há, claro está, quem pretenda, montar uma campanha negra contra o pobre
Lopes, por ter usado os santificados nomes do Sócrates e do seu ajudante
Costa, para convencer os dois magistrados. Decerto que algum invejoso
quer colocarr o Mota num carrinho, para uma comarca obscura, sem
notoriedade, ou para um daqueles postos obscuros mas onde a paga é
generosa.

Seja como for o magistrado da Mota ou foi desastrado, demasiado


convencido dos poderes da sua posição ou conhecia mal os dois colegas a
quem tinha de fazer a encomenda; e estes, não foram de modas e fizeram
com que o da Mota se estatelasse no asfalto.

A PGR deve estar farta das pressões governamentais e dos media para
conseguir resultados da inerte máquina judicial e desta vez, imagine-se vão-
lhe pedir para não produzir resultados! Por outro lado, o governo tem
desagradado a magistratura, por exemplo, com a reestruturação do mapa
judicial. E então a PGR pretenderá dar um sinal ao governo para se conter,
apanhando, isolando e ameaçando de sanções um seu funcionário, o já
referido Lopes que de Mota ainda anda, com salpicos que deixam
encharcado Sócrates e o seu gang. Para mais em campanhas eleitorais.

O processo disciplinar ao Lopes pode desembocar numa suspensão. Mas,


(ou as coisas não envolvessem juizes), o processo pode eternizar-se, entre

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referências a acórdãos e tiradas em latim, despachos e recursos, segredos e
violações do mesmo, até haver qualquer desenlace, conforme informa, hoje,
o Diário de Notícias:

As próximas etapas da "série Lopes da Mota" são as seguintes: o


mesmo inspector que fez a averiguação preliminar vai transformar o
relatório final numa acusação. A nota de culpa será enviada a Lopes
da Mota que, além de responder, pode indicar testemunhas e
requerer novas diligências. Terminada esta fase, Vítor Santos Silva
envia o processo disciplinar para o CSMP. Neste órgão, um dos 19
conselheiros ficará responsável pela elaboração de um acórdão com
uma proposta final de sanção, que tanto pode coincidir com a do
inspector como também pode ser menor ou maior. Cabe a uma
secção disciplinar do CSMP determinar a pena final.

Mas o inquérito disciplinar não termina por aqui. Caso (sobretudo se


for condenado) o presidente do Eurojust não concorde com a decisão,
ainda pode recorrer para o plenário do Conselho e ainda para o
Supremo Tribunal de Justiça.

Tendo em conta toda esta tramitação prevista na lei, tudo à volta do


caso Freeport deverá ficar em segredo por mais um ano.: a
investigação criminal está em segredo de justiça até Junho de 2010.
Um relatório feito pelo Departamento Central de Investigação e
Acção Penal e entregue ao Procurador-geral da República sobre o que
foi feito (ou não) nos últimos quatro anos está em segredo de justiça,
segundo disse a PGR ao DN.

O processo disciplinar ao presidente do Eurojust, Lopes da Mota,


confirmado ontem por Pinto Monteiro, é, segundo a Procuradoria, de
"natureza confidencial até à decisão final".

Claro que antes das próximas eleições nada irá haverá de substantivo,
sobrando como incógnita o número de actos eleitorais que irão ocorrer até
haver um desfecho.

O maior ou menor arrastamento do caso Lopes da Mota dependerá também


de outros factores. O sentido de corpo entre os magistrados ir-se-á sobrepor
aos desejos de punição do Lopes? Tudo se resolverá num duelo de garfo,
num restaurante chique, entre um alto mandarim e um alto magistrado,
para que ninguém perca a face?

É ridículo e ilícito esperar que os juizes, como qualquer grupo profissional


sejam eunucos políticos. Essa não é a questão, o problema é o seu
envolvimento na acção partidária, a sujeição a pressões provenientes do
partido-Estado de onde podem vir prebendas, cargos, promoções, como
toda a gente sabe, à custa da isenção na aplicação da justiça. Se Sócrates
distinguiu juizes, militares e polícias como “órgãos de soberania” afastando-
os da possibilidade de despedimento abertas aos restantes funcionários
públicos, isso foi uma forma de os procurar domesticar como auxiliares dos
negócios e da manutenção do Estado cleptocrático.

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Esta não é a primeira evidência das relações entre magistrados e o partido-
Estado. Logo no início do caso Casa Pia é pública a procura infrutífera pelo
ex-magistrado João Pedroso, conhecido socratóide, alcunhado de “O
fotocopiador”(1), de um procurador chamado Guerra para que este evitasse
a prisão, em 2003, do mano Paulo, acusado de pedofilia. Por outro lado, o
juiz corajoso que condenou o consagrado Valentim foi colocado na Madeira,
do mesmo modo que se assistiram a diversas mudanças no caso Casa Pia.

Porque essa ligação com o PS/PSD é incómoda para os magistrados, António


Martins, presidente da Associação Sindical dos Juizes Portugueses afirmou,
em Novembro último, ser obrigatório que "a dependência do poder político,
nomeadamente executivo, seja diminuta" e que os juizes "rejeitem a
participação em órgãos de disciplina do desporto profissional, mas também
em cargo de estrita confiança e dependência política".

Em breve vai colocar-se essa questão com o actual ministro da


Administração Interna. Onde irá ele passear a sua cara de parvo quando sair
do governo? Vai voltar à magistratura e, se o fizer, é natural que haja
dúvidas sobre a sua isenção; ou, para contentar toda a gente, arranjam-lhe
um lugar qualquer como mandarim ou comissário numa Eurojust qualquer.

É evidente que o poder precisa de uma magistratura, mansa e obediente,


que faça aplicar as leis agilmente em benefício do capital. Mesmo quando a
lei materialmente não distingue os cidadãos, apontando para um cidadão
abstracto, “médio”, à magistratura é exigido que proceda à descodificação
das regras e das leis que vigoram para os cidadãos em geral ou, que
colabore com a parte mais forte na litigância, estabelecendo assim, duas
normas. Uma, rigorosa, aplicável, de modo implacável aos pobres e aos
trabalhadores; e outra, flexível, compassiva e dúbia, aplicável,
benevolentemente, aos ricos, aos mandarins e outros vigaristas.

Para que essa distinção se efectue de modo efectivo e permanente é


importante a domesticação do aparelho da justiça, através de três
instrumentos:

• A produção legislativa e regulamentar compete de facto ao governo,


entidade gestora dos interesses do capital, dos ricos e dos poderosos, o
que transforma o aparelho judiciário, de facto, num corpo técnico
vocacionado para a sua aplicação estrita e burocrática, complementando
e dando continuidade à satisfação dos interesses de quem patrocina a
produção legislativa e regulamentar, seja o governo ou quem este
representar;

• As instâncias superiores do aparelho judiciário (Conselho Superior de


Magistratura, Tribunal Constitucional, incluindo o tal Eurojust e outras
instâncias) estão infestadas de gente dos partidos dominantes que,
naturalmente, procedem à mediação entre o aparelho e o governo;

• Finalmente, o poder político tem a sensibilidade, a habilidade de cortejar,


diferenciando salarialmente e nas regalias, o corpo judicial,
relativamente aos restantes trabalhadores da função pública, adulando-o
com a ideia formal de que constituem um “órgão de soberania”, abrindo

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os braços à cooptação de uns e garantindo a complacência, o silêncio ou
o receio da maioria dos seus membros.

Neste contexto, a ideia clássica dos três poderes – legislativo, executivo e


judicial – constitui uma fábula ou, mais, objectivamente, uma farsa montada
pelo poder económico e mediada pelo mandarinato. E o empobrecimento
geral, derivado da concentração económica, no quadro das actuais
dificuldades de acumulação, obriga a um controlo mais obsessivo da
sociedade por parte das oligarquias com o vincar do carácter cada vez mais
restritivo e repressivo da vida da multidão. Assim, esperar a independência
dos tribunais, sem o seu enquadramento num quadro de mudança
qualitativa do ordenamento político e económico, sem colocar em causa as
estruturas capitalistas é uma forma simplista e enganadora das reais
possibilidades de mudança libertadora dos trabalhadores da teia da
democracia de mercado.

(1) O indivíduo ficou com este epíteto depois de ter recebido mais de
300 mil euros por um eminente trabalho jurídico encomendado por
um ministro e constituído por alguns caixotes de fotocópias de
legislação.

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