----------------------- Page 1----------------------ANAIS DO EVENTO E CADERNO DE RESUMOS São Luís-MA 2010 ----------------------- Page 2--------------------------------------------- Page 3----------------------Simpósio Internacional de Estudos Caribenhos

(6.:2010: São Luís, MA). Territorialidades e influências afro-caribenhas nas Américas: Cade rno de resumo e Anais/Organização: Carlos Benedito Rodrigues da Silva.- São Luís: Edufma, 20l0. 356p. 1.Identidades – Afro-caribenhas 2. América Latina-História I. Título CDD 301 CDU 316.7(6:729) ISBN 9788578621568 ----------------------- Page 4----------------------REALIZAÇÃO: Universidade Federal do Maranhão Universidade Estadual do Maranhão Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros-NEAB-UFMA Associação Maranhense de Pesquisas Afro-Brasileiras – AMPEAFRO Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB COMISSÃO ORGANIZADORA Prof. Dr. Carlos Benedito Rodrigues da Silva - Presidente (UFMA) Prof. Dr. Leonardo Alvares Vidigal - Vice Presidente (UFMG) Profa. Dra. Olga Cabrera (UnB) Prof. Dra. Maria Tereza Negrão de Melo (UnB) Profa. Dra. Isabel Ibarra (UFG) Profa. Dra. Maria Antonieta Antonacci (PUC/SP) Profa. Dra. Maria Bernadette Velloso Porto (UFF/RJ) Prof. Dr. Alecsandro José Prudêncio Ratts Prof. Dr. Álvaro Roberto Pires Prof. Dr. Danilo Rabelo (UFG) Prof. Dr. Jaime de Almeida (UnB) Prof. Dr. Tarcisio Ferreira Prof. Ms. Maria Suely Dias Cardoso Prof. Ms. Marluze Pastor Santos Profa. Ms. Maria da Guia Viana Profa. Ms. Maria Suely Dias Cardoso

Profa. Ms. Maristane Sousa Rosa Prof. Ms. Kavin Dayanandan Paulraj Prof. Ms. Reinaldo dos Santos Barroso Junior Profa. Esp. Carla Georgea Silva Ferreira Profa. Esp. Rodvania Silva Frazão Profa. Fernanda Lopes Rodrigues Prof. Marcelo Nicomedes Prof. Richard Christian Pinto dos Santos Carlos Eduardo Dutra de Aguiar Cristiano Sousa Correia Grace Kelly Silva Sobral Souza José Ribamar Nascimento Karlana Bianca Matos Sousa Lurdeane Santos Mendes Rayssa Bianca Correa Macedo Roberto K-zau 4 ----------------------- Page 5----------------------SUMÁRIO 1. APRESENTAÇÃO................................................................ ............................................ 06 2. MESAS REDONDAS.......................................................... ............................................. 07 3. EIXOS TEMÁTICOS........................................................... ............................................ 12 3.1 ARTES VISUAIS LITERATURA E MÚSICA......................................... ....................... 12 3.2 3.3 DIREITOS HUMANOS E NOVAS CONCEPÇÕES DE CIDADANIA........................ 21 GÊNERO SEXUALIDADE E GERAÇÃO………………………………………….....

3.4 IDENTIDADES NACIONAIS................................................... ................................... 34 3.5 PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E ARTES................................................. .................... 42 3.6 RITMOS, IDENTIDADE E PERFORMANCE CULTURAL............................... ....... 47 3.7 RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE……………………………………………………….

3.8 TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADES............................................ .................... 66 3.9 SAÚDE AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE......................................... .............. 72 4. ARTIGOS 74

5 ----------------------- Page 6----------------------APRESENTAÇÃO Antes compreendida como uma região específica representada pelo enorme arquipélago da América Central, o Caribe se apresenta hoje, como um espaço transterritorial. Essa tendência em encarar a região de modo mais amplo da Associação de Estudos foi ratificada na 32ª Conferência Anual

Caribenhos (CSA), entidade internacional que se reuniu pela primeira vez no Brasil em maio de 2007, em Salvador (BA) Brasileiro de Estudos e também o V Simpósio Internacional do Centro

Caribenhos (CECAB), que teve lugar em 2008, na mesma cidade. Tais eventos foram importantes para demonstrar que existe um movimento coletivo, desenvolvido no confronto com problemas práticos e teóricos de pesquisa, no sentido de repensar a região para além das fronteiras nacionais e identitárias e, cada vez mais, sob um ponto de vista transcultural, como Fernando Ortiz vaticinava há mais de quarenta anos. Por isso, o simpósio do CECAB vem se voltando para uma orientação transdisciplinar, co nfirmando que a constituição do conhecimento no mundo atual exige o intercâmbio conceitual, meto dológico e prático entre as diversas áreas iplinaridade possibilita novas do saber, entendendo que, a transdic

combinações teóricas e experimentais, que por sua vez propõem outras questões.. Levando em conta essas reflexões e o fortalecimento das relações com o Caribe, especia lmente nas últimas décadas, com a presença do reggae que atribuiu à capital maranhense o codnome ―Jam aica Brasileira , o VI Simpósio Internacional do CECAB será realizado de São Luís do Maranhão, visando ampliar e aprofundar aribe do ponto de vista transcultural. a nossa na cidade o C

compreensão sobre

Comissão organizadora. 6 ----------------------- Page 7----------------------RESUMOS MESAS REDONDAS TERRITÓRIOS FLUÍDOS, A DINÂMICA DAS RELAÇÕES ENTRE SENHORES E ESCRAVOS NA CONSTRUÇÃO DO “MUNDO ATLÂNTICO”. Profa. Dra. Antonia da Silv a Mota – (UFMA) Profa. Dra. Regina Helena Martins de Faria/ Depto de História – (UFMA) Prof. Dr. Josenildo de Jesu s Pereira– (UFMA)

No contexto da tessitura do ―Mundo Atlântico , a escravidão moderna tem uma relevância sin gular por incorporar múltiplas temporalidades. Era, a um só tempo – negócio, modo de trab alho, fator determinante de prestígio e poder, bem como o seu contrário, e objeto de produção liuterár ia. Nesse sentido, a historiografia contemporânea superou a interpretação reducionista de sua co mplexidade e dinâmica expressa no binômio ―Casa Grande e Senzala . A partir da noção de território enquant espaço imaginado e constituído por experiêmcias de sujeitos tem-se por propósito desenvo lver uma análise acerca das territorialidades elaboradas por senhores e escra vos no cotidiano do mundo escravista tendo por pressuposto as suas tensões e contradições imanentes. Desse modo, o foco da análise se concentrará em torno dos significados de família, poder e liberdade para ecsravos e senhores, no âmbito da historicidade brasileira. O ESTADO, OS QUILOMBOLAS E O TRABALHO DO ANTROPÓLOGO NO BRASIL – CONFLITOS, INTERESSES E NOVAS MODALIDADES DE INTERVENÇÃO POLÍTICA Profa. Dra. Maristela de Paul a Andrade-UFMA Prof. Dr. Benedito Souza Filho UFMA Prof. Dr. José Mauricio Arruti - PUC/RJ O objetivo desta mesa é discutir, com base na análise de duas sit uações empíricas Alcantara (MA) e Marambaia (RJ) - os condicionantes e os imp asses decorrentes da participação de antropólogos na elaboração de peças técnicas para subsidiar processos que garantam os direitos de grupos quilombolas. Os eixos da discussão serão: (a) as novas

demandas de atuação que se apresentam ao antropólogo, (b) os obstácu los políticos e técnicos que se apresentam em resposta a essas demandas, (c) os obstáculos e controvér sias à incorporação do trabalho antropológico nas decisões judiciais e administra tivas e (d) o limiar de criminalização dos antropólogos, a que tais controvérsias tem levado. Com is so pretende-se apontar para as diferentes dimensões e interesses das situações de conflito envolvendo quilombolas neste momento no Brasil. 7 ----------------------- Page 8----------------------RELIGIÕES CRISTÃS E AFROAMERICANAS: SINCRETISMOS, TENSÕES E CONFLITOS NA AMÉRICA LATINA E CARIBE Prof. Dr. Álvaro Rober to Pires (UFMA) Prof. Dr. Gamalie l Carreiro (UFMA). A mesa redonda tem por objetivo aglutinar os estudos de pesquisadores(as) que no s últimos anos vem concentrando suas atenções nas investigações relacionadas com as religiões cristãs e afroamericanas, observando suas proximidades, diferenças, tensões , conflitos. O cotidiano em diversas sociedades do Continente Latino Americano tem apresentado um quadro bastante preocupante, do ponto de vista cultural-religioso, naquilo que d iz respeito a liberdade de expressão por parte dos cidadãos e cidadãs que habita m suas cidades. Acreditamos que o mundo acadêmico pode oferecer variáveis a fim de que as sociedades possam refletir sobre a problemática em destaque. Desta forma est a mesas redonda visa criar um espaço de debate acadêmico para discutir a existência ou não de certas tendências fundamentalistas as religiões afroamericanas. de possíveis grupos cristãos e suas relações com

DISPUTAS E CONVIVÊNCIAS TERRITORIAIS DOS SEGMENTOS DE MATRIZ AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA NO ESPAÇO DIASPÓRICO. Prof. Dr. Leandro Men des Rocha (UFG) Prof. Ms. Mary Anne Vi eira Silva (UEG) A proposta da mesa temática pauta-se numa discussão sobre as dinâmicas sócio-espaciais praticadas pelos segmentos de religiões de influência africana e afro-bras ileira. Ademais, pretende-se reunir trabalhos que versem sobre as relações produzidas no espaço diaspóric o.

Consideramos que esse seja um campo heterogêneo e sobreposto de poder, fundado na diversidade cultural e nas contradições sociais. A questão vincula-se ao debate sobre território, cultura e política. Os "territórios" são, portanto, tal como as "fronteiras ", locais privilegiados de observação da construção e da negociação de identidade s diversas. Diversas, principalmente, devido à possibilidade de serem pensadas a partir de di ferentes lócus e também de serem pensadas a partir de distintos recortes, tais como os aqui propostos: religião, gênero, política, cultura e raça. Com esse simpósio, pretendemos mediar o debate entre as vozes que representam as comunidades de terreiro com aquelas dos representantes da academia, por meio de apresentações de traba lhos resultantes de práticas sociais, bem como projetos concluídos e/ou andamento de e xtensão, pesquisa e ensino. RELIGIÕES AFRO BRASILEIRAS: IDENTIDADE, TRADIÇÃO E ESPAÇO PÚBLICO Prof. Dr. Antonio Giova nni Boaes (UFPB) Prof. Dr. Ronaldo Laurent ino Sales (UFCG) 8 ----------------------- Page 9----------------------Nos últimos anos o estudo das religiões afro-brasileiras tem p assado por um novo crescimento. Parte deste interesse se deve às mudanças que estas religiões têm sofrido recentemente. Mudanças estas, diretamente relacionadas à emergência de um novo context o no campo das relações raciais e, também, no mercado religioso brasileiro. Com relação ao primeiro aspecto, dois fenômenos se destacam: De um lado, a postura presente em vári os segmentos dos movimentos negros que tendem a encarar as religiões afro-brasileiras como ―espaços de resistência cultural e componente indispensável da construção/afirmação identidade negra. De outro, a atuação do Estado que passou a desen volver uma serie de políticas públicas voltadas para estas religiões. Trata-se, neste últi mo caso, tanto de políticas voltadas especificamente para elas – proteção contra discriminação, preservação cultural, reconhecimento institucional, etc. – quanto daquelas dirigidas à população ne gra como um todo, uma vez que as religiões afro-brasileiras passaram a ser vistas por alguns órgãos de governo como uma entrada privilegiada de acesso a esta parcela da população. Outra fonte de legitimidade advém do mercado religioso e suas tendências atuais, nas quais as religiões que valorizam o simbólico, o mágico e o corpo, tendem a a

trair um número significativo de adeptos e simpatizantes. No centro de tod as estas negociações e reposicionamentos encontra-se a referência e a reivindicação de uma continuidade com ―a

tradição africana original . Esta tradição, sempre em processo de invenção e re nvenção, constitui a fonte de legitimação a partir da qual cada religião específica busca assegur ar o seu reconhecimento, não apenas dentro do campo religioso afro-bras ileiro, mas também junto aos demais atores. Vale destacar ainda, que o compartilh amento dessa tradição ancestral vem se apresentando como um elemento aglutinador entre as diversas for mas de religiosidade de matriz africana desenvolvidas em diferent es contextos culturais (candomblé, santeria, vodu, etc.) constituindo-se numa base para se pensar a sua universalização ou, segundo alguns autores, sua transformação em uma religião mundial. É sobre o conceito de tradição e a forma como esta é manipulada por diferentes atores na busca por legitimidade e prestígio seja dentro do campo religioso afro-brasileiro, seja nas relações com outros atores que esta Mesa pretende se debruçar. ÁFRICA, BRASIL E CARIBE: DIÁSPORA, DIVERSIDADE CULTURAL E IDENTIDADE NACIONAL Prof. Dr. Benedito Souza Filho (UFMA) Prof. Dr. Josenildo de J esus Pereira (UFMA) Prof. Dr. Hippolyte B rice Sogbossi (UFS) A diáspora africana, como conseqüência ou resultado do tráfico neg reiro, sempre foi reconhecida como uma das maiores tragédias da humanidade. Para o continente africa no e os países vitimados pelo comércio de seres humanos, as conseqüências negativas dessa prática se fazem sentir até os dias de hoje. Contrariamente, para diferentes países da Europa Ocidental e suas colônias no continente americano a presença africana não só contribuiu com suas energias para o fortalecimento de suas economias, mas também com sua hera nça cultural carregada na diáspora. A mesa redonda buscará refletir, a pa rtir de um olhar do presente, sobre os diferentes processos sociais e históricos qu e concorreram para a (re)definição da diversidade cultural e a identidade nacional de diferentes países na Áf rica, no Brasil e no Caribe. 9 ----------------------- Page 10-----------------------

PERFOMATIVE BODIES, CARIBBEAN RHYTHMS AND NEW CONCEPTIONS OF CITIZENSHIP Dr.Irline François. Goucher College Country: USA Dr. Johanna X.K. Garvey. USA. Fairfield University. Dr.Simone A. James Alexander. USA. Seton Hall University. Department:English/Afr icana Studies. Dr. H. Adlai Murdoch. USA. University of Illinois at Urbana-Cha mpaign. Department: French. Dr.Marie Hélène Laforest. Italy. University of Naples ―L‘Orientale . Department: English. The rich, complex, particular condition of the Caribbean as th e first globalized colonial system of human history marked indelibly its past as a point of destination, deracination and dispersion of migratory waves from the voluntary and forced entry of Europeans, of Africans, Asians, Middle Easterners and its turbulent encounter with the Amerindians peoples that occupied the region. Today, the Caribbean faces and interrogates it s turbulent, complex past and troubled present. It also endeavors to transcend its geographic al borders, to broaden and deepen our understanding of the area as a social and cultural spa ce with its shared history, of continuous cultural exchanges between and amo ng Caribbean nations bordering the Atlantic Ocean, specifically with the Brazilian Northeast. Hence, the Caribbean, aka ―trans-territorial and ―trans-cultural space shares with the S tate of Maranhão and its capital São Luis known as ―Brazilian Jamaica, its triple expressio n of Amerindian, European and African influences, its sites of survival and resistance (embodied in the Palmares and Quilombos of the region) but also its rich musical heritage that infuse the Caribbean landscape including reggae, ska calypso, zouk cadence, compas, meringue, rumba, pélé trésé which most can trace their roots to an Amerindian, European and African musical past. This trans-artistic space also seeks to overcome its l egacy of the Plantation hierarchy, of gendered exploitation, of domestic violence and sexual abuse of the female body, -- the high incidence of forced sterilization among Afro and Amerindian women in the state of Maranhão, for example. Our hybrid panel of mixe d genres – literary analyses and musical genres seeks to question the scope and intent ionality of history, of boundary crossings, of contested citizenship in our era of exacerbated globalism. Our papers illustrate and challenge the violence born of borders, whether they may b e those of nation, race/ethnicity, gender, sexuality and language. We question the ways in which the language of nationalism marginalizes women, scripting them as unworthy citizens.

We also examine how plural linguistic musical patterns came to reflect the shape and sub stance of global literary production. What is the role of political song s and lyrics in unearthing, tracing and confronting the official recording of history with the popular expressions of assent and dissent as a form of covert resistance? Branching out through a multi plicity of roots/routes: (Haiti, The Dominican Republic, New York, Puerto Rico), Caribbean writers, artists and scholars offer a rich meditation that emphasize and broaden the conn ections and correlations of the trans-territorial and trans-cultural condition of the Caribb ean. 10 ----------------------- Page 11----------------------GRANDES EMPRESAS, GRANDES PROBLEMAS, NO BRASIL E NO CARIBE Edmilson Abreu Pinheiro, engenheiro agrônomo, secretário executivo do Fórum Carajás (Fórum Carajás, São Luís/MA); Igor Almeida, advogado, assessor jurídico da Sociedade Maranhense de Direitos Huma nos, São Luís/MA); Raimundo Cruz Gomes, engenheiro agrônomo, sociólogo, coordenado r do CEPASP, Marabá/PA; Manoel Maria Paiva, engenheiro ambiental, diretor da ECOSAN, Barcarena/PA;

Resumo: A mesa pretende refletir a atuação de grandes empresas na região do Caribe, em especial, na Amazônia e a persistente desigualdade nessas reg iões. A dinâmica de empresas como a ALCOOA, CVRD, PETROBRÁS, Norsk Hydro ASA, MPX entre outras se concretiza na exploração de quantidades cada vez maiores de matérias-primas, comprometendo a reprodução e sobrevivência de diversos ecossistemas, a diversidade cultural dos povos e comunidades tradicionais, deixando um legado de destruição ambi ental e social nessas áreas que os seres humanos são, em última instância, fundamento e expressão. A produção do alumínio está inscrita no quadro dessas preocupações pelo fato de suas principais matérias-primas, a bauxita e a energia, existirem abundantement e nessas regiões. As maiores reservas de bauxita encontram-se na serra de Oriximiná, no vale do rio Trombetas, em Paragominas no Pará Paragominas, na Jamaica, Suriname e Trinidad & Tobago. A exploração de petróleo pela Petrobrás com companhias de petróleo da Índia, Grã-Bretanha e Estados Unidos, como a exploração de carvão pela MPX e t ermelétricas térmicas nos portos de Itaquí no Maranhão, Pecem no Ceará e no Chile como os processos de produção que envolve mineração, obtenção de energia elétrica, até o processo produti

no interior das fábricas, tem evidenciado impactos para as comunidades, trabalhado res e o meio-ambiente. Palavra chave: grandes projetos, degradação ambiental, i mpactos sociais, desigualdade 11 ----------------------- Page 12----------------------EIXOS TEMÁTICOS 01. ARTES VISUAIS LITERATURA E MÚSICA Coordenação: Leonardo Vidigal (UFMG) RELENDO CÂMARA CASCUDO Maria Antonieta Antonaci Em Made in África, de Câmara Cascudo, priorizamos sua pesquisa com tradições orais africanas no Brasil, que contestou a geopolítica eurocêntrica, isoladora e imobiliza dora das Áfricas, mas projetou, no patrimônio cultural nacional, ritmos, festas, gestos e danças de povos bantos. Construindo e privilegiando patrimônio lúdico, recreativo, apazigu ador em torno de Reis do Congo e conga as, iluminou memórias negras adequadas a patriarcal moderação do Império e à mítica de democracia racial da República, nciando artes, saberes e fazeres de outros povos e culturas da diáspora no Brasil. A REPRESENTAÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA NOS CONTOS DE MARIETA TELLES. Clécia Santana dos Santos – UFG/Letras. Marieta Telles retrata o espaço urbano como cenário de seus cont os, na construção do imaginário feminino e das identidades sociais, sobre a cidade de Goiânia no seu começo de modernidade. Sobre a temática da solidão, do viver em espaços diferentes de nossas raíze s, a autora constrói os conflitos entre o antigo e o novo, o velho e o moderno. A sociabilização nas relações humanas são trazidas sobre uma ótica construída por arquétipos interioranos de moças ―ingênuas que vêm para a cidade grande e são ―corrompidas , ou que se isolam e se vêm devoradas pela frieza, e a insensibilidade de ruas e aparta mentos. Como símbolo de rompimento com o patriarcal revela conflitos entre permanecer no s ertão, ou mudar para a urbe. Suas personagens nutrem o desejo de as censão, crescimento profissional e intelectual, vislumbram esse crescimento econômico relacionado ao crescimento da cidade e das oportunidades de estar em outros espaços e lugares, lo nge do que é severo, e tolidor de seus destinos.

sile

Néle Azevedo (Instituto de Artes da UNESP) Zero Grau ntsc 4. tendo os monumentos públicos como eixos de discussão e de reflexão. Portugal e Brasil. Victor Martins de Souza. Braunschweig . do qual Glauber fez parte. buscando problematizar o caráter da sua escrita na co nstrução de novas categorias epistemológicas. Desnecessário dizer que o próprio Sembène Ousmane tinha grande predileção pela estética do Cinema Novo. e reivindicando. Vale frisar que por meio de suas obras. UM INTELECTUAL EM TRÂNSITO A FALAR DE TRÂNSITOS Bruno Emanuel Nascimento de Araújo. A partir da temática dos trânsitos de diversas ordens examina-se a atividade intelectual de Manu el Rui Monteiro empenhada com os movimentos de descolonização e de (re)construção de identidades.UFBA Pesquisa na área de literatura comparada examina a produção discursiva e intelectual do escritor angolano Manuel Rui Monteiro e/em suas relações com os discursos sobre trânsi tos e trocas culturais de várias ordens envolvendo Angola. no caso de Glauber.49‘ e Glória às lutas inglórias ntsc 4.Page 13----------------------DIÁLOGO DE IMAGENS E IMAGENS EM DIÁLOGOS: UM ESTUDO DOS PROJETOS ESTÉTICOS DE GLAUBER ROCHA E SEMBÈNE OUSMANE. ambos os cineastas buscaram contestar o cinema moralista e contemporanizador de suas épocas. tendo em vista a lgumas produções cinematográficas destes realizadores.MANUEL RUI MONTEIRO. a má formação da nacionalidade brasileira. Daí ser pertinente falarmos de diálogos.44‘ são registros de diferentes intervenções no espaço urbano realizados em várias cidades de diversos paíse s. O Zero Grau mostra uma intervenção nômade que perambula pelo mundo. Mestrando – PUC/SP Orientadora: Maria Antonieta Antonacci A presente pesquisa tem por intuito analisar o projeto estético do cineasta baian o Glauber Rocha e do cineasta senegalês Sembène Ousmane.Porto . denuncia ndo. DESMONUMENTOS: ZERO GRAU E GLÓRIA ÀS LUTAS INGLÓRIAS. Um estudo desta natureza p ossibilita um maior alargamento de perspectivas acerca da obra de Glauber Rocha. Centenas de esculturas em gelo são postas a derreter nos centros das grandes cidades (São Paulo. levando-se em cons ideração a ascendência afro de seus filmes. um olhar crítico em relação ao passado africano. no ca so de Sembène. REGISTROS. 12 ----------------------. Paris.

Page 14----------------------cultura. longe de ser vi sta como uma demarcação física entre dois mundos opostos. pensada para um lugar específico e que acontece apenas uma vez. uma abertura promissora para se reinventar a origem que. a noção de fronteira designa ―uma distância habitada. 2003. nascidos no Haiti. Glória às lutas inglórias é a uma a específica. Stuart Ha ll e Homi Bhabha. Ao final todos celebram e sabo reiam as frutas consumindo o antimonumento. servirão de ponto de partida para as reflexões a serem desenvolvidas textos de Édouard Glissant. na densidade das formas compós itas da 13 ----------------------. No que concerne à escolha do corpus. A REPRESENTAÇÃO DA NAÇÃO E DA IDENTIDADE NACIONAL EM LIVROS INFANTIS DE EUGÉNIA NETO E ONDJAKI: registros Iconográficos do Reggae no Maranhão Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA) . no âmbito da qual. Por isso mesmo. em luta contra a morte. em especial no que diz respeito ao retornoredescoberta do país natal. No Páteo do Collegio em São Paulo artista e público constroem um antimonumento horizontal e abe rto denominado Glória às lutas inglórias. No caso de escritores caribenhos inseridos no Quebec.. ESCREVER A DISTÂNCIA: REPRESENTAÇÕES DO EXÍLIO E DO RETORNO EM AUTORES CARIBENHOS DE LÍNGUA FRANCESA Maria Bernadette Velloso Porto Construídas em torno da consciência diaspórica e do imaginário da it inerância. antes de apontar para um passado imóvel. p. 24). Florença e Berlim) numa espécie de refundação ritualística. 2003. reconhece-se ―uma rede complic ada de relações interculturais com outros centros e outras periferias (PARÉ. Eles formam um g rande labirinto baseado em desenho dos povos guaranis. são representados o desaparecimento e a epifania da diferença (PARÉ. Do ponto de vista metodológico. Émile Ollivie r e Dany Laferrière – nomes da chamada literatura migrante quebequense – podem d ialogar com o escritor da Guadalupe Ernest Pépin. François Paré. p. sugere as possibilidades do devir. 15). Patrick Chamoiseau. obras de autores oriundos do Caribe de língua francesa trazem uma efetiv a contribuição para se repensar a questão das migrações e das movências identitárias da contemporaneidade. ao lado do obelisco vertical Glória eterna aos fundadores de São Paulo com mais de duzentos caixotes de frutas.

a exemplo da figura feminina. Nossa perspectiva é analisar as representações dessa iconografia para os adeptos do reggae jamaicano nessas regiões. As cidades de Salvador e Fortaleza também apresentam esses locais.Desde os anos 1970 a música reggae é escutada no Brasil. It is my contention that such a classification is incomplete and perpetuat es misinformation and downplays both the dynamic creativity of Jamaican musicians operat ing within complex multiple synergetic production models. popular music production in Kingston has been through more genres and sub genres than is highl ighted in academic circles and that there have been additional unrecognized genre shifts since the establishment of dancehall. Most scholars have neatly p laced the music in the convenient categories of mento. em suas viagens através do Atlântico. e ausênci as. c asas de espetáculos onde se ouve esse ritmo. TAKE IT ON THE ONE DROP: GENRE DEVELOPMENT IN JAMAICAN POPULAR MUSIC Dennis Howard This paper traces the development of several popular music genres. as well as their phenomenal contribution to global popular music.Page 15----------------------- . abriga o maior número de locais . ska. reggae a nd dancehall. eventualmente. 14 ----------------------. been erroneously classified as reggae and there is confu sion as to what is reggae. a culturas caribenhas passar por ressignificações. apontamos repe tições. conhecida como a J amaica brasileira.salões. ma peamos esses locais e registramos as suas imagens visuais (fachadas e interiores). como a figura de Bob Marley. Na presente pesquisa. s endo interpretadas conforme as especificidades das regiões onde essas expressões culturai s são reproduzidas. do Leão de Judá e as cores da Unidade Africana. rock steady and dancehall. tendo em vista que. which hav e been the hallmarks of music production in Kingston since the 1960s. I will argue that while genre classification is a vey proble matic process. Neste último caso a cidade de São Luís. Como resultados preliminares. sobretudo nas regiões Sudeste e Nordeste. pa ra identificar e analisar elementos da iconografia do reggae. no campo da Antropologia. rock steady. bares e. in many instances. Howeve r all Jamaican music has.

uma identidade desterritorializada). Sobretudo. em outras palav ras. raça. Palavras-chave: identidade. diáspora. Dessa forma. Desde finais do século XX a temática central dos estudos culturais tem sido responder a como as identidades cu lturais se constituem. Por uma parte. gênero. A questão relativa ao estudo das identidades mostra q ue elas são criações sociais e culturais (Silva. observamos hoje uma literatura produzida n o exílio que questiona a fixação dessa identidade e a subverte. Isabel Ibarra Cabrera As diferentes oleadas migratórias de cubanos após o triunfo da r evolução de 1959 aos Estados Unidos da América trouxeram interessantes debates sobre a questão da identid ade nas duas ―orillas . A obra do autor permite o enfoque de questões como a discus são dos conceitos de identidade e cultura como atos políticos e co mo artefatos de uma boa educação. migrantes. se por uma parte existe uma literatura que in vestiu na formulação de uma identidade cubana com o intuito de construir meca nismos de coesão social por outra. 76). os cubanos exilados e os cuba no-americanos procuram definir e reconstruir sua identidade. 2000. p. em Cuba. Essa literatura trabalha com a idéia de movimen to. modernidade/ pós-modernidade. as reflexões em torno dos temas como identidade e cultura n acional. a afirmação do processo de consciência negra e a recuperação do . Pretendo. a partir dos anos de 1990 cresce o inter esse por explorar os debates sobre a identidade cubana produzida tanto dentro como fo ra do país. nos Estados Unidos. a partir do estudo das permanências e mutações da identidade transculturada e também se buscam novas formas de transmitir ―lo cubano na s condições impostas ao imigrante. viagem como recursos que aludem à própria instabili dade da identidade (considerada não mais fixada ao território. globalização e pós-colonial ismo. pois que.MEMÓRIA E IDENTIDADE: NO ROMANCE DE CRISTINA GARCIA SONHAR EM CUBANO. buscar essas construções id entitárias no primeiro romance de Cristina Garcia ―Soñar en cubano . Por outra. literatura. observamos. etnia. A definição da identidade cubana fez-se frente ao outro que era o colon izador/ estrangeiro. Derek Walcott. OMEROS: VOZES DE IDENTIDADE E CULTURA EM DEREK WALCOTT Lílian Cavalcanti Fernandes Vieira O objetivo deste trabalho é fazer uma análise da temática identidade e cultura de matriz africana através da obra OMEROS do autor afrocaribenho e Prêmio Nobe l de Literatura (1992). assim.

aguardam um ensejo para poderem emergir –. que vem deslocando ident idades antes consideradas seguras e aglutinadoras. pela narrativa de suas experiências vividas na ilha. a partir de narrativas semelhantes. Sendo assim. embora só tenha surgido no exílio enquanto Geração Mariel. ou pós-modernidade. os sujeitos narrados revelam . acredito que o grupo de escritores contemplados neste trabalho pretendeu realizar uma redefinição do Mariel e dos acontecimentos vivenciados por essa geração. em Obra aberta. LITERATURA. d e suas memórias e de suas histórias de vida. São narrativas povoadas de solidão. por outras mais restritas. E aqui cabe uma outra dúvida: até onde esse processo de construção da identidade Mariel é afetado pela crise da modernidade. literatura pós-colonial. como a nacional. muitos de seus futuros representantes puderam se encontrar e/ou reencontrar e passaram assim a lutar. reflete-o e promove sua redefinição. identidade. Nas narrativas dos escritores do Mariel uma questão me havia intrigado: onde começam e onde terminam as relações entre ficção e realidade? Muitas vezes. extraídas de ―suas memórias subterrâneas – que. tanto em Cuba como em Miam i. A forma encontrada pela Geração Mariel para tra var a luta pelas suas histórias de vida foi a atividade literária. IDENTIDADE E EXILIO: OS ESCRITORES DO MARIEL Rickley Leandro Marques A Geração do Mariel é vista neste trabalho como uma comunidade simbólic a sustentada por experiências e expectativas comuns.Page 16----------------------ilha. Neste sentido. Umberto Eco. educação. Palavras-chave: cultura.escravizado como sujeito de uma história social através da literatura pós-colonial. o grupo estava conectado aind a na 15 ----------------------. ou seja. Nos Estados Unidos da América. so frimento maior que assinala muitos exilados políticos. como observou Pollak. as obras e os artigos publicados na revista constituem-se como ―testemunhos dos escritores n uma busca incansável de sua identidade. que a maioria deles não pudera exercer em Cuba. afirma que a arte nasce de um contexto histórico. O conhecimento e o estudo dessa literatura identitária pode contribuir tanto para a formação de educadores como abrir caminhos para as áreas de filosofia da educação brasileira pelo aprofundame nto na cultura de base africana na diáspora. nas obras analisadas. sobretudo. como as de grupos e tribos? Outro traço da literatura do Mariel aqui apresentada é c omo. servindo de aporte às diversidades culturai s.

Neste sentido. O foco do texto se divide em dua s partes: identificar como. espaços artísticos e em campos melódicos e rítmicos permitem refletir sobre esses intercruzamentos que sugerem situações de transculturalidade. EVOLUÇÃO COMO APOTEOSE: NARRATIVA E TESTEMUNHO EM ALEJO CARPENTIER Dernival Venâncio Ramos (UFT) 16 ----------------------. identidade CONCEITOS FUNDAMENTAIS IDENTITÁRIOS E LITERÁRIOS NO BRASIL E NO CARIBE Claudius Armbruster (Universität zu Köln) Albertus-Magnus-Platz. Essas musicalidades pensada s na perspectiva de uma História policentrada onde informações cruzam-se formando redes complexas e descontínuas de sonoridade. transculturação. Ileana Piñera (2000. . seres comu ns e cotidianos desprendidos de todo enaltecimento literário que pudesse deformá-los . A crise de orientação provocada por esse event o. numa conexão entre testemunho e ficção. etc. 75) destaca que na literatura dest a migração ―não existem heróis. fez emergirem narrativas. historiografia e ensaística caribenha. configurando experiências/identidades relaci onais que se manifestam na anti-pureza demarcando novas estéticas para a música do Atlântico Negro. comparam-se estes aos conceitos afro-centricos ―negritude e ―quilombis mo . miscigenação. Em um segu ndo momento. crioulidade/créolité e hibridismo. ensaios.seu desenraizamento e desconsolo.Page 17----------------------Existem ainda poucas pesquisas sobre a relação entre Revolução cubana e a narrativa. exilio. poemas. A contribuiçao propõe uma análise contrastiva de conceit os fundamentais identitários e literários no Brasil e no Caribe: Serão apresentados e comparados os termos seguintes: mestiçagem/métissage. Palavras-chave: literatura. o romances autobiográfico La consagracíon de la primavera do escritor cubano Alejo Carpentier. o autor insere a revolução na história contemporânea caribenha. bem como o lugar que ela ocupa(ria) no futuro do Caribe e do mundo. que procuram dar conta do lugar que ele ocupa(ria) na experiência histórica caribenha e internacional. talvez possamos encontrar anti-heróis. E ste trabalho procura examinar uma dessas narrativas.

perderá grande parte do prazer estético e alguns significados plausíveis oferecidos pela peça musical. Os cultos de c andomblé e xangô misturados às tradições religiosas da Europa solidificaram a expressão musical híbrida do continente sul-americano. apesar do sofrimento e dos maltratos.Exemplo maior. Outro expoente da música tocantina. que nóis tem cara de milho de pipoca. mandioca importada. O rei e a rainha escolhidos entre a comunidade local. mantendo a cabeça coberta com chapéu. superstições e danças são consideradas a alma da cultura tocantinense e traçam o perfil cultural da região. em primeiro lugar. (. a mão-de-obra escrava foi introduzida na Chapada dos Neg ros.. e.. Só se p odem fazer híbridos se tem estrutura.MÚSICAS E DANÇAS AFRO-BRASILEIRAS NO TOCANTINS: HIBRIDISMO SUL-AMERICANO Jocyleia Santana dos Santos (UFT) Trazendo consigo as tradições do candomblé. banquete de bacana era farinhada . na existência de uma estrutura.) Se f arinha fosse americana. numa forma de protesto pelo sentimento de dor e saudade da terra distante. à noite. os negros que vieram p ara o norte goiano ajudaram a formar a cultura musical tocantina. na s cidades tocantinas de Taipas. a sússia. dança popular no século XV III em algumas cidades tocantinas. a jiquitaia e a catira. comemorada no mês de julho. A dança da congada é uma das principais manifestações culturais. integrando rito s e símbolos católicos. Que nossa flauta é feita de taboca. Monte do Carmo e Tocantínia. cantando: ―quem é aquela senhora que está na sua charola? É a Senhora do Rosário que veio para a glória” .As manifestações culturais co mo festas. dissimuladamente os recriavam. São festas coloridas. que nosso rock é dançar catira. O hibridi smo implica necessariamente. alegres e cheias de d . Os negros viviam nas senz alas. Como não podiam mant er seus próprios cultos. encontravam forças para venerar seus deuses com danças e rituais religiosos como a Umbanda e o Candomblé. Dançavam no interior da Igreja. a festa de Nossa Senhora do Rosário. crenças. mistura de negro e índio é Genésio Tocantins que ouvia os cantos do Divino e juntamente com Juraíldes da Cruz inventou a música “Nóis é Jeca mais é jóia que traduz nos versos a seguir a cultura híbrida da região norte: ―Andam falando que nóis é caipira. No antigo norte de Goiás . nas minas de ouro que deram origem ao município de Arraias. atual Tocantins. são o a lvo das atrações. em 1736. Se o ouvinte não tiver conhecimento das estruturas que são fundidas. A festa é acompanhada de congos e taeiras que saem pelas ruas cantando e dançando ao som de tambores e mar acá. Das variantes entre as tradições eur opéias ou africanas se destacam a congada. Espera-se que o ouvinte ouça a fusão.

obra coletiv a organizada por Zilá Bernd. seja amiúde enquadrada como uma paródia de Th e tempest (1611). O homem bate a caixa e a mulher bate a buraca e ambos dançavam a sussa até recentemente. do canto. nem branco apenas híbrido. mostram a beleza. Algumas músicas são mais cantadas por mulheres e outras mais cantadas por homens. bater a buraca é uma tarefa feminina. da jiquitaia. E sta dança lembra a presença incômoda das formigas nas senzalas na busca de alimentos. de William Shakespeare (1564-1616). dançam e até simulam batalhas medievais. município de Arraia s (TO). É o único gênero musical em que a presença da mulher como instrumentista é prevista. A forte presença da cultura africana no Tocantins tem uma autêntica mostra nas representações culturais com os foliões da sússia. dança com movimentos frenéticos. do poeta martinicano Aimé Césaire (1913-2008). os pés. mas há um repertório mais mas culino e outro mais feminino. As comunidades negras remanescentes dos quilombos tentam preservar as tradições cultura is.Page 18----------------------complementaridade entre os sexos. principalmente a comunidade situada em Mimoso. cabe salientar que o obj etivo do presente estudo é examinar a peça de Aimé Césaire.A dança da sussa.evoção. nos q uais se batem as mãos. publicad o na obra Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (2007). contorcendo o corpo de forma sensual ao som de tambores e pandeiros. É o realismo do interior nas comunidades afrobrasileiras que através da dança. Quando se t oca a sússia. da forma com o é descrita pelas mulheres mais velhas. o que se vê é que algumas são preferidas por um sexo e preteridas por outro. das taieiras e dos tambores da senzala. é o maior demons trativo da antiga 17 ----------------------. a religio sidade e a história do povo tocantino: nem preto. A união da sússia com o tambor mostra o ritual que conta com cantos e danças lembrando a coroação dos reis congos. brasileiro. Ainda que a peça Une tempête (1969). dança-se a jiquitaia. dos congos. embora não creio que existam sussas excludentes. combatem o racismo. cantam. . do ponto de vista da apropriação do personagem Ariel. Seus participantes rezam. Tanto os homens como as mulheres cantam a sussa. exaltam a força. O DOUTOR PANGLOSS NÃO ERA TÃO TOLO QUANTO VOLTAIRE O SUPUNHA Alcione Corrêa Alves (UFPI) O presente estudo propõe a releitura e discussão do verbete ―Ariel . da catira.

Para tanto. do ensaísta martinicano Édouard Glissant. conforme as obras Le disco urs antillais (1981) e Introduction à une poétique du Divers (1995). apropriação. como um modo eficaz de Détour capaz de fundamentar a resistência do escravo ao jugo que lhe é imposto. Escavando e desenterrando vestígi os da presença de brancos.Page 19----------------------Palavras-chave: colonialismo. com vistas a subsidiar a leitura de algumas das modificações e re-significações do personagem Ariel. africanos e imigrantes indianos. inicialmente. Cena 5 (Ariel libertado por Prospero) . Como procedimento de análise . uma servilidade e um conformismo do escravo a seu senhor. ele mergulha no magma antropológico dos povos que ali se encontraram e se reinventa sob o olhar do Outro. Ato 2. literaturas de língua francesa na América. Em sua obra Écrire en Pays Dominé. DE PATRICK CHAMOISEAU Luciana Ambrósio Este trabalho pretende examinar como o escritor martinicano Patrick Chamoiseau empreende a releitura de uma memória dominada pelos valores ocidentais franceses e leva a cabo a escrita de um imaginário que escape à alienação engendrada por séculos de assimilação política e cultural. Cena 2 (primeira discussão entre Ariel e Prospero). Num processo dialógico. com vistas a compreender as estratégias de obtenção de liberdade do escravo Ariel. e Ato 3. sobretudo. chineses e sírio-lib aneses. ameríndios. concebidas no texto de Aimé Césaire e operadas. embora a relação entre Ariel e Prospero sugira. do cubano Francisco Retamar e do brasileiro Darcy Ribeiro). d A RELEITURA DA MEMÓRIA E A ESCRITA DO IMAGINÁRIO EM ÉCRIRE EN PAYS DOMINÉ. Détour. 18 ----------------------. neste estudo. propõe-se um recenseamento de algumas apropriações de Ariel na literatura francesa (em textos de Victor Hugo e Ernest Renan) e na literatura americana (em textos do uruguaio Enrique Ro dó. levada a termo por Ariel e interpretada. . é possível constatar em Une tempête uma estratégia definida de obtenção e liberdade. em três passagens: Ato 1. Cena 1 (discussão de Ariel e Caliban ace rca de seus métodos de obtenção de liberdade). o trabalho ora proposto parte da definição de Détour (D esvio). Os resultados parciais deste estudo permitem sustentar que. Chamoiseau se lança pelos caminhos da palavra literária a fim de buscar uma explic ação de si e de sua terra natal.

quando as práticas da capoeira e do candomblé ainda eram p roibidas. Pretendes-se analisar as narrativas do Acervo de Memória e Tradições Orais da Bahia (AMTRO) que abrange os municípios de Alagoinhas. Crioulização. Através de uma perspectiva multidisciplinar de análise. ESCRITA. Catu. que destaca elem entos históricos e antropológicos. Teodoro Sampaio. Inhambupe. Pojuca. estéticas e míticas sobre Exu na cons trução fílmica em questão. O presente artigo busca realizar uma análise do filme Besouro (2009). vídeos e obras artísticas. Irará e Camaçari. mas sobretudo os elementos internos constitutivos do próprio filme.Page 20----------------------II da Universidade do Estado da Bahia. As diferentes formas de representação do universo cultural afro continuam desempenha ndo um papel fundamental tanto para a reflexão sobre as práticas de significação quanto para a compreensão de como esses discursos repercutem no entendimento sobre as culturas negras. busco compreender as estratégias utilizadas para a construção do personagem de Exu. Leitura. TRADIÇÃO ORAL E COMUNIDADE NARRATIVA Edil Silva Costa (NUTOPIA/UNEB) Esta pesquisa está vinculada ao Núcleo das Tradições Orais e do Patrimônio Imaterial das Matrizes Afro-indígenas (NUTOPIA). registro da cultura popular do entorno do Campus II. 3) refletir sobre o papel da capoeira (e seu vínculo com os orixás) como instrumento de resistência cultural.ele vai reelaborar a memória discursiva de cada um desses povos de modo a dar voz ao ―eucrioulo e restituir o que a História neutralizou. Mata de São João. O enfoque que se dará por ora é analisar como se apresentam as narrativas de uma comunidade de tradição predominantemente oral qu . com o objetivo de 1) identificar o modo como se articulam as experiências simbólicas. Palavras-chave: Escrita. que agrega pesquisadores do Campus I e do Campu s 19 ----------------------. Memória A REPRESENTAÇÃO DE EXU NO FILME BESOURO: APROXIMAÇÕES E RUPTURAS COM AS NARRATIVAS MÍTICAS SOBRE O ORIXÁ MENSAGEIRO Karliane Macedo Nunes. O acervo é composto de textos orais e impressos. fotos. 2) observar os elementos que aproximam e/ou distanciam essa construção das narrativas míticas sobre Exu descritas por Reginaldo Prandi no livro Mitologia do Orixás. diri gido por João Daniel Tikhomiroff e que trata da repressão que sofriam os negros na Bahia da déc ada de 20. o orixá mensageiro nas religiões afro-brasileiras.

qua nto o consumo de discos foi importante para a economia e cultura de São Luis do Maranhão . Este trabalho também oferece novas respostas à questão ‗porque reggae é tão popular em São Luis?‘ com um estudo sobre as capas de discos jamaicanos e como foram recebidas pela juventude maranhense. e a historia das viagens entre Jama ica. Nos anos 60 e 70. ao destacar sua intensa participação no meio cultural cubano após o triunfo da Revolução e sua produção nos anos sessenta e setenta. gravadoras nacionais reproduziram vário s discos caribenhos contendo os ritmos calypso. portanto. O desafio é. Sílvia Cezar Miskulin (USP) A comunicação pretende abordar a vida e a obra literária de Virgilio Piñera. merengue.e se utiliza também de registros escritos para a manutenção de sua memóri a. Este trabalho analisa o papel dos colecionad ores e DJs em São Luis junto com a evolução do modo de adquirir discos. principalmente a da Jamaica. ressalto que em São Luis (e em outras cidades da r egião como Belém) eles formaram uma ligação improvável entre o povo brasileiro e a produção cultural do Caribe. „SÓ VINIL‟: A HISTÓRIA SOCIAL DE SÃO LUIS CONTADA POR DISCOS CARIBENHOS Kavin Dayanandan Paulraj (Universidade de Pittsburgh . tão complexa quanto a tessitura do texto dos relatos. cumbia e reggae entre outros. Inglaterra e Maranhão que transformaram a cultura maranhense.EUA) A produção de discos tem sido tão importante para a economia e cultura da Jamaica. Sugiro que discos em vinil foram destaques no crescimento de algumas radiolas (soundsystem s) no Maranhão. Brasil. transmitindo e conservando assim suas crenças e valores. sobretudo após o as resoluções do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura. Essas narrativas são testemunhos e histórias de vida. desenrol ar esse emaranhado de fios e tecer novas narrativas. A era dos discos importados e em seguida. em 1971 e o . a era da produção sonora de reggae no Maranhão também levam a fazer comparações com a história econômica do Caribe. Uma tradição oral mestiça e complexa. Embora esses discos fizessem sucesso no país inteiro. mas também textos representativos da literatura oral do gr upo. e depois os próprios discos passaram a ser utilizados para resistir o poder dos grandes radioleiros. A homossexualidade de Piñera e os aspectos polêmicos de suas peças de teatro fizeram com que o escritor fosse marginalizado na ilha. “A TRAJETÓRIA E OBRA DO ESCRITOR VIRGILIO PIÑERA: HOMOSSEXUALIDADE E POLÍTICA CULTURAL DA REVOLUÇÃO CUBANA NOS ANOS SESSENTA E SETENTA . cujo estu do nos revela muito dos modos de vida desse grupo social.

em larga. Ilse Gomes Silva – UFMA O trabalho apresenta os desafios dos movimentos sociais no Bra sil diante da ofensiva neoliberal de criminalizar a participação política dos movimentos sociais que denuncia m o autoritarismo do Estado e a precarização das condições de vida e trabalho. MOVIMENTOS SOCIAIS E LUTA PELA CIDADANIA NA AMERICA LATINA. A força dessa mobilização política conquistou a institucionalização da participação política na Constituição de 1988 de modo que a década de 1990 é marcada por um lado pela construção de vários espaços de participação vinculados às políticas públicas e por outro pela hegemonia da ideologia neoliberal e seu respectivo combate a participação política. verificamos a revitalização política de alguns movimentos sociais. cada vez mais difícil de ser conquistada e ampliada na atual fase de transnacionalização do cap italismo. a partir da década de 1980 os movimentos sociais colocaram na age nda política a defesa de democratização. A reação do Estad o. como sua ampliação e. Vincularam a democratização às reformas sociais de base e a construção de espaços de participação popular com vista ao controle das políticas públicas e ao combate ao autoritarismo. Coutinho (UFMA) Este texto trata da relação dos movimentos sociais e a luta pela ―cidadani a na América Latina. Considero que a participação política é uma condição essencial para o exercício da democracia. Procura elucidar a questão da luta por direitos. 20 ----------------------. Joana A. especialmente os Trabalhadores Ru rais Sem Terra. indicam que o direito fundamental de liberdade de expressão e organização encontra-se seriamente ameaçado o que exige dos intelectuais e dos militantes não ap enas a reflexão teórica mas essencialmente a denúncia à ameaça desse direito tão duramente conquistado pelo movimento dos trabalhadores. que desafiam o neoautoritarismo e exercem o seu di reito de participação política para além dos espaços institucionalizados. No Brasil. DIREITOS HUMANOS E NOVAS CONCEPÇÕES DE CIDADANIA Coordenação: Ilse Gomes Silva (UFMA) e Joana Coutinho (UFMA) A AMEAÇA AO DIREITO DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E A CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL. medida . Nesse início do século XXI.endurecimento da política cultural oficial nos anos setenta. Ao mesmo tempo em que movimentos sociais anti-sistêmicos e/ou anti-imperialistas reivindica m não apenas a garantia de direitos ―conquistados . às suas mobilizações. e na América Latina.Page 21----------------------02.

o ingresso na universidade so inicial empreendido pelo estudante seja ele negro ou não.Page 22----------------------Este trabalho tem por objetivo discutir esses temas e apresentar o s resultados obtidos no projeto: Avaliação das políticas de cotas raciais na Universidade Es tadual de Goiás. QUESTÃO RACIAL NO ESPAÇO ESCOLAR: 10. Assim com o outras instituições. Ações afirmativas são medidas de caráter temporário tomadas com o objetivo de diminuir desigualdades socia is provocadas pela discriminação e marginalização de determinados grupos no decorrer do processo histórico. O projeto ter em vista verificar o ingresso de cotistas raciais na universidade e as medidas tomadas pela instituição garantir a permanência dos mesmos. 21 ----------------------. Neste sentido. além disso. discriminatórias e racistas. no entanto. Colocar o estudante na e não resolve a discriminação e a exclusão sofrida pelo negro. a escola também produz e reproduz práticas preconceituosas. convivendo ainda com as velhas formas do es tado burguês? DISCURSOS RACIAIS E AÇÕES AFIRMATIVAS: O PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO DA POLÍTICA DE COTAS RACIAIS NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS José Fábio da Silva. portanto. A atual Política de Educação está constituída de forma a manter as desigualdades raciais e a universidad é apenas o pas na estrutu ele .novas formas de organização societal questionando. as bases nacionais na q ual se fundamenta a garantia da cidadania.UEG. É preciso mexer ra da sociedade. No tocante as desigualdades raciais a mera adoção de ações afirmativas . como na Bolívia. cabe falar em cidadania globa l? Pode se pensar em múltiplas identidades num mesmo território como querem os defensores de um estado plurinacional. É necessário. não é suficiente para combater efetivamente o rac ismo impregnado na sociedade. trabalhar na desconstrução do discurso produzido no decorrer do século passado que coloca o Brasil como um paraíso racial. inserindo o negro em locais que historicamente não tem garantido seu espaço. como um país de relações raciais harmônicas.639/03 E A POSSIBILIDADE DE SUPERAÇÃO DO RACISMO Aline Batista de Paula (UFF) O racismo no Brasil é estrutural e institucionalizado.

que propõem uma educação que considere não somente aspectos universais. a qual teve como objetivo. a educação enfrenta novos desafios propostos pelas recentes teori as pedagógicas e de currículo. 1/200 4. (CNE Resolução n .Page 23----------------------A CIDADANIA NO BRASIL Maria Izabel Barboza de Morais Oliveira (UFMA) O presente trabalho tem como objetivo acompanhar a trajetória da cidadania no Brasil desde o período colonial a 2000. 1 ). políticos e sociais eram tratados pelos setores dominantes. averiguar nos currícul os dos cursos ministrados por esta unidade. A lei 10639/13. Caracterizada enquanto política de ação valorativa. SOBRE AS HIDRAS DO NORTE: rotas de transgressão desde o Ceará aos portais da Amazônia (1877-1889) Edson Holanda Lima Barboza (PUC/SP) Orientadora: Maria Antonieta Antonacci A . têm-se a legislação que particulariza a questão negr a em educação e determina a incorporação do Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos níveis e modalidades de ensino. a referida lei tenta resignificar a inserção do negro na sociedade brasi leira. traz para essa arena de disput as elementos que podem permitir a construção de novos sujeitos coletivos. que institui o ensino obrigatório de Históri a e cultura Negra no Ensino Básico. mas também a questão da diversidade humana e seus efeitos na promoção da igua ldade. O pre sente artigo apresenta os resultados de uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Educ ação da Universidade Federal Fluminense. O parágrafo 1  do mesmo artigo torna mais evidente a responsabilidade das instituições de Ensino Superior de incluírem o tema citado em todos os cursos que ministram. Analisaremos as conquistas e as manifest ações de cidadania da população brasileira. 22 ----------------------. A QUESTÃO RACIAL NOS CURRÍCULOS DOS CURSOS MINISTRADOS PELA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Iolanda de Oliveira (UFF) partir da segunda metade do século XX e nesta primeira década do século XXI. o que possibilitaria o resgate uma cidadania negada. a presença dos conteúdos so bre a Educação das Relações Étnico-Raciais. além das teorias mencionadas.preservação do preconceito. Demonstraremos como os direitos civis. art. No Brasil.

Assim. Palavras-Chave: Políticas Sociais. Conde. XIX em circuit os de rios. Brasil).Page 24----------------------MÉXICO: ETNICIDADE E MOBILIZAÇÃO POLÍTICA COM DESDOBRAMENTO . Direitos Huma nos e História Negra. Ações Afirmativas. a estrut ura dos municípios brasileiros: 1) capital (João Pessoa). MUNICIPALISMO E AÇÕES AFIRMATIVAS: PRÁTICAS E LIMITES DA GESTÃO MUNICIPAL (NORDESTE/BRASIL) Elio Chaves Flores (PPGH/UFPB) Joana D‘Arc Souza Cavalcanti (IESP/ PPGSS/UFPE) O presente trabalho discute a gestão municipal no âmbito das políticas públicas voltadas à população negra nos campos das políticas sociais (estruturadoras e compensatórias). Também porque a a nálise cobre quatro escalas municipais que exemplificam. Trabalhamos com documentos que abordam ações experimentadas cotidianamente na resistência aos diversos meios de construção do Estad o Nacional: recrutamentos. de uma maneira ou de outra. quando proprietários limitavam o acesso às áreas férteis nas ribeiras e projetavam explo rar o trabalho em direção às novas relações de lucro capitalista. Parte-se da hipótese de que as práticas municipalistas de gestão não estão considerando os avanços constitucionais da população negra e dos direitos quilombolas. Par a isso. 23 ----------------------. 4) micro município (Riachão de Bacamarte). 2) região metropolita na (Conde).Buscamos rastrear trajetos de migrantes cearenses em fins do Sec. florestas e cidades na Amazônia representava negação às posições de domínio e afirmava esferas diversificadas de ser e estar no mundo. 3) região do brejo (Alagoa Grande) e. fechamento de terras e regulamentos de trabalho. A rigor. a travessia de rios. Alagoa Gran de e Riachão do Bacamarte (Estado da Paraíba. vales e mares rumo ao Norte. gerando solidaried ades e conflitos que se chocavam com formas hegemônicas de impor padrões raciais e identitários. práticas municipalistas anacrônicas situam-se como o principal entrave às ações afirmativas dos direitos consagrados desde a Constituição Federal de 1988 à realização de uma sociedade multirracial e pluriétnica. As condições que homens e mulheres mestiç@s desde o Ceará enfrentavam foram repletas de opressões. A escolha de sses municípios diz respeito ao fato de que neles existem comunidades quilombolas reconhecidas ou em processo de reconhecimento pela Fundação Palmares. ambas litorâneas na concepção do Atlântico Negro. se detém em analisar dados de quatro municípios: João Pessoa.

juntamente com fatores climáticos. foram escolhidos fiscais índios. que soubessem ler e escrever. em cadeia constante. DESIGUALDADE RACIAL E (IN)SUCESSO ESCOLAR Ana Cecília Rodrigues dos Santos Godoi (CFCH – UFPE) Carlos Augusto Sant‘Anna Guimarães (NEAB – Fundaj) Tendo em vista a estruturação do atual quadro educacional brasilei ro. para escapar do pagamento dessas somas. para serem ordenados ao novo sacerdócio. incl usive. Cristiane Maria Ribeiro (UFG) O argumento principal do trabalho é de que as minorias tem sido sistematicamente maltratadas no interior do sistema escolar brasileiro. Tendo esses primeiros. traz algumas possibilidades de práticas pedagógicas formas organização e gestão da escola que contribua m para que se estabeleça na interior destas uma educação que contemple a diversidade racial brasilei ra. EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS. revoltados com taxas e impostos. como seca. O quadro torna-se questionáv el ao levarmos em consideração o fato de que um dos pontos de pauta de relevân cia significativa no planejamento nacional. enfatizando como naquela região a mobilização indígena não é questão rece te. uma Igreja indígena. desde meados da década 1950. os índios organ izaram milícias. Fato que o de que tal plano torna o quadro ainda mais questionável é . Já no período colonial. Essa tendência organizativa surgiu no México e posteriormen te o modelo foi adotado em todos os países com população indígena em toda a América. mostrando a importância de stes em considerar as perspectivas de gênero/raça/etnia em suas concepções. NEGROS. ampliaram o ciclo de pobreza e violência que levou à organização indígena nos anos de 1970.CONTINENTAL LIBERTAD Borges Bittencourt Essa comunicação pretende refletir sobre a questão étnica no E stado de Chiapas. Os povos autóctones também fugiam de seus povoados. pode-se observar claramente o hiato existente entre os níveis educacionais apres entados por brancos e negros. a partir disto procura as relações entre direitos humanos e diversidade. um nível de formação educacional mais elevado do que os últimos. tendo sido formada. dando início a um discurso centrado na identidade étnica. que destruíram fazendas e engenhos açucareiros. Essa perspectiva. está na universalização do acesso ao ensino público.

recorrendo também a autores cujos esforços teóricos se direcionam para o entendimento das causas das desigualdades exis tentes no Brasil . Esta pe squisa teve como objetivo buscar. Além disso.reportando a teorização bourdieusiana sobre educação ao quadro das desigualdades sociais brasileiro. em que Nord este remetia a um retrato do naturalismo realista.Page 26----------------------03.os 24 ----------------------. coisas pitorescas. onde se encontrava toda sorte de bizarrices. uma mistura de sangues bárbaros devido ao clima muito q uente e à raça inferior (ALBUQUERQUE JUNIOR.44). desempenho escolar 25 ----------------------. esquisitas. as desigualdades no nível de instrução escolar ent re os dois grupos raciais citados anteriormente permanece estável. ridículas. a visão depreciativa do nordestino esteve presente na literatura de intelectuais com o Oliveira Viana. raça.Page 25----------------------motivos pelos quais ainda hoje as desigualdades de desempenho entre os grupos raciais perduram no sistema educacional do país. influenciada pelo movimento mode rnista. sendo o nordestino ―o próprio exemplo de degeneração física e intelectual . p. pret endeuse compreender . a mesma posição de inferioridade nordestina tomava contornos menos . GÊNERO SEXUALIDADE E GERAÇÃO Coordenação: Maria Lúcia Gato Lucia (Grupo de Mulheres Negras Mãe Andresa) e Izidoro Cru z Neto (UFMA/Núcleo de Capacitação e Estudos do Processo de Envelhecimento) DEUSES E DIABOS EM TERRAS DE FURTADO Carla Nascimento (UFAM) O Brasil já foi visto como um país de tropicalidade e de natureza exótica. 1996. já nas primeiras décadas do século XX.nacional vem tendo êxito. Como ressalta Al buquerque Junior. e como a relação existent e entre os códigos escolares e a origem social dos indivíduos agem em prol da manutenção dessas desigualdades. à luz da teoria de Pierre Bourdieu. desigualdade. Palavras–chave: sistema educacional. Um pouco adiante. entretanto. que enxergavam o nordestino em contraposição à considerada modernização ariana do sul. compreender de que forma a origem social do indivíduo atua no direcionamento de sua trajetória escolar. um espaço medieval.

portanto. nos processos de construção dos EstadosNação (PIEROLA. 2006). na sequência. e o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. num desfecho de lutas pelo poder em diferentes eixos de análise – econômico. Nesta . como modo de enfatizar as dimensões territoriais e identitárias. em nome da ―segurança nacional . A década de 50 afirmou. foi elaborado em 1959. Um país que buscava se encontrar e se defi nir num momento de rupturas políticas. reca i sobre as imagens de Nordeste/nordestino construídas a partir de dois discursos da época – o discurso estat al do relatório do GTDN (Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste. t razendo a tona abordagens diversas sobre um cenário de extrema desigualdade no campo. político e sócio-c ultural. A Questão Regional Nordeste será aqui abordada enquanto resultado de um processo de construção e disputa de imagens Nordeste. compreendendo desenvolvimento como crescimento econômi co. Nação e Nordeste invadiram relatórios estatais de políticas públicas e salas de cinema. centrado na burguesia industrial nacional e na atividade produtiva do Estado. fortemente amparada em um disc urso de vitimização daquele território.naturalistas e mais sóciohistóricos. uma imagem sobre Nordeste prima/irmã das anteriores. Busca-se investigar o processo de rupturas que levou a constituição de uma Questão Regional Nordeste enquanto questão de caráter nacional – processo aqui configurado enquanto Questão Identitária Territ orial Nordeste (QITN). num movimento explosivo de auto-compreensão e auto-definição. vítima da desigualdade inter-regio nal. e foi imbuído do espírito desenvol vimentista da época. a SUDENE. O documento é o marco da criação da Superintendência de Desenvolvim ento do Nordeste. seu tem a principal são os diversos ―nordestes que ganharam não só importância política e a atenção do Governo enquanto uma questão nacional. 1959) . mas também alimentou a rebelde e utopista produção artístico-cinema tográfica da época. nos anos 50 e 60. Nossa questão central. O Re latório do GTDN.imersos em interesse s diversos. intitulado ―Operação Nordeste . no Governo de Juscelino Kubitschek. entre eles os que perpassam a questão da terra e das relações de trabalho no campo. econômicas e estético-culturais. tendo sido legitimada enquanto uma questão hegemônica. m as especialmente o vínculo necessário e indissociável entre esses dois domínios. Foram tempos devotados à transformação do ―Nordeste arcaico . dirigido em 1963 por Glauber Rocha . e que teve como questão central o que então se compreendia por região Nordeste. filha da era nacionalista-industrial. Desta forma. para o ―Nordeste industrial-planificado-integrado . pelo economista Celso Furta do. Este trabalho se inscreve num campo reflexivo de problematização d a construção do Brasil enquanto Nação.

que supõe e julga o Nordeste negativamente. desordem social. a crise.Em meio a luta pelo poder. a violência em sua radicalidade. p. o planejamento e a racionalidade técnica são centrais no . 1978. e nos chama a atenção para elementos que não são da ordem do racionalismo planificador e economicista estatal sobre esta questão regional. às consideradas potencialidades econômicas que deveri am integrar. mostrou-se inquestionável a inter ferência dos movimentos sociais rurais – mais precisamente as Ligas Camponesas na implementação do novo órgão: A criação da SUDENE constitui a resposta a essa cri se político-social nordestina. muito embora essa questão region al tenha sido equacionada oficialmente por uma proposta de integração econômica. Cabe lembrar que os anos 50 e 60 foram marcados pela valorização da arte cinematográfica co mo forte elemento de expressão nacional da cultura brasileira. em novas bases. sendo este também um assunto d e Estado. como atraso. não como espetacularização. Apresenta-nos a ira revolucionária. uma esperança vulcânica d e revolução. mas como ação transformadora. muito mais do que uma medida de aceleramento à expansão industrial capitalista. a Nação. que estivesse bloqueada se aquela região não se desenvolvesse (COHN. é contraposto ao discurso estatal do GTDN. religioso e místico. representando o fim do estado de indiferença sobre a fome e a miséria.Já o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. planejada e dirigida. e por quê? E de que forma isso está relacionado com o p rocesso de construção identitária/territorial do Brasil?É importante ressaltar q ue o que se entende por identidade e território aqui se localiza no tempo e no espaço.concepção. oriunda de sua estrutura de produção rígida e de seu subdesenvolvimento. Há.Page 27----------------------contido no GTDN. no sertão. foram propostas soluções ao ―Nordeste atrasado : uma inédita intervenção estatal. pois recaem na crítica às desigualdades intra-regionais e numa motivação revolucionária de caráter messiânico. ameaça. atribuída ao homem nordestino nesta obra.109). No entanto. o mito como potência transformadora pulsando em forma de transe e delírio proféticos do oprimido. como também ao racionalismo dos próprios pensamentos de esquerda e dos discursos sin dicais da época. não são conceitos represe . Deus e o Di abo na Terra do Sol vai além do humanismo alienante e se contrapõe tanto ao di scurso do ―Estado industrial integrado . de Glauber Rocha. quantos Nordeste/nordestinos existia m naquela época? Qual imagem Nordeste se tornou hegemônica. Decorrente do diagnóstico 26 modo de pensar o progresso ----------------------.

defende-se a desnaturalização do Nordeste como região e também do sentido atribuído ao nordestino. originada por uma tradição de pensamento. O Nordeste é uma espacialidade fundada historicamente. constroem verdades que. formando uma tei a de práticas discursivas e não27 ----------------------.e ―se conectam. e propõe-se a problematização de sua invenção no campo discursivo: O Nordeste não é um fato inerte na natureza. magma de enfrentamento que se cristalizam.Page 28----------------------discursivas. político. 1999. O film e Deus e o Diabo na Terra do Sol e o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolviment o do Nordeste são discursos territorializantes. p. As práticas sociais de que falamos assumem diversos caráteres . apesar de não deixarem de assumir como pressuposto u m espaço já recortado ao longo dos tempos: a região Nordeste. se sustentam a partir de práticas sociais. como todas as verdades. mas ―simulacros discursivos. situados no tempo e em relação com os demais objetos no mundo. que Nordeste/nordestinos existiram nos dois discursos e funcionaram enquanto condição e resultado das Questões Regionais Nordeste instauradas. Pretendemos investigar. cultu ral . são pedaços de história. se afastam ou se aproximam. A todo território. um referencial simbólico que não existe n a forma concreta e é fruto de processos constantes de territorialização. uma imagística e textos que lhe deram realidade e presença (ALBUQUERQUE JUNIOR. Os recortes geográficos. portanto. Quais se riam as construções identitárias que significam e ressignificam a imagem de Nordeste e nordestinos em Deus e o Diabo na Terra do Sol e no relatório do GTDN? Como e . muito menos vamos verificar a correspondência entre representações de Nordeste e qualquer suposta realidade.econômico. Eles const roem Nordestes e nordestinos. nem idealista – coloca em destaque o papel do sujeito no campo do embate das formulações sobre o mundo (ARAUJO.ntacionais. ou seja. Não trataremos de encontrar o sentido de um ―Nordeste real . 1999). na medida em que se entende que essa positivação epistemo lógica – nem essencialista. as regiões são fatos humano s.66). em meio à luta pelo poder que se dava n aquele período histórico. são ilusórios ancoradour os da lava da luta social que um dia veio à tona e escorreu sobre este território. são produtores de ―identidade/territorialidades Nordeste/nordestinos . relações de força e de sentido (ALBUQUERQUE JR. Não está dado desde sempre. Neste trabalho. então. 2005:5) . correspon de uma territorialidade.

Dra. Bueno. NACIÓN Y REPRESENTACIONES DE GÉNERO EN EL CARIBE COLOMBIANO” Prof. Pai Euclides Talabyian. da Casa das Minas. Contar a história da Mina no Maranhão é necessariamente lembrar nomes como de: Andresa. no rdeste. B. 1999. F. BENTES. Vó Severa. 2007. Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ. ARAUJO. Anastácia. Marize Helena de Campos (UFMA) Trata-se de um estudo sobre a trajetória das mulheres pertencentes à Casa Fanti Asha nti e seus papéis enquanto mães de terreiro ou filhas de sa nto. Dudu. Maximiana e de tantas outras mães-de-santo. planejamento e conflitos de classes. Embora d esde o séculos XIX sejam registrados pais-de-santo que prepararam mães de terre iros importantes. Mimeo. São Paulo: Cortez. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Glauber Rocha e a Literatura de Cordel: uma relação intertextual. 1981.Carlos de Oro. PIEROLA. Recife: FJ N. Dr. Mais fortes são os poderes do Povo. “CINE. “MULHERES DE FANTI ASHANTI: PAPÉIS FEMININOS E PODERES ANCESTRAIS EM SÃO LUÍS DO MARANHÃO Prof. 2006. 2008. por el director colombiano Ernest o McCausland. R. Rio de Janeiro: Civilização Brasile ira. Nhá Alice. ALEXEI. Amélia. da Casa de Nagô. Terra de Fome e Sonho: o paraíso material de Glauber Rocha. e outros. 2003. Francisco de. Tese de Doutorado. são mulheres as lembradas como "pilares" do Tambor de Mina. Elegia para uma re(li)gião: SUDENE. Durval Muniz. (Spanish Southwestern University) En El último carnaval. 1976.stes discursos se comunicam através de seus enunciados e silêncios carregados de sentido? De quais dispositivos se valem ambos os discursos para moldar e sustentar suas imagens Nordeste/nordestinos? Referências para o resumo: ALBUQUERQUE JUNIOR. OLIVEIRA. GPMC/IPPUR/UFRJ. do Terreiro da Turquia. Ramiro R. Territorialidades e Etnias Andinas: luta e pacto n a construção da nação boliviana. fundador e responsável pela Casa Fanti Ashanti. Ivana. bem como as que pertenceram e pertencem à Casa. Editora Massangana. Estética da violência no Cinema. NEMER. A Invenção do Nordeste e outras artes . São Paul o: Editora Perspectiva. Silvia. las representaciones de género del Caribe colombiano permiten cuestionar la visión patri arcal . 1962. Estado. Nossa intenção no VI Simpósio Internacional do CECAB é apresentar a pesquisa que desenvolvemos atualmente na Casa Fanti Ashanti e que t em por preocupação é destacar o matriarcado no Tambor de Mina do Mar anhão enfocando especificamente a história das mulheres que influenciaram o babalorixá Euclides Mene zes Ferreira. G. COHN. Ivana. Crise Regional e Planejamento (o processo de criação da SUDENE). BENTES. Identidade e Território enquanto sim ulacros discursivos.

àquelas como o Brasil. Cuba e Colômbia. menos fundamentado em discursos e ações baseados em estruturas identitárias fixadas.Page 29----------------------virginidad y de la pureza como símbolos de su representación ideal dentro del patria rcado. AFROCARIBEÑAS Y DE LA DIÁSPORA COMO MOVIMENTO TRANSNACIONAL AFRODIASPÓRICO. Uruguai e o Peru. com uma significativa proporção de afrodescendentes. a América Latina e o Caribe apresentam uma mult iplicidade de povos afrodescendentes em seu território. Nesse sentido. rígidas e territorializadas. ou como Venezuela. La película sugiere cuestionamientos éticos y estéticos en contra de la situación conflictiva del país y de la imposición de sistemas injustos y discriminadores que no permiten un proceso social de transformac ión y liberación de la mujer. VOZES E POLÍTICAS DA DIÁSPORA NA AMÉRICA LATINA E CARIBE: A RED DE MUJERES AFROLATINOAMERICANAS. Marilise Luiza Martins dos Reis (UFSC)\(UDESC) Como é sabido. El últ imo carnaval juega con espacios en los que la mujer aparece limitada dentro de una esfera privada de relaciones domesticas que no permite su independencia y libertad de expresión y el hombre se mueve en una esfera pública desde la cual ejerce su domin io y abuso de control sin ninguna restricción o señalamiento por parte de la sociedad. Na última década.del sujeto masculino como apropiado para dirigir los destinos nacionales y del sujeto femenino como símbolo de la pureza de la nación. com importantes minorias negras. Leo la película de McCausland como una alegoría de la crisis d e la nación colombiana donde se muestran papeles patriarcales obsoletos basados en el género. muitas das rede s de organizações políticas negras desses espaços têm dado indícios de que está emergindo um novo tipo de Movimento Negro. La película muestra hombres débiles y abusivos y mujeres sometidas pero igualmente fuertes que sugi eren un rechazo de la 28 ----------------------. La representación de suje tos masculinos y femeninos que no encajan en los parámetros patriarcales hetero-normat ivos y naturalizadores ayuda a cuestionar la crisis del Estado colom biano y de los sujetos tradicionalmente idealizados. que vão desde as so ciedades e culturas predominantemente negras de vários países do Caribe. paulatinam ente transitando para modelos discursivos e de ação política baseados em estruturas de identificações mais múltiplas e desterritorializadas. meu objetivo com esse trabalho é ap .

Mas e as mulheres negras. talvez desde sua origem e cada vez mais. que por sua vez confere ao movimento negro uma configu ração transnacional. c om suas múltiplas conexões e parcerias. como representação de um movimento afrodiaspórico. São essas questões que pretendo trazer a tona com a apresentação desse trabalho. E além dos conhecidos avanços sociais. um grupo social extremamente marginalizado antes do pr ocesso revolucionário. um fenômeno global. N a perspectiva pós-revolucionária igualdade passou a significar uniformidade. Verifi camos que apesar de inúmeras transformações positivas. refletindo sobre os seus reais níveis de transformação. buscamos superar os silêncios. tem nos levado a considerar que os movimentos negros da Améric a Latina e Caribe não podem mais ser reduzidos a uma questão de mera cópia ou repetição de doxas estrangeiras. tomando por base a atuação da Red de Mujeres Afrolatinoamericanas.resentar uma discussão sobre esse processo. desigualdades sociais de gênero e . os interdit os e os não ditos sobre a situação da mulher em Cuba e em especial da mulher afro-cubana. A experiência dessa rede. definiu-se o alcance da igualdade entre mulheres e homens como uma das prioridades do recém constituído governo socialista. virtual e imaterial. cl asse e raça? O objetivo desta comunicação é discutir identidade e imaginário social de mulheres negras cubanas a partir da interseccionalidade dos conceitos de gênero. na medida em que constituem. 29 ----------------------. Afrocaribeñas y de La Diaspora (RMAAD).Page 30----------------------IDENTIDADE E IMAGINÁRIO SOCIAL: MULHERES NEGRAS EM CUBA APÓS 50 ANOS DE REVOLUÇÃO Giselle Cristina dos Anjos Santos Revolução cubana de 1959 representa um grande marco da históri a recente latinoamericana. sem espaço para as especificidades existentes nos distintos grupos sociais. inspir a manifestações que emergem nas fronteiras geográficas locais. inserção e integração social após 50 anos de Revolução. e uma abordagem PósColonial. para demonstrar como vem se desenvolvendo nos movimentos negros da Améri ca Latina e do Caribe um discurso e uma estética caracteristicam ente descolonizadora. A partir da história oral. desterritorializado. tem apontado para a exis tência de um contexto político-cultural que incorpora e. a RMAAD. superaram a experiência interseccional das desigualdades de gênero. transcultural e diaspórica. Isso porque. desterritorializado e reterritorializado. estigmas negativos. ao mesmo tempo. classe e r aça/etnia.

mesmo que ainda incompletos. as relações raciais embasada s na hierarquia branca desembocaram em formas diferentes de manifestar-se a discri minação racial num e noutro pais. Mulher. No entanto. considerand ose o preconceito étnico e racial. Gênero. pouco se vê de efetivo no que compete à realização destas políticas. Relações Étnico-Raciais. Edineuza da Silva Brandão (UFT) Este estudo é parte de monografia em andamento sob a orientação da Doutora Jocyleia Santana dos Santos. Revolução. O que pode acarretar problemas e dificuldades no desenvolvimento do seu trabalho como docente. Cuba-Reyita. e as discriminações sexistas e de classe vividas por estas. Palavras . MULHER NEGRA PROFESSORA: DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITOS EM SALA DE AULA E NAS RELAÇÕES DA ESCOLA. E tem su a relevância no que se refere à condição de minoria em que se construiu a história da mulher negra. a maneira como esta é representada pode levar a se introjetar no imaginário popular. evidenciam que: se por um lad o criam-se políticas de intervenção. o trabalho traz como objetivo de investigação as dificuldades relacionadas ao preconceito de raça e de cor encontradas no trabalho da mulher professora negra nos primeiros anos da escola pública de Palmas Tocantins.chave: Mulher negra – professora – educação – diversidade BRASIL E CUBA: DUAS MULHERES NEGRAS ENTRE A NATURALIZAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO E O CONFRONTO Orlinda Carrijo Melo Olga Cabrera (UnB) 30 ----------------------. e a outra de Goiás. e em suas relações na escola. As estratégias de vida destas duas mulheres negras num d . Os estudos realizados com essa pes quisa. Palavras Chaves: Cuba.Page 31----------------------Seguir a trajetória de duas mulheres negras (procedentes uma da província de Oriente. Além do exposto. poden do incentivar ao desrespeito e incutir conceito negativo à pessoa da mulher professora negra em sal a de aula. uma visão estereotipada e depreciativa. no sentido de melhorar o acesso e o respeito às difer enças. Realizado por meio de pesquisa bibliográfica e da história e memór ia da educação. Brasil-Sebastiana) numa perspecti va comparativa pode revelar que as relações de gênero criadas no Novo Mundo nos períodos es cravista e pós escravista.raça ainda fazem parte da experiência das mulheres afro-cubanas. ganharam amplitude e permanência.

o racismo naturalizou-se. no entanto. ao atraso e à doença social. em Cuba. ela é a própria representação da naturalização da discriminação a segunda identifica-se como muher e negra e vai ao confronto tanto no espaço familiar quanto no social. Inúmeras causas criminosas foram atuadas cont ra os negros. o esteio da família. com o apoio das ciências da época. de fato. A partir desse ideal. às ativi dades criminosas. sociais. IDENTIDADES FAMILIARES E (PATERNIDADES) MASCULINIDADES NA AMÉRICA LATINA: UM OLHAR A PARTIR DAS FAMÍLIAS AGROPATRIARCAIS E SUAS FORMAS SECUNDÁRIAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO/BRASIL Bruno dos Santos Hammes (UERJ) Os objetos dessa pesquisa foram pais moradores da cidade do Rio de Janeiro que se relacionam de forma heteroafetiva. Onde o Tipo Ideal que se buscou perceber é aquele de Homem (macho) provedor e mantenedor p ouco participante nas obrigações de criação dos filhos com uma vida social pouco ou anda alterada com a chegada dos filhos. mas. as culturas negras foram reduzidas. preferencialmente. perceber se há algum peso na simples participação do homem na criação e nas obrigações com os filhos que aponte para um questionamento ou dúvida sobre a virilidade e masculinidade em ―pais modernos suficiente para demonstra r tal hierarquia em outras escalas. ambas lecionaram com grupos sociais marginalizados e não como profissionais ainda que a primeira fo rmouse como normalista. políticos e culturais podem revelar os mecan ismos da dominação da ―branquitude .iálogo com seus contextos históricos. onde os negros tinham participado de maneira destacada nas lutas anticoloniais e a República tinha sido uma conquista principalmente deles. Tal estudo foi importante para nortear e ident ificar a razão de um dos principais pontos de atrito na sociedade que é o ma chismo bem como a homofobia e outras questões de gênero que poderiam ser percebidas de certa forma com o políticas já que para além do contrato social (HOBBES) o homem (sexo masculino) teme principalmente a perda de seu STATUS QUO. Sebastiana não alude à raça . Mas. Sebastiana e Reyita asumiram ambas o modelo de família nuclear e patriarcal como o mais positivo para driblar a discriminação. articulado à invisibilidade do negro. ambas vieram na educação um meio de ganhar status social. integrando os movimentos panafricanos e partidos políticos para lutar pela igualdade racial. se analisou as performances mais flexíve is e mais participantes tentando dessa forma. No Brasil. ainda que ambas foram. Dessa forma determinista são passivei s de estranhamento e melhor estudo para quem sabe assim poder .

Orientadora (UFT) dete A monografia investiga a mulher negra e professora e sua trajetória na educação básica.206 Sul. Foram realizadas seis entrevistas gravadas em áudio. com endereço: 1. Tocantins NEGRA. especificamente na cidade de Palmas. AL. situada na quadra 307 Norte. endereço: 407 N. A metodologia util izada foi a pesquisa bibliográfica e a pesquisa de campo uma vez que não se encontrou publicações sobre a mulher professora negra no contexto regional . APM 07.Page 32----------------------MULHER NEGRA E PROFESSORA: TRAJETÓRIAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA Edineuza da Silva Brandão (UFT) Jocyléia Santana dos Santos .questionar a validade e veracidade da imposição biológica como base para coerção social. 08. Palavras. 31 ----------------------. Alameda 02. (antiga Arse 122). AP M 06. A relevância científica se deu quanto a escolha da temática. (antiga Arno 33).chave: Mulher negra. profissão docente. Palmas. 31. hegemonia. uma professora do Colégio municipal Pastor Paulo Leivas Macalão. Na s considerações finais destacamos que as professoras mesmo se auto-declarando ne gras. diante das abordagens em voga que trata da etnia neg ra e da reivindicação de direitos igualitários para o desenvolvimento de um trabalho diferenc iado junto à diversidade presente na sala de aula. rminismo biológico e performances sociais. De acordo com a metodologia iniciamos com o depoimento de duas professoras da Escola Estadual Vila União. do universo da pesquisa e da viabili dade de execução no prazo estabelecido. Palavras-chave: status quo. Al. MULHER: ESBOÇO DE COMO RAÇA E GÊNERO SE INTERSECCIONAM . APM 01 (Antiga Arno 42). 1206 sul. não perceberam a dimensão do seu papel social. O uso da metodologia de história oral foi significativ a pela possibilidade de construção de acervos e fontes de pesquisa so bre estas mulheres e conseqüentemente sobre o sistema de ensino de Palmas. no endereço: 405 Norte. transcrição e análise dos dados. n a região norte de Palmas. (antiga Arno 43). Al 23. masculinidades. Refere-se ao papel das mulheres negras professoras e as dificuldades enfrentadas por estas no ensino fundamental nas escolas públicas da cidade de Palmas. duas professoras da Escola municipal Beatriz Rodrigues da Silva. e uma professora negra da Escola municipal Antonio Carlos Jobim.

Visto que suas demandas não se viam contempladas plenamente no movimento feminista.Cinthia Marques Santos O presente trabalho se propõe a investigar o modo como as ca tegorias raça e gênero se cruzam nos diversos segmentos do movimento feminista e negro.sexualidade ou c lasse. sobretudo. Neste sentido o objetivo deste trabalho é discutir junto a outras temáticas como o autor através de suas obras tinha como intuito maior dar uma orientação social à seu público . de 1917.de maneira relevante.As mulheres negras ao se organizarem em grupos/entidades fazem emerg ir no debate com os movimentos negro e feminista a intersecção entre raça e gênero elucidando suas condições enquanto mulher e negra e a necessidade de romper com lugares de subaltern idade. de 1919. Também nesse período. nas obras Las Honradas. nem no movimento negro no qual a q uestão de gênero não era amplamente discutida.raça/etnia. 32 ----------------------.Assim este trabalho pretende compreender se e como a inserção das categorias raça/gênero provocou mudanças nos debates dos movimentos negro e feminista. assunto s como a lei do divórcio para o debate político e social. o movimento feminista cubano estava em franco desenvolvimento levando dentre outros. as questões pelas quais são oprimidos seja pelo gênero. tão exploradas nos romances.A partir da problematização da categoria mulher e negro os movimentos sociais. cada qual com s uas diversas necessidades e a seu modo buscam abordar .Page 33----------------------GÊNERO E SEXUALIDADE NA LITERATURA CUBANA NO INÍCIO DO SÉCULO XX Sandra Maria de Oliveira Este trabalho tem por finalidade identificar e analisar Identidade de Gênero na literatura cubana de Miguel de Carrión entre o período de 1895 a 1919. Nestes romances o autor de linha naturalista. desc reveu do seu ponto de vista os problemas sociais e morais que afetava m a família burguesa e. e Las Impuras. o papel da mulher nessa sociedade que estava em transformação devido à tentativa de consolidação da República Cubana. inicialmente engendrado por mulheres brancas. bem como o movimento feminista no período em que o autor escreve as obras. Para a viabil idade deste trabalho foram necessárias outras análises tais como a sexualidade.

Os diferentes modos de usar o (a) moreno (a) pelos (as) estudantes entrevistados (as) é o foco c . e a Escola Madre Zarife Sales. NO MEIO E MISTURADO" OU UMA (RE) PRODUÇÃO DO DISCURSO DE MESTIÇAGEM EM DUAS ESCOLAS DE BELÉM DO PARÁ? Alan Augusto Moraes Ribeiro Em duas escolas do bairro do Guamá. todos vítimas de ofensas raciais. Discute ainda conceitos de identidade e memória equiva lentes em espaços sociais dos negros que ficaram na África e dos demais que vi eram para as Américas e Caribe. do povo brasileiro é um elemento que aciona e é acionado pelo denomina do discurso de mestiçagem brasileiro pelo uso do moreno. com perspectivas didáticas para o estudo e ensi no da historiografia africana em diversos níveis de ensino-aprendizagem. as mulheres pertencentes à as do movimento feminista. é uma explicação da construção transcultural do pensamento panafricanista. analiso.alvo. burguesia cubana. Este estudo dem onstra que a luta corporal do homem com o leão e a força sagrada atribuída aos cabelos são sinergias comuns do lion-man. correlatas no ritual étnico de passagem masai e na mitologia bíb lica de Sansão. a Escola Estadual de Ensino Médio Alexandre Zacharias de Assumpção. A recorrência do uso do vocábulo moreno (a) nesse processo identificador e as remissões legitimadoras desse uso pelos estudantes ao divulgado caráter misturado e medial do referido termo como classificador genérico da identidade étnicoracial do país.Page 34----------------------04. a partir da utilização sagrada do cabelo como sign o de fortalecimento identitário negro. a partir de relatos de dez estudantes divididos e m ambas as escolas. católica e particular. EIXO TEMÁTICO: IDENTIDADES NACIONAIS Coordenadores: Olga Cabrera (UNB) Benedito Souza (UFMA) PANAFRICANISMO: DIÁLOGOS ENTRE O RITUAL ÉTNICO MASAI E A MITOLOGIA DE SANSÃO Maristane de Sousa Rosa (UEMA) O panafricanismo jamaicano no século XX reivindica a (re)introdução dos conteúdos sobre História da África arrancados dos textos da Bíblia. Portanto. periferia de Belém do Pará. pública. os pessoais modos de identificação étnico-rac ial a partir da categoria Cor. ou seja. que eram também as adept 33 ----------------------. "O MORENO (A).

Operário e Feminista. que faço PROTAGONISMO NEGRO NUMA PERSPECTIVA AFROCENTRADA Elio Chaves Flores (UFPB) Alessandro Amorim (UFPB) Danilo Santos da Silva (UFPB) O presente trabalho procura pensar o protagonismo negro em suas mais significativas formas de expressão. anticoloniais/desco loniais e com referência na produção do Movimento Negro. não universalista e não essencialista.entral da análise neste trabalho. em que o vin culo epistemológico situa-se na busca de uma memória e identidade construída com ―os de baixo . Abdias Nascimento (1914) e Oliveira Silveira (1941-2009). cultura histórica. NEGRAS RAÍZES BRASILEIRAS – UMA BUSCA INVESTIGATIVA E METODOLÓGICA Paulo Henrique da Silva Santarém A exposição busca apresentar/compartilhar uma investigação de caráter epistem ológico e identitário sobre as trajetórias e memórias negras brasileiras. afrocên na const . bem 34 ----------------------. Palavras-Chave: afrocentrismo. Pa ra tanto utilizamos como ferramentas os marcos dos estudos culturais. tendo a construção da árvore genealógica como horizonte próximo e o objetivo d e longo prazo constituir uma versão da história da família desde os laços rompidos no continente afric ano a história recente. A pesquisa utiliza com o tema a busca pela constituição e história da família do pesquisar desta comunicação. que vincula à ancestralidade africana a experiência diaspórica do negro rução de um novo conhecimento sobre o mundo. avançando nas metodologias possíveis para tan to. posiciona-se no espaço de fala e agência acadêmica. numa perspectiva afrocentrada. intelectuais negros. Apresenta a ex periência estética e política de Solano Trindade (1908-1974). A busca partiu de uma produção etnográfica em que o autor situa-se enquanto sujeito/ob jeto da pesquisa. realizando o trabalho da identidade racial e social também através da factualidade individual. como expressão de ativismo afrocentrado.Page 35----------------------como pelo estabelecimento de um paradigma cognitivo trico. no que se refere à maneira pela qual ações no campo da cultura e da política estavam baseadas na representação da África como o centro referencial particular ancestral. Esta pesquisa buscou contribuir com a constituição de uma memória da vivência negra no Brasil.

Abordaremos os elementos encontrados nas vozes de autores como Antonil. e ntão ministro plenipotenciário do rei lusitano D. Esta comunicação tem por objetivo discutir algumas problemáticas relacionadas ao siste ma escravista. José I. mas também na construção social de prerrogativ as culturais que engendram a atuação desses atores. cristalizando-as através de seus discursos. Identidades Nacionais O OLHAR MEDIADO: DISCURSOS PARA A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO ESCRAVO NO BRASIL COLÔNIA: ALGUNS ELEMENTOS Samuel Silveira Martins Rafael Moreira (Co-Autor) A escravidão no Brasil constitui-se em um vigoroso objeto de análise da Sociologia Brasileira sendo representativo em grandes autores de nossa literatura desde o séc ulo XVII. A inspiração geral da busca deu-se através da obra ―Roots (Negras Raízes). Negras Raízes. foi um a lvo privilegiado das Reformas Pombalinas em todo o reino português. durante a segunda metade do século XVIII. Suje ito Posicionado. para estabelecer possíve is relações entre a 35 ----------------------. As fer ramentas metodológicas foram as da história oral (tradição griot) e pesquisa histórica desde a produção de literatu ra local. O Marquês de Pombal. Tradição Oral. que em suas obras analisaram ou ilustraram uma perspectiva da vida colonial observada. Azeredo Coutinho. programou uma série de reformas administra tivas e . “POVOS INDUSTRIOSOS”: O PROGRESSO ILUMINISTA DA ADMINISTRAÇÃO POMBALINA NO MARANHÃO Nivaldo Germano dos Santos (UFMA) O Maranhão. Abolicionismo. Palavras-chave: Sistema Escravista.Page 36----------------------construção social do discurso sobre o escravo e a escravidão sua influência na constituição do pensamento social Brasileiro. Joaquim Nabuco e Machado de Assis – autores representativos de seu tempo. Pensamento S ocial.por caminhos outros aos do patriarcado e patrimonialismo. Brasil Colonial. de Alex Halley. entendendo que este constitui-se não somente d a relação econômica senhor/escravo. entendendo a historicidade d o sistema escravista enquanto processo cambiante e de variados significados a depende r da época e lugar. Palavras chave: Memória Negra.

suas religiões e insti tuições políticas transportava-se para o Novo Mundo. ma is precisamente no Dia de Reis. OUTRAS TEIAS DA DIÁSPORA: CELEBRAÇÕES NEGRAS DO CICLO NATALINO NO BRASIL E CARIBE Bebel Nepomuceno (CECAFRO. como Peru. para além dos mecanismos polític os. ―a África negra e ultratlântica com seus filhos. . de acordo com o calendário cristão. seus vestidos. Linguagens.no reino. Colômbia. Neste trabalho. marcante no pensamento da época. escravidão e plantation . nas áreas de colonização ibérica. govern ador da capitania do Maranhão e seu tio. como bem observou Fer nando Ortiz. bem como outros países da América do Sul. e sua influência na administração do Maranhão naquele tempo. especialmente a Inglaterra. seus bailes e cerimônias. O presente trabalho tem por objeto as cartas administrativas entre Joaquim de Mello e Póvoas. A metodologia utilizada é a análise do discurso presente nas cartas. tiveram um outro elemento em comum: celebrações negras ocorridas no chamado ciclo natalino que. observando as ref erências ao iluminismo.Guianas etc. com o objetivo de não apenas perceb er a influência do racionalismo ilustrado na colônia americana. tendo como fo co festas e celebrações de protagonismo negro. Palavras-chave: Diásporas. Nesse período. buscamos atentar para processos culturais afro-atlânticos.PUC) O Brasil e o Caribe partilham um passado comum de colonização. linguagens e colonizadores diferentes. africanos escravizados apropriaram-se do calendário religioso dos colonizadores para recriar nas Américas crenças. com a qual os portugueses mantinham sólidas r elações comerciais. Culturas Afro-latino-cari benhas. Performance corporal. transcendendo f ronteiras físicas. e para a qual o algodão produzido no Maranhão sete centista foi uma das principais matérias primas da Revolução Industrial. nas regiões de colonização anglófona. situase entre 25 de dezembro e seis de janeiro. Para além das similaridades históricas e proximidade geográfica. como também compreender até que ponto iss o surtiu efeitos práticos e materiais naquele contexto. Entendemos que. suas músicas. Conexões histórico-culturais entre o Brasil e o Caribe têm sido relegadas pelos estudiosos. buscando inserir Portugal no ritmo do progresso ilumini sta pelo qual a Europa passava. o Brasil e áreas do Caribe. Uruguai. ou no Boxing Day. sobre a administração destas terras. s uas línguas e cantos. o Marquês de Pombal. valores e cosmovisões de suas sociedades de origem e por meio dele marcaram sua diferenciação. Identidades. entre os séculos XVIII e XIX.

as discussões nos instiguem pensar os constr utos de identificação com o ser negro e. esse trabalho se desdobrara sobre a intensa participação africana na elaboração da sociedade brasileira c om a ininterrupta tarefa de combate ao racismo e às práticas discri minatórias a que estão sujeitos diariamente milhares de africanos e afro-descendentes esp alhados pelo mundo. Singulariza essas relações em meio ás distancias geográfica. vem de encontro às intencionalidades da promulgação da Lei 10. A prese nça hebraica na região tem sido estuda e foi registrada por Samuel Bechimol em alguns dos seus tra balhos. mais de proximidades sócias e culturais seculares. a pesquisa busca compreender o processo de migração dos Judeus para o município de Parintins/AM. procuraremos aqui alargar e ampliar as observações já existentes quanto a . Efetivando-a na intervenção pedagógica. no entanto. pesquisam e respeitam est a luta histórica anti-racista.36 ----------------------. Assim. aqui respaldamos a conquista efetivada pelo Movimento Negro brasileiro com a sustentação de vários intelectuais negros ou não-negros que. do Centro Israelita do Pará. por meio de uma leitura contextual entre os anos de 1900 a 1920. Mesmo que. em especial no interior do Amazonas. que visa transmit ir aos alunos do ensino básico e médio a história da África e do Brasil negro.639/03. bem como os periódicos que compreende a época . As fontes utilizadas serão os doc umentos pertencentes ao acervo do arquivo público do amazonas. conseqüentemente com o africano . dos memorialistas do município de Parintins.Page 37----------------------EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES ETNICO-RACIAIS: A ANCESTRALIDADE DOS DESCENDENTES DE AFRICANOS NO BRASIL Igor Fernandes de Alencar (UFG) Tatiane Julia de Alencar (UFG) Esta comunicação denominada Educação para as Relações Étnic -raciais: a ancestralidade dos descendentes de africanos no Brasill. As narrativas dos descendentes também se constituirão numa font e importante para a observação das trajetórias de famílias de Judeus no município. MIGRAÇÕES E IDENTIDADE NA AMAZÔNIA: A COLÔNIA JUDAICA EM PARINTINS – 1900 A 1920 Maria Ariádina Cidade Almeida (UFAM) Este trabalho tem a proposta de ampliar os registros e estudo s sobre o povo Judeu na Amazônia.

revela as diferenças nas respos tas a . observando as atividades exercidas. a comunidade norteafricana que começou a se estabelecer na foz do Amazonas. nas primeiras décadas do século XIX. Jeffrey Lesser em seu livro a negociação da identidade nacional que trata da minoria de migrantes e da luta da etn icidade no Brasil observa: ―a surpresa dos brasileiros ante a crescente população o riginaria do Oriente Médio transformou-se em choque. objetivo a alcançar mediante o progresso o qual era a inspiração para os projetos educacionais do período em ambos países. A maneira em que foram idealizados estes pelas duas mais grandes figu ras do momento no Brasil e em Cuba. Num dos polos encontravam-se as culturas reduzidas a manifestações atáv icas. Brasil (1888) e Cuba (1886) significa penetrar nos efeitos d os novos contextos onde foram arrojados os ―emigrantes nus sobre suas culturas durante o pe ríodo pós escravista. Os aportes cientificos eram os mesmos em ambos paíse s. essa pesquisa torna-se mais substantiva na medida em que faz uso dos estudos das migrações e suas conseqüências para as transformações regionais. o m ovimento de Balguns grupos e os aspectos identitários. Conside rando. De fato. a ciência positiva europeia que acreditava na evolução e pelo tanto em culturas inferiores e s uperiores.presença desses Judeus. PROYECTOS EDUCACIONAIS DE RUI BARBOSA E ENRIQUE JOSE VARONA Olga Cabrera (UNB) Estudar numa perspectiva comparativa os impactos das ciencias de findos do século XIX e principios do século XX nos dois países americanos que tinham abolido a es cravidão negra mais tarde. quando ficou claro que o primeiro grupo numeroso de imigrantes Árabes a vir para o Brasil não era nem Muçulmano e nem Cristão. dos Judeus e os possíveis impact BRASIL Y CUBA: CIENCIA VS CULTURAS NEGRAS. que ao longo do seu processo histórico. era exclusivamente judia . Deste modo. por meio das fontes sugeridas e com o auxilio da micro-história será possível compreen der 37 ----------------------.Page 38----------------------e analisar o processo de migração os a sociedade parintinense no inicio do Século XX. a Amazônia foi constituída por di ferentes componentes étnicos e culturais. Conforme a observações de Bechimol (1999) os Judeus na região precederam alguns grupos migratórios notáveis. atrasadas e incivilizadas e no outro a cultura ocidental branca. Rui Barbosa e Enrique José Varona.

de la decolonialidad. alcanzaría a la colonia para priv ilegio de los blancos y para afirmación de sus posiciones estamentales. se relacionam as questões que perpassam a construção das idéias de nação e identidade nacional. en el pensamiento de la región. Era requisito indispensable la absoluta paz interior y el mantenimiento del precario equilibri o estamental: era su estado ideal. una de las centrales en la reflexión. lo cual ha marcado una perspectiva teórica y una obra que incide en los estudios culturales. DE JOÃO MELO. pondo em destaque suas relações com questõe s de base étnico-racial. Kelly Ane Evangelista A partir da emergência de recentes narrativas que insistem em discutir as demandas de ordem política. o trabalho a ser apresentado pretende examinar como discurs os acerca da identidade cultural e das relações inter-étnicas presentes nos contos da obra Fi lhos da Pátria.Page 39----------------------era la colonia más rica del mundo en 1840. cultural e social de Angola. la alta clase criolla pensó que la legitimidad del liberalismo metropolitano.perguntas realizadas sobre idêntica base conceitual cientifica. "EL PROBLEMA DEL NEGRO EN EL PENSAMIENTO CARIBEÑO". El mayor peligro para los hacendados era la guerra interna en escalada y sostenida contra los africanos y sus descendientes. a través de la Constitución Gaditana. etc. do escritor João Melo. LA CONSTITUCIÓN GADITANA Y EL NEGRO EN CUBA Olga Portuondo Zúñiga El patriciado criollo de la isla de Cuba prohijó una economía d e gran auge y provecho. Cuando la monarquía ilustrada y despótica expiraba como poder real. Cuba) Este trabajo sería una lectura de los principales pensadores del Caribe en torno a la problemática. mediante la renovación de las estructuras administrativas y para perpetuar su autonomía. en las perspectivas de la complejidad. del mismo modo que ma rcan la necesidad de la consideración de una episteme peculiar. basada en la plantación azucarera y cafetalera con fuerza de trabajo esclava. por lo que la plantocracia prefirió la alianza con el régimen liberal conservador peninsular. Felix Valdés García (Instituto de Filosofía La Habana. La oligarq . se d ecía que 38 ----------------------. DISCURSOS ACERCA DAS RELAÇÕES INTER-ÉTNICAS E DA IDENTIDADE NACIONAL EM FILHOS DA PÁTRIA.

No por casualidad. era que los descendientes de africanos no podían ser convertidos en ciudadanos ig uales a los blancos. sino por lo que representa ba para hacer perdurar la condición de inferiores entre los libres de color. utilizaremos diferentes fontes: jornais. Para tanto. e documentos provinciais de Santiago de Cuba. O negro imigrante e o negro nacional serão nosso foco de análise para entender o processo de formação da identidade cubana neste período. a partir do encontro de diferentes etnias imigrantes que en tram no país nas primeiras décadas do século XX para trabalhar nas indústrias de açúcar. sin apenas discusión y como algo previamente concertado décadas atrás A IDENTIDADE CUBANA: RE-ELABORAÇÕES DE SI MESMO A PARTIR DA PRESENÇA IMIGRATÓRIA ESTRANGEIRA (1900-1933) Katia Couto O presente trabalho pretende analisar a constituição da identidade cubana durante o período da primeira República. Así se aprobaron las Leyes Especiales. durante los 84 días que duró el restablecimiento constitucionalista. Esta es la razón por lo que las f uerzas que respaldaron al liberal conservador. amen de que los hacendados orientales coincidieron. ni tan siquiera al ne gro libre. tanto como los occidentales. entrevistas. espaço prioriz ado para a pesquisa. donde vetaron la abolición de la trata y de la esclavitud. el punto neurálgico man ipulado por los líderes del Congreso para el rechazo a instaurar la nueva Constitución en Ul tramar. Porque no era sólo la preservación de la esclavitud por la esclavitud misma.uía criolla hizo amagos para arrancar dádivas de España y para que colaboraran con la represión cuando las barreras sociales eran cada vez más rígidas. con el crecimiento de un sistema de pla ntación que exigía miles de esclavos y cuando las regulaciones internacio nales para suprimir la trata se aplicaban con mayores exigencias. capitán general Miguel Tacón tuvieron mejores posibilidades de triunfo en el conflicto con el gobernador del Departamento Oriental Manuel Lorenzo luego que éste proclamó la Constitución de 1812 en el territorio de su adeministración colonial entre octubre-diciembre de 1836. . los procuradores de la isla de Cuba habrían sido tan conservadores como cuando participaron en las de 1810-181 2. en no otorgar cualquier de recho civil a los descendientes de africanos ni papel protagónico alguno. únicamente. para la oligarquía b lanca: de concurrir a las constituyentes de 1836-37. El asunto de la entrada en las Cortes de parlamentarios criollos tenía interés.

Our artistes and unlettered historians reinforce our oral and socio-historical traditions. Rather. not the government-issued paper-thin ‗pass‘ that permits us to travel to lands far and wide. sacred culture to us and share it with the wider wo rld. assimilation and national identity. the passion of our people in sports and the arts or the melodic rhythms of our life experiences pla yed out in the infectious sounds of our musical talents. even amidst the challenges of globalization. the electric.39 ----------------------. our quest for a common national identity is th ere for the keen eye to discover. Br azil and the Republic of Trinidad and Tobago. CONTRADIÇÃO ENTRE O GARVEYSMO E OS PROJETOS CUBANOS DE NAÇÃO". A comparative analysis of the impact of the factors that gravitate and conversely depart from a cohesive definition of national identity in the Brazilian and Caribbean Diasporas will specifically focus on Sao Luis better known as ‗Brazilian Jamaica‘ in Maranhao. To those who dare to lo ok beyond the surface. multi-faceted co-existence in our lands.Through the course of this paper. multi-cultural. we are a people who have the distinct advantage of wide ranging. or even the co ntagious sensuality of our people. We do not live in obvious settings neither are we an obvious people. Dionisio L. solidify and celebrate the strength of our regional prowess. festive nature of our political campai gns. Whether it is the savoury delight of our indigenous f oods. "MARCUS GARVEY EM CUBA. this is the legacy by which we ought to be defined . our committed definition of beauty and our redefined philosophy of lif e compels us to merge. impart and preserve our sub-conscience. Poey Baró (NEAB/UNB) Em 1921 o líder jamaicano Marcus Garvey visitou Cuba e se reuniu . The discerning ey e will not gauge an accurate appreciation of our numerous cultures b y mere observation and participation in obvious settings. This study will further exami ne the means by which citizens of these respective countries choose to identify themselves and be inde ntified and the challenges of maintaining that common national identity. the exuberance of our protests.Page 40----------------------MY CULTURE IS ME Joy Dillon Culture can be akin to the life-giving blood of the Latin-A merican and Caribbean Diasporas. I intend to highlight the common cultural for ces that create.

passam a incluí-los com mais força n a pauta de suas reivindicações políticas. PATRIMÔNIO. Nessa época o movimento de retorno à África estava em auge nos países caribenhos e nos Estados Unidos. por outro. entre os integrantes do garveysmo em Cuba predominavam os imigrante s das Antilhas anglófonas e escasseavam os cubanos. A partir de então.Page 41----------------------BRASIL E CUBA: APONTAMENTOS PARA UM ESTUDO DE HISTÓRIA COMPARADA Allysson F. os direitos culturais são invocados por diversos grupos sociais q ue. com intelectuais negros e com autoridades g overnamentais. No presente trabalho se analisam as causas do pouco sucesso do garveysmo em Cuba e se expõem as principais concepções de nação cubana e as doutrinas anti-racista defendidas naquela época. de um lado. Depois de um período de refluxo nas políticas de conservação.Page 42----------------------05. CRIATIVIDADE E ARTE: RISCOS DO EXCESSO DE PATRIMONIALIZAÇÃO Alexandre Fernandes Corrêa (DESOC/PGCult/UFMA) Adriana Cajado Costa (Doutoranda Psicanálise/UERJ) A Constituição Federal do Brasil de 1988 incorpora a cidadania cultural aos direitos civis. . com sua consagração jurídica. analiso historica mente as questões relacionadas ao lugar do negro na historiografia dos dois países. proponho um estudo sobre a participação feminina na produção cultural do hip-hop geradora de um discurso que reposiciona o lugar da mulher e do negro nestas soci edades. Assim. MEMÓRIA E ARTES Coordenação: Alexandre Fernandes e Adriana Cajado Costa (Doutoranda Psicanálise/UERJ) Corrêa (DESOC/PGCult/UFMA) IDENTIDADE. Garcia (UNB) Pretendo apresentar nesta comunicação uma reflexão inicial a partir de um estudo que venho desenvolvendo no doutorado em História. 40 ----------------------.com os seguidores da sua doutrina no país. Porém. 41 ----------------------. Na reunião com intelectuais negros as diferenças foram notórias e pouco depois da sua visita o movimento desapareceu em Cu ba.

Criar. inventar é produzir memória nas cenas constr uídas a partir de um diálogo com a herança recebida. Nesse c enário testemunhamos uma crescente demanda por uma institucionalização do processo de gestão do teatro das memórias sociais. africana ou caribenha. que a salvaguarda do passado não signifique uma petrificação do imaginário artístico sob a força dos excessos da patrimonialização rigente? Parece que uma resposta política contundente a esse quadro resistente a mudanças.551. arte de rua e arte popul ar. mas interfere em ato no presente e i nflui nas identificações e ideais futuros. folcloriza ntes e turistificadores. encon tremos uma forma de garantir uma gestão política realmente democrática do teatro das memórias sociais e naturais no país. em 2001 inaugura-se uma nova fase com o Decreto-Lei 3. como hip-hop. perguntamos: quais os riscos dos excessos da gestão do patrimônio cultural e da memóri a social sobre a arte e o imaginário artístico? A criatividade constitui um processo d ialético que enlaça a dimensão simbólica e imaginária do sujeito no laço social. Constatamos que se mantém nesse espaço social o domínio de grupos oligárquicos e conservadores tradicionalistas. latina. 42 . ocorrer uma democratização efetiva do espaço social da memória e do patrimônio. seja a promoção de políticas de ação cultural que invoquem a riqueza das heranças culturais e simbólicas. todavia. sem. na direção de uma polifonia cultural efetiv a e não retórica: seja ameríndia. raça. num esp aço social cada vez mais dominado por conceitos e noções antiquados e acríticos? De que maneira se pode garanti r aos movimentos jovens. – configurando um sistema de referência identitária anacrônica e paradoxal. desde os anos 1990. n osso GT questiona: Como garantir a liberdade e a criatividade da arte. que institui o programa nacional de registro do patrimônio cultural imaterial na sociedade brasileira. A memória não se configura apenas de traços mnêmicos do passado. A fixação de identidades e territórios numa gestão política parece limitar o campo criativo produzindo uma repetição do mesmo. gênero etc. meios de salvaguarda de possíveis perdas identitárias e territoriais. classe. Concomitante a isso se observa também uma fixação obsessiva e recalcitrante em conceit os e noções do século XIX – tais como etnia. talvez. Com a intensificação dos fluxos de globalização tecnoeconômica e mundialização cultural. réplicas do idêntico. Partindo de uma perspectiva transdiciplinar. Consideran do estes aspectos. observamo s os movimentos sociais buscarem nos instrumentos legais e institucionais de pat rimonialização.preservação e promoção do patrimônio cultural. Desse modo.

Entretanto. O estudo da cultura material possibilita ampliar as in terpretações sobre os objetos. Esta dicotomia enraíza-se na história colonial e testemunha preconceitos raciais actualmente anacrónicos que urge ultrapassar. onde ainda persiste a dicotomia entre museus de arte e etn ológicos. arqueológicos. e no ensino académico dos países ocidentais. além de suscitar emoções e mexer c om o imaginário humano. nos acervos museológicos. Os objetos são passíveis de fornecer diferentes informações de variados aspectos acerca dos diversos grupos sociais. articulando a sua produção e seu uso em diversos c ontextos. a partir do caso de Portugal e do Brasil. são instáve is e permeáveis. Museu e Cultura Material Afric ana. apresenta-se uma situação em que as fronte iras entre essas duas categorias são permeáveis e instáveis. Palavras-chave: Objeto Etnográfico. não se pode perder de vista que os modelos classificatórios adot ados nos museus estabelecem hierarquias. Ou seja. históricos. Os Museus enquanto laboratórios e depositários de importantes dados têm sido descu rados pelos estudos . Entretanto. ao classi ficá-los como artísticos. a partir d e uma reflexão sobre objetos africanos que passaram a fazer parte dos acervos de m useus na Europa e nas Américas. etnográficos. e onde o ensino universitário desvaloriza o estudo das artes visuais africanas relat ivamente ás de origem ocidental. Neste texto procura-se questionar a forma como a artes visuais africanas têm sido i ncorporadas ou não. etc. Após uma explanação teórica sobre os critérios gerais que definem os objetos etnográficos e artísticos.Page 43----------------------CLASSIFICAÇÕES INSTÁVEIS E PERMEÁVEIS: CULTURA MATERIAL AFRICANA NOS MUSEUS Luzia Gomes Ferreira (ICA/UFPA) Este trabalho versa sobre as categorias adotadas para a classi ficação dos objetos como etnográficos e/ou artísticos e a importância do museu como espaço de legitimação e consolidação destas categorias. compreende-se que as classificações de etnográficos e/ou artísticos. atribuem-se status e valoração diferenciados entre eles. Objeto Artístico. decorativos. ARTE E CULTURAS AFRICANAS: OS SÍMBOLOS DE PODER COCKWE (ANGOLA) Manuela Borges (Instituto de Investigação Cientifica Tropical. dentro ou fora dos museus. DCSH) A religião e a arte constituem os elementos culturais mais claramente demonstrativos do impacto pervasivo e significativo que a África teve no Brasil. atribuídas aos artefatos africanos no cenário museológico ocidental.----------------------.

O estudo de acervos museológicos insere-se nas novas tendências já que permite uma reflexão crítica sobre dados etnográficos recolhidos n um passado. Os esforços para a constituição de uma especialização disciplinar que aborde a cultura pela perspectiva do estudo dos artefactos. não somente como uma re flexão passiva da mundividencia. sendo pois resultado da a tracção pelo raro. A etnomuseologia procura esclarecer os artefactos etnológicos. As mais antigas colecções existentes nos museus ocidentais. A antropologia material caracterizada por uma perspectiva b aseada em artefactos continua no entanto sem teorias e objectivos bem definidos. e suscitaram problemas epistemológicos.antropológicos. e não de preocupações cientificas . . contextualizar os objectos em referencia à área geográfica e cultural de origem. derivam de uma recolha arbitraria de artefactos motivada geralmente pela sua singularidade e exotismo. mais ou menos recente. Os estudos de cultura material só recentemente vêm s endo objecto de um renovado interesse que se reflecte no surgimento de investigações a seu propósito e me smo de uma nova especialização. Estes estudos levantaram novas questões.Page 44----------------------relativos ao valor heurístico dos acervos existentes nos museus ociden tais. Grande parte do acervo ac tual é resultado de colecções privadas que se caracterizam por espólios het eróclitos e erráticos. O long o isolamento das colecções museológicas e investigadores das universidades contribuiu para uma fraca relação entre a pesquisa da cultura material e o ensino da antropologi a. antes de mais a relativa ao aproveitamento cien tifico de colecções museológicas que não foram recolhidas no terreno de uma fo rma sistemática e devidamente informada e contextualizada. provocou um renovado interesse pelos acervos etnomuseologicos. dificultando o seu aproveitamento científico. pelo que as informações relativas geralmente não eram recolhidas. c omo os 43 ----------------------. ela é um fenómeno de comunicação que permite conjugar simultaneamente as noções de pertença e difer enciação. pelo precioso e pelo insólito. a cultura dos diversos povos. podendo trazer ao domínio cognitivo um conjunto de objectos que ilustram. pelo maravilhoso. A cultura p ode ser definida como a forma de expressão e simbolização das relações sociais. devidamente informados. como também se interessa pelo seu papel como protagonist as de uma ideologia expressa sob a forma de relações sociais Importa pois.

tendo o IPHAN. que poderiam ser discutidos e . passando apenas pelo modismo que a mídia demonstra. sendo pois uma noção ambígua que se pode tentar definir a partir das relações que se estabelecem com um esp aço e sobretudo uma forma de estar e relacionar-se com os outros e através do seu património material. A manifestação cultural tem em suas funções o entretenimento. ser r esponsável pelo orgulho étnico de elementos da sociedade à medida que é preservado seu ciclo vita l. é de suma importância que esse enfoque dado sobre a questão da preservação respeite os segmentos culturais. O tema é conven iente haja vista a persistência o preconceito no uso da cultura popular como maior Atrativo Turístico de localidades que demonstram tal potencial. e fazeres. A relevância do trabalho é por tratar de tema polêmico que é bastant e presente. Uma forma de verificar se os direitos igua is estão existindo.Page 45----------------------vezes temas como cultura popular de raiz deixam de ser tratados como um orgulho cultural. saberes. produto da história e das experiências vivenciais. ou seja. por transmitir idéia s de origem. por ress altar e evidenciar a existência desses interesses em preservação e como estão sendo desenvolvidos. Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como veículo de denúncia. Por se tratar de uma cultura erudita de maior valor de expressão. de tradicionalismo e influenciar na maneira de pensar. mas também é formadora de opinião. uma vez que o Bra sil é um país plural com grandes diferenças sócio-culturais. POLÍTICAS PÚBLICAS NA CULTURA POPULAR: AMPLIAÇÃO DA NOÇÃO DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO Nadir Olga Cruz A Cultura Popular de uma localidade tem como função principal ma nter os costumes e rituais do povo reconhecendo sua identidade cultural e dando abertura para discu ssões de temas considerados irrelevantes como modos de vida.relacionando-se com a identidade do grupo. A discri minação e as atitudes do estado com relação ao uso e mapeamento dos grupos de cultura intangíve l serão focos do trabalho proposto. Por que na educação formal muitas 44 ----------------------. sobre tudo quanto ao tipo de expressão cultural. e a não existência de preconceitos. A identidade é construída a partir de ele mentos heterogéneos e modifica-se com a evolução das relações sociais. visto os seminários de cultura popular ter somente agora despertado pelo órgão estado. a religiosidade.

através da oralidade dos mais velhos pretende-se que a história deste povo seja narrada dentro da visão etnológica. no entorno da cidade de Mont es Altos . De forma preliminar se conclui que a cultura Krïkati deve ser preserv ada e valorizada com elo de respeito e honradez e com o viés para a Educação Patrimonial e a conseqüente justeza social. a partir da memória dos guardiões os rituais do grupo indígena Krïk ati. Para isso. Atentando-se aos construtos de identificação com o ser negro e. pesquisam e respeitam esta luta his tórica anti-racista. Kríkati PERCURSO IDENTITÁRIO: PATRIMÔNIO COMO RECURSO DIDÁTICO. Portanto.analisados de maneira a formar cidadãos conscientes da riqueza que produzem. localizada na Aldeia de São José.639/03. em consonância com a linha de pesquisa do Núcleo de Estudos Afro-indígena d e Imperatriz (NEAI/UEMA). conseqüentemente com o africano. Memória. nus utilizamos de recursos didáticos enfocados nas ações educativas do Museu Antropológico da UFG com a Exposição de longa duração Lavras e Louvores. PATRIMÔNIO CULTURAL KRÍKATI: RITUAIS E ORALIDADE DOS GUARDIÕES Karilene Costa Fonseca (Centro de Estudos Superiores de Imperatriz-Cesi) Este artigo analisa. Igor Fernandes de Alencar (UFG) co-autora: Tatiane Julia de Alencar (UFG) Este trabalho é resultado de um projeto de intervenção pedagógico denominado O Continente Africano e suas Relações Transatlânticas: a ancestralidade dos descendentes de africanos no Brasil. Surgindo então a pesquisa sobr e a etnia Krïkati. Inaugurada em dezembro de 2006. o intuito da pesquisa é (re) significar a cultura indígena Kríkati e valorizar aspectos identitários deste tronco lingüístico Macro-Jê que tanto c ontribuiu para o enriquecimento cultural de Imperatriz e demais municípios da Região Tocantina. Além disso. bem como signos desencadeador es de . que visa transmitir aos alunos do ensino básico e médio a história da África e do Brasil negro.Maranhão. a exposição (Lavras e Louvores) traz em seu percurso narrativo sentidos. vem de encontro às intencionalidades da promulgação da Lei 10. Esta conquista efetivada pelo Movimento Negro brasileiro com a sustentação de vários intelectuais negros ou não-negros que. esse trabalho se desdobrara sobre a intensa parti cipação africana na elaboração da sociedade brasileira com a ininterrupta tarefa de combate ao racismo e às práticas discriminatórias a que estão sujeitos diariamente milhares de afri canos e afro-descendentes espalhados pelo mundo. Palavras-chaves: Oralidade.

advindo de uma área quilombola. uma lâmina de machado de pedra aparentemente com três funções distintas: primeira uma depressão latera l indicada como quebra coquinhos. bem como outras atividades responsáveis pela elu cidação da cidadania cultural do índio e do negro. Não é uma comunicação direta entre os músicos. provavelment e a parte posterior foi utilizada como batedor.Page 46----------------------EVIDÊNCIAS ARQUEOLÓGICAS NO CERRADO MARANHENSE Danielly Morais Rocha (CESI/UEMA) Este artigo discute um viés histórico-arqueológico voltado para a temática das populações afro-ameríndias do Maranhão. ainda subjugados pela sociedade em geral. Busca-se. Conclui-se a partir da investigação parcial. IDENTIDADE E PERFORMANCE CULTURAL Coordenação: Tarcisio Ferreira (UFMA) e Maristane de Sousa Rosa (UEMA) POLICENTRALIDADES DAS RÍTMICAS NO ATLÂNTICO NEGRO: CULTURA E COMUNICAÇÃO MUSICAL ENTRE A ÁFRICA E A DIÁSPORA NA CONTEMPORANEIDADE Amailton Magno Azevedo (PUC-SP) A comunicação musical entre a África e Diáspora no pós-colonialismo está sendo tecida sob uma gama variada de linguagens: música. expressão corporal. acompanhada de entrevistas e pela co-orientação do arqueólogo do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão. ritmo. conhecimentos. memórias que dizem sobre nossas identidades.Page 47----------------------06. mas de inter-cruzamentos culturais que reatulizam a s relações . tendo por objetivo valorizar a cultura material e imaterial reafirmando a identidade destas comunidades tradicionais e o seu legado multicul tural para a nação brasileira. idéias. a partir do ar tefato em pauta. estreitar o parentesco cultural e étnico com a contemporaneidade sugerindo a construção de etapas de aprendizagem em educação patrimonial. ou seja. estudo. 46 ----------------------. onde ainda lá se encontram inúmeros outros utensílios do período esc ravocrata a serem catalogados. manejo e o trato em vestígios arqueológicos. outro gume utilizado para cortar e. porque não se trata de movime ntos artísticos organizados e/ou planejados.sentimentos. que é um artefato retirado do seu contexto histórico. localizada no entorno da cidade de Bac abal. 45 ----------------------. canto. RITMOS. A presente pesquisa investiga um artefato arqueológico do cerr ado sul maranhense.

Essas musical idades pensadas na perspectiva de uma História policentrada onde in formações cruzam-se formando redes complexas e descontínuas de sonorid ade. tais articulações produziram percepções específicas. escritores. Pará. . SEU PORTO DE MAR!”: O TRANSNACIONAL NA ―INVENÇÃO DA CULTURA PARAENSE Andrey Faro de Lima (Doutorando/PPGCS-Antropologia/UFPA) O presente trabalho traz algumas considerações acerca das estratég ias performáticodiscursivas. Destarte. produtores. de cunho estético-político. durante as décadas de setenta e oitenta. Caribe. participam significativamente das hodiernas imagens reproduzidas sobre o es tado. Mano Brown e Olodum (Brasil) e Orixás (Cuba). devidamente firmadas no lequ e de referências associadas à região (tanto endógenas quanto exógenas). jornalistas. Papel este que. mas os trabalho s musicais que são operados em espaços artísticos e em campos melódicos e rítmicos permitem refletir sobre esses inter-cruzamentos que sugerem situações de transculturalidade. Fronteira. tem-se então o processo de identificação do estado do Pará com uma possível ―cultura caribenha associada à apropriação estética e política de elementos reconhecidos como característicos desta mesma identificação. Conforme citado. sublinho o papel que certos sujeitos e grupos sociais (músicos. Martinália. configurando experiências/identidades relacionais que se manifestam na anti-pureza de marcando novas estéticas para a música do Atlântico Negro. Transnacionalismo 47 ----------------------. emp resários. poetas. coadunado ou não a demais processos. ―NO CARIBE. Nestes termos. que contribuíram para a construção de uma suposta identidade paraense a partir da articu lação de elementos culturais então tidos como caribenhos (além de outros recursos). empreendidas por intelect uais e personagens notórias paraenses. dentre outras figuras do cenário artístico e inte lectual do estado) desempenharam neste ínterim. Não se verifica conversas formais ou trocas diretas de informação. Palavras-chave: Identidade.entre África e a Diáspora como assim observo nas músicas de Kezi a Jones e N´Neka (Nigéria). que p ermeiam certas representações baseadas em processos de legitimação ou não-legitimação das imagens que delineiam a constituição identitária do estado.Page 48----------------------O MERENGUE NA FORMAÇÃO DA MÚSICA POPULAR URBANA DE BELÉM DO PARÁ: REFLEXÃO SOBRE AS CONEXÕES AMAZÔNIA-CARIBE.

música caribenha. hibridismo. reflet imos sobre os deslocamentos e a fluidez complexa das configurações cultu rais mundializadas. sendo a língua inglesa o idioma elencado como comum aos países globalizad os. inicialmente. tais como valores identitários e sentimento de pertença. o que se refletiu em várias áreas do conhecimento. Apresentando um esboço da paisagem musical belenense nas décadas de 50 e 60 tentaremos mostrar como a presença marcante do merengue foi impo rtante na formação heterogênea da música popular na cidade de Belém. o que ocorreu em razão da hegemonia econômica dos países desenvolvidos. entr e eles. os distingue dos demais. pois é po r meio dela que os sujeitos dizem de si e do mundo. Bolero. Em seguida. em um processo dinâmico que. CONSTRUÇÃO E MANIPULAÇÃO DE IDENTIDADES A PARTIR DA LINGUAGEM MUSICAL PRESENTE NO REGGAE. transformando-os em uma unidade global. sua expansão através da indústria fonográfica com todos os seus mecanismos midiáticos. a língua se vale de diversos mecanismos. Jovem-guarda etc. Heridan de Jesus Guterres Pavão Ferreira Marcelo Nicomedes Ronald Correa O sistema de codificação produzido pela linguagem é responsável pela construção da maioria dos conhecimentos humanos. Busca-se compreender. oferecendo uma visão da Amazônia na sua relação de profícuo diálogo cu ltural com a região caribenha e com o mundo. O processo de globalização concorreu para que fosse disseminada a ideia de que o ideal de convivência pacífica e progresso mundial poss uem relação direta com a associação entre os países. queremos entender o processo de criação de identidade musical local das ca madas populares em Belém assim como os hibridismos musicais resultantes da imbricação com outros gêneros (Carimbó. tecnologia e linguagem. a partir do desenvolvimento particular (mas não em isolamento) da região a mazônica. Para tanto. onde o idioma . Cadence-lypso.). ao mesmo tempo em que identifica e caracteriza sujeitos e m undos.. Para além de qualquer visão fechada e estática que já possa ter sido difundida acerca da cultura amazônica. Belém do Pará. palavras-chave: Merengue. reconstruindo-se a si e àquele.Bernardo Farias Neste trabalho discuti-se a presença do Merengue na música popular paraense. A língua possui uma relação direta com elementos inerentes à formação dos su jeitos em aspectos distintos. levando-o do local ao global. entre eles a comunicação. a trajetória do merengue. assim como pela transmissão destes entre os suj eitos. o processo de globalização.

o número de usuários que empregam o idioma de forma eficiente ainda é bastante pequeno. Tomamos. com a difusão do reggae no Estado. Seu domínio confere aos usuários um status em relação aos outros indivíduos. AFOXÉ ALAFIN OYÓ: ―MOVIMENTO NEGRO DE CARNAVAL Martha Rosa Figueira Queiroz (UNB) O título deste artigo é um trocadilho para uma das definições do afoxé enquanto manifestação cultural afro-brasileira. do ponto de vista semântico com palavras ou expressões empregadas nas composições em inglês. identidades e performance corporal objetiva a d iscussão sobre em que medida o uso do ‗melô‘ constitui-se estratégia para seleção e audição das ‗pedras‘. um título e Língua Portuguesa. Palavras-chave: linguagem musical. É o entrecruzamento ent re manifestações culturais da população negra com o carnaval e com os movimentos negros que constitui o objeto deste artigo que tem a cidade do Recife como palco no qua l diversos setores da população afro-brasileira elaboram seus discursos. o Afoxé Alafin Oyó como um ―movimento negro de carnaval . O trabalho proposto ao GT Ritmos.Page 49----------------------- pessoas passaram a valorizar cada vez mais o idioma. o MNU-PE. pois. prolifera ndo a audição e mesmo composição das músicas em inglês. Com o propósito de refletir sobre o processo de construção e difusão do universo discursivo dos movimentos negros recifenses. que conforme Raul Lody ―também é conheci do e chamado por Candomblé de rua. sentidos e discursos se movem. constituindo-se em cimen . ao mesmo tempo em que se torna elemento para construção e manipulação de uma identidade denominada regueira. construção de identidade. razão porque os cursos do idioma têm se proliferado no país. Um dos modos de disseminação da Língua Inglesa no Brasil vem se dando por meio da música. No caso do Maranhão. particularmente a veiculação desses discursos no cenário carnavalesco por meio dos afo xés. melô.é falado.como as canções do gênero musical são conhecidas. especialmente a partir da década de 1970. ou seja. manipulação. o que faz com que se observe que as músicas recebam denominações específicas. denominadas ‗melôs‘. A despeito disso. vivem suas representações do real e constroem suas práticas políticas em um processo de circularidade horizontal no qual idéias. que algumas vezes possui similaridade. reggae. cuja língua oficial (Língu a Portuguesa) é dominada plenamente por um grupo restrito de usuários. as 48 ----------------------. nos voltamos para a atuação da Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó e seus vínculos com a constelação de sentidos que marcam o Movimento Negro no Brasil e na cidade do Recife a partir da década de 1970 e mais especificamente sua relação coma seção pernambucana do Movimento Negro Unificado.

ocioso. resultado contemporâneo de 49 ----------------------. Palavras-Chave: Corpo. Mario Mencía. Che Guevara. pretendemos refletir sobre a inserção do Movimento Negro recifense na cena carnavalesca A CAÇADA DA RAINHA: ―É SINHORA DO ROSÁRIO QUE NÓS TAMO FESTEJANDO! Noeci Carvalho Messias (UFG) Os moradores da pequena cidade de Monte do Carmo. Tento mostrar que esta manifestação consiste num elemento condensador de sentidos. onde analisamos o desenvolvimento de uma tecnologia do corpo que visava transformar o revolucionário cu bano em um homem habituado à dor e ao sofrimento da guerra revolucionária e à obediência ao comando das lideranças rebeldes. be m como uma marca identitária para os moradores locais. configurando-se numa importante prática de sociabilidades. no estado do Tocantins. Juan Almeida. . Duran te os festejos religiosos um dos rituais mais significativos é a Caçada da rainha. homenageiam anualmente Nossa Senhora do Rosário. um corpo treinado. dançando e bebendo. Trata-se de uma interpretação de diár ios e memórias de combatentes cubanos.to para tecitura da intervenção político-cultural do Movimento Negro recifense. O CORPO DÓCIL NA REVOLUÇÃO CUBANA (1952-1958) Rafael Saddi (UFG) Este trabalho trata do surgimento de um ideal de corpo nos discursos dos revoluc ionários durante a luta insurrecional cubana (1952-1958). no estado do Tocantins. na sua maioria negra. cantando. Haydée Santamaría e Aleida March.Page 50----------------------ritmos. na qual uma multidão percorre as principais ruas da cidade tocando tambor. obediente. Por meio da pesquisa sobre o Afoxé Alafin Oyó. neste contexto. dentre eles. um ideal de corpo re volucionário. danças e sons que foram apropriados e reconstruídos ao longo do percurso his tórico. Che Guevara. além de ocupar lugar de destaque nas manifes tações populares. dócil. O PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. Pretendo nesta comunicação mostrar que a Caçada da rainha é um ritual que expressa uma prática sociocultural que foi ressignificada nas experiências locais. em oposição ao corpo gordo. Revolução Cubana. Surge. entregue à vida de luxo e de prazeres.

ao convívio coletivo.Officina Affro do Mara nhão Adalberto Conceição da Silva (Zumbi Bahia) A presente narrativa trata-se de um relato de experiência acerca da cultura afro-brasileira. sobre a ótica da educação informal. em especial. que foi resgatado na Unidade Escolar Especial Helena Antipoff em São L uís do MA. como importante contribuição ao processo de ensino e aprendizagem e de incorporação social. de crianças e adolescentes. como proposta de atividades pedagógicas d e inserção. CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL Relato de Experiências do Instituto Como Ver . Educação. soci al e artístico-cultural.Antonio Henrique França Costa (Centro de Ensino Superior Santa Fé) O presente artigo enfoca a Dança. fortalecendo a auto-estima de crianças e adole scentes. voltado para a reintegração de uma pessoa com deficiência. como meio de inclusão social. subsidiada pelas tradições de origem africana. com recorte à situação de um componente. onde a beleza e a contribuição do negro na formação da cu ltura do povo brasileiro são reveladas. Metodologia Pedagógica. que utilizam à dança como estratégia indis pensável para o desenvolvimento sócio-cultural e cognitivo. no processo de ensino aprendizagem.) e bens . durante o acompanhamento de atividades lúdic as e pedagógicas desenvolvidas com o público atendido. Palavras-chave: Dança. Propõe-se esta exposição. sensibilizar os educadores. a partir da observação da experiência desenvolvida em duas organizações não governamentais. A descrição da experiência em questão é um trabalho que objetiva criar alternativa de aplicação da cultura afro-brasileira. a percussão afro-brasileira.Page 51----------------------Pretende-se destacar as benesses de um trabalho. que torna possível. 50 ----------------------. Intervenção Psicopedagógica. como um instrumento de intervenção psicopedagógica. sistematizando acervos imateriais (sa beres. iniciado no ano de 2002. o que poderá contribuir de forma direta para a identificação de algumas dificuldades de aprendizagem. atividades de informação e conhecimento ressaltando as potencialidades da cultura de origem africana. Pretende-se ainda através de relatos de experiências. técnicas etc. p ara que os mesmos permitam-se a encontrar novas alternativas educacionais utilizando a dança em diversas situações de aprendizagem.

incluindo-se ações positiva s que contribuem para o estabelecimento de concisões de igualdade e respeito entre aquel es de menores condições funcionais na sociedade. Pois esses centros de arte são distan tes de seus lares e de sua realidade.artistico-culturais (instrumentos.). nos estabelecimentos de ensino. Mercedes fez aulas com a companhia. Preconceit o. Palavras-chave: Inserção social. funda o Balé Folclórico. Para isso discutir nos embasaremos na trajetória de vida da bailarina Mercedes Batista. Cultura afro-brasileira. pois. músicas. Ela. No ano de 1950. tornou-se membr a do Conselho de Mulheres Negras. exp ressão corporal. em particular. indumentárias etc. que também revalor izem as relações interraciais para a construção/reconstrução da dignidade humana. Barrados por sua condição financeira.De volta para o Brasil. deveria ser objeto de estudo sistemático. o que envolve aspectos de sua corporeidade (estrutura anatômica. Não se encaixando em um padrão de corpo e nem em histórias de contos de fadas. a escola poderia intercambia r identificando-se com os processos de luta em prol de políticas públicas de inclusão.) para o trabalho de sensibilização estética e conscientização política. nascida em 1921 no município de Campos dos Goyta cazes no Rio de Janeiro. Assim. estudando com Yuco Lindberg e Vaslav Veltchek e. foi a primeira bailarina negra admitida pelo Municipal do Rio de Janeiro. Em meados da década de 1940. como este corpo é recebido no espaço da dança? Como este corpo percebe e é percebido? Qual a reflexão e inflexão do bailarino acerca disso? Ser baila rino negro em um país que a cultura européia é valorizada é algo muito complexo e ardilos o. a bailarina ingressou na Escola de Danças do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Mudança. com os quais.No mesmo ano foi sel ecionada pela coreógrafa e antropóloga americana Katherine Dunham e conquistou uma bolsa de estudos em Nova York. dedica -se à dança. nos palcos estes são sempre vistos como o exótico. Percussão. Filha de uma família humilde. após trabalhar como doméstica. no Rio de Janeiro. em 1947. a maioria dos bail arinos negros inicia sua trajetória com idade avançada.porém nunca se apresentou nos espetáculos. estética etc. fenótipo. mesmo que grande parte da população brasileira é negra e mestiça. Balé clássico e dança folclórica foram suas preferências iniciais. A TRAJETÓRIA DO CORPO NEGRO QUE DANÇA: INDAGAÇÕES DE UMA BAILARINA NEGRA Juliana de Oliveira Ferreira (FESGO) O presente trabalho abordará a trajetória e a desvalorização do bail arino negro. Grupo fo rmado por bailarinos negros que desenvolviam pesquisas e divulgavam a .

a trajetória de outros/as bailarinos negros/as. racismo. descortinou novos horizontes para a dança ao introduzir elementos afri canos na dança moderna brasileira. Mon te do Carmo. Na década de 60 trabalhou como coreógrafa da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. uma identidade. decadente ou não civilizado. entre outras. Julio Moracen Naranjo (UNIFESP) O século XX se coloca como um cambio a tradição da alteridade com a noção do olhar do primitivo. que é realizada em vários municípios tocantinenses como: Paranã. Santa Rosa. patrimônio imaterial representado principalmente pelos Catireiros de Natividade. Suas letras eram de agradecimentos pelas colheitas ou po r alguma graça alcançada. aos poucos. foi utilizada pelo E stado como elemento constituinte de uma possível ―identidade tocantinense. REPRESENTAÇÃO VERSUS PRESENTIFICAÇÃO: POR UMA ANTROPOLOGIA DA TRANSCULTURAÇÃO Dr. não se poderia explicar essas outras culturas e especificamente a cultura negra . Natividade. Os Catireiros de Natividade eram bem pouco conhecidos dentro do cenário artístico e sóci ocultural tocantinense. O objetivo desse estudo é perceber como a Catira no Tocantins.cultura negra e afrobrasileira. assim. A trajetória dessa grande pressa. A catira é de cunho religioso e está diretamente relacionada com a festa do Divino Espírito Santo. mas. por elas ser culturas de presentificação e por sua expressão artística e cultural estar sempre unida ao discurso do social. Mercedes Batista 51 ----------------------. conseguiram espaço e respeito. Até bem pouco tempo. Palavra-chave: corpo negro. de alguma forma.Page 52----------------------CATIRA TOCANTINENSE: TRADIÇÃO OU INVENÇÃO? Antonio Carlos de Sousa Matos (UFT) Orientadora: Profª Drª Marina Haizenreder Ertzogue Co-orientadora: Profª Dranda Mírian Tesserolli. Este trabalho traze a tona a relação de representação versus presentificação propriamente no entendimento da cultura e identidade negra principalmente no cam po de estudo da relação artes cenicas e ciências sociais falando como na produção da performance bailarina negra ex . Com a criação do Tocantins estas melodias passaram por mudanças e queremos perceber como se estabelece o processo de apropriação pelo Estado das cultu ras tradicionais para legitimar-se e construir. selvagem. cientistas sociais deste século pretenderam justificar isso falando que contrariamente a cultura euro péia.

O Brasil é historicamente e diálogos transculturais. por sua vez. foco desse artigo. gerando o que eu chamo a sombra de si mesmo. oriunda de diversas resignificações de ritmos provenientes do grande continente negro. uma resignificação de uma manifestação caribenha-jamaicana. nas qu um palco tem citar presente com fértil dessas movimentações em ênfase seus na diverso Região N a . Márcia Daniele Souza Carvalho (UFG) Alex Ratts (UFG) A música negra possui como característica o movimento pelas inúmeras espacialidades do atlântico.Page 53----------------------Maranhão com suas expressões culturais influenciadas e edificadas com elementos da cultura africana e afro-caribenha como é o caso do ―reggae maranhense . indivíduo s que trazem com suas histórias de vida o amor por essa música e trabalham para preserv ar tal manifestação em espaços diferenciados da terra natal. leitura e pesquisa sobre o corpo e a cultura negra-africana-ame ricana e caribenha dentro de uma antropologia da transculturaçao. Podemos ordeste o estado do 52 ----------------------. JUVENTUDE DOS AFOXÉS: SEUS CAMINHOS. SEUS LUGARES Auxiliadora Gonçalves da Silva (Universidade Federal Rural de Pernambuco) Os afoxés de Recife e Região Metropolitana. Esta expressão e sua releitura chega no final da década de 1990 e início dos anos 2000 à Região Metropolitana de Goiânia animando as radiolas (sound systems) improvisadas em salões simples das periferias da capital e entorno trazida por indivíduos como meio de expressão de pertencimento e ancestralidade. O foco deste trabalho são os DJ‘s de reggae. “SEGURA ESSA PEDRA!”: O REGGAE JAMAICANO/MARANHENSE NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA. O território nacional s lugares a história e cultura de matriz africana. constituem-se em luga res da juventude afro. tendo como ―berço os terreiros de casas de matriz africana. A presente comunicação presenta dados e interpretações preliminares de uma pesquisa.negra existe o dilema cultural ocidental de representação versus presentificação express ado tanto nessa relação como também na visão de presentificação no cont exto de representificação. Refle xão que nasce do dialogo.

também como movimentos.Page 54----------------------Palavras-Chave: Afoxé. aliment ados na tradição e fortalecidos pela ―afirmação matricial africana . são orientados. dentro do contexto de movimento social negro – o afoxé. a partir do momento que depositam nos afoxés. todas as suas expectativas de mudança de suas realidades locais.Juventude. Os afoxés são considerados e classificados pelos estudiosos dos movimentos sociais. Barro. Dois Unidos. o recorte investigativo sobre os jovens não foi no âmbito de quem são. econômica e relig iosa. investigar as formas como eles se apropriam dos afoxés para delinear suas trajetórias histórica. os intermediários e os mais novos. esse artigo é resultado dos da dos do Projeto de Pesquisa. Jardim Brasil e Comunida de do V8. como suporte para a afirmação e fortalecimento da identidade negra e investigar como a concepção de Afoxé se configura no discurso e na prática. Alto José do Pinho. dentro do contexto de continuidade/descontinuidade dos movimentos sociais negros. Jardim Paulista Baixo. compreensões e necessidades. conduzidos. em concepções e percepções. do exercício da criatividade. o a rtigo objetivou analisar quais as propostas traçadas por essa juventude. Parti ndo de uma abordagem histórico-antropológica e numa perspectiva qualitativa. den tro da sua especificidade – movimentos sociais negros.ais os mesmos se originaram – e onde ainda se originam. 53 ----------------------. escolhidos entre os mais antigos. na dinâmica particular entre o lugar que fixaram e o caminho que vislumbram. a pesquisa voltada para e so bre os jovens dos afoxés primou por uma dinâmica de aproximação e de olhares capazes de entender a dimensão de uma geração que se diferencia realidades. onde estão e como vivem. os aspectos est udados nesse artigo referem-se ao traçado de caminhos e de lugares buscados pelos jovens. compreendendo seis afoxés. Juventude – Movimento Social Negro Juventude-Casa de Religião de . escol hidos entre os mais antigos.Fundamentando-se nessa metodologia. Por essa razão. mas que conseguem compartilhar sentimentos. mas. Nesse sentido. os intermediários e os mais novos compreendendo seis afoxés. Matriz Africana. e no desempenho de uma atividade cultural afrobrasi leira. para a fixação do l ugar e do caminhar quando optam pela integração nos Afoxés. em instrumento de mudanças e transformações. social. econômica e política. dentro das dimensões social. de natureza cultural com origem religiosa. Sendo assim. localizados nos bairros de Casa Amarel a.

AFOXÉS DE PERNAMBUCO: ESPAÇOS DE APRENDIZAGEM E AFIRMAÇÃO DE IDENTIDADE DA JUVENTUDE NEGRA. Suzana Teixeira de Queiroz (GECAB/ Universidade Federal Rural de Pernambuco) Carlos Augusto Sant‘Anna Guimarães (NEAB/ Fundação Joaquim Nabuco) Maria Auxiliadôra Gonçalves da Silva (NEAB/Universidade Federal Rural de Pernambuco) O presente trabalho tem como objetivo traçar, por meio de relatos de vivência, os pr ocessos de construção da identidade e afirmação étnica da juventude negra participante de afoxés grupos culturais/musicais vinculados a uma Casa de religião de Matriz Africana (comumente designada de Terreiro de Candomblé), ou quando o seu responsável pertence à um Terreiro de Candomblé como Filho-de-Santo -, na cidade do Recife e Região Metropolitana. Buscamos analisar situações de preconceito e discriminação racial sofrida s pelos entrevistados e as repercussões na vida dos sujeitos, assim como identificar as estratégias de superação do preconceito racial através da permanência e desenvolvimento/ participação nas atividades do afoxé. Os participantes da pesquisas foram questionados sobre sua infância e adolescência; suas experiências nos ambientes escolares formais; sobre como tomou conhecimento do afoxé ao qual pertence e como foi o processo de inserção; s e houve mudança nas suas opções e escolhas, profissionais e pessoais, depoi s do afoxé. A atuação do jovem dentro do afoxé – no dançar, no tocar e nos cortejos - gera novas práticas e estratégias de afirmação de identidade que agem sobre a realidad e em que vive. Modificam sua perspectiva de futuro e ampliam as oportunidades de inserção social no quadro de exclusão e marginalização da juventude negra. 54 ----------------------- Page 55----------------------07. RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE Coordenação: Álvaro Roberto Pires (UFMA) YORUBA EN LAS AMÉRICAS: DIVERSIDAD Y UNIDAD Adonis Díaz Fernández (West Indies--Cave Hill, Bridgetown, Barbados) April Bernard (West Indies-Cave Hill, Bridgetown, Barbados) Este documento busca responder a la pregunta: ¿Cuál es la presencia de la religión yor uba en las Américas? Se estima que millones de africanos fueron transportados a las Amér icas durante la época colonial. Los que sobrevivieron a la travesía d el Atlántico trajeron con ellos las diversas tradiciones que incluyen la cultura yoruba y la religión. Con el tiempo, esas tradiciones se han asimilado y se adaptan a diversas limitaciones y las lib ertades dentro de sus entornos. El objetivo de este trabajo es explorar los puntos en que diver sos aspectos

de la religión yoruba asimilados en la convergencia de las Amér icas para buscar un entendimiento de cómo las diferentes expresiones de la tradición han evolucionado. El presente documento comienza con una breve discusión de la definición de la tradic ión yoruba y su origen en las Américas. Una comparación de la cultura yoruba y la religión en dos países, Cuba y Brasil. Las representaciones visuales de estos aspectos dentro de cada país se prestará a través de una presentación de vídeo y gráficos. Este análisis concluye con una breve mención acerca de las posibles maneras de pl antear los diversos aspectos de la tradición yoruba en estos dos países de América y el pa pel de la mujer en ella, asi como proponer formas de organizar este acercamiento para pres ervar y ampliar la tradición para las generaciones futuras. A FESTA DE SÃO JORGE NO TERREIRO DE DONA MARGARIDA EM SÃO BENTO: EXPRESSÃO DE FÉ E ALEGRIA Isabella Alves Silva (UFMA) Propõe-se, neste trabalho, fazer uma reflexão sobre o sincretismo das manifestações religiosas do sistema de crenças afro-maranhense, a partir das observações de campo do s rituais religiosos em terreiro de São Bento, no Maranhão. As atividades de campo f oram feitas no Terreiro de Dona Margarida no bairro Outra Banda, no mesmo município, no período da festa de São Jorge, ocorrido no mês de Abril a cada ano, possuindo o Tambor de Mina, bem como outras práticas religiosas, tais como Pajelança ou Cura. Os elementos comuns a estas manifestações religiosas é a presença das entidades espiritu ais, recebidas em transe mediúnico e festivo que são sincretizadas com santos católicos nestes terrei ros. Estas entidades demonstram possuir devoção pelos referidos santos e realizam homenag ens a eles em diversas modalidades, de acordo com os fundamentos religiosos de cada terreiro e com o calendário da igreja católica. Essa homenagem, em especial, dar-se-ia a São Jorg e, expressa a devoção destas entidades espirituais da religião afro-maran hense aos santos. Buscamos o referencial teórico em alguns autores sobre o tema, como: Sérgio Ferretti e Mundicarmo Ferretti, entre outros. Desta forma, através das visita s de campo e estudo destes autores, trazemos uma discussão sobre a festa para a devoção de en tidades e seus ―cavalos , em um terreiro de Tambor de Mina, a São Jorge, através de l adainha, Dança, Música para homenagear este santo e as entidades ligadas ao terreiro. Palavras-chave: Religião, Festa, São Bento. 55

----------------------- Page 56----------------------PLANTAS SAGRADAS NO CANDOMBLÉ: O CASO DO ILÊ AXÉ ONILEWA Clarissa Adjuto Ulhoa (UFG) Talita Viana Neves (UFG)

―Não há orixá sem folhas . Esta é uma expressão recorrente na fala de candombleci tas, acionada sempre que perguntados sobre a importância das plantas no candomblé. Isso porque o uso das folhas consideradas sagradas perpassa todo o corpus desta relig ião. Foi o que percebemos especialmente em uma das pesquisas de campo realizada no Ilê Axé Onilewa, localizado em Aparecida de Goiânia, Goiás. Neste ter reiro de candomblé, identificado com a tradição nagô, foram plantadas e cultivadas centenas de tipos de pl antas sagradas, todas cuidadosamente catalogadas pelos membros. Fato int eressante, haja vista que boa parte dos terreiros goianos não possui sequer espaço para este tipo de ati vidade. Nesse sentido, pretendemos discutir a importância e a maneira com o os adeptos deste terreiro lidam com o cultivo destas plantas, bem como os ben efícios que esta produção acarreta para o cotidiano desta comunidade religiosa. REAFRICANIZANDO: DINÂMICAS IDENTITÁRIAS DO CANDOMBLÉ GOIANIENSE Natália do Carmo Louzada O presente trabalho tem como objetivo refletir acerca da identidade candomblecis ta frente às demais religiões afro-brasileiras. Analisando, além da positivação e afirmação do candomblé enquanto implicações do processo de reafricanização, transcorrido no Brasil a partir da década de 1960, no âmbito do movimento de contra cultura nacional, a hierarquização das religiões de influência africana mediante à des valorização do sincretismo. retendemos por meio da referida análise, compreend er a dinâmica de negociação por sobrevivência historicamente empreendida pelas religiões afro-br asileiras. Realizando estudo sensível às estratégias de sociabilidade e perc epções acerca do hibridismo religioso por parte dos líderes candomblecistas da c idade de Goiânia. De maneira a evidenciar e compreender as relações territoriais e políticas estabelecidas entre as diferentes religiões de influência africana existentes no referido espaço urbano. Palavras-chave: reafricanização; identidade; hibridismo religioso CANDOMBLÉ E A INTERFERÊNCIA DA LÍNGUA PORTUGUESA SOBRE O IORUBÁ Bruna Gabriela Corrêa Vicente A proposta central desse ensaio é apresentar as interferências recaídas sobre a língua I

orubá por parte da influência do português no Brasil. O alcance deste objetivo requer cons iderar o Iorubá a partir de seus aportes lexicais, os quais abrangem um sistema de base africana relacionado ao universo religioso, neste caso, o Candomblé. Entende-se que a lin guagem ocupa centralidade nas manifestações religiosas na medida em que ela media as cerimôni as do culto, todavia, cabe investigá-la em suas transformações tomando como referência as próprias modificações que incidem nas cerimônias. Ao aportarem no Bras il, os negros 56 ----------------------- Page 57----------------------passaram por um processo de aculturação e criação de uma identidade diaspórica, por meio de analogias que estão marcadas pela ressignificação provocada pelo novo contexto cultural, social e lingüístico. O banto configura-se como um tronco lingüístico e encont ra-se difuso e diluído no plano lexical, mas ele é audível em terreiros de Candomblé congoangola. Uma de suas ramificações, o iorubá, é bastante falada, sobretudo em ritos religi osos com os cultos de matriz-africana e afro-brasileiros. O Candomblé é uma religião, eminentemente de transmissão oral e, a despeito disso, é importante salientar que a ―lín guade-santo contempla objetos sagrados, cozinha ritualística, cânticos, expressões referen tes a crenças, costumes específicos, cerimônias, ritos litúrgicos e saudações, como "agô" (licença) e "axé" (saudação), tais vocábulos foram preservados em grande parte dos seu s rituais, cânticos e liturgia com sua língua. São justamente estas ma nifestações e a resistência do Candomblé em aceitar estas mudanças, o objeto que s e pretende explorar conferindo relevância à linguagem a partir das modificações pelas quais ela passou. Palavras-chave: Iorubá, língua, Religiões de Matriz africana. CONFLUÊNCIA DE TRADIÇÕES “RELIGIOSAS” E ESPAÇOS DE MATIZES E CONTRAPONTOS “AFRO-CARIBENHOS”: NOTAS SOBRE UMA EXPERIÊNCIA ETNOGRÁFICA EM UMA BOTÂNICA DE SANTERÍA EM SAN JUAN (PORTO RICO) Alline Torres Dias da Cruz (Museu Nacional/UFRJ) Esse resumo baseia-se em notas de campo de uma primeira exploração etnográfica junto às chamadas ―botânicas de santería : espaços comerciais, e em alguns casos de cons ultas e ―trabalhos , nos quais são comprados objetos e produtos ―religiosos , especiarias e planta s de uso ―medicinal e ―espiritual , comuns em cidades caribenhas e norte-americanas com presença acentuada de imigrantes de língua espanhola. O trabalho de campo foi realiz ado na botánica San Martin, que se encontra na Plaza del Mercado de Río Piedras

(San Juan, capital de Porto Rico) na qual há uma forte atuação de imigrantes da República Dominican a em setores econômicos como o comércio de vegetais e frutas; de prepar ação e venda de comida crioulla; e das ―botânicas de santería . Através da observação participant na botânica em questão, cuja responsável é uma jovem mulher dominicana, foi possível perceber que diferentes tradições religiosas – espiritismo, santería de ―origem cubana, e o s chamados ―mistérios ” ligados à população da República Dominicana em Porto Rico – se cruzam nesse espaço social, no qual um amplo universo de pessoas e objetos são posto s em circulação e produção. Considerando algumas relações e práticas entre os dominicanos, no entanto, sugere-se que especificidades com relação a um universo ―r eligioso que tradicionalmente é visto como ―afro-caribenho – ao se considerar o fato de que minha investigação foi realizada numa ―botânica de santería –, assumem configuraç que matizam e contrapõem concepções acerca do desenvolvimento e recriação de cosmologias africanas nas Américas. IDENTIDADE, RESISTÊNCIA E DIVERSIDADE NO CANDOMBLÉ GOIANIENSE: UMA ANÁLISE PÓS-COLONIAL Natália do Carmo Louzada 57 ----------------------- Page 58----------------------O presente trabalho se propõe a analisar as dinâmicas identitári as da comunidade candomblecista da cidade de Goiânia. Partindo da perspectiva dos estudos culturais e póscolonias, buscamos compreender o candomblé como religião rizomática, que negocia sua inserção e legitimação social por meio de uma identidade flúida, ora assimilando características ocidentais, ora afirmando uma tradição africana. Nesse sentido, procur amos perceber o discurso do subalterno, dos indivíduos da fronteira e seu processo de r esistência. Este que perpassa a manutenção de uma memória performática, espacializada na disposição física dos terreiros, bem como o estabelecimento de uma comunida de culturalmente e etnicamente híbrida. Portanto, dedicaremos aqui especial atenção à e nunciação de uma identidade negro-africana como forma de afirmação, analisando ainda as diferenças entr e os discursos de líderes sacerdotais no que tange à diversidade da tradição africana no âmbito do candomblé e deste mediante às demais religiões afro-brasileiras UMBANDA, TERRITORIALIDADE E MEIO AMBIENTE: REPRESENTAÇÕES SOCIOESPACIAIS E SUSTENTABILIDADES Marcelo Alonso (PUC-Rio) A Umbanda, através de seus ritos e símbolos em reuniões coleti

vas, promove uma integração, no plano mítico, entre todas as categorias sociais. Ao forjar a identidade umbandista, como prática social e cultural, essa religião sincrética e moderna pode ma nter viva a esperança de grupos marginalizados em ocupar espaços de prestígio social e criar modelos de convívio que primam pelas sustentabilidades, através da transposição do significado da natureza, de acidente geográfico, como portadora de valores cultura is para a criação de um possível espaço social mais solidário. A partir da compre ensão de que a RMRJ expressa pluralidade de sentidos, interrelações entre as di versas dimensões das práticas espaciais e sua aproximação com as práticas culturais, demo nstra-se como a Umbanda expressa potenciais mecanismos de interpretação das representações socioespaciais de segmentos incluídos precariamente, assim como na transformação das condições socioambientais vigentes que, por sua vez, pode deslanchar um novo paradig ma de educação ambiental no âmbito da gestão do território. Trata-se, a ntes de tudo, de resgatar a solidariedade, o cuidado e a responsabilidade dos ho mens sobre as coisas da Natureza, que, por sua vez, são destinadas aos mesmos homens territorializados. Palavras-Chave: Umbanda, Modernidade, Representações sociais, Identidade, Gestão do território, Sustentabilidades. MARANHÃO: MOSAICO CULTURAL AFRO – RELIGIOSO Luciana Fernandes de Oliveira Yasmin de Araújo Porto Este trabalho tem por objetivo apresentar uma pesquisa que percorre um caminho q ue vai desde fontes documentais às fontes orais. Pautando-se no convívio direto com o objet o de pesquisa, a Religiosidade Africana no Maranhão, busca-se montar um retrato popular das identidades afro-religiosas maranhenses a partir das falas de seus participantes . Com base nessas, a intenção é defender uma dissociação desta de quaisquer pré-con ceitos, medos, depreciações, vulgarizações e marginalizações. Para tanto, percorreu-se os principais 58 ----------------------- Page 59----------------------centros de manifestação de cultos afros (Casa das Minas, Casa de Nagô, Casa Fant-Ashan ti, Tenda Espírita de Umbanda Rainha de Iemanjá), a fim de conhecer sua s peculiaridades, diferenças e semelhanças e através disso refletir acerca do sincretismo como reflexo dos amálgamas culturais-religiosos que nos moldaram e ao mesmo tempo dar

visibilidade ao complexo cultural artístico que aflora destes cultos afros, com seus ritmos, músicas , cantos, cores, danças e devoções. Paralelamente o pilar teórico destas investig ações situa-se nos estudos do contexto sócio-histórico do período colonial, especificamente acerca do tráfi co negreiro África-Brasil e as tradições religiosas multiétnicas vivenciadas neste lado do Atlântico até os dias atuais, principalmente no que diz respeito ao Maranhão. Pretende mos assim, clarear e dar voz a um universo de diversidades culturais, artísticas que c ompõe tal religiosidade a qual, ao longo de séculos, muitos insistem silenciar. Porém ninguém ca la os gritos da ancestralidade, seja qual e como for. RELAÇÕES DE PODER E ENCOBRIMENTO DO OUTRO: RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA NA REGIÃO METROPOLITANA GOIÂNIA-GO Rodolfo Ferreira Alves Pena Jailson Silva de Sousa O objetivo desse trabalho é pautado no mote geográfico que privilegia a análise territ orial das Religiões de Matriz Africana – em especial os Candomblés – localizados na Região Metropolitana de Goiânia. Para isso, parte-se de análises teóricas e empíricas constituída s a partir de dois projetos de pesquisa – Igbadu: Territórios, gênero e história dos candom blés de Goiânia (FAPEG/SEMIRA) e Mães de santo: domínios territoriais, sociais e históricos do sagrado em Goiânia - GO (FAPEG/SEMIRA). Para esse ensejo, será feita uma reflexão sobre o processo de encobrimento por via da ausência de polític as públicas e ações direcionadas a esse segmento religioso. Assim, o Candomblé será visto em uma discussão que aborda o Estado, bem como, as formas de legitimação do processo de encobrimento do Outro. O encaminhamento metodológico permitirá analisar como as políticas públicas atendem a Comunidades de Terreiro, em detrimento de ações que atendem a outros segmentos como as Religiões Católica, Protestante e Kardecista. Tal abordagem encont rarse-á sob um viés pós-colonial. Palavras-chave: Religiões de Matriz Africana; Estado; Estudos Pós-Coloniais; Candomb lé CANDOMBLÉS, GÊNERO E FESTAS: MEDIAÇÕES TERRITORIAIS DO SAGRADO NO ESPAÇO DIASPÓRICO Mary Anne Vieira Silva Herta Camila Cordeiro Morato A diáspora africana no continente americano, em particular no Brasil provocou, sob retudo, o encontro de culturas distintas as quais não resultaram numa síntese cultural homogên ea, ao contrário: essa promoveu uma rede de ressignificações, que se

constrói em vários campos da vida e do cotidiano de quem vivencia o ambiente diaspórico. É neste contex to, que o candomblé emerge: permeado por ressignificações impostas pela nova realidade 59 ----------------------- Page 60----------------------histórica e social. Outrossim, no Brasil essa religião surge marcadamente configurad a pela e na figura feminina. Essa imbricação da mulher e religião contrar ia a lógica de uma sociedade marcada pelo preconceito e fundamentada nas relações patriarcais do iníci o do século XIX. Apesar da mulher está à frente dessa religião no seu p rincípio, hoje tal participação se (re)configura, principalmente quando se analisa a pa rticipação do gênero masculino que de forma paulatina, ocupa espaços que originalmente pertenciam apena s às mulheres. O presente trabalho surge como parte das reflexões realizadas no bojo do projeto Mães de Santo: Domínios territoriais, sociais e históricos do sagrad o em Goiânia/GO (FAPEG/SEMIRA/CieAA/UEG/UFG), logo, essa análise visa co nhecer como se dá a relação de domínio territorial dos candomblés de Ketu, liderados por mulheres em relação a crescente ascensão e dominação de ilês comandados por partícipes masculinos na região metropolitana da cidade de Goiânia/GO. Outra questão que se amalgama a essa primeira , decorre da análise das festas públicas do candomblé como espaços que favorecem desvelar a relação de gênero presente, bem como entendê-la como prática sócio-e spacial, logo cultural. As festas emergem como possibilidades de contemplar uma prática cultural compreendida em sua concepção como patrimônio imaterial desse segmento, além se posicionar como mediação na composição da rede que articula as relações ligadas ao poder hierocrático dessa religião. OS NEGROS DO ROSÁRIO: REFLEXÕES A CERCA DAS CONGADAS NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA GO. Autor - Luciana Pereira de Sousa (Graduação UFG) Co-autor: Dr. Alex Ratts - Orientador Essa comunicação visa analisar a religiosidade dos devotos de Nossa Senhora do Rosário (congadeiros) na metrópole Goiana. Nosso foco de interesse é discu tir as estratégias de permanência dessa prática cultural em uma cidade, cuja formação se deu dentro da lógica européia. Essa discussão se pauta em um ponto fundamental: a preservação da cultura afro brasileira a partir de um espaço religioso cristão, destacando o apel das irmandades negras. Seguiremos o seguinte trajeto: Primeiro apresentaremos as congadas, destacando p

alguns personagens e suas respectivas funções, em seguida, faremos uma breve análise d a religiosidade goiana, e por fim, levantaremos algumas questões a respeito dos limites e possibilidades que viabilizam essa religiosidade como espaço de luta e resistência da cultura negra em Goiânia. REPRESENTAÇÕES DO CANDOMBLÉ E DA UMBANDA NO CINEMA BRASILEIRO. Conceição de Maria Ferreira Silva (UFG) Observando o papel da mídia e do cinema como principal matriz cultural na atualida de, e assim também seus conteúdos, imagens, narrativas e valores como elementos que incide m na construção da subjetividade e das representações sociais, é que este trabalho se propõe a analisar os processos de representação do Candomblé e da Umbanda no ci nema, a partir dos filmes "Barravento (Glauber Rocha, 1962), "Orí" (Raquel Gerber, 1989) e "Santo Forte (Eduardo Coutinho, 1999), buscando assim compreender o que e como essas três produções cinematográficas retratam o universo religioso afro-brasileiro. 60 ----------------------- Page 61----------------------A RELIGIOSIDADE COMO ATRAÇÃO TURÍSTICA NA FESTA DO DIVINO PAI ETERNO EM TRINDADE - GOIÁS Jorgeanny de Fátima Rodrigues Moreira Msc. Clarinda Aparecida da Silva O município de Trindade de Goiás fica localizado no Centro Oeste goiano, a 18 km da capital goiana. Atualmente é conhecida como a capital católica do Estado. Essa cidade, todo ano é sede de uma festa religiosa – Festa do Divino Pai Eterno - que recebe mil hares de devotos de todo o país. Esta manifestação religiosa começou com romarias que saiam de cidades vizinhas e de famílias que viviam na zona rural, para a adoração de um medalhão de barro com a imagem da Santíssima Trindade. A pesquisa visa identificar a re lação da comunidade local com os turistas que participam desta festa. A través de observações e entrevistas busca-se conhecer a influência e impactos (positivos e ne gativos) do turismo, exercidos sobre a população. Palavras chave: Turismo religioso, Religiosidade, comunidade local. OS CONFLITOS DO ADOLESCENTE UMBANDISTA NO COTIDIANO ESCOLAR NA CIDADE DE ANÁPOLIS/GO Diogo Jansen Ribeiro (UFG) O debate que norteia essa proposta insere-se nos postulados que versam sobre a E

ducação básica e a lei 10.639/03. Essa última estabelece a obrigatoriedade da inserção de conteúdo s sobre a história e culturas africanas nos currículos atuais. Em Anápolis, cidade marcada pelo discurso hegemônico de cultura cristã, sobretudo, a protestante, a discussão emer ge a partir das contradições entre prática escolar, preconceito e lei. Vale ressaltar que o segmento das Comunidades de Terreiros, o movimento negro e outros representantes desses grupos fazem um debate atualizado sobre a questão que envolve o tratamento da iden tidade e a intolerância religiosa. É válido ressaltar que segmentos de Candomblés não se fazem presentes na cidade, porém a prática umbandista é bem representativa no locus. No cotidiano das escolas de Anápolis, torna-se corriqueira a prática que legitima o pro cesso de encobrimento do Outro. O corpo demarca o espaço e é pelo corpo d o adolescente que o ensaio é composto. Os adolescentes umbandistas vivenciam sérios enfrentamentos, no que concerne sua identidade religiosa no interior da sala de aula. A umbanda se cons titui, por excelência, de forma híbrida, compondo um continuum mediúnico com vários pólos de influências diferentes, que incluem, entre outros, o Espiritismo ―Kardecista , o Cando mblé, o Omolocô, a Pajelança que constituem a Encantaria brasileira. A partir de tais reflexões, este trabalho tem por objetivo analisar os enfrentamentos vivenc iados por adolescentes umbandistas no cotidiano escolar a partir de uma visão Pós-colonial. Ade mais, objetiva-se contribuir com a historiografia local por meio da história de segmentos e lugares que foram subalternizados e encobertos em decorrência de suas escolhas id entitárias e práticas religiosas. CANTO DE PAJÉ: CORPO E CURA EM CIRCUITOS AFRO-INDÍGEMASAMAZÔNICOS Luís Cláudio Cardoso Bandeira (PUC-SP) 61 ----------------------- Page 62----------------------presente comunicação é parte das pesquisas em andamento acerca do tratamento do corpo e cura no contexto da ―pajelança Cabocla , em circuitos diaspóricos, tendo present e as diferentes injunções de rituais de matrizes culturais africanas e indígenas no Norte e Nordeste brasileiro, compreendendo uma rede de relações que perpassam, de forma dire ta ou indireta, áreas culturais brasileiras e transatlânticas que mobilizam mães e pais-d e-santo, A

. Palavras-Chave: Tobóssis. Casa das Minas e Casa de Nagô. utilizando-se de folhas e bênçãos. Nesse mesmo contexto estenderemos observações as representações das tobóssis nos terreiros de Mina mais ‗tradicion ais‘ ainda em funcionamento no Estado. os elementos. Ritual de Feitura. Analisaremos uma festa de ‗feitura‘ ou ‗iniciação‘ para essas entidades em que três filhos-de-santo dessa casa foram submetidos a rituais específicos para atingire m o grau máximo de vodunsí hunjaí. Tambor de Mina.pajés. CORPOS E IMAGENS: CENÁRIOS COTIDIANOS DO POVO-DESANTO NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA Mary Anne Vieira Silva Gilson de Souza Andrade Graziano Magalhães dos Reis A proposta surge no bojo das idéias promulgadas de formas múltiplas pelo Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas/CieAA/Neab-UEG. influências externas e funções específicas dentro do culto. nesse espaço se congrega núcleos e grupos de pesquisa/ensino e extensão cuja a temática s e desdobra para o conhecimento das humanidades sobre os continentes africano e americano. a diretriz central do CieAA é a de colaborar e incentivar estudo s e pesquisas que visam conhecer as diversas vivências humanas. PRIMEIRO BARCO DE TOBÓSSIS DE UM TERREIRO DE MINA NO MARANHÃO Gerson Carlos P. Tambor de Mi na. corpos e imagens: cenários cotidianos do povo-de-santo na Região Metropolitana de Goiânia . benzedeiras. Dessa fo rma. do babalorixá Airton Gouveia no bairro da Liberdade na cid ade de São Luís. TERREIROS. num contexto em que uma multiplicidade de terapêutica s oficiais e populares são experimentadas pelos mais diversos segmentos sociais. suas características. reunindo para isso uma equipe multi e interdisciplinar nas áreas do saber. evidenciando os signos. se coloca como análise teórica e possibilidade de distinção entre as múltiplas variações das nações candomblecistas que se encontram em meio ao território urbano. proble matizando algumas questões intrínsecas de como terreiros de Mina mais contemporâneos apresentam essa categoria de entidades. rezadeiras e curadores. Lindoso (IFMA) O presente trabalho tem o objetivo de fazer uma reflexão antropológica sobre a figur a das entidades espirituais infantis femininas denominadas ‗tobóssi s‘ ou ‗tobosas‘ particularmente na religião de matriz afro do Maranhão. focalizando o terreiro de Ogum e Sogbô. Terreiros. Meninas. no trato dos males físicos e espirituais. as d iversas organizações territoriais que se distinguem dentre a policromia de tradições afro-brasil eiras.

na região metropolitana de G oiânia. Tem-se como principio norteador deste projeto o resgate da memória fotográfica do povo-de-santo e construir. ao lado desse questionamento ainda se persc ruta quais são as territorialidades sagradas subjacentes a esse território-rede. Candombés. Percebe-se que no cotidiano das relações inter-religiosas. Religião. a partir deste. a fim de entender como esse se insere no contexto urbano-metropolitano de Goiânia. A questão e política: Dinâmicas Espaciais do Sagrado na de Goiânia/GO é apresentada como eixo norteador de d o que permeia a dessa problemática é questionar como as formas e as disputas espaciais produzem o território-rede constituído pelo s ilês. A emergência de se produzir essa documentação e registros icnográficos do cotidiano do povo-de-sa nto surge com a possibilidade de contribuir para o desvelamento do preconceito e intolerância culturalreligiosa bem vivenciada nesse estado. Palavras-chave: Imagem. Cotidiano. que sempre são vistos pela lente daqueles que o vêem. cultura Matriz Africana Região Metropolitana texto a ser desenvolvido.Evidenciar as imagens do povo-de-santo em âmbito de domínio público é posta como caminho de enfretamento que deve ocorrer a fim de desmitificar o mundo simbólico dessas praticantes. Numa representação que evoca o senso comum estes grupos são sempre vistos como 62 ----------------------. e em especial. Angola e omolôco dentre outros presentes no estado de Goiás. A fim de inserir a .entre nações: Ketu-Nagos. paralelos temporai s entre os registros fotográficos dos acervos pessoais dos Ilês Axés e a produção fotoetnográfica produzida pela pesquisa. o nível de intolerância para com as religiões de matrizes africanas é elevado. CULTURA E POLÍTICA: DINÂMICAS ESPACIAIS DO SAGRADO DE MATRIZ AFRICANA NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA/GO. as festas e os praticantes dos candomblés nessa região. A pertinência deste paralelo é calcada na distinção de estéticas e objetivos que são instauradas entre a produção dos álbuns fotog ráficos familiares. como seres que praticam em seu cotid iano atos que ferem o imaginário social coletivo. Mary Anne Vieira Silva Território. construídos pelas casas no intuito de legitimação de sua própria história. Jejes. TERRITÓRIO.Page 63----------------------um emaranhado de religiosidades depreciativas. junto a rede de relações que o candomblés estabelece entre suas comunidades e a construção de um outro olhar documental e estético no âmbito do registro etnográfico.

o projeto se posiciona em uma pers pectiva teórica que preconiza os estudos pós-coloniais. no binômio. a f esta do candomblé é apresentada como mediação da pluralidade territorial que estrutura a rede cultural. Diante do exposto outros questionamentos s urgem: como a festa promove a territorialidade do candomblé? Como esses ilês são lidos a part ir da discussão teórica do processo de produção do espaço urbano. a Geografia. em Goiás. encobrimento e invisibilidade diretamente relacionados c om a intolerância religiosa. aproximar o recente movimento por legitimidade e reconhec imento desses setores junto ao Estado constitutivo de uma nação. a Antropolog ia. as casas de candomblés são espaços sagrados e a territorialização dos mesmos obedece a uma ótima de subalternização. de matriz africana – que passa a ser 63 ----------------------. já que. valorização do solo e encobrimento de identidades? Essa lógica parte da dialética do uso do espaço. incluindo a História. além disso. ausência de ações do poder público. a Política dentre outros. física e política para esse segmento religioso. e suas vozes silenciadas nas margens do se rtão goiano e para. Esse exercício teórico-metodológico constitui um significativo campo de disputa teórica e ideológica contemporânea. Assim. transposta de uma comunidade imaginada. No campo da discussão que norteia o estudo o desafio é rev isitar a categoria território numa proposta de entendimento que se liga as abordagens que v inculam o sujeito subalterno. preconceitos culturais. ainda no século XXI. como é o caso da comunidade evangélica e de outros segmentos tradicionais cristãos. Estudar as formas de construção de uma geogra ficidade histórica encoberta.Page 64----------------------instrumentalizada e renovada na forma de comunidades religiosas em espaços pós-colon iais constitui um campo epistemológico válido para conhecimento de comunidades herdeiras de uma situação diaspórica. Pós-coloniais. candomblés. o fato de um indivíduo assumir-se como praticante de religiões de matriz africana. cultura. concorre para sua inscrição em um lo ci social permeado pelo preconceito.manifestação cultural no centro desses questionamentos. política TERREIROS CONCRETADOS: CONFIGURAÇÃO DOS ESPAÇOS E RITUAIS DO CANDOMBLÉ NOS CENTROS URBANOS CONTEMPORÂNEOS Graziano Magalhães dos Reis . No campo simbólico. e promove o enfretamento de grupos religiosos de hegemonia ascendente. Palavras-chave. que atravessa praticamente todo o saber acadêmico.

sobre a educação das relações étnico-raciais em seu contexto de direitos humanos e políticas públicas voltadas para uma educação para a diversidade. performance. mediado pelo olhar de dois autores.Page 65----------------------O texto pretende analisar as músicas que são cantadas na Umbanda. UM OLHAR ETNOGRÁFICO PARA FESTA DE SEU ZÉ RAIMUNDO DO PAI BRASIL Mírian A. o texto também apresenta uma analise descritiva e analítica do ritual de preto-velho presente na Umbanda-Sertaneja. aqui tratadas no âmbito dos territórios ocupados pelos povos de terreiro. ritual. troca. cultura e religião sobre as relações diaspóricas entre África-Américas e. tambor de mina de raízes maranhenses na cidade de Belém. se realiza a festa para o encantado Seu Zé Raimundo. Palavras chave: mina maranhense.A proposta desse trabalho parte do compromisso que o Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas. A partir da fe sta. ensino e extensão em temas a que se refere a educação. Tesserolli (UFPA) Na casa de Pai Brasil. assume desde 2005 atuando na execução de pesquisas. ancianidade. troca. Para tanto. ritual. PA. performance. DO MITO AO ARQUIVO: AS MÚLTIPLAS NARRATIVAS SOBRE A FORMAÇÃO DOS CANDOMBLÉS NA BAHIA Olavo de Souza Pinto Filho (UnB) . mas também das diversas tradições afro-religiosas originadas no Brasil. A MÍSTICA DO PRETO-VELHO EM PONTOS QUE CANTAM E CONTAM Admilson Eustáquio Prates (Universidade Estadual de Montes Claros) 64 ----------------------. estando inseridas em uma sociedade subjuldada à lógica do capital. Além de propor uma interpretação das musicas. o que provoca negativação da s identidades de seus praticantes. precisamente no ri tual de preto-velho. fazer se necessário uma hermenêutica e uma exegese das músicas para visualizar a mística presente nos versos cantados durante o ritual. em especial. Este trabalho tem caráter etnográfico e mostra algumas práticas cotidianas não só da mina. Nesse sentido também se torna fundamental o entendimento das transformações sofridas. lancei o olhar para alguns aspectos das religiosidades de matriz africana: ancia nidade. gênero. por conseguinte. onde a relação com a comunidade de fora do terreiro é de subalternidade. que fazem parte da História da Antropologia: Franz Boas e Marcel Mauss.

Aliando relatos da tradição oral com o s até então. 65 ----------------------. Roger Bastide e Pierre Verger.Page 66----------------------08. L. 2007. seja para a pontar a existência de outros terreiros da tradição keto igualmente antigos ou apr esentar ―novos dados para uma historiografia do candomblé ketu . trabalhos que em certa medida. Destacando que tanto fontes escritas quanto memória oral. muitas vezes denominado. apontam como casa mais antiga do candomblé de keto no Bra sil. poucos dados. Ilê Iyá Nassô Oka ou a Casa Branca do Engenho Velho. CASTILLO. a meu ver. MIGRAÇÃO E p . fundado na segunda metade do século XIX e o Ile Axé Opô Afonjá fundado em 1910. Considero que além de se pensar nas evidências historiográficas seria interessante analisar a própria produção e pesquisas desses novos dados . não purificando as ―contradições . econômico e religios o dos africanos libertos que hoje constituem ícones da memória coletiva dos terreiros ( PAR ES. mas abrindo possibilidades de ampliação do nosso entendimento sobre eles. de evidência documental que ―permitem um a reconstituição historiográfica mais fundamentada e precisa do universo social. como os de Édison Carneiro..114). Ricardo Barroso (UEMA) e Sueli Dias (COSPAT) ACERCA DAS CONEXÕES TRANSNACIONAIS. Essas novas pesquisas sobre as origens do candomblé na Bahia se inserem. L. arti culamse e relacionam-se de maneira muito parecida na composição de ssas narrativas. flertam com a tentativa de rast rear as instituições que deram origem ao Candomblé da Barroquinha ―o antepassado da Casa Branca . Uma abordagem que de o mesmo estatuto entre eles. antropologia das religiões afrobrasileiras. TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADES Coordenação: Alex Ratts (UFG). E. Ruth Landes. como pelo povo de sant o na construção de múltiplas narrativas. De disputas internas e divisões de grupos se originaram outros dois importantes terreiros o Ile axé Iyamasse mais con hecido como Gantois. Novos trabalhos se dedicam a revisitar a fundação dessas casas. silêncios e ruídos. num amplo debate da antropologia que é o tema da pureza ritual que det eve a atenção de inúmeros antropólogos preocupados em desvendar os mecanismos de legitimi zação dessas casas através da invenção de mitos de origem que atestam uma pureza imaginad a. A proposta desta comunicação é pensar a apropriação e agenciamento desses ―dados historiográficos parte tanto dos antropólogos e pesquisadores. A meu ver uma discussão perene no campo de estudos da afro-brasileiro s.A fundação ou formação do candomblé na Bahia é tema recorrente em inúmeros trabalhos de pesquisadores no campo. N. Os trabalhos pioneiros. .

duas culturas no mínimo. são refer enciados a duas sociedades. com estudos sobre diásporas. corrobora-se a pe rtinência do paradigma dos espaços sociais transnacionais para o estudo contemporâneo das migrações. sobretudo. Os tipos de vid a social que as pessoas criam num contexto transnacional têm recebido crescente atenção nos últimos anos. nos pro cessos de aculturação. que extravasam os contextos nacionais dos países de migração. captar as interacções. com elevados níveis de dispersão geográfica à escala global. de integração e de mobilização étnica dos imigrantes. Neste contexto. a socie dade de origem é esquecida ou analisada sumariamente. pois geralmente nos estudos sobre as migrações. os contributos de vários autores sobre a problemática do tr ansnacionalismo têm evidenciado um crescente interesse na abordagem das comunidades migrantes em esp aços alargados de interacção. por recursos comuns e por intercâmbio cultural. pretendem assim. i ndependentemente da sua localização geográfica e que configuram um espaço social transnacional concreto e be m delimitado. Assim a imigração é representada como homogénea e indiferenciada e não se consideram as relações que se estabelecem com diferentes espaços e sociedades num a perspectiva de conexões sociais transnacionais. fronteiras e outros contextos supra-terri toriais em que os povos praticam a cultura. focalizando-se os estudos em referencia á soc iedade de acolhimento. e não só a uma. os fluxos de capit al. que têm estruturado a relação dos m igrantes com diferentes espaços do seu percurso migratório. Mais recentemente . Tradicionalmente.ASSOCIATIVISMO GUINEENSE EM PORTUGAL Manuela Borges (IICT LISBOA) Este texto defende ser necessário nos estudos sobre migrações e minorias étnicas e etnicidade não esquecer que os migrantes. tem chamado a atenção para o . de informação e de bens simbólicos. Os membros das comunidades migrantes preservam e reinventam a sua cu ltura em lugares separados geograficamente. minorias étnicas e etnicidade. Este é um fenómeno antigo mas que se ampliou com as possibilidades de comunicação e transportes contemporâneos. dois espaços. circunscrevendo as análises à relação entre os imigrantes e as sociedades de acolhimento. e no entanto permanecem liga dos uns aos outros por laços de sangue. os estud os sobre comunidades migrantes e associativismo têm-se centrado. Nesta perspectiva de análise tornam-se inteligíveis process os que não são limitados por fronteiras geográficas mas sim por relações sociais. A complexidade das «n ações migrantes». por definição. Os conceitos de «comunidades transnacionais de migrantes» e de «campo social transnacional». as trocas.

desenvolvimento de formas de interacção que escapam à lógica tradicional origem-destino. que as fugas faziam parte do cotidiano da escra vidão no Amazonas e que fugir para os países do além-fronteira que já haviam abolido a escravidão em seus territórios era uma realidade tangível para os escravos da região amazônica. Fizemos um levantamento sobre anúncios de f ugas e noticias de fugas e capturas. podemos destacar. podem e sclarecer o estudo da comunidade migrante guineense em Portugal. práticas paço transnacional de múltiplos sentidos. ao mesmo tempo. realizamos uma análise crítica das fontes através das inferências feitas sobre estas informações e sobre quadros de ordem quantitativa. Foi pos . Para realizar essa pesquisa utilizamos relatórios de presidente da província e correspondên cias consulares sobre as questões de limites. e destas com instituições e organizações internacionais. A grande maioria das fugas era realizada por escrav os do sexo masculino. Cabe enfatizar o caráter pioneiro dessa pesquisa em nível regional vis to que a historiografia local tem há muito relegado as trajetórias das po pulações escravas à invisibilidade e à irrelevância. em plena idade produtiva. As referências conceptuais sobre o transnacionalismo. Manaus. O cas o do movimento associativo guineense é um exemplo paradigmático de uma comunidade migrante cujas 66 ----------------------. para este período. cultura. aproximadamente 10% da população escrava permaneceu em fuga. aparece como principal destino das fug as e. Cab e destacar que. Ygor Olinto Rocha Cavalcante (UFAM) A presente pesquisa pretende analisar as fugas escravas na província do Amazonas e suas dimensões no contexto de área de fronteira internacional no período de 1850-1870. A capital. tende a não reconhecer o campo relacional existente entr e as comunidades da diáspora. bem como notícias e informações sobre fugitivos escrav os na fronteira norte do império brasileiro. a centragem das relações transnacionais em termos das ligações biunívocas entre comunidades imigrantes e o país d e origem. de modo geral. sociais e políticas se inserem num es NOS LABIRINTOS DA LIBERDADE: NOTAS DE PESQUISA SOBRE FUGAS ESCRAVAS NAS FRONTEIRAS DO AMAZONAS IMPERIAL (1850-1870). como principal lugar de origem de fugas. Nessa direção.Page 67----------------------estruturas. Contudo. Dentre os resultados obtidos até o presente momento.

no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais T ransitórias . bem como a s rotas e experiências compartilhadas estabelecidas pelos fugitivos em suas relações com out ros atores sociais. tradição. A proposta desta apresentação individual. reconheceu o direito destas comunidades à propriedade de suas terras. TURISMO E TRADIÇÃO ENTRE AS COMUNIDADES QUILOMBOLAS Oseias de Oliveira (UNICENTRO) 67 ----------------------. Por fim. consist e em refletir sobre o turismo como uma prática que tem se tornado muito mais que um elemento de promoção social e instrumento de crescimento econômico. A partir desta premissa. sobremaneira. no Maranhão. Palavras-chave: turismo. o turismo tem se apre sentado como uma atividade que tem contribuído.sível restituir parte das estratégias utilizadas pelos escravos para fugir. visto que a Constituição Fede ral de 1988. Palavras chave: Escravidão – Amazônia – Migrações fronteiriças QUILOMBOS OU TERRAS DE PRETO: IDENTIDADES EM CONSTRUÇÃO José Reinaldo Miranda de Sousa (PUC-SP) Trata sobre as terras das comunidades dos quilombolas. argumentamos que a delimitação dos limites e fronteiras no extremo norte do império brasileiro foi uma questão premente das autoridades locais e que as fugas dos escravos da região ocupavam lugar central em tais discussões. na articulação de novos sentidos e se transformado em elementos marca dos de expressões identitárias. quilombo. Esta discussão nos remete a indagações sobre o processo de constituição dos quilombos. a partir das pesquisa s realizadas entre as comunidades quilombolas do Paraná. faremos uma reflexão sobre os quilombos ou ―terras de preto . . cultura. memória.ADCT. considerando uma perspectiva contemporânea de suas identidades . suas conceituações historicamente construídas e suas ressignificações na atualidade. na qual o cotidiano e as práticas tradicionais quilombolas são r esignificados. mas fundamentalmente. de forma que as comunidades tem revisto o seu i nterior e nele buscado aspectos que concebem como condicionantes responsáveis por se transformarem em representações de sua intenção na sociedade contemporânea. uma atividade cultural.Page 68----------------------Em uma condição na qual as comunidades quilombolas percebem cada vez uma demanda social marcada pelo interesse por suas expressões culturais. para a afi rmação cultural e a complementação de renda.

é 68 ----------------------. a partir das diversas situações de alteridade. Assim. como lugares de preservação cultural em constante transformação social. sobretudo. BIODIVERSIDADES E PRATICAS EDUCATIVAS DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DE CHAPADA DOS GUIMARÃES/ MT. Palavras-chave: Lei 4. Para análise e interpretação da dimensão dos territórios das africanidades quilombolas. A proposta dessa comunicação é perceber esses territórios ne gros. HISTÓRIA. No âmbito deste projeto. Desta forma. os territórios das africanidades serão analisados como um processo cultural de construção da identidade.887/2003. Adiléa de Lamônica Y Navarro (GRUPPAAAL-UFMT) Maria de Jesus Alves de Carvalho Patatas O objeto desta pesquisa são as comunidades quilombolas: Complexo Manso.887 do dia 20 de novembro de 2003. configurando e conferindo sentido às práticas culturais dos referidos grupos quilombolas. ao tomar a cultura como prática social. os quilombos estão por toda parte e não devem continu ar a ser compreendidos apenas dentro de uma perspectiva estática e singular do passado colonial. Dessa forma. e compreendê-los como o espaço da livre manifestação das etnias negras.TERRITÓRIOS RURAIS NEGROS: LUGARES DA RESSURREIÇÃO ÉTNICA Sandreylza Pereira Medeiros (PPGH-UFCG) A temática Quilombo muito pouco aparece em nossos livro s didáticos e quando mencionada está sempre atrelada a um fenômeno histórico não mais con dizente com a realidade vivida por seus descendentes na sociedade atual. TERRITÓRIOS DAS AFRICANIDADES: LÍNGUA.Page 69----------------------necessário tomar como referência teórica fundamental o conceito de cultura como uma te ia . Rio da Casca. que dar se. em tempos atuais. negros. localizadas no Município de Chapada dos Guimarães/ MT . territórios. Lagoinha d e Baixo e de Cima. tomamos os territórios das africanidades como parte integra nte do conjunto das relações sociais e dos sistemas simbólicos responsáveis p ela construção da realidade. podemos nos debruçar sobre a experiência de vida dos quilombolas recuperando a dimensão das africanidades na construção de um território quilombola em Mato Grosso. quilombolas. O Governo Federal a través da Fundação Cultural Palmares vem reconhecendo comunidades rurais negras como pertencentes a uma ancestralidade escrava a partir do decreto de n  4.

que prevê direitos políticos. propomos a análise da construção política dos direitos coletivos a terra. permite aos afrodescendentes relativizarem a visão etnocêntri ca da sociedade que toma o branco e a cultura européia como referênc ia de uma pretensa superioridade. O modelo textualístico da cultura torna a cultura interpretável e não codificável. Esta construção que chamamos ancestralidade é um processo que está ancorado em tempos históricos. suas lutas e resistências. A identidade étnica. 1976). Tomando o território e a territorialidade como pontos de partida. no passar das gerações. almejando inclusão so cial e visibilidade na . (CARDOSO DE OLIVEIRA. Portanto. Esse trabalho discute esta visão de c ultura. o modo de vida negro. (GEERTZ. sociais e econômi cos em varias constituições da América Latina e Caribe. Os costumes e a s práticas do grupo afrodescendentes são por ele utilizados como materiais de construção de uma identidade contestatória da identidade socialmente construída pelas representações dominantes da diferença racial. Na lut a pelos direitos coletivos a terra. demanda um processo de aprendizagem de simbolizações que valorizam o ser negro.de significados produzidos pelos homens e à qual eles se prendem. e o reconh ecimento aos direitos culturais vincula-se diretamente ao reconhecimento dos direitos coletivos relati vos à posse da terra. QUILOMBOLAS E INDÍGENAS – O REFORÇO A ANCESTRALIDADE E TERRITORIALIDADE COMO IMPORTANTES ELEMENTOS NA LUTA PELOS DIREITOS COLETIVOS A TERRA. pois é a leitura dos grupos quilombolas do Município de Chapada dos Guimarães sobre suas vivencias. Inter pretar é perseguir o sentido para quem o sentido faz. 14). em geografias e contextos po líticos específicos. como desigualdade social pela inferiorização do n egro. comparan do o processo histórico de mobilização política de quilombolas no Brasil e o movim ento indígena do CONAIE no Equador. p . Manuela Picq (AMHERST COLLEGE). A ancestralidade não deve ser vista somente como identidade cultural mais também com o identidade política. a ancestralidade se constrói no espaço-tempo. o lugar negro no tec ido rural do município de Chapada dos Guimarães/ MT. no território. 1978. Pretendemos explorar o papel da ancestralidade na legitimação d e direitos coletivos nos processos de conquista da terra. assim formulada. tanto os quilombolas no Brasil (como importante expressão do movimento negro e anti-racismo) quanto os indígenas no Equador tem buscado o reconhecimento da ancestralidade como um valor positivo. Mas ancorase também no espaço. Essa relativização como valor.

onde os negros devem ser reconhecidos como atores sociais. principalmente entre Brasil. Brasil Colonial. suas distinções e características intrinsecamente relacionadas com processos históri cos de segregação e integração. as ―diásporas judias. Revolta Escrava. Consideramos extremamente urgente maior divulgação e intercâmbio de estudos e reflexões sobre essas temáticas visando o empoderamento do s negros e dos indígenas – homens e mulheres. Partirmos de fatos históricos como a ―Revolta de Carrancas em Minas Gerais e a ―Inquisição na Bahia para identificar. mas espe cificamente na Bahia.construção pautada.nos nomes dados aos senhores e aos escr avos. por rel ações de subserviência e dominação. para os moradores do povoado Santana de Caboclos. na tentativa de localiz ar e traçar pontos de convergência entre as origens dos escravos africanos. a colonização da terra e a história fundiária. É o evento reli gioso considerado pelos moradores. Suriname e Jamaica. Trata-se de um ritual de agradecimento pelo uso da terra. em uma análise relacional. os atores sociais envolvidos nestes fatos e a partir do entendimento de que seus nomes são reflexos de uma construção sócio-histórica determinada . Palavras-chave: Escravismo. sobretudo. assim como o reconhecimento de suas diversas formas organizativas. dentre os demais. A manifestação religiosa ocorre anualmente nessa comunidade assumida como remanescente de quilombo -. para o qual se preparam durante o ano todo. SURINAME E CARIBE Autor: Rafael Moreira Co-Autor: Samuel Silveira Martins 69 ----------------------.participação política. Busco saber em que medida podemos afirmar que se tr . NOME AOS BOIS. A FESTA DE NOSSA SENHORA SANTANA: LUTA PELA PERMANÊNCIA NO TERRITÓRIO ÉTNICO DE ALCÂNTARA Maria Suely Dias Cardoso No presente trabalho busco refletir sobre os significados da festa de Nossa Senhora Santana. História Fundiária. considerada por seus moradores como sendo de propriedade da santa. resistência e conquistas de direitos. em Alcântara. como o mais import ante. nesse município. Por meio de tais iniciativas busca-se influenciar na constr ução de sistemas democráticos. Maranhão. TERRA AOS NOMES: HISTÓRIA FUNDIÁRIA.Page 70----------------------Esta comunicação tem por objetivo explicitar alguns elemento s encontrados nas nomeclaturas . NOMENCLATURAS E CICATRIZES DA DISTINÇÃO NO BRASIL.

sua histór ia de sobrevivência à escravidão de negros e índios também. s em nada lhes cobrar. segundo suas representações. As Folias. lhes garante o acesso e a permanência na terra. suas regras e sua história. Tais norm as não se separam da economia e da cosmovisão desses grupos. aldeias e senzalas com suas próprias apreensões. È nesse movimento que o sentimento de pertencimento ao lugar também é reforçado.ata de um ritual de resistência na luta pela permanência no território. Os ensinamentos transmitidos p or esses padres foram incorporados à cultura religiosa e principalmente às festas de padroeir os feitas em toda na colônia. Ao festejar a santa para agradecer-lhe pelo bem recebido. tem-s e indícios de que foi uma terra habitada por indígenas. foram usadas pelos padres Jesuítas no processo de evan gelização dos povos indígenas e. de modo geral. os moradores mantêm uma relação singular no que tange à posse e uso da terra. o momento não só de agradecer. cada lugar. essa maneira de pe nsar a terra e de se apropriar dela têm a ver com um modo de vida específico. Para eles.Page 71----------------------OS TERRITÓRIOS SIMBOLICOS PRODUZIDOS DURANTE O CICLO NATALINO: AS FESTAS DE FOLIAS DE REIS EM GOIÂNIA Rosiane Dias Mota Maria Geralda de Almeida Destaca-se na cultura aspectos como a dinamicidade. as normas consensualmente acatadas pelo grupo. com um sistema de crenças que rege não somente a sua religiosidade. não são concebidas e nem vividas como externas ao grupo. O pre . mas o trabalho. É por meio da festa que o grupo reafirma a si próprio e ao mundo externo sua origem. Deste modo. desde o tempo de seus antepassados escravos. 70 ----------------------. usufruir de todos os seus recursos. E a fest a representa para os moradores. posteriormente. a santa seria sua verdadeira proprietária e lhes permitiria. ou seja. Entre as festas presentes no ciclo natalino estão as Festas de Folias de Reis. a transmissão da herança cultura l e as maneiras como a cultura e a identidade são discutidas em leitu ras relacionadas à festa. ou consuetudinário. A natureza. pois em Santana de Caboclos. existem regras particulares baseadas no direito costumeiro. de escravos africanos. Em Santana. mas também serve para reforçar esse laço com a divindade que. constituindo-se num instrumento que reforça a identidade étnica do grupo. e sobretudo a te rra. Ou seja. os moradores de Santana dos Caboclos confi rmam sua visão própria de mundo.

F. as phytoplankton community. A. Among typical stress forces we poi nted out: introduction of exotic species. C.br * Professora Adjunta II do Departamento de Biologia e Química / UEMA. de J.** Graduanda do Curso de Engenharia de Pesca / UEM A – São Luís-MA. & Cutrim. ABSTRACT: The environmental managment in coastal areas i n all countries must be focused on development. que permitem discorrer sobre os territórios simbólicos e territorialida des produzidas pelos foliões e visitantes. na cidade de Goiânia. e Almeida (2005) que discute as identidades territoriais e os territórios simbólicos. the developm ent of economical incentives and utilization of clean technologies. rivers and oceans affect the living organisms.Page 72----------------------9. Os aspectos teóricometodológicos utilizados no desenvolvimento deste têm como base. 71 ----------------------.com.br ***Professora Adjunta I do Departamento de Biologia e Química – UEMA. the evaluation of environmental quality. de*. inter sectors partnerships. launching of amoniacal compounds from field farm s beyond . observing t he national priorities.A.com.São Luís-MA.br.com. efficient control of pollution from continent . A. accounting and diffusion of informations to decision makers. thatyana_pereira@yahoo. às contribuições de Geertz (2001). Pereira. SAÚDE AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE Coordenação: Marluze Pastor POTENTIALLY TOXIC PHYTOPLANKTON IN MARANHAO COAST: REFLECTIONS ABOUT ENVIRONMENTAL MANAGMENT IN BRAZIL ** Araújo. The degradation of marine environment should be controlled by strategies of precaution and prevention. basis of food chain in water systems and indicator of water quality. T. entre outras. o qual aborda questões referentes à cultura. ***(UEMA) andrea_araujoc@yahoo. G. Tem-se como procedimento teórico metodológico a revisão bibliográfica e a pesquisa parti cipante. the integration of policies. Impacts on est uaries. andreacgazevedo@uol. lakes. It is necessary to promote efforts.sente artigo tem como objetivo apresentar uma reflexão sobre as territorialidades produz idas por essa festa durante o ciclo natalino.

Por outro lado os trabalhadores e trabalhadoras das áreas onde são impla ntados esses projetos tem poucas oportunidades de acesso aos trabal hos oferecido pelas empresas. Brazil. as Pseud o-nitzschia sp. nessas regiões se intensificaram projetos de expl oração mineral e agropecuários que continuam ocasionando impactos irreversíveis n os ecossistemas. afetando sobremaneira a agricultura familiar. Ceratium furca (Ehrenberg) Clapárede & Lachmann. localised in Maranhao continental platform in three fixed stations a long Cururupu coast.Page 73----------------------O recorte do trabalho é a década de 1990 quando os países da América Latina e d o Caribe se integraram aos processos de globalização dos mercados mediante a liberalização de sua s economias. é dirigente da Associação Maranhense de Pesquisas Afro Brasileiras (AMPEAFRO). 17 pottentially toxic species were indentified. e. mestra em agroecologia. 32 families and 42 genera. This study d eals with taxonomic knowledge of pottentially toxic marine phytoplankton from calcarian Algae Bank o f Tarol. 72 ----------------------. de objetiva id O estudo ―A divisão dos impactos NA Terra das Filhas da Terra entificar as condições de vida das mulheres frente aos grandes projetos impla ntados na região amazônica percebendo as alterações ocorridas em suas vidas.5m L. especialmente as mulheres indígenas e afrodescendentes. The floristic composition was formed by 76 species. deixando para as mulheres a responsabi . Maranhao Coast. por conseguinte a alimentação. consultora da Secretaria Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário(SDT/MDA). 21 ord ers. Trichosd esmium thiebauti Gomont. Key Words: Environmental Managment. Como consequência se acelera o processo de migração dos povos e comunidades especialmente dos homens. showing the importance of water monitoring along brazilia n coastal areas and educational motivation of human resources in taxonomy of toxic organisms. gerando diversos níveis de contaminação ambiental. comumente não regressam. induzindo mudanças na economia das famílias.pollution from domestic and industrial effluents. A DIVISÃO DOS IMPACTOS. 10 foils of each sample were analysed. NA TERRA DAS FILHAS DA TERRA Marluze Pastor Santos Engenheira agrônoma. The qualitative analysis was conducted from mixed samples of 0.

já nas obras de Sembene Ousmane recorreu-se ao legado secular da oralidade africana.lidade de cuidar da família. Amazônia 73 ----------------------. descolonização. As mulheres passam assumir a produção e a buscarem alternativas de renda. nos seus filmes fizeram grande uso da oralidade. a partir de afinidades estéticas comuns em suas respectivas obras . Key-words: african cinema. a A obra cinematográfica partir de diferentes São muitos os trabalhos de que Glauber elucidam Rocha as tem sido produções ana do cin .com. Claro está que estes realizadores. além da própria estética de matriz afro. It is worth emphasizing that their movies are embedded in a larger project that goes against the criticism of Europ ean aesthetic. grandes projetos. Vale frisar que suas produções estão inseridas num projeto mais amplo que va i de encontro à crítica ao esteticismo europeu. Palavras-chave: cinema africano. por dificuldades de enfrentar e/ou mitigar os impactos dessas mudanças . lisada enfoques.br Resumo: O presente artigo busca discutir os projetos cinemato gráficos de Glauber Rocha e Sembene Ousmane. decolonization. mulher. If in most productions of Glauber Rocha incorporated the language of chap-book (literatura de cordel) and the aesthetics african.Page 74----------------------ARTIGOS DIÁLOGO EM IMAGENS E IMAGENS EM DIÁLOGOS: UM ESTUDO DOS PROJETOS ESTÉTICOS DE GLAUBER ROCHA E SEMBENE OUSMANE Victor Martins de Souza M estrando em História PUC/SP victorlossotros@yahoo. while in the works of Sembene Ousmane resorted to the secular legacy of African orality. Se em grande parte das produções glauberianas foram inco rporadas a linguagem da literatura de cordel. orality. não garantida. It is clear that these directors in their films have made extensive use of orality. Palavra-chave: impactos ambientais. oralidade. Abstract: This article aims to discuss the film projects of Ousmane Sembene an d Glauber Rocha from aesthetic affinities common in their respective works.

o pai do cinema africano. dada são pouco às devidas proporções. de distintas escolas cinematográfic estabelecidas entre as: Neo-realismo Nouvelle Vague francesa. pós-colonialismo.Page 75----------------------Claro sua estética sobre está bases que o afropróprio fato de Glauber assentar brasileiras.easta a partir das relações as estéticas italiano. em estudo recente. o autor reconhece que a oralidade é um traço bastante explorado n os trabalhos do realizador brasileiro. formalismo russo – só para citar as clivagens mais evidentes. O pesquisador Mateus Araújo Lima. as características exploradas no cinema de Glauber. Lima não explora os aspectos afro -brasileiros das obras do cineasta cinemanovista. notadamente. analisa a obra de Glauber comparando-a de Jean Rouch. 74 ----------------------. como nos filmes Barravento (1961). Porém. Daí a importância de se efetuar um estudo no que se refere ao diálogo cinematográfico de Glauber colas. pe rmite-nos este alargamento afinidades de possibilidades. visto que ele centra sua análise na estreita relação GlauberRouch. (2005. cine-documentário. cine-etnográfico. que estéticas entre suas do vai de encontro à busca por o se produções e a de cineastas negalês Sembene Ousmane. Deus e o Diabo na Terra do Sol ( 1964). para além das citadas com cineastas de outras es anteriormente. Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) e Der Leone Has Sept Cabezas (1972). afro ainda Contudo. p. por seu pioneirismo e engajamento. É notável sua capacidad .82-7). Entretanto. textos Também críticos de é interessante Glauber salientar que os inúmeros demonstram está preocupação em não se filiar a uma escola específica. considerado.

acabam abalan contemporanizadores dos cinemas comerciais de matriz hollywoodiana. inclusive. étnica e racial de reconstrução africanos e afro-caribenhos. Os de descolonização como condenados uma da terra. 2005. na sua obra clássica. no prefácio de Anthologie de la movimento de afirmação identitária al.50). ne m um corpo dotado de razão. (1991. mas não do menos convergentes paradigmas moralistas e e que. históricos participaram deste processo de descolonização? E.em incorporar. e da discor cultur (LIMA. quais estratégias e ferramentas usaram para criticarem o colonialismo? dos debates Para compreendermos aventados por mais claramente tanto a natureza Fanon e Sartre. O filósofo francês Jean-Paul Sartre.92). Ele é a violência no estado de natureza e somente pode se su bmeter a uma violência maior . enfim. quanto as preocupações de Sembene e Glauber. além d os ―padrões mais correntes do cinema romanesco ou do realismo crítico nouvelle poésie nègre et malgache de la re acerca da importância langue do da française Negritude (1948-1949). devemos levar em consideração o mundo do pós-guerra e a própria q uestão do nacionalismo. Em concepção assemelhada. através de um processo antropofágico sui generis. p. Na esteira de Fanon. p. descreve o processo criação de homens novos. Tendo em vista as observações dos intelectuais da diáspora. estéticas as mais distintas. inclusive por parte da contexto havia toda uma . no que diz respeito à rea lidade de seus respectivos países. visto que neste discussão. ―o colonialismo não é uma máquina pensante. poderíamos n os perguntar em que deste medida Glauber e Sembene processo de afirmação ou de reconstrução da modo estes sujeitos fizeram Ou uso ou participaram até que ponto e identitária de que cultura? ainda. o intelectual antilhano Fra ntz Fanon.

não há nenhum exagero em dizer que Glauber Rocha ectuais. a superstição deles. artistas e críticos cinema. Stam & Shoha eurocêntrica. o artesanato isarmos os projetos estéticos de deles.. de um ponto de vista histórico. primitivas e/ou inferiore Shoat a nossa religião. categorias narrativas engendradas por processos históricos de diferenciação . a tribo deles. e sendo a cultura aqui concebida não como um préstimo estanque sim a partir de imutável.102).. (2006. 75 ----------------------. A julgar por suas produções fílmicas e extra-cinematográficas.Page 76----------------------t. esta no do racismo vai de encontro ao seguinte aspecto. p. [o racismo] era realizado e vivido nas práticas sociais e políticas de colonizadores e colonizad os (2008. Como salientou Stam & como exóticas. va Conforme concepção acerca observou Antônio Sérgio Alfredo Guimarães. em torno da descolonização e de questões raciais. p. Daí ser pertinente anal Glauber e Sembene a partir destas preocupações. estética bem de percebemos próxima à literatura regionalista ênfase à cultura popular. .21). um aliado e u m produto parcial do colonialismo (.intelectualidade negra. a nossa nação. Não por acaso as práticas e manifestações dos povos e nações do chamado Tercei ro Mundo acabam sendo vistas s. na Nesta sua Crítica mesma linha da imagem de raciocínio. Ao analisarmos filmes do Sol (1964) e o Dragão Maldade Contra ato uma opção referenciou de como Deus da toda e o uma Diabo geração na que de Terra há dando de f grande mas intel o Santo Guerreiro (1967).) As ou absolutas: são construções categorias raciais não são naturais relativas e específicas. ―apesar de negado doutrinariamente . assinalam que ―o racismo é. a nossa arte. décadas anteriores. a nossa cultura o folclore deles.

a exploração dos países do . Glauber o ímpeto maior consistiu nas às conjunturas do movimento sociais e encab políticas do Bras reflexões críticas em relação il das décadas de 1950 e 1960. extensivo e incorpo rativo . Vale frisar que muitas das questões levant adas por Glauber. com p que o vêem. O europeu ré-cinema do ou americano que quer acabar terceiro mundo é um neocolonialista. imiscuem-se nas discussõe s aventadas pelo Cinema Novo.Page 77----------------------eçado por Ademais. ―o processo cultu ral não deve ser considerado como simplesmente adaptativo. já que o próprio Glauber Rocha. por sua vez. Eu não acho que o cinema seja mais importante que a m edicina. que. 76 ----------------------. importante para aqueles que o fazem Para as civilizações subdesenvolvidas o cinema é uma manifestação Daí a importância para Glauber da relação entre artista e público. (1981. visto que são comuns que haja rompimentos autênticos em seu bojo. eu sinto que ele é e para aqueles de vida.17). p. cuja estética está em exortativa em vistas de contínuo processo dialético com seu espectador. com Lumière. nessa acepção. ou seja. Como o próprio Glauber observou: Muitos cineastas. é considerado um dos maiores expoentes deste movimento e um dos cineastas brasileiros mais conceituado no cenário internacional.―variações e complicações que ―incorpora não só as questões. visto q ue. Assim. mas também as contradições atra das quais se desenvolve (WILLIAMS. discutindo cinema. no que diz respeito ao fazer cinematográfico. inseriu-se numa questão mais ampla. a concepção glauberiana de cultura popular vai de encontro a uma arte politização. 1979. p. como ele assinalou. ―o cinema é uma manifestação de vida . ao lado de Nelson Pereira dos Sant os e Ruy Guerra.18). Dito isto. querem começa r do zero.

Eis a declaração de Glauber so bre o filme de Barreto: Sendo um produto industrial. Ora. Tais aspectos são candentes nos filmes Deus e o Diabo e O Dragão da Maldade . que dá a tônica da narrativa. e ra nordestina elemento deixar à literatura de cordel. Cabe trabalhos que se propuseram a analisar as produções glauberiadas – dentre as quais se encontram Deus e o Diabo – partiram da ótica da narrativa clássica.Terceiro Mundo e a cultura do subdesenvolvimento. C argentinos justificativa para se analisar as aproximações entre as produções de Glauber Rocha e do realizador senegalês Sembene Ousmane. entre os cinemanovistas e os cineastas cubanos. funda . recurso bastante usado na anál ise de filmes do a cinema convencional de matriz estética glauberiana rompe hollywoodiana. O próprio Glauber as do cinema romanesco de temáticas contemporanizadoras.O Leão de Sete Cabeças (1970) – filmado no Congo? O que ele pretendia com isto? Outro a glauberiana diz traço que é bastante respeito à populares. Vale frisar que justamente com este tipo de narrativa. evidente sobretudo. pautando-se numa estética diferente que àquel as do cinema convencional. não foi o próprio Glauber que realizou um dos seus fil mes num país da África . Daí ser pertinente à Glauber recorrer ao cantador popular. que é o grande característica destas duas tão cara à cultu estruturador da narrativa claro que muitos fílmica produções. produzido por Lima Barreto. laro está que esta é uma outra Daí ser inevitável as aproximações e africanos. procedimento mnemônico fortemente enraizado à cultura popular. tais iro (1953). em sua maioria financiado pela Vera Cruz. lmes as chanchadas dirigidos foi como um os grande filmes ou crítico das O ainda narrativ Cangace os fi da Atlântida por Alberto Cinematográfica Cavalcanti. na estétic à ora preponderância dada aos aspectos lidade.

(200 3. o texto revela um as de 1965. O cangaceiro (1953) é um f brasileiro.96) A julgar pela crítica de Glauber..Page 78----------------------cinematográfica de Gênova. não como como dado formal em seu campo de comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino (1965). Levando isto em conta. p. de Desnecessário dizer que este tex sintoma trágico. ou seja. assim como toda obra de Lima Barret ilme negativo para o cinema o. to acalentou debates naturezas distintas: suas misérias gerais. é evidente que a p redileção por outra estética antes de ser z isto seja mais claro se passarmos fome. por convencionais. só pode mesmo prestar serviços a regimes totalitários. denúncia.. não seria de se estranhar a afini dade do realizador de Deus e o Diabo pelas temáticas populares. nem o Nem homem o latino civilizado pecto delicado Escrito em tom de e complexo nas relações entre os países desenvolvidos e os chamados países de Terceiro Mundo. vejamos que uma ha bilidade técnica não pode ser o suporte de uma expressão como o cinema.) enquanto a América Latina lamenta interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria. em contrapart Tal pre erigida como modelo missa torna-se mais práticas populares. a a cultura cultura destes como primitiva vinda de fora é em detrimento evidente das ou exótica e.do sobre uma ideologia nacionalista tipicamente pré-facista. mas apenas interesse. E quando está técnica está a serviço de idéias que atrasam o processo de consciência e prátic a do povo brasileiro – é bom suas implicações que se destrua está técnica que. manifesto é A opção política. Se nos considerarmos um povo já livre do complexo colonial. à análise escrito para uma escolha artística. aqueles vêem ida. . Talve eztétyka da do famigerado a mostra 77 ----------------------. o (.

Glauber chega ao ponto crucial de sua análise. excitou os temas da fome: personagens comendo terra. morada do colonizador: Mais adiante. personagens ro ubando para comer. feias. pela crítica a serviço dos interes ses antinacionais pelos produtores e pelo público – este último não suportando as imagens da própria miséria (Ibidem). personagens comendo raízes. é o que confere originalidade ao Cinema Novo: A fome latina. O problema internacional da AL é ainda um caso de mudança de colonizadores. personagens fugindo para co mer. analisou. . morando em casas sujas. mal c ompreendidas porque impostas pelo condicinamento colonialista (Ibidem). esc uras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo tão condenado pelo Governo. Glauber assinala que: A América Latina permanece colônia e o que diferenc ia o colonialismo de ontem do atual é apenas a forma mais apri e além dos colonizadores de fato. poetizou. De Aruanda a Vidas Secas . Aí reside a trágica originalidade d o Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é a nossa fom e e nossa maior miséria é que esta fome. e este primitivismo se a presenta híbrido. descreveu. sendo sentida compreendida. discursou. as formas suti s daqueles que também sobre nós armam futuros botes. o Cinem a Novo narrou. por isto. não é 78 . essos de criação Ainda nesta linha de raciocínio. descarnadas. segundo ele. personagens matando para comer. disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado. pondo às claras a estética da fome que. feias. não é somente um sintoma a larmante: é o nervo de sua própria sociedade.quando Glauber observa que: Para o observador europeu. personagens sujas. os proc artística do mundo subsesenvolvido só o interessam na med ida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo. sendo que uma libertação possível esta rá ainda por muito tempo em função de uma nova dependência (Ibidem).

entrou na vida deles o santo Sebastião . 2007. Tais . Ora. um estilo que buscou redef inir a relação do cineasta brasileiro com a carência de recursos. também é verdade que. pois se é verdade que grand cinemanovistas foi feita em condições financeiras adversas. ela se instala na própria forma do di zer. Partindo dos princípios da ―estética da fome .9). o fato de Glauber Rocha recorrer à literatura de cordel em De us e o Diabo também não pode ser vista dominante? Talvez como isto uma oposição estético-ideológica ao cinema também se insira num projeto mais amplo de crítica aos cânones europeus. p. Nas cenas iniciais de Deus e o Diabo na Terra do Sol a voz em of f do cantador inicia sua narrativa com os seguintes versos ―Manuel e Rosa viviam no sertão / trabalhando a terra com as próprias mão / Até que um dia pelo sim. mais do que um objeto de fome é uma forma de fazer cinema.3). nos se remete às tradições dos orais dos distanciam ―pensamentos engessados e fechados em si mesmos (ANTONACCI. a (1983. na própria textura das obras análise. esta é a grande contribuição do Cinema Novo: a busca da criatividade e origin alidade frente à carência de recursos. p.Page 79----------------------O crítico Ismail Xavier tem observação interessante a este re speito. parafraseando Xavier. Segundo ele ―a fome não se define como tema. do qual se fala. uma vez que a própria narrativa de Deus e o Diabo cantadores populares e dos romanceiros. uma oposição estético-ideológica ao cinema dominante. de aco rdo com Glauber. ―invertendo posições dia nte das exigências materiais e as convenções de linguagem próprias ao modelo industrial dominante (Ibidem.----------------------.10). o estilo cinemato gráfico glauberiano coaduna-se às e parte das condições produções de sua produção. ou seja. na acepção glauberiana. pelo não. sistemáticos e cujos testemunhos continentais. Isto é. p.

Bhabha. Logo em seguida ouve-se uma peça sinfônica de Villa-Lobos. feita. pos teriormente. a paisagem árida e a literatura de cordel se aproximam da geografia interior do artista. (NEMER. posteriormente observa-se a aparição do vaqueiro Manuel. 2007.25) No filme de Glauber é nítida a intenção de querer contar uma história. a fala. ou o processo de migração da literatura de a oralidade. Como salientou Ismail Xavier. a voz. no interior da Bahia – vivenciou muitos dos aspectos que futur amente viriam a . abandonarão a religião. ímpeto que perpassa a passividade e se desdobra na ação. qu historiadora Sylvia Nemer. pois o próprio Glauber . p. Canção d o Sertão. cordel do seu ambiente para uma realidade Desta original. o canto se configuram como elemento de transgressão da ordem. 79 ----------------------. a marcante de Deus e o Diabo.n a sua infância em Vitória da Conquista. ponto de fuga em poten cial. A fala sertaneja. e é a Em relação a este traço literatura de cordel. o sol cau sticante e a terra estorricada. As ações seguintes centram-se n a vida do vaqueiro e de sua mulher Rosa que se juntarão aos fiéis liderados por Sebastião e. convertendo-se ao cangaço.Page 80----------------------visto que há uma possibilidade mínima que permite o acesso ao novo. Neste sentido. apoiando-se to pautando-se na em Homi K. tend o em vista a mistura de elementos de naturezas distintas. uma carcaça de gado. analisou tal aspec idéia de ―migrações culturais (circulação de signos dentro de locais contextuais específicos e sistemas sociais de valor específico). fazendo-se uso da tradição popular e de uma linguagem popular. a relação presente/passado/futuro não se dá de fo rma cíclica. Nemer caracterizado analis pel estética na qual predomina a imagem.versos são acompanhados de planos gerais do sertão árido.

os litorais da Senegâmb ia e as ―tribos exóticas que habitavam nestes territórios. Mamadou Sarr. das mais muitos expressivas testemunhas cinegrafistas franceses. as savanas africanas.5). A ata de 1955. Vale ressaltar que mesmo anteriormente a esta nente africano já havia sido produção o conti abundantemente filmado. tal e mpreendimento contribuiu em muito para uma estereotipagem. Daí o ponto de contato entre Glauber e Sembene. as margens do Nilo. uma espécie de resistência e alteridade ao racionalismo europeu. antropologia. 2005. as populares. negro Viyra e d produzido o curta-metragem Afrique-sur-Seine. Porém. A julgar pela intencionalidade destes diferentes projetos. . cinema Como salientou e culturas Shohat igualmente da botânica. italianos e norte-americanos empreenderam a ―mi ssão de filmar os desertos egípcios.1 assim como a i mportância dada às práticas populares. p. ingleses. da zoologia. entre o cânone letrado e o oral. minimização e subvenção das práticas e manifestações cultur is das diferentes etnias m ―A fotografia e o representavam travagantes Prolongamento topografias em relação da africanas. tal filme não foi produzido na África. tradições e contradições os flagelos. Daí ser presumível que o nordeste glauberiano vem à tona por meio destes e lementos. visto que nas pro duções do cineasta senegalês há uma forte recorrência à oralidade.usar em seus filmes: o mandonismo local. a religiosidade. mas sim nos logra douros de Paris. Antes mesmo do início do século XX. certidão de nascimento ocasião em que é do cinema de africano S. & Sta ex da estranhas à Europa. A própria aproximação sócio-histórica entre o Nordeste do Brasil e a Senegâmbia r eforça ainda mais está idéia. do Senegal Paulin (LEQUERET. a partir do qual já se pode observar uma tensão entre a tradição oral e a escrita. quando o próprio cinema co meçava a se configurar da Revolução como uma Industrial.

muitos (2001. Estando cônscios cineastas fizeram questão de tomar o controle de suas próprias imagens e buscaram re escrever suas histórias. da biologia e da medicina. Nestas produções.Page 81----------------------que uch Sembene Ousmane acusou o de filmar os africanos respeitado cineasta francês Jean Ro ―como se fossem insetos (OUSMANE. o genealogista. Trad. dissecava o ―outro . p. ―f oram postas entre parênteses por um século de domínio colonial disso. sendo por vezes excelente poeta In: NIANE. D. o arauto. Claro está que Sembene Ousmane compareceu a este debate.entomologia. como figurantes. aquele que dominava a palavra. a câmera. num artigo recente. e evolucionista a partir da qual passa a ser o próprio discurso para que cientificista nas nações à questionado. a exemplo do microscópio. SP: Ática.T. ―Numa sociedade em que os conhecimentos eram tradicionalmente transmitidos pela palavra – de forma oral – o griot tinha posição de destaque. a partir do qual o próprio passado africano tem pas . Vale frisar que não foi casual 1 Para compreendermos a importância da oralidade na obra de Sembène basta observarm os nos seus filmes o papel que é atribuído ao Griot. Talvez isso tenha africanas recém-emancipadas surgisse prática. Sundjata ou A Epopéia Mandinga. n. Como observou Djibril Tamsir Niane. observou que ―Na áfrica. um cinema tendo em contribuído cujas reflexões vista as estivessem associadas especificidades de nações que. ao longo do processo de independência das colônias africanas.36). 1982.2 observa-se uma nova tendência. 80 ----------------------. nes tas últimas décadas. Mais adiante o autor ressalta que ta is produções se voltam a um engajamento crítico.17). Mbye Cham. Col. Porém. Autores Africanos. pois lhe cabia transmitir a tradição histórica: era o cronista. como observou o historiador Boubacar Barry. 1982. o papel dos africanos era bem marcado: em frente à câm era. Oswaldo Biato. produziu-se um número significativo de filmes .

comerciante. tendo em seus horizontes s enfrentados pelas sociedades africanas contemporâneas (2000. “Ao longo da minha vida exerci vários tipos de trabalho: pesc ador. 81 . por suas liberdades e em defesa de suas crenças. de fato Sembene teve importância ca pital em tais discussões. mecânico.. na tessitura deste trabalho. por cabe algumas deixar de claro que suas Sem as diferentes crises e desafio pioneiros neste processo. Ceddo produções (1977). A julgar .4).202). não podemos perder de vista que tal emancipação é fruto de um longo processo iniciado décad as anteriores em que intelectuais.405). sempre t endo em vista os problemas enfrentados pelas sociedades africanas (2001. Para compreendermos a maturidade de sua literatura e o engajamen to político de seus filmes temos que levar em conta mo ele próprio fez questão de sua rica experiência de vida. 3 Em alguns artigos observa que o nome de Sembene Ousmane é escrito de forma invertida e com acento (Ousmane Sembène).(1966). Emitaï (1971) e Camp de Thiaroye (1987). p. Considerado uma das personalidades mais notáveis africana.sado por uma revisão. bene Ousmane Levando isto foi um dos em consideração.. 1 972. artistas e diferentes sujeitos históricos lutaram. Casamance. cada um a seu modo.La Noire de. no Sene gal. p. Sembene 3 (1923-2007) nasceu em Zinguenchor. optou-se pela forma qu e o autor assinava seus artigos e obras. ao longo da sua vida do cinema e da literatura produziu 12 filmes e uma vasta literatura sobre os mais diversos temas. Entretanto. Trabalhei como estivador durante dez anos no porto de Marselha”(OUSMANE. Talvez isto explique o fato de que muitos dos personagens criados por Se mbene sejam frutos 2 Apesar de levarmos em conta a importância dos movimentos de independências das co lônias africanas. p. Co salientar.

bene Ousmane Devemos também levar em tem uma conta que. Depois de ter produzido um número considerável de obras – Le docker no ir (1956). Dragão da to Maldade e Terra em Transe. O fato de Glauber ser o autor de versos de Deus e o Diabo. engajado e menos combate por um cinema contemporizador.----------------------. do Jornal do Br asil. gro). ocasião em que Glauber empenhou-se num mais crítico. Deus e o Diabo ou O Leão de Sete Cabeças. Oh pays. mon beau peuple (1957). daí sim poderemos compreender mais claramente a alegoria de alguns dos seus filmes. dentre outras . esta obra retrata as precárias condições de trabalhos dos estivadores africano s neste porto. possuido ra de uma estética própria. É por orientação do romance é autobiográfica e o próprio tom político em que é embalada a narrativa já aponta alguns caminhos das posteriores produções sembenianas. Daí não ser nenhum exagero falar de uma poética glauberiana.Page 82----------------------deste rico empirismo. Isto fica mais evidente se relacionarmos sua literatura com suas i magens. Is romance Riverão Sussuarana (1977) e sua colaboração ainda jovem em jornais e revistas da Bahia e do Rio de Janeiro. O romance é também uma reconstrução ficcional das relações raciais entre os franceses e os e xilados africanos das colônias francesas demais óbvio dizer que a pertencentes à diáspora negra. Sua longa retratada. Les bouts de bois de Dieu (1960) e. sem contar a escrita do corroboram em muito está idéia. visto que o cineasta baiano também p ossuia esta inclinação e afinidade literária. tais como O Dragão da Maldade. Voltaique (1962) – . Sem trajetória bem parecida com a de Glauber Rocha. experiência de trabalho estivador no ne po no romance Le docker Escrito em tom de noir (O denúncia. de 1956. rto de Marselha seria posteriormente. a este respeito. como Diário de Notícias e o Suplemento Dominical.

eu decidi fazer cinema” (Ibidem). preocupação em em 1979. BH: FALE/UFMG. o que a diferencia do resto.33 5 Colloque sur litterature et esthetique negro-africaines. Sônia Queiroz. horizonte a Realizado em Dakar. como aquela parte da sociedade que domina amplamente a língua européia. 82 ----------------------. A este respeito é interessante recuperar parte das questões aventa das no Colloque sur 5 litterature et esthétique negro-africaines . Abiola. 1966). 2006. 1  Primeiro Fest ival de Artes Negras (Dacar. de imediato. In: QUEIROZ. ou seja. “Quando me dei conta que em razão do alto grau de analfabetismo que assolava meu país eu não po deria jamais atingir por meio de minha literatura as massas.Page 83----------------------colóquios anteriores: 1  Encontro de Escritores Negros (Paris. Como ele próp rio declarou. Sônia (org). 358pp. Daí ser evidente que Sembene buscou contemplar tanto na sua literatura quanto nos seus filmes os problemas que estavam colocados ao seu povo – heranças herdadas de séculos de colonial ismos. dentre outros. os africanos e as massas . Fernan da Mourão. como nos próprios anteriores de debates possibilitaram e escritores intelectuais 4 Vale ressaltar que os romances de Sembene foram escritos em francês. IRELE. 1956). que por um longo tempo foi subjug . p. A literatura africana e a questão da língua. Dakar: Les nouvelles Editions Africaines. em função d o alto grau de 4 analfabetismo do seu público alvo. o Colloque teve em seu relação às manifestações culturais e artísticas africanas. e como obse rvou Abiola Irele ―A elite na África pode ser definida. cujos ricos o amadurecimento de questões trazidas por geração africanos. A tradição oral.Sembene percebeu que sua literatura não tinha o alcance que ele esperava. 1979. Trad: Ana Elisa Ribeiro.

Sobre cinema negro-africano: a problemática cultural de La noire de. Funcionalidade da palavra e funcionalidade social na literatura negro-af ricana.208) Tal observação ilustra africana em muito bem a preocupação desta levan int electualidade (re)pensar o seu passado e suas do em conta seus costumes e práticas epistemológicas.ada pelos europeus... o próprio A e este Sembene Ousmane fez parte. de provérbios. é Um desenvolvimento próprio do pensamento africano destes últimos anos parece residir no esforço teórico essencial que tende a ren ovar os postulados da questão a ambição interpretação de fundar de uma filosófica africana: a etno-filosofia teria filosofia africana a partir da reconstituição 'graças à e de tradições.. Moralidade e estética no ritual arquetípico. de povos africanos [. tradições. A participação e a contribuição do negro africano na arte e na literatura antiga .. ímpeto que perpassa a visão cristã-ocidental e eurocêntrica em relação ao con tinente africano. .] uma supostamente comum a todos africanos (Ibidem. Arte funcionalista: estética negra e dialética do juízo estético. m Os compreendamos debates acalentados melhor as por este colóquio e nos artistas salutar permite deste a o questões período que estavam postas para intelectuais que. p. segundo eles: respeito. inclusive. Não resta dúvida de que isto já possibilita um redimensionamento das suas históri as e da sua filosofia. A estética negro-africana e as demais artes. eis alguns núcleos temáticos que foram suscitados neste e vento: Estética negro-africana. de instituições. A título de análise. de diversos ar visão de mund costumes cabouços da vida cultural o específica. bservação de Mohamed Boughali Babacar Sine.

europeus. ―[Sembene Ousmane] do Oeste. na tradição africana o cinema é uma realidade de envolver todo o homem.Page 84----------------------Um cineasta africano. Como observou Maria Antonieta Antonac ci. enquadramentos e dialogou especialmente com a filmografia de Glauber Rocha. performance do valores secular corpo. optando por se aproximar de cinematografias alternativas. que também produzia cin ema baseado em tradições orais e em matrizes afro-brasileiras mbene concede à (Ibidem. língua. Há muita coisa que corremos o risco de perder: com o cinema podemos salvaguardá-las. dentre outros préstimos. e as pessoas podem vê-las (1990. mas sempre viva: a oralidade. filosofia. ou seja. é igualmente esclarecedora a declaração que Sembene deu ao Correio da Unesco: 83 ----------------------. como o Cinema Novo. A este respe ito. Segundo Antonacci ―Em estética [Sembène] seu movimento de imagens. nas suas dando grande produções a e partir aos Sembene da recusa recorre de à me padrões afric importância à natureza pan-africana.bem Disse-se marcante nas outrora que produções a oralidade é um traço cinematográficas de Sembene Ousmane. p. (…) Dessa forma.4). atuando no mundo da imagem. mória Por popular. p. tendo em vista o questionamento dos valores trazidos pelos c olonizadores europeus: instituições. Claro está que tal memória vai de encontro ao passado ano: oralidade. isso. O próprio cineasta foi um crítico da Nouvelle Vague.5). O filme Ceddo (1977) demonstra de forma cabal a importância que Se . possui uma herança muito antiga. músicas. danças. colocou em cena desde preâmbulos regimes dos de oralidade na África processos de independência das nações africanas. produzindo para o cinema. nos anos 1960 . (…) O cinema africano é uma escuta de si própri o.

o filho do rei. Com grande ênfase à oralidade e suas respectivas performa nces. sua compartilhado a idéia de que a sociedade africana deve buscar uma criação visual e d inâmica em consonância com seu tempo e espaço. O griot6 convoca todos para uma reunião. 84 ----------------------. Todo conclave é veiculado pela palavra. ocasião em que o destino da princesa Dior e da própria comunidade são discutidos. filha do rei Demba War. Percebe-se que toda a história do Ceddo gira em torno da princesa Dior. as versões oficiais acerca do passado africano são contestadas. três homens comandam o debate: Saxewar. de Dijibril Tamsir Niane. Madior. filho da irmã de D emba War e Biram.Page 85----------------------- . Ela é apresentada como uma figura de resistência presença avassaladora. o noivo da princesa. é esclarecedora a obra Sundjata ou A Epopéia Mandinga. de acordo com a nova lei islâmica. Apesar extremamente de sua limitada aparição no filme. Os muçulmanos são apresentados como conspiradores e fanáticos religiosos. daí a importânc ia dada à oralidade. alguns e é liberação. No Ceddo. Ambientado no Senegal do século uestionando o mito XVII. em protesto à conversão forçada ao islã. No transcorrer do sequestram a princesa Dior Yacine. que. Daí ser pertinente para estes agentes a recuperação de suas 6 Para uma aproximação com a necessidade apel do Griot nas culturas orais de estudo em relação ao p africanas. é o novo herdeiro do trono. A própria opção língua vernacular wolof de Sembène de escrever os diálogos na corrobora em muito está idéia. os ceddos demais práticas culturais e religiosas. i ntolerantes no que diz respeito às enredo. o filme islâmico reconstrói a história do país q dominante. críticos Reivindicando uma autenticidade e artistas africanos têm cultural.oralidade.

.É claro . pitais e escolas. que ten quadros das estruturas e dos movimentos sociais. mas igualmente como um fato social significativo e enraizado na vida do seu grupo (1977. a clarividente afirmação de Aziza vem muito a calhar par a compreendermos as contribuições deste processo. Claro vista as esta que revisões o fato e as de reinterpretações da história da Áfric Sembene Ousmane recorrer à memória popular para recompor os eventos históricos vai de encontro à sábia observação de Amadou Hampâté Bâ: O fato é que não há sistema de escrita que destitua a África de um passado ou de que este conhecimento um corpo de herdado que é conhecimento. não somente c omo um fenômeno característico da sociedade humana.cosmogonias. Claro está que esta tendência faz parte de u mais ampla. ritos ma esfera e tradições. É importante para nós te rmos um cinema com o qual nos identifiquemos. bem como assinalou Mohamed Aziza: A análise do processo de recuperação e reformulação do pa trimônio cultural por parte de um conjunto de artistas africanos e árab es deve levar em consideração as questões de ordem sociológica. A trazidas por Sembene este respeito é Ousmane ao longo esclarecedora a seguinte afirmação do escrito senegalês: projetam histórias de uma Sobre as telas da África negra só se estupidez medíocre. p. apreender e se compreender por meio das telas (1964). celebrações. para rever. e Está identidade da uito dos seus filmes. tendo em a. A própria iálogos intenção do realizador em wolof reforça qual nos fala Sembene de produzir uma é perseguida (Ceddo) em m com d película isto. Para nós africanos a questão cinematográfica é tão importante quanto a construção de hos a alimentação de nossa população. tendo em vista a identificação do seu profundo significado. nas películas Emitaï e Camp de Thiaroye os valores culturais locai s são reforçados. Igualmente..8) dem a se situarem nos A meu ver. estranhas à nossa vida.

uma vez q ue o cineasta baiano também buscou com primazia particularidades do Nordeste brasileiro. 2004. consequentemente. Deus e o Diabo.O corpo de c vasto e diverso. estando presente em todos os aspectos da vida. Tanto em Glauber quanto em Sembene observa-se a tensão entre a o ralidade e a . Eis outro aspecto que o aproxima de Glauber Rocha. na sua obra há uma pred ominância dos aspectos locais.O corpo de conhecimento africano é. Barraven Leone Has Maldade.ouvido da geração africano seguinte é onhecimento transmitido da boca de uma geração ao pode tanto crescer como diminuir..22) Um traço comum tanto nas produções de Sembene Ousmane e de Glauber Ro cha tem sido a resistência ao racionalismo europeu. Poderia ele ancorar-se à Nouvelle Vague.Page 86----------------------ou às narrativas convencionais do cinema hollywoodiano.. Se por um lado alguns autores têm afirma do que a obra de Sembene ―é a expressão do drama existencial do negro que vive numa áfric a cobiçada. não se pode negar que o cineasta senegalês a sua estética fez algumas opções. mas sim generalista . p..13). um conhecimento vivo e ―abrange nte . podendo ser comparados a uma vasta biblioteca. tendo em vista dos problemas enfrentados pelo as reflexões políticas acerca Senegal de sua época. p. O ―conhecimento especializado nunca é especialista.. isso sem ectos afro-brasileiros: contemplar em suas obras aos as asp contar a constante religiosidade. Terra em Transe. é por este motivo que os anciões são vistos como os seus últimos detentores . porém. mal partilhada e traída o plasmar (DIAGNE. cujas estantes estão articu ladas umas às outras por meio de conexões invisíveis que são a essência da ―ciência do invisí el (1972. ao Neo-realism o italiano 85 ----------------------. e teatralidade. musicalidade to. A Idade Sept Cabeças tal ancestralidade africana é reforçada. Dragão da da Terra recorrência Nos e filmes Der oralidade.

muito menos um populismo A afirmação de Fanon é bastante oportuna para o presente estudo. rompendo com a estética trizes hollywoodianas. De fato. muito em voga nas décadas de 1950 e 1960. a própria idéia é observável de dos em é cinemas convencionais das de obras ma glauberia qu grande parte interessante o que alegoria confirma isto. tendo em vista a A autonomia plena. p. i sto é visível em alguns do romances do escritor. destes espaços Cabe frisar que a proximidade nos permite está dos traços culturais abertura a este diálogo de imagens. na obra Xala. ―Se a cultura é a manifestação da cons ciência .7 olonização Tendo em e à própria vista o questão amplo do processo de desc nacionalismo. pois na concepção fanoniana a própria luta é um busca por soberania e por fenômeno cultural. Isto também é um traço que nas. própria literatura do escritor senegalês é construída como se fosse uma cena. a fome e a liberdade. justificar e evocar a ação por meio da qual o povo se constitui e se sustenta. A cultura nacional nos países subdesen volvidos deve. o cânone letrado e a alegoria. A cultura nacional é o conjunto de esforços feitos pelo povo no plano do pensamento para descrever. notadamente. Logo em seguida ele complementa. os valores do b ranco e do africano. situar-se no centro da luta de libertação que é travada nestes país es (Ibidem.norma culta. é esclarecedora a observação de Frantz Fanon: cultura nacional não é um folclore.92). então. abstrato que acreditou ter descoberto a verdade pop ular. o local e o universal. A própria narrativa de grande parte do cinema af ricano é feita em bloco. ou ainda esta massa sedimentada de gestos puros que pouco tem a ver co m a presente realidade do povo. e muitos dos livros de Com efeito. Sembene o observar levou algu posteriormente foram adaptados para ns teóricos a afirmarem que a cinema.

cultura e psico lógica da qual nos fala Ismail Xavier.. longínqua apenas em nossa imaginação desinformada . que Glauber.).. Segundo Ismail Xavier: É notável. cultural e psicológica que separa o universo da fome do mundo desenvolvido. Sembene expõe ociedade senegalesa dividida moderno e o arcaico e marcada pelo Hadji acaba sofrendo o Xala – quebra da potência se de forma crítica o retrato entre o entrechocar de culturas (N.21).93). -se aos Claro projetos está que as políticos de idéias que aventadas alguns por Fanon observaram coadunam q de uma s Glauber e Sembene. acentuando a demarcação de lugares e o conflito estrutural que deriva da b arreira econômica-social. em Glauber.7 Xala (1973) narra a história de EL Hadji Abdou Kader Bèye. cujos aspectos cu lturais são tão próximos à nossa nação tupiniquim.A. ica (de que o cinema É justamente em função desta barreira econômica. Cabe frisar ue o próprio Glauber foi um autores notável receptor das idéias fanonianas. Como o próprio Glauber elucidou. . social. (ROCHA. a África. a consciência nacional é a forma mais el aborada da cultura (p.Page 87----------------------nacional. o sentimento da geopolít é um dos vetores) como um eixo de um confronto no qual o op rimido só se torna visível (e eventual sujeito no processo) pela violência. ―O público do terceir mundo continua recebendo uma cinema euro-americano e massa enorme de informações sobre o pouco sabe do seu próprio cinema [. transbordado de sentimentos conflitantes. personagem abastado que faz parte dos ―novos ricos da sociedade senegalesa. 86 ----------------------. Apoiado em Frantz Fanon ele explicita tal sentimento em ―Por uma estética da fome . (2004. S/D. p. notadamente. não restam dúvidas de que neste caso.] Explico isto para deixar bem claro o motivo que me levou do Brasil até a próxima África. buscou estreitar as relações com os demais países subdesenvolvidos. El xual – e a partir deste acontecimento.

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the affirmation of the process of black consciousness and the recovery of the enslaved one as the subject of a social hi story through the post-colonial literature. É professora da C desde 1993. educação. E-mail: hcunha@ufc. post-colonial literature. Participou da fundação da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Educação Popular e Escola Henrique Cunha também pela UFAM e mestre Casa de Cultura Britânica da UF Educação Brasileira da UFC sob a orientação do Professor Dr. É mestre em História. Foi aluno do grupo escolar Marechal Floriano e do Colégio Estadual Brasilio Machado. . formou-se em Engenharia Elétrica pela USP (São Carlos) e em Sociologia pela Unesp (A raraquara). É doutoranda do Programa de Pós-Graduação em onde faz parte da linha de pesquisa Movimentos Sociais. servi ndo de aporte às diversidades culturais.contribuir tanto para a formação de educadores como abrir caminhos para as áreas de fi losofia da educação brasileira pelo aprofundamento na cultura de base africana na diáspora. sua infância no tradicional bairro do em São Paulo. Educação Popular e Escola. The knowledge and study of this literature can contrib ute a great deal to the intellectual formation of educators as well as it may open paths to areas of phi losophy of Brazilian education through the deepening in the culture of African basis during the Diaspora serving as a contribution to cultural diversity. education. 8 Henrique Cunha Junior nasceu no Bexiga. literatura pós-colonial. e passou Ipiranga. identity. identidade.com. Depois.br 9 Lílian Cavalcanti Fernandes Vieira é formada em Letras pela UFAM (Universidade Fe deral do Amazonas). Key words: culture. Derek Walcott. tendo sido seu primeiro presidente. especialista em Tradução: Teoria e Técnica em Linguística Aplicada pela UECE (Universidade Estadual do Ceará). Abstract The main purpose of this article is to analyze the thematic identity and culture of African basis through the work OMEROS by the afro Caribbean writer and Literature Nobel Prize winner (1992). His work allows the focus to issues like the discussion of concep ts such as identity and culture as political acts and artifacts of a good education. Palavras-chave: cultura. Fez doutorado em Engenharia na França e livre-docênci a na USP. Dirigiu grupos de teatro amador no movimento negro na década de 1970 e foi membro do Grupo Congada de São Carlos. É professor titular na Universidade Federal do Ceará onde atua no programa de pós-graduação da Faculdade de Edu cação na linha de pesquisa Movimentos Sociais.

judaico-cristã.com. O tempo trabalhou nossa alma coletiva por via de três m ateriais: o passado. do de roupa interesses iquenho. mas de nós e todos pertencentes a uma sociedade à procura dos seus pontos . fortemente excludente das manifest ações sociais dos nas mundos habitados etc. 2004) o tema das Para as populações identidades sociais afrodescendentes no mundo (Mia Couto. e tem desenvolvido um interesse especial pelo estudo das l iteraturas pós-coloniais e a questão da identidade e cultura nas obras dos autores do pós-colonialismo. o presente e o futuro. Refiro-me à nossa conversa com nossos mas. os problemas da existência não devem ser tomados da perspectiva da dicot omia de nós e os outros. Principalmen dominante se constitui de relações não necessariamente econômicas e que constituem o pro cesso de manipulação ocidental. escritor moçamb por vestido de carregado O passa próprios fantas falar aqui d coletivas e individuais não é um problema superado e muito menos uma questão social se cundária submersa nas te porque relações do capitalismo este capitalismo dominante. E-mail: lilianviei ra@bol. capitalista. presente vem emprestada. em foi mal mitos e embalado preconceitos.Page 91----------------------DEREK WALCOTT E OMEROS: uma discussão sobre a problemática das identidades afrocaribenhas 1. de que poucas vezes se faz alusão . Quem somos nós ou o que nos é caro? Quero e um diálogo muito particular. islâmicos. De maneira por mais nós afros.br 90 ----------------------. E o e O chega-nos deformado. asiáticos.. Nome é África . Nenhum desses ma teriais parece estar feito para uso imediato. indíge expressiva.Jr. que ―O nos Meu futuro foi encomendado são alheios.

as guerras da Coréia. o problem pergunta Quênia proble e ma como (1938). histórica ao lado do veículo de uma centena de cavalos de força. Vietnã e do Camboja. africanas dos anos de 1960 a 1970. mental. tendo como fundo o colonialismo inglês e a organização contra o imperialismo mental das ma das identidade coletivas e individuais é terial. puxando carroça préque contrapõem o catador de recicláveis. As per cepções da pós-modernidade cronicidades podem que vivem estar em na ausência da percepção das assin 91 ----------------------. Sérvia e Haiti. Não seriam as teorias da inexistência das identidades e apenas das identific ações mais uma expressão das problemáticas e re-configuradas pelos dos mundos eurocêntricos transportadas . por KENYATTA das filosofias Retomando Kenia. Muito um problema da longe de ser sociedades ocidentais.Page 92----------------------mundos de pseudo-convivência. no seu famoso livro Facing Mount funcional é quem somos nós quenianos. sobrevivência das mais intelectual como as superado está emergindo no cotidiano Iraque.. apenas como exemp lo da nossa reflexão. pensada riundas como foco dos paradigmas das sociedades africanas e (CUNHA JR.de equilíbrio. perfeitamente climati zado e como contato do intelectual pós-modernizado das nossas universidades. Se recuarmos um pouco as guerras das independências guerras no do Irã. Os teóricos da pós-modernidade fixam parâmetros sobre a superação da moder nidade que estão presentes em limitados setores do mundo europeu e norte-americanos e nas percepções das classes médias latino-americanas insensíveis aos mundos que as circundam. das onde a lutas no o Bantu o afrodescendentes a apresentado 2010). Afeganistão. temos tempo-espaço.

em. se identificar Sofre aceito questão seja parte pelo ao mesmo suas posturas de fato ambas s de tempo moderadas totalmente com nenhuma.intelectuais periféricos ao sistema da produção eurocêntrica? Numa e em ser quase europeu em pensamento. das ideologias das mestiçagens. O presente texto pretende iniciar um debate sobre o conjunto de características iden titárias e propõe ser uma sucessão de artigos dentro desta temática. O fato de ter nascido entre duas etnias e duas culturas. no faz com que o poeta em entanto. pois descen de de ingleses e negros. negra por pelos britânicos também com a incompreensão da comunidade sobre a questão racial. ser negro: nunca pode ser integralmente em que sofre dois estigmas e americanos. cultura e identidades falando da sua experiência focalizada na realidade histórica da ilha de Santa Lúcia no Caribe. Dentre os questionamentos lançados um nos inquieta sobremaneira: po r que a obras de autores como Derek Walcott não são divulgadas ao público leitor brasileiro? Por que el e e outros . as climatitudes da sociedade brasileira. construtores coro e sentido movimentos e sociais desconstrutores da identidade nacional. scendente Derek Walcott é preocupado com a um dos intelectuais do mas sobrevivendo expressão angustiant e pensando mundo afrode expressão e a problemática da história. pelo e ques afrodiaspórico caribenho. OMEROS é a obra literária cuja compl exidade invade tionam uma infinidade de o pertencimento relações Faz na e correlações com que expressam as diversas negros. do debate sobre a latinidade das Américas. expressões problematizadas sociedade brasileira pelos s debatedores. Trata-se de uma expressiva voz caribenha visto que foi prêmio Nobel de literatura em 1992. focalizando esse autor e o livro OMEROS. Tratase de um convite ao aspecto do debate sobre as identidades.

dentre 92 ----------------------. daremos apenas a dimensão de um quadrilátero co e relações sociais. O autor e sua obra o emocional do indivisível do Escritor a crioula. Assim sendo. seremos mposto pela mais restritos. o Luz (2000). Entretanto. não podemos limitar o estudo das sociedades a apenas um enfoq ue disciplinar. Wole Soyinka e Gloria Muapa ficam totalmente esquecidos dos meios de divulgação da o interesses dos intelectuais brasileiro? Certamente esta longo deste texto e nem cultura. e muito menos a uma das áreas como as das relações econômicas nem dos grupos sociais. sem dicotomizarmos m conta o visível invisível. racional no entanto. apesar dos Exus anunciarem as problemáticas das di aléticas em sete caminhos. problematizadora dos mundos e que não faz compasso com o s projetos eurocêntricos de expressão no país. Sem.Page 93----------------------outros. a capi tal de Santa Lúcia. economia um sobre o outro. privilegiarmos e sem termos e Agadá de Marco Auréli cultura. Oriundo de uma pequena família de ilha situada no Mar do Carib . Chinua Achebe. inquietação da pesquisa não universitária e d ao será problematizada respondida tão de imediato. Derek Alton Walcott caribenho de etni nasceu a 23 de janeiro de 1930 em Castries. política. mostra um universo de restrição a autores prop onentes de uma afrodescendência ativa.como. A nossa perspectiva teórica é guiada por focalizações das filosofias afri canas em obras como a Verdade Seduzida de Muniz Sodré (1983). No entanto. Tony Morrison. uma e. 2. co mo no enfoque de classes.

” Em s ua obra. é o desejo de destacar o caribenho como uma cultura e realidade social. que se tornou inde séculos. dando. Conseguiu estabelecer-se como poeta em 1964. chineses. indianos. de espírito lutador. O caribenho não é uma cópia de nada. Walcott afirma que os escritores são responsáveis por tocar e emocionar as pessoas. depois. de idade. apesar de tudo. holandeses e franceses num ambiente único. uma boa educação Derek Walcott aos seus dois filhos com a gêmeos. De 1953 até 1957. início a uma carreira no campo do jornalismo.africanos. Essa pai xão e vibração estão presentes em toda a obra do artista. estreou como poeta aos dezoito anos Twenty Five Poems (1948). seu pai era um aquarelista boêmio e ir responsável. Ele sempre dizia: ―Desde pequeno eu sabia q ue seria um escritor . também. durante Santa Lúcia. ingleses. que desenvolveu sua própria cultura e identidade. suas poesias e peças. foi. mas. antes de tudo. combinados influência Walcott onde com o Metodismo religiões de e o Catolicismo cenário singular que o coexistiam trabalho de africana. É uma paixão por justiça. que acabou por produzir um lugar p lurilíngüe e multicultural. uma professora da escola conseguiu. providenciar Roderick. obra em que proc essencialmente caribenha.escravos. Castaway (1965) e The Gulf (1969) foram. Derek e metodista local. Foi neste emergiu como uma reafirmação da cultura e identidade caribenhas.Poems ura fundamentar uma cultura 1948-1960. caract erizados pela . ao publicar In A Green Night . diz o poeta: ―Ele é uma amálgama de povos . Walcott foi professor em várias escolas do Caribe. uma mistura dos governos francês e inglês. A pendente em pequena ilha de 1979. A mãe. publicação de numa edição limitada financiada por sua mãe. que acabou por falecer quando Derek ainda era uma criança.

1979)10 e interesse Desde muito tanto pelo cedo. Walcott sempre esteve na vanguarda do seu ofício. freqüentemente. que explora. ele introdu z elementos da língua popular em crioulo. com a obra com o Prêmio Nobel de Lit particular na confluência en OMEROS. a é OMEROS. alguns críticos apontam para os versos . nigger and English in me. abrindo caminhos para a expressão e mais de quinze livros de afirmação dos caribenhos. em O autor foi agraciado 1992. iências do povo caribenho e Seu trabalho é marcado pelas exper reflete sua identidade e sua herança. magistralmente. A poesia e o drama de Walcott definem o auto r como um poeta transcultural. Ele escreveu poesia e trinta peças. OMEROS: a busca de uma identidade I have Du tch.Page 94----------------------tentativa de encontrar uma identidade tre os testemunhos genéticos europeus. mar Derek Walcott demonstrou um grand os a quanto pelo mundo homérico. definindo este último como ―um eco na garganta . eratura. Suas obras são escritas em inglês.93 ----------------------. uma importantíssimos a esses temas: OMEROS (1990) O trabalho que será analisado nesta proposta de pesquis obra dividida em cento e noventa e dois cânticos escritos com uma grande riqueza d e metáforas cuja narrativa poética é estruturada em um tipo de Terza Rima. 3. Um mestre da linguagem. and eithe r I am nobody or I am a nation (The Schooner Flight. africanos e asiáticos. e. ele dedicou dois trabalhos e THE ODYSSEY.A stage version (1993). tanto os temas clássicos como fro-caribenhos e se constituem a voz do Caribe. Por isso.

. onde o lingüista russo M ikhail Bakhtin (num texto concebido para uma palestra em 1914)11 apresenta as três características de uma epo péia. águas e florestas. Onde estão as batalhas? Há algumas.. 1979) Tradução minha. Há muita liberdade com o ritmo e com as rimas que. lembram a Os versos Divina muita são hexâmetros controvérsia a e as estrofes são respeito do padrão tercet métric Comédia. 94 ----------------------. conversas. há o do poema.brancos os que rítmicos. 1990) e grandes guerreiros. certamente não n o sentido de uma estrutura épica. Mas o termo épico faz com que as pessoas pensem em grandes guerras Esse não é o Homeros em que estava pensando. descrições e impressões detalhando minuciosamente o mundo caribenho. O poema consiste de sessenta e quatro capítulos divididos em sete l ivros. o própri o autor diz. em 1990. sua obra as palavras e nem épico devido à do poeta não diminuem a im invalidam o seu caráter fala nos remete à grandiosidade do tema. A publicação de OMEROS. o u sou uma nação. (―A poem in homage to an unwanted man The New York Times. não atribuir ao poema o caráter épico: 10 ―Eu tenho um holandês. garante a qualidade longa e duradoura do trabalho de Walcott . épicas com uma grande variedade monólogos. sua vida cotidiana. e. O autor faz uma reflexão sobre a epopéia que se caracteriza por três traços constitutivos: em pr imeiro lugar . portância de Certamente. natureza. suponho. chegam a ser abandon adas pelo poeta. É um único poema de com escopo e proporções histórias. sua terminologia bakhtiniana do epos-romance. um negro e um inglês dentro de mim. animais. episódios. em uma entrevista concedida..Page 95----------------------não penso nela (a obra) como épica. Na verdade. Entretanto. ou eu sou ninguém. em alguns pontos. (A fuga da escuna. No entanto. seu povo.

foi um poema sobre o passa do. nem sempre é bom ou. narrador. como pardais. A epopéia jamais foi um p oema sobre o presente. podemos inserindo o livro mencionar narram as andanças de Walcott pelo mundo. o quinto que Como como exemplo.. e se apresenta tanto nos en contros entre . Quanto ao terceiro ponto. suas vivências na Europa e nos EUA. o mundo dos primeiros e dos melhores. sobre o seu tempo e. 197) b) ―. ao contrário. mencionado ironicamente. vista de um ônibus ver melho de dois andares. desde o seu início. o passado glorioso. é o mundo das origens e dos fastígios da história nacional. onde os escravos construíram o quebra-mar. ele nem sempre se orgul ha. com muitas alusões ao imperialismo/colonialismo como sendo a principal causa da fa lta de raízes das raças oprimidas. passado heróico nacional. XXXVII p.. é. pois o passado além de não ser o objeto central. Em segundo lugar. nossa prole é um flagelo público? I/III (OMEROS. do tempo do o mundo escritor. (OMEROS LXII/III p. Mas os nomes dos construt ores não estão lá. a contemporaneidade é visível. o mundo épico é isolado da contemporaneida de. Em OMEROS. de ser oriundo desse passado. o céu azul é uma túnica militar francesa. Essa ideia não é encontrada na obra de Walcott. em OMEROS percebemos que o próprio escritor se coloca tanto como personagem muitas passagens de sua vida e experiências quarto e autobiográficas. o mundo dos pais e ancestrais. isto é. Na visão de Walcott. pela da epopéia é distância o épica absoluta. Assim. Vejamos dois exemplos mencionados pelo autor: a) ―Quem vai nos ensinar uma história da qual também somos capazes? / A Torre Sangrenta. muitas vezes. respectivamente.aponta para o passado nacional épico. a lenda nacional é que deve estar presente numa e popéia e não a experiência pessoal imaginada e recriada. Quando. sim. 315)12 em clara referência à colonização britânica e francesa da ilha da Santa Lúcia. Segundo BAKHTIN.

68). Aurora F. como a fala daqueles que não têm voz: os (re)contagem da história num espaço transcultural oprimidos. Desse modo. de seu imaginário que corresponde ideologia. como nos 11 BAKHTIN. I n Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. fazendo uma tr ansgressão dos conceitos vigentes por meio dos iados e excluídos. Nesse sentido. assim. Epos e romance: sobre a metodologia do estudo do romance. 29). desmistificação de tal sistema que vinha sendo construído. Assim. BERNADINI. sendo também o sua obra se ressignifica e se renova criativamente. Trad. p. podemos dizer que a obra de Derek Walcott atua de dois modos. num romanceamento ép narrador. ao mesmo tempo em que recorda elementos fundadores. São Pa ulo: Editora UNESP. cralizadora. o h erói se constitui num homem comum. XII/I.Page 96----------------------vários temas e maneiras de lidar com os problemas do cotidiano. a consciênci a crítica da realidade que desconstrói estereótipos. ed. 1998. fazendo onde com discursos que foram Walcott silenc faz e dos a escravizados. surgindo. pois. p. uma ico do mistura dos níveis formais e temáticos. em torno de quando atua seus mitos ou à no sentido de e a atendendo (OMEROS. Mikhail.os nativos da ilha e os turistas que a visitam para desfrutar de seus lugares pa radisíacos. en fatiza os mitos e relembra contos e lendas da tradição oral por meio do epos-romance. 12 Tradução nossa. do que ele mesmo chama de ―a maquinaria de fora conhecida como Literatura distintas: uma função ade sacralizadora. a literatura exerce duas funções unir a comunid outra dessa fundadores. 4. et al. De acordo com BERND (2001: p. 397-428. aos apelos poema: o próprio Walcott se coloca como sujeito. iguala o que os discurso das elites . Assim. 95 ----------------------.

em entre seu a a herança crítico e a tradições do Novo. o inglês padrão e trabalho língua Europa o e África. O personagem principal d e OMEROS. Na viagem. A fig principal para a auto-realização e a aceitação da herança híbrida do autor. os Mundo e as p. Walcott continua a lutar com o seu hibridismo e tenta conviver com as diferentes forças culturais que comandam seus princípios.Page 97----------------------aspectos de sua herança. THIEME (1999: sobre Walcott. Ach ille chega à conclusão criação de que precisa reconhecer e legitimizar certos a influência da África aos em sua 13 Termo utilizado por processos pejorativos e Gayatri Spivak (1985). inglesa crioulo e a religião metodista e a católica. ura de caracteriza a busca de Walcott Achille representa o meio pela identidade. hierárquicos da referindo-se representação do ‗outro‘ subalterno pelo colonizador. O crítico fala de ―um senso d e perfeição perdida. antagonismos 25). suas origens Achille encontra seu homônimo.―outrizados 13 (colonizados voz para expor. ele sentiu. no âmbito e oprimidos) do possam levantar sua discurso pós-colonial. Um tema central que permeia toda a obra de Walcott é a busca pela identidade. Achille. 96 ----------------------. em seu próprio passado. representa a contemplação de sua origem africana. toda sua dor. luta e reconstrução do ser em um momento em que a s periferias estariam resgatando sua história para mostrá-la à humanidade. Termo usado como tradução para a palavra em inglês ―othering . A viagem simbólic de Achille. a conexão de . Muito cedo. inocência partida e fragmentação mental . Em OMEROS. cultural do Velho intensamente. que ele considera ser um resultado da divisão ra cial da sociedade caribenha. excluindo esse outro dos limites de uma humanidade européia. descreve o conflito entre as posições da francesa.

recontagem da Odisséia é que ela deuses ou guerreiros heróicos. nós ansiamos por um som ausente . como se o produto híbrido fosse qualquer coisa menos pura. homens. Ao recriar o poema épico. (Book Three/ChapterXXV/ III.com a África e discute sobre seu hibridismo. por pescadores caribenhos cujos nomes gregos registram suas identidades híbridas. Em sua fala. 137. simplesmente. Mas não existe pureza quando se fala da m s. falamos com algum receio. Quando me que são um dos misturas de cultur e de compl entender. o fardo de um legado colonial. demonstrando uma entre os seres humanos. árvores. consistentemente. Embora OMEROS não seja um poema épico no sentido tradicional. O mar surdo mudou em volta de cada nome q ue vocês nos deram. p. 4. Longas e irreversíveis as moldaram um mosaico de diferenças mais ncionamos valiosos essas patrimônios mestiçagens. Achille aponta uma grave conseqüência da integração cultural: ―Tudo foi esquecido. Nosso co . a fragmentação da identidade caribenha e o pap el do poeta em enfocar essas preocupações. tradução nossa) não é O inusitado nessa habitada por monstros. numa fusão possível articulação com a cultura contemporânea. Walcott o faz sob a óti ca do mundo pós-colonial. porque nela residem os temas que. apesar de todas as diferenças e conflitos. Dize do nosso continente. Qual a importância das problemáticas representadas em OMEROS? A África não pode ser reduzida a uma entidade simples. têm preocupado o autor: a bele za de sua terra natal. fácil de ntinente exas é feito de profunda diversidade mestiçagens. que Pois não não há há economia cultura atual que humana não se alicerce em troca espécie humana. mas. seu sucesso reafirma a substância de toda a obra de Walcott.

África . recuperando o escravizado como sujeito de uma história social. para inc Cultura Afro-Brasileira . no também da cultura e história indígena no currículo escolar.465/08 que mantém o mesmo teor. do autor afro-caribenho Derek Wal . 2004.que fundas trocas em ―O de Meu alma. a 11.) Com o intuito de investigar e analisar as identidades e culturas de matriz africana por meio da obra do autor afro-caribenho ura (1992) Derek Walcott. por meio 14 Altera a LDB. de fo e educação artística. porém o ensi Partimos do pressuposto da pertinência de se fazer uma reflexão sobre identidade e c ultura como atos políticos ao divulgar e expor a riqueza cultural afro ou afro-descendente sob uma nova ótica. mas com ênfase na história. Nome (Mia Couto é não se fundamente escritor em pro moçambiquenho. 97 ----------------------. elaboramos a seguinte questão: de que forma a obra OMEROS. que estabelece as diretrizes e bases da luir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática ―História e rma transversal. Em acrescentando. analisando o entre-lugar do discurso dade e do poeta e suas cultura no Brasil. cujo trabalho adequados.639/0314 para a afirmação do processo de consciência negra . possíveis influências na produção de identi educação nacional. ainda não encontra acreditamos estar no e Prêmio um Nobel de Literat Brasil estudo e divulgação cooperando com a lei no.Page 98----------------------da busca de um processo identitário que permeia os escritos do autor. pressupondo pós-colonial caribenha pode que o estudo da literatu abrir novas perspectivas para que o sujeito representado pelo autor recupere sua voz e possa superar o aniquilamento de sua cultura causado pelo colonialismo. literatura portuguesa 10 de março de 2008 essa lei foi ampliada por outra. 10. ra Nesse sentido. mostrando a infâmia d o escravismo e reforçando as ações afirmativas no contexto brasileiro.

se apresenta uma contra-fala ao discurso dos colonizador es. não menos importante que a primeira é: ar a literatura pós-colonial por que estud expor como aporte às diversidades culturais e identitárias? Desse modo. mais direto. um lugar de transgre ssão que se opõe a uma história que antes só trazia a marca do colonizador. como o autor um dos da obra OMEROS. Para os povos que foram colonizados. mas sua postura ideológica e a texto como literatura maneira como ele vai vivenciar a condição de ser um negro escritor. p. também. pela criação literária. Ao procurar conceituar o que seria literatura negra. Tornou-se. o colonizado encena o direito de significar e asse gura o direito à fala.os n egros da África . tentamos algumas ideias que nos vêm à mente para responder a essas perguntas. denunciou a desigualdade humana e visível no e a discriminação racial ainda profundament dias de hoje e disse que ―ou o escritor se isola completamente da realidade que o cerca. assumindo o papel de suj eito. pode ser utilizada para a investigação sobre a pluralidade das identidades e culturas de matriz africana no Br asil? Uma outra questão que surge. 321). De acordo com GLISSANT (1996: p. Não é somente a cor da pele que vai definir o seu negra. quando recebeu o Prêmio Nobel d e Literatura em 1986. muitos autores levantam o dado étnico. ou se dedica a um outro modo. a lugares de criação. ou que viveram sob o jugo do escravismo. pois. 45-56). O escritor nigeriano Wole Soyinka.cott. objeto para uma literatura alheia e passa a criar a sua própria. de identidade. Dizem ainda que a existência dessa literatura se realiza quando o negro deixa de ser som ente tema. de lutar contra a realidade inaceitável . por meio da literatura. os emigrantes nus . literatura pós-colonial de tornou-se manutenção e de difusão de memória. Segundo BHABHA (1999. que é a marca mais im portante.

Não se pode é. pois sofreram a 98 ----------------------. O nosso legado de determinismo social encontra -se. só com muita dificuldade. ainda diante dos nosso s olhos. de tentativa reelaborar. em nossas entranhas. incapazes. nesse repensar. a ideia que fica no imaginário.Page 99----------------------influência aculturativa (isto inante. como culturas populares ou fo lclóricas. Porém. luta e denúncias conseguiremos superar e ultrapassar o complexo de inferioridade. acompanhar pegadas na mpor uma cultura de exílio. então. e em outros o tecido cultural lugares sua do mundo . resultando daí uma base para d iscussão dos processos identitários brasileiro e da produção de culturas subalternas. conceituais Observamos que alguns sobre a cultura. branqueadora) do aparelho ideológico dom afirmar a idéia de uma cultura afro única. consolidando a opr essão impingida é a de que somos inferiores. 153).tiveram Embora despojados de co africano a partir de vestígios de de tudo. sem importância e “está no sangue” ou ―em nossa nat ureza” a falta de educação e a incivilidade. da autores tratam dos aspectos cultura negra e da sua relação com a cultura ocidental. no nosso inconsciente. É uma luta ideológico-cultural que se trava em todos os níveis. refazendo a sua identidade de emigrantes nus. algumas questões condenados aos referenciais simbólicos da cultura ocidental. O que existe é um processo dinâmico de construção. o ocidente construiu o conceito de universalidade da cultura pela exclusão d as culturas negras e indígenas. p. ficando estas no campo de sub-culturas. dessa fragmentação de nos sas ideias e conhecimentos? Como podemos não ser. Nesse sentido. tiveram de recolher fragmentos. pura. como: será que estamos Surgem. cultura. Segundo SODRÉ ( 1983. não se conservaram puros. ou ser menos ocidentais.deportados no que recompor Brasil. habitando o ocidente .

para se enrai zarem mais profundamente na a ancestral visão da essência íntima das nossas crianças. algumas brasileiros e estrangeiros já apontam uma saída para esses questionamentos. 85). livre dos racialismos. Assim. O conceito de afrodescendência aparece em CUNHA JR. nos espíritos dos educadores. pode contribuir tanto quanto para abrir para a formação intelectual de e caminhos para as áreas de filosofia da educação brasileira pela via do aprofundamento na cultura de 99 ----------------------. objetivos da lei no. sobremaneira. O termo pretende manter as referências históricas e culturais da origem africana e não apenas fzer uma alusão à cor da pele.. o prazer e a ética? Infelizmente. afirmando que as afrodescendências traduzem aspectos sobre a diversidade étnica brasileira. o Caribe é um imenso c . históricos criando e sociais do oportunidades Caribe. Na verdade. diversa. para África cria muitas e Brasil incentivar o pensamento crítico sobre nossas diversas realidades. como faremos para valorizar a liberdade.Page 100----------------------base africana na diáspora. múltipla edominante afroe estruturada de uma etnia pr descendente. ainda não temos respos tas concretas para todas essas dúvidas pesquisas feitas por que nos assaltam. Assim liberdade e da igualdade estará fazendo história e renovando a educ o trabalho os com a literatura pós-colo oportunidades sejam discutidos ação brasileira. outras pedagogias em ação e a esperança é que elas calem fundo. reconhecendo a presença ampla.do mundo? Se são essas as nossas armas. pois para que os aspectos culturais. O conhecimento d essa literatura identitária ducadores. nial atende.639/03. 10. o autor pontua que: hoje tem outras vozes. estudiosos no entanto. se é esse o arsenal cultural que está à nossa disposição. (1995 p. Desse modo.

a natureza e o homem. o poema se revela enquanto caminha . da descrição da jornada protagonista negro. Achille. há mais do que a exuberânci a das roupas coloridas. Achille e Hector disputam ferozmente o amor de Helen. Os protagonista Achille. uma nativa de beleza i ncomparável. do ciúme que nutre por Helen. Incl ui traços autobigráficos condizentes com grande parte das obras escritas no âmbito da literatu ra pós-colonial. Trata-se. Esse texto quer mostrar que. OMEROS é um poema/romance que se passa na ilha de Santa Lúcia e gira em torno s da história das são vidas de simples os pescadores pescadores. as lutas coloniais e o escravismo exercido pelos s ilhas do Caribe. A narrativa é entremeada pelo passado e o presente. O poeta intelectual. africanas e nativas das Américas. Philoctete. levando à desconstrução de um imaginário preconcei tuoso onde a produção literária e o pensamento o enfoque dos conceitos de identidade e cultura. a miséria e o analfabetismo. e apresenta uma literatura ampla e rica que pode ser útil para a discu ssão dos aspectos citados. Uma britânicos. Hector e Omeros (Seven Seas). Helen. Com o intuito de reimaginar as vidas e vozes do povo do Caribe por meio da mitologia e da épica gregas. Segundo ele.15 mem impreciso. sem ser anacrônico. não estão inseridos. Ele começa uma frase e tenta não planejar aonde levá-la. dentre outras histórias que dialogam com as heranças européias. a mais bela negra da il ha. sobretudo (1990) ―Walcott é um ho não é um cientista. Walcott constrói pontes entre o Velho e o Novo Mundo. entre essas regiões. figura holandeses e franceses na .aldeirão cultural que o Brasil desconhece. em ancestral espiritual de seu linhas gerais. De acordo com KURLANSKY. é o centro das atenções ilha tão bela e de Achille e Hector e muitas vezes comparada com a própria paradisíaca que um dia foi chamada de ―The Helen of the West Indies .

a símbolo mulher mais da luta bela e International Herald Trib a própria ilha. se fundem e se alternam e Seven Seas. opressão. mor. pelo que é assombrado pelo fant desespero do amor perdido. de Homero e. a ficção poética O autor tenta destacar a experiência pós-colonial por e se meio d inspira na natureza. Raiva. sofrimento 15 Mark Kurlansky. a vida dos senhores e seus empregados. 4. as problemáticas enf ocadas em OMEROS. dominação. finalmente. e por Dante. pela busca de sua ancestralidade. Por isso. esperança. todas elas de especial relevância para o contexto.Page 101----------------------2. luxúria. alvo da competição entre os homens e as nações.central no poema asma da falta de é o poeta/narrador raízes. Assim. Omeros oeta. conhecem os males da humanidade e prevêem o seu destino. A amor. A obra entremeia o pessoal e o histórico. igualando-se aos griots dos africanos e ao xamãs dos indígenas. retorno às raízes e a redenção. empreende a viagem pelo mundo e. ―Derek Walcott: Homer in the Caribbean une/5/10/1990 100 ----------------------. o Influência das obras competição. o a batalhas. Há vínculos estabelecidos entre os personagens e situações ocorridas . viagem do poeta cujo identidade e objetivo é a busca da compreensão do ser no meio da injustiça. língua e ancestralidade. divisão. tem sua fé renovada quando é guiado pelo cego Omeros (Seven Sea s) e suas visões em Santa Lúcia. 5. o bardo e o p representando um só personagem. do desespero e da desesperança como resultados do pós-colonialismo. o homem e a natureza. fim. história. 3. podem ser elencadas a s eguir: 1. humana. apresentadas com Helen.

espaço da literatura clássica e medieval e a realidade cíclica da natureza. as origens a força da natureza. 6. a linguagem com poéti todos os e 7. Os sons da natu reza encontram seu eco na linguagem poética que se apresenta como um meio de salvação. a africanas americanas. a doença que o poema procura curar. a ilha de Santa Lúcia.no passado colonial. a ilha de Santa Lúcia e o lagarto ancestr al Iounalo que nos aver tempos dos indígenas foi como a ilha era conhecida. lembrança e a compreensão das relações de continuidade entre os vivos e os mor explora protagonistas. 9. o escravismo e a vinda dos escravos da África para a América são vistos como uma das origens da ―ferida . Os conflitos e as diferenças são apagados. vida nova. um nome de origem arauaque. e m muitos aspectos transcende os conflitos dos mundos humanos e históricos. Esse era o nome original da ilha. 8. a a b rede língua perdidos. O conceito de ancestralidade está profundamente enraizado na cosmovisão africana. O poeta sua natureza. o imperialismo e o mercado econômico são apre fonte do mal que corrompe o paraíso caribenho. sentados como o tempo e o O mundo ocidental. a questão da Os interesses própria os identidade individuais se tornam comuns na questão da busca do e todos objetivos são atingidos amor. o presente pós-colonial. scoberta eleza tos. Uma questão central que permeia toda a obra OMEROS é a ancestralidad e. personalizado por Helen. Esse conceito é tão forte . os antagonistas human os e históricos se ca e a reconciliam voz do sob os sinais da poeta. dos A redenção nomes e da alcançada depois da viagem e poética. A natureza é vista como uma fonte sagrada de cura. pelo fato de lá h muitos desses iguanos.

três princípios junto com a O integração e a divers idade.que para que se dades tradicionais podemos constantes consiga chegar africanas não a como um um entendimento dos das socie mais deixar de examiná-lo da cultura africana. Nesse sentido. Para os africanos. 90). podemos dizer descendentes distribuindo sua força e harmonia.153) diz ura negra e que o termo arkhé é usado para caracterizar a cult outras que como esta se baseiam na vivência e no reconhecimento da ancestralidade. A diversidade é contemplado possibilita as trocas e as relações de alteridade e respeito pelo outro. A tradição afri cana estabelece sua própria lógica no princípio da ancestralidade. que o conceito de ancestralidade está diretamente ligado ao conceito de identidade . os ancestrais pertencem ao tempo passado e os atores do tempo atual são s . a relação com o passado tem sua razão de ser porque possibilita a ligação com os ancestrais cuja preservação da memória mantém o dinamismo de suas culturas. PETIT citando SODRÉ (1988. p. N o entanto. aquilo que foi construído ao longo do tempo e não a afirmação egoísta do eu. ―um dos aspectos invariantes da religião negr a é o culto aos 101 ----------------------. à memória daqueles que vieram ant es e regulam a vida de seus Portanto.Page 102----------------------ancestrais . um não existe sem o outro. p. o que importa é a histór ia de um povo. universo é concebido como e desejado e não diversificado onde o diferente apenas aceito. um básicos que norteiam a um todo integrado e cosmovisão africana. elementos Conforme LUZ (2000. O eu não é nada sem a sua tradição porque está vinculado ao seu passado. A dos ancestralidade é. É desse culto que a cosmovisão africana retira quase todos os seus elemen tos.

sem encantamento.Page 103----------------------mais vida. PETIT (1988. é um tempo não linear. cria pela memória. O africano não fica satisfeito só p or viver no mundo e apenas por experimentar ida. Isso esclarece o sentido profundo d e família mostrado pela ligação com os antepassados. proteção). 2003. 247) é um forte sentido do coletivo. (OLIVEIRA p. A dignidade humana é a homem tem um lugar privilegiado no universo. o tempo da ancestralidade não é o tempo produzido na modern idade. que se re poder da tradição é conectado com a duração cíclica. mas deseja sempre também interpretar o simbolismo de todas r ativamente em plena comunhão as seu coisas para pelo ritmo cotidiano e de v criadas. p. O pelo contrário. A sociedade e a religião são centradas no hom em e em seu bem-estar (bem-estar. nos cultos dos antepassados. 247). a gerontocracia (governo por homens vel hos). se mundo: interpretado. apressado. pois interpreta o cosmos nos termos da organização humana.eus descendentes que os devem novos respeitá-los e cultuá-los tempos. os sinais e as mensagens tudo tem que ser contato diário com O que é também proeminente nesta ―maneira integrada de pensar . por es com todas elas. Conforme para abrir caminhos para OLIVEIRA (2007. nos ritos de iniciação. forçá-lo. o ser participa humano. em que o indivíduo é introduzido por vários ritos de iniciação. pois e ao homem é dado o poder de re . expressado pela participação na vida em comum. gerando 102 ----------------------. O mundo é fonte eminente da vida. ltamente respeitada e o segurança. O mundo é e existe isso. p. ele deve entender sobre os mistérios. 2) afirma que as culturas de arkhé16 são extremamente ec ológicas.

deve ser é o que podem alcançar exemplo de comportamento dade e tradição para a comunidade tribal. Em algumas comunidade s. filhos que o recordarão e se comunicarão ritualmente com ele. Há mesmo os casos onde se acredita sado que faz nomear um com que o descendente ancestral pelo nome de seu antepas Dessa isso. indissociável de sua dimensão ecológica. sorte. traz grandes benefícios para seus parentes vivos tais como: a saúde. de acordo com os padrões s ele africanos. Ele é limitad o ao grupo étnico . O culto à ancestralidade existe como parte de um sistema religioso abrangente. por sua vez. Somente aqueles moral boa. O culto pertence à maioria dos povos e há muitos elementos compartilhados por muitas socieda des étnicas. antepassado. Por ele oferecendo muitos rituais. os ancestrais e o Ser Supremo e os seus são considerados que o e uma como tiveram status fonte mediadores uma de de conduta ancestral. É o corpo integrado à ser humano com o meio am natureza. prosperidade e bons filhos. o que não Ninguém pode ser um seja seu parente que antepassado de um mortos indivídu sem sanguíneo. nenhuma É por esta razão referência particular os rituais para os sanguínea. o Um continue a viver em seu descendente maneira. A veneração ancestral é encontrada em cada comunidade tradicional afri cana. a vida longa. seus descendentes se comunicarão regularmente africano costuma com ter e não seja esquecido.possibilitam a confraternização do biente. Compreendido como o poder sagrado (força vital). são considerados como não pertencentes ao culto ancestral. estabili poi entr descendentes na terra. Graças à sua proxim idade com o Criador. entendido como um elemento centra l. uma pessoa sem prole não pode transformar-se em um antepassado. uma das motivações básicas do culto ancestral é a fecundidade e a procriação.

nos remetem Encontramos a essa em visão OMEROS da e várias enlevantes passagens que que proporci ancestralidade. No início do poema. não como um simples início histórico. após um passado de brutalidades cometidas pelos europeus. por meio de OMEROS. somente neste mundo. representando sua cultura e identidade. mas também no mundo após a morte. temos a dessas tradições e também de possibilidade de conhecer parte 16 Muniz Sodré usa o termo grego arkhé para caracterizar as culturas que. a e mais África sim andorinhão (sea-swift) que representa nalidade escura e a cruz de por sua to Cristo pela forma de seu corpo quando abre suas asas. em sua . apontaremos agora algumas das passagens mais sign ificativas dentro da obra. As culturas de a rkhé cultuam a Origem. Para ilustrar melhor nossas ideias. mas como o ―eterno impulso inaugural da força de continuidade do grupo. na vila de seus ancestrais .e não há necessidade de se fazer osos afirmam que o culto é fundamentalmente antropocêntrico. Passagens místicas onam ao leitor a sensação de proximidade com o sagrado e. se fundam na vivência e no reconhecimento da ancestralidade. Nesse sentido. tais como a negra. bólicas Uma na obra das imagens é a presença mais do a recorrentes natureza. fazem com que valorizemos as tradições e crenças de uma sociedade. 103 ----------------------. Esses símbolos servem de aporte para os valores sociais e não podem ser vistos apenas como meras representações exóticas. Achille está observando um andorinhão. ao mesmo tempo. envolvendo o tema da ancestralidade.Page 104----------------------perceber a história dos outrizados. o bem estar humano não É centrado proselitismo. É esse pássaro que guia o herói de volta à África. no ser Muitos e estudi visa a humano.

319) 1.. 6) his text… Her wing-beat I p. Then Achille looked up at the hole the he saw the swift crossing the cloud. “A name means something.. Afolabe. do seu passado e nameless son.” Three/ III p. do seu destino. querendo dizer que se você não sabe mais o que seu nome de suas origens.. 13 8) Porque um nome significa muita coisa. a imagem de do da se ave serve como com do eleme Achille a possibilidade história. O rio da ancestralidade é o que sua própria identidade. encontra-se e reconhece sua verdadeira identidade. O pássaro é um símbolo de força e graça espiritual concedida por Deus. laurel had /II p. pois faz com que o sujeito se perc a do seu próprio caminho. O pássaro para os males Ao retornar.. a cura seu retorno às raízes. Conhecer essa ancestralidade faz com que ele se reencon tre e aceite a sua própria história. (Book Three/ o filho Chapter diz que não sabe. dando a a sua própria de do regeneração.. 137) Um nome significa alguma coisa diz o pai.surf. O conhecimento da ancestralidade torna-se. (Book Seven/ Chapter LXIII/II left. recon ciliando-se com o seu passado. Po r ser também um símbolo nto de unificação poema. Achille é vida. Esquecer a ajuda o poeta a definir I followed a sea-swift both sides of t carries these islands to Africa.. pois e não com o tráfico escravista muitos suas histórias de deles per a conseguem mais se lembrar de viagem imaginária. é como uma bênção de onde vêm as qualidades desejadas para o f . poeta Achille não é mais o mesmo. (Book One/ Chapter One ancestralidade (o retorno) é um ponto negativo. Quando seu pai pergunta o si gnificado do nome Achille. are only the ghost of a name” (Book Three/Chapter Three/ III/ p. quer dizer é porque se distanciou “You.viagem imaginária. reconciliar por meio torna-se. Durante levado até a África e encontra-se com seu pai. um elemento import ante para os descendentes de deram suas raízes escravos. então. então.

quem cura Philoctete de sua ferida putrescente. outro simbolismo forte no poem a. Ma Kilman é a dona de um bar na vila. Achille é levado. rezadeira e mãe-de-santo. o Além disso. observando aqueles que chafurdam nesse .Page 105----------------------como uma sibila (obeah-woman) aparece associada à em suas conotações homéricas. Ela conhece os imaginada pelo segredos das autor. sua cura também está diretamente ligada à recuperação da herança africana. Os poderes de Ma Kilm an para a cura da ferida são revelados pelas formigas. dos nomes era como estar sem raízes no mundo. perder o senso pe! You all see what it’s like do seu Não saber lugar no o significado universo. As formigas revelam à curandeira a linguagem dos ancestrais e ela. é trazida simbolicamente pelo andorinhão. 104 ----------------------. então. 3. sentindo o cheiro do enxofre e da lama negra. É quase ao final da obra. começa a rezar nessa língu a até obter a resposta para a cura. direto da África. os dois estabelecem um diálogo sobre o passado e o futuro em cima do cume de um vulcão. ela é “No Pain Café” (Café Sem Dor). planta milagrosa. 21) 2. diferente do mundo conhecido. a chaga dos antilhan os. o poeta cego que observa e interpreta os fatos. também considerada pelos seus poderes sobrenaturais como curandeira. Guiado pela mão de Omeros. Na obra É ela plantas e essa montanha de La Sorcière (a feiticeira) na ilha de Santa Lúcia. A ferida de Philoct ete representa toda a África violentada e usurpada pelo colonizador europeu. Ma Kilman é comparada à Sibila de Cuma. Não por acaso. Assim. No poema. a um conduzido por um barqueiro negro a um mundo extra-humano. uma outra geografia. “Salo without roots in this world?” (Book One/ Chapter IV/I/ p. a visita ao inferno dantesco.ilho ou filha e todas as virtudes imaginadas.

2009. ropõe um acordo entre ganhadores e dos). a perda seu povo. É pelo retorno que ele poderá saber que tipo de futuro ele terá pela frente. podemos reconhecer que a viagem empreendida por Achille não é de ida. já na figura do poeta. Omeros aparece e pega em sua mão como um símbolo do universo humano. uma integralização das duas dos. um futuro a Conforme Italo Calvino ser conquistado é (2009. Na dos valores tradicionais e ―descida ao inferno . reconhece que perdeu a fé tanto na religião como nos mitos. depois de tantas idas e vindas. ―o desejo de garantido pela memória de um passado perdido. o auto r volta a sua ilha natal. partes. devolvendo-lhe a fé perdida. ssível para os seres desse humanos. o autor duvida. ----------------------. De lá.Page 106----------------------processos comuns que são enfrentados por todos nós.charco. Quando o herói. sua ancestralidade. A vida e seus percalços acontecem . o texto vida e a morte são mostra 17 Italo Calvino: ―Por que ler os clássicos? 105 página 19. ele realmente procura é. mas de retorno. p. a O diálogo entre eterna busca de Omeros é a única volta ao lar po reflete. do valor de sua própria obra e suas metáforas . o que nos remete a um tema final que é o questionamento da arte e da história. e Walcott compreender a relação do homem e o seu passado. o seu pois o que passado. afas tando-o da turba de fantasmas egoístas e caluniadores. Denuncia a espoliação comercial a prostituição de da ilha. de fato. Companhia de Bolso. que a Dessa forma. o poema épico de Walcott p (colonizadores que há e lugar coloniza para to perdedores Filosoficamente. Enfim. destruin do-lhe a dúvida e renovando-lhe a esperança perdida. então. reconhecendo que o retorno à natureza (às origens). modo. Aí se consolida a busca pela identidade perdida.19)17.

mas nenhum sozinho por muito tempo. 5. o que eles querem é ser s tornando-se parte da comunidade em sua ilha natal. nós. Walcott deles os pode permanecer e perso combinar motivos convida o leitor a se juntar a ele em sua viagem como personagem e narrador. e. (OMEROS. em oposição às sangrentas batalhas entre gregos e troiano s. pois Walcott tem ual a ousadia como uma de redefinir transformação o comportamento heróico individ psicológica em direção ao coletivo. os leitores. Como numa viagem ao eu interior. A ilha de Santa Lúcia e seus habitantes são curados tanto individualmente como coletivamente. 150)18 Segundo LUZ (1995. each the Mandingo another. the Ibo man was a nation father. s personagens que compõem o poema e. without one Now mother. do continuum da civilização p. que geram a desigualdade social. recuperamos ornamos parte de um todo: uma nossa alma Assim. cada personagem se torna uma ilha dentro da ilha. ao nagens épicos clássicos. todos o porque nos t sociedade contemporânea marcada pela pluralidade étnica e sócio-cultural. a cada nova passagem descobrimos que ujeitos de sua própria história. Eles necessitam uns dos outros. way. Book Three/ Chap terXVIII/I. brother.de modo natural e. África e América. another. Esse triângulo África-Europa-América uma base importante do Latina construiu . p. hoje. as maiores ameaças aos caribenhos são as doenças e o crescimento econôm ico. devemos perceber a força in himself. e a cada momento. Considerando os desconsiderados So Ashanti e Guinea. th there went the africana antes e depois do colonialismo cujo elo mais forte desse sistema foi o capital financeiro e o tráfico escravista a atividade mais rentável: a pedra angular do triângulo comercial E uropa. 34).

República Dominicana. escravos e seus descendentes o trato com os antigos permaneceu de múltiplas formas caracterizado pela exclusão. da Europa. só a Dominicana é um país latino-americano. Saint Kitts e Nevis. de ÁfricaNo Manifesto do 2  Encontro En Para as questões que foram abordadas inicialmente. en tre outros.os guinéus.Page 107----------------------população negra representa entre es situados todos no Caribe 84 e 98% do total em treze país Jamaica. 106 ----------------------. são interessantes . chega africanos que trabalharam como escravos nas plantações. Guadalupe. Ao mesmo tempo. os ibos outro ainda. Antiga e Barbuda. Bahamas. Dominica.. sem pai. cada homem era uma nação em si mesmo. com 84% de população negra. os mandingas seguiram por out ro. com força cada vez maior. o terreno cultural. As interações Europa-Áfric a-América caracterizam. sem mãe.19 as comparações provenientes da expansão de identidades afro-americanas e de formas de expressão cul tural que. Granada. e no Caribe caracterizam. Ba rbados. Para isso contribuíram. como uma boa parte dos pesquisadores afirma . Com a abolição da escravatura. Vincente-Grenadines. nos trabalhos domésticos ou na s minas de ouro. o desenvolvimento Latina. Haiti. em sua maioria. foi uma fonte financiadora da industrialização ram à América milhões de européia. (Tradução ssa) O verso mostra a dispersão das etnias causada pelo colonialismo com a divisão política da África e o tráfico escravista. sem irmão. Os primeiros resultados científicos sobre a literatura afro-brasileira e os estudo s comparativos sobre Brasil de e Caribe Intelectuais já estão disponíveis.. na sua maior parte. Agora. S. as teorias raciais provenientes. Santa Lúcia. A de uma diáspora a 18 ―Então os ashantis foram por um caminho. além fricana na América disso. tre estes países. no Brasil.colonialismo durante muitos séculos e.

Autores como uma vez que a população indígena foi massac BONICCI (1999. após o tráfico de constitui um dos maiores saques negros. o Brasil e o Caribe se apresentam como regiões de profundas ligações onde as manifestações culturais de matriz af ricana ou indígena ficaram ocultas. crime de lesa-humanidade que esvaziou o ventre da África durante cinco séculos e submeteu mais de trinta milhões de seres humanos a uma bestial escravidão20. enas das ilhas do Observamos que. Ásia. exílio ou escravidão. por parte das potências estrangeiras. realizados. rada. 19 Informação encontrada em Luís Ferreira.América. talvez a sociedade caribe nha seja a que mais sofreu os efeitos devastadores do processo colonizador. as duas regiões têm onial comum elos culturais e e das relações políticos resultantes de um passado col mantidas entre essas regiões no atual processo de globalização. Oriente Médio e Europa através do deslocamento. Atualmente é Pesquisa dor Associado do . não passou de uma transculturação desafortunada. negadas sob o estigma da bárbarie e do escravismo.13) descrevem os efeitos devastadores do colonialismo na região c aribenha: as sociedades primordiais dos indíg Caribe foram completamente exterminadas nos prim eiros cem anos de descobrimento. o nde o idioma e a cultura dominantes foram impostos e as culturas de povos tão diverso s aniquiladas. Port anto. a africana e a européia (predominantem ente espanhola). Segundo GONZALEZ (1989. A população atual das Índias Ocidentais veio da África. Infelizmente a primeira transculturação entre a cultura hispânica e a indígena. os estudiosos do assunto apropriação dos espaços estabelecidos nos territórios da África. p. p. realizado em 2007 em reconhecem que a luta pela Caracas. da América Latina e do Cari be. Doutor em Antropologia.19) a cultura caribenha foi formada b asicamente por três estratos culturais diferentes: a indígena. através da diáspora africana e da colonização. De todas as sociedades colonizadas.

como Kabengele Petronilha Silva.. Caracas 19-21 de nov embro de 2007 107 ----------------------. referem-se à diversidade cultural africana dentro de uma matriz comu m. a concepção da morte como excedente de vida e mudança para outro ciclo.Núcleo de Estudos AfroBrasileiros daUniversidade de Brasília. africano e seu papel na construção do Brasil. O fato de que cerca de seis milhões de pessoas adentraram o país por força do tráfico escravista não pode e não dev e ser esquecido. embora muita s mudanças já tenham ocorrido. somos o mundo (atrás apenas da Nigéria) e setenta por cento de todos os americanos afro-lati nos vivem aqui . segundo eles. Brasil.Page 108----------------------No Munanga. 20 Manifesto do II Encontro de Intelectuais de África-América. onde os anciãos desempenham um papel de destaque na educação e no convívio social. nunca. a relação entre a vid a material e imaterial. o que envol ve o reconhecimento da origem da comunidade. 2009. por nenhum de segundo maior país negro do nós brasileiros.10) todas as tradições Entretanto. de parentesco e d e família estendida. muitos pesquisadores Henrique Cunha Jr. como enfatiza a pesquisadora Sílvia Santos: como constituindo a matriz comum: africanas têm a ancestralidade como referência. após seis anos de aprovação da lei 10. a valorização da tradição.639/03. a importância dos laços de linhagem. aceitamos direito passado heçamos parece que ainda que o nosso não compreendemos Fazer com que e não recon se cruza com o passado a relevância do povo africano. p. Esses autores ressaltam os seguintes aspectos das africanidades. (SANTOS. Eduardo David Araújo e Muniz Sodré enfatizam a questão das africanid ades que. é transpor o silêncio e as barreiras exist entes em prol da visibilidade da participação da cultura negra na formação social da nação. Afinal.

os próprios professores não percebem a questão do racismo em sala de aula. pois ele distorcida do eu. identidades que também só As culturas se misturam para formar existem em oposições. pelo menos por algum tempo. a sociedade a política do que o valoriza a dem que continuar aceitando e acreditando nesses embranquecimento. a partir de um dado momento se transforma em mito assim como tipificações tais como Jeca Tatu. É claro que podemos esses mitos e tipos são frutos de uma sociedade em que o escravismo perdur ou por quase quatro séculos. porque de nossa história e social brasileiro: o de que longo é uma ideia repetida e reificada ao acabamos. Romper com a ideologia da democracia racial não é uma ta refa fácil. Macunaíma. Sabemos que não há raças. A ide ia se repete e sofre um processo de ideologização.Page 109----------------------uma armadilha chamada ―democracia racial . Assi m. Afirmamos que é um mito. adquirindo abrangência. para professores e a o tema em questão. resultando de empréstimos. e. culturas ou identi dades puras.no Brasil. ocracia Nesse racial ou sentido. apropriações e/ou experiências comuns. é apresentado como uma imagem outro. categoricamente. . acreditando que ela seja verdadeira. únicas ou homogêneas. mas nem por isso temos embustes que nos impingem. nega. As teorias errôneas e confusas sobre pureza e não–pureza de raças nos levam a 108 ----------------------. Pedro Malaz arte e outros que são retratados como a ―cara” do justificar dizendo que Brasil. Os formação de maiores desafios. Esse é u m outro mito que povoa o pensamento somos uma ―democracia racial . são a conscientização sobre a temática.

darmos fim ao nosso passado colonial e começarmos a escrever uma história nossa. lendas. como o e inatingível o darwinismo social de ser branco atavismo.. seguindo os e o paradigmas O eurocêntricos científicas.. a democracia racial coloca o elemen to negro ou indígena sempre em posição de desvalorização. a mestiçagem. deu ori gem ao mito da democracia racial: uma estratégia com que o sujeito cultural política e de dominação que fazia ficasse impossibilitado de produzir seus próprios signos. eles eram provincialistas e não souberam dar lugar à alteridade. como diz MUNANGA (2004: p. supostamente XX. que são fundamentais para a afirmação ou negação da identidade e cultura de um povo.no Brasil. à c ompaixão pelo Outro. na verdade. Essas ideias são difundidas amiúde e podem ser encontradas na maioria dos liv ros didáticos de história cêntrica do Também não no Brasil. contos de fadas. . 32). ao respeito ou. diferente e particular. um processo natural que ocorre em todos os povos. Esse era o pensamento de praticamente toda a elite brasi leira no final do séc. adores Um outro ponto que não se pode negar é o fato de que os pens europeus que se consideraram universalistas quand marcaram o pensamento ocidental o. ideal utópic povoava o imaginário popular acalentado pelo mito da democracia racial. ―como form ar uma identidade em torno da cor e da negritude não assumida pela maioria cujo futuro fo i projetado no sonho do branqueamento? . fazendo seja certo grande apologia maioria ao com uma visão euro apenas não estamos achamos que afrocentrismo. Mitos. histórias pra boi dormir. XIX de teorias e início do séc. tornou-se difícil formar uma sociedade constituída pela mistura de três povos e cuja i dentidade era projetada no sonho do branqueamento. em sua passado histórico. inferior ao branco e sua supremacia. fáb ulas. Já passa da hora de revermos nossos con ceitos. Nesse s entido. Então. pelo menos.

Essa imposição é etnocêntrica e frequentemente racista. negros os sendo o luga do a en pertencimento e inserção dentro século XIX as primeiras referências a eles. mas par a isso. com o escravismo encontraram seu espaço de dos foi terreiros para do esses criminoso.Page 110----------------------O afrocentrismo procura descobrir o p situação. É conhecido por seus livros (65 ao todo) sobre afrocentrismo. que a cultura africana seja anali sada enquanto sujeito e não através de modelos culturais que por vezes não só não tendem como a desprezam e desvalorizam. é preciso que haja respeito pelo outro. M. intercultural e transrracial.relegar os africanos. professor do departamento de estudos Afro-Americanos da Universidade de Temple (Filadélfia) onde fundou o programa de pós-graduação nessa mesma área. candomblé. neste caso. para a margem do pensamento e do c onhecimento da humanidade. Essa é a diferença essencial entre o afrocentrismo e o eurocentrismo que avançou nos EUA e outros lugare s apontando as experiências européias como universais e verdadeir as. mas que seja reconhecida a existência de uma cultura e a sua avaliação em termos de pensamento e conhecimento por meio de sua própria perspectiva. ―Race in Antiquity: Tr uly Out of Africa ) apel da África em toda negros No Brasil. Quem somos nós? O que nós fizemos? Por ond e viajamos? Qual o nosso papel na geometria? Como nós funcionamos enquanto pessoas em diferentes contextos contemporâneos? Mas o afrocentrismo não aponta as p articularidades da África como universais. 109 ----------------------. K. como foi o caso do eurocentrismo. comunicação internacional. O terreiro . O afrocentrismo não ja interpretado sob uma única defende que o mundo se perspectiva cultural. e mais concretamente. ou qualquer outro povo. (ASANTE. Nas palavras do Professor Molefi Kete Asante21 podemos confirmar o que foi dito: 21 Estudioso americano. O afrocentrismo quer mo strar que é possível existir uma pluralidade de culturas sem hieraquias.

OLIVEIRA (2003. as culturas e as religiões afrobrasileiras são cada qualquer e. da Um Deus que une o mundo alteridade pela pela integração. ransformadas. apesar haver fica vez mais de ainda consideradas os tão válidas negros que em quanto geral. É por meio desses princípios que vem toda a orientação para a vida. na outra muitos preconceitos dirigidos contra mais fácil entender que as e diferenças entre santos milagrosos vida dos vivos são mínimas e ancestrais interferem dependem apenas de um olhar mais tolerante que nos permita aceitar a diversidade e valorizar a fé imanente em todos os homens. 247) enfatiza que: quando refletimos sobre os três princípios básicos da cosmovisão africana. refletem a face de Deus . os terr afro-brasileiros. mas nesse processo. as culturas africanas foram t os de outros. p. que permite a expressão diversidade e que reproduz a tradição pela ancestralidade. vemos que os três. As religiões for am. a g arantia do bemestar. Assim. Embora perseguidos eiros foram pólos importantes de organização das sociedades ser aceitos negras e a partir dos do século XX começaram a como espaços legítimos de exercício de religiosidades afro-brasileiras. da harmonia e da saúde. o candomblé torna-se uma no contexto nacional dos forma cultural e pela meados identitária recriada polícia.r perfeito para a reconstituição e reelaboração da cosmovisão africana no âmbito cultural-religioso. ritos e Aqui no Brasil. portanto. . Por meio da religião. muitas características originais foram preservadas. em conjunto. os negros construíram sua liberdade de expressão adaptando-se às novas exigências impostas pelo ca tiveiro. Hoje. e com crenças de alguns povos se misturaram com os dos portugueses. a principal maneira de lidar com as adversidades da vida cotidiana na construção de comunidades negras na sociedade brasileira escravista.

As culturas ntidades que também só existem através ssim a obra de de oposições. Nas as do próprio autor: “I who am poisoned with the blood of both. então. tornando-se. portanto. ao mesmo tempo. colonial.Esta pesquisa demonstra. between this Africa and this English tongue I love?”22 umas com as Sabemos. e coloque o Por meio do autor em questão no lugar 110 ----------------------. cuja obra reflete bem a encruzil hada de culturas manifestada na reelaboração do resença tanto de epos-romance OMEROS. especificamente a de Derek Walcott.. a possibilidade de represent ação de uma cultura que reflita a pluralidade de destaque merecido. pretende ser uma oloniais conheçam algumas caribenhas. resultando de empréstimos. insider e outsider. eve ser vista e analisada como parte de uma analisar as experiência humana várias culturas. apropriações de Derek Walcott. um trabalho tão Walcott faz sua inscrição no mundo pós- . um resultado da civilização articulação e a negociação cidental e da tradição tradições nativas. dando-lhe características de romance..Page 111----------------------estudo e análise como artefatos da de temática identidade/cultura uma boa contribuição para que se de matriz africana literaturas pós-c educação. a obra de Walcott que lhe d permite palavr sincrética. única. outras. Nesse sentido. cosmopolita que caracteriza a atual sociedade transnacional. maior. tornado híbrido pela p elementos da cultura afro-caribenha como da cultura contemporânea do eixo América-Eu ropa. where shall I turn. que todas não há se as culturas misturam para estão envolvidas formar as ide cultura pura. visto que o autor vivenciou ambas. divided to the vein? (…) how choose. onde o relações múltiplas entre a das próprio sujeito é culturais e experiências comuns. Ao recriar o poema ép ico.

JANMOHAMED. nossa expectativa com esse estudo é de abrir novas perspe ctivas para que as literaturas pós-coloniais de outros países sejam revisitadas pedagogicamente. Núcleo de Estudos ros. Lawrence. Brasil. SC. afinal. assim como a nossa. UFMG. que sugere uma possíve Por fim. para onde eu irei. e que. p. Postcolonial Authority and Postmodern Gui lt. ficam sempre à margem dos cânones sem direito à fala ou à Essas literaturas não são novas literários. Gary. fazemos parte de uma só raça. mas. 1992.) como escolher entre esta África e a língua inglesa que eu amo? 111 ----------------------. NELSON. Série Pensamento Negro em Educação. dessa busca pelo reconhecimento.. In: O local da cultura.. 198-238: DissemiNação: o tempo. (2005) Num. 2008. Lino Nilma. Belo Horizonte: Ed. p. New York/London: Routle dge. a narrativa e as margens da nação moderna. Worldliness-without-world. 56-58.. . Henrique. I n Negros e o Currículo.híbrido quanto a cultura contemporânea l articulação entre os seres humanos. Literaturas africanas e afro-brasileira na prática pedagógica. 22 ―Eu sou aquele envenenado pelo sangue de ambos. servin do de aporte às diversidades culturais e identitárias.) Cultural Studies. REFERÊNCIAS BHABHA. onde todos nós deveríamos ser u Neg .Page 112----------------------____________. apesar dos conflitos e diferenças. GOMES. mundo. Homi. um só m. Homele ssnes-as-home: Toward a A Far Cry from África. apreciação do público. consideradas tributárias. TREICHLER. Paula. Por meio desse resgate. Florianópolis. Abdul R. Belo Horizonte: Autêntica. (Ed. 1998. 2. CUNHA JR. Tradução nossa. NEN. dividido pe la veia? (. querem os mostrar que cada um desses autores possui maneiras próprias de narrar suas histórias. A História Africana e os Elementos Básicos para o seu Ensino. In: GROSSBERG.

Agadá . Marco Aurélio.). Luiza. A verdade seduzida. 96-120. Bahia. trabalhar na desconstrução do discurso produzido no decorrer do século passado que coloca o Brasil como um paraíso racial. o ingresso na universidade é apenas o passo inicial emp reendido pelo estudante seja ele negro ou não. Tema de polêmicas e inflamadas discussões. A Pioneira Maranhense Maria Firmina dos Reis. O projeto tem em vist a verificar o ingresso de cotistas raciais na universidade e as medidas to madas pela instituição garantir a permanência dos mesmos. p. LCR. Oxford-UK: Cambridge USA: Blackwell.Dinâmica da Civilização Africano-Brasileira. 1988 112 ----------------------. In: SPRINKER. p. Fortaleza. É necessário.Definition of the Specular Border Intellectual. 16. EDUFBA. Ações afirmativas são medidas de caráter temporári o tomadas com o objetivo de diminuir desigualdades sociais provocadas pela di scriminação e marginalização de determinados grupos no decorrer do processo histórico. Introdução Desde 2005 dade Estadual de Goiás o sistema de cotas raciais é adotado na Universi (UEG). No tocante as desigualdades raciais a mera adoção de ações afirmativas. LUZ.A. Muniz. Edward Said: A Critical Reader. Eduardo David. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. como um país de relações raciais harmônicas. É preciso mexer na estrutura da sociedade. 91. A Cosmovisão Africana. além disso. não é suficiente para combater efetivamente o racismo impregnado na sociedade. no entanto. 2000 LOBO. Rio de Janeiro: no. 2003. 1989.Page 113----------------------DISCURSOS RACIAIS E AÇÕES AFIRMATIVAS: O processo de implementação da * política de cotas raciais na Universidade Estadual de Goiás José Fábio da Silva1 Resumo Este trabalho tem por objetivo discutir e apresentar os resultados obtidos no pr ojeto: Avaliação das políticas de cotas raciais na Universidade Estadual de Goiás. SODRÉ. tanto por parte de seus defensores . 1992. OLIVEIRA.. Colocar o estudante na universidade não resolve a discri minação e a exclusão sofrida pelo negro. (Ed. Mi chael. inserind o o negro em locais que historicamente ele não tem garantido seu espaço. In: Estudos Afro-Asiát icos.

832.quanto dos que são contrários visto na própria ao sistema. a lei. brancos e demais etnias em meio à sociedade. mesmo pre avaliada por nenhum orgão da própria instituição. .Page 114----------------------As discussões que envolvem a questão da política de cotas raciais giram . serão abordadas e a utilização de ações referentes políticas afirmativas na tentativa de diminuir as desigualdades raciais e garantir uma ―demo cratização das relações entre negros. defende a ―inexistência de uma discriminação racial no país. questões histórico ligados dos principais discursos racial no percurso do ao mito da democracia as teorias a raciais e públicas Posteriormente. serão apontados alguns aspectos relativos à implemen tação do sistema de cotas raciais na UEG. O presente artigo que pretendente traçar um breve envolveram a temática século XX. Para finalizar. de 12 de J ulho de 2004. racial. que instituiu o ingresso de estudantes por meio do sistema de cotas nas Instituições de Ensino Superior do Estado de Goiás. Este projeto tem por objetivo justamen te avaliar a implementação e a maneira como foi/é conduzida a aplicação dentro da universidade. o problema da desigualdade no Brasil seria. sob coordenação e orientação do Prof. Doutora ndo José Santana da Silva 1 Acadêmico do curso de História da Universidade Estadual de Goiás 113 ----------------------. desfavorável ao sistema de cotas. em torno de três discursos básicos (sem a pretensão de resumir os debates sobre o tema a apenas esses pontos é claro). segundo essa perspectiva. Discursos raciais * Projeto realizado com o apoio da FAPEG. bem como os principais pontos da Lei 14. não foi política de cotas raciais. O primeiro. sobretudo.

A construção/consolidação da República no Brasil é marcada por dois fatos di stintos e. ―roubariam as vagas de candidato s inseridos no sistema universal e isso seria injusto para com eles. este utilizados pelos defensores do sist ema de cotas raciais. uma República.somente de cunho social e não racial. Seu argumento susten ta-se sob a prerrogativa que o sistema de cotas raciais não oferece uma ―competição demais justa perante os canditados do vestibular. se ja por motivos culturais ou étnicos. O terceiro discurso. As cotas. no decorrer do sécul o XX. profundamente e a vinda de ligados entre si: a abolição imigrantes europeus para o país. argumenta decorrente que as cotas dos séculos corrigem de um desnível social gravíssimo escravidão e da discriminação que a população afrodescendente sofre junto à sociedade. o demanda governo de da recém formado que a e ―status de c sob a simplesmente ignorou a enorme lforria despejava no mercado trabalhadores . não só as raciais. no decorrer do século XX. Um segundo discurso muito corrente nas discussões é o meritocrático. Perceber certas importância para nuances desses eventos é de f compreender como se deu a formação e cristalização dos discursos que envolveram o tema: raça. no momento que a população afrode scendente brasileira se ―livrava de séculos de exploração e conquistava sua ―liberdade dão (ainda com o viés de inúmeras restrições). apontado como efeito do mito da Esse discurso pode ser ―democracia racial que vigorou no Brasil. Para compreender é preciso antes. ao mesmo da escravidão tempo. e ainda mantêm-se ativo. entender como foram construídos esses discursos como se deu a formação da República brasileira e o processo de abolição da escravidão. além de comprometer a qua lidade do ensino nas universidades. Contraditoriamente. isso ainda no século undamental XIX.

(VENTURA. Naquele momento histórico. também participação na esfera política. enquanto tentativas de eliminar a ca.340-341) A Constituição de 1891. (VENTURA. 13 de maio de 1888. stas que Nas primeiras décadas fundamentavam a do século XX. p.Page 115----------------------apoio do sistema que antes tanto havia explorado sua mão-de-obra. ―Os poderes públicos apl icaram recursos à imigração sem que fossem criadas condições favoráveis ao negro na transmissão entr mundo servil e sua nova existência de cidadão .353). p. ori ginando uma nova forma de pensamento: ―a valorização da miscigenação e a ideologia do branqueament o. a liberda de era dada ao negro como uma condenação a sua pretensa condição de homem livre. da propriedade de outro homem. O desumana negro condição livrou-se de ser da dura condição de escravo. a abolição tornou-se um a forma de marginalização do afro-brasileiro. entretanto. ainda era e continuaria a ser vítima do pe so dos séculos de escravismo e de todas as teorias e formas de discriminação que no decorrer dess e período foram cunhadas ao seu respeito. Junto ao projeto de abolição dos escravos tramitava um programa de apoio a imigração europeia. o racismo científico e o contradição entre a realidade étni liberalismo progressista.interno e investe no incentivo à imigração europeia. . que estabeleceu concedia limites ao ex-escravo a sua estatuto de cidadão. 2000. as teorias raci escravidão foram adaptadas as condições locais e redefinidas sob a égide das três raças. Deixado de lado pelos membros do governo que antes lutavam por sua ―liberdade o negro recém liberto de seu estado de escravidão se viu sem nenhum 114 ----------------------. principalmente a italiana. 2000.

essa situação não viu diferença.raciais perdem força ―a interpretação do problema racial passa a sofrer uma efetiva transformação com a dissemin ação da idéia da democracia racial como expressão da experiência brasileira . posteriormente. ―fruto de um longo processo de amadure cimento. p. (SANT'A população brasileira por meio da miscigenação e que. o Ministério das Relações Exteriores cheg a a afirmar . À medida que as teorias cientifico . 2008. (JACCOUD. Mesmo com o declínio das teorias racistas que se estendeu até a década de 1920.42) se que pregava o transformou e deu branqueamento da origem a uma nova teoria. objetivando usar a mão-de-obra barata através da exploração dos povos colonizados NA. 1930. 2008. Em 1970. p. e o problema racial se encaminhava para uma solução.Essa ―nova o da ideia condição histórica nos permite refletir como o discurso em torn de ―raça . 2005. As elites nacion ais percebiam a questão racial de forma cada vez mais positiva: para eles. 51) O termo emerge com Roger Bastide em 1940 e se faz presente no debate nacional com a divulgação da obra de Gilberto Freyre em 1950. O ideal do branqueamento consolida-se mesmo com o nas décadas de 1920 e progressivo enfraquecimento das ―teorias deterministas da raça . p. nascido ainda no século XV. culminou em outro m ito o da ―democracia racial ou o racismo velado que se fez presente na sociedade brasileira durante o século XX. Entre 1930 e 1970 vemos a reprodução das desigualdades sociais m ascaradas sob o discurso da democracia racial. o Brasil parecia branqu ear-se de maneira significativa. Na assembleia constituinte de 1934 também é encontrad discussão semelhante.50) Os projetos de lei discutidos em relação aos negros nesse período visav am impedir a imigração de ―indivíduos de cor preta . (JACCOUD.

em 2003. a demanda por políticas públicas específi cas para negros se intensificam. essa discussão Zumbi dos Palmares pela Cidadania ao governo um Marcha para saúde. corpo Nessa com oc de políticas contra asião o Racismo. se políticas sociais universais o combate às desigualdades raciais em um país com o histórico de racialização da pobreza. deixando de ser consideradas como os únicos inst rumentos necessários a serem adotados face ao objetivo de redução da s desigualdades raciais.Page 116----------------------do Movimento Negro. passa a ganhar Vida. p. Até o final dos anos de 1980 pouco se discutia . Contudo. 2008. como pauta do Movimento Negro e com a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). ano . foi entregue e pela defendendo trabalho documento elaborado pela de políticas específicas negros nos campos da educação. Consolidam-se. realizada em Durban. em 1988. nos últimos 20 anos elas foram. mesmo dentro 115 ----------------------. Somente com a constituição de 1988 ocorre uma reorganização nas políticas públicas promovidas pelo Estado. progressivamente. Xenofo Correlata. sendo assim seria desnecessário tomar medi das para assegurar a igualdade racial no país. (JACCOUD. do centenário Segundo nos conta da abolição. Com a p Combate ao Racismo.que não havia discriminação racial no Brasil. articipação do Brasil na III Conferência Mundial de bia e Intolerância a implementação e cultura. como é o caso do Brasil. África do Sul. Discriminação Racial.58) são imprescindíveis para a Marcha Em 1995. não Jacob Gorender. sobre as possibilidades específicas visando à inserção da população negra à sociedade.

pior será também as oportunidades de emprego e chances de sucesso profissional que este terá disponível para si. p. entreta (. Quanto pior for as co ndições de ensino oferecida ao indivíduo/cidadão. era pre ocupante. pela e de acesso a dificuldad sob em discursos políticos. ao trabalho tem porário.. até então. . 1991. (B ERNARDINO. 06).Page 117----------------------de trabalho de forma mais participativa em setores onde. terceirizado. garantindo a efetiva igualdade de oportunidades e tratamento. Ações afirmativas O termo ação afirmativa surgiu inicialmente nos conflitos raciais oc orridos nos Estados Unidos nas décadas de 50 e 60. conquistando espaço marginalização. Por meio da educação. tanto social quanto em relação à discriminação racial. a subsistência. A dificuldade de acesso do negro em setores de melhor remuneração do mercado de trabalho se explica também. o negro poderá ter a chance de se inserir no mercad 116 ----------------------. São ―medidas especiais temporárias com o obj etivo de eliminar desigualdades históricas das pela discriminação acumuladas e e compensar pelas perdas provoca e competitiva. 2008.15) nova égide. e até mesmo infantil e escravo em tempo s de inúmeros discursos profetizando a cidadania plena (QUEIROZ. a tal ponto do próprio autor conf irmar: ―A abolição não se realizou parte dos (GORENDER.. A Lei Áurea resplandecia vigorosamente nto. De fato a situação da maior afrodescendentes no Brasil.) aos trabalhadores a condição de serem domina uma ―boa educação . agora sob uma imposta por meios de circunstâncias adversas. p. Há uma profunda relação entre desemprego e educação. novamente escravizados novas roupagens. ainda impunha-se dos. precário. é ignorado.houve comemorações e sim passeatas contra o racismo.

nas As políticas na prática. Para um melhor aos que os mantiveram setores e dessa continuam mesma a so demais entendimento e compreensão desse conceito do que vem a ser políticas públicas e como é f eito seu processo de implementação é necessário antes deixar claro sob qual conceito de Governo e Estado iremos trabalhar. procura dar que por concretizam-se da estipula grupos um em diversos de de tipos vagas de que polít deve que porcentual políticas Podem ser incluídas preferência a preferência. p.2006. 2001. de políticas relações é públicas entre proces nas relações Especificando um pouco mais o termo políticas públicas. acelerar brancos o e neg A prin de ação tratamento diferenciado a setores da não são tratados como iguais. Essas ações visam combater desigualdades e discriminações sofridas por determinados setores da socieda de devido a processos históricos de exclusão mantê-los em ―condição de inferioridade em relação ciedade. que. que garantem a manutenção de pessoas provenientes de grupos marginaliz ados em espaços historicamente firmativa propõem um não acessíveis às mesmas.31) ―como o conjunto de ins tituições – como órgãos legislativos. sociedade objetivam acelerar o processo de ―democratização cipal justificativa para a elaboração e aplicação o de democratização e diminuir as enormes diferenças ros presentes na sociedade brasileira. tribunais. Tais medidas icas compensatórias além política de cotas m ser preenchidos marginalizados. indivíduos oriundos de grupos marginalizados (em caso de competências semelhantes) e políticas de permanência. exército e outras que não form . p70). raciais. Estado é entendido em (HONFLING. o mesmo deve ser entendido aqui como: ações do Estado direcionadas para setores específicos da sociedade.

O Estado. configurando-se a orientação política de um d eterminado governo que ado por um determinado assume e desempenha período.Page 118----------------------(.31) as funções de Est Governo corresponde nessa perspectiva aos atores sociais responsáv eis pelo controle e desenvolvimento dos órgãos que constituem e formam o que compreendemos como Estado. técnicos. 2001. organismos da sociedade civil e outros) propõe para a sociedade como um todo. quanto por processos de exclusão que se arrastam a o longo da história (na maioria dos casos de governo implantados pelo Estado. as políticas públicas entram como programas ou ações voltadas par a a redistribuição de benefícios sociais e/ou diminuição das diferenças sofridas por setores esp ecíficos da ias sociedade.) como o conjunto de programas e projetos qu e parte da sociedade (políticos. é on de se encontra os órgãos responsáveis pelo cumprimento das medidas tomadas pelo Governo. ent endido pela mesma autora 117 ----------------------. na visão da autora. (HONFLING.. à são projetos mera mass ser reduzido responsáveis pela elaboração e implementação dessas políticas. O Estado. As políticas de cunho universalista de proteção social e de transferência de renda breza.. p. estruturais que podem produzidas ser causados pelo tanto por deficiênc desenvolvimento socioeconômico. Dentro dessa concepção de Estado. É responsabilidade do Estado n só implementar como também manter em funcionamento essas medidas junto aos órgãos públicos e aos agentes sociais ligados a sua resolução. no entanto. mas limitado no têm um papel combate à importante na redução da po .am um bloco monolítico necessariamente – que possibilitam a ação do governo . a burocrática ou organismos é não uma deve soma dos dois).

17 condições de vida de negros tório afirma também que são e brancos necessárias mais que políticas universais para combater as desigualdades raciais. Só com a adoção de políticas específi cas – valorizativas. apresen O rela que se espaços para os negros no mercado de logrará reverter o quadro de iniqüidade racial. sendo assim seria desnecessário tomar medidas para assegurar a i gualdade racial . 2) no proces Essa informação entra em confronto com a declaração. feita em 1970 pelo Ministério xistência de discriminação das Relações Exteriores. de cotas nas universidades. negros or. que instituiu o Sistema Especial de Reserva de Vagas para estudantes o riundos de escolas públicas. em e indígenas. p. (THEODORO. p. negando a e racial no Brasil. 2008. (PROJETO DE LEI 3627/2004. de combate ao racismo i nstitucional e de ampliação dos trabalho – é 3) ta um O quadro relatório do IPEA da evolução das divulgado nas em ultimas 2008 décadas. já mencionada acima n o texto. 7/2004 Vale ressaltar que decretado pelo Congresso conforme o Projeto de Lei 362 Nacional.desigualdade racial. da da a presença do racismo leira tanto pessoal quanto institucional somente a adoção de ações na sociedade brasi afirmativas podem reduzir as desigualdades raciais existentes. eiro comprometeu-se a Nesta importante Convenção o Estado brasil aplicar as ações afirmativas como forma de promoção da igualdade pa ra inclusão de grupos 118 ----------------------.Page 119----------------------so de desenvolvimento étnicos historicamente excluídos social. nas ―instituições públicas federais de educação s documento encaminhado ao presidente lembrava que: Desde 1967 o Brasil é signatário da Convenção Internacio nal Sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial da Organi zação das Nações Unidas.

com indivíduos que tiveram todas as possibilidades oferecidas pela mesma. no entanto.832. Este ociais como fruto também argumento de se nega necessário a ver diferenças perceber que s apenas discriminações de cunho racial. deve como produtora de conhecimento a condição de vida da sociedade como ultrapassar a simples inclusão do sistema de cotas de vagas para afro descendentes e refletir sobre as condições que a academia oferece aos mesmos.no país. fixou cotas para o ingres so dos estudantes nas instituições de educação superior integrantes do Sistema Estadual de Educação Superior no Es . de 12 de Julho de 2004. e responsável pelo ensino e pesquisa de meios que visam ―melhorar um todo. Processo de implementação da política de cotas raciais na Universidade Estadual de Goiás A Lei n  14. suficiente A mera adoção para combater de ações afirmativas. não é efetivamente o racismo impregnado na sociedade. indivíduos que sofrem na sociedade tratamentos difer entes. Empregar o discurso do méri querer equiparar como iguais. Um desses locais é a universidade. É desejar por em pé de igualdade indivíduos que não obtiveram grandes possibilidades de ensino d evido ao caráter segregador da sociedade. o ingresso na universidade é apenas o pas so inicial empreendido pelo estudante seja to nesse ponto é ele negro ou não. como um país de relações raciais harmônicas. Colocar o estudante na universidade não r esolve a discriminação e a exclusão sofrida pelo negro. É mexendo na estrutura da sociedade. Negar a existência de qualquer forma de racismo no Brasil é fechar os olhos p ara uma cruel realidade que estar diante de nós. é preciso desconstruir o discurs o produzido no decorrer do século passado que coloca o Brasil como um paraíso racial. inserindo o negro em locais que historicamente ele não tem garantido se u espaço.

c) 3% (três por cento) para estudantes indígenas e para estudantes portadores de def iciências.Page 120----------------------% das vagas Em seu Art. as cotas foram implementadas nos seguintes percentuais: a) 10% (dez por cento) para os estudantes concluintes da educação básica ministrada po r escolas públicas. negros. e nformações ) 119 ----------------------. b) 10% (dez por cento) para estudantes negros. as cotas obedeceram os seguintes percentuais : a) 15% (quinze por cento) para os estudantes concluintes da educação básica ministrada por escolas públicas. 2008. indígenas ou portadores vem ser reservadas a alunos de deficiência. (QUEIROZ. a em instituições de mencionada Lei estipula que 45 de que. 1 . b) 15% (quinze por cento) para estudantes negros. a Lei estipula que o sistema de cotas terá duração de 15 anos co ntados a partir do primeiro dia de sua vigência. há i na UEG a referida Lei foi implantada. Entrou em vigor oficialmente em 1  de Janeiro de 2005 e deveria ser abrangente a todas as Instituições de Ensino Superior que estão jurisdicionadas ao Sistema Estadual de Educação Superior.tado de Goiás. Em seu Art. o seguinte escalonamento: aplicação do sistema. Desse total 20% de negros. conforme prescrito na Lei. No segundo ano de aplicação do sistema. No primeiro ano de . p. apenas como tal deveria ser cumprida. 9°. c) 2% (dois por cento) para estudantes indígenas e para estudantes portadores de d eficiências. Embora essa se ja uma prerrogativa legal. No processo de sua implementação foi obedecido .91 Ensino Superior ligadas ao Estado devem ser reservadas a alunos provenientes de escolas públicas.

Federal José de Goiás. 2o da mesma Lei: Do total das vagas ofertadas nos seus vestibulares. 1o desta Lei.UEG. para os candidatos (quarenta e cinco por cento). 1° que regulamenta ―os ficação para acesso e comprovação do enquadramento pelo Sistema de Cotas no do candidato às critérios vagas de quali oferecidas primeiro ano de sua aplicação na Universidade Estadual de Goiás . as instituições estaduais beneficiários. conforme i ndica a Resolução . segundo os percentuais determinados no art. docente da UEG. na seguinte proporção: a) 20% (vinte por cento) para os estudantes concluintes da educação básica min istrada por escolas públicas. 120 inicialmente pela ----------------------.ª Luciana de Oliveira. A aplicação do sistema de cotas na Universidade Estadual de Goiás segu iu os critérios estabelecidos pela lei e entrou em vigor no segundo semestre de 2005. Este projeto é a primeira avaliação elaborada especi ficamente . em conformidad e com a Lei .Page 121----------------------docente da Universidade a coordenação do Prof. está sob Santana da Silva. as cotas passaram a ser implementadas integralmente. 5% (cinco por cento) estudantes portadores de para estudantes indígenas e deficiências.ª P Universidade Estadual de Goiás foi Dr. para os cursos definidos no art . em seu Art. 45% de educação superior reservarão. b) c) para 20% (vinte por cento) para estudantes negros. No entanto.A partir do terceiro ano de aplicação do sistema . olítica de O projeto de pesquisa Cotas Raciais na que elaborado propunha a Avaliação da Prof.CsA n  026/2005.

em seu É preciso ressaltar que ao contrário do que diz a Lei 14. Art. ainda existem inúmeros pontos que constam no próprio texto da lei a serem cumpridos. Uma parte importante os focais2 junto a alunos da do projeto é a realização de grup universidade.832/2004 em vigor. 7  As ins tituições que compõem o Sistema ramas sociais de Estadual de Educação Superior implementarão prog apoio e acompanhamento acadêmico dos estudantes cotas de graduação oriundos do sistema de estabelecido por esta Lei. mas não garante nem viab . as instituições de ensino superior do Estado (no caso esp ecífico da UEG) limitaram-se apenas a implementar o sistema de cotas na educação superior goiana.832/2004. o fato da fixação de cotas democratiza iliza a permanência com sucesso. O objetivo é rec olher a opinião que estes estudantes têm a respeito do sistema de cotas raciais e compreender como eles veem (ou se veem) nas relações estabelecidas dentro do universo acadêmico. O relativos a implementação do sistema de cotas na Universidade Estadual de Goiás desde o ano que a lei entrou em vigor em 2005. Os fatos explicitam e remetem ao pensamento de que os negros conq uistam uma Lei fixa de cotas para o ingresso nas IES públicas do Estado de Goiás. A finalidade do projeto: Avaliação das políti cas de cotas só o acesso. 2008.112) Mesmo com a Lei 14. Os grupos são realizados separadamente com acadêmicos cotistas e não cot istas. (QUEIROZ. p.sobre o projeto sistema de cotas da Universidade visa a coleta de dados Estadual de Goiás. com uma média de 8 a 10 alunos de diferentes cursos em cada entrevista. bem como a sua permanência na instituição e Art. quando. 6  O Estado de Goiás proverá os recursos financeiros necessários para a implementação de progra mas de apoio visando a resultados positivos das atividades acadêmicas dos estudantes d e graduação oriundos do sistema de cotas. na verdad e.

visam analisar e seu contrabalançar/comparar devem o sistema os de prós e funcionamento.raciais na Universidade ma avaliação a respeito Estadual da de Goiás. símbolos e de crenças presentes nas culturas de ma triz africana junto a política uma reflexão e a educação diante da para um importância de temas como a reconhecimento do patrimônio simbólico de origem africana presente na cultura brasil eira. sobre as legislações e a sua própria natural implementação no espaço no espaço educacional se faz necessário uma discussão da tar efa política das É preciso leis já construir construídas no uma análise Brasil (inclusive a de cotas). mas junto a socied ade em . não é fazer apenas u aplicação da lei supracitada. Seu objetivo também é levantar discussões em apontar que possibilit soluções para problemas relativos a discriminação racial ainda presente. sua Projetos que implementação devem política. preciso uma leitura negro no país gerado pelas mesmas. tem em seu propósito promover discussões sobre determinado tema com o intuito de obter i nformações de cunho qualitativo. mesmo que algun s neguem. cotas. Conclusão 2 Grupo focal pode ser definido como um grupo de discussão de caráter informa l e de tamanho reduzido. 121 ----------------------. própria sobre os valores de cultos.Page 122----------------------sistema de Para uma compreensão cotas raciais nas na inserção é clara da importância seja do no universidades públicas. seja debate sobre a condição do do afrodescendente. no seio da sociedade brasileira. contras dessa compreender a opinião dos alunos (principais interessados a curto prazo) sobre o t ema e a forma como o assunto é tratado e visto não só dentro do ambiente acadêmico.

ou daqu abrin vislumbrar a possibilidade de terem seu status e poder abalados. como previsto na própria lei. Obter uma mudança social é algo social por meio dessas políticas afirm ativas ainda é algo muito distante dentro das atuais No entanto. O tas (não só grande desafio relacionado raciais) é garantir seu ao sistema de co funcionamento integral. de colocar o negro/afrodescendente em setores privilegiados socialmente. racismo existente no Brasil (isso feito ―oficialmente ). deixando a d esejar inúmeros outros pontos as o ingresso previstos pela mesma. onde até então o viam (ou ainda o veem) como corpo estranho ao seu meio. já é um primeiro passo na desconstrução desse discurso segregador que há séculos vem sendo cunha do no Ocidente e do qual somos herdeiros diretos. o ponto mais explícito da lei. causa estranheza as camadas do um horizonte que dominantes permite tradicionalmente de qualquer como grupo desta social. A temática cotas raciais não gera polêmica por possibilitar a inserção de grupos so cialmente marginalizados nas universidades possibilidade. Referências bibliográficas: 122 . a elaboração e desde o governo FHC aplicação de leis que visem combatê-lo. tendo em vista que. mesmo que públicas. o reconhecimento do estruturas da sociedade. como já foi mencionado.geral. foi posto em prática. como pode ser visto na política de cotas raciais . A mera possibilidade de modificação nas barreiras e níveis estipulados ela determinada classe. do estudante nas é é necessário Não garantir basta também garantir sua apen permanência instituições públicas. na universidade. apenas o a cesso ao ensino superior. O maior problema está na frágil. ou seja.

Projeto de Lei n° 3627/2004. n  55. 204p. GOIÁS.(orgs). novembro/2001 QUEIROZ. 2005. r no Brasil.832 de 12 de Julho de 2004. Goiânia: 2008. Estado e políticas (públicas) sociais. Educação e sobre as cotas para negros em Goiás. ano XXI. Mário (org). Comunicado da presidência n  4. Universidade Estadual de Goiás (UEG). escola. Universidade Católica de Goiás.Page 123----------------------BRASIL. LXVI Plenária do Conselho Acadêmico. Planejamento de políticas democratização um estudo rtação de mestrado em Educação da Universidade Católica de Goiás. Lei N° 14. CONGRESSO NACIONAL. Brasília: Ipea. Análise de políticas públicas: um debate conceitual e reflexões referentes à prática de análises de políticas públicas públicas. e Div SILVA. Antônio Olímpio o Racismo e seus Derivados . eparação Rubení histórica Pereira. 176 p. Marilena da. 2008. Uene José. FREY. Klaus. racismo e políticas púb licas: 120 anos após a abolição. IPEA. rsidade. educação . As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 an os após a abolição. Brasília: (org). GORENDER. Goiânia: Editora da UCG. N  21. Diretoria de Estudos Sociais (Disoc). ―Sob o signo da negação . In: Cadernos Cedes. Secretaria de Educação Continuada. Desigualdades raciais. afrodescendente e THEODORO. SANT‘ANA. 142 p. Superando Ministério da Educação.----------------------. África. 1991. Jacob. GOMES. In: A escravidão reabilitada. São Paulo: Editora Ática. Resolução – CsA . ―História Kabengele e Conceitos Básicos o Rac Alfabetização sobre In: MUNANGA.junho de 2001. HOFLING. ismo na de. Eloisa de Matos. Disse Superior Pública Estadual. ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE GOIÁS. 2008. 2006.

The conditions that men and women faced crossbred from Ceará we re filled with oppression. fechamento de terras e regulamentos de trabalho. Palavras Chave: Zonas de Contato. We work with documents that deal with daily activ ities experienced in the resistance to various modes of construction of the Nation State: recruitment . Abstract: We seek to trace paths of migrants from Ceará in the late nineteenth-century circuit of rivers. brasileira. 23Edson Holanda Lima Barboza (PUC/SP.Page 124----------------------SOBRE AS HIDRAS DO NORTE: ROTAS DE TRANSGRESSÃO DESDE O CEARÁ AOS PORTAIS DA AMAZÔNIA-1877/1889. Amazônia. Roberto. Paulo: Editora SENAC. florestas e cidades n a Amazônia representava negação às posições de domínio e afirmava esferas diversificadas de ser e estar no mundo. Thus. Brasil) edsonludd@hotmail. a travessia de rios. vales e mares rumo ao Norte. 2000. p. Trabalhamos com documentos que abordam ações experimentadas cotidianamente na resistência aos diversos meios de construção do Estado Nacional: rec rutamentos. closing of land and labor regulations. São Viagem Incompleta: 1500-2000. gerando solidariedades e conflitos que se chocavam com formas hegemônicas de impor padrões raciais e identitários. quando proprietários limitavam o acesso às áreas férteis nas ribeiras e projetavam explorar o trabalho em direção às novas rel ações de lucro capitalista. the cros sing of rivers. XIX em circuit os de rios. forests and cities represented in the Amazon denial to positions of dominance and claimed diversifi ed spheres being .com Resumo: Buscamos rastrear trajetos de migrantes cearenses em fins do Sec. A experiência Carlos Guilherme. 123 ----------------------. ―Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república . Assim. valleys and seas to the north.329-359. As condições que homen s e mulheres mestiç@s desde o Ceará enfrentavam foram repletas de opressões. In: MOTA. Ceará.n  026/2005 VENTURA. Migrações. when the owners limited access to fertile areas in the rivers and ex plore the projected work toward new relations of capitalist profit.

e. c omo o Congresso Agrícola de Recife de 1878. . Ordem terras as Imperial. são alguns deles. pela As Províncias e de do P estavam na periferia da e do Maranhão buscavam impulsionar a colonização de a extração da borracha e controlar grande seca explorar 1877. Keywords: Contact Zones. Ceará. Contudo. Mas. semeando a sensibilidade que o discurso regional que hoje identificamos por Nordeste (Norte seco) e Amazônia (Norte molhado). Bolsista do CNPQ. PUC/SP. Amazônia. ras . migrações de trabalhadores catalisadas Daí surgiram elementos que 23 Doutorando em História Social. 124 ----------------------. Sabemos de uma vasta produção que trata do tema no eixo Centro-Sul.Page 125----------------------permitiram implodir os do Norte do Império frágeis e que elos que forjavam a homogeneidade alimentou ainda estavam de pé.24 Vamos captar elementos sensibilidades em gestação não apenas em discursos de intelectuais treando expectativas e para identificar as novas e políticos. Migration. agricultura de subsistência. principalmente. Orientadora: Maria An tonieta Antonacci. generating solidarities and conflicts that clashed with hegemonic forms of racial and enforce standards of identity. A trama seria a passagem do trabalho escravo pa ra o trabalho livre. em que muitos temas m pauta: diversificação de de interesse de outras Províncias não estavam e projetos de colonização. liderado pela decadente elite açucareira de Pernambuco. Apesar de alguns esforços de mobilização. devolutas.in the world. e projetos que ará pecuária e extrativismo O cenário que ora abordamos foi montado a partir de intervenções locais. das antigas Províncias do Norte não podemos dizer o mesmo. Introdução: Inventando o Nordeste e a Amazônia Nas décadas finais do Império a organização da mão-obra estava na ordem do dia em todos os salões e cenários do poder.

e mobilizava conterrâneos para seguir o smo destino. aos motivos da decisão pelo des realizadas entre os pontos de partida e chegada.trajetos dos próprios migrantes que por razões nem sempre involuntárias decidiam pela retirada. Referimos-nos de às tentativas há negligenciadas. à utilização grantes nacionais em entre a passagem de retirante a seringueiro. doenças e aventuras para contar tinha de sobra. ou distribuição como é o caso de São Lu is e Belém. no período áureo da borracha. retirante dinheiro. à recusa ao recrutamento para as forças policias e o exército. para além da mutação quase automática uma gama de experiências que vêm sendo de estabelecer colônias agrícolas. levando em conta elementos como a questão da identidade local ou interesses da elite política e agrícola. clandestinos direção à e trabalhadores pobres fronteira Norte do livres de conquistar espaços em . t rabalhamos com algumas rotas realizadas por migrantes cearenses. da capacidade obras produtiva trabalhadores mi públicas. e à expectativa d e negros. escravos e clandestinos nas Pr ovíncias do Norte uma imagem Ao falarmos comum que em migração de cearenses aquele para a Amazônia que me de sociabilidade. repleto de o paroara . Rastreando zonas de contato: rotas de retirantes. tentando apontar os choques cu lturais e as zonas de contato estabelecidas que engendraram redes resistência e a repercussão da chegada em massa de cearenses em novas terras. Os estudos sobre migrações geralmente focalizam isoladamente a lente de análise no ponto de vista da sociedade de emissão (Ceará) ou na de recepção (Pará ou Maranhão). Em busca de visão mais articulada para a problemática apresentada. Dá-se menos atenção às projeções locamento e às rotas de emigrados. Con tudo. Quando não voltava com dinheiro. vem à tona é a do retornava da floresta seringueiro.

o número de imigrantes foi insuficiente. que vai do litoral da Bahia ao Rio Grande do Norte. A Invenção do Nordeste e outras artes. luta pela terra e conexões étnico-culturais. utilizando o trabalho de imigrantes europeus.Page 126----------------------nhão e do Nas últimas décadas Pará tentaram do Império. o avanço do extrativismo e a forma assimétrica que o governo central tratava as Províncias do Norte. Devido à concorrência com as Províncias do Ce ntro-Sul. Vistos pelas elites locais como agentes ideais para civilizar os mestiços nativos. ―A Invenção da Amazônia: migrações. 1870/1915. A falta ação da propriedade da terra provocou a migração de milhares e do Maranhão. nas palavras de Raimundo Girão. Fortaleza. Recife: FJN. p. 125 ----------------------. E sobre a Amazônia: BARBOZA. após 1877 o quadro vai modificando-se. Fortaleza: ANPUH. de chuva associada à concentr de trabalhadores das Províncias situadas a Lest Com destaque para a Província do Ceará. Edson Holanda Lima. que não possui unidades de clima úmido como a Zo na da Mata. as Províncias do Mara implantar colônias agrícolas visando garantir o abastecimento alimentar às cidades.Brasil. In: Anais do XXV Simpósio Nacional de História – História e Ética. São Paulo: Cortez . Em relação à disponibilidade de recursos financeiros e reserva de trab alho. 1999. Ceará-Amazônia. A agricultura estava em crise afetada pela sangria de braços provocada pelo tráfico interprovincia l. capital . poder senhorial e policiamento conduzidos pelos interesses da Corte Imperial e de Barões do Café. A ideia seria estabelecer colônias de parceria ou formar núcleos de colonos com grandes fazendeiros agricultores. mais distante dos alistamentos.1-11 (CD-ROM). 24 Para o debate sobre a produção de discursos regionais a respeito do Nordeste: AL BUQUERQUE JÚNIOR. impostos. tornou-se a ―metrópole da fome. 2009. Durval Muniz de.

a última com 5 mil habitantes recebeu mais de 60 mil migrantes sertanejos . provocada para pelas provocando a estar em morte de perda gado de e a braços crise. portuárias também Camocim e foi caótico. 27 ). morreram no Ceará mais de 118 mil pessoas (sendo quase 57 mil só na capital) e capital embarcaram 26 migraram mil aproximadamente 15 mil 55 rumo mil almas (da E retirantes: 11 mil m conjunto com a rumo ao Sul e migração e as ao Norte). 2000. mais do Entre 1877 e 1878. que ti nham por objetivo impedir a livre circulação de migrantes em estradas e cenários urbanos.dum pavoroso reino. principalmente nos porto Aracati. deixando bem claro que não aceitariam morrer à míngu a. realizavam trabalhos públicos em troca de cumpriam atividades como o carregamento de pedras para calçar ruas e a construção das estradas de ferro em Baturité e Sobral. a população da cidade estimada em 25 mil almas que quadruplicou com a chegada de mais de 100 mil retirantes (NEVES. a economia cearense tinha aditivos pobres -livres. A morte tinha cadeira cativa antidos pelo governo. p. À migrações e epidemias. antes a Como forma de controle direção da Província do a tomar algumas nas secas medidas sobre tais as multidões de retir Ceará passou entos (que como: construção de abarracam futuras ficaram conhecidos por Campos de Concentração ou Currais do Governo). As ações de retirantes exigindo do poder a fome eram mescladas com público trabalho e assistência contra saques a comércios e armazéns públicos. . associava-se o desespero de senhores negociando suas últimas re servas: os escravos. O quadro em outras s de cidades Acaraú. Não bastasse a seca rruinando roçados. Os ha bitantes das concentrações muitas vezes alimentos e vestimentas. Durante a nos abarracamentos m grande epidemia de varíola de 1878. .

obra para Assim. p. 256-361).Page 127----------------------epidemias. que em grande numero emigram para a toda a parte. 22). a ruína econômica do tráfico interprovincial. a que os tem reduzido a secca . que negociaram suas ―peças intensamente em anos imediatamente anteriores no aumento da à emancipação de 1884. para engajarem occasião. se a quizerem aproveitar os nossos infelizes irmãos do Ceará. em 1878. 1922.25 precoce abolição Dados representativos para avaliarmos as condições que permitiram a da escravatura no Ceará. Importante também pensarmos circulação de passageiros nos vapores graças à concessão de passagens pela Província. À valorização inicia l a respeito do trabalhador cearense se opõe a representação sobre a população mestiça da flores ta. metamorfoseados de retirantes. p. iros aproveitassem um tipo de orientava que fazende migrante ―que tanto se distingue pelo trabalho (MARANHÃO. fugindo da penuria. a ação de ―especuladores na torpe negociação a 2909. terra de ―redentores . levou também a uma intensificação Enquanto no ano de 1876 foram negociados no porto de Fortaleza 768 escravos. 1877. de . conseguissem rumar para o Norte clandestin amente.126 ----------------------. número bastante de carne humana ” chegou escravizados significativo considerando o reduzido fluxo de africanos para o sertão cearense em relação às regiões de plantaion (TEÓFILO. Sá e Benevides. a corrente migratória a implantação das via disponibilizou nacional mão-deceare sonhadas colônias agrícolas. Presidente do Maranhão entre 1876 e 1877 se posicionou: ―oportuna lavradores. Exaltando as vantagens trabalhador proporcionadas pela nova reserva de trabalho. nse. Embarq ues desorganizados e cravos fujões feitos às pressas eram e foragidos da oportunidade para que es justiça.

transporte e políticas de colonização.913) registrados pelo censo de 1872. nunca mais ti vê. Maranhão e Pará. combate às epidemias e tratamento de doentes. 18501881. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha. 2005. 256). Pero Rio de Janeiro. que centr alizava a administração e gastos principais outras em eram com diversas localidades do interior. obr as públicas. do IHGB e de diversas academias cronista. O número d e escravos saídos oficialmente somente do porto de Fortaleza entre 1877 e 1879 chegou a 6559. As comi 25 Rodolfo Teófilo. Os dados sobre a migração para fora da Província consideram apenas o movimento dos portos . transporte. teu sinhô ta te querendo vende. ―Negros no Ceará. membro correspondente literárias do Ceará. passara m as fronteiras. Os alimentação. o Ministério do Império au torizou às Províncias realizarem ssões eram nomeadas gastos pelo com afetados pela calamidade. In: Uma nova História do Ceará. SOBRINHO. quando os itmo de trabalho e migrantes não se submetessem ao controle social. acossados pelo flagelo. Veremos africana. a ascendência africana e o tráfico interprovincial no Ceará. destacamos: FUNES. p. para o Piauy. “Catirina minha nega. 103-132. indisciplinada frente que o discurso sobre a oposição de valores entre o matuto do Ceará e o caboclo amazônico cairia por terra. r produtividade esperados por dirigentes provinciais.Page 128----------------------Presidente de Província. Um dos destinos eram as colônias agrícolas e as frentes de trabalho organizadas pelas comissões de socorros públicos. Estas comissões eram compostas por homens de dest aque na . Amaru Marimbá”: O Ceará no tráfico interprovincial. farmacêutico. (Dissertação de Mestrado). Pernambuco e Parahyba ” (TEÓFILO. No Ceará.5% do total de escravos cearenses (31.―não incluindo n‘esta cifra os indigentes que. o que representou pouco mais de 20. 1922 . Entre os anos de 1877 e 1879. José Hilário Ferreira. p. 2000. 127 ----------------------. Pero. Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em História Social-UFC. Eurípedes. havia a comissão da capital. Sobre sociabilidades de negros. vestimenta.origem indígena e e vadia. mais à apontada como preguiçosa.

moderna. Em diálogo com as obras A hidra e os pântanos uitas cabeças (LINEBAUGH. assédio a retirantes e outras or membros e encarregados responsáveis pelos socorros. es. também era ―o primeiro lugar onde pessoas traba lhadoras de continentes 164). no decor rer dos séculos XVII e vam em XVIII.sociedade. piratas e desertores aos antigos e novos meios de exploração do tr abalho. o Juiz de Direito. Belém ou do Marajó. geralmente o Delegado. poetas. vez que nas de tentavam ser neutralizadas matas e rios de Turiaçu ou fugitivos em Fortaleza. rebeldes e desordeiros. Durante o período de ação surgiram muitas denúncias de desvios de recursos do Tesouro Pr ovincial. como REDIKER. Flávio Gomes ao trazer alianças praticadas por comunidades eram completamente isolados. O navio. escravos. letras colocou ou em em contato atos as diversos atores que questiona estruturas do escravismo. o Vigário. grandes comerciant es e fazendeiros. A despeito dos desejos e seus agentes. permi tia não apenas a comunicação entre continentes. ressurgiam em São Luís. Os diferentes autores se comunicavam ” (LINEBAUGH. os retirantes de controle de comissários condutas nada elogiáveis praticadas p cearenses se portavam como sujeitos insubordinados. Já comerciantes. p. pequenos lavrador Linebaugh e Rediker apontam como o comércio marítimo e de feitorias. utilizamos a metáfora das multidões que da hidra. entre comunidades de negros e a sociedade envolvente: taberneiros. A critica a ideia que os quilombos formação de um campo negro seria a expressão de alianças. as ações (GOMES. sendo a 2008. índios e desertores. mesmo que pontuais em alguns casos. primeiro laboratório do sistema de fábrica. 2005) e A hidra uma de m 2008). Assim como a mitológica hidra de Lerna regenerava suas cabeças ao serem co . persisten destacam a metáfora da hidra te resistência de marinheiros. REDIKER.

estradas ainda e ribeiras obs do retirante com pretos das velhos. uma colônias maranhenses. as outras entram em contato umas continuas. Mary Pratt articula o conceito de transculturação. mocambeiros e índios em buscamos mapear para revelar curos devido à preponderância temática da borracha destinos da da e desejos e o monopólio representação . são as zonas colônias. ” Prática no e qual pessoas estabelecem coloniais. Na es amazônicas. 128 ----------------------. em colônias agrícolas os migrantes em cearenses estiveram interagindo ora flito com sujeitos de diversas solidariedade. geralmente associadas a circunstâncias de coerção. 1998. Outra referência importante são os eriências de trocas estudos que evidenciam as exp culturais. Embarcações. compreendida como a f orma que ―os grupos culturais subordinados ou marginais a partir de materiais a eles transmitidos por uma cultura permite a formação de Zonas de contato: “espaços de eográfica e historicamente separadas relações dominante encontros com ou selecionam e invertem que g metropolitana. ou Limoeiro (Prado). matrizes étnicas.Page 129----------------------- (PRATT. frentes de contato que de trabalho. colônia de cearenses no Pará. desigualdade radical e obstinada p. No presente artigo apresentamos diversos modos de vida que foram compartilhados a partir de alianças e inimigos comuns combatidos. Como nos contatos com imigrantes europeus e negros em Benevides.rtadas. 30-31). ou nas identificações ruas ora em de cidad con floresta. a hidra moderna também tinha suas ia abatida outras cabeças tantas regeneradas: a cada experiência de resistênc entravam no circuito da contestação. móveis que a serem definiam objetivos.

trabalhavam Estante 4 generalizada DO ESTADO CEARÁ. Livro 236. Os forma traumática privada no sertão. Fortaleza.Ofício n  142. Delegados 2 . os responsáveis diretos pela manutenção da ordem. no a armazéns do mês de exigia os saber março de 1878. reclamações e pedidos de diligências na comunicação entre Che fes de Polícia. A i mprensa cearense denunciava cotidianamente cenas das multidões de retirantes e a reação violen ta por parte de fazendeiros e comerciantes tentando garantir o que lhes restava de propriedad e privada. 26 mos que no período havia insatisfação carregando pedras. Delegados e Subdelegados. tão os retirantes – a Queria das autoridades quem eram os ―amotinadores que inci arrombarem os armazéns do governo attentados contra os mesmos armazens. O Império da seca e do Caos: controle social e migrações no Ceará Nas ondas de pânico provocadas pela chegada em massa de trabalhado res nas cidades e em esforços de defesa da propriedade perceber a quebra de laços tradicionais de dominação. podemos desdobramentos ligados à seca evidenciavam de momentos de ruptura: do respeito à propriedade.circular as autoridades policiais do termo da capital. de saques Em Fortaleza. Fundo: e pedia ―todas as medidas tendentes a acautelar Haveria mesmo ―cabeças . Série: Ofícios do Chefe de Polícia aos da Província do Ceará. Governo Provincial. 6/03/1878. ―lideres nos motins? Sabe entre DO retirantes Ala que 319. da permanênc ia no torrão natal e da obediência às autoridades provinciais. da lealdade ao coronel.ARQUIVO PÚBLICO 24. A ação de autoridades muitas vezes era pautada pelo noticiário de jorn ais. que 26 APEC .em torno da imagem do seringueiro-paroara . que serviam de suporte para comunicados. após da uma capita série governo. o Chefe de Polícia l providências para encontrar responsáveis pela ação.

foi informado ―por pessoas vindas d‘ahi. Barbalha No in dirigi e explorada por espíritos retirantes e o povo malevolen não por ―malfeitores.do Horacio Jacome Pequeno ”. sempre ―seduzidos ” e ―manipulados cas. q‘ no dia 26 do mez p. as notícias eram mais das dramáticas. coletadas no Mucuripe. o de 1877. pois. que só aumentava o Presidente da o quadro de incertezas. terior como a ação podemos imaginar de particulares e a o de 28 vida nos sertões? 1878. Ferreira Aguiar. Em novembro Província. Missão Lavras). ao solicitar expli cações ao Delegado do Crato: ―consta do noticiário do Jornal ‗constituição‘ de hoje. Se na capital e cidades portuárias. sobrinho do Coronel Antonio Luiz Alves Pequeno. Cariri (Jardim. alternativas de trabalho no Ceará tornava m-se cada vez mais difíceis. 53). Em ofício do aos Delegados da região do de abril de Velha. Em novembro de 1879. o caos era a regra.Page 130----------------------serviam para calçar as ruas da capital. Milagres. 2005.p. Com lavouras arrasadas. Crato. o Chefe de Polícia pediu esclarecimentos. que esta s endo frequente nesse termo surras e espancamento gravíssimos em pessoas encontradas em lavouras alheias. um retirante chegou por ter roubado uma raiz de a ter as orelhas corta mandioca. suscetível de ser tes ” (CANDIDO. chegou a solicitar um navio de guerra na tentativa de impor ―respeito a essa grande massa de povo. É o Chefe de Polícia que descreveu. p. ―cortou as orelhas de um retirante . Na fala de autoridades eram capazes de agir por vontade própria.129 ----------------------. sem que disso tomem o menor conhecimto as autoridades policiais. O trabalho pesado de abrir picadas nas matas para assentar os trilhos da estrada de ferro de Baturité fazia com que m uitos retirantes buscassem alternativas para sobreviver. que tinham presença de forças públi mandonismo eram a lei.

22/04/1878. aos 10 anos de idade. Sacudidos na praia gritavam e choravam olhando o vapor. 30/11/1879. milagres. ficando o agressor impune. Fundo: Governo Provincial.) afim de que o embarque se faça com toda promp tidão e não fique emigrantes por embarcar como já tem succedido. Estante 424. Por estas razões. 130 ----------------------.)A lancha voltou e quando a leva de retirant es chegou a terra. Missão Velha. Fortaleza.. ” Ainda informou que o retirante junto c om mais de 200 pessoas se dirigiu à casa do Delegado o exame de corpo delito. (. rara era a família que havia seguido ou ficado completa. Se o controle da que desdobrava a atenção de aut que se negou a fazer Em tais condições não soa absurdo aceitar a concessão de passagens para ordem em terra estava difícil. exigiu que o capitão do porto assistisse pessoalmente ao embarque de ―emigrantes qe se apresenta rem a seguir pa 27 APEC . João das Neves.. Barbalha e Lavras.por ter-lhe furtado uma raiz de mandioca.27 tentar melhor sorte em outras Províncias. narrou o momento em que o personagem central.Page 131----------------------as Províncias do Maranhão e do Pará. Ofício n  241 Circular ados do Jardim. Crato. Ofício ao Delegado do Crato. Presidente da Pr ovíncia em 1877. O desbarat amento havia sido quase geral. foi separado da am transferidos da lancha que os conduzia da praia ao vapor: (.Ala 319. combater a de Rodolfo Teófilo. Medida oridades. 28 O momento crítico da partida dos vapores no porto de Fortaleza foi registrado também no Romance e escreveu O para Paroara (1899). sob as águas os obstáculos dobravam. No libelo qu aos Deleg n  53 migração para a Amazônia. Série: Ofícios do Chefe de Polícia aos Delegados da Província do Ceará. Livro 236. que os últimos raios do sol poente deixavam perceber como mancha negra a família quando retirantes er . Caetano Estelita. Fortaleza...

Fortaleza. 30 APEC . Ofício n 3805. Barros oficiou ao o Presidente José Júlio de Ministério da Justiça. ” Pode ter sido em uma dessas oportunidades que José Mathias. natural d o Acaraú. Estante 393. que em 1881 era Praça do Corpo de Polícia em São Luís. Já havia ordens do próprio Bar ros para ―que não embarcassem emigrantes para os portos do Maranhão. perdido nos abarracamentos de retirantes (TEÓFILO. o soldado relatou sobre a chegada do conterrâneo à capital maranhense: ano de mil oitocentos e setenta grande secca que assolou aquella Província naquelle anno e nos subseguintes. No inquérito aberto para apurar o parad eiro de José Mathias. Em Albuquerque janeiro de 1879. ser afetada pela seca e a ―falta de generos alimentícios. “vários teriam embarcado ilegalme emigrantes ali estacionados . Pel o menos é o que nos fala outro emigrante cearense de nome Miguel Quirino da Penha. sem a autorização do governo. João das Neves sentiu-se aniquilado com tamanho i nfortúnio. conseguiu evadir-se em 1877.ALA 19. 1974. Série: Ofícios .Livro 181-B. 26). aproveitando-se para isso de grande confusão que então havia. Aca raú e Camossim.sumir-se no horizonte. p.30 e sete por occasião da 28 APEC Livro 120-B: Registro de Ofícios da Presidência da Província do Ceará diri gidos ao Capitão do Porto. Tinha dez anos e compreendia a grande desgraça que havia perdendo o s pais. Caixa 16. Onde. no nte para o Maranhão mês anterior. 29 APEC . Fundo: Secretaria de Polícia da Província do Ceará. quanto mais só e desamparad o. Registro de Ofícios ovíncia do Ceará dirigidos a diversos do Presidente da Pr No Província que também passou a 29 ministérios. tendo conseguido evadir-se da cadeia no momento em que embarcavam grande numero de emigrantes que ali estavam detidos a espe ra de embarques. 1877. 1979. 11/10/ 1877. Em companhia deles a vida era trabalhosa. 27/01/1879. Ofício ao Ministério da Justiça. acusad o de Homicídio no termo de Acaraú e preso na cadeia pública local. relatando a desorganização de embarques nos portos do ―Mundahu. Fortaleza.

não era muito difícil identifi car-se como retirante e conseguir gidos da justiça ou passagem do do domínio governo. existência de vagas e atrasos d os vapores são alguns deles. a liberação de passagens. ao referir-se tripulantes dos vapores. em conexões culturais no circuito do Atlântico negro. acusados de artistas desempregados.Page 132----------------------O relato deixa explícito os riscos de tratar retirantes como caso de polícia. o momento do e mbarque. 1854-1882. Sabe-se lá quanto iam de uma série tempo ficavam de fatores. desenrolar diferentes. A espera estimulava os retirantes a construir zonas de contato c om seus futuros companheiros de viagem. poderia haver ainda o pagamento da passagem com recursos próprios ou ta lvez através da solidariedade podemos de retirantes esquecer daquilo de de ―Atlântico resistência ou que revolucionário . uma vez que depend cabotagem da praia ao navio. do aguardavam no entorno da cadeia pública. Era porto que encontravam-se no trajeto pobres. São Luís. camponeses crimes comuns e escravos fugidos. estrada-abarracamento-cadeiadesertores. Não Linebaugh chamou à experiência produzida por marujos. Ofício (S/N. no decorrer dos séculos XVII vapores que circulavam pelo e XVIII. Lembrando país que que muitos no dos Império do Brasil eram de bandeira do século XIX contestava o escravismo. Para o caso dos fora senhorial.reservado) Chefe de Polícia do Maranhão dirigido ao Chefe de Polícia do Ceará. 17/06/1881. À maneira como os embarques aconteciam. Mesmo sob condições tlântica no inglesa. 131 ----------------------. sob a vigilância de guardas. Em Acaraú. desertores e escravos. poderiam haver ecos desta experiência a . à espera.recebidos de outras Províncias.

olhos grandes. Edição n  63. Diariamente. o Chefe de Polícia do Ce ará clamava pelo auxílio de seus colegas no Maranhão. solicitava providências par a “ser ella . seus tripulantes e o tratamento dado aos ―passageiros.. baixo. PÚBLICA MENEZES Rolo: 84. pouca barba.) Pressume-se que tenha p rocurado para o norte.) Sitio São Pedro de Souza (Cascavel). ao não aceitarem serem negociados com as Províncias do Centro-Sul... 31 BIBLIOTECA e Microfilmagem. ou se tenha misturado com emigrantes. os periódicos de Fortaleza anunciavam pedidos de capt uras de escravos que. Pará e Amazonas para capturar escravos fujões. Sa bino Monte dirigente da Polícia no Ceará afirmou: ―Havendo suspeita de ter seguido para ahi como retirante. preferiam se guir o rumo dos vales. O Jornal Cearense.(. bocca regular. p. e embarcado para o Pará ou Amazonas.. ou sido levada por alguém uma escrava fugida de nome Maria ”. 29/07/1877. 15 de julho de 1877.transporte de migrantes entre o Ceará e a Amazônia? aprofundar o Enquanto ainda não debate sobre as temos elementos suficientes para Temos a embarcações. rios e florestas do Norte. exibiu o seguinte anúncio: Fugiu do abaixo assignado no dia 21 do passado o seu escravo Francisco. 05. 132 ----------------------. mulato claro. clareza de que a conexão amazônica já estava sendo mapeada por autoridades policiais e proprietários. cheio d nariz afilado. cebellos anelados. T em falta completa de dentes no queixo superior da frente (. Setor d Cearense. pés chatos.Page 133----------------------Junto ao lamento de senhores de escravos. remetido aos Chefes de Polícia de três Províncias do Norte. No o fício de 06 de setembro de 1878. em 29 de julho de 1877. Jornal PIMENTEL/CE.3 1 e corpo. Annuncios.

com (Editado pelo autor) Circuitos Maranhenses: atalhos de acesso à Amazônia alternativas: Para deixar o Ceará via terrestre. O familiares separados e. o porto de chegada era a cidade de São Luís. Séri e: Registro de Ofícios para diversas autoridades fora desta Província. devido ao excesso de passageiros nas embarcações. além de escra vos fugidos. Ofício n  78 Dirigido ao Chefe de Polícia do Maranhão. menores seduzidos por agenciadores. Seca 1878-1879. onde reside seu senhor . Fortaleza.32 descoberta. falta de Bons. ” Outros ofícios semelhantes eram encaminhados desde o Ceará na tentativa de localizar. Acaraú ou Camocim. é clar vulcão que entrou em erupção na Província do Ceará jorrava suas lavas nas irmãs do Oeste. Mapa 1: Colônias agrícolas no Maranhão e Pará. Estante 414. A diversidade de rotas mais para mapear o trajeto de migrantes. o.google. Fortaleza 06/09/1878 (os três ofícios citados possuem o mesmo teor e data) 133 ----------------------. capital da Pr negarem-se a . pronunciados na justiça. temos poucas socorros públicos no Maranhão reclamavam constantemente que os gêneros enviados pelo g overno não eram suficientes. e em direção pelo é ao Maranhão embarcando dificuldade informações. e da chegada de retirantes a pé. Lugares onde relatos 32 APEC . Caxias e Pastos de estiagem. Fonte: www. bros das Dos deslocamentos comissões de oceano.Page 134----------------------farinha e carne verde serviam de argumentos para proprietários contratar cearenses em suas fazendas.Ala 19. havia em a mem duas Ar atravessando os Sertões do Piauí acati. principalmente nas localidades próximas ao Rio Parnaíba (fronteira com o Piauí): Brejo. capturada e remettida logo para esta capital. Legenda: ■ Localização de colônias. Pelo mar. muitos não const avam nas listagens. Livro 393. Ofício n 80 dirigido ao Chefe de Polícia d Amazonas. Ofício n  79 Dirigido ao Chefe de Polícia do Pará. apenas uma terrestres. Fundo: Secretaria de Polícia do Ceará.maps.

Brejo. A orientação era distribuir os migrantes entre as fazendas para trabalhos n a lavoura. . de ou ain A agrícolas criadas Prado Pimentel durante a administração Graciliano (março e novembro de 1878. Lá. 33 Aqui temos a i magem clássica do retirante resignado. icial aponta Em contradição outra com a representação acima. Itapecu-Mirim. a comissão de so retirantes entre as comissões subordinadas no interior (Alcantara. Pastos Bons.. ao afirmar que entre ―o numero já cres cido de emigrantes ” a maior parte é composta de ―mulheres e meninos. p. financeiros. uma das coisas que vale ressaltar é a dualidade produzidos por membros das comissões de socorros públicos uma estratégia discursiva para sensibilizar os governantes. garantir e relatórios ser Poderia mais intenção recursos perceber em correspondência da comissão de Coroatá. abertura de estradas. Guimarãe s. Baixo Mea rim.) impossibilitado s de por si agenciar a subzistencia.). faminto e debilitado. a ilha habitada por 35 mil pessoas recebeu em seu p orto mais de 10 mil retirantes cearenses (SÁ. Viana. casas de câmara e cadeia. em obras públicas como construção e reformas de igrejas. Como podemos na de e discursos em as forças de ofícios policiais.. encaminhá-los para colônias ristides do construção as seis de pontes. Alto-Mearim. em virtude de seu padecimento phisico. somente no ano de 1878. Em mar ço o Delegado de voltam a se formar e colocar a propriedade privada e a or de 1879. da. Chapada. entre outros. Turiaçu. (. Rosário. a documentação pol imagem: as multidões dem pública em jogo. Ao analisar a documentação que a burocracia provincial produziu. limpeza de rios. Estima-se que. corros públicos distribuía os 1997.ovíncia. Pindaré e Grajaú).56-59). São Bento. ao lastimar Polícia do Alto a falta de destacamento. Mearim comentou: ―especialmente agora que a população aumentou com a immigração cearense.

Caminhar pelas localidades em qualquer condição era motivo para mobilizar a atenção das autoridades. entre os quais existem homens desmoralizados e turbulentos. depois da emigração. consegui ndo evadir-se com o auxílio de outros migrantes: Por occasião da prisão de Delmiro. 27/05/1878. através de abaixo-assinado Pedreira reclamavam da presença de ―cearenses emigrantes.34 e invadir em É neste relação aos ambiente de migrantes conflitos que a atenção redobrava da C cearenses. 134 ----------------------. os emigrantes res identes n‘esta e alguns dos centros reunidos em grupos vo-ciferavão contra as authoridades. Setor de documentos avulsos. moradores de de Completa dizendo ―este e desertores. a 22 de maio de 1877. termo por sua extensão é escolhido como valhacouto em que esta delegacia possa perseguil-os por falta de forças.na maior parte homens desmoralizados e desordeiros. após a tentativa frustrada de prender o emigrant e ―Delmiro de 33 APEM . Ofício omissão de socorros públicos de Coroatá dirigidos ao Presidente da Província do Maranhão. Em Caxias. Delmiro avançou com um facão contra o Delegado. Estes homens desmoralisados na mor parte são capazes de t udo seria fastidiozo innumerar os fatos desagradáveis que se tem dado nesta villa e termo. Coroatá. o Delegado comunicava que ―appar eceo um dos . Fundo : Executivo Provincial. sem que a Polícia por falta de força possa providenc iar. . e mostrarão que estavão dispostos a realisar os boatos que a dias grassava de que os emigrantes se macumunavam a atacar o destacamento a vila.Page 135----------------------Tal . Já em setembro. s criminosos No mês seguinte. o Delegado de São Luis Gonzaga implor ou pelo aumento do destacamento Policial. Série: Comissão de socorros públicos. Ao receber voz de prisão.ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO.

condição e profissão. solteiro.Setor de documentos avulsos. acompanhado por um escravo fugido. caso não houvesse suspeitas de que o sujeito fosse escravo. São Luís 24/09/1879. olhos ―pretos . estado. Se eve numericamente a a escravidão expressão que em outras Províncias. O que fazia que retirantes com mais coloração na pele tivessem de dar explicações às autoridades policiais para comprovar a sua condição de livre. Série: Correspondências dos Delegados de Polícia dirigidos ao do Delegado do Alto Mearim ao Chefe de Polícia. e dirigindo-se a uma se nhora armado de uma pistola. ” Ao anhão há cerca comentar sua de seis procedência. Ofício hefe de Polícia. Explica o motivo de Vapor Ceará: ―Tendo ido vender ter chegado clandestinamente no umas laranjas a bordo do mesmo vapor deixou-se alli ficar. natural de Baturité. e desejar que sahir estava do no de C Mar afirmou Fundo: 34 APEM . 1879. Secretaria Chefe de Polícia da Província do Maranhão. não podemos negar a presença africana através da mestiça gem existente entre os trabalhadores pobres e livres. Abaixo Assinado dos mo do Delegado Gonzaga. nariz ―chato e cor ―parda‘? Joaquim. naturalidade. radores de Pedreira. onde mal ganhava para sua subsistência. 12/04/1879. Seria pelas carac terísticas físicas de Joaquim: Cabelos ―carapinhos .emigrantes cearenses. Ofício Alto Mearim. Polícia. no Ceará. 35 A os era mais vigilância e a associação comum do que é verdade mesma que entre retirantes no Ceará e escrav não t podemos pensar. No auto de perguntas lavrado em dezembro de 1879. de São Luis Gonzaga ao C . Nos autos não era comum inq uirir pela ―condição ”. de aproximadamente 22 anos. agencia e livre. 18/03/1879. Pedreira. idade. visto não ter dinheiro para pagar sua passagem eará. afim de seguir para e sta provincia. Deve ter sido o caso de Joaquim Antonio da Silva. isto em tom ameaçador. o Delegado indagou por seu nome. que foi interrogado por estar ―c landestino na capital do Maranhão. exigio-lhe almoço para si e para o escravo.

Isidio acabou sendo . Isidio.. 1877. em agosto de 1878. talvez. também escravo. Série: Correspondências avulsos. o que poderia ser verdade ou. Destino diferente teve Isidio. aproximadamente 32 anos. por não se acharem matriculados. onde consta copia do auto de perguntas feitas ao fujão. Ofício do Delegado de Polícia de Caxias ao Chefe de Polícia. um recurso para omitir seu paradeiro. 22/09/1877. roceiro e es cravo. Chefe de Polícia do Ceará por estar o mesmo escravo pronunciado na cidade de Sobral. de nome Raymundo. o O periódico maranhense O da cidade do fugido do Ceará: ―vindo escravo de nome Isidio.Page 136----------------------meses e que antes da partida em Fortaleza ―trabalhava nas obras da Estrada de Ferr o de Baturité no lugar denominado – Callaboca. o que demonstra que estes cativos tinham noção não apenas de seus desejos por liberdade.37 Paiz. ” Encontramos nos meses seguintes u ma série de correspondências entre os Chefes de Polícia do Maranhão e do Ceará. cuja captura foi requisitada pelo Dr. Caxias. estavam “elles libertos em vi sta da lei.35 APEM . 135 ----------------------. de escravos Deveria ser uma referência à matrícula geral imposta aos senhores a partir de 1872. (. Após a fuga de Sobral.. noticiava a prisão do escravo Brejo para ser vendido.) próximo a água verde. os dois seguiram em direção à Baturité. Joaquim pôde continuar a agenciar seus serviços no Maranhão. Desde então perdera o contato com Raymundo . Após uma briga entre os familiares de seu senhor . era um sujeito que tinha consciência de seus atos. ficou sabendo que ele e um amigo. natural de Sobral. 36 Aparen temente. mas também das mudanças na legislação do Império. Mesmo tendo argumentos que poderiam dar amparo legal no caso de uma ação de liberdade.Setor de documentos Polícia. dos Fundo: Secretaria de Delegados de Polícia dirigidas ao Chefe de Polícia da Província do Maranhão.

e que insinuou que mudasse rancisca para Raymunda e foi logo dizendo na viagem que com ella respondente. (. Amazonas. ela. 28 de agosto de 1978 (Anexo copia do A uto de Perguntas feitas ao escravo Isidio. decidiu roubar uma escrava do dono da fazend a. Bahia.Arquivo P ublico do Ceará. após denúncia do s nhor da cativa. Todo o plano estava arquitetado. Fundo: Secretaria de Polícia. Rolo: 194. Vejamos o que disse Francisca na ocasião do interrogatório: 36 APEM . natural do lugar denominado ―Vaca braba ”. Alagoas. A experiência de trânsito pelo Maranhão poderia representar projeto de constituição de uma família.) fugio seduzida pelo cearense Joaquim José Sant‘Anna. São Luís. Jornal O Paiz. Porém. 136 ----------------------. onde respondia por crime de agressão contra o irmão de seu senhor. este que ninguém a havia de prender. Assim queria o migrante Joaquim José de Sant‘anna. Noticiário. 28/08/1878. Depois de trabalhar um ano e meio em atividades agrícolas. uma diligência policial. Goiás e Maranhão). Série: Ofícios recebidos de outras Províncias. aproximadame nte 20 anos. ―Raymunda . em Cururupu. ele passou a ser ―Manoel . ” Edição n 194. N  de ordem: 45. Fundo: Secretaria de Polícia da Província do Ceará. 02. “Captura.encaminhado para Sobral. Ofício do Chefe de Polícia do Maranhão dirigido ao Chefe de Polícia do Ceará. apresentavam-se os. Série: Delegac ias de Polícia – autos de perguntas.Page 137----------------------Sabe que foi preza por estar fugida seu senhor. os alcança. Auto de perguntas feitas a Joaquim Antonio da Silva . no Ceará. a ―cafusa ” Francisca. São Luís. Setor de Micr ofilmes. Caixa 16 (Espírito Santo. trocaram os nomes. São Luis do Maranhão 27 de agosto de 1878). quando estavam como migrantes cearenses e casad tentando fugir em direção à fronteira com o Pará. p. Disse mais que quando o cearense a tirou de seu senhor veio com ella em direção ao da caza de disendo-lhe o nome de F era cazado da caza . 16/12/1879.. N  56. APEC .Setor de Documentos Avulsos.. 37 BIBLIOTECA PÚBLICA BENEDITO LEITE/MA. lavrador.

o os havia quilombos. onde existiram o Limoeiro e o São Sebastião. . out que aparece é a ideia do Maranhão como ponto de passagem entre as Províncias do Ceará e Pará. Matta dos Bois. em Alcântara. Lugar terras que e rios ser dois negros um limite que caminho grandes lá até para 1852 a estrategicamente deveria ser fronteira. fazendo que sem circulando pelas matas que separavam as duas Províncias. A área que vai de Turiaçu. no alto do Pindaré. Receberam entre 200 e 800 colonos cad a. no Alto Me arim. nas terras do quilombo Limoeiro. Além disso. nas proximidades de São Luis. no Maranhão.porto de tumocatinga onde arrumou viagem para e sta cidade onde se demorarão huma noite e seguindo viagem pela es ate o redondo e ahi forão alcançados por uma diligencia mandada pelo senhor delegado de Polícia. elle de Manoel e ella de Raymunda. Flores. aladas a partir de maio de 1878. sendo o mais importante pertenceram deles o Gurupi. Se ição entre Maranhão e Pará. no Pará. duas delas estavam na região do Turiaçu: a colônia do Prado e a Amélia. civilizar as matas. A colônia que recebeu mais recursos e atenção . As out ras quatro foram: Santa Thereza. abrir estradas. instalada oficialmente em do governo foi a Colônia Prado agosto de 1878. Daí a importância de criar novas povoações. Disse mais que o destino do referido cearense h era seguir viagem para Viseu e do Viseu até o Pará passando como cearenses casados e com nomes trocados. no Rio Grajaú. é cortada por vários rios. ministração Das de seis colônias agrícolas Graciliano Prado criadas durante a ad Pimentel. destruídos em 1878. residentes ficas jurisd claro de mesmo não podemos dizer para migrantes e negros que circulavam por aqueles rios e matas. e Pimentel. controlado.38 trada qual chegarão Além da astúcia no plano de ―Manoel ” e ro elemento interessante “Raymunda ”. a Viseu. por era no entorno de Turiaçu. enfim. ao Pará. Inst começaram a ser desativadas no início de 1879.

Page 138----------------------rado não A escolha ocorreu por do lugar para mera a implantação da Colônia P coincidência. Colônia foi responsável pela no e diretor Sua de Cearenses. nas Limoeiro foi um dos proximidades da grandes Situava-se quilombos em uma da região do ligeirament divisa entre Maranhão e Pará. 1992. foi indicado como meado em maio de 1878 e exonerado entamento em de maio de 1879. Série: Corresp ondência de Delegados de Polícia ao Chefe de Polícia do Maranhão. Turiaçu. colonos com o Freire da Junior. nomeado motivos da indignação do Padre Jes de socorros e circulação comer capelão da Colônia. o objetivo era criar povoações para impedir a recomposição do quilombo. permanecendo somen te dois . pelo gestão marcada descont isolamento do terreno. uíta José Esse foi um dos Thomaz. Maria Raymunda. São Luís: SIOGE.39 38 APEM . Ofício do Delegado de Polícia da comarca de Tury-assu ao Delegado do Termo de Curupuru.Turiaçu. onde encontrava-se o núcleo. ver: ARAÚJO. 06/07/1879. 1992). e elevada. até tombar nos primeiros meses de 1878 (ARAÚJO. o que dificultava a circulação não só de seus habitantes. não teve tempo de exercer o sacerdócio. 39 A respeito das expedições ocorridas entre os anos de 1877 e 1878 pa ra combater o Quilombo Limoeiro (denominação dada pelos pretos devido à proximidade com o Igarapé Limão. mas também a chegada cial de possíveis produtos agrícolas. Existiu por mais de 40 anos e resistiu a duas invasões. onde os pretos Planície plantavam ―um pouco de tudo. também conhecido po r Montes Áureos por ser região de mineração e Gurupi mesmo nome do rio navegável mais próximo).Setor de documentos Avulsos. A invasão do quilombo Limoeiro em 1878. Não por acaso o Capitão Feliciano Xavier xpedição vitoriosa contra os mocambeiros. em julho. (org). Sobre formação 137 ----------------------. Fundo: Secretaria de Polícia.

433-466. p. em agosto de 1878. Rolo: 194. pelo que não me oppuz á proposta de 70 emigrantes. In: Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil. ―abastado ancião cearense ”. “deixando o dia 26. Padre e candidatos a colonos embarcaram em São Luis. o desembarque marítimo deu-se à margem esquerda do ―Rio Gurupy . A única missão cumprida foi o deslocamento de 500 emigrant es de São Luís à Colônia Prado. sua exoneração do cargo de capelão já estava assinada no Palácio dos Leões. tomou canoas com aqueles que quiseram ―voluntariamente a companhá-lo. 1996. no dia seguinte. São Paulo: Com panhia das letras. ” No rupi. Mathias Röhring. e FUNES. como pela desordem. De Viseu. na Fazenda Fortaleza.História e memória dos mocambos do baixo Amazonas. p. Contou que na chegada já teve ―não boas informações a respeito do Limoeiro . que em tudo lá reinava. 29 e 30 do mesmo mês. que logo em Viseu quizeram ficar. 467-497. acceitou o povo e lhe distribuio rações.40 Após a publicação do segundo trecho de ―Notas de minha viagem ao Limoeiro . na cidade paraense de V iseu. que demonstrou-se ―indispostissimo para receber em sua faze nda esta nova leva de machinas famintas! não ter. ―Quilombos maranhenses. enviou relato de via gem ao Jornal O Paiz. partiu povo para em direção à Colônia Militar do Gu Todavia por outro remédio atormentar o tenente-coronel dre seguiu na devido à falta de canoas para transportar todos. Setor de Micr ofilmes. O pa de quilombos no Maranhão e na Amazônia: ASSUNÇÃO. do Coronel Estácio. publicado em partes entre os dia 27. . 1996. Eurípedes. Jornal O Paiz. 40 BIBLIOTECA PÚBLICA BENEDITO LEITE/MA. de vido ―a má escolha da localidade para sede de uma colonia.dias no ―mocambo de brancos . A próxima parada foi à margem maranhense do Gurupi. I : Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil. a 21 de julho . ― ‗Nasci nas matas. Retornando à capital. São Paulo: Companhia das le tras. nunca tive senhor’.

aqui nos incurralar vê. pois estamos aqui inteiramente coagidos. Thomaz deu ouvidos a uma série de lamentações: Aquelle pobre povo todo em massa accercou se log o de mim. p. chegou a 29 de julho. novo mocambo de brancos! ” Se as notícias co lhidas no caminho não eram boas. 138 ----------------------. aqui tambem nos persegue e como prova. o restante do trajeto foi a pé. veja lá. 27/08/1878. Após baldeações e troca de canoas. às 10 horas da manhã. p. mas esta não tarda muito a concluir-se. 2ª parte: Edição n 195. ao porto da C olônia Prado.02. no meio da mata. um quar to de veado custa aqui 5$00 rs. 30/08/187 blicações Geraes. como Vme para estas brenhas. porque ainda conosco não s fazer o reconhecimento da re e distribuiu um só retalho das fazendas enviadas pelo governo! nos expatriou. e o que será de nós então?! Senhor padre. pelo amor de Deus faça com que nos deixerm sahir deste inferno. porque lá está no porto um destacamento com ordem ex pressa de agarrar a quem quer que tiver o atrevimento de querer embarcar! A cruel fome que Mais uma vez encontramos e negros fujões. junto com alguns pretos. o cruzamento de destinos de migrantes . sem ao menos te rmos a liberdade de podermos fugir. e todos quase ao mesmo tempo diziam-me – ah! Senhor padre. alcançou o ―antigo mocambo de pretos. 3ª parte: Edição n  196. 29/08/1878. e calangrinho verde 40 rs. Publ icações Geraes. 1ª parte :Edição n 193. 02. Pe. para gião e aguardar os demais no porto mais próximo ao Limoeiro. quase completamente em nudez. No dia 30.Page 139----------------------frente. E deste e de outr os animalejos se aproveitão até as tripas! ‗Por ora vamos sustentando-nos unicamente da mandioquinha dos pretos. p. corren do o ―suor em bicas . fomos en ganados! Conduziram nos am. ao chegar na Colônia Prado.“Notas de minha viagem ao Limoeiro . estamos.Publicações Geraes. 01.

quererem estes no ssos senhores obrigar de sabre em punho a nós brazileiros livres a termos permanenci a fixa neste lugar sem futuro.) tudo em prejuizo destes pobres mocambeiros cearenses. Con tudo. do Pe. aberta pelos mocambeiros para roubar gado. Ainda segundo informações fornecidas pelos migrantes a o padre. o capitão foi guiado por um “antigo preto ” e acompanhado voluntariamente por colonos q ue tinham a finalidade de ―tambem aprendel-a. Feliciano. Feliciano Xavier. estava Thomaz. pretos velhos serviam de guias pel os caminhos nas matas. que os acusavam de serem ―grandíssimos preguiçosos : (.Page 140----------------------percebeu que tratar com militares era infrutífero.. sendo o secretário também militar. Durante a visita lônia. vam a Os moradores do falta de interesse ―novo em mocambo ” ainda isolamento. encarregado padre ainda pela direção. O . Cap.Além da mandioquinha que alimentava os colonos. senhor padre. isolado de todo o mundo.. o diretor da co ausente pois foi explorar uma antiga estrada que ligava o Limoeiro à localidade Pa raná. afirma Rejeitava permanecer no local m discursos de devido ao seu completo “capitães de campo ”. ” No di a seguinte. nós deveremos onde por maneira alguma queremos permanecer? Não é a mais rematada loucura. tentou na propor ao secretário da colônia ausência do Cap. (. a transferência da Colônia para as margens do Gurupi. e que só por isso é que os pretos escolheram para mocambo? fazer casa e roçado. embora nesta longa viagem para por ella nos evadirmo corramos o risco de morrermos de cansaço victimas das febres! .) Pois. o clérigo retornou ao porto da que havia deixado na Fazenda colônia para aguardar os migrantes .. sua conduta ―é só a obediencia.. s. logo 139 ----------------------. e o mais descommunal despotismo.

Em corre spondência ao Presidente da Província do Maranhão. dos quilombolas. Em ofício ao Presidente da Província. de 07 de janeiro de 1879. A recusa e a gêneros alimentícios para o próprio sustento irregularidade do ritmo de trabalho. o que justificava o clamor pela continuidade do envio de recursos e colonos em direção às cidades para impedir a retirada d próximas que já estavam repletas de outros migrantes a cargo das comissões de socorros públicos. acoitados por dois indios (. o diretor do núcleo de cearenses no Limoeiro. a Prado e a Amélia. junto às epidemias e a carência alimentar. de lá voltou para a capital.) tornando-se p rejudicial a estada de taes pretos tão – Escuta . que daqui se evadirão. era o diretor o responsável pelo controle da entrada e saída de pessoas e por impor uma disciplina para o trabalho. Aliada às preocupações comuns a todas as colônias. ain da traziam o problema de estarem próximas às matas e rios de fronteira entre Províncias. e distante desta colônia de 12 a 14 leguas um já crescido numero de pretos.. nunca mais retornando ao Limoeiro. ainda er a importante ter uma ―sinêta ada um para que ―nella repetindo-se as horas marcadas pelo relógio. assim como as que são destinadas para as aulas que aqui temos. de 3 1 de outubro. até que seus habitantes passassem a colher os . alertou: Constando-me achar-se reunidos no logar – na Provincia do Pará. pode assim c Em uma tentativa evidente de internalizar por si regular seus serviços. uma nova disciplina de trabalho entre colonos.. eram apontadas por diretores de colônias como causas da baixa produtividade agrícola. Nas colônias.Fortaleza. O projeto do governo era assistir às colônias agrícolas somente por um período. qua ndo por mim forão perseguidos. o Capitão Feliciano Xavier solicitou ―um relógio para bem podermos regular as horas marc adas para o trabalho.

ou seguir em paralelo ao litoral. ens do pelas Rio direção ao Pará. que precizão de bastão para arrimo. quando o Cap. Podem ter aprendidos com os tomado as estradas. deixava evidente sua expectativa em relação à migração cearense: ―Si o immigrante Cearense procura t . Feliciano pedia orientação a Graciliano do Prado Pimentel. Se ainda eu lhes não dei já disse pertence aquelle lugar ao termo da Villa de Visêo na Província do Pará. 140 ----------------------. em junho de 1879. Presidente da Província do Pará. Exa. e por isso não podem fazer viagem por terra. Pará o portal da Amazônia: Colonização. abolicionismo e as fronteiras da le i Em contecer Maranhão.Suas cassa ordens é no porque sentido como perto desta colonia rogo a V.41 um grupo de cearenses levou do depósito da colôn ia armas e ferramentas que lá encontraram caminhos e fugiram. apresentavam um estado de saúde debi litada: ―completamente decreptos. Diante dos fatos. Belém. Os negros que afirmavam se rem do Pará e ―ignorão quem sejão seus donos . os pretos acabam permanecendo na colônia. A presença de negros já vinha sendo comunicada desde agosto de 1878. o desembarque aconte cia na capital. Feliciano. José Joaquim do Carmo. Joaquim Cassange e Cosme . Para aqueles que chegavam direto pelo mar. A possível acompanhar o curso dos rios e se internar na floresta. Em abril de 1878.Page 141----------------------Sabemos que. em direção à região bragantina. fronteiras do a entrada partir de de migrantes Viseu e poderia das marg a como vimos Gurupi era acima. de serem elles ali perseguidos. veredas e pretos e mocambeiros que conheceram pelas margens do Gurupi. após suspensão dos socorros e a exone ração do Cap. sobre o que fa zer com ―os pretos amocambados Francisco Cabindá.

caso não possam por si. strução define: Os que se quizerem dirigir para o Amazonas serão a hi transportados. conforme for determinado pela presidência (PARÁ. Turiaçu. e os que manifestarem animo de perm anecer n‘esta Província. logo que se possa fazer. Entre 41 APEM . Fundo: Secretaria de Governo.erras que dem lhe retribua o trabalho o Pará as suas terras. Ofício do Juiz de Direito da comarca de Tury-assú dirigido a José Caetano de Vaz Junior. em Santarém e agora em Santa Izabel e no caminho da Vigia. e no espaço de trez dias obter ar ranjo ou meio de subsistência em s. a principal reestruturação de núcleos núcleos existentes em ― ‗Benevides‘. obras ou na publicas por trabalho licito.Page 142----------------------- . 1-2). Subsérie: C olônias de Cearenses. em Tentagal. e a indenização aos cofres acesso à terra mediant A quarta in públicos e a proibição de que ―andem elles mendigando ou solicitando esmolas. enumera os xos p. 6 / Ane Entre as atividades foi a criação ou coloniais. Ofício do diretor da Colônia Prado Capitão Feliciano Xavier Freire Junior destinado ao Presidente da Província Graciliano Aristides do Prado Pimentel. serão empregados comprehendida a abertura e melhoramento de estrada agricultura. Visava orientar a manutenção da higiene e a moralidade nas ruas n a capital. (Era comum q uando o cargo de Diretor de colônia ou Comissário de socorros públicos estivesse vago o Juiz de Direito assumir a responsabilidade pelos recursos financeiros e distribuição de socorros).Setor de documentos Avulsos. agricultura. precisa de braços que fecun elaborou as ―Instruções provisórias para o serviço attinente aos retirantes cearenses que procuram a Província do Pará. 11/06/1879. Ofício de 31/10/1878 . de Gama promoção Abreu. Para tanto.Ofício de 07 /01/1879 – Ofício de 12/08/1878. distribuição de retirantes em postos de trabalho. 1878. VicePresidente da Província do Maranhão. p. em da 1879. 141 ----------------------.

p. a ―colônia ‗Benevides‘. s urgindo como um dos principais focos da luta abolicionista no Pará. Era reduzido de forças policiais. contava com ―cerca de nove mil habitantes (PARÁ. A colônia fundada em 1875. 2 Hes Suissos. 1879. Ao analisar as fontes. 4 português e explosão de 100 colonos ―71 franceses.eles. 10 italianos. 1877. percebemos a limitação do poder de autoridade s. 1 26 nacionais (PARÁ. perseguir al. 8 de junho de impedimento escravos fugidos 1879. Em pronunciados. saques a comércios e multidões de migrantes m as ações de massa sendo retomadas em novas terras. negros e imigrantes europeus. Seu po atualmente é um dos municípios da Região Metropolitana de Belém. na administração de Sá e Benevides. s em As atitudes de migrantes decorrência do número tinham às maiores praças repercussõe existentes em ger p ameaçando invadir vilas. foi plane jada para ser o celeiro da capital. possuía pouco mais panhóis. atingindo a cifra de 9 mil almas em 1879. a mais importante . em fevereiro de 1877. 42 Em seguida. Diferente das colônias do Maranhão. sua instalação foi anterior às migrações e 1877 e continuou a existir após a voamento teve continuidade. p. Belém. 20). e zona de contato entre sertanejos insubordinados. o e suspeitos . O projeto graças à sua localização a cerca de 30 quilômetros de inicial de atrair imigrantes europeus não obteve o sucesso esperado. 161). 3 belgas. Benevides merece atenção não apenas por ter sido a colônia agrícola a rece ber grande número de migrantes cearenses. Delegados de Polícia reclamavam de grupos armados de cearenses assaltando gado na Ilha do Marajó. teve uma demográfica após a migração de cearenses. mas também por ter sido palco de motins contra forças púb licas. ara realizar suas diligências. suspensão dos socorros públicos.

2006. 1870-1889). Caixa/Ano:1874-1879. Belém: Programa de PósGraduação em História Social da Amazônia/UFPA. em 1884. no dia 30 d‘este mês. que liquidou mui tos de seus cativos através do tráfico. Dentro deste contexto. por certas duvidas na casa da directoria. 44 Talvez fosse mais fácil ser abolicionista no Ceará.) pretende-se declarar livres todos os escravos ali existentes. (Dissertação de Mestrado). animada pelo movimento abolicionista de sua Província natal. São Paulo: Pós-Graduação em História Social/USP. 142 ----------------------.Page 143----------------------e porque Os ficou conflitos conhecida na colônia tiveram sequência.. Migrantes cearenses no Pará: faces da sobrevivênci a(1889-1916). Ofício do Subdelegado de Polícia da povoação de Nossa Senhora do Carmo de Benevides ao C hefe de Polícia do Maranhão. 2008. Benevides.Subdelegado de Benevides reclamou ao Chefe de Polícia do Pará ―um maior números de guard as para evitar a desmoralização da Polícia. ver: NUNES. (. 43 APEP . a ―colônia de cearenses prepondera no núcleo de Benevides . 43 42 Sobre práticas agrícolas e a rancivaldo Alves.ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ. 08/06/1879. Fundo: Secretaria de Polícia. principalment como ponto de acolhimento de negros fujões e clandestinos. A semente da seus companheiros se armar formação de Benevides. Há também a t de Franciane Lacerda que trata de migrações para os seringais. Referia-se à tentativa de prender um retirante que acabou em luta entre populares e guardas: ―A origem da luta foi ter sido pre so um retirante. Franciane Gama. F colonização: um estudo sobre a Colônia Agrícola Benevides (Pará. e am de cacetes e o tomaram do guarda. Série: Ofícios Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. Apesar do tom festivo da matéria do Diário e do ato que libertou 6 e scravos dia . foi fundada a Sociedade Libertadora oi saudada pelo jornal de Benevides. cidades e núcleos coloniais no início da República: LACERDA. Em março sua atuação f Diário de Notícias. (Tese de doutorado)..

sem que nada pudesse faz er. clandestinos em busca de . Setor de Microfilmes.) deposita na força Policial. Ao ser recebido de ―maneira insultante . Em junho de 1884. e são os primeiros a aconselhar a insurreição. o retor no das ações de retirantes e as memórias da grande seca de 1877. Podemos pensar também nas trocas culturais ocorridas entre cearens es e estrangeiros. 45 s Após 1880 e o fim foi suspensa pelos governos. Em 1888 e 1889. Jornal Diário de Notícias.. da seca. ou todos cearenses como a V. a estiagem. em seguida posto em liberdade. Temos indícios para pensar na construção de espaços de solidariedade. O que tra mavam na Babel de Benevides? Ações abolicionistas? Reivindicações dos colonos? Só temos a certeza da ―ogeri sa ” que ―esta gente (. a tensão em Benevides não delegado afirmou que talvez cessou. ao passar na frente da residência d o ―Francez Joseph Blain . no apagar de luzes do Império. Em 11 de setembro de 1884. o espanhol foi preso. 25/03/1884. já que ―da parte dos aqui residentes por serem quasi todos. Be lém. O cearense escapou. a concessão de passagen Contudo. Edição n  70. pela ação de agenciadores de trabalhadores para a extração da borracha e pe la busca constante de pobres. justificavam a retornada do incen tivo à migração 44 CENTUR/PA. desertores e novos espaços de sociabilidade e liberdade. decidiu dar voz d e prisão ao cearense. os deslocamentos continuavam ocorrendo pela iniciativa de parentes tent ando recompor suas famílias. Exª deve ter conhecimento. um ―hespanhol puxou o preso da mão d o soldado. o Sub chegasse ―a sessenta o numero de escravos aqui refugiados. Rolo: 45. percebeu grande algazarra e perguntou a um cearense que estava na porta o que acontecia ali.. Enquanto apitava para pedir reforços.30. um soldado do destacamento da Colônia Benevides.

Pará 1850-1888). Ainda em focos no Pará. de que existiam na localidade ―muitos vagabundos que não procuram . Ofício do Subdelegado de Benevides ao Chefe de Polícia da Província do Pará. Para esta rota Belém continua sendo a porta de entrada para a navegação nos rios amazônicos. 143 ----------------------. os argumentos a procura por trabalho e o principais para a solicitação eram chamado de parentes. Benevides. 46 Já em 1888. Benevides. Caio Prado.Page 144----------------------de cearenses. por parte do Subdelegado. 11/09/1884. No período o Presidente nistro da de Província no Ceará. tentou incentivar a condução de retirantes para as propriedades de sua família em São Paulo que oposição. Por todos os meios legítimos e legais: as lutas contra a escravidão e os limites da abolição. Ao analisar os 2003). Neste segundo momento. entre Belém e a Fronteira com a Guiana Francesa. 02. 03/07/1884.Diário de notícias. situada entre Belém de tensão provocados pela e a Ilha chegada para houve d 1884. Mas. irmão do Mi Agricultura. a reclamação. voltemos para as áreas próximas ao litoral. Série: Ofícios de Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em História Social-PUC/SP. já encontramos referências ao trabalho nos ser ingais e a extração da borracha já havia colônias agrícolas.Fundo: Secretaria de Polícia. (Brasil . A cidade de Barcarena do Marajó. produziam café (MORAIS. José Mai a. aparece na documentação como um dos e retirantes. 2009. 45 APEP . houve o temor de que os cearenses estivessem ―preparando-se no dia 24 véspera de Natal destruir o destacamento Policial. p. Caixa/Ano: 1884 Ofício do Subdelegado de Polícia de Benevides ao Vice-Preside nte da Província do Pará. Medida que sofreu muita requerimentos de passagem escritos por retirantes encontramos maior interesse pe las Províncias do Pará e Amazonas. (Tese de d outorado). sufocado os projetos de criação de novas como a migração para os seringais não é no momento o centro de nossa argumentação. Sobre as lutas abolicionistas no Pará: BEZERRA NETO.

nas colônias militares responsáveis pela proteção de fronteira e no Corpo de Polícia. Caixa/Ano: 1888. O que apresenta uma diversidade mentos. levando-nos ificar suas escolhas.Page 145----------------------A rota que seguia em direção ao Marajó. Ofício do Subdelegado de Barcarena ao Chefe de Polícia. Série: Ofícios de Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. responderem justiça 46 APEP . Caixa/Ano: 1884. de qualquer a pode em tentativa alguns crimes na casos de ter simpl facili ou presença de migrantes na polícia tado fugas de conterrâneos que estavam na clandestinidade por já terem desertado em outras Províncias. como também compondo as tropas. 47 APEP . Primeiro. Ofício do Subdelegado de Barcarena ao Chefe de Polícia. Série: Ofícios de Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. que está em condição de assentar praça na tropa de linha ou na armada único meio a meu vêr que póde regeneral-o e corrigil-o.Fundo: Secretaria de Polícia. 17/07/1888. a fugir Segundo. 47 O desafio de integração de novas populações em atividades vistas como pr odutivas por parte de autoridades policiais não era nada fácil. 18/12/1884. de questiona vamos encontrar migrantes do Ceará tanto em ações de combate à polícia. Barcarena.Fundo: Secretaria de Polícia. que foram É expressivo o número de migrante recrutados para a Guarda Municipal em Belém. depois Macapá e à fronteira com a G uiana Francesa já era conhecida por escravos fujões e desertores do Pará desde os tempos col oniais e pode . 144 ----------------------.trabalho em que se empreguem e que vivem constantemente embriagados e promovendo desturbios. Entre os casos ―torna-se celebre o Cearense Franco Ignácio Lira. uma dos meios poderia ser exatame nte através do recrutamento s cearenses às forças públicas. Barcarena.

ASSUNÇÃO. BEZERRA NETO. São Paulo: Cortez. temos aí uma s de vida da invisibilidade possibilidade pobres.Page 146----------------------Referências bibliográficas ALBUQUERQUE JÚNIOR. Ceará-Amazônia. Com o Boom da borracha. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Gradu ados em História Social-PUC/SP. Edson Holanda Lima. Com o término da es as fugas de escravos nessas regiões foram substituídas de migração clandestina (GOMES. 1996. que se manifestavam circulavam também em seus hábitos alimentares. São Luís: SIOGE. (org). Maria Raymunda. 2009. . (Brasil. 2009. p. Pará 1850-1888). 145 ----------------------. e estar. pelo movimento comunidades camponesas. ―Quilombos maranhenses.ter sido uma das escolhas tomadas por migrantes cearenses: As deserções e denúncias de fuga ena continuariam no século XIX. a região do Amapá seria ainda mais atrativa para desertores e mesmo invasores estrangeiros. de Aposta tirar que modos suas fica experiência mais de ser atribuída a maioria dos migrantes cara se pensarmos em entender também que para além de indivíduos. ver e ler o mundo. BARBOZA. A invasão do quilombo Limoeiro em 1878. modos de falar. 433-466. ―A Invenção da Amazônia: migrações. 1992. p. ARAÚJO. p. A Invenção do Nordeste e outras artes . luta pela terra e conexões étnico-culturais. In: Anais do XXV Simpósio Nacional de História – História e Ética. Os moc ambos transformar-se-iam em cravidão no Brasil. pois. Durval Muniz de. José Maia. Mathias Röhring. Por todos os meios legítimos e legais: as lutas contra a es cravidão e os limites da abolição. festas. 1999. Recife: F JN. 2007. 1870/1915. ritos religiosos.1-11 (CD-ROM). (Tese de doutorado).215). São Paulo: Companhia das letras. Fortaleza: ANPUH. vivenciadas por retirantes junt em direção a Cai o com As zonas de contato comunidades de origem africana e indígena nas áreas do Marajó e Amapá ainda estão por ser estudadas. Fica o desa fio de descortinar a penumbra que cobre os circuitos trilhados por migrantes cearenses nos anos finais do Império. In: Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil.

Flavio. PARÁ. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. MORAIS. Falla com que o excellentissimo senhor doutor José Coelho da Gama e Abreu. ―Negros no Ceará. 2000. do Livro do Comércio. Fortaleza: Museu do Ceará. NUNES. no dia 18 de outubr o de 1877. quilombos e comu nidades de fugitivos no Brasil. Belém: Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia/UFPA. Francivaldo Alves. p. Flávio. Belém: Typ da ―Província do Pará . 1877. Dr. REDIKER. Frederico de Castro. 1878. 2007. 1879. apresentou á Assembléia Legislativa Provincial. abriu a 2ª sessão da 21ª legislatura da Assembléia Leg islativa da Província do Gram-Pará. Falla com que o exm. Exc. In: Uma nova História do Ceará. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 2000. A hidra de muitas cabeças: Mari nheiros. Eurípedes. Viviane Lima de. (séculos XVIII-XIX). ―Entre Fronteiras e sem limites: espaços transnacionais e com unidades de fugitivos no Grão-Pará e na Guiana Francesa (Séculos XVIII e XIX). 2008. GOMES. (Dissertação de Mestrado).História e memória dos mocambos do baixo Amazonas. Fortaleza: Secult. Razões e Destinos da Migração: Traba lhadores e Emigrantes Cearenses pelo Brasil no final do século XIX. Relatório que o S. p. 1877. 187. (Dissertação de Mestrado). Belém: Typ da ―Província do Pará . escravos e rebeldes no Atlântico revolucionário. Campinas: Editora da Unicamp. 2005. PARÁ. GOMES. retiran tes e operários (1877-1880). Belém: Typ. PARÁ.CANDIDO. nunca tive senhor’. 103-132. LINEBAUGH. por occasião da instalação de sua se ssão ordinária. A multidão e a história: saques e outras ações de massa no C eará. João Bandeira de Mello Fi lho abrio a 2ª sessão da 20ª legislatura da província do Pará. Eurípedes. A semente da colonização: um estudo s obre a Colônia Agrícola Benevides (Pará. p. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Gradu ados em História Social-PUC/SP. José Joaquim do Carmo abrio a 1ª sessão da 21ª legisla tura da Assembléia Legislativa da Província do Gram-Pará em 22 de abril de 1878. 467-497. Fortale za: Fundação Demócrito Rocha. Pre sidente da Província. In: Trânsitos Coloniais: diálogos críticos Luso-Brasileiros. São Paulo: Unesp. Franciane Gama. 2008. Dr. 1870-1889). MARANHÃO. A Hidra e os Pântanos: Mocambos. Trem da Seca: sertanejos. FUNES. . 2005. NEVES. em 16 de junho de 1879. 1996. ― ‗Nasci nas matas. Snr. Marcus. 2003. (Tese de doutorado). Tyrone Apollo. Snr. Migrantes cearenses no Pará: faces da sobrevivência(1889-19 16). Francisco de Sá e Benevides. Dr. Maranhão: Typ. Peter. São Paulo: Companhia das letras. São Paulo: Pós-Graduação em História Social/USP.217 LACERDA. Falla com que o exm. Do Paiz. FUNES. em 15 de fevereiro de 1877. In: Liberdade por um fio: História dos quilombo s no Brasil.

“Catirina minha nega. A partir do trabalho conheci Reyita. porém. Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em História Social-UFC. (Monografia de Graduação). pode pontos de vista. (Dissertação de Mestrado). que nasceram no iníc io do século XX e percorreram este século criando es que a discriminação racial impunha a elas e a seus familiares. TEÓFILO. O Paroara – Romance. brasileira e Reyita. origem . 20 05. 2007).Page 148----------------------BRASIL E CUBA: DUAS MULHERES NEGRAS ENTRE A NATURALIZAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO E O CONFRONTO Orlinda Carrijo Melo Fac uldade de Educação – UFG/PPGE atégias de Este artigo sobrevivência tem de como duas objetivo analisar as estr mulheres negras. 1922. A imigração de cearenses no Maranhão (1877-1879). Pero Rio de Janeiro. São Luis : UFPA . TEÓFILO. 147 ----------------------. Bauru: E DUSC. José Hilário Ferreira. m ser As relações entre analisadas sob vários história. Mary Louise. 1998. Amaru Marimbá”: O Ceará no tráfico interprovincial. Rodolfo. educação e essas das artigo.Page 147----------------------PRATT. cubana. Pero. Fortaleza: Secretaria de Cultura. Iracema de Jesus Franco de. teu sinhô ta te querendo vende. nunca mais ti vê. 1877-1880. SÁ. particularmente. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Rio de Janeir o: Imprensa Inglesa. já de Dionísio Lázaro Poey Baró táticas para enfrentar as dificuldad Sebastiana é apresentada através de uma pesquisa desenvolvida por mim (MELO. Rodolfo. Sebastiana. 1997. sociedade neste mulheres de e mulheres o foco humilde. se direciona para as práticas e representações produzidas por sobre família. 18 501881.146 ----------------------. 1974. História da Secca do Ceará. (2009). SOBRINHO.

mãe . p. 2009. O modelo estabelecia .para atingir esses tradicional . na sua proposta de valo rização da escola. a qual tinha muito arr aigo na sociedade espanhola [e portuguesa].ainda que não fosse possível cumpri-lo na prática . A unidade elementar. na religião e no processo educativo. Se ia o e desenvolvimento e o progresso da tecnologia. tanto na escola como fora dela.12).filho. rganicismo o positivismo científico de Spencer estavam e social de Comte e o o enfrentar um mei aut presentes no pensamento educacional brasileiro e cubano.religião. haveria 148 ----------------------. p. tendo como cenário o racismo nos seus países de origem. pai . De acordo com Baró (2009. e legitimava-se ideo logicamente com as doutrinas da religião católica.antítese da mod implicavam a difusão da ciênc . O evolucionismo de Darwin. pode revelar ―muitas informações sobre a realidade social e sobre capacidade do indivíduo para adaptar-se e/ou o hostil e continuar vivendo (BARÓ. Esses eram os traços básicos de modelo de família que os espanhóis levaram a Cuba e os portugueses ao Brasil. Guardadas as devidas diferenças. Isso tudo era próprio de um país com cultura marcada pelo patriarcalismo. o projeto educacional proposto pa ra orientar a escola no Brasil e em Cuba absorveu referenciais teóricos europeus e norte-americanos. com ascendência bil ateral (patrilinear e matrilinear).Page 149----------------------necessidade de reconstruir a escola ernidade . a concepção de família introduzida em Cuba pelos colon izadores espanhóis. 16). e no cumprimento nas funções de prover o sustento econômico e a responsabilidade por impor as normas culturais internas que a famíl ia devia seguir.uma orientação patrifocal quanto às relações de oridade no seio familiar. era tipicamente nuclear. É possível dizer que a vivência dessas mulheres na família.

―não um branco para ―deixá-la atrasar . apesar de o discurso oficial do governo revolucionário de Fidel Ca stro negar todo o tipo de discriminação. estava é implícito importante a in indaga chegou também às escolas. 2002. áreas como Di Sociologia foram consideradas fundamentais para as mudanças nas instituições educativa s. Reyita ressalta que ―não é demais dizer que amo minha raça. a reconstituição dos conceitos liberais fundamentados na idéia de progresso que implementariam a modernização da escola. social ferioridade da raça negra. principalmente. re segundo Sant´Anna (1992. mas casar com um branco naquel a época era . As presentaram. 23).objetivos. dática. Cab eria às elites locais introduzir os valores do mundo civilizado nas relações sociais. suas práticas frente a esse ideário? Como estruturaram suas relações familiares e religiosas tendo como contraponto um processo educativo restrito a poucos? numa Reyita sabia muito bem sociedade discriminatória o que significava ser negra como a de Cuba. Psicologia e p. a educação ―moderna que nesse ideário político. no ideias plano escolanovistas. Reyita repetia o discurso de seus antepassados qu e era necessário ―adiantar a raça . a Nação e o Povo. 52). Biologia. Assim. deveria casar-se ―branquear seus filhos e todos os seus descendentes porque. Com esse objetivo. baseadas em Dewey. eles poderiam alça r melhores posições na sociedade para lutar contra todas as formas de interdições. Vale dizer construíram seus significados. da mulher negra. que amo os negros. econômic as e culturais (SANTOS. assim. Por isso. político. MONTEIRO. p. Todos os males seriam solucio nados pela educação e ―a ela caberia construir e formar simultaneamente a Pátria. r: como Sebastiana e Reyita e educacional A partir daí. Ou seja.

sejam sociais. já na vida adulta. Tornou-se uma líder na família e nas organizações sociais das quais participava . 89 anos. do onde mundo ele ensinava da crianças alfabetizou-se e não tinha medo s os tipos de impressos que escrita. aliada a outras. a levou a participar de vários movimentos sindicais e governamentais para erradicação de todas as formas de exclusão.Goiânia . . jovens e adultos. com ele formou uma família mas que a respeitou estruturada nos valores disseminados pela fé católica. Não na esco la formal. O casamento foi para ela a consumação de uma das estratégias de vida qu e. 54). raciais e educacionais.Page 150----------------------conferiu poder na comunidade. mas ouvindo um professor na janela que separa o l ocal de seu trabalho em um restaurante da sala de aula a ler e a escrever. no Curso Normal. bus cou na educação. 2009. baseada na religiosidade que também lhe 149 ----------------------. Lia todo circulavam no seu meio e discutia-os com outras pessoas. Ao mesmo tempo. pobre e sem estudos. Portanto. políticas. Também alfabetizava criança s. buscou a leitura e a escrita. Criou uma estrutura familiar.uma mulher negra destacou-se: Sebastiana.vital (BARÓ. porque tem que trabalhar dia e noite. pobre. p. apesar ainda das muitas discriminações. na nova capital do Estado de Goiás . Filha d e pais pobres que lutaram com muita dificuldade para criar e educar os filhos. Religiosidade que fundamentou-se na sua fé católica e nas tradições africanas de seus antepassados. ca sou-se com um e homem negro. No sertão do Brasil. empregada doméstica e benzedeira. Essa mulher ousada percebeu que ter a posse do saber representava entender as formas de poder e. para tanto. uma profissão para lhe assegurar uma vida melhor. Sebastiana.

de maneira restrit a: eram espaços pagos. Nesse espaço Sebastiana. Eu tinha uma . 1998. aos poucos. A primeira sobrepõe-se à última.Sebastiana. através do seu trabalho. tornou-se uma livros. I nterdição que foi reconstruída na escola de seus filhos: ―lá a leitura oralizada irá servir para o controle do grupo. Dona Sebastiana integrou-se. Os valores projetados na nova cidade também exigiram novas práticas educativas que . escola particular para os seus filhos. enquanto que a silenciosa reveste-se de categorias morais (PARK. frequentava a igreja e apropriava-se das leituras da bíblia. na nova capital. 1998. mas não podia comprar empréstimo. Era católica fervorosa. poesias e revistas com outras leit oras. O almanaque não fazia parte desse universo profissional. repassando esses valores para seus filhos. estando nos arredores da elite intelectual teve que se render ―à leitura reservada aos intelectuais. 180). Tem gente escritora que lê o almanaque e finge que não lê . Com efeito. da vida do s santos. entre a As ambivalências de Sebastiana ―empurram-na escrita e a para um diálogo pequena biblioteca particular oralidade (PARK. é que lhe abriu essas por tas: lia os livros dos patrões. Dizia ela: ―ele s são os livros da sabedoria popular. mas estava pre sente na sua família. Lia também os almanaques. p. a derindo às novas práticas de leituras pal de Goiânia. livrarias. p. a do trabalho intelectual [que] é silenciosa. aos no vos espaços urbanos de leitura. A proximidade com a elite cultural. Esta mulher lutadora. compartilhava leituras de romances.172). gratuitas na Biblioteca Pública Munici desligou-se da leitura dos almanaques. pela via do grande leitora. E mesmo porque seus filhos estudavam na ―es cola paga e só liam os livros representados como ―bons livros .

Não tinha com quem deixar. Essa leitora benzedeira está na encruzilhada do labirinto: ―De um lado. Há dois ―eus que se digladiavam. É preciso a leitura. e. ela divide o eu (FRAISSE et al. Ela partilhava a ―ilustração valores. a escola. A sua vislumbrava o ensino técnico como a salvação. Eu levava cedo e buscava à tarde. como nos cartazes . a pessoa ―se informa e se forma lcançaria o sucesso que o processo de urbanização exigia. 1997. essa clivagem fazia parte da vida de Sebastiana . 36).levassem à qualificação do trabalho. a da casa. a doméstica ―por causa da doença de Chagas do marido pedreiro . o seu Curso Normal. Mesmo sendo de cor. a leitura de livros e jornais e a escola particular dos filhos não foram suficientes para o desfrute dos valores renda familiar era pequena e ela do progresso. de outro. a do bairro. pagava a escola particul ar para 150 ----------------------. p. No com a elite intelectual e aderiu aos seus faces: entanto. Como se percebe. como no cinema. meu s filhos eram bem tratados pelas professoras Sebastiana usava (ENTREVISTA. Observe-se que estratégias e táticas para a penetração dos valores da escolaridade na família de baixa re nda. a leitura como ―ilustração ficaria para um outro momento. houve a propagação do discurso neolibe ral de que pela leitura e pelos estudos. Para esses. mas também do filho mais vel ho. Como se vê. A tensão cultural. tem duas ela se manifesta nas relações com os outros. o lugar em que a vida é como n os livros. a realidade social.Page 151----------------------seus filhos: ―Meus filhos estudaram na escola paga. a valor ização . leitora voraz. ―progredindo . não só do marido. portanto. o ensino pa ra subir na vida. 2000). Nesse sentido. tornou empregada Sebastiana. mas que Na se esteira desse discurso.

driblou as várias formas de discriminação. científico moderno. po rque esses livros não a certificavam como uma mulher que queria ter seu lugar reconhecido na sociedade . Es ses livros tinham dois objetivos: ―alimentar o espírito dem instaurada. pobre e estudou e se formou. mesmo que o saber científico não validasse essas práticas.do trabalho técnico veiculado em nível internacional e nacional foi apropriada na no va capital pela elite intelectual. Ela. Buscou outra saída: o refúgio nos livros religiosos de benzeção que herdara dos seus antepassados. Sebastiana. meus filhos eram bem tratados pelas professoras . que se eximiu desse trabalho. Desse modo. e pelos trabalhadores que o ide alizaram como uma ponte a ser construída na estrada do progresso. Essa fala indicia uma afirm ação do racismo a que Sebastiana se submeteu e que ela queria deixar esquecido. que se casou com um h omem negro. ela também alimentava da bíblia. Nessa o espírito não só pela leitura representação mística da cura de doenças pela benzeção. não conseguiu ―naturalização do racismo quando falava da educação dos filhos que ―mesmo sendo de cor. fortalecendo s eu poder de benzedeira. que seguem à fruto a posição risca da seus tradição social e as doenças d Esse saber. ao curar brancos e conhecimentos estruturados na tradição dos seus antepassados oral. Era necessário seguir os modelos da v da dos santos. certificando profissional que tanto ela 151 à Sebastiana . mas também pela e ―curar as pessoas através da benzeção. Sebastiana se tornou apta para ―interpretar o mundo. Mas. essa leitora negra não lia só romances da elite intelectual. por isso era respeitada como a guardiã das crenças populares. Ela sugere a ser normalista. conviveu com o saber negros negros. apesar de ser professora.

as escolas não contratavam professoras negras para dar aulas. os seus descendentes. a partir daí instaurou seu poder perante sua família e a comunidade onde viveu. diferenciadas em relações às questões políticas e .----------------------. mesm o quando não tinha estudos. já que. fundamentais para posicionamentos sobre a problemática do racismo no Brasil e em Cuba. seria para ajudar a educar todos o marido doente. Nunca houve cobrança para esse trabalho. Na duas mulheres criação de guerreiras. segundo ela. Essa felicidade criaram para seus foi fruto das possibil descendentes. Já Sebastiana naturalizou havia ainda pouco espaço na nova capital. uma vez que essa luta era primordial para o racismo. Contra o racismo. Reyita nunca aceitou ser empregada doméstica como Sebastiana. Dizia que a renda do seu pequeno negócio particular. quando percebeu que ela. cada uma a seu modo. alcançaram ―uma felicidade extravagante .Page 152----------------------perseguira. Sebastiana. como diz Borges idades que elas (1983). negras e brancas. sociais do Com posições racismo. Reyita se posicionou participando de várias orga nizações. construída pelos brancos para movimentos a nti-racistas. mas as pessoas lhe retribuíam c om presentes que ela passava para os mais pobres. viu no seu emprego doméstico a única saída para a educação dos seus filhos e netos. e significados essas guardadas as devidas que sedimentaram as diferenças. ao contrário. com sem opções de trabalho numa cidade em construção. suas construíram sentidos relações familiares e religiosas. criando novas sociabilidades e múltiplas sensibilida des. Foi à luta alfabetizando pessoas pobres. estratégias e táticas de sobrevivência. benzendo-as para curá-las das doenças e. um restaurante simples. Reyita e Sebastiana.

priorizaram nas suas vidas. operários simples. mas nunca ninguém ficou fora da escola. 64 bisnetos e 7 tataranetos. curtos. licenciados. por causa de casamentos com brancos e brancas. Poey. Cabelos ngenheiros. Departamento de História/ UnB. crespos. BORGES. Brasília. também queria. Têm e professores. técnicos médios. sobretudo. A biblioteca de Babel. menino não pode ficar sem estudar. Jorge Luís. Lisboa: Terra-Mar. (Doutorado em História). até de ol hos claros.Page 153----------------------Com essa fala. izados e. Aqui tem advogado. todos organ de preconceitos raciais. Tentei dar estudos para todos os meus filhos me só o curso técnico.essas mulheres negras. de uma maneira sutil e astut a. Dionísio L. Pode-se dizer que Sebas tiana e Reyita ainda teriam muitas histórias para contar uma para outra. (REYITA) Tenho uma família grande e querida: 9 filhos. Mi nha luta era formar todos para ter profissão e ser crentes a Deus e respeitados. livres . mulatinhos. muitas professoras e tam bém professores. como Reyita. (SEBASTIANA) smo que seja 152 ----------------------. É muito linda minha família! Parece um arco-íris: brancos. REFERÊNCIAS BARÓ. acredito que Sebastina. tataranetos. longos. macios. técnicos em computação e cabeleireira. bisnetos. Daí porque uma diz para a outra: Agora somos 118: 8 filhos. neto s. enfermeiras. sararás. o branqueamento dos seus descentdentes como uma das possibilidades de interdição da discriminação social a que ela foi submetida na sua vida. 1983. Estratégias de sobrevivências das mulheres negras cubanas no sécul o XX : Reyita simplesmente. Tese. negros. DF. Tenho filhos e netos na Suíça ond e trabalham e estudam. 39 netos. Enfim. Para nós pobres. 2009. E o que é mais interessa nte é que na minha família estão nascendo crianças brancas. a educação e a religiosidade como contraponto desse encontro.

bem como pelo estabelecimento de um paradigma cognitivo afrocêntric o. al. Goiânia: Editora UFG . numa perspectiva afrocentrada. O Brasil de Olavo Bilac: a construção política de uma identidade nacional. Apresenta a ex periência estética e política de Solano Trindade (1908-1974). Histórias e leituras de almanaques no Brasil. SP. (Mestrad o em Educação). SANTOS. 2007. from an afro-centered perspective. J. C. e MONTEIRO. Intelectuais negros. MELO. que vincula à ancestralidade africana a experiência diaspórica do negro na construção de um novo conhecimento sobre o mundo. Abdias Nascimento (1914) e Oliveira Silveira (1941-2009). não universalista e não essencialista. Campinas. 2001.1958). Representações e imagens da leitura. A mítica do progresso (1955 . Dissertação. 153 ----------------------. 2002. R. 1992. no que se refere à maneira pela qual ações no campo da cultura e da política estavam baseadas na representação da África como o centro referencial particular ancestral. PARK. SP: Mercado de Letras. v.FRAISSE. E. et. SANT'ANA. A invenção da cidade : leitura e leitores. Margareth Brandini. Pro-Posições. n  2. A. E. maio/agosto. São Paulo: Ática. Revista da FE/UNICAMP. PUC. como expressão de ativismo afrocentrado. São Paulo. Campinas. Cultura histórica.Page 154----------------------PROTAGONISMO NEGRO NUMA PERSPECTIVA AFROCENTRADA EXPOSITORES: Elio Chaves Flores (PPGH/C CHLA/UFPB) Alessandro Amorim (PPGH/CCH LA/UFPB) Danilo Santos da Silva (PIB IC/CNPq/UFPB) RESUMO O presente trabalho procura pensar o protagonismo negro em sua s mais significativas formas de expressão. 1997. ABSTRACT This research aims at reflecting upon the leading performance of black people in their most significant forms of expression. M. 13. PALAVRAS-CHAVE: Afrocentrismo. a partir da experiência quilombista. Orlinda Carrijo. S. It presents the aesthetic .

p e . KEY-WORDS: afro-centered perspective. numa inicialmente.Page 155----------------------I. O conceito é uma proposta teórica e uma abordagem pistemológica elaboradas pelo pensador afro-americano Molefi Kete Asan te48. pouco conhecido. as the expression of afro-centered activism. as well as the formation of an afro-centered cognitive paradigm that links to the african ances trality to the experience of the black diaspora in the development of new study fields about th e world. Abdias Nascimento (1914 ) and Oliveira Silveira (1941-2009). práti ca e perspectiva que percebe os africanos como sujeitos e agentes de fenômenos atuando sobre sua própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses humanos . 154 ----------------------. é buscar categoricamente no conceito ―um tipo de pensamento. já muito nos remete tanto a perspectiva ainda afrocentrada. referir-se a África como o lugar da centralidade negro-af ricanadiaspórica. Ele ica. rega rding how actions in the field of culture and politics were based on the representation of Africa as the center of reference in ancestrality. 93). Abdias Na scimento e Oliveira entaremos.and political experience of Solano Trindade (1908-1974). quanto apres di diaspór polêmico. (2009. Segundo Asante. seja a experiência partir do século IX. de 1980. neither universalist nor essenti alist. o Afrocentricidade. a partir do seu livro Afrocentricity: the theory of social change [Afrocentricidade: a teoria de muda nça social]. conceito scutido de e Silveira. quando os árabes iniciaram o tráfico naquele continente. ou a partir do século XV quando os europeus inauguraram o tráfico atlântico. africana. historical culture. black scholars. from the experience of quilombos. Introdução Para falarmos do protagonismo negro em Solano Trindade.

lingüista Pompée-Valen Há Théophile Obenga. 42). como da abordagem afrocentrada recen (2009. de 2007. por exemplo: o cie ntista e e intelectual senegalês classicista congolês os Cheikh intelectuais e Anta Diop. Já escreveu mais de 400 artigos e ensaios para revistas e livros.mento (2009. em l964. co-editado com Ama Mazama. Considerado p or seus pares como um dos mais destacados estudiosos contemporâneos. Louis-Joseph Janvier também uma série de entre outros. pp. Um Manifesto Afrocentrico. negada utodenominou o único dono da ciência. em l965. Disponível: <http://www. Nascimento e Finch III e escamoteada por um Ocidente que se a Outra missão é levantar. 155 ----------------------. ―tratados e depoimentos elaborados desde o século XVIII por africanos subm etidos ao 48 Molefi Kete Asante (nascido em Valdosta. Segundo Charles S. estudar e artic das expressões atuais da matriz africa .asante. de 2008. Concluiu seu mestrado na Universidade Pepperdine.Page 156----------------------holocausto da escravatura mercantil européia ainda enfatizam que: Uma missão te é desvelar e estudar essa produção. de 2010. A História da África. 38-9). p. ular as bases teóricas e epistemológicas na de conhecimento. é professor do em 14 de Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Temple. tin (baron de haitianos Hannibal Anténor Price. um retrato intelectual. Vastey). Firmin. o historiador. entre os quais estão: Maulana Karenga. agosto de 1942). Asante publicou 70 livros. a Finch III e Elisa Larkin Nasci proposta do pensador estadunidense deve ser entendida como a continuidade de uma longa tradição de estudos realizados e língua inglesa que por autores africanos e diaspóricos d desenvolveram o que eles denominam de abordagem afrocentrada. Enciclopédia dos Estudos Negros. Acesso em: 14 ago. 2010. de 2004. Graduou-s e no Oklahoma Christian College.net/ biography/>. na Geórgia.

do nacionalism o panafricanista. autores afrocentrados contemporâneos. da através: da primazia anti-hegemônica do l Charles S. Elisa comunitarista Larkin Nascimento nos apresenta. da apropriação da língua e da linguagem d para melhor reagir a dominação. a Afrocentricidade começa a se firmar enquanto campo de estudos. Abdias Nascimento. Nobles. Wade Finch III. No Brasil.a filosofia religiosa tradicional. Mekada Graham. 2009. a obra Afrocentricidade: de 2009. . Vân Asa Bankole. Mark Christian. a partir da obra Introdução aos Estudos Negros. 42). que pro põe aos eus afro-americanos sete princípios a celebração que denomina de da semana filosofia do Kwanzaa africa e s fundamentam o que ele na. ligado sempre antirracista. o colonizador p. para postular a constituição de uma extensa rede de conexões entre o continente mãe e os diversos espaços de dispersão dos seus povos. uma uma abordagem série de epistemológica inovadora. Katherine G. ugar (África). a luta do seu protagonismo antiescravista e resistente. de Maulana Karenga. ia Maria da Silva Bonfim. por meio de uma coletânea de textos sobre o tema. A característica principal e o foco central dessas duas missões é a agência dos africanos na própria narrativa (2009. W. 40). Re iland Rabaka. Nos Estados Unidos. p. das suas ligações com a ―matriz da filosofia religiosa e as tradições ancest rais (NASCIMENTO. Hilliard III Maulana Karenga. e critica ao eurocentrismo. Intelectuais e ativistas como Ama Mazana. da utilização de línguas e linguagens originais ou próprias para falar sobre as tradições ancestrais. da ênfase na pluralidade do conhecimento. A afrocentricidade destes pensadores indaga os padrões de conhecime nto que o ocidente construiu sobre as histórias e as culturas africanas e diaspóricas.

deste diante conceito. legalizada ou não. um dos heróis negros da Diáspora. que não expre deve ser a quilombismo Essa história. de o conceito de nossa de da afrocentricidade no Brasil. Para enfatizar essa ―tradução optamos ssa a população história por trabalhar com experiência da negra no decorrer de 1500. mas a do 20 de novembro de 1695. p. o quilombismo pode ser entendido como toda estra tégia de sobrevivência física e mental. O quilombismo de Abdias Nascimento. como enfatiza o próprio A sante: ―Afrocentricidade povos africanos é a conscientização sobre a agência dos 156 ----------------------. desenvolvida em beneficio da comunid saber. Abdias Nascimento e Oliveira Silveira. O quilombismo contém uma proposta de desconstrução do estigma elaborado durante o processo histórico colonial em torno do legado negro-africano. do conhecimento científico e filosófico. 1822 ou de 1888. É uma teoria política e social que se baseia na experiência histórica comu nal Comunalismo dos é uma experiência quilombos que. 2009.reensão procuraremos a produção Assim. não tendo indícios de quilombos na África. Afinal. II. embora tenha raízes na África. De forma simples.Page 157----------------------(NASCIMENTO. 94). . dessa busca inicial pela entre comp este e expor e problematizar de Solano as relações Trindade. tipicamente brasileira. Estigma q ue visa apagar a memória do das realizações dos povos de origem africana. É uma categoria analíti ca que se baseia no processo histórico-cultural brasileiro das massas negro-africanas . dia em que as forças do colonial ismo branco assassinaram Zumbi dos Palmares.

rep resenta não só a busca através de uma da liberdade. E f alar de Abdias Nascimento . É quando Abdias Nascimento apresenta o negro como sujeito ativ o na formação da cultura nacional através do Teatro Experimental do Negro (TEN). Podemos dividir o protagonismo de Abdias Nascimento em dois moment os: o primeiro. como também. que perdura até hoje.ade de origem africana. o m . Com efeito. quando expõe o racismo à brasileira. O té a década de segundo momento 1980: corresponde ao período de 1968 a marcado por seu protagonismo internacional. a orientação existencial organização sócio-econômica igualitária e democrática de inspiração africana. que buscava a valorização e afirmação do negro na sociedade brasileira. O Teatro Experimental do Negro foi um projeto artístico. O trabalho em questão visa trazer a luz do nosso conhecimento um po uco do protagonismo afro-brasileiro em busca da cidadania da população negra no Brasil. um momento pedagógico de é falar um pouco desse histórico protagonismo estima da população negra e de conscientização da população branca para o problema do 157 ----------------------. Ou seja. d o que podemos classificar como a experiência e dramaturgia do quilombismo desenvolvi do pelo TEN. dos matriz africana até o quilombos. social e político . ou melhor.Page 158----------------------racismo brasileiro. no período elevação da autode 1944 até 1968. é toda e qualquer cultura de libertação que derive imediatam ente da experiência histórica dos africanos escravizados e seus descendentes. passando pelas religiões de movimento hip-hop.

É o momento não mais pedagógico. O autor acredita que o conhecimento científico que a população negra n ecessita é aquele que possa ca e consistente – experiências conhecimento de formular teoricamente – suas quase quinhentos que possa pela emancipação do anos negro de de forma opressão. escritos o momento da sistematizar a busca ema de valores. Abdias brasileiro a participar Nascimento do movimento Pan-Africanista. sociais e econômicas as quais serviam unicamente para procra stinar (adiar) o advento de nossa emancipação total e definitiva que somente pod e vir com a transformação radical das estruturas vigentes. Abdias Nascimento escreve as seguintes palavras: negro tragou até a última gota os ven pelo escravismo. proclamando mental eurocêntrico. no através esforço de auto-definição e na procura de seus caminhos como sujeitos protagonistas do s seus futuros. físico e a teoria da mestiçagem nos congressos Pan-Africanis nos no Caribe e e mental da na África. Uma democracia autêntica. Cabe mais uma v ez insistir: não nos interessa uma enos da submissão imposta O a falência do colonialismo . perpetuada pela estrutura do racismo psicossocial-cultural que mantém atuando até os dias de hoje. do seu sistemáti Um sist nacionais dos seus e internacionais. na igualda de e no respeito a todos os seres humanos. na liberdade. Os negros têm como projeto coletivo a ereção de uma sociedade fundada na justiça. uma soci edade cuja natureza intrínseca torne impossível a exploração econômica e o racis mo. foi denunciando o primeiro o negro população negra. aos quais não interessa a simples restauração de tipos e formas calcadas de in stituições políticas.ito da ―democracia racial tas Estados genocídio Unidos. mas de embates. fundada pelos destituídos e os deserdados deste país. de lutas antirracistas elaboração políticos.

1980. Uma teori a cientifica intimamente fundida à prática histórica da população negra. Enfim reconstruir no presente uma sociedade dirigida ao futuro. Deve-se assim compreender a subordinação do quilombismo ao conceito que define o ser humano como seu objeto e sujeito cientifico. 262) . p. Reinvenção de um caminho afro-brasileiro de vida fun dado em sua experiência histórica na utilização do conhecimento crític o e inventivo de suas instituições golpeados pelo colonialismo e o racism o. o qual vem sendo sistematicamente exterminado: Assegurar condição humana das massas afro-brasileiras há tantos séculos tratadas e definidas de forma humilhante e opressi étnico do quilombismo. edades capitalistas e de 158 ----------------------. 264). dialética propõe completa do ser humano. O quilombismo é descrito como a ciência do sangue e do suor que o escravizado derramou enquanto pés e mãos edificadores da economia do país.Page 159----------------------Para a experiência Abdias Nascimento. Ness e sentido. 1980. mas levando em con ta o que ainda for útil e positivo no acervo do passado. p. va.proposta de adaptação aos moldes de soci classes. lombismo Abdias Nascimento se articula aos acredita cuja que a dinâmica interação do qui e as diversos níveis da vida segura a realização coletiva. é o fundamento . do negro. seria preciso codificar sistematizá-la. Esta não é a solução que devemos aceitar como s e fora mandamento inelutável. (NASCIMENTO. interpretá-la e tirar desse ato todas as lições teóricas e práticas conforme a perspectiva exclusiva dos interesses das massas negras e suas respectivas visões d e futuro. que ele chamou de ―edificação da ciência histórico-humanista do quilombismo . (NASCIMENTO. visando a salvação do povo negro. dentro de uma concepção de mundo e de existência na qual a ciência c onstitui uma entre outras vias do conhecimento.

Abdias participa da Rut Experimental do Negro (TEN). No Rio de Janeiro. Depois viaja numa terceira do Vapor Itapagé da Companhia Ita. pois se cultural. Nascimento. Solano Trindade atua na vida cultural e política e chega a ser preso pelo Estado Novo por ter feito e publicado o poema de crítica social.III. inte Solano na anos Nascido no Recife da pós-abolição. O quilombismo de Solano Trindade (1908-1974). O Tre m Sujo da 159 ----------------------. h de Souza e outros artistas e intelectuais negros. Trindade primeira vivenciou as metade do a no contexto dos primeiros v duras realidades poesia negro-africanas a dos parti mais século XX. denunciando as duras condições de trabalho e deslocamento dos operários da capital fundação da República. Como poeta e dramaturgo Solano Trindade se torna um pilar da cultu . Solano Trindade faz as suas despedidas do Recife. fazendo um poema. em 1941. com o lançamento de suas poesias na Associação dos Empregados do Comércio. mbuco. Solano começa r dos anos de 1930 e escrever e afro-brasileira um atuar como ativista político expressivos intelectuais negros de sua geração. do Teatro Ainda ao na década lado de de 1940. tornando-se Foi um dos fundadores da Frente Negra de Perna preocupava o preconceito racial e com a ausência quase completa do elemento negro nas carreiras de ensino superior e de prestígio social. em frente a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Biblioteca Nacional.Page 160----------------------Leopoldina. na Torna-se um freqüentador do Cinelândia. bar O Vermelhinho. perdido nos seus desordenados apontamentos. A terceira do Itá.

Page 161----------------------em plena luta pela liberdade! . de Homero e de Camões porque o meu canto é o grito de uma raça 160 ----------------------. foi musicado por seu ne to. morreu pra libertar. Vitor da Trindade: Zumbi morreu na guerra. é justo e companheiro. Solano Trindade foi um dos precursores do quilombismo ao publicar na década de 1940 o poema Canto a Palmares. 2008. Foi criador do Teatro Popular do Negro e do grupo Brasiliana que viajou para a Europa.ra negra e da cidadania afro-brasileira. um épico dos feitos palmarinos: Eu canto aos Palmares sem inveja de Virgílio. p. Zumbi morreu na guerra Eterno ele será Se negro está lutando Zumbi presente está Herói cheio de glória Eterno ele será À sombra da gameleira. a mais frondosa que há (TRINDADE. reqüentes em busca de Suas viagens pelo Brasil foram f inspiração e realizando apresentações sobre a cultura negra. eterno ele será. 165). Publicou livros de poesia o nde aparecem as tradições africanas e os heróis negros esquecidos da história do Brasil. Zumbi. Um de seus mais expressivos poemas.

o ficou conhecido 1971 nacionalmente pela defesa do dia 20 de N pelo Este extinto grupo foi Grupo Palmares. do grupo Semba Arte Negra e d a Associação Negra da Cultura. se ndo um dos fundadores do grupo Razão Negra. Seria uma resposta negra.(. (TRINDADE. ovembro. da lutou pela denúncia da ação do racismo.. for mado em Letras pela (UFRGS). da revista Tição. 1981.) O opressor não pôde fechar minha boca. em busca da desconstrução do mito da liberdade concedida no dia 13 de maio de 1888 com a abolição da escravidão. proposto do qual e com especialização em língua francesa. que adotava Zumbi de novembro de 1695) dos porta-voz no Palmares (assassinado como herói nacional. 28).. IV.. poeta e pesquisador gaúcho. 23. professor. nem maltratar meu corpo. meu poema é cantado através dos séculos. data política para o Brasil. da dia nascent 20 inicialmente em o mesmo era integrante de maior projeção. O quilombismo de Oliveira Silveira (1941-2009) Oliveira Silveira. Foi professor de língua portuguesa na rede estadual do R io Grande do Sul e integrou o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR ) . p. minha musa esclarece as consciências. Zumbi foi redimido.. Oliveira Silveira participou também de vários outros grupos negros. que durante t odo o período da preconceito e República. nasceu em Rosário do Sul (RS) no ano de 1941. do discriminação racial no Brasil.

demonstrando continente africano com os escritores bra intercâmbio e experiência de uma história comum. (1974). em Silveira explica a criação do Grupo Palmares. Roteiro ). me embrenho no mato . para o projeto Prolicen: Margens do Atlân tico: fontes para o estudo e o ensino em história da África contemporânea . o poeta enfatiza a necessidade e a importância de se estabelecer um vínculo entre os interlocutores do sileiros. na UFPB. Entre Praça suas da obras dos destacam-se: Décima Sobre do Peão Negro Palavra (1976). entrevista Alessandro concedida aos pesquisadores Elio Cha Amorim. Poema Palmares (1987 poema. Esse último Tantãs (1981). Em ves Flores.da SEPPIR. Arnaldo Sucuma e Kywza Fidelis. quebro tudo. Por fim. feito entre 1972 e 1987. durante o II Enc ontro 161 ----------------------. no sentido de reescrever uma nova história do Brasil a partir da visão negra: Nos pés tenho ainda correntes nas mãos ainda levo algemas e no pescoço gargalheira. explicita a sua verve quilombista. Oliveira Afro-Brasileiros. fala da significativa importância da imp rensa negra em prol da consolidação dos movimentos negros e suas lutas junto à opinião pública. me sumo na noite da cor de minha pele.Page 162----------------------Nacional de Estudos Culturais abril de 2007. na alma um pouco de banzo mas antes que ele me tome.

regrido na floresta dos séculos..) guarnecendo a memória dos teus bravos ! Palmar ! arranquem todas as palmeiras e mais se encravará a raiz dessa memória. encontro meus irmãos.Page 163----------------------Nos contrafortes da serra. quebrem os contrafortes e não se abalará tua glória.) Zumbi – nome gravado A lança 162 ----------------------.. .. vôo nas asas negras da alma. estou salvo ! (. A sangue nos contrafortes da história.dos pelos do corpo.. é Palmar. a fibra na alma forte dos negros! Palmar ! (. do sangue.

Page 164----------------------nas veias caudalosas. limpe os pés.queimem a história toda e verão que és eterno ! Senhor historiador oficial. se deixe abocanhar por um quilombo. Desde o alto da serra da Barriga Olhe rumo ao litoral.) Para Palmares veio negro que não gemia nos açoites E pelo mato escuro veio negro que se escondeu na própria noite. noutro escória. (. mergulhe no espaço geográfico. Veja num lado história.. mastigar pelas choças.. deixe o sobrado. Pela selva fechada veio negro para quem o Palmar foi clareira No rastro uns dos outros vieram negros. cães acuados farejando o cheiro. . meta-se no bucho do Palmar. a casa-grande. recue na linha do tempo. Depois comece a contar. peça licença. escute aí seu coração tambor e veja o sangue digno fluindo generoso 163 ----------------------.

. botaram máscara de carnaval . e houve fé. Solano e Abdias. deuses jejes. João Cândido...) Em campos e cidades.Page 165----------------------O quilombo do Cumbe – Paraíba.. Calunga ficou no litoral mas o supremo Nzambi.) Falsificaram os livros de história. (. Um tal negro Kamuanga nesta mesma Região dos Palmares.. imprensa negra. 164 ----------------------. trocaram os heróis. Patrocínio. (. do senhor para si mesmo.) Frente Negra. o amuado Calundu e o espírito bantu dos ancestrais.). Cruz e Sousa emparedado..E negro roubado a esmo do cativeiro para a liberdade.. Rebouças. E ressurgiu adiante. Em Luís Gama.. (. todos chegram logo pra acompanhar seu povo. cerne Do tronco de mais quilombos. divindades da costa da Guiné. (.

Quilombo de negro hoje sem mato para refúgio. quem quiser que se negue e se entregue. (..Page 166----------------------Quilombo de negro pobre e quiser que se acomode. Quilombo de quilombola renascendo na seiva Sangrenta .) Quilombo de negro negro. Mas a luta prossegue. 16 5 ----------------------. estrada longa abrindo seu próprio sulco e picadas rio longo cavando seu leito. ficamos sendo os que não são. ficamos sendo estas ruínas em auto-reconstrução. A luta continua e é por isso que este poema é um quilombo. buscando uma foz.. botaram fogo nos documentos do tráfico e do crime e então ficamos sendo os que não vieram. Quilombo com outro nome outra forma e mesma voz libertária do homem.nos fatos.

mostrando-a como lugar de civilização. dif usos desde o século XIX e persistentes no regime republicano. 13-14. IV. (SILVEIRA. não há duvidas que eles representem e retrat em a cultura de resistência física e mental do povo negro brasileiro. a partir do que Abdias Nascimento chamou de quilombismo. Dessa forma. concomitante da cultura a iss n negro-africana Passaram a veicular que a única forma da população afro-brasileira se identificar e se reconhecer como tal era se aproximar de forma prática e simbólica da África ancestral e contemporân ea. 1-2. humanidade histórica e. alinhado da Negritude e do Panaos princípios do movimento . a partir da experiência afrocentrada brasileira. da dando as s tradiciona nova interpretação do Brasil. e que embora Sola no Trindade e Oliveira Silveira não utilizem a palavra. Ou seja. visão eurocêntrica possibilitando uma interpretação negro-africana. África na Solano Trindade e Oliveira Silveir perspectiva oposta ao racismo eurocêntrico. 1987. O protagonismo dos três autores foi fundamental para a constituição pos terior de um movimento negro essencialmente uas contribuições para uma político e além afrocentrado.da história. Considerações Finais a Abdias representaram a Nascimento. para l de nossa história. Deixaram como herança para as fases posteriores do movimento negro a valorização e a busca do legado africano. 17). de instituições e valores fundamentais para a o. eles romperam com o pensamento va África e a cultura afrotradicional que representa brasileira a partir de uma visão simplista baseada nos estereótipos racialistas. postulando representações e narrações a formação valorativas da presença do Brasil. p.

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governor of the Captaincy of Maranhão and his uncle. Administração. Palavras – chave: Iluminismo. Abstract During the second half of the eighteenth century the State o f Maranhão was a prime target of Pombal‘s Reforms. defined from atlantics relationships. who sought insert Portugal in the pace of enlightened progress f rom northern Europe. à inflexão ocorrida política pombalina com a implantação da Companhia de Comércio. sobrinho e dos povos habitantes da região construído pelo gove 49 Este de trabalho é um dos resultados da bolsa de iniciação científica em História.e resultados da política pombalina tecida entre o Maranhão e o Império Português. especially England. A partir disso. the Marquis o f Pombal. 50 Graduando em História Licenciatura pela Universidade Federal do Maranhão. políticos Neste e ec s Maranhão. Administration. noting the influence of the Enlightenment in eighteenth-century adminis tration of Maranhão. o Reino e outras erão exploradas as dinâmicas partes trabalho administrativas do governo de Joaquim de Melo e Póvoas (1761-1779). Keywords: Enlightenment. no p rojeto de pesquisa FAMÍLIA. definido a partir das relações at lânticas. Maranhão Colony Introdução A orte temporal segunda metade tradicional nos do século XVIII devido se tornou um rec na estudos históricos sobre o economia por ocasião da Maranhão. concerning the administration of American lands. a migração de pessoas das ilhas atlânticas para o Maranhã o enriquecimento da região. A partir desse contexto f orjouse uma onômicos ampla e complexa rede no atlântico. entre o de relacionamentos ultramarinas. SOCIABILIDADES NO MARANHÃO COLÔNIA. se procederá à contextualização de tais processo s com o discurso sobre o ―perfil rnador. The methodology used is di scourse analysis of letters. PODER. Maranhão became a major supplier of cotton to England at the Industrial Revolution process. sob orientação da professora Drª. Maranhão Colônia. Antonia Mota. bolsista de Iniciação . This article intends to study the administrative letters from Joaquim de Melo e Póvoas. a saber: o red irecionamento da produção agrícola e do comércio. in order to understand the mechanisms and results of Pombal‘s policy woven betwe en Maranhão and Portuguese Empire.

este nomeou o ex-embaixador de Portu gal em Londres. 339). Com a morte do rei e a ascensão do príncipe D.br 170 à Pesquisa ao Desenvolvimento C ----------------------. com capital em Belém. país e comerciais. (MARQUES. das Durante possessões as Reformas portuguesas Pombalinas a administração setentrionais na América passou por grandes mudanças na segunda metade do século XVIII .Fundação de Amparo ientífico e Tecnológico do Maranhão. um governante ilustrado e audacioso. da África e. Este Secretário de Estado era.Page 171----------------------preposto administrativo do Secretário de Estado dos Negócios do Reino e ministro ple nipotenciário português.. João V. Sebastião José de Carvalho e Melo (1751-1777). região cujos li indefinidos até o Tratado dos Limites. Em busca de potencializar o Reino Por tuguês no mesmo ritmo que a diplomáticas Inglaterra. a com uma o qual série aos mantinha de intensas no relações aparelh Sebastião José o administrativo principalmente inos.] ratificado em Lisboa a 26 de janeiro do mesmo ano 970. Contato: ngermano_s@yahoo.Científica FAPEMA . da América. [. José Carvalhal de Lancaster e o plenipotenciário de Portugal . ―concluído em Madri no dia 16 de janeiro de 175 0. José I ao trono português em 1750. p. D. Luís de Melo e Silva. Sebastião José de Carvalho e Melo. sobretudo. para a Secretaria de Estado dos Negócios d o Reino. com a extinção do Estado do Maranhão e a criação do Estado do Grão-Pará e Maranhão. deu início lusitano. devido os mites territoriais interesses estavam régios pela área amazônica.com. tornando-o ministro plenipotenciário. como se sabe. posto reformas domínios os que estavam que a riqueza da ligados ultramar Metrópole originava-se nas colônias da Ásia. 1 Este tratado havia sido realizado no final do reinado de D. entre o ministro da Espanha. Depois foi elevando ao título . D..

Grão-Pará.htm 52 A família de Sebastião José de Carvalho e Melo constitui meu objeto de pesquisa. 2008. a Marquês de Pombal em outras Para dar cumprimento ao tarefas relacionadas ao Tratado dos Limites e desenvolvimento da região.br/coloquio/3_coloquio_outubro/paginas/12. p. Lisboa.realgabinete. um fim de vida obscura. tornou seu governo do Maranhão ua eficiência na gerência da no Reino.51 Sebastião José privilegiou sua família.de 1770. Disponível em: http://www. Destes três. ao ressaltar a política de povoamento patrocinar a viagem de milhares de pessoas em famílias de outras partes dos domínios ultramarinos para a região setentrional da América portuguesa.com. e do do seu sobrinho Joaquim 17611763-177 orige à s (governador do Rio Negro. a partir do projeto mais amplo da professora Drª Antonia da Silva Mota. 51 Esta referência carece de informações. o mais ativo m e Teive Maranhão. a partir da ótica racionalista do pr ogresso iluminista do qual era adepto. 1755-1761 1779). mitos e a utopia da Europa do Progresso . influenciou o Marquês de FRANCO. e seu sobrinho distante Fernando da Costa de Ataíde 2). José Eduardo. 1751-1759). idéias. Analiso a relação posta entre os laços co nsanguíneos e os benefícios familiares conseguidos por causa da intervenção direta daqu ela parentela na administração dos Negócios do Reino. a fim de estimular a colonização e dar suporte ao . devido Companhia de Comércio e no aumento dos povos (SANTOS.Page 172----------------------promovida É interessante ainda pela Coroa. 171 ----------------------. 185). Quem Pombal? Ideólogos. ____.52 enviando três aparentados para go vernar o GrãoPará e Maranhão. a saber: seu meio irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado (governado r e capitão-general do Grão-Pará de Melo e Póvoas e Maranhão. tenha uma (governador que notável embora governante foi Melo e Póvoas.

e Póvoas era sobrinho do Secretári Sebastião José de Carvalho e Melo. seu tio subordinad Xavier Francisco carta patente assinada pelo rei. Na Rio e Negro general. Os feitos de Melo e 08. 1970. entretanto são absolutamente desconhecidos (SANTOS. sobretudo porque da ligação estabelecida entre o M aranhão e a Inglaterra. 20 segundo César Marques. por conta do algodão produzido na região que era exportado para a ferv ente Revolução Industrial têxtil inglesa. do que é evidência a famosa carta escrita por Pombal a Melo e Póvoas quando da sua posse na C apitania do Maranhão em 1761. africanos e nativos.desenvolvimento da economia construída por Melo e amazônica. constitui a notoriedade um aspecto Póvoas na Secretaria dos Negócios importante da administração pombalina no Maranhão setecentista. O governador o dos Joaquim de Melo Negócios do Reino. e foi nomeado por El-Rey D. coube processos econômicos de Comércio. todos os A partir disso. p. José I em 14 de julho d e 1757 para governador da Capitania do o ao Estado do Grão-Pará Maranhão. a Melo e Póvoas governar administrar aquele povo gerados com a Companhia que se formava a como também partir da mistura social e étnica entre europeus. p. do Nesse Reino contexto. governado pelo capitão de Mendonça Furtado. consta que a nomeação era um bem em atendimento à ―qual idade. seu governo no Maranhão foi ―criador e deixou prova s de seu zelo e dedicação e (MARQUES. (1759-1761). É certo que o parentesco com o Marquês de Pombal lh de uma carreira governativa propiciou elevação social e construção no Maranhão. para que ―se instruísse no gênio dos povos e em um breve método de gover nar . 343). merecimentos e serviços que concorrem na pessoa de Joaquim de Melo e Póv oas . Póvoas na Corte 185).

14). Brejo e Tutóia. De igual modo. o governador participou ao Secretário de Es tado da Marinha e Ultramar. 34 . João Rodrigues Covette (MOTA. seu tio Francisco Xavier de Mendonça Furtado. Católica. A ldeias Altas. o pagamento de duzentos e quarenta mil réis ao ouvidor-geral da capitania. Com as diversas viagens padres (MARQUES. 2009. Guimarães.53 No q religiosos e diretores das vilas que pertenciam aos jesuítas. posto que cada qual estava interessado em tirar o maior lucro possível dos índios. 285). que apoiou os padres que usavam do hão. p. ―a experiência no governo do Rio Negro e a convivência com seu tio Mendonça Furtado deram-lhe base de conhecimentos administrat ivos para fazer grandes obras no Maranhão. Alcântara.Page 173----------------------administração do sequestro dos bens ue se refere às brigas entre dos padres inacianos. Mello e a excomun Póvoas foi contrariassem nos negócios alertado pelo rei. a Igreja Contudo. para ―vigiasse cuidadosamente o governador e continuasse a dar conta dos padres revol tosos inimigos comuns do Estado . p. contornar as querelas e disputas ocorridas entre religios os e os diretores das vilas dos índios resgatados da dominação jesuíta na região e a ainda empreendeu várias v iagens pelo interior da capitania. 341). Com a expulsão dos jesuítas. Mello e Póvoas teve que enfrentar a oposição d o então bispo do Maranhão54. 2001. para penalização dos 4). São Bento de Balsas. Póvoas soube administrar com desenvoltura o sequestro aos bens dos jesuítas quando da sua expulsão em 1759. indo a Icatu. para maior castigo que tinha com aqueles que os dos que índios. Francisco Martins da Silva pelo s erviço que teve na 172 ----------------------. onde ficou famoso (CARVALHO. p. A situação só veio a se resolver quando da publicação da Lei de 18 de jan eiro de 1765. 1970. p. 1970.(MARQUES.

40. E o empenho e progresso do seu governo fez com que reivindicasse concedeu ao o rei a separação privilégio do Maranhão do Grão-Pará. 41. que tinham grande entrada na Europa. a introdução na ca pitania. 49. 2007). aponta acontecimentos em sua História do autônomo. Munim e. Itapecuru. . D. Mearim. 55 Retratos do Maranhão Colonial. principal negociante com a Companhia de Comércio na região (MOTA. 49 e 67.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. Mara importantes do governo de Melo e Póvoas: Datam de então a instalação de uma fábrica de anil. 2009: p. que fez importar de Lisboa. segundo César Marques. arroz. Cx. 2006). 35. Cx. Cx. 46.empreendidas pelo interior.58 nhão.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. D 4124.57 Assim. D. pelo amor que ti nha pela lavoura. 54 Retratos do Maranhão Colonial. constituindo o Maranhão e Piauí um estado a frente do qual estava empossado Joaquim de Mello como governador e capitão-general em 1775. anil. buscava o progresso da agricultura. 479 8 57 Retratos do Maranhão Colonial. por iniciativa 53 Arquivo Histórico Ultramarino . o governo de Mello e Póvo as corresponde à fase de prosperidade econômica pela qual o Maranhão passou na segunda metade do século XVIII com a Companhia de Comércio.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. 58 Retratos do Maranhão Colonial. 84. onde estava situada a possessão de Lourenço Belfort e sua família. às margen s do rio desse nome em São Luís. 2009: p. n a região de Guimarães. sola e demais produtos da terra. Mello e Póvoas sempre se preocupou quando das faltas de dinheiro55 na capi tania para sua boa administração e também se alegrava com os resultados positivos que obtinha como é o caso da boa arrecadação da Real Fazenda56 e larga produção de algodão. p. 392 6. 2009: p. o qual reivindicado. sobretudo. 44. 42. 197. E Arquivo Histórico Ultramarino . além de procurar estimular os lavradores nos tempos difíceis. Mario Martins Meireles. 56 Arquivo Histórico Ultramarino . devido às amplas reformas empreendidas pelo seu tio Mar quês de Pombal no reino português (MOTA.

gos de poder tecidos naquele mas buscar compreender para os jo percebe qu daquel engenhar contexto. [. 2008. e astião. por um lado por ser um preposto da política pomb alina e do seu projeto racionalista ilustrado desenvolvimentista. rep em iniciar as de São Marcos Alcântara.. e Póvoas como um historiografia aponta Melo excelente administrador colonial.59 administrador d Carvalho. fez construir a fortaleza de São Miguel onde fora a de São Felipe. Todavia. políticoem vista de compreender a administrativo. Não se quer com isso. tal acepção historiográfica pode soar romântica na medida e m que não é submetida a um exame crítico. 153) que a e de São Seb arar a de São Francisco. Isto aponta para além de uma mera competência ou zelo gov ernativo. pelo tenente-coro de uma fábrica de soque de arroz. sobretudo se observado o ―lucro a partir da obtido pelo governador e sua família ingerência daquela economia.] No to capitania. (MEIRELES..173 ----------------------. p. e por outro da forma como con duziu a geração de riquezas no Maranhão. do da Silva. esta última Observa-se a partir dessas citações. confrontar essa interpretação com a documentação disponível60 a época é elementar para efetivação desse ia do processo exame histórico. da arroz ‗de Carolina‘ e a fundação.61 Aqui nos processos deteremos apenas no político-econômicos discurso do governador sobre os adiante elencados em relativo confronto com outras opiniões contemporâneas ou muito . negá-la ou inverter a visão que se tem sobre o governador Melo e Póvoas. investigação que se torna r a dinâmica sócio-econômica fundamental desenvolvida na colônia. pondo em evidência os interesses particulares no sucesso da administração colonial no Maranhão. Para tanto. de modo mais verticalizado do e tem sido exposto.Page 174----------------------a nel cante à Companhia José defesa Geral de de João Vieira Comércio.

mas a documentação aponta que seu nome era ―José . reposicionando o Maranhão no cenário mercantil do atlântico português. Com a organização das frotas levou a Portugal novas O . antes e regional. sola.Page 175----------------------ultramarinas. a pecuária. passou a girar tação em torno do da Companhia voltada majoritariamente para o comércio interno monopolista forjado pela implan eixo comercial Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão em 1755. fundamental o Reino comércio atlântico outras partes realizado 59 Mário Meireles chamou-o de ―João . conforme consta em map as de cargas de mercadorias enviadas para o Reino. durante o governo de Mendonça F urtado. Desta a já existente economia d do sertão. Dinâmicas político-econômicas A economia. sem com e subsistência. pertencentes ao Arquivo Históri co Ultramarino (Projeto Resgate) e ao Arquivo Público do Maranhão (Retratos do Maranhão Colonial). Ver ratos do Maranhão Colonial. madeira. a agro-exportação entre o Maranhão. 61 Isto constitui o objeto de pesquisa central de que este trabalho é apenas um d os resultados. coleta das drogas se tornou um do e isso a excluir etc. 321. pp.próximas de sua governação. 222. A Companhia havia sido criada a partir da fusão de interesses dos homens locais e da Coroa. etc. do algodão. 60 Constitui-se de correspondências administrativas. As frotas de cacau . o algodão. adiante elencados. com objetivos muito claros: giro comercial da empresa pombalina possibilidades mundiais de expansão. 174 ----------------------. Os Em principais produtos níveis menores exportados eram o arroz e também eram comercializados anil. mecanismo forma. seda. do arroz e dos demais produtos oriundos das capitanias do nor te do Brasil despertaram a avidez do mercantilismo rapinante.

Demonstrada a alta rentabilidade do empreendimento ultramarino com a empresa colonizadora assente no arroteamento das capitania s do Pará e Maranhão e no giro comercial da Companhia.. Francisco Xavier. conforme consta em Decreto de 7 de ma io de 1751. 11. 1970. com o argumento de que a falta de moradores na região prejudicava o seu cresciment o. Mad eira. a Coroa econômica.62 Segundo a documentação do período sobre os degredos para o Maranhão e patrocínio de viagens de família s.] A exploração econômica das regiões coloniais com o resguardo do domínio político do trono e segurança das rotas de comércio. das Flores. (DIAS. a fim de est portuguesa desviou inúmeros presos condenados a degredo na Índia para o Estado do Maranhão.de Belém e de São Luís. São Jorge e Ilha Terceira. com o firme propósito de evitar que a rica presa colonial caísse na teia armada pelas gran des potências sequiosas por instalar núcleos de exploração mercantil com objetivos militares. como de militares e religiosos. 64 Há no Marrocos. 12) somente seria possível imular Nesse período de inflexão a colonização. permitindo acompanhamento das suas famílias. vieram nessa onda migratória projetada pela Coroa cerca de 1100 pessoas para o Maranhão. a Praça de Mazagão foi desmontada. ou do Estado do Brasil para o norte da América portuguesa. o Atlântico afro-brasileiro tornou-se uma das presas m ais ambicionadas da Europa. das ilhas atlânticas dos Açores. Mazagão. Em 1769. isso dentro da política de demarcação dos territórios setentrionais da América portuguesa. pp. ma . q todas aquelas construída na famílias região correspondente ao atual estado do Amapá.. tanto o movimento de degredados.63 Naquele período. próximo ao rio Mutuacá: a função desta cidade era fazer fronteira e proteger a região do Cabo Norte com a Guiana. O transferir ue seria ainda o caso plano era das famílias para da a Nova Praça de Mazagão. [. missão para a qual o rei José I nom eou o irmão do Marquês de Pombal. mas sobretudo de civis se intensificou: seja do Reino. a Coroa estimu lou cada vez mais acentuadamente a ocupação efetiva das novas terras.

2010. 108). D 3385. Destaque-se. sob o título ―Família e colonização na rota do progresso . realidade durante a segunda que segundo aponta que uma amostra essa era obt uma metade dos setecentos: 25 testadores homens declararam ser naturais do Reino ou de outras partes dos domínios portugueses. mulheres e crianças. além dos militares (DIAS.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_00 9. 1970. p. D 3273 / – AHU_ACL_CU_009.Page 176----------------------todos os mazaganistas saíram de Lisboa rumo ao Grão-Pará. o ida a partir dos 79 testamentos compilados no livro Cripto Maranhenses. Cx. 64 Trabalhei esta questão em trabalho apresentado no evento regional da ANPUH-MA e m 2010. gestada durante a maior parte do seu tempo de vida por Melo e Póvoas. 32. 112). Cx. 34.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009.s nem 62 Arquivo Histórico Ultramarino . Sab mazaganistas foi marcada pela ação administrativa da família do Marquês de Pombal no Mar rocos. e dos que chegaram a Belém. 32. 63 Arquivo Histórico Ultramarino . trouxe para o Maranhão cerca de 12 000 afric anos para serem escravizados. José de Souza Lima. p. Manuel Nunes Dias nos apresenta um mapa da população estimada que -Pará. p. segundo análise de Renata Malcher de Araújo (1998). ―natural da . Os números finais foi transferida de Mazagão para o Grão apontam 388 famílias. falecido em 1798. D 3310 / – AHU_ACL_CU_009. D 3264 . Um deles. as migrações voluntárias . 2006. de iniciativa e custeio particular. além disso. cujo texto está sendo melhorado para publicação 175 ----------------------. De igual modo. Cx. nas quais estavam distribuídas 1642 pessoas: homens. mu itos não foram levados para Nova e-se que a história dos Mazagão (MARTINS. Cx. número que aumentou para 35 mil até o fim do século XVIII e 48 mil já no início do século XIX (MOTA. a Companhia de Comércio (1755-1777). 32. 148).

o exemplo que 2008). como visíveis os Jansen 65 Cripto Maranhenses. da efervescência Correia de Lucena. Antes de passar aos bens que o Senhor lhe fez mercê na terra do Maran hão. não menos local. José de Lima fez um breve comentário sobre sua condição: há muito tempo tinha deixado sua família no Reino e se deslocado para o Maranhão. onde construíram famílias e fortunas. nasceram várias outras famílias que nte prolongaram seu poder (MOTA. 2007). migrou Desta da família Belf voluntariamente par família e da riqu metade do século XVIII (MOTA. com a qual teve cinco fi lhos.Villa de Sam Miguel Freguesia de Nossa Senhora das Neves termo da cidade de Ponte Delgado . as fortunas familiares locais ganharam expressividade: veja-se ort. na segunda metade dos setecentos. 176 ----------------------.65 A breve história que se pode visualizar sobre a vida de José de Lima é um indício do que s e tornou corriqueiro na colônia: migrar em busca de riquezas (FARIA. dos quais um já não vivia. ―vindo para estas terras foi com o sentido em ver se podia alcançar algum aumento para melhor puder passar junto com ela (esposa) e com os filhos. descendente do irlandês naturalizado português. Outras econômico econômico. Lourenço a a região na primeira Belfort. Com novas possibilidades administrativas e econômicas. eza construída com a agro- exportação de arroz e algodão. esta com vínculos ascendentes com o Marquês de Pombal e seus prepost . Além disso. 1998).Page 177----------------------Mendonça Furtado. da economia até mas meados do século segui na famílias de menor poder quela sociedade também desfrutaram Müller. oriunda da mesma cidade. declarou ser casado com Anna Francisca. p. 335. havia ainda casos de estrangeiros não portugueses que migraram para a região.

nstitui o cerne deste artigo. cheios de males e evidência a complexidade em que se dão as sociabilidades humanas e mais ainda. 158). morm desprezo abre a porta para outros muitos males e vícios p. 82). Estes aspectos nas virtudes põem em cristãs. obedientes e fieis. para que ―se instruísse no gênio dos povos e em um breve método de governar argumentou que ―o povo que V. ou mais especificamente. Em suas Letras dirigidas às Secretarias de Estado . porque o país i nflui. modesto e civil . pela p. Excia. ministros: com estas fiel a El-Rey. 342). cujo da ambição e relaxação das virtudes. apr esentou uma contradição algumas linhas à frente quando afirmou que Melo e Póvoas deveria saber e scolher bem sua família que havia de acompanhá-lo. Se a (MARQUES. o gov erno delas. contradição estava na fala do Marquês ou no caráter suposto dos povos americanos.66 Este número avultad o de pessoas habitantes no Maranhão. em quase ente da todos o espírito caridade. O próprio Pombal particip Companhia de Comércio. afável. lucros gerados 2005. O “perfil” dos povos americanos Quando Sebastião José de Carvalho e Melo escreveu ao sobrin ho. erais e vai governar é obediente. 1970. mas ambiciosos e relaxados vícios. ―principalmente para a América. aos seus gen o que se pensou sobre essas pessoas co circunstâncias é certo que há de amar a um general prudente. Tudo isso contribuiu para que a população do Estado do Maranhão oas civis no ano de 1777 atingisse a marca de 47 410 pess conforme consta em ofício de 7 de maio de 1778 do governador Melo e Póvoas para o Se cretário da Marinha e Ultramar Martinho de Melo e Castro. como sócio (MAXWELL. p. é certo que se colocou em evidência que os habitantes da América eram.os na colônia ou dos (COUTINHO. ao mesmo tempo. 1996.

nativos e africanos escravizados e a geração esperada de riqu ezas são objetos centrais em toda a correspondência mantida entre os dois lados do Atlântico. visível Melo estava é em formação. quando os resultados da Companhia de Comércio já se manifestavam entre a população. e felizes. por Determinação69 do Reino. à vista das exportações. Depois das tensões razoavelmente amenizadas s eu governo se fortaleceu.. e da Marinha de Ultramar. qualidade e quantidade de produtos exportados do Maran hão: atanados.dos Negócios do Reino.67 Nesse sen tido. sua liberdade. data início d a documentação aqui analisada. sobretudo a partir de 1770. como já citado. . e o comércio nesta capitania . o um mapa da Secretaria de Estado d de toda a carga t governador deveria enviar anualmente ransportada do Maranhão para Lisboa. ―[. Cx.] de sorte que es ses povos confiados ao cuidado de Vossa Mercê possam ser tão opulentos. D 5014 . que apresentavam a variedade. para que se tivesse um ―cabal conhecimento.68 os Negócios Naquele ano. porque também estes 66 Arquivo Histórico Ultramarino . p. Melo e Póvoas fez inúmeras considerações sobre o povo a que veio go vernar e sobre o que que dispomos. quanto os gêneros do país qu e habitam são estimáveis. 44..Page 178----------------------pontos eram do maior interesse da Coroa.70 Estes gêneros constavam nos mapas de cargas exigidos. ação governativa: No conjunto documental de num primeiro momento uma variação na e Póvoas esteve empenhado em fortalecer o poder régio frente ao poder eclesiástico sobre as tribos i ndígenas. evangelização e seu trabalho. dos progres sos que fazem a agricultura. 177 ----------------------. 52. 67 Retratos do Maranhão Colonial.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. o trabalho dos europeus. passando a ser este o motivo de maior preocupação do governador. e preciosos.

e que estava sendo impedido de se transpo rtar internamente era fundamental para se fabricar não apenas as sacas para transporte do algodão e do arroz para exportação. arroz. já que o e transporte na forma de de algodão só dízimos. trabalhos para os qu o governador os incitava a aplicarem-se. Para diferença entre seus o governador que também sempr governados.71 De outra vez a 68 Compilação feita pelo Arquivo Público do Estado do Maranhão. pedra-um e e tartarugas para im fabricação de caixas.algodão. pp. como também para produção do vestuário dos índios e dos escravos. baunilha. obtendo deles ―bastante adiantamento . Percebe(GAIOSO. 115-122) se que esta classificação social do Maranhão colonial seguia à risca o nível de relacionam ento com a e origem fez étnica das pessoas. sola. gengibre. alego u que os mesmos punham impedimentos aos lavradores e comerciantes no trato de seus negóc ios. Segundo o governador. Joaqu argumentava que ―com o maior desvelo me interesso no aumento destes povos licidade dos ais já que a fe mesmos estava na cultura das terras e no comércio. os 90% do algodão que ficava na co lônia. óleo de copaíba. Póvoas eram Os povos que discriminados conviviam sob a governação de Melo e claramente em vários ―tipos sociais : segundo Gaioso. 1970. que era muito pouco perto do que se exportava. negros (africanos escravizados e forros) e índios – ―habi tantes de um país que antigamente pertencia aos seus antepassados . de Melo e Póvoas Em resposta àquela determinação. em cinco classes: filhos do rein o (europeus ligados à administração). goma copal. ―geração misturada (mulatos e mestiços). nacionais (descendentes de europeus. o poderia que ser feito de uma única vez prejudicaria a capitania. cacau. só havia três tipos de gente: quando reclamou para a Secretaria de Estad o da Marinha e Ultramar sobre a atuação dos então novos administradores da Companhia de Comércio. no livro ―Retratos do Mar . moradores da r egião).

instrução. diante da Coroa esta mples categoria que Melo e Póvoas sempre empregou na maioria boa. Quando se . José I. ou sejam europeus ou americanos. inclusive ao governador. p. e se apartem os maus dos seus per versos costumes. aos quais sempre assim se re feriam. que cometerem delitos. [. os europeus. prudência e zelo do s erviço de Deus e meu. 236. mas não Para eram a Secretaria os mesmos também só havia três tipos sociais Na elencados pelo governador. que em nome do rei D. p.anhão Colonial em 2009. ou ainda africanos livres ou escravos. 70 Optei por atualizar completamente a grafia transcrita pelo Arquivo Público do Maranhão. a fim de facilitar a leitura de quem não conhece as formas arcaicas da Língua Portuguesa. assim como no sentido com uma à dirigidas inverso. tratados É evidente distintamente que. para que cresçam em virtude os bons. confiando das vossas boas qualidades. embora naquela distinção de suas fossem era distintos mascarada Letras e fossem si Lis sociedade. . os nativos e o s africanos eram todos colocados na mesma categoria: ―povos . No cálculo final das posições e combinações possíveis. 71 Retratos do Maranhão.Page 179----------------------própria Secretaria do Ultramar. 69 Retratos do Maranhão Colonial. do ponto de vista administrativo e dos progressos q ue interessavam aos governantes metropolitanos. (Grifo meu) 72 . autorizava a instituição d a Junta de Justiça no Maranhão: qual sejam sentenciados todos os réus [e] por eles mereçam. Em outras palavras. não só as penas arbitrárias. confirma-s e o resultado apontado por Gaioso. mas até a última. 41.] E sentenciar os réus de tão abomináveis crimes. 178 ----------------------... que vos empregareis com todo o acerto em tão meritória e necessária obra.

A capitalização 72 Retratos do Maranhão. apenas interessava o resultado dos trabalhos dos habitantes da América: os c olonos. Para o caso dos homens europeus e ―nacionais . o governador salienta que ―a lavoura há de ter grande adiantamento. aqueles de alguma forma vinculados aos la e no europeus. p. que direcionav a uma grande produção para a Europa a custos baixos: a Companhia comprava toda a produção.havia e scravos marinheiros. Melo e Póvoas sempre demonstrou um zelo particular.Page 180----------------------de recursos se fazia a partir do comércio monopolista da Companhia. algodão. 73 Retratos do Maranhão. algodão. os nativos em geral trabalhavam nas fábricas (de anil. para o nível administrativo e do projeto de dese nvolvimento da região. 126. .tratava de cada um em particular. p. além de impe dir o comércio interno Sem dinheiro no independente Caixa da dos homens locais. desempenhavam seu papel na produção agríco comércio. 282. 73 Como citado anter iormente. com o abandono da cult ura do arroz pela maior parte dos lavradores. Em carta de 13 de ago sto de 1772. Melo e Póvoas se dedicou a várias viagens fim de estimular os lavradores pelo interior da capitania a quando de um período de baixa nos preços do arroz e do algodão e consequente lucro red uzido ou quase nulo. pela falta de dinheiro que se fazia sentir na Capita nia. ou ainda os barcos . Em 1775. arroz) e os escravos eram os braços que movimentavam as plantações de arroz. 179 ----------------------. como já citado. destinada à Secretaria da Marinha e Ultramar. pois vejo estes povos muito inclinados a ela . esta questão se tornou mais clara. que estavam ligados n a sua maioria à lavoura.

a fim de proporcionar aos lavradores ue tinham direito. seria melhor que cada produtor própria suas mercadorias. de 1776 para as Vilas de Alcântara e de Guimarães para praticar a mesma diligência.76 Esta situação ganhou expressividade por conta particular com pelo a liberação posterior e comerciantes prejudicado: da exportação governador. Este argumento entrava em conflito direto com os interesses da Companhia. Prometeu les homens. alegando que: O empenho que tem esse moradores em navegar os efei . o que esperava ser mais bem sucedido.75 Isto começou a acontecer com o caso de Lucas Raposa. pois indica va romper com o monopólio estabelecido. ernador diante da Secretaria dos que foi defendido pelo gov Negócios do Reino e de seu poderoso tio Marquês de Pombal. R ibeira do Munim. para convencer os lavradores da boa prática que era a lavoura do arroz. Melo e Póvoas Ultramar. o governador Melo e Póvoas se empenhou em visitar os locais de maior produção.74 mas o governador foi mais longe ainda nas suas ações. a vinda de dinheiro continuação daquele ramo de comércio. Companhia só esta medida os havia não o lucro a q segundo Melo prejudicaria a Companhia. Martinho de Melo e Castro. Para c ontornar a situação. Este resultado foi obtido. Itapecuru e Mearim. exportou por conta própria sua produção para Portugal. Em carta de 4 de março de 1776. O monopólio da e Póvoas. tudo para garantir o aume nto da capitania e adiantamento dos povos que nela habitavam segundo Mel o e Póvoas. para do agrado deveriam a Ainda teria que viajar no ano de Sua Majestade e que àque segundo conseguir relata. e como isso era eles. o comércio foi prejudicado. um d os maiores lavradores da Ribeira do Itapecuru. que ra comprar toda a devido à produção argumentava ausência de ao Secretário recursos embarcasse na da Marinha pa e Companhia por conta local. como bons vassalos aplicar-se. amparado po r Melo e Póvoas. Lucas Raposo.empresa para arrematar toda a produção daquele ano.

215. p. 222. Em car ta de 2 de março de 1775. Maranhão. p. Índios. sos pelas A partir eligião e nos costumes de então. p. 223. 210. 213. boa parte daqueles já ―civilizados na r europeus. E burocrático. 214. Os índios que vivem na cidade. e aos magistrados. Sendo uma disparidad e tão grande e vendo eu no plano da Companhia que o preço dos efeitos do País será a avença (sic) das partes e que não se requer não obstante oporem-se a isso os admi nistradores.. 234. com a Lei de Liberdad tornaram-se ―cidadãos daquele país . publicada em 1755. e dos Para o caso dos nativos.. 223. Argumenta ainda que: [. p.77 74 75 76 77 Retratos Retratos Retratos Retratos do do do do Maranhão. foram integrados aos trabalhos das fábricas de anil. arroz e algodão. Esta s fábricas apenas cuidavam do processamento e ensacamento dessas mercadorias para a exportação. sobre os quais d omina um diretor nomeado pelo 78 governo. colocando que a prod ução do arroz estava comprometida pela falta de recursos.tos é por lhes constar que o algodão se vende aí a 8 e 9 000 réis a arroba e a Companh ia o não quer pagar aqui por mais de três mil e duzentos. 180 ----------------------. fugindo ao caráter comercial tão característico àqueles povos aqui analisados . Maranhão. Maranhão. tanto para manter o patrocínio d aquela produção aos lavradores quantos aos ―índios e índias que o descascam . são absolutamente sujeitos às leis. p orém nas suas vilas e aldeias são governados pelos seus principais. ou disper diferentes povoações. 235. Melo e Póvoas se dirigia à Secretaria do Ultramar.] à Fábrica dos Vinhais se devem três mil e tantos c ruzados e da mesma sorte a da Vila de Alcântara e a desta cidade q .Page 181----------------------ntrará no A situação permaneceria âmbito puramente assim até se agravar.

199. e se não fos a sua natural indolência e pouca ambição. mas t endo em vista a fundamental importância daquela mão de obra para a exportação.. povoações De qualquer modo. 189. 198. bons servidores mais úteis da república . 80 Retratos do Maranhão. p. ao seu trabalho e sua remuneração. e também 4 mil à da fábrica s das da cidade. os privilégios que a lei lhe tem facultado.80 Apesar da preocupação do go vernador com aquela ―classe da sociedade agro-exportadora do Maranhão. eu tenho valido de algumas in vir farinhas do comum das outras povoações dando a estas para assim arroz para carregar estes navios e ainda que venha vinte mil cruzados deles se deve suprir a Fazenda Real a quem a Compa aonde não há dinheiro [. o governador pôs índios Majestade o problema da falta de dinheiro para pagamento dos índios que trabalhava m nas fábricas de Vinhais. p. daqueles segundo mil à Fábrica de Alcântara e 2 o governador alguma índios se adiantavam nas culturas pela competência dos Diretores administradores e o utras que não davam resultado pela incompetência de outros Diretores.Page 182----------------------Graças às luzes da razão e da humanidade. à qual se devia 5 mil cruzados. de certos tem pos a esta parte. não de forma ingênua. cit. os índios tem melhorado de condição. 188.]79 julho daquele mesmo na presença de Sua ano. p. 206. o governador J oaquim de Melo e Póvoas pouco mais se referiu aos mesmos. Segundo Gaioso: 78 GAIOSO.ue clamando estes dústrias mandando se poder fazer o presentemente nhia deve muito e Em novamente não podem trabalhar sem comer. 181 ----------------------. (Grifos meus) se Vê-se novamente o contraste de opiniões acerca dos povos o u dos ―tipos sociais . 121. op.. talvez tivessem feito destes homens inábeis. 79 Retratos do Maranhão.

como relata em carta de 4 nhum navio havia aportado em São Luís anos.existentes na colônia entre a segunda metade do século XVIII e o início do século XIX. a Companhia de Comércio teve de suportar o prejuízo de 3: 149$563 réis. forros e seus descenden tes sabe-se que.. muitos se especializavam na marinha. A participação destes no mundo atlântico não se deu apenas de modo p . e os angolas e outras nações muito mais baratas.83 Mas os escravos serviam para algo mais do que lavrar a terra.81 Além do mais. achei que o melhor escravo Mina que é nação de maior valor se vendia por 1 00$ réis. Em 1774.. Naquela ocasião. como já citado. havia a seguint e situação: Recebendo proximamente uma carta do Pro cópia será com esta. visto o que concordei com os administradores que os escravos da 1° Sorte. ne havia já dois escravos trabalho seria insuficiente para o sucesso das lavouras sem aquela mão de obra tão n ecessária. antes pelo contrário. f cerca de 12 000 africanos. Entretanto. Para o caso dos africanos escravizados. de modo que nem os povos nem o rei seriam favorecidos com a falta de escravos. e ao mesmo tempo outra d a Junta aos Administradores da mesma Companhia em que lhe ordenava concordassem comigo no abatimento que haviam de fazer nos pretos que vinham a ven der nesta Administração para assim se executar verdadeiramente as ordens de Sua Majesta de que usando da sua paternal clemência querfavorecer estes povos mandando i ntro duzir escravos mais baratos para que as culturas se adiantem nestas capitania s e informando-me eu dos preços porque se vendiam os escravos nos out ros portos do Brasil. que mandava inserir o maior número de escravos. ve ndidos ao menor lucro ou interesse que não fosse o verdadeiro valor. depois para descarregar desta determinação. e que aqui se vendiam a 120$ réis [.] 82 (Grifo meu) vedor da Companhia cuja A providência tomada foi baixar o preço dos escravos para 100$ réis d efinitivamente. Argumenta que todo março de 1776. Joaquim de Melo e Póvoas contava a Sua Majesta de sobre o cumprimento da sua ―especiosa mercê . durante o período oram inseridos no Maranhão de vida da Companhia de Comércio.

170. 83 Retratos do Maranhão. p.ª que tod os os escravos marinheiros de qualquer qualidade que sejam que vierem de Lisboa e mais portos destes Reinos em serviço dos nav ios de comércio ou sejam dos mesmos donos dos navios ou dos oficiais que neles andam embarcados ou de outras quaisquer pessoas moradoras na América qu e os queiram trazer ao ganho das soldadas dos navios do comércio.] manda Sua Majestade declarar a V. e co m a declaração dos nomes de quem são escravos o que tudo é conforme em termos idênticos. de tal modo eles responsáveis por grandes transportes que o rei se viu obrigado a 81 Retratos do Maranhão. 171. que era presente no mundo colonial como um todo: os atados como objetos e como escravos eram tr pessoas ao mesmo tempo. 182 ----------------------. evidenciamos uma contradição do discurso administrativo pombalino. 185. não só a respeito dos ditos escravos no caso de os trazerem mas ainda com outras quaisquer pessoas livres as quais pelo ofício dos respectivos ministros se repõem a bordo das embarcações a cujas equ ipagens pertencem. para que não fossem confundidos com escravos comuns ou mesmo fug itivos. Nesse sentido. devido a região por soldados contra as autoridades superiores. 184.85 ao Porto da Cidade Neste caso. mas também de escravos que mat aram seus . de nenhuma forma se deve entender compreendidos no sobredito Alvará contant o que venham matriculados nas listas das equipagens dos navios com as mesm as confrontações que traz toda a mais gente das suas ditas equipagens. p. liberando a presença do s mesmos nos portos reinóis.Page 183----------------------publicar um aviso através da Secretaria dos Negócios do Reino. S.. p. 82 Retratos do Maranhão.assivo. 169.. 223. eram ultramarinos.84 [. s e pratica com as equipagens dos navios estrangeiros. Melo e Póvoas representava ao rei a necessi dade que se fazia de instituir uma Junta os constantes crimes cometidos de na Justiça na capitania.

mos trando uma relação a assinatura pedida aos administradores dos mesmos. Maranhão. 238. 281. 241. ue aqueles do Ultramar ao então Provedor das dívidas q para que se efetuasse a cobrança povos tinham com a Companhia. Sem os mesmos. pombalina e suas Comércio.87 Por entre Melo governados adquiriram e fim. moradores naquel com constava e ano: os pagamentos realizados pelos nesta folha somavam 175: 723$858 réis além dos efeitos que os lavradores haviam remetido à Junta da Companhia. Maranhão. 242. índios ou es cravos. para punir o mal comportamento dos povos americanos.senhores e fugiram para a liberdade. p. p. 237. Neste documento. Maranhão. prejudiciais como seus o progresso consequências Capitania e riqueza de seu povo. p. o dono do escravo morto ou fugid o ainda . obtidos são o monopólio lançados bem para algumas e os lucros governador. a produção ficava prejudicada e os lucros do dono também. fossem europeus.Page 184----------------------atraso no pagamento. além de não obter resultados favoráveis.86 Esta Junta de Justiça foi instituída em 5 de fevereiro de 1775. p. Se havia 84 85 86 87 Retratos Retratos Retratos Retratos do do do do Maranhão. Assim. 237. onde da Companhia. Em carta de stões já citadas aqui comércio. a última Póvoas e seus situação a elencar que do estes relacionamento povos das que se trata das dívidas crescentes com a Companhia de 19 de outubro sobre o da à luz empresa pelo motivos da de 1775. 183 ----------------------. A isto Melo e Póvoas argumentou que eles não se descuidavam de pagar. o governador inicialmente sal ientou a ordem dada pelo rei através da Secretaria da Companhia Ignácio Pedro Quintela. o governador reconhecia ao fato da morte ou fuga dos que isto se devia escravos comprados a prazo.

o governo do sobrinho de Pombal apresentou outr a visão sobre o ―gênio dos povos americanos. emendava ainda que os administradores da Companhia estavam a praticar mal os con tratos da com o povo.88 além de seus costumes vendo em uma mancebia o relato de sumamente corrompidos. Porém. continuada na visão de Gaioso (1970. com total defesa do governador. e ainda um povo dado a continuados ho micídios pelo sertão segundo o próprio governador:89 há registro de casos de escravos que mataram s eus donos e fugiram para a liberdade90. os preços sofreram redução também no Maranhão. Quando os ventos tornaram-se favoráveis ao comércio do algodão e a consequente sub ida dos preços a nível internacional. Foi esta a causa que fomentou uma quebra parcial do monopólio da Companhia. tal como se havia feito com os moradores do Grão-Pará. ainda que não esquecesse as deficiências. Segundo Meireles. o relato de Southey argumenta que o povo havia se tornado industrioso e também mais . pelo escravo. para 80 réis. p. o que havia sido motivo de muito desgosto dos mesmos. a receita gerada Todavia. Co m a queda dos preços deste gênero na Inglaterra. argumentou que se deveriam perdoar os juros dos valor es que aqueles moradores deveriam pagar. tidos como segundo serem relaxados e ambicio Robert vi turbulentos e difíceis de governar Southey coletado por Mário Meireles. como citado anteriormente. pagamento de 800 réis aos os administradores mantiveram o produtores do Maranhão. Demais disto. Naq uela carta. Considerações sos pelo Estes povos eram Marquês de Pombal. posto que no início se estabeleceu o preço de 4 000 réis a arroba de algodão. pelo como argumentava o gov pagamento das dívidas era muito significativa: eram 175 milhões de réis. ainda em defesa de seus governados. 12).tinha sua dívida aumentada na Companhia devido aos juros acumulados das parcelas e m atraso do pagamento ernador.

que é achar que Melo civilização para o Maranhão. 172. do que da indústria dos seus habitantes . o que contrasta com outras visões. o que prevaleceu foi a imagem construída pelo go vernador Melo e Póvoas ao longo de 18 anos de governo acerca dos habitantes da América portuguesa se tentrional. o ao afirmar que a Companhi ―progresso da indústria desta capitania te e laborioso.91 Gaioso a de argumentou no sentido Comércio favorecia oposto. 184 ----------------------. p. pode cair em outra armadilha. 88 MARTINS. 25. 241. toda a administração pombalina no Impéri ainda que indiretamente. Todavia. 208) da Cópia: Fontes pombalino. como se viu. 25. ele se esforçou por fazer ao nível regional. Joaquim de Melo e Póvoas. que podia ser mais avultado. 202. 91 Retratos do Maranhão. In: Retratos do Maranhão Colonial. p. se aplicou tão fervorosamente àquele projeto desenvolvimentista: o que seu t io fez ao nível imperial. mas o que prevale ceu foi seu caráter empreendedor em vista de um progresso e desenvolvimento pautado nu ma linha de raciocínio iluminista na qual o Português se orientou. pp. 89 Retratos do Maranhão. sobretudo o caráter administrativo e z eloso de Melo e Póvoas para com seus governados.Page 185----------------------Na historiografia. não se pode cair no romantismo de consider ar Melo e Póvoas um homem desprovido de concepções negativas sobre não-europeus. p. 90 Retratos do Maranhão. e Póvoas trouxe o Com isto também não se progresso e a . para a história do Maranhão (Introdução) Sombras (GAIOSO. como poucos.subordinado. na ausência de um povo ―ativo. Manoel Barros. Por ser sobrinho do Marquês de Pombal. p. vigilan Reiterou que o ―comércio deste país. é também ma is um efeito da abundância do país. 242. 173.

pontuando referências de ―ânimo de e por do povo para aformosear a cida ter adquirido princípios morais e comportamentais típicos da cultura européia como alg o positivo. corre-se o risco visão de mundo historicamente reproduzir uma localizável e não contribuir em nada para a compreensão das dinâmicas e características su bjacentes àqueles processos. tal como o fez o g .como fez Manoel Barros Martins em sua introdução à publicação do códice Retratos do Maranhão Colonial aqui analisado. seus elementos de não tão submetendo somente a um exam apresentados. para o desenvolvim ento da região que o povo que nela habitasse também fosse inclinado ao trabalho. já que o que Gaioso aponta nada mais é do que também uma construção discursiva sobre o comportamento de uma sociedade overnador Melo e Póvoas. Se o região foi resultado mais da progresso econômico conhecido pela ―abundância do país do que do trabalho dos povos americanos como argumentou Gaioso. Soube o governador Joaquim de Me arquitetar e montar. Era necessário. nun ca se saberá. tal como se raci ocinava acerca disso na Europa. Nesse sentido. bem como sua importância histórica. prudente e civil. Se tomarmos o conteúdo dos documentos e crítico em os sua literalidade. que foram obviamente dissolvidas na construção social do Mara nhão e de seus povos. duran te 18 anos de governo. através de uma engenharia discursiva tecida em média duração. relegando ao segundo ou nenhum plano as culturas e sociabilidades nativas e afri canas. de onde vinham as determinações Régias e para onde era destina a maio r parte dos lucros gerados na colônia: assim lo e Póvoas procedeu. uma imagem de um povo industrioso92. trabalhador ou pelo menos inclinado ao trabalho e ao progresso. todos ―nacionalizados e próximos dos padrões europeus. em gestação. trução discursa com ações e tudo o que se tem é uma cons interesses bem claros para se prosseguir no comando de uma capitania e construir ou reforçar uma imagem de um general modesto.

algo de um Para zelar pelo bem daqueles povos. pulicado ----------------------. nas fábricas ou no comércio atlântico. teceu uma imagem negativa daqueles pov os. sobretudo das três últimas classes existentes índios. Desta forma. na lavoura. O que evidencia ao segundo ele. 185 que o dicionário Rafael Bluteau. a relaxação das e tempo passado.Page 186----------------------Gaioso. negros e mesmo tempo seu eurocentrismo é que os ―filhos do reino critos e os ―nacionais sempre foram des como gente da melhor qualidade e bons costumes. todos estavam igualmente ocupados trabalho. os povos americanos ou ―americanizados do Maranhão tinham habitantes como principal fonte de trabalho a produção e exportação em larga escala principalmente do arroz para Portugal e do algodão para a Inglaterra: pela crescente necessidade destes gêne ros93 na Europa e pelo constante erciantes. Portanto.92 É com o sentido de ―trabalhador no século XVIII. pois no seu m suas atribuições de governo. do vir o sobrinho de Pombal. Era o estímulo trabalho do governador desses aos lavradores94 e com povos. portanto. a partir de seu olhar etnocêntrico. O p ovo . põe-se em evidência antes e depois do a e seus vassalos reinóis ou quanto visões contraposição de opiniões construída governo de Melo e Póvoas que coincidiu com a administração da Companhia de Comércio. Nisso se vê o contraste com a visão de Melo e Póvoas. elenca o vocábulo ―industrioso . cujo norte político da a dministração se orientava nos ideais iluministas e industriais do progresso racionalista para a geração de riquezas de que pudessem desfrutar tanto o rei os próprios americanos. fundamental para o aumento da Capitania. mestiços. que sempre argumentou sucesso da lavoura até a alimentação tudes era dos indígenas.

que se antes era tornou um relaxado nas virtudes. MANTOVANI. Vocabulário Português e Latino. De igual daqueles povos do que modo. Estudar os movimentos el através de próprios outras daqueles fontes povos naquele contexto é possív documentais. Siciliano. . Cripto Maranhenses e seu legado. mais o resultado do trabalho trabalho propriamente. 94 Eram assim chamados os proprietários de grandes ou pequenas produções agrícolas no p eríodo colonial. povo trabalhador. Arquivo Público. 93 Retratos do Maranhão. 2009. inter são mais comp sobre os habitantes e fundamentais para construção de um tempo histórico específico do que os povos em si. São Paulo. de o fato. Interessava. governador e capitão-general do Maranhão. BIBLIOGRAFIA José Dervil. Retratos do Maranhão Colonial: correspondência de Joaquim de Mello e Póvoas. Secretaria de Estado da Cultura. Rafael. Kelcilene Rose. colocando essa-nos discursos lexos tais visões na ―ordem do discurso aqui que os do Maranhão Colonial de Foucault. Antonia da Silva. muito menos sobre o que agora se sabe do seu comportamento social naquela sociedade em gestação.Page 187----------------------BLUTEAU. Os povos america naquele contexto. FONTES DOCUMENTAIS: Arquivo Histórico Ultramarino – Projeto Resgate – Ministério da Cultura de Portugal. MOTA. SILVA. 2001. mas não são eles os autores do que se sabe sobre aquele contexto. 84. p. já que a história que sab emos foi nos escrita por aqueles que puderam são personagens principais escrever. cheios de males e vícios industrioso. visto os resultados que Melo e Póvoas argumentava obter no seu govern o. 1712. Coimbra: Colégio das Artes da Companh ia de Jesus. 17711778. o que constitui objeto de outra investigação. Maranhão. – São Luís: Edições SECMA. 186 ----------------------.

187 ----------------------. Éditions Gallimard. __ __.scribd. Cia. 1771-1778. ―Sombras da Cópia: Fontes para a história do Maranhão pombalino. ―As cartas de Mello e Póvoas. Editora Fon-Fon e Seleta. Secretaria de Estad o da Cultura. 2009. Manuel Nunes. José Eduardo. São Luís: Instituto Geia. In: Maranhão. no século CARVALHO. Rio de Janeiro. ―Povoamento no Grão-Pará: Vila Nova de Mazagão (segunda metade do século XVIII) In: Caderno de Resumos 3° Encontro Int ernacional de História . Uma História da nobiliarquia lus DIAS. 1971. FARIA. Yure Lee Almeida. A ordem do discurso. Retratos do Maranhão Colonial: correspondên cia de Joaquim de Mello e Póvoas. pp. Universidade do Porto. Mílson. Lisboa. – São Luís: Edições SECMA. Retratos d o Maranhão Colonial: correspondência de Joaquim de Mello e Póvoas. MARQUES. Arquivo Público.realgabinete. 11-16. governador e capitãogeneral do Maranhão. ed. Renata Malcher de. Rio de Janeiro. Disponível em: http://www. 2009. 2005. 1970. Dicionário histórico-geográfico Maranhão. A Colônia em Movimento: Fortuna e família no cotidiano colo nial. Michel.ARAUJO. Tradução de Edmundo Cordeiro com a ajuda para a parte inicial do António B ento. de. Rio de Janeiro: Editora Livros do Mundo Inteiro. 1998.Page 188----------------------MARTINS. Porto: FAUP.com. Secretaria de Estado da Cultura. e Barões. COUTINHO. Compêndio Histórico-Político dos Princípios da Lavoura do Maranhão. Paris. governador e capitão-general do Maranhão. João Renôr F. Belém – PA: Universidade Federal do Pará.com/doc/2520353/Michel-Foucault-A-Ordem-do-Discurso GAIOSO. 1771-1778. 1998. 1970. Nova Fronteira.br/coloquio/3_coloquio_outubro/paginas/12. pp. 2. Arquivo Público. Sheila de Castro. – São Luís: Edições SECMA. ―Quem influenciou o Marquês de Pombal? Ideólogos. Macapá e Mazagão. FRANCO. Manoel de Jesus Barros. 1970.htm FOUCAULT. 1970. Raimundo José de Sousa. da Província do MARTINS. César Augusto. Fomento e Mercantilismo: a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão (1755-1778). In: Maranhão. Fidalgos o-maranhense. As Cidades da Amazônia XVIII: Belém. Disponível em: http://www. mitos e a utopia da Europa do Progresso ”. idéias. 19-27.

Programa de PósGraduação em História. 4. Poderes e XV-XVIII). transcultural e . Marquês de Pombal: Paradoxo do Iluminismo.rev. que vão desde as sociedades e culturas predominantemente negras de vários países do Caribe.Colonial: Cultura. Nesse sentido. Paz e Terra. História do Maranhão. Uruguai e o Peru. nos movimentos negros da América Latina e do Caribe. com importantes minorias negras. Rio de Janeiro. 2006. Afrocaribeñas y de la Diáspora como movimento transna cional afrodiaspórico. MOTA. 2007. SANTOS. com uma significativa proporção de afrodescendentes. Cuba e Colômbia. MAXWELL. Antonia da Silva. 1996. São Luís: EDUFMA. rígidas e territorializadas. Recife. Antonia da Silva. Afrocaribeñas y de La Diaspora (RMAAD). tomando por ba se a atuação da Red de Mujeres Afrolatinoamericanas.Page 189----------------------VOZES E POLÍTICAS DA DIÁSPORA NA AMÉRICA LATINA E CARIBE: A Red de Mujeres Afrolatinoamericanas. Kenneth. A dinâmica colonial portuguesa e as redes de poder local n a capitania do Maranhão. e uma abordagem Pós-Colonial. Família e Fortuna no Maranhão Colônia. Fabiano Vilaça dos. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. MEIRELES. Recife – PE: Editora Universitária UFPE. 2010. Sociabilidades no Mundo Atlântico (séc. para demonstrar como vem se desenvolvendo. menos fundamentado em discursos e ações baseados em estruturas identitárias fixadas. 2008. Ed. MOTA. me u objetivo com esse trabalho é apresentar uma discussão sobre esse processo. um discurso e uma estética caracteristicamente descolonizadora. Marilise Luiza M artins dos Reis (UFSC/UDESC) RESUMO A América Latina e o Caribe apresentam uma multiplicidade de povos afrodescendente s em seu território. paulatinamente transitando para modelos discursivos e de ação p olítica baseados em estruturas de identificações mais múltiplas e desterritorializadas. 2008. Mário Martins. Imperatriz: Ética. São Paulo: Universidade de São Paulo – Banco de Teses e Dissertações. Tradução: Antonio de Pádua Danesi. ou como Venezuela. 188 ----------------------. O governo das conquistas do Norte: trajetórias administr ativas no Estado do Grão-Pará e Maranhão (1751-1780). àquelas como o Brasil. Na última década. muit as das redes de organizações políticas negras desses espaços têm dado indícios de que está emergindo um novo tipo de Movimento Negro.

que De muda termo empregad deslocamentos e de desterritorializações a própria noção de afastamento e amplia geográfico. Ao desterritorializar e reterretorializar. movimento negro. gradually moving to the narrative and political action based on structures and multiple identifi cations more deterritorialised.Page 190----------------------cultural (HALL. Cuba and Colombia. a diáspora não pode mais ser entendida apenas como mero deslocamento físico. those such as Brazil. rigid and on spatial distribution. transcultural and diasporic. Uruguay and Peru. em o como sentido geográfico. Palavras-chave: redes de movimentos sociais. less reasoned discourse and actions based on identity structures fixed. based on the performance of the Red de Mujeres Afrolatinoamericanas. Afrocaribeñas y de la Diaspora (RMAAD). Key words: social movements network. ranging from the predominantly black societies and cultures of several Caribbean countries. diaspora. vem pondo . em escala real ou virtual. which in turn gives the black movement a transnational setting. many networks of black po litical organizations in these areas have provided some evidence that is emerging a new kind of Negro Movement. América Lati na e Caribe. In this sense. INTRODUÇÃO Atualmente. diáspora. uma espécie de experiência intelectual e consciência identitária que perturba modelos fixos de identidade 189 ----------------------. with significant black minorities. ABSTRACT: Latin America and the Caribbean presents a multiplicity peoples of African desce nt in their territory.diaspórica. passou também a designar um tipo de consciência. or as Venez uela. uma metáfora de isto é fato. um modo de produção cultural. In the last decade. Latin America and the Caribbean. black movement. my goal with this paper is to present a discussion on this process. que por sua vez confere ao movimento negro uma configuração transnacional. to demonstrate how has been developed in Black movements in Latin America and th e Caribbean an aesthetic discourse and a characteristically decolonizing. 2003). with a significant proportion of African descent. and a pos t-colonial approach.

simbólico. com agências de cooperação nacional e inte rnacional na busca da formulação e implementação de políticas públicas de promoção de igualdade. nificativamente para São elas quem têm contribuído sig evidenciar as desigualdades raciais e de gênero a que os povos africanos escraviza dos trazidos para as Américas estiveram (e estão ainda) sujeitados. no território de pressupõe uma experiência de extra território ―terra mãe . sob um prisma mais subjetivo. politizando temas vêm que impondo até então diferentes territorialidades e estavam subalternizados e invisibilizados. tomando a diáspora africana como perspect iva. constituem cada vez mais . uma espécie de laboratório das experiências sócioespaciais pós-modernas e de fenômenos correlatos como a fragilização de alguns Estados n acionais. da eqüida e da justiça social. E. E são a s mulheres afrodescendentes e empreendem deste território. um espaço no qual o sujeito estabelece um vínculo afetivo. constrói sua história e concretiza suas relações e fatos so ciais. uma parte ou como qualquer da superfície terrestre. da fluidez econômica e do hibridismo cultural. Torna-se.em xeque a compreensão do território apenas como um mero substrato fixo. nesse um movimento transnacional sentido. o termo ainda pode ser percebido por um terceiro prisma. o judiciário. a cada ação política que desenvolvem. ou subvertê-lo. as esse processo. a diáspora. portanto. muitas vezes incl ―acolhimento . o legislativo. como um Movimento Social. Na América Latina e Caribe. para vê-lo. Talvez isso se explique porque a diáspora territorialidade e traduz a ideia de uma vida fora do usive. protagonistas. com o executivo. ou. na qual o Estado-Nação exerce seu poder e estabelece seus limites. as vozes qu mulheres que nos últimos vinte anos se organizaram de múltiplas formas e que. promovendo diálogos permanentes e pe rcorrendo caminhos que estão possibilitando construir parcerias e práticas estratégicas com a so ciedade civil.

1999).glocalizado na região. 2001. CARNEIRO. marcou o espaço de onde ecoam as vozes diaspóricas que se concre tizam pelo movimento. reunido em torno de múltiplas identidades afro que. 190 ----------------------. Nesse contexto. Foi a partir dessas vozes que se fizeram ouvir. a temática do racismo e da discriminação racial se consolidaram função principalmente do como pauta internacional. em logísticos processo preparatório para a III Conferência Mundial contra o Racismo. rede nacional fundada e m . a partir dele. indicam a superposição de novas territorialidades. transterritorialidades95. etnia/raça e cla sse no âmbito internacional. expandiu-se o número de redes e organizações. O protagonismo destas mulheres nesses espaços preparatórios é evidente. acadêmicos. multiterritorialidades. como foi. pois. a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas (DURBAN. ou ainda. e também culturais.Page 191----------------------uma diversidade de movimentos negros . ÁFRICA DO SUL. A fragmentação da territorialidade total em lugares às estratégias de produção multidimensiona a ação e o poder em escala mundial (BAUMAN. por sua v ez. sindical.religiosos. o período que se desenvolveu ao longo da década de 19 90. o caso da c riação da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB. 2001). compostas por liderança s femininas de 95 A transterritorialidade é uma ordem de sequências econômicas. a Discriminação R acial. pr oduzidas na dinâmica global. autônomos. momento no qual o movimento de mulheres definitivo com os debates Mundiais afrodescendentes organizadas pela envolveu-se Organização em das Nações temáticos das Conferências Unidas – ONU para a ampliação e o fortalecimento da abordagem da intersecção de gênero. por exemplo. mudanças espaços-temporais que produzem alteridade e solidariedade. cultural de várias regiões da América Latina e Caribe que. no biênio 2000/2001.

tanto nesses territórios (ALVAREZ. SOARES.2000. cuja declaração explicitou os efeitos perversos do racismo. do se xismo e do classismo sobre este contingente social (CARNEIRO. são visíveis as vivacidades do fem trajetória de reformulações. questionaram a ideia de nação. como e de agendas portanto. acrescenta da das a visão do enegrecimento um do aspecto políticas mulheres negras. denunc ando questões sérias como a relação de subordinação estabelecida s e entre as entre homens e mulhere mulheres brancas e negras no seio das mais variadas sociedades de passado coloni al. no pós-Durban. inismo negro com sua 2004). que passaram a compor o que denomino como as vozes e políticas da diáspora na América Latina e Caribe . Foi. assim como den unciaram a maneira subalternizada e marginalizada com que foram incorporadas nos movimentos sociais. na medida em que suas questões específicas eram secundariz adas. as condições históricas das Américas que construíram a relação coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. 2001). assim como a consciência da sua inserção em fronteiras cada vez mais fluídas. Segundo diferentes autoras. 1998 ) como no Brasil (CARNEIRO. Nesse ínterim. conflitos e conquistas. Além disso. trazendo novas personagens e real idades. A organização das mulheres negras passou igualmente a incidir de mane . 2003. construíram novos caminhos na luta pela igualdade e justiça. De fato. tanto feministas quanto negros. Carneiro (2003) movimento feminista e ampliação altamente do protagonismo positivo. ao demonstrarem o caráter mundial e transnacional das situações de conflito. a afirmação desses específicas desses grupos protagonismos invisibilizados entrando efetivamente na pauta política e transitando mundo afora. in visibilidade e exclusão vivenciadas por todas elas na região. A esse contexto. as mulheres n egras passaram a elaborar críticas sistemáticas às questões que evolvem as políticas de modernização.

Esses estudos. De fato. ―vozes e prátic fronteira e das chamadas minorias ―raciais e sexuais. Perspectivas estas que têm demonstrado c . ou uma contranarrativa. Em decorrência disso. na diversidade e na diferença. tentando fornecer uma história alternativa. concebendo a(s) identidade(s) enquanto um processo d e construção e desconstrução de subjetividades que se faz. incutida e just ificada pelos discursos históricos hegemônicos é um reflexo desse fenômeno. como omo aqueles convocados pela já dito. está const ituído o contexto de novas que exige das ciências análises (SCHERERhumanas o desenvolvimento WARREN.ira positiva na condição de vida das mulheres e de toda a sociedade. 2005. a reflexão vivencial e teóric a. de estudos sobre as narrativas. da sociedade civil.Page 192----------------------seus múltiplos agenciamentos. Este protagonismo vem impondo. regionais e internacionais repercutiram. os atuais quadros teóricos de análise dos movimentos sociais estão em crise e. em resposta à colonização dos povos e das mentes. e o potencial organizativo dessas mulheres. novas perspectivas de análise advindas dos est udos culturais e pós-coloniais se apresentam cada vez mais. têm se dado na forma de redes. como consequência. Também. cada vez mais. além de reite rarem o que de a teoria que os das redes dos novos processos movimentos e suas sociais respectivas já comprovou. c ONU. a necessidade de abordagens q ue nos dêem subsídios para compreender os sentidos e os não sentidos das ações desses sujeitos históri cos nos 191 ----------------------. formas de articulatórios empoderamento. 2006). visando à afirmação de agendas políticas locais. trazem algumas outras variáveis que apontam para um novo sentido. nos eventos mundiais. A multiplicação de as das diásporas.

esses contextos indicam a existência de novos encontros comunicativos. e mesmo de redes sistemáticas e duradouras de intercâmbio entre grupos sociais e indivíduos de or igens diversas que. o desafio negras. A composição demonstra também que esses movimentos. ao extrapolarem fronteiras simbólicas e terri toriais. na América iplas por meio de uma Latina e no Caribe. rígidas e territorializadas. bem como de suas ações políticas em conte xtos pós-colonizados (SCHERER-WARREN. dessa integração societária 2003. não em torno de estruturas ias fixas. 2010). 2005. 2006). . vêm constituindo. e propiciado pelo empoderamento e protag Nesse caso. estariam promovendo uma integração societária para além das fronteiras nacionais (COSTA. o papel dos crítica das abordagens clássicas da modernidade. mulheres. surge como o desafio que tem exigido novas posturas d as pesquisas em torno desse tema. 2006). dessas Assim. identificações múlt ―afrodiasporicidade que se configuraria. mas em modelos baseados em estruturas de discursivos e de ação identitár política identificações múltiplas. movimentos sociais na releitura criativamente. em uma dinâmica descentralizada.apacidade e potencialidade de inovar e repensar. foi lançado pelo protagonismo afrodescendentes. sujeitos diaspóricos: vozes e ações políticas constituídas no âmbito da diá pora. fronteiriças e desterritorializadas. A emergência da contranarrativa e de uma estética caracteristicamente descolonizadora. vez mais na forma de redes. transna concretas dessas mulheres. cional e diaspórica nas ações transcultural. É todo esse ―movimento onismo dessas mulheres que nos levou a conceber a diáspora como um movimento social dotado de um a estética de ação que se transnacionalmente configura cada (Reis.

imaterial e simbólico na região. o reduzido poder político dos 150 milhões de afrodescendentes que compõem esses territórios. com uma destaque para a situação que de pobreza permaneceu. as organizações atomiza das e a pouca visibilidade. contingen do Bra africanos escravizados aportaram nas te. do Uruguai e do Peru (WERNECK. as especificidades ex . assim como também da Venezuela. guardadas. obviamente. tempo. 2003). das mulheres negras. De acordo com Ferreira (2006). um processo de deslocamento forçado do mai s numeroso grupo de pessoas pelo planeta. e discriminação até pouco crescente. resultado da africanos diáspora e afrodescendentes em seu africana ocorrida a partir do século XVI.Page 193----------------------dotado de uma contranarrativa ante os discursos hegemônicos. Atualmente. de Cuba e da predominantemente Colômbia. que passa a atuar com o movimento social e que constitui o processo de construção do movimento afrodiaspórico na América L atina e Caribe. Calcula-se que de todo mais ou menos 20 milhões de o contingente Américas. da região e a despeito do que rep material. apesar de ser igual ou maior do que a situação resentam dos povos originários de aporte cultural. negras do deslocado. grande parte constituiu as sociedades e culturas sil. Desse Caribe. a população negra desse espaço territorial é quase quatro ve zes maior do que com situação muito a indígena. grande parte motivada pela escravidão e pelo tráfico negreiro através do Atlântico.192 ----------------------. 1 A TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO NEGRO NA AMÉRICA LATINA E CARIBE Uma das características principais da América Latina e do Caribe é a p resença de uma multiplicidade de povos território. pouco discutida ou considerada em fóruns internacionais e pesquisas acadêmicas.

na Colômbia. têm acesso apenas de 90% aos afrodescendente empregos de menor remuneração e contam com baixo nível de instrução. em Cuba. estão sujei os à discriminação constante por causa da cor da pele.Page 194----------------------Discriminação Étnico-racial e Xenofobia. 80% do s afrodescendentes vivem na pobreza extrema e. que mais . a maioria del as concentrada no Brasil. (CEVALLOS. segundo pesquisas feitas nesses países. e a gestar espaços fora ou nos interstícios . a população branca é 2. chama a atenção a tênue presença política desta comunidade96.. 193 ----------------------. vivem nas piores habitações e têm os trabal hos de pior remuneração.. disso. na Colômbia e Venezuela. diz o es tudo da Cepal intitulado 96 A Bahia. para da o alargamento população dessa situação. é amplamente reconhecida como o estado de presença negra mais forte em termos culturais e sociais no Brasil. inclusive. é de ―alta densidade e pouca ressonância . Embora somem 150 milhões de pessoas.5 vezes mais rica do que a negra. Uma pesquisa de 2001 feita pela Comissão Econômica p ara a América Latina e o Caribe diz que ―a população afro-latina e afro-cariben ha . por exemplo. foram estiveram submetidas estas populações desde o período da escravidão e pós-abolição que as le ou a constituírem diversas formas de luta. de acordo condições a que com Ferreira (idem). são Estudos pobres contribuíram significativamente disponíveis indicam. 2005) estas mesmas Entretanto.istentes entre um e outro país.) No Brasi l. Já o número de políticos baianos negros eleitos para o Congresso tem sido historicamente muito baixo. abertas e encobertas. bem como a falta de dados completos sobre sua situação econômica. que chega a quase 30% do total de habitantes da região. seu pouco acesso a instânci as de governo. único país da América co m sistema econômico socialista. Além. (.

ba irros e esquinas. a primeira república livre do mundo liderada por africanos da diáspora. destacam-se diferentes códigos duas grandes culturais no Brasil africanos. inúmeros movimentos sociais e culturais. Destacam-se também os veram os processos de no reconstrução e Novo Mundo. palenques pri Venezuela. quando há uma busca pela re -ligação com a Terra Mãe. Ferreira cumbes na (idem) faz referência. com a África ―perdida (GUERREIRO. sua reinterpretação sistemas emergentes resultantes de processos de sincretismo e de fusão de vários mo delos religiosos africanos.do sistema dominante. 2000. transformação as espaços religiosos nos dos sistemas quais se desenvol religiosos africanos transformações africanizadas e ressignificação. quanto seriam as primeiras peças a vir compor o que denominamos como vozes e políticas da diáspora97. no campo ou nos centros urbanos. Já no contexto da década de 1970. freevillages na Jamaica. fizeram emergir o fenômeno que considero o mais preponderante em todo esse processo: a extrapolação dos localismos e a emergência de uma identificação dinâmica e fluída em torno do próprio termo ―afro . ressignificado pela ideia de diáspora africana. Entre esses espaços construídos meiramente. 2006). e o Entre processo es de experiências: o Quilombo de Palmares formação do Haiti em 1804. 2010) . e os de sistemas cristãos. Essas práticas rituais formaram (e formam) m importantes espaços de expressão tanto no novo formato simbólicos e materiais que resultara desses movimentos em finais do século XX e início do XXI. organizações e redes de organizações negras da América La tina e do Caribe. nos cenários nacionais e internacion ais. europeus e ameríndios (FERREIRA. e bush societies no Suriname. aos quilombos brasileiros e a seus co-irmãos em Cuba e na Colômbia. Essas . ressignificando ruas. como espaços libertários que reconstruiriam e transformaram tes. FERNANDES.

movimentos A partir desse evento sociais negros pela multiplicaram-se as redes de América Latina e Caribe. criminalizados e desvalorizados.Page 195----------------------movimentos e para a formação culminaram na principal de redes nacionais e transnacionais que participação afro-latino-americana em eventos transnacionais: a reunião de 1994. a liderança das mulheres negr as entra em cena. por meio dos processos de desetnicização e de nacionalização. de movimentos sociais. a Rede A froamérica XXI. 2001). com o objetivo de provocar o diálogo po . foram de mobilizadas na forma de redes cisivas para a eficácia desses 97 Importante ressaltar que esses legados culturais africanos não foram larg amente aceitos.formas organizativas. foram. como resultado da preparação para a III Conferência a Aliança Estratégica de Organizações Afro-latino-americanas e levar à Conferência as demandas e propostas dos RREIRA. posteriormente assimilados negativamente. em Mo ntevidéu. rejeitados. 2006). convocada por vár ias organizações negras mundiais. com da E nasceu d e Caribenhas. excluídos. com destaque para os processos de miscigenação e de valorização da mestiçagem (COSTA. Em 2008. no Brasil. com destaque para a Rede Continental de Organizações Afro-ame ricanas. ex ecutado pela Fundação Cultural Palmares. composta por cinco redes regionais. Na década de 1990. 194 ----------------------. movimentos Mundial y Caribeña Contra o (GALCI). durante grande parte do século vinte. denominada ―Primeiro Seminário Continental Sobre Racismo e Xenofobia . para a criação do portal Observatório Afro-Latino e Caribenho. e a Iniciativa Global AfroLatina m 2000. Ao contrário. por meio de teorias e políticas nacionais de embraquecimento e. Racismo. quando surge a Red de Mujeres Afrocaribeñas y Afrolatinoamericanas. sociais negros a missão região (FE destaque.

em 1988. Na região. cas.ENF. A emergência desses novos instrumentos e formas de organização. AFRO-CARIBENHAS E DA DIÁSPORA (RMAAD) 195 ----------------------. e no Feministas . em 1991 e 2001. Por parte do Brasil 14 Encontros Nacionais Movimento Negro.ENMN. foi realizado um total de 10 encontros feministas latinoamericanos e do Caribe. reunido s em torno de identificações afro-latino-americanas. 2 A REDE DE MULHERES AFRO-LATINO-AMERICANAS. assim o desenvolvimento marcou um momento fundam de uma nova e cult tran forma de redes locais. desde os idos anos 1970.. tem pressionado os governos a s públicas atenderem suas demandas voltadas para a afrocaribenhas por meio e afrodiaspóri de política históricas reparação das desigualdades que afetam afrodescendentes. 2006.r meio da compilação de negras latino-americanas e caribenhas informações das comunidades a ser disponibilizadas na INTERNET. de educação para a diversidade cultural e de políticas de combate a todas as formas de discriminação (COSTA. como pelo regionais surgimento de inúmeras ONGs. com grande foco para a liderança e o protagonismo das m ulheres negras. nacionais. 1992 e 2001. 2007). De fato. a primeira década do século XXI ental para o movimento negro das Américas: ura política pautado pela organização na snacionais. 2003. queremos que as sociedades latino-a .Page 196----------------------. e no Brasil foram realizados dois Encontros Nacionais de Entidades Negras. além de três Encontros Nacionais de Mulheres Negras .. em 2000. foi criada a Aliança de Líderes do Movimento de Afrodescen dentes da América Latina e do Caribe.

internacionais são fundamentais para compor o rol de direitos reivindicados por ho mens e mulheres negras nções para o enfrentamento do e tratados internacionais racismo. Essa rede reúne organizações de 25 ibe e nasceu países da América Latina e Car para atuar contra o racismo. a lesbofobia e contra tod as as formas de exclusão. atuando em 25 países de forma individual e coletiva. o passo seguinte l de mulheres negras. mesmo dia em que foi criado o dia Internacional da Mulher Afro-lati no-americana e Afro-caribenha. Do rotea Wilson. a homofobia. A intenção primeira é a de dar visibilidade a situação das mulheres negras. a discriminação. a Rede destaca as alianças e stratégicas com outros movimentos sociais. mais d e 500 mulheres constituíam a Rede. de acordo com pesquisa empreendida pela organização. incidindo em cada país do continente por meio de organismos e fóruns internacionais99. formulando propostas de empoderamento. foi constituída a Rede de Mulheres Afro-latino-americana s.mericanas e caribenhas reconheçam a liderança das mulheres negras. Após essa conferência queremos estabelecer pressupostos de ações de combate à violência será o desenvolvimento (EPSY CAMPBELL98) da articulação globa racial. Afro-caribenhas e da Diáspora. assim como conve . temos ferramentas educativas. nossa capacidade de líderes. e depois. explica que a RMAAD visa ao fortalec imento das organizações e movimentos de mulheres negras. denunciando a exclusão e políticas públicas que devem ser assumidas por Estados e organismos internacionais. capacidade de incidência e reconhecemos a necessidade de gerar diálogos e p ontes com quem ocupa postos com os governos. posto que somos lítico. e Durban e o aumento da participação ica evidente a implementação do Plano de Ação F d da juventude no movimento como os marcos de mulheres negras. Em 1992. discurso po proposição. que desde 2006 responde pela coordenação geral. Na articulação para o combate ao racismo. onde de poder e decisão. No início de 2010.

org. visto que são entendidos como fundamentais para o registro e análise da realidade dos sso à saúde. tem sido largamente reinvidicados. em entrevista concedida ao Boletim Gênero. entre outros tantos níveis de informação que servem de base para as políticas públicas 100.br/costa-rica/epsy-campbell-barr. vem ocupando cada vez para a Rede. F onte: Portal Geledés (URL: http://www. 99 Dorotea Wilson. própria população A autovêm se tornado afrodescendente matéria de acerca identificação racial passa a ser entendida.Page 197----------------------familiar. preside o Parti do Ação Cidadã (PAC). A omo espaços criação de espaços de consulta e dessas onde estejam integradas. como ponto chave para a consolidação de políticas públicas de inclusão dos afrodescendentes na vida social e econômica de vário s países latino-americanos e caribenhos101. é fundadora do Parlamento Negro da s Américas e presidiu a Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas. O censo revela o retrato da população. em 2002.geledes.relacionados aos direitos humanos das mulheres. Etnia e Pobreza – Agosto de 2010. A coleta de dados desagregados por raça e etnia na rodada dos censos 2010-2012 na América Latina e Caribe é uma e visibilizar estatisticamente as e os afrodescendentes da reg ião. portanto. ace 98 Epsy Campbell. Foi eleita a quinta deputada negra da Assembléia Nacional da Costa Rica. Raça. economista. assim ma c monitoramento acerca das condições is centralidade mulheres. conformação afrodescendentes em termos de habitação. Censos que incorporem dados desagregados pelas variáveis raça/etnia.html). feminista negra latino-americana. 196 ----------------------. nessa perspectiva. po r exemplo. Por isso os Censos Populacionais luta política e instrumento de monitoramento da de suas condições. se torna um instrumento para o exercício da cidadania e o stratégia decisiva para . Diri giu até 2005 o Centro de Mulheres Afro-Costarriquenses.

esta está ca racterizada primeiramente pelas múltiplas conexões que constituem nesse território. ETNIA. RAÇA. nas estruturas de poder e no . (BOLETIM GÊNERO. emprego e renda. educação e saneamento. o que inclui o acesso a melhores condições de vida. e outras designações correlatas. e depois. Em estági os países da América Latina e Caribe caminham para um a juste de contas com os direitos das populações negra e indígena ao buscarem informações s obre os seus modos de vida. 100 E que fazem parte de um compromisso que os governos selaram na III Co nferência Mundial contra o Racismo. 2010) os diferentes. habitação. No que tange a dinâmica transnacional que compõe a RMAAD. acesso à saúde. educação. moradia. Terras de Preto. assim como uma política unidades rurais.fortalecimento da democracia. comunidades as quais se de encontram terras políticas para as de com específica quilombolas. O objetivo é a transformação geral das condições que permitem o racismo e a discriminação rac al contra os afrodescendentes. utural da A inserção da luta agenda feminista e o contra o racismo como das eixo desiguald estr aporte institucional e financeiro para ades de raça e gênero é outro enfrentamento pressuposto da Rede. mas igualmente a participação e a tomada de decisões s organismos de representação popular. Existe um conjunto de desafios relacionados ao reconhecimen to dos direitos dos afrodescendentes e a luta contra a discriminação e o racismo impõe a necessidade d e redobrar os esforços para fomentar programas de eqüidade e de melhoria das condições de vida das pessoas de ascendência africana entre emprego. pelo s objetivos. Também se requer a impl ementação de programas de saúde integral destinados à população afrodescendente em áreas rurais e ur banas. qualidade de vida. oportunidades de trabalho. exp osição à violência e violação de direitos.

como e a reformulação e secundária. seguem para o refinamento das informações censitárias. Está em curso a construção de um mapa etnicorracial que retrate as reais condições socioeconômicas das populações historicamente excluídas. enquanto outros. ação afirmativa que integrem os princípios de eis nos países onde os grupos e das vítimas formas do racismo. particularmente no referido à implementação de planos de ação naciona l. podemos citar a luta pela consolidação das obrigações e compromissos estabe lecidos na Conferência de Durban. incluem pela primeira vez o recorte etnicorracial nas pesquisas populacionais. 197 ----------------------. o fortalecimento dos o rganismos governamentais e dos organismos assim como a criação de organismos a geração de direitos humanos e o tratamento da independentes de direitos humanos. Entre estes. Este é um passo decisivo para a responsabilização dos países com relação ao combate ao racismo e às desigualdades.Page 198----------------------perspectivas e princípios que dão base para o desenvolvimento das ações políticas da rede em rede. O desafio é que os Estados assumam a brevidade. conexas de também se requer igualdade da e a implementação de políticas os de nív não-discriminação em todos discriminação racial. organismos técnic informação por meio de trabalho os. Além disso. governos e organismos . independentes conjunto com e autônomos. o reconhecimento. afrodescendentes e outros grupos culturalmente diferenciados e discriminados. n constitucional da legislação nas garantam e os a interculturalidade. direitos coletivos dos a eqüidade oportunidades. da xenofobia intolerância configurem uma porcentagem relevante da população.101 Países com coleta de dados por raça e etnia secular. como o Pan amá e Costa Rica. que a e material bem harmonização dos instrumentos jurídicos nacional. o desen volvimento e o monitoramento formal acionais e internacionais. a ratificação. como Brasil e Estado s Unidos.

em sua complexidade e positividade. assuma seu papel no no c não-discriminatórias assim como políticas específicos e gerais dos sistemas que incorporem os saberes. a história e a cultura negra e afrodescendente. particularmente as me ninas. da xenofobia e das formas conexas de intolerância. ao incorporar e ao conceito de d múltiplas. tão fortemente arraigadas nos territórios latino-americano e car ibenhos. que figuram entre as principais vítimas do racismo. 1999). e que i presentes nas perspect democracia racial. combate ao racismo e à discriminação urrículo e nos racial. 2003). incorporando objetivos que a educação práticas educativos. o combate dos estigmas.. e ações em favor da infância afrodescendente. das imagens falsas e dos estereótipos negativ os de grupos e pessoas vulneráveis.multilaterais e de cooperação. tentativa[s ] de especificar a diferenciação e a identidade de um modo que possibilite pensar a questão da comunida de racial fora de referenciais binários restritivos – particularmente aqueles que contrapõem ess encialismo e 198 . está dando cada vez mais força ao termo ―afro iáspora. da discriminação racial. A Rede também está performando um papel nge a questão imprescindível no que ta das identidades ou identificações múltiplas (ver: HALL. que se incorpore a perspectiva de gêne ro no combate ao racismo. bem como nas suas validades enquanto ―. quando passaram a incorporar formas de ser afrodescendente na América Latina e Caribe que extrapolam os essenc ialismos que estão impregnados na identidade ―negro/negra gualmente se contraponham às armadilhas ivas da mestiçagem e da ideológicas (ver: MUNANGA. Isso. O identificações que se percebe é que mais amplas e esta Rede..

em nome de um projeto civilizatório.Page 199----------------------pluralismo (MOREIRAS. que apon tam para o surgimento do que ajuda a diálogo dessa Rede compor a sua com a abordagem pós-colonial e contranarrativa e a sua estética diaspórica. essas revivescências. as ―vozes que ecoam dessas organizações de mulheres. as mesmas questões sociais. é o distanciamento dos essencialismos e exclusivismos de identidade e a tomada de consciência dessa experiência comum. desconstruindo as leg itimações negativas impostas pelo dominador. 3 AS “VOZES”: CONSTRUINDO A CONTRANARRATIVA DA DIÁSPORA. Quando falamos em garantir as homens e mulheres no mercado de trabalho. da musa idolatrada dos poetas. estamos garantin mulher?. 239). 2001. (SUELI CARNEIRO. domesticado e servil. porque o model o estético de mulher é a mulher mesmas oportunidades para branca. só pode ser compreendido quando posto em confronto com o discurso colonial . de que mulheres estamos falando? As mulhe res negras fazem parte de um contingente de mulheres que não são rainhas de n ada. que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira. identitárias. ou seja. Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar.----------------------. assim como para a descoberta de que os afrod escendentes de todos os países latino-americanos e caribenhos compartilham os mesmos problem as. . Por sua vez. denominado aqui do emprego para que tipo de diáspora. epistemológicas e identitárias elaboradas por essa narrativ como desenvolveu Bhabha (1998). são as manifestações desse ―ou eu se desvencilhando daquilo que sempre foi dito. como a ―voz de Sueli Carneiro102 na citação acima. culturais. tentou transf ormar o outro em outro eu. p. que muito mais os aproximam do que os afa stam. Nesse sentido. e sempre em contraposição às construções que. 2001) como O discurso desenvolvido contranarrativa da pela RMAAD.

decomposição dos elementos. a contranarrativa da diáspora empreendida pela RMAAD se apresenta como um processo que primeiro desconstrói103. insere na a contranarrativa da diáspo perspectiva crítica das obras portadoras de um discurso de caráter pós-colonial. 103 Nos termos de Derrida (2002). porqu e propõe que façamos uma releitura da colonização. 102 Fundadora e coordenadora-executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra . 199 ----------------------. e um la não apenas a sua política. onde o que está nascendo é um contra-discurso. bem como como espaços de revisãodas organizações a ela articuladas. e deslocado que incapaz vio de pelo discurso como dominant detento (1975). É um movimento de desconstrução do di scurso colonial. Por isso. mas sim desmontagem. reescrever as anteriores gr andes narrativas. como bem res de um passado traiçoeiros produzir desenvolveu amarrado Fanon a e degeneração. Apresenta-se conta a história como uma visão d construída da modernidade desde outra perspectiva. para depois reinterpre tar e construir uma narrativa diferente do discurso unificador das vozes dominantes que se constituíram como a H istória oficial latino-americana e mundo que e caribenha. que representa os negros. Ao ra da RMAAD se retomar-revisar-deslocar. concebendo-a como parte de um processo transnac ional e transcultural global o que implica.Page 200----------------------deslocamento dos sentidos construídos/constituídos e. a desconstrução não significa destruição. como consequência. 1998). mas também humana. estereótipos uma história de primitivismo de presente condição desmembrado progresso civil. podemos pen sar o discurso da RMAAD.Assim. . que busca demonstrar como a s narrativas coloniais são legitimadoras de dominação e poder (BHABHA.São Paulo/BR.

Nesse estrutura de uma identidade processo. ponto de 2005). isso De acordo com seria possível a análise porque de Stuart que tanto Hall tem do a (idem. estamos em meio a uma crise das na ação conjunta de um duplo deslocamento: a descentralização o mundo social e cultural. que desestabiliza o próprio sentido das identidades até então estabelecidas. subalternizadas estão Nessa contranarrativa.próprias do período colonial. as vozes postas no centro do processo de elaboração da história. de vista discursivo-ideológicos os quais e de afir impulsionam e dão base para a ação política. na qual a A RMAAD COMO MOVIMENTO TRANSNACIONAL AFRODIASPÓRICO One Love! One Heart! Let’s get together and feel a fechada em elementos estabelecidos no papel ou na história perde força e dá lugar à cons trução dos desarranjos emergem e ao deslocamento diferentes leituras de e signos e significados. até atingir o que os teóricos define . origem seu lugar postura n p. quanto de si mesmos. pós-colonial e desconstrutora. Tal de sujeito do Iluminismo. agora (re)contada por quem efe tivamente a viveu. 4 ll right. (BOB MARLEY) A RMAAD emerge como movimento afrodiaspórico porque caracteriza. diaspórica. e possível perceber 2006a. 07). construída sobre este povo na perspectiva do discurso-ideologia do colonizador pas sando. torna-s p como se deu a colonização pelo roblematizando a representação colonizado. ressignificações que vão dar outras configurações aos sujeitos do movimento. tendo como lócus enunciativo a situação de diáspora vivenciada pelas populações africanas (COSTA. então. vista Com do isso. MARCON. c omo já dito. a inserir mação novos pontos de identidades. uma contranarrativa. dos identidades indivíduos mutação desenvolveu-se desde evoluindo para a concepção de sujeito sociológico.

2003 . 2009).uma diáspora. ixas. ―formado e transformado continu amente em 200 ----------------------. o sentido desconstrução puramente das identidades que lingüística e RMAAD adota é o das identidades em permanente construção. O que passa a dar ―identidade e ―unidade s têm conformado coalizões s e culturais. para não pós-moderna. sem identidade fixa permanente. para além do ―negro categoria que reflete equivocadas ideias racialistas. (independente do facilitando a conscientização e o engajamento no combate ao racismo (ver: GUERREIRO. a Rede ressignificou as identidades. que reforça estereótipos e leva a manute nção de estigmas e supremacismos identificação que . 23). para com isso compor identidades diferenciadas. . numa a cair na armadilha anacrônica da de textualidad termos. Tomando esse sentido. ligando-as às ideias de afastando-as das posições f . p.Page 201----------------------relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas cultura is que nos rodeiam . O que marca são as a a esses movimentos são identificações múltiplas as q baseadas que em afinidades esses histórica movimentos inter-comunais múltiplas identificações experiência do configuram deslocamento e seus desdobramentos e não uma identidade racial homogênea (HALL. de forma positiva. e Entretanto.m como o sujeito pós-moderno.em direção a um termo positivado: o prefixo ―afro . estimularia os que fogem dos velhos termos estigmatizados a se autodeclararem e se visualizarem dentro de um grupo de origem ancestral africana fenótipo). ou seja. processo que se dá em consonânci a com as ações concretas dos movimentos sociais e culturais a ela articulados.

exclusivista e essencializada. em torno de uma tentativa identidade fixa e imutável. significativamente. pela in corporação da diáspora como experiência intelectual e como vivida. e que se dá pela substituição do termo negro pelo afro. É nesse contexto que emerge a RMAAD como movimento afrodiaspórico. Depois. construídas na e pela contranarrativa da diáspora. bens Implodiria gelamento e num mundo pessoas. impedem que sejam construídas baseadas em diferenças. De nominoo assim. perspectivas caracterizado dessas pela qualquer comunidades. na medida nem uma temporalidade definida. Como desenvolveu Costa (2006). de con ―viagem também.Essas identificações. especialmente sons. para combatê-las. como produção cultural. dariam ênfase à multiplicidade de histórias e assim como à cultura híbrida.Page 202----------------------muito menos. . porque nasce algo que antes era pautado por certa secundari central para os movimentos negros: a identidade racial masculina. zação de primeiramente. Nem. de imagens. e/ou reinvidicadas políticas públicas. como experiência consciência identitária. em direção a identificações que permitem maior fluidez e capacidade de abarcar questões trans versais e performativas. O que se observa é que os movimentos sociais negros da América Latina e Caribe começaram a perceber que não se encaixar em categorias o fato de determinado sujeito essencializantes e excludentes. os quais se caracterizam por não terem uma terr das identidades. o fato de estes movimen tos atuarem em contextos transnacionais itorialidade de ação. 201 ----------------------. não invalida a existência de estruturas de poder e p rivilégio. possibilita essa ―libertação em que as referências nacionais aparecerem diluídas ou deslocadas de seu contexto territorial de origem.

uma inserção ser diferenciada consideradas nas exigir da política esferas de poder apontando para especificidades que precisam e respeitadas.E. quebrando culturais negras. portanto do querer um mundo melhor. colocam ―em discussão o próprio processo de construção da política moderna enquanto espaço privilegiado de representação dos interesses mundo do homem branco a a e das visões de (COSTA e AVRITZER. Nesses processos o desenvolvimento da estética . uma estética não apen as artística104. solidária e coop erativa. por fim. 2005. por meio de suas a ela articuladas ações. na composição de uma perspectiva política crítica como um projeto coletivo de ver e querer a sociedade (FERNANDES. para visibilidade desenvolvimento das potencialidades da vida social participativa. incita-nos a são Extrapolando territorialidades observar como o movimento negro encontra-se hoje num momento diferenciado de atuação. Como diasporic publics (públicos diaspóricos)105. mas também política. configurando uma re-significação. sua ação política (CARNEIRO. visto que foram populações inseridas de forma ambivalente na Dessa inserção ambivalente na história discurso emerge aquilo filosófico da que Gilroy (2001) diáspora. subjetivação e desse modo. ALZUGARAY. p. a partir da perspectiva de quem sempre esteve fora das narrativas nacionais. 722). a estética afrodiaspórica. Pass contemporânea nacionais. mas também. como sua o his designou reconta contranarrativa que reinterpreta a modernidade tória. Surge como substância a ser compartilhada para a construção de novas formas de ser. a e modernidade106. 2004. que vão compor. 200 1). que modifica não apenas a estrutura do movimento. vão positivação das estereotipias o sendo e re-trabalhadas dando formas às de formas representações. 2005). de desejar e de desenvolvimento da vontade. A representantes RMAAD dessa e as organizações estética.

afrodiaspórica da Rede insere-se também nos esquemas do multiculturalismo na medida em que toma

crítico

anti-essencialista107,

para si, como vimos anteriormente, uma forte ênfase em temas transnacionais, em qu estões globais e na interseção entre o local e o global, demonstrando como existe algo local em tud o que é global e vice-versa, indo além das dicotomizações. Ou seja, o movimento afrodiásporico, represent ado aqui 104 A arte joga um papel importante nesse processo, mas é questão para outra d iscussão. 105 A ideia de públicos diaspóricos contempla todos os novos públic os que apresentam uma inserção ambivalente no espaço público nacional: ao mesmo tempo em que partilham dele, compartilham redes transnacionais e se constituem como agentes permanentes de introd ução de inovações sociais no contexto nacional (AVRITZER e COSTA, 2004, p.722-723). 106 Não como cidadãos e sujeitos de história, mas como mercadoria e objeto. 107 A perspectiva multicultural vem oferecendo um novo dinamismo aos prog ramas de organização e resolução dos problemas materiais e o a desconstrução das identidades estruturais e fixas (SHOHAT e STAM, 2006). 202 ----------------------- Page 203----------------------na figura da RMAAD, emerge espaço que seja ao mesmo da complexidade de se imaginar um políticos desses grupos e reforçad

tempo local e global, principalmente para as populações que vivenciaram o fenômeno da diáspora. Como apontou Kobena Mercer, em ―uma poderosa dinâmica sincrética que se apropria criti camente de elementos dos códigos mestres das culturas dominantes e os ‗criouliza‘, de sarticulando certos signos e rearticulando de outra maneira seu significado simbólico , 2003, p. (MERCER, in: HALL

34). O fato é que, por meio de tais conexões, o movimento afrodiaspórico emerge como r ealidade coletiva, ao favorecer uma visão mais ampla do ativismo resultante da participação d as mulheres negras nos mais variados processos inter e transnacionais, mulheres que, como Teresas de Benguela108, parecem ter na alma o germe do transnacionalismo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS No que tange prioritariamente o movimento ―negro , levando e m consideração as questões da diáspora e da estética concernente a ilo que é ela, está ocorrendo uma transição naqu

enunciado como tal. O que parece estar presente na atualidade dos movimentos neg ros é um novo debate, principalmente daquilo que se refere às identidades, e mais que isso, a no vos discursos que partem de ―vozes aseado femininas. Enquanto, num primeiro momento, este movimento esteve b

em categorias como etnicidade e identidade, quase sempre exclusivistas, masculin as e localizadas territorialmente, no momento atual, aponta para formas de organização pautadas em id entificações híbridas e em formas discursivas múltiplas, muito mais simbólicas e dispersas em rede. De estas fato, a mulheres contranarrativa está da diáspora isto do empreendid é, mundo, sua narrativa e r o mun

a

por

problematizando a realidade historicamente do dado, como também tem aberto os caminhos para se imaginar bem como outra forma de ler os

instituída, outra leitura

sentidos construídos pela representação colonial, ―reencenando evelando seu

caráter de discurso, cujos sentidos são construídos e instituídos por meio de relações de po der. Com a estratégia focada na luta contra sua pretensão de fixar os a representação hegemônica, em

sentidos, e por meio do uso de linguagens estéticas diferenciadas, como o termo ―afro , o fazer político do Movimento Negro da América Latina e do Caribe vem se reconstituindo e se recriando. A partir da contranarrativa da aspórica, a RMAAD vem empreendendo mentos que uma reconstrução a constituem, dos diáspora e sentidos da nos estética inúmeros afrodi movi

ressignificando os valores oriundos da cultura dominante e construindo uma ―contra narrativa dos

108 stado

do

Líder de uma Mato Grosso

comunidade quilombola do Sul, que

do

século

XVIII,

no

E

comandou mais de três mil pessoas e que chegou a agregar índios b olivianos e brasileiros, fato que incomodou a Coroa, uma vez que influenciava a luta dos bolivianos e americanos ( ingleses e espanhóis) para a passagem de mercadorias e internacionalização da Amazônia. 203 ----------------------- Page 204----------------------acontecimentos. O que cada vez mais como se vê é a fonte força da diáspora africana surgindo

inspiradora para estreitar laços tre os povos das

de fraternidade, cooperação e unidade cultural en aquilo que como denominamos de como um mo

Américas e seu futuro, constituindo movimento transnacional afrodiaspórico. Por fim, vimento afrodiaspórico, a RMAAD,

representação

desterritorializado e reterritorializado, aponta para a existência de um contexto político-cultural que incorpora e, ao mesmo tempo, inspira manifestações que emergem nas fronteiras geográf icas locais. A experiência as, demonstra dessa Rede, como os com suas múltiplas conexões e parceri

movimentos negros da América Latina e Caribe não podem mais ser reduzidos a uma que stão de mera cópia ou repetição de doxas estrangeiras, onstituem, talvez desde sua na medida em que c

origem e cada vez mais, um fenômeno global, desterritorializado, virtual e imater ial. Um verdadeiro movimento afrodiaspórico transnacional. REFERÊNCIAS ALVAREZ, Sonia. ―Feminismos latinoamericanos: reflexiones teóricas y perspectivas comparativas . In: RÍOS, Marcela Tobar (Ed.) Reflexiones teóricas y comparativas sobre los feminismos en Chile y América Latina , Santiago: Notas del Conversatorio, 1998, p . 4-22. ALZUGARAY, Patrícia. ‗Oceanos da representação negra: Na Mostra Pan-africana de Arte Contemporânea, realizada em Salvador, o debate é mais político do que o e stético‘. URL: http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2562,1.shl. (Acesso: 01 jun. 10), 20 05.

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Luzia Gomes Ferreira109 "De museus fazem parte dos lugares que, na ordem do coletivo, suscitam sonhos". (Walter Benjamin); "As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, extura, cia, du -ração, pro-fundi -dade, preço, têm densidade, cheiro, contorno, temperatura, aparência, coisas não des -tino, idade, paz." (Arnaldo Antunes) Resumo O texto apresenta uma reflexão acerca dos modelos adotados para classificar objetos africanos inseridos em acervos museológicos ocidentais. O estudo da cultura material possibi lita ampliar as interpretações sobre os objetos, articulando a sua produção, uso e reuso em diversos contextos, dentro ou fora dos museus. Contudo, ao interpretar o museu como um cenário de repr esentações do outro, possibilita identificar como determinadas classificações d os objetos são estabelecidas, compreendendo assim que etnográfico e/ou artístico são classificações instáveis e permeáveis quando atribuída a cultura material africana. Palavras-chave: África, Artístico, Cultura Material, Etnográfico, Museu. Abstract The text presents a reflection on the models used to classify African objects em bedded in Western museum collections. The study of material culture to widen the interpretations of the objects, articulating their production, use and re-use in different context s, inside or outside of museums. However, interpreting the museum as a scene of representations of the other, possible to identify how certain classifications of objects are established, understand ing how ethnographic and / or artwork are unstable and permeable ratings assigned when the African culture mat erial. Keywords: Africa, Artistic, Material Culture, Ethnographic, Museum. Introdução A possibilidade de se formular interpretações sobre as diferentes ma neiras pelas quais os diversos coletivos humanos, ao longo do tempo e em distintos locais, se organ izaram passa pela 109 Professora Auxiliar I do Instituto de Ciências da Arte (ICA) Universidade Federal do Pará (UFPA), da sentido. As função, valor, consistên cor, posição, t modo claro, os

onde leciona para os cursos de Museologia e Artes Visuais; B acharel em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Mestranda em Antropologia Social pel o Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UFPA); Pesq uisadora do Grupo de Pesquisa Arqueologia Pública e Coloboradora do Projeto de Pesq uisa Os Significados do Patrimônio Arqueológico para os Moradores da Vila de Joanes, Ilha de Marajó , Brasil - ambos co ordenados pela Profª. Drª. Marcia Bezerra (IFCH/UFPA). E-mail: luziagomes@ufpa.br 206 ----------------------- Page 207----------------------análise descritiva e e fixaram modos de interpretativa produção, das formas como estes criaram

critérios de circulação, armazenamento, consumo e, sobretudo, instituíram usos e signifi cados para os objetos materiais, as coisas físicas, com as quais tiveram contato ao longo de suas existências. onsidera-se Partindo da definição de os objetos como cultura material de Meneses, c

―[...] o suporte material, físico, imediatamente concreto da produção e da reprodução da vid a social [...] , (MENESES, 1983, p. 112). Sendo, ao mesmo tempo, o produto e o vetor de rel ações sociais; o resultado de formas específicas dos indivíduos se organizarem socialmente e o cana l de produção, reprodução e efetivação das relações sociais. de objetos Dentro dos diversos com os quais um contextos sociais, o conjunto

indivíduo se depara é, no geral, muito grande e variado. Sendo a possibilidade do es tabelecimento de usos, valores e sentidos associados ao lugar ocupado por estes, dentro das ca tegorias culturais e sistemas classificatórios com os quais, como afirma Gonçalves, ―[...] os sit uamos, separamos, dividimos e hierarquizamos [...] implica em Segundo uma Durkheim ordem (GONÇALVES, 2007, p.14). e Mauss, ―[...] toda classificação

hierárquica da qual nem o mundo sensível nem nossa consciência nos oferecem o modelo [...] ,

(DURKHEIM; MAUSS, 1999, p. 403). Contudo, nas diferentes sociedades em funcionam ento, os objetos materiais se transformam, processo são re-classificados, sendo ―[...] importante deslocamentos e suas acompanhar se desgastam, e dos circulam e neste seus contextos s

descritiva através

analiticamente diversos

transformações e re-classificações ociais e simbólicos. (GONÇALVES, 2007, p.15).

No caso das sociedades modernas, há duas categorias de objetos, dis tintos na origem, cuja importância atribuída está, ironicamente, no fato de serem percebidos como elemen tos que se encontram fora do cotidiano: os objetos artísticos e os etnográficos. Pensando o Museu É euro-ocidental possível ―[...] inferir que a instituição museu é uma criação

constituídas por categorias classificatórias, ordenadoras do mundo [...] 008, p. 49), e que dentre as suas múltiplas funções, duas são básicas: ―[...] (coleta e estudo, documentação, ivaconservação e armazenamento) e comunicação

(SALADINO, 2 salvaguarda ação

(exposição,

sóc

cultural, avaliação). (CUNHA, 2006, p. 15). De acordo com Saladino os museus: ―[...] foram as instituições onde surgiram as primeiras iniciativas de proteção dos objetos evocativos da história nacional e foram consolidados os mitos fundadores e a história oficial, ligados à tradição cultural das elites . (SALADI NO, 2008, 207 ----------------------- Page 208----------------------p. 49). No entanto, entre as surgiram movimentos no campo décadas de 70 e 80 do século XX,

museológico da Europa do Leste e América Latina, influenciados por demandas sócio-políti cas da época que suscitou questionamentos acerca do ―papel e função social do museu .

hile

(1972),

Documentos a criação

como a do Comitê

Carta

de

Santiago 1977) dentro

do do

C Co

Internacional de Museologia nselho Internacional de

(ICOFOM – Museus

(ICOM – 1946) e o Movimento Internacional da Nova Museologia (MINOM), estabelecer am novos paradigmas e pressupostos teóricos para se pensar ―o papel e a função social dos museus nas sociedades contemporâneas, especialmente onde grupos sociais até então na América Latina,

invisibilizados desse ―lugar oficial de memória , começaram a reivindicar sua auto-repre sentação. Desse modo, pode-se interpretar o museu como um dos espaços de rep resentação do outro, quais mas, também de nós mesmos, os objetos se tornam onde se contrói narrativas nas

fundamentais para fazer o elo de ligação entre memória, passado e presente no presente . Segundo Meneses: O museu não é uma forma de reproduzir o mundo e a v ida. No entanto, muitas ma forma de transportar vezes essa confusão ocorre. O museu não é u para um espaço específico e concentrado a vida ao vivo, a p seu natureza ou nos produtos entar ) o mundo, os homens, as coisas, as relações. (MENESES, sítio web). Os objetos foram e, do o centro das atenções; na maioria das vezes, continuam sen próprio fluxo – seja nos produtos da da ação humana –, mas é uma maneira de representar (re-pres

ulsação da vida de todo dia no

tanto para os profissionais que atuam nos museus, quanto para o visitante. É notório que o grande público freqüenta os museus para ver ―coisas . Os objetos causam fascinação e de spertam sensações, fatos que não devem ser ignorados nas reflexões acerca dos museus. Para Menes es: e o deleite afetivo, as Entre as funções prioritárias estão igualment relações de subjetividade que se estabelecem entre os indivíd por exemplo, como suportes da memória, marcas ide ntitárias, e agem para definir

uos e as coisas e que funcionam,

ra

reforçar

referências,

trajetos, para explicitar percursos, pa definir amarras – principalmente de espaço e de tempo, já que somos s pelo tempo. Mas também se vai ao museu em busca d

eres balizados pelo espaço e e informação, isto é, para levantamento de atributos empíricos de coisas, pa ra apreensão literal de dados – também para a que ainda para a formação, (MENESES, sítio web). educação, não constituem conhecimento – e substantiva, seja de natureza

seja metodológica

Ou como sugere Chagas: Os museus ainda são lugares privilegiados do mistér io e da narrativa poética que que de torna utilizar possível coisas essa se constrói com imagens e objetos. O narrativa, o que fabula esse ar de mistério, é o poder como dispositivos de 208 ----------------------- Page 209----------------------diferentes, significados CHAGAS, 2008, p. 113). A partir das reflexões ue por serem produções dos autores supracitados constata-se q mediação cultural entre mundos e tempos e funções diversas, indivíduos e grupos sociais distintos. (

humanas, os objetos são passíveis de fornecer diferentes informações de variados aspect os acerca dos o diversos grupos sociais, imaginário humano. Ao além de suscitar que os emoções objetos e não mexer devem com

serem expostos nos museus apenas causar sensações

compreende-se

agradáveis aos olhos, mas também, propiciar inquietações, indagações e desestabilizações. Com base na lizar ―[...] os testemunhos do teoria museológica acredita-se musea

homem e do seu meio, seja meio físico (natural), seja do meio transfor mado pelo homem. (GUARNIERI, materializados 1990, p.07). Todavia, além de diversos e esses testemunhos

complexos, são selecionados e classificados desde a sua coleta e inserção no acervo até a exposição onde as representações tomam formas materializadas:

Expor é revelar/esconder. evidenciar/dissimu iluminar/nublar elementos que seus organizadores e patrocinadore s desejam tornar conhecidos ou esquecidos. fruição e gozo. p. não fazend parte de um contexto sócio-cultural. ocultamentos.. (C UNHA. Para Meneses é ―[.Page 210----------------------objetos da vida social. (MENESES. conflituoso. tenso. abrigadas memórias de produção e re-produção pode de ser poder para consid onde são materializadas que podem ser representativas determinados grupos sociais e e significativas não para outros. sítio web). possuindo uma ―natureza entro ou fora dos museus. Neste quadro. promovendo silêncios e omissões.] da natureza da representação o jogo entr e presença e ausência [. As obras são consideram-nas diferenciadas dos demais . ―não pode e nem deve ser explicada. a exposição cara cteriza-se também como espaço de luta entre poderes daí advindo exclusões. articulada e articulando-se com outros elementos e signos do sistema de conhecimentos e de poderes instituídos. mas também.] . De acordo com Canclini: 209 ----------------------. incluir/excluir. mas.. o museu também erado um cenário ambíguo. Não pode ser entendida como o fi m de um processo. seleções. como uma obra alimentada e realime ntada permanentemente. um meio para a co municação e transmissão de conteúdos valorizados e trabalhados pela instituição museu.16) lar. O museu por operar com sistemas classificatórios também estabelece h ierarquias não apenas entre os diferentes objetos.. 2006. apenas sentida .. Artístico ou Etnográfico: faz diferença? Os objetos artísticos são geralmente concebidos como uma produção à parte da vida social cotidiana. Este discurso sobre criações voltadas ―apenas para diferente dos demais objetos existentes d as artes leva a pensá-la como contemplação. Sendo assim. entre os diversos coletivos huma nos.

. sobretudo. provocar fruição e gozo. a beleza é definida como a expressão máxima do ideal. 08). Hege l elabora seu raciocínio sobre o tema só pode residir naquilo que expressão artística.. consideradas intrinsecamente individuais. difusão e consumo que em cada socieda de. Em Hegel. Canclini faz de modo possuí a concluir que o belo . são ainda em voga nas di calcadas em teorias elaboradas na segunda metade do século XIX. do que nele há de sublime. e por extensão. constituem o sentido dos objetos. Uma forma é valorizada na medida em que possibili ta conduzir o indivíduo a um estado contemplativo deste ideal. no sentido implícito do objeto. o artístico. Nestas por Kant como processos sensações agradáveis.sendo que a razão possui funções práticas e o intelecto as d e elaborar teorias sobre os fenômenos. nação ou classe social [. sobre o mundo tal qual nós experimentamos. estão sempre disp oníveis para serem desfrutadas – como ―uma linguagem sem fronteiras – por homens de q ualquer época. uma Com relação reflexão interessante à conceituação da Estética. seu valor reside na possibilidade subjetiva de instigar prazer. Hegel é quem define a Estética como a ciência que estuda o belo. 1980. (CANCLINI. port produção. p. e rquia na qual o belo dentro desta artístico é definição estabelece uma hiera definido como superior ao belo natural. de permitir o nem teria valor co conhecimento da ―coisa-em-si . do mo do de ser do espírito. por isso.]. acadêmicas ou não. anto às condições de scussões As concepções sobre arte. Supõe-se que as obras de arte transce ndem as transformações históricas e as diferenças culturais e. residiria o belo. Este juízo não im plicaria num conhecimento gnitivo. nas for mulações de dois filósofos: Kant e Hegel. Kant vai falar do ―juízo estético que funcionaria como inte rmediário entre a razão e o intelecto . Partindo desta separação e hierarquização.parte do ―mundo dos espíritos e alheias.

11-12). a função da arte novas concepções sobre foram formuladas. p. a aceitação.Page 211----------------------encontra-se presente no modo como muitos artistas definiram sua produção. a não ser está à idéia de ―universalidade da arte . possibilitando re-classificar a função social. (BENJAMIN. quando a rep rodutibilidade técnica da obra de arte passa a ser considerada um meio de emancipá-la do ―mundo dos e spíritos . sítio web). Contudo. os objetos muitos artísticos a partir da su autores não consideram estes novos meios de reprodução como um processo de emancipação e s im de degeneração. Esta como aponta Benjamin: ―[. (CANCLINI. 1980. não só qualquer função social da través de uma determinação concreta . através perspectiva fez surgir..] uma teologia negativa na forma de uma arte "pura" que recusa.. em diverso s trabalhos teóricos sobre a arte e na maneira como a sociedade moderna classifica estes objet os. É interessante perceber que nos conceitos formulados por Kant e H egel implicitamente as épocas. então. Com o advento da fotografia e do cinema. A definição de modos de produção e as classes sociais estético como o predomínio da forma sobre a função não é válida para todas para a arte produzida no capitalismo como conse qüência da autonomia de certos objetos ou de certas qualidades de alguns objet os. É um modo de relação dos homens com os objetos. cujas características variam segundo as culturas. Contudo.mostrando que é possível relativizar este conceito: O estético não é. nem uma disposição estável do que se chamou ―a natureza da humanidade . das quais podemos destacar as de Walter Benjamin. como também toda a finalidade a . nem uma essência de certos objet os. ou negação dest ressupostos 210 ----------------------. os . arte. do qual a arte perderia ―sua originalidade .

(GONÇALVES. ―pureza . não o do ―espírito um Faz-se pertinente objeto artístico pensar: do o que diferencia e as . compartilham dessa idéia e de certa forma a legitimam.apesar de em alguns casos ser possível encontrá-los aí encaixa mas ao ―mundo do outro . 2007. 2007. ―autonomia ntrais nas discussões as. 18). p. analisados e incorporados a coleções ao longo paradigmas teóricos do tempo. . (GONÇALVES. os objetos materiais vão deixando de se r vistos pelos antropólogos como indicadores sendo encarados como dos estágios de evolução da humanidade. em seu artigo intitulado Teorias Antropológicas e O bjetos Materiais. eram reclassificados com a função de servir como indicadores dos estágios de evolução pelos quais supostamente passaria a humanidade como um todo. semelha etnográfico? O etnográfico também é percebido como algo externo ao cotidiano. oriun do de outro ―mundo . ao se observar o modo como foram coletados. contemporâneas pesquisadores.. demonstra empre serem o tema que apesar de estudos dos objetos materiais nem s antropológicos.16) iversos. ―[. marchands. Este período ficou conhecido como a ―era dos Museus da grande em função proximidade dos antropólogos e etnólogos com esta instituição. Gonçalves. Por volta da década de 1940. p. corroborando para permanência da elitização e sacralização das produções artísticas. de certo modo. Durante o século XIX e início do XX: Objetos retirados dos contextos os mais d dos mais distantes pontos do planeta. A própria produção antropológi desta época se deu. descritos. desta é possível se perceber as mudanças de disciplina. A maioria dos artist museus e galerias de artes.] nos limites institucionais dos museus.Ainda hoje. sobre e ―autenticidade são temas recorrentes e c arte..

. (GONÇALVES.22). 2007. 2007. ocorrendo uma ―[..] indi víduos e os grupos sociais experimentam subjetivamente sua identidade e status. Todo o debate sobre as categorias e modelos classificatórios adequ ados ou não para se lidar com os objetos etnográficos tem em comum o fato da valorização não se dar pelo obj eto em si. 2007. p. o elaborar uma compreensão do objeto com base na sua etiqueta. ganha relevância os estud Na década de 1960... ocorre a cujo junção significado dos papéis sociedade. sociais e religiosas são e laboradas. considerados condições para a vida social... apagando assim a ssa ―falar por si ssua qualquer – ou noção de que a qualidade estética do objeto po antes. identidade Neste e posição período social. Segundo Price: No caso das exposições que apresentam objetos como e tnografia. p. 200 Nos anos 1980. mas pela possibilidade de incorporá-lo em modelos explicativos. 7. em lugar de reagir a ele através de uma absorção sensório-emocional das sua s qualidades plásticas. e o ―[. sistemas simbólicos.] afastamento dos antropólogos profissionais em relação aos museu (GONÇALVES. informações a respeito de funções técnicas.Page 212----------------------meios de demarcação de encontra-se no contexto específico de cada de ―etnólogo e ―antropólogo [.. os sobre (GONÇALVES. Nesta forma de apresentação..211 ----------------------.19). os quais passam a ser considerados como objetos de pesquisa.] . descrição e análise. enfatizando-se os modos como os ―[.] reaproximação entre antropól ogos e museus.. apagando toda noção de que o objeto po estética que mereça ser transmitida. p.19) que passam a produzir dentro dos ―[. (GONÇALVES. ocorre um processo de historicização da Antropologia que se volta par a os diversos personagens presentes em sua trajetória.21).] recém criados departam entos de antropologia das universidades. p.. qualidade observador é convidado a .

Bolton fornece uma descrição do modo como. geralmente. p. museu etnográfico e de história são diferentes. a ên cultural entre o observador e o objeto substitui a atenção seu lugar dentro de um arcabouço histórico documental. (BOLTON. 2000. geralmente contemplação.) As práticas do 212 ----------------------. ou c om a intenção. o deleite. 2003. Ao expor lhe é objetos negada classificados a de etnográficos.. de que a importância destes dentro do contexto no qual f oram recolhidos será mantida. objetos descrição da apresentada por ilustra as concepções artísticos e etnográficos discutidas aqui. Bolton. Sendo o espaço expositivo um local privilegiado para analisarmos o modo como o ―mundo do espírito nossa e o ―mundo do outro é colocado em funcionamento dentro da .fase dada no ao distanciamento Em termos de natureza do texto.Page 213----------------------lmente através impõem um conseqüência. O princípio pelo qual a recol ha etnográfica opera é que os objetos são coletados supostamente. deixando o visitante livre das rédeas du rante seu noivado com o objeto (com tudo o que há de arte nele). o mistério. Suas características formais e funci nais só importam na medida em que ilustram teorias elaboradas sobre o ―outro smos) e (ou sobre nós me como deve-se ―ver o outro . A os no museu. 122).. os museus etnográficos norma determinado conjunto de significados em objetos e legendas. Como (. a fruição estética. não apresentando estes significados como como um fato.43) exposição acerca destes do papel dois tipos atribuído de aos objet levando em conta o artístico ou etnográfico que se deseja ap de ilustrações mas interpretações. (PRICE. os mu seus montam suas exposições resentar no espaço expositivo: Museus de arte costumam fornecer um mínimo de info rmação e de contexto para o objeto.

Ao contrário das obras de arte. às obras de arte. ao contrário delas. fora das os objetos metrópoles das colônias africanas e de ou européias foram considerados como ―maravilhas nos Gabinetes de Curiosidades. a Europ a do século XIX. aos objectos artísticos . por conta disto. (DIAS. em torno dos seu ela a noção de ‗objecto etnográfico‘. ter uma utilidade prática e social. e. por. seu não funcionamento. p. será a que primeiro vai marcar a especificidade do objecto etnográfico e da antro pologia. aos os objetos No final do século XIX africanos passam a ser e ao longo do XX s objectos de estudo. como argumenta Kasfir: Nos museus ocidentais. os objectos etnográficos servem para o conhecimento. ser um objecto funcional. q ue ela constrói as suas primeiras ução da humanidade.sociedade.108109). 2001. ou melhor. entre os séculos XVI tros locais e XVIII. eles são vistos como documentos do desenvolvimento da humanidade – dos seus estádios mais primitivos aos mais civilizados. por ser produ arqueológicos. expostos com a sistematização especialização das disciplinas surge à etnografia e os museus etnográficos: É no museu etnográfico. A teorias acerca da origem e da evol nova ciência autonomiza-se e diferencia-se. to humano. A partir do proposta pelo Iluminismo século e a XIX. que valem pela sua qualidade intrínseca. não necessariamente de forma pacífica. De acordo com Dias . em torno da classificação dos o bjectos e de acordo com os princípios elaborados pelas ciências naturais. analisados e classificados segundo o seu grau de sofisticação técnica e pelas necessidades que dão respo sta. por ser de primitivos contemporâneos e não de povos desapareci dos. estes objectos . Objetos africanos no cenário museológico A maioria dos objetos africanos encontrados nos museus europeus foram ―adquiridos durante o período colonial. suas classificações ―fora do nosso mundo . que se defi ne por oposição aos outros objectos: aos naturais. E esta última oposição. Nasce com considerados objetos artísticos.

. nim em 1897 e trazidos para ocidentais e te marcadas. após a s ua ‗descoberta‘ por Picasso e seus amigos nas primeiras décadas do século XX. [s/n]. deu -se uma segunda promoção museus e galerias de desses objectos. ou das estatuetas. 2008. O que levou a ―selecionar entre os diversos objetos prod uzidos no continente africano aqueles tecnicamente semelhantes aos europeus: Não é por acaso que os primeiros passos no sentido de reconhecer valor artístico ropósito bras de objectos que a produções não ocidentais se deram a p pela sua aparência. Obviamente a arte. para os arte onde foram recontextualizadas como objectos de arte. no sentido são vistos como objecto ocidental do termo. (KASF IR.foram sujeitos a uma dupla mudança taxonômica – primeiro de espécimes exóticos para espécime os antigos ‗gabinetes de curiosidades‘ deram lugar s científicos.] Os objectos não-ocidentais s artísticos.. e. [s/d]. desta vez. (DIAS... 101).] uma palavra e uma categoria ocidental [. também ‗realistas‘. semelhanças Ao mesmo tempo entre objetos não-ocidentais.] (D IAS. tal como definidos pelos modernistas euro-americanos [. No caso em que. p.. mais se aproximavam de o os exemplos inaugurais dos ‗bronzes realista‘ confiscados no Be Europa. sítio web).. p. também encontraram-se foram fortemen de arte ocidentais. sítio web). na aparência. por se tratar de ―[. apresentadas na mesma altura na Exposição Universal de Bruxelas são significativos. a partir da lógica ocidental: ―[. P. suas dos diferenças .Page 214----------------------história natural em finais do século XIX.] (DIAS. de rei s Kuba do Zaire.. 2001. 105) os parâmetros adotados para interpretar artisticamente esses objetos têm nos cânones europeus a sua base. quando aos recém-criados museus de 213 ----------------------. 2001.01.. Esta re-contextualização permitiu considerar os objetos africanos co mo arte.

. (PRICE. bem como.. 2000. Não é a crítica a este fato o que s pretende . em vez de ‗arte a fricana‘ [. sítio web). provenientes faz de contextos distintos. mes mo que a elaboração de detalhes esteja reservada a outros contextos (catálogos. t extos de história da arte. seu uso ritual e caráter coletivo de sua criação. Passou-se a definir estes objetos como ―Arte Tradicional Africana . interessa aqui da classificação de etnográficos indivíduos identificados nominalmente uma história de estilos artísticos. vindas de centenas de cult uras que se dá o nome de ―arte africana alum é de — como se fosse uma só! (SALUM. 121).] ‗artes da África‘ (no plural). Para S significativa relevância pensar ―[. a principal Ocidentais e Primitivos é que somente os primeiros são apresenta por em momentos específicos de icação em evolução. p. tais Geralmente nas essas diferenças são exposições ocidentais de objetos não ociden evidenciadas como aponta Price: distinção entre objetos Para estas mesmas exposições.. revoluções políticas. em algu com que se construa um discurso onde ―[. quando artistas modernos europeus utilizá-los como referências para criação das suas obras. palestras acadêmicas. a filosofia e comun dos como tendo sido criados destacar que os objetos africanos no ocidente foram legitimados a partir do mome nto em que foram inseridos em acervos começaram a museológicos. datas. revistas de arte. (SALUM. Desta forma. re religiosos e assim por diante) é reconhecido (sinalizado). sítio web)..] essas criações..objetos africanos isto se deu pela exaltação de sua funcionalidade . nascimentos culturais e 214 ----------------------.] ..Page 215----------------------e/ou Independentemente artísticos. etc). O ri sco desta generalização de coisas ns casos desconectados. o status da arte Ocidental como parte de uma hi stória documentada da civilização (com nomes.

funcional/não funcional. o que ocorre e m situações onde . serem Assim musealizados. ainda sendo analisados. O objetivo é problematizar o papel dos museus grupos sociais hegemônicos na re-patriação des discursos dos legitimação através das narrativas apresentadas nas exposições museológicas. antigos não objet mui pesquisados to diferente e expostos nos museus da do século XIX.os ―fora do s. ainda que na contemporaneidade se ses artefatos. A ―arte tradicional africana etrimento da Arte continua sendo preterida pelos especialistas no tema em d Contemporânea Africana. (por sinal os m ais evidentes). p. não podemos retroagir eus respectivos locais de e (re)-colocá-los a dos origem. e esquecimento. A análise nosso mundo dos modelos e sua presença dentro dos museu classificatórios adotados nestes casos concentrou-se nos aspectos. (CUNHA. coletivo/indiv idual. mesmo porque a maioria dos objetos ocidentais e não-ocidentais.. Considerações Finais Procurou-se destacar os pontos de semelhança entre os objetos artíst icos e etnográficos .] temos que incluí-los no universo intolerâncias culturais e suas dinâmicas. no geral. propiciando um silenciamento e desconhecimento da produção mat erial e visual contemporânea do Continente Africano.. baseada nas dicotomias: etnográfico/artístico. No entanto. não foram e nem são concebidos para objetos africanos.aqui. 16). temos que pensar na construção e apres memória e suas estratégias de imagens construídas acerca da produção construídos e determinados. lugares sociais os africanos Atualmente. nas é possível numa ver estes perspectiva lembrança cultural e entação de patrimônios. que permitem identificá-los como duas categorias distintas. 2006. no tempo e isto espaço discuta não é peculiaridade dos em s como. Uma vez que ao falar de museus: de confrontos e [.

uma série de objetos produzidos na África.como também entre indivíduos e grupos organizados preocupados com a valo rização e legitimação da identidade negra brasileira. etno Continente Africano. Um caso interessante é um Monumento África vão sendo adotados a Zumbi dos Palmares existente na cidade do Rio de Janeiro. no qual o líder quilombola é represe ntado a partir de uma réplica de um ―bronze realista crônico tentar encontrar qualquer relação entre Zumbi esta peça. considera-se princípios dos sistemas de suma importância que se quer para si sobre refletir . ou a e incorporados. mas dentro do e o do Benin. ou.que buscam africanos refletir sobre a influência dos modos na formação da identidade vida dos povos nacional e nos grupos que descendem direta. que ―remetem Dentro deste contexto. luta ―por sua autodeterminação face aos estados nacionais 2001 p. ou de produzir arte? E quando es ses objetos africanos são utilizados para afirmação das identidades negras nas Américas da Diáspora? 215 ----------------------.13) exigindo o direito de falar sobre seus objetos. internamente. ou indiretamente dos africanos escra vizados que aqui aportaram . esta escolha é bem representativa dos critérios adotados para se definir a ―África . assume ―voz na arena internacional e no seio das nações . após o fim do processo de colonização. os Enfim. Tanto nos o continente subsídios para . atrelado a valorização da identidade negra.as fronteiras entre o artístico e o etnográfico são permeáveis e instáveis? Ou o ―outro ráfico. Obviamente povo que originalmente é produziu ana contexto de positivação da origem africana.Page 216----------------------mentou No tocante ao Brasil é visível que o interesse pelo meios acadêmicos de nos últimos anos n au (DIAS.

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] nes forjou um sentido de liber nem lei o que (GARCÍA MARQ Quando García Marquez diz que o Caribe se estende até ―el s ul. 1999.crêem sim sa uma área cultural do muito encruzilhada mundo. pois sua privi legiada situação geográfica no estuário amazônico lhe garantiu um importante centro urbano. aos limites da divisão política. fruto do aquecim ento econômico do ―ciclo da borracha . vislumbra-se uma compreensão mais acurada da conexão cultural Amazônia-Caribe. muitos trapich es. se os geógrafos. ofici . ao termos Norte em uma noção uma posição que crucial não . 154-155). na cidade. os quais nas décadas seguintes funcionariam como ponto de chegada ntrabando. UEZ. Belém tornou-se uma grande metrópole regional... Na vira da do século XIX para o ratégica de grande século XX. O surgimento das grandes companhias de navegação estrangeiras.. e homogênea dade sem fim. A intensificação das atividades comerciais na região. hasta Brasil . p. companhias encontravam transportando destas rotas mercadorias transatlânticas. forçosamente. fazer deus [.. fez crescer a afluência da navegação e logo surgiu a necessidade de se construir um porto em Belém. Neste corresponde momento desterritorializada da cultura caribenha. teria que passar pelo seu Porto. vista Belém já possuía Muitas uma posição de geográfica nave importância do ponto de gação internacionais que cruzavam Belém no oceanos caminho econômico. onde queria cada sem um sentiu que era possível limites de classe nenhuma. uma realidad e sem . ele coloca a região . Pratic amente todo o comércio da região. Havia naquele início de século. O fato de a região amazônica e importante para a ter uma vocação das embarcações de co natural para navegação revela-s realização do contrabando.

Pelo seu cosmopolitismo.br. inevitavelmente. ambiente de forte boemia nas décadas de 60 e 70. (perto da área portuária) e alguns p ontos conhecidos. o fato ca. Bolsista CNPQ/CAPES de Doutorado. us trabalhadores. tais como o poeta Ruy Barata.nas onde cada vez mais operários navais se avolumavam. um verdadeiro reduto de artistas e intelectuais. portanto. assim como o conseqüente acirramento das di sputas de classes entre estivadores e os donos da companhia. onde se traz consigo. 110 Estudante de Doutorado do Programa rsidade Federal da Bahia de Pós-Graduação em Música da Unive (PPGMUS/UFBA). o porto torna-se um local transna cional. 218 ----------------------. funcionam como um canal inicial das hibridizações posteriores. podemos dizer que o porto é um espaço de hi bridizações por excelência. cuja vida boêmia dos um símbolo daquele espaço. a região do centro histórico de Belém é de grande importância cultural para a cidade. onde predomina a circulação de pessoas de diversas partes do mundo. tornaram-se diferentes.com. mas s também pela ação das empresas estrangeiras de navegação. Integrante da Associação de Pós-Gradu andos da Universidade Federal da Bahia (APG/UFBA). localizava a famosa ―zona do meretrício . o bairro da Esta imagem do porto Campina. Ressaltam os.Page 219----------------------como o Bar do Parque. que vêm As trocas interculturais e vão para lugares fruto do contato de pessoas tradicionais encontros da vida cultural no Bar do Parque. inclusive torn ando-se por um tempo. representam um marco deste pe ríodo. . de mas que o porto acaba desempenhando também uma Em Belém. Contato: apostilas2001@yahoo. Sem dúvida. não não só só uma através função da econômi ação de influência cultural interessante.

Tais salões de festas caracterizavam-se por ser uma forma de laz er muito comum das camadas populares de Belém: SEBASTIÃO . que era a Zona.. 219 ----------------------. g astei muito dinheiro ali! . ―Vocês são paraenses? . né? [. a Condor e a Estrela do Norte.O Taxista de Fortaleza veio de passagem aqui? SEBASTIÃO . Eu disse a Estrela do Norte tá lá no mesmo lugar. muitos marinheiros aqui? SEBASTIÃO . em relação às gafieiras. O senhor pode até não acreditar.. chegavam aqueles navios no cais do porto. casas de festas populares existentes em Belém nas déca das de 50 e 60.Então vinha muita gente. Marinheiro próprios dos espaços denominados pelo antropólogo Marc Augé de não-lugares. Então só tinha três pontos pra se divertir aqui em Belém. né? Então.da-nos O relato do a visualizar como senhor isso Sebastião Souza Oliveira aju acontecia. o point era aqui.] Então. ―Comi muita mulher. Eu disse somos. Sebastião é o dono de uma das mais conhecidas casas de festas em Belém naquela épo ca: A Estrela do Norte. 111 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. (AUGÉ: 1994) Quero enfatizar que a entrada da música afro-latino-caribenha em B elém acontece por . E a ―Estrela do Norte? .Ele veio de e se aposentou como 111 tenente.É. a Estrela é uma sede conhecida nacionalmente. ENTREVISTADOR. Inclusive eu fui a Fortaleza e peguei um táxi de um senhor lá. ENTREVISTADOR. Que vinha aqueles navios com marinheiros. Ai ele disse: ―Rapaz. mas eu sou o dono de lá. porque naquele tempo a onda era essa. Era marinheiro na época.Page 220----------------------A circulação de marinheiros oriundos de várias regiões do Brasil assim c omo de várias partes do mundo acabou conferindo smopolitismo e a impessoalidade à zona e ao porto o co Navio.A Estrela do Norte é uma sede conhecida no Brasil todo aonde vem gen te de 40 anos atrás.

reconhece do que as festas de gafieiras for Antônio Maurício. sabemos somente que eles eram freqüentadores assíduos da ―zona do meret rício e que. nas horas livres. viajantes como marinheiros. Estes dois fenômenos sócio-culturais. as chamadas festas de gafieiras . mas que não fica nos limite podemos considerar também que tais da zona e do porto. Mesmo limitado pela dimensão deste trabalho. etc. Por outro lado. das festas populares. que (não-lugares). também am o miolo embrionário circuito bregueiro em Belém ―cuja história remonta aos boleros e merengues tocados nas ―gafieiras e ―cabarés da cidade dos anos 50 e 60 (COSTA. . localizada no bairro do Guamá. estavam sempre em busca de diversão. e são vividos por agentes transnacionais . Um dos espaços de lazer mais requisitados pelos trabalhadores das camadas pobres de Belém nas décadas de 50 O historiador e 60 eram. também que denominamos de rede de difusão cultural transatlântica. as aparelhagens e as festas. um bairro de periferia. em O são elementos constitutivos das aparelhagens do e desenvolvimento Belém teve grande importância como elemento facilitador da chegada e da difusão da músic a afrolatino-caribenha. considero os relatos aqui expostos de grande importância para a reconstrução da paisagem cultural de Belém daquele período112. p.intermédio de espaços de passagem. Atr qu prostitutas. 15). que po dem ou não ser chamadas de gafieiras. O FENÔMENO DAS APARELHAGENS E DA GAFIEIRA mente Em Belém do Pará. 2007. músicos Belém. Não podemos de trânsito estivadores. marinheiros não se limitavam necessariamente às festas de gafieiras das zonas locali zadas no bairro da Campina. em precisar até onde iam os marinheiros avés de relatos como o de aportavam Sebastião Souza. ligado às festas o fenômeno das aparelhagens está intima populares. se sab emos que estes marinheiros chegavam até a gafieira Estrela do Norte. sem dúvida.

no Rio d e Janeiro. Catete e Centro.O que tocava de música nas festas em Capanema? OTONIEL .Page 221----------------------O termo gafieira. na década de 50. Amsterdã do século XVIII. no interior do Pará.Era esse tipo de música. Jackson do Pa ndeiro. são a expressão nítida da segregação dos iles espaços de lazer urbano. No relato de Otoniel Fialho. A gafiei ra era um local onde uma camada da população que era totalmente marginalizada e excluída dos ambientes sociais tinha a possibilidade da aceitação social (SÃO JOSÉ. Dalva de Oliveira e principalmente Bienvenido Granda. ele é cubano. Luiz Gonzaga. a gafieira seria um ambiente popular ocupado por ―um gr upo de pessoas de classes menos favorecidas que tinha a necessidade de diversão. Ângela Maria. ENTREVISTADOR . Segundo Ana Maria de São José. encontramos uma amostra do repe rtório musical executado nas festas sociais e de gafieira no interior do Pará. Não sei se tu conheces. Para dar relevo à idéia de que o caráter transnacional dos portos pode servir como meio facil itador de processos de hibridizações. Eram os boleros que mais to cavam. Já nos séculos X VII e XVIII.112 Como locais de encontro e troca cultural os portos adquirem importância notável . p. nota-se que as gafieiras tanto no R io como em Belém. muito xote e forró . a Lisboa e a Sevilha do século XVI. São exemplos a Veneza do século XV. surgiu na década de 20 e designava o s salões de dança e cabarés localizados em sobrados dos bairros de Botafogo. No que tange às similaridades. na década de 50. Aquele s boleros de Bienvenido Granda. Era . 87). Waldir Calmon. Quanto às músicas. 220 ----------------------. os portos de Nagasaki e Cantão eram locais importantes de troca cultural entre a E uropa e a Ásia. trazemos à tona o exemplo de portos de c idades como Liverpool e da cidade norte-americana de New Orleans. marchas e cateretês. no entanto. 2005. Ray Connif. Com o tempo. nos populares cariocas encontramos maxixe. mestiçagens. uma variação da dança e do samba também passa a ser chamada por samba de gafiei ra113.

lá no ―puteiro . [. enquanto que os boleros de B ienvenido Granda eram mais cultivados nas festas mais sociais115. que ―ah não eu . Otonie 114 Entrevista realizada em 04 de abril de 2009. Merengue já veio surgir na década de 60 . inserimos aqui mais um elemento nesta discussão116: em Belém. principalmen te em festa social. tocava mais era forró.Page 222----------------------Belém em 1959 e desconhecia a vida musical da cidade antes disso. E aí já começavam a dizer não danço naquela sede porque é gafieira. fica claro que Ot oniel se refere a um suposto surgimento do Merengue em Belém. as lembranças de Salles podem ter mais v alor. A né? minha Aí [. Vicente Salles recorda Nascido em 1931. como na Assembléia. enquanto qualificativo diferenciador de classe referente às festas das elites locais. 221 ----------------------.] porque o Merengue já foi tradição aqui mãe contava que o Merengue dançava até em depois o Merengue passou pras sede.] Tocava muito bolero.. Sabe? Mas o aniversário. Já no Cocal. xote. 115 115 O termo ―sociais deve ser entendido aqui no sentido em que é usual mente empregado no contexto desta pesquisa.. a partir de um relato oral. pois ele teria vivido mais de ―perto l só mudou-se para esse momento histórico. toca Merengue . na década de 60.. essas oisas. Merengue já veio surgir na década de 60.. De outra forma. De forma muito i nstigante. 114 No relato de Otoniel percebe-se o xote e o forró eram ritmos que na década de 50. Sabendo que o Merengue é um gênero muito antigo e já conhecido nas primeiras décadas do século XX. O próprio Belém. música mais pesada. restritos às camadas populares. décadas em do Merengue nas passando a viver em Belém a partir de 1946. Esse comentário chocase com a hipótese de que o Merengue já anteriores de 30 ou 40. lá em Capanema. Ainda não existia Merengue. Outro ponto interessante está na consideração d e que ―ainda não existia Merengue. existia no décadas Pará de nas 30.do Bienvenido Granda.

Para ―Babá . Fã declarado Sebastião fala como começou a tomar conhecimento sobre a Estrela do Norte: O meu interesse de festa se deu desde os oito ano s.118 Demonstrando muita estima. sendo peixeiro conhecido no bairro do Guamá. Que era no tempo do Merengue. na época aí eu ficava assistindo a festa de fora. a Estrela do Norte é uma sed .Merengue tá aí há mais de 70 anos. como Irineu. Desde Estrela do Norte como uma do Merengue. música do Caribe muito tocada. Hoj e em dia não pode mais. Desde quando começou. Tinha dois janelões bonito. aquela que é o mais antigo templo do Merengue em funcionamento em Belém: a Estrela do Nort e. Para falar das gafieiras enfatizamos aquela que é considerada a gafieira mais ilustre. né? E naquele tempo se assistia de fora pra dentro... Aí eu fui. sou fã do Merengue. peguei interesse pelo Merengue. porém. enquanto uma opção de lazer e diversão noturna. ―Babá er e destacar a não mede palavras para enaltec importância da sede na história do lazer em Belém. teve seu primeiro prédio alugada em seguida para um erguido por Bebe do Praza. conforme seu depoimento transcrito na seção anterior. a tenra O idade atual dono da Gafieira considera a sede lembrança é Sebastião Souza. a Estrela do Norte consolidou-se na década de 60 e 70 como o lug ar de cultivo . inesquecível de sua infância. que fundada e construída em 1928.1 17 No início da década de 60 as festas de gafieira estavam em pleno func ionamento em Belém. Num tempo em que as festas de gafieira estavam em alta. né? E eu sem pre fui fã dessas músicas e minha mãe me trazia aqui na porta do Estrel a do Norte. Sabemos. cuja fama já corre por todo o Brasil devido ao intenso fluxo de pessoas que chegav am à Belém pelo porto. Não sabemos se a Estrela do Norte foi e só uma pesquisa mais ampla a primeira gafieira de Belém poderia dar conta do resgate destas fontes e fatos.

Existia essa divisão. Se ele pega sse tocando uma música do Caribe ele não pagava o cara da aparelhagem. tinha essa divisão. Anísio Silva. Passando a fazer parte da paisagem festas de gafieiras das camadas populares. . Podemos o bolero assegurar que a partir de 116 Na próxima seção trataremos de fatos que podem elucidar ainda mais a questão em relação à presença do Merengue em Belém. mesmo com esse predomínio do Merengue. 222 ----------------------. agora eles não rodavam os outros [ .] tocava esse flash brega. Por outro lad o. popular.. 118 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. ent re outros. Quando vinha tocar na Estrela do Norte. Era o social que eu te falei. Então tinha essa divisão. O locutor quando tocava nas sedes.] Tinha uma sede lá atrás do Castanheira119. como acontecia em outros est ados. tornando-se às do Merengue.do Merengue em 1960. né? Ele não gostava porque ele dizia que a sede dele era ―social . a sede do Sr.Page 223----------------------certamente são os ritmos mais tocados nas festas de gafieira em Belém.Existia.] O cara ia tocar lá já sab ia que não podia tocar a lambada. Mas tem uns aparelho que às vezes desconhecia e metia. o Merengue e Belém. a presença el. falava na categoria. como é chamada aqui e o Merengue. vezes musical porém.. cantores como Núbia Lafayette. 117 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. Jonas [Sede do Atalaia Esporte Clube].. era o socia l que chamava [. [.Existia na época uma espécie de divisão entre as sedes que eram das ca madas populares e as sedes que eram das elites? SEBASTIÃO . ele falava diferente. Nelson Gonçalves. Altemar Dutra.. aí ele chegava no fim e não pagava o cara porque que o cara des cumpriu a regra. Vejamos um caso interessante contado por Sebastião: ENTREVISTADOR . Orlando Dias. nem ligado sempre às será agradáv motivo de constrangimentos e repressões. também se podia escutar. tinha que falar diferente. distintiva do cenário fazendo do gênero certamente uma marca musical da capital paraense. no Bangu [antigas g afieiras da cidade]...

Era ele não era toc SEBASTIÃO .). a freguesia do Estrela era enjoada. a diretoria vinha logo em cima da aparelhagem.Inclusive ado em sede. pois tais localidades. 223 ----------------------. há uns vinte anos atrás. Deus o livre se tocasse Me rengue. 120 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009.Page 224----------------------(marinheiros. era censurado. Vejamos como as prostitutas participavam das festas: Naquele tempo. proibido? eu ouvi falar que o Merengue. as prostitutas só queria dançar Merengue. Só tocava no Estrela do Norte. ―Essa porra já virou gaf ieira? Tá tocando Merengue? Quando tinha festa na Estrelinha [sede social localizada no bairro da Pedreira] ali. ai. entrada em da especia cidad localiza-se logo na deve-se a uma árvore de castanheira enorme que marcava os limites do bairro. no Carroceiros. A localização chamavam as mulheres que trabalhavam das gafieiras em bairros de periferia como Condor. além o porto. na Estrela ali.120 A seguir vemos mais dois casos ilustrativos de como o Merengue e stava inserido nas contradições sociais que se manifestavam claramente nos ambientes de lazer: ENTREVISTADOR . no Km 0 da BR-316. etc. Guamá e Campina. o l homens de outros Estados 119 Bairro do município de Belém. na Embaixada de Samba Império Pedreirense.Em festa social não. ele já falava mais ligeiro. acabava s ―meninas . 121 Entrevista realizada em 04 de abril de 2009. o Merengue e as prostitutas. Ainda que as gafieiras em Belém não fossem prostíbulos por excelência. nessas gafieiras que tocavam M erengue. Otoniel nota-se uma clara associação entr e as gafieiras.121 No depoimento acima do Sr. Mas era 80 % de Merengue. vinha de possuírem meretrício.essas coisas diferente. também facilitava o fluxo das ―garotas de prog rama . como muitos tornando-se um grande atrativo para a na zona. Este nome fluxo intenso de pessoas. não tocava Merengue. estavam perto d . Não era proibido. e. Cabe fazer uma distinção.

toda As de camisa de linho. tornava o Mereng ue a expressão do mau gosto musical e da Roberto Corrêa. Aí ele disse que o Presidente tava por fora. 1 o chamou atenção e ele disse ―sai p ele começo nosso que ele dos anos aqui nos anos 60 veio um Estados Unidos e passou pelo Caribe. As e nos companheiro embarcação apelido dele.. pra dançar o tradicional Merengue. vê se você maneira ess e ritmo de dançar . peixeiros. Fazer madas baixas representadas parte por estivadores. nós chamávamos pra ele carinhosamente de ―cara de mapa . Hoje em dia ainda cai uns velhaguarda aí. não conhecia aquele ritmo do Merengue e o Presidente acabou dando 30 dias de suspensão pra ele. o Vou lhe contar uma história da influência festas do nosso sindicato aqui sempre foram festas tradicio e conservadoras . 122 ngue Assim. podemos entender estava associada à sua reprováveis na pelos dos que valores espaços a resistência ao Mere presença em ambientes os aos ―bons costumes morais relacionad de lazer das ca sociedade belenense. Na veio. do Vejamos o depoimento de Sindicato dos Estivadores de Belém: caribenha nais aqui.. Presidente vulgaridade. né? E o Presidente da época chegou com ele ―Companheiro. marinheiros e prostitutas. Ainda cai. marceneiros. o nome dele era Ricardo Rocha de Souza e ele trouxe a esposa pra cá pra dançar numa dita festa do sindicato e ele começou a d ança nesse ritmo lá do Caribe que ele passou por lá. ] Tocou uma espécie assim de mambo jambo aqui e tal aí e u a rodar a dama e o Presidente ra lá que tu não entende nada disso 23 Percebe-se que o preconceito contra o Merengue e acabou pegando uma suspensão injusta. todinha na Gaspar Viana [famosa rua da zona do meretrício de Belém] pra no domingo v ir com um vestido de primeira linha do lado do seu carachué. do seu gigolô. rodando a dama. de calça mulheres faturavam a semana de linho e sapato branco. É um fato que consta aqui na nossa história [.

as quais absorviam os modelos de ndos da Europa assim como imitavam seus trajes da Paz. em especial a so desenvolvim part Amazônia.não se dava somente em termos que tange à corporalidade. refinamento e beleza artística oriu e costumes. 123 Entrevista realizada em 06 de maio de 2009. O gosto e estavam grande cultivo pela dança muito relacionados aos presente nas festas populares 122 Entrevista realizada com Sebastião Souza em 23 de maio de 2009. símbolo importante dessa época é o Teatro onde se apresentavam as companhias líricas vindas da Europa. ento claramente plano as desigualdades um ciclo de A exploração do látex econômico e social proporcionando grandes transformações para a região amazônica. Este período que vai do fim do século XIX até a segunda década do século XX correspondeu no plano cultural à Belle Époque d o Norte do país. Existia uma forte influência da cultura européia sobre as classes médias e altas. 224 ----------------------. de danças populares A corporalidade expressa pela tradicionais e no espaço urbano pelas formas de dança em desenvolvimento nas gafieir as e sedes também servia como indicador de uma clara divisão social e cultural em Belém. que o musicais. Culturalmente esse momento representou uma forte imposição de valore s e símbolos culturais e artísticos. percebem-se ciais manifestavam-se cultural. os quais reforçavam o sentimento de inferioridade da cultura nativa em relação à cultura ―de fora . A maioria da população que formava uma classe popular de . mas também no caracteriza. Em Belém. Os movimentos característicos da dança do Merengue foram interpretados como um acinte aos ―bons cost umes .Page 225----------------------gêneros s formas afro-latino-caribenhos. ir do ciclo Na história da da borracha na no formação de como iniciou Belém.

De a qualquer forma. ou de e qualquer outro. A partir desse panorama compreendemos melhor como nas décadas de 6 0 e 70. 1978. Aqui.. ambiente urbano desigual as contradições culturais lazer e e de cultura pouca em mobilidade Belém. mesmo sem o beneplácito do moralism Merengue em Belém.] o dominante.. dança-se a o Merengu criativida Mediante a de popular dançarinos de Merengue. de p ajudou a constituir formas depreciativas ensar e entender a cultura local estigmatizadoras cabocla que passava a ser vista como inferior. ação dos encontrava famosos nas os relatos. p. gafieiras um ambiente cultural bastante fértil. primitiva e ‗folclórica‘. dança do (LABAN. No Pará. segundo de forma muito própria. dentro de um social. O caso manifestam-se nos espaços de relatado pelo Senhor Roberto Côrrea. al existente em Belém A segregação cultur várias remete a uma constatação de Rudolf Laban. indivíduo que se tenção e mostrar paramentava com seu talento 225 grande esmero para chamar a a . 212). ilustra o fato de que as desigualdades sociais manifestavam-se na cultura e que tal proces so relacionava-se com um gênero de música e dança afro-latino-caribenha. singulariza-se de forma muito interessante. ao evidenciar como a dança associada ao Merengue era mal vista e discriminad a.. a figura de rel evo é a do ―merengueiro . para queml ―[.] durante centenas de anos vieram se opondo duas modalidades gerais de movimentação passíveis de fácil reconhecimen to: a da classe alta e a da classe baixa [. Uma informação quase u nânime foi a de que o estilo de dança do Merengue praticado em Belém é diferente do estilo do minicano..trabalhadores explorados Este estado não tinha acesso de desigualdades às benesses e culturais deste período.

Acreditamos que as aparelhagens são um dos grandes respon sáveis pela formação dos cenários de uito bregueiro ao qual o pesquisador o Festa na festas populares Costa se em Belém em e que o seu estud circ todos os estigmas sociais des Antonio Maurício da cidade: o circuito refere bregueiro de Belém (2007) tem nas aparelhagens um esteio importante. Milton lembra que na década de 50 se interess . As fest as ocorriam nos bairros pobres e carregavam tes ambientes ao longo do seu percurso. Milton Nascimento. Em geral montadas por pequenos alto-falantes valvulados. Entre eles aca. calça de linho branco e camisa de manga comprida sonagem marcante nas Sapato bico fino. por último. ao surgimento e desenvolvimento das aparelhagens belenenses. salto carrapeta de duas cores. Um caso exemplar é o do Sr. compunham a indumentária padrão desse per festas de gafieira em Belém. Sinvalzinho. a muitas vezes. os sonoros que tinha que ser trocad surgem como fruto da iniciativa de alguns curiosos e de simpatizantes pela música e pela eletrônica. com apenas um to ca-discos. Quando ainda criança. permitindo-nos concluir que elém representam uma espécie de as festas de gafieira em B transgressão indireta das hierarquizações sociais criadas no espaço físico urbano.Page 226----------------------como dançarino nas festas.----------------------. inevitavelmente. B Napuzinho. Bronzeado. funcionando com uma agulha descartável. Tais fatos nos dão um panorama dos tipos de contradições presentes no m eio daquelas festas. Oswaldinho e. destacam-se. construtor e dono do sonoro Alvi-Az ul. aquele que por muitos é considerado o mais ilus tre: Orlando Boca de Ouro. conhecidas Com o tempo as aparelhagens simplesmente como passaram a ser ―sonoros . Percurso esse que se associa. Caco Verde.

o Alvi-Azul. Hércul Selma. quanto nas sedes. meio de transporte ainda presente nas ruas de Belém. pois atuavam divulgando as novidades estilos musicais. Uma história relatada pelo Senhor Otoniel pode ilustrar bem a função cult . apresentava performances de interação rápida e direta com o púb lico. Big-Ben. Era um tempo em que os aparelhos podi am ser levados em uma carroça. estas passaram a fazer parte do lazer das camadas populares integrando-se Atuavam tanto nas gafieiras às festas de bailes populares. as musicais em Belém tinham uma g do momento. maicano. entre outras. Alvi-Azul. As aparelhagens rande importância cultural. O ambiente popular onde as festas aconteciam dava uma abertura grande. Monte Cristo. No fim dos anos 50 e início dos 60 já existiam na cidade várias aparelhagens em pleno funcionamento: Rubi. pois se encontravam em con tato direto com o público. A Voz do Trabalhador. es. M equipamentos eletrônicos ilton se tornou uma figura conhecida no meio das aparelhagens porque além de ter uma das primeiras aparelhagens de Belém. Fossem cantores ou aparelhagens eram um poderoso canal de difusão musical. 226 ----------------------. que podiam ser clubes esportivos ou casas de shows localizadas nos bairros de periferia da cidade.ou pelo funcionamento de e em pouco tempo já tinha feito seu primeiro sonoro.Page 227----------------------Logo que surgiram as aparelhagens em Belém. também as aparelhagens na capital atuava construindo e consertando paraense. Além de ter sido uma manifestação de caráter popular os dois fenômenos têm na figura do DJ um elemento importante. assim como o Com muita desenvoltura e carisma. Clube do Remo. deixando a espontaneidade tomar conta. Flamengo. o DJ ja chamado locutor em Belém.

aproximação entre os cantores e os donos de aparelhagens e controlistas. Dessa forma. 2007. muitas vezes antes mesmo das rádios 124. A gente se sentia orgulhoso. musical da Jovem Guarda. clubes A e seguir expomos gafieiras mais uma lista das sedes sociai conhecidas em Belém nas décadas de 50.ural que as aparelhagens possuíam: na década de 70. Isso era um privilégio para os donos de aparelhagens e controlistas. populares No início da década se ampliou ao mesmo pouco a de 70 pouco. Observamos no que tan ge à divulgação de artistas e na difusão de estilos musicais. pois éramos os primeiros a ter o disco. conhecida pelo seu repertório de boleros. veio a Belém divulgar seu disco. ojeção nacional do movimento ainda e entretanto. mos uma forte presença das casas chamadas de gafieiras. ―Recebíamos os discos de vários artistas em primeira mão. 14). a cantora Edna Fagundes. s. p. teremos mais um ingrediente engrossando o caldeirão heter ogêneo dos bailes belenenses. bares. a o trabalho de Acompanhada de um divulgador. que as aparelhagens . 60 e 70: va ter levado Talvez a constante o autor Antônio defender a Belém o abertura idéia de de que novos só no espaços início de da déca Maurício da Costa a da de 80 temos em embrião do que seriam as festas de brega na era do movimento tecno-brega: ―As fest as de brega surgiram com sua feição atual a partir dos anos 80 do século XX osso (COSTA. pois ficou sabendo que seu LP havia a tingido um bom número de vendas na cidade. P concordar em parte com esta datação contida na afirmação de Costa. a cantora realizav divulgação indo às festas de gafieiras ou em sedes onde de fato estava o público consumi dor de sua música e onde tocavam com muitas vezes havia uma freqüência as aparelhagens. com esse circuito Nesta o época surgimento de festas te pr tempo em que se transformou.

que possui provavelmente o maior acervo de discos de Merengue em Belém. parece que era Clemente o nome dele. declarado de Merengue. Quem trazia bastante era esse. O depoimento ganha força. Em um depoimento interessante.Page 228----------------------A nse. pois parte justamente de uma pessoa aparelhagens. Otoniel Fialho em 04 de abril de 2009. e passou a ser chamado de lambada. demonstra o ritmo. 124 Entrevista realizada com o Sr. No tocante à atuação das aparelhagens na formação do gosto musical popular. segundo ele cerca de três mil. Bento.cumprem esse papel desde seu surgimento nas décadas de 50. o movime nto atual do tecno-brega é muito mais um continuum deste processo iniciado na década de 50.. 227 ----------------------. com Merengue. fala como adquiria os discos de Merengue tão inacessíveis à população belenense da época: ue eu falo E era vinil. Ao as pessoas mesmo traziam discos. Disco q . até metade da com os discos depois de ―música caribenha . transportava café e trazia carro. Era o dono da aparelhagem Clube do Remo. Outra contribuição importantíssima aparelho Benson foi dada por Bento e amante muito ligada ao meio conhecido das dono do Maravilha. até carro eles traziam amarrado no barco 125. especificamen disso com a inserção do que década de 70.. o Senhor Otoniel Fialho traz uma primeir a pista sobre como se dava a relação das aparelhagens com a música de caráter afro-latino-caribenho em Belém: ―Os discos de Merengue vinham de contrabando. relação do Merengue com o público das camadas populares parae como o gosto da população freqüentadora das festas já havia assimilado mas também a relação das aparelhagens te. aumentando a sua atuação neste sentido com o p assar dos anos. Ele tinha barco.

O Sr. Eram caixas assim.126 pessoal do diamante. que tinha uma sede na João de Deus. pois a maioria dos discos de Merengue e cúmbia não eram vendidos nas lojas de Belém. viajav a o mundo todo de navio. eles mandavam buscar Merengue fora nesse tempo [. Tinha um cidadão que morreu há uns dois anos atrás.] Quando ele vinha d e lá ele botava pra tocar num aparelho chamado Paraense que ele tinha. paralelo a isso eu ia com o pessoal das outras aparelhagens.Page 229----------------------SEBASTIÃO . chamado Lourinho.. a saída muitas vezes era ir buscá-los fora do estado.. Grandes acervos foram construídos e muitos donos de apa relhagens se tornaram verdadeiros colecionadores . [rua do bairro do Guamá] chamada Corinthians. Com muito esforço. a li..Sabe por que ficou conhecido? O Merengue é o seguinte. O Lourinho quando chegava [.Clube do Remo foi um grande aparelho aqui.tempo. Então. Como os de relíquias musicais das décadas de 50 discos eram raros em Belém.] parava muito navios aqui no porto e eles. como evidenciam os dois relatos abaixo: SEBASTIÃO . por intermediário de alguém. Ele tinha a sede e o aparelho chamado P . cada investimento. 228 ----------------------.127 ENTREVISTADOR . compacto com buraco muito grande que era o disco de Merengue. Quando eles davam o giro já tra ziam os pacotes. comprar disco de contrabando nos navios aqui defronte. Eles mandavam. mandavam um auxílio tod o mês pra comprar material. Era uma filial de lá. 60 e 70. tem porque o Merengue ficou tão popularizado aqui em Belém? uma desconfiança. esse Lourinho ele viajava. esse Corinthians paraense dele recebia um auxílio do Corinthians de São Paulo. que eram aqueles discos com buraco muito grande no meio.. uma idéia 125 Entrevista realizada em 04 de abril de 2009.. 127 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. eles faziam pedidos. 126 Entrevista realizada em 11 de abril de 2009. Corinthians paraense. o do seus acervos Ao longo dos anos. as aparelhagens pouco a pouco iam construin de LPs e compactos.

Eles encomendavam já nos navio. encostando nesses portos por aí . daqui. qu e era uma música mais agitada.Papai conversava com os amigos dele. eles [os marinheiros] iam pra Condor [bairro da periferia de Belém]. O senhor Zenon tinha uma loja de móveis chamada Brazilândia e colocou algumas caixa s de som na im frente da loja a aparelhagem. Eles trocavam.araense. Zenildo é dono da aparelhagem Brazilândia. Todos eles compravam. o Brazilândia surg e como uma tentativa de atrair a atenção dos clientes. E foi daí que veio e que introduziu no Brasil. [. da Condor direto pra cá.] Aí depois já começou a chegar os navios que vinham de fora. Zenon Fonseca.. [. Zenon era surgindo marítimo ass e t interessante é o rabalhava viajando fato de que o por rotas que passavam pelo Caribe e Estados Unidos: ENTREVISTADOR . propriamente dito aqui em Belém. O pessoal de lá queria música nossa.. 128 de Outro aparelhagens é nome que não o de Zenildo poderia ficar fora do painel Fonseca.. E quando chegou ess a música caribenha no Brasil. ZENILDO . DJ Disco de Ouro do Brasil. papai era marinheiro. que ele marinheiro.. era os boleros... era da marinha mercante. Zenon Fonseca. inclusive eu tenho o Merengue da flauta. Criada em 1945 pelo Sr. Colossal Colômbia. a qu al herdou de seu pai. para Um divulgar detalhe seus Senhor produtos..) E despertou a idéia daqueles caras de aparelho que era o Milton do Alvi-Azul. quem trouxe foi um marinheiro do Peru [.] Inclusive eu. e o pessoal. escorava nesses portos por aí. também eram doido pelos ritmos nossos daqui.Fale um pouco sobre como essa música do Caribe chegou aqui em Belém.] Quando os navios chegavam. foi o maior sucesso esse tipo de música. mais dançante. e lá faziam troca com os discos de lá com os discos daqui. (. quando o Lourinho chegava eles iam pra casa do Lour inho pra escolher os Merengue bom.Fale um pouco mais da importância e de como é que você vê a presença da música caribenha no Calhambeque da Saudade (nome dado por Zenildo a um projeto de festas no . estrangeiros que gostavam da música paraen se.. as valsas. os aparelhos da época. o cara já ia comprar no navio mesmo. com essa tu rma aí levando mercadoria. porque viajava. aí quando os navios chegavam a o cais do porto os donos de aparelhagem iam comprar direto lá. essas coisas as sim que papai levava. na época. Aí parava no cais do porto. ENTREVISTADOR .

as lambadas. foi o ambiente fértil e possibilitador das hibridizações musicais da música urbana parae nse. a partir da metade da década de 60. Aliado à música de verniz afro-latino-caribenho. nossos 128 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. existe uma convergência quanto à p resença do Merengue em terras paraenses. 229 ----------------------. Tudo começou quando meu pai.Page 230----------------------irmãozinhos lá do México. porque aqui.. As aparelhagens puderam colocar a e acreditamos que é nesta variedade da chave para lado a lado que vários podemos estilos encontrar da a époc vida musical belenense entender a rede de difusão cultural transatlântica e sua influência na chegada e na difusão dos gêneros carib enhos em Belém.. porque nós somos rico s em vários gêneros musicais aqui. assistese à explosão da Jovem Guarda no Brasil e ao surgimento de novos ícones e artistas no cenário musi cal brasileiro. e hoje como o Pará é rico em ritmos!129 benha Pelo que conferimos encontrou nas festas até agora a música e também a afro-latino-cari populares realizadas em Belém um lar aconchegante. aí vinha surgindo devagarzinho.. de fato marcada pela diversidade. sidade existente nas festas Ficou claro que apesar de toda a diver . lá da outra região da América turma lá das Guianas Francesas. essas músicas. bem nosso do Pará. Não vinha esses discos. É importante ressaltar que esta paisagem. Aí vinha através de navio. que meu pai era marinheiro. a e musicalidade afro-latina Belém dividindo espaço passa com a compor a paisagem musical d outros estilos musicais.A música caribenha já é um produto bem. NOTANDO A PRESENÇA AFRO-LATINO-CARIBENHA Como já percebido nas seções anteriores.qual as músicas antigas são a tônica)? ZENILDO .. Logo que caiu no gosto musical da população. era um negócio tão difícil. alguém trazia. os Me rengues de lá hehe.

No contexto desta expa caribenha.populares. pois somente seguindo sua linha evolutiva. que foi sem dúvida o primeiro a obter popul aridade fora do país. Pois. O fato de que. também tiveram explicação para este penetração na mesma região. O gue em seu notório caráter nebuloso e transnacional adquirido pelo Meren controverso percurso dentro da história caribenha é reforçado ainda mais por conta da sua difusão 129 Entrevista realizada em 20 de abril de 2009. Em 1953. isso nos leva a crer em certa predominância deste ritmo. diante do caldeirão cheio de ritmos que é o Caribe. a b anda se . desde seu nascimento. o acordeonista Angel Viloria e seu Conjunto Típico Cibaeño foram os respo nsáveis pela propagação do Merengue de 50. nesse momen to. é que poderemos en tender o destaque alcançado pelo gênero na região Norte. até sua expansão no século XX. o Merengue foi enfatizado nos relatos como fonte de certa tradição. além do Merengue. De algum modo. 230 ----------------------. tinha em sua formação músicos como Luis Quintero e Dioris Valladares. no estado do Pará. este grupo. na década gravadora Ansenia Records. assim como o cultivo da música. indagamos: o que deu a o Merengue esse suposto privilégio no contato com as terras do Norte do Brasil? É forçoso. da diversidade musical flagrante que esta região apresenta.Page 231----------------------realizada nsão da por inúmeros cantores música afro-latinoe músicos. torna a busca fenômeno bastante intrigante e motivadora. atermonos em aspectos que consideramos importantes na história do Merengue. o reggae e da o zouk. Alavancados fora pela da República Dominicana. Havia um ―jeito especial de dançar Merengue. outros gêneros caribenhos como o cal ypso.

também tivessem pelos in p grupos sua uma ambigüidade musical classificação majoritariamente cúmbias e porros . Aníbal Velásquez e Corraleros de Majaguá. Angel Viloria. de uma procura fracassada por Depois informações sobre esse ritmo. f vezes apontados como representantes do passaito. o conjunto. ass im como músicos. estes nome Quando pergunto ao Sr. sobre sua lembrança do Merengue ele fala ―Luiz Quinter o.. era novidade. lacionado ao Merengue. grupo passa a Sebastião Souza. torn (AUSTERLITZ. um dos pr aparelhagens sonoras em Belém. Nesse dia lá ele fechou o trânsito . Cantores e grupos oram muitas como Trio Renoso. Remo ele trouxe . O grupo Corraleros de Majaguá teve uma projeção imensa a partir da décad a de 60 e. no aniversário do Clube do os Corraleros de Majaguá. imeiros donos de Em várias entrevistas realizadas em Belém. podemos supor que se tratava de um nome criado pelos paraenses. o grupo também da Colômbia e tocando ficou o muito em conhecido. Algumas pessoas do meio musical. negócio de Merengues. Tais artistas são provenientes d a Colômbia e se inscrevem na chamada era de O que talvez motive a confusão é o fato serido o Merengue repertório. Então. Jorge Valadários [. o conjunto fazia sucesso na época. antigos donos de aparelhos. Luiz Viloria. s do Merengue são freqüentemente citados. ele tinha uma sede e um aparelho [o apa relho chamava-se Clube do Remo].] esses que eram os titulares 130. em indo Belém.divide ando-se e esses ícones músicos passam do Merengue a seguir carreira solo. Milton Nascimento. Belém Mesmo ser v re de em que seu ouro da muitos história desses em da cúmbia colombiana. também comentam sobre um ritmo chamado passaito. dono da famosa gafieira Estrela do Norte. relata um episódio sobre o grupo: Teve um cidadão chamado Clemente que uma vez trouxe à Belém os Corraleros de Majaguá.. 1997). gerando araenses do meio popular.

O que se falou pela prim artigo. eira vez em ritmo caribenho. sem hoje a pode que ter marcado seus os estu dúvida. Parece ter sido em 1854. O ponto em comum entre a maioria dos historiadores. cujo expansão desta do panorama no da mundo. A despeito de todos os en treveros já ocorridos. que se referia a esse gênero musical em tom pejorativo. menciona um baile que possuía uma dança dotada de sensualidade imoral. a mundial da não pode desligar-se época. publicado no Jornal El Oasis. é que as prime iras informações a respeito do Merengue surgem entre meados da década de 40 e início da década de 50 do séc ulo XIX em Santo Domingo.O fato de que o cenário musical belenense apresenta uma ligação com a música afrolatino-americana. dos a Se respeito há algo que até do Merengue. para a finalidade deste trabalho. são os resultados divergentes dores mais conhecidos. músic Para desenvolvimento evidencia uma estudar a música afro- música 130 Entrevista realizada em 18 de maio de 2009. devemos destacar. com o artig o de Eugenio Perdomo. julgo importante entendê-la também (considerando suas partic ularidades) em seu desenvolvimento e expansão no Brasil. que é partir de um olhar atento a este d ebate que poderemos começar a compreender porque o Merengue tem a primazia na influência carib enha no Pará. Isto chegaram pesquisa atesta a notável capacidade do gênero em suscitar polêmicas. mas que vinha se popularizando cada vez mais nas camadas .Page 232----------------------latino-caribenha no Pará. 231 ----------------------. atual República Dominicana. que o principal p onto de discórdia se dá em relação às origens do Merengue no Caribe e.

Entender o Merengue requer a compreensão da própria expansão que a mús ica afrolatino-caribenha alcança famoso historiador Eric em J. em seu livro História afro-latino-americana é provavelmente a m o jazz única linguagem musical em termos de Jazz. 1998). percebemos com possuidora fonográfica.pobres e negras de Santo Domingo. r afro-latino-caribenha . g rande parte em decorrência como por da importação exemplo. Outra tese idéia de folclorista dominicano Fradique Lizardo. Não nos deixando levar por esse aparente consenso. o de percussionistas e outros músicos cubanos. p. quando teria chegado à ilha de Santo Domingo a tribo africana Bara (LIZARDO. Hobsbawn no período do pós-guerra. um período Social moderna de do sua história.Page 233----------------------eflexo expansão do O comentário de Hobsbawn momento de grande vivido pela música (1990) refere-se no ao mundo. cultura negra trazida pelos africanos à o qual América. 53). o Me (apud FARIAS. a Continuando. de uma relevância sem a apenas parcialmente. que o baile teria sua origem defende a entre os anos de 1631 e 1700. 232 ----------------------. 1990. citamos como o conhecido músico dominicano Luis Alberti e de nossas tonadas camponesas do interior rengue não apresenta nenhuma origem da polêmica é a do definiu o Merengue: ―É uma mescla do espanhol 2007). (1990) menciona que a música afro-espanhola influenciou bastante ojazz moderno. senão indústria (HOBSBAWN. Quando o Hobsbawn. entende. afirma: ―A música capaz de competir co capacidade de conquistar outras culturas isso que se trata qual de uma não se música grandiosa. Na visão de Alberti. singular Chano Pozo que já tocava com Dizy Gillespie no álbum Manteca (1948).

Sem dúvida que . conhecida como Era de Ouro do Rádio. vai sentir ressoar esse novo ingrediente latino a ação das rádios brasileiras. Panamá músicos e Venezuela. Encabeçand caribenhos ou filhos de imigrantes caribenhos. Ismael Miranda. 61). que então vivia seu apogeu da mídia radiofônica. Na esteira desse processo de expansão da música latino-caribenha. p. Ray Barreto (tumbadora). Hector Lavoe. Santos Colón. Adalberto Santiago.Caminhando nesta direção. já que a indústria fonográfica norte-americana dos anos 70 sentiu que seri a mais eficaz. Porto Rico. Entre os mús gravadora estavam nomes como Johnny Pacheco (maestro). que inicialment e foi muito mais um movimento de música latino-americana do que um gênero musical característico. o selo Fania Records se consolida em Nova Y ork e expande seus o mercados em o movimento. Cheo Feliciano. do ponto de vista comercial. lançou sucessos que iam direto do es túdio para as paradas de toda América Latina icos ligados à (STEWARD. o B rasil. encontramos um fenômeno musical de fundamental importância: a salsa. Nos anos 60. Tendo como pano remontam à primeira de revelando fundo os migratórios metade do século XX. referir-se a essa música por uma só palavra. Como uma mescla a relaciona-se à história da da música cubana e caribenha. a salsa surgirá como o resultado das diferentes culturas caribe nhas presentes na cidade de Nova York. agitaram a cena musical da cidade de Nova York: ―A Fania tornou-se conhecida como a ‗Motown Latina‘. no seu território. Larry Willie Colón (trombone). sobremaneira processos a sals o pa que indústria cultural norte-americana pel da música nas sociedades contemporâneas. uma vez que este termo só foi criado música que vinha dos países quando do processo de difusão da caribenhos. 1999. e cantores como Pete El Conde Rodríguez. entre outros.

em particular. polca -chula. existência de ritmos como polca -habanera assim como valsas. através da criação de um s . contribui de forma crucial para a difusão da música latina no país aumentando a diversidade de estilos e possibilitando hibridizações musicais posteriores. 50)..Page 234----------------------por excelência (VIANNA. 2002. 2002. polca -lundu. quadrilhas. ao ponto de parecer redundante .passando a inserir em sua programação o repertório das grandes orquestras de Xavier Cu gat e Glenn Miller.. Hermano Vianna também percebe tal diversidade de estilos dentro da programação da rádio no Brasil: ―[. percebese que poucos são os contextos música popular brasileira sem urbanos onde podemos falar de considerar um ambiente marcado pela pluralidade de gêneros musicais. o rádio em geral e a Rádio Nacional. schottisches. Hermano Viann a esclarece que a música popular brasileira ligada ao carnaval sempre apresentou uma diversidade c rescente a partir das primeiras da música décadas do século popular XX: ―Essa diversidade internacional carnavalesca continuou a imperar por décadas até o samba se consolidar como ritmo do carnaval 233 ----------------------. De tão evidente. passou a ser uma das prioridades na agenda governamental.] até be m recentemente os grupos musicais que tocavam ao não se especializavam num ritmo único. p. p. mazurcas e habaneras. 49). ganharam relevância e desempenharam um papel muito importante Quando o tema da ―integração nacional . ntimento de identidade brasileira. vivo na As orquestras Rádio Nacional até os anos 50 executavam sambas ao lado de mambos ou bo leros (VIANNA. E a rádio teve certamente um papel fundamental. Ao mostrar a .

às 21h30min. Foram execu tadas. à graças. nesses programas 54 músicas. Dos doze programas possíveis foram ouv idos oito. em 1940. Mesmo estando ligada ao Estado. foi substituída por burocratas simpáticos ao mesmo não sendo completamente livre de certas interferências e do controle do Estado . sua equipe artística e executiva não regime. Assim como outros programas do período. programação. a música presente no na Radamés rádio Gnatt brasileir do Augusto Pinto atualmente debruça-se o no pós-guerra. era realizado ao vivo com uma orq uestra – Típica Corrientes – associada ao maestro argentino Eduardo Patané. Foi nesta poderosa emissora que. Houve duas séries com seis programas cada para essa finalidade. a Rádio Nacional tam bém se manteve vinculada ao mercado publicitário e suas campanhas tornara m-se altamente lucrativas. scuta. ocupando. Desse total. não parecia seguir uma rígida orientação deste. Em um estudo feito sobre o repertório Nas asas de um Clipper. cada um contendo entre seis a oito músicas. No entanto. a Rádio encampada pelo Estado. Fundada em 1936 Nacional acabou sendo pela empresa holandesa Philips. pois foram executadas 49 composições distintas. constata: programação Da série de programas disponível para a e análise aqueles dedicados a Cuba. No que se refere à música . portanto. não será exagero dizer que o samba carioca tornou-se um ritmo ―nacional arte. o horário com nobre meia da hora de duração. tomou-se para . d urante o ano de 1947. Theophilo. em grande p sua difusão por meio das ondas da Rádio Nacional. O mesmoera transmiti do às sextasfeiras. O importantes maestros da Rádio pesquisador Theophilo sobre musical Nacional.no processo. a maioria apenas uma vez. mas com a regência de um dos mais ali. fazendo de sua programação uma referência para o resto do país131. 33 foram cantadas em espanhol. Sua programação. foi transmitido o programa Nas Asas de um Clipper. ao contrário de outras emissoras estat ais.

em São Paulo. a maioria dessas composições era i nterpretada por nd. que as composições em espanhol aparece m em número praticamente 131 Sobre a Rádio Nacional no contexto da radiofonia brasileira ver Ferrareto (20 01). que através de sua história nos permi te conhecer a importância da Rádio Nacional para a chegada da música latina no Brasil. Para uma história da emissora mais específica ver Saroldi. ava-se por Para Theophilo. O Brasil tinha de fato seu próprio ―Rei do Mambo à la Perez Prado. além que essa do latinidade quê. não deixou de formar ídolos. porém. Quatro outras peças e uma com trechos em eram instrumentais. tais como às de Xavier Cu gat e Glenn Miller. os como demonstr músicos brasil pluralidade da música latino-caribenha. eiros interpretavam a seu próprio modo este tipo de música. apenas dois cantores: os brasileiros especializados nesse tipo de emblemática. 2007 s/p. é Ruy Rey. Uma figura om a história da latino-caribenha no Brasil e com a Rádio Nacional. de Lecuona portunhol. Ruy Rei começou cantando no conjunto dos irmãos Copia.Page 235----------------------dobrado que as canções em português. 234 ----------------------. portanto. com raras exceções. Notese. De um modo geral. F rança.17 em português (incluindo-se aqui músicas de origem caribenha como ―Babalu . Sobre a Rádio Nacional no contexto da construção simbólica da música popular brasileira ver Goldfeder (1980) e Mccann (2004). música que se Ruy confunde Rey ao e Nuno mesmo Rola tempo c música. o rumbeiro Ruy Rey.). N o início da década de 1940 trabalhou na Rádio Tupi de São Paulo. no Cabaré OK e na Orquestra de J. dando um c aráter ―latino ao programa (PINTO. . ―Tico-tico na rumba ). Moreira (2005). Esse apelo à latinidade. de latinidade estava mais ou O se tinha referência menos relacionado com o repertório das grandes orquestras. no demais distante da entanto.

de Sila Gusmão. Vinícius A música latino-caribenha foi tão forte nos anos 50 lançaram a que Tom e guerra à hegemonia d música-de-protesto ―Só danço Samba . e autoria de Agustin Lara e "No maest rumba como "Ana Martin". onde declaravam o calypso ao cha- cha-cha. onde passou a atuar na Rádio Nacional.. foi para o Rio de Janeiro. ―Aviso aos navegantes esta (1950) e ―O petróleo é nosso no cinema (1954). e fez desta um ponto ce organizou uma orquestra conhecida como Ruy Rey e sua Orquestra. Em 1946 gravou seu primeiro disco na Continental. Gravou em parceria com o também a guaracha "Hechicera". como diria Machado de Assis.Em 1944.. mientas". de Watson Macedo.) que para mim. lembro-me de tê-lo . cuja marca princ ipal eram os ritmos do repertório latino-americanos da época. A carreira de Ruy sempre se pautou pela referência primordial da música afro-latino-caribenha. Em 1951.Page 236----------------------A bolerização. não me é estra nho. Participou dos filmes ―Carnaval no fo go (1950). Abre-se o rádio e lá vem o nostálgico ritmo-de-bacia (bacia pélvica. Num conjunto de crônicas lançadas no calor deste momento. teve intensa participação omo cantor. acompanhou com sua orquestra a cantora Emilinh a Borba na gravação da rumba "Dançando a rumba". Em 1948. de sua parceria com Rutinaldo. bem enten dido. de sua ro Sebastião Cirino. é geral. assim como cha-cha-c ha eporros . como líder de orquestra e até como ator. Gravou boleros como "Nadie". Ruy Rey agarrou a música afro-latina ntral de sua carreira. Vinícius de Morais comenta a presença da música de verniz latino-caribenha: 235 ----------------------. que já tenho andado muito por essas Américas. Durante brasileiro atuando c década. de Airton Amorim e Mário Meneses.

dentre outras. .] mas a verdade. como ―Canção pra inglês ver e ―Não tem tradução . se me permitem um aparte. de ond mas onde tem privilégios certos de nacionalidade. etc. Não haja dúvida. e não sei se é oriundo. os ideais nacionais estavam na ordem do d ia. produziram composições em que se via a preocupação com a crescente influência estrangeira na música popular brasileira13 2. Carmen Miranda. 51-52).. Era tempo da rainha do mambo e da rumba. 2008. O fato de que tanto a direita quanto a esquerda aderiu à defesa de uma nacionalidade. considerando que muitos países latino-americano s encontravam-se imersos em regimes políticos centralizadores. é que estão xaviercugando a músic a popular brasileira. lotando teatros e night-clubs do Rio e São Paulo. que chegou a filmar no Brasil. falsa. compositores inquestionável. Car naval de Fogo. No contexto desta época. p. Será isso uma das muitas formas de escapismo de uma sociedade doente e entediada a essa realidade saudável e dionisíaca que é sempre a marca da boa música popular? Evidentemente. onde uma fiel legião de fãs a aplaudiam. a lenda viva dos antológicos melodramas de cabaré com música do cinema mexicano dos anos 40 e 50. Desde a década de 1930 como Lamartine Babo e Noel Rosa.. tornando-se figura popularíssima.ouvido no México.. era muito criticada p elo uso comercial de uma imagem caricatural de uma latinidade sem lugar definido e p or isso. criava em torno da idéia da identidade nacional um ideal pelo menos. por exemplo. No quadro político. A música com saúde passou a constituir um elemento ―onésimo no ambiente escuro e enfumaçado das bo ates pequenas (MORAES. Ninón Sevilla. os ritmos ouvidos são do melhor bolero: tristezas mil nos bares do Brasil [. Esse período corresponde à passagem do cinema mudo ao sonoro. por exemplo. buscava-se uma aproximação com a música po pular e o cinema com o intuito de usá-los como ferramentas para forjar uma integração e uma id entidade nacional. em 1959.

que em seu primeiro disco apresentam uma orquestração de Big Band para ―Outro Mambo. valsa s. Segundo Jota Efegê (1974). contribuindo influenciando samba de salão. Neste cenário de influência da música latino132Nas décadas de cada vez mais e 50 e 60 essa influência a música popular urbana parece se confirmar desenvolve-se assimilando outras fontes musicais. Outro Mundo . temos como exemplos Os Mutantes. as orquestras que se destacavam bastante eram as de Glenn Müller. que divertiam com a rumba. dentre outros. que embora a letra afirme que ―é só isso meu baião . eram chamadas de e conseqüentemente foram em 1930. com a incorporação de outros gêneros de dança que eram cultivados na cidad e do Rio de Janeiro. todos percebemos ser composta num ritmo então chamado de b eguine. E João Gilberto. O revolucionário álbum ―Tropicália foi recheado por mambos como ―Três Caravelas e ―Lindonéia . Com o tempo as orquestras brasileiras passaram a utilizar instrumen tos dojazz tais como trombones. Xavier Cugat. as orquestras das gafieiras jazz e tocavam diversos estilos musicais como sambas. Como capacidade de a de adaptação. 236 ----------------------. o 78 RPM Chega de Saudade.esta Demonstrando incrível musicalidade afro-latinoem um processo Brasil. como a valsa. ocorrido em Salvador das décadas de 40: descreve praticamente o mesm . cultura. O historiador Milton Moura também o. Tom Dorsey. maxixes. etc.fox -blues. No que tange à latinidade. a rumba etc.Page 237----------------------caribenha. a polca . Os Novos Baianos. trompetes e clarinetas feitas adaptações aos arranjos modernos. tinha a música ―Bim Bom . que não ficou in erente: o primeiro disco de bossa nova. da anos d n caribenha desemboca dança de salão no transformação partir e dos salientou Ana Maria de São José e 1930 desenvolveu-se um novo processo ovamente de transformação da a coreografia do (2005).

carnaval que passou. De qualq . através dos circuitos norte-americanos d e produção e divulgação. as referências de música norteamericana passavam a ser. levará a efeito no dia 13. guitarra e bateria. sob o som do harmonioso jazz ―Los Creôlos . em Nova Iorque. tanto o jazz quanto os ritmos caribenhos. Note-se que o termo norte-americano jazz foi aliterado para o termo que se popularizou na Bahia – jaze – muitas vezes com a mesma grafia de jazz .02. em Salva dor.02. não existem estudos sobre os chamados grupos de “jaze” no Pará. mesmo nos ambientes escente apoio das massas. Foi então. populares onde o samba ganhava cr encontramos indícios de que neste ―popular e . em sua edição de 05.[. 31). que a música latina – quase sempre cubana ou mexicana – pas sou a ser divulgada na Bahia (2009. trouxe uma nota sobre a escola de samba j urunense o Rancho não posso em amofiná133. assim. composta de 40 senhoritas e 40 rapa zes que executarão sambas genuinamente paraenses (MANITO. como o denominador comum de uma pequena banda com instrumentos correspondentes a uma orquestra de jazz: teclad os. a mundialização da músi ca caribenha. como no intervalo fará uma dem onstração da sua escola de samba.). Infelizmente. Assim. s/p.. durante a II Guerra Mundial.. do seu sucesso na Em Belém. p. Para esta noitada a diretoria reservou várias surpresas (sic ) para cavalheiros e senhoritas e. não próximo ao samba deixa de ser e ao choro da época. O que chama atenção é a presença do ―harmonio o jazz do grupo Los Creôlos: que tanto brilhou no Este simpatizado Rancho Carnavalesco.36 o seu ―assus Beneficente 20 de Março. 2000. A referência mais importante deste processo é a explosão Broadway. Não se sabe até que usical com o jazz ponto este ―harmonioso jazz tinha alguma relação m tado nos salões da Sociedade estadunidense. O jornal O havia espaço para os conjuntos de jaz Estado do Pará. No depoimento de Solano parece que não se tocava a música americana e sim um repertório mais uer forma.1936. contrabaixo.] a partir dos anos 1940.

rabecão. Orlando Pereira encarnava o bandleader no Pará e. as rádios festas populares em sedes e .Page 238----------------------existido nos interiores do Pará e participado ativamente do lazer das camadas popu lares e médias de Belém e do interior134. à frente de seu conjunto. temos o caso do famoso cantor paraense Pinduc a135. 21. obedece à como rede de difusão cultural transatlântica. em Be lém-Pará. tuba. tenha cuja designação tem como referência a músic 133 Escola de samba Jurunense. para anos Abaetetuba136. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir de nossas investigações pudemos constatar que o contexto mu sical em que o Merengue se desenvolve. Em ambém montou uma Orquestra Internacional. o fenômeno dinâmica tal rede do do fazem locais. que após ou-se sua transferência de a um grupo musical Igarapé-Miri Belém. De s portuárias. Pinduca integr t denominado Jazz Brasil. desfez-se e Por razões que Pinduca teria desconhecemos a referida ―orquestra aproveitado alguns de seus músicos para trabalharem com ele (O Liberal.interessante que um formato de conjunto caracterizado por instrumentos como ban jo.05. por estar localizada no bairro do Jurunas. depois. Como ilustração. tocava músicas afro-caribenhas por conta d a influência que este gênero teve no cenário musical da época. administrado hoje pelo seu filho. 237 ----------------------. que estamos parte além do as designando atividade circuito de contrabando as aparelhagens. a piston.1978 ). A tiveram em presença Belém um das big-bands ilustre e orquestras nacionais representante. sax e trombone. Trata-se do maestro Orlando Pereira. cuja fama e memória se mantêm po r meio de seu conjunto Orlando Pereira. norte-americana.

tratamos de um espaço r sua proximidade acabou tornando-se um dos principais palcos ibenhos na capital paraense. na medida em fazem iências zona que ligado às e atividades portuárias. marinheiros. 136 Dois municípios localizados no interior do Estado do Pará. Dessa forma. vendedores etc. muitas vezes ocorridas na ―zona do mere trício . a música de origem afro-cariben ha chega 134Um estudo valioso sobre a presença das bandas de música no interior do Pará foi fei to por Vicente Salles: ―Sociedade de Euterpes: As Bandas de Música no Grão-Pará (1985). 238 ----------------------.gafieiras. anifestado Nas nos últimas décadas movimentos o processo diaspórico tem se m migratórios de países pobres em direção aos países de economia mais desenvolvida. responsável pela difusão do carimbó fora do Pará. Como lugar de grande importância para a chegada da os discos em Belém.) tornando-se um ambulantes. visto aracterizam pela circulação que de circulação tinham c ambientes transnacionais pessoas de várias regiões e países. aparelhag espaço-símbolo da relação Pará-Caribe. assim. em busca de melhores condições de vida. Formam-se.Page 239----------------------por meio balhadores das rotas de contrabando viajantes das agentes estes e pela ação de dos marítimos. . donos (estivadores. as zonas de contatos culturais r epresentadas pelo porto de Belém e as festas de gafieira. 135 Cantor e compositor paraense. cultural se tra n companhias de navegação. a decisiva. em. acionado com o Neste trabalho chamamos espaço atenção para o aspecto cultural rel música e d que po urbano belenense. entretanto. da chegada e vida o da difusão dos gêneros car ganham uma de de importância suas exper porto dos parte da história de e de suas memórias indivíduos. No caso do Pará. Esses o porto e na zona um espaço privilegiado.

ed.eca. 2007. isto é. Acesso em: 22 mai. 2001. Música caribenha e sua influência no norte brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra. dentro de um ambiente de noções de identidade e tradição muito f ortes. Merengue. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. 1997. COSTA. 1981. Rio de Janeiro: Paz e Terra . História social do Jazz. Barcelona: Mandadori. Campinas: Papirus.Belém não Na rede de difusão é a família que cultural transatlântica existente em funciona como elo. HOBSBAWN.usp. qual seja. GOLDFEDER. 1999. Luiz Artur. Eric. Por trás das ondas da Rádio Nacional. FERRARETO. o canal crucial entre o elemento afro-latino-caribenho e a região do Pará não se dá no ambiente familiar rede de difusão cultural e sim nos espaços constituintes da transatlântica. Notas de prensa (1961-1964). Bernardo Thiago.br/nucleos/njr/espiral>. Rio de Janeiro: Conquista. a História e a Técnica. a dança excomungada. Paul. na medida em que o processo não é resultad o de um movimento diaspórico. 1974. Festa na cidade: o circuito bregueiro de Belém do P ará. Antonio Maurício Dias da. As conseqüências disso são que no lugar do forte senso de preservação de uma identidade da ―terra de origem . Miriam. rede e local da memória. O diferencial está no fato de que os agentes atuantes nesta rede são i ndivíduos que moram na cidade de Belém. 6 . O Veículo. 1990. . AUSTERLITZ. Belém: s/e. FARIAS. 2008. Maxixe. REFERÊNCIAS AUGÉ. a identidade musical regional. Disp onível em: <http://www. Dominican Music and Dominican Identity. Porto Alegre: Sagra Luzzato. M. 1994. GARCÍA MÁRQUEZ. Rádio. esse contato transcultural vai se singularizar pela construção de uma nova identidade. Jota. EFEGÊ. Gabriel. Temple Unive rsity.

Samba de gafieira: corpos em contato na cena social carioca. Belém: Editora Bresser Comunicação e Produções Gráficas. 2007. Samba falado: crônicas musicais. Milton.Page 240----------------------LIZARDO. MOURA. Sociedades de euterpe: as bandas de música no Grão-Pará. 1978. Foi no bairro do Jurunas: A trajetória do rancho não posso me amofiná (1934/1999). Vicente. In: Anais do V Simpósio Internacional do Centro de Estudos do Caribe no Bra sil. São Paulo: Summus. Instrumwentos musicales folklóricos dominicanos. História e multidisciplinaridade: territórios e deslocamentos. Fradique. Domínio do movimento. 2008. 1985. Lisa (Org. São Leopoldo. A. PINTO. A representação da música caribenha no Brasil por meio da Rádio Nacional do RJ 1945-1948. SALLES. 2008. MANITO. 2004. Hello Brazil . 184 f. O sofisticado e o vulgar da presença caribenha no repertório musical praticado na Bahia. In: XXIV Simpósio Nacional de História. ______. Vinicius de. Brasília: Edição do autor. Brian. 2007. Universidade Federal da Bahia. Tradução de Anna Maria Barros de Vecchi e Maria Sílvia Mourão Netto. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Ana Maria de. T.).org/MiltonMoura. Ullmann. 2005. João. Salvador. SÃO JOSÉ. Volum 1: idiófon os y membranófonos/esco.LABAN. São Leopoldo: Oikos.pdf>.revistabrasileiradocaribe. Rudoulf. 2000. 239 ----------------------. McCANN. MORAES. Duke University Press: Durham.Popular Music in the Making of Modern Brazil. . Caderno de Resumos do 24  Simpósio Internacional de História. Acesso em: 10 fev. Disponível em: <http://www.Santo Domingo. Hello. 1998. 2005. 2009. Rio de Janeiro: Beco do Azou gue.

tambor.SAROLDI. 198 8. Durante os festejo s religiosos dedicados Caçada multidão antando. no estado do maioria negra. Londres: Thames & Hudso n. ______. 1995. 2005. danças. São Paulo: ART. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: UFRJ. Lisboa: Caminho. Hermano. 3ª Ed. configurando-se e reconstruídos numa bem ao como longo do uma marca percurso identitária importante prática de sociabilidade.02. na um dos rituais qual uma ruas da mais cidade significativos tocando é a c percorre as principais dançando e bebendo. 240 ----------------------. História Social da música popular brasileira.1936). resultado contemporâneo de ritmos. Rio de Janeiro: Zahar. Pretendo nesta comunicação mostrar que a Caçada da Rainha é um ritual que expressa uma p rática sóciocultural que foi ressignificada rar que esta manifestação nas experiências locais. Tento most consiste num elemento condensador de sentidos. Sonia Virginia. danças e sons que foram apropriados histórico. Rádio Nacional: o Brasil em Sintonia.Page 241----------------------A CAÇADA DA RAINHA: “É SINHORA DO ROSÁRIO QUE NÓS TAMO FESTEJANDO!”137 Noeci Carvalho Messias138 Resumo: Os moradores Tocantins. 1999. FONTES ENTREVISTAS Jornal O Estado do Pará (05. Salsa: musical heartbeat of Latin America.05. na sua da pequena cidade de Monte do Carmo. folguedos. homenageiam anualmente Nossa Senhora do Rosário. STEWARD. Jornal O Liberal (21. MOREIRA. Luiz Carlos. Sue. . O mistério do samba. 1988. da Rainha.1978). para os moradores locais. Os sons dos negros no Brasil: cantos. a esta santa. ______. VIANNA.

besides occupying a p rominent place in the popular culture in the state of Tocantins. Palavras-Chave: Nossa Senhora do Rosário .além de ocupar lugar de destaque nas manifestações populares. Keywords: Queen´s Search . Tocantins. in the state of Tocanti ns. 138 Graduada em História Mestre em Gestão do (Licenciatura) Patrimônio e Serviço Social (Bacharelado) Cultural (área de Antropologia) pela PUC-GO e Doutoranda em História (UFG). Abstract: Residents of the small town of Monte do Carmo.Page 242----------------------A cidade de Monte do Carmo apresenta variadas peculiaridades no .Caçada da Rainha – Cidade de Monte do Carm o – Religiosidade – Devoção. em parte. com pesq uisa em Festas e Religiosidade popular. intitulada – Religiosidade e devoção: as fes tas do Divino e do Rosário em Monte do Carmo e Natividade. I intend in this paper show that the Queen's Sear ch is a ritual that expresses a sociocultural practice gained a new meaning on local experiences. 137 O presente texto realizando para a é. extraído tese de doutorado em da pesquisa que venho História. no estado do Tocantins.Our Lady of the Rosary . 241 ----------------------. becoming an important practice of social as well as a brand identity for local residents. mostly black. pela Universidade Federal de Goiás. Desenvolveu pesquisa sobre os povos indígen as da etnia Krahô e desenvolveu atividades de assessoria junto aos Javaé e Karajá no estado do Tocantins e atualment e é professora no curso de Serviço Social da Fundação Universidade do Tocantins.drum . I try to show that this demonstration is a condenser element of meaning. dances and sounds that were appropriate and rebuilt along the historical route. in During the which a crowd celebrations through t singing. dancing and drinking.City of Monte do Carmo. streets drumming. the result of contemporary rhyt hms. annually honoring Our Lady of the of the religious rituals most significant is he main city the Queen´s Search. Rosary.

também afluíram para aquele arraial escravos africanos para tra balharem nas minas de ouro como instrumentos facilitadores para a exploração dessa riqueza. Dentre as manifestações vivenciadas pelos carmelitanos está as festividades em homenagem a Nossa Senhora d o Rosário as quais são revestidos da maior importância. O ritual da Caçada vezes durante o ano pela a cada ano comunidade em carmeli número ganhou visibilidade regional. raízes. mobilizando parte significativa da população. festas e folguedos spiritualmente a vivência do trabalho. Esse é um essas celebrações uma vez que estas não se nos chamou a atenção para perderam totalmente na experiência da diáspora. Fora vag aparecendo como sendo um dos arraiais que produziu abundante ouro. tais práticas sociais exercidas pelos aspecto que e da que simbolizam e da vid sociabilidade moradores guardam fortes traços de referências africanas. de nitidez. ritual realizado nos meses de julho e outubro. goiano. a região foi frequentada por bandeirantes e mpenhados na exploração de minérios. no século XVIII. O remontam algumas das mais ricas alto desta festividade é a tradições Caçada da Rainha. uma vez que Nossa Senhora do Rosário é celebrada duas tana. pois de curiosos e participantes. cidade Passaram-se a população os anos continua e no cenário dessa pequena cultivando anualmente diversas celebrações. danças.contexto da história da região que compreende o atual amente conhecida ao longo do período histórico que pertencia na literatura historiográfica ao estado antigo do norte Tocantins. são organizados com nossas e apres r ponto letras de músicas que valores culturais que expressam. da religiosidade a cotidiana. Durante os festejos entados melodias eferências religiosos variados e e da referida santa ritmos. na cresce . Naquele c ontexto além dos indígenas que há tempos ali habitavam. mas foram ressignificadas nas experiências locais.

maioria proveniente das cidades mpanhado por uma multidão de circunvizinhas. iniciam-se as ritualísticas popularmente em louvor a Divino Nossa Espírito Senhora do Santo. 10/10/2008). Foi gosto em fazer a festa para Se nhora do Rosário. canta-se em louvor a Nossa Senhora do Rosário. É um passeio de e não mata nada. observa-se que a ação do plano espiritual é constantemente considerada. . conhecido como a Caçada da Rainha. Faz a festa do tamanho que a gente pode. bebese. dia 17 manifestações o cortejo de Encerrada a festa do julho. Contudo. a. Quem faz a fest a para Senhora do Rosário 242 ----------------------. Eu fui rainha e Em geral a rainha tem que fazer a festa com recursos próprios ou c om ajuda do povo.Page 243----------------------a o recurso não. Gasta muito. Foi muito bom. no com Rosário. Graças a Deus a gente sente toda força. Não dá prejuízo nenhum. Obser va-se que a religiosidade popular local é profundamente arraigada permitindo que os acontecime ntos religiosos adquiram essa dimensão simbólica. faz ou para o Divino não pensa é aumentar. configurando-se como um marco regional. mas quando acaba parece que Senhora do Rosário passa a mão e fica tudo bem. Não caça nada m 1938. O cortejo é aco pessoas. ao rei e à rainha. ritual no qual ao longo do trajeto do cortejo d ança-se. (RAIMUNDA SERRANO. que acab Caçada é um passeio. uma O periódico homenagem à anuncia o ritual reafirmando: ―Caçada da Rainh padroeira dos negros . As homenagens que na parte da manhã foram feitas ao Divino são endereçadas no início da tarde a Nossa Senhora do Ro sário e a cidade se ocupa com o referido ritual: A alegrias. É um passeio que eles fazem. Não foi sorteio e não foi promessa.

O fato é que. levaram os tambores. mas destaca-se que certo dia um homem. encontrou na Serra de Monte do io e levou-a para Carmo uma a cidade. levou caçada à um grupo a se O mistério do organizar referida imagem. Hoje. p. no dia seguinte com o desaparecimento da desapareceu. possivelmente escra vo. permanecendo na Igreja. a à cidade. 1). Para esse cortejo. pad roeira do município e ainda. a procura da imagem. os carmelitanos estão homenageando Nossa S enhora do Livramento. onde se escolhia como casal real aquele que tinha pod er para intermediar entre a Igreja e comunidade negra. [. a origem desse ritual remonta ao pe ríodo das minas de ouro na Serra de Monte do Carmo. um ritual de origem escrava. Os carmelitanos seguiram a segunda opção. O rei e a rainha podiam ser vitalícios ou por um período determinado. voltando para onde estava. que conta mais de 30 0 anos e era fictício.]. Será realizada a Caçada da Rainha de Nossa Senh ora do Rosário. (JORNAL DO TOCANTINS. 2002. Uma multidão se formou e seguiram em cortejo. o Divino Espírito Santo. negros. não existe uma data precisa. tendo reencontrado. os congos e as taieiras.. Para os moradores da cidade. Nossa Senhora do Rosário. a trouxeram novamente para a cidade. cantaram e dançaram e assim reencontraram a imagem e em ritual levaram-na de volta após aquele episódio festivo. Nossa Senhora do Carmo. imagem nunca mais desapareceu. Ta mbém desta vez a imagem não permaneceu. retornou à serra. conformado imagem. a imagem imagem de Nossa Senhora Não do Rosár Entretanto. desaparecimento da imagem. Como nas narrativas míticas . Acredita-se que o ritual organizado por . acompanhado de outros companheiros e levando consigo vio la e sanfona. Este mês. no tempo da escravidão..Julho é um mês de festividades religiosas e folclórica s em Monte do Carmo. que ocorreu pela segunda e travar uma verdadeira vez. à procura da imagem. protetora dos as reverências são para ela.

Page 244----------------------caçada é dos antigos s negros . que nos levaram a práticas culturais com o supor uma possível conexão d ritual da Caçada da Rainha realizada pelos carmelitanos: 1897 fora aqui realizado o carna do Clube Pândegos d’África. a guarda de honra. composta de todos os instrumentos usados pelo feiticismo. Ou sej a. veio dos escravo Encontramos em Monte uma do possível conexão da Caçada da Rai Carmo com a história nos escritos de Artur Ramos quando este autor cita Manuel Que rino. O val africano. Logo depois via-se o adivinhador à frent e da charanga. após estes. sendo que os tocadores. o ritual da Caçada da Rainha funciona como um canal de realização de remotas celebrações: ―es sa 243 ----------------------.aquele grupo de pessoas fez com que a imagem permanecesse na cidade. com exibição Em . um Damurixá (festa da rainha) Ramos acredita que estes exibem indivíduos mascarados. O préstito fora assim organizado: na frente iam dois príncipes bem trajados. uniformizados à moda indígena. como uma reatualização da busca da imagem. o ritual da Caçada da Rainha passou religiosos de Nossa Senhora do a fazer parte dos festejos Rosário e se mantém até os dias de hoje. ―que na cidade de Lagos a festa a que (Costa dos Escravos) dão o nome de onde se há. que levou efeito a reprodução exata do que se observa em Lagos. usavam gran de avental sobre calção curto. citado por Ramos. ladeado po r duas raparigas virgens e duas estatuetas alegóricas. no mês de janeiro. uniformiz ada em estilo mouro. Seguia-se o carro conduzindo o rei. A partir da quele momento. sobre as festividades na Costa african a relativo a Festa estas da rainha. Foi às descrições de Querino.139 nha realizada ou ―essa Caçada da Rainha é desde que eu me entendi. festejos cíclicos da Costa dos Escravos tenha sido a principal influência no carnava l negro da Bahia.

Pedro I I. Este ritual demonstra que as festas são ocasiões sujeitos sociais com os tempos de outrora. 2007. Temendo represália do pai. a manifestação que celebra o Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário. juntou uma comi tiva e foi procurá139 Tônica recorrente de moradores locais. Reportando a mesma linha de pensamento que transparece no trabal ho de Souza (2002. Ao terem conhecimento do cravos libertos prepararam em desaparecimento da princesa. as a tomadas de verdadeiro entusiasmo. Assi m. permeada de ritos religiosos e mitos que fundame ntam crenças e comportamentos . numa alegria indescritível . as do Sul. não fez temendo a repreensão dos a gricultores e cafeicultores. a história pode ser guardada e transmiti da de distintas maneiras. lundu e batuques. a origem e o modo de celebrar dessa tal festividade diferem de Mon te do Carmo. do acontecimento D. Entretanto. que constroem a memória ao seu p róprio modo. o ritual da . durante todo acompanhamento era enorme. tocavam principalmente. cantavam dançavam e o trajeto. (RAMOS. D. com congos. 244 ----------------------. os es sinal de gratidão. contudo.fricanas. uma festa. sabendo que a filha estava escondida. No Brasil identificamos estado de o ritual da Caçada da Rainha em Colin em que possibilita o diálogo dos Goiás. pois como pontua a autora. reconhecendo que o mesmo deveria ter feito antes. 315) podemos afirmar que a Caçada da Rainha ―pode ser vista como uma forma parti cular de conceber e transmitir a história. p.74-75). Ao ter ciência a atitude da filha. para recepcioná-la. a princesa escondeu-se Pedro aprovou no mato. características de diferentes sociedades. p. é uma homenag em a princesa Isabel por ter assinado a Lei Áurea.Page 245----------------------la.

No meio da tarde. o uso de fogos era utiliz ado para homenagear o rei e também manifestarem para algumas camadas as suas posições da sociedade colonial . em que um grupo de cavalei ros sai à procura da rainha que se encontra escondida no mato. que acompanham ores e com a alegria dos o cortejo. onde constituía característica das solenidades sagradas e os fogos anunciavam igreja ou profanas. mas durante todos os momentos da festividade. ssado por uma amplitude de significados. consiste na representação desta história. festa. vestimentas etc).Caçada da Rainha. Em Monte do Carmo. o cortejo desloca-se da Casa da Rainha pelas ruas da cidade. p. Vinda esta tradição de Portugal. bebidas. com um número significativo de participantes neste local e a queim a de fogos de artifício sinaliza que o ritual está prestes a começar. Abrindo a celebração da a partida dos cortejos processionais. (IPHAN. devido ao período do ano. água). A queima al da Caçada da de fogos de artifícios está presente não somente durante o ritu Rainha. ao som dos tamb o ritual da Caçada da Rainha também é perpa caretas. mas também a à praça onde se davam os principais eventos da festa. p.140 Por volta das quatorze horas. Ao longo do percurso. com sol intenso e muito calor. carros transportam beb idas (licores. 40). sua informa que a prática de que chegada à Segundo a mesma autora (2000. a gregando pessoas também na assistência. àquele que a encontra leva-a na garupa do animal e ao chegar à cidade uma multidão a recepciona com arrojada festa. as pessoas começam a se aglomerar na Casa da Rainha ou na Casa da Festa. especialmente ao longo dos cortejos e das procissões. Sua origem é a China. ela era a alegria das romarias e das procissões. Del Priore (2000. Concluídos os preparativos (mont arias. 38) imar fogos nas festas coloniais remonta ao século XVII. que correm atrás das crianças. 20 06).

245 ----------------------.Page 246----------------------O cortejo é aberto por tambozeiros. simultaneamente (Divino e Nossa Senhora do Rosário). também vestidos a caráter. porém eficaz. Atrás dessa multidão. uma vez que simultaneamente a esta acontece também a festa do imperador do Divino. dive rsas casas com arquitetura apropriada para realização das festas. vamos embora Direto pra Igreja Visitar Nossa Senhora. que conduzem os participantes n o ritmo da dança do tambor. uma vez que não compor ta os preparativos das duas festas. montados em cavalos ornamentados. no ritmo do canto: Rei e rainha. visto que existem na cidade. o uso deste local torna-se inviável. na volta eles retornam à frente destes (Fotos 01 e 02). cantando e dançando. a rainha e o rei vão atrás dos caça dores e das caçadeiras. juntamente com as caçadeiras e os caçadores. como demons tram as imagens. de modo que o último par é o da rainha e do rei. ou uma de tradição que. ganhava dimensões de propaganda govername das elites contra o mesmo governo. contendo quintais alargados com fo rnos e fogões para assar bolos e biscoitos. Mídia eficiente a ilumina Colônia. de poder. A simbolo gia que permeia o ritual desvela que no retorno a rainha foi encontrada e está sendo trazida pela po pulação. Nesse caso. a rainha e o rei. a Casa da Rainha (nas festividades do mês de julho) equivale a C asa da Festa. r as noites escuras das vilas na . que utiliza a Casa da Festa. o foguetório tornava-se um instrumento car o. Enquanto no caminho de ida para o ―botequim .privilegiadas: constituía ntal. 140 Ao contrário da festa da rainha de Nossa Senhora do Rosário realizada no mês de o utubro que tem como local de referência a Casa da Festa. resistência O uso de fogos para abrir a festa pouco a pouco. os festejos de julho se realizam na própria cas a da rainha. seguem o cortejo em pares. Quando a re sidência da rainha não comporta tal organização os festeiros providenciam outro local. com evoluções e passos laterais para frente e para trás. sempre um homem e uma mulher. Assim.

do cerrado. o a eles relacionado . o cortejo da Caçada da Rainha toma cont a das ruas sendo descrito pelas pessoas que participam direta ou indiretamente como um dos mais e sperados pelos festeiros. Os moradores referem-se a este espaço – uma área cercada por árvores tequim . Ao observar este ritual. Caçada da Rainha. As festas religiosas não promovem apenas de diversos aspectos da a dos graus de poder e mas conheciment o encontro celebração religiosa. familiares e participante. a afirmar-se p. seguidos das caçadeiras Foto 02 . ―espaço de realização de toda a diversidade de papéis. na na Caçada da Rainha. em 9 outubro de 2008. 2) em sua dimensão profana se faz é que através dele concebe a festa como uma das mais expressivas instituições da religião. .Page 247----------------------antigos valores e volta e sagrada. grita.Caçadores e caçadeiras à frente.Rei e rainha. Durante todo o percurso. a leitura que a comunidade carmelitana recupera 246 ----------------------. à caminho do ―botequim . Amaral (1992. em direção ao lugar chamado ―botequim e depois de volta a Casa da Rainha. Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. dança. vamos embora Direto pra Igreja Visitar Nossa Senhora Foto 01 . Sob fogos e gritos eufóricos.Rei e rainha à frente. pula. acompanhando a rainha e o rei pelas ruas da cidade. constituído por uma mult bebe. seguidos e caçadores. durante o trajeto de volta do ―botequim do rei e da rainha. especialmente pequizeiros – com a denominação de ―bo local marcado por práticas de sociabilidades informais. em 11 de outubro de 2009. as danças e cantos são ritmados pelo toque d os tambores. O cortejo é idão que cantam.

como a política. na rua e Durante o trajeto. Nessa ocasião. era o tamb or [. em que a diversão dos escravos era a festa. O espaço do cortejo da Caçada da Rainha não pertence ao padre ou ao prefeito .. É uma diversão de todas as idades: Essas festas são muito importantes pra que eu me sinto mais jovem como se tivesse 22 anos de idade e não 6 brincar você renova. a economia e o trabalho. [. O rei é bom. levando as mão s ao chão e aos céus e cantando: Ô passarei alegre Alegre vou cantando Sinhora do Rosário Que nós tamo’s festejano Os versos se repetem ao mesmo tempo em que são também intercalados por outros: Quempode mais? É Deus do céu.] Eu gosto muito. carregando os tambores nos ombros. 09/10/2008). fazendo ―vênia . (DIONÍSIA PEREIRA RAMOS.] A rainha é de ouro É de ouro só. Ao terminar esse preâmbulo. A Caçada cria a oportunidade para o encontro e a so ciabilidade dos carmelitanos mim. na escravidão.. É como no passado.] O rei é bom A rainha é mió.. enfim pel as experiências de vida. enquanto homens batucam os tambores.. fazse uma roda e no centro casais intercalados dançam. o lazer. gritando e repetindo os gestos. marcada pela irreverência. A rainha é de ouro É de ouro só. [. os participantes em frente às casas dos fazem paradas 2. pelas brincadeiras. [. Quando a gente começa a moradores e ao som dos tambores cantam e dançam a dança do tambor. vão fazendo uma coreog rafia e a multidão acompanha dançando. de Ao longo do tempo.. pelo lúdico. Quem pode mais? É Deus no céu. reverenciar e homenagear consolidou-se uma forma própria Nossa Senhora.vida social..]. os homens.. A rainha é mio..

afirmavam m brincar. que a rede social pode comedidas presença e das de pessoas regras de fora e cir do prejudicar aquilo que sustenta o sentido sagrado das brincadeiras no interior do ritual. na minha opinião. Observa-se que existe por parte do s moradores locais uma valorização das atitudes s códigos de comportamentos. que homens. mulheres e crianças costumavam dançar ―dia nte do Senhor . agora tem muita gente de f ora que não conhece a brincadeira e faz de qualquer jeito . uma diversão. Nesse espaço. O autor salienta que desde os primeiros anos do cristianismo. ela é uma coisa sér ia e. cultivou e venerou a Dança. de suas limitações. sob certos respeitos. conhecedores de todos os passos do ritual. (p.Page 248----------------------devotos. até uma coisa sagrada. demonstrando. Paul Valéry que expressa a relevância da dança: A dança é. as regras e as normas são estabelecidas pelos participantes. um ornamento. moradores locais. Toda época que entendeu o cor po humano ou. 57). O autor cita o escritor católico-romano. muito mais do que um exer cício. mas aos 247 ----------------------. um passatempo social. dançavam nos lugares de culto.. Cox (1974) em sua pesquisa mostra que ―gente que dança diante geralmente mais livre e de seus deuses é menos contraída do que gente que não se abalança a tanto . É com Eliade (2005) que a multiplicidade dos aspectos culturais to rna-se a expressão . nas festas de santos e nos cemitérios junto aos túmulos dos mártires. sentiu algo do mistério de sua estrutura. de seus recursos. culando pela por um lado. das combinações de energia e de sensibilidade que contém. Tal conhecimento que se alguns visitantes não sabe evidencia nos relatos orais: ―a Caçada já foi muito melhor. ao menos. Algumas vezes presenciamos diálogos informais em que os participantes.

variadas interjeições chamar a atenção dos da festa eles provocam acrobáticos Em participantes. O cortejo da Caçada é também marcado com a presença dos caretas. ou mas carados como também masculinos141 mascarados de animais. Ou seja. histórica. são personagens. roupas aminham à são conhecidos. é importante a Para este autor. Existem em função do divertimento. ou trançados de p alha de buriti. Estes personagens não desempenham papel de destaque. com máscaras c mais apresentando-se Estes e muitos coloridas. geralmente rasgadas. dando saltos para personagens usando das executando malabarismos. sem qualque r coreografia ou fala definida. religiosos. ou mesmo um cipó de galho seco.de uma mesma essência religiosa. diferentemente da rainha e do rei. frente e entre o povo. 142 Pinhola é uma espécie de chicote feito de sola de couro de vaca. mas em outras.143 Esta representação inções sociais observadas no parece reforçar a ordem e as dist interior da festa. que fantasiados e ocultam suas vestidos com identidades normalmente. assustam e provocam medo. a exemplo das crianças. 248 ----------------------. risos e participantes gargalhadas. uma vez que usam pinholas. são personagens que representam um conjunto desordenado. Os caretas ocupam uma posição subalterna e para participar do eve nto necessitam somente de uma fantasia barata ou e que muitas vezes pode ser que não tenha mais utilidade emprestada. A festa de Nossa Senhora do Rosário reúne manifestações sagradas e prof . é além o da sagrado dimensão que descoberta da estrutura dos fenômenos se configura como elemento fundante da vida social.142 com as quais simulam ameaças às crianças que acompanham o cortejo da Caçada 141 Não obtivemos informações de mulheres exercendo o papel de caretas.Page 249----------------------da rainha.

missas. É uma homenagem querido. idades. então a gente canta: Cadê Santana? Deus levou. p. orações. e às esperanças brincadeiras a nesse encontro con e presença demonstrando que o momento de desfrute do lazer não pode ser considerado apenas po r seu lado profano. mas também hábitos. (AURÉLIO DE OLVIERA SILVA. tributa aos carmelitanos respeito e saudade: Quando as vezes tem alguma pessoa que já faleceu. que foi um tambozeiro aqui de Monte do Carmo aí quando a gente chega ali em frente onde ele morava perto da casa do tio Joca. enquanto locus demarcador de identidades regional. fizeram o parte grupo desse presta homena dem àquelas pessoas que no passado onstrando que cuja memória processo. bem como o sentido que ad quirem para a comunidade local. costumes.anas e em todas as ocasiões encontramos simultânea. que dão continuidade a essa festa que se renova a cada dia. concomitantemente. então a gente canta: Cadê seu Bena? Deus z ao ente levou. 36) em sua pesquisa sobre a festa do Divino em Pirenopóli s salienta que todos os eventos e situações previstos no programa da festa. está presente no interior destas festiv tambor. distribuídos com fotograf ias da cidade . Seu Bena também. Brandão (2004. novenas e procissões. alegrias ntremeado de religiosidade e festividade. bebidas. por exemplo. mortos. Em gens em frente a memória aos algumas casas. expressando uma religiosidade exacerbada. danças. que a gente fa Seu Bena e Santana são figuras sempre lembradas com respeito e adm iração entre os participantes. une não a penas a fé. Santana144. stante de Nota-se elementos em meio sagrados. os dois pólos atuando de forma Ou seja. Essa complexidade simbólic a tem grande relevância na compreensão destas festas religiosas. 15/08/2009). eu me lembro que eu era menino e via seu Bena bater tambor. que era um tambozeir o.

transcendia. tal hipótese não se confir mou. 249 ----------------------. mas de expressão e conteúdos essencialmente religiosos. p. a multidão fez foi realizada uma homenag alguns minutos de silêncio. ntece em outras festividades de esta representação dos caretas aco cidades do Tocantins. são rituais religiosos. na abertura das ca valhadas. e ritu ais profanos. Dian te da casa onde estava sendo velado o corpo do ―tio Joca em. arrodeada pela multidão. em Lizarda. João de Oliveira Primo. Silva (2006. essa é a tônica dos moradores de Monte do Carmo. Naquele momento parecia incorporar o espírito de todos os negros african os que povoaram esses brasis. aparecem durante a semana santa.Page 250----------------------e das cavalhadas. No entanto. nos festejos da padroeira e em Taguatinga. preenchendo todos os tempos musicais com a sonoridade impar do s eu instrumento . uma vez que muitos dos animadores da turma do tambor eram parentes próximos como. Suas mãos calejadas pela lida cotidiana. não se cansavam de ru far os tambores. Em julho de 2010 Rainha presenciamos um momento desses carinhosamente na ocasião do ritual da Caçada da que ocorre esporadicamente.143Alem da cidade de Monte do Carmo. Tocava alucinadamente. quando se referem a ele. 25) mencio na que teve o privilégio de vê-lo tocando nos festejos de 1984 e 1985 e assim o descreve: ―batia firme. falecido em 1986. Santana. vamos rezar u m pai nosso com uma ave Maria oferecendo para a alma do meu pai porque ele gostava muito de tambor. uma das filhas do tio Joca enun ciou: Então aproveitando esse momento gente. que constituem a essência da festa. compa sso nervoso e frenético. posto que como de costume a Caçada contou com o mesmo entusiasmo dos participantes. sobrinhos e netos. tô contente graça a Deus porque Jesus . 90 anos. ―foi um dos maiores tambozeiros daqui . Alguns diziam que o ritual não teria a mesma animação. conhecido por ―tio Joca . cada uma com suas características locais: em Arraias. veio a óbito na manhã do dia 17 (dia da Caçada da Rainha). Eu não estou triste. 144 Santana de Oliveira Negre.

Os caçadores também dançam com a rainha. quero que toca o tambor p Finda a oração. Logo após. posteriormente. amarra o negô. canjiquinha. amarra o negô. homenagens ao falecido findou-se seguindo o cortejo com o mesmo entusiasmo. 147 Ao chegar ao espaço festivo do ―botequim . em que os participantes icores. solta o bodi com uma Esse momento de salva de palmas. que aqueles eram os versos que o tio Joca gost muito.148 Forma-se o uma grande roda quand homenagear a rainha e o o os participantes dançam tambor. 250 ----------------------. entoaram repetidas vezes os versos: Papai tem um negô. solta o bodi. Então eu vida ele gostou muito do tambor. canjiquinha. os tambozeiros entoaram um verso145 melancólico e choro so antes de tocar os tambores: Me valei Nossa Senhora que é mãe de Nosso Senhor Me valei Nossa Senhora que é mãe de Nosso Senhor Nossa Senhora me ajuda Nossa Senhor me ajudou Eu vou me embora. mamãe tem um bodi. biscoitos e bolos lhes são participam da roda. o dia dele era orque durante toda a hoje. 145 jão 146 ava Os versos que os tambozeiros entoam antes de tocar o tambor são denominados ―can .Page 251----------------------o. l servidos e simultaneamente aos demais participantes da festa.escolheu. canjiquinha. Duran te este momento. bem como as caçadeiras com o rei. Papai tem um negô. Disseram-nos. A rainha e o rei d ançam o tambor e . param por um períod a fim de rei. mamãe tem um bodi. Seguindo os versos acompanhados com os tambores:146 Eu Eu Eu Eu vou vou vou vou socar socar socar socar pra pra pra pra tirar tirar tirar tirar canjiquinha.

67) mostra a dança ocupava que na sociedade coloni roda. 148 Normalmente. chegando a sacralizá-las e a divinizá-las . Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. porque o couro de anim al desafina quando molhada pela chuva ou pelo suor. a gente toca para eles relevante espaço nas festividades religiosas populares.Page 252----------------------- . 15/08/2009). os caçadores e caçadeiras da rainha fazem a dançar. invocando proteção e afastand os malefícios. Azzi al brasileira. durante da roda. o ritual da Caçada da Rainha”. em 17 de julho de 2009. durante a estadia no ―botequim os tambozeiros aproveitam para afin ar o som dos tambores. Depois é botar o tambor nas costas e seguir de volta. e 8). gente No botequim a gente canta os mesmos canta durante o cortejo. como forma de expressar a alegria e gratidão diante da vida e da natureza.Rei e rainha dançando tambor no centro Foto 6 . mulheres. comendo biscoito.Casal dançando tambor no ―botequim . para receberem as homenagens (Foto 7). Foto 5 . em 11 de outubro de 2009. na grande roda. 6. Enquanto isso. como é o caso. p. 251 ----------------------.posteriormente permanecem sentados ao trono que foi preparado para a ocasião. adultos e crianças também dançam (Fotos cânticos que a 5. (AURÉLIO DE OLIVEIRA SILVA. bebendo lic or. Aí eles vão dançando um com outro até que dançam todo s. 147 Permanecem no botequim por volta de uma a duas horas. (1987. sendo a dança uma prática comum de homenageá-la. O autor ressalta ainda as quantos os africanos que tantos os indígen ―conservam um profundo respeito para com as forças da natureza. Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. Os procedimentos de afinação são feitos esquentando-os no fogo. no ―botequim . durante a Caçada da Rainha. homens. A gente fica ali naquela moagem.

7) descreve que o carnaval medieval constituía-se na ―segunda vida do povo. desses regras elementos e tabus. a dança. em 17 de julho de 2010. apontados pelo est udioso russo: a música. o riso. o carnaval representava o t riunfo de uma espécie de libertação temporária da verdade dominante e do regime vigente. circulando por outr as ruas. a bebida. Outro aspecto importante a destacar nesse ritual é que os participantes. criando e recriando brincadeiras cujos significados só eles conhecem. durante a Caçada da Rainha. Após essa cerimônia do ―botequim . a brincadeira. Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. durante cercados pela multidão. q ue na estrutura social carmelitana ocupam personagens principais da posições inferiores. homens e crianças simples. na sua maioria mulheres. se transformam em cidade. bebend .Casal dançando tambor no ―botequim . dançando. p. em 17 de julho de 2009. de abolição provi sória de todas as relações hierárquicas. o e convidando o rei e a rainha para visitar Nossa Senhora: Rei e rainha vamos i’mbora Direto pra Igreja visitar Nossa Sinhora Rei e rainha vamo i’mbora Direto pra Igreja visitar Nossa Sinhora Em frente à Igreja cantam anunciando que os festeiros chegaram: O rei e a rainha chegou! O rei e a rainha chegou! sempre cantando.Rei e rainha em cima do trono. delimitando seu espaço. Segundo o autor. a comida. o ritual da Caçada da Rainha”. baseada no princípio do riso . São eles que definem as regras e normas a serem seguidas ao longo do corte jo desse ritual. no ―botequim Foto 8 . carnavale O ri presença divertida dos valores e hierarquias e na exaltação da abundancia. Fonte: acervo Mirian Tesseroli.Foto 7 . baseados na inversão privilégios. parando em frente algumas casas. o cortejo retorna à cidade sem pressa. Bakhtin (1993. tual da Caçada da Rainha é profundamente marcado pela scos.

Chega lá já tem o trono dela. nta. a-se que no ―botequim destacando uma possível diferenciação. O ritual da Caçada da Rainha consiste em um espaço recriado a cada ano. na qual era simulado um esconderijo da rainha.. para dele se re-a propriar e para ―reiterar a cosmogonia . cadê a rainha‘. trata-se sempre de acontecimento sagrado que teve seu luga . pelos seus participantes. diversão. A rainha mais o rei se arrumava ia e tinha uma barraquinha lá no botequim . Mas agora eles não faz mais is rainha junto. rainha e rei.. devoção e locais. p. seguem o cortejo junto com a mu ltidão: [. Aí di zia: ‗achei. 76-93) pela reatualização dos mitos. E ai lá e se escondia dentro da barraquinha e o pessoal saia dizendo: ‗vamos caça r a rainha‘. distinto do que ocorre contemporaneamente quando o casal. dança o tambor e cada um a dançam. Aí a rainha vai dançar o tambor. é também um espaço de afirmação social e religiosa dos devotos. Agora Aí já vai vai tocar com e a rainha‘. (FAUSTA JOSÉ DOS SANTOS. O icas sociais. organizando as ritual contribui para a construção das prát relações com o passado de forma socialmente significativa. E o pessoal ia tocando tambor.] De primeiro disse que era assim. Ela se dançar o tambor. soltando foguete.Page 253----------------------havia uma ―barraquinha . para ele. ndo. Assim. Segundo Eliade (2005.O rei e a rainha chegou! O rei e a rainha chegou! Alguns relatos traçam distinção entre episódios da Caçada da Rainha no pas sado e o que ocorre na atualidade. Este espaço marcado bebe a das caçadeiras também brincadeiras em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. achei so. Afirm 252 ----------------------. o homem religioso se aproxima dos deuses. dançando. na maioria moradores pela fé. E chegava lá e rodava a barraquinha dizendo ‗cadê a rainha?. 15/07/2008). ―seja qual for a complexidade de uma festa religiosa. Minha mãe c ontava. achei.

uma vez que os participantes da festa tornam-se os contemporâneos do acontecimento mítico. adeus Adeus qu’eu vô m’embora cê fica aí com Deus Com Deus eu vô m’embora. já arrumadas e uma vez mais saem em cortejo até a Casa da Rainha do ano ant erior para buscá-la e juntos (as duas rainhas e os dois reis) se dirigem à Igreja. e posteriormente r etornam à Casa da Rainha. após quase seis horas festejando pe las ruas. em cortejo p ara a realização do ritual das trocas de coroas. esse é um assunto para ser abordado em outro ens aio.r no tempo de origem e que é. Ora. u m acontecimento de significativa importância que teve lugar no passado. Eliade enfatiza que é importante compreender o significado religioso da repetição dos gestos divinos. ―ora. o ritual termina na Casa da Rainha.Page 254----------------------As pessoas se dispersam para um breve descanso. se o homem religioso sente ne cessidade de reproduzir indefinidamente os mesmos gestos exemplares. tornado presente . isto é. Ao anoitecer. de uma ―história sagrada cujos atores são os deuses ou os seres semidivinos. Referências: dos tambores: . Por consequência. próximo às 18 horas. mitos. neste sentido a Caçada da Rain ha significa a reatualização de um acontecimento primordial.. 253 ----------------------. sob os fogos de artifícios e o ―rufar O pretinho tá brincano Adeus até pro ano [. Mas. os a história sagrada está contada nos participantes da festa tornam-se contemporâneos dos deuses e dos seres semidivinos .] Adeus. é porque deseja e se esforça para viver muito perto de seus deuses .. parece evidente que. ritualmente. O mito conta uma história sagrada.

São Paulo. 1987 . São Paulo: Brasiliense . fortalecendo a auto-estima de crianças e adolesce ntes. como um instrumento de interve nção psicopedagógica. Palavras-chave: Dança. Mikhail. USP. durante o acompanhamento de atividades lúdicas e pedagógicas desenvolvidas com o público atendido. O sagrado e o profano: a essência das religiões. SOUZA. Pretende-se ainda através de relatos de experiências. BAKHTIN. Intervenção Psicopedagógica. COX. 17 de Julho de 2002. 2000. Caçada da Rainha: a festa da fé. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. A cristandade colonial: mito e ideologia . Colinas do Sul – Goiás. São Paula: HUCITEC. 2007. 2006. Petrópolis: Vozes. RAMOS. Mary Lucy. o que poderá contribuir de forma direta para a ide ntificação de algumas dificuldades de aprendizagem. 2008. 2004. ELIADE. Petrópolis: Vozes. Palmas. 3ª edição. O folclore negro do Brasil: demopsicologia e psicanálise. Carlos Rodrigues. RODRIGUES. DEL PRIORE. 2002. 1. De tão longe eu venho vindo: símbolos. gestos e rituais do catolicismo popular em Goiás. Povo-de-santo. A festa dos foliões: um ensaio teológico sobre festividade e fantasia. a partir da observação da experiência desenvolvida em duas organizações não governamentais. que utilizam à dança como estratégia indispensável para o desenvolvimento sócio-cultural e cognitivo. 1992. Rita. Arthur. São Paulo: WM F Martins Fontes. p. Metodologia Pedagógica. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto d e François Rabelais. 254 ----------------------. para que os mesmos permitam-se a encontrar novas alternativas educaci onais utilizando a dança em diversas situações de aprendizagem. São P aulo: WMF Martins Fontes. Marina de Mello. Harvey. Belo Horizonte: UFMG. Estudo antropológico do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulista. Riolando. Dissertação (Mestrado em Antropologia). d e crianças e adolescentes. JORNAL DO TOCANTINS. 1974. sensibilizar o s educadores. uma homenagem à padroeira dos negros. Educação.Page 255----------------------A DANÇA COMO INSTRUMENTO DE INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA NO PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. 3 ed. IPHAN. Antoni o Henrique França Costa149 RESUMO O presente artigo enfoca a Dança. BRANDÃO. Mircea. Festas e utopias no Brasil colonial. povo de festa. 2010.AMARAL. Val. Caçada da Rainha. Goiânia: UFG. Caderno Arte & Vida. AZZI. . Reis negros no Brasil escravagista: História da festa de c oroação de Rei Congo. no processo de ensino aprendizagem.

255 ----------------------.br.com. in the process of teaching learning. It is also through reports of experiences. Pós-Graduado em Psicopedagogia Clinica e Institucional – Centro de Ens ino Superior Santa Fé. Education. strengthening self-esteem of children and adolescents. While monitor ing of recreational and educational activities developed with the public attended. Educational Methodology. 1 INTRODUÇÃO O presente artigo enfoca a dança como estratégia de intervenção psicopedagóg ica a ser utilizada no desenvolvimento adolescentes. Coor denador do Projeto Despertando Consciência: Uma Nova Educação para Contemporaneidade – Departamento de Exte nsão e PósGraduação do Centro de Ensino Superior Santa Fé. do Centro de Formação para a Cidadania AKONI. the awareness of educators to ensure that they a llow themselves to find new educational alternatives using the dance in various s ituations of learning.A DANCE AS A TOOL FOR ACTION PSYCHOPEDAGOGUE IN PROCESS OF LEARNING TEACHING CHILDREN AND ADOLESCENTS ABSTRACT: This article focuses on dance as an instrument of intervention psychopedagogic. E-Mail: henriquenegrolindo@yahoo. child ren and adolescents. 149 Pedagogo. which could contribute in a direct way to identify some learning disabilities.Graduando do Curso de Especialização em Sociologia das Interpret ações do Maranhão: Povos e comunidades tradicionais. surgiu pela .UEMA. Intervention psychopedagogi c.Page 256----------------------O interesse em desenvolver o estudo sobre ―A dança como instrumento de intervenção psicopedagógica no processo de ensino aprendizagem de crianças e adolescent es . Keywords: Dance. e como um cognitivo e emocional de crianças e importante instrumento para a superação de algumas dificuldades de aprendizagem iden tificadas. Pós . which use the dance as indispensable strategy for the socio-cultural and cognitive. fro m the observation of the experience developed in two non-governmental organizations. Articulador Pedagógico do Projeto Ekó Ilk erá. desenvolvimento sustentável e políticas étnicas .

sen do um grande elemento facilitador rtir do momento que do processo de motiva o ensino aprendizagem. p. e por desenvolver no período de abril/2007 a agosto/2008. ond e iniciei e atualmente desenvolvo atividades culturais ligadas a dança. Oficinas de dança afro e popular ense com maranh crianças e adolescentes. l. deseja-se demonstrar que a extremamente expressivo e importante para o desenvolvimento global do homem. Estudos revelam que através de estímulos naturais ou . Cada criança e adolescente cultural e social. utilizarmos desenvolvimento cognitivo e emocional de cada educando.minha militância no Centro de Cultura Negra do Maranhão a partir do ano de 1993. processo dinâmico.20) . c rê-se que o sistema nervoso seja altamente diferenciado e que diferentes centros neurais processem d iferentes tipos de informações (DAMASIO. 2001. de tem uma um à dos dança história corpora grandes como des um portanto uma maneira própria afios para nós educadores. é encontrarmos importante alternativas para caminho para o dançar. Com dança é um o referido artigo. 2 A DE IMPORTÂNCIA INTERVENÇÃO DA DANÇA NO PROCESSO das dificuldades publico de aprendizagem e elevação PSICOPEDAGÓGICA E APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. no Centro de Formação para a Cidadania Akoni150. que encontravam-se em si tuação de vulnerabilidade social. a pa educando e o educador a vivenciar experiências corporais e rítmicas. e por perceber através das atividades educacionais e cultu rais desenvolvidas que 70% dos alunos(as). de bairros periféricos de São Luís-MA. e no Ilê Axé de Oxumaré (Associação Brilho do Arco Íris)151. familiar. tinham dificuldades de aprendizagem e baixa auto-estima. ―Na atualidade. contribuindo de forma direta para a superação da auto-estima do trabalhado.

que tem como de maneira de decisiva para o desenv atendimento a adolescentes e jovens do sexo feminino. letras e . especializa e amadurece. adolescentes e jovens. 150 Entidade do Movimento Negro. metas. 256 ----------------------. Podendo ser considera da também como a habilidade de controlar os movimentos do próprio corpo. a música. Tipo ende Melhor Corporal -se cinestésica tar nto e que ortar estuda. a Corporal – Cinestésica: Que é a capa cidade de usar o corpo para resolver problemas ou fabricar produtos. os jogos. todos contribuindo olvimento do que chamamos inteligência. 151 Entidade não governamental. e ator e artesão. e habilidade atingir as em esportes. dramatizar lê Atributo Talento Capacidade Dançarino(a). Dentre estes estímulos podemos citar por ex: a Arte. fundada em 2002. fundada um dos seus eixos de trabalho o em 2004. 1995). a dança entre outros. que tem como um dos eixos de tra balho o atendimento a crianças. desenvolvida.Page 257----------------------Para compreendermos como a integração entre o corpo e a mente se faz necessário no processo de superação de algumas dificuldades de aprendizagem. destacamos uma das in teligências múltiplas identificadas por Gardner (1987. de atleta usar em Sinais Coordenação o motora bem Facilidades Atividades físicas. Apr Precisa movimen enqua e Pod o rec corpo para se qualquer expressar modalidade.construídos pedagógica e olescente se através da prática o sistema nervoso da criança e do ad psicopedagógica. expressão corporal artesanato.

conseqüentemente liberta-se. pois ao ouvirmos a música t emos uma possibilidade maior de dominar imentos e as emoções são o ritmo.42). essas expressões corporais estão na maioria das vezes ligadas aos ritmos. É afetiva. pois nos faz sentir os movimentos e os benefícios que ela produz no corp o. pode aprender a Antunes (2001). pois é preciso raciocinar pa ra adequar o ritmo á coordenação. p. o Em seus estudos educado. que é Viana Apud Nanni (1993) através da dança que e Marques (1999) afirmam do que começamos a ter conhecimento dos processos internos. pois os sent demonstrados nas coreografias e espetáculos.. É visual. mediante os movi mentos que refletem o mundo etc. Neste sentido ao observarmos emos que as práticas educacionais a motricidade é aprende relacionadas corpo.númer os apenas com os dedos. relata que criando ao o cérebr a observar melhor e criar. sentimentos e expor idéias . Fonte: Mallamann. podemos Ao considerar perceber que a a dança como movimento cinestésico. desta ha inteligência da criança bilidade. idéias. perceb indispensável para um desenvolvimento perfeito. porque a e do adolescente poderá ser estimulada através dança: É tátil. Barreto (1997. É motor. É auditiva.. É cognitiva. pensamentos exterior (como o ambiente sonoro ou visual). Dançar é muito mais falar com o 257 . pois os movimentos são vistos e compreendidos. Através da dança o corpo pode comunicar emoções. pois estabelece um esquema corporal.) ou com interior (como o mundo sentimentos.

Para nos entendermos. comu Para fi seguintes: Para entender o mundo nicarmos. desde especificidades sócio e culturais de cada criança e adolescente a serem trabalhadas. Para sentir o nosso corpo. marxista. social e edu adolescente estão inseridos.Page 258----------------------corpo e para o corpo.----------------------. temos que levar em co nsideração todos os aspectos referentes ao cacional ao qual a criança e o convívio familiar. por isso. educadores principal compreendemos o papel importante das emoções e do afeto no processo de aprendizagem e para o desenvolvimento psicomotor e intelectual de crianças e adolescentes. 3 RELATO DE EXPERIÊNCIA Desde ano de dois mil e três. o que com certeza nos ajudará a trabalhar d e forma mais eficaz que. podem humano mente caracteriza-se pelo principio quando nós. os afirmar Levando-se em que o ser consideração uma do abordagem movimento. pois como já me associada à motricidade e aos movimentos rítmicos. a superação das possamos respeitar dificuldades as de aprendizagem. aspectos estes que podem ser percebidos através da util ização da dança como processo de intervenção ncionamos anteriormente psicopedagógica. Dentro de um processo de intervenção pedagógica. podemos diz er que a dança pode ser utilizada ns. podemos trabalhar os aspectos lig ados à autoestima e ao desenvolvimento cognitivo. a dança constrói significados na vida das pessoas. é uma modalidade de arte que não depende das palavras. Para expressarmos os nossos buscar formas no tempo e sentimentos no nossas espaço. e as e para Para diversos nos idéias. Para buscar algo que está além de nosso corpo. entre estes destacamos por os vários e as motivos pessoas. e Pa ra conhecer o mundo. trabalho como educa . embora possamos usá-las também.

onde no período de abril a Identidades155 agosto de 2008 – Fui o educador e pedagogo responsável em desenvolver oficinas pedagóg icas e de dança deste afro e popular maranhense total: 04 crianças. pedagogo e psicopedagogo. oportunidade de aprender novas lições de vida. edagogia e ao ingressar em 2007 no curso de especialização ional do Centro de Ensino Superior Santa Fé. com os meus educandos. utilizada para o desenvolvim . utilizando a dança como após em concluir psicopedagogia de começar das o meu clínica curso e de p instituc dança aprendizag instrumento educativo e pedagógico. com as quais eu tive a oportunidade de trabalhar durante a realização de oficinas de dança afro e popular maranhense. o educador. em identificadas em e necessidade de a trabalhar a de superação dificuldades crianças e adolescentes.Page 259----------------------3.1 Experiências destacadas a) Centro de Formação Para a Cidadania AKONI152 / Projeto Omó Binrin IRÊ153 – onde no período de março de 2007 a julho de 2008 – Fui o educador responsável em desenvolver ofi cinas pedagógicas e alunas (sendo de dança afro e popular deste total: 27 maranhense com 35 adolescentes) do sexo feminino na área Itaqui Bacanga. 258 ----------------------. 18 com 31 alunos(as) – (sendo adolescentes) no bairro do Parque Vitória. desenvolvidas em 02 entidades não gover namentais. uma que apresentarei metodologia de através de do referido relato de trabalho e de intervenção. comprometido com onde a cada dia tive a resultado o minha de prática diária enquant processo ensino aprendizagem. ento A concepção pedagógica das referidas oficinas. b) Ilê Axé D¡Oxumaré154 / Projeto Resgatando . É valido ressaltar. senti a como um instrumento de intervenção psicopedagógica. experiência.dor.

é uma em dialeto africano iorub organização não governamental. com sede em São Luís-MA. a. as quais foram divididas de duas formas: At ividades gerais e Atividades especificas de intervenção: a) ser trabalhado.considera a arte e a cultura a diminuir as dificuldades aprendizagem. enquanto principalmente definir com mais uma intervenção clareza amplo da devemos antes de tudo pedagógicos a serem termos um destacamos trabalhados. 153 IRÊ significa Meninas com Esperança. possamos fazer da dança um instrumento de ligação direta com as atividades que foram desenvolvidas durante todo o estudo. Sondagem 152 AKONI significa MULHERES GUERREIRAS. A m transformar metodologia de o espaço lúdico trabalho de utilizada consiste e estabelecido realização das oficinas pedagógicas e de um elo de confiança entre educando e -se os limites cognitivos. fundada em 13/07/2004. educadores os aspectos de intervenção. sentimentos de pertencimento e estão submetidas. Acredito que pa ra realizarmos qualquer tipo psicopedagógica. as falas e os papéis desempenhados social e culturalmente. Busca resignificar juntamente com os valores. educador. fortalecendo e crianças e adolescentes. como de elementos que ajudam d a identidade gerando e a auto-estima de superação do processo de os mesmos exclusão ao qual a história. O Centro Akoni. entendimento as principais atividades desenvolvidas. O referido projeto proporciona . Para referida proposta. em um espaço onde seja onde gradativamente respeitando emocionais e culturais de cada aluno(a). em dialeto africano ioruba. gerando visibilidade e fortalecimento ind ividual e coletivo para o enfrentamento da vida e do mundo. Atividades Observação Gerais: e Identificação do público a adaptação da metodologia de trabalho de acordo a realidade do público a ser trabalhado . dança.

as seguintes dificuldades espaço temporal. através da criação de coreografias. b) práticas de Atividades específicas de dança afro e intervenção: educativos Aulas que teóricas estimul e co popular maranhense. utilizando para tanto a arte e a dança como uma linguagem direta. teatrais. Sondagem e acompanhamento pontual do rendimento escolar e do c onvívio familiar. estamparia afro/serigrafia. fortalecer a auto-estima d e criança e adolescentes. Dificuldade em expressar sentimentos e interagir com o grupo. profissionais e inserção econômica a meninas e jovens. Rodas de leitura e construção de textos individuais e coletivos. nesta etapa do processo de trabalho.qualificações sociais. o desenvolvimento foi possível 70% das das de atividades crianças anteriorme e adolescent Fa identificar que es observadas apresentavam lta de noção aproximadamente e trabalhadas. um dos fortalecimento da autoestima dos educandos. Estabel ecimento e fortalecimento do elo de confiança entre educando e educador. Após identificar as dificuldades acima mencionadas. Aplicação em o raciocínio lógico e a de jogos coordenação motora. m oficinas de teatro/dança afro e popular. nte Com mencionadas. através de visitas e reuniões sistemáticas. Problemas de dicção e dificuldades na leitura. e cultura hip-hop e formações que fortalecem a capacidade de liderança e/ou de intervenção positiva diante da realidade vivenciada. fundada em 16/01/2002. Ati vidades de integração de grupos. iniciei o proc esso de utilização da dança como estratégia espetáculos e esketes de intervenção. aprendizagem: Dificuldade psicomotoras.Page 260----------------------e apresentação dos elementos culturais pertencentes à realidade dos educandos. 154 È uma organização não governamental. que a focos centrais foi o dança é um elemen . 259 ----------------------. 155 O referido projeto tem por objetivo. tendo to indispensável á formação como base.

É valido ressaltarmos que como resultado geral da aplicação da referid a metodologia. Coreografia: Mulheres Guer reiras. contribuindo os o que podemos chamar de de forma direta para term educação através do movimento. e um Jogral rovam de dança e teatro sobre a eficácia do método do pressuposto conseguimos de e direta para a elevação e forta Identidade. . sendo que a cada resultado adquirido. Coreografia: A Deusa do Vento. em de intervenção. de que ao Tais resultados concluirmos anteriormente comp o aplicado. proposta no sentido de de superarmos todas as dificuldades e identificadas nas crianças e aprendizagem começamos adolescentes. é o ser hum ano. ia e prática. Segundo os estudos de Coll e Teberosky. 260 ----------------------. como instrumentos ada por nós educadores. partindo-se s nossos trabalhos. passos e gestos. contribuindo lecimento da auto-estima público acompanhado. a ser utiliz qualquer espaço educacional.168).Page 261----------------------4 CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES. p. (2004). fazíamos o registro e experimentávamos a melhor forma de utiliz ar a dança e as atividades culturais. seus anseios. ―Ao controlar seus movimentos. onde se faça necessária tal intervenção. a partir deste momento. superar todas identificadas as dificuldades nas crianças de forma do aprendizagem adolescentes. tensões e sentimentos pela linguagem corporal da dança ologia e transmitir ao público rec (NANNI.educacional do individuo. com seu corpo capaz de exprimir eptor. elaboramos trabalhos: em conjunto e de forma Espetáculo Mulher o integrativa os seguintes Resgate de Uma História. trabalhamos a metod anteriorment a interagir teor Durante as etapas seguintes. 1998.

2006) . fala. adores do processo somente assim de ensinopoderemos ser facilit . sonha. nos desprender dos nossos pré-c onceitos. objetivos a serem alcançados . exi compreendermos vez mais que a educação últimas educadores tenhamos uma postura pedagógica que nos ajude a compreender e analisar o contexto sócio e cultural. pois. veste. produz. devemos antes de tudo. atitudes e normas. as quais interferem direta mente em todo o processo educacional a ser trabalhado pelos educadores. que nós dança como nas uma linguagem peda décadas. escreve. tura e a Dentre as várias arte de um povo formas como que podemos utilizar a cul estratégia de educação. dança. conseguirmos. pois. vivenciado pelos nossos educandos. préestabelecidos. conceitos. valores. a se com educacionais a de a manter serem traba um equilíb a permitirem certeza teremos maiores possibilidades s dificuldades de aprendizagem posteriormente identificadas. seja o pesquisa trabalharmos e de realização intervenção das at psico constatou-se que qualquer que pedagógica que venha a ser processo utilizado por nós educadores. procedimentos.o processo de ensino aprendizado envolve como ações em implícitas relação nas várias categorias de fatos d utilizando a dança. ividades Durante o processo de culturais e de dança. Compreender tal contexto. não é u ma tarefa fácil. motivar e ajudar os rio entre nossos educandos corpo e mente. se dentro dos nossos processos lhados. ―A cultura de um povo é tudo aquilo que esse povo. come. significa ge cada direta à aprendizagem Utilizar a arte e a e de intervenção. cada educando tem as suas especificidades. ama e conquist a. o aprender/ensinar. sem duvida nenhuma a dança apresenta-se como uma das mais promis soras. (PACHECO156. gógica. canta. pois.

Page 263----------------------RELAÇÕES DE PODER E ENCOBRIMENTO DO OUTRO: RELIGIÕES DE MATRIZ . foi sem dúvida nenhuma uma das mais ricas experiências incipalmente porque. Rio de Janeiro: Objetiva.: __.aprendizagem. ____. Rio de Janeiro. Lúcia Regina de Azevedo. 2001. 1987. TEBEROSKY. São Paulo: Companhia das Letras. São Luís-MA. Pedagoga e Coordenadora do Centro de Formação para a Cidadania AKONI. MARQUES. Sidirley de Jesus. In. 156 Educadora. BARRETO. NANNI. Dança Educação. A dança e seus efe itos no desenvolvimento das inteligências múltiplas da criança. COLL. 261 ----------------------. Aprendendo arte. Rio de Janeiro: Objetiva. 2004. A. H. Inteligência Um Conceito Reformulado. 153 -160. 1999. 262 ----------------------. 1995. O Mistério da Consciência. podemos de minha vida. sultados Vivenciar o mundo deste processo com as da dança e compartilhar os re crianças e adolescentes que eu trabalhei. tendo como resultado posterior à elevação da auto-estima de todas as crianças e adolescentes acompanhadas. PACHECO. São Paulo: Cortez. Rio de Janeiro: Vozes. Ana. possibilitando uma troca de experiência. p. A. D. César. 2006. Como desenvolver conteúdos explorando as Inteligências Múltiplas. Maria de Lourdes Cardoso. C. GARDNER. I.Page 262----------------------REFERÊNCIAS ANTUNES. Ensino de Dança Hoje: Textos e Contextos. Entrevista. 2001. durante o encerramento das oficinas da dança e das de dança. DAMASIO. MALLMANN. Rio de Janeiro: Sprint. 1998. São Paulo: Átic a. Pr constatar que através trabalhar todas da utilização as atividades desenvolvidas. conseguimos dificuldades de aprendizagem anteriormente identificadas. O corpo na dança. A Teoria das Inteligências Múltiplas. 1997.

For this occasion. there will be a reflection on the process of concealment by the absence of public policies and actions directed to this religious segment. Key-words: 1. Post-Colonial Studies. Protestante e Kardecista. Assim.in the Metropolitan Area of Goiânia. gênero e história dos candomblés de Goiânia e Mães de san o: domínios territoriais. bem como as formas de legitimação do processo de encobrimento d o Outro. rather than actions that attend the others segments such as Religions Catholic. Thus. Candomblé will be seen in a discussion that addresses the state and the legitimation of the proces s of concealment of the other. O encaminhamento metodológico permitirá analisar como as polític as públicas atendem a Comunidades de Terreiro. The routing methodology will examine how public policies serve the religious community. For this. Para esse ensejo. Palavras-chave: Religiões de Matriz Africana. Para isso. State. Estado. social an d historical sacred in Goiania. em detrimento de ações que atendem a outros segmentos como as Religiões Católica. gender and history of Candomblé in Goiânia and Mothers of saint: territorial domains. sociais e históricos do sagrado em Goiânia. INTRODUÇÃO African religions. Protestant and Kardec.especially Candomblés . parte-se de análises teóricas e empíricas constituídas a partir de dois projetos de pesquisa – Igbadu: Territórios. Estudos Pós-Coloniais. Such an approach will find in post-colonial. . p art of theoretical and empirical analysis constituted from two research projects – Igb adu: Territories. o Candomblé será vi sto em uma discussão que aborda o Estado.AFRICANA NA REGIÃO METROPOLITANA GOIÂNIA-GO Rodolfo Ferreira Alves Pena Jailson Silva de Sousa RESUMO O objetivo desse trabalho é pautado no mote geográfico que privi legia a análise territorial das Religiões de Matriz Africana – em especial os Candomblés – localizados na Região Metropoli tana de Goiânia. s erá feita uma reflexão sobre o processo de encobrimento por via da ausência de políticas públicas e ações direcionadas a esse segmento religioso. Candomblé. Candomb lé ABSTRACT The aim of this work is based on the geographic theme that focuses on territoria l analysis of African religions . Tal abordagem encontr ar-se-á sob um viés póscolonial.

mas ju stamente um produto dessas articulações e combinações interculturais entre negros escravos proven ientes de diversas nações africanas. 2006). não é africano. o que não ocorre de forma diferente no contexto urbano da ci dade de Goiânia e Região Metropolitana. As Religiões de Matriz Africana e Afrobrasileiras se constituem como um exemplo dessa situação. quando ocupam em áreas zonas periféricas reprimida da em cidad pequeno verticalizadas. destaca q ue a cultura africana nunca se de articulações e ressignificações de comunicações fundou como conseqüentes que têm não o central.Page 264----------------------arginalização Apesar disso. o presente artigo tem o intuito das ações que avivam as relações de encobrimento mento religioso. O Candomblé. objetivo mas de sim como produto novas formas expressar necessariamente fidedignas ao contexto histórico-cultural da origem africana (COS TA. ao manifestar a sua expressão ―Atlântico Negro . as práticas candomblecistas encontram-se segregadas no espaço u rbano goianiense. posicionando-se e ou. tudo dessa religião na o que se vê é uma situação de m sociedade brasileira. 263 ----------------------. vêem a sua espacialidade s sítios e/ou sofrem atos de enfrentamentos por partes de moradores vizinhos.Paul Gilroy. Conforme rdisciplinar de Estudos estudos empreendidos pelo Centro Inte África-Américas (CieAA). Portanto. essa sistematização teóri será confrontada com as análises do empírico. o Candomblé é uma religião brasileira por excelência. Ao final. enfocando dos grupos os que de analisar a lógica representam esse seg aportes conceituais das contribuições pós-colonialistas e destacando os mecanismos de segregação e exclusão acertados no âmago da produção do espaço urbano. destacando posicionalidades estatais no . enquanto Religião de Matriz Africana. Assim.

que possui uma modesta representatividade nas ciências humanas e um nulo valor na ciênci a geográfica. m Muitas críticas preconceituosas são inferidas sobre essa forma de pe nsamento e. A sua origem remete mais aos teóricos pós-estruturalistas – a exe mplo de . Trata-se de uma variedade de contribuições co orientações distintas. essa corrente pensamento busca evidenciar justamente o colonialismo presente nas sociedades qu e passaram pelo processo de colonização. muitas vezes. pelo método da desconstrução dos essencialismos.83). uma ref erência epistemológica crítica às concepções dominantes de modernidade[. 2006. (COSTA. É necessário. de modo que de de superação desse período. mas que apresentam como característica comum o e sforço de esboçar. ressaltar a natureza dessa forma de pensamento. a o privilegiar modelos e conteúdos próprios àquilo que se definiu co mo a cultura nacional nos países europeus. 2. em outros termos. uma vez que os estudos pós-coloniais não constituem propriamente uma matriz teórica única.. p. antes de se realizar qualquer análise. sua crítica ao processo de produção do conhecimento científico que. cometem o erro de pensar o pós-colonialismo como algo semelhante à teoria pós-m oderna ou de que o ―pós onialismo e de pós-colonial representa uma cronologia. reproduziria.] A ab ordagem pós-colonial constrói sobre a evidência – diga-se.. a lógica da relação colonial. trivializada pelos deba tes entre estruturalistas e posestruturalistas – de que toda enunciação vem de algum lugar.bojo dessa situação e entendendo como o Estado age no processo de encobrimento e legitimação das co ndições díspares no direito às manifestações culturais de domínio público. houve o col quando n agora se vive um momento a verdade. OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS E A QUESTÃO DA SUBALTERNIDADE O Pós-Colonialismo se trata de uma corrente de pensamento relativa mente recente.

1996) . Dessa forma.Page 265----------------------Foucault. Bhabha. para aças este autor. da mesma forma que essa d iversidade é enunciada. o mult iculturalismo é. Ess a. o emprego da concepção de diversidade cultural é extremamente problemático. depara mo-nos com os conceitos de diferença e diversidade cultural. que. Dessa feita. estabelece uma terceira ordem: A produção de sentido requer que esses dois lugares [ o lugar do enunciado e o da por um Terceiro Espaço. ainda de acordo com proveniente na dialética amação que. ter consciência. em si. ela é contida pela ordem de uma hegemonia cultural. enunciação] sejam mobilizados na passagem que representa tanto as condições gerais da linguagem qua nta a implicação especifica va ssa 6). pois. esse Terceiro Espaço. 2006) Partindo de uma leitura dos aportes teóricos de Homi Bhabha. no caso das Religiões e institucional relação do enunciado em uma estratégia performati qual ela não pode. O que e inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação (BHABHA. sempre acompanhado à falácia da blindagem de enunciações racistas. entendido como um fruto da inter ação entre dois espaços produzidos. A segue constituição uma lógica desse espaço. O refere-se a algo que vai além do colonial. para o autor. p. e suas formas de opressão rea hegemonização de valores (COSTA. pode ser encarado analogicamente com o processo de hibridação.6 da . representa as próprias relações presentes nesse Terceiro Espaço.264 ----------------------. De acordo com esse autor. Deleuze e Derrida prefixo ―pós de ―póscolonialismo lizada pela – do que aos pós-modernos em si. 2005. de forma não entre o meio que proclama e o meio da procl necessariamente consensual. gr universalista que camufla valores etnocêntricos em seu discurso (RUTHERFORD.

Santos e No âmbito empírico Igbadu. podendo. mas de um processo dinâmico que não possui uma ordem narrável o u um fim certo. mesmo sendo considerada uma religião ―pura . e de que ela independe da vontade do sujei to.Page 266----------------------não ma possui um lócus fixo situação de ocorrência no contexto das social. . uma ocupação central desta análise. a lógica de prod ução desse terceiro espaço é caracterizada como um lugar comum dos diferentes sistemas de enunc iação que 265 ----------------------. apresenta influências cris tãs e kardecistas. podemos de pesquisa dos Projetos Mães de perceber que essa produção de terceiro espaço acontece de forma frenética no âmbito paisagís tico do Candomblé. mas é preferível não engros sarmos em demasia essa discussão.de Matriz Africana. pode ser entendido como todo o espaço diaspórico em si. gerar novas mod ificações com demais valores. Mas o que é a hibridação? É fato que a sua discussão vem rendendo acalorado s e ricos debates em torno de determinados eixos das ciências humanas. como uma síntese medíoc e de uma correlação de forças. dependendo da comunidade de terreiro e de sua localização. vez que ela não constitui a pre Entendemos essa definição como uma forma de desequilíbrios entre a relação de distintos va lores pré-determinados que exercem mudanças entre si. A hibridação não seria algo estático ou mecânico. Portanto. Outras considerações importantes proferidas por Bhabha se referem ao grau ocorrência dessa hibridação. em graus maior ou menor. tratando-se de u interações interculturais. que. em seguida. que se faz inconstante. por este não possuir consciência e tão pouco um controle desse processo.

co loca-se na posição de outro e. uma vez existe toda uma gama de relações de poderes que o silenci a. sociais. p. Se a resposta é obtida. subalterno não fala. – que não . todos os elementos – sejam eles seguem à lógica da marca para o início da modernid culturais. Portanto. assim. É. além de plurais. pois. simultaneamente.. teórica que o pensamento iluminista propiciou permitiu uma visão do si mesmo. entender quem está a buscar a enunciação de sua quem está sendo identidade. Quem pergunta identidade questiona as referências hegemônicas mas. uma Para atmosférica Dussel (1993). o o fato de que não se pois. científicos. ao fazê-lo. com que propósitos e com que resultados (SANTOS. apresenta-se sempre como uma ficção necessári a. a origem do mito da modernidade.). etc. são dominadas pela o bsessão da diferença e pela hierarquia das distinções. com caráter de o afirma sujeito subalternizado. o seu êxito mede-se pela intensidade da consciência de que a questão fora. temos como inegável por estabelecer um enunciação social do Spivak (1985). contra quem. perceber quem é o Outro na soc iedade. Para quem a formula. Tal entendimento se correlaciona em muito com a idéia de Boaventur a de Sousa Santos referente à enunciação de identidades: As identificações..31. A questão da identidade é assim semi-fictícia e semi-necessária. Para entender exatamente essa lógica do encobrimento. Contanto. significa entender encoberto pelos valores hegemônicos sociais e. que enquadrava o homem europeu como o único ser mode rno e que vê no advento do Renascimento a ade no mundo. em que condições. uma necessidade fictícia. precisamos r esgatar a obra de Enrique Dussel – 1492: O Encobrimento do Outro. numa situação de carência e por isso de subordinação (. desde o início. grifo nosso) pela sua deve primar Assim. 1993. crucial c onhecer quem pergunta pela identidade.bem como dos valores históricos que imperam sobre a consciência dos indivíduos desses terreiros.

está Entre o caráter as muitas categorias da Geografia que esse autor trabalh mofadas. Said elucida essa questão quando exemplifica a situação de um grupo de pessoas que se estabelecem em um ambiente territorialmente delimitado. onde a representação do que oriental periferizado espacialmente do cent ro europeu. Said segue desconstruindo os autores classificados co mo orientalistas: Quando um orientalista erudito viajava no país da s ua especialização. raramente os orientalistas estavam interessados em algo que não fosse provar a validade dessas ―verdades grande sucesso. já demanda uma análise que por si mesma tende à negação da alteridade do outro.89). os seus valores. sem Imaginativa. análise. Dessa forma. relatando os processos rões de vida do de indução de pensamentos apriorísticos sobre os pad homem asiático.razão imposta pela ideologia européia. desse grupo. que Dussel.Page 267----------------------do ocidente por Orientalismo e postula uma crítica a esses autores. não enunciar os é o pioneiro nessa forma de fatores imperantes sobre uma determinada dominação. são encobertos pelos processos de dominação e impos ição de valores. era sempre com máximas abstratas inabaláveis sobre a ―civili zação que tinha estudado. todo o contexto externo a esse espaço. as estabelecendo ali suas crenças. que possui são considerados apenas como a . aplicando-as. Desse modo. Esse autor denomina os estudos sobre a cultura oriental proferidos por pensadores 266 ----------------------. com valores que são estranhos aos indivíduos cultura ―deles . p. quando eles r ealizam induções sobre o Outro a partir de suas próprias percepções e modos de vida. a nativos que não as compreendiam – degenerados. a. 2003. portanto (SAID . Edward Said (2003) é que primeiro quem o faz. visa entretanto.

que solidificam dominante e desfavorecem paradigmas as que legitimam o poder pós-colonial 2005) visa. precisa ser evangelizado. portanto. que exonera e vista social marginaliza a figura da cultura alheia à forma dominante. Essa perspectiva é um modo de se e tabelecer distinções geográficas puramente arbitrárias. Assim. anal isando como essas formas de encobrimento e de preconceito são socialmente construídas. logo eu o vejo herege. o projeto estabelecer uma múltipla da temporalidade (BHABHA. dessa for ma eu executo sobre o Outro o meu pró-elitismo religioso que o encobrirá. do conceito de pecado. Portanto.características comparáveis ou não à ―nossa . dessa mesma metodologia de a análise desmitificar determinados dogmas estabelecidos socialmente sobre o Candomblé. quando se estabelece em um determinado espaço uma cer ta confluência de valores e práticas. Se ―eu pratico uma adoração religiosa cristã e ―ele como um pratica o culto dos orixás. e desfazer sobretud certos percepção vícios na . Desse modo. Tem-se aí uma do monoteísmo e a sob o santificação do ponto de ciúme de um deu ambientação quase que inquebrável. uma vez que eu negarei o tempo todo a sua alteridade. atribui-se a elas e descaracteriza tudo o que é uma afetividade maternal qu estranho. e geográfico. como ocorre com o Candom blé.Page 268----------------------ciências. o. ao se estabelecer uma valoração social da cristandade. a elevação . epistemologia das 267 ----------------------. do maniqueísmo. que precisa de salvação e que. ação de Se transplantarmos encobrimento sobre as essa pode-se mesma pautar análise para a situ a partir religiões de Matriz Africana.

Na presente análise. e não atendem aos padrões vigiam e punem as práticas qu . na verdade ele procura expressar toda uma gama de relações de poderes so brepostas nas relações cotidianas que policiam. não está se referindo somente a luta de classes. Castells.145). várias características qu A partir desse entendimento. O ESPAÇO URBANO E A CIDADE: APONTAMENTOS TEÓRICO-CONCEITUAIS Para que se produza um hall enunciação pautado cientificamente so bre a busca pelo direito ao espaço realizada pelas religiões de matriz africana. Evidencia-se abordagens com que o espaço urbano pode ser considerado. cita-se Harvey. Corrêa. espaço urbano. visto enquanto objetivação cidade. tais considerações deverão ser empreendidas sobre o espaço urbano e a dinâmica e lógica das cidades. entendendo como ele produz e é produzido. a categoria espaço ganha notoriedade em sua dimensão urbana. O espaço urbano pode ser assim submetido a diferent es análises pelos geógrafos. permitindo a coexistência e recepções. que induzem das mais variadas formas de ações práticas de inclusões e exclusões. Dentre algumas contribuições. o geográfica do estudo da e interessam ao geógrafo: é fragmentado e articulado. características acima a riqueza de cada uma delas privilegiando uma das apontadas sem. simultaneamente. Carlos. Para Corrêa (2001. A produção do espaço urbano foi tema de uma vasta produção especializada n a área da Geografia. excludentes e/ou articulad as entre si. sobretudo aquela que versa os estudos urbanos nas vertentes clássica e contemporânea. reflexo e condição social e campo simbólico e de lutas.produções de conhecimento advindas de outras realidades. é necessário desempenhar – antes de mais nada – considerações que revelem algumas das características desse espaço. contudo. 3. p. S antos. Christaller. geralmente contraditórias. Quando o autor menciona o termo ―campo simbólico e de luta . etc. apresenta. excluir as demais.

mobiliária. etc. Carlos (2003. comércio e a intervenção que estatal. imprimindo forças s sócio-espaciais enquanto processo centralidades. ocasionou a incorporação de v alor a este meio. descentralidades. Acrescenta-se a esse pensamento a idéia de que o processo de expansão capi talista e a constituição do espaço urbano creditam ao espaço geográfico a propriedade do valor. as bases teóricas que respaldam o entendimento do espaço ur bano permitem pensar que a lógica de produção dos estatal e lugares obedece às forças impostas pelos sistemas capitalista impregnados no espaço. que imprimiu mudanças no meio natural. essas condições produzem um esp diferenciado. tal mudança ger informação. tal característica historicamente produzida se propala de forma intensa pelas ações qu e envolvem a especulação e serviços. e ao serem aço construídas. re vela que o processo histórico. p. dividido. coesões. Desse modo. já que é o suporte para a reprodução das sociedades. inércias.52-53) friza que o lugar é constituído como condição para a produção e para a vida. que representações e são espacializadas de modo a revelar as desigualdades quanto ao direito e ao acess o nos espaços na cidade. simbólicas hegemônicas O e espaço assume a simbólicas construindo representações cobertas. dessas lutas. remembramentos.Page 269----------------------geográfico. como hierarquizado. em sua análise sobre o processo de produção do espaço. Ademais. contraditório. .imputados pelas lógica dinâmica ideologias dominantes. Carlos (2003). passam a ampliação a produzir das redes De meio natural. que se consubstancia como um dado modo de vida. a um espaço específico: o 268 ----------------------. que passa a representar as garantias de sobrevivência e de acumulação.

determinados estereótipos que em muitas vezes afetam as identidades e. constituído sob o aspecto de um campo de elementos simbólicos. Ainda segundo esse autor. essa fragmentação inevitável e atua como reflexo da sociedade. imputados por uma lógica dominante. sociais. em alguns casos. que passam sócio-espaciais o a espaço imputar é a s lutas dos sociais diversos e das relações ent é elementos urbanos por processos contraditórios e tornam representações dessas mesmas hegemonias. religião e como um modo de luta. de Corrêa (2001) paisagísticas afirm arti caracteriza por ser um conglomerado culadas entre si.formas de relacionamento.Page 270----------------------- . como ritmos do cotidia no. a que o Não longe dessa espaço urbano se compreensão. então. hierarquizações construções. dentre ao indivíduo e aos grupos sociais. propiciando segregação sociais. de re distintas formas de poder. struturas se formam não é difícil perceber o fato de que determinadas e em que as dessas outros. representação de valores Diante culturais. é completamente crível que essas rões hegemônicos instituídos hierarquias obedeçam a pad historicamente sobre uma sociedade. tornam-se mecanismos de negação e subalternização de pessoas e lugares. Entendendo. Desse modo. que passa a negar outros valores in feriorizados. que as condições constitutivas do espaço o torna hier arquizado. 269 ----------------------. que vão ao encontro da luta de classes e negam as relações de valores históricos e sociais. Tal assertiva decorre do fato de que a essênci a capitalista de produção espacial nasce contraditória realidades de exclusão e e assim se perpetua. econômicos. que se fragmentações firmam enquanto reflexo das condições imanentes a esse espaço. como ideologia.

essa surge com o intuito de facilitar o acesso. os espaços urbano dist da cid necessidades do sistema favorece a formação de ocupações que passam antes daquelas centrais. A cidade é uma forma esentativos do histórica que conta com elementos que foram e/ou são repr espaço. acontece com a emergência de uma área central. é também complexamente mutável. com ade a ordem passam a da produção atender as econômica em questão. produção através do papel que as obras fixadas p espaciais. ela não é pautada apenas por reproduções objetivas.. de sobretudo. Contudo. mas ressalta que essa mutabilidade não suprime a existênci a das desigualdades e tão pouco das fragmentações e articulações desse espaço. um política. Ora. mas também po r práticas de gestão social. [. minimizar obstáculos logísticos e concentrar a produção econômica. religiosa ssas que dinamizam a cidade. enquanto determinado grau forma de de transformação desse espaço? e. as formas de O espaço urbano teve a cidade como primeira forma espacial para su a materialização. novas a se localizar Tal O em vigente. desempenham na reprodução das condições e das relações de produção (CORRÊA.149). talvez seja um aglomerado de elementos. Para ele. práticas pos e espaço dinamicidade. Em seguida. o espaço social é também um condicionante social. urbano. quais são os processos Como eles atuam e se configuram? de produção Para do um breve exercício espaço da de compreensão sobre a lógica cidade.] O condicionamento se dá elo homem. além de ser desigual – como já foi aqui cons tatado –. 2001. o espaço urbano. para a maioria dos autores. não é simplesmente um mero elemento.. crescimento áreas relativamente . p. a ocupação e a expan são que. a literatura sobre Geografia Urbana evoca o surgimento. sui se um a cidade. p róprios do espaço urbano.Para Corrêa.

são decorr entes da lógica desigual de concentração de intensificação dos vetores renda. a principal projeto de trabalho de monográfico. agrupam Nesse crescimento. em boa parte.processo promove o surgimento de novas centralidades que. mercados de consumo e trabalho e lazer. Por hora. coesivas. salv inércia ocorre. buscando fenômeno da por novas áreas ocupacionais. Postas faz-se URBANA REGIÃO E A INSERÇÃO DO CANDOMBLÉ EM GOIÂNI entender o crescimento as análises que necessário baseiam a pertinência do presen expor agora uma contextualização tempo/espaço do conjunto de procedimentos metodológicos que atendam aos Desse propósitos do presente modo. os grupos sociais que não atendem determinadas exigências econômicas são segre gados nesse espaço o quando o especulado. obstante. que não são analisadas quando se vê o espaço e m uma escala totalizante. se distribui Parte-se da premissa básica de que todo espaço social é historicamente produzido. ou . 270 ----------------------. EXPANSÃO A E METROPOLITANA te certame. elementos e or práticos q preocupação é a de apresentar ue sejam capazes de algumas construções como explicar a realidade imperante sobre ganiza os espaços do Candomblé goianiense. pode-se da cidade de Goiânia e Região Metropolitana como uma reprodução desse modelo. determinadas formas determinada Não área têm-se do ordens espaço. mas valores topofílicos ou até ordens subjetivas. uma vez que esse não se faz seguindo modelos e lógicas econômicas ou soc iais.Page 271----------------------4. fruto das que determinações comerciais em uma mercadológicas. adensamento populacional. produtivos.

que teve o seu processo de fundação concretizado no ano de 1933. mente o processo de expansão a lógica da segregação esfera cidade indubitavel que Goiâni espacial. Concatenando essa idéia com o pens amento de Freitas (2004). sobretudo para os grupo .77). não fogem às realida brasileiras. Partindo desse entendimento. conhecida por Vila refere o projeto Boa. A transferência da capital da Cidade de Goiás. metrópoles de econômico. Além do mais. pode-se expressar expansão vertiginosa do espaço a idéia de que esse ritmo de ocas urbano associa-se ao processo de crescimento ionando uma crescente taxa de desigualdade sócio-espacial. o direito pelo espaço na metrópole. conforme citada. a e Região Metropolitana se percebe-se constituem por um processo de expansão acelerada. a partir da década de 1930. retrata tais de construção e enfrentamentos no que se consolidação da capital goiana.seja. fato. entende-se que se trata de um espaço disputado por formas diferenciadas de poder que são representadas desigualmente no tecido urbano. des das Essas demais características. mentistas A cidade de implementadas no Goiânia é produto das políticas desenvolvi território nacional. Assim. a capital do ação política que entra em básicos dessa estado conta que circundam seguiu com uma a inten do consonância com os pressupostos sistema capitalista. 2004. Sua localização de que representavam as oligarquias locais com terc implantar governos progressistas no interior do país. quando se tem o projeto modernista de interiorização territorial proposto corre de lutas internas travadas por grupos políticos eiros que visavam por Getúlio Vargas. sa Desde então. ―sua especificidade depende basicamente da forma como se dão as rel ações sociais em determinado momento histórico a literatura (FREITAS. Desse modo. p. sobretudo.

fatores incorporar. o passar do tempo. com as melhorias de que passam a coibir a presença de tais centros religiosos. mas que. foram a proporcionando aos terreiros consideráveis pressões sobre as suas manifestações simbólicas . porém alguns Ilês localizados em áreas ainda centrais da cidade sofrem pressões olerância daqueles que forma o entorno das casas de Candomblé. Sabe-se. afastamento dessas ademais. ssiona o É válido ressaltar. Ao se trata r dos grupos de matriz africana que lutam pelo direito de de sobrevivência de sua cultura. goiana. o fator econômico que pre exercidas pela especulação e pela int comunidades de terreiro para áreas cada vez nos centros mais períféricas.Page 272----------------------paço da Diante metrópole dessa realidade. necessita-se de um espaço relativamente amplo. A resistência – que parte dos zeladores de santo passa a desempenhar – torna-se cada vez mais uma problemática no cotidiano desses praticantes.s desprovidos das representações estatais e capitalistas torna-se um desafio no cotidiano. Essas comunidades é imputada às Comunidades caracterizam-se por ocuparem terrenos localizados inicialmente em regiões totalmen te afastadas dos grandes lcançadas centros. para a re alização do culto aos Orixás. que. a confere-se que no es de Terre marginalização sócio-espacial iro. 271 ----------------------. quando se observa que . com pela expansão urbana. Os Ilê Axés157 localizam-se em regiões de Goiânia que antes eram periféricas e com baixo índice de especulação mobiliária e que passaram a infra-estrutura. espaço e de garantias designa-se diversos conflitos para o segmento em suas relações com o Estado e outros grupos da sociedade civil que negam suas presenças e práticas culturais.

Page 273----------------------5. . todos necessários à vivência do culto. b) c) Processo de invisibilidade das Religiões de Matriz Africana no espaço geog Intolerância e negativação dos ritos do Candomblé.urbanos os impostos territoriais (IPTU) assumem preços elevados com valores inaces síveis para a maioria dos Ilês. decorre do Essa exigência. confere de incentivos ao longo da ou isenções fiscais. árvores. Ausência de ações públicas para com as religiões de matriz africana. Essa da constatação. não possuem reg istros de recebimentos mbém obtida pesquisa. o que não acontece com as religiões de Matriz Africana e Afro-brasileiras. em Goiás. como 157 Ilê Axé é a denominação em Iorubá para a casa onde são realizados os cultos aos orixás. que buscam a periferia as tradições da prática. uma vez que as Religiões de Matriz Africana. animais. CONSIDERAÇÕES FINAIS m a produção Decorre dessa do espaço análise algumas questões. 272 ----------------------. que problematiza urbano e a lógica de direito para os grupos culturais. Outra resistência que se coloca ao grupo se dá quando se constata qu e as pressões que levam à retirada dos templos e por parte dos próprios para as como dos áreas forma elementos periféricas de também com rios decorr praticantes. que levantamento e de urge das realidades sublimadas e informações em órgãos oficiais. aqui os Candomblecistas: a) ráfico. apontam que as religiões cristãs – católica. não romper naturais. protestante e ka cista – frequentemente contam com onde os seus templos se isenções de impostos sobre as áreas instalam. que ta permite apontar outra aos mecanismos de condição realidade encobrimento a partir da ausência de políticas públicas. que requer amplos espaços com presença .

se deve quando esquecer se fala as de poder na soci contribuições foucaultianas para essa questão: Para realizar a análise concreta das rel poder. em vez de buscar a forma única. deve-se enfatizar a pluralidade das for mas de poder e de como as sujeições produzem novos sujeitos.319) ações de Portanto. Assim. essas evidências permitem responder às questões que norteiam os propósitos do artigo. faz da lei a manife stação fundamental do poder. em suas diferenças. mas também não se deve simplesmente e xcluíla. pois. como relações d e força que se entrecruzam. Dever-se-ia tentar estudar o poder não a partir do s termos primitivos da relação. de fato. enfim. convergem ou . afirma-se que urbano goianiense atende a uma densa rede correlata de poder. deve-se abandonar o modelo jurídico da soberania. mas a partir da própria relação na medida em que ela é que determina os elementos sobre os quais incide: em vez de perguntar a sujeitos ideais o que puderam ceder de si mesmos ou de seus poderes pa ra deixar-se sujeitar. deve-se investigar como as relações de sujeição podem fabricar s ujeitos. remetem umas as outras. press upõe o individuo como sujeito de direitos naturais ou de poderes primitivos. edade. Como parte de a lógica de produção uma resposta do espaço mais ampla.d) Periferização e marginalização espacial das casas de Candomblé. De acordo com a leitura de Foucault. p. deve-se primeiro deixálas valer em sua multiplicidade. se opõem e tendem a anular-se (FOUCAULT. Esta passa a deter minar e reificar as hegemonias que se perpetuam sob formas e práticas sociais. analisar as correlações de poderes na sociedade não é simplesm ente analisar o poder burocrático ou a força da repressão estatal. em sua especificidade. Este. . o ponto central do qual derivariam todas as formas de poder por conseqüência ou desenvolvimento. Assim também. 1999. não Entretanto. p ropõe-se o objetivo de explicar a gênese ideal do Estado. em sua reversibilidade: estudá-las. ao contrário.

– São Paulo: Contexto. Michel. 2003. religião. São Paulo: Vozes. anti-racismo. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Em Defesa da Sociedade: Curso no College de France (1975-1976) para mudar os valores identidades no que e inocular subalternizam no os i g . A questão que surge é analisar se o Estado reproduz e se subordina p or meio de suas ações exclusivamente às as ou se suas ideologias econômicas e aquelas da sociedade. Dois Atlânticos. 2006. 2001. DUSSEL. Ana Fani A. dentre outras. Trajetórias Geográficas. 2005. CARLOS. A ausência de e impostos.para Desse modo. 6. CORRÊA. Belo Horizonte: UFMG. violência. A questão é mais ampla e deve-se buscar soluções que visem combater formas de preconceitos maginário coletivo práticas de posicionalidades rupos com suas espaço da cidade. FOUCAULT. A origem do "m ito da modernidade". cosmopolit ismo. não se tem a apenas políticas de correção para esses aspectos. Teoria Social.Page 274----------------------sócio-espaciais que se evidenciam por gênero. infere-se encobrimento das que o Estado que não é ele o responsável pela uma meio ordem de d isenção inte d orde situações que evocam questões de religiões e poder de matriz africana. Homi K. 2ª ed. etnia. O Local da Cultura. ético-morais religios da ações primam por romper com as hegemonias s relações vistas nas contradições 273 ----------------------. concessões de políticas públicas terrenos públicos é comprovado com a nção apenas de provocar pesquisa. 1492: O Encobrimento do Outro. enfocar as religiões de matriz a necessidade de políticas públicas africana não é somente atribuir ao Estado a responsabilidade de manter ou mudar a re alidade dessas religiões em Goiás. Belo Horizonte: Editora UFMG. 7ª ed. Sérgio. A Cidade. 1993. mas capaz de reificar esta reproduz por mas invisibilidade. m de Assim. Enrique. BIBLIOGRAFIA BHABHA. Roberto Lobato. COSTA.

1996. necessariamente.18-20. Modernidade. Labre Lemos de. Anápolis. Monografia Graduação em História. Can the Subaltern Speak?: Speculations on Widow Sacrifice. A Negativação Semântica das Religiões de Matriz Africana a Partir do Discurso Evangélico – Anápolis. uma ligação com a natureza. W edge 7.magalhaes@gmail. Novembro de 1994. 2007. IESA/UFG: Goiânia.com Universidade Es tadual de Goiás-UEG/CieAA RESUMO Este trabalho se propõe a uma análise dos terreiros de Candomblé da região metropolitana de Goiana no sentido de configurar seus espaços. Revista de. W. São Paulo. In: I seminário de pesquisa dos professores da UNUCS EH. SPIVAK. Gayatri C. São Paulo: Companh ia das Letras. No. Sociologia da USP. por conseguinte necessita de uma série de elementos. 1999. E. Projeto ABEREM . como árvores.. 2004. uma extensão territorial que comporte suas práticas. Marcos Paulo de Melo. RAMOS. Cesar A. Os ritos do Candomblé são . Edward. 274 ----------------------. SANTOS. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. Jonathan. RUTHERFORD. São Paulo: Martins Fontes. SCARAMAL. analisando através da imagem esses espaços destinados às práticas do Candomblé nas regiões metropolitan as. 2003. FREITAS. Dissertação de Mestrado. reli giosidades e territórios. Boaventura de Sousa. FUEG UNUCSEH.África no Brasil. Uma entrevista co m Homi Bhabha. identidade e a cultura de fronteira. In: Tempo Social. Vale dos sonhos: movimentos sociais urbanos e disputa pelo espaço em Goiânia. 1ª ed. 24. territórios dispensados ao sagrado . Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. ou seja. 35-41. e suas práticas cotidianas que também estão inseridas no modo de produção vigente. 2007. estudos de comunidades. p. v 1. água corrente ou mesmo espaços abertos onde ocorrem s uas festas. Utilizando os recursos da etnofotog rafia.Page 275----------------------TERREIROS CONCRETADOS: CONFIGURAÇÃO DOS ESPAÇOS E RITUAIS DO CANDOMBLÉ NOS CENTROS URBANOS CONTEMPORÂNEOS158 Graziano Magalhães dos Reis159 graziano. 1985. SAID. Universidade Estadual de Goiás. O terceiro espaço. onde estão expostos às pressões externas como: supervalorização imob .

a territorial extension involving their p ractices. e as práticas de subalternização que são submetidos os praticantes de religiões de matri z africana. Nesse sentido determinar como se configura esses espaços sagrados evidenciando as diferenças entre centroperiferia elencando os elementos da religião que em relação com os fatores supracitados sofrem uma descaracterização. which causes a direct change in the ritual practices that are essential for transforming the imaginar Candomblé religion. Mary Anne Vieira Silva e constitui o hall de produções do Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas na tentativa de ampliar não só os estudos so bre as Religiões de Matriz Africana como também de disseminar as práticas e as perspectivas pós-coloniais. Candomble. therefore requires a number of elements such as trees. Power. looking through the image of these spaces for the practice of Candomblé in metropolitan areas. Candomblé. na Unidade Universitári a de Ciências Sócioeconônicas e Humanas de Anápolis. Geopolitics 158 Esse trabalho orientado pelo profa. Centro Interdisciplinar de de Estudos África-Américas CieAA-UEG. 159 Graduando em HIstória pela Universidade Estadual de Goiás. and practices of subordination that are submitted practitioners of religions of African origin. 275 estagiário e bolsista PIVIC/UEG do . Keywords: Etnofotografia. as políticas de controle dos corpos. territories given to the sacred and the everyday practices that are also included in the existing mode of production. In order to d etermine how to configure these sacred spaces highlighting the differences between center and periphery by ranking the elements of religion in relation to the abovementioned factors suffer a disto rtion. o que provoca uma mudança direta nas prát icas ritualísticas que são essenciais para o Candomblé transfigurando o imaginário da religião. Palavras-chave: Etnofotografia. The rites of Candomblé are nece ssarily a connection to nature. caused by dense stands from urban policies for control of bodies. Using the resources of etnofotografia. Geopolítica ABSTRACT This paper proposes an analysis of the Candomblé of metropolitan Goiana in order to set up their spaces. ie.iliária. Ms. where they are exposed to external pressures such as overvaluing property. Poder. running w ater or open spaces where they occur their feasts. provocada pelo povoamento denso dos centros urbanos.

cada vez mais. as relações s ociais estabelecias sob a ótica dessas comunidades. p 225) fotografia.Page 276----------------------INTRODUÇÃO ntro No bojo interdisciplinar das pesquisas de estudos realizadas pelo CieAA (Ce África-Américas). emergem estudos que buscam co nhecer os espaços em que estão alocados as religiões de matriz africanas. e analisar de que forma esses são definidores da identidade do candomblecista. a lógica do modo am de produção vigente e as relações sociais dos das religiões de terreiro. Nesse sentido os terreiros são analisad os. A ETNOFOTOGRAFIA A escrita fotográfica desperta o interesse. Ilê Axé Canto de Oxum. Os terreiros. provo supervalorização que permei de a malha de africana preconceitos com a praticantes fora do matriz que sociedade constituem os mecanismos normatizadores da sociedade. estão inseridos em áreas distintas cando alterações em suas paisagens. em pesqu isadores de diversas áreas das ciências humanas. Esta escrita não é entendida como uma mera duplicação da realida de. Neab da Universidade Federal de Goiás. Pressões da Região pressões metropolitana externas como: de Goiânia. utilizados para esta análise. a o uma segunda realidade. (POSSAMAI. em uma relação dialética. devido as diversas imobiliária. bem como. se busca: apreender os elem capturar pelas imagens os elementos simbólicos. 2008. em que entos formadores das paisagens. e espaço que apenas existiu no momento em que foi apertado o botão e que soment e pode ser alcançado como representação visual. utilizando os recursos da etnofotografia. poderia ser apreciada com diferente da primeira realidade contida num fragmento de tempo . liderado por Mãe Maria Luiza Ti Ox un e o Ilê Axé Onilewá Azanador comandado por Mãe Tereza Ti Omolú.----------------------.

não como uma reprodução.Para essa abordagem. 2008. portanto. a fotogra fia.Page 277----------------------Mesmo apresentando grandes odológicas. John K. 2007. p 154) . uma fonte que apresenta diversas possibilidades de interpretação. no qual se caracteriza a fotoetnografia. no caso. para desvelar o passado. ferramenta de torna-se análise. se ndo o espaço enquadrado pelo fotógrafo. A fotografia. é ela mesma histórica. Hillers o XIX apresentaram trabalhos fotoetnográficos aw Malinowski com indígenas em seu Os e Alice Flectcher ainda mesmo no sécul Bronisl norte-americanos. se torna para um campo científico. p 225) . No decorrer do século XX a antropologia visual e . Argonautas do Pacífico Ocidental (1922) utilizou de equipamento fotográfico em sua p esquisa. uma e scrita sobre os grupos humanos. contidos em um espaço maior existente (POSSAMAI. o tratamento das imagens. ―espaço construído pelo olhar que seleciona os limites como o extraquadro através objeto do da anális fotográfico enquadramento. Dessa maneira a etnofotografia é a interpretação do pesquisador. A fotografia se insere nos estudos científicos como documento histór ico. 276 ----------------------. Esta última. O dos grupos uso das imagens sociais e ainda possibilitou a ampliação das análises e favoreceu ―para a reconstituição para uma melhor da história cultural de grupos sociais compreensão dos processos de transformação na sociedade( BONI e MORESCHI. o estudo dificuldades de ordem teórico-met da imagem. da fotografia é uma fonte importante para a compreensão das rel ações sociais. bem e histórica. corrobora diretamente com m sua principal de resgate de ou grupos mesmo da socieda e os estudos etnográficos. também como instrumento de. mas representação.

a partir da década de 30. Verger se debruçou foi professor na sobre o estudo do Candomblé até a estão: O candomblé na Bahi Universidade Federal da Bahia. sua morte. O francês Pierre Verger. Entre suas publicações a: rito nagô (1958) e As Religiões Africanas no Brasil (1960). Nomes com Claudia Andujar. Com o trabalho realizado por Verger a cultura dos prat icantes das religiões de matriz africana ganhou visibilidade. 277 ----------------------. memória das etnias brasileiras. Pois. a fotoetnografia começa a achar espaço entre os trabalhos científicos registrando a o Pierre Verger. Assim Pierre Verger mais do que retratar pessoas. religião a qual se iniciou. Em sua prod ução destacamse os trabalhos realizados sobre a cultura africana e afro-brasileira. AS PAISAGENS E AS IDENTIDADES A fotografia será aqui utilizada para destacar alguns elementos ma teriais presentes nos terreiros de candomblé da ―todos os processos de região metropolitana de Goiânia – GO.a fotoetnografia consolidam seu caráter científico. com várias publicações sobre o Candomblé. assim como o espaço . Milton Guran e Rosa Gauditano se inserem como pesquisadores imp ortantes para o desenvolvimento da fotoetnografia nacional. a convite de Roger Bastide chegou ao Bras il em 1946 e aqui se consagrou como um dos grandes nomes da fotoetnografia brasileira. com fotografias retratando o cotidiano d os terreiros. buscou elementos produção e manutenção de identidades sociais necessitam do suporte espacial. No Brasil.Page 278----------------------O PODER. característicos dessa cultura. elementos imagéticos de suas identidades. suas obras são clássicas nas análises sociológicas das ex pressões da religiosidade brasileira.

tempo. do O poder disciplinar se caracteriza p invisibilidade e onipresença e implica num controle total corpo e da vida das pessoas. são absorvida sociais e cristalizam as identidades. 2005. a cidade seria o espaço onde o poder disciplinar acontece. é dado pelos elementos habitam o campo do visível. onde ―procura-se solidificar o campo das relações e materializar os signos e valores c onstituintes da identidade (COSTA.geográfico. Assim. portadores de simbolismo. Ele é contínuo e refere-se ao futur e marcas . é indissociável das ações sociais (COSTA. Estes element os imagéticos. ou seja. o espaço se transforma em suporte para o conjunto de elemen tos construtores. p 81) . no local onde acontecem comunicação. 2005. as representações dessa realidade. As id entidades passam também os pela rituais. as fotografias Nesse em sentido. a construção e manutenção das identidades e a relação estabeleci da com a realidade material. dos praticantes do Candomblé. Não tem necessidade de ceri que restaurem a descontinuidade. também construtores e cristalizadores da identidade. as estudo são paisagens do Candomblé presentes n em uma relação dialética. materiais e imateriais que constituída por meio das relações sociais que qualificam as identidades. Desse modo. Esse suporte material. s pelos indivíduos ou melhor. mas analisadas. p 87) . estão em É válido ressaltar uma posição de que estes terreiros de Candomblé subalternidade. as relações sociais. Utilizando as teorias de Michel Fouca ult. suas atividades cotidianas e o próprio espaço interno dos terreiros são controlados pelos poderes normatizadores da sociedade. aqui entendido pelo concei to da geografia como paisagem. interação as formas com de o espaço. no caso. e também relacionadas com os cenários dos Ilês-axe localizados na região met ropolitana de Goiânia. são produtos. como discorre NEVES ela do mônias descentralização.

carregam consigo o simbolismo que consolida as identidades dos praticantes da religião.o. exercício. as fe elementar. em que acontecem as festas e onde estão os assentamentos (locais sagrados. 278 ----------------------. Soma-se a estes o modo de produção econômico adensamento ou vigente. Os elementos sagrados presentes nos terreiros são indispensáveis par a a realização dos ritos. mas apontem se o indivíduo se c não conforme as regras instituídas. portanto. em que são depositadas as oferendas dos Orixás. tais como: árvores sagradas fundamentais em que se utilizam as folhas. o próprio barracão. uma um exemplo é o caso do Orixá Ir sagradas. Uma das características fundamentais dessa religião é a necessid ade de espaço físico. dentre outros. tanto pela malha de preconceitos que invisibilizam os praticantes das rel igiões de matriz africana.Page 279----------------------representa essa força oko. os rituais e. apresentado como árvore frondosa. que supervaloriza as áreas a com forte formata o tamanho dessas s próprias paisagens e propriedades.( NEVES. local das stas. e o próprio Orixá). 1997. onde tudo irá por si mesmo. quanto pela própria lógica do mercado imobiliário. por conseguinte . p 87) Os terreiros. esses elementos formam as paisagens dos terreiros e. pois o candomblé no qual o próprio orixá é essencialmente um culto à natureza. cria sabere s/verdades que não apenas a onduz ou justifiquem. A disciplina enquanto hábito. especial. Porém. espaços sagrados são locais para a celebração do culto. do a serem Os terreiros de inseridos no esse candomblé processo também acontece são organizados de com mo território urbano. a normatização desses concomitantemente espaços. Todos manifestações para em os rituais.

é possível social afirmar dos que agentes os mecani circunvizin é realizado na mata.inerentes a essa cultura religiosa. b) a c) a que a partir por pa da leg de permite atividade sonora com sons elevados. ou para Oxum que deve ser terreiros. se é verdade que a vigilância repousa sobre indivíduos. 170) Nos terreiros localizados nas áreas mais próximas do centro urbano e ssa ação se torna mais visível. erra sede ―sus tenta o conjunto. localizado no setor Urias Magalhães. rte da vigilância sanitária de criação de determinados islação ambiental que animais em área proibição urbana. O poder disciplinador. para ilustrar esta os: O Ilê Axé Canto de Oxum.. pois.( FOUCAULT. seu funcionamento é de uma rede de relações de alto a baixo. po de ser exemplificado aqui pela normatização das paisagens dos terreiros de candomblé por meio de várias situações : a) a determinação de medidas uma determinada hora legais. Onde os indivíduos também são ferramentas das se utiliza os poderes discip linadores como discorre Foucault: Organiza-se assim como um poder múltiplo. 2009. e o Ilê Axé O nilewá . análise será utilizado dois terreir liderado por Mãe Maria Luiza Ti Oxun. normatização pode dificultar a realização de rituais em região de preservação ambiental. discutido por Michel Foucault (2009). mas também até um certo ponto de baixo para cima e lateralmente. como por exemp lo. smos legais Diante do exposto incidem sobre os mas também estes espaços. hos a a pressão poderes microfísicos.código não de postura. os despachos para Oxossi que colocado em águas correntes. automático e anônimo. e o perpassa : fiscais perpetuamente de efeitos de poder que se apóiam uns sobre os outros fiscalizados.

em este várias recort interno do ambiente. e o segundo está povoada. localizada na região metropolitana de Goiâni a na franja rururbana. uma vez que. A fotografia abaixo retrata a entrada e é dado por um ponto do de em um primeiro diferenças Ilê Axé vista podem Canto momento são essenciais para a m ser de notadas Oxum. Ainda nesta foto se permite apreender que o espaço é pequeno. . que anutenção do imaginário religiosos. Essas perspectivas. O primeiro de um em uma região densamente lote. se mostra escasso. em que a área localizado em uma região afastada do centro. bem como a área destinada aos elementos sagr ados para essa religião.Page 281----------------------determinadas plantas se fazem ndomblé. A escolha desses Ilês para ilustrar esse trabalho se deve as sua s localizações. na realização de alguns rituais. está No âmbit geográficas. o cultivo de 280 ----------------------. É possível observar o corredor que separa a casa à direita e a di visa com o lote vizinho.279 ----------------------. a circunda a casa no Ilê Axé Canto de Oxum. este d ado é importante ao avaliar a necessidade de uma área criação de animais. devido à organização o das paisagens fica anteriormente posto uma significativa mudança da organização espacial destes terreiros e. conseqüentem ente. Logo o espaço que necessários para um terreiro de Ca ampla. bairro construído por um conjunto de chác aras.Page 280----------------------Azanador comandado por Mãe Tereza Ti Omolú. Figura 1: Região Metropolitana de Goiania A relacionada com diferenciação localizações existente urbana entre os terreiros discutida.

como por exemplo. querda da fotografia principal. na qual se pode encontrar uma grande variedad e de espécies vegetais. inicia lmente chamado por apenas Ilê Axé Onilewá. o I roko que se apresenta como uma árvore sagrada que representa o fundamento da religião em questão. . onde a Paineira é a copa com fores rosa. mercados especializados. pularmente incluindo árvores de conhecida como grande porte. levam na fotografia às demais Sendo o o acima. Como mostra o enquadramento da fotografia seguinte. e posteriorme agregado o nome Azanadô pelos próprios visitantes . 281 ----------------------. A fotografia a baixo recorta a pais agens presente na entrada principal. Ao fundo a Gruta de Oxum. Figura 4:Ilê Axé Onilewá Azanadô 282 ----------------------. como o Azanado po Paineira (Chorisia speciosa). à esquerda uma área que comporta uma variedade de espécies vegetais. interferem paisagens dos não somente na terreiros utilizados apresentados. ali é reservado um espaço físico maior. onde acontece as festas e outros rituais. caminho que leva à parte dos fundos. elemento da paisagens que qualifica este Ilê. à direita parte do barracão principal. podemos enquadrado notar na os cam porção centro-es dependências do Ilê.Page 282----------------------Figura 3: Ilê Axé Onilewá Azanadô inhos que Ainda. nos suas diferença dado que presença dos elementos vegetais estes podem ser adquiridos em rituais.Figura 2: Ilê Axé Canto de Oxum Quando se analisa pela fotografia do Ilê Axé Onilewá Azanador. outras i nferências são propostas. mas também no culto de alguns Orixás.Page 283----------------------As s.

anima impossibilitada. comportando is. sociais. como a terreiros apresentam presença de água outras características distint corrente. não existe para a espaço físico do que comporte to tradicionalmente. por estar e m uma região densamente aqui povoada as práticas de Ketu fica inerentes a a constituição de do Candomblé. considerando que o próprio termo se remete à terra. as legislações que a limitam a criação de animais ambiental que dificulta a realização de rituais. A normatização imposta pelas relações legais e em área urbana.Que no Ilê Axé Onilewá Azanador é uma frondosa Gameleira Branca Figura 5: Ilê Axé Onilewá Azanadô Os as. Figura 6: Ilê Axé Canto de Oxum 283 ----------------------. são essenciais ico da religião. ou a possibilidade de criação dos animais utilizados nos rituais. e comprimindo seus apenas criação pequenos assentamentos cimentados e apresentados por um visual asséptico. qua ndo localizados nas dos áreas centrais onde os elementos que. reguland o a duração das .Page 285----------------------PASSOS E DESCOMPASSOS DA GUISA DE CONCLUSÃO Os terreiros.Page 284----------------------Figura 7 : Ilê Axé Canto de Oxum Características estas não presentes no Ilê Axé Canto de Oxum. Figura 8: Ilê Axé Canto de Oxum Figura 9: Ilê Axé Canto de Oxum 284 ----------------------. estes constituição imaginário ritualíst sofrem com as pressões dos poderes disciplinadores e controladores. ou mesmo a lei de postura.

Paulo Cesar. 154 Disponível em: HTTP://www.ubi. Zita Rosane. org. o neolibe . Rio de Janeiro. Doc On Line. portanto no próprio Candomblé como se constitu i atualmente. As relações entre os conceitos de território .2. Fotografia. Con identidade e paisagens o processo contínuo de re-significação provoca significativas m udanças na identidade dos praticantes da religião. Fotoetnografia: A importância da Fotogra fia para o Resgate Etnográfico. outrora presentes tadas do centro. Benhur Pinós da. Ibid p. Elementos. n 03. 2008. vo l. História [online]. Dezembro de 2007.pdf COSTA. pp 81 Ibid p. 225. os normatizados pelos terreiros nas regiões densamente povoa padrões eurocêntricos. Roberto Lobato Corrêa. história e vistas urbanas.. identidade e cultura no espaço urbano: por uma abordagem microgeográfica. MORESCHI. como por exemplo. que deve se r realizado em local com grande movimentação de pessoas. Bruna Maria.doc.27. pp. das são Desse modo. Sociedade de Controle.pt/03/artigo_paulo_cesar_boni. ou mesmo. n. In Geografia: Temas sobre cultu ra e espaço. necessitam de ambientes públicos. dificultando. 87 NEVES. despacho para Exu.Page 286----------------------REFERÊNCIAS POSSAMAI. sofrem um processo siderando a relação de descaracterização entre nos terreiros de suas nas regiões afas paisagens. Cláudia E. Abbês Baêta. UERJ. Zeny Rosendahl. 255 BONI. P. 285 ----------------------. 2005. As relações sociais que a comunidade circunvizinha estabelece com est es terreiros.festas modificam o cotidiano do terreiro. tal situação decorre do intenso processo de ações que negativizam suas práticas impedindo alguns rituais que religiosas. são construídas em uma relação de subalternidade. Ed.

Petropolis. 87 do et al. ancianidade. Tambor de Mina de raízes maranhenses na cidade de B elém. __________Microfísica do Poder / Michel Foucaul. Trad. ritual. exchange. Rio de Janeiro. PA. ritual. performance. 37. Este trabalho tem caráter etnográfico e mostra algumas práticas cotidian as não só da Mina.Page 287----------------------UM OLHAR ETNOGRÁFICO PARA FESTA DE SEU ZÉ RAIMUNDO DO PAI BRASIL Mírian Tesserolli160 Resumo: Na casa de Pai Brasil. the party to the I looked at some enchanted Sir Zé Raimundo. 2009. performance. a festa para o encantado Seu lancei o olhar para alguns Zé Raimundo. em especial. m aspects of the afro-religiosities: seniority. that part of the history of Anthropology: Franz Boas and Marcel Mauss. Vigiar e Punir : o nascimento da prisão. Ed. . 286 ----------------------. São Paulo: Hucitec. 1997. (Org. a da Antropologia: Franz Boas e que fazem parte da Históri Marcel Mauss. tro ca. mas também das diversas tradições afro-religiosas originadas no Brasil. but also of the various religious traditions afro-originated in Brazil. perf ormance. p. troca. A partir da aspectos das religiosidades de matriz africana: ancianidade. 1979. mediado pelo olhar de dois autores. Abstract: In the House of Father Brazil. is realized From the party. ritual. Michel. Org e trad. RJ: Vozes. Graal. Roberto Machado.ralismo e os efeitos de subjetivação. In: SILVA.). André tões contemporâneas. Subjetividade: ques FOUCAULT. This work has ethnographic character and shows some daily practices not only of the Mina. Palavras chave: Tambor de Mina maranhense. PA. Raquel Ramal hete. in particular. ediated by the look of two authors. Tambor de Mina roots maranhenses in the town of Belem. se realiza festa.

p. ressaltando o que é comum 160 Graduação e mestrado em História. quando são convidados. com ênfase em afro-religiões. participam do ritual dessa outra casa. performance. Não vou me referir. coordena a organização dos Colóquios Afro-rel igiosos que acontecem em Porto Nacional. É comum encontrar os neófitos de uma determinada casa. Mas não é só nos momentos de festas que os rituais acontecem. se recriar. exchange Introdução A vida social dos praticantes das religiões de matriz africana é mar cada por rituais. É essa última p especial: o que é comum a um determinado grupo. mas ao que torna esse mom ento ímpar para. A tese de doutoramento é sobre Nanã. da Universidade Federal do Tocantins. (PEIRANO.com 287 ----------------------. É líder do Grupo de Pesquisa do CNPq Religiosidades e Festas. M diz que ―rituais são bons para transmitir valores e conhecimentos e.Page 288----------------------a um determinado grupo arte que me interessa. através dele. esse é um momento especial que aponta e revela representações e valores de um dado grupo. desde 2003. definido pelo grupo como diferente do cotidiano. às diferenças entre os rituais das diversas casas de religiões afro-originadas. 10). Contato: mirianuft@gmail. em 2003. Em alguns momentos. seniority. dança ndo. A festa é um momento especial. cursa o doutorado em na Universidade Federal de San Ciências Sociais com ênfase em Antropologia na Universidade Federal do Pará. também. Sua área de trabalho e pesquisa é História da África e Cultura Afro-brasileira.Key-word: Tambor de Mina maranhense. aqui. divindade presente nas afro-religiões. ta Catarina. É nesse mome nto que o grupo se pensa. revelando representações ariza Peirano e valores que lhes são próprios. ritual. É professora do curso de História do Campus de Porto Nacional. visitando outra casa em época d e festa. próprios pa . TO. se expressa e mostra uma performance ritual que tem a ver com as histórias míticas de suas divindades.

na cas Jorge Itac maranhense de Vodúnnon espiritual. como o que veremos a seguir. i de Pará. no final do ritual que descrevo. indo para a s periferias. nesse momento. a maranhense que não se fazia presente no Pará. e ainda Foram existem tão ressignif no Bras conhecimentos das religiões il. Provavelmente quando ele foi para esse bairro. a exemplo da pajelança. vamos encontrar.ra resolver conflitos e reproduzir as relações sociais (PEIRANO. O Tambor de Mina. Ao realizar rituais. ali poucas casas existiam. ao longo dos anos. O que descrevo a seguir a do Pai Brasil. Esse foi um processo pelo qual muitos terreiros passaram. Normalmente os em terreiros se localizam longe dos centros urbanos devido ao som dos tambores e à di scriminação que sobre essa religião é exercida: os marginalizados são excluídos dos centros. transmitem os conhecimentos que foram sendo ressignificado s. seu pai é um ritual de Tambor da casa de Mina. Transmitir valores e conhecimentos: é isso que é comum a um dado grup o e que me interessa lançar o olhar. Mas na casa do Pai Brasil é a filiação maranhen se que vemos e. em Belém. A festa Belém. prática com boi Nesse caso fazem parte da específico. por isso. No Maranhão. mas em todo o Brasil. sejam eles fechados ou abertos. p. uma brincad eira dos encantados com um boi. neste Estado. formando uma religião existiam misturada quanto o povo brasileiro. icados que os africanos que se juntaram trouxeram aos que tão da África. PA. não só em Belém. Com o crescimento da . as brincadeiras cultura e a maior parte dos caboclos encantados atualização de uma são boiadeiros. 2003. tomou feições interessantes devido à mistu ra com os rituais indígenas. com linhagem Oliveira. A casa de Pai Brasil localiza-se no Jardim Sideral. 10).

As paredes são pintadas com as figuras dos voduns. Iemanjá (orixá) e uma foto de Seu Zé Raimundo. Do lado de dent ro. o lugar também foi sendo povoado. provavelmente cantando. na verdade . caboclo enca ntado. a festa do Seu Zé Raimundo. do dia outros pesquisadores. os bancos são reservados às pessoas que se filiam às religiões afro-brasileiras. para tanto era necessária a permissão que ao ser consultado deu sua aquiescência. à direita. Pai Brasil. já no interior da casa. um lugar para sentar de onde Indicaram-nos tínhamos uma boa visão de tudo que se passava no salão.cidade. Quem nos recebeu. da mesma tradição ou não. O terreiro é todo murado. pinturas do dono da casa. eu e volta de 20h30min horas. O salão principal tem um mastro central com uma trepadeira que o c obre por inteiro. por de junho de 2008. religião de m atriz africana que 288 ----------------------. mostrando sinais dos tempos violentos de hoje. ficam as pessoas que vão assistir à cerimônia. tem alguns seguranças na porta que ficam vigi ando os carros das pessoas que vêem para assistir a cerimônia. os orixás e os encantados. Esse salão é delimitado por um muro de. Pai Brasil filia-se ao Tambor de Mina maranhense. dos orixás e que do encantado remetem à Seu Zé Raimundo: Dã (vodun) e a ao entrar. Do lado de fora. às pessoas que possuem algum tipo de cargo hierárquico. um metro de altura. a rua é de terra e . com seu colorid o chapéu de boiadeiro. aci ma da . na frente. Oxalufã (Oxalá velho – orixá) com seu apaxorô e Oxum (orixá) e. Dissemos que gostaríamos de tirar fotos e gravar o ritual.Page 289----------------------cultua os voduns161. foi a Ekedi162 do Seu Zé Raimundo. 14 Quando chegamos. à casa de Pai Brasil. no máximo. estava prestes a iniciar.

outra foto de Seu Zé Raimundo. os voduns e também os orixás são as entidades reverenciadas . os inkíces. O chão é de cerâmica . 161 No Tambor de Mina. Todos se vermelha. que Seu Zé Raimundo ga Mané. várias estátua s em tamanho oclos. entre outras coisas. Do lad aquário com pedras na base e algumas estátuas: Iemanjá e Oxalufã. cuida dos neófit os quando entram em transe.porta que leva à um outro salão. 162 Ekedi e ogã são cargos que existem tanto nas diversas tradições de Candomblé quanto no Tambor de Mina e eles têm basicamente as mesmas funções: a ekedi. do provimento da festa. os entrada. natural indígenas. segundo os um vestiam com roupas verde e marrom. como o Ketu. Chegamos até esse pequeno quintal para observar o movimento. entre outros. nos informaram. No telhado. Na parte detrás do existe um pequeno salão. Vale lembrar que os caboc los são boiadeiros e que brincam com o boi. . membros da casa e logo fomos para o salão onde aconteceria a cerimônia. cab léguas. à esquerda. Mais à frente. bandeirolas de papel coloridas e ventiladores. quando encontrou com ele em um terreiro no Maranhão. e na parede da turcos. com roupas e adereços: nobres. todos princesas os turcas. um pequeno quintal no qual estão construídas alg umas salas que são destinadas aos filhos da casa. representando as famílias dos encantados: os codoenses. Ao fundo deste salão. por vezes. 289 ----------------------. pouco com os para de cetim amarelo adornadas homenagear Seu Zé com fitas Conversam Raimundo. o ogã cuida das coisas da casa. ainda à esq uerda. Em outras nações. no Cand omblé angola. um espaço destinado ao boi nhou do caboclo encantado Zeca Baiaco. as entidades reverenciadas são os orixás. uma pintura bem colorida que também remete aos encantados. há uma outra sala.Page 290----------------------o esquerdo. são misturadas em uma mesma tradição. Mas a referência às divindades. ou ainda.

Pai Brasil Marabô: nas religiões de matriz africana. para o exu os movimentos iniciais. Os tambores começaram a tocar: são três batas (sempre presentes nos rituais Do Tambor mato. a súcia.como eles nomeiam . ao escutá-los. dois atabaques. Por exemp lo. variante do agogô. orixás e encantados. nitidamente de é dançada ao som não recebem devem todos ser os usados rituais nas relati eventuais Os tambores são de grande importância na cultura ne 163A expressão ―santo se popularizou na fala de todo povo de terreiro devi do à imposição do catolicismo durante os quase 400 anos de escravidão africana no Brasil.290 ----------------------. sempre é para Exu que se canta primeiro para que ele abra os caminhos e que tudo corra bem naquele ritual. Os batas estavam cobertos com um tecido ritual. então. instrumento de metal com apenas um sino. Existem pesquisadores. gra e através deles podemos perceber algumas continuidades étnicas. são alimentados. como de renda. como é mais conhecido) . mas na comuni voduns. são já antes de ter início o quand chamados os que tocam os batas. A orquestra de tambores tem um som magnífico e. babalorixás e yalorixás . f ica muito claro cação a importância dos tambores dos humanos com os não só no transe. Os batazeiros. e vos à entronização na religião. no centro sul do de tambores que são estado do Tocantins. quatro de Mina). pois os tambores têm função fundamental nessa comunicação.e u m ferro (ou gã. um tambor do xequerês ou cabaças (com uma trama de contas ao seu redor) . o Pai Brasil entrou no salão estavam em seus lugares cantando para Marabô. Esses tambores são sagrados e brincadeiras que o povo de ―santo 163 faz.Page 291----------------------entrou cantando Começaram. Assi m como os neófitos passam por um rito de iniciação. os tambores também passam: ficam recol hidos na camarinha.

39. pois acreditam na necessidade da afirmação da ident idade das religiões de matriz africana de forma independente do sincretismo. através do tipo de tambor usado nas diversas manifestações culturais. ou seja. por isso imperce rou encantados. quando Os para Cantaram e dançaram os caboclos. Foi para transe são todos com os Seu voduns Zé e. entre os Dogon. O mesmo acontece com todos os outros. portador de sua própria palavra (LEITE.que não utilizam nunca esse termo. Como já foi citado anteriormente. a exemplo do Tambor de Mina. que não se assemelha à do ser humano. é por demais importante no desempenho dos papéis e isso foi transplantado para a organização das outras religiões d e matriz africana. estava com a roupa amarela de cetim. igual a dos outros participantes. na casa em e ordem determinada pela senioridade. não faleceram. 2004. seguida. o tambor de fala – Tchereman ou Tama – é co nsiderado um ser vivo. em África. Voltaremos ao assunto posteriormente. ele solta o cabelo164 do Pai pa e coloca um chapéu. através do som dos tamb ores as divindades emitem sua voz. ex istem vestígios. ao entrar em transe.). o tambor de axila foi entregue ao homem pelo preexistent e para que se comuniquem. Entre os Akan. colocou uma bata beije com listras douradas. cumpri mentando-o com a benção. 291 ----------------------. Ou seja. p. os atabaques presentes Atrás do Pai Brasil entraram outros participantes.Page 292----------------------tradição jêje: são retos e não afunilados como nas tradições nagô ou keto. seja difícil perceber quando o encantaram. Na pelos o cargos princípio que da ocupam senioridade organização social dos africanos. do culto dos orixás que datam mais de 5 mil anos. quand . podemos identificar as tra dições mais presentes. sem Pai Brasil entrou em caboclos dessa religião Raimundo. as diferenças ptíveis: no caso do Seu Zé Raimundo. Inicialmente praticamente troca de Brasil. um a um. são Talvez neófito entra em transe. afinal. Na África.

inclusive de acordo com o sexo de sua entidade: um lenço amarrado no chapéu ou um chapéu mais masculino. O boi é bem enfeitado com bordados . notadamente homossexuais. na altura dos ombros. Alguns médiuns homens. trouxeram o Boi Zeca Baiaco para o salão. que é o tambor mais grave e é o que ―puxa nte o ritual. Alguns caboclos. podemos ir lá conversar com eles. Disse o Seu Zé Raimundo que ele u desculpas por ele ainda ser tinha acabado de nascer. pedi e fitas novinho e não saber dançar muito bem. 165 É importante notar que o transe acontece. Em alguns m os ritmos tocados dura principal. e os d eixa presos com um elástico. também. tocam os instrumentos. 292 ----------------------. dur ante o ritual. O Seu Zé Raimundo toca o tambor do mato. Os caboclos omentos saem do salão para ir tomar cerveja: eles gostam muito de cerveja. Enquanto os voduns. pa ra dançar com ele.Page 293----------------------transe165: trocam de roupa e/ou se caracterizam. 293 ----------------------. desejando bom auguro.Page 294----------------------Ao terminar o ritual. não bebem nada. os encantados fazem a saem para a sala atrás do salão festa! Quando os caboclos dançam e cantam ao som dos tambores. quando nos aproximamos para conversar. faz em uma espécie de benção. depois de incorporados. que nos perguntam se estamos bem. cacheados. em ordem determinada pelos ca rgos que ocupam na casa e pela senioridade.o entram em 164 Pai Brasil tem os cabelos compridos. entr aram em transe com entidades femininas e estas se mostraram muito carinhosas e bastan te gentis.

na parte de cima do corpo. maior Ne encantados. é quando ficamos ssa festa. disse: ―Eu sou um negro metido: gosto de me vestir bem. bode. que vão até as mesas e são servidos pelos ca perguntando se está tudo bem. Nesse momento. galinha no tucupi com jambu. com muita comida e bebida. achando que era o Pai Brasil. como é comum em todas as festas das religiões de matriz africana. Falando das comidas e das trocas. a festa continua no quintal. As comidas servidas são as da região: maniçoba. de receber bem e de ser dono de barracão . essa começou a ser pre parada com três meses de antecedência. vatapá. se precisamos de algo. ele assim disse. cidade p róxima de Belém. na parte de baixo tem um tecido muito florido e uma coroa de flor es nos chifres. ele já h avia trocado de roupa três vezes e já sabíamos que o Pai Brasil abriu um barracão em Mosqueiro. senhora!: De nada! Mas quem está aqui é Antônio de Léguas. arroz. Uma das visitantes pediu um pedaço de bolo a uma das pessoas sem saber que ela estava em transe com u m encantado do sexo masculino. seu criado! . Esse entre os convidados é um momento e os sabendo no qual seus há uma nomes. Nesse segundo encontro. Todos os convidados sen tam-se em torno de mesas organizadas anteriormente boclos. ela ter agradecido com um depois de dar-lhe o solicitado e d ―obrigada. em um momento que esteve em nossa mesa. Somente ao final fui avisada que era o encant ado. No primeiro. se estamos bem servidos. cheguei ao final de uma festa e converse i muito com ele. Quando o ritual finaliza. O bode e a galinha são animais utilizados nos rituais que ocorrem pa ra a preparação das festas (elas começam a ser preparadas muito tempo antes. tive o segundo contato com Seu Zé Raimundo. suas interação famílias.): utilizam-se apenas algumas partes dos animais nos rito . para o Seu Zé Raimundo.

O ebó é uma prática ritual de reposição de energias para equilibrar as forças cósm cas. existe uma consciência ecológi ca bastante presente e sabem que precisam da natureza de diversas formas. a coisa dada prosperidade. A harmonia entre o mundo espiritual e o mundo terrestre fundamenta o culto de voduns. Esse caracterizado por culto é mediado formas de pelo ebó: um agradecimento preparar e oferecer materiais. No início da festa. pois que está sempre em busca de repor as energias cósmicas num consta . e o mundo a harmonia das entre a natureza. há uma oferenda para Exu para que tudo corra bem durante a festa. ebó toma outras como Muniz formas um Sodré oferecimento. os divindades. ser conceituado enquanto troca entre o homem e os preceitos cósmicos. um o ebó presente é um é retribuída presente pelas aos voduns divindades e o c vodun Lembrando Mauss. o de conceituais. Mas essa não foi a primeira oferenda para Exu: a festa começou a ser preparada com ritua is de oferendas três meses antes da data estipulada para que ela acontecesse e a primeira oferenda que foi feita. nos despachos em encruzilhadas os animais são abandonados inteiros.s e o restante é 294 ----------------------. Tem como objetivo restituir seres humanos. pois a cada ritual é oferecido para uma relação de troca diferente. paz. relação Assim. Aqui. dando conteúdos diferenciados a cada ato ritual e v otivo. por exemplo.Page 295----------------------utilizado como alimento pelo povo de ―santo . foi para Exu. então. orixás e ínkices. Algumas religiões afro-originadas utilizam o animal todo. s retribuem com possível. Isso acontece nos Candomblés e no Tambor de Mina. nomeia as uma divindades. Mas a característica das diversas tradições do Candomblé e do Tambor de Mina é de não desperdiçar alimentos. om saúde. Ebó pode.

suas histórias míticas. por exemplo. É através da dança que se aprende: imitan acontece a transmissão da tradição. o axé. Marcel atos. dentre eles. porque é existir desabrochar. de matriz africana são territórios absolutamente plurais para se falar de culturas.nte fluxo de do força vital. é uma parte do ritual que também é uma troca à medida que mantém viva e reatualiza as divi ndades. Quero me deter um pouco na noção de cultura de Franz Boas. Acreditam que essas religiões são apenas uma e que servem para fazer o mal ou conseguir coisas um tanto quanto espúrias. O senso comum vê as religiões de matriz africana através de alguns ―fi ltros . Referem-se no singular. 1974. que confunde o Orixá E xu com o demônio. o de um olhar muito próprio do ocidental judaico-cristão. pois gost o da idéia de pensar em culturas e não em cultura. através do ritual. Ao final da festa. Mas as trocas não estão presentes apenas na alimentação. 295 ----------------------. todos os presentes se alimentam com comida qu e tem axé. os movimentos é que Mauss nos mostra que o ritual se faz através de atos técnicos. mostrando seus do os domínios. é a força ele que permite a possibilidade dinâmica da realização. É a oferenda que faz as ener gias circularem. p. através do ritual. físicos e mágico-religiosos (MAUSS. é o elemento mais importante para a existência. A dança é uma perfo rmance.Page 296----------------------Religiões afro originadas: territórios plurais. E o ebó é a oferenda ue faz as energias circularem. que fez parte de um ritual de trocas com os preceitos cósmicos. ganhar eleições ou tirar o marido alheio . entre tudo que faz parte da naturez a. entre tudo que faz parte da natureza. As religiões . 215 -7).

a elas. conseguimos perceber melhor as religiões afro brasileiras por que. ublicados Mas ainda temos os textos relativos aos zeladores que à medida que são p . não se p universais de funcionamento das sociedades e das culturas humanas. Houve uma mãe de ―santo os seus filhos de ―santo que com anel no dedo. seja uma mudança na iniciação. Até muitas vezes mesmo quando observamos escorregamos. Seja pelo relax do trabalho. A observação pesar de direta muitos dos terreiros nos Sacerdotes e mostra uma variedade que. além de existirem muitas trad ições a que se filiam. todas. A observação nos mostra que à medida mudança ainda maior. Mãe Senhora. Muitos autores falam dos orixás como se eles fossem as únicas divindad es africanas que vieram para o Brasil e que somente igiões afro brasileiras. a visitação às diferentes casas nos mostram as diferenças entre elas: cada casa é uma casa. que disse que queria todos vão adquirindo seus anéis. Esse olhar de tábula rasa torna tudo preocupar com as diferenças exatamente por desprezar as entrelinhas que muitos dos ‗informantes‘ não as conseguem diferenças. como ―macumba igual. às vezes pequenas diferenças. a Sacerdotisas dizerem. enxergar. explicitamente. seja pelo paulatino esquecimento d a senioridade. baiana. mas que existem. sem se ou ―terecô . seus rituais têm uma amento do tempo da camarinha. ou seja. formado. percebemos que isso não é real. começam a dife rituais. renciar seus À medida que abrem as suas casas. Não é eles é que fundaram as rel possível estudar essas religiões em busca de uma síntese que defina a todas de igual f orma. que suas casas são exatamente iguais à de seus pais ou mães. Com esse olha r. aqui e para atender ao tempo acolá nas comidas ou nas oferendas às divindades. reocupa em Franz Boas é reticente descobrir leis às grandes sínteses.

uma forma Essas questões de olhar para que cada única e abordadas a 43). se concordarem. mas ta mbém as mudanças. Muitos deles o lêem e. na refletem cada história da seniori ele complexidade cultura é sistema cultural específica e devemos cuidar com as comparações mentos para entender o cotidiano de um dado dade ou das linhagens prematuras. eles os ultos. Mas também podemos reavivar na memória dos neófitos o. a preocupação com isso é grande e nos remetemos à Franz Boas novamente. até ‗escutar atrás das portas‘ . mas é preciso sempre haver uma ssas pessoas.seus terreiros. Esse tipo de atitude remete a uma preocupação ética com relação ao que esc revemos. citado por Cuc he. acabam por modificar seus c fazem em busca de uma ligação maior com a ancestralidade africana. pois corremos o risco de modificar religião.Page 297----------------------grafamos. a exemplo que se reproduziram no Brasil através das casas de ‗santo‘. Boas diz. É o nosso olhar que 296 ----------------------. deve estar se diz nas conversas em maior ou menor grau – a atento principalmente ‗espontâneas‘. mediação com o que nos informam e Gosto da posição desse autor quando se remete às entrevistas. p. as adaptações culturais dos grupos. nos mostram as permanências. 1999. anteriormente possui. Pessoas qu ou introduzir que elementos caíram no na esqueciment elementos importantes. Para Buscar da questão Boas. Isso pressupõe um contato mais do grupo a ser estudado (CUCHE. Uma questão com a qual tenho me ocupado é a da senioridade que foi t . quando ele revela que não aprecia e nos apresentem são muito o recurso a ‗informantes‘. grupo. e acrescenta. que ―ao invés de realizar entrevistas formais a situação de entrevista pode modificar as tudo o que respostas -.

―quase despegados dos vivos e assimilados ao s mortos . 8-9). depois os vivos: dos m ais antigos aos mais novos. quando vemos algum membr o das religiões de matriz africana se manifestar publicamente: eles começam por reverenciar os mais v elhos. Esse f lagrante revela alguma vido mudança que está acontecendo à modernização ou à nas casas.ransplantada para a organização do Candomblé e era muito importante no desempenho dos papéis na organ ização social dos iorubanos tradicionais. em todos os canais. podemos observa r muitos casos de desrespeito aos idosos. a ancianidade é não só uma que stão biológica. pois ao m esmo tempo que nas casas mais tradicionais. Então. p. No Brasil. no ápice estão (SOUSA. uma pirâmide. por exemplo. Aqui. que trazem o até o presente o poder dos antepassados e que. é co mo se uma biblioteca se incendiasse (HAMPÂTE BA. as histórias se entrelaçam: a escravista br asileira e a mítica africana. isso se traduz. na rede das relações socia is. 1965. Essa é uma questão interessante e que devemos prestar atenção. 2004. em algumas casas. mostram claramente a hierarquização ―baseada na sucessão cronológica das pessoas 87). pedindolhes a benção. sempre em ordem de antiguidade. os mais antigos são reverenciad também presenciei atitudes de desrespeito ao mais velhos. para somente ao final reverenciar os mais novos. se pensarmos em antepassados da família. É nela. p. Nas sociedades tradicionais africanas. Essa é uma questão a ser t ratada 297 . mas uma qualidade social. que os religiosos buscam a autoridade de ‗mais velho‘. São os anciãos. 5 os grandes depois seus descendentes. os e sua linhagem é exaltada. a história. talvez de ocidentalização inevitável. Hampâté Ba diz que na África. ―quando um ancião morre. Lembro que na televisão.

----------------------- Page 298----------------------com mais vagar em um próximo momento, pois diz respeito a uma tradição herdada dos afr icanos, que está se modificando. Essa questão nos remete ao que Boas fala a respeito do método etnográfi co que, para ele, baseia-se no ―estudo das mudanças dinâmicas na sociedade que podem se r observadas no tempo presente sua história e, ainda caminhando com o mesmo autor, ―cada grupo cultural tem dependente do desenvolvimento interno pecu (BOAS, 200

própria e única, parcialmente liar do grupo social e

parcialmente de influências exteriores às quais ele tenha estado submetido 4, p. 47).

Portanto, tratar desse tema é compreender as mudanças e as influências externas às quai s o grupo está sujeito. Algumas considerações Vagner Gonçalves da Silva inicia o livro O Antropólogo e sua magia co m uma citação de James Boon: ―o centro deste estudo está no fato de que não apenas as culturas são plu rais, mas também os métodos de investigá-las. Culturas, histórias e métodos se comunicam discursivam ente através os de de um paradoxo semiótico, culturas que se porque os próprios métodos são produt

transformam no tempo s em territórios

(SILVA, 2006). Lançamos o olhar para culturas plurai

plurais que se pensam e se transformam com a ação do tempo, com dinâmicas próprias. Olha r para a cultura como um texto a ser decifrado, à moda de Geertz, e a pesquisa participan te, seguindo os passos de Malinowski, se tornaram meu norte. O Tambor de Mina foi uma descoberta fascinante: olhei para ele, estranhando e buscando decifrá-lo, conversei com os neófitos e com o s encantados, talvez mais encantada com as novas descobertas do que já estive antes com outras. E o apresentado aqui, são as primeiras impressões a respeito dessa tradição. Talvez nesse primeiro momen

to, tenha feito um pouco o que Boas critica: comparar. Comparei conhecimentos que já tinha d o Candomblé com o que estava descobrindo de novo. Busquei similaridades e encontrei, afinal, o Candomblé e o Tambor de Mina são religiões afro originadas. Também encontrei diferenças. No tempo dessa escrita percebi a complexidade do diálogo entre os t erreiros e entre os terreiros e a academia. Narrar neira de compreender e de essa complexidade é também uma ma

exercitar a capacidade de estruturar a experiência passada e presente, remexendo a memória para mantê-la ativa. 298 ----------------------- Page 299----------------------Referências Bibliográficas BOAS, Franz. Os métodos da etnologia. In: Antropologia Cultural . Rio de Jan eiro: Jorge Zahar, 2004. CUCHE, Denys. Franz Boas e a concepção particularista de cultura. I n: A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, SP: EDUSC, 1999. HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. Confrontações culturais. Entrevista concedida a Philippe Decraene. In: Thot. N  80 – abril/2004. LEITE, Fábio. A questão da palavra em sociedades negro-africanas. In: Thot. N  80 – abri l/2004. LUCA, Taíssa Tavernard de. Devaneios da memória. A história dos cul tos afro-brasileiros em Belém do Pará na versão do povo de santo. Monografia graduação em His tória. Belém: UFPA, 1999. MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da tro ca nas sociedades arcaicas. In: Sociologia e Antropologia. Vol. II. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974. MAUSS, Marcel. As técnicas corporais. In: Sociologia e Antro pologia. Vol. II. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974. PEIRANO, Mariza. Rituais. Ontem e hoje. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. SILVA, Vagner Gonçalves da. O antropólogo e sua magia. São Paulo: EDUSP, 2006. a SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida. 2 . ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. A., 1988. SOUSA, Alfredo de. As sociedades tradicionais africanas. In: Econo mia e sociedade em África. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1965.

299 ----------------------- Page 300----------------------A MÍSTICA DO PRETO-VELHO EM PONTOS QUE CANTAM E CONTAM Admilson Eustáquio Prates166 Introdução O texto pretende analisar as músicas que são cantadas na Umbanda, precisamente no ri tual de pretovelho. Para tanto, fazer se necessário uma hermenêutica e uma exegese das músicas para visualizar a mística presente nos versos cantados durante o ritual. Além de propor uma interpretação das musicas, o texto também apresenta uma analise descritiva e a nalítica do ritual de preto-velho presente na Umbanda-Sertaneja167. Imaginário acerca da Umbanda É olhares como, possível compreender por exemplo, a Umbanda a partir de vários

culto de pessoas atrasadas culturalmente, religião de resistência à invasão cultural eur opeia, como uma seita de adoração aos espíritos do mal, mas podemos também visualizar a Umbanda como uma religião tipicamente brasileira que expressa em seus ritos a hibridez constituinte do povo brasileiro. Neste artigo, vamos concentrar como atmosfera mística, sobretudo na Linha de Preto-Velho. Mística sugere mistérios, magias, encantos... Tal afirmação é possível porque , durante as pesquisas de campo, observamos os adeptos vivenciando e celebrando o mistério n as danças, nos gestos, nas vozes, nas dramatizações os expectadores que eles transitavam por outra realidade Onde não mais existia o ritualísticas, realidade por que demonstravam a nossa atenção, visualizando a Umbanda

– uma

imagética-mística. o que entre e

indivíduo, e sim a totalidade. Entendemos nos remete a Plotino (Cf. BAL, 2007), que afirmava que a le (o indivíduo) e a experiência mística

totalidade

não conhece

o abismo

respiração cósmica. Tudo Silesius, em seus

é uno.

Recordando

o

místico

cristão,

Ângelu

mergulhos no oceano infinito de onde tudo provém, diz: ―A pequena gota se tran sforma em mar quando chega até ele; e assim quando é nele acolhido. (apud GAARDER, 1995:154). Mística Dessa maneira, podemos e Sertaneja que será falar de uma Umbanda a alma se transforma em Deus,

apresentada a partir da Linha de Preto-Velho em pontos que cantam e contam a estór ia deles e o sentido do culto, expressa pela vivência ritualística do povo de santo. Para tanto, faz-se necessária 166Graduado em Filosofia. Mestre em Ciências da Religião - PUC/SP. Professor na Univ ersidade Estadual de Montes Claros. E-mail: adeprates@yahoo.com.br 167 Sobre Umbanda-Sertaneja ver: MARQUES, . Umbanda Sertaneja. Cultura e Ângela Cristina Borges

religiosidade no sertão norte-mineiro, 2007. 238 p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) Pontifícia Universidade Católica, São Paulo. 300 ----------------------- Page 301----------------------uma hermenêutica mistério presente e uma exegese nos versos das músicas para visualizar o

cantados durante o ritual. Sobre o Ritual A pesquisa de campo, a coleta de dados, para a construção deste traba lho foi realizado no dia cinco de maio de dois mil e dez na Roça Gongobiro Ungunzo Mochicongo168 durante a cerimônia de Umbanda, precisamente O ritual apresenta as seguintes estruturas narrativas abaixo. É pra as É pra as Eu estou É pra as É pra as Eu estou almas. almas. com as almas. almas. com as ((Preto Velho) (mediuns) almas (mediuns) ((Preto Velho) (mediuns) almas (mediuns) na linha de Preto-Velho.

O ritual inicia saudando as almas como pôde ser visto logo acima, e sse cumprimento provoca, cria e conduz aqueles que compõem a cerimônia para uma atmosfera mística, ou seja, para o mistério e os encantos. O ritual é desenvolvido por pontos cantados, acompanhados de palmas, atabaques, triângulos. As cantigas entoadas durante a Linha de Preto-Velho apresen tam a seguinte sequência: Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Oh minha santa Rita Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas na hora de Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas na hora de Deus Oh minha santa Rita Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Oh minha santa Rita Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas ... na hora de Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas ... na hora de Deus .... Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas 168 Templo sagrado, roça ou terreiro como é conhecido e denominado entre o povo de s anto. Esta roça a qual a pesquisa foi realizada localiza-se em Montes Claros / Minas Gerais. 301 ----------------------- Page 302----------------------Oh... tenha dó das almas Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas Oh... tenha dó das almas Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas Oh... tenha dó das almas Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas Oh... tenha dó das almas clamando a que padecem tanto que padecem tanto que padecem tanto que padecem tanto pontos cantados evocando,

O culto inicia-se com os Santa Rita, ao São

Miguel Arcanjo e dizendo que ―Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus . Qual o significado da Santa

Rita e do São Miguel Arcanjo neste ritual? Quem são Santa Rita e São Miguel Arcanjo? O que eles representam para a linha de Preto-Velho? s que nos ajuda a entrar na São perguntas Além como essa

atmosfera mística do culto aos Preto-Velhos. os a entender qual o lugar

disso, instiga-n

ocupado pelos cânticos no imaginário-identitário do povo de santo sertanejo. Assim, re alizaremos, análise descritiva e interpretativa dos pontos cantados com o propósito de traçar algu mas respostas que nos aproximemos da cosmovisão do povo de santo sertanejo. aproximação Para compreensão hermenêutica e do ritual, faremos uma primeira

exegética. Temos consciência de que há muito que aprofundar. Para iniciar, agrupamos a s músicas buscando identificar um padrão entre elas, mantendo a sequência que foi cantada dura nte a linha de Preto-Velho. nvestigar o Outras perguntas surgem sentido místico dos quando nos propomos i

cânticos Afro-Sertanejo, por exemplo: qual o encanto ou o mistério que existe nestes versos e nas estrofes dos pontos cantados? Por que esses pontos são sagrados? Onde está a mística n a Linha de Preto-Velho? Ou melhor, o pela Umbanda-Sertaneja, sobretudo na Linha de Preto-Velho? a Rita ocupa Retornamos a pergunta no imaginário do inicial sobre o lugar que Sant que é uma mística Afro-Sertaneja expressa

povo de santo. Para suscitar algumas reflexões sobre o assunto podemos relacionada s à biografia da santa Rita, como o ritual de Preto-Velho. de maneira sintética, Começarem apresentado Santa

concentrado nossa atenção nas características que poderá associá-la a atmosfera mística dos PretoVelhos. Ela, Santa Rita, como todas santas foi temente a Deus, viveu uma vida de renúncias, mas sempre com os olhos direcionados para a vida além das experiências terrenas. U ma senhora

que passou por varias provas, sendo uma delas, as impostas pelas superiores do c onvento para saber se ela - a santa – era uma noviça obediente. Como ilustração vamos apresentar a prova on de a santa deveria icação, regar um galho seco obediência, humildade, 302 ----------------------- Page 303----------------------serenidade ela regou o galho por mais um menos um ano. Tal galho estava destinad o ao fogo, por está seco. E após, um ano de cuidado ele começa a florir e a produzir uvas que continu a dando a até hoje, segundo dados torno de dela é da de biografia de alguém que Santa cresceu Rita. no As estórias em pela manhã e pela tarde. Com ded

conheceu e vivenciou o sofrimento, e fé em Deus, trilhou a via

amor – caridade -

purgativa, o caminho da perfeição, da simplicidade. Santa Rita, Além disso, com base ela realizou vários nos relatos sobre a vida nece de

milagres e tinha um senso de cuidado, ou seja, amava e cuidava daqueles ssitados. Por isso,

quando começa o ritual invoca Santa Rita. Invoca o amor, a simplicidade e o cuidad o que são traços característicos que retrata a áurea mística da santa. Naquele momento, quando os médiuns cantavam os seguintes versos ―Hoje é dia... hoje é dia... é dia Deus / Oh minha santa Rita / Hoje é dia... hoje é dia... é dia Deus / Ôôô viva as almas (bis) . E que percebiam entre eles um clamor ao amor divino

Santa Rita levaria todos os pedidos e traria de Deus o conforto para viver. Outro elemento característico do canto nos rito de Preto-Velho é nos fazer recordar o rosário, o terço rezado com ladainhas. na linha de Preto-Velho são orações, mantras que conduzem tual para um espaço-tempoimagético-místico das romarias, calma, tranquila, com os das Pois, os os cânticos integrantes é uma presentes do ri cerimônia

participantes, procissões.

Este rito

uma gira ersonagens

que anda em volta Preto-Velhos - a

dos

médiuns

incorporados – com

os

p

passos lentos que nos lembra atitude de simplicidade, de renúncias, de sofrimento e de oração pelo corpo. E que tal sofrimento não retira a beleza de estar vivo e participando de al go maior que eles mesmos. em como Este clima místico, personagem principal expresso no ponto cantado que t

Santa Rita, pode ser encontrado também na seguinte oração que os fieis católicos profess am a santa. Como pode ser visto logo baixo: Oração a Santa Rita de Cássia169 Ó poderosa e gloriosa Santa Rita, eis a vossos pés um alma desamparada que, necessitando de auxílio, a vós recorre com a doce esperança de ser atendida por vós que tendes o incomparável título de SANTA DOS CASOS IMPOSSÍVEIS E DESESPERADOS. Ó cara Santa, interessai-vos pela minha causa, intercedei junto a Deus para que me conceda a graça 169 Fonte site: http://www.paroquias.org/oracoes/?o=185. Acesso em 20 de maio de 2010. 303 ----------------------- Page 304----------------------de que tanto necessito (dizer a graça que deseja). Não permitais que tenha de me afastar dos vossos pés sem ser atendido. Se houver em mim algum obstáculo que me impeça de obter a graça que imploro, auxiliai-me para que o afaste. Envolvei o meu pedido em vosso preciosos méritos e apresentai-o a vosso celeste esposo, Jesus, em união com a vossa prece. Ó Santa Rita, eu ponho em vós toda a minha confiança; por vosso intermédio, espero tranquilamente a graça que vos peço. Santa Rita, advogada dos impossíveis, rogai por nós.

Tanto no ponto cantado quanto na oração observa-se uma relação estreita e ntre santa Rita e as almas. Além disso, confirma os nossos primeiros traços característicos em to rno da áurea mística de Santa Rita associado à Linha de Preto-Velhos ou Linha das Almas como é conh ecido o ritual também entre o povo de santo. Em outro ponto cantado há a presença de um personagem impregnado de e ncanto e de força mística tanto para os católicos o São Miguel Arcanjo. Ele é quanto para o povo de santo,

invocado, clamado, solicitado da seguinte maneira na música-oração: ―Meu São Miguel Arcanj o / Benzador das almas / Oh... tenha dó das almas que padecem tanto . O que esses versos nos faz pensar? O que é alma? Duas da por sabemos que não simples perguntas que nos incomo

conseguiremos responder de maneira satisfatória. Pois os versos não apenas nos faz a penas pensar, mas ínsita, desperta sentimentos profundos e pensamentos intensos que segundo o po vo de santo, eles são arrebatados para outro plano, um lugar que o espaço e o tempo não existem. So bre aquela pergunta ficamos inquietos, sem respostas. Talvez a resposta seja essa: a inquie tação. A outra pergunta o que é alma? Inicialmente acende na naquele que d eseja responder um sentimento de frustração, pois é sabedor que tal pergunta suscita agitação, ansiedade, um mal estar porque logo após a pergunta anunciada, ela já demarcou o limite da responda. L imite este, do próprio autor da pergunta. Essa agitação juntamente com o mal estar e a frustração espelha aquilo que a pergunta deseja: o movimento, a reflexão, despir frente à pergunta. Novamente, o que é alma? Podemos entender a alma primeiramente a pa rtir do próprio cântico que evoca algo imaterial, poder sobrenatural, poder misterioso, invisível, i mortal, fantasma. Podemos também entender ideia de alma como um espectro, expressando o dualismo cor po/alma.

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―As representações simbólicas da alma são tão numerosas quanto às crenças que sob elas existem (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1993: 31). Ainda é possível vislumbrar a alma como sendo e seja, a percepção e organização do espaço esta a maneira como interpretam

sinônimo de consciência, os, atribuímos sentidos significados ao externo – mundo viver. Ou natural /

natureza - e interno – mundo psíquico, as paisagens mentais, as redes de significad os -, do tempo, enfim os pensamentos e os sentimentos. Assim escreve Russ sobre alma, ―Etim.: lat im, ar, sopro, principio ensamento, de mas vida; o masculino, também a do (1994: 09). animus, designa a sede do p

sentimento e das paixões epções,

Avançando na interpretação simbólica da alma, seria ela a consciência – perc idéias, sentimentos, volições so em atos, em etc -, ou seja, a morado do ser, o próprio ser juízos éticos sobre o bem e o expres mal. Vo

praticas morais, em intenções, ltemos aos versos para nos

auxiliar na explanação: ―Benzador das almas / Oh... tenha dó das almas que padecem tanto . O que significa ter dó das almas que padecem tanto? Inicialmente penso que seria ajudar, apaziguar, ou seja, ―livrar as almas do fogo do inferno , socorrer a almas, retirando-as arras do dragão – das g

diabo, santanãs -. Penso também que aliviar a dor – ―que padecem tanto - seria mediar o c onflito da consciência entre o bem e o mal, o poder e o não poder realizar alguns desejos. P osso ainda ir um pouco mais além entendo padecem enquanto tomada de consciência do absurdo que é a exis tência humana que, por sua vez, é uma ntido a dinâmica de estar vivo e luta constante em atribuir se

lançado, abandonado no mundo. Padecer, ainda nos remonta a noção de angustia.

. Ámen.. Outros pontos são cantados durante o ritual com a seguinte narrativ a: Andei .paroquias. e vós.. instantemente o pedimos. ) (CARVALHO. isto é. pelo divino poder. Deus o submeta. é um exercício vivo ―. ê ê ê..Page 306----------------------Em nome do Pai. protegei-nos no combate. de cr iar o mito das entidades a que se referem através das letras dos cânticos a elas dedicados (.. 170 http://www. andei meu pai pra conhecer Bati na porta minha mãe para ti ver O meu destino meu pai quem dá é Deus Venha me valer meu pai o Baluaê Baluaê ê ê..te Tais versos cantados à oração de São Miguel apresentam uma ideia semelhan Arcanjo proferida entre os católicos como pode ser visto logo abaixo: Oração a São Miguel Arcanjo170 São Miguel Arcanjo.. de mythopoieses. E theologein (teologia) ―fala sobre o divino . precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo procurando perder as almas. Os pontos ca ntados nos atestam à experiência de estar vivo. defendei-nos com o vosso escudo contra as armadilhas e ciladas do demónio. Dessa maneir a.. Príncipe da milícia celeste. Acesso em 20 de maio de 2010 305 ----------------------. do Filho e do Espírito Santo. 1997: 95).. A similaridade entre os textos tanto da oração cantada entre o povo d e santo e a oração proferida entre os católicos pedem ao São Miguel auxilio para as almas..org/oracoes/?o=230. podemos perceber a riqueza mitopoética do ponto cantado e da oração. O mythos (mito) significa literalmente ―fazer através da palavra .

o tesouro e a po breza extrema. ê ê ah. Na primeira cantiga visualiza-se o desejo de conhecer. caminhar. Baluaê ê ê. Eu andava perambulando sem Eu pedi a santas almas que Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor Eu andava perambulando sem Eu pedi a santas almas que Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor ter nada para comer viessem me valer (bis) (bis) ter nada para comer viessem me valer (bis) (bis) 306 ----------------------... ê ê ê. apresentam uma atmosfera de perambular. entre A narrativa cenário familiar com a do primeiro ponto cantado reproduz também um . . É o convite à viagem rumo a um além. de fazer a passagem de um lugar para outro como pode ser percebido a part ir do simbolismo da porta que implica sair de um estado ou de uma situação para outra.. Mas ela tem um valor dinâmico..Page 307----------------------As movimento: duas músicas andar. ê ê ê. ê ê ah. andei meu pai pra conhecer Bati na porta minha mãe para ti ver O meu destino meu pai quem dá é Deus Venha me valer meu pai o Baluaê Baluaê ê ê. Ela retrata a ideia de passagem entre dois estados.... ê ê ê. ê ê ah. mas convida a atravessá-la.. Baluaê ê ê. GHEERBRANT... Baluaê ê ê. psic ológico... (CHEVALIER.. entre dois o conhecido e o desconhecido. de saber. ir à busca de algo. a luz e as trevas. 1993: 734-735) mundos. ê ê ah... Baluaê ê ê... Andei . vagar.. A porta se abre sobre o mistério..Baluaê ê ê....... pois não somente indica uma passagem.. Baluaê ê ê..

morrer é retornar à terra. Nascer é sair do ventre da mãe. com a grande mãe. dos desejos espontâneos. pensamentos. Ou significados. o saber. expressando Por a outro. a reconstruir-se. a palavra paixões. Além de evocar uma paisagem familiar o simbolismo do pai e da mãe nos remete a outras visões. o pai ―representa a consciência diante dos impulsos instinti vos. O que eles nos fazem pensar? Perc ebemos . Enfim. GHEERBRANT. eja.. Sabemos que a palavra proferida evoca ideias. o encontro com a mãe representa sair ou retornar. o pai está ligado à esfera masculina. Este ato de chamar. do inconsciente. ‗regressar a mãe‘ significa morrer. Ele apresenta também uma ambigüidade. estórias e histórias. ao principio ma sculino que representa o consciente. ncipio feminino. incita a memória a pronunciada reorganizar-se. a experimentar o sentimento de estar vivo. ―Por esta razão. a lei e a norma. 1993: 580). rte. ritualiza a memória. sonhos. vida ou morte . com o infinito. ritualizar a memória é quando provoca. incomoda. é diante das forças novas de mudança o mundo da autoridade tradicional (1993: 678).. Ou s segundo o ensino hermético. (CHEVALIER. O primeiro verso da música é: ―Andei. como por exemplo. enfim. tocar a porta é a experiência mís tica do encontro com o absoluto. Concentrando nossa atenção agora em outros versos da narrativa: ―O meu destino meu pai quem dá é Deus / Venha me valer meu pai o Baluaê . 2005: 362). com movimento de nascer e morrer. Segundo Chevalier e Gheerbrant. sentimentos. O pai é o conhecimento.presença da palavra pai e mãe. a imagem da mãe simboliza o pri natureza: vida e mo (CIRLOT. andei meu pai pra co nhecer . seja. ―Encontra-se nesse símbolo da mãe a mesma ambivalência que nos da terra e do mar: a vida e a morte são corr elatas. ―Bati na porta minha mãe para ti ver .

caçador. Ele é o orixá da terra – do i nterior da terra . ou seja. decidir previamente. independentemente de nossa ação no mundo. vonta de divina sobre ação humana. Isto é. nunciadas entre o povo de santo. sobrenatural. com a ação do destino sobre o copro. (RUSS. atenuar. Baluaê. a regência do mundo Tal concepção sobre destino pode ser conf . o u seja. 1994:65) O destino é responsável por toda trama humana na terra e sobre a ação do destino na vida dos humanos. eles recorrem a Baluaê. todos os acontecimentos do universo.. as doenças. falamos em destino negamos a dimensão divino e encanto quando elas são pro ―destino meu pai quem dá é Deus . Por isso. Destinare.nos versos a permanecia da palavra pai e novas categorias .destino e Baluaê . Representa ta mbém o sol e rege a saúde.Page 308----------------------O que é destino? Quem é Baluaê? Qual a relação entre destino e Baluaê? Para c omeçar podemos entender destino como uma categoria que designa algo sobrenatural. fixar. eles recorrem ao Deus da ter ra. irmada no dicionário de Filosofia: Etim. Poder misterioso que governaria o curso das coisas e. suavizar as dores implacáveis que o destino lança sobre os humano s. 307 ----------------------. o senhor das doenças e das moléstias. E sobre o destino a única coisa que podemos fazer é aceita r e submeter à vontade de Deus. Na visão dos adeptos somente Balu aê pode abrandar. ou melhor.: lat. Ele.que suscitam a noção de transcendência. entre o povo de santo. Como pode ser lido na narrativa: ―Venha me valer meu pai o Baluaê . Baluaê. quando da liberdade. de uma maneira geral. divide juntamente com Iansã o espaço do cemitério. quando o povo de santo depara-se com as dores. o guerreiro.

pois os corpos após a vida será zelado por Baluaê. ‗jogar-com‘. expressando um fenômeno oculto. das cantigas vivenciadas entre o pov o-de-santo sertanejo. orientando. impregnado de mistério. em outras mortos.das almas -. sobre tudo da camada mais profundas da terra. conduzindo. Entre os gregos. do verbo symball ein. com o pode ser visto pelo próprio conceito de símbolo exposto por Ramos: A palavra símbolo vem do grego symbolon. mostrando os espíritos desencarn ados . ou seja. mas. surgindo dessa relação com a terra a ideia de ligação com os mo rtos. tradição oral é um espelho que reflete a dinâmica d os ritos. O símbolo nos lança e nos arremessa ao encontro com outra metade. dão sentido à existência e estimulam a sensação 171 Utilizo o verbo criar não como algo que aparece. das lendas. dos objetos. ‗arremessar ao mesmo tempo‘.as almas o caminho a seguir. Conhecido também com o orixá palavras: ―Venha me valer meu pai o Baluaê . Almejar compreender uma cultura a partir dos seus mitos. como a possibilidade de o ser humano construir realidades a partir da reflexão e da ação. que surge do nada. dos mitos. (1998: 63) . sim. Compreendemos que tudo que o ser humano cria171 apresenta traços psico-sócio-antrop ológico do autor da obra. Considerações finais As cantigas. 308 ----------------------. dos gestos.dos mortos . Porque ele na cosmovisão afro-sertaneja é rei da terra.Page 309----------------------de estar vivo. retorna a terra e as almas. era o nome dado à união das metades de uma moeda com o obje tivo de identificar duas pessoas separadas há muito tempo ou de autenticar uma mensagem le vada por um mensageiro legitimado pela metade faltante da moeda. lendas e fábulas é mergulhar em um universo repleto de símbolos que orientam. os espíritos serão guiados para o mundo dos misericordioso. ‗lançar com‘. ou seja.

assim. as imaginações maginações e cosmovisões. O real são as várias versões da realidade. seja conhecer possível. expressos por meio das palavras em forma de rituais. carregada de onomatopeias presentes nos rituais em . às lendas. compreender o real por meio eal mediada pelos símbolos. o real.) (2002: 89) Nesta perspectiva. vão caracterizando um jeito peculiar de povo de santo Afroviver do Sertanejo. de sen tidos. cantigas. lendas e fábulas. de pensar e viver científico ou filosófico. a permite vislumbrar a enfim. elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as m ais secretas modalidades do ser. os e.Eles. são carregados de valores.. humano. podendo O estudo do pensamento simbólico abre fendas capazes de decifrar c ertos aspectos do real na forma de realidade. religioso cultura. construindo. seu estudo nos permite melhor conhecer o homem (. ndimento Por outro lado. é mister dos símbolos. ao sagrado. azer cotidiano. de amarras e de teias culturais que prendem o indivíduo no f também abrir portais para outros caminhos não traçados ainda. mas que poderão ser tecidos com as linhas herdadas da cultura: ―. As imagens. A realidade co rresponde aos mitos. escreve Eliade: a ser da criança. aspectos do poeta a precede da realidade O pensamento simbólico não é uma área exclusiv ou do desequilibrado: ela é consubstancial ao linguagem e a razão discursiva..: 1998: 66).. os símbolos. realidade expressa Para Sobre pelo que a fenômeno tal ente percepção do r individuais que se ao profano.. interagem ao com modo outras i a identidade. O símbolo revela certos – os mais profundos – que desafiam qualquer outro meio de co símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psiqu nhecimento. Por isso. o símbolo é po r excelência um mecanismo transformador de energia (Ibid. os símbolos. O movimento da palavra ritmizada. aos ritos.

7ª ed. “Exu agodô. 2001. José Jorge Rio de de. São Paulo. mas a carne eu não dou”. O Mundo de Sofia.Page 310----------------------Bibliografia ABBAGNAMO. BAL. Umbanda Sertaneja. GAARDER. n. Nicola. 1993. 238 p. 18. v. CARVALHO. ________________. Pontifícia Universidade Católica. São Paulo: Centauro. Ângela Cristina Borges. São Paulo: Martins Fontes. Juan-Eduardo. p. 2000. São Paulo: Paulus. São Paulo: Companhia das Letras. Religião Janeiro. A tradição mística afro-brasileira. São Imagem Paulo: e Símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-r Martins Fontes.forma de cantiga. 93-122. CIRLOT. 2002. Mito e Realidade. apresenta os tidades. Jean. _____________. Dicionário de símbolos. 309 ----------------------. Contos e lendas Afro-brasileiras: a criação do mundo. 2007. São Paulo: Com panhia das Letras. o sangue eu lhe dei. a origem das en elas. Mircea. e Sociedade. São Paulo: Martins Fontes. Silêncio e contemplação: uma introdução a Plotino. Reginaldo. _____________. 2007. PRATES. Admilson Eustáquio. 2004. 1997. Lisboa/Portugal: Edições 70. eligioso. 2005. Traço s Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) . venceram e vencem as demandas. Dicionário de símbolos. Dicionário de Filosofia. GHEERBRANT. e. Alain. Cultura e religiosidade no se rtão nortemineiro. Rio de Janeiro: Jo sé Olympio. 2. _____________. 2007. Gabriela. sonhos e mistérios. ELIADE. 2006. Sagrado e profano. Jostein. PRANDI. São Paulo: Perspectiva. 1995. como mitos de constituição do mundo. Mitos. MARQUES. Mitologia dos Orixás. 2000. CHEVALIER. São Paulo: Companhia das Letras.

São Paulo. Ênio José da Costa. Articulando fontes variadas tais como jornais de época. Jacqueline. ROSA.característicos da identidade de Exu-Sertanejo. issertação (Mestrado em Ciências da Religião) Pontifícia Universidade Católica. Religião ano 2000. Dicionário de símbolos: alfabeto da linguagem interior. ofícios consulares e regi stros policiais. Para tanto. buscamos cruzar informações e narrativas para desvelar as trajetórias e experiências de busca por autonomia e liberdade dos fugitivos escravos que conformaram parte das práticas de resistência à instituição no período de 1850 a 1870. chamando atenção para as fugas nos limites internacionais do seu território. São Paulo: Editora Escala. 1994. A vivência simbólica no desenvolvimento da consciência. 1998. 2009. 2009. 2009. expressos no imaginário religioso Af ro-Sertanejo da cidade de Montes Claros/ MG. Ygo r Olinto Rocha Cavalcante172 RESUMO: O presente trabalho objetiva discutir as fugas e scravas no Amazonas Imperial. Maria Cecília Amaral. Denise Gimenez. RAMOS. 310 ----------------------. mas também relatórios de presidente e fugas de escravos. notícias limites de captura 192 p. Admilson Eustáquio.Page 311----------------------NOS LABIRINTOS DA LIBERDADE: NOTAS DE PESQUISA SOBRE FUGAS ESCRAVAS NAS FRONTEIRAS DO AMAZONAS IMPERIAL (1850-1870). a região do Amazonas Imperial enquanto área de fronteira. utilizaremos não só os anúncio s de fuga. Sala de Espelhos. ainda. PRATES. suas rotas e desv elar. São Paulo: Editora Scipione. et al. Montes Claros/MG: Unimontes. São Paulo: Edições Loyola. relatórios provinciais.Fugas escravas – Amazonas Imperial Este texto tem como objetivo discutir as fugas. RUSS. Dicionário de Filosofia. 63-75. Palavras-chave: Escravidão . In: BRI TO. D questão de e fronteiras de e narrativas no sentido . p. contidos na tradição oral. bem como da XIX. os ofícios consulares sobre a segunda metade do século O intuito é entrecruzar fontes de província.

Tinha a fala pouco compassada e bastante baixa. destinos para que Gabriel Nessa direção. e isso com a finalidade de confundir as s uas estratégias para reaver o cativo e. teria embarcado para os rumos do Pará ou Lisboa. os seus pudesse viver em liberdade .compreender experiências eceram com as trajetórias e mas também as redes que estabel dos escravos fugidos. despistar o fujão. 18 a 20 annos de idade. Sabia ler. escrever e entendia ―alguma cousa de francez e de desenho .173 redes de Mas o proprietário de solidariedade que ele Gabriel estava atento para as havia deixado no Maranhão. baixo e grosso. 311 ----------------------. Pelo que também anunciava seu proprietário. Pode-se imaginar o estado de irritação em que se encontrava o senh or José Serapião Lapemberg quando soube que seu cativo havia fugido naquele dia 7 de dezembro de 1873. cara muito larga e bochechudo. Gabriel fugia da cidade do Maranhão onde trabalhava como escravo alugado na ―typo graphia do Paiz . desencontros e solidariedades na província do Amazonas e suas fronteiras no período de 1850 a 1870. outros atores sociais entre encontros. 172 Aluno do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal do Amazonas – P PGH/UFAM – e bolsista da Fundação de Amparo e Apoio a Pesquisa do Amazonas . S eu senhor o descrevia como um ―carafuz quasi preto. Desconfiava que tantos destinos pudessem ―ser b oato de propósito espalhado pela tal rede de camaradagem.FAPEAM 173 Commercio do Amazonas.Page 312----------------------No entanto. E ainda existia um terceiro destino que não escapava de suas suspeitas: a província do Amazonas. olhos pequenos . 11/01/1874. o que nos parece flagrante até aqui é a existência de um u niverso bastante amplo de fugidia. conseqüentemente.

século XVIII. Por outro lado. Mariza de Carvalho. Mesmo por que. sólidas e de intensas interações. sair de um lado do império seus confins. parece para se embrenhar um relevante nas matas e rios dos indício de consistentes redes sociais e de alguma experiência para vencer distâncias tão hostis.deslocamentos apontam para rotas extensas. In: SOARES. Mariza de Carvalho (org.).174 ações africanas Segundo Arthur na Amazônia Reis. as primeiras inserções das popul ocorreram quando em finais do século XVI os ingleses tentam sem sucesso conquistar as terras do ―extremo norte . Rotas atlânticas da diáspora Afri .176 As ressalvas sobre a densidade da população de escravos no Amazonas são freqüentes e é certo que não encontraremos na região números tão expressivos de escravos quanto nos p lantéis de outras regiões do Império brasileiro que tiveram suas economias basicamente suste ntadas pela mão-de-obra africana – como é o caso das localidades se desenvolveram as grandes fazendas monocultoras e áreas de mineração intensiva. Vale lembrar que a inserção dessa população s e deu em um primeiro momento no emprego como mão-de-obra das lavouras de cacau e nu m segundo momento na agricultura e na pecuária. quando a ial. Indícios para o traçado das rotas terrestres de esc ravos na Baía do Benim. O tráfico fugas suscitam problemas que envolvem a diáspora africana e que abarcam todo o atlântico na medida em que se proc ura destacar ―a dispersão dos escravos africanos e as suas modalidades de re-inserção social nas América s. estabelece uma conexão direta entre a Amazônia Portuguesa e os portos africanos. o fato de que o cativo do Maranhão entendia ―alguma cousa de francez a atenção para ca questões que inserem as num âmbito de reflexão fugas de escravas escravos da região e as rotas cham amazôni de historiográfica internacional.175Esse quadro quase fortuito e esporádico se mantém até meados do século XV III. com partir de então os incentivos e uma a série de modificações na política colon criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão.177 em que 174 SOARES.

Líbano (orgs. A. Flávio dos Santos Liberdade por um fio: historia dos quilombos no Brasil. bem como o tema da etnicidade tem sido tratado pel os intelectuais em uma perspectiva atlântica desde pelo menos 1920.178 nsonância Cabe lembrar que este texto com as reflexões da guarda negra no uma profunda Brasil. Carlos E. desta presença.).. 177 Idem. ―Nasci nas matas. Vol . 2005. 1996. 176 FUNES. In: REIS. acreditamos que outra perspectiva é possível para a anális e da presença de africanos na itativo. Arthur C. Segundo Flavio Gomes. o qu e se critica é a percepção de uma visão ―economicista nto das em que o escravismo desmorona com o adve . 2007. a chave da questão é a ―própria montagem e reiteração de uma sociedade disponíveis escravista cuja lógica não se limita ao número de almas nos plantéis . Tempo e Vida na Amazônia. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. No labirinto das nações: africanos e identidades no Rio de Janeiro. Niterói: EdUFF. GOMES. 1810-1888. Série Alberto Torres. Ibdem. 1965. Rein ventando as nações: africanos e grupos de procedência no Rio de Janeiro. Manaus: Edições Governo do Estado do Amazonas. Flavio dos Santos. 175 REIS. o prob lema da dispersão dos escravos africanos na diáspora. Ver: GOMES. 66. mas região que não pelo qualitativo passe necessariamente pelo vetor quant (org. In: REIS. p 470. Em resumo. Tais co e historiografia recente sobre a escravidão studos se distanciam de quadros teóricos que acabavam por diluir os escravos como ―coisa . F..). C. São Paulo: Companhia das Letras. F. p 470. pp. Ainda concordando com o raciocínio de Sampaio. 312 ----------------------. 143156. mas também perspectivas teóricas e metodológicas inovadoras. Flavio S. De acordo com Patrícia Sampaio.cana: da Baía do Benim ao Rio de Janeiro. trazendo discordâncias. p. nunca tive senhor : Historia e memória dos moc ambos do baixo Amazonas. século XIX. Julian a B.Page 313----------------------Entretanto. João José & GOMES. polemi cas. O negro na empresa colonial portuguesa. a presença de africano s ―reitera relações de subordinação e poder que dão vida ao próprio sistema escravista . in: FARIAS. Para tanto. SOARES. Eurípedes A. 03.

Patrícia Melo.180 Com isso não queremos afirm ar que mulheres ofereciam pouca resistência ns fugiam mais. substituídas por uma visão ―política que passa a acentuar a destruição da instit ição escravista como o resultado de um processo de lutas entre sujeitos historicamente constituído s. século XIX.Publicação do Curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. a província do Amazonas. out. Teias da Fortuna: acumulação mercantil e escravidão em Mana us. existia um Apesar sentido disso. Mesmo porque. Flávio dos Santos. ela fugiu do cativeiro e juntos seguiram da cidade de Óbidos. fugir não é uma tarefa fácil. p. sobretudo quando se carrega no col o crianças que mal podem se defender ou se proteger dos perigos e dificuldades de tal enver gadura. Mneme . Mulheres africanas foram trazidas em menor quantidade durante todo o tráfico negreiro. 8. de 2002. n./nov. Ele desertou do posto de soldado.6. É sabi do que os laços que as mulheres estabelecem com o que aqueles que os homens seus filhos são mais fortes d possuem e isto deve ter interferido sobremaneira nas escolhas das mulheres escra vas nos destinos a seguir. A Hidra e os Pântanos: mocambos.Revista de Humanidades . Assim nos parece ter feito a escrava Benedita que se uniu em fuga ao mulato Fran cisco de Souza Lima em 19 de fevereiro de 1861. ao cativeiro É preciso ou categoricamente afirmar que home dimensionar várias questões para melhor analisar o percentual de fugas femininas (21 %).relações econômicas de cunho existência de aspectos discriminatórios e excludentes ssim.3. 179 GOMES. das escravas fugidas Podemos afirmar que a maioria delas fugia com o objetivo de consolidar laços afeti vos e familiares. podemos logo destacar que a maioria dos escravos que fogem é do sexo masculino (79%). no horizonte muito claro. v. para 178 SAMPAIO. estas perspectivas são capitalista da sociedade e outra percepção que nega A a escravista brasileira. quilombos e comunidad .179 Sobre as fugas no Amazonas. Caicó: UFRN-CERES. interior da província do Pará.

Ygor Olinto R. Agosto/2008. p. ―gorda. 313 ----------------------.27. as cativeiro de desempenhava uma em mas também de historicidade jovem pelo mundo que mundo marítim experiências de provavelmente escrava vendas bastante cotidianamente serviços domésticos e tagarelava urbano de Manaus.18. cidade da Barra.Page 314----------------------segundo temia seu senhor. São Paulo: Ed UNESP/Polis. sobre a Sem poder oferecer alguma fuga de Thereza. distintas. um indígena impelido o. Esses mundos que se cruzam desvelam não só o encontro de s grupos sociais diferenciados. De um lado. o indígena Fugiu com o desertor de nome José da escuna do senhor Maria. às 8 horas da noite. 2005. o justificativa ou mesmo pistas havia senhor se viu na condição de apenas apelar aos ―termos da lei a quem der coito e prometia gratificações a quem oferecesse rastros para encontrá-la. nas rotas dos rios e igarapés do vale amazônico.es de fugitivos no Brasil (séculos XVII-XIX). natural da vila de Ega. da casa do seu senhor na rua b razileira. capital da província do Amazonas. 180 A maioria dos dados apresentados é resultado do projeto de iniciação cientifica de senvolvido no Programa Institucional de Iniciação Cientifica da UFAM. Pode-se imaginar o estado de estupefação em que fi cou o senhor Manoel José de Macedo ao saber que sua escrava ―já avançada em idade fugido de sua residência.181 nte trabalho às ao trabalho compulsório no Não é difícil perceber nas fontes que as mulheres escravas davam basta autoridades policiais da província. Outras faces da liberdade: fugas e fugitivos escravos no Amazonas Imperial (1850-1870). p. Ver: CAVALCANTE. França. A escrava Joaquina. bem parecida e m uito faladeira não fez diferente.182 Difícil im aginar que esta escrava já idosa não tenha contado com o auxilio de outros cativos fugidos. de 18 anos. Programa de Iniciação Científica – PIBIC/UFAM. de outro. Relatório Final. Escapar da pena d .

o mundo urbano e seus subúrbios também guardavam intensa vadeiras e quitandeiras. O seu senhor. Estrella do Amazonas. Não er am raras as fugas escravas para áreas de subúrbio das cidades. sem deix captura e entrega da fujona ar de protestar contra algum acoutamento.185 nos parece algo O protesto do senhor de Lucrezia ―contra a quem a tiver acoutado não fortuito ou apenas uma frase que acompanha um formato padrão dos anúncios de fuga de escravos. 27/10/1855.183 de No rastro de escravas quarteirão dos subúrbios da fugidas estavam os Inspetores cidade de Manaus em março de 1864. Jo aquim Pinto das Neves. Rogava o senhor Manoel Thomaz Pinto aos inspeto res que recuperassem a sua escrava de nome Izabel que no dia 6 de março ―ausentou-se d a casa de seu senhor. Desempenhando essas atividades. Estrella do Amazonas.e cem açoites parece ter sido o fator que motivou a fuga da escrava Benedita. 19/03/1862 O Catechista. 19/09/1860 314 ----------------------. Três meses depois Bene dita foi presa e condenada aos cem açoites por ordem do delegado de policia. logo se preocupou em noticiar em comunicado no jornal que aqueles que neg ociassem ou viessem sobre comprar quaisquer algo com prejuízos a escrava em nada podiam reclamar decorrência da execução da pena. 28/03/1864. 181 182 183 184 185 Estrella do Amazonas.186 Lugar de sociabilidades. de certa liberdade e se tornavam as mobilidade escravas de vendedeiras. la desfrutavam . 14/11/1863. 20/02/1861. O Catechista.184A escrava Lucrezia também não se fez de rogada e achou de ―andar vagando pelos subúrbios dos Remédios ensas pela para o descontentamento de seu senhor que oferecia recomp em sua propriedade na rua brazileira. pois ele não se responsabilizaria.Page 315----------------------mas um forte indício da existência de uma prática bastante recorrente na província.

na rua brazileira da capital da província com o índio desertor José Maria . por outro havia o movimento que impelia os escravos à fuga no sentido de proteger ou recompor tais l aços. Talvez por isso. Não fez diferente o escravo João Mulato que na cidade de Be . Se por um lado as vendas dos escravos esfacelavam famílias inteira s. São essas relações a faladeira José Joaquina que melhoram as condições tenha fugido d cativeiro. Os laços familiares também parecem ter motivado a trajetória da escrav a Genoveva do engenho do Carnapijó. visto que está no rodapé do anúncio e não n o meio de todo texto) do seu proprietário. O escravo José ugiu Ipiranga de 32 anos. desse modo. B. escravo da Vila de Serpa levando de Joaquim Pinto de França. rumo ao Amazonas. os próprios escravos fugi tivos e as articulações de possíveis insurreições escravas. o senhor Francisco Bernardo da Silva: ―N. 1 87Sintomas de uma autonomia dos desmantelamento de escravos que sua família por vezes se viam diante do através das vendas que não eram raras no sistema escravista. Vale lembrar que a constituição de laços familiares foi de extrema imp ortância para a adaptação aos vida em mundos da escravidão. com seus conhecimentos e fazendo circular informações. Suppoem hoje ter filhos . das propriedades de Antonio Lopes Braga. trajando vestido de chita roxo e camisa d e riscadinho cor de rosa. como de proteger seu filho não só das agruras da e também da separação por ocasião de uma possível venda. O anúncio de sua fuga traz uma observ ação curiosa (e cuidadosa. a uxiliando.profundas conhecedoras dos liames de ruas e vielas que entrecortavam a cidade. no Pará. f 188 consigo seu filho de nome Cipriano que contava 13 anos de idade. nas surdinas da noite de 21 de outubro de 1855. Nos parece bastante plausível que José tenha fugido na tentativa scravidão.

mas de estabelecer ganhos e conquistar espaços de libe rdade e autonomia frente aos desmandos senhoriais. 186 ALGRANTI. 29/04/1857. da vila de Maués fugiram os como temia seu senhor. p. 315 ----------------------.. ―crioul cativos da viúva Dona Maria Rozalina da Guirra.189 Não por acaso. também escrava. Ed. 188 Estrella do Amazonas. 53. escravos Hypólito e Maria. bem próximo ao caminho das fronteiras da província do Amazonas. 1988. A historiografia em em reação a ―outras aponta que as fugas individuais ocorr arbitrariedades. fugiu com sua parceira de nome Alexandrina. Um pouco mais da Percentual que metade das fugas ocorre individu estudo sobre a es revela o quanto os escravos estavam constantemente negociando seus desejos e dem andas com seus senhores. além da chibata itivamente com os e nem sempre com o fim de romper defin senhores. Vozes: Petrópolis. a enorme freqüência de prisão de escravos na pro víncia por motivos relacionados à fuga como ―por andar fugido ou a ―requisição do senhor .lém.Page 316----------------------almente (57%). Nos rumos os retintos . Ainda seguindo os rastros da paixão. Esse dado no permite argumentar que nenhum outro ―crime perturbava tanto a ordem pública do Amazon as e as elites locais quanto essas ausências dos escravos das vistas de seus senhores. rumo ao Rio Negro. nas primeiras horas do dia 26 de março de 1856. O mesmo sentido para histórias difer enciadas: os laços familiares. lugar onde crescera e era bastante conhecido. 19/09/1860.. no Pará. 187 Estrella do Amazonas. Leila Mezan. Embora não tenhamos encontrado nenhum grande grupo de fugitivos. o percentual de fugas coletivas também nos parece importante (43%). O feitor ausente: cravidão urbana no Rio de janeiro. Por outro lado. podemos afirmar q .

Dois anos depois. ou seguiriam para o Rio Negro. estrategi camente trocado. pod emos destacar . ou para o Rio Madeira. fugiram na madrugada de 26 de março de 1856 e seguiram para o Rio Negr o. A fuga foi preponderante entre os escravos da faixa de 21 a 40 a nos. nas proximidades do destacamento do rio Xibarú. Sendo assim. Africanos livres e com os brancos pobres que perambulavam pelos espaços urbanos da cidade. Noutra direção. o perfil dos escravos fugitivos no Amazonas é de homens em plena idade produtiva. Como vimos. lugar onde José já havia vivido nos tempos em que por lá esteve fugido com o nome. João seguia com outro preso. não podemos menosprezar fugas como as de João Mulato e Alexandrina. xperiências e compartilhando forjando espaços de e vivências das classes subalternas da província do Amazonas. Enquanto Alexandrina permaneceria no Rio Negro para se r vendida.ue as fugas envolvendo no das relações mais que das vezes podiam com outros livres quatro escravos. lugar onde João cresceu e foi criado. mas o certo mesmo é que os dois se valeram de uma ―monta ria toda pintada de verde que pertencia ao mestre carpinteiro de nome Funfão para fugir. Atr avés das experiências pelas quais passaram os dois cativos. o escravo José Paulino. apelidado de Macaçar. escravos mas são também sintomáticas com indígen estabelecer não só as destribalizados. Não se Não demorou sabe explicar muito para ao certo que eles voltassem a fugir. os escravos foram presos. ta l qual o perfil que a historiografia para outras regiões do Brasil tem constatado. para a cadeia da capital. pelas beiras dos rios e igarapés. como fugiram. africanos. Desse modo. de Antonio Paulino. lugar de va sto conhecimento de João e onde Alexandrina ainda existia se não tivesse sido vendida.

Assim fugindo os do es senhor fizeram Diniz e Boaventura. coisa que não lhe causava constrangimento. 66. o oficial de pedreiro. O anúncio detalhado – revelando a proximidade do senhor com seus escravos –. Co mpanhia das Letras.Page 317----------------------a grande diversidade dos ofícios embora se possa afirmar que e profissões dos fugitivos. de nome Martinho. tinha nódoas pretas nos dentes da frente. rosto cumprido e pouca barba . João José & Silva. No dia 29 de janeiro de 1856. careca. muito todas são atividades especializadas. No dia 27 de julho de 1856. preto criou lo. Fugas. magro. In: Reis. Os escravos s. da roupa ―de seu uzo . de . descrevia Diniz como ―alto. pois nos permite m desvelar um pouco mais das estratégias utilizadas pelos fugitivos para sobreviverem. 316 ----------------------. 1989. cativos Nuno Alves Pereira de Mello da propriedade Cardoso. já que além de bom orador ―é muito dado a tocar viola . São Paulo. Fugiram em setembro de 1867 e além de um baú. Felix Gomes Felisberto José de junho de ferramentas de serviriam como sobrevivência. residentes 1854 levando suas pedreiro auxilio Óbidos e carpinteiro para a seguiam certamente Cantando e se distraindo tocadores de viola. entre os 26 e 28 anos. barbado e com a ―fala atrapalhada . falava explicado. A resistência negra no Brasil escravista . Essas informações são importantes.190 cravos Cloudino do e Amandio Rego e na fugiram vila de que dos seus no senhore dia 17 Tavares. os limites da Eduardo. os africanos José de ―fala gr ossa e precipitada e Manoel. fugia das propriedades de seu senhor na cidade do Pará com desti no a província do Amazonas. fugiram de Marcos Ant onio Rodrigues de Souza. Eduardo. p. revoltas e quilombos: negociação. Negociação e Conflito.189 SILVA.

nas áreas ao longo do rio Tocantins e seus afluen tes – Vila de Óbidos. memória e pósemancipação na Amazônia. vol. bem como as impressionantes distâncias que se dispu nham enfrentar entre rios caudalosos. é preciso levar em conta que os jornais com os quais trabalhamos foram to dos produzidos e publicados na cidade de Manaus. 27/09/1867.Page 318----------------------Em relação aos destinos. 10. c. Vila Franca e a Cidade de Belém. de localidades de destacamos um quadro ba onde se deslocam os fugitivos. XIX-XX. In: Historia Unisinos. Flávio. o ―instrumento que aquelle toca . ao mesmo tempo. comunidades de fugitivos e desertores e a constitu ição de um campesinato negro com intensa mobilidade – provavelmente resultado s experiências de cativeiro quando desenvolveram também atividades extrativas e comerciais.3.191 stante variado Sobre as rotas das fugas. 192 GOMES. Cabe lembrar a grande presença ne ssa região de ―uma tradição quanto à formação de mocambos. fortes correntezas Amazonas. Vila da Cachoeira do Marajó. As no Pará são todas nas fugas e densas que matas. Esta área foi de e xtrema importância para o desenvolvimento da lavoura açucareira na Amazônia e se valeu maciçame nte do braço africano desde o período colonial.192 da 190 Estrella do Amazonas. a grande maioria dos fugitivos originadas se desloca da capital. n. 02/08/1856. No entanto.uma ―arma do rio branco . sobretudo quando como a capital do Amazonas lugar de origem e destino aparece. setembro/deze mbro. 07/05/1856. . levaram consigo o provável ganho de sustento. furos e igarapés : camponeses negros. No encontramos proximidades do baixo amazonas. ―No labirinto dos rios. o Amazonas aparece como o preferencial dess es fugitivos. o que de alguma maneira pode explicar tal conclu são. 317 ----------------------. 2006. 18/07/1854 191 Jornal do Rio Negro.

no sentido de por transformações intensas no seu transformá-la em ponto estratégico no fluxo de bens e mercadorias do comercio region al. com o crescimento da demanda inte rnacional pela borracha. carpinteiros. sapateiros. Anos depois. É preciso lembrar que embora as atividades econômicas não fossem l argamente realizadas pela mão-de-obra escrava. a cidade passa espaço urbano. guardando ―estreita sintonia com as necessidades colocadas pela economia gomífera e suas elite s . ferreiros. a cidade contava com escravos que desempenhav am funções importantes no seu cotidiano eiras. de conflito entre modelos forros. Não se pode perder de que seguiram os vista também os outros destinos fugitivos e que conformavam o universo de possibilidades dos escravos da região. Até meados do XIX a província do Amazonas era parcamente povoada. O estado da capital não era diferente.194 projetadas locais a da Nessa direção. c omo é o caso das vilas mais distantes. africanos e diferenciados Africanos livres exercem papel fundamental na reprodução das lógicas de desigualdade e hierarquia da sociedade local. Dos jornais emergem várias imagens de escravos nos locais de traba como lavadeiras. escravos. a cidade pos suía ares que não permitiam diferenciar nitidamente do urbano – um lugar bastante modesto no meio da floresta. com irrisória por indígenas população branca. Segundo Sampaio. c om pequenas e modestas vilas. E maciça de maiori cidad nesse espaço e.preferencial dos fujões. em estreita proximidade com as faixas de fronteira int ernacional. vendedeiras. os investimentos no os limites do rural e 193 No entanto. habitadas predominantemente destribalizados. pelas elites as intensas práticas transformações culturais da do espaço urbano entram em choque com as população indígena. chama atenção para o crescimento d setor imobiliário já na década de 1840. engomad .

Os fios de Ariadne: tipologia de fortunas e hierarquias sociais em Manaus: 1840-1880. Patrícia M.. o anúncio de duas casas que queria vender. v. de 2002. Enquanto não vendia suas casas. 194 SAMPAIO. insistente. os Africanos livres Militão e Martinho se de sentenderam no largo do Payssandú e como se não bastasse a querela. bem como aspectos da cultura escrava na cidade e nas vilas. Em que embriagaram as própr correspondência publicada em 25 de dezembro de 1870. Militão espancou Mart inho e foi ―o delinquente prezo immediatamente . Teias da Fortuna: acumulação mercantil e escravidão em Mana us. 1997.195 O africano Sergio passou praticamente os meses de março e abril inteiros a publicar. Patrícia Melo./nov.6. n.Revista de Humanidades . 3.50. O Commercio do Amazonas pedia aos céus pela salvação dos destinos da vila de Serpa. passava o tempo a beber. 318 ----------------------.196Lá pelas sete horas de uma das noites de janeiro de 1867.Page 319----------------------africanos (. policiais. Mneme . ―uma no alto da cam pina e outra na rua da Palma . do Curso de História out. anúncios de compra e venda. Valha-nos Deus já que a polícia applaude immovel esse acto que faz retroceder a nossa civilização . a . p.Publicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. século XIX. publicadas no mesmo jornal. tomada pelos ias autoridades festejos africanos. p. como atestam os registros de prisão ―por embriaguez das semanas de abril.3. o jornal dizia emb asbacado: ―Esta lhe escrevo ainda impressionado com o estampido do Gambá essa manifestação própria de alegri a dos 193 SAMPAIO.)..197 Os durante a relatórios produzidos década de 1850 pela presidência da província atestam o estado de abandono em que se encontravam as cadeias públicas. À bem da verdade. forj ando ambientes urbanos. Manaus: EDUA. M. Caicó: UFRN-CERES.lho.

e mesmo com escravos fugidos . com que o edifício. indígenas. escuro e insalubre parece ser no quartel mais um ergástulo tormentoso. Manoel Gomes Correia de Mir . autoridades públicas que ocultava-se um profundo temor ―presos de crimes mais atrozes [estivessem] juntos com os de culpa leves. no passou de e a situação que casa de detenção . conflitos e Martinho se acirrariam. 200 Ibidem. forros. que já presta sofrivelmente ao fim que é destinado ficou. 199 Foi nessas condições que a cadeia da capital abrigou os escravos João Mulato e José Paulino.capital contou por muito tempo com um pequeno quarto. 8-9. Manoel Gome 05/09/1852. estrangei ros e brancos pobres. memórias as de João Mulato e seriam José compartilhadas.200Muitos escravos. quando capturados no Rio Negro juntamente com a escrava Alexandrina. p. ainda que não convictos. 71. em um universo interétnico bastante multifacetado e dialógico. immundo e in salubre . O Catechista. 199 FALLA do presidente da provincia Correa de Miranda. publicada em Amazonas. Manoel Gomes 03/11/1860. Falla do vice-presidente da província Correa de Miranda. 25/03/1865. publicada em do do Amazonas. ―que pelo seu âmbito estrei to. Nesses espaços. Uma década se presidente Manoel Correia pouco mudou. pp. 25/12/1870. ―amuntuados em hum quarto escuro.9 201 Falla do Vice-Presidente da Província do Amazonas. 01/04/1865. Militão mundos se cruzariam. 198 militar. sem divisões e pouco aceiadas . p. O Miranda apresentava alguns importantes reparos na cadeia da capital. como os dos trajetórias africanos como Paulino seriam construídas. juntos com aquelles. pelo menos 638 prisioneiros estiveram nessas ―pequenas casas mal s eguras. compartilharam esses espaços. no período de 1858 a 1868. mas registr ava a necessidade de ―substituir alguma das grades de madeira que tem por outras de ferro. 19/01/1867. das Sob certo desconforto.201 Na segunda semana de 195 196 197 198 s O Commércio do Amazonas. Al iás. A voz do Amazonas. africanos. e os cid adãos.

tantas solidariedades. as escravas Maria Raymunda. o português Bernardo Francisco dos Passos. e. preso por infringir o código de posturas municipais. processado como responsável pela f uga de Braz. como atores sociais se viram espaço de no refluxo experiência. o carcereiro da cadeia Vencesláo de Oliveira Pinto. por fim. mergulhados em um mesmo nos quais indígenas. os presos condena Manoel Francisco Rodrigues.203 exemplificada na constante preocupação dos inspetores de quarteirão com as escravas fu gidas nos subúrbios vários da cidade. p. Se Mulato tenha por um lado tempo podemos afirmar que a partir da década de 1860 existe um crescim ento significativo da atuação policial na província. presas por briga.anda. era o boliviano Evaristo. como já não fosse possível para o ―ergástulo tormentoso rtar mais alguém. compartilharam a Francisco Antonio da Silva.Page 320----------------------maio do ano de 1865. exclusão. por outro. preso para averiguações sobre a asfixia por submersão que matou seu patrício Joaquim Gonçalves de Araujo. sem talvez entender os enlaces da trama. e o próprio dos Bento Braz José com seus de Lima companheiros e de evasão. o indivíduo José Miguel e o africano Jeremias. ou pelo menos uma preocupação crescente com a ―reunião de escra vos . presos por briga. . Maria Casimira e Hermelinda. não é de demorado tão resultado pouco sabe-se para lá volt compo admirar que João ar a fugir. Quem assistia a tudo. publicada em 05/09/1852.202 de quantos Diante de conflitos. de longas Lugares de ondas. Na me sma ocasião foram presos Manoel Antonio Theobaldo. 71 319 ----------------------. por ter auxiliado a fuga do preso Braz Co rrea da Silva. mesma prisão os soldados Bonifacio Antonio da Cunha e o escravo Venâncio todos presos por embriaguez.

escrav os. marinheiros desertores. 2008. Peter & REDIKER. 320 ----------------------. é possível afirmar que a Cadeia Pública da egra. coletados. Africanos livres acabaram por se tornar uma grande massa de suspe e liberdade. 203 Artigo 81 do Código de de junho de 1872. 204 Esta percepção sobre as fugas de escravos em um contexto resistência multiétnica e multicultural de guarda profundas aproximações com as reflexões desenvolvidas por Peter Linebaugh e Mar cus Rediker. formada majoritariamente por indígenas destribalizados. impunham li tão almejad senhoriais. este percentual vem corroborar o argumento de que os movimentos dos grupos negros causavam bastante incomodo às autoridades e que estes indivíduos i nstituíam as suas vontades nos espaços urbanos.mestiços. e escravos ou ―quaesquer outras pessoas que possão causar distúrbios itos. de 1  província do Amazonas. Marcus. com fronteiras pouco nítidas mbém lugares políticos. um é preciso enfatizar que Embora até aqui tenhamos apresentado um quadro bastante multifacet segu pouco mais de 71% da ação policial atingiu africanos e afro-descendentes. mites não só aos poderes africanos. Ver: LINEBAUGH. plebeus e a historia oculta do Atlântico Revolucionário. forjavam práticas antitéticas. Coleção cidade possuía uma cor: a n Posturas Municipais de leis da de Manaus. 13/05/1865. que Mas ta entre escravidão onde se horizontes de desordem. Com efeito . Tanto é assim que freqüentemente os jornais publica vam avisos . A hidra de muitas cabeças: marinheiros. E isso a despeito de uma 202 O Catechista. Acervo do Instituto Histórico e geográfico do Amazonas. Mais do que isso.Page 321----------------------população que no inicio da década de 1850 representava um pouco mais de 3% da população to tal. mas também aos interesses da ―civilização e do progresso os pelas autoridades locais.204 ado das classes subalternas da ndo os dados província do Amazonas. São Paulo: Companhia das letras.

o que estava oculto em tais preocupações era nada mais. Mesmo porque. de nome Gabriel. E acrescent verdadeiro pavor que as elites locais sentiam a menor lembrança dos ―tempos calamito sos de 1831 a 205 1840 da Cabanagem. a Cabanagem foi um movimento ―tão vasto e complexo que só pode ser entendido dentro de uma perspectiva internacional na medida em que ele ocorre em um contexto de ―fronteira com as Guianas e o Caribe de um lado e com o mundo hi spânico que se tornava independente de outro . mas também intensificado o trânsito de ―idéias e práticas revolucionárias . Talvez essa visos sejam preocupação constante indícios da e a sistemática veiculação de tais a ineficácia de tais medidas. Segundo Magda Ricci. De fato. desde o século XVIII. aquele que entendia ―alguma coisa de francez . ndês. nada menos que o ―medo branco e-se a isso o que pairava por todo o Brasil escravista. as autoridades coloniais das Capitanias do Rio Negro e do Grão -Pará temiam que os seus escravos entrassem em contato com as informações sobre as revoluções que oco rriam no Caribe e na Europa.206 stas deixadas Talvez pelo agora se possa escravo que esclarecer melhor algumas hola pi fugiu do Maranhão. O medo que as duas décadas em que escravos. francês e hispânico. Tais capitanias divisavam território com as Guianas Frances .das delegacias advertindo sobre horários permitidos aos escravos e africanos para transitar nas ruas. A revolução cabana teria não só aumentado os contatos e trocas de alimentos e armas entre as fronteiras com o mundo inglês. libertos e as classes subalternas como um todo estiveram em ―anarquia latente ou explicita gionais no Grão Pará causavam nas elites re também deve ser dimensionado como parte integrante das preocupações políticas e diplomátic as das autoridades locais no que diz respeito aos limites e fronteiras da província e do Império brasileiro.

p. província do Amazonas. ―havia uma constante movimentação de fugas de escravos e formação de quilombos . ingleses. Magda. São Paulo. Revista da USP. n. 206 RICCI. configurando um ―complexo cenário de disputas coloniais. 207 GOMES. Solimões. esse contato teve o seu estopim quando da revolução Cabana.28.as.209Não parece .208 atentos à Com efeito. Madeira. os levantes ias nas Américas. Año LVIII. Em torno dos bumerangues: outras histórias de mocambos na Amazônia Colonial. 2008. inglês e holandês e. 205 Relatório de Figueiredo do presidente da Tenreiro Aranha. Barcelona. Fronteiras da nação e da revolução: identidades locais e a experiência d e ser brasileiro na Amazônia (1820-1840). n  58. Tapajós e Amapá . entre Caiena e as capitanias da Amazônia. mas também com territórios sob domínios espanhol. 9 1. mas que tomavam de indígenas. pri ncipalmente nas áreas do Rio Negro. p. mocambeiros e etnias indígenas diversas na Amazônia Brasileira e s uas fronteiras. os escravos conjuntura política da região amazônica estavam internacional. In:Boletin Americanista. João Baptista publicado em 30/04/1852.Page 322----------------------Ao passo que se tentava estabelecer na região vários tipos de explor ação econômica. outros escravos contornos fugidos diante e de intenso tráfego marinheiros desertores. período que se desenrolam vários tratados internacionais com vistas a estabelecer t ais limites. as de escravos lutas de a abolição que da escravatura outras no colôn terr aconteciam em independência na Venezuela. Flavio dos Santos. p. construía-se uma barreira humana franceses e espanhóis. mas também elaboraram uma rede de intercâmbios entre merca dores.207 E como vimos. É nesse contra holandeses. 321 ----------------------.46.. e formavam não apenas um cenário de circulação de informações sobre as discus sões que envolviam o fim do tráfico. Rio Branco. itório francês e nas colônias francesas. 6.

na vila de Silves. 1840/1860. de 1848.83. Arquivo Público do Estado do Pará 322 . instruções ao Guiana Francesa. Manoel senhor Amanajás.) de que um mulato natural de fora áquella cidade revestido a caráter de emissário das sociedades que traba lhaõ pela liberdade dos escravos. fazia bem pouco t empo que muito próximo dali.. Ousados e insubordinados: protesto e fugas de escrav os na Província do Grão Pará. na em 27 de abril mesma época. idéia que sugere experiências das rebeliões circulação revoltas escravas nas Américas que seguiram até aos trabalhadores ingleses através na navegação 208 GOMES. Topói. 2001. Na o presidente da Ministério dos a escravidão do havia sido abolida. n  2. Rio de Janeiro. Etnicidade e fronteiras cruzadas nas Guianas.46. Ano: 1841-1849. José Maia. partio com elles para a Inglaterra para de lá se dirigirem a Guyana com o projeto de penetrarem no Br azil . 210 Ofícios sobre a questão de limites de 16/01/1849. ades do Quando Ignez. Domingos. Caixa 79. Flavio. 209 BEZERRA NETO. no e Felipe fugiram das propried Pará. para o interior da província do Amazonas..210 S. In: EAVirtual. As preocupações do presidente do Pará e os receios da Secretaria do Ministério coincidiam com: ―as noticias recebidas (. e que a s disseminar tais discussões sobre cidadania e liberdade.absurda a hipótese de que Gabriel tenha aprendido ―alguma coisa de france z nesse intenso cotidiano de trocas ua fuga guardasse o de informações objetivo de e mercadorias. p. Fundo da Secretaria da Presidênc ia da Província. solicitava província Grão-Pará Negócios Estrangeiros sobre as medidas que se deveria adotar ―com o fim d e evitar as fugas de escravos dessa Província para a Guyana onde foi abolida a escravidão . p. o qual unindo-se com outros agentes das mesmas associações. inebaugh Parece chamou que estamos de bumerangues uma e diante daquilo de que idéias Peter e L trocas de africanos.

. ou escravos que espreitassem occasião de entrar na cida de . filho do Perú de nome Rozario . duas armas. mas é bem provável que ele tenha sido sarcást co ao fazer o alarde e assim debochado da imaginação ―medrosa dos senhores. dizia ue levou da tripulação. um revolver de 5 tiros (.). Ao final das cont as. o índio Hygino contou com ―um m enor carafuz. a denúncia pareceu simples ―imaginação do medroso cativo. Para ajudar com tantos ―objecttos . do que chamar atenção para as redes sociais que se interpenetram nas Américas e na Amazônia. noticiava o resultado das averiguações policiais a partir de denúncias fe itas por um escravo sobre índios e escravos existentes na estrada da ―Caxoeira . estava: dentre as ―uma montaria possante. fugiu dos negociantes Avelino Guimarães e Francisco Correia de Miranda. Entr chamado lago da Salsa. u ma patrona de lona encerada . al imentando ainda mais o pavor de ―desertores. Fugindo.213 Hygino Compartilhando e o cafuzo peruano experiências históricas. que nascido no Janucá.----------------------. dominavam a floresta. um bahú pertencente a Avelino. mundo em que as dificuldades poderiam ser tão duras quanto às do mundo escravista.212 e o rio A fuga de Hygino pode Solimões e o Purus. de 24 de março de 1867. contendo uma porção de roupa e us o.Page 323----------------------atlântica e que retornam ao mundo caribenho como fim do tráfico. perceber o Alguns temor anos depois que pequenos desse ocorrido. no esclarecer algo mais. o indígena Rozario. esses sujeitos acionavam uma importante tradição de rotas de aldeias e .. um índio anúncio de nome Hygino do jornal A voz Pires do Gomes. podemos ajuntamentos de escravos causavam nas elites locais. um outro bahú pertencente a um boliviano. No dia 21 de abril de 1854.211 Nossa luta pela abolição e preocupação aqui é menos discutir a possibilidade real ou não desses emissários e agentes. o jornal Estrella do Amazonas. coisas q O Amazonas.

40 323 ----------------------.3/6. o rio madeira. n. a cadeia Quando publica da da fuga de capital na João Mulato e José Paulino d montaria do mestre Funfão. set. rasileira de Peter. 24/03/1867. official de carpina. águas do rio Gomes. dois destinos se apresentavam fortemente para os cativ os. n  2. In: EAVirtual. nas mobilidades de indígenas Segundo fugidos desde da o inserção sécu os tempos coloniais.mocambos forjadas pelas compulsória ao trabalho. idade 30 annos se ta nto e o outro ―he padeiro também lê alguma cousa. 1983. Todas as montanhas atlânticas estremeceram. segundo o anúncio publicado. 7-46. Revista B Historia. 213 A voz do Amazonas. Vila da Cachoeira do os escravos Pedro e Aprígio fu Marajó. existia um intenso comércio entre diversas tribos. Flávio. área conhecida de José. he alto tem falta de hum ou doius dentes na frente e alguns 211 LINEBAUGH. onde houve contatos com missionários espanhóis e colonos europeus nas fronteiras com a Guiana Francesa. existente desde lo XVIII. 212 Estrella do Amazonas. Os dois cativos fugiram se valendo de uma montaria grande e a rota que pretendiam seguir era ―ir pelo rio negro para Hespanha . uma tradição indígena de migração e mobilidade . Etnicidade e fronteiras cruzadas nas Guianas (séculos XVIII-XX). p. De um lado. 21 de Abril de 1854. 214 GOMES. O escravo José Paulino talvez soubesse do vertiginoso des envolvimento ―que vão tendo no Rio Madeira o commercio e a industria da extração dos produtos naturae s em que elle abunda e do crescimento do comércio de ―importação de gêneros procedentes da repub .214 giram da Em agosto de 1858. ao passo que ―exi stia mesmo. Solimões. o primeiro era ―hum preto crioulo.Page 324----------------------signais nas costas de castigo que sofreo . onde viveu forag ido com o nome de Antonio Paulino. pp. São Paulo.

construir endessem famílias. estabelecid as nas matas. indígenas de mobilização e intensas tradições comércio pelos rios e matas da Amazônia. mas também de idéias e experiências sobre as lutas e rebeliões escravas por todo o atlântico. dos lados da liberdade. as como deslocamentos e trocas e capitais.) á retalhos pelos rios. no caminho da ―Hespanha . desertores..lica peruana . nos rios e matas da região. revelam as fugas como resultado estratégico da confluência de intensas e consistentes mas também destribalizados. percebemos Buscando a confluência o quanto as de muitos caminhos pra conclu fugas escravas fizeram parte do cotidiano da escravidão na província do Amazonas. num bem relações de contexto de fronteira internacional. Cercando navios e vapores. marinheiros bolivianos. (. . nas vilas. lagos e sítios e aldeias do interior em pequenas canoas . como se fossem lojas e tabernas fluctuantes em que. por viver como mestres das matas. entre vilas cidades. poderiam mercadejar nas ―feitorias. Alexandrina ainda existia. iaõ [como] os mascates e regatões onde provavelmente sem pagarem direitos. rumo do s territórios da ―Venesuella . As trajetórias de escravas fugitivas ao estreitar laços. percebemos fugitivos. veredas tortuosas. ir. Esse cenário conforma uma importante circulação não só de mercadorias. atores não só entre escravos.. Pe rcorremos as rotas de escravos que em plena idade produtiva construíam espaços de autonomia e lib erdade nas cidades. redes com sociais existentes indígenas peruanos. pelas vielas em um policial e na andar Dos como bem ent i de contexto de crescente ação mpressionantes. É possível afirmar que a simples possibilidade de movimentos de fugitivos c om rotas de proporções transnacionais. De outro. presa para ser vendida. feitorias experiências dos capital. entre outros venezuelanos. percorrer os subúrbios. o Rio negro.

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Achamos necessária essa um lugar comum. once the 1988‘s Brazilian Feder al Constitution. Maranhão INTRODUÇÃO Iniciamos este debate visitando . Starting with this about the called premise. Identities. in its article 68 of the Transitory Provisions Act. Palavras. considerando de uma perspectiva contemporânea. suas concei construídas e suas ressignificações na atualidade. os quilombos . direito no artigo dessas 68.Page 327----------------------QUILOMBOS OU TERRAS DE PRETO: IDENTIDADES EM CONSTRUÇÃO José Re inaldo Miranda de Sousa215 Resumo: Discorreremos. Essa discussão n os remete a indagações sobre o processo tuações historicamente de constituição dos quilombos. Identidades. visto que a Constituição Federal das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT. as suas identidades. faremos uma reflexão sobre os quilombos ou ―terras de preto . This discussion remind us about the quilombos c onstitution process. Key-words: Quilombos. their historically build conceptions and their resignifications in present times .----------------------. A o de 1988.chave: Quilombos. n o Maranhão. sobre as terras dos remanescentes das comunidades d os quilombolas. recognized the right of thes e communities to the property make a of their reflection lands. neste artigo. do à Ato proprie comunidades partir dessa premissa. Maranhão Abstract: In this article we discuss the question of the land remainders of the commu nities of quilombolas (runaway slaves who took refuge in hidden places). reconheceu dade de suas terras. we will quilombos or terras de preto in Maranhão (black people lands) considering a short contemporary perspective of their identities. Territórios. Territories.

em se tratando mas. faremos sua apresentação. de um modo geral. era só uma questão de tempo. muit as vezes. Para isso. das identidades propomo-nos trazer para refle quilombolas numa perspectiva contemporânea. de de certa sempre forma. a discussão acerca dos territórios quil ombolas. 215 Mestre em História Social pela PUC-SP Professor Titular de História. a partir da década de 1980. Como sabemos.retomada. redação trata-os apen comunidades dos quilombos”. como segue: Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas itiva. estiveram sem muitos conceituações e identidades dos sujeitos que os compunham. presentes através de avanços. colocando à sociedade. Desde do várias são as manifestações voltadas à ampli . o Entretanto. que se tratavam de grupos prestes à extinção. Prefeitura da cidade de São Paulo. em sua a propriedade defin as como: Vale ressaltar que “remanescentes das então.Page 328----------------------xão. com o advento das mudanças que a sociedade civil brasileira conduz no campo da polít ica. no CEU Jambeiro. promulgação artigo da 68. visando à constituição de um estado democrático. embora saibamos tratar-se de questão con troversa. aqui. de forma breve. dando-nos a impressão. os quilombos na nossa historiografia vários estudos. com a debate se abriu. dada à própria natureza do texto. devendo o estado terras é reconhecida emitir-lhes os títulos respectivos. 8. Constituição Federal de 198 do Ato das Dis pois ela trouxe em seu texto o posições Constitucionais Transitórias ADCT. em razão da própria dimensão que essa categoria tem tomado. a No questão decorrer do texto. 327 ----------------------.

que. não nos deixando praticamente margem para outras significações aos ter ritórios que se constituíram por diversas razões. para fugirem aos horrores da escra vidão. pois não nos Outra dificuldade é interessa apenas o próprio conceito de quilombo. estabelecimento.debate sobre os quilombos contemporâneos. sendo com um uma delas a forma em como atribuir identidades a esses grupos. e outros subsequentes. constatamos ainda que essa inde 216 O Conselho Ultramarino Português. 14. pendência mantém uma além disso. Não muito diferente será com o advento da repúblic a. idealmente. esse termo foi reeditado na Província do Maranhão 217. de 02/12/1740. São Luís: SMDDH/CCN-PVN 1996. 12 ―reputa-se-há escravo aquilombado. em 1888 218. 328 ----------------------. p. vizinho. que domin am a nossa historiografia. In: Projeto Vida de Negro. em parte desprovida. ou distante de qualquer reunião de dois ou mais com casa ou rancho . quase sem nenhuma modificação. lançar mão de um conceito. historicamente construído desde o período colonial. Terra em de Preto: pois ―não há uma legislação republicana a respeito e nem qualquer redefinição for al desta categoria quilombo. ainda que não tenham ranchos lev antados nem se achem pilões neles 217 Lei Provincial n  236 de 20/08/1847 art. a partir da clássica definição introduzida pelo Conselho Ultramarino216. lo go que esteja no interior das matas. em virtude do próprio processo diaspórico vivido por esses su jeitos. Na a realidade das tentativa de comunidades traçar um significado deparamo-nos que contemple ma negras. sabendo-se que su as composições e realidades são diversas. Frechal Quilombo reconhecido como reserva extrativista. teria sido extinta com a abolição da escravatur a. ou quilombos na contemporaneidade. mesmo após a independência. Curioso é que. definiu quilombo como ―toda habitação de negros fugidos que passem de cinco. . r de dificuldades. em especial.Page 329----------------------conceituação congelada do que é quilombo.

categori a construída a partir da própria realidade das comunidades. na Constituição Federal de 1988. Com base nesta premissa. dando-nos a impressão de comunidades fora de seu nos a tempo. podemos demonstrar com a própria realidade das terras de preto . essas comunidad Constituição. vas reflexões para além do remetendo-nos a no conceito amalgamado de quilombo. do ADCT. como referência as várias comunidades es de que trata a e/ou povoados do estado do Maranhão. trazemo s.O que prevaleceu. o tambor de crioula. tão presente na nossa historiografia. Emb ora de forma ainda muito presa ao passado. suas formas de l utas e resistências contra a exploração destes mesmos senhores que. que só após um século da abolição formal legalmente. ainda refugiados pensarmos nessas numa concepção colonialista. Para isso. não trazendo à atualidade do termo. destituídas de qualquer contemporaneidade. aqui intitulam-se terras de preto. remetendo- comunidades como algo do passado. conceituavam os quilombos. assim. onde a identidade é marcada por meio de símbolos. pois o termo da lei menciona ―aos remanescentes das comunidades dos quilombos . foi restabelecido o termo quilombo. em seu artigo 68. ao longo da história colonial. que . imperial e parte d a republicana. Para tanto. difundidas. por e xemplo. amplamente. QUILOMBOS OU “TERRAS DE PRETO” O que nos interessa aqui é trazer um debate a respeito dos mbos para além das quilo conceituações jurídicas e historiográficas. temos com o foco as experiências compreender dos sujeitos como são que compõem essas comunidades à procura de forjadas as novas identidades que formam as terras de preto. negando todo um modo de vida e cultura dos sujeitos dessas comunidades. foi um conceito cristalizado do que seja quilombo. construído a partir da ótica do poder in stituído. da escravidão Incrivelmente é que.

no estado do Maranhão. criam novas sendo através desse passado identidades e se fortalecem nas lutas atuais por terra. podemos afirmar que a no seu interior. consideramos que identidade não pode deixar d e ser pensada sem as contribuições da sua forma antiga. localiza-se em um determinado tempo. através Ressaltamos da linguagem que e dos as identidades adquirem sentidos sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas.Page 330----------------------classificar o mundo e nossas relações ntido. para a construção de novas identidades.Terra de Preto: Quilombo reconhecido como reserva extrativista. Nesse se identidade é relacional. no município de Nina Rodrigues. ao mesmo tempo. pois para que essa identidade exista depende de algo fora dela. como forma de res istência e herança da cultura trazida pelos africanos. Ainda nesse sentido. Nas terras de preto . pois se trata de um conceito estratégico e p osicional e não . mas que lhe ofereça condições para existir 219. Essa recorrência ao passado se faz presente no próprio nome do Assentamento Balaiada220. A identidade também é histórica. para o fo rtalecimento de suas lutas atuais e. uma maranhense como produto de venda ao turismo e. Frechal . São Luís: SMDDH/CCN-PVN 1996. pelo direito de permanec er em seus territórios e o direito de ter direitos. à Guerra da Balaiada221.funciona como um significante da vez que representa a cultura diferença e da identidade. uma vez que se p autam na memória das lutas de seus antepassados. A representação atua simbolicame nte para 218 Projeto Vida de Negro. ou seja. remete-se a um passado. portanto. 329 ----------------------. ainda. ou seja. que se aglutinam. de uma identidade diferente da sua. uma forma de representação da po pulação afromaranhense.

ialmente. são atos de Sabemos poder. Salomão. o que tem fortalecido outras concepções de classe. * Morador e liderança do Assentamento Balaiada. as experiências dinâmicas. sua população é procedente de vários povoados do entorno. É a partir dessa perspectiva que concebemos as identidades quilombo las. In: SOUSA. d evem ser vistas a partir da cultura.essencialista. Kathryn Woodward. Tomaz Tadeu da.100 221 Movimento popular iniciado na Vila da Manga. (1839 -1841) 330 . Departamento de História. levando em consideração. que transcendem a visão marxista. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos cultu rais. atual Nina Rodrigues-MA. promovida regularizado por pelo INCRA. Atualmente ainda está à frente das lu tas por melhorias na comunidade. Salga dor e São José dos Pretos. Petrópolis. 2009. 2000. desafiando o modelo fundiário até então vigente. como ato de poder. Os povoados que formaram o Balaiada foram: Morro da Filó. m arcada pelo estruturalismo social. portanto. que a isso nos construção de identidades também possibilita refletir sobre a constituição do território do Assentamento Balaiada. construídas nas terras de preto. espec vividas pelos sujeitos históricos de seu tempo. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. p. Stuart Hall. Terras de Preto no Vale do Rio Munim: Nina Rodri gues. Embora não se caracterize como comunidade remanescente de quilombos . Mucambinho. 220Trata-se de um assentamento ir de uma ocupação. (Dissertação de Mestrado). RJ: Vozes. por sujeitos de vários formado após uma ocupação de ter povoados. pois se trata de um assentamento ra. Essas novas identidades. A terra ocupada pertencia a um grande latifundiário da região . Segundo Caxico* ―a ocupação se deu em 28/06/1999. que têm sua origem com tais características. 219 SILVA. José Reinaldo Miranda. desde o tempo dos antigos p roprietários do município de Nina Rodrigues. a part moradores de vários povoados da região. Historicidades e Territorialidades (1988-2008). construídas historicamente e conectadas à contemporaneidade de um mundo marcado por mudanças con stantes.

é também terras de preto e mais outras definições gestadas por uma grande parcela da sociedade brasileira. o quilombo. uilombo Vemos. que quilombo não se trata apenas de um rememorar o passado das lutas dos negros. essa categoria envolve diversos segmentos sociais. hoje. em especial por terras.Page 331----------------------istoricamente. A p artir daí surge uma nova pauta na política nacional: afro-descendentes. cientistas e militantes são chamados a definir o que vem a ser o quilombo e quem são os quilombolas222. Quil ombo significa um modo de vida. sig nifica sobretudo um direito reconhecido e não propriamente. como os índios e os caboclos. daí a cr ueldade como foi e é combatido. dessa maneira. na atualidade. além dos negros. uma concepção de mundo. na busca de reco nhecimento e conquista de direitos. o que nos leva a ro mper com o mero discurso jurídico formal a muito apregoado na nossa historiografia. construído h trataremos aqui. partidos po líticos. É com o propósito de rever que o conceito de quilombo. No Maranhão. enfim um modelo de sociedade que se apresen ta como contraponto ao modelo de sociedade capitalista instituído pela modernidade. e apenas. pois o compreendemos para além de um conceito cristalizado. que segundo Canclini ―abrange diversas mesclas intercult urais – não apenas porque raciais. procurando refletir o seu conceito na atualidade. Compreendem-se terras de preto a partir do caminho que toma a eco nomia brasileira no pós-abolição. Com base no exposto compreende-se. hoje. um passado a ser rememorado. como categoria em a questão conceitual de q movimento. às quais costuma permite incluir as limitar-se o termo ‗mestiçagem‘ – e .----------------------. idades constituem-se como É nesse contexto que essas comun espaços de culturas híbridas. No dizer de Ilka Boaventura Leite. quilombo.

tinham pouca ou quase nenhuma visibilida de. 2000. p. quando os primeiros grupos começam a se mobilizar na busca de direitos dessas comunidades que. São Paulo: EDUSP.225 Vários foram os quilombos no Maranhão com essas características. Ilka Boaventura. encaminhara . Mas não são tão populosas. Tem povoados d dez. o número de comunidades é maior aqui no Ma ranhão. também do Rio de Janeiro m à. NO MARANHÃO: FORJANDO LUTAS que se refere A organização e luta contemporânea dos sujeitos das terras de preto com eçam a tomar vulto desde a década de 1970 224. juntos. 223 CANCLINI. até então. 19 224 O Centro de Cultura Negra do Maranhão – CCN--MA foi fundado em 19 de setembro d e 1979.Page 332----------------------no que se refere a comunidades de pretos. fórmula quase sempre a fusões religiosas ou de movimentos simbólicos tradicionais 223. onde se concentrou a população escrava justamen te para trabalhar na produção de algodão. (negros e negras) que estavam negro no Brasil e no preocupadas com 331 ----------------------. essa é a verdade. Os quilombos no Brasil: Questões conceituais e normat ivas. o de Estudos e Defesa do em várias partes do país. 2000 pp. 15 famílias. Porque está na zona de colonização antiga. 333-354. IV (2). Culturas r e sair da modernidade.CCN-MA est abelece uma rede com outros movimentos.Tradução Híbridas: Estratégias para entra Heloísa Pezza Cintrão. O Movimento Negro do Rio de Janeiro e a Associação Cultural A froBrasileira. Nestor Garcia. Mundinha Araújo traz elementos que subsidiam essa questão ao dizer que 222 LEITE. Ana Regina Lessa. 3ª ed. como: o Centr Negro do Pará (CEDENPA). deputada federal e que.formas modernas de hibridação melhor que ‗sincretismo‘. então. Etnográfica. por um grupo de pessoas a situação do Maranhão. A constituição do Centro de Cultura Negra do Maranhão. vol.

a proposta negras rurais. sociais e econômicas. com isso. Essas iniciativas significaram um grande passo na luta para que se reconhecessem legalmente os grande avanço em termos territórios de negros. alterada pela IN 49/2008. adentrou o regi permanece com muito vigor nos dias atuais. IN 20/2005 INCRA. 225 PEREIRA. A luta não republicano desde o início e parou por aí. de garantia das ter sendo apresentada e aprovada no Congresso Nacional Constituinte. não ape nas a luta para o reconhecimento do território como espaço físico. abrindo novas país possibilidades marcado por de justiça profundas e desses sujeitos. Rio de Janeiro: Pallas.constituinte Benedita ras das comunidades da Silva. . 226 Decreto 4887/2003. Percebemos. social. ocupam e usufruem de forma coletiva. a titulação das terras que ocupa m. Amilcar Araújo et al (org. 2007. com isso. Certamente as comunidades dos territórios negros rurais têm se mobil izado no intuito de que as ações governamentais se voltem para alterações na configuração das relações agrária medida que tem como proposta. com base em relações familiares. que os quilombos e as lutas dos negros. dando origem ao artigo 68 do ADCT da Constituição Federal. a possibilidade para a titulação dos atuai s territórios que. Nunca é demais ressaltar. secularmente. tal como estabelecido na Constituição Federal e demais legislações daí decorrentes 226.) Histórias do movimento negro no Brasil: de poimentos ao CPDOC. CPDOC-FGV. criando. trazendo em seu bojo o direito à cidadania seja. mas um reconhecimento que vai além. Trata-se de um prerrogativas legais. o direito à História. embora exaustivamente mencionado na hist oriografia. muito contribuíram par a o desgaste do me regime escravista. em ou um igualdade desigualdades políticas. as terras de preto . durante a colônia e o império.

um novo co constituir como reflexo. dos mais recentes posicionamentos dos vários segmen tos sociais e áreas do conhecimento. O c aso de . Sob esse prisma. estado do Ressaltamos que as terras Maranhão. instaurando outras formas de vida e liberdade. ou seja. in comunidades que trazem em sua essência. como exemplo temos o Movimento Paz no Campo228.Page 333----------------------nceito A partir dessas prerrogativas de quilombo passa a se legais. pois não é permitida a partilha. notadamente no contramão da dinâmica capitalista do uso da terra. resentavam assim um como os quilombos contraponto à que em outras épocas rep dinâmica da sociedade escravocrata. também. evitando assim a compra e venda. calhambola ou mocambeiro 227. erras de preto. portanto.332 ----------------------. quanto um instrumento através do qual se organiza a expressão político-organizativa dos que s e mobilizam. Iss o tem gerado reações de vários segmentos da sociedade no combate ao direito conquistado por essas p opulações de ―remanescentes de quilombos . terposto na Constituição Federal. quanto u m conceito. tanto pode ser uma categoria jurídica e uma questão de direito. o uso comum do território por parte de seus habitantes. e é isso que gera reações dos senhores que cometem as mais brutais formas de violências contra esses núcle os. como qu Seguramente o termo ―remanescente das comunidades dos quilombos . vêm na de preto. tanto pode ser um tema e um problema da ordem do dia do campo de poder. que nos são permite inserir nessa interpretação as t nomeações de épocas pretéritas. quilombo pode ser entendido hoje de diferentes perspectivas. recuperando e atualizando ilombola. objeto de pesquisa científica. uma vez que impede a transformação da mesma em mercadoria.

ainda hoje.Page 334----------------------o beira O requinte de arbitrariedade à barbárie.koinonia. de através dos vários reações de meios que mui Varg forte reação é o latifundiários. Decreto para o procedimento delimitação. o que demonstra.org. rotineiramente dos caso 2006. pois suas casas foram totalmente destruídas com tratores e incendiadas. que ocupam esses territórios na atualidade. ocorrido cerca no de uma violência. 227 Projeto Vida de Negro. 2003. que não consideram o casebre coberto de palha e tapada de palha como u m domicílio. como no estado do município Maranhão: no dia 19 de maio de dois tratores. . que regulamentou reconhecimento.887.paznocampo. de 20 de novembro de identificação. 228 www.br 229 www. ou seja. dez jagunços foram à quilombola. Negro C osme.org. a tas vezes se apresentam através da em Grande. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidade s dos quilombos de que trata o art. Vol. essa é a visão do dono de fazenda que assim tratava os negros os moradores e continua tratando descendentes desses povos. Col. II São Luís: SMDH/CCN-PVN 1998. É a visão dos dominantes. Jamary dos Pretos – Terra de Mocambeiros. onde Comunidade h ouve a cem policiais.br 333 ----------------------. caminhonetes. destruição total daquele povoado. não sendo que envolveu o fat respeitados os dispositivos básicos da Constituição Federal. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias 22 9 e tantas outras manifestações veiculadas de comunicação. comunidade Malaquias. a inviolabilidad e do domicílio do cidadão.maior polêmica vem através do e apresentou o Projeto de deputado ruralista Valdir aplicação Colatto do qu Decreto Legislativo PDL 44/2007 ―que visa sustar a n  4.

algumas Alfredo Wagner Berno de Almeida que as considera como ―aqueles domínios doados. Portanto. Os descendentes de tais famílias pe rmanecem nessas terras há várias gerações e sem delas se apoderarem individualmente . envolvendo essas comunidades é bastante complexa. e. foram atingidas sem estarem na relação processual. foi ―despejado pela força polic ial. f cinco e meia da manhã do dia 19. 231 o não se Mais adiante o restringem apenas autor aos sem proceder ao formal de partilha diz ainda que terras de pret domínios acima citados. do mandado não constava a demolição. TERRAS DE PRETO. segundo. com ou sem formalização jurídica. às oito horas da manhã. ocupados ou adquiridos. e sim uma ação de interdito proibitório cont ra 10 famílias: primeiro. que a situação das te rras de preto. às famílias de ex-escravos a par tir da desagregação de grandes propriedades monocultoras. houve uma reintegração. a execução foi contra incluindo idosos.O grau de barbaridade chegou ao ponto de. terceiro. no dia 18. mais de 10 gestantes e crianças. quando não havia ação. portanto sem ao menos o direito e episódio algumas ilegalidades de ser velado. . pois não havia uma ação de despejo. era contr 0 famílias e 0 pessoas. com base nos episódios acima. no caso. 30 famílias. Constam dess praticadas. no Maranhão. não fo i respeitado nem mesmo o cadáver do ―seu aleceu às Teixeira: ele foi picado por uma cobra cascavel. trata-se de comunidades centenárias. não se trata de ocupação. a ação. MUITO ALÉM DO TERRITÓRIO definições Na tentativa de conceituar terras foram traçadas por de preto. vale destacar que. entregues.230 Pode-se constatar. no ato do despejo. o mandado apenas determinava a proibição para que os réus se abstive ssem de praticar qualquer ato que impedisse o exercício da posse.

Page 335----------------------A expressão alcança também aqueles domínios ou extensões correspondentes a antigos quilombos e áreas de alforriados nas cercanias de antigos núcleos de mineração. Alfredo Wagner Berno de. Presença marcante tem aqueles povos e podemos percebê-la através no adj etivo ―dos pretos em mais de 33 povoados no estado do Maranhão.230 DUTRA. Uso Comum e Conflito/Revista do NEA. Terras de Preto. caracteriz a uma força presente em suas próprias territorialidades. 23 de maio de 2006. Domingos. a nosso ver. e uma modalidade intrínseca desses de relação com os re que constitui florestais e do solo. mantendo ireito. UFPA. www. onde existem centenas de povoados. tratando-se d . elementos Terras de preto têm um sentido de força social. terras de Santo e Terras de Índio. abrangente. não e uma classificação externa. É a combinação a identidade desses grupos. Tendo por base o elemento étn ico. o que. adota a ação difundida no função rural maranhense. relacionada aos aparatos do poder. que orientavam uma apropriação comum dos recursos. tro O PVN – Projeto de Cultura Negra do categoria terras meio Vida de de Negro preto em do CCN-MA da – Cen autodenomin Maranhão. São Luís. 334 ----------------------. Assembléia Legislativa do Maranhão. definem uma territorialidade específica cursos hídricos.com. Grande Expe diente. que perm aneceram em isolamento relativo. 231 ALMEIDA. Diferencia-se de comunidade dos quil ombolas por essa ser uma categoria restritiva.elo. 1989. istadas por prestação de regras Há ainda de uma aquelas concepção que foram de d conqu 232 serviços guerreiros ao Estado. Relatório.br. notadamente na guerra da Balaiada (1838-1841).

1994. Município Povoado Chapadinha Pinheiro Turiaçu Itapecuru-Mirim Eugênio Barros Caxias Codó os Icatu Igarapé Grande Presidente Juscelino Lima Campos Centro dos Pretos Santana dos Pretos Santa Rita dos Pretos Oiteiro dos Pretos São Paulo dos Pretos Mandacaru dos Pretos Santo Antonio dos Pret Jacaraí dos Pretos Mandi dos Pretos Juçaral dos Pretos Bom Jesus dos Pretos 232ALMEIDA.233 traz a tabela a seguir. 335 ----------------------. incidência de resultado do levantamento do remanescentes de quilombos ou terras de preto no estado do Maranhão. 233 Projeto Vida de Negro (CCN-MA e SMDH) 1988 a 2007.A PVN. Alfredo Wagner Berno de. Falangola.Page 336----------------------Turiaçu Codó Santa Helena Itapecuru-Mirim Cândido Mendes Cândido Mendes Grajaú Bacabal Central do Maranhão Jamary dos Pretos Cipoal dos Pretos Pau Pombo dos Pretos Santa Maria dos Pretos Bom Jesus dos Pretos Carará dos Pretos Santo Antonio dos Pretos São Sebastião dos Pretos São Sebastião dos Pretos . Belém. Carajás: A guerra dos mapas.

identidade é um lugar que se assume. inclusive de gênero e orientação sexual.Santa Helena Guimarães Guimarães Bacabal Rosário Codó Itapecuru-Mirim Mata Roma Codó Caxias Alcântara do Cajual) Maracaçumé/Nunes Freire Chapadinha Constatamos. assim como Stuart Hall. mas traz consigo todo um significado cultural. e não uma essência ou substância a ser exami nada234. que as identidades sejam fixas e que remontem a um tempo passado. 336 ----------------------. puro. de Mocambo dos Pretos São José dos Pretos Fortaleza dos Pretos Barraca dos Pretos Boa Vista dos Pretos Inaranha dos Pretos Santa Rosa dos Pretos Bom Sucesso dos Pretos Piritoró dos Pretos Lagoa dos Pretos Santana dos Pretos (ilha Cachimbo dos Pretos Tabuleiros dos Pretos uma de explicitação identidades. a nossa compreensão sobre o o que certamente alarga 234 HALL. onde a cultura negra seja preservada. de Não territórios. UFMG. uma costura de posição e contexto. Belo Horizonte. com essa afirmação sugestão. não se trata apenas do espaço físico. pertencimento a esses nesse levantamento. acreditamos. que a identidade neg ra é atravessada por outras identidades. sugerindo a necessidade queremos dizer. 2006. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Stuart.Page 337----------------------- . Percebemos que o território aqui explicitado. portanto. Ed.

. pois se identidades. além das fronte iras físicas. seus modos de vida. tradição cultural. consi dera o espaço de fundamental importância. em seus estudos. Seu trabalho nos leva a refletir sobre as novas territorialidades e suas dinâmicas. a luta contra a assegurar a posse de discriminação racial. É nesse sentido que compreendemos os terri tórios quilombolas. seja. Assim sendo. Antonio Augusto Arantes236. pautada na igualdade. construídos a partir das experiências vividas por esses povos. pois é nele que se configuram todas as tramas sociais. consideramos também a grande miscigenação que há nas chamadas terras de preto. identidades historicamente território laços quilombola.conceito de quilombo. suas culturas. de nessa perspectiva. casa e escola para estudar em casa. configurando-se constituem como espaços de contemporaneamente também através de redes. Pautados nessas premissas é que devemos considerar as identidades d os quilombolas. a luta pela terra. mas tem dimensões mais amplas. sem ser preciso os filhos da gente sair na adolescência serv indo de escravo para os outros para poder estudar. Sabemos que territórios não se traduzem apenas ao espaço físico. pois não se trata apenas de descendentes de negros escravizados. ou Território. Neste sentido. espaços de familiares. terras de preto não é apenas um conceito que nos remete ao pas sado. a luta por uma sociedade justa. onde os próprios sujeitos se articulam e se fortalecem. significa religiosidade. mas um conceito em movimento que deve ser considerado a partir de seu contexto e de sua s complexidades. Constatamos isso no depoimento de Teixeira235 s obre a ocupação da área do Assentamento Balaiada: o objetivo da luta era conquistar a terra para que todos tivess em terra. buscando seus territórios. terras de preto nos remetem a uma diversificação de se ntidos: a luta por identidade.

Nesse sentido, Rolnik diz que, ―ao falarmos de territórios n egros, estamos contando não apenas uma história de exclusão, mas também de construção de singularidade e elaboração um repertório comum 237. a diversidade Cabe-nos, a partir do histórica desses são exposto, refletirmos sobre de

territórios que, contemporaneamente, preto, uma vez que suas

identificados

como terras

235 Ex-vereador (2005-2008), morador e liderança do Assentamento Balaiada. 236 ARANTES, Antonio A. Paisagens Paulistanas: transformações do espaço público. Campina s, SP: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa Oficial, 2000 237 ROLNIK, Raquel. Territórios negros nas cidades brasileiras (etnicidade em São P aulo e Rio de Janeiro). In Estudos Afro-Asiáticos, n.17. Rio de Janeiro, 1989. 337 ----------------------- Page 338----------------------relações são construídas do uso das terras que geralmente são de uso comum. Consideramos os preto, como territórios de quilombos contemporâneos ou terras de a partir do grau de parentesco, da memória,

lutas dos sujeitos para fazer valer seus direitos, assim como conquistar outros; neste caso, a luta pela propriedade da o território terra é apenas um se constitui como dos aspectos dessa luta, pois

elemento aglutinador de identidades compartilhadas. O direito à terra dessas comunidades, pois é da é um dos pilares de fortalecimento

terra que sobrevivem, é dela que tiram seu sustento. uma nova Diante do exposto, conceituação de é que, possivelmente, será construída

quilombo, não apenas do ponto de vista do artigo 68 do ADCT, mas considerando as t erras de preto e tantas outras que se constituem carregadas de significações, gestadas pelos próprios sujeitos destas comunidades, portanto, es povos, diferentemente pautadas das nas experiências e culturas dess

conceituações forjadas em momentos históricos de profunda opressão que se justificava ap enas pela exploração capitalista. BIBLIOGRAFIA ALBAGLI, Sarita. Território e Territorialidade. In: LAGES, V inicius (org.) Território em movimento: cultura e identidade como estratégia de inserção competitiva. RJ: Relume Dumará/Brasília,DF: SEBRAE, 2004. ALMEIDA,Alfredo Wagner Berno de. Carajás: A guerra dos mapas. Belém, Falangola, 1994 . ______________________________. Santo e Terras de Índio. Uso Comum e Conflito/Revista do NEA. UFPA, 1989. Terras de Preto, terras de

ARANTES, Antonio A. Paisagens Paulistanas: transformações do espaço público. Campinas, SP: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa Oficial, 2000. ASSUNÇÃO, Matthias Röhrig. Quilombos Maranhenses In: Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil (org.) REIS, João José, GOMES, Flavio dos Santos. São Paulo: Cia. das Letras, 1996. BARRETO, Nelson Ramos. A Revolução Quilombola: Guerra racial, confisco agrário e urban o, coletivismo. 2ª ed. São Paulo: Artpress, 2008. BRASIL. Constituição (1988). , Artigo 68. São Paulo: Imprensa Oficial, 1999. Ato das Disposições Constitucionais Transitórias

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____________. Terras de Preto no Maranhão: isolamento. Coleção Negro Cosme Vol. III, São Luís-MA: SMDH/CCN-MA/PVN 2002.

quebrando

o

mito

do

____________. Vida de Negro no Maranhão: Uma Experiência de luta, organização e resistênci a nos territórios quilombolas. Coleção Negro Cosme Vol. IV, São Luís-MA: SMDH/CCN-MA/PVN 2005. 339 ----------------------- Page 340----------------------REIS, João José. Quilombos e Revoltas Escravas no Brasil. Revista USP: São Paulo (28), dez/fev1995/1996. Revista Projeto Vida de Negro: 15 anos de Luta pelo Reconhecimento dos Territórios Quilombolas.

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hecida

como

Santana

de refere-se ao projeto ―Produção de Alimentos e Cul

Caboclos. A primeira tura Alimentar: uma

avaliação das formas de obtenção e consumo de alimentos em comunidades agro-extra tivistas de Alcântara239 e a segunda, aquela realizada para fins de obtenção do título de mestre em Ciências Sociais240. Embora a temática da festa os referidos projetos, se impôs significativamente no resultado dos estudos. Nesse sentido, pretendo refletir sobre qual o sentido da festa pa ra os camponeses que integram o grupo morador emos afirmar que se da comunidade. Busco saber em que medida pod não tenha sido o objeto d

trata de um ritual de resistência na luta pela terra e se é um instrumento que reforça a identidade do grupo. A festa em Santana de Caboclos acontece anualmente entre os dias 24 a 26 de julho, sendo dedicada a Nossa Senhora Santana. A homenagem à Santa, ti da pelos moradores como a ―dona da terra 241, constitui-se numa forma de agradecimento pelo uso desse recur so básico. É o 238 ―Trabalho apresentado na 27ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 01 e 04 de agosto de 2010, Belém, Pará, Brasil. 239 Pesquisa realizada pelo GERUR – Grupo de Estudos Rurais e Urbanos, c oordenada pelos professores Drª Maristela de Paula Andrade, Dr. Benedito Souza Filho e Dr. Horácio Antunes. A pesq uisa desenrolou-se no período de março de 2004 a março de 2005 e coube a mim coord enar o trabalho de campo no povoado Santana de Caboclos. 240 PPGCS - Mestrado em Ciências Sociais, dissertação intitulada ―SÓ VIVO DA PESCA: Estratégias de reprodução de famílias camponesas no meio urbano – entre Alcântara e São Luís, Maranhão . 241 Situação análoga foi estudada por Prado (2007) em Itamatatiua, outro povoado de Al cântara e também reconhecido atualmente como terra de quilombolas. Aquele estudo, o primeiro a fo calizar as conexões entre a 341

----------------------- Page 342----------------------evento considerado pelos ais importante, para o moradores, qual se dentre os demais, como o por por o a di tr m

preparam durante o ano todo. seus habitantes como terra de santíssima ou terra de abalhos como os de santíssimo,

A localidade situação e de para reforçar a

é conhecida

sociológica festa

evidenciada para

Linhares(2001) e Almeida(2006), s moradores, o momento não só agradecer, mas também serve vindade que, segundo suas

representa esse

laço com

representações, lhes garante o acesso e a permanência na terra. Deste modo, os moradores mantêm uma relação singular no que tange à poss e e uso da terra. Para eles, a santa seria sua verdadeira proprietária e lhes permitiria, des de o tempo de seus antepassados escravos, usufruir de todos os seus recursos, sem nada lhes cobrar. Quanto às designações terras de santo, terras de santa, terra de santíss ima ou terra de santísimo, são tratadas por Almeida como territorialidades específicas, nas quais ―foram construídas complexas redes de relações sociais onsistem em categorias classificatórias que as e plurais da identidade e ―mais que meros termos ou expressões, c as características intrínsec

apontam para

étnica dos agentes sociais em questão .(2006, p. 52). A origem das denominações assinaladas, da à existência de ordens religiosas no Maranhão como unidades de exploração econômica242 pecula-se que Santana de está relaciona e es

Caboclos seja uma única área que abrange Samucangaua e São Lourenço que pertenceram a um a extinta ordem religiosa (Shiraishi, o pesquisa jurídica realizada no 1998, p.4). O autor, segund

Cartório do 1 Ofício da Comarca de Alcântara, atesta o desaparecimento de registros no c artório de Alcântara, ao relatar a não imóveis importantes para a existência dos livros de registros de

identificação jurídica da área denominada Santana de Caboclos.

Conforme GOMES (2004) tem-se conhecimento que no século XIX, com p ropósito de fundar e cuidar de cemitérios criaram-se no Maranhão irmandades católicas designadas I rmandades do ho Santíssimo Sacramento, a a Alcântara. Para o exemplo do município de Guimarães, vizin

autor o indício da presença dessa irmandade em Santana, é a existência do cemitério que se rve aos povoados circunvizinhos. como revela Os moradores dizem um informante: Os que a terra pertence à Santa,

antigos contam que a santa foi achada na pedra do rumo. Que a terra é da Senhora S antana.(Seu economia camponesa e o calendário de festas entre camponeses maranhenses, chamando a atenção para o uso comum das terras consideradas como de ―propriedade da santa. Juntamente com o traba lho de Mourão (2007), ambos escritos nos anos 1970, representa um marco nos estudos das situações de terra de uso comum na Baixada Maranhense. 242 A presença de ordens religiosas como unidades de exploração econômica no maranhão fez parte da missão colonizadora, especialmente na Baixada Maranhense. A esse respeito consultar Mou rão Sá (2007) e Prado(2007). 342 ----------------------- Page 343----------------------Jonjoca, morador de Santana, em 02/05/04) (CARDOSO, 2005, p.9). No entanto, há nec essidade da realização de etnografias que dêem conta dessa realidade. Destarte, sendo a festa uma espécie de cumprimento de um contrato (PRADO, 2007, p.56) coletivo que os habitantes mantêm com a Santa, ratificando-a enquanto propri etária da terra, se apresenta também como um elemento de reforço da identidade étnica do grupo. Se pens armos nos termos de Barth quando estuda situações difiram etnologicamente, os Pathan, embora as

poderíamos dizer que o grupo exibe, no ritual, uma performance que está conforme ao ―modelo

nativo e que deve ser compartilhado por aqueles de seu grupo de origem (Barth, 20 00, p. 72) e é desta que seu comportamento é avaliado. Como feitas doações pelo meio de garantir grupo e a realização da festa, são

representam na verdade, como nos casos estudados por Mauss (2003:356), obrigações mút uas que se impõem reciprocamente com frequência gerações e não só englobam todos os indivíduos, e

sucessivas, mas se estendem a todas as atividades. As doações são denominadas pelos mo radores de Santana dejóia, estas como elemento da dos estrutura municípios categoria analisada por Prado (2007), quando estudou as f social camponesa de Bequimão em e como já apontado, semelhanças com comunidades rurais

Alcântara/MA, as quais apresentam, a festa de Santana de Caboclos.

Ao estudar a festa de Santa Tereza de Ávila, em Itamatatiua (Alcânta ra, Maranhão) e Santana (Bequimão, Maranhão), também tidas como ―terras de santo , a autora def ine a ―jóia como instituição e as ―terras de santo como representação (PRADO, 2007, p.62). Essa formulação se vê ainda reforçada pela das capelas das respectivas proprietárias [Santa Tereza de Ávila e Santana], quanto dos „encarregados das terras’, ou seja, de um indivíduo responsável pela administração dos „bens da santa‟ e da arrecadação de uma contribuição dos seus moradores. Por isso, todos os anos, na época que precede os festejos de cada padroeiro, um grupo de pessoas, sob o controle dos encarregados‟, sai peregrinando a fim de recolher „a jóia‟do santo. E os moradores não negam a dá-la. Ao contrário, fazem mesmo questão de doá-la, pois o fato se lhes afigura como uma vantagem, se se comparam a outros campo neses que por residirem em terras de proprietários particulares, não usufruem d e umas tantas regalias, e ainda são obrigados a um foro estipulado pelo dono. (PRA DO, 2007, p.63) existência, tanto Em Santana de Caboclos não é diferente. Se a realização da festa em

homenagem à entidade divina é o a e não havendo por cumprimento parte dos de um nenhum contrato compromisso com para a sant

moradores de Santana de Caboclos to de impostos junto ao

pagamen

estado ou a um dono particular pelo uso e posse da terra, tal manifestação só pode ser entendida como configurando uma prática outros agentes sociais de resistência às possíveis investidas de

343 ----------------------- Page 344----------------------interessados na terra, a exemplo das ameaças da perda da terra perpetradas pelo e stado brasileiro referente a expansão da base de lançamento de artefatos espaciais243. Enquanto a Constituição Federal protege os direitos dos remanescente s de quilombos, com base no Artigo 68 dos ADCT e no Decreto 4887, o governo federal, por meio do Ministério da Defesa, tenta impor aos atuais quilombolas uma regularização fundiária, com respectiv a titulação coletiva, somente após a exclusão gência Espacial Brasileira. das áreas de interesse da AEB – A

Diante desse impasse jurídico, até o momento, o território quilombola, reconhecido ofi cialmente a partir da elaboração de um laudo antropológico (ALMEIDA, 2002), não foi regularizado em nome das famílias dos mais de 150 povoados que constituem o território étnico de Alcântara. N o início de 2008, a situação se agravou na s representantes denunciaram a invasão cântara da área pela empresa Ciclone Space (ACS). comunidade binacional (Adital), uma a de Mamuna e seu Al o o solo,

brasileira-ucraniana empresa perfurou

Segundo a agência de informação abriu estradas e destruiu mata nativa. Apesar de existir INCRA – Instituto Nacional de

decisão

judicial obrigando

Reforma Agrária, a emitir o título das terras quilombolas de Alcântara, a decisão não é exec utada. Especialistas da Universidade Federal do Maranhão têm acomp

anhado a situação Ministério Público244.

junto

ao

Embora estivessem na iminência de perder a terra e apesar de nunca terem possuído o seu ais título, a deixou de celebração em agradecimento ser realizada, à santa pelo seu uso jam

tornando-se um momento de reafirmação, perante às normas do sistema jurídico vigente, de que, para o grupo, a verdadeira proprietária da terra é a santa. 243 Em Alcântara, as chamadas comunidades quilombolas, como Santana de Caboclos, têm sido impedidas de usufruir plenamente de direitos garantidos pelo Estado Brasileiro, não apenas com base no Artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias e de outros artigos da Constituição de 1988, assim como em outros dispositivos jurídicos, como o Decreto 4887, além de tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho - OIT. A Agência Espacial Brasileira vem tentando, há vários anos, instalar novos sítios de lança mento para serem alugados, expandindo a área já existente sob controle dos militares, mas diante da r esistência das famílias, assim como da movimentação de suas entidades de apoio, recentemente o governo federa l optou por recuar para dentro da área do CLA – Centro de Lançamento de Alcântara, Nesse local, dentro dos 8700 hectares em mãos dos militares desde a década de 80, a ACS – Alcântara Cyclone Space – está construindo sua base de lançamentos para atender aos compromissos gerados pelo Acordo entre o Brasil e a U crânia. Apesar disso, mandatários de órgãos oficiais vêm, constantemente, por meio da imprensa, ameaçando de ret omar o controle sob todo o território já reconhecido como pertendente aos quilombolas. Apesar de exi stir uma decisão judicial, resultado de acordo entre as partes, obrigando o INCRA – Instituto Nacio nal de Reforma Agrária, a emitir o título das terras aos quilombolas de Alcântara, a decisão ainda não foi executa da, indicando que há um impasse político entre os próprios órgãos oficiais. Tal situação resulta que as comunidad es permanecem como há mais de cem anos, sem a titulação de suas terras. 244 Disponível em: <http:// www.adital.com.br>.Acesso em 25 jan.2008. JORNAL DA C IÊNCIA, da SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA (SBPC) e PAULA ANDRADE, Maristela de e SOUZA FILHO, Benedito. Informação Técnica à Procuradoria da República no Ma ranhão, intitulada Impactos dos Trabalhos desenvolvidos pela ATECH/ACS sobre as populações t radicionais da região de Alcântara, Maranhão. 344

nos povoados Santeiro e Taquaritiua (Viana. as grupo. concebidas e nem vividas como externas ao grupo. essa maneira de pensar a terra e de se apropriar dela têm a ver com um modo de vida específico. que facilita a intermediação co m os Céus. Maranhão). deve ser compreendida como um ato que expressa a crença coletiva nos poderes da santa. A realização da celebração em homenagem à santa se confunde com a própria hi stória da comunidade. ou seja. neste caso. p. para que „as graças‟ sejam prontamente alcançadas .160). com sua formação singular. ex trapola o rito de uma celebração em agradecimento à divindade e se configura num ato de enfrenta mento às regras impostas pelo estado. a autora diz: Tais ações. 1999.(PAULA ANDRADE. a exemplo do próprio título da terra. decorre da hece compartilhado uma posse imemorial do grupo que origem étnica comum. Ou seja. da cosmovisão não são natureza.191) se recon A festa de Nossa Senhora Santana. sendo reconhecida como remanescente de qui lombos e .Page 345----------------------as no Em direito Santana. citando Hobsbawm. segundo a qual o direito à terra. ―passa a fazer parte do cotidiano das pe ssoas e conhecer todos os seus problemas.(SILVA. consensualmente desses grupos. 2007. em que aponta para a existência de regras próprias desses grupos. certamente esbarrariam com a resistência ca mponesa. p. ou normas regras particulares acatadas A basead pelo consuetudinário. Porém. ancorada numa „jurisprudência‟ própria. o qual exige uma série de obrigações. Esta. existem costumeiro. (1999) sobre Tal situação nos remete os conflitos em ao estudo de Paula Andrade terras de uso comum. Tais normas não se separam da economia e e sobretudo a terra. numa relação de intimidade. o pagamento de impostos e outros. e em uma situação de conflito com agentes externos.----------------------.

com o a economia. A celebração. além dos fil hos do lugar. os conflitos. é um sistema de troca. com especificidade s territoriais e étnicas. É o momento escolhido para os reencontros.integrando um conjunto de povoados que se reproduz secularmente no município de Al cântara. de reforçar hierarquias. precisamente nos bairros (CARDOSO. o sistema de trocas. sendo o momento no qual as sociabilidades se reanimam. revelam códigos própr ios. 2008. pois lá é comum que as famílias tenham parentes estab elecidos na da periferia de Alcântara e Liberdade e da Camboa. . O universo simbólico das celebrações religiosas e significado expresso nas festas dos santos.Page 346----------------------A festa condensa toda a forma de ser e de viver do conjunto de p essoas daquele lugar. de sincretismos. as relações de parentesco e compadrio. seu 345 ----------------------.98-99. denomina de ―território étnico de Alcântara. seja compadrio ou amizade. momento de de voções. quando os que estão fora se esforçam para retornar ao povoado. as hierarquias. a festa dos santos apresenta uma dimensão estética. Também revela as diversas dimensões da organização social do grupo. de fazer reivindicações. de parentesco. (LUCENA. os saberes. Esse conjunto corresponde a diferentes situações históricas e etnológicas. reúne. metáforas e linguagens locais. pp. compondo o que Almeida (2002). por sua vez. de Alcântara e de São Luís. de passagem. de ditar regras. também pessoas que formam uma rede de rel ações entre moradores dos por vínculo povoados vizinhos. em São Luís. que se encontram fora de Santana. Por meio de performances ou alegorias. 2008). grifos da autora). res Essa manifestadas prática religiosa por meio da se imbui de regras particula realização da festa na qual.

o interlocutor demonstra o como seu no caso anunciado. alimentação. tempo e eternidade. 2001. fantasia e realidade. rede de parentes. grifos da autora) no estabelecimento . mito e história. por isso mesmo revelando e exaltando as contradições imp ostas á vida humana pela dicotomia natureza e cultura. vendendo cerveja na venda de sobrinho seu. mitos e máscaras atesta com veemência esta proposição. território étnico de Alcântara. pescador. limentadas por uma extensa ali. passado e present e. de modo vívido e concreto. ser e não ser. natureza e cultura. mediando ainda os encontros culturais e absorvendo. (CARDOSO.22. vida e morte. Seu Catarino. p. Ela busca recuperar a imanência entre criador e criaturas. Para alguns autores a festa possui uma função mediadora na medida em que. A presença da música.(AMARAL. A festa é ainda mediadora entre os ansei os individuais e os coletivos. na experiência de seu Catarino e sua história pesso al. A festa é uma das vias privilegiadas de mediações da humanidade.importância A análise empreendida desse ritual para por Cardoso (2008) revela a aqueles que desejam retornar ao seu lugar. dança. digerindo e transformando em pontes os opostos tidos como inconciliáveis. amigos e compadres. 2008. ao som de para tocar. nós e os outros. se me apresentava a rnando a certeza de que se quiser la nas terras de Santana. como no caso estudado. p. no qual escol he regressar em plena festa da padroeira de seu povoado de origem após um longo tempo longe e. para o qual se preparam o ano inteiro com o intuito de celebrar e simbolicame nte reafirmar seus códigos e regras próprias. no qual pertencimento ao grupo revelando o seu direito à terra ante às regras locais. E todas as questões sobre o suas ramificações para o meio urbano.30) Os moradores e filhos de Santana de Caboclos colocam toda a sua energia nesse ritual. radicado no meio urbano . lá estava atrás de um balcão de músicas que ele escolhera barraca de festa de santo. exte colocar seu roçado no próximo ano agríco nenhum parente vai impedí-lo.

140).Page 347----------------------nto Aqui também a que compõe a mediação deve ser compreendida como um eleme festa à chamada Nossa Senhora Santana. mas o trabalho. (ESCOBAR. sua história de sobrevivência à escravidão de negros e índios tam . e com freqüência su pranaturais não são vistos como entes que constituem domínios distinto s e separados. os mor adores de Santana dos Caboclos confirmam sua visão própria de mundo. ao afirmar: A diferença das construções modernas com sua estrita s eparação entre o mundo biofísico. em muitos contextos não ocidenta is. entende-se comumente que Ao festejar a santa para agradecer-lhe pelo bem recebido. p. 2). para serem usufruídos por tod do grupo. o humano e o supranatural. também nos remete à discussão proposta por Escobar. 2005. quando trata do conhecimento local e modelo s do natural. são concebidos como sustentados sobre vínculos de continuidade entre as três esferas. capitalista. levando-os a percebê-la e aos demais r como dádiva divina e. 2001. p.346 ----------------------. Esta continuidade –que poderia no entanto ser vivida como p roblemática e incerta. suas regras e sua história. rituais e práticas e es tá plasmada em especial em relações sociais que também se diferenciam do tipo mod erno. os seres vivos e não vivos. É por meio da festa que o grupo reafirma a si próprio e ao mundo ext erno sua origem. pois esse ente superior orienta a relação do gr upo com a terra e os seus recursos básicos. os modelos locais.está culturalmente arraigada através de símbolos. (PAULA ANDRADE. Desta forma. como explicita a autora: s que liga básicos esses Estamos diante de um sistema de crença camponeses à terra. portanto. ecursos os os membros A relação que os camponeses aqui tratados estabelecem com a natureza . com um sistema de crenças que rege não so mente a sua religiosidade.

bém. torna ndo-se o chefe da família o chamadofesteiro no entanto. pois em Santana de Caboclos. os é predominante. entre os dias 24 e 26. conta historicamente com a participação direta dos mor adores. predominando aí as condições fin anceiras do escolhido. com variação dos opção pelo final de semana. é obtido O fundo cerimonial das economias do que garante a realização da festa. no mês dias em virtude da de julho.21). mas uma família é às vezes escolhida pelo grupo e outras assumem por vontade própria. ―se os homens têm pretensões a partici . para permitir que os parentes que trabalham e ou residem em São Luís ou Alcântara possam participar. p. quando diz que ―todas as relações sociais estão cercadas por um cerimonial par das e ainda. A Festa de Nossa Senhora Santana – breve descrição È realizada a cada ano. em homenagem a santa chamada Nossa Senhora Santana que dá nome ao lugar. em ambas as situações deve receber a incumbência e a aprovação do encarregado da festa e guardião da Santa. bo conforme observamos. a escolha do festeiro acontece por meio de acordos que são feitos. podemos como um fundo cerimonial nos termos de Wolf (1970. aposta ao nome do povoado. Na realidade. 347 ----------------------. próprio festeiro . a denominação caboclo. que é fixo. tem-se indícios de que foi uma terra habitada por indígenas.Page 348----------------------Sua organização. guardadas ao longo do ano. È nesse no entanto a presença de negr movimento que o sentimento de pertencimento ao lugar também é reforçado. Origina-se aí. A criação de animais como porcos. galinhas e patos é uma prática comum ao grupo supor que se configure e. is.

com o levantamento do nove dias antes do dia consagrado à santa garrafas de mastro. mantimentos a serem uti chocolates. há também a figura dos ch promovem cada noite da novena. Todo ano tem – as festas na consulte-se PRADO. enfeitado com frutas. últimos o noitante responsável dependendo das suas por c eles of chocolate quente. encimado pela bandeira da santa. nha em latim. de melhor qualidade e aos estes quais considerados normalmente têm pouco acesso. nos atos de distribuição da comida. Na última noite da novena. em pagamento de promessas. Nos dias que se segue m é realizada a novena até o dia propriamente dito da santa (26 de julho). café. Ajóia pode ser ofertada em form a de recursos financeiros. 5 deverão trabalhar por tais para a criação de um fundo vis A outra forma que garante recursos é a instituição do pedido de jóias 24 por meio de festeiro às pessoas que ele convites ou cartas entregues pelo escolhe. café. e.relações sociais. vinho e folhagens de planta denominada murta. moradora res da de Santana localidade e e de costuma ser acompanhada povoados vizinhos. Essas pessoas se tornam os mordomos. mingau de milho ondições. pessoas da que ritual é em que é rezada por a ladai mulhe festa. cachaça. doces. que têm a função específica de rezarem a ladainha. ladainha. amados Na estrutura noitantes. ando às despesas atividades . pão com margarina e bolo de trigo. A festa inicia-se . lizados para fogos de artifícios ou a feitura de bolos. sendo acompanhada por um grupo ra e há uma variedade e de músicos integrantes da orquest Re 245 Para aprofundamento dessa categoria gina. uma espécie de padrin hos da festa. erece bolo Em cada noite da de tapioca. a responsabilidade é sempre dofesteiro . A rezadeira. Outras o procuram com o intuito de doar ajóia . tronco alto de madeira. recebendo tratamento privilegiado na celebração. . refrigerantes.

ofesteiro se ocupa da organização do even to. Não há distinção entre os mo rdomos . pois ladainha é comum a participação de pessoas de outros lugares. prestígio preparando a maior então demonstrar quantidade possível desses alimentos para um maior última noite de número de pessoas.estrutura social camponesa. São Luís:UFMA. aves e bovinos). vinho). é Nota-se levada pelos mordomos para sua casa e dividida com a família. macarrão) ormente e anuncia-se o nome é e o lugar degustada à de origem mesa. mas distribuído a refeição do mordomo. abundância doces no e bebidas. são preparados pratos de comida e bebida (refrigerante. mordomo a tomar lu acompanhado de doces. colocam s eu conteúdo – normalmente e bovina uma enorme quantidade assadas. no meio da tribuna. 348 ----------------------. farinha. No primeiro dia da festa. Logo que recebem o prato. gar diante O festeiro convida cada do prato de refeição. torta de em um de comida recipiente (arroz. situada ao lado da tribuna. a bar raca de venda das bebidas. que anima os participantes no ritmo predominante do reggae247.Page 349----------------------quantidade maior iado conforme a de bolos. até o enfeite da Igreja. à esp era da chamada radiola de reggae246. para a cerimônia de distribuição da comida aos denominados mord omos. local onde acontece a festa dançante e a cerimônia da distribuição de alimentos. colocados em uma mes a cerimonial. ele O festeiro tenta é prestig seu na oferecimento da alimentação. matança de porcos. enquanto a música de som mecânico é silenciada para dar a vez à orquest ra e para os dançantes acompanharem ou participarem do ritual. bolos e refrigerantes. desde o preparo da alimentação (bolos. 2007. plástico que carnes suína anteri não camarão. À noite.

In GOODY. P or ello. 349 ----------------------. y que todos los deberes de la amistad y la hermandad están implicados en ese acto común. y este acto del culto. grifos da autora) Durante os festejos.baseada no valor da doação de cada um. no último dia. quienes come n y beben juntos están ligados mediante un lazo de amistad y obligación mutuas. (SMITH. com sistema de amplificação e com várias caixa s de som empilhadas umas sobre as outras. vis ta como acto social. A tem um caráter como afirma Smith: La significación ética de la comida sacrificial. cuando encontramos que en las religiones antiguas todas as culto están sintetizadas en las comidas sacrificiales. el dios admite su amistad.Page 350----------------------comer y beber con los indivíduos que la integran. 19 95:25. distribuição sagrado e do alimento aos mordomos durante a festa . 247 Sobre o reggae no maranhão consultar SILVA (1995). De acuerdo a estas ideas. Al adm itir al hombre en su mesa. cimenta también los lazos entre aquél yn sus hermanos en la fé. A distribuição de alimentos ocorre em todo o períod o da festa. desde o levantamento do mastro até o seu derrubamento. recibió un énfasis especial de ciertas costumbres e ideas ant iguas conectadas côn el comer y el beber. pois ali acontece a distribuição de comida em diversos momentos e notamos a presença não só dos adu ltos. pero este favor no se estiende al hombre en su mera condición privada: solo es recibido en tanto perte neciente a una comunidad para funciones comunes Del 246 Trata-se de um equipamento sonoro. al tiempo que cimienta los lazos entre el hombre y su dios . sendo operado por um animador ou Dj. debemos recordar que el acto de comer y beber juntos es la expresión solemn y categórica del hecho de que todos aquéllos que comparten la comida son hermanos. o movimento das pessoas concentra-se na cas a dofesteiro . y que el contacto común entre ls dioses y el hombre no tiene otra forma.

local da festa dançante e onde se consomem o pagamento da entrada na bebidas. podendo ser qualquer objeto. como eles recadar mais recursos para a festa. mantimento . a . à procura daquele que levou a imagem e à mediada que não a encontra. pa rticipando do torneio com times dos povoados que fazem parte da rede de interação do grupo e são convidados pelo festeiro . ritualmente roubada. A brincadeira. de casa em casa. como dizem. bebida ou dinheiro. garantindo a continuidade da festa e com ela a renovação dos elementos que a constit uem como. junto com a é realizada a busca da quando um grupo de pessoas o batendo latas. Durante o dia. que é segundo dia da festa. os moradores são obrigados a pagar umajóia . tual A festa encerra-se com a acompanhado por rezas e a derrubada do mastro. tem como objetivo ar música da orquestra e é momento no qual se definem os mordomos e o festeiro do ano seguinte. a festa se estende pela tribu na. principalmente dos homens. ri chamam. No dia consagrado à Santa é realizada a procissão. À noite. A presença dos times de futebol indica também a relação de reciprocidade existente entre os povoados. o time de futebol de na festa de santo de ou Santana de Caboclos é convidado a participar parapagar a visita . panelas e rezadeira saem pelo povoad cantando. que atualmente con ta com pouca participação das pessoas. a radiola de reggae permanece tocando e as pessoas dançam o tempo todo. m as a entrada não é paga.mas as crianças estão o tempo todo nos avançadas que espaços da festa assim como os de idade participam ativamente de todos os momentos. na medida em que tro povoado. como forma de garantir ao dono da festa um retorno monetário e parte dest e será revertido para a Santa em forma de melhorias na Igreja. a tribuna é aberta. que estão no campo de futebol. Aos homens é necessário tribuna. No Santa.

2003. . AMARAL. 2008. Mimeografado. G edisa. Maria Suely Dias. LUCENA.economia anização do lugar. CARDOSO. Festa à brasileira. Mímeo. (Dissertação de Mestrado). 13 PAULA ANDRADE. Só vivo da pesca: estratégias de reprodução de famílias camponesas no meio urbano – entre Alcântara e São Luís. In: LANDER. 2001. a resistência e a interação que se enquanto um grupo étnico.São Luís:EDUFMA. 2005. Brasília.) Fome de Farinha: deslocamento compulsário e insegurança alimentar em Alcântara. GOMES e CARDOSO. Maristela. 2000. Tese (Doutorado em Ciências – Antropologia). Maria Suely Dias. 2006. 387 f. São Luís. 1-8. nos quais os confl itos internos desaparecem temporariamente assegurando a sua coesão social. MMA. Programa de Pós – Graduação em Ciências Sociais. Acesso em 06 de março de 2009 no site www. São Luís: UFMA. 2005. Estúdio de sociologia comparada. Arturo. O lugar da natureza e a natureza do lugar: globalização ou pósdesenvolvimento.(orgs. Marcel. B enedito de. O guru. Terra de Preto e terra de santíssima: da desagre gação dos engenhos á formação do campesinato e suas novas frentes de luta.Page 351----------------------REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ALMEIDA. São Luís.) A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciênciass sociais. Produção de Alimentos e Cultura Alimentar: Avaliação das formas de obtenção e consumo de alimentos em Santana de Caboclos. a org reforçam tanto interna como externamente e os aspectos políticos. 1999. São Paulo: Cosac&Naify. ESCOBAR. Cocina. terra de santíssimo. Buenos Aires: CLACSO. 1998. Maria Suely Dias.br/ceru/anais/anais2008.com/antropologia/rita dado. Apropriação e manejo de recursos naturais em Sant ana de caboclos. A festa (re)visitada: (re)significações e sociabilidades. 1999. Terra de Índio: identidade étnica e conflito em terras de uso comum. A hegemonia norte-americana: como se manifesta no Brasil no setor aeroespacial. _____________. o iniciador e outras variações antropológicas. São Luís: EDUFMA/Mestrado em Políticas Públicas. Rita de Cássia de Mello Peixoto. Maranhão.1995. Significados do festeja r no país que “não é sério”.usp. 350 ----------------------. Maranhão. Os quilombolas e a base de lançamento de foguetes de Alcântara: laudo antropológico. Relatório de pesquisa. MAUSS.htm BARTH. Jack. Acesso em 06 março 2009 no site www. GOODY. Sociologia e Antropologia. Edgardo (org. CARDOSO. Alfredo Wagner Berno de Almeida. In: ANDRADE. Rio de janeiro: Contra Capa Livraria. Fredrik.Barcelona. Célia Toledo. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Maranhão. p. Cuisine y clase. Maristela de Paula e SOUZA FILHO. 2006. Luiz Fernando do Rosário. Mimeografado.Grupos de Estudos Rurais e Urbanos. LINHARES. Universidade de São Paulo.fflch.aguaforte.

SILVA. com recorte à situação de um componente. O pão da terra: propriedade comunal e campesinato livre na Baixada Ocid ental maranhense. São Luís:UFMA. Fundação Palmares/MINC/Mestrado em Políticas Públicas (UFMA). Alcântara/MA. em particular. WOLF. técnicas etc. J. Carlos Benedito Rodrigues da. SÁ. sobre a ótica da educação informal. Carlos Benedito Rodrigues da. onde a beleza e a contribuição do negro na formação da cu ltura do povo brasileiro são reveladas. lazer e identidade cultural. que torna possível. 2007. que foi resgatado na Unidade Escolar Especial Helena Antipoff em São L uís do MA. 2007. SILVA. em especial.Page 352----------------------CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL Relato de Experiências do Instituto Como Ver . Zahar. sistematizando acervos imateriais (sa beres. Todo ano tem – as festas na estrutura social camponesa. como meio de inclusão social. iniciado no ano de 2002. a escola poderia intercambiar identificando-se com os processos de luta em prol de políticas públicas de inclusão. subsidiada pelas tradições de origem africana. São Luís: SEIR/FAPEMA/EDUFMA. Da terra das primaveras à ilha do amor – reggae . nos estabelecimentos de ensino. voltado para a reintegração de uma pessoa com deficiência. soci al e artístico-cultural. a percussão afro-brasileira. Relatório de pesquisa jurídica sobre a terra de preto denominada Santa na ou Santana dos Caboclos. Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretis mos na cultura do Maranhão. Sociedades Camponesas. indumentárias etc. Eric R. deveria ser objeto de estudo sistemático. São Luís. Regina. Rio de Janeiro.) e bens artistico-culturais (instrumentos.Officina Affro do Ma ranhão Adalberto Conceição da Silva (Zumbi Bahia)248 RESUMO A presente narrativa trata-se de um relato de experiência acerca da cultura afro-brasileira. 2007. São Luís: EDUFMA. que também revalor .) pa ra o trabalho de sensibilização estética e conscientização política. atividades de informação e conhecimento ressaltando as potencialidades da cultura de origem africana. A descrição da experiência em questão é um trabalho que objetiva criar alternativa de aplicação da cultura afro-brasileira. SHIRAISHI. Pretende-se destacar as benesses de um trabalho. Laís Mourão. 1998. músicas. 1970 351 ----------------------. com os quais. como importante contribuição ao processo de ensino e aprendizagem e de incorporação social. São Luís: EDUFMA. 1995.PRADO. ao convívio coletivo. Propõe-se esta exposição. como proposta de atividades pedagógicas de inserção.

Tel: (98) 3271. social and cultural-artistic. costumes etc.4598.com. etc. as proposed education al activities insertion. Pós-graduação em Docência Coordenador pedagógico do Instituto Como Ver . focused on the reintegration of a person with disabilities to living a collective.Officina Affro em São Luís – Maranhão. where the beauty and contributio n of black culture in the formation of the Brazilian people are revealed and sy stematized collections immaterial (knowledge. begun in 2002. information activities a nd highlighting the potential of knowledge of African culture.). especially the african-brazilian perc ussion on the optical informal education. in particular.izem as relações interraciais para a construção/reconstrução da dignidade humana. Mudança. It is proposed that this exhibition as an important contribution to the teaching and learning and social inclusion. should be studied systematically in establishments education. which makes it possible. ABSTRACT This narrative it is an experience report about the african-br azilian culture as a means of social inclusion. including positive 248 Pedagogo com habilitação do Ensino Superior. Percussionista e Vocalista. It is intended to highlig ht the spoils of a work. The description of the experience in question is a work that aims to create alternative use of the african-brazilian culture.. 3882 / 8835. incluindo-se ações positiva s que contribuem para o estabelecimento de concisões de igualdade e respeito entre aquel es de menores condições funcionais na sociedade. music. Con hecido por Zumbi Bahia. techniques. Palavras-chave: Inserção social. E-mail: zumbibahia@yahoo.) raise awareness for the aesthetic and political awareness. with clipping the situation of a component. Cultura afro-brasileira. with which the school cou ld exchange by identifying himself with the processes of struggle for inclusive public policies. which was rescue d in the Special School Unit Antipoff Helena in Saint Louis in the MOU.br 352 ----------------------. and artistic and cultural goods (instruments.Page 353----------------------actions that contribute to precision establishment of equality and respect among . Percussão. em Gestão Educacional. which also increase the value of interracial relationships for the construction / reconstruction of human dig nity. Preconceit o. subsidized by the traditions of African origin.7199 / 8112. Compositor.

materiais didáticos. Na Grécia considerada como fundamental. utiliza o materia po as culturas negras cursos e oficinas. l cênico e instrumental para interagir com as disciplinas da Educação Básica e. INTRODUÇÃO em O Instituto Como Ver . de um modo geral é a linguagem que traduz formas sonoras capazes de expressar e comunicar sensações. motores. para a formação dos futuros cidadãos. onde r meio de do Maranhão mantém um trabalho pedagógico durante são os próprios também. deficiência promovendo.Officina 1984. jovens. por meio da orga expressivos entre o som e o silêncio. assim como a promoção de interação e comunicação social. que pressupõe o estudo e a compree nsão teórica da realidade social e da questão do negro na sua totalidade. Percussion. o estímulo à leitura. era educação desde há muito tempo. sentimentos nização e relacionamentos e pensamentos. gravidez prematura e doenças sexualmente transmissíveis. sediado no bairro do cidade de São Luís Affro. o que por contexto da educação. Preju dice. antiga. estéticos e cognitiv os. A música está presente. a alfabetização. A integração entre os aspectos sensíveis. O O fficina Affro com efetua atendimento a crianças. realiza-se um trabalho socio educativo na prevenção do uso de drogas. em todas as culturas nas mais diversas situações. o de música percussiva.those least able to function in society. dentre outros. confere caráter significativo à linguagem music É uma das formas importantes de si só justifica sua presença no expressão humana. A música. fundado Apeadouro. na o ano todo. . Keywords: Social Inclusion. ainda. particularmente. Change. de um modo geral e na educação infantil. no Faz parte da entanto. adultos e pessoas quando necessário. afetivos. ao lado da matemátic a e da filosofia. African-Brazilian Culture.

por meio do qual o público alvo poderá: explorar exemplares de instrumentos e objetos sonoros regionais. vivenciar e entender questões relativas à acústica. 353 ----------------------. Importante. cânticos e produção do som. autoconhecimento. a montagem e com instrumentos informar-se nativos maranhenses. como também. em particular . da de autoestima integração e do social. rítmico. onde acumuladas. com os instrumentos d escobrem possibilidades de recursos complementares. E ainda. no final do ano de 200 oficina de percussão na Unidade Escolar Especial Helena Antipoff. além da audição de poderoso percussiva meio e do beneficia domínio o desenvolvimento motor. experimentar sobre a origem e história dos instrumentos. no fazer musical. São importantes as situações nas quais se oferecem instrumentos musicais e obje tos sonoros às pessoas com deficiência. ainda. com pessoas com deficiência são linguagens musicais excelentes para o desenvolvimento da expressão. CONVÍVIO SOCIAL 2. foi surpreendido por um aluno que se mostrou interessado em dar continuidade às aprendizagens percussivas na sed .Os trabalhos recreativos com orquestras rítmicas percussivas. implementa espaço às atividades de criação e às questões ligadas a percepção e conhecimento as possibili es e qualidades expressivas dos sons. elas possam canalizar energias quando os instrumentos são das culturas que lhes são próprias e. ritmos o Instituto Officina percussivos Affro se propõe oferece auxiliados por instrumentos musicais populares e étnicos.Page 354----------------------r Diante oficina de disso. do equilíbrio. O Instituto Como Ver – Officina dando por encerrada a Affro. desenvolver rec ursos técnicos.

na cidade de São Luís e. febre reumática. artrite e suporta crise com desmaio. hoje. sentia dor de cabeça e a mente travava no mome nto de leitura e escrita. sobre matérias relativas às pessoas com deficiências. Habilidades que foram demo nstradas quando estagiou na Unidade Escolar Alberto Pinheiro (2003). U. Até agora. Entretanto. sem distinção dos seus li mites funcionais. nos alguma circunstância. orientado pelo seu professor de depois da permissão de sua Educação Física daquela escola. Sagarana I (20 04/2005) e na U. que nasceu no dia ocasião do seu acesso. também. Referem-se a integral. . residia próximo à Praça de São Roque. No processo de estudo. no bairro chamado Lira. com mais abrangentes das culturas de todos os seus componentes e propriedades originais. de sequela de meningite. já compl tou 24 (vinte e quatro) anos de idade. os conhecimentos herança africana. Na Júnior (2007). Esta colocação foi expressa numa entrevista concedida ao Officina Affro p 09 de fevereiro de 1986. ainda. ――Quando eu entrei no Officina Affro. eu entrei com uma expectativa grande de conquistar o meu ideal or Fred .e do Instituto. Sofre. de como m terapia duas vez princípio de epilepsia. E. em razão do teve muita facilidade de enten dança afro usando e faz remédios sessão controlados. continua edicamentos prescritos pelo acompanhamento médico anual es por semana. a vista embaçava. E. dimento quando o conteúdo era sobre a cultura de ascendência africana. doravante Fred Júnior. Teve dengue culdade hemorrágica aos de aprendizagem momentos de muita de idade ansiedade e sentia por difi 10 (dez) anos e de assimilação com referência aos assuntos didáticos da área de conhecimento da escola regula r. o aluno Manfredine Gomes dos Santos Júnior. família. entremeado com a percussão e a -brasileira e. passou a a bsorver os ensinamentos da cultura afro-brasileira de forma integral.

dançando (Instrumento idiófono afro-brasileiro com duas campânulas de ferro percutidas por va reta de metal). Módulo Básico eixos A formação básica temáticos voltados teve de suas ações desenvolvidas percussiva com e de a partir História d de para a valorização do trabalho e Cultura Afro-Brasileira e Africana. englobando de t e et abrangeram habilidades de leitura e escrita. ensaiando com os outros componentes. até o o momento. sem discriminação. do bloco de carnaval Officina em 2003. à realização de cálculos nicorraciais e resolução de problemas e de percepção de mundo. Embo ra fosse tratado de igual para igual. abordagem de questões sociais pressupondo a ampliação da dia-dia. capacitação Os conteúdos foram aplicados. Oliveira Roma (2006). atividades dirigidas ao raciocínio. extos. Participa. tocando o surdo de do agogô marcação. Freire. 354 ----------------------.Page 355----------------------Quando o Fred Júnior começou a fazer parte.E. do interpretação elementares. necessitando pegar na sua mão para executar o tambor. com do aplicadas professor cumprindo Paulo uma m influência adequada à pedagogia temas que. por meio música de efeitos educativos a propensão . para uma Officina Affro e viajou com e tocan exibição em Blumenau/Santa Catarina. Específico e Estág io. do Officina Affr o. efetivamente. treinava num instrumento completamente percussivo desprovido nomeado de surdo de marcação e era coordenação motora/musical. por meio de módulos: Básico. por sua vez. METODOLOGIA DE ENSINO As etodologia atividades foram interdisciplinar.

RecoReco de Lixa. Caxixi. os instrumentos Ciências. em cada . a oralidade. Ber imbau. Com isto. Tambor de Mão. em Vera a brasileiros. Surdo de Marcação e de Virada. organização. Bloco Sonoro. autoestima. Pandeirão.Page 356----------------------novo olhar sociocultural. Agogô. Módulo Específico A formação específica foi constituída da produção de ações pedagógicas percussivas brasileiras. As aulas foram constituídas de atividades auxiliadas por instrumentos mu sicais percussivos populares e étnicos. a e pesquisas e a sobre recriação das os valore cultural. Geografia. a diversidade e a prospecção de ressaltou-lhe o respeito pel reformular o imaginário negativo sobre a cultura negra. Matracas. Cabaça. a resistência modo. com Maria Candau base nas concepções e Kabengele conjugados dos Munanga. criatividade. fabricados. com apoio em estudos s e costumes afro-brasileiros. a ressignificação dos novos paradigmas e a reconstrução d e um 355 ----------------------. tipo: Ritinta. Platinela. Matemática. Artes e Educação Física. por outros componentes oriundos de outros projeto s. O desenvolvimento das atividades foi dividido em trimestres e. Maracá.os princípios norteadores afrode Rosa temas levaram Margarida. Hi Guizeira. Repique. ética e cidadania. disciplinas curriculares formais: stória. que permitiu ao citado componente e seus colegas vocadas pertinente a de curso à desconstrução temática sobre o elemento negro. Caixa de Divino. concepções de equi ancestralidade. As musicais atividades percussivos aplicadas com as conjugaram Português. sociabilidade. Clave. Os conteúdos spectos relacionado à consideração oralidade. Surdinho. Timbau e Djembê.

instrumento compondo percussivo mús interpreta denominado . O processo avaliativo realizado antes. Fred Júnior (20 aprendizado. já casado. Considerando e a grupais (desenvolvimento assiduidade e de partici sobreposição dos aspectos qualitativos pação nas atividades) em relação aos quantitativos. entrevista. o meu jeito de se expressar. mas. No entanto. RESULTADOS ALCANÇADOS Num dos trechos 07) afirma: ――O meu da (seminário. AVALIAÇÃO APLICADA ntínua. com uma de f um Júnior tornou-se empreendedor felicitações. nas quai s o Officina Affro icas estabelece parceria. na sede da Instituição e em escolas da rede pública circunvizinha. ilha. auxiliado pela sua esposa e mais adiante. e com a alfabetização complementada a loja de no Instituto. considerando a participação em trabalhos. eu aprendi muito dentro do Officina Affro . Fred mensagens de hoje. Isto demonstra uma parcela dos resultados adquiridos. Revelou-se afro-brasileiras. acima citada.trimestre era trabalhada uma unidade. que as e se Timbau autoacompanha (tambor 356 ----------------------. junto com seu pai. o meu jeito de andar. por um jove m de credibilidade social fragmentada. no município de Itapecuru -mirim. contribuição e rendimento nas atividades individuais habilidades).Page 357----------------------tocando um compositor. quando tem tempo disponíve l continua assumindo o papel de agente multiplicador nas oficinas de percussão para crianças e pessoas com deficiência. no foi identificado na observação co decorrer e no final do projeto. passou a gerenciar um pequen o restaurante.

considerada como a tônica educacional comp lementar dos a discentes. po rque exige o aprimoramento dos componentes psicomotores: coordenação. já foram atendidos mais de 50 as na U. jovens em oficinas realizad Manoel Beckman e na própria sede no bairro do Apeadouro. em 200 5.M. ainda difícil para muitas pessoas ditas ―normais .confeccionado com madeira ou chapa. cerca d e 30 jovens com deficiência participaram da oficina de fotografia. Sagarana I. ussivamente que para necessita um de com uso se de vergalhão de ferro. da preservação dos para a garantia do . O Instituto Officina Affro prestou atendimento há 30 jovens da Unidade E scolar Especial Helena Antipoff no ano de 2001/2002. E.E. educacional escolar eficaz. Nos últimos anos. domínio rítmico. Entende-se. assim como. de formato cilíndrico. nas escola s deveriam ser tratadas como prática pedagógica obrigatória. que pressupõe um complemento associado ao desenvolvimento das capacidades e habilidades específicas necessárias d o educando. Em razão disto. cuja tensão é obtida ue é percutido com as mãos). CONCLUSÃO Entende-se que a educação é a preparação para a vida. sistemática veiculada de de transmitir forma os interdisciplinar. com oficina de percussão. enquanto que o ato de educar é tirar de dentro do indivíduo potencial e no seu estado tudo mais aquilo que lá se encontra em rudimentar. especificamente. na sede da entidade. de espaço e de corpo. C. a percussão afro-brasileira. A form conhecimentos da música percussiva poderia ser voltada para a obtenção de um efeito únic o com as disciplinas curriculares formais. perc e q indivíduo uma autoacompanhar habilidade apurada. coberto na extremidade superior por uma pele. circunstância. percepção de ritmo . possibilitando resgate e o exercício das potencialidades.

nas inst ministrada pelo viés do ―folclore . associado às influências maléficas e demoníacas. atendimento propondo-se dos seus integrantes às atualizações e a comunidade . de maneira singul ar. em orquestra geral. qu e preconiza o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. com vistas ao e bem como. d negada e fortalecendo a autoestima e a identidade étnica.Page 358----------------------Salvo era conduzido e de algu discussõe transv sensibilidade tímidas de temas a estimular por intermédio Parâmetros Curriculares Nacionais e atualmente pelo disposto na Lei n  10. social e regional. ns professores. um seguimento.valores de ascendência espertando assim. que despre impre extraídos dos atabaques gnados de preconceitos.639/03. os educand escala. zo e Ainda é comum se observar. princ ipalmente. anteriormente. a negação pelos ritmos e de os outros dentro da escola. pelo medo de gozação e deboche dos colegas. distante da obrigatoriedade. estudos afro-brasileiros. rejeitando a sua identidade étnica. se os os gestores pertencerem a afro-brasileiros. as escolas públicas e privadas e. as maranhenses haveriam de sentir a necessidade de reformular os seus ensinamentos educacionais . que se arriscavam s de Pluralidade Cultural e Questões Etnicorraciais. se negam a participar das oficinas de pe rcussão. o étnicos. ainda cultura seja afro-brasileira que até a praticada então. orientados pelos 357 ----------------------. para africana e a beleza das culturas afro-brasileiras. ersais. instrumentos consideram barulhentos e fazem uma relação pejorativa com a prática de feitiçaria. É ituições de notório que a ensino. Neste contexto. carregados de baixa autoestima. criando grupos de s pesquisa e percussivas. no âmbito da Educação Básica Naci onal. em larga alguma religião adversa.

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