----------------------- Page 1----------------------ANAIS DO EVENTO E CADERNO DE RESUMOS São Luís-MA 2010 ----------------------- Page 2--------------------------------------------- Page 3----------------------Simpósio Internacional de Estudos Caribenhos

(6.:2010: São Luís, MA). Territorialidades e influências afro-caribenhas nas Américas: Cade rno de resumo e Anais/Organização: Carlos Benedito Rodrigues da Silva.- São Luís: Edufma, 20l0. 356p. 1.Identidades – Afro-caribenhas 2. América Latina-História I. Título CDD 301 CDU 316.7(6:729) ISBN 9788578621568 ----------------------- Page 4----------------------REALIZAÇÃO: Universidade Federal do Maranhão Universidade Estadual do Maranhão Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros-NEAB-UFMA Associação Maranhense de Pesquisas Afro-Brasileiras – AMPEAFRO Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB COMISSÃO ORGANIZADORA Prof. Dr. Carlos Benedito Rodrigues da Silva - Presidente (UFMA) Prof. Dr. Leonardo Alvares Vidigal - Vice Presidente (UFMG) Profa. Dra. Olga Cabrera (UnB) Prof. Dra. Maria Tereza Negrão de Melo (UnB) Profa. Dra. Isabel Ibarra (UFG) Profa. Dra. Maria Antonieta Antonacci (PUC/SP) Profa. Dra. Maria Bernadette Velloso Porto (UFF/RJ) Prof. Dr. Alecsandro José Prudêncio Ratts Prof. Dr. Álvaro Roberto Pires Prof. Dr. Danilo Rabelo (UFG) Prof. Dr. Jaime de Almeida (UnB) Prof. Dr. Tarcisio Ferreira Prof. Ms. Maria Suely Dias Cardoso Prof. Ms. Marluze Pastor Santos Profa. Ms. Maria da Guia Viana Profa. Ms. Maria Suely Dias Cardoso

Profa. Ms. Maristane Sousa Rosa Prof. Ms. Kavin Dayanandan Paulraj Prof. Ms. Reinaldo dos Santos Barroso Junior Profa. Esp. Carla Georgea Silva Ferreira Profa. Esp. Rodvania Silva Frazão Profa. Fernanda Lopes Rodrigues Prof. Marcelo Nicomedes Prof. Richard Christian Pinto dos Santos Carlos Eduardo Dutra de Aguiar Cristiano Sousa Correia Grace Kelly Silva Sobral Souza José Ribamar Nascimento Karlana Bianca Matos Sousa Lurdeane Santos Mendes Rayssa Bianca Correa Macedo Roberto K-zau 4 ----------------------- Page 5----------------------SUMÁRIO 1. APRESENTAÇÃO................................................................ ............................................ 06 2. MESAS REDONDAS.......................................................... ............................................. 07 3. EIXOS TEMÁTICOS........................................................... ............................................ 12 3.1 ARTES VISUAIS LITERATURA E MÚSICA......................................... ....................... 12 3.2 3.3 DIREITOS HUMANOS E NOVAS CONCEPÇÕES DE CIDADANIA........................ 21 GÊNERO SEXUALIDADE E GERAÇÃO………………………………………….....

3.4 IDENTIDADES NACIONAIS................................................... ................................... 34 3.5 PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E ARTES................................................. .................... 42 3.6 RITMOS, IDENTIDADE E PERFORMANCE CULTURAL............................... ....... 47 3.7 RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE……………………………………………………….

3.8 TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADES............................................ .................... 66 3.9 SAÚDE AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE......................................... .............. 72 4. ARTIGOS 74

5 ----------------------- Page 6----------------------APRESENTAÇÃO Antes compreendida como uma região específica representada pelo enorme arquipélago da América Central, o Caribe se apresenta hoje, como um espaço transterritorial. Essa tendência em encarar a região de modo mais amplo da Associação de Estudos foi ratificada na 32ª Conferência Anual

Caribenhos (CSA), entidade internacional que se reuniu pela primeira vez no Brasil em maio de 2007, em Salvador (BA) Brasileiro de Estudos e também o V Simpósio Internacional do Centro

Caribenhos (CECAB), que teve lugar em 2008, na mesma cidade. Tais eventos foram importantes para demonstrar que existe um movimento coletivo, desenvolvido no confronto com problemas práticos e teóricos de pesquisa, no sentido de repensar a região para além das fronteiras nacionais e identitárias e, cada vez mais, sob um ponto de vista transcultural, como Fernando Ortiz vaticinava há mais de quarenta anos. Por isso, o simpósio do CECAB vem se voltando para uma orientação transdisciplinar, co nfirmando que a constituição do conhecimento no mundo atual exige o intercâmbio conceitual, meto dológico e prático entre as diversas áreas iplinaridade possibilita novas do saber, entendendo que, a transdic

combinações teóricas e experimentais, que por sua vez propõem outras questões.. Levando em conta essas reflexões e o fortalecimento das relações com o Caribe, especia lmente nas últimas décadas, com a presença do reggae que atribuiu à capital maranhense o codnome ―Jam aica Brasileira , o VI Simpósio Internacional do CECAB será realizado de São Luís do Maranhão, visando ampliar e aprofundar aribe do ponto de vista transcultural. a nossa na cidade o C

compreensão sobre

Comissão organizadora. 6 ----------------------- Page 7----------------------RESUMOS MESAS REDONDAS TERRITÓRIOS FLUÍDOS, A DINÂMICA DAS RELAÇÕES ENTRE SENHORES E ESCRAVOS NA CONSTRUÇÃO DO “MUNDO ATLÂNTICO”. Profa. Dra. Antonia da Silv a Mota – (UFMA) Profa. Dra. Regina Helena Martins de Faria/ Depto de História – (UFMA) Prof. Dr. Josenildo de Jesu s Pereira– (UFMA)

No contexto da tessitura do ―Mundo Atlântico , a escravidão moderna tem uma relevância sin gular por incorporar múltiplas temporalidades. Era, a um só tempo – negócio, modo de trab alho, fator determinante de prestígio e poder, bem como o seu contrário, e objeto de produção liuterár ia. Nesse sentido, a historiografia contemporânea superou a interpretação reducionista de sua co mplexidade e dinâmica expressa no binômio ―Casa Grande e Senzala . A partir da noção de território enquant espaço imaginado e constituído por experiêmcias de sujeitos tem-se por propósito desenvo lver uma análise acerca das territorialidades elaboradas por senhores e escra vos no cotidiano do mundo escravista tendo por pressuposto as suas tensões e contradições imanentes. Desse modo, o foco da análise se concentrará em torno dos significados de família, poder e liberdade para ecsravos e senhores, no âmbito da historicidade brasileira. O ESTADO, OS QUILOMBOLAS E O TRABALHO DO ANTROPÓLOGO NO BRASIL – CONFLITOS, INTERESSES E NOVAS MODALIDADES DE INTERVENÇÃO POLÍTICA Profa. Dra. Maristela de Paul a Andrade-UFMA Prof. Dr. Benedito Souza Filho UFMA Prof. Dr. José Mauricio Arruti - PUC/RJ O objetivo desta mesa é discutir, com base na análise de duas sit uações empíricas Alcantara (MA) e Marambaia (RJ) - os condicionantes e os imp asses decorrentes da participação de antropólogos na elaboração de peças técnicas para subsidiar processos que garantam os direitos de grupos quilombolas. Os eixos da discussão serão: (a) as novas

demandas de atuação que se apresentam ao antropólogo, (b) os obstácu los políticos e técnicos que se apresentam em resposta a essas demandas, (c) os obstáculos e controvér sias à incorporação do trabalho antropológico nas decisões judiciais e administra tivas e (d) o limiar de criminalização dos antropólogos, a que tais controvérsias tem levado. Com is so pretende-se apontar para as diferentes dimensões e interesses das situações de conflito envolvendo quilombolas neste momento no Brasil. 7 ----------------------- Page 8----------------------RELIGIÕES CRISTÃS E AFROAMERICANAS: SINCRETISMOS, TENSÕES E CONFLITOS NA AMÉRICA LATINA E CARIBE Prof. Dr. Álvaro Rober to Pires (UFMA) Prof. Dr. Gamalie l Carreiro (UFMA). A mesa redonda tem por objetivo aglutinar os estudos de pesquisadores(as) que no s últimos anos vem concentrando suas atenções nas investigações relacionadas com as religiões cristãs e afroamericanas, observando suas proximidades, diferenças, tensões , conflitos. O cotidiano em diversas sociedades do Continente Latino Americano tem apresentado um quadro bastante preocupante, do ponto de vista cultural-religioso, naquilo que d iz respeito a liberdade de expressão por parte dos cidadãos e cidadãs que habita m suas cidades. Acreditamos que o mundo acadêmico pode oferecer variáveis a fim de que as sociedades possam refletir sobre a problemática em destaque. Desta forma est a mesas redonda visa criar um espaço de debate acadêmico para discutir a existência ou não de certas tendências fundamentalistas as religiões afroamericanas. de possíveis grupos cristãos e suas relações com

DISPUTAS E CONVIVÊNCIAS TERRITORIAIS DOS SEGMENTOS DE MATRIZ AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA NO ESPAÇO DIASPÓRICO. Prof. Dr. Leandro Men des Rocha (UFG) Prof. Ms. Mary Anne Vi eira Silva (UEG) A proposta da mesa temática pauta-se numa discussão sobre as dinâmicas sócio-espaciais praticadas pelos segmentos de religiões de influência africana e afro-bras ileira. Ademais, pretende-se reunir trabalhos que versem sobre as relações produzidas no espaço diaspóric o.

Consideramos que esse seja um campo heterogêneo e sobreposto de poder, fundado na diversidade cultural e nas contradições sociais. A questão vincula-se ao debate sobre território, cultura e política. Os "territórios" são, portanto, tal como as "fronteiras ", locais privilegiados de observação da construção e da negociação de identidade s diversas. Diversas, principalmente, devido à possibilidade de serem pensadas a partir de di ferentes lócus e também de serem pensadas a partir de distintos recortes, tais como os aqui propostos: religião, gênero, política, cultura e raça. Com esse simpósio, pretendemos mediar o debate entre as vozes que representam as comunidades de terreiro com aquelas dos representantes da academia, por meio de apresentações de traba lhos resultantes de práticas sociais, bem como projetos concluídos e/ou andamento de e xtensão, pesquisa e ensino. RELIGIÕES AFRO BRASILEIRAS: IDENTIDADE, TRADIÇÃO E ESPAÇO PÚBLICO Prof. Dr. Antonio Giova nni Boaes (UFPB) Prof. Dr. Ronaldo Laurent ino Sales (UFCG) 8 ----------------------- Page 9----------------------Nos últimos anos o estudo das religiões afro-brasileiras tem p assado por um novo crescimento. Parte deste interesse se deve às mudanças que estas religiões têm sofrido recentemente. Mudanças estas, diretamente relacionadas à emergência de um novo context o no campo das relações raciais e, também, no mercado religioso brasileiro. Com relação ao primeiro aspecto, dois fenômenos se destacam: De um lado, a postura presente em vári os segmentos dos movimentos negros que tendem a encarar as religiões afro-brasileiras como ―espaços de resistência cultural e componente indispensável da construção/afirmação identidade negra. De outro, a atuação do Estado que passou a desen volver uma serie de políticas públicas voltadas para estas religiões. Trata-se, neste últi mo caso, tanto de políticas voltadas especificamente para elas – proteção contra discriminação, preservação cultural, reconhecimento institucional, etc. – quanto daquelas dirigidas à população ne gra como um todo, uma vez que as religiões afro-brasileiras passaram a ser vistas por alguns órgãos de governo como uma entrada privilegiada de acesso a esta parcela da população. Outra fonte de legitimidade advém do mercado religioso e suas tendências atuais, nas quais as religiões que valorizam o simbólico, o mágico e o corpo, tendem a a

trair um número significativo de adeptos e simpatizantes. No centro de tod as estas negociações e reposicionamentos encontra-se a referência e a reivindicação de uma continuidade com ―a

tradição africana original . Esta tradição, sempre em processo de invenção e re nvenção, constitui a fonte de legitimação a partir da qual cada religião específica busca assegur ar o seu reconhecimento, não apenas dentro do campo religioso afro-bras ileiro, mas também junto aos demais atores. Vale destacar ainda, que o compartilh amento dessa tradição ancestral vem se apresentando como um elemento aglutinador entre as diversas for mas de religiosidade de matriz africana desenvolvidas em diferent es contextos culturais (candomblé, santeria, vodu, etc.) constituindo-se numa base para se pensar a sua universalização ou, segundo alguns autores, sua transformação em uma religião mundial. É sobre o conceito de tradição e a forma como esta é manipulada por diferentes atores na busca por legitimidade e prestígio seja dentro do campo religioso afro-brasileiro, seja nas relações com outros atores que esta Mesa pretende se debruçar. ÁFRICA, BRASIL E CARIBE: DIÁSPORA, DIVERSIDADE CULTURAL E IDENTIDADE NACIONAL Prof. Dr. Benedito Souza Filho (UFMA) Prof. Dr. Josenildo de J esus Pereira (UFMA) Prof. Dr. Hippolyte B rice Sogbossi (UFS) A diáspora africana, como conseqüência ou resultado do tráfico neg reiro, sempre foi reconhecida como uma das maiores tragédias da humanidade. Para o continente africa no e os países vitimados pelo comércio de seres humanos, as conseqüências negativas dessa prática se fazem sentir até os dias de hoje. Contrariamente, para diferentes países da Europa Ocidental e suas colônias no continente americano a presença africana não só contribuiu com suas energias para o fortalecimento de suas economias, mas também com sua hera nça cultural carregada na diáspora. A mesa redonda buscará refletir, a pa rtir de um olhar do presente, sobre os diferentes processos sociais e históricos qu e concorreram para a (re)definição da diversidade cultural e a identidade nacional de diferentes países na Áf rica, no Brasil e no Caribe. 9 ----------------------- Page 10-----------------------

PERFOMATIVE BODIES, CARIBBEAN RHYTHMS AND NEW CONCEPTIONS OF CITIZENSHIP Dr.Irline François. Goucher College Country: USA Dr. Johanna X.K. Garvey. USA. Fairfield University. Dr.Simone A. James Alexander. USA. Seton Hall University. Department:English/Afr icana Studies. Dr. H. Adlai Murdoch. USA. University of Illinois at Urbana-Cha mpaign. Department: French. Dr.Marie Hélène Laforest. Italy. University of Naples ―L‘Orientale . Department: English. The rich, complex, particular condition of the Caribbean as th e first globalized colonial system of human history marked indelibly its past as a point of destination, deracination and dispersion of migratory waves from the voluntary and forced entry of Europeans, of Africans, Asians, Middle Easterners and its turbulent encounter with the Amerindians peoples that occupied the region. Today, the Caribbean faces and interrogates it s turbulent, complex past and troubled present. It also endeavors to transcend its geographic al borders, to broaden and deepen our understanding of the area as a social and cultural spa ce with its shared history, of continuous cultural exchanges between and amo ng Caribbean nations bordering the Atlantic Ocean, specifically with the Brazilian Northeast. Hence, the Caribbean, aka ―trans-territorial and ―trans-cultural space shares with the S tate of Maranhão and its capital São Luis known as ―Brazilian Jamaica, its triple expressio n of Amerindian, European and African influences, its sites of survival and resistance (embodied in the Palmares and Quilombos of the region) but also its rich musical heritage that infuse the Caribbean landscape including reggae, ska calypso, zouk cadence, compas, meringue, rumba, pélé trésé which most can trace their roots to an Amerindian, European and African musical past. This trans-artistic space also seeks to overcome its l egacy of the Plantation hierarchy, of gendered exploitation, of domestic violence and sexual abuse of the female body, -- the high incidence of forced sterilization among Afro and Amerindian women in the state of Maranhão, for example. Our hybrid panel of mixe d genres – literary analyses and musical genres seeks to question the scope and intent ionality of history, of boundary crossings, of contested citizenship in our era of exacerbated globalism. Our papers illustrate and challenge the violence born of borders, whether they may b e those of nation, race/ethnicity, gender, sexuality and language. We question the ways in which the language of nationalism marginalizes women, scripting them as unworthy citizens.

We also examine how plural linguistic musical patterns came to reflect the shape and sub stance of global literary production. What is the role of political song s and lyrics in unearthing, tracing and confronting the official recording of history with the popular expressions of assent and dissent as a form of covert resistance? Branching out through a multi plicity of roots/routes: (Haiti, The Dominican Republic, New York, Puerto Rico), Caribbean writers, artists and scholars offer a rich meditation that emphasize and broaden the conn ections and correlations of the trans-territorial and trans-cultural condition of the Caribb ean. 10 ----------------------- Page 11----------------------GRANDES EMPRESAS, GRANDES PROBLEMAS, NO BRASIL E NO CARIBE Edmilson Abreu Pinheiro, engenheiro agrônomo, secretário executivo do Fórum Carajás (Fórum Carajás, São Luís/MA); Igor Almeida, advogado, assessor jurídico da Sociedade Maranhense de Direitos Huma nos, São Luís/MA); Raimundo Cruz Gomes, engenheiro agrônomo, sociólogo, coordenado r do CEPASP, Marabá/PA; Manoel Maria Paiva, engenheiro ambiental, diretor da ECOSAN, Barcarena/PA;

Resumo: A mesa pretende refletir a atuação de grandes empresas na região do Caribe, em especial, na Amazônia e a persistente desigualdade nessas reg iões. A dinâmica de empresas como a ALCOOA, CVRD, PETROBRÁS, Norsk Hydro ASA, MPX entre outras se concretiza na exploração de quantidades cada vez maiores de matérias-primas, comprometendo a reprodução e sobrevivência de diversos ecossistemas, a diversidade cultural dos povos e comunidades tradicionais, deixando um legado de destruição ambi ental e social nessas áreas que os seres humanos são, em última instância, fundamento e expressão. A produção do alumínio está inscrita no quadro dessas preocupações pelo fato de suas principais matérias-primas, a bauxita e a energia, existirem abundantement e nessas regiões. As maiores reservas de bauxita encontram-se na serra de Oriximiná, no vale do rio Trombetas, em Paragominas no Pará Paragominas, na Jamaica, Suriname e Trinidad & Tobago. A exploração de petróleo pela Petrobrás com companhias de petróleo da Índia, Grã-Bretanha e Estados Unidos, como a exploração de carvão pela MPX e t ermelétricas térmicas nos portos de Itaquí no Maranhão, Pecem no Ceará e no Chile como os processos de produção que envolve mineração, obtenção de energia elétrica, até o processo produti

no interior das fábricas, tem evidenciado impactos para as comunidades, trabalhado res e o meio-ambiente. Palavra chave: grandes projetos, degradação ambiental, i mpactos sociais, desigualdade 11 ----------------------- Page 12----------------------EIXOS TEMÁTICOS 01. ARTES VISUAIS LITERATURA E MÚSICA Coordenação: Leonardo Vidigal (UFMG) RELENDO CÂMARA CASCUDO Maria Antonieta Antonaci Em Made in África, de Câmara Cascudo, priorizamos sua pesquisa com tradições orais africanas no Brasil, que contestou a geopolítica eurocêntrica, isoladora e imobiliza dora das Áfricas, mas projetou, no patrimônio cultural nacional, ritmos, festas, gestos e danças de povos bantos. Construindo e privilegiando patrimônio lúdico, recreativo, apazigu ador em torno de Reis do Congo e conga as, iluminou memórias negras adequadas a patriarcal moderação do Império e à mítica de democracia racial da República, nciando artes, saberes e fazeres de outros povos e culturas da diáspora no Brasil. A REPRESENTAÇÃO DA PERSONAGEM FEMININA NOS CONTOS DE MARIETA TELLES. Clécia Santana dos Santos – UFG/Letras. Marieta Telles retrata o espaço urbano como cenário de seus cont os, na construção do imaginário feminino e das identidades sociais, sobre a cidade de Goiânia no seu começo de modernidade. Sobre a temática da solidão, do viver em espaços diferentes de nossas raíze s, a autora constrói os conflitos entre o antigo e o novo, o velho e o moderno. A sociabilização nas relações humanas são trazidas sobre uma ótica construída por arquétipos interioranos de moças ―ingênuas que vêm para a cidade grande e são ―corrompidas , ou que se isolam e se vêm devoradas pela frieza, e a insensibilidade de ruas e aparta mentos. Como símbolo de rompimento com o patriarcal revela conflitos entre permanecer no s ertão, ou mudar para a urbe. Suas personagens nutrem o desejo de as censão, crescimento profissional e intelectual, vislumbram esse crescimento econômico relacionado ao crescimento da cidade e das oportunidades de estar em outros espaços e lugares, lo nge do que é severo, e tolidor de seus destinos.

sile

Daí ser pertinente falarmos de diálogos. tendo os monumentos públicos como eixos de discussão e de reflexão. Paris. Vale frisar que por meio de suas obras. um olhar crítico em relação ao passado africano. A partir da temática dos trânsitos de diversas ordens examina-se a atividade intelectual de Manu el Rui Monteiro empenhada com os movimentos de descolonização e de (re)construção de identidades. Néle Azevedo (Instituto de Artes da UNESP) Zero Grau ntsc 4. buscando problematizar o caráter da sua escrita na co nstrução de novas categorias epistemológicas. Centenas de esculturas em gelo são postas a derreter nos centros das grandes cidades (São Paulo. no caso de Glauber.49‘ e Glória às lutas inglórias ntsc 4. Portugal e Brasil. tendo em vista a lgumas produções cinematográficas destes realizadores. UM INTELECTUAL EM TRÂNSITO A FALAR DE TRÂNSITOS Bruno Emanuel Nascimento de Araújo. Braunschweig . no ca so de Sembène. REGISTROS. a má formação da nacionalidade brasileira.UFBA Pesquisa na área de literatura comparada examina a produção discursiva e intelectual do escritor angolano Manuel Rui Monteiro e/em suas relações com os discursos sobre trânsi tos e trocas culturais de várias ordens envolvendo Angola. DESMONUMENTOS: ZERO GRAU E GLÓRIA ÀS LUTAS INGLÓRIAS. levando-se em cons ideração a ascendência afro de seus filmes. Desnecessário dizer que o próprio Sembène Ousmane tinha grande predileção pela estética do Cinema Novo.Page 13----------------------DIÁLOGO DE IMAGENS E IMAGENS EM DIÁLOGOS: UM ESTUDO DOS PROJETOS ESTÉTICOS DE GLAUBER ROCHA E SEMBÈNE OUSMANE. e reivindicando. 12 ----------------------. Mestrando – PUC/SP Orientadora: Maria Antonieta Antonacci A presente pesquisa tem por intuito analisar o projeto estético do cineasta baian o Glauber Rocha e do cineasta senegalês Sembène Ousmane.44‘ são registros de diferentes intervenções no espaço urbano realizados em várias cidades de diversos paíse s.Porto . O Zero Grau mostra uma intervenção nômade que perambula pelo mundo. Victor Martins de Souza. do qual Glauber fez parte. Um estudo desta natureza p ossibilita um maior alargamento de perspectivas acerca da obra de Glauber Rocha. denuncia ndo.MANUEL RUI MONTEIRO. ambos os cineastas buscaram contestar o cinema moralista e contemporanizador de suas épocas.

são representados o desaparecimento e a epifania da diferença (PARÉ. No que concerne à escolha do corpus. em luta contra a morte. Stuart Ha ll e Homi Bhabha. 2003. A REPRESENTAÇÃO DA NAÇÃO E DA IDENTIDADE NACIONAL EM LIVROS INFANTIS DE EUGÉNIA NETO E ONDJAKI: registros Iconográficos do Reggae no Maranhão Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA) . servirão de ponto de partida para as reflexões a serem desenvolvidas textos de Édouard Glissant. 24). 15). sugere as possibilidades do devir. obras de autores oriundos do Caribe de língua francesa trazem uma efetiv a contribuição para se repensar a questão das migrações e das movências identitárias da contemporaneidade. Ao final todos celebram e sabo reiam as frutas consumindo o antimonumento. antes de apontar para um passado imóvel. ao lado do obelisco vertical Glória eterna aos fundadores de São Paulo com mais de duzentos caixotes de frutas. reconhece-se ―uma rede complic ada de relações interculturais com outros centros e outras periferias (PARÉ. ESCREVER A DISTÂNCIA: REPRESENTAÇÕES DO EXÍLIO E DO RETORNO EM AUTORES CARIBENHOS DE LÍNGUA FRANCESA Maria Bernadette Velloso Porto Construídas em torno da consciência diaspórica e do imaginário da it inerância. 2003. no âmbito da qual. Patrick Chamoiseau. na densidade das formas compós itas da 13 ----------------------. Glória às lutas inglórias é a uma a específica. No caso de escritores caribenhos inseridos no Quebec. Por isso mesmo. nascidos no Haiti. p. longe de ser vi sta como uma demarcação física entre dois mundos opostos.Page 14----------------------cultura. Florença e Berlim) numa espécie de refundação ritualística. em especial no que diz respeito ao retornoredescoberta do país natal. François Paré. Do ponto de vista metodológico. No Páteo do Collegio em São Paulo artista e público constroem um antimonumento horizontal e abe rto denominado Glória às lutas inglórias. uma abertura promissora para se reinventar a origem que. pensada para um lugar específico e que acontece apenas uma vez.. Émile Ollivie r e Dany Laferrière – nomes da chamada literatura migrante quebequense – podem d ialogar com o escritor da Guadalupe Ernest Pépin. a noção de fronteira designa ―uma distância habitada. Eles formam um g rande labirinto baseado em desenho dos povos guaranis. p.

I will argue that while genre classification is a vey proble matic process. Neste último caso a cidade de São Luís.Page 15----------------------- . a exemplo da figura feminina. As cidades de Salvador e Fortaleza também apresentam esses locais. Howeve r all Jamaican music has. em suas viagens através do Atlântico. pa ra identificar e analisar elementos da iconografia do reggae. conhecida como a J amaica brasileira. 14 ----------------------. eventualmente. It is my contention that such a classification is incomplete and perpetuat es misinformation and downplays both the dynamic creativity of Jamaican musicians operat ing within complex multiple synergetic production models. Nossa perspectiva é analisar as representações dessa iconografia para os adeptos do reggae jamaicano nessas regiões. no campo da Antropologia.salões. a culturas caribenhas passar por ressignificações. which hav e been the hallmarks of music production in Kingston since the 1960s. tendo em vista que. TAKE IT ON THE ONE DROP: GENRE DEVELOPMENT IN JAMAICAN POPULAR MUSIC Dennis Howard This paper traces the development of several popular music genres. Na presente pesquisa. bares e. ska. as well as their phenomenal contribution to global popular music. Most scholars have neatly p laced the music in the convenient categories of mento. ma peamos esses locais e registramos as suas imagens visuais (fachadas e interiores).Desde os anos 1970 a música reggae é escutada no Brasil. c asas de espetáculos onde se ouve esse ritmo. rock steady. e ausênci as. Como resultados preliminares. do Leão de Judá e as cores da Unidade Africana. been erroneously classified as reggae and there is confu sion as to what is reggae. sobretudo nas regiões Sudeste e Nordeste. popular music production in Kingston has been through more genres and sub genres than is highl ighted in academic circles and that there have been additional unrecognized genre shifts since the establishment of dancehall. apontamos repe tições. reggae a nd dancehall. s endo interpretadas conforme as especificidades das regiões onde essas expressões culturai s são reproduzidas. como a figura de Bob Marley. abriga o maior número de locais . rock steady and dancehall. in many instances.

etnia. Essa literatura trabalha com a idéia de movimen to.MEMÓRIA E IDENTIDADE: NO ROMANCE DE CRISTINA GARCIA SONHAR EM CUBANO. Derek Walcott. Pretendo. as reflexões em torno dos temas como identidade e cultura n acional. globalização e pós-colonial ismo. modernidade/ pós-modernidade. nos Estados Unidos. Dessa forma. literatura. raça. observamos hoje uma literatura produzida n o exílio que questiona a fixação dessa identidade e a subverte. os cubanos exilados e os cuba no-americanos procuram definir e reconstruir sua identidade. a afirmação do processo de consciência negra e a recuperação do . Sobretudo. viagem como recursos que aludem à própria instabili dade da identidade (considerada não mais fixada ao território. migrantes. diáspora. pois que. Por outra. A definição da identidade cubana fez-se frente ao outro que era o colon izador/ estrangeiro. Palavras-chave: identidade. uma identidade desterritorializada). Por uma parte. a partir dos anos de 1990 cresce o inter esse por explorar os debates sobre a identidade cubana produzida tanto dentro como fo ra do país. 76). em Cuba. Desde finais do século XX a temática central dos estudos culturais tem sido responder a como as identidades cu lturais se constituem. em outras palav ras. observamos. se por uma parte existe uma literatura que in vestiu na formulação de uma identidade cubana com o intuito de construir meca nismos de coesão social por outra. p. 2000. buscar essas construções id entitárias no primeiro romance de Cristina Garcia ―Soñar en cubano . A obra do autor permite o enfoque de questões como a discus são dos conceitos de identidade e cultura como atos políticos e co mo artefatos de uma boa educação. assim. Isabel Ibarra Cabrera As diferentes oleadas migratórias de cubanos após o triunfo da r evolução de 1959 aos Estados Unidos da América trouxeram interessantes debates sobre a questão da identid ade nas duas ―orillas . gênero. OMEROS: VOZES DE IDENTIDADE E CULTURA EM DEREK WALCOTT Lílian Cavalcanti Fernandes Vieira O objetivo deste trabalho é fazer uma análise da temática identidade e cultura de matriz africana através da obra OMEROS do autor afrocaribenho e Prêmio Nobe l de Literatura (1992). A questão relativa ao estudo das identidades mostra q ue elas são criações sociais e culturais (Silva. a partir do estudo das permanências e mutações da identidade transculturada e também se buscam novas formas de transmitir ―lo cubano na s condições impostas ao imigrante.

que a maioria deles não pudera exercer em Cuba. tanto em Cuba como em Miam i. A forma encontrada pela Geração Mariel para tra var a luta pelas suas histórias de vida foi a atividade literária. identidade. aguardam um ensejo para poderem emergir –. nas obras analisadas. educação. Umberto Eco. extraídas de ―suas memórias subterrâneas – que. Palavras-chave: cultura. Sendo assim. a partir de narrativas semelhantes. ou pós-modernidade.Page 16----------------------ilha. acredito que o grupo de escritores contemplados neste trabalho pretendeu realizar uma redefinição do Mariel e dos acontecimentos vivenciados por essa geração. Neste sentido. embora só tenha surgido no exílio enquanto Geração Mariel. ou seja. reflete-o e promove sua redefinição. servindo de aporte às diversidades culturai s. como observou Pollak. que vem deslocando ident idades antes consideradas seguras e aglutinadoras. LITERATURA. muitos de seus futuros representantes puderam se encontrar e/ou reencontrar e passaram assim a lutar. o grupo estava conectado aind a na 15 ----------------------. IDENTIDADE E EXILIO: OS ESCRITORES DO MARIEL Rickley Leandro Marques A Geração do Mariel é vista neste trabalho como uma comunidade simbólic a sustentada por experiências e expectativas comuns. os sujeitos narrados revelam . O conhecimento e o estudo dessa literatura identitária pode contribuir tanto para a formação de educadores como abrir caminhos para as áreas de filosofia da educação brasileira pelo aprofundame nto na cultura de base africana na diáspora. Nas narrativas dos escritores do Mariel uma questão me havia intrigado: onde começam e onde terminam as relações entre ficção e realidade? Muitas vezes. literatura pós-colonial. como a nacional. por outras mais restritas. E aqui cabe uma outra dúvida: até onde esse processo de construção da identidade Mariel é afetado pela crise da modernidade. sobretudo. São narrativas povoadas de solidão.escravizado como sujeito de uma história social através da literatura pós-colonial. Nos Estados Unidos da América. so frimento maior que assinala muitos exilados políticos. d e suas memórias e de suas histórias de vida. afirma que a arte nasce de um contexto histórico. em Obra aberta. como as de grupos e tribos? Outro traço da literatura do Mariel aqui apresentada é c omo. as obras e os artigos publicados na revista constituem-se como ―testemunhos dos escritores n uma busca incansável de sua identidade. pela narrativa de suas experiências vividas na ilha.

E ste trabalho procura examinar uma dessas narrativas. poemas. identidade CONCEITOS FUNDAMENTAIS IDENTITÁRIOS E LITERÁRIOS NO BRASIL E NO CARIBE Claudius Armbruster (Universität zu Köln) Albertus-Magnus-Platz. configurando experiências/identidades relaci onais que se manifestam na anti-pureza demarcando novas estéticas para a música do Atlântico Negro. comparam-se estes aos conceitos afro-centricos ―negritude e ―quilombis mo . Palavras-chave: literatura. seres comu ns e cotidianos desprendidos de todo enaltecimento literário que pudesse deformá-los .seu desenraizamento e desconsolo. O foco do texto se divide em dua s partes: identificar como. Ileana Piñera (2000. talvez possamos encontrar anti-heróis. . miscigenação. A crise de orientação provocada por esse event o. numa conexão entre testemunho e ficção. A contribuiçao propõe uma análise contrastiva de conceit os fundamentais identitários e literários no Brasil e no Caribe: Serão apresentados e comparados os termos seguintes: mestiçagem/métissage. espaços artísticos e em campos melódicos e rítmicos permitem refletir sobre esses intercruzamentos que sugerem situações de transculturalidade. transculturação. etc. que procuram dar conta do lugar que ele ocupa(ria) na experiência histórica caribenha e internacional. EVOLUÇÃO COMO APOTEOSE: NARRATIVA E TESTEMUNHO EM ALEJO CARPENTIER Dernival Venâncio Ramos (UFT) 16 ----------------------. crioulidade/créolité e hibridismo. o autor insere a revolução na história contemporânea caribenha. Essas musicalidades pensada s na perspectiva de uma História policentrada onde informações cruzam-se formando redes complexas e descontínuas de sonoridade. Neste sentido. 75) destaca que na literatura dest a migração ―não existem heróis. historiografia e ensaística caribenha. fez emergirem narrativas. Em um segu ndo momento. bem como o lugar que ela ocupa(ria) no futuro do Caribe e do mundo.Page 17----------------------Existem ainda poucas pesquisas sobre a relação entre Revolução cubana e a narrativa. ensaios. exilio. o romances autobiográfico La consagracíon de la primavera do escritor cubano Alejo Carpentier.

integrando rito s e símbolos católicos. a jiquitaia e a catira. No antigo norte de Goiás . São festas coloridas. (.. mantendo a cabeça coberta com chapéu. dissimuladamente os recriavam. são o a lvo das atrações. encontravam forças para venerar seus deuses com danças e rituais religiosos como a Umbanda e o Candomblé. superstições e danças são consideradas a alma da cultura tocantinense e traçam o perfil cultural da região. Outro expoente da música tocantina. Das variantes entre as tradições eur opéias ou africanas se destacam a congada. Como não podiam mant er seus próprios cultos. Monte do Carmo e Tocantínia. Só se p odem fazer híbridos se tem estrutura. nas minas de ouro que deram origem ao município de Arraias. a festa de Nossa Senhora do Rosário. mandioca importada. a mão-de-obra escrava foi introduzida na Chapada dos Neg ros. Espera-se que o ouvinte ouça a fusão. à noite.Exemplo maior. atual Tocantins. apesar do sofrimento e dos maltratos. Se o ouvinte não tiver conhecimento das estruturas que são fundidas. em 1736. na existência de uma estrutura. O rei e a rainha escolhidos entre a comunidade local. banquete de bacana era farinhada . mistura de negro e índio é Genésio Tocantins que ouvia os cantos do Divino e juntamente com Juraíldes da Cruz inventou a música “Nóis é Jeca mais é jóia que traduz nos versos a seguir a cultura híbrida da região norte: ―Andam falando que nóis é caipira. em primeiro lugar. A dança da congada é uma das principais manifestações culturais. perderá grande parte do prazer estético e alguns significados plausíveis oferecidos pela peça musical. e. na s cidades tocantinas de Taipas. A festa é acompanhada de congos e taeiras que saem pelas ruas cantando e dançando ao som de tambores e mar acá.. Os negros viviam nas senz alas. dança popular no século XV III em algumas cidades tocantinas. Que nossa flauta é feita de taboca. os negros que vieram p ara o norte goiano ajudaram a formar a cultura musical tocantina. O hibridi smo implica necessariamente. cantando: ―quem é aquela senhora que está na sua charola? É a Senhora do Rosário que veio para a glória” . Dançavam no interior da Igreja. alegres e cheias de d .As manifestações culturais co mo festas.) Se f arinha fosse americana. que nóis tem cara de milho de pipoca. Os cultos de c andomblé e xangô misturados às tradições religiosas da Europa solidificaram a expressão musical híbrida do continente sul-americano. crenças. que nosso rock é dançar catira.MÚSICAS E DANÇAS AFRO-BRASILEIRAS NO TOCANTINS: HIBRIDISMO SUL-AMERICANO Jocyleia Santana dos Santos (UFT) Trazendo consigo as tradições do candomblé. comemorada no mês de julho. a sússia. numa forma de protesto pelo sentimento de dor e saudade da terra distante.

da jiquitaia.A dança da sussa. A forte presença da cultura africana no Tocantins tem uma autêntica mostra nas representações culturais com os foliões da sússia. brasileiro. O homem bate a caixa e a mulher bate a buraca e ambos dançavam a sussa até recentemente. É o único gênero musical em que a presença da mulher como instrumentista é prevista. mas há um repertório mais mas culino e outro mais feminino. É o realismo do interior nas comunidades afrobrasileiras que através da dança. contorcendo o corpo de forma sensual ao som de tambores e pandeiros. a religio sidade e a história do povo tocantino: nem preto. do ponto de vista da apropriação do personagem Ariel. o que se vê é que algumas são preferidas por um sexo e preteridas por outro. do poeta martinicano Aimé Césaire (1913-2008). mostram a beleza. do canto. combatem o racismo. O DOUTOR PANGLOSS NÃO ERA TÃO TOLO QUANTO VOLTAIRE O SUPUNHA Alcione Corrêa Alves (UFPI) O presente estudo propõe a releitura e discussão do verbete ―Ariel . das taieiras e dos tambores da senzala. publicad o na obra Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (2007). Quando se t oca a sússia. da forma com o é descrita pelas mulheres mais velhas. da catira. embora não creio que existam sussas excludentes. exaltam a força. nos q uais se batem as mãos. dança-se a jiquitaia. dança com movimentos frenéticos. obra coletiv a organizada por Zilá Bernd. cantam. nem branco apenas híbrido. os pés. principalmente a comunidade situada em Mimoso. . seja amiúde enquadrada como uma paródia de Th e tempest (1611). Ainda que a peça Une tempête (1969). Seus participantes rezam. é o maior demons trativo da antiga 17 ----------------------.Page 18----------------------complementaridade entre os sexos. de William Shakespeare (1564-1616). Tanto os homens como as mulheres cantam a sussa. bater a buraca é uma tarefa feminina. As comunidades negras remanescentes dos quilombos tentam preservar as tradições cultura is. cabe salientar que o obj etivo do presente estudo é examinar a peça de Aimé Césaire.evoção. dos congos. município de Arraia s (TO). Algumas músicas são mais cantadas por mulheres e outras mais cantadas por homens. E sta dança lembra a presença incômoda das formigas nas senzalas na busca de alimentos. dançam e até simulam batalhas medievais. A união da sússia com o tambor mostra o ritual que conta com cantos e danças lembrando a coroação dos reis congos.

neste estudo. d A RELEITURA DA MEMÓRIA E A ESCRITA DO IMAGINÁRIO EM ÉCRIRE EN PAYS DOMINÉ. Os resultados parciais deste estudo permitem sustentar que. Em sua obra Écrire en Pays Dominé. com vistas a subsidiar a leitura de algumas das modificações e re-significações do personagem Ariel. em três passagens: Ato 1. embora a relação entre Ariel e Prospero sugira. Num processo dialógico. DE PATRICK CHAMOISEAU Luciana Ambrósio Este trabalho pretende examinar como o escritor martinicano Patrick Chamoiseau empreende a releitura de uma memória dominada pelos valores ocidentais franceses e leva a cabo a escrita de um imaginário que escape à alienação engendrada por séculos de assimilação política e cultural. Ato 2. apropriação. . Détour. com vistas a compreender as estratégias de obtenção de liberdade do escravo Ariel. literaturas de língua francesa na América. Cena 5 (Ariel libertado por Prospero) . chineses e sírio-lib aneses. e Ato 3. inicialmente. ameríndios. concebidas no texto de Aimé Césaire e operadas.Page 19----------------------Palavras-chave: colonialismo. Cena 2 (primeira discussão entre Ariel e Prospero). uma servilidade e um conformismo do escravo a seu senhor. propõe-se um recenseamento de algumas apropriações de Ariel na literatura francesa (em textos de Victor Hugo e Ernest Renan) e na literatura americana (em textos do uruguaio Enrique Ro dó. ele mergulha no magma antropológico dos povos que ali se encontraram e se reinventa sob o olhar do Outro. Cena 1 (discussão de Ariel e Caliban ace rca de seus métodos de obtenção de liberdade). Como procedimento de análise . Escavando e desenterrando vestígi os da presença de brancos. 18 ----------------------. do cubano Francisco Retamar e do brasileiro Darcy Ribeiro).Para tanto. o trabalho ora proposto parte da definição de Détour (D esvio). é possível constatar em Une tempête uma estratégia definida de obtenção e liberdade. Chamoiseau se lança pelos caminhos da palavra literária a fim de buscar uma explic ação de si e de sua terra natal. africanos e imigrantes indianos. levada a termo por Ariel e interpretada. sobretudo. conforme as obras Le disco urs antillais (1981) e Introduction à une poétique du Divers (1995). como um modo eficaz de Détour capaz de fundamentar a resistência do escravo ao jugo que lhe é imposto. do ensaísta martinicano Édouard Glissant.

quando as práticas da capoeira e do candomblé ainda eram p roibidas. Mata de São João. Irará e Camaçari. TRADIÇÃO ORAL E COMUNIDADE NARRATIVA Edil Silva Costa (NUTOPIA/UNEB) Esta pesquisa está vinculada ao Núcleo das Tradições Orais e do Patrimônio Imaterial das Matrizes Afro-indígenas (NUTOPIA). Teodoro Sampaio. 3) refletir sobre o papel da capoeira (e seu vínculo com os orixás) como instrumento de resistência cultural. Catu. vídeos e obras artísticas. Inhambupe. Através de uma perspectiva multidisciplinar de análise. diri gido por João Daniel Tikhomiroff e que trata da repressão que sofriam os negros na Bahia da déc ada de 20.ele vai reelaborar a memória discursiva de cada um desses povos de modo a dar voz ao ―eucrioulo e restituir o que a História neutralizou. Pretendes-se analisar as narrativas do Acervo de Memória e Tradições Orais da Bahia (AMTRO) que abrange os municípios de Alagoinhas. que agrega pesquisadores do Campus I e do Campu s 19 ----------------------. 2) observar os elementos que aproximam e/ou distanciam essa construção das narrativas míticas sobre Exu descritas por Reginaldo Prandi no livro Mitologia do Orixás. O presente artigo busca realizar uma análise do filme Besouro (2009). o orixá mensageiro nas religiões afro-brasileiras. mas sobretudo os elementos internos constitutivos do próprio filme. O acervo é composto de textos orais e impressos. fotos. ESCRITA. com o objetivo de 1) identificar o modo como se articulam as experiências simbólicas. Memória A REPRESENTAÇÃO DE EXU NO FILME BESOURO: APROXIMAÇÕES E RUPTURAS COM AS NARRATIVAS MÍTICAS SOBRE O ORIXÁ MENSAGEIRO Karliane Macedo Nunes.Page 20----------------------II da Universidade do Estado da Bahia. O enfoque que se dará por ora é analisar como se apresentam as narrativas de uma comunidade de tradição predominantemente oral qu . estéticas e míticas sobre Exu na cons trução fílmica em questão. Crioulização. que destaca elem entos históricos e antropológicos. Pojuca. Leitura. Palavras-chave: Escrita. As diferentes formas de representação do universo cultural afro continuam desempenha ndo um papel fundamental tanto para a reflexão sobre as práticas de significação quanto para a compreensão de como esses discursos repercutem no entendimento sobre as culturas negras. registro da cultura popular do entorno do Campus II. busco compreender as estratégias utilizadas para a construção do personagem de Exu.

merengue. cujo estu do nos revela muito dos modos de vida desse grupo social. desenrol ar esse emaranhado de fios e tecer novas narrativas. Sílvia Cezar Miskulin (USP) A comunicação pretende abordar a vida e a obra literária de Virgilio Piñera. tão complexa quanto a tessitura do texto dos relatos. qua nto o consumo de discos foi importante para a economia e cultura de São Luis do Maranhão . Essas narrativas são testemunhos e histórias de vida. Sugiro que discos em vinil foram destaques no crescimento de algumas radiolas (soundsystem s) no Maranhão. “A TRAJETÓRIA E OBRA DO ESCRITOR VIRGILIO PIÑERA: HOMOSSEXUALIDADE E POLÍTICA CULTURAL DA REVOLUÇÃO CUBANA NOS ANOS SESSENTA E SETENTA . Brasil. sobretudo após o as resoluções do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura. Inglaterra e Maranhão que transformaram a cultura maranhense. O desafio é. mas também textos representativos da literatura oral do gr upo. A era dos discos importados e em seguida. e a historia das viagens entre Jama ica. portanto. Este trabalho analisa o papel dos colecionad ores e DJs em São Luis junto com a evolução do modo de adquirir discos. Este trabalho também oferece novas respostas à questão ‗porque reggae é tão popular em São Luis?‘ com um estudo sobre as capas de discos jamaicanos e como foram recebidas pela juventude maranhense. gravadoras nacionais reproduziram vário s discos caribenhos contendo os ritmos calypso. Nos anos 60 e 70. ao destacar sua intensa participação no meio cultural cubano após o triunfo da Revolução e sua produção nos anos sessenta e setenta. a era da produção sonora de reggae no Maranhão também levam a fazer comparações com a história econômica do Caribe. em 1971 e o .EUA) A produção de discos tem sido tão importante para a economia e cultura da Jamaica. „SÓ VINIL‟: A HISTÓRIA SOCIAL DE SÃO LUIS CONTADA POR DISCOS CARIBENHOS Kavin Dayanandan Paulraj (Universidade de Pittsburgh . Uma tradição oral mestiça e complexa. A homossexualidade de Piñera e os aspectos polêmicos de suas peças de teatro fizeram com que o escritor fosse marginalizado na ilha. principalmente a da Jamaica. ressalto que em São Luis (e em outras cidades da r egião como Belém) eles formaram uma ligação improvável entre o povo brasileiro e a produção cultural do Caribe. e depois os próprios discos passaram a ser utilizados para resistir o poder dos grandes radioleiros. Embora esses discos fizessem sucesso no país inteiro. transmitindo e conservando assim suas crenças e valores. cumbia e reggae entre outros.e se utiliza também de registros escritos para a manutenção de sua memóri a.

a partir da década de 1980 os movimentos sociais colocaram na age nda política a defesa de democratização. às suas mobilizações. e na América Latina. Procura elucidar a questão da luta por direitos. indicam que o direito fundamental de liberdade de expressão e organização encontra-se seriamente ameaçado o que exige dos intelectuais e dos militantes não ap enas a reflexão teórica mas essencialmente a denúncia à ameaça desse direito tão duramente conquistado pelo movimento dos trabalhadores. Coutinho (UFMA) Este texto trata da relação dos movimentos sociais e a luta pela ―cidadani a na América Latina. como sua ampliação e. Ao mesmo tempo em que movimentos sociais anti-sistêmicos e/ou anti-imperialistas reivindica m não apenas a garantia de direitos ―conquistados . verificamos a revitalização política de alguns movimentos sociais. MOVIMENTOS SOCIAIS E LUTA PELA CIDADANIA NA AMERICA LATINA. Nesse início do século XXI. Vincularam a democratização às reformas sociais de base e a construção de espaços de participação popular com vista ao controle das políticas públicas e ao combate ao autoritarismo. Considero que a participação política é uma condição essencial para o exercício da democracia. medida . Joana A.Page 21----------------------02. 20 ----------------------.endurecimento da política cultural oficial nos anos setenta. DIREITOS HUMANOS E NOVAS CONCEPÇÕES DE CIDADANIA Coordenação: Ilse Gomes Silva (UFMA) e Joana Coutinho (UFMA) A AMEAÇA AO DIREITO DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E A CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL. No Brasil. que desafiam o neoautoritarismo e exercem o seu di reito de participação política para além dos espaços institucionalizados. cada vez mais difícil de ser conquistada e ampliada na atual fase de transnacionalização do cap italismo. A reação do Estad o. A força dessa mobilização política conquistou a institucionalização da participação política na Constituição de 1988 de modo que a década de 1990 é marcada por um lado pela construção de vários espaços de participação vinculados às políticas públicas e por outro pela hegemonia da ideologia neoliberal e seu respectivo combate a participação política. especialmente os Trabalhadores Ru rais Sem Terra. Ilse Gomes Silva – UFMA O trabalho apresenta os desafios dos movimentos sociais no Bra sil diante da ofensiva neoliberal de criminalizar a participação política dos movimentos sociais que denuncia m o autoritarismo do Estado e a precarização das condições de vida e trabalho. em larga.

É necessário. como um país de relações raciais harmônicas. como na Bolívia. no entanto.Page 22----------------------Este trabalho tem por objetivo discutir esses temas e apresentar o s resultados obtidos no projeto: Avaliação das políticas de cotas raciais na Universidade Es tadual de Goiás. cabe falar em cidadania globa l? Pode se pensar em múltiplas identidades num mesmo território como querem os defensores de um estado plurinacional. É preciso mexer ra da sociedade. Neste sentido. as bases nacionais na q ual se fundamenta a garantia da cidadania. O projeto ter em vista verificar o ingresso de cotistas raciais na universidade e as medidas tomadas pela instituição garantir a permanência dos mesmos. além disso.UEG. convivendo ainda com as velhas formas do es tado burguês? DISCURSOS RACIAIS E AÇÕES AFIRMATIVAS: O PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO DA POLÍTICA DE COTAS RACIAIS NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS José Fábio da Silva.novas formas de organização societal questionando. não é suficiente para combater efetivamente o rac ismo impregnado na sociedade. 21 ----------------------. portanto. discriminatórias e racistas. Ações afirmativas são medidas de caráter temporário tomadas com o objetivo de diminuir desigualdades socia is provocadas pela discriminação e marginalização de determinados grupos no decorrer do processo histórico. Colocar o estudante na e não resolve a discriminação e a exclusão sofrida pelo negro. A atual Política de Educação está constituída de forma a manter as desigualdades raciais e a universidad é apenas o pas na estrutu ele . a escola também produz e reproduz práticas preconceituosas.639/03 E A POSSIBILIDADE DE SUPERAÇÃO DO RACISMO Aline Batista de Paula (UFF) O racismo no Brasil é estrutural e institucionalizado. QUESTÃO RACIAL NO ESPAÇO ESCOLAR: 10. trabalhar na desconstrução do discurso produzido no decorrer do século passado que coloca o Brasil como um paraíso racial. inserindo o negro em locais que historicamente não tem garantido seu espaço. Assim com o outras instituições. o ingresso na universidade so inicial empreendido pelo estudante seja ele negro ou não. No tocante as desigualdades raciais a mera adoção de ações afirmativas .

Caracterizada enquanto política de ação valorativa. A lei 10639/13. Demonstraremos como os direitos civis. Analisaremos as conquistas e as manifest ações de cidadania da população brasileira. mas também a questão da diversidade humana e seus efeitos na promoção da igua ldade.preservação do preconceito. averiguar nos currícul os dos cursos ministrados por esta unidade. têm-se a legislação que particulariza a questão negr a em educação e determina a incorporação do Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos níveis e modalidades de ensino. além das teorias mencionadas.Page 23----------------------A CIDADANIA NO BRASIL Maria Izabel Barboza de Morais Oliveira (UFMA) O presente trabalho tem como objetivo acompanhar a trajetória da cidadania no Brasil desde o período colonial a 2000. a educação enfrenta novos desafios propostos pelas recentes teori as pedagógicas e de currículo. políticos e sociais eram tratados pelos setores dominantes. 1 ). que institui o ensino obrigatório de Históri a e cultura Negra no Ensino Básico. art. 1/200 4. a presença dos conteúdos so bre a Educação das Relações Étnico-Raciais. O parágrafo 1  do mesmo artigo torna mais evidente a responsabilidade das instituições de Ensino Superior de incluírem o tema citado em todos os cursos que ministram. que propõem uma educação que considere não somente aspectos universais. A QUESTÃO RACIAL NOS CURRÍCULOS DOS CURSOS MINISTRADOS PELA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Iolanda de Oliveira (UFF) partir da segunda metade do século XX e nesta primeira década do século XXI. 22 ----------------------. a qual teve como objetivo. (CNE Resolução n . o que possibilitaria o resgate uma cidadania negada. a referida lei tenta resignificar a inserção do negro na sociedade brasi leira. SOBRE AS HIDRAS DO NORTE: rotas de transgressão desde o Ceará aos portais da Amazônia (1877-1889) Edson Holanda Lima Barboza (PUC/SP) Orientadora: Maria Antonieta Antonacci A . O pre sente artigo apresenta os resultados de uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Educ ação da Universidade Federal Fluminense. No Brasil. traz para essa arena de disput as elementos que podem permitir a construção de novos sujeitos coletivos.

23 ----------------------. quando proprietários limitavam o acesso às áreas férteis nas ribeiras e projetavam explo rar o trabalho em direção às novas relações de lucro capitalista. Par a isso. se detém em analisar dados de quatro municípios: João Pessoa. gerando solidaried ades e conflitos que se chocavam com formas hegemônicas de impor padrões raciais e identitários. florestas e cidades na Amazônia representava negação às posições de domínio e afirmava esferas diversificadas de ser e estar no mundo. Alagoa Gran de e Riachão do Bacamarte (Estado da Paraíba. Parte-se da hipótese de que as práticas municipalistas de gestão não estão considerando os avanços constitucionais da população negra e dos direitos quilombolas. Trabalhamos com documentos que abordam ações experimentadas cotidianamente na resistência aos diversos meios de construção do Estad o Nacional: recrutamentos. 3) região do brejo (Alagoa Grande) e. A escolha de sses municípios diz respeito ao fato de que neles existem comunidades quilombolas reconhecidas ou em processo de reconhecimento pela Fundação Palmares. Conde. Palavras-Chave: Políticas Sociais. 2) região metropolita na (Conde). Brasil). XIX em circuit os de rios. a estrut ura dos municípios brasileiros: 1) capital (João Pessoa). Direitos Huma nos e História Negra. a travessia de rios. A rigor. As condições que homens e mulheres mestiç@s desde o Ceará enfrentavam foram repletas de opressões. ambas litorâneas na concepção do Atlântico Negro. Ações Afirmativas. vales e mares rumo ao Norte. fechamento de terras e regulamentos de trabalho. Também porque a a nálise cobre quatro escalas municipais que exemplificam.Page 24----------------------MÉXICO: ETNICIDADE E MOBILIZAÇÃO POLÍTICA COM DESDOBRAMENTO .Buscamos rastrear trajetos de migrantes cearenses em fins do Sec. de uma maneira ou de outra. práticas municipalistas anacrônicas situam-se como o principal entrave às ações afirmativas dos direitos consagrados desde a Constituição Federal de 1988 à realização de uma sociedade multirracial e pluriétnica. 4) micro município (Riachão de Bacamarte). MUNICIPALISMO E AÇÕES AFIRMATIVAS: PRÁTICAS E LIMITES DA GESTÃO MUNICIPAL (NORDESTE/BRASIL) Elio Chaves Flores (PPGH/UFPB) Joana D‘Arc Souza Cavalcanti (IESP/ PPGSS/UFPE) O presente trabalho discute a gestão municipal no âmbito das políticas públicas voltadas à população negra nos campos das políticas sociais (estruturadoras e compensatórias). Assim.

EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS. como seca. está na universalização do acesso ao ensino público. pode-se observar claramente o hiato existente entre os níveis educacionais apres entados por brancos e negros. enfatizando como naquela região a mobilização indígena não é questão rece te.CONTINENTAL LIBERTAD Borges Bittencourt Essa comunicação pretende refletir sobre a questão étnica no E stado de Chiapas. Cristiane Maria Ribeiro (UFG) O argumento principal do trabalho é de que as minorias tem sido sistematicamente maltratadas no interior do sistema escolar brasileiro. dando início a um discurso centrado na identidade étnica. Os povos autóctones também fugiam de seus povoados. revoltados com taxas e impostos. ampliaram o ciclo de pobreza e violência que levou à organização indígena nos anos de 1970. tendo sido formada. traz algumas possibilidades de práticas pedagógicas formas organização e gestão da escola que contribua m para que se estabeleça na interior destas uma educação que contemple a diversidade racial brasilei ra. Tendo esses primeiros. em cadeia constante. juntamente com fatores climáticos. que soubessem ler e escrever. que destruíram fazendas e engenhos açucareiros. para serem ordenados ao novo sacerdócio. a partir disto procura as relações entre direitos humanos e diversidade. Fato que o de que tal plano torna o quadro ainda mais questionável é . DESIGUALDADE RACIAL E (IN)SUCESSO ESCOLAR Ana Cecília Rodrigues dos Santos Godoi (CFCH – UFPE) Carlos Augusto Sant‘Anna Guimarães (NEAB – Fundaj) Tendo em vista a estruturação do atual quadro educacional brasilei ro. foram escolhidos fiscais índios. para escapar do pagamento dessas somas. os índios organ izaram milícias. Já no período colonial. um nível de formação educacional mais elevado do que os últimos. uma Igreja indígena. desde meados da década 1950. incl usive. Essa tendência organizativa surgiu no México e posteriormen te o modelo foi adotado em todos os países com população indígena em toda a América. Essa perspectiva. mostrando a importância de stes em considerar as perspectivas de gênero/raça/etnia em suas concepções. O quadro torna-se questionáv el ao levarmos em consideração o fato de que um dos pontos de pauta de relevân cia significativa no planejamento nacional. NEGROS.

desempenho escolar 25 ----------------------. ridículas. uma mistura de sangues bárbaros devido ao clima muito q uente e à raça inferior (ALBUQUERQUE JUNIOR. que enxergavam o nordestino em contraposição à considerada modernização ariana do sul. onde se encontrava toda sorte de bizarrices. a visão depreciativa do nordestino esteve presente na literatura de intelectuais com o Oliveira Viana. desigualdade. à luz da teoria de Pierre Bourdieu. Um pouco adiante.os 24 ----------------------. Esta pe squisa teve como objetivo buscar. sendo o nordestino ―o próprio exemplo de degeneração física e intelectual .nacional vem tendo êxito. p.reportando a teorização bourdieusiana sobre educação ao quadro das desigualdades sociais brasileiro. a mesma posição de inferioridade nordestina tomava contornos menos .44). um espaço medieval. as desigualdades no nível de instrução escolar ent re os dois grupos raciais citados anteriormente permanece estável.Page 25----------------------motivos pelos quais ainda hoje as desigualdades de desempenho entre os grupos raciais perduram no sistema educacional do país. 1996. e como a relação existent e entre os códigos escolares e a origem social dos indivíduos agem em prol da manutenção dessas desigualdades. GÊNERO SEXUALIDADE E GERAÇÃO Coordenação: Maria Lúcia Gato Lucia (Grupo de Mulheres Negras Mãe Andresa) e Izidoro Cru z Neto (UFMA/Núcleo de Capacitação e Estudos do Processo de Envelhecimento) DEUSES E DIABOS EM TERRAS DE FURTADO Carla Nascimento (UFAM) O Brasil já foi visto como um país de tropicalidade e de natureza exótica. influenciada pelo movimento mode rnista. esquisitas. em que Nord este remetia a um retrato do naturalismo realista. coisas pitorescas. compreender de que forma a origem social do indivíduo atua no direcionamento de sua trajetória escolar. Palavras–chave: sistema educacional. recorrendo também a autores cujos esforços teóricos se direcionam para o entendimento das causas das desigualdades exis tentes no Brasil . entretanto. já nas primeiras décadas do século XX. Além disso.Page 26----------------------03. Como ressalta Al buquerque Junior. raça. pret endeuse compreender .

Desta forma. e o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. intitulado ―Operação Nordeste . dirigido em 1963 por Glauber Rocha . reca i sobre as imagens de Nordeste/nordestino construídas a partir de dois discursos da época – o discurso estat al do relatório do GTDN (Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste. 1959) . foi elaborado em 1959. m as especialmente o vínculo necessário e indissociável entre esses dois domínios. econômicas e estético-culturais. Busca-se investigar o processo de rupturas que levou a constituição de uma Questão Regional Nordeste enquanto questão de caráter nacional – processo aqui configurado enquanto Questão Identitária Territ orial Nordeste (QITN). O Re latório do GTDN. nos processos de construção dos EstadosNação (PIEROLA. 2006). Um país que buscava se encontrar e se defi nir num momento de rupturas políticas. fortemente amparada em um disc urso de vitimização daquele território. nos anos 50 e 60. para o ―Nordeste industrial-planificado-integrado .naturalistas e mais sóciohistóricos. compreendendo desenvolvimento como crescimento econômi co. num desfecho de lutas pelo poder em diferentes eixos de análise – econômico. pelo economista Celso Furta do. Nesta . entre eles os que perpassam a questão da terra e das relações de trabalho no campo. uma imagem sobre Nordeste prima/irmã das anteriores. Este trabalho se inscreve num campo reflexivo de problematização d a construção do Brasil enquanto Nação. mas também alimentou a rebelde e utopista produção artístico-cinema tográfica da época. Foram tempos devotados à transformação do ―Nordeste arcaico . no Governo de Juscelino Kubitschek. a SUDENE. na sequência. filha da era nacionalista-industrial. em nome da ―segurança nacional . num movimento explosivo de auto-compreensão e auto-definição. A década de 50 afirmou. e que teve como questão central o que então se compreendia por região Nordeste. e foi imbuído do espírito desenvol vimentista da época. centrado na burguesia industrial nacional e na atividade produtiva do Estado. como modo de enfatizar as dimensões territoriais e identitárias.imersos em interesse s diversos. tendo sido legitimada enquanto uma questão hegemônica. Nação e Nordeste invadiram relatórios estatais de políticas públicas e salas de cinema. t razendo a tona abordagens diversas sobre um cenário de extrema desigualdade no campo. seu tem a principal são os diversos ―nordestes que ganharam não só importância política e a atenção do Governo enquanto uma questão nacional. portanto. O documento é o marco da criação da Superintendência de Desenvolvim ento do Nordeste. A Questão Regional Nordeste será aqui abordada enquanto resultado de um processo de construção e disputa de imagens Nordeste. político e sócio-c ultural. Nossa questão central. vítima da desigualdade inter-regio nal.

mostrou-se inquestionável a inter ferência dos movimentos sociais rurais – mais precisamente as Ligas Camponesas na implementação do novo órgão: A criação da SUDENE constitui a resposta a essa cri se político-social nordestina. pois recaem na crítica às desigualdades intra-regionais e numa motivação revolucionária de caráter messiânico. não são conceitos represe . como também ao racionalismo dos próprios pensamentos de esquerda e dos discursos sin dicais da época. Decorrente do diagnóstico 26 modo de pensar o progresso ----------------------. a violência em sua radicalidade.Em meio a luta pelo poder. que supõe e julga o Nordeste negativamente. muito mais do que uma medida de aceleramento à expansão industrial capitalista. a Nação.concepção. No entanto. mas como ação transformadora. Cabe lembrar que os anos 50 e 60 foram marcados pela valorização da arte cinematográfica co mo forte elemento de expressão nacional da cultura brasileira. o planejamento e a racionalidade técnica são centrais no . desordem social. ameaça. é contraposto ao discurso estatal do GTDN. sendo este também um assunto d e Estado. uma esperança vulcânica d e revolução. o mito como potência transformadora pulsando em forma de transe e delírio proféticos do oprimido. a crise. às consideradas potencialidades econômicas que deveri am integrar. planejada e dirigida. no sertão. não como espetacularização.Page 27----------------------contido no GTDN. quantos Nordeste/nordestinos existia m naquela época? Qual imagem Nordeste se tornou hegemônica. de Glauber Rocha. e nos chama a atenção para elementos que não são da ordem do racionalismo planificador e economicista estatal sobre esta questão regional. como atraso. que estivesse bloqueada se aquela região não se desenvolvesse (COHN. foram propostas soluções ao ―Nordeste atrasado : uma inédita intervenção estatal. muito embora essa questão region al tenha sido equacionada oficialmente por uma proposta de integração econômica. 1978. e por quê? E de que forma isso está relacionado com o p rocesso de construção identitária/territorial do Brasil?É importante ressaltar q ue o que se entende por identidade e território aqui se localiza no tempo e no espaço. p. Há. atribuída ao homem nordestino nesta obra. Apresenta-nos a ira revolucionária. religioso e místico. Deus e o Di abo na Terra do Sol vai além do humanismo alienante e se contrapõe tanto ao di scurso do ―Estado industrial integrado . oriunda de sua estrutura de produção rígida e de seu subdesenvolvimento.109). representando o fim do estado de indiferença sobre a fome e a miséria. em novas bases.Já o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol.

ou seja. correspon de uma territorialidade. mas ―simulacros discursivos. defende-se a desnaturalização do Nordeste como região e também do sentido atribuído ao nordestino. O film e Deus e o Diabo na Terra do Sol e o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolviment o do Nordeste são discursos territorializantes. se afastam ou se aproximam. como todas as verdades. Não está dado desde sempre. Neste trabalho. são pedaços de história. As práticas sociais de que falamos assumem diversos caráteres . 1999. originada por uma tradição de pensamento. político. situados no tempo e em relação com os demais objetos no mundo. formando uma tei a de práticas discursivas e não27 ----------------------.66). são ilusórios ancoradour os da lava da luta social que um dia veio à tona e escorreu sobre este território. as regiões são fatos humano s. constroem verdades que. e propõe-se a problematização de sua invenção no campo discursivo: O Nordeste não é um fato inerte na natureza. apesar de não deixarem de assumir como pressuposto u m espaço já recortado ao longo dos tempos: a região Nordeste. 1999). O Nordeste é uma espacialidade fundada historicamente. uma imagística e textos que lhe deram realidade e presença (ALBUQUERQUE JUNIOR. na medida em que se entende que essa positivação epistemo lógica – nem essencialista. são produtores de ―identidade/territorialidades Nordeste/nordestinos . Eles const roem Nordestes e nordestinos. 2005:5) .Page 28----------------------discursivas. Quais se riam as construções identitárias que significam e ressignificam a imagem de Nordeste e nordestinos em Deus e o Diabo na Terra do Sol e no relatório do GTDN? Como e . nem idealista – coloca em destaque o papel do sujeito no campo do embate das formulações sobre o mundo (ARAUJO. cultu ral . A todo território. um referencial simbólico que não existe n a forma concreta e é fruto de processos constantes de territorialização. Pretendemos investigar.ntacionais. Não trataremos de encontrar o sentido de um ―Nordeste real .e ―se conectam. relações de força e de sentido (ALBUQUERQUE JR.econômico. então. em meio à luta pelo poder que se dava n aquele período histórico. magma de enfrentamento que se cristalizam. p. que Nordeste/nordestinos existiram nos dois discursos e funcionaram enquanto condição e resultado das Questões Regionais Nordeste instauradas. Os recortes geográficos. se sustentam a partir de práticas sociais. portanto. muito menos vamos verificar a correspondência entre representações de Nordeste e qualquer suposta realidade.

Rio de Janeiro: Civilização Brasile ira. Nhá Alice. BENTES. Contar a história da Mina no Maranhão é necessariamente lembrar nomes como de: Andresa. R. Bueno. Dra. são mulheres as lembradas como "pilares" do Tambor de Mina. Anastácia. Glauber Rocha e a Literatura de Cordel: uma relação intertextual. COHN. bem como as que pertenceram e pertencem à Casa. Embora d esde o séculos XIX sejam registrados pais-de-santo que prepararam mães de terre iros importantes. Francisco de.Carlos de Oro. F. NEMER. São Paulo: Cortez. “CINE. Amélia. da Casa de Nagô. 1976. Dr. las representaciones de género del Caribe colombiano permiten cuestionar la visión patri arcal . Mimeo. Durval Muniz. Ivana. Vó Severa. Recife: FJ N. Estado. da Casa das Minas. Ivana. ALEXEI. 2007.stes discursos se comunicam através de seus enunciados e silêncios carregados de sentido? De quais dispositivos se valem ambos os discursos para moldar e sustentar suas imagens Nordeste/nordestinos? Referências para o resumo: ALBUQUERQUE JUNIOR. 2003. Silvia. A Invenção do Nordeste e outras artes . ARAUJO. Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ. 1999. 1962. planejamento e conflitos de classes. fundador e responsável pela Casa Fanti Ashanti. Editora Massangana. Maximiana e de tantas outras mães-de-santo. Ramiro R. OLIVEIRA. Pai Euclides Talabyian. Terra de Fome e Sonho: o paraíso material de Glauber Rocha. (Spanish Southwestern University) En El último carnaval. Elegia para uma re(li)gião: SUDENE. 2008. G. NACIÓN Y REPRESENTACIONES DE GÉNERO EN EL CARIBE COLOMBIANO” Prof. Nossa intenção no VI Simpósio Internacional do CECAB é apresentar a pesquisa que desenvolvemos atualmente na Casa Fanti Ashanti e que t em por preocupação é destacar o matriarcado no Tambor de Mina do Mar anhão enfocando especificamente a história das mulheres que influenciaram o babalorixá Euclides Mene zes Ferreira. e outros. Rio de Janeiro: Paz e Terra. B. do Terreiro da Turquia. Crise Regional e Planejamento (o processo de criação da SUDENE). Dudu. BENTES. Marize Helena de Campos (UFMA) Trata-se de um estudo sobre a trajetória das mulheres pertencentes à Casa Fanti Asha nti e seus papéis enquanto mães de terreiro ou filhas de sa nto. Identidade e Território enquanto sim ulacros discursivos. PIEROLA. GPMC/IPPUR/UFRJ. 1981. no rdeste. Mais fortes são os poderes do Povo. Estética da violência no Cinema. “MULHERES DE FANTI ASHANTI: PAPÉIS FEMININOS E PODERES ANCESTRAIS EM SÃO LUÍS DO MARANHÃO Prof. Territorialidades e Etnias Andinas: luta e pacto n a construção da nação boliviana. São Paul o: Editora Perspectiva. por el director colombiano Ernest o McCausland. 2006. Tese de Doutorado.

La representación de suje tos masculinos y femeninos que no encajan en los parámetros patriarcales hetero-normat ivos y naturalizadores ayuda a cuestionar la crisis del Estado colom biano y de los sujetos tradicionalmente idealizados. AFROCARIBEÑAS Y DE LA DIÁSPORA COMO MOVIMENTO TRANSNACIONAL AFRODIASPÓRICO. Leo la película de McCausland como una alegoría de la crisis d e la nación colombiana donde se muestran papeles patriarcales obsoletos basados en el género. a América Latina e o Caribe apresentam uma mult iplicidade de povos afrodescendentes em seu território. rígidas e territorializadas. que vão desde as so ciedades e culturas predominantemente negras de vários países do Caribe. Uruguai e o Peru. La película muestra hombres débiles y abusivos y mujeres sometidas pero igualmente fuertes que sugi eren un rechazo de la 28 ----------------------. Na última década. El últ imo carnaval juega con espacios en los que la mujer aparece limitada dentro de una esfera privada de relaciones domesticas que no permite su independencia y libertad de expresión y el hombre se mueve en una esfera pública desde la cual ejerce su domin io y abuso de control sin ninguna restricción o señalamiento por parte de la sociedad. Cuba e Colômbia. VOZES E POLÍTICAS DA DIÁSPORA NA AMÉRICA LATINA E CARIBE: A RED DE MUJERES AFROLATINOAMERICANAS. com uma significativa proporção de afrodescendentes. ou como Venezuela. Nesse sentido. muitas das rede s de organizações políticas negras desses espaços têm dado indícios de que está emergindo um novo tipo de Movimento Negro.del sujeto masculino como apropiado para dirigir los destinos nacionales y del sujeto femenino como símbolo de la pureza de la nación. menos fundamentado em discursos e ações baseados em estruturas identitárias fixadas.Page 29----------------------virginidad y de la pureza como símbolos de su representación ideal dentro del patria rcado. com importantes minorias negras. àquelas como o Brasil. meu objetivo com esse trabalho é ap . paulatinam ente transitando para modelos discursivos e de ação política baseados em estruturas de identificações mais múltiplas e desterritorializadas. La película sugiere cuestionamientos éticos y estéticos en contra de la situación conflictiva del país y de la imposición de sistemas injustos y discriminadores que no permiten un proceso social de transformac ión y liberación de la mujer. Marilise Luiza Martins dos Reis (UFSC)\(UDESC) Como é sabido.

estigmas negativos. c om suas múltiplas conexões e parcerias. tem nos levado a considerar que os movimentos negros da Améric a Latina e Caribe não podem mais ser reduzidos a uma questão de mera cópia ou repetição de doxas estrangeiras. como representação de um movimento afrodiaspórico. Afrocaribeñas y de La Diaspora (RMAAD). os interdit os e os não ditos sobre a situação da mulher em Cuba e em especial da mulher afro-cubana. talvez desde sua origem e cada vez mais. sem espaço para as especificidades existentes nos distintos grupos sociais. E além dos conhecidos avanços sociais. transcultural e diaspórica. inspir a manifestações que emergem nas fronteiras geográficas locais. São essas questões que pretendo trazer a tona com a apresentação desse trabalho. 29 ----------------------.resentar uma discussão sobre esse processo. desigualdades sociais de gênero e . refletindo sobre os seus reais níveis de transformação. virtual e imaterial. superaram a experiência interseccional das desigualdades de gênero. tem apontado para a exis tência de um contexto político-cultural que incorpora e. na medida em que constituem. A partir da história oral. buscamos superar os silêncios. ao mesmo tempo. A experiência dessa rede. classe e r aça/etnia. desterritorializado e reterritorializado. cl asse e raça? O objetivo desta comunicação é discutir identidade e imaginário social de mulheres negras cubanas a partir da interseccionalidade dos conceitos de gênero. tomando por base a atuação da Red de Mujeres Afrolatinoamericanas. um grupo social extremamente marginalizado antes do pr ocesso revolucionário. definiu-se o alcance da igualdade entre mulheres e homens como uma das prioridades do recém constituído governo socialista. para demonstrar como vem se desenvolvendo nos movimentos negros da Améri ca Latina e do Caribe um discurso e uma estética caracteristicam ente descolonizadora. N a perspectiva pós-revolucionária igualdade passou a significar uniformidade.Page 30----------------------IDENTIDADE E IMAGINÁRIO SOCIAL: MULHERES NEGRAS EM CUBA APÓS 50 ANOS DE REVOLUÇÃO Giselle Cristina dos Anjos Santos Revolução cubana de 1959 representa um grande marco da históri a recente latinoamericana. Verifi camos que apesar de inúmeras transformações positivas. Mas e as mulheres negras. e uma abordagem PósColonial. que por sua vez confere ao movimento negro uma configu ração transnacional. um fenômeno global. Isso porque. a RMAAD. inserção e integração social após 50 anos de Revolução. desterritorializado.

considerand ose o preconceito étnico e racial. ganharam amplitude e permanência. e a outra de Goiás. E tem su a relevância no que se refere à condição de minoria em que se construiu a história da mulher negra. e em suas relações na escola. no sentido de melhorar o acesso e o respeito às difer enças. o trabalho traz como objetivo de investigação as dificuldades relacionadas ao preconceito de raça e de cor encontradas no trabalho da mulher professora negra nos primeiros anos da escola pública de Palmas Tocantins. Gênero. poden do incentivar ao desrespeito e incutir conceito negativo à pessoa da mulher professora negra em sal a de aula.raça ainda fazem parte da experiência das mulheres afro-cubanas. Além do exposto. Revolução. Mulher. pouco se vê de efetivo no que compete à realização destas políticas. Cuba-Reyita. a maneira como esta é representada pode levar a se introjetar no imaginário popular. mesmo que ainda incompletos. O que pode acarretar problemas e dificuldades no desenvolvimento do seu trabalho como docente. as relações raciais embasada s na hierarquia branca desembocaram em formas diferentes de manifestar-se a discri minação racial num e noutro pais.chave: Mulher negra – professora – educação – diversidade BRASIL E CUBA: DUAS MULHERES NEGRAS ENTRE A NATURALIZAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO E O CONFRONTO Orlinda Carrijo Melo Olga Cabrera (UnB) 30 ----------------------. Os estudos realizados com essa pes quisa. evidenciam que: se por um lad o criam-se políticas de intervenção. MULHER NEGRA PROFESSORA: DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITOS EM SALA DE AULA E NAS RELAÇÕES DA ESCOLA. Realizado por meio de pesquisa bibliográfica e da história e memór ia da educação. uma visão estereotipada e depreciativa. Palavras . Brasil-Sebastiana) numa perspecti va comparativa pode revelar que as relações de gênero criadas no Novo Mundo nos períodos es cravista e pós escravista.Page 31----------------------Seguir a trajetória de duas mulheres negras (procedentes uma da província de Oriente. Relações Étnico-Raciais. e as discriminações sexistas e de classe vividas por estas. No entanto. Edineuza da Silva Brandão (UFT) Este estudo é parte de monografia em andamento sob a orientação da Doutora Jocyleia Santana dos Santos. Palavras Chaves: Cuba. As estratégias de vida destas duas mulheres negras num d .

as culturas negras foram reduzidas. Inúmeras causas criminosas foram atuadas cont ra os negros.iálogo com seus contextos históricos. em Cuba. políticos e culturais podem revelar os mecan ismos da dominação da ―branquitude . preferencialmente. Mas. ao atraso e à doença social. ambas vieram na educação um meio de ganhar status social. IDENTIDADES FAMILIARES E (PATERNIDADES) MASCULINIDADES NA AMÉRICA LATINA: UM OLHAR A PARTIR DAS FAMÍLIAS AGROPATRIARCAIS E SUAS FORMAS SECUNDÁRIAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO/BRASIL Bruno dos Santos Hammes (UERJ) Os objetos dessa pesquisa foram pais moradores da cidade do Rio de Janeiro que se relacionam de forma heteroafetiva. perceber se há algum peso na simples participação do homem na criação e nas obrigações com os filhos que aponte para um questionamento ou dúvida sobre a virilidade e masculinidade em ―pais modernos suficiente para demonstra r tal hierarquia em outras escalas. Dessa forma determinista são passivei s de estranhamento e melhor estudo para quem sabe assim poder . o racismo naturalizou-se. onde os negros tinham participado de maneira destacada nas lutas anticoloniais e a República tinha sido uma conquista principalmente deles. com o apoio das ciências da época. de fato. ainda que ambas foram. articulado à invisibilidade do negro. ela é a própria representação da naturalização da discriminação a segunda identifica-se como muher e negra e vai ao confronto tanto no espaço familiar quanto no social. sociais. Onde o Tipo Ideal que se buscou perceber é aquele de Homem (macho) provedor e mantenedor p ouco participante nas obrigações de criação dos filhos com uma vida social pouco ou anda alterada com a chegada dos filhos. Sebastiana não alude à raça . integrando os movimentos panafricanos e partidos políticos para lutar pela igualdade racial. A partir desse ideal. No Brasil. Tal estudo foi importante para nortear e ident ificar a razão de um dos principais pontos de atrito na sociedade que é o ma chismo bem como a homofobia e outras questões de gênero que poderiam ser percebidas de certa forma com o políticas já que para além do contrato social (HOBBES) o homem (sexo masculino) teme principalmente a perda de seu STATUS QUO. Sebastiana e Reyita asumiram ambas o modelo de família nuclear e patriarcal como o mais positivo para driblar a discriminação. mas. no entanto. às ativi dades criminosas. ambas lecionaram com grupos sociais marginalizados e não como profissionais ainda que a primeira fo rmouse como normalista. se analisou as performances mais flexíve is e mais participantes tentando dessa forma. o esteio da família.

diante das abordagens em voga que trata da etnia neg ra e da reivindicação de direitos igualitários para o desenvolvimento de um trabalho diferenc iado junto à diversidade presente na sala de aula. Palavras-chave: status quo. com endereço: 1. A metodologia util izada foi a pesquisa bibliográfica e a pesquisa de campo uma vez que não se encontrou publicações sobre a mulher professora negra no contexto regional . (antiga Arno 33). APM 01 (Antiga Arno 42). no endereço: 405 Norte. Na s considerações finais destacamos que as professoras mesmo se auto-declarando ne gras. AL. APM 07. n a região norte de Palmas. situada na quadra 307 Norte.206 Sul. masculinidades. (antiga Arse 122). e uma professora negra da Escola municipal Antonio Carlos Jobim.chave: Mulher negra. 31 ----------------------. AP M 06. transcrição e análise dos dados. Refere-se ao papel das mulheres negras professoras e as dificuldades enfrentadas por estas no ensino fundamental nas escolas públicas da cidade de Palmas. Alameda 02. O uso da metodologia de história oral foi significativ a pela possibilidade de construção de acervos e fontes de pesquisa so bre estas mulheres e conseqüentemente sobre o sistema de ensino de Palmas. Palavras. (antiga Arno 43). 31. A relevância científica se deu quanto a escolha da temática.questionar a validade e veracidade da imposição biológica como base para coerção social. uma professora do Colégio municipal Pastor Paulo Leivas Macalão.Orientadora (UFT) dete A monografia investiga a mulher negra e professora e sua trajetória na educação básica. do universo da pesquisa e da viabili dade de execução no prazo estabelecido. Al. especificamente na cidade de Palmas. 08.Page 32----------------------MULHER NEGRA E PROFESSORA: TRAJETÓRIAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA Edineuza da Silva Brandão (UFT) Jocyléia Santana dos Santos . endereço: 407 N. 1206 sul. De acordo com a metodologia iniciamos com o depoimento de duas professoras da Escola Estadual Vila União. hegemonia. rminismo biológico e performances sociais. Palmas. profissão docente. não perceberam a dimensão do seu papel social. duas professoras da Escola municipal Beatriz Rodrigues da Silva. Al 23. Tocantins NEGRA. MULHER: ESBOÇO DE COMO RAÇA E GÊNERO SE INTERSECCIONAM . Foram realizadas seis entrevistas gravadas em áudio.

sexualidade ou c lasse. de 1919.Cinthia Marques Santos O presente trabalho se propõe a investigar o modo como as ca tegorias raça e gênero se cruzam nos diversos segmentos do movimento feminista e negro.A partir da problematização da categoria mulher e negro os movimentos sociais. as questões pelas quais são oprimidos seja pelo gênero. cada qual com s uas diversas necessidades e a seu modo buscam abordar . o movimento feminista cubano estava em franco desenvolvimento levando dentre outros.As mulheres negras ao se organizarem em grupos/entidades fazem emerg ir no debate com os movimentos negro e feminista a intersecção entre raça e gênero elucidando suas condições enquanto mulher e negra e a necessidade de romper com lugares de subaltern idade. Também nesse período. 32 ----------------------. nem no movimento negro no qual a q uestão de gênero não era amplamente discutida. desc reveu do seu ponto de vista os problemas sociais e morais que afetava m a família burguesa e.raça/etnia.Page 33----------------------GÊNERO E SEXUALIDADE NA LITERATURA CUBANA NO INÍCIO DO SÉCULO XX Sandra Maria de Oliveira Este trabalho tem por finalidade identificar e analisar Identidade de Gênero na literatura cubana de Miguel de Carrión entre o período de 1895 a 1919. de 1917. nas obras Las Honradas. Nestes romances o autor de linha naturalista. Neste sentido o objetivo deste trabalho é discutir junto a outras temáticas como o autor através de suas obras tinha como intuito maior dar uma orientação social à seu público . bem como o movimento feminista no período em que o autor escreve as obras.Visto que suas demandas não se viam contempladas plenamente no movimento feminista. inicialmente engendrado por mulheres brancas.Assim este trabalho pretende compreender se e como a inserção das categorias raça/gênero provocou mudanças nos debates dos movimentos negro e feminista. o papel da mulher nessa sociedade que estava em transformação devido à tentativa de consolidação da República Cubana. assunto s como a lei do divórcio para o debate político e social. e Las Impuras. Para a viabil idade deste trabalho foram necessárias outras análises tais como a sexualidade. tão exploradas nos romances. sobretudo.de maneira relevante.

burguesia cubana. todos vítimas de ofensas raciais. Este estudo dem onstra que a luta corporal do homem com o leão e a força sagrada atribuída aos cabelos são sinergias comuns do lion-man. periferia de Belém do Pará. a Escola Estadual de Ensino Médio Alexandre Zacharias de Assumpção. ou seja. católica e particular. A recorrência do uso do vocábulo moreno (a) nesse processo identificador e as remissões legitimadoras desse uso pelos estudantes ao divulgado caráter misturado e medial do referido termo como classificador genérico da identidade étnicoracial do país.Page 34----------------------04. a partir de relatos de dez estudantes divididos e m ambas as escolas. correlatas no ritual étnico de passagem masai e na mitologia bíb lica de Sansão. Portanto. que eram também as adept 33 ----------------------. Discute ainda conceitos de identidade e memória equiva lentes em espaços sociais dos negros que ficaram na África e dos demais que vi eram para as Américas e Caribe. e a Escola Madre Zarife Sales. com perspectivas didáticas para o estudo e ensi no da historiografia africana em diversos níveis de ensino-aprendizagem. "O MORENO (A). EIXO TEMÁTICO: IDENTIDADES NACIONAIS Coordenadores: Olga Cabrera (UNB) Benedito Souza (UFMA) PANAFRICANISMO: DIÁLOGOS ENTRE O RITUAL ÉTNICO MASAI E A MITOLOGIA DE SANSÃO Maristane de Sousa Rosa (UEMA) O panafricanismo jamaicano no século XX reivindica a (re)introdução dos conteúdos sobre História da África arrancados dos textos da Bíblia. a partir da utilização sagrada do cabelo como sign o de fortalecimento identitário negro. NO MEIO E MISTURADO" OU UMA (RE) PRODUÇÃO DO DISCURSO DE MESTIÇAGEM EM DUAS ESCOLAS DE BELÉM DO PARÁ? Alan Augusto Moraes Ribeiro Em duas escolas do bairro do Guamá. do povo brasileiro é um elemento que aciona e é acionado pelo denomina do discurso de mestiçagem brasileiro pelo uso do moreno. pública. os pessoais modos de identificação étnico-rac ial a partir da categoria Cor.alvo. é uma explicação da construção transcultural do pensamento panafricanista. Os diferentes modos de usar o (a) moreno (a) pelos (as) estudantes entrevistados (as) é o foco c . as mulheres pertencentes à as do movimento feminista. analiso.

Operário e Feminista. afrocên na const . NEGRAS RAÍZES BRASILEIRAS – UMA BUSCA INVESTIGATIVA E METODOLÓGICA Paulo Henrique da Silva Santarém A exposição busca apresentar/compartilhar uma investigação de caráter epistem ológico e identitário sobre as trajetórias e memórias negras brasileiras. numa perspectiva afrocentrada. que vincula à ancestralidade africana a experiência diaspórica do negro rução de um novo conhecimento sobre o mundo. cultura histórica.entral da análise neste trabalho. Apresenta a ex periência estética e política de Solano Trindade (1908-1974). intelectuais negros. em que o vin culo epistemológico situa-se na busca de uma memória e identidade construída com ―os de baixo . como expressão de ativismo afrocentrado. Abdias Nascimento (1914) e Oliveira Silveira (1941-2009). no que se refere à maneira pela qual ações no campo da cultura e da política estavam baseadas na representação da África como o centro referencial particular ancestral. A busca partiu de uma produção etnográfica em que o autor situa-se enquanto sujeito/ob jeto da pesquisa. Esta pesquisa buscou contribuir com a constituição de uma memória da vivência negra no Brasil. tendo a construção da árvore genealógica como horizonte próximo e o objetivo d e longo prazo constituir uma versão da história da família desde os laços rompidos no continente afric ano a história recente. realizando o trabalho da identidade racial e social também através da factualidade individual. não universalista e não essencialista. anticoloniais/desco loniais e com referência na produção do Movimento Negro.Page 35----------------------como pelo estabelecimento de um paradigma cognitivo trico. A pesquisa utiliza com o tema a busca pela constituição e história da família do pesquisar desta comunicação. avançando nas metodologias possíveis para tan to. Pa ra tanto utilizamos como ferramentas os marcos dos estudos culturais. que faço PROTAGONISMO NEGRO NUMA PERSPECTIVA AFROCENTRADA Elio Chaves Flores (UFPB) Alessandro Amorim (UFPB) Danilo Santos da Silva (UFPB) O presente trabalho procura pensar o protagonismo negro em suas mais significativas formas de expressão. bem 34 ----------------------. posiciona-se no espaço de fala e agência acadêmica. Palavras-Chave: afrocentrismo.

Palavras-chave: Sistema Escravista. Tradição Oral. durante a segunda metade do século XVIII. José I. cristalizando-as através de seus discursos.por caminhos outros aos do patriarcado e patrimonialismo.Page 36----------------------construção social do discurso sobre o escravo e a escravidão sua influência na constituição do pensamento social Brasileiro. para estabelecer possíve is relações entre a 35 ----------------------. e ntão ministro plenipotenciário do rei lusitano D. entendendo a historicidade d o sistema escravista enquanto processo cambiante e de variados significados a depende r da época e lugar. entendendo que este constitui-se não somente d a relação econômica senhor/escravo. A inspiração geral da busca deu-se através da obra ―Roots (Negras Raízes). Abolicionismo. Pensamento S ocial. Brasil Colonial. programou uma série de reformas administra tivas e . O Marquês de Pombal. As fer ramentas metodológicas foram as da história oral (tradição griot) e pesquisa histórica desde a produção de literatu ra local. Suje ito Posicionado. Palavras chave: Memória Negra. foi um a lvo privilegiado das Reformas Pombalinas em todo o reino português. mas também na construção social de prerrogativ as culturais que engendram a atuação desses atores. Identidades Nacionais O OLHAR MEDIADO: DISCURSOS PARA A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO ESCRAVO NO BRASIL COLÔNIA: ALGUNS ELEMENTOS Samuel Silveira Martins Rafael Moreira (Co-Autor) A escravidão no Brasil constitui-se em um vigoroso objeto de análise da Sociologia Brasileira sendo representativo em grandes autores de nossa literatura desde o séc ulo XVII. Joaquim Nabuco e Machado de Assis – autores representativos de seu tempo. Negras Raízes. “POVOS INDUSTRIOSOS”: O PROGRESSO ILUMINISTA DA ADMINISTRAÇÃO POMBALINA NO MARANHÃO Nivaldo Germano dos Santos (UFMA) O Maranhão. Esta comunicação tem por objetivo discutir algumas problemáticas relacionadas ao siste ma escravista. Azeredo Coutinho. que em suas obras analisaram ou ilustraram uma perspectiva da vida colonial observada. Abordaremos os elementos encontrados nas vozes de autores como Antonil. de Alex Halley.

Colômbia. buscamos atentar para processos culturais afro-atlânticos.PUC) O Brasil e o Caribe partilham um passado comum de colonização. Para além das similaridades históricas e proximidade geográfica. com o objetivo de não apenas perceb er a influência do racionalismo ilustrado na colônia americana. valores e cosmovisões de suas sociedades de origem e por meio dele marcaram sua diferenciação. observando as ref erências ao iluminismo. o Marquês de Pombal. bem como outros países da América do Sul. govern ador da capitania do Maranhão e seu tio. Identidades. como bem observou Fer nando Ortiz. Palavras-chave: Diásporas. linguagens e colonizadores diferentes. africanos escravizados apropriaram-se do calendário religioso dos colonizadores para recriar nas Américas crenças. e para a qual o algodão produzido no Maranhão sete centista foi uma das principais matérias primas da Revolução Industrial. Culturas Afro-latino-cari benhas. sobre a administração destas terras. seus vestidos. com a qual os portugueses mantinham sólidas r elações comerciais. situase entre 25 de dezembro e seis de janeiro. A metodologia utilizada é a análise do discurso presente nas cartas. nas regiões de colonização anglófona. como também compreender até que ponto iss o surtiu efeitos práticos e materiais naquele contexto.Guianas etc. o Brasil e áreas do Caribe. e sua influência na administração do Maranhão naquele tempo. Nesse período. Uruguai. O presente trabalho tem por objeto as cartas administrativas entre Joaquim de Mello e Póvoas. especialmente a Inglaterra. ou no Boxing Day. Linguagens. nas áreas de colonização ibérica. entre os séculos XVIII e XIX. para além dos mecanismos polític os. ma is precisamente no Dia de Reis. seus bailes e cerimônias. . como Peru. Entendemos que. tiveram um outro elemento em comum: celebrações negras ocorridas no chamado ciclo natalino que.no reino. marcante no pensamento da época. Performance corporal. escravidão e plantation . s uas línguas e cantos. OUTRAS TEIAS DA DIÁSPORA: CELEBRAÇÕES NEGRAS DO CICLO NATALINO NO BRASIL E CARIBE Bebel Nepomuceno (CECAFRO. ―a África negra e ultratlântica com seus filhos. suas religiões e insti tuições políticas transportava-se para o Novo Mundo. buscando inserir Portugal no ritmo do progresso ilumini sta pelo qual a Europa passava. Conexões histórico-culturais entre o Brasil e o Caribe têm sido relegadas pelos estudiosos. Neste trabalho. suas músicas. de acordo com o calendário cristão. tendo como fo co festas e celebrações de protagonismo negro. transcendendo f ronteiras físicas.

Mesmo que. dos memorialistas do município de Parintins. A prese nça hebraica na região tem sido estuda e foi registrada por Samuel Bechimol em alguns dos seus tra balhos. bem como os periódicos que compreende a época . no entanto. pesquisam e respeitam est a luta histórica anti-racista.Page 37----------------------EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES ETNICO-RACIAIS: A ANCESTRALIDADE DOS DESCENDENTES DE AFRICANOS NO BRASIL Igor Fernandes de Alencar (UFG) Tatiane Julia de Alencar (UFG) Esta comunicação denominada Educação para as Relações Étnic -raciais: a ancestralidade dos descendentes de africanos no Brasill. vem de encontro às intencionalidades da promulgação da Lei 10.36 ----------------------. por meio de uma leitura contextual entre os anos de 1900 a 1920. esse trabalho se desdobrara sobre a intensa participação africana na elaboração da sociedade brasileira c om a ininterrupta tarefa de combate ao racismo e às práticas discri minatórias a que estão sujeitos diariamente milhares de africanos e afro-descendentes esp alhados pelo mundo. aqui respaldamos a conquista efetivada pelo Movimento Negro brasileiro com a sustentação de vários intelectuais negros ou não-negros que. As narrativas dos descendentes também se constituirão numa font e importante para a observação das trajetórias de famílias de Judeus no município. Efetivando-a na intervenção pedagógica. mais de proximidades sócias e culturais seculares. do Centro Israelita do Pará.639/03. as discussões nos instiguem pensar os constr utos de identificação com o ser negro e. em especial no interior do Amazonas. que visa transmit ir aos alunos do ensino básico e médio a história da África e do Brasil negro. As fontes utilizadas serão os doc umentos pertencentes ao acervo do arquivo público do amazonas. a pesquisa busca compreender o processo de migração dos Judeus para o município de Parintins/AM. Singulariza essas relações em meio ás distancias geográfica. Assim. MIGRAÇÕES E IDENTIDADE NA AMAZÔNIA: A COLÔNIA JUDAICA EM PARINTINS – 1900 A 1920 Maria Ariádina Cidade Almeida (UFAM) Este trabalho tem a proposta de ampliar os registros e estudo s sobre o povo Judeu na Amazônia. procuraremos aqui alargar e ampliar as observações já existentes quanto a . conseqüentemente com o africano .

por meio das fontes sugeridas e com o auxilio da micro-história será possível compreen der 37 ----------------------.presença desses Judeus. Os aportes cientificos eram os mesmos em ambos paíse s.Page 38----------------------e analisar o processo de migração os a sociedade parintinense no inicio do Século XX. revela as diferenças nas respos tas a . De fato. a Amazônia foi constituída por di ferentes componentes étnicos e culturais. atrasadas e incivilizadas e no outro a cultura ocidental branca. Rui Barbosa e Enrique José Varona. Jeffrey Lesser em seu livro a negociação da identidade nacional que trata da minoria de migrantes e da luta da etn icidade no Brasil observa: ―a surpresa dos brasileiros ante a crescente população o riginaria do Oriente Médio transformou-se em choque. objetivo a alcançar mediante o progresso o qual era a inspiração para os projetos educacionais do período em ambos países. Conforme a observações de Bechimol (1999) os Judeus na região precederam alguns grupos migratórios notáveis. nas primeiras décadas do século XIX. dos Judeus e os possíveis impact BRASIL Y CUBA: CIENCIA VS CULTURAS NEGRAS. Brasil (1888) e Cuba (1886) significa penetrar nos efeitos d os novos contextos onde foram arrojados os ―emigrantes nus sobre suas culturas durante o pe ríodo pós escravista. a comunidade norteafricana que começou a se estabelecer na foz do Amazonas. A maneira em que foram idealizados estes pelas duas mais grandes figu ras do momento no Brasil e em Cuba. era exclusivamente judia . Num dos polos encontravam-se as culturas reduzidas a manifestações atáv icas. essa pesquisa torna-se mais substantiva na medida em que faz uso dos estudos das migrações e suas conseqüências para as transformações regionais. o m ovimento de Balguns grupos e os aspectos identitários. quando ficou claro que o primeiro grupo numeroso de imigrantes Árabes a vir para o Brasil não era nem Muçulmano e nem Cristão. PROYECTOS EDUCACIONAIS DE RUI BARBOSA E ENRIQUE JOSE VARONA Olga Cabrera (UNB) Estudar numa perspectiva comparativa os impactos das ciencias de findos do século XIX e principios do século XX nos dois países americanos que tinham abolido a es cravidão negra mais tarde. Conside rando. que ao longo do seu processo histórico. observando as atividades exercidas. Deste modo. a ciência positiva europeia que acreditava na evolução e pelo tanto em culturas inferiores e s uperiores.

por lo que la plantocracia prefirió la alianza con el régimen liberal conservador peninsular. lo cual ha marcado una perspectiva teórica y una obra que incide en los estudios culturales. Era requisito indispensable la absoluta paz interior y el mantenimiento del precario equilibri o estamental: era su estado ideal. do escritor João Melo. de la decolonialidad. una de las centrales en la reflexión.perguntas realizadas sobre idêntica base conceitual cientifica. "EL PROBLEMA DEL NEGRO EN EL PENSAMIENTO CARIBEÑO". en las perspectivas de la complejidad. Kelly Ane Evangelista A partir da emergência de recentes narrativas que insistem em discutir as demandas de ordem política. del mismo modo que ma rcan la necesidad de la consideración de una episteme peculiar. DE JOÃO MELO. a través de la Constitución Gaditana. Cuando la monarquía ilustrada y despótica expiraba como poder real. mediante la renovación de las estructuras administrativas y para perpetuar su autonomía. Felix Valdés García (Instituto de Filosofía La Habana. se relacionam as questões que perpassam a construção das idéias de nação e identidade nacional. en el pensamiento de la región. LA CONSTITUCIÓN GADITANA Y EL NEGRO EN CUBA Olga Portuondo Zúñiga El patriciado criollo de la isla de Cuba prohijó una economía d e gran auge y provecho. pondo em destaque suas relações com questõe s de base étnico-racial. se d ecía que 38 ----------------------. la alta clase criolla pensó que la legitimidad del liberalismo metropolitano. basada en la plantación azucarera y cafetalera con fuerza de trabajo esclava. Cuba) Este trabajo sería una lectura de los principales pensadores del Caribe en torno a la problemática. cultural e social de Angola. DISCURSOS ACERCA DAS RELAÇÕES INTER-ÉTNICAS E DA IDENTIDADE NACIONAL EM FILHOS DA PÁTRIA.Page 39----------------------era la colonia más rica del mundo en 1840. alcanzaría a la colonia para priv ilegio de los blancos y para afirmación de sus posiciones estamentales. La oligarq . etc. El mayor peligro para los hacendados era la guerra interna en escalada y sostenida contra los africanos y sus descendientes. o trabalho a ser apresentado pretende examinar como discurs os acerca da identidade cultural e das relações inter-étnicas presentes nos contos da obra Fi lhos da Pátria.

El asunto de la entrada en las Cortes de parlamentarios criollos tenía interés. con el crecimiento de un sistema de pla ntación que exigía miles de esclavos y cuando las regulaciones internacio nales para suprimir la trata se aplicaban con mayores exigencias. espaço prioriz ado para a pesquisa. el punto neurálgico man ipulado por los líderes del Congreso para el rechazo a instaurar la nueva Constitución en Ul tramar. durante los 84 días que duró el restablecimiento constitucionalista. sin apenas discusión y como algo previamente concertado décadas atrás A IDENTIDADE CUBANA: RE-ELABORAÇÕES DE SI MESMO A PARTIR DA PRESENÇA IMIGRATÓRIA ESTRANGEIRA (1900-1933) Katia Couto O presente trabalho pretende analisar a constituição da identidade cubana durante o período da primeira República. ni tan siquiera al ne gro libre. capitán general Miguel Tacón tuvieron mejores posibilidades de triunfo en el conflicto con el gobernador del Departamento Oriental Manuel Lorenzo luego que éste proclamó la Constitución de 1812 en el territorio de su adeministración colonial entre octubre-diciembre de 1836. Porque no era sólo la preservación de la esclavitud por la esclavitud misma.uía criolla hizo amagos para arrancar dádivas de España y para que colaboraran con la represión cuando las barreras sociales eran cada vez más rígidas. Esta es la razón por lo que las f uerzas que respaldaron al liberal conservador. utilizaremos diferentes fontes: jornais. a partir do encontro de diferentes etnias imigrantes que en tram no país nas primeiras décadas do século XX para trabalhar nas indústrias de açúcar. entrevistas. en no otorgar cualquier de recho civil a los descendientes de africanos ni papel protagónico alguno. O negro imigrante e o negro nacional serão nosso foco de análise para entender o processo de formação da identidade cubana neste período. únicamente. era que los descendientes de africanos no podían ser convertidos en ciudadanos ig uales a los blancos. . donde vetaron la abolición de la trata y de la esclavitud. e documentos provinciais de Santiago de Cuba. No por casualidad. Para tanto. amen de que los hacendados orientales coincidieron. los procuradores de la isla de Cuba habrían sido tan conservadores como cuando participaron en las de 1810-181 2. tanto como los occidentales. sino por lo que representa ba para hacer perdurar la condición de inferiores entre los libres de color. para la oligarquía b lanca: de concurrir a las constituyentes de 1836-37. Así se aprobaron las Leyes Especiales.

Through the course of this paper. not the government-issued paper-thin ‗pass‘ that permits us to travel to lands far and wide. sacred culture to us and share it with the wider wo rld. impart and preserve our sub-conscience. Rather. I intend to highlight the common cultural for ces that create. the electric. The discerning ey e will not gauge an accurate appreciation of our numerous cultures b y mere observation and participation in obvious settings.Our artistes and unlettered historians reinforce our oral and socio-historical traditions. multi-faceted co-existence in our lands. solidify and celebrate the strength of our regional prowess. CONTRADIÇÃO ENTRE O GARVEYSMO E OS PROJETOS CUBANOS DE NAÇÃO". multi-cultural. We do not live in obvious settings neither are we an obvious people. our quest for a common national identity is th ere for the keen eye to discover. Br azil and the Republic of Trinidad and Tobago. Whether it is the savoury delight of our indigenous f oods. even amidst the challenges of globalization. festive nature of our political campai gns.39 ----------------------. This study will further exami ne the means by which citizens of these respective countries choose to identify themselves and be inde ntified and the challenges of maintaining that common national identity. Dionisio L. this is the legacy by which we ought to be defined . our committed definition of beauty and our redefined philosophy of lif e compels us to merge. assimilation and national identity. or even the co ntagious sensuality of our people. the exuberance of our protests. "MARCUS GARVEY EM CUBA. the passion of our people in sports and the arts or the melodic rhythms of our life experiences pla yed out in the infectious sounds of our musical talents. Poey Baró (NEAB/UNB) Em 1921 o líder jamaicano Marcus Garvey visitou Cuba e se reuniu .Page 40----------------------MY CULTURE IS ME Joy Dillon Culture can be akin to the life-giving blood of the Latin-A merican and Caribbean Diasporas. we are a people who have the distinct advantage of wide ranging. A comparative analysis of the impact of the factors that gravitate and conversely depart from a cohesive definition of national identity in the Brazilian and Caribbean Diasporas will specifically focus on Sao Luis better known as ‗Brazilian Jamaica‘ in Maranhao. To those who dare to lo ok beyond the surface.

MEMÓRIA E ARTES Coordenação: Alexandre Fernandes e Adriana Cajado Costa (Doutoranda Psicanálise/UERJ) Corrêa (DESOC/PGCult/UFMA) IDENTIDADE. . passam a incluí-los com mais força n a pauta de suas reivindicações políticas.Page 42----------------------05. No presente trabalho se analisam as causas do pouco sucesso do garveysmo em Cuba e se expõem as principais concepções de nação cubana e as doutrinas anti-racista defendidas naquela época. de um lado. A partir de então. 41 ----------------------. PATRIMÔNIO. os direitos culturais são invocados por diversos grupos sociais q ue. proponho um estudo sobre a participação feminina na produção cultural do hip-hop geradora de um discurso que reposiciona o lugar da mulher e do negro nestas soci edades. CRIATIVIDADE E ARTE: RISCOS DO EXCESSO DE PATRIMONIALIZAÇÃO Alexandre Fernandes Corrêa (DESOC/PGCult/UFMA) Adriana Cajado Costa (Doutoranda Psicanálise/UERJ) A Constituição Federal do Brasil de 1988 incorpora a cidadania cultural aos direitos civis. por outro. analiso historica mente as questões relacionadas ao lugar do negro na historiografia dos dois países.com os seguidores da sua doutrina no país.Page 41----------------------BRASIL E CUBA: APONTAMENTOS PARA UM ESTUDO DE HISTÓRIA COMPARADA Allysson F. com intelectuais negros e com autoridades g overnamentais. Garcia (UNB) Pretendo apresentar nesta comunicação uma reflexão inicial a partir de um estudo que venho desenvolvendo no doutorado em História. 40 ----------------------. Depois de um período de refluxo nas políticas de conservação. Na reunião com intelectuais negros as diferenças foram notórias e pouco depois da sua visita o movimento desapareceu em Cu ba. com sua consagração jurídica. Porém. Nessa época o movimento de retorno à África estava em auge nos países caribenhos e nos Estados Unidos. Assim. entre os integrantes do garveysmo em Cuba predominavam os imigrante s das Antilhas anglófonas e escasseavam os cubanos.

perguntamos: quais os riscos dos excessos da gestão do patrimônio cultural e da memóri a social sobre a arte e o imaginário artístico? A criatividade constitui um processo d ialético que enlaça a dimensão simbólica e imaginária do sujeito no laço social. meios de salvaguarda de possíveis perdas identitárias e territoriais.551. Criar. latina. – configurando um sistema de referência identitária anacrônica e paradoxal. talvez. folcloriza ntes e turistificadores. n osso GT questiona: Como garantir a liberdade e a criatividade da arte. africana ou caribenha. que a salvaguarda do passado não signifique uma petrificação do imaginário artístico sob a força dos excessos da patrimonialização rigente? Parece que uma resposta política contundente a esse quadro resistente a mudanças. encon tremos uma forma de garantir uma gestão política realmente democrática do teatro das memórias sociais e naturais no país. como hip-hop. desde os anos 1990. em 2001 inaugura-se uma nova fase com o Decreto-Lei 3. observamo s os movimentos sociais buscarem nos instrumentos legais e institucionais de pat rimonialização. que institui o programa nacional de registro do patrimônio cultural imaterial na sociedade brasileira. A memória não se configura apenas de traços mnêmicos do passado. seja a promoção de políticas de ação cultural que invoquem a riqueza das heranças culturais e simbólicas. todavia. Nesse c enário testemunhamos uma crescente demanda por uma institucionalização do processo de gestão do teatro das memórias sociais. arte de rua e arte popul ar. mas interfere em ato no presente e i nflui nas identificações e ideais futuros. Desse modo. raça. Consideran do estes aspectos. 42 . Partindo de uma perspectiva transdiciplinar. classe. gênero etc. ocorrer uma democratização efetiva do espaço social da memória e do patrimônio. num esp aço social cada vez mais dominado por conceitos e noções antiquados e acríticos? De que maneira se pode garanti r aos movimentos jovens. réplicas do idêntico.preservação e promoção do patrimônio cultural. sem. Constatamos que se mantém nesse espaço social o domínio de grupos oligárquicos e conservadores tradicionalistas. inventar é produzir memória nas cenas constr uídas a partir de um diálogo com a herança recebida. Com a intensificação dos fluxos de globalização tecnoeconômica e mundialização cultural. na direção de uma polifonia cultural efetiv a e não retórica: seja ameríndia. A fixação de identidades e territórios numa gestão política parece limitar o campo criativo produzindo uma repetição do mesmo. Concomitante a isso se observa também uma fixação obsessiva e recalcitrante em conceit os e noções do século XIX – tais como etnia.

históricos. nos acervos museológicos. atribuídas aos artefatos africanos no cenário museológico ocidental. arqueológicos. ARTE E CULTURAS AFRICANAS: OS SÍMBOLOS DE PODER COCKWE (ANGOLA) Manuela Borges (Instituto de Investigação Cientifica Tropical. não se pode perder de vista que os modelos classificatórios adot ados nos museus estabelecem hierarquias. Museu e Cultura Material Afric ana. O estudo da cultura material possibilita ampliar as in terpretações sobre os objetos. Objeto Artístico. Neste texto procura-se questionar a forma como a artes visuais africanas têm sido i ncorporadas ou não.Page 43----------------------CLASSIFICAÇÕES INSTÁVEIS E PERMEÁVEIS: CULTURA MATERIAL AFRICANA NOS MUSEUS Luzia Gomes Ferreira (ICA/UFPA) Este trabalho versa sobre as categorias adotadas para a classi ficação dos objetos como etnográficos e/ou artísticos e a importância do museu como espaço de legitimação e consolidação destas categorias. Ou seja. onde ainda persiste a dicotomia entre museus de arte e etn ológicos. e no ensino académico dos países ocidentais.----------------------. Esta dicotomia enraíza-se na história colonial e testemunha preconceitos raciais actualmente anacrónicos que urge ultrapassar. DCSH) A religião e a arte constituem os elementos culturais mais claramente demonstrativos do impacto pervasivo e significativo que a África teve no Brasil. dentro ou fora dos museus. Após uma explanação teórica sobre os critérios gerais que definem os objetos etnográficos e artísticos. atribuem-se status e valoração diferenciados entre eles. são instáve is e permeáveis. Os objetos são passíveis de fornecer diferentes informações de variados aspectos acerca dos diversos grupos sociais. apresenta-se uma situação em que as fronte iras entre essas duas categorias são permeáveis e instáveis. além de suscitar emoções e mexer c om o imaginário humano. a partir do caso de Portugal e do Brasil. decorativos. compreende-se que as classificações de etnográficos e/ou artísticos. etc. a partir d e uma reflexão sobre objetos africanos que passaram a fazer parte dos acervos de m useus na Europa e nas Américas. Os Museus enquanto laboratórios e depositários de importantes dados têm sido descu rados pelos estudos . articulando a sua produção e seu uso em diversos c ontextos. e onde o ensino universitário desvaloriza o estudo das artes visuais africanas relat ivamente ás de origem ocidental. Entretanto. Entretanto. ao classi ficá-los como artísticos. Palavras-chave: Objeto Etnográfico. etnográficos.

mais ou menos recente. A etnomuseologia procura esclarecer os artefactos etnológicos. ela é um fenómeno de comunicação que permite conjugar simultaneamente as noções de pertença e difer enciação. contextualizar os objectos em referencia à área geográfica e cultural de origem. Os esforços para a constituição de uma especialização disciplinar que aborde a cultura pela perspectiva do estudo dos artefactos. e suscitaram problemas epistemológicos. pelo que as informações relativas geralmente não eram recolhidas. A cultura p ode ser definida como a forma de expressão e simbolização das relações sociais. O long o isolamento das colecções museológicas e investigadores das universidades contribuiu para uma fraca relação entre a pesquisa da cultura material e o ensino da antropologi a. provocou um renovado interesse pelos acervos etnomuseologicos. O estudo de acervos museológicos insere-se nas novas tendências já que permite uma reflexão crítica sobre dados etnográficos recolhidos n um passado. Estes estudos levantaram novas questões. pelo precioso e pelo insólito. sendo pois resultado da a tracção pelo raro. A antropologia material caracterizada por uma perspectiva b aseada em artefactos continua no entanto sem teorias e objectivos bem definidos. Os estudos de cultura material só recentemente vêm s endo objecto de um renovado interesse que se reflecte no surgimento de investigações a seu propósito e me smo de uma nova especialização. As mais antigas colecções existentes nos museus ocidentais. e não de preocupações cientificas . dificultando o seu aproveitamento científico. Grande parte do acervo ac tual é resultado de colecções privadas que se caracterizam por espólios het eróclitos e erráticos. podendo trazer ao domínio cognitivo um conjunto de objectos que ilustram. .antropológicos. pelo maravilhoso. derivam de uma recolha arbitraria de artefactos motivada geralmente pela sua singularidade e exotismo. devidamente informados. a cultura dos diversos povos. como também se interessa pelo seu papel como protagonist as de uma ideologia expressa sob a forma de relações sociais Importa pois. antes de mais a relativa ao aproveitamento cien tifico de colecções museológicas que não foram recolhidas no terreno de uma fo rma sistemática e devidamente informada e contextualizada.Page 44----------------------relativos ao valor heurístico dos acervos existentes nos museus ociden tais. c omo os 43 ----------------------. não somente como uma re flexão passiva da mundividencia.

Por se tratar de uma cultura erudita de maior valor de expressão. por ress altar e evidenciar a existência desses interesses em preservação e como estão sendo desenvolvidos. uma vez que o Bra sil é um país plural com grandes diferenças sócio-culturais. visto os seminários de cultura popular ter somente agora despertado pelo órgão estado. A identidade é construída a partir de ele mentos heterogéneos e modifica-se com a evolução das relações sociais. e fazeres. ser r esponsável pelo orgulho étnico de elementos da sociedade à medida que é preservado seu ciclo vita l. produto da história e das experiências vivenciais. Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como veículo de denúncia. que poderiam ser discutidos e . saberes. mas também é formadora de opinião. O tema é conven iente haja vista a persistência o preconceito no uso da cultura popular como maior Atrativo Turístico de localidades que demonstram tal potencial. tendo o IPHAN. é de suma importância que esse enfoque dado sobre a questão da preservação respeite os segmentos culturais.relacionando-se com a identidade do grupo. sobre tudo quanto ao tipo de expressão cultural. A discri minação e as atitudes do estado com relação ao uso e mapeamento dos grupos de cultura intangíve l serão focos do trabalho proposto. sendo pois uma noção ambígua que se pode tentar definir a partir das relações que se estabelecem com um esp aço e sobretudo uma forma de estar e relacionar-se com os outros e através do seu património material. POLÍTICAS PÚBLICAS NA CULTURA POPULAR: AMPLIAÇÃO DA NOÇÃO DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO Nadir Olga Cruz A Cultura Popular de uma localidade tem como função principal ma nter os costumes e rituais do povo reconhecendo sua identidade cultural e dando abertura para discu ssões de temas considerados irrelevantes como modos de vida. e a não existência de preconceitos. A manifestação cultural tem em suas funções o entretenimento. por transmitir idéia s de origem. A relevância do trabalho é por tratar de tema polêmico que é bastant e presente. a religiosidade. de tradicionalismo e influenciar na maneira de pensar. Uma forma de verificar se os direitos igua is estão existindo. Por que na educação formal muitas 44 ----------------------. ou seja. passando apenas pelo modismo que a mídia demonstra.Page 45----------------------vezes temas como cultura popular de raiz deixam de ser tratados como um orgulho cultural.

nus utilizamos de recursos didáticos enfocados nas ações educativas do Museu Antropológico da UFG com a Exposição de longa duração Lavras e Louvores. vem de encontro às intencionalidades da promulgação da Lei 10. Igor Fernandes de Alencar (UFG) co-autora: Tatiane Julia de Alencar (UFG) Este trabalho é resultado de um projeto de intervenção pedagógico denominado O Continente Africano e suas Relações Transatlânticas: a ancestralidade dos descendentes de africanos no Brasil. Palavras-chaves: Oralidade.analisados de maneira a formar cidadãos conscientes da riqueza que produzem. Kríkati PERCURSO IDENTITÁRIO: PATRIMÔNIO COMO RECURSO DIDÁTICO. Inaugurada em dezembro de 2006. De forma preliminar se conclui que a cultura Krïkati deve ser preserv ada e valorizada com elo de respeito e honradez e com o viés para a Educação Patrimonial e a conseqüente justeza social.Maranhão. o intuito da pesquisa é (re) significar a cultura indígena Kríkati e valorizar aspectos identitários deste tronco lingüístico Macro-Jê que tanto c ontribuiu para o enriquecimento cultural de Imperatriz e demais municípios da Região Tocantina. bem como signos desencadeador es de . localizada na Aldeia de São José. Além disso.639/03. Portanto. Para isso. no entorno da cidade de Mont es Altos . Surgindo então a pesquisa sobr e a etnia Krïkati. pesquisam e respeitam esta luta his tórica anti-racista. esse trabalho se desdobrara sobre a intensa parti cipação africana na elaboração da sociedade brasileira com a ininterrupta tarefa de combate ao racismo e às práticas discriminatórias a que estão sujeitos diariamente milhares de afri canos e afro-descendentes espalhados pelo mundo. a partir da memória dos guardiões os rituais do grupo indígena Krïk ati. Memória. conseqüentemente com o africano. através da oralidade dos mais velhos pretende-se que a história deste povo seja narrada dentro da visão etnológica. Atentando-se aos construtos de identificação com o ser negro e. em consonância com a linha de pesquisa do Núcleo de Estudos Afro-indígena d e Imperatriz (NEAI/UEMA). a exposição (Lavras e Louvores) traz em seu percurso narrativo sentidos. PATRIMÔNIO CULTURAL KRÍKATI: RITUAIS E ORALIDADE DOS GUARDIÕES Karilene Costa Fonseca (Centro de Estudos Superiores de Imperatriz-Cesi) Este artigo analisa. que visa transmitir aos alunos do ensino básico e médio a história da África e do Brasil negro. Esta conquista efetivada pelo Movimento Negro brasileiro com a sustentação de vários intelectuais negros ou não-negros que.

Conclui-se a partir da investigação parcial. mas de inter-cruzamentos culturais que reatulizam a s relações . outro gume utilizado para cortar e. Busca-se. IDENTIDADE E PERFORMANCE CULTURAL Coordenação: Tarcisio Ferreira (UFMA) e Maristane de Sousa Rosa (UEMA) POLICENTRALIDADES DAS RÍTMICAS NO ATLÂNTICO NEGRO: CULTURA E COMUNICAÇÃO MUSICAL ENTRE A ÁFRICA E A DIÁSPORA NA CONTEMPORANEIDADE Amailton Magno Azevedo (PUC-SP) A comunicação musical entre a África e Diáspora no pós-colonialismo está sendo tecida sob uma gama variada de linguagens: música. RITMOS. provavelment e a parte posterior foi utilizada como batedor. onde ainda lá se encontram inúmeros outros utensílios do período esc ravocrata a serem catalogados. manejo e o trato em vestígios arqueológicos.sentimentos. a partir do ar tefato em pauta.Page 46----------------------EVIDÊNCIAS ARQUEOLÓGICAS NO CERRADO MARANHENSE Danielly Morais Rocha (CESI/UEMA) Este artigo discute um viés histórico-arqueológico voltado para a temática das populações afro-ameríndias do Maranhão. localizada no entorno da cidade de Bac abal. A presente pesquisa investiga um artefato arqueológico do cerr ado sul maranhense. 46 ----------------------. estreitar o parentesco cultural e étnico com a contemporaneidade sugerindo a construção de etapas de aprendizagem em educação patrimonial. 45 ----------------------. bem como outras atividades responsáveis pela elu cidação da cidadania cultural do índio e do negro. memórias que dizem sobre nossas identidades.Page 47----------------------06. ritmo. canto. ainda subjugados pela sociedade em geral. idéias. acompanhada de entrevistas e pela co-orientação do arqueólogo do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão. Não é uma comunicação direta entre os músicos. estudo. uma lâmina de machado de pedra aparentemente com três funções distintas: primeira uma depressão latera l indicada como quebra coquinhos. conhecimentos. ou seja. advindo de uma área quilombola. expressão corporal. tendo por objetivo valorizar a cultura material e imaterial reafirmando a identidade destas comunidades tradicionais e o seu legado multicul tural para a nação brasileira. que é um artefato retirado do seu contexto histórico. porque não se trata de movime ntos artísticos organizados e/ou planejados.

dentre outras figuras do cenário artístico e inte lectual do estado) desempenharam neste ínterim. Palavras-chave: Identidade. Pará. que p ermeiam certas representações baseadas em processos de legitimação ou não-legitimação das imagens que delineiam a constituição identitária do estado. Fronteira. Essas musical idades pensadas na perspectiva de uma História policentrada onde in formações cruzam-se formando redes complexas e descontínuas de sonorid ade.entre África e a Diáspora como assim observo nas músicas de Kezi a Jones e N´Neka (Nigéria). jornalistas. poetas. Não se verifica conversas formais ou trocas diretas de informação. sublinho o papel que certos sujeitos e grupos sociais (músicos. escritores. . que contribuíram para a construção de uma suposta identidade paraense a partir da articu lação de elementos culturais então tidos como caribenhos (além de outros recursos). participam significativamente das hodiernas imagens reproduzidas sobre o es tado. Mano Brown e Olodum (Brasil) e Orixás (Cuba).Page 48----------------------O MERENGUE NA FORMAÇÃO DA MÚSICA POPULAR URBANA DE BELÉM DO PARÁ: REFLEXÃO SOBRE AS CONEXÕES AMAZÔNIA-CARIBE. tem-se então o processo de identificação do estado do Pará com uma possível ―cultura caribenha associada à apropriação estética e política de elementos reconhecidos como característicos desta mesma identificação. emp resários. durante as décadas de setenta e oitenta. tais articulações produziram percepções específicas. Conforme citado. produtores. Transnacionalismo 47 ----------------------. Caribe. SEU PORTO DE MAR!”: O TRANSNACIONAL NA ―INVENÇÃO DA CULTURA PARAENSE Andrey Faro de Lima (Doutorando/PPGCS-Antropologia/UFPA) O presente trabalho traz algumas considerações acerca das estratég ias performáticodiscursivas. coadunado ou não a demais processos. devidamente firmadas no lequ e de referências associadas à região (tanto endógenas quanto exógenas). ―NO CARIBE. Papel este que. Nestes termos. empreendidas por intelect uais e personagens notórias paraenses. configurando experiências/identidades relacionais que se manifestam na anti-pureza de marcando novas estéticas para a música do Atlântico Negro. mas os trabalho s musicais que são operados em espaços artísticos e em campos melódicos e rítmicos permitem refletir sobre esses inter-cruzamentos que sugerem situações de transculturalidade. Destarte. de cunho estético-político. Martinália.

reflet imos sobre os deslocamentos e a fluidez complexa das configurações cultu rais mundializadas. hibridismo. entr e eles. Cadence-lypso. sendo a língua inglesa o idioma elencado como comum aos países globalizad os. reconstruindo-se a si e àquele. os distingue dos demais. entre eles a comunicação. tecnologia e linguagem. ao mesmo tempo em que identifica e caracteriza sujeitos e m undos. Heridan de Jesus Guterres Pavão Ferreira Marcelo Nicomedes Ronald Correa O sistema de codificação produzido pela linguagem é responsável pela construção da maioria dos conhecimentos humanos.Bernardo Farias Neste trabalho discuti-se a presença do Merengue na música popular paraense. a língua se vale de diversos mecanismos. Em seguida. Para tanto. sua expansão através da indústria fonográfica com todos os seus mecanismos midiáticos. O processo de globalização concorreu para que fosse disseminada a ideia de que o ideal de convivência pacífica e progresso mundial poss uem relação direta com a associação entre os países. Apresentando um esboço da paisagem musical belenense nas décadas de 50 e 60 tentaremos mostrar como a presença marcante do merengue foi impo rtante na formação heterogênea da música popular na cidade de Belém. Jovem-guarda etc. queremos entender o processo de criação de identidade musical local das ca madas populares em Belém assim como os hibridismos musicais resultantes da imbricação com outros gêneros (Carimbó. Busca-se compreender. Para além de qualquer visão fechada e estática que já possa ter sido difundida acerca da cultura amazônica. tais como valores identitários e sentimento de pertença. CONSTRUÇÃO E MANIPULAÇÃO DE IDENTIDADES A PARTIR DA LINGUAGEM MUSICAL PRESENTE NO REGGAE. Bolero. o que ocorreu em razão da hegemonia econômica dos países desenvolvidos. palavras-chave: Merengue. A língua possui uma relação direta com elementos inerentes à formação dos su jeitos em aspectos distintos. o processo de globalização. pois é po r meio dela que os sujeitos dizem de si e do mundo. transformando-os em uma unidade global. oferecendo uma visão da Amazônia na sua relação de profícuo diálogo cu ltural com a região caribenha e com o mundo.).. a trajetória do merengue. a partir do desenvolvimento particular (mas não em isolamento) da região a mazônica. onde o idioma . inicialmente. o que se refletiu em várias áreas do conhecimento. Belém do Pará. levando-o do local ao global. em um processo dinâmico que. música caribenha. assim como pela transmissão destes entre os suj eitos.

que conforme Raul Lody ―também é conheci do e chamado por Candomblé de rua. melô. com a difusão do reggae no Estado. um título e Língua Portuguesa.como as canções do gênero musical são conhecidas. vivem suas representações do real e constroem suas práticas políticas em um processo de circularidade horizontal no qual idéias. Um dos modos de disseminação da Língua Inglesa no Brasil vem se dando por meio da música. reggae. do ponto de vista semântico com palavras ou expressões empregadas nas composições em inglês. A despeito disso. O trabalho proposto ao GT Ritmos. manipulação. Tomamos. identidades e performance corporal objetiva a d iscussão sobre em que medida o uso do ‗melô‘ constitui-se estratégia para seleção e audição das ‗pedras‘. o que faz com que se observe que as músicas recebam denominações específicas. Seu domínio confere aos usuários um status em relação aos outros indivíduos. É o entrecruzamento ent re manifestações culturais da população negra com o carnaval e com os movimentos negros que constitui o objeto deste artigo que tem a cidade do Recife como palco no qua l diversos setores da população afro-brasileira elaboram seus discursos. o Afoxé Alafin Oyó como um ―movimento negro de carnaval .Page 49----------------------- pessoas passaram a valorizar cada vez mais o idioma. especialmente a partir da década de 1970.é falado. sentidos e discursos se movem. construção de identidade. denominadas ‗melôs‘. constituindo-se em cimen . razão porque os cursos do idioma têm se proliferado no país. que algumas vezes possui similaridade. No caso do Maranhão. cuja língua oficial (Língu a Portuguesa) é dominada plenamente por um grupo restrito de usuários. AFOXÉ ALAFIN OYÓ: ―MOVIMENTO NEGRO DE CARNAVAL Martha Rosa Figueira Queiroz (UNB) O título deste artigo é um trocadilho para uma das definições do afoxé enquanto manifestação cultural afro-brasileira. o MNU-PE. o número de usuários que empregam o idioma de forma eficiente ainda é bastante pequeno. ou seja. as 48 ----------------------. Com o propósito de refletir sobre o processo de construção e difusão do universo discursivo dos movimentos negros recifenses. prolifera ndo a audição e mesmo composição das músicas em inglês. nos voltamos para a atuação da Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó e seus vínculos com a constelação de sentidos que marcam o Movimento Negro no Brasil e na cidade do Recife a partir da década de 1970 e mais especificamente sua relação coma seção pernambucana do Movimento Negro Unificado. ao mesmo tempo em que se torna elemento para construção e manipulação de uma identidade denominada regueira. pois. Palavras-chave: linguagem musical. particularmente a veiculação desses discursos no cenário carnavalesco por meio dos afo xés.

resultado contemporâneo de 49 ----------------------. neste contexto. Surge. em oposição ao corpo gordo. danças e sons que foram apropriados e reconstruídos ao longo do percurso his tórico. Por meio da pesquisa sobre o Afoxé Alafin Oyó. Juan Almeida. Palavras-Chave: Corpo. entregue à vida de luxo e de prazeres. além de ocupar lugar de destaque nas manifes tações populares. Che Guevara. be m como uma marca identitária para os moradores locais. dançando e bebendo. Trata-se de uma interpretação de diár ios e memórias de combatentes cubanos.Page 50----------------------ritmos. no estado do Tocantins. dócil. Mario Mencía. O PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. na qual uma multidão percorre as principais ruas da cidade tocando tambor. Haydée Santamaría e Aleida March. Che Guevara. O CORPO DÓCIL NA REVOLUÇÃO CUBANA (1952-1958) Rafael Saddi (UFG) Este trabalho trata do surgimento de um ideal de corpo nos discursos dos revoluc ionários durante a luta insurrecional cubana (1952-1958). Tento mostrar que esta manifestação consiste num elemento condensador de sentidos. Pretendo nesta comunicação mostrar que a Caçada da rainha é um ritual que expressa uma prática sociocultural que foi ressignificada nas experiências locais. obediente. dentre eles. Revolução Cubana. no estado do Tocantins. ocioso. cantando. onde analisamos o desenvolvimento de uma tecnologia do corpo que visava transformar o revolucionário cu bano em um homem habituado à dor e ao sofrimento da guerra revolucionária e à obediência ao comando das lideranças rebeldes. homenageiam anualmente Nossa Senhora do Rosário. .to para tecitura da intervenção político-cultural do Movimento Negro recifense. na sua maioria negra. um ideal de corpo re volucionário. um corpo treinado. Duran te os festejos religiosos um dos rituais mais significativos é a Caçada da rainha. configurando-se numa importante prática de sociabilidades. pretendemos refletir sobre a inserção do Movimento Negro recifense na cena carnavalesca A CAÇADA DA RAINHA: ―É SINHORA DO ROSÁRIO QUE NÓS TAMO FESTEJANDO! Noeci Carvalho Messias (UFG) Os moradores da pequena cidade de Monte do Carmo.

) e bens . que utilizam à dança como estratégia indis pensável para o desenvolvimento sócio-cultural e cognitivo. Propõe-se esta exposição. voltado para a reintegração de uma pessoa com deficiência. ao convívio coletivo. como um instrumento de intervenção psicopedagógica. durante o acompanhamento de atividades lúdic as e pedagógicas desenvolvidas com o público atendido. que torna possível. fortalecendo a auto-estima de crianças e adole scentes. em especial. de crianças e adolescentes. Pretende-se ainda através de relatos de experiências. com recorte à situação de um componente. no processo de ensino aprendizagem. p ara que os mesmos permitam-se a encontrar novas alternativas educacionais utilizando a dança em diversas situações de aprendizagem. técnicas etc. A descrição da experiência em questão é um trabalho que objetiva criar alternativa de aplicação da cultura afro-brasileira. que foi resgatado na Unidade Escolar Especial Helena Antipoff em São L uís do MA. atividades de informação e conhecimento ressaltando as potencialidades da cultura de origem africana. Intervenção Psicopedagógica. Palavras-chave: Dança. soci al e artístico-cultural. subsidiada pelas tradições de origem africana. sistematizando acervos imateriais (sa beres. Educação. como importante contribuição ao processo de ensino e aprendizagem e de incorporação social. CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL Relato de Experiências do Instituto Como Ver .Page 51----------------------Pretende-se destacar as benesses de um trabalho. onde a beleza e a contribuição do negro na formação da cu ltura do povo brasileiro são reveladas. Metodologia Pedagógica. sobre a ótica da educação informal. como proposta de atividades pedagógicas d e inserção. a partir da observação da experiência desenvolvida em duas organizações não governamentais.Antonio Henrique França Costa (Centro de Ensino Superior Santa Fé) O presente artigo enfoca a Dança. 50 ----------------------.Officina Affro do Mara nhão Adalberto Conceição da Silva (Zumbi Bahia) A presente narrativa trata-se de um relato de experiência acerca da cultura afro-brasileira. sensibilizar os educadores. o que poderá contribuir de forma direta para a identificação de algumas dificuldades de aprendizagem. como meio de inclusão social. a percussão afro-brasileira. iniciado no ano de 2002.

Balé clássico e dança folclórica foram suas preferências iniciais.). deveria ser objeto de estudo sistemático. incluindo-se ações positiva s que contribuem para o estabelecimento de concisões de igualdade e respeito entre aquel es de menores condições funcionais na sociedade. Mudança. tornou-se membr a do Conselho de Mulheres Negras. Não se encaixando em um padrão de corpo e nem em histórias de contos de fadas.No mesmo ano foi sel ecionada pela coreógrafa e antropóloga americana Katherine Dunham e conquistou uma bolsa de estudos em Nova York. mesmo que grande parte da população brasileira é negra e mestiça. o que envolve aspectos de sua corporeidade (estrutura anatômica. com os quais. indumentárias etc.porém nunca se apresentou nos espetáculos. Ela. dedica -se à dança. fenótipo. nos estabelecimentos de ensino. estudando com Yuco Lindberg e Vaslav Veltchek e. pois. Em meados da década de 1940. A TRAJETÓRIA DO CORPO NEGRO QUE DANÇA: INDAGAÇÕES DE UMA BAILARINA NEGRA Juliana de Oliveira Ferreira (FESGO) O presente trabalho abordará a trajetória e a desvalorização do bail arino negro. como este corpo é recebido no espaço da dança? Como este corpo percebe e é percebido? Qual a reflexão e inflexão do bailarino acerca disso? Ser baila rino negro em um país que a cultura européia é valorizada é algo muito complexo e ardilos o. após trabalhar como doméstica. no Rio de Janeiro. em particular. a escola poderia intercambia r identificando-se com os processos de luta em prol de políticas públicas de inclusão. funda o Balé Folclórico. estética etc. Mercedes fez aulas com a companhia. músicas.artistico-culturais (instrumentos. em 1947. Pois esses centros de arte são distan tes de seus lares e de sua realidade.De volta para o Brasil. Filha de uma família humilde. a maioria dos bail arinos negros inicia sua trajetória com idade avançada. exp ressão corporal.) para o trabalho de sensibilização estética e conscientização política. nascida em 1921 no município de Campos dos Goyta cazes no Rio de Janeiro. Grupo fo rmado por bailarinos negros que desenvolviam pesquisas e divulgavam a . No ano de 1950. Para isso discutir nos embasaremos na trajetória de vida da bailarina Mercedes Batista. a bailarina ingressou na Escola de Danças do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Barrados por sua condição financeira. Assim. Palavras-chave: Inserção social. que também revalor izem as relações interraciais para a construção/reconstrução da dignidade humana. foi a primeira bailarina negra admitida pelo Municipal do Rio de Janeiro. nos palcos estes são sempre vistos como o exótico. Preconceit o. Percussão. Cultura afro-brasileira.

descortinou novos horizontes para a dança ao introduzir elementos afri canos na dança moderna brasileira. foi utilizada pelo E stado como elemento constituinte de uma possível ―identidade tocantinense. mas. Palavra-chave: corpo negro. decadente ou não civilizado. selvagem. Santa Rosa. uma identidade. por elas ser culturas de presentificação e por sua expressão artística e cultural estar sempre unida ao discurso do social. Julio Moracen Naranjo (UNIFESP) O século XX se coloca como um cambio a tradição da alteridade com a noção do olhar do primitivo. aos poucos. cientistas sociais deste século pretenderam justificar isso falando que contrariamente a cultura euro péia. Até bem pouco tempo. Este trabalho traze a tona a relação de representação versus presentificação propriamente no entendimento da cultura e identidade negra principalmente no cam po de estudo da relação artes cenicas e ciências sociais falando como na produção da performance bailarina negra ex .Page 52----------------------CATIRA TOCANTINENSE: TRADIÇÃO OU INVENÇÃO? Antonio Carlos de Sousa Matos (UFT) Orientadora: Profª Drª Marina Haizenreder Ertzogue Co-orientadora: Profª Dranda Mírian Tesserolli. de alguma forma. que é realizada em vários municípios tocantinenses como: Paranã. Mercedes Batista 51 ----------------------. REPRESENTAÇÃO VERSUS PRESENTIFICAÇÃO: POR UMA ANTROPOLOGIA DA TRANSCULTURAÇÃO Dr. Natividade. a trajetória de outros/as bailarinos negros/as. assim. não se poderia explicar essas outras culturas e especificamente a cultura negra . Com a criação do Tocantins estas melodias passaram por mudanças e queremos perceber como se estabelece o processo de apropriação pelo Estado das cultu ras tradicionais para legitimar-se e construir.cultura negra e afrobrasileira. patrimônio imaterial representado principalmente pelos Catireiros de Natividade. Na década de 60 trabalhou como coreógrafa da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. Suas letras eram de agradecimentos pelas colheitas ou po r alguma graça alcançada. Os Catireiros de Natividade eram bem pouco conhecidos dentro do cenário artístico e sóci ocultural tocantinense. Mon te do Carmo. A catira é de cunho religioso e está diretamente relacionada com a festa do Divino Espírito Santo. entre outras. O objetivo desse estudo é perceber como a Catira no Tocantins. A trajetória dessa grande pressa. conseguiram espaço e respeito. racismo.

Esta expressão e sua releitura chega no final da década de 1990 e início dos anos 2000 à Região Metropolitana de Goiânia animando as radiolas (sound systems) improvisadas em salões simples das periferias da capital e entorno trazida por indivíduos como meio de expressão de pertencimento e ancestralidade. O Brasil é historicamente e diálogos transculturais. Refle xão que nasce do dialogo. SEUS LUGARES Auxiliadora Gonçalves da Silva (Universidade Federal Rural de Pernambuco) Os afoxés de Recife e Região Metropolitana. foco desse artigo. O território nacional s lugares a história e cultura de matriz africana. O foco deste trabalho são os DJ‘s de reggae. tendo como ―berço os terreiros de casas de matriz africana. constituem-se em luga res da juventude afro. leitura e pesquisa sobre o corpo e a cultura negra-africana-ame ricana e caribenha dentro de uma antropologia da transculturaçao. uma resignificação de uma manifestação caribenha-jamaicana. JUVENTUDE DOS AFOXÉS: SEUS CAMINHOS. nas qu um palco tem citar presente com fértil dessas movimentações em ênfase seus na diverso Região N a . Podemos ordeste o estado do 52 ----------------------. por sua vez. oriunda de diversas resignificações de ritmos provenientes do grande continente negro. Márcia Daniele Souza Carvalho (UFG) Alex Ratts (UFG) A música negra possui como característica o movimento pelas inúmeras espacialidades do atlântico.Page 53----------------------Maranhão com suas expressões culturais influenciadas e edificadas com elementos da cultura africana e afro-caribenha como é o caso do ―reggae maranhense . indivíduo s que trazem com suas histórias de vida o amor por essa música e trabalham para preserv ar tal manifestação em espaços diferenciados da terra natal. “SEGURA ESSA PEDRA!”: O REGGAE JAMAICANO/MARANHENSE NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA. A presente comunicação presenta dados e interpretações preliminares de uma pesquisa. gerando o que eu chamo a sombra de si mesmo.negra existe o dilema cultural ocidental de representação versus presentificação express ado tanto nessa relação como também na visão de presentificação no cont exto de representificação.

ais os mesmos se originaram – e onde ainda se originam. o recorte investigativo sobre os jovens não foi no âmbito de quem são. escol hidos entre os mais antigos. esse artigo é resultado dos da dos do Projeto de Pesquisa. são orientados. Juventude – Movimento Social Negro Juventude-Casa de Religião de . 53 ----------------------. Parti ndo de uma abordagem histórico-antropológica e numa perspectiva qualitativa. Barro.Page 54----------------------Palavras-Chave: Afoxé. dentro do contexto de continuidade/descontinuidade dos movimentos sociais negros. os intermediários e os mais novos compreendendo seis afoxés.Juventude. den tro da sua especificidade – movimentos sociais negros. conduzidos. do exercício da criatividade. mas. os aspectos est udados nesse artigo referem-se ao traçado de caminhos e de lugares buscados pelos jovens. todas as suas expectativas de mudança de suas realidades locais. dentro das dimensões social. Sendo assim. Nesse sentido. Alto José do Pinho. Dois Unidos. a partir do momento que depositam nos afoxés. a pesquisa voltada para e so bre os jovens dos afoxés primou por uma dinâmica de aproximação e de olhares capazes de entender a dimensão de uma geração que se diferencia realidades. o a rtigo objetivou analisar quais as propostas traçadas por essa juventude. como suporte para a afirmação e fortalecimento da identidade negra e investigar como a concepção de Afoxé se configura no discurso e na prática. escolhidos entre os mais antigos. Jardim Brasil e Comunida de do V8. investigar as formas como eles se apropriam dos afoxés para delinear suas trajetórias histórica. compreendendo seis afoxés. em concepções e percepções. Jardim Paulista Baixo. também como movimentos. na dinâmica particular entre o lugar que fixaram e o caminho que vislumbram. dentro do contexto de movimento social negro – o afoxé. os intermediários e os mais novos. e no desempenho de uma atividade cultural afrobrasi leira. em instrumento de mudanças e transformações. econômica e relig iosa. econômica e política. Os afoxés são considerados e classificados pelos estudiosos dos movimentos sociais. para a fixação do l ugar e do caminhar quando optam pela integração nos Afoxés. mas que conseguem compartilhar sentimentos. onde estão e como vivem. aliment ados na tradição e fortalecidos pela ―afirmação matricial africana . Matriz Africana.Fundamentando-se nessa metodologia. Por essa razão. compreensões e necessidades. localizados nos bairros de Casa Amarel a. social. de natureza cultural com origem religiosa.

AFOXÉS DE PERNAMBUCO: ESPAÇOS DE APRENDIZAGEM E AFIRMAÇÃO DE IDENTIDADE DA JUVENTUDE NEGRA. Suzana Teixeira de Queiroz (GECAB/ Universidade Federal Rural de Pernambuco) Carlos Augusto Sant‘Anna Guimarães (NEAB/ Fundação Joaquim Nabuco) Maria Auxiliadôra Gonçalves da Silva (NEAB/Universidade Federal Rural de Pernambuco) O presente trabalho tem como objetivo traçar, por meio de relatos de vivência, os pr ocessos de construção da identidade e afirmação étnica da juventude negra participante de afoxés grupos culturais/musicais vinculados a uma Casa de religião de Matriz Africana (comumente designada de Terreiro de Candomblé), ou quando o seu responsável pertence à um Terreiro de Candomblé como Filho-de-Santo -, na cidade do Recife e Região Metropolitana. Buscamos analisar situações de preconceito e discriminação racial sofrida s pelos entrevistados e as repercussões na vida dos sujeitos, assim como identificar as estratégias de superação do preconceito racial através da permanência e desenvolvimento/ participação nas atividades do afoxé. Os participantes da pesquisas foram questionados sobre sua infância e adolescência; suas experiências nos ambientes escolares formais; sobre como tomou conhecimento do afoxé ao qual pertence e como foi o processo de inserção; s e houve mudança nas suas opções e escolhas, profissionais e pessoais, depoi s do afoxé. A atuação do jovem dentro do afoxé – no dançar, no tocar e nos cortejos - gera novas práticas e estratégias de afirmação de identidade que agem sobre a realidad e em que vive. Modificam sua perspectiva de futuro e ampliam as oportunidades de inserção social no quadro de exclusão e marginalização da juventude negra. 54 ----------------------- Page 55----------------------07. RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE Coordenação: Álvaro Roberto Pires (UFMA) YORUBA EN LAS AMÉRICAS: DIVERSIDAD Y UNIDAD Adonis Díaz Fernández (West Indies--Cave Hill, Bridgetown, Barbados) April Bernard (West Indies-Cave Hill, Bridgetown, Barbados) Este documento busca responder a la pregunta: ¿Cuál es la presencia de la religión yor uba en las Américas? Se estima que millones de africanos fueron transportados a las Amér icas durante la época colonial. Los que sobrevivieron a la travesía d el Atlántico trajeron con ellos las diversas tradiciones que incluyen la cultura yoruba y la religión. Con el tiempo, esas tradiciones se han asimilado y se adaptan a diversas limitaciones y las lib ertades dentro de sus entornos. El objetivo de este trabajo es explorar los puntos en que diver sos aspectos

de la religión yoruba asimilados en la convergencia de las Amér icas para buscar un entendimiento de cómo las diferentes expresiones de la tradición han evolucionado. El presente documento comienza con una breve discusión de la definición de la tradic ión yoruba y su origen en las Américas. Una comparación de la cultura yoruba y la religión en dos países, Cuba y Brasil. Las representaciones visuales de estos aspectos dentro de cada país se prestará a través de una presentación de vídeo y gráficos. Este análisis concluye con una breve mención acerca de las posibles maneras de pl antear los diversos aspectos de la tradición yoruba en estos dos países de América y el pa pel de la mujer en ella, asi como proponer formas de organizar este acercamiento para pres ervar y ampliar la tradición para las generaciones futuras. A FESTA DE SÃO JORGE NO TERREIRO DE DONA MARGARIDA EM SÃO BENTO: EXPRESSÃO DE FÉ E ALEGRIA Isabella Alves Silva (UFMA) Propõe-se, neste trabalho, fazer uma reflexão sobre o sincretismo das manifestações religiosas do sistema de crenças afro-maranhense, a partir das observações de campo do s rituais religiosos em terreiro de São Bento, no Maranhão. As atividades de campo f oram feitas no Terreiro de Dona Margarida no bairro Outra Banda, no mesmo município, no período da festa de São Jorge, ocorrido no mês de Abril a cada ano, possuindo o Tambor de Mina, bem como outras práticas religiosas, tais como Pajelança ou Cura. Os elementos comuns a estas manifestações religiosas é a presença das entidades espiritu ais, recebidas em transe mediúnico e festivo que são sincretizadas com santos católicos nestes terrei ros. Estas entidades demonstram possuir devoção pelos referidos santos e realizam homenag ens a eles em diversas modalidades, de acordo com os fundamentos religiosos de cada terreiro e com o calendário da igreja católica. Essa homenagem, em especial, dar-se-ia a São Jorg e, expressa a devoção destas entidades espirituais da religião afro-maran hense aos santos. Buscamos o referencial teórico em alguns autores sobre o tema, como: Sérgio Ferretti e Mundicarmo Ferretti, entre outros. Desta forma, através das visita s de campo e estudo destes autores, trazemos uma discussão sobre a festa para a devoção de en tidades e seus ―cavalos , em um terreiro de Tambor de Mina, a São Jorge, através de l adainha, Dança, Música para homenagear este santo e as entidades ligadas ao terreiro. Palavras-chave: Religião, Festa, São Bento. 55

----------------------- Page 56----------------------PLANTAS SAGRADAS NO CANDOMBLÉ: O CASO DO ILÊ AXÉ ONILEWA Clarissa Adjuto Ulhoa (UFG) Talita Viana Neves (UFG)

―Não há orixá sem folhas . Esta é uma expressão recorrente na fala de candombleci tas, acionada sempre que perguntados sobre a importância das plantas no candomblé. Isso porque o uso das folhas consideradas sagradas perpassa todo o corpus desta relig ião. Foi o que percebemos especialmente em uma das pesquisas de campo realizada no Ilê Axé Onilewa, localizado em Aparecida de Goiânia, Goiás. Neste ter reiro de candomblé, identificado com a tradição nagô, foram plantadas e cultivadas centenas de tipos de pl antas sagradas, todas cuidadosamente catalogadas pelos membros. Fato int eressante, haja vista que boa parte dos terreiros goianos não possui sequer espaço para este tipo de ati vidade. Nesse sentido, pretendemos discutir a importância e a maneira com o os adeptos deste terreiro lidam com o cultivo destas plantas, bem como os ben efícios que esta produção acarreta para o cotidiano desta comunidade religiosa. REAFRICANIZANDO: DINÂMICAS IDENTITÁRIAS DO CANDOMBLÉ GOIANIENSE Natália do Carmo Louzada O presente trabalho tem como objetivo refletir acerca da identidade candomblecis ta frente às demais religiões afro-brasileiras. Analisando, além da positivação e afirmação do candomblé enquanto implicações do processo de reafricanização, transcorrido no Brasil a partir da década de 1960, no âmbito do movimento de contra cultura nacional, a hierarquização das religiões de influência africana mediante à des valorização do sincretismo. retendemos por meio da referida análise, compreend er a dinâmica de negociação por sobrevivência historicamente empreendida pelas religiões afro-br asileiras. Realizando estudo sensível às estratégias de sociabilidade e perc epções acerca do hibridismo religioso por parte dos líderes candomblecistas da c idade de Goiânia. De maneira a evidenciar e compreender as relações territoriais e políticas estabelecidas entre as diferentes religiões de influência africana existentes no referido espaço urbano. Palavras-chave: reafricanização; identidade; hibridismo religioso CANDOMBLÉ E A INTERFERÊNCIA DA LÍNGUA PORTUGUESA SOBRE O IORUBÁ Bruna Gabriela Corrêa Vicente A proposta central desse ensaio é apresentar as interferências recaídas sobre a língua I

orubá por parte da influência do português no Brasil. O alcance deste objetivo requer cons iderar o Iorubá a partir de seus aportes lexicais, os quais abrangem um sistema de base africana relacionado ao universo religioso, neste caso, o Candomblé. Entende-se que a lin guagem ocupa centralidade nas manifestações religiosas na medida em que ela media as cerimôni as do culto, todavia, cabe investigá-la em suas transformações tomando como referência as próprias modificações que incidem nas cerimônias. Ao aportarem no Bras il, os negros 56 ----------------------- Page 57----------------------passaram por um processo de aculturação e criação de uma identidade diaspórica, por meio de analogias que estão marcadas pela ressignificação provocada pelo novo contexto cultural, social e lingüístico. O banto configura-se como um tronco lingüístico e encont ra-se difuso e diluído no plano lexical, mas ele é audível em terreiros de Candomblé congoangola. Uma de suas ramificações, o iorubá, é bastante falada, sobretudo em ritos religi osos com os cultos de matriz-africana e afro-brasileiros. O Candomblé é uma religião, eminentemente de transmissão oral e, a despeito disso, é importante salientar que a ―lín guade-santo contempla objetos sagrados, cozinha ritualística, cânticos, expressões referen tes a crenças, costumes específicos, cerimônias, ritos litúrgicos e saudações, como "agô" (licença) e "axé" (saudação), tais vocábulos foram preservados em grande parte dos seu s rituais, cânticos e liturgia com sua língua. São justamente estas ma nifestações e a resistência do Candomblé em aceitar estas mudanças, o objeto que s e pretende explorar conferindo relevância à linguagem a partir das modificações pelas quais ela passou. Palavras-chave: Iorubá, língua, Religiões de Matriz africana. CONFLUÊNCIA DE TRADIÇÕES “RELIGIOSAS” E ESPAÇOS DE MATIZES E CONTRAPONTOS “AFRO-CARIBENHOS”: NOTAS SOBRE UMA EXPERIÊNCIA ETNOGRÁFICA EM UMA BOTÂNICA DE SANTERÍA EM SAN JUAN (PORTO RICO) Alline Torres Dias da Cruz (Museu Nacional/UFRJ) Esse resumo baseia-se em notas de campo de uma primeira exploração etnográfica junto às chamadas ―botânicas de santería : espaços comerciais, e em alguns casos de cons ultas e ―trabalhos , nos quais são comprados objetos e produtos ―religiosos , especiarias e planta s de uso ―medicinal e ―espiritual , comuns em cidades caribenhas e norte-americanas com presença acentuada de imigrantes de língua espanhola. O trabalho de campo foi realiz ado na botánica San Martin, que se encontra na Plaza del Mercado de Río Piedras

(San Juan, capital de Porto Rico) na qual há uma forte atuação de imigrantes da República Dominican a em setores econômicos como o comércio de vegetais e frutas; de prepar ação e venda de comida crioulla; e das ―botânicas de santería . Através da observação participant na botânica em questão, cuja responsável é uma jovem mulher dominicana, foi possível perceber que diferentes tradições religiosas – espiritismo, santería de ―origem cubana, e o s chamados ―mistérios ” ligados à população da República Dominicana em Porto Rico – se cruzam nesse espaço social, no qual um amplo universo de pessoas e objetos são posto s em circulação e produção. Considerando algumas relações e práticas entre os dominicanos, no entanto, sugere-se que especificidades com relação a um universo ―r eligioso que tradicionalmente é visto como ―afro-caribenho – ao se considerar o fato de que minha investigação foi realizada numa ―botânica de santería –, assumem configuraç que matizam e contrapõem concepções acerca do desenvolvimento e recriação de cosmologias africanas nas Américas. IDENTIDADE, RESISTÊNCIA E DIVERSIDADE NO CANDOMBLÉ GOIANIENSE: UMA ANÁLISE PÓS-COLONIAL Natália do Carmo Louzada 57 ----------------------- Page 58----------------------O presente trabalho se propõe a analisar as dinâmicas identitári as da comunidade candomblecista da cidade de Goiânia. Partindo da perspectiva dos estudos culturais e póscolonias, buscamos compreender o candomblé como religião rizomática, que negocia sua inserção e legitimação social por meio de uma identidade flúida, ora assimilando características ocidentais, ora afirmando uma tradição africana. Nesse sentido, procur amos perceber o discurso do subalterno, dos indivíduos da fronteira e seu processo de r esistência. Este que perpassa a manutenção de uma memória performática, espacializada na disposição física dos terreiros, bem como o estabelecimento de uma comunida de culturalmente e etnicamente híbrida. Portanto, dedicaremos aqui especial atenção à e nunciação de uma identidade negro-africana como forma de afirmação, analisando ainda as diferenças entr e os discursos de líderes sacerdotais no que tange à diversidade da tradição africana no âmbito do candomblé e deste mediante às demais religiões afro-brasileiras UMBANDA, TERRITORIALIDADE E MEIO AMBIENTE: REPRESENTAÇÕES SOCIOESPACIAIS E SUSTENTABILIDADES Marcelo Alonso (PUC-Rio) A Umbanda, através de seus ritos e símbolos em reuniões coleti

vas, promove uma integração, no plano mítico, entre todas as categorias sociais. Ao forjar a identidade umbandista, como prática social e cultural, essa religião sincrética e moderna pode ma nter viva a esperança de grupos marginalizados em ocupar espaços de prestígio social e criar modelos de convívio que primam pelas sustentabilidades, através da transposição do significado da natureza, de acidente geográfico, como portadora de valores cultura is para a criação de um possível espaço social mais solidário. A partir da compre ensão de que a RMRJ expressa pluralidade de sentidos, interrelações entre as di versas dimensões das práticas espaciais e sua aproximação com as práticas culturais, demo nstra-se como a Umbanda expressa potenciais mecanismos de interpretação das representações socioespaciais de segmentos incluídos precariamente, assim como na transformação das condições socioambientais vigentes que, por sua vez, pode deslanchar um novo paradig ma de educação ambiental no âmbito da gestão do território. Trata-se, a ntes de tudo, de resgatar a solidariedade, o cuidado e a responsabilidade dos ho mens sobre as coisas da Natureza, que, por sua vez, são destinadas aos mesmos homens territorializados. Palavras-Chave: Umbanda, Modernidade, Representações sociais, Identidade, Gestão do território, Sustentabilidades. MARANHÃO: MOSAICO CULTURAL AFRO – RELIGIOSO Luciana Fernandes de Oliveira Yasmin de Araújo Porto Este trabalho tem por objetivo apresentar uma pesquisa que percorre um caminho q ue vai desde fontes documentais às fontes orais. Pautando-se no convívio direto com o objet o de pesquisa, a Religiosidade Africana no Maranhão, busca-se montar um retrato popular das identidades afro-religiosas maranhenses a partir das falas de seus participantes . Com base nessas, a intenção é defender uma dissociação desta de quaisquer pré-con ceitos, medos, depreciações, vulgarizações e marginalizações. Para tanto, percorreu-se os principais 58 ----------------------- Page 59----------------------centros de manifestação de cultos afros (Casa das Minas, Casa de Nagô, Casa Fant-Ashan ti, Tenda Espírita de Umbanda Rainha de Iemanjá), a fim de conhecer sua s peculiaridades, diferenças e semelhanças e através disso refletir acerca do sincretismo como reflexo dos amálgamas culturais-religiosos que nos moldaram e ao mesmo tempo dar

visibilidade ao complexo cultural artístico que aflora destes cultos afros, com seus ritmos, músicas , cantos, cores, danças e devoções. Paralelamente o pilar teórico destas investig ações situa-se nos estudos do contexto sócio-histórico do período colonial, especificamente acerca do tráfi co negreiro África-Brasil e as tradições religiosas multiétnicas vivenciadas neste lado do Atlântico até os dias atuais, principalmente no que diz respeito ao Maranhão. Pretende mos assim, clarear e dar voz a um universo de diversidades culturais, artísticas que c ompõe tal religiosidade a qual, ao longo de séculos, muitos insistem silenciar. Porém ninguém ca la os gritos da ancestralidade, seja qual e como for. RELAÇÕES DE PODER E ENCOBRIMENTO DO OUTRO: RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA NA REGIÃO METROPOLITANA GOIÂNIA-GO Rodolfo Ferreira Alves Pena Jailson Silva de Sousa O objetivo desse trabalho é pautado no mote geográfico que privilegia a análise territ orial das Religiões de Matriz Africana – em especial os Candomblés – localizados na Região Metropolitana de Goiânia. Para isso, parte-se de análises teóricas e empíricas constituída s a partir de dois projetos de pesquisa – Igbadu: Territórios, gênero e história dos candom blés de Goiânia (FAPEG/SEMIRA) e Mães de santo: domínios territoriais, sociais e históricos do sagrado em Goiânia - GO (FAPEG/SEMIRA). Para esse ensejo, será feita uma reflexão sobre o processo de encobrimento por via da ausência de polític as públicas e ações direcionadas a esse segmento religioso. Assim, o Candomblé será visto em uma discussão que aborda o Estado, bem como, as formas de legitimação do processo de encobrimento do Outro. O encaminhamento metodológico permitirá analisar como as políticas públicas atendem a Comunidades de Terreiro, em detrimento de ações que atendem a outros segmentos como as Religiões Católica, Protestante e Kardecista. Tal abordagem encont rarse-á sob um viés pós-colonial. Palavras-chave: Religiões de Matriz Africana; Estado; Estudos Pós-Coloniais; Candomb lé CANDOMBLÉS, GÊNERO E FESTAS: MEDIAÇÕES TERRITORIAIS DO SAGRADO NO ESPAÇO DIASPÓRICO Mary Anne Vieira Silva Herta Camila Cordeiro Morato A diáspora africana no continente americano, em particular no Brasil provocou, sob retudo, o encontro de culturas distintas as quais não resultaram numa síntese cultural homogên ea, ao contrário: essa promoveu uma rede de ressignificações, que se

constrói em vários campos da vida e do cotidiano de quem vivencia o ambiente diaspórico. É neste contex to, que o candomblé emerge: permeado por ressignificações impostas pela nova realidade 59 ----------------------- Page 60----------------------histórica e social. Outrossim, no Brasil essa religião surge marcadamente configurad a pela e na figura feminina. Essa imbricação da mulher e religião contrar ia a lógica de uma sociedade marcada pelo preconceito e fundamentada nas relações patriarcais do iníci o do século XIX. Apesar da mulher está à frente dessa religião no seu p rincípio, hoje tal participação se (re)configura, principalmente quando se analisa a pa rticipação do gênero masculino que de forma paulatina, ocupa espaços que originalmente pertenciam apena s às mulheres. O presente trabalho surge como parte das reflexões realizadas no bojo do projeto Mães de Santo: Domínios territoriais, sociais e históricos do sagrad o em Goiânia/GO (FAPEG/SEMIRA/CieAA/UEG/UFG), logo, essa análise visa co nhecer como se dá a relação de domínio territorial dos candomblés de Ketu, liderados por mulheres em relação a crescente ascensão e dominação de ilês comandados por partícipes masculinos na região metropolitana da cidade de Goiânia/GO. Outra questão que se amalgama a essa primeira , decorre da análise das festas públicas do candomblé como espaços que favorecem desvelar a relação de gênero presente, bem como entendê-la como prática sócio-e spacial, logo cultural. As festas emergem como possibilidades de contemplar uma prática cultural compreendida em sua concepção como patrimônio imaterial desse segmento, além se posicionar como mediação na composição da rede que articula as relações ligadas ao poder hierocrático dessa religião. OS NEGROS DO ROSÁRIO: REFLEXÕES A CERCA DAS CONGADAS NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA GO. Autor - Luciana Pereira de Sousa (Graduação UFG) Co-autor: Dr. Alex Ratts - Orientador Essa comunicação visa analisar a religiosidade dos devotos de Nossa Senhora do Rosário (congadeiros) na metrópole Goiana. Nosso foco de interesse é discu tir as estratégias de permanência dessa prática cultural em uma cidade, cuja formação se deu dentro da lógica européia. Essa discussão se pauta em um ponto fundamental: a preservação da cultura afro brasileira a partir de um espaço religioso cristão, destacando o apel das irmandades negras. Seguiremos o seguinte trajeto: Primeiro apresentaremos as congadas, destacando p

alguns personagens e suas respectivas funções, em seguida, faremos uma breve análise d a religiosidade goiana, e por fim, levantaremos algumas questões a respeito dos limites e possibilidades que viabilizam essa religiosidade como espaço de luta e resistência da cultura negra em Goiânia. REPRESENTAÇÕES DO CANDOMBLÉ E DA UMBANDA NO CINEMA BRASILEIRO. Conceição de Maria Ferreira Silva (UFG) Observando o papel da mídia e do cinema como principal matriz cultural na atualida de, e assim também seus conteúdos, imagens, narrativas e valores como elementos que incide m na construção da subjetividade e das representações sociais, é que este trabalho se propõe a analisar os processos de representação do Candomblé e da Umbanda no ci nema, a partir dos filmes "Barravento (Glauber Rocha, 1962), "Orí" (Raquel Gerber, 1989) e "Santo Forte (Eduardo Coutinho, 1999), buscando assim compreender o que e como essas três produções cinematográficas retratam o universo religioso afro-brasileiro. 60 ----------------------- Page 61----------------------A RELIGIOSIDADE COMO ATRAÇÃO TURÍSTICA NA FESTA DO DIVINO PAI ETERNO EM TRINDADE - GOIÁS Jorgeanny de Fátima Rodrigues Moreira Msc. Clarinda Aparecida da Silva O município de Trindade de Goiás fica localizado no Centro Oeste goiano, a 18 km da capital goiana. Atualmente é conhecida como a capital católica do Estado. Essa cidade, todo ano é sede de uma festa religiosa – Festa do Divino Pai Eterno - que recebe mil hares de devotos de todo o país. Esta manifestação religiosa começou com romarias que saiam de cidades vizinhas e de famílias que viviam na zona rural, para a adoração de um medalhão de barro com a imagem da Santíssima Trindade. A pesquisa visa identificar a re lação da comunidade local com os turistas que participam desta festa. A través de observações e entrevistas busca-se conhecer a influência e impactos (positivos e ne gativos) do turismo, exercidos sobre a população. Palavras chave: Turismo religioso, Religiosidade, comunidade local. OS CONFLITOS DO ADOLESCENTE UMBANDISTA NO COTIDIANO ESCOLAR NA CIDADE DE ANÁPOLIS/GO Diogo Jansen Ribeiro (UFG) O debate que norteia essa proposta insere-se nos postulados que versam sobre a E

ducação básica e a lei 10.639/03. Essa última estabelece a obrigatoriedade da inserção de conteúdo s sobre a história e culturas africanas nos currículos atuais. Em Anápolis, cidade marcada pelo discurso hegemônico de cultura cristã, sobretudo, a protestante, a discussão emer ge a partir das contradições entre prática escolar, preconceito e lei. Vale ressaltar que o segmento das Comunidades de Terreiros, o movimento negro e outros representantes desses grupos fazem um debate atualizado sobre a questão que envolve o tratamento da iden tidade e a intolerância religiosa. É válido ressaltar que segmentos de Candomblés não se fazem presentes na cidade, porém a prática umbandista é bem representativa no locus. No cotidiano das escolas de Anápolis, torna-se corriqueira a prática que legitima o pro cesso de encobrimento do Outro. O corpo demarca o espaço e é pelo corpo d o adolescente que o ensaio é composto. Os adolescentes umbandistas vivenciam sérios enfrentamentos, no que concerne sua identidade religiosa no interior da sala de aula. A umbanda se cons titui, por excelência, de forma híbrida, compondo um continuum mediúnico com vários pólos de influências diferentes, que incluem, entre outros, o Espiritismo ―Kardecista , o Cando mblé, o Omolocô, a Pajelança que constituem a Encantaria brasileira. A partir de tais reflexões, este trabalho tem por objetivo analisar os enfrentamentos vivenc iados por adolescentes umbandistas no cotidiano escolar a partir de uma visão Pós-colonial. Ade mais, objetiva-se contribuir com a historiografia local por meio da história de segmentos e lugares que foram subalternizados e encobertos em decorrência de suas escolhas id entitárias e práticas religiosas. CANTO DE PAJÉ: CORPO E CURA EM CIRCUITOS AFRO-INDÍGEMASAMAZÔNICOS Luís Cláudio Cardoso Bandeira (PUC-SP) 61 ----------------------- Page 62----------------------presente comunicação é parte das pesquisas em andamento acerca do tratamento do corpo e cura no contexto da ―pajelança Cabocla , em circuitos diaspóricos, tendo present e as diferentes injunções de rituais de matrizes culturais africanas e indígenas no Norte e Nordeste brasileiro, compreendendo uma rede de relações que perpassam, de forma dire ta ou indireta, áreas culturais brasileiras e transatlânticas que mobilizam mães e pais-d e-santo, A

Tambor de Mina. corpos e imagens: cenários cotidianos do povo-de-santo na Região Metropolitana de Goiânia . os elementos. se coloca como análise teórica e possibilidade de distinção entre as múltiplas variações das nações candomblecistas que se encontram em meio ao território urbano.pajés. benzedeiras. Ritual de Feitura. as d iversas organizações territoriais que se distinguem dentre a policromia de tradições afro-brasil eiras. Dessa fo rma. focalizando o terreiro de Ogum e Sogbô. Analisaremos uma festa de ‗feitura‘ ou ‗iniciação‘ para essas entidades em que três filhos-de-santo dessa casa foram submetidos a rituais específicos para atingire m o grau máximo de vodunsí hunjaí. suas características. utilizando-se de folhas e bênçãos. Meninas. num contexto em que uma multiplicidade de terapêutica s oficiais e populares são experimentadas pelos mais diversos segmentos sociais. evidenciando os signos. no trato dos males físicos e espirituais. Terreiros. reunindo para isso uma equipe multi e interdisciplinar nas áreas do saber. Palavras-Chave: Tobóssis. Lindoso (IFMA) O presente trabalho tem o objetivo de fazer uma reflexão antropológica sobre a figur a das entidades espirituais infantis femininas denominadas ‗tobóssi s‘ ou ‗tobosas‘ particularmente na religião de matriz afro do Maranhão. influências externas e funções específicas dentro do culto. nesse espaço se congrega núcleos e grupos de pesquisa/ensino e extensão cuja a temática s e desdobra para o conhecimento das humanidades sobre os continentes africano e americano. a diretriz central do CieAA é a de colaborar e incentivar estudo s e pesquisas que visam conhecer as diversas vivências humanas. Tambor de Mi na. . CORPOS E IMAGENS: CENÁRIOS COTIDIANOS DO POVO-DESANTO NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA Mary Anne Vieira Silva Gilson de Souza Andrade Graziano Magalhães dos Reis A proposta surge no bojo das idéias promulgadas de formas múltiplas pelo Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas/CieAA/Neab-UEG. TERREIROS. Nesse mesmo contexto estenderemos observações as representações das tobóssis nos terreiros de Mina mais ‗tradicion ais‘ ainda em funcionamento no Estado. rezadeiras e curadores. PRIMEIRO BARCO DE TOBÓSSIS DE UM TERREIRO DE MINA NO MARANHÃO Gerson Carlos P. Casa das Minas e Casa de Nagô. proble matizando algumas questões intrínsecas de como terreiros de Mina mais contemporâneos apresentam essa categoria de entidades. do babalorixá Airton Gouveia no bairro da Liberdade na cid ade de São Luís.

Candombés. Angola e omolôco dentre outros presentes no estado de Goiás. Religião. ao lado desse questionamento ainda se persc ruta quais são as territorialidades sagradas subjacentes a esse território-rede. construídos pelas casas no intuito de legitimação de sua própria história. A pertinência deste paralelo é calcada na distinção de estéticas e objetivos que são instauradas entre a produção dos álbuns fotog ráficos familiares. na região metropolitana de G oiânia. paralelos temporai s entre os registros fotográficos dos acervos pessoais dos Ilês Axés e a produção fotoetnográfica produzida pela pesquisa. e em especial. junto a rede de relações que o candomblés estabelece entre suas comunidades e a construção de um outro olhar documental e estético no âmbito do registro etnográfico. como seres que praticam em seu cotid iano atos que ferem o imaginário social coletivo. que sempre são vistos pela lente daqueles que o vêem. o nível de intolerância para com as religiões de matrizes africanas é elevado. Numa representação que evoca o senso comum estes grupos são sempre vistos como 62 ----------------------. A fim de inserir a .Page 63----------------------um emaranhado de religiosidades depreciativas. as festas e os praticantes dos candomblés nessa região. TERRITÓRIO. A emergência de se produzir essa documentação e registros icnográficos do cotidiano do povo-de-sa nto surge com a possibilidade de contribuir para o desvelamento do preconceito e intolerância culturalreligiosa bem vivenciada nesse estado.entre nações: Ketu-Nagos. a fim de entender como esse se insere no contexto urbano-metropolitano de Goiânia. Tem-se como principio norteador deste projeto o resgate da memória fotográfica do povo-de-santo e construir. Palavras-chave: Imagem. Jejes. Mary Anne Vieira Silva Território. Percebe-se que no cotidiano das relações inter-religiosas. CULTURA E POLÍTICA: DINÂMICAS ESPACIAIS DO SAGRADO DE MATRIZ AFRICANA NA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA/GO.Evidenciar as imagens do povo-de-santo em âmbito de domínio público é posta como caminho de enfretamento que deve ocorrer a fim de desmitificar o mundo simbólico dessas praticantes. Cotidiano. A questão e política: Dinâmicas Espaciais do Sagrado na de Goiânia/GO é apresentada como eixo norteador de d o que permeia a dessa problemática é questionar como as formas e as disputas espaciais produzem o território-rede constituído pelo s ilês. cultura Matriz Africana Região Metropolitana texto a ser desenvolvido. a partir deste.

as casas de candomblés são espaços sagrados e a territorialização dos mesmos obedece a uma ótima de subalternização. encobrimento e invisibilidade diretamente relacionados c om a intolerância religiosa. transposta de uma comunidade imaginada. incluindo a História. o projeto se posiciona em uma pers pectiva teórica que preconiza os estudos pós-coloniais. ainda no século XXI. cultura. Estudar as formas de construção de uma geogra ficidade histórica encoberta. preconceitos culturais.Page 64----------------------instrumentalizada e renovada na forma de comunidades religiosas em espaços pós-colon iais constitui um campo epistemológico válido para conhecimento de comunidades herdeiras de uma situação diaspórica. Assim. Pós-coloniais. política TERREIROS CONCRETADOS: CONFIGURAÇÃO DOS ESPAÇOS E RITUAIS DO CANDOMBLÉ NOS CENTROS URBANOS CONTEMPORÂNEOS Graziano Magalhães dos Reis .manifestação cultural no centro desses questionamentos. candomblés. Palavras-chave. ausência de ações do poder público. de matriz africana – que passa a ser 63 ----------------------. física e política para esse segmento religioso. o fato de um indivíduo assumir-se como praticante de religiões de matriz africana. No campo simbólico. No campo da discussão que norteia o estudo o desafio é rev isitar a categoria território numa proposta de entendimento que se liga as abordagens que v inculam o sujeito subalterno. a Antropolog ia. aproximar o recente movimento por legitimidade e reconhec imento desses setores junto ao Estado constitutivo de uma nação. em Goiás. Diante do exposto outros questionamentos s urgem: como a festa promove a territorialidade do candomblé? Como esses ilês são lidos a part ir da discussão teórica do processo de produção do espaço urbano. como é o caso da comunidade evangélica e de outros segmentos tradicionais cristãos. e suas vozes silenciadas nas margens do se rtão goiano e para. que atravessa praticamente todo o saber acadêmico. valorização do solo e encobrimento de identidades? Essa lógica parte da dialética do uso do espaço. e promove o enfretamento de grupos religiosos de hegemonia ascendente. no binômio. Esse exercício teórico-metodológico constitui um significativo campo de disputa teórica e ideológica contemporânea. a f esta do candomblé é apresentada como mediação da pluralidade territorial que estrutura a rede cultural. a Geografia. além disso. concorre para sua inscrição em um lo ci social permeado pelo preconceito. já que. a Política dentre outros.

DO MITO AO ARQUIVO: AS MÚLTIPLAS NARRATIVAS SOBRE A FORMAÇÃO DOS CANDOMBLÉS NA BAHIA Olavo de Souza Pinto Filho (UnB) . ritual. mediado pelo olhar de dois autores. mas também das diversas tradições afro-religiosas originadas no Brasil. por conseguinte. UM OLHAR ETNOGRÁFICO PARA FESTA DE SEU ZÉ RAIMUNDO DO PAI BRASIL Mírian A. se realiza a festa para o encantado Seu Zé Raimundo. fazer se necessário uma hermenêutica e uma exegese das músicas para visualizar a mística presente nos versos cantados durante o ritual. Este trabalho tem caráter etnográfico e mostra algumas práticas cotidianas não só da mina. performance. ritual. Palavras chave: mina maranhense. sobre a educação das relações étnico-raciais em seu contexto de direitos humanos e políticas públicas voltadas para uma educação para a diversidade. Para tanto. que fazem parte da História da Antropologia: Franz Boas e Marcel Mauss. o texto também apresenta uma analise descritiva e analítica do ritual de preto-velho presente na Umbanda-Sertaneja. Nesse sentido também se torna fundamental o entendimento das transformações sofridas. gênero. ensino e extensão em temas a que se refere a educação. o que provoca negativação da s identidades de seus praticantes. performance. assume desde 2005 atuando na execução de pesquisas. em especial. onde a relação com a comunidade de fora do terreiro é de subalternidade. A MÍSTICA DO PRETO-VELHO EM PONTOS QUE CANTAM E CONTAM Admilson Eustáquio Prates (Universidade Estadual de Montes Claros) 64 ----------------------. troca. precisamente no ri tual de preto-velho. A partir da fe sta.Page 65----------------------O texto pretende analisar as músicas que são cantadas na Umbanda. tambor de mina de raízes maranhenses na cidade de Belém. ancianidade. cultura e religião sobre as relações diaspóricas entre África-Américas e.A proposta desse trabalho parte do compromisso que o Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas. troca. Tesserolli (UFPA) Na casa de Pai Brasil. estando inseridas em uma sociedade subjuldada à lógica do capital. aqui tratadas no âmbito dos territórios ocupados pelos povos de terreiro. Além de propor uma interpretação das musicas. PA. lancei o olhar para alguns aspectos das religiosidades de matriz africana: ancia nidade.

flertam com a tentativa de rast rear as instituições que deram origem ao Candomblé da Barroquinha ―o antepassado da Casa Branca . Considero que além de se pensar nas evidências historiográficas seria interessante analisar a própria produção e pesquisas desses novos dados . Novos trabalhos se dedicam a revisitar a fundação dessas casas. L. a meu ver. como os de Édison Carneiro. Roger Bastide e Pierre Verger. 2007. muitas vezes denominado. seja para a pontar a existência de outros terreiros da tradição keto igualmente antigos ou apr esentar ―novos dados para uma historiografia do candomblé ketu . econômico e religios o dos africanos libertos que hoje constituem ícones da memória coletiva dos terreiros ( PAR ES.114). TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADES Coordenação: Alex Ratts (UFG). Destacando que tanto fontes escritas quanto memória oral. N. CASTILLO. silêncios e ruídos. A proposta desta comunicação é pensar a apropriação e agenciamento desses ―dados historiográficos parte tanto dos antropólogos e pesquisadores. não purificando as ―contradições . Os trabalhos pioneiros. Aliando relatos da tradição oral com o s até então. poucos dados. Ilê Iyá Nassô Oka ou a Casa Branca do Engenho Velho. arti culamse e relacionam-se de maneira muito parecida na composição de ssas narrativas. De disputas internas e divisões de grupos se originaram outros dois importantes terreiros o Ile axé Iyamasse mais con hecido como Gantois. fundado na segunda metade do século XIX e o Ile Axé Opô Afonjá fundado em 1910.Page 66----------------------08. como pelo povo de sant o na construção de múltiplas narrativas. A meu ver uma discussão perene no campo de estudos da afro-brasileiro s.A fundação ou formação do candomblé na Bahia é tema recorrente em inúmeros trabalhos de pesquisadores no campo. Uma abordagem que de o mesmo estatuto entre eles. mas abrindo possibilidades de ampliação do nosso entendimento sobre eles. num amplo debate da antropologia que é o tema da pureza ritual que det eve a atenção de inúmeros antropólogos preocupados em desvendar os mecanismos de legitimi zação dessas casas através da invenção de mitos de origem que atestam uma pureza imaginad a. Ricardo Barroso (UEMA) e Sueli Dias (COSPAT) ACERCA DAS CONEXÕES TRANSNACIONAIS. Essas novas pesquisas sobre as origens do candomblé na Bahia se inserem. trabalhos que em certa medida. apontam como casa mais antiga do candomblé de keto no Bra sil. MIGRAÇÃO E p . antropologia das religiões afrobrasileiras. . Ruth Landes. L. E. de evidência documental que ―permitem um a reconstituição historiográfica mais fundamentada e precisa do universo social.. 65 ----------------------.

sobretudo. Os conceitos de «comunidades transnacionais de migrantes» e de «campo social transnacional». os estud os sobre comunidades migrantes e associativismo têm-se centrado.ASSOCIATIVISMO GUINEENSE EM PORTUGAL Manuela Borges (IICT LISBOA) Este texto defende ser necessário nos estudos sobre migrações e minorias étnicas e etnicidade não esquecer que os migrantes. as trocas. Assim a imigração é representada como homogénea e indiferenciada e não se consideram as relações que se estabelecem com diferentes espaços e sociedades num a perspectiva de conexões sociais transnacionais. focalizando-se os estudos em referencia á soc iedade de acolhimento. Os tipos de vid a social que as pessoas criam num contexto transnacional têm recebido crescente atenção nos últimos anos. fronteiras e outros contextos supra-terri toriais em que os povos praticam a cultura. com estudos sobre diásporas. dois espaços. Neste contexto. tem chamado a atenção para o . com elevados níveis de dispersão geográfica à escala global. que extravasam os contextos nacionais dos países de migração. i ndependentemente da sua localização geográfica e que configuram um espaço social transnacional concreto e be m delimitado. que têm estruturado a relação dos m igrantes com diferentes espaços do seu percurso migratório. os contributos de vários autores sobre a problemática do tr ansnacionalismo têm evidenciado um crescente interesse na abordagem das comunidades migrantes em esp aços alargados de interacção. a socie dade de origem é esquecida ou analisada sumariamente. minorias étnicas e etnicidade. por definição. duas culturas no mínimo. Este é um fenómeno antigo mas que se ampliou com as possibilidades de comunicação e transportes contemporâneos. Os membros das comunidades migrantes preservam e reinventam a sua cu ltura em lugares separados geograficamente. pretendem assim. Tradicionalmente. e no entanto permanecem liga dos uns aos outros por laços de sangue. de integração e de mobilização étnica dos imigrantes. A complexidade das «n ações migrantes». são refer enciados a duas sociedades. de informação e de bens simbólicos. os fluxos de capit al. corrobora-se a pe rtinência do paradigma dos espaços sociais transnacionais para o estudo contemporâneo das migrações. pois geralmente nos estudos sobre as migrações. nos pro cessos de aculturação. captar as interacções. Nesta perspectiva de análise tornam-se inteligíveis process os que não são limitados por fronteiras geográficas mas sim por relações sociais. Mais recentemente . e não só a uma. circunscrevendo as análises à relação entre os imigrantes e as sociedades de acolhimento. por recursos comuns e por intercâmbio cultural.

Nessa direção. ao mesmo tempo. As referências conceptuais sobre o transnacionalismo. tende a não reconhecer o campo relacional existente entr e as comunidades da diáspora. Dentre os resultados obtidos até o presente momento. A grande maioria das fugas era realizada por escrav os do sexo masculino. A capital. Para realizar essa pesquisa utilizamos relatórios de presidente da província e correspondên cias consulares sobre as questões de limites. podem e sclarecer o estudo da comunidade migrante guineense em Portugal. aparece como principal destino das fug as e. que as fugas faziam parte do cotidiano da escra vidão no Amazonas e que fugir para os países do além-fronteira que já haviam abolido a escravidão em seus territórios era uma realidade tangível para os escravos da região amazônica. Manaus. em plena idade produtiva. Contudo. Foi pos . de modo geral. como principal lugar de origem de fugas. a centragem das relações transnacionais em termos das ligações biunívocas entre comunidades imigrantes e o país d e origem. Ygor Olinto Rocha Cavalcante (UFAM) A presente pesquisa pretende analisar as fugas escravas na província do Amazonas e suas dimensões no contexto de área de fronteira internacional no período de 1850-1870. cultura. O cas o do movimento associativo guineense é um exemplo paradigmático de uma comunidade migrante cujas 66 ----------------------. Fizemos um levantamento sobre anúncios de f ugas e noticias de fugas e capturas. práticas paço transnacional de múltiplos sentidos. Cabe enfatizar o caráter pioneiro dessa pesquisa em nível regional vis to que a historiografia local tem há muito relegado as trajetórias das po pulações escravas à invisibilidade e à irrelevância. e destas com instituições e organizações internacionais. para este período.Page 67----------------------estruturas. podemos destacar. realizamos uma análise crítica das fontes através das inferências feitas sobre estas informações e sobre quadros de ordem quantitativa. aproximadamente 10% da população escrava permaneceu em fuga.desenvolvimento de formas de interacção que escapam à lógica tradicional origem-destino. sociais e políticas se inserem num es NOS LABIRINTOS DA LIBERDADE: NOTAS DE PESQUISA SOBRE FUGAS ESCRAVAS NAS FRONTEIRAS DO AMAZONAS IMPERIAL (1850-1870). Cab e destacar que. bem como notícias e informações sobre fugitivos escrav os na fronteira norte do império brasileiro.

na qual o cotidiano e as práticas tradicionais quilombolas são r esignificados. no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais T ransitórias . faremos uma reflexão sobre os quilombos ou ―terras de preto .Page 68----------------------Em uma condição na qual as comunidades quilombolas percebem cada vez uma demanda social marcada pelo interesse por suas expressões culturais. suas conceituações historicamente construídas e suas ressignificações na atualidade. no Maranhão. A proposta desta apresentação individual. memória. tradição.ADCT. Palavras-chave: turismo. quilombo. . o turismo tem se apre sentado como uma atividade que tem contribuído. visto que a Constituição Fede ral de 1988. A partir desta premissa. mas fundamentalmente. na articulação de novos sentidos e se transformado em elementos marca dos de expressões identitárias. consist e em refletir sobre o turismo como uma prática que tem se tornado muito mais que um elemento de promoção social e instrumento de crescimento econômico. Esta discussão nos remete a indagações sobre o processo de constituição dos quilombos. para a afi rmação cultural e a complementação de renda. Palavras chave: Escravidão – Amazônia – Migrações fronteiriças QUILOMBOS OU TERRAS DE PRETO: IDENTIDADES EM CONSTRUÇÃO José Reinaldo Miranda de Sousa (PUC-SP) Trata sobre as terras das comunidades dos quilombolas. Por fim. considerando uma perspectiva contemporânea de suas identidades .sível restituir parte das estratégias utilizadas pelos escravos para fugir. a partir das pesquisa s realizadas entre as comunidades quilombolas do Paraná. TURISMO E TRADIÇÃO ENTRE AS COMUNIDADES QUILOMBOLAS Oseias de Oliveira (UNICENTRO) 67 ----------------------. de forma que as comunidades tem revisto o seu i nterior e nele buscado aspectos que concebem como condicionantes responsáveis por se transformarem em representações de sua intenção na sociedade contemporânea. uma atividade cultural. argumentamos que a delimitação dos limites e fronteiras no extremo norte do império brasileiro foi uma questão premente das autoridades locais e que as fugas dos escravos da região ocupavam lugar central em tais discussões. cultura. bem como a s rotas e experiências compartilhadas estabelecidas pelos fugitivos em suas relações com out ros atores sociais. sobremaneira. reconheceu o direito destas comunidades à propriedade de suas terras.

tomamos os territórios das africanidades como parte integra nte do conjunto das relações sociais e dos sistemas simbólicos responsáveis p ela construção da realidade. ao tomar a cultura como prática social. A proposta dessa comunicação é perceber esses territórios ne gros. que dar se.887/2003. sobretudo. os quilombos estão por toda parte e não devem continu ar a ser compreendidos apenas dentro de uma perspectiva estática e singular do passado colonial. os territórios das africanidades serão analisados como um processo cultural de construção da identidade. O Governo Federal a través da Fundação Cultural Palmares vem reconhecendo comunidades rurais negras como pertencentes a uma ancestralidade escrava a partir do decreto de n  4. Lagoinha d e Baixo e de Cima. podemos nos debruçar sobre a experiência de vida dos quilombolas recuperando a dimensão das africanidades na construção de um território quilombola em Mato Grosso. Palavras-chave: Lei 4. BIODIVERSIDADES E PRATICAS EDUCATIVAS DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DE CHAPADA DOS GUIMARÃES/ MT. Para análise e interpretação da dimensão dos territórios das africanidades quilombolas. configurando e conferindo sentido às práticas culturais dos referidos grupos quilombolas. territórios. Desta forma. TERRITÓRIOS DAS AFRICANIDADES: LÍNGUA. No âmbito deste projeto.887 do dia 20 de novembro de 2003. HISTÓRIA. a partir das diversas situações de alteridade. Adiléa de Lamônica Y Navarro (GRUPPAAAL-UFMT) Maria de Jesus Alves de Carvalho Patatas O objeto desta pesquisa são as comunidades quilombolas: Complexo Manso.TERRITÓRIOS RURAIS NEGROS: LUGARES DA RESSURREIÇÃO ÉTNICA Sandreylza Pereira Medeiros (PPGH-UFCG) A temática Quilombo muito pouco aparece em nossos livro s didáticos e quando mencionada está sempre atrelada a um fenômeno histórico não mais con dizente com a realidade vivida por seus descendentes na sociedade atual. em tempos atuais. localizadas no Município de Chapada dos Guimarães/ MT . quilombolas. e compreendê-los como o espaço da livre manifestação das etnias negras. Rio da Casca. Assim. é 68 ----------------------. como lugares de preservação cultural em constante transformação social. negros. Dessa forma.Page 69----------------------necessário tomar como referência teórica fundamental o conceito de cultura como uma te ia .

Inter pretar é perseguir o sentido para quem o sentido faz. almejando inclusão so cial e visibilidade na . demanda um processo de aprendizagem de simbolizações que valorizam o ser negro. permite aos afrodescendentes relativizarem a visão etnocêntri ca da sociedade que toma o branco e a cultura européia como referênc ia de uma pretensa superioridade. Tomando o território e a territorialidade como pontos de partida. suas lutas e resistências. o lugar negro no tec ido rural do município de Chapada dos Guimarães/ MT. Na lut a pelos direitos coletivos a terra. Os costumes e a s práticas do grupo afrodescendentes são por ele utilizados como materiais de construção de uma identidade contestatória da identidade socialmente construída pelas representações dominantes da diferença racial. 1976). 14). Esse trabalho discute esta visão de c ultura. propomos a análise da construção política dos direitos coletivos a terra. (CARDOSO DE OLIVEIRA.de significados produzidos pelos homens e à qual eles se prendem. assim formulada. como desigualdade social pela inferiorização do n egro. e o reconh ecimento aos direitos culturais vincula-se diretamente ao reconhecimento dos direitos coletivos relati vos à posse da terra. pois é a leitura dos grupos quilombolas do Município de Chapada dos Guimarães sobre suas vivencias. o modo de vida negro. Manuela Picq (AMHERST COLLEGE). em geografias e contextos po líticos específicos. Pretendemos explorar o papel da ancestralidade na legitimação d e direitos coletivos nos processos de conquista da terra. Esta construção que chamamos ancestralidade é um processo que está ancorado em tempos históricos. comparan do o processo histórico de mobilização política de quilombolas no Brasil e o movim ento indígena do CONAIE no Equador. a ancestralidade se constrói no espaço-tempo. Essa relativização como valor. no passar das gerações. A ancestralidade não deve ser vista somente como identidade cultural mais também com o identidade política. O modelo textualístico da cultura torna a cultura interpretável e não codificável. Portanto. que prevê direitos políticos. (GEERTZ. Mas ancorase também no espaço. sociais e econômi cos em varias constituições da América Latina e Caribe. p . A identidade étnica. tanto os quilombolas no Brasil (como importante expressão do movimento negro e anti-racismo) quanto os indígenas no Equador tem buscado o reconhecimento da ancestralidade como um valor positivo. no território. 1978. QUILOMBOLAS E INDÍGENAS – O REFORÇO A ANCESTRALIDADE E TERRITORIALIDADE COMO IMPORTANTES ELEMENTOS NA LUTA PELOS DIREITOS COLETIVOS A TERRA.

A FESTA DE NOSSA SENHORA SANTANA: LUTA PELA PERMANÊNCIA NO TERRITÓRIO ÉTNICO DE ALCÂNTARA Maria Suely Dias Cardoso No presente trabalho busco refletir sobre os significados da festa de Nossa Senhora Santana. dentre os demais. resistência e conquistas de direitos. Maranhão. A manifestação religiosa ocorre anualmente nessa comunidade assumida como remanescente de quilombo -. TERRA AOS NOMES: HISTÓRIA FUNDIÁRIA. História Fundiária.participação política. Consideramos extremamente urgente maior divulgação e intercâmbio de estudos e reflexões sobre essas temáticas visando o empoderamento do s negros e dos indígenas – homens e mulheres. por rel ações de subserviência e dominação. NOMENCLATURAS E CICATRIZES DA DISTINÇÃO NO BRASIL. as ―diásporas judias. principalmente entre Brasil. Partirmos de fatos históricos como a ―Revolta de Carrancas em Minas Gerais e a ―Inquisição na Bahia para identificar. mas espe cificamente na Bahia. NOME AOS BOIS. Palavras-chave: Escravismo. nesse município. SURINAME E CARIBE Autor: Rafael Moreira Co-Autor: Samuel Silveira Martins 69 ----------------------. os atores sociais envolvidos nestes fatos e a partir do entendimento de que seus nomes são reflexos de uma construção sócio-histórica determinada . É o evento reli gioso considerado pelos moradores. como o mais import ante. considerada por seus moradores como sendo de propriedade da santa. para os moradores do povoado Santana de Caboclos. na tentativa de localiz ar e traçar pontos de convergência entre as origens dos escravos africanos.nos nomes dados aos senhores e aos escr avos.Page 70----------------------Esta comunicação tem por objetivo explicitar alguns elemento s encontrados nas nomeclaturas . a colonização da terra e a história fundiária. em uma análise relacional. Por meio de tais iniciativas busca-se influenciar na constr ução de sistemas democráticos. sobretudo. Suriname e Jamaica. Brasil Colonial. em Alcântara. para o qual se preparam durante o ano todo. Busco saber em que medida podemos afirmar que se tr . onde os negros devem ser reconhecidos como atores sociais. assim como o reconhecimento de suas diversas formas organizativas. suas distinções e características intrinsecamente relacionadas com processos históri cos de segregação e integração.construção pautada. Revolta Escrava. Trata-se de um ritual de agradecimento pelo uso da terra.

Deste modo. Tais norm as não se separam da economia e da cosmovisão desses grupos. ou seja. constituindo-se num instrumento que reforça a identidade étnica do grupo. a transmissão da herança cultura l e as maneiras como a cultura e a identidade são discutidas em leitu ras relacionadas à festa. aldeias e senzalas com suas próprias apreensões.Page 71----------------------OS TERRITÓRIOS SIMBOLICOS PRODUZIDOS DURANTE O CICLO NATALINO: AS FESTAS DE FOLIAS DE REIS EM GOIÂNIA Rosiane Dias Mota Maria Geralda de Almeida Destaca-se na cultura aspectos como a dinamicidade. os moradores de Santana dos Caboclos confi rmam sua visão própria de mundo. Ou seja. Para eles. ou consuetudinário. não são concebidas e nem vividas como externas ao grupo. desde o tempo de seus antepassados escravos. os moradores mantêm uma relação singular no que tange à posse e uso da terra. É por meio da festa que o grupo reafirma a si próprio e ao mundo externo sua origem. as normas consensualmente acatadas pelo grupo. 70 ----------------------. mas o trabalho. o momento não só de agradecer. As Folias. segundo suas representações. Entre as festas presentes no ciclo natalino estão as Festas de Folias de Reis. usufruir de todos os seus recursos. E a fest a representa para os moradores. A natureza. de modo geral.ata de um ritual de resistência na luta pela permanência no território. tem-s e indícios de que foi uma terra habitada por indígenas. s em nada lhes cobrar. mas também serve para reforçar esse laço com a divindade que. e sobretudo a te rra. com um sistema de crenças que rege não somente a sua religiosidade. È nesse movimento que o sentimento de pertencimento ao lugar também é reforçado. sua histór ia de sobrevivência à escravidão de negros e índios também. Ao festejar a santa para agradecer-lhe pelo bem recebido. O pre . pois em Santana de Caboclos. foram usadas pelos padres Jesuítas no processo de evan gelização dos povos indígenas e. essa maneira de pe nsar a terra e de se apropriar dela têm a ver com um modo de vida específico. suas regras e sua história. posteriormente. Os ensinamentos transmitidos p or esses padres foram incorporados à cultura religiosa e principalmente às festas de padroeir os feitas em toda na colônia. Em Santana. a santa seria sua verdadeira proprietária e lhes permitiria. existem regras particulares baseadas no direito costumeiro. lhes garante o acesso e a permanência na terra. cada lugar. de escravos africanos.

** Graduanda do Curso de Engenharia de Pesca / UEM A – São Luís-MA.br ***Professora Adjunta I do Departamento de Biologia e Química – UEMA. The degradation of marine environment should be controlled by strategies of precaution and prevention. andreacgazevedo@uol. efficient control of pollution from continent . observing t he national priorities. o qual aborda questões referentes à cultura.com. na cidade de Goiânia.Page 72----------------------9. the developm ent of economical incentives and utilization of clean technologies.A. ABSTRACT: The environmental managment in coastal areas i n all countries must be focused on development. F. launching of amoniacal compounds from field farm s beyond . & Cutrim. C. Pereira. SAÚDE AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE Coordenação: Marluze Pastor POTENTIALLY TOXIC PHYTOPLANKTON IN MARANHAO COAST: REFLECTIONS ABOUT ENVIRONMENTAL MANAGMENT IN BRAZIL ** Araújo. às contribuições de Geertz (2001). entre outras. A. que permitem discorrer sobre os territórios simbólicos e territorialida des produzidas pelos foliões e visitantes. basis of food chain in water systems and indicator of water quality. lakes. de J. de*. Among typical stress forces we poi nted out: introduction of exotic species.com. rivers and oceans affect the living organisms. ***(UEMA) andrea_araujoc@yahoo.br * Professora Adjunta II do Departamento de Biologia e Química / UEMA. Tem-se como procedimento teórico metodológico a revisão bibliográfica e a pesquisa parti cipante.São Luís-MA. A.sente artigo tem como objetivo apresentar uma reflexão sobre as territorialidades produz idas por essa festa durante o ciclo natalino. as phytoplankton community. the evaluation of environmental quality. thatyana_pereira@yahoo. 71 ----------------------. accounting and diffusion of informations to decision makers. inter sectors partnerships. the integration of policies.com. It is necessary to promote efforts. T. G. Impacts on est uaries.br. e Almeida (2005) que discute as identidades territoriais e os territórios simbólicos. Os aspectos teóricometodológicos utilizados no desenvolvimento deste têm como base.

This study d eals with taxonomic knowledge of pottentially toxic marine phytoplankton from calcarian Algae Bank o f Tarol. de objetiva id O estudo ―A divisão dos impactos NA Terra das Filhas da Terra entificar as condições de vida das mulheres frente aos grandes projetos impla ntados na região amazônica percebendo as alterações ocorridas em suas vidas. Por outro lado os trabalhadores e trabalhadoras das áreas onde são impla ntados esses projetos tem poucas oportunidades de acesso aos trabal hos oferecido pelas empresas. gerando diversos níveis de contaminação ambiental. The qualitative analysis was conducted from mixed samples of 0. localised in Maranhao continental platform in three fixed stations a long Cururupu coast.Page 73----------------------O recorte do trabalho é a década de 1990 quando os países da América Latina e d o Caribe se integraram aos processos de globalização dos mercados mediante a liberalização de sua s economias. Brazil. Trichosd esmium thiebauti Gomont. 10 foils of each sample were analysed. The floristic composition was formed by 76 species. deixando para as mulheres a responsabi . A DIVISÃO DOS IMPACTOS. consultora da Secretaria Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário(SDT/MDA). showing the importance of water monitoring along brazilia n coastal areas and educational motivation of human resources in taxonomy of toxic organisms. por conseguinte a alimentação. especialmente as mulheres indígenas e afrodescendentes. e. Como consequência se acelera o processo de migração dos povos e comunidades especialmente dos homens. mestra em agroecologia.pollution from domestic and industrial effluents. 21 ord ers. 17 pottentially toxic species were indentified. afetando sobremaneira a agricultura familiar. Maranhao Coast. nessas regiões se intensificaram projetos de expl oração mineral e agropecuários que continuam ocasionando impactos irreversíveis n os ecossistemas. as Pseud o-nitzschia sp. Ceratium furca (Ehrenberg) Clapárede & Lachmann. comumente não regressam. Key Words: Environmental Managment. induzindo mudanças na economia das famílias. 72 ----------------------. é dirigente da Associação Maranhense de Pesquisas Afro Brasileiras (AMPEAFRO).5m L. 32 families and 42 genera. NA TERRA DAS FILHAS DA TERRA Marluze Pastor Santos Engenheira agrônoma.

a partir de afinidades estéticas comuns em suas respectivas obras . já nas obras de Sembene Ousmane recorreu-se ao legado secular da oralidade africana. nos seus filmes fizeram grande uso da oralidade. Amazônia 73 ----------------------. além da própria estética de matriz afro.com.lidade de cuidar da família. oralidade.br Resumo: O presente artigo busca discutir os projetos cinemato gráficos de Glauber Rocha e Sembene Ousmane. por dificuldades de enfrentar e/ou mitigar os impactos dessas mudanças .Page 74----------------------ARTIGOS DIÁLOGO EM IMAGENS E IMAGENS EM DIÁLOGOS: UM ESTUDO DOS PROJETOS ESTÉTICOS DE GLAUBER ROCHA E SEMBENE OUSMANE Victor Martins de Souza M estrando em História PUC/SP victorlossotros@yahoo. It is clear that these directors in their films have made extensive use of orality. Abstract: This article aims to discuss the film projects of Ousmane Sembene an d Glauber Rocha from aesthetic affinities common in their respective works. decolonization. Vale frisar que suas produções estão inseridas num projeto mais amplo que va i de encontro à crítica ao esteticismo europeu. orality. while in the works of Sembene Ousmane resorted to the secular legacy of African orality. não garantida. It is worth emphasizing that their movies are embedded in a larger project that goes against the criticism of Europ ean aesthetic. descolonização. Palavras-chave: cinema africano. If in most productions of Glauber Rocha incorporated the language of chap-book (literatura de cordel) and the aesthetics african. a A obra cinematográfica partir de diferentes São muitos os trabalhos de que Glauber elucidam Rocha as tem sido produções ana do cin . Se em grande parte das produções glauberianas foram inco rporadas a linguagem da literatura de cordel. mulher. grandes projetos. Key-words: african cinema. lisada enfoques. Palavra-chave: impactos ambientais. Claro está que estes realizadores. As mulheres passam assumir a produção e a buscarem alternativas de renda.

de distintas escolas cinematográfic estabelecidas entre as: Neo-realismo Nouvelle Vague francesa. (2005.easta a partir das relações as estéticas italiano. considerado. pe rmite-nos este alargamento afinidades de possibilidades. Daí a importância de se efetuar um estudo no que se refere ao diálogo cinematográfico de Glauber colas. textos Também críticos de é interessante Glauber salientar que os inúmeros demonstram está preocupação em não se filiar a uma escola específica. analisa a obra de Glauber comparando-a de Jean Rouch. cine-etnográfico. afro ainda Contudo. notadamente. formalismo russo – só para citar as clivagens mais evidentes. Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) e Der Leone Has Sept Cabezas (1972). Lima não explora os aspectos afro -brasileiros das obras do cineasta cinemanovista. cine-documentário. dada são pouco às devidas proporções. Deus e o Diabo na Terra do Sol ( 1964). as características exploradas no cinema de Glauber. 74 ----------------------. em estudo recente. É notável sua capacidad . o autor reconhece que a oralidade é um traço bastante explorado n os trabalhos do realizador brasileiro. Entretanto. como nos filmes Barravento (1961).82-7). O pesquisador Mateus Araújo Lima. pós-colonialismo.Page 75----------------------Claro sua estética sobre está bases que o afropróprio fato de Glauber assentar brasileiras. o pai do cinema africano. por seu pioneirismo e engajamento. p. visto que ele centra sua análise na estreita relação GlauberRouch. para além das citadas com cineastas de outras es anteriormente. que estéticas entre suas do vai de encontro à busca por o se produções e a de cineastas negalês Sembene Ousmane. Porém.

Tendo em vista as observações dos intelectuais da diáspora. (1991.92). Na esteira de Fanon. p. no que diz respeito à rea lidade de seus respectivos países. O filósofo francês Jean-Paul Sartre. além d os ―padrões mais correntes do cinema romanesco ou do realismo crítico nouvelle poésie nègre et malgache de la re acerca da importância langue do da française Negritude (1948-1949). acabam abalan contemporanizadores dos cinemas comerciais de matriz hollywoodiana.em incorporar. o intelectual antilhano Fra ntz Fanon. quais estratégias e ferramentas usaram para criticarem o colonialismo? dos debates Para compreendermos aventados por mais claramente tanto a natureza Fanon e Sartre. Ele é a violência no estado de natureza e somente pode se su bmeter a uma violência maior . devemos levar em consideração o mundo do pós-guerra e a própria q uestão do nacionalismo. na sua obra clássica.50). mas não do menos convergentes paradigmas moralistas e e que. étnica e racial de reconstrução africanos e afro-caribenhos. Em concepção assemelhada. descreve o processo criação de homens novos. estéticas as mais distintas. através de um processo antropofágico sui generis. enfim. Os de descolonização como condenados uma da terra. ―o colonialismo não é uma máquina pensante. visto que neste discussão. e da discor cultur (LIMA. históricos participaram deste processo de descolonização? E. quanto as preocupações de Sembene e Glauber. inclusive por parte da contexto havia toda uma . poderíamos n os perguntar em que deste medida Glauber e Sembene processo de afirmação ou de reconstrução da modo estes sujeitos fizeram Ou uso ou participaram até que ponto e identitária de que cultura? ainda. ne m um corpo dotado de razão. no prefácio de Anthologie de la movimento de afirmação identitária al. 2005. inclusive. p.

21). A julgar por suas produções fílmicas e extra-cinematográficas. e sendo a cultura aqui concebida não como um préstimo estanque sim a partir de imutável.102). (2006. décadas anteriores. estética bem de percebemos próxima à literatura regionalista ênfase à cultura popular. artistas e críticos cinema.. em torno da descolonização e de questões raciais.intelectualidade negra. Stam & Shoha eurocêntrica. na Nesta sua Crítica mesma linha da imagem de raciocínio. o artesanato isarmos os projetos estéticos de deles. [o racismo] era realizado e vivido nas práticas sociais e políticas de colonizadores e colonizad os (2008. Daí ser pertinente anal Glauber e Sembene a partir destas preocupações. Como salientou Stam & como exóticas. a nossa arte. a nossa nação. p. Ao analisarmos filmes do Sol (1964) e o Dragão Maldade Contra ato uma opção referenciou de como Deus da toda e o uma Diabo geração na que de Terra há dando de f grande mas intel o Santo Guerreiro (1967). a superstição deles. um aliado e u m produto parcial do colonialismo (.Page 76----------------------t. 75 ----------------------. Não por acaso as práticas e manifestações dos povos e nações do chamado Tercei ro Mundo acabam sendo vistas s. primitivas e/ou inferiore Shoat a nossa religião. a tribo deles. não há nenhum exagero em dizer que Glauber Rocha ectuais. ―apesar de negado doutrinariamente . de um ponto de vista histórico.. esta no do racismo vai de encontro ao seguinte aspecto.) As ou absolutas: são construções categorias raciais não são naturais relativas e específicas. a nossa cultura o folclore deles. categorias narrativas engendradas por processos históricos de diferenciação . assinalam que ―o racismo é. va Conforme concepção acerca observou Antônio Sérgio Alfredo Guimarães. p. .

por sua vez. que. Assim. Vale frisar que muitas das questões levant adas por Glauber. importante para aqueles que o fazem Para as civilizações subdesenvolvidas o cinema é uma manifestação Daí a importância para Glauber da relação entre artista e público. cuja estética está em exortativa em vistas de contínuo processo dialético com seu espectador. discutindo cinema. Eu não acho que o cinema seja mais importante que a m edicina. 1979. visto q ue. inseriu-se numa questão mais ampla. é considerado um dos maiores expoentes deste movimento e um dos cineastas brasileiros mais conceituado no cenário internacional. a exploração dos países do . Dito isto.Page 77----------------------eçado por Ademais. ―o processo cultu ral não deve ser considerado como simplesmente adaptativo. com Lumière. como ele assinalou. (1981. ―o cinema é uma manifestação de vida . p. já que o próprio Glauber Rocha.18). no que diz respeito ao fazer cinematográfico.―variações e complicações que ―incorpora não só as questões. mas também as contradições atra das quais se desenvolve (WILLIAMS. nessa acepção. com p que o vêem. querem começa r do zero. 76 ----------------------. Como o próprio Glauber observou: Muitos cineastas. extensivo e incorpo rativo . ao lado de Nelson Pereira dos Sant os e Ruy Guerra. ou seja. visto que são comuns que haja rompimentos autênticos em seu bojo.17). a concepção glauberiana de cultura popular vai de encontro a uma arte politização. Glauber o ímpeto maior consistiu nas às conjunturas do movimento sociais e encab políticas do Bras reflexões críticas em relação il das décadas de 1950 e 1960. eu sinto que ele é e para aqueles de vida. imiscuem-se nas discussõe s aventadas pelo Cinema Novo. p. O europeu ré-cinema do ou americano que quer acabar terceiro mundo é um neocolonialista.

pautando-se numa estética diferente que àquel as do cinema convencional. não foi o próprio Glauber que realizou um dos seus fil mes num país da África . produzido por Lima Barreto. na estétic à ora preponderância dada aos aspectos lidade. O próprio Glauber as do cinema romanesco de temáticas contemporanizadoras. laro está que esta é uma outra Daí ser inevitável as aproximações e africanos. entre os cinemanovistas e os cineastas cubanos. lmes as chanchadas dirigidos foi como um os grande filmes ou crítico das O ainda narrativ Cangace os fi da Atlântida por Alberto Cinematográfica Cavalcanti. que dá a tônica da narrativa. evidente sobretudo. e ra nordestina elemento deixar à literatura de cordel. Tais aspectos são candentes nos filmes Deus e o Diabo e O Dragão da Maldade . Vale frisar que justamente com este tipo de narrativa. Cabe trabalhos que se propuseram a analisar as produções glauberiadas – dentre as quais se encontram Deus e o Diabo – partiram da ótica da narrativa clássica. que é o grande característica destas duas tão cara à cultu estruturador da narrativa claro que muitos fílmica produções. funda . procedimento mnemônico fortemente enraizado à cultura popular. Eis a declaração de Glauber so bre o filme de Barreto: Sendo um produto industrial. tais iro (1953). C argentinos justificativa para se analisar as aproximações entre as produções de Glauber Rocha e do realizador senegalês Sembene Ousmane. recurso bastante usado na anál ise de filmes do a cinema convencional de matriz estética glauberiana rompe hollywoodiana. Ora.O Leão de Sete Cabeças (1970) – filmado no Congo? O que ele pretendia com isto? Outro a glauberiana diz traço que é bastante respeito à populares. Daí ser pertinente à Glauber recorrer ao cantador popular.Terceiro Mundo e a cultura do subdesenvolvimento. em sua maioria financiado pela Vera Cruz.

. não como como dado formal em seu campo de comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino (1965). p. ou seja. só pode mesmo prestar serviços a regimes totalitários. o texto revela um as de 1965. à análise escrito para uma escolha artística. E quando está técnica está a serviço de idéias que atrasam o processo de consciência e prátic a do povo brasileiro – é bom suas implicações que se destrua está técnica que. (200 3. denúncia. por convencionais. é evidente que a p redileção por outra estética antes de ser z isto seja mais claro se passarmos fome... to acalentou debates naturezas distintas: suas misérias gerais. em contrapart Tal pre erigida como modelo missa torna-se mais práticas populares. Levando isto em conta. não seria de se estranhar a afini dade do realizador de Deus e o Diabo pelas temáticas populares. mas apenas interesse. O cangaceiro (1953) é um f brasileiro. de Desnecessário dizer que este tex sintoma trágico. aqueles vêem ida.) enquanto a América Latina lamenta interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria. Se nos considerarmos um povo já livre do complexo colonial.Page 78----------------------cinematográfica de Gênova. manifesto é A opção política. a a cultura cultura destes como primitiva vinda de fora é em detrimento evidente das ou exótica e. Talve eztétyka da do famigerado a mostra 77 ----------------------.96) A julgar pela crítica de Glauber. nem o Nem homem o latino civilizado pecto delicado Escrito em tom de e complexo nas relações entre os países desenvolvidos e os chamados países de Terceiro Mundo. vejamos que uma ha bilidade técnica não pode ser o suporte de uma expressão como o cinema.do sobre uma ideologia nacionalista tipicamente pré-facista. o (. assim como toda obra de Lima Barret ilme negativo para o cinema o.

feias. os proc artística do mundo subsesenvolvido só o interessam na med ida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo. personagens fugindo para co mer. excitou os temas da fome: personagens comendo terra. morando em casas sujas. personagens comendo raízes. sendo que uma libertação possível esta rá ainda por muito tempo em função de uma nova dependência (Ibidem). Glauber assinala que: A América Latina permanece colônia e o que diferenc ia o colonialismo de ontem do atual é apenas a forma mais apri e além dos colonizadores de fato. pondo às claras a estética da fome que. mal c ompreendidas porque impostas pelo condicinamento colonialista (Ibidem). por isto. Glauber chega ao ponto crucial de sua análise. não é somente um sintoma a larmante: é o nervo de sua própria sociedade. De Aruanda a Vidas Secas . Aí reside a trágica originalidade d o Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é a nossa fom e e nossa maior miséria é que esta fome. analisou. descarnadas. sendo sentida compreendida. poetizou. disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado. feias. morada do colonizador: Mais adiante. personagens matando para comer.quando Glauber observa que: Para o observador europeu. personagens ro ubando para comer. personagens sujas. . segundo ele. essos de criação Ainda nesta linha de raciocínio. pela crítica a serviço dos interes ses antinacionais pelos produtores e pelo público – este último não suportando as imagens da própria miséria (Ibidem). esc uras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo tão condenado pelo Governo. O problema internacional da AL é ainda um caso de mudança de colonizadores. as formas suti s daqueles que também sobre nós armam futuros botes. e este primitivismo se a presenta híbrido. não é 78 . é o que confere originalidade ao Cinema Novo: A fome latina. discursou. o Cinem a Novo narrou. descreveu.

ela se instala na própria forma do di zer. p. de aco rdo com Glauber. p. sistemáticos e cujos testemunhos continentais. esta é a grande contribuição do Cinema Novo: a busca da criatividade e origin alidade frente à carência de recursos.9).----------------------. na própria textura das obras análise. também é verdade que. p. pelo não. Nas cenas iniciais de Deus e o Diabo na Terra do Sol a voz em of f do cantador inicia sua narrativa com os seguintes versos ―Manuel e Rosa viviam no sertão / trabalhando a terra com as próprias mão / Até que um dia pelo sim. nos se remete às tradições dos orais dos distanciam ―pensamentos engessados e fechados em si mesmos (ANTONACCI. uma oposição estético-ideológica ao cinema dominante. a (1983. mais do que um objeto de fome é uma forma de fazer cinema.3). Partindo dos princípios da ―estética da fome . parafraseando Xavier. ―invertendo posições dia nte das exigências materiais e as convenções de linguagem próprias ao modelo industrial dominante (Ibidem. um estilo que buscou redef inir a relação do cineasta brasileiro com a carência de recursos. Ora. 2007.10). na acepção glauberiana. o fato de Glauber Rocha recorrer à literatura de cordel em De us e o Diabo também não pode ser vista dominante? Talvez como isto uma oposição estético-ideológica ao cinema também se insira num projeto mais amplo de crítica aos cânones europeus. pois se é verdade que grand cinemanovistas foi feita em condições financeiras adversas. ou seja. entrou na vida deles o santo Sebastião . Tais . Isto é.Page 79----------------------O crítico Ismail Xavier tem observação interessante a este re speito. Segundo ele ―a fome não se define como tema. uma vez que a própria narrativa de Deus e o Diabo cantadores populares e dos romanceiros. o estilo cinemato gráfico glauberiano coaduna-se às e parte das condições produções de sua produção. do qual se fala.

pos teriormente.n a sua infância em Vitória da Conquista. o canto se configuram como elemento de transgressão da ordem. Canção d o Sertão. A fala sertaneja. a voz. Como salientou Ismail Xavier. 2007. analisou tal aspec idéia de ―migrações culturais (circulação de signos dentro de locais contextuais específicos e sistemas sociais de valor específico). a fala. qu historiadora Sylvia Nemer. Logo em seguida ouve-se uma peça sinfônica de Villa-Lobos. fazendo-se uso da tradição popular e de uma linguagem popular. apoiando-se to pautando-se na em Homi K. a relação presente/passado/futuro não se dá de fo rma cíclica.versos são acompanhados de planos gerais do sertão árido. ímpeto que perpassa a passividade e se desdobra na ação. p. tend o em vista a mistura de elementos de naturezas distintas. ponto de fuga em poten cial. As ações seguintes centram-se n a vida do vaqueiro e de sua mulher Rosa que se juntarão aos fiéis liderados por Sebastião e. posteriormente observa-se a aparição do vaqueiro Manuel. a paisagem árida e a literatura de cordel se aproximam da geografia interior do artista. Nemer caracterizado analis pel estética na qual predomina a imagem. feita. Bhabha.Page 80----------------------visto que há uma possibilidade mínima que permite o acesso ao novo. pois o próprio Glauber . o sol cau sticante e a terra estorricada. abandonarão a religião. no interior da Bahia – vivenciou muitos dos aspectos que futur amente viriam a . convertendo-se ao cangaço. uma carcaça de gado. ou o processo de migração da literatura de a oralidade. a marcante de Deus e o Diabo. e é a Em relação a este traço literatura de cordel. (NEMER. cordel do seu ambiente para uma realidade Desta original. 79 ----------------------.25) No filme de Glauber é nítida a intenção de querer contar uma história. Neste sentido.

tradições e contradições os flagelos. Daí ser presumível que o nordeste glauberiano vem à tona por meio destes e lementos. do Senegal Paulin (LEQUERET. ingleses. Daí o ponto de contato entre Glauber e Sembene. italianos e norte-americanos empreenderam a ―mi ssão de filmar os desertos egípcios. as populares. entre o cânone letrado e o oral. visto que nas pro duções do cineasta senegalês há uma forte recorrência à oralidade. tal e mpreendimento contribuiu em muito para uma estereotipagem. negro Viyra e d produzido o curta-metragem Afrique-sur-Seine. A própria aproximação sócio-histórica entre o Nordeste do Brasil e a Senegâmbia r eforça ainda mais está idéia. a partir do qual já se pode observar uma tensão entre a tradição oral e a escrita. da zoologia. antropologia.usar em seus filmes: o mandonismo local. & Sta ex da estranhas à Europa. uma espécie de resistência e alteridade ao racionalismo europeu. p. Vale ressaltar que mesmo anteriormente a esta nente africano já havia sido produção o conti abundantemente filmado. Mamadou Sarr.5). 2005. certidão de nascimento ocasião em que é do cinema de africano S. cinema Como salientou e culturas Shohat igualmente da botânica. mas sim nos logra douros de Paris. A julgar pela intencionalidade destes diferentes projetos. . as margens do Nilo. A ata de 1955. quando o próprio cinema co meçava a se configurar da Revolução como uma Industrial. minimização e subvenção das práticas e manifestações cultur is das diferentes etnias m ―A fotografia e o representavam travagantes Prolongamento topografias em relação da africanas. das mais muitos expressivas testemunhas cinegrafistas franceses. tal filme não foi produzido na África. a religiosidade. Antes mesmo do início do século XX. os litorais da Senegâmb ia e as ―tribos exóticas que habitavam nestes territórios. Porém. as savanas africanas.1 assim como a i mportância dada às práticas populares.

Oswaldo Biato. Talvez isso tenha africanas recém-emancipadas surgisse prática. observou que ―Na áfrica.T. nes tas últimas décadas. Mbye Cham. pois lhe cabia transmitir a tradição histórica: era o cronista. Nestas produções. Como observou Djibril Tamsir Niane.36). 1982. Porém. SP: Ática. Mais adiante o autor ressalta que ta is produções se voltam a um engajamento crítico. Sundjata ou A Epopéia Mandinga. o genealogista. Estando cônscios cineastas fizeram questão de tomar o controle de suas próprias imagens e buscaram re escrever suas histórias. Vale frisar que não foi casual 1 Para compreendermos a importância da oralidade na obra de Sembène basta observarm os nos seus filmes o papel que é atribuído ao Griot. como figurantes. e evolucionista a partir da qual passa a ser o próprio discurso para que cientificista nas nações à questionado. D. a partir do qual o próprio passado africano tem pas . n. dissecava o ―outro . num artigo recente. 1982. ―Numa sociedade em que os conhecimentos eram tradicionalmente transmitidos pela palavra – de forma oral – o griot tinha posição de destaque. Autores Africanos. o papel dos africanos era bem marcado: em frente à câm era. p. Col. sendo por vezes excelente poeta In: NIANE. produziu-se um número significativo de filmes . da biologia e da medicina.Page 81----------------------que uch Sembene Ousmane acusou o de filmar os africanos respeitado cineasta francês Jean Ro ―como se fossem insetos (OUSMANE. 80 ----------------------. Claro está que Sembene Ousmane compareceu a este debate. a câmera.entomologia.2 observa-se uma nova tendência. um cinema tendo em contribuído cujas reflexões vista as estivessem associadas especificidades de nações que. ao longo do processo de independência das colônias africanas. Trad. aquele que dominava a palavra. o arauto. a exemplo do microscópio. muitos (2001. como observou o historiador Boubacar Barry. ―f oram postas entre parênteses por um século de domínio colonial disso.17).

comerciante. sempre t endo em vista os problemas enfrentados pelas sociedades africanas (2001. Entretanto. 1 972. na tessitura deste trabalho. “Ao longo da minha vida exerci vários tipos de trabalho: pesc ador.405). no Sene gal. cada um a seu modo. mecânico. por cabe algumas deixar de claro que suas Sem as diferentes crises e desafio pioneiros neste processo. optou-se pela forma qu e o autor assinava seus artigos e obras.202).sado por uma revisão. p. Co salientar. Emitaï (1971) e Camp de Thiaroye (1987).(1966). de fato Sembene teve importância ca pital em tais discussões. ao longo da sua vida do cinema e da literatura produziu 12 filmes e uma vasta literatura sobre os mais diversos temas. 3 Em alguns artigos observa que o nome de Sembene Ousmane é escrito de forma invertida e com acento (Ousmane Sembène). p. artistas e diferentes sujeitos históricos lutaram. Trabalhei como estivador durante dez anos no porto de Marselha”(OUSMANE. p. por suas liberdades e em defesa de suas crenças. Considerado uma das personalidades mais notáveis africana.. Sembene 3 (1923-2007) nasceu em Zinguenchor. não podemos perder de vista que tal emancipação é fruto de um longo processo iniciado décad as anteriores em que intelectuais.. tendo em seus horizontes s enfrentados pelas sociedades africanas contemporâneas (2000. Talvez isto explique o fato de que muitos dos personagens criados por Se mbene sejam frutos 2 Apesar de levarmos em conta a importância dos movimentos de independências das co lônias africanas.La Noire de. Para compreendermos a maturidade de sua literatura e o engajamen to político de seus filmes temos que levar em conta mo ele próprio fez questão de sua rica experiência de vida.4). A julgar . Ceddo produções (1977). Casamance. bene Ousmane Levando isto foi um dos em consideração. 81 .

a este respeito. O fato de Glauber ser o autor de versos de Deus e o Diabo. Sua longa retratada. gro). Oh pays. engajado e menos combate por um cinema contemporizador. bene Ousmane Devemos também levar em tem uma conta que. Is romance Riverão Sussuarana (1977) e sua colaboração ainda jovem em jornais e revistas da Bahia e do Rio de Janeiro. mon beau peuple (1957). como Diário de Notícias e o Suplemento Dominical. sem contar a escrita do corroboram em muito está idéia. O romance é também uma reconstrução ficcional das relações raciais entre os franceses e os e xilados africanos das colônias francesas demais óbvio dizer que a pertencentes à diáspora negra. rto de Marselha seria posteriormente. experiência de trabalho estivador no ne po no romance Le docker Escrito em tom de noir (O denúncia. Depois de ter produzido um número considerável de obras – Le docker no ir (1956).----------------------. de 1956. do Jornal do Br asil. Isto fica mais evidente se relacionarmos sua literatura com suas i magens. visto que o cineasta baiano também p ossuia esta inclinação e afinidade literária. Sem trajetória bem parecida com a de Glauber Rocha. Les bouts de bois de Dieu (1960) e. Daí não ser nenhum exagero falar de uma poética glauberiana. Deus e o Diabo ou O Leão de Sete Cabeças. ocasião em que Glauber empenhou-se num mais crítico. Dragão da to Maldade e Terra em Transe. daí sim poderemos compreender mais claramente a alegoria de alguns dos seus filmes.Page 82----------------------deste rico empirismo. Voltaique (1962) – . tais como O Dragão da Maldade. possuido ra de uma estética própria. esta obra retrata as precárias condições de trabalhos dos estivadores africano s neste porto. É por orientação do romance é autobiográfica e o próprio tom político em que é embalada a narrativa já aponta alguns caminhos das posteriores produções sembenianas. dentre outras .

1979. 2006. 1  Primeiro Fest ival de Artes Negras (Dacar. A este respeito é interessante recuperar parte das questões aventa das no Colloque sur 5 litterature et esthétique negro-africaines .Sembene percebeu que sua literatura não tinha o alcance que ele esperava. Sônia Queiroz. em função d o alto grau de 4 analfabetismo do seu público alvo. BH: FALE/UFMG. IRELE. A tradição oral. Fernan da Mourão. ou seja. Trad: Ana Elisa Ribeiro.33 5 Colloque sur litterature et esthetique negro-africaines. Como ele próp rio declarou. como nos próprios anteriores de debates possibilitaram e escritores intelectuais 4 Vale ressaltar que os romances de Sembene foram escritos em francês. cujos ricos o amadurecimento de questões trazidas por geração africanos. Dakar: Les nouvelles Editions Africaines. o Colloque teve em seu relação às manifestações culturais e artísticas africanas. preocupação em em 1979. 1966). p. “Quando me dei conta que em razão do alto grau de analfabetismo que assolava meu país eu não po deria jamais atingir por meio de minha literatura as massas. que por um longo tempo foi subjug . de imediato. 82 ----------------------. eu decidi fazer cinema” (Ibidem). In: QUEIROZ. e como obse rvou Abiola Irele ―A elite na África pode ser definida. 358pp.Page 83----------------------colóquios anteriores: 1  Encontro de Escritores Negros (Paris. horizonte a Realizado em Dakar. dentre outros. o que a diferencia do resto. 1956). Sônia (org). A literatura africana e a questão da língua. como aquela parte da sociedade que domina amplamente a língua européia. Daí ser evidente que Sembene buscou contemplar tanto na sua literatura quanto nos seus filmes os problemas que estavam colocados ao seu povo – heranças herdadas de séculos de colonial ismos. os africanos e as massas . Abiola.

de povos africanos [. bservação de Mohamed Boughali Babacar Sine. . Funcionalidade da palavra e funcionalidade social na literatura negro-af ricana.. segundo eles: respeito. de instituições. tradições. de diversos ar visão de mund costumes cabouços da vida cultural o específica.ada pelos europeus. Moralidade e estética no ritual arquetípico. eis alguns núcleos temáticos que foram suscitados neste e vento: Estética negro-africana.208) Tal observação ilustra africana em muito bem a preocupação desta levan int electualidade (re)pensar o seu passado e suas do em conta seus costumes e práticas epistemológicas. Não resta dúvida de que isto já possibilita um redimensionamento das suas históri as e da sua filosofia. p...] uma supostamente comum a todos africanos (Ibidem. Sobre cinema negro-africano: a problemática cultural de La noire de. Arte funcionalista: estética negra e dialética do juízo estético. ímpeto que perpassa a visão cristã-ocidental e eurocêntrica em relação ao con tinente africano. o próprio A e este Sembene Ousmane fez parte.. m Os compreendamos debates acalentados melhor as por este colóquio e nos artistas salutar permite deste a o questões período que estavam postas para intelectuais que. A título de análise. de provérbios. A estética negro-africana e as demais artes. é Um desenvolvimento próprio do pensamento africano destes últimos anos parece residir no esforço teórico essencial que tende a ren ovar os postulados da questão a ambição interpretação de fundar de uma filosófica africana: a etno-filosofia teria filosofia africana a partir da reconstituição 'graças à e de tradições. inclusive. A participação e a contribuição do negro africano na arte e na literatura antiga .

enquadramentos e dialogou especialmente com a filmografia de Glauber Rocha. filosofia. Claro está que tal memória vai de encontro ao passado ano: oralidade.4). nos anos 1960 . língua. nas suas dando grande produções a e partir aos Sembene da recusa recorre de à me padrões afric importância à natureza pan-africana. dentre outros préstimos. atuando no mundo da imagem. O filme Ceddo (1977) demonstra de forma cabal a importância que Se . O próprio cineasta foi um crítico da Nouvelle Vague. mória Por popular. Como observou Maria Antonieta Antonac ci. (…) Dessa forma.bem Disse-se marcante nas outrora que produções a oralidade é um traço cinematográficas de Sembene Ousmane. que também produzia cin ema baseado em tradições orais e em matrizes afro-brasileiras mbene concede à (Ibidem. (…) O cinema africano é uma escuta de si própri o. tendo em vista o questionamento dos valores trazidos pelos c olonizadores europeus: instituições. possui uma herança muito antiga. Segundo Antonacci ―Em estética [Sembène] seu movimento de imagens. é igualmente esclarecedora a declaração que Sembene deu ao Correio da Unesco: 83 ----------------------. na tradição africana o cinema é uma realidade de envolver todo o homem.Page 84----------------------Um cineasta africano. ou seja. p. performance do valores secular corpo. músicas. isso. A este respe ito. Há muita coisa que corremos o risco de perder: com o cinema podemos salvaguardá-las. colocou em cena desde preâmbulos regimes dos de oralidade na África processos de independência das nações africanas. ―[Sembene Ousmane] do Oeste. produzindo para o cinema. europeus.5). optando por se aproximar de cinematografias alternativas. como o Cinema Novo. danças. e as pessoas podem vê-las (1990. p. mas sempre viva: a oralidade.

alguns e é liberação. No Ceddo.oralidade. Com grande ênfase à oralidade e suas respectivas performa nces. i ntolerantes no que diz respeito às enredo. de Dijibril Tamsir Niane. filha do rei Demba War. daí a importânc ia dada à oralidade. de acordo com a nova lei islâmica. em protesto à conversão forçada ao islã. No transcorrer do sequestram a princesa Dior Yacine. Daí ser pertinente para estes agentes a recuperação de suas 6 Para uma aproximação com a necessidade apel do Griot nas culturas orais de estudo em relação ao p africanas. Ela é apresentada como uma figura de resistência presença avassaladora. Madior.Page 85----------------------- . o filho do rei. Percebe-se que toda a história do Ceddo gira em torno da princesa Dior. críticos Reivindicando uma autenticidade e artistas africanos têm cultural. ocasião em que o destino da princesa Dior e da própria comunidade são discutidos. as versões oficiais acerca do passado africano são contestadas. Os muçulmanos são apresentados como conspiradores e fanáticos religiosos. é o novo herdeiro do trono. o noivo da princesa. Ambientado no Senegal do século uestionando o mito XVII. A própria opção língua vernacular wolof de Sembène de escrever os diálogos na corrobora em muito está idéia. três homens comandam o debate: Saxewar. os ceddos demais práticas culturais e religiosas. 84 ----------------------. Todo conclave é veiculado pela palavra. é esclarecedora a obra Sundjata ou A Epopéia Mandinga. o filme islâmico reconstrói a história do país q dominante. sua compartilhado a idéia de que a sociedade africana deve buscar uma criação visual e d inâmica em consonância com seu tempo e espaço. Apesar extremamente de sua limitada aparição no filme. O griot6 convoca todos para uma reunião. que. filho da irmã de D emba War e Biram.

A trazidas por Sembene este respeito é Ousmane ao longo esclarecedora a seguinte afirmação do escrito senegalês: projetam histórias de uma Sobre as telas da África negra só se estupidez medíocre.É claro . Claro está que esta tendência faz parte de u mais ampla. p. estranhas à nossa vida. ritos ma esfera e tradições. para rever. e Está identidade da uito dos seus filmes. É importante para nós te rmos um cinema com o qual nos identifiquemos. tendo em vista a identificação do seu profundo significado. apreender e se compreender por meio das telas (1964). nas películas Emitaï e Camp de Thiaroye os valores culturais locai s são reforçados. celebrações. A própria iálogos intenção do realizador em wolof reforça qual nos fala Sembene de produzir uma é perseguida (Ceddo) em m com d película isto. tendo em a. Claro vista as esta que revisões o fato e as de reinterpretações da história da Áfric Sembene Ousmane recorrer à memória popular para recompor os eventos históricos vai de encontro à sábia observação de Amadou Hampâté Bâ: O fato é que não há sistema de escrita que destitua a África de um passado ou de que este conhecimento um corpo de herdado que é conhecimento. pitais e escolas.cosmogonias. mas igualmente como um fato social significativo e enraizado na vida do seu grupo (1977. bem como assinalou Mohamed Aziza: A análise do processo de recuperação e reformulação do pa trimônio cultural por parte de um conjunto de artistas africanos e árab es deve levar em consideração as questões de ordem sociológica. Igualmente. que ten quadros das estruturas e dos movimentos sociais.. Para nós africanos a questão cinematográfica é tão importante quanto a construção de hos a alimentação de nossa população..8) dem a se situarem nos A meu ver. não somente c omo um fenômeno característico da sociedade humana. a clarividente afirmação de Aziza vem muito a calhar par a compreendermos as contribuições deste processo.

p. mal partilhada e traída o plasmar (DIAGNE. ao Neo-realism o italiano 85 ----------------------.Page 86----------------------ou às narrativas convencionais do cinema hollywoodiano.O corpo de conhecimento africano é. Deus e o Diabo.13).ouvido da geração africano seguinte é onhecimento transmitido da boca de uma geração ao pode tanto crescer como diminuir. uma vez q ue o cineasta baiano também buscou com primazia particularidades do Nordeste brasileiro. Terra em Transe. na sua obra há uma pred ominância dos aspectos locais. A Idade Sept Cabeças tal ancestralidade africana é reforçada. um conhecimento vivo e ―abrange nte . Dragão da da Terra recorrência Nos e filmes Der oralidade. estando presente em todos os aspectos da vida.. isso sem ectos afro-brasileiros: contemplar em suas obras aos as asp contar a constante religiosidade. Eis outro aspecto que o aproxima de Glauber Rocha. consequentemente.22) Um traço comum tanto nas produções de Sembene Ousmane e de Glauber Ro cha tem sido a resistência ao racionalismo europeu.O corpo de c vasto e diverso. não se pode negar que o cineasta senegalês a sua estética fez algumas opções. 2004. porém. tendo em vista dos problemas enfrentados pelo as reflexões políticas acerca Senegal de sua época. é por este motivo que os anciões são vistos como os seus últimos detentores . Tanto em Glauber quanto em Sembene observa-se a tensão entre a o ralidade e a . mas sim generalista . O ―conhecimento especializado nunca é especialista.. p. cujas estantes estão articu ladas umas às outras por meio de conexões invisíveis que são a essência da ―ciência do invisí el (1972. Barraven Leone Has Maldade. Poderia ele ancorar-se à Nouvelle Vague.. e teatralidade. podendo ser comparados a uma vasta biblioteca. Se por um lado alguns autores têm afirma do que a obra de Sembene ―é a expressão do drama existencial do negro que vive numa áfric a cobiçada. musicalidade to..

p. própria literatura do escritor senegalês é construída como se fosse uma cena. muito em voga nas décadas de 1950 e 1960. e muitos dos livros de Com efeito. pois na concepção fanoniana a própria luta é um busca por soberania e por fenômeno cultural. A própria narrativa de grande parte do cinema af ricano é feita em bloco. o local e o universal. notadamente. na obra Xala. tendo em vista a A autonomia plena. Isto também é um traço que nas. De fato. os valores do b ranco e do africano. A cultura nacional é o conjunto de esforços feitos pelo povo no plano do pensamento para descrever. A cultura nacional nos países subdesen volvidos deve. justificar e evocar a ação por meio da qual o povo se constitui e se sustenta. então. Sembene o observar levou algu posteriormente foram adaptados para ns teóricos a afirmarem que a cinema. situar-se no centro da luta de libertação que é travada nestes país es (Ibidem. muito menos um populismo A afirmação de Fanon é bastante oportuna para o presente estudo. Logo em seguida ele complementa. ou ainda esta massa sedimentada de gestos puros que pouco tem a ver co m a presente realidade do povo. i sto é visível em alguns do romances do escritor. destes espaços Cabe frisar que a proximidade nos permite está dos traços culturais abertura a este diálogo de imagens. o cânone letrado e a alegoria. rompendo com a estética trizes hollywoodianas. ―Se a cultura é a manifestação da cons ciência . a própria idéia é observável de dos em é cinemas convencionais das de obras ma glauberia qu grande parte interessante o que alegoria confirma isto.7 olonização Tendo em e à própria vista o questão amplo do processo de desc nacionalismo.norma culta. abstrato que acreditou ter descoberto a verdade pop ular. é esclarecedora a observação de Frantz Fanon: cultura nacional não é um folclore. a fome e a liberdade.92).

A. transbordado de sentimentos conflitantes. a África.. Como o próprio Glauber elucidou..21). cujos aspectos cu lturais são tão próximos à nossa nação tupiniquim. a consciência nacional é a forma mais el aborada da cultura (p. cultura e psico lógica da qual nos fala Ismail Xavier.] Explico isto para deixar bem claro o motivo que me levou do Brasil até a próxima África. (ROCHA.93). longínqua apenas em nossa imaginação desinformada . personagem abastado que faz parte dos ―novos ricos da sociedade senegalesa. Cabe frisar ue o próprio Glauber foi um autores notável receptor das idéias fanonianas. acentuando a demarcação de lugares e o conflito estrutural que deriva da b arreira econômica-social. Segundo Ismail Xavier: É notável. cultural e psicológica que separa o universo da fome do mundo desenvolvido. Sembene expõe ociedade senegalesa dividida moderno e o arcaico e marcada pelo Hadji acaba sofrendo o Xala – quebra da potência se de forma crítica o retrato entre o entrechocar de culturas (N. El xual – e a partir deste acontecimento.Page 87----------------------nacional. S/D. notadamente. -se aos Claro projetos está que as políticos de idéias que aventadas alguns por Fanon observaram coadunam q de uma s Glauber e Sembene. o sentimento da geopolít é um dos vetores) como um eixo de um confronto no qual o op rimido só se torna visível (e eventual sujeito no processo) pela violência. social. em Glauber. p. Apoiado em Frantz Fanon ele explicita tal sentimento em ―Por uma estética da fome .7 Xala (1973) narra a história de EL Hadji Abdou Kader Bèye. 86 ----------------------.). (2004. ―O público do terceir mundo continua recebendo uma cinema euro-americano e massa enorme de informações sobre o pouco sabe do seu próprio cinema [. ica (de que o cinema É justamente em função desta barreira econômica. buscou estreitar as relações com os demais países subdesenvolvidos. não restam dúvidas de que neste caso. que Glauber. .

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Participou da fundação da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Abstract The main purpose of this article is to analyze the thematic identity and culture of African basis through the work OMEROS by the afro Caribbean writer and Literature Nobel Prize winner (1992).br 9 Lílian Cavalcanti Fernandes Vieira é formada em Letras pela UFAM (Universidade Fe deral do Amazonas).com. sua infância no tradicional bairro do em São Paulo. education. identidade. e passou Ipiranga. literatura pós-colonial. especialista em Tradução: Teoria e Técnica em Linguística Aplicada pela UECE (Universidade Estadual do Ceará). Fez doutorado em Engenharia na França e livre-docênci a na USP. Derek Walcott. the affirmation of the process of black consciousness and the recovery of the enslaved one as the subject of a social hi story through the post-colonial literature. Dirigiu grupos de teatro amador no movimento negro na década de 1970 e foi membro do Grupo Congada de São Carlos. His work allows the focus to issues like the discussion of concep ts such as identity and culture as political acts and artifacts of a good education.contribuir tanto para a formação de educadores como abrir caminhos para as áreas de fi losofia da educação brasileira pelo aprofundamento na cultura de base africana na diáspora. servi ndo de aporte às diversidades culturais. E-mail: hcunha@ufc. Educação Popular e Escola. formou-se em Engenharia Elétrica pela USP (São Carlos) e em Sociologia pela Unesp (A raraquara). post-colonial literature. É professor titular na Universidade Federal do Ceará onde atua no programa de pós-graduação da Faculdade de Edu cação na linha de pesquisa Movimentos Sociais. Key words: culture. É professora da C desde 1993. educação. É doutoranda do Programa de Pós-Graduação em onde faz parte da linha de pesquisa Movimentos Sociais. Foi aluno do grupo escolar Marechal Floriano e do Colégio Estadual Brasilio Machado. É mestre em História. . tendo sido seu primeiro presidente. identity. 8 Henrique Cunha Junior nasceu no Bexiga. Educação Popular e Escola Henrique Cunha também pela UFAM e mestre Casa de Cultura Britânica da UF Educação Brasileira da UFC sob a orientação do Professor Dr. The knowledge and study of this literature can contrib ute a great deal to the intellectual formation of educators as well as it may open paths to areas of phi losophy of Brazilian education through the deepening in the culture of African basis during the Diaspora serving as a contribution to cultural diversity. Palavras-chave: cultura. Depois.

O tempo trabalhou nossa alma coletiva por via de três m ateriais: o passado. E-mail: lilianviei ra@bol. Nome é África . De maneira por mais nós afros. judaico-cristã. islâmicos.com. de que poucas vezes se faz alusão . em foi mal mitos e embalado preconceitos.Jr. do de roupa interesses iquenho. escritor moçamb por vestido de carregado O passa próprios fantas falar aqui d coletivas e individuais não é um problema superado e muito menos uma questão social se cundária submersa nas te porque relações do capitalismo este capitalismo dominante. o presente e o futuro. asiáticos. mas de nós e todos pertencentes a uma sociedade à procura dos seus pontos . capitalista. e tem desenvolvido um interesse especial pelo estudo das l iteraturas pós-coloniais e a questão da identidade e cultura nas obras dos autores do pós-colonialismo.br 90 ----------------------. indíge expressiva. Refiro-me à nossa conversa com nossos mas. presente vem emprestada. Nenhum desses ma teriais parece estar feito para uso imediato. E o e O chega-nos deformado.. Quem somos nós ou o que nos é caro? Quero e um diálogo muito particular. que ―O nos Meu futuro foi encomendado são alheios. Principalmen dominante se constitui de relações não necessariamente econômicas e que constituem o pro cesso de manipulação ocidental.Page 91----------------------DEREK WALCOTT E OMEROS: uma discussão sobre a problemática das identidades afrocaribenhas 1. os problemas da existência não devem ser tomados da perspectiva da dicot omia de nós e os outros. fortemente excludente das manifest ações sociais dos nas mundos habitados etc. 2004) o tema das Para as populações identidades sociais afrodescendentes no mundo (Mia Couto.

Muito um problema da longe de ser sociedades ocidentais. temos tempo-espaço. mental. o problem pergunta Quênia proble e ma como (1938).Page 92----------------------mundos de pseudo-convivência. africanas dos anos de 1960 a 1970. puxando carroça préque contrapõem o catador de recicláveis. histórica ao lado do veículo de uma centena de cavalos de força. Os teóricos da pós-modernidade fixam parâmetros sobre a superação da moder nidade que estão presentes em limitados setores do mundo europeu e norte-americanos e nas percepções das classes médias latino-americanas insensíveis aos mundos que as circundam. Não seriam as teorias da inexistência das identidades e apenas das identific ações mais uma expressão das problemáticas e re-configuradas pelos dos mundos eurocêntricos transportadas . Se recuarmos um pouco as guerras das independências guerras no do Irã. pensada riundas como foco dos paradigmas das sociedades africanas e (CUNHA JR. por KENYATTA das filosofias Retomando Kenia.. das onde a lutas no o Bantu o afrodescendentes a apresentado 2010). Afeganistão. Vietnã e do Camboja. Sérvia e Haiti. no seu famoso livro Facing Mount funcional é quem somos nós quenianos. as guerras da Coréia. As per cepções da pós-modernidade cronicidades podem que vivem estar em na ausência da percepção das assin 91 ----------------------. tendo como fundo o colonialismo inglês e a organização contra o imperialismo mental das ma das identidade coletivas e individuais é terial. perfeitamente climati zado e como contato do intelectual pós-modernizado das nossas universidades.de equilíbrio. sobrevivência das mais intelectual como as superado está emergindo no cotidiano Iraque. apenas como exemp lo da nossa reflexão.

focalizando esse autor e o livro OMEROS. do debate sobre a latinidade das Américas. O presente texto pretende iniciar um debate sobre o conjunto de características iden titárias e propõe ser uma sucessão de artigos dentro desta temática. Dentre os questionamentos lançados um nos inquieta sobremaneira: po r que a obras de autores como Derek Walcott não são divulgadas ao público leitor brasileiro? Por que el e e outros . Trata-se de uma expressiva voz caribenha visto que foi prêmio Nobel de literatura em 1992. as climatitudes da sociedade brasileira. expressões problematizadas sociedade brasileira pelos s debatedores. em. das ideologias das mestiçagens. pois descen de de ingleses e negros. OMEROS é a obra literária cuja compl exidade invade tionam uma infinidade de o pertencimento relações Faz na e correlações com que expressam as diversas negros. pelo e ques afrodiaspórico caribenho. cultura e identidades falando da sua experiência focalizada na realidade histórica da ilha de Santa Lúcia no Caribe. negra por pelos britânicos também com a incompreensão da comunidade sobre a questão racial. no faz com que o poeta em entanto. ser negro: nunca pode ser integralmente em que sofre dois estigmas e americanos. construtores coro e sentido movimentos e sociais desconstrutores da identidade nacional. se identificar Sofre aceito questão seja parte pelo ao mesmo suas posturas de fato ambas s de tempo moderadas totalmente com nenhuma. O fato de ter nascido entre duas etnias e duas culturas. scendente Derek Walcott é preocupado com a um dos intelectuais do mas sobrevivendo expressão angustiant e pensando mundo afrode expressão e a problemática da história. Tratase de um convite ao aspecto do debate sobre as identidades.intelectuais periféricos ao sistema da produção eurocêntrica? Numa e em ser quase europeu em pensamento.

o Luz (2000). a capi tal de Santa Lúcia. dentre 92 ----------------------. Assim sendo. e muito menos a uma das áreas como as das relações econômicas nem dos grupos sociais. economia um sobre o outro. Entretanto. uma e. mostra um universo de restrição a autores prop onentes de uma afrodescendência ativa.como. Derek Alton Walcott caribenho de etni nasceu a 23 de janeiro de 1930 em Castries. apesar dos Exus anunciarem as problemáticas das di aléticas em sete caminhos. A nossa perspectiva teórica é guiada por focalizações das filosofias afri canas em obras como a Verdade Seduzida de Muniz Sodré (1983). política. não podemos limitar o estudo das sociedades a apenas um enfoq ue disciplinar. seremos mposto pela mais restritos. 2. Chinua Achebe.Page 93----------------------outros. No entanto. privilegiarmos e sem termos e Agadá de Marco Auréli cultura. racional no entanto. inquietação da pesquisa não universitária e d ao será problematizada respondida tão de imediato. Oriundo de uma pequena família de ilha situada no Mar do Carib . sem dicotomizarmos m conta o visível invisível. O autor e sua obra o emocional do indivisível do Escritor a crioula. Wole Soyinka e Gloria Muapa ficam totalmente esquecidos dos meios de divulgação da o interesses dos intelectuais brasileiro? Certamente esta longo deste texto e nem cultura. Sem. Tony Morrison. co mo no enfoque de classes. problematizadora dos mundos e que não faz compasso com o s projetos eurocêntricos de expressão no país. daremos apenas a dimensão de um quadrilátero co e relações sociais.

chineses. mas. indianos.Poems ura fundamentar uma cultura 1948-1960. também. A mãe. caract erizados pela .” Em s ua obra. Conseguiu estabelecer-se como poeta em 1964. seu pai era um aquarelista boêmio e ir responsável. uma boa educação Derek Walcott aos seus dois filhos com a gêmeos. depois.escravos. Walcott afirma que os escritores são responsáveis por tocar e emocionar as pessoas. que desenvolveu sua própria cultura e identidade. que acabou por produzir um lugar p lurilíngüe e multicultural. publicação de numa edição limitada financiada por sua mãe. Ele sempre dizia: ―Desde pequeno eu sabia q ue seria um escritor . que acabou por falecer quando Derek ainda era uma criança. apesar de tudo. A pendente em pequena ilha de 1979. suas poesias e peças. É uma paixão por justiça. antes de tudo. Foi neste emergiu como uma reafirmação da cultura e identidade caribenhas. dando. holandeses e franceses num ambiente único. estreou como poeta aos dezoito anos Twenty Five Poems (1948). início a uma carreira no campo do jornalismo. obra em que proc essencialmente caribenha.africanos. foi. Walcott foi professor em várias escolas do Caribe. durante Santa Lúcia. uma mistura dos governos francês e inglês. combinados influência Walcott onde com o Metodismo religiões de e o Catolicismo cenário singular que o coexistiam trabalho de africana. de idade. Essa pai xão e vibração estão presentes em toda a obra do artista. ao publicar In A Green Night . providenciar Roderick. Castaway (1965) e The Gulf (1969) foram. ingleses. diz o poeta: ―Ele é uma amálgama de povos . que se tornou inde séculos. uma professora da escola conseguiu. de espírito lutador. é o desejo de destacar o caribenho como uma cultura e realidade social. De 1953 até 1957. Derek e metodista local. O caribenho não é uma cópia de nada.

Walcott sempre esteve na vanguarda do seu ofício. com a obra com o Prêmio Nobel de Lit particular na confluência en OMEROS. magistralmente. Suas obras são escritas em inglês. Ele escreveu poesia e trinta peças. que explora. 3. alguns críticos apontam para os versos .A stage version (1993). em O autor foi agraciado 1992. definindo este último como ―um eco na garganta . a é OMEROS.Page 94----------------------tentativa de encontrar uma identidade tre os testemunhos genéticos europeus. ele introdu z elementos da língua popular em crioulo. ele dedicou dois trabalhos e THE ODYSSEY. abrindo caminhos para a expressão e mais de quinze livros de afirmação dos caribenhos. uma importantíssimos a esses temas: OMEROS (1990) O trabalho que será analisado nesta proposta de pesquis obra dividida em cento e noventa e dois cânticos escritos com uma grande riqueza d e metáforas cuja narrativa poética é estruturada em um tipo de Terza Rima. 1979)10 e interesse Desde muito tanto pelo cedo. Um mestre da linguagem. nigger and English in me. e. eratura. Por isso. africanos e asiáticos. A poesia e o drama de Walcott definem o auto r como um poeta transcultural. OMEROS: a busca de uma identidade I have Du tch.93 ----------------------. iências do povo caribenho e Seu trabalho é marcado pelas exper reflete sua identidade e sua herança. and eithe r I am nobody or I am a nation (The Schooner Flight. mar Derek Walcott demonstrou um grand os a quanto pelo mundo homérico. tanto os temas clássicos como fro-caribenhos e se constituem a voz do Caribe. freqüentemente.

A publicação de OMEROS. Entretanto. sua obra as palavras e nem épico devido à do poeta não diminuem a im invalidam o seu caráter fala nos remete à grandiosidade do tema. descrições e impressões detalhando minuciosamente o mundo caribenho. natureza. um negro e um inglês dentro de mim. animais. 94 ----------------------. O poema consiste de sessenta e quatro capítulos divididos em sete l ivros. garante a qualidade longa e duradoura do trabalho de Walcott . e. (―A poem in homage to an unwanted man The New York Times. 1990) e grandes guerreiros. águas e florestas. em 1990. sua terminologia bakhtiniana do epos-romance. o u sou uma nação. 1979) Tradução minha. chegam a ser abandon adas pelo poeta.brancos os que rítmicos. seu povo. lembram a Os versos Divina muita são hexâmetros controvérsia a e as estrofes são respeito do padrão tercet métric Comédia. não atribuir ao poema o caráter épico: 10 ―Eu tenho um holandês. ou eu sou ninguém. No entanto.. portância de Certamente. em alguns pontos. onde o lingüista russo M ikhail Bakhtin (num texto concebido para uma palestra em 1914)11 apresenta as três características de uma epo péia.. (A fuga da escuna. épicas com uma grande variedade monólogos.Page 95----------------------não penso nela (a obra) como épica. em uma entrevista concedida. Onde estão as batalhas? Há algumas. Mas o termo épico faz com que as pessoas pensem em grandes guerras Esse não é o Homeros em que estava pensando. Na verdade. certamente não n o sentido de uma estrutura épica. É um único poema de com escopo e proporções histórias. Há muita liberdade com o ritmo e com as rimas que. episódios. sua vida cotidiana. O autor faz uma reflexão sobre a epopéia que se caracteriza por três traços constitutivos: em pr imeiro lugar . conversas.. há o do poema. o própri o autor diz. suponho.

Vejamos dois exemplos mencionados pelo autor: a) ―Quem vai nos ensinar uma história da qual também somos capazes? / A Torre Sangrenta. ele nem sempre se orgul ha. Mas os nomes dos construt ores não estão lá. narrador. isto é. é. Assim. o passado glorioso. 315)12 em clara referência à colonização britânica e francesa da ilha da Santa Lúcia.. de ser oriundo desse passado. 197) b) ―. Na visão de Walcott. Quanto ao terceiro ponto.aponta para o passado nacional épico. pois o passado além de não ser o objeto central. o quinto que Como como exemplo. mencionado ironicamente. podemos inserindo o livro mencionar narram as andanças de Walcott pelo mundo. o céu azul é uma túnica militar francesa. o mundo dos primeiros e dos melhores. pela da epopéia é distância o épica absoluta. o mundo épico é isolado da contemporaneida de. a lenda nacional é que deve estar presente numa e popéia e não a experiência pessoal imaginada e recriada. a contemporaneidade é visível. A epopéia jamais foi um p oema sobre o presente. ao contrário. Em OMEROS. (OMEROS LXII/III p. nem sempre é bom ou. sim. desde o seu início. Em segundo lugar. nossa prole é um flagelo público? I/III (OMEROS.. Quando. suas vivências na Europa e nos EUA. com muitas alusões ao imperialismo/colonialismo como sendo a principal causa da fa lta de raízes das raças oprimidas. vista de um ônibus ver melho de dois andares. foi um poema sobre o passa do. o mundo dos pais e ancestrais. onde os escravos construíram o quebra-mar. é o mundo das origens e dos fastígios da história nacional. sobre o seu tempo e. respectivamente. em OMEROS percebemos que o próprio escritor se coloca tanto como personagem muitas passagens de sua vida e experiências quarto e autobiográficas. como pardais. XXXVII p. do tempo do o mundo escritor. passado heróico nacional. muitas vezes. Essa ideia não é encontrada na obra de Walcott. e se apresenta tanto nos en contros entre . Segundo BAKHTIN.

BERNADINI. a consciênci a crítica da realidade que desconstrói estereótipos. como nos 11 BAKHTIN. Desse modo. Trad. num romanceamento ép narrador. Nesse sentido. Assim. Assim. como a fala daqueles que não têm voz: os (re)contagem da história num espaço transcultural oprimidos. 68). Mikhail. de seu imaginário que corresponde ideologia. uma ico do mistura dos níveis formais e temáticos. a literatura exerce duas funções unir a comunid outra dessa fundadores. ed. o h erói se constitui num homem comum. Epos e romance: sobre a metodologia do estudo do romance. en fatiza os mitos e relembra contos e lendas da tradição oral por meio do epos-romance. et al. aos apelos poema: o próprio Walcott se coloca como sujeito.os nativos da ilha e os turistas que a visitam para desfrutar de seus lugares pa radisíacos. assim. 1998. podemos dizer que a obra de Derek Walcott atua de dois modos. XII/I. p. São Pa ulo: Editora UNESP. surgindo. desmistificação de tal sistema que vinha sendo construído. sendo também o sua obra se ressignifica e se renova criativamente. De acordo com BERND (2001: p. fazendo uma tr ansgressão dos conceitos vigentes por meio dos iados e excluídos. cralizadora. 95 ----------------------. fazendo onde com discursos que foram Walcott silenc faz e dos a escravizados. 12 Tradução nossa. 29). Aurora F. p. ao mesmo tempo em que recorda elementos fundadores. 4. pois. iguala o que os discurso das elites . I n Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. do que ele mesmo chama de ―a maquinaria de fora conhecida como Literatura distintas: uma função ade sacralizadora.Page 96----------------------vários temas e maneiras de lidar com os problemas do cotidiano. em torno de quando atua seus mitos ou à no sentido de e a atendendo (OMEROS. 397-428.

ele sentiu. THIEME (1999: sobre Walcott. A fig principal para a auto-realização e a aceitação da herança híbrida do autor.―outrizados 13 (colonizados voz para expor. Walcott continua a lutar com o seu hibridismo e tenta conviver com as diferentes forças culturais que comandam seus princípios. Em OMEROS. a conexão de . em seu próprio passado. toda sua dor. no âmbito e oprimidos) do possam levantar sua discurso pós-colonial. ura de caracteriza a busca de Walcott Achille representa o meio pela identidade. em entre seu a a herança crítico e a tradições do Novo. antagonismos 25). Achille. o inglês padrão e trabalho língua Europa o e África. Muito cedo. Ach ille chega à conclusão criação de que precisa reconhecer e legitimizar certos a influência da África aos em sua 13 Termo utilizado por processos pejorativos e Gayatri Spivak (1985). hierárquicos da referindo-se representação do ‗outro‘ subalterno pelo colonizador. O crítico fala de ―um senso d e perfeição perdida. cultural do Velho intensamente. Na viagem. os Mundo e as p. 96 ----------------------. descreve o conflito entre as posições da francesa. inglesa crioulo e a religião metodista e a católica. Termo usado como tradução para a palavra em inglês ―othering . suas origens Achille encontra seu homônimo.Page 97----------------------aspectos de sua herança. inocência partida e fragmentação mental . Um tema central que permeia toda a obra de Walcott é a busca pela identidade. que ele considera ser um resultado da divisão ra cial da sociedade caribenha. O personagem principal d e OMEROS. A viagem simbólic de Achille. luta e reconstrução do ser em um momento em que a s periferias estariam resgatando sua história para mostrá-la à humanidade. excluindo esse outro dos limites de uma humanidade européia. representa a contemplação de sua origem africana.

Em sua fala. Quando me que são um dos misturas de cultur e de compl entender. (Book Three/ChapterXXV/ III. falamos com algum receio. árvores. Achille aponta uma grave conseqüência da integração cultural: ―Tudo foi esquecido. consistentemente. nós ansiamos por um som ausente . Mas não existe pureza quando se fala da m s. têm preocupado o autor: a bele za de sua terra natal. Walcott o faz sob a óti ca do mundo pós-colonial. tradução nossa) não é O inusitado nessa habitada por monstros. que Pois não não há há economia cultura atual que humana não se alicerce em troca espécie humana. numa fusão possível articulação com a cultura contemporânea. Longas e irreversíveis as moldaram um mosaico de diferenças mais ncionamos valiosos essas patrimônios mestiçagens. por pescadores caribenhos cujos nomes gregos registram suas identidades híbridas. simplesmente. porque nela residem os temas que.com a África e discute sobre seu hibridismo. 4. demonstrando uma entre os seres humanos. Ao recriar o poema épico. p. a fragmentação da identidade caribenha e o pap el do poeta em enfocar essas preocupações. mas. como se o produto híbrido fosse qualquer coisa menos pura. Nosso co . O mar surdo mudou em volta de cada nome q ue vocês nos deram. Embora OMEROS não seja um poema épico no sentido tradicional. o fardo de um legado colonial. homens. fácil de ntinente exas é feito de profunda diversidade mestiçagens. Dize do nosso continente. Qual a importância das problemáticas representadas em OMEROS? A África não pode ser reduzida a uma entidade simples. 137. seu sucesso reafirma a substância de toda a obra de Walcott. apesar de todas as diferenças e conflitos. recontagem da Odisséia é que ela deuses ou guerreiros heróicos.

mas com ênfase na história.465/08 que mantém o mesmo teor. possíveis influências na produção de identi educação nacional.que fundas trocas em ―O de Meu alma. cujo trabalho adequados. 2004.639/0314 para a afirmação do processo de consciência negra . no também da cultura e história indígena no currículo escolar. 10. a 11. analisando o entre-lugar do discurso dade e do poeta e suas cultura no Brasil. ainda não encontra acreditamos estar no e Prêmio um Nobel de Literat Brasil estudo e divulgação cooperando com a lei no. do autor afro-caribenho Derek Wal .) Com o intuito de investigar e analisar as identidades e culturas de matriz africana por meio da obra do autor afro-caribenho ura (1992) Derek Walcott. literatura portuguesa 10 de março de 2008 essa lei foi ampliada por outra. ra Nesse sentido. mostrando a infâmia d o escravismo e reforçando as ações afirmativas no contexto brasileiro. África . porém o ensi Partimos do pressuposto da pertinência de se fazer uma reflexão sobre identidade e c ultura como atos políticos ao divulgar e expor a riqueza cultural afro ou afro-descendente sob uma nova ótica.Page 98----------------------da busca de um processo identitário que permeia os escritos do autor. 97 ----------------------. que estabelece as diretrizes e bases da luir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática ―História e rma transversal. elaboramos a seguinte questão: de que forma a obra OMEROS. por meio 14 Altera a LDB. pressupondo pós-colonial caribenha pode que o estudo da literatu abrir novas perspectivas para que o sujeito representado pelo autor recupere sua voz e possa superar o aniquilamento de sua cultura causado pelo colonialismo. de fo e educação artística. recuperando o escravizado como sujeito de uma história social. Nome (Mia Couto é não se fundamente escritor em pro moçambiquenho. Em acrescentando. para inc Cultura Afro-Brasileira .

pois. de identidade. Ao procurar conceituar o que seria literatura negra. 321). pela criação literária. pode ser utilizada para a investigação sobre a pluralidade das identidades e culturas de matriz africana no Br asil? Uma outra questão que surge. um lugar de transgre ssão que se opõe a uma história que antes só trazia a marca do colonizador. O escritor nigeriano Wole Soyinka. por meio da literatura. objeto para uma literatura alheia e passa a criar a sua própria.cott. Não é somente a cor da pele que vai definir o seu negra. Tornou-se. literatura pós-colonial de tornou-se manutenção e de difusão de memória. quando recebeu o Prêmio Nobel d e Literatura em 1986. De acordo com GLISSANT (1996: p. 45-56). Dizem ainda que a existência dessa literatura se realiza quando o negro deixa de ser som ente tema. se apresenta uma contra-fala ao discurso dos colonizador es. também. mais direto. mas sua postura ideológica e a texto como literatura maneira como ele vai vivenciar a condição de ser um negro escritor. denunciou a desigualdade humana e visível no e a discriminação racial ainda profundament dias de hoje e disse que ―ou o escritor se isola completamente da realidade que o cerca. Segundo BHABHA (1999. Para os povos que foram colonizados. os emigrantes nus . ou se dedica a um outro modo. p. o colonizado encena o direito de significar e asse gura o direito à fala.os n egros da África . a lugares de criação. muitos autores levantam o dado étnico. ou que viveram sob o jugo do escravismo. que é a marca mais im portante. assumindo o papel de suj eito. tentamos algumas ideias que nos vêm à mente para responder a essas perguntas. não menos importante que a primeira é: ar a literatura pós-colonial por que estud expor como aporte às diversidades culturais e identitárias? Desse modo. de lutar contra a realidade inaceitável . como o autor um dos da obra OMEROS.

Segundo SODRÉ ( 1983. tiveram de recolher fragmentos. pura. ficando estas no campo de sub-culturas. no nosso inconsciente. e em outros o tecido cultural lugares sua do mundo . sem importância e “está no sangue” ou ―em nossa nat ureza” a falta de educação e a incivilidade. então. nesse repensar. a ideia que fica no imaginário. refazendo a sua identidade de emigrantes nus. não se conservaram puros. como culturas populares ou fo lclóricas. conceituais Observamos que alguns sobre a cultura. acompanhar pegadas na mpor uma cultura de exílio. luta e denúncias conseguiremos superar e ultrapassar o complexo de inferioridade. ainda diante dos nosso s olhos.Page 99----------------------influência aculturativa (isto inante.deportados no que recompor Brasil. em nossas entranhas. como: será que estamos Surgem. É uma luta ideológico-cultural que se trava em todos os níveis. O nosso legado de determinismo social encontra -se. cultura. dessa fragmentação de nos sas ideias e conhecimentos? Como podemos não ser. O que existe é um processo dinâmico de construção.tiveram Embora despojados de co africano a partir de vestígios de de tudo. da autores tratam dos aspectos cultura negra e da sua relação com a cultura ocidental. Nesse sentido. ou ser menos ocidentais. incapazes. resultando daí uma base para d iscussão dos processos identitários brasileiro e da produção de culturas subalternas. Porém. p. Não se pode é. algumas questões condenados aos referenciais simbólicos da cultura ocidental. consolidando a opr essão impingida é a de que somos inferiores. habitando o ocidente . o ocidente construiu o conceito de universalidade da cultura pela exclusão d as culturas negras e indígenas. só com muita dificuldade. pois sofreram a 98 ----------------------. 153). de tentativa reelaborar. branqueadora) do aparelho ideológico dom afirmar a idéia de uma cultura afro única.

para se enrai zarem mais profundamente na a ancestral visão da essência íntima das nossas crianças. históricos criando e sociais do oportunidades Caribe. 85). pois para que os aspectos culturais. diversa. pode contribuir tanto quanto para abrir para a formação intelectual de e caminhos para as áreas de filosofia da educação brasileira pela via do aprofundamento na cultura de 99 ----------------------. (1995 p.639/03. sobremaneira. o prazer e a ética? Infelizmente. reconhecendo a presença ampla. algumas brasileiros e estrangeiros já apontam uma saída para esses questionamentos. nial atende. Assim liberdade e da igualdade estará fazendo história e renovando a educ o trabalho os com a literatura pós-colo oportunidades sejam discutidos ação brasileira. afirmando que as afrodescendências traduzem aspectos sobre a diversidade étnica brasileira. estudiosos no entanto. objetivos da lei no. ainda não temos respos tas concretas para todas essas dúvidas pesquisas feitas por que nos assaltam. para África cria muitas e Brasil incentivar o pensamento crítico sobre nossas diversas realidades. O termo pretende manter as referências históricas e culturais da origem africana e não apenas fzer uma alusão à cor da pele. múltipla edominante afroe estruturada de uma etnia pr descendente. Assim. 10. nos espíritos dos educadores. O conceito de afrodescendência aparece em CUNHA JR. O conhecimento d essa literatura identitária ducadores. Desse modo.do mundo? Se são essas as nossas armas. o autor pontua que: hoje tem outras vozes. Na verdade.. como faremos para valorizar a liberdade.Page 100----------------------base africana na diáspora. o Caribe é um imenso c . se é esse o arsenal cultural que está à nossa disposição. livre dos racialismos. outras pedagogias em ação e a esperança é que elas calem fundo.

aldeirão cultural que o Brasil desconhece. Achille. da descrição da jornada protagonista negro. dentre outras histórias que dialogam com as heranças européias.15 mem impreciso. Achille e Hector disputam ferozmente o amor de Helen. Trata-se. A narrativa é entremeada pelo passado e o presente. as lutas coloniais e o escravismo exercido pelos s ilhas do Caribe. Helen. Esse texto quer mostrar que. Incl ui traços autobigráficos condizentes com grande parte das obras escritas no âmbito da literatu ra pós-colonial. a miséria e o analfabetismo. e apresenta uma literatura ampla e rica que pode ser útil para a discu ssão dos aspectos citados. a mais bela negra da il ha. não estão inseridos. sem ser anacrônico. De acordo com KURLANSKY. Ele começa uma frase e tenta não planejar aonde levá-la. OMEROS é um poema/romance que se passa na ilha de Santa Lúcia e gira em torno s da história das são vidas de simples os pescadores pescadores. Uma britânicos. a natureza e o homem. há mais do que a exuberânci a das roupas coloridas. o poema se revela enquanto caminha . O poeta intelectual. Os protagonista Achille. Segundo ele. entre essas regiões. Walcott constrói pontes entre o Velho e o Novo Mundo. africanas e nativas das Américas. sobretudo (1990) ―Walcott é um ho não é um cientista. Philoctete. é o centro das atenções ilha tão bela e de Achille e Hector e muitas vezes comparada com a própria paradisíaca que um dia foi chamada de ―The Helen of the West Indies . uma nativa de beleza i ncomparável. em ancestral espiritual de seu linhas gerais. Com o intuito de reimaginar as vidas e vozes do povo do Caribe por meio da mitologia e da épica gregas. levando à desconstrução de um imaginário preconcei tuoso onde a produção literária e o pensamento o enfoque dos conceitos de identidade e cultura. do ciúme que nutre por Helen. figura holandeses e franceses na . Hector e Omeros (Seven Seas).

humana. todas elas de especial relevância para o contexto. finalmente. luxúria. apresentadas com Helen. ―Derek Walcott: Homer in the Caribbean une/5/10/1990 100 ----------------------. de Homero e. conhecem os males da humanidade e prevêem o seu destino. 3. alvo da competição entre os homens e as nações. dominação. Por isso. fim. Omeros oeta. história. o a batalhas. se fundem e se alternam e Seven Seas. Raiva. mor. A amor. sofrimento 15 Mark Kurlansky.Page 101----------------------2. tem sua fé renovada quando é guiado pelo cego Omeros (Seven Sea s) e suas visões em Santa Lúcia. o homem e a natureza. do desespero e da desesperança como resultados do pós-colonialismo. e por Dante. retorno às raízes e a redenção. as problemáticas enf ocadas em OMEROS. esperança. língua e ancestralidade. 5. a ficção poética O autor tenta destacar a experiência pós-colonial por e se meio d inspira na natureza. Assim. viagem do poeta cujo identidade e objetivo é a busca da compreensão do ser no meio da injustiça. Há vínculos estabelecidos entre os personagens e situações ocorridas . A obra entremeia o pessoal e o histórico. a vida dos senhores e seus empregados. o bardo e o p representando um só personagem. divisão. empreende a viagem pelo mundo e. a símbolo mulher mais da luta bela e International Herald Trib a própria ilha. podem ser elencadas a s eguir: 1. pelo que é assombrado pelo fant desespero do amor perdido. 4. igualando-se aos griots dos africanos e ao xamãs dos indígenas. opressão. o Influência das obras competição. pela busca de sua ancestralidade.central no poema asma da falta de é o poeta/narrador raízes.

um nome de origem arauaque. espaço da literatura clássica e medieval e a realidade cíclica da natureza. a africanas americanas. dos A redenção nomes e da alcançada depois da viagem e poética. os antagonistas human os e históricos se ca e a reconciliam voz do sob os sinais da poeta. 6. vida nova.no passado colonial. o presente pós-colonial. 9. a linguagem com poéti todos os e 7. personalizado por Helen. sentados como o tempo e o O mundo ocidental. lembrança e a compreensão das relações de continuidade entre os vivos e os mor explora protagonistas. Os sons da natu reza encontram seu eco na linguagem poética que se apresenta como um meio de salvação. scoberta eleza tos. a a b rede língua perdidos. a ilha de Santa Lúcia e o lagarto ancestr al Iounalo que nos aver tempos dos indígenas foi como a ilha era conhecida. O poeta sua natureza. o imperialismo e o mercado econômico são apre fonte do mal que corrompe o paraíso caribenho. as origens a força da natureza. O conceito de ancestralidade está profundamente enraizado na cosmovisão africana. e m muitos aspectos transcende os conflitos dos mundos humanos e históricos. 8. Uma questão central que permeia toda a obra OMEROS é a ancestralidad e. A natureza é vista como uma fonte sagrada de cura. a doença que o poema procura curar. Os conflitos e as diferenças são apagados. pelo fato de lá h muitos desses iguanos. a ilha de Santa Lúcia. a questão da Os interesses própria os identidade individuais se tornam comuns na questão da busca do e todos objetivos são atingidos amor. Esse conceito é tão forte . Esse era o nome original da ilha. o escravismo e a vinda dos escravos da África para a América são vistos como uma das origens da ―ferida .

―um dos aspectos invariantes da religião negr a é o culto aos 101 ----------------------. o que importa é a histór ia de um povo. um básicos que norteiam a um todo integrado e cosmovisão africana. PETIT citando SODRÉ (1988. 90). A diversidade é contemplado possibilita as trocas e as relações de alteridade e respeito pelo outro.Page 102----------------------ancestrais . p.153) diz ura negra e que o termo arkhé é usado para caracterizar a cult outras que como esta se baseiam na vivência e no reconhecimento da ancestralidade. É desse culto que a cosmovisão africana retira quase todos os seus elemen tos. Nesse sentido. aquilo que foi construído ao longo do tempo e não a afirmação egoísta do eu. a relação com o passado tem sua razão de ser porque possibilita a ligação com os ancestrais cuja preservação da memória mantém o dinamismo de suas culturas. O eu não é nada sem a sua tradição porque está vinculado ao seu passado. os ancestrais pertencem ao tempo passado e os atores do tempo atual são s . A dos ancestralidade é. que o conceito de ancestralidade está diretamente ligado ao conceito de identidade .que para que se dades tradicionais podemos constantes consiga chegar africanas não a como um um entendimento dos das socie mais deixar de examiná-lo da cultura africana. um não existe sem o outro. p. universo é concebido como e desejado e não diversificado onde o diferente apenas aceito. N o entanto. à memória daqueles que vieram ant es e regulam a vida de seus Portanto. três princípios junto com a O integração e a divers idade. Para os africanos. A tradição afri cana estabelece sua própria lógica no princípio da ancestralidade. podemos dizer descendentes distribuindo sua força e harmonia. elementos Conforme LUZ (2000.

ele deve entender sobre os mistérios. ltamente respeitada e o segurança. A sociedade e a religião são centradas no hom em e em seu bem-estar (bem-estar. O mundo é e existe isso. Conforme para abrir caminhos para OLIVEIRA (2007. O mundo é fonte eminente da vida. (OLIVEIRA p. os sinais e as mensagens tudo tem que ser contato diário com O que é também proeminente nesta ―maneira integrada de pensar . Isso esclarece o sentido profundo d e família mostrado pela ligação com os antepassados. pois interpreta o cosmos nos termos da organização humana. PETIT (1988. o ser participa humano. p. 2003. 2) afirma que as culturas de arkhé16 são extremamente ec ológicas. p. é um tempo não linear. nos cultos dos antepassados. 247) é um forte sentido do coletivo. apressado. A dignidade humana é a homem tem um lugar privilegiado no universo. se mundo: interpretado. expressado pela participação na vida em comum. 247). mas deseja sempre também interpretar o simbolismo de todas r ativamente em plena comunhão as seu coisas para pelo ritmo cotidiano e de v criadas. gerando 102 ----------------------. o tempo da ancestralidade não é o tempo produzido na modern idade. sem encantamento. proteção). por es com todas elas. O africano não fica satisfeito só p or viver no mundo e apenas por experimentar ida. cria pela memória. pois e ao homem é dado o poder de re . em que o indivíduo é introduzido por vários ritos de iniciação. forçá-lo.eus descendentes que os devem novos respeitá-los e cultuá-los tempos. nos ritos de iniciação. que se re poder da tradição é conectado com a duração cíclica. a gerontocracia (governo por homens vel hos).Page 103----------------------mais vida. O pelo contrário.

a vida longa.possibilitam a confraternização do biente. indissociável de sua dimensão ecológica. prosperidade e bons filhos. Compreendido como o poder sagrado (força vital). antepassado. entendido como um elemento centra l. Ele é limitad o ao grupo étnico . nenhuma É por esta razão referência particular os rituais para os sanguínea. são considerados como não pertencentes ao culto ancestral. filhos que o recordarão e se comunicarão ritualmente com ele. O culto à ancestralidade existe como parte de um sistema religioso abrangente. uma pessoa sem prole não pode transformar-se em um antepassado. os ancestrais e o Ser Supremo e os seus são considerados que o e uma como tiveram status fonte mediadores uma de de conduta ancestral. Em algumas comunidade s. Há mesmo os casos onde se acredita sado que faz nomear um com que o descendente ancestral pelo nome de seu antepas Dessa isso. estabili poi entr descendentes na terra. A veneração ancestral é encontrada em cada comunidade tradicional afri cana. deve ser é o que podem alcançar exemplo de comportamento dade e tradição para a comunidade tribal. de acordo com os padrões s ele africanos. Graças à sua proxim idade com o Criador. O culto pertence à maioria dos povos e há muitos elementos compartilhados por muitas socieda des étnicas. sorte. uma das motivações básicas do culto ancestral é a fecundidade e a procriação. traz grandes benefícios para seus parentes vivos tais como: a saúde. seus descendentes se comunicarão regularmente africano costuma com ter e não seja esquecido. Por ele oferecendo muitos rituais. É o corpo integrado à ser humano com o meio am natureza. Somente aqueles moral boa. por sua vez. o Um continue a viver em seu descendente maneira. o que não Ninguém pode ser um seja seu parente que antepassado de um mortos indivídu sem sanguíneo.

103 ----------------------. As culturas de a rkhé cultuam a Origem. No início do poema. o bem estar humano não É centrado proselitismo. somente neste mundo. ao mesmo tempo. envolvendo o tema da ancestralidade. Passagens místicas onam ao leitor a sensação de proximidade com o sagrado e. não como um simples início histórico. bólicas Uma na obra das imagens é a presença mais do a recorrentes natureza. Para ilustrar melhor nossas ideias. após um passado de brutalidades cometidas pelos europeus. É esse pássaro que guia o herói de volta à África. na vila de seus ancestrais . se fundam na vivência e no reconhecimento da ancestralidade. mas como o ―eterno impulso inaugural da força de continuidade do grupo. representando sua cultura e identidade. nos remetem Encontramos a essa em visão OMEROS da e várias enlevantes passagens que que proporci ancestralidade. no ser Muitos e estudi visa a humano.e não há necessidade de se fazer osos afirmam que o culto é fundamentalmente antropocêntrico. por meio de OMEROS. temos a dessas tradições e também de possibilidade de conhecer parte 16 Muniz Sodré usa o termo grego arkhé para caracterizar as culturas que. em sua . Esses símbolos servem de aporte para os valores sociais e não podem ser vistos apenas como meras representações exóticas. Achille está observando um andorinhão. Nesse sentido. apontaremos agora algumas das passagens mais sign ificativas dentro da obra. tais como a negra. fazem com que valorizemos as tradições e crenças de uma sociedade.Page 104----------------------perceber a história dos outrizados. mas também no mundo após a morte. a e mais África sim andorinhão (sea-swift) que representa nalidade escura e a cruz de por sua to Cristo pela forma de seu corpo quando abre suas asas.

Durante levado até a África e encontra-se com seu pai. então. 13 8) Porque um nome significa muita coisa. O conhecimento da ancestralidade torna-se. Then Achille looked up at the hole the he saw the swift crossing the cloud. O rio da ancestralidade é o que sua própria identidade.. pois faz com que o sujeito se perc a do seu próprio caminho. a cura seu retorno às raízes. querendo dizer que se você não sabe mais o que seu nome de suas origens. então. laurel had /II p. do seu destino. é como uma bênção de onde vêm as qualidades desejadas para o f . do seu passado e nameless son.” Three/ III p. Quando seu pai pergunta o si gnificado do nome Achille. 137) Um nome significa alguma coisa diz o pai. (Book Three/ o filho Chapter diz que não sabe. encontra-se e reconhece sua verdadeira identidade. quer dizer é porque se distanciou “You. (Book One/ Chapter One ancestralidade (o retorno) é um ponto negativo. reconciliar por meio torna-se. recon ciliando-se com o seu passado. (Book Seven/ Chapter LXIII/II left. a imagem de do da se ave serve como com do eleme Achille a possibilidade história. Po r ser também um símbolo nto de unificação poema. O pássaro é um símbolo de força e graça espiritual concedida por Deus.surf. um elemento import ante para os descendentes de deram suas raízes escravos. Achille é vida. “A name means something. are only the ghost of a name” (Book Three/Chapter Three/ III/ p. dando a a sua própria de do regeneração. O pássaro para os males Ao retornar.. Afolabe. poeta Achille não é mais o mesmo.viagem imaginária. 319) 1.. Esquecer a ajuda o poeta a definir I followed a sea-swift both sides of t carries these islands to Africa.. Conhecer essa ancestralidade faz com que ele se reencon tre e aceite a sua própria história.. 6) his text… Her wing-beat I p. pois e não com o tráfico escravista muitos suas histórias de deles per a conseguem mais se lembrar de viagem imaginária..

As formigas revelam à curandeira a linguagem dos ancestrais e ela. Assim. Não por acaso. 3. 104 ----------------------. o Além disso.Page 105----------------------como uma sibila (obeah-woman) aparece associada à em suas conotações homéricas. sua cura também está diretamente ligada à recuperação da herança africana. Na obra É ela plantas e essa montanha de La Sorcière (a feiticeira) na ilha de Santa Lúcia. É quase ao final da obra. No poema. perder o senso pe! You all see what it’s like do seu Não saber lugar no o significado universo. outro simbolismo forte no poem a. começa a rezar nessa língu a até obter a resposta para a cura. A ferida de Philoct ete representa toda a África violentada e usurpada pelo colonizador europeu. direto da África. Ma Kilman é a dona de um bar na vila. planta milagrosa. Guiado pela mão de Omeros. também considerada pelos seus poderes sobrenaturais como curandeira. 21) 2. rezadeira e mãe-de-santo. o poeta cego que observa e interpreta os fatos. Os poderes de Ma Kilm an para a cura da ferida são revelados pelas formigas. “Salo without roots in this world?” (Book One/ Chapter IV/I/ p. a um conduzido por um barqueiro negro a um mundo extra-humano. uma outra geografia. é trazida simbolicamente pelo andorinhão. quem cura Philoctete de sua ferida putrescente. observando aqueles que chafurdam nesse . então. a chaga dos antilhan os. diferente do mundo conhecido. dos nomes era como estar sem raízes no mundo. os dois estabelecem um diálogo sobre o passado e o futuro em cima do cume de um vulcão. ela é “No Pain Café” (Café Sem Dor). Ma Kilman é comparada à Sibila de Cuma. a visita ao inferno dantesco. sentindo o cheiro do enxofre e da lama negra. Ela conhece os imaginada pelo segredos das autor.ilho ou filha e todas as virtudes imaginadas. Achille é levado.

podemos reconhecer que a viagem empreendida por Achille não é de ida. Aí se consolida a busca pela identidade perdida. reconhece que perdeu a fé tanto na religião como nos mitos. 2009. ----------------------. mas de retorno. a O diálogo entre eterna busca de Omeros é a única volta ao lar po reflete.charco. p.19)17. A vida e seus percalços acontecem . do valor de sua própria obra e suas metáforas .Page 106----------------------processos comuns que são enfrentados por todos nós. ―o desejo de garantido pela memória de um passado perdido. uma integralização das duas dos. É pelo retorno que ele poderá saber que tipo de futuro ele terá pela frente. o poema épico de Walcott p (colonizadores que há e lugar coloniza para to perdedores Filosoficamente. reconhecendo que o retorno à natureza (às origens). modo. ssível para os seres desse humanos. um futuro a Conforme Italo Calvino ser conquistado é (2009. o texto vida e a morte são mostra 17 Italo Calvino: ―Por que ler os clássicos? 105 página 19. devolvendo-lhe a fé perdida. Companhia de Bolso. Na dos valores tradicionais e ―descida ao inferno . já na figura do poeta. e Walcott compreender a relação do homem e o seu passado. a perda seu povo. afas tando-o da turba de fantasmas egoístas e caluniadores. ele realmente procura é. o auto r volta a sua ilha natal. de fato. De lá. partes. Omeros aparece e pega em sua mão como um símbolo do universo humano. que a Dessa forma. o que nos remete a um tema final que é o questionamento da arte e da história. Enfim. o seu pois o que passado. então. sua ancestralidade. o autor duvida. depois de tantas idas e vindas. ropõe um acordo entre ganhadores e dos). Denuncia a espoliação comercial a prostituição de da ilha. Quando o herói. destruin do-lhe a dúvida e renovando-lhe a esperança perdida.

the Ibo man was a nation father. mas nenhum sozinho por muito tempo. as maiores ameaças aos caribenhos são as doenças e o crescimento econôm ico. Eles necessitam uns dos outros. do continuum da civilização p. 5. que geram a desigualdade social. o que eles querem é ser s tornando-se parte da comunidade em sua ilha natal. p. pois Walcott tem ual a ousadia como uma de redefinir transformação o comportamento heróico individ psicológica em direção ao coletivo. 34). without one Now mother. way. nós. a cada nova passagem descobrimos que ujeitos de sua própria história. Considerando os desconsiderados So Ashanti e Guinea. (OMEROS. s personagens que compõem o poema e. th there went the africana antes e depois do colonialismo cujo elo mais forte desse sistema foi o capital financeiro e o tráfico escravista a atividade mais rentável: a pedra angular do triângulo comercial E uropa. e. Walcott deles os pode permanecer e perso combinar motivos convida o leitor a se juntar a ele em sua viagem como personagem e narrador. each the Mandingo another. e a cada momento. 150)18 Segundo LUZ (1995. brother. cada personagem se torna uma ilha dentro da ilha. devemos perceber a força in himself. another. os leitores. em oposição às sangrentas batalhas entre gregos e troiano s. Como numa viagem ao eu interior. todos o porque nos t sociedade contemporânea marcada pela pluralidade étnica e sócio-cultural. ao nagens épicos clássicos. Book Three/ Chap terXVIII/I.de modo natural e. Esse triângulo África-Europa-América uma base importante do Latina construiu . recuperamos ornamos parte de um todo: uma nossa alma Assim. A ilha de Santa Lúcia e seus habitantes são curados tanto individualmente como coletivamente. África e América. hoje.

Saint Kitts e Nevis. Os primeiros resultados científicos sobre a literatura afro-brasileira e os estudo s comparativos sobre Brasil de e Caribe Intelectuais já estão disponíveis. no Brasil.. e no Caribe caracterizam. são interessantes . os mandingas seguiram por out ro. Vincente-Grenadines. além fricana na América disso. na sua maior parte. Dominica. o desenvolvimento Latina. Antiga e Barbuda. sem mãe. foi uma fonte financiadora da industrialização ram à América milhões de européia. Agora. escravos e seus descendentes o trato com os antigos permaneceu de múltiplas formas caracterizado pela exclusão. sem pai. 106 ----------------------.. (Tradução ssa) O verso mostra a dispersão das etnias causada pelo colonialismo com a divisão política da África e o tráfico escravista. com 84% de população negra. A de uma diáspora a 18 ―Então os ashantis foram por um caminho. S.os guinéus. da Europa. o terreno cultural. Guadalupe. As interações Europa-Áfric a-América caracterizam. chega africanos que trabalharam como escravos nas plantações. cada homem era uma nação em si mesmo. tre estes países. Bahamas.Page 107----------------------população negra representa entre es situados todos no Caribe 84 e 98% do total em treze país Jamaica. os ibos outro ainda. de ÁfricaNo Manifesto do 2  Encontro En Para as questões que foram abordadas inicialmente. Com a abolição da escravatura. en tre outros. em sua maioria. Ba rbados. Haiti.19 as comparações provenientes da expansão de identidades afro-americanas e de formas de expressão cul tural que. Santa Lúcia. sem irmão. Para isso contribuíram. Granada.colonialismo durante muitos séculos e. nos trabalhos domésticos ou na s minas de ouro. as teorias raciais provenientes. com força cada vez maior. República Dominicana. Ao mesmo tempo. só a Dominicana é um país latino-americano. como uma boa parte dos pesquisadores afirma .

crime de lesa-humanidade que esvaziou o ventre da África durante cinco séculos e submeteu mais de trinta milhões de seres humanos a uma bestial escravidão20. Autores como uma vez que a população indígena foi massac BONICCI (1999. De todas as sociedades colonizadas. por parte das potências estrangeiras. Port anto. Oriente Médio e Europa através do deslocamento. o Brasil e o Caribe se apresentam como regiões de profundas ligações onde as manifestações culturais de matriz af ricana ou indígena ficaram ocultas. 19 Informação encontrada em Luís Ferreira. enas das ilhas do Observamos que. Segundo GONZALEZ (1989. da América Latina e do Cari be. Doutor em Antropologia. Atualmente é Pesquisa dor Associado do . a africana e a européia (predominantem ente espanhola). as duas regiões têm onial comum elos culturais e e das relações políticos resultantes de um passado col mantidas entre essas regiões no atual processo de globalização. p. Infelizmente a primeira transculturação entre a cultura hispânica e a indígena. realizado em 2007 em reconhecem que a luta pela Caracas. Ásia. A população atual das Índias Ocidentais veio da África.19) a cultura caribenha foi formada b asicamente por três estratos culturais diferentes: a indígena. exílio ou escravidão. não passou de uma transculturação desafortunada. os estudiosos do assunto apropriação dos espaços estabelecidos nos territórios da África. após o tráfico de constitui um dos maiores saques negros.13) descrevem os efeitos devastadores do colonialismo na região c aribenha: as sociedades primordiais dos indíg Caribe foram completamente exterminadas nos prim eiros cem anos de descobrimento. o nde o idioma e a cultura dominantes foram impostos e as culturas de povos tão diverso s aniquiladas. realizados. através da diáspora africana e da colonização. rada. talvez a sociedade caribe nha seja a que mais sofreu os efeitos devastadores do processo colonizador. negadas sob o estigma da bárbarie e do escravismo.América. p.

a relação entre a vid a material e imaterial. 20 Manifesto do II Encontro de Intelectuais de África-América. a importância dos laços de linhagem. como enfatiza a pesquisadora Sílvia Santos: como constituindo a matriz comum: africanas têm a ancestralidade como referência. aceitamos direito passado heçamos parece que ainda que o nosso não compreendemos Fazer com que e não recon se cruza com o passado a relevância do povo africano. somos o mundo (atrás apenas da Nigéria) e setenta por cento de todos os americanos afro-lati nos vivem aqui .Page 108----------------------No Munanga. por nenhum de segundo maior país negro do nós brasileiros. Esses autores ressaltam os seguintes aspectos das africanidades. Eduardo David Araújo e Muniz Sodré enfatizam a questão das africanid ades que. p. embora muita s mudanças já tenham ocorrido. o que envol ve o reconhecimento da origem da comunidade. nunca. referem-se à diversidade cultural africana dentro de uma matriz comu m. é transpor o silêncio e as barreiras exist entes em prol da visibilidade da participação da cultura negra na formação social da nação. O fato de que cerca de seis milhões de pessoas adentraram o país por força do tráfico escravista não pode e não dev e ser esquecido.. após seis anos de aprovação da lei 10.639/03. 2009. segundo eles. de parentesco e d e família estendida. muitos pesquisadores Henrique Cunha Jr. como Kabengele Petronilha Silva.10) todas as tradições Entretanto. Brasil. Caracas 19-21 de nov embro de 2007 107 ----------------------. a concepção da morte como excedente de vida e mudança para outro ciclo. Afinal. (SANTOS. africano e seu papel na construção do Brasil. a valorização da tradição. onde os anciãos desempenham um papel de destaque na educação e no convívio social.Núcleo de Estudos AfroBrasileiros daUniversidade de Brasília.

porque de nossa história e social brasileiro: o de que longo é uma ideia repetida e reificada ao acabamos. nega. mas nem por isso temos embustes que nos impingem. pelo menos por algum tempo. para professores e a o tema em questão. Pedro Malaz arte e outros que são retratados como a ―cara” do justificar dizendo que Brasil. Esse é u m outro mito que povoa o pensamento somos uma ―democracia racial . Macunaíma. adquirindo abrangência. a sociedade a política do que o valoriza a dem que continuar aceitando e acreditando nesses embranquecimento. É claro que podemos esses mitos e tipos são frutos de uma sociedade em que o escravismo perdur ou por quase quatro séculos. culturas ou identi dades puras. . a partir de um dado momento se transforma em mito assim como tipificações tais como Jeca Tatu. Assi m. e. categoricamente. A ide ia se repete e sofre um processo de ideologização. identidades que também só As culturas se misturam para formar existem em oposições. Afirmamos que é um mito. As teorias errôneas e confusas sobre pureza e não–pureza de raças nos levam a 108 ----------------------. ocracia Nesse racial ou sentido.Page 109----------------------uma armadilha chamada ―democracia racial . apropriações e/ou experiências comuns. Os formação de maiores desafios. resultando de empréstimos. são a conscientização sobre a temática. Sabemos que não há raças. acreditando que ela seja verdadeira. é apresentado como uma imagem outro. Romper com a ideologia da democracia racial não é uma ta refa fácil. pois ele distorcida do eu. os próprios professores não percebem a questão do racismo em sala de aula.no Brasil. únicas ou homogêneas.

diferente e particular. deu ori gem ao mito da democracia racial: uma estratégia com que o sujeito cultural política e de dominação que fazia ficasse impossibilitado de produzir seus próprios signos. a mestiçagem. 32). pelo menos. como o e inatingível o darwinismo social de ser branco atavismo. um processo natural que ocorre em todos os povos. tornou-se difícil formar uma sociedade constituída pela mistura de três povos e cuja i dentidade era projetada no sonho do branqueamento. Essas ideias são difundidas amiúde e podem ser encontradas na maioria dos liv ros didáticos de história cêntrica do Também não no Brasil. adores Um outro ponto que não se pode negar é o fato de que os pens europeus que se consideraram universalistas quand marcaram o pensamento ocidental o. Já passa da hora de revermos nossos con ceitos.. Esse era o pensamento de praticamente toda a elite brasi leira no final do séc. inferior ao branco e sua supremacia. em sua passado histórico. ao respeito ou. fáb ulas. à c ompaixão pelo Outro. lendas. contos de fadas. Nesse s entido. seguindo os e o paradigmas O eurocêntricos científicas. Mitos.. ―como form ar uma identidade em torno da cor e da negritude não assumida pela maioria cujo futuro fo i projetado no sonho do branqueamento? . na verdade. que são fundamentais para a afirmação ou negação da identidade e cultura de um povo. XIX de teorias e início do séc. ideal utópic povoava o imaginário popular acalentado pelo mito da democracia racial. supostamente XX. a democracia racial coloca o elemen to negro ou indígena sempre em posição de desvalorização. eles eram provincialistas e não souberam dar lugar à alteridade. fazendo seja certo grande apologia maioria ao com uma visão euro apenas não estamos achamos que afrocentrismo. como diz MUNANGA (2004: p.no Brasil. Então. histórias pra boi dormir. . darmos fim ao nosso passado colonial e começarmos a escrever uma história nossa.

109 ----------------------. (ASANTE. mas par a isso.relegar os africanos. O terreiro . É conhecido por seus livros (65 ao todo) sobre afrocentrismo. negros os sendo o luga do a en pertencimento e inserção dentro século XIX as primeiras referências a eles. professor do departamento de estudos Afro-Americanos da Universidade de Temple (Filadélfia) onde fundou o programa de pós-graduação nessa mesma área. candomblé. intercultural e transrracial. que a cultura africana seja anali sada enquanto sujeito e não através de modelos culturais que por vezes não só não tendem como a desprezam e desvalorizam. Quem somos nós? O que nós fizemos? Por ond e viajamos? Qual o nosso papel na geometria? Como nós funcionamos enquanto pessoas em diferentes contextos contemporâneos? Mas o afrocentrismo não aponta as p articularidades da África como universais. como foi o caso do eurocentrismo. M. para a margem do pensamento e do c onhecimento da humanidade. mas que seja reconhecida a existência de uma cultura e a sua avaliação em termos de pensamento e conhecimento por meio de sua própria perspectiva.Page 110----------------------O afrocentrismo procura descobrir o p situação. neste caso. Essa é a diferença essencial entre o afrocentrismo e o eurocentrismo que avançou nos EUA e outros lugare s apontando as experiências européias como universais e verdadeir as. O afrocentrismo não ja interpretado sob uma única defende que o mundo se perspectiva cultural. comunicação internacional. ―Race in Antiquity: Tr uly Out of Africa ) apel da África em toda negros No Brasil. com o escravismo encontraram seu espaço de dos foi terreiros para do esses criminoso. ou qualquer outro povo. O afrocentrismo quer mo strar que é possível existir uma pluralidade de culturas sem hieraquias. e mais concretamente. K. Nas palavras do Professor Molefi Kete Asante21 podemos confirmar o que foi dito: 21 Estudioso americano. Essa imposição é etnocêntrica e frequentemente racista. é preciso que haja respeito pelo outro.

É por meio desses princípios que vem toda a orientação para a vida. o candomblé torna-se uma no contexto nacional dos forma cultural e pela meados identitária recriada polícia. . mas nesse processo. da harmonia e da saúde. muitas características originais foram preservadas. a principal maneira de lidar com as adversidades da vida cotidiana na construção de comunidades negras na sociedade brasileira escravista. e com crenças de alguns povos se misturaram com os dos portugueses.r perfeito para a reconstituição e reelaboração da cosmovisão africana no âmbito cultural-religioso. Assim. 247) enfatiza que: quando refletimos sobre os três princípios básicos da cosmovisão africana. Hoje. vemos que os três. portanto. da Um Deus que une o mundo alteridade pela pela integração. as culturas africanas foram t os de outros. As religiões for am. ransformadas. os terr afro-brasileiros. a g arantia do bemestar. em conjunto. as culturas e as religiões afrobrasileiras são cada qualquer e. os negros construíram sua liberdade de expressão adaptando-se às novas exigências impostas pelo ca tiveiro. Por meio da religião. que permite a expressão diversidade e que reproduz a tradição pela ancestralidade. p. na outra muitos preconceitos dirigidos contra mais fácil entender que as e diferenças entre santos milagrosos vida dos vivos são mínimas e ancestrais interferem dependem apenas de um olhar mais tolerante que nos permita aceitar a diversidade e valorizar a fé imanente em todos os homens. refletem a face de Deus . apesar haver fica vez mais de ainda consideradas os tão válidas negros que em quanto geral. ritos e Aqui no Brasil. OLIVEIRA (2003. Embora perseguidos eiros foram pólos importantes de organização das sociedades ser aceitos negras e a partir dos do século XX começaram a como espaços legítimos de exercício de religiosidades afro-brasileiras.

um trabalho tão Walcott faz sua inscrição no mundo pós- . onde o relações múltiplas entre a das próprio sujeito é culturais e experiências comuns. um resultado da civilização articulação e a negociação cidental e da tradição tradições nativas. visto que o autor vivenciou ambas. outras. tornando-se. where shall I turn. between this Africa and this English tongue I love?”22 umas com as Sabemos.Page 111----------------------estudo e análise como artefatos da de temática identidade/cultura uma boa contribuição para que se de matriz africana literaturas pós-c educação. a possibilidade de represent ação de uma cultura que reflita a pluralidade de destaque merecido. Ao recriar o poema ép ico. portanto. maior. especificamente a de Derek Walcott. dando-lhe características de romance. então. Nas as do próprio autor: “I who am poisoned with the blood of both.Esta pesquisa demonstra. apropriações de Derek Walcott. ao mesmo tempo. única. pretende ser uma oloniais conheçam algumas caribenhas. resultando de empréstimos. eve ser vista e analisada como parte de uma analisar as experiência humana várias culturas. Nesse sentido. tornado híbrido pela p elementos da cultura afro-caribenha como da cultura contemporânea do eixo América-Eu ropa. a obra de Walcott que lhe d permite palavr sincrética. colonial. insider e outsider. As culturas ntidades que também só existem através ssim a obra de de oposições. e coloque o Por meio do autor em questão no lugar 110 ----------------------.. divided to the vein? (…) how choose.. cuja obra reflete bem a encruzil hada de culturas manifestada na reelaboração do resença tanto de epos-romance OMEROS. cosmopolita que caracteriza a atual sociedade transnacional. que todas não há se as culturas misturam para estão envolvidas formar as ide cultura pura.

56-58. Lawrence. NELSON. Paula. TREICHLER... Lino Nilma. mas. Série Pensamento Negro em Educação. CUNHA JR. 1992. a narrativa e as margens da nação moderna. GOMES. Homi. Worldliness-without-world. dividido pe la veia? (.. e que. I n Negros e o Currículo. Por meio desse resgate. Henrique. Belo Horizonte: Ed. REFERÊNCIAS BHABHA. assim como a nossa. Abdul R. In: GROSSBERG. querem os mostrar que cada um desses autores possui maneiras próprias de narrar suas histórias.) como escolher entre esta África e a língua inglesa que eu amo? 111 ----------------------. Literaturas africanas e afro-brasileira na prática pedagógica. servin do de aporte às diversidades culturais e identitárias.) Cultural Studies. Gary. New York/London: Routle dge. apreciação do público. 1998. Postcolonial Authority and Postmodern Gui lt. Homele ssnes-as-home: Toward a A Far Cry from África. apesar dos conflitos e diferenças. Florianópolis. 22 ―Eu sou aquele envenenado pelo sangue de ambos. fazemos parte de uma só raça. (2005) Num. A História Africana e os Elementos Básicos para o seu Ensino. p. Tradução nossa.Page 112----------------------____________. p. dessa busca pelo reconhecimento. consideradas tributárias. Belo Horizonte: Autêntica. para onde eu irei. um só m. 198-238: DissemiNação: o tempo. In: O local da cultura. Núcleo de Estudos ros. (Ed. SC. onde todos nós deveríamos ser u Neg . NEN. mundo. afinal. que sugere uma possíve Por fim. Brasil. ficam sempre à margem dos cânones sem direito à fala ou à Essas literaturas não são novas literários. 2. nossa expectativa com esse estudo é de abrir novas perspe ctivas para que as literaturas pós-coloniais de outros países sejam revisitadas pedagogicamente. JANMOHAMED.híbrido quanto a cultura contemporânea l articulação entre os seres humanos. . UFMG. 2008.

1989. Tema de polêmicas e inflamadas discussões. Muniz.Dinâmica da Civilização Africano-Brasileira. Colocar o estudante na universidade não resolve a discri minação e a exclusão sofrida pelo negro. p. tanto por parte de seus defensores . A Cosmovisão Africana. no entanto. EDUFBA. LCR. 16. In: Estudos Afro-Asiát icos. SODRÉ. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. além disso. inserind o o negro em locais que historicamente ele não tem garantido seu espaço. Rio de Janeiro: no. Fortaleza. Eduardo David. A Pioneira Maranhense Maria Firmina dos Reis. 2000 LOBO. Mi chael.. Agadá . Luiza. 1988 112 ----------------------. No tocante as desigualdades raciais a mera adoção de ações afirmativas. É necessário. 91.Page 113----------------------DISCURSOS RACIAIS E AÇÕES AFIRMATIVAS: O processo de implementação da * política de cotas raciais na Universidade Estadual de Goiás José Fábio da Silva1 Resumo Este trabalho tem por objetivo discutir e apresentar os resultados obtidos no pr ojeto: Avaliação das políticas de cotas raciais na Universidade Estadual de Goiás. Bahia. Introdução Desde 2005 dade Estadual de Goiás o sistema de cotas raciais é adotado na Universi (UEG). o ingresso na universidade é apenas o passo inicial emp reendido pelo estudante seja ele negro ou não. Edward Said: A Critical Reader. como um país de relações raciais harmônicas. não é suficiente para combater efetivamente o racismo impregnado na sociedade. Marco Aurélio. 2003. É preciso mexer na estrutura da sociedade. A verdade seduzida. Oxford-UK: Cambridge USA: Blackwell. 96-120. O projeto tem em vist a verificar o ingresso de cotistas raciais na universidade e as medidas to madas pela instituição garantir a permanência dos mesmos.Definition of the Specular Border Intellectual. p. In: SPRINKER. (Ed.A. OLIVEIRA. trabalhar na desconstrução do discurso produzido no decorrer do século passado que coloca o Brasil como um paraíso racial. 1992. Ações afirmativas são medidas de caráter temporári o tomadas com o objetivo de diminuir desigualdades sociais provocadas pela di scriminação e marginalização de determinados grupos no decorrer do processo histórico. LUZ.).

Para finalizar. que instituiu o ingresso de estudantes por meio do sistema de cotas nas Instituições de Ensino Superior do Estado de Goiás. Discursos raciais * Projeto realizado com o apoio da FAPEG. brancos e demais etnias em meio à sociedade. em torno de três discursos básicos (sem a pretensão de resumir os debates sobre o tema a apenas esses pontos é claro). O presente artigo que pretendente traçar um breve envolveram a temática século XX. questões histórico ligados dos principais discursos racial no percurso do ao mito da democracia as teorias a raciais e públicas Posteriormente. serão apontados alguns aspectos relativos à implemen tação do sistema de cotas raciais na UEG. bem como os principais pontos da Lei 14. . sobretudo. O primeiro. serão abordadas e a utilização de ações referentes políticas afirmativas na tentativa de diminuir as desigualdades raciais e garantir uma ―demo cratização das relações entre negros. Este projeto tem por objetivo justamen te avaliar a implementação e a maneira como foi/é conduzida a aplicação dentro da universidade. mesmo pre avaliada por nenhum orgão da própria instituição.Page 114----------------------As discussões que envolvem a questão da política de cotas raciais giram . o problema da desigualdade no Brasil seria. de 12 de J ulho de 2004. Doutora ndo José Santana da Silva 1 Acadêmico do curso de História da Universidade Estadual de Goiás 113 ----------------------.832. não foi política de cotas raciais. desfavorável ao sistema de cotas.quanto dos que são contrários visto na própria ao sistema. segundo essa perspectiva. racial. defende a ―inexistência de uma discriminação racial no país. a lei. sob coordenação e orientação do Prof.

isso ainda no século undamental XIX. A construção/consolidação da República no Brasil é marcada por dois fatos di stintos e. não só as raciais. uma República. no decorrer do sécul o XX. apontado como efeito do mito da Esse discurso pode ser ―democracia racial que vigorou no Brasil. ao mesmo da escravidão tempo. entender como foram construídos esses discursos como se deu a formação da República brasileira e o processo de abolição da escravidão. se ja por motivos culturais ou étnicos. este utilizados pelos defensores do sist ema de cotas raciais. As cotas. e ainda mantêm-se ativo. Contraditoriamente. O terceiro discurso. o demanda governo de da recém formado que a e ―status de c sob a simplesmente ignorou a enorme lforria despejava no mercado trabalhadores . no decorrer do século XX.somente de cunho social e não racial. Para compreender é preciso antes. no momento que a população afrode scendente brasileira se ―livrava de séculos de exploração e conquistava sua ―liberdade dão (ainda com o viés de inúmeras restrições). argumenta decorrente que as cotas dos séculos corrigem de um desnível social gravíssimo escravidão e da discriminação que a população afrodescendente sofre junto à sociedade. profundamente e a vinda de ligados entre si: a abolição imigrantes europeus para o país. Um segundo discurso muito corrente nas discussões é o meritocrático. Perceber certas importância para nuances desses eventos é de f compreender como se deu a formação e cristalização dos discursos que envolveram o tema: raça. Seu argumento susten ta-se sob a prerrogativa que o sistema de cotas raciais não oferece uma ―competição demais justa perante os canditados do vestibular. além de comprometer a qua lidade do ensino nas universidades. ―roubariam as vagas de candidato s inseridos no sistema universal e isso seria injusto para com eles.

p. a liberda de era dada ao negro como uma condenação a sua pretensa condição de homem livre. ―Os poderes públicos apl icaram recursos à imigração sem que fossem criadas condições favoráveis ao negro na transmissão entr mundo servil e sua nova existência de cidadão . Junto ao projeto de abolição dos escravos tramitava um programa de apoio a imigração europeia. que estabeleceu concedia limites ao ex-escravo a sua estatuto de cidadão. também participação na esfera política. O desumana negro condição livrou-se de ser da dura condição de escravo. (VENTURA. as teorias raci escravidão foram adaptadas as condições locais e redefinidas sob a égide das três raças. 13 de maio de 1888.interno e investe no incentivo à imigração europeia. 2000. principalmente a italiana. 2000. o racismo científico e o contradição entre a realidade étni liberalismo progressista. p. da propriedade de outro homem. a abolição tornou-se um a forma de marginalização do afro-brasileiro.340-341) A Constituição de 1891. entretanto. ori ginando uma nova forma de pensamento: ―a valorização da miscigenação e a ideologia do branqueament o. . (VENTURA. enquanto tentativas de eliminar a ca.353).Page 115----------------------apoio do sistema que antes tanto havia explorado sua mão-de-obra. ainda era e continuaria a ser vítima do pe so dos séculos de escravismo e de todas as teorias e formas de discriminação que no decorrer dess e período foram cunhadas ao seu respeito. Naquele momento histórico. Deixado de lado pelos membros do governo que antes lutavam por sua ―liberdade o negro recém liberto de seu estado de escravidão se viu sem nenhum 114 ----------------------. stas que Nas primeiras décadas fundamentavam a do século XX.

O ideal do branqueamento consolida-se mesmo com o nas décadas de 1920 e progressivo enfraquecimento das ―teorias deterministas da raça . ―fruto de um longo processo de amadure cimento. p. Mesmo com o declínio das teorias racistas que se estendeu até a década de 1920. Na assembleia constituinte de 1934 também é encontrad discussão semelhante. nascido ainda no século XV. objetivando usar a mão-de-obra barata através da exploração dos povos colonizados NA. À medida que as teorias cientifico . (JACCOUD. 51) O termo emerge com Roger Bastide em 1940 e se faz presente no debate nacional com a divulgação da obra de Gilberto Freyre em 1950. As elites nacion ais percebiam a questão racial de forma cada vez mais positiva: para eles. culminou em outro m ito o da ―democracia racial ou o racismo velado que se fez presente na sociedade brasileira durante o século XX.raciais perdem força ―a interpretação do problema racial passa a sofrer uma efetiva transformação com a dissemin ação da idéia da democracia racial como expressão da experiência brasileira . posteriormente. e o problema racial se encaminhava para uma solução. p. (SANT'A população brasileira por meio da miscigenação e que. (JACCOUD. 2005. 2008.Essa ―nova o da ideia condição histórica nos permite refletir como o discurso em torn de ―raça . p.42) se que pregava o transformou e deu branqueamento da origem a uma nova teoria. 1930.50) Os projetos de lei discutidos em relação aos negros nesse período visav am impedir a imigração de ―indivíduos de cor preta . o Ministério das Relações Exteriores cheg a a afirmar . o Brasil parecia branqu ear-se de maneira significativa. Em 1970. 2008. Entre 1930 e 1970 vemos a reprodução das desigualdades sociais m ascaradas sob o discurso da democracia racial. essa situação não viu diferença.

não Jacob Gorender. em 2003. corpo Nessa com oc de políticas contra asião o Racismo. sobre as possibilidades específicas visando à inserção da população negra à sociedade. Somente com a constituição de 1988 ocorre uma reorganização nas políticas públicas promovidas pelo Estado. progressivamente. Com a p Combate ao Racismo. foi entregue e pela defendendo trabalho documento elaborado pela de políticas específicas negros nos campos da educação. em 1988.58) são imprescindíveis para a Marcha Em 1995. Consolidam-se. como é o caso do Brasil. realizada em Durban. como pauta do Movimento Negro e com a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Até o final dos anos de 1980 pouco se discutia . nos últimos 20 anos elas foram. Xenofo Correlata. articipação do Brasil na III Conferência Mundial de bia e Intolerância a implementação e cultura. se políticas sociais universais o combate às desigualdades raciais em um país com o histórico de racialização da pobreza. África do Sul. a demanda por políticas públicas específi cas para negros se intensificam. deixando de ser consideradas como os únicos inst rumentos necessários a serem adotados face ao objetivo de redução da s desigualdades raciais. Discriminação Racial.que não havia discriminação racial no Brasil. 2008. (JACCOUD. p. mesmo dentro 115 ----------------------. passa a ganhar Vida.Page 116----------------------do Movimento Negro. sendo assim seria desnecessário tomar medi das para assegurar a igualdade racial no país. ano . do centenário Segundo nos conta da abolição. Contudo. essa discussão Zumbi dos Palmares pela Cidadania ao governo um Marcha para saúde.

. conquistando espaço marginalização. 1991. é ignorado. garantindo a efetiva igualdade de oportunidades e tratamento. (B ERNARDINO. . tanto social quanto em relação à discriminação racial. pior será também as oportunidades de emprego e chances de sucesso profissional que este terá disponível para si. 2008.15) nova égide. terceirizado. novamente escravizados novas roupagens. o negro poderá ter a chance de se inserir no mercad 116 ----------------------. Quanto pior for as co ndições de ensino oferecida ao indivíduo/cidadão. São ―medidas especiais temporárias com o obj etivo de eliminar desigualdades históricas das pela discriminação acumuladas e e compensar pelas perdas provoca e competitiva. agora sob uma imposta por meios de circunstâncias adversas. Por meio da educação.. e até mesmo infantil e escravo em tempo s de inúmeros discursos profetizando a cidadania plena (QUEIROZ.Page 117----------------------de trabalho de forma mais participativa em setores onde. precário. p. era pre ocupante. ao trabalho tem porário. a subsistência. De fato a situação da maior afrodescendentes no Brasil. A dificuldade de acesso do negro em setores de melhor remuneração do mercado de trabalho se explica também.) aos trabalhadores a condição de serem domina uma ―boa educação . Ações afirmativas O termo ação afirmativa surgiu inicialmente nos conflitos raciais oc orridos nos Estados Unidos nas décadas de 50 e 60. A Lei Áurea resplandecia vigorosamente nto. Há uma profunda relação entre desemprego e educação. 06). ainda impunha-se dos. pela e de acesso a dificuldad sob em discursos políticos. entreta (. até então. p. a tal ponto do próprio autor conf irmar: ―A abolição não se realizou parte dos (GORENDER.houve comemorações e sim passeatas contra o racismo.

31) ―como o conjunto de ins tituições – como órgãos legislativos. exército e outras que não form . raciais. que. 2001. de políticas relações é públicas entre proces nas relações Especificando um pouco mais o termo políticas públicas. sociedade objetivam acelerar o processo de ―democratização cipal justificativa para a elaboração e aplicação o de democratização e diminuir as enormes diferenças ros presentes na sociedade brasileira. Estado é entendido em (HONFLING. Tais medidas icas compensatórias além política de cotas m ser preenchidos marginalizados. p70).2006. nas As políticas na prática. tribunais. que garantem a manutenção de pessoas provenientes de grupos marginaliz ados em espaços historicamente firmativa propõem um não acessíveis às mesmas. p. o mesmo deve ser entendido aqui como: ações do Estado direcionadas para setores específicos da sociedade. Essas ações visam combater desigualdades e discriminações sofridas por determinados setores da socieda de devido a processos históricos de exclusão mantê-los em ―condição de inferioridade em relação ciedade. Para um melhor aos que os mantiveram setores e dessa continuam mesma a so demais entendimento e compreensão desse conceito do que vem a ser políticas públicas e como é f eito seu processo de implementação é necessário antes deixar claro sob qual conceito de Governo e Estado iremos trabalhar. indivíduos oriundos de grupos marginalizados (em caso de competências semelhantes) e políticas de permanência. procura dar que por concretizam-se da estipula grupos um em diversos de de tipos vagas de que polít deve que porcentual políticas Podem ser incluídas preferência a preferência. acelerar brancos o e neg A prin de ação tratamento diferenciado a setores da não são tratados como iguais.

quanto por processos de exclusão que se arrastam a o longo da história (na maioria dos casos de governo implantados pelo Estado. p. É responsabilidade do Estado n só implementar como também manter em funcionamento essas medidas junto aos órgãos públicos e aos agentes sociais ligados a sua resolução.Page 118----------------------(. configurando-se a orientação política de um d eterminado governo que ado por um determinado assume e desempenha período.am um bloco monolítico necessariamente – que possibilitam a ação do governo . O Estado.. as políticas públicas entram como programas ou ações voltadas par a a redistribuição de benefícios sociais e/ou diminuição das diferenças sofridas por setores esp ecíficos da ias sociedade. técnicos. (HONFLING. Dentro dessa concepção de Estado. 2001.) como o conjunto de programas e projetos qu e parte da sociedade (políticos. a burocrática ou organismos é não uma deve soma dos dois). à são projetos mera mass ser reduzido responsáveis pela elaboração e implementação dessas políticas. mas limitado no têm um papel combate à importante na redução da po . organismos da sociedade civil e outros) propõe para a sociedade como um todo.. ent endido pela mesma autora 117 ----------------------.31) as funções de Est Governo corresponde nessa perspectiva aos atores sociais responsáv eis pelo controle e desenvolvimento dos órgãos que constituem e formam o que compreendemos como Estado. As políticas de cunho universalista de proteção social e de transferência de renda breza. é on de se encontra os órgãos responsáveis pelo cumprimento das medidas tomadas pelo Governo. O Estado. na visão da autora. no entanto. estruturais que podem produzidas ser causados pelo tanto por deficiênc desenvolvimento socioeconômico.

que instituiu o Sistema Especial de Reserva de Vagas para estudantes o riundos de escolas públicas. eiro comprometeu-se a Nesta importante Convenção o Estado brasil aplicar as ações afirmativas como forma de promoção da igualdade pa ra inclusão de grupos 118 ----------------------. negros or. em e indígenas. Só com a adoção de políticas específi cas – valorizativas. negando a e racial no Brasil.desigualdade racial. da da a presença do racismo leira tanto pessoal quanto institucional somente a adoção de ações na sociedade brasi afirmativas podem reduzir as desigualdades raciais existentes. p. 2) no proces Essa informação entra em confronto com a declaração. de combate ao racismo i nstitucional e de ampliação dos trabalho – é 3) ta um O quadro relatório do IPEA da evolução das divulgado nas em ultimas 2008 décadas. apresen O rela que se espaços para os negros no mercado de logrará reverter o quadro de iniqüidade racial. sendo assim seria desnecessário tomar medidas para assegurar a i gualdade racial . já mencionada acima n o texto. 7/2004 Vale ressaltar que decretado pelo Congresso conforme o Projeto de Lei 362 Nacional. (THEODORO. 2008. p. (PROJETO DE LEI 3627/2004.17 condições de vida de negros tório afirma também que são e brancos necessárias mais que políticas universais para combater as desigualdades raciais. de cotas nas universidades.Page 119----------------------so de desenvolvimento étnicos historicamente excluídos social. feita em 1970 pelo Ministério xistência de discriminação das Relações Exteriores. nas ―instituições públicas federais de educação s documento encaminhado ao presidente lembrava que: Desde 1967 o Brasil é signatário da Convenção Internacio nal Sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial da Organi zação das Nações Unidas.

indivíduos que sofrem na sociedade tratamentos difer entes. no entanto. Colocar o estudante na universidade não r esolve a discriminação e a exclusão sofrida pelo negro. suficiente A mera adoção para combater de ações afirmativas. não é efetivamente o racismo impregnado na sociedade. Um desses locais é a universidade. com indivíduos que tiveram todas as possibilidades oferecidas pela mesma.no país. Este ociais como fruto também argumento de se nega necessário a ver diferenças perceber que s apenas discriminações de cunho racial. fixou cotas para o ingres so dos estudantes nas instituições de educação superior integrantes do Sistema Estadual de Educação Superior no Es . deve como produtora de conhecimento a condição de vida da sociedade como ultrapassar a simples inclusão do sistema de cotas de vagas para afro descendentes e refletir sobre as condições que a academia oferece aos mesmos. como um país de relações raciais harmônicas. o ingresso na universidade é apenas o pas so inicial empreendido pelo estudante seja to nesse ponto é ele negro ou não. Negar a existência de qualquer forma de racismo no Brasil é fechar os olhos p ara uma cruel realidade que estar diante de nós. Processo de implementação da política de cotas raciais na Universidade Estadual de Goiás A Lei n  14. de 12 de Julho de 2004. e responsável pelo ensino e pesquisa de meios que visam ―melhorar um todo. é preciso desconstruir o discurs o produzido no decorrer do século passado que coloca o Brasil como um paraíso racial. Empregar o discurso do méri querer equiparar como iguais.832. É desejar por em pé de igualdade indivíduos que não obtiveram grandes possibilidades de ensino d evido ao caráter segregador da sociedade. inserindo o negro em locais que historicamente ele não tem garantido se u espaço. É mexendo na estrutura da sociedade.

p. (QUEIROZ. conforme prescrito na Lei. 1 . c) 3% (três por cento) para estudantes indígenas e para estudantes portadores de def iciências. indígenas ou portadores vem ser reservadas a alunos de deficiência.Page 120----------------------% das vagas Em seu Art. a em instituições de mencionada Lei estipula que 45 de que. b) 10% (dez por cento) para estudantes negros. a Lei estipula que o sistema de cotas terá duração de 15 anos co ntados a partir do primeiro dia de sua vigência. as cotas obedeceram os seguintes percentuais : a) 15% (quinze por cento) para os estudantes concluintes da educação básica ministrada por escolas públicas.91 Ensino Superior ligadas ao Estado devem ser reservadas a alunos provenientes de escolas públicas. c) 2% (dois por cento) para estudantes indígenas e para estudantes portadores de d eficiências. as cotas foram implementadas nos seguintes percentuais: a) 10% (dez por cento) para os estudantes concluintes da educação básica ministrada po r escolas públicas. Em seu Art.tado de Goiás. o seguinte escalonamento: aplicação do sistema. 2008. b) 15% (quinze por cento) para estudantes negros. negros. 9°. Desse total 20% de negros. No processo de sua implementação foi obedecido . Embora essa se ja uma prerrogativa legal. No primeiro ano de . e nformações ) 119 ----------------------. No segundo ano de aplicação do sistema. há i na UEG a referida Lei foi implantada. Entrou em vigor oficialmente em 1  de Janeiro de 2005 e deveria ser abrangente a todas as Instituições de Ensino Superior que estão jurisdicionadas ao Sistema Estadual de Educação Superior. apenas como tal deveria ser cumprida.

No entanto. para os candidatos (quarenta e cinco por cento). segundo os percentuais determinados no art. 1o desta Lei. as cotas passaram a ser implementadas integralmente. 120 inicialmente pela ----------------------. em seu Art.A partir do terceiro ano de aplicação do sistema .ª Luciana de Oliveira. Este projeto é a primeira avaliação elaborada especi ficamente . em conformidad e com a Lei . 1° que regulamenta ―os ficação para acesso e comprovação do enquadramento pelo Sistema de Cotas no do candidato às critérios vagas de quali oferecidas primeiro ano de sua aplicação na Universidade Estadual de Goiás . A aplicação do sistema de cotas na Universidade Estadual de Goiás segu iu os critérios estabelecidos pela lei e entrou em vigor no segundo semestre de 2005. olítica de O projeto de pesquisa Cotas Raciais na que elaborado propunha a Avaliação da Prof. docente da UEG. b) c) para 20% (vinte por cento) para estudantes negros. as instituições estaduais beneficiários. 2o da mesma Lei: Do total das vagas ofertadas nos seus vestibulares. 5% (cinco por cento) estudantes portadores de para estudantes indígenas e deficiências. Federal José de Goiás. 45% de educação superior reservarão. para os cursos definidos no art . na seguinte proporção: a) 20% (vinte por cento) para os estudantes concluintes da educação básica min istrada por escolas públicas.UEG.Page 121----------------------docente da Universidade a coordenação do Prof.CsA n  026/2005. está sob Santana da Silva. conforme i ndica a Resolução .ª P Universidade Estadual de Goiás foi Dr.

7  As ins tituições que compõem o Sistema ramas sociais de Estadual de Educação Superior implementarão prog apoio e acompanhamento acadêmico dos estudantes cotas de graduação oriundos do sistema de estabelecido por esta Lei. ainda existem inúmeros pontos que constam no próprio texto da lei a serem cumpridos.112) Mesmo com a Lei 14. O relativos a implementação do sistema de cotas na Universidade Estadual de Goiás desde o ano que a lei entrou em vigor em 2005. em seu É preciso ressaltar que ao contrário do que diz a Lei 14. Os fatos explicitam e remetem ao pensamento de que os negros conq uistam uma Lei fixa de cotas para o ingresso nas IES públicas do Estado de Goiás. quando. 2008. o fato da fixação de cotas democratiza iliza a permanência com sucesso. Uma parte importante os focais2 junto a alunos da do projeto é a realização de grup universidade. (QUEIROZ. 6  O Estado de Goiás proverá os recursos financeiros necessários para a implementação de progra mas de apoio visando a resultados positivos das atividades acadêmicas dos estudantes d e graduação oriundos do sistema de cotas. bem como a sua permanência na instituição e Art. na verdad e. com uma média de 8 a 10 alunos de diferentes cursos em cada entrevista.832/2004. Art. p. Os grupos são realizados separadamente com acadêmicos cotistas e não cot istas. A finalidade do projeto: Avaliação das políti cas de cotas só o acesso. O objetivo é rec olher a opinião que estes estudantes têm a respeito do sistema de cotas raciais e compreender como eles veem (ou se veem) nas relações estabelecidas dentro do universo acadêmico. mas não garante nem viab .832/2004 em vigor.sobre o projeto sistema de cotas da Universidade visa a coleta de dados Estadual de Goiás. as instituições de ensino superior do Estado (no caso esp ecífico da UEG) limitaram-se apenas a implementar o sistema de cotas na educação superior goiana.

Conclusão 2 Grupo focal pode ser definido como um grupo de discussão de caráter informa l e de tamanho reduzido. tem em seu propósito promover discussões sobre determinado tema com o intuito de obter i nformações de cunho qualitativo. própria sobre os valores de cultos. não é fazer apenas u aplicação da lei supracitada. seja debate sobre a condição do do afrodescendente. no seio da sociedade brasileira.raciais na Universidade ma avaliação a respeito Estadual da de Goiás. contras dessa compreender a opinião dos alunos (principais interessados a curto prazo) sobre o t ema e a forma como o assunto é tratado e visto não só dentro do ambiente acadêmico. cotas. 121 ----------------------. sua Projetos que implementação devem política. sobre as legislações e a sua própria natural implementação no espaço no espaço educacional se faz necessário uma discussão da tar efa política das É preciso leis já construir construídas no uma análise Brasil (inclusive a de cotas). mesmo que algun s neguem. preciso uma leitura negro no país gerado pelas mesmas. Seu objetivo também é levantar discussões em apontar que possibilit soluções para problemas relativos a discriminação racial ainda presente. visam analisar e seu contrabalançar/comparar devem o sistema os de prós e funcionamento. mas junto a socied ade em . símbolos e de crenças presentes nas culturas de ma triz africana junto a política uma reflexão e a educação diante da para um importância de temas como a reconhecimento do patrimônio simbólico de origem africana presente na cultura brasil eira.Page 122----------------------sistema de Para uma compreensão cotas raciais nas na inserção é clara da importância seja do no universidades públicas.

Obter uma mudança social é algo social por meio dessas políticas afirm ativas ainda é algo muito distante dentro das atuais No entanto. apenas o a cesso ao ensino superior. tendo em vista que. O maior problema está na frágil. mesmo que públicas. foi posto em prática. de colocar o negro/afrodescendente em setores privilegiados socialmente. como previsto na própria lei. o ponto mais explícito da lei. ou daqu abrin vislumbrar a possibilidade de terem seu status e poder abalados. o reconhecimento do estruturas da sociedade. A temática cotas raciais não gera polêmica por possibilitar a inserção de grupos so cialmente marginalizados nas universidades possibilidade. onde até então o viam (ou ainda o veem) como corpo estranho ao seu meio. deixando a d esejar inúmeros outros pontos as o ingresso previstos pela mesma. na universidade. do estudante nas é é necessário Não garantir basta também garantir sua apen permanência instituições públicas. como pode ser visto na política de cotas raciais .geral. A mera possibilidade de modificação nas barreiras e níveis estipulados ela determinada classe. já é um primeiro passo na desconstrução desse discurso segregador que há séculos vem sendo cunha do no Ocidente e do qual somos herdeiros diretos. causa estranheza as camadas do um horizonte que dominantes permite tradicionalmente de qualquer como grupo desta social. Referências bibliográficas: 122 . racismo existente no Brasil (isso feito ―oficialmente ). O tas (não só grande desafio relacionado raciais) é garantir seu ao sistema de co funcionamento integral. a elaboração e desde o governo FHC aplicação de leis que visem combatê-lo. ou seja. como já foi mencionado.

GOMES. HOFLING. ismo na de. Universidade Estadual de Goiás (UEG). GOIÁS. Superando Ministério da Educação. Projeto de Lei n° 3627/2004.junho de 2001. ano XXI. FREY. educação . Planejamento de políticas democratização um estudo rtação de mestrado em Educação da Universidade Católica de Goiás. ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE GOIÁS. Marilena da. Análise de políticas públicas: um debate conceitual e reflexões referentes à prática de análises de políticas públicas públicas. eparação Rubení histórica Pereira. Eloisa de Matos. novembro/2001 QUEIROZ. LXVI Plenária do Conselho Acadêmico. África. 2005. Klaus. afrodescendente e THEODORO. rsidade.Page 123----------------------BRASIL. 142 p. ―Sob o signo da negação . n  55. In: A escravidão reabilitada. 204p.(orgs). 176 p. 2008. racismo e políticas púb licas: 120 anos após a abolição. Uene José. N  21. Diretoria de Estudos Sociais (Disoc). escola. Comunicado da presidência n  4. Disse Superior Pública Estadual.----------------------. Universidade Católica de Goiás. Lei N° 14. ―História Kabengele e Conceitos Básicos o Rac Alfabetização sobre In: MUNANGA. 1991. Mário (org). SANT‘ANA. r no Brasil. 2008. IPEA. 2006. CONGRESSO NACIONAL.832 de 12 de Julho de 2004. Resolução – CsA . e Div SILVA. Secretaria de Educação Continuada. GORENDER. Desigualdades raciais. In: Cadernos Cedes. Brasília: (org). Goiânia: Editora da UCG. Jacob. Estado e políticas (públicas) sociais. As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 an os após a abolição. São Paulo: Editora Ática. Educação e sobre as cotas para negros em Goiás. Goiânia: 2008. Antônio Olímpio o Racismo e seus Derivados . Brasília: Ipea.

florestas e cidades n a Amazônia representava negação às posições de domínio e afirmava esferas diversificadas de ser e estar no mundo. p. 123 ----------------------. Brasil) edsonludd@hotmail. vales e mares rumo ao Norte. when the owners limited access to fertile areas in the rivers and ex plore the projected work toward new relations of capitalist profit. 2000. As condições que homen s e mulheres mestiç@s desde o Ceará enfrentavam foram repletas de opressões. ―Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república . Ceará. In: MOTA. forests and cities represented in the Amazon denial to positions of dominance and claimed diversifi ed spheres being . São Viagem Incompleta: 1500-2000. Trabalhamos com documentos que abordam ações experimentadas cotidianamente na resistência aos diversos meios de construção do Estado Nacional: rec rutamentos. A experiência Carlos Guilherme. 23Edson Holanda Lima Barboza (PUC/SP. brasileira. Migrações. Assim. gerando solidariedades e conflitos que se chocavam com formas hegemônicas de impor padrões raciais e identitários. Palavras Chave: Zonas de Contato. Amazônia. Abstract: We seek to trace paths of migrants from Ceará in the late nineteenth-century circuit of rivers.com Resumo: Buscamos rastrear trajetos de migrantes cearenses em fins do Sec. valleys and seas to the north. closing of land and labor regulations. a travessia de rios.n  026/2005 VENTURA. fechamento de terras e regulamentos de trabalho. the cros sing of rivers. Paulo: Editora SENAC. The conditions that men and women faced crossbred from Ceará we re filled with oppression. XIX em circuit os de rios.Page 124----------------------SOBRE AS HIDRAS DO NORTE: ROTAS DE TRANSGRESSÃO DESDE O CEARÁ AOS PORTAIS DA AMAZÔNIA-1877/1889. Thus.329-359. quando proprietários limitavam o acesso às áreas férteis nas ribeiras e projetavam explorar o trabalho em direção às novas rel ações de lucro capitalista. We work with documents that deal with daily activ ities experienced in the resistance to various modes of construction of the Nation State: recruitment . Roberto.

in the world. Ordem terras as Imperial. principalmente. . generating solidarities and conflicts that clashed with hegemonic forms of racial and enforce standards of identity. A trama seria a passagem do trabalho escravo pa ra o trabalho livre.Page 125----------------------permitiram implodir os do Norte do Império frágeis e que elos que forjavam a homogeneidade alimentou ainda estavam de pé. PUC/SP. migrações de trabalhadores catalisadas Daí surgiram elementos que 23 Doutorando em História Social. Introdução: Inventando o Nordeste e a Amazônia Nas décadas finais do Império a organização da mão-obra estava na ordem do dia em todos os salões e cenários do poder. Keywords: Contact Zones. em que muitos temas m pauta: diversificação de de interesse de outras Províncias não estavam e projetos de colonização.24 Vamos captar elementos sensibilidades em gestação não apenas em discursos de intelectuais treando expectativas e para identificar as novas e políticos. Amazônia. e projetos que ará pecuária e extrativismo O cenário que ora abordamos foi montado a partir de intervenções locais. agricultura de subsistência. das antigas Províncias do Norte não podemos dizer o mesmo. Bolsista do CNPQ. Migration. Sabemos de uma vasta produção que trata do tema no eixo Centro-Sul. pela As Províncias e de do P estavam na periferia da e do Maranhão buscavam impulsionar a colonização de a extração da borracha e controlar grande seca explorar 1877. Orientadora: Maria An tonieta Antonacci. 124 ----------------------. Mas. e. Apesar de alguns esforços de mobilização. devolutas. Ceará. semeando a sensibilidade que o discurso regional que hoje identificamos por Nordeste (Norte seco) e Amazônia (Norte molhado). são alguns deles. Contudo. liderado pela decadente elite açucareira de Pernambuco. ras . c omo o Congresso Agrícola de Recife de 1878.

escravos e clandestinos nas Pr ovíncias do Norte uma imagem Ao falarmos comum que em migração de cearenses aquele para a Amazônia que me de sociabilidade.trajetos dos próprios migrantes que por razões nem sempre involuntárias decidiam pela retirada. aos motivos da decisão pelo des realizadas entre os pontos de partida e chegada. Dá-se menos atenção às projeções locamento e às rotas de emigrados. Em busca de visão mais articulada para a problemática apresentada. à recusa ao recrutamento para as forças policias e o exército. retirante dinheiro. levando em conta elementos como a questão da identidade local ou interesses da elite política e agrícola. e mobilizava conterrâneos para seguir o smo destino. à utilização grantes nacionais em entre a passagem de retirante a seringueiro. da capacidade obras produtiva trabalhadores mi públicas. doenças e aventuras para contar tinha de sobra. e à expectativa d e negros. t rabalhamos com algumas rotas realizadas por migrantes cearenses. Con tudo. no período áureo da borracha. ou distribuição como é o caso de São Lu is e Belém. para além da mutação quase automática uma gama de experiências que vêm sendo de estabelecer colônias agrícolas. Os estudos sobre migrações geralmente focalizam isoladamente a lente de análise no ponto de vista da sociedade de emissão (Ceará) ou na de recepção (Pará ou Maranhão). Referimos-nos de às tentativas há negligenciadas. Quando não voltava com dinheiro. tentando apontar os choques cu lturais e as zonas de contato estabelecidas que engendraram redes resistência e a repercussão da chegada em massa de cearenses em novas terras. clandestinos direção à e trabalhadores pobres fronteira Norte do livres de conquistar espaços em . repleto de o paroara . vem à tona é a do retornava da floresta seringueiro. Rastreando zonas de contato: rotas de retirantes.

Devido à concorrência com as Províncias do Ce ntro-Sul. Edson Holanda Lima. p. Durval Muniz de. o avanço do extrativismo e a forma assimétrica que o governo central tratava as Províncias do Norte. São Paulo: Cortez . ―A Invenção da Amazônia: migrações.1-11 (CD-ROM). 1870/1915. luta pela terra e conexões étnico-culturais. Recife: FJN. Fortaleza: ANPUH. A ideia seria estabelecer colônias de parceria ou formar núcleos de colonos com grandes fazendeiros agricultores. Em relação à disponibilidade de recursos financeiros e reserva de trab alho. In: Anais do XXV Simpósio Nacional de História – História e Ética. 1999. o número de imigrantes foi insuficiente. utilizando o trabalho de imigrantes europeus. Fortaleza. poder senhorial e policiamento conduzidos pelos interesses da Corte Imperial e de Barões do Café. capital . impostos. 125 ----------------------. de chuva associada à concentr de trabalhadores das Províncias situadas a Lest Com destaque para a Província do Ceará. após 1877 o quadro vai modificando-se. Ceará-Amazônia. 2009. Vistos pelas elites locais como agentes ideais para civilizar os mestiços nativos. as Províncias do Mara implantar colônias agrícolas visando garantir o abastecimento alimentar às cidades. mais distante dos alistamentos.Page 126----------------------nhão e do Nas últimas décadas Pará tentaram do Império. A falta ação da propriedade da terra provocou a migração de milhares e do Maranhão.Brasil. 24 Para o debate sobre a produção de discursos regionais a respeito do Nordeste: AL BUQUERQUE JÚNIOR. A agricultura estava em crise afetada pela sangria de braços provocada pelo tráfico interprovincia l. E sobre a Amazônia: BARBOZA. nas palavras de Raimundo Girão. tornou-se a ―metrópole da fome. que não possui unidades de clima úmido como a Zo na da Mata. que vai do litoral da Bahia ao Rio Grande do Norte. A Invenção do Nordeste e outras artes.

p. portuárias também Camocim e foi caótico. A morte tinha cadeira cativa antidos pelo governo. As ações de retirantes exigindo do poder a fome eram mescladas com público trabalho e assistência contra saques a comércios e armazéns públicos. que ti nham por objetivo impedir a livre circulação de migrantes em estradas e cenários urbanos. a economia cearense tinha aditivos pobres -livres. a última com 5 mil habitantes recebeu mais de 60 mil migrantes sertanejos . O quadro em outras s de cidades Acaraú. . 27 ).dum pavoroso reino. a população da cidade estimada em 25 mil almas que quadruplicou com a chegada de mais de 100 mil retirantes (NEVES. . provocada para pelas provocando a estar em morte de perda gado de e a braços crise. morreram no Ceará mais de 118 mil pessoas (sendo quase 57 mil só na capital) e capital embarcaram 26 migraram mil aproximadamente 15 mil 55 rumo mil almas (da E retirantes: 11 mil m conjunto com a rumo ao Sul e migração e as ao Norte). À migrações e epidemias. 2000. principalmente nos porto Aracati. associava-se o desespero de senhores negociando suas últimas re servas: os escravos. realizavam trabalhos públicos em troca de cumpriam atividades como o carregamento de pedras para calçar ruas e a construção das estradas de ferro em Baturité e Sobral. Os ha bitantes das concentrações muitas vezes alimentos e vestimentas. Não bastasse a seca rruinando roçados. Durante a nos abarracamentos m grande epidemia de varíola de 1878. deixando bem claro que não aceitariam morrer à míngu a. antes a Como forma de controle direção da Província do a tomar algumas nas secas medidas sobre tais as multidões de retir Ceará passou entos (que como: construção de abarracam futuras ficaram conhecidos por Campos de Concentração ou Currais do Governo). mais do Entre 1877 e 1878.

nse. p. p. levou também a uma intensificação Enquanto no ano de 1876 foram negociados no porto de Fortaleza 768 escravos.Page 127----------------------epidemias. a que os tem reduzido a secca . Exaltando as vantagens trabalhador proporcionadas pela nova reserva de trabalho. em 1878. conseguissem rumar para o Norte clandestin amente. Sá e Benevides. obra para Assim.25 precoce abolição Dados representativos para avaliarmos as condições que permitiram a da escravatura no Ceará. metamorfoseados de retirantes. 22). número bastante de carne humana ” chegou escravizados significativo considerando o reduzido fluxo de africanos para o sertão cearense em relação às regiões de plantaion (TEÓFILO. que em grande numero emigram para a toda a parte. Embarq ues desorganizados e cravos fujões feitos às pressas eram e foragidos da oportunidade para que es justiça. 1922. terra de ―redentores . se a quizerem aproveitar os nossos infelizes irmãos do Ceará. 256-361). Presidente do Maranhão entre 1876 e 1877 se posicionou: ―oportuna lavradores. de . 1877. a ação de ―especuladores na torpe negociação a 2909.126 ----------------------. iros aproveitassem um tipo de orientava que fazende migrante ―que tanto se distingue pelo trabalho (MARANHÃO. a ruína econômica do tráfico interprovincial. À valorização inicia l a respeito do trabalhador cearense se opõe a representação sobre a população mestiça da flores ta. Importante também pensarmos circulação de passageiros nos vapores graças à concessão de passagens pela Província. fugindo da penuria. que negociaram suas ―peças intensamente em anos imediatamente anteriores no aumento da à emancipação de 1884. para engajarem occasião. a corrente migratória a implantação das via disponibilizou nacional mão-deceare sonhadas colônias agrícolas.

No Ceará. 1922 . 103-132. transporte e políticas de colonização. Amaru Marimbá”: O Ceará no tráfico interprovincial. o Ministério do Império au torizou às Províncias realizarem ssões eram nomeadas gastos pelo com afetados pela calamidade. ―Negros no Ceará. Pero. Sobre sociabilidades de negros. destacamos: FUNES.―não incluindo n‘esta cifra os indigentes que. Eurípedes. O número d e escravos saídos oficialmente somente do porto de Fortaleza entre 1877 e 1879 chegou a 6559. “Catirina minha nega. 2005. SOBRINHO. Pernambuco e Parahyba ” (TEÓFILO. p. para o Piauy. do IHGB e de diversas academias cronista. José Hilário Ferreira. combate às epidemias e tratamento de doentes. 2000. mais à apontada como preguiçosa. quando os itmo de trabalho e migrantes não se submetessem ao controle social.origem indígena e e vadia. Os dados sobre a migração para fora da Província consideram apenas o movimento dos portos . p. o que representou pouco mais de 20. transporte. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha. Veremos africana.913) registrados pelo censo de 1872. (Dissertação de Mestrado). 256). teu sinhô ta te querendo vende. havia a comissão da capital. r produtividade esperados por dirigentes provinciais. Maranhão e Pará. As comi 25 Rodolfo Teófilo. Estas comissões eram compostas por homens de dest aque na . membro correspondente literárias do Ceará. a ascendência africana e o tráfico interprovincial no Ceará. vestimenta. nunca mais ti vê. Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em História Social-UFC. In: Uma nova História do Ceará. que centr alizava a administração e gastos principais outras em eram com diversas localidades do interior. 127 ----------------------. Os alimentação. obr as públicas. acossados pelo flagelo.5% do total de escravos cearenses (31. Um dos destinos eram as colônias agrícolas e as frentes de trabalho organizadas pelas comissões de socorros públicos. passara m as fronteiras. Pero Rio de Janeiro. farmacêutico. 18501881. Entre os anos de 1877 e 1879.Page 128----------------------Presidente de Província. indisciplinada frente que o discurso sobre a oposição de valores entre o matuto do Ceará e o caboclo amazônico cairia por terra.

o Vigário. permi tia não apenas a comunicação entre continentes. no decor rer dos séculos XVII e vam em XVIII. Flávio Gomes ao trazer alianças praticadas por comunidades eram completamente isolados. Assim como a mitológica hidra de Lerna regenerava suas cabeças ao serem co . sendo a 2008. poetas. índios e desertores. persisten destacam a metáfora da hidra te resistência de marinheiros. A despeito dos desejos e seus agentes. moderna. A critica a ideia que os quilombos formação de um campo negro seria a expressão de alianças. Os diferentes autores se comunicavam ” (LINEBAUGH. mesmo que pontuais em alguns casos. rebeldes e desordeiros. p. escravos. utilizamos a metáfora das multidões que da hidra. Já comerciantes. os retirantes de controle de comissários condutas nada elogiáveis praticadas p cearenses se portavam como sujeitos insubordinados. pequenos lavrador Linebaugh e Rediker apontam como o comércio marítimo e de feitorias. ressurgiam em São Luís. 2005) e A hidra uma de m 2008). grandes comerciant es e fazendeiros. assédio a retirantes e outras or membros e encarregados responsáveis pelos socorros.sociedade. es. REDIKER. O navio. entre comunidades de negros e a sociedade envolvente: taberneiros. o Juiz de Direito. piratas e desertores aos antigos e novos meios de exploração do tr abalho. as ações (GOMES. primeiro laboratório do sistema de fábrica. vez que nas de tentavam ser neutralizadas matas e rios de Turiaçu ou fugitivos em Fortaleza. também era ―o primeiro lugar onde pessoas traba lhadoras de continentes 164). Em diálogo com as obras A hidra e os pântanos uitas cabeças (LINEBAUGH. geralmente o Delegado. letras colocou ou em em contato atos as diversos atores que questiona estruturas do escravismo. como REDIKER. Durante o período de ação surgiram muitas denúncias de desvios de recursos do Tesouro Pr ovincial. Belém ou do Marajó.

1998. 30-31). mocambeiros e índios em buscamos mapear para revelar curos devido à preponderância temática da borracha destinos da da e desejos e o monopólio representação . geralmente associadas a circunstâncias de coerção. estradas ainda e ribeiras obs do retirante com pretos das velhos. Outra referência importante são os eriências de trocas estudos que evidenciam as exp culturais. Na es amazônicas. ou nas identificações ruas ora em de cidad con floresta. frentes de contato que de trabalho. as outras entram em contato umas continuas. Mary Pratt articula o conceito de transculturação. são as zonas colônias. Como nos contatos com imigrantes europeus e negros em Benevides. ou Limoeiro (Prado). No presente artigo apresentamos diversos modos de vida que foram compartilhados a partir de alianças e inimigos comuns combatidos.rtadas. colônia de cearenses no Pará. ” Prática no e qual pessoas estabelecem coloniais. móveis que a serem definiam objetivos. desigualdade radical e obstinada p. compreendida como a f orma que ―os grupos culturais subordinados ou marginais a partir de materiais a eles transmitidos por uma cultura permite a formação de Zonas de contato: “espaços de eográfica e historicamente separadas relações dominante encontros com ou selecionam e invertem que g metropolitana. Embarcações. em colônias agrícolas os migrantes em cearenses estiveram interagindo ora flito com sujeitos de diversas solidariedade. a hidra moderna também tinha suas ia abatida outras cabeças tantas regeneradas: a cada experiência de resistênc entravam no circuito da contestação. uma colônias maranhenses.Page 129----------------------- (PRATT. matrizes étnicas. 128 ----------------------.

tão os retirantes – a Queria das autoridades quem eram os ―amotinadores que inci arrombarem os armazéns do governo attentados contra os mesmos armazens. trabalhavam Estante 4 generalizada DO ESTADO CEARÁ. Governo Provincial. após da uma capita série governo. Fortaleza. de saques Em Fortaleza. que 26 APEC . que serviam de suporte para comunicados. os responsáveis diretos pela manutenção da ordem.circular as autoridades policiais do termo da capital. ―lideres nos motins? Sabe entre DO retirantes Ala que 319. O Império da seca e do Caos: controle social e migrações no Ceará Nas ondas de pânico provocadas pela chegada em massa de trabalhado res nas cidades e em esforços de defesa da propriedade perceber a quebra de laços tradicionais de dominação.ARQUIVO PÚBLICO 24. A ação de autoridades muitas vezes era pautada pelo noticiário de jorn ais. A i mprensa cearense denunciava cotidianamente cenas das multidões de retirantes e a reação violen ta por parte de fazendeiros e comerciantes tentando garantir o que lhes restava de propriedad e privada. Fundo: e pedia ―todas as medidas tendentes a acautelar Haveria mesmo ―cabeças .em torno da imagem do seringueiro-paroara . no a armazéns do mês de exigia os saber março de 1878. Delegados e Subdelegados. 26 mos que no período havia insatisfação carregando pedras. da lealdade ao coronel. Livro 236. Os forma traumática privada no sertão. podemos desdobramentos ligados à seca evidenciavam de momentos de ruptura: do respeito à propriedade.Ofício n  142. 6/03/1878. Delegados 2 . Série: Ofícios do Chefe de Polícia aos da Província do Ceará. o Chefe de Polícia l providências para encontrar responsáveis pela ação. da permanênc ia no torrão natal e da obediência às autoridades provinciais. reclamações e pedidos de diligências na comunicação entre Che fes de Polícia.

do Horacio Jacome Pequeno ”. Se na capital e cidades portuárias. Missão Lavras).129 ----------------------. q‘ no dia 26 do mez p. Barbalha No in dirigi e explorada por espíritos retirantes e o povo malevolen não por ―malfeitores. coletadas no Mucuripe. Em novembro Província. foi informado ―por pessoas vindas d‘ahi. que só aumentava o Presidente da o quadro de incertezas. o Chefe de Polícia pediu esclarecimentos. que tinham presença de forças públi mandonismo eram a lei. chegou a solicitar um navio de guerra na tentativa de impor ―respeito a essa grande massa de povo. o caos era a regra. p.Page 130----------------------serviam para calçar as ruas da capital. suscetível de ser tes ” (CANDIDO. Milagres.p. Ferreira Aguiar. um retirante chegou por ter roubado uma raiz de a ter as orelhas corta mandioca. o de 1877. Com lavouras arrasadas. as notícias eram mais das dramáticas. que esta s endo frequente nesse termo surras e espancamento gravíssimos em pessoas encontradas em lavouras alheias. 53). O trabalho pesado de abrir picadas nas matas para assentar os trilhos da estrada de ferro de Baturité fazia com que m uitos retirantes buscassem alternativas para sobreviver. Em novembro de 1879. sempre ―seduzidos ” e ―manipulados cas. Crato. alternativas de trabalho no Ceará tornava m-se cada vez mais difíceis. ―cortou as orelhas de um retirante . sobrinho do Coronel Antonio Luiz Alves Pequeno. 2005. Cariri (Jardim. sem que disso tomem o menor conhecimto as autoridades policiais. terior como a ação podemos imaginar de particulares e a o de 28 vida nos sertões? 1878. ao solicitar expli cações ao Delegado do Crato: ―consta do noticiário do Jornal ‗constituição‘ de hoje. Em ofício do aos Delegados da região do de abril de Velha. pois. É o Chefe de Polícia que descreveu. Na fala de autoridades eram capazes de agir por vontade própria.

Presidente da Pr ovíncia em 1877.Page 131----------------------as Províncias do Maranhão e do Pará.por ter-lhe furtado uma raiz de mandioca. ” Ainda informou que o retirante junto c om mais de 200 pessoas se dirigiu à casa do Delegado o exame de corpo delito.Ala 319. Crato. Fortaleza. narrou o momento em que o personagem central. Livro 236.27 tentar melhor sorte em outras Províncias. foi separado da am transferidos da lancha que os conduzia da praia ao vapor: (. exigiu que o capitão do porto assistisse pessoalmente ao embarque de ―emigrantes qe se apresenta rem a seguir pa 27 APEC . (.. Fortaleza. João das Neves. Ofício ao Delegado do Crato. Caetano Estelita. ficando o agressor impune. milagres. Se o controle da que desdobrava a atenção de aut que se negou a fazer Em tais condições não soa absurdo aceitar a concessão de passagens para ordem em terra estava difícil. 28 O momento crítico da partida dos vapores no porto de Fortaleza foi registrado também no Romance e escreveu O para Paroara (1899). combater a de Rodolfo Teófilo. Por estas razões. No libelo qu aos Deleg n  53 migração para a Amazônia. Medida oridades. que os últimos raios do sol poente deixavam perceber como mancha negra a família quando retirantes er .)A lancha voltou e quando a leva de retirant es chegou a terra. rara era a família que havia seguido ou ficado completa. Ofício n  241 Circular ados do Jardim. 30/11/1879. Sacudidos na praia gritavam e choravam olhando o vapor. Barbalha e Lavras. O desbarat amento havia sido quase geral.. 130 ----------------------.) afim de que o embarque se faça com toda promp tidão e não fique emigrantes por embarcar como já tem succedido. 22/04/1878. sob as águas os obstáculos dobravam. Fundo: Governo Provincial. Missão Velha. Estante 424.. Série: Ofícios do Chefe de Polícia aos Delegados da Província do Ceará. aos 10 anos de idade..

” Pode ter sido em uma dessas oportunidades que José Mathias. Barros oficiou ao o Presidente José Júlio de Ministério da Justiça. Fortaleza. 30 APEC . Série: Ofícios . sem a autorização do governo. 11/10/ 1877. Tinha dez anos e compreendia a grande desgraça que havia perdendo o s pais. tendo conseguido evadir-se da cadeia no momento em que embarcavam grande numero de emigrantes que ali estavam detidos a espe ra de embarques. quanto mais só e desamparad o. 27/01/1879. conseguiu evadir-se em 1877. Onde.sumir-se no horizonte. Em companhia deles a vida era trabalhosa. acusad o de Homicídio no termo de Acaraú e preso na cadeia pública local. Estante 393. Já havia ordens do próprio Bar ros para ―que não embarcassem emigrantes para os portos do Maranhão. que em 1881 era Praça do Corpo de Polícia em São Luís. 26). natural d o Acaraú. ser afetada pela seca e a ―falta de generos alimentícios. Fortaleza.Livro 181-B. Ofício ao Ministério da Justiça. perdido nos abarracamentos de retirantes (TEÓFILO. 1979.ALA 19. Aca raú e Camossim. Fundo: Secretaria de Polícia da Província do Ceará. No inquérito aberto para apurar o parad eiro de José Mathias. Pel o menos é o que nos fala outro emigrante cearense de nome Miguel Quirino da Penha. o soldado relatou sobre a chegada do conterrâneo à capital maranhense: ano de mil oitocentos e setenta grande secca que assolou aquella Província naquelle anno e nos subseguintes. aproveitando-se para isso de grande confusão que então havia. 1974. p. Caixa 16. no nte para o Maranhão mês anterior.30 e sete por occasião da 28 APEC Livro 120-B: Registro de Ofícios da Presidência da Província do Ceará diri gidos ao Capitão do Porto. 1877. relatando a desorganização de embarques nos portos do ―Mundahu. “vários teriam embarcado ilegalme emigrantes ali estacionados . Registro de Ofícios ovíncia do Ceará dirigidos a diversos do Presidente da Pr No Província que também passou a 29 ministérios. Em Albuquerque janeiro de 1879. 29 APEC . João das Neves sentiu-se aniquilado com tamanho i nfortúnio. Ofício n 3805.

Em Acaraú. existência de vagas e atrasos d os vapores são alguns deles. Para o caso dos fora senhorial.Page 132----------------------O relato deixa explícito os riscos de tratar retirantes como caso de polícia. 131 ----------------------.recebidos de outras Províncias. em conexões culturais no circuito do Atlântico negro. 1854-1882. A espera estimulava os retirantes a construir zonas de contato c om seus futuros companheiros de viagem. poderia haver ainda o pagamento da passagem com recursos próprios ou ta lvez através da solidariedade podemos de retirantes esquecer daquilo de de ―Atlântico resistência ou que revolucionário . poderiam haver ecos desta experiência a . à espera. a liberação de passagens. desertores e escravos. camponeses crimes comuns e escravos fugidos. estrada-abarracamento-cadeiadesertores. não era muito difícil identifi car-se como retirante e conseguir gidos da justiça ou passagem do do domínio governo. À maneira como os embarques aconteciam. sob a vigilância de guardas. uma vez que depend cabotagem da praia ao navio. Era porto que encontravam-se no trajeto pobres.reservado) Chefe de Polícia do Maranhão dirigido ao Chefe de Polícia do Ceará. São Luís. no decorrer dos séculos XVII vapores que circulavam pelo e XVIII. Ofício (S/N. o momento do e mbarque. acusados de artistas desempregados. Sabe-se lá quanto iam de uma série tempo ficavam de fatores. 17/06/1881. ao referir-se tripulantes dos vapores. Não Linebaugh chamou à experiência produzida por marujos. Mesmo sob condições tlântica no inglesa. Lembrando país que que muitos no dos Império do Brasil eram de bandeira do século XIX contestava o escravismo. desenrolar diferentes. do aguardavam no entorno da cadeia pública.

cebellos anelados. 05. solicitava providências par a “ser ella . PÚBLICA MENEZES Rolo: 84. cheio d nariz afilado. remetido aos Chefes de Polícia de três Províncias do Norte. Setor d Cearense. Jornal PIMENTEL/CE. mulato claro. clareza de que a conexão amazônica já estava sendo mapeada por autoridades policiais e proprietários. T em falta completa de dentes no queixo superior da frente (. ao não aceitarem serem negociados com as Províncias do Centro-Sul. pés chatos.. o Chefe de Polícia do Ce ará clamava pelo auxílio de seus colegas no Maranhão. Pará e Amazonas para capturar escravos fujões. Diariamente..transporte de migrantes entre o Ceará e a Amazônia? aprofundar o Enquanto ainda não debate sobre as temos elementos suficientes para Temos a embarcações. 29/07/1877.) Sitio São Pedro de Souza (Cascavel). Annuncios. baixo. e embarcado para o Pará ou Amazonas.Page 133----------------------Junto ao lamento de senhores de escravos. em 29 de julho de 1877. exibiu o seguinte anúncio: Fugiu do abaixo assignado no dia 21 do passado o seu escravo Francisco. 31 BIBLIOTECA e Microfilmagem. os periódicos de Fortaleza anunciavam pedidos de capt uras de escravos que. Edição n  63. Sa bino Monte dirigente da Polícia no Ceará afirmou: ―Havendo suspeita de ter seguido para ahi como retirante. pouca barba.3 1 e corpo. ou se tenha misturado com emigrantes. preferiam se guir o rumo dos vales.. rios e florestas do Norte.) Pressume-se que tenha p rocurado para o norte. O Jornal Cearense. 15 de julho de 1877. p. bocca regular. ou sido levada por alguém uma escrava fugida de nome Maria ”. 132 ----------------------.. No o fício de 06 de setembro de 1878.(. olhos grandes. seus tripulantes e o tratamento dado aos ―passageiros.

principalmente nas localidades próximas ao Rio Parnaíba (fronteira com o Piauí): Brejo. Séri e: Registro de Ofícios para diversas autoridades fora desta Província. Estante 414. O familiares separados e. Ofício n  78 Dirigido ao Chefe de Polícia do Maranhão. onde reside seu senhor . capital da Pr negarem-se a .google. Mapa 1: Colônias agrícolas no Maranhão e Pará. Ofício n  79 Dirigido ao Chefe de Polícia do Pará. o. Ofício n 80 dirigido ao Chefe de Polícia d Amazonas.maps. bros das Dos deslocamentos comissões de oceano. além de escra vos fugidos.Page 134----------------------farinha e carne verde serviam de argumentos para proprietários contratar cearenses em suas fazendas. pronunciados na justiça. apenas uma terrestres. ” Outros ofícios semelhantes eram encaminhados desde o Ceará na tentativa de localizar. muitos não const avam nas listagens. o porto de chegada era a cidade de São Luís. falta de Bons. Livro 393. Fonte: www. Seca 1878-1879.Ala 19. devido ao excesso de passageiros nas embarcações. Fortaleza. A diversidade de rotas mais para mapear o trajeto de migrantes. Fundo: Secretaria de Polícia do Ceará. é clar vulcão que entrou em erupção na Província do Ceará jorrava suas lavas nas irmãs do Oeste. havia em a mem duas Ar atravessando os Sertões do Piauí acati. e da chegada de retirantes a pé. Fortaleza 06/09/1878 (os três ofícios citados possuem o mesmo teor e data) 133 ----------------------. Pelo mar. e em direção pelo é ao Maranhão embarcando dificuldade informações. Caxias e Pastos de estiagem.32 descoberta. Acaraú ou Camocim. Legenda: ■ Localização de colônias. menores seduzidos por agenciadores. temos poucas socorros públicos no Maranhão reclamavam constantemente que os gêneros enviados pelo g overno não eram suficientes. capturada e remettida logo para esta capital. Lugares onde relatos 32 APEC .com (Editado pelo autor) Circuitos Maranhenses: atalhos de acesso à Amazônia alternativas: Para deixar o Ceará via terrestre.

corros públicos distribuía os 1997. Baixo Mea rim. Pindaré e Grajaú). abertura de estradas. p. uma das coisas que vale ressaltar é a dualidade produzidos por membros das comissões de socorros públicos uma estratégia discursiva para sensibilizar os governantes. São Bento. Alto-Mearim. Turiaçu.). Brejo. ao afirmar que entre ―o numero já cres cido de emigrantes ” a maior parte é composta de ―mulheres e meninos. somente no ano de 1878. A orientação era distribuir os migrantes entre as fazendas para trabalhos n a lavoura. garantir e relatórios ser Poderia mais intenção recursos perceber em correspondência da comissão de Coroatá. Estima-se que. . a comissão de so retirantes entre as comissões subordinadas no interior (Alcantara.. Itapecu-Mirim. limpeza de rios. icial aponta Em contradição outra com a representação acima. a ilha habitada por 35 mil pessoas recebeu em seu p orto mais de 10 mil retirantes cearenses (SÁ. (. da. Em mar ço o Delegado de voltam a se formar e colocar a propriedade privada e a or de 1879. faminto e debilitado. Rosário. financeiros. Lá. Ao analisar a documentação que a burocracia provincial produziu. Viana. casas de câmara e cadeia. 33 Aqui temos a i magem clássica do retirante resignado. a documentação pol imagem: as multidões dem pública em jogo. entre outros. em virtude de seu padecimento phisico. de ou ain A agrícolas criadas Prado Pimentel durante a administração Graciliano (março e novembro de 1878.ovíncia. ao lastimar Polícia do Alto a falta de destacamento. em obras públicas como construção e reformas de igrejas. Chapada. Guimarãe s. Pastos Bons. Como podemos na de e discursos em as forças de ofícios policiais.) impossibilitado s de por si agenciar a subzistencia. Mearim comentou: ―especialmente agora que a população aumentou com a immigração cearense.56-59).. encaminhá-los para colônias ristides do construção as seis de pontes.

Ao receber voz de prisão. a 22 de maio de 1877. . após a tentativa frustrada de prender o emigrant e ―Delmiro de 33 APEM . 134 ----------------------. através de abaixo-assinado Pedreira reclamavam da presença de ―cearenses emigrantes. o Delegado comunicava que ―appar eceo um dos . sem que a Polícia por falta de força possa providenc iar. o Delegado de São Luis Gonzaga implor ou pelo aumento do destacamento Policial. moradores de de Completa dizendo ―este e desertores.na maior parte homens desmoralizados e desordeiros.34 e invadir em É neste relação aos ambiente de migrantes conflitos que a atenção redobrava da C cearenses. e mostrarão que estavão dispostos a realisar os boatos que a dias grassava de que os emigrantes se macumunavam a atacar o destacamento a vila. Série: Comissão de socorros públicos. s criminosos No mês seguinte. Caminhar pelas localidades em qualquer condição era motivo para mobilizar a atenção das autoridades.Page 135----------------------Tal . Estes homens desmoralisados na mor parte são capazes de t udo seria fastidiozo innumerar os fatos desagradáveis que se tem dado nesta villa e termo. consegui ndo evadir-se com o auxílio de outros migrantes: Por occasião da prisão de Delmiro. termo por sua extensão é escolhido como valhacouto em que esta delegacia possa perseguil-os por falta de forças. Ofício omissão de socorros públicos de Coroatá dirigidos ao Presidente da Província do Maranhão. entre os quais existem homens desmoralizados e turbulentos. os emigrantes res identes n‘esta e alguns dos centros reunidos em grupos vo-ciferavão contra as authoridades. Setor de documentos avulsos.ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO. depois da emigração. Fundo : Executivo Provincial. 27/05/1878. Coroatá. Já em setembro. Delmiro avançou com um facão contra o Delegado. Em Caxias.

Explica o motivo de Vapor Ceará: ―Tendo ido vender ter chegado clandestinamente no umas laranjas a bordo do mesmo vapor deixou-se alli ficar. 35 A os era mais vigilância e a associação comum do que é verdade mesma que entre retirantes no Ceará e escrav não t podemos pensar. Abaixo Assinado dos mo do Delegado Gonzaga. Se eve numericamente a a escravidão expressão que em outras Províncias. radores de Pedreira. de aproximadamente 22 anos. Pedreira. exigio-lhe almoço para si e para o escravo. não podemos negar a presença africana através da mestiça gem existente entre os trabalhadores pobres e livres. Secretaria Chefe de Polícia da Província do Maranhão. Ofício hefe de Polícia. e desejar que sahir estava do no de C Mar afirmou Fundo: 34 APEM . isto em tom ameaçador. Ofício Alto Mearim. São Luís 24/09/1879. e dirigindo-se a uma se nhora armado de uma pistola.Setor de documentos avulsos. condição e profissão. Nos autos não era comum inq uirir pela ―condição ”. caso não houvesse suspeitas de que o sujeito fosse escravo. 18/03/1879. Polícia. acompanhado por um escravo fugido. de São Luis Gonzaga ao C . visto não ter dinheiro para pagar sua passagem eará. 12/04/1879. naturalidade. o Delegado indagou por seu nome. estado. agencia e livre. Deve ter sido o caso de Joaquim Antonio da Silva. ” Ao anhão há cerca comentar sua de seis procedência. olhos ―pretos . natural de Baturité. nariz ―chato e cor ―parda‘? Joaquim. Série: Correspondências dos Delegados de Polícia dirigidos ao do Delegado do Alto Mearim ao Chefe de Polícia.emigrantes cearenses. onde mal ganhava para sua subsistência. Seria pelas carac terísticas físicas de Joaquim: Cabelos ―carapinhos . O que fazia que retirantes com mais coloração na pele tivessem de dar explicações às autoridades policiais para comprovar a sua condição de livre. solteiro. que foi interrogado por estar ―c landestino na capital do Maranhão. idade. 1879. No auto de perguntas lavrado em dezembro de 1879. afim de seguir para e sta provincia. no Ceará.

22/09/1877. Após a fuga de Sobral. de nome Raymundo. Caxias. roceiro e es cravo. estavam “elles libertos em vi sta da lei. Chefe de Polícia do Ceará por estar o mesmo escravo pronunciado na cidade de Sobral. 135 ----------------------. aproximadamente 32 anos. natural de Sobral. Desde então perdera o contato com Raymundo .35 APEM . 1877. os dois seguiram em direção à Baturité. ” Encontramos nos meses seguintes u ma série de correspondências entre os Chefes de Polícia do Maranhão e do Ceará. um recurso para omitir seu paradeiro. Após uma briga entre os familiares de seu senhor . o O periódico maranhense O da cidade do fugido do Ceará: ―vindo escravo de nome Isidio.Setor de documentos Polícia...) próximo a água verde. ficou sabendo que ele e um amigo. Série: Correspondências avulsos. onde consta copia do auto de perguntas feitas ao fujão. cuja captura foi requisitada pelo Dr. Ofício do Delegado de Polícia de Caxias ao Chefe de Polícia. Isidio. por não se acharem matriculados. talvez.Page 136----------------------meses e que antes da partida em Fortaleza ―trabalhava nas obras da Estrada de Ferr o de Baturité no lugar denominado – Callaboca. 36 Aparen temente. de escravos Deveria ser uma referência à matrícula geral imposta aos senhores a partir de 1872. Mesmo tendo argumentos que poderiam dar amparo legal no caso de uma ação de liberdade. (. era um sujeito que tinha consciência de seus atos. em agosto de 1878. Destino diferente teve Isidio. mas também das mudanças na legislação do Império. o que demonstra que estes cativos tinham noção não apenas de seus desejos por liberdade.37 Paiz. Isidio acabou sendo . noticiava a prisão do escravo Brejo para ser vendido. dos Fundo: Secretaria de Delegados de Polícia dirigidas ao Chefe de Polícia da Província do Maranhão. também escravo. o que poderia ser verdade ou. Joaquim pôde continuar a agenciar seus serviços no Maranhão.

) fugio seduzida pelo cearense Joaquim José Sant‘Anna. onde respondia por crime de agressão contra o irmão de seu senhor. em Cururupu. natural do lugar denominado ―Vaca braba ”. APEC . A experiência de trânsito pelo Maranhão poderia representar projeto de constituição de uma família.. ” Edição n 194.. Setor de Micr ofilmes. Noticiário.encaminhado para Sobral. Fundo: Secretaria de Polícia da Província do Ceará. 02. a ―cafusa ” Francisca. N  de ordem: 45. 136 ----------------------. Vejamos o que disse Francisca na ocasião do interrogatório: 36 APEM . Disse mais que quando o cearense a tirou de seu senhor veio com ella em direção ao da caza de disendo-lhe o nome de F era cazado da caza .Setor de Documentos Avulsos. “Captura.Page 137----------------------Sabe que foi preza por estar fugida seu senhor. N  56. decidiu roubar uma escrava do dono da fazend a. ―Raymunda . 28 de agosto de 1978 (Anexo copia do A uto de Perguntas feitas ao escravo Isidio. ele passou a ser ―Manoel . Série: Delegac ias de Polícia – autos de perguntas. Depois de trabalhar um ano e meio em atividades agrícolas. Porém. p. Série: Ofícios recebidos de outras Províncias. 16/12/1879. São Luis do Maranhão 27 de agosto de 1878). Ofício do Chefe de Polícia do Maranhão dirigido ao Chefe de Polícia do Ceará. e que insinuou que mudasse rancisca para Raymunda e foi logo dizendo na viagem que com ella respondente. (. São Luís. aproximadame nte 20 anos. Rolo: 194. este que ninguém a havia de prender. ela. uma diligência policial. trocaram os nomes. 37 BIBLIOTECA PÚBLICA BENEDITO LEITE/MA. quando estavam como migrantes cearenses e casad tentando fugir em direção à fronteira com o Pará. os alcança. no Ceará. Assim queria o migrante Joaquim José de Sant‘anna. Caixa 16 (Espírito Santo. Fundo: Secretaria de Polícia. lavrador. 28/08/1878. Todo o plano estava arquitetado. Auto de perguntas feitas a Joaquim Antonio da Silva . Goiás e Maranhão). Amazonas.Arquivo P ublico do Ceará. Bahia. apresentavam-se os. após denúncia do s nhor da cativa. São Luís. Alagoas. Jornal O Paiz.

fazendo que sem circulando pelas matas que separavam as duas Províncias. Matta dos Bois. em Alcântara. o os havia quilombos. ministração Das de seis colônias agrícolas Graciliano Prado criadas durante a ad Pimentel. controlado. sendo o mais importante pertenceram deles o Gurupi. no Alto Me arim. residentes ficas jurisd claro de mesmo não podemos dizer para migrantes e negros que circulavam por aqueles rios e matas. elle de Manoel e ella de Raymunda. e Pimentel. aladas a partir de maio de 1878. enfim. no Maranhão. out que aparece é a ideia do Maranhão como ponto de passagem entre as Províncias do Ceará e Pará. por era no entorno de Turiaçu. Além disso. As out ras quatro foram: Santa Thereza. a Viseu. Disse mais que o destino do referido cearense h era seguir viagem para Viseu e do Viseu até o Pará passando como cearenses casados e com nomes trocados. Receberam entre 200 e 800 colonos cad a. Se ição entre Maranhão e Pará. civilizar as matas. destruídos em 1878. A área que vai de Turiaçu. Inst começaram a ser desativadas no início de 1879. é cortada por vários rios.38 trada qual chegarão Além da astúcia no plano de ―Manoel ” e ro elemento interessante “Raymunda ”. no Pará. abrir estradas. Daí a importância de criar novas povoações. Flores. instalada oficialmente em do governo foi a Colônia Prado agosto de 1878. no Rio Grajaú. Lugar terras que e rios ser dois negros um limite que caminho grandes lá até para 1852 a estrategicamente deveria ser fronteira. onde existiram o Limoeiro e o São Sebastião. no alto do Pindaré. duas delas estavam na região do Turiaçu: a colônia do Prado e a Amélia. . ao Pará. A colônia que recebeu mais recursos e atenção . nas proximidades de São Luis.porto de tumocatinga onde arrumou viagem para e sta cidade onde se demorarão huma noite e seguindo viagem pela es ate o redondo e ahi forão alcançados por uma diligencia mandada pelo senhor delegado de Polícia. nas terras do quilombo Limoeiro.

e elevada. não teve tempo de exercer o sacerdócio. 1992. Ofício do Delegado de Polícia da comarca de Tury-assu ao Delegado do Termo de Curupuru. (org). colonos com o Freire da Junior. A invasão do quilombo Limoeiro em 1878.Page 138----------------------rado não A escolha ocorreu por do lugar para mera a implantação da Colônia P coincidência. nas Limoeiro foi um dos proximidades da grandes Situava-se quilombos em uma da região do ligeirament divisa entre Maranhão e Pará. o objetivo era criar povoações para impedir a recomposição do quilombo. em julho. foi indicado como meado em maio de 1878 e exonerado entamento em de maio de 1879.Setor de documentos Avulsos. São Luís: SIOGE. Sobre formação 137 ----------------------. 06/07/1879. Maria Raymunda. mas também a chegada cial de possíveis produtos agrícolas. onde os pretos Planície plantavam ―um pouco de tudo. uíta José Esse foi um dos Thomaz. Não por acaso o Capitão Feliciano Xavier xpedição vitoriosa contra os mocambeiros. pelo gestão marcada descont isolamento do terreno. ver: ARAÚJO. 39 A respeito das expedições ocorridas entre os anos de 1877 e 1878 pa ra combater o Quilombo Limoeiro (denominação dada pelos pretos devido à proximidade com o Igarapé Limão. permanecendo somen te dois . nomeado motivos da indignação do Padre Jes de socorros e circulação comer capelão da Colônia. Colônia foi responsável pela no e diretor Sua de Cearenses. o que dificultava a circulação não só de seus habitantes. até tombar nos primeiros meses de 1878 (ARAÚJO. Existiu por mais de 40 anos e resistiu a duas invasões. onde encontrava-se o núcleo.Turiaçu. 1992). Série: Corresp ondência de Delegados de Polícia ao Chefe de Polícia do Maranhão. Fundo: Secretaria de Polícia. Turiaçu.39 38 APEM . também conhecido po r Montes Áureos por ser região de mineração e Gurupi mesmo nome do rio navegável mais próximo).

Rolo: 194. Contou que na chegada já teve ―não boas informações a respeito do Limoeiro . 1996. Retornando à capital. nunca tive senhor’. tomou canoas com aqueles que quiseram ―voluntariamente a companhá-lo. “deixando o dia 26. . Mathias Röhring.40 Após a publicação do segundo trecho de ―Notas de minha viagem ao Limoeiro .dias no ―mocambo de brancos . acceitou o povo e lhe distribuio rações. a 21 de julho . Padre e candidatos a colonos embarcaram em São Luis. no dia seguinte. em agosto de 1878. do Coronel Estácio. como pela desordem.História e memória dos mocambos do baixo Amazonas. que em tudo lá reinava. Jornal O Paiz. A única missão cumprida foi o deslocamento de 500 emigrant es de São Luís à Colônia Prado. 1996. In: Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil. 433-466. Eurípedes. ― ‗Nasci nas matas. de vido ―a má escolha da localidade para sede de uma colonia. sua exoneração do cargo de capelão já estava assinada no Palácio dos Leões. p. ―abastado ancião cearense ”. 467-497. que logo em Viseu quizeram ficar. São Paulo: Com panhia das letras. 29 e 30 do mesmo mês. na Fazenda Fortaleza. A próxima parada foi à margem maranhense do Gurupi. pelo que não me oppuz á proposta de 70 emigrantes. I : Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil. Setor de Micr ofilmes. São Paulo: Companhia das le tras. De Viseu. p. na cidade paraense de V iseu. o desembarque marítimo deu-se à margem esquerda do ―Rio Gurupy . ―Quilombos maranhenses. publicado em partes entre os dia 27. O pa de quilombos no Maranhão e na Amazônia: ASSUNÇÃO. partiu povo para em direção à Colônia Militar do Gu Todavia por outro remédio atormentar o tenente-coronel dre seguiu na devido à falta de canoas para transportar todos. ” No rupi. 40 BIBLIOTECA PÚBLICA BENEDITO LEITE/MA. e FUNES. que demonstrou-se ―indispostissimo para receber em sua faze nda esta nova leva de machinas famintas! não ter. enviou relato de via gem ao Jornal O Paiz.

No dia 30. 01. chegou a 29 de julho. o restante do trajeto foi a pé. Pe. 29/08/1878. pois estamos aqui inteiramente coagidos. porque ainda conosco não s fazer o reconhecimento da re e distribuiu um só retalho das fazendas enviadas pelo governo! nos expatriou. junto com alguns pretos. aqui nos incurralar vê. um quar to de veado custa aqui 5$00 rs. alcançou o ―antigo mocambo de pretos. no meio da mata. 2ª parte: Edição n 195. e o que será de nós então?! Senhor padre. o cruzamento de destinos de migrantes . porque lá está no porto um destacamento com ordem ex pressa de agarrar a quem quer que tiver o atrevimento de querer embarcar! A cruel fome que Mais uma vez encontramos e negros fujões. sem ao menos te rmos a liberdade de podermos fugir.Publicações Geraes.Page 139----------------------frente. 27/08/1878. corren do o ―suor em bicas . 30/08/187 blicações Geraes. fomos en ganados! Conduziram nos am. novo mocambo de brancos! ” Se as notícias co lhidas no caminho não eram boas. 138 ----------------------. aqui tambem nos persegue e como prova. 3ª parte: Edição n  196. mas esta não tarda muito a concluir-se. Após baldeações e troca de canoas. p. para gião e aguardar os demais no porto mais próximo ao Limoeiro. 02. às 10 horas da manhã. quase completamente em nudez. 1ª parte :Edição n 193. pelo amor de Deus faça com que nos deixerm sahir deste inferno. p.02. Publ icações Geraes. como Vme para estas brenhas. Thomaz deu ouvidos a uma série de lamentações: Aquelle pobre povo todo em massa accercou se log o de mim.“Notas de minha viagem ao Limoeiro . estamos. p. ao chegar na Colônia Prado. ao porto da C olônia Prado. e todos quase ao mesmo tempo diziam-me – ah! Senhor padre. veja lá. e calangrinho verde 40 rs. E deste e de outr os animalejos se aproveitão até as tripas! ‗Por ora vamos sustentando-nos unicamente da mandioquinha dos pretos.

que os acusavam de serem ―grandíssimos preguiçosos : (. nós deveremos onde por maneira alguma queremos permanecer? Não é a mais rematada loucura.) Pois. s.. Durante a visita lônia. a transferência da Colônia para as margens do Gurupi.. afirma Rejeitava permanecer no local m discursos de devido ao seu completo “capitães de campo ”. embora nesta longa viagem para por ella nos evadirmo corramos o risco de morrermos de cansaço victimas das febres! . isolado de todo o mundo. (. logo 139 ----------------------. Con tudo. Cap. o capitão foi guiado por um “antigo preto ” e acompanhado voluntariamente por colonos q ue tinham a finalidade de ―tambem aprendel-a. senhor padre. vam a Os moradores do falta de interesse ―novo em mocambo ” ainda isolamento. o diretor da co ausente pois foi explorar uma antiga estrada que ligava o Limoeiro à localidade Pa raná. e o mais descommunal despotismo. Ainda segundo informações fornecidas pelos migrantes a o padre. Feliciano Xavier.. tentou na propor ao secretário da colônia ausência do Cap. Feliciano. aberta pelos mocambeiros para roubar gado. estava Thomaz.Além da mandioquinha que alimentava os colonos.) tudo em prejuizo destes pobres mocambeiros cearenses. quererem estes no ssos senhores obrigar de sabre em punho a nós brazileiros livres a termos permanenci a fixa neste lugar sem futuro. o clérigo retornou ao porto da que havia deixado na Fazenda colônia para aguardar os migrantes . O . sua conduta ―é só a obediencia. encarregado padre ainda pela direção.. pretos velhos serviam de guias pel os caminhos nas matas. sendo o secretário também militar. ” No di a seguinte. e que só por isso é que os pretos escolheram para mocambo? fazer casa e roçado.Page 140----------------------percebeu que tratar com militares era infrutífero. do Pe.

. assim como as que são destinadas para as aulas que aqui temos. de 3 1 de outubro. o Capitão Feliciano Xavier solicitou ―um relógio para bem podermos regular as horas marc adas para o trabalho. o que justificava o clamor pela continuidade do envio de recursos e colonos em direção às cidades para impedir a retirada d próximas que já estavam repletas de outros migrantes a cargo das comissões de socorros públicos. dos quilombolas. que daqui se evadirão. pode assim c Em uma tentativa evidente de internalizar por si regular seus serviços. Em corre spondência ao Presidente da Província do Maranhão. acoitados por dois indios (. a Prado e a Amélia. Nas colônias. qua ndo por mim forão perseguidos.. de lá voltou para a capital.Fortaleza. de 07 de janeiro de 1879. era o diretor o responsável pelo controle da entrada e saída de pessoas e por impor uma disciplina para o trabalho. ainda er a importante ter uma ―sinêta ada um para que ―nella repetindo-se as horas marcadas pelo relógio. eram apontadas por diretores de colônias como causas da baixa produtividade agrícola. ain da traziam o problema de estarem próximas às matas e rios de fronteira entre Províncias.) tornando-se p rejudicial a estada de taes pretos tão – Escuta . alertou: Constando-me achar-se reunidos no logar – na Provincia do Pará. O projeto do governo era assistir às colônias agrícolas somente por um período. Aliada às preocupações comuns a todas as colônias. uma nova disciplina de trabalho entre colonos. e distante desta colônia de 12 a 14 leguas um já crescido numero de pretos. nunca mais retornando ao Limoeiro. Em ofício ao Presidente da Província. até que seus habitantes passassem a colher os . o diretor do núcleo de cearenses no Limoeiro. A recusa e a gêneros alimentícios para o próprio sustento irregularidade do ritmo de trabalho. junto às epidemias e a carência alimentar.

Para aqueles que chegavam direto pelo mar. José Joaquim do Carmo. apresentavam um estado de saúde debi litada: ―completamente decreptos. sobre o que fa zer com ―os pretos amocambados Francisco Cabindá. abolicionismo e as fronteiras da le i Em contecer Maranhão. ens do pelas Rio direção ao Pará. A possível acompanhar o curso dos rios e se internar na floresta.Suas cassa ordens é no porque sentido como perto desta colonia rogo a V.Page 141----------------------Sabemos que. Feliciano. de serem elles ali perseguidos. Feliciano pedia orientação a Graciliano do Prado Pimentel. os pretos acabam permanecendo na colônia. Exa. veredas e pretos e mocambeiros que conheceram pelas margens do Gurupi. Belém. o desembarque aconte cia na capital. em junho de 1879. ou seguir em paralelo ao litoral. Diante dos fatos. Pará o portal da Amazônia: Colonização. e por isso não podem fazer viagem por terra. A presença de negros já vinha sendo comunicada desde agosto de 1878. quando o Cap. em direção à região bragantina. 140 ----------------------. deixava evidente sua expectativa em relação à migração cearense: ―Si o immigrante Cearense procura t . Os negros que afirmavam se rem do Pará e ―ignorão quem sejão seus donos .41 um grupo de cearenses levou do depósito da colôn ia armas e ferramentas que lá encontraram caminhos e fugiram. Em abril de 1878. Joaquim Cassange e Cosme . que precizão de bastão para arrimo. Se ainda eu lhes não dei já disse pertence aquelle lugar ao termo da Villa de Visêo na Província do Pará. após suspensão dos socorros e a exone ração do Cap. fronteiras do a entrada partir de de migrantes Viseu e poderia das marg a como vimos Gurupi era acima. Presidente da Província do Pará. Podem ter aprendidos com os tomado as estradas.

de Gama promoção Abreu. VicePresidente da Província do Maranhão. caso não possam por si. Subsérie: C olônias de Cearenses. 1-2). precisa de braços que fecun elaborou as ―Instruções provisórias para o serviço attinente aos retirantes cearenses que procuram a Província do Pará. em Tentagal. 141 ----------------------. Visava orientar a manutenção da higiene e a moralidade nas ruas n a capital. e os que manifestarem animo de perm anecer n‘esta Província. e no espaço de trez dias obter ar ranjo ou meio de subsistência em s. e a indenização aos cofres acesso à terra mediant A quarta in públicos e a proibição de que ―andem elles mendigando ou solicitando esmolas. em da 1879. Ofício de 31/10/1878 . strução define: Os que se quizerem dirigir para o Amazonas serão a hi transportados. Ofício do Juiz de Direito da comarca de Tury-assú dirigido a José Caetano de Vaz Junior. 6 / Ane Entre as atividades foi a criação ou coloniais. Entre 41 APEM . p. conforme for determinado pela presidência (PARÁ. 1878.erras que dem lhe retribua o trabalho o Pará as suas terras. Turiaçu. (Era comum q uando o cargo de Diretor de colônia ou Comissário de socorros públicos estivesse vago o Juiz de Direito assumir a responsabilidade pelos recursos financeiros e distribuição de socorros). 11/06/1879. obras ou na publicas por trabalho licito. Fundo: Secretaria de Governo.Ofício de 07 /01/1879 – Ofício de 12/08/1878. enumera os xos p. serão empregados comprehendida a abertura e melhoramento de estrada agricultura. Ofício do diretor da Colônia Prado Capitão Feliciano Xavier Freire Junior destinado ao Presidente da Província Graciliano Aristides do Prado Pimentel. a principal reestruturação de núcleos núcleos existentes em ― ‗Benevides‘. em Santarém e agora em Santa Izabel e no caminho da Vigia.Setor de documentos Avulsos. logo que se possa fazer. Para tanto. agricultura.Page 142----------------------- . distribuição de retirantes em postos de trabalho.

Diferente das colônias do Maranhão.eles. saques a comércios e multidões de migrantes m as ações de massa sendo retomadas em novas terras. na administração de Sá e Benevides. Belém. 1879. a mais importante . a ―colônia ‗Benevides‘. Benevides merece atenção não apenas por ter sido a colônia agrícola a rece ber grande número de migrantes cearenses. em fevereiro de 1877. 42 Em seguida. teve uma demográfica após a migração de cearenses. 20). Em pronunciados. suspensão dos socorros públicos. mas também por ter sido palco de motins contra forças púb licas. 1 26 nacionais (PARÁ. 161). contava com ―cerca de nove mil habitantes (PARÁ. e zona de contato entre sertanejos insubordinados. ara realizar suas diligências. negros e imigrantes europeus. possuía pouco mais panhóis. Seu po atualmente é um dos municípios da Região Metropolitana de Belém. p. 10 italianos. perseguir al. s urgindo como um dos principais focos da luta abolicionista no Pará. 1877. o e suspeitos . Era reduzido de forças policiais. s em As atitudes de migrantes decorrência do número tinham às maiores praças repercussõe existentes em ger p ameaçando invadir vilas. 8 de junho de impedimento escravos fugidos 1879. 2 Hes Suissos. 3 belgas. 4 português e explosão de 100 colonos ―71 franceses. Delegados de Polícia reclamavam de grupos armados de cearenses assaltando gado na Ilha do Marajó. percebemos a limitação do poder de autoridade s. Ao analisar as fontes. p. atingindo a cifra de 9 mil almas em 1879. sua instalação foi anterior às migrações e 1877 e continuou a existir após a voamento teve continuidade. O projeto graças à sua localização a cerca de 30 quilômetros de inicial de atrair imigrantes europeus não obteve o sucesso esperado. foi plane jada para ser o celeiro da capital. A colônia fundada em 1875.

. Migrantes cearenses no Pará: faces da sobrevivênci a(1889-1916). por certas duvidas na casa da directoria. Caixa/Ano:1874-1879. (Dissertação de Mestrado). Ofício do Subdelegado de Polícia da povoação de Nossa Senhora do Carmo de Benevides ao C hefe de Polícia do Maranhão. 43 APEP . 08/06/1879.Page 143----------------------e porque Os ficou conflitos conhecida na colônia tiveram sequência. e am de cacetes e o tomaram do guarda. 43 42 Sobre práticas agrícolas e a rancivaldo Alves. principalment como ponto de acolhimento de negros fujões e clandestinos. (Tese de doutorado). Há também a t de Franciane Lacerda que trata de migrações para os seringais. a ―colônia de cearenses prepondera no núcleo de Benevides . no dia 30 d‘este mês. foi fundada a Sociedade Libertadora oi saudada pelo jornal de Benevides. Série: Ofícios Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. 2008. Dentro deste contexto. Em março sua atuação f Diário de Notícias. cidades e núcleos coloniais no início da República: LACERDA. (.Subdelegado de Benevides reclamou ao Chefe de Polícia do Pará ―um maior números de guard as para evitar a desmoralização da Polícia. Franciane Gama. animada pelo movimento abolicionista de sua Província natal. Fundo: Secretaria de Polícia. 2006. A semente da seus companheiros se armar formação de Benevides.ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ. Belém: Programa de PósGraduação em História Social da Amazônia/UFPA.) pretende-se declarar livres todos os escravos ali existentes. São Paulo: Pós-Graduação em História Social/USP. que liquidou mui tos de seus cativos através do tráfico. 1870-1889). Benevides. F colonização: um estudo sobre a Colônia Agrícola Benevides (Pará. Referia-se à tentativa de prender um retirante que acabou em luta entre populares e guardas: ―A origem da luta foi ter sido pre so um retirante. ver: NUNES. Apesar do tom festivo da matéria do Diário e do ato que libertou 6 e scravos dia . em 1884. 44 Talvez fosse mais fácil ser abolicionista no Ceará.. 142 ----------------------.

um soldado do destacamento da Colônia Benevides. a estiagem. o espanhol foi preso. no apagar de luzes do Império. Enquanto apitava para pedir reforços. o Sub chegasse ―a sessenta o numero de escravos aqui refugiados. em seguida posto em liberdade. um ―hespanhol puxou o preso da mão d o soldado. 25/03/1884.. os deslocamentos continuavam ocorrendo pela iniciativa de parentes tent ando recompor suas famílias. 45 s Após 1880 e o fim foi suspensa pelos governos. a tensão em Benevides não delegado afirmou que talvez cessou. justificavam a retornada do incen tivo à migração 44 CENTUR/PA. Be lém. sem que nada pudesse faz er. Jornal Diário de Notícias. e são os primeiros a aconselhar a insurreição. clandestinos em busca de . pela ação de agenciadores de trabalhadores para a extração da borracha e pe la busca constante de pobres. Setor de Microfilmes. ao passar na frente da residência d o ―Francez Joseph Blain . a concessão de passagen Contudo. Em junho de 1884. Temos indícios para pensar na construção de espaços de solidariedade. já que ―da parte dos aqui residentes por serem quasi todos. o retor no das ações de retirantes e as memórias da grande seca de 1877. desertores e novos espaços de sociabilidade e liberdade. O que tra mavam na Babel de Benevides? Ações abolicionistas? Reivindicações dos colonos? Só temos a certeza da ―ogeri sa ” que ―esta gente (. ou todos cearenses como a V. da seca.) deposita na força Policial. percebeu grande algazarra e perguntou a um cearense que estava na porta o que acontecia ali. Exª deve ter conhecimento.30. Edição n  70. Ao ser recebido de ―maneira insultante . O cearense escapou. Rolo: 45. Podemos pensar também nas trocas culturais ocorridas entre cearens es e estrangeiros. decidiu dar voz d e prisão ao cearense. Em 1888 e 1889.. Em 11 de setembro de 1884.

Page 144----------------------de cearenses. aparece na documentação como um dos e retirantes. produziam café (MORAIS. os argumentos a procura por trabalho e o principais para a solicitação eram chamado de parentes. 2009. entre Belém e a Fronteira com a Guiana Francesa. Medida que sofreu muita requerimentos de passagem escritos por retirantes encontramos maior interesse pe las Províncias do Pará e Amazonas. Caio Prado. Série: Ofícios de Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. por parte do Subdelegado. a reclamação. Para esta rota Belém continua sendo a porta de entrada para a navegação nos rios amazônicos. José Mai a. irmão do Mi Agricultura. Neste segundo momento. A cidade de Barcarena do Marajó. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em História Social-PUC/SP. Ao analisar os 2003). 46 Já em 1888. sufocado os projetos de criação de novas como a migração para os seringais não é no momento o centro de nossa argumentação. Ofício do Subdelegado de Benevides ao Chefe de Polícia da Província do Pará. situada entre Belém de tensão provocados pela e a Ilha chegada para houve d 1884. p. Pará 1850-1888). Por todos os meios legítimos e legais: as lutas contra a escravidão e os limites da abolição. (Tese de d outorado). 02. tentou incentivar a condução de retirantes para as propriedades de sua família em São Paulo que oposição. Sobre as lutas abolicionistas no Pará: BEZERRA NETO. de que existiam na localidade ―muitos vagabundos que não procuram . Caixa/Ano: 1884 Ofício do Subdelegado de Polícia de Benevides ao Vice-Preside nte da Província do Pará. Mas. No período o Presidente nistro da de Província no Ceará. Benevides. 143 ----------------------. 03/07/1884. já encontramos referências ao trabalho nos ser ingais e a extração da borracha já havia colônias agrícolas. (Brasil .Fundo: Secretaria de Polícia. houve o temor de que os cearenses estivessem ―preparando-se no dia 24 véspera de Natal destruir o destacamento Policial. 11/09/1884. Benevides.Diário de notícias. Ainda em focos no Pará. voltemos para as áreas próximas ao litoral. 45 APEP .

Ofício do Subdelegado de Barcarena ao Chefe de Polícia. Série: Ofícios de Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. Barcarena. 17/07/1888. 144 ----------------------. Entre os casos ―torna-se celebre o Cearense Franco Ignácio Lira. Caixa/Ano: 1888. como também compondo as tropas. que está em condição de assentar praça na tropa de linha ou na armada único meio a meu vêr que póde regeneral-o e corrigil-o. Série: Ofícios de Delegados e Subdelegados de Polícia da Província do Pará. uma dos meios poderia ser exatame nte através do recrutamento s cearenses às forças públicas. de questiona vamos encontrar migrantes do Ceará tanto em ações de combate à polícia. responderem justiça 46 APEP . O que apresenta uma diversidade mentos.Fundo: Secretaria de Polícia.Page 145----------------------A rota que seguia em direção ao Marajó. 47 APEP . levando-nos ificar suas escolhas.trabalho em que se empreguem e que vivem constantemente embriagados e promovendo desturbios. 47 O desafio de integração de novas populações em atividades vistas como pr odutivas por parte de autoridades policiais não era nada fácil. que foram É expressivo o número de migrante recrutados para a Guarda Municipal em Belém. Primeiro. Barcarena. Ofício do Subdelegado de Barcarena ao Chefe de Polícia.Fundo: Secretaria de Polícia. Caixa/Ano: 1884. nas colônias militares responsáveis pela proteção de fronteira e no Corpo de Polícia. 18/12/1884. depois Macapá e à fronteira com a G uiana Francesa já era conhecida por escravos fujões e desertores do Pará desde os tempos col oniais e pode . de qualquer a pode em tentativa alguns crimes na casos de ter simpl facili ou presença de migrantes na polícia tado fugas de conterrâneos que estavam na clandestinidade por já terem desertado em outras Províncias. a fugir Segundo.

vivenciadas por retirantes junt em direção a Cai o com As zonas de contato comunidades de origem africana e indígena nas áreas do Marajó e Amapá ainda estão por ser estudadas. ASSUNÇÃO. 2009. A invasão do quilombo Limoeiro em 1878. José Maia. São Paulo: Companhia das letras. Pará 1850-1888). a região do Amapá seria ainda mais atrativa para desertores e mesmo invasores estrangeiros. pelo movimento comunidades camponesas. Fica o desa fio de descortinar a penumbra que cobre os circuitos trilhados por migrantes cearenses nos anos finais do Império. Os moc ambos transformar-se-iam em cravidão no Brasil. p. Com o Boom da borracha. Mathias Röhring. festas.ter sido uma das escolhas tomadas por migrantes cearenses: As deserções e denúncias de fuga ena continuariam no século XIX. ARAÚJO. A Invenção do Nordeste e outras artes . ver e ler o mundo. São Luís: SIOGE. In: Anais do XXV Simpósio Nacional de História – História e Ética. São Paulo: Cortez. 433-466. Por todos os meios legítimos e legais: as lutas contra a es cravidão e os limites da abolição. que se manifestavam circulavam também em seus hábitos alimentares. ―Quilombos maranhenses. 145 ----------------------. p. p. 2009. 1999.1-11 (CD-ROM). BEZERRA NETO. Fortaleza: ANPUH. temos aí uma s de vida da invisibilidade possibilidade pobres. pois. BARBOZA. Durval Muniz de. 1870/1915. 1992. ritos religiosos. 1996. modos de falar. luta pela terra e conexões étnico-culturais. de Aposta tirar que modos suas fica experiência mais de ser atribuída a maioria dos migrantes cara se pensarmos em entender também que para além de indivíduos.Page 146----------------------Referências bibliográficas ALBUQUERQUE JÚNIOR.215). São Paulo: Programa de Estudos Pós-Gradu ados em História Social-PUC/SP. (Brasil. 2007. Com o término da es as fugas de escravos nessas regiões foram substituídas de migração clandestina (GOMES. (Tese de doutorado). Ceará-Amazônia. Maria Raymunda. ―A Invenção da Amazônia: migrações. Recife: F JN. Edson Holanda Lima. e estar. In: Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil. . (org).

(Dissertação de Mestrado). 1877. por occasião da instalação de sua se ssão ordinária. nunca tive senhor’. . ― ‗Nasci nas matas. In: Trânsitos Coloniais: diálogos críticos Luso-Brasileiros. Relatório que o S. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Gradu ados em História Social-PUC/SP. João Bandeira de Mello Fi lho abrio a 2ª sessão da 20ª legislatura da província do Pará.História e memória dos mocambos do baixo Amazonas. 1996. Flavio. 2005. São Paulo: Unesp. Fortaleza: Museu do Ceará. FUNES. Falla com que o exm.CANDIDO. Maranhão: Typ. MORAIS. 2000. Snr. Flávio. Francisco de Sá e Benevides. 103-132. FUNES. do Livro do Comércio. A hidra de muitas cabeças: Mari nheiros. PARÁ. (Dissertação de Mestrado). LINEBAUGH. (Tese de doutorado). retiran tes e operários (1877-1880). (séculos XVIII-XIX). A Hidra e os Pântanos: Mocambos. Pre sidente da Província. p. In: Uma nova História do Ceará. Belém: Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia/UFPA. 2006. 2008. Razões e Destinos da Migração: Traba lhadores e Emigrantes Cearenses pelo Brasil no final do século XIX. p. Falla com que o excellentissimo senhor doutor José Coelho da Gama e Abreu. Dr. Fortale za: Fundação Demócrito Rocha. Migrantes cearenses no Pará: faces da sobrevivência(1889-19 16). Trem da Seca: sertanejos. ―Negros no Ceará.217 LACERDA. Campinas: Editora da Unicamp. 2003. Dr. Tyrone Apollo. GOMES. Francivaldo Alves. São Paulo: Companhia das Letras. Belém: Typ. 187. Eurípedes. Belém: Typ da ―Província do Pará . apresentou á Assembléia Legislativa Provincial. Viviane Lima de. 1877. NEVES. Eurípedes. São Paulo: Pós-Graduação em História Social/USP. REDIKER. em 15 de fevereiro de 1877. ―Entre Fronteiras e sem limites: espaços transnacionais e com unidades de fugitivos no Grão-Pará e na Guiana Francesa (Séculos XVIII e XIX). In: Liberdade por um fio: História dos quilombo s no Brasil. MARANHÃO. Belém: Typ da ―Província do Pará . abriu a 2ª sessão da 21ª legislatura da Assembléia Leg islativa da Província do Gram-Pará. 2005. Exc. 1870-1889). Do Paiz. em 16 de junho de 1879. PARÁ. A multidão e a história: saques e outras ações de massa no C eará. 1878. PARÁ. Peter. 467-497. A semente da colonização: um estudo s obre a Colônia Agrícola Benevides (Pará. p. 1879. Dr. no dia 18 de outubr o de 1877. quilombos e comu nidades de fugitivos no Brasil. GOMES. Marcus. 2007. 2000. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Snr. 2008. NUNES. José Joaquim do Carmo abrio a 1ª sessão da 21ª legisla tura da Assembléia Legislativa da Província do Gram-Pará em 22 de abril de 1878. Franciane Gama. Frederico de Castro. São Paulo: Companhia das letras. escravos e rebeldes no Atlântico revolucionário. Falla com que o exm. Fortaleza: Secult.

1922. pode pontos de vista. m ser As relações entre analisadas sob vários história. Mary Louise. “Catirina minha nega.146 ----------------------. José Hilário Ferreira. porém. Sebastiana. 1998.Page 148----------------------BRASIL E CUBA: DUAS MULHERES NEGRAS ENTRE A NATURALIZAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO E O CONFRONTO Orlinda Carrijo Melo Fac uldade de Educação – UFG/PPGE atégias de Este artigo sobrevivência tem de como duas objetivo analisar as estr mulheres negras. Bauru: E DUSC. 18 501881. 2007). Rodolfo. (Dissertação de Mestrado).Page 147----------------------PRATT. 147 ----------------------. 1877-1880. A imigração de cearenses no Maranhão (1877-1879). Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. sociedade neste mulheres de e mulheres o foco humilde. História da Secca do Ceará. TEÓFILO. já de Dionísio Lázaro Poey Baró táticas para enfrentar as dificuldad Sebastiana é apresentada através de uma pesquisa desenvolvida por mim (MELO. nunca mais ti vê. Iracema de Jesus Franco de. educação e essas das artigo. que nasceram no iníc io do século XX e percorreram este século criando es que a discriminação racial impunha a elas e a seus familiares. Fortaleza: Secretaria de Cultura. Pero Rio de Janeiro. (2009). Amaru Marimbá”: O Ceará no tráfico interprovincial. se direciona para as práticas e representações produzidas por sobre família. A partir do trabalho conheci Reyita. cubana. Rio de Janeir o: Imprensa Inglesa. SÁ. brasileira e Reyita. origem . 20 05. Pero. SOBRINHO. 1997. particularmente. teu sinhô ta te querendo vende. O Paroara – Romance. Rodolfo. 1974. Fortaleza: Programa de Pós-Graduação em História Social-UFC. São Luis : UFPA . (Monografia de Graduação). TEÓFILO.

tanto na escola como fora dela.uma orientação patrifocal quanto às relações de oridade no seio familiar.filho.mãe . A unidade elementar. pai . e legitimava-se ideo logicamente com as doutrinas da religião católica.ainda que não fosse possível cumpri-lo na prática .12). rganicismo o positivismo científico de Spencer estavam e social de Comte e o o enfrentar um mei aut presentes no pensamento educacional brasileiro e cubano. Se ia o e desenvolvimento e o progresso da tecnologia. O evolucionismo de Darwin. O modelo estabelecia .Page 149----------------------necessidade de reconstruir a escola ernidade . na sua proposta de valo rização da escola.para atingir esses tradicional .religião. haveria 148 ----------------------. o projeto educacional proposto pa ra orientar a escola no Brasil e em Cuba absorveu referenciais teóricos europeus e norte-americanos.antítese da mod implicavam a difusão da ciênc . 2009. De acordo com Baró (2009. era tipicamente nuclear. Esses eram os traços básicos de modelo de família que os espanhóis levaram a Cuba e os portugueses ao Brasil. p. p. e no cumprimento nas funções de prover o sustento econômico e a responsabilidade por impor as normas culturais internas que a famíl ia devia seguir. com ascendência bil ateral (patrilinear e matrilinear). na religião e no processo educativo. tendo como cenário o racismo nos seus países de origem. Isso tudo era próprio de um país com cultura marcada pelo patriarcalismo. a concepção de família introduzida em Cuba pelos colon izadores espanhóis. a qual tinha muito arr aigo na sociedade espanhola [e portuguesa]. pode revelar ―muitas informações sobre a realidade social e sobre capacidade do indivíduo para adaptar-se e/ou o hostil e continuar vivendo (BARÓ. É possível dizer que a vivência dessas mulheres na família. Guardadas as devidas diferenças. 16).

objetivos. áreas como Di Sociologia foram consideradas fundamentais para as mudanças nas instituições educativa s. no ideias plano escolanovistas. suas práticas frente a esse ideário? Como estruturaram suas relações familiares e religiosas tendo como contraponto um processo educativo restrito a poucos? numa Reyita sabia muito bem sociedade discriminatória o que significava ser negra como a de Cuba. Ou seja. Com esse objetivo. Por isso. baseadas em Dewey. As presentaram. r: como Sebastiana e Reyita e educacional A partir daí. eles poderiam alça r melhores posições na sociedade para lutar contra todas as formas de interdições. 52). 23). Todos os males seriam solucio nados pela educação e ―a ela caberia construir e formar simultaneamente a Pátria. 2002. a educação ―moderna que nesse ideário político. que amo os negros. dática. social ferioridade da raça negra. da mulher negra. re segundo Sant´Anna (1992. Reyita ressalta que ―não é demais dizer que amo minha raça. p. principalmente. Assim. mas casar com um branco naquel a época era . Psicologia e p. Cab eria às elites locais introduzir os valores do mundo civilizado nas relações sociais. econômic as e culturais (SANTOS. assim. a reconstituição dos conceitos liberais fundamentados na idéia de progresso que implementariam a modernização da escola. Biologia. Reyita repetia o discurso de seus antepassados qu e era necessário ―adiantar a raça . deveria casar-se ―branquear seus filhos e todos os seus descendentes porque. MONTEIRO. estava é implícito importante a in indaga chegou também às escolas. a Nação e o Povo. político. Vale dizer construíram seus significados. apesar de o discurso oficial do governo revolucionário de Fidel Ca stro negar todo o tipo de discriminação. ―não um branco para ―deixá-la atrasar .

Ao mesmo tempo. Portanto. mas ouvindo um professor na janela que separa o l ocal de seu trabalho em um restaurante da sala de aula a ler e a escrever. Religiosidade que fundamentou-se na sua fé católica e nas tradições africanas de seus antepassados. bus cou na educação. 54). jovens e adultos. Lia todo circulavam no seu meio e discutia-os com outras pessoas. Sebastiana. 89 anos. Essa mulher ousada percebeu que ter a posse do saber representava entender as formas de poder e. aliada a outras. No sertão do Brasil. no Curso Normal. para tanto. pobre e sem estudos. Tornou-se uma líder na família e nas organizações sociais das quais participava . uma profissão para lhe assegurar uma vida melhor.vital (BARÓ. baseada na religiosidade que também lhe 149 ----------------------. com ele formou uma família mas que a respeitou estruturada nos valores disseminados pela fé católica. na nova capital do Estado de Goiás . 2009. Também alfabetizava criança s. Filha d e pais pobres que lutaram com muita dificuldade para criar e educar os filhos.Page 150----------------------conferiu poder na comunidade. ca sou-se com um e homem negro.uma mulher negra destacou-se: Sebastiana. políticas. p. raciais e educacionais. . Criou uma estrutura familiar. O casamento foi para ela a consumação de uma das estratégias de vida qu e. do onde mundo ele ensinava da crianças alfabetizou-se e não tinha medo s os tipos de impressos que escrita. sejam sociais. empregada doméstica e benzedeira. Não na esco la formal. buscou a leitura e a escrita. apesar ainda das muitas discriminações. pobre. porque tem que trabalhar dia e noite. já na vida adulta. a levou a participar de vários movimentos sindicais e governamentais para erradicação de todas as formas de exclusão.Goiânia .

O almanaque não fazia parte desse universo profissional. mas não podia comprar empréstimo. é que lhe abriu essas por tas: lia os livros dos patrões. aos no vos espaços urbanos de leitura. A proximidade com a elite cultural. estando nos arredores da elite intelectual teve que se render ―à leitura reservada aos intelectuais. repassando esses valores para seus filhos. I nterdição que foi reconstruída na escola de seus filhos: ―lá a leitura oralizada irá servir para o controle do grupo. da vida do s santos. Os valores projetados na nova cidade também exigiram novas práticas educativas que . na nova capital.172). p. Dona Sebastiana integrou-se. escola particular para os seus filhos. Nesse espaço Sebastiana. de maneira restrit a: eram espaços pagos. A primeira sobrepõe-se à última. compartilhava leituras de romances. Esta mulher lutadora. através do seu trabalho. Com efeito. frequentava a igreja e apropriava-se das leituras da bíblia. Era católica fervorosa. 180).Sebastiana. gratuitas na Biblioteca Pública Munici desligou-se da leitura dos almanaques. pela via do grande leitora. entre a As ambivalências de Sebastiana ―empurram-na escrita e a para um diálogo pequena biblioteca particular oralidade (PARK. Tem gente escritora que lê o almanaque e finge que não lê . Eu tinha uma . 1998. p. 1998. aos poucos. E mesmo porque seus filhos estudavam na ―es cola paga e só liam os livros representados como ―bons livros . enquanto que a silenciosa reveste-se de categorias morais (PARK. livrarias. poesias e revistas com outras leit oras. a do trabalho intelectual [que] é silenciosa. Lia também os almanaques. a derindo às novas práticas de leituras pal de Goiânia. mas estava pre sente na sua família. tornou-se uma livros. Dizia ela: ―ele s são os livros da sabedoria popular.

Essa leitora benzedeira está na encruzilhada do labirinto: ―De um lado. e. meu s filhos eram bem tratados pelas professoras Sebastiana usava (ENTREVISTA.Page 151----------------------seus filhos: ―Meus filhos estudaram na escola paga. Como se vê. mas também do filho mais vel ho. 1997. a leitura como ―ilustração ficaria para um outro momento. A sua vislumbrava o ensino técnico como a salvação. Observe-se que estratégias e táticas para a penetração dos valores da escolaridade na família de baixa re nda. Há dois ―eus que se digladiavam. É preciso a leitura. a valor ização . essa clivagem fazia parte da vida de Sebastiana . a pessoa ―se informa e se forma lcançaria o sucesso que o processo de urbanização exigia. Mesmo sendo de cor. portanto. como nos cartazes . 2000). pagava a escola particul ar para 150 ----------------------. a da casa. houve a propagação do discurso neolibe ral de que pela leitura e pelos estudos. tornou empregada Sebastiana. Ela partilhava a ―ilustração valores. ela divide o eu (FRAISSE et al. leitora voraz. ―progredindo . a realidade social. Nesse sentido. a leitura de livros e jornais e a escola particular dos filhos não foram suficientes para o desfrute dos valores renda familiar era pequena e ela do progresso. p. A tensão cultural. mas que Na se esteira desse discurso. Eu levava cedo e buscava à tarde. a do bairro. a doméstica ―por causa da doença de Chagas do marido pedreiro . o seu Curso Normal. de outro. como no cinema. a escola. No com a elite intelectual e aderiu aos seus faces: entanto. o ensino pa ra subir na vida. não só do marido. Como se percebe. tem duas ela se manifesta nas relações com os outros. 36). Para esses.levassem à qualificação do trabalho. Não tinha com quem deixar. o lugar em que a vida é como n os livros.

Nessa o espírito não só pela leitura representação mística da cura de doenças pela benzeção. essa leitora negra não lia só romances da elite intelectual. Buscou outra saída: o refúgio nos livros religiosos de benzeção que herdara dos seus antepassados. que se casou com um h omem negro. fortalecendo s eu poder de benzedeira. mesmo que o saber científico não validasse essas práticas. e pelos trabalhadores que o ide alizaram como uma ponte a ser construída na estrada do progresso. não conseguiu ―naturalização do racismo quando falava da educação dos filhos que ―mesmo sendo de cor. Ela. po rque esses livros não a certificavam como uma mulher que queria ter seu lugar reconhecido na sociedade . que seguem à fruto a posição risca da seus tradição social e as doenças d Esse saber. conviveu com o saber negros negros. Era necessário seguir os modelos da v da dos santos. apesar de ser professora. pobre e estudou e se formou. por isso era respeitada como a guardiã das crenças populares.do trabalho técnico veiculado em nível internacional e nacional foi apropriada na no va capital pela elite intelectual. mas também pela e ―curar as pessoas através da benzeção. científico moderno. ao curar brancos e conhecimentos estruturados na tradição dos seus antepassados oral. certificando profissional que tanto ela 151 à Sebastiana . meus filhos eram bem tratados pelas professoras . Desse modo. ela também alimentava da bíblia. Mas. que se eximiu desse trabalho. Sebastiana se tornou apta para ―interpretar o mundo. driblou as várias formas de discriminação. Ela sugere a ser normalista. Es ses livros tinham dois objetivos: ―alimentar o espírito dem instaurada. Essa fala indicia uma afirm ação do racismo a que Sebastiana se submeteu e que ela queria deixar esquecido. Sebastiana.

mas as pessoas lhe retribuíam c om presentes que ela passava para os mais pobres. ao contrário. Sebastiana. Nunca houve cobrança para esse trabalho. sociais do Com posições racismo. fundamentais para posicionamentos sobre a problemática do racismo no Brasil e em Cuba. Foi à luta alfabetizando pessoas pobres. como diz Borges idades que elas (1983). mesm o quando não tinha estudos. diferenciadas em relações às questões políticas e . segundo ela. Na duas mulheres criação de guerreiras. uma vez que essa luta era primordial para o racismo. construída pelos brancos para movimentos a nti-racistas. quando percebeu que ela. e significados essas guardadas as devidas que sedimentaram as diferenças. benzendo-as para curá-las das doenças e. Essa felicidade criaram para seus foi fruto das possibil descendentes. cada uma a seu modo. os seus descendentes. as escolas não contratavam professoras negras para dar aulas. Reyita e Sebastiana. estratégias e táticas de sobrevivência. negras e brancas. com sem opções de trabalho numa cidade em construção. seria para ajudar a educar todos o marido doente. Dizia que a renda do seu pequeno negócio particular.Page 152----------------------perseguira. alcançaram ―uma felicidade extravagante . um restaurante simples. suas construíram sentidos relações familiares e religiosas. já que.----------------------. Já Sebastiana naturalizou havia ainda pouco espaço na nova capital. criando novas sociabilidades e múltiplas sensibilida des. Reyita se posicionou participando de várias orga nizações. a partir daí instaurou seu poder perante sua família e a comunidade onde viveu. Reyita nunca aceitou ser empregada doméstica como Sebastiana. viu no seu emprego doméstico a única saída para a educação dos seus filhos e netos. Contra o racismo.

64 bisnetos e 7 tataranetos. crespos. negros. macios. Poey. Aqui tem advogado. sararás. livres . 1983. menino não pode ficar sem estudar. DF. E o que é mais interessa nte é que na minha família estão nascendo crianças brancas. Jorge Luís. a educação e a religiosidade como contraponto desse encontro. Tenho filhos e netos na Suíça ond e trabalham e estudam. enfermeiras. Para nós pobres. (SEBASTIANA) smo que seja 152 ----------------------. Enfim. Pode-se dizer que Sebas tiana e Reyita ainda teriam muitas histórias para contar uma para outra. É muito linda minha família! Parece um arco-íris: brancos. de uma maneira sutil e astut a. 39 netos. acredito que Sebastina. até de ol hos claros. Estratégias de sobrevivências das mulheres negras cubanas no sécul o XX : Reyita simplesmente. mulatinhos. também queria. (REYITA) Tenho uma família grande e querida: 9 filhos. Dionísio L. Brasília. Lisboa: Terra-Mar. tataranetos. BORGES. Cabelos ngenheiros. izados e. sobretudo. muitas professoras e tam bém professores. (Doutorado em História). Tese. como Reyita.essas mulheres negras. Têm e professores. técnicos em computação e cabeleireira. operários simples. Daí porque uma diz para a outra: Agora somos 118: 8 filhos. 2009.Page 153----------------------Com essa fala. A biblioteca de Babel. Mi nha luta era formar todos para ter profissão e ser crentes a Deus e respeitados. licenciados. todos organ de preconceitos raciais. curtos. técnicos médios. longos. Departamento de História/ UnB. neto s. REFERÊNCIAS BARÓ. mas nunca ninguém ficou fora da escola. o branqueamento dos seus descentdentes como uma das possibilidades de interdição da discriminação social a que ela foi submetida na sua vida. por causa de casamentos com brancos e brancas. priorizaram nas suas vidas. bisnetos. Tentei dar estudos para todos os meus filhos me só o curso técnico.

numa perspectiva afrocentrada. O Brasil de Olavo Bilac: a construção política de uma identidade nacional. São Paulo: Ática. Abdias Nascimento (1914) e Oliveira Silveira (1941-2009). Cultura histórica. (Mestrad o em Educação). Campinas. bem como pelo estabelecimento de um paradigma cognitivo afrocêntric o. n  2. It presents the aesthetic . C. SP.FRAISSE. 1997. São Paulo.Page 154----------------------PROTAGONISMO NEGRO NUMA PERSPECTIVA AFROCENTRADA EXPOSITORES: Elio Chaves Flores (PPGH/C CHLA/UFPB) Alessandro Amorim (PPGH/CCH LA/UFPB) Danilo Santos da Silva (PIB IC/CNPq/UFPB) RESUMO O presente trabalho procura pensar o protagonismo negro em sua s mais significativas formas de expressão. Pro-Posições. S. 13. from an afro-centered perspective. 1992. não universalista e não essencialista. et. E. no que se refere à maneira pela qual ações no campo da cultura e da política estavam baseadas na representação da África como o centro referencial particular ancestral. ABSTRACT This research aims at reflecting upon the leading performance of black people in their most significant forms of expression. PUC. Goiânia: Editora UFG . M. Representações e imagens da leitura. A invenção da cidade : leitura e leitores. E. 153 ----------------------. A. como expressão de ativismo afrocentrado. PALAVRAS-CHAVE: Afrocentrismo. Orlinda Carrijo. PARK. A mítica do progresso (1955 .1958). Revista da FE/UNICAMP. J. Apresenta a ex periência estética e política de Solano Trindade (1908-1974). SANT'ANA. Intelectuais negros. 2001. Dissertação. al. MELO. 2002. a partir da experiência quilombista. 2007. v. Histórias e leituras de almanaques no Brasil. que vincula à ancestralidade africana a experiência diaspórica do negro na construção de um novo conhecimento sobre o mundo. Campinas. SP: Mercado de Letras. Margareth Brandini. maio/agosto. R. SANTOS. e MONTEIRO.

historical culture. é buscar categoricamente no conceito ―um tipo de pensamento. black scholars. (2009. as well as the formation of an afro-centered cognitive paradigm that links to the african ances trality to the experience of the black diaspora in the development of new study fields about th e world. conceito scutido de e Silveira.and political experience of Solano Trindade (1908-1974). africana. quando os árabes iniciaram o tráfico naquele continente. Segundo Asante. rega rding how actions in the field of culture and politics were based on the representation of Africa as the center of reference in ancestrality. neither universalist nor essenti alist. O conceito é uma proposta teórica e uma abordagem pistemológica elaboradas pelo pensador afro-americano Molefi Kete Asan te48. ou a partir do século XV quando os europeus inauguraram o tráfico atlântico.Page 155----------------------I. de 1980. 154 ----------------------. Ele ica. pouco conhecido. Abdias Na scimento e Oliveira entaremos. from the experience of quilombos. KEY-WORDS: afro-centered perspective. referir-se a África como o lugar da centralidade negro-af ricanadiaspórica. Introdução Para falarmos do protagonismo negro em Solano Trindade. práti ca e perspectiva que percebe os africanos como sujeitos e agentes de fenômenos atuando sobre sua própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses humanos . p e . Abdias Nascimento (1914 ) and Oliveira Silveira (1941-2009). já muito nos remete tanto a perspectiva ainda afrocentrada. quanto apres di diaspór polêmico. as the expression of afro-centered activism. numa inicialmente. seja a experiência partir do século IX. 93). a partir do seu livro Afrocentricity: the theory of social change [Afrocentricidade: a teoria de muda nça social]. o Afrocentricidade.

é professor do em 14 de Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Temple. 38-9). de 2008. negada utodenominou o único dono da ciência. Segundo Charles S. A História da África. de 2007. de 2004. Graduou-s e no Oklahoma Christian College. a Finch III e Elisa Larkin Nasci proposta do pensador estadunidense deve ser entendida como a continuidade de uma longa tradição de estudos realizados e língua inglesa que por autores africanos e diaspóricos d desenvolveram o que eles denominam de abordagem afrocentrada. 2010. Nascimento e Finch III e escamoteada por um Ocidente que se a Outra missão é levantar. Concluiu seu mestrado na Universidade Pepperdine.asante. tin (baron de haitianos Hannibal Anténor Price. Considerado p or seus pares como um dos mais destacados estudiosos contemporâneos. p. 155 ----------------------.net/ biography/>. ―tratados e depoimentos elaborados desde o século XVIII por africanos subm etidos ao 48 Molefi Kete Asante (nascido em Valdosta. Um Manifesto Afrocentrico. Firmin.mento (2009. o historiador. 42). Disponível: <http://www. co-editado com Ama Mazama. pp. por exemplo: o cie ntista e e intelectual senegalês classicista congolês os Cheikh intelectuais e Anta Diop. Louis-Joseph Janvier também uma série de entre outros. em l965. agosto de 1942). um retrato intelectual.Page 156----------------------holocausto da escravatura mercantil européia ainda enfatizam que: Uma missão te é desvelar e estudar essa produção. Asante publicou 70 livros. de 2010. Enciclopédia dos Estudos Negros. ular as bases teóricas e epistemológicas na de conhecimento. na Geórgia. como da abordagem afrocentrada recen (2009. entre os quais estão: Maulana Karenga. Vastey). estudar e artic das expressões atuais da matriz africa . lingüista Pompée-Valen Há Théophile Obenga. Já escreveu mais de 400 artigos e ensaios para revistas e livros. em l964. Acesso em: 14 ago.

Elisa comunitarista Larkin Nascimento nos apresenta. 42). por meio de uma coletânea de textos sobre o tema. ia Maria da Silva Bonfim. uma uma abordagem série de epistemológica inovadora. da ênfase na pluralidade do conhecimento. autores afrocentrados contemporâneos. da apropriação da língua e da linguagem d para melhor reagir a dominação. ligado sempre antirracista. do nacionalism o panafricanista. Abdias Nascimento. da através: da primazia anti-hegemônica do l Charles S. Nobles. Vân Asa Bankole. que pro põe aos eus afro-americanos sete princípios a celebração que denomina de da semana filosofia do Kwanzaa africa e s fundamentam o que ele na. Mark Christian.a filosofia religiosa tradicional. Intelectuais e ativistas como Ama Mazana. Nos Estados Unidos. a Afrocentricidade começa a se firmar enquanto campo de estudos. ugar (África). a partir da obra Introdução aos Estudos Negros. para postular a constituição de uma extensa rede de conexões entre o continente mãe e os diversos espaços de dispersão dos seus povos. a obra Afrocentricidade: de 2009. Mekada Graham. Re iland Rabaka. e critica ao eurocentrismo. . 2009. W. de Maulana Karenga. Wade Finch III. 40). A característica principal e o foco central dessas duas missões é a agência dos africanos na própria narrativa (2009. p. Katherine G. A afrocentricidade destes pensadores indaga os padrões de conhecime nto que o ocidente construiu sobre as histórias e as culturas africanas e diaspóricas. a luta do seu protagonismo antiescravista e resistente. das suas ligações com a ―matriz da filosofia religiosa e as tradições ancest rais (NASCIMENTO. Hilliard III Maulana Karenga. da utilização de línguas e linguagens originais ou próprias para falar sobre as tradições ancestrais. No Brasil. o colonizador p.

não tendo indícios de quilombos na África. Abdias Nascimento e Oliveira Silveira. O quilombismo contém uma proposta de desconstrução do estigma elaborado durante o processo histórico colonial em torno do legado negro-africano. deste diante conceito. que não expre deve ser a quilombismo Essa história. 2009. .reensão procuraremos a produção Assim. como enfatiza o próprio A sante: ―Afrocentricidade povos africanos é a conscientização sobre a agência dos 156 ----------------------. É uma teoria política e social que se baseia na experiência histórica comu nal Comunalismo dos é uma experiência quilombos que. dia em que as forças do colonial ismo branco assassinaram Zumbi dos Palmares. 94). mas a do 20 de novembro de 1695. O quilombismo de Abdias Nascimento. Para enfatizar essa ―tradução optamos ssa a população história por trabalhar com experiência da negra no decorrer de 1500. embora tenha raízes na África. p. o quilombismo pode ser entendido como toda estra tégia de sobrevivência física e mental. De forma simples. dessa busca inicial pela entre comp este e expor e problematizar de Solano as relações Trindade. legalizada ou não. desenvolvida em beneficio da comunid saber. de o conceito de nossa de da afrocentricidade no Brasil. tipicamente brasileira. um dos heróis negros da Diáspora. do conhecimento científico e filosófico. Estigma q ue visa apagar a memória do das realizações dos povos de origem africana. É uma categoria analíti ca que se baseia no processo histórico-cultural brasileiro das massas negro-africanas . Afinal. II. 1822 ou de 1888.Page 157----------------------(NASCIMENTO.

ou melhor. É quando Abdias Nascimento apresenta o negro como sujeito ativ o na formação da cultura nacional através do Teatro Experimental do Negro (TEN). a orientação existencial organização sócio-econômica igualitária e democrática de inspiração africana. O trabalho em questão visa trazer a luz do nosso conhecimento um po uco do protagonismo afro-brasileiro em busca da cidadania da população negra no Brasil. é toda e qualquer cultura de libertação que derive imediatam ente da experiência histórica dos africanos escravizados e seus descendentes. E f alar de Abdias Nascimento . d o que podemos classificar como a experiência e dramaturgia do quilombismo desenvolvi do pelo TEN. no período elevação da autode 1944 até 1968. passando pelas religiões de movimento hip-hop. o m . Ou seja. dos matriz africana até o quilombos. Com efeito. quando expõe o racismo à brasileira.Page 158----------------------racismo brasileiro. um momento pedagógico de é falar um pouco desse histórico protagonismo estima da população negra e de conscientização da população branca para o problema do 157 ----------------------. O té a década de segundo momento 1980: corresponde ao período de 1968 a marcado por seu protagonismo internacional. Podemos dividir o protagonismo de Abdias Nascimento em dois moment os: o primeiro. como também.ade de origem africana. O Teatro Experimental do Negro foi um projeto artístico. que buscava a valorização e afirmação do negro na sociedade brasileira. que perdura até hoje. social e político . rep resenta não só a busca através de uma da liberdade.

Os negros têm como projeto coletivo a ereção de uma sociedade fundada na justiça. O autor acredita que o conhecimento científico que a população negra n ecessita é aquele que possa ca e consistente – experiências conhecimento de formular teoricamente – suas quase quinhentos que possa pela emancipação do anos negro de de forma opressão. Abdias Nascimento escreve as seguintes palavras: negro tragou até a última gota os ven pelo escravismo. proclamando mental eurocêntrico. aos quais não interessa a simples restauração de tipos e formas calcadas de in stituições políticas. Uma democracia autêntica. na liberdade. uma soci edade cuja natureza intrínseca torne impossível a exploração econômica e o racis mo. mas de embates. Abdias brasileiro a participar Nascimento do movimento Pan-Africanista. do seu sistemáti Um sist nacionais dos seus e internacionais. no através esforço de auto-definição e na procura de seus caminhos como sujeitos protagonistas do s seus futuros. na igualda de e no respeito a todos os seres humanos. de lutas antirracistas elaboração políticos. sociais e econômicas as quais serviam unicamente para procra stinar (adiar) o advento de nossa emancipação total e definitiva que somente pod e vir com a transformação radical das estruturas vigentes. fundada pelos destituídos e os deserdados deste país. perpetuada pela estrutura do racismo psicossocial-cultural que mantém atuando até os dias de hoje. É o momento não mais pedagógico. Cabe mais uma v ez insistir: não nos interessa uma enos da submissão imposta O a falência do colonialismo . físico e a teoria da mestiçagem nos congressos Pan-Africanis nos no Caribe e e mental da na África. escritos o momento da sistematizar a busca ema de valores.ito da ―democracia racial tas Estados genocídio Unidos. foi denunciando o primeiro o negro população negra.

262) . o qual vem sendo sistematicamente exterminado: Assegurar condição humana das massas afro-brasileiras há tantos séculos tratadas e definidas de forma humilhante e opressi étnico do quilombismo. lombismo Abdias Nascimento se articula aos acredita cuja que a dinâmica interação do qui e as diversos níveis da vida segura a realização coletiva. é o fundamento . interpretá-la e tirar desse ato todas as lições teóricas e práticas conforme a perspectiva exclusiva dos interesses das massas negras e suas respectivas visões d e futuro. p. edades capitalistas e de 158 ----------------------. va. Enfim reconstruir no presente uma sociedade dirigida ao futuro. (NASCIMENTO. Esta não é a solução que devemos aceitar como s e fora mandamento inelutável. 1980. seria preciso codificar sistematizá-la. visando a salvação do povo negro. p. 264). dentro de uma concepção de mundo e de existência na qual a ciência c onstitui uma entre outras vias do conhecimento.proposta de adaptação aos moldes de soci classes. Reinvenção de um caminho afro-brasileiro de vida fun dado em sua experiência histórica na utilização do conhecimento crític o e inventivo de suas instituições golpeados pelo colonialismo e o racism o. O quilombismo é descrito como a ciência do sangue e do suor que o escravizado derramou enquanto pés e mãos edificadores da economia do país. 1980. Deve-se assim compreender a subordinação do quilombismo ao conceito que define o ser humano como seu objeto e sujeito cientifico. mas levando em con ta o que ainda for útil e positivo no acervo do passado.Page 159----------------------Para a experiência Abdias Nascimento. do negro. Uma teori a cientifica intimamente fundida à prática histórica da população negra. que ele chamou de ―edificação da ciência histórico-humanista do quilombismo . (NASCIMENTO. dialética propõe completa do ser humano. Ness e sentido.

Depois viaja numa terceira do Vapor Itapagé da Companhia Ita.Page 160----------------------Leopoldina. em 1941. Solano Trindade faz as suas despedidas do Recife. Solano Trindade atua na vida cultural e política e chega a ser preso pelo Estado Novo por ter feito e publicado o poema de crítica social. perdido nos seus desordenados apontamentos. No Rio de Janeiro. tornando-se Foi um dos fundadores da Frente Negra de Perna preocupava o preconceito racial e com a ausência quase completa do elemento negro nas carreiras de ensino superior e de prestígio social. Trindade primeira vivenciou as metade do a no contexto dos primeiros v duras realidades poesia negro-africanas a dos parti mais século XX. em frente a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Biblioteca Nacional.III. fazendo um poema. com o lançamento de suas poesias na Associação dos Empregados do Comércio. O quilombismo de Solano Trindade (1908-1974). Como poeta e dramaturgo Solano Trindade se torna um pilar da cultu . A terceira do Itá. Solano começa r dos anos de 1930 e escrever e afro-brasileira um atuar como ativista político expressivos intelectuais negros de sua geração. Abdias participa da Rut Experimental do Negro (TEN). O Tre m Sujo da 159 ----------------------. do Teatro Ainda ao na década lado de de 1940. Nascimento. mbuco. inte Solano na anos Nascido no Recife da pós-abolição. denunciando as duras condições de trabalho e deslocamento dos operários da capital fundação da República. h de Souza e outros artistas e intelectuais negros. bar O Vermelhinho. pois se cultural. na Torna-se um freqüentador do Cinelândia.

Publicou livros de poesia o nde aparecem as tradições africanas e os heróis negros esquecidos da história do Brasil. Vitor da Trindade: Zumbi morreu na guerra. Um de seus mais expressivos poemas.Page 161----------------------em plena luta pela liberdade! . foi musicado por seu ne to. 165). Foi criador do Teatro Popular do Negro e do grupo Brasiliana que viajou para a Europa. p. eterno ele será. Solano Trindade foi um dos precursores do quilombismo ao publicar na década de 1940 o poema Canto a Palmares. morreu pra libertar. Zumbi. 2008. reqüentes em busca de Suas viagens pelo Brasil foram f inspiração e realizando apresentações sobre a cultura negra. de Homero e de Camões porque o meu canto é o grito de uma raça 160 ----------------------. Zumbi morreu na guerra Eterno ele será Se negro está lutando Zumbi presente está Herói cheio de glória Eterno ele será À sombra da gameleira.ra negra e da cidadania afro-brasileira. um épico dos feitos palmarinos: Eu canto aos Palmares sem inveja de Virgílio. a mais frondosa que há (TRINDADE. é justo e companheiro.

nasceu em Rosário do Sul (RS) no ano de 1941.. for mado em Letras pela (UFRGS).. meu poema é cantado através dos séculos. Oliveira Silveira participou também de vários outros grupos negros.) O opressor não pôde fechar minha boca. Foi professor de língua portuguesa na rede estadual do R io Grande do Sul e integrou o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR ) . da dia nascent 20 inicialmente em o mesmo era integrante de maior projeção.(. O quilombismo de Oliveira Silveira (1941-2009) Oliveira Silveira. em busca da desconstrução do mito da liberdade concedida no dia 13 de maio de 1888 com a abolição da escravidão. 23. Zumbi foi redimido. IV. poeta e pesquisador gaúcho. Seria uma resposta negra. proposto do qual e com especialização em língua francesa. o ficou conhecido 1971 nacionalmente pela defesa do dia 20 de N pelo Este extinto grupo foi Grupo Palmares. do grupo Semba Arte Negra e d a Associação Negra da Cultura. ovembro. se ndo um dos fundadores do grupo Razão Negra. minha musa esclarece as consciências. data política para o Brasil. p. 1981. do discriminação racial no Brasil. nem maltratar meu corpo.. 28). (TRINDADE. que durante t odo o período da preconceito e República. professor. que adotava Zumbi de novembro de 1695) dos porta-voz no Palmares (assassinado como herói nacional. da revista Tição. da lutou pela denúncia da ação do racismo..

Em ves Flores. Entre Praça suas da obras dos destacam-se: Décima Sobre do Peão Negro Palavra (1976).Page 162----------------------Nacional de Estudos Culturais abril de 2007. para o projeto Prolicen: Margens do Atlân tico: fontes para o estudo e o ensino em história da África contemporânea . feito entre 1972 e 1987. me sumo na noite da cor de minha pele. Oliveira Afro-Brasileiros. explicita a sua verve quilombista. em Silveira explica a criação do Grupo Palmares. demonstrando continente africano com os escritores bra intercâmbio e experiência de uma história comum. Esse último Tantãs (1981). me embrenho no mato . o poeta enfatiza a necessidade e a importância de se estabelecer um vínculo entre os interlocutores do sileiros. fala da significativa importância da imp rensa negra em prol da consolidação dos movimentos negros e suas lutas junto à opinião pública. (1974).da SEPPIR. Arnaldo Sucuma e Kywza Fidelis. na UFPB. Roteiro ). durante o II Enc ontro 161 ----------------------. na alma um pouco de banzo mas antes que ele me tome. Por fim. Poema Palmares (1987 poema. quebro tudo. entrevista Alessandro concedida aos pesquisadores Elio Cha Amorim. no sentido de reescrever uma nova história do Brasil a partir da visão negra: Nos pés tenho ainda correntes nas mãos ainda levo algemas e no pescoço gargalheira.

do sangue.Page 163----------------------Nos contrafortes da serra.) Zumbi – nome gravado A lança 162 ----------------------. A sangue nos contrafortes da história. vôo nas asas negras da alma. . estou salvo ! (... regrido na floresta dos séculos.dos pelos do corpo. quebrem os contrafortes e não se abalará tua glória... encontro meus irmãos. a fibra na alma forte dos negros! Palmar ! (. é Palmar.) guarnecendo a memória dos teus bravos ! Palmar ! arranquem todas as palmeiras e mais se encravará a raiz dessa memória.

recue na linha do tempo. noutro escória. cães acuados farejando o cheiro. Desde o alto da serra da Barriga Olhe rumo ao litoral. mastigar pelas choças. meta-se no bucho do Palmar. mergulhe no espaço geográfico. deixe o sobrado. (. escute aí seu coração tambor e veja o sangue digno fluindo generoso 163 ----------------------.queimem a história toda e verão que és eterno ! Senhor historiador oficial. Veja num lado história. . Pela selva fechada veio negro para quem o Palmar foi clareira No rastro uns dos outros vieram negros..Page 164----------------------nas veias caudalosas. se deixe abocanhar por um quilombo.. Depois comece a contar. a casa-grande. limpe os pés. peça licença.) Para Palmares veio negro que não gemia nos açoites E pelo mato escuro veio negro que se escondeu na própria noite.

imprensa negra. Um tal negro Kamuanga nesta mesma Região dos Palmares. Em Luís Gama..). deuses jejes. (. cerne Do tronco de mais quilombos. (... o amuado Calundu e o espírito bantu dos ancestrais.) Falsificaram os livros de história. do senhor para si mesmo. João Cândido. E ressurgiu adiante.. Patrocínio. (..E negro roubado a esmo do cativeiro para a liberdade. 164 ----------------------. botaram máscara de carnaval .) Em campos e cidades. Cruz e Sousa emparedado.. Calunga ficou no litoral mas o supremo Nzambi. e houve fé.. divindades da costa da Guiné.. Solano e Abdias. todos chegram logo pra acompanhar seu povo.) Frente Negra. trocaram os heróis. (. Rebouças.Page 165----------------------O quilombo do Cumbe – Paraíba.

buscando uma foz.. A luta continua e é por isso que este poema é um quilombo. (. 16 5 ----------------------. Quilombo de quilombola renascendo na seiva Sangrenta . Mas a luta prossegue. Quilombo de negro hoje sem mato para refúgio. botaram fogo nos documentos do tráfico e do crime e então ficamos sendo os que não vieram. ficamos sendo os que não são. ficamos sendo estas ruínas em auto-reconstrução.nos fatos.) Quilombo de negro negro. quem quiser que se negue e se entregue. Quilombo com outro nome outra forma e mesma voz libertária do homem.. estrada longa abrindo seu próprio sulco e picadas rio longo cavando seu leito.Page 166----------------------Quilombo de negro pobre e quiser que se acomode.

dif usos desde o século XIX e persistentes no regime republicano. humanidade histórica e. Dessa forma. postulando representações e narrações a formação valorativas da presença do Brasil. visão eurocêntrica possibilitando uma interpretação negro-africana. p. IV. 13-14. 1987. a partir da experiência afrocentrada brasileira. concomitante da cultura a iss n negro-africana Passaram a veicular que a única forma da população afro-brasileira se identificar e se reconhecer como tal era se aproximar de forma prática e simbólica da África ancestral e contemporân ea. 17). para l de nossa história. e que embora Sola no Trindade e Oliveira Silveira não utilizem a palavra. Deixaram como herança para as fases posteriores do movimento negro a valorização e a busca do legado africano.da história. (SILVEIRA. mostrando-a como lugar de civilização. da dando as s tradiciona nova interpretação do Brasil. não há duvidas que eles representem e retrat em a cultura de resistência física e mental do povo negro brasileiro. Ou seja. a partir do que Abdias Nascimento chamou de quilombismo. África na Solano Trindade e Oliveira Silveir perspectiva oposta ao racismo eurocêntrico. alinhado da Negritude e do Panaos princípios do movimento . Considerações Finais a Abdias representaram a Nascimento. eles romperam com o pensamento va África e a cultura afrotradicional que representa brasileira a partir de uma visão simplista baseada nos estereótipos racialistas. O protagonismo dos três autores foi fundamental para a constituição pos terior de um movimento negro essencialmente uas contribuições para uma político e além afrocentrado. 1-2. de instituições e valores fundamentais para a o.

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noting the influence of the Enlightenment in eighteenth-century adminis tration of Maranhão. políticos Neste e ec s Maranhão. Administração. bolsista de Iniciação . Maranhão became a major supplier of cotton to England at the Industrial Revolution process. definido a partir das relações at lânticas. sobrinho e dos povos habitantes da região construído pelo gove 49 Este de trabalho é um dos resultados da bolsa de iniciação científica em História. Maranhão Colony Introdução A orte temporal segunda metade tradicional nos do século XVIII devido se tornou um rec na estudos históricos sobre o economia por ocasião da Maranhão. no p rojeto de pesquisa FAMÍLIA. PODER. This article intends to study the administrative letters from Joaquim de Melo e Póvoas. who sought insert Portugal in the pace of enlightened progress f rom northern Europe. in order to understand the mechanisms and results of Pombal‘s policy woven betwe en Maranhão and Portuguese Empire. se procederá à contextualização de tais processo s com o discurso sobre o ―perfil rnador. o Reino e outras erão exploradas as dinâmicas partes trabalho administrativas do governo de Joaquim de Melo e Póvoas (1761-1779). a migração de pessoas das ilhas atlânticas para o Maranhã o enriquecimento da região. Antonia Mota. Administration. Maranhão Colônia. especially England. Keywords: Enlightenment. Abstract During the second half of the eighteenth century the State o f Maranhão was a prime target of Pombal‘s Reforms. the Marquis o f Pombal.e resultados da política pombalina tecida entre o Maranhão e o Império Português. The methodology used is di scourse analysis of letters. Palavras – chave: Iluminismo. A partir desse contexto f orjouse uma onômicos ampla e complexa rede no atlântico. a saber: o red irecionamento da produção agrícola e do comércio. concerning the administration of American lands. governor of the Captaincy of Maranhão and his uncle. sob orientação da professora Drª. à inflexão ocorrida política pombalina com a implantação da Companhia de Comércio. A partir disso. entre o de relacionamentos ultramarinas. defined from atlantics relationships. 50 Graduando em História Licenciatura pela Universidade Federal do Maranhão. SOCIABILIDADES NO MARANHÃO COLÔNIA.

região cujos li indefinidos até o Tratado dos Limites. Sebastião José de Carvalho e Melo (1751-1777). posto reformas domínios os que estavam que a riqueza da ligados ultramar Metrópole originava-se nas colônias da Ásia. tornando-o ministro plenipotenciário. Com a morte do rei e a ascensão do príncipe D. para a Secretaria de Estado dos Negócios d o Reino. 1 Este tratado havia sido realizado no final do reinado de D. José I ao trono português em 1750. da África e. país e comerciais. Sebastião José de Carvalho e Melo. Depois foi elevando ao título . com a extinção do Estado do Maranhão e a criação do Estado do Grão-Pará e Maranhão. devido os mites territoriais interesses estavam régios pela área amazônica.com. 339). p. Este Secretário de Estado era. este nomeou o ex-embaixador de Portu gal em Londres. José Carvalhal de Lancaster e o plenipotenciário de Portugal . das Durante possessões as Reformas portuguesas Pombalinas a administração setentrionais na América passou por grandes mudanças na segunda metade do século XVIII . sobretudo. Em busca de potencializar o Reino Por tuguês no mesmo ritmo que a diplomáticas Inglaterra. entre o ministro da Espanha. com capital em Belém. D. [. D. a com uma o qual série aos mantinha de intensas no relações aparelh Sebastião José o administrativo principalmente inos. um governante ilustrado e audacioso. Luís de Melo e Silva. deu início lusitano. como se sabe. da América. (MARQUES.] ratificado em Lisboa a 26 de janeiro do mesmo ano 970..Fundação de Amparo ientífico e Tecnológico do Maranhão..Page 171----------------------preposto administrativo do Secretário de Estado dos Negócios do Reino e ministro ple nipotenciário português. Contato: ngermano_s@yahoo.br 170 à Pesquisa ao Desenvolvimento C ----------------------.Científica FAPEMA . João V. ―concluído em Madri no dia 16 de janeiro de 175 0.

185). Grão-Pará. Destes três. Quem Pombal? Ideólogos. 1751-1759). a saber: seu meio irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado (governado r e capitão-general do Grão-Pará de Melo e Póvoas e Maranhão. José Eduardo. a partir do projeto mais amplo da professora Drª Antonia da Silva Mota. influenciou o Marquês de FRANCO. a fim de estimular a colonização e dar suporte ao .Page 172----------------------promovida É interessante ainda pela Coroa.com. p. e seu sobrinho distante Fernando da Costa de Ataíde 2). Disponível em: http://www. e do do seu sobrinho Joaquim 17611763-177 orige à s (governador do Rio Negro. Analiso a relação posta entre os laços co nsanguíneos e os benefícios familiares conseguidos por causa da intervenção direta daqu ela parentela na administração dos Negócios do Reino. 2008. idéias. a partir da ótica racionalista do pr ogresso iluminista do qual era adepto. tornou seu governo do Maranhão ua eficiência na gerência da no Reino. mitos e a utopia da Europa do Progresso .br/coloquio/3_coloquio_outubro/paginas/12.htm 52 A família de Sebastião José de Carvalho e Melo constitui meu objeto de pesquisa.realgabinete. a Marquês de Pombal em outras Para dar cumprimento ao tarefas relacionadas ao Tratado dos Limites e desenvolvimento da região. o mais ativo m e Teive Maranhão. tenha uma (governador que notável embora governante foi Melo e Póvoas. 171 ----------------------. 1755-1761 1779). ____.52 enviando três aparentados para go vernar o GrãoPará e Maranhão.51 Sebastião José privilegiou sua família. 51 Esta referência carece de informações.de 1770. devido Companhia de Comércio e no aumento dos povos (SANTOS. um fim de vida obscura. ao ressaltar a política de povoamento patrocinar a viagem de milhares de pessoas em famílias de outras partes dos domínios ultramarinos para a região setentrional da América portuguesa. Lisboa.

por conta do algodão produzido na região que era exportado para a ferv ente Revolução Industrial têxtil inglesa. a Melo e Póvoas governar administrar aquele povo gerados com a Companhia que se formava a como também partir da mistura social e étnica entre europeus. 343). para que ―se instruísse no gênio dos povos e em um breve método de gover nar . p. constitui a notoriedade um aspecto Póvoas na Secretaria dos Negócios importante da administração pombalina no Maranhão setecentista. sobretudo porque da ligação estabelecida entre o M aranhão e a Inglaterra. consta que a nomeação era um bem em atendimento à ―qual idade. 20 segundo César Marques. do que é evidência a famosa carta escrita por Pombal a Melo e Póvoas quando da sua posse na C apitania do Maranhão em 1761. (1759-1761). seu tio subordinad Xavier Francisco carta patente assinada pelo rei. 1970. todos os A partir disso.desenvolvimento da economia construída por Melo e amazônica. entretanto são absolutamente desconhecidos (SANTOS. coube processos econômicos de Comércio. governado pelo capitão de Mendonça Furtado. José I em 14 de julho d e 1757 para governador da Capitania do o ao Estado do Grão-Pará Maranhão. africanos e nativos. do Nesse Reino contexto. merecimentos e serviços que concorrem na pessoa de Joaquim de Melo e Póv oas . p. O governador o dos Joaquim de Melo Negócios do Reino. seu governo no Maranhão foi ―criador e deixou prova s de seu zelo e dedicação e (MARQUES. Na Rio e Negro general. É certo que o parentesco com o Marquês de Pombal lh de uma carreira governativa propiciou elevação social e construção no Maranhão. e Póvoas era sobrinho do Secretári Sebastião José de Carvalho e Melo. Póvoas na Corte 185). Os feitos de Melo e 08. e foi nomeado por El-Rey D.

o governador participou ao Secretário de Es tado da Marinha e Ultramar.(MARQUES. p. João Rodrigues Covette (MOTA. 341). 1970. Brejo e Tutóia. Com a expulsão dos jesuítas. posto que cada qual estava interessado em tirar o maior lucro possível dos índios. Mello e a excomun Póvoas foi contrariassem nos negócios alertado pelo rei. 2009. ―a experiência no governo do Rio Negro e a convivência com seu tio Mendonça Furtado deram-lhe base de conhecimentos administrat ivos para fazer grandes obras no Maranhão. De igual modo. o pagamento de duzentos e quarenta mil réis ao ouvidor-geral da capitania. Francisco Martins da Silva pelo s erviço que teve na 172 ----------------------. para ―vigiasse cuidadosamente o governador e continuasse a dar conta dos padres revol tosos inimigos comuns do Estado . Católica. Mello e Póvoas teve que enfrentar a oposição d o então bispo do Maranhão54. a Igreja Contudo. que apoiou os padres que usavam do hão. p. para penalização dos 4). onde ficou famoso (CARVALHO. Com as diversas viagens padres (MARQUES. seu tio Francisco Xavier de Mendonça Furtado. 1970. São Bento de Balsas. Alcântara. A situação só veio a se resolver quando da publicação da Lei de 18 de jan eiro de 1765.53 No q religiosos e diretores das vilas que pertenciam aos jesuítas. A ldeias Altas. p. para maior castigo que tinha com aqueles que os dos que índios. p. contornar as querelas e disputas ocorridas entre religios os e os diretores das vilas dos índios resgatados da dominação jesuíta na região e a ainda empreendeu várias v iagens pelo interior da capitania. Póvoas soube administrar com desenvoltura o sequestro aos bens dos jesuítas quando da sua expulsão em 1759. 34 . 14). 285).Page 173----------------------administração do sequestro dos bens ue se refere às brigas entre dos padres inacianos. Guimarães. 2001. indo a Icatu.

2009: p. 54 Retratos do Maranhão Colonial. que tinham grande entrada na Europa. às margen s do rio desse nome em São Luís. principal negociante com a Companhia de Comércio na região (MOTA. 479 8 57 Retratos do Maranhão Colonial. 49 e 67. onde estava situada a possessão de Lourenço Belfort e sua família. Cx. 56 Arquivo Histórico Ultramarino . Mello e Póvoas sempre se preocupou quando das faltas de dinheiro55 na capi tania para sua boa administração e também se alegrava com os resultados positivos que obtinha como é o caso da boa arrecadação da Real Fazenda56 e larga produção de algodão. pelo amor que ti nha pela lavoura. p. aponta acontecimentos em sua História do autônomo. Itapecuru. Munim e. E Arquivo Histórico Ultramarino . . 197. Cx.58 nhão.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. que fez importar de Lisboa. arroz. além de procurar estimular os lavradores nos tempos difíceis. E o empenho e progresso do seu governo fez com que reivindicasse concedeu ao o rei a separação privilégio do Maranhão do Grão-Pará. Mario Martins Meireles. a introdução na ca pitania.empreendidas pelo interior. devido às amplas reformas empreendidas pelo seu tio Mar quês de Pombal no reino português (MOTA. n a região de Guimarães. 55 Retratos do Maranhão Colonial. por iniciativa 53 Arquivo Histórico Ultramarino . 41. constituindo o Maranhão e Piauí um estado a frente do qual estava empossado Joaquim de Mello como governador e capitão-general em 1775.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. Mearim. buscava o progresso da agricultura.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. sola e demais produtos da terra. segundo César Marques. 46. D. anil. 2009: p. o governo de Mello e Póvo as corresponde à fase de prosperidade econômica pela qual o Maranhão passou na segunda metade do século XVIII com a Companhia de Comércio. D. 2007). 44. 84. Mara importantes do governo de Melo e Póvoas: Datam de então a instalação de uma fábrica de anil. 49. 35. D 4124. 2006).57 Assim. sobretudo. 40. 42. 392 6. 2009: p. o qual reivindicado. 58 Retratos do Maranhão Colonial. Cx.

Para tanto.Page 174----------------------a nel cante à Companhia José defesa Geral de de João Vieira Comércio. gos de poder tecidos naquele mas buscar compreender para os jo percebe qu daquel engenhar contexto. pelo tenente-coro de uma fábrica de soque de arroz. Isto aponta para além de uma mera competência ou zelo gov ernativo. 153) que a e de São Seb arar a de São Francisco.. e astião. Todavia. e por outro da forma como con duziu a geração de riquezas no Maranhão. fez construir a fortaleza de São Miguel onde fora a de São Felipe. rep em iniciar as de São Marcos Alcântara.] No to capitania.173 ----------------------. p. [. e Póvoas como um historiografia aponta Melo excelente administrador colonial. políticoem vista de compreender a administrativo. 2008. investigação que se torna r a dinâmica sócio-econômica fundamental desenvolvida na colônia. do da Silva. confrontar essa interpretação com a documentação disponível60 a época é elementar para efetivação desse ia do processo exame histórico.59 administrador d Carvalho. negá-la ou inverter a visão que se tem sobre o governador Melo e Póvoas. esta última Observa-se a partir dessas citações. Não se quer com isso. da arroz ‗de Carolina‘ e a fundação. pondo em evidência os interesses particulares no sucesso da administração colonial no Maranhão. (MEIRELES. tal acepção historiográfica pode soar romântica na medida e m que não é submetida a um exame crítico. por um lado por ser um preposto da política pomb alina e do seu projeto racionalista ilustrado desenvolvimentista. de modo mais verticalizado do e tem sido exposto.61 Aqui nos processos deteremos apenas no político-econômicos discurso do governador sobre os adiante elencados em relativo confronto com outras opiniões contemporâneas ou muito . sobretudo se observado o ―lucro a partir da obtido pelo governador e sua família ingerência daquela economia..

Desta a já existente economia d do sertão. etc.Page 175----------------------ultramarinas. 174 ----------------------. conforme consta em map as de cargas de mercadorias enviadas para o Reino. reposicionando o Maranhão no cenário mercantil do atlântico português.próximas de sua governação. As frotas de cacau . pertencentes ao Arquivo Históri co Ultramarino (Projeto Resgate) e ao Arquivo Público do Maranhão (Retratos do Maranhão Colonial). do algodão. Com a organização das frotas levou a Portugal novas O . a agro-exportação entre o Maranhão. passou a girar tação em torno do da Companhia voltada majoritariamente para o comércio interno monopolista forjado pela implan eixo comercial Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão em 1755. A Companhia havia sido criada a partir da fusão de interesses dos homens locais e da Coroa. o algodão. Dinâmicas político-econômicas A economia. mas a documentação aponta que seu nome era ―José . 321. coleta das drogas se tornou um do e isso a excluir etc. mecanismo forma. Ver ratos do Maranhão Colonial. a pecuária. durante o governo de Mendonça F urtado. 61 Isto constitui o objeto de pesquisa central de que este trabalho é apenas um d os resultados. pp. sem com e subsistência. fundamental o Reino comércio atlântico outras partes realizado 59 Mário Meireles chamou-o de ―João . com objetivos muito claros: giro comercial da empresa pombalina possibilidades mundiais de expansão. Os Em principais produtos níveis menores exportados eram o arroz e também eram comercializados anil. 60 Constitui-se de correspondências administrativas. madeira. do arroz e dos demais produtos oriundos das capitanias do nor te do Brasil despertaram a avidez do mercantilismo rapinante. adiante elencados. sola. antes e regional. seda. 222.

ma . Mad eira. a fim de est portuguesa desviou inúmeros presos condenados a degredo na Índia para o Estado do Maranhão. 1970. mas sobretudo de civis se intensificou: seja do Reino. (DIAS. a Coroa estimu lou cada vez mais acentuadamente a ocupação efetiva das novas terras. 64 Há no Marrocos. vieram nessa onda migratória projetada pela Coroa cerca de 1100 pessoas para o Maranhão.62 Segundo a documentação do período sobre os degredos para o Maranhão e patrocínio de viagens de família s. conforme consta em Decreto de 7 de ma io de 1751. 11. Francisco Xavier. tanto o movimento de degredados. das ilhas atlânticas dos Açores. próximo ao rio Mutuacá: a função desta cidade era fazer fronteira e proteger a região do Cabo Norte com a Guiana. pp. São Jorge e Ilha Terceira. 12) somente seria possível imular Nesse período de inflexão a colonização. ou do Estado do Brasil para o norte da América portuguesa. q todas aquelas construída na famílias região correspondente ao atual estado do Amapá.. Demonstrada a alta rentabilidade do empreendimento ultramarino com a empresa colonizadora assente no arroteamento das capitania s do Pará e Maranhão e no giro comercial da Companhia. missão para a qual o rei José I nom eou o irmão do Marquês de Pombal.63 Naquele período.] A exploração econômica das regiões coloniais com o resguardo do domínio político do trono e segurança das rotas de comércio. O transferir ue seria ainda o caso plano era das famílias para da a Nova Praça de Mazagão. permitindo acompanhamento das suas famílias. das Flores. a Coroa econômica. como de militares e religiosos. [.de Belém e de São Luís. a Praça de Mazagão foi desmontada. com o firme propósito de evitar que a rica presa colonial caísse na teia armada pelas gran des potências sequiosas por instalar núcleos de exploração mercantil com objetivos militares. isso dentro da política de demarcação dos territórios setentrionais da América portuguesa.. com o argumento de que a falta de moradores na região prejudicava o seu cresciment o. Em 1769. Mazagão. o Atlântico afro-brasileiro tornou-se uma das presas m ais ambicionadas da Europa.

D 3273 / – AHU_ACL_CU_009.s nem 62 Arquivo Histórico Ultramarino . D 3310 / – AHU_ACL_CU_009. número que aumentou para 35 mil até o fim do século XVIII e 48 mil já no início do século XIX (MOTA. 1970. o ida a partir dos 79 testamentos compilados no livro Cripto Maranhenses. 63 Arquivo Histórico Ultramarino . D 3264 . p. sob o título ―Família e colonização na rota do progresso .Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. de iniciativa e custeio particular. Cx. 64 Trabalhei esta questão em trabalho apresentado no evento regional da ANPUH-MA e m 2010. além dos militares (DIAS. as migrações voluntárias . Cx. além disso. e dos que chegaram a Belém. p. 32. José de Souza Lima. gestada durante a maior parte do seu tempo de vida por Melo e Póvoas. mu itos não foram levados para Nova e-se que a história dos Mazagão (MARTINS. a Companhia de Comércio (1755-1777). nas quais estavam distribuídas 1642 pessoas: homens. 2010. Cx. 32. realidade durante a segunda que segundo aponta que uma amostra essa era obt uma metade dos setecentos: 25 testadores homens declararam ser naturais do Reino ou de outras partes dos domínios portugueses. segundo análise de Renata Malcher de Araújo (1998). Cx. 2006. 112). trouxe para o Maranhão cerca de 12 000 afric anos para serem escravizados. p. 34. falecido em 1798. Destaque-se. cujo texto está sendo melhorado para publicação 175 ----------------------. 108). mulheres e crianças. De igual modo. Sab mazaganistas foi marcada pela ação administrativa da família do Marquês de Pombal no Mar rocos. Um deles. Os números finais foi transferida de Mazagão para o Grão apontam 388 famílias. D 3385.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_00 9. Manuel Nunes Dias nos apresenta um mapa da população estimada que -Pará. 32.Page 176----------------------todos os mazaganistas saíram de Lisboa rumo ao Grão-Pará. ―natural da . 148).

o exemplo que 2008). José de Lima fez um breve comentário sobre sua condição: há muito tempo tinha deixado sua família no Reino e se deslocado para o Maranhão.Page 177----------------------Mendonça Furtado. havia ainda casos de estrangeiros não portugueses que migraram para a região. 2007). Lourenço a a região na primeira Belfort. Outras econômico econômico.65 A breve história que se pode visualizar sobre a vida de José de Lima é um indício do que s e tornou corriqueiro na colônia: migrar em busca de riquezas (FARIA. da efervescência Correia de Lucena. declarou ser casado com Anna Francisca. eza construída com a agro- exportação de arroz e algodão.Villa de Sam Miguel Freguesia de Nossa Senhora das Neves termo da cidade de Ponte Delgado . ―vindo para estas terras foi com o sentido em ver se podia alcançar algum aumento para melhor puder passar junto com ela (esposa) e com os filhos. p. não menos local. esta com vínculos ascendentes com o Marquês de Pombal e seus prepost . onde construíram famílias e fortunas. descendente do irlandês naturalizado português. nasceram várias outras famílias que nte prolongaram seu poder (MOTA. na segunda metade dos setecentos. oriunda da mesma cidade. migrou Desta da família Belf voluntariamente par família e da riqu metade do século XVIII (MOTA. Além disso. dos quais um já não vivia. as fortunas familiares locais ganharam expressividade: veja-se ort. como visíveis os Jansen 65 Cripto Maranhenses. com a qual teve cinco fi lhos. 176 ----------------------. da economia até mas meados do século segui na famílias de menor poder quela sociedade também desfrutaram Müller. 335. Antes de passar aos bens que o Senhor lhe fez mercê na terra do Maran hão. Com novas possibilidades administrativas e econômicas. 1998).

ao mesmo tempo. morm desprezo abre a porta para outros muitos males e vícios p. obedientes e fieis. 1970. em quase ente da todos o espírito caridade. para que ―se instruísse no gênio dos povos e em um breve método de governar argumentou que ―o povo que V. 342). afável. porque o país i nflui.66 Este número avultad o de pessoas habitantes no Maranhão. erais e vai governar é obediente. o gov erno delas. aos seus gen o que se pensou sobre essas pessoas co circunstâncias é certo que há de amar a um general prudente. p. como sócio (MAXWELL. cujo da ambição e relaxação das virtudes. modesto e civil . 82). cheios de males e evidência a complexidade em que se dão as sociabilidades humanas e mais ainda. apr esentou uma contradição algumas linhas à frente quando afirmou que Melo e Póvoas deveria saber e scolher bem sua família que havia de acompanhá-lo. ―principalmente para a América. lucros gerados 2005.os na colônia ou dos (COUTINHO. Excia. 158). contradição estava na fala do Marquês ou no caráter suposto dos povos americanos. ou mais especificamente. Tudo isso contribuiu para que a população do Estado do Maranhão oas civis no ano de 1777 atingisse a marca de 47 410 pess conforme consta em ofício de 7 de maio de 1778 do governador Melo e Póvoas para o Se cretário da Marinha e Ultramar Martinho de Melo e Castro. pela p. Estes aspectos nas virtudes põem em cristãs. 1996. O “perfil” dos povos americanos Quando Sebastião José de Carvalho e Melo escreveu ao sobrin ho. mas ambiciosos e relaxados vícios. O próprio Pombal particip Companhia de Comércio. Se a (MARQUES. ministros: com estas fiel a El-Rey. é certo que se colocou em evidência que os habitantes da América eram. nstitui o cerne deste artigo. Em suas Letras dirigidas às Secretarias de Estado .

Depois das tensões razoavelmente amenizadas s eu governo se fortaleceu. que apresentavam a variedade. quanto os gêneros do país qu e habitam são estimáveis. à vista das exportações. evangelização e seu trabalho. visível Melo estava é em formação. .] de sorte que es ses povos confiados ao cuidado de Vossa Mercê possam ser tão opulentos. o um mapa da Secretaria de Estado d de toda a carga t governador deveria enviar anualmente ransportada do Maranhão para Lisboa. qualidade e quantidade de produtos exportados do Maran hão: atanados. ação governativa: No conjunto documental de num primeiro momento uma variação na e Póvoas esteve empenhado em fortalecer o poder régio frente ao poder eclesiástico sobre as tribos i ndígenas. D 5014 . sua liberdade. porque também estes 66 Arquivo Histórico Ultramarino . Melo e Póvoas fez inúmeras considerações sobre o povo a que veio go vernar e sobre o que que dispomos. e felizes.68 os Negócios Naquele ano. e da Marinha de Ultramar.70 Estes gêneros constavam nos mapas de cargas exigidos. 177 ----------------------. 67 Retratos do Maranhão Colonial. como já citado. por Determinação69 do Reino. para que se tivesse um ―cabal conhecimento. sobretudo a partir de 1770.Projeto Resgate – AHU_ACL_CU_009. passando a ser este o motivo de maior preocupação do governador. 52. o trabalho dos europeus. e o comércio nesta capitania .67 Nesse sen tido. dos progres sos que fazem a agricultura. p..dos Negócios do Reino.Page 178----------------------pontos eram do maior interesse da Coroa. 44.. e preciosos. Cx. data início d a documentação aqui analisada. quando os resultados da Companhia de Comércio já se manifestavam entre a população. ―[. nativos e africanos escravizados e a geração esperada de riqu ezas são objetos centrais em toda a correspondência mantida entre os dois lados do Atlântico.

cacau. pedra-um e e tartarugas para im fabricação de caixas. no livro ―Retratos do Mar . em cinco classes: filhos do rein o (europeus ligados à administração). que era muito pouco perto do que se exportava. Joaqu argumentava que ―com o maior desvelo me interesso no aumento destes povos licidade dos ais já que a fe mesmos estava na cultura das terras e no comércio. Para diferença entre seus o governador que também sempr governados. os 90% do algodão que ficava na co lônia. obtendo deles ―bastante adiantamento . Segundo o governador. moradores da r egião). ―geração misturada (mulatos e mestiços). 115-122) se que esta classificação social do Maranhão colonial seguia à risca o nível de relacionam ento com a e origem fez étnica das pessoas. goma copal. Póvoas eram Os povos que discriminados conviviam sob a governação de Melo e claramente em vários ―tipos sociais : segundo Gaioso. já que o e transporte na forma de de algodão só dízimos. pp. nacionais (descendentes de europeus. como também para produção do vestuário dos índios e dos escravos. negros (africanos escravizados e forros) e índios – ―habi tantes de um país que antigamente pertencia aos seus antepassados . o poderia que ser feito de uma única vez prejudicaria a capitania. baunilha. óleo de copaíba. alego u que os mesmos punham impedimentos aos lavradores e comerciantes no trato de seus negóc ios. 1970. arroz. só havia três tipos de gente: quando reclamou para a Secretaria de Estad o da Marinha e Ultramar sobre a atuação dos então novos administradores da Companhia de Comércio. gengibre. Percebe(GAIOSO. de Melo e Póvoas Em resposta àquela determinação. sola.71 De outra vez a 68 Compilação feita pelo Arquivo Público do Estado do Maranhão.algodão. trabalhos para os qu o governador os incitava a aplicarem-se. e que estava sendo impedido de se transpo rtar internamente era fundamental para se fabricar não apenas as sacas para transporte do algodão e do arroz para exportação.

inclusive ao governador. 178 ----------------------. a fim de facilitar a leitura de quem não conhece as formas arcaicas da Língua Portuguesa. ou sejam europeus ou americanos. 236. No cálculo final das posições e combinações possíveis.. tratados É evidente distintamente que. os europeus. Em outras palavras. do ponto de vista administrativo e dos progressos q ue interessavam aos governantes metropolitanos. diante da Coroa esta mples categoria que Melo e Póvoas sempre empregou na maioria boa.] E sentenciar os réus de tão abomináveis crimes.anhão Colonial em 2009. 71 Retratos do Maranhão. . Quando se . e se apartem os maus dos seus per versos costumes. que em nome do rei D. p. os nativos e o s africanos eram todos colocados na mesma categoria: ―povos . confiando das vossas boas qualidades. confirma-s e o resultado apontado por Gaioso. José I.. instrução. não só as penas arbitrárias. aos quais sempre assim se re feriam. p. (Grifo meu) 72 . mas não Para eram a Secretaria os mesmos também só havia três tipos sociais Na elencados pelo governador. 69 Retratos do Maranhão Colonial. ou ainda africanos livres ou escravos. autorizava a instituição d a Junta de Justiça no Maranhão: qual sejam sentenciados todos os réus [e] por eles mereçam. embora naquela distinção de suas fossem era distintos mascarada Letras e fossem si Lis sociedade. mas até a última. [. que cometerem delitos. prudência e zelo do s erviço de Deus e meu. 70 Optei por atualizar completamente a grafia transcrita pelo Arquivo Público do Maranhão. que vos empregareis com todo o acerto em tão meritória e necessária obra. assim como no sentido com uma à dirigidas inverso.Page 179----------------------própria Secretaria do Ultramar. 41. para que cresçam em virtude os bons.

apenas interessava o resultado dos trabalhos dos habitantes da América: os c olonos. aqueles de alguma forma vinculados aos la e no europeus. 126. p.Page 180----------------------de recursos se fazia a partir do comércio monopolista da Companhia. para o nível administrativo e do projeto de dese nvolvimento da região. Em carta de 13 de ago sto de 1772. como já citado. Em 1775. desempenhavam seu papel na produção agríco comércio. ou ainda os barcos . 282. algodão. 73 Como citado anter iormente. 179 ----------------------. com o abandono da cult ura do arroz pela maior parte dos lavradores. destinada à Secretaria da Marinha e Ultramar. que estavam ligados n a sua maioria à lavoura. além de impe dir o comércio interno Sem dinheiro no independente Caixa da dos homens locais. arroz) e os escravos eram os braços que movimentavam as plantações de arroz. . Melo e Póvoas sempre demonstrou um zelo particular. pela falta de dinheiro que se fazia sentir na Capita nia.tratava de cada um em particular. algodão. Para o caso dos homens europeus e ―nacionais . Melo e Póvoas se dedicou a várias viagens fim de estimular os lavradores pelo interior da capitania a quando de um período de baixa nos preços do arroz e do algodão e consequente lucro red uzido ou quase nulo. pois vejo estes povos muito inclinados a ela .havia e scravos marinheiros. A capitalização 72 Retratos do Maranhão. p. esta questão se tornou mais clara. que direcionav a uma grande produção para a Europa a custos baixos: a Companhia comprava toda a produção. os nativos em geral trabalhavam nas fábricas (de anil. 73 Retratos do Maranhão. o governador salienta que ―a lavoura há de ter grande adiantamento.

que ra comprar toda a devido à produção argumentava ausência de ao Secretário recursos embarcasse na da Marinha pa e Companhia por conta local. O monopólio da e Póvoas. alegando que: O empenho que tem esse moradores em navegar os efei . Em carta de 4 de março de 1776. Este argumento entrava em conflito direto com os interesses da Companhia. Melo e Póvoas Ultramar. a fim de proporcionar aos lavradores ue tinham direito. Este resultado foi obtido.76 Esta situação ganhou expressividade por conta particular com pelo a liberação posterior e comerciantes prejudicado: da exportação governador. seria melhor que cada produtor própria suas mercadorias. Prometeu les homens.empresa para arrematar toda a produção daquele ano. o comércio foi prejudicado. Itapecuru e Mearim. pois indica va romper com o monopólio estabelecido. Companhia só esta medida os havia não o lucro a q segundo Melo prejudicaria a Companhia.75 Isto começou a acontecer com o caso de Lucas Raposa. Para c ontornar a situação. Lucas Raposo. tudo para garantir o aume nto da capitania e adiantamento dos povos que nela habitavam segundo Mel o e Póvoas. de 1776 para as Vilas de Alcântara e de Guimarães para praticar a mesma diligência. o que esperava ser mais bem sucedido. para do agrado deveriam a Ainda teria que viajar no ano de Sua Majestade e que àque segundo conseguir relata. o governador Melo e Póvoas se empenhou em visitar os locais de maior produção. R ibeira do Munim. Martinho de Melo e Castro. como bons vassalos aplicar-se. e como isso era eles.74 mas o governador foi mais longe ainda nas suas ações. um d os maiores lavradores da Ribeira do Itapecuru. ernador diante da Secretaria dos que foi defendido pelo gov Negócios do Reino e de seu poderoso tio Marquês de Pombal. exportou por conta própria sua produção para Portugal. amparado po r Melo e Póvoas. a vinda de dinheiro continuação daquele ramo de comércio. para convencer os lavradores da boa prática que era a lavoura do arroz.

p. 223.. boa parte daqueles já ―civilizados na r europeus. 234.] à Fábrica dos Vinhais se devem três mil e tantos c ruzados e da mesma sorte a da Vila de Alcântara e a desta cidade q . p orém nas suas vilas e aldeias são governados pelos seus principais. Em car ta de 2 de março de 1775. p. Maranhão. Esta s fábricas apenas cuidavam do processamento e ensacamento dessas mercadorias para a exportação. tanto para manter o patrocínio d aquela produção aos lavradores quantos aos ―índios e índias que o descascam . são absolutamente sujeitos às leis. colocando que a prod ução do arroz estava comprometida pela falta de recursos. foram integrados aos trabalhos das fábricas de anil. Índios. ou disper diferentes povoações. publicada em 1755. Maranhão. sos pelas A partir eligião e nos costumes de então.Page 181----------------------ntrará no A situação permaneceria âmbito puramente assim até se agravar. sobre os quais d omina um diretor nomeado pelo 78 governo. Melo e Póvoas se dirigia à Secretaria do Ultramar. e aos magistrados. 222. Maranhão. 235. com a Lei de Liberdad tornaram-se ―cidadãos daquele país .tos é por lhes constar que o algodão se vende aí a 8 e 9 000 réis a arroba e a Companh ia o não quer pagar aqui por mais de três mil e duzentos. 214. p. 180 ----------------------. Os índios que vivem na cidade. 215. p. 213. fugindo ao caráter comercial tão característico àqueles povos aqui analisados . Sendo uma disparidad e tão grande e vendo eu no plano da Companhia que o preço dos efeitos do País será a avença (sic) das partes e que não se requer não obstante oporem-se a isso os admi nistradores.. e dos Para o caso dos nativos. 223.77 74 75 76 77 Retratos Retratos Retratos Retratos do do do do Maranhão. Argumenta ainda que: [. E burocrático. arroz e algodão. 210.

Page 182----------------------Graças às luzes da razão e da humanidade.80 Apesar da preocupação do go vernador com aquela ―classe da sociedade agro-exportadora do Maranhão.. à qual se devia 5 mil cruzados. 121. (Grifos meus) se Vê-se novamente o contraste de opiniões acerca dos povos o u dos ―tipos sociais . os privilégios que a lei lhe tem facultado. p.]79 julho daquele mesmo na presença de Sua ano. 79 Retratos do Maranhão. não de forma ingênua. de certos tem pos a esta parte. bons servidores mais úteis da república . 198. 189. op. 80 Retratos do Maranhão. p. o governador J oaquim de Melo e Póvoas pouco mais se referiu aos mesmos. e também 4 mil à da fábrica s das da cidade. 199. e se não fos a sua natural indolência e pouca ambição.ue clamando estes dústrias mandando se poder fazer o presentemente nhia deve muito e Em novamente não podem trabalhar sem comer. daqueles segundo mil à Fábrica de Alcântara e 2 o governador alguma índios se adiantavam nas culturas pela competência dos Diretores administradores e o utras que não davam resultado pela incompetência de outros Diretores. cit. o governador pôs índios Majestade o problema da falta de dinheiro para pagamento dos índios que trabalhava m nas fábricas de Vinhais. eu tenho valido de algumas in vir farinhas do comum das outras povoações dando a estas para assim arroz para carregar estes navios e ainda que venha vinte mil cruzados deles se deve suprir a Fazenda Real a quem a Compa aonde não há dinheiro [. talvez tivessem feito destes homens inábeis. 206. 188. ao seu trabalho e sua remuneração. os índios tem melhorado de condição. mas t endo em vista a fundamental importância daquela mão de obra para a exportação. p. Segundo Gaioso: 78 GAIOSO. povoações De qualquer modo. 181 ----------------------..

e ao mesmo tempo outra d a Junta aos Administradores da mesma Companhia em que lhe ordenava concordassem comigo no abatimento que haviam de fazer nos pretos que vinham a ven der nesta Administração para assim se executar verdadeiramente as ordens de Sua Majesta de que usando da sua paternal clemência querfavorecer estes povos mandando i ntro duzir escravos mais baratos para que as culturas se adiantem nestas capitania s e informando-me eu dos preços porque se vendiam os escravos nos out ros portos do Brasil. que mandava inserir o maior número de escravos. e os angolas e outras nações muito mais baratas.. Entretanto. durante o período oram inseridos no Maranhão de vida da Companhia de Comércio. A participação destes no mundo atlântico não se deu apenas de modo p . Em 1774. achei que o melhor escravo Mina que é nação de maior valor se vendia por 1 00$ réis. Joaquim de Melo e Póvoas contava a Sua Majesta de sobre o cumprimento da sua ―especiosa mercê .] 82 (Grifo meu) vedor da Companhia cuja A providência tomada foi baixar o preço dos escravos para 100$ réis d efinitivamente. como já citado. ne havia já dois escravos trabalho seria insuficiente para o sucesso das lavouras sem aquela mão de obra tão n ecessária. f cerca de 12 000 africanos. havia a seguint e situação: Recebendo proximamente uma carta do Pro cópia será com esta.. ve ndidos ao menor lucro ou interesse que não fosse o verdadeiro valor. depois para descarregar desta determinação. como relata em carta de 4 nhum navio havia aportado em São Luís anos. de modo que nem os povos nem o rei seriam favorecidos com a falta de escravos. e que aqui se vendiam a 120$ réis [. forros e seus descenden tes sabe-se que. a Companhia de Comércio teve de suportar o prejuízo de 3: 149$563 réis.83 Mas os escravos serviam para algo mais do que lavrar a terra. muitos se especializavam na marinha. visto o que concordei com os administradores que os escravos da 1° Sorte. Argumenta que todo março de 1776. Para o caso dos africanos escravizados. antes pelo contrário. Naquela ocasião.existentes na colônia entre a segunda metade do século XVIII e o início do século XIX.81 Além do mais.

eram ultramarinos. 170. mas também de escravos que mat aram seus . 82 Retratos do Maranhão. S. de nenhuma forma se deve entender compreendidos no sobredito Alvará contant o que venham matriculados nas listas das equipagens dos navios com as mesm as confrontações que traz toda a mais gente das suas ditas equipagens. para que não fossem confundidos com escravos comuns ou mesmo fug itivos. devido a região por soldados contra as autoridades superiores. Nesse sentido. 83 Retratos do Maranhão. 185.85 ao Porto da Cidade Neste caso. de tal modo eles responsáveis por grandes transportes que o rei se viu obrigado a 81 Retratos do Maranhão. p. 171. 182 ----------------------. que era presente no mundo colonial como um todo: os atados como objetos e como escravos eram tr pessoas ao mesmo tempo. 223. p. e co m a declaração dos nomes de quem são escravos o que tudo é conforme em termos idênticos. s e pratica com as equipagens dos navios estrangeiros. não só a respeito dos ditos escravos no caso de os trazerem mas ainda com outras quaisquer pessoas livres as quais pelo ofício dos respectivos ministros se repõem a bordo das embarcações a cujas equ ipagens pertencem.. Melo e Póvoas representava ao rei a necessi dade que se fazia de instituir uma Junta os constantes crimes cometidos de na Justiça na capitania. p.84 [.Page 183----------------------publicar um aviso através da Secretaria dos Negócios do Reino..assivo. 184.] manda Sua Majestade declarar a V. 169. liberando a presença do s mesmos nos portos reinóis. evidenciamos uma contradição do discurso administrativo pombalino.ª que tod os os escravos marinheiros de qualquer qualidade que sejam que vierem de Lisboa e mais portos destes Reinos em serviço dos nav ios de comércio ou sejam dos mesmos donos dos navios ou dos oficiais que neles andam embarcados ou de outras quaisquer pessoas moradoras na América qu e os queiram trazer ao ganho das soldadas dos navios do comércio.

Maranhão. além de não obter resultados favoráveis. 281. Se havia 84 85 86 87 Retratos Retratos Retratos Retratos do do do do Maranhão. a produção ficava prejudicada e os lucros do dono também. 241. p. obtidos são o monopólio lançados bem para algumas e os lucros governador. 238. onde da Companhia. índios ou es cravos. ue aqueles do Ultramar ao então Provedor das dívidas q para que se efetuasse a cobrança povos tinham com a Companhia. pombalina e suas Comércio.86 Esta Junta de Justiça foi instituída em 5 de fevereiro de 1775. 237. p. Maranhão. Assim. fossem europeus.senhores e fugiram para a liberdade. Sem os mesmos. o governador inicialmente sal ientou a ordem dada pelo rei através da Secretaria da Companhia Ignácio Pedro Quintela. Neste documento. mos trando uma relação a assinatura pedida aos administradores dos mesmos. a última Póvoas e seus situação a elencar que do estes relacionamento povos das que se trata das dívidas crescentes com a Companhia de 19 de outubro sobre o da à luz empresa pelo motivos da de 1775. 242. prejudiciais como seus o progresso consequências Capitania e riqueza de seu povo. o dono do escravo morto ou fugid o ainda . Maranhão. A isto Melo e Póvoas argumentou que eles não se descuidavam de pagar. 237. p. p.Page 184----------------------atraso no pagamento. Em carta de stões já citadas aqui comércio. o governador reconhecia ao fato da morte ou fuga dos que isto se devia escravos comprados a prazo.87 Por entre Melo governados adquiriram e fim. moradores naquel com constava e ano: os pagamentos realizados pelos nesta folha somavam 175: 723$858 réis além dos efeitos que os lavradores haviam remetido à Junta da Companhia. 183 ----------------------. para punir o mal comportamento dos povos americanos.

tinha sua dívida aumentada na Companhia devido aos juros acumulados das parcelas e m atraso do pagamento ernador. o governo do sobrinho de Pombal apresentou outr a visão sobre o ―gênio dos povos americanos. pelo como argumentava o gov pagamento das dívidas era muito significativa: eram 175 milhões de réis. 12). ainda que não esquecesse as deficiências. ainda em defesa de seus governados. posto que no início se estabeleceu o preço de 4 000 réis a arroba de algodão. os preços sofreram redução também no Maranhão. e ainda um povo dado a continuados ho micídios pelo sertão segundo o próprio governador:89 há registro de casos de escravos que mataram s eus donos e fugiram para a liberdade90. pelo escravo. Co m a queda dos preços deste gênero na Inglaterra. com total defesa do governador. como citado anteriormente. Considerações sos pelo Estes povos eram Marquês de Pombal. Porém. o relato de Southey argumenta que o povo havia se tornado industrioso e também mais . pagamento de 800 réis aos os administradores mantiveram o produtores do Maranhão. o que havia sido motivo de muito desgosto dos mesmos. emendava ainda que os administradores da Companhia estavam a praticar mal os con tratos da com o povo. Quando os ventos tornaram-se favoráveis ao comércio do algodão e a consequente sub ida dos preços a nível internacional.88 além de seus costumes vendo em uma mancebia o relato de sumamente corrompidos. tal como se havia feito com os moradores do Grão-Pará. Demais disto. p. para 80 réis. tidos como segundo serem relaxados e ambicio Robert vi turbulentos e difíceis de governar Southey coletado por Mário Meireles. continuada na visão de Gaioso (1970. a receita gerada Todavia. argumentou que se deveriam perdoar os juros dos valor es que aqueles moradores deveriam pagar. Naq uela carta. Segundo Meireles. Foi esta a causa que fomentou uma quebra parcial do monopólio da Companhia.

In: Retratos do Maranhão Colonial. 88 MARTINS. 208) da Cópia: Fontes pombalino. 25.91 Gaioso a de argumentou no sentido Comércio favorecia oposto. p. p. 173. 172. 242. Por ser sobrinho do Marquês de Pombal. 241. se aplicou tão fervorosamente àquele projeto desenvolvimentista: o que seu t io fez ao nível imperial. ele se esforçou por fazer ao nível regional. o que contrasta com outras visões. 89 Retratos do Maranhão. como poucos. 91 Retratos do Maranhão. sobretudo o caráter administrativo e z eloso de Melo e Póvoas para com seus governados. que podia ser mais avultado.subordinado. Manoel Barros. vigilan Reiterou que o ―comércio deste país. Todavia. e Póvoas trouxe o Com isto também não se progresso e a . p. Joaquim de Melo e Póvoas. p. é também ma is um efeito da abundância do país. 90 Retratos do Maranhão. toda a administração pombalina no Impéri ainda que indiretamente. que é achar que Melo civilização para o Maranhão. pp. do que da indústria dos seus habitantes . na ausência de um povo ―ativo. como se viu. 202. o que prevaleceu foi a imagem construída pelo go vernador Melo e Póvoas ao longo de 18 anos de governo acerca dos habitantes da América portuguesa se tentrional. 184 ----------------------. pode cair em outra armadilha. não se pode cair no romantismo de consider ar Melo e Póvoas um homem desprovido de concepções negativas sobre não-europeus. para a história do Maranhão (Introdução) Sombras (GAIOSO. o ao afirmar que a Companhi ―progresso da indústria desta capitania te e laborioso.Page 185----------------------Na historiografia. 25. mas o que prevale ceu foi seu caráter empreendedor em vista de um progresso e desenvolvimento pautado nu ma linha de raciocínio iluminista na qual o Português se orientou.

corre-se o risco visão de mundo historicamente reproduzir uma localizável e não contribuir em nada para a compreensão das dinâmicas e características su bjacentes àqueles processos. Soube o governador Joaquim de Me arquitetar e montar. Nesse sentido. tal como o fez o g . trabalhador ou pelo menos inclinado ao trabalho e ao progresso. para o desenvolvim ento da região que o povo que nela habitasse também fosse inclinado ao trabalho.como fez Manoel Barros Martins em sua introdução à publicação do códice Retratos do Maranhão Colonial aqui analisado. bem como sua importância histórica. já que o que Gaioso aponta nada mais é do que também uma construção discursiva sobre o comportamento de uma sociedade overnador Melo e Póvoas. que foram obviamente dissolvidas na construção social do Mara nhão e de seus povos. seus elementos de não tão submetendo somente a um exam apresentados. de onde vinham as determinações Régias e para onde era destina a maio r parte dos lucros gerados na colônia: assim lo e Póvoas procedeu. em gestação. uma imagem de um povo industrioso92. Se tomarmos o conteúdo dos documentos e crítico em os sua literalidade. trução discursa com ações e tudo o que se tem é uma cons interesses bem claros para se prosseguir no comando de uma capitania e construir ou reforçar uma imagem de um general modesto. Era necessário. relegando ao segundo ou nenhum plano as culturas e sociabilidades nativas e afri canas. Se o região foi resultado mais da progresso econômico conhecido pela ―abundância do país do que do trabalho dos povos americanos como argumentou Gaioso. nun ca se saberá. duran te 18 anos de governo. pontuando referências de ―ânimo de e por do povo para aformosear a cida ter adquirido princípios morais e comportamentais típicos da cultura européia como alg o positivo. prudente e civil. todos ―nacionalizados e próximos dos padrões europeus. tal como se raci ocinava acerca disso na Europa. através de uma engenharia discursiva tecida em média duração.

a partir de seu olhar etnocêntrico. põe-se em evidência antes e depois do a e seus vassalos reinóis ou quanto visões contraposição de opiniões construída governo de Melo e Póvoas que coincidiu com a administração da Companhia de Comércio. algo de um Para zelar pelo bem daqueles povos.92 É com o sentido de ―trabalhador no século XVIII. todos estavam igualmente ocupados trabalho. Portanto. pois no seu m suas atribuições de governo. Desta forma. 185 que o dicionário Rafael Bluteau. Nisso se vê o contraste com a visão de Melo e Póvoas. sobretudo das três últimas classes existentes índios. Era o estímulo trabalho do governador desses aos lavradores94 e com povos. teceu uma imagem negativa daqueles pov os. na lavoura. que sempre argumentou sucesso da lavoura até a alimentação tudes era dos indígenas. negros e mesmo tempo seu eurocentrismo é que os ―filhos do reino critos e os ―nacionais sempre foram des como gente da melhor qualidade e bons costumes. mestiços. portanto.Page 186----------------------Gaioso. os povos americanos ou ―americanizados do Maranhão tinham habitantes como principal fonte de trabalho a produção e exportação em larga escala principalmente do arroz para Portugal e do algodão para a Inglaterra: pela crescente necessidade destes gêne ros93 na Europa e pelo constante erciantes. nas fábricas ou no comércio atlântico. elenca o vocábulo ―industrioso . fundamental para o aumento da Capitania. O p ovo . do vir o sobrinho de Pombal. a relaxação das e tempo passado. cujo norte político da a dministração se orientava nos ideais iluministas e industriais do progresso racionalista para a geração de riquezas de que pudessem desfrutar tanto o rei os próprios americanos. pulicado ----------------------. O que evidencia ao segundo ele.

de o fato. 186 ----------------------.que se antes era tornou um relaxado nas virtudes. FONTES DOCUMENTAIS: Arquivo Histórico Ultramarino – Projeto Resgate – Ministério da Cultura de Portugal. Estudar os movimentos el através de próprios outras daqueles fontes povos naquele contexto é possív documentais. Vocabulário Português e Latino. Retratos do Maranhão Colonial: correspondência de Joaquim de Mello e Póvoas. 93 Retratos do Maranhão. cheios de males e vícios industrioso. Interessava. mas não são eles os autores do que se sabe sobre aquele contexto. governador e capitão-general do Maranhão. . São Paulo. BIBLIOGRAFIA José Dervil. já que a história que sab emos foi nos escrita por aqueles que puderam são personagens principais escrever. Maranhão. 84. De igual daqueles povos do que modo. Rafael. visto os resultados que Melo e Póvoas argumentava obter no seu govern o. p. MANTOVANI. Siciliano. inter são mais comp sobre os habitantes e fundamentais para construção de um tempo histórico específico do que os povos em si. MOTA. SILVA. Arquivo Público. 1712. – São Luís: Edições SECMA.Page 187----------------------BLUTEAU. 17711778. Os povos america naquele contexto. povo trabalhador. 2009. 2001. Antonia da Silva. muito menos sobre o que agora se sabe do seu comportamento social naquela sociedade em gestação. o que constitui objeto de outra investigação. mais o resultado do trabalho trabalho propriamente. colocando essa-nos discursos lexos tais visões na ―ordem do discurso aqui que os do Maranhão Colonial de Foucault. Coimbra: Colégio das Artes da Companh ia de Jesus. 94 Eram assim chamados os proprietários de grandes ou pequenas produções agrícolas no p eríodo colonial. Secretaria de Estado da Cultura. Kelcilene Rose. Cripto Maranhenses e seu legado.

In: Maranhão. Michel. 1970. MARQUES. João Renôr F. Macapá e Mazagão. Secretaria de Estado da Cultura. Editora Fon-Fon e Seleta. idéias. 1970. Disponível em: http://www. Tradução de Edmundo Cordeiro com a ajuda para a parte inicial do António B ento. 187 ----------------------. – São Luís: Edições SECMA. 2009.scribd. COUTINHO. 1998. 1971.com. ed. Mílson. ―Povoamento no Grão-Pará: Vila Nova de Mazagão (segunda metade do século XVIII) In: Caderno de Resumos 3° Encontro Int ernacional de História . Rio de Janeiro. Universidade do Porto. governador e capitão-general do Maranhão. e Barões. Manoel de Jesus Barros. pp. ―Quem influenciou o Marquês de Pombal? Ideólogos. Belém – PA: Universidade Federal do Pará. 1771-1778. Renata Malcher de. governador e capitãogeneral do Maranhão. A Colônia em Movimento: Fortuna e família no cotidiano colo nial. In: Maranhão. 19-27. Nova Fronteira. de. 1998.Page 188----------------------MARTINS.htm FOUCAULT. FRANCO. César Augusto. 2005. Retratos do Maranhão Colonial: correspondên cia de Joaquim de Mello e Póvoas. no século CARVALHO. Raimundo José de Sousa. 2. Compêndio Histórico-Político dos Princípios da Lavoura do Maranhão. Fomento e Mercantilismo: a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão (1755-1778). 11-16. Uma História da nobiliarquia lus DIAS. ―As cartas de Mello e Póvoas. Dicionário histórico-geográfico Maranhão. FARIA. A ordem do discurso. Cia. Lisboa.br/coloquio/3_coloquio_outubro/paginas/12. pp. Arquivo Público. José Eduardo. – São Luís: Edições SECMA. Paris. São Luís: Instituto Geia. Retratos d o Maranhão Colonial: correspondência de Joaquim de Mello e Póvoas. Éditions Gallimard. Secretaria de Estad o da Cultura. 1970. Sheila de Castro. 1771-1778.realgabinete. da Província do MARTINS.com/doc/2520353/Michel-Foucault-A-Ordem-do-Discurso GAIOSO. ―Sombras da Cópia: Fontes para a história do Maranhão pombalino. Yure Lee Almeida. Rio de Janeiro: Editora Livros do Mundo Inteiro. 1970. Manuel Nunes. mitos e a utopia da Europa do Progresso ”. Fidalgos o-maranhense. Rio de Janeiro. Disponível em: http://www. Arquivo Público. As Cidades da Amazônia XVIII: Belém. 2009.ARAUJO. Porto: FAUP. __ __.

MEIRELES. 2006. nos movimentos negros da América Latina e do Caribe. tomando por ba se a atuação da Red de Mujeres Afrolatinoamericanas. 4. Afrocaribeñas y de la Diáspora como movimento transna cional afrodiaspórico. Imperatriz: Ética.rev. rígidas e territorializadas. MOTA. 2010. Mário Martins. um discurso e uma estética caracteristicamente descolonizadora. Rio de Janeiro. àquelas como o Brasil. Sociabilidades no Mundo Atlântico (séc. me u objetivo com esse trabalho é apresentar uma discussão sobre esse processo. muit as das redes de organizações políticas negras desses espaços têm dado indícios de que está emergindo um novo tipo de Movimento Negro. 2007. O governo das conquistas do Norte: trajetórias administr ativas no Estado do Grão-Pará e Maranhão (1751-1780). MOTA. Tradução: Antonio de Pádua Danesi. transcultural e . Poderes e XV-XVIII). Família e Fortuna no Maranhão Colônia. História do Maranhão. menos fundamentado em discursos e ações baseados em estruturas identitárias fixadas. Marquês de Pombal: Paradoxo do Iluminismo. Programa de PósGraduação em História. Recife – PE: Editora Universitária UFPE. São Paulo: Universidade de São Paulo – Banco de Teses e Dissertações. MAXWELL. Marilise Luiza M artins dos Reis (UFSC/UDESC) RESUMO A América Latina e o Caribe apresentam uma multiplicidade de povos afrodescendente s em seu território.Colonial: Cultura. 188 ----------------------. Uruguai e o Peru. ou como Venezuela. com importantes minorias negras. 2008. Recife. Nesse sentido. Kenneth. São Luís: EDUFMA. Afrocaribeñas y de La Diaspora (RMAAD). paulatinamente transitando para modelos discursivos e de ação p olítica baseados em estruturas de identificações mais múltiplas e desterritorializadas. 2008. Paz e Terra. Na última década. A dinâmica colonial portuguesa e as redes de poder local n a capitania do Maranhão. SANTOS. Cuba e Colômbia. Fabiano Vilaça dos. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. Antonia da Silva. com uma significativa proporção de afrodescendentes. Ed. para demonstrar como vem se desenvolvendo. Antonia da Silva. 1996. que vão desde as sociedades e culturas predominantemente negras de vários países do Caribe.Page 189----------------------VOZES E POLÍTICAS DA DIÁSPORA NA AMÉRICA LATINA E CARIBE: A Red de Mujeres Afrolatinoamericanas. e uma abordagem Pós-Colonial.

Cuba and Colombia. em o como sentido geográfico. ranging from the predominantly black societies and cultures of several Caribbean countries. with significant black minorities. que De muda termo empregad deslocamentos e de desterritorializações a própria noção de afastamento e amplia geográfico. ABSTRACT: Latin America and the Caribbean presents a multiplicity peoples of African desce nt in their territory. In the last decade. many networks of black po litical organizations in these areas have provided some evidence that is emerging a new kind of Negro Movement. vem pondo . movimento negro. gradually moving to the narrative and political action based on structures and multiple identifi cations more deterritorialised. diaspora. black movement. uma espécie de experiência intelectual e consciência identitária que perturba modelos fixos de identidade 189 ----------------------. Uruguay and Peru. based on the performance of the Red de Mujeres Afrolatinoamericanas. uma metáfora de isto é fato. que por sua vez confere ao movimento negro uma configuração transnacional.Page 190----------------------cultural (HALL. INTRODUÇÃO Atualmente. América Lati na e Caribe. and a pos t-colonial approach. diáspora. Ao desterritorializar e reterretorializar. a diáspora não pode mais ser entendida apenas como mero deslocamento físico.diaspórica. Palavras-chave: redes de movimentos sociais. In this sense. my goal with this paper is to present a discussion on this process. with a significant proportion of African descent. Key words: social movements network. those such as Brazil. Latin America and the Caribbean. 2003). which in turn gives the black movement a transnational setting. um modo de produção cultural. passou também a designar um tipo de consciência. transcultural and diasporic. Afrocaribeñas y de la Diaspora (RMAAD). em escala real ou virtual. less reasoned discourse and actions based on identity structures fixed. to demonstrate how has been developed in Black movements in Latin America and th e Caribbean an aesthetic discourse and a characteristically decolonizing. or as Venez uela. rigid and on spatial distribution.

ou. uma espécie de laboratório das experiências sócioespaciais pós-modernas e de fenômenos correlatos como a fragilização de alguns Estados n acionais. politizando temas vêm que impondo até então diferentes territorialidades e estavam subalternizados e invisibilizados. Talvez isso se explique porque a diáspora territorialidade e traduz a ideia de uma vida fora do usive. simbólico. constrói sua história e concretiza suas relações e fatos so ciais. o legislativo. no território de pressupõe uma experiência de extra território ―terra mãe . sob um prisma mais subjetivo. com o executivo. tomando a diáspora africana como perspect iva. a cada ação política que desenvolvem. muitas vezes incl ―acolhimento . um espaço no qual o sujeito estabelece um vínculo afetivo. para vê-lo. E são a s mulheres afrodescendentes e empreendem deste território. nificativamente para São elas quem têm contribuído sig evidenciar as desigualdades raciais e de gênero a que os povos africanos escraviza dos trazidos para as Américas estiveram (e estão ainda) sujeitados. nesse um movimento transnacional sentido. da fluidez econômica e do hibridismo cultural. constituem cada vez mais . com agências de cooperação nacional e inte rnacional na busca da formulação e implementação de políticas públicas de promoção de igualdade. o judiciário. Na América Latina e Caribe. uma parte ou como qualquer da superfície terrestre. o termo ainda pode ser percebido por um terceiro prisma. portanto. protagonistas. as esse processo. a diáspora.em xeque a compreensão do território apenas como um mero substrato fixo. ou subvertê-lo. da eqüida e da justiça social. E. as vozes qu mulheres que nos últimos vinte anos se organizaram de múltiplas formas e que. como um Movimento Social. na qual o Estado-Nação exerce seu poder e estabelece seus limites. promovendo diálogos permanentes e pe rcorrendo caminhos que estão possibilitando construir parcerias e práticas estratégicas com a so ciedade civil. Torna-se.

190 ----------------------. compostas por liderança s femininas de 95 A transterritorialidade é uma ordem de sequências econômicas. 1999). a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas (DURBAN.glocalizado na região. sindical. como foi.Page 191----------------------uma diversidade de movimentos negros . reunido em torno de múltiplas identidades afro que. mudanças espaços-temporais que produzem alteridade e solidariedade. e também culturais. momento no qual o movimento de mulheres definitivo com os debates Mundiais afrodescendentes organizadas pela envolveu-se Organização em das Nações temáticos das Conferências Unidas – ONU para a ampliação e o fortalecimento da abordagem da intersecção de gênero. em logísticos processo preparatório para a III Conferência Mundial contra o Racismo. o caso da c riação da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB. ÁFRICA DO SUL. CARNEIRO. marcou o espaço de onde ecoam as vozes diaspóricas que se concre tizam pelo movimento. por exemplo. etnia/raça e cla sse no âmbito internacional. 2001. no biênio 2000/2001. A fragmentação da territorialidade total em lugares às estratégias de produção multidimensiona a ação e o poder em escala mundial (BAUMAN. expandiu-se o número de redes e organizações. a partir dele. Nesse contexto. ou ainda. transterritorialidades95. indicam a superposição de novas territorialidades. a temática do racismo e da discriminação racial se consolidaram função principalmente do como pauta internacional. acadêmicos. autônomos. a Discriminação R acial. O protagonismo destas mulheres nesses espaços preparatórios é evidente. multiterritorialidades. o período que se desenvolveu ao longo da década de 19 90. pr oduzidas na dinâmica global. por sua v ez. 2001). Foi a partir dessas vozes que se fizeram ouvir. pois.religiosos. cultural de várias regiões da América Latina e Caribe que. rede nacional fundada e m .

1998 ) como no Brasil (CARNEIRO. que passaram a compor o que denomino como as vozes e políticas da diáspora na América Latina e Caribe . cuja declaração explicitou os efeitos perversos do racismo. A organização das mulheres negras passou igualmente a incidir de mane . Segundo diferentes autoras. tanto nesses territórios (ALVAREZ. no pós-Durban. inismo negro com sua 2004). Foi. questionaram a ideia de nação. trazendo novas personagens e real idades. conflitos e conquistas. 2001). assim como a consciência da sua inserção em fronteiras cada vez mais fluídas. a afirmação desses específicas desses grupos protagonismos invisibilizados entrando efetivamente na pauta política e transitando mundo afora. são visíveis as vivacidades do fem trajetória de reformulações. assim como den unciaram a maneira subalternizada e marginalizada com que foram incorporadas nos movimentos sociais. in visibilidade e exclusão vivenciadas por todas elas na região. 2003. De fato. SOARES. construíram novos caminhos na luta pela igualdade e justiça. as mulheres n egras passaram a elaborar críticas sistemáticas às questões que evolvem as políticas de modernização. acrescenta da das a visão do enegrecimento um do aspecto políticas mulheres negras.2000. do se xismo e do classismo sobre este contingente social (CARNEIRO. Nesse ínterim. como e de agendas portanto. as condições históricas das Américas que construíram a relação coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. na medida em que suas questões específicas eram secundariz adas. ao demonstrarem o caráter mundial e transnacional das situações de conflito. Carneiro (2003) movimento feminista e ampliação altamente do protagonismo positivo. Além disso. tanto feministas quanto negros. denunc ando questões sérias como a relação de subordinação estabelecida s e entre as entre homens e mulhere mulheres brancas e negras no seio das mais variadas sociedades de passado coloni al. A esse contexto.

ira positiva na condição de vida das mulheres e de toda a sociedade. De fato. ou uma contranarrativa. formas de articulatórios empoderamento. como omo aqueles convocados pela já dito. na diversidade e na diferença. de estudos sobre as narrativas. e o potencial organizativo dessas mulheres. da sociedade civil. além de reite rarem o que de a teoria que os das redes dos novos processos movimentos e suas sociais respectivas já comprovou. c ONU. concebendo a(s) identidade(s) enquanto um processo d e construção e desconstrução de subjetividades que se faz. incutida e just ificada pelos discursos históricos hegemônicos é um reflexo desse fenômeno. está const ituído o contexto de novas que exige das ciências análises (SCHERERhumanas o desenvolvimento WARREN. ―vozes e prátic fronteira e das chamadas minorias ―raciais e sexuais. em resposta à colonização dos povos e das mentes. a necessidade de abordagens q ue nos dêem subsídios para compreender os sentidos e os não sentidos das ações desses sujeitos históri cos nos 191 ----------------------. visando à afirmação de agendas políticas locais. a reflexão vivencial e teóric a. tentando fornecer uma história alternativa. como consequência. Este protagonismo vem impondo. os atuais quadros teóricos de análise dos movimentos sociais estão em crise e. trazem algumas outras variáveis que apontam para um novo sentido. 2006). Esses estudos. Em decorrência disso. cada vez mais. 2005. nos eventos mundiais. Também. regionais e internacionais repercutiram. têm se dado na forma de redes. A multiplicação de as das diásporas. novas perspectivas de análise advindas dos est udos culturais e pós-coloniais se apresentam cada vez mais.Page 192----------------------seus múltiplos agenciamentos. Perspectivas estas que têm demonstrado c .

surge como o desafio que tem exigido novas posturas d as pesquisas em torno desse tema. 2006). esses contextos indicam a existência de novos encontros comunicativos. mas em modelos baseados em estruturas de discursivos e de ação identitár política identificações múltiplas.apacidade e potencialidade de inovar e repensar. . dessa integração societária 2003. não em torno de estruturas ias fixas. fronteiriças e desterritorializadas. cional e diaspórica nas ações transcultural. na América iplas por meio de uma Latina e no Caribe. vêm constituindo. 2006). e mesmo de redes sistemáticas e duradouras de intercâmbio entre grupos sociais e indivíduos de or igens diversas que. movimentos sociais na releitura criativamente. o papel dos crítica das abordagens clássicas da modernidade. dessas Assim. identificações múlt ―afrodiasporicidade que se configuraria. estariam promovendo uma integração societária para além das fronteiras nacionais (COSTA. bem como de suas ações políticas em conte xtos pós-colonizados (SCHERER-WARREN. e propiciado pelo empoderamento e protag Nesse caso. vez mais na forma de redes. foi lançado pelo protagonismo afrodescendentes. 2005. A emergência da contranarrativa e de uma estética caracteristicamente descolonizadora. transna concretas dessas mulheres. em uma dinâmica descentralizada. o desafio negras. sujeitos diaspóricos: vozes e ações políticas constituídas no âmbito da diá pora. mulheres. rígidas e territorializadas. ao extrapolarem fronteiras simbólicas e terri toriais. É todo esse ―movimento onismo dessas mulheres que nos levou a conceber a diáspora como um movimento social dotado de um a estética de ação que se transnacionalmente configura cada (Reis. A composição demonstra também que esses movimentos. 2010).

Page 193----------------------dotado de uma contranarrativa ante os discursos hegemônicos. do Uruguai e do Peru (WERNECK. Atualmente. imaterial e simbólico na região. pouco discutida ou considerada em fóruns internacionais e pesquisas acadêmicas. resultado da africanos diáspora e afrodescendentes em seu africana ocorrida a partir do século XVI. grande parte motivada pela escravidão e pelo tráfico negreiro através do Atlântico. um processo de deslocamento forçado do mai s numeroso grupo de pessoas pelo planeta. das mulheres negras. as organizações atomiza das e a pouca visibilidade. assim como também da Venezuela. e discriminação até pouco crescente. o reduzido poder político dos 150 milhões de afrodescendentes que compõem esses territórios. Calcula-se que de todo mais ou menos 20 milhões de o contingente Américas. guardadas.192 ----------------------. de Cuba e da predominantemente Colômbia. 1 A TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO NEGRO NA AMÉRICA LATINA E CARIBE Uma das características principais da América Latina e do Caribe é a p resença de uma multiplicidade de povos território. as especificidades ex . obviamente. apesar de ser igual ou maior do que a situação resentam dos povos originários de aporte cultural. a população negra desse espaço territorial é quase quatro ve zes maior do que com situação muito a indígena. negras do deslocado. contingen do Bra africanos escravizados aportaram nas te. da região e a despeito do que rep material. De acordo com Ferreira (2006). 2003). que passa a atuar com o movimento social e que constitui o processo de construção do movimento afrodiaspórico na América L atina e Caribe. grande parte constituiu as sociedades e culturas sil. tempo. Desse Caribe. com uma destaque para a situação que de pobreza permaneceu.

2005) estas mesmas Entretanto. diz o es tudo da Cepal intitulado 96 A Bahia. a maioria del as concentrada no Brasil. Embora somem 150 milhões de pessoas. é de ―alta densidade e pouca ressonância . por exemplo.5 vezes mais rica do que a negra. estão sujei os à discriminação constante por causa da cor da pele. na Colômbia. é amplamente reconhecida como o estado de presença negra mais forte em termos culturais e sociais no Brasil. na Colômbia e Venezuela. e a gestar espaços fora ou nos interstícios . para da o alargamento população dessa situação. foram estiveram submetidas estas populações desde o período da escravidão e pós-abolição que as le ou a constituírem diversas formas de luta..istentes entre um e outro país. em Cuba. 193 ----------------------. bem como a falta de dados completos sobre sua situação econômica. seu pouco acesso a instânci as de governo. único país da América co m sistema econômico socialista.Page 194----------------------Discriminação Étnico-racial e Xenofobia. que chega a quase 30% do total de habitantes da região. inclusive. a população branca é 2. abertas e encobertas. chama a atenção a tênue presença política desta comunidade96. disso. Além. (. 80% do s afrodescendentes vivem na pobreza extrema e. vivem nas piores habitações e têm os trabal hos de pior remuneração. Já o número de políticos baianos negros eleitos para o Congresso tem sido historicamente muito baixo.) No Brasi l. Uma pesquisa de 2001 feita pela Comissão Econômica p ara a América Latina e o Caribe diz que ―a população afro-latina e afro-cariben ha . de acordo condições a que com Ferreira (idem). (CEVALLOS. têm acesso apenas de 90% aos afrodescendente empregos de menor remuneração e contam com baixo nível de instrução. são Estudos pobres contribuíram significativamente disponíveis indicam. segundo pesquisas feitas nesses países. que mais ..

Já no contexto da década de 1970. e bush societies no Suriname. Ferreira cumbes na (idem) faz referência. aos quilombos brasileiros e a seus co-irmãos em Cuba e na Colômbia. europeus e ameríndios (FERREIRA.do sistema dominante. e o Entre processo es de experiências: o Quilombo de Palmares formação do Haiti em 1804. 2010) . sua reinterpretação sistemas emergentes resultantes de processos de sincretismo e de fusão de vários mo delos religiosos africanos. Entre esses espaços construídos meiramente. ressignificando ruas. nos cenários nacionais e internacion ais. Essas . inúmeros movimentos sociais e culturais. destacam-se diferentes códigos duas grandes culturais no Brasil africanos. como espaços libertários que reconstruiriam e transformaram tes. Destacam-se também os veram os processos de no reconstrução e Novo Mundo. com a África ―perdida (GUERREIRO. no campo ou nos centros urbanos. transformação as espaços religiosos nos dos sistemas quais se desenvol religiosos africanos transformações africanizadas e ressignificação. fizeram emergir o fenômeno que considero o mais preponderante em todo esse processo: a extrapolação dos localismos e a emergência de uma identificação dinâmica e fluída em torno do próprio termo ―afro . 2000. quanto seriam as primeiras peças a vir compor o que denominamos como vozes e políticas da diáspora97. palenques pri Venezuela. FERNANDES. ressignificado pela ideia de diáspora africana. a primeira república livre do mundo liderada por africanos da diáspora. ba irros e esquinas. 2006). Essas práticas rituais formaram (e formam) m importantes espaços de expressão tanto no novo formato simbólicos e materiais que resultara desses movimentos em finais do século XX e início do XXI. freevillages na Jamaica. e os de sistemas cristãos. quando há uma busca pela re -ligação com a Terra Mãe. organizações e redes de organizações negras da América La tina e do Caribe.

criminalizados e desvalorizados. Ao contrário. posteriormente assimilados negativamente. excluídos. 2006). com da E nasceu d e Caribenhas.formas organizativas. Racismo. ex ecutado pela Fundação Cultural Palmares. para a criação do portal Observatório Afro-Latino e Caribenho. rejeitados. sociais negros a missão região (FE destaque. 2001). convocada por vár ias organizações negras mundiais. no Brasil. com o objetivo de provocar o diálogo po . a Rede A froamérica XXI. quando surge a Red de Mujeres Afrocaribeñas y Afrolatinoamericanas. denominada ―Primeiro Seminário Continental Sobre Racismo e Xenofobia . movimentos Mundial y Caribeña Contra o (GALCI). por meio de teorias e políticas nacionais de embraquecimento e. foram. Em 2008.Page 195----------------------movimentos e para a formação culminaram na principal de redes nacionais e transnacionais que participação afro-latino-americana em eventos transnacionais: a reunião de 1994. a liderança das mulheres negr as entra em cena. com destaque para os processos de miscigenação e de valorização da mestiçagem (COSTA. de movimentos sociais. com destaque para a Rede Continental de Organizações Afro-ame ricanas. por meio dos processos de desetnicização e de nacionalização. em Mo ntevidéu. Na década de 1990. composta por cinco redes regionais. durante grande parte do século vinte. como resultado da preparação para a III Conferência a Aliança Estratégica de Organizações Afro-latino-americanas e levar à Conferência as demandas e propostas dos RREIRA. e a Iniciativa Global AfroLatina m 2000. 194 ----------------------. movimentos A partir desse evento sociais negros pela multiplicaram-se as redes de América Latina e Caribe. foram de mobilizadas na forma de redes cisivas para a eficácia desses 97 Importante ressaltar que esses legados culturais africanos não foram larg amente aceitos.

r meio da compilação de negras latino-americanas e caribenhas informações das comunidades a ser disponibilizadas na INTERNET.ENMN.. a primeira década do século XXI ental para o movimento negro das Américas: ura política pautado pela organização na snacionais. desde os idos anos 1970. foi realizado um total de 10 encontros feministas latinoamericanos e do Caribe. tem pressionado os governos a s públicas atenderem suas demandas voltadas para a afrocaribenhas por meio e afrodiaspóri de política históricas reparação das desigualdades que afetam afrodescendentes. AFRO-CARIBENHAS E DA DIÁSPORA (RMAAD) 195 ----------------------.ENF. cas. nacionais. além de três Encontros Nacionais de Mulheres Negras . em 1991 e 2001. 2006. em 1988. A emergência desses novos instrumentos e formas de organização. queremos que as sociedades latino-a . 2007). foi criada a Aliança de Líderes do Movimento de Afrodescen dentes da América Latina e do Caribe. 1992 e 2001. De fato. com grande foco para a liderança e o protagonismo das m ulheres negras. como pelo regionais surgimento de inúmeras ONGs. de educação para a diversidade cultural e de políticas de combate a todas as formas de discriminação (COSTA. e no Brasil foram realizados dois Encontros Nacionais de Entidades Negras. em 2000. reunido s em torno de identificações afro-latino-americanas. 2 A REDE DE MULHERES AFRO-LATINO-AMERICANAS. 2003. Na região. e no Feministas . Por parte do Brasil 14 Encontros Nacionais Movimento Negro. assim o desenvolvimento marcou um momento fundam de uma nova e cult tran forma de redes locais..Page 196----------------------.

formulando propostas de empoderamento. a homofobia. capacidade de incidência e reconhecemos a necessidade de gerar diálogos e p ontes com quem ocupa postos com os governos. a lesbofobia e contra tod as as formas de exclusão. mais d e 500 mulheres constituíam a Rede. temos ferramentas educativas. nossa capacidade de líderes. Essa rede reúne organizações de 25 ibe e nasceu países da América Latina e Car para atuar contra o racismo. Do rotea Wilson. Afro-caribenhas e da Diáspora.mericanas e caribenhas reconheçam a liderança das mulheres negras. de acordo com pesquisa empreendida pela organização. o passo seguinte l de mulheres negras. que desde 2006 responde pela coordenação geral. No início de 2010. incidindo em cada país do continente por meio de organismos e fóruns internacionais99. explica que a RMAAD visa ao fortalec imento das organizações e movimentos de mulheres negras. foi constituída a Rede de Mulheres Afro-latino-americana s. Após essa conferência queremos estabelecer pressupostos de ações de combate à violência será o desenvolvimento (EPSY CAMPBELL98) da articulação globa racial. atuando em 25 países de forma individual e coletiva. e Durban e o aumento da participação ica evidente a implementação do Plano de Ação F d da juventude no movimento como os marcos de mulheres negras. e depois. discurso po proposição. onde de poder e decisão. posto que somos lítico. A intenção primeira é a de dar visibilidade a situação das mulheres negras. mesmo dia em que foi criado o dia Internacional da Mulher Afro-lati no-americana e Afro-caribenha. internacionais são fundamentais para compor o rol de direitos reivindicados por ho mens e mulheres negras nções para o enfrentamento do e tratados internacionais racismo. a Rede destaca as alianças e stratégicas com outros movimentos sociais. denunciando a exclusão e políticas públicas que devem ser assumidas por Estados e organismos internacionais. Em 1992. a discriminação. assim como conve . Na articulação para o combate ao racismo.

como ponto chave para a consolidação de políticas públicas de inclusão dos afrodescendentes na vida social e econômica de vário s países latino-americanos e caribenhos101. própria população A autovêm se tornado afrodescendente matéria de acerca identificação racial passa a ser entendida. conformação afrodescendentes em termos de habitação. po r exemplo. Censos que incorporem dados desagregados pelas variáveis raça/etnia. O censo revela o retrato da população. visto que são entendidos como fundamentais para o registro e análise da realidade dos sso à saúde. Raça.html). Diri giu até 2005 o Centro de Mulheres Afro-Costarriquenses.org. em 2002. Por isso os Censos Populacionais luta política e instrumento de monitoramento da de suas condições. em entrevista concedida ao Boletim Gênero. se torna um instrumento para o exercício da cidadania e o stratégia decisiva para . vem ocupando cada vez para a Rede. preside o Parti do Ação Cidadã (PAC). 196 ----------------------. ace 98 Epsy Campbell. entre outros tantos níveis de informação que servem de base para as políticas públicas 100.Page 197----------------------familiar. portanto. A coleta de dados desagregados por raça e etnia na rodada dos censos 2010-2012 na América Latina e Caribe é uma e visibilizar estatisticamente as e os afrodescendentes da reg ião. é fundadora do Parlamento Negro da s Américas e presidiu a Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas.br/costa-rica/epsy-campbell-barr.geledes. tem sido largamente reinvidicados. F onte: Portal Geledés (URL: http://www. nessa perspectiva. assim ma c monitoramento acerca das condições is centralidade mulheres. feminista negra latino-americana. Etnia e Pobreza – Agosto de 2010. A omo espaços criação de espaços de consulta e dessas onde estejam integradas. Foi eleita a quinta deputada negra da Assembléia Nacional da Costa Rica.relacionados aos direitos humanos das mulheres. economista. 99 Dorotea Wilson.

exp osição à violência e violação de direitos. habitação. educação. moradia. assim como uma política unidades rurais. No que tange a dinâmica transnacional que compõe a RMAAD. acesso à saúde. pelo s objetivos. nas estruturas de poder e no . (BOLETIM GÊNERO. emprego e renda. e outras designações correlatas. 100 E que fazem parte de um compromisso que os governos selaram na III Co nferência Mundial contra o Racismo. Existe um conjunto de desafios relacionados ao reconhecimen to dos direitos dos afrodescendentes e a luta contra a discriminação e o racismo impõe a necessidade d e redobrar os esforços para fomentar programas de eqüidade e de melhoria das condições de vida das pessoas de ascendência africana entre emprego. e depois. Em estági os países da América Latina e Caribe caminham para um a juste de contas com os direitos das populações negra e indígena ao buscarem informações s obre os seus modos de vida. RAÇA. o que inclui o acesso a melhores condições de vida. oportunidades de trabalho. utural da A inserção da luta agenda feminista e o contra o racismo como das eixo desiguald estr aporte institucional e financeiro para ades de raça e gênero é outro enfrentamento pressuposto da Rede. Terras de Preto. Também se requer a impl ementação de programas de saúde integral destinados à população afrodescendente em áreas rurais e ur banas. 2010) os diferentes. esta está ca racterizada primeiramente pelas múltiplas conexões que constituem nesse território. mas igualmente a participação e a tomada de decisões s organismos de representação popular. ETNIA. educação e saneamento. comunidades as quais se de encontram terras políticas para as de com específica quilombolas. O objetivo é a transformação geral das condições que permitem o racismo e a discriminação rac al contra os afrodescendentes. qualidade de vida.fortalecimento da democracia.

101 Países com coleta de dados por raça e etnia secular. independentes conjunto com e autônomos. como Brasil e Estado s Unidos. Entre estes. da xenofobia intolerância configurem uma porcentagem relevante da população. o fortalecimento dos o rganismos governamentais e dos organismos assim como a criação de organismos a geração de direitos humanos e o tratamento da independentes de direitos humanos. Este é um passo decisivo para a responsabilização dos países com relação ao combate ao racismo e às desigualdades. Além disso. ação afirmativa que integrem os princípios de eis nos países onde os grupos e das vítimas formas do racismo. organismos técnic informação por meio de trabalho os. Está em curso a construção de um mapa etnicorracial que retrate as reais condições socioeconômicas das populações historicamente excluídas. O desafio é que os Estados assumam a brevidade. 197 ----------------------. o reconhecimento. particularmente no referido à implementação de planos de ação naciona l. como e a reformulação e secundária. a ratificação. o desen volvimento e o monitoramento formal acionais e internacionais. enquanto outros. seguem para o refinamento das informações censitárias. n constitucional da legislação nas garantam e os a interculturalidade. como o Pan amá e Costa Rica. afrodescendentes e outros grupos culturalmente diferenciados e discriminados. podemos citar a luta pela consolidação das obrigações e compromissos estabe lecidos na Conferência de Durban. conexas de também se requer igualdade da e a implementação de políticas os de nív não-discriminação em todos discriminação racial. direitos coletivos dos a eqüidade oportunidades. que a e material bem harmonização dos instrumentos jurídicos nacional. governos e organismos . incluem pela primeira vez o recorte etnicorracial nas pesquisas populacionais.Page 198----------------------perspectivas e princípios que dão base para o desenvolvimento das ações políticas da rede em rede.

Isso. ao incorporar e ao conceito de d múltiplas. quando passaram a incorporar formas de ser afrodescendente na América Latina e Caribe que extrapolam os essenc ialismos que estão impregnados na identidade ―negro/negra gualmente se contraponham às armadilhas ivas da mestiçagem e da ideológicas (ver: MUNANGA. e que i presentes nas perspect democracia racial.multilaterais e de cooperação. que se incorpore a perspectiva de gêne ro no combate ao racismo. e ações em favor da infância afrodescendente. particularmente as me ninas. tão fortemente arraigadas nos territórios latino-americano e car ibenhos. bem como nas suas validades enquanto ―. a história e a cultura negra e afrodescendente. em sua complexidade e positividade. 1999). combate ao racismo e à discriminação urrículo e nos racial. 2003). incorporando objetivos que a educação práticas educativos.. está dando cada vez mais força ao termo ―afro iáspora.. tentativa[s ] de especificar a diferenciação e a identidade de um modo que possibilite pensar a questão da comunida de racial fora de referenciais binários restritivos – particularmente aqueles que contrapõem ess encialismo e 198 . A Rede também está performando um papel nge a questão imprescindível no que ta das identidades ou identificações múltiplas (ver: HALL. assuma seu papel no no c não-discriminatórias assim como políticas específicos e gerais dos sistemas que incorporem os saberes. O identificações que se percebe é que mais amplas e esta Rede. das imagens falsas e dos estereótipos negativ os de grupos e pessoas vulneráveis. da xenofobia e das formas conexas de intolerância. da discriminação racial. que figuram entre as principais vítimas do racismo. o combate dos estigmas.

Page 199----------------------pluralismo (MOREIRAS. denominado aqui do emprego para que tipo de diáspora. que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira. 3 AS “VOZES”: CONSTRUINDO A CONTRANARRATIVA DA DIÁSPORA. Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar. . da musa idolatrada dos poetas. de que mulheres estamos falando? As mulhe res negras fazem parte de um contingente de mulheres que não são rainhas de n ada. as mesmas questões sociais. (SUELI CARNEIRO. que apon tam para o surgimento do que ajuda a diálogo dessa Rede compor a sua com a abordagem pós-colonial e contranarrativa e a sua estética diaspórica. tentou transf ormar o outro em outro eu.----------------------. estamos garantin mulher?. as ―vozes que ecoam dessas organizações de mulheres. p. essas revivescências. epistemológicas e identitárias elaboradas por essa narrativ como desenvolveu Bhabha (1998). são as manifestações desse ―ou eu se desvencilhando daquilo que sempre foi dito. em nome de um projeto civilizatório. 239). Quando falamos em garantir as homens e mulheres no mercado de trabalho. 2001) como O discurso desenvolvido contranarrativa da pela RMAAD. que muito mais os aproximam do que os afa stam. domesticado e servil. culturais. desconstruindo as leg itimações negativas impostas pelo dominador. é o distanciamento dos essencialismos e exclusivismos de identidade e a tomada de consciência dessa experiência comum. ou seja. porque o model o estético de mulher é a mulher mesmas oportunidades para branca. identitárias. 2001. assim como para a descoberta de que os afrod escendentes de todos os países latino-americanos e caribenhos compartilham os mesmos problem as. Nesse sentido. e sempre em contraposição às construções que. como a ―voz de Sueli Carneiro102 na citação acima. Por sua vez. só pode ser compreendido quando posto em confronto com o discurso colonial .

. decomposição dos elementos. bem como como espaços de revisãodas organizações a ela articuladas. mas sim desmontagem. a contranarrativa da diáspora empreendida pela RMAAD se apresenta como um processo que primeiro desconstrói103. onde o que está nascendo é um contra-discurso. 102 Fundadora e coordenadora-executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra . mas também humana. Ao ra da RMAAD se retomar-revisar-deslocar. podemos pen sar o discurso da RMAAD.Assim. insere na a contranarrativa da diáspo perspectiva crítica das obras portadoras de um discurso de caráter pós-colonial. 1998). porqu e propõe que façamos uma releitura da colonização. Apresenta-se conta a história como uma visão d construída da modernidade desde outra perspectiva. como consequência. e deslocado que incapaz vio de pelo discurso como dominant detento (1975).São Paulo/BR. como bem res de um passado traiçoeiros produzir desenvolveu amarrado Fanon a e degeneração. É um movimento de desconstrução do di scurso colonial. Por isso. que representa os negros. que busca demonstrar como a s narrativas coloniais são legitimadoras de dominação e poder (BHABHA. e um la não apenas a sua política. 199 ----------------------. reescrever as anteriores gr andes narrativas. 103 Nos termos de Derrida (2002). para depois reinterpre tar e construir uma narrativa diferente do discurso unificador das vozes dominantes que se constituíram como a H istória oficial latino-americana e mundo que e caribenha. estereótipos uma história de primitivismo de presente condição desmembrado progresso civil. concebendo-a como parte de um processo transnac ional e transcultural global o que implica. a desconstrução não significa destruição.Page 200----------------------deslocamento dos sentidos construídos/constituídos e.

Tal de sujeito do Iluminismo. isso De acordo com seria possível a análise porque de Stuart que tanto Hall tem do a (idem. 07). construída sobre este povo na perspectiva do discurso-ideologia do colonizador pas sando. (BOB MARLEY) A RMAAD emerge como movimento afrodiaspórico porque caracteriza. ponto de 2005). de vista discursivo-ideológicos os quais e de afir impulsionam e dão base para a ação política. c omo já dito. uma contranarrativa.próprias do período colonial. pós-colonial e desconstrutora. agora (re)contada por quem efe tivamente a viveu. as vozes postas no centro do processo de elaboração da história. quanto de si mesmos. a inserir mação novos pontos de identidades. MARCON. diaspórica. e possível perceber 2006a. Nesse estrutura de uma identidade processo. ressignificações que vão dar outras configurações aos sujeitos do movimento. estamos em meio a uma crise das na ação conjunta de um duplo deslocamento: a descentralização o mundo social e cultural. até atingir o que os teóricos define . então. dos identidades indivíduos mutação desenvolveu-se desde evoluindo para a concepção de sujeito sociológico. vista Com do isso. na qual a A RMAAD COMO MOVIMENTO TRANSNACIONAL AFRODIASPÓRICO One Love! One Heart! Let’s get together and feel a fechada em elementos estabelecidos no papel ou na história perde força e dá lugar à cons trução dos desarranjos emergem e ao deslocamento diferentes leituras de e signos e significados. subalternizadas estão Nessa contranarrativa. origem seu lugar postura n p. torna-s p como se deu a colonização pelo roblematizando a representação colonizado. 4 ll right. que desestabiliza o próprio sentido das identidades até então estabelecidas. tendo como lócus enunciativo a situação de diáspora vivenciada pelas populações africanas (COSTA.

uma diáspora. de forma positiva. O que marca são as a a esses movimentos são identificações múltiplas as q baseadas que em afinidades esses histórica movimentos inter-comunais múltiplas identificações experiência do configuram deslocamento e seus desdobramentos e não uma identidade racial homogênea (HALL. processo que se dá em consonânci a com as ações concretas dos movimentos sociais e culturais a ela articulados. 23). a Rede ressignificou as identidades.Page 201----------------------relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas cultura is que nos rodeiam . O que passa a dar ―identidade e ―unidade s têm conformado coalizões s e culturais. estimularia os que fogem dos velhos termos estigmatizados a se autodeclararem e se visualizarem dentro de um grupo de origem ancestral africana fenótipo). numa a cair na armadilha anacrônica da de textualidad termos.em direção a um termo positivado: o prefixo ―afro . ixas. ou seja. para com isso compor identidades diferenciadas. o sentido desconstrução puramente das identidades que lingüística e RMAAD adota é o das identidades em permanente construção. . sem identidade fixa permanente. e Entretanto. 2003 . para além do ―negro categoria que reflete equivocadas ideias racialistas. para não pós-moderna. p.m como o sujeito pós-moderno. Tomando esse sentido. (independente do facilitando a conscientização e o engajamento no combate ao racismo (ver: GUERREIRO. que reforça estereótipos e leva a manute nção de estigmas e supremacismos identificação que . ―formado e transformado continu amente em 200 ----------------------. 2009). ligando-as às ideias de afastando-as das posições f .

pela in corporação da diáspora como experiência intelectual e como vivida. não invalida a existência de estruturas de poder e p rivilégio. O que se observa é que os movimentos sociais negros da América Latina e Caribe começaram a perceber que não se encaixar em categorias o fato de determinado sujeito essencializantes e excludentes. exclusivista e essencializada. impedem que sejam construídas baseadas em diferenças. e/ou reinvidicadas políticas públicas.Essas identificações. significativamente. 201 ----------------------. como produção cultural. porque nasce algo que antes era pautado por certa secundari central para os movimentos negros: a identidade racial masculina. em torno de uma tentativa identidade fixa e imutável. em direção a identificações que permitem maior fluidez e capacidade de abarcar questões trans versais e performativas. zação de primeiramente. bens Implodiria gelamento e num mundo pessoas. possibilita essa ―libertação em que as referências nacionais aparecerem diluídas ou deslocadas de seu contexto territorial de origem. É nesse contexto que emerge a RMAAD como movimento afrodiaspórico. na medida nem uma temporalidade definida. perspectivas caracterizado dessas pela qualquer comunidades. De nominoo assim. o fato de estes movimen tos atuarem em contextos transnacionais itorialidade de ação. para combatê-las. de con ―viagem também. de imagens. especialmente sons. como experiência consciência identitária. Depois. e que se dá pela substituição do termo negro pelo afro.Page 202----------------------muito menos. dariam ênfase à multiplicidade de histórias e assim como à cultura híbrida. . Como desenvolveu Costa (2006). Nem. os quais se caracterizam por não terem uma terr das identidades. construídas na e pela contranarrativa da diáspora.

p. a partir da perspectiva de quem sempre esteve fora das narrativas nacionais. colocam ―em discussão o próprio processo de construção da política moderna enquanto espaço privilegiado de representação dos interesses mundo do homem branco a a e das visões de (COSTA e AVRITZER. 2005. Surge como substância a ser compartilhada para a construção de novas formas de ser. por fim. que modifica não apenas a estrutura do movimento. 2005). configurando uma re-significação. a estética afrodiaspórica. 200 1). solidária e coop erativa. que vão compor. uma estética não apen as artística104. sua ação política (CARNEIRO. quebrando culturais negras. 722). subjetivação e desse modo. a e modernidade106. para visibilidade desenvolvimento das potencialidades da vida social participativa. 2004. incita-nos a são Extrapolando territorialidades observar como o movimento negro encontra-se hoje num momento diferenciado de atuação. na composição de uma perspectiva política crítica como um projeto coletivo de ver e querer a sociedade (FERNANDES. Pass contemporânea nacionais. Nesses processos o desenvolvimento da estética . uma inserção ser diferenciada consideradas nas exigir da política esferas de poder apontando para especificidades que precisam e respeitadas. A representantes RMAAD dessa e as organizações estética. mas também política. por meio de suas a ela articuladas ações. portanto do querer um mundo melhor. Como diasporic publics (públicos diaspóricos)105. vão positivação das estereotipias o sendo e re-trabalhadas dando formas às de formas representações. de desejar e de desenvolvimento da vontade.E. como sua o his designou reconta contranarrativa que reinterpreta a modernidade tória. ALZUGARAY. visto que foram populações inseridas de forma ambivalente na Dessa inserção ambivalente na história discurso emerge aquilo filosófico da que Gilroy (2001) diáspora. mas também.

afrodiaspórica da Rede insere-se também nos esquemas do multiculturalismo na medida em que toma

crítico

anti-essencialista107,

para si, como vimos anteriormente, uma forte ênfase em temas transnacionais, em qu estões globais e na interseção entre o local e o global, demonstrando como existe algo local em tud o que é global e vice-versa, indo além das dicotomizações. Ou seja, o movimento afrodiásporico, represent ado aqui 104 A arte joga um papel importante nesse processo, mas é questão para outra d iscussão. 105 A ideia de públicos diaspóricos contempla todos os novos públic os que apresentam uma inserção ambivalente no espaço público nacional: ao mesmo tempo em que partilham dele, compartilham redes transnacionais e se constituem como agentes permanentes de introd ução de inovações sociais no contexto nacional (AVRITZER e COSTA, 2004, p.722-723). 106 Não como cidadãos e sujeitos de história, mas como mercadoria e objeto. 107 A perspectiva multicultural vem oferecendo um novo dinamismo aos prog ramas de organização e resolução dos problemas materiais e o a desconstrução das identidades estruturais e fixas (SHOHAT e STAM, 2006). 202 ----------------------- Page 203----------------------na figura da RMAAD, emerge espaço que seja ao mesmo da complexidade de se imaginar um políticos desses grupos e reforçad

tempo local e global, principalmente para as populações que vivenciaram o fenômeno da diáspora. Como apontou Kobena Mercer, em ―uma poderosa dinâmica sincrética que se apropria criti camente de elementos dos códigos mestres das culturas dominantes e os ‗criouliza‘, de sarticulando certos signos e rearticulando de outra maneira seu significado simbólico , 2003, p. (MERCER, in: HALL

34). O fato é que, por meio de tais conexões, o movimento afrodiaspórico emerge como r ealidade coletiva, ao favorecer uma visão mais ampla do ativismo resultante da participação d as mulheres negras nos mais variados processos inter e transnacionais, mulheres que, como Teresas de Benguela108, parecem ter na alma o germe do transnacionalismo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS No que tange prioritariamente o movimento ―negro , levando e m consideração as questões da diáspora e da estética concernente a ilo que é ela, está ocorrendo uma transição naqu

enunciado como tal. O que parece estar presente na atualidade dos movimentos neg ros é um novo debate, principalmente daquilo que se refere às identidades, e mais que isso, a no vos discursos que partem de ―vozes aseado femininas. Enquanto, num primeiro momento, este movimento esteve b

em categorias como etnicidade e identidade, quase sempre exclusivistas, masculin as e localizadas territorialmente, no momento atual, aponta para formas de organização pautadas em id entificações híbridas e em formas discursivas múltiplas, muito mais simbólicas e dispersas em rede. De estas fato, a mulheres contranarrativa está da diáspora isto do empreendid é, mundo, sua narrativa e r o mun

a

por

problematizando a realidade historicamente do dado, como também tem aberto os caminhos para se imaginar bem como outra forma de ler os

instituída, outra leitura

sentidos construídos pela representação colonial, ―reencenando evelando seu

caráter de discurso, cujos sentidos são construídos e instituídos por meio de relações de po der. Com a estratégia focada na luta contra sua pretensão de fixar os a representação hegemônica, em

sentidos, e por meio do uso de linguagens estéticas diferenciadas, como o termo ―afro , o fazer político do Movimento Negro da América Latina e do Caribe vem se reconstituindo e se recriando. A partir da contranarrativa da aspórica, a RMAAD vem empreendendo mentos que uma reconstrução a constituem, dos diáspora e sentidos da nos estética inúmeros afrodi movi

ressignificando os valores oriundos da cultura dominante e construindo uma ―contra narrativa dos

108 stado

do

Líder de uma Mato Grosso

comunidade quilombola do Sul, que

do

século

XVIII,

no

E

comandou mais de três mil pessoas e que chegou a agregar índios b olivianos e brasileiros, fato que incomodou a Coroa, uma vez que influenciava a luta dos bolivianos e americanos ( ingleses e espanhóis) para a passagem de mercadorias e internacionalização da Amazônia. 203 ----------------------- Page 204----------------------acontecimentos. O que cada vez mais como se vê é a fonte força da diáspora africana surgindo

inspiradora para estreitar laços tre os povos das

de fraternidade, cooperação e unidade cultural en aquilo que como denominamos de como um mo

Américas e seu futuro, constituindo movimento transnacional afrodiaspórico. Por fim, vimento afrodiaspórico, a RMAAD,

representação

desterritorializado e reterritorializado, aponta para a existência de um contexto político-cultural que incorpora e, ao mesmo tempo, inspira manifestações que emergem nas fronteiras geográf icas locais. A experiência as, demonstra dessa Rede, como os com suas múltiplas conexões e parceri

movimentos negros da América Latina e Caribe não podem mais ser reduzidos a uma que stão de mera cópia ou repetição de doxas estrangeiras, onstituem, talvez desde sua na medida em que c

origem e cada vez mais, um fenômeno global, desterritorializado, virtual e imater ial. Um verdadeiro movimento afrodiaspórico transnacional. REFERÊNCIAS ALVAREZ, Sonia. ―Feminismos latinoamericanos: reflexiones teóricas y perspectivas comparativas . In: RÍOS, Marcela Tobar (Ed.) Reflexiones teóricas y comparativas sobre los feminismos en Chile y América Latina , Santiago: Notas del Conversatorio, 1998, p . 4-22. ALZUGARAY, Patrícia. ‗Oceanos da representação negra: Na Mostra Pan-africana de Arte Contemporânea, realizada em Salvador, o debate é mais político do que o e stético‘. URL: http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2562,1.shl. (Acesso: 01 jun. 10), 20 05.

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Luzia Gomes Ferreira109 "De museus fazem parte dos lugares que, na ordem do coletivo, suscitam sonhos". (Walter Benjamin); "As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, extura, cia, du -ração, pro-fundi -dade, preço, têm densidade, cheiro, contorno, temperatura, aparência, coisas não des -tino, idade, paz." (Arnaldo Antunes) Resumo O texto apresenta uma reflexão acerca dos modelos adotados para classificar objetos africanos inseridos em acervos museológicos ocidentais. O estudo da cultura material possibi lita ampliar as interpretações sobre os objetos, articulando a sua produção, uso e reuso em diversos contextos, dentro ou fora dos museus. Contudo, ao interpretar o museu como um cenário de repr esentações do outro, possibilita identificar como determinadas classificações d os objetos são estabelecidas, compreendendo assim que etnográfico e/ou artístico são classificações instáveis e permeáveis quando atribuída a cultura material africana. Palavras-chave: África, Artístico, Cultura Material, Etnográfico, Museu. Abstract The text presents a reflection on the models used to classify African objects em bedded in Western museum collections. The study of material culture to widen the interpretations of the objects, articulating their production, use and re-use in different context s, inside or outside of museums. However, interpreting the museum as a scene of representations of the other, possible to identify how certain classifications of objects are established, understand ing how ethnographic and / or artwork are unstable and permeable ratings assigned when the African culture mat erial. Keywords: Africa, Artistic, Material Culture, Ethnographic, Museum. Introdução A possibilidade de se formular interpretações sobre as diferentes ma neiras pelas quais os diversos coletivos humanos, ao longo do tempo e em distintos locais, se organ izaram passa pela 109 Professora Auxiliar I do Instituto de Ciências da Arte (ICA) Universidade Federal do Pará (UFPA), da sentido. As função, valor, consistên cor, posição, t modo claro, os

onde leciona para os cursos de Museologia e Artes Visuais; B acharel em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Mestranda em Antropologia Social pel o Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UFPA); Pesq uisadora do Grupo de Pesquisa Arqueologia Pública e Coloboradora do Projeto de Pesq uisa Os Significados do Patrimônio Arqueológico para os Moradores da Vila de Joanes, Ilha de Marajó , Brasil - ambos co ordenados pela Profª. Drª. Marcia Bezerra (IFCH/UFPA). E-mail: luziagomes@ufpa.br 206 ----------------------- Page 207----------------------análise descritiva e e fixaram modos de interpretativa produção, das formas como estes criaram

critérios de circulação, armazenamento, consumo e, sobretudo, instituíram usos e signifi cados para os objetos materiais, as coisas físicas, com as quais tiveram contato ao longo de suas existências. onsidera-se Partindo da definição de os objetos como cultura material de Meneses, c

―[...] o suporte material, físico, imediatamente concreto da produção e da reprodução da vid a social [...] , (MENESES, 1983, p. 112). Sendo, ao mesmo tempo, o produto e o vetor de rel ações sociais; o resultado de formas específicas dos indivíduos se organizarem socialmente e o cana l de produção, reprodução e efetivação das relações sociais. de objetos Dentro dos diversos com os quais um contextos sociais, o conjunto

indivíduo se depara é, no geral, muito grande e variado. Sendo a possibilidade do es tabelecimento de usos, valores e sentidos associados ao lugar ocupado por estes, dentro das ca tegorias culturais e sistemas classificatórios com os quais, como afirma Gonçalves, ―[...] os sit uamos, separamos, dividimos e hierarquizamos [...] implica em Segundo uma Durkheim ordem (GONÇALVES, 2007, p.14). e Mauss, ―[...] toda classificação

hierárquica da qual nem o mundo sensível nem nossa consciência nos oferecem o modelo [...] ,

(DURKHEIM; MAUSS, 1999, p. 403). Contudo, nas diferentes sociedades em funcionam ento, os objetos materiais se transformam, processo são re-classificados, sendo ―[...] importante deslocamentos e suas acompanhar se desgastam, e dos circulam e neste seus contextos s

descritiva através

analiticamente diversos

transformações e re-classificações ociais e simbólicos. (GONÇALVES, 2007, p.15).

No caso das sociedades modernas, há duas categorias de objetos, dis tintos na origem, cuja importância atribuída está, ironicamente, no fato de serem percebidos como elemen tos que se encontram fora do cotidiano: os objetos artísticos e os etnográficos. Pensando o Museu É euro-ocidental possível ―[...] inferir que a instituição museu é uma criação

constituídas por categorias classificatórias, ordenadoras do mundo [...] 008, p. 49), e que dentre as suas múltiplas funções, duas são básicas: ―[...] (coleta e estudo, documentação, ivaconservação e armazenamento) e comunicação

(SALADINO, 2 salvaguarda ação

(exposição,

sóc

cultural, avaliação). (CUNHA, 2006, p. 15). De acordo com Saladino os museus: ―[...] foram as instituições onde surgiram as primeiras iniciativas de proteção dos objetos evocativos da história nacional e foram consolidados os mitos fundadores e a história oficial, ligados à tradição cultural das elites . (SALADI NO, 2008, 207 ----------------------- Page 208----------------------p. 49). No entanto, entre as surgiram movimentos no campo décadas de 70 e 80 do século XX,

museológico da Europa do Leste e América Latina, influenciados por demandas sócio-políti cas da época que suscitou questionamentos acerca do ―papel e função social do museu .

hile

(1972),

Documentos a criação

como a do Comitê

Carta

de

Santiago 1977) dentro

do do

C Co

Internacional de Museologia nselho Internacional de

(ICOFOM – Museus

(ICOM – 1946) e o Movimento Internacional da Nova Museologia (MINOM), estabelecer am novos paradigmas e pressupostos teóricos para se pensar ―o papel e a função social dos museus nas sociedades contemporâneas, especialmente onde grupos sociais até então na América Latina,

invisibilizados desse ―lugar oficial de memória , começaram a reivindicar sua auto-repre sentação. Desse modo, pode-se interpretar o museu como um dos espaços de rep resentação do outro, quais mas, também de nós mesmos, os objetos se tornam onde se contrói narrativas nas

fundamentais para fazer o elo de ligação entre memória, passado e presente no presente . Segundo Meneses: O museu não é uma forma de reproduzir o mundo e a v ida. No entanto, muitas ma forma de transportar vezes essa confusão ocorre. O museu não é u para um espaço específico e concentrado a vida ao vivo, a p seu natureza ou nos produtos entar ) o mundo, os homens, as coisas, as relações. (MENESES, sítio web). Os objetos foram e, do o centro das atenções; na maioria das vezes, continuam sen próprio fluxo – seja nos produtos da da ação humana –, mas é uma maneira de representar (re-pres

ulsação da vida de todo dia no

tanto para os profissionais que atuam nos museus, quanto para o visitante. É notório que o grande público freqüenta os museus para ver ―coisas . Os objetos causam fascinação e de spertam sensações, fatos que não devem ser ignorados nas reflexões acerca dos museus. Para Menes es: e o deleite afetivo, as Entre as funções prioritárias estão igualment relações de subjetividade que se estabelecem entre os indivíd por exemplo, como suportes da memória, marcas ide ntitárias, e agem para definir

uos e as coisas e que funcionam,

ra

reforçar

referências,

trajetos, para explicitar percursos, pa definir amarras – principalmente de espaço e de tempo, já que somos s pelo tempo. Mas também se vai ao museu em busca d

eres balizados pelo espaço e e informação, isto é, para levantamento de atributos empíricos de coisas, pa ra apreensão literal de dados – também para a que ainda para a formação, (MENESES, sítio web). educação, não constituem conhecimento – e substantiva, seja de natureza

seja metodológica

Ou como sugere Chagas: Os museus ainda são lugares privilegiados do mistér io e da narrativa poética que que de torna utilizar possível coisas essa se constrói com imagens e objetos. O narrativa, o que fabula esse ar de mistério, é o poder como dispositivos de 208 ----------------------- Page 209----------------------diferentes, significados CHAGAS, 2008, p. 113). A partir das reflexões ue por serem produções dos autores supracitados constata-se q mediação cultural entre mundos e tempos e funções diversas, indivíduos e grupos sociais distintos. (

humanas, os objetos são passíveis de fornecer diferentes informações de variados aspect os acerca dos o diversos grupos sociais, imaginário humano. Ao além de suscitar que os emoções objetos e não mexer devem com

serem expostos nos museus apenas causar sensações

compreende-se

agradáveis aos olhos, mas também, propiciar inquietações, indagações e desestabilizações. Com base na lizar ―[...] os testemunhos do teoria museológica acredita-se musea

homem e do seu meio, seja meio físico (natural), seja do meio transfor mado pelo homem. (GUARNIERI, materializados 1990, p.07). Todavia, além de diversos e esses testemunhos

complexos, são selecionados e classificados desde a sua coleta e inserção no acervo até a exposição onde as representações tomam formas materializadas:

Este discurso sobre criações voltadas ―apenas para diferente dos demais objetos existentes d as artes leva a pensá-la como contemplação. a exposição cara cteriza-se também como espaço de luta entre poderes daí advindo exclusões. como uma obra alimentada e realime ntada permanentemente. Para Meneses é ―[. Neste quadro. apenas sentida . Sendo assim. tenso. O museu por operar com sistemas classificatórios também estabelece h ierarquias não apenas entre os diferentes objetos. não fazend parte de um contexto sócio-cultural. evidenciar/dissimu iluminar/nublar elementos que seus organizadores e patrocinadore s desejam tornar conhecidos ou esquecidos. incluir/excluir. mas. promovendo silêncios e omissões. possuindo uma ―natureza entro ou fora dos museus. (MENESES. sítio web). ―não pode e nem deve ser explicada.. De acordo com Canclini: 209 ----------------------. seleções. As obras são consideram-nas diferenciadas dos demais ..Expor é revelar/esconder. abrigadas memórias de produção e re-produção pode de ser poder para consid onde são materializadas que podem ser representativas determinados grupos sociais e e significativas não para outros... ocultamentos. mas também. p. fruição e gozo. Artístico ou Etnográfico: faz diferença? Os objetos artísticos são geralmente concebidos como uma produção à parte da vida social cotidiana. conflituoso. 2006. o museu também erado um cenário ambíguo.16) lar.] . Não pode ser entendida como o fi m de um processo.Page 210----------------------objetos da vida social. um meio para a co municação e transmissão de conteúdos valorizados e trabalhados pela instituição museu. entre os diversos coletivos huma nos. articulada e articulando-se com outros elementos e signos do sistema de conhecimentos e de poderes instituídos. (C UNHA.] da natureza da representação o jogo entr e presença e ausência [.

seu valor reside na possibilidade subjetiva de instigar prazer.sendo que a razão possui funções práticas e o intelecto as d e elaborar teorias sobre os fenômenos. Hege l elabora seu raciocínio sobre o tema só pode residir naquilo que expressão artística.. constituem o sentido dos objetos. Supõe-se que as obras de arte transce ndem as transformações históricas e as diferenças culturais e. port produção. no sentido implícito do objeto. Este juízo não im plicaria num conhecimento gnitivo. Hegel é quem define a Estética como a ciência que estuda o belo. nação ou classe social [. provocar fruição e gozo. a beleza é definida como a expressão máxima do ideal. do mo do de ser do espírito. o artístico.parte do ―mundo dos espíritos e alheias. do que nele há de sublime. Partindo desta separação e hierarquização. difusão e consumo que em cada socieda de. uma Com relação reflexão interessante à conceituação da Estética. Uma forma é valorizada na medida em que possibili ta conduzir o indivíduo a um estado contemplativo deste ideal. residiria o belo. 08). Canclini faz de modo possuí a concluir que o belo . 1980. consideradas intrinsecamente individuais.]. nas for mulações de dois filósofos: Kant e Hegel. e por extensão. p.. Em Hegel. por isso. Kant vai falar do ―juízo estético que funcionaria como inte rmediário entre a razão e o intelecto . são ainda em voga nas di calcadas em teorias elaboradas na segunda metade do século XIX. acadêmicas ou não. Nestas por Kant como processos sensações agradáveis. anto às condições de scussões As concepções sobre arte. sobretudo. (CANCLINI. estão sempre disp oníveis para serem desfrutadas – como ―uma linguagem sem fronteiras – por homens de q ualquer época. sobre o mundo tal qual nós experimentamos. e rquia na qual o belo dentro desta artístico é definição estabelece uma hiera definido como superior ao belo natural. de permitir o nem teria valor co conhecimento da ―coisa-em-si .

os objetos muitos artísticos a partir da su autores não consideram estes novos meios de reprodução como um processo de emancipação e s im de degeneração. os . em diverso s trabalhos teóricos sobre a arte e na maneira como a sociedade moderna classifica estes objet os.Page 211----------------------encontra-se presente no modo como muitos artistas definiram sua produção. nem uma disposição estável do que se chamou ―a natureza da humanidade . É interessante perceber que nos conceitos formulados por Kant e H egel implicitamente as épocas. 1980. (CANCLINI.. das quais podemos destacar as de Walter Benjamin. a função da arte novas concepções sobre foram formuladas. quando a rep rodutibilidade técnica da obra de arte passa a ser considerada um meio de emancipá-la do ―mundo dos e spíritos .] uma teologia negativa na forma de uma arte "pura" que recusa. como também toda a finalidade a .mostrando que é possível relativizar este conceito: O estético não é. Esta como aponta Benjamin: ―[.. É um modo de relação dos homens com os objetos. Contudo. 11-12). Contudo. através perspectiva fez surgir. ou negação dest ressupostos 210 ----------------------. cujas características variam segundo as culturas. p. possibilitando re-classificar a função social. A definição de modos de produção e as classes sociais estético como o predomínio da forma sobre a função não é válida para todas para a arte produzida no capitalismo como conse qüência da autonomia de certos objetos ou de certas qualidades de alguns objet os. a aceitação. nem uma essência de certos objet os. a não ser está à idéia de ―universalidade da arte . (BENJAMIN. não só qualquer função social da través de uma determinação concreta . do qual a arte perderia ―sua originalidade . Com o advento da fotografia e do cinema. arte. sítio web). então.

(GONÇALVES. marchands. contemporâneas pesquisadores. demonstra empre serem o tema que apesar de estudos dos objetos materiais nem s antropológicos. os objetos materiais vão deixando de se r vistos pelos antropólogos como indicadores sendo encarados como dos estágios de evolução da humanidade. p. (GONÇALVES. não o do ―espírito um Faz-se pertinente objeto artístico pensar: do o que diferencia e as .] nos limites institucionais dos museus. compartilham dessa idéia e de certa forma a legitimam. 18). . em seu artigo intitulado Teorias Antropológicas e O bjetos Materiais.. descritos.Ainda hoje. sobre e ―autenticidade são temas recorrentes e c arte. p. oriun do de outro ―mundo . ―pureza . ao se observar o modo como foram coletados. desta é possível se perceber as mudanças de disciplina. ―autonomia ntrais nas discussões as. de certo modo. A maioria dos artist museus e galerias de artes. semelha etnográfico? O etnográfico também é percebido como algo externo ao cotidiano. Durante o século XIX e início do XX: Objetos retirados dos contextos os mais d dos mais distantes pontos do planeta.apesar de em alguns casos ser possível encontrá-los aí encaixa mas ao ―mundo do outro .16) iversos.. Este período ficou conhecido como a ―era dos Museus da grande em função proximidade dos antropólogos e etnólogos com esta instituição. eram reclassificados com a função de servir como indicadores dos estágios de evolução pelos quais supostamente passaria a humanidade como um todo. 2007. Por volta da década de 1940. ―[. corroborando para permanência da elitização e sacralização das produções artísticas. analisados e incorporados a coleções ao longo paradigmas teóricos do tempo. 2007. Gonçalves. A própria produção antropológi desta época se deu.

. sociais e religiosas são e laboradas. 2007. o elaborar uma compreensão do objeto com base na sua etiqueta. apagando toda noção de que o objeto po estética que mereça ser transmitida. 2007. mas pela possibilidade de incorporá-lo em modelos explicativos.211 ----------------------.Page 212----------------------meios de demarcação de encontra-se no contexto específico de cada de ―etnólogo e ―antropólogo [. os sobre (GONÇALVES. ocorrendo uma ―[.. 200 Nos anos 1980. apagando assim a ssa ―falar por si ssua qualquer – ou noção de que a qualidade estética do objeto po antes..] . identidade Neste e posição período social. (GONÇALVES. sistemas simbólicos.. Todo o debate sobre as categorias e modelos classificatórios adequ ados ou não para se lidar com os objetos etnográficos tem em comum o fato da valorização não se dar pelo obj eto em si. ocorre a cujo junção significado dos papéis sociedade.. p. Segundo Price: No caso das exposições que apresentam objetos como e tnografia. p... os quais passam a ser considerados como objetos de pesquisa.. informações a respeito de funções técnicas..19). descrição e análise.] indi víduos e os grupos sociais experimentam subjetivamente sua identidade e status. ganha relevância os estud Na década de 1960. 7. 2007. enfatizando-se os modos como os ―[.] recém criados departam entos de antropologia das universidades.] reaproximação entre antropól ogos e museus. qualidade observador é convidado a . (GONÇALVES. ocorre um processo de historicização da Antropologia que se volta par a os diversos personagens presentes em sua trajetória.19) que passam a produzir dentro dos ―[.21). em lugar de reagir a ele através de uma absorção sensório-emocional das sua s qualidades plásticas.] afastamento dos antropólogos profissionais em relação aos museu (GONÇALVES.. e o ―[. p. Nesta forma de apresentação. p. considerados condições para a vida social.22).

ou c om a intenção. os museus etnográficos norma determinado conjunto de significados em objetos e legendas. 2000. O princípio pelo qual a recol ha etnográfica opera é que os objetos são coletados supostamente.) As práticas do 212 ----------------------. de que a importância destes dentro do contexto no qual f oram recolhidos será mantida. Sendo o espaço expositivo um local privilegiado para analisarmos o modo como o ―mundo do espírito nossa e o ―mundo do outro é colocado em funcionamento dentro da . Suas características formais e funci nais só importam na medida em que ilustram teorias elaboradas sobre o ―outro smos) e (ou sobre nós me como deve-se ―ver o outro . Bolton fornece uma descrição do modo como. objetos descrição da apresentada por ilustra as concepções artísticos e etnográficos discutidas aqui. não apresentando estes significados como como um fato. a ên cultural entre o observador e o objeto substitui a atenção seu lugar dentro de um arcabouço histórico documental. Bolton. (PRICE. deixando o visitante livre das rédeas du rante seu noivado com o objeto (com tudo o que há de arte nele). p.43) exposição acerca destes do papel dois tipos atribuído de aos objet levando em conta o artístico ou etnográfico que se deseja ap de ilustrações mas interpretações. Como (.. (BOLTON. o mistério. museu etnográfico e de história são diferentes. os mu seus montam suas exposições resentar no espaço expositivo: Museus de arte costumam fornecer um mínimo de info rmação e de contexto para o objeto. Ao expor lhe é objetos negada classificados a de etnográficos.Page 213----------------------lmente através impõem um conseqüência. 122). a fruição estética. geralmente contemplação. geralmente. A os no museu..fase dada no ao distanciamento Em termos de natureza do texto. 2003. o deleite.

q ue ela constrói as suas primeiras ução da humanidade. seu não funcionamento. que valem pela sua qualidade intrínseca.sociedade. A partir do proposta pelo Iluminismo século e a XIX. em torno dos seu ela a noção de ‗objecto etnográfico‘. como argumenta Kasfir: Nos museus ocidentais. E esta última oposição. ou melhor. A teorias acerca da origem e da evol nova ciência autonomiza-se e diferencia-se. ter uma utilidade prática e social. analisados e classificados segundo o seu grau de sofisticação técnica e pelas necessidades que dão respo sta. a Europ a do século XIX. às obras de arte. to humano. Objetos africanos no cenário museológico A maioria dos objetos africanos encontrados nos museus europeus foram ―adquiridos durante o período colonial. em torno da classificação dos o bjectos e de acordo com os princípios elaborados pelas ciências naturais. não necessariamente de forma pacífica. será a que primeiro vai marcar a especificidade do objecto etnográfico e da antro pologia. Ao contrário das obras de arte. por ser de primitivos contemporâneos e não de povos desapareci dos. 2001. Nasce com considerados objetos artísticos. por. ao contrário delas. (DIAS. suas classificações ―fora do nosso mundo .108109). que se defi ne por oposição aos outros objectos: aos naturais. eles são vistos como documentos do desenvolvimento da humanidade – dos seus estádios mais primitivos aos mais civilizados. entre os séculos XVI tros locais e XVIII. os objectos etnográficos servem para o conhecimento. ser um objecto funcional. estes objectos . fora das os objetos metrópoles das colônias africanas e de ou européias foram considerados como ―maravilhas nos Gabinetes de Curiosidades. aos os objetos No final do século XIX africanos passam a ser e ao longo do XX s objectos de estudo. por conta disto. expostos com a sistematização especialização das disciplinas surge à etnografia e os museus etnográficos: É no museu etnográfico. De acordo com Dias . por ser produ arqueológicos. e. p. aos objectos artísticos .

] uma palavra e uma categoria ocidental [.. nim em 1897 e trazidos para ocidentais e te marcadas. mais se aproximavam de o os exemplos inaugurais dos ‗bronzes realista‘ confiscados no Be Europa.Page 214----------------------história natural em finais do século XIX. deu -se uma segunda promoção museus e galerias de desses objectos.. 2008. ou das estatuetas. por se tratar de ―[. 105) os parâmetros adotados para interpretar artisticamente esses objetos têm nos cânones europeus a sua base.] Os objectos não-ocidentais s artísticos. após a s ua ‗descoberta‘ por Picasso e seus amigos nas primeiras décadas do século XX.. p. e. semelhanças Ao mesmo tempo entre objetos não-ocidentais. 101)..01. sítio web). [s/n]. de rei s Kuba do Zaire. Obviamente a arte.. quando aos recém-criados museus de 213 ----------------------. Esta re-contextualização permitiu considerar os objetos africanos co mo arte. apresentadas na mesma altura na Exposição Universal de Bruxelas são significativos.] (DIAS.foram sujeitos a uma dupla mudança taxonômica – primeiro de espécimes exóticos para espécime os antigos ‗gabinetes de curiosidades‘ deram lugar s científicos. 2001.] (D IAS. a partir da lógica ocidental: ―[. tal como definidos pelos modernistas euro-americanos [. suas dos diferenças . desta vez.. na aparência. também ‗realistas‘. [s/d]. no sentido são vistos como objecto ocidental do termo. P. O que levou a ―selecionar entre os diversos objetos prod uzidos no continente africano aqueles tecnicamente semelhantes aos europeus: Não é por acaso que os primeiros passos no sentido de reconhecer valor artístico ropósito bras de objectos que a produções não ocidentais se deram a p pela sua aparência. sítio web). (DIAS. também encontraram-se foram fortemen de arte ocidentais. (KASF IR... p. para os arte onde foram recontextualizadas como objectos de arte. No caso em que. 2001.

em algu com que se construa um discurso onde ―[. p. 121).. O ri sco desta generalização de coisas ns casos desconectados. t extos de história da arte. a filosofia e comun dos como tendo sido criados destacar que os objetos africanos no ocidente foram legitimados a partir do mome nto em que foram inseridos em acervos começaram a museológicos. Passou-se a definir estes objetos como ―Arte Tradicional Africana . mes mo que a elaboração de detalhes esteja reservada a outros contextos (catálogos. palestras acadêmicas. 2000.. revistas de arte. sítio web). tais Geralmente nas essas diferenças são exposições ocidentais de objetos não ociden evidenciadas como aponta Price: distinção entre objetos Para estas mesmas exposições. bem como. etc).] ‗artes da África‘ (no plural). re religiosos e assim por diante) é reconhecido (sinalizado). vindas de centenas de cult uras que se dá o nome de ―arte africana alum é de — como se fosse uma só! (SALUM. revoluções políticas. interessa aqui da classificação de etnográficos indivíduos identificados nominalmente uma história de estilos artísticos.Page 215----------------------e/ou Independentemente artísticos. em vez de ‗arte a fricana‘ [. o status da arte Ocidental como parte de uma hi stória documentada da civilização (com nomes.. sítio web). Não é a crítica a este fato o que s pretende . nascimentos culturais e 214 ----------------------. Para S significativa relevância pensar ―[.objetos africanos isto se deu pela exaltação de sua funcionalidade . seu uso ritual e caráter coletivo de sua criação. Desta forma.. datas..] essas criações. a principal Ocidentais e Primitivos é que somente os primeiros são apresenta por em momentos específicos de icação em evolução. (SALUM. quando artistas modernos europeus utilizá-los como referências para criação das suas obras. (PRICE..] . provenientes faz de contextos distintos.

no tempo e isto espaço discuta não é peculiaridade dos em s como. nas é possível numa ver estes perspectiva lembrança cultural e entação de patrimônios. ainda sendo analisados. não foram e nem são concebidos para objetos africanos. antigos não objet mui pesquisados to diferente e expostos nos museus da do século XIX. e esquecimento. Uma vez que ao falar de museus: de confrontos e [.] temos que incluí-los no universo intolerâncias culturais e suas dinâmicas. lugares sociais os africanos Atualmente. Considerações Finais Procurou-se destacar os pontos de semelhança entre os objetos artíst icos e etnográficos . serem Assim musealizados. p. mesmo porque a maioria dos objetos ocidentais e não-ocidentais..os ―fora do s. O objetivo é problematizar o papel dos museus grupos sociais hegemônicos na re-patriação des discursos dos legitimação através das narrativas apresentadas nas exposições museológicas. o que ocorre e m situações onde . 16). baseada nas dicotomias: etnográfico/artístico. coletivo/indiv idual. (CUNHA. funcional/não funcional. (por sinal os m ais evidentes).. propiciando um silenciamento e desconhecimento da produção mat erial e visual contemporânea do Continente Africano. A ―arte tradicional africana etrimento da Arte continua sendo preterida pelos especialistas no tema em d Contemporânea Africana. que permitem identificá-los como duas categorias distintas.aqui. 2006. ainda que na contemporaneidade se ses artefatos. não podemos retroagir eus respectivos locais de e (re)-colocá-los a dos origem. no geral. No entanto. temos que pensar na construção e apres memória e suas estratégias de imagens construídas acerca da produção construídos e determinados. A análise nosso mundo dos modelos e sua presença dentro dos museu classificatórios adotados nestes casos concentrou-se nos aspectos.

atrelado a valorização da identidade negra. ou a e incorporados.13) exigindo o direito de falar sobre seus objetos. Tanto nos o continente subsídios para . mas dentro do e o do Benin. internamente.Page 216----------------------mentou No tocante ao Brasil é visível que o interesse pelo meios acadêmicos de nos últimos anos n au (DIAS. assume ―voz na arena internacional e no seio das nações . etno Continente Africano. esta escolha é bem representativa dos critérios adotados para se definir a ―África . Obviamente povo que originalmente é produziu ana contexto de positivação da origem africana. considera-se princípios dos sistemas de suma importância que se quer para si sobre refletir . ou indiretamente dos africanos escra vizados que aqui aportaram . ou de produzir arte? E quando es ses objetos africanos são utilizados para afirmação das identidades negras nas Américas da Diáspora? 215 ----------------------. Um caso interessante é um Monumento África vão sendo adotados a Zumbi dos Palmares existente na cidade do Rio de Janeiro. ou. os Enfim.que buscam africanos refletir sobre a influência dos modos na formação da identidade vida dos povos nacional e nos grupos que descendem direta.como também entre indivíduos e grupos organizados preocupados com a valo rização e legitimação da identidade negra brasileira.as fronteiras entre o artístico e o etnográfico são permeáveis e instáveis? Ou o ―outro ráfico. luta ―por sua autodeterminação face aos estados nacionais 2001 p. no qual o líder quilombola é represe ntado a partir de uma réplica de um ―bronze realista crônico tentar encontrar qualquer relação entre Zumbi esta peça. que ―remetem Dentro deste contexto. após o fim do processo de colonização. uma série de objetos produzidos na África.

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. O surgimento das grandes companhias de navegação estrangeiras. fez crescer a afluência da navegação e logo surgiu a necessidade de se construir um porto em Belém. 154-155). UEZ. fruto do aquecim ento econômico do ―ciclo da borracha . uma realidad e sem . onde queria cada sem um sentiu que era possível limites de classe nenhuma. os quais nas décadas seguintes funcionariam como ponto de chegada ntrabando. ele coloca a região . Na vira da do século XIX para o ratégica de grande século XX. aos limites da divisão política.. vista Belém já possuía Muitas uma posição de geográfica nave importância do ponto de gação internacionais que cruzavam Belém no oceanos caminho econômico. 1999. muitos trapich es. O fato de a região amazônica e importante para a ter uma vocação das embarcações de co natural para navegação revela-s realização do contrabando. ao termos Norte em uma noção uma posição que crucial não . fazer deus [. companhias encontravam transportando destas rotas mercadorias transatlânticas. forçosamente. ofici . Neste corresponde momento desterritorializada da cultura caribenha. teria que passar pelo seu Porto. se os geógrafos. p. A intensificação das atividades comerciais na região.crêem sim sa uma área cultural do muito encruzilhada mundo. na cidade. Pratic amente todo o comércio da região. Havia naquele início de século. hasta Brasil .] nes forjou um sentido de liber nem lei o que (GARCÍA MARQ Quando García Marquez diz que o Caribe se estende até ―el s ul. Belém tornou-se uma grande metrópole regional.. e homogênea dade sem fim. pois sua privi legiada situação geográfica no estuário amazônico lhe garantiu um importante centro urbano.. vislumbra-se uma compreensão mais acurada da conexão cultural Amazônia-Caribe.

o bairro da Esta imagem do porto Campina. onde predomina a circulação de pessoas de diversas partes do mundo. mas s também pela ação das empresas estrangeiras de navegação. (perto da área portuária) e alguns p ontos conhecidos. que vêm As trocas interculturais e vão para lugares fruto do contato de pessoas tradicionais encontros da vida cultural no Bar do Parque.Page 219----------------------como o Bar do Parque. funcionam como um canal inicial das hibridizações posteriores. assim como o conseqüente acirramento das di sputas de classes entre estivadores e os donos da companhia. Bolsista CNPQ/CAPES de Doutorado.com. a região do centro histórico de Belém é de grande importância cultural para a cidade. um verdadeiro reduto de artistas e intelectuais. Contato: apostilas2001@yahoo. representam um marco deste pe ríodo. podemos dizer que o porto é um espaço de hi bridizações por excelência. . cuja vida boêmia dos um símbolo daquele espaço. 218 ----------------------. de mas que o porto acaba desempenhando também uma Em Belém. tais como o poeta Ruy Barata. Integrante da Associação de Pós-Gradu andos da Universidade Federal da Bahia (APG/UFBA). o fato ca. 110 Estudante de Doutorado do Programa rsidade Federal da Bahia de Pós-Graduação em Música da Unive (PPGMUS/UFBA). Sem dúvida. não não só só uma através função da econômi ação de influência cultural interessante. us trabalhadores. o porto torna-se um local transna cional. tornaram-se diferentes. Pelo seu cosmopolitismo. onde se traz consigo. Ressaltam os.br.nas onde cada vez mais operários navais se avolumavam. inevitavelmente. localizava a famosa ―zona do meretrício . ambiente de forte boemia nas décadas de 60 e 70. inclusive torn ando-se por um tempo. portanto.

É. ―Comi muita mulher.Ele veio de e se aposentou como 111 tenente. ―Vocês são paraenses? .O Taxista de Fortaleza veio de passagem aqui? SEBASTIÃO . Que vinha aqueles navios com marinheiros. chegavam aqueles navios no cais do porto. Então só tinha três pontos pra se divertir aqui em Belém. né? [. Era marinheiro na época. que era a Zona. ENTREVISTADOR. O senhor pode até não acreditar. Tais salões de festas caracterizavam-se por ser uma forma de laz er muito comum das camadas populares de Belém: SEBASTIÃO . mas eu sou o dono de lá.A Estrela do Norte é uma sede conhecida no Brasil todo aonde vem gen te de 40 anos atrás.. em relação às gafieiras. casas de festas populares existentes em Belém nas déca das de 50 e 60. Eu disse a Estrela do Norte tá lá no mesmo lugar. Inclusive eu fui a Fortaleza e peguei um táxi de um senhor lá. né? Então. Ai ele disse: ―Rapaz. 111 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. Eu disse somos. muitos marinheiros aqui? SEBASTIÃO .] Então. porque naquele tempo a onda era essa. E a ―Estrela do Norte? .Page 220----------------------A circulação de marinheiros oriundos de várias regiões do Brasil assim c omo de várias partes do mundo acabou conferindo smopolitismo e a impessoalidade à zona e ao porto o co Navio. ENTREVISTADOR..Então vinha muita gente. (AUGÉ: 1994) Quero enfatizar que a entrada da música afro-latino-caribenha em B elém acontece por . Sebastião é o dono de uma das mais conhecidas casas de festas em Belém naquela épo ca: A Estrela do Norte. g astei muito dinheiro ali! . o point era aqui. a Condor e a Estrela do Norte. 219 ----------------------. a Estrela é uma sede conhecida nacionalmente.da-nos O relato do a visualizar como senhor isso Sebastião Souza Oliveira aju acontecia. Marinheiro próprios dos espaços denominados pelo antropólogo Marc Augé de não-lugares.

reconhece do que as festas de gafieiras for Antônio Maurício. as chamadas festas de gafieiras . sabemos somente que eles eram freqüentadores assíduos da ―zona do meret rício e que. O FENÔMENO DAS APARELHAGENS E DA GAFIEIRA mente Em Belém do Pará. também am o miolo embrionário circuito bregueiro em Belém ―cuja história remonta aos boleros e merengues tocados nas ―gafieiras e ―cabarés da cidade dos anos 50 e 60 (COSTA. que po dem ou não ser chamadas de gafieiras. que (não-lugares). Não podemos de trânsito estivadores. nas horas livres. se sab emos que estes marinheiros chegavam até a gafieira Estrela do Norte. Mesmo limitado pela dimensão deste trabalho. 15). . e são vividos por agentes transnacionais . mas que não fica nos limite podemos considerar também que tais da zona e do porto. marinheiros não se limitavam necessariamente às festas de gafieiras das zonas locali zadas no bairro da Campina. etc. Estes dois fenômenos sócio-culturais.intermédio de espaços de passagem. em precisar até onde iam os marinheiros avés de relatos como o de aportavam Sebastião Souza. Um dos espaços de lazer mais requisitados pelos trabalhadores das camadas pobres de Belém nas décadas de 50 O historiador e 60 eram. um bairro de periferia. ligado às festas o fenômeno das aparelhagens está intima populares. 2007. estavam sempre em busca de diversão. também que denominamos de rede de difusão cultural transatlântica. Atr qu prostitutas. viajantes como marinheiros. localizada no bairro do Guamá. as aparelhagens e as festas. músicos Belém. sem dúvida. p. das festas populares. considero os relatos aqui expostos de grande importância para a reconstrução da paisagem cultural de Belém daquele período112. Por outro lado. em O são elementos constitutivos das aparelhagens do e desenvolvimento Belém teve grande importância como elemento facilitador da chegada e da difusão da músic a afrolatino-caribenha.

Já nos séculos X VII e XVIII. 2005. ENTREVISTADOR . ele é cubano. Catete e Centro. 220 ----------------------. Com o tempo. 87).112 Como locais de encontro e troca cultural os portos adquirem importância notável . os portos de Nagasaki e Cantão eram locais importantes de troca cultural entre a E uropa e a Ásia. uma variação da dança e do samba também passa a ser chamada por samba de gafiei ra113. Ray Connif. Quanto às músicas. Segundo Ana Maria de São José. p. marchas e cateretês.Era esse tipo de música. a gafieira seria um ambiente popular ocupado por ―um gr upo de pessoas de classes menos favorecidas que tinha a necessidade de diversão. encontramos uma amostra do repe rtório musical executado nas festas sociais e de gafieira no interior do Pará. Aquele s boleros de Bienvenido Granda. Não sei se tu conheces. Waldir Calmon. são a expressão nítida da segregação dos iles espaços de lazer urbano.O que tocava de música nas festas em Capanema? OTONIEL . Para dar relevo à idéia de que o caráter transnacional dos portos pode servir como meio facil itador de processos de hibridizações. No relato de Otoniel Fialho. Ângela Maria. muito xote e forró . surgiu na década de 20 e designava o s salões de dança e cabarés localizados em sobrados dos bairros de Botafogo. Eram os boleros que mais to cavam. no entanto. Luiz Gonzaga. na década de 50. Jackson do Pa ndeiro. A gafiei ra era um local onde uma camada da população que era totalmente marginalizada e excluída dos ambientes sociais tinha a possibilidade da aceitação social (SÃO JOSÉ. no interior do Pará. trazemos à tona o exemplo de portos de c idades como Liverpool e da cidade norte-americana de New Orleans. no Rio d e Janeiro. mestiçagens. Era . Amsterdã do século XVIII. No que tange às similaridades. na década de 50. Dalva de Oliveira e principalmente Bienvenido Granda. São exemplos a Veneza do século XV. nos populares cariocas encontramos maxixe. nota-se que as gafieiras tanto no R io como em Belém.Page 221----------------------O termo gafieira. a Lisboa e a Sevilha do século XVI.

fica claro que Ot oniel se refere a um suposto surgimento do Merengue em Belém. como na Assembléia. enquanto que os boleros de B ienvenido Granda eram mais cultivados nas festas mais sociais115. De outra forma. xote. a partir de um relato oral.do Bienvenido Granda. Merengue já veio surgir na década de 60 . De forma muito i nstigante. Vicente Salles recorda Nascido em 1931. principalmen te em festa social. [. que ―ah não eu . A né? minha Aí [. inserimos aqui mais um elemento nesta discussão116: em Belém. 114 No relato de Otoniel percebe-se o xote e o forró eram ritmos que na década de 50.. Esse comentário chocase com a hipótese de que o Merengue já anteriores de 30 ou 40. Merengue já veio surgir na década de 60. existia no décadas Pará de nas 30. música mais pesada.. toca Merengue . Otonie 114 Entrevista realizada em 04 de abril de 2009. Já no Cocal. enquanto qualificativo diferenciador de classe referente às festas das elites locais. 221 ----------------------. E aí já começavam a dizer não danço naquela sede porque é gafieira. restritos às camadas populares.] Tocava muito bolero. tocava mais era forró. Outro ponto interessante está na consideração d e que ―ainda não existia Merengue.] porque o Merengue já foi tradição aqui mãe contava que o Merengue dançava até em depois o Merengue passou pras sede. décadas em do Merengue nas passando a viver em Belém a partir de 1946. Sabendo que o Merengue é um gênero muito antigo e já conhecido nas primeiras décadas do século XX.. lá no ―puteiro . lá em Capanema. essas oisas.Page 222----------------------Belém em 1959 e desconhecia a vida musical da cidade antes disso.. Sabe? Mas o aniversário. na década de 60. as lembranças de Salles podem ter mais v alor. pois ele teria vivido mais de ―perto l só mudou-se para esse momento histórico. Ainda não existia Merengue. 115 115 O termo ―sociais deve ser entendido aqui no sentido em que é usual mente empregado no contexto desta pesquisa. O próprio Belém.

na época aí eu ficava assistindo a festa de fora. inesquecível de sua infância. a tenra O idade atual dono da Gafieira considera a sede lembrança é Sebastião Souza. Hoj e em dia não pode mais. Desde quando começou. como Irineu.1 17 No início da década de 60 as festas de gafieira estavam em pleno func ionamento em Belém. conforme seu depoimento transcrito na seção anterior. Fã declarado Sebastião fala como começou a tomar conhecimento sobre a Estrela do Norte: O meu interesse de festa se deu desde os oito ano s. Tinha dois janelões bonito. teve seu primeiro prédio alugada em seguida para um erguido por Bebe do Praza. que fundada e construída em 1928. Sabemos.Merengue tá aí há mais de 70 anos. cuja fama já corre por todo o Brasil devido ao intenso fluxo de pessoas que chegav am à Belém pelo porto. Não sabemos se a Estrela do Norte foi e só uma pesquisa mais ampla a primeira gafieira de Belém poderia dar conta do resgate destas fontes e fatos. sou fã do Merengue. peguei interesse pelo Merengue. Desde Estrela do Norte como uma do Merengue. né? E eu sem pre fui fã dessas músicas e minha mãe me trazia aqui na porta do Estrel a do Norte. porém.118 Demonstrando muita estima. aquela que é o mais antigo templo do Merengue em funcionamento em Belém: a Estrela do Nort e. Que era no tempo do Merengue. a Estrela do Norte é uma sed .. a Estrela do Norte consolidou-se na década de 60 e 70 como o lug ar de cultivo . Para falar das gafieiras enfatizamos aquela que é considerada a gafieira mais ilustre. Aí eu fui.. né? E naquele tempo se assistia de fora pra dentro. sendo peixeiro conhecido no bairro do Guamá. enquanto uma opção de lazer e diversão noturna. música do Caribe muito tocada. ―Babá er e destacar a não mede palavras para enaltec importância da sede na história do lazer em Belém. Num tempo em que as festas de gafieira estavam em alta. Para ―Babá .

117 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. mesmo com esse predomínio do Merengue. a sede do Sr. [. Então tinha essa divisão. também se podia escutar. O locutor quando tocava nas sedes. Altemar Dutra. a presença el. como é chamada aqui e o Merengue. cantores como Núbia Lafayette. 118 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. Passando a fazer parte da paisagem festas de gafieiras das camadas populares. Por outro lad o. popular. vezes musical porém. no Bangu [antigas g afieiras da cidade]. Existia essa divisão.Page 223----------------------certamente são os ritmos mais tocados nas festas de gafieira em Belém. Vejamos um caso interessante contado por Sebastião: ENTREVISTADOR .. Mas tem uns aparelho que às vezes desconhecia e metia.. como acontecia em outros est ados.Existia..do Merengue em 1960.Existia na época uma espécie de divisão entre as sedes que eram das ca madas populares e as sedes que eram das elites? SEBASTIÃO . aí ele chegava no fim e não pagava o cara porque que o cara des cumpriu a regra.. tinha essa divisão. falava na categoria. agora eles não rodavam os outros [ . Orlando Dias. Quando vinha tocar na Estrela do Norte. né? Ele não gostava porque ele dizia que a sede dele era ―social . Podemos o bolero assegurar que a partir de 116 Na próxima seção trataremos de fatos que podem elucidar ainda mais a questão em relação à presença do Merengue em Belém. ent re outros. Nelson Gonçalves. ele falava diferente. tornando-se às do Merengue. Anísio Silva. era o socia l que chamava [. o Merengue e Belém. . Se ele pega sse tocando uma música do Caribe ele não pagava o cara da aparelhagem. distintiva do cenário fazendo do gênero certamente uma marca musical da capital paraense. Jonas [Sede do Atalaia Esporte Clube].] O cara ia tocar lá já sab ia que não podia tocar a lambada. tinha que falar diferente.] Tinha uma sede lá atrás do Castanheira119. nem ligado sempre às será agradáv motivo de constrangimentos e repressões.. 222 ----------------------.. Era o social que eu te falei.] tocava esse flash brega.

). ―Essa porra já virou gaf ieira? Tá tocando Merengue? Quando tinha festa na Estrelinha [sede social localizada no bairro da Pedreira] ali. Só tocava no Estrela do Norte. também facilitava o fluxo das ―garotas de prog rama .essas coisas diferente. no Carroceiros. era censurado. e. Deus o livre se tocasse Me rengue. não tocava Merengue. Era ele não era toc SEBASTIÃO . vinha de possuírem meretrício.Inclusive ado em sede. o Merengue e as prostitutas. no Km 0 da BR-316. Ainda que as gafieiras em Belém não fossem prostíbulos por excelência. como muitos tornando-se um grande atrativo para a na zona. o l homens de outros Estados 119 Bairro do município de Belém. Otoniel nota-se uma clara associação entr e as gafieiras. a freguesia do Estrela era enjoada. nessas gafieiras que tocavam M erengue. pois tais localidades. além o porto. ele já falava mais ligeiro. Mas era 80 % de Merengue.121 No depoimento acima do Sr. Não era proibido. a diretoria vinha logo em cima da aparelhagem. as prostitutas só queria dançar Merengue. etc. na Estrela ali. 120 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. Cabe fazer uma distinção. A localização chamavam as mulheres que trabalhavam das gafieiras em bairros de periferia como Condor. proibido? eu ouvi falar que o Merengue. Este nome fluxo intenso de pessoas. estavam perto d . 121 Entrevista realizada em 04 de abril de 2009. acabava s ―meninas .120 A seguir vemos mais dois casos ilustrativos de como o Merengue e stava inserido nas contradições sociais que se manifestavam claramente nos ambientes de lazer: ENTREVISTADOR . há uns vinte anos atrás.Page 224----------------------(marinheiros. 223 ----------------------.Em festa social não. entrada em da especia cidad localiza-se logo na deve-se a uma árvore de castanheira enorme que marcava os limites do bairro. Guamá e Campina. na Embaixada de Samba Império Pedreirense. Vejamos como as prostitutas participavam das festas: Naquele tempo. ai.

pra dançar o tradicional Merengue. Fazer madas baixas representadas parte por estivadores. Na veio. 1 o chamou atenção e ele disse ―sai p ele começo nosso que ele dos anos aqui nos anos 60 veio um Estados Unidos e passou pelo Caribe. podemos entender estava associada à sua reprováveis na pelos dos que valores espaços a resistência ao Mere presença em ambientes os aos ―bons costumes morais relacionad de lazer das ca sociedade belenense. o Vou lhe contar uma história da influência festas do nosso sindicato aqui sempre foram festas tradicio e conservadoras .toda As de camisa de linho. marinheiros e prostitutas. É um fato que consta aqui na nossa história [. Ainda cai. nós chamávamos pra ele carinhosamente de ―cara de mapa . vê se você maneira ess e ritmo de dançar . ] Tocou uma espécie assim de mambo jambo aqui e tal aí e u a rodar a dama e o Presidente ra lá que tu não entende nada disso 23 Percebe-se que o preconceito contra o Merengue e acabou pegando uma suspensão injusta. do seu gigolô.. Presidente vulgaridade. rodando a dama. de calça mulheres faturavam a semana de linho e sapato branco. Hoje em dia ainda cai uns velhaguarda aí. marceneiros. peixeiros. não conhecia aquele ritmo do Merengue e o Presidente acabou dando 30 dias de suspensão pra ele. o nome dele era Ricardo Rocha de Souza e ele trouxe a esposa pra cá pra dançar numa dita festa do sindicato e ele começou a d ança nesse ritmo lá do Caribe que ele passou por lá. 122 ngue Assim. As e nos companheiro embarcação apelido dele. né? E o Presidente da época chegou com ele ―Companheiro. do Vejamos o depoimento de Sindicato dos Estivadores de Belém: caribenha nais aqui. Aí ele disse que o Presidente tava por fora. todinha na Gaspar Viana [famosa rua da zona do meretrício de Belém] pra no domingo v ir com um vestido de primeira linha do lado do seu carachué.. tornava o Mereng ue a expressão do mau gosto musical e da Roberto Corrêa.

O gosto e estavam grande cultivo pela dança muito relacionados aos presente nas festas populares 122 Entrevista realizada com Sebastião Souza em 23 de maio de 2009. de danças populares A corporalidade expressa pela tradicionais e no espaço urbano pelas formas de dança em desenvolvimento nas gafieir as e sedes também servia como indicador de uma clara divisão social e cultural em Belém. as quais absorviam os modelos de ndos da Europa assim como imitavam seus trajes da Paz. Culturalmente esse momento representou uma forte imposição de valore s e símbolos culturais e artísticos. 224 ----------------------. A maioria da população que formava uma classe popular de . mas também no caracteriza. Existia uma forte influência da cultura européia sobre as classes médias e altas. Em Belém. os quais reforçavam o sentimento de inferioridade da cultura nativa em relação à cultura ―de fora . ir do ciclo Na história da da borracha na no formação de como iniciou Belém. que o musicais. Os movimentos característicos da dança do Merengue foram interpretados como um acinte aos ―bons cost umes . percebem-se ciais manifestavam-se cultural. refinamento e beleza artística oriu e costumes. em especial a so desenvolvim part Amazônia. Este período que vai do fim do século XIX até a segunda década do século XX correspondeu no plano cultural à Belle Époque d o Norte do país. ento claramente plano as desigualdades um ciclo de A exploração do látex econômico e social proporcionando grandes transformações para a região amazônica. 123 Entrevista realizada em 06 de maio de 2009.não se dava somente em termos que tange à corporalidade. símbolo importante dessa época é o Teatro onde se apresentavam as companhias líricas vindas da Europa.Page 225----------------------gêneros s formas afro-latino-caribenhos.

1978. 212). a figura de rel evo é a do ―merengueiro . ambiente urbano desigual as contradições culturais lazer e e de cultura pouca em mobilidade Belém. segundo de forma muito própria. dança-se a o Merengu criativida Mediante a de popular dançarinos de Merengue. O caso manifestam-se nos espaços de relatado pelo Senhor Roberto Côrrea. primitiva e ‗folclórica‘. mesmo sem o beneplácito do moralism Merengue em Belém. ao evidenciar como a dança associada ao Merengue era mal vista e discriminad a. dentro de um social.. No Pará.. p.] o dominante. ou de e qualquer outro. Uma informação quase u nânime foi a de que o estilo de dança do Merengue praticado em Belém é diferente do estilo do minicano.. gafieiras um ambiente cultural bastante fértil. singulariza-se de forma muito interessante. Aqui.. ação dos encontrava famosos nas os relatos.] durante centenas de anos vieram se opondo duas modalidades gerais de movimentação passíveis de fácil reconhecimen to: a da classe alta e a da classe baixa [. al existente em Belém A segregação cultur várias remete a uma constatação de Rudolf Laban.trabalhadores explorados Este estado não tinha acesso de desigualdades às benesses e culturais deste período. para queml ―[. De a qualquer forma. indivíduo que se tenção e mostrar paramentava com seu talento 225 grande esmero para chamar a a . ilustra o fato de que as desigualdades sociais manifestavam-se na cultura e que tal proces so relacionava-se com um gênero de música e dança afro-latino-caribenha. dança do (LABAN. A partir desse panorama compreendemos melhor como nas décadas de 6 0 e 70. de p ajudou a constituir formas depreciativas ensar e entender a cultura local estigmatizadoras cabocla que passava a ser vista como inferior.

Em geral montadas por pequenos alto-falantes valvulados. Quando ainda criança. destacam-se. calça de linho branco e camisa de manga comprida sonagem marcante nas Sapato bico fino. funcionando com uma agulha descartável. construtor e dono do sonoro Alvi-Az ul. As fest as ocorriam nos bairros pobres e carregavam tes ambientes ao longo do seu percurso. Um caso exemplar é o do Sr.Page 226----------------------como dançarino nas festas. compunham a indumentária padrão desse per festas de gafieira em Belém. B Napuzinho.----------------------. Milton Nascimento. Percurso esse que se associa. permitindo-nos concluir que elém representam uma espécie de as festas de gafieira em B transgressão indireta das hierarquizações sociais criadas no espaço físico urbano. Bronzeado. Caco Verde. ao surgimento e desenvolvimento das aparelhagens belenenses. aquele que por muitos é considerado o mais ilus tre: Orlando Boca de Ouro. Acreditamos que as aparelhagens são um dos grandes respon sáveis pela formação dos cenários de uito bregueiro ao qual o pesquisador o Festa na festas populares Costa se em Belém em e que o seu estud circ todos os estigmas sociais des Antonio Maurício da cidade: o circuito refere bregueiro de Belém (2007) tem nas aparelhagens um esteio importante. Oswaldinho e. os sonoros que tinha que ser trocad surgem como fruto da iniciativa de alguns curiosos e de simpatizantes pela música e pela eletrônica. a muitas vezes. Sinvalzinho. Milton lembra que na década de 50 se interess . Entre eles aca. por último. conhecidas Com o tempo as aparelhagens simplesmente como passaram a ser ―sonoros . com apenas um to ca-discos. inevitavelmente. Tais fatos nos dão um panorama dos tipos de contradições presentes no m eio daquelas festas. salto carrapeta de duas cores.

estas passaram a fazer parte do lazer das camadas populares integrando-se Atuavam tanto nas gafieiras às festas de bailes populares. maicano. também as aparelhagens na capital atuava construindo e consertando paraense. as musicais em Belém tinham uma g do momento. Flamengo. Monte Cristo. As aparelhagens rande importância cultural. Era um tempo em que os aparelhos podi am ser levados em uma carroça. assim como o Com muita desenvoltura e carisma. o Alvi-Azul. que podiam ser clubes esportivos ou casas de shows localizadas nos bairros de periferia da cidade. entre outras. o DJ ja chamado locutor em Belém. Hércul Selma. meio de transporte ainda presente nas ruas de Belém. O ambiente popular onde as festas aconteciam dava uma abertura grande. Fossem cantores ou aparelhagens eram um poderoso canal de difusão musical. Clube do Remo. pois atuavam divulgando as novidades estilos musicais. Além de ter sido uma manifestação de caráter popular os dois fenômenos têm na figura do DJ um elemento importante.Page 227----------------------Logo que surgiram as aparelhagens em Belém. No fim dos anos 50 e início dos 60 já existiam na cidade várias aparelhagens em pleno funcionamento: Rubi. deixando a espontaneidade tomar conta. A Voz do Trabalhador. Big-Ben. M equipamentos eletrônicos ilton se tornou uma figura conhecida no meio das aparelhagens porque além de ter uma das primeiras aparelhagens de Belém. es. pois se encontravam em con tato direto com o público.ou pelo funcionamento de e em pouco tempo já tinha feito seu primeiro sonoro. quanto nas sedes. 226 ----------------------. apresentava performances de interação rápida e direta com o púb lico. Uma história relatada pelo Senhor Otoniel pode ilustrar bem a função cult . Alvi-Azul.

a o trabalho de Acompanhada de um divulgador. ojeção nacional do movimento ainda e entretanto. teremos mais um ingrediente engrossando o caldeirão heter ogêneo dos bailes belenenses. pois éramos os primeiros a ter o disco. bares.ural que as aparelhagens possuíam: na década de 70. com esse circuito Nesta o época surgimento de festas te pr tempo em que se transformou. populares No início da década se ampliou ao mesmo pouco a de 70 pouco. s. muitas vezes antes mesmo das rádios 124. Dessa forma. p. 14). musical da Jovem Guarda. clubes A e seguir expomos gafieiras mais uma lista das sedes sociai conhecidas em Belém nas décadas de 50. veio a Belém divulgar seu disco. aproximação entre os cantores e os donos de aparelhagens e controlistas. Observamos no que tan ge à divulgação de artistas e na difusão de estilos musicais. que as aparelhagens . pois ficou sabendo que seu LP havia a tingido um bom número de vendas na cidade. Isso era um privilégio para os donos de aparelhagens e controlistas. mos uma forte presença das casas chamadas de gafieiras. A gente se sentia orgulhoso. ―Recebíamos os discos de vários artistas em primeira mão. a cantora realizav divulgação indo às festas de gafieiras ou em sedes onde de fato estava o público consumi dor de sua música e onde tocavam com muitas vezes havia uma freqüência as aparelhagens. conhecida pelo seu repertório de boleros. 60 e 70: va ter levado Talvez a constante o autor Antônio defender a Belém o abertura idéia de de que novos só no espaços início de da déca Maurício da Costa a da de 80 temos em embrião do que seriam as festas de brega na era do movimento tecno-brega: ―As fest as de brega surgiram com sua feição atual a partir dos anos 80 do século XX osso (COSTA. a cantora Edna Fagundes. P concordar em parte com esta datação contida na afirmação de Costa. 2007.

demonstra o ritmo. Bento. declarado de Merengue. relação do Merengue com o público das camadas populares parae como o gosto da população freqüentadora das festas já havia assimilado mas também a relação das aparelhagens te. segundo ele cerca de três mil. Ao as pessoas mesmo traziam discos. que possui provavelmente o maior acervo de discos de Merengue em Belém. Ele tinha barco. transportava café e trazia carro. Era o dono da aparelhagem Clube do Remo. parece que era Clemente o nome dele. especificamen disso com a inserção do que década de 70. aumentando a sua atuação neste sentido com o p assar dos anos. O depoimento ganha força. Otoniel Fialho em 04 de abril de 2009. o Senhor Otoniel Fialho traz uma primeir a pista sobre como se dava a relação das aparelhagens com a música de caráter afro-latino-caribenho em Belém: ―Os discos de Merengue vinham de contrabando. com Merengue. fala como adquiria os discos de Merengue tão inacessíveis à população belenense da época: ue eu falo E era vinil. 227 ----------------------. Outra contribuição importantíssima aparelho Benson foi dada por Bento e amante muito ligada ao meio conhecido das dono do Maravilha. e passou a ser chamado de lambada. No tocante à atuação das aparelhagens na formação do gosto musical popular.. até carro eles traziam amarrado no barco 125. até metade da com os discos depois de ―música caribenha .. pois parte justamente de uma pessoa aparelhagens.Page 228----------------------A nse. Quem trazia bastante era esse. Disco q . 124 Entrevista realizada com o Sr. o movime nto atual do tecno-brega é muito mais um continuum deste processo iniciado na década de 50. Em um depoimento interessante.cumprem esse papel desde seu surgimento nas décadas de 50.

O Lourinho quando chegava [. Quando eles davam o giro já tra ziam os pacotes.tempo.. 127 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. Com muito esforço.Sabe por que ficou conhecido? O Merengue é o seguinte. 60 e 70. a li. Tinha um cidadão que morreu há uns dois anos atrás. Ele tinha a sede e o aparelho chamado P . uma idéia 125 Entrevista realizada em 04 de abril de 2009. por intermediário de alguém. eles faziam pedidos.] Quando ele vinha d e lá ele botava pra tocar num aparelho chamado Paraense que ele tinha. que tinha uma sede na João de Deus. chamado Lourinho.127 ENTREVISTADOR . o do seus acervos Ao longo dos anos. mandavam um auxílio tod o mês pra comprar material. 228 ----------------------. Eles mandavam. pois a maioria dos discos de Merengue e cúmbia não eram vendidos nas lojas de Belém. eles mandavam buscar Merengue fora nesse tempo [. esse Lourinho ele viajava. esse Corinthians paraense dele recebia um auxílio do Corinthians de São Paulo.Clube do Remo foi um grande aparelho aqui.O Sr.. viajav a o mundo todo de navio. 126 Entrevista realizada em 11 de abril de 2009.126 pessoal do diamante. [rua do bairro do Guamá] chamada Corinthians. compacto com buraco muito grande que era o disco de Merengue. Era uma filial de lá. comprar disco de contrabando nos navios aqui defronte. Então. Corinthians paraense. paralelo a isso eu ia com o pessoal das outras aparelhagens. como evidenciam os dois relatos abaixo: SEBASTIÃO .. Eram caixas assim.] parava muito navios aqui no porto e eles. cada investimento. Grandes acervos foram construídos e muitos donos de apa relhagens se tornaram verdadeiros colecionadores .. Como os de relíquias musicais das décadas de 50 discos eram raros em Belém. tem porque o Merengue ficou tão popularizado aqui em Belém? uma desconfiança. que eram aqueles discos com buraco muito grande no meio.Page 229----------------------SEBASTIÃO . a saída muitas vezes era ir buscá-los fora do estado.. as aparelhagens pouco a pouco iam construin de LPs e compactos.

O pessoal de lá queria música nossa. na época. daqui. propriamente dito aqui em Belém. estrangeiros que gostavam da música paraen se. e lá faziam troca com os discos de lá com os discos daqui.Fale um pouco mais da importância e de como é que você vê a presença da música caribenha no Calhambeque da Saudade (nome dado por Zenildo a um projeto de festas no . o Brazilândia surg e como uma tentativa de atrair a atenção dos clientes. inclusive eu tenho o Merengue da flauta. o cara já ia comprar no navio mesmo. Aí parava no cais do porto. ENTREVISTADOR . (.. ZENILDO . para Um divulgar detalhe seus Senhor produtos. era os boleros. eles [os marinheiros] iam pra Condor [bairro da periferia de Belém]. mais dançante.Fale um pouco sobre como essa música do Caribe chegou aqui em Belém. foi o maior sucesso esse tipo de música.] Inclusive eu. aí quando os navios chegavam a o cais do porto os donos de aparelhagem iam comprar direto lá..] Quando os navios chegavam. Criada em 1945 pelo Sr.. O senhor Zenon tinha uma loja de móveis chamada Brazilândia e colocou algumas caixa s de som na im frente da loja a aparelhagem.] Aí depois já começou a chegar os navios que vinham de fora. DJ Disco de Ouro do Brasil. também eram doido pelos ritmos nossos daqui.. [. escorava nesses portos por aí. os aparelhos da época. a qu al herdou de seu pai. qu e era uma música mais agitada. porque viajava. Zenon era surgindo marítimo ass e t interessante é o rabalhava viajando fato de que o por rotas que passavam pelo Caribe e Estados Unidos: ENTREVISTADOR .. E foi daí que veio e que introduziu no Brasil. Eles trocavam. [. papai era marinheiro. era da marinha mercante. que ele marinheiro. encostando nesses portos por aí .. da Condor direto pra cá. Zenildo é dono da aparelhagem Brazilândia.. 128 de Outro aparelhagens é nome que não o de Zenildo poderia ficar fora do painel Fonseca. Zenon Fonseca. e o pessoal. essas coisas as sim que papai levava. quem trouxe foi um marinheiro do Peru [. Eles encomendavam já nos navio. quando o Lourinho chegava eles iam pra casa do Lour inho pra escolher os Merengue bom.. Todos eles compravam. E quando chegou ess a música caribenha no Brasil. Colossal Colômbia.) E despertou a idéia daqueles caras de aparelho que era o Milton do Alvi-Azul. as valsas. com essa tu rma aí levando mercadoria.araense. Zenon Fonseca.Papai conversava com os amigos dele.

de fato marcada pela diversidade.A música caribenha já é um produto bem.. NOTANDO A PRESENÇA AFRO-LATINO-CARIBENHA Como já percebido nas seções anteriores. Tudo começou quando meu pai. que meu pai era marinheiro. a e musicalidade afro-latina Belém dividindo espaço passa com a compor a paisagem musical d outros estilos musicais. As aparelhagens puderam colocar a e acreditamos que é nesta variedade da chave para lado a lado que vários podemos estilos encontrar da a époc vida musical belenense entender a rede de difusão cultural transatlântica e sua influência na chegada e na difusão dos gêneros carib enhos em Belém.qual as músicas antigas são a tônica)? ZENILDO . aí vinha surgindo devagarzinho. Não vinha esses discos.. É importante ressaltar que esta paisagem. lá da outra região da América turma lá das Guianas Francesas. as lambadas. os Me rengues de lá hehe. bem nosso do Pará. existe uma convergência quanto à p resença do Merengue em terras paraenses. Logo que caiu no gosto musical da população. Aliado à música de verniz afro-latino-caribenho. Aí vinha através de navio. porque nós somos rico s em vários gêneros musicais aqui. 229 ----------------------.Page 230----------------------irmãozinhos lá do México.. a partir da metade da década de 60. foi o ambiente fértil e possibilitador das hibridizações musicais da música urbana parae nse. alguém trazia. porque aqui.. nossos 128 Entrevista realizada em 23 de maio de 2009. assistese à explosão da Jovem Guarda no Brasil e ao surgimento de novos ícones e artistas no cenário musi cal brasileiro. e hoje como o Pará é rico em ritmos!129 benha Pelo que conferimos encontrou nas festas até agora a música e também a afro-latino-cari populares realizadas em Belém um lar aconchegante. sidade existente nas festas Ficou claro que apesar de toda a diver . era um negócio tão difícil. essas músicas.

diante do caldeirão cheio de ritmos que é o Caribe. No contexto desta expa caribenha. pois somente seguindo sua linha evolutiva. isso nos leva a crer em certa predominância deste ritmo. Pois. o reggae e da o zouk.Page 231----------------------realizada nsão da por inúmeros cantores música afro-latinoe músicos. tinha em sua formação músicos como Luis Quintero e Dioris Valladares. na década gravadora Ansenia Records. o Merengue foi enfatizado nos relatos como fonte de certa tradição. nesse momen to. é que poderemos en tender o destaque alcançado pelo gênero na região Norte. 230 ----------------------. indagamos: o que deu a o Merengue esse suposto privilégio no contato com as terras do Norte do Brasil? É forçoso. Em 1953. este grupo. Alavancados fora pela da República Dominicana. que foi sem dúvida o primeiro a obter popul aridade fora do país. da diversidade musical flagrante que esta região apresenta. torna a busca fenômeno bastante intrigante e motivadora. até sua expansão no século XX. O fato de que. O gue em seu notório caráter nebuloso e transnacional adquirido pelo Meren controverso percurso dentro da história caribenha é reforçado ainda mais por conta da sua difusão 129 Entrevista realizada em 20 de abril de 2009. atermonos em aspectos que consideramos importantes na história do Merengue. o acordeonista Angel Viloria e seu Conjunto Típico Cibaeño foram os respo nsáveis pela propagação do Merengue de 50. também tiveram explicação para este penetração na mesma região. desde seu nascimento. outros gêneros caribenhos como o cal ypso.populares. De algum modo. assim como o cultivo da música. a b anda se . no estado do Pará. Havia um ―jeito especial de dançar Merengue. além do Merengue.

Milton Nascimento. Remo ele trouxe . f vezes apontados como representantes do passaito. ele tinha uma sede e um aparelho [o apa relho chamava-se Clube do Remo]. dono da famosa gafieira Estrela do Norte. Aníbal Velásquez e Corraleros de Majaguá. torn (AUSTERLITZ..divide ando-se e esses ícones músicos passam do Merengue a seguir carreira solo. estes nome Quando pergunto ao Sr. Belém Mesmo ser v re de em que seu ouro da muitos história desses em da cúmbia colombiana. Nesse dia lá ele fechou o trânsito . s do Merengue são freqüentemente citados. era novidade. gerando araenses do meio popular. o conjunto. sobre sua lembrança do Merengue ele fala ―Luiz Quinter o. grupo passa a Sebastião Souza. Algumas pessoas do meio musical.] esses que eram os titulares 130. Luiz Viloria. o grupo também da Colômbia e tocando ficou o muito em conhecido. podemos supor que se tratava de um nome criado pelos paraenses. no aniversário do Clube do os Corraleros de Majaguá. também tivessem pelos in p grupos sua uma ambigüidade musical classificação majoritariamente cúmbias e porros . o conjunto fazia sucesso na época. ass im como músicos. relata um episódio sobre o grupo: Teve um cidadão chamado Clemente que uma vez trouxe à Belém os Corraleros de Majaguá. imeiros donos de Em várias entrevistas realizadas em Belém. um dos pr aparelhagens sonoras em Belém. de uma procura fracassada por Depois informações sobre esse ritmo. negócio de Merengues. O grupo Corraleros de Majaguá teve uma projeção imensa a partir da décad a de 60 e.. Tais artistas são provenientes d a Colômbia e se inscrevem na chamada era de O que talvez motive a confusão é o fato serido o Merengue repertório. Angel Viloria. Jorge Valadários [. lacionado ao Merengue. 1997). Cantores e grupos oram muitas como Trio Renoso. Então. também comentam sobre um ritmo chamado passaito. antigos donos de aparelhos. em indo Belém.

para a finalidade deste trabalho. A despeito de todos os en treveros já ocorridos. que o principal p onto de discórdia se dá em relação às origens do Merengue no Caribe e. cujo expansão desta do panorama no da mundo. O ponto em comum entre a maioria dos historiadores. O que se falou pela prim artigo. menciona um baile que possuía uma dança dotada de sensualidade imoral. publicado no Jornal El Oasis. que é partir de um olhar atento a este d ebate que poderemos começar a compreender porque o Merengue tem a primazia na influência carib enha no Pará. mas que vinha se popularizando cada vez mais nas camadas . a mundial da não pode desligar-se época. são os resultados divergentes dores mais conhecidos. atual República Dominicana. músic Para desenvolvimento evidencia uma estudar a música afro- música 130 Entrevista realizada em 18 de maio de 2009.O fato de que o cenário musical belenense apresenta uma ligação com a música afrolatino-americana. com o artig o de Eugenio Perdomo. Parece ter sido em 1854. sem hoje a pode que ter marcado seus os estu dúvida.Page 232----------------------latino-caribenha no Pará. dos a Se respeito há algo que até do Merengue. que se referia a esse gênero musical em tom pejorativo. Isto chegaram pesquisa atesta a notável capacidade do gênero em suscitar polêmicas. julgo importante entendê-la também (considerando suas partic ularidades) em seu desenvolvimento e expansão no Brasil. eira vez em ritmo caribenho. 231 ----------------------. devemos destacar. é que as prime iras informações a respeito do Merengue surgem entre meados da década de 40 e início da década de 50 do séc ulo XIX em Santo Domingo.

singular Chano Pozo que já tocava com Dizy Gillespie no álbum Manteca (1948). a Continuando. de uma relevância sem a apenas parcialmente. o de percussionistas e outros músicos cubanos. p.Page 233----------------------eflexo expansão do O comentário de Hobsbawn momento de grande vivido pela música (1990) refere-se no ao mundo. percebemos com possuidora fonográfica. quando teria chegado à ilha de Santo Domingo a tribo africana Bara (LIZARDO.pobres e negras de Santo Domingo. cultura negra trazida pelos africanos à o qual América. afirma: ―A música capaz de competir co capacidade de conquistar outras culturas isso que se trata qual de uma não se música grandiosa. Outra tese idéia de folclorista dominicano Fradique Lizardo. Quando o Hobsbawn. 232 ----------------------. senão indústria (HOBSBAWN. Hobsbawn no período do pós-guerra. entende. 53). g rande parte em decorrência como por da importação exemplo. 1998). (1990) menciona que a música afro-espanhola influenciou bastante ojazz moderno. Entender o Merengue requer a compreensão da própria expansão que a mús ica afrolatino-caribenha alcança famoso historiador Eric em J. r afro-latino-caribenha . 1990. citamos como o conhecido músico dominicano Luis Alberti e de nossas tonadas camponesas do interior rengue não apresenta nenhuma origem da polêmica é a do definiu o Merengue: ―É uma mescla do espanhol 2007). um período Social moderna de do sua história. em seu livro História afro-latino-americana é provavelmente a m o jazz única linguagem musical em termos de Jazz. Não nos deixando levar por esse aparente consenso. Na visão de Alberti. o Me (apud FARIAS. que o baile teria sua origem defende a entre os anos de 1631 e 1700.

o selo Fania Records se consolida em Nova Y ork e expande seus o mercados em o movimento. uma vez que este termo só foi criado música que vinha dos países quando do processo de difusão da caribenhos. p. Ray Barreto (tumbadora). Tendo como pano remontam à primeira de revelando fundo os migratórios metade do século XX. agitaram a cena musical da cidade de Nova York: ―A Fania tornou-se conhecida como a ‗Motown Latina‘. Na esteira desse processo de expansão da música latino-caribenha. Larry Willie Colón (trombone). e cantores como Pete El Conde Rodríguez. que então vivia seu apogeu da mídia radiofônica. Porto Rico.Caminhando nesta direção. sobremaneira processos a sals o pa que indústria cultural norte-americana pel da música nas sociedades contemporâneas. Ismael Miranda. Panamá músicos e Venezuela. Sem dúvida que . vai sentir ressoar esse novo ingrediente latino a ação das rádios brasileiras. referir-se a essa música por uma só palavra. Cheo Feliciano. Encabeçand caribenhos ou filhos de imigrantes caribenhos. encontramos um fenômeno musical de fundamental importância: a salsa. Entre os mús gravadora estavam nomes como Johnny Pacheco (maestro). que inicialment e foi muito mais um movimento de música latino-americana do que um gênero musical característico. conhecida como Era de Ouro do Rádio. entre outros. no seu território. a salsa surgirá como o resultado das diferentes culturas caribe nhas presentes na cidade de Nova York. o B rasil. lançou sucessos que iam direto do es túdio para as paradas de toda América Latina icos ligados à (STEWARD. 61). já que a indústria fonográfica norte-americana dos anos 70 sentiu que seri a mais eficaz. Nos anos 60. Santos Colón. do ponto de vista comercial. Adalberto Santiago. Hector Lavoe. 1999. Como uma mescla a relaciona-se à história da da música cubana e caribenha.

Hermano Viann a esclarece que a música popular brasileira ligada ao carnaval sempre apresentou uma diversidade c rescente a partir das primeiras da música décadas do século popular XX: ―Essa diversidade internacional carnavalesca continuou a imperar por décadas até o samba se consolidar como ritmo do carnaval 233 ----------------------. Ao mostrar a . vivo na As orquestras Rádio Nacional até os anos 50 executavam sambas ao lado de mambos ou bo leros (VIANNA. polca -chula. schottisches. 2002.Page 234----------------------por excelência (VIANNA.passando a inserir em sua programação o repertório das grandes orquestras de Xavier Cu gat e Glenn Miller. E a rádio teve certamente um papel fundamental. ntimento de identidade brasileira... Hermano Vianna também percebe tal diversidade de estilos dentro da programação da rádio no Brasil: ―[. contribui de forma crucial para a difusão da música latina no país aumentando a diversidade de estilos e possibilitando hibridizações musicais posteriores. ao ponto de parecer redundante . ganharam relevância e desempenharam um papel muito importante Quando o tema da ―integração nacional . p. 2002. mazurcas e habaneras. p. passou a ser uma das prioridades na agenda governamental. através da criação de um s . em particular. quadrilhas. o rádio em geral e a Rádio Nacional. polca -lundu. existência de ritmos como polca -habanera assim como valsas. percebese que poucos são os contextos música popular brasileira sem urbanos onde podemos falar de considerar um ambiente marcado pela pluralidade de gêneros musicais.] até be m recentemente os grupos musicais que tocavam ao não se especializavam num ritmo único. 50). 49). De tão evidente.

Desse total. Foram execu tadas. a Rádio Nacional tam bém se manteve vinculada ao mercado publicitário e suas campanhas tornara m-se altamente lucrativas. em 1940. não parecia seguir uma rígida orientação deste. era realizado ao vivo com uma orq uestra – Típica Corrientes – associada ao maestro argentino Eduardo Patané. à graças. foi substituída por burocratas simpáticos ao mesmo não sendo completamente livre de certas interferências e do controle do Estado . fazendo de sua programação uma referência para o resto do país131. constata: programação Da série de programas disponível para a e análise aqueles dedicados a Cuba. mas com a regência de um dos mais ali. Assim como outros programas do período.no processo. cada um contendo entre seis a oito músicas. pois foram executadas 49 composições distintas. No que se refere à música . ocupando. foi transmitido o programa Nas Asas de um Clipper. o horário com nobre meia da hora de duração. Mesmo estando ligada ao Estado. nesses programas 54 músicas. programação. O mesmoera transmiti do às sextasfeiras. O importantes maestros da Rádio pesquisador Theophilo sobre musical Nacional. tomou-se para . Dos doze programas possíveis foram ouv idos oito. a maioria apenas uma vez. às 21h30min. 33 foram cantadas em espanhol. scuta. Foi nesta poderosa emissora que. Em um estudo feito sobre o repertório Nas asas de um Clipper. em grande p sua difusão por meio das ondas da Rádio Nacional. a música presente no na Radamés rádio Gnatt brasileir do Augusto Pinto atualmente debruça-se o no pós-guerra. No entanto. a Rádio encampada pelo Estado. Sua programação. não será exagero dizer que o samba carioca tornou-se um ritmo ―nacional arte. portanto. Fundada em 1936 Nacional acabou sendo pela empresa holandesa Philips. sua equipe artística e executiva não regime. d urante o ano de 1947. Theophilo. Houve duas séries com seis programas cada para essa finalidade. ao contrário de outras emissoras estat ais.

portanto. Para uma história da emissora mais específica ver Saroldi. Ruy Rei começou cantando no conjunto dos irmãos Copia. 234 ----------------------. Uma figura om a história da latino-caribenha no Brasil e com a Rádio Nacional. apenas dois cantores: os brasileiros especializados nesse tipo de emblemática. Esse apelo à latinidade. de latinidade estava mais ou O se tinha referência menos relacionado com o repertório das grandes orquestras.). eiros interpretavam a seu próprio modo este tipo de música. ―Tico-tico na rumba ). . tais como às de Xavier Cu gat e Glenn Miller. o rumbeiro Ruy Rey.Page 235----------------------dobrado que as canções em português. Quatro outras peças e uma com trechos em eram instrumentais. De um modo geral. 2007 s/p. O Brasil tinha de fato seu próprio ―Rei do Mambo à la Perez Prado. música que se Ruy confunde Rey ao e Nuno mesmo Rola tempo c música. Notese. que as composições em espanhol aparece m em número praticamente 131 Sobre a Rádio Nacional no contexto da radiofonia brasileira ver Ferrareto (20 01). porém. que através de sua história nos permi te conhecer a importância da Rádio Nacional para a chegada da música latina no Brasil. é Ruy Rey. dando um c aráter ―latino ao programa (PINTO. no demais distante da entanto. Moreira (2005). ava-se por Para Theophilo. em São Paulo. no Cabaré OK e na Orquestra de J. além que essa do latinidade quê. F rança. os como demonstr músicos brasil pluralidade da música latino-caribenha. não deixou de formar ídolos. Sobre a Rádio Nacional no contexto da construção simbólica da música popular brasileira ver Goldfeder (1980) e Mccann (2004). com raras exceções. a maioria dessas composições era i nterpretada por nd. N o início da década de 1940 trabalhou na Rádio Tupi de São Paulo.17 em português (incluindo-se aqui músicas de origem caribenha como ―Babalu . de Lecuona portunhol.

―Aviso aos navegantes esta (1950) e ―O petróleo é nosso no cinema (1954). teve intensa participação omo cantor. que já tenho andado muito por essas Américas. bem enten dido.Em 1944. mientas". Abre-se o rádio e lá vem o nostálgico ritmo-de-bacia (bacia pélvica. Vinícius de Morais comenta a presença da música de verniz latino-caribenha: 235 ----------------------. como diria Machado de Assis. cuja marca princ ipal eram os ritmos do repertório latino-americanos da época.) que para mim. Gravou em parceria com o também a guaracha "Hechicera". como líder de orquestra e até como ator. é geral. Num conjunto de crônicas lançadas no calor deste momento. de sua parceria com Rutinaldo. Em 1948. Ruy Rey agarrou a música afro-latina ntral de sua carreira. de Sila Gusmão. foi para o Rio de Janeiro. A carreira de Ruy sempre se pautou pela referência primordial da música afro-latino-caribenha. e fez desta um ponto ce organizou uma orquestra conhecida como Ruy Rey e sua Orquestra. acompanhou com sua orquestra a cantora Emilinh a Borba na gravação da rumba "Dançando a rumba". de Airton Amorim e Mário Meneses. Vinícius A música latino-caribenha foi tão forte nos anos 50 lançaram a que Tom e guerra à hegemonia d música-de-protesto ―Só danço Samba . onde declaravam o calypso ao cha- cha-cha. Gravou boleros como "Nadie". não me é estra nho.Page 236----------------------A bolerização. de Watson Macedo... de sua ro Sebastião Cirino. Durante brasileiro atuando c década. Em 1951. lembro-me de tê-lo . Em 1946 gravou seu primeiro disco na Continental. e autoria de Agustin Lara e "No maest rumba como "Ana Martin". assim como cha-cha-c ha eporros . onde passou a atuar na Rádio Nacional. Participou dos filmes ―Carnaval no fo go (1950).

é que estão xaviercugando a músic a popular brasileira. p. produziram composições em que se via a preocupação com a crescente influência estrangeira na música popular brasileira13 2. era muito criticada p elo uso comercial de uma imagem caricatural de uma latinidade sem lugar definido e p or isso. como ―Canção pra inglês ver e ―Não tem tradução . etc. A música com saúde passou a constituir um elemento ―onésimo no ambiente escuro e enfumaçado das bo ates pequenas (MORAES.. Desde a década de 1930 como Lamartine Babo e Noel Rosa. os ritmos ouvidos são do melhor bolero: tristezas mil nos bares do Brasil [. em 1959. . compositores inquestionável. 51-52). lotando teatros e night-clubs do Rio e São Paulo. por exemplo. considerando que muitos países latino-americano s encontravam-se imersos em regimes políticos centralizadores. Car naval de Fogo. 2008.. falsa. a lenda viva dos antológicos melodramas de cabaré com música do cinema mexicano dos anos 40 e 50. por exemplo. No contexto desta época. e não sei se é oriundo. No quadro político. dentre outras. Será isso uma das muitas formas de escapismo de uma sociedade doente e entediada a essa realidade saudável e dionisíaca que é sempre a marca da boa música popular? Evidentemente. Ninón Sevilla. de ond mas onde tem privilégios certos de nacionalidade. se me permitem um aparte. tornando-se figura popularíssima. que chegou a filmar no Brasil.. criava em torno da idéia da identidade nacional um ideal pelo menos. onde uma fiel legião de fãs a aplaudiam. buscava-se uma aproximação com a música po pular e o cinema com o intuito de usá-los como ferramentas para forjar uma integração e uma id entidade nacional. Era tempo da rainha do mambo e da rumba. Esse período corresponde à passagem do cinema mudo ao sonoro.ouvido no México. Não haja dúvida. os ideais nacionais estavam na ordem do d ia. O fato de que tanto a direita quanto a esquerda aderiu à defesa de uma nacionalidade.] mas a verdade. Carmen Miranda.

236 ----------------------. as orquestras que se destacavam bastante eram as de Glenn Müller. Outro Mundo . valsa s. contribuindo influenciando samba de salão. da anos d n caribenha desemboca dança de salão no transformação partir e dos salientou Ana Maria de São José e 1930 desenvolveu-se um novo processo ovamente de transformação da a coreografia do (2005). a rumba etc. Como capacidade de a de adaptação. cultura. que embora a letra afirme que ―é só isso meu baião . o 78 RPM Chega de Saudade. com a incorporação de outros gêneros de dança que eram cultivados na cidad e do Rio de Janeiro. O historiador Milton Moura também o. tinha a música ―Bim Bom . Xavier Cugat. temos como exemplos Os Mutantes. Tom Dorsey. dentre outros. trompetes e clarinetas feitas adaptações aos arranjos modernos. as orquestras das gafieiras jazz e tocavam diversos estilos musicais como sambas. todos percebemos ser composta num ritmo então chamado de b eguine. No que tange à latinidade.fox -blues.Page 237----------------------caribenha. que divertiam com a rumba. que em seu primeiro disco apresentam uma orquestração de Big Band para ―Outro Mambo. Os Novos Baianos. eram chamadas de e conseqüentemente foram em 1930. ocorrido em Salvador das décadas de 40: descreve praticamente o mesm . Segundo Jota Efegê (1974). Com o tempo as orquestras brasileiras passaram a utilizar instrumen tos dojazz tais como trombones. como a valsa. etc. Neste cenário de influência da música latino132Nas décadas de cada vez mais e 50 e 60 essa influência a música popular urbana parece se confirmar desenvolve-se assimilando outras fontes musicais. maxixes.esta Demonstrando incrível musicalidade afro-latinoem um processo Brasil. a polca . O revolucionário álbum ―Tropicália foi recheado por mambos como ―Três Caravelas e ―Lindonéia . que não ficou in erente: o primeiro disco de bossa nova. E João Gilberto.

composta de 40 senhoritas e 40 rapa zes que executarão sambas genuinamente paraenses (MANITO. Assim. levará a efeito no dia 13. contrabaixo. em Nova Iorque.] a partir dos anos 1940. Para esta noitada a diretoria reservou várias surpresas (sic ) para cavalheiros e senhoritas e. durante a II Guerra Mundial.36 o seu ―assus Beneficente 20 de Março. p.02. sob o som do harmonioso jazz ―Los Creôlos . 31). Infelizmente. s/p. O jornal O havia espaço para os conjuntos de jaz Estado do Pará. mesmo nos ambientes escente apoio das massas. assim. trouxe uma nota sobre a escola de samba j urunense o Rancho não posso em amofiná133. como no intervalo fará uma dem onstração da sua escola de samba.[.). populares onde o samba ganhava cr encontramos indícios de que neste ―popular e . 2000.02. em sua edição de 05. guitarra e bateria. a mundialização da músi ca caribenha. como o denominador comum de uma pequena banda com instrumentos correspondentes a uma orquestra de jazz: teclad os.. carnaval que passou. através dos circuitos norte-americanos d e produção e divulgação. O que chama atenção é a presença do ―harmonio o jazz do grupo Los Creôlos: que tanto brilhou no Este simpatizado Rancho Carnavalesco. que a música latina – quase sempre cubana ou mexicana – pas sou a ser divulgada na Bahia (2009.. Note-se que o termo norte-americano jazz foi aliterado para o termo que se popularizou na Bahia – jaze – muitas vezes com a mesma grafia de jazz . De qualq . Foi então. do seu sucesso na Em Belém. as referências de música norteamericana passavam a ser. A referência mais importante deste processo é a explosão Broadway. No depoimento de Solano parece que não se tocava a música americana e sim um repertório mais uer forma. não próximo ao samba deixa de ser e ao choro da época. Não se sabe até que usical com o jazz ponto este ―harmonioso jazz tinha alguma relação m tado nos salões da Sociedade estadunidense. tanto o jazz quanto os ritmos caribenhos. em Salva dor.1936. não existem estudos sobre os chamados grupos de “jaze” no Pará.

interessante que um formato de conjunto caracterizado por instrumentos como ban jo. sax e trombone.Page 238----------------------existido nos interiores do Pará e participado ativamente do lazer das camadas popu lares e médias de Belém e do interior134. Em ambém montou uma Orquestra Internacional. tenha cuja designação tem como referência a músic 133 Escola de samba Jurunense. Orlando Pereira encarnava o bandleader no Pará e. que estamos parte além do as designando atividade circuito de contrabando as aparelhagens. temos o caso do famoso cantor paraense Pinduc a135. tuba. a piston. obedece à como rede de difusão cultural transatlântica. administrado hoje pelo seu filho. por estar localizada no bairro do Jurunas. norte-americana. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir de nossas investigações pudemos constatar que o contexto mu sical em que o Merengue se desenvolve. De s portuárias. para anos Abaetetuba136. rabecão. cuja fama e memória se mantêm po r meio de seu conjunto Orlando Pereira.1978 ). 237 ----------------------. Trata-se do maestro Orlando Pereira.05. 21. depois. que após ou-se sua transferência de a um grupo musical Igarapé-Miri Belém. A tiveram em presença Belém um das big-bands ilustre e orquestras nacionais representante. tocava músicas afro-caribenhas por conta d a influência que este gênero teve no cenário musical da época. desfez-se e Por razões que Pinduca teria desconhecemos a referida ―orquestra aproveitado alguns de seus músicos para trabalharem com ele (O Liberal. Pinduca integr t denominado Jazz Brasil. as rádios festas populares em sedes e . em Be lém-Pará. Como ilustração. à frente de seu conjunto. o fenômeno dinâmica tal rede do do fazem locais.

da chegada e vida o da difusão dos gêneros car ganham uma de de importância suas exper porto dos parte da história de e de suas memórias indivíduos. as zonas de contatos culturais r epresentadas pelo porto de Belém e as festas de gafieira. a decisiva. 136 Dois municípios localizados no interior do Estado do Pará. donos (estivadores. aparelhag espaço-símbolo da relação Pará-Caribe. a música de origem afro-cariben ha chega 134Um estudo valioso sobre a presença das bandas de música no interior do Pará foi fei to por Vicente Salles: ―Sociedade de Euterpes: As Bandas de Música no Grão-Pará (1985).) tornando-se um ambulantes. acionado com o Neste trabalho chamamos espaço atenção para o aspecto cultural rel música e d que po urbano belenense.Page 239----------------------por meio balhadores das rotas de contrabando viajantes das agentes estes e pela ação de dos marítimos. assim. 238 ----------------------. responsável pela difusão do carimbó fora do Pará. marinheiros.gafieiras. Formam-se. Esses o porto e na zona um espaço privilegiado. em busca de melhores condições de vida. No caso do Pará. na medida em fazem iências zona que ligado às e atividades portuárias. em. 135 Cantor e compositor paraense. muitas vezes ocorridas na ―zona do mere trício . cultural se tra n companhias de navegação. vendedores etc. tratamos de um espaço r sua proximidade acabou tornando-se um dos principais palcos ibenhos na capital paraense. anifestado Nas nos últimas décadas movimentos o processo diaspórico tem se m migratórios de países pobres em direção aos países de economia mais desenvolvida. Dessa forma. Como lugar de grande importância para a chegada da os discos em Belém. visto aracterizam pela circulação que de circulação tinham c ambientes transnacionais pessoas de várias regiões e países. . entretanto.

As conseqüências disso são que no lugar do forte senso de preservação de uma identidade da ―terra de origem . Temple Unive rsity. FERRARETO. 1981. M. Notas de prensa (1961-1964). Miriam. a identidade musical regional. O Veículo. Música caribenha e sua influência no norte brasileiro. na medida em que o processo não é resultad o de um movimento diaspórico.eca. GOLDFEDER. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Dominican Music and Dominican Identity. ed. HOBSBAWN. 2008. Luiz Artur. 1994. Antonio Maurício Dias da. Merengue. Porto Alegre: Sagra Luzzato. esse contato transcultural vai se singularizar pela construção de uma nova identidade. o canal crucial entre o elemento afro-latino-caribenho e a região do Pará não se dá no ambiente familiar rede de difusão cultural e sim nos espaços constituintes da transatlântica. Paul. Belém: s/e. REFERÊNCIAS AUGÉ. Jota. Por trás das ondas da Rádio Nacional. Festa na cidade: o circuito bregueiro de Belém do P ará. Bernardo Thiago. 1990. COSTA. Eric. Rio de Janeiro: Conquista. rede e local da memória. 1997. a História e a Técnica. Disp onível em: <http://www. Rádio. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2001. isto é. O diferencial está no fato de que os agentes atuantes nesta rede são i ndivíduos que moram na cidade de Belém. FARIAS. AUSTERLITZ.usp. 6 . Maxixe. Rio de Janeiro: Paz e Terra . . 1999.Belém não Na rede de difusão é a família que cultural transatlântica existente em funciona como elo. qual seja. dentro de um ambiente de noções de identidade e tradição muito f ortes. História social do Jazz. Gabriel. 1974. a dança excomungada. GARCÍA MÁRQUEZ. 2007. Acesso em: 22 mai. EFEGÊ.br/nucleos/njr/espiral>. Campinas: Papirus. Barcelona: Mandadori.

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danças e sons que foram apropriados histórico. Salsa: musical heartbeat of Latin America.SAROLDI. ______. 3ª Ed. 240 ----------------------. Sonia Virginia.1936). para os moradores locais. . 2005. Luiz Carlos. Lisboa: Caminho. na sua da pequena cidade de Monte do Carmo. a esta santa. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: UFRJ. configurando-se e reconstruídos numa bem ao como longo do uma marca percurso identitária importante prática de sociabilidade.02. 198 8. homenageiam anualmente Nossa Senhora do Rosário. Pretendo nesta comunicação mostrar que a Caçada da Rainha é um ritual que expressa uma p rática sóciocultural que foi ressignificada rar que esta manifestação nas experiências locais.05. folguedos. resultado contemporâneo de ritmos. tambor. Tento most consiste num elemento condensador de sentidos. na um dos rituais qual uma ruas da mais cidade significativos tocando é a c percorre as principais dançando e bebendo. danças. STEWARD. ______. da Rainha. São Paulo: ART. 1995. Rio de Janeiro: Zahar. História Social da música popular brasileira. Rádio Nacional: o Brasil em Sintonia. Os sons dos negros no Brasil: cantos. MOREIRA. Jornal O Liberal (21. Sue. 1988. Hermano. Durante os festejo s religiosos dedicados Caçada multidão antando. no estado do maioria negra. FONTES ENTREVISTAS Jornal O Estado do Pará (05. 1999.1978).Page 241----------------------A CAÇADA DA RAINHA: “É SINHORA DO ROSÁRIO QUE NÓS TAMO FESTEJANDO!”137 Noeci Carvalho Messias138 Resumo: Os moradores Tocantins. VIANNA. Londres: Thames & Hudso n.

138 Graduada em História Mestre em Gestão do (Licenciatura) Patrimônio e Serviço Social (Bacharelado) Cultural (área de Antropologia) pela PUC-GO e Doutoranda em História (UFG). becoming an important practice of social as well as a brand identity for local residents. 241 ----------------------. no estado do Tocantins.Our Lady of the Rosary . in During the which a crowd celebrations through t singing. extraído tese de doutorado em da pesquisa que venho História. pela Universidade Federal de Goiás. I try to show that this demonstration is a condenser element of meaning. Palavras-Chave: Nossa Senhora do Rosário .Caçada da Rainha – Cidade de Monte do Carm o – Religiosidade – Devoção. em parte. besides occupying a p rominent place in the popular culture in the state of Tocantins. intitulada – Religiosidade e devoção: as fes tas do Divino e do Rosário em Monte do Carmo e Natividade.além de ocupar lugar de destaque nas manifestações populares.drum . dances and sounds that were appropriate and rebuilt along the historical route. com pesq uisa em Festas e Religiosidade popular.City of Monte do Carmo. Rosary. the result of contemporary rhyt hms. in the state of Tocanti ns. Abstract: Residents of the small town of Monte do Carmo. annually honoring Our Lady of the of the religious rituals most significant is he main city the Queen´s Search. Tocantins. 137 O presente texto realizando para a é. dancing and drinking. Keywords: Queen´s Search . mostly black.Page 242----------------------A cidade de Monte do Carmo apresenta variadas peculiaridades no . Desenvolveu pesquisa sobre os povos indígen as da etnia Krahô e desenvolveu atividades de assessoria junto aos Javaé e Karajá no estado do Tocantins e atualment e é professora no curso de Serviço Social da Fundação Universidade do Tocantins. I intend in this paper show that the Queen's Sear ch is a ritual that expresses a sociocultural practice gained a new meaning on local experiences. streets drumming.

danças. ritual realizado nos meses de julho e outubro. festas e folguedos spiritualmente a vivência do trabalho. Fora vag aparecendo como sendo um dos arraiais que produziu abundante ouro. mobilizando parte significativa da população. raízes. O ritual da Caçada vezes durante o ano pela a cada ano comunidade em carmeli número ganhou visibilidade regional. Esse é um essas celebrações uma vez que estas não se nos chamou a atenção para perderam totalmente na experiência da diáspora. da religiosidade a cotidiana.contexto da história da região que compreende o atual amente conhecida ao longo do período histórico que pertencia na literatura historiográfica ao estado antigo do norte Tocantins. a região foi frequentada por bandeirantes e mpenhados na exploração de minérios. O remontam algumas das mais ricas alto desta festividade é a tradições Caçada da Rainha. Dentre as manifestações vivenciadas pelos carmelitanos está as festividades em homenagem a Nossa Senhora d o Rosário as quais são revestidos da maior importância. também afluíram para aquele arraial escravos africanos para tra balharem nas minas de ouro como instrumentos facilitadores para a exploração dessa riqueza. uma vez que Nossa Senhora do Rosário é celebrada duas tana. de nitidez. cidade Passaram-se a população os anos continua e no cenário dessa pequena cultivando anualmente diversas celebrações. na cresce . tais práticas sociais exercidas pelos aspecto que e da que simbolizam e da vid sociabilidade moradores guardam fortes traços de referências africanas. goiano. Durante os festejos entados melodias eferências religiosos variados e e da referida santa ritmos. mas foram ressignificadas nas experiências locais. são organizados com nossas e apres r ponto letras de músicas que valores culturais que expressam. Naquele c ontexto além dos indígenas que há tempos ali habitavam. no século XVIII. pois de curiosos e participantes.

Foi muito bom. configurando-se como um marco regional.Page 243----------------------a o recurso não. (RAIMUNDA SERRANO. ao rei e à rainha. faz ou para o Divino não pensa é aumentar. Eu fui rainha e Em geral a rainha tem que fazer a festa com recursos próprios ou c om ajuda do povo. Foi gosto em fazer a festa para Se nhora do Rosário. uma O periódico homenagem à anuncia o ritual reafirmando: ―Caçada da Rainh padroeira dos negros . 10/10/2008). iniciam-se as ritualísticas popularmente em louvor a Divino Nossa Espírito Senhora do Santo. Não foi sorteio e não foi promessa. que acab Caçada é um passeio. ritual no qual ao longo do trajeto do cortejo d ança-se. a. . canta-se em louvor a Nossa Senhora do Rosário. Obser va-se que a religiosidade popular local é profundamente arraigada permitindo que os acontecime ntos religiosos adquiram essa dimensão simbólica. Contudo. mas quando acaba parece que Senhora do Rosário passa a mão e fica tudo bem. Não caça nada m 1938. Não dá prejuízo nenhum. As homenagens que na parte da manhã foram feitas ao Divino são endereçadas no início da tarde a Nossa Senhora do Ro sário e a cidade se ocupa com o referido ritual: A alegrias. O cortejo é aco pessoas. conhecido como a Caçada da Rainha. dia 17 manifestações o cortejo de Encerrada a festa do julho.maioria proveniente das cidades mpanhado por uma multidão de circunvizinhas. no com Rosário. observa-se que a ação do plano espiritual é constantemente considerada. É um passeio que eles fazem. Graças a Deus a gente sente toda força. Faz a festa do tamanho que a gente pode. Gasta muito. É um passeio de e não mata nada. bebese. Quem faz a fest a para Senhora do Rosário 242 ----------------------.

encontrou na Serra de Monte do io e levou-a para Carmo uma a cidade. (JORNAL DO TOCANTINS. Ta mbém desta vez a imagem não permaneceu. Será realizada a Caçada da Rainha de Nossa Senh ora do Rosário. voltando para onde estava. Nossa Senhora do Rosário. negros. 2002. Uma multidão se formou e seguiram em cortejo. conformado imagem. um ritual de origem escrava. a procura da imagem. Como nas narrativas míticas . no tempo da escravidão. p. O rei e a rainha podiam ser vitalícios ou por um período determinado. cantaram e dançaram e assim reencontraram a imagem e em ritual levaram-na de volta após aquele episódio festivo. Para esse cortejo. no dia seguinte com o desaparecimento da desapareceu. protetora dos as reverências são para ela. o Divino Espírito Santo. à procura da imagem. possivelmente escra vo. a imagem imagem de Nossa Senhora Não do Rosár Entretanto. desaparecimento da imagem. onde se escolhia como casal real aquele que tinha pod er para intermediar entre a Igreja e comunidade negra. retornou à serra. que conta mais de 30 0 anos e era fictício.. a origem desse ritual remonta ao pe ríodo das minas de ouro na Serra de Monte do Carmo. levaram os tambores. Este mês. O fato é que. acompanhado de outros companheiros e levando consigo vio la e sanfona. [. permanecendo na Igreja. Nossa Senhora do Carmo. levou caçada à um grupo a se O mistério do organizar referida imagem.]. não existe uma data precisa. Para os moradores da cidade. a à cidade. a trouxeram novamente para a cidade. os congos e as taieiras.. Acredita-se que o ritual organizado por . imagem nunca mais desapareceu.Julho é um mês de festividades religiosas e folclórica s em Monte do Carmo. mas destaca-se que certo dia um homem. os carmelitanos estão homenageando Nossa S enhora do Livramento. 1). que ocorreu pela segunda e travar uma verdadeira vez. tendo reencontrado. pad roeira do município e ainda. Hoje. Os carmelitanos seguiram a segunda opção.

aquele grupo de pessoas fez com que a imagem permanecesse na cidade. O préstito fora assim organizado: na frente iam dois príncipes bem trajados. veio dos escravo Encontramos em Monte uma do possível conexão da Caçada da Rai Carmo com a história nos escritos de Artur Ramos quando este autor cita Manuel Que rino. uniformiz ada em estilo mouro. como uma reatualização da busca da imagem. ―que na cidade de Lagos a festa a que (Costa dos Escravos) dão o nome de onde se há. no mês de janeiro. que levou efeito a reprodução exata do que se observa em Lagos. Seguia-se o carro conduzindo o rei. sobre as festividades na Costa african a relativo a Festa estas da rainha.139 nha realizada ou ―essa Caçada da Rainha é desde que eu me entendi. O val africano. citado por Ramos. após estes. um Damurixá (festa da rainha) Ramos acredita que estes exibem indivíduos mascarados. a guarda de honra. com exibição Em . uniformizados à moda indígena. usavam gran de avental sobre calção curto.Page 244----------------------caçada é dos antigos s negros . festejos cíclicos da Costa dos Escravos tenha sido a principal influência no carnava l negro da Bahia. Foi às descrições de Querino. que nos levaram a práticas culturais com o supor uma possível conexão d ritual da Caçada da Rainha realizada pelos carmelitanos: 1897 fora aqui realizado o carna do Clube Pândegos d’África. ladeado po r duas raparigas virgens e duas estatuetas alegóricas. Logo depois via-se o adivinhador à frent e da charanga. composta de todos os instrumentos usados pelo feiticismo. A partir da quele momento. o ritual da Caçada da Rainha passou religiosos de Nossa Senhora do a fazer parte dos festejos Rosário e se mantém até os dias de hoje. sendo que os tocadores. Ou sej a. o ritual da Caçada da Rainha funciona como um canal de realização de remotas celebrações: ―es sa 243 ----------------------.

a princesa escondeu-se Pedro aprovou no mato.Page 245----------------------la. pois como pontua a autora. lundu e batuques. 244 ----------------------. Temendo represália do pai. (RAMOS. os es sinal de gratidão. uma festa. que constroem a memória ao seu p róprio modo. para recepcioná-la. é uma homenag em a princesa Isabel por ter assinado a Lei Áurea. não fez temendo a repreensão dos a gricultores e cafeicultores. juntou uma comi tiva e foi procurá139 Tônica recorrente de moradores locais. p. Assi m. Este ritual demonstra que as festas são ocasiões sujeitos sociais com os tempos de outrora. numa alegria indescritível . durante todo acompanhamento era enorme. as do Sul. a origem e o modo de celebrar dessa tal festividade diferem de Mon te do Carmo. permeada de ritos religiosos e mitos que fundame ntam crenças e comportamentos . Reportando a mesma linha de pensamento que transparece no trabal ho de Souza (2002. Entretanto. cantavam dançavam e o trajeto.74-75). 315) podemos afirmar que a Caçada da Rainha ―pode ser vista como uma forma parti cular de conceber e transmitir a história. o ritual da . do acontecimento D. Pedro I I. p. a manifestação que celebra o Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário. Ao ter ciência a atitude da filha. tocavam principalmente. a história pode ser guardada e transmiti da de distintas maneiras. as a tomadas de verdadeiro entusiasmo. reconhecendo que o mesmo deveria ter feito antes. D. contudo.fricanas. Ao terem conhecimento do cravos libertos prepararam em desaparecimento da princesa. características de diferentes sociedades. sabendo que a filha estava escondida. com congos. No Brasil identificamos estado de o ritual da Caçada da Rainha em Colin em que possibilita o diálogo dos Goiás. 2007.

p. Sua origem é a China. mas durante todos os momentos da festividade. vestimentas etc). a gregando pessoas também na assistência.140 Por volta das quatorze horas. as pessoas começam a se aglomerar na Casa da Rainha ou na Casa da Festa. ela era a alegria das romarias e das procissões. consiste na representação desta história. p. Del Priore (2000. em que um grupo de cavalei ros sai à procura da rainha que se encontra escondida no mato. No meio da tarde. festa. que correm atrás das crianças. o cortejo desloca-se da Casa da Rainha pelas ruas da cidade. 20 06). Vinda esta tradição de Portugal. devido ao período do ano. (IPHAN. 40). que acompanham ores e com a alegria dos o cortejo. água). sua informa que a prática de que chegada à Segundo a mesma autora (2000. Abrindo a celebração da a partida dos cortejos processionais. Concluídos os preparativos (mont arias. Ao longo do percurso. o uso de fogos era utiliz ado para homenagear o rei e também manifestarem para algumas camadas as suas posições da sociedade colonial . mas também a à praça onde se davam os principais eventos da festa. ao som dos tamb o ritual da Caçada da Rainha também é perpa caretas. àquele que a encontra leva-a na garupa do animal e ao chegar à cidade uma multidão a recepciona com arrojada festa.Caçada da Rainha. com sol intenso e muito calor. carros transportam beb idas (licores. 38) imar fogos nas festas coloniais remonta ao século XVII. com um número significativo de participantes neste local e a queim a de fogos de artifício sinaliza que o ritual está prestes a começar. Em Monte do Carmo. especialmente ao longo dos cortejos e das procissões. onde constituía característica das solenidades sagradas e os fogos anunciavam igreja ou profanas. A queima al da Caçada da de fogos de artifícios está presente não somente durante o ritu Rainha. bebidas. ssado por uma amplitude de significados.

sempre um homem e uma mulher. visto que existem na cidade. ou uma de tradição que. como demons tram as imagens. Enquanto no caminho de ida para o ―botequim . dive rsas casas com arquitetura apropriada para realização das festas. Nesse caso. uma vez que simultaneamente a esta acontece também a festa do imperador do Divino. na volta eles retornam à frente destes (Fotos 01 e 02). 245 ----------------------. que conduzem os participantes n o ritmo da dança do tambor. de poder. o uso deste local torna-se inviável. cantando e dançando. Assim. Mídia eficiente a ilumina Colônia. Atrás dessa multidão. Quando a re sidência da rainha não comporta tal organização os festeiros providenciam outro local. 140 Ao contrário da festa da rainha de Nossa Senhora do Rosário realizada no mês de o utubro que tem como local de referência a Casa da Festa. os festejos de julho se realizam na própria cas a da rainha. A simbolo gia que permeia o ritual desvela que no retorno a rainha foi encontrada e está sendo trazida pela po pulação.privilegiadas: constituía ntal. o foguetório tornava-se um instrumento car o. ganhava dimensões de propaganda govername das elites contra o mesmo governo. no ritmo do canto: Rei e rainha. porém eficaz. com evoluções e passos laterais para frente e para trás. uma vez que não compor ta os preparativos das duas festas. de modo que o último par é o da rainha e do rei. contendo quintais alargados com fo rnos e fogões para assar bolos e biscoitos. também vestidos a caráter. a Casa da Rainha (nas festividades do mês de julho) equivale a C asa da Festa. seguem o cortejo em pares.Page 246----------------------O cortejo é aberto por tambozeiros. vamos embora Direto pra Igreja Visitar Nossa Senhora. a rainha e o rei. juntamente com as caçadeiras e os caçadores. r as noites escuras das vilas na . simultaneamente (Divino e Nossa Senhora do Rosário). montados em cavalos ornamentados. a rainha e o rei vão atrás dos caça dores e das caçadeiras. que utiliza a Casa da Festa. resistência O uso de fogos para abrir a festa pouco a pouco.

Rei e rainha. ―espaço de realização de toda a diversidade de papéis. Os moradores referem-se a este espaço – uma área cercada por árvores tequim . Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. o cortejo da Caçada da Rainha toma cont a das ruas sendo descrito pelas pessoas que participam direta ou indiretamente como um dos mais e sperados pelos festeiros. em 11 de outubro de 2009. Sob fogos e gritos eufóricos. em direção ao lugar chamado ―botequim e depois de volta a Casa da Rainha. .Rei e rainha à frente. a afirmar-se p. o a eles relacionado . seguidos das caçadeiras Foto 02 . 2) em sua dimensão profana se faz é que através dele concebe a festa como uma das mais expressivas instituições da religião.Caçadores e caçadeiras à frente. especialmente pequizeiros – com a denominação de ―bo local marcado por práticas de sociabilidades informais. acompanhando a rainha e o rei pelas ruas da cidade. em 9 outubro de 2008. à caminho do ―botequim . dança. as danças e cantos são ritmados pelo toque d os tambores. seguidos e caçadores. pula. Ao observar este ritual. As festas religiosas não promovem apenas de diversos aspectos da a dos graus de poder e mas conheciment o encontro celebração religiosa. familiares e participante. a leitura que a comunidade carmelitana recupera 246 ----------------------.Page 247----------------------antigos valores e volta e sagrada. Amaral (1992. durante o trajeto de volta do ―botequim do rei e da rainha. vamos embora Direto pra Igreja Visitar Nossa Senhora Foto 01 . Durante todo o percurso. grita. constituído por uma mult bebe. Caçada da Rainha. do cerrado. O cortejo é idão que cantam. na na Caçada da Rainha.

Quem pode mais? É Deus no céu. [. É uma diversão de todas as idades: Essas festas são muito importantes pra que eu me sinto mais jovem como se tivesse 22 anos de idade e não 6 brincar você renova. carregando os tambores nos ombros... marcada pela irreverência. na escravidão. (DIONÍSIA PEREIRA RAMOS. a economia e o trabalho. na rua e Durante o trajeto. É como no passado. enfim pel as experiências de vida. gritando e repetindo os gestos. enquanto homens batucam os tambores. os participantes em frente às casas dos fazem paradas 2. fazse uma roda e no centro casais intercalados dançam. O espaço do cortejo da Caçada da Rainha não pertence ao padre ou ao prefeito .. levando as mão s ao chão e aos céus e cantando: Ô passarei alegre Alegre vou cantando Sinhora do Rosário Que nós tamo’s festejano Os versos se repetem ao mesmo tempo em que são também intercalados por outros: Quempode mais? É Deus do céu. de Ao longo do tempo. pelas brincadeiras.. Nessa ocasião. vão fazendo uma coreog rafia e a multidão acompanha dançando. [. A Caçada cria a oportunidade para o encontro e a so ciabilidade dos carmelitanos mim. Quando a gente começa a moradores e ao som dos tambores cantam e dançam a dança do tambor. reverenciar e homenagear consolidou-se uma forma própria Nossa Senhora.] Eu gosto muito. era o tamb or [. pelo lúdico..] A rainha é de ouro É de ouro só. 09/10/2008).]. o lazer. em que a diversão dos escravos era a festa.vida social.. [. A rainha é mio.] O rei é bom A rainha é mió.. O rei é bom.. Ao terminar esse preâmbulo. como a política. fazendo ―vênia . A rainha é de ouro É de ouro só. os homens.

57). Observa-se que existe por parte do s moradores locais uma valorização das atitudes s códigos de comportamentos. sob certos respeitos.Page 248----------------------devotos. ao menos. que homens. culando pela por um lado. É com Eliade (2005) que a multiplicidade dos aspectos culturais to rna-se a expressão . nas festas de santos e nos cemitérios junto aos túmulos dos mártires. ela é uma coisa sér ia e. sentiu algo do mistério de sua estrutura. conhecedores de todos os passos do ritual. das combinações de energia e de sensibilidade que contém. dançavam nos lugares de culto. Cox (1974) em sua pesquisa mostra que ―gente que dança diante geralmente mais livre e de seus deuses é menos contraída do que gente que não se abalança a tanto . as regras e as normas são estabelecidas pelos participantes. Tal conhecimento que se alguns visitantes não sabe evidencia nos relatos orais: ―a Caçada já foi muito melhor. na minha opinião. um passatempo social. Nesse espaço. (p.. até uma coisa sagrada. cultivou e venerou a Dança. agora tem muita gente de f ora que não conhece a brincadeira e faz de qualquer jeito . uma diversão. afirmavam m brincar. O autor cita o escritor católico-romano. mas aos 247 ----------------------. mulheres e crianças costumavam dançar ―dia nte do Senhor . de suas limitações. que a rede social pode comedidas presença e das de pessoas regras de fora e cir do prejudicar aquilo que sustenta o sentido sagrado das brincadeiras no interior do ritual. moradores locais. O autor salienta que desde os primeiros anos do cristianismo. demonstrando. Toda época que entendeu o cor po humano ou. Paul Valéry que expressa a relevância da dança: A dança é. de seus recursos. um ornamento. Algumas vezes presenciamos diálogos informais em que os participantes. muito mais do que um exer cício.

religiosos. histórica. O cortejo da Caçada é também marcado com a presença dos caretas. com máscaras c mais apresentando-se Estes e muitos coloridas. risos e participantes gargalhadas. a exemplo das crianças. são personagens que representam um conjunto desordenado. frente e entre o povo. diferentemente da rainha e do rei. mas em outras. uma vez que usam pinholas. é importante a Para este autor. 142 Pinhola é uma espécie de chicote feito de sola de couro de vaca. Ou seja. 248 ----------------------. ou mesmo um cipó de galho seco. A festa de Nossa Senhora do Rosário reúne manifestações sagradas e prof . são personagens. dando saltos para personagens usando das executando malabarismos.de uma mesma essência religiosa.143 Esta representação inções sociais observadas no parece reforçar a ordem e as dist interior da festa. roupas aminham à são conhecidos. Existem em função do divertimento.Page 249----------------------da rainha. ou mas carados como também masculinos141 mascarados de animais. assustam e provocam medo. variadas interjeições chamar a atenção dos da festa eles provocam acrobáticos Em participantes. é além o da sagrado dimensão que descoberta da estrutura dos fenômenos se configura como elemento fundante da vida social. ou trançados de p alha de buriti. que fantasiados e ocultam suas vestidos com identidades normalmente. geralmente rasgadas.142 com as quais simulam ameaças às crianças que acompanham o cortejo da Caçada 141 Não obtivemos informações de mulheres exercendo o papel de caretas. sem qualque r coreografia ou fala definida. Os caretas ocupam uma posição subalterna e para participar do eve nto necessitam somente de uma fantasia barata ou e que muitas vezes pode ser que não tenha mais utilidade emprestada. Estes personagens não desempenham papel de destaque.

e às esperanças brincadeiras a nesse encontro con e presença demonstrando que o momento de desfrute do lazer não pode ser considerado apenas po r seu lado profano. orações. danças. 15/08/2009). tributa aos carmelitanos respeito e saudade: Quando as vezes tem alguma pessoa que já faleceu. idades. que foi um tambozeiro aqui de Monte do Carmo aí quando a gente chega ali em frente onde ele morava perto da casa do tio Joca. distribuídos com fotograf ias da cidade . une não a penas a fé. fizeram o parte grupo desse presta homena dem àquelas pessoas que no passado onstrando que cuja memória processo. 36) em sua pesquisa sobre a festa do Divino em Pirenopóli s salienta que todos os eventos e situações previstos no programa da festa. Santana144. Brandão (2004. está presente no interior destas festiv tambor. novenas e procissões.anas e em todas as ocasiões encontramos simultânea. Essa complexidade simbólic a tem grande relevância na compreensão destas festas religiosas. p. expressando uma religiosidade exacerbada. então a gente canta: Cadê Santana? Deus levou. (AURÉLIO DE OLVIERA SILVA. mortos. os dois pólos atuando de forma Ou seja. concomitantemente. bem como o sentido que ad quirem para a comunidade local. É uma homenagem querido. então a gente canta: Cadê seu Bena? Deus z ao ente levou. que dão continuidade a essa festa que se renova a cada dia. missas. enquanto locus demarcador de identidades regional. Seu Bena também. costumes. stante de Nota-se elementos em meio sagrados. Em gens em frente a memória aos algumas casas. eu me lembro que eu era menino e via seu Bena bater tambor. que a gente fa Seu Bena e Santana são figuras sempre lembradas com respeito e adm iração entre os participantes. bebidas. por exemplo. mas também hábitos. que era um tambozeir o. alegrias ntremeado de religiosidade e festividade.

na abertura das ca valhadas. Santana. falecido em 1986.143Alem da cidade de Monte do Carmo. aparecem durante a semana santa. tô contente graça a Deus porque Jesus . conhecido por ―tio Joca .Page 250----------------------e das cavalhadas. e ritu ais profanos. preenchendo todos os tempos musicais com a sonoridade impar do s eu instrumento . sobrinhos e netos. Naquele momento parecia incorporar o espírito de todos os negros african os que povoaram esses brasis. Silva (2006. compa sso nervoso e frenético. Suas mãos calejadas pela lida cotidiana. 90 anos. quando se referem a ele. não se cansavam de ru far os tambores. 25) mencio na que teve o privilégio de vê-lo tocando nos festejos de 1984 e 1985 e assim o descreve: ―batia firme. cada uma com suas características locais: em Arraias. tal hipótese não se confir mou. Tocava alucinadamente. a multidão fez foi realizada uma homenag alguns minutos de silêncio. transcendia. que constituem a essência da festa. No entanto. em Lizarda. Dian te da casa onde estava sendo velado o corpo do ―tio Joca em. 249 ----------------------. nos festejos da padroeira e em Taguatinga. ntece em outras festividades de esta representação dos caretas aco cidades do Tocantins. Em julho de 2010 Rainha presenciamos um momento desses carinhosamente na ocasião do ritual da Caçada da que ocorre esporadicamente. posto que como de costume a Caçada contou com o mesmo entusiasmo dos participantes. p. ―foi um dos maiores tambozeiros daqui . são rituais religiosos. João de Oliveira Primo. arrodeada pela multidão. mas de expressão e conteúdos essencialmente religiosos. Eu não estou triste. veio a óbito na manhã do dia 17 (dia da Caçada da Rainha). uma vez que muitos dos animadores da turma do tambor eram parentes próximos como. essa é a tônica dos moradores de Monte do Carmo. vamos rezar u m pai nosso com uma ave Maria oferecendo para a alma do meu pai porque ele gostava muito de tambor. 144 Santana de Oliveira Negre. Alguns diziam que o ritual não teria a mesma animação. uma das filhas do tio Joca enun ciou: Então aproveitando esse momento gente.

l servidos e simultaneamente aos demais participantes da festa. mamãe tem um bodi. posteriormente. solta o bodi com uma Esse momento de salva de palmas. 145 jão 146 ava Os versos que os tambozeiros entoam antes de tocar o tambor são denominados ―can . biscoitos e bolos lhes são participam da roda.escolheu. homenagens ao falecido findou-se seguindo o cortejo com o mesmo entusiasmo. Seguindo os versos acompanhados com os tambores:146 Eu Eu Eu Eu vou vou vou vou socar socar socar socar pra pra pra pra tirar tirar tirar tirar canjiquinha. 250 ----------------------. Disseram-nos. os tambozeiros entoaram um verso145 melancólico e choro so antes de tocar os tambores: Me valei Nossa Senhora que é mãe de Nosso Senhor Me valei Nossa Senhora que é mãe de Nosso Senhor Nossa Senhora me ajuda Nossa Senhor me ajudou Eu vou me embora. A rainha e o rei d ançam o tambor e . Papai tem um negô.Page 251----------------------o. em que os participantes icores. Os caçadores também dançam com a rainha. Logo após.148 Forma-se o uma grande roda quand homenagear a rainha e o o os participantes dançam tambor. mamãe tem um bodi. canjiquinha. entoaram repetidas vezes os versos: Papai tem um negô. amarra o negô. param por um períod a fim de rei. 147 Ao chegar ao espaço festivo do ―botequim . canjiquinha. que aqueles eram os versos que o tio Joca gost muito. o dia dele era orque durante toda a hoje. quero que toca o tambor p Finda a oração. bem como as caçadeiras com o rei. amarra o negô. canjiquinha. Então eu vida ele gostou muito do tambor. solta o bodi. Duran te este momento.

homens. 67) mostra a dança ocupava que na sociedade coloni roda. 147 Permanecem no botequim por volta de uma a duas horas. (1987. mulheres. para receberem as homenagens (Foto 7). durante a estadia no ―botequim os tambozeiros aproveitam para afin ar o som dos tambores. a gente toca para eles relevante espaço nas festividades religiosas populares.posteriormente permanecem sentados ao trono que foi preparado para a ocasião. os caçadores e caçadeiras da rainha fazem a dançar. sendo a dança uma prática comum de homenageá-la.Page 252----------------------- . Depois é botar o tambor nas costas e seguir de volta. o ritual da Caçada da Rainha”. Aí eles vão dançando um com outro até que dançam todo s. 148 Normalmente. gente No botequim a gente canta os mesmos canta durante o cortejo. comendo biscoito. durante a Caçada da Rainha. 6. A gente fica ali naquela moagem. Azzi al brasileira. p. como forma de expressar a alegria e gratidão diante da vida e da natureza. 15/08/2009).Rei e rainha dançando tambor no centro Foto 6 .Casal dançando tambor no ―botequim . na grande roda. invocando proteção e afastand os malefícios. em 17 de julho de 2009. Enquanto isso. chegando a sacralizá-las e a divinizá-las . Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. Os procedimentos de afinação são feitos esquentando-os no fogo. durante da roda. como é o caso. Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias. Foto 5 . 251 ----------------------. porque o couro de anim al desafina quando molhada pela chuva ou pelo suor. O autor ressalta ainda as quantos os africanos que tantos os indígen ―conservam um profundo respeito para com as forças da natureza. bebendo lic or. (AURÉLIO DE OLIVEIRA SILVA. adultos e crianças também dançam (Fotos cânticos que a 5. e 8). no ―botequim . em 11 de outubro de 2009.

a bebida. dançando. em 17 de julho de 2009. a comida. baseados na inversão privilégios. tual da Caçada da Rainha é profundamente marcado pela scos. no ―botequim Foto 8 . bebend . o riso. a brincadeira. São eles que definem as regras e normas a serem seguidas ao longo do corte jo desse ritual. durante a Caçada da Rainha. Após essa cerimônia do ―botequim . desses regras elementos e tabus.Casal dançando tambor no ―botequim . baseada no princípio do riso . durante cercados pela multidão. Fonte: acervo Mirian Tesseroli. a dança. de abolição provi sória de todas as relações hierárquicas. 7) descreve que o carnaval medieval constituía-se na ―segunda vida do povo. delimitando seu espaço. criando e recriando brincadeiras cujos significados só eles conhecem. em 17 de julho de 2010. o e convidando o rei e a rainha para visitar Nossa Senhora: Rei e rainha vamos i’mbora Direto pra Igreja visitar Nossa Sinhora Rei e rainha vamo i’mbora Direto pra Igreja visitar Nossa Sinhora Em frente à Igreja cantam anunciando que os festeiros chegaram: O rei e a rainha chegou! O rei e a rainha chegou! sempre cantando. o carnaval representava o t riunfo de uma espécie de libertação temporária da verdade dominante e do regime vigente. apontados pelo est udioso russo: a música. q ue na estrutura social carmelitana ocupam personagens principais da posições inferiores. se transformam em cidade. Outro aspecto importante a destacar nesse ritual é que os participantes. parando em frente algumas casas. na sua maioria mulheres. circulando por outr as ruas. Bakhtin (1993. o ritual da Caçada da Rainha”.Foto 7 . homens e crianças simples. p. carnavale O ri presença divertida dos valores e hierarquias e na exaltação da abundancia.Rei e rainha em cima do trono. o cortejo retorna à cidade sem pressa. Segundo o autor. Fonte: acervo Noeci Carvalho Messias.

trata-se sempre de acontecimento sagrado que teve seu luga . organizando as ritual contribui para a construção das prát relações com o passado de forma socialmente significativa. na qual era simulado um esconderijo da rainha. Assim. Minha mãe c ontava. diversão. E chegava lá e rodava a barraquinha dizendo ‗cadê a rainha?. soltando foguete. dança o tambor e cada um a dançam. cadê a rainha‘. para dele se re-a propriar e para ―reiterar a cosmogonia . a-se que no ―botequim destacando uma possível diferenciação. Este espaço marcado bebe a das caçadeiras também brincadeiras em homenagem a Nossa Senhora do Rosário.. o homem religioso se aproxima dos deuses. seguem o cortejo junto com a mu ltidão: [. Segundo Eliade (2005. Mas agora eles não faz mais is rainha junto. é também um espaço de afirmação social e religiosa dos devotos. (FAUSTA JOSÉ DOS SANTOS.Page 253----------------------havia uma ―barraquinha . dançando. pelos seus participantes. 15/07/2008). O icas sociais. distinto do que ocorre contemporaneamente quando o casal. rainha e rei. 76-93) pela reatualização dos mitos. achei.] De primeiro disse que era assim. nta.O rei e a rainha chegou! O rei e a rainha chegou! Alguns relatos traçam distinção entre episódios da Caçada da Rainha no pas sado e o que ocorre na atualidade. ndo. Ela se dançar o tambor. A rainha mais o rei se arrumava ia e tinha uma barraquinha lá no botequim . O ritual da Caçada da Rainha consiste em um espaço recriado a cada ano. Aí di zia: ‗achei. achei so. E ai lá e se escondia dentro da barraquinha e o pessoal saia dizendo: ‗vamos caça r a rainha‘. devoção e locais. para ele. E o pessoal ia tocando tambor. Chega lá já tem o trono dela. ―seja qual for a complexidade de uma festa religiosa.. p. Aí a rainha vai dançar o tambor. Afirm 252 ----------------------. na maioria moradores pela fé. Agora Aí já vai vai tocar com e a rainha‘.

mitos.Page 254----------------------As pessoas se dispersam para um breve descanso. de uma ―história sagrada cujos atores são os deuses ou os seres semidivinos. e posteriormente r etornam à Casa da Rainha. neste sentido a Caçada da Rain ha significa a reatualização de um acontecimento primordial. próximo às 18 horas.] Adeus. em cortejo p ara a realização do ritual das trocas de coroas. Por consequência. ―ora. Mas. Eliade enfatiza que é importante compreender o significado religioso da repetição dos gestos divinos. tornado presente . Ora. os a história sagrada está contada nos participantes da festa tornam-se contemporâneos dos deuses e dos seres semidivinos . já arrumadas e uma vez mais saem em cortejo até a Casa da Rainha do ano ant erior para buscá-la e juntos (as duas rainhas e os dois reis) se dirigem à Igreja. Referências: dos tambores: . após quase seis horas festejando pe las ruas.. 253 ----------------------. parece evidente que.. é porque deseja e se esforça para viver muito perto de seus deuses . sob os fogos de artifícios e o ―rufar O pretinho tá brincano Adeus até pro ano [. uma vez que os participantes da festa tornam-se os contemporâneos do acontecimento mítico. u m acontecimento de significativa importância que teve lugar no passado. o ritual termina na Casa da Rainha.r no tempo de origem e que é. O mito conta uma história sagrada. esse é um assunto para ser abordado em outro ens aio. se o homem religioso sente ne cessidade de reproduzir indefinidamente os mesmos gestos exemplares. adeus Adeus qu’eu vô m’embora cê fica aí com Deus Com Deus eu vô m’embora. Ao anoitecer. isto é. ritualmente.

Reis negros no Brasil escravagista: História da festa de c oroação de Rei Congo. Mircea. A cristandade colonial: mito e ideologia . Caçada da Rainha. Povo-de-santo. 1992. BAKHTIN. AZZI. Riolando. Estudo antropológico do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulista. SOUZA. 2000. Val. Colinas do Sul – Goiás. Pretende-se ainda através de relatos de experiências. COX. São Paulo. a partir da observação da experiência desenvolvida em duas organizações não governamentais. d e crianças e adolescentes.AMARAL. 3 ed. Caçada da Rainha: a festa da fé. Mary Lucy. 2007. DEL PRIORE. De tão longe eu venho vindo: símbolos. 2008. uma homenagem à padroeira dos negros. RODRIGUES. O sagrado e o profano: a essência das religiões. fortalecendo a auto-estima de crianças e adolesce ntes. São Paula: HUCITEC. sensibilizar o s educadores. Intervenção Psicopedagógica. São P aulo: WMF Martins Fontes. 2010. 2004. 17 de Julho de 2002. RAMOS. 1.Page 255----------------------A DANÇA COMO INSTRUMENTO DE INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA NO PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Festas e utopias no Brasil colonial. Goiânia: UFG. O folclore negro do Brasil: demopsicologia e psicanálise. gestos e rituais do catolicismo popular em Goiás. para que os mesmos permitam-se a encontrar novas alternativas educaci onais utilizando a dança em diversas situações de aprendizagem. 1974. USP. como um instrumento de interve nção psicopedagógica. Mikhail. Harvey. JORNAL DO TOCANTINS. Educação. p. BRANDÃO. A festa dos foliões: um ensaio teológico sobre festividade e fantasia. Belo Horizonte: UFMG. Antoni o Henrique França Costa149 RESUMO O presente artigo enfoca a Dança. Dissertação (Mestrado em Antropologia). Marina de Mello. 254 ----------------------. Petrópolis: Vozes. no processo de ensino aprendizagem. que utilizam à dança como estratégia indispensável para o desenvolvimento sócio-cultural e cognitivo. povo de festa. 2006. Palavras-chave: Dança. Arthur. 1987 . Petrópolis: Vozes. Metodologia Pedagógica. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto d e François Rabelais. 2002. 3ª edição. . IPHAN. Caderno Arte & Vida. São Paulo: WM F Martins Fontes. o que poderá contribuir de forma direta para a ide ntificação de algumas dificuldades de aprendizagem. Rita. São Paulo: Brasiliense . Carlos Rodrigues. Palmas. ELIADE. durante o acompanhamento de atividades lúdicas e pedagógicas desenvolvidas com o público atendido.

Keywords: Dance.br.Graduando do Curso de Especialização em Sociologia das Interpret ações do Maranhão: Povos e comunidades tradicionais. While monitor ing of recreational and educational activities developed with the public attended. fro m the observation of the experience developed in two non-governmental organizations. e como um cognitivo e emocional de crianças e importante instrumento para a superação de algumas dificuldades de aprendizagem iden tificadas. which could contribute in a direct way to identify some learning disabilities. Pós . E-Mail: henriquenegrolindo@yahoo. the awareness of educators to ensure that they a llow themselves to find new educational alternatives using the dance in various s ituations of learning. which use the dance as indispensable strategy for the socio-cultural and cognitive. in the process of teaching learning.com. Pós-Graduado em Psicopedagogia Clinica e Institucional – Centro de Ens ino Superior Santa Fé. child ren and adolescents. Coor denador do Projeto Despertando Consciência: Uma Nova Educação para Contemporaneidade – Departamento de Exte nsão e PósGraduação do Centro de Ensino Superior Santa Fé.Page 256----------------------O interesse em desenvolver o estudo sobre ―A dança como instrumento de intervenção psicopedagógica no processo de ensino aprendizagem de crianças e adolescent es . surgiu pela . Education. 255 ----------------------.UEMA. do Centro de Formação para a Cidadania AKONI. strengthening self-esteem of children and adolescents. It is also through reports of experiences. Intervention psychopedagogi c. 149 Pedagogo.A DANCE AS A TOOL FOR ACTION PSYCHOPEDAGOGUE IN PROCESS OF LEARNING TEACHING CHILDREN AND ADOLESCENTS ABSTRACT: This article focuses on dance as an instrument of intervention psychopedagogic. 1 INTRODUÇÃO O presente artigo enfoca a dança como estratégia de intervenção psicopedagóg ica a ser utilizada no desenvolvimento adolescentes. desenvolvimento sustentável e políticas étnicas . Educational Methodology. Articulador Pedagógico do Projeto Ekó Ilk erá.

Cada criança e adolescente cultural e social. l. 2001. sen do um grande elemento facilitador rtir do momento que do processo de motiva o ensino aprendizagem. utilizarmos desenvolvimento cognitivo e emocional de cada educando. ―Na atualidade. que encontravam-se em si tuação de vulnerabilidade social.20) . de bairros periféricos de São Luís-MA.minha militância no Centro de Cultura Negra do Maranhão a partir do ano de 1993. Estudos revelam que através de estímulos naturais ou . c rê-se que o sistema nervoso seja altamente diferenciado e que diferentes centros neurais processem d iferentes tipos de informações (DAMASIO. deseja-se demonstrar que a extremamente expressivo e importante para o desenvolvimento global do homem. Com dança é um o referido artigo. contribuindo de forma direta para a superação da auto-estima do trabalhado. e por desenvolver no período de abril/2007 a agosto/2008. p. ond e iniciei e atualmente desenvolvo atividades culturais ligadas a dança. familiar. Oficinas de dança afro e popular ense com maranh crianças e adolescentes. é encontrarmos importante alternativas para caminho para o dançar. 2 A DE IMPORTÂNCIA INTERVENÇÃO DA DANÇA NO PROCESSO das dificuldades publico de aprendizagem e elevação PSICOPEDAGÓGICA E APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. e por perceber através das atividades educacionais e cultu rais desenvolvidas que 70% dos alunos(as). e no Ilê Axé de Oxumaré (Associação Brilho do Arco Íris)151. no Centro de Formação para a Cidadania Akoni150. a pa educando e o educador a vivenciar experiências corporais e rítmicas. de tem uma um à dos dança história corpora grandes como des um portanto uma maneira própria afios para nós educadores. tinham dificuldades de aprendizagem e baixa auto-estima. processo dinâmico.

e habilidade atingir as em esportes. especializa e amadurece. 150 Entidade do Movimento Negro. dramatizar lê Atributo Talento Capacidade Dançarino(a). letras e .Page 257----------------------Para compreendermos como a integração entre o corpo e a mente se faz necessário no processo de superação de algumas dificuldades de aprendizagem. 256 ----------------------. adolescentes e jovens. fundada em 2002. expressão corporal artesanato. a Corporal – Cinestésica: Que é a capa cidade de usar o corpo para resolver problemas ou fabricar produtos. todos contribuindo olvimento do que chamamos inteligência. Podendo ser considera da também como a habilidade de controlar os movimentos do próprio corpo. os jogos. destacamos uma das in teligências múltiplas identificadas por Gardner (1987. e ator e artesão. fundada um dos seus eixos de trabalho o em 2004.construídos pedagógica e olescente se através da prática o sistema nervoso da criança e do ad psicopedagógica. desenvolvida. a dança entre outros. Tipo ende Melhor Corporal -se cinestésica tar nto e que ortar estuda. de atleta usar em Sinais Coordenação o motora bem Facilidades Atividades físicas. metas. que tem como um dos eixos de tra balho o atendimento a crianças. Dentre estes estímulos podemos citar por ex: a Arte. 1995). a música. Apr Precisa movimen enqua e Pod o rec corpo para se qualquer expressar modalidade. 151 Entidade não governamental. que tem como de maneira de decisiva para o desenv atendimento a adolescentes e jovens do sexo feminino.

desta ha inteligência da criança bilidade. o Em seus estudos educado. relata que criando ao o cérebr a observar melhor e criar. pode aprender a Antunes (2001). Através da dança o corpo pode comunicar emoções. É motor. sentimentos e expor idéias . que é Viana Apud Nanni (1993) através da dança que e Marques (1999) afirmam do que começamos a ter conhecimento dos processos internos. pois os movimentos são vistos e compreendidos.númer os apenas com os dedos. pois ao ouvirmos a música t emos uma possibilidade maior de dominar imentos e as emoções são o ritmo... podemos Ao considerar perceber que a a dança como movimento cinestésico. É afetiva. É cognitiva. Dançar é muito mais falar com o 257 . pois estabelece um esquema corporal. É auditiva. mediante os movi mentos que refletem o mundo etc. pois é preciso raciocinar pa ra adequar o ritmo á coordenação. p. pois os sent demonstrados nas coreografias e espetáculos. perceb indispensável para um desenvolvimento perfeito.) ou com interior (como o mundo sentimentos. Barreto (1997. pois nos faz sentir os movimentos e os benefícios que ela produz no corp o. pensamentos exterior (como o ambiente sonoro ou visual).42). conseqüentemente liberta-se. idéias. É visual. porque a e do adolescente poderá ser estimulada através dança: É tátil. Fonte: Mallamann. essas expressões corporais estão na maioria das vezes ligadas aos ritmos. Neste sentido ao observarmos emos que as práticas educacionais a motricidade é aprende relacionadas corpo.

a dança constrói significados na vida das pessoas. social e edu adolescente estão inseridos. por isso. podemos trabalhar os aspectos lig ados à autoestima e ao desenvolvimento cognitivo. os afirmar Levando-se em que o ser consideração uma do abordagem movimento. entre estes destacamos por os vários e as motivos pessoas. educadores principal compreendemos o papel importante das emoções e do afeto no processo de aprendizagem e para o desenvolvimento psicomotor e intelectual de crianças e adolescentes. é uma modalidade de arte que não depende das palavras. marxista. podemos diz er que a dança pode ser utilizada ns. Para sentir o nosso corpo. trabalho como educa . Para expressarmos os nossos buscar formas no tempo e sentimentos no nossas espaço. Para buscar algo que está além de nosso corpo. a superação das possamos respeitar dificuldades as de aprendizagem. comu Para fi seguintes: Para entender o mundo nicarmos. aspectos estes que podem ser percebidos através da util ização da dança como processo de intervenção ncionamos anteriormente psicopedagógica. podem humano mente caracteriza-se pelo principio quando nós. temos que levar em co nsideração todos os aspectos referentes ao cacional ao qual a criança e o convívio familiar. Para nos entendermos. Dentro de um processo de intervenção pedagógica. desde especificidades sócio e culturais de cada criança e adolescente a serem trabalhadas.----------------------.Page 258----------------------corpo e para o corpo. embora possamos usá-las também. e Pa ra conhecer o mundo. o que com certeza nos ajudará a trabalhar d e forma mais eficaz que. e as e para Para diversos nos idéias. pois como já me associada à motricidade e aos movimentos rítmicos. 3 RELATO DE EXPERIÊNCIA Desde ano de dois mil e três.

com as quais eu tive a oportunidade de trabalhar durante a realização de oficinas de dança afro e popular maranhense. desenvolvidas em 02 entidades não gover namentais. comprometido com onde a cada dia tive a resultado o minha de prática diária enquant processo ensino aprendizagem.onde no período de abril a Identidades155 agosto de 2008 – Fui o educador e pedagogo responsável em desenvolver oficinas pedagóg icas e de dança deste afro e popular maranhense total: 04 crianças. pedagogo e psicopedagogo. b) Ilê Axé D¡Oxumaré154 / Projeto Resgatando .1 Experiências destacadas a) Centro de Formação Para a Cidadania AKONI152 / Projeto Omó Binrin IRÊ153 – onde no período de março de 2007 a julho de 2008 – Fui o educador responsável em desenvolver ofi cinas pedagógicas e alunas (sendo de dança afro e popular deste total: 27 maranhense com 35 adolescentes) do sexo feminino na área Itaqui Bacanga. utilizando a dança como após em concluir psicopedagogia de começar das o meu clínica curso e de p instituc dança aprendizag instrumento educativo e pedagógico. senti a como um instrumento de intervenção psicopedagógica.dor. o educador. oportunidade de aprender novas lições de vida. edagogia e ao ingressar em 2007 no curso de especialização ional do Centro de Ensino Superior Santa Fé. com os meus educandos. 18 com 31 alunos(as) – (sendo adolescentes) no bairro do Parque Vitória. em identificadas em e necessidade de a trabalhar a de superação dificuldades crianças e adolescentes.Page 259----------------------3. utilizada para o desenvolvim . ento A concepção pedagógica das referidas oficinas. experiência. uma que apresentarei metodologia de através de do referido relato de trabalho e de intervenção. 258 ----------------------. É valido ressaltar.

a. O Centro Akoni. as quais foram divididas de duas formas: At ividades gerais e Atividades especificas de intervenção: a) ser trabalhado. fundada em 13/07/2004. A m transformar metodologia de o espaço lúdico trabalho de utilizada consiste e estabelecido realização das oficinas pedagógicas e de um elo de confiança entre educando e -se os limites cognitivos. entendimento as principais atividades desenvolvidas. O referido projeto proporciona . educador. com sede em São Luís-MA. em dialeto africano ioruba. enquanto principalmente definir com mais uma intervenção clareza amplo da devemos antes de tudo pedagógicos a serem termos um destacamos trabalhados. em um espaço onde seja onde gradativamente respeitando emocionais e culturais de cada aluno(a). possamos fazer da dança um instrumento de ligação direta com as atividades que foram desenvolvidas durante todo o estudo. 153 IRÊ significa Meninas com Esperança. Atividades Observação Gerais: e Identificação do público a adaptação da metodologia de trabalho de acordo a realidade do público a ser trabalhado . as falas e os papéis desempenhados social e culturalmente. é uma em dialeto africano iorub organização não governamental. gerando visibilidade e fortalecimento ind ividual e coletivo para o enfrentamento da vida e do mundo. Busca resignificar juntamente com os valores. Acredito que pa ra realizarmos qualquer tipo psicopedagógica. Para referida proposta. educadores os aspectos de intervenção. como de elementos que ajudam d a identidade gerando e a auto-estima de superação do processo de os mesmos exclusão ao qual a história. Sondagem 152 AKONI significa MULHERES GUERREIRAS. dança.considera a arte e a cultura a diminuir as dificuldades aprendizagem. fortalecendo e crianças e adolescentes. sentimentos de pertencimento e estão submetidas.

Sondagem e acompanhamento pontual do rendimento escolar e do c onvívio familiar. que a focos centrais foi o dança é um elemen . 154 È uma organização não governamental. nte Com mencionadas. fortalecer a auto-estima d e criança e adolescentes. nesta etapa do processo de trabalho. estamparia afro/serigrafia. b) práticas de Atividades específicas de dança afro e intervenção: educativos Aulas que teóricas estimul e co popular maranhense. profissionais e inserção econômica a meninas e jovens. iniciei o proc esso de utilização da dança como estratégia espetáculos e esketes de intervenção. tendo to indispensável á formação como base. o desenvolvimento foi possível 70% das das de atividades crianças anteriorme e adolescent Fa identificar que es observadas apresentavam lta de noção aproximadamente e trabalhadas. 155 O referido projeto tem por objetivo. Problemas de dicção e dificuldades na leitura. Ati vidades de integração de grupos. m oficinas de teatro/dança afro e popular. as seguintes dificuldades espaço temporal. utilizando para tanto a arte e a dança como uma linguagem direta. através de visitas e reuniões sistemáticas. aprendizagem: Dificuldade psicomotoras.Page 260----------------------e apresentação dos elementos culturais pertencentes à realidade dos educandos. um dos fortalecimento da autoestima dos educandos. Rodas de leitura e construção de textos individuais e coletivos. teatrais. Estabel ecimento e fortalecimento do elo de confiança entre educando e educador. Após identificar as dificuldades acima mencionadas. e cultura hip-hop e formações que fortalecem a capacidade de liderança e/ou de intervenção positiva diante da realidade vivenciada. 259 ----------------------.qualificações sociais. através da criação de coreografias. fundada em 16/01/2002. Dificuldade em expressar sentimentos e interagir com o grupo. Aplicação em o raciocínio lógico e a de jogos coordenação motora.

como instrumentos ada por nós educadores.168). superar todas identificadas as dificuldades nas crianças de forma do aprendizagem adolescentes. contribuindo os o que podemos chamar de de forma direta para term educação através do movimento. elaboramos trabalhos: em conjunto e de forma Espetáculo Mulher o integrativa os seguintes Resgate de Uma História. 1998. Coreografia: A Deusa do Vento. p. É valido ressaltarmos que como resultado geral da aplicação da referid a metodologia. sendo que a cada resultado adquirido. onde se faça necessária tal intervenção. a partir deste momento. proposta no sentido de de superarmos todas as dificuldades e identificadas nas crianças e aprendizagem começamos adolescentes. trabalhamos a metod anteriorment a interagir teor Durante as etapas seguintes. e um Jogral rovam de dança e teatro sobre a eficácia do método do pressuposto conseguimos de e direta para a elevação e forta Identidade. fazíamos o registro e experimentávamos a melhor forma de utiliz ar a dança e as atividades culturais. de que ao Tais resultados concluirmos anteriormente comp o aplicado. 260 ----------------------. passos e gestos. ―Ao controlar seus movimentos.educacional do individuo. (2004). seus anseios. a ser utiliz qualquer espaço educacional. Coreografia: Mulheres Guer reiras. em de intervenção. ia e prática. com seu corpo capaz de exprimir eptor. contribuindo lecimento da auto-estima público acompanhado. partindo-se s nossos trabalhos. . é o ser hum ano. tensões e sentimentos pela linguagem corporal da dança ologia e transmitir ao público rec (NANNI. Segundo os estudos de Coll e Teberosky.Page 261----------------------4 CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES.

2006) . procedimentos. tura e a Dentre as várias arte de um povo formas como que podemos utilizar a cul estratégia de educação. fala. motivar e ajudar os rio entre nossos educandos corpo e mente. ―A cultura de um povo é tudo aquilo que esse povo. significa ge cada direta à aprendizagem Utilizar a arte e a e de intervenção. conseguirmos. sonha. veste. ama e conquist a. pois. se dentro dos nossos processos lhados. exi compreendermos vez mais que a educação últimas educadores tenhamos uma postura pedagógica que nos ajude a compreender e analisar o contexto sócio e cultural. vivenciado pelos nossos educandos. a se com educacionais a de a manter serem traba um equilíb a permitirem certeza teremos maiores possibilidades s dificuldades de aprendizagem posteriormente identificadas. pois. pois. canta. ividades Durante o processo de culturais e de dança. valores. objetivos a serem alcançados . gógica. Compreender tal contexto. come. préestabelecidos. cada educando tem as suas especificidades. o aprender/ensinar. adores do processo somente assim de ensinopoderemos ser facilit . escreve. devemos antes de tudo. atitudes e normas. as quais interferem direta mente em todo o processo educacional a ser trabalhado pelos educadores. que nós dança como nas uma linguagem peda décadas. sem duvida nenhuma a dança apresenta-se como uma das mais promis soras.o processo de ensino aprendizado envolve como ações em implícitas relação nas várias categorias de fatos d utilizando a dança. (PACHECO156. seja o pesquisa trabalharmos e de realização intervenção das at psico constatou-se que qualquer que pedagógica que venha a ser processo utilizado por nós educadores. conceitos. não é u ma tarefa fácil. nos desprender dos nossos pré-c onceitos. dança. produz.

A. Ana. São Paulo: Átic a. 262 ----------------------. foi sem dúvida nenhuma uma das mais ricas experiências incipalmente porque. Pedagoga e Coordenadora do Centro de Formação para a Cidadania AKONI. Rio de Janeiro: Objetiva. O corpo na dança. conseguimos dificuldades de aprendizagem anteriormente identificadas. C. A Teoria das Inteligências Múltiplas. São Paulo: Cortez. PACHECO. 2001. podemos de minha vida. 1987. Rio de Janeiro: Vozes. 1999.Page 262----------------------REFERÊNCIAS ANTUNES.aprendizagem. Ensino de Dança Hoje: Textos e Contextos. 2004.: __. MALLMANN. sultados Vivenciar o mundo deste processo com as da dança e compartilhar os re crianças e adolescentes que eu trabalhei. Como desenvolver conteúdos explorando as Inteligências Múltiplas. Rio de Janeiro: Objetiva. 261 ----------------------. 153 -160. COLL. Dança Educação. I. ____. tendo como resultado posterior à elevação da auto-estima de todas as crianças e adolescentes acompanhadas. MARQUES. GARDNER. 156 Educadora. In. TEBEROSKY. 1995. O Mistério da Consciência. H. 1998.Page 263----------------------RELAÇÕES DE PODER E ENCOBRIMENTO DO OUTRO: RELIGIÕES DE MATRIZ . Inteligência Um Conceito Reformulado. Lúcia Regina de Azevedo. D. DAMASIO. A dança e seus efe itos no desenvolvimento das inteligências múltiplas da criança. durante o encerramento das oficinas da dança e das de dança. p. 2006. São Luís-MA. Entrevista. Maria de Lourdes Cardoso. César. Aprendendo arte. A. 2001. Rio de Janeiro. BARRETO. São Paulo: Companhia das Letras. NANNI. Sidirley de Jesus. Pr constatar que através trabalhar todas da utilização as atividades desenvolvidas. 1997. Rio de Janeiro: Sprint. possibilitando uma troca de experiência.

Protestante e Kardecista.in the Metropolitan Area of Goiânia. Candomb lé ABSTRACT The aim of this work is based on the geographic theme that focuses on territoria l analysis of African religions . INTRODUÇÃO African religions. Protestant and Kardec. For this occasion. social an d historical sacred in Goiania. Estudos Pós-Coloniais. Candomblé will be seen in a discussion that addresses the state and the legitimation of the proces s of concealment of the other. gender and history of Candomblé in Goiânia and Mothers of saint: territorial domains. Assim. o Candomblé será vi sto em uma discussão que aborda o Estado. O encaminhamento metodológico permitirá analisar como as polític as públicas atendem a Comunidades de Terreiro. p art of theoretical and empirical analysis constituted from two research projects – Igb adu: Territories. Key-words: 1. bem como as formas de legitimação do processo de encobrimento d o Outro. gênero e história dos candomblés de Goiânia e Mães de san o: domínios territoriais. em detrimento de ações que atendem a outros segmentos como as Religiões Católica. there will be a reflection on the process of concealment by the absence of public policies and actions directed to this religious segment. Thus. Tal abordagem encontr ar-se-á sob um viés póscolonial. The routing methodology will examine how public policies serve the religious community. . Palavras-chave: Religiões de Matriz Africana. Candomblé. Post-Colonial Studies. Para esse ensejo. sociais e históricos do sagrado em Goiânia. rather than actions that attend the others segments such as Religions Catholic. State. Estado. For this. Para isso. Such an approach will find in post-colonial.AFRICANA NA REGIÃO METROPOLITANA GOIÂNIA-GO Rodolfo Ferreira Alves Pena Jailson Silva de Sousa RESUMO O objetivo desse trabalho é pautado no mote geográfico que privi legia a análise territorial das Religiões de Matriz Africana – em especial os Candomblés – localizados na Região Metropoli tana de Goiânia. parte-se de análises teóricas e empíricas constituídas a partir de dois projetos de pesquisa – Igbadu: Territórios.especially Candomblés . s erá feita uma reflexão sobre o processo de encobrimento por via da ausência de políticas públicas e ações direcionadas a esse segmento religioso.

Ao final. O Candomblé. destaca q ue a cultura africana nunca se de articulações e ressignificações de comunicações fundou como conseqüentes que têm não o central. objetivo mas de sim como produto novas formas expressar necessariamente fidedignas ao contexto histórico-cultural da origem africana (COS TA. quando ocupam em áreas zonas periféricas reprimida da em cidad pequeno verticalizadas. essa sistematização teóri será confrontada com as análises do empírico.Page 264----------------------arginalização Apesar disso. Portanto. as práticas candomblecistas encontram-se segregadas no espaço u rbano goianiense. enquanto Religião de Matriz Africana. As Religiões de Matriz Africana e Afrobrasileiras se constituem como um exemplo dessa situação. vêem a sua espacialidade s sítios e/ou sofrem atos de enfrentamentos por partes de moradores vizinhos. 263 ----------------------. Assim. destacando posicionalidades estatais no . o que não ocorre de forma diferente no contexto urbano da ci dade de Goiânia e Região Metropolitana. não é africano.Paul Gilroy. o presente artigo tem o intuito das ações que avivam as relações de encobrimento mento religioso. tudo dessa religião na o que se vê é uma situação de m sociedade brasileira. enfocando dos grupos os que de analisar a lógica representam esse seg aportes conceituais das contribuições pós-colonialistas e destacando os mecanismos de segregação e exclusão acertados no âmago da produção do espaço urbano. ao manifestar a sua expressão ―Atlântico Negro . posicionando-se e ou. o Candomblé é uma religião brasileira por excelência. mas ju stamente um produto dessas articulações e combinações interculturais entre negros escravos proven ientes de diversas nações africanas. 2006). Conforme rdisciplinar de Estudos estudos empreendidos pelo Centro Inte África-Américas (CieAA).

pelo método da desconstrução dos essencialismos.] A ab ordagem pós-colonial constrói sobre a evidência – diga-se.bojo dessa situação e entendendo como o Estado age no processo de encobrimento e legitimação das co ndições díspares no direito às manifestações culturais de domínio público. ressaltar a natureza dessa forma de pensamento. cometem o erro de pensar o pós-colonialismo como algo semelhante à teoria pós-m oderna ou de que o ―pós onialismo e de pós-colonial representa uma cronologia. uma vez que os estudos pós-coloniais não constituem propriamente uma matriz teórica única. É necessário. trivializada pelos deba tes entre estruturalistas e posestruturalistas – de que toda enunciação vem de algum lugar. a lógica da relação colonial. que possui uma modesta representatividade nas ciências humanas e um nulo valor na ciênci a geográfica. sua crítica ao processo de produção do conhecimento científico que. essa corrente pensamento busca evidenciar justamente o colonialismo presente nas sociedades qu e passaram pelo processo de colonização.. 2006. Trata-se de uma variedade de contribuições co orientações distintas. (COSTA. uma ref erência epistemológica crítica às concepções dominantes de modernidade[.83). A sua origem remete mais aos teóricos pós-estruturalistas – a exe mplo de . antes de se realizar qualquer análise. mas que apresentam como característica comum o e sforço de esboçar. OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS E A QUESTÃO DA SUBALTERNIDADE O Pós-Colonialismo se trata de uma corrente de pensamento relativa mente recente. a o privilegiar modelos e conteúdos próprios àquilo que se definiu co mo a cultura nacional nos países europeus.. reproduziria. houve o col quando n agora se vive um momento a verdade. p. m Muitas críticas preconceituosas são inferidas sobre essa forma de pe nsamento e. de modo que de de superação desse período. 2. muitas vezes. em outros termos.

ela é contida pela ordem de uma hegemonia cultural. enunciação] sejam mobilizados na passagem que representa tanto as condições gerais da linguagem qua nta a implicação especifica va ssa 6). Dessa feita. pois. A segue constituição uma lógica desse espaço.264 ----------------------. o emprego da concepção de diversidade cultural é extremamente problemático. para o autor. Bhabha. O refere-se a algo que vai além do colonial. e suas formas de opressão rea hegemonização de valores (COSTA. Ess a. O que e inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação (BHABHA. estabelece uma terceira ordem: A produção de sentido requer que esses dois lugares [ o lugar do enunciado e o da por um Terceiro Espaço. pode ser encarado analogicamente com o processo de hibridação. p. 2005. no caso das Religiões e institucional relação do enunciado em uma estratégia performati qual ela não pode. De acordo com esse autor. de forma não entre o meio que proclama e o meio da procl necessariamente consensual. 2006) Partindo de uma leitura dos aportes teóricos de Homi Bhabha. representa as próprias relações presentes nesse Terceiro Espaço. da mesma forma que essa d iversidade é enunciada. em si.Page 265----------------------Foucault. 1996) .6 da . o mult iculturalismo é. que. sempre acompanhado à falácia da blindagem de enunciações racistas. Deleuze e Derrida prefixo ―pós de ―póscolonialismo lizada pela – do que aos pós-modernos em si. ainda de acordo com proveniente na dialética amação que. esse Terceiro Espaço. gr universalista que camufla valores etnocêntricos em seu discurso (RUTHERFORD. entendido como um fruto da inter ação entre dois espaços produzidos. Dessa forma. ter consciência. para aças este autor. depara mo-nos com os conceitos de diferença e diversidade cultural.

vez que ela não constitui a pre Entendemos essa definição como uma forma de desequilíbrios entre a relação de distintos va lores pré-determinados que exercem mudanças entre si. . que. mas de um processo dinâmico que não possui uma ordem narrável o u um fim certo.de Matriz Africana. gerar novas mod ificações com demais valores. mas é preferível não engros sarmos em demasia essa discussão. em seguida. podemos de pesquisa dos Projetos Mães de perceber que essa produção de terceiro espaço acontece de forma frenética no âmbito paisagís tico do Candomblé. a lógica de prod ução desse terceiro espaço é caracterizada como um lugar comum dos diferentes sistemas de enunc iação que 265 ----------------------. podendo. que se faz inconstante. e de que ela independe da vontade do sujei to. Santos e No âmbito empírico Igbadu. apresenta influências cris tãs e kardecistas. pode ser entendido como todo o espaço diaspórico em si. mesmo sendo considerada uma religião ―pura .Page 266----------------------não ma possui um lócus fixo situação de ocorrência no contexto das social. tratando-se de u interações interculturais. Portanto. uma ocupação central desta análise. A hibridação não seria algo estático ou mecânico. como uma síntese medíoc e de uma correlação de forças. dependendo da comunidade de terreiro e de sua localização. por este não possuir consciência e tão pouco um controle desse processo. Outras considerações importantes proferidas por Bhabha se referem ao grau ocorrência dessa hibridação. Mas o que é a hibridação? É fato que a sua discussão vem rendendo acalorado s e ricos debates em torno de determinados eixos das ciências humanas. em graus maior ou menor.

sociais. uma necessidade fictícia. É.31. o seu êxito mede-se pela intensidade da consciência de que a questão fora. grifo nosso) pela sua deve primar Assim. p. simultaneamente. uma Para atmosférica Dussel (1993). contra quem. Se a resposta é obtida. crucial c onhecer quem pergunta pela identidade. em que condições. com caráter de o afirma sujeito subalternizado. Quem pergunta identidade questiona as referências hegemônicas mas. o o fato de que não se pois. – que não . numa situação de carência e por isso de subordinação (. todos os elementos – sejam eles seguem à lógica da marca para o início da modernid culturais.). etc. Para quem a formula.. Tal entendimento se correlaciona em muito com a idéia de Boaventur a de Sousa Santos referente à enunciação de identidades: As identificações. uma vez existe toda uma gama de relações de poderes que o silenci a. 1993. significa entender encoberto pelos valores hegemônicos sociais e. com que propósitos e com que resultados (SANTOS. apresenta-se sempre como uma ficção necessári a. científicos..bem como dos valores históricos que imperam sobre a consciência dos indivíduos desses terreiros. temos como inegável por estabelecer um enunciação social do Spivak (1985). assim. além de plurais. precisamos r esgatar a obra de Enrique Dussel – 1492: O Encobrimento do Outro. Para entender exatamente essa lógica do encobrimento. A questão da identidade é assim semi-fictícia e semi-necessária. ao fazê-lo. desde o início. que enquadrava o homem europeu como o único ser mode rno e que vê no advento do Renascimento a ade no mundo. teórica que o pensamento iluminista propiciou permitiu uma visão do si mesmo. a origem do mito da modernidade. entender quem está a buscar a enunciação de sua quem está sendo identidade. pois. são dominadas pela o bsessão da diferença e pela hierarquia das distinções. Portanto. co loca-se na posição de outro e. subalterno não fala. Contanto. perceber quem é o Outro na soc iedade.

sem Imaginativa. as estabelecendo ali suas crenças.razão imposta pela ideologia européia. que possui são considerados apenas como a . era sempre com máximas abstratas inabaláveis sobre a ―civili zação que tinha estudado. não enunciar os é o pioneiro nessa forma de fatores imperantes sobre uma determinada dominação. Said elucida essa questão quando exemplifica a situação de um grupo de pessoas que se estabelecem em um ambiente territorialmente delimitado. está Entre o caráter as muitas categorias da Geografia que esse autor trabalh mofadas. aplicando-as. os seus valores. p. Esse autor denomina os estudos sobre a cultura oriental proferidos por pensadores 266 ----------------------. a.Page 267----------------------do ocidente por Orientalismo e postula uma crítica a esses autores. já demanda uma análise que por si mesma tende à negação da alteridade do outro. onde a representação do que oriental periferizado espacialmente do cent ro europeu. análise. Dessa forma. quando eles r ealizam induções sobre o Outro a partir de suas próprias percepções e modos de vida. Desse modo.89). todo o contexto externo a esse espaço. 2003. relatando os processos rões de vida do de indução de pensamentos apriorísticos sobre os pad homem asiático. Edward Said (2003) é que primeiro quem o faz. desse grupo. Said segue desconstruindo os autores classificados co mo orientalistas: Quando um orientalista erudito viajava no país da s ua especialização. portanto (SAID . visa entretanto. raramente os orientalistas estavam interessados em algo que não fosse provar a validade dessas ―verdades grande sucesso. que Dussel. com valores que são estranhos aos indivíduos cultura ―deles . a nativos que não as compreendiam – degenerados. são encobertos pelos processos de dominação e impos ição de valores.

anal isando como essas formas de encobrimento e de preconceito são socialmente construídas. o projeto estabelecer uma múltipla da temporalidade (BHABHA.características comparáveis ou não à ―nossa . ação de Se transplantarmos encobrimento sobre as essa pode-se mesma pautar análise para a situ a partir religiões de Matriz Africana. do conceito de pecado. Se ―eu pratico uma adoração religiosa cristã e ―ele como um pratica o culto dos orixás. dessa mesma metodologia de a análise desmitificar determinados dogmas estabelecidos socialmente sobre o Candomblé. que precisa de salvação e que. ao se estabelecer uma valoração social da cristandade. e geográfico. uma vez que eu negarei o tempo todo a sua alteridade. que exonera e vista social marginaliza a figura da cultura alheia à forma dominante. que solidificam dominante e desfavorecem paradigmas as que legitimam o poder pós-colonial 2005) visa. precisa ser evangelizado. Tem-se aí uma do monoteísmo e a sob o santificação do ponto de ciúme de um deu ambientação quase que inquebrável. Assim. logo eu o vejo herege. epistemologia das 267 ----------------------. como ocorre com o Candom blé. do maniqueísmo. Portanto. atribui-se a elas e descaracteriza tudo o que é uma afetividade maternal qu estranho. dessa for ma eu executo sobre o Outro o meu pró-elitismo religioso que o encobrirá. Desse modo. a elevação .Page 268----------------------ciências. o. portanto. e desfazer sobretud certos percepção vícios na . Essa perspectiva é um modo de se e tabelecer distinções geográficas puramente arbitrárias. quando se estabelece em um determinado espaço uma cer ta confluência de valores e práticas.

e não atendem aos padrões vigiam e punem as práticas qu . não está se referindo somente a luta de classes. p. apresenta. A produção do espaço urbano foi tema de uma vasta produção especializada n a área da Geografia. cita-se Harvey. 3. Dentre algumas contribuições. reflexo e condição social e campo simbólico e de lutas. Para Corrêa (2001. características acima a riqueza de cada uma delas privilegiando uma das apontadas sem. etc. Christaller. Castells. S antos. várias características qu A partir desse entendimento. Evidencia-se abordagens com que o espaço urbano pode ser considerado. permitindo a coexistência e recepções.145). geralmente contraditórias. Na presente análise. simultaneamente. entendendo como ele produz e é produzido. que induzem das mais variadas formas de ações práticas de inclusões e exclusões. espaço urbano. a categoria espaço ganha notoriedade em sua dimensão urbana. na verdade ele procura expressar toda uma gama de relações de poderes so brepostas nas relações cotidianas que policiam. O espaço urbano pode ser assim submetido a diferent es análises pelos geógrafos. Quando o autor menciona o termo ―campo simbólico e de luta . contudo. tais considerações deverão ser empreendidas sobre o espaço urbano e a dinâmica e lógica das cidades. sobretudo aquela que versa os estudos urbanos nas vertentes clássica e contemporânea. visto enquanto objetivação cidade. o geográfica do estudo da e interessam ao geógrafo: é fragmentado e articulado. Corrêa. é necessário desempenhar – antes de mais nada – considerações que revelem algumas das características desse espaço. O ESPAÇO URBANO E A CIDADE: APONTAMENTOS TEÓRICO-CONCEITUAIS Para que se produza um hall enunciação pautado cientificamente so bre a busca pelo direito ao espaço realizada pelas religiões de matriz africana. excluir as demais.produções de conhecimento advindas de outras realidades. excludentes e/ou articulad as entre si. Carlos.

Ademais. ocasionou a incorporação de v alor a este meio. coesões. as bases teóricas que respaldam o entendimento do espaço ur bano permitem pensar que a lógica de produção dos estatal e lugares obedece às forças impostas pelos sistemas capitalista impregnados no espaço. como hierarquizado. e ao serem aço construídas. . Desse modo. re vela que o processo histórico. imprimindo forças s sócio-espaciais enquanto processo centralidades. dessas lutas. essas condições produzem um esp diferenciado. já que é o suporte para a reprodução das sociedades. mobiliária. passam a ampliação a produzir das redes De meio natural.52-53) friza que o lugar é constituído como condição para a produção e para a vida. que se consubstancia como um dado modo de vida. p. tal característica historicamente produzida se propala de forma intensa pelas ações qu e envolvem a especulação e serviços. Carlos (2003). que passa a representar as garantias de sobrevivência e de acumulação. contraditório. dividido. a um espaço específico: o 268 ----------------------. que imprimiu mudanças no meio natural. Acrescenta-se a esse pensamento a idéia de que o processo de expansão capi talista e a constituição do espaço urbano creditam ao espaço geográfico a propriedade do valor. Carlos (2003. simbólicas hegemônicas O e espaço assume a simbólicas construindo representações cobertas. que representações e são espacializadas de modo a revelar as desigualdades quanto ao direito e ao acess o nos espaços na cidade. tal mudança ger informação.Page 269----------------------geográfico. comércio e a intervenção que estatal. inércias. etc. em sua análise sobre o processo de produção do espaço. descentralidades. remembramentos.imputados pelas lógica dinâmica ideologias dominantes.

Ainda segundo esse autor. religião e como um modo de luta. dentre ao indivíduo e aos grupos sociais. imputados por uma lógica dominante.Page 270----------------------- . que vão ao encontro da luta de classes e negam as relações de valores históricos e sociais. a que o Não longe dessa espaço urbano se compreensão. econômicos. então. Desse modo. 269 ----------------------. sociais. struturas se formam não é difícil perceber o fato de que determinadas e em que as dessas outros. propiciando segregação sociais. como ritmos do cotidia no. essa fragmentação inevitável e atua como reflexo da sociedade. que as condições constitutivas do espaço o torna hier arquizado. é completamente crível que essas rões hegemônicos instituídos hierarquias obedeçam a pad historicamente sobre uma sociedade. em alguns casos. Tal assertiva decorre do fato de que a essênci a capitalista de produção espacial nasce contraditória realidades de exclusão e e assim se perpetua. tornam-se mecanismos de negação e subalternização de pessoas e lugares.formas de relacionamento. que passa a negar outros valores in feriorizados. que se fragmentações firmam enquanto reflexo das condições imanentes a esse espaço. como ideologia. representação de valores Diante culturais. hierarquizações construções. determinados estereótipos que em muitas vezes afetam as identidades e. de Corrêa (2001) paisagísticas afirm arti caracteriza por ser um conglomerado culadas entre si. de re distintas formas de poder. Entendendo. que passam sócio-espaciais o a espaço imputar é a s lutas dos sociais diversos e das relações ent é elementos urbanos por processos contraditórios e tornam representações dessas mesmas hegemonias. constituído sob o aspecto de um campo de elementos simbólicos.

além de ser desigual – como já foi aqui cons tatado –. para a maioria dos autores. novas a se localizar Tal O em vigente. não é simplesmente um mero elemento. p. minimizar obstáculos logísticos e concentrar a produção econômica. o espaço urbano. ela não é pautada apenas por reproduções objetivas. mas também po r práticas de gestão social. Em seguida.. crescimento áreas relativamente . mas ressalta que essa mutabilidade não suprime a existênci a das desigualdades e tão pouco das fragmentações e articulações desse espaço.. 2001. religiosa ssas que dinamizam a cidade. essa surge com o intuito de facilitar o acesso. Ora. a ocupação e a expan são que. o espaço social é também um condicionante social.] O condicionamento se dá elo homem. a literatura sobre Geografia Urbana evoca o surgimento. as formas de O espaço urbano teve a cidade como primeira forma espacial para su a materialização. sui se um a cidade. os espaços urbano dist da cid necessidades do sistema favorece a formação de ocupações que passam antes daquelas centrais. produção através do papel que as obras fixadas p espaciais.Para Corrêa. A cidade é uma forma esentativos do histórica que conta com elementos que foram e/ou são repr espaço. é também complexamente mutável. Contudo. um política. quais são os processos Como eles atuam e se configuram? de produção Para do um breve exercício espaço da de compreensão sobre a lógica cidade.149). talvez seja um aglomerado de elementos. com ade a ordem passam a da produção atender as econômica em questão. desempenham na reprodução das condições e das relações de produção (CORRÊA. p róprios do espaço urbano. urbano. de sobretudo. [. enquanto determinado grau forma de de transformação desse espaço? e. acontece com a emergência de uma área central. Para ele. práticas pos e espaço dinamicidade.

em boa parte. pode-se da cidade de Goiânia e Região Metropolitana como uma reprodução desse modelo. 270 ----------------------. elementos e or práticos q preocupação é a de apresentar ue sejam capazes de algumas construções como explicar a realidade imperante sobre ganiza os espaços do Candomblé goianiense. Postas faz-se URBANA REGIÃO E A INSERÇÃO DO CANDOMBLÉ EM GOIÂNI entender o crescimento as análises que necessário baseiam a pertinência do presen expor agora uma contextualização tempo/espaço do conjunto de procedimentos metodológicos que atendam aos Desse propósitos do presente modo. os grupos sociais que não atendem determinadas exigências econômicas são segre gados nesse espaço o quando o especulado. produtivos. salv inércia ocorre. mas valores topofílicos ou até ordens subjetivas. coesivas. buscando fenômeno da por novas áreas ocupacionais. adensamento populacional. fruto das que determinações comerciais em uma mercadológicas.processo promove o surgimento de novas centralidades que. que não são analisadas quando se vê o espaço e m uma escala totalizante. a principal projeto de trabalho de monográfico. mercados de consumo e trabalho e lazer. são decorr entes da lógica desigual de concentração de intensificação dos vetores renda. ou . uma vez que esse não se faz seguindo modelos e lógicas econômicas ou soc iais. EXPANSÃO A E METROPOLITANA te certame. determinadas formas determinada Não área têm-se do ordens espaço. se distribui Parte-se da premissa básica de que todo espaço social é historicamente produzido.Page 271----------------------4. agrupam Nesse crescimento. obstante. Por hora.

pode-se expressar expansão vertiginosa do espaço a idéia de que esse ritmo de ocas urbano associa-se ao processo de crescimento ionando uma crescente taxa de desigualdade sócio-espacial. sa Desde então. que teve o seu processo de fundação concretizado no ano de 1933. Além do mais. 2004. conhecida por Vila refere o projeto Boa.77). quando se tem o projeto modernista de interiorização territorial proposto corre de lutas internas travadas por grupos políticos eiros que visavam por Getúlio Vargas. o direito pelo espaço na metrópole. mente o processo de expansão a lógica da segregação esfera cidade indubitavel que Goiâni espacial. a e Região Metropolitana se percebe-se constituem por um processo de expansão acelerada. não fogem às realida brasileiras. ―sua especificidade depende basicamente da forma como se dão as rel ações sociais em determinado momento histórico a literatura (FREITAS. Concatenando essa idéia com o pens amento de Freitas (2004). a capital do ação política que entra em básicos dessa estado conta que circundam seguiu com uma a inten do consonância com os pressupostos sistema capitalista. sobretudo para os grupo . Partindo desse entendimento. entende-se que se trata de um espaço disputado por formas diferenciadas de poder que são representadas desigualmente no tecido urbano. sobretudo. A transferência da capital da Cidade de Goiás. fato. des das Essas demais características. Sua localização de que representavam as oligarquias locais com terc implantar governos progressistas no interior do país. p. a partir da década de 1930. metrópoles de econômico. retrata tais de construção e enfrentamentos no que se consolidação da capital goiana. conforme citada. mentistas A cidade de implementadas no Goiânia é produto das políticas desenvolvi território nacional. Assim.seja. Desse modo.

com as melhorias de que passam a coibir a presença de tais centros religiosos. afastamento dessas ademais. Essas comunidades é imputada às Comunidades caracterizam-se por ocuparem terrenos localizados inicialmente em regiões totalmen te afastadas dos grandes lcançadas centros. Ao se trata r dos grupos de matriz africana que lutam pelo direito de de sobrevivência de sua cultura. a confere-se que no es de Terre marginalização sócio-espacial iro. necessita-se de um espaço relativamente amplo. A resistência – que parte dos zeladores de santo passa a desempenhar – torna-se cada vez mais uma problemática no cotidiano desses praticantes. o fator econômico que pre exercidas pela especulação e pela int comunidades de terreiro para áreas cada vez nos centros mais períféricas.s desprovidos das representações estatais e capitalistas torna-se um desafio no cotidiano. o passar do tempo. com pela expansão urbana. mas que. quando se observa que . que. goiana. foram a proporcionando aos terreiros consideráveis pressões sobre as suas manifestações simbólicas . Sabe-se.Page 272----------------------paço da Diante metrópole dessa realidade. ssiona o É válido ressaltar. espaço e de garantias designa-se diversos conflitos para o segmento em suas relações com o Estado e outros grupos da sociedade civil que negam suas presenças e práticas culturais. para a re alização do culto aos Orixás. Os Ilê Axés157 localizam-se em regiões de Goiânia que antes eram periféricas e com baixo índice de especulação mobiliária e que passaram a infra-estrutura. 271 ----------------------. fatores incorporar. porém alguns Ilês localizados em áreas ainda centrais da cidade sofrem pressões olerância daqueles que forma o entorno das casas de Candomblé.

b) c) Processo de invisibilidade das Religiões de Matriz Africana no espaço geog Intolerância e negativação dos ritos do Candomblé. Outra resistência que se coloca ao grupo se dá quando se constata qu e as pressões que levam à retirada dos templos e por parte dos próprios para as como dos áreas forma elementos periféricas de também com rios decorr praticantes. que ta permite apontar outra aos mecanismos de condição realidade encobrimento a partir da ausência de políticas públicas. que problematiza urbano e a lógica de direito para os grupos culturais. uma vez que as Religiões de Matriz Africana. decorre do Essa exigência. Ausência de ações públicas para com as religiões de matriz africana. protestante e ka cista – frequentemente contam com onde os seus templos se isenções de impostos sobre as áreas instalam. 272 ----------------------. aqui os Candomblecistas: a) ráfico.urbanos os impostos territoriais (IPTU) assumem preços elevados com valores inaces síveis para a maioria dos Ilês. árvores. apontam que as religiões cristãs – católica. CONSIDERAÇÕES FINAIS m a produção Decorre dessa do espaço análise algumas questões. o que não acontece com as religiões de Matriz Africana e Afro-brasileiras. não possuem reg istros de recebimentos mbém obtida pesquisa. que buscam a periferia as tradições da prática. não romper naturais. que levantamento e de urge das realidades sublimadas e informações em órgãos oficiais. como 157 Ilê Axé é a denominação em Iorubá para a casa onde são realizados os cultos aos orixás.Page 273----------------------5. todos necessários à vivência do culto. que requer amplos espaços com presença . em Goiás. confere de incentivos ao longo da ou isenções fiscais. . animais. Essa da constatação.

1999. De acordo com a leitura de Foucault. como relações d e força que se entrecruzam. deve-se abandonar o modelo jurídico da soberania. em vez de buscar a forma única. se opõem e tendem a anular-se (FOUCAULT. essas evidências permitem responder às questões que norteiam os propósitos do artigo. Assim. edade. deve-se investigar como as relações de sujeição podem fabricar s ujeitos. não Entretanto. enfim. em sua reversibilidade: estudá-las. o ponto central do qual derivariam todas as formas de poder por conseqüência ou desenvolvimento. deve-se primeiro deixálas valer em sua multiplicidade. remetem umas as outras. Assim também.319) ações de Portanto. p. mas também não se deve simplesmente e xcluíla. em sua especificidade. faz da lei a manife stação fundamental do poder. mas a partir da própria relação na medida em que ela é que determina os elementos sobre os quais incide: em vez de perguntar a sujeitos ideais o que puderam ceder de si mesmos ou de seus poderes pa ra deixar-se sujeitar. Este. p ropõe-se o objetivo de explicar a gênese ideal do Estado. . se deve quando esquecer se fala as de poder na soci contribuições foucaultianas para essa questão: Para realizar a análise concreta das rel poder. analisar as correlações de poderes na sociedade não é simplesm ente analisar o poder burocrático ou a força da repressão estatal. deve-se enfatizar a pluralidade das for mas de poder e de como as sujeições produzem novos sujeitos. de fato.d) Periferização e marginalização espacial das casas de Candomblé. Como parte de a lógica de produção uma resposta do espaço mais ampla. press upõe o individuo como sujeito de direitos naturais ou de poderes primitivos. Esta passa a deter minar e reificar as hegemonias que se perpetuam sob formas e práticas sociais. convergem ou . pois. Dever-se-ia tentar estudar o poder não a partir do s termos primitivos da relação. ao contrário. afirma-se que urbano goianiense atende a uma densa rede correlata de poder. em suas diferenças.

2ª ed. CARLOS. 2006. Belo Horizonte: Editora UFMG. Sérgio. O Local da Cultura. ético-morais religios da ações primam por romper com as hegemonias s relações vistas nas contradições 273 ----------------------. Roberto Lobato. Em Defesa da Sociedade: Curso no College de France (1975-1976) para mudar os valores identidades no que e inocular subalternizam no os i g . A questão que surge é analisar se o Estado reproduz e se subordina p or meio de suas ações exclusivamente às as ou se suas ideologias econômicas e aquelas da sociedade. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. CORRÊA. Belo Horizonte: UFMG. DUSSEL. A questão é mais ampla e deve-se buscar soluções que visem combater formas de preconceitos maginário coletivo práticas de posicionalidades rupos com suas espaço da cidade. A ausência de e impostos. COSTA. 1492: O Encobrimento do Outro.para Desse modo. mas capaz de reificar esta reproduz por mas invisibilidade. dentre outras. violência. concessões de políticas públicas terrenos públicos é comprovado com a nção apenas de provocar pesquisa. Michel. A Cidade. 7ª ed. – São Paulo: Contexto. Teoria Social. religião. cosmopolit ismo. m de Assim. 6. 1993. 2005. Enrique. Ana Fani A. não se tem a apenas políticas de correção para esses aspectos. enfocar as religiões de matriz a necessidade de políticas públicas africana não é somente atribuir ao Estado a responsabilidade de manter ou mudar a re alidade dessas religiões em Goiás. 2003. anti-racismo. etnia. BIBLIOGRAFIA BHABHA. A origem do "m ito da modernidade". FOUCAULT. Trajetórias Geográficas.Page 274----------------------sócio-espaciais que se evidenciam por gênero. 2001. Homi K. infere-se encobrimento das que o Estado que não é ele o responsável pela uma meio ordem de d isenção inte d orde situações que evocam questões de religiões e poder de matriz africana. Dois Atlânticos. São Paulo: Vozes.

W. 24. uma ligação com a natureza. Uma entrevista co m Homi Bhabha. A Negativação Semântica das Religiões de Matriz Africana a Partir do Discurso Evangélico – Anápolis. 1985. E. como árvores. reli giosidades e territórios.Page 275----------------------TERREIROS CONCRETADOS: CONFIGURAÇÃO DOS ESPAÇOS E RITUAIS DO CANDOMBLÉ NOS CENTROS URBANOS CONTEMPORÂNEOS158 Graziano Magalhães dos Reis159 graziano. 2004. Projeto ABEREM . SPIVAK. p. 1ª ed. FREITAS. Cesar A. e suas práticas cotidianas que também estão inseridas no modo de produção vigente. Gayatri C. Modernidade. 35-41. 274 ----------------------. O terceiro espaço. Utilizando os recursos da etnofotog rafia. identidade e a cultura de fronteira. Sociologia da USP. Edward. São Paulo. Revista de. Marcos Paulo de Melo. água corrente ou mesmo espaços abertos onde ocorrem s uas festas. Anápolis. São Paulo: Companh ia das Letras. No. In: Tempo Social. Dissertação de Mestrado. 2007. Can the Subaltern Speak?: Speculations on Widow Sacrifice. 2007. estudos de comunidades. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Boaventura de Sousa. Vale dos sonhos: movimentos sociais urbanos e disputa pelo espaço em Goiânia. SCARAMAL. v 1. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. SANTOS. por conseguinte necessita de uma série de elementos. 2003. Monografia Graduação em História. necessariamente. SAID. RUTHERFORD. FUEG UNUCSEH. analisando através da imagem esses espaços destinados às práticas do Candomblé nas regiões metropolitan as. onde estão expostos às pressões externas como: supervalorização imob . 1999. Universidade Estadual de Goiás.com Universidade Es tadual de Goiás-UEG/CieAA RESUMO Este trabalho se propõe a uma análise dos terreiros de Candomblé da região metropolitana de Goiana no sentido de configurar seus espaços. Os ritos do Candomblé são . Labre Lemos de. ou seja. 1996. São Paulo: Martins Fontes. In: I seminário de pesquisa dos professores da UNUCS EH.África no Brasil.18-20. territórios dispensados ao sagrado . Jonathan. Novembro de 1994. IESA/UFG: Goiânia.magalhaes@gmail. uma extensão territorial que comporte suas práticas. W edge 7. RAMOS..

a territorial extension involving their p ractices. Candomblé. Power. and practices of subordination that are submitted practitioners of religions of African origin. Candomble. running w ater or open spaces where they occur their feasts. Nesse sentido determinar como se configura esses espaços sagrados evidenciando as diferenças entre centroperiferia elencando os elementos da religião que em relação com os fatores supracitados sofrem uma descaracterização. which causes a direct change in the ritual practices that are essential for transforming the imaginar Candomblé religion. 275 estagiário e bolsista PIVIC/UEG do . na Unidade Universitári a de Ciências Sócioeconônicas e Humanas de Anápolis. Geopolítica ABSTRACT This paper proposes an analysis of the Candomblé of metropolitan Goiana in order to set up their spaces. In order to d etermine how to configure these sacred spaces highlighting the differences between center and periphery by ranking the elements of religion in relation to the abovementioned factors suffer a disto rtion. as políticas de controle dos corpos. Poder. Mary Anne Vieira Silva e constitui o hall de produções do Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas na tentativa de ampliar não só os estudos so bre as Religiões de Matriz Africana como também de disseminar as práticas e as perspectivas pós-coloniais. Ms. where they are exposed to external pressures such as overvaluing property. Keywords: Etnofotografia. Centro Interdisciplinar de de Estudos África-Américas CieAA-UEG.iliária. o que provoca uma mudança direta nas prát icas ritualísticas que são essenciais para o Candomblé transfigurando o imaginário da religião. provocada pelo povoamento denso dos centros urbanos. e as práticas de subalternização que são submetidos os praticantes de religiões de matri z africana. Palavras-chave: Etnofotografia. territories given to the sacred and the everyday practices that are also included in the existing mode of production. Geopolitics 158 Esse trabalho orientado pelo profa. looking through the image of these spaces for the practice of Candomblé in metropolitan areas. 159 Graduando em HIstória pela Universidade Estadual de Goiás. ie. The rites of Candomblé are nece ssarily a connection to nature. caused by dense stands from urban policies for control of bodies. therefore requires a number of elements such as trees. Using the resources of etnofotografia.

emergem estudos que buscam co nhecer os espaços em que estão alocados as religiões de matriz africanas. cada vez mais. Os terreiros.Page 276----------------------INTRODUÇÃO ntro No bojo interdisciplinar das pesquisas de estudos realizadas pelo CieAA (Ce África-Américas). A ETNOFOTOGRAFIA A escrita fotográfica desperta o interesse. Ilê Axé Canto de Oxum. Pressões da Região pressões metropolitana externas como: de Goiânia. Esta escrita não é entendida como uma mera duplicação da realida de. em que entos formadores das paisagens. (POSSAMAI. a lógica do modo am de produção vigente e as relações sociais dos das religiões de terreiro. utilizados para esta análise. poderia ser apreciada com diferente da primeira realidade contida num fragmento de tempo . as relações s ociais estabelecias sob a ótica dessas comunidades. a o uma segunda realidade. em uma relação dialética. em pesqu isadores de diversas áreas das ciências humanas. provo supervalorização que permei de a malha de africana preconceitos com a praticantes fora do matriz que sociedade constituem os mecanismos normatizadores da sociedade. liderado por Mãe Maria Luiza Ti Ox un e o Ilê Axé Onilewá Azanador comandado por Mãe Tereza Ti Omolú. Neab da Universidade Federal de Goiás. utilizando os recursos da etnofotografia. p 225) fotografia. 2008. e espaço que apenas existiu no momento em que foi apertado o botão e que soment e pode ser alcançado como representação visual. se busca: apreender os elem capturar pelas imagens os elementos simbólicos. bem como. estão inseridos em áreas distintas cando alterações em suas paisagens. Nesse sentido os terreiros são analisad os. e analisar de que forma esses são definidores da identidade do candomblecista.----------------------. devido as diversas imobiliária.

No decorrer do século XX a antropologia visual e . mas representação. não como uma reprodução. o estudo dificuldades de ordem teórico-met da imagem. John K. Esta última. se ndo o espaço enquadrado pelo fotógrafo. Hillers o XIX apresentaram trabalhos fotoetnográficos aw Malinowski com indígenas em seu Os e Alice Flectcher ainda mesmo no sécul Bronisl norte-americanos. corrobora diretamente com m sua principal de resgate de ou grupos mesmo da socieda e os estudos etnográficos. também como instrumento de. da fotografia é uma fonte importante para a compreensão das rel ações sociais. 2007. Dessa maneira a etnofotografia é a interpretação do pesquisador. contidos em um espaço maior existente (POSSAMAI. Argonautas do Pacífico Ocidental (1922) utilizou de equipamento fotográfico em sua p esquisa. bem e histórica. uma e scrita sobre os grupos humanos. A fotografia. ferramenta de torna-se análise. é ela mesma histórica. p 154) .Page 277----------------------Mesmo apresentando grandes odológicas. O dos grupos uso das imagens sociais e ainda possibilitou a ampliação das análises e favoreceu ―para a reconstituição para uma melhor da história cultural de grupos sociais compreensão dos processos de transformação na sociedade( BONI e MORESCHI.Para essa abordagem. 276 ----------------------. o tratamento das imagens. para desvelar o passado. p 225) . a fotogra fia. se torna para um campo científico. no qual se caracteriza a fotoetnografia. portanto. 2008. A fotografia se insere nos estudos científicos como documento histór ico. uma fonte que apresenta diversas possibilidades de interpretação. no caso. ―espaço construído pelo olhar que seleciona os limites como o extraquadro através objeto do da anális fotográfico enquadramento.

sua morte. O francês Pierre Verger. a convite de Roger Bastide chegou ao Bras il em 1946 e aqui se consagrou como um dos grandes nomes da fotoetnografia brasileira. assim como o espaço . Verger se debruçou foi professor na sobre o estudo do Candomblé até a estão: O candomblé na Bahi Universidade Federal da Bahia. a partir da década de 30. Nomes com Claudia Andujar. característicos dessa cultura.Page 278----------------------O PODER. Em sua prod ução destacamse os trabalhos realizados sobre a cultura africana e afro-brasileira. a fotoetnografia começa a achar espaço entre os trabalhos científicos registrando a o Pierre Verger. Milton Guran e Rosa Gauditano se inserem como pesquisadores imp ortantes para o desenvolvimento da fotoetnografia nacional. buscou elementos produção e manutenção de identidades sociais necessitam do suporte espacial. com fotografias retratando o cotidiano d os terreiros. com várias publicações sobre o Candomblé. Pois. No Brasil. 277 ----------------------. Com o trabalho realizado por Verger a cultura dos prat icantes das religiões de matriz africana ganhou visibilidade.a fotoetnografia consolidam seu caráter científico. suas obras são clássicas nas análises sociológicas das ex pressões da religiosidade brasileira. Assim Pierre Verger mais do que retratar pessoas. religião a qual se iniciou. Entre suas publicações a: rito nagô (1958) e As Religiões Africanas no Brasil (1960). elementos imagéticos de suas identidades. AS PAISAGENS E AS IDENTIDADES A fotografia será aqui utilizada para destacar alguns elementos ma teriais presentes nos terreiros de candomblé da ―todos os processos de região metropolitana de Goiânia – GO. memória das etnias brasileiras.

aqui entendido pelo concei to da geografia como paisagem. no caso. as relações sociais. a cidade seria o espaço onde o poder disciplinar acontece. s pelos indivíduos ou melhor. Estes element os imagéticos. as estudo são paisagens do Candomblé presentes n em uma relação dialética. Não tem necessidade de ceri que restaurem a descontinuidade. a construção e manutenção das identidades e a relação estabeleci da com a realidade material. suas atividades cotidianas e o próprio espaço interno dos terreiros são controlados pelos poderes normatizadores da sociedade. materiais e imateriais que constituída por meio das relações sociais que qualificam as identidades. estão em É válido ressaltar uma posição de que estes terreiros de Candomblé subalternidade. 2005. Assim. do O poder disciplinar se caracteriza p invisibilidade e onipresença e implica num controle total corpo e da vida das pessoas. o espaço se transforma em suporte para o conjunto de elemen tos construtores. mas analisadas. no local onde acontecem comunicação. Desse modo. como discorre NEVES ela do mônias descentralização. onde ―procura-se solidificar o campo das relações e materializar os signos e valores c onstituintes da identidade (COSTA. são produtos. interação as formas com de o espaço. Utilizando as teorias de Michel Fouca ult. p 81) . as representações dessa realidade. tempo. são absorvida sociais e cristalizam as identidades. 2005. Ele é contínuo e refere-se ao futur e marcas . as fotografias Nesse em sentido. dos praticantes do Candomblé. ou seja. é dado pelos elementos habitam o campo do visível. é indissociável das ações sociais (COSTA. As id entidades passam também os pela rituais. p 87) . também construtores e cristalizadores da identidade. e também relacionadas com os cenários dos Ilês-axe localizados na região met ropolitana de Goiânia. Esse suporte material. portadores de simbolismo.geográfico.

o. carregam consigo o simbolismo que consolida as identidades dos praticantes da religião. 278 ----------------------. Todos manifestações para em os rituais. uma um exemplo é o caso do Orixá Ir sagradas. em que acontecem as festas e onde estão os assentamentos (locais sagrados. tais como: árvores sagradas fundamentais em que se utilizam as folhas. por conseguinte . Os elementos sagrados presentes nos terreiros são indispensáveis par a a realização dos ritos. exercício. p 87) Os terreiros. e o próprio Orixá). dentre outros. Porém. o próprio barracão. tanto pela malha de preconceitos que invisibilizam os praticantes das rel igiões de matriz africana. 1997. local das stas. Soma-se a estes o modo de produção econômico adensamento ou vigente. que supervaloriza as áreas a com forte formata o tamanho dessas s próprias paisagens e propriedades. espaços sagrados são locais para a celebração do culto. pois o candomblé no qual o próprio orixá é essencialmente um culto à natureza. apresentado como árvore frondosa. a normatização desses concomitantemente espaços.Page 279----------------------representa essa força oko. portanto. os rituais e. cria sabere s/verdades que não apenas a onduz ou justifiquem. Uma das características fundamentais dessa religião é a necessid ade de espaço físico. mas apontem se o indivíduo se c não conforme as regras instituídas.( NEVES. especial. onde tudo irá por si mesmo. as fe elementar. em que são depositadas as oferendas dos Orixás. quanto pela própria lógica do mercado imobiliário. A disciplina enquanto hábito. esses elementos formam as paisagens dos terreiros e. do a serem Os terreiros de inseridos no esse candomblé processo também acontece são organizados de com mo território urbano.

automático e anônimo. b) a c) a que a partir por pa da leg de permite atividade sonora com sons elevados. 170) Nos terreiros localizados nas áreas mais próximas do centro urbano e ssa ação se torna mais visível. discutido por Michel Foucault (2009). localizado no setor Urias Magalhães. smos legais Diante do exposto incidem sobre os mas também estes espaços. po de ser exemplificado aqui pela normatização das paisagens dos terreiros de candomblé por meio de várias situações : a) a determinação de medidas uma determinada hora legais. ou para Oxum que deve ser terreiros. normatização pode dificultar a realização de rituais em região de preservação ambiental. 2009. seu funcionamento é de uma rede de relações de alto a baixo. como por exemp lo. mas também até um certo ponto de baixo para cima e lateralmente. e o Ilê Axé O nilewá . pois. Onde os indivíduos também são ferramentas das se utiliza os poderes discip linadores como discorre Foucault: Organiza-se assim como um poder múltiplo. hos a a pressão poderes microfísicos. para ilustrar esta os: O Ilê Axé Canto de Oxum. é possível social afirmar dos que agentes os mecani circunvizin é realizado na mata. e o perpassa : fiscais perpetuamente de efeitos de poder que se apóiam uns sobre os outros fiscalizados. se é verdade que a vigilância repousa sobre indivíduos.( FOUCAULT. análise será utilizado dois terreir liderado por Mãe Maria Luiza Ti Oxun.inerentes a essa cultura religiosa. O poder disciplinador. erra sede ―sus tenta o conjunto..código não de postura. rte da vigilância sanitária de criação de determinados islação ambiental que animais em área proibição urbana. os despachos para Oxossi que colocado em águas correntes.

Essas perspectivas. A escolha desses Ilês para ilustrar esse trabalho se deve as sua s localizações. e o segundo está povoada. É possível observar o corredor que separa a casa à direita e a di visa com o lote vizinho. na realização de alguns rituais.Page 281----------------------determinadas plantas se fazem ndomblé. a circunda a casa no Ilê Axé Canto de Oxum. Figura 1: Região Metropolitana de Goiania A relacionada com diferenciação localizações existente urbana entre os terreiros discutida. o cultivo de 280 ----------------------. se mostra escasso. Logo o espaço que necessários para um terreiro de Ca ampla. O primeiro de um em uma região densamente lote. localizada na região metropolitana de Goiâni a na franja rururbana. uma vez que.279 ----------------------. está No âmbit geográficas. este d ado é importante ao avaliar a necessidade de uma área criação de animais. bairro construído por um conjunto de chác aras. bem como a área destinada aos elementos sagr ados para essa religião. em que a área localizado em uma região afastada do centro. . A fotografia abaixo retrata a entrada e é dado por um ponto do de em um primeiro diferenças Ilê Axé vista podem Canto momento são essenciais para a m ser de notadas Oxum. devido à organização o das paisagens fica anteriormente posto uma significativa mudança da organização espacial destes terreiros e. que anutenção do imaginário religiosos.Page 280----------------------Azanador comandado por Mãe Tereza Ti Omolú. em este várias recort interno do ambiente. conseqüentem ente. Ainda nesta foto se permite apreender que o espaço é pequeno.

inicia lmente chamado por apenas Ilê Axé Onilewá. à direita parte do barracão principal. pularmente incluindo árvores de conhecida como grande porte. nos suas diferença dado que presença dos elementos vegetais estes podem ser adquiridos em rituais. Ao fundo a Gruta de Oxum.Figura 2: Ilê Axé Canto de Oxum Quando se analisa pela fotografia do Ilê Axé Onilewá Azanador. podemos enquadrado notar na os cam porção centro-es dependências do Ilê. querda da fotografia principal. à esquerda uma área que comporta uma variedade de espécies vegetais. e posteriorme agregado o nome Azanadô pelos próprios visitantes . . elemento da paisagens que qualifica este Ilê. levam na fotografia às demais Sendo o o acima.Page 282----------------------Figura 3: Ilê Axé Onilewá Azanadô inhos que Ainda. onde a Paineira é a copa com fores rosa. A fotografia a baixo recorta a pais agens presente na entrada principal. mas também no culto de alguns Orixás. onde acontece as festas e outros rituais. o I roko que se apresenta como uma árvore sagrada que representa o fundamento da religião em questão. ali é reservado um espaço físico maior.Page 283----------------------As s. Como mostra o enquadramento da fotografia seguinte. interferem paisagens dos não somente na terreiros utilizados apresentados. como o Azanado po Paineira (Chorisia speciosa). mercados especializados. Figura 4:Ilê Axé Onilewá Azanadô 282 ----------------------. na qual se pode encontrar uma grande variedad e de espécies vegetais. outras i nferências são propostas. como por exemplo. 281 ----------------------. caminho que leva à parte dos fundos.

e comprimindo seus apenas criação pequenos assentamentos cimentados e apresentados por um visual asséptico. por estar e m uma região densamente aqui povoada as práticas de Ketu fica inerentes a a constituição de do Candomblé. não existe para a espaço físico do que comporte to tradicionalmente. reguland o a duração das . são essenciais ico da religião.Que no Ilê Axé Onilewá Azanador é uma frondosa Gameleira Branca Figura 5: Ilê Axé Onilewá Azanadô Os as. Figura 6: Ilê Axé Canto de Oxum 283 ----------------------. as legislações que a limitam a criação de animais ambiental que dificulta a realização de rituais.Page 284----------------------Figura 7 : Ilê Axé Canto de Oxum Características estas não presentes no Ilê Axé Canto de Oxum. como a terreiros apresentam presença de água outras características distint corrente. ou mesmo a lei de postura.Page 285----------------------PASSOS E DESCOMPASSOS DA GUISA DE CONCLUSÃO Os terreiros. A normatização imposta pelas relações legais e em área urbana. ou a possibilidade de criação dos animais utilizados nos rituais. Figura 8: Ilê Axé Canto de Oxum Figura 9: Ilê Axé Canto de Oxum 284 ----------------------. comportando is. sociais. considerando que o próprio termo se remete à terra. estes constituição imaginário ritualíst sofrem com as pressões dos poderes disciplinadores e controladores. qua ndo localizados nas dos áreas centrais onde os elementos que. anima impossibilitada.

outrora presentes tadas do centro.Page 286----------------------REFERÊNCIAS POSSAMAI. pp 81 Ibid p. ou mesmo. como por exemplo. In Geografia: Temas sobre cultu ra e espaço. n. Abbês Baêta. 285 ----------------------. org. As relações sociais que a comunidade circunvizinha estabelece com est es terreiros.doc. necessitam de ambientes públicos. o neolibe . MORESCHI. Rio de Janeiro. Ed.. 2005. Bruna Maria. 255 BONI.27. 2008. dificultando. P. Dezembro de 2007. despacho para Exu. Zeny Rosendahl. Con identidade e paisagens o processo contínuo de re-significação provoca significativas m udanças na identidade dos praticantes da religião. Fotoetnografia: A importância da Fotogra fia para o Resgate Etnográfico. 154 Disponível em: HTTP://www. os normatizados pelos terreiros nas regiões densamente povoa padrões eurocêntricos. As relações entre os conceitos de território . Zita Rosane. portanto no próprio Candomblé como se constitu i atualmente. Ibid p. história e vistas urbanas. identidade e cultura no espaço urbano: por uma abordagem microgeográfica.pdf COSTA. 225. das são Desse modo. Cláudia E.pt/03/artigo_paulo_cesar_boni. 87 NEVES. são construídas em uma relação de subalternidade.festas modificam o cotidiano do terreiro. História [online].2. Elementos. UERJ. Doc On Line. n 03. Fotografia. pp.ubi. Paulo Cesar. tal situação decorre do intenso processo de ações que negativizam suas práticas impedindo alguns rituais que religiosas. Roberto Lobato Corrêa. Benhur Pinós da. sofrem um processo siderando a relação de descaracterização entre nos terreiros de suas nas regiões afas paisagens. vo l. que deve se r realizado em local com grande movimentação de pessoas. Sociedade de Controle.

Rio de Janeiro. Abstract: In the House of Father Brazil. tro ca. Graal. Michel. ediated by the look of two authors. PA. p. em especial. PA. 1997.). Trad. Tambor de Mina roots maranhenses in the town of Belem. 37. performance. mediado pelo olhar de dois autores. mas também das diversas tradições afro-religiosas originadas no Brasil. André tões contemporâneas. in particular. Palavras chave: Tambor de Mina maranhense. This work has ethnographic character and shows some daily practices not only of the Mina. a da Antropologia: Franz Boas e que fazem parte da Históri Marcel Mauss. Vigiar e Punir : o nascimento da prisão. A partir da aspectos das religiosidades de matriz africana: ancianidade. is realized From the party. Este trabalho tem caráter etnográfico e mostra algumas práticas cotidian as não só da Mina. m aspects of the afro-religiosities: seniority. that part of the history of Anthropology: Franz Boas and Marcel Mauss. Ed. but also of the various religious traditions afro-originated in Brazil. Tambor de Mina de raízes maranhenses na cidade de B elém. __________Microfísica do Poder / Michel Foucaul. perf ormance. ritual. exchange. Roberto Machado. . 1979. Org e trad. 87 do et al. the party to the I looked at some enchanted Sir Zé Raimundo. performance. (Org. 286 ----------------------.Page 287----------------------UM OLHAR ETNOGRÁFICO PARA FESTA DE SEU ZÉ RAIMUNDO DO PAI BRASIL Mírian Tesserolli160 Resumo: Na casa de Pai Brasil. Petropolis. São Paulo: Hucitec. In: SILVA. Raquel Ramal hete. ancianidade. ritual. RJ: Vozes. troca. ritual. 2009.ralismo e os efeitos de subjetivação. Subjetividade: ques FOUCAULT. se realiza festa. a festa para o encantado Seu lancei o olhar para alguns Zé Raimundo.

Não vou me referir. É professora do curso de História do Campus de Porto Nacional. É nesse mome nto que o grupo se pensa. definido pelo grupo como diferente do cotidiano. Contato: mirianuft@gmail. exchange Introdução A vida social dos praticantes das religiões de matriz africana é mar cada por rituais. também. seniority. ressaltando o que é comum 160 Graduação e mestrado em História. mas ao que torna esse mom ento ímpar para. p. desde 2003. visitando outra casa em época d e festa. próprios pa . É comum encontrar os neófitos de uma determinada casa. 10). às diferenças entre os rituais das diversas casas de religiões afro-originadas. quando são convidados. revelando representações ariza Peirano e valores que lhes são próprios. TO. se recriar. da Universidade Federal do Tocantins. (PEIRANO. M diz que ―rituais são bons para transmitir valores e conhecimentos e. coordena a organização dos Colóquios Afro-rel igiosos que acontecem em Porto Nacional. É líder do Grupo de Pesquisa do CNPq Religiosidades e Festas. cursa o doutorado em na Universidade Federal de San Ciências Sociais com ênfase em Antropologia na Universidade Federal do Pará.com 287 ----------------------.Key-word: Tambor de Mina maranhense. esse é um momento especial que aponta e revela representações e valores de um dado grupo.Page 288----------------------a um determinado grupo arte que me interessa. dança ndo. ritual. aqui. participam do ritual dessa outra casa. Mas não é só nos momentos de festas que os rituais acontecem. através dele. É essa última p especial: o que é comum a um determinado grupo. A tese de doutoramento é sobre Nanã. A festa é um momento especial. em 2003. divindade presente nas afro-religiões. se expressa e mostra uma performance ritual que tem a ver com as histórias míticas de suas divindades. Sua área de trabalho e pesquisa é História da África e Cultura Afro-brasileira. Em alguns momentos. performance. ta Catarina. com ênfase em afro-religiões.

indo para a s periferias.ra resolver conflitos e reproduzir as relações sociais (PEIRANO. seu pai é um ritual de Tambor da casa de Mina. Transmitir valores e conhecimentos: é isso que é comum a um dado grup o e que me interessa lançar o olhar. Normalmente os em terreiros se localizam longe dos centros urbanos devido ao som dos tambores e à di scriminação que sobre essa religião é exercida: os marginalizados são excluídos dos centros. O que descrevo a seguir a do Pai Brasil. a exemplo da pajelança. neste Estado. sejam eles fechados ou abertos. na cas Jorge Itac maranhense de Vodúnnon espiritual. ao longo dos anos. no final do ritual que descrevo. e ainda Foram existem tão ressignif no Bras conhecimentos das religiões il. Mas na casa do Pai Brasil é a filiação maranhen se que vemos e. Provavelmente quando ele foi para esse bairro. nesse momento. ali poucas casas existiam. como o que veremos a seguir. A casa de Pai Brasil localiza-se no Jardim Sideral. prática com boi Nesse caso fazem parte da específico. por isso. Com o crescimento da . as brincadeiras cultura e a maior parte dos caboclos encantados atualização de uma são boiadeiros. No Maranhão. tomou feições interessantes devido à mistu ra com os rituais indígenas. Ao realizar rituais. i de Pará. não só em Belém. mas em todo o Brasil. p. icados que os africanos que se juntaram trouxeram aos que tão da África. 2003. 10). a maranhense que não se fazia presente no Pará. PA. transmitem os conhecimentos que foram sendo ressignificado s. uma brincad eira dos encantados com um boi. A festa Belém. Esse foi um processo pelo qual muitos terreiros passaram. com linhagem Oliveira. O Tambor de Mina. em Belém. formando uma religião existiam misturada quanto o povo brasileiro. vamos encontrar.

cidade.Page 289----------------------cultua os voduns161. por de junho de 2008. a rua é de terra e . na verdade . ficam as pessoas que vão assistir à cerimônia. os orixás e os encantados. Pai Brasil. Quem nos recebeu. às pessoas que possuem algum tipo de cargo hierárquico. estava prestes a iniciar. foi a Ekedi162 do Seu Zé Raimundo. Dissemos que gostaríamos de tirar fotos e gravar o ritual. provavelmente cantando. Do lado de fora. Iemanjá (orixá) e uma foto de Seu Zé Raimundo. mostrando sinais dos tempos violentos de hoje. caboclo enca ntado. à direita. dos orixás e que do encantado remetem à Seu Zé Raimundo: Dã (vodun) e a ao entrar. pinturas do dono da casa. O terreiro é todo murado. com seu colorid o chapéu de boiadeiro. As paredes são pintadas com as figuras dos voduns. religião de m atriz africana que 288 ----------------------. do dia outros pesquisadores. um metro de altura. à casa de Pai Brasil. para tanto era necessária a permissão que ao ser consultado deu sua aquiescência. tem alguns seguranças na porta que ficam vigi ando os carros das pessoas que vêem para assistir a cerimônia. Pai Brasil filia-se ao Tambor de Mina maranhense. Do lado de dent ro. no máximo. na frente. da mesma tradição ou não. Oxalufã (Oxalá velho – orixá) com seu apaxorô e Oxum (orixá) e. um lugar para sentar de onde Indicaram-nos tínhamos uma boa visão de tudo que se passava no salão. Esse salão é delimitado por um muro de. já no interior da casa. aci ma da . os bancos são reservados às pessoas que se filiam às religiões afro-brasileiras. O salão principal tem um mastro central com uma trepadeira que o c obre por inteiro. a festa do Seu Zé Raimundo. 14 Quando chegamos. eu e volta de 20h30min horas. o lugar também foi sendo povoado.

o ogã cuida das coisas da casa.porta que leva à um outro salão. várias estátua s em tamanho oclos. 289 ----------------------. no Cand omblé angola. entre outras coisas. um espaço destinado ao boi nhou do caboclo encantado Zeca Baiaco. O chão é de cerâmica . as entidades reverenciadas são os orixás. Chegamos até esse pequeno quintal para observar o movimento. 162 Ekedi e ogã são cargos que existem tanto nas diversas tradições de Candomblé quanto no Tambor de Mina e eles têm basicamente as mesmas funções: a ekedi. ou ainda. Vale lembrar que os caboc los são boiadeiros e que brincam com o boi. os inkíces. cab léguas. nos informaram. representando as famílias dos encantados: os codoenses. os entrada. os voduns e também os orixás são as entidades reverenciadas . Do lad aquário com pedras na base e algumas estátuas: Iemanjá e Oxalufã. há uma outra sala. como o Ketu. do provimento da festa. Ao fundo deste salão. que Seu Zé Raimundo ga Mané. por vezes. Todos se vermelha. outra foto de Seu Zé Raimundo. à esquerda. No telhado. entre outros. membros da casa e logo fomos para o salão onde aconteceria a cerimônia. pouco com os para de cetim amarelo adornadas homenagear Seu Zé com fitas Conversam Raimundo. todos princesas os turcas. são misturadas em uma mesma tradição. com roupas e adereços: nobres. natural indígenas. uma pintura bem colorida que também remete aos encantados. ainda à esq uerda. e na parede da turcos. quando encontrou com ele em um terreiro no Maranhão. segundo os um vestiam com roupas verde e marrom.Page 290----------------------o esquerdo. Mas a referência às divindades. um pequeno quintal no qual estão construídas alg umas salas que são destinadas aos filhos da casa. 161 No Tambor de Mina. Em outras nações. . Na parte detrás do existe um pequeno salão. cuida dos neófit os quando entram em transe. bandeirolas de papel coloridas e ventiladores. Mais à frente.

ao escutá-los. Os batas estavam cobertos com um tecido ritual. como é mais conhecido) . gra e através deles podemos perceber algumas continuidades étnicas. Assi m como os neófitos passam por um rito de iniciação.Page 291----------------------entrou cantando Começaram. pois os tambores têm função fundamental nessa comunicação. dois atabaques. Os tambores começaram a tocar: são três batas (sempre presentes nos rituais Do Tambor mato. Esses tambores são sagrados e brincadeiras que o povo de ―santo 163 faz. quatro de Mina). no centro sul do de tambores que são estado do Tocantins.290 ----------------------. sempre é para Exu que se canta primeiro para que ele abra os caminhos e que tudo corra bem naquele ritual. instrumento de metal com apenas um sino. f ica muito claro cação a importância dos tambores dos humanos com os não só no transe. um tambor do xequerês ou cabaças (com uma trama de contas ao seu redor) . os tambores também passam: ficam recol hidos na camarinha. e vos à entronização na religião.como eles nomeiam . nitidamente de é dançada ao som não recebem devem todos ser os usados rituais nas relati eventuais Os tambores são de grande importância na cultura ne 163A expressão ―santo se popularizou na fala de todo povo de terreiro devi do à imposição do catolicismo durante os quase 400 anos de escravidão africana no Brasil.e u m ferro (ou gã. mas na comuni voduns. orixás e encantados. Pai Brasil Marabô: nas religiões de matriz africana. variante do agogô. Os batazeiros. então. babalorixás e yalorixás . Existem pesquisadores. são já antes de ter início o quand chamados os que tocam os batas. são alimentados. Por exemp lo. como de renda. para o exu os movimentos iniciais. a súcia. A orquestra de tambores tem um som magnífico e. o Pai Brasil entrou no salão estavam em seus lugares cantando para Marabô.

Inicialmente praticamente troca de Brasil. através do tipo de tambor usado nas diversas manifestações culturais. pois acreditam na necessidade da afirmação da ident idade das religiões de matriz africana de forma independente do sincretismo. não faleceram. as diferenças ptíveis: no caso do Seu Zé Raimundo. p. a exemplo do Tambor de Mina. entre os Dogon. sem Pai Brasil entrou em caboclos dessa religião Raimundo. quando Os para Cantaram e dançaram os caboclos. O mesmo acontece com todos os outros. é por demais importante no desempenho dos papéis e isso foi transplantado para a organização das outras religiões d e matriz africana. Entre os Akan.Page 292----------------------tradição jêje: são retos e não afunilados como nas tradições nagô ou keto. Foi para transe são todos com os Seu voduns Zé e. Como já foi citado anteriormente. os atabaques presentes Atrás do Pai Brasil entraram outros participantes.). ao entrar em transe. Na África. são Talvez neófito entra em transe. 291 ----------------------. em África. colocou uma bata beije com listras douradas. do culto dos orixás que datam mais de 5 mil anos. 39. seguida. seja difícil perceber quando o encantaram. o tambor de axila foi entregue ao homem pelo preexistent e para que se comuniquem. que não se assemelha à do ser humano. um a um. ex istem vestígios. Voltaremos ao assunto posteriormente. portador de sua própria palavra (LEITE. na casa em e ordem determinada pela senioridade. podemos identificar as tra dições mais presentes. ele solta o cabelo164 do Pai pa e coloca um chapéu. igual a dos outros participantes. cumpri mentando-o com a benção. através do som dos tamb ores as divindades emitem sua voz. o tambor de fala – Tchereman ou Tama – é co nsiderado um ser vivo. 2004.que não utilizam nunca esse termo. quand . Ou seja. por isso imperce rou encantados. estava com a roupa amarela de cetim. afinal. ou seja. Na pelos o cargos princípio que da ocupam senioridade organização social dos africanos.

o entram em 164 Pai Brasil tem os cabelos compridos. na altura dos ombros. podemos ir lá conversar com eles. Em alguns m os ritmos tocados dura principal. trouxeram o Boi Zeca Baiaco para o salão. pa ra dançar com ele. os encantados fazem a saem para a sala atrás do salão festa! Quando os caboclos dançam e cantam ao som dos tambores. e os d eixa presos com um elástico. O boi é bem enfeitado com bordados . entr aram em transe com entidades femininas e estas se mostraram muito carinhosas e bastan te gentis. pedi e fitas novinho e não saber dançar muito bem. Enquanto os voduns. Alguns caboclos.Page 293----------------------transe165: trocam de roupa e/ou se caracterizam.Page 294----------------------Ao terminar o ritual. Alguns médiuns homens. que nos perguntam se estamos bem. também. notadamente homossexuais. depois de incorporados. quando nos aproximamos para conversar. O Seu Zé Raimundo toca o tambor do mato. 165 É importante notar que o transe acontece. em ordem determinada pelos ca rgos que ocupam na casa e pela senioridade. tocam os instrumentos. 293 ----------------------. dur ante o ritual. Os caboclos omentos saem do salão para ir tomar cerveja: eles gostam muito de cerveja. que é o tambor mais grave e é o que ―puxa nte o ritual. 292 ----------------------. Disse o Seu Zé Raimundo que ele u desculpas por ele ainda ser tinha acabado de nascer. faz em uma espécie de benção. cacheados. não bebem nada. inclusive de acordo com o sexo de sua entidade: um lenço amarrado no chapéu ou um chapéu mais masculino. desejando bom auguro.

): utilizam-se apenas algumas partes dos animais nos rito . se precisamos de algo. Uma das visitantes pediu um pedaço de bolo a uma das pessoas sem saber que ela estava em transe com u m encantado do sexo masculino. vatapá. Falando das comidas e das trocas. como é comum em todas as festas das religiões de matriz africana. se estamos bem servidos. Somente ao final fui avisada que era o encant ado. suas interação famílias. No primeiro. cheguei ao final de uma festa e converse i muito com ele. na parte de baixo tem um tecido muito florido e uma coroa de flor es nos chifres. seu criado! . essa começou a ser pre parada com três meses de antecedência. ele já h avia trocado de roupa três vezes e já sabíamos que o Pai Brasil abriu um barracão em Mosqueiro. galinha no tucupi com jambu. que vão até as mesas e são servidos pelos ca perguntando se está tudo bem. achando que era o Pai Brasil. Nesse momento. maior Ne encantados. senhora!: De nada! Mas quem está aqui é Antônio de Léguas. em um momento que esteve em nossa mesa. As comidas servidas são as da região: maniçoba. para o Seu Zé Raimundo. O bode e a galinha são animais utilizados nos rituais que ocorrem pa ra a preparação das festas (elas começam a ser preparadas muito tempo antes. a festa continua no quintal. disse: ―Eu sou um negro metido: gosto de me vestir bem. ele assim disse. bode. Esse entre os convidados é um momento e os sabendo no qual seus há uma nomes. é quando ficamos ssa festa.na parte de cima do corpo. ela ter agradecido com um depois de dar-lhe o solicitado e d ―obrigada. cidade p róxima de Belém. Todos os convidados sen tam-se em torno de mesas organizadas anteriormente boclos. Nesse segundo encontro. arroz. tive o segundo contato com Seu Zé Raimundo. com muita comida e bebida. de receber bem e de ser dono de barracão . Quando o ritual finaliza.

pois a cada ritual é oferecido para uma relação de troca diferente. Algumas religiões afro-originadas utilizam o animal todo. O ebó é uma prática ritual de reposição de energias para equilibrar as forças cósm cas. A harmonia entre o mundo espiritual e o mundo terrestre fundamenta o culto de voduns. Mas essa não foi a primeira oferenda para Exu: a festa começou a ser preparada com ritua is de oferendas três meses antes da data estipulada para que ela acontecesse e a primeira oferenda que foi feita. nos despachos em encruzilhadas os animais são abandonados inteiros. dando conteúdos diferenciados a cada ato ritual e v otivo. paz. o de conceituais. nomeia as uma divindades. relação Assim. existe uma consciência ecológi ca bastante presente e sabem que precisam da natureza de diversas formas. por exemplo. pois que está sempre em busca de repor as energias cósmicas num consta . Isso acontece nos Candomblés e no Tambor de Mina. Aqui. Esse caracterizado por culto é mediado formas de pelo ebó: um agradecimento preparar e oferecer materiais. Tem como objetivo restituir seres humanos. om saúde. Ebó pode. No início da festa. s retribuem com possível. e o mundo a harmonia das entre a natureza. ebó toma outras como Muniz formas um Sodré oferecimento. orixás e ínkices. há uma oferenda para Exu para que tudo corra bem durante a festa. Mas a característica das diversas tradições do Candomblé e do Tambor de Mina é de não desperdiçar alimentos. foi para Exu. os divindades.Page 295----------------------utilizado como alimento pelo povo de ―santo .s e o restante é 294 ----------------------. ser conceituado enquanto troca entre o homem e os preceitos cósmicos. então. um o ebó presente é um é retribuída presente pelas aos voduns divindades e o c vodun Lembrando Mauss. a coisa dada prosperidade.

através do ritual. é o elemento mais importante para a existência. os movimentos é que Mauss nos mostra que o ritual se faz através de atos técnicos. dentre eles. através do ritual. p. que confunde o Orixá E xu com o demônio. o axé. Acreditam que essas religiões são apenas uma e que servem para fazer o mal ou conseguir coisas um tanto quanto espúrias. E o ebó é a oferenda ue faz as energias circularem.nte fluxo de do força vital. é a força ele que permite a possibilidade dinâmica da realização. A dança é uma perfo rmance. porque é existir desabrochar. 295 ----------------------. de matriz africana são territórios absolutamente plurais para se falar de culturas. todos os presentes se alimentam com comida qu e tem axé. Quero me deter um pouco na noção de cultura de Franz Boas. É a oferenda que faz as ener gias circularem. que fez parte de um ritual de trocas com os preceitos cósmicos. 215 -7). 1974. por exemplo. Ao final da festa. ganhar eleições ou tirar o marido alheio . pois gost o da idéia de pensar em culturas e não em cultura. O senso comum vê as religiões de matriz africana através de alguns ―fi ltros . mostrando seus do os domínios. é uma parte do ritual que também é uma troca à medida que mantém viva e reatualiza as divi ndades. entre tudo que faz parte da natureza. suas histórias míticas. É através da dança que se aprende: imitan acontece a transmissão da tradição. Mas as trocas não estão presentes apenas na alimentação. o de um olhar muito próprio do ocidental judaico-cristão. físicos e mágico-religiosos (MAUSS. As religiões . entre tudo que faz parte da naturez a. Marcel atos. Referem-se no singular.Page 296----------------------Religiões afro originadas: territórios plurais.

Não é eles é que fundaram as rel possível estudar essas religiões em busca de uma síntese que defina a todas de igual f orma. Seja pelo relax do trabalho. formado. Com esse olha r. reocupa em Franz Boas é reticente descobrir leis às grandes sínteses. sem se ou ―terecô . renciar seus À medida que abrem as suas casas. ou seja. Muitos autores falam dos orixás como se eles fossem as únicas divindad es africanas que vieram para o Brasil e que somente igiões afro brasileiras. que suas casas são exatamente iguais à de seus pais ou mães. ublicados Mas ainda temos os textos relativos aos zeladores que à medida que são p . aqui e para atender ao tempo acolá nas comidas ou nas oferendas às divindades. além de existirem muitas trad ições a que se filiam. percebemos que isso não é real. explicitamente. que disse que queria todos vão adquirindo seus anéis. como ―macumba igual. conseguimos perceber melhor as religiões afro brasileiras por que. enxergar. todas. seja pelo paulatino esquecimento d a senioridade. às vezes pequenas diferenças. A observação pesar de direta muitos dos terreiros nos Sacerdotes e mostra uma variedade que. mas que existem. seus rituais têm uma amento do tempo da camarinha. Até muitas vezes mesmo quando observamos escorregamos. a Sacerdotisas dizerem. Mãe Senhora. não se p universais de funcionamento das sociedades e das culturas humanas. começam a dife rituais. A observação nos mostra que à medida mudança ainda maior. seja uma mudança na iniciação. baiana.a elas. Houve uma mãe de ―santo os seus filhos de ―santo que com anel no dedo. a visitação às diferentes casas nos mostram as diferenças entre elas: cada casa é uma casa. Esse olhar de tábula rasa torna tudo preocupar com as diferenças exatamente por desprezar as entrelinhas que muitos dos ‗informantes‘ não as conseguem diferenças.

uma forma Essas questões de olhar para que cada única e abordadas a 43). pois corremos o risco de modificar religião. Pessoas qu ou introduzir que elementos caíram no na esqueciment elementos importantes. anteriormente possui. É o nosso olhar que 296 ----------------------. quando ele revela que não aprecia e nos apresentem são muito o recurso a ‗informantes‘. Mas também podemos reavivar na memória dos neófitos o. nos mostram as permanências. mas ta mbém as mudanças. Isso pressupõe um contato mais do grupo a ser estudado (CUCHE. acabam por modificar seus c fazem em busca de uma ligação maior com a ancestralidade africana. eles os ultos. a preocupação com isso é grande e nos remetemos à Franz Boas novamente. e acrescenta. Muitos deles o lêem e. grupo. que ―ao invés de realizar entrevistas formais a situação de entrevista pode modificar as tudo o que respostas -. na refletem cada história da seniori ele complexidade cultura é sistema cultural específica e devemos cuidar com as comparações mentos para entender o cotidiano de um dado dade ou das linhagens prematuras. p. as adaptações culturais dos grupos. a exemplo que se reproduziram no Brasil através das casas de ‗santo‘.Page 297----------------------grafamos. mas é preciso sempre haver uma ssas pessoas. mediação com o que nos informam e Gosto da posição desse autor quando se remete às entrevistas. citado por Cuc he. Boas diz. 1999. deve estar se diz nas conversas em maior ou menor grau – a atento principalmente ‗espontâneas‘. Para Buscar da questão Boas. até ‗escutar atrás das portas‘ .seus terreiros. Esse tipo de atitude remete a uma preocupação ética com relação ao que esc revemos. Uma questão com a qual tenho me ocupado é a da senioridade que foi t . se concordarem.

em algumas casas. pois ao m esmo tempo que nas casas mais tradicionais. podemos observa r muitos casos de desrespeito aos idosos. 5 os grandes depois seus descendentes. depois os vivos: dos m ais antigos aos mais novos. ―quase despegados dos vivos e assimilados ao s mortos . que trazem o até o presente o poder dos antepassados e que. se pensarmos em antepassados da família. Então. as histórias se entrelaçam: a escravista br asileira e a mítica africana. talvez de ocidentalização inevitável. quando vemos algum membr o das religiões de matriz africana se manifestar publicamente: eles começam por reverenciar os mais v elhos. no ápice estão (SOUSA. Hampâté Ba diz que na África. mostram claramente a hierarquização ―baseada na sucessão cronológica das pessoas 87). para somente ao final reverenciar os mais novos. a história. Essa é uma questão interessante e que devemos prestar atenção. p. p. é co mo se uma biblioteca se incendiasse (HAMPÂTE BA. que os religiosos buscam a autoridade de ‗mais velho‘. ―quando um ancião morre. sempre em ordem de antiguidade. Essa é uma questão a ser t ratada 297 . 1965. em todos os canais. Aqui. No Brasil. os mais antigos são reverenciad também presenciei atitudes de desrespeito ao mais velhos. os e sua linhagem é exaltada. Nas sociedades tradicionais africanas. mas uma qualidade social.ransplantada para a organização do Candomblé e era muito importante no desempenho dos papéis na organ ização social dos iorubanos tradicionais. São os anciãos. na rede das relações socia is. uma pirâmide. Esse f lagrante revela alguma vido mudança que está acontecendo à modernização ou à nas casas. Lembro que na televisão. isso se traduz. É nela. por exemplo. pedindolhes a benção. 2004. a ancianidade é não só uma que stão biológica. 8-9).

----------------------- Page 298----------------------com mais vagar em um próximo momento, pois diz respeito a uma tradição herdada dos afr icanos, que está se modificando. Essa questão nos remete ao que Boas fala a respeito do método etnográfi co que, para ele, baseia-se no ―estudo das mudanças dinâmicas na sociedade que podem se r observadas no tempo presente sua história e, ainda caminhando com o mesmo autor, ―cada grupo cultural tem dependente do desenvolvimento interno pecu (BOAS, 200

própria e única, parcialmente liar do grupo social e

parcialmente de influências exteriores às quais ele tenha estado submetido 4, p. 47).

Portanto, tratar desse tema é compreender as mudanças e as influências externas às quai s o grupo está sujeito. Algumas considerações Vagner Gonçalves da Silva inicia o livro O Antropólogo e sua magia co m uma citação de James Boon: ―o centro deste estudo está no fato de que não apenas as culturas são plu rais, mas também os métodos de investigá-las. Culturas, histórias e métodos se comunicam discursivam ente através os de de um paradoxo semiótico, culturas que se porque os próprios métodos são produt

transformam no tempo s em territórios

(SILVA, 2006). Lançamos o olhar para culturas plurai

plurais que se pensam e se transformam com a ação do tempo, com dinâmicas próprias. Olha r para a cultura como um texto a ser decifrado, à moda de Geertz, e a pesquisa participan te, seguindo os passos de Malinowski, se tornaram meu norte. O Tambor de Mina foi uma descoberta fascinante: olhei para ele, estranhando e buscando decifrá-lo, conversei com os neófitos e com o s encantados, talvez mais encantada com as novas descobertas do que já estive antes com outras. E o apresentado aqui, são as primeiras impressões a respeito dessa tradição. Talvez nesse primeiro momen

to, tenha feito um pouco o que Boas critica: comparar. Comparei conhecimentos que já tinha d o Candomblé com o que estava descobrindo de novo. Busquei similaridades e encontrei, afinal, o Candomblé e o Tambor de Mina são religiões afro originadas. Também encontrei diferenças. No tempo dessa escrita percebi a complexidade do diálogo entre os t erreiros e entre os terreiros e a academia. Narrar neira de compreender e de essa complexidade é também uma ma

exercitar a capacidade de estruturar a experiência passada e presente, remexendo a memória para mantê-la ativa. 298 ----------------------- Page 299----------------------Referências Bibliográficas BOAS, Franz. Os métodos da etnologia. In: Antropologia Cultural . Rio de Jan eiro: Jorge Zahar, 2004. CUCHE, Denys. Franz Boas e a concepção particularista de cultura. I n: A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, SP: EDUSC, 1999. HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. Confrontações culturais. Entrevista concedida a Philippe Decraene. In: Thot. N  80 – abril/2004. LEITE, Fábio. A questão da palavra em sociedades negro-africanas. In: Thot. N  80 – abri l/2004. LUCA, Taíssa Tavernard de. Devaneios da memória. A história dos cul tos afro-brasileiros em Belém do Pará na versão do povo de santo. Monografia graduação em His tória. Belém: UFPA, 1999. MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da tro ca nas sociedades arcaicas. In: Sociologia e Antropologia. Vol. II. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974. MAUSS, Marcel. As técnicas corporais. In: Sociologia e Antro pologia. Vol. II. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974. PEIRANO, Mariza. Rituais. Ontem e hoje. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. SILVA, Vagner Gonçalves da. O antropólogo e sua magia. São Paulo: EDUSP, 2006. a SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida. 2 . ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. A., 1988. SOUSA, Alfredo de. As sociedades tradicionais africanas. In: Econo mia e sociedade em África. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1965.

299 ----------------------- Page 300----------------------A MÍSTICA DO PRETO-VELHO EM PONTOS QUE CANTAM E CONTAM Admilson Eustáquio Prates166 Introdução O texto pretende analisar as músicas que são cantadas na Umbanda, precisamente no ri tual de pretovelho. Para tanto, fazer se necessário uma hermenêutica e uma exegese das músicas para visualizar a mística presente nos versos cantados durante o ritual. Além de propor uma interpretação das musicas, o texto também apresenta uma analise descritiva e a nalítica do ritual de preto-velho presente na Umbanda-Sertaneja167. Imaginário acerca da Umbanda É olhares como, possível compreender por exemplo, a Umbanda a partir de vários

culto de pessoas atrasadas culturalmente, religião de resistência à invasão cultural eur opeia, como uma seita de adoração aos espíritos do mal, mas podemos também visualizar a Umbanda como uma religião tipicamente brasileira que expressa em seus ritos a hibridez constituinte do povo brasileiro. Neste artigo, vamos concentrar como atmosfera mística, sobretudo na Linha de Preto-Velho. Mística sugere mistérios, magias, encantos... Tal afirmação é possível porque , durante as pesquisas de campo, observamos os adeptos vivenciando e celebrando o mistério n as danças, nos gestos, nas vozes, nas dramatizações os expectadores que eles transitavam por outra realidade Onde não mais existia o ritualísticas, realidade por que demonstravam a nossa atenção, visualizando a Umbanda

– uma

imagética-mística. o que entre e

indivíduo, e sim a totalidade. Entendemos nos remete a Plotino (Cf. BAL, 2007), que afirmava que a le (o indivíduo) e a experiência mística

totalidade

não conhece

o abismo

respiração cósmica. Tudo Silesius, em seus

é uno.

Recordando

o

místico

cristão,

Ângelu

mergulhos no oceano infinito de onde tudo provém, diz: ―A pequena gota se tran sforma em mar quando chega até ele; e assim quando é nele acolhido. (apud GAARDER, 1995:154). Mística Dessa maneira, podemos e Sertaneja que será falar de uma Umbanda a alma se transforma em Deus,

apresentada a partir da Linha de Preto-Velho em pontos que cantam e contam a estór ia deles e o sentido do culto, expressa pela vivência ritualística do povo de santo. Para tanto, faz-se necessária 166Graduado em Filosofia. Mestre em Ciências da Religião - PUC/SP. Professor na Univ ersidade Estadual de Montes Claros. E-mail: adeprates@yahoo.com.br 167 Sobre Umbanda-Sertaneja ver: MARQUES, . Umbanda Sertaneja. Cultura e Ângela Cristina Borges

religiosidade no sertão norte-mineiro, 2007. 238 p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) Pontifícia Universidade Católica, São Paulo. 300 ----------------------- Page 301----------------------uma hermenêutica mistério presente e uma exegese nos versos das músicas para visualizar o

cantados durante o ritual. Sobre o Ritual A pesquisa de campo, a coleta de dados, para a construção deste traba lho foi realizado no dia cinco de maio de dois mil e dez na Roça Gongobiro Ungunzo Mochicongo168 durante a cerimônia de Umbanda, precisamente O ritual apresenta as seguintes estruturas narrativas abaixo. É pra as É pra as Eu estou É pra as É pra as Eu estou almas. almas. com as almas. almas. com as ((Preto Velho) (mediuns) almas (mediuns) ((Preto Velho) (mediuns) almas (mediuns) na linha de Preto-Velho.

O ritual inicia saudando as almas como pôde ser visto logo acima, e sse cumprimento provoca, cria e conduz aqueles que compõem a cerimônia para uma atmosfera mística, ou seja, para o mistério e os encantos. O ritual é desenvolvido por pontos cantados, acompanhados de palmas, atabaques, triângulos. As cantigas entoadas durante a Linha de Preto-Velho apresen tam a seguinte sequência: Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Oh minha santa Rita Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas na hora de Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas na hora de Deus Oh minha santa Rita Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Oh minha santa Rita Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas ... na hora de Deus Ôôô viva as almas (bis) Ôôô viva as almas ... na hora de Deus .... Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas 168 Templo sagrado, roça ou terreiro como é conhecido e denominado entre o povo de s anto. Esta roça a qual a pesquisa foi realizada localiza-se em Montes Claros / Minas Gerais. 301 ----------------------- Page 302----------------------Oh... tenha dó das almas Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas Oh... tenha dó das almas Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas Oh... tenha dó das almas Meu são Miguel Arcanjo Benzador das almas Oh... tenha dó das almas clamando a que padecem tanto que padecem tanto que padecem tanto que padecem tanto pontos cantados evocando,

O culto inicia-se com os Santa Rita, ao São

Miguel Arcanjo e dizendo que ―Hoje é dia... hoje é dia ... é dia Deus . Qual o significado da Santa

Rita e do São Miguel Arcanjo neste ritual? Quem são Santa Rita e São Miguel Arcanjo? O que eles representam para a linha de Preto-Velho? s que nos ajuda a entrar na São perguntas Além como essa

atmosfera mística do culto aos Preto-Velhos. os a entender qual o lugar

disso, instiga-n

ocupado pelos cânticos no imaginário-identitário do povo de santo sertanejo. Assim, re alizaremos, análise descritiva e interpretativa dos pontos cantados com o propósito de traçar algu mas respostas que nos aproximemos da cosmovisão do povo de santo sertanejo. aproximação Para compreensão hermenêutica e do ritual, faremos uma primeira

exegética. Temos consciência de que há muito que aprofundar. Para iniciar, agrupamos a s músicas buscando identificar um padrão entre elas, mantendo a sequência que foi cantada dura nte a linha de Preto-Velho. nvestigar o Outras perguntas surgem sentido místico dos quando nos propomos i

cânticos Afro-Sertanejo, por exemplo: qual o encanto ou o mistério que existe nestes versos e nas estrofes dos pontos cantados? Por que esses pontos são sagrados? Onde está a mística n a Linha de Preto-Velho? Ou melhor, o pela Umbanda-Sertaneja, sobretudo na Linha de Preto-Velho? a Rita ocupa Retornamos a pergunta no imaginário do inicial sobre o lugar que Sant que é uma mística Afro-Sertaneja expressa

povo de santo. Para suscitar algumas reflexões sobre o assunto podemos relacionada s à biografia da santa Rita, como o ritual de Preto-Velho. de maneira sintética, Começarem apresentado Santa

concentrado nossa atenção nas características que poderá associá-la a atmosfera mística dos PretoVelhos. Ela, Santa Rita, como todas santas foi temente a Deus, viveu uma vida de renúncias, mas sempre com os olhos direcionados para a vida além das experiências terrenas. U ma senhora

que passou por varias provas, sendo uma delas, as impostas pelas superiores do c onvento para saber se ela - a santa – era uma noviça obediente. Como ilustração vamos apresentar a prova on de a santa deveria icação, regar um galho seco obediência, humildade, 302 ----------------------- Page 303----------------------serenidade ela regou o galho por mais um menos um ano. Tal galho estava destinad o ao fogo, por está seco. E após, um ano de cuidado ele começa a florir e a produzir uvas que continu a dando a até hoje, segundo dados torno de dela é da de biografia de alguém que Santa cresceu Rita. no As estórias em pela manhã e pela tarde. Com ded

conheceu e vivenciou o sofrimento, e fé em Deus, trilhou a via

amor – caridade -

purgativa, o caminho da perfeição, da simplicidade. Santa Rita, Além disso, com base ela realizou vários nos relatos sobre a vida nece de

milagres e tinha um senso de cuidado, ou seja, amava e cuidava daqueles ssitados. Por isso,

quando começa o ritual invoca Santa Rita. Invoca o amor, a simplicidade e o cuidad o que são traços característicos que retrata a áurea mística da santa. Naquele momento, quando os médiuns cantavam os seguintes versos ―Hoje é dia... hoje é dia... é dia Deus / Oh minha santa Rita / Hoje é dia... hoje é dia... é dia Deus / Ôôô viva as almas (bis) . E que percebiam entre eles um clamor ao amor divino

Santa Rita levaria todos os pedidos e traria de Deus o conforto para viver. Outro elemento característico do canto nos rito de Preto-Velho é nos fazer recordar o rosário, o terço rezado com ladainhas. na linha de Preto-Velho são orações, mantras que conduzem tual para um espaço-tempoimagético-místico das romarias, calma, tranquila, com os das Pois, os os cânticos integrantes é uma presentes do ri cerimônia

participantes, procissões.

Este rito

uma gira ersonagens

que anda em volta Preto-Velhos - a

dos

médiuns

incorporados – com

os

p

passos lentos que nos lembra atitude de simplicidade, de renúncias, de sofrimento e de oração pelo corpo. E que tal sofrimento não retira a beleza de estar vivo e participando de al go maior que eles mesmos. em como Este clima místico, personagem principal expresso no ponto cantado que t

Santa Rita, pode ser encontrado também na seguinte oração que os fieis católicos profess am a santa. Como pode ser visto logo baixo: Oração a Santa Rita de Cássia169 Ó poderosa e gloriosa Santa Rita, eis a vossos pés um alma desamparada que, necessitando de auxílio, a vós recorre com a doce esperança de ser atendida por vós que tendes o incomparável título de SANTA DOS CASOS IMPOSSÍVEIS E DESESPERADOS. Ó cara Santa, interessai-vos pela minha causa, intercedei junto a Deus para que me conceda a graça 169 Fonte site: http://www.paroquias.org/oracoes/?o=185. Acesso em 20 de maio de 2010. 303 ----------------------- Page 304----------------------de que tanto necessito (dizer a graça que deseja). Não permitais que tenha de me afastar dos vossos pés sem ser atendido. Se houver em mim algum obstáculo que me impeça de obter a graça que imploro, auxiliai-me para que o afaste. Envolvei o meu pedido em vosso preciosos méritos e apresentai-o a vosso celeste esposo, Jesus, em união com a vossa prece. Ó Santa Rita, eu ponho em vós toda a minha confiança; por vosso intermédio, espero tranquilamente a graça que vos peço. Santa Rita, advogada dos impossíveis, rogai por nós.

Tanto no ponto cantado quanto na oração observa-se uma relação estreita e ntre santa Rita e as almas. Além disso, confirma os nossos primeiros traços característicos em to rno da áurea mística de Santa Rita associado à Linha de Preto-Velhos ou Linha das Almas como é conh ecido o ritual também entre o povo de santo. Em outro ponto cantado há a presença de um personagem impregnado de e ncanto e de força mística tanto para os católicos o São Miguel Arcanjo. Ele é quanto para o povo de santo,

invocado, clamado, solicitado da seguinte maneira na música-oração: ―Meu São Miguel Arcanj o / Benzador das almas / Oh... tenha dó das almas que padecem tanto . O que esses versos nos faz pensar? O que é alma? Duas da por sabemos que não simples perguntas que nos incomo

conseguiremos responder de maneira satisfatória. Pois os versos não apenas nos faz a penas pensar, mas ínsita, desperta sentimentos profundos e pensamentos intensos que segundo o po vo de santo, eles são arrebatados para outro plano, um lugar que o espaço e o tempo não existem. So bre aquela pergunta ficamos inquietos, sem respostas. Talvez a resposta seja essa: a inquie tação. A outra pergunta o que é alma? Inicialmente acende na naquele que d eseja responder um sentimento de frustração, pois é sabedor que tal pergunta suscita agitação, ansiedade, um mal estar porque logo após a pergunta anunciada, ela já demarcou o limite da responda. L imite este, do próprio autor da pergunta. Essa agitação juntamente com o mal estar e a frustração espelha aquilo que a pergunta deseja: o movimento, a reflexão, despir frente à pergunta. Novamente, o que é alma? Podemos entender a alma primeiramente a pa rtir do próprio cântico que evoca algo imaterial, poder sobrenatural, poder misterioso, invisível, i mortal, fantasma. Podemos também entender ideia de alma como um espectro, expressando o dualismo cor po/alma.

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―As representações simbólicas da alma são tão numerosas quanto às crenças que sob elas existem (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1993: 31). Ainda é possível vislumbrar a alma como sendo e seja, a percepção e organização do espaço esta a maneira como interpretam

sinônimo de consciência, os, atribuímos sentidos significados ao externo – mundo viver. Ou natural /

natureza - e interno – mundo psíquico, as paisagens mentais, as redes de significad os -, do tempo, enfim os pensamentos e os sentimentos. Assim escreve Russ sobre alma, ―Etim.: lat im, ar, sopro, principio ensamento, de mas vida; o masculino, também a do (1994: 09). animus, designa a sede do p

sentimento e das paixões epções,

Avançando na interpretação simbólica da alma, seria ela a consciência – perc idéias, sentimentos, volições so em atos, em etc -, ou seja, a morado do ser, o próprio ser juízos éticos sobre o bem e o expres mal. Vo

praticas morais, em intenções, ltemos aos versos para nos

auxiliar na explanação: ―Benzador das almas / Oh... tenha dó das almas que padecem tanto . O que significa ter dó das almas que padecem tanto? Inicialmente penso que seria ajudar, apaziguar, ou seja, ―livrar as almas do fogo do inferno , socorrer a almas, retirando-as arras do dragão – das g

diabo, santanãs -. Penso também que aliviar a dor – ―que padecem tanto - seria mediar o c onflito da consciência entre o bem e o mal, o poder e o não poder realizar alguns desejos. P osso ainda ir um pouco mais além entendo padecem enquanto tomada de consciência do absurdo que é a exis tência humana que, por sua vez, é uma ntido a dinâmica de estar vivo e luta constante em atribuir se

lançado, abandonado no mundo. Padecer, ainda nos remonta a noção de angustia.

Ámen. instantemente o pedimos. ê ê ê. de cr iar o mito das entidades a que se referem através das letras dos cânticos a elas dedicados (.paroquias. de mythopoieses. E theologein (teologia) ―fala sobre o divino . Príncipe da milícia celeste. 170 http://www.. precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo procurando perder as almas. Outros pontos são cantados durante o ritual com a seguinte narrativ a: Andei .. Dessa maneir a. .te Tais versos cantados à oração de São Miguel apresentam uma ideia semelhan Arcanjo proferida entre os católicos como pode ser visto logo abaixo: Oração a São Miguel Arcanjo170 São Miguel Arcanjo.. isto é. defendei-nos com o vosso escudo contra as armadilhas e ciladas do demónio. e vós.. protegei-nos no combate. pelo divino poder..Page 306----------------------Em nome do Pai. é um exercício vivo ―. 1997: 95). Deus o submeta.. podemos perceber a riqueza mitopoética do ponto cantado e da oração. andei meu pai pra conhecer Bati na porta minha mãe para ti ver O meu destino meu pai quem dá é Deus Venha me valer meu pai o Baluaê Baluaê ê ê. do Filho e do Espírito Santo.. Os pontos ca ntados nos atestam à experiência de estar vivo. Acesso em 20 de maio de 2010 305 ----------------------. ) (CARVALHO..org/oracoes/?o=230. O mythos (mito) significa literalmente ―fazer através da palavra . A similaridade entre os textos tanto da oração cantada entre o povo d e santo e a oração proferida entre os católicos pedem ao São Miguel auxilio para as almas..

ê ê ah. andei meu pai pra conhecer Bati na porta minha mãe para ti ver O meu destino meu pai quem dá é Deus Venha me valer meu pai o Baluaê Baluaê ê ê.Baluaê ê ê...... vagar. de fazer a passagem de um lugar para outro como pode ser percebido a part ir do simbolismo da porta que implica sair de um estado ou de uma situação para outra.... Na primeira cantiga visualiza-se o desejo de conhecer. (CHEVALIER... ê ê ê. de saber. ... Ela retrata a ideia de passagem entre dois estados. GHEERBRANT. caminhar.. Baluaê ê ê.. Baluaê ê ê. entre A narrativa cenário familiar com a do primeiro ponto cantado reproduz também um . ê ê ah.. Baluaê ê ê. É o convite à viagem rumo a um além. Baluaê ê ê. ê ê ah.. A porta se abre sobre o mistério... ê ê ê.. 1993: 734-735) mundos... a luz e as trevas. pois não somente indica uma passagem. ir à busca de algo.. mas convida a atravessá-la. ê ê ê.. ê ê ah... apresentam uma atmosfera de perambular. Baluaê ê ê. o tesouro e a po breza extrema. entre dois o conhecido e o desconhecido.Page 307----------------------As movimento: duas músicas andar. psic ológico. Eu andava perambulando sem Eu pedi a santas almas que Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor Eu andava perambulando sem Eu pedi a santas almas que Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor Foi as almas que me ajudou Meu Divino Espírito Santo Viva Deus nosso Senhor ter nada para comer viessem me valer (bis) (bis) ter nada para comer viessem me valer (bis) (bis) 306 ----------------------.. Andei .. Mas ela tem um valor dinâmico.

a lei e a norma. morrer é retornar à terra. Ele apresenta também uma ambigüidade. com o infinito. expressando Por a outro. a experimentar o sentimento de estar vivo. tocar a porta é a experiência mís tica do encontro com o absoluto. ritualizar a memória é quando provoca. a palavra paixões. ncipio feminino. como por exemplo. andei meu pai pra co nhecer . 2005: 362). a reconstruir-se. é diante das forças novas de mudança o mundo da autoridade tradicional (1993: 678). sonhos. Este ato de chamar. ―Por esta razão. o saber. o pai ―representa a consciência diante dos impulsos instinti vos. incomoda.presença da palavra pai e mãe. Segundo Chevalier e Gheerbrant. ―Encontra-se nesse símbolo da mãe a mesma ambivalência que nos da terra e do mar: a vida e a morte são corr elatas. Nascer é sair do ventre da mãe. enfim. O pai é o conhecimento. ‗regressar a mãe‘ significa morrer. o pai está ligado à esfera masculina. pensamentos.. do inconsciente. ao principio ma sculino que representa o consciente. a imagem da mãe simboliza o pri natureza: vida e mo (CIRLOT. o encontro com a mãe representa sair ou retornar. Sabemos que a palavra proferida evoca ideias. Ou significados. incita a memória a pronunciada reorganizar-se. dos desejos espontâneos. rte. seja. Enfim. eja. GHEERBRANT. Além de evocar uma paisagem familiar o simbolismo do pai e da mãe nos remete a outras visões. com a grande mãe. 1993: 580). vida ou morte . ―Bati na porta minha mãe para ti ver . O que eles nos fazem pensar? Perc ebemos . (CHEVALIER. com movimento de nascer e morrer. Ou s segundo o ensino hermético. O primeiro verso da música é: ―Andei. sentimentos. estórias e histórias. Concentrando nossa atenção agora em outros versos da narrativa: ―O meu destino meu pai quem dá é Deus / Venha me valer meu pai o Baluaê .. ritualiza a memória.

nos versos a permanecia da palavra pai e novas categorias . independentemente de nossa ação no mundo. com a ação do destino sobre o copro.. Ele. o senhor das doenças e das moléstias. quando o povo de santo depara-se com as dores. suavizar as dores implacáveis que o destino lança sobre os humano s. Como pode ser lido na narrativa: ―Venha me valer meu pai o Baluaê . Ele é o orixá da terra – do i nterior da terra . ou seja. nunciadas entre o povo de santo. atenuar.: lat. as doenças. de uma maneira geral. todos os acontecimentos do universo. Representa ta mbém o sol e rege a saúde. Por isso. irmada no dicionário de Filosofia: Etim. Isto é. o guerreiro. Destinare. a regência do mundo Tal concepção sobre destino pode ser conf . 1994:65) O destino é responsável por toda trama humana na terra e sobre a ação do destino na vida dos humanos. falamos em destino negamos a dimensão divino e encanto quando elas são pro ―destino meu pai quem dá é Deus . decidir previamente. caçador. (RUSS. Baluaê. Poder misterioso que governaria o curso das coisas e. fixar.destino e Baluaê . quando da liberdade. Na visão dos adeptos somente Balu aê pode abrandar. sobrenatural. E sobre o destino a única coisa que podemos fazer é aceita r e submeter à vontade de Deus.Page 308----------------------O que é destino? Quem é Baluaê? Qual a relação entre destino e Baluaê? Para c omeçar podemos entender destino como uma categoria que designa algo sobrenatural. 307 ----------------------. entre o povo de santo. Baluaê. vonta de divina sobre ação humana. ou melhor.que suscitam a noção de transcendência. eles recorrem a Baluaê. divide juntamente com Iansã o espaço do cemitério. o u seja. eles recorrem ao Deus da ter ra.

com o pode ser visto pelo próprio conceito de símbolo exposto por Ramos: A palavra símbolo vem do grego symbolon. dos objetos. ou seja. Almejar compreender uma cultura a partir dos seus mitos. tradição oral é um espelho que reflete a dinâmica d os ritos. sim.Page 309----------------------de estar vivo. mostrando os espíritos desencarn ados . Entre os gregos. os espíritos serão guiados para o mundo dos misericordioso. surgindo dessa relação com a terra a ideia de ligação com os mo rtos. Conhecido também com o orixá palavras: ―Venha me valer meu pai o Baluaê .as almas o caminho a seguir. ou seja. pois os corpos após a vida será zelado por Baluaê. dos gestos. sobre tudo da camada mais profundas da terra. como a possibilidade de o ser humano construir realidades a partir da reflexão e da ação. retorna a terra e as almas. dão sentido à existência e estimulam a sensação 171 Utilizo o verbo criar não como algo que aparece. ‗lançar com‘. que surge do nada. ‗jogar-com‘. do verbo symball ein. orientando. conduzindo. lendas e fábulas é mergulhar em um universo repleto de símbolos que orientam. Considerações finais As cantigas. em outras mortos. ‗arremessar ao mesmo tempo‘. (1998: 63) .das almas -. das lendas. das cantigas vivenciadas entre o pov o-de-santo sertanejo. expressando um fenômeno oculto. 308 ----------------------.dos mortos . O símbolo nos lança e nos arremessa ao encontro com outra metade. Compreendemos que tudo que o ser humano cria171 apresenta traços psico-sócio-antrop ológico do autor da obra. mas. Porque ele na cosmovisão afro-sertaneja é rei da terra. impregnado de mistério. era o nome dado à união das metades de uma moeda com o obje tivo de identificar duas pessoas separadas há muito tempo ou de autenticar uma mensagem le vada por um mensageiro legitimado pela metade faltante da moeda. dos mitos.

os e. seja conhecer possível. seu estudo nos permite melhor conhecer o homem (.. lendas e fábulas. às lendas. os símbolos. de sen tidos. Por isso. o símbolo é po r excelência um mecanismo transformador de energia (Ibid. elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as m ais secretas modalidades do ser. as imaginações maginações e cosmovisões. ao sagrado. aspectos do poeta a precede da realidade O pensamento simbólico não é uma área exclusiv ou do desequilibrado: ela é consubstancial ao linguagem e a razão discursiva. interagem ao com modo outras i a identidade. expressos por meio das palavras em forma de rituais. ndimento Por outro lado. podendo O estudo do pensamento simbólico abre fendas capazes de decifrar c ertos aspectos do real na forma de realidade. os símbolos. mas que poderão ser tecidos com as linhas herdadas da cultura: ―. religioso cultura.Eles. O movimento da palavra ritmizada. são carregados de valores. compreender o real por meio eal mediada pelos símbolos. realidade expressa Para Sobre pelo que a fenômeno tal ente percepção do r individuais que se ao profano. a permite vislumbrar a enfim. carregada de onomatopeias presentes nos rituais em . vão caracterizando um jeito peculiar de povo de santo Afroviver do Sertanejo. construindo. é mister dos símbolos. escreve Eliade: a ser da criança. O real são as várias versões da realidade. de amarras e de teias culturais que prendem o indivíduo no f também abrir portais para outros caminhos não traçados ainda. azer cotidiano.. de pensar e viver científico ou filosófico.: 1998: 66)..) (2002: 89) Nesta perspectiva. aos ritos.. O símbolo revela certos – os mais profundos – que desafiam qualquer outro meio de co símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psiqu nhecimento. assim. o real. As imagens. cantigas. A realidade co rresponde aos mitos. humano.

MARQUES. GAARDER. Nicola. 18. sonhos e mistérios. José Jorge Rio de de. n. v. Mito e Realidade. 1997. _____________. São Paulo. _____________. São Paulo: Companhia das Letras. O Mundo de Sofia. Traço s Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) . 2002. Pontifícia Universidade Católica. 2001. o sangue eu lhe dei. a origem das en elas. Dicionário de símbolos. ELIADE. _____________. 2004. Jostein. 2005. Cultura e religiosidade no se rtão nortemineiro. São Paulo: Com panhia das Letras.forma de cantiga. 309 ----------------------. 1995. 2006. Lisboa/Portugal: Edições 70. GHEERBRANT. Silêncio e contemplação: uma introdução a Plotino. 2007. Mitologia dos Orixás. Religião Janeiro. CIRLOT. 2. Dicionário de Filosofia. 7ª ed. e. 238 p. 2000. PRATES. Contos e lendas Afro-brasileiras: a criação do mundo. 2007. São Imagem Paulo: e Símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-r Martins Fontes. São Paulo: Martins Fontes. Umbanda Sertaneja. Gabriela. São Paulo: Companhia das Letras. e Sociedade. como mitos de constituição do mundo. CARVALHO. p. Alain. Dicionário de símbolos. apresenta os tidades. venceram e vencem as demandas. São Paulo: Paulus. Mircea. Mitos. A tradição mística afro-brasileira. Admilson Eustáquio. CHEVALIER. Sagrado e profano. 93-122. São Paulo: Perspectiva. Juan-Eduardo. 1993. Jean. eligioso. 2000. BAL. Reginaldo. Ângela Cristina Borges. São Paulo: Centauro. São Paulo: Martins Fontes. 2007. Rio de Janeiro: Jo sé Olympio. mas a carne eu não dou”. “Exu agodô. PRANDI.Page 310----------------------Bibliografia ABBAGNAMO. ________________.

p. Ygo r Olinto Rocha Cavalcante172 RESUMO: O presente trabalho objetiva discutir as fugas e scravas no Amazonas Imperial. chamando atenção para as fugas nos limites internacionais do seu território. RAMOS. Articulando fontes variadas tais como jornais de época. relatórios provinciais. ofícios consulares e regi stros policiais. Para tanto. Sala de Espelhos. 310 ----------------------. Palavras-chave: Escravidão . notícias limites de captura 192 p.Fugas escravas – Amazonas Imperial Este texto tem como objetivo discutir as fugas. São Paulo. a região do Amazonas Imperial enquanto área de fronteira. Dicionário de Filosofia. Admilson Eustáquio. D questão de e fronteiras de e narrativas no sentido . 2009.Page 311----------------------NOS LABIRINTOS DA LIBERDADE: NOTAS DE PESQUISA SOBRE FUGAS ESCRAVAS NAS FRONTEIRAS DO AMAZONAS IMPERIAL (1850-1870). utilizaremos não só os anúncio s de fuga. et al. 1998. 1994.característicos da identidade de Exu-Sertanejo. ROSA. PRATES. 2009. São Paulo: Edições Loyola. buscamos cruzar informações e narrativas para desvelar as trajetórias e experiências de busca por autonomia e liberdade dos fugitivos escravos que conformaram parte das práticas de resistência à instituição no período de 1850 a 1870. issertação (Mestrado em Ciências da Religião) Pontifícia Universidade Católica. mas também relatórios de presidente e fugas de escravos. contidos na tradição oral. os ofícios consulares sobre a segunda metade do século O intuito é entrecruzar fontes de província. Dicionário de símbolos: alfabeto da linguagem interior. Ênio José da Costa. Montes Claros/MG: Unimontes. Denise Gimenez. São Paulo: Editora Scipione. 2009. 63-75. Maria Cecília Amaral. suas rotas e desv elar. São Paulo: Editora Escala. In: BRI TO. A vivência simbólica no desenvolvimento da consciência. Religião ano 2000. Jacqueline. expressos no imaginário religioso Af ro-Sertanejo da cidade de Montes Claros/ MG. RUSS. ainda. bem como da XIX.

Gabriel fugia da cidade do Maranhão onde trabalhava como escravo alugado na ―typo graphia do Paiz . Pelo que também anunciava seu proprietário. 18 a 20 annos de idade. os seus pudesse viver em liberdade . Desconfiava que tantos destinos pudessem ―ser b oato de propósito espalhado pela tal rede de camaradagem. E ainda existia um terceiro destino que não escapava de suas suspeitas: a província do Amazonas. 311 ----------------------. S eu senhor o descrevia como um ―carafuz quasi preto. desencontros e solidariedades na província do Amazonas e suas fronteiras no período de 1850 a 1870. despistar o fujão. olhos pequenos . 172 Aluno do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal do Amazonas – P PGH/UFAM – e bolsista da Fundação de Amparo e Apoio a Pesquisa do Amazonas .Page 312----------------------No entanto.FAPEAM 173 Commercio do Amazonas. Tinha a fala pouco compassada e bastante baixa. e isso com a finalidade de confundir as s uas estratégias para reaver o cativo e. o que nos parece flagrante até aqui é a existência de um u niverso bastante amplo de fugidia. teria embarcado para os rumos do Pará ou Lisboa. cara muito larga e bochechudo.compreender experiências eceram com as trajetórias e mas também as redes que estabel dos escravos fugidos.173 redes de Mas o proprietário de solidariedade que ele Gabriel estava atento para as havia deixado no Maranhão. baixo e grosso. outros atores sociais entre encontros. 11/01/1874. Sabia ler. conseqüentemente. destinos para que Gabriel Nessa direção. escrever e entendia ―alguma cousa de francez e de desenho . Pode-se imaginar o estado de irritação em que se encontrava o senh or José Serapião Lapemberg quando soube que seu cativo havia fugido naquele dia 7 de dezembro de 1873.

174 ações africanas Segundo Arthur na Amazônia Reis. Mariza de Carvalho. In: SOARES. as primeiras inserções das popul ocorreram quando em finais do século XVI os ingleses tentam sem sucesso conquistar as terras do ―extremo norte .deslocamentos apontam para rotas extensas. sólidas e de intensas interações. Por outro lado. O tráfico fugas suscitam problemas que envolvem a diáspora africana e que abarcam todo o atlântico na medida em que se proc ura destacar ―a dispersão dos escravos africanos e as suas modalidades de re-inserção social nas América s.176 As ressalvas sobre a densidade da população de escravos no Amazonas são freqüentes e é certo que não encontraremos na região números tão expressivos de escravos quanto nos p lantéis de outras regiões do Império brasileiro que tiveram suas economias basicamente suste ntadas pela mão-de-obra africana – como é o caso das localidades se desenvolveram as grandes fazendas monocultoras e áreas de mineração intensiva. século XVIII.177 em que 174 SOARES.175Esse quadro quase fortuito e esporádico se mantém até meados do século XV III. Rotas atlânticas da diáspora Afri . sair de um lado do império seus confins. Mesmo por que. com partir de então os incentivos e uma a série de modificações na política colon criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão.). parece para se embrenhar um relevante nas matas e rios dos indício de consistentes redes sociais e de alguma experiência para vencer distâncias tão hostis. Mariza de Carvalho (org. quando a ial. o fato de que o cativo do Maranhão entendia ―alguma cousa de francez a atenção para ca questões que inserem as num âmbito de reflexão fugas de escravas escravos da região e as rotas cham amazôni de historiográfica internacional. Vale lembrar que a inserção dessa população s e deu em um primeiro momento no emprego como mão-de-obra das lavouras de cacau e nu m segundo momento na agricultura e na pecuária. estabelece uma conexão direta entre a Amazônia Portuguesa e os portos africanos. Indícios para o traçado das rotas terrestres de esc ravos na Baía do Benim.

p 470. In: REIS. F. pp. Ver: GOMES. A. Niterói: EdUFF.Page 313----------------------Entretanto. 175 REIS. in: FARIAS. F.). Série Alberto Torres. João José & GOMES. mas região que não pelo qualitativo passe necessariamente pelo vetor quant (org. Ibdem. Carlos E. 312 ----------------------. In: REIS. Manaus: Edições Governo do Estado do Amazonas. 176 FUNES. No labirinto das nações: africanos e identidades no Rio de Janeiro. p. a chave da questão é a ―própria montagem e reiteração de uma sociedade disponíveis escravista cuja lógica não se limita ao número de almas nos plantéis . o qu e se critica é a percepção de uma visão ―economicista nto das em que o escravismo desmorona com o adve .178 nsonância Cabe lembrar que este texto com as reflexões da guarda negra no uma profunda Brasil. Vol .. 1996. O negro na empresa colonial portuguesa. SOARES. De acordo com Patrícia Sampaio. São Paulo: Companhia das Letras. 66. 177 Idem. Flavio dos Santos. Segundo Flavio Gomes. Líbano (orgs.).. Tais co e historiografia recente sobre a escravidão studos se distanciam de quadros teóricos que acabavam por diluir os escravos como ―coisa . Flavio S. acreditamos que outra perspectiva é possível para a anális e da presença de africanos na itativo. nunca tive senhor : Historia e memória dos moc ambos do baixo Amazonas. mas também perspectivas teóricas e metodológicas inovadoras. 03. Para tanto. século XIX. 2007. GOMES. ―Nasci nas matas. C. polemi cas. Flávio dos Santos Liberdade por um fio: historia dos quilombos no Brasil. trazendo discordâncias. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional.cana: da Baía do Benim ao Rio de Janeiro. Rein ventando as nações: africanos e grupos de procedência no Rio de Janeiro. 1810-1888. Em resumo. Eurípedes A. a presença de africano s ―reitera relações de subordinação e poder que dão vida ao próprio sistema escravista . Tempo e Vida na Amazônia. 1965. Arthur C. 2005. bem como o tema da etnicidade tem sido tratado pel os intelectuais em uma perspectiva atlântica desde pelo menos 1920. Ainda concordando com o raciocínio de Sampaio. Julian a B. 143156. p 470. o prob lema da dispersão dos escravos africanos na diáspora. desta presença.

Flávio dos Santos. no horizonte muito claro. Mneme . estas perspectivas são capitalista da sociedade e outra percepção que nega A a escravista brasileira.Revista de Humanidades . Teias da Fortuna: acumulação mercantil e escravidão em Mana us. Assim nos parece ter feito a escrava Benedita que se uniu em fuga ao mulato Fran cisco de Souza Lima em 19 de fevereiro de 1861. n. a província do Amazonas.relações econômicas de cunho existência de aspectos discriminatórios e excludentes ssim. Patrícia Melo. Ele desertou do posto de soldado. v. out. A Hidra e os Pântanos: mocambos./nov. Mesmo porque.180 Com isso não queremos afirm ar que mulheres ofereciam pouca resistência ns fugiam mais. Mulheres africanas foram trazidas em menor quantidade durante todo o tráfico negreiro. substituídas por uma visão ―política que passa a acentuar a destruição da instit ição escravista como o resultado de um processo de lutas entre sujeitos historicamente constituído s. podemos logo destacar que a maioria dos escravos que fogem é do sexo masculino (79%). século XIX. É sabi do que os laços que as mulheres estabelecem com o que aqueles que os homens seus filhos são mais fortes d possuem e isto deve ter interferido sobremaneira nas escolhas das mulheres escra vas nos destinos a seguir. 8. de 2002. p. ao cativeiro É preciso ou categoricamente afirmar que home dimensionar várias questões para melhor analisar o percentual de fugas femininas (21 %). Caicó: UFRN-CERES. quilombos e comunidad .179 Sobre as fugas no Amazonas. das escravas fugidas Podemos afirmar que a maioria delas fugia com o objetivo de consolidar laços afeti vos e familiares. existia um Apesar sentido disso. fugir não é uma tarefa fácil. sobretudo quando se carrega no col o crianças que mal podem se defender ou se proteger dos perigos e dificuldades de tal enver gadura. interior da província do Pará. para 178 SAMPAIO. ela fugiu do cativeiro e juntos seguiram da cidade de Óbidos. 179 GOMES.3.6.Publicação do Curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Ver: CAVALCANTE. às 8 horas da noite. Agosto/2008. 180 A maioria dos dados apresentados é resultado do projeto de iniciação cientifica de senvolvido no Programa Institucional de Iniciação Cientifica da UFAM. Ygor Olinto R. bem parecida e m uito faladeira não fez diferente. cidade da Barra. Esses mundos que se cruzam desvelam não só o encontro de s grupos sociais diferenciados. o indígena Fugiu com o desertor de nome José da escuna do senhor Maria.Page 314----------------------segundo temia seu senhor. São Paulo: Ed UNESP/Polis. de outro. o justificativa ou mesmo pistas havia senhor se viu na condição de apenas apelar aos ―termos da lei a quem der coito e prometia gratificações a quem oferecesse rastros para encontrá-la. França. Pode-se imaginar o estado de estupefação em que fi cou o senhor Manoel José de Macedo ao saber que sua escrava ―já avançada em idade fugido de sua residência. A escrava Joaquina.es de fugitivos no Brasil (séculos XVII-XIX). p. sobre a Sem poder oferecer alguma fuga de Thereza. 313 ----------------------.18. 2005. nas rotas dos rios e igarapés do vale amazônico. da casa do seu senhor na rua b razileira. Relatório Final. de 18 anos. Escapar da pena d .27. as cativeiro de desempenhava uma em mas também de historicidade jovem pelo mundo que mundo marítim experiências de provavelmente escrava vendas bastante cotidianamente serviços domésticos e tagarelava urbano de Manaus. capital da província do Amazonas. distintas. p.182 Difícil im aginar que esta escrava já idosa não tenha contado com o auxilio de outros cativos fugidos. Outras faces da liberdade: fugas e fugitivos escravos no Amazonas Imperial (1850-1870). Programa de Iniciação Científica – PIBIC/UFAM. De um lado. natural da vila de Ega.181 nte trabalho às ao trabalho compulsório no Não é difícil perceber nas fontes que as mulheres escravas davam basta autoridades policiais da província. um indígena impelido o. ―gorda.

181 182 183 184 185 Estrella do Amazonas. 20/02/1861. 28/03/1864. Jo aquim Pinto das Neves. de certa liberdade e se tornavam as mobilidade escravas de vendedeiras. pois ele não se responsabilizaria.183 de No rastro de escravas quarteirão dos subúrbios da fugidas estavam os Inspetores cidade de Manaus em março de 1864. 14/11/1863. Não er am raras as fugas escravas para áreas de subúrbio das cidades. 19/03/1862 O Catechista. logo se preocupou em noticiar em comunicado no jornal que aqueles que neg ociassem ou viessem sobre comprar quaisquer algo com prejuízos a escrava em nada podiam reclamar decorrência da execução da pena. Estrella do Amazonas. sem deix captura e entrega da fujona ar de protestar contra algum acoutamento.185 nos parece algo O protesto do senhor de Lucrezia ―contra a quem a tiver acoutado não fortuito ou apenas uma frase que acompanha um formato padrão dos anúncios de fuga de escravos. la desfrutavam . Rogava o senhor Manoel Thomaz Pinto aos inspeto res que recuperassem a sua escrava de nome Izabel que no dia 6 de março ―ausentou-se d a casa de seu senhor. Três meses depois Bene dita foi presa e condenada aos cem açoites por ordem do delegado de policia.e cem açoites parece ter sido o fator que motivou a fuga da escrava Benedita. o mundo urbano e seus subúrbios também guardavam intensa vadeiras e quitandeiras. Estrella do Amazonas. O seu senhor. 27/10/1855. Desempenhando essas atividades.184A escrava Lucrezia também não se fez de rogada e achou de ―andar vagando pelos subúrbios dos Remédios ensas pela para o descontentamento de seu senhor que oferecia recomp em sua propriedade na rua brazileira. 19/09/1860 314 ----------------------. O Catechista.186 Lugar de sociabilidades.Page 315----------------------mas um forte indício da existência de uma prática bastante recorrente na província.

rumo ao Amazonas. O anúncio de sua fuga traz uma observ ação curiosa (e cuidadosa. com seus conhecimentos e fazendo circular informações. a uxiliando. f 188 consigo seu filho de nome Cipriano que contava 13 anos de idade. Talvez por isso. Vale lembrar que a constituição de laços familiares foi de extrema imp ortância para a adaptação aos vida em mundos da escravidão. os próprios escravos fugi tivos e as articulações de possíveis insurreições escravas. no Pará. Nos parece bastante plausível que José tenha fugido na tentativa scravidão. nas surdinas da noite de 21 de outubro de 1855. escravo da Vila de Serpa levando de Joaquim Pinto de França. Não fez diferente o escravo João Mulato que na cidade de Be . Suppoem hoje ter filhos . por outro havia o movimento que impelia os escravos à fuga no sentido de proteger ou recompor tais l aços. trajando vestido de chita roxo e camisa d e riscadinho cor de rosa.profundas conhecedoras dos liames de ruas e vielas que entrecortavam a cidade. 1 87Sintomas de uma autonomia dos desmantelamento de escravos que sua família por vezes se viam diante do através das vendas que não eram raras no sistema escravista. Se por um lado as vendas dos escravos esfacelavam famílias inteira s. como de proteger seu filho não só das agruras da e também da separação por ocasião de uma possível venda. na rua brazileira da capital da província com o índio desertor José Maria . das propriedades de Antonio Lopes Braga. visto que está no rodapé do anúncio e não n o meio de todo texto) do seu proprietário. Os laços familiares também parecem ter motivado a trajetória da escrav a Genoveva do engenho do Carnapijó. desse modo. o senhor Francisco Bernardo da Silva: ―N. O escravo José ugiu Ipiranga de 32 anos. B. São essas relações a faladeira José Joaquina que melhoram as condições tenha fugido d cativeiro.

Embora não tenhamos encontrado nenhum grande grupo de fugitivos.Page 316----------------------almente (57%). no Pará. lugar onde crescera e era bastante conhecido. fugiu com sua parceira de nome Alexandrina. A historiografia em em reação a ―outras aponta que as fugas individuais ocorr arbitrariedades. o percentual de fugas coletivas também nos parece importante (43%). p. 187 Estrella do Amazonas. 188 Estrella do Amazonas.189 Não por acaso.lém. Leila Mezan. Ainda seguindo os rastros da paixão. Um pouco mais da Percentual que metade das fugas ocorre individu estudo sobre a es revela o quanto os escravos estavam constantemente negociando seus desejos e dem andas com seus senhores. 1988. 29/04/1857. ―crioul cativos da viúva Dona Maria Rozalina da Guirra. escravos Hypólito e Maria. bem próximo ao caminho das fronteiras da província do Amazonas. a enorme freqüência de prisão de escravos na pro víncia por motivos relacionados à fuga como ―por andar fugido ou a ―requisição do senhor . O mesmo sentido para histórias difer enciadas: os laços familiares. 315 ----------------------. Ed. Vozes: Petrópolis. rumo ao Rio Negro. mas de estabelecer ganhos e conquistar espaços de libe rdade e autonomia frente aos desmandos senhoriais. Por outro lado. 53. além da chibata itivamente com os e nem sempre com o fim de romper defin senhores. Esse dado no permite argumentar que nenhum outro ―crime perturbava tanto a ordem pública do Amazon as e as elites locais quanto essas ausências dos escravos das vistas de seus senhores. podemos afirmar q . nas primeiras horas do dia 26 de março de 1856.. 186 ALGRANTI. 19/09/1860. Nos rumos os retintos . também escrava. da vila de Maués fugiram os como temia seu senhor.. O feitor ausente: cravidão urbana no Rio de janeiro.

Como vimos. estrategi camente trocado. o perfil dos escravos fugitivos no Amazonas é de homens em plena idade produtiva. João seguia com outro preso. Noutra direção. de Antonio Paulino. pelas beiras dos rios e igarapés. Dois anos depois. mas o certo mesmo é que os dois se valeram de uma ―monta ria toda pintada de verde que pertencia ao mestre carpinteiro de nome Funfão para fugir. escravos mas são também sintomáticas com indígen estabelecer não só as destribalizados. Atr avés das experiências pelas quais passaram os dois cativos. Sendo assim. xperiências e compartilhando forjando espaços de e vivências das classes subalternas da província do Amazonas. Africanos livres e com os brancos pobres que perambulavam pelos espaços urbanos da cidade. Desse modo. lugar onde José já havia vivido nos tempos em que por lá esteve fugido com o nome. fugiram na madrugada de 26 de março de 1856 e seguiram para o Rio Negr o. Enquanto Alexandrina permaneceria no Rio Negro para se r vendida. ta l qual o perfil que a historiografia para outras regiões do Brasil tem constatado.ue as fugas envolvendo no das relações mais que das vezes podiam com outros livres quatro escravos. A fuga foi preponderante entre os escravos da faixa de 21 a 40 a nos. africanos. ou seguiriam para o Rio Negro. os escravos foram presos. pod emos destacar . nas proximidades do destacamento do rio Xibarú. como fugiram. ou para o Rio Madeira. lugar onde João cresceu e foi criado. não podemos menosprezar fugas como as de João Mulato e Alexandrina. lugar de va sto conhecimento de João e onde Alexandrina ainda existia se não tivesse sido vendida. apelidado de Macaçar. Não se Não demorou sabe explicar muito para ao certo que eles voltassem a fugir. para a cadeia da capital. o escravo José Paulino.

In: Reis. 1989. São Paulo. Eduardo. O anúncio detalhado – revelando a proximidade do senhor com seus escravos –. Negociação e Conflito. No dia 27 de julho de 1856. Fugas. muito todas são atividades especializadas. cativos Nuno Alves Pereira de Mello da propriedade Cardoso. o oficial de pedreiro. rosto cumprido e pouca barba . careca. revoltas e quilombos: negociação. Os escravos s. A resistência negra no Brasil escravista . Felix Gomes Felisberto José de junho de ferramentas de serviriam como sobrevivência. já que além de bom orador ―é muito dado a tocar viola .190 cravos Cloudino do e Amandio Rego e na fugiram vila de que dos seus no senhore dia 17 Tavares. Co mpanhia das Letras.Page 317----------------------a grande diversidade dos ofícios embora se possa afirmar que e profissões dos fugitivos. pois nos permite m desvelar um pouco mais das estratégias utilizadas pelos fugitivos para sobreviverem. da roupa ―de seu uzo . preto criou lo. os limites da Eduardo. Assim fugindo os do es senhor fizeram Diniz e Boaventura. fugiram de Marcos Ant onio Rodrigues de Souza. Fugiram em setembro de 1867 e além de um baú. de . coisa que não lhe causava constrangimento. entre os 26 e 28 anos. descrevia Diniz como ―alto. tinha nódoas pretas nos dentes da frente. No dia 29 de janeiro de 1856. Essas informações são importantes. de nome Martinho. barbado e com a ―fala atrapalhada . 316 ----------------------. 66. os africanos José de ―fala gr ossa e precipitada e Manoel.189 SILVA. falava explicado. p. magro. João José & Silva. fugia das propriedades de seu senhor na cidade do Pará com desti no a província do Amazonas. residentes 1854 levando suas pedreiro auxilio Óbidos e carpinteiro para a seguiam certamente Cantando e se distraindo tocadores de viola.

Cabe lembrar a grande presença ne ssa região de ―uma tradição quanto à formação de mocambos. No entanto. Esta área foi de e xtrema importância para o desenvolvimento da lavoura açucareira na Amazônia e se valeu maciçame nte do braço africano desde o período colonial. 192 GOMES. comunidades de fugitivos e desertores e a constitu ição de um campesinato negro com intensa mobilidade – provavelmente resultado s experiências de cativeiro quando desenvolveram também atividades extrativas e comerciais. 27/09/1867. 10.uma ―arma do rio branco . c. de localidades de destacamos um quadro ba onde se deslocam os fugitivos. vol.192 da 190 Estrella do Amazonas. 07/05/1856. 18/07/1854 191 Jornal do Rio Negro. ao mesmo tempo. 317 ----------------------. ―No labirinto dos rios. é preciso levar em conta que os jornais com os quais trabalhamos foram to dos produzidos e publicados na cidade de Manaus. furos e igarapés : camponeses negros.Page 318----------------------Em relação aos destinos. In: Historia Unisinos.191 stante variado Sobre as rotas das fugas. memória e pósemancipação na Amazônia. nas áreas ao longo do rio Tocantins e seus afluen tes – Vila de Óbidos. a grande maioria dos fugitivos originadas se desloca da capital. setembro/deze mbro. Flávio. 2006. o ―instrumento que aquelle toca . n. fortes correntezas Amazonas. o Amazonas aparece como o preferencial dess es fugitivos. bem como as impressionantes distâncias que se dispu nham enfrentar entre rios caudalosos. XIX-XX. sobretudo quando como a capital do Amazonas lugar de origem e destino aparece. o que de alguma maneira pode explicar tal conclu são. . Vila Franca e a Cidade de Belém. 02/08/1856.3. As no Pará são todas nas fugas e densas que matas. No encontramos proximidades do baixo amazonas. levaram consigo o provável ganho de sustento. Vila da Cachoeira do Marajó.

sapateiros. a cidade contava com escravos que desempenhav am funções importantes no seu cotidiano eiras. no sentido de por transformações intensas no seu transformá-la em ponto estratégico no fluxo de bens e mercadorias do comercio region al. habitadas predominantemente destribalizados.preferencial dos fujões. Dos jornais emergem várias imagens de escravos nos locais de traba como lavadeiras. de conflito entre modelos forros. Segundo Sampaio. engomad . Não se pode perder de que seguiram os vista também os outros destinos fugitivos e que conformavam o universo de possibilidades dos escravos da região. É preciso lembrar que embora as atividades econômicas não fossem l argamente realizadas pela mão-de-obra escrava. Até meados do XIX a província do Amazonas era parcamente povoada. a cidade passa espaço urbano. a cidade pos suía ares que não permitiam diferenciar nitidamente do urbano – um lugar bastante modesto no meio da floresta. ferreiros. E maciça de maiori cidad nesse espaço e.194 projetadas locais a da Nessa direção. pelas elites as intensas práticas transformações culturais da do espaço urbano entram em choque com as população indígena. c om pequenas e modestas vilas. em estreita proximidade com as faixas de fronteira int ernacional. chama atenção para o crescimento d setor imobiliário já na década de 1840. com irrisória por indígenas população branca. vendedeiras. O estado da capital não era diferente. escravos. com o crescimento da demanda inte rnacional pela borracha. guardando ―estreita sintonia com as necessidades colocadas pela economia gomífera e suas elite s . c omo é o caso das vilas mais distantes. africanos e diferenciados Africanos livres exercem papel fundamental na reprodução das lógicas de desigualdade e hierarquia da sociedade local. carpinteiros. os investimentos no os limites do rural e 193 No entanto. Anos depois.

o anúncio de duas casas que queria vender. p. como atestam os registros de prisão ―por embriaguez das semanas de abril.196Lá pelas sete horas de uma das noites de janeiro de 1867. Manaus: EDUA. Mneme .195 O africano Sergio passou praticamente os meses de março e abril inteiros a publicar.50. Valha-nos Deus já que a polícia applaude immovel esse acto que faz retroceder a nossa civilização .3. Patrícia Melo. O Commercio do Amazonas pedia aos céus pela salvação dos destinos da vila de Serpa.197 Os durante a relatórios produzidos década de 1850 pela presidência da província atestam o estado de abandono em que se encontravam as cadeias públicas. v.). 1997. Teias da Fortuna: acumulação mercantil e escravidão em Mana us. anúncios de compra e venda. passava o tempo a beber. os Africanos livres Militão e Martinho se de sentenderam no largo do Payssandú e como se não bastasse a querela. 3. bem como aspectos da cultura escrava na cidade e nas vilas. 318 ----------------------.. policiais. o jornal dizia emb asbacado: ―Esta lhe escrevo ainda impressionado com o estampido do Gambá essa manifestação própria de alegri a dos 193 SAMPAIO.. forj ando ambientes urbanos. 194 SAMPAIO.6. Em que embriagaram as própr correspondência publicada em 25 de dezembro de 1870. M. tomada pelos ias autoridades festejos africanos.Page 319----------------------africanos (. Militão espancou Mart inho e foi ―o delinquente prezo immediatamente . publicadas no mesmo jornal. Patrícia M. Caicó: UFRN-CERES. século XIX. n. insistente. Os fios de Ariadne: tipologia de fortunas e hierarquias sociais em Manaus: 1840-1880.Publicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte./nov. do Curso de História out.lho. ―uma no alto da cam pina e outra na rua da Palma . de 2002. a . Enquanto não vendia suas casas.Revista de Humanidades . p. À bem da verdade.

compartilharam esses espaços. 71. immundo e in salubre .200Muitos escravos.201 Na segunda semana de 195 196 197 198 s O Commércio do Amazonas. Al iás. estrangei ros e brancos pobres. no período de 1858 a 1868.9 201 Falla do Vice-Presidente da Província do Amazonas. ―que pelo seu âmbito estrei to. pelo menos 638 prisioneiros estiveram nessas ―pequenas casas mal s eguras. 199 FALLA do presidente da provincia Correa de Miranda. Militão mundos se cruzariam. publicada em do do Amazonas. A voz do Amazonas. 19/01/1867. conflitos e Martinho se acirrariam. indígenas.capital contou por muito tempo com um pequeno quarto. memórias as de João Mulato e seriam José compartilhadas. ainda que não convictos. com que o edifício. que já presta sofrivelmente ao fim que é destinado ficou. autoridades públicas que ocultava-se um profundo temor ―presos de crimes mais atrozes [estivessem] juntos com os de culpa leves. e mesmo com escravos fugidos . como os dos trajetórias africanos como Paulino seriam construídas. p. e os cid adãos. quando capturados no Rio Negro juntamente com a escrava Alexandrina. Falla do vice-presidente da província Correa de Miranda. p. forros. das Sob certo desconforto. escuro e insalubre parece ser no quartel mais um ergástulo tormentoso. O Catechista. Manoel Gomes 03/11/1860. pp. mas registr ava a necessidade de ―substituir alguma das grades de madeira que tem por outras de ferro. no passou de e a situação que casa de detenção . sem divisões e pouco aceiadas . africanos. Uma década se presidente Manoel Correia pouco mudou. 25/03/1865. em um universo interétnico bastante multifacetado e dialógico. 199 Foi nessas condições que a cadeia da capital abrigou os escravos João Mulato e José Paulino. publicada em Amazonas. 01/04/1865. 200 Ibidem. Manoel Gomes Correia de Mir . juntos com aquelles. 8-9. 25/12/1870. ―amuntuados em hum quarto escuro. Nesses espaços. 198 militar. Manoel Gome 05/09/1852. O Miranda apresentava alguns importantes reparos na cadeia da capital.

o carcereiro da cadeia Vencesláo de Oliveira Pinto. preso para averiguações sobre a asfixia por submersão que matou seu patrício Joaquim Gonçalves de Araujo. e o próprio dos Bento Braz José com seus de Lima companheiros e de evasão. ou pelo menos uma preocupação crescente com a ―reunião de escra vos . como já não fosse possível para o ―ergástulo tormentoso rtar mais alguém. Se Mulato tenha por um lado tempo podemos afirmar que a partir da década de 1860 existe um crescim ento significativo da atuação policial na província.Page 320----------------------maio do ano de 1865. tantas solidariedades. exclusão. 71 319 ----------------------. Na me sma ocasião foram presos Manoel Antonio Theobaldo. Quem assistia a tudo.203 exemplificada na constante preocupação dos inspetores de quarteirão com as escravas fu gidas nos subúrbios vários da cidade. compartilharam a Francisco Antonio da Silva. de longas Lugares de ondas. os presos condena Manoel Francisco Rodrigues. preso por infringir o código de posturas municipais. por fim. Maria Casimira e Hermelinda.202 de quantos Diante de conflitos. por ter auxiliado a fuga do preso Braz Co rrea da Silva. o português Bernardo Francisco dos Passos. era o boliviano Evaristo. e. processado como responsável pela f uga de Braz. sem talvez entender os enlaces da trama. não é de demorado tão resultado pouco sabe-se para lá volt compo admirar que João ar a fugir. as escravas Maria Raymunda. o indivíduo José Miguel e o africano Jeremias. p. por outro. mergulhados em um mesmo nos quais indígenas. publicada em 05/09/1852. mesma prisão os soldados Bonifacio Antonio da Cunha e o escravo Venâncio todos presos por embriaguez. presas por briga. presos por briga. . como atores sociais se viram espaço de no refluxo experiência.anda.

Tanto é assim que freqüentemente os jornais publica vam avisos .Page 321----------------------população que no inicio da década de 1850 representava um pouco mais de 3% da população to tal. mas também aos interesses da ―civilização e do progresso os pelas autoridades locais. São Paulo: Companhia das letras. Acervo do Instituto Histórico e geográfico do Amazonas. de 1  província do Amazonas. Peter & REDIKER. forjavam práticas antitéticas. 320 ----------------------. E isso a despeito de uma 202 O Catechista. Africanos livres acabaram por se tornar uma grande massa de suspe e liberdade. 2008. Coleção cidade possuía uma cor: a n Posturas Municipais de leis da de Manaus. plebeus e a historia oculta do Atlântico Revolucionário. impunham li tão almejad senhoriais. que Mas ta entre escravidão onde se horizontes de desordem. com fronteiras pouco nítidas mbém lugares políticos. Com efeito . um é preciso enfatizar que Embora até aqui tenhamos apresentado um quadro bastante multifacet segu pouco mais de 71% da ação policial atingiu africanos e afro-descendentes.mestiços. escrav os. Mais do que isso. 204 Esta percepção sobre as fugas de escravos em um contexto resistência multiétnica e multicultural de guarda profundas aproximações com as reflexões desenvolvidas por Peter Linebaugh e Mar cus Rediker. A hidra de muitas cabeças: marinheiros. formada majoritariamente por indígenas destribalizados. é possível afirmar que a Cadeia Pública da egra. e escravos ou ―quaesquer outras pessoas que possão causar distúrbios itos. 203 Artigo 81 do Código de de junho de 1872. marinheiros desertores. 13/05/1865.204 ado das classes subalternas da ndo os dados província do Amazonas. mites não só aos poderes africanos. coletados. este percentual vem corroborar o argumento de que os movimentos dos grupos negros causavam bastante incomodo às autoridades e que estes indivíduos i nstituíam as suas vontades nos espaços urbanos. Ver: LINEBAUGH. Marcus.

o que estava oculto em tais preocupações era nada mais.206 stas deixadas Talvez pelo agora se possa escravo que esclarecer melhor algumas hola pi fugiu do Maranhão. aquele que entendia ―alguma coisa de francez . Tais capitanias divisavam território com as Guianas Frances . De fato. Mesmo porque. mas também intensificado o trânsito de ―idéias e práticas revolucionárias .das delegacias advertindo sobre horários permitidos aos escravos e africanos para transitar nas ruas. Talvez essa visos sejam preocupação constante indícios da e a sistemática veiculação de tais a ineficácia de tais medidas. Segundo Magda Ricci. libertos e as classes subalternas como um todo estiveram em ―anarquia latente ou explicita gionais no Grão Pará causavam nas elites re também deve ser dimensionado como parte integrante das preocupações políticas e diplomátic as das autoridades locais no que diz respeito aos limites e fronteiras da província e do Império brasileiro. as autoridades coloniais das Capitanias do Rio Negro e do Grão -Pará temiam que os seus escravos entrassem em contato com as informações sobre as revoluções que oco rriam no Caribe e na Europa. desde o século XVIII. a Cabanagem foi um movimento ―tão vasto e complexo que só pode ser entendido dentro de uma perspectiva internacional na medida em que ele ocorre em um contexto de ―fronteira com as Guianas e o Caribe de um lado e com o mundo hi spânico que se tornava independente de outro . A revolução cabana teria não só aumentado os contatos e trocas de alimentos e armas entre as fronteiras com o mundo inglês. O medo que as duas décadas em que escravos. E acrescent verdadeiro pavor que as elites locais sentiam a menor lembrança dos ―tempos calamito sos de 1831 a 205 1840 da Cabanagem. nada menos que o ―medo branco e-se a isso o que pairava por todo o Brasil escravista. de nome Gabriel. ndês. francês e hispânico.

p.207 E como vimos. entre Caiena e as capitanias da Amazônia. outros escravos contornos fugidos diante e de intenso tráfego marinheiros desertores. Solimões. Em torno dos bumerangues: outras histórias de mocambos na Amazônia Colonial. Tapajós e Amapá .208 atentos à Com efeito. Revista da USP. 321 ----------------------. mas também com territórios sob domínios espanhol. itório francês e nas colônias francesas. província do Amazonas. ingleses. 9 1.46. os escravos conjuntura política da região amazônica estavam internacional. esse contato teve o seu estopim quando da revolução Cabana. mas que tomavam de indígenas. configurando um ―complexo cenário de disputas coloniais. período que se desenrolam vários tratados internacionais com vistas a estabelecer t ais limites.209Não parece . p. construía-se uma barreira humana franceses e espanhóis. mas também elaboraram uma rede de intercâmbios entre merca dores. ―havia uma constante movimentação de fugas de escravos e formação de quilombos . e formavam não apenas um cenário de circulação de informações sobre as discus sões que envolviam o fim do tráfico. 6. Barcelona. 2008. João Baptista publicado em 30/04/1852. 205 Relatório de Figueiredo do presidente da Tenreiro Aranha. In:Boletin Americanista. São Paulo.as.Page 322----------------------Ao passo que se tentava estabelecer na região vários tipos de explor ação econômica. os levantes ias nas Américas. Magda.. p. Flavio dos Santos. inglês e holandês e. É nesse contra holandeses. Fronteiras da nação e da revolução: identidades locais e a experiência d e ser brasileiro na Amazônia (1820-1840). mocambeiros e etnias indígenas diversas na Amazônia Brasileira e s uas fronteiras. 207 GOMES. Año LVIII.28. n. Rio Branco. n  58. pri ncipalmente nas áreas do Rio Negro. as de escravos lutas de a abolição que da escravatura outras no colôn terr aconteciam em independência na Venezuela. 206 RICCI. Madeira.

As preocupações do presidente do Pará e os receios da Secretaria do Ministério coincidiam com: ―as noticias recebidas (. partio com elles para a Inglaterra para de lá se dirigirem a Guyana com o projeto de penetrarem no Br azil .83. Flavio. In: EAVirtual. 210 Ofícios sobre a questão de limites de 16/01/1849. Ano: 1841-1849. Arquivo Público do Estado do Pará 322 . solicitava província Grão-Pará Negócios Estrangeiros sobre as medidas que se deveria adotar ―com o fim d e evitar as fugas de escravos dessa Província para a Guyana onde foi abolida a escravidão . idéia que sugere experiências das rebeliões circulação revoltas escravas nas Américas que seguiram até aos trabalhadores ingleses através na navegação 208 GOMES.absurda a hipótese de que Gabriel tenha aprendido ―alguma coisa de france z nesse intenso cotidiano de trocas ua fuga guardasse o de informações objetivo de e mercadorias.. no e Felipe fugiram das propried Pará. n  2. Topói.. Rio de Janeiro.) de que um mulato natural de fora áquella cidade revestido a caráter de emissário das sociedades que traba lhaõ pela liberdade dos escravos.210 S. Na o presidente da Ministério dos a escravidão do havia sido abolida. Manoel senhor Amanajás. de 1848. Caixa 79. p. Fundo da Secretaria da Presidênc ia da Província. ades do Quando Ignez. instruções ao Guiana Francesa. 2001. Domingos. o qual unindo-se com outros agentes das mesmas associações. 1840/1860. Ousados e insubordinados: protesto e fugas de escrav os na Província do Grão Pará. 209 BEZERRA NETO. na em 27 de abril mesma época.46. fazia bem pouco t empo que muito próximo dali. inebaugh Parece chamou que estamos de bumerangues uma e diante daquilo de que idéias Peter e L trocas de africanos. José Maia. Etnicidade e fronteiras cruzadas nas Guianas. p. na vila de Silves. para o interior da província do Amazonas. e que a s disseminar tais discussões sobre cidadania e liberdade.

213 Hygino Compartilhando e o cafuzo peruano experiências históricas. Para ajudar com tantos ―objecttos . o jornal Estrella do Amazonas.Page 323----------------------atlântica e que retornam ao mundo caribenho como fim do tráfico. Ao final das cont as. um revolver de 5 tiros (. mas é bem provável que ele tenha sido sarcást co ao fazer o alarde e assim debochado da imaginação ―medrosa dos senhores. um índio anúncio de nome Hygino do jornal A voz Pires do Gomes. perceber o Alguns temor anos depois que pequenos desse ocorrido.211 Nossa luta pela abolição e preocupação aqui é menos discutir a possibilidade real ou não desses emissários e agentes.. filho do Perú de nome Rozario . estava: dentre as ―uma montaria possante.212 e o rio A fuga de Hygino pode Solimões e o Purus. esses sujeitos acionavam uma importante tradição de rotas de aldeias e . al imentando ainda mais o pavor de ―desertores. o indígena Rozario. Entr chamado lago da Salsa. noticiava o resultado das averiguações policiais a partir de denúncias fe itas por um escravo sobre índios e escravos existentes na estrada da ―Caxoeira . no esclarecer algo mais. de 24 de março de 1867.----------------------. dizia ue levou da tripulação. dominavam a floresta. u ma patrona de lona encerada . No dia 21 de abril de 1854. duas armas. o índio Hygino contou com ―um m enor carafuz. fugiu dos negociantes Avelino Guimarães e Francisco Correia de Miranda.). contendo uma porção de roupa e us o. do que chamar atenção para as redes sociais que se interpenetram nas Américas e na Amazônia. podemos ajuntamentos de escravos causavam nas elites locais. a denúncia pareceu simples ―imaginação do medroso cativo. um bahú pertencente a Avelino.. Fugindo. mundo em que as dificuldades poderiam ser tão duras quanto às do mundo escravista. ou escravos que espreitassem occasião de entrar na cida de . um outro bahú pertencente a um boliviano. que nascido no Janucá. coisas q O Amazonas.

Page 324----------------------signais nas costas de castigo que sofreo . Vila da Cachoeira do os escravos Pedro e Aprígio fu Marajó. n  2. São Paulo. De um lado. set. 212 Estrella do Amazonas. uma tradição indígena de migração e mobilidade . 40 323 ----------------------. segundo o anúncio publicado. águas do rio Gomes. onde houve contatos com missionários espanhóis e colonos europeus nas fronteiras com a Guiana Francesa. n. idade 30 annos se ta nto e o outro ―he padeiro também lê alguma cousa.mocambos forjadas pelas compulsória ao trabalho. 21 de Abril de 1854. existia um intenso comércio entre diversas tribos. existente desde lo XVIII. 24/03/1867.3/6. Flávio. a cadeia Quando publica da da fuga de capital na João Mulato e José Paulino d montaria do mestre Funfão. 7-46. 1983. Os dois cativos fugiram se valendo de uma montaria grande e a rota que pretendiam seguir era ―ir pelo rio negro para Hespanha . ao passo que ―exi stia mesmo. Revista B Historia.214 giram da Em agosto de 1858. official de carpina. Etnicidade e fronteiras cruzadas nas Guianas (séculos XVIII-XX). p. 214 GOMES. 213 A voz do Amazonas. o primeiro era ―hum preto crioulo. rasileira de Peter. onde viveu forag ido com o nome de Antonio Paulino. pp. área conhecida de José. O escravo José Paulino talvez soubesse do vertiginoso des envolvimento ―que vão tendo no Rio Madeira o commercio e a industria da extração dos produtos naturae s em que elle abunda e do crescimento do comércio de ―importação de gêneros procedentes da repub . nas mobilidades de indígenas Segundo fugidos desde da o inserção sécu os tempos coloniais. Todas as montanhas atlânticas estremeceram. o rio madeira. In: EAVirtual. dois destinos se apresentavam fortemente para os cativ os. he alto tem falta de hum ou doius dentes na frente e alguns 211 LINEBAUGH. Solimões.

. nas vilas. num bem relações de contexto de fronteira internacional. revelam as fugas como resultado estratégico da confluência de intensas e consistentes mas também destribalizados. De outro. no caminho da ―Hespanha . As trajetórias de escravas fugitivas ao estreitar laços. pelas vielas em um policial e na andar Dos como bem ent i de contexto de crescente ação mpressionantes. Pe rcorremos as rotas de escravos que em plena idade produtiva construíam espaços de autonomia e lib erdade nas cidades. Alexandrina ainda existia. por viver como mestres das matas. É possível afirmar que a simples possibilidade de movimentos de fugitivos c om rotas de proporções transnacionais. atores não só entre escravos. como se fossem lojas e tabernas fluctuantes em que. iaõ [como] os mascates e regatões onde provavelmente sem pagarem direitos.lica peruana . mas também de idéias e experiências sobre as lutas e rebeliões escravas por todo o atlântico. construir endessem famílias..) á retalhos pelos rios. dos lados da liberdade. Cercando navios e vapores. rumo do s territórios da ―Venesuella . percebemos Buscando a confluência o quanto as de muitos caminhos pra conclu fugas escravas fizeram parte do cotidiano da escravidão na província do Amazonas. marinheiros bolivianos. (. estabelecid as nas matas. percorrer os subúrbios. o Rio negro. entre vilas cidades. entre outros venezuelanos. as como deslocamentos e trocas e capitais. lagos e sítios e aldeias do interior em pequenas canoas . feitorias experiências dos capital. desertores. redes com sociais existentes indígenas peruanos. ir. nos rios e matas da região. percebemos fugitivos. veredas tortuosas. poderiam mercadejar nas ―feitorias. Esse cenário conforma uma importante circulação não só de mercadorias. indígenas de mobilização e intensas tradições comércio pelos rios e matas da Amazônia. . presa para ser vendida.

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sobre as terras dos remanescentes das comunidades d os quilombolas. their historically build conceptions and their resignifications in present times . A o de 1988. we will quilombos or terras de preto in Maranhão (black people lands) considering a short contemporary perspective of their identities. faremos uma reflexão sobre os quilombos ou ―terras de preto . recognized the right of thes e communities to the property make a of their reflection lands. visto que a Constituição Federal das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT. os quilombos . This discussion remind us about the quilombos c onstitution process. n o Maranhão. Maranhão Abstract: In this article we discuss the question of the land remainders of the commu nities of quilombolas (runaway slaves who took refuge in hidden places). Palavras. Achamos necessária essa um lugar comum. suas concei construídas e suas ressignificações na atualidade. Territórios. Identities. in its article 68 of the Transitory Provisions Act. as suas identidades.----------------------.chave: Quilombos. do à Ato proprie comunidades partir dessa premissa. Identidades. neste artigo. Maranhão INTRODUÇÃO Iniciamos este debate visitando .Page 327----------------------QUILOMBOS OU TERRAS DE PRETO: IDENTIDADES EM CONSTRUÇÃO José Re inaldo Miranda de Sousa215 Resumo: Discorreremos. once the 1988‘s Brazilian Feder al Constitution. reconheceu dade de suas terras. Essa discussão n os remete a indagações sobre o processo tuações historicamente de constituição dos quilombos. Key-words: Quilombos. direito no artigo dessas 68. Starting with this about the called premise. considerando de uma perspectiva contemporânea. Territories.

em se tratando mas. Constituição Federal de 198 do Ato das Dis pois ela trouxe em seu texto o posições Constitucionais Transitórias ADCT. estiveram sem muitos conceituações e identidades dos sujeitos que os compunham. a No questão decorrer do texto. faremos sua apresentação. presentes através de avanços. como segue: Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas itiva. em razão da própria dimensão que essa categoria tem tomado. das identidades propomo-nos trazer para refle quilombolas numa perspectiva contemporânea. 215 Mestre em História Social pela PUC-SP Professor Titular de História. promulgação artigo da 68. que se tratavam de grupos prestes à extinção. Como sabemos. Desde do várias são as manifestações voltadas à ampli . a partir da década de 1980. o Entretanto.Page 328----------------------xão. era só uma questão de tempo. 327 ----------------------. muit as vezes. embora saibamos tratar-se de questão con troversa. de um modo geral. de de certa sempre forma. visando à constituição de um estado democrático.retomada. a discussão acerca dos territórios quil ombolas. de forma breve. com a debate se abriu. no CEU Jambeiro. colocando à sociedade. 8. redação trata-os apen comunidades dos quilombos”. em sua a propriedade defin as como: Vale ressaltar que “remanescentes das então. aqui. dada à própria natureza do texto. devendo o estado terras é reconhecida emitir-lhes os títulos respectivos. com o advento das mudanças que a sociedade civil brasileira conduz no campo da polít ica. Para isso. os quilombos na nossa historiografia vários estudos. Prefeitura da cidade de São Paulo. dando-nos a impressão.

lo go que esteja no interior das matas. estabelecimento. In: Projeto Vida de Negro.debate sobre os quilombos contemporâneos. que. Na a realidade das tentativa de comunidades traçar um significado deparamo-nos que contemple ma negras. teria sido extinta com a abolição da escravatur a. sabendo-se que su as composições e realidades são diversas. mesmo após a independência. para fugirem aos horrores da escra vidão. idealmente. ou quilombos na contemporaneidade. que domin am a nossa historiografia. em 1888 218. definiu quilombo como ―toda habitação de negros fugidos que passem de cinco. 12 ―reputa-se-há escravo aquilombado. em parte desprovida. a partir da clássica definição introduzida pelo Conselho Ultramarino216. São Luís: SMDDH/CCN-PVN 1996. pendência mantém uma além disso. não nos deixando praticamente margem para outras significações aos ter ritórios que se constituíram por diversas razões. Não muito diferente será com o advento da repúblic a.Page 329----------------------conceituação congelada do que é quilombo. ou distante de qualquer reunião de dois ou mais com casa ou rancho . Curioso é que. Terra em de Preto: pois ―não há uma legislação republicana a respeito e nem qualquer redefinição for al desta categoria quilombo. pois não nos Outra dificuldade é interessa apenas o próprio conceito de quilombo. historicamente construído desde o período colonial. lançar mão de um conceito. sendo com um uma delas a forma em como atribuir identidades a esses grupos. vizinho. ainda que não tenham ranchos lev antados nem se achem pilões neles 217 Lei Provincial n  236 de 20/08/1847 art. e outros subsequentes. . 328 ----------------------. esse termo foi reeditado na Província do Maranhão 217. em especial. em virtude do próprio processo diaspórico vivido por esses su jeitos. constatamos ainda que essa inde 216 O Conselho Ultramarino Português. Frechal Quilombo reconhecido como reserva extrativista. 14. r de dificuldades. quase sem nenhuma modificação. p. de 02/12/1740.

aqui intitulam-se terras de preto. como referência as várias comunidades es de que trata a e/ou povoados do estado do Maranhão. Emb ora de forma ainda muito presa ao passado. podemos demonstrar com a própria realidade das terras de preto . temos com o foco as experiências compreender dos sujeitos como são que compõem essas comunidades à procura de forjadas as novas identidades que formam as terras de preto. assim. Com base nesta premissa. foi um conceito cristalizado do que seja quilombo. ainda refugiados pensarmos nessas numa concepção colonialista. suas formas de l utas e resistências contra a exploração destes mesmos senhores que. que só após um século da abolição formal legalmente. vas reflexões para além do remetendo-nos a no conceito amalgamado de quilombo. dando-nos a impressão de comunidades fora de seu nos a tempo. trazemo s. que . QUILOMBOS OU “TERRAS DE PRETO” O que nos interessa aqui é trazer um debate a respeito dos mbos para além das quilo conceituações jurídicas e historiográficas. foi restabelecido o termo quilombo. ao longo da história colonial. remetendo- comunidades como algo do passado. tão presente na nossa historiografia. na Constituição Federal de 1988. por e xemplo. Para isso. negando todo um modo de vida e cultura dos sujeitos dessas comunidades. da escravidão Incrivelmente é que. destituídas de qualquer contemporaneidade. conceituavam os quilombos. categori a construída a partir da própria realidade das comunidades. o tambor de crioula.O que prevaleceu. difundidas. amplamente. em seu artigo 68. pois o termo da lei menciona ―aos remanescentes das comunidades dos quilombos . onde a identidade é marcada por meio de símbolos. Para tanto. do ADCT. imperial e parte d a republicana. não trazendo à atualidade do termo. essas comunidad Constituição. construído a partir da ótica do poder in stituído.

Nesse se identidade é relacional. através Ressaltamos da linguagem que e dos as identidades adquirem sentidos sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas. pois se trata de um conceito estratégico e p osicional e não . pois para que essa identidade exista depende de algo fora dela.Terra de Preto: Quilombo reconhecido como reserva extrativista. ainda. ao mesmo tempo. de uma identidade diferente da sua. que se aglutinam. A identidade também é histórica. uma vez que se p autam na memória das lutas de seus antepassados. à Guerra da Balaiada221. A representação atua simbolicame nte para 218 Projeto Vida de Negro. criam novas sendo através desse passado identidades e se fortalecem nas lutas atuais por terra. Nas terras de preto . podemos afirmar que a no seu interior.Page 330----------------------classificar o mundo e nossas relações ntido. consideramos que identidade não pode deixar d e ser pensada sem as contribuições da sua forma antiga. como forma de res istência e herança da cultura trazida pelos africanos. ou seja. Frechal .funciona como um significante da vez que representa a cultura diferença e da identidade. São Luís: SMDDH/CCN-PVN 1996. Essa recorrência ao passado se faz presente no próprio nome do Assentamento Balaiada220. no município de Nina Rodrigues. mas que lhe ofereça condições para existir 219. no estado do Maranhão. para o fo rtalecimento de suas lutas atuais e. pelo direito de permanec er em seus territórios e o direito de ter direitos. portanto. Ainda nesse sentido. localiza-se em um determinado tempo. 329 ----------------------. ou seja. uma forma de representação da po pulação afromaranhense. para a construção de novas identidades. remete-se a um passado. uma maranhense como produto de venda ao turismo e.

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Stuart Hall. d evem ser vistas a partir da cultura. In: SOUSA. (Dissertação de Mestrado). Salomão. Historicidades e Territorialidades (1988-2008). Segundo Caxico* ―a ocupação se deu em 28/06/1999. Mucambinho. Departamento de História. A terra ocupada pertencia a um grande latifundiário da região . Terras de Preto no Vale do Rio Munim: Nina Rodri gues. por sujeitos de vários formado após uma ocupação de ter povoados. Tomaz Tadeu da. levando em consideração. José Reinaldo Miranda. * Morador e liderança do Assentamento Balaiada. promovida regularizado por pelo INCRA. são atos de Sabemos poder. construídas nas terras de preto. Salga dor e São José dos Pretos.essencialista. Petrópolis. p. Essas novas identidades. o que tem fortalecido outras concepções de classe. Atualmente ainda está à frente das lu tas por melhorias na comunidade. É a partir dessa perspectiva que concebemos as identidades quilombo las. construídas historicamente e conectadas à contemporaneidade de um mundo marcado por mudanças con stantes. 220Trata-se de um assentamento ir de uma ocupação. Kathryn Woodward. 2000. desde o tempo dos antigos p roprietários do município de Nina Rodrigues. as experiências dinâmicas. Embora não se caracterize como comunidade remanescente de quilombos . (1839 -1841) 330 . m arcada pelo estruturalismo social. espec vividas pelos sujeitos históricos de seu tempo. RJ: Vozes. desafiando o modelo fundiário até então vigente. ialmente. pois se trata de um assentamento ra. 2009. como ato de poder.100 221 Movimento popular iniciado na Vila da Manga. portanto. 219 SILVA. que transcendem a visão marxista. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos cultu rais. atual Nina Rodrigues-MA. que a isso nos construção de identidades também possibilita refletir sobre a constituição do território do Assentamento Balaiada. que têm sua origem com tais características. sua população é procedente de vários povoados do entorno. a part moradores de vários povoados da região. Os povoados que formaram o Balaiada foram: Morro da Filó.

A p artir daí surge uma nova pauta na política nacional: afro-descendentes.----------------------. na atualidade. pois o compreendemos para além de um conceito cristalizado. cientistas e militantes são chamados a definir o que vem a ser o quilombo e quem são os quilombolas222. o que nos leva a ro mper com o mero discurso jurídico formal a muito apregoado na nossa historiografia. Com base no exposto compreende-se. É com o propósito de rever que o conceito de quilombo. construído h trataremos aqui. como categoria em a questão conceitual de q movimento. Compreendem-se terras de preto a partir do caminho que toma a eco nomia brasileira no pós-abolição. é também terras de preto e mais outras definições gestadas por uma grande parcela da sociedade brasileira. sig nifica sobretudo um direito reconhecido e não propriamente. enfim um modelo de sociedade que se apresen ta como contraponto ao modelo de sociedade capitalista instituído pela modernidade. No Maranhão. procurando refletir o seu conceito na atualidade. quilombo. No dizer de Ilka Boaventura Leite. na busca de reco nhecimento e conquista de direitos. idades constituem-se como É nesse contexto que essas comun espaços de culturas híbridas. dessa maneira. que segundo Canclini ―abrange diversas mesclas intercult urais – não apenas porque raciais. às quais costuma permite incluir as limitar-se o termo ‗mestiçagem‘ – e . Quil ombo significa um modo de vida. que quilombo não se trata apenas de um rememorar o passado das lutas dos negros. como os índios e os caboclos. e apenas. hoje. uma concepção de mundo. partidos po líticos. hoje. daí a cr ueldade como foi e é combatido. um passado a ser rememorado. em especial por terras. essa categoria envolve diversos segmentos sociais. uilombo Vemos.Page 331----------------------istoricamente. além dos negros. o quilombo.

NO MARANHÃO: FORJANDO LUTAS que se refere A organização e luta contemporânea dos sujeitos das terras de preto com eçam a tomar vulto desde a década de 1970 224. juntos. IV (2). onde se concentrou a população escrava justamen te para trabalhar na produção de algodão. fórmula quase sempre a fusões religiosas ou de movimentos simbólicos tradicionais 223. o número de comunidades é maior aqui no Ma ranhão. 2000 pp.CCN-MA est abelece uma rede com outros movimentos.Tradução Híbridas: Estratégias para entra Heloísa Pezza Cintrão. Os quilombos no Brasil: Questões conceituais e normat ivas. Ilka Boaventura. vol. por um grupo de pessoas a situação do Maranhão. Culturas r e sair da modernidade. 15 famílias. também do Rio de Janeiro m à. Nestor Garcia. Mas não são tão populosas. essa é a verdade. tinham pouca ou quase nenhuma visibilida de.225 Vários foram os quilombos no Maranhão com essas características. Etnográfica. 333-354. São Paulo: EDUSP. O Movimento Negro do Rio de Janeiro e a Associação Cultural A froBrasileira. deputada federal e que. 3ª ed. Ana Regina Lessa. o de Estudos e Defesa do em várias partes do país. encaminhara . quando os primeiros grupos começam a se mobilizar na busca de direitos dessas comunidades que. 223 CANCLINI. (negros e negras) que estavam negro no Brasil e no preocupadas com 331 ----------------------. p. A constituição do Centro de Cultura Negra do Maranhão. então. Mundinha Araújo traz elementos que subsidiam essa questão ao dizer que 222 LEITE. 2000. até então. 19 224 O Centro de Cultura Negra do Maranhão – CCN--MA foi fundado em 19 de setembro d e 1979. como: o Centr Negro do Pará (CEDENPA).formas modernas de hibridação melhor que ‗sincretismo‘.Page 332----------------------no que se refere a comunidades de pretos. Porque está na zona de colonização antiga. Tem povoados d dez.

durante a colônia e o império. não ape nas a luta para o reconhecimento do território como espaço físico. que os quilombos e as lutas dos negros. as terras de preto . adentrou o regi permanece com muito vigor nos dias atuais. ocupam e usufruem de forma coletiva. com base em relações familiares. alterada pela IN 49/2008. sociais e econômicas. 225 PEREIRA. IN 20/2005 INCRA. tal como estabelecido na Constituição Federal e demais legislações daí decorrentes 226. mas um reconhecimento que vai além. dando origem ao artigo 68 do ADCT da Constituição Federal. criando. em ou um igualdade desigualdades políticas. o direito à História. secularmente. abrindo novas país possibilidades marcado por de justiça profundas e desses sujeitos. Certamente as comunidades dos territórios negros rurais têm se mobil izado no intuito de que as ações governamentais se voltem para alterações na configuração das relações agrária medida que tem como proposta.) Histórias do movimento negro no Brasil: de poimentos ao CPDOC. muito contribuíram par a o desgaste do me regime escravista. Amilcar Araújo et al (org. Essas iniciativas significaram um grande passo na luta para que se reconhecessem legalmente os grande avanço em termos territórios de negros. Percebemos. 226 Decreto 4887/2003. Rio de Janeiro: Pallas. a titulação das terras que ocupa m. a proposta negras rurais. . embora exaustivamente mencionado na hist oriografia. trazendo em seu bojo o direito à cidadania seja. de garantia das ter sendo apresentada e aprovada no Congresso Nacional Constituinte. com isso. Trata-se de um prerrogativas legais. Nunca é demais ressaltar. CPDOC-FGV. 2007. social. a possibilidade para a titulação dos atuai s territórios que. com isso.constituinte Benedita ras das comunidades da Silva. A luta não republicano desde o início e parou por aí.

erras de preto. ou seja. um novo co constituir como reflexo. como qu Seguramente o termo ―remanescente das comunidades dos quilombos . dos mais recentes posicionamentos dos vários segmen tos sociais e áreas do conhecimento. quanto u m conceito. uma vez que impede a transformação da mesma em mercadoria. evitando assim a compra e venda. recuperando e atualizando ilombola. resentavam assim um como os quilombos contraponto à que em outras épocas rep dinâmica da sociedade escravocrata. Sob esse prisma. o uso comum do território por parte de seus habitantes. estado do Ressaltamos que as terras Maranhão. que nos são permite inserir nessa interpretação as t nomeações de épocas pretéritas. in comunidades que trazem em sua essência.Page 333----------------------nceito A partir dessas prerrogativas de quilombo passa a se legais. Iss o tem gerado reações de vários segmentos da sociedade no combate ao direito conquistado por essas p opulações de ―remanescentes de quilombos . tanto pode ser um tema e um problema da ordem do dia do campo de poder. notadamente no contramão da dinâmica capitalista do uso da terra. também. como exemplo temos o Movimento Paz no Campo228. calhambola ou mocambeiro 227. quilombo pode ser entendido hoje de diferentes perspectivas. terposto na Constituição Federal. portanto. tanto pode ser uma categoria jurídica e uma questão de direito. quanto um instrumento através do qual se organiza a expressão político-organizativa dos que s e mobilizam. objeto de pesquisa científica. pois não é permitida a partilha. O c aso de . e é isso que gera reações dos senhores que cometem as mais brutais formas de violências contra esses núcle os.332 ----------------------. vêm na de preto. instaurando outras formas de vida e liberdade.

É a visão dos dominantes. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias 22 9 e tantas outras manifestações veiculadas de comunicação.paznocampo. caminhonetes. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidade s dos quilombos de que trata o art. 228 www. . a tas vezes se apresentam através da em Grande.br 229 www. ocorrido cerca no de uma violência. ainda hoje.887. que não consideram o casebre coberto de palha e tapada de palha como u m domicílio. o que demonstra. essa é a visão do dono de fazenda que assim tratava os negros os moradores e continua tratando descendentes desses povos. destruição total daquele povoado. Jamary dos Pretos – Terra de Mocambeiros. que ocupam esses territórios na atualidade. Negro C osme. Col.Page 334----------------------o beira O requinte de arbitrariedade à barbárie. não sendo que envolveu o fat respeitados os dispositivos básicos da Constituição Federal.koinonia. ou seja. Vol. pois suas casas foram totalmente destruídas com tratores e incendiadas.org. 2003. onde Comunidade h ouve a cem policiais. dez jagunços foram à quilombola. que regulamentou reconhecimento.br 333 ----------------------. Decreto para o procedimento delimitação. de através dos vários reações de meios que mui Varg forte reação é o latifundiários.org. II São Luís: SMDH/CCN-PVN 1998. como no estado do município Maranhão: no dia 19 de maio de dois tratores. comunidade Malaquias. 227 Projeto Vida de Negro. rotineiramente dos caso 2006. a inviolabilidad e do domicílio do cidadão.maior polêmica vem através do e apresentou o Projeto de deputado ruralista Valdir aplicação Colatto do qu Decreto Legislativo PDL 44/2007 ―que visa sustar a n  4. de 20 de novembro de identificação.

era contr 0 famílias e 0 pessoas. às famílias de ex-escravos a par tir da desagregação de grandes propriedades monocultoras. Portanto. do mandado não constava a demolição. quando não havia ação. no ato do despejo. Os descendentes de tais famílias pe rmanecem nessas terras há várias gerações e sem delas se apoderarem individualmente . foi ―despejado pela força polic ial. o mandado apenas determinava a proibição para que os réus se abstive ssem de praticar qualquer ato que impedisse o exercício da posse. não fo i respeitado nem mesmo o cadáver do ―seu aleceu às Teixeira: ele foi picado por uma cobra cascavel. no Maranhão. 231 o não se Mais adiante o restringem apenas autor aos sem proceder ao formal de partilha diz ainda que terras de pret domínios acima citados. segundo. a ação. pois não havia uma ação de despejo. às oito horas da manhã. envolvendo essas comunidades é bastante complexa. e sim uma ação de interdito proibitório cont ra 10 famílias: primeiro. portanto sem ao menos o direito e episódio algumas ilegalidades de ser velado. vale destacar que. que a situação das te rras de preto. com base nos episódios acima.O grau de barbaridade chegou ao ponto de. a execução foi contra incluindo idosos. no dia 18. MUITO ALÉM DO TERRITÓRIO definições Na tentativa de conceituar terras foram traçadas por de preto. . e. com ou sem formalização jurídica. houve uma reintegração. 30 famílias. Constam dess praticadas. entregues. foram atingidas sem estarem na relação processual. algumas Alfredo Wagner Berno de Almeida que as considera como ―aqueles domínios doados.230 Pode-se constatar. ocupados ou adquiridos. trata-se de comunidades centenárias. f cinco e meia da manhã do dia 19. terceiro. mais de 10 gestantes e crianças. TERRAS DE PRETO. não se trata de ocupação. no caso.

notadamente na guerra da Balaiada (1838-1841). Grande Expe diente.Page 335----------------------A expressão alcança também aqueles domínios ou extensões correspondentes a antigos quilombos e áreas de alforriados nas cercanias de antigos núcleos de mineração. istadas por prestação de regras Há ainda de uma aquelas concepção que foram de d conqu 232 serviços guerreiros ao Estado. terras de Santo e Terras de Índio.230 DUTRA. onde existem centenas de povoados.br. tratando-se d . e uma modalidade intrínseca desses de relação com os re que constitui florestais e do solo. É a combinação a identidade desses grupos. abrangente. Alfredo Wagner Berno de. Assembléia Legislativa do Maranhão. Domingos. 334 ----------------------. São Luís. o que.com. que orientavam uma apropriação comum dos recursos. 23 de maio de 2006. Relatório. mantendo ireito. elementos Terras de preto têm um sentido de força social. Diferencia-se de comunidade dos quil ombolas por essa ser uma categoria restritiva. tro O PVN – Projeto de Cultura Negra do categoria terras meio Vida de de Negro preto em do CCN-MA da – Cen autodenomin Maranhão. UFPA. não e uma classificação externa. Terras de Preto. adota a ação difundida no função rural maranhense. www. relacionada aos aparatos do poder. Tendo por base o elemento étn ico. definem uma territorialidade específica cursos hídricos.elo. Presença marcante tem aqueles povos e podemos percebê-la através no adj etivo ―dos pretos em mais de 33 povoados no estado do Maranhão. 1989. que perm aneceram em isolamento relativo. 231 ALMEIDA. Uso Comum e Conflito/Revista do NEA. a nosso ver. caracteriz a uma força presente em suas próprias territorialidades.

Município Povoado Chapadinha Pinheiro Turiaçu Itapecuru-Mirim Eugênio Barros Caxias Codó os Icatu Igarapé Grande Presidente Juscelino Lima Campos Centro dos Pretos Santana dos Pretos Santa Rita dos Pretos Oiteiro dos Pretos São Paulo dos Pretos Mandacaru dos Pretos Santo Antonio dos Pret Jacaraí dos Pretos Mandi dos Pretos Juçaral dos Pretos Bom Jesus dos Pretos 232ALMEIDA. incidência de resultado do levantamento do remanescentes de quilombos ou terras de preto no estado do Maranhão. Alfredo Wagner Berno de.233 traz a tabela a seguir. 233 Projeto Vida de Negro (CCN-MA e SMDH) 1988 a 2007. 335 ----------------------. Belém. 1994.A PVN. Carajás: A guerra dos mapas.Page 336----------------------Turiaçu Codó Santa Helena Itapecuru-Mirim Cândido Mendes Cândido Mendes Grajaú Bacabal Central do Maranhão Jamary dos Pretos Cipoal dos Pretos Pau Pombo dos Pretos Santa Maria dos Pretos Bom Jesus dos Pretos Carará dos Pretos Santo Antonio dos Pretos São Sebastião dos Pretos São Sebastião dos Pretos . Falangola.

mas traz consigo todo um significado cultural. inclusive de gênero e orientação sexual. de Mocambo dos Pretos São José dos Pretos Fortaleza dos Pretos Barraca dos Pretos Boa Vista dos Pretos Inaranha dos Pretos Santa Rosa dos Pretos Bom Sucesso dos Pretos Piritoró dos Pretos Lagoa dos Pretos Santana dos Pretos (ilha Cachimbo dos Pretos Tabuleiros dos Pretos uma de explicitação identidades. uma costura de posição e contexto. puro. Percebemos que o território aqui explicitado. UFMG. 336 ----------------------. portanto. pertencimento a esses nesse levantamento. assim como Stuart Hall. que a identidade neg ra é atravessada por outras identidades. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. de Não territórios. onde a cultura negra seja preservada. identidade é um lugar que se assume. e não uma essência ou substância a ser exami nada234. Stuart. Ed.Santa Helena Guimarães Guimarães Bacabal Rosário Codó Itapecuru-Mirim Mata Roma Codó Caxias Alcântara do Cajual) Maracaçumé/Nunes Freire Chapadinha Constatamos. sugerindo a necessidade queremos dizer. não se trata apenas do espaço físico.Page 337----------------------- . com essa afirmação sugestão. Belo Horizonte. a nossa compreensão sobre o o que certamente alarga 234 HALL. acreditamos. 2006. que as identidades sejam fixas e que remontem a um tempo passado.

É nesse sentido que compreendemos os terri tórios quilombolas. tradição cultural. Antonio Augusto Arantes236. mas um conceito em movimento que deve ser considerado a partir de seu contexto e de sua s complexidades. pois não se trata apenas de descendentes de negros escravizados. casa e escola para estudar em casa. consi dera o espaço de fundamental importância. pois é nele que se configuram todas as tramas sociais. construídos a partir das experiências vividas por esses povos. além das fronte iras físicas. Neste sentido. configurando-se constituem como espaços de contemporaneamente também através de redes. Seu trabalho nos leva a refletir sobre as novas territorialidades e suas dinâmicas. Sabemos que territórios não se traduzem apenas ao espaço físico. buscando seus territórios. mas tem dimensões mais amplas. identidades historicamente território laços quilombola. ou Território. pois se identidades. a luta contra a assegurar a posse de discriminação racial. de nessa perspectiva. seja. a luta por uma sociedade justa. pautada na igualdade. . significa religiosidade. Assim sendo. espaços de familiares. a luta pela terra. Constatamos isso no depoimento de Teixeira235 s obre a ocupação da área do Assentamento Balaiada: o objetivo da luta era conquistar a terra para que todos tivess em terra. onde os próprios sujeitos se articulam e se fortalecem. em seus estudos. terras de preto nos remetem a uma diversificação de se ntidos: a luta por identidade. sem ser preciso os filhos da gente sair na adolescência serv indo de escravo para os outros para poder estudar. consideramos também a grande miscigenação que há nas chamadas terras de preto. Pautados nessas premissas é que devemos considerar as identidades d os quilombolas. terras de preto não é apenas um conceito que nos remete ao pas sado. seus modos de vida. suas culturas.conceito de quilombo.

Nesse sentido, Rolnik diz que, ―ao falarmos de territórios n egros, estamos contando não apenas uma história de exclusão, mas também de construção de singularidade e elaboração um repertório comum 237. a diversidade Cabe-nos, a partir do histórica desses são exposto, refletirmos sobre de

territórios que, contemporaneamente, preto, uma vez que suas

identificados

como terras

235 Ex-vereador (2005-2008), morador e liderança do Assentamento Balaiada. 236 ARANTES, Antonio A. Paisagens Paulistanas: transformações do espaço público. Campina s, SP: Editora da Unicamp; São Paulo: Imprensa Oficial, 2000 237 ROLNIK, Raquel. Territórios negros nas cidades brasileiras (etnicidade em São P aulo e Rio de Janeiro). In Estudos Afro-Asiáticos, n.17. Rio de Janeiro, 1989. 337 ----------------------- Page 338----------------------relações são construídas do uso das terras que geralmente são de uso comum. Consideramos os preto, como territórios de quilombos contemporâneos ou terras de a partir do grau de parentesco, da memória,

lutas dos sujeitos para fazer valer seus direitos, assim como conquistar outros; neste caso, a luta pela propriedade da o território terra é apenas um se constitui como dos aspectos dessa luta, pois

elemento aglutinador de identidades compartilhadas. O direito à terra dessas comunidades, pois é da é um dos pilares de fortalecimento

terra que sobrevivem, é dela que tiram seu sustento. uma nova Diante do exposto, conceituação de é que, possivelmente, será construída

quilombo, não apenas do ponto de vista do artigo 68 do ADCT, mas considerando as t erras de preto e tantas outras que se constituem carregadas de significações, gestadas pelos próprios sujeitos destas comunidades, portanto, es povos, diferentemente pautadas das nas experiências e culturas dess

conceituações forjadas em momentos históricos de profunda opressão que se justificava ap enas pela exploração capitalista. BIBLIOGRAFIA ALBAGLI, Sarita. Território e Territorialidade. In: LAGES, V inicius (org.) Território em movimento: cultura e identidade como estratégia de inserção competitiva. RJ: Relume Dumará/Brasília,DF: SEBRAE, 2004. ALMEIDA,Alfredo Wagner Berno de. Carajás: A guerra dos mapas. Belém, Falangola, 1994 . ______________________________. Santo e Terras de Índio. Uso Comum e Conflito/Revista do NEA. UFPA, 1989. Terras de Preto, terras de

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quebrando

o

mito

do

____________. Vida de Negro no Maranhão: Uma Experiência de luta, organização e resistênci a nos territórios quilombolas. Coleção Negro Cosme Vol. IV, São Luís-MA: SMDH/CCN-MA/PVN 2005. 339 ----------------------- Page 340----------------------REIS, João José. Quilombos e Revoltas Escravas no Brasil. Revista USP: São Paulo (28), dez/fev1995/1996. Revista Projeto Vida de Negro: 15 anos de Luta pelo Reconhecimento dos Territórios Quilombolas.

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hecida

como

Santana

de refere-se ao projeto ―Produção de Alimentos e Cul

Caboclos. A primeira tura Alimentar: uma

avaliação das formas de obtenção e consumo de alimentos em comunidades agro-extra tivistas de Alcântara239 e a segunda, aquela realizada para fins de obtenção do título de mestre em Ciências Sociais240. Embora a temática da festa os referidos projetos, se impôs significativamente no resultado dos estudos. Nesse sentido, pretendo refletir sobre qual o sentido da festa pa ra os camponeses que integram o grupo morador emos afirmar que se da comunidade. Busco saber em que medida pod não tenha sido o objeto d

trata de um ritual de resistência na luta pela terra e se é um instrumento que reforça a identidade do grupo. A festa em Santana de Caboclos acontece anualmente entre os dias 24 a 26 de julho, sendo dedicada a Nossa Senhora Santana. A homenagem à Santa, ti da pelos moradores como a ―dona da terra 241, constitui-se numa forma de agradecimento pelo uso desse recur so básico. É o 238 ―Trabalho apresentado na 27ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 01 e 04 de agosto de 2010, Belém, Pará, Brasil. 239 Pesquisa realizada pelo GERUR – Grupo de Estudos Rurais e Urbanos, c oordenada pelos professores Drª Maristela de Paula Andrade, Dr. Benedito Souza Filho e Dr. Horácio Antunes. A pesq uisa desenrolou-se no período de março de 2004 a março de 2005 e coube a mim coord enar o trabalho de campo no povoado Santana de Caboclos. 240 PPGCS - Mestrado em Ciências Sociais, dissertação intitulada ―SÓ VIVO DA PESCA: Estratégias de reprodução de famílias camponesas no meio urbano – entre Alcântara e São Luís, Maranhão . 241 Situação análoga foi estudada por Prado (2007) em Itamatatiua, outro povoado de Al cântara e também reconhecido atualmente como terra de quilombolas. Aquele estudo, o primeiro a fo calizar as conexões entre a 341

----------------------- Page 342----------------------evento considerado pelos ais importante, para o moradores, qual se dentre os demais, como o por por o a di tr m

preparam durante o ano todo. seus habitantes como terra de santíssima ou terra de abalhos como os de santíssimo,

A localidade situação e de para reforçar a

é conhecida

sociológica festa

evidenciada para

Linhares(2001) e Almeida(2006), s moradores, o momento não só agradecer, mas também serve vindade que, segundo suas

representa esse

laço com

representações, lhes garante o acesso e a permanência na terra. Deste modo, os moradores mantêm uma relação singular no que tange à poss e e uso da terra. Para eles, a santa seria sua verdadeira proprietária e lhes permitiria, des de o tempo de seus antepassados escravos, usufruir de todos os seus recursos, sem nada lhes cobrar. Quanto às designações terras de santo, terras de santa, terra de santíss ima ou terra de santísimo, são tratadas por Almeida como territorialidades específicas, nas quais ―foram construídas complexas redes de relações sociais onsistem em categorias classificatórias que as e plurais da identidade e ―mais que meros termos ou expressões, c as características intrínsec

apontam para

étnica dos agentes sociais em questão .(2006, p. 52). A origem das denominações assinaladas, da à existência de ordens religiosas no Maranhão como unidades de exploração econômica242 pecula-se que Santana de está relaciona e es

Caboclos seja uma única área que abrange Samucangaua e São Lourenço que pertenceram a um a extinta ordem religiosa (Shiraishi, o pesquisa jurídica realizada no 1998, p.4). O autor, segund

Cartório do 1 Ofício da Comarca de Alcântara, atesta o desaparecimento de registros no c artório de Alcântara, ao relatar a não imóveis importantes para a existência dos livros de registros de

identificação jurídica da área denominada Santana de Caboclos.

Conforme GOMES (2004) tem-se conhecimento que no século XIX, com p ropósito de fundar e cuidar de cemitérios criaram-se no Maranhão irmandades católicas designadas I rmandades do ho Santíssimo Sacramento, a a Alcântara. Para o exemplo do município de Guimarães, vizin

autor o indício da presença dessa irmandade em Santana, é a existência do cemitério que se rve aos povoados circunvizinhos. como revela Os moradores dizem um informante: Os que a terra pertence à Santa,

antigos contam que a santa foi achada na pedra do rumo. Que a terra é da Senhora S antana.(Seu economia camponesa e o calendário de festas entre camponeses maranhenses, chamando a atenção para o uso comum das terras consideradas como de ―propriedade da santa. Juntamente com o traba lho de Mourão (2007), ambos escritos nos anos 1970, representa um marco nos estudos das situações de terra de uso comum na Baixada Maranhense. 242 A presença de ordens religiosas como unidades de exploração econômica no maranhão fez parte da missão colonizadora, especialmente na Baixada Maranhense. A esse respeito consultar Mou rão Sá (2007) e Prado(2007). 342 ----------------------- Page 343----------------------Jonjoca, morador de Santana, em 02/05/04) (CARDOSO, 2005, p.9). No entanto, há nec essidade da realização de etnografias que dêem conta dessa realidade. Destarte, sendo a festa uma espécie de cumprimento de um contrato (PRADO, 2007, p.56) coletivo que os habitantes mantêm com a Santa, ratificando-a enquanto propri etária da terra, se apresenta também como um elemento de reforço da identidade étnica do grupo. Se pens armos nos termos de Barth quando estuda situações difiram etnologicamente, os Pathan, embora as

poderíamos dizer que o grupo exibe, no ritual, uma performance que está conforme ao ―modelo

nativo e que deve ser compartilhado por aqueles de seu grupo de origem (Barth, 20 00, p. 72) e é desta que seu comportamento é avaliado. Como feitas doações pelo meio de garantir grupo e a realização da festa, são

representam na verdade, como nos casos estudados por Mauss (2003:356), obrigações mút uas que se impõem reciprocamente com frequência gerações e não só englobam todos os indivíduos, e

sucessivas, mas se estendem a todas as atividades. As doações são denominadas pelos mo radores de Santana dejóia, estas como elemento da dos estrutura municípios categoria analisada por Prado (2007), quando estudou as f social camponesa de Bequimão em e como já apontado, semelhanças com comunidades rurais

Alcântara/MA, as quais apresentam, a festa de Santana de Caboclos.

Ao estudar a festa de Santa Tereza de Ávila, em Itamatatiua (Alcânta ra, Maranhão) e Santana (Bequimão, Maranhão), também tidas como ―terras de santo , a autora def ine a ―jóia como instituição e as ―terras de santo como representação (PRADO, 2007, p.62). Essa formulação se vê ainda reforçada pela das capelas das respectivas proprietárias [Santa Tereza de Ávila e Santana], quanto dos „encarregados das terras’, ou seja, de um indivíduo responsável pela administração dos „bens da santa‟ e da arrecadação de uma contribuição dos seus moradores. Por isso, todos os anos, na época que precede os festejos de cada padroeiro, um grupo de pessoas, sob o controle dos encarregados‟, sai peregrinando a fim de recolher „a jóia‟do santo. E os moradores não negam a dá-la. Ao contrário, fazem mesmo questão de doá-la, pois o fato se lhes afigura como uma vantagem, se se comparam a outros campo neses que por residirem em terras de proprietários particulares, não usufruem d e umas tantas regalias, e ainda são obrigados a um foro estipulado pelo dono. (PRA DO, 2007, p.63) existência, tanto Em Santana de Caboclos não é diferente. Se a realização da festa em

homenagem à entidade divina é o a e não havendo por cumprimento parte dos de um nenhum contrato compromisso com para a sant

moradores de Santana de Caboclos to de impostos junto ao

pagamen

estado ou a um dono particular pelo uso e posse da terra, tal manifestação só pode ser entendida como configurando uma prática outros agentes sociais de resistência às possíveis investidas de

343 ----------------------- Page 344----------------------interessados na terra, a exemplo das ameaças da perda da terra perpetradas pelo e stado brasileiro referente a expansão da base de lançamento de artefatos espaciais243. Enquanto a Constituição Federal protege os direitos dos remanescente s de quilombos, com base no Artigo 68 dos ADCT e no Decreto 4887, o governo federal, por meio do Ministério da Defesa, tenta impor aos atuais quilombolas uma regularização fundiária, com respectiv a titulação coletiva, somente após a exclusão gência Espacial Brasileira. das áreas de interesse da AEB – A

Diante desse impasse jurídico, até o momento, o território quilombola, reconhecido ofi cialmente a partir da elaboração de um laudo antropológico (ALMEIDA, 2002), não foi regularizado em nome das famílias dos mais de 150 povoados que constituem o território étnico de Alcântara. N o início de 2008, a situação se agravou na s representantes denunciaram a invasão cântara da área pela empresa Ciclone Space (ACS). comunidade binacional (Adital), uma a de Mamuna e seu Al o o solo,

brasileira-ucraniana empresa perfurou

Segundo a agência de informação abriu estradas e destruiu mata nativa. Apesar de existir INCRA – Instituto Nacional de

decisão

judicial obrigando

Reforma Agrária, a emitir o título das terras quilombolas de Alcântara, a decisão não é exec utada. Especialistas da Universidade Federal do Maranhão têm acomp

anhado a situação Ministério Público244.

junto

ao

Embora estivessem na iminência de perder a terra e apesar de nunca terem possuído o seu ais título, a deixou de celebração em agradecimento ser realizada, à santa pelo seu uso jam

tornando-se um momento de reafirmação, perante às normas do sistema jurídico vigente, de que, para o grupo, a verdadeira proprietária da terra é a santa. 243 Em Alcântara, as chamadas comunidades quilombolas, como Santana de Caboclos, têm sido impedidas de usufruir plenamente de direitos garantidos pelo Estado Brasileiro, não apenas com base no Artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias e de outros artigos da Constituição de 1988, assim como em outros dispositivos jurídicos, como o Decreto 4887, além de tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho - OIT. A Agência Espacial Brasileira vem tentando, há vários anos, instalar novos sítios de lança mento para serem alugados, expandindo a área já existente sob controle dos militares, mas diante da r esistência das famílias, assim como da movimentação de suas entidades de apoio, recentemente o governo federa l optou por recuar para dentro da área do CLA – Centro de Lançamento de Alcântara, Nesse local, dentro dos 8700 hectares em mãos dos militares desde a década de 80, a ACS – Alcântara Cyclone Space – está construindo sua base de lançamentos para atender aos compromissos gerados pelo Acordo entre o Brasil e a U crânia. Apesar disso, mandatários de órgãos oficiais vêm, constantemente, por meio da imprensa, ameaçando de ret omar o controle sob todo o território já reconhecido como pertendente aos quilombolas. Apesar de exi stir uma decisão judicial, resultado de acordo entre as partes, obrigando o INCRA – Instituto Nacio nal de Reforma Agrária, a emitir o título das terras aos quilombolas de Alcântara, a decisão ainda não foi executa da, indicando que há um impasse político entre os próprios órgãos oficiais. Tal situação resulta que as comunidad es permanecem como há mais de cem anos, sem a titulação de suas terras. 244 Disponível em: <http:// www.adital.com.br>.Acesso em 25 jan.2008. JORNAL DA C IÊNCIA, da SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA (SBPC) e PAULA ANDRADE, Maristela de e SOUZA FILHO, Benedito. Informação Técnica à Procuradoria da República no Ma ranhão, intitulada Impactos dos Trabalhos desenvolvidos pela ATECH/ACS sobre as populações t radicionais da região de Alcântara, Maranhão. 344

certamente esbarrariam com a resistência ca mponesa. com sua formação singular. numa relação de intimidade. nos povoados Santeiro e Taquaritiua (Viana. p. ou normas regras particulares acatadas A basead pelo consuetudinário. p. concebidas e nem vividas como externas ao grupo.(PAULA ANDRADE. Maranhão). da cosmovisão não são natureza. existem costumeiro. decorre da hece compartilhado uma posse imemorial do grupo que origem étnica comum. sendo reconhecida como remanescente de qui lombos e . o qual exige uma série de obrigações. segundo a qual o direito à terra. ex trapola o rito de uma celebração em agradecimento à divindade e se configura num ato de enfrenta mento às regras impostas pelo estado. as grupo.160). consensualmente desses grupos. ou seja. Porém. a autora diz: Tais ações. 1999. ―passa a fazer parte do cotidiano das pe ssoas e conhecer todos os seus problemas. 2007. (1999) sobre Tal situação nos remete os conflitos em ao estudo de Paula Andrade terras de uso comum. A realização da celebração em homenagem à santa se confunde com a própria hi stória da comunidade.----------------------.(SILVA. neste caso. deve ser compreendida como um ato que expressa a crença coletiva nos poderes da santa. o pagamento de impostos e outros. essa maneira de pensar a terra e de se apropriar dela têm a ver com um modo de vida específico. que facilita a intermediação co m os Céus.Page 345----------------------as no Em direito Santana.191) se recon A festa de Nossa Senhora Santana. Tais normas não se separam da economia e e sobretudo a terra. Ou seja. para que „as graças‟ sejam prontamente alcançadas . a exemplo do próprio título da terra. em que aponta para a existência de regras próprias desses grupos. ancorada numa „jurisprudência‟ própria. e em uma situação de conflito com agentes externos. citando Hobsbawm. Esta.

as hierarquias. sendo o momento no qual as sociabilidades se reanimam. 2008).integrando um conjunto de povoados que se reproduz secularmente no município de Al cântara. pp. de passagem. revelam códigos própr ios. de fazer reivindicações. de reforçar hierarquias. res Essa manifestadas prática religiosa por meio da se imbui de regras particula realização da festa na qual. de parentesco. os conflitos. é um sistema de troca. grifos da autora). precisamente nos bairros (CARDOSO. as relações de parentesco e compadrio. por sua vez. A celebração. de ditar regras. Esse conjunto corresponde a diferentes situações históricas e etnológicas. É o momento escolhido para os reencontros. 2008. . O universo simbólico das celebrações religiosas e significado expresso nas festas dos santos. a festa dos santos apresenta uma dimensão estética. também pessoas que formam uma rede de rel ações entre moradores dos por vínculo povoados vizinhos.98-99. de Alcântara e de São Luís. de sincretismos. com o a economia. metáforas e linguagens locais. seu 345 ----------------------. compondo o que Almeida (2002). em São Luís.Page 346----------------------A festa condensa toda a forma de ser e de viver do conjunto de p essoas daquele lugar. denomina de ―território étnico de Alcântara. seja compadrio ou amizade. Por meio de performances ou alegorias. (LUCENA. momento de de voções. Também revela as diversas dimensões da organização social do grupo. o sistema de trocas. reúne. que se encontram fora de Santana. além dos fil hos do lugar. os saberes. com especificidade s territoriais e étnicas. pois lá é comum que as famílias tenham parentes estab elecidos na da periferia de Alcântara e Liberdade e da Camboa. quando os que estão fora se esforçam para retornar ao povoado.

2008. ser e não ser. pescador.importância A análise empreendida desse ritual para por Cardoso (2008) revela a aqueles que desejam retornar ao seu lugar. amigos e compadres. como no caso estudado. (CARDOSO.(AMARAL. no qual pertencimento ao grupo revelando o seu direito à terra ante às regras locais. radicado no meio urbano . vida e morte. para o qual se preparam o ano inteiro com o intuito de celebrar e simbolicame nte reafirmar seus códigos e regras próprias. p. vendendo cerveja na venda de sobrinho seu. E todas as questões sobre o suas ramificações para o meio urbano. por isso mesmo revelando e exaltando as contradições imp ostas á vida humana pela dicotomia natureza e cultura. território étnico de Alcântara. dança. Para alguns autores a festa possui uma função mediadora na medida em que. A presença da música. A festa é uma das vias privilegiadas de mediações da humanidade. mediando ainda os encontros culturais e absorvendo. ao som de para tocar. tempo e eternidade. na experiência de seu Catarino e sua história pesso al. 2001. nós e os outros. exte colocar seu roçado no próximo ano agríco nenhum parente vai impedí-lo. mitos e máscaras atesta com veemência esta proposição. passado e present e. alimentação. p. de modo vívido e concreto. se me apresentava a rnando a certeza de que se quiser la nas terras de Santana. grifos da autora) no estabelecimento . digerindo e transformando em pontes os opostos tidos como inconciliáveis. lá estava atrás de um balcão de músicas que ele escolhera barraca de festa de santo. Seu Catarino.30) Os moradores e filhos de Santana de Caboclos colocam toda a sua energia nesse ritual. o interlocutor demonstra o como seu no caso anunciado. fantasia e realidade. Ela busca recuperar a imanência entre criador e criaturas. mito e história.22. limentadas por uma extensa ali. no qual escol he regressar em plena festa da padroeira de seu povoado de origem após um longo tempo longe e. A festa é ainda mediadora entre os ansei os individuais e os coletivos. rede de parentes. natureza e cultura.

o humano e o supranatural. para serem usufruídos por tod do grupo.está culturalmente arraigada através de símbolos. (PAULA ANDRADE. e com freqüência su pranaturais não são vistos como entes que constituem domínios distinto s e separados. ao afirmar: A diferença das construções modernas com sua estrita s eparação entre o mundo biofísico. os modelos locais. ecursos os os membros A relação que os camponeses aqui tratados estabelecem com a natureza . Desta forma.Page 347----------------------nto Aqui também a que compõe a mediação deve ser compreendida como um eleme festa à chamada Nossa Senhora Santana. entende-se comumente que Ao festejar a santa para agradecer-lhe pelo bem recebido. 2001. pois esse ente superior orienta a relação do gr upo com a terra e os seus recursos básicos. levando-os a percebê-la e aos demais r como dádiva divina e. capitalista. os seres vivos e não vivos. são concebidos como sustentados sobre vínculos de continuidade entre as três esferas. p. em muitos contextos não ocidenta is. É por meio da festa que o grupo reafirma a si próprio e ao mundo ext erno sua origem. suas regras e sua história. Esta continuidade –que poderia no entanto ser vivida como p roblemática e incerta.140). os mor adores de Santana dos Caboclos confirmam sua visão própria de mundo. portanto. rituais e práticas e es tá plasmada em especial em relações sociais que também se diferenciam do tipo mod erno.346 ----------------------. também nos remete à discussão proposta por Escobar. p. (ESCOBAR. 2005. com um sistema de crenças que rege não so mente a sua religiosidade. sua história de sobrevivência à escravidão de negros e índios tam . quando trata do conhecimento local e modelo s do natural. 2). como explicita a autora: s que liga básicos esses Estamos diante de um sistema de crença camponeses à terra. mas o trabalho.

A Festa de Nossa Senhora Santana – breve descrição È realizada a cada ano. podemos como um fundo cerimonial nos termos de Wolf (1970. próprio festeiro . em homenagem a santa chamada Nossa Senhora Santana que dá nome ao lugar. Origina-se aí. entre os dias 24 e 26. È nesse no entanto a presença de negr movimento que o sentimento de pertencimento ao lugar também é reforçado. os é predominante. quando diz que ―todas as relações sociais estão cercadas por um cerimonial par das e ainda. guardadas ao longo do ano.21). predominando aí as condições fin anceiras do escolhido. aposta ao nome do povoado. no mês dias em virtude da de julho. A criação de animais como porcos. pois em Santana de Caboclos.bém. ―se os homens têm pretensões a partici . que é fixo. com variação dos opção pelo final de semana. Na realidade. 347 ----------------------. a escolha do festeiro acontece por meio de acordos que são feitos. torna ndo-se o chefe da família o chamadofesteiro no entanto. mas uma família é às vezes escolhida pelo grupo e outras assumem por vontade própria. a denominação caboclo. tem-se indícios de que foi uma terra habitada por indígenas. é obtido O fundo cerimonial das economias do que garante a realização da festa. bo conforme observamos. para permitir que os parentes que trabalham e ou residem em São Luís ou Alcântara possam participar. p. conta historicamente com a participação direta dos mor adores.Page 348----------------------Sua organização. is. galinhas e patos é uma prática comum ao grupo supor que se configure e. em ambas as situações deve receber a incumbência e a aprovação do encarregado da festa e guardião da Santa.

amados Na estrutura noitantes. erece bolo Em cada noite da de tapioca. e. de melhor qualidade e aos estes quais considerados normalmente têm pouco acesso. sendo acompanhada por um grupo ra e há uma variedade e de músicos integrantes da orquest Re 245 Para aprofundamento dessa categoria gina. em pagamento de promessas. tronco alto de madeira. doces. uma espécie de padrin hos da festa. a responsabilidade é sempre dofesteiro . nha em latim. . encimado pela bandeira da santa. recebendo tratamento privilegiado na celebração. café. com o levantamento do nove dias antes do dia consagrado à santa garrafas de mastro. refrigerantes. nos atos de distribuição da comida. pessoas da que ritual é em que é rezada por a ladai mulhe festa. Ajóia pode ser ofertada em form a de recursos financeiros. lizados para fogos de artifícios ou a feitura de bolos. Nos dias que se segue m é realizada a novena até o dia propriamente dito da santa (26 de julho). café. A festa inicia-se . que têm a função específica de rezarem a ladainha. ladainha. ando às despesas atividades . mingau de milho ondições. cachaça. há também a figura dos ch promovem cada noite da novena. enfeitado com frutas. pão com margarina e bolo de trigo. Essas pessoas se tornam os mordomos. vinho e folhagens de planta denominada murta. Na última noite da novena. Todo ano tem – as festas na consulte-se PRADO. 5 deverão trabalhar por tais para a criação de um fundo vis A outra forma que garante recursos é a instituição do pedido de jóias 24 por meio de festeiro às pessoas que ele convites ou cartas entregues pelo escolhe.relações sociais. mantimentos a serem uti chocolates. A rezadeira. Outras o procuram com o intuito de doar ajóia . moradora res da de Santana localidade e e de costuma ser acompanhada povoados vizinhos. últimos o noitante responsável dependendo das suas por c eles of chocolate quente.

abundância doces no e bebidas. ele O festeiro tenta é prestig seu na oferecimento da alimentação. gar diante O festeiro convida cada do prato de refeição. ofesteiro se ocupa da organização do even to. para a cerimônia de distribuição da comida aos denominados mord omos. Logo que recebem o prato. farinha.Page 349----------------------quantidade maior iado conforme a de bolos. bolos e refrigerantes. mas distribuído a refeição do mordomo. colocados em uma mes a cerimonial. À noite. colocam s eu conteúdo – normalmente e bovina uma enorme quantidade assadas. No primeiro dia da festa. até o enfeite da Igreja. desde o preparo da alimentação (bolos. são preparados pratos de comida e bebida (refrigerante. matança de porcos. mordomo a tomar lu acompanhado de doces. vinho). São Luís:UFMA. Não há distinção entre os mo rdomos . à esp era da chamada radiola de reggae246. 348 ----------------------. 2007.estrutura social camponesa. local onde acontece a festa dançante e a cerimônia da distribuição de alimentos. situada ao lado da tribuna. torta de em um de comida recipiente (arroz. enquanto a música de som mecânico é silenciada para dar a vez à orquest ra e para os dançantes acompanharem ou participarem do ritual. macarrão) ormente e anuncia-se o nome é e o lugar degustada à de origem mesa. que anima os participantes no ritmo predominante do reggae247. é Nota-se levada pelos mordomos para sua casa e dividida com a família. prestígio preparando a maior então demonstrar quantidade possível desses alimentos para um maior última noite de número de pessoas. pois ladainha é comum a participação de pessoas de outros lugares. a bar raca de venda das bebidas. plástico que carnes suína anteri não camarão. aves e bovinos). no meio da tribuna.

19 95:25. y que todos los deberes de la amistad y la hermandad están implicados en ese acto común. com sistema de amplificação e com várias caixa s de som empilhadas umas sobre as outras. P or ello. cuando encontramos que en las religiones antiguas todas as culto están sintetizadas en las comidas sacrificiales. 349 ----------------------. el dios admite su amistad. In GOODY. al tiempo que cimienta los lazos entre el hombre y su dios .baseada no valor da doação de cada um. o movimento das pessoas concentra-se na cas a dofesteiro . quienes come n y beben juntos están ligados mediante un lazo de amistad y obligación mutuas. pois ali acontece a distribuição de comida em diversos momentos e notamos a presença não só dos adu ltos. pero este favor no se estiende al hombre en su mera condición privada: solo es recibido en tanto perte neciente a una comunidad para funciones comunes Del 246 Trata-se de um equipamento sonoro. recibió un énfasis especial de ciertas costumbres e ideas ant iguas conectadas côn el comer y el beber. vis ta como acto social. y que el contacto común entre ls dioses y el hombre no tiene otra forma. cimenta también los lazos entre aquél yn sus hermanos en la fé. (SMITH. no último dia. A tem um caráter como afirma Smith: La significación ética de la comida sacrificial. De acuerdo a estas ideas. desde o levantamento do mastro até o seu derrubamento. A distribuição de alimentos ocorre em todo o períod o da festa. Al adm itir al hombre en su mesa. distribuição sagrado e do alimento aos mordomos durante a festa . grifos da autora) Durante os festejos. y este acto del culto. debemos recordar que el acto de comer y beber juntos es la expresión solemn y categórica del hecho de que todos aquéllos que comparten la comida son hermanos. sendo operado por um animador ou Dj. 247 Sobre o reggae no maranhão consultar SILVA (1995).Page 350----------------------comer y beber con los indivíduos que la integran.

na medida em que tro povoado. panelas e rezadeira saem pelo povoad cantando. podendo ser qualquer objeto. tem como objetivo ar música da orquestra e é momento no qual se definem os mordomos e o festeiro do ano seguinte. a festa se estende pela tribu na. a tribuna é aberta. m as a entrada não é paga. tual A festa encerra-se com a acompanhado por rezas e a derrubada do mastro. A presença dos times de futebol indica também a relação de reciprocidade existente entre os povoados. a . À noite. A brincadeira. No Santa. junto com a é realizada a busca da quando um grupo de pessoas o batendo latas. que estão no campo de futebol. Durante o dia. Aos homens é necessário tribuna. local da festa dançante e onde se consomem o pagamento da entrada na bebidas. como eles recadar mais recursos para a festa. o time de futebol de na festa de santo de ou Santana de Caboclos é convidado a participar parapagar a visita .mas as crianças estão o tempo todo nos avançadas que espaços da festa assim como os de idade participam ativamente de todos os momentos. como forma de garantir ao dono da festa um retorno monetário e parte dest e será revertido para a Santa em forma de melhorias na Igreja. ritualmente roubada. à procura daquele que levou a imagem e à mediada que não a encontra. que é segundo dia da festa. como dizem. pa rticipando do torneio com times dos povoados que fazem parte da rede de interação do grupo e são convidados pelo festeiro . de casa em casa. a radiola de reggae permanece tocando e as pessoas dançam o tempo todo. ri chamam. bebida ou dinheiro. garantindo a continuidade da festa e com ela a renovação dos elementos que a constit uem como. os moradores são obrigados a pagar umajóia . No dia consagrado à Santa é realizada a procissão. principalmente dos homens. mantimento . que atualmente con ta com pouca participação das pessoas.

Mimeografado.Grupos de Estudos Rurais e Urbanos. o iniciador e outras variações antropológicas. São Luís. Maristela. Sociologia e Antropologia. Rita de Cássia de Mello Peixoto. Edgardo (org. Maranhão. Significados do festeja r no país que “não é sério”. 2005. A hegemonia norte-americana: como se manifesta no Brasil no setor aeroespacial. Alfredo Wagner Berno de Almeida.economia anização do lugar. 2003. 2008. Cuisine y clase. _____________.htm BARTH. São Paulo: Cosac&Naify. MMA. In: ANDRADE. LUCENA. 350 ----------------------. GOMES e CARDOSO. A festa (re)visitada: (re)significações e sociabilidades. 2006. Terra de Preto e terra de santíssima: da desagre gação dos engenhos á formação do campesinato e suas novas frentes de luta. Rio de janeiro: Contra Capa Livraria. 2006. Apropriação e manejo de recursos naturais em Sant ana de caboclos. Maria Suely Dias. Universidade de São Paulo.fflch. 1998. a org reforçam tanto interna como externamente e os aspectos políticos. O guru. AMARAL. Jack. O lugar da natureza e a natureza do lugar: globalização ou pósdesenvolvimento.(orgs. São Luís: EDUFMA/Mestrado em Políticas Públicas. Buenos Aires: CLACSO. Maria Suely Dias. Maria Suely Dias. 1999. Mímeo.1995. . Os quilombolas e a base de lançamento de foguetes de Alcântara: laudo antropológico. Maranhão. Só vivo da pesca: estratégias de reprodução de famílias camponesas no meio urbano – entre Alcântara e São Luís. CARDOSO. Luiz Fernando do Rosário. Estúdio de sociologia comparada. p. Brasília. Terra de Índio: identidade étnica e conflito em terras de uso comum. Marcel. ESCOBAR. 387 f. Fredrik. 1-8. Tese (Doutorado em Ciências – Antropologia). terra de santíssimo.com/antropologia/rita dado. In: LANDER.usp. Maristela de Paula e SOUZA FILHO. B enedito de. (Dissertação de Mestrado). Produção de Alimentos e Cultura Alimentar: Avaliação das formas de obtenção e consumo de alimentos em Santana de Caboclos. MAUSS. LINHARES. Programa de Pós – Graduação em Ciências Sociais. 2005. Arturo. Relatório de pesquisa. Festa à brasileira. a resistência e a interação que se enquanto um grupo étnico. CARDOSO. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Maranhão. Cocina. GOODY. São Luís.Page 351----------------------REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ALMEIDA. 13 PAULA ANDRADE. G edisa. nos quais os confl itos internos desaparecem temporariamente assegurando a sua coesão social.) A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciênciass sociais. Acesso em 06 de março de 2009 no site www.) Fome de Farinha: deslocamento compulsário e insegurança alimentar em Alcântara.aguaforte. Mimeografado.br/ceru/anais/anais2008. São Luís: UFMA. 2000. Acesso em 06 março 2009 no site www. 1999.Barcelona.São Luís:EDUFMA. Célia Toledo. 2001.

voltado para a reintegração de uma pessoa com deficiência. São Luís:UFMA. Rio de Janeiro. onde a beleza e a contribuição do negro na formação da cu ltura do povo brasileiro são reveladas. soci al e artístico-cultural.Page 352----------------------CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL Relato de Experiências do Instituto Como Ver . indumentárias etc. São Luís. deveria ser objeto de estudo sistemático.Officina Affro do Ma ranhão Adalberto Conceição da Silva (Zumbi Bahia)248 RESUMO A presente narrativa trata-se de um relato de experiência acerca da cultura afro-brasileira.) pa ra o trabalho de sensibilização estética e conscientização política. São Luís: EDUFMA.) e bens artistico-culturais (instrumentos. Pretende-se destacar as benesses de um trabalho. Fundação Palmares/MINC/Mestrado em Políticas Públicas (UFMA). lazer e identidade cultural. J. São Luís: SEIR/FAPEMA/EDUFMA. 1998. Regina. SHIRAISHI. Relatório de pesquisa jurídica sobre a terra de preto denominada Santa na ou Santana dos Caboclos. com os quais. subsidiada pelas tradições de origem africana. sistematizando acervos imateriais (sa beres. ao convívio coletivo. como meio de inclusão social. nos estabelecimentos de ensino. em especial. com recorte à situação de um componente.PRADO. A descrição da experiência em questão é um trabalho que objetiva criar alternativa de aplicação da cultura afro-brasileira. técnicas etc. Carlos Benedito Rodrigues da. Todo ano tem – as festas na estrutura social camponesa. como importante contribuição ao processo de ensino e aprendizagem e de incorporação social. São Luís: EDUFMA. Eric R. sobre a ótica da educação informal. músicas. em particular. O pão da terra: propriedade comunal e campesinato livre na Baixada Ocid ental maranhense. a percussão afro-brasileira. SÁ. como proposta de atividades pedagógicas de inserção. Sociedades Camponesas. 1970 351 ----------------------. Propõe-se esta exposição. 2007. WOLF. Laís Mourão. Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretis mos na cultura do Maranhão. que torna possível. a escola poderia intercambiar identificando-se com os processos de luta em prol de políticas públicas de inclusão. 2007. SILVA. que foi resgatado na Unidade Escolar Especial Helena Antipoff em São L uís do MA. Carlos Benedito Rodrigues da. Da terra das primaveras à ilha do amor – reggae . atividades de informação e conhecimento ressaltando as potencialidades da cultura de origem africana. iniciado no ano de 2002. SILVA. Alcântara/MA. 1995. que também revalor . Zahar. 2007.

It is intended to highlig ht the spoils of a work. techniques. which also increase the value of interracial relationships for the construction / reconstruction of human dig nity. etc.4598. E-mail: zumbibahia@yahoo..7199 / 8112. in particular. with which the school cou ld exchange by identifying himself with the processes of struggle for inclusive public policies.br 352 ----------------------. social and cultural-artistic. 3882 / 8835. focused on the reintegration of a person with disabilities to living a collective.Page 353----------------------actions that contribute to precision establishment of equality and respect among . with clipping the situation of a component. begun in 2002. Mudança. Pós-graduação em Docência Coordenador pedagógico do Instituto Como Ver . which makes it possible. which was rescue d in the Special School Unit Antipoff Helena in Saint Louis in the MOU. music.izem as relações interraciais para a construção/reconstrução da dignidade humana. Cultura afro-brasileira. and artistic and cultural goods (instruments.). subsidized by the traditions of African origin. Compositor. where the beauty and contributio n of black culture in the formation of the Brazilian people are revealed and sy stematized collections immaterial (knowledge. Percussionista e Vocalista.) raise awareness for the aesthetic and political awareness. Con hecido por Zumbi Bahia. incluindo-se ações positiva s que contribuem para o estabelecimento de concisões de igualdade e respeito entre aquel es de menores condições funcionais na sociedade.Officina Affro em São Luís – Maranhão. should be studied systematically in establishments education. The description of the experience in question is a work that aims to create alternative use of the african-brazilian culture. Tel: (98) 3271. information activities a nd highlighting the potential of knowledge of African culture. It is proposed that this exhibition as an important contribution to the teaching and learning and social inclusion. including positive 248 Pedagogo com habilitação do Ensino Superior. em Gestão Educacional. ABSTRACT This narrative it is an experience report about the african-br azilian culture as a means of social inclusion. as proposed education al activities insertion. Preconceit o. especially the african-brazilian perc ussion on the optical informal education. Palavras-chave: Inserção social.com. Percussão. costumes etc.

na o ano todo. sentimentos nização e relacionamentos e pensamentos. onde r meio de do Maranhão mantém um trabalho pedagógico durante são os próprios também. African-Brazilian Culture. ainda. A música está presente. fundado Apeadouro. Preju dice. a alfabetização.Officina 1984. o de música percussiva. Keywords: Social Inclusion. estéticos e cognitiv os.those least able to function in society. sediado no bairro do cidade de São Luís Affro. no Faz parte da entanto. em todas as culturas nas mais diversas situações. . deficiência promovendo. era educação desde há muito tempo. Na Grécia considerada como fundamental. de um modo geral é a linguagem que traduz formas sonoras capazes de expressar e comunicar sensações. A integração entre os aspectos sensíveis. motores. afetivos. O O fficina Affro com efetua atendimento a crianças. que pressupõe o estudo e a compree nsão teórica da realidade social e da questão do negro na sua totalidade. o estímulo à leitura. utiliza o materia po as culturas negras cursos e oficinas. A música. o que por contexto da educação. ao lado da matemátic a e da filosofia. para a formação dos futuros cidadãos. l cênico e instrumental para interagir com as disciplinas da Educação Básica e. materiais didáticos. confere caráter significativo à linguagem music É uma das formas importantes de si só justifica sua presença no expressão humana. jovens. adultos e pessoas quando necessário. de um modo geral e na educação infantil. Change. Percussion. particularmente. por meio da orga expressivos entre o som e o silêncio. gravidez prematura e doenças sexualmente transmissíveis. realiza-se um trabalho socio educativo na prevenção do uso de drogas. antiga. dentre outros. INTRODUÇÃO em O Instituto Como Ver . assim como a promoção de interação e comunicação social.

O Instituto Como Ver – Officina dando por encerrada a Affro. Importante. por meio do qual o público alvo poderá: explorar exemplares de instrumentos e objetos sonoros regionais. como também.Os trabalhos recreativos com orquestras rítmicas percussivas. vivenciar e entender questões relativas à acústica. a montagem e com instrumentos informar-se nativos maranhenses. elas possam canalizar energias quando os instrumentos são das culturas que lhes são próprias e. E ainda. no fazer musical. rítmico. além da audição de poderoso percussiva meio e do beneficia domínio o desenvolvimento motor. São importantes as situações nas quais se oferecem instrumentos musicais e obje tos sonoros às pessoas com deficiência. do equilíbrio. CONVÍVIO SOCIAL 2. ainda. 353 ----------------------. experimentar sobre a origem e história dos instrumentos. em particular . ritmos o Instituto Officina percussivos Affro se propõe oferece auxiliados por instrumentos musicais populares e étnicos. no final do ano de 200 oficina de percussão na Unidade Escolar Especial Helena Antipoff. implementa espaço às atividades de criação e às questões ligadas a percepção e conhecimento as possibili es e qualidades expressivas dos sons. cânticos e produção do som. onde acumuladas. com pessoas com deficiência são linguagens musicais excelentes para o desenvolvimento da expressão. da de autoestima integração e do social. autoconhecimento. com os instrumentos d escobrem possibilidades de recursos complementares. foi surpreendido por um aluno que se mostrou interessado em dar continuidade às aprendizagens percussivas na sed .Page 354----------------------r Diante oficina de disso. desenvolver rec ursos técnicos.

entremeado com a percussão e a -brasileira e. eu entrei com uma expectativa grande de conquistar o meu ideal or Fred . família. Referem-se a integral. ainda. de sequela de meningite. sobre matérias relativas às pessoas com deficiências. artrite e suporta crise com desmaio. no bairro chamado Lira. Esta colocação foi expressa numa entrevista concedida ao Officina Affro p 09 de fevereiro de 1986. já compl tou 24 (vinte e quatro) anos de idade. E. o aluno Manfredine Gomes dos Santos Júnior. os conhecimentos herança africana. orientado pelo seu professor de depois da permissão de sua Educação Física daquela escola. ――Quando eu entrei no Officina Affro. Teve dengue culdade hemorrágica aos de aprendizagem momentos de muita de idade ansiedade e sentia por difi 10 (dez) anos e de assimilação com referência aos assuntos didáticos da área de conhecimento da escola regula r. também. que nasceu no dia ocasião do seu acesso. continua edicamentos prescritos pelo acompanhamento médico anual es por semana. dimento quando o conteúdo era sobre a cultura de ascendência africana. Até agora. a vista embaçava. sentia dor de cabeça e a mente travava no mome nto de leitura e escrita. hoje. residia próximo à Praça de São Roque. na cidade de São Luís e. com mais abrangentes das culturas de todos os seus componentes e propriedades originais.e do Instituto. . de como m terapia duas vez princípio de epilepsia. nos alguma circunstância. passou a a bsorver os ensinamentos da cultura afro-brasileira de forma integral. Sofre. Sagarana I (20 04/2005) e na U. sem distinção dos seus li mites funcionais. doravante Fred Júnior. U. No processo de estudo. E. Entretanto. Na Júnior (2007). Habilidades que foram demo nstradas quando estagiou na Unidade Escolar Alberto Pinheiro (2003). em razão do teve muita facilidade de enten dança afro usando e faz remédios sessão controlados. febre reumática.

METODOLOGIA DE ENSINO As etodologia atividades foram interdisciplinar. englobando de t e et abrangeram habilidades de leitura e escrita. com do aplicadas professor cumprindo Paulo uma m influência adequada à pedagogia temas que. Oliveira Roma (2006). à realização de cálculos nicorraciais e resolução de problemas e de percepção de mundo. para uma Officina Affro e viajou com e tocan exibição em Blumenau/Santa Catarina. até o o momento. atividades dirigidas ao raciocínio. do Officina Affr o. Específico e Estág io.E. abordagem de questões sociais pressupondo a ampliação da dia-dia. ensaiando com os outros componentes. Embo ra fosse tratado de igual para igual. efetivamente. treinava num instrumento completamente percussivo desprovido nomeado de surdo de marcação e era coordenação motora/musical. sem discriminação. Participa. Freire. 354 ----------------------. extos.Page 355----------------------Quando o Fred Júnior começou a fazer parte. necessitando pegar na sua mão para executar o tambor. do interpretação elementares. por meio de módulos: Básico. capacitação Os conteúdos foram aplicados. por sua vez. do bloco de carnaval Officina em 2003. tocando o surdo de do agogô marcação. por meio música de efeitos educativos a propensão . dançando (Instrumento idiófono afro-brasileiro com duas campânulas de ferro percutidas por va reta de metal). Módulo Básico eixos A formação básica temáticos voltados teve de suas ações desenvolvidas percussiva com e de a partir História d de para a valorização do trabalho e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

criatividade. autoestima.Page 356----------------------novo olhar sociocultural. tipo: Ritinta. As musicais atividades percussivos aplicadas com as conjugaram Português. os instrumentos Ciências. Caixa de Divino. em Vera a brasileiros. Surdinho. Geografia. Artes e Educação Física. Pandeirão. Hi Guizeira. a diversidade e a prospecção de ressaltou-lhe o respeito pel reformular o imaginário negativo sobre a cultura negra. Maracá. Cabaça. a e pesquisas e a sobre recriação das os valore cultural. a oralidade. com Maria Candau base nas concepções e Kabengele conjugados dos Munanga. ética e cidadania. Surdo de Marcação e de Virada. O desenvolvimento das atividades foi dividido em trimestres e. Agogô. a ressignificação dos novos paradigmas e a reconstrução d e um 355 ----------------------. Tambor de Mão. Clave. disciplinas curriculares formais: stória. a resistência modo. sociabilidade. Ber imbau. Platinela. Caxixi. fabricados. por outros componentes oriundos de outros projeto s. Matracas. Matemática. Os conteúdos spectos relacionado à consideração oralidade. Timbau e Djembê. com apoio em estudos s e costumes afro-brasileiros. Com isto. As aulas foram constituídas de atividades auxiliadas por instrumentos mu sicais percussivos populares e étnicos. Módulo Específico A formação específica foi constituída da produção de ações pedagógicas percussivas brasileiras. Bloco Sonoro. concepções de equi ancestralidade. em cada . Repique. que permitiu ao citado componente e seus colegas vocadas pertinente a de curso à desconstrução temática sobre o elemento negro. RecoReco de Lixa.os princípios norteadores afrode Rosa temas levaram Margarida. organização.

No entanto. entrevista. contribuição e rendimento nas atividades individuais habilidades). mas. já casado. Revelou-se afro-brasileiras. ilha. e com a alfabetização complementada a loja de no Instituto. Isto demonstra uma parcela dos resultados adquiridos. O processo avaliativo realizado antes. RESULTADOS ALCANÇADOS Num dos trechos 07) afirma: ――O meu da (seminário. eu aprendi muito dentro do Officina Affro . Considerando e a grupais (desenvolvimento assiduidade e de partici sobreposição dos aspectos qualitativos pação nas atividades) em relação aos quantitativos. na sede da Instituição e em escolas da rede pública circunvizinha. AVALIAÇÃO APLICADA ntínua. por um jove m de credibilidade social fragmentada. no foi identificado na observação co decorrer e no final do projeto. considerando a participação em trabalhos. Fred Júnior (20 aprendizado. com uma de f um Júnior tornou-se empreendedor felicitações. no município de Itapecuru -mirim. quando tem tempo disponíve l continua assumindo o papel de agente multiplicador nas oficinas de percussão para crianças e pessoas com deficiência. o meu jeito de andar.trimestre era trabalhada uma unidade. acima citada.Page 357----------------------tocando um compositor. o meu jeito de se expressar. instrumento compondo percussivo mús interpreta denominado . Fred mensagens de hoje. nas quai s o Officina Affro icas estabelece parceria. auxiliado pela sua esposa e mais adiante. passou a gerenciar um pequen o restaurante. que as e se Timbau autoacompanha (tambor 356 ----------------------. junto com seu pai.

jovens em oficinas realizad Manoel Beckman e na própria sede no bairro do Apeadouro.M. em 200 5. circunstância. CONCLUSÃO Entende-se que a educação é a preparação para a vida. Sagarana I. assim como. Em razão disto. Nos últimos anos. de espaço e de corpo. po rque exige o aprimoramento dos componentes psicomotores: coordenação. sistemática veiculada de de transmitir forma os interdisciplinar. considerada como a tônica educacional comp lementar dos a discentes. educacional escolar eficaz.confeccionado com madeira ou chapa. ussivamente que para necessita um de com uso se de vergalhão de ferro. possibilitando resgate e o exercício das potencialidades. que pressupõe um complemento associado ao desenvolvimento das capacidades e habilidades específicas necessárias d o educando.E. enquanto que o ato de educar é tirar de dentro do indivíduo potencial e no seu estado tudo mais aquilo que lá se encontra em rudimentar. cuja tensão é obtida ue é percutido com as mãos). C. E. cerca d e 30 jovens com deficiência participaram da oficina de fotografia. percepção de ritmo . na sede da entidade. perc e q indivíduo uma autoacompanhar habilidade apurada. de formato cilíndrico. da preservação dos para a garantia do . Entende-se. O Instituto Officina Affro prestou atendimento há 30 jovens da Unidade E scolar Especial Helena Antipoff no ano de 2001/2002. coberto na extremidade superior por uma pele. especificamente. a percussão afro-brasileira. com oficina de percussão. A form conhecimentos da música percussiva poderia ser voltada para a obtenção de um efeito únic o com as disciplinas curriculares formais. nas escola s deveriam ser tratadas como prática pedagógica obrigatória. ainda difícil para muitas pessoas ditas ―normais . já foram atendidos mais de 50 as na U. domínio rítmico.

carregados de baixa autoestima. ersais. rejeitando a sua identidade étnica. Neste contexto. as escolas públicas e privadas e. atendimento propondo-se dos seus integrantes às atualizações e a comunidade . distante da obrigatoriedade. as maranhenses haveriam de sentir a necessidade de reformular os seus ensinamentos educacionais . d negada e fortalecendo a autoestima e a identidade étnica.valores de ascendência espertando assim. qu e preconiza o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. em orquestra geral. nas inst ministrada pelo viés do ―folclore . que despre impre extraídos dos atabaques gnados de preconceitos. com vistas ao e bem como. em larga alguma religião adversa. um seguimento. princ ipalmente. pelo medo de gozação e deboche dos colegas. no âmbito da Educação Básica Naci onal. instrumentos consideram barulhentos e fazem uma relação pejorativa com a prática de feitiçaria. os educand escala. se os os gestores pertencerem a afro-brasileiros. ns professores. estudos afro-brasileiros. se negam a participar das oficinas de pe rcussão. o étnicos. ainda cultura seja afro-brasileira que até a praticada então.639/03. que se arriscavam s de Pluralidade Cultural e Questões Etnicorraciais. orientados pelos 357 ----------------------. de maneira singul ar. social e regional. É ituições de notório que a ensino. criando grupos de s pesquisa e percussivas. associado às influências maléficas e demoníacas. anteriormente.Page 358----------------------Salvo era conduzido e de algu discussõe transv sensibilidade tímidas de temas a estimular por intermédio Parâmetros Curriculares Nacionais e atualmente pelo disposto na Lei n  10. zo e Ainda é comum se observar. a negação pelos ritmos e de os outros dentro da escola. para africana e a beleza das culturas afro-brasileiras.

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