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ASPECTOS INOVADORES NO PROJECTO E CONSTRUÇÃO

DE ESTRUTURAS SUBTERRÂNEAS

INNOVATIVE ASPECTS IN THE DESIGN AND CONSTRUCTION


OF UNDERGROUND STRUCTURES

Luís Ribeiro e Sousa

Investigador do Laboratório Nacional de Engenharia Civil


Professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

RESUMO: Neste trabalho, abordam-se alguns aspectos importantes associados ao uso do


espaço subterrâneo nos mais diversos domínios, com especial destaque para os mais inovadores
relacionados com o projecto e a construção, nomeadamente no âmbito dos sistemas de transporte,
da produção de energia e da armazenagem ou depósito de produtos.

As questões geotécnicos assumem natural relevância, sendo ainda dado destaque às questões
relacionadas com o desenvolvimento das novas tecnologias para furação e escavação em maciços
rochosos e terrosos. Em concomitância, procuram-se ilustrar alguns exemplos concretos da
experiência portuguesa em grandes empreendimentos subterrâneos, com destaque para a Estação
Baixa-Chiado do Metropolitano de Lisboa e para as obras de reforço do empreendimento
hidroeléctrico de Miranda.

ABSTRACT: In this work important aspects related to the use of the underground space in
several domains are analysed with special emphasis to the innovator aspects related to the
design and construction, namely in the domain of transport systems, energy production, and
storage or repository of products.

The geotechnical issues have a natural importance, being also given special reference to the
issues related to the new technologies of excavation in rock and soil masses. In addition some
instances of the Portuguese experience in important underground undertakings are presented,
with special emphasis to the Baixa Chiado station of the Lisbon Metro and to the Miranda
hydroelectric repowering works.

1. INTRODUÇÃO

À medida que a população aumenta e mais países melhoram o seu nível de vida, o mundo
precisa de mais alimentação e de mais matéria prima para se desenvolver de forma sustentada.
Para que tal seja possível, é necessário a conversão de terrenos agrícolas, o aumento de zonas
urbanizadas e a manutenção e (ou) melhoria do meio ambiente.

A nível urbano e local, existem necessidades de melhorar os sistemas de transportes e de outras


actividades. O estado do tráfego em muitas áreas urbanizadas dificilmente comporta novas
infra-estruturas à superfície sem causar uma deterioração inaceitável do meio ambiente.

Em consequência, as tendências mundiais de crescimento permitem prever um mundo


ecologicamente menos estável, com perspectivas de sérias tensões envolvendo as populações,
os recursos naturais e as condições ambientais, caso não sejam perspectivadas a longo prazo
soluções harmoniosas de desenvolvimento. O aumento do consumo de recursos naturais tem
originado a criação e extensão de minas e explorações de gás e de petróleo a grandes
profundidades e em lugares cada vez mais inacessíveis. Tem também originado novos sistemas
de geração de energia e de armazenagem, bem como a necessidade de tratar problemas relativos
a depósitos (radioactivos, químicos e biológicos).

Uma maior consciencialização dos problemas emergentes da situação decorrente do actual modelo
de desenvolvimento da humanidade conduz necessariamente à procura de soluções alternativas,
envolvendo uma utilização mais racional dos recursos existentes. Nesse sentido, a consideração do
uso do espaço subterrâneo, também designado de geospaço, nos mais diversos domínios - das vias
de comunicação, ligações rodoviárias e ferroviárias, do urbanismo subterrâneo, metropolitanos,
construção de complexos comerciais, industriais e parques de estacionamento, das infra-estruturas
urbanas, para abastecimento de águas, saneamento básico e outros serviços, da produção de
energia, centrais hidroeléctricas, centrais nucleares e sistemas de armazenagem e produção de
energia, da armazenagem de produtos, quer de consumo, como hidrocarbonetos líquidos e gasosos,
produtos alimentares e água, quer de resíduos, como resíduos de indústrias químicas e nucleares,
das explorações mineiras, da defesa, abrigos e instalações militares - pode constituir uma dessas
soluções alternativas.

Ao localizar certos equipamentos e funções em subterrâneo, o espaço à superfície pode ser


utilizado de uma forma mais efectiva. O uso do espaço subterrâneo permite às populações viver
mais confortavelmente em áreas densamente povoadas, melhorando a sua qualidade de vida
(Sterling, 2000; Hanamura, 2001).

O geospaço apresenta propriedades específicas que tornam aliciante o seu uso. Assim, do ponto de
vista estrutural, as obras subterrâneas quando adequadamente projectadas e construídas, não
necessitam de estruturas de suporte muito dispendiosas, face às solicitações provenientes do maciço
envolvente ou das próprias obras. O espaço subterrâneo está envolvido por um meio isolante
excelente, mormente em relação a acções térmicas, de alta e baixa temperatura, a vibrações, sismos
incluídos, e a ruídos. Por outro lado, nestas obras existe plena liberdade para o desenvolvimento de
variadas formas a três dimensões, sem as limitações existentes à superfície, e o impacto ambiental
pode ser consideravelmente reduzido.

Na Figura 1, procura-se ilustrar o espectro possível dos domínios de aplicação no uso do espaço
subterrâneo.

O geospaço é, pois, um recurso de potencial múltiplo, explorado desde há milhares de anos.


Segundo a profundidade a que se situam as obras subterrâneas, pode ser estratificado do seguinte
modo (Sousa, 1996):

i) Terraspaço ou geospaço próximo da superfície até cerca de 30m;


ii) Litospaço ou geospaço acessível a partir da superfície entre as profundidades de 30 e 300m;
iii) Geospaço remoto da superfície, a profundidades situadas aproximadamente entre 300 e 3000m.

As utilizações do terraspaço requerem, em geral, a construção de coberturas ou de estruturas


adequadas de suporte, como seja caves, edifícios integrados no terreno, redes viárias a céu aberto e
recobertas posteriormente, em caso de metropolitanos, sistemas de esgotos, etc. As obras acessíveis
a partir de galerias, rampas ou poços do litoespaço incluem ligações rodoviárias e ferroviárias
escavadas em túnel, centrais hidroeléctricas subterrâneas e respectivo circuito hidráulico, obras de
adução de água, armazenagem de hidrocarbonetos líquidos, usos secundários de vazios resultantes
de explorações mineiras. As instalações que recorrem ao geospaço remoto, cujo acesso só é
possível por poços munidos de elevadores, encontram-se em empreendimentos relacionados com
armazenagem de energia por ar comprimido, de resíduos nucleares e de indústrias químicas.

Na impossibilidade de abordar em detalhe todos os desenvolvimentos mais recentes no projecto


e construção das estruturas subterrâneas, procura-se desenvolver neste trabalho apenas alguns
aspectos mais relevantes de alguns domínios que recorrem ao uso do espaço subterrâneo,
excluindo deste trabalho o urbanismo subterrâneo e as questões ligadas ao uso e
desenvolvimento de métodos computacionais e à observação das obras subterrâneas.

USO DO ESPAÇO SUBTERRÂNEO

Funções activas Funções passivas

Urbanismo Armazenagem
de Hidrocarbonetos

Esgotos Instalações comerciais Líquidos


Água Defesa Gás natural
Telefones Instalações recreativas Gás liquefeito
Instalações industriais

Energia Depósito
de Residuos

Hídrica Radioactivos
Nuclear Químicos
Térmica Biológicos

Vias de Armazenagem
Comunicação de Energia

Rodoviárias CAES
Ferroviárias Calor
Metropolitanos Hídrica
Canais de navegação

Explorações
Mineiras

Instalações fixas Depósito de resíduos


Exploração do minério Armazenagem de produtos

Figura 1. Domínios de aplicação no uso do espaço subterrâneo

Assim, para além da presente Introdução, apresentam-se, no Capítulo 2, aspectos relativos aos
sistemas de transportes subterrâneos com destaque, no caso das ligações rodo-ferroviárias, para
os túneis subaquáticos, imersos e submersos, bem como para os transportes em metropolitano,
sendo dado destaque especial ao caso da Estação Baixa-Chiado do Metropolitano de Lisboa.

O Capítulo 3 vai abordar desenvolvimentos efectuados na área da produção de energia, sendo


dado enfoque especial aos empreendimentos hidroeléctricos, com abordagem detalhada do caso
de reforço de potência de Miranda.

No Capítulo 4, pretende-se analisar aspectos associados à armazenagem ou depósito de


produtos. Abordam-se as cavernas revestidas para armazenagem de gás natural e são
apresentados diferentes conceitos para depósito de resíduos radioactivos, bem como diferentes
soluções em curso.

Finalmente, no Capítulo 5, apresentam-se novas tecnologias desenvolvidas para tuneladoras


nomeadamente no Japão, apresentam-se algumas considerações finais no Capítulo 6 e as
referências bibliográficas seguidas neste trabalho.
2. SISTEMAS DE TRANSPORTES

2.1. Introdução

O uso do espaço subterrâneo para sistemas de transportes começou na Europa e na América do


Norte um pouco antes de meio do século XIX, com o início dos transportes ferroviários.
Portugal acompanhou desde cedo este meio de transporte, tendo construído a primeira linha
Lisboa-Carregado em 1856, sendo o primeiro túnel sido concluído em 1862, com o túnel de
Chão de Maçãs com 650m de extensão (Silva, 2001).

Nos últimos anos têm sido construídas obras de grande porte ligadas a travessias subaquáticas e
à execução de comboios de alta velocidade do tipo TGV. Merecem especial relevo o túnel de
Seikan no Japão que liga as duas maiores ilhas setentrionais do Japão, com 54km de
comprimento, sendo 23km sob o mar e com profundidade máxima de cerca de 240m. Na Figura
2, apresenta-se uma planta e um perfil longitudinal deste túnel. Mais recentemente foi
construído o túnel da Mancha, entre a França e a Inglaterra, com uma extensão de 50,5km e
compreendendo dois túneis ferroviários gémeos, a cerca de 40m de profundidade do fundo do
mar, com 7m de diâmetro e um túnel de serviço com 4,5m de diâmetro. Nos últimos anos, os
transportes ferroviários têm aumentado consideravelmente com o desafio da alta velocidade, em
particular na Europa e Japão. Têm sido construídos ou estão em construção obras espectaculares
de grande porte, de que se salienta o túnel de Saint Gothard com uma extensão de 57km, entre a
Suíça e a França e actualmente em construção (Kovari et al., 1999).

Nas ligações rodoviárias, destaca-se, entre os primeiros, o túnel de Monte Branco, com 11,6km
de extensão, cujo recobrimento atinge cerca de 2500m. As principais dificuldades relacionaram-
se com os problemas de afluxo de água, com as elevadas pressões e temperaturas do maciço
rochoso, e naturalmente com os elevados estados de tensão instalados nos maciços. Menciona-
se, ainda, o túnel de Fréjus, ligando a Itália a França, com um desenvolvimento de 12,87km,
recobrimento máximo de 1800m e com a existência de túneis de ventilação dos lados francês e
italiano, perfazendo um total de 2125m. Recentemente, foi construído o túnel Aurland- Laerdal,
na Noruega, que tem a maior extensão mundial, cerca de 24,5km, que entrou em exploração em
1999.

Neste Capítulo, dá-se especial destaque na secção 2.2, para o caso dos túneis rodo-ferroviários,
aos túneis imersos, sub-aquáticos e os túneis flutuantes, que se espera vir a concretizar num
futuro próximo.

Nos grandes meios urbanos, os metropolitanos constituem um dos meios de transporte mais
importantes hoje em dia, pelo que se apresentam na secção seguinte (2.3), sendo dado especial
destaque às obras realizadas na Estação Baixa-Chiado.

2.2. Ligações rodoviárias e ferroviárias

2.2.1. Generalidades

As infra-estruturas de transportes rodoviárias utilizam, em regra, a superfície devido à


necessidade de dissipar os fumos para a atmosfera. No entanto, em certos casos devem utilizar o
espaço subterrâneo no interior das cidades ou seu redor, ou visando o atravessamento de regiões
montanhosas. Considerações de natureza ambiental podem também ser tidas em consideração, o
que permite a criação de zonas superficiais destinadas a parques ou a áreas de lazer. Um
exemplo interessante de uso de auto-estradas em subterrâneo é o da baía de Tóquio ou o rodo-
anel da cidade de São Paulo, que apresenta uma extensão importante de túneis.
Planta

Perfil longitudinal

Figura 2. Túnel de Seikan

Constituem problemas complexos a resolver neste tipo de obras subterrâneas os associados à


realização de sistemas de ventilação, de forma a manter a qualidade do ar. Podem obrigar, no
caso de obras de grande dimensão, à realização de centrais de ventilação localizadas em
cavernas. A ocorrência de graves acidentes provocados por incêndios, que aconteceram nos
túneis do Monte Branco e de Tauern em 1999, têm obrigado, porém, à concretização de novas
directivas de segurança para estes tipo de túneis (Vuilleumier et al., 2001).

As infra-estruturas ferroviárias subterrâneas apresentam problemas menos relevantes na sua


exploração, com a utilização de ferrovias electrificadas, razão pela qual se têm construído obras
de grande porte com os já mencionados túneis de Seikan e da Mancha. Nos últimos anos, os
transportes ferroviários têm evoluído consideravelmente com o aumento da velocidade e o
desenvolvimento de redes de alta velocidade. Esta expansão das ferrovias tem implicado a
realização de túneis de grande extensão devido às limitações do traçado, de que se salienta o
caso já mencionado do túnel de Saint Gothard. Muitos dos problemas actuais derivam da
necessidade de reabilitar os túneis antigos de forma a adequar as condições de segurança aos
critérios actuais. Outros problemas surgem associados à adequação das obras antigas às actuais
condições de transporte de mercadorias, com contentores de gabarit diferente. Em Portugal, a
grande maioria dos túneis ferroviários, 120 túneis com 29km de extensão, foram construídos no
século XIX e início do século XX (Silva, 2001). Destaque especial vai para o túnel do Rossio,
com 2600m de comprimento, construído entre 1887 e 1889, e que atravessa a cidade de Lisboa.
Actualmente o túnel foi já objecto de obras de reabilitação, nomeadamente ao km 0,9, estando
previsto a sua reabilitação integral (Sousa, 1998).

No Quadro 1, procura-se ilustrar túneis rodo-ferroviários de grande extensão que têm sido
executados a nível mundial. Inclui-se, também, o túnel do Rossio por se tratar da obra em
Portugal de maior extensão.

Quadro 1. Lista de túneis rodo-ferroviários longos

Túnel País Serviço Ano Comprimento Observações


(km)
Seikan Japão Ferroviário 1988 53,9 23,3km sub-aquático
Mancha França/UK Ferroviário 1993 49,2 37,5km sub-aquático
Shinkanmon Japão Ferroviário 1975 18,7
Severn UK Ferroviário 1886 7,0 3,6km sub-aquático
Mersey UK Ferroviário 1934 4,9 1,2km sub-aquático
Daishimizu Japão Ferroviário 1982 22,2
Simplon I Itália/Suiça Ferroviário 1906 20,0
Apenine Itália Ferroviário 1934 18,5
St. Gothard I Suiça Rodoviário 1980 16,3
Rokko Japão Ferroviário 1972 16,3
New Furka Suiça Ferroviário 1982 15,4
Haruna Japão Ferroviário 1982 15,4
St. Gothard II França-Suiça Ferroviário Em const. 57 Região montanhosa dos
Alpes
Rossio Portugal Ferroviário 1889 2,6 Sob a cidade de Lisboa
Mont Blanc França Rodoviário 11,6
Fréjus França-Itália Rodoviário 12,9
Aurland- Noruega Rodoviário 1999 24,5 Atravessamento de fiord
Laerdal

Pretende-se abordar na secção seguinte as soluções inovadoras de túneis rodo-ferroviários que


têm sido propostos para a travessia de cursos de água ou de zonas marítimas. Estas soluções têm
sido realizadas de forma pioneira na Noruega e na Islândia, dadas as características especiais da
costa destes países, que está dividida em zonas fracturadas paralelas e perpendiculares à linha
costeira, com a existência dos designados fiordes e um número considerável de ilhas. São
diversas as soluções técnicas para a execução destas travessias, que passam pela realização de
pontes suspensas, pontes flutuantes e túneis submersos e flutuantes ou túneis sub-aquáticos em
rocha, como se ilustra na Figura 3 (Juncà, 1991). Considerando W a largura do trecho a
travessar e D a profundidade da água, a Figura 4 permite indicar, de uma forma aproximada, a
variação de custos (em NOK) com os referidos parâmetros, W e D. Constata-se que o custo da
solução em ponte suspensa aumenta consideravelmente com o vão da obra, pelo que, para certas
valores de W, as outras soluções poderão ser mais favoráveis, nomeadamente para túneis sub-
aquáticos.

Para além destas soluções, podem ser executados túneis imersos preferencialmente para
estuários, mas, também, para atravessamentos marítimos, que consistem na construção de
elementos pré-fabricados que são instalados no local, em regra, por flutuação e conectados um a
um no solo debaixo de água (Saveur e Grantz, 1997; Tribune, 1999).
ponte suspensa ponte flutuante túnel flutuante submerso túnel sub-aquático

Figura 3.Diferentes soluções para travessia de um trecho marítimo.

Figura 4. Variação de custos de diferentes soluções em função da profundidade e do vão a


atravessar

2.2.2. Túneis imersos

A travessia de vias aquáticas representa um obstáculo ao planeamento de infra-estruturas. A


execução de túneis imersos constitui hoje em dia uma alternativa à construção de pontes e de
túneis escavados no subsolo. Apesar de serem construídos através de todo o mundo não existem
regulamentos de cálculo específicos. As principais questões relativas a estes túneis estão
sobretudo relacionadas com a estanquiedade, a dragagem, a interferência com a navegação e a
durabilidade das obras em relação às águas agressivas (Saveur e Grantz, 1997; Tribune, 1999).

Podem ser utilizadas secções com revestimento interior metálico, exemplificando-se na Figura 5
secções transversais de túneis imersos metálicos, envolvendo secções circulares (unidades em
mm). Para túneis em betão, também têm sido utilizadas secções circulares para tubos simples.
No entanto para túneis imersos habituais as secções são do tipo rectangular e múltiplas, como se
exemplifica na Figura 6.
Figura 5. Secções transversais de túneis imersos metálicos (adaptado de Saveur e Grantz, 1997)

O túnel de maior extensão é o de Drogden, com 3,75km de comprimento, que faz parte da
ligação por via marítima entre a Suécia e a Dinamarca inaugurada em 2000, envolvendo ainda a
realização de uma ilha artificial com 3,85km de extensão e uma travessia em ponte através do
canal de Flinterenden com 7,3km.

Uma discussão aprofundada sobre o projecto destas estruturas subterrâneas encontra-se num
número especial elaborado pela Revista Tunnelling and Underground Space Technology, Vol.
12, nº 2, de Abril de 1997.

A técnica de construção de túneis imersos é completamente diferente dos túneis tradicionais


(Tribune, 1999). A construção inicia-se pela dragagem de um canal no fundo do leito a
travessar. Os elementos pré-fabricados a seco, num estaleiro ou numa unidade fabril, são
transportados para o local por rebocadores e ocasionalmente por gruas, sendo submersos no
local. Cada elemento é colocado contra os elementos anteriores, comprimindo a água os
elementos vedantes entre dois elementos. Material de enrocamento é colocado sobre o túnel de
modo a preencher as valas e permitir a sua protecção (Figura 7).
Figura 6. Secções transversais de túneis imersos em betão (adaptado de Saveur e Grantz, 1997)
Figura 7. Construção de um túnel imerso

As vantagens na escolha de um túnel imerso são expressas de uma forma sintética no Quadro 2.
O estudo das questões ambientais, do risco associado a estas obras, do transporte dos elementos
estruturais e do estudo sísmico pode ser analisado, respectivamente, nas publicações de
Marshall (1997), Saveur (1997), Hakkaart (1997) e Ingerslev e Kiyomiya (1997).

Quadro 2. Vantagens na escolha de um túnel imerso

Alinhamento Os túneis imersos (TI) podem ser construídos à superfície, permitindo túneis mais
pequenos e alinhamentos menos inclinados.
Secção Os TI são altamente versáteis sendo particularmente adequados para vias
transversal rodoviárias e ferroviárias, com combinação ou não de ambas as vias.
Profundidade Os TI estão contidos entre 5-30m de água, tendo já sido projectados para 100m.
da água
Condições Os TI podem lidar com a maior parte de tipos de terrenos, incluindo materiais
geotécnicas aluvionares. As situações não adequadas para túneis escavados não põem
usualmente problemas. Em zonas de risco sísmico mostram-se particularmente
adequados.
Disponibilidade Os TI são habitualmente pré-fabricados longe do sítio de imersão, permitindo a
de terreno instalação em zonas urbanas congestionadas.
Reconquista As operações de dragagem constituem uma boa ocasião para redesenhar os perfis
de terrenos dos rios. Por exemplo, os TI são frequentemente associados a projectos de
reconquista de terrenos.

2.2.3. Túneis sub-aquáticos

Na construção de túneis sub-aquáticos, é absolutamente essencial uma boa caracterização


geológico-geotécnica dos maciços rochosos interessados. Os reconhecimentos in situ obrigam a
estudos geomecânicos cujo custo pode representar cerca de 5% do total da obra. Estudos
geológicos e geofísicos rigorosos são determinantes para fixar a localização final do túnel. Uma
das técnicas mais eficientes é a da refracção sísmica que permite a construção de modelos
tridimensionais na zona atravessada pelo túnel e obter informação sobre a cobertura do maciço.
São, também, utilizadas medições sísmicas pelo método cross-hole, bem como outros métodos
que possibilitam uma informação rigorosa sobre a fracturação do maciço e a presença de
materiais argilosos.

Na Figura 8, ilustra-se um esquema seguido para a determinação de perfis acústicos, recorrendo


a hidrofones inseridos no meio marítimo.
Figura 8. Esquema para determinação de perfis acústicos

O primeiro túnel a ser construído na Noruega foi o de Vardø em 1982, com secção de 46m2,
inclinação máxima de 8% e cobertura mínima de 35m, sendo a sua extensão de 2620m. Na
Figura 9, apresenta-se um perfil longitudinal do túnel de Flekkerøy, com cerca de 2320m de
extensão, concluído em 1989 (Juncà, 1991). Nestas obras, a realização de instalações de
bombagem em cavidades executadas para o efeito constitui um dos elementos importantes a
considerar no projecto (Figura 10).

Figura 9. Túnel de Flekkerøy


Figura 10. Instalação de bombagem para um túnel sub-aquático

A inclinação máxima destes túneis pode ser de cerca de 10% para um tráfego de 1500 veículos
por dia ou de 8% para um tráfego superior, entre 1500 a 5000 veículos dia, sendo, por
consequência, o perfil longitudinal quantificado pelo gradiente máximo e pela cobertura,
normalmente de 50m e com um mínimo de cerca de 30m.

Para além de um número considerável de túneis sub-aquáticos construídos na Noruega (Melby e


Øvstedal, 1999), é importante referir alguns túneis que têm sido construídos na Islândia,
envolvendo problemas adversos de alta sismicidade e de fenómenos de vulcanismo (Grov e
Haraldsson, 1999; Hardarson, 1999).

2.2.4. Túneis submersos

Os túneis submersos podem ser utilizados para atravessar estreitos, fiordes e lagos. Envolvem
uma estrutura flutuante em forma de tubo que se situa a alguma profundidade dentro de água e
suportada por cabos, colunas ou flutuadores. Devem ser suficientemente largos de forma a
permitir o tráfego rodo-ferroviário e sem interferência na navegação (Figura 11).

Figura 11. Perspectiva de um túnel submerso

Embora o conceito de túnel submerso tenha já quase um quarto de século, ainda nenhum país
efectuou uma construção deste tipo. Podem, porém, permitir uma solução mais económica para
uma travessia em alternativa às soluções em ponte ou em túneis subaquáticos (Ahrens, 1997;
Marshall, 1999).
Têm sido conduzidos vários estudos para a realização deste tipo de túneis de que se salientam as
indicadas na Figura 12. Assim, a primeira solução apontada é a do túnel de Høgsfjord, na
Noruega, com uma extensão de 1400m e máxima profundidade de água de 150m, com altura de
água de 20m. Este projecto foi considerado em detalhe e considerado possível (Skorpa, 1999).
Outro túnel, ferroviário, está planeado para atravessar o lago Lugano, na Suiça com 1260m de
comprimento e profundidade máxima da água de 74m, sendo a altura de água no túnel de 6m.
Outra solução foi prevista para atravessamento do estreito de Messina, em Itália, sendo a
extensão de 3000m e altura de água acima do túnel de 55m. Finalmente, a última solução
pontada na Figura diz respeita à travessia da baía de Funka, na ilha setentrional do Japão,
Hokkaido. A largura é de cerca de 30km, sendo a altura de água cima do túnel de 30m.

Os requisitos de projecto e construção são os mesmos dos apresentados nos códigos


internacionais, devendo ser dada especial atenção aos aspectos ambientais e a cargas acidentais
de modo a prevenir qualquer entrada de água no túnel. A estanqueidade e a durabilidade
assumem particular importância nestes túneis, devendo ser encontrada através de especificações
rigorosas e de uma observação cuidadosa. O custo das construções constitui um dos factores
principais na escolha de alternativas. A solução de um túnel submersa é dispendiosa, mas pode
ser uma solução eficiente para atravessamentos profundos e largos. Um túnel submerso está
submetido a condições complexas de carga, havendo que considerar as acções que derivam das
ondas, das correntes, dos sismos e das variações de densidade da água.

Na construção, devem ser usadas técnicas similares à dos túneis imersos. Beneficiam, também,
da experiência obtida com a construção de grandes estruturas marinhas para a indústria do
petróleo e do gás. Em princípio, o tubo é instalado numa doca sendo transportado
posteriormente para o local. Podem, também, ser acoplados alguns elementos na doca antes da
sua colocação no local.

2.3. Metropolitanos

2.3.1. Considerações iniciais

O desenvolvimento do tráfego urbano ditou a penetração do caminho de ferro no centro dos


meios urbanos, que tendeu para o uso do espaço subterrâneo dando origem ao transporte por
metropolitano. As linhas dos metropolitanos seguem, naturalmente, as direcções onde se
verificam tráfegos de ponta superiores. As linhas são, em regra, subterrâneas, podendo também
instalar-se em viaduto ou à superfície do solo, quando tal é possível. Os trechos subterrâneos
são de preferência instalados a pequena profundidade, condicionados como estão pelas estações.
É evidente que estas redes ferroviárias em meios urbanos densamente povoados, parcial ou
totalmente em subterrâneo, representam uma solução adequada para uma melhoria dos
transportes em meios urbanos.

Existem metropolitanos em quase todas as grandes metrópoles, como é por exemplo o caso dos
metropolitanos de Londres e de Nova York já centenários. Assim, em Nova York cerca de 4,3
milhões de pessoas utilizam diariamente este meio de transporte. Em Moscovo, regista-se o
maior volume de pessoas anualmente, cerca de 1,3 bilhões de passageiros, a que se segue
Tóquio, Seul,
Túnel de Høgsfjord, Noruega

Lago Lugano, Suiça Estreito de Messina, Itália

Túnel na baia de Funka, ilha de Hokkaido, Japão

Figura 12. Diferentes soluções propostas de túneis submersos

Cidade do México e Nova York. Existem outros metropolitanos de grande extensão recorrendo
naturalmente ao uso do espaço subterrâneo, como Paris, Londres, Osaka e Hong Kong.
Nalgumas cidades dos USA e da Europa ocorrem metropolitanos que servem populações
inferiores a um milhão de habitantes. Porém, em países da Ásia, da América do Sul e da antiga
URSS, os metropolitanos existem apenas em metrópoles com mais de um milhão de pessoas
(Hanamura, 2001). É, pois, possível concluir que o recurso a metropolitanos utilizando o
geospaço é inevitável em grandes metrópoles.

Em Portugal, o primeiro metropolitano, o de Lisboa, iniciou a construção da primeira linha em


1955, que terminou em 1959, tendo sito o 14º sistema subterrâneo de transporte na Europa. Até
1972, entraram em funcionamento várias estações e trechos da linha então existente em forma
de Y. Presentemente, foram construídas novas linhas, em número de 4, com cerca de 37km de
via dupla e 48 estações. Estão actualmente em curso várias expansões de que se salienta o
empreendimento da Baixa, com duas novas estações, a extensão de Telheiras e o prolongamento
da Linha Amarela, entre Campo Grande e Odivelas. Esta última extensão tem cerca 5km de
extensão, com 5 novas estações, cerca de 2,7km de túnel aberto por tuneladora, dois túneis
segundo o método NATM e um túnel terminal em Odivelas (Melâneo, 2000). Na Figura 13,
apresenta-se a rede do Metropolitano de Lisboa, com as extensões já referidas, bem como de
outras obras que se prevêem realizar.

Entre as obras de expansão do Metropolitano de Lisboa, salienta-se o empreendimento da


Baixa-Chiado, que se iniciou em 1997. O projecto permitiu conectar duas linhas, Linha Azul e a
Linha Amarela. A Estação Baixa-Chiado, pela sua complexidade e dimensões, constituiu uma
das obras mais relevantes deste projecto. Daí que se apresente em detalhe, na secção seguinte,
uma descrição desta obra, dos condicionalismos geotécnicos e construtivos e das observações
efectuadas.

Figura 13. Rede do Metropolitano de Lisboa

Está actualmente em construção o Metro Ligeiro do Porto, com 4 linhas e cerca de 70km de
extensão, sendo 7km em túnel, com 66 estações, sendo 10 subterrâneas. Vai, ainda, proceder-se
à reabilitação do túnel ferroviário da Trindade. Serão construídos de raiz 20km, resultando os
restantes da conversão de 50km de linhas já existentes (Figura 14). O sistema do Metro do Porto
desenvolve-se na sua quase totalidade na área metropolitana do Porto, envolvendo os concelhos
do Porto, Vila Nova de Gaia, Maia, Matosinhos, Vila do Conde, Póvoa do Varzim e Santo
Tirso.
Figura 14. Rede do Metro do Porto

2.3.2. Estação Baixa-Chiado

A Estação Baixa-Chiado situa-se na zona histórica do Chiado. Localiza-se sob um considerável


grupo de edifícios que apresentam anomalias resultantes das alterações que ocorreram durante a
sua vida. A estação serve duas linhas do Metropolitano de Lisboa, pelo que se reveste de grande
importância devido à sua localização estratégica. A estação consiste em duas grandes cavernas
paralelas com 18m de vão e 250m de comprimento com uma secção transversal de 240m2,
separadas por uma distância mínima de cerca de 6m (Figura 15), (Barreto et al., 1999).

Desenvolve-se em formações do Miocénico com recobrimentos recentes. As formações


miocénicas são caracterizadas por uma grande variedade de formações com estratificação sub-
horizontal. Podem ser observadas areias siltosas designadas de Areolas da Estefânia, que
apresentam intercalações de arenitos calcários, e argilas cinzentas margosas designadas de
Argilas dos Prazeres. As formações recentes superficiais são formadas por depósitos aluviais
com baixa consistência, apresentando intercalações de níveis arenosos. A Figura 16 apresenta
um perfil geológico pela estação do lado ocidental.

A selecção do processo construtivo foi determinada pela experiência de outras obras e com base
em simulações numéricas efectuadas. Várias soluções alternativas foram analisadas de forma a
permitir uma escolha apropriada tendo em vista analisar a estabilidade das sucessivas estruturas
subterrâneas. A Figura 17 ilustra a sequência escolhida para a construção das sucessivas etapas
das duas cavidades.
Figura 15. Estação Baixa-Chiado

Figure 16. Perfil geológico da estação Baixa-Chiado


Figure 17. Sequência de escavação adoptada na construção das cavernas.

A escavação da cavidade do lado ocidental ocorreu em torno do túnel efectuado pela tuneladora,
com a escavação de galerias laterais no topo da caverna e progredindo para as zonas inferiores,
conforme ilustrado na Figura. A região crítica do pilar entre as duas cavidades foi tratada por
intermédio de colunas de jet-grouting (Postiglione et al., 1997).

Foi estabelecido um sistema de observação preliminar para a estação e edifícios adjacentes de


forma a assegurar a estabilidade das diferentes estruturas subterrâneas associadas ao processo
construtivo e detectar eventuais comportamentos anómalos nos edifícios adjacentes, e em
especial para detectar eventuais danos. O objectivo da instrumentação foi, no essencial, o de
efectuar medições de: i) deslocamentos no interior do maciço na vizinhança das escavações por
intermédio de extensómetros de barras e por inclinómetros; ii) assentamentos e deslocamentos
superficiais; iii) convergências nos suportes; iv) variações de pressões hidrostáticas por
intermédio de piezómetros; v) movimentos de fissuras em instalações à superfície. Assim,
foram definidas 11 secções principais de observação com cerca de 25m de espaçamento,
conforme indicado na Figura 18.

Figura 18. Plano de observação da Estação Baixa-Chiado

As convergências foram efectuadas com bases em leituras de cordas em três marcas segundo
triângulos, variando a posição das marcas inferiores de acordo com a sequência construtiva. A
frequência de leituras variou naturalmente em função da distância da frente de escavação em
relação à secção instrumentada. As medições dos níveis freáticos por intermédio de piezómetros
foi também efectuada. No que respeita à superfície, realizaram-se medições de assentamentos
em marcas topográficas situadas em cada uma das secções principais de observação, bem como
em outras marcas topográficas localizadas à superfície do terreno. Foram, ainda, instaladas
marcas e outros dispositivos nas paredes dos edifícios. Para controlo do movimento de fissuras,
nomeadamente da abertura, foram colocados fissurómetros nos edifícios de modo a poder
controlar as aberturas destas descontinuidades, bem como foram instalados selos de modo a
facilitar a leitura das aberturas nas fissuras quando elas ocorriam nos edifícios e deste modo
controlar a sua abertura com as diferentes fases construtivas.

Nalgumas secções principais de observação foram localizados alguns inclinómetros e


extensómetros de barras conforme indicado na Figura 18 em planta, de forma a controlar os
movimentos no interior do solo e na proximidade das escavações. A Figura 19 apresenta uma
secção através do perfil P33, onde se indica a localização dos instrumentos instalados.

Figura 19. Secção instrumentada no perfil P33.

A Figura 20 mostra assentamentos observados na secção P33 em dois instantes, 1995.08.28 e


1997.04.30, que são comparados com as correspondentes simulações numéricas utilizando o
software FLAC-2D (Itasca, 1994). No primeiro instante, a tuneladora tinha já atravessado a
cavidade poente e tinha sido iniciada a destroça da cavidade oriente. No segundo instante,
ambas as cavidades tinham sido entretanto escavadas. Devido à influência das injecções de
compensação os valores observados na superfície do terreno não variaram muito. A descrição
das injecções de compensação e as observações efectuadas serão descritas posteriormente. Na
Figura 21 mostra-se a evolução de assentamentos na secção P36 para os mesmos instantes.
Nesta secção, não foi necessário realizar injecções de compensação, o que explica a razoável
concordância entre os valores observados e os valores calculados por intermédio de modelos
numéricos.

Na zona superficial da estação existem cerca de 30 edifícios antigos entre o Largo da Academia
das Belas Artes e a Calçada do Livramento. Antes da execução das obras, efectuaram-se visitas
de inspecção de modo a avaliar o estado de conservação dos edifícios. Verificou-se que a grande
maioria das construções tinha adoptado um tipo de construção designado de Pombalina,
implementado após o terramoto de 1755. A construção adoptada consistia na adopção de
elementos de alvenaria em pedra com uma estrutura em gaiola com elementos estruturais em
madeira. Os elementos de alvenaria formavam as paredes resistentes na periferia, bem como
paredes dos pisos inferiores, sendo a fundação contínua. A estrutura em madeira era contínua
em cada plano e compreendia elementos resistentes dos pavimentos e paredes internas.
Verificou-se, porém, que inúmeras alterações tinham sido introduzidas nos edifícios durante os
anos, especialmente nos pisos inferiores, devido à criação de espaços comerciais e execução de
caves.
poente (esq.) poente (eixo) poente (dir.) oriente (esq.) oriente (eixo) oriente (dir.)
0

-20

-40
settlements (mm)

calculado (95/8/28)
observado (95/8/28)
shield (calculado - 95/8/28)
-60
shield (observado - 95/8/28)
calculado (97/4/30)
observado (97/4/30)

-80

-100

-120

section

Figura 20. Assentamentos para secção P33


poente (esq.) poente (eixo) poente (dir.) oriente (esq.) oriente (eixo) oriente (dir.)
0

-20

-40
assentamentos (mm)

-60

-80

observado (95/8/28)
shield (calculado - 95/8/28)
-100
shield (observado - 95/8/28)
calculado (97/4/30)
observado (97/4/30)
-120

Figura 21. Assentamentos para secção P36

Ocorriam também outras construções, como palácios e igrejas sem este efeito de gaiola, bem
como alguns edifícios em betão armado recentemente reabilitados na sequência do grande
incêndio ocorrido no Chiado. Sendo assim, algumas construções tornaram-se vulneráveis em
relação a solicitações horizontais e verticais e nomeadamente a assentamentos diferenciais na
fundação. Foram, então, estabelecidos níveis de danos para vários edifícios envolvidos.
Consideraram-se em especial 6 edifícios, que foram objecto de observação cuidadosa e alguns
deles submetidos a trabalhos de consolidação.

Foram utilizadas leis empíricas para estimar os assentamentos com base nos resultados da
observação, considerando funções Gaussianas caracterizadas pelo assentamento máximo Smax e
pela distância horizontal do eixo da cavidade e o ponto de inflexão dos assentamentos i
(AFTES, 1995). Analisaram-se, também, os seguintes parâmetros: volume relativo de
assentamentos à superfície ∆V/V, que depende das condições geotécnicas e do método
construtivo, e K=i/z que depende das características geotécnicas do terreno, sendo z a
profundidade do eixo do túnel. Com base nos parâmetros calculados, foram avaliados os danos
potenciais no final da construção para alguns edifícios seleccionados. A Figura 22 ilustra os
edifícios que foram afectados pelas obras da Estação Baixa-Chiado.

Figura 22. Edifícios afectados pela construção da estação

Escolheram-se as etapas construtivas mais relevantes para quantificar os parâmetros


identificadores das curvas de Gauss, nomeadamente: i) estação oriente – execução da frente,
destroça e soleira da secção completa; ii) estação ocidente – escavação com tuneladora. A
variação dos parâmetros ∆V/V e K foi analisada de acordo com as etapas construtivas e com as
características do perfil geotécnico. O zonamento da zona envolvente da estação foi feita de
acordo com os valores obtidos para os parâmetros empíricos (Barreto et al., 1999). A análise
dos resultados observados permitiu tirar as seguintes conclusões: i) a perda de volume relativo
do terreno correspondente à escavação com tuneladora é habitualmente inferior à das cavidades
efectuadas com o designado método NATM com pequenas excepções; ii) a perda de volume
relativo decresce no método NATM à medida que procede à escavação da parte inferior da
secção (1,25-0,9% para P29, e 0,7-0,45% para P36); iii) a escavação com tuneladora origina
perdas de volume relativo adicionais nas cavidades NATM (no perfil P33 foi produzido uma
perda de 0,85% na primeira fase, aumentando para 1,1% após a passagem da tuneladora na
outra cavidade); iv) a magnitude da perda de volume relativo é muito influenciada pelo tipo de
maciço, sendo de 0,8-1,25% para solos arenosos e de 0,4-0,7% para solos argilosos. O valor de
K é característico de solos arenosos, apresentando valores entre 0,3<K<0,4. Para avaliação de
eventuais danos, os valores adoptados para ∆V/V nas várias secções variaram entre 0,6 to 1% e
os de K variaram entre 0,3 a 0,4. Com base nos valores determinados, foram avaliados os
potenciais danos nos edifícios tendo em consideração os critérios de danos sugeridos por várias
publicações (Boscardin e Cording, 1989; AFTES, 1995). A intensidade máxima de dano
considerada foi de moderado, i.e., do tipo 3 de acordo com a classificação de Boscardin e
Cording. Depois da escavação da primeira cavidade, ocorreram algumas fissuras em edifícios,
tendo então sido efectuadas medidas adequadas de reforço das estruturas.
Os assentamentos máximos resultantes da escavação da estação oriente foram relativamente
próximos das previsões. O mesmo não aconteceu porém com as distorções angulares que foram
muito superiores ao previsto pelos modelos numéricos, que era aproximadamente de 1/300. As
previsões para a estação indicaram um aumento das distorções angulares e a ocorrência de
assentamentos adicionais aos da escavação da estação oriente. Este facto fazia prever a geração
de danos significativos nos edifícios nos edifícios antigos em pior estado de conservação. Por
consequência, como já foi referido, foram executadas injecções de compensação, o que veio
permitir a criação de uma estrutura similar a uma laje e, por consequência, compensar
parcialmente as deformações induzidas pela escavação das cavidades. A Figura 23 indica o
esquema utilizado para as injecções de compensação, enquanto que a Figura 24 assinala os
pontos de medição de assentamentos, de leitura manual e automatizada por intermédio de
electroníveis, no Largo da Biblioteca.

Figura 23. Injecções de compensação na Estação Baixa-Chiado

Figura 24. Pontos de medição durante o processo de injecções de compensação no


Largo da Biblioteca
3. PRODUÇÃO DE ENERGIA

3.1. Introdução

Nos sistemas de produção de energia com recurso ao uso do espaço subterrâneo, os


empreendimentos hidroeléctricos constituem um dos principais sistemas de produção, de que se
dispõe de um apreciável potencial bruto no nosso país, constituindo uma das formas de maior
penetração no sistema nacional de produção de energia eléctrica. O projecto destes
empreendimentos depende naturalmente das condições naturais do local onde se pretende
efectuar as obras. Quando as condições geotécnicas são favoráveis, centrais subterrâneas
combinadas com túneis de extensão variável são soluções frequentemente favoráveis e de menor
impacto ambiental quando comparadas com soluções à superfície. Pela constatação da
importância destes empreendimentos subterrâneos no nosso País, a secção 3.2 abordará a
problemática das soluções hidroeléctricas com recurso ao espaço subterrâneo, sendo ainda
apresentadas as obras de reforço de potência para o escalão de Miranda.

Existem outras formas de produção de energia subterrânea de que se salientam as centrais


termoeléctricas, sendo a energia proveniente de centrais térmicas convencionais, como a fuel, a
carvão ou a gás natural, ou de proveniência nuclear.

Para centrais termoeléctricas convencionais, as soluções existentes em subterrâneo não são


muito significativas, sendo de salientar o caso da central de Stenungsund, a 50km da cidade de
Gotemburgo, Suécia (Figura 25). A central é constituída por 4 unidades, com uma capacidade
total de 820MW, tendo a primeira unidade sido instalada em 1959 e a última dez mais tarde
(Winqvist e Mellgren, 1988). Entre 1974 e 1982, foram introduzidas profundas alterações que
se consubstanciaram na instalação das unidades geradoras em subterrâneo. As duas cavernas
que alojaram os dois primeiros grupos tiveram um volume de 97 500m3, e as duas últimas 130
000 m3. Os acessos aos grupos e o transporte da água para o seu arrefecimento processa-se por
extenso conjunto de túneis.

Figura 25. Central termoeléctrica subterrânea de Stenungsund

A energia proveniente de centrais nucleares constitui uma parte importante no consumo de


energia eléctrica em grande número de países industrializados. Por considerações de defesa
contra actos de guerra e de sabotagem, que ganharam hoje em dia grande importância, e de
protecção contra acidentes nucleares, foram conduzidas investigações em vários países
procurando alojar as centrais nucleares em subterrâneo (Sousa, 1996).
A Noruega foi o primeiro país a construir um reactor nuclear subterrâneo, licenciado em 1959.
Tratava-se de um reactor experimental com potência de 25MW, que funcionou com sucesso
durante 22 anos. Foram posteriormente construídas mais três centrais subterrâneas, a central
sueca de Agesta, fora de serviço, a central franco-belga de Chooz, e a central de Lucens, na
Suíça. Destas, apenas a de Chooz era industrial com potência de 300MW, apresentando a
caverna do reactor uma largura de 18,5m e uma altura de 14,5m. As realizações conhecidas são
poucas, pois, apesar de apresentarem vantagens consideráveis do ponto de vista da segurança
estrutural e de custos menores de desmantelamento, apresentam aspectos negativos no que
concerne a custos e ao prazo de construção das obras, para além de interrogações que se
levantam no que respeita a questões ambientais. No entanto, existem centrais nucleares onde se
recorre ao uso do espaço subterrâneo para alguns dos seus componentes, como no caso de túneis
para transporte de água para refrigeração dos grupos (Winqvist e Mellgren, 1988).

Referem-se, ainda, sistemas de produção e armazenagem de energia em subterrâneo que


permitem, no essencial, efectuar armazenagem de energia nos períodos de baixo consumo a
utilizar posteriormente durante os períodos de ponta do diagrama de carga. Para algumas
energias renováveis, como seja a eólica e a solar, dadas as suas características de produção
intermitente e variável ao longo do tempo, é necessário a criação de obras de armazenagem,
para que a sua introdução num sistema energético resulte satisfatória.

A armazenagem de energia pode processar-se em aproveitamentos hidroeléctricos reversíveis.


Para além dos sistema convencionais, têm sido propostos novos projectos de centrais
hidroeléctricas reversíveis com reservatório profundo mediante escavações de cavernas ou
túneis no maciço rochoso, designados de sistemas UPHS – Underground Pumped Hydro-
Storage. Têm-se revelado de difícil execução. Referem-se, em especial, estudos conduzidos na
Holanda tendo em vista a concretização de um sistema UPHS, em que o reservatório inferior,
constituído por um conjunto de túneis concêntricos com uma extensão total de 150km, se
situava a uma profundidade de 1200m (Sousa, 1996).

Citam-se outros sistemas, nomeadamente centrais reversíveis combinadas com cavernas de ar


comprimido, os designados sistemas CAES – Compressed Air Energy Storage. Este sistema
promove, durante os períodos de pequeno consumo de energia, com energia excedentária a
actuação de compressores, com armazenagem posterior de ar comprimido em câmaras
subterrâneas ou em aquíferos. Nos períodos de maior consumo, o ar comprimido é desviado da
caverna ou mesmo do aquífero, aquecido numa câmara de combustão e expandido através de
uma turbina. Estas soluções estão actualmente operacionais. A primeira instalação foi a central
de Huntorf, Alemanha, cujo início de exploração se processou em 1978. O empreendimento
contém duas cavernas executadas por dissolução no sal gema, com uma capacidade de
armazenagem de 300 000m3. Hoje em dia, existe um programa de investigação experimental
para um sistema CAES na mina de Kamioka, Japão (Yamatomi et al., 1999).

Outros sistemas de conservação de energia têm sido projectados. Consistem na armazenagem de


calor em cavidades na rocha, contendo água, produtos petrolíferos e(ou) calhaus, tirando partido
das características térmicas do maciço rochoso. Instalações para armazenagem de calor têm sido
realizadas em Avesta e Lyckebo, na Suécia, com construção de cavernas, ou em Lulea com
recurso à execução de furos (Winqvist e Mellgren, 1988; Sousa, 1996).

3.2. Empreendimentos hidroeléctricos

3.2.1. Generalidades

Um aproveitamento hidroeléctrico compreende um conjunto de elementos que permitem o


aproveitamento da energia da água, por desvio de um determinado caudal de um curso de água,
onde a energia hidráulica correspondente ao desnível entre a tomada de água e a restituição, é
transformada em energia eléctrica. Em geral, um aproveitamento apresenta um conjunto de obras,
que compreendem a barragem para a captação da água, a tomada de água, o circuito hidráulico, que
é constituído no caso de se dispor em subterrâneo, entre outras obras, por um túnel de acesso,
condutas forçadas, chaminés de equilíbrio e túnel de descarga, e o complexo de obras da central,
equipado com turbino-alternadores, transformadores e equipamentos complementares. Alguns
destes aproveitamentos são reversíveis, isto é, permitem acumular água num reservatório ou
albufeira por bombagem, utilizando energia nas horas de menor consumo, de modo a aproveitar a
água assim acumulada para produção de energia em outra época escolhida ou nas horas de ponta do
diagrama de carga de consumo de energia eléctrica.

A utilização de centrais subterrâneas oferece, por vezes, consideráveis vantagens do ponto de vista
económico, para além dos benefícios adicionais que este tipo de centrais proporciona, como seja
uma maior segurança, nomeadamente do ponto de vista estrutural, contra sabotagens e um menor
impacto ambiental.

A título de exemplo, na Noruega, a utilização de centrais hidroeléctricas subterrâneas tem vindo a


ser largamente implementada pelas razões apontadas e, naturalmente, pelas condições naturais
deste País. Assim, enquanto que, em 1950, as soluções em subterrâneo representavam cerca de
15% do total da produção da energia hídrica, em 1980, esse valor era de cerca de 80% (Myrset,
1982). Esta política sobre o uso intensivo do espaço subterrâneo foi adoptada após a 2ª Guerra
Mundial, essencialmente com base em considerações económicas, para além das razões
anteriormente expostas. Para tal contribuíram sobretudo a expansão da rede eléctrica e a
possibilidade de transmitir maiores quantidades de energia a grandes distâncias, o enorme
progresso verificado nas técnicas de escavação em maciços rochosos e o grande incremento
verificado no âmbito dos conhecimentos da Mecânica das Rochas.

A utilização de centrais hidroeléctricas subterrâneas, que constitui uma parte importante e, por
vezes, determinante no projecto de empreendimentos hidroeléctricos, tem, pois, vindo a ser
incrementado desde que as condições geotécnicas e topográficas sejam adequadas ao projecto deste
tipo de obras (Sousa, 1983; Martins, 1985).

A primeira central subterrânea em poço foi a central Edward Dean Adam, cujo primeiro grupo
iniciou a sua operação em 1895. No entanto, a central mais próxima da concepção das actuais foi a
central de Snoqualmie Falls, concluída em 1899, com uma caverna de 9m de altura, 12m de largura
e 60m de comprimento, localizada a uma profundidade de 80m (Lang, 1971). Na Europa, o
primeiro empreendimento foi o de Verayaz, na Suiça, concluído em 1897. Outros projectos se
seguiram no início deste século, mormente na Alemanha, Suécia, França, Noruega e Itália
(Mosonyi, 1965). Foi somente a partir da década de 50, que surgiram as principais obras realizadas
neste domínio, por considerações já anteriormente referidas.

Em Portugal, o primeiro empreendimento importante com obras subterrâneas foi o de Venda Nova,
concluído em 1927, mas o primeiro empreendimento com central em subterrâneo foi o de
Salamonde, em funcionamento em 1953. Posteriormente, foi inaugurado o escalão de Caniçada,
entrando, no final da década de 50 e início de 60, em funcionamento os aproveitamentos do Douro
Internacional, Picote, Miranda e Bemposta. O empreendimento hidroeléctrico mais importante
construído em Portugal é o do Alto Lindoso, de que se ilustra, na Figura 26, uma perspectiva do
conjunto deste empreendimento (Sousa et al., 1994).

Este empreendimento compreende um barragem de betão, do tipo abóbada, de 110m de altura


máxima, o circuito hidráulico e o complexo subterrâneo da central, situada a cerca de 70m a jusante
da barragem, na margem esquerda, estando o seu pavimento central a cerca de 312m abaixo do
coroamento da barragem. O circuito hidráulico compreende dois circuitos de alta pressão
independentes para os dois grupos e um circuito de baixa pressão de grande extensão, com uma
chaminé de equilíbrio em forma de poço e com diâmetro de grande dimensão. O complexo da
central é constituído pela caverna da central, câmara de válvulas esférica, câmara de válvulas
borboleta, poço e galeria de acesso.

Figura 26. Perspectiva do complexo subterrâneo do Alto Lindoso.

No que respeita ao circuito hidráulico, existem vários esquemas alternativos. Sistematizam-se, na


Figura 27, diferentes perfis representando a evolução verificada na concepção destas obras (Broch,
1982; Lamas, 1993).

No primeiro esquema representado, o circuito hidráulico apresenta uma estrutura inserida na


encosta que funciona como chaminé de equilíbrio, instalada no términos de um túnel de acesso em
subterrâneo, sendo depois a água conduzida em conduta forçada à superfície até à central. O
aproveitamento de Venda Nova constitui um exemplo deste esquema em Portugal. Posteriormente,
como se indica no segundo esquema, passou-se a usar uma localização totalmente em subterrâneo
das obras do circuito hidráulico, sendo a chaminé de equilíbrio constituída pela combinação de um
poço vertical com uma câmara subterrânea horizontal, seguindo as águas para a central por um
poço inclinado com betão armado ou com blindagem metálica, utilizando o complexo da central o
espaço subterrâneo. A evolução seguinte correspondeu à utilização de poços sob pressão sem
revestimento ou revestimento de regularização, quando evidentemente as condições forem
propícias, o que implica um bom conhecimento do maciço rochoso. Nos últimos anos, construíram-
se alguns empreendimentos hidroeléctricos utilizando poços não revestidos, mormente nos países
escandinavos, com alturas médias de cerca de 450m, atingindo mesmo valores da ordem de 1000m
(Lamas, 1993). Finalmente, refere-se a possibilidade de se efectuar uma ligação directa entre a
tomada de água e a central, o que implica uma diminuição do circuito hidráulico. Esta situação
ocorre no caso de empreendimento hidroeléctrico de Venda Nova II, actualmente em construção
(Lima et al., 2001). Nesta última etapa no desenvolvimento, como a Figura 27 ilustra, iniciou-se a
utilização de câmaras de equilíbrio de menores dimensões, parcialmente preenchidas com ar
comprimido. O ar comprimido permite reduzir o efeito de inércia da massa da água. Existem,
nestes casos, restrições a ter em conta, nomeadamente em relação às características hidráulicas do
maciço rochoso na vizinhança da obra. Recomenda-se, pois, uma escolha adequada e criteriosa do
sítio para localização da obra e a pressão de água no maciço deverá exceder a do ar comprimido.
Figura 27. Esquemas alternativos de circuitos hidráulicos.

O primeiro empreendimento com câmaras de equilíbrio com colchão de ar comprimido entrou em


funcionamento em 1973 (Broch, 1982). Instalações deste tipo têm sido realizadas na Noruega, de
que se cita o aproveitamento de Ulla-Forre, com uma câmara de equilíbrio com altura entre 17 e
24m e largura de 16m, para uma pressão do ar comprimido de cerca de 4,2MPa (Walbo, 1982), e o
aproveitamento de Jukla com uma câmara a ar comprimido com 48m de comprimento e um
volume total de escavação de 6200m3, variando a pressão do ar entre 0,6 e 2,4MPa. Alguns estudos
têm sido empreendidos para determinação da permeabilidade à água e ao ar dos maciços rochosos e
para determinação dos caudais na vizinhança das obras subterrâneas, tendo em vista a utilização de
obras deste tipo (Johansen et al., 1982). No Quadro 3, sintetizam-se as características dos principais
empreendimentos hidroeléctricos com câmaras de equilíbrio a ar comprimido, todos eles
executados na Noruega, com excepção do último na China (Sousa e Menezes, 1993).

De entre os vários esquemas apresentados, existem vários arranjos possíveis, sobretudo


relacionados com o desenvolvimento das partes do circuito hidráulico a alta e a baixa pressão,
sendo habitualmente classificados segundo três tipos principais: i) arranjo do tipo sueco ou com a
central a montante - caso do Alto Lindoso; ii) arranjo do tipo alpino ou com a central a jusante, caso
de Vilarinho das Furnas; e iii) arranjo intermediário, caso das obras subterrâneas de Salamonde. Na
Figura 28, procura-se ilustrar os diferentes tipos de arranjos enunciados.

Como se disse anteriormente, muitos destes aproveitamentos hidroeléctricos são reversíveis. O


projecto do circuito hidráulico e da central não difere, no essencial, de um convencional, havendo,
no entanto necessidade de dois reservatórios e de equipamentos electromecânicos dos sistemas de
bombagem e de turbinagem. Estes projectos utilizam um reservatório inferior e outro superior,
sendo o inferior gerado pela construção de uma barragem no rio ou num lago ou então, na maior
parte dos casos, por uma bacia artificial no topo de um morro resultante de escavações efectuadas e
construção de diques circulares utilizando os materiais de desmonte. Neste último caso, para se
evitar a percolação da água pelo fundo do reservatório e pelos diques laterais, que poderiam gerar
riscos para a segurança da obra, além de prejuízos económicos, o fundo do reservatório e os taludes
internos dos diques são revestidos por camadas de filtro e betão asfáltico.

Quadro 3 - Características dos empreendimentos hidroeléctricos com câmaras de


equilíbrio a ar comprimido

Local Data de Capacidade Altura Volume da Volume Pressão Perda


construção da central de água caverna de ar absoluta de ar
(MW) (m) (m3) (m3) (MPa) (Nm3/h)
Driva 1973 140 570 7350 2600- 4,0-4,2 1,3
3600
Jukla 1974 35 180 6050 1500- 0,6-2,4 0,1-0,4
5300
Oksla 1980 206 465 18000 11700- 3,5-4,4 4,7
12500
Sima 1980 500 1158 9500 4700- 3,4-4,8 1,0-2,3
6600
Osa 1981 90 205 12500 10000 1,8-1,9 900/80+
Kvilldal 1981 1240 537 110000 70000- 3,7-4,1 250/10+
80000
Tafjord 1982 82 897 1950 1200 6,7-7,7 200
Brattset 1982 80 274 8900 5000- 2,3-2,8 13,4
7000
Ulset 1985 37 338 4900 3200- 2,3-2,5 -1,2
3700
Torpa 1989 150 475 12000 10000 3,8-4,4 -
Ma-Zi- - 16 - - - 2,7 -
He
Todas as centrais estão localizadas na Noruega, com excepção de Ma-Zi-He, que se situa na China.
+
antes e após trabalhos de reabilitação

A elaboração do projecto de um complexo subterrâneo de um aproveitamento hidroeléctrico,


envolvendo vários tipos de obras, desde grandes aberturas subterrâneas a túneis extensos, com
critérios de concepção e de cálculo necessariamente diferenciados, implica um conhecimento mais
ou menos completo das condições geológicas e geotécnicas dos maciços rochosos, que deverá
incluir a caracterização dos diferentes materiais rochosos, a geometria e a natureza da fracturação,
os acidentes geológicos, o estado de tensão inicial e as propriedades hidráulicas. Distinguem-se, por
isso, diferentes tipos de obras, que, em relação à filosofia de projecto a adoptar, podem ser
discriminados do seguinte modo (Sousa, 1983; Martins, 1985; Brekke e Ripley, 1987; Lamas,
1993):

i) Complexo subterrâneo da central – É constituído por um conjunto de obras subterrâneas, que


nestes empreendimentos assumem um papel determinante, dado constituírem a parte fundamental
do projecto e da concretização destas obras. Daí que seja necessário a um acesso directo à zona do
maciço rochoso, onde se situam as cavernas, tendo em vista o estudo dos acidentes geológicos e da
fracturação do maciço rochoso, a determinação do estado de tensão in situ e a caracterização da
deformabilidade, resistência e condutividade hidráulica. O projecto das obras envolve,
fundamentalmente, as etapas correspondentes à selecção do local mais adequado do ponto de vista
de estabilidade das obras, à definição dos eixos de orientação das aberturas e das suas formas e ao
seu dimensionamento.

Figura 28. Diferentes arranjos de circuitos hidráulicos.

ii) Túneis a baixa pressão e de acesso - Caracterizam-se por um grande desenvolvimento linear e
pequena abertura, não sendo necessário uma prospecção muito completa do maciço, cuja
caracterização é em geral obtida à custa de informação colhida entre sondagens, por vezes bastante
afastadas. Os estudos a empreender devem ser essencialmente conduzidos por forma a estabelecer
critérios de classificação do maciço, que permitam definir classes de comportamento para os
maciços interessados pelas obras. A identificação dessas classes visará, para cada caso, definir
métodos construtivos e suportes mais apropriados.

iii) Poços e túneis a alta pressão - Caracterizam-se, também, por um grande desenvolvimento e
pequena abertura, sendo igualmente pertinentes as considerações referidas para os túneis a baixa
pressão. No entanto, dado o facto de ocorrerem altas pressões, neste caso é da maior importância o
conhecimento rigoroso das propriedades do maciço, visando analisar o comportamento global da
estrutura composta pelo maciço e pelo suporte, no caso de obras revestidas. Ensaios
hidromecânicos devem ser realizados em certos casos.

iv) Chaminés de equilíbrio – Em regra são obras concentradas, em que se desenvolvem equilíbrios
tridimensionais. Poderão, eventualmente, estar inseridas no complexo subterrâneo da central.
Especial atenção deve ser dada às obras com ar comprimido, tendo presente os requisitos já
enunciados anteriormente.

v) Tomadas de água e bocas de montante e jusante – São obras que interessam numa zona do
maciço afectada pelas usuais perturbações de superfície, pelo que se torna necessário efectuar uma
prospecção geotécnica completa e ter cuidados especiais em relação aos métodos construtivos a
adoptar e aos métodos de dimensionamento.

Em Portugal, existe já um certo número de realizações, nomeadamente as ligadas aos


aproveitamentos do Douro Internacional, ao sistema Cávado-Rabagão, Alto Lindoso e Torrão.
Presentemente, o empreendimento de Venda Nova II está em fase de construção. No Quadro 4,
referem-se alguns dados de aproveitamentos portugueses já existentes ou em construção com
centrais hidroeléctricas subterrâneas.

Quadro 4. Empreendimentos hidroeléctricos subterrâneos em Portugal

Aproveita- Rio Ano Dimensões da central Potência Carga estática


mento (CxLxA) (MW) (m)
Salamonde Cávado 1953 28x11,7x31,5 52 127
Caniçada Cávado 1955 40x18x30 60 121
Picote Douro 1957 88x16,6x35 180 71
Miranda I Douro 1960 80x19,6x42,7 156 53
Bemposta Douro 1964 85x22x45 210 62
Távora Távora 1965 71,5x16,2x26,3 64 461
Alto Rabagão Rabagão 1965 44x18x42,8 140 170
Vilarinho das Homem 1972 Poços com φ=15,5 e 64+2º grupo 416
Furnas alturas de 16,5 e 31,75
Torrão Tâmega 1988 Poços com φ=17 e 158 65
altura de 42,5
Alto Lindoso Lima 1992 84x20,3x46 610 280
Miranda II Douro 1995 Poço de φ=25 e altura 180 70
de 66
Venda Nova II Rabagão - 60,5x19,0x40 135 420
Nas dimensões da central as unidades são em metros e C – comprimento, L – largura e A – altura
máxima.

Em Portugal, está presentemente em construção o empreendimento hidroeléctrico de Venda


Nova II, com unidades reversíveis, localizado entre os reservatórios de Venda Nova e de
Salamonde (Lima et al., 2001). A construção de Venda Nova II inclui os seguintes elementos
estruturais (Figura 29): i) tomadas de água superior e inferior, respectivamente nas albufeiras de
Venda Nova e Salamonde; ii) complexo subterrâneo da central com as cavernas da central e da
sala de transformadores (14,1x39,8m2 em planta); iii) circuito hidráulico com 4,4km de
comprimento, incluindo túnel de carga (2,8km e inclinação de 14,8%), chaminé de equilíbrio
superior com poço de 415m de altura e 5m de diâmetro, túnel de descarga (1,4km de
comprimento e inclinação de 2,1%) e câmara de equilíbrio a jusante com 5m de diâmetro e poço
de 69m de altura; iv) túnel de acesso ao complexo da central com 58m2 de secção e
comprimento de 1,45km e 10,9% de inclinação.

Procura-se ilustrar, na Figura 30, diferentes formas utilizadas para uma central hidroeléctrica em
subterrâneo. Salienta-se a forma tradicional em cogumelo a), a forma ovoide em centrais de grande
dimensão b), as centrais em forma de círculo c) e, ainda, as localizadas em poço, quando a
cobertura da rocha é pequena d) (Sousa et al., 1994).
1 – Albufeira de Venda Nova 1 – Reservatório de Venda Nova 7 – Túnel de descarga
2 – Albufeira de Paradela 2 – Tomada de água superior 8 – Caverna da central
3 – Albufeira de Salamonde 3 – Tomada de água inferior 9 – Sala dos transformadores
4 – Central de Vila Nova 4 – Chaminé de equilíbrio a montante 10 – Galerias de ventilação
5 – Circuito hidr. de Venda Nova 5 – Chaminé de equilíbrio a jusante 11 – Túnel de acesso
6 – Central de Venda Nova II 6 – Túnel de carga 12 – Túneis auxiliares
7 – Circuito hidráulico de VN II
8 – Túnel de acesso de VN II

Figura 29. Empreendimento hidroeléctrico de Venda Nova II

A caverna da central constitui o elemento primordial de todo o complexo subterrâneo, pelo que se
pode afirmar que, no essencial, o acerto do seu projecto está ligado a uma localização adequada,
sem deixar evidentemente de parte os problemas relacionados com o correcto dimensionamento
dos suportes necessários para assegurar a estabilidade das estruturas subterrâneas (Martins, 1985;
Geoguide 4, 1992; Sousa et al., 1994). Daí que um projecto completo implique um bom
reconhecimento geológico, geotécnico e hidrogeológico do maciço rochoso, onde se irão construir
as obras, compreendendo a disposição das diferentes formações, zonas alteradas ou
descomprimidas, a fracturação do maciço, incluindo sobretudo falhas e diaclases mais relevantes.
As acções determinantes no cálculo destas obras estão, essencialmente, relacionadas com a
libertação do estado de tensão instalados nas fronteiras das zonas a escavar, pelo que se torna
necessário estabelecer previsões sobre o estado de tensão existente nos maciços, baseadas
fundamentalmente em medições efectuadas in situ, e com as acções devidas ao escoamento da
água, sendo muito importante as de natureza hidráulica e mecânica, cujos efeitos podem ser
minimizados na fase de exploração se forem tomadas medidas adequadas, utilizando meios de
intervenção, como seja obras de impermeabilização e de drenagem.

Em contraponto à solução de caverna múltipla, utilizam-se soluções de cavernas múltiplas que


necessitam de imensos túneis de ligação entre cavernas e de pilares rochosos, que as separam e
podem, por isso, constituir zonas com grandes concentrações de tensões, que necessitam de estudos
completos de análise da sua estabilidade (Figura 26). A distância entre cavernas paralelas pode ser
da ordem de grandeza da altura da caverna de maiores dimensões.

O dimensionamento das obras implica a definição dos suportes a aplicar nas diversas fases
construtivas, sendo baseado em regras de experiências obtidas em numerosas obras, em cálculos de
estabilidade efectuados com base em modelos de cálculo, e na observação do comportamento das
obras durante o processo construtivo.
Fig. 30. Diferentes formas de uma central subterrânea

3.2.2. Reforço de potência de Miranda

O aproveitamento hidroeléctrico do rio Douro está dividido nos sistemas nacional e internacional.
Na parte internacional, o problema de descargas de caudais máximos previstos e a forma do vale
levaram à decisão de construir esquemas similares nos escalões de Miranda, Picote e Bemposta.
Foram construídas barragens de betão e circuitos hidráulicos de pequena extensão, cada um
incluindo uma central subterrânea equipada com 3 unidades (Aguiar, 1993; Sousa et al., 1999). O
reforço de potência do aproveitamento hidroeléctrico da parte internacional do rio foi justificado
com base em considerações de natureza económica de forma a evitar o desperdício anual de
energia devido à pequena capacidade de encaixe dos reservatórios face ao caudal da barragem
espanhola instalada a montante e de forma a possibilitar uma melhor distribuição do caudal no
tempo. O empreendimento hidroeléctrico de Miranda foi o primeiro a ser reforçado (Figura 31).

As primeiras estruturas do empreendimento de Miranda, em operação desde 1960, consistem


numa barragem aligeirada de contrafortes com altura máxima de 80m, que incorpora quatro
descarregadores com comportas radiais projectadas para um caudal máximo de 11000m3/s. O
escalão incluía um descarregador de superfície na margem direita com 500m3/s de capacidade.
Os descarregadores das barragens são responsáveis pelo controlo do nível do reservatório. Para
cada grupo foram construídos três circuitos hidráulicos independentes (Figura 32). As condutas
forçadas têm um comprimento médio de 95m com uma secção transversal circular de 28,2m2.
Foi efectuada uma central subterrânea, designada de central I, com 80m de comprimento, 19,6m
de largura e 42,7m de altura máxima, com a forma tradicional em ferradura. A central consiste
em 3 grupos Francis verticais com 52MW e com capacidade de 870GWh (Aguiar, 1993).
Figura 31. Aproveitamento hidroeléctrico de Miranda

Figura 32. Obras subterrâneas da primeira fase

As obras de reforço de Miranda consistiram na conversão da galeria auxiliar de descarga num


novo circuito hidráulico, bem como da correspondente tomada de água, e na construção de uma
nova central em forma de poço, designada de central II, e de uma galeria de restituição de
pequeno desenvolvimento. Foram construídas duas ensecadeiras, a montante e a jusante,
posteriormente demolidas (Figura 31). A ensecadeira de montante desenvolveu-se em planta
como um arco com 35m de raio, sendo a parede de montante vertical e com altura máxima de
42m. A ensecadeira de jusante é menor, com altura máxima de 15m. Estas ensecadeiras
permitiram a exploração normal do empreendimento durante a construção das obras de reforço.

A central II tem uma forma aproximadamente circular devido ao grupo gerador e à necessidade
de comunicações verticais para acesso das pessoas e instalação de cablagens, barras e tubagens.
Para determinados níveis a secção estende-se rectangularmente para jusante de forma a
acomodar os equipamentos. O poço tem uma profundidade de 66m e foi executado por recurso
ao uso de explosivos, tendo a sua secção um raio aproximado de 25m (Figura 33).

O novo circuito hidráulico tem uma tomada de água com uma extensão de 50m, a que se segue
um trecho inclinado com cerca de 60m e, em seguida, uma galeria sub-horizontal com cerca de
155m de comprimento (Figura 33). O túnel sob pressão contém um suporte ao longo de todo o
seu desenvolvimento, com uma secção cujo vão e altura máximas são de 10,8m. O diâmetro
interno da conduta é de 9,7m. Tem um suporte de betão até uma secção intermédia do trecho
inclinado e uma blindagem na restante parte do túnel. O circuito de restituição é de cerca de
49m em planta, com um tecto em forma de arco. O grupo gerador consiste uma unidade Francis
com potência instalada de 190MW.
Figura 33. Circuito hidráulico da central II

A estratégia e o planeamento dos trabalhos foram fortemente condicionados pela presença das
estruturas associadas à central I, cujo funcionamento se manteve ao longo da fase construtiva,
pelo que se revestiu de cuidados especiais e implicou a realização de observações rigorosas do
comportamento das estruturas de modo a garantir a funcionalidade e a segurança das obras
existentes e em construção. Em relação às ensecadeiras, foram cuidadosamente planeadas de
forma a minimizar os custos devidos à paragem das centrais portuguesas de Miranda e de Picote
e da central espanhola de Castro.

Após a construção das ensecadeiras, desenvolveram-se os trabalhos de escavação da tomada de


água e do novo circuito hidráulico, segundo várias fases (Aguiar et al., 1994). A estratégia
seguida na construção da central II e galeria de restituição está indicada na Figura 34. A maior
parte do poço da central foi escavado com base numa furação vertical e no uso de explosivos.

No local das obras de reforço, existem formações rochosas formadas por migmatitos e granitos
(Neiva, 1989; Sousa et al., 1999). Os migmatitos são constituídos por um misto de micaxistos e
de granito. Estão muito dobrados, tendo a xistosidade a direcção NW-SE e o seu pendor
dominante é mais frequentemente sub-vertical. As famílias de diaclases são sub-verticais,
existindo uma sub-horizontal, cuja frequência diminui com a profundidade. Os granitos têm
uma textura planar tendo as micas orientadas na direcção dominante NW-SE. Existe um
conjunto apreciável de falhas, sendo as caixas de falha, em regra, de pequena possança, mais
frequentemente entre 0,05 e 0,20m, verificando-se, porém, algumas com espessura de 0,50m.
Estão na maioria dos casos preenchidas com milonite argilosa. A Figura 35 mostra uma secção
longitudinal intersectando a tomada de água, o novo circuito hidráulico e a central II.

Durante a construção da barragem e da antiga central, foram efectuados ensaios em laboratório


e in situ com o objectivo de estudar as propriedades mecânicas da fundação da barragem de
Miranda. Durante as obras de reforço, foram efectuados ensaios in situ na proximidade da
central II para quantificação da deformabilidade dos maciços rochosos utilizando ensaios LFJ e
ensaios dilatométricos. Os ensaios LFJ foram conduzidos numa câmara de ensaio no fundo do
poço da central II em dois rasgos abertos num maciço rochosos xistoso. Para os ensaios num
rasgo perpendicular à direcção da xistosidade, o módulo de deformabilidade E variou entre 5 e
25GPa nos ciclos de carga e entre 5 e 29GPa nos ciclos de descarga. Para o rasgo segundo a
direcção da xistosidade, E variou entre 6 e 21GPa nos ciclos de carga e entre 8 e 22GPa nos
ciclos de descarga. Foram, também, efectuados ensaios dilatométricos nos mesmos locais, antes
da realização dos ensaios LFJ. O módulo de deformabilidade obtido variou entre 2 e 9GPa para
ciclos de carga e entre 3 e 14GPa para ciclos de descarga. A correlação obtida entre os dois
tipos de ensaio foi de cerca de ELFJ=2Edil.. Os ensaios dilatométricos foram efectuados ao longo
do furo PE2 (Figura 33). Os ensaios apresentaram deformabilidades com um valor médio de
5,8GPa, com um mínimo de 1,8GPa e um máximo de 10,1GPa (Sousa et al., 1999).

Figura 34. Construção da central II

Para quantificação do estado de tensão in situ instalado no maciço rochoso, foram utilizados
ensaios SFJ (Small Flat Jack) e STT (Stress Tensor Tube), ambos os métodos de ensaio
baseados em libertação de tensões. Os ensaios foram conduzidos na zona do circuito hidráulico
indicada na Figura 33. Foram efectuados cinco ensaios SFJ nas paredes do circuito hidráulico, a
cerca de meia altura, utilizando rasgos horizontais, verticais e inclinados. Nos rasgos horizontais
as tensões obtidas foram de 0,5MPa no hasteal direito, de 1,0MPa no hasteal esquerdo e uma
pequena tracção no hasteal esquerdo, enquanto que o rasgo vertical apresentava uma pequena
tracção. No rasgo inclinado, obteve-se 2,1MPa. Foi obtido um valor médio de 13GPa para o
módulo de deformabilidade do maciço rochoso, com um mínimo de 9GPa e um máximo de
16GPa. Os ensaios STT foram efectuados num furo sub-horizontal, respectivamente para as
profundidades de 6,4 e 10,5m. O primeiro ensaio foi efectuado numa rocha xistosa para a qual
se obteve um módulo de elasticidade de 14,1GPa. Foram quantificados as seguintes tensões in
situ: 3,6MPa para a tensão vertical; tensões horizontais de 5,7 e de 4,2MPa, respectivamente em
direcções normal e paralela à direcção da galeria. O outro ensaio efectuado numa formação
granítica foi excluído devido à dispersão dos resultados. O módulo de elasticidade determinado
para o granito foi de 20,1GPa. Para avaliação das propriedades mecânicas do maciço rochoso
foi utilizada uma câmara triaxial desenvolvida no LNEC o que tornou possível uma avaliação
mais rigorosa das propriedades do mecânicas do maciço rochoso. Considerando a hipótese de
um estado de tensão axissimétrico, o estado de tensão inicial mais provável adoptado foi
representado por uma tensão vertical de 2,7MPa e por uma tensão horizontal de 7,3MPa. A
relação das tensões horizontal e vertical foi de 2,7, sendo a tensão vertical cerca de 0,9 do valor
do peso do maciço. O estado de tensão obtido está em relativa concordância as tensões obtidas
pelos ensaios SFJ.
Figura 35. Condições geológicas do novo circuito hidráulico e central II

Foram executados ainda ensaios em laboratório tendo em vista a caracterização das


propriedades geométricas de descontinuidades e do seu comportamento hidromecânico
(Silvestre, 1996; Silvestre et al., 2001). Foram obtidas cinco amostras de uma amostra de
migmatito com 170mm de diâmetro e cerca de 500mm de comprimento, contendo uma
descontinuidade natural. Para a caracterização geométrica das descontinuidades, foram
determinadas a rugosidade e a abertura. A caracterização geométrica das superfícies de
descontinuidade foi obtida a partir de um levantamento tridimensional, utilizando para tal um
equipamento de inspecção a três dimensões de objectos de cerâmica ou metálicos. O cálculo dos
índices de rugosidade e os resultados estatísticos da distribuição das alturas de ambas as
superfícies da descontinuidade foram obtidos com base em técnicas de integração numérica. O
cálculo da abertura foi obtido a partir de malhas rectangulares mais refinadas com lado de 1mm,
geradas a partir das malhas irregulares com triângulos. Foram, também, efectuadas amostragens
lineares nas superfícies da descontinuidade utilizando um equipamento a laser. Os parâmetros
estatísticos e índices de rugosidade foram calculados e comparados com os correspondentes
valores obtidos por amostragem superficial. Realizaram-se outros ensaios para obtenção do
índice de rugosidade JRC que foram correlacionados com alguns índices de rugosidade obtidos
por amostragem superficial.

As propriedades hidromecânicas das superfícies de descontinuidade forma estudadas com base


num equipamento especialmente projectado para o efeito (Silvestre, 1996). O aparelho utiliza
uma amostra de rocha cilíndrica com uma descontinuidade ao longo da direcção longitudinal,
colocada numa célula triaxial. A carga axial é imposta à amostra por uma prensa rígida,
impondo-se, complementarmente, um fluxo de água através da descontinuidade da amostra
(Figura 36). As descontinuidades foram submetidas previamente a ciclos de carga e descarga
antes da realização dos ensaios hidromecânicos. Caracterizaram-se as propriedades geométricas,
índices de rugosidade e abertura, e ajustou-se o modelo de Bandis para o comportamento
mecânico normal da descontinuidade aos dados obtidos com os ciclos de carga e descarga
anteriormente referidos (Bandis et al., 1983). Para o comportamento hidromecânico, foram
consideradas dois modelos: o modelo da lei cúbica com introdução de um parâmetro
hidromecânico, fHM (Elliot et al., 1985; Lamas, 1993); e uma lei sob a forma de potência
relacionando a transmissividade e a tensão efectiva, apresentada por Iwano (1995).

Figura 36. Esquema do equipamento de ensaio hidromecânico

Foram, ainda, efectuados outros ensaios em laboratório que compreenderam realização de


ensaios de compressão uniaxial para determinação do módulo de deformabilidade e da
resistência à compressão simples, bem como ensaios de deslizamento em diaclases em rocha.

Para as obras de reforço de potencia, foram elaborados dois Planos de Observação, que
implicaram, também, a reactivação de observações na central antiga em forma de caverna. O
primeiro Plano incidiu, essencialmente, na etapa construtiva, enquanto que o segundo teve em
conta os requisitos específicos da entrada em serviço. Ambos os planos foram elaborados
seguindo as recomendações do Regulamento de Segurança de Barragens (Sousa et al., 1999).

As observações preconizadas no primeiro Plano diziam respeito ao controlo dos efeitos


estruturais nos suportes instalados nas obras subterrâneas e no maciço envolvente, bem como na
ensecadeira de montante, e à avaliação das acções. No que respeita à observação dos efeitos
estruturais actuantes nas várias estruturas envolvidas no reforço de potência, foram programadas
as seguintes medições (Figura. 33): i) no circuito hidráulico - convergências na zona em rampa
da galeria em carga, deslocamentos no interior do maciço mediante os extensómetros de barras
EB1 e EB6, deslocamentos verticais mediante nivelamento geodésico na zona da tomada de
água, e deformações e temperaturas no interior do suporte de betão mediante extensómetros tipo
Carlson instalados na secção S1; ii) na central II - convergências no poço da central, segundo
várias direcções e a diferentes cotas, deslocamentos no interior do maciço mediante quatro
extensómetros de barras (EB2, EB3, EB4 e EB5), deslocamentos horizontais mediante um fio de
prumo invertido (FP1), e deformações e temperaturas no interior do suporte de betão mediante
seis grupos de extensómetros tipo Carlson, distribuídos em duas secções, S2 e S3; iii) na
ensecadeira de montante - observação geodésica mediante marcas de nivelamento inseridas em
cada bloco e três marcas de pontaria nos três blocos centrais, movimentos das juntas horizontais
mediante bases de alongâmetros, e deformações no interior do betão em três zonas do corpo da
ensecadeira (fecho e inserção a meio das margens) mediante extensómetros tipo Carlson. Para a
central I, efectuaram-se medições de convergências com convergenciómetro de fio de ínvar, e
procedeu-se a análise das deformações medidas na abóbada de central mediante os
extensómetros tipo Carlson instalados no betão. A ensecadeira de montante constituiu uma obra
de primordial importância na fase de construção das obras, sendo, portanto, objecto de uma
observação intensa.
Durante o período construtivo, foram seguidos os procedimentos habituais de observação para o
controlo do comportamento hidráulico das fundações, e para a medição de deslocamentos,
deformações e temperaturas na barragem. Efectuaram-se, ainda, campanhas especiais de
observação e visitas de inspecção, na barragem e na central I, em fases significativas da
construção.

A interpretação dos deslocamentos medidos com os extensómetros de barras durante a


construção da central II foi realizada com recurso a um modelo 2D utilizando o programa FLAC
(Itasca, 1994). Apesar do evidente caracter tri-dimensional do problema, foram obtidos
resultados bastante satisfatórios representando a secção central de cada escavação, e utilizando
módulos de elasticidade equivalentes quando a espessura escavada era menor que a espessura
adoptada para o modelo. Várias zonas com características mecânicas diferentes foram definidas
para representar as diferentes formações rochosas, o betão e os materiais equivalentes. Para a
tensão vertical foi adoptado o peso próprio do maciço, enquanto que para a tensão horizontal
foram assumidas as hipóteses de 1; 1,5 e 2 vezes a tensão vertical. Assim, e a fim de simular o
estado de tensão no início da escavação, o cálculo do modelo foi efectuado considerando a
escavação do circuito hidráulico existente (fase 0). Posteriormente, os deslocamentos foram
igualados a zero e a construção da central II foi simulada mediante 7 fases, ilustradas na Fig. 37
(Leitão e Sousa, 2001).

Este problema foi também estudado mediante um modelo 3D usando o programa FLAC-3D
(Itasca, 1996). O sistema de coordenadas foi localizado com o eixo z coincidente com o centro
da central II e orientado para a superfície. A parte superior do modelo representava a superfície
livre, a base do modelo, a 139m da superfície da escavação, e os lados estavam fixos. De acordo
com o estado de tensão medido, o modelo foi submetido a um estado de tensão inicial de
σh=2σv. O maciço rochoso foi representado mediante três camadas de materiais com
comportamento do tipo Mohr-Coulomb, com as seguintes características mecânicas: primeira
camada (M1): E=3GPa, ν=0,1, C=0,1MPa e φ=25º; segunda camada (G): E=8GPa, ν=0,15,
C=0,2MPa e φ=40º; terceira camada (M2): E=5GPa, ν=0,1, C=0,1MPa e φ=30º. Para o betão foi
adoptado um material com comportamento elástico de módulo de elasticidade E=15 ou 30GPa,
segundo o tempo decorrido desde a betonagem. A sua resolução considerou as mesmas fases
definidas para o modelo 2D.

A Figura 38 apresenta os deslocamentos calculados com o modelo 2D e os valores observados


para o extensómetro de barras EB2. Como pode observar-se, existe uma boa correspondência
entre os valores observados e os resultados obtidos com a hipótese de σh=1.5σv. Esta relação
mais baixa entre a tensão horizontal e a vertical em relação à medida experimentalmente,
obedece ao facto de o modelo 2D apresentar uma maior flexibilidade na direcção horizontal. Na
parte inferior da Figura, comparam-se, ainda, os valores dos deslocamentos calculados para a
hipótese σh=1.5σv e os observados. É de referir que, a pesar de o modelo 3D exibir um
comportamento muito mais rígido do que o observado. Qualitativamente o comportamento
apresenta certa verosimilhança.

Durante a entrada em serviço das obras de reforço, o plano especifico de observação


contemplou duas etapas. Na primeira etapa, que correspondeu ao esvaziamento, seguido pela
demolição de ambas as ensecadeiras e o reenchimento da albufeira, foi prevista a medição de
toda a aparelhagem instalada, e a medição das vibrações produzidas pelo uso de explosivos na
demolição das ensecadeiras. Estas observações foram de fundamental importância, tanto para a
barragem, devido à existência de uma fissura sub-horizontal no corpo da mesma, como para a
verificação do circuito hidráulico submetido ao efeito da pressão hidrostática exterior. Na
segunda etapa, que compreendeu o enchimento lento do circuito hidráulico e a entrada em
funcionamento do equipamento instalado na central II, foi implementado um programa especial
de medição das vibrações induzidas pelo funcionamento do novo grupo.
Figura 37. Diferentes fases adoptadas nos modelos numéricos
2

-2

-4

-6
Deslocamento (mm)

EB1
-8

-10
Ph=Pv (EB2)
EB2 - 15
-12

-14
Ph=1,5Pv(EB2)
-16
EB2 - 40

-18
Ph=2Pv(EB2
-20 )
dic-91 jun-92 dic-92 jun-93 dic-93 jun-94 dic-94 jun-95 dic-95 jun-96 dic-96
-22
Data

Figura 38. Comparação entre deslocamentos observados e calculados para EB2


Durante o período correspondente ao esvaziamento e subsequente reenchimento da albufeira, as
observações incidiram, essencialmente, na determinação dos efeitos estruturais induzidos pela
construção das obras de reforço de potência nas estruturas existentes, nomeadamente a central I
e a barragem. As observações preconizadas envolveram, no essencial, as seguintes etapas: i)
esvaziamento da albufeira – com implicação na barragem e mesmo nas obras de reforço de
potência devido ao abaixamento dos níveis freáticos, tendo-se deixado de proceder às leituras na
ensecadeira de montante; ii) demolição das ensecadeiras – análise das acções dinâmicas
induzidas sobre as estruturas existentes pela utilização de explosivos na demolição das
ensecadeiras, com particular cuidado na detecção do aparecimento de eventuais danos; e iii)
reenchimento da albufeira – com importantes implicações nas obras de reforço de potência,
submetidas à acção da pressão hidrostática externa, e na barragem, a qual apresenta uma
importante fissura sub-horizontal originada durante o primeiro enchimento da albufeira.

As principais acções induzidas pela entrada em serviço do novo circuito hidráulico tiveram que
ver com as pressões hidrostáticas, interior e exterior, e com as variações da temperatura
causadas pela circulação da água no interior do circuito. Neste período consideraram-se as
seguintes etapas: i) ensaio de carga com enchimento lento do circuito hidráulico – foi realizado
um ensaio de carga no novo circuito hidráulico (a entrada de água foi controlada mediante as
comportas da tomada de água e as observações foram controladas usando soluções analíticas);
ii) etapa intermédia entre o reenchimento e a entrada em serviço do novo grupo (as observações
foram mais espaçadas no tempo); iii) entrada em serviço das obras de reforço de potência (os
efeitos estruturais induzidos pelo funcionamento do novo grupo foram analisados em detalhe e
alguns ensaios específicos foram realizados).

Uma última referência é realizada ao programa de ensaios destinados a medir as vibrações


provocadas pelo funcionamento do novo grupo. Quatro situações foram analisadas: ensaio I –
grupo sem funcionar; ensaio II – grupo funcionando a máxima potência; ensaio III – entrada em
funcionamento do grupo; ensaio IV – paragem súbita do grupo funcionando a máxima potência.
A medição de vibrações foi realizada em 7 pontos distribuídos na central II e no circuito
hidráulico. Na Figura 39, apresentam-se os 4 pontos de medição mais significativos.

Figura 39. Colocação de transducers na central II e túnel de restituição

O Quadro 5 apresenta as velocidades máximas medidas nos quatro pontos mais próximos ao
grupo. Para os pontos 5, 6 e 7 as velocidades máximas variaram entre 0,1 e 0,8 µm/s. As
velocidades medidas foram sempre muito baixas, sendo o máximo valor obtido de 1,5 mm/s
para o ensaio IV. De acordo com as normas DIN 4025, estas vibrações podem resultar
incómodas para as pessoas se a sua duração ultrapassar uma hora, mas não afectam as estruturas
(Gomes, 1996).
Tomando como referência as normas suíças SN 640312 e as normas alemãs DIN 4150, que
estabelecem como limite velocidades de 3 mm/s, foi possível concluir que o funcionamento do
novo grupo não afectava a estabilidade estrutural da central II.

Quadro 5. Velocidades máximas obtidas nos ensaios (µm/s)

Ensaio Ponto 1 Ponto 2 Ponto 3 Ponto 4


I 7,9 5,4 3,7 4,7
II 290,7 381,2 371,9 221,9
III 290,6 856,7 307,4 321,3
IV 552,1 1560,7 591,6 841,4

4. ARMAZENAGEM DE PRODUTOS

4.1. Generalidades

A armazenagem subterrânea de produtos em maciços rochosos tem aumentado


significativamente em diferentes países industrializados como solução para diversas
necessidades, associadas a produtos de consumos e a resíduos industriais.

No que respeita a produtos de consumo, podem ser apontadas realizações de depósitos


subterrâneos de hidrocarbonetos líquidos e gasosos. As primeiras consistiram em depósitos de
gás natural em antigas jazidas ou em aquíferos e de hidrocarbonetos líquidos em cavidades não
revestidas, principalmente em cavernas escavadas para o efeito ou no sal gema por dissolução.
A maior procura do uso de geoespaço motivada pelos avanços tecnológicos e pela necessidade
de programas estáveis de abastecimento dos produtos petrolíferos e da gás natural, e ainda por
razões de economicidade, segurança e protecção do meio ambiente, tem levado à utilização de
escavações mineiras abandonadas para funções de armazenagem de produtos e à necessidade de
utilização de novos sistemas para outros fins como seja a contenção em profundidade de
resíduos, incluindo os nucleares, e à armazenagem de água, carvão e produtos alimentares
(Winqvist e Mellgren, 1988; Sousa e Menezes, 1993; Sousa, 1996).

A introdução do gás natural em Portugal inclui a construção de uma instalação subterrânea na


proximidade da conduta que liga Lisboa ao Porto. As cavidades estão a ser executadas pela
técnica de lixiviação, tendo sido seleccionado a área diapírica do Carriço para esta instalação,
após uma extensa investigação (Menezes et al., 2001). Na Figura 40, evidencia-se um esquema
de execução das cavidades no sal, bem como uma coluna geológica das séries de halite (sal
gema) detectadas num furo exploratório do diapiro de Monte Real. O sistema do Carriço foi
planeado para diversas fases, correspondendo cada uma à construção de duas cavidades com
uma capacidade total média de 70MNm3.

Refere-se, ainda, a realização de um sistema de armazenagem de LPG (Liquefied Petrol Gas)


em Sines.

Na secção 4.2, será dado especial destaque a outras soluções inovadoras para armazenagem de
gás natural em cavernas revestidas (sistema LRC – Lined Rock Cavern). Em 4.3, abordam
alguns aspectos e realizações no âmbito do depósito de resíduos nucleares, pelos desafios
complexos e multidisciplinares que se levantam nestes empreendimentos.
500 444 m Top halite Pure halite

Halite with insolubles

600 Anhydrite

Breccia

700 1425 m
Clays
1475 m

1225 m
800 1300 m Intrusions
1325 m

Vertical depth from ground level (meters)


900

1000

1100

1200

1300

1400

1500

Figura 40. Armazenagem de gás natural no Carriço (Menezes et al., 2001)

4.2. Cavernas revestidas para armazenagem de gás natural

O conceito de cavernas revestidas para armazenagem de gás natural é baseado na construção de


cavernas com um revestimento impermeável numa parede de betão de forma a dissipar a
pressão do gás armazenado. Um sistema típico para armazenar gás natural consiste em 2 ou 4
cavernas que permitem armazenar uma quantidade considerável de gás (Lemos et al., 2001). A
Figura 41 ilustra um esquema típico com 4 cavernas.

Secção vertical através da caverna

Figura 41. Esquema típico de cavernas revestidas para armazenagem de gás natural
Recentemente iniciou-se a construção de uma instalação piloto em Halmstad, Suécia, por um
consórcio denominado LRC Demo AB, constituído pelas empresas Gaz de France e Sydkraft. A
instalação em fase de construção tem capacidade para armazenar cerca de 10 milhões de m3 a
uma pressão de cerca de 25MPa. É parcialmente financiada pelo programa Europeu Thermie.
Existe ainda uma instalação a superfície conectada à caverna de armazenagem por um poço
contendo tubos de transporte do gás. Prevê-se que a instalação possa estar em serviço em 2002.
A caverna tem a forma de um cilindro vertical com 35m de diâmetro e 50m de altura, tendo um
domo esférico no topo e uma forma arredondada na base, sendo o recobrimento de maciço
rochoso de cerca de 115m (Figura 42). Toda a caverna vai ter um sistema de drenagem para as
águas afluídas e o gás que eventualmente possa escapar do sistema de contenção. O maciço
rochoso é, essencialmente, constituído por gnaisse de boa qualidade, com resistência à
compressão simples estimada em 189MPa. Apresenta, também, estratos de anfibolite de menor
qualidade geomecânica. O túnel de acesso à caverna tem uma secção transversal de 28m2 e uma
inclinação de 1/7, tendo uma extensão total de cerca de 1040m, tendo a sua construção sido
levada a cabo entre Novembro de 1998 e Novembro de 1999. O poço de acesso tem 1m de
diâmetro e 90m de altura, tendo sido efectuado por uma máquina de escavação contínua. A
escavação da caverna exige grande precisão, sendo a parte mais complicada a construção do
domo esférico. Uma vez concluída a escavação da caverna, procede-se à execução de um
suporte de betão com 1m de espessura, revestido por uma blindagem de aço com 10-12mm de
espessura.

Figura 42. Instalação piloto em construção

O objectivo desta instalação consiste em demonstrar que é comercialmente viável esta nova
opção de armazenagem do gás natural. As instalações LRC para armazenagem de gás natural
permitem soluções económicas e trabalhar com volumes de armazenagem relativamente
modestos. São complementares das soluções em formações salíferas e podem ser construídas na
grande maioria de países europeus que necessitam de capacidades de armazenagem moderadas.
Possibilitam, ainda, a sua construção a pequenas profundidades sendo a estanqueidade da
armazenagem do gás conseguida à custa do revestimento metálico. O revestimento permite
eliminar situações de risco tais como fugas de gás e impede a sua mistura. O revestimento é
suportado por um suporte espesso de betão armado que transmite as forças provenientes da
pressão do gás para o maciço rochoso. A função do maciço rochoso consiste em resistir à
pressão do gás armazenado (GDF-SKF, 1996; Lemos et al., 2001).

O projecto das cavidades LRC é um desafio importante do ponto de vista mecânico. Devem ser
localizadas a profundidades relativamente reduzidas, entre cerca de 100-200m e com uma
pressão do gás armazenado entre cerca de 10 a 25MPa. A caracterização do estado de tensão in
situ e das propriedades geomecânicas do maciço é fundamental do ponto de vista da estabilidade
das obras. No entanto, a caracterização das propriedades do maciço rochoso deve ser conduzida
com cuidados especiais, posto que o conhecimento da deformabilidade do maciço rochoso é
muito importante para a integridade do revestimento (Tenborg, 1989).

Neste tipo de estrutura, a ocorrência de eventuais sismos pode colocar problemas relacionados
com a propagação de fissuras no maciço rochoso. Apresenta-se, de seguida, um estudo
preliminar de avaliação do comportamento de uma instalação LRC sob acção de um sismo
realizado no LNEC (Lemos et al., 2001). A instalação considerada consistiu na existência de 4
cavernas com diâmetro de 35m e altura de 80m, conforme indicado na Figura 41. Foi
considerado uma rampa de acesso com 6m de diâmetro conectando as cavernas à superfície.
Cada caverna tem um suporte de betão com 1m de espessura, tendo o revestimento blindado
1cm de espessura. Foram considerados 3 sismos artificiais com duas componentes horizontal e
vertical, representando cenários representativos de regiões do continente europeu,
representativos de sismos Moderate Low, Moderate High e High (Costa e Pinto, 1997).

As análises numéricas foram conduzidas com o software FLAC-3D (Itasca, 1996), discretizando
o domínio com elementos do tipo cúbico de 8 pontos nodais. Utiliza um algoritmo de relaxação
dinâmica baseado na integração no tempo das equações nodais de movimento seguindo um
método explícito. São adoptadas fronteiras absorventes, bem como fronteiras simétricas, anti-
simétricas e livres. O modelo estende-se desde a superfície até a uma profundidade de 400m,
situando-se as cavidades entre as profundidades de 150 e 240m, sendo o raio das cavidades
igual a 35m, e representando apenas um quarto do domínio. A Figura 43 evidencia a malha
numérica utilizada com 6882 elementos de 8 pontos nodais e 23445 graus de liberdade,
considerando condições de simetria e anti-simetria. Os sistemas computacionais explícitos
necessitam de pequenos intervalos de tempo, tendo sido considerado um intervalo de tempo de
8,1x10-5 s.

Figura 43. Discretização do modelo numérico


Para o maciço rochoso foram adoptados dois valores para o módulo de deformabilidade do
maciço, isto é, 20 e 70GPa. Para análises estáticas não lineares foi adoptado o critério Mohr-
Coulomb, baseado numa resistência à compressão de 20MPa e assumindo uma não resistência à
tracção. Foi adoptado um amortecimento proporcional à massa (Lemos et al., 2001).

Foram efectuadas inicialmente análises estáticas segundo duas fases, correspondendo a primeira
à escavação da caverna e a segunda à colocação do suporte de betão e aplicação de uma pressão
interna de 20MPa. O estado de tensão in situ foi considerado gravitacional, sendo as tensões
verticais devidas ao peso e assumindo duas hipóteses para a tensão horizontal, igual e três vezes
superior à vertical. A pressurização da caverna induziu tracções generalizadas no suporte de
betão nas direcções radial e axial, com tensões no maciço dependendo a sua extensão das
hipóteses de cálculo admitidas. As análises dinâmicas foram efectuadas assumindo um
comportamento elástico linear para os materiais envolvidos. No entanto, a avaliação de
potenciais danos devido à acção sísmica foram baseadas em cálculos estáticos não lineares
equivalentes. Na Figura 44, apresenta-se a extensão das regiões em tracção em torno da caverna
para uma secção vertical paralela ao plano OYZ (vide Figura anterior), para E=70GPa, ondas do
tipo S e a situação de sismo mais intenso. Resultados relativos à região em tracção em torno da
caverna são sintetizados no Quadro 6. As situações mais desfavoráveis derivam dos cálculos
estáticos equivalentes com sismo do tipo High, particularmente quando o módulo de
deformabilidade do maciço rochoso é igual a 70GPa. Nessa situação (ondas S), o volume da
região em tracção aumenta de cerca de 25%. Os resultados numéricos mostram, porém, o
aumento da zona de maciço em extensão não é acompanhado por uma aumento equivalente nas
deformações em torno da caverna, dado que as tensões induzidas pelas cargas estáticas
equivalentes ao sismo são muito diferentes das devidas à pressurização da caverna. Os
resultados mostram, ainda, que não existe uma interacção significativa entre as cavernas. No
entanto, o efeito das cargas cíclicas no maciço rochoso deve ser investigado, requerendo uma
análise dinâmica não-linear.

Figura 44. Extensão das zonas em rotura em torno da caverna


Quadro 6. Extensão da região em tracção em torno da caverna

E Tensão Região em tracção


Cálculo equivalente V V/V0 d
(GPa) (MPa) (105m3) (m)
20 Pressão interior de 20MPa - 1,37 1 14
20 Ondas S, sismo tipo High - horizontal 1,05 1,51 1,10 17
20 Ondas P, sismo tipo High - vertical 0,98 1,56 1,14 14
70 Pressão interior de 20MPa - 1,37 1 14
70 Ondas S, sismo tipo High - horizontal 1,58 1,73 1,26 25
70 Ondas P, sismo tipo High - vertical 1,19 1,64 1,20 17
70 Ondas S, sismo tipo Moderate High - 0,97 1,50 1,09 14
horizontal
70 Ondas S, sismo tipo Moderate Low – 0,63 1,44 1,05 14
horizontal

4.3. Resíduos nucleares

4.3.1. Diferentes conceitos

Um dos aspectos mais relevantes associados à utilização da energia nuclear, relaciona-se com o
estudo de soluções adequadas para o depósito final de resíduos, nomeadamente de alta
radioactividade, não só pelos delicados problemas tecnológicos que levantam, mas também pelas
fortes reacções emocionais e sociológicas da opinião pública. Uma central nuclear origina vários
tipos de efluentes. Para os efluentes líquidos e gasosos existe legislação e regulamentação
internacional para o seu despejo, não levantando normalmente problemas complexos. Os resíduos
sólidos podem classificar-se em resíduos de baixa, média e alta radioactividade. O primeiro tipo é
armazenado à superfície em bidões tornados estanques; o segundo em profundidade, por exemplo
em minas ou zonas profundas dos oceanos, depois de acondicionados em bidões estanques; os
resíduos de alta actividade são inicialmente armazenados em cubas ou piscinas de paredes duplas
durante alguns anos, para redução da radioactividade e absorção do calor libertado nas
desintegrações, e, posteriormente, após vitrificação ou calcinação, encerrados em cápsulas
(Bubbers e Allison, 1983).

Em relação a resíduos de alta radioactividade, que constituem os produtos do ciclo nuclear de maior
risco e de longo período de radioactividade, dada a quantidade de plutónio que contêm, não existem
regras estabelecidas para o seu depósito. Daí ser necessário assegurar uma protecção das condições
ambientais, pelo que devem permanecer isolados da biosfera por milhares de anos, da ordem de
250000, antes que a radioactividade se reduza a concentrações de níveis inofensivos.

O crescente aumento da capacidade de produção de energia eléctrica pelas centrais nucleares tem
vindo a aumentar a existência destes resíduos. Nos últimos anos, tem sido desenvolvido um grande
esforço na investigação de métodos para o seu acondicionamento. Vários têm sido os conceitos
propostos, desde a utilização de espaços extraterrestres, ao depósito em profundidade nas regiões
polares, para a transformação dos resíduos para formas com menor radioactividade. No entanto, a
sua deposição definitiva em sistemas geológicos terrestres, a grande profundidade, tem merecido
grande atenção como o método mais promissor. Estas soluções são preferidas por envolverem
meios geológicos com períodos de estabilidade que excedem o período do ciclo radioactivo nos
próprios resíduos.

O depósito de resíduos radioactivos implica, pelo seu carácter complexo e multidisciplinar, uma
problemática especial, que se pretende abordar essencialmente nos seus aspectos geológicos e nos
relacionados com a engenharia civil.
A garantia de isolamento dos resíduos radioactivos, isto é, a impossibilidade de que os fluidos
possam transportar os radionuclídeos para a biosfera assenta fundamentalmente no conceito que se
designa de barreiras. Exemplos dessas barreiras são os contentores duráveis à base de ligas
metálicas onde se alojam os resíduos (barreiras técnicas) e o próprio maciço rochoso onde se
armazenam os contentores (barreiras naturais). As barreiras técnicas procuram minimizar a
capacidade de difusão dos produtos compostos armazenados e evitar possíveis reacções entre o
resíduo e o maciço rochoso, que poderiam levar à alteração do maciço circundante. Destacam-se os
processos de fixação dos resíduos por vitrificação e as capas metálicas que formam os contentores.
A formação geológica envolvente funciona como a última barreira que previne e atenua a chegada
de material radioactivo até à hidrosfera e à biosfera. O conceito de barreira natural está, pois,
relacionado com as propriedades do maciço rochoso, de que se destacam as relativas à
permeabilidade, deformabilidade, resistência, condutibilidade e difusibilidade térmica e com
aspectos ligados à estrutura geotécnica do maciço.

O conceito de depósito em cavidades no interior dos maciços foi introduzido pela Dupont
Corporation em 1966 e 1969 (Fairhurst, 1998). A principal preocupação dizia respeito ao facto dos
resíduos poderem fluir das cavidades e vir a contaminar o aquífero no sítio estudado para o efeito.
Os estudos então conduzidos partiram de duas situações extremas, assumindo uma primeira
hipótese conservativa de que o resíduo radioactivo depositado estava directamente conectado ao
aquífero por uma só fractura, considerada condutora. Nesta situação ou numa situação similar de
várias fracturas idênticas ligando o depósito subterrâneo ao aquífero, o fluxo de água contaminada
poderia ser considerável. A outra situação extrema partia de uma hipótese oposta, isto é, que o
maciço rochoso entre o depósito subterrâneo e o aquífero era homogéneo, permeável e obedecendo
o escoamento à lei de Darcy. Estas análises permitiam dar uma ideia do nível de incerteza
associado a estes estudos na década de 60.

Foram entretanto apresentadas algumas soluções engenhosas de forma a evitar a necessidade de um


estudo muito detalhado do escoamento da água nos maciços ao redor dos repositórios. A
viabilidade do depósito de Yucca Mountain incluía modificações da superfície da montanha como
uma das soluções possíveis (Fairhurst, 1998). Destaca-se a solução WP-Cave proposta para uma
pequena escala regional na Suécia, conforme se ilustra na Figura 45 (Svemar e Sagefors, 1986). A
caverna de armazenagem dos resíduos é envolvida por uma barreira de um material composto de
bentonite e quartzo com espessura de cerca de 5m e distanciado 40m das paredes da caverna.
Existem na caverna dispositivos cilíndricos que permitem a ventilação do ar encerrado e em torno
do sistema de depósito são executados túneis helicoidais com ligações por galerias horizontais,
utilizados durante o processo de escavação das obras.

Muitos países têm conduzido investigações no âmbito da Mecânica das Rochas para suportar os
seus programas nacionais, envolvendo por vezes custos consideráveis, como é o caso sítio de
Yucca Mountain, USA (Hudson, 1999). O Quadro 7 dá-nos uma ideia sobre as actividades em
curso.

Entre as formações rochosas consideradas como possíveis barreiras naturais, destacam-se as


formações salíferas, graníticas, basálticas e argiláceas (Wailner e Wulf, 1982; Bubbers e Allison,
1983; Bieniawski, 1985; Quast et al., 1986; Stille e Fredriksson, 1988, Witherspoon, 1996). As
rochas salíferas têm merecido atenção em vários países como a Alemanha e a Holanda, onde
existem bons depósitos de sal gema com diapirismo estabilizado. As suas características
petrofísicas e de isolamento ao longo de milhões de anos, tornam estas formações extremamente
atractivas para a finalidade de armazenagem deste tipo de detritos. Em relação a algumas das
propriedades anteriormente citadas, menciona-se a baixa permeabilidade, alta condutibilidade
térmica, abundância de grandes jazidas, a plasticidade das formações, o que possibilita a
inexistência de fracturas e o baixo custo das operações de escavação. Aspectos negativos
relacionam-se com a expansão térmica, o que pode vir a originar tensões importantes e a
capacidade de reacção do meio salino ao contentor metálico, que constitui a barreira técnica. As
formações graníticas cristalinas têm sido estudadas sobretudo em países europeus, como Suécia,
França, Suíça e Reino Unido. Apresentam vantagens interessantes do ponto de vista de resistência e
por consequência de estabilidade das estruturas subterrâneas, tendo muito baixas condutividades
hidráulicas especialmente a grandes profundidades. Contudo a influência das descontinuidades é
dominante e a quantificação das propriedades do maciço rochoso a grandes profundidades é
complexa. Quanto a rochas basálticas, conhece-se um programa de investigação, BWIP - Basalt
Waste Isolation Project, em Hanford Site, USA. As formações argiláceas, estudadas para um
sistema de depósitos na Bélgica, têm, em geral, excelentes qualidades do ponto de vista do
comportamento do produto armazenado, pois apresentam permeabilidades uniformes e muito
baixas. No entanto, as suas propriedades de dissipação do calor não são muito aliciantes e podem
apresentar problemas construtivos.

Figura 45. Ilustração da solução WP-Cave para depósito de resíduos nucleares

Em conclusão, procurou-se chamar a atenção para os problemas relacionados com a armazenagem


subterrânea dos resíduos de alta radioactividade, com particular ênfase para os aspectos
relacionados com a concepção das obras subterrâneas, onde a experiência tradicional em
construções subterrâneas pode ainda ser útil. No entanto, essa experiência não é suficiente, dada a
natureza interdisciplinar dos fenómenos envolvidos e os altos níveis de segurança exigidos por
estas obras. Daí ser necessário um substancial esforço em projectos de investigação para estudo dos
maciços rochosos, cujos avanços no conhecimento terão importantes reflexos ao nível de outros
empreendimentos subterrâneos.
Quadro 7. Investigações de Mecânica das Rochas sobre depósitos para resíduos
nucleares de alta radioactividade

País Tipo de rocha Situação actual Referências


bibliográficas
Alemanha Sal Identificados sítios
Bielorússia Argila, sal Avaliação inicial
Bélgica Argila URL desde 1980
Bulgária Granito, mármore Avaliação inicial
Canadá Granito URL desde 1980 Chandler, 1998
China Granito Pesquisa inicial de áreas
Eslováquia A determinar Avaliação inicial
Espanha A determinar Avaliação inicial
Finlândia Granito Avaliação inicial Riekkola e Salo, 1999
França A determinar URL de Bure Hoteit et al., 1998
Holanda Sal Avaliação inicial
Hungria Argilito Avaliação inicial
Índia Granito Avaliação inicial
Indonésia Basalto Avaliação inicial
Japão A determinar URL em minas Sugihara et al., 1998
Polónia A determinar Avaliação inicial
República Checa Granito Avaliação inicial
Rússia A determinar Estudos iniciais em Kola Melnikov et al., 1998
Suécia Granito URL desde 1990 Stephansson, 1999
Suiça Argila, granito URL desde 1992
Ucrânia Granito, sal Avaliação inicial
UK Rocha vulcânica Avaliação inicial
USA Tufos URL e estudos de Boyle e Datta, 1999
viabilidade Fairhurst, 1998
Rempe et al., 1998
URL – Laboratório subterrâneo de investigação

4.3.2. Diferentes empreendimentos

Um dos principais empreendimentos tem sido conduzio pela Suécia (Winqvist e Mellgren,
1988; Stephansson, 1999). A empresa SKB – Swedish Nuclear Fuel and Waste Management
Company é responsável pelo depósito de forma segura de resíduos de centrais nucleares e de
outras indústrias. Tem presentemente um sistema de transporte, um depósito central final para
resíduos de baixa e média radioactividade, designado SFR, e um sistema intermédio para
resíduos de maior radioactividade, designado CLAB, estando prevista a construção de um
sistema final para depósito de grande radioactividade. Este sistema integrado indica-se
esquematicamente na Figura 46.

O depósito SFR está localizado na proximidade da central nuclear de Forsmark, na costa do mar
Báltico a cerca de 300km a norte de Estocolmo, e tem uma cobertura de rocha granítica de cerca
de 50m abaixo do fundo do mar, sendo a altura de água de cerca de 5m (Figura 47). Iniciou a
sua operação em 1988 e tem capacidade para armazenar 60 000m3 de resíduos. Consiste em
actualmente 5 câmaras escavadas na rocha, um silo em forma de poço e 4 cavidades extensas,
que permitem depositar diferentes tipos de resíduos. O silo tem 30m de diâmetro e 5m de altura,
sendo provido de diversas barreiras. Existem 2 túneis de entrada, cada um com 1000 de
comprimento (Stephansson, 1999).
Figura 46. O sistema sueco para depósito de resíduos nucleares (Winqvist e Mellgren, 1988)

O sistema CLAB está situado na península de Simpevarp próximo da central nuclear de


Oskarshamn (Stephansson, 1999). Iniciou a sua construção em 1980 e a sua operação em 1985.
Consiste numa secção de recepção ao nível do terreno. Os resíduos são conduzidos para uma
câmara inferior a cerca de 25-30m de profundidade. Esta cavidade tem 110m de comprimento,
27m de altura e 21m de vão, que contém 5 piscinas de betão. A instalação ficará saturada em
2004, pelo que está previsto a extensão deste sistema com uma câmara adicional que permite
depositar cerca de 3000 de resíduos nucleares. A segunda câmara em construção está distante da
primeira cerca de 40m (Figura 48). O maciço rochoso é bastante complexo, formado por
granitos, metavulcânicos e arenitos esverdeados. O tecto está reforçado com pregagens
sistemáticas e betão projectado, estando as paredes reforçadas por betão projectado e pregagens
isoladas.

Figura 47. Silos para depósito de resíduos de baixa e média radioactividade numa instalação
SFR (Winqvist e Mellgren, 1988)
Figura 48. Sistema intermédio CLAB para depósito de resíduos nucleares na Suécia
(Stephansson, 1999)

Para o sistema de depósito final, diferentes tipos de barreiras têm sido consideradas de forma a
conseguirem a melhor protecção possível a longo prazo. Foram seleccionados inicialmente 6
sítios, dos quais serão ou foram seleccionados dois locais em 2001, devendo os ensaios serem
iniciados em 2002 (Stephansson, 1999). A insvestigação geotécnica deverá ter lugar durante 4 a
8 anos e um estudo detalhado mais 6 a 10 anos. Apresenta-se, na Figura 49, uma perspectiva do
sistema planeado de depósito final, cobrindo uma área de 1x1km2, sendo efectuado um conjunto
de furos de diâmetro igual a 1,5m, furados a partir de galerias a uma distância de cerca de 6m do
depósito dos resíduos.

Figura 49. Sistema de depósito final dos resíduos de alta radioactividade


(Winqvist e Mellgren, 1988)
Existe, ainda, o sistema WIPP – Waste Isolation Pilot Plant em formações salíferas, em Carlsbad,
Novo México, USA. Iniciaram-se as investigações na década de 70, tendo recebido aprovação da
Agência de Protecção Ambiental dos USA em 1998 para a instalação de um sistema de depósito de
resíduos de radioactividade intermédia tendo iniciado a sua laboração em 26 de Março de 1999.
Nas Figuras 50 e 51, apresentam-se, respectivamente uma perspectiva tridimensional e uma vista
em planta do sistema WIPP.

Figura 50. Vista tridimensional do sistema WIPP

Detalhes sobre as características deste primeiro sistema de depósito de resíduos nos USA podem
ser obtidos na publicação de Rempe et al. (1998).

5. A ARTE DE FURAÇÃO E DE ESCAVAÇÃO

5.1. Novas tecnologias em tuneladoras e de furação

Hoje em dia em meios urbanos, as soluções em cut-and-cover têm vindo a ser menos frequentes
em meios densamente populosos por razões ambientais e danos envolvidos e, ainda, devido às
interferências com as infra-estruturas existentes. Surgem, assim, como alternativas as soluções
em túnel por escavação sequencial, também designados NATM, ou utilizando uma escavação
mecanizada por tuneladoras, designadas de TBM (Tunnel Boring Machine). No caso dos
maciços rochosos em meios não urbanos, as escavações processam-se, via de regra, utilizando
explosivos, tendo havido nos últimos anos avanços espectaculares no avanço das escavações e
na melhoria na precisão do alinhamento das perfurações (Assis, 2001).

No entanto, a escavação mecanizada quando comparada com as soluções com explosivos


apresentam algumas vantagens, nomeadamente no que respeita a um menor dano do maciço na
zona periférica, a superfícies escavadas mais regulares o que é de grande importância em obras
hidráulicas e a uma maior taxa de progressão no caso de maciços rochosos relativamente
homogéneos. As desvantagens são porém elevadas em termos de custo e de menor flexibilidade.
Figura 51. Vista em planta do sistema WIPP indicando as áreas experimentais e de depósito

A comparação de túneis abertos com TBM ou com túneis abertos pelo método sequencial, quer
em rocha, quer em solos, a principal vantagem reside no facto de permitir uma escavação em
secção plena e permitir taxas de progressão, em regra, mais elevadas. No entanto, são
competitivos em termos de custos principalmente em túneis muito extensos e envolvendo
formações relativamente homogéneas. Os métodos sequenciais seguindo os princípio do método
NATM são a solução habitual para túneis de pequena a extensão média, com secções não
necessariamente circulares, para estações subterrâneas, rampas de acesso, apresentando
naturalmente uma maior flexibilidade.

Os túneis com TBM abertos em rocha conseguem ser executados com resultados satisfatórios
até diâmetros de cerca de 12,5m. As tuneladoras têm sido mais aplicadas em túneis superficiais
em solos, mormente me meio urbano, sendo vários os tipos de equipamentos desde tuneladoras
com pressão de face balanceada, com bentonite na face ou com ar comprimido (Almeida e
Sousa, 1998; Assis, 2001).
As máquinas de escavação de túneis podem ser classificadas em função do tipo de método de
escavação (secção total ou secção parcial), do tipo cortantes (rotação ou não rotação) e pelos
métodos de obtenção da força de reacção (ITA, 2000). Recomendações sobre o uso de máquinas
de escavação estão indicadas em publicação do ITA (2000) e da AFTES (2000).

Os métodos de escavação a fogo vão continuar predominando a nível mundial, principalmente


fora dos centros urbanos. Salienta-se, ainda, que, na execução de furos, as técnicas têm vindo a
evoluir sendo de referir os sistemas de furação que permitem a execução de furos direccionados,
com mudança de trajectória.

5.2. Equipamentos especiais desenvolvidos no Japão

No Japão, têm sido desenvolvidos equipamentos especiais, que resultam da acoplagem de mais
que uma tuneladora de forma a ser possível a execução de escavações com uma geometria
diferente da circular.

Destaca-se a linha Nanboku do metropolitano de Tóquio, com 21,4km. Para a escavação de uma
estação (Shiroganedai) foram utilizadas três TBMs circulares, sendo a máquina central
responsável pela execução do túnel central, com diâmetro de 9,8m e as duas laterais
aumentavam a largura de escavação para 15,6m. Este esquema acoplado escavavou a estação ao
longo de um comprimento de 120m (Assis, 2000; Koyama, 2001). Ilustra-se, na Figura 52, o
esquema de TBM múltiplo.

Figura 52. TBM múltiplo utilizado na estação Shiroganedai

No projecto de túneis com uso destas máquinas, têm sido utilizadas metodologias de cálculo
baseadas no uso de modelos planos com apoios de mola do tipo Winkler e acções devidas ao
impulso do terreno conforme indicado na Figura 53 (Koyama, 2001).

Outras soluções têm sido desenvolvidas no Japão para outras forma de TBMs múltiplas ou para
outro tipo de secções (Page, 1998; Assis, 2001; Koyama, 2001). A máquina TBM que se
apresenta na Figura 54 permite a execução de uma secção rectangular. Na cidade de Quioto,
encontra-se em montagem uma máquina deste tipo na extensão da linha Tozai com
aproximadamente 2,4km, para uma secção com vão de 9,9m e altura de 6,5m. No entanto, a
parte que irá ser efectuado por esta TBM envolve apenas uma extensão de cerca de 760m.
Envolve um mecanismo com dois cortantes, conforme indicado na parte superior da Figura 54.
Na mesma Figura apresentam-se duas fotografias de montagem do equipamento, que revelam
bem a complexidade de montagem uma máquina TBM deste tipo.

Figura 53. Modelo de projecto para túnel triplo

Figura 54. Máquina TBM para construção de secções rectangulares

A Figuras 55 e 56 procuram evidenciar outros equipamentos que permite construir galerias ou


poços a partir de um túnel em construção por uma TBM.

6. CONCLUSÃO

Com o presente trabalho, pretendeu-se efectuar uma revisão de conhecimentos no âmbito do


projecto e construção de obras subterrâneas, com especial destaque para alguns aspectos
inovadores.
Figura 55. Exemplo de construção de um túnel por TBM a partir de um outro

Figura 56. Exemplo de construção de um poço por TBM a partir de um túnel

Procurou-se destacar avanços no domínio dos sistemas de transporte, referindo-se as principais


obras nas ligações rodo-ferroviárias e mormente alguns conceitos actuais associados a túneis
imersos, sub-aquáticos e flutuantes, estes últimos ainda em fase de estudo e de concepção.
Aborda-se a questão dos metropolitanos em meios urbanos, sendo realçados estudos efectuados
para a estação Baixa-Chiado pertencente ao Metropolitano de Lisboa, uma obra de dimensões
invulgares e que obrigou a obras de consolidação relevantes, por se situar numa zona histórica
de Lisboa.

A problemática relativa ao uso do espaço subterrâneo na produção de energia e a armazenagem


de produtos mereceu referência especial, sendo dada saliência especial, a nível nacional, ao
empreendimento hidroeléctrico de reforço de potência de Miranda e, no caso da armazenagem
de gás natural, a um novo conceito de armazenagem de gás natural em cavernas revestidas, de
que se refere a construção de uma instalação piloto na Suécia.

Finalmente referem-se as novas técnicas construtivas relacionadas com a construção de túneis,


sendo abordadas as que têm sido desenvolvidas no Japão.

AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi possível com o apoio financeiro do projecto de investigação


POCTI/3/3.1/CEG/2521/95 sobre o tema Concepção, Projecto e Reabilitação de Túneis em
Obras Viárias.

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