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Hannah e Martin, o poder do amor

Por Esther Mucznik

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/29-01-2010/hannah-e-martin-o-poder-do-amor-18681695.htm

Esta crónica não é sobre os filósofos, é sobre as pessoas e sobre o vínculo


profundo que os une até ao fim da vida

"Fiel e infiel, sempre com amor." Esta declaração faz parte de um poema que Hannah Arendt
escreveu em 1958 (e nunca enviou) a Martin Heidegger por ocasião da publicação, nos EUA,
do seu livro A Condição Humana. Na carta escrita nessa altura, Hannah afirma: "Se as
relações entre nós os dois não se tivessem complicado, ter-te-ia perguntado se podia dedicar-
to. Este livro deve-te quase tudo em todos os aspectos..."
"Complicada" é um termo demasiado simples para definir a relação de Hannah Arendt e Martin
Heidegger ao longo de mais de meio século. Uma relação feita de paixão, afinidade e
veneração intelectual, raiva e decepção política, amor sempre. É ela que é a trama da
peça Hannah e Martin de Kate Fodor, actualmente em cena no Teatro Aberto [na foto]. A
encenação de João Lourenço e o trabalho dos actores conseguem transmitir a complexidade
dessa relação, assim como o contexto histórico que a marca irremediavelmente.
Esta crónica não é sobre os filósofos, é sobre as pessoas e sobre o vínculo profundo que os
une até ao fim da vida. Hannah tem dezoito anos quando conhece Heidegger, inscrevendo-se
nas suas aulas de Filosofia na Universidade de Marburgo. Estamos em 1924, Heidegger aos
trinta e cinco anos já exercia um intenso fascínio entre os alunos e as suas aulas eram as mais
concorridas. Em 1925 tornam-se amantes e esse vinculo intenso permanecerá ao longo das
suas vidas apesar de todas as rupturas e vicissitudes. O que não deixa de nos questionar: o
que une a mulher judia, militante antinazi da primeira hora, e o filósofo que logo em 1933 adere
ao partido nacional-socialista e celebra Hitler?
Tudo os separava à partida. Ela era judia, cosmopolita "uma rapariga de terras estrangeiras",
de uma família judaica liberal, culta e economicamente desafogada. Pertencia a uma geração
de jovens que se viam a si próprios como judeus e como alemães, mas principalmente como
intelectuais. Walter Benjamin, Hans Jonas ou Guershom Sholem faziam parte dessa geração
para quem a cultura era o cimento e o alimento. Heidegger, em contrapartida, era um homem
casado e com dois filhos, de origem modesta, educado numa disciplina rígida e conservadora
por pais católicos que o destinavam para padre e cujos primeiros estudos foram a teologia. O
encontro com o amor livre de Hannah leva-o a infringir todas as regras por que tinha pautado a
sua vida.
O que atrai Hannah em Heidegger? Em primeiro lugar, sem dúvida, o fascínio intelectual:
"Ninguém consegue, nem conseguiu no passado, dar uma aula como tu", escreverá ela ainda
em 1974, relembrando as aulas a que assistira meio século antes. Para quem "pensar é viver",
Heidegger é aquele que a ensinou a pensar, é o seu mentor. Apesar do seu compromisso
posterior com o nazismo, este permanecerá aos olhos de Hannah o filósofo mais importante da
modernidade ocidental. Mas mais do que isso: ele é também o homem que a torna mulher e o
vinculo que os une é físico e psíquico, não apenas intelectual. A relação amorosa dura pouco
tempo, mas marcará Hannah para sempre. Mesmo recém-casada com o primeiro marido,
Günther Stern, em 1929, ela escreve a Heidegger: "Não me esqueças, e não esqueças a que
ponto eu sei vivamente, profundamente, que o nosso amor se tornou a bênção da minha
vida..." A que ponto esse amor a levará, trinta anos mais tarde, a tentar limpar a imagem
maculada de Heidegger no pós-guerra, é algo difícil de saber até porque a sua afinidade
intelectual espiritual com ele era genuína.
Com a vitória do nacional-socialismo e a subida ao poder de Hitler, os seus caminhos separam-
se e obrigam cada um a escolher o seu campo. As ideias deixam o terreno meramente teórico
e passam a ter consequências práticas, o contexto pessoal, familiar e histórico faz o resto.
Hannah assume cada vez mais a sua identidade judaica ("sou em primeiro lugar judia, e alemã
apesar de tudo") e vê com angústia e grande lucidez os tempos que se avizinham. Em 1933,
depois de uma breve estadia na prisão, foge da Alemanha, acabando por se instalar em
França, onde Raymond Aron é dos raros intelectuais franceses que tentam ajudar os
refugiados alemães em fuga de Hitler. A 2 de Maio de 1941, depois de uma fuga do campo
francês de internamento em Gurs e de uma estadia de seis meses em Lisboa, "onde a Europa
vomita o conteúdo do seu estômago envenenado", Hannah embarca para os EUA com o
segundo marido e companheiro de toda a vida, Heinrich Blücher.
Heidegger, em contrapartida, adere ao nacional-socialismo e trai todos seus amigos e colegas
por serem judeus, meio judeus ou simplesmente por serem pacifistas. Karl Jaspers, cuja
mulher era judia, escreverá mais tarde: "Foi o único dos meus amigos de quem discordei em
1933, o único que me traiu." Heidegger partilhava com Hitler a fé na missão espiritual da raça
germânica e a Universidade era para ele o elemento central dessa missão. Em 1933 aceita ser
reitor da Universidade de Friburgo, no quadro de uma política de afastamento dos "não-
arianos" da função pública para assegurar a "homogeneidade racial". A 1 de Maio, adere ao
partido nazi.
Heidegger nunca se retractou. Apesar disso, a partir de 1950, depois de um longo período de
silêncio e ruptura, Hannah e Heidegger reataram relações que vão perdurar até à morte da
primeira em 1975. A partir dessa data e contrariando uma decisão anteriormente tomada,
Hannah passa a ser uma das maiores divulgadoras da obra de Heidegger nos EUA. Mais do
que isso, ela contribui para o absolver do seu passado, minimizando o seu envolvimento com o
nazismo. Sem nunca abdicar das suas próprias opiniões e princípios, Hannah ajudou-o a
limpar o seu nome e a recuperar a sua reputação. Poder das ideias ou poder do amor?
P.S.: Esta crónica foi inspirada não só pela peça em cena no Teatro Aberto, mas, entre outros,
pelo livro de Elzbieta Ettinguer, Hannah Arendt e Martin Heidegger, editado pela Relógio
d"Água. Contrariamente ao que está escrito na badana, a autora morreu em 2005. Era uma
sobrevivente do gueto de Varsóvia, do qual conseguiu fugir juntando-se à resistência polaca. É
pena que a Relógio d"Água não se tenha preocupado em actualizar a biografia da autora. Mas
vale a pena ler o livro...

Investigadora em assuntos judaicos (esther.mucznik@netcabo.pt)