II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem

:
Diversidade, Ensino e Linguagem

06 a 08 de outubro de 2010
UNIOESTE - Cascavel / PR

A RELAÇÃO ENTRE FOTOGRAFIA E MEMORIA NA OBRA DE MARCEL
PROUST

DALLAGO, Saulo (UFG)
RESUMO: O presente trabalho pretende constituir-se em estudo investigativo acerca da
presença, na obra do romancista francês Marcel Proust intitulada "Em busca do Tempo
Perdido", de elementos que se liguem aos processos de criação e recepção do signo
fotográfico, e suas possíveis relações com a memória e a perspectiva da lembrança,
recordação e rememoração. Ao longo dos sete volumes de sua obra, Marcel Proust vai
revelando a seus leitores as operações que tornam possível o advento de uma memória
(entendida enquanto corpus memorialístico) através de um constante jogo de
negociações que esta estabelece entre o esquecimento (os lapsos de memória,
apagamentos, omissões, etc.) e os elementos concretos que podem dar suporte a
rememoração, sensorialmente, como sons, cheiros, sabores, além de imagens e, por que
não, fotografias. Além disso, várias são as passagens onde o autor busca aproximar,
através de metáforas e outras figuras de linguagem, os procedimentos da memória, da
reminiscência, do hábito, e o instrumental fotográfico propriamente dito com todas suas
características e peculiaridades. Este trabalho está vinculado ao projeto de doutoramento
intitulado "Performance e Fotografia: a narrativa audiovisual das memórias do grupo
Teatro Exercício”, junto ao programa de pós graduação em Historia da UFG
(Universidade Federal de Goiás), sob orientação do professor Dr. Marcio Pizarro
Noronha.
PALAVRAS-CHAVE: Memória, História, Fotografia, Literatura

1 - Introdução: A fotografia e suas diferentes abordagens
Desde o seu advento, a arte da fotografia foi objeto de acaloradas discussões
acerca de seus possíveis usos, peculiaridades e aproximações com outras artes.
Considerada desde retrato fiel e prova documental incontestável, até pura manipulação
do olhar com claras intenções ideológicas, as fotos povoam o imaginário coletivo e se
fizeram presentes em importantes momentos da historia recente, constituindo-se como
parte concreta de uma memoria e influenciando teóricos, filósofos e artistas.
Conforme Dubois (1993), a fotografia, em seu nascedouro, sofria de uma crise
de identidade: arte ou ciência? Composição humana ou pura técnica? Muitos, como o
poeta francês Baudelaire, viam na fotografia apenas seu poder registrador,
considerando-a, portanto, no máximo uma serviçal das ciências ou das artes, tal qual um
caderno de notas. Além disso, o discurso da fotografia enquanto uma espécie de espelho
da realidade, imitação quase perfeita do real, dominava o século XIX, reforçando ainda

ISSN 2178-8200

a época. do ângulo. Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 UNIOESTE . Ainda segundo Dubois: Por essas qualidades de imagem indicial. Transposição bidimensional de um mundo tridimensional. ficção. o que se destaca é finalmente a dimensão essencialmente pragmática da fotografia (por oposição à semântica): está na lógica dessas concepções considerar que as fotografias propriamente ditas quase não tem significado nelas mesmas: seu sentido lhes é exterior. a visão dominante sobre o objeto fotográfico foi-se modificando. Sendo assim: A partir de então. a fotografia passou a ser vista enquanto construção do real. p. Entretanto. sem nos esquecermos também que. a um fato irredutível por trás de todo disparo que nos remete sempre a uma idéia: algo ou alguém. por guardar o traço de um real. como composição.II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade. (DUBOIS. ao longo do século XX. concretamente e realmente. podemos afirmar. 1993. (DUBOIS. é essencialmente determinado por sua relação efetiva com o seu objeto e com a sua situação de enunciação. transposição culturalmente codificada e. Registro de jogo de sombras e luzes. pose e iluminação escolhidas pelo fotógrafo. ao ter seu sentido ligado a uma ISSN 2178-8200 .Cascavel / PR mais a oposição entre a arte (produto do talento manual. do gênio humano) e a técnica fotográfica (automática. 53). inocente e realista por essência. semioticamente. podemos salientar a fotografia. de documento exato. o valor de espelho. p. Porém. Nisto reside a dimensão indiciaria da foto: “a imagem foto torna-se inseparável de sua experiência referencial. Desta forma. momento. devido a pura semelhança com seu referente). esteve. que a fotografia. Ainda segundo Dubois (1993) de pura mimesis. enquanto índice. sem a intervenção humana). por ser referência a algo que existe (ou existiu). Não é mais o veiculo incontestável de uma verdade empírica. espécie de símbolo (também seguindo as teorias de Peirce. do ato que a funda” (DUBOIS. p. então. portanto. objetiva. ícone (conforme Peirce em sua semiótica. a fotografia como transformação da realidade. 42) Teríamos. na frente da objetiva para que pudesse ser produzido o documento fotográfico. 1993. 52) Ora. por mais que se insista nesse viés simbólico da fotografia. uma transposição bicolor (preto e branco) de um mundo multi-colorido. então. em algum momento. A fotografia deixa de aparecer como transparente. de semelhança infalível reconhecida para a fotografia é recolocado em questão. 1993. o símbolo constitui-se por convenção).

usa como exemplo uma fotografia de sua mãe. por toda a somatória de experiências pessoais vividas: de memórias. uma vez que consegue demonstrar concretamente um instante perdido no tempo de algo ou alguém que já não temos mais a disposição do nosso olhar. também. e o elemento punctum. para nossos olhos de leitores anônimos. da comunidade. da memória: memória do indivíduo. O momento vivido. onde Barthes (2006) discorre sobre a recepção da fotografia. p. mas que. para ele. (KOSSOY. depende em larga escala. emotiva. efetiva. Para tanto. em outras palavras.Cascavel / PR dimensão exterior a ela. A cena registrada na imagem não se repetirá jamais. o elemento studium. Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 UNIOESTE . memórias estas sim. enquanto índice.II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade. que para ele tinha o poder de resgatar a lembrança daquele ente querido já falecido. Quando a referência já não mais existe. já a tantos anos apagada pelo falecimento daquela. O próprio Dubois nos traz um exemplo bastante eficaz para ilustrar este ponto de vista: Aliás. apontando para nós mesmos. Conforme nos relata Boris Kossoy: O fragmento da realidade gravado na fotografia representa o congelamento do gesto e da paisagem. do olhar deste receptor. tocando o observador de maneira mais intensa. não teria literalmente qualquer sentido? (DUBOIS. a foto. 2001. é irreversível. para nossas memórias acerca daquele referente. assim. dos costumes. apontando para um vazio (referente). para sua recepção/interpretação. do fato social.Fotografia e Memória A fotografia. pensando nos termos do punctum. curioso e médio ao se observar uma foto. de trazer a tona mais uma vez. foto que motiva toda [A Câmara Clara] La Chambre Claire. p. nesta recepção. 155) ISSN 2178-8200 . 52) Dubois nos cita a clássica passagem do livro A Câmara Clara. sua face verdadeira. não é por esse motivo que [Roland] Barthes não nos mostra a foto de sua mãe ainda criança no Jardim de Inverno. mas repletas por nossa carga de experiências. 2 . mas ao mesmo tempo. que ultrapassaria o deleite visual. da natureza. e portanto a perpetuação de um momento. olhar este que será determinado por toda a carga cultural do mesmo e. 1993. da paisagem urbana. teria uma relação intrínseca com a memória. nada vazias. identificando. continua ali. congelado pelo registro fotográfico. que seria um prazer geral.

e afirmar que a fotografia. torna-se imediatamente afetado pela percepção dúbia de que. E você pode ficar horas e horas olhando para uma imagem e voltar a ela daqui a dez anos. instantes reveladores. mais até. ela própria enquanto um instante irrepetível do passado. 2004. Para Susan Sontag: . 19) Seguindo esta discussão. como memória. que nos permite observar a um único momento pelo tempo que quisermos. Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 UNIOESTE . nostalgia. claro. Em entrevista concedida a revista Continuum – Itaú Cultural. fixos para sempre. como instantâneo de um momento. por outro. quando diante da sua própria imagem pretérita. é diferente dos filmes. As fotos sim.entre a defesa da fotografia como um meio superior de autoexpressão e o louvor da fotografia como um meio superior de pôr o eu a serviço da realidade. pois você já não é a mesma pessoa. p. p. aquele acontecimento não se dará novamente nunca mais e..a foto de um filme. algo que a fotografia não consegue ser.. Se bem que a imagem fotográfica me fascina mais porque ela é um fotograma apenas. podemos ir além. A vida não são detalhes significativos. a fotografia como um apoio para a memória e. 2007. 96) E acrescenta: . O mundo fotografado mantém com o mundo real a mesma relação essencialmente errônea que se verifica entre as fotos de filmes e os filmes. O indivíduo. O cinema. ela tem a cena congelada. quanto em pôr em ISSN 2178-8200 . (SONTAG. (KOSSOY. 135) Desta forma. Ambos supõem que a fotografia proporciona um sistema especial de revelação: que nos mostra a realidade como não a víamos antes. que é um processo. sem antes nem depois. talvez. portanto. não há tanta diferença como pode parecer.II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade.. Em compensação. que são movimento. um fluxo no tempo. por um lado. registrado diante de seus olhos e suscitando suas evocações. podemos perceber o poder da fotografia. o mesmo acontecimento está ali. 2004. tanto em despertar reminiscências. mais do que resgatar ou suscitar lembranças. concomitantemente. assim como um conjunto de fotos que congela os momentos de uma vida ou de uma sociedade contradiz a forma destas. Mas a sua interpretação sobre a mesma cena será outra. lembranças carregadas de afetividade. contradiz a própria forma do filme.. (SONTAG. p. pode revelar fragmentos destas lembranças que não poderiam jamais ser recuperados de outro modo. Boris Kossoy discorre um pouco mais sobre a relação fotografia e memória: Penso que a imagem guarda um fragmento de memória que nenhum outro sistema de representação consegue igualar. ou da imagem de algo ou alguém que faz parte da sua trajetória.Cascavel / PR Temos.

uma simbiose que. (DALLAGO. Se. além disso. a fotografia não o faz de maneira ingênua e neutra – ela provoca. aos olhos do observador. traz a mente a questão da imagem fotográfica como estimuladora de recordações permeadas de sensações múltiplas. Sobre isso: É impressionante a sintonia estabelecida entre o narrador e o documento visual de seu passado. pôde ser analisada posteriormente. ao lado de dois companheiros de palco. de outra forma. no momento da entrevista. serviu como uma espécie de catalisadora de memórias para o entrevistado mas. momentos. escapariam completamente a percepção. ou mesmo de inspiração para artistas. por um lado. Esta expressão. 06) A fotografia. podemos retomar uma idéia inicial apresentada neste trabalho sobre a fotografia. ao visualizá-la. pondo-se a rememorar detalhes da cena e a descrever elementos ali inscritos. perturba. Hugo Zorzetti. fonte de informações. p. enquanto monumento afetivo. captada pela câmera de vídeo que então registrava a entrevista. uma fotografia que mostrava uma cena significativa de seu passado. ela se constitui enquanto arte. demonstrou-se realmente afetado emocionalmente por ela. assim. Hugo não tinha conhecimento desta foto e. uma vez que detive-me em perceber a ISSN 2178-8200 .Fotografia e Performance Uma experiência bastante interessante neste sentido foi por mim realizada quando da finalização de minha dissertação de mestrado em História (A Palavra e o Ato: Memórias Teatrais em Goiânia – orientada pelo Prof. 3 . desperta sentimentos de amor ou ódio. de uma afetividade expressa com palavras e gestos. Dr. destaca. em suma. 2007. a teoria baudelariana que defende a foto enquanto uma serviçal das artes (e ciências). e considerada enquanto uma espécie de performance. de identificação ou estranhamento. detalhes. Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 UNIOESTE . na entrevista ao diretor e dramaturgo do grupo Teatro Exercício. em seus mínimos detalhes. Marcio Pizarro Noronha).II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade. bloco de perceptos e afectos (no sentido deleuziano do termo). mais uma vez. temos subsídios suficientes para afirmar que.Cascavel / PR evidência. por outro lado. num envelope. Ao final da entrevista. mesmo se utilizada como apoio. entreguei a ele. afeta. gestos que. teve um poder instantâneo de trazer a tona lembranças carregadas de uma força emotiva. como uma espécie de caderno de notas.

escritores. emoções.. artistas plásticos. para artistas das mais variadas artes e suportes de composição estética. memória registrada.. podemos perceber em muitas passagens o quanto o elemento fotográfico influenciou o autor. instigar performances. provocar recordações. todavia. de ações físicas. ao longo do próprio romance. sensações múltiplas. fazer-nos ver detalhes impossíveis de captar a olho nu. observar com os olhos do presente as faces e cenas do passado. dançarinos. como uma fonte de inspiração ao mesmo tempo objetiva e subjetiva. Para finalizar nosso estudo. Segundo ele (2005). o escritor no qual iremos nos deter. num outro tipo de situação que. bastante famoso por abordar a memória e as temáticas relacionadas a ela: trata-se do romancista francês Marcel Proust.Fotografia na obra de Marcel Proust Entretanto. pausas. então. provavelmente Proust compreendia o poder da fotografia enquanto experiência visualizável. em absoluto. Um importante (e raro) estudo sobre a presença da fotografia na vida e obra de Proust foi realizado pelo fotógrafo Brassai. Inclusive. mais do que suscitar recordações. também. Pensemos. etc. é. agora. que ISSN 2178-8200 . de uma performance. a fotografia. então. Desde atores/performers. gestos. por outro lado. cineastas. mesmo não sendo exatamente conhecido por trabalhar com fotografias e discorrer longamente sobre elas em suas obras.II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade. temos. Se concordamos que a fotografia pode. pensando na fotografia enquanto forma de suscitar emoções.). conforme levantado.Cascavel / PR comunicação do entrevistado tanto no sentido verbal quanto não verbal (pose. 4 . foi elemento detonador de expressões. Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 UNIOESTE . recordações e também como material concreto e visual para a composição de personagens e caracteres. vestígio do passado restante no presente. guarda bastante proximidade com a experiência descrita acima. músicos e. faremos uma breve análise da obra de um escritor. Desta forma. fonte de inspiração concreta e instigante: o escritor colecionou várias fotos ao longo de sua vida e utilizou muitas como modelo inspirador para a composição de diversos personagens de seu romance em sete volumes (Em Busca. entonações.). e sua vasta obra Em Busca do Tempo Perdido. a arte da fotografia como um apoio ao mesmo tempo técnico e sensível. posturas. servir de estimulo.

antes da morte desta. tão descuidada ISSN 2178-8200 . por perceber que sua avó se fora para sempre (o que também havia acontecido algumas páginas atrás na narrativa. ele descobre. Esta informação faz o herói sofrer duplamente. quarto volume de Em busca. na verdade escondia o desejo de sua avó de deixar para o neto uma recordação fotográfica por prever a aproximação inevitável e breve de sua morte. como uma amnésico reencontra o seu nome.” (PROUST. que pouco antes desta revelação. Algumas páginas adiante. 2008. a fotografia. Na primeira estadia. o que provocou. poderemos perceber na narrativa que a dor que a observação desta fotografia lhe causara de inicio. ao lado da avó) e. a avó do herói fizera-se fotografar pelo seu amigo Robert Saint-Loup. Entretanto.II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade. Mas em face da idéia que eu fazia do seu estado tão grave. não despertava a lembrança do que me dissera Françoise porque não mais me havia deixado e eu me habituava a ela. por outro. criticas ferinas e observações maldosas sobre a velha dama. por dar-se conta de que o que considerara uma “puerilidade quase ridícula do coquetismo” (PROUST. através da criada Françoise. ma mostrava tão elegante. p. Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 UNIOESTE . ao tomar conhecimento destes fatos em torno de sua avó que antes ignorava. 214). Trata-se do episódio do retorno ao hotel de Balbec.. o herói olhava a fotografia e via a avó como uma estranha. esta postura corporal. Mais adiante. nesta segunda estadia. onde ficara hospedado com a avó há alguns anos. que sua avó naquela época estava bastante doente e insistiu em ser fotografada para que o neto tivesse uma ultima lembrança dela. quando abaixa-se para descalçar as botas e. p.. Importante citar. também. aproveitando ainda as manhas que tivera minha avó e que conseguiam enganar-me mesmo depois de me haverem sido reveladas. traz a tona uma memória involuntária a respeito de sua ultima estadia ali. 2008. veremos o herói afirmar: Alguns dias mais tarde. vai se aplacando e dando lugar a outros sentimentos e percepções em relação a fotografia. e apenas uma longa e demorada contemplação do documento fotográfico faz com que exclame consigo mesmo: “„É minha avó. descrições e narrativas de experiências onde a foto ocupa lugar de destaque. como um doente muda de personalidade. Uma das mais importantes passagens onde a fotografia ocupa lugar central no desenrolar das peripécias do herói proustiano encontra-se no livro Sodoma e Gomorra. por parte do neto. a fotografia que Saint-Loup tirara me era agradável de olhar.. 195). eu sou seu neto‟. tão doloroso naquele dia.Cascavel / PR se refere a ele em repetidos trechos através de metáforas. por um lado.

tomando conta de sua genitora. bastante doente e prevendo sua morte próxima (exatamente como a avó de Em busca. 2008. também exatamente como a avó do herói. claro. mas que provavelmente não teria o mesmo sentido para outro observador qualquer – da mesma forma que.. que guarda uma relação de memória para com a foto. 218) Ora.II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade. a mãe do escritor. conforme nos explica Dubois. pelas informações que vai obtendo sobre o passado desta). sua mãe nunca conseguia olhar esta fotografia da própria mãe. voltando aos termos de Barthes. pediu a uma amiga que a fotografasse para deixar uma ultima lembrança ao filho. diferentemente dele. acabar deixando uma lembrança muito triste devido ao seu grave estado de saúde. E. sobre as diversas interpretações que podemos fazer sobre uma mesma fotografia conforme vamos nos modificando ao longo do tempo. 215). este episódio muito provavelmente foi inspirado a Proust pelo ataque de apoplexia que sua mãe sofrera em 1905 na cidade de Évian. A fotografia de sua avó revela faces sobre ela então desconhecidas para o herói (corroboradas. ao tentar deixar uma recordação através da fotografia. que eu a via menos infeliz e com mais saúde do que tinha imaginado. Barthes não nos mostra a fotografia de sua mãe porque esta não teria qualquer relação de memória para com o leitor de “A Câmara Clara”. inclusive: “Isto ainda é pior que fotografia nenhuma” (PROUST. Conforme nos contra Brassai (2005).. É exatamente aí que podemos perceber. 5 . o herói proustiano nos relata que. do que a face verdadeira desta (PROUST.). 2008. afirmando. e no historiador brasileiro. p. sobre a fotografia ser um objeto revelador de uma realidade que não víamos antes. 2008). a mãe de Marcel Proust tinha medo de. Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 UNIOESTE .Considerações Finais ISSN 2178-8200 . por se achar de muito mau aspecto. (PROUST. esta passagem vai completamente ao encontro das citações anteriores das teorias de Susan Sontag e Boris Kossoy a respeito do poder da fotografia: na filósofa norte-americana. Na época. pois via nesta foto mais uma espécie de insulto da enfermidade. tivera duvidas se tirava ou não a fotografia. o elemento punctum presente neste retrato: capaz de emocionar e provocar sensações no herói.Cascavel / PR sob o chapéu que lhe ocultava um pouco o rosto. conforme lhe conta Françoise. p. Logo adiante.

baseado na célebre fotografia retirada na segunda guerra mundial de 6 soldados americanos fincando a bandeira norte-americana). corpóreas (como na entrevista de Hugo Zorzetti). catalisador de memórias e. ISSN 2178-8200 . a reflexão sobre a importante obra do romancista francês e. Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 UNIOESTE . então.II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade. no campo estético. no campo de estudos da História. como pudemos acompanhar no trecho analisado da obra de Marcel Proust. consegue demonstrar claramente a fotografia.Cascavel / PR Esta passagem. Todavia. em Em busca do tempo perdido. Seguindo as orientações de Brassai. gestuais. como fonte de inspiração artística. irão se constituir em esforços para enriquecer ainda mais. que podem ser físicas. deixaremos esta longa e complexa tarefa para futuros estudos que. e aos estudos da memória. aprofundar questões relativas a fotografia. de Clint Eastwood. geradora de performances. podemos ir muito além nesta investigação da fotografia enquanto fonte ativadora da performance literária de Proust. ou literárias. e todo ato que a envolve. por outro lado. estética. como estimulador de sensações. também. com um ponto de vista pouco utilizado. cinematográficas (como no filme A Conquista da Honra [2006]. certamente.

Marcel. Trad. Boris. GO: Editora da UCG. ago. Os mistérios da fotografia – entrevista concedida a Mariana Lacerda. de André Telles. Fotografia & História.II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade. 2008. Trad. Trad. P.. Sobre fotografia. São Paulo. KOSSOY. 2005. KOSSOY. SP: Ateliê Editorial. SP: Companhia das Letras. Em busca do tempo perdido: Sodoma e Gomorra (volume 4). Proust e a fotografia. RJ: Jorge Zahar Ed. Campinas. O ato fotográfico. Saulo. Trad. A Câmara clara. Philippe. SP: Papirus. Roland. 2004. de Rubens Figueiredo. 16-23. Anais eletrônicos do III Simpósio Internacional Cultura e Identidades. 2006. Fotografia e Memória: a imagem visual como estimulo ao ato de rememorar. São Paulo. Boris. DUBOIS. Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 UNIOESTE . de Mario Quintana.Cascavel / PR REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARTHES. DALLAGO. 2001. Lisboa. PROUST. Rio de Janeiro. Portugal: Edições 70. Goiânia. Susan. SONTAG. ISSN 2178-8200 . BRASSAI. de Manuela Torres. 1993. 2007. São Paulo. SP: Globo. 2008. Trad. Revista Continuum Itaú Cultural – O olhar em fragmentos. de Marina Appenzeller.

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